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Sumário

1. O fato da cooperação social .............................................................................................. 4


1.1 Termos equitativos de cooperação .................................................................................... 9
1.2 Divisão Social da Responsabilidade................................................................................ 11
2. Igualdade cidadã.............................................................................................................. 11
2.1 Fundamento normativo da cooperação............................................................................ 14
2.2 Base motivacional da cooperação e reciprocidade .......................................................... 14
3. O que é uma injustiça? .................................................................................................... 15
3.1 O argumento da arbitrariedade moral .............................................................................. 15
3.2 Os tipos de arbitrariedades para Nagel (1991) ................................................................ 16
3.2.1 Gênero e etnia.................................................................................................................. 16
3.2.2 Classe .............................................................................................................................. 16
3.2.3 Talentos Naturais............................................................................................................. 16
3.2.4 Esforço ............................................................................................................................ 16
4. O foco na estrutura básica ............................................................................................... 17
4.1 Justiça procedimental pura .............................................................................................. 18
4.2 Posições relevantes .......................................................................................................... 19
4.3 Foco nas condições e não nos indivíduos ........................................................................ 19
5 As interpretações do segundo princípio .......................................................................... 21
5.1 Aristocracia Natural ........................................................................................................ 21
5.2 Sistema de Liberdade Natural ......................................................................................... 21
5.3 Igualdade liberal .............................................................................................................. 21
5.4 Igualdade democrática..................................................................................................... 22
6. O segundo princípio de justiça ........................................................................................ 23
6.1 O princípio da equidade de oportunidades ...................................................................... 24
6.2 O princípio da diferença .................................................................................................. 25
7. Expectativas legítimas, não merecimento ....................................................................... 27
7.1 Merecer vs. Ter direito .................................................................................................... 27
7.2 O espaço da autonomia individual ............................................................................... 27

Concluímos o capítulo anterior discutindo as razões da ideologia meritocrática,


tal qual fora tratada até aqui, constituir-se numa reinvindicação de justiça que, ao cabo,
preocupa-se com uma questão correlata mas não idêntica, a questão da eficiência1. É
1
“A equidade, contudo, não é o principal motivo que os economistas contemporâneos apresentam em
favor do talento como princípio ideal de tributação. A defesa que eles fazem desse princípio não gira em
Rawls (2002, p. 342) que deixa clara essa diferença ao falar do lugar secundário do
princípio da eficiência dentro da estrutura da concepção da justiça como igualdade,
sendo “mais importante que um sistema competitivo conceda espaço a o princípio da
livre-associação e da escolha individual de ocupação, num contexto de igualdade
equitativa de oportunidades”.
senso comum tende a supor que a renda e a riqueza, assim como as boas coisas da
vida em geral, deveriam ser distribuídas de acordo com o mérito moral.” (pg. 342)

Neste capítulo tentaremos apontar a condução da crítica para outro lado.


Começamos com uma pergunta: Como podemos afirmar a justiça de uma determinada
sociedade? Articularemos uma resposta a esta pergunta central da filosofia política a
partir da teoria de John Rawls, principalmente no marco de “Uma teoria da justiça”,
obra que modificou profundamente a filosofia política a partir de 1972. E o faremos no
sentido de demonstrar que a concepção rawlsiana de sociedade justa implica na renúncia
da meritocracia como critério de justiça social. Partiremos daquilo que pra Rawls é um
fato da vida social: o sistema equitativo de cooperação social. Argumentaremos que a
aceitação da vida social segundo essa concepção implica no reconhecimento do outro
como ser livre e igual. Fruto do status de igual cidadania, concordamos então em definir
como injustas aquelas distribuições de encargos e vantagens da cooperação social de
forma arbitrária. Não temos motivos, numa sociedade de livres e iguais, para deixarmos
que fatores contingencias como a sorte (que determina tanto a dotação genética como o
status ao nascimento) desempenhem um papel tão profundo nas perspectivas de vida
das pessoas. Tipificaremos as arbitrariedades morais conforme a sugestão de Nagel
(1991) em arbitrariedades discriminatórias (de recorte racial e de gênero), de classe
(com recorte de origem familiar e posição social), de talentos naturais e de esforço e
empenho individuais. Realizada esta etapa expositiva, passaremos então articular a
resposta ralwsiana para o aplacamento destas desigualdades arbitrárias. Lançaremos luz
aqui sobre a saída por meio da aposta nas instituições, especificamente sobre aquela
onde os “seus efeitos são profundos e estão presentes desde o começo” (RAWLS, 2002,
p. 8): a estrutura básica da sociedade. Mais especificamente, estamos interessados em
três de suas características principais: a) seu caráter procedimental; b) sua definição de
posições relevantes de saída e c) o foco nas condições (expressamente, institucionais) e
não nas avaliações individuais. Definido o foco na estrutura básica, defenderemos então
a passagem para os princípios de justiça propostos por Rawls pegando carona na sua
linha de apresentação do parágrafo 12 de TJ (“Interpretações do segundo princípio),
objetivando principalmente as diferenças entre a interpretação chamada de “igualdade
liberal” e “igualdade democrática”. Mostraremos como esta última busca mitigar os
efeitos da arbitrariedade moral que ainda estão presentes na perspectiva da “igualdade
liberal”. Para tal, faremos uma discussão mais aprofundada daquilo que ficou conhecido
como o segundo princípio de justiça de Rawls, compreendido neste o princípio da
oportunidade equitativa de oportunidades e o princípio da diferença. Finalizamos
propondo que, exposto a crítica a ideia de merecimento a partir da concepção ralwsiana,
podemos substituir a noção de merecimento por uma ideia de “expectativa legítima”,

torno da justiça ou da obrigação moral, mas sim do fato de que um imposto cobrado sobre o talento, ao
contrário do cobrado sobre a renda atual, não desestimula o contribuinte a trabalhar mais.” (MURPHY e
NAGEL, 2005, p. 23-24)
sendo esta basicamente o reconhecimento esperado pelo engajamento e cumprimento de
normas de ordenação social reflexionadas e publicamente reconhecidas.
1. O fato da cooperação social

Começamos nosso trabalho afirmando o óbvio: não há ser humano que escolhe
seu nascimento. Tampouco há ser humano que prescinda da sociedade para realizar
seu próprio plano de vida. Isso constitui um fato de nossa vida social desde que
Aristóteles descobriu o homem como “por natureza, um ser vivo político”2 (1253a1-
18).
Assim, assumimos como nosso ponto de partida não a fundação de um
compromisso de sociabilidade - o objeto do acordo que para os contratualistas
clássicos visava "inaugurar determinada sociedade ou de estabelecer uma forma
específica de governo" (RAWLS, 2002, p. 13); tomamos como a tarefa da política a
mediação dos interesses conflitantes, e, portanto, a definição de quais termos de
cooperação estamos propondo para nosso compromisso social. Em resumo, o Estado
agora aparece como um fato da socialização dos indivíduos; cabe-nos, enquanto
cidadãos de uma democracia, decidir em quais termos esta cooperação será
realizada.
É por este simples fato de nascermos num mundo previamente constituído por
outras mulheres e homens que nos parece uma questão mal colocada a necessidade
de refutação de ideias que façam referência ao atomismo social 3 . Pensemos em
Robinson Crusoé: ele mesmo chegou à ilha sozinho, é verdade, mas prontamente
abastecido por seu navio que calhou de encalhar junto a ele. Navio este que não fora
construído pelos mãos e artifícios de Robinson; mas sim por outros homens e
mulheres, dispondo de forma cooperativa seu trabalho.
Mas se chegamos de forma relativamente intuitiva à concepção de divisão social
do trabalho - como o fizemos nos parágrafos acima - cabe nos determos um pouco
mais sobre o tema, na intenção de revelar como essa ideia quase tácita de
socialização tem uma implicação forte para as ideias fundamentais da justiça como
equidade ralwsiana.
Livrando-se a humanidade da luta de todos contra todos hobbesiana, a sociedade
fez mais que isso: ela escolheu um modelo específico de relação entre os indivíduos, a
cooperação. Se na concepção hobbesiana as pulsões dos indivíduos impossibilitariam
um sistema de cooperação4, sendo possível apenas um estado de competição, o processo
de racionalização da sociedade nos mostrou que os objetivos dos indivíduos podem ser
concomitantes, e mais que isso, melhor que o sejam. A sociedade, por mais que nossa
forma de produção assim se apresente, não pode ser fundada em uma estrita
competição, ao menos não quando pensamos num sistema de relação que seja estável
(sob sua compreensão e aplicação). Mas o que define a cooperação de indivíduos?
Hume (1972, xxx) colocou em forma de problema a questão5, ao tentar mostrar como o

2
Mais que isso, Aristóteles afirma que “a cidade é por natureza anterior à família e a cada um de nós,
individualmente considerado; é que o todo é, necessariamente, anterior à parte. (1253a1-18).
3
Atomismo social aqui busca expressar o tipo mais grosseiro de compreensão da formação do indivíduo,
comumente presente num tipo de liberalismo a la Nozick.
4
E nisto, acreditamos, consiste a objeção da hoje famosa nota 4 do capítulo 3 de TJ.
5
"Your com is ripe today; mine will be so tomorrow. 'Tis profitable for that you and us both that
I should labor with you today should aid me tomorrow. I have no kindness for you, and know
egoísmo dentro de um sistema social pode ser nocivo até mesmo para o egoísta. Seria
então condizente com seu auto-interesse às partes a cooperação? Tentaremos neste
capítulo apontar que para Rawls, a cooperação atende tanto os interesses individuais
quanto aqueles da própria estabilidade da sociedade.
Tuomela (2000, p. 372-379) investigou as condições e implicações da cooperação sob o
ponto de vista filosófico. Segundo ele, a cooperação consiste na ação social de várias
pessoas (e/ou instituições) com vistas a um objetivo ou propósito comum. Baseado
nesta primeira definição, sua tese geral da cooperação, é desenvolvida então uma
diferenciação entre dois tipos de cooperação, a cooperação de grupo (g-cooperation) e a
cooperação individualista (i-cooperation). Enquanto na primeira o motivo assenta-se
num objetivo coletivo, a cooperação do tipo individualista exige apenas uma
compatibilidade dos diversos interesses privados. Tuomela defende então que, em
contraposição as concepções individualistas frequentemente ligados aos estudos da
teoria dos jogos, a concepção mais adequada para um sistema de cooperação social
assenta-se na sua tipificação de cooperação de grupo.
A conexão com a teoria moral passa então a ser mais evidente. O tipo de cooperação
individualista acaba por permitir que as pessoas sejam tratadas como meios para a
realização dos fins individuais específicos. É por isso que a concepção de cooperação
ralwlsiana assume um tipo de cooperação de grupo, uma vez que a justiça como
equidade de Rawls coloca como seu objetivo a intenção de oferecer suporte à justiça
das instituições, ou seja, um objetivo comum aos cidadãos concernidos. Aqui não se
deve entender esse objetivo comum como uma espécie de bem abstrato, mas sim como
o simples acordo político sob as luzes da razão pública.
Deste primeiro compromisso, o aceite de um sistema de cooperação justo, podemos
fazer duas afirmações: a primeira, como uma consequência de princípio moral, os
cidadãos passam então a ter um dever de justiça (em TJ) ou uma obrigação de oferecem
termos razoáveis de cooperação (em LP). Não pretendemos aqui apontar uma
descontinuidade, mas apenas mostrar que embora haja uma certa reformulação entre os
dois momentos (muito em conta da virada a partir Kantian Construtivism, de 1982), a
ideia de cooperação apresentada por Rawls ajuda a entender melhor está ligação. A
segunda afirmação então aprofunda a primeira. Havendo a obrigação de cooperação, "a
cooperação, por si mesma, passa a ser um objetivo valorizado" (TUOMELA, 2000, p.
378). Mas qual é o status de objetivo (goal) que possui valor intrínseco, uma vez que é
marcado o intento de Rawls de se afastar de concepções valorativas?
Aqui tentaremos avançar numa tese que será provisoriamente suspensa, voltando à baila
apenas no final do capítulo. Ao tentar esclarecer a distinção entre uma ideal social,
aquilo que Rawls vê como uma concepção completa das virtudes e dos pesos de
ordenação dos princípios, de uma concepção parcial, onde estariam em jogo as
concepções que norteiam, mas não definem (e não é a toa que Rawls propõe princípios
de justiça e não leis, por exemplo), Rawls (2002, p. 11, grifo nosso) acaba por
estabelecer uma importante concepção de ligação entre ideal social e concepção de
cooperação:

that you have as little for me. I will not, therefore, take any pains on your account; and should
I labor with you on my account, I know I should be disappointed, and that I should in vain
depend upon your gratitude. Here then I leave you to labour alone: You treat me in the same
manner. The seasons change; and both of us lose our harvests for want of mutual confidence and
security."
Um ideal social, por sua vez, está ligado a uma concepção de
sociedade, uma visão sobre como se devem entender os objetivos e os
propósitos da cooperação social. As diversas concepções de justiça de
justiça provêm das distintas noções de sociedade, contra um pano de
fundo de visões conflitantes a cerca das necessidades naturais e das
oportunidades da vida humana. Para compreendermos totalmente uma
concepção de justiça, precisamos explicitar a compreensão de
cooperação social da qual ela provém.
Neste ponto avançamos na tese. Há profunda divergência na concepção de cooperação
social entre a justiça como equidade e uma concepção política meritocrática. Enquanto a
primeira tem, como já mencionado, uma concepção de cooperação calcada já em termos
de reciprocidade, isto é, de igual consideração do status de cidadania, a concepção
meritocrática parece privilegiar uma visão de cooperação social não de grupo, mas sim
individualista. Não nos determos nesse ponto agora, até porque aceitamos (assim como
o próprio Rawls) a meritocracia como uma concepção concorrente à justiça como
equidade, de modo de proceder na crítica à concepção pela letra do próprio Rawls. Isto
é, aceitamos que a meritocracia seja uma concepção política nos termos ralwsianos.6
Voltemos, por hora, a nossa discussão da divisão social do trabalho.
Adam Smith em “A riqueza das nações” lança luz sobre a organização da produção dar-
se de forma social, tomando como exemplo a famigerada fábrica de alfinetes. Sendo o
processo de produção socialmente organizado, a riqueza produzida é então, sempre
produto social, e não meramente a soma de produtores individuais. Essa concepção
tácita é de extrema importância como base para o sistema de pensamento rawlsiano, e
implica numa decorrência imediata: sendo o sistema de produção gerido por mulheres e
homens, são elas e eles os responsáveis pelos contornos e formas desse sistema
(JOHNSTON, 2010, p. 74, tradução nossa).
Tudo que foi dito até aqui buscava apenas dar luz pra posição central da concepção de
sociedade, e por consequência de condições de funcionamento desta sociedade, para a
arquitetônica de nosso autor. Embora o próprio Rawls tome a divisão social do trabalho
como um fato da vida social, acreditamos que muito da defesa meritocrática como
critério de justiça baseia-se numa concepção míope dos termos básicos de um sistema
de cooperação. Isso porque, levada a termo, essa concepção privilegia um ponto de vista
informado (aqui no sentido de parcial), isto é, quando tem-se conhecimento da situação
e de seu contexto de debate. O problema reside no fato de não podermos operar a justiça
com foco nas ações e contribuições individuais para o sistema de cooperação social,
tanto por impossibilidade prática quanto por sua indesejabilidade do ponto de vista da
própria questão da justiça (abordaremos essa questão na seção 4.2).
É por isso que Rawls (2008, p. 4-5) toma como evidente esses pontos, tal como
exposto já nos primeiros parágrafos de TJ:
Vamos supor, para organizar as ideias, que a sociedade é uma
associação de pessoas mais ou menos autosuficiente que, em suas
relações mútuas, receonhece certas norams de condutas como

6
Tentaremos, ao final do capítulo, conduzir essa crítica baseado naquilo que nos parece o leitmotiv da
rejeição de Rawls ao utilitarismo: uma compreensão de cooperação social que solapa a personalidade
moral dos indivíduos.
obrigatórias e que, na maior parte do tempo, se comporta de
acordo com elas. Vamos supor também que essas normas
especificam um sistema de cooperação criado para promover o
bem dos que dele participam. Então, embora a sociedade seja um
empreendimento cooperativo que visa ao benefícios mútuo, está
marcada por um conflito, bem como uma identidade, de
interesses.
Junto àquilo que falamos sobre a questão da cooperação isoladamente, o parágrafo
acima parece embutir muito mais do que apenas intui. Isto é, a concepção de sociedade
tem um importante valor normativo para a própria teoria.7 Vale apontar que mesmo
Rawls falando de "assunções" para fixar ideias, essas mesmas ideias intuitivas não serão
mais remanejadas em TJ, vindo a serem melhor explicadas em Liberalismo Político
(LP) e Justiça como Equidade - Uma reafirmação (JE). Embora nada permita-me
afirmar, sugiro aqui que esta explicitação se deve justamente ao ponto central que essas
ideias que aparecem como tácitas em TJ para toda a arquitetônica da justiça como
equidade ralwsiana8. Não pretendo aqui levar esse ponto como uma tese, mas apenas
como uma intuição que daria sentido às linhas gastas por Rawls na tentativa de explicar
algo que ele, anteriormente em TJ, havia tomado como fatos da sociabilidade. Mas
voltando à paráfrase feita, qual seria o tipo de sistema de cooperação que Rawls
endossa?
Em LP e JE, apontam-se 3 aspectos essenciais para aquilo que seria a ideia organizadora
central da cooperação social: a primeira delas distingue a mera atividade socialmente
ordenada da cooperação social, ao passo que esta "guia-se por regras e procedimentos
publicamente reconhecidos", livrando-se assim do julgo de uma autoridade central, por
exemplo. Um segundo aspecto fala sobre a relação entre cooperação e termos
equitativos de cooperação mediada por aquilo que viria a se fixar como uma ideia de
reciprocidade (ou mutualidade), onde aqueles que cumprirem com as regras
publicamente estabelecidas devem beneficiar-se da cooperação segundo estes próprios
termos. Por fim, o terceiro aspecto trata da ideia de bem racional de cada participante,
isto é, que aqueles que cooperam o fazem para a promoção de seu próprio bem (JE, p. 8-
9 e LP, p. 58-59). Nos será caro o segundo aspecto da definição, isto é, a cooperação
compreendida em termos equitativos.
Ainda na Conferência I de LP, Rawls marca a diferença de sua concepção de sociedade
democrática - e aqui, compreendida já no escopo de um sistema equitativo de
cooperação - frente a uma associação de indivíduos. A primeira diz respeito àquilo que
já comentamos na abertura desta seção: não temos uma identidade anterior à nossa
entrada na sociedade, pelo simples fato de que não há sequer anterioridade à sociedade.
A segunda característica fala sobre o caráter específico das finalidades dos participantes
dentro de uma associação, onde estes realizam a cooperação não por alguma esperança
de realização de justiça mas por os motivos íntimos, sejam eles quaisquer, que os

7
Talvez ainda mais interessante seja perceber que essas intuições já se encontram em sua dissertação -
uma obra de teologia, vale dizer - quando o jovem Rawls aponta a fé como uma relação ética "de pessoa
pra pessoa e finalmente com Deus" (p. 114) e o pecado como "a repudição da comunidade" (p.204).
8
" A terceira característica de uma concepção política de justiça é que seu conteúdo é expresso por meio
de certas idéias fundamentais, vistas como implícitas na cultura política pública de uma sociedade
democrática. (RAWLS, 2000, p. 56)
levaram a entrar na associação9. A sociedade democrática tampouco pode ser entendida
como uma comunidade se a concebemos como "uma sociedade governada por uma
doutrina religiosa, filosófica ou moral abrangente e compartilhada." (LP, p. 86).
Portanto, temos na concepção de cooperação equitativa uma condição para o
desenvolvimento da própria sociedade democrática, haja vista que esta concepção
permite a articulação de indíviduos que vêm a si e aos demais como pessoas morais
livres e iguais. Livres enquanto portadores de racionalidade, compreendida como a
faculdade de formar e desenvolver um plano de vida boa e de razoabilidade, como
aquilo que dá um senso de justiça a nossa ação.

A SOCIEDADE BEM-ORDENADA É UMA SOCIEDADE DA RAZÃO


PÚBLICA: “Digamos agora que uma sociedade é bem-ordenada não apenas quando
está planejada para promover o bem de seus membros mas quando é também
efetivamente regulada por uma concepção política de justiça. Isto é, trata-se de uma
sociedade na qual (1) todos aceitam e sabem que os outros aceitam os mesmos
princípios de justiça, e (2) as instituições sociais básicas geralmente satisfazem, e
geralmente se sabe que satisfazem, esses princípios.” (pg. 5)
As partes na posição original: “Uma característica da justiça como equidade é a
de conceber as partes na situação inicial como racionais e mutuamente
desinteressadas. Isso não significa que as partes sejam egoístas, isto é,
indivíduos com apenas certos tipos de interesses, por exemplo, riquezas,
prestígio e poder. Mas são concebidas como pessoas que não interesse nos
interesses das outras.” (pg. 15)

O FATO DA COOPERAÇÃO GERA DEVERES DE COOPERAÇÃO: “A ideia intuitiva é


a de que, pelo fato de o bem-estar de todos depender de um sistema de
cooperação sem o qual ninguém pode ter uma vida satisfatórias, a divisão de
vantagens deveria acontecer de modo a suscitar a cooperação voluntária de
todos os participantes, incluindo-se os menos bem situados. No entanto, só se
pode esperar isso se forem propostos termos razoáveis. Os dois princípios
aludidos parecem constituir uma base equitativa sobre o qual os mais dotados,
ou os mais afortunados por sua posição social, duas coisas de que não podemos
ser considerados merecedores, poderiam esperar a concepção voluntária dos
outros quando algum sistema viável fosse uma condição necessária para o bem-
estar de todos. Uma vez que decidimos buscar uma concepção da justiça que
impeça a utilização dos acidentes da dotação natural e das contingências de
circunstâncias sociais como trunfos da demanda de vantagens econômicas e
políticas, somos levados a usar esses princípios. Eles expressam a consequência
do fato de deixarmos de lado aqueles aspectos do mundo social que parecem
arbitrários de um ponto de vista moral. (pg.; 16-7)

OS PRINCÍPIOS PARA A ESTRUTURA BÁSICA DEVEM SER DEFINIDOS ANTES DAS


OBRIGAÇÕES E DEVERES PESSOAIS: “O fato de os princípios para instituições serem
escolhidos antes demonstra a natureza social da virtude da justiça, sua íntima ligação a
práticas sociais que são enfatizadas com tanta frequência pelos idealistas. Quando
Bradley diz que o indivíduo é uma mera abstração, podemos, sem muita distorção,

9
Conforme nota 44 de LP ($7, p. 86)
interpretar seu enunciado como afirmando que as obrigações e os deveres de uma
pessoa pressupõem uma concepção moral das instituições, e, portanto, que o conteúdo
das instituições justas deve ser definido antes que as exigências para os indivíduos
possam ser determinadas. E isso quer dizer que, na maioria dos casos, os princípios para
obrigações e deveres devem ser determinados depois dos princípios para a estrutura
básica.” (pg. 118)

QUOTA JUSTA: “Não devemos lucrar com os trabalhos cooperativos dos outros sem que
tenhamos contribuído com nossa quota justa. Os dois princípios da justiça definem que o
que é uma quota justa no caso de instituições pertencentes a estrutura básica. Portanto,
se essas organizações são justas, cada pessoa recebe uma quota justa quando todos
(inclusive ela) fazem a sua parte.” (pg. 120)

1.1 Termos equitativos de cooperação

O que os agentes racionais não têm é a forma particular de sensibilidade moral subjacente ao desejo de se
engajar na cooperação equitativa como tal, e de fazê-lo em termos que seria razoável esperar que os
outros, como iguais, aceitem. Não estou supondo que o razoável seja a totalidade da sensibilidade moral;
mas inclui a parte que faz a conexão com a idéia de cooperação social eqüitativa*. (pg. 95- LP)

Example: the idea of persons as free and equal. A certain conception of the person follows
from the very idea of society as a system of fair cooperation, an idea that Rawls takes to be
implicit in the self-understanding of constitutional democracies. A person is someone who can
be a citizen, someone who can be fully cooperating member of society. To be a cooperating
member of society, a citizen must have the two moral powers: a capacity for a sense of justice
and a capacity for a conception of the good. Citizens are “equal” simply in having the two
moral powers to a sufficient degree to be fully cooperating members of society. Citizens are
“free” in at least three senses. • First, citizens are not identified, for political purposes, with
the specific conception of the good they hold at a given time. If one converts from one religion
to another, for example, one’s standing as a citizen does not change. • Second, citizens are
“self-authenticating sources of valid claims.” They are entitled to make demands on
institutions to advance their conceptions of the good. Contrast: Slaves, who can make no
claims. Or having only claims arising from roles in a religious hierarchy (layperson, pope) or
aristocracy (vassal, lord). • Third, citizens “can take responsibility for their ends: that is, they
can adjust their ends so that those ends can be pursued by the means they can reasonably
expect to acquire in return for what they can reasonable expect to contribute” (34). This is
implicit, Rawls thinks, in the idea that citizens are full participants in a fair system of
cooperation.

Concepção política da pessoa: political conception of the person


Numa democracia constitucional, a cidadania é o status que expressa
a concepção política da pessoa, isto é, que a trata como livre
e igual e como dotada das duas faculdades morais*. Ela é
inseparável
da concepção política da sociedade como sistema eqüitativo
de cooperação.
OS PRINCÍPIOS PARA A ESTRUTURA BÁSICA DEVEM SER DEFINIDOS ANTES DAS
OBRIGAÇÕES E DEVERES PESSOAIS: “O fato de os princípios para instituições
serem escolhidos antes demonstra a natureza social da virtude da justiça, sua
íntima ligação a práticas sociais que são enfatizadas com tanta frequência pelos
idealistas. Quando Bradley diz que o indivíduo é uma mera abstração, podemos,
sem muita distorção, interpretar seu enunciado como afirmando que as obrigações
e os deveres de uma pessoa pressupõem uma concepção moral das instituições, e,
portanto, que o conteúdo das instituições justas deve ser definido antes que as
exigências para os indivíduos possam ser determinadas. E isso quer dizer que, na
maioria dos casos, os princípios para obrigações e deveres devem ser determinados
depois dos princípios para a estrutura básica.” (pg. 118)

1.2 Divisão Social da Responsabilidade

DIFERENÇA COM O UTILITARISMO BASEADO NA CONCEPÇÃO: “Implícita nos


contrastes entre o utilitarismo clássico e a justiça como equidade está a
diferença nas concepções fundamentais da sociedade. Num caso, pensamos
numa sociedade bem-ordenada como sendo um sistema de cooperação para a
vantagem recíproca regulada por princípios que as pessoas escolheriam numa
situação inicial que é equitativa; no outro, como sendo a administração
eficiente de recursos sociais para maximizar a satisfação do sistema de desejos
construído pelo observador imparcial a partir de inúmeros sistemas individuais
de desejos aceitos como dados.” (pg. 36)

DEVER DE JUSTIÇA COMO UM DEVER NATURAL: “Do ponto de vista da justiça


como equidade, um dever natural fundamental é o dever de justiça. Esse dever
exige nosso apoio e obediência às instituições que existem e nos concernem. Ele
também nos obriga a promover organizações justas ainda não estabelecidas,
pelo menos quando isso pode ser feito sem nos sacrificar demais. Assim, se a
estrutura básica da sociedade é justa, ou justa como é razoável esperar que seja
dentro de determinadas circunstâncias, todos tem um dever natural de fazer a
sua parte no esquema existente. Cada um está vinculado a essas instituições
independentemente de seus atos voluntários, sejam eles de execução ou de
outro tipo. Assim, embora os princípios do dever natural sejam derivados de um
ponto de vista contratualista, eles não pressupõem nenhum ato de
assentimento, tácito ou explícito, e nem mesmo nenhum ato voluntário, para
que possam ser aplicados.” (pg. 123)

"A divisão de trabalho não é superada por meio de cada um tornar-se completo em si, porém
pelo desejo e pelo trabalho significativo dentro de uma justa união social de uniões sociais da
qual todos possam participar com liberdade segundo suas inclinações" (TJ, p. 653)

2. Igualdade cidadã
“O duplo caráter da teoria de Rawls, resultante dessa observação, entre
conceitos morais kantianos e fortes suposições empíricas, evidencia-se em sua
teoria da pessoa moral. Uma suposição básica, que para ele parecer ser
“razoável e aceitável em geral”, é considerar “a igualdade entre os seres
humanos como pessoas morais, como criaturas que têm uma concepção do seu
bem e que são capazes de um senso de justiça” (1971, p. 19). São “equânimes”
[fair] os princípios da justiça que melhor refletirem essas qualidades das
pessoas e os que forem escolhidos numa “posição original” que expressa da
melhor maneira possível a igualdade e liberdade das pessoas. O lado kantiano
dessa concepção de pessoa consiste no fato de que nesse conceito de pessoa está
implícito um ideal de autonomia, segundo o qual princípios de justiça têm de
ser fundamentados sob a exclusão de ponderações e diferenças contingentes
entre as pessoas. O lado “racional” desse conceito de pessoa reside na suposição Commented [EdB1]: Aqui está a ponte para a injustiça
de que elas têm planos de vida que querem realizar da melhor maneira possível. das arbitrariedades morais
O princípio procedimental fundamental de que os princípios são justificados
quando podem ser aceitos racionalmente por esse tipo de pessoas livres e iguais
leva Rawls a explicitar esse conceito de pessoa de um ponto de vista kantiano
“razoável” e de um ponto de vista empírico “racional”, transformando-o em
fundamento substantivo da teoria e dos bens básicos a serem distribuídos – no
sentido da satisfação de “desejos racionais” (ibidem, p. 93). Em seus textos
posteriores à publicação da Teoria, Rawls coloca em primeiro plano o papel da
concepção de pessoa, que lhe permite essa conexão dos elementos da teoria. Por
exemplo, em seu artigo “Uma concepção kantiana da igualdade”, ele afirma que
“quando plenamente articulada, qualquer concepção de justiça expressa uma
de pessoa, das relações entre elas, da estrutura geral e dos fins da cooperação
social.” (1975d, p. 94). (FORST, pg. 220-221, Contextos de Justiça)

“o primeiro princípio goza da prioridade sobre o segundo (o da diferença).


Porém, entre ambos existe um vínculo normativo interno: o segundo princípio
da igualdade de oportunidade e justiça social é necessário para a realização dos
direitos subjetivos do primerio. Rawls discute esse vínculo como o problema do
“valor da liberdade”: “a liberdade é representada pelo sistema completo das
liberdades de cidadania igual; o valor dela para indivíduos ou grupos depende
de sua capacidade de alcançar seus objetivos dentro de uma estrutura que esse
sistema define” (1971, p.204). (...) Por isso, este já é um princípio material de
justiça.” (pg. 174-175)
Bens básicos como necessidades de cidadania:“O importante é que, com a
ênfase acentuada de Rawls no caráter “político” da sua teoria, os bens básicos
não são mais precisam ser vistos em geral como servindo à “satisfação de
desejos racionais” (1971, p. 93), mas sim são especificados em vista das
necessidades dos cidadãos.” (p. 176)
Princípio da diferença também é justificado contextualisticamente: “Portanto,
essa determinação segue o princípio da diferença à medida que somente pode
ser considerada como justa uma regulamentação que possa ser justificada frente
a esse gurpo no sentido de uma pertença igual.(...) Com isso, o próprio princípio
da diferença é contextualizado: como de justificação recíproca entre cidadãos
com a pretensão de pertença igual”. (p. 178)
“Circunstância sociais, enquanto produzidas socialmente e modificáveis,
precisam ser justificadas: portanto, o princípio da pertença igual não implica
uma distribuição estrita de renda e riqueza, mas a necessidade de justificar as
distribuições arbitrárias.” (pg. 179)
Passagem da moral para o político [cidadania]: “Para além dessas formas de
respeito básicas e universalistas que os seres humanos reivindicam como seres
humanos, nas questões de justiça social trata-se de determinadas
reinvindicações por bens sociais que as pessoas reivindicam como cidadãos.
Elas são respondidas do ponto de vista relativo à sociedade, aos padrões de
pertença igual a ela – contudo, também não num sentido relativista.” (p.181)
“Com isso, o princípio fundamental da cidadania igual é simultaneamente
formal e material: formal em relação à participação em discursos políticos sobre
a distribuição justa de bens, material em relação às condições para a realização
dessa participação e da participação na vida social em geral.” (p. 181)
O motivo forte do político em Rawls diz respeito a lidar com o fato do
pluralismo, isso é, considera-lo a sério. Para isso, faz-se necessário que para
manter um acordo cooperativo razoável entre cidadãos, ela deve se focar apenas
na estrutura básica, evitando as questões éticas (concepções de bem): “Nesse
sentido, nem Teoria da Justiça – em sua explicação da estabilidade social por
meio da “congruência” do bem e da justiça – nem as Dewey Lectures – que
ainda eram entendidas como “teoria moral” – eram suficientemente “políticas”.
A teoria da estrutura básica da sociedade refere-se somente a “questões
políticas” e busca um consenso sobreposto político; por isso, “começa” com
“ideais fundamentais” que são compartilhadas universalmente e podem
fornecer a base para um acordo universal.” (pg. 223)
A concepção política de pessoa como “forma de tornar socialmente possível” o
desenvolvimento das capacidades morais: “Assim, os bens básicos são
justificados como “meios para todos os fins” de satisfação dos “interesses de
ordem superior” das pessoas. Portanto, vários elementos compõem o conceito
de “político” e do “razoável”: um momento “moral” que se refere à prioridade da
justiça e o caráter prático-racional da pessoa moral; um (primeiro) elemento
“político” de limitação ao conceito “político” de “cidadãos” e de “cooperação
social”; e por fim, um (segundo) elemento “político” que se refere à suposição
sobre determinadas “necessidades dos cidadãos”. (p.222)
DEVER DE JUSTIÇA: Sobre uma “justificação” do justo sobre o bem baseada
numa própria concepção de bem: “Na verdade, pode-se argumentar
efetivamente assim em várias situações, mas isso não explica a justificação da
exigência da justiça; a ação justa não é exigida pela busca do bem de uma
determinada doutrina ética, mas pela busca do respeito igual pelas
reivindicações legítimas e razoáveis de todos.” (p225)
RESUMO DA POSIÇÃO POLÍTICA DE RAWLS: “Com isso, uma concepção de
justiça é fundamentada moralmente, incorporável eticamente e se refere à
estrutura básica política da sociedade.” (pg. 226)
IDEAIS FUNDAMENTAIS: “Segundo Rawls, o primeiro estágio (justificação) se
apoia na “ideia fundamental” de sociedade como sistema equitativo de
cooperação social e nas “duas ideais fundamentais complementares”, a de
cidadãos como pessoas livres e iguais e a de sociedade bem-ordenada.” (pg. 224)

RAZÃO PRÁTICA E RAWLS: “This procedure, we conjecture, embodies all the


relevant requirements of practical reason and shows how the principles of justice
follow from the principles of practical reason in union with conceptions of society and
person, themselves ideas of practical reason. (LP, VERSÃO ORIGINAL 1993, P.90)

“Cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem mesmo o
bem-estar da sociedade como um todo pode ignorar. Por essa razão, a justiça
nega que a perda da liberdade de alguns se justifique por um bem maior
partilhado por outros. Não permite que os sacrifícios impostos a uns poucos
tenham menos valor que o total maior das vantagens desfrutadas por muitos.
Portanto numa sociedade justa as liberdades da cidadania igual são
consideradas invioláveis; os direitos assegurados pela justiça não estão sujeitos
à negociação política ou ao cálculo de interesses sociais. A única coisa que nos
permite aceitar uma teoria errônea é a falta de uma teoria melhor; de forma
análoga, uma injustiça é tolerável somente quando é necessária para evitar uma
injustiça ainda maior.” (pg.4 TJ)

2.1 Fundamento normativo da cooperação

Álvaro de Vita

2.2 Base motivacional da cooperação e reciprocidade


O FATO DA COOPERAÇÃO GERA DEVERES DE COOPERAÇÃO: “A ideia intuitiva é
a de que, pelo fato de o bem-estar de todos depender de um sistema de
cooperação sem o qual ninguém pode ter uma vida satisfatórias, a divisão de
vantagens deveria acontecer de modo a suscitar a cooperação voluntária de
todos os participantes, incluindo-se os menos bem situados. No entanto, só se
pode esperar isso se forem propostos termos razoáveis. Os dois princípios
aludidos parecem constituir uma base equitativa sobre o qual os mais dotados,
ou os mais afortunados por sua posição social, duas coisas de que não podemos
ser considerados merecedores, poderiam esperar a concepção voluntária dos
outros quando algum sistema viável fosse uma condição necessária para o bem-
estar de todos. Uma vez que decidimos buscar uma concepção da justiça que
impeça a utilização dos acidentes da dotação natural e das contingências de
circunstâncias sociais como trunfos da demanda de vantagens econômicas e
políticas, somos levados a usar esses princípios. Eles expressam a consequência
do fato de deixarmos de lado aqueles aspectos do mundo social que parecem
arbitrários de um ponto de vista moral. (pg.; 16-7)

3. O que é uma injustiça?


A INJUSTIÇA: “Desse modo, os que defendem outros concepções de justiça podem
ainda assim concordar que as instituições são justas quando não se fazem distinções
arbitrárias entre as pessoas na atribuição de direitos e deveres básicos e quando as
regras determinam um equilíbrio adequado entre reinvindicações concorrentes das
vantagens da vida social. Os homens conseguem concordar com essa descrição de
instituições justas porque as noções de uma distinção arbitrária e de um equilíbrio
apropriado, que se incluem no conceito de justiça, ficam abertas à interpretação de
cada um, de acordo com os princípios de justiça que ele aceita. Esses princípios
determinam quais semelhanças e diferenças entre as pessoas são relevantes na
determinação de direitos e deveres e especificam qual divisão de vantagens é
apropriada.” (pg. 6) – A TEORIA RAWLSIANA É, PORTANTO, UMA TEORIA DA
RESTRIÇÃO RACIONAL, E ASSIM SENDO, RAZOÁVEL. PARTINDO-SE DA CONDIÇÃO
DE IGUALDADE CIDADÃ, DÃO-SE ESSES CIDADÃOS SUAS PRÓPRIAS REGRAS, E A
ELAS SEGUEM. AO SEGUI-LAS, CONFORMAM OS MAIS DIVERSOS E PARTICULARES
PLANOS RACIONAIS DE VIDA ÀS RESTRIÇÕES DOS PRINCÍPIOS. PARTE-SE DA
CONDIÇÃO BÁSICA DE CIDADÃO LIVRE E IGUAL, PRA CONDIÇÃO DE CIDÃDÃO
POLÍTICO QUE AUTO-DETERMINA-SE. NESTA AUTODETERIMANÇÃO, FORTALECE
SUA VISÃO DE EU.

IDEIA CENTRAL DE RALWS [A INJUSTIÇA DA ARBITRARIEDADE]: “A distribuição


natural não é justa nem injusta, nem é injusto que as pessoas nasçam em alguma
posição particular na sociedade. O que é justo ou injusto é o modo como as
instituições lidam com esses fatos.” (pg. 109)

3.1 O argumento da arbitrariedade moral

“Na justiça como equidade os homens concordam em se valer dos acidentes da


natureza ou das circunstâncias sociais, apenas quando disso resulta no benefício
comum. Os dois princípios são um modo equitativo de se enfrentar a arbitrariedade
da fortuna, e embora sem dúvida sejam imperfeitas em outros aspectos, as
instituições que satisfazem esses princípios são justas.” (pg. 109)
3.2 Os tipos de arbitrariedades para Nagel (1991)

3.2.1 Gênero e etnia

3.2.2 Classe

3.2.3 Talentos Naturais

3.2.4 Esforço
4. O foco na estrutura básica

Exige-se um conjunto de princípios para escolher entre várias formas de ordenação


social que determinam essa divisão de vantagens e para selar um acordo sobre as
partes distributivas adequadas. Esses princípios são os princípios da justiça social:
eles fornecem um modo de atribuir direitos e deveres nas instituições básicas da
sociedade e definem a distribuição apropriada dos benefícios e encargos da
cooperação social.” (pg. 5)

VÉU DE IGNORÂNCIA: “Para representar as restrições desejadas imagina-se


uma situação na qual todos estejam privados desse tipo de informação. Fica
excluído o conhecimento dessas contingências que criam disparidades entre
os homens e permitem que eles se orientem pelos seus preconceitos. Desse
modo chega-se ao véu de ignorância de maneira natural. O conceito não
deve causar nenhuma dificuldade se tivermos em mente as restrições aos
argumentos que expressa. A qualquer momento podemos utilizar a posição
original, por assim dizer, simplesmente obedecendo a um certo
procedimento, isto é, argumentando em defesa de princípios da justiça de
acordo com essas restrições. (pg. 21)

O FOCO NA ESTRUTURA BÁSICA (FAZER AQUI UMA DESCRIÇÃO MELHOR


DAS INSTITUIÇÕES EM RAWLS):“Muitas espécies diferentes de coisas são
consideradas justas e injustas: não apenas as leis, as instituições e os
sistemas sociais, mas também determinadas ações de muitas espécies,
incluindo decisões, julgamentos e imputações. Também chamamos de justas
e injustas as atitudes e disposições das pessoas, e as próprias pessoas.
Nosso tópico, todavia, é o da justiça social. Para nós o objeto primário da
justiça é a estrutura básica da sociedade, ou mais exatamente, a maneira
pela qual as instituições sociais mais importantes distribuem direitos e
deveres fundamentais e determinam a divisão de vantagens provenientes da
cooperação social. (TJ, pg. 7-8)

O MOTIVO DO FOCO NA ESTRUTURA BÁSICA: “A estrutura básica é o objeto primário


da justiça porque (a) seus efeitos são profundos e (b) estão presentes desde o
começo. Nossa noção intuitiva é que essa estrutura contém várias posições sociais
[[igualdade equitativa de oportunidade]] e que homens nascidos em condições
diferentes tem expectativas de vida diferentes, determinadas, em parte, pelo sistema
político bem como pelas circunstâncias econômicas e sociais [[princípio da
diferença]]. Assim as instituições da sociedade favorecem certos pontos de partida
mais que outros. [[e por isso a meritocracia não é suficientes. Seguir para o modelo
de igualdade democrática.]] Essas são desigualdades especialmente profundas. Não
apenas são difusas, mas afetam desde o início as possibilidades de vida dos seres
humanos; contudo, não podem ser justificadas mediante um apelo às noções de
mérito ou valor. É a essas desigualdades, supostamente inevitáveis na estrutura
básica de qualquer sociedade, que os princípios da justiça social devem ser aplicados
em primeiro lugar. [[prioridade da justiça sobre a eficiência]]. (pg. 8) – OU SEJA, O
PRINCÍPIO DA DIFERENÇA TENTA CORRIGIR OS RISCOS DA ARBITRARIEDADE
MORAL (SEJA SIMPLESMENTE NA VIDA SOCIAL, OU NA POSIÇÃO ORIGINAL)

“O primeiro objeto dos princípios da justiça social é a estrutura básica da sociedade,


a ordenação das principais instituições sociais em um esquema de cooperação.” (pg.
57)
“os princípios de justiça para instituições não devem ser confundidos com os
princípios que se aplicam aos indivíduos e às suas ações em circunstâncias
particulares. Esses dois tipos de princípios se aplicam a diferentes sujeitos e devem
ser discutidos separadamente.” (pg. 57-58)

“Ao afirmar que uma instituição, e portanto a estrutura básica da sociedade, é um


sistema público de regras, quero dizer que todos os que estão nela engajados sabem
o que saberiam se essas regras e sua participação na atividade que elas definem
fossem o resultado de um acordo. (...) A publicidade das regras de uma instituição
assegura que aqueles nela engajados saibam quase limites de conduta devem esperar
uns dos outros, e que tipos de ações são permissíveis. Há uma base comum para a
determinação de expectativas mútuas. Além do mais, em uma sociedade bem-
ordenada, regulada de forma efetiva por uma concepção compartilhada de justiça,
também há um entendimento comum quanto ao que é justo ou injusto.” (pg. 59)

Papel da justiça: atribuir direitos e deveres fundamentais e determinar a divisão de


vantagens advindas da cooperação social. (pg. 61)

“A justiça formal no caso das instituições legais é meramente um aspecto do estado


de direito que apoia e assegura expectativas legítimas.” (pg. 62)

4.1 Justiça procedimental pura

“Na justiça procedimental pura, então, as distribuições de vantagens não são


avaliadas em primeiro lugar através do confronto entre uma quantia disponível de
benefícios, por um lado, e desejos e necessidades dados de indivíduos determinados,
por outro. A alocação dos itens produzidos ocorre de acordo com o sistema público
de regras, e esse sistema determina o que é produzido, quanto é produzido, e por que
meios. Também determina reivindicações legítimas que, quando respeitadas, criam a
distribuição resultante. Assim, nesse tipo de justiça procedimental, a correção da
distribuição está fundada na justiça do esquema de cooperação do qual ela surge e
na satisfação das reinvindicações de indivíduos engajados nele. Uma distribuição
não pode ser julgada separadamente do sistema do qual ela é o resultado ou sem
levar em conta o que os indivíduos fizeram, de boa fé, à luz de expectativas
estabelecidas. Se perguntarmos de forma abstrata se uma distribuição de um dado
estoque de coisas para indivíduos concretos com desejos e preferências conhecidas é
melhor que uma outra, simplesmente não haverá resposta para essa pergunta. ” (pg.
94)

OS BENS PRIMÁRIOS: “Os bens sociais primários, para apresenta-los em categorias amplas,
são direitos, liberdades e oportunidades, assim como renda e riqueza. (Um bem primário
muito importante é um senso do próprio valor, mas a título de simplificação, deixo esse item
de lado, para retorná-lo bem mais tarde, no £67). Parece evidente que, em geral, essas
coisas correspondem à descrição dos bens primários. São bens sociais em vista de sua
ligação com a estrutura básica, as liberdades e oportunidades são definidas pelas regras das
instituições mais importantes, e a distribuição de renda e riqueza é por elas reguladas.” (TJ,
pg 98)

“O BEM É A SATISFAÇÃO DE UM DESEJO RACIONAL:” “A ideia principal é a de que o bem de


uma pessoa é determinado pelo que é para ela o mais racional plano de vida a longo prazo,
dadas circunstâncias razoavelmente favoráveis. Um homem é feliz quando é mais ou menos
bem-sucedido na maneira de realizar seu plano. Para resumir, o bem é a satisfação de um
desejo racional. Devemos supor, então, que cada indivíduo tem um plano de vida racional
delineado de acordo com as condições com que se defronta. Esse plano é traçado de modo a
permitir a satisfação harmoniosa de seus interesses. Ele programa atividades a fim de que
vários desejos possam ser satisfeitos sem interferências. Chega-se a ele rejeitando outros
planos cuja realização é menos provável, ou que não permitem uma consecução de objetivos
tão abrangente. Dadas as alternativas disponíveis, um plano racional é aquele que não pode
ser aperfeiçoado; não há outro plano que, levando-se tudo em conta, seja preferível.” (pg.
98)

4.2 Posições relevantes

POSIÇÕES RELAVANTES COMO PONTOS DE PARTIDA BÁSICOS DA SOCIEDADE:“O


objeto primeiro da justiça, como já enfatizei, é a estrutura básica da sociedade. A
razão para isso é que seus efeitos são muito profundos e penetrantes, e presentes
desde o início. Essa estrutura favorece alguns lugares de partida em detrimento de
outros na divisão dos benefícios da cooperação social. São essas desigualdades que
os dois princípios devem regular. Uma vez satisfeitos esses princípios, permite-se
que outras desigualdades surjam, como resultado das ações voluntárias dos homens
de acordo com o princípio da liberdade de associação. Desse modo, as posições
sociais relevantes são, por assim dizer, os lugares de partida generalizados e
agrupados de forma adequada. Ao escolher posições como definidoras do ponto de
vista geral, segue-se a ideia de que os dois princípios tentam mitigar a
arbitrariedade do acaso natural e da boa sorte social.” (pg. 101-102)

CIDADANIA IGUAL COMO PONTO DE PARTIDA:“Na medida do possível, a estrutura


básica deve ser avaliada a partir da posição de cidadania igual. Essa posição é
definida pelos direitos e liberdades exigidos pelo princípio de liberdade igual e pelo
principio da igualdade equitativa de oportunidades. Quando os dois princípios são
satisfeitos, todos são cidadãos iguais, e portanto, todos ocupam essa posição. Nesse
sentido, a cidadania igual define um ponto de vista comum. Os problemas de
deliberação que envolvem as liberdades básicas são resolvidos com referência a ele.”
(pg.102); “Na medida do possível, então, a justiça como equidade analisa o sistema
social a partir da posição de cidadania igual e dos vários níveis de renda e riqueza.

POSIÇÕES RELEVANTES X REIVINDICAÇÕES INDIVIDUAIS: “É essencial que os juízos


feitos a partir das posições relevantes anulem as reinvindicações que tendemos a
fazer em situações particulares. Nem todos se beneficiam sempre através do que os
dois princípios exigem, se pensamos em nós mesmos em termos de nossas posições
mais específicas.” (pg. 105)

LUGARES DE PARTIDA CONTRA A ARBITRARIEDADE“É necessária uma certa seleção


das posições relevantes para que se obtenha uma teoria coerente da justiça social, e
as posições escolhidas devem estar de acordo com os seus princípios básicos.
Selecionando os assim chamados lugares de partida, obedecemos a ideia de mitigar
os efeitos do acaso natural e da contingência social. Ninguém se deve
beneficiar dessas contingencias, a não ser de maneiras que redundem no
bem-estar dos outros.” (pg. 106)

4.3 Foco nas condições e não nos indivíduos


A PRIORIDADE DO JUSTO SOBRE O BEM: “Consequentemente na justiça como
equidade não se tomam as tendências e inclinações dos homens como fatos
admitidos, qualquer que seja a natureza, e depois se procura a melhor
maneira de realiza-las. Pelo contrário, seus desejos e aspirações são
restringidos desde o início pelos princípios de justiça que especificam os
limites que os sistemas humanos de finalidades devem respeitar. Podemos
expressar essa ideia dizendo que na justiça como equidade o conceito de
justo precede o de bem. Um sistema social justo define o escopo no âmbito
do qual os indivíduos devem desenvolver seus objetivos, e oferece uma
estrutura de direitos e oportunidades e meios de satisfação pelos quais e
dentro dos quais esses fins podem ser equitativamente perseguidos. A
prioridade da justiça se explica, em parte, pela aceitação da ideia de que os
interesses que exigem a violação da justiça não tem nenhum valor. Não tendo
absolutamente nenhum mérito, eles não podem anular as reinvindicações da
justiça.” (pg. 34)

POSIÇÃO ORIGINAL E ARBITRARIEDADE MORAL “Na justiça como equidade a


posição original de igualdade corresponde ao estado de natureza na teoria
tradicional do contrato social. Essa posição original não é, obviamente,
concebida como uma situação histórica real, muito menos como uma situação
puramente hipotética caracterizada de modo a conduzir a uma certa
concepção de justiça. Entre as características essenciais dessa situação está o
fato de que ninguém conhece seu lugar na sociedade, a posição de sua classe
ou o status social e ninguém conhece sua sorte na distribuição de dotes e
habilidade naturais, sua inteligência, força, e coisas semelhante. Eu até
prusumirei que as partes não conhecem suas concepções do bem ou suas
propensões psicológicas particulares. Os princípios da justiça são escolhidos
sob um véu de ignorância. Isso garante que ninguém é favorecido ou
desfavorecido na escolha dos princípios pelo resultado do acaso natural ou
pela contingência de circunstâncias sociais. Uma vez que todos estão numa
situação semelhante e ninguém pode designar princípios para favorecer sua
condição particular, os princípios da justiça são o resultado de um consenso
ou ajuste equitativo. (pg. 13)

EXPECTATIVAS LEGÍTIMAS: “Na justiça como equidade, a sociedade é


interpretada como um empreendimento cooperativo para a vantagem de
todos. A estrutura básica é um sistema público de regras que definem um
esquema de atividades que conduz os homens a agirem juntos no intuito de
produzir uma quantidade maior de benefícios e atribuindo a cada um certos
direitos reconhecidos a uma parte dos produtos. O que uma pessoa faz
depende do que as regras públicas determinam a respeito do que ela tem
direito de fazer e os direitos de uma pessoa dependem do que ela faz.
Alcança-se a distribuição que resulta desses princípios honrando os direitos
determinados pelo que as pessoas se comprometem a fazer à luz dessas
expectativas legítimas.” (pg. 90)

ESTRUTURA BÁSICA x AVALIAÇÃO INDIVIDUAL: “O papel do princípio da


igualde equitativa de oportunidades é assegurar que o sistema de cooperação
seja um sistema de justiça procedimental pura. A não ser que esse principio
seja satisfeito, não se aplicar [sic] a justiça distributiva, nem mesmo dentro
de uma dimensão restrita. A vantagem prática da justiça procedimental pura
é que não é mais necessário controlar a infindável variedade de
circunstâncias nem as posições relativas mutáveis de pessoas particulares.
Evitamos o problema de definir princípios que deem conta das enormes
complexidades que surgiriam se esses detalhes fossem pertinentes. É um
erro focalizar nossa atenção sobre as posições relativas variáveis dos
indivíduos e exigir que toda mudança, considerada como uma transação
única e isolada, seja em si mesma justa. É a organização da estrutura básica
que deve ser julgada, e julgada a partir de um ponto de vista geral.” (pg. 93)

“Não há tentativa alguma de definir a distribuição justa de bens e serviços com base
na informação sobre as preferências e reinvindicações de indivíduos concretos. A
partir de um ponto de vista adequadamente geral, esse tipo de conhecimento é
considerado irrelevante, e, de qualquer forma, ele introduz complexidades que não
podem ser resolvidas por princípios de simplicidade tolerável com os quais seja
razoável esperar que os homens concordem.” (TJ. pg. 335)

5 As interpretações do segundo princípio

5.1 Aristocracia Natural

5.2 Sistema de Liberdade Natural


Liberdade natural: “No sistema de liberdade natural a distribuição inicial é regulada
pela organização implícita na concepção de carreiras abertas a talentos (como se
definiu anteriormente). Essa organização pressupõe uma base de liberdade igual
(especificada pelo primeiro princípio) e uma economia de mercado livre. Ela exige
uma igualdade formal de oportunidades, no sentido de que todos tem pelo menos os
mesmo direitos legais de acesso a todas as posições sociais privilegiadas. Mas como
não há esforço algum para preservar uma igualdade, ou similaridade, de condições
sociais a não ser na medida em que isso seja necessário para preservar as
instituições básicas indispensáveis, a distribuição inicial de ativos para cada período
de tempo é fortemente influenciada pelas contingências naturais e sociais. A
distribuição existente de renda e riqueza, por exemplo, é o efeito cumulativo de
distribuições anteriores de ativos naturais – ou seja, talentos e habilidades naturais
– conforme eles foram desenvolvidos ou não, e a sua utilização foi favorecida ou
desfavorecida ao longo do tempo por circunstâncias sociais e eventualidades
fortuitas como pela eventualidade de acidentes ou da boa sorte. Intuitivamente, a
mais óbvia injustiça do sistema de liberdade natural é que ele permite que a
distribuição das porções seja influenciada por esses fatores tão arbitrários do ponto
de vista ético.” (TJ, pg. 76-77)

5.3 Igualdade liberal


Igualdade liberal: “O que chamarei de interpretação liberal tenta corrigir isso
acrescentando à exigência de carreiras abertas a talentos a condição adicional de
uma equitativa igualdade. A ideia aqui é que as posições não devem estar abertas
apenas de um modo formal, mas que todos devem ter uma oportunidade equitativa
de atingi-las.” (pg. 77)

“A interpretação liberal dos dois princípios busca, então, mitigar a influência das
contingências sociais e boa sorte expontânea sobre a distribuição das porções. Para
atingir esse objetivo é necessário impor ao sistema social condições estruturais
básicas adicionais.” (pg. 77)

“Em primeiro lugar, mesmo que funcione perfeitamente eliminando a influência das
contingências sociais, ela ainda permite que a distribuição de renda e riqueza seja
influenciada pela distribuição natural de habilidades e talentos. Dentro dos limites
permitidos pelas organizações básicas, a distribuição das frações é decidida pelo
resultado da loteria da natureza; e, de uma perspectiva ética, esse resultado é
arbitrário. Não há mais motivos para permitir que a distribuição de renda e riqueza
obedeça a distribuição de dotes naturais do que para aceitar que ela se acomode à
causalidade histórica ou social. Além do mais, o princípio da oportunidade
equitativas só pode ser realizado de maneira imperfeita, pelo menos enquanto
existir algum tipo de estrutura familiar. A extensão do desenvolvimento e da função
das capacidades naturais é afetada por todos os tipos de condições sociais e atitudes
de classe. Mesmo a disposição de fazer um esforço, de tentar, e de ser assim
merecedor, no sentido comum do termo, em si mesma depende de circunstancias
sociais e familiares felizes. Na prática, é impossível assegurar oportunidades iguais
de realização e de cultura para os que receberam dotes semelhantes, e portanto,
talvez se prefira adotar um princípio que reconheça esse fato e também mitigue os
efeitos arbitrários da própria loteria natural.” (pg. 78)

“Vimos que o sistema de liberdade natural e a concepção liberal vão além do


princípio da eficiência, criando certas instituições básicas e deixando o resto ao
encargo da justiça procedimental pura. A concepção democrática sustenta que,
embora a justiça procedimental pura possa ser invocada pelo menos em certa
medida, o modo como as interpretações anteriores fazem isso ainda deixa muita
coisa para a causalidade social e natural.” (pg. 84)

PERIGO DA SOCIEDADE MERITOCRÁTICA: “Ora, parece evidente, à luz dessas


observações, que a interpretação democrática dos dois princípios não conduziria a
uma sociedade meritocrática. Essa forma de ordem social segue o princípio de
carreiras abertas a talentos, e usa a igualdade de oportunidades como um modo de
liberar as energias dos homens na busca da prosperidade econômica e do domínio
político. Existe uma visível disparidade entre a classe mais alta e a classe mais
baixa, tanto nos meios de vida, quanto nos direitos e privilégios da autoridade
organizacional. A cultura dos estratos mais baixos é empobrecida, enquanto a da
elite governante e tecnocrática é solidamente baseada no serviço em prol dos
objetivos nacionais de poder e riqueza. A igualdade de oportunidades significa uma
chance igual de deixar para trás os menos afortunados na busca pessoal de
influência e posição social. Assim, uma sociedade meritocrática é um perigo para
outras interpretações dos princípios de justiça, mas não para a concepção
democrática.” (pg. 114)

5.4 Igualdade democrática


“Uma vez que estamos tentando encontrar para eles uma interpretação que trate
todos igualmente como pessoas morais, e que não meça a parte de cada homem nos
benefícios e encargos da cooperação social em função da sua fortuna social ou sua
sorte na loteria natural, a interpretação democrática é a melhor escolhe entre as
quatro alternativas.” (pg. 79)

“Vimos que o sistema de liberdade natural e a concepção liberal vão além do


princípio da eficiência, criando certas instituições básicas e deixando o resto ao
encargo da justiça procedimental pura. A concepção democrática sustenta que,
embora a justiça procedimental pura possa ser invocada pelo menos em certa
medida, o modo como as interpretações anteriores fazem isso ainda deixa muita
coisa para a causalidade social e natural.” (pg. 84)

6. Os princípios de justiça ralwsianos

“A sua formulação pressupõe que, para os propósitos de uma teoria


da justiça, a estrutura social seja considerada como tendo duas partes mais
ou menos distintas, o primeiro princípio se aplicando a uma delas e o
segundo princípio à outra. Assim distinguimos entre os aspectos do sistema
social que definem e asseguram liberdades básicas iguais e os aspectos que
especificam e estabelecem as desigualdades econômicas e sociais. É
essencial observar que é possível determinar uma lista dessas liberdades. As
mais importantes entre elas são a liberdade política (o direito de votar e
ocupar um cargo público) e a liberdade de expressão e reunião; a liberdade
de consciência e de pensamento; as liberdades da pessoa, que incluem a
proteção contra a opressão psicológica e a agressão física (integridade da
pessoa); o direito à propriedade privada e a proteção contra a prisão e a
detenção arbitrárias, de acordo com o conceito de estado de direito.
Segundo o primeiro princípio, essas liberdades devem ser iguais.” (pg. 64-
65) [[Importante que aqui ainda não há a ênfase na importância da
igualdade política).

POSIÇÃO ORIGINAL COMO STATUS DE CIDADANIA IGUAL: “Naturalmente a


finalidade dessas condições é representar a igualdade entre os seres
humanos como pessoas éticas, como criaturas que tem uma concepção do
seu próprio bem e que são capazes de ter um senso de justiça. Toma-se
como base da igualdade a similaridade nesses dois pontos. Os sistemas
objetivos não são classificados por seu valor; e supõe-se que cada homem
tenha a capacidade necessária para entender quaisquer princípios que sejam
adotados e agir de acordo com eles. Juntamente com o véu de ignorância,
essas condições definem os princípios da justiça como sendo aqueles que
pessoas racionais preocupadas em promover seus interesses
consensualmente aceitariam em condições de igualdade nas quais ninguém é
consciente de ser favorecido ou desfavorecido por contingências sociais e
naturais.” (pg. 21)
EQUILIBRIO REFLEXIVO: “Por meio desses avanços e recuos, às vezes
alterando as condições das circunstâncias em que se deve obter o acordo
original, outras vezes modificando nossos juízos e conformando-o com os
novos princípios, suponho que acabaremos encontrando a configuração da
situação inicial que ao mesmo tempo expresse pressuposições razoáveis e
produza princípios que combinem com nossas convicções devidamente
apuradas e ajustadas. A esse estado de coisas eu me refiro como equilíbrio
reflexivo. Trata-se de um equilíbrio porque finalmente nossos princípios e
opiniões coincidem; e é reflexivo porque sabemos com quais princípios
nossos julgamentos se conformam e conhecemos as premissas das quais
derivam.” (pg. 23)

Assim, na posição original, escolhemos princípios que não façam distinções


entre os contratantes baseados na sorte natural ou por circunstâncias
sociais. Portanto o lado positivo do princípio passa a ser a neutralização
destes fatores, na extensão que as instituições sociais possam arcar com
este objetivo. Como o modelo meritocrático ainda faz essas distinções
arbitrárias, cabe a interpretação da democracia igualitária neutralizar as
fontes de injustiça da estrutura básica da sociedade. “Assim parece razoável
e geralmente aceitável que ninguém deva ser favorecido ou desfavorecido
pela sorte natural ou por circunstâncias sociais em decorrência da escolha
de princípios. Também parece haver amplo consenso sobre o fato de que
seria impossível adaptar princípios às condições de um caso pessoal.” (TJ,
pg. 20)

“Nessa primeira abordagem, o segundo princípio se aplica à distribuição de renda e


riqueza e ao escopo das organizações que fazem uso de diferenças de autoridade e de
responsabilidade. Apesar de a distribuição de riqueza e renda não precisar ser igual,
ela deve ser vantajosa para todos e, ao mesmo tempo, as posições de autoridade e
responsabilidade devem ser acessíveis a todos. Aplicamos o segundo princípio
mantendo as posições abertas, e depois, dentro desse limite, organizando as
desigualdades econômicas e sociais de modo que todos se beneficiem.” (pg. 65)

“A injustiça, portanto, se constitui simplesmente de desigualdades que não


beneficiam a todos.” (pg. 66)

“Como discutirei adiante (£14), nenhum dos dois princípios se aplica a distribuições
de determinados bens a indivíduos particulares que podem ser identificados por seus
próprios nomes.” (pg. 68-69)

6.1 O princípio da equidade de oportunidades


“Em primeiro lugar, porém, devo notar que as razões da exigência de posições
abertas não são unicamente, nem mesmo principalmente, os de eficiência. (...) Ele [o
princípio das posições abertas] expressa a convicção de que se algumas posições não
estão abertas a todos de modo equitativo, os excluídos estariam certos em sentir-se
tratados injustamente, mesmo que se beneficiassem dos maiores esforços daqueles
autorizados a ocupa-las. Sua queixa seria justificada não só porque eles foram
excluídos de certas recompensas externas geradas pelos cargos, mas porque foram
impedidos de experimentar a realização pessoal que resulta de um exercício
habilidoso e devotado dos deveres sociais. Seriam privados de uma das principais
formas de bem humano.” ( TJ, pg. 89-90)
6.2 O princípio da diferença
PRINCÍPIO DA REPARAÇAO CONTRA AS ARBITRARIEDADES: “Em primeiro
lugar, podemos observar que o princípio da diferença dá algum peso às
considerações preferidas pelo princípio da reparação. De acordo com esse
último princípio, desigualdades imerecidas exigem reparação; e como
desigualdades de nascimento e dotes naturais são imerecidas, elas devem ser
de alguma forma compensadas. Assim, o princípio determina que a fim de
tratar as pessoas igualitariamente, de proporcionar uma genuína igualdade
de oportunidades, a sociedade deve dar mais atenção àqueles com menos
dotes inatos e aos oriundos de posições sociais menos favoráveis. A ideia é de
reparar o desvio de contingencias na direção da igualdade.” (pg. 107) // Mas
“o princípio da diferença certamente não é o princípio da reparação. Ele não
exigem que a sociedade tente contrabalançar as desvantagens como se fosse
esperado de todos que competissem numa base equitativa em uma mesa
corrida.” (pg 107). Isso porque o princípio da diferença dá um objeto mais
definido para a aplicação da reparação, no caso, a estrutura básica da
sociedade. A intenção é corrijam-se os pontos de partida que geram e
perpetuam as “injustiças imerecidas”, isto é, aquelas fruto do acaso e da
loteria social. “Um outro ponto é que o princípio da diferença expressa uma
concepção de reciprocidade . É um princípio de benefício mútuo.” (pg. 109)

OS MAIS-FAVORECIDOS: “Assim, os mais favorecidos, quando consideram a


questão a partir de uma perspectiva geral, reconhecem que o bem-estar de
cada um depende de um esquema de cooperação social sem o qual ninguém
teria uma vida satisfatória; reconhecem também que que só podem esperar
uma cooperação voluntária de todos se os termos do esquema forem
razoáveis. Então, consideram-se já compensados, como efetivamente estão,
pelas vantagens as quais ninguém (inclusive eles próprios) tinham um
direito prévio.” (pg. 110)

EXPECTATIVAS LEGÍTIMAS VIRANDO DIREITO: “Ora, é verdade que,


existindo um sistema justo de cooperação como uma estrutura de regras
comuns, e estando as expectativas fixadas por ele, aqueles que, com a
perspectiva da melhorarem a sua condição, fizerem o que o sistema promete
recompensar, tem o direito de ver suas expectativas realizadas. Nesse
sentido, os mais afortunados, tem o direito a sua melhor situação; suas
reivindicações são expectativas legítimas estabelecidas pelas instituições
sociais e a comunidade é obrigada a satisfazê-las. Mas esse sentido de mérito
é o sentido de se ter direito a alguma coisa. Ele pressupõe a existência de um
esquema de cooperação vigente e é irrelevante para a questão de saber se
esse próprio esquema deve ser concebido de acordo com o princípio da
diferença ou obedecendo a algum critério. (£48). (pg. 110)

ARGUMENTO FINAL:“Não merecemos nosso lugar na distribuição de dotes


inatos, assim como não merecemos nosso lugar inicial de partida na
sociedade. Também é problemática a questão de saber se merecemos o
caráter superior que nos possibilita fazer o esforço de cultivar nossas
habilidades; pois esse caráter depende em grande parte de circunstâncias
familiares e sociais felizes no início da vida, às quais não podemos alegar
que temos direito. A noção de mérito não se aplica aqui. Com certeza, os
mais afortunados tem um direito aos seus dotes naturais, como qualquer
outra pessoa; esse direito é coberto pelo primeiro princípio da liberdade
básica, que protege a integridade da pessoa. E assim, os mais favorecidos
tem direito a qualquer coisa que possam obter de acordo com as regras de
um sistema equitativo de cooperação social. Nosso problema é saber como
esse esquema, a estrutura básica da sociedade, deve ser concebido. De um
ponto de vista geral apropriado, o princípio da diferença parece aceitável
tanto para os indivíduos mais favorecidos quanto para os menos
favorecidos.” (pg. 111)
TALENTOS NATURAIS COMO BENS-COMUNS“O princípio da diferença representa,
com efeito, um consenso em se considerar, em certos aspectos, a distribuição de
talentos naturais como um bem comum, em partilhar os maiores benefícios sociais e
econômicos possibilitados pela complementaridade dessa distribuição.” (pg. 108)
“Por outro lado, uma vez que se aceita o princípio da diferença, as maiores
habilidades são consideradas como um bem social a ser usado para o benefício
comum.” (pg. 115)

ORDENANDO A ESTRUTURA BÁSICA PARA ELA PONHA AS CONTINGÊNCIAS A


TRABALHAR PELOS MENOS DESFAVORECIDOS: “Ninguém merece a maior
capacidade natural que tem, nem um ponto de partida mais favorável na sociedade.
Mas, é claro, isso não é motivo para ignorar essas distinções, muito menos para
eliminá-las. Em vez disso, a estrutura básica pode ser ordenada de modo que as
contingências trabalhem para o bem dos menos favorecidos. Assim somos levados ao
princípio da diferença se desejamos montar o sistema social de modo que ninguém
ganhe ou perca devido seu lugar arbitrário na distribuição de dotes naturais ou à sua
posição inicial na sociedade sem dar ou receber benefícios compensatórios em
troca.” (pg. 108)

FRATERNIDADE: “O princípio da diferença, entretanto, parece corresponder a uma


significado natural de fraternidade: ou seja, a ideia de não querer ter maiores
vantagens, exceto quando isso traz benefícios para os outros que estão em pior
situação. A família, em sua concepção ideal, e muitas vezes na prática, é um lugar
em que o princípio de maximização da soma da vantagem é rejeitado. Os membros
de uma família geralmente não desejam ganhar a não ser que possam fazer isso de
modos que promovam os interesses dos outros.” (pg. 113)

“uma vez que o aceitarmos, podemos associar as ideias tradicionais de liberdade,


igualdade e fraternidade com a interpretação democrática dos dois princípios da
justiça da seguinte maneira: a liberdade corresponde ao primeiro princípio, a
igualdade à ideia de igualdade no primeiro princípio juntamente com a igualdade
equitativa de oportunidades, e a fraternidade corresponde ao princípio da diferença.
Desse modo encontramos um lugar para a concepção da fraternidade na
interpretação democrática dos dois princípios, e percebemos que ela impõe uma
exigência definida sobre a estrutura básica da sociedade.” (pg. 113)

7. Expectativas legítimas, não merecimento

7.1 Merecer vs. Ter direito

7.2 O espaço da autonomia individual

AS EXPECTATIVAS DECORREM DA AÇÃO CONFORME OS PRINCÍPIOS, E NÃO


CONFORME A EXPECTATIVA DE RECOMENSA SUBJETIVA DO AGENTE: “A
definição de Aristóteles claramente pressupõe, todavia, uma explicação do
que propriamente pertence a uma pessoa e do que lhe é devido. Ora, tais
direitos muitas vezes derivam, creio eu, de instituições sociais e das
expectativas legítimas que elas originam. Não há motivo para pensar que
Aristóteles discordaria disso, e ele certamente tem uma concepção de justiça
social para explicar essas pretensões. A definição que adoto objetiva
explicar-se diretamente ao caso mais importante, a justiça da estrutura
básica. Não há conflito com a noção tradicional. ”(pg. 12)

“Além disso, a ideia da distribuição de acordo com a virtude não consegue distinguir
entre mérito moral e expectativas legítimas. Assim, é verdade que, quando pessoas e
grupos participam de organizações justas, eles fazem reivindicações mútuas
definidas pelas regras publicamente reconhecidas. Tendo feito várias coisas,
incentivados pelas organizações existentes, essas pessoas e grupos tem agora certos
direitos, e a distribuição justa das partes honra essas reivindicações. Um sistema
justo, portanto, determina aquilo a que os homens tem direito; satisfaz as suas
expectativas legítimas, que são fundadas em instituições sociais. Mas aquilo a que
elas tem direito não é proporcional nem depende do valor intrínseco das pessoas. Os
princípios da justiça que regulam a estrutura básica e especificam os deveres e
obrigações dos indivíduos não mencionam o mérito moral, e as partes distributivas
não tendem a corresponder-lhe.” (pg. 343)

“Simplesmente reflete o fato observado antes (£17) de que um dos pontos fixos de
nossos juízos morais é a opinião de que ninguém merece o seu lugar na distribuição
de dotes naturais mais do que merece o seu lugar de partida inicial na sociedade.”
(pg. 343)