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A Maçonaria e os Construtores de Catedrais

I. O QUE FOI O GÓTICO

A palavra Gótico tornou-se associada em nossas mentes a muito do que é mais bonito
no mundo – catedrais, igrejas, torres e uma forma antiga de decoração – mas para os
artistas italianos da Renascença que lhe deram notoriedade ela tinha um significado
bastante diferente, e era usada por eles como um termo de reprovação para significar
a cultura dos bárbaros do norte, especialmente de sangue alemão, que tinham
rompido com as tradições clássicas. Vasari parece ter sido o responsável, acima de
qualquer outra pessoa, por este uso.

O Gótico foi primeiro aplicado a toda a cultura bárbara (eu uso a palavra aqui em seu
sentido renascentista); mas mais tarde, e depois que os homens começaram a
entendê-la e apreciá-la, era mais restritivamente aplicada ao que era mais
característica da cultura bárbara, a arquitetura; e em ainda no período mais tardio, e
através do uso popular, tornou-se associada quase exclusivamente à arquitetura
religiosa, e mais especialmente às catedrais, de modo que encontramos o grande
Novo Dicionário Inglês dando-lhe a seguinte definição:

“O termo para o estilo de arquitetura predominante na Europa Ocidental do século XII


ao século XVI, cuja característica principal é o arco ogival; também aplicado aos
edifícios, detalhes de arquitetura e ornamentação. Os nomes mais comuns para os
períodos sucessivos neste estilo na Inglaterra são Inglês Antigo, Decorativa, e
Perpendicular.”

ARCO OGIVAL

Esta definição não é tão precisa quanto poderia ser. Muitas autoridades sobre história
da arquitetura não concordariam com a afirmação de que “a principal característica é
o arco ogival”, pois eles têm outras teorias sobre o assunto. Também não é seguro
aplicar a palavra apenas à arquitetura, porque existiam estilos góticos em roupas,
pontes, paredes, móveis, na ornamentação, nos costumes, e até em utensílios
domésticos. Acontece que pouco resta do gótico, exceto edifícios de igrejas, mas isso
se deve às guerras que destruíram tudo o mais.

Alguns dos melhores escritores sobre o assunto, Lethaby, por exemplo, cujo trabalho é
recomendado por sua energia, interesse e erudição, torna o gótico equivalente a tudo
especificamente medieval em arte, o que incluiria vitrais, manuscritos, poesias, etc.
Esses autores destacam que só quando surgiram os arqueólogos do século XIX, sob a
liderança de De Caumont e seus companheiros, os homens começaram a dar um uso
restrito à palavra. “A palavra”, escreve Arthur Kingsley Porter, “aplicada pela primeira
vez como um epíteto de opróbrio a todos os edifícios medievais pelos arquitetos do
Renascimento, recebeu um significado técnico por De Caumont e os arqueólogos do
século XIX, que a empregavam para distinguir prédios com arcos pontiagudos
daqueles com arcos redondos, que eram chamados Românicos”. Alguns autores
continuam simplesmente a se recusar a usar a palavra; Rickman prefere “Arquitetura
Inglesa”, e Brion “Arquitetura Cristã”. O Dr. Albert G. Mackey diz: “que a arquitetura
gótica foi, por conseguinte, muito justamente chamada de A Arquitetura da Maçonaria,
mas daquela de outros tempos”.

O antigo estilo romano de construção, no qual todos os estilos subsequentes na


Europa Ocidental estavam baseados até a chegada do Gótico, e que vieram a serem
chamados Românicos, era organizado com base em um princípio muito simples, e teve
o seu início, pelo menos até onde se relacione com templos, igrejas e catedrais, na
antiga basílica. Um telhado plano era colocado sobre quatro paredes, como a tampa
de uma caixa. Se o telhado era ondulado ou arqueado, as paredes tinham que ser
engrossadas, para suportar a pressão lateral, de modo que em edifícios maiores, onde
era necessário muito espaço interior, as paredes recebiam necessariamente uma
espessura maciça, e esta espessura, por sua vez,tornava necessário usar pequenas
janelas, para que a ancoragem fornecida pelas paredes não fosse enfraquecida e o
colapso do edifício evitado. Em consequência disto, os edifícios românicos eram como
fortificações militares em seu achatamento, sua aparência pesada e seu interior
sombrio. Os arquitetos góticos escaparam desses resultados infelizes através da
utilização do arco ogival que lhes permitiram considerável aumento em sua altura
interior, e eles aprenderam como anular a pressão lateral daqueles arcos por meio de
contrafortes, ao invés de muros pesados como cais. Isso eliminou o grande peso das
paredes laterais e permitiu que os construtores substituíssem pedra por vidro,
destruindo imediatamente a obscuridade desagradável. No decorrer do tempo, o
sistema de colunas, arcos e contrafortes arcobotantes tornou-se um tipo coisa em si,
coma estrutura de uma máquina, de modo que o esqueleto de um prédio se tornou
autossuficiente, e pode-se dizer que dispensava simplesmente as paredes. É nesta
estrutura organizada para ser autossustentável, que mais distingue o gótico como um
todo do seu antecessor, o Românico; sendo as características que tornaram possível
esta façanha – o arco, a abóbada, e o arcobotante – secundárias.

Este é o ponto da famosa descrição do gótico de Violet-le-Duc, habilmente resumida


por C.H. Moore com estas palavras: “Um sistema que foi uma gradual evolução a partir
do estilo Romanesco, e aquele cuja característica distintiva é que todo o caráter do
edifício é determinado por, e toda a sua força reside em uma estrutura finamente
organizada e francamente confessada, ao invés de paredes.”

Moore forneceu, ele mesmo, uma definição ainda mais famosa, e facilmente
compreendida:

“Em suma, então, a arquitetura gótica pode ser resumidamente definida como um
sistema de construção em que a abóbada sobre um sistema independente de
costelas, é sustentada por pilares e contrafortes, cujo equilíbrio é mantido pela ação
contrária da impulsão e do contragolpe. Este sistema é adornado por esculturas cujos
motivos são retirados da natureza orgânica, convencionada em obediência às
condições arquitetônicas, e regidas pelas formas adequadas estabelecidas pela arte
antiga, complementada por desenhos coloridos sobre chão opaco e, mais amplamente
em vidro. É uma arquitetura da igreja popular – o produto dos artesãos seculares
trabalhando sob o estímulo das aspirações nacionais e municipais, e inspirados por fé
religiosa”.

Moore acha a chave para o Gótico no arcobotante.

Outras autoridades têm outras teorias. Porter acha que está na abóbada; Phillips no
arco ogival, o que ele transformou no alfa e o ômega de todo o sistema; Gould acredita
que o as abóbadas de pedra são fundamentais, enquanto Lethaby parece achar a
quintessência do gótico nesta ou naquela característica, mas no caráter medieval geral
dela como um todo.

II. QUEM INVENTOU O GÓTICO?

Tem havido uma grande diferença de opinião entre os historiadores da arquitetura


quanto a onde e quando começou o Gótico. Escritores ingleses, que têm um desejo
muito natural de reivindicar para sua própria terra a glória da descoberta da arte, a
datam de 1100 DC ou mais cedo, e encontram suas primeiras manifestações em
Durham; enquanto que os escritores franceses sustentam quase unanimemente que o
gótico começou primeiro de todas as regiões em redor de Paris, no que já foi chamado
de Ile de France, e dizem que a Igreja da Abadia de St. Denis, iniciada em 1140, deve
ser considerado como o primeiro monumento gótico conhecido. Parece que a maioria
dos escritores mais modernos inclina-se a concordar com a teoria francesa. Porter
data o novo estilo como se iniciando em Paris por volta de 1163, e diz que ele alcançou
seu ponto culminante no ano de 1220, com a nave de Amiens.

Nave de Amiens
Goodyear, em seu Arte Romana e Medieval, faz um relato bastante preciso e muito
condensado da origem e do crescimento do gótico em um parágrafo muito apropriado
para citação a este respeito. Ele diz que “o gótico tardio é conhecido na França como
extravagante, ou seja, florido (ou flamejante). Caso contrário, as designações do
Gótico como ‘inicial’, médio’ e ‘tardio’ são aceitas. Deve ser entendido que não há
limites definidos entre esses períodos. Falando de maneira geral, o final do século XII
foi o tempo em que o Gótico surgiu da França, e ele é raramente encontrado em outros
países antes do século XIII; os séculos XIII e XIV são, ambos, períodos de grande
perfeição, e o século XV é o momento de relativa decadência. Tanto na Alemanha
quanto na Inglaterra o século XIII foi o momento da introdução do estilo gótico. Na
Itália ele nunca foi plena ou geralmente aceito. Dentro do campo do gótico
propriamente dito (isto é, excluindo a Itália), a Inglaterra é o país onde as modificações
locais e nacionais são mais evidentes, muitas delas mostrando que o estilo era mais ou
menos praticado de segunda mão. Na pitoresca beleza e atratividade geral, as
catedrais inglesas podem ser comparadas a qualquer outra, mas a preferência deve
ser dada aos franceses no estudo da evolução do estilo.” (Pág. 283.)

De onde os arquitetos góticos tiraram o segredo de sua nova arte? As teorias são tão
numerosas quanto diferentes, e elas vão desde as sublimes até as ridículas. Lascelles
acreditava que os construtores haviam aprendido seus arcos ogivais de seções
transversais da arca de Noé! Stukeley e Warburton sustentavam que eles tinham
tropeçado em seu novo princípio ao tentar imitar os bosques secretos dos druidas.
Ranking argumentava que o gótico é gnóstico por natureza para suportar uma grande
massa de dados. Christopher Wren alegava que ele tinha sido tomado emprestado dos
Sarracenos. Findel e Fort atribuíam, ambos, a descoberta da arte aos alemães, e com
isso Leader Scott concorda em seu agora famoso Construtores de Catedrais, exceto
que ela parece defender que os Mestres Comacine eram missionários que a levaram
para a França e para a Inglaterra. O Dr. Milner acreditava que o gótico era uma
alteração dos arcos do estilo românico, uma teoria com a qual muitos concordam. Em
uma contribuição para a Ars Quatuor Coronatorum que provocou uma grande celeuma
na época, Hayter Lewis insistia em que tal princípio definido e claramente articulado
devia ter sido obra de um único homem, e sugeriu Suger, o ministro do rei Louis, o
Grande, da França, país que era, nessa época, pouco mais que uma pequena tira não
muito maior que a Irlanda. O Governador Pownall acreditava que o gótico se originava
de práticas de trabalho em madeira; enquanto alguns teóricos escoceses acreditavam
que ele era provenientes de trabalhos em vime. Gilbert Scott, um escritor de grande
autoridade na sua época, rejeitava todas estas derivações especiais e argumentava
que o gótico evoluiu gradualmente, oral e inevitavelmente, a partir de condições já
existentes na arquitetura e na sociedade; com o que Gould está de acordo, assim
como a maioria dos escritores do presente. Gould coloca toda a questão em uma
frase: “As pesquisas de escritores posteriores e mais bem informados, no entanto,
deixaram claro que o gótico não era imitação ou importação, mas um estilo nativo, que
surgiu aos poucos, mas quase que simultaneamente em várias partes da Europa.”
(História da Maçonaria, vol. I, p. 255.)

III. FORAM ARQUITETOS GÓTICOS OS PRIMEIROS MAÇONS?

Na época em que o gótico fez a sua aparição, quase toda a arte, incluindo a
arquitetura, ainda estava sob o controle das ordens monásticas; mas com o
desenvolvimento das catedrais a arte passou ao controle leigo. Alguns acreditam que a
escassez de registros sobre os próprios construtores deve-se ao orgulho de cronistas,
quase sempre eclesiásticos, que desprezavam mencionar os trabalhadores, exceto de
forma mais geral. Esses trabalhadores, como quase todos os outros artesãos da
época, eram organizados em corporações (guildas). As guildas diferenciaram muito
entre si com o tempo e lugar, mas em todas as suas diferentes modificações retiveram
características bem definidas. Cada guilda era uma organização estacionária que
geralmente possuía o monopólio do comércio em sua própria comunidade, cujas leis
eram obrigatórias para os artesãos. As guildas de um comércio não exerciam qualquer
controle sobre os de outra, mas todos concordaram com determinadas regras e
práticas, tais como aquelas relacionadas com aprendizagem, compra de matérias-
primas, marketing, e tudo isso. Em algumas comunidades, as guildas tornaram-se tão
poderosos que alguns historiadores têm confundido o seu governo com o governo de
sua cidade, mas é provável que isto nunca tenha acontecido com frequência, se é que
aconteceu.

Acredita-se que, devido a peculiaridades de sua arte, as guildas que tinham a


incumbência da construção das catedrais tornaram-se diferenciadas de outras em
alguns elementos muito importantes. Se isso realmente aconteceu, era um resultado
muito natural das circunstâncias em que os construtores das catedrais trabalhavam. A
deles era uma vocação única. Todas as outras construções eram totalmente diferentes
de catedrais, e não era frequente que as cidades pudessem dar-se o luxo de ter uma,
de modo que nunca havia grande abundância de trabalho para elas. Além disso, sua
arte era particularmente difícil, e envolvia a posse e aprendizagem de muitos segredos
incomuns, de modo que a própria natureza do trabalho diferenciava o artesão
construtor de catedrais de outros membros da guilda. Historiadores cautelosos
acreditam que depois de um tempo, as autoridades, reconhecendo a especificidade da
arte dos construtores de catedrais, concedeu-lhes certos privilégios e imunidades, e
permitiram que eles se movessem à vontade de lugar para outro, o que por si só os
definia nitidamente como diferentes das guildas estacionárias, cada uma delas não
sendo autorizada a trabalhar fora de seus próprios limites incorporados; e muitos
escritores acreditam que devido a essa liberdade para se movimentar sem restrições
pelas limitações comuns de privilégios do costume medieval, que estas guildas, ou
Maçons (a palavra significa “construtores”), vieram finalmente a serem chamadas de
“maçons livres ou francos”. O Governador Pownall escreveu uma página certa vez,
para provar que mesmo os papas concederam privilégios especiais a estes
construtores, mas pesquisas posteriores na biblioteca do Vaticano não permitiram que
ele, ou outros pesquisadores depois dele, descobrissem as bulas papais.

IV. OS CONSTRUTORES GÓTICOS FORMAVAM UMA GRANDE FRATERNIDADE?

Escritores da velha guarda costumavam acreditar, quase unanimemente, que esses


maçons medievais eram ligados em uma grande fraternidade unificada operando sob o
controle individual de alguns centros, tais como Londres, Paris, Nova York, e
argumentavam que esta “grande fraternidade única”, com certas mudanças
importantes, mas não revolucionárias, existiu até ao nosso tempo, e que a Maçonaria
de hoje é praticamente a mesma organização que era então. R. F. Gould, que falava por
um grupo inteiro de estudiosos maçons ingleses de primeira classe, bem como por si
mesmo, negava categoricamente toda essa teoria da forma mais ampla e inequívoca.
“Eu demonstrei”, disse ele na página 295 do primeiro volume de sua História da
Maçonaria, “que a ideia de um corpo universal de homens trabalhando com um só
impulso, e segundo uma forma definida, a pedido de um organismo cosmopolita sob
certa direção… é um mito.” Na página 262 do mesmo volume, ele comenta que a teoria
de uma fraternidade universal “é desmentida pelo silêncio absoluto de toda a história”.
Com este veredicto, Arthur Kingsley Porter, que escreveu apenas como historiador da
arquitetura medieval, e não tendo qualquer um dos problemas da Maçonaria em
mente, concorda, e em grande medida pelo mesmo motivo.

Gould baseia sua negação quase totalmente nos testemunhos dos próprios edifícios, e
argumenta que, embora um escritor aqui e ali possa errar, as construções não o fazem,
e ele sustenta que elas, todas e cada uma delas, oferecem um testemunho unificado
de que não eram o trabalho de “uma grande fraternidade”, mas representavam
peculiaridades locais que não devem ser negligenciadas. Sua análise da arquitetura
gótica dos diferentes países, com o propósito em vista de revelar o seu testemunho
sobre este ponto importante é uma das conquistas mais belas de sua monumental
História. É provável que a grande maioria dos historiadores atuais de arquitetura
medieval concordaria com ele.

A história das diferentes artes e artefatos que tornaram possível o gótico parece
corroborar esta posição. Todos os fatos conhecidos sobre a evolução do gótico
provam que ele passou a existir de forma gradual, e que nenhuma organização jamais
possuiu os seus segredos em momento algum, e que o arco, o arcobotante, abóbada,
e outros recursos tão característicos foram aprendidas através de dolorosa
experiência, e independentemente uns dos outros. Porter fala sobre o arcobotante
como “um novo princípio” e um “que mais do que qualquer outro assegurou o triunfo
da abóbada e um princípio cuja descoberta marca o momento em que a arquitetura
gótica apareceu pela primeira vez.” Na página 92 do volume II de sua grande obra,
Arquitetura Medieval, uma produção magistral cuja leitura todo estudante da
Maçonaria deveria empreender, ele escreve o seguinte: “Dai ser provável que as
vantagens e possibilidades do arcobotante não fossem imediatamente totalmente
apreciadas, e, embora nova construção fosse livremente aplicada nos casos em que
diante de ameaça de queda da abóbada sua aplicação fosse exigida, mesmo edifícios
de dimensões consideráveis continuaram a ser erguidos sem o seu auxílio. Esta
característica importante, sem a qual o gótico nunca poderia ter surgido foi o trabalho
de experimentação gradual, e os construtores aprenderam sobre ele lentamente, um
pouco aqui, um pouco ali, e em alguns lugares eles nunca o dominaram
completamente: se o segredo do arcobotante tivesse sido conhecido antecipadamente
por qualquer grande fraternidade de artesãos, toda esta evolução dolorosa e cara teria
sido desnecessária.”

O mesmo pode ser dito do arco ogival que foi tão essencial ao gótico que
frequentemente seu próprio nome tem sido dado ao estilo. Porter mostra que o arco
como unidade de construção era muito antigo e usado muito antes de os Cruzados
terem tomado Jerusalém; e que ele foi adotado pelos construtores góticos lentamente
e só sob coação; seu uso para fins ornamentais só veio tarde e no início do gótico os
construtores se apegavam ao uso de antigo arco redondo, enquanto foi possível.

O Arco Românico
Não há necessidade de multiplicar os exemplos. A geometria, que era às vezes
utilizada como sinônimo da própria arte de construir e, mais particularmente, com o
gótico, e que foi obviamente de tanta importância nunca foi conhecida como uma
ciência meramente abstrata, e se impôs gradualmente depois de inúmeras
experiências e testes de tentativa e erro. Não há evidência de que qualquer grupo de
homens a tenha jamais possuído e em sua totalidade, que é o que teria sido necessário
para que “uma grande fraternidade” tivesse a empresa de construção medieval na
mão. A história de ornamentação românica em estruturas gótico conta uma história
semelhante, e assim o faz o uso de vitrais, que Porter mapeia até a Ile de France, e que
passou a existir de forma gradual e lenta.

Em suma, a história da arte verifica o testemunho dos próprios edifícios; tudo foi uma
evolução gradual, e de acordo com a moda do momento, com base em condições
contemporâneas e a partir de métodos e costumes pré-existentes. Quando se olha
casualmente para trás na história medieval no conforto de uma poltrona, e se olha para
ela como um espetáculo pairando no ar, o gótico pode parecer ter começado a existir
quase imediatamente, como uma deusa saindo da cabeça de Zeus; mas um exame
mais cuidadoso dos fatos mostra que a velha teoria de uma grande fraternidade
conferindo ao mundo uma arte completamente nova e toda uma nova cultura é uma
ilusão agradável.

Poderíamos ainda acrescentar ao argumento o testemunho da história, que é o


testemunho de silêncio. Se a arte gótica estava na posse de uma única grande
fraternidade, então aquela surpreendente sociedade também devia ter em mãos a
construção de estradas, pontes, muros, residências particulares, fortalezas, moinhos,
e também teria ensinado às pessoas como fazer as suas roupas e ornamentar suas
residências, pois, como já foi dito, a arte gótica era uma continuação da arte medieval.
Uma sociedade dotada de tal sabedoria, e trabalhando em todos os centros na Europa
teria sido tão universal quanto a Igreja Católica da época, e teria deixado um registro
volumoso; mas o fato é que existe essa falta de registros, até mesmo dos construtores
de catedrais, que mesmo agora, e após um século de constantes pesquisas no terreno
por peritos, muito pouco se sabe dos construtores de catedrais, de modo que é
necessário descobrir o caminho no escuro, sempre que alguém se dispõe a aprender
algo sobre eles.

A arquitetura gótica não foi o resultado do trabalho de qualquer grupo isolado, mas de
todos os grupos e classes que compunham o décimo segundo, o décimo terceiro e o
décimo quarto séculos na Europa e na Inglaterra. Neste último país, basta recordar os
reinados de Henrique II e do Rei João, de quem a Carta Magna foi arrancada para
lembrar em que efervescência estava tudo, e quão vigorosa era a vida comunitária. Na
Europa ocidental, ocorria a mesma coisa. Os sucessores dos Capeto criaram nos
territórios francos, e com Paris como seu centro, um império comparável ao da própria
Roma. Foi a época em que as cidades alcançaram a independência, quando reis se
tornaram poderosos monarcas contra a regra divisiva de senhores feudais e barões;
quando o papado estendeu seu poder aos limites da cristandade, com a consequência
de que algo como unidade estivesse afetado à vida moral e religiosa das partes
constitutivas; e esta vida moral e religiosa tornou-se poderosa o suficiente para enviar
os cruzados à Palestina para a captura de Jerusalém. A maior de todas as maravilhas
da catedral gótica é a idade que a produziu. No meio das brigas de barões ladrões; em
meio ao clamor das comunas e facções em conflito; em meio à ignorância e
superstição da Igreja, essa arte encantadora, ao mesmo tempo tão intelectual e tão
ideal, floresceu como uma explosão. Parece quase como um anacronismo que esta
arquitetura devesse ter surgido durante a turbulenta Idade Média. Mesmo assim, a
arquitetura gótica, embora em um sentido tão claramente oposto ao espírito dos
tempos, estava no entanto, profundamente imbuída desse espírito dos tempos, e só
pode ser entendida quando considerada em relação às condições políticas,
eclesiásticas, econômicas e sociais contemporâneas. Porque o século XII, apesar de
sua escuridão era ainda um período muito avançado em relação ao que tinha
acontecido antes – tanto que M. Luchaire não hesita em chamá-lo ‘A Renascença
francesa’.

“A revolução intelectual foi acompanhada por uma revolução econômica não menos
radical. Herr Schmoller até mesmo o comparou ao que ocorreu no século XIX. Nas
cidades, os trabalhadores foram liberados da servidão, e começaram a se unir em
corporações livres, e o mesmo processo operou em menor grau entre os vilões ou
servos do país. As vantagens econômicas desta emancipação foram incalculáveis. As
romarias, as jornadas dos cavaleiros franceses a todas as partes da Europa, e acima
de tudo as cruzadas, abriram aos comerciantes um campo de atividade até então
inimaginável. As guildas de mercadores, que nunca tinham sido tão numerosas e tão
fortes; as relações comerciais que foram estabelecidas entre a Normandia e a
Inglaterra; a prosperidade redobrada de Montpellier e Marselha; a multiplicação de
mercados; a crescente importância das grandes feiras de Champagne – todas essas
condições traem uma transformação radical nas condições materiais da população.
Em toda parte, a condição do trabalhador foi facilitada; em toda parte as cidades
aumentaram sua produção econômica, e ampliaram seus negócios; em todos os
lugares as pontes foram reconstruídas e reparadas; e por todos os lugares novas
estradas foram abertas. E com o comércio, veio a riqueza.” (Páginas 145, 147,
Arquitetura Medieval, Porter Vol. II)

Esta nova vida também se manifestou na especulação teológica, algumas das quais
eram tão audaciosas que homens foram martirizados na fogueira por suas opiniões; na
filosofia e do estudo do direito; em organizações políticas e em arte. Uma nova vida
rompeu em todos os lugares, e de sua riqueza veio, como sua flor consumada, a
catedral gótica.

Duomo de Milão

Mas como, pode-se perguntar razoavelmente, podemos entender a unidade da arte


gótica em um momento em que o mundo estava muito dividido, e a intercomunicação
entre os países muito difícil? A questão é bem levantada, mas ela pode ser facilmente
respondida. A unidade do ofício era devida à união do trabalho realizado pelo ofício; a
técnica gótica impôs sua própria unidade sobre os trabalhadores e suas atividades,
como essas coisas sempre fazem. Phillips mostrou que se alguém traçar um gráfico
mostrando a construção de cada uma das catedrais francesas em sucessão, os locais
começarão, grosso modo, próximos a Paris e, em seguida, se ampliarão em curvas
concêntricas, provando assim que os novos conhecimentos de arquitetura aprendidos
no centro irradiavam-se para fora, como o conhecimento é capaz de fazê-lo.

Temos em nosso meio abundantes exemplos de tal evolução. O mundo está cheio de
motores a vapor de vários tipos, mas nem por isso acreditamos que o segredo de
vapor foi propriedade privada de uma organização secreta; sabemos que o motor a
vapor começou com Watt, em 1789, e que cada inventor copiou o trabalho de seu
antecessor e adicionou suas próprias melhorias e modificações. Existem centenas de
escolas médicas neste e em outros países que usam a mesma terminologia técnica
(comparável à “linguagem secreta” dos cultos antigos); elas empregam os mesmos
tipos de instrumentos, têm regras semelhantes, e todas proporcionam a seus alunos
uma educação que é formalmente reconhecida em outras escolas em todo o mundo.
Sabemos que esta unidade de organização médica nunca foi criada no início por “uma
grande fraternidade”; ela cresceu a partir da natureza da técnica empregada; a
unidade formal agora nas mãos de associações médicas nacionais não é a causa, mas
o resultado da unidade imposta pela própria profissão.

Eu acredito que alguma coisa semelhante aconteceu no que diz respeito às guildas de
construtores da Idade Média. Estes corpos tinham uma unidade, mas era devido à
natureza do trabalho, e surgiu inevitavelmente. Eles trocavam associações, como
fazem hoje as sociedades médicas, ou de direito, ou de arte, porque o trabalho
realizado era basicamente o mesmo. Eles desenvolveram uma ética de sua própria
profissão e mantiveram todas as guildas rigorosamente sob a mesma, assim como
fizeram as guildas estacionárias, e como fazem hoje as sociedades médicas locais e
similares, sempre autogovernadas. A unidade assim desenvolvida a partir da natureza
do trabalho em si gradualmente se cristalizou em constituições e tradições; e essa
unidade, finalmente, na Inglaterra do século XVIII, e devido a mudanças profundas nas
condições sob as quais as guildas, ou lojas operavam, transformaram-se em unidade
formal que é representada pela autoridade e poder de Grandes Lojas. Desde o
momento no início do século XII, quando as guildas construtoras de catedrais
começaram a existir, até que a Maçonaria especulativa nascesse em 1717 como uma
sociedade formalmente organizada, nunca houve uma ruptura na continuidade
histórica, mas ocorreram importantes mudanças evolutivas. Legal e tecnicamente,
nossa atual Maçonaria começou em Londres em 1717; historicamente, e em uma visão
mais ampla, ela começou na Europa nos séculos XI ou XII.

Mas, mesmo naqueles primeiros dias, os construtores não começaram desde o


começo. Eles tiveram antecessores e antepassados em cujos ombros eles se
apoiaram, e de cuja arte eles desenvolveram as suas próprias. Será necessário
considerar isso, para completar o quadro; isso será feito em alguns próximos capítulos,
e como introdução para um desenvolvimento ainda maior do tema apresentado nesta
Nota: A História da Maçonaria de Gould foi, na realidade, o trabalho de um grupo de
homens, e era a intenção inicial ter os nomes de todos na página de título. Tenho esta
informação diretamente de um dos membros do grupo.

Autor: H.L. Haywood Tradução: José Filardo

A seguir algumas questões para você, caro leitor:

O que significa originalmente a palavra gótico? Qual é a definição dada pelo Novo
Dicionário Inglês? Como Lethaby define gótico? Dê a substância da descrição de
Porter do gótico. Qual era o princípio sobre o qual a arquitetura românica estava
baseada? Descrever o princípio geral da arquitetura gótica, conforme explicado pelo
irmão Haywood. Dê a explicação de Moore com suas próprias palavras. Você pode
citar qualquer espécime de arquitetura gótica em sua própria comunidade? Você pode
citar alguma catedral gótica nos Estados Unidos? Por que a arquitetura gótica é
considerada particularmente adequada para edifícios de igrejas? Alguma vez em sua
própria mente você ligou a arquitetura gótica à Maçonaria? Se sim, qual foi a sua teoria
daquela conexão?

Onde e quando começou o gótico? Dê em suas próprias palavras um esboço da


história gótica. Quais são algumas das várias teorias sobre a origem do gótico? O que
tudo isso tem a ver com a história da Maçonaria? O que era uma Guilda? Por que os
edifícios góticos são diferentes dos outros? Qual é o significado da palavra Maçom?
Como surgiu a palavra ”Maçonaria”?

Qual era a teoria da ”única grande fraternidade”? Qual é o veredicto de Gould sobre
essa teoria? De que maneira a história da arte gótica tende a desmentir a ”teoria de
uma só grande fraternidade”? Dê exemplos para mostrar que a arquitetura gótica
desenvolveu-se gradualmente. Diga algo sobre a época em que gótico surgiu. Como
você explica a unidade da Arte da Maçonaria na Idade Média? Dê alguns exemplos
modernos. A maioria dos historiadores da ”Maçonaria” concorda que nossa
fraternidade teve sua origem entre as guildas da Idade Média: como você afirma
aquela teoria em suas próprias palavras? Que importância tem esta teoria em nossas
interpretações e obrigações da maçonaria nos dias de hoje?

LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

Medieval Art – W.R. Lethaby. ; Westminster Abbey and the King’s Craftsmen – W.R.
Lethaby. ; Architecture – W.R. Lethaby; Freemasonry before the Existence of Grand
Lodges – Lionel Vibert. ; Story of the Craft – Lionel Vibert. ; Ars Quatuor Coronatorum,
Vol. III, p. 13; 70. Ibid., Vol. XXXIII, p. 114. ; New English Dictionary on Historical
Principles. History of Freemasonry – R.F. Gould, Vol. I, chapter 6, p.253. ; Medieval
Architecture – Arthur Kingsley Porter, Vol. II. ; Mackey’s Revised History of
Freemasonry – Robert I. Clegg, p. 814. ; Early History and Antiquities of Freemasonry –
G.F. Fort. ; History of Freemasonry – J.G. Findel, p. 76, (1869 edition). ; Freemason’s
Monthly Magazine, (Boston), Vol. XIX, p. 281. ; Hole Craft and Fellowship of Masonry –
Edward Conder ; The Cathedral Builders – Leader Scott The Comacines – W.
Ravenscroft. ; A Concise History of Freemasonry – R.F. Gould, 1920. ; Roman and
Medieval Art – Wm. H. Goodyear. ; Development and Character of Gothic Architecture
– Charles Herbert Moore. ; History of Architecture – James Fergusson. ; History of
Architecture – Russell Sturgis. ; Art and Environment – L.M. Phillips

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

Mackey’s Encyclopedia – (Revised Edition) Antiquity of the Arch, p. 74; Architecture, p.


75; Basilica, p. 99; Bridge Builders of the Middle Ages, p. 117; Builder, p. 123; Cathedral
of Cologne, p. 159; Cathedral of Strasburg, p. 729; Freemasons of the Church, p. 150;
Gilds, p. 296; Giblim or Stone-squarers, p. 296; Geometry, p. 295; Gothic Architecture,
p. 304; Implements, p. 348; Operative Masonry, p. 532; Secret Vault p 822; Sir
Christopher Wren, p. 859; Stone-Masons of the Middle Ages, p. 718; Stone of
Foundation, p. 722; Stone Worship, p. 727; Symbolism of the Temple, p. 774; Traveling
Masons, p. 792.

REFERÊNCIAS DO THE BUILDER

Vol 1 – Regensburg Stonemason’s Regulations, pp. 171, 195; Whence Came


Freemasonry? p. 181. Vol. II (1916) – Masonry Universal, p. 29; Steinbrenner, p. 158;
Masonic Traditions, p. 189; Joseph Findel, p. 221; A Significant Chapter in the Early
History of Freemasonry, Nov. C.C.B. 4; Operative Masonry, Dec. C.C B. 1. Vol. III (1917)
– Antiquities, p. 181; Masonic History, p. 204; The Guild and York Rites, p. 242;
Freemasonry and the Medieval Craft Guilds, pp. 342, 361; Worthy Operatives
Cathedral Builders, p. 349. Vol. IV (1918) – George Franklin Fort, p. 171; The Masonic
Writings of George Franklin Fort, p. 210. Vol. V (1919) – Mackey’s History of
Freemasonry, p. 53; Legendary Origin of Freemasonry, p. 297; Quatuor Coronate, p.
300. Vol. VI (1920) – Speculative Masonry, p. 130; A Bird’s-Eye View of Masonic
History, p. 236. Vol. VII (1921) – Whence Came Freemasonry? p. 90; Three Good Books
on the Guild Question, p. 195; “The Evolution of Freemasonry,” p. 360. Vol. VIII (1922) –
Gould’s Concise History of Freemasonry, p. 23; Masonic Legends and Traditions, p. 57;
Craft Guilds and Trade Unions, p. 63; Travelling Craftsmen, p. 102; A New Brief History
of Freemasonry, p. 120; “Freemasonry and the Ancient Rites,” p. 151; Freemasonry of
the Middle Ages and International Society, p. 331.
Tirado de https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2015/07/17/a-maconaria-e-os-construtores-de-
catedrais/ em 29/06/2016 as 11:46 AM.