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Introdução ao Pensamento Filosófico*

Prof. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto

Guarapuava/PR, 2007

Primeira Aula, Parte I

Esta é a primeira aula do primeiro módulo do curso. O objetivo do primeiro


módulo do curso é acostumar os alunos com os exercícios ao quais se dedicaram
Platão e Aristóteles.

Nos últimos milênios, poucas palavras mudaram tanto de significado ou


passaram por tamanhas mutações quanto à palavra Filosofia. A idéia da
Filosofia como uma profissão que possa ser exercida soaria muito estranha aos
ouvidos de Sócrates, Platão ou Aristóteles. Primeiro, então, buscaremos nos
colocar no lugar dos primeiros filósofos para que possamos compreender como
eles entendiam esta atividade. A idéia é justamente se exercitar na atividade à
qual se dedicavam Sócrates, Platão e Aristóteles.

A primeira coisa que temos de entender para compreender a filosofia é o


significado original, comum e corrente, da palavra sophos, em grego, na época
dos primeiros filósofos. Sophos significa literalmente, sábio, mas esta palavra
tinha uma conotação muito diferente da que tem hoje, Sophos era um mestre
em qualquer arte ou técnica. Um mecânico, por exemplo, que fosse
excepcionalmente competente, seria chamado sophos. Em primeiro lugar, a
palavra tinha este sentido. Tornar-se sophos em qualquer arte ou técnica,
significava, portanto, dispor-se de determinados conhecimentos, ou seja, ter
claro em sua mente os princípios fundamentais que orientavam um campo ou
tipo de atividade e, ao mesmo tempo, possuir as habilidades práticas ligadas a
realização das finalidades próprias daquela atividade. Um corredor, por
exemplo, excepcionalmente hábil, seria chamado, no tempo dos primeiros
filósofos, de sophos.

Em algum momento da História, por volta dos séculos VI e V A.C, a palavra


sophos passou a ter outro significado. Houve um salto abstrativo e alguém
concebeu a idéia de imaginar alguém que não seja mestre, sophos, em alguma
técnica específica, mas um mestre de viver a sua própria vida, por onde se
concebeu a idéia de sábio. No entanto, atualmente, esta palavra – sábio -,
embora seja a tradução literal de sophos, somente traduz este sentido último de
sophos, enquanto denota alguém que se tornou mestre em viver a vida humana.

Procuremos captar um pouco do conteúdo abstrato da palavra sophos quando


aplicada ao sujeito que seria um mestre na vida humana. Para tanto,
utilizaremos uma das técnicas criadas, ou sistematizadas, por estes primeiros
filósofos, para entender um conceito desconhecido. Uma das técnicas para
entender o conceito de um conteúdo que ainda não se entende seria tentar
compreender os contrários deste conceito. Por exemplo, para conceber a idéia
de infinito, deve-se procurar a idéia de seu oposto, ou seja, do que é finito, e
aplicar a contrariedade a ela. Assim, qual o contrário do sophos, do sábio? É
comum que nós associemos à palavra sophos ou sábio, a atividade intelectual ou
espiritual. Ninguém pode dizer que um sábio é um sujeito ignorante a respeito
de qualquer coisa. Que a palavra, a idéia de sophos, contenha uma dimensão
intelectual, é quase que evidente Em geral, quando afirmamos que alguém é ou
foi um grade sábio, está incluído nesta afirmação a idéia de que ele
compreendeu alguma coisa de muito importante. Um sujeito que entendeu um
fato banal para a vida humana não é chamado um sábio. Por exemplo, todos nós
sabemos que precisamos de algum dinheiro para sobreviver, mas nenhum de
nós é chamado sábio em razão desta descoberta. Esta idéia não é
excepcionalmente profunda, não é cave explicativa da vida humana. Embora a
compreensão desta idéia facilite a nossa vida e nos permita levar uma vida
melhor que na ausência desta compreensão, ela está muito longe de resolver os
problemas fundamentais da nossa vida. O sophos, então, compreendeu algo
fundamental, profundo, e de difícil compreensão a respeito da vida. Esta
dificuldade da compreensão, a idéia de que o sábio se dedica a algo de difícil
compreensão é que envolve a figura do sábio em uma áurea carismática.
Quando dizemos que alguém é um sábio, geralmente dizemos isso com um
sentimento de reverência. Não é a mesma coisa quando se diz que um sujeito é
médico, ou chinês, por exemplo. Já é impossível abster-se de sentimentos ao
dizer que alguém é sábio. Isto se dá justamente porque está envolvida na idéia
de sabedoria a idéia da compreensão de problemas fundamentais da vida
humana. Mais ainda, a idéia de sábio não abarca simplesmente a compreensão
teórica dos princípios da vida humana. Um sujeito que tenha uma compreensão
teórica dos fundamentos da boa vida ainda não é um sábio. Se ele não aplicar
estes conhecimentos à sua própria vida ou não obtiver êxito neste propósito,
não se dirá que ele é um sábio. Ou seja, a idéia de viver uma vida excelente, ou
de ser extremamente hábil na aplicação dos princípios fundamentais da vida,
também está incluída na idéia de sábio.

Temos uma grande facilidade em admitir que outrem saiba algo que não
sabemos, mas temos, por outro lado, grande dificuldade em dizer que outrem
seja um sábio. Assim ocorre, pois o grau de dissociação entre um conhecimento
e a vida individual pode ser muito grande a depender do tipo de conhecimento.
Um sujeito pode, por exemplo, compreender a ciência física perfeitamente, mas,
nos demais campos da vida, ser desonesto, imbecil. É desta concepção abstrata
de sábio que surge todo um movimento filosófico na Grécia. A filosofia surge
como uma tentativa, uma busca, para encontrar os meios de atingir esta
sabedoria. Se o objetivo não estiver claro, os meios pelos quais se tenta atingi-lo
também não serão claros.

Esta idéia de objetivos e meios, aliás, também é uma das notas ou dimensões da
idéia de sábio. O que é um excelente nadador, que seria um sophos da natação
entre os gregos? É o sujeito que sabe perfeitamente qual o propósito daquela
atividade, seu objetivo, e que conhece e possui os meios para exercê-lo. A idéia
de subordinar uma série de atos a um único propósito total está incluída na
idéia de qualquer técnica. Este propósito, nas técnicas, serve como princípio
primeiro. Se não se sabe qual é o propósito último de determinada técnica, não
se terá a idéia do que se faz, de como se faz. Este propósito tem dois aspectos:
um aspecto concreto, que é aquele que o sujeito pretende realizar
concretamente, no caso do nadador, vencer as competições, ou do mecânico,
fazer um carro funcionar, e outro aspecto, que é a idéia geral do propósito. Na
mente do mecânico, por exemplo, existe uma noção do carro em perfeita
operação. Existe, em sua mente, como que uma imagem estrutural de todas as
transmissões e mudanças de energia desde o combustível ao andar do carro. Ele
tem conhecimento de todo este processo e sabe que, se o carro quebra, alguma
daquelas etapas componentes do carro falhou. Esta idéia do carro em perfeita
operação é o princípio primeiro da arte da mecânica; o propósito da arte da
mecânica só pode ser alcançado quando um sujeito faz com que um
determinado carro concreto seja uma imagem fiel desta imagem estrutural que
ele tem na mente. Entender uma técnica é, assim, entender duas coisas:
primeiro, é entender a idéia que é o princípio primeiro de determinada arte e,
em segundo, compreender os meios pelo qual aquela idéia realiza-se
completamente, compreendendo, deste modo, os propósitos daquela arte. Isto
foi feito, de certo modo, pelos primeiros filósofos gregos, quando chegaram à
conclusão de que um sábio é o sujeito que compreende, em primeiro lugar, duas
coisas: qual o primeiro princípio da vida humana e, segundo, qual o seu
propósito. Uma vez compreendido o primeiro princípio e o propósito, o
indivíduo deve aprender quais são as acções concretas que conduzem à
realização deste propósito.

Façamos aqui um parêntese na idéia de sabedoria para analisarmos o panorama


mental e cultural grego neste período das primeiras especulações. Observemos
como era a cosmovisão grega.

- A cosmovisão grega

Os gregos, assim como todos os povos normais, tinham na sua cosmovisão uma
característica: a realidade dividia-se em dois planos. Existia o plano dos deuses
e o plano dos homens, mesma noção presente na quase totalidade dos povos
humanos ao longo da História. Para a imensa maior parte das pessoas de nossa
cultura, existem dois planos na realidade, a saber, o Paraíso e a Terra, a vida no
Paraíso e a vida na Terra. Apensar de não termos os mesmos deuses que os
gregos, temos a mesma noção da realidade transcendente. A maioria dos povos
explica que a realidade é composta de dois tipos de coisas. Segundo os gregos, a
vida dos deuses era perfeita e nunca problemática, ao contrário da vida humana.
Como todos os povos, os gregos também possuíam meios de ligar as duas
realidades, através dos ritos. Fazer uma cerca, por exemplo, requeria uma
maneira correta, ritual, de fazê-la, de acordo com o deus da cerca, que faria com
que, de fato, a cerca protegesse o quintal, atingisse sua finalidade.

Em algum momento, essa religião perdeu a credibilidade entre os gregos. Os


gregos possuíam os registros dos ritos, faziam-nos, mas tinham uma severa
dúvida sobre a sua eficácia real. O problema, para eles, não era se existiam os
deuses, do que não tinham dúvida, mas se a religião deles funcionava. Neste
ponto, as semelhanças entre os problemas humanos entre a sociedade atual
ocidental e a grega naquele período se estreitam. Não é uma crise da cosmovisão
no sentido estático, mas uma crise da religião. Os meios concretos de unir este
plano ao transcendental perderam a credibilidade. Num certo sentido, a
situação é mais parecida ainda com a sociedade norte-americana, onde a
credibilidade na prática religiosa, do ritual, de seu impacto real sobre a vida
concreta, cada vez diminui mais. É necessário que deixemos claro, aqui, que o
problema religioso dos gregos, naquele período, não se relacionava à vida após a
morte, à entrada no Paraíso, mas à vida concreta, ao agora. Neste ponto, a crise
da religião grega torna-se muito mais significativa.

Esta crise deu origem à filosofia. Em todos os povos, o conjunto de meios


rituais, a religião em seu aspecto ritual, sempre foi considerada como uma
imagem estrutural ou fixa disto que os gregos chamaram a sophia. Se
perguntarmos para um índio, por exemplo, o que é a sabedoria, ele não terá esta
palavra, mas dirá que, para viver bem como índio, para cada acção, existe uma
maneira correta de fazê-las, que inclui não somente as acções exteriores, mas
um sentimento, um pensamento interior, quer dizer, cada acção tem seu rito.
Fazendo as coisas deste modo ritual, a vida será melhor. A necessidade da
filosofia surge quando, numa determinada civilização, este conjunto de meios
rituais é posto
em dúvida. Em qualquer povo em que os ritos tem credibilidade ou eficácia, seja
ela objetiva ou subjetiva, não surge a necessidade de buscar o que é a sabedoria
e como alcança-la, pois se tem seu exemplo exterior nos ritos. Aí, a sabedoria é o
conjunto dos ritos, ora, pois os realizando, a vida terrena será boa. A filosofia,
assim, torna-se dispensável em dois casos: quando os ritos têm credibilidade,
mesmo que não tenham eficácia, ou nos casos em que eles tenham eficácia. Não
é preciso que uma religião funcione para que os indivíduos pensem no problema
da filosofia, é preciso que todos acreditem que ela funcione.
Quando a desacreditam os gregos, surge a questão: como relacionar a nossa vida
com a perfeição? Neste ponto os primeiros filósofos, em conjunto, chegaram ao
pressuposto de que o princípio primeiro da vida humana encontra-se neste
plano da perfeição, no mundo dos deuses. O princípio pelo qual eles chegam a
esta conclusão é que, se o princípio de excelência da vida humana se
encontrasse neste plano, alguém já o teria descoberto e já estaria ensinando-o. A
partir daí, concluíram que, se a religião não funcionava isso se devia a alguma
idéia errada de como se operava o plano dos deuses*¹.

A primeira coisa que escandalizava os filósofos acerca deste plano da perfeição


simbolizado pelos deuses era a sua aparente incoerência, dada as suas vontades
contrárias e a sua multiplicidade. Portanto, não seria possível viver de acordo
com todos os deuses, mas apenas com alguns, o que provocará a ira dos outros.
A multiplicidade de deuses com vontades completamente contrárias e
independentes tornava possível a organização da vida humana de acordo com a
vontade deles. Seria a mesma coisa, em exemplo, de deixar a educação de uma
criança ao trabalho de seis adultos. Seria impossível satisfazer, assim, o ser
humano, as vontades de todos eles.

Assim se sentiam os primeiros filósofos gregos em relação aos deuses gregos, o


que lhes levou a chegar a uma conclusão simples, de que todas as narrativas a
respeito dos gregos seriam símbolos, representações da realidade de um outro
plano, e não uma explicação literal da sua realidade. Assim que começa a fase
dos filósofos erroneamente chamados de naturalistas, que se propunham a
responder uma pergunta fundamental: Qual é o princípio primeiro de todas as
coisas?

Essa busca pelo elemento primeiro e fundamental visava a aquisição de uma


sophia, em aprender a arte da vida. Tales de Mileto, por exemplo, citou a água
como o elemento primeiro e fundamental. Outros citavam a duplicidade dos
elementos como princípio primeiro, como o amor e o ódio, outros ainda,
princípios múltiplos, como Demócrito, a respeito dos átomos. Existem, enfim,
os mais diversos pensamentos a respeito disso, mas devemos deixar muito claro
que não seria natural dizer que estes pensadores eram físicos. Tales precisaria
ser muito tolo para definir a água que bebemos como o princípio primeiro de
todas as coisas. O que acontecia é que havia uma intuição que seguia os
filósofos, desde o princípio, de que eles tomassem o máximo de cuidado com o
uso da linguagem, de modo que os primeiros filósofos hesitavam em criar
neologismos. Quando qualquer um deles pensava sobre o primeiro princípio e o
descrevia, encontrava-se algum elemento conhecido neste plano, cujas
características seriam semelhantes às daquele princípio tal como ele o percebia,
para designá-lo, ao invés de criar um novo nome. Quando Tales diz que o
princípio fundamental é a água, por exemplo, quis dizer que o princípio
primeiro seria representado, neste plano da realidade, por determinados
elementos que se assemelhavam àqueles da água.

Por fim, chegam dois pensadores que expressam, de modo mais claro, o seu
pensamento acerca o princípio primeiro, e eles não cunham um novo termo,
mas passam a usar um termo conhecido em um outro sentido. Estes dois
pensadores são Parmênides e Heráclito, que serão os avôs, os patriarcas, da
filosofia tal qual a conhecemos. Ambos tinham em comum o fato de terem
ambos, dito que o princípio de todas as coisas seria o ser. Eles pegaram uma
palavra, cujo sentido é muito geral, e deram a ela um significado puramente
abstrato. O primeiro termo abstrato da filosofia é ser. O problema é que ambos
tinham uma visão completamente opostas a respeito do que seria este ser Ao
descrever este princípio primeiro, ambos descreviam o contrário do que o outro
descrevia, cujo ponto central é a imutabilidade e mutabilidade do ser,
respectivamente. Estes dois pensadores eram extremamente radicais nas suas
concepções. Tudo o que existia, para eles, reduzia-se, em última análise àqueles
princípios por eles defendidos. A idéia que ocorreu a eles é a idéia que permite a
existência da filosofia, tal qual a conhecemos.

Enquanto os filósofos usavam um símbolo natural ou concreto para simbolizar


um princípio supremo, eles não estavam tão longe das tradições religiosas pré-
existentes. É uma característica de todas as tradições religiosas o representar do
princípio supremo por elementos naturais ou, pelo menos, ligá-lo a algum
objeto natural. Por exemplo, a religião mais abstrata que existe, o islamismo, diz
que não se pode representar Alah de qualquer maneira, porque Alah não tem
semelhante, mas deve-se rezar para Ele olhando para determinada direção, para
Meca, onde está a Caaba. Ou seja, eles ligam Alah a um ponto geográfico, não a
dizer que Ele está ali, mas para que o homem, para ligar-se a Ele, volte-se para
lá. Quando se diz que o princípio supremo é o ser, para onde se olha para ligar-
se a ele, ao ser, princípio supremo? Quando se diz que o princípio primeiro e
fundamental é representado pela água, então lavar-se seria um rito, e assim por
diante. Quando se diz que é o ser, corta-se a ligação ritual. Como se fará para
ligar ao ser, se o indivíduo já é o que se é? Assim, estaria o indivíduo já ligado a
ele. O que torna a filosofia um ramo da atividade intelectual e espiritual humana
independente é o fato de designar o princípio supremo pelo termo ser. Até
então, havia correspondência entre estes símbolos utilizados pelos primeiros
filósofos gregos e as diversas tradições, mas esta nova noção, este novo termo,
corta este laço. O uso de um símbolo natural para representar um princípio
supremo colocaria a filosofia como uma nova religião, com novos ritos e novos
deuses. O que impede que isto aconteça é o fato dela começar utilizando um
nome completamente abstrato para o seu princípio supremo. Esta diferença que
caracterizará tudo na filosofia. Por exemplo, se não existe qualquer rito, qual o
meio pelo qual o filósofo se unirá a este ser? Os filósofos, desde o começo,
disseram que é a reflexão, é a inteligência do indivíduo. Um primeiro princípio
abstrato, evidentemente, associa-se ao homem pela inteligência abstrata do
homem.

Esta idéia de que se tem como princípio supremo, o ser, e como meio a reflexão
humana, não será colocada em xeque por quase 1800 anos. Somente no começo
do séc. XIV, final do séc. XIII, é que esta relação entre o refletir e o princípio
supremo é posta
em dúvida. Durante os primeiros 1600 anos, toda a filosofia é movida pela
paridade entre o ser e a inteligência, ou e possibilidade de comunicação entre o
ser e a inteligência.

Mas até então, até que os filósofos tenham chegado a uma conclusão acerca do
princípio supremo que orienta a filosofia, isso não era, ainda, suficiente para
fazer, da filosofia, uma forma de vida comunicável, visto que os primeiros
filósofos, como Parmênides e Heráclito, tinham hábitos, viviam de uma forma
mais similar à dos antigos místicos da Antigüidade, o que os diferenciava muito
da vida comum grega, dos modos de uma vida trivial naquele período. E nessa
época, enquanto os grandes filósofos eram indivíduos com uma vida
maximamente estranha, a filosofia não poderia tornar-se um movimento que
tivesse uma influência concreta sobre a sociedade como um todo. A atividade, o
pensamento destes antigos filósofos influenciava a vida de seus discípulos
imediatos, mas ela não modificava em nada as estruturas da sociedade grega.
Por exemplo, Parmênides nunca fundou uma instituição educacional. As
pessoas iam até ele para aprender e dialogar. Nenhum deles pensou em fundar
uma escola para que eles ensinassem. O primeiro a fazer isto na História da
Filosofia é Platão, e isto se dá porque, entre Parmênides e Platão, existe
Sócrates, o qual foi o pai da Filosofia. O rumo da Filosofia só iria mudar – e
quase completamente - a partir da pessoa de Sócrates.

Poder-se-ia aqui dizer que a Escola Pitagórica fosse uma escola, mas o
pitagorismo era mais uma mística do que uma filosofia era muito mais uma
associação esotérica do que uma escola filosófica. O trabalho dos pitagóricos e
suas crenças influenciaram muito o platonismo e entraram na História da
Filosofia, como a conhecemos, por intermédio deste, embora, segundo a
tradição, tenha sido Pitágoras que cunhou o termo filósofo. Mesmo assim, os
modos da associação pitagórica assemelhavam-se muito mais às associações
místicas cristãs e islâmicas. A escola pitagórica era muito mais parecida com um
mosteiro ou uma tariqa que com uma faculdade. A diferença primordial entre a
escola pitagórica e as instituições de ensino posteriores a Sócrates é que as
escolas filosóficas estavam abertas para todos, ao contrário das associações
místicas, que não estão abertas para todos. Para um indivíduo tornar-se neófito
pitagórico, este deveria passar por uma série de provas que duravam anos.
Então, por um lado, Pitágoras foi um dos primeiros filósofos, porque Pitágoras
dizia que o princípio de todas as coisas era o número. Talvez tenha ele sido o
primeiro a utilizar um simbolismo abstrato para se referir ao plano da perfeição.
Vejamos que dizer que o primeiro princípio é o número ou a unidade é muito
diferente de dizer que é como a água. Mas eles ainda assim tinham seus ritos, os
quais, dado o seu hermetismo, relatos sobre estes não nos chegaram. E nisto é
muito diferente a escola pitagórica em relação às escolas filosóficas após
Sócrates. Neste sentido, a Academia de Platão foi a primeira na História.

Na Academia de Platão, qualquer indivíduo, em princípio, poderia entrar e não


existiam ritos especiais secretos distintos dos ritos que os gregos já realizavam
em geral. Exceto que, na Academia, a religião grega sofria certa transmutação,
mas Platão não apresentava, para seus discípulos, um conjunto de ritos distinto
dos ritos da religião grega, ao contrário do que se realizava na escola pitagórica,
o que fez com que estes fossem perseguidos e considerados hereges. No entanto,
mesmo assim, provavelmente foi a escola mística que mais influenciou o
pensamento filosófico posterior à Sócrates tenha sido a pitagórica. As analogias
entre o pensamento pitagórico e o platônico são muito fortes, como bem
demonstra Mário Ferreira dos Santos.

Mas, o que caracteriza a filosofia, tal como a conhecemos é, em primeiro lugar, a


ausência de rituais específicos, com exceção, evidentemente, da concentração e
reflexão contemplativas. Em segundo lugar, o que caracteriza a filosofia é, em
princípio, a abertura dos ensinamentos para toda e qualquer pessoa. Diz-se que
é em princípio, porque, na prática, estes ensinamentos ficaram restritos, ao
longo de alguns séculos, a apenas um grupo seleto de pessoas, embora não
existisse uma barreira muito clara e definida entre os do grupo ‘’de dentro’’ e
aqueles do grupo ‘’de fora’’ daquela instituição, o que não ocorre, por exemplo,
nas associações místicas, vide o exemplo, em um mosteiro, entre o monge e o
oblato, por exemplo. A fronteira entre aquele que não era da escola pitagórica e
aquele que dela participava era enorme. Já a divisão entre um aluno da
Academia de Platão e aquele que não fosse, era nebulosa, não era clara.

Aula 1, Parte II

Então, nós distinguimos dois estágios na Pré-História da Filosofia e outro


estágio que é o divisor entre este período que podemos chamar de pré-História
da Filosofia e a História da Filosofia. O primeiro deles é o da dúvida
generalizada sobre a eficácia dos ritos da religião grega por parte dos primeiros
filósofos. O segundo estágio, por sua vez, é quando se alcança um grau de
abstração a respeito do primeiro princípio da existência, o que atinge um ponto
relevante nas pessoas de Parmênides e Heráclito. O último estágio da pré-
Historia da Filosofia, e primeiro estágio da Filosofia, se dá na pessoa de
Sócrates.
Acerca da pessoa de Sócrates, naquele período, existe uma notícia interessante,
uma intervenção dos deuses gregos na história de Sócrates, que é uma
intervenção da religião grega na vida de Sócrates. Esta notícia vinha de um
indivíduo que, ao inquirir o Oráculo de Delfos, um dos principais templos da
religião grega, sobre quem seria o homem mais sábio da Grécia, teve como
resposta Sócrates. Ao ser noticiado sobre tal fato, Sócrates se surpreende
imensamente, porque não tinha consciência, dizia ele, de ter uma sabedoria
especial. Sócrates se vê diante de um dilema, também, pois sempre havia sido
um crente na religião grega. A primeira vez que esta fé é posta em dúvida é
quando esta religião diz que ele é o sujeito mais sábio da Grécia. Se por um lado,
pensava ele, os deuses não poderiam mentir ou errar, elo outro, ele não tinha
consciência de possuir esta sabedoria. Desta forma, As partir desse momento,
Sócrates dedica-se a encontrar-se com todos os sujeitos que tinham fama de
sábio, para analisar as suas sabedorias e, então, tornar-se cônscio de sua
sabedoria. Vejamos que ele não dizia que era ignorante de tudo, que não sabia
nada. O fato é que, ele, mediante a sua consciência, não se via como sábio.
Existe, é evidente, uma grande diferença entre dizer que é ignorante ou dizer
que não é um sábio, pois o contrário do sábio não é o ignorante, é o estulto, o
tolo. O contrário do ignorante é o ciente. Ninguém exita em se dizer igfnorante
de uma coisa da qual é ignorante. Se se conversa, por exemplo, entre historiares,
sobre Química, estes não se sentiriam ofendidos ao dizerem ou ouvirem que são
ignorantes a respeito de Química, mas chama-los de estultos, tolos, ofendê-los-
ia. A idéia de sábio inclui, como já vimos, uma dimensão moral, um conjunto de
técnicas para realizar o propósito último da vida. Quando chamamos um sujeito
de estulto, dizemos que tudo o que ele faz da sua vida é completamente imbecil,
é dizer que sua vida não se realiza, é frustrada. Chamar um sujeito de ignorante
é apenas dizer que ele não sabe determinada coisa. Então, Sócrates dá um novo
rumo , põe uma ênfase diferente na especulação filosófica. Uma vez que ele é
chamado de asábio ele se pergunta sobre o que é essa sabedoria e, em segundo,
inquire sobre vcomo é possível ter essa sabedoria e não ter consciência de que a
possui. Observemos que saber uma técnica, ou mesmo ter conhecimento sobre
determinado assunto, e não ter idéia disso é muito estranho. Por isso, se ocentro
da especulação, naquele período, estava em qual seria o primeiro princípio, com
Sócrates ele muda para o ser humano, para o que seria o sábio. Os discípulos de
Sócrates terão, então, a preocupação principal de saber como representarem,
em suas vidas, a existência de Sócrates. Neste processo de procurar os sábios e
conversar com eles, para saber se é ou não mais sábio que eles, ele, Sócrates,
cria amigos e inimigos. Quando descobre que alguns desses homens não são
sábios, algumas pessoas tornam-se suas inimigas, pois se verem desmascaradas
e outras, por sua vez, passam a admirá-lo. Sócrates possui como que um
criterium mágico para identificar a sabvedoria e sua ausência, para diferenciar a
verdadeira sabedoria da falsa. A palavra criteroo vem de criteruium, que era a
pdera usada pelos gregos para examinar se outra pedra era ou não oruo. Sócrtes
tem, assim, como que um criterium da sophia, uma peddra para experimentar
uma suposta sabedoria e descpobrir se ela é uma verdadeira sabedoria ou não A
partir da vida de Sócrates, o sentido das especulações mudam para a
compreensão de compreneder como possuir este mesmo critério que Sócrates
possuía. Havia uma diferença fundamental entre Sócrates e um Heráclito, um
Parmênides, algum dos pensadores de seu tempo. Sócrates era um grego
comum, vivia uma vida como qualquer grego. A pessoa, a figura de Sócrate, dá
novo impulso à investigação filos´foia. Primeiro, porque torna acessível à
investigação filosófica a qualquer sujeito. Poder-se-ia, então, segundo o exemplo
de Sócrates, viver uma vida comum, e adquirir algo da sabedoria de Sócrates Já
para adquirir a sabedoria de Parmênides, dever-se-ia seguir uma vida como a
dele, cheia de privações extremas, assim como para adquirir a sabedoria de
Pitágoras, entrando na escola pitagórica, através de uma série de penosois
exercícios. O primeiros filósofos, os pré-Socráticos, chegavam ás suas
conclusões pela meditação solitária. Sócrates equilibra a meditação filosófica
com o diálogo com outras pessoas, o que faz com que, na sua vida, estabeleçam-
se dois movimentos: pela meditação solitária, ele obnteve a sabedoria que ele
não sabe o que é; sobre o diálogo com outros, ele vai pouco a pouco descobrindo
em que consiste esta sabedoria. Entõ, a partir d vida de Sócrates, a filosofia
torna-se uma investigação acerca do que é, de fato, as bsabedoria humana. Até
então, os pensamentos dos pré-Socráticos estavam extremamente distantes da
experiência cvomum dos seres humanos, eram muito estranhas. As conclusões
de Heráclito, por exemplo, sobre a mutabilidade constante das coisas, estava
afastada em demasiado da experiência comum de um ser humano, violava esta
experiência. Em um certo sentido, as abedoria exprimida por Parmênides ou
Heráclito, era a expressão de uma sabedoria divina, ou de um ponto celestial,
que um ser humano não alcançaria por um meio natural. A sabedoria dos pré-
Socráticos parecia sobre-humana, ao contrário da sabedoria que possuía
Sócrates sem, à primeira vista, nada radical, e passível de assimilação por meios
naturais. No entanto, o aspecto radical ou extremista do pensmento socrático
revelar-se-ia não acerca do primeiro pincípio, mas acerca de como edeveria ser a
vida humana. Existem algumas idéias no pensamento socrático eminemtemente
díapares em relação às conclusões comuns sobre a vida. Eram opiniões sobre
como deveria ser o comportamento humano, não sobre o primeiro princípio da
realidade.. Por exemplo; ao conviver com Sócrates, seus discípulos observaram
que ele tinha 2 opiniões muito estranhas acerca da vida. A primeria é que ele
dizia que o justo ´pe, necessariamente, mais infeliz que o injusto, uma opinião,
convenhamos, que não está examatemte de acordo com a experiência comum
humana. A outra é que o injusto nunca poderia prejudicar realmente o justo.O
interessante é que as opiniões estranhas de Sócrates são acerca deste plano de
existência, e ao do outero. As opiniões de Sócrates acerca do outro plano, o da
perfeição, não eram muito diferentes das opniões de um grego comum, Sócrates
foi, em toda sua vida, um praticante expmplar da religião grega. Piucpo antes
da morte, ele pede a um amigo que sacrifique um galo a Asclépio, deus da
Medicina, por causa de um sonho que ele teve, o que ilustra a atitude dele em
respeito á religião. Mas ele apresenta, de fato, opjniões radicais sobre a vida
humana. Entãso, a filosoifa passa neste momentom a ser, primeiro, um estudo
teorático a respeito da vida de Sócrates. Porque, embora suas opiniões fossem
radicais e estranhas, eram opiniõe acerca de fenômenos observ[áveis. Assim
sendo, elas poderiam ser testadas. É muito difícil explicar, por exemplo, que a
essência d realidade é a mutabilidade, dado as amostras pequenas da realidade
que possuímos. Mas,ao falar do justo ou do injusto, pode-se examinar,
pessoalmente, a veracidade destas assertivas, observasndo a vida dos justos e
dos injustos. O rumo ds especulações mudou completamente. Nestes sentido,
então, é que Sócrates foi o primeiro filósofo, no sentido moderno do termo. É
por isso, também, que costumamos classificar todos os pensadores gregos como
pré-Socráticos e os posteriores. Aqueles dedicavam-se ao que era o primeiro
princípio da realidade; esses, em primeiro lugar, a investigar se a vida de
Sócrates é, de fato, a vida mais excelente ou não, e se ´pe possível realiza-la na
própria pessoa. Daí que o primeiro casmpo da filosofia que se desenvolve é o
campo da Antropovisão, o campo das especulações aceca do que é o ser
humano. No decorrer de duas gerações, de Sócrates para Platão, e de Platão
para Aristóteles, esse xampo da filosofia sofreria um desenvolvimento
incalculável. PiSso acontce por causa do contraste entre a idéia que Sócrates tem
de si e a idéia de seus discípulos a respeito dele. Sócrates não via sabedoria
especial
em si. Esta combinação de um atributo quase sobre-humano, a sabedoria,
acompanhado de uma humanidade, uma vida natural e possível, tinha um forte
apelo sobre os discípulos. Quando falamos de uma figura muito caismãtica, na
História, todas elas são marcadas sobre a afirmação de que há, ali, algo de
sobre-natural, de que nenhum desses homens são comuns. Mesmo no
islamismo, em que há um insistência forte sobre a humandade do profeta
fundador, diz-se que Mohamed seria como uma jóis entre cascalhos, o que o faz
ser diferente de nós. Mas Sócrates nunca se coloca em um plano diferente do
nosso. Quando o Oráculo diz que ele é o homem mais sábio, vemos que ele é um
homem diferente, mas o fato marcante é que Sócrates não afirma isso, pelo
contrário, diz que não tem consciência disso que o Oráculo fala. Sócrates nunca
questionou, por outro lado, a sabedoria dos deuses, pois tinha grande fé neles.
Outro ponto digno de nota é que Sócrates foi atrás dos famosos sábios gregos,
para conferir se tinha esta sabedoria - e o que era ela -, com o propósito,
também, de tomar nota de uma questão: Se o sujeito que perguntou ao Oráculo
disse o que disse realmente em nome dos deuses ou em seu nome. Se viesse dos
deuses, é certo que ele tinha esta sabedoria; se viesse somente do sujeito que lhe
contara, certo seria que ele não possuía aquela sabedoria, pois não colocou em
suspenso, não duvidou, em nenhum momento, dos deuses. Esta posição de
Sócrates é interessante porque reproduz a posição de qualquer ser humano, com
algum talento intelectual, com alguma crise ante a religião. É isso o que
diferenciou Sócrates das outras escolas místicas. A exigência de fé na filosofia é
muito menor que nas outras tradições espirituais humanas. Não é que ela
inexiste, pois não existe qualquer especulação que não seja guiada por alguma
convicção de algum tipo, ao menos a convicção na relevância daquela
investigação. Se se passa a vida investigando algo, aquele que o faz apenas sente
que aquilo é importante para ele; ele crê nisso, embora não esteja certo se isto é
efetivamente relevante para si. A fé está em qualquer empreendimento humano,
mas a carga de fé pode ser maior ou menor. No caso de Sócrates, ela era menor.
Mas, os próprios discípulos, quando observavam o comportamento de Sócrates
e, principalmente, o confronto de Sócrates com aqueles que eram afamados
sábios, evidenciava-se que Sócrates possuía uma qualidade que os outros não
possuíam, a saber, a qualidade de evidenciar se uma sabedoria era verdadeira
ou falsa. Ou seja, Sócrates possuía um talento, um raro talento, do qual não
estava plenamente cônscio, o que é similar a qualquer ser humano que possua
um talento especial. Explicar, então, como se adquire o talento possuído é
muitíssimo mais difícil. Sócrates comentava, acerca dessa busca sobre o
verificar o que é a verdadeira sabedoria, que, entre muitos artesãos, havia
verificado esta sabedoria, mas, em primeiro, eles não tinham a menor idéia de
como esta sabedoria e, segundo, eles cometiam o erro de aplicar uma sabedoria
restrita aos campos em que ela não se aplicava. Mas, observando que, embora
existam os talentos, também existe o ensino das técnicas, os primeiros filósofos,
discípulos de Sócrates, pensaram que não importava se o talento de Sócrates
fosse inato ou não, assim como nas outras artes, se podem observar estes
talentos ao ponto de desenvolver os instrumentos que conduzem a ele. É
evidente que existe algo não-identificável, inefável, em qualquer grande talento
musical, por exemplo; mas é possível que qualquer um, com certo treinamento,
torne-se um músico competente com o devido treinamento, mesmo que não
venha a ser jamais um Mozart. Pensaram então, os discípulos de Sócrates, que
se poderia fazer, com Sócrates, aquilo que se faz com qualquer arte, ou seja,
poder-se-ia observar quais os instrumentos que Sócrates utilizava para discernir
a verdade do erro e tentar aplica-los e que seria possível que, ao aplicá-los, nas
gerações posteriores surgisse alguém com um talento excepcional, formando-se,
assim, um novo Sócrates. Esta concepção aparece explicitamente em Aristóteles,
quando diz que toda e qualquer arte ou conjunto de técnicas não é, senão, a
sistematização de talentos humanos observados. Ou seja, opbserva-se o que
aqueles que possuem um talento fazem, e como fazem, e aplica-se a própria
inteligência na observação e sistematização daqueles instrumentos, dos quais o
talentoso se serve no exercício de sua atividade talentosa, para que se reproduza
em quem não os possui se não o mesmo talento, ao menos uma grande
habilidade naquilo. Como Sócrates possuía este talento fantástico de
discernimento da verdade do erro, buscaram seus discípulos criarem uma
educação que permitisse que as pessoas aproximassem se do grau de Sócrates
neste talento, por onde surge a idéia de uma educação superior.

Na nossa sociedade, atualmente, inexiste uma educação superior. A educação


dita superior, hoje, visa à acomodação do aluno ao mercado de trabalho, visa a
profissionalização. Em princípio, a educação superior, a idéia de uma educação
superior, consiste em fazer tornar um indivíduo mais sábio do que ele era ao
iniciar esta educação, o que, como é evidente, não há mais.

Existe uma distinção fundamental, logo no começo da filosofia, entre sabedoria


e ciência. A posse de uma ciência não torna ninguém sábio. O que os discípulos
de Sócrates estavam começando desenvolver era a ciência teorética da
sabedoria, era o que é a sabedoria e como se a obtém. A comparação, aqui, é a
mesma que entre um sujeito excepcionalmente saudável e um médico. Pode ser
que, pela arte da medicina, nunca se venha a ter uma saúde de ferro, mas pode-
se, certamente, ter, com o domínio desta, possuir uma saúde melhor que, sem
ela, talvez, nunca se poderia possuir A ciência médica é um meio, para um fim,
que é a saúde excelente, É obvio que o melhor é ter saúde que dominar a ciência
médica. Sócrates possuía a sabedoria. Os discípulos procuravam descobrir quais
os meios para adquiri-la. Sócrates fez um uso não-refletido destes meios, nunca
examinou como se obtém filosofia, apenas fez uso dos meios naturalmente. O
sujeito que estuda o virtuoso para tentar reproduzir o que ele faz está abaixo de
quem já o possui, mas acima de quem sequer estudou o que o virtuoso ou o
talentoso faz. Esta distinção radical entre sabedoria e ciência é importantíssima
para a filosofia Pode-se obter a ciência sem nunca chegar á sabedoria. Um
atleta, por exemplo, pode fazer o treinamento correto e jamais chegar ao
primeiro lugar e uma competição.

Se Sócrates forneceu o modelo, o tipo fundamental do sábio, Platão começará a


especular acerca de como este tipo se relaciona com o princípio primeiro da
realidade. Platão, reproduzindo, na sua vida, os instrumentos de Sócrates, para
tornar-se sábio, volta a refletir sobre o princípio primeiro da existência, mas
agora armado das técnicas de que Sócrates fazia uso. Então, Platão será o
primeiro homem, n História da Filosofia, a reunir todo o pensamento já então
produzido e examinar à luz da técnica que foi vivida por Sócrates para ver onde
há mais ou menos fundamento e veracidade. Sócrates refletiu muito pouco
acerca do primeiro princípio. De um modo geral, ele aceitava a idéia geral da
religião grega a respeito do primeiro princípio da realidade e existência. Platão e
Aristóteles, por assim dizer, são pensadores como Heráclito ou Parmênides, mas
pós-Sócrates. Parmênides e Heráclito não possuíam as técnicas que são criadas
pelo exame da vida de Sócrates, então, para investigar a realidade, usavam os
mesmos instrumentos que os grandes místicos, retirando-se para lugares
distantes, praticando uma série de exercícios como o jejum e técnicas de
meditação, até intuírem algo relevante. Mas esta intuição é praticamente
incomunicável em termos humanos. Platão e Aristóteles são os primeiros
pensadores a refletirem sobre o mesmo assunto investigado pelos pré-
socráticos, mas fazendo uso de instrumentos não utilizados antes, os quais
foram e são dados pela pessoa de Sócrates. Estes instrumentos são constituídos
de duas técnicas constantemente e espontaneamente utilizadas por Sócrates: 1,
a Dialética, que consiste num conjunto de técnicas e métodos para a observação
e exame das idéias, no âmbito teorético; 2. A técnica da vida refletida, ou vida
examinada, como chamava-a Sócrates, no âmbito da práxis. Há uma reflexão
dupla por assim dizer Primeiro, reflete-se acerca das idéias, examina-as para
avaliar a sua veracidade; após, aplica-as. Esta técnica consistia em examinar
todas as suas decisões, atos, sentimentos, e compará-los com o resultado de sua
especulação abstrata, por exemplo: Sócrates, por um exame abstrato, chegou à
conclusão de que o injusto era mais infeliz que o justo. A partir disto, era preciso
examinar a sua vida para analisá-la se ela era maximamente mais justa, não
interessando se, na hora de realizar uma acção justa, parece que se será menos
feliz. A idéia de controle da vida pela razão é uma das técnicas especiais criadas
por Sócrates. É o exame de consciência constante, o que inclui a idéia de
fidelidade existencial completa à própria consciência. Na vida de Sócrates,
talvez o maior exemplo disto seja a atitude de Sócrates ante o processo criminal
que surge contra ele. Ante a ameaça da pena da morte, se ele continuasse a
ensinar filosofia os jovens. Sócrates julgou que a acção mais justa era continuar
a fazê-lo, não importasse o que lhe aconteceria, ainda que a morte.

Então, aí é que se funda a filosofia como escola de pensamento Em todas as


religiões ou tradições espirituais da humanidade, há a idéia de que existem dois
planos da realidade e a idéia de que, realizando determinadas operações,
interligam-se estes dois planos. Dizemos, portanto, que Sócrates funda, com sua
visa, uma tradição espiritual. Na prática, ele se comporta como se existissem
dois planos, o teorético e o prático, que são interligados pelo exercício da
inteligência racional. A analogia entre isso e qualquer religião é muito grande.
Se perguntado fosse o Sócrates sobre se aquela era a melhor maneira de viver,
ele diria que não saberia se o era em absoluto, mas que era a melhor maneira
que havia, para ele, de viver. Ele diria que na utilização destes critérios estava a
melhor maneira de interligar aqueles dois planos.

Sócrates é mais uma vida que uma doutrina. A essência de sua doutrina reduz-
se a isto: a idéia da reflexão teorética sobre a vida até chegar ao que é mais
fundamentado e, logo em seguida, realizar, na própria vida prática, ao máximo,
aquilo que é mais fundamentado. O exame constante do plano teorético e, após,
o exame do plano prático, à luz do teorético, é a doutrina de Sócrates.
Entretanto, ele não chamava a isso sabedoria, pois isso pressupõe uma
ignorância a respeito das coisas. Quando Sócrates se surpreende com o oráculo,
é porque ele tem um conceito muito elevado de sabedoria. O conceito dele sobre
sabedoria é quase idêntico ao nosso conceito de onisciência, e é por isso que ele
se espanta. No fim da vida, ele percebe que, quem possui uma sabedoria, possui
uma sabedoria humana, que é, por sinal, a pior possível. Temos então estes dois
elementos: a dialética e a vida examinada. Platão e Aristóteles dedicar-se-ão a
reproduzi-los ao máximo nas suas próprias vidas. Podemos, inclusive, entender
ambos como resultados desta educação, mais sistemática, que se inicia na
Grécia após Sócrates, para que os talentos se destacassem.

Para que surja um outro Sócrates, esse alguém deveria receber uma educação
que o prepare para seus talentos e o acorde para eles. Esse é um conceito que
surge claramente em Platão, quando diz que não é raro talentos como o de
Sócrates, mas sim que o possuidor deste consiga aproveitá-lo sem a educação
adequada. Sócrates é excepcional, diz Platão, porque, sem receber nenhuma
educação para tornar-se filósofo, tornou-se, o que revela a naturalidade*² destes
talentos.

Posteriormente, neste curso, observaremos os fatos da atualidade, assim como


outros mais, tanto os da História ou da Filosofia, em todos os tempos à luz
destas reflexões filosóficas, a partir destes métodos de avaliação utilizados por
Sócrates e sistematizados por seus discípulos e pelos pensadores conseguintes.

Quando refletimos questões ou fatos, levantamos problemas relativos aos


valores humanos. Ora, se estes valores não foram ainda examinados de modo
filosófico, restam duas opções: Ou se tem as opiniões pessoais sobre o assunto
ou têm-se as opiniões das grandes tradições e religiões da Humanidade. Um dos
papéis fundamentais da filosofia é oferecer, à consciência do sujeito, um
instrumento de mediação entre os seus sentimentos individuais e as grandes
tradições espirituais. O filósofo examinará as opiniões das grandes tradições
espirituais como examina as suas opiniões pessoais, submetendo-as a este
trabalho de dialética e vida examinada, e então julgar uma idéia ou acção
qualquer.

Mais à frente, introduziremos a noção de dialética e vida examinada, assim


como a antropovisão filosófica inicial, que é a visão que Sócrates, Platão e
Aristóteles tinham do ser humano. Isto é o alicerce doutrinal da postura
socrática. Sócrates tirava suas conclusões a partir de uma concepção sobre a
vida do ser humano e do ser humano, concepção que se explicita nas obras
destes dois últimos. É preciso entendê-las, pois o indivíduo só pode seguir uma
vida filosófica se compreender esta concepção e aceita-la para si, vendo que isso
explica o seu ser. Antes disso, a prática filosófica não é possível.

Notas:

¹ Para esta problemática dos primeiros filósofos acerca da religião grega,


conferir o diálogo Eutifon, de Platão, sobre a piedade religiosa.
² Os gregos classificavam os fenômenos em 3 categorias: 1. Os naturais, que
acontecem regularmente, habitualmente, como, por exemplo, nascer com a
capacidade de enxergar; 2. Os excepcionais, dos quais alguns estão abaixo da
média natural e outros acima dela; 3. Os sobrenaturais, quando os excepcionais
eram de uma qualidade incomum. Quando as coisas que eram buscadas na
natureza eram naturalmente obtidas de forma excepcional, estes fenômenos
eram considerados sobrenaturais, ou seja, que houvera uma intervenção do
plano transcendental, divino.

* Esta aula foi proferida para um grupo de alunos de Guarapuava/PR, cidade


onde mora o Professor Luiz Gonzaga de Carvalho Neto
(www.luizgonzagadecarvalho.com). Os respectivos arquivos de áudios
encontram-se em seu outro site (www.luizgonzaga.k6.com.br). As transcrições
foram realizadas por José Santini, que escolheu transcrever como se a aula
tivesse sido originalmente escrita, e não passaram pela revisão do professor.
Contatos com o Professor Luiz Gonzaga através dos e-mails eduy@ipd.org.br e
opontoarquimedico@yahoo.com.br, do Professor Dartagnan Zanella.
Segunda aula, Parte I

- Recapitulação da Aula anterior Na aula anterior, observamos uma descrição e


traços da pré-história da Filosofia e como a vida de Sócrates muda esta pré-
história e inicia a História da Filosofia tal como a conhecemos.

Isto, em grande parte, porque a vida de Sócrates era normal. Os pré-Socráticos


levavam um padrão de vida estranho para a sociedade. Eram, pelo contrário,
dados ao recolhimento, cujas vidas assemelhavam-se à dos grandes místicos, de
modo que, por isso, não poderiam interferir tanto na sociedade, não penetravam
tanto na sociedade. Nas grandes Tradições espirituais e Místicas da
Humanidade, a vida mística era canalizada ou veiculada para a sociedade por
meio do sacerdócio. Na História do cristianismo, por exemplo, as idéias e
pensamentos dos místicos à respeito da existência, da vida, logo penetravam na
vida clerical, por onde, posteriormente, penetravam na vida do povo. Na pré-
história da Filosofia, esta ficou restrita a um número pequeno de pessoas, já que
não existia uma casta sacerdotal que canalizasse as idéias dos filósofos para a
sociedade. Surge então o fenômeno Sócrates que, diferentemente dos sábios de
sua época, vivia uma vida em sociedade, como um grego comum, além de que,
em sua vida, existiam traços notáveis e excepcionais.

Os critérios que Sócrates utilizava para determinar o seu comportamento


cotidiano eram derivados diretamente de uma doutrina, de um modo de pensar
a existência, e é isso que dá origem à Filosofia tal como a conhecemos. A relação
de pensadores imediatamente posteriores à Sócrates fizeram esforços no sentido
de sistematizar estes critérios e entender como ele, Sócrates, possuía as
habilidades que possuía, como a habilidade – a mais notável – de diferenciar a
verdade do erro por meio do discurso, e isso origina a Filosofia.

Como o propósito do curso não é estudar a História da Filosofia, daremos um


salto histórico com objetivo de analisar o que foi produzido, nos quase mil e
quinhentos anos subseqüentes a Sócrates, a respeito da reflexão e da
sistematização dos meios que Sócrates utilizava para esta grande habilidade que
possuía, relembrando, o discernimento da verdade do erro, o qual deu origem à
Educação Liberal. Antes de falarmos sobre esta, falemos sobre os dois tipos de
educação: a superior e a profissionalizante.

Durante séculos, não se levantou para a Humanidade a necessidade de uma


educação profissionalizante. Durante este período, as profissões possíveis não
eram muitas e, na prática, um homem seguia a mesma profissão de sua família,
constituindo, portanto, um laço hereditário. As profissões não mudavam tanto
com o passar do tempo. Já a educação superior, pensada pelos filósofos gregos e
pelos pensadores medievais, era completamente diferente do que hoje
chamamos de educação superior, visto que hoje alguém procura a educação,
chamada superior, com fins práticos. Antigamente, uma profissão era aprendida
na família; hoje, devido ao desenvolvimento da técnica, o número de profissões
cresceu de tal forma que não é mais possível que se mantenham na sociedade
todas as profissões necessárias somente pelo meio da educação familiar, através
do aprendizado segundo o contato imediato com a profissão. Solucionando este
problema, criamos uma educação que tem, por fim, a inserção do indivíduo em
sociedade, dado que, para tanto, deve ele aprender uma profissão. Entretanto,
esta tem pouco a acrescentar para a existência do individuo como ser humano.
Ao contrário, ela o prepara para a sua vida profissional. Não se esperam das
crianças que elas saiam do colégio como seres humanos melhores do que
quando lá ingressaram. O desenvolvimento da técnica, e a multiplicação das
profissões, exigiram uma dissociação no processo educacional. Quando era no
seio familiar que o indivíduo aprendia uma profissão, ele simultaneamente
assimilava os valores morais, espirituais, doutrinais, religiosos, daquela família.
O ensinamento era dado como um todo. Quando após esta dissociação de que
falamos, resultado do desenvolvimento da ciência e técnica, esta educação já
não é mais promovida por um mesmo núcleo. Ao contrário, ela agora é dada em
núcleos distintos e independentes, o que cria problemas no que confere à
educação em si do indivíduo: Só é possível formar um ser humano com a
participação ativa do aluno - o sujeito que está sendo modificado. Mas isso só é
possível com uma convivência intensa entre mestre e aluno, por onde o mestre
descobrirá quais as motivações morais, psicológicas, os pensamentos e idéias
que o movem a um comportamento melhor ou pior, exigem uma convivência
que os professores da escola não podem praticar. Um professor que convive com
40 alunos, por exemplo, não é capaz de descobrir estas motivações em todos os
alunos.

Os filósofos gregos e os pensadores medievais pensavam em uma educação que


se voltasse para a formação superior, uma educação para a Humanidade.
Educação para eles não era preparar um sujeito para uma profissão. Isso ficaria
a cargo da sociedade, naturalmente. Eles preocupavam-se com a criação de uma
educação que tornasse os homens mais aptos frente aos grandes problemas e
questões humanos. A idéia era preparar um homem para prepará-lo para as
decisões que ele tivesse ao longo da vida, problemas de ordem moral. Embora os
princípios morais fundamentais estejam claros na mente de um homem,
havemos de concordar que a aplicação desses à existência concreta é
extremamente complexa e exige um desenvolvimento intelectual individual
muito elevado, e que, não obstante, não há um manual que antecipe todos os
dilemas morais que um homem terá de lidar no decorrer de sua vida, daí a
importância e necessidade de uma educação com este propósito. Assim,
podemos enumerar os objetivos desta educação: 1. Como preparar um ser
humano para que ele saiba o que tem de saber sobre o ser humano, a vida
humana; 2. Saber tomar as decisões corretas com base neste conhecimento.
Educação consistia, então, na arte de preparar um sujeito para aproveitar ao
máximo sua própria inteligência e vontade livre. O que é chamado educação
liberal é justamente uma das formas elaboradas de educação para chegar
preparar um sujeito para tornar-se mais livre e autônomo como ser humano.

Existe uma maneira muito simples de perceber a diferença deste tipo de


educação e o outro que se trata de perguntar a um ser humano quem ele quer
ser quando crescer, e não o que ele quer ser quando crescer. Assim o é porque
existem dois atributos no ser humano: os atributos que são determinados pelos
papéis sociais que o ser humano terá de cumprir na sua vida e os atributos
pessoais, aqueles que derivam da própria estrutura dele como indivíduo
humano. Por exemplo, para que o homem se torne delegado de polícia, ele terá
de cumprir com determinados paéis sociais. Mas, quando um homem escolhe
determinado papel social para assumir, que é escolher uma profissão, ele não
tem idéia de quem ele é. Assim, ele não pode saber se há uma afinidade real
profunda entre ele e aquele papel social Além disso, um papel social não
preenche as necessidades de outros papéis sociais. Este sujeito que pretende ser
delegado de polícia, será chefe de uma família, será chefe de alguns,
subordinado de outros, etc. O conjunto total de papéis sociais não explica a vida
daquele indivíduo como um todo. É muito comum que as pessoas, no meio das
suas vidas, passem por grandes crises existenciais (exemplo: quando se
aposentam, as pessoas ficam na dúvida se ela existe realmente ou não, já que
aquele papel que ela exerceu durante tantos anos já não existe mais, por onde
podemos dizer que a sociedade industrial é a criação de uma pseudo-mística do
trabalho). A idéia de realização profissional substituiu a antiga noção de
realização humana ou espiritual, e isso, na prática, aconteceu na vida de milhões
de pessoas; e quando a existência profissional acaba ou se vê diminuída, ele
perceberá que em toda ou qualquer profissão, o número de bem-sucedidos é
infinitesimal em relação ao número total de profissionais. Ou seja, se um
homem identificar a sua realização como indivíduo humano com a sua
realização profissional a probabilidade que ele tenha um grande fracasso
humano, de sentir-se fracassado, em uma existência sem sentido No momento
desta identificação, a pessoa sabota o seu próprio sucesso existencial; quem faz
isso hoje, prepara uma bomba relógio para o futuro. E acrescentar mais papéis
sociais, sobrecarregar-se deles, como as mulheres fazem na modernidade, não
substitui a individualidade do indivíduo. Esta é a causa dos problemas
modernos relacionados à mulher, que se sobrecarregam de papéis sociais e
perdem-se neles, já não sabem quem elas são ali. Todos os papéis sociais têm
uma relação com a natureza humana, mas não com o indivíduo. Uma das
diferenças mais notáveis entre o ser humano e os animais e a capacidade e
necessidade do ser humano descobrir-se como indivíduo. Existe um grave erro
na nossa sociedade em pensar que ela, a sociedade, deve oferecer a realização
pessoal ao indivíduo. Existe uma descontinuidade quase absoluta entre a
sociedade, o conjunto de papéis sociais que um indivíduo pode representar e ele
mesmo como indivíduo.

O conjunto de papéis sócias não serve senão como oportunidade material para a
realização do indivíduo, ele mesmo não é capaz de dar esta individualidade ao
ser humano. A sociedade está para o edifício como o conjunto dos materiais de
construção. É impossível que um conjunto de materiais se transforme por si
mesmo, por mais rico e completo que seja, numa construção. Para tanto, é
necessário a intervenção de um outro princípio que não seja, ele mesmo,
material. É preciso o esforço deliberado do indivíduo humano. A sociedade
fornece ao indivíduo uma série de fórmulas para solucionar problemas básicos,
sem o qual, ele não terá tempo para pensar na própria individualidade Se cada
um de nós tivesse de resolve todos os problemas materiais da existência humana
(exemplo: buscar comida e roupa na infância), seria terrível. O que caracteriza a
sociedade humana é justamente cercar o indivíduo de oportunidades ou
possibilidades materiais que torne possível que ele tenha algum tempo e meios
para investir na realização dele mesmo No entanto, ela não pode, não têm os
meios, de fazer um indivíduo avançar um milímetro sequer na sua realização
individual. A realização individual consiste no sujeito tornar a vida dele
significativa.

A fórmula geral da realização individual é o sentido da sua vida, que se realiza


de fato quando os atos do indivíduo são atos representativos da espécie. Quando
o sujeito realiza o sentido ou a intenção da sua própria espécie nos seus atos
deliberados, a vida dele torna-se repleta de sentido para ele, e este sentido se
manifesta para os outros que buscam o mesmo sentido. O indivíduo é um
fragmento em relação à sua espécie. A inteligência individual de cada um jamais
poderá partilhar do conhecimento humano que toda a Humanidade absorveu.
Se em relação à espécie, à natureza específica, o indivíduo é um fragmento, pelo
contrário, em relação à sociedade, ele é a totalidade da qual a sociedade é
apenas um fragmento. O indivíduo pode oferecer coisas para a sociedade como
um todo que ela não pode oferecer para ele. Exemplo: em uma sala-de-aula, o
grupo como um todo não pode oferecer uma consciência a mais que serve de
guia para cada membro do grupo. Cada indivíduo humano possui algo que pode
oferecer à sociedade, que a sociedade não pode retribuir para ele na mesma
moeda. Se nenhuma sociedade é por si mesma causa da realização individual,
são os indivíduos que realizam a melhora ou piora da sociedade. A história das
sociedades humanas é a história dos avanços ou retrocessos que foram
oferecidos à sociedade por indivíduos; a sociedade como um todo não pode
dizer se um seu membro é uma boa ou má pessoa; a sociedade como um todo só
pode decidir se o comportamento de um seu membro é tolerável ou não,
aceitável ou não: ela não pode entrar na consciência de um seu membro e
substituí-la, altera-la; mas os membros da sociedade podem ter alguma idéia do
que se passa na consciência deste membro com seu comportamento. O que dá à
sociedade os direitos de impor condições para os indivíduos? É o pressuposto de
que por natureza deve existir alguma coerência entre consciência e
comportamento. Embora a sociedade não possa dar um a palavra final sobre o
caráter deste membro, pode ter alguma idéia deste caráter, e impôr alguns
limites para o jogo da acção social. As normas impostas pela sociedade, que no
movimento são encaradas como obstáculos, restrições à realização individual,
são efetivamente o bem material desta efetivação. Ela está para o indivíduo, em
exemplo, neste aspecto, como o conjunto de regras do voleibol para o voleibol.
As regras de um esporte qualquer não determinam se o praticante perderá ou
ganhará um jogo, mas o jogo só poderá acontecer se existirem essas regras. As
regras da sociedade, assim sendo, servem para possibilitar o jogo da vida
humana, sem as quais não se esta não se realiza. Os códigos de comportamento
não visam tornar um indivíduo melhor, mas tornar possível que um indivíduo,
dela membro, viva e, por sua própria acção, seja capaz de realizar a sua
individualidade, a sua humanidade. A grande dificuldade de uma educação
superior, tal qual a educação liberal, é a consciência de que o desenvolvimento
do indivíduo enquanto tal só se dá por meio da acção do próprio indivíduo. È
consciência da dificuldade que os grandes autores desta área sempre tiveram da
impossibilidade de, desde fora, causar o desenvolvimento individual. Desde
fora, pode-se ensinar como um sujeito varre uma sala ou opera um câncer, mas
não ensina-lo a levar uma vida melhor ou pior como um todo. É claro que, assim
como nas profissões, a qualificação dos problemas de ordem existencial,
pessoal, também existe. Existirão problemas, porventura, que um indivíduo não
conseguirá resolver por si só.

A educação superior, portanto, é a educação que se propõe a preparar o


indivíduo a viver uma vida humana, que consiste em compreender quais são os
atributos pessoais, da pessoa humana enquanto tal, e ter consciência de que em
que medida o indivíduo precisa desenvolvê-los. Por exemplo: o que são
atributos pessoais? São realidades que se dão da psique humana, e
exclusivamente nela, como os sentimentos que acontecem em relação a coisas,
pessoas e acontecimentos. Esse sentimento determina que tipo de pessoa a
pessoa seja. Uma maneira de entender uma pessoa é entender o que deixa ela
contente ou triste, ansiosa ou animada, deprimida ou alegre. Então, os atributos
definidores da pessoa humana são: 1. O conjunto de formas regulares do
sentimento e da afetividade, que é o conjunto de atributos pessoais; 2. O
conjunto de conhecimentos que a pessoa adquiriu, o conjunto de verdades que
ela conhece, que são também atributos puramente pessoais. O conhecimento da
verdade só existe na psique do sujeito. O objeto ao qual aquela verdade se reflete
pode existir fora da mente do sujeito, mas o ato deste conhecimento só se opera
dentro da mente do sujeito. Estes são também atributos que definem a pessoa
humana; 3. As suas capacidades concretas de livre determinação da vontade do
sujeito, ou seja, quando se é capaz de decidir livremente, que tipo de situações o
sujeito pode enfrentar de modo que continue a determinar, de modo autônomo,
interno, o seu comportamento. A liberdade concreta, assim, também é um
atributo pessoal. Exemplo: quando no pagamento de 100 reais, um indivíduo
topar trocar a sua bermuda, estes 100 reais é a medida da liberdade dele, ali ele
não tem liberdade, ou mesmo, se matar alguém por ameaça, comer algo por
uma ameaça.

A liberdade depende, assim, da capacidade de auto-determinação, do


conhecimento que o sujeito tem daquele campo de ação, pois ninguém é livre se
ignora em quem ou no que vai aplicar a sua acção. Exemplo: ninguém pula
livremente em um abismo se souber que ali tem um abismo. O conhecimento
acumulado, portanto, sobre as circunstâncias da vida humana, é evidentemente
um atributo pessoal. Então uma educação superior é uma educação que visa
definir para o sujeito duas coisas: 1. Explicar, expor para o sujeito, quais são as
funções fundamentais que devem estar presentes na inteligência humana, as
cosias que um sujeito deve conhecer mais ou menos bem; 2. Quais são as
ocasiões em que o sujeito tem de ser livre; 3. Oferecer para o sujeito uma
experiência da gama de sentimentos mais ampla e universal possível.
Oferecendo estes três elementos, dá-se para o sujeito a possibilidade de escolher
de fato quanto pessoalmente ele precisa saber destas verdades; 2, Em que
medida eu devo e posso ser livre. 3 Que tipo de reações afetivas que quero ter
diante das coisas e fatos. Sito definirá que tipo de pessoa ele quer ser e ele é, o
que independe de quaisquer papéis sociais que ele possa vir a representar em
sua existência. Sito irá dar uma consistência para o sujeito que representará
estes papéis. Uma educação superior mostra para o sujeito, exemplifica para ele,
quais são as verdades fundamentais que estão diante da vida humana e diante
das quais o ser humano tem de estar; 2. Mostra quais são as circunstâncias ou
em que medida o ser humano deve e pode ser livre. Mostra quais são as
restrições reais à liberdade individual. 3. Lhe oferece uma gama de sentimentos
suficientemente ampla. Este terceiro elemento, embora pareça de menor
importância, ele é crucial na formação individual. Se não mostramos a um
indivíduo humano o pináculo da afetividade humana, ele não entenderá até
onde ele pode chagar. Se não lhe mostramos os exemplos máximos de nobreza
de sentimentos, ele jamais saberá quanto de nobreza ele tem de realizar. Não
existe sociedade que diga para seu membro que ele tem de ser generoso ou
desapegado em tal medida. Ela somente diz: do mundo, você pode pegar este
pedaço e não pode pegar aquele. Não há como olhar alguém de fora e dizer em
que ponto ela pode chegar em nobreza de sentimentos humanos. Isso só é
possível para a própria consciência individual, mas só o é se ela estiver ilustrada
das possibilidades da nobreza de sentimentos. Esta é talvez, no Brasil, a maior
deficiência educacional, pois não é oferecida nas escolas e tampouco nos lares.
Os pais se preocupam com a educação moral dos, mas não oferecem para os
filhos os maiores exemplos da existência humana, e com isso eles lhes roubam a
possibilidade de ser um desses maiores exemplos, pois ninguém realiza aquilo
que não concebe. Se o sujeito nasceu para ser um desses maiores exemplos, se
ele possuir uma necessidade interna disso e lhes roubam a possibilidade, ele
será um ser humano infeliz durante toda a vida e isso pode leva-lo ao contrário
de sua vocação individual. A coisa mais importante sobre o ser humano é que
estes atributos pessoais são necessários para os indivíduos. Eles têm uma
necessidade natural de conservar estes atributos essenciais como tem
necessidade de alimento, ma aqueles não têm forma exterior, ao existem
em objeto. Não se aponta para algo denotando o que é generosidade como se
aponta que é abacate. Os objetos das necessidades corporais possuem forma
definida, que o sujeito capta diretamente; o objeto das suas necessidades
pessoais, por sua vez, não tem forma definida e só existem na psique daqueles
que realizam aqueles mesmos propósitos, aqueles mesmos atributos. Para que
um sujeito pessoa, ele mesmo, saber em que medida ele precisa destes atributos,
para que ele possa saber do que ele está sentido necessidade, é necessário
oferecer para ele todos os exemplos humanos possíveis em relação àquela
qualidade. A criança, no princípio, confunda os atributos pessoais com os papéis
sociais. Todo menino tem algum período em que queria ser Batman ou
bombeiro, pois viu naquela forma, papel, algum atributos pessoal que ele
pretende, mas ele não discerne o atributo pessoal do papel social. Ele está
pressentindo um determinado atributo pessoal. Esta necessidade existe nele
como indivíduo. Mas, pode ser que a vocação pessoal dele seja completamente
distinta de Batman ou bombeiro para esta criança, é preciso oferecer os diversos
exemplos e papéis sociais em que este mesmo atributo pessoal realizou, até que
ele pressinta naquelas formas o atributo pessoal que ele deseja realizar. Quando
se faz isso, dá-se para ele um instrumento para que ele conheça que indivíduo
ele quer ser, quem ele quer ser. Sem isso, ele terá uma sensação geral de
frustração que começa na adolescência e o acompanhará pela vida, por onde
corre o risco até de revoltar-se contra a sua sociedade, pois qualquer explicação
que se dá para aquela frustração – vinda de alguém que faz uso desta desgraça -,
é como via de regra para ele, pois ele não entendeu ainda o porquê daquela
frustração. Qualquer explicação que se dê para um sujeito assim que escape à
esfera cotidiana de sua assimilação é suficiente para que ele concorde com ela,
pois não faz a menor idéia do que realmente precisa e o que a provocou. A maior
parte das maiores frustrações humanas derivam disto, da necessidade que o
indivíduo tem de ser um tipo de indivíduo que ele ignora completamente. No
Brasil, 99% da população ignora a existência de atributos pessoais, a
necessidade de realizar atributos pessoais. Esta idéia de educação superior de
que falamos inexiste no Brasil. Um animal logo descobre quem quer ser. Um
filhote de leão rapidamente descobre que deseja ser um leão. Nos animais este
processo é rápido, pois seus atributos estão ligados ao corpo, à forma corporal.
Na medida em que a visão se desenvolve, que o corpo ganha forma, ele vê suas
potencialidades e, a partir desta, logo irá compreender quem ele quer ser.

Segunda aula, Parte II

É necessário utilizarmos efetivamente a linguagem para comunicar uma


realidade. O primeiro processo de uma educação liberal é ensinar o indivíduo a
utilizar palavras ao invés de expressões. Se as expressões não-significativas
entrevam o processo cognitivo, por outro lado, elas têm uma grande força de
mobilização social Se alguém fala coisas que não significam nada, todos ali
presentes concordarão pois associarão aquele discurso às suas próprias idéias e
chegar-se-á a um consenso sobre o nada. Se o interlocutor associar este
consenso sobre o nada a alguma acção específica, ele terá convencido as pessoas
a fazer coisas que não tem nada a ver com as idéias delas. É muito mais fácil
produzir um consenso sobre o nada que produzir um consenso sobre alguma
coisa real. Sobre algo real, a experiência humana pode variar tanto que todos
percebam algo que o outro não percebeu. Para chegar-se a algum consenso
sobre um objeto real, demoram-se décadas de trabalho conjunto. O consenso
sobre as cosias reais, o esforço pra chegar a um consenso sobre objetos reis não
serve como força de motivação coletiva imediata. Atualmente, infelizmente, no
Brasil, todo o processo cognitivo da população entravou-se, visto que toda a
informação da mídia está repleta de expressões sobre o nada. Expressões sobre
o nada estimulam o sujeito receptor da expressão a raciocinar sobre coisas que
ele jpá pensa, sem enriquecer sua vida intelectual Este é movido a pensar de
acordo com expressões que movem sentimentos, sem que haja uma
comunicação sobre uma experiência humana. Por exemplo: A expressão proteja
o meio-ambiente não quer dizer nada. É preciso dar nome às coisas realizando
um meio de comunicação de pensamento, descrevendo uma realidade. É
necessário dizer, neste caso, que é o meio-ambiente, devemos protegê-lo do que,
como e por que. Outro bom exemplo é tentar conceitualizar que é a
desigualdade social Quando usamos expressões significativas, pode ser que o
interlocutor as utiliza com fins escusos no que tange ao ensino ou mesmo, ou
pode o interlocutor utiliza-las sem ter consciência de que o faz, de que fala sobre
o nada. Quando usamos expressões não-significativas, há um entravamento do
processo cognitivo para estimular o receptor a uma ação concreta, quando não,o
interlocutor engana-se a si próprio. A diferença entre estes dois é que o primeiro
é mais auto-consciente que o outro. Ele conhece o que se passa na psique dele.
Toda e qualquer palavra humana refere-se a um, objeto, mesmo que ele seja
puramente imaginário ou ficcional. Pode-se inventar um objeto e referir-se a ele
por meio de uma palavra, mas ele existe, ainda que dentro da mente do sujeito
que o descreve. O que caracteriza a palavra não é a pura relação entre o objeto e
o nome, mas a possibilidade de comunicar a noção do objeto por meio do nome.
Se o sujeito inventa um objeto na mente dele e inventa um som para significá-
lo,a o falar este som, aquilo não é palavra, pois não tem a capacidade de
comunicar para outrem o objeto que está em sua mente. Objeto, para que não
restem dúvidas, como estamos tratando agora, é um aspecto da realidade que o
sujeito capta, que possui uma efetividade real. O que torna a palavra
caracterizável é a capacidade que ela tem do nome referir-se a um objeto e de
comunicá-lo para uma outra mente. No entanto, Algumas palavras existem para
comunicar objetos que não compreendemos. Neste caso, o conteúdo da palavra
não é claro, haja vista que o objeto não é compreendido. Por exemplo, quando
falamos para uma criança de 5 anos que existe a força da gravidade, ela não
compreende do que falamos, o que não exclui a objetividade real daquilo ao qual
a palavra se refere. Quando se é capaz de conceber um objeto, trazer sua noção à
mente, é-se capaz de dar um nome a ele, ainda que não tenhamos
compreendido-o. Existem inúmeros objetos que, embora captados, não são
efetivamente compreendidos, além de objetos que a mente do sujeito intui e
que, por isso, torna-se impraticável sua explicação para outro sujeito. Atingir
um consenso sobre um objeto real é difícil, pois a realidade dele dificulta. Cada
um já captou alguns de seus aspectos que o outro não, de modo que entrar em
um consenso que envolva a totalidade de seus aspectos é extremamente
dificultoso. Ainda que divirjam, no entanto, cada um destes aspectos pertence a
um núcleo central.

Segunda Aula, Parte III

Todos têm dois impulsos fundamentais: o instinto de sobrevivência e o instinto


da perpetuação da espécie. Esta idéia nunca surgiu da biologia, mas no campo
das ciências sociais. Nos sécs. XVI e XVII, após o abandono das teorias
medievais acerca da ordem social, dos princípios fundamentais que legitimam a
imposição das normais sociais. Durante o medievo, noção corrente era de que as
leis de uma sociedade se fundamentam em 4 corpos de leis independentes, e
que a legitimidade da imposição das leis derivavam da coerência de uma lei
concreta com estes 4 corpos jurídicos independentes. 1. A lei natural, um
conjunto de necessidades humanas fundamentais - a exigência de realizar estas
necessidades - determinam normas para o comportamento humano 2. A lei
revelada. 3. A noção de lei eterna, que é a idéia da ordem das coisas na mente
divina. 4. A idéia de lei positiva, que são as leis elaboradas pelo ser humano. Os
medievais afirmavam que é legítimo impor ao ser humano determinado
comportamento quando este comportamento é exigido por estes 4 corpos
fundamentais de leis. No final da Idade Média, há uma divisão entre os
pensadores no campo da Filosofia Moral. Estes se dividem em religiosos e
seculares. Os religiosos diziam que era desnecessária a complexidade da teoria
medieval, pois o fundamento das leis é pura e simplesmente a Revelação Divina.
Os seculares, por sua vez, diziam que o fundamento, a legitimidade da lei, era
dada pela lei natural, pela Razão. Após 200 anos de debates sobre esta questão,
os pensadores chegaram à conclusão que a lei natural não é suficiente para
legitimar as leis, as normais sociais, haja vista que pela Razão não existe
consenso sobre a maioria das coisas. Quanto à lei revelada, chegaram á
conclusão que ela não era suficiente, pois existia, neste período do sécs. XVI e
XVII, já uma série de divergências acerca de como uma lei revelada deveria ser
interpretada. Na Idade Média, a Igreja era um corpo coeso, não havia o
protestantismo, de modo que a interpretação da lei revelada era, mais ou
menos, unificada. Uma nova idéia surge sobre como fundamentar a coisa social
é Hobbes, que diz que o fundamento da legitimidade é o temor da morte. Ele diz
que este é o impulso fundamental sobre o qual podemos fazer nossas leis. E se
as leis forem derivadas deste medo da morte e visarem a sobrevivência, estas
estará bem fundamentadas na mente das pessoas e serão, por isso, legítimas.
Séculos depois, esta idéia penetrou no campo da Biologia, do estudo das plantas
e dos animais, com Darwin. Ou seja, esta idéia de que os animais visam
fundamentalmente a sobrevivência não deriva diretamente da observação do
comportamento animal, mas é um pressuposto filosófico que hoje orienta a
ciência biológica que foi, por sua vez, tirado do campo da teoria social humana.
A ciência da Ecologia indica que o senso comum natural do ser humano acerca
dos animais é que os animais vivem pelo prazer, que o impulso fundamental do
animal pela sobrevivência e pela conservação das espécies está subordinado à
busca pelo prazer, o que é provado pelas observações feitas sobre os animais
em cativeiro. Somente quando, no cativeiro, é possível reproduzir os
mecanismos de prazer de determinada espécie, é que uma espécie consegue ali
reproduzir e sobreviver. E o principal impulso dos animais é o prazer porque os
atributos que definem o indivíduo animal são atributos que se encontram na sua
estrutura orgânica. Por exemplo, o propósito da existência do leão é tornar-se
mais forte, possuir mais leoas e alimentar-se mais, pura e simplesmente porque
lhe dá prazer. A diferença entre o homem e o animal, neste aspecto, é que o
impulso para o prazer não é, pára a espécie humana, o único elemento em
nossos atributos pessoais, além de que este impulso não explica todo o nosso
comportamento, mas apenas parte dele, visto que, na espécie humana, existem
atributos pessoais que não derivam diretamente desta estrutura orgânica, que
não podemos testemunhar observando a forma física do ser humano. Daí o dito
de que quem vê cara, não vê coração. Vê-se a pessoa pela sua biografia. Isso que
levou os primeiros filósofos a dizerem que não se pode saber se um ser humano
foi feliz ou infeliz enquanto não estiver morto. Somente após sua biografia se
completar é que podemos dizer se sua biografia foi completa ou incompleta. Ou
seja, durante a nossa biografia, a individualidade é um processo em construção.

O indivíduo humano está constantemente se tornando o que ele é, construindo a


sua própria individualidade. Este é o segundo elemento de uma educação liberal
ou superior. Uma educação liberal deve dispor dos meios dos meios para a
edificação da individualidade humana, deve ensinar para o indivíduo como ele
faz para tornar-se a pessoa que ele quer ser. Outra característica humana que
facilita imensamente este processo de observação de biografias humanas para
decidir com quais é que o sujeito se identifica, por onde ele escolherá qual ele
quer ser, é a linguagem, que permite ao ser humano comunicar os seus estados
exteriores a um outro ser humano. Exemplo: quando alguém é incomodado,
percebe-se isso pela sua face, mas não se sabe, pela sua expressão facial ou
corpórea, se ele achou a acção que o incomodou justa ou injusta. A linguagem é
um meio de acesso às individualidades incalculavelmente mais proveitoso e
eficaz que qualquer expressão física. Por um gesto, também não sabemos o que
alguém sabe ou pensa. Com a linguagem, podemos coletar relatos sobre as
diversas potencialidades humanas e apresenta-los a um indivíduo, permitindo
que, em pouco tempo, ele tenha acesso a uma experiência humana que, em sua
vida inteira ele poderia não assimilar pelo testemunho de seus sentidos. A Nossa
experiência humana concreta, nossa experiência concreta do que é a
Humanidade é extremamente limitada. Começa ela com a experiência familiar;
depois com os colegas escolares, ainda em um ambiente comum a todos; e,
posteriormente, é possível que a pessoa passe o resto de sua vida conhecendo
apenas seus colegas de profissão. Ou seja, o núcleo de pessoas que ela conhece
não será tão diferente dela. A amostra real e concreta do que é a Humanidade é
muito pequena. Ela é insuficiente para nos levar a uma idéia clara do que é o se
humano e das potencialidades humanas.

O único instrumento de expandir este ambiente comum compartilhado com este


núcleo restrito de pessoas, as quais poderão oferecer modelos existenciais em
uma vasta gama e amostrar as potencialidades humanas em nível satisfatório, é
a linguagem. A linguagem amplia esta amostragem. É a capacidade de
reproduzir, por meio de um discurso, uma experiência humana total que é
completamente diferente da do sujeito, e que, por mais distante que ela seja do
sujeito, ela é completamente humana. Aquela possibilidade pode ser a
possibilidade sem a qual o sujeito não será ele mesmo, pode ser a possibilidade
fundamental que explica para o sujeito, ele mesmo, quem ele é e do que ele
precisa como pessoa. Então, o primeiro passo de uma Educação liberal
consistirá nas artes e métodos para aperfeiçoar a linguagem do próprio
indivíduo. O primeiro elemento da educação liberal são as artes da linguagem,
do discurso; é tornar o sujeito maximamente capaz de aproveitar o discurso
humano como o melhor meio de transmissão de informações e experiências, de
obter conhecimento, porque a maior parte das informações cruciais sobre a
existência humana ele terá acesso por meio do discurso, e não da experiência
direta. Exemplo: dificilmente o sujeito terá um convívio direto e imediato com
um psicopata ou com um grande místico, mas ter uma noção concreta e real do
que é um psicopata e do que é um místico é indispensável. Então, educação
superior voltar-se-á, por um lado, para dar ao sujeito os meios de usar este
discurso como instrumento do conhecimento.

Temos, então, dois lados, na Educação liberal: 1. Dar ao sujeito as técnicas para
utilizar o discurso. 2. Fornecer para ele discursos de qualidade suficiente. É
preciso dar para o sujeito os discursos com a máxima qualidade, tanto em
forma, quanto em conteúdo, para que ela estabeleça uma escala de valores Se
dermos para o sujeito um texto composto de expressões não significativas, ele
nunca compreenderá para o que serve a linguagem humana. Se dermos a ele,
por outro lado, um texto composto de palavras escolhidas para expressar
pensamento, ele entenderá. Existem duas maneiras de estabelecer um discurso:
Pode-se rememorar na mente uma síntese de palavras que expõe
resumidamente o que se entende por um assunto. No entanto, estas palavras
não serão significativas para os receptores, pois estas são instrumentos de
rememoração de entendimentos e experiências que o interlocutor, ele só, já
teve. Ele terá, assim, de relembrar as experiências e os entendimentos e
procurar palavras específicas que expressem cada um destes objetos de
entendimento ou desta experiência. Exemplo: Se pegarmos um artigo do jornal,
a maior parte destes artigos não expõem pensamentos concretos do autor, mas
somente coleções de expressões pré-existentes no ambiente, como, por exemplo,
a expressão ‘qualidade de vida’. Cada leitor dá uma opinião diferente sobre o
que entende por qualidade de vida, não havendo a possibilidade de
conhecimento. Assim, o autor não está transmitindo experiências ou
entendimentos, mas somente está despertando, no receptor, suas idéias pré-
existentes sobre o assunto - no caso, a qualidade de vida. Pode, à primeira vista,
haver um engano aqui. Utilizemos outro exemplo para elucidar este pretenso
engano: a palavra ‘mesa’, por exemplo, é compreendida pelo aparelho cognitivo
dos receptores de forma igual, com o mesmo conceito. O pretenso engano está
na confusão que o leitor pode elaborar confundindo visualização, imaginação,
com a inteligência. Visualizar ou imaginar é um processo que se dá na
imaginação, não na inteligência. Quando se fala mesa, cada um pensa em uma
imagem diferente que traz da sua experiência; se todos os que têm uma
experiência em comum de mesa, a experiência do receptor no caso corresponde
a do interlocutor, e, portanto, o objeto corresponde efetivamente àquele ao qual
a noção do interlocutor corresponde; mas no caso de objetos mais complexos,
ou de experiências muito díspares, o objeto poderá não corresponder entre
receptor e interlocutor. O receptor, outrossim, acessa as noções que recebe por
meio das mensagens mais diversas. Exemplo: Se falarmos mesa para um cego, a
imaginação da mesa por ele será completamente diferente da do interlocutor,
mas a noção intelectual será a mesma; o conceito é o mesmo. Mas o meio
imaginativo pelo qual ele acessa esta noção é diferente daquele do interlocutor.
Quando falamos, voltando, em ‘qualidade de vida’, cada qual terá uma
visualização imaginativa diferente que conduz a uma noção intelectiva que não
tende a ser a mesma noção que o interlocutor acessou. Explica-se, portanto, que
a expressão ‘qualidade de vida’, não foi criada para comunicar um objeto. Ela
não tem significado. Ela não é uma palavra humana. É claro que como ato
solipsista, qualidade de vida significa algo. Quando se pensa em qualidade de
vida, vem à mente alguma noção, mas utilizando a comunicação para transmiti-
la, não será possível faze-lo. Será necessário utilizar outras palavras para tanto.
Não é possível, assim, nenhuma análise da realidade com quaisquer destas
expressões vazias de sentido Ao contrário, o interlocutor irá travar o aparelho
cognitivo do receptor, por onde somente as suas emoções e sentimentos
ativarão. Ao final de um discurso feito de expressões não-significativas, cada um
terá recriado o discurso dentro de sua própria mente, através de seus
sentimentos e emoções ativados sobre ele, e pensar que tudo compreendeu
quando, pelo contrário, não aprendeu, não partilhou de experiência qualquer,
de nenhum entendimento sobre qualquer objeto que seja.

Aula 2, Parte IV

Para ilustrar um pouco melhor a idéia de expressão não-significante, vamos


tentar definir a expressão ‘qualidade de vida’. Do ponto de vista de quem fala,
não existe expressão não-significativa. A diferença entre a expressão não-
significante e a palavra humana real é que a expressão não-significativa é um
ato solipsista, é um nome que significa algo para o sujeito que pronuncia
aqueles nomes. A expressão não-significante não possui interlocutor, pois não
desperta na cabeça do receptor da palavra a mesma noção que desperta na
mente de quem a profere. Bom exercício, então, para elucidar esta questão, é
buscar uma noção do que é a ‘qualidade de vida’. Comecemos com um exemplo
rudimentar, com, utilizando um exemplo que já utilizamos, a saber, a mesa.

Quais as notas incluídas no conceito de mesa? Todas as mesas são planas, todas
têm pé (um componente qualquer que a coloque acima do chão), em todas as
mesas o plano é horizontal, toda mesa tem uma função. Qual a função que
caracteriza universalmente as mesas? Enfim, poderíamos descobrir muitos
outros pontos específicos e caracterizadores das mesas, até o ponto em que
concluiríamos que a mesa é qualquer plano horizontal sólido elevado em relação
ao solo no qual se coloca objetos que se tornam acessíveis ao uso. Esta é uma
definição universal, que abarca todas as mesas atuais possíveis, que as
caracterizam. Existem, ainda, extensões deste conceito, como, por exemplo, a
palavra ‘balcão’. O conceito de balcão está contido no conceito de mesa, pois é
preciso somente acrescentar algumas notas ao conceito de mesa, e não retirá-
las. A extensão do conceito balcão aplica-se a alguns dos objetos aos quais se
aplica o conceito de mesa, mas não a todos. No sentido lógico, então, balcão é
uma espécie de mesa. Na idéia de balcão estão contidas as notas que definem
mesa, mas não todas, assim como mesa é uma espécie de plano horizontal
elevado em relação ao solo. Para balcão ser balcão, ele precisa ter, em si, todas
as características de mesa. Para entender o que é balcão, pé preciso entender o
que é mesa. O balcão tem uma nota distintiva a mais. O conceito de mesa aplica-
se, então, a mais objetos que o conceito de balcão.
Quando tentamos realizar um esforço para conceituar ou balcão ou mesa, o foco
mental de cada um voltou-se ao objeto era claro e definido, como, atrás, o
conceito de felicidade, para dar um exemplo abstrato de objeto. Para conceituar
qualidade de vida, realizando este esforço mental, até descobriremos alguns
pontos deste pretenso objeto, como, por exemplo, a satisfação material do
indivíduo No entanto, ainda que cada um ache inúmeros destes pontos,
descobriremos que estes pontos, por si só, representam objetos reais e que a
expressão qualidade de vida, ainda que possa envolver um ou outro destes,
indicar alguns destes, ela pode envolver qualquer outra coisa, e é isto que
caracteriza uma expressão não-significativa. Quando um objeto não é passível
de assimilação imediata, existe um exercício dialético para compreendê-lo eu
consiste em encontrar o seu contrário. Utilizemo-lo. O que é não ter qualidade
de vida? Pode-se dizer que é a vida miserável, mas todos concordarão com ela?
Será difícil. Então, para que serve a qualidade de vida? Pode-se dizer que é para
o bem-viver. Aí qualidade de vida seria um instrumento para este fim. Mas o
que é o bem-viver? Veremos, aqui, que todos se voltarão ao objeto prazer, ao
objeto satisfação. Ou seja, quando uma palavra tem um núcleo, todos se voltam
a ele. Quando falamos em qualidade de vida, todas as pessoas, a mente delas,
tende a voltar-se para uma expressão real. Cada vez que se encontra um sentido
para uma expressão não-significativa, este sentido é o sentido de um objeto real.
Quando falamos em qualidade de vida, citar-se-á uma série de coisas que se
deseja para estarem presentes na vida. O nome genérico disso são os objetos de
desejo humanos. É claro que cada pessoa pensa em algo quando se pensa em
qualidade de vida, mas não há qualquer garantia de que o outro com quem se
dialoga está pensando no mesmo objeto. Não há qualquer garantia de que o
interlocutor com quem se fala está pensando na mesma coisa, no mesmo objeto.
Isso dá a impressão de que se estabelece um diálogo, mas não. Ambos estão
realizando, cada um, um monólogo, diálogos independentes. Como a expressão
não tem um significado unívoco acerca do qual podemos dialogar, não podemos
chegar a qualquer conclusão sobre uma questão que envolva esta expressão.
Exemplificaremos comparando um diálogo com o objetivo de melhorar a
qualidade de vida e o prazer da população. Somente na questão que envolva esta
última expressão palavra é que estabeleceremos um diálogo, mesmo que não se
chegue a um consenso sobre uma questão qualquer que a envolva; quanto
àquela, jamais estabeleceremos um diálogo coerente, criando um muro entre
quem fala e quem ouve.

Aula 2, Parte V

Cada pessoa recolhe determinadas experiências de sofrimento, as sente como


justas ou injustas. Quais as diferenças entre as primeiras e as últimas? Nas
justas, sente-se que houve uma proporção entre o que lhe aconteceu e o que se
fez antes, há uma proporção entre a minha acção e a acção alheia. Nas injustas,
há uma desproporção. A justiça, assim, é um tipo de proporção. A justiça é um
tipo de relação entre duas coisas distintas. Lembremo-nos, para elucidar, do
símbolo da Justiça, onde há uma balança. A justiça corresponde a cada acção
segundo a ordem da própria acção. Quando um indivíduo dá um soco na cara de
outro, aquele priva este de um bem que ele possuía anteriormente a esta acção.
Mas, suponhamos que um sujeito não tenha feito nada a outro: é justo dar um
soco na cara dela?

A idéia de adequação ou de propriedade do que é apropriado está ligado à idéia


de Justiça. É proporcional, apropriado, que um sujeito que nunca tenha nada a
outro não seja arrebentado por este. A integridade física é dele e outro não pode
tomá-la. Se um sujeito não fizer nada para desequilibrar as relações humanas de
modo que outro possa re-equilibrar dando um soco naquele, este não pode fazê-
lo. A Justiça tem uma idéia do que é devido, do que é proporcional a um ser. A
Justiça é o re-estabelecimento da devida proporção. Podemos definir justiça ou
o justo como o fazer o que é devido para o outro, o agir para com o outro
segundo o que lhe é devido. Agora, a questão a ser levantada é: o que é devido ao
ser humano? Se for relativo a cada indivíduo, deve haver um núcleo de absoluto,
que se relativiza segundo as circunstâncias. A Justiça, em seu ato, continua a
mesa.. Como as diversas relações mudam, a Justiça se manifesta com um ato
diferente em cada relação, mas a proporção continua exatamente a mesma.

Quanto à noção do que é devido ao indivíduo humano, esta noção só pode se


tornar clara se nós pensarmos: o que os indivíduos humanos querem? Se
soubermos isso, saberemos o que lhes é devido ou não. O que eles prezam e
desejam? (nisto está a garantia ontológica da noção de justo e injusto). Nesse
ponto, cairemos nos atributos humanos universais.

Um deles, uma das coisas que os indivíduos prezam e desejam é a preservação


da vida; outra é o prazer. Outro atributo, que sempre os indivíduos prezam e
desejam é a liberdade. Outro atributo ainda, o quarto, é o conhecimento - todos
querem saber, embora nem todos estejam dispostos a investir alguma coisa na
busca pelo conhecimento. Poder-se-ia mencionar o poder, mas este está
apoiado, sempre, em um destes quatro atributos. Esses quatro bens são as
colunas que moldam a existência humana. Todos os demais desejos humanos
estão subordinados a eles. Tudo o que qualquer ser humano quer, ele quer ou
para sobreviver, ou para ter prazer, ou para ser mais livre ou para mais
conhecer.

Esses quatro bens explicam, para a gente – e muito – o que é o bem-viver, onde,
anteriormente, pode-se achar que era este o núcleo do que pretende ser a
‘qualidade de vida’. Todos estes quatro bens são actos vitais, não são qualidades.
Obter o máximo destes 4 bens é o propósito fundamental da existência humana,
e que toda vez que sofremos, sofremos por privação de um ou mais destes bens.
Toda a questão sobre a Justiça, assim, consiste em quando é legítimo, devido,
privar um indivíduo humano de um destes quatro bens. Quando é justo, assim,
tirar a vida biológica, o prazer, a liberdade ou o saber de um indivíduo? é um
lado da Justiça. A segunda metade da Justiça é: Quando se deve oferecer a um
indivíduo estes três atributos humanos?

Aula 2, parte VI

Uma Educação Liberal é uma educação que ensina quando, como e por que se
deve obter estes bens universais. A busca e obtenção destes bens é o núcleo da
vida humana, a força motriz de todos os actos humanos. A Justiça, assim, só
deve ser analisada à luz destes 4 bens universais.

A questão, agora, é pesquisar: 1. Entre estes bens há uma hierarquia? 2. Quando


a obtenção de um bem entra em conflito com a obtenção de outro, qual deve ser
classificado? Para definir o que é justo ou injusto, há que definir-se o que é a
melhor vida humana, pois sempre quando se diz que algo foi injusto, diz-se que
alguém foi privado do melhor sem motivo, sem causa proporcional. Os talentos
humanos são variados e não são proporcionais às naturezas dos bens. Alguns
nascem mais bem equipados para a obtenção de alguns desses e outros mais
equipados para a obtenção de outros. Algumas pessoas nascem com inteligência
musical ou literária, outras, não; alguns nascem com forte saúde, outras, não.
Porque só existem quatro bens universais, só existem quatro esferas da acção
humana. A acção humana só se exerce sobre quatro campos da realidade.

A primeira esfera é a esfera da acção sobre a matéria Nesta esfera se avalia num
indivíduo a capacidade para a sobrevivência biológica. Como se avalia a saúde
de alguém? Ora, é observando se o corpo deste alguém é ou não capaz de agir
sobre a matéria. Se não, este alguém está doente. A segunda esfera é a esfera do
desejo e da necessidade. Esta esfera corresponde ao prazer. A terceira esfera é o
corpo dos outros indivíduos, o corpo humano. É nesta esfera que está a
liberdade. A quarta esfera é a esfera dos conhecimentos, sentimentos e crenças.
É a esfera da inteligência.

Nestas quatro esferas, a inclinação da psique individual para se voltar a uma


delas, cria o mais fundamental sistema de classificação dos tipos humanos e o
único capaz de descrever as acções ditas sociais. Diante de uma situação
problemática, alguns se voltam para a primeira esfera, outros para a segunda,
outros para a terceira e outros para a quarta. Exemplo: suponhamos que alguns
seres humanos sejam habitantes de alguma vila e, após uma colheita, um grupo
de bandidos aparecerem para roubá-los. Como eles reagirão a esta situação?
Excluindo a possibilidade de estarem felizes com esta situação. O primeiro tipo
de reacção é expressar os seus sentimentos em relação à situação, que é
reclamar. Sobre qual das quatro esferas este tipo de recção se exerce? Sobre o
primeiro. Um sujeito veio, roubou-o e o indivíduo reclamou, tão somente. O
segundo tipo de reacção possível é o indivíduo pensar que se os bandidos são
mais fortes que ele e, como sempre roubam, antes que eles voltem, no ano
seguinte, dever-se-á enterrar pelo menos a metade da colheita para prevenir-se
de maiores danos. A primeira reacção modificou somente o corpo do indivíduo,
ela se exerceu sobre o campo da acção sobre a matéria, o campo da pura acção
material, pois a única coisa que ela modificou efetivamente foi o seu próprio
corpo. A primeira reacção se deu no primeiro domínio. Já a segunda reacção
exerceu-se sobre o domínio do campo da necessidade O indivíduo, além de
reclamar, garantiu alguns de seus desejos e necessidades, para o ano seguinte,
pelo menos. Um terceiro tipo de reacção possível seria juntar-se ao grupo de
bandidos ou juntar-se a alguns indivíduos da comunidade e buscar pegar os
bandidos, rendê-los. Estas duas reacções exercem-se sobre o domínio da
liberdade, o domínio da acção sobre o corpo do outro. Ou este irá bater nos seus
antigos colegas ou nos bandidos. Outro tipo, ainda, de reacção possível é tentar
compreender porque eles fazem isto, porque eles vêm roubar a colheita.
Compreendendo o processo que causa esta acção, talvez se possa revertê-la. É
normal que tenhamos cada um estes tipos de acções sobre as mais variadas
situações.

Mas, observando as biografias humanas, veremos que um destes quatro tipos de


reacções predomina sobre as outras três. Existem pessoas que tendem a passar a
vida toda reclamando do mal que fizeram para elas, e tudo que elas conseguem é
um alívio psicológico imediato, porque só o fato de gemer já alivia, ainda que o
grau de modificação desta acção seja mínimo. A reacção do primeiro indivíduo
não modifica a acção qualitativamente. A reacção do primeiro não causa
nenhum bem, exceto o benefício psicológico imediato dele próprio. As outras
três têm o potencial de produzir bens. O segundo indivíduo, por exemplo,
garantiu alguma coisa para ele e sua família Diante da alternativa de não ter
nada e ter metade do que ele possuía, ter ainda a metade já é muito bom. O
terceiro tipo de reacção, ele resolveu para todos da vila o problema, não só para
ele e sua família. O quarto indivíduo resolveu em um sentido ainda mais amplo,
pois na medida em que ele compreender as motivações e as causa efetivas da
acção dos bandidos, no caso, este esquema intelectual pode reproduzir-se em
qualquer acção humana. A acção dele resolve, potencialmente, os problemas de
toda a Humanidade, não só daquela vila. O primeiro sujeito está diante apenas
de um momento da sua psique, apenas da dor que ele está sentido. O segundo
sujeito está diante dos males potenciais para ele e sua família durante todo o
ano. O terceiro está diante de toda a comunidade e o quarto, diante de toda a
Humanidade. Ou seja, aquela primeira questão, da aula, está respondida. Sim,
existe uma hierarquia entre estes
bens.

O que é o bem para a sociedade como um todo, o que é melhor para aquela
sociedade? É que se aproveite o bem que cada uma destas reacções pode
oferecer. O que é devido a cada um destes quatro tipos? O que é devido a eles é
proporcionar aquilo que eles oferecem. O justo é, como vimos, o que é devido.
Como eles oferecem bens diferentes, o que é devido a eles pelos outros
indivíduos também é diferente. A característica dos indivíduos que se
classificam de acordo com a primeira reacção diferencia-se pouco das atitudes
de uma criança Suas reacções mal resolvem o seu próprio problema Ele só
obterá algum bem se os outros oferecerem para ele. E o que eles podem dar em
troca? Ora, somente a sua força física. Destes 4 tipos, cada qual pode oferecer
algum bem fundamental para os outros, pois cada qual tem, em abundância, um
destes bens. O primeiro tipo tem somente a sua própria força, não dispõe dos
outros bens, ou seja, ele pode somente cooperar com a acção dos outros. Ele, por
exemplo, não disporia de seu corpo para prender os bandidos, mas pode
cooperar com o trabalho dos que vão fazendo, construindo, uma cadeia, por
exemplo, um fosso que sirva de cadeia. Este sujeito não está capacitado, por seu
próprio arbítrio, realizar nenhum destes bens, mas pode, pelo arbítrio de quem
os possua, cooperar na distribuição destes bens. O sujeito do segundo tipo de
reacção garantiu, por sua vez, garantiu os bens econômicos, que é a garantia
fundamental dos bens para a aquisição do prazer. Ele possui o instinto natural
para a obtenção dos bens econômicos. Ele analisou a situação e descobriu a
possibilidade de garantir bens matérias diante daquela adversidade. È claro que,
quanto mais pessoas houver, em uma sociedade, deste tipo, mais rica esta
sociedade será. Mesmo ante as mais difíceis condições, ele consegue garantir os
bens materiais. O terceiro tipo, por sua vez, ofereceu que tipo de bem? Ele
garantiu a justiça nas relações, que é o fundamento da liberdade. Quanto mais
pessoas houver, deste tipo, em uma sociedade, mais justa ela será. E o quarto
tipo de sujeito, que tipo de bem ele ofereceu? O juízo sobre isso, ele ofereceu os
meios de antecipar que numa sociedade é necessário que existam indivíduos,
em cada função diferente, com tais atributos, para que esta sociedade seja
melhor, não rua, não entre
em colapso. Ele oferece a justificativa última de cada um dos tipos. Por exemplo:
os fortes, os que têm como objeto de atenção principal a liberdade, por que eles
não se revoltam contra os próprios colegas aldeões, unindo-se aos bandidos?
Ora, não o fazem, pois no campo das suas crenças, idéias e sentimentos existe a
noção de que eles não devem fazer isso. Certamente, quem incute estas noções
em suas mentes são os indivíduos do quarto tipo, pois a eles cabe a educação
dos aldeões. Este papel, na sociedade brasileira, não possui um enquadramento
social. Assim, ele acaba sendo preenchido pelos atores, músicos e jornalistas.
Eles acabam sendo os sacerdotes da nossa religião.

Todos estes quatro tipos são fundamentais para a subsistência humana, pois os
quatro bens representados por eles são necessários para a existência individual.
É possível retirar de uma sociedade as instituições que formalizam este papel,
mas jamais retirar este papel, esta função, já que toda sociedade se organiza em
torno de crenças e convicções. E o que define uma sociedade humana é o
conjunto de crenças e convicções acerca do justo e do injusto. Toda e qualquer
sociedade humana é exemplificado por isso. Se estas convicções forem mal
fundamentadas, esta sociedade não será boa.

Exemplificando, se a opinião da classe sacerdotal, intelectual, de uma sociedade,


for de que todas as opiniões devem ser levadas em consideração, nesta
sociedade, isto já será o princípio da ruína desta sociedade, por onde podemos
ter uma idéia de como a sociedade brasileira está em um processo de ruína. Nós
educamos as pessoas para que prezem por uma atitude servil, como, por
exemplo, a reacção, a reclamação, ao Governo, de algo que acontece de ruim
com algum membro de nossa sociedade. Nós estamos estimulamos todos os
brasileiros a reclamar diante de qualquer situação ruim, estimulando-os a uma
atitude do primeiro tipo, o que se dá, pois estes artistas, jornalistas, que
acabaram assumindo este papel no Brasil, pertencem a este primeiro grupo. A
atual geração tem esta atitude em um grau incalculável, reclamando dos pais, do
Governo, dos outros. Quando o problema escapa à esfera profissional, sobra a
reclamação. É um grau de educação servil nunca antes visto na História da
Humanidade. No Brasil, até a geração de riqueza material é demonizada,
embora um artista qualquer, possa ganhar muito mais que um empresário, e
sobre este não recair qualquer acusação.

Diante de qualquer problema, no Brasil, ninguém propõe que um indivíduo vá


vender qualquer coisa ou abrir um negócio, ninguém propõe que este siga uma
carreira política, militar, policial, tampouco intelectual. Sobra, portanto, o
funcionalismo público, um emprego seguro qualquer, para que este indivíduo
siga. Se um indivíduo não é estimulado a estas três alternativas, sobra-lhe
somente o servilismo, quando em outras sociedades seria a última alternativa.
No Brasil, estamos demonizando todas as possibilidades humanos superiores,
que propiciam, de fato, o desenvolvimento qualitativo de uma sociedade.

Uma educação liberal é uma educação voltada para estas duas funções últimas,
a saber, a terceira e a quarta. Uma educação liberal é uma educação voltada para
ensinar os sujeitos do terceiro e quarto tipo.
Terceira aula, Parte I

Tudo que nós conhecemos da existência humana, está registrado em pouco mais
de 6000 anos de história. Durante esse período até a Europa de 600 anos atrás,
todas as civilizações e sociedades apresentavam alguns traços comuns que eram
quase que constantes, ainda que pudessem variar
em forma. A única exceção é nossa sociedade atual, nossa civilização atual, e
estes traços díspares estavam igualmente presentes na sociedade grega na
época do surgimento da Filosofia A crise de alguns desses elementos é a ocasião
que dá surgimento á filosofia, mas mesmo em crise, estes elementos ainda
determinavam muito da vida comum.

Primeiramente, todos os povos, sociedades, agrupamentos humanos sempre


tiveram uma noção, ainda que simbólica, de sua localização no espaço e no
tempo. Cada sociedade tinha uma idéia muito precisa acerca de sua origem no
tempo e da sua finalidade na História. Segundo, todas as civilizações sempre
tiveram uma ligação muito íntima com o local em que elas existiam, o território.
Por exemplo, o território das cidades gregas, todo ele era demarcado por finais
geográficos, lugares característicos, como montanhas e vales, que tinham um
sentido para aquele povo específico, ou seja, os locais não eram apenas locais
ocupados, mas este espaço simbolizava, para aquele povo, o sentido daquele
mesmo povo. Para a civilização japonesa, por exemplo, o Monte Fuji não é só
uma montanha, mas um lugar específico que fazia lembrar ao japonês quem ele
era. O território em que vivia cada civilização era como um livro que narrava
para aquele povo quem eles eram além de servir de representação do universo
inteiro, como um mapa de todo ele. Então, em todas as sociedades que
chamaremos, daqui por diante, de tradicionais, possuía no território uma
indicação da dimensão transcendente, da qual falamos na primeira aula, a
relembrar, a idéia de 2 planos da Realidade. Todos os povos tradicionais,
portanto, tinham lugares em seu território que indicava o plano da
transcendência. Com os índios é a mesma coisa, até hoje. O território em que
uma tribo vive, ainda quando ela é nômade, é marcado por rios, pedras, vales,
um tipo de vegetação, um tipo de animal, e cada um destes elementos indica
para aquele povo não apenas aquela substância concreta, mas a relação do ser
humano, em específico daquele povo, com este plano transcendente. O mapa,
para eles, não era somente um mapa geográfico, mas um mapa cosmológico. O
território de cada povo era uma imagem, em menor escala, do universo em sua
totalidade. Em cada território, para cada povo, existiam regiões desabitadas,
que jamais seriam habitadas, que representavam, para aquele povo, a saída
inferior do cosmos, ou seja, representava o ser humano que move num estado
de desintegração da sua identidade humana, representava a perda do estado
humano, assim como existiam outros lugares que representavam a plena
realização do ser humano e o fundamento ontológico último desta realização.
Deslocar-se no espaço, para um homem tradicional, não era simplesmente sair
de um lugar e ir para outro, Quando ele o fazia, isto tinha um sentido profundo
na sua vida. Entre os povos tradicionais, a idéia de tornar-se um estrangeiro era
quase que inaceitável. Até hoje, por exemplo, ao perguntar para uma tribo qual
é o seu nome, este nome será: os homens, as pessoas, os seres humanos, o povo.
Isso quer dizer que cada sociedade humana era um representante integral da
Humanidade e se via como qual e, portanto, o território em que vivia era o
representante integral do cosmos. Isso é importante entender porque, quando a
Filosofia surge, ela subentende essa idéia de que cada povo representa toda a
Humanidade e, em última análise, em cada povo, cada indivíduo é um
representante, também, de toda a Humanidade. Na nossa sociedade, os
indivíduos são como átomos de Humanidade isolados uns dos outros. O que
temos como deveres para com os outros indivíduos derivam de duas coisas: o
cumprimento das leis, por um lado, determinado pela sociedade como um todo,
e os deveres determinados exclusivamente por nossa consciência individual. Os
povos tradicionais acrescentavam, a esses dois tipos de deveres, uma terceira
ordem. Existia um terceiro conjunto de normas que determinavam o
comportamento do indivíduo diante dele mesmo, diante dos outros e diante do
mundo como um todo. Era a idéia de que o comportamento do individuo
deveria ser um comportamento representativo da espécie humana, a idéia de
que, ao agir diante dos outros, tem-se o dever de trazer a Humanidade inteira
diante desta acção, deste comportamento. A diferença de mentalidade entre o
homem tradicional e o homem moderno começa aí. A ligação, na sociedade
moderna, entre os indivíduos, concreta e objetiva, é o conjunto das leis no país
em que se vive O único critério de avaliação do comportamento é o conjunto das
leis. Fora o conjunto das leis, cada um tem critérios completamente diferentes,
que determinados ao longo do desenvolvimento de nossa consciência individual.
Para avaliar se o que alguém faz é certo ou errado, só existem dois meios: avaliar
à luz do conjunto das leis ou avaliar segundo os próprios critérios. Nos
pequenos grupos, pode-se acrescentar outro conjunto de normas. Por exemplo,
para um grupo que freqüenta determinada igreja, tem-se, além das leis e
critérios individuais, outro critério comum de avaliação das relações entre uns e
outros, pautados segundo a doutrina daquela igreja. Mas, a distinção mais
importante entre uma sociedade qualquer que possua normas que valham para
todos e uma sociedade tradicional é a consciência que estes últimos tinham de
que o conjunto de normas que os regiam, era o conjunto de normas para que
eles pudessem representar integralmente a Humanidade. Quando um indivíduo
de uma sociedade tradicional agia, o primeiro conjunto de normas que ele
analisava não eram as leis; as leis eram apenas a cristalização, na sociedade, da
idéia de ser humano que eles possuíam; essa idéia derivava, em grande parte, da
idéia que eles tinham da própria origem. Todos os povos sempre tiveram a idéia
de que tinham uma origem divina. Toda sociedade humana, até 600 anos atrás,
dizia que era herdeira de Deus ou dos deuses. Isso quer dizer que todo povo
pensava em si mesmo como um membro, um herdeiro, do plano da perfeição da
transcendência. Todo e qualquer povo pensava de si mesmo, como povo, aquilo
que Cristo disse para seus discípulos: Vocês estão no mundo, mas não
pertencem a ele, e sim à ordem divina. Em suma, todos esses povos tradicionais
acreditavam ser representantes da ordem divina, na ordem da imperfeição. Isso
era descrito, em cada povo, por histórias diferentes, muitos diferentes. Na
Tradição judaico-cristã, vê-se isso no Gênesis, quando se diz que Deus fez o
homem à Sua imagem e semelhança. Não se encontra nenhum povo, antes de
600 anos atrás, que se atribuísse uma origem infra-humana; ao contrário, todos
lhes atribuíam uma origem mais que humana, e que as normas de
comportamento derivavam da idéia de preservar esta origem sobre-humana e
manter a ligação com a origem por quanto tempo fosse possível.

Os povos tinham pouco contato entre uns e outros e evidentemente, como esta
ligação com a origem era preservada pela demarcação simbólica do território, o
modo de recordar-se desta origem e manter-se fiel a ela é dependente do
território. Como o território em que cada povo vive é diferente do outro, cada
povo humano parecia mais ou menos anômalo em relação ao outro. Assim,
ainda em relação aos outros povos, não se tratava de reconhecer se eles eram ou
não herdeiros de uma origem transcendental, mas de uma aceitação de que
estes poderiam ser também herdeiros dos deuses, mesmo que disso não pudesse
haver garantias. De si próprio cada povo tinha esta idéia muito clara, porque,
primeiramente, em toda história oral e depois escrita dele, os grandes exemplos
humanos que se libertaram das mais terríveis situações sempre foram os mais
categóricos em afirmar esta relação com o transcendente, o divino. Em todos os
momentos cruciais da vida individual ou coletiva, eram justamente as pessoas
que se recordavam desta ligação as que conduziam o povo a uma direção que
tirasse ou os desviasse do caminho de uma destruição.

O modo de expressar o plano sobre-humano e mesmo o humano era


completamente diferente de um povo para outro. De comum, há a idéia desta
estrutura divida em dois planos, cuja ligação reside na figura do ser humano,
que é oriundo do plano sobre-humano, mas vive no plano infra-humano.

A aplicação, o exercício do poder pela mera força física ou pela manipulação são
duas possibilidades que estão excluídas da origem da Humanidade. Para que se
imponha sobre a força, é necessário que haja uma disparidade muito grande
entre aquele que deseja se impor e o restante médio dos homens daquela
sociedade, o que não era possível nas sociedades arcaicas, o que também se dá
quanto à manipulação. O exercício do poder por uma minoria, ou por um só, nas
sociedades tradicionais, sempre derivava da autoridade moral e espiritual que
este sujeito possuía em relação aos outros. Até hoje, nas tribos sul-americanas, o
chefe não é o que melhor caça ou o que melhor fala, é aquele que as pessoas
acham que é melhor do que elas; o sujeito que dá os melhores conselhos, que,
nos momentos de crise, diz qual a melhor opção a ser tomada, o que fazer, ou
mesmo que dispõe de seus bens para distribuir às pessoas em momentos
difíceis, etc. Este é um dos fatores que servia de prova, para cada povo, da sua
origem divina: o fato de que o homem não se impunha ante os seus iguais por
meios infra-humanos, mas sempre por meios sobre-humanos, por meio do que
havia de melhor nele. Isso era uma evidência muito grande de que existia um
princípio sobre-humano se operando ali. Atualmente, na nossa sociedade, é fácil
dizer que um homem é quase um animal, porque é normal, na sociedade
moderna, que o homem se imponha ante os seus iguais por meios infra-
humanos, pela força bruta, pelo engano. Mas, isso não foi sempre possível e,
mesmo quando o foi, não aconteceu, até 600 anos atrás, pela convicção íntima
que cada um desses povos tradicionais tinha de serem herdeiros de uma
dimensão superior à humana, de saber que a medida do comportamento
humano é uma medida divina, e não humana. O uso sistemático de meios infra-
humanos de dominação de outros seres humanos deriva, em primeiro lugar, da
perda desta noção original que deve ser preservada, da herança do divino. Sem
isso, resta ao ser humano um pedaço do mundo, que nunca é suficiente, pois
para ser feliz, o ser humano precisa deste pedaço de mundo assim como,
necessariamente, de uma participação consciente nesta herança divina. Há 600
anos atrás, alguém surgiu com a idéia de que isso era bobagem, que o nosso
deus seria este princípio de ordenação interna dentro de cada um de nós. O ser
humano tem a capacidade de reordenar a ordem do mundo. Desta forma que se
inventam e se produzem coisas. Esta capacidade é a de observar um objeto, de
dividir os seus componentes e reordená-los segundo os componentes de outro
objeto para gerar uma outra coisa, que é denominada Razão. Há 600 anos atrás
ela foi elevada à categoria de divindade. Entretanto, ao destronar Deus e colocar
em seu lugar a razão, destrona-se instantaneamente a própria Razão por algo
pior, e assim destrona-se isto por algo pior ainda e assim por diante. Nestes
poucos séculos em que decidimos abdicar da idéia de uma origem divina,
perdemos muito mais coisas do que aquilo que perdemos no ato primeiro da
destituição desta idéia.

Terceira Aula, Parte II

Sobre os mitos, devemos dizer - pois é extremamente útil faze-lo - que quando
dizemos que os povos arcaicos possuíam mitos acerca de sua origem divina, não
estamos dizendo que esta origem é irreal ou falsa. O mito não é um atributo do
objeto de que trata o mito. Mito é uma narrativa, é um jeito de expor um objeto,
de narrar um objeto. Geralmente chega ao nosso conhecimento por meio de
mitos objetos que são indispensáveis para o nosso desenvolvimento e que cuja
compreensão nós não alcançamos ainda. Por exemplo, quando explicamos a
uma criança porque ela deve ser virtuosa, uma pessoa boa, explicamo-na por
meio de mitos, explicamos estas qualidades miticamente, e não porque não
existam, mas porque ela, a criança, não pode ainda compreender a razão mesma
destas qualidades e a real importância delas em sua vida. O mesmo se dá com a
idéia de uma origem divina para a espécie humana. A prova ou o conhecimento
certo e garantido desta origem divina é possível para o se humano, mas
geralmente inacessível. Então, esta origem é expressa de forma mítica. Como o
mito é um tipo de narrativa, existem mitos falsos e verdadeiros, ou seja, que
narram objetos existentes e inexistentes, reais e irreais. Sempre, portanto,
recorremos à narrativa de mitos quando aquele objeto ou realidade é
indispensável para aquele que ouve, e quando este ainda é incapaz de
compreendê-lo. A origem divina da Humanidade é tão complexa e profunda que
não pode ser expressa senão por meio de um mito. É como uma metáfora,
embora o objeto da metáfora seja, ele mesmo, imediatamente acessível, possa
ser narrado literalmente. A metáfora é usada simplesmente como
enriquecimento da narrativa, pra tornar o estilo mais agradável. O mito, por sua
vez, é caracterizado por objetos que estão, em geral, muito acima da
compreensão humana. Entre um mito e uma narrativa mítica propriamente
mítica e um discurso qualquer que possua elementos míticos, existem inúmeros
graus. Na República de Platão, por exemplo, ele insere alguns mitos. É um
discurso dialético no qual existem elementos míticos. Quando um grande mítico
fala conosco sobre suas experiências míticas, ele nos fala necessariamente
deforma mítica, porque nós não partilhamos as suas mesmas experiências. No
entanto, ao falar com outro mítico, ele utiliza outro discurso, pois este já possui
a referência aos objetos. O objeto continua sendo exatamente o mesmo, muda-
se apenas a relação entre o sujeito que ouve o discurso e o objeto. Geralmente,
existem inúmeros mitos que podem ser transformados em discursos dialéticos a
te analíticos Mas existem alguns mitos que não podem transformar-se em
discursos, quando o objeto não pode ser expresso em linguagem humana.
Existem realidades que alguns indivíduos captam que estão para além das
capacidades da própria linguagem humana. Acerca destes objetos, só de pode
falar em linguagem mítica. Um deles é a origem da Humanidade. Quando se fala
que Deus criou Adão e Eva no sexto dia da Criação, isto é um mito. E também,
ao dizer que o ser humano surgiu como espécie por uma evolução gradual a
partir de outras espécies animais, isto também é um mito. Os dois são mitos,
porque a origem da Humanidade é um fato que se deu e não se dará novamente.
A diferença entre estes dois mitos é que o primeiro explica a diferença e a
função específica da espécie humana. O segundo mito identifica a função da
espécie humana com a função de todas as espécies animais, explica por que
existe algo no homem que é animal, porque há tantas semelhanças entre o
homem e os animais, mas não explica por que há as diferenças. Assim, ele conta
somente metade da realidade. Por isso, é um mito falso, sem objeto. Não é um
mito acerca do que é o ser humano, é um mito acerca do que são os animais.
Como mito acerca da existência animal, é perfeitamente válido. E, aliás, não é
novidade, haja vista que um grande número de povos possuía a idéia de que os
animais se originaram na Terra diferenciando-se a partir da própria Terra. Por
isso, não é um mito inovador do século XIX. O que é uma inovação deste século
é a pretensa capacidade deste mito de descrever a origem do ser humano, de
descrever o que é o ser humano é. Existem três características no ser humano
que não são explicadas pelo mito evolutivo: 1. A inteligência objetiva; 2. A
vontade livre; 3. A nobreza de sentimentos. Um mito evolutivo não explica por
que estas coisas estão presentes no ser humano e não ensina nada a respeito
delas. Ou seja, não explica nada, visto que, ao retirar estas capacidades do ser
humano, resta um animal. Deste modo, este mito só explica o que é um animal,
mito que já existia séculos antes do século XIX.

Poderemos fazer aqui uma breve explicação simbólica do mito de Adão e Eva
para explicar evidenciar como ele descreve as características específicas do
homem. A primeira menção que se faz ao homem neste mito é que Deus fez o
homem à Sua imagem e semelhança e macho e fêmea os criou. Se Deus é um,
por que fez o ser humano ‘macho’ e ‘fêmea’. Se Deus quis o homem à Sua
imagem e semelhança, porque criou duas imagens diferentes? Assim como
existem animais que se reproduzem de maneira assexuada, poderia ser o
homem assim. Ora, isso significa que ‘macho’ e ‘fêmea’, neste mito, representam
duas qualidades que, as duas presentes no mesmo ser, formam imagem e
semelhança da divindade. O mito, aí, mostra que a raiz e semelhança com a
divindade e uma diferença, a de que não se pode descrever a divindade por uma
única qualidade ou por um único modo do ser. É preciso duas qualidades
complementais para que se tenha uma imagem integral da divindade.

Da origem da Humanidade, só se pode falar de forma mítica. Ou o objeto não é


captado completamente, ou, quando captado, é feito de um modo tal que não
pode ser expresso em palavras; neste caso, o mito pode passar as informações
suficientes acerca daquele objeto, para que se viva em função dele. Sobre a
origem do Universo, idem. Os mitos são indispensáveis, porque alguma notícia
acerca da própria origem, o homem precisa ter, porque esta origem explicita a
sua função na existência, explicita-a. Algum conhecimento da própria
finalidade, da própria vida, é também indispensável ao homem.

Complementando o assunto, falemos um pouco sobre a leitura de quaisquer


escrituras sagradas. Podemos fazer qualquer leitura de uma escritura sagrada.
No entanto, isso é estéril para entendê-las. Podemos fazer qualquer leitura dita
‘de fora’. Mas, para entendê-las, é preciso que as leiamos como a tradição
vivente de pessoas que bebiam daquela escritura para as suas vidas as lia. Para
entender os Vedas, por exemplo, é preciso entender o que os hindus tiraram
deles no decorrer da História. Pode-se tirar qualquer significado da Bíblia,
também. Entretanto, aqueles que viviam dela não tiravam qualquer significado
dela, mas apenas alguns. Estes são os significados do texto. Os demais são
significados que o leitor coloca no texto. Como sabemos que estamos inserindo
significados num texto sagrado? Quando o fazemos, subentendemos, em nós,
uma posição de superioridade em relação ao autor da escrituras. Se a lemos
como ciência, obviamente se é um cientista melhor que Moisés. Deste modo,
entendemos da Bíblia, sob a perspectiva científica, coisas que ele, Moisés,
jamais compreendeu. Do mesmo modo, se lemos os Vedas como uma imagem
de cristianismo. Leituras assim sempre implicarão em uma atitude de
superioridade em relação ao autor, o que significa não ler um texto. Se ao ler um
texto tem-se a consciência de que se sabe mais que o autor, não se lerá o livro,
apenas passar-se-á, de uma palavra para outra, encontrando no texto tudo
aquilo que se sabe e que o autor não sabe. Isso subentende que, no texto e no
autor, não existe nada que eu não sei. Então, ao lermos a Bíblia assim, não se
está lendo a Bíblia. Ler um texto assim é não lê-lo. Esta atitude é indispensável
para o estudo da Filosofia. O estudo da Filosofia, uma vida dedicada a ela,
subentende uma atitude sistemática de descrença na sua onisciência e o desejo
de pegar todo e qualquer conhecimento que um texto possa nos oferecer. Por
isso é que, desde já, temos de saber que teremos de fazer grandes esforços para
ler, nos livros, os significados ali presentes dos seus autores e seus sucessores
imediatos. Para um texto que foi escrito há 5.000 anos atrás, o esforço para lê-lo
hoje é incalculável. A linguagem humana não é mecânica, não é um processo
como tal de transmissão de informações; não funciona, por exemplo, como a
transmissão de um carro. Para ler o mito de Adão e Eva, é preciso tentar
compreende-lo como compreenderam os primeiros judeus e os primeiros
cristãos. Ou seja, isto supõe um esforço no sentido de reconstrução da
mentalidade deles, para que haja a segurança de saber que se está
compreendendo o mesmo objeto que eles captaram.

Existem, no entanto, dois tipos de objeto: os objetos singulares o os universais.


Por exemplo, ao explicar para um aluno de Geometria as propriedades
matemáticas do triângulo, o objeto que ele capta não é um triângulo, é a própria
estrutura que rege todos os triângulos. Esta, ele jamais irá tocar. Ele poderá
tocar um pedaço de cerâmica de forma triangular, mas a estrutura matemática
não. Esta, no entanto, ele poderá assimilar pela sua mente, o que nos garante
que, ao falarmos desta estrutura, poderemos estar seguros de estarmos falando
do mesmo objeto, assim como de estarmos falando do mesmo objeto que
Euclides descreveu na Grécia 2.300 anos atrás. A segurança de compreender
com segurança um objeto depende de dois fatores: 1. Dos limites concretos do
indivíduo, ou seja, das informações, temperamentos, talentos do indivíduo; 2.
Da natureza do objeto. Existem objetos que são, por si, permanentes e definidos
e outros que, por sua própria natureza, mutáveis e sujeitos às variáveis. Estes
últimos não podem ser conhecidos com o mesmo grau de certeza sempre, haja
vista que não admitem do ser deles esta segurança. Conhecer é ter na mente
uma representação exata da natureza do objeto. Se a natureza do objeto é
indefinida e incerta, o seu conhecimento não tem como não ser indefinido e
incerto. Nunca se terá a certeza de quando ele está de um modo ou de outro. Por
exemplo: sabe-se com certeza, que, ao plantar semente de maçã, crescerá ali
uma macieira. No entanto, não se pode desenhar qual será a forma da macieira
futuramente. Isto depende de muitas variáveis. Um dos grandes problemas das
Ciências Sociais durante séculos XIX e XX foi perceber que os fenômenos
humanos e sociais dependem de uma variedade extremamente elástica e que,
por isso, não podem ser estudados pelos mesmos critérios que os das ciências
naturais. Por exemplo, ao analisar a Guerra do Oriente Médio, o número de
fatores que causou o estado atual desta guerra é tão imenso - e em cada um
destes fatores houve uma intervenção de liberdade – que a análise do que é a
guerra no presente momento é dificultada. O próprio objeto guerra não admite o
mesmo tipo de certeza que o objeto macieira, por exemplo. De um modo geral, o
comportamento das macieiras é completamente previsível. E compreender uma
coisa em sua totalidade é impossível.

Um indivíduo, por sua vez, pode ser compreendido em sua totalidade, porque
compreender um indivíduo é compreender o sentido real que aquela vida pode
ter. Para compreender nós mesmos, precisamos distinguir duas coisas em nós:
1. Os papéis sociais que se cumpre, que é ter alguma idéia das normas e dos
propósitos de cada um desses papéis; 2. Quem é o sujeito que representa esses
papéis. Para isso, é necessário entender a idéia de sujeito humano, de pessoa
humana. Assim, pergunta-se: o que diferencia uma pessoa e uma não-pessoa? O
que, por exemplo, diferencia um homem de uma pedra? Não são as relações
com as coisas ou com a sociedade, haja vista que a pedra tem relações com as
coisas e com as outras pedras em sua sociedade, a sociedade das pedras. A
primeira diferença é que reagimos emocionalmente nas diversas situações em
que nos encontramos, diferentemente das pedras. Outra diferença é que, diante
de uma mesma situação, temos diversos cursos de acção possíveis. Durante uma
aula, por exemplo, tem-se a oportunidade de decidir por fazer inúmeras coisas,
agir de diversas formas. As pedras não têm esta capacidade de multiplicidade de
acções em uma mesma situação. Uma terceira diferença é que além de sentir
alguma coisa e agir ou reagir e um modo ou outro, podemos representar
determina situação em nossa mente, de um modo mais ou menos completo.
Pode-se entender alguma coisa da situação. As pedras, novamente, não têm esta
capacidade, nem qualquer outra coisa. É relevante dizer aqui que um cão, por
exemplo, é pessoa. Não é pessoa humana, mas é pessoa. Para que um ente ou
ser qualquer seja uma pessoa, ele tem de ser um sujeito desse tipo. Esse sujeito
da percepção, tanto no ser humano quanto nos animais, é um sujeito não-
corpóreo. Isso é tudo o que sabemos a respeito do sujeito: ele não é corpóreo,
nem qualquer órgão do corpo – nem mesmo o cérebro. Por enquanto, é só, nada
mais. O que ele é e como ele é, quais são seus atributos, são objetos de
investigação posterior.

Terceira Aula, Parte III


Qual a característica desse sujeito não-corpóreo que capta os objetos dos
diversos sentidos – característica comum a nós e a todos os animais? A primeira
característica é a capacidade de apresentar os objetos de modo não-espacial.
Quando se compara mentalmente a experiência do sabor amargo com a da cor
amarela, por exemplo, não se as compara de modo local. Esta cor não está em
nenhum objeto ou lugar específico quando ela se apresenta mentalmente, do
mesmo modo que os sabores, exemplificando. Estas experiências não têm
localização no espaço. Não localizarmos, também, em nosso corpo, onde se
localiza esta percepção da cor. Para compreendermos o que é uma pessoa,
temos de compreende quais são os tipos de presenças que estão no sujeito que
não são presenças espaciais. Todos os objetos captados pelos sentidos, embora
se apresentem, em primeiro, de modo espacial, podem se apresentar para o
sujeito de modo não-espacial. A segunda característica é que as experiências
sensíveis, suas lembranças, e a imaginação de experiências futuras geram
inclinações na pessoa. Pode-se, por exemplo, lembrar de um sabor e desejar o
objeto em que se encontra o sabor. Este desejo também não tem uma
localização espacial. Não se mede o desejo. Pode-se ter uma noção da
intensidade dele, mas não medi-lo espacialmente. Todas as características que
fazem parte de uma pessoa derivam do que se apresenta para ela de modo não-
espacial. A cor, por exemplo, que está na parede, não está presente na mente do
sujeito de modo espacial. Ao perceber a cor da parede, esta cor não é mais
espacial. A parede ainda o é. A percepção não é espacial. Estar presente na
mente significa estar presente de modo não-espacial. O objeto do sentido
pertence ao espaço, mas uma das condições de existência da percepção é a não-
espacialidade. A percepção é uma transição do não-pessoal para a pessoa. Uma
pessoa é um ser justamente que tem a capacidade de ter as coisas apresentadas
para ele de modo não-espacial. O objeto captado não é resultado de uma
transformação química que se dá no cérebro. Nossos atos de percepção são
somente acompanhados de reações químicas. A modificação química não é a
captação. Ao injetar em alguém alguma substância, pode-se representar, em sua
mente, a impressão de cores, formas, sentimentos. A conclusão lógica é que uma
modificação química gera uma percepção. No entanto, a mera representação
mental destes elementos não é a captação de um objeto. Neste ato, se induz a
mente a ela representar, por si mesma, o azul, por exemplo. Uma alucinação
qualquer não é um ato de percepção tal como o ato de percepção sensorial. Ela é
uma atividade mental, mas de outra espécie. Não se pode ter a idéia do que se
parece com essa modificação química cerebral. Nunca se a viu ou se a sentiu.
Toda assimilação de uma modificação química cerebral se dá por meio indireto,
onde utilizam eletrodos, máquinas, e induz-se o sujeito a pensar azul, a fazer
uma conta, etc. Isto que ele faz não é uma modificação química no cérebro, é
uma representação que a mente faz, por ela mesma, do azul ou a realização da
conta. Quanto aos daltônicos, eles só invertem os tipos de cor vermelho e verde.
Por que ele se mantém afirmando que algo vermelho é verde e não as confunde
com outras cores? Porque a falha perceptiva dele é tão restrita? Ele só percebe
que há um engano no que ele vê, pois outras cores ele vê como elas realmente
são, no acordo com os não-daltônicos. O aprendizado dos nomes, é válido dizer,
é posterior à captação das cores, por exemplo. Se jamais se captasse alguma
diferença, não se poderia ensinar ou compreender que existem cores distintas
ou sons distintos. Tudo se dá, em primeira ordem, pela percepção sensorial. É
necessário que fique claro: a cor da mesa é da mesa, e não veio da pessoa que
ensinou que aquela cor tem o seu referido nome. Além da captação existe uma
reverberação, uma resposta subjetiva a ela. Por exemplo, assimilam-se as cores
e algumas agradam e outras desagradam. No entanto, não foram as pessoas que
ensinaram quais os seus nomes e como elas eram em suas várias possíveis
tonalidades que impõem ao sujeito esta agradabilidade. A diferença da cor ou do
sabor que eram antes presenças espaciais e se tornaram, no ato da captação,
não-espaciais, ou mesmo o sentimento, a preferência, o desejo, desde o começo
foram objetos não-espaciais. Não existe um objeto fora da mente que seja um
objeto sentimental. O gosto, o desgosto, a aversão, a atração, tudo isso só existe
na mente, no sujeito não-espacial, e fazem parte dele. Isso significa que os
sentimentos ou suas modulações emocionais às coisas que imaginamos ou
percebemos são o primeiro conjunto dos atributos pessoais. Este primeiro
atributo, então, é por si mesmo não-espacial.

Dentro das preferências do indivíduo, de seus desejos, existem diversos cursos


de acção. Por exemplo, gosta-se de churrasco e, num belo dia, tem-se o desejo
de ir a uma churrascaria. Porém, diante desse desejo, diversos cursos de ação
podem ser tomados. Podem-se convidar amigos, pode-se resolver não ir mais
por um motivo econômico, etc. Onde estão estes cursos de acção? Estão no
sujeito. Um curso de acção realizado está no sujeito não-espacial e no objeto
espacial. Quando se toma água, ela está no objeto espacial e não-espacial. Na
medida em que se bebe a água, entretanto, somente uma coisa pode ser feita, no
caso, tomar água. Não se pode tomar e não tomar água ao mesmo tempo, mas
pode-se apresentar para a própria mente simultaneamente a possibilidade de
tomar ou deixar e tomar a água. Este é outra característica da pessoa: a
possibilidade de apresentar para si mesmo vários cursos de acção em relação ao
mesmo estado emocional ou à mesma situação externa. Diante de um problema
ou desejo, uma situação qualquer que exija a acção, primeiro percebe-se, na
própria mente, que existem vários cursos de acção possíveis. Pode-se até
resolver não agir. Esta variedade só é possível para o sujeito não-espacial. Não é
possível ir à churrascaria e parar no caixa do bando, no mesmo momento, e
simultaneamente convidar os amigos e também desistir da idéia de ir à
churrascaria. Não se podem fazer essas coisas ao mesmo tempo porque a sua
realização envolve elementos espaciais. Para avaliar estas diversas
possibilidades de acção, existem muitos mecanismos pelos quis ele pode tomar
uma decisão. O que importa para nós, por enquanto, é que ele pode se
apresentar mentalmente os diversos cursos de acção e, enquanto estes estiverem
em sua mente, não estarem eles pré-determinados ao sujeito. Pode ser que
tome-se uma decisão e que não se gere o resultado esperado. Aí, pode-se refletir
sobre o objetivo da acção, entender qual era o objetivo, como foi a acção, e
entender a incompatibilidade entre um e outro. São atributos pessoais: 1. Os
tipos de sentimentos que se tem diante dos diversos tipos de situações, os seus
padrões; 2. Os cursos de acção e seus tipos que surgem na mente do indivíduo
diante das diversas circunstâncias e suas escolhas freqüentes; 3. O
conhecimento que o indivíduo tem de cada uma das situações, sentimentos,
objetos, que se apresentaram em sua mente ou fora dela. O tipo de coisa que se
entende e a freqüência ou facilidade com que se entende. Sentir, escolher e
entender são três actos que só se dão no sujeito não-espacial.

Terceira Aula, Parte IV

Existe uma relação entre estes três atributos pessoais, a saber, os modos pelos
quais correspondemos às coisas emocionalmente, as opções reais de cursos de
acção que surgem em nossa mente diante de uma situação e a nossa capacidade
de entender as situações e os objetos nelas envolvidos, estão ligados a três
daqueles quatro bens fundamentais que mencionamos em aulas anteriores, a
saber, preservação da vida, prazeres, liberdade e conhecimento. Esses 4 bens
fundamentais despertam, todos eles, interesses no indivíduo humano, e por isso
são bens fundamentais. No curso da vida do indivíduo, dá-se uma importância
maior a um ou dois deles e não mais. Não se pode levar uma vida em que se
busca, com a mesma facilidade e intensidade, saúde, prazer, liberdade e
conhecimento. No decorrer do tempo, estiliza-se numa direcção. Algumas
pessoas, por exemplo, percebem uma facilidade e, ao mesmo tempo, um
interesse, na busca do prazer. Outras percebem nelas mesmas uma busca pelo
conhecimento, assim por diante. De acordo com estes predomínios de uns bens
sobre os outros, é que se dá esta estilização, em que o sujeito passa a se
conformar a um tipo impossível para o ser humano. É impossível para o ser
humano que se busque apenas o prazer ou apenas a preservação da vida, mas
podem-se descobrir tipos que vivem fundamentalmente em função de um destes
quatro atributos. São os tipos fundamentais de pessoas. O primeiro passo para
entender uma pessoa é entender qual destes bens explica a maior parte de seu
comportamento. Ao observar uma pessoa com uma maior acuidade, conversar
com ela, conviver com ela e percebe-se qual dos quatro bens fundamentais tem
um predomínio psicológico sobre ela, eis que se começa a entendê-la.
Lembremo-nos das características que diferenciam um bem fundamental e um
bem não-fundamental: não se exige do bem fundamental uma justificação
psicológica. Por exemplo, quando se faz uma coisa em nome a saúde, não se
sente uma necessidade, dentro de si mesmo, a necessidade de se justificar a
busca da saúde, ou mesmo, ao revidar ao ataque de um lobo, esse desejo de
defender-se parece justificado espontaneamente. Se dos bens fundamentais não
se exige uma justificação psicológica, no seu processo de busca e aquisição, o
que existe é uma justificação de como se os utiliza, ao possuí-los, sua finalidade.

Dividimos os tipos humanos em quatro tipos horizontais, porque estão, mais ou


menos, no mesmo plano. Cada um deles se especializa em buscar um dos bens
fundamentais. O primeiro visa a preservação da própria vida; o segundo tipo
visa fundamentalmente aquisição dos bens materiais, pois a aquisição dos bens
materiais é a garantia da continuidade da satisfação; o terceiro visa a própria
liberdade, e o quarto, o conhecimento. Cada um desses bens, uma vez obtidos, é
usado. Este uso que se faz dos bens exige uma justificativa. Poder-se-ia dizer
que uma vez que se adquire um bem, se o utiliza para adquirir um bem de outro
tipo ou do mesmo tipo, por exemplo, entender uma coisa para comprar outra,
ou para compreender um bem do mesmo tipo, e que a vida humana, assim
sendo, seria uma sucessão de ciclos de aquisição de um bem para se preparar
para o ciclo seguinte, e que cada ciclo se justifica no ciclo seguinte, o que não faz
sentido, pois, vejamos bem, não se estuda hoje para estudar amanhã, nem se
trabalha hoje para trabalhar amanhã, ou come-se hoje para comer amanhã.
Todo o esforço para a aquisição de um bem não é explicado por um ciclo
seguinte de aquisição de um bem. Pode-se usar um bem de modo instrumental
em relação ao outro, por exemplo, estudar hoje para conseguir um bom
emprego e amanhã para ter mais dinheiro. Mas, no fim disso, surge a questão:
para que conseguir mais dinheiro?

O único jeito de compreender por que nos dedicamos a um bem fundamental é


examinar o efeito natural da posse de um bem fundamental. Fez-se um esforço
para adquirir conhecimento. Quando se o adquire, o que acontece? Na hora em
que se consegue aquilo que se quer, demorar-se-á para ter a mesma vontade.
Cada vez que se adquire aquilo que se quer, esta posse tem um efeito no sujeito.
Há, no ato da obtenção do bem, um efeito constante, um tipo específico de
contentamento. Toda a tensão psíquica na busca de um bem é de trazer para o
sujeito determinado objeto. Quando se pega o objeto, esta tensão se inverte. Por
exemplo, ao passar meses estudando algo, e ao entender aquilo que se queria
entender, fica-se satisfeito, mas não somente isso. Esta satisfação gera o desejo
de comunicar ás pessoas este contentamento. O ato da posse de qualquer bem
gera no sujeito uma inclinação generosa. Quando algo nos deixa contentes,
queremos fazer com que outros também sintam prazer. O efeito imediato da
posse de qualquer bem é a nobreza de sentimentos. Este é um ponto
importantíssimo, dada a universalidade deste efeito. Vejamos bem que o efeito é
uma inclinação generosa, o que não quer dizer que se fará algo. E também, para
que não restem dúvidas, esta inclinação se dá no momento da aquisição do bem,
podendo transformar-se em vaidade apenas depois de certo tempo. Ou seja, por
um breve instante, todos nós somos Buda.
Esta é outra diferença entre as pessoas. Se uma das diferenças entre as pessoas
consiste no tipo de necessidade que ela tem para satisfazer com mais freqüência
ou mais necessidade o bem ao qual ela dá maior importância, outra diferença é
na medida em que esta inclinação espontânea tem um impacto sobre o próprio
comportamento,
em geral. Algumas pessoas simplesmente têm esta inclinação no momento da
aquisição do bem, mas ao passar este efeito imediato, elas nunca agem como se
estivessem se sentindo daquele jeito. Algumas pessoas são egoístas quase que
todo o tempo. Outras, antes de agir, se recordam de como elas eram naquele
momento de satisfação e procuram se comportar de modo semelhante àquilo.
Uma pessoa virtuosa é a pessoa que, sistematicamente, procura se comportar
como ela se comportaria se estivesse feliz, se estivesse neste estado. É a pessoa
que faz, deste estado, o modelo do seu comportamento. O sujeito pode, diante
de quase qualquer situação, ter uma reacção espontânea, mas pode, antes de
agir, perguntar-se: se eu estivesse neste momento, feliz, como eu agiria nesta
situação? Este sujeito acrescentou, à sua existência, uma outra dimensão que
está além das quatro direcções fundamentais. Os 4 bens fundamentais podem
estar tanto fora quanto dentro do sujeito, pode estar fora ou dentro dele. Pode-
se ter saúde e não ter, ter conhecimento ou não ter. Cada um destes bens tem
sua origem no objeto que não é o próprio sujeito. Cada um deles tem uma
origem fora da mente do sujeito. Para adquirir um conhecimento, tem-se de
examinar os objetos que se quer conhecer, assim como o prazer, por exemplo.
Cada um dos quatro bens fundamentais são relações específicas do sujeito em
relação aos objetos. Nesta relação, existe uma superioridade o pólo objeto. Por
exemplo, tem-se uma comida que se gosta. Não se pode olhar para a comida e
dizer se ela será ou não agradável. Ao contrário, é necessário prova-la para que
se diga se ela está apetitosa como se queria ou não. Ela que dirá, para o sujeito,
se está boa ou não. No processo de aquisição dos quatro bens fundamentais, por
mais atividade que se exerça para obter o bem, em última análise, a obtenção
depende de uma concessão do objeto em relação ao sujeito. Isso deriva de que
cada um desses bens o é na medida em que se assimila uma essência, uma
característica, que pertence ao objeto. Na recepção do bem, a atividade do
sujeito só pode ser acidental e ocasional, propiciando a obtenção do bem.
Estudar um assunto, ler um livro, observar um objeto, pode propiciar, facilitar a
compreensão daquele objeto, mas não pode causá-lo. Pode ser que se o estude a
vida toda sem entendê-lo. Isto se dá porque, no sujeito, existe uma privação, e
no objeto, uma posse. Satisfazer uma necessidade é passar a possuir a forma ou
a essência do objeto. È assumir, numa certa medida, a forma do objeto, é
assimilá-lo. Nesta aquisição do objeto, nesta assimilação, cada vez mais se
dissolve a própria identidade do sujeito. A vida do sujeito é perfeitamente
determinada pelos objetos que ele busca. Pode-se explicar sua vida e prevê-la
pela disposição dos objetos no meio em que ele está. Este sujeito não tem uma
identidade pessoal definida. A identidade do sujeito é infra-pessoal, dada pelos
objetos que estão a ele disponíveis. Numa certa medida, toda a identidade
humana é infra-pessoal. No processo de alcançar um objeto, ante de perdê-lo e
ter de buscar outro, acontece uma modificação no indivíduo. Esta modificação é
o princípio da identidade pessoal. A identidade pessoal que é o sujeito obter, ele
mesmo, estes bens, deriva dele observar esta inclinação, tendência à
magnanimidade quando na posse de algum desses bens, e usá-la como modelo
para o seu comportamento, porque o tipo de inclinação generosa que ele sente,
explica quem ele é, quem o sujeito verdadeiramente é, e não o objeto. Esta
inclinação generosa surge no centro do sujeito e, diante dela, pode-se
identificar-se ou dissociar-se de si mesmo, por onde concluímos que o princípio
da vida humana consiste no que faz o sujeito diante de cada circunstância ou
exigência que surge de fora em direção a ele, se estivesse ele plenamente feliz. O
que se fará define o modelo de seu comportamento, o que nos diz que o modelo
do comportamento humano é o próprio homem, e não os objetos. É a única
inclinação que surge nele que não é por necessidade dos objetos. Moldar a
própria personalidade por esta inclinação é tornar-se idêntico a si mesmo. Na
medida em que o indivíduo molda o próprio comportamento por esta
inclinação, sua vida não pode mais ser reduzida ao meio em que ele está. Seu
comportamento só é explicado por uma realidade que é interna a ele mesmo,
que é a natureza humana nele. É esta noção de fidelidade à própria identidade
humana, que não deriva das necessidades, que levavam os povos antigos a
dizerem que eram filhos dos deuses. O homem arcaico percebeu que todos os
seres se movem de acordo com necessidades cíclicas. O único ser na Terra que
tem um princípio de atividade distinto das necessidades cíclicas é o ser humano,
e quando age de acordo com este princípio, ele é melhore. Este princípio de
comportamento é tão diferente do comportamento movido pelas necessidades
cíclicas, que os povos tradicionais diziam que este princípio não tem uma
natureza comum com as coisas cíclicas. Ele é um princípio de desenvolvimento
perpétuo, é uma irradiação constante, não é um movimento que vai e volta, é
um crescimento constante Este tipo de movimento pertence à ordem da
perfeição e do transcendente, como explicamos na primeira aula. Ele não
pertence à ordem cíclica da imperfeição, em que tudo o que se consegue é uma
compensação temporária das privações. Na ordem destes quatro bens
fundamentais, tudo o que se consegue é compensar privações, sempre e sempre.
O movimento de satisfação das necessidades sempre volta ao mesmo ponto, de
insatisfação.

A felicidade é o grau em que o sujeito modela o próprio comportamento por


meio desta satisfação, e é ilimitada. Não se encontra um limite para o acréscimo
de felicidade. A felicidade é independente da fidelidade do comportamento do
sujeito a esta inclinação que surge nele. Pode-se passar a vida inteira e não
progredir nada nesta direção para o bem. A felicidade não corresponde a uma
necessidade natural, mas a uma inclinação espiritual, por onde dizemos que, se
ela fosse uma necessidade natural, todos seriam felizes. Quando se é um bebê
recém-nascido, é-se capaz de alguns graus de modos de felicidade humana, mas
não de todos. Não se podem escolher os próprios cursos de acção, a liberdade de
escolha é mínima. Assim, somente quando o ser humano se desenvolve é que a
existência humana se amplia e, desta forma, ter-se-á de aplicar esta inclinação a
um plano ampliado. Numa certa medida, esta inclinação é espontânea no ser
humano, mas surgem outros campos de existência humana, quando crescemos.
Se não aplicarmos a novos campos este processo de modelação do próprio
comportamento, nossa felicidade estará restrita. A decisão do sujeito mudar o
próprio comportamento a partir dos momentos em que se alcança a felicidade é
completamente livre.

O psicólogo austríaco Viktor Frankl percebeu, quando no campo de


concentração, que os sujeitos que resistiam e sobreviviam mais tempo no campo
não eram os sujeitos mais fortes e saudáveis quando lá entravam, mas os mais
generosos, os mais bondosos e virtuosos. Ele percebeu, então, que havia, em
algumas pessoas, este princípio interno de moldar o próprio comportamento
por esta inclinação, e que era isso que dava sentido à vida daquelas pessoas. A
vida dos outros não era senão a história dos ciclos de disponibilidade ou
indisponibilidade dos bens, e por isso não tinha sentido. Existem pessoas cuja
vida se explica por quando faltou dinheiro, quando houve, etc. Havia pessoas,
no campo, cuja existência era guiada pela disponibilidade dos bens que
desejavam, e que por isso padeciam rapidamente. Outros, no entanto, mesmo os
que tivessem chegado ali em situações corporais em desvantagem, tinham uma
vida dotada de sentido interno, e por isso resistiam.

Quando percebeu isso, Frankl percebeu que estava morrendo, e começou a


lembrar-se da esposa, que estava em outro campo de concentração. Frankl
passou a recordar-se de como a esposa lhe fazia bem e como ele a amava, de
como a presença dela completava sua vida, e que ela o fazia feliz Quando ele
sentia esta felicidade, ele só queria o bem dela. Passou, então, a recordar
sistematicamente da felicidade causada pela esposa e começou a se comportar,
com todo mundo, com a generosidade com que tratava a esposa, e sobreviveu ao
campo de concentração. Ele descobriu que a vida humana tem sentido quando o
sujeito aplica este processo deliberadamente.

O sentido da existência humana é moldar o próprio comportamento por esta


inclinação. A oportunidade de moldar deliberadamente os próprios
comportamentos pelas inclinações que se sente quando se está completamente
feliz é o que diferencia a pessoa humana das pessoas animais. Sem fazer isso, o
ser humano perde-se a si mesmo. A fidelidade ao modo de ser que é próprio ao
ser humano é o que o torna completo. Para que nos ornemos bons, temos de ter
experiências do que é bom. A diferença é o salto de liberdade que houve.
Experimentar coisas boas não causa este salto. Ele não ocorre por uma questão
natural, mas por uma deliberação que tem de ser renovada em cada
circunstância. É claro que inevitavelmente neste processo nos perderemos e nos
enganaremos. Isso acontece normalmente. O que há é que, junto com este
processo de busca pelos bens fundamentais, que envolvem erros e acertos,
poderemos iniciar outro, que não depende deste, nem de seus erros e acertos
para dar certo. O importante é a forma pela qual agiremos, o critério de nossa
acção, frente às diversas situações em que as coisas, as pessoas, o mundo,
pedirem algo de nós. Este critério depende do núcleo de nossa personalidade, de
nossa fidelidade a nós mesmos. Ser fiel a nós mesmos é mais importante do que
qualquer outra fidelidade. Fazer este esforço, que envolve enganos e desacertos,
claro, é um processo para a preservação do próprio eu, é um processo para que
nos tornemos quem realmente somos. Isso é independente dos erros que
cometemos nas outras acções. Se a nossa vida for uma sucessão de ciclos de
aquisição, seremos escravos dos objetos, mas quando passarmos a moldar o
nosso comportamento por esta inclinação natural que surge quando na
felicidade, aí seremos verdadeiramente livres e somente assim, dono do que
possuímos. O ser humano só é dono do que possui quando partilha do que tem.
Somente nesta partilha é que se é dono de si mesmo, ou seja, livre. O ser
humano tem um princípio de atividade distinto de todos os demais seres da
Terra, e que não se explica por nenhuma necessidade natural. Isso que é dizer
que o ser humano é descendente do divino.

A Filosofia surge num momento de crise entre a Humanidade e esta herança.


Num determinado momento, esta herança está sendo perdida no ambiente
grego e alguns sujeitos se preocupam em como resgatar esta herança. A
Filosofia surge num esforço racional de resgatar esta herança, tem justamente a
finalidade, o propósito, de resgatar esta herança ao indivíduo em si, e por isso
este processo não pode ser realizado coletivamente. Um indivíduo não pode
dizer que tipo de generosidade o outro sente quando está feliz. O que se pode
fazer, neste sentido, é um indivíduo dar, a outrem, exemplos de seres humanos
que atingiram o seu máximo existencial. É somente possível animar um sujeito
a realizar este trabalho e que mais pessoas compartilhem deste trabalho, mas
um não pode trabalhar pelo outro, como acontece no caso de bens materiais,
por exemplo, com a comida. A filosofia surge numa sociedade e que esta idéia
está se perdendo. A sociedade grega na época dos primeiros filósofos tinha
consciência de estava perdendo esta herança, perdendo a idéia de quem eram,
mas não havia a esquecido completamente. Estava entre a posse a privação
desta herança.

A preocupação com a idéia de ser, de auto-identidade, era preponderante nas


sociedades tradicionais, e por isso que elas não se desenvolviam em termos
materiais. O desenvolvimento humano em cada indivíduo era de uma
importância tal que não sobrava tempo para a busca pelas outras coisas. A
necessidade pelos bens materiais, por exemplo, era reduzida ao mínimo
necessário natural para a sobrevivência. O sujeito em uma sociedade arcaica que
se dedicava a estas era considerado inferior e desprezível.

O paraíso de Adão e Eva se refere a uma época primeira na Humanidade em que


esta preocupação era quase que exclusiva na mente humana, e por isso que se
diz, no Gênesis, que Adão não trabalhava. A ampliação das necessidades é
posterior à desatenção a esta inclinação de que falamos. Quando a esquecemos,
tudo passa a faltar, a ruir, e então começamos a procurar fora de nós mesmos o
abastecimento deste déficit que agora temos. O vício primeiro é a desatenção, é
perder a consciência daquilo que é fundamental, do que está dentro de nós. Este
é um sentido do pecado original. A ampliação das necessidades vem da nossa
pouca atenção e interesse por essa realidade puramente interna, nosso modo
próprio de ser. Quanto mais nós vivermos segundo esta realidade interna
particular, mais as outras coisas nos parecem necessárias. Isto se vê atualmente
nas sociedades arcaicas que ainda restam, que, em seus estados naturais, sem a
interferência da nossa sociedade, são compostas por indivíduos
verdadeiramente felizes.