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Sumário

Meritocracia e Responsabilidade Individual no Igualitarismo de John Rawls e Ronald Dworkin -


Mariana Ferrari de Oliveira..........................................................................................................2
Two cheers for meritocracy – David Miller...................................................................................5
In: The Journal of Political Philosophy: Volume 4, Number 4, 1996, pg. 277-301........................5
Uma teoria da justiça – John Rawls.................................................................................6
O Liberalismo Político – John Rawls............................................................................................24
O liberalismo igualitário – Sociedade democrática e justiça internacional – Álvaro de Vita – São
Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.............................................................................................42
Meritocracia e Responsabilidade Individual no Igualitarismo
de John Rawls e Ronald Dworkin - Mariana Ferrari de Oliveira

Definição de meritocracia:
Poderíamos defini-la, no nível ideológico, como um conjunto de valores que
postula que as posições dos indivíduos na sociedade devem ser consequência do
mérito de cada um. Ou seja, do reconhecimento público da qualidade das
realizações individuais (BARBOSA, 2003, p. 22).

A preocupação da autora no trabalho é conjugar meritocracia com igualdade (pg. 7)

Dimensão negativa da meritocracia  impede benefícios provenientes de


hereditariedade, posição social, renda, etc  ou seja, “carrega um forte conteúdo
igualitário”. A máxima é: “todos tem o mesmo direito de competir em igualdade de
condições”.

Dimensão positiva da meritocracia  o desempenho individual como norma da


regulação social  Gera mais desigualdade.

Michael Walzer faz uma diferenciação entre mérito e qualificação no livro Esferas da
Justiça.

“No entanto, da perspectiva da justiça distributiva de que este trabalho tratará - a


teoria de justiça de John Rawls, são duas as dificuldades trazidas pela questão da
meritocracia. A primeira é que a igualdade equitativa de oportunidades requer que
todos tenham as mesmas oportunidades de obter as qualificações relevantes para
as posições ocupacionais e cargos mais valorizados em organizações econômicas e
instituições políticas. E a segunda é que, mesmo que uma “meritocracia equitativa”
seja garantida, isto é, mesmo que a igualdade equitativa de oportunidades seja
assegurada, é preciso que as instituições básicas da sociedade, políticas e
econômicas, sejam reguladas por um princípio de reciprocidade, que garanta que os
mais qualificados e os menos talentosos (aqueles cuja capacidade produtiva tem
menor valor de mercado) possam viver juntos, sob um mesmo sistema de
cooperação social, em um pé de igualdade social e política.” (pg. 9-10)

Igualdade equitativa de oportunidades:

“Thomas Nagel (2003, p. 69), ao analisar o liberalismo de John Rawls, ressalta que,
embora o princípio da igualdade de oportunidades seja fortemente relacionado a
posições liberais, ele engloba dois significados distintos: um negativo e outro
positivo. O primeiro seria negativo por denotar uma ausência. Logo, não há
barreiras na competição por posições sociais e econômicas, ou seja, ninguém pode
ser impedido de concorrer a um cargo, se possuir as qualificações necessárias para
exercê-lo. Dessa forma, o princípio que Rawls denomina “carreiras abertas aos
talentos” seria um princípio negativo de igualdade de oportunidades. No entanto,
não ser impedido de participar de uma competição não é o mesmo que competir
em igualdade de condições, não significa ter chances reais de vitória. Uma questão
é ter as mesmas oportunidades de participar de uma concorrência, outra, bastante
distinta, é ter as mesmas oportunidades de desenvolver os próprios talentos e
habilidades para participar da competição por posições valorizadas em condições
equitativas. Esta, portanto, constituiria a igualdade positiva de oportunidades.
Positiva, porque esta não se satisfaz apenas com uma ideia de ausência de
obstáculos. Ela requer mais, demandando uma maior interferência por parte do
Estado, para que todos possam competir com chances iguais de ganhar. É o que
Rawls nomeia de “igualdade equitativa de oportunidades”.”

Ou
“Diante disso, críticos dessa formalidade sustentam que não basta haver uma
igualdade de oportunidades para concorrer a um cargo, e sim uma igualdade de
oportunidades para se desenvolverem as qualificações necessárias para enfrentar
essa concorrência com as mesmas chances de vitória. Isto é o que exige o princípio
da igualdade substantiva de oportunidades. Princípio este, denominado de
“igualdade equitativa de oportunidades” por John Rawls. (pg. 12)”

Level playing field:


Aqui, deve-se nivelar o ponto de partida de todos e depois as próprias escolhas
individuais ditarão o curso dos resultados sociais alcançados. Dessa maneira, os
teóricos deste ideal de justiça distributiva afirmam que só devem ser eliminadas as
desigualdades provenientes de fatos não escolhidos pelos indivíduos, tais como: a
família em que a pessoa nasceu ou seus talentos naturais. Já aquelas resultantes
das opções dos mesmos, dadas condições iniciais iguais e uma estrutura social
equitativa, não devem ser extintas.

O problema da loteria natural:


O ponto é que características pessoais como empenho ou a disposição de fazer
esforço, classificadas como habilidades naturais, que normalmente são vistas como
traços do caráter de cada um que estão dentro do âmbito da responsabilidade
individual, desenvolvem-se dentro de um arcabouço familiar, de uma classe social,
ou seja, de circunstâncias sociais as mais diversas. Assim, o social exerce forte
influência sobre o natural. Além do mais, não há como “igualar” a cultura e a
estrutura familiar das pessoas, a fim de eliminar as conseqüências da loteria social,
não, pelo menos, a um custo tolerável.

Liberdade, igualdade e fraternidade:


Dito isso, temos que a justiça como equidade consegue abarcar simultaneamente
três
conceitos clássicos: a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O primeiro princípio
de justiça rawlsiano está associado à liberdade e à igualdade, sendo que esta
também está presente no princípio da igualdade equitativa de oportunidades e, por
fim, a fraternidade se manifesta através do princípio de diferença (RAWLS, 2008, p.
127). (pg. 35)

CONCLUSÃO:
Retomando, agora, a nossa pergunta: que espaço a igualdade democrática deixa
para a
meritocracia, quando invocada para justificar desigualdades socioeconômicas na
sociedade?
Nenhum. Essa interpretação dos princípios da justiça elimina toda e qualquer
possibilidade de alcançarmos uma sociedade meritocrática. Como afirma Rawls,
Não merecemos nosso lugar na distribuição de aptidões inatas, assim como não
merecemos nosso lugar inicial na sociedade. Também é problemática a situação de
saber se merecemos o caráter superior que nos possibilita fazer o esforço de
cultivar
nossas capacidades, pois esse caráter depende, em grande parte, de circunstâncias
familiares e sociais afortunadas no início da vida, pelas quais não temos nenhum
crédito. A ideia de mérito não se aplica aqui (2008, p. 124).

Respondendo minha pergunta de pesquisa:7


Vale ressaltar que seria um equívoco pensar que a justiça como equidade recusa
inteiramente a meritocracia. O que é rejeitado é o conceito de mérito como
princípio
fundamental de justiça social. Porém, Rawls (2003, p. 111) admite que temos o
direito de usufruir das aptidões que adquirimos e das posições sociais que
alcançamos ao longo da vida, desde que tudo isso tenha sido conquistado em
condições equitativas. Nestes casos, portanto, é válida a ideia de merecimento.
(OLIVEIRA, pg, 37)
Então, o que sobra da meritocracia para Rawls?
Sobre o que pode-se esperar de um arranjo institucional justo
Disso tudo se infere que se um arranjo institucional justo deve dar a cada um aquilo
que lhe é devido, segundo as normas do sistema, também é verdade que o que lhe
é devido não tem qualquer relação com seu valor moral. (pg. 38)
Two cheers for meritocracy – David Miller

In: The Journal of Political Philosophy: Volume 4, Number 4, 1996, pg. 277-
301

Definição de meritocracia: By this I mean the ideal of a society in which each


person’s chance to acquire positions of advantage and the rewards that go with
them depends entirely on his or her talent and effort. (pg. 277)

O aspecto progressivo da meritocracia: It has usually been understood as a


progressive ideal, in the sense that it serves to criticize social arrangements based
on inherited position or privileges: la carriire ouverte aux talents versus the ancien
regime. (MILLER, 1996, pg. 277)

Indeed, we are asking people to set aside principles of action that come naturally to
them-favouring your family, your friends, your coreligionists, those who have done
you favours in the past, and so forth-and which have cemented societies together
throughout human history. Meritocracy is in one sense a profoundly unnatural way
of allocating social advantages. (pg. 278)

Crítica neoliberal a meritocracia (HAYEK): The neo-liberal critique, represented most


notably by Hayek, sees meritocracy as the Trojan horse of socialism (or one of
them). If we say that a person’s share of social advantages should depend upon his
or her merits, Hayek argues, we extend a principle that may at best be appropriate
within an organization to cover a whole society, and in doing so we necessarily
undercut the free markets. (pg. 279)

Crítica da esquerda (RAWLS): Philosophers of the left, on the other hand, routinely
criticize meritocracy on the ground that it replaces a concern for equality of
outcome with a concern for equality of opportunity: it is interested only in ensuring
that positions of advantage are fairly allocated, instead of seeking to reduce or
eliminate economic and other social inequalities. Moreover, in doing so it justifies
these inequalities on specious grounds, for how can people be said to deserve the
talents and skills that form the basis of merit? As Rawls famously puts it, ‘it seems
to be one of the fixed points of our considered judgements that no one deserves his
place in the distribution of native endowments, any more than one deserves one’s
initial starting place in society’ (pg. 279)

Crítica feminsita/racial: A third line of attack comes from feminists and champions of
ethnic minorities who see meritocracy as standing in the way of affirmative action
programmes that reserve educational places or jobs for members of these groups,
or at least weight the selection process in their favour. (pg. 279)

A questão da meritocracia como parte do senso público de justiça : I should add


that in Rawls’s particular case, it appears that he is prohibited from rejecting desert
wholesale by his idea that principles of justice should not rest on controversial
doctrines that cannot be given a public justification. The argument that determinism
is true, and that it excludes desert is surely such a doctrine. It is not part of the
‘public political culture of a democratic society’ that no one ever deserves anything.
So Rawls must rest his case on the more limited claim that people do deserve
things, but not benefits which depend upon native endowments for which they can
claim no credit. (pg. 281)
Uma teoria da justiça – John Rawls
£1- O papel da justiça

“A justiça é a primeira virtude das instituições sociais, como a verdade o é dos


sistemas de pensamento.” (pg. 3)s

INVIOLABILIDADE DA PESSOA E OS LIMITES DA JUSTIÇA: “Cada pessoa possui uma


inviolabilidade fundada na justiça que nem mesmo o bem-estar da sociedade como
um todo pode ignorar. Por essa razão, a justiça nega que a perda da liberdade de
alguns se justifique por um bem maior partilhado por outros. Não permite que os
sacrifícios impostos a uns poucos tenham menos valor que o total maior das
vantagens desfrutadas por muitos. Portanto numa sociedade justa as liberdades da
cidadania igual são consideradas invioláveis; os direitos assegurados pela justiça
não estão sujeitos à negociação política ou ao cálculo de interesses sociais. A única
coisa que nos permite aceitar uma teoria errônea é a falta de uma teoria melhor; de
forma análoga, uma injustiça é tolerável somente quando é necessária para evitar
uma injustiça ainda maior.” (pg.4)

OS PRESSUPOSTOS QUE NOS LEVAM A ASSUMIR PRINCÍPIOS DE JUSTIÇA: “Vamos


assumir, para fixar ideias, que uma sociedade é uma associação mais ou menos
auto-suficiente de pessoas que em suas relações mútuas reconhecem certas regras
de conduta como obrigatórias e que, na maioria das vezes, agem de acordo com
elas. Suponhamos também que essas regras especifiquem um sistema de
cooperação concebido para promover o bem dos que fazem parte dela. Então,
embora uma sociedade seja um empreendimento cooperativo visando vantagens
mútuas, ela é tipicamente marcada por um conflito bem como por uma identidade
de interesses. Há uma identidade de interesses porque a cooperação social
possibilita que todos tenham uma vida melhor da que teria qualquer um dos
membros se cada um dependesse de seus próprios esforços. Há um conflito de
interesses porque as pessoas não são indiferentes no que se refere a como os
benefícios maiores produzidos pela colaboração mútua são distribuídos, pois para
perseguir seus fins cada um prefere uma participação maior a uma menor. Exige-se
um conjunto de princípios para escolher entre várias formas de ordenação social
que determinam essa divisão de vantagens e para selar um acordo sobre as partes
distributivas adequadas. Esses princípios são os princípios da justiça social: eles
fornecem um modo de atribuir direitos e deveres nas instituições básicas da
sociedade e definem a distribuição apropriada dos benefícios e encargos da
cooperação social.” (pg. 5)

A SOCIEDADE BEM-ORDENADA É UMA SOCIEDADE DA RAZÃO PÚBLICA: “Digamos


agora que uma sociedade é bem-ordenada não apenas quando está planejada para
promover o bem de seus membros mas quando é também efetivamente regulada
por uma concepção política de justiça. Isto é, trata-se de uma sociedade na qual (1)
todos aceitam e sabem que os outros aceitam os mesmos princípios de justiça, e (2)
as instituições sociais básicas geralmente satisfazem, e geralmente se sabe que
satisfazem, esses princípios.” (pg. 5)

A INJUSTIÇA: “Desse modo, os que defendem outros concepções de justiça podem


ainda assim concordar que as instituições são justas quando não se fazem
distinções arbitrárias entre as pessoas na atribuição de direitos e deveres básicos e
quando as regras determinam um equilíbrio adequado entre reinvindicaçãoes
concorrentes das vantagens da vida social. Os homens conseguem concordar com
essa descrição de instituições justas porque as noções de uma distinção arbitrária e
de um equilíbrio apropriado, que se incluem no conceito de justiça, ficam abertas à
interpretação de cada um, de acordo com os princípios de justiça que ele aceita.
Esses princípios determinam quais semelhanças e diferenças entre as pessoas são
relevantes na determinação de direitos e deveres e especificam qual divisão de
vantagens é apropriada.” (pg. 6) – A TEORIA RAWLSIANA É, PORTANTO, UMA TEORIA
DA RESTRIÇÃO RACIONAL, E ASSIM SENDO, RAZOÁVEL. PARTINDO-SE DA CONDIÇÃO
DE IGUALDADE CIDADÃ, DÃO-SE ESSES CIDADÃOS SUAS PRÓPRIAS REGRAS, E A
ELAS SEGUEM. AO SEGUI-LAS, CONFORMAM OS MAIS DIVERSOS E PARTICULARES
PLANOS RACIONAIS DE VIDA ÀS RESTRIÇÕES DOS PRINCÍPIOS. PARTE-SE DA
CONDIÇÃO BÁSICA DE CIDADÃO LIVRE E IGUAL, PRA CONDIÇÃO DE CIDÃDÃO
POLÍTICO QUE AUTO-DETERMINA-SE. NESTA AUTODETERIMANÇÃO, FORTALECE SUA
VISÃO DE EU.

VÉU DE IGNORÂNCIA: “Para representar as restrições desejadas imagina-se uma


situação na qual todos estejam privados desse tipo de informação. Fica excluído o
conhecimento dessas contingências que criam disparidades entre os homens e
permitem que eles se orientem pelos seus preconceitos. Desse modo chega-se ao
véu de ignorância de maneira natural. O conceito não deve causar nenhuma
dificuldade se tivermos em mente as restrições aos argumentos que expressa. A
qualquer momento podemos utilizar a posição original, por assim dizer,
simplesmente obedecendo a um certo procedimento, isto é, argumentando em
defesa de princípios da justiça de acordo com essas restrições. (pg. 21)

A PRIORIDADE DO JUSTO SOBRE O BEM: “Consequentemente na justiça como


equidade não se tomam as tendências e inclinações dos homens como fatos
admitidos, qualquer que seja a natureza, e depois se procura a melhor maneira de
realiza-las. Pelo contrário, seus desejos e aspirações são restringidos desde o início
pelos princípios de justiça que especificam os limites que os sistemas humanos de
finalidades devem respeitar. Podemos expressar essa ideia dizendo que na justiça
como equidade o conceito de justo precede o de bem. Um sistema social justo
define o escopo no âmbito do qual os indivíduos devem desenvolver seus objetivos,
e oferece uma estrutura de direitos e oportunidades e meios de satisfação pelos
quais e dentro dos quais esses fins podem ser equitativamente perseguidos. A
prioridade da justiça se explica, em parte, pela aceitação da ideia de que os
interesses que exigem a violação da justiça não tem nenhum valor. Não tendo
absolutamente nenhum mérito, eles não podem anular as reinvindicações da
justiça.” (pg. 34)

POSIÇÃO ORIGINAL COMO STATUS DE CIDADANIA IGUAL: “Naturalmente a finalidade


dessas condições é representar a igualdade entre os seres humanos como pessoas
éticas, como criaturas que tem uma concepção do seu próprio bem e que são
capazes de ter um senso de justiça. Toma-se como base da igualdade a similaridade
nesses dois pontos. Os sistemas objetivos não são classificados por seu valor; e
supõe-se que cada homem tenha a capacidade necessária para entender quaisquer
princípios que sejam adotados e agir de acordo com eles. Juntamente com o véu de
ignorância, essas condições definem os princípios da justiça como sendo aqueles
que pessoas racionais preocupadas em promover seus interesses consensualmente
aceitariam em condições de igualdade nas quais ninguém é consciente de ser
favorecido ou desfavorecido por contingências sociais e naturais.” (pg. 21)

EQUILIBRIO REFLEXIVO: “Por meio desses avanços e recuos, às vezes alterando as


condições das circunstâncias em que se deve obter o acordo original, outras vezes
modificando nossos juízos e conformando-o com os novos princípios, suponho que
acabaremos encontrando a configuração da situação inicial que ao mesmo tempo
expresse pressuposições razoáveis e produza princípios que combinem com nossas
convicções devidamente apuradas e ajustadas. A esse estado de coisas eu me refiro
como equilíbrio reflexivo. Trata-se de um equilíbrio porque finalmente nossos
princípios e opiniões coincidem; e é reflexivo porque sabemos com quais princípios
nossos julgamentos se conformam e conhecemos as premissas das quais derivam.”
(pg. 23)

£6 – Algumas disparidade inter-relacionadas

“A justiça nega que a perda da liberdade para alguns se justifique por um bem
maior partilhado por outros. O raciocínio que equilibra os ganhos e as perdas de
diferentes pessoas como se elas fossem uma pessoa só fica excluído. Portanto,
numa sociedade justa as liberdades básicas são tomadas como pressupostos e os
direitos assegurados pela justiça não estão sujeitos à negociação política ou ao
cálculo dos interesses sociais”. (pg. 30)

£2 – O objeto da justiça

O FOCO NA ESTRUTURA BÁSICA (FAZER AQUI UMA DESCRIÇÃO MELHOR DAS


INSTITUIÇÕES EM RAWLS):“Muitas espécies diferentes de coisas são consideradas
justas e injustas: não apenas as leis, as instituições e os sistemas sociais, mas
também determinadas ações de muitas espécies, incluindo decisões, julgamentos e
imputações. Também chamamos de justas e injustas as atitudes e disposições das
pessoas, e as próprias pessoas. Nosso tópico, todavia, é o da justiça social. Para nós
o objeto primário da justiça é a estrutura básica da sociedade, ou mais exatamente,
a maneira pela qual as instituições sociais mais importantes distribuem direitos e
deveres fundamentais e determinam a divisão de vantagens provenientes da
cooperação social. (pg. 7-8)

EXEMPLOS DE INSTITUIÇÕES MAIS IMPORTANTES: “Por instituições mais importantes


quero dizer a constituição política e os principais acordos econômicos e sociais.
Assim, a proteção legal da liberdade de pensamento e de consciência, os mercados
competitivos, a propriedade particular no âmbito dos meios de produção e a família
monogâmica constituem exemplos das instituições sociais mais importantes.
Tomadas em conjunto como um único esquema, as instituições sociais mais
importantes definem os direitos e deveres dos homens e influenciam seus projetos
de vida, o que eles podem esperar e vir a ser e o bem-estar econômico que podem
almejar.” (pg. 8)

O MOTIVO DO FOCO NA ESTRUTURA BÁSICA: “A estrutura básica é o objeto primário


da justiça porque (a) seus efeitos são profundos e (b) estão presentes desde o
começo. Nossa noção intuitiva é que essa estrutura contém várias posições sociais
[[igualdade equitativa de oportunidade]] e que homens nascidos em condições
diferentes tem expectativas de vida diferentes, determinadas, em parte, pelo
sistema político bem como pelas circunstâncias econômicas e sociais [[princípio da
diferença]]. Assim as instituições da sociedade favorecem certos pontos de partida
mais que outros. [[e por isso a meritocracia não é suficientes. Seguir para o modelo
de igualdade democrática.]] Essas são desigualdades especialmente profundas. Não
apenas são difusas, mas afetam desde o início as possibilidades de vida dos seres
humanos; contudo, não podem ser justificadas mediante um apelo às noções de
mérito ou valor. É a essas desigualdades, supostamente inevitáveis na estrutura
básica de qualquer sociedade, que os princípios da justiça social devem ser
aplicados em primeiro lugar. [[prioridade da justiça sobre a eficiência]]. (pg. 8) – OU
SEJA, O PRINCÍPIO DA DIFERENÇA TENTA CORRIGIR OS RISCOS DA ARBITRARIEDADE
MORAL (SEJA SIMPLESMENTE NA VIDA SOCIAL, OU NA POSIÇÃO ORIGINAL)

IDEAL SOCIAL FORMA A CONCEPÇÃO DE COOPERAÇÃO SOCIAL: “Deve-se, então,


considerar que uma concepção da justiça social fornece primeiramente um padrão
pelo qual se devem avaliar aspectos distributivos da estrutura básica da sociedade.
[aspecto normativo]. Esse padrão, porém, não deve ser confundido com os
princípios que definem outras virtudes, pois a estrutura básica e as organizações
sociais em geral podem ser eficientes ou ineficientes, liberais ou não-liberais, e
muitas outras coisas, bem como justos ou injustos. Uma concepção completa,
definidora de princípios para todas as virtudes da estrutura básica, juntamente com
seus respectivos pesos quando conflitantes entre elas, é mais que uma concepção
de justiça; é um ideal social. Os princípios da justiça são apenas uma parte, embora
talvez a mais importante, de uma tal concepção. Um ideal social está, por sua vez,
ligado a uma concepção de sociedade, uma visão do modo como os objetivos e
propósitos da cooperação social devem ser entendidos. As diversas concepções da
justiça são o resultado de diferentes noções de sociedade em oposição ao conjunto
de visões opostas das necessidades e oportunidades naturais da vida humana. Para
entender plenamente uma concepção da justiça, precisamos explicitar a concepção
de cooperação social da qual ela deriva. (pg. 10-11) – AQUI ABRE UMA
OPORTUNIDADE PARA EXPOR ESSAS CONCEPÇÕES DE CONCEPÇÃO
MERITOCRÁTICA, PARA, NO CAPÍTULO III, CRITICÁ-LAS.

AS EXPECTATIVAS DECORREM DA AÇÃO CONFORME OS PRINCÍPIOS, E NÃO


CONFORME A EXPECTATIVA DE RECOMENSA SUBJETIVA DO AGENTE: “A definição de
Aristóteles claramente pressupõe, todavia, uma explicação do que propriamente
pertence a uma pessoa e do que lhe é devido. Ora, tais direitos muitas vezes
derivam, creio eu, de instituições sociais e das expectativas legítimas que elas
originam. Não há motivo para pensar que Aristóteles discordaria disso, e ele
certamente tem uma concepção de justiça social para explicar essas pretensões. A
definição que adoto objetiva explicar-se diretamente ao caso mais importante, a
justiça da estrutura básica. Não há conflito com a noção tradicional. ”(pg. 12)

3. A ideia principal da teoria da justiça

POSIÇÃO ORIGINAL E ARBITRARIEDADE MORAL “Na justiça como equidade a posição


original de igualdade corresponde ao estado de natureza na teoria tradicional do
contrato social. Essa posição original não é, obviamente, concebida como uma
situação histórica real, muito menos como uma situação puramente hipotética
caracterizada de modo a conduzir a uma certa concepção de justiça. Entre as
características essenciais dessa situação está o fato de que ninguém conhece seu
lugar na sociedade, a posição de sua classe ou o status social e ninguém conhece
sua sorte na distribuição de dotes e habilidade naturais, sua inteligência, força, e
coisas semelhante. Eu até prusumirei que as partes não conhecem suas concepções
do bem ou suas propensões psicológicas particulares. Os princípios da justiça são
escolhidos sob um véu de ignorância. Isso garante que ninguém é favorecido ou
desfavorecido na escolha dos princípios pelo resultado do acaso natural ou pela
contingência de circunstâncias sociais. Uma vez que todos estão numa situação
semelhante e ninguém pode designar princípios para favorecer sua condição
particular, os princípios da justiça são o resultado de um consenso ou ajuste
equitativo. (pg. 13)

As partes na posição original: “Uma característica da justiça como equidade é a de


conceber as partes na situação inicial como racionais e mutuamente
desinteressadas. Isso não significa que as partes sejam egoístas, isto é, indivíduos
com apenas certos tipos de interesses, por exemplo, riquezas, prestígio e poder.
Mas são concebidas como pessoas que não interesse nos interesses das outras.”
(pg. 15)

“O mérito da terminologia do contrato é que ela transmite a ideia de que princípios


da justiça podem ser concebidos como princípios que seriam escolhidos por pessoas
racionais e que assim as concepções da justiça podem ser explicadas e
justificadas.” (pg, 18)

O FATO DA COOPERAÇÃO GERA DEVERES DE COOPERAÇÃO: “A ideia intuitiva é a de


que, pelo fato de o bem-estar de todos depender de um sistema de cooperação
sem o qual ninguém pode ter uma vida satisfatórias, a divisão de vantagens deveria
acontecer de modo a suscitar a cooperação voluntária de todos os participantes,
incluindo-se os menos bem situados. No entanto, só se pode esperar isso se forem
propostos termos razoáveis. Os dois princípios aludidos parecem constituir uma
base equitativa sobre o qual os mais dotados, ou os mais afortunados por sua
posição social, duas coisas de que não podemos ser considerados merecedores,
poderiam esperar a concepção voluntária dos outros quando algum sistema viável
fosse uma condição necessária para o bem-estar de todos. Uma vez que decidimos
buscar uma concepção da justiça que impeça a utilização dos acidentes da dotação
natural e das contingências de circunstâncias sociais como trunfos da demanda de
vantagens econômicas e políticas, somos levados a usar esses princípios. Eles
expressam a consequência do fato de deixarmos de lado aqueles aspectos do
mundo social que parecem arbitrários de um ponto de vista moral. (pg.; 16-7)

£4. A posição original e sua justificativa

O espaço de embate das diferentes concepções: “Está claro, portanto, que eu quero
afirmar que uma concepção da justiça é mais razoável do que outra, ou mais
justificável no que diz respeito à “justiça como equidade” , quando pessoas
racionais na situação inicial escolhem seus princípios para o papel da justiça
preferindo-os aos de outra concepção. As concepções da justiça devem ser
classificadas por sua aceitabilidade perante pessoas nessas circunstâncias.” (pg.
19)

Assim, na posição original, escolhemos princípios que não façam distinções entre os
contratantes baseados na sorte natural ou por circunstâncias sociais. Portanto o
lado positivo do princípio passa a ser a neutralização destes fatores, na extensão
que as instituições sociais possam arcar com este objetivo. Como o modelo
meritocrático ainda faz essas distinções arbitrárias, cabe a interpretação da
democracia igualitária neutralizar as fontes de injustiça da estrutura básica da
sociedade. “Assim parece razoável e geralmente aceitável que ninguém deva ser
favorecido ou desfavorecido pela sorte natural ou por circunstâncias sociais em
decorrência da escolha de princípios. Também parece haver amplo consenso sobre
o fato de que seria impossível adaptar princípios às condições de um caso pessoal.”
(pg. 20)

“Implícita nos contrastes entre o utilitarismo clássico e a justiça como equidade


está a diferença nas concepções fundamentais da sociedade. Num caso, pensamos
numa sociedade bem-ordenada como sendo um sistema de cooperação para a
vantagem recíproca regulada por princípios que as pessoas escolheriam numa
situação inicial que é equitativa; no outro, como sendo a administração eficiente de
recursos sociais para maximizar a satisfação do sistema de desejos construído pelo
observador imparcial a partir de inúmeros sistemas individuais de desejos aceitos
como dados.” (pg. 36)
£10 – As instituições e a justiça formal

“O primeiro objeto dos princípios da justiça social é a estrutura básica da sociedade,


a ordenação das principais instituições sociais em um esquema de cooperação.”
(pg. 57)

“os princípios de justiça para instituições não devem ser confundidos com os
princípios que se aplicam aos indivíduos e às suas ações em circunstâncias
particulares. Esses dois tipos de princípios se aplicam a diferentes sujeitos e devem
ser discutidos separadamente.” (pg. 57-58)

“Ao afirmar que uma instituição, e portanto a estrutura básica da sociedade, é um


sistema público de regras, quero dizer que todos os que estão nela engajados
sabem o que saberiam se essas regras e sua participação na atividade que elas
definem fossem o resultado de um acordo. (...) A publicidade das regras de uma
instituição assegura que aqueles nela engajados saibam quase limites de conduta
devem esperar uns dos outros, e que tipos de ações são permissíveis. Há uma base
comum para a determinação de expectativas mútuas. Além do mais, em uma
sociedade bem-ordenada, regulada de forma efetiva por uma concepção
compartilhada de justiça, também há um entendimento comum quanto ao que é
justo ou injusto.” (pg. 59)

Papel da justiça: atribuir direitos e deveres fundamentais e determinar a divisão de


vantagens advindas da cooperação social. (pg. 61)

“A justiça formal no caso das instituições legais é meramente um aspecto do estado


de direito que apoia e assegura expectativas legítimas.” (pg. 62)

£11 – Os dois princípios de justiça

“A sua formulação pressupõe que, para os propósitos de uma teoria da justiça, a


estrutura social seja considerada como tendo duas partes mais ou menos distintas,
o primeiro princípio se aplicando a uma delas e o segundo princípio à outra. Assim
distinguimos entre os aspectos do sistema social que definem e asseguram
liberdades básicas iguais e os aspectos que especificam e estabelecem as
desigualdades econômicas e sociais. É essencial observar que é possível determinar
uma lista dessas liberdades. As mais importantes entre elas são a liberdade política
(o direito de votar e ocupar um cargo público) e a liberdade de expressão e reunião;
a liberdade de consciência e de pensamento; as liberdades da pessoa, que incluem
a proteção contra a opressão psicológica e a agressão física (integridade da
pessoa); o direito à propriedade privada e a proteção contra a prisão e a detenção
arbitrárias, de acordo com o conceito de estado de direito. Segundo o primeiro
princípio, essas liberdades devem ser iguais.” (pg. 64-65) [[Importante que aqui
ainda não há a ênfase na importância da igualdade política).

“Nessa primeira abordagem, o segundo princípio se aplica à distribuição de renda e


riqueza e ao escopo das organizações que fazem uso de diferenças de autoridade e
de responsabilidade. Apesar de a distribuição de riqueza e renda não precisar ser
igual, ela deve ser vantajosa para todos e, ao mesmo tempo, as posições de
autoridade e responsabilidade devem ser acessíveis a todos. Aplicamos o segundo
princípio mantendo as posições abertas, e depois, dentro desse limite, organizando
as desigualdades econômicas e sociais de modo que todos se beneficiem.” (pg. 65)
“A injustiça, portanto, se constitui simplesmente de desigualdades que não
beneficiam a todos.” (pg. 66)

“Como discutirei adiante (£14), nenhum dos dois princípios se aplica a distribuições
de determinados bens a indivíduos particulares que podem ser identificados por
seus próprios nomes.” (pg. 68-69)

£12 – Interpretações do segundo princípio

Liberdade natural: “No sistema de liberdade natural a distribuição inicial é regulada


pela organização implícita na concepção de carreiras abertas a talentos (como se
definiu anteriormente). Essa organização pressupõe uma base de liberdade igual
(especificada pelo primeiro princípio) e uma economia de mercado livre. Ela exige
uma igualdade formal de oportunidades, no sentido de que todos tem pelo menos
os mesmo direitos legais de acesso a todas as posições sociais privilegiadas. Mas
como não há esforço algum para preservar uma igualdade, ou similaridade, de
condições sociais a não ser na medida em que isso seja necessário para preservar
as instituições básicas indispensáveis, a distribuição inicial de ativos para cada
período de tempo é fortemente influenciada pelas contingências naturais e sociais.
A distribuição existente de renda e riqueza, por exemplo, é o efeito cumulativo de
distribuições anteriores de ativos naturais – ou seja, talentos e habilidades naturais
– conforme eles foram desenvolvidos ou não, e a sua utilização foi favorecida ou
desfavorecida ao longo do tempo por circunstâncias sociais e eventualidades
fortuitas como pela eventualidade de acidentes ou da boa sorte. Intuitivamente, a
mais óbvia injustiça do sistema de liberdade natural é que ele permite que a
distribuição das porções seja influenciada por esses fatores tão arbitrários do ponto
de vista ético.” (pg. 76-77)

Igualdade liberal: “O que chamarei de interpretação liberal tenta corrigir isso


acrescentando à exigência de carreiras abertas a talentos a condição adicional de
uma equitativa igualdade. A ideia aqui é que as posições não devem estar abertas
apenas de um modo formal, mas que todos devem ter uma oportunidade equitativa
de atingi-las.” (pg. 77)

“A interpretação liberal dos dois princípios busca, então, mitigar a influência das
contingências sociais e boa sorte espontânea sobre a distribuição das porções. Para
atingir esse objetivo é necessário impor ao sistema social condições estruturais
básicas adicionais.” (pg. 77)

“Em primeiro lugar, mesmo que funcione perfeitamente eliminando a influência das
contingências sociais, ela ainda permite que a distribuição de renda e riqueza seja
influenciada pela distribuição natural de habilidades e talentos. Dentro dos limites
permitidos pelas organizações básicas, a distribuição das frações é decidida pelo
resultado da loteria da natureza; e, de uma perspectiva ética, esse resultado é
arbitrário. Não há mais motivos para permitir que a distribuição de renda e riqueza
obedeça a distribuição de dotes naturais do que para aceitar que ela se acomode à
causalidade histórica ou social. Além do mais, o princípio da oportunidade
equitativas só pode ser realizado de maneira imperfeita, pelo menos enquanto
existir algum tipo de estrutura familiar. A extensão do desenvolvimento e da função
das capacidades naturais é afetada por todos os tipos de condições sociais e
atitudes de classe. Mesmo a disposição de fazer um esforço, de tentar, e de ser
assim merecedor, no sentido comum do termo, em si mesma depende de
circunstancias sociais e familiares felizes. Na prática, é impossível assegurar
oportunidades iguais de realização e de cultura para os que receberam dotes
semelhantes, e portanto, talvez se prefira adotar um princípio que reconheça esse
fato e também mitigue os efeitos arbitrários da própria loteria natural.” (pg. 78)
“Uma vez que estamos tentando encontrar para eles uma interpretação que trate
todos igualmente como pessoas morais, e que não meça a parte de cada homem
nos benefícios e encargos da cooperação social em função da sua fortuna social ou
sua sorte na loteria natural, a interpretação democrática é a melhor escolhe entre
as quatro alternativas.” (pg. 79)

£13 – A igualdade democrática e o princípio da diferença

“Vimos que o sistema de liberdade natural e a concepção liberal vão além do


princípio da eficiência, criando certas instituições básicas e deixando o resto ao
encargo da justiça procedimental pura. A concepção democrática sustenta que,
embora a justiça procedimental pura possa ser invocada pelo menos em certa
medida, o modo como as interpretações anteriores fazem isso ainda deixa muita
coisa para a causalidade social e natural.” (pg. 84)

£14 – A igualdade equitativa de oportunidades e a justiça procedimental pura

“Em primeiro lugar, porém, devo notar que as razões da exigência de posições
abertas não são unicamente, nem mesmo principalmente, os de eficiência. (...) Ele
[o princípio das posições abertas] expressa a convicção de que se algumas posições
não estão abertas a todos de modo equitativo, os excluídos estariam certos em
sentir-se tratados injustamente, mesmo que se beneficiassem dos maiores esforços
daqueles autorizados a ocupa-las. Sua queixa seria justificada não só porque eles
foram excluídos de certas recompensas externas geradas pelos cargos, mas porque
foram impedidos de experimentar a realização pessoal que resulta de um exercício
habilidoso e devotado dos deveres sociais. Seriam privados de uma das principais
formas de bem humano.” (pg. 89-90)

EXPECTATIVAS LEGÍTIMAS: “Na justiça como equidade, a sociedade é interpretada


como um empreendimento cooperativo para a vantagem de todos. A estrutura
básica é um sistema público de regras que definem um esquema de atividades que
conduz os homens a agirem juntos no intuito de produzir uma quantidade maior de
benefícios e atribuindo a cada um certos direitos reconhecidos a uma parte dos
produtos. O que uma pessoa faz depende do que as regras públicas determinam a
respeito do que ela tem direito de fazer e os direitos de uma pessoa dependem do
que ela faz. Alcança-se a distribuição que resulta desses princípios honrando os
direitos determinados pelo que as pessoas se comprometem a fazer à luz dessas
expectativas legítimas.” (pg. 90)

ESTRUTURA BÁSICA x AVALIAÇÃO INDIVIDUAL: “O papel do princípio da igualde


equitativa de oportunidades é assegurar que o sistema de cooperação seja um
sistema de justiça procedimental pura. A não ser que esse principio seja satisfeito,
não se aplicar [sic] a justiça distributiva, nem mesmo dentro de uma dimensão
restrita. A vantagem prática da justiça procedimental pura é que não é mais
necessário controlar a infindável variedade de circunstâncias nem as posições
relativas mutáveis de pessoas particulares. Evitamos o problema de definir
princípios que deem conta das enormes complexidades que surgiriam se esses
detalhes fossem pertinentes. É um erro focalizar nossa atenção sobre as posições
relativas variáveis dos indivíduos e exigir que toda mudança, considerada como
uma transação única e isolada, seja em si mesma justa. É a organização da
estrutura básica que deve ser julgada, e julgada a partir de um ponto de vista
geral.” (pg. 93)

“Na justiça procedimental pura, então, as distribuições de vantagens não são


avaliadas em primeiro lugar através do confronto entre uma quantia disponível de
benefícios, por um lado, e desejos e necessidades dados de indivíduos
determinados, por outro. A alocação dos itens produzidos ocorre de acordo com o
sistema público de regras, e esse sistema determina o que é produzido, quanto é
produzido, e por que meios. Também determina reivindicações legítimas que,
quando respeitadas, criam a distribuição resultante. Assim, nesse tipo de justiça
procedimental, a correção da distribuição está fundada na justiça do esquema de
cooperação do qual ela surge e na satisfação das reinvindicações de indivíduos
engajados nele. Uma distribuição não pode ser julgada separadamente do sistema
do qual ela é o resultado ou sem levar em conta o que os indivíduos fizeram, de boa
fé, à luz de expectativas estabelecidas. Se perguntarmos de forma abstrata se uma
distribuição de um dado estoque de coisas para indivíduos concretos com desejos e
preferências conhecidas é melhor que uma outra, simplesmente não haverá
resposta para essa pergunta. ” (pg. 94)

£15 – Bens primários sociais como base das expectativas

OS BENS PRIMÁRIOS: “Os bens sociais primários, para apresenta-los em categorias


amplas, são direitos, liberdades e oportunidades, assim como renda e riqueza. (Um
bem primário muito importante é um senso do próprio valor, mas a título de
simplificação, deixo esse item de lado, para retorná-lo bem mais tarde, no £67).
Parece evidente que, em geral, essas coisas correspondem à descrição dos bens
primários. São bens sociais em vista de sua ligação com a estrutura básica, as
liberdades e oportunidades são definidas pelas regras das instituições mais
importantes, e a distribuição de renda e riqueza é por elas reguladas.” (pg 98)

“O BEM É A SATISFAÇÃO DE UM DESEJO RACIONAL:” “A ideia principal é a de que o


bem de uma pessoa é determinado pelo que é para ela o mais racional plano de
vida a longo prazo, dadas circunstâncias razoavelmente favoráveis. Um homem é
feliz quando é mais ou menos bem-sucedido na maneira de realizar seu plano. Para
resumir, o bem é a satisfação de um desejo racional. Devemos supor, então, que
cada indivíduo tem um plano de vida racional delineado de acordo com as
condições com que se defronta. Esse plano é traçado de modo a permitir a
satisfação harmoniosa de seus interesses. Ele programa atividades a fim de que
vários desejos possam ser satisfeitos sem interferências. Chega-se a ele rejeitando
outros planos cuja realização é menos provável, ou que não permitem uma
consecução de objetivos tão abrangente. Dadas as alternativas disponíveis, um
plano racional é aquele que não pode ser aperfeiçoado; não há outro plano que,
levando-se tudo em conta, seja preferível.” (pg. 98)

£16 – Posições sociais relevantes

POSIÇÕES RELAVANTES COMO PONTOS DE PARTIDA BÁSICOS DA SOCIEDADE:“O


objeto primeiro da justiça, como já enfatizei, é a estrutura básica da sociedade. A
razão para isso é que seus efeitos são muito profundos e penetrantes, e presentes
desde o início. Essa estrutura favorece alguns lugares de partida em detrimento de
outros na divisão dos benefícios da cooperação social. São essas desigualdades que
os dois princípios devem regular. Uma vez satisfeitos esses princípios, permite-se
que outras desigualdades surjam, como resultado das ações voluntárias dos
homens de acordo com o princípio da liberdade de associação. Desse modo, as
posições sociais relevantes são, por assim dizer, os lugares de partida generalizados
e agrupados de forma adequada. Ao escolher posições como definidoras do ponto
de vista geral, segue-se a ideia de que os dois princípios tentam mitigar a
arbitrariedade do acaso natural e da boa sorte social.” (pg. 101-102)

CIDADANIA IGUAL COMO PONTO DE PARTIDA:“Na medida do possível, a estrutura


básica deve ser avaliada a partir da posição de cidadania igual. Essa posição é
definida pelos direitos e liberdades exigidos pelo princípio de liberdade igual e pelo
principio da igualdade equitativa de oportunidades. Quando os dois princípios são
satisfeitos, todos são cidadãos iguais, e portanto, todos ocupam essa posição.
Nesse sentido, a cidadania igual define um ponto de vista comum. Os problemas de
deliberação que envolvem as liberdades básicas são resolvidos com referência a
ele.” (pg.102); “Na medida do possível, então, a justiça como equidade analisa o
sistema social a partir da posição de cidadania igual e dos vários níveis de renda e
riqueza.

POSIÇÕES RELEVANTES X REIVINDICAÇÕES INDIVIDUAIS: “É essencial que os juízos


feitos a partir das posições relevantes anulem as reinvindicações que tendemos a
fazer em situações particulares. Nem todos se beneficiam sempre através do que os
dois princípios exigem, se pensamos em nós mesmos em termos de nossas
posições mais específicas.” (pg. 105)

LUGARES DE PARTIDA CONTRA A ARBITRARIEDADE“É necessária uma certa seleção


das posições relevantes para que se obtenha uma teoria coerente da justiça social,
e as posições escolhidas devem estar de acordo com os seus princípios básicos.
Selecionando os assim chamados lugares de partida, obedecemos a ideia de mitigar
os efeitos do acaso natural e da contingência social. Ninguém se deve beneficiar
dessas contingencias, a não ser de maneiras que redundem no bem-estar dos
outros.” (pg. 106)

£17 – A tendência a igualdade

PRINCÍPIO DA REPARAÇAO CONTRA AS ARBITRARIEDADES: “Em primeiro lugar,


podemos observar que o princípio da diferença dá algum peso às considerações
preferidas pelo princípio da reparação. De acordo com esse último princípio,
desigualdades imerecidas exigem reparação; e como desigualdades de nascimento
e dotes naturais são imerecidas, elas devem ser de alguma forma compensadas.
Assim, o princípio determina que a fim de tratar as pessoas igualitariamente, de
proporcionar uma genuína igualdade de oportunidades, a sociedade deve dar mais
atenção àqueles com menos dotes inatos e aos oriundos de posições sociais menos
favoráveis. A ideia é de reparar o desvio de contingencias na direção da igualdade.”
(pg. 107) // Mas “o princípio da diferença certamente não é o princípio da reparação.
Ele não exigem que a sociedade tente contrabalançar as desvantagens como se
fosse esperado de todos que competissem numa base equitativa em uma mesa
corrida.” (pg 107). Isso porque o princípio da diferença dá um objeto mais definido
para a aplicação da reparação, no caso, a estrutura básica da sociedade. A intenção
é corrijam-se os pontos de partida que geram e perpetuam as “injustiças
imerecidas”, isto é, aquelas fruto do acaso e da loteria social. “Um outro ponto é
que o princípio da diferença expressa uma concepção de reciprocidade . É um
princípio de benefício mútuo.” (pg. 109)

TALENTOS NATURAIS COMO BENS-COMUNS“O princípio da diferença representa,


com efeito, um consenso em se considerar, em certos aspectos, a distribuição de
talentos naturais como um bem comum, em partilhar os maiores benefícios sociais
e econômicos possibilitados pela complementaridade dessa distribuição.” (pg. 108)
“Por outro lado, uma vez que se aceita o princípio da diferença, as maiores
habilidades são consideradas como um bem social a ser usado para o benefício
comum.” (pg. 115)

ORDENANDO A ESTRUTURA BÁSICA PARA ELA PONHA AS CONTINGÊNCIAS A


TRABALHAR PELOS MENOS DESFAVORECIDOS: “Ninguém merece a maior
capacidade natural que tem, nem um ponto de partida mais favorável na
sociedade. Mas, é claro, isso não é motivo para ignorar essas distinções, muito
menos para eliminá-las. Em vez disso, a estrutura básica pode ser ordenada de
modo que as contingências trabalhem para o bem dos menos favorecidos. Assim
somos levados ao princípio da diferença se desejamos montar o sistema social de
modo que ninguém ganhe ou perca devido seu lugar arbitrário na distribuição de
dotes naturais ou à sua posição inicial na sociedade sem dar ou receber benefícios
compensatórios em troca.” (pg. 108)
IDEIA CENTRAL DE RALWS [A INJUSTIÇA DA ARBITRARIEDADE]: “A distribuição
natural não é justa nem injusta, nem é injusto que as pessoas nasçam em alguma
posição particular na sociedade. O que é justo ou injusto é o modo como as
instituições lidam com esses fatos.” (pg. 109)

“Na justiça como equidade os homens concordam em se valer dos acidentes da


natureza ou das circunstâncias sociais, apenas quando disso resulta no benefício
comum. Os dois princípios são um modo equitativo de se enfrentar a arbitrariedade
da fortuna, e embora sem dúvida sejam imperfeitas em outros aspectos, as
instituições que satisfazem esses princípios são justas.” (pg. 109)

OS MAIS-FAVORECIDOS: “Assim, os mais favorecidos, quando consideram a questão


a partir de uma perspectiva geral, reconhecem que o bem-estar de cada um
depende de um esquema de cooperação social sem o qual ninguém teria uma vida
satisfatória; reconhecem também que que só podem esperar uma cooperação
voluntária de todos se os termos do esquema forem razoáveis. Então, consideram-
se já compensados, como efetivamente estão, pelas vantagens as quais ninguém
(inclusive eles próprios) tinham um direito prévio.” (pg. 110)

EXPECTATIVAS LEGÍTIMAS VIRANDO DIREITO: “Ora, é verdade que, existindo um


sistema justo de cooperação como uma estrutura de regras comuns, e estando as
expectativas fixadas por ele, aqueles que, com a perspectiva da melhorarem a sua
condição, fizerem o que o sistema promete recompensar, tem o direito de ver suas
expectativas realizadas. Nesse sentido, os mais afortunados, tem o direito a sua
melhor situação; suas reivindicações são expectativas legítimas estabelecidas pelas
instituições sociais e a comunidade é obrigada a satisfazê-las. Mas esse sentido de
mérito é o sentido de se ter direito a alguma coisa. Ele pressupõe a existência de
um esquema de cooperação vigente e é irrelevante para a questão de saber se esse
próprio esquema deve ser concebido de acordo com o princípio da diferença ou
obedecendo a algum critério. (£48). (pg. 110)

ARGUMENTO FINAL:“Não merecemos nosso lugar na distribuição de dotes inatos,


assim como não merecemos nosso lugar inicial de partida na sociedade. Também é
problemática a questão de saber se merecemos o caráter superior que nos
possibilita fazer o esforço de cultivar nossas habilidades; pois esse caráter depende
em grande parte de circunstâncias familiares e sociais felizes no início da vida, às
quais não podemos alegar que temos direito. A noção de mérito não se aplica aqui.
Com certeza, os mais afortunados tem um direito aos seus dotes naturais, como
qualquer outra pessoa; esse direito é coberto pelo primeiro princípio da liberdade
básica, que protege a integridade da pessoa. E assim, os mais favorecidos tem
direito a qualquer coisa que possam obter de acordo com as regras de um sistema
equitativo de cooperação social. Nosso problema é saber como esse esquema, a
estrutura básica da sociedade, deve ser concebido. De um ponto de vista geral
apropriado, o princípio da diferença parece aceitável tanto para os indivíduos mais
favorecidos quanto para os menos favorecidos.” (pg. 111)

FRATERNIDADE: “O princípio da diferença, entretanto, parece corresponder a uma


significado natural de fraternidade: ou seja, a ideia de não querer ter maiores
vantagens, exceto quando isso traz benefícios para os outros que estão em pior
situação. A família, em sua concepção ideal, e muitas vezes na prática, é um lugar
em que o princípio de maximização da soma da vantagem é rejeitado. Os membros
de uma família geralmente não desejam ganhar a não ser que possam fazer isso de
modos que promovam os interesses dos outros.” (pg. 113)

“uma vez que o aceitarmos, podemos associar as ideias tradicionais de liberdade,


igualdade e fraternidade com a interpretação democrática dos dois princípios da
justiça da seguinte maneira: a liberdade corresponde ao primeiro princípio, a
igualdade à ideia de igualdade no primeiro princípio juntamente com a igualdade
equitativa de oportunidades, e a fraternidade corresponde ao princípio da diferença.
Desse modo encontramos um lugar para a concepção da fraternidade na
interpretação democrática dos dois princípios, e percebemos que ela impõe uma
exigência definida sobre a estrutura básica da sociedade.” (pg. 113)

PERIGO DA SOCIEDADE MERITOCRÁTICA: “Ora, parece evidente, à luz dessas


observações, que a interpretação democrática dos dois princípios não conduziria a
uma sociedade meritocrática. Essa forma de ordem social segue o princípio de
carreiras abertas a talentos, e usa a igualdade de oportunidades como um modo de
liberar as energias dos homens na busca da prosperidade econômica e do domínio
político. Existe uma visível disparidade entre a classe mais alta e a classe mais
baixa, tanto nos meios de vida, quanto nos direitos e privilégios da autoridade
organizacional. A cultura dos estratos mais baixos é empobrecida, enquanto a da
elite governante e tecnocrática é solidamente baseada no serviço em prol dos
objetivos nacionais de poder e riqueza. A igualdade de oportunidades significa uma
chance igual de deixar para trás os menos afortunados na busca pessoal de
influência e posição social. Assim, uma sociedade meritocrática é um perigo para
outras interpretações dos princípios de justiça, mas não para a concepção
democrática.” (pg. 114)

£18 – Princípios para indivíduos: o princípio da equidade

OS PRINCÍPIOS PARA A ESTRUTURA BÁSICA DEVEM SER DEFINIDOS ANTES DAS


OBRIGAÇÕES E DEVERES PESSOAIS: “O fato de os princípios para instituições serem
escolhidos antes demonstra a natureza social da virtude da justiça, sua íntima
ligação a práticas sociais que são enfatizadas com tanta frequência pelos idealistas.
Quando Bradley diz que o indivíduo é uma mera abstração, podemos, sem muita
distorção, interpretar seu enunciado como afirmando que as obrigações e os
deveres de uma pessoa pressupõem uma concepção moral das instituições, e,
portanto, que o conteúdo das instituições justas deve ser definido antes que as
exigências para os indivíduos possam ser determinadas. E isso quer dizer que, na
maioria dos casos, os princípios para obrigações e deveres devem ser determinados
depois dos princípios para a estrutura básica.” (pg. 118)

QUOTA JUSTA: “Não devemos lucrar com os trabalhos cooperativos dos outros sem
que tenhamos contribuído com nossa quota justa. Os dois princípios da justiça
definem que o que é uma quota justa no caso de instituições pertencentes a
estrutura básica. Portanto, se essas organizações são justas, cada pessoa recebe
uma quota justa quando todos (inclusive ela) fazem a sua parte.” (pg. 120)

£19 – Princípios para indivíduos: os deveres naturais

“Em contraste com as obrigações, as características dos deveres naturais é que


eles se aplicam a nós independentemente de nossos atos voluntários.” (pg. 122)

DEVER DE JUSTIÇA COMO UM DEVER NATURAL: “Do ponto de vista da justiça como
equidade, um dever natural fundamental é o dever de justiça. Esse dever exige
nosso apoio e obediência às instituições que existem e nos concernem. Ele também
nos obriga a promover organizações justas ainda não estabelecidas, pelo menos
quando isso pode ser feito sem nos sacrificar demais. Assim, se a estrutura básica
da sociedade é justa, ou justa como é razoável esperar que seja dentro de
determinadas circunstâncias, todos tem um dever natural de fazer a sua parte no
esquema existente. Cada um está vinculado a essas instituições
independentemente de seus atos voluntários, sejam eles de execução ou de outro
tipo. Assim, embora os princípios do dever natural sejam derivados de um ponto de
vista contratualista, eles não pressupõem nenhum ato de assentimento, tácito ou
explícito, e nem mesmo nenhum ato voluntário, para que possam ser aplicados.”
(pg. 123)

£47 – Os preceitos de justiça

“Não há tentativa alguma de definir a distribuição justa de bens e serviços com


base na informação sobre as preferências e reinvindicações de indivíduos concretos.
A partir de um ponto de vista adequadamente geral, esse tipo de conhecimento é
considerado irrelevante, e, de qualquer forma, ele introduz complexidades que não
podem ser resolvidas por princípios de simplicidade tolerável com os quais seja
razoável esperar que os homens concordem.” (pg. 335)

“Por último, em vista do lugar secundário do princípio da eficiência na justiça como


equidade, os inevitáveis desvios em relação à perfeição do mercado não são
especialmente preocupantes. É mais importante que um sistema competitivo
conceda espaço a o princípio da livre-associação e da escolha individual de
ocupação, num contexto de igualdade equitativa de oportunidades, e que ele
permita que as decisões dos consumidores determinem os itens a serem produzidos
para fins privados.” (pg 342)

£48 – Expectativas legítimas e mérito moral

“O senso comum tende a supor que a renda e a riqueza, assim como as boas coisas
da vida em geral, deveriam ser distribuídas de acordo com o mérito moral.” (pg.
342)

“Além disso, a ideia da distribuição de acordo com a virtude não consegue distinguir
entre mérito moral e expectativas legítimas. Assim, é verdade que, quando pessoas
e grupos participam de organizações justas, eles fazem reivindicações mútuas
definidas pelas regras publicamente reconhecidas. Tendo feito várias coisas,
incentivados pelas organizações existentes, essas pessoas e grupos tem agora
certos direitos, e a distribuição justa das partes honra essas reivindicações. Um
sistema justo, portanto, determina aquilo a que os homens tem direito; satisfaz as
suas expectativas legítimas, que são fundadas em instituições sociais. Mas aquilo a
que elas tem direito não é proporcional nem depende do valor intrínseco das
pessoas. Os princípios da justiça que regulam a estrutura básica e especificam os
deveres e obrigações dos indivíduos não mencionam o mérito moral, e as partes
distributivas não tendem a corresponder-lhe.” (pg. 343)

“Simplesmente reflete o fato observado antes (£17) de que um dos pontos fixos de
nossos juízos morais é a opinião de que ninguém merece o seu lugar na distribuição
de dotes naturais mais do que merece o seu lugar de partida inicial na sociedade.”
(pg. 343)

RAWLS, John. Uma teoria da justiça. 3o ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

1. O papel da justiça

“A justiça é a virtude primeira das instituições sociais, assim como a verdade o é dos sistemas
de pensamento” (p. 4)

Restrição da teoria I: “Cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem o
bem-estar de toda a sociedade pode desconsiderar” (p.4)
Portanto, pode-se entender essa frase como uma “limitação” básica, ou melhor, como uma
premissa para o desenvolvimento de um sistema de justiça. Por isso que:

“Por conseguinte, na sociedade justa as liberdades da cidadania iguais são consideradas


irrevogáveis; os direitos garantidos pela justiça não estão sujeitos a negociações políticas nem ao
cálculo de interesses sociais.” (p.4)

“Vamos supor, para organizar as ideias, que a sociedade é uma associação de pessoas mais ou
menos auto-suficiente que, em suas relações mútuas, reconhece certas normas de conduta como
obrigatórias e que, na maior parte do tempo, se comportar de acordo com elas. Vamos supor
também que essas normas especificam um sistema de cooperação criado para promover o bem
dos que dele participam. Então, embora a sociedade seja um empreendimento cooperativo que
visa benefício mútuo, está marcada por um conflito, bem como uma identidade, de interesses.
Há identidade de interesses porque a cooperação social torna possível uma vida melhor para
todos do que qualquer um teria se dependesse apenas dos próprios esforços. Há conflito de
interesses porque ninguém é indiferente no que se refere a como são distribuídos os benefícios
maiores produzidos por sua colaboração, pois, para atingir seus fins, cada um prefere uma
parcela maior a uma parcela menor desses benefícios” (p. 4-5)

Temos aqui, uma “declaração de princípios” que fundamenta o papel dos princípios de
justiça.

Princípios de justiça social: “são um modo de atribuir direitos e deveres nas instituições básicas
da sociedade e definem a distribuição apropriada dos benefícios e dos encargos da cooperação
social” (p. 5)

Sociedade bem-ordenada: “(...) é uma sociedade na qual (1) todos aceitam e sabem que os
outros aceitam os mesmos princípios de justiça; e (2) as instituições sociais fundamentais
geralmente atendem, e em geral se sabe que atendem, a esses princípios.” (p. 5)

Questão da Racionalidade e Razoabilidade // Racionalidade estratégica: Racionalidade sem


consideração moral

“Se as inclinações dos seres humanos para o interesse próprio tornam necessária a vigilância
mútua, seu senso público de justiça lhes permite se unir em uma associação segura. Entre
indivíduos com objetivos e propósitos díspares, uma concepção compartilhada de justiça define
os vínculos da amizade cívica.” (p. 5)

“Há discordância acerca de quais princípios devem definir as condições fundamentais da


associação. Não obstante, ainda podemos dizer, apesar dessa discordância, que cada pessoa tem
uma concepção de justiça. Isto é, cada qual compreende a necessidade e está disposto a
corroborar um conjunto característico de princípios para a atribuição de direitos e deveres
fundamentais e para decidir qual ele e os demais consideram ser a distribuição adequada dos
benefícios e dos encargos da cooperação social. Assim, parece natural considerar o conceito de
justiça distinto das diversas concepções de justiça como sendo especificado pelo papel que esses
diferentes conjuntos de princípios, essas diversas concepções, têm em comum.” (p. 6)

Justiça então, pode ser entendido como um denominador comum entre as diversas
concepções de justiça.

Justiça: “Instituições são justas quando não se fazem distinções arbitrárias entre pessoas na
atribuição dos direitos e dos deveres fundamentais, e quando as leis definem um equilíbrio
apropriado entre as reinvindicações das vantagens da vida social que sejam conflitantes entre si.
(p. 6)

“Algum grau de consenso nas concepções de justiça não é, porém, o único pré-requisito para a
viabilidade de comunidades humanas. Há outros problemas sociais fundamentais, em especial
os da coordenação, da eficiência e da estabilidade. Assim, é preciso que os planos dos
indivíduos se encaixem uns nos outros para que suas atividades sejam compatíveis entre si e
possam ser todas realizadas sem que as expectativas legítimas de cada um sofram frustrações
graves. Ademais, a realização desses planos deve levar à realização dos objetivos sociais de
maneira que sejam eficientes e compatíveis com a justiça. E, por fim, o esquema de cooperação
social deve ser estável: deve ser cumprido de maneira mais ou menos regular, com suas normas
básicas cumpridas de fora voluntária.” (p. 7)

Atenção pois aqui, Rawls afirma (sem afirmar) que existiram frustrações de das expectativas,
ele apenas as limita a não serem graves. Além disso, ele ressalta que as normas básicas
devam ser cumpridas de forma voluntária.

2. O objeto da justiça

Definição do “escopo” da investigação: “justiça social” (p. 8)

Objeto da justiça: “Para nós, o objeto principal é a estrutura básica da sociedade, ou, mais
precisamente, o modo como as principais instituições sociais distribuem os direitos e deveres
fundamentais e determinam a divisão das vantagens decorrentes da cooperação social.” (p.6)

Não-arbitrário “equilíbrio apropriado”

Estrutura básica: “A estrutura básica é o principal objeto da justiça porque suas consequências
são profundas e estão presentes desde o início. Aqui a ideia intuitiva é que essa estrutura
contém várias posições sociais e que as pessoas nascidas em condições diferentes têm
expectativas diferentes de vida, determinadas, em parte, tanto pelo sistema político quanto
pelas circunstâncias econômicas e sociais. Assim, as instituições da sociedade favorecem certos
pontos de partida mais que outros. Essas são desigualdades muito profundas. Além de
universais, atingem as oportunidades iniciais de vida; contudo, não podem ser justificados
recorrendo-se à ideia de mérito.” (pg. 6-7)

Restrição da teoria II: “Não há motivo para supor de antemão que os princípios que são
satisfatórios para a estrutura básica sejam válidos para todos os casos.” (p. 9)

Restrição da teoria III: “Ficarei satisfeito se for possível formular uma concepção razoável de
justiça para a estrutura básica da sociedade, concebida, por ora, como um sistema fechado,
isolado das outras sociedades.” (p. 9)

“Deve-se, então, considerar que a concepção de justiça social oferece em primeiro lugar um
padrão por meio do qual se devem avaliar os aspectos distributivos da estrutura básica da
sociedade. Não se deve confundir esse padrão, porém, com os princípios que definem as outras
virtudes, pois a estrutura básica e os arranjos sociais em geral podem ser eficientes ou
ineficientes, liberais ou antiliberais, e muitas outras coisas, bem como justos ou injustos. Uma
concepção completa, que define os princípios de todas as virtudes da estrutura básica,
juntamente com seus respectivos pesos quando em conflito, é mais do que uma concepção de
justiça; é um ideal social”. (p.11)

Diferença entre padrões de avaliação da destruição da estrutura básica com os princípios


que definem as outras virtudes. Uma concepção completa que define os princípios de todas
as virtudes é um ideal social.

“Um ideal social, por sua vez, está ligado a uma concepção de sociedade, uma visão sobre como
se devem entender os objetivos e os propósitos da cooperação social. As diversas concepções de
justiça provêm das distintas noções de sociedade, contra um pano de fundo de visões
conflitantes acerca das necessidades naturais e oportunidades da vida humana.” (p. 11)

Ideal social como uma concepção de sociedade, e não de justiça. Introdução das ideias de
pano de fundo (background), visões conflitantes, necessidades naturais e oportunidades
da vida humana.

Resumo: “Nessas observações preliminares, distingui o conceito de justiça, que se refere a um


equilíbrio apropriado entre exigências conflitantes, de uma concepção de justiça, entendida
como um conjunto de princípios correlacionados que objetiva identificar as considerações
relevantes que determinam esse equilíbrio. Também caracterizei a justiça como apenas uma
parte de um ideal social, embora a teoria que proporei sem dúvida amplie o sentido usual que
se tem disso. Essa teoria não é apresentada como uma descrição de significados comuns, mas
como uma interpretação de certos princípios distributivos para a estrutura básica da sociedade.
Presumo que qualquer teoria ética razoavelmente completa deva conter princípios para esse
problema fundamental e que esses princípios, sejam quais forem, constituem sua doutrina da
justiça. Acredito que o conceito de justiça é definido então, pelo papel de seus princípios na
atribuição de direitos e deveres e na definição da divisão apropriada das vantagens sociais. A
concepção de justiça é uma interpretação desse papel.” (p. 12)

3. A ideia central da teoria da justiça

“Meu objetivo é apresentar uma concepção de justiça que generalize e eleve a um nível mais
alto de abstração a conhecida teoria do contrato social conforme encontrada em, digamos,
Locke, Rosseau, e Kant. (p. 13)

Contrato social

O acordo social de Rawls: “(...) a ideia norteadora é que os princípios de justiça para a estrutura
básica da sociedade constituem o objeto do acordo original. São eles os princípios que pessoas
livres e racionais, interessadas em promover seus próprios interesses, aceitariam em uma
situação inicial de igualdade como definidores das condições fundamentais de sua associação.
Esses princípios devem reger todos os acordos subsequentes; especificam os tipos de
cooperação social que se podem realizar e as formas de governo que se podem instituir. Chamei
de justiça como equidade essa maneira de encarar os princípios de justiça. (p. 14)

Aqui, embora não expresso, Rawls já está presumindo a ideia de posição original, embora
sem ainda assim chamar.

Do caráter hipotético na posição original: “Na justiça como equidade, a situação original de
igualdade corresponde ao estado de natureza da teoria tradicional do contrato social. Essa
situação original não é, naturalmente, tida como uma situação histórica real, muito menos como
uma situação primitiva da cultura. É entendida como uma situação puramente hipotética assim
caracterizada para levar a determinada concepção de justiça. (p. 15)

Premissas da posição original: 1. Ninguém conhece seu lugar na sociedade, sua classe ou seu
status social; 2. Ninguém conhece sua sorte na distribuição dos recursos e das habilidades
naturais, sua inteligência, força e coisas do gênero; 3. As partes nem mesmo conhecem suas
concepções do bem nem suas propensões psicológicas especiais.

Véu da ignorância: “Os princípios de justiça são escolhidos por trás de um véu de ignorância.
Isso garante que ninguém seja favorecido ou desfavorecido na escolha dos princípios pelo
resultado do acaso natural ou pela contingência de circunstâncias sociais.” (p. 15)

“Essa situação inicial é equitativa entre os indivíduos tidos como pessoas morais, isto é, como
seres racionais com objetivos próprios e capacitados, presumirei, para ter um senso de justiça.”
(p. 15)

Justificativa da expressão: “(...)’justiça como equidade’: ela expressa a ideia de que os princípios
da justiça são definidos por acordo em uma situação inicial que é equitativa. A expressão não
significa que os conceitos de justiça e equidade sejam idênticos, da mesma forma que a
expressão “poesia como metáfora” não significa que os conceitos de poesia e metáfora sejam
idênticos.” (p.15)

Ingresso voluntário: “Naturalmente, nenhuma sociedade pode ser um sistema de cooperação no


qual se ingressa voluntariamente, no sentido literal; cada pessoa se encontra, ao nascer, em
determinada situação em alguma sociedade específica, e a natureza dessa situação em alguma
sociedade específica, e a natureza dessa situação repercute de maneira substancial em suas
perspectivas de vida.” (p. 16)

Fazer a crítica com a ideia de entrada voluntarista (falada pelo Denílson)

Premissa do “aceite” da justiça como equidade: “Uma das características da justiça como
equidade é conceber as partes na posição inicial como racionais e mutuamente
desinteressadas.” (p. 16)

Rawls aponta que as pessoas desinteressadas “são concebidas como pessoas que não têm
interesse nos interesses alheios

“A princípio, parece muito pouco provável que pessoas que se consideram iguais, com direito a
fazer suas exigências umas às outras, aceitassem um princípio que talvez exija perspectivas de
vida inferiores para alguns simplesmente em troca de uma soma maior de vantagens
desfrutadas por outros.” (p. 17)

Princípio da posição original contra o utilitarismo  “Assim, parece que o princípio da


utilidade é incompatível com a concepção de cooperação social entre iguais para se obterem
vantagens mútuas.”

“Pode ser conveniente, mas não é justo que alguns tenham menos para que outros possam
prosperar. Porém não há injustiça nos benefícios maiores recebidos por uns poucos, contanto
que, com isso, melhore a situação das pessoas não tão afortunadas. A ideia intuitiva é que, se o
bem-estar de todos depende de um sistema de cooperação, sem o qual ninguém teria uma vida
satisfatória, a divisão das vantagens deve suscitar a cooperação voluntária de todos que dela
participam, incluindo-se os que estão em situação menos favorável. Os dois princípios
mencionados aparentam ser uma base equitativa sobre a qual os mais favorecidos por talento
natural, ou mais afortunados em posição social, duas coisas das quais não nos podemos
considerar merecedores, possam esperar a cooperação voluntária dos outros quando alguém
sistema viável seja uma condição necessária para o bem-estar de todos. Quando decidimos
procurar uma concepção de justiça que neutralize os acidentes da dotação natural e das
contingências de circunstancias sociais como como fichas na disputa por vantagens políticas e
econômicas, somos levados a esses princípios. Eles expressam a consequência do fato de
deixarmos de lado os aspectos do mundo social eu parecem arbitrários de um ponto de vista
moral. (p. 18)
Justiça como equidade: “(1) uma interpretação da situação inicial e do problema da escolha que
nela se apresenta e (2) um conjunto de princípios que, segundo se procura demonstrar, seriam
acordados. Pode-se aceitar a primeira parte da teoria (ou alguma variação dela) mas não a
segunda e vice-e-versa.” (p. 19)

Da divisão em duas partes da justiça como equidade (assim como das demais visões
contratualistas

4. A posição original e justificação

“Afirmei que a posição original é o ‘status quo’ inicial apropriado para garantir que os acordos
fundamentais nele alcançados sejam equitativos. Esse fato gera a expressão ‘justiça como
equidade” (p. 21)

“O objetivo do método contratualista é demonstrar que, juntos, impõe ponderáveis limites aos
princípios aceitáveis de justiça. O resultado ideal seria que essas condições definissem um único
conjunto de princípios; mas eu me darei por satisfeito se bastarem para classificar as principais
concepções tradicionais de justiça social”. (p. 22)

“Assim, parece razoável e de modo geral aceitável que ninguém seja favorecido ou
desfavorecido pelo acaso ou pelas circunstâncias sociais na escolha dos princípios. Também
parece haver consenso geral de que deve ser impossível adaptar os princípios às circunstâncias
de casos pessoais.” (p. 22)

Justificação do véu da ignorância: “Para representar as restrições desejadas, imagina-se uma


situação na qual todos carecem desse tipo de informação. Exclui-se o conhecimento dessas
contingências que geram discórdia entre os homens e permitem que se deixem levar pelos
preconceitos. Desse modo chega-se ao véu de ignorância de matéria natural.” (p.23)

“É óbvio que a finalidade desses dessas condições é representar a igualdade entre os seres
humanos como pessoas morais, como criaturas que têm uma concepção do próprio bem e estão
capacitadas a ter um senso de justiça.” (p. 23)

Equilíbrio reflexivo: “Na procura da descrição mais adequada dessa situação trabalhamos em
duas frentes. Começamos por descrevê-la de modo que represente condições amplamente aceita
e de preferência fracas. Verificamos, então, se essas condições têm força suficiente para produzir
um conjunto significativo de princípios. Em caso negativo, procuramos outras premissas
igualmente razoáveis. Em caso afirmativo, porém, e se esses princípios forem compatíveis com
nossas convicções ponderadas de justiça, então até este ponto tudo vai bem. Mas é possível que
haja discrepâncias. Nesse caso, temos uma escolha. Podemos modificar a caracterização da
situação inicial ou reformular nossos juízos atuais, pois até os juízos que consideramos pontos
fixos provisórios estão sujeitos a reformulação. Com esses avanços e recuos, às vezes alterando
as condições das circunstâncias contratuais, outras vezes modificando nossos juízos para que se
adaptem aos princípios, suponho que acabemos por encontrar uma descrição da situação inicial
que tanto expresse condições razoáveis como gere princípios que combinem com nossos juízos
ponderados devidamente apurados e ajustados. Denomino esse estado de coisas equilíbrio
reflexivo.” (p.24-25)

Ideia de equilíbrio reflexivo como “corroboração” mutua de muitas ponderações, do ajuste


de todas as partes em uma visão coerente.

11. Dois princípios de justiça

Área de “atuação” dos princípios: “Esses princípios, como eu já disse, se aplicam em primeiro
lugar à estrutura básica da sociedade, regem a atribuição de direitos e deveres e regulam a
distribuição das vantagens sociais e econômicas.” (p. 73)

“Esses princípios devem ser dispostos em uma ordem serial, o primeiro sendo prioritário do
segundo.” (p. 74)

“Por fim, com relação ao segundo princípio, a distribuição de renda e riqueza, e de cargos de
autoridade e responsabilidade, deve ser compatível tanto com as liberdades fundamentais
quanto com a igualdade de oportunidades” (p. 75)

“Por ora, devemos observar que esses princípios são um caso especial de uma concepção de
justiça mais geral que se pode expressar da seguinte maneira:

Todos os valores sociais – liberdades e oportunidade, renda e riqueza, e as bases sociais


do auto-respeito – devem ser distribuídos de forma igual a não ser que uma distribuição
desigual de um ou de todos esses valores seja vantajosa para todos.

A injustiça se constitui, então, simplesmente de desigualdades que não são vantajosas para
todos” (p. 75)

“Não devemos supor que haja muita semelhança, do ponto de vista da justiça, entre a
distribuição administrativa de bens para pessoas específicas e a estruturação apropriada da
sociedade. Nossas instituições de senso comum sobre a primeira questão podem oferecer uma
má orientação para a segunda.” (p. 78)

O princípio de eficiência

Otimilidade de Parato: “Essas aplicações do princípio demonstram que ele é, de fato, um


princípio da eficiência. A distribuição de bens ou um sistema de produção será ineficiente
quando houver meios de melhorar ainda mais a situação de alguns indivíduos sem piorar a de
outros. Vou presumir que as partes, na posição original, aceitam esse princípio para avaliar a
eficiência de arranjos econômicos e sociais.” (p. 81)

“De fato, na justiça como equidade os princípios de justiça têm prioridade sobre considerações
de eficiência e, portanto, grosso modo, os pontos internos que representam distribuições justas
serão, em geral, preferidos aos pontos de eficiência que representam distribuições injustas”. (p.
84)

“Assim, podemos dizer que a disposição dos direitos e dos deveres na estrutura básica é
eficiente se, e somente se, for impossível alterar as normas, para redefinir o sistema de direitos e
deveres, a fim de elevar as expectativas de qualquer indivíduo representativo (pelo menos um)
sem ao mesmo temo, reduzir as expectativas de algum (pelo menos um) outro. Naturalmente,
essas alterações devem ser compatíveis com os outros princípios. Ou seja, ao alterarmos a
estrutura básica, não temos permissão para violar o princípio de liberdade igual nem a
exigência de cargos e carreiras abertos. O que se pode alterar é a distribuição de renda e riqueza
e o modo como os que ocupam posições de autoridade e responsabilidade podem regular as
atividades cooperativas.” (p. 85)

O princípio da diferença em termos de eficiência – e suas limitações.

“Ora, essas reflexões demonstram apenas o que sempre soubemos, ou seja, que o princípio de
eficiência não pode servir sozinho como concepção de justiça” (p. 86)

“Ocorre então que, se queremos aceitar o resultado como justo, e não somente como eficiente,
temos de aceitar o fundamento com base no qual a distribuição inicial de recursos e é
determinada ao longo do tempo.

No sistema da liberdade natura, a distribuição inicial é regulada pelos arranjos implícitos na


concepção das carreias abertas aos talentos (conforme definida anteriormente). Esses arranjos
pressupõe um ambiente de liberdade igual (conforme especificado pelo primeiro princípio) e
uma economia de livre mercado. Requerem uma igualdade formal de oportunidades na qual
todos tenham pleno menos os mesmos direitos de acesso a todas as posições sociais
privilegiadas. Porém, como não há empenho para preservar uma igualdade, ou similaridade, de
condições sociais, exceto à media que isso for necessário para preservar as instituições de base
necessárias, a distribuição inicial de recursos em qualquer período de tempo sofrerá forte
influência de contingências naturais e sociais. A distribuição existente de renda e riqueza,
digamos, é o resultado cumulativo das distribuições anteriores dos dotes naturais - , conforme
foram cultivados ou deixados de lado, e seu uso foi favorecido ou preterido, ao longo do tempo,
por circunstâncias sociais e contingências fortuitas tais como o acaso e a boa sorte.
Intuitivamente, a injustiça mais evidente do sistema de liberdade natural é permitir que as
parcelas distributivas recebam uma influência indevida desses fatores tão arbitrários de um
ponto de vista moral.

O que chamarei de interpretação liberal tenta corrigir isso acrescentando ao requisito de


carreiras abertas aos talentos a condição adicional do princípio de igualdade equitativa de
oportunidades. A ideia é que as posições não estejam acessíveis apenas no sentido formal, mas
que todos tenham oportunidades equitativas de alcança-las.” (p. 87)

Sobre a eficiência não ser suficiente.

“Em primeiro lugar, mesmo que funcione à perfeição na eliminação da influência das
contingências sociais, ainda assim permite que a distribuição da riqueza e a renda seja
determinada pela distribuição natural de aptidões e talentos. Dentro dos limites estabelecidos
pelos arranjos básicos, as parcelas distributivas são decididas pelo resultado da loteria natural; e
esse resultado é arbitrário do ponto de vista moral. Não há mais motivo para permitir que a
distribuição de renda e riqueza seja determinada pela distribuição dos dotes naturais do que
pelo acaso social e histórico. Ademais, o princípio de oportunidades equitativas só pode ser
realizado de maneira imperfeita, pelo menos enquanto existir algum tipo de estrutura familiar.
O ponto até o qual as aptidões naturais se desenvolvem e amadurecem sofre influência de todos
os tipos de circunstâncias sociais e familiares afortunadas. Na prática, é impossível garantir
oportunidades iguais de realização e cultura para os que tem aptidões semelhantes e, por
conseguinte, talvez convenha adotar um princípio que reconheça esse fato e também amenize
os resultados arbitrários da própria loteria natural. O fato de que a concepção liberal fracassa
nesse ponto nos incentiva a procurar outra interpretação dos dois princípios de justiça” (p. 89)

Ideia de loteria natural

13. A igualdade democrática e o princípio de diferença

“A ideia intuitiva é que a ordem social não deve instituir e garantir as perspectivas mais
atraentes dos que estão em melhor situação, a não ser que isso seja vantajoso também para os
menos afortunados.” (p. 91)

“A sociedade deve tentar evitar situações em que as contribuições marginais dos mais
favorecidos sejam negativas, já que, os demais fatores permanecendo constantes, isso parece ser
erro mais grave do que não atingir o melhor esquema quando as contribuições são positivas. A
diferença entre classes viola o princípio das vantagens mútuas e também o da igualdade
democrática (¶17).” (p. 95)

“A concepção democrática afirma que, embora recorram à justiça procedimental pura, pelo
menos até certo ponto, o modo como as interpretações anteriores o fazem ainda deixa muito ao
encargo de contingências sociais e naturais. Deve-se observar, porém, que o princípio de
diferença é compatível com o princípio de eficiência. Quando se satisfaz totalmente o primeiro,
na verdade é impossível melhorar a situação de qualquer indivíduo representativo sem piorar a
de outro, ou seja, a do indivíduo menos favorecido, cujas expectativas devemos elevar ao
máximo. “ (p. 96)
“A justiça tem prioridade sobre a eficiência e requer certas mudanças que não são eficientes
nesse sentido. Só há compatibilidade no sentido de que um esquema perfeitamente justo é
também eficiente.” (p. 96)

Não há trade-off entre justiça e eficiência. A justiça é sempre superior.

“Vamos supor que as desigualdades de expectativas estejam ligadas em cadeia: ou seja, se uma
vantagem tiver como resultado a elevação das expectativas da posição mais desfavorecida,
elevará as expectativas de todas as posições intermediárias. Por exemplo, se as expectativas ais
elevadas para os empresários beneficiam os trabalhadores não-especializados, também
beneficiam os semi-especializados. Note-se que a ligação em cadeia nada diz a respeito do caso
em que o menos afortunados não ganham, portanto não significa que todos os resultados
caminhem juntos. Vamos supor ainda que as expectativas estão entrelaçadas: ou seja, é
impossível elevar ou baixar as expectativas de qualquer indivíduo representativo sem elevar ou
baixar as expectativas de todos os outros indivíduos representativos, principalmente as
expectativas dos menos favorecidos.” (p. 97)

14. A igualdade equitativa de oportunidades e a justiça procedimental pura

“Gostaria agora de comentar a segunda parte do segundo princípio, que doravante deve ser
entendido como princípio liberal de igualdade equitativa de oportunidade.” (p. 101)

“Tentarei demonstrar mais adiante (¶17), em especial, que esse princípio não está sujeito à
objeção de que conduz a uma sociedade meritocrática.” (p. 102)

“(...) O princípio de posições aberta a todos (...) expressa a convicção equitativas, os excluídos
estariam certos de se sentirem injustiçados, mesmo que se beneficiassem dos esforços maiores
daqueles autorizados a ocupa-los. Sua queixa seria justificada não só porque foram excluídos de
certas recompensas externas dos cargos, mas também porque foram impedidos de vivenciar a
realização pessoal resultante do exercício competente e dedicado de deveres socais. Seriam
privados de uma das principais formas de bem humano.” (p. 102)

Sociedade: “Na justiça como equidade, a sociedade é interpretada como um empreendimento


cooperativo para o benefício de todos.” (p. 102)

“Esse exemplo [da repartição do bolo] ilustra os dois traços característicos da justiça
procedimental perfeita. Em primeiro lugar, há um critério definido em separado e antes do
processo que se deverá seguir. E, em segundo lugar, é possível elaborar um método que com
certeza produzirá o resultado desejado.” (p. 103)

Justiça procedimental imperfeita: “A justiça procedimental imperfeita é exemplificada pelo


processo penal. O resultado desejado é que o réu seja declarado culpado se, e somente se, tiver
cometido o crime de que é acusado. O julgamento é estruturado para procurar e estabelecer a
verdade a esse respeito”. (p. 104)
Justiça procedimental pura: “A justiça procedimental pura, em contrates, verifica-se quando
não há um critério independente para o resultado correto: em vez disso, existe um
procedimento correto ou justo que leva a um resultado também correto ou justo, seja qual for,
contanto que se tenha aplicado corretamente o procedimento.” (p. 104)

“É claro que não podemos dizer que determinada situação é justa somente porque se poderia
chegar a ela por meio de um procedimento justo. Isso seria ir longe demais. Permitiria que se
afirmasse que quase todas as distribuições de bens são justas, ou equitativas, já que poderiam
ser resultantes de jogos limpos. O que torna justo, ou não injusto, o resultado final das apostas é
esse resultado ser aquele que se produziu após uma série de apostas justas. Um processo
equitativo só traduz sua equidade no resultado quando é realmente levado a cabo.” (p. 105)

“A função do princípio de oportunidades de equitativas é garantir que o sistema de cooperação


seja um sistema de justiça procedimental pura. A não ser que seja satisfeito, não se pode deixar
a justiça distributiva por sua própria conta, mesmo dentro de âmbito restrito. A vantagem
prática da justiça procedimental pura é que já não é mais necessário levar em conta a infinidade
de circunstâncias nem as posições relativas mutáveis de pessoas específicas. Evita-se o
problema de definir princípios que deem conta das enormes complexidades que surgiram se
esses pormenores fossem pertinentes. Constitui um equívoco concentrar a atenção nas situações
relativas variáveis dos indivíduos e exigir que cada mudança, considerada como transação
única e isolada, seja justa em si mesma. É o arranjo institucional da estrutura básica que se deve
julgar, e julgado de um ponto de vista geral. A não ser que possamos criticá-lo do ponto de vista
da posição específica, não temos queixas contra esse arranjo”. (p. 106)

Uma possível resposta ao argumento “Will Chamberlain” de Nozick

“Não se pode julgar a distribuição separadamente do sistema do qual resulta ou do que os


indivíduos fizeram, de boa-fé, à luz das expectativas estabelecidas.” (p. 106)

“Mesmo assim, porém, devemos tentar encontrar conceitos simples que possam reunir-se para
formar uma concepção razoável de justiça. As ideias de estrutura básica, de véu da ignorância,
de ordem lexical, da posição menos favorecida, bem como a da justiça procedimental pura são
todas exemplos disso. Por si mesmas, não se pode esperar que nenhuma delas funcione; porém,
devidamente reunidas, podem funcionar bastante bem. É exagero supor que exista uma solução
razoável para todos os problemas morais, ou mesmo para a maioria deles. Talvez só seja
possível resolver alguns poucos de maneira satisfatória. Seja como for, a sabedoria social
consiste em estruturar as instituições de modo que não surjam dificuldades incontroláveis com
frequência e em aceitar a necessidade de princípios claros e simples.” (p.108)

Conceitos simples formando, em conjunto, uma concepção razoável de justiça. Resumo


tópico do que já foi discutido
15. Bens primários sociais como a base das expectativas

“Creio que a verdadeira objeção ao utilitarismo está em outro lugar. Mesmo que seja possível
fazer as comparações interpessoais, estas devem expressar valores pelos quais valha a pena se
empenhar. A controvérsia no tocante às comparações interpessoais costuma obscurecer a
verdadeira questão, ou seja, se é a felicidade total (ou a felicidade média) que se deve elevar ao
máximo em primeiro lugar. (p. 109)

Expectativas de bens primários: “Na verdade, defino essas expectativas simplesmente como o
índice desses bens que um indivíduo representativo pode almejar.” (p. 110)

Bens primários: “Os bens primários, como já comentei, são coisas que se presume que um
indivíduo racional deseje, não importando o que mais ele deseje.” (p. 110)

Bens sociais: “Os bens sociais, enumerando-os em categorias amplas, são direitos, liberdades e
oportunidades, bem como renda e riqueza (Um bem primário muito importante é um sentido
do próprio valor, mas, para simplificar, vou deixa-lo de lado até bem mais adiante, no &67).
Parece evidente que, em geral, essas coisas se encaixam na definição de bens primários. São
bens sociais tendo em vista sua conexão com a estrutura básica: as liberdades e as
oportunidades são definidas pelas normas das principais instituições, e a distribuição de renda
e de riqueza é regida por elas.” (p. 110)

Ideia de bem: “A ideia principal é que o bem de uma pessoa é definido por aquilo que para ela
representa o plano de vida mais racional a longo prazo, dadas circunstâncias razoavelmente
favoráveis.” (p. 111)

“De uma forma breve, o bem é a satisfação do desejo racional”

“As liberdades fundamentais são sempre iguais, e existe igualdade equitativa de


oportunidades; não é preciso contrabalançar essas liberdades e direitos com outros valores. Os
bens primários sociais que variam em distribuição são os direitos e prerrogativas de autoridade,
bem como a renda e a riqueza.” (p.111)

Essa frase funciona sob a suposição de que os dois princípios de justiça sejam ordenados em
série

16. Posições racionais relevantes

“Assim, as posições sociais relevantes são, por assim dizer os pontos de partida generalizados e
agregados de uma forma apropriada. Ao escolhermos essas posições para especificar o ponto de
vista geral, concordamos com a ideia de que os dois princípios tentam atenuar a arbitrariedade
do acaso natural e da sorte social.

Suponho, então, que em geral cada pessoa ocupa duas posições relevantes: a da cidadania igual
e aquela definida por seu lugar na distribuição de renda e riqueza.” (p. 115)
“Na medida do possível, deve-se avaliar a estrutura básica da posição de cidadania igual. Essa
posição é definida pelos direitos e liberdades exigidos pelo princípio de liberdade igual e pelo
princípio de igualdade equitativa de oportunidades. Quando satisfeitos os dois princípios,
todos são cidadãos iguais e, portanto, todos ocupam essa posição. Nesse sentido, a cidadania
igual define um ponto de vista.” (p. 115)

Menos favorecidos: “Para dar precisão às ideias, vamos definir os menos favorecidos como os
menos beneficiados segundo cada um dos três tipos principais de contingências. Assim, esse
grupo contém pessoas cujas origens familiar e de classe são mais desfavorecidas que as de
outras, cujos talentos naturais (quando desenvolvidos) não lhes possibilitam se dar tão bem, e
cuja sorte no decorrer da vida revela-se menos feliz, tudo no âmbito da normalidade (conforme
será discutido adiante) e com as medidas pertinentes fundamentadas nos bens primários
sociais.” (p. 116)

“Na medida do possível, então, a justiça como equidade analisa o sistema social partindo da
posição de cidadania igual e dos diversos níveis de renda e riqueza.” (p.. 118)

17. A tendência a igualdade

Princípio da reparação: “Em primeiro lugar, podemos observar que o princípio da diferença dá
algum peso às ponderações especificadas pelo princípio da reparação. Segundo este princípio,
as igualdades imerecidas exigem reparação; e com as desigualdades de berço e de talentos
naturais são imerecidas, devem ser compensadas de alguma forma. Assim, o princípio postula
que, para tratar a todos com igualdade, oferecer genuína igualdade de oportunidades, a
sociedade deve dar mais atenção aos possuidores de menos dotes inatos e aos oriundos de
posições sociais menos favoráveis. A ideia é reparar o viés das contingências na direção da
igualdade.” (p. 120)

“O princípio da diferença representa, com efeito, um acordo no sentido de se considerar a


distribuição dos talentos naturais em certos aspectos como um bem comum, e no sentido de
compartilhar os benefícios econômicos, e sociais maiores propiciados pelas
complementaridades dessa distribuição. Os que foram favorecidos pela natureza, quem quer
que sejam, só podem beneficiar-se de sua boa sorte em condições que melhorem a situação dos
menos afortunados. Os naturalmente favorecidos não devem beneficiar-se apenas por serem
mais talentosos, mas somente para cobrir custos de educação e treinamento dos menos
favorecidos e para que usem seus talentos de maneira que também ajudem os menos
favorecidos. Ninguém merece sua maior capacidade natural nem um ponto de partida mais
favorável na sociedade.” (p. 121)

“A distribuição natural não é justa nem injusta; nem é injusto que se nasça em determinada
posição social. Isso são meros fatos naturais. Justo ou injusto é o modo como as instituições
lidam com esses fatos.” (p. 122)
A noção de mérito como titularidade não cabe dentro do principio de diferença.

“Assim, não é correto que os indivíduos que possuem maiores aptidões naturais e caráter
superior que possibilita seu desenvolvimento tenham direito a um esquema cooperativo que
lhes permita obter benefícios ainda maiores de maneira que não contribuem para as vantagens
de outros. Não merecemos nosso lugar na distribuição de aptidões inatas, assim como não
merecemos nosso lugar inicial na sociedade. Também é problemática a situação de saber se
merecemos o caráter superior que nos possibilita fazer o esforço de cultivar nossas capacidades,
pois esse caráter depende, em grande parte, de circunstâncias familiares e sociais afortunadas
no início da vida, pelas quais não temos nenhum crédito. A ideia de mérito não se aplica aqui.
Na verdade, os mais favorecidos têm direito a seus talentos naturais, como qualquer outra
pessoa; esse direito está garantido pelo primeiro princípio, da liberdade fundamental, que
protege a integridade da pessoa. E assim os mais favorecidos têm direito a tudo o que possam
obter em conformidade com as normas de um sistema equitativo de cooperação social. Nosso
problema é saber como esse esquema, a estrutura básica da sociedade, deve ser concebido. De
um ponto de vista geral apropriado, o princípio da diferença parece aceitável tanto para o
indivíduo mais favorecido quanto para o menos favorecido. Sem dúvida, nada disso é,
estritamente falando, um argumento em defesa do princípio, já que na teoria contratualista os
argumentos são feitos do ponto de vista da posição original. Mas essas ponderações intuitivas
ajudam a esclarecer o princípio e em que sentido ele é igualitário.” (p. 124-126)

Fraternidade: “O princípio da diferença, entretanto, parece de fato corresponder a um


significado natural de fraternidade: ou seja, à ideia de não querer ter vantagens maiores, a
menos que seja para o bem de quem está em pior situação. A família, em sua concepção ideal, e
quase sempre na prática, é um contexto no qual se rejeita o princípio de elevar ao máximo a
soma das vantagens. Os membros da família em geral não querem ganhar, a não ser que
possam fazê-lo de modo a promover o interesse dos demais.” (p. 126)

“Ao aceita-lo, podemos associar as ideias tradicionais de liberdade, igualdade e fraternidade à


interpretação democrática dos dois princípios de justiça da seguinte maneira: a liberdade
corresponde ao primeiro princípio; a igualdade, à ideia de igualdade contida no primeiro
princípio juntamente com a igualdade equitativa de oportunidades; e a fraternidade, ao
princípio de diferença.” (p. 127)

“Parece evidente, à luz dessas observações, que a interpretação democrática dos dois princípios
não conduzirá a uma sociedade meritocrática. Essa forma de ordem social segue o princípio de
carreiras abertas aos talentos e usa a igualdade de oportunidades como modo de liberar as
energias humanas na luta por prosperidade econômica e domínio político. Existe uma visível
disparidade entre a classe mais alta e a mais baixa, tanto nos meios de vida quanto nos direitos
e nos privilégios de autoridade organizacional.
Portanto, “Assim, a sociedade meritocrática é um perigo para outras interpretações dos
princípios de justiça, mas não para a concepção democrática, pois, como acabamos de ver, o
princípio da diferença transforma os objetivos da sociedade em aspectos fundamentais.” Isto é,
a opção democrática (em favor dos em pior condição), claramente é restritiva à ideia de mérito
como critério de distribuição.

48. Expectativas legítimas e mérito moral

“Ademais, a ideia de distribuição de acordo com a virtude não consegue distinguir entre mérito
moral e expectativas legítimas.” (p. 386)

“Um sistema justo, portanto, determina aquilo a que as pessoas tem direito e satisfaz suas
expectativas legítimas, que estão fundamentadas nas instituições sociais. Mas aquilo a que elas
tem direito não é proporcional ao valor intrínseco de ninguém nem depende dele.” (p. 386)

“O critério a cada um segundo sua virtude” não seria, portanto, escolhido na posição original.
Já que desejam promover suas concepções do bem, as partes não tem nenhum motivo para
organizar suas instituições de modo que as parcelas distributivas sejam definidas pelo mérito
moral, mesmo que conseguisse encontrar um padrão independente para deferi-lo”. (p. 389)

“A função de parcelas distributivas desiguais é cobrir custos de treinamento e educação, atrais


indivíduos aos lugares e associações em que eles são mais necessários do ponto de vista social, e
assim por diante.” P. 392

Justiça como equidade : uma reformulação // John Rawls // São


Paulo, Martins Fontes, 2003
£15 – A estrutura básica como objeto: primeiro tipo de razão
“Preservar essas condições é a função das normas de justiça procedimental pura de
fundo. A menos que a estrutura básica seja regulada ao longo do tempo,
distribuições iniciais justas de ativos de todo tipo não garantem a justiça das
distribuições posteriores, por mais livres e equitativas que as transações
particulares entre indivíduos e associações possam parecer quando consideradas
localmente e separadas das instituições de fundo. Isso porque o resultado dessas
transações, tomadas em seu conjunto, é afetado por todo tipo de contingências e
de consequências imprevisíveis. É necessário regular, por leis que governem
heranças e legados, como as pessoas adquirem propriedades a fim de tornar sua
distribuição mais equitativa, propiciar a igualdade equitativa de oportunidades na
educação, e muitas outras coisas. A vigência dessas normas de justiça de fundo ao
longo do tempo não avilta, mas, pelo contrário, torna possíveis os importantes
valores expressos pela noção de acordos livres e equitativos selados por indivíduos
e associações no interior da estrutura básica, uma vez que os princípios que se
aplicam diretamente a esses acordos (por exemplo, o direito contratual) não são
suficientes, por si sós, para preservar a justiça de fundo.” (pg. 75-76)

“Em contraposição, enquanto concepção de processo social, a justiça como


equidade enfoca primeiro a estrutura básica e as regulamentações necessárias para
manter a justiça de fundo ao longo do tempo igualmente para todas as pessoas,
seja de que geração forem e qualquer que seja sua posição social. Como uma
concepção pública de justiça precisa de regras claras, simples e inteligíveis,
apoiamo-nos numa divisão institucional de trabalho entre princípios necessários
para preservar a justiça de fundo e princípios que se aplicam diretamente a
transações particulares entre indivíduos e associações. Estabelecida essa divisão de
trabalho, indivíduos e organizações ficam livres para promover seus objetivos
(permissíveis) no âmbito da estrutura básica, cientes de que em todo o sistema
social as regulamentações necessárias para preservar a justiça de fundo estão em
vigor.” (pg. 76)

“Tomar a estrutura básica como objeto primário nos permite ver a justiça
distributiva como um caso de justiça procedimental pura de fundo: quando todos
seguem as regras publicamente reconhecidas de cooperação, a distribuição
específica que daí resulta é aceita como justa, seja qual for (£14.2). Isso nos
permite tomar distância das gigantescas complexidades das inumeráveis
transações da vida diária e nos dispensa de ter de acompanhar as mudanças de
posição relativa dos indivíduos específicos (TJ, £14). A sociedade é um esquema
permanente de cooperação equitativa ao longo do tempo sem nenhum começo ou
fim determinado que seja relevante para a justiça política. Os princípios de justiça
especificam a forma da justiça de fundo independentemente de condições
históricas particulares. O que conta é o funcionamento das instituições sociais
agora; um padrão de referência do tipo de um estado de natureza – o nível de bem-
estar de indivíduos (como quer que se defina) nesse estado – carece de qualquer
função. É um ente irracional histórico, incognoscível, e que, mesmo que pudesse ser
conhecido, não teria nenhuma importância”. (pg. 77)

£16 – A estrutura básica como objeto: segundo tipo de razão

“Porém, se ignoramos as desigualdades nas perspectivas de vida das pessoas que


decorrem dessas contingências e deixamos que se manifestem sem instituir as
regulamentações necessárias para preservar a justiça de fundo, não estaremos
levando a sério a ideia de sociedade como um sistema equitativo de cooperação
entre cidadãos livres e iguais.” (pg. 78-79)
“Portanto, a estrutura básica enquanto regime social e econômico não é apenas um
arranjo que satisfaz desejos e aspirações já dados, mas também um arranjo que
suscita outros desejos e aspirações no futuro. Faz isso por meio das expectativas e
ambições que estimula no presente, e, na verdade, a vida toda.” (pg. 80)

“Além disso, talentos naturais de vários tipos(inteligência inata e aptidões naturais)


não são qualidades naturais fixas e constantes. São meramente recursos potenciais,
e sua fruição só se torna possível dentro de condições sociais; quando realizados,
esses talentos adotam apenas uma ou poucas das muitas formas possíveis.
Aptidões educadas e treinadas são sempre uma seleção, e uma pequena seleção,
ademais, de uma ampla gama de possibilidades. Entre os fatores que afetam sua
realização estão atitudes sociais de estímulo e apoio, e instituições voltadas para
seu treinamento e uso precoce. Não só nossa concepção de nós mesmos e nossos
objetivos e ambições, mas também nossas aptidões e talentos realizados refletem
nossa história pessoal, nossas oportunidades e posição social, e a influência da boa
ou má sorte.” (pg. 80)

£18 – O princípio de diferença: seu significado

“Partimos do pressuposto de que a cooperação social é sempre produtiva, e sem


cooperação nada seria produzido, e, portanto, nada seria distribuído.” (pg. 88)

Esquema de cooperação social e incentivos: “Um esquema de cooperação concebe-


se em grande medida pela maneira como suas regras públicas organizam a
atividade produtiva, determinam a divisão de trabalho, atribuem funções variadas
aos que dela participam e assim por diante. Esses esquemas incluem planos de
ganhos e salários a serem pagos em função da produção. A diferenciação de ganhos
e salários leva a um incremento da produção porque, ao longo do tempo, a maior
remuneração aos mais favorecidos serve, entre outras cosias, para cobrir os custos
de treinamento e educação, para marcar postos de responsabilidade e estimular as
pessoas a ocupa-los, e como incentivo.” (pg. 89)

Princípio da diferença como reciprocidade: “Portanto, o que o princípio de diferença


exige é que seja qual for o nível geral de riqueza – seja ele alto ou baixo – as
desigualdades existentes tem de satisfazer a condição de beneficiar os outros tanto
como a nós mesmos. Essa condição revela que mesmo usando a ideia de
maximização das expectativas dos menos favorecidos, o princípio da diferença é
essencialmente um princípio de reciprocidade.”(pg. 91)

Os menos favorecidos: “Considerando a forma mais simples do princípio da


diferença, os menos favorecidos são aqueles que usufruem em comum com os
outros cidadãos das liberdades básicas iguais e oportunidades equitativas, mas tem
a pior renda e riqueza. Utilizamos renda e riqueza para especificar esse grupo; e os
indivíduos que pertencem a ele podem mudar de um ordenamento da estrutura
básica para outro.” (pg. 92)

£20 – Expectativas legítimas, direito e mérito

“Lembremos do £14 que na justiça como equidade a distribuição se dá em


concordância com reinvindicações e direitos adquiridos legítimos. Essas
expectativas e direitos são especificados pelas normas públicas do esquema de
cooperação social.” (pg. 102)

“Insisto mais uma vez que não existe critério para uma expectativa legítima, ou
para uma titularidade, separado das regras públicas que especificam o esquema de
cooperação. Expectativas legítimas e titularidade são sempre (na justiça como
equidade) baseadas nessas normas. Partimos, é claro, da premissa de que essas
normas são compatíveis com os dois princípios de justiça. Dado o fato de que esses
princípios são satisfeitos pela estrutura básica, e dado que todas as expectativas
legítimas e titularidades são honradas, a distribuição resultante é justa, seja ela
qual for.” (pg. 102)

3 ideias de mérito moral: “Primeiro, a ideia de mérito moral em sentido estrito, ou


seja, o valor moral do caráter de uma pessoa como um todo (e das várias virtudes
de uma pessoa) de acordo com uma doutrina moral abrangente; assim como o
valor moral de determinadas ações; em segundo lugar, a ideia de expectativas
legítimas (e a ideia de direitos a ela associada), que é o outro lado do princípio de
equidade (Teoria, $48); e, em terceiro lugar, a ideia de merecimento especificada
por um esquema de normas públicas elaborado para atingir certos propósitos.” (pg.
103)

“O conceito de mérito moral não está em questão. O que se afirma é que uma
concepção de mérito moral no sentido de valor moral do caráter e de ações não
pode ser incorporada a uma concepção política de justiça devido ao fato do
pluralismo razoável. Como possuem concepções conflitantes de bem, os cidadãos
não podem concordar com uma doutrina abrangente para definir uma ideia de
mérito moral com propósitos políticos. Seja como for, o valor moral seria
impraticável enquanto critério quando aplicado a questões de justiça distributiva.
Poderíamos dizer: somente Deus poderia fazer esses julgamentos. Na vida pública
precisamos evitar a ideia de mérito moral e encontrar um substituo condizente com
uma concepção política razoável.” (pg. 103)

Expectativa legítima no lugar de mérito moral: “E justamente a ideia de expectativa


legítima que é sugerida como tal substituto: condiz com uma concepção política de
justiça e sua forma se aplica a esse domínio.” (pg. 103)

“A justiça como equidade utiliza apenas a segunda e a terceira ideias de mérito. Já


discutimos a segunda ao tratar das expectativas legítimas e das titularidades. A
terceira só é mencionada em Teoria, £48, mas de forma geral está implícita, já que
se aplica normas públicas eficazmente instituídas para cumprir propósitos sociais.
Esquemas de cooperação que satisfaçam o princípio da diferença são normas desse
tipo; servem para estimular os indivíduos a educar seus talentos e usá-los para o
bem geral.” (pg. 104)

Merecimento como concepção política VS. Concepção de Bem: “O ponto relevante


aqui é que há muitas maneiras de definir merecimento dependendo das regras
públicas em questão e dos fins e propósitos a que elas supostamente se destinam.
Mas nenhuma dessas maneiras define uma ideia de mérito moral em sentido
próprio.” (pg. 105)

£21 – Sobre os talentos naturais como um bem comum

NOTA 42: “Parto da premissa de que todas as doutrinas razoáveis endossariam essa
observação e afirmariam que o mérito moral sempre envolve algum esforço
consciente de vontade, ou algo feito intencional ou voluntariamente, o que não
pode ser aplicado à nossa posição na distribuição de talentos naturais, ou à nossa
classe social de origem.” (pg. 105)

“O que deve ser considerado um bem comum é, portanto, a distribuição dos


talentos naturais, isto é, as diferenças entre pessoas. Essas diferenças consistem
não só na variação de talentos do mesmo tipo (variação de força e imaginação
etc.), mas na variedade de talentos de diferente tipos. Essa variedade pode ser
considerada um bem comum porque torna possíveis inúmeras
complementariedades de talentos, quando estes estão devidamente organizados
para que se tire vantagem dessas diferenças.” (pg. 107)
Novamente, o princípio da diferença como reciprocidade: “Nesse ponto, é
fundamental que o princípio da diferença inclua uma ideia de reciprocidade: os mais
bem dotados (que ocupam um lugar mais afortunado na distribuição de talentos
naturais que não merecem moralmente) são estimulados a adquirir benefícios
adicionais – já são beneficiados por seu lugar afortunado na distribuição – com a
condição de que treinem seus talentos naturais e os utilizem com o intuito de
contribuir para o bem dos menos bem dotados (cujo lugar menos afortunado na
distribuição eles tampouco merecem moralmente). A reciprocidade é uma ideia
moral situada entre, por um lado, a imparcialidade que é altruísta, e a de vantagem
mútua por outro.” (pg. 108)

£22 – Comentários finais sobre justiça distributiva e mérito

Mais sobre as expectativas legítimas assumindo o lugar do mérito: “O problema


consiste, pois, em encontrar um substituto – uma concepção que desempenhe para
uma visão política, a necessária função que, naturalmente, embora incorretamente,
supomos que só possa ser desempenhada por um conceito de mérito moral
pertencente a uma visão abrangente. Para tanto, a justiça como equidade introduza
concepção de expectativas legítimas e sua concepção associada e titularidades. ”
(pg. 109)

Para substituir o concepção de mérito moral pela concepção de expectativas


legítimas é necessário que:

“(a) Deveria autorizar as desigualdades sociais e econômicas que são necessárias,


ou pelo menos altamente eficientes para o funcionamento de uma economia
industrial num Estado moderno. Tais desigualdades (como já foi dito) cobrem os
custos com treinamento e educação, agem como incentivos , e assim por diante.

(b) Deveria exprimir um princípio de reciprocidade, uma vez que a sociedade é vista
como um sistema equitativo de cooperação de uma geração para a outra entre
cidadãos livres e iguais, e já que a concepção política deve ser aplicada à estrutura
básica que regula a justiça de fundo.

(c) Deveria lidar de modo apropriado com as desigualdades mais graves do ponto
de vista da justiça política: as desigualdades nas perspectivas dos cidadãos tal
como se expressam por suas expectativas razoáveis ao longo de toda uma vida.
Essas desigualdades são as que tendem a surgir entre diferentes níveis de renda na
sociedade decorrentes da posição social em que os indivíduos nasceram e
passaram os primeiros anos de vida até a idade da razão, bem como de seu lugar
na distribuição de talentos naturais. O que nos preocupa são os efeitos de longo
prazo dessas contingencias, somados às consequências do acaso e da sorte no
transcurso da vida”. (pg. 109)

Além destas, outras duas merecem ser destacadas:

(d) Princípios que especificam uma distribuição equitativa tem, na medida do


possível, de ser formulados em termos que nos permitam verificar publicamente se
eles são satisfeitos.

(e) Deveríamos procurar princípios razoavelmente simples e cujos fundamentos


possam ser explicados de uma maneira que os cidadãos entendam à luz das ideais
disponíveis na cultura política pública. (pg. 110)

“Numa sociedade bem-ordenada geralmente merecemos essas coisas, quando o


mérito é entendido como direito conquistado em condições equitativas. A justiça
como equidade sustenta que a ideia de mérito no sentido de titularidade é
plenamente adequada a uma concepção política de justiça; e esta é uma ideia
moral (ainda que não corresponda a ideia de mérito moral definida por uma
doutrina abrangente), porque a concepção política à qual pertence é ela mesma
uma concepção moral.” (pg. 111)

Reivindicar mérito moral, num sistema de cooperação equitativa, é reivindicar


politicamente uma doutrina abrangente de bem: “Alguns sem dúvida insistirão em
afirmar que merecem moralmente certas coisas de que uma concepção política não
dá conta. Essas pessoas provavelmente agem a partir de suas doutrinas
abrangentes, e, com efeito, se a doutrina for bem fundada, agem corretamente. A
justiça como equidade não nega isso. Por que deveria? Ela apenas diz que, uma vez
que essas doutrinas conflitantes afirmam que merecemos moralmente coisas
diferentes de diferentes maneiras e por diferentes razões, não podem ser todas
corretas; e, de qualquer forma, nenhuma delas é politicamente viável. Para
encontrar uma base pública de justificação, temos de procurar uma concepção
política exequível de justiça. (pg. 111)
O Liberalismo Político – John Rawls

Conferência I

£1. Duas questões fundamentais


3 características básicas de uma concepção política liberal de justiça: O teor de uma tal concepção é
definido por três características principais: a) especificação de certos direitos, liberdades e oportunidades
básicos (de um tipo que conhecemos dos regimes democráticos constitucionais); b) atribuição de uma
prioridade especial a esses direitos, liberdades e oportunidades, principalmente no que diz respeito às
exigências do bem geral e de valores perfeccionistas; e c) medidas que assegurem a todos os cidadãos os
meios polivalentes adequados para que suas liberdades e oportunidades sejam efetivamente postas em
prática. Esses elementos podem ser compreendidos de diversas maneiras, uma vez que existem muitas
variantes de liberalismo. (pg. 48)

Cultura política como pano de saída: “Nosso ponto de partida é, então, a noção da própria cultura pública
como fundo comum de idéias e princípios básicos implicitamente reconhecidos. “ (pg. 50)

Sistema equitativo de cooperação como ideia organizadora: “A justiça como eqüidade procura realizar esse
intento valendo-se de uma idéia organizadora fundamental no interior da qual todas as idéias e princípios
possam ser sistematicamente conectados e relacionados. Essa idéia organizadora é a da sociedade
concebida como um sistema eqüitativo de cooperação social entre pessoas livres e iguais, vistas como
membros plenamente cooperativos da sociedade ao longo de toda a vida.” (pg. 51)

O objetivo prático da justiça como equidade: “O objetivo da justiça como eqüidade é, por conseguinte,
prático: apresenta-se como uma concepção da justiça que pode ser compartilhada pelos cidadãos como a
base de um acordo político racional, bem-informado e voluntário. Expressa a razão política compartilhada
e pública de uma sociedade. Mas, para se chegar a uma razão compartilhada, a concepção de justiça deve
ser, tanto quanto possível, independente das doutrinas filosóficas e religiosas conflitantes e opostas que os
cidadãos professam.” (pg. 52)

£2. A ideia de uma concepção política de justiça

Moral, mas não uma concepção de bem: “A primeira característica diz respeito ao objetivo de uma
concepção política. Embora tal concepção seja, evidentemente, uma concepção moral1, trata-se de uma
concepção moral elaborada para um tipo específico de objetivo, qual seja, para instituições políticas,
sociais e econômicas. Em particular, ela se aplica ao que chamarei de "estrutura básica" da sociedade, que,
para nossos propósitos atuais, suponho seja uma democracia constitucional moderna(...)” (pg. 53-54)

A segunda característica diz respeito ao modo de apresentação: uma concepção política de justiça aparece
como uma visão auto-sustentada. (pg. 54)

Concepção política como módulo: Usando uma expressão em voga, a concepção política é um módulo,
uma parte constitutiva essencial que se encaixa em várias doutrinas abrangentes razoáveis subsistentes na
sociedade regulada por ela, podendo conquistar o apoio daquelas doutrinas. Isso significa que pode ser
apresentada sem que se afirme, saiba ou se arrisque uma conjectura a respeito das doutrinas a que possa
pertencer ou de qual delas poderá conquistar apoio. (pg. 55)

A terceira característica de uma concepção política de justiça é que seu conteúdo é expresso por meio de
certas idéias fundamentais, vistas como implícitas na cultura política pública de uma sociedade
democrática. (pg. 56)

Ideia geral: “Assim sendo, a justiça como eqüidade parte de uma certa tradição política e assume como sua
idéia fundamental a idéia de sociedade como um sistema eqüitativo de cooperação ao longo do tempo, de
uma geração até a seguinte (§3)- Essa idéia organizadora central corre paralela a duas outras,
fundamentais, que são suas companheiras inseparáveis: a de que os cidadãos (aqueles envolvidos na
cooperação) são pessoas livres e iguais (§§3-3 e 5); e a de que uma sociedade bem-ordenada é efetivamente
regulada por uma concepção política de justiça (§6)”. (pg. 56-57)

£3. A ideia da sociedade como um sistema equitativo de cooperação

“2. Podemos especificar melhor a idéia de cooperação social destacando três de seus elementos:

a. A cooperação é distinta da mera atividade socialmente coordenada, como, por exemplo, a


atividade organizada pelas ordens decretadas por uma autoridade central. A cooperação é guiada
por regras e procedimentos publicamente reconhecidos, aceitos pelos indivíduos que cooperam e
por eles considerados reguladores adequados de sua conduta.

b. A cooperação pressupõe termos eqüitativos. São os termos que cada participante pode
razoavelmente aceitar, desde que todos os outros os aceitem. Termos eqüitativos de cooperação
implicam uma idéia de reciprocidade: todos os que estão envolvidos na cooperação e que fazem
sua parte como as regras e procedimentos exigem, devem beneficiar-se da forma apropriada,
estimando- se isso por um padrão adequado de comparação. Uma concepção de justiça política
caracteriza os termos equitativos da cooperação. Como o objeto primário da justiça é a estrutura
básica da sociedade, esses termos eqüitativos são expressos pelos princípios que especificam os
direitos e deveres fundamentais no interior das principais instituições da sociedade e regulam os
arranjos da justiça de fundo ao longo do tempo, de modo que os benefícios produzidos pelos
esforços de todos são distribuídos eqüitativamente e compartilhados de uma geração até a
seguinte.

c. A idéia de cooperação social requer uma idéia de vantagem racional ou do bem de cada
participante. Essa idéia de bem especifica o que aqueles envolvidos na cooperação, sejam
indivíduos, famílias, associações, ou até mesmo governos de diferentes povos, estão tentando
conseguir, quando o projeto é considerado de seu ponto de visita.” (pg. 58-59)

A ideia de reciprocidade: Isso traz à tona um outro ponto, ou seja, que a reciprocidade é uma relação entre
cidadãos numa sociedade bem-ordenada (§6) expressa por sua concepção política e pública de justiça.
Portanto, os dois princípios de justiça, mais o princípio da diferença (§1.1), com sua referência implícita à
divisão igual como padrão de comparação, expressam uma idéia de reciprocidade entre os cidadãos. (pg.
60)

Ideia normativa de pessoa: “Assim sendo, dizemos que uma pessoa é alguém que pode ser um cidadão,
isto é, um membro normal e plenamente cooperativo da sociedade por toda a vida.” (pg. 61)

Como partimos da tradição do pensamento democrático, também consideramos os cidadãos


pessoas livres e iguais. A idéia básica é que, em virtude de suas duas faculdades morais (a
capacidade de ter senso de justiça e a capacidade de ter uma concepção do bem) e das faculdades
da razão (de julgamento, pensamento e inferência, ligados a essas faculdades), as pessoas são
livres. O fato de terem essas faculdades no grau mínimo necessário para serem membros
plenamente cooperativos da sociedade torna as pessoas iguais.

Em outras palavras: como as pessoas podem participar plenamente de um sistema eqüitativo de


cooperação social, atribuímos a elas duas faculdades morais associadas aos elementos da idéia de
cooperação social citados acima, quais sejam, a capacidade de ter senso de justiça e a capacidade
de ter uma concepção do bem. Senso de justiça é a capacidade de entender a concepção pública
de justiça que caracteriza os termos eqüitativos da cooperação social, de aplicá-la e de agir de
acordo com ela. Dada a natureza da concepção política de especificar uma base pública de
justificação, o senso de justiça também expressa uma disposição, quando não o desejo, de agir em
relação a outros em termos que eles também possam endossar publicamente (11:1). A capacidade
de ter uma concepção do bem é a capacidade de formar, revisar e procurar concretizar
racionalmente uma concepção de vantagem racional pessoal, ou bem. (pg. 61-62)

£4. A ideia da posição original


Aqui enfrentamos uma segunda dificuldade, mas que é só aparente. Explico: a partir do que dissemos, é
claro que a posição original

deve ser considerada um artifício de rzepresentação e, por conseguinte, todo acordo estabelecido pelas
partes deve ser visto como hipotético e a-histórico. Mas, nesse caso, como acordos hipotéticos não criam
obrigações, qual a importância da posição original? A resposta está implícita no que já foi dito: a
importância é dada pelo papel das várias características da posição original enquanto artifício de
representação. (pg. 67)

Posição original como meio de esclarecimento público: Mesmo que existam, como certamente existem,
razões a favor e contra todas as concepções disponíveis de justiça, ainda assim pode haver um equilíbrio
global de razões claramente favoráveis a uma concepção em detrimento do resto. Enquanto artifício de
representação, a idéia da posição original serve como um meio de reflexão e auto-esclarecimento públicos.
(pg. 69)

Resposta à Sandel: “Podemos, por assim dizer, entrar nessa posição a qualquer momento simplesmente
argumentando em favor de princípios de justiça em consonância com as restrições à informação
mencionadas acima. Quando, dessa forma, simulamos estar na posição original, nossa argumentação não
nos compromete com uma doutrina metafísica particular sobre a natureza do eu, assim como nossa
participação numa peça, no papel de Macbeth ou de Lady Macbeth, não nos leva a pensar que somos de
fato um rei ou uma rainha envolvidos numa luta desesperada pelo poder político.” (pg. 70)

A autonomia racional (11:5) não deve ser confundida com a autonomia plena (11:6). Esta última é um ideal
político e parcela do ideal mais completo de uma sociedade bem-ordenada. A autonomia racional em si
não constitui ideal algum: ela é uma forma de expressar a idéia do racional (em contraposição ao razoável)
na posição original.

§ 5 . A concepção política de pessoa

Os três aspectos que caracterizam o cidadão como livre:

Primeiro, os cidadãos são livres no sentido de conceberem a si mesmos e aos outros como indivíduos que
têm a faculdade moral de ter uma concepção do bem. Isso não significa que, como parte de sua concepção
política, considerem-se inevitavelmente ligados ao esforço de realização da concepção específica do bem
que professam num determinado momento. Enquanto cidadãos, são vistos, ao contrário, como capazes de
rever e mudar essa concepção por motivos razoáveis e racionais, e podem fazê-lo se assim o desejarem.
Enquanto pessoas livres, os cidadãos reivindicam o direito de considerar sua própria pessoa independente
de — e não identificada com — qualquer concepção específica desse tipo ou do sistema de fins últimos
associadoa essa concepção. Dada sua capacidade moral de formular, revisar e procurar concretizar
racionalmente uma concepção do bem, sua identidade pública de pessoa livre não é afetada por mudanças
em sua concepção específica do bem ao longo do tempo. (pg. 73)

Um segundo aspecto em relação ao qual os cidadãos se vêem como livres é que se consideram fontes auto-
autenticadoras de r e i vindicações válidas. Isto é, consideram-se no direito de fazer reivindicações a suas
instituições de modo a promover suas concepções do bem (desde que essas concepções estejam incluídas
no leque permitido pela concepção pública de justiça). Os cidadãos julgam que essas reivindicações têm
um peso próprio, independentemente de derivarem de deveres e obrigações especificados por uma
concepção política de justiça como, por exemplo, os deveres e obrigações que têm para com a sociedade.
As reivindicações que os cidadãos consideram fundamentadas nos deveres e obrigações que têm por base
sua concepção do bem, e na doutrina moral que professam em sua vida pessoal, também são, para nossos
propósitos aqui, vistas como autoautenticadoras. Numa concepção política de justiça de uma democracia
constitucional, isso é razoável, pois, desde que as concepções do bem e as doutrinas morais endossadas
pelos cidadãos sejam compatíveis com a concepção pública de justiça, aqueles deveres e obrigações
autenticam-se a si próprios, de um ponto de vista político. (pg. 76)

Esse contraste com a escravidão deixa claro por que conceber os cidadãos como pessoas livres em virtude
de suas faculdades morais e de sua capacidade de ter uma concepção do bem anda de mãos dadas com
uma determinada concepção política de justiça. (pg. 77)

Donde surgem as expectativas legítimas: O terceiro aspecto pelo qual os cidadãos são vistos como livres
diz respeito a serem percebidos como capazes de assumir responsabilidade por seus objetivos, e isso afeta
a maneira de avaliar suas várias reivindicações3 6 . Em termos muito gerais, havendo instituições de base
justas, e dado que cada pessoa tem uma parte eqüitativa de bens primários (da forma requerida pelos
princípios de justiça), os cidadãos são considerados capazes de ajustar seus objetivos e aspirações ao que é
razoável esperar que possam fazer. Além disso, são vistos como capazes de restringir suas reivindicações
àquelas permitidas pelos princípios de justiça. Por conseguinte, os cidadãos devem reconhecer que o peso
de suas reivindicações não é determinado pela força e intensidade psicológica de suas aspirações e desejos
(em contraposição às suas necessidades enquanto cidadãos), mesmo quando suas aspirações e desejos são,
de seu ponto de vista, racionais. O procedimento é o mesmo de antes: começamos com a idéia básica da
sociedade como um sistema eqüitativo de cooperação. Quando essa idéia se desenvolve numa concepção
de justiça política, implica não só considerar os cidadãos como pessoas que se envolvem com a cooperação
social durante toda a vida, mas também considerá-los capazes de assumir responsabilidade por seus
objetivos. Isso significa considerá-los capazes de ajustar seus objetivos, de modo que seja possível procurar
realizá-los de acordo com os meios que podem razoavelmente esperar obter em troca daquilo com que
podem razoavelmente esperar contribuir. A idéia da responsabilidade pelos objetivos está implícita na
cultura política pública e é discernível em suas práticas. Uma concepção política da pessoa articula essa
idéia e a insere numa idéia de sociedade como um sistema eqüitativo de cooperação. (pg. 77-78)

§6. A idéia de sociedade bem-ordenada

Dizer que uma sociedade é bem-ordenada significa três coisas: a primeira (e isso está implícito na idéia de
uma concepção de justiça publicamente reconhecida), que se trata de uma sociedade na qual cada
indivíduo aceita, e sabe que todos os demais aceitam, precisamente os mesmos princípios de justiça; a
segunda (implícita na idéia de regulação efetiva), que todos reconhecem, ou há bons motivos para assim
acreditar, que sua estrutura básica — isto é, suas principais instituições políticas, sociais e a maneira
segundo a qual se encaixam num sistema único de cooperação — está em concordância com aqueles
princípios; e a terceira, que seus cidadãos têm um senso normalmente efetivo de justiça e, por conseguinte,
em geral agem de acordo com as instituições básicas da sociedade, que consideram justas. Numa
sociedade assim, a concepção publicamente reconhecida de justiça estabelece um ponto de vista comum, a
partir do qual as reivindicações dos cidadãos à sociedade podem ser julgadas. (pg. 79)

Três fatos gerais da cultura política:

O primeiro é que a diversidade de doutrinas religiosas, filosóficas e morais abrangentes e razoáveis não é
uma simples condição histórica que pode desaparecer logo; é um traço permanente da cultura pública da
democracia. (pg. 80)

Um segundo fato geral, ligado ao primeiro, é que um entendimento compartilhado e contínuo que tem por
objeto uma única doutrina religiosa, filosófica ou moral abrangente só pode ser mantido pelo uso
opressivo do poder estatal. (...) Chamo a isso o fato da opressão.(pg. 81)

“Finalmente, um terceiro fato geral é que um regime democrático duradouro e seguro, não dividido por
tendências doutrinárias conflitantes e classes sociais hostis, deve ser apoiado, voluntária e livremente, ao
menos por uma maioria substancial de seus cidadãos politicamente ativos. Junto com o primeiro fato
geral, isso significa que, para servir de base pública de justificação de um regime constitucional, uma
concepção política de justiça deve ser uma concepção que possa ser endossada por doutrinas abrangentes
e razoáveis muito diferentes e opostas".” (pg. 81)
Essas condições não impõem o requisito irreal — utópico, na verdade — de que todos os cidadãos adotem
a mesma doutrina abrangente, mas apenas, como no liberalismo político, a mesma concepção pública de
justiça. (pg. 82-83). Portanto, a questão da filosofia política sobre o ponto de vista prático, de sua
realização, passa a ser: como podemos alcançar uma mesma concepção política de justiça? Rawls nos
responderia, em TJ, que por meio da posição original. Já em LB, parece que, ao reconhecer o fato da
dissenso, que em última instância, deve ser uma consequência das pessoas não conseguirem assumir a
posição das partes na posição original, Rawls precisa apostar em uma saída democrática, e, por extensão,
mediada por uma razão pública. O que eu quero dizer com isso? Que talvez aí esteja o ethos da vida
democrática: os fundamentos de uma concepção política de justiça compartilhada. Rawls nos apresenta
alguns destes fundamentos. Em última instância, podemos nos ater às características morais das pessoas
(1. Capacidade de razão e 2. Capacidade de razoabilidade), quase que as derivando para a sociedade?
Atraente mas aparentemente simplista. Ainda mais, parece que a capacidade de razão é dada e observada,
entretanto, não se percebe o mesmo com a razoabilidade?

§ 7 . Nem comunidade, nem associação

Duas diferenças entre uma sociedade democrática e uma associação

1)Não temos uma identidade anterior à nossa entrada na sociedade: não é como se viéssemos de outro
lugar; encontramo-nos crescendo em tal sociedade e em tal posição social, com suas correspondentes
vantagens e desvantagens, como quis nossa boa ou má sorte. Vamos deixar inteiramente de lado, por
enquanto, as relações com outras sociedades, e adiar todas as questões de justiça entre os povos até
dispormos de uma concepção de justiça para uma sociedade bem-ordenada. Assim sendo, a percepção não
é a de que entramos na sociedade na idade da razão, como o faríamos no caso de uma associação, mas a de
que nascemos numa sociedade onde passaremos toda a vida. (pg. 84-85)

2) Uma segunda diferença crucial entre uma sociedade democrática bem-ordenada e uma associação é que
a primeira não tem objetivos e fins últimos da mesma maneira que as pessoas ou as associações os têm.
Entendo aqui por objetivos e fins últimos aqueles que têm um lugar especial nas doutrinas abrangentes.
Os fins constitucionalmente especificados da sociedade, como aqueles apresentados no preâmbulo de uma
constituição — uma justiça mais perfeita, os benefícios da liberdade, a defesa comum — , devem, ao
contrário, submeter-se a uma concepção política de justiça e sua razão pública. Isso significa que os
cidadãos não supõem que haja fins sociais anteriores que justifiquem considerar que algumas pessoas têm
mais ou menos valor para a sociedade do que outras e, em função disso, atribuir-lhes privilégios e direitos
básicos diferentes. Muitas sociedades do passado pensavam de outra forma: consideravam como fins
últimos a religião e a formação de impérios, a dominação e a glória; e os direitos e status dos indivíduos e
classes dependiam de seu papel na realização desses fins. Nesse sentido, viam a si próprias como
associações. (pg. 85)

Por que uma democracia não pode ser uma comunidade: Embora uma sociedade democrática bem-
ordenada não seja uma associação, tampouco é uma comunidade, se por comunidade entendemos uma
sociedade governada por uma doutrina religiosa, filosófica ou moral abrangente e compartilhada. Esse
fato é crucial para a idéia de razão pública de uma sociedade bem-ordenada. Pensar numa democracia
como uma comunidade (assim definida) é negligenciar o alcance limitado de sua razão pública fundada
numa concepção política de justiça. (pg. 86)
CONFERÊNCIA II – AS CAPACIDADES DOS CIDADÃOS E SUA REPRESENTAÇÃO

§ 1 . O razoável e o racional

Dois aspectos básicos das virtudes das pessoas: 1. A distinção entre o razoável e o racional remonta, creio
eu, a Kant: é expressa em sua distinção entre o imperativo categórico e o hipotético em Foundations e em
outros textos seus. O primeiro representa a razão prática pura, o segundo representa a razão prática
empírica. Para os propósitos de uma concepção política de justiça, atribuo ao razoável um sentido mais
restrito e associo a ele, primeiro, a disposição de propor e sujeitar-se a termos equitativos de cooperação e,
segundo, à disposição de reconhecer os limites do juízo e de aceitar suas conseqüências. (pg. 92)

As pessoas são razoáveis em um aspecto básico quando, entre iguais, por exemplo, estão dispostas a
propor princípios e critérios como termos eqüitativos de cooperação e a submeter-se voluntariamente a
eles, dada a garantia de que os outros farão o mesmo. (pg. 93)

O não-razoável: Em contraste, as pessoas não são razoáveis nesse mesmo aspecto básico quando planejam
envolver-se em empreendimentos cooperativos, mas não estão dispostas a obedecer, nem mesmo a
propor, exceto enquanto simulação pública necessária, quaisquer princípios ou critérios que especifiquem
os termos eqüitativos de cooperação. Estão dispostas, isso sim, a violar esses termos de acordo com seus
interesses, conforme as circunstâncias permitirem. (pg. 94)

O que os agentes racionais não têm é a forma particular de sensibilidade moral subjacente ao desejo de se
engajar na cooperação equitativa como tal, e de fazê-lo em termos que seria razoável esperar que os outros,
como iguais, aceitem. Não estou supondo que o razoável seja a totalidade da sensibilidade moral; mas
inclui a parte que faz a conexão com a idéia de cooperação social eqüitativa*. (pg. 95)

Porque não deriva-se o razoável do racional: Pensam que, se o razoável puder ser derivado do racional,
isto é, se alguns princípios bem definidos de justiça puderem ser derivados das preferências, das decisões
ou dos acordos de agentes meramente racionais em circunstâncias adequadamente especificadas, então o
razoável finalmente terá sido posto sobre uma base firme. O cético moral terá então sua resposta'. (pg 95)

Dentro da idéia da cooperação eqüitativa, o razoável e o racional são noções complementares. Ambos são
elementos dessa idéia fundamental, e cada um deles conecta- se com uma faculdade moral distinta —
respectivamente, com a capacidade de ter um senso de justiça e com a capacidade de ter uma concepção
do bem. Ambos trabalham em conjunto para especificar a idéia de termos eqüitativos de cooperação,
levando-se em conta o tipo de cooperação social em questão, a natureza das partes e a posição de cada
uma em relação à outra . Como idéias complementares, nem o razoável nem o racional podem ficar um
1

sem o outro. Agentes puramente razoáveis não teriam fins próprios que quisessem realizar por meio da
cooperação eqüitativa; agentes puramente racionais carecem do senso de justiça e não conseguem
reconhecer a validade independente das reivindicações de outros . (pg. 95-96)
6

Outra diferença básica entre o razoável e o racional é que o razoável é público de uma forma que o
racional não o é . (pg. 97)
s

Sem um mundo público estabelecido, o razoável pode ser suspenso e posto, em grande parte, junto com o
racional, embora o razoável sempre vigore in foro interno, na frase de Hobbes. (pg. 97)

§ 2. Os limites do juízo
Os aspectos básicos do razoável: O primeiro aspecto básico do razoável é, portanto, a disposição de
propor termos eqüitativos de cooperação e cumpri-los, desde que os outros também o façam. O segundo
aspecto básico, como agora o vejo, é a disposição de reconhecer os limites do juízo e aceitar suas
conseqüências para o uso da razão pública na condução do exercício legítimo do poder político num
regime constitucional. (pg. 98)

Queremos saber até que grau pode chegar o desacordo razoável, porque sempre trabalhamos inicialmente
com uma teoria ideal. Por isso perguntamos: como pode haver um desacordo razoável? (...) Uma
explanação é a seguinte: digamos que a discordância razoável seja discordância entre pessoas razoáveis,
isto é, entre pessoas que realizaram suas duas capacidades morais num grau suficiente para serem cidadãs
livres e iguais de um regime constitucional, e que têm o desejo constante de honrar os termos eqüitativos
de cooperação e de serem membros integralmente cooperativos da sociedade. Dadas suas capacidades
morais, compartilham uma razão humana comum e capacidades semelhantes de pensamento e
julgamento: conseguem fazer inferências, ponderar evidências e equilibrar opiniões conflitantes. (pg. 99)

Uma explanação do tipo certo é que as fontes do desacordo razoável — os limites do juízo — entre pessoas
razoáveis são os muitos acasos envolvidos no correto (e consciencioso) exercício de nossas faculdades de
raciocínio e julgamento no curso normal da vida política. (pg. 99)

a. A evidência — empírica ou científica — relacionada ao caso é conflitante e complexa e, por isso, difícil
de verificar e avaliar.
b. Mesmo quando concordamos inteiramente com os tipos de consideração que são relevantes, podemos
discordar a respeito de sua importância relativa e, assim, chegar a julgamentos diferentes.
c. Numa certa medida, todos os nossos conceitos, e não só os conceitos morais e políticos, são vagos e
sujeitos a controvérsias, e essa indeterminação significa que devemos confiar em nosso julgamento e
interpretação (e em julgamentos a respeito de interpretações) dentro de certos limites (que não é possível
especificar com exatidão), quando pessoas razoáveis discordarem.
d. Numa certa medida (não sabemos qual exatamente), nossa forma de reconhecer a evidência e pesar
valores morais e políticos é moldada por toda a nossa experiência, por todo o curso de nossa vida até o
momento; e as totalidades de nossas experiências sempre diferem. Assim, numa sociedade moderna, com
seus numerosos cargos e posições, suas variadas divisões do trabalho, seus inúmeros grupos sociais e
diversidade étnica, as totalidades das experiências dos cidadãos são díspares o bastante para seus
julgamentos diferirem, ao menos em certo grau, sobre muitos, quando não sobre a maioria dos casos que
tenham qualquer complexidade significativa.
e. É freqüente haver diferentes tipos de considerações normativas de peso diferente em ambos os lados de
uma controvérsia, e é difícil fazer uma avaliação global1

f. Finalmente, como notamos ao nos referir à visão de Berlin (V:6.2), todo sistema de instituições sociais é
limitado nos valores que pode admitir, de modo que é preciso fazer uma seleção a partir de todo o leque
de valores morais e políticos que podem ser realizados. Isso porque todo sistema de instituições tem, por
assim dizer, um espaço social limitado. Ao nos vermos forçados a escolher entre valores que prezamos, ou
quando nos apegamos a muitos e é necessário restringir cada um deles em vista das exigências dos
demais, enfrentamos grandes dificuldades para estabelecer prioridades e fazer ajustes. Muitas decisões
difíceis parecem não ter uma resposta clara. (pg. 100-101)

A ideia democrática de tolerância: Essas observações levam a um quinto fato geral que podemos
11

formular da seguinte maneira: muitos de nossos mais importantes julgamentos são feitos em condições
nas quais não se deve esperar que pessoas conscienciosas, no pleno exercício de suas faculdades racionais,
mesmo depois de discussão livre, cheguem à mesma conclusão. Alguns julgamentos razoáveis e
onflitantes (especialmente importantes são aqueles que fazem parte das doutrinas abrangentes das
pessoas) podem ser válidos, outros não; pode acontecer de nenhum ser válido. Esses limites do juízo são
da maior importância para a idéia democrática de tolerância.(pg. 102)

§ 3 . Doutrinas abrangentes e razoáveis

Traços essenciais de uma doutrina abrangente razoável:


1- Razão teórica: Suponha, primeiro, que as pessoas razoáveis professem somente doutrinas
abrangentes razoáveis . Precisamos, então, de uma definição dessas doutrinas. Elas têm três
12

traços essenciais. Um deles é que uma doutrina razoável é um exercício de razão teórica: diz
respeito aos principais aspectos religiosos, filosóficos e morais da vida humana, de uma forma
mais ou menos consistente e coerente. (pg. 103)

2-Doutrinas abrangentes tem de ser razoáveis pois submetidas à razão prática: Na medida em que
seleciona os valores que são considerados especialmente significativos e a forma de equilibrá-los quando
conflitam, uma doutrina abrangente e razoável também é um exercício de razão prática. (pg. 103)

3-Seu caráter de tradição: Finalmente, uma terceira característica é que, embora uma visão abrangente e
razoável não seja necessariamente fixa e inalterável, em geral faz parte ou se baseia numa tradição de
pensamento e doutrina. (pg. 103)

O fato do pluralismo: A conseqüência evidente dos limites do juízo é que nem todas as pessoas razoáveis
professam a mesma doutrina abrangente. Além disso, elas também reconhecem que todas as pessoas sem
exceção, inclusive elas próprias, estão à mercê desses limites, e, embora muitas doutrinas abrangentes e
razoáveis tenham seus defensores, não é possível que todas sejam verdadeiras (e é possível que nenhuma
delas seja verdadeira). A doutrina que uma pessoa razoável professa é apenas uma doutrina razoável entre
outras. Ao professá-la, é claro, a pessoa acredita que seja verdadeira, ou razoável, conforme o caso. (pg.
104)

Um critério mínimo do razoável, o abusrdo: Quando damos um passo além do reconhecimento da


razoabilidade de uma doutrina e declaramos nossa crença nela, não estamos sendo absurdos. (pg. 104)

A Verdade como inimiga da democracia: Mas é necessário ter uma base desse tipo para marcar
a diferença, de formas aceitáveis para um público razoável, entre crenças abrangentes enquanto tais e
crenças abrangentes verdadeiras . (pg. 105)
15

Como nossa verdade pode não ser vossa, concordamos em discordar: Concluindo: as pessoas razoáveis
vêem que os limites do juízo colocam restrições àquilo que pode ser razoavelmente justificado perante os
outros e, por isso, endossam alguma forma de liberdade de consciência e autonomia de pensamento. E não
é razoável que usemos o poder político, se dispusermos dele ou o compartilharmos com outros, para
reprimir visões abrangentes que não deixam de ser razoáveis. (pg. 105)

Razoabilidade como ideia da razão pública, marcadamente política: quando igualmente representados na
posição original, nenhum representante dos cidadãos pode outorgar a qualquer outra pessoa, ou
associação de pessoas, a autoridade política para fazer isso. Essa autoridade não tem base na razão
pública. O que deve ser proposto é, em vez disso, uma forma de tolerância e liberdade de pensamento
coerente com a argumentação acima. Observe que, aqui, ser razoável não é uma idéia epistemológica
(embora tenha elementos epistemológicos). É, melhor dizendo, parte de um ideal político de cidadania
democrática que inclui a idéia de razão pública. (pg. 106)

A ideia de limites do juízo [de certa forma parece a argumentação mais “liberal”, numa concepção tacanha
e tecninicista de liberal]: interpretação dos limites do juízo não faz nada disso. Simplesmente apresenta
uma lista das circunstâncias que tornam o acordo político no julgamento, especialmente nos julgamentos a
respeito de doutrinas abrangentes, muito mais difíceis. Essa dificuldade resulta da experiência histórica,
de séculos de conflito sobre crenças religiosas, filosóficas e morais. O liberalismo político não duvida
que certos tipos específicos de julgamentos políticos e morais sejam corretos, e considera razoáveis
muitos deles. Tampouco afirma que devemos ser hesitantes e incertos, e muito menos ainda céticos, a
respeito de nossas crenças. Devemos, ao contrário, reconhecer a impossibilidade prática de chegar a um
acordo político razoável e viável em termos do julgamento sobre a verdade de doutrinas abrangentes,
principalmente um acordo que possa servir ao propósito político de conseguir a paz e a concórdia, por
exemplo, numa sociedade caracterizada por diferenças religiosas e filosóficas. (pg. 107)
A exposição em dois estágios: A primeira consideração é a seguinte: precisamos ter em mente os dois
estágios da exposição. No primeiro estágio, apresentamos a justiça como eqüidade como uma visão
independente, uma definição de concepção política de justiça que se aplica, em primeira instância, à
estrutura básica e articula dois tipos de valores políticos, os da justiça política e os da razão pública
(VI:4.1). Como a idéia de um consenso sobreposto só é introduzida no segundo estágio, quando se
discute o problema da estabilidade, nosso problemano primeiro estágio é saber se a distinção entre as
duas formas de pluralismo é relevante. Faz alguma diferença que as partes pressuponham a existência do
pluralismo como tal ou do pluralismo razoável? A resposta é crucial: os mesmos princípios de justiça são
selecionados em ambos os casos. As partes sempre devem garantir os direitos e liberdades básicos
daqueles que representam. (108)

[Novamente o abusurdo]: Pluralismo razoável x fato do pluralismo: Para dizer que a justiça como
eqüidade tem grande alcance, as partes supõem que o pluralismo como tal está em vigor. Para dizer que o
conteúdo da justiça como eqüidade não é influenciado pela existência do não-razoável, isto é, pela
existência de doutrinas abrangentes nãorazoáveis, as partes supõem que o pluralismo razoável está em
vigor. Ter o mesmo conteúdo em ambos os casos mostra tanto que a justiça como eqüidade tem grande
alcance quanto que seus princípios não são determinados pelo absurdo. (109)

[Novamente o abusurdo]: Pluralismo razoável x fato do pluralismo: Para dizer que a justiça como
eqüidade tem grande alcance, as partes supõem que o pluralismo como tal está em vigor. Para dizer que o
conteúdo da justiça como eqüidade não é influenciado pela existência do não-razoável, isto é, pela
existência de doutrinas abrangentes nãorazoáveis, as partes supõem que o pluralismo razoável está em
vigor. Ter o mesmo conteúdo em ambos os casos mostra tanto que a justiça como eqüidade tem grande
alcance quanto que seus princípios não são determinados pelo absurdo. (109)
§ 4 . A condição de publicidade: seus três níveis

Condições de justiça: Essas circunstâncias são de dois tipos: primeiro, existem as circunstâncias objetivas
de escassez moderada; segundo, as circunstâncias subjetivas da justiça. Estas últimas são, em geral, o fato
do pluralismo como t a l , embora numa sociedade bem-ordenada da justiça como eqüidade elas
compreendam o fato do pluralismo razoável.(110)

1º nível: Chegamos a esse nível quando a sociedade é efetivamente regulada por princípios públicos de
justiça: os cidadãos aceitam e sabem que os outros também aceitam esses princípios, e essa percepção, por
sua vez, é publicamente reconhecida. (110)

2º níve: O segundo nível de publicidade diz respeito às crenças gerais, à luz das quais os princípios
primeiros de justiça podem, eles mesmos ser aceitos, isto é, as crenças gerais sobre a natureza humana,
sobre a forma pela qual as instituições sociais e políticas geralmente funcionam e, enfim, todas aquelas
crenças que são relevantes para a justiça política. (111)

3º nível: . O terceiro e último nível de publicidade está relacionado com a justificação plena da concepção
pública de justiça, apresentada em seus próprios termos. Essa justificação inclui tudo quanto poderíamos
dizer — você e eu — quando definimos a justiça como equidade e refletimos sobre o porquê de
procedermos de certa forma em vez de outra. (111)

Instittucionalização: Mas, se os cidadãos assim o desejarem, a justificação plena está presente na cultura
pública, refletida em seu sistema jurídico e nas instituições políticas, bem como nas principais tradições
históricas de sua interpretação. (111)

O papel amplo de sua concepção política de justiça, o papel pedagógico da razão


pública: Concretizar a publicidade plena é concretizar um mundo social em que o ideai de cidadania
pode ser aprendido e, assim, despertar um desejo efetivo de ser esse t i p o de pessoa. Tal função educativa
da concepção política caracteriza seu papel amplo.

§5. Autonomia racional: artificial, não política

Termos equitativos são modelados na posição original A autonomia racional, que discuto em
primeiro lugar, baseia-se nas faculdades intelectuais e morais das pessoas. Expressa-se no exercício da
capacidade de formular, revisar e procurar concretizar uma concepção do bem, e de deliberar de acordo
com ela. Expressa-se também na capacidade de entrar em acordo com outros (quando restrições razoáveis
se apresentam). Assim, a autonomia racional é representada fazendo-se da posição original um caso de
justiça procedimental pura. Isto é, quaisquer que sejam os princípios que as partes selecionem da lista de
alternativas
apresentada a elas, eles são aceitos como justos. Em outras palavras, seguindo a idéia de que os próprios
cidadãos (por meio de seus representantes) devem especificar os termos eqüitativos de sua cooperação
(e deixando de lado, por enquanto, o critério do equilíbrio reflexivo), o resultado da posição original
produz, a nosso ver, os princípios de justiça apropriados para cidadãos livres e iguais. (117)

Duas formas de autonomia racional:

1- Representantes das partes: A primeira é que os princípios de justiça apropriados


para especificar termos eqüitativos de cooperação social são aqueles
que seriam selecionados como resultado de um processo de deliberação
racional, visualizado como um processo realizado pelas partes. (...) Justiça procedimental pura significa
que,(...) em suas deliberações racionais, as partes não se vêem obrigadas a aplicar nenhum princípio de
direito e justiça determinado previamente, nem se consideram limitadas por ele. Em outras palavras, não
reconhecem nenhuma opinião externa a seu próprio ponto de vista, enquanto representantes racionais,
pela qual sejam limitados por p r i n cípios anteriores e independentes de justiça. (118)
2- Representantes dos cidadãos: A segunda forma pela qual as partes são racionalmente autônomas
é definida pela natureza dos interesses que orientam suas deliberações como representantes dos
cidadãos. Como se considera que os cidadãos têm duas capacidades morais, atribuímos a eles
dois i n teresses correspondentes de ordem superior para desenvolver e exercer essas duas
capacidades. Dizer que tais interesses são de "ordem superior" significa que, quando a idéia
fundamental de pessoa é esépecificada, esses interesses são vistos como básicos e, por isso,
como normalmente reguladores e efetivos. Alguém que não desenvolveu e não pode exercer as
capacidades morais no grau mínimo exigido não pode ser um membro normal e plenamente
cooperativo da sociedade ao longo de toda a vida. Decorre daí que, como representantes dos
cidadãos, as partes adotam princípios garantidores das condições que asseguram a essas
capacidades seu desenvolvimento adequado e pleno exercício (118-119)
2

Bens primários como meio polivalentes, e portanto, condições já para a autonomia racional:
Aqui, introduzimos a idéia dos bens primários. Estipulamos que as partes avaliam os princípios existentes
estimando em que medida eles garantem os bens primários essenciais à realização dos interesses de ordem
superior da pessoa para quem cada uma age como representante. Dessa forma, atribuímos às partes
objetivos suficientementeespecíficos para que suas deliberações racionais atinjam um resultado preciso.
Para identificar os bens primários, examinamos as condições sociais básicas e meios polivalentes genéricos
normalmente necessáriospara desenvolver e exercer as duas capacidades morais e para a busca eficaz de
concepções do bem com teores muito diferentes. (120)

Autonomia racional como base para a autonomia plena: Desse modo, o objetivo das partes é chegar a um
acordo sobre os princípios de justiça que capacite os cidadãos por elas representados a se tornarem
pessoas completas, isto é, a desenvolverem adequadamente e exercerem plenamente suas capacidades
morais e a procurar realizar as concepções específicas do bem que vierem a constituir. Os princípios de
ustiça devem levar a um esquema de instituições básicas — um mundo social — condizente com esse f i m.
(122)
§6. Autonomia plena: política, não ética

Enfatizo aqui que a autonomia plena é atingida pelos cidadãos: é um valor político, não um valor ético.
Com isso, quero dizer que ela se realiza na vida pública pela afirmação dos princípios políticos de
justiça e pelo usufruto das proteções dos direitos e liberdades básicos; e realiza-se também pela
participação nas questões públicas da sociedade e em sua autodeterminação coletiva ao longo do tempo.
(123)

O caráter liberal: A justiça como eqüidade enfatiza esse contraste: afirma a autonomia política de
todos, mas deixa o peso da autonomia ética para ser decidido pelos cidadãos separadamente, à luz de suas
doutrinas abrangentes. (123)

Razoável como razão pública: A autonomia plena é modelada pelas condições razoáveis impostas às
partes como racionalmente autônomas. Os cidadãos realizam essa autonomia agindo de acordo com a
concepção política de justiça, orientada por sua razão pública, e em sua procura do bem na vida pública e
não-pública. (124)

POSIÇÃO ORIGINAL COMO EQUITATIVA: Definimos essa idéia ao dizer que os cidadãos devem ser
iguais em virtude de possuir, no grau mínimo necessário, as duas capacidades morais e as outras
faculdades que nos possibilitam ser membros normais e integralmente cooperativos da sociedade. Todos
os que satisfizerem essa condição têm os mesmos direitos, liberdades e oportunidades básicos, e a mesma
proteção dos princípios de justiça.

O VÉU DA IGNORÂNCIA FUNCIONANDO: Para moldar essa igualdade na posição original, dizemos
que as partes, como representantes daqueles que satisfazem essa condição, estão simetricamente situadas.
Esse requisito é eqüitativo porque, para estabelecer os termos eqüitativos da cooperação social (no caso da
estrutura básica), a única característica relevante das pessoas é o fato de possuírem as capacidades morais
(no grau mínimo necessário) e terem as capacidades normais para ser um membro cooperativo da
sociedade ao longo de toda a vida. (124)

Porque as desigualdades de esforço e talento não legitimam poderes políticos desiguauis: dado o papel e o
status efetivo de cada um numa sociedade bem-ordenada, inclusive o status de cidadania igual, o senso
de justiça de todos os cidadãos é igualmente suficiente em relação ao que se espera deles. Por conseguinte,
cada um deles é representado igualmente na posição original. E, assim sendo, todos recebem a mesma
proteção dos princípios públicos de justiça. (125)

§7. A base da motivação moral da pessoa

Primeiro, os conhecidos, que são: a) as duas capacidades morais, a capacidade de ter senso de justiça e a
capacidade de ter uma concepção do bem. Como necessárias ao exercício das capacidades morais,
acrescentamos: b) as faculdades intelectuais de julgamento, pensamento
e inferência. Também supomos que os cidadãos têm, a qualquer momento dado: c) uma determinada
concepção do bem interpretada à luz de uma visão abrangente (razoável). Finalmente, supomos que os
cidadãos têm: d) as capacidades e qualificações necessárias para serem membros normais e cooperativos
da sociedade durante toda a vida. Esses elementos são apresentados em 1:3-5, e supomos que existam
realmente. Por terem essas capacidades no grau mínimo essencial, os cidadãos são iguais (§6.3) (126)

Concluindo muito sucintamente: i) além da capacidade de ter uma concepção do bem, os cidadãos têm a
capacidade de adquirir concepções de justiça e eqüidade e o desejo de agir em conformidade com essas
concepções; i i ) quando acreditam que as instituições ou práticas sociais são justas ou eqüitativas (tal
como essas concepções especificam), estão prontos e dispostos a fazer sua parte nesses arranjos, desde que
tenham garantias razoáveis de que os outros também farão sua parte; i i i ) se outras pessoas, com uma
intenção manifesta", procuram fazer sua parte em arranjos justos ou eqüitativos, os cidadãos tendem a
aumentar sua confiança neles; iv) essa confiança torna- se mais forte e mais completa quando o sucesso
dos arranjos cooperativos se mantém durante mais tempo; e v) o mesmo se pode dizer quando as
instituições básicas estruturadas de forma a garantir nossos interesses fundamentais (os direitos e
liberdades básicos) são mais firme e voluntariamente aceitas. (131-132)
§8. Psicologia moral: filosófica, não psicológica

A história é cheia de surpresas. Temos que formular um ideal de Estado constitucional para ver se tem
força para nós e se pode ser posto em prática com sucesso na história da sociedade. (133)
C O N F E R Ê N C I A I II
O CONSTRUTIVISMO POLÍTICO

Dessa forma veremos que o construtivismo político proporciona ao liberalismo político uma concepção
adequada de objetividade. O construtivismo político é uma visão relativa à estrutura e conteúdo de uma
concepção política. Afirma ele que, depois de obtido o equilíbrio reflexivo, se isso vier a acontecer, os
princípios de justiça política (o conteúdo) podem ser representados como o resultado de um certo
procedimento de construção (a estrutura) (134)

As ideias publicas compartilhadas: A enorme importância de uma concepção política construtivista está
em sua relação com o fato do pluralismo razoável e com a necessidade de uma sociedade democrática
assegurar a possibilidade de um consenso sobreposto em relação a seus valores políticos fundamentais. O
motivo pelo qual uma concepção desse t i po pode ser o foco de um consenso sobreposto de doutrinas
abrangentes é que ela desenvolve os princípios de justiça a partir das idéias públicas e compartilhadas
da sociedade enquanto um sistema eqüitativo de cooperação e de cidadãos como livres e iguais,
utilizando os princípios de sua razão prática comum. Ao seguir esses princípios de justiça, os c i dadãos
demonstram ser autônomos, em termos políticos, e de uma forma compatível com suas doutrinas
abrangentes e razoáveis. (135)

§1. A idéia de uma concepção construtivista

4 características básicas do intucionismo:


1. A primeira característica do intuicionismo racional diz que os princípios e juízos morais
primeiros, quando corretos, são afirmações verdadeiras a respeito de uma ordem independente
de valores morais; (136)
2. A segunda característica diz que os princípios morais primeiros são conhecidos pela razão
teórica. Essa característica é sugerida pela idéia de que o conhecimento moral é obtido em parte
por um tipo de percepção e intuição, bem como de que se organiza mediante os princípios
primeiros considerados aceitáveis depois de cuidadosa reflexão. (136)
3. A terceira característica diz respeito à concepção mais básica de pessoa. Embora não seja
formulada explicitamente, essa característica pode ser deduzida do fato de que o intuicionismo
racional não requer uma concepção mais completa de pessoa, necessitando de pouco mais que a
idéia do eu como agente do conhecimento. (137)
4. o intuicionismo racional concebe a verdade de forma tradicional ao considerar verdadeiros os
juízos morais quando eles, por um lado, dizem respeito à ordem independente de valores morais
e, por outro, a descrevem com precisão. Caso contrário, são falsos. (137)

4 características correspondentes do construtivismo político:

1. A primeira característica, como já observamos, é que os princípios de justiça política (conteúdo)


podem ser representados como o resultado de um procedimento de construção (estrutura). Nesse
procedimento, os agentes racionais, em seu papel de representantes dos cidadãos e sujeitos a
condições razoáveis, selecionam os princípios que regulam a estrutura básica da sociedade.
1. A segunda característica é que o procedimento de construção baseia- se essencialmente na razão
prática, e não na razão teórica. Tendo em mente a forma como Kant faz essa distinção, dizemos: a
razão prática preocupa-se com a produção de objetos de acordo com uma concepção desses
objetos, como, por exemplo, a concepção de um regime constitucional justo considerado como o
objetivo da atividade política — ao passo que a razão teórica diz respeito ao conhecimento de
determinados objetos . (138)
5

2. A terceira característica do construtivismo político é utilizar uma concepção bem complexa de


pessoa e sociedade para dar forma e estrutura à sua construção. Como vimos, o construtivismo
político vê a pessoa como membro de uma sociedade política entendida como um sistema
eqüitativo de cooperação social de uma geração para outra. Supõe-se que as pessoas disponham
das duas faculdades morais conjugadas a essa idéia de cooperação social — a capacidade de ter
senso de justiça e uma concepção do bem. Todas essas estipulações e outras mais são necessárias
para chegar à idéia de que os princípios de justiça resultam de um procedimento adequado de
construção. A concepção mais básica de pessoa do intuicionismo não seria apropriada para essa
finalidade. (138)
4. Como antes, acrescentamos aqui também uma quarta característica: o construtivismo político especifica
uma idéia do razoável e aplica essa idéia a vários objetos: concepções e princípios, juízos e fundamentos,
pessoas e instituições. Em cada caso, também deve, é claro, especificar os critérios para julgar se o objeto
em questão é razoável. No entanto, o construtivismo não usa (nem nega), como o faz o i ntuicionismo
racional, o conceito de verdade: não questiona esse conceito nem diria que o conceito de verdade e sua
idéia do razoável são a mesma coisa. (139)

Como entendemos o razoável: À pergunta sobre como entender o razoável, respondemos: para nossas
finalidades aqui, o conteúdo do razoável é especificado pelo conteúdo de uma concepção política razoável.
A idéia do razoável em si é definida em parte, novamente para nossas finalidades, pelos dois aspectos do
ser razoável das pessoas (11:1,3): sua disposição para propor e agir de acordo com os termos eqüitativos de
cooperação social entre iguais e seu reconhecimento e disposição para aceitar as consequências dos limites
do juízo. Acrescentemos a isso os princípios da razão prática e as concepções de sociedade e pessoa nos
quais se baseia a concepção política . Entendemos essa idéia compreendendo os dois aspectos da
6

razoabilidade das pessoas, como eles entram no procedimento de construção e por quê. Decidimos se toda
a concepção é aceitável verificando se podemos endossá-la depois de cuidadosa reflexão. (139)

Em primeiro lugar, é crucial para o liberalismo político que sua concepção construtivista não contradiga o
intuicionismo racional, uma vez que o construtivismo procura evitar a oposição a qualquer doutrina
abrangente. (140)

O construtivismo político não nega nem afirma tal coisa. Afirma somente que seu procedimento representa
uma ordem de valores políticos que parte dos valores expressos pelos princípios da razão prática,
conjugados com concepções de sociedade e pessoa, para chegar aos valores expressos por certos princípios
de justiça política. (140)

O liberalismo político acrescenta: essa ordem representada é a mais apropriada para uma sociedade
democrática que se caracteriza pelo pluralismo razoável. E isso porque apresenta a concepção mais
razoável de justiça como foco de um consenso sobreposto. (140)

Mais uma observação para deixar as coisas claras: tanto o construtivismo quanto o intuicionismo racional
baseiam-se na idéia do equilíbrio reflexivo. (140)

As diferenças crucias das duas visões: A diferença entre as duas visões aparece na maneira de cada uma
delas interpretar as conclusões inaceitáveis e que têm de ser revistas. O intuicionista considera correto um
procedimento quando, ao segui-lo corretamente, em geral leva ao julgamento correto a que se pode chegar
de forma independente, ao passo que o construtivista político considera um julgamento correto porque
resulta do procedimento razoável e racional de construção, quando corretamente formulado e
corretamente seguido (supondo-se, como sempre, que o julgamento se baseia em informação fidedigna) . 7

Portanto, se o julgamento não for aceitável, o intuicionista diz que seu procedimento reflete uma
interpretação equivocada da ordem independente de valores. O construtivista diz que a falha deve estar
na maneira pela qual o procedimento modela os princípios da razão prática conjugados às concepções de
sociedade e pessoa. Pois a conjectura do construtivista é que o modelo da razão prática, que, em seu
conjunto, é correto, produzirá os princípios de justiça considerados corretos depois de cuidadosa reflexão . 8

(141)

Considere novamente a idéia de cooperação social. Como devem ser determinados os termos eqüitativos
de cooperação? Devem simplesmente ser formulados por uma autoridade externa, distinta das pessoas
cooperando, como, por exemplo, pela lei de Deus? O u esses termos devem ser aceitos por essas pessoas
como eqüitativos em vista de seu conhecimento de uma ordem moral independente? Ou será que esses
termos devem ser estabelecidos por um acordo entre essas próprias pessoas, tendo em vista o que elas
consideram como seu benefício mútuo? (142)

Concepção política como foco de um consenso sobreposto: Adotamos, então, uma visão construtivista para
especificar os termos eqüitativos de cooperação social, tal como determinados pelos p r i n cípios de justiça
sobre os quais os representantes de cidadãos livres e iguais, situados eqüitativãmente, se puseram de
acordo. As bases dessa visão encontram-se nas idéias fundamentais da cultura política e pública, bem
como nos princípios e concepções da razão prática compartilhados pelos cidadãos. Desse modo, se o
procedimento pode ser formulado orretamente, os cidadãos devem ter condições de aceitar seus princípios
e concepções juntamente com sua (dos cidadãos) doutrina abrangente e razoável. A concepção política de
justiça pode servir, por conseguinte, como o foco de um consenso sobreposto. (142)

Concepção política, não metafísica: Assim, é somente endossando uma concepção construtivista —
uma concepção que é política, e não metafísica — que os cidadãos podem ter esperanças de encontrar
princípios que todos possam aceitar. Isso é algo que podem fazer sem negar os aspectos mais profundos
de suas doutrinas abrangentes e razoáveis. (143)

A autonomia como concepção de bem perde espaço para a ideia de uma razão pública que funciona: Essa
idéia de uma vida política compartilhada não envolve a idéia de autonomia de Kant nem a idéia de
individualidade de M i l l, no sentido de valores morais que fazem parte de uma doutrina abrangente. O
apelo diz respeito mais ao valor político de uma vida pública conduzida de acordo com termos que todos
os cidadãos razoáveis possam aceitar como eqüitativos. Isso leva ao ideal de os cidadãos democráticos
resolverem suas divergências fundamentais de acordo com uma idéia de razão pública (VI:2). (143)

Uma concepção política autônoma é uma concepção legitimada por cidadãos livres e iguais a luz da
preservação do caráter equitativo da cooperação social: O argumento da posição original, no que tem de
construtivista, enfatiza a articulação dos valores políticos presentes na cultura pública – os termos
equitativos da cooperação social, conjugada a concepção e pesssoa: Portanto, uma visão é autônoma
porque, em sua ordem representada, os valores políticos da justiça e da razão pública (expressos pelos
princípios da visão considerada) não são simplesmente apresentados como exigências morais impostas a
partir de fora. Tampouco são exigidos de nós por outros cidadãos cujas doutrinas abrangentes não
aceitamos. Os cidadãos podem, ao contrário, entender esses valores como valores fundamentados em
sua razão prática, conjugada a concepções políticas de cidadãos livres e iguais e da sociedade como um
sistema de cooperação eqüitativa. Ao endossar a doutrina política como um todo, nós, enquanto cidadãos,
somos autônomos em termos políticos. Portanto, uma concepção política autônoma proporciona uma base
e uma ordenação dos valores políticos apropriadas para um regime constitucional caracterizado pelo
pluralismo razoável. (144)

§ 2 . 0 construtivismo moral de Kant

A primeira diferença é que a doutrina de Kant é uma visão moral abrangente em que o ideal de autonomia
tem um papel regulador para tudo na vida. Isso a torna incompatível com o liberalismo político da justiça
como eqüidade. (144)

Como acabamos de ver, segundo o liberalismo político, a autonomia de uma visão política depende de sua
forma de apresentar os valores políticos como ordenados. Dissemos que uma visão política é autônoma
quando representa ou expressa a ordem dos valores políticos como uma ordem baseada nos princípios da
razão prática, conjugada às concepções políticas apropriadas de sociedade e pessoa. Isso, como foi d i t o
acima, é autonomia d o u t r i nai. Caso contrário, a visão é doutrinariamente heteronômica. (144)

autonomia constitutiva. Em contraste com o intuicionismo racional, a autonomia constitutiva diz que a
chamada ordem independente de valores não se constitui por si mesma, mas é, antes, constituída pela
atividade, real ou ideal, da própria razão prática (humana). (145)

E o construtivismo político aceita, com toda a certeza, a visão de Kant de que os princípios da razão prática
originam-se, se insistirmos em dizer que se originam em algum lugar, em nossa consciência moral
informada pela razão prática. Não advêm de nenhuma outra parte. Kant é a fonte histórica da idéia de que
a razão, tanto a teórica quanto a prática, gera e autentica a si mesma. Não obstante, concordar com isso é
um problema distinto da questão de saber se os princípios da razão prática constituem a ordem de valores.
(145)
Concepção política de justiça: O essencial é que a justiça como eqüidade usa certas idéias fundamentais,
que são políticas, como idéias organizadoras básicas. O idealismo transcendental e outras doutrinas
metafísicas desse tipo não desempenham nenhum papel em sua organização e exposição. Essas diferenças
estão ligadas a uma quarta: os objetivos distintos das duas visões. A justiça como eqüidade tem por
objetivo descobrir uma base pública de justificação no que se refere a questões de justiça política, dado
o fato do pluralismo razoável. Como a justificação se dirige aos outros, origina-se no que é, ou pode ser,
defendido em comum; por isso começamos com idéias fundamentais e compartilhadas, implícitas na
cultura política e pública, na esperança de desenvolvê- las a partir de uma concepção política que possa
chegar a um acordo livre e refletido no juízo, sendo esse acordo estável em virtude de conquistar um
consenso sobreposto de doutrinas abrangentes e razoáveis. Essas condições são suficientes para uma
concepção política e razoável de justiça. (146)

Filosofia como defesa da democracia e da constituição justa: Cada uma dessas diferenças tem alcance
suficiente para distinguir a justiça como eqüidade do construtivismo moral de Kant. Estão, porém,
interligadas: a quarta, a diferença de objetivo, juntamente com o fato do pluralismo razoável, leva às três
primeiras. N o entanto, justiça como eqüidade aceitaria a visão que Kant tem da filosofia como defesa até
o seguinte ponto: dadas condições razoavelmente favoráveis, ela compreende a si mesma como a defesa da
possibilidade de um regime democrático e constitucional justo. (147)

§ 3 . A justiça como eqüidade enquanto visão construtivista

Uma similaridade instrutiva: em ambos os casos, a idéia é formular uma representação procedimental na
qual, tanto quanto possível, todos os critérios relevantes para o raciocínio correto — matemáticos, morais
ou políticos — sejam incorporados e abertos à visão". (147)

Concepção política dos cidadadãos: Assim, a concepção política dos cidadãos como membros cooperativos
de uma sociedade bem-ordenada dá forma ao conteúdo da justiça e do direito políticos. (149)

As duas capacidades: A capacidade dos cidadãos de ter uma concepção do que é bom para eles de uma
maneira apropriada à justiça política é modelada no procedimento pela racionalidade das partes. A
capacidade dos cidadãos de ter senso de justiça é, em contraste, modelada no interior do próprio
procedimento por características como a condição razoável de simetria (ou igualdade) segundo a qual seus
representantes estão situados, bem como pelos limites à informação expressos pelo véu de ignorância.
(149)

A MÍNIMA MORALIA, BASE PARA O CONSTRUTIVISMO POLÍTICO: Concluindo: nem tudo, portanto,
é construído; precisamos dispor de um material, por assim dizer, com o qual começar. N u m sentido mais
l i t e r a l , somente os princípios substantivos que especificam o conteúdo da justiça e do direito políticos
são construídos. O próprio procedimento é simplesmente estipulado, usando-se como pontos de partida as
concepções básicas de sociedade e pessoa, os princípios da razão prática e o papel público de uma
concepção política de justiça.

N o que diz respeito ao primeiro, as partes na posição original não têm interesses diretos, exceto um i n
teresse pelas pessoas que cada uma delas representa, e elas avaliam os princípios de justiça em termos de
bens primários. Além do mais, as partes preocupam-se em assegurar às pessoas que representam os i n
teresses de ordem superior que temos ao desenvolver e exercer nossas duas faculdades morais e ao
assegurarmo-nos das condições que nos permitam promover nossa concepção do bem, seja ela qual for.
(151)

Características da posição original como motivação do agente, interesse de ordem superior: Voltando-nos
para o segundo ponto, gostaria de dizer que as restrições impostas às partes na posição original são de fato
externas a elas, em sua condição de agentes racionais de construção, meros personagens artificiais que
habitam nosso dispositivo de representação. Apesar disso, essas restrições expressam o razoável e, por
conseguinte,
as condições formais implícitas nas duas faculdades morais dos membros de uma sociedade bem-
ordenada que as partes representam. Como vimos, essas faculdades são modeladas pela localização
simétrica das partes na posição original e pelo fato de estarem sujeitas às restrições que se impõem às
razões que podem ser invocadas para defender princípios de justiça expressos pelo véu de ignorância
(1:4). Isso contrasta com a segunda suposição de Schopenhauer, ou seja, a de que as restrições do
imperativo categórico derivam dos limites de nossa natureza f i n i ta que, induzidos por nossas
inclinações naturais, gostaríamos de superar. No entanto, na justiça como eqüidade, desenvolver e exercer
nossa capacidade moral (correspondente ao razoável) é um de nossos interesses de ordem superior; e esse
interesse anda de mãos dadas com a concepção política de pessoa como livre e igual. Uma vez esclarecido
isso, as restrições da posição original deixam de ser vistas como externas. (152)

§ 4 . O papel das concepções de sociedade e pessoa

Da onde derivam as concepções de sociedade e pessoa [da razão prática]: A resposta geral é a
seguinte: os princípios da razão prática — tanto os princípios razoáveis quanto os princípios racionais — e
as concepções de sociedade e pessoa são complementares. Assim como os princípios da lógica, inferência e
julgamento não poderiam ser empregados se não existissem pessoas que pensam, inferem e julgam, os
princípios da razão prática são expressos pelo pensamento e pelo j u l gamento de pessoas razoáveis e
racionais, aplicados por elas em sua prática social e política. Esses princípios não se aplicam por si sós, mas
são utilizados por nós, isso sim, na formação de nossas intenções e ações, planos e decisões, e em nossas
relações com outras pessoas. Assim sendo, podemos chamar as concepções de sociedade e pessoa de
"concepções da razão prática": elas caracterizam os agentes que raciocinam e especificam o contexto dos
problemas e questões aos quais se aplicam os princípios da razão prática. Portanto, a razão prática tem
dois aspectos: princípios de razão e julgamento práticos, de um lado, e pessoas, naturais ou artificiais, cuja
conduta é moldada por esses princípios, do outro. Sem as concepções de sociedade e pessoa, os princípios
da razão prática não teriam sentido, uso ou aplicação. (153) Podemos pensar na razão prática como uma
espécie de sociologia das democracias ocidentais de Rawls? Ou ainda mais num sentido de uma
antropologia, de mais um possível ethos da democracia. Talvez possamos, numa tentativa de
sistematização ainda mais esquemática, principiar nas circustâncias de justiça 1) recursos finitos e 2) o fato
do conflito, que por si, derivam em 1) razão instrumental e 2) razoabilidade, sendo que a condição de
funcionamento justo do sistema (e, portanto razoável) é um sistema de cooperação equitativa com iguais
liberdades, principalmente poder político. (153)

As concepções de sociedade e pessoa enquanto idéias da razão não são, evidentemente, construídas, assim
como tampouco os princípios da razão prática o são. Mas podemos concebê-las como idéias agrupadas e
conectadas. Como acabamos de fazer, podemos refletir sobre a maneira pela qual essas idéias aparecem
em nosso pensamento prático e procurar estabelecer uma ordem segundo a qual possam ser relacionadas,
partindo da mais genérica e simples para a mais específica e complexa. Assim, a idéia básica de sociedade
é a daquela cujos membros se envolvem não simplesmente em atividades originadas dos comandos de
uma autoridade central, mas sim em atividades guiadas por normas e procedimentos publicamente
reconhecidos, os quais os membros cooperadores aceitam e consideram como fatores que regulam
apropriadamente sua conduta. Chegamos à idéia de sociedade política se acrescentarmos que as
atividades cooperativas bastam para todos os principais objetivos da vida, e que seus membros habitam
um território bem definido ao longo das gerações (1:3.22- 3). Essa idéia faz parte da razão prática e
envolve a idéia de conduta adequada, apropriada ou correta.
2. O que falta a esse esboço da idéia básica de sociedade é uma concepção do direito e do bem, com base
na qual seus membros aceitem as regras e procedimentos que orientam suas atividades. Na justiça como
eqüidade, essa concepção que falta é construída com a utilização dos princípios da razão prática
conjugados às concepções políticas de sociedade e pessoa. Trata-se de um caso especial em que os
membros da sociedade são cidadãos considerados livres e iguais em virtude de possuírem as duas
faculdades morais no grau necessário. Essa é a base da igualdade. A q u i , o agente moral é o cidadão
livre e igual, enquanto membro da sociedade, não o agente moral em geral. (154)

Podemos dizer, então, que as concepções de sociedade e pessoa, e o papel público dos princípios de
justiça, são idéias da razão prática. Não só adotam uma forma que a razão prática requer para sua
aplicação, como também proporcionam o contexto no qual as questões e problemas práticos surgem.
Qual é a natureza da cooperação social? Os que cooperam são livres e iguais, ou seus papéis são diferentes
e desiguais, da maneira estabelecida pela religião e pela cultura? Sem as idéias de sociedade e pessoa, as
concepções do correto e do bem não têm sentido. Essas idéias são tão básicas quanto aquelas de
julgamento e inferência, e os princípios da razão prática. (155-156)
§5. Três concepções de objetividade

Em síntese: uma concepção moral e política é objetiva somente quando estabelece uma estrutura de
pensamento, argumentação e julgamento que satisfaça os requisitos desses cinco elementos essenciais.
A partir da maneira pela qual a ordem de razões de uma concepção é apresentada, torna-se claro que o
julgamento de qualquer agente, individual ou coletivo, pode estar errado. Há uma distinção entre
raciocínio e julgamento, por mais sinceros e aparentemente corretos que sejam, e o que é verdadeiro, ou
razoável (dependendo da visão em pauta). Acrescenramos que é característica dos agentes razoáveis o fato
de reconhecerem esses elementos essenciais, e seu reconhecimento ajuda a garantir a base necessária para
a concordância de julgamento. U m sexto elemento essencial, discutido na próxima seção, requer que
sejamos capazes de explicar as discordâncias de uma certa forma (§7.2).

Observe que, no construtivismo, o ponto de vista objetivo sempre é entendido como aquele de certas
pessoas razoáveis e racionais apropriadamente especificadas. Na doutrina de Kant, é o de pessoas tais
como os membros de um reino dos fins. Esse ponto de vista compartilhado é possível, uma vez que é dado
pelo imperativo categórico, o qual representa os princípios e critérios implícitos na razão humana
comum. Da mesma forma, na justiça como eqüidade, esse ponto de vista é o de cidadãos livres e iguais
quando representados da maneira apropriada. Assim, em contraste com o que Nagel chama de "ponto de
vista impessoal" , o construtivismo, tanto o moral quanto o político, diz que o ponto de vista objetivo deve
19

sempre originar-se em algum lugar. Isso porque, evocando a razão prática, ele deve expressar o ponto de
vista de pessoas, individuais ou coletivas, adequadamente caracterizadas como razoáveis e racionais. O
20

ponto de vista da razão prática como tal é algo que não existe. Isso se relaciona com o que eu disse em §4
sobre o papel das concepções de pessoa e sociedade. (162)

Como já disse, não é preciso que o liberalismo político vá além de sua concepção de julgamento razoável,
podendo deixar o conceito de um j u l gamento moral verdadeiro para as doutrinas abrangentes. (162)

§6. A objetividade independente da visão causai do conhecimento

Os limites do consenso a luz da razão prática: Ao contrário: basta que as razões apresentadas sejam
suficientemente persuasivas. Explicamos nosso julgamento, quando o fazemos, simplesmente submetendo
seus fundamentos a um exame: a explicação encontra-se nas razões que sustentamos de boa-fé. O que mais
se pode dizer, exceto questionar nossa sinceridade e razoabilidade? Evidentemente, dados os muitos
obstáculos à concordância no j u l gamento político até entre pessoas razoáveis, não chegaremos a um
acordo todas as vezes, talvez nem mesmo na maior parte delas. Mas devemos ter condições de pelo menos
reduzir nossas diferenças e, assim, nos aproximarmos de um acordo, e isso à luz do que vemos como
princípios e critérios compartilhados da razão prática. (165)

§7. Quando existem razões objetivas, em termos políticos?

O que caracteriza uma convicção política formulada por meio de um operação procedimental da razão
prática no espaço público de troca de razões: Digamos o seguinte: as convicções políticas (que também são,
evidentemente, convicções morais) são objetivas —- baseadas de fato numa ordem de razões — quando
pessoas razoáveis e racionais, suficientemente inteligentes e conscienciosas no exercício da faculdade da
razão prática e cujo raciocínio não exibe nenhum dos defeitos comuns do raciocínio, acabam por endossá-
las, ou por reduzir significativamente suas diferenças em relação a elas, desde que essas pessoas conheçam
os fatos relevantes e tenham examinado suficientemente os argumentos relacionados à questão em
condições favoráveis à cuidadosa reflexão '. (165-166)
2

E claro que, quando não conseguimos chegar a um acordo nem reduzir as discordâncias, as considerações
psicológicas podem tornarse relevantes. Por essa razão, um sexto elemento essencial à objetividade é que
devemos ser capazes de explicar a impossibilidade de convergência de nossos julgamentos por meio de
coisas como os limites do juízo: as dificuldades de examinar e pesar todas as evidências, ou ainda de
chegar ao difícil equilíbrio entre razões rivais apresentadas por posições opostas no debate de uma questão
— ambas essas d i f i culdades levam-nos a esperar que pessoas razoáveis possam divergir
(11:2). (167) truídos, mas sim que concernem às possibilidades da construção".
Fatos relevantes para o construtivismo: Com respeito ao segundo tipo de fato relevante — aquele relativo à
própria concepção política — , não dizemos que eles são construídos, mas sim que concernem às
possibilidades da construção".- Quando elaboramos uma concepção política para um regime
constitucional, partindo das idéias fundamentais de uma sociedade bem ordenada enquanto um sistema
eqüitativo de cooperação entre cidadãos, devemos entendê-la como uma possibilidade de construção,
implícita na família de concepções e princípios da razão prática que são a base da construção, tais como,
por exemplo, afirmar que a escravidão é injusta e que as virtudes da tolerância e do respeito mútuo, o
senso de eqüidade e civilidade são grandes virtudes políticas que um tal regime pode incentivar. Podemos
pensar nessas possibilidades como análogas à forma pela qual uma infinidade de números primos é vista
(na aritmética construtivista) como uma possibilidade de construção . 32

O construtivismo político não procura saber em que consiste a razoabilidade da afirmação de que a
escravidão é injusta, como se razoabilidade precisasse de algum tipo de fundamentação. (...) Mas só temos
uma concepção política inteiramente filosófica quando esses fatos estão coerentemente ligados entre si
pelos conceitos e princípios aceitáveis para nós depois de cuidadosa reflexão. Esses fatos básicos não estão
espalhados por aí como diversas unidades isoladas. Pois temos: a tirania é injusta, a exploração é injusta, a
perseguição religiosa é injusta, e assim por diante. Procuramos organizar esses fatos ilimitadamente
variados numa concepção de justiça determinada pelos princípios que resultam de um procedimento
razoável de construção. (170-171)

Os requisitos para a razão prática sãos os elos que artuculam as concepções de sociedade e pessoa
legitimadas por livres e iguais: O que se quer dizer aqui é que uma forma básica de motivação moral é o
desejo, expresso pelos dois aspectos do ser razoável (11:1, 3), de organizar nossa vida política comum em
termos que os outros não poderão rejeitar se forem razoáveis. Uma caracterização geral como essa conecta
muitos fatos, tais como: a escravidão é injusta, a tirania é injusta, a exploração é injusta etc. É isso que se
quer dizer com a afirmação de que os fatos básicos não estão desconectados. Ele podem ser reunidos pelos
p r i n cípios resultantes de um procedimento que incorpora os requisitos da razão prática, ou pelo menos
assim afirma o construtivismo político (sempre nos limitando ao político). Que os fatos básicos podem ser
conectados não é um fato por trás de todos os fatos individuais; é simplesmente o fato de estarem essas
conexões agora visíveis e expressas pelos princípios que pessoas livres e iguais aceitariam quando
adequadamente representadas. (171)

§ 8. O alcance do construtivismo político

No entanto, os valores políticos de uma democracia constitucional são vistos como característicos no
sentido de que podem ser formulados a partir da idéia fundamental de sociedade enquanto um sistema
eqüitativo de cooperação entre cidadãos livres e iguais, em sua condição de razoáveis e racionais. (172-
173)

A vantagem de estar no âmbito do razoável é que só pode haver uma doutrina abrangente e verdadeira,
embora, como vimos, existam muitas razoáveis. Depois de aceitarmos o fato de que o pluralismo razoável
é uma condição permanente da cultura pública sob instituições livres, a idéia do razoável é mais adequada
como parte da base de justificação pública de um regime constitucional do que a idéia de verdade moral.
Defender uma concepção política como verdadeira e, somente por isso, considerá-la o único fundamento
adequado da razão pública é uma atitude de exclusão e até de sectarismo, que, com certeza, fomentará a
divisão política. (176)
A justiça igualitária e seus críticos – Álvaro de Vita – Martins
Fontes, 2007
Capítulo 4 – Preferências individuais e justiça social

Pergunta do capítulo: “Por que é mais justificado avaliar o bem-estar individual com base no acesso que as
pessoas tem a determinados direitos, recursos e oportunidades, do que avalia-lo somente em relação à
satisfação de preferências individuais?” (p.144)

Mesmo nas comparações interpessoais a “exigência do razoável” já coloca um critério que seja não-
subjetivo (independente dos interesses individuais:” “Nas comparações interpessoais de bem-estar,
qualquer que seja a concepção de igualdade que adotemos, somos inevitavelmente levados a avaliar até
que ponto são “razoáveis” as exigências que a satisfação de determinadas preferências faz à sociedade.
Essa razoabilidade, entretanto, não é um atributo das próprias preferências ou de sua intensidade – trata-
se de um padrão externo às preferências. Se não temos como evitar recorrer a uma noção de “exigência
razoável” nas comparações interpessoais, então nossa concepção de igualdade, mesmo que se atenha a
uma métrica subjetiva, já embute suposições prévias de equidade distributiva. E essas suposições prévias
necessitam de uma justificação que seja independente dos interesses individuais que serão comparadas.”
(p.153)

“Há algo de muito errado com as concepções de justiça social que enfraquecem a posição dos que são mais
vulneráveis. Esta é, em resumo, a principal objeção que deve ser feita tanto ao utilitarismo de preferências
quanto às concepções relativistas de bem-estar social.” (p. 159).

A CARACTERÍSTICA DE UM BEM-SOCIAL: “De acordo com esse ponto de vista, não é meramente por
ser objeto de uma preferência que uma coisa é boa ou valiosa. Porque constitui um bem, temos uma razão
(de natureza intersubjetiva) para preferi-la.” (p. 163)

O QUE GERA UM DIREITO NA ESTRUTURA BÁSICA: “Em todos esses casos [de exemplos da teoria da
lista-objetiva], recorremos implicitamente a uma métrica não-subjetiva de avaliação de interesses
individuais, de acordo com a qual alguns desses interesses serão vistos como preferências privadas (isto é,
que não fazem exigência à sociedade), enquanto outros serão reconhecidos como direitos (isto é, como
aspectos do bem-estar individual que impõe deveres aos outros). “ (p.164)

“Vamos esclarecer melhor as duas coisas que parecem inconciliáveis. De um lado, estão as suposições
necessárias à justificação do igualitarismo. Rawls (e o pensamento de esquerda de modo geral) rejeita a
ideia de que a distribuição desigual de recursos e oportunidade possa justificar-se pelo mérito individual.
O argumento é o de que o mérito individual – um atributo que é indissociável das preferencias, gostos e
atitudes de cada pessoa – é fortemente condicionado por determinadas circunstancias da vida de uma
pessoa que estão fora do alcance de sua capacidade de escolha.” (166) Note-se que insistir em atribuir as
desigualdades de uma pessoa àquilo que foge de sua própria responsabilidade (nascimento, cor) é “uma
forma familiar e inaceitável de victim blaming.

Sobre a neutralidade: “E fazer distinções de valor intrínseco entre os interesses e as atitudes individuais é
precisamente o que o ideal de neutralidade rejeita.” (168) (...) “Mas, na mesma linha do que argumentei na
seção anterior sobre a inquirição das razões de algo ser desejado, as comparações interpessoais de bem-
estar fundadas no índice de bens primários de Rawls, ou nas demais concepções que adotam a teoria da
lista objetiva, não requerem nenhum julgamento sobre o grau de autonomia/heteronomia de interesses,
ambições e fins dos indivíduos. Não se está dizendo que os indivíduos só podem ser compensados por
suas preferências, sobretudo as que os deixam em uma situação desfavorável, nos casos em que seja
possível demonstrar que essas preferências se devem a fatores ou atributos que estão fora do alcance de
suas próprias escolhas. Não é feito julgamento algum sobre o que as pessoas merecem. O que se está
dizendo é que a distribuição básica de recursos e oportunidades na sociedade deve ser independente de
preferências, sejam elas constituídas de forma heterônoma ou autônoma. (168-169)

Divisão social da responsabilidade: “Dada uma distribuição equitativa de bens primários, podemos supor
que os indivíduos são capazes de assumir a responsabilidade pelos seus próprios fins (o que supõe a
capacidade de revisá-los, quer tenham se constituído de escolha ou não, à luz da expectativa de ter acesso
a um quinhão equitativo desses bens primários.” (170)

A RAZÃO DO FOCO NA ESTRUTURA BÁSICA: “Somente a garantida de igualdade distributiva na


estrutura básica da sociedade torna possível evitar os juízos sobre o mérito intrínseco de preferências e
escolhas individuais.” (170)
“Se queremos evitar o paternalismo nos julgamentos de justiça social, o melhor é focalizarmos não as
preferencias, atitudes e interesses individuais diretamente, mas as condições institucionais de provisão dos
recursos e oportunidades que são valiosos a uma diversidade de concepções individuais do bem. (171)
O liberalismo igualitário – Sociedade democrática e justiça
internacional – Álvaro de Vita – São Paulo: WMF Martins
Fontes, 2008

Primeira ideia normativa, a igualdade humana básica: “Neste capítulo discutirei duas ideias normativas
fundamentais que, acredito, devem orientar nossos esforços para lidar com essas questões. (...) A primeira
delas é a ideia de igualdade humana fundamental. (31)

“Uma sociedade que possibilita que as pessoas sejam iguais ao menos do ponto de vista moral é aquela
cujas instituições básicas se organizam de maneira a impedir que o quinhão distributivo de cada um – o
acesso que cada pessoa tem a uma parcela de bens, recursos e oportunidades sociais – seja determinado
por fatores que, como no exemplo [de SEN] das circunstâncias de destituição, estão fora do alcance de
escolhas individuais genuínas. Em uma sociedade de iguais, a distribuição de vantagens sociais não pode
ser fazer de acordo com fatores “moralmente arbitrários”, isto é, de acordo com fatores que se impõem às
pessoas como circunstâncias que não lhes deixam outra opção que não a de se adaptar o melhor que
podem à própria sorte.” (37)

A função do PD: “Em suma, se existem elementos com base nos quais se pode conceber uma justificação
rawlsiana para a ação afirmativa, eles não se encontram em uma aplicação do princípio da diferença, que
Ralws concebe como um remédio exclusivamente para as desigualdades de renda e riqueza geradas pro
“Talento”. (41)
John Rawls’s Appropriation of Adam Smith - David Johnston.
IN: doispontos, Curitiba, São Carlos, vol. 7, n. 4, p.65-86,
setembro, 2010
O valor igual do homem para Kant e Rawls: Like the utilitarians, Kant wholeheartedly endorsed the idea
that all human beings are equal in worth – that, as John Stuart Mill said, everybody should count for one
and nobody for more than one. However, Kant emphatically rejected the utilitarian assumption that the
promotion of human enjoyment or happiness can ever serve as a foundation for sound ideas about justice.
For Kant, the essential truth about human beings - the truth that is relevant to considerations of justice - is
that they are free, rational, and responsible agents. (66)

Right over good: This view has been summarized pithily in the observation that for Kant, the right is
(ethically or morally) prior to the good. (67)

Rawls e Kant: In sum, Rawls appears to borrow from Kant 1) the assumption that the idea of freedom,
rather than the notion of happiness, is the foundation of all sound ideas about justice; 2) the distinction
between the right and the good; and 3) the claim that the right is prior to the good. (69)

Divisão do trabalho: Of
course, all the goods that are products of labor are
ultimately produced by the actions of individual workers, even if those
actions are parsed into undetectably small slices. Smith’s argument,
however, is that the skills and efficiencies individuals contribute to a
production process, whether within a single enterprise or, more
importantly, within a society’s division of labor as a whole, are made
possible only by the fact that innumerable other persons possess and
deploy their own specialized skills and achieve their own efficiencies. The
skills and productivity of individuals are essential building blocks for a
productive economy as a whole, of course.Yet in the absence of a
complex division of labor, relatively few of the talents individuals possess
would be developed into skills.The skills individuals would develop would
be underutilized, and the individuals who possess them would be able to
produce little more than is required for their own subsistence. (71)

Riqueza como produto social: Smith’s discovery of the role the division of
labor plays in the creation of wealth gave rise to the view that that
wealth is overwhelmingly a social product, and not merely the sum of the
products of many individual producers. (72)

A divisão social do trabalho forma a estrutura básica da sociedade: For


Smith, a society’s division of labor determines the basic contours of its
social world. Those contours are constituted by a set of role definitions
that prescribe entitlements and obligations for each of a society’s major
groups and determine its division of status and economic advantages.A
sketch of these entitlements and obligations would constitute a map of
the society’s terrain, a guide to the locations of privilege and deprivation
that are scattered throughout its population and to the patterns through
which those differences are reproduced or reconstituted over time. (72)

Smith devolve a capacidade de agencia sobre as estruturas sociais para


o homem: The division of labor for Smith is originally an unintended
consequence of the actions of innumerable human beings all of whom
were motivated by their own narrowly-defined objectives and none of
whom foresaw the great mechanism to which their actions would
ultimately lead.Yet Smith did not revert to the ancient view held by
Aristotle and others that the basic contours of the social world are
dictated by nature. In his view those contours are a product of human
efforts. In its original form, the ultimate product is unintended by any of
those who engage in these efforts. Once the division of labor has taken
shape and once its shape and consequences have been understood – as
Smith believed he had done – a society’s division of labor and the
contours of the social world that stems largely from that division of labor
become susceptible to deliberate reforms. (73-74)

Resumindo: In short, in The Wealth of Nations Smith developed two ideas


that would play a significant role in later thinking about social justice,
especially Rawls’s theory of justice.The first is the idea that the wealth of
any society that is based on a complex division of labor is
overwhelmingly a social product. The second is the idea that it is
possible for human beings to reshape the contours of their social world
to accord with a human design. (74)

As ideias de Rawls:

1.Sistema de cooperação equitativo:


The most rudimentary of all the ideas underlying Rawls’s theory is the
idea of society as a fair system of social cooperation among free and
equal persons over time from one generation to the next (RAWLS, 1991,
4-8). He sometimes calls this the “most fundamental intuitive idea” of
the theory. Rawls offers no argument to defend this idea. Instead, he
assumes that his readers will accept the idea as a plausible and
appealing point of departure and concentrates his creative energies on
the construction of an argument on the basis of this idea rather than on
its defense. (75)

A visão de cooperação de Aristóteles: Aristotle, for one,would have been


aghast at this claim. Insofar as he conceived of persons as bearers of
worth, he believed that they are of radically unequal worth because they
are categorically unequal in capabilities, so that the notion that we
should think of society as a system of cooperation among equal persons
would have made no sense to him. (76)

A questão de Rawls passa então a ser como a distribuição das vantagens


e encargos da cooperaçao social são justos: This conception of society is
rooted in Adam Smith’s contention that a complex division of labor is the
principal source of the great wealth of modern societies. For Rawls,
questions about social justice arise as a result of the productivity,
broadly construed, that is made possible by the division of labor. As he
says, “social cooperation makes possible a better life for all than any
would have if each were to live solely by his own efforts.” Society is a
sort of partnership that is undertaken for the mutual benefit of those
who enter into – or in this case, typically find that they are already
partners in – that partnership. The key question of social justice is a
question about the terms of this partnership, and in particular about the
way in which its benefits shouldbe distributed among the participants.
(77)
A questão da justiça social: It is these goods – the diverse class of goods
that are generated by the joint efforts of the partners – and these goods
alone, however, for which we require a set of principles to determine the
proper distributive shares. (77) /// Por isso que: “In fact, in the most
precise sense it is the division of advantages that results from a society’s
basic structure rather than the basic structure itself that is the real
subject of the theory (RAWLS, 1971, 7).”

Dois aspectos do foco na estrutura básica: This passage reveals two


significant points. First, in arguing for the basic structure as the
appropriate subject of a theory of social justice, it is evident that Rawls’s
concerns about inequalities were concentrated on inequalities in people’s
life chances – on the (differential) opportunities available to people – and
not on ultimate outcomes. He writes here of the different positions men
are “born into,” of their “starting places” and “initial chances.” Second,
the passage hints at the fact (made clearer in later discussions) that
Rawls was concerned about the ways in which major social institutions
shape individuals’ aspirations and expectations as well as about he ways
in which those institutions determine the division of advantages.
(JOHNSTON, 2010, 79)

Estrutura básica como uma ideia de Smth: Rawls’s idea of the basic
structure of society – the subject to which his theory of justice applies –
is a version of Smith’s idea of a division of labor that shapes the basic
contours of the social world, thereby determining the distribution of
entitlements and obligations in a society. Whether or not Rawls borrowed
the idea of the basic structure of society directly from Smith, that idea is
a lineal descendant of the central idea of Smith’s Wealth of Nations. (80)

O produto social: “(…) wealth that is generated in relatively developed


societies is a social
product, and not merely the sum of the products of individual producers
taken separately. Rawls’s question is a question about the way in which
that product should be distributed in a just society. Moreover, Rawls
could not have answered that question in the way he does in the
absence of something like Smith’s conception of the division of labor and
its effects on society. For Smith’s conception is the direct ancestor of and
the basis for Rawls’s idea of the basic structure of society, which he took
to be the appropriate subject of a theory of social justice. (81)

três questões sobre a estrutura básica: If we examine Rawls’s arguments


closely, we can see that his claim consists of three distinct parts.The first
is a causal claim that the institutions and practices that comprise a
society’s basic structure determine how well the members of a society
are able to do in life.The second is the conceptual claim that the
principles of justice that apply to the basic structure may be quite
different in character from the rules and criteria that apply to other
problems of justice.The third is a claim of intellectual priority.The claim is
that we can best address the wide range of questions that arise about
justice by first developing a sound theory of social justice. This theory
can then constitute the foundation for defensible ideas about justice with
regard to other subjects. (81-82)