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Mikhail Gorbachev: Terminando o trabalho de 89

05 Nov 2009

O ano de 1989 foi um ponto de virada para a Europa e para o mundo, uma época em que
a história engatou uma nova marcha. Essa aceleração foi simbolizada pela queda do
Muro de Berlim e pelas revoluções de veludo na Europa Central e do Leste. Regimes
totalitários e autoritários foram deixando o palco da história.

Esses eventos, e seu desenrolar pacífico, tornaram-se possíveis pelas mudanças que
começaram na União Soviética, em meados dos anos 80. Nós as iniciamos porque elas
eram prementes. Respondemos às demandas das pessoas, que se ressentiam de viver
sem liberdade, isoladas do resto do mundo.

Em apenas poucos anos - um período muito curto - os principais pilares do sistema


totalitário da União Soviética foram demolidos e o terreno estava pronto para uma
transição democrática e reformas econômicas. Tendo feito isso em nosso próprio país,
não poderíamos negar o mesmo aos nossos vizinhos.

Nós não os obrigamos a mudar. Desde o início da Perestroika, eu disse aos líderes dos
países do Pacto de Varsóvia que a União Soviética estava empreendendo grandes
reformas, mas que eles tinham que decidir o que fariam. Vocês são responsáveis por
seus povos, eu disse; nós não interferiremos. De fato, isso foi um repúdio à chamada
Doutrina Brezhnev, baseada no conceito de "soberania limitada". Inicialmente, minhas
palavras foram recebidas com ceticismo, vistas como mais uma declaração puramente
formal do novo secretário-geral do Partido Comunista. Mas nós nunca hesitamos, e foi por
isso que os acontecimentos na Europa em 1989-1990 foram pacíficos, sem
derramamento de sangue. O maior desafio era a unificação da Alemanha.

Já no verão de 1989, durante minha visita à República Federal, os jornalistas


perguntaram a mim e ao chanceler Helmut Kohl se havíamos discutido a possibilidade da
unificação alemã. Eu respondi que nós herdamos o problema da história e que isso seria
abordado à medida que a história evoluísse. "Quando?", perguntaram os jornalistas. O
chanceler e eu ambos apontamos para o século 21.

Alguns podem dizer que éramos péssimos profetas. Nada mais justo: a unificação alemã
aconteceu muito mais cedo - pela vontade do povo alemão, e não por que Gorbachev ou
Kohl a queriam. Os norte-americanos com frequência se lembram do apelo do presidente
Ronald Reagan: "Sr. Gorbachev, derrube este muro!" Mas será que isso poderia ter sido
feito por um homem só? Era algo ainda mais difícil, também, porque outros de fato diziam:
"Salve o muro."
Quando milhões de pessoas no leste e no oeste da Alemanha pediram a unificação,
tivemos que agir com responsabilidade. Líderes da Europa e dos Estados Unidos se
ergueram diante do desafio, superando as dúvidas e temores que naturalmente existiam.
Trabalhando juntos, fomos capazes de evitar o estabelecimento de novas fronteiras e
preservar a confiança mútua. A Guerra Fria havia finalmente acabado.

Os acontecimentos depois da unificação alemã e o fim da Guerra Fria não foram


exatamente da forma como gostaríamos. Na própria Alemanha, 40 anos de divisão
deixaram um legado de laços culturais e sociais rompidos que são ainda mais difíceis de
reparar do que as diferenças econômicas. Os antigos alemães orientais compreenderam
que nem tudo era perfeito no Ocidente, particularmente em relação ao sistema de bem-
estar social. Mas apesar dos problemas trazidos pela reintregração, os alemães
transformaram a Alemanha unificada em um integrante respeitado, forte e pacífico da
comunidade mundial.

Os líderes que moldam as relações globais, e principalmente europeias, tiveram um


desempenho bem pior no que diz respeito a aproveitar as oportunidades apresentadas a
eles há 20 anos. Como resultado, a Europa não resolveu seu problema fundamental -
criar uma sólida estrutura de segurança.

Imediatamente após do fim da Guerra Fria, começamos a discutir novos mecanismos de


segurança para o nosso continente. Entre as ideias, estava criar um conselho de
segurança para a Europa. Imaginávamos este conselho como uma "diretoria de
segurança" com poderes reais e abrangentes. Os políticos da União Soviética, Alemanha
e Estados Unidos apoiavam-no.

Para o meu pesar, os eventos tomaram outra direção. Isso impediu a emergência de uma
nova Europa. Em vez das velhas linhas divisórias, novas linhas haviam surgido. A Europa
havia testemunhado guerras e derramamento de sangue. A desconfiança e os
estereótipos ultrapassados persistem: a Rússia é suspeita de ter más intenções e
desígnios imperiais agressivos. Fiquei chocado com uma carta que os políticos da Europa
Central e do Leste enviaram ao presidente Barack Obama em junho. Era, de fato, um
pedido para que ele abandonasse sua política de engajamento com a Rússia. Não é
vergonhoso que os políticos da Europa não tenham pensado nas consequências
desastrosas que um novo confronto poderia causar?

Ao mesmo tempo, a Europa está sendo levada a um debate quanto à responsabilidade


pelo início da 2ª Guerra Mundial. Há tentativas de igualar a Alemanha nazista e a União
Soviética. Essas tentativas são erradas, historicamente falhas e moralmente inaceitáveis.

Aqueles que esperam construir um novo muro de suspeitas e animosidade mútuas na


Europa fazem um desserviço para seus próprios países e para a Europa como um todo. A
Europa só será um forte ator mundial se de fato se tornar um lar comum para todos os
europeus, tanto no leste como no oeste. A Europa precisa respirar com dois pulmões,
como disse certa vez o papa João Paulo 2º.

Como atingiremos este objetivo?


No início dos anos 90, a União Europeia decidiu acelerar seu crescimento. Foram muitas
as conquistas; essas conquistas são reais. As implicações desse processo não foram,
entretanto, avaliadas com cuidado. A ideia de que todos os problemas europeus seriam
resolvidos ao reconstruir a Europa "a partir do Ocidente" não se mostrou muito realista,
além de provavelmente inviável.

Um ritmo mais comedido de crescimento teria dado à União Europeia tempo para
desenvolver um novo modelo de relações com a Rússia e outros países que não têm
perspectiva de acesso à UE no futuro próximo.

O modelo atual de relações da UE com outros países europeus está baseado em


absorver o maior número deles o mais rapidamente possível, enquanto deixa o
relacionamento com a Rússia como uma "questão pendente". Isso é simplesmente
insustentável. Algumas pessoas na Europa relutam em aceitar isso. Essa relutância é um
sinal da falta de vontade de aceitar o ressurgimento da Rússia e participar dele? Que tipo
de Rússia vocês querem ver: uma nação forte e confiante por seus próprios méritos ou
apenas um fornecedor de recursos naturais que "conhece o seu lugar"?

Muitos políticos europeus não querem uma situação de igualdade com a Rússia. Eles
querem que um lado seja o professor ou o promotor público e que o outro, a Rússia, seja
o aluno ou o réu. A Rússia não aceitará este modelo. Ela quer ser compreendida;
resumindo, ela quer se tratada como uma parceira igual.

Enfrentar os desafios históricos de segurança, recuperação econômica, meio-ambiente e


migração requer um novo desenho das relações políticas e econômicas globais e, mais
importante, das relações europeias. Eu peço a todos os europeus que considerem de
forma construtiva e imparcial a proposta do presidente russo Dmitry Medvedev de um
novo tratado de segurança europeu. Uma vez que essa questão essencial for resolvida, a
Europa terá uma voz forte.

(Mikhail Gorbachev foi líder da União Soviética de 1985 até o colapso do país em 1991.
Vencedor do prêmio Nobel da Paz em 1990, ele é atualmente presidente da Fundação
Internacional para Estudos Políticos e Sócio-Econômicos - A Fundação Gorbachev)

(Perguntas podem ser enviadas para: president.gorbachev@nytimes.com ou Presidente


Mikhail Gorbachev - The New York Times Syndicate, 620 8th Ave., 5th Floor, New York,
NY 10018. Os leitores devem incluir seus nomes, cidades e países. As perguntas podem
ser editadas para se adequar ao estilo e ao espaço.)