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SÉRIE: CÍRCULO VERMELHO


VOLUME: 5
TÍTULO: CREPÚSCULO DE FOGO
AUTOR: WILLIAN HARRISON
DESENHO DA CAPA:
EDITORA: CEDIBRA
ANO DE PUBLICAÇÃO: 1973
PREÇO: CR$
PÁGINAS: 128

SCANS E TRATAMENTO: RÔMULO RANGEL


romulorangel@bol.com.br

DISPONIBILIZAÇÃO
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COLEÇÃO CÍRCULO VERMELHO

Próximo lançamento:
6. ANJO NEGRO - William Harrison

Título publicado:
1. OPERAÇÃO COBALTO - William Harrison
2. AS NOIVAS DO DIABO - William Harrison
3. NINGUÉM ODEIA DE GRAÇA - William Harrison
4. ADORÁVEIS ASSASSINAS - William Harrison
5. CREÚSCULO DE FOGO - William Harrison

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Copyright (C) 1973 by Cedibra - Cia. Editora Brasileira


Distribuição exclusiva: DISBRA S.A.
Filomena Nunes, 162-20.000-Rio de Janeiro-ZC 22-
GB. Composto e impresso pela Cia. Editora Americana Rua
Visconde de Maranguape, 15 - Rio - GB.
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CREPÚSCULO
DE FOGO
Willian Harrison

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ONDE UM COLT
É O MELHOR ARGUMENTO

Toda a crueza e violência do Velho Oeste, narradas


pelos melhores autores do gênero, em nossas emocionantes
coleções:

CORISCO KID-BEN
TERRA BRAVA OESTE HEROICO
LEI DO OESTE CALIBRE
XERIFE VAQUEIRO
MUSTANG RIFLE
CACTUS RANCHO
TERRA BRUTA RIO BRAVO
DESAFIO VALENTES
FÚRIA LAÇO
TRIGGER CARAVANA
OESTE SELVAGEM
COLORADO
OESTE BRAVIO
NEBRASKA
BRAVO OESTE
GUN-MAN
CALIFÓRNIA
KANSAS
PRADARIA
CORCEL
WINCHESTER
VINGADORES
OESTE LEGENDÁRIO

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CAPÍTULO 1
O Mar das Antilhas é como uma arca de tesouro
afundada: no seu bojo misturam-se joias, conchas e detritos
acumulados pelo mar. E o que faz o seu encanto é
justamente esta miscelânea. Qualquer pessoa que pegue o
mapa reparará logo nas Bahamas, intermediárias entre os
Estados Unidos e as Grandes Antilhas: Cuba, Haiti e
República Dominicana.
Estas ilhas, as joias desse mar, são o repouso predileto
de mais de duas centenas de riquíssimos cidadãos que, à
custa de muito trabalho ou nenhum trabalho, juntarem
dinheiro suficiente para passar o resto de suas vidas
ancorados em pequenas baías, despreocupados e tranquilos,
prontos para gozar a vida naquilo que ela tem de melhor.
As Grandes Antilhas também foram lugar de descanso,
mas, devido a problemas internos, o turismo perdeu seu
incentivo. Nenhum país pode ser visitado por centenas de

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estrangeiros enquanto o povo está na rua gritando, pedindo
comida e melhores salários.
A condição sine qua non para o turismo é segurança. E
essas coisas existem nas ilhas Bahamas, onde os nativos,
acostumados pelo duro chicote do dominador, há muitos
anos aprenderam a respeitar e a servir.
As Pequenas Antilhas, por estarem um pouco fora do
caminho dos iates são menos visitadas. Mas todas elas têm
seus atrativos, pequenas joias que são, ainda que perdidas
num mar imenso e muitas vezes cruel.
Mas a região tem ainda mais surpresas para o turista
desavisado. Por exemplo, a ilha de Tortuga, lugar de
esconderijo de famosos piratas nos séculos XVI e XVIII é
um enorme depósito de tesouros incalculáveis e cemitério
de milhares de homens.
Nos recifes de coral, nas pontiagudas formações
rochosas que apontam às vezes do meio do mar. nas brancas
praias das ilhotas, em todos os lugares, ficou a marca do
invasor de além-mar. O espanhol derramou sua cultura e
sua violência sobre os povos nativos, exterminando-os ou
submetendo-os à escravidão.
Poucas vezes as terras novas puderam vingar-se. Mas
quando o faziam, era sempre através do mar, o aliado
inseparável. Quando menos se esperava, o conquistador
via- se envolto numa terrível tempestade, ondas
avassaladoras, ventos que partiam os mastros como palitos,
faziam das veias o frangalhos, e acabavam por atirar o navio
de encontro a uma formação rochosa qualquer, que, com
seus dentes afiados, rasgava o bojo da nave, infringindo
danos irreparáveis.
E iam todos ao fundo, homens, mulheres, colonizadores
do novo mundo, canhões, armas, roupas, esperanças, e,
principalmente ouro. Milhões e milhões de dobrados,

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enormes moedas douradas perdidas para sempre no túmulo
silencioso do mar.
Iemanjá guarda no seu ventre todos aqueles que
ousaram profanar o véu do Novo Mundo com a espada. Ela
vela pelos seus cadáveres com cavalos-marinhos, anémonas
e ostras tendo um enorme sorriso branco-espermacete,
como os ossos de um cachalote.
E que maravilhosos esqueletos de espanhóis! Ossos
largos e fortes, crânios bem formados, fêmures compridos
e rijos, que, após descarnados por centenas de criaturas,
transformam-se em excelente decoração para os domínios
da Grande Senhora.
E esses túmulos forjaram a cobiça e a ganância de
centenas de exploradores. De todas as partes da terra eles
vieram, prontos a saquear as oferendas da Mãe d’Água,
com seus equipamentos, seus motores e sondas, grandes
arpões e explosivos.
As histórias de miraculosos tesouros afundados com os
galões correm o mundo inteiro. Não há quem não haja
sonhado com a conquista de uma enorme arca, ou um baú,
que aberto à luz do sol revelaria seu recheio colossal: prata,
ouro, pedras preciosas. Mais que a riqueza, o poder. Mais
que o poder, a glória. E há quem diga que, mais que a
'glória, a emoção do desconhecido.
A verdade é que os pescadores das ilhas arranjaram
serviço constante, sempre inventando histórias
maravilhosas para os europeus e americanos que chegavam.
Já que não podiam livrar-se dos visitantes, tentariam tirar
dele o máximo com seus recursos primitivos, não sabendo
que os americanos e europeus tiravam-lhe muito mais...,
mas esta é uma outra história. A título de curiosidade
acrescentaremos que Salvador Cação, o maior mentiroso da
América Central, pescador da pequena ilha francesa de

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Guadalupe, vendeu duzentos e setenta ‘‘mapas de
extraordinário valor” pelo preço módico de dez dólares
cada um. Com o dinheiro arrecadado, comprou uma
pequena lancha de segunda mão e hoje vive de transporte
entre as pequenas ilhas, sem precisar arriscar-se nas agruras
do alto mar. Note-se que ninguém voltou para reclamar da
exatidão dos mapas, e Salvador tinha certeza que ninguém
o procuraria. O branco é orgulhoso demais para aceitar que
foi enganado por um nativo.
Quando mais atrás dissemos que duas centenas de
homens vivem ancorados, foi apenas força de expressão. Na
verdade, eles arrastam consigo toda uma corte, que termina
quase que povoando as ilhotas. Camareiros, serviçais,
motoristas, pesquisadores, bêbados, mulheres e famílias,
aproveitadores, chantagistas, escroques, pulhas,
empregadas, aias, amantes (em grande profusão, tanto de
um sexo como do outro) e animais de estimação.
O número de velhotes acompanhados por louras
sensacionais ou morenas maravilhosas é razoavelmente
alto. Eles sabem pagar e elas sabem ser pagas. O dinheiro é
a base da permissividade. Quem irá censurar um magnata
por ter momentos de descanso?
E a vida corre maravilhosa e plácida, regada a
champanha gelado e iguarias de primeira qualidade. Volta
e meia um escândalo qualquer para dar mais sabor à
existência. Nada como a vida alheia para condimentar a
própria.
Vamos dar um voo rasante sobre a pequena ilha de
Barbados, uma possessão britânica. Na baía de Aruba estão
ancorados vários iates, um deles com uma bandeira toda
negra no mastro. É um barco grande, branco, de linhas
modernas e arrojadas. Tem um nome incomum, “Morte
Branca”, mas incomum também é seu dono. Chama-se

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Albert, um sueco. Como? Um sueco chamado Abert? A
verdade é que esse homem tem muitos nomes, e agora é
conhecido como Albert, pescador americano em busca de
marlins. Foi dessa forma que ele se apresentou às
autoridades da ilha que, imediatamente, diante de tão ilustre
presença, organizaram uma festa em terra para dar as boas-
vindas.
Cessadas as formalidades, o grande capitão Abert,
segundo os nativos, recolheu-se ao seu iate, de onde nunca
mais saiu, a não ser para expedições periódicas às ilhas
Martinica, Dominica e Guadalupe.
Neste momento o capitão está deitado numa
espreguiçadeira, copo de uísque cheio de gelo, na mão
esquerda, olhos fechados e dormitantes. A tripulação
descansa, pois é a única coisa que fazem desde que
aportaram à ilha, dois meses atrás.
— Rupert!
Um enorme louro assomou ao tombadilho quase que
prontamente.
— Sim, senhor?
— Alguma coisa no Rádio?
— Nada, senhor. Estamos à escuta durante as vinte e
quatro horas do dia.
— Muito bem, troque o turno com Julius. Você pode
descansar até amanhã.
Albert meteu a mão no bolso da bermuda creme e
estendeu uma nota de cem dólares para o homenzarrão.
— Tome isso. Mas não vá beber tudo em rum ou fumar
maconha! Seu preparo físico deve ser excelente a qualquer
hora.
— Sim, senhor. Descerei à terra somente para... para...

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— Diga logo! Vai à casa de madame Lia, não é? Um
excelente gosto, Rupert. As meninas são maravilhosas.
Agora vá. Preciso descansar a cabeça.
— Pois não, senhor. Obrigado e com licença.
Albert viu o brutamontes se afastar e deu um suspiro.
Rupert era belo e forte mas extremamente boçal. Se tivesse
um pouquinho mais de miolos...

***

Do outro lado da ilha, num ancoradouro velho e


arrebentado, dois rapazes tentavam reparar o motor de
centro de uma pequena embarcação.
— Não conseguiremos, Lucas. Desista.
Lucas olhou para o companheiro e balançou a cabeça.
— Você e seu derrotismo! Eu vendi tudo o que tinha,
larguei a minha vida organizada em Miami em troca de um
pouco de aventura e agora você vem-me dizer que não dá
pé? Nunca mais fale comigo!
Marcelo deu de ombros e saiu do barco. Estava
acostumado às explosões temperamentais de Lucas; dali a
cinco minutos ele o procuraria com um pedido de
desculpas.
— Perdoe-me, Marcelo, acho que perdi a cabeça mais
uma vez.
— Estamos todos muito nervosos. Se não nos
acalmarmos jamais conseguiremos algo de produtivo.
Vamos pensar tudo outra vez?
Lucas e Marcelo eram amadores em mergulho. Haviam
começado a pesquisar o mar quanto tinham dezesseis anos,
e desde então tornaram-se amigos inseparáveis. Passavam
horas envolvidos nos braços de Iemanjá, prontos a
resvalarem por grotas e abismos; perseguirem um peixe

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pelo simples prazer de vê-lo nadar, absoluto senhor de seu
elemento; parar diante de um cardume e deixar que centenas
de corpos esbarrassem na máscara, nos tanques de oxigênio,
nos braços, no peito, nos cabelos, e nas pernas.
Um dia, na Biblioteca Municipal de Miami,
descobriram a história de Cario Saragoza, um bandoleiro
que desapareceu em fins do século XVII. O seu galeão
afundara nas costas de Barbado, segundo o relato de alguns
sobreviventes.
Mas o velho navio não escondia somente cadáveres.
Dias antes Saragoza assaltara um carregamento espanhol de
barras de ouro. Não eram moedas, mas lingotes. No auge da
tempestade que fez o pirata ir dormir junto com seus
companheiros, ele se recusou a atirar fora sua carga. O
resultado foi claro, o galeão foi a pique rapidamente.
Da mesma forma que Lucas e Marcelo, outras pessoas
haviam tomado conhecimento da história do pirata
espanhol. Mas ninguém se habilitara a ir de encontro à
fortuna. Por quê? Talvez haja uma só resposta: os homens
que fazem fortuna tão aqueles que se atiram de cabeça na
primeira aventura que encontram. O resto continua
sonhando na segurança de suas vidinhas monótonas.
Lucas e Marcelo venderam tudo o que tinham,
abandonaram os estudos em Miami, onde em pouco tempo
se tornariam oceanógrafos, e trocaram um emprego bem
remunerado num centro qualquer de pesquisas por um
galeão espanhol. Estavam felizes, apesar de todas as
dificuldades. Com economias trazidas da América,
alugaram o velho ancoradouro por uma ninharia, e lá
estabeleceram sua base de operações.
Compraram uma velha lancha com motor de centro,
mas o motor começou a dar defeitos seguidos. Eles estavam
desesperados, pois não tinham mais dinheiro, e precisavam

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ter o motor em ordem. É uma loucura sair para o mar com
a máquina rateando.
— Você quer voltar? — perguntou Lucas ao amigo, que
estava sentado no ancoradouro.
— Eu? Você está louco. Só saio daqui rico. Nem que
tenha que me casar com uma velha, dessas cheias de
dinheiro.
Riram e a tensão quebrou-se.
— Vamos à cidade. Não conseguiremos nada hoje, mas
peio menos descansaremos a cabeça.
— Está certo.
Eram dois rapazes fortes e atraentes. Marcelo, filho de
italianos, era moreno. Cabelo grande e escorrido sobre os
ombros, os olhos negros, rápido no pensar.
Lucas, americano de três gerações. Cabelo castanho
claro, olhos verdes; aparentemente tranquilo, mas uma
pilha de atividade e energia. Entre eles, uma enorme
amizade, que sobreviveu até a injunções familiares. A
família de Lucas, tradicional e protestante, resistira
fortemente è ligação de seu filho com o “mafioso”, como c
chamavam. Mas a família de Marcelo não era ligada a
nenhuma “Família”. Era simplesmente pobre, o que
determinou toda discriminação por parte dos brancos e ricos
comerciantes pais de Lucas.
Apesar das proibições, eles continuaram se encontrando
para pescarias. Aprenderam juntos todos os segredos do
fundo do mar, e em breve eram dois amantes perdidamente
apaixonados pelos domínios de Janaína.
E ela os recebia com prazer, pois sabia que estes
homens desejavam viver entre os peixes, se isso fosse
possível. Se ela pudesse, dotaria os dois de guelras para que
nunca mais saíssem da enorme placenta que é a água do
mar.

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***

Lucas e Marcelo ficariam ricos em pouco tempo se se


dedicassem à gigolotagem de alto nível, coisa comum nas
Antilhas. Havia um número incrível de velhas que, de bom
grado, à semelhança das turistas de Acapulco, trocariam
uma parte de suas fortunas por emoções mais fortes.
Mas não se interessavam por isso. Acreditavam que o
mar lhes daria subsistência para o resto da vida. E foi com
este ideal que os dois entraram para a Universidade de
Miami, onde aprenderam os nomes técnicos do que já
conheciam na prática.
Foram, à cidade da ilha de Barbados, que não passa de
uma reunião de casas com alguns entrepostos comerciais.
Beberiam algumas cervejas, e quem sabe, madame Lia
gostaria de lhes fazer companhia. Ela gostava dos dois
americanos, simples e calmos, que só queriam se divertir
um pouco para matar as horas que não estavam no fundo do
mar.
Traziam presentes. Colares de conchas, pequenas
contas, estrelas-do-mar. E para as meninas isso valia muito
mais que o dinheiro dos marinheiros que ali aportavam.
— Vocês de novo?
— Viemos descansar. Estamos com alguns problemas
no motor e só poderemos partir dentro de seis dias.
Madame Lia riu para Lucas. O louro era quase infantil,
não fosse o corpo forte e másculo. Convidou-os a entrar e
gritou para a cozinha.
— Tragam três coquetéis!
Era uma cortesia da casa. Eles nunca pagavam em
dinheiro, e na verdade nem o tinham.
— Então meus doces pombinhos vão ficar ricos. . .

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— Quando isto acontecer, você não vai mais precisar
trabalhar.
— Não faça isso comigo. Não quero me transformar
numa velha desocupada, que fica caçando rapazinhos.
Prefiro a minha casa cheia de gente interessante como
vocês.
Naquele instante, Rupert entrou no sobrado. Olhou em
volta e apontou para uma morena, que sorriu e
acompanhou-o escadas acima.
— Mas nem sempre vem gente razoável: Este aí por
exemplo. Não pode beber que quer brigar.
— Quem é?
— Marinheiro de um tal de Albert, que está na ilha há
algum tempo.
— Verdade? O que é que ele quer?
— Caçar o tesouro — sussurrou madame Lia.
— Parece que nossa história se propagou... —
comentou Lucas.
— Juro que não fui eu.
— Não duvido da senhora. É uma pessoa maravilhosa
e...
— Oh, Marcelo, não fale assim. Você faz avivar uma
chama esquisita... — disse ela maliciosamente.
— A senhora é muito bonita.
Madame deu um gritinho e sentou-se no colo do
italiano, que beijou seu pescoço.
— Aí garoto, você me deixa louquinha. Perco até a
compostura...
— Vamos subir?
— Você está falando sério? Não acredito. |Você quer
mesmo subir com esta velha?
Madame estava só fazendo charme. Sabia que era uma
mulher muito bonita, apesar da idade.

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— É lógico. Vamos logo.
E Lucas, sorrindo, acompanhou a triunfal subida do
casal, debaixo das palmas das outras meninas.
— E você, beleza, não quer nada?
— Não, só quero cerveja.
As meninas disputavam entre si a preferência de Lucas.
Ele nunca deitara com nenhuma delas, o que gerara
comentários maldosos, prontamente cortados por Madame.
— Quem falar mal de Lucas eu expulso daqui!
A ameaça era terrível. E ninguém mais comentou nada
sobre ele.

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CAPÍTULO 2
— Sr. Albert, acaba de chegar uma senhorita na ilha.
Ela telefonou aqui para bordo e pede para vê-lo.
— Senhorita? Quem é?
— Ela diz ser Eva Brooklyn. Parece que é amiga da Sra.
Maggie Doyle.
Albert lembrou-se, então. A sua ex-colega do serviço
secreto perguntara pelo telefone se ele podia alojar em seu
iate uma amiga, Eva Brooklyn. Em virtude dos antigos
serviços prestados por Maggie, ele não pode recusar o
pedido.
— Vá apanhá-la com o bote, Július. E nada de olhos
compridos na moça, ouviu? Ela é minha convidada.
— Convidada? Mas é provável que partamos amanhã,
senhor.
— Ela pode ir junto, se ficar de bico fechado. Vamos
logo com isso, Július.
— Sim senhor.

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“Que atrapalhação. Não é que a diabinha veio? Como
terá chegado à ilha? Não vi nenhuma embarcação aportar.”
Eva recebeu o recado que Julius já se encaminhava para
apanhá-la e sentou-se no banco de madeira da Central
Telefônica da ilha, deixando as malas ao seu lado. O ar
salgado e quente enchia seus pulmões e desintoxicava-a da
poluição de Nova Iorque.
“Bem, parece que terei algum descanso.”
Mas, por via das dúvidas, ela trouxera a Lugger dentro
da maleta de maquilagem. A viagem fora tranquila até Porto
Rico, onde um helicóptero da L.E.S.B., levou-a até
Barbados. Fizera sensação entre os pescadores a descida da
máquina voadora e Eva sentiu que seria o alvo dos
comentários de toda a ilha.
Debruçou-se na janela da velha casa para ter uma visão
da rua poeirenta que levava ao cais. Viu-se admirando um
rapaz louro e alto, que passeava displicentemente pela rua.
“Um belo exemplar. Provavelmente um caca-dotes. Se
bem que não vi grandes iates ancorados. Essas coisas
acontecem mais nas Bahamas.”
Vinte minutos depois, chegava Julius à Central.
— Srta. Eva Brooklyn? Queira me acompanhar por
favor.
O mastodonte apanhou a bagagem da agente e
encaminhou-se para o cais. Eva seguiu mais atrás, causando
furor entre os pescadores com seu minivestido preto, que
deixava suas maravilhosas pernas à vista. Somando isso ao
cabelo negro e os olhos azuis, temos uma combinação
explosiva. Eva era uma verdadeira dose de nitroglicerina.
Entraram no bote e Julius apressou-se a ligar o motor.
Ela não gostou do olhar que ele lançou para seu corpo.
Estava acostumada a ser admirada, mas aquele homem

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tinha um olhar maldoso e frio. Para sua tranquilidade,
chegaram rapidamente ao “Morte Branca”.
— Ê um prazer recebê-la em minha casa, senhorita.
Qualquer amiga de Maggie é minha amiga também.
— O prazer é meu. Sr. Albert. Espero não atrapalhar em
nada.
— Ora, por favor, a senhorita pode ser de grande ajuda.
Eu e minha tripulação partiremos me breve para uma
pesquisa oceanográfica, e se a senhorita souber mergulhar...
— Bem, já há algum tempo que não uso um
equipamento de mergulho, mas posso tentar.
— Deixe-me levá-lo até sua cabine. Por aqui, por favor.
O iate era luxuosamente decorado, e Eva teve que
reprimir uma exclamação ao entrar na cabine. Parecia um
quarto da corte de Luis XV.
— O senhor é um homem de gosto muito apurado.
— Aprende-se a viver bem com o passar dos anos.
— O quarto é uma maravilha.
— O banheiro é aquela porta à esquerda. Qualquer
problema é só chamar Nguyen, o chefe dos camareiros.
— Nguyen? Este nome não me é estranho.
— Todos os nomes vietnamitas são parecidos,
senhorita. Já esteve lá?
— Não, ainda não. É uma terra sofrida aquela.
— Tem toda razão. Mas falemos de assuntos mais
alegres. Por quanto tempo teremos o prazer da sua estada?
— Não mais que uma semana. Preciso retornar a Nova
Iorque para trabalhar.
— Maggie vai bem? O que ela tem feito?
— Gasta seu tempo em obras de caridade e jantares com
clubes de beneficência.
— A velha e boa Maggie... Não a vejo desde que se
retirou da ativa, depois da guerra.

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— Ela se aposentou com muita honra. Uma glória para
os Estados Unidos. — Ironizou.
— Uma mulher fantástica. Bem, imagino que a
senhorita deseja tomar um banho. Encontro-a ao meio-dia
para o almoço. Com licença. Ah, uma pergunta. Como
chegou à i1 ha? Não vi nenhum barco chegando...
— Um helicóptero de um amigo meu. Vim de Porto
Rico direta para cá.
— Só podia ser, não é? Bem, com licença.
“Velhote safado..., querendo descobrir o que faço. Está
desconfiado de alguma coisa.”
“Menina sabida..., será que é do serviço secreto
também? Preciso investigar isso mais a fundo.”

***

Marcelo desceu as escadas e perguntou por Lucas.


— O Sr. Lucas foi dar uma volta. Parece que chegou
gente nova à ilha. Pousou um helicóptero.
— Helicóptero? Deve ser muito importante.
Lucas acabava de chegar, com um sorriso nos lábios.
— Italiano, acabou de chegar uma das mulheres mais
sensacionais que já vi em toda a minha vida.
— Quem é?
— Não sei. Saltou do helicóptero e seguiu para o barco
do tal de Albert. Ela é indescritível.
— Calma, rapaz, você parece que vai explodir.
— Vamos voltar? Acho que já estou tranquilo o
suficiente para consertar o diabo do motor.
— Está bem, está bem.
— Madame, onde está?
— Resolveu descansar. Estava fora de atividade já há
algum tempo.

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Deram risada e saíram tranquilos em direção ao seu
ancoradouro.
Poppy, como também é conhecida a nossa agente 069,
escondeu a arma debaixo do colchão. Se o velho mandasse
revistar sua bagagem, ela não queria barulho. O
brutamontes do bote quebraria seu pescoço em três
segundos.
Depois, passou um pequeno fio invisível em cada
fechadura das malas. Não gostaria de encontrá-los
rompidos, mas parecia que a chance era grande. Por fim,
tirou a roupa e ligou a ducha. Estava suada e empoeirada,
pois a viagem fora longa e cansativa. Todo o tempo teve
que se esquivar da cantada do piloto, que dizia que ia
abandonar a mulher e os filhos para viver com ela.
“Homem é um bicho estúpido. Por que eles se casam”?
Eva não tinha preconceitos de espécie alguma. Desde
que entrara para a L.E.S.B., fora obrigada a mudar de idéia
sobre uma série de coisas. Não se importava com o futuro,
o importante era viver o agora com a maior intensidade
possível.
Enxugou-se com uma toalha felpuda, que lhe fez
cócegas pelo corpo. Sentia-se maravilhosamente bem, e,
caso o velhote não a chateasse...
“Mas ele parece bicha... esse tal ajudante pode ser
transa dele.”
Eva acertou apenas em parte. Albert não era amante de
mulheres, mas gostava de homens inteligentes. E se sua
tripulação primava pela força, era de uma boçalidade atroz.
Para ele era melhor assim, pois podia controlá-los como
bem entendia.
Bem que sentia desejos de passar a mão na cabeça de
Rupert ou abraçar Julius. Mas, em nome da ordem e da
obediência, mantinha-se arredio. Em compensação, cobria-

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os com dinheiro e presentes, todas as vezes que cumpriam
bem suas ordens. Exatamente como fazem os domadores de
ursos, para dançar bem, tabletes de açúcar.
Eva arrumou suas roupas no armário e vestiu um
pequeno short branco, acompanhado de uma blusa fina,
amarela e azul. Seus seios magníficos ficaram moldados de
encontro ao pano, e ela sentiu-se mais mulher do que nunca.
— Srta. Eva, o almoço está servido na sala principal.
Eva apertou o botão do interfone e respondeu
imediatamente:
— Irei logo. Quem está falando?
— Nguyen, para servi-la.
— Ah, então é você... Estarei logo na sala.
Era o que faltava para dar o toque final ao navio: um
criado vietnamita. O velhote sabia realmente gastar o
dinheiro.
O almoço foi excelente: frutos do mar, vinhos e uma
especialidade de Nguyen, calamares. Eva tinha a impressão
de que nunca comera tão bem em sua vida. Depois da
refeição, ela e Albert sentaram-se nas espreguiçadeiras para
fumar e conversar.
— Srta. Eva, desculpe-me a intromissão, mas posso
perguntar qual a sua profissão?
— Pois não. Eu era agente de seguros. Investigações,
essas coisas menores. Mas agora estou só descansando. Não
trabalho em lugar nenhum.
— E onde conheceu Maggie?
— Numa festa do Lions. Fui apresentada por um amigo
comum às duas. Desse dia em diante eu e Maggie somos
quase que... inseparáveis.
— Existem certas amizades que vêm para ficar...
— Essa é uma delas. E o senhor? Vive todo o tempo no
navio ou tem negócios em terra?

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Albert ficou um pouco vermelho, mas não perdeu a
calma. A conversa estava muito bem controlada.
— Bem, tenho alguns interesses que me ligam ainda à
velha Europa, mas a maior parte do tempo passo aqui, no
"Morte Branca”, que é o meu verdadeiro lar.
— Ah, sim..., mas por que este nome trágico para um
barco tão bonito?
— O nome não é trágico, senhorita. Não vejo a morte
como uma tragédia. É somente uma mudança de estado.
— Original...
— É uma homenagem ao peixe mais inteligente de
todos os mares. A senhorita o conhece? É o tubarão branco.
Um matador.
— Não tenho muitos conhecimentos sobre peixes...
— É o maior dos tubarões. Tem quatro fileiras de dentes
serrados, que quando se fecham, cortam um cavalo ao meio.
— Que horror. . .
— É capaz de destroçar um homem em dez segundos.
Não dorme, não fecha os olhos, nunca para de nadar. Um
bicho histérico e fora-de-época.
— Fora-de-época?
— Os esqualos são remanescentes de eras pré-
históricas. São os últimos grandes monstros, juntos com os
cachalotes. É uma pena, pois a pesca desenfreada está
acabando com eles.
— O senhor é muito carinhoso com a flora e a fauna do
mar.
— A humanidade é terrivelmente estúpida. Tem ao seu
alcance uma reserva inesgotável de alimentos e, ao invés de
racionalmente desenvolver essa potencialidade,' prefere
destruí-la pouco a pouco, com detritos industriais. A
poluição dos mares é o maior crime contra o futuro da
humanidade.

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“Não é que o velhote fala bem? Parece até esses garotos
de passeata em universidades...”
— Se o dinheiro aplicado em programas estúpidos
como viagens a Lua, Marte e outras coisas fosse aplicado
no mar, o mundo acabaria de vez com os problemas de
fome.
“Mas isso não é simples assim, velhote. Tem muita
gente interessada na fome alheia... Deixe de ser simplista.”
— O que a senhorita acha?
— Bem, posso-lhe garantir uma coisa: o senhor está
coberto de razão. A quantidade de dinheiro investido em
programas inúteis, do ponto de vista prático, é enorme. Por
ouro lado, a humanidade é estúpida. Prefere morrer de fome
a mudar a uma coisa de fundamental.
Mas Poppy não estava com vontade de filosofar, e
deixou que o velhote falasse por mais alguns minutos.
Depois, sentindo-se cansada, ela pediu licença para se
retirar.
— Desculpe-me se a incomodei com esta conversa.
— De forma alguma! O senhor é um homem muito
inteligente e demonstrou estar seriamente preocupado com
os graves problemas da humanidade, o que me alegra.
— Quando chega gente nova sempre falo mais que o
habitual. A senhorita compreende, a tripulação não tem lá
essas luzes...
Eva retornou à cabine e ligou o ar refrigerado. O calor
estava terrível, e ela tratou de deitar-se para descansar um
pouco.
Mas antes de qualquer coisa, foi conferir as malas.
Todos os fechos estavam rompidos.
“Eu sabia que ele viria xeretar aqui... Mas eu vou
descobrir o que há de errado nesta embarcação... Pronto,
acabou-se o meu descanso.”

— 25 —
Deitou-se para dormir, não sem antes colocar a arma
debaixo do travesseiro.

***

Lucas conseguiu finalmente reparar o motor. Faltava


agora preparar as provisões, o motor de recarga dos
aqualungs, e a partida para os abrolhos de Martin Hierro,
onde se julgava estar afundado o galeão Cario Saragoza.
— Como é, tudo bem?
— Maravilha. O motor já está rodando em plena força,
só faltam as provisões e o compressor para os aqualungs.
— Tentarei conseguir um jipe. Não vai ser fácil arrastar
esse material em lombo de burro.
— Deixe que eu vou à cidade. Estou cansado de ficar
mexendo com graxa. Afinal, você já teve o seu divertimento
com madame...
— Você não teve por que não quis. Vamos, vá lá
apanhar o jipe.
Eram quatro horas da tarde, e Lucas correu a tomar um
banho. Na verdade, ele queria era achar a estrangeira que
desembarcara aquela manhã. A mulher era sensacional.

***

Eva acordou no meio de um sonho terrível. Estava no


mar, sendo perseguida por um marlin negro que se
transformava no tubarão branco e depois no velhote. Olhou
o relógio e resolveu ir à terra, comprar uma rede, que havia
prometido levar de presente a Maggie.
Tomou uma rápida ducha, vestiu um pequeno vestido
verde e apertou o interfone.
— Nguyen às ordens.

— 26 —
— Eu gostaria de ir à terra. Como faço?
— Pedirei a Julius que...
— Não, Nguyen, não gosto dele. Você pode me
acompanhar?
— Pedirei permissão ao Sr. Albert.
Eva esperou um pouco, e alguns minutos depois,
Nguyen chamava-a outra vez:
— Permissão concedida, senhorita. Queira encontrar-se
comigo na escada.
Nguyen tinha um metro e sessenta, o cabelo curto e
grosso, um sorriso eterno no rosto. Parecia um homem feliz,
mas os olhos guardavam uma tristeza qualquer, que Eva não
conseguia identificar.
— Vamos senhorita?
Passaram ao bote, e Nguyen apressou-se em ligar o
motor.
— Você pode me acompanhar na cidade, Nguyen?
— Tenho meia hora, senhorita, depois preciso voltar
para preparar o jantar.
— Muito bem, então vamos rápido.

***

Lucas estava sentado num tamborete do velho bar do


cais. Olhava atentamente para o “Morte Branca”, como que
esperando que a estrangeira viesse à terra.
— Que se passa hombre!
O tom de voz afetuoso do velho Jesus, marinheiro de
muitas viagens, comoveu Lucas.
— Nada, mestre Jesus, tudo em ordem.
— Todos esperam que a estrangeira volte. Arre, que
mulher!

— 27 —
Mal acabara de dizer, Nguyen encostou o bote no cais.
Um pequeno alvoroço tomou conta dos pescadores ali
parados. A estrangeira estava em terra outra vez.
— Uma bela mulher, mestre Lucas.
— Tem toda razão, mestre Jesus.
Mas Lucas Iria mais longe. Não podia ficar sem falar
com aquela moça. Era a coisa que o havia empurrado à
cidade.
Nguyen subiu à prancha de madeira e estendeu a mão,
logo depois subia Eva Brooklyn, a agente da L.E.S.B.

— 28 —
CAPÍTULO 3
Lucas levantou-se ao ver Eva. Estava literalmente
paralisado, mas precisava fazer alguma coisa. Eva percebeu
que o louro estava parado na porta do bar, e olhou-o de
frente.
— Uma linda mulher, mestre Lucas. Nunca vi a Mãe
d’Água, mas tenho a impressão que sua encarnação
terrestre é essa estrangeira.
Nguyen vinha um pouco mais à frente, e Lucas
aproveitou para falar à jovem.
— Alô.
— Sim?
— Eu queria dar-lhe as boas-vindas à ilha.
— Muito obrigada. Mas já fui recepcionada pelo meu
anfitrião.
— Mas creio que isso não impede que os menos ricos
falem com você...
— É claro que não.

— 29 —
— Você veio ver alguém na ilha?
— Não. Desci à terra com Nguyen para conhecer a
cidade. Preciso comprar uma rede para uma amiga em Nova
Iorque.
— Posso ajudá-la? Conheço todo mundo aqui.
— Você é da ilha?
— Não, mas moro aqui com um amigo já há algum
tempo. Eu sou de Miami.
— E abandonou a sua terra por esta ilha? Por quê?
Cansou-se da civilização?
— É um projeto antigo que eu e Marcelo temos. Permita
que me apresente; sou Lucas Leinster.
— Sou Eva Brooklyn.
Nguyen aproximou-se dos dois, e Eva sorriu para ele.

— Este é um amigo, Sr. Lucas.


Nguyen fez uma reverência e parou na frente do
americano.
— Ele se ofereceu para me acompanhar à cidade. Se
você quiser vir junto...
— Espero-a no barco, senhorita. Mas, por favor, só
temos meia hora.
— Caso eu não volte a tempo, você pode retornar ao
barco, Nguyen. O Sr. Lucas achará um jeito de levar-me.
Nguyen fez outra reverência e afastou-se.
— Um homem interessante.
— Nguyen é vietnamita. Ainda não conheço a sua
história, mas tenho a impressão que é um homem
terrivelmente sofrido.
— E você? É amiga do Sr. Albert?
A pergunta de Lucas carregava alguma maldade na voz.
Eva riu e disse que não.

— 30 —
— Não sou amante de nenhum magnata. Estou na ilha
para descansar. Trabalho muito arduamente e, se não tenho
boas férias, a cabeça e o corpo explodem.
— O que você faz?
Eva não precisou mentir. Antes que respondesse, Lucas
cortou-lhe a palavra.
— Desculpe-me, não tenho o direito de fazer-lhe essa
chuva de perguntas. Talvez você queira saber alguma coisa
a meu respeito. Eu e Marcelo estudávamos na Universidade
do Mar de Miami, quando descobrimos algumas pesquisas
de interesse nuns abrolhos desta área. Vendemos tudo o que
tínhamos, abandonamos os estudos e viemos para cá.
— Deve ser uma vida interessante. Vocês são
mergulhadores?
— Bem, mergulhamos desde que somos adolescentes.
Temos muita intimidade com o mar, e sobretudo gostamos
dele.
— Apesar de há muito tempo eu colocar um aqualung
nas costas, gosto muito do mar também.
— É mesmo? Acho ótimo que tenhamos gostos em
comum.
Enveredaram por uma ruela, e Lucas levou-a até uma
rendeira, a única da ilha. Antes Eva comprou toalhas e
alguns panos bordados, e depois seguiram para a loja das
redes.
— Fale mais alguma coisa de sua vida. Você parece ser
um tipo muito interessante.
O coração de Lucas disparou. A estrangeira estava
realmente interessada nele.
— Não tenho mais nada a dizer a não ser que estamos
com mi! dificuldades com nosso barco. Falta de dinheiro —
esclareceu ele.
— E o que vocês vão pesquisar?

— 31 —
Lucas não respondeu. Ficou em dúvida se devia ou não
falar a ela sobre o sentido exato do seu trabalho.
— Bem, as ilhas da América Central sempre foram
lugar de parada de galeões espanhóis. Estames em busca de
evidências históricas. Uma estátua... ou um móvel dentro de
um galeão.
— Arqueologia? Maravilhoso. Ou será que são
tesouros?
— Não!
A negativa de Lucas foi a maior afirmação que ele
poderia ter dado. Entraram na loja da rendeira e Eva
comprou a rede que queria. Na rua, retornou o assunto.
— Por que você está escondendo alguma coisa? Não
queria falar comigo? Ou pensa que não reparei lá da Central
Telefônica que você estava me espiando?
— Tem razão. Acontece que seu anfitrião também quer
o que queremos.
— Ele me disse que o seu trabalho consiste de pesquisas
oceanográficas.
— Mas seus marinheiros afirmam que vão buscar
tesouros. Ouviu-se isso na casa de madame Lia. É o único
lugar de... divertimento da ilha.
— Ele leva uma grande vantagem sobre vocês, ou seja,
ele conta com a tecnologia.
— Como você sabe?
— Bem, ainda não tive oportunidade de conhecer o
navio, mas é bem provável que tenha um sonar a bordo.
— Eu e Marcelo empenhamos nossa vida neste projeto.
Há uma grande chance que um galeão esteja afundado perto
dos abrolhos de Martin Hierro.
— O que levava ele?
— Ouro. Lingotes, barras, eu sei lá. Pretenda a Cario
Saragoza, um pirata espanhol. Segundo o relato dos

— 32 —
sobreviventes, ele não quis desfazer-se da carga quando o
barco se chocou contra as rochas.
— Ah, a ambição humana. Mais de quatrocentos anos
e a cupidez é a mesma de hoje! Bem, tenho de voltar a
bordo, Lucas. Gostaria de ajudá-los, mas não sei como.
— Deixe-me levá-la até o “Morte Branca”.
Retornaram ao cais e mestre Jesus emprestou seu barco
para que Lucas levasse a estrangeira. Na volta,
filosoficamente, o velho pescador observou ao rapaz:
— Todo pescador tem seu dia de peixe, hombre!
Albert observou a chegada de Eva. Achara estranho que
ela se encontrasse em companhia de um outro homem que
não Nguyen, mas preferiu não perguntar nada.
— Marcelo, ela é maravilhosa.
— Quem, homem de Deus?
— A estrangeira... Eva Brooklyn.
— Então você esteve com ela. É verdade que está
hospedada no barco do tal de Albert?
— É. Mas ela não tem nada a ver com os planos dele.
Está somente passando férias.
— E você contou a ela o que nós iríamos fazer, não é
mesmo?
— Bem... eu achei que ela merecia confiança.
— Você acabou de encerrar nossa carreira de
exploradores! Não percebe que e!a vai correr e contar tudo
ao seu anfitrião? Se não for seu amante!
— Não é! Tenho certeza que não é!
Mas Marcello não queria saber de conversa. Entrou
para o barracão, amaldiçoando o dia em que conhecera
Lucas.

***

— 33 —
O jantar a bordo manteve de pé a classe do almoço.
Nguyen era simplesmente fantástico no que se referia à
comida. Ao fim do repasto, como de costume, Albert e Eva
dirigiram-se para as espreguiçadeiras para fumar e fazer a
digestão.
— A senhorita arranjou amigos em terra, não?
— Ah, sim. Foi Lucas... um jovem que me deu as boas-
vindas.
— Sim? E o que lhe disse ele?
— Nada de excepcional. Contou-me algumas coisas
peculiares da ilha... e levou-me às lojas para comprar
presentes.
— Verdade? Nguyen poderia ter feito isso.
— Mas ele precisava estar de volta sem demora para
fazer o jantar, e eu não queria que ele perdesse sua hora de
trabalho. Não gosto de sair para passear e causar problemas
aos outros. Como Lucas não tinha horários...
A desculpa foi excelente. Albert não pode responder
nada. A busca que dera nas coisas de Eva fora infrutífera.
Não encontrou nada que pudesse incriminá-la, mas mesmo
assim continuava desconfiado.
Julius aproximou-se e falou a meia-voz:
— Senhor Rupert chama-o na sala de rádio.
— Com licença, senhorita, tenho alguns assuntos a
tratar.
Eva continuou recostada, os olhos grudados nas estrelas
do céu da América Central. Olhou de soslaio e percebeu que
Julius não se retirara. Provavelmente recebera ordens para
vigiá-la.
— Você faz parte da tripulação, não é?
— Sim, senhorita.
— É um belo barco, este. Você trabalha com ele há
muito tempo.

— 34 —
— Fomos contratados pelo Sr. Albert há um ano. Já
rodamos o mundo quase todo — disse-lhe com orgulho.
— É mesmo? Que maravilha...! Sempre fazendo
pesquisas oceanográficas?
Eva percebeu que Julius se retraíra e completou seu
pensamento.
— O Sr. Albert disse que as pesquisas no fundo do mar
são a principal atividade do barco.
— Se o Sr. Albert falou, é por que tem razão.
Eva sentiu que Julius não falaria mais nada. Calou-se e,
pouco depois, levantou-se.
— Bem, vou para a minha cabine. Boa noite, senhor.
— Boa noite, senhorita.
Mas Julius acompanhou-a até a porta da cabina,
escoltando-a.
— Obrigada pela companhia... — disse ironicamente
Eva.
Fechou a porta da cabina e deitou-se. Trouxera alguns
livros para passar o tempo. Ligou o ar refrigerado, deitou-
se na macia cama, e começou a ler, com a cabeça recostada.
Às onze horas, sentiu vontade de tomar um coquetel.
Ligou o interfone e chamou Nguyen.
— Eu queria tomar um coquetel de tomate. Você pode
prepará-lo?
— Em cinco minutos, senhorita.
Eva vestiu um robe e esperou a chegada do vietnamita.
Era uma excelente oportunidade para saber mais alguma
coisa sobre o barco. Faria o possível para ajudar Lucas e seu
amigo, mesmo que isso fosse contra as regras mais
elementares da ética. Aliás, ela pouco se importava com
esses detalhes. Albert era um ser repelente e ela não tinha a
menor vontade de continuar muito tempo no barco.
— Com licença, senhorita.

— 35 —
— Entre Nguyen.
O vietnamita pousou a bandeja sobre uma pequena
mesa e preparou o coquetel às vistas de Eva.
— Há quanto tempo você trabalha com o Sr. Albert,
Nguyen?
— Um ano, senhorita. Todos nós trabalhamos com ele
há um ano.
— Viajaram muito, não é? Julius me contou.
— O mundo todo, pode-se dizer.
— Sempre em pesquisas oceanográficas?
Nguyen levou o dedo à boca e apontou para o interfone.
Meteu a mão por trás da caixa de som, e depois sorriu.
— Podemos continuar agora.
— Estou sendo vigiada, Nguyen?
— Sim, senhorita. O Sr. Albert descobriu um tesouro
aqui nesta área e desconfia de tudo e de todos. Pediu-me
que a espionasse, mas não tenho espírito para este tipo de
coisa. Prefiro mentir a ele.
— O que esperamos para partir em busca do tesouro?
— O Sr. Albert espera um rádio de Miami. Empregados
seus foram à Biblioteca Municipal da cidade confirmar a
localização provável do galeão afundado.
— Tesouros... isto é fantástico.
— Parece que o rádio chegou agora. Pelo menos Rupert
e o Sr. Albert estão na cabine, conversando em sigilo.
— Obrigada, Nguyen. Qualquer coisa você me avisa,
sim? Não gosto de ser vigiada.
— Pois não, senhorita.
Antes de se retirar, o vietnamita prendeu novamente os
fios do interfone.
“Lucas tinha razão... Albert está em busca do mesmo
tesouro.”

— 36 —
***

— Já passou seu mau humor?


Marcelo respondeu com um grunhido à pergunta do
amigo.
— Você não acha interessante termos uma amizade
junto ao nosso competidor?
— Você acredita realmente que ela está do nosso lado?
Acho difícil, Lucas.
— Alguma coisa levou-me a acreditar nela, Marcelo.
Você sabe que poucas vezes me interessei realmente por
uma mulher. Sou meio exigente nessas coisas. Mas Eva... é
diferente.
— Um coração apaixonado faz besteiras.
— Talvez.
— Prefiro esperar pelo pior. Assim não tenho surpresas
desagradáveis...

***

Madame Lia conversava com as meninas na sala do


sobrado. O fim de noite era sempre um pouco melancólico,
as mulheres relembrando tempos mais felizes, e mesmo
madame Lia, deixava-se envolver pelo clima nostálgico da
conversa.
Pouco depois da meia-noite, entraram na casa Rupert e
Julius.
— Vocês estão fora de hora.
— Vamos partir amanhã bem cedo, e queremos um
adiantamento sabe?
Madame se interessou sobremaneira pelas palavras de
Rupert.
— Vocês vão embora da ilha? Que pena...

— 37 —
— Não. Vamos dar uma volta pelas ilhas para conhecer
os tipos de peixes da região.
— Ah... Tereza e Suzy, por que não atenderam os
rapazes ainda?
Depois que os dois mastodontes subiram as escadas do
bordel, madame Lia apanhou seu xale.
— Vou dar uma volta. Não me sinto bem, preciso de ar.
Qualquer coisa, estarei de volta em uma hora.
Marcelo acendeu um cigarro e passou ao amigo.
Estavam sentados no gramado, os olhos perdidos nas
centenas de constelações do céu distante.
— Você esqueceu de trazer o jipe com as maquinarias.
— Desculpe-me, Marcelo, mas fiquei empolgado com
Eva e...
— Não há problema. Eu apanho tudo amanhã.
Marcelo estava vendo o amigo apaixonado pela
primeira vez. E tinha um pouco de medo, pois Lucas
perdera a tranquilidade que lhe era característica. Parecia
um adolescente.
Ouviram ruído de um carro se aproximando, era
madame Lia que trazia o compressor e mantimentos. Parou
perto do velho ancoradouro e correu para os rapazes.
— Alô! Trouxe um presente para vocês.
— Você é maravilhosa, madame!
A mulher abriu um sorriso largo e abraçou Marcelo.
— Vocês não ficam tristes morando num lugar tão
ermo? Precisam de uma companhia feminina para ajudá-
los.
— Não! Uma mulher aqui seria um tumulto. Homem
gosta de morar sozinho um pedaço de sua vida.
— Vocês é que sabem...
— Tudo bem na casa?

— 38 —
— Tenho uma surpresinha para vocês. Os dois
brutamontes do tal de Albert foram até a casa agora.
Estranhei por causa da hora, mas eles disseram que
partiriam amanhã.
— Verdade? Para onde?
— Não quiseram me dizer. Mas falaram em conhecer
os peixes da região.
— Lucas, temos que partir agora mesmo.
— Não há possibilidade de sair já. Temos que esperar a
manhã para apanhar gasolina.
— Diabos! Obrigado, madame, mais uma vez. Eu não
sei como agradecer.
— Mas eu posso ensiná-lo... — insinuou ela,
enroscando-se nos braços do italiano.

***

Eva adormeceu rapidamente. O balanço suave da baía


de Aruba embalou seus sonhos, doces sonhos, onde um
rapaz louro mergulhava com ela nas profundezas do reino
de Iemanjá. E, tranquilamente adormecida, não sentiu o
motor do iate vibrar nem mudar de som. O balanço que era
tão suave, foi substituído pela arritmia do alto mar.

— 39 —
CAPÍTULO 4
Os abrolhos de Martin Hierro são um aglomerado de
rochas, habitados por pássaros e moluscos, cobertos pelos
excrementos e por restos de animais mortos.
Em dias de tempestade, as ondas cobrem
completamente a pequena circunferência, tornando-se um
perigo ao navegante inculto. E foi essa razão do
afundamento do galeão de Cario Saragoza. Somente uma
coisa não era certa: seria exatamente nos abrolhos ou em
outra direção que estavam os destroços?
A correnteza teria arrastado o galeão ou ele se mantinha
imóvel há quatrocentos anos? E o ouro? Existiria ainda ou
já teria sido recuperado por pescadores?
Eram várias perguntas que só poderiam ser respondidas
quando se mergulhasse no local. E a corrida pelo ouro
começara. Na mesma manhã que partiu o “Morte Branca”,
com diferença de alguns minutos, partiu o bote de Lucas e

— 40 —
Marcelo, depois de convenientemente abastecido de
combustível.
A previsão do tempo era favorável; não havia
prenúncios de chuva para os próximos quatro dias. E era
bom que fosse assim, pois o bote dos dois não oferecia a
menor segurança em caso de tempestade. A chuva na
América Central é terrível. O mar torna-se incrivelmente
agitado e pode tragar as embarcações menores.
O problema de descanso seria resolvido dentro do
próprio barco. Ajeitar-se-iam da melhor maneira possível.
E se encontrassem o ouro? Bem, aí voltariam para avisar o
mestre Jesus, que arregimentaria vários barcos para ajudar
no transporte.
Começara a grande aventura da vida dos dois rapazes.
Antes, tinham sido só preparativos. Agora a sorte estava
lançada e só dependia deles conquistar ou não o tesouro do
mar.

***

Eva acordou e imediatamente descobriu que estava em


alto mar. O balanço do barco, apesar de não incomodar, era
bem maior do que na baía. Apertou o interfone e chamou
Nguyen.
— Aqui está seu desjejum, senhorita.
— Obrigada, Nguyen. Parece que já estamos viajando,
não?
— Partimos hoje de manhã. Estamos navegando a
quase quatro horas.
— Para onde?
— Para os abrolhos de Martin Hierro.

— 41 —
Eva atacou ferozmente a refeição matutina. Sentia-se
muito bem-disposta, e não sabia porquê, sentia também
prenúncios de ação.
— Em quanto tempo estaremos lá?
— Pela velocidade desenvolvida, digamos mais três
horas.
— ótimo.
“Tomara que os rapazes já tenham partido. Será
realmente um terrível choque descobrirem que Albert
chegou primeiro. Bem, mas não devo imiscuir-me nesses
problemas. Vim aqui para descansar.”
O resto da manhã passou-se calmamente, a tripulação
ocupada em tarefas de importância para o andamento do
iate, e Albert num compartimento especial preparando o
equipamento de mergulho.
Eva vestiu seu biquíni e tomou um pouco do forte sol
das pequenas Antilhas, Maggie iria ficar entusiasmada com
sua cor, quando voltasse.

***

— Vamos acelerar? — perguntou Marcelo.


— Não, é preferível poupar o motor. Dessa forma
checaremos mais tarde, porém com a maquinaria em ordem.
Podemos precisar da força total daqui por diante.
— E se eles chegarem primeiro?
— Eles vão chegar primeiro. Mas não sabem a
localização exata, nem nós. Ninguém sabe. Levarão
algumas horas de vantagem na busca, mas ó só.
— Assim espero...
O nariz do bote afundava na água borrifando respingos
para os lados e para cima. Marcelo sentou-se para ajustar a
máscara e sentiu o coração um pouquinho apertado. Medo?

— 42 —
Talvez. Não do mar, companheiro velho de tantas horas,
mas do galeão. E se não houvesse ouro? Já haviam discutido
essa hipótese, nesse caso, tentariam recuperar o navio para
vendê-lo como preciosidade histórica. Mas precisariam de
uma enorme soma de dinheiro para a operação-resgate, e
não sabiam como consegui-lo. Estava fora de cogitação
pedir alguma ajuda à riquíssima família de Lucas.
Eram todos contra aquela idéia. Recriminaram com
toda a veemência a ida do mais novo do clã para a
Universidade do Mar. Gostariam de vê-lo advogado,
médico, engenheiro, alguma coisa de mais “produtivo”. E
se Lucas os procurasse agora com algum pedido de
dinheiro, seriam capazes de qualquer coisa, até a chantagem
mais baixa para emprestar a quantia.
A solução seria voltar para a Universidade, terminar o
curso e empregar-se num programa de pesquisas. Pelo
menos não ficariam afastados do mar.

***

Eva sentiu quando o navio diminuiu a marcha. Correu


para a proa e divisou as rochas. Eram incrivelmente
pequenas, comparadas com a imensidão de água que as
cercava. Qualquer onda mais forte lavava a superfície
irregular que tentava manter-se à tona e, num pequeno
pedaço mais alto, dezenas de pássaros guinchavam
alegremente. Volta e meia um levantava voo e mergulhava
na água, donde retornava com pequenos peixes no bico.
Albert aproximou-se de Eva e contemplou seu corpo
apenas levemente coberto pelo biquíni. Ela era uma mulher
fantástica.
— Chegamos ao lugar das pesquisas... gostaria de
mergulhar com Julius e Rupert?

— 43 —
— O senhor não vai?
— Estou velho para isso. Mas os dois levarão câmaras
de televisão e acompanharei o mergulho até o fim.
— Realmente seria muito bom... Irei sim.
— Dirija-se ao Centro de Mergulho. Mandei preparar
um equipamento para a senhorita. Tinha certeza que não
resistiria a um mergulho...
Eva riu e desceu as escadas. Julius estava no quarto,
parcialmente vestido com a roupa de neoprene, ajustando
nos ouvidos os fones de escuta. Em cima da mesa havia uma
pequena câmara de televisão, que ficaria presa ao peito do
mergulhador.
— Por que esta roupa de neoprene? O primeiro
mergulho não é de inspeção?
— Vamos testar todos os equipamentos, senhorita. Vai
conosco?
— Sim, vou. Terei que levar uma câmara também?
— Não, só temos duas.
— Melhor assim, prefiro mergulhar de biquini.
Julius balançou a cabeça e passou a ela um par de
tanques, um respiradouro, e máscara. Depois uma touca
especial com os fones.
— Todos nós usaremos fones. Quem comanda a
expedição é o Sr. Albert.
Eva apanhou o material e subiu as escadas. Albert
comandava a operação de ancoramento. Depois veio ao
encontro dela.
— Como é? Tudo pronto?
— Tudo em ordem. Mas por que não nos deu armas?
— Prefiro dá-las pessoalmente. Veja, isto é um arpão
de ar comprimido. Médio alcance. Sabe usá-lo?
— Sim, já o usei várias vezes.

— 44 —
— Não vai descer com ele agora. Na ponta do arpão
temos uma pequena granada de efeito mortífero. Quando
formos realmente ao fundo, desceremos com ele. Por ora,
somente esta faca.
— Já é alguma coisa... Bem, tenho que usar os fones,
mas acho que posso dar alguns passeios por contra própria.
— Neste primeiro mergulho, sim. Depoi3, se quiser
descer com eles, terá que seguir ordens. Procuramos um
galeão espanhol e é sempre perigoso passear por um navio
afundado.
— Mas que maravilha! — fingiu Eva.
— Você quer entrar para testarmos os fones?
Eva calçou as nadadeiras, colocou o cinto de chumbo
em torno da cintura, ajeitou a máscara e os tanques e pulou
na água. Não estava muito fria nem muito quente. Quando
sentiu o contato contra a pele, abriu o monitor dos tanques.
O oxigênio invadiu sua boca, e os ruídos deixaram de
existir.
Estava totalmente mergulhada, mas não podia
distinguir nada além da água. Um pequeno peixe negro
passou perto de sua área de visão e olhou-a com
curiosidade.
“Alô, estou entrando em sua casa.”
— Senhorita? Está me ouvindo? Queira subir e mostrar
sua cabeça para que possamos saber da recepção.
A voz era clara, e Eva subiu para avisar que estava tudo
em ordem.
Colocou a cabeça para fora da água e acenou. Rupert
fez-lhe um sinal com o polegar estendido para cima, e ela
desceu outra vez para a tranquilidade do fundo do mar.
Sabia que não estava muito fundo, o terreno naquele
lado levantava-se até formar os abrolhos. Mas a descida era
bastante escarpada, e esta era a razão do temor daqueles que

— 45 —
iam em busca de tesouros. Eva sabia também que o fundo
do mar não é imóvel, cortado que é por correntes, tão fortes
que parecem verdadeiros rios dentro do próprio mar, mais
quentes ou mais frias, movimentando-se velozmente.
O galeão podia ter sido arrastado por uma delas,
desmanchando-se aos poucos. O ouro poderia estar
soterrado por milhões de metros cúbicos de areia, ou nada
disso.
Eva desceu mais um pouco e atingiu o fundo. A
paisagem era maravilhosa. A água clara deixava passar os
raios de sol, filtrando-os, e estes vinham iluminar as plantas
e os seres que habitavam as profundezas. Um pequeno
cardume de peixes prateados rondava uma toca, e Eva
aproximou-se mais para olhar. Eram peixes lisos, de olhos
assustados, seguindo uma direção que mudava de trinta em
trinta segundos. Tentou agarrar um deles com a mão, mas o
pequeno escapuliu.
A flora marinha sempre fora uma das mais belas visões
que Eva trazia guardada de seus poucos mergulhos. Uma
profusão interminável de cores e formas, algumas imóveis,
outras acompanhando o movimento das águas.
“Isto é um sonho... uma água-viva.”
Uma maravilhosa caravela transparente flutuava perto
de uma rocha. Eva aproximou- se mais para olhar, mas
manteve a distância, conhecia as queimaduras que o animal
provocava aos menos avisados.
Passeou entre uma floresta de algas verdes, abrindo
caminho com as mãos, mas sem encostar a pele nas plantas.
Ouriços espinhentos poderiam esperar por ela...
Um peixe vermelho, parecendo um dourado, chamou
sua atenção. Fuçava um molusco que, repentinamente,
criou pernas e começou a andar. Era um ermitão,
caranguejo que se aloja em conchas vazias.

— 46 —
Na» rochas, centenas de marias-da-toca, um peixe
pequeno e negro, preso por uma barbatana, como de tocaia.
Uma sombra cobriu as costas da agente; uma pequena arraia
passou batendo suas largas asas, fleumaticamente.
Eva resolveu contornar os abrolhos. Levaria no máximo
dez minutos, e seria um reconhecimento da área. Não
custava nada fazer alguma coisa longe das vistas de
Albert...
Começou a nadar vigorosamente, mal sentindo o peso
do aqualung nas costas. Uma das coisas mais fascinantes do
mar é a sensação de imponderabilidade. O peso era quase
nenhum, e ela se locomovia com facilidade.
Chegou ao outro lado dos recifes e subiu à tona. O iate
estava do lado oposto, e ela percebeu que ninguém a
vigiava. Mergulhou novamente decidida a ir até o fundo.
Para evitar a diferença de pressão, nadava alguns
metros e parava, uma ótima maneira de não ser atacada pelo
“mal das profundezas”. Quando se desce muito depressa, o
oxigênio forma bolhas no sangue, e se a descompressão for
rápida, morre-se entre espasmos pavorosos.
Por outro lado, vertigens e visões, atacam os
mergulhadores que descem muito profundamente, por
excesso de oxigênio no cérebro. Nessas condições, fica-se
eufórico, e há até o caso de um mergulhador que tirou o
aqualung e quis ser conquistado por um mero.
São truques que Iemanjá ensinou aos homens à custa de
muitas mortes. Só quem tem intimidade com o mar sabe
desses detalhes, importantíssimos num mergulho.
Eva consultou seu relógio. Ainda tinha ar para meia
hora. Desceu vagarosamente, e à medida que se
aprofundava, a luz ia-se rarefazendo. Estava num mundo de
sombras e aqui e ali rebrilhava um peixe luminoso.

— 47 —
Era um pedaço escondido do oceano. Alguns peixes
negros arrastavam-se na lama do fundo, pequenos siris,
moluscos abrindo e fechando suas conchas quase
herméticas.
Eva sentiu uma pontada na cabeça, e interpretou-a
como um sinal de seu corpo. Não devia descer mais,
precisava de mais alguns mergulhos até que seu corpo
adquirisse resistência.
“Vivo procurando o que fazer... quando voltar a Nova
Iorque, encomendarei um equipamento deste. Nadar é a
coisa mais maravilhosa que existe.”
Foi retornando calmamente para a tona, agora nadando
em torno dos recifes. Quando chegasse ao navio, estaria
quase pronta para a imersão.
Alguns minutos depois, estava perto do navio.
Nguyen acenou-lhe de cima e ela sorriu, alegre.
— Como vão as coisas?
— Tudo tranquilo. O mar é esplêndido.
— Na minha terra diz-se que a água é a mãe do mundo...
— Vocês têm toda razão. Julius e Rupert não vêm?
— Estão estudando mapas com o Sr. Albert. Não
querem perder muito tempo.
— Ah, sim.
Nguyen debruçou-se para falar mais alguma coisa e,
sem que esperasse, seu isqueiro caiu na água.
— Eu o apanho! — afirmou a moça.
Eva lembrou-se das brincadeiras de criança, quando
atiravam pedras ao fundo de um rio e todos corriam para
apanhá-las. Colocou a máscara no rosto e desceu
lentamente, batendo os pés, as mãos coladas ao corpo.
O isqueiro devia ter caído entre as algas e ela dirigiu-se
para aquele lugar, com a faca na mão. Passou a lâmina entre
as folhas até que esbarrou em algo mais sólido. Era o

— 48 —
isqueiro. Colocou-o no cinturão de chumbo e, sem pressa,
empreendeu a subida.
Em meio do caminho quase deixou cair a faca, mas
segurou-a bem a tempo.
— Vou subir, Nguyen... Por hoje chega de mar!
O corpo estava cansado, e ela não queria forçar o ritmo.
O vietnamita ajudou-a na escada e retirou seus tanques de
oxigênio.
— Que tal, senhorita?
— Maravilhoso, Nguyen, maravilhoso! Foi uma das
coisas mais lindas que já vi em toda a minha vida.
Duas horas mais tarde, deitada na espreguiçadeira, Eva
foi a primeira pessoa do navio a ouvir o poc-poc do motor
que se aproximava.
— Temos companhia — comentou Nguyen.
— Devem ser... — mas Eva calou-se de repente.
— Quem, senhorita?
— O meu amigo, Nguyen. Mas não conte nada sim?
— Sou um túmulo, senhorita.
Julius e Rupert estavam na proa, olhando o bote se
aproximar.
— O que vocês querem? — perguntou Julius para os
dois rapazes.
— Viemos pescar — gritou Lucas.
— Pois pesquem para outro lado. Estamos fazendo uma
pesquisa e vocês vão assustar os peixes.
— Vamos para o outro lado dos recifes — respondeu
Marcelo.
Julius e Rupert ficaram tensos. O primeiro abaixou-se e
apanhou um rifle.
— Vocês têm dois minutos para sumirem! A partir de
agora!

— 49 —
Os dois jovens do bote se entreolharam, mas nenhum
dos dois fez menção de sair.
— Muito bem, vocês é que pediram!
O primeiro disparo passou perto do motor da lancha.
Eva correu e tomou a arma das mãos de Julius. Rupert
tentou fazer algo, mas a arma já estava apontada contra os
dois.
— Se alguém se mexer, eu corto em dois!
Nguyen, por via das dúvidas, aproximou-se dos dois
com uma pequena faca na mão direita, escondida. E ficaram
todos parados até que Albert aparecesse.

— 50 —
CAPÍTULO 5
Muito bem, o que é que está havendo por aqui?
— Esses homens, senhor. Recusaram-se a acatar nossas
instruções. Temos prioridade de pesquisa na área.
Lucas e Marcelo entreolharam-se. Não compreendiam
bem o que se passava no iate, mas uma coisa ficara clara: a
estrangeira tomara o partido deles.
— Guardem as armas. Não é preciso recorrer à
violência desta forma, Julius. Isto também serve para você,
Rupert.
Os dois mastodontes ficaram cabisbaixos como feras na
frente do domador.
— E a senhorita, o que faz com o rifle na mão? Não me
diga que estava atirando nos rapazes também.
Eva olhou Albert com uma expressão de profunda
raiva.

— 51 —
— Não, eu evitei que este animal destroçasse a cabeça
de alguém. Por que o senhor anda com armas tão pesadas
no navio?
Albert sorriu para ela e apanhou a arma de suas mãos.
— Tubarões, senhorita. Estas éguas escondem todos os
tipos de assassinos. Temos que dar cobertura aos nossos
rapazes, não podemos deixá-los sem proteção. E além do
mais, essas armas foram adquiridas na ilha, com permissão
do alcaide. Perfeito, agora?
— Ótimo. Mas tome cuidado com seus rapazes. Eles
são meio temperamentais.
Albert não gostou da conotação que Eva deu à palavra
“rapazes”, mas não discutiu mais. Virou-se para o bote dos
recém-chegados e acenou amistosamente.
— Está tudo em ordem! Foi apenas um engano da nossa
tripulação. Podem mergulhar à vontade.
Eva ficou desconfiada da atitude de Albert. Por que
tanta liberalidade? Preferiu aguardar, a fazer julgamentos
errados.
Nguyen já guardara a faca e o sorriso de eterna
amabilidade já estava pendurado no seu rosto simpático.
Eva piscou para ele, e entrou em sua cabine. Julius e Rupert
voltaram a seus afazeres com o equipamento.
— Mano, quase arrancaram nossas cabeças.
— Você viu, Marcelo, ela ficou do nosso lado.
— Você tem razão... Desculpe-me por ter desconfiado.
A noite desceu em meio aos preparativos e o interfone
chamou Eva para a refeição.
— Já vou, Nguyen. Diga ao Sr. Albert que não demoro.
Eva vestiu um pareô que ganhara de presente uma vez,
completado na parte de cima pela peça superior do biquíni.
Prendeu os cabelos com uma travessa de pérolas e saiu, de
pés descalços, para jantar com o dono do iate.

— 52 —
— Você está maravilhosa esta noite, querida. Seu rosto
ó sempre uma obra de arte, mas hoje... a tripulação está em
pé de guerra com sua presença no barco. Gostam muito de
mulheres decididas... e belas.
— Só interferi naquele incidente por que Julius estava
fazendo uma loucura. Não havia razão para atirar nos
rapazes.
— Tem toda razão. Eles são muito impulsivos. Mas vou
dar-lhe um conselho. Nunca mais aponte uma arma para
eles. Os rapazes são sensacionais quando bem tratados. Mas
se os machucam... bem, o incidente da tarde já foi
esquecido. Passemos agora a assuntos mais agradáveis.
— É uma excelente idéia, Sr. Albert. Mas quero dizer-
lhe que não gosto de ser ameaçada. Nem por meias
palavras. Da próxima vez que puxar uma arma para seus
rapazes, vai ser para atirar.
Os olhos de Eva rebrilharam de ferocidade ao
pronunciar estas palavras. Albert sentiu-se um pouco
ameaçado, e deu um sorriso meio amarelo. Mas, logo
depois, o rosto da agente voltou à normalidade, e a conversa
decorreu sem maiores problemas até o fim da refeição.
— Bem, começamos amanhã a pesquisa- Vamos
estabelecer um mapa novo desta área. Um mapa cio fundo
do mar, bem entendido.
— Gostaria de ajudá-los.
— Ótimo. Você já deu um mergulho experimental hoje.
Foi tudo bem?
— Ainda estou em forma. Preciso só de um pouco de
prática.
— Excelente. Mas precisamos acertar um ponto. Vocês
três mergulharão sob minhas ordens. Um mergulho deve ser
racionalmente aproveitado, não perdendo tempo em
manobras inúteis.

— 53 —
— Estratégia...
— Eu diria planificação. Ganho dinheiro desta forma,
colaborando para as maiores universidades do mundo em
trabalhos de cartografia e pesquisa. Meu tempo vale ouro.
“Disso eu sei, velhote safado. Ouro em lingotes no
fundo do mar. Mas o que eu queria saber é a razão da sua
boa vontade com os rapazes” — pensou Eva.
— Bem, começaremos pela pequena plataforma do lado
oeste dos abrolhos. Iremos descendo gradualmente,
assinalando numa prancheta os principais acidentes
geográficos. Entendido?
“Isto é mentira... esse trabalho é feito com o sonar. Ele
quer que encontremos por acaso o galeão.”
— Acompanharei tudo pelas câmeras que Julius e
Rupert levarão. Você levará uma máquina fotográfica, para
tomadas do nosso trabalho e dará cobertura em caso de
ataque.
— Ataque?
— Estes abrolhos costumam ser visitados por grandes
grupos de tubarões. Pode ser até que venha um grande
branco no meio... O mar tem muitas surpresas. Você levará
o arpão com o explosivo, mas só o use em último caso.
— Está começando a ficar emocionante...
— Vejo que gosta de aventuras. Bem, em cima do local
onde vocês mergulharão, ficará Nguyen, num bote com
rádio, dois rifles e cargas. Ele dará o apoio de tanques, peças
sobressalentes, essas coisas. Nguyen tem uma mira
fantástica, e no caso de aparecerem esqualos, ele matará
alguns, que servirão de pasto para os outros, até que vocês
sejam recolhidos.
— É uma ótima idéia, Sr. Albert. Quanto tempo acha
que durará o serviço?
— Uns três ou quatro dias. Não mais que isso.

— 54 —
“É um ótimo prazo para achar o galeão... E se os rapazes
o encontrarem primeiro?”
— Bem, vou descansar agora, o dia será atarefado. Boa
noite, senhorita.
— Boa noite, Sr. Albert.
Eva voltou à cabine e chamou Nguyen pelo interfone.
Precisava conversar com ele urgentemente.
Quando o vietnamita entrou no quarto, ela levou a mão
aos lábios fazendo sinal de silêncio. Nguyen retirou então
os fios do alto-falante.
— Obrigada pela ajuda de hoje, Nguyen.
— Mulheres bonitas e corajosas são presentes do céu.
Devemos cultivá-las cada vez mais.
— Seus elogios são a coisa mais poética que já ouvi até
hoje, Nguyen.
— As mulheres do meu país pegam em armas há muito
tempo. São excelentes guerreiras é o orgulho do nosso
povo.
— Vocês expulsaram os franceses e agora expulsam os
americanos... Seu povo é formidável. Digo isso, apesar de
ser americana.
— Obrigado, senhorita.
— Nguyen, por que foi que Albert intercedeu em favor
dos rapazes hoje?
— Não posso responder-lhe com certeza, mas creio que
ouvi uma conversa bastante elucidativa quando vinha para
cá.
— Que foi?
— Não escuto atrás das portas, senhorita. Mas tenho
dois ouvidos e eles funcionam independentemente da
minha vontade. O Sr. Albert chamou Julius e Rupert e deu-
lhes uma reprimenda.
— Verdade?

— 55 —
— Chamou-os de imbecis, idiotas e outras coisas que
prefiro esquecer. Mas, como faz o bom amestrador, passou-
lhe a mão na cabeça e disse que nem tudo estava perdido.
— Nguyen, você é fantástico. Prossiga.
— A verdade dessa expedição chama-se ouro. Nada de
mapas, nada de pesquisa. C Sr. Albert quer apoderar-se do
tesouro de qualquer maneira. Está vigiando os rapazes, mas
há um detalhe importante nesta história.
— Diga logo, Nguyen, não faça suspense...
— Será considerado dono do tesouro aquele que
participar o fato em primeiro lugar às autoridades da ilha de
Barbados, e não quem o achar.
— Então é isso...
— Mesmo que os rapazes atinjam o galeão primeiro,
será impossível chegar à ilha antes do “Morte Branca”. De
qualquer forma o ouro já pertence ao Sr. Albert.
— Nguyen, eu acho que vai haver uma mudança nas
regras do jogo.
Os olhos do vietnamita rebrilharam, mas ele não perdeu
a calma.
— O jogo é um só, as regras são feitas pelos homens.
— Mas quem vai ditar as regras sou eu... Amanhã falo
com você. Uma outra coisa, o barco dos rapazes está muito
longe?
— Não, senhorita, está deste lado mesmo dos abrolhos.
Pode-se ver até a lanterna que usam.
— Vou fazer uma visita de boas-vindas. Afinal, Lucas
fez as honras da ilha quando desci à terra. Agora é a minha
vez.
— A educação é fundamental.
— Exatamente, Nguyen. Agora, com licença.
Eva foi ao banheiro e vestiu a calcinha de seu biquíni.
A noite estava muito quente, e um mergulho nas águas dos

— 56 —
abrolhos poderia ser um excelente calmante. Só havia um
perigo: tubarões.
Quando Eva saiu da cabine, Nguyen estava debruçado
no parapeito, contemplando a noite.
— Tenho medo de tubarões, Nguyen.
— Hoje à noite? Muito pouco provável. Quando a água
muda de temperatura eles se deslocam. Está tudo tão
calmo... não creio — terminou o vietnamita.
— Dé qualquer maneira levarei uma faca à cintura.
Embora não seja de grande auxílio...
— Por que não leva o arpão?
— Não gostaria que o Sr. Albert soubesse da minha...
cortesia.
— Mas seu equipamento está à sua disposição é melhor
levá-lo, senhorita. O mar é cheio de surpresa.
— Mas como o apanharei?
— Oh, espere um instante.
Alguns minutos depois, Nguyen retornou com um par
de nadadeiras, uma máscara, um respiradouro de plástico e
o arpão.
— Vai precisar também de uma lanterna.
Nguyen foi a sua própria cabine e trouxe uma grande
lanterna, especial para o mar.
— Pronto, agora nenhum esqualo ousará chegar perto.
A não ser que a grande Mãe d’Agua tenha inveja da
senhorita. Nesse caso, nada poderá salvá-la.
Eva sorriu envaidecida e preparou-se para mergulhar. O
humor de Nguyen era às vezes meio trágico, pensou Eva.
— Estarei aqui esperando a senhorita voltar.
Eva meteu-se na água e nadou de mansinho até estar
longe da embarcação. Depois, afundou o rosto na água, o
respiradouro para cima e, seguindo o facho da lanterna,
nadou vigorosamente em direção aos abrolhos.

— 57 —
***

— Ainda bem que o mar está tranquilo. Seria


impossível dormir aqui, sentado, com o barco balançando
muito.
— Por que não vamos até às rochas?
— Está louco? A maré nos arrastaria. E a parte que não
é atingida pelo mar é depósito de excremento dos pássaros.
Eles são os verdadeiros donos dos abrolhos de Martin
Hierro...
Lucas acendeu um cigarro e pousou a cabeça no motor
do bote. Tinha saudades de Eva, e daria tudo para estar com
ela naquele instante.
Marcelo lixava uma beirada da máscara. No dia
seguinte às sete horas da manhã, dariam início à exploração
do recife. Era a parte mais perigosa de toda a aventura.
Esperava febrilmente pela hora de descer ao fundo, mas
continha-se para obedecer aos planos que haviam traçado.
— Ei, você ouviu?
Marcelo olhou para o companheiro meio iluminado
pela lanterna.
— Deve ter sido as ondas...
— É gente ou peixe. Apanhe o rifle.
Ficaram tensos, duas Winchester 44 apontadas para o
mar, carregadas com balas dum-dum. Se atiravam quando
não havia chance de fazer outra coisa.
O barulho ritmado das braçadas de Eva foi ficando cada
vez mais perto, até que o facho de sua lanterna bateu no
barco.
— Alô!
— Quem está aí? - perguntou Lucas.
— Vim dar-lhe as boas-vindas aos recifes.

— 58 —
— Eva!
Os dois rapazes ajudaram a agente a subir ao barco.
Apanharam o arpão e as nadadeiras. Ela sentou-se, pediu
um gole de conhaque e jogou o cabelo molhado para as
costas.
— Uma visita de cortesia. A recepção não foi das mais
calorosas.
— Saber o que você veio aqui?
— Não. E nem podem. Você se importa de apagar a
luz? Qualquer pessoa que olhe do iate verá três vultos.
Marcelo apagou a lanterna e ficaram os três no escuro.
Lucas mudou de banco e sentou-se ao lado de Eva.
— Tenho más notícias para vocês. De acordo com as
leis do direito marítimo, será dono do tesouro quem
primeiro declará-lo defronte às autoridades da ilha, no caso
o alcaide.
— Essa não!
— Mas vou tentar arranjar isso para vocês. Quem sabe
um desarranjo no motor do iate... queima de válvulas do
rádio, essas coisas.
— Você está-se arriscando. A turma é meio violenta.
— Estou acostumada com este tipo de gente. Mas como
vocês conseguem dormir aqui?
— Sentados, ué. Há outra maneira?
— Fico com complexo de culpa por causa do meu
camarote. Se pudesse levá-los para lá...
— Deixe de tolice. Se formos apanhados lá dentro,
podemos ser presos e processados por invasão de domicílio.
E os macacos poderão até acertar uns tirinhos na gente.
— Foi um pensamento louco que me veio à cabeça. Não
conheço seu amigo, Lucas.
— Oh, esta é Eva, Marcelo.

— 59 —
— Lucas falou-me de você, mas eu não imaginava que
pudesse ter tão bonita.
— Como você pode dizer isso? A luz está apagada.
— Mas a noite está clara.
— O que é uma pena, pois o escuro é sempre melhor
para um certo tipo de coisa... — disse Eva colocando a mão
sobre a perna de Lucas.
— Bem, não seja por isso, eu posso ir lá fora dar uma
volta e... — Sugeriu Marcelo.
Mas os dois já não o escutavam. As bocas coladas,
línguas velozes em movimento, o corpo molhado de Eva
nas mãos de Lucas.
— Quando começo alguma coisa, não paro... — Ela
sussurrou.
A mão da agente arranhava o corpo forte de Lucas que,
mesmo sentado, contorcia-se. Ele passeou com os lábios
pelo pescoço macio da jovem, enquanto sua língua saía e
entrava com rapidez.
— Esperem aí, vocês vão virar o bote...
Eva soltou a parte de cima do biquíni e deixou-a cair
suavemente. Lucas tinha seus seios rijos nas mãos, e, entre
gemidos e suspiros, abria as próprias pernas para que Eva
o, acariciasse.
— O que vocês querem que eu faça? Que dê um
mergulho?
Mas, definitivamente, nenhum dos dois ouvia suas
palavras. Marcelo, para facilitar as coisas, virou-se de
costas e acendeu um cigarro.
“Esta vou contar aos meus filhos...” pensou ele.
Eva tirou o calção de Lucas e passeou com sua boca
sensual por todos os pelos do corpo dele- O rapaz, por sua
vez, tirou a calcinha do biquíni de Eva e os dois se
abraçaram nus, banhados pela luz das estrelas.

— 60 —
Eva sentou-se no colo dele, de frente, e enquanto
mordia os lábios do rapaz, ia movimentando vagarosamente
os quadris. Começaram a gemer cada vez mais, até que com
um grito de prazer ela atingiu o orgasmo. Logo depois
Lucas seguiu-a com um gemido abafado.
— Eu estava morta de vontade de vir aqui...
— Não acredito. . . desde a primeira vez que a olhei...
— Tenho que ir, Lucas. Não quero que descubram que
saí do barco.
— Quando você volta?
— Se não houver outro jeito, só poderei vê-lo em terra.
Boa sorte para vocês.
Eva levantou-se nua e deu um sonoro beijo na boca de
Lucas. Vestiu o biquíni, colocou as nadadeiras, grudou o
arpão ao corpo, baixou a máscara e caiu na água. Passaram-
lhe a lanterna e ela voltou para o iate.
— Mano, que mulher... Estou absolutamente
abestalhado.
— Como posso acreditar numa coisa dessas, Marcelo?
Juro que ainda acho que é sonho.
— Depois disso? Você está louco.
Nguyen ajudou Eva a subir, sempre com seu eterno
sorriso no rosto.
— Tudo bem?
— Até agora sim, senhorita. Ninguém veio até aqui.
Apagar a luz foi uma ótima idéia deles, não é?
Eva olhou para o vietnamita, que estava um pouco
encabulado.
— Quem não tem medo nem vergonha de seu corpo é
como o gamo e a gazela. São maravilhosos, correndo,
bebendo, pulando ou amando.
Eva olhou admirada para Nguyen. As palavras dele
eram claras e refletiam exatamente seu pensamento.

— 61 —
— Obrigada Nguyen — disse ela, e deu um beijo na
face do vietnamita.
— Outra coisa: não precisa temer Iemanjá. Quando a vi
sair da água, há poucos instantes, descobri que a senhorita
é a própria.

— 62 —
CAPÍTULO 6
Os mergulhos começaram no dia seguinte, pela manhã,
bem cedo. Pouco a pouco foi sendo desvendado o segredo
que cercava os abrolhos de Martin Hierro. As correntes que
circundavam as rochas não eram perigosas, mas havia um
dado novo: a água estava mais fria. Por isso, era provável
que tubarões estivessem rondando a área.
— Srta. Eva, por favor, queira aproximar-se de Julius
com sua lanterna. A câmara está focalizando algo estranho
no fundo do mar.
O coração da agente bateu mais depressa. Será que a
sorte estava do lado de Albert? Logo ao primeiro mergulho
descobrir o galeão?
— Assim está bem. Julius, use outra lente na câmara,
pois a imagem está pouco nítida.
O mergulhador rodou um pequeno botão e outra lente
encaixou-se.

— 63 —
— É apenas uma rocha. Prossiga, Julius. Atenção,
Rupert, é a sua vez.
A manhã prolongou-se em três mergulhos, sem que
houvesse nenhum resultado prático. Todas as vezes que Eva
subia à tona, procurava pelos rapazes. Mas o bote estava
longe, e ela não podia ver nada. Quando subiu pela terceira
vez, ela segredou a Nguyen.
— Precisamos agir rapidamente. O iate não partirá
daqui antes dos rapazes.
— Há uma possibilidade: danificar o leme. Levaremos
umas três horas no mínimo para consertá-lo. Isto já
aconteceu antes.
— Mas como forjar um acidente?
— Teremos que imaginar um método que não deixe
nenhuma falha. Deixe comigo, senhorita.
O rádio do bote deu um estalido e Nguyen apanhou o
microfone.
— Por agora chega, Nguyen. Julius e Rupert vão subir
e traga todos para bordo. A manhã foi estafante.
Os dois homens embarcaram e o bote rumou para o iate.
Subiram com expressão de cansaço e Albert deu-lhes
tapinhas nas costas.
— Muito bem, rapazes. A operação está transcorrendo
na maior normalidade. Espero que não tenhamos
problemas.
Albert e Eva almoçaram uma comida leve, e ficou
marcada para as quatro horas a continuação do trabalho.

***

Lucas e Marcelo estavam exaustos. A falta de uma


equipe obrigava-os a fazer todo o serviço, e suas forças
estavam sendo drenadas pouco a pouco.

— 64 —
— Nada. Mas é querer demais encontrar o galeão no
primeiro mergulho. Se fosse tão fácil, outros já o teriam
encontrado.
— Bem, se o encontrarmos não poderemos fazer alarde.
Nem mesmo sair daqui, pois este maluco pode nos prender
e nos obrigar a dizer a localização exata do tesouro.
— Será que a sua amiga vai nos ajudar?
— Ela já o fêz uma vez. Por que não duas?
O dia estava terrivelmente quente, a água bem mais fria,
e Lucas não gostava do quadro geral.
— Está cheirando a tempestade, Marcelo.
— Cale a boca. Não chame o azar para perto de nós.
Comeram alguns biscoitos e descansaram. A pele ardia
pelo sal e pelo sol. Tinham as costas um pouco esfoladas
pelas correias dos tanques.
Mas a tempestade não veio. Uma brisa refrescou um
pouco a temperatura, e o mar, antes parado e tranquilo,
agitou-se com algumas vagas.
— Ventos de sudeste. Hoje não chove. Amanhã, não
sei.
Marcelo piscou para Lucas e acionou o compressor.
Encher os tanques em cima da água, esvaziá-los embaixo,
uma operação que se repetiria muitas vezes.

***

— Tudo pronto?
Eva balançou a cabeça afirmativamente.
Julius e Rupert fizeram o sinal de “tudo bem” com os
polegares levantados.
— Pode levá-los, Nguyen. Boa sorte!

— 65 —
O bote roncou e partiu em outra direção, mais ao norte
dos abrolhos. Nguyen atirou a poita ao mar e ajudou os
mergulhadores nos últimos preparativos.
— Água um!
Rupert atirou-se ao mar, descendo quase que
imediatamente.
— Água dois!
Seguiu-o Julius, levando desta vez um contador Geiger.
— Água três!
Foi a vez de Eva, as mãos firmemente agarradas ao
arpão, os olhos atentos para o mundo do silêncio.
O primeiro mergulho foi de reconhecimento da área a
ser pesquisada. Havia uma série de formações rochosas
escarpadas no fundo, com gargantas que davam passagens
a um só mergulhador. Embaixo desta plataforma, havia um
enorme espaço, que tinha que ser investigado. Não havia
outro jeito de entrar. Descer mais era perigoso; o “mal das
profundezas” podia ser mortal.
— Vocês terão que se enfiar nesta gruta. Sigam com
cuidado para não cortar o respirador em conchas. Na frente
irá Eva, para evitar encontros desagradáveis.
“Agora sou batedora... isto não estava combinado.”
Eva meteu-se por uma fenda, vigiada pela câmara de
Rupert, que seguia logo atrás. A fenda era escura, e vários
peixes fugiram à aproximação dos humanos.
O espaço ia-se estreitando cada vez mais, e Eva quase
desistiu, mas continuou ao ver uma pequena claridade.
Bateu os pés com um pouco mais de força, e desembocou
numa espécie de clareira no meio das rochas. A areia era
branca e fina, e parecia não haver peixes.
“Que lugar estranho... — pensou Eva.
— Senhorita, um lugar fantástico esse, não? Preciso
dotar meu iate com aparelhagem para transmissões a cores.

— 66 —
Ah, um detalhe! Estou gravando os mergulhos em vídeo
tape. A senhorita poderá ver-se em ação depois.
Eva deu uma meia-volta e esperou que Rupert entrasse.
Depois veio Julius, os dois terrivelmente parecidos dentro
da água. Eva pediu que se juntassem para uma pose, e
fotografou-os acenando para a câmara. Depois, procurou
alguma coisa de útil no fundo da grota.
O que encontrou fez seu coração disparar: um pedaço
de porcelana parcialmente enterrado na areia. O problema é
que Julius também o vira, e imediatamente colocou a
câmara em foco.
— O que poderia ser isso? Investiguem, por favor.
Eva, cuidadosamente, sacou da faca e fez um círculo na
areia em torno daquele pequeno pedaço branco. Mas
quando puxou- o, tomou um pequeno susto. - Era um crânio
humano.
— Maravilhoso, senhorita! Um achado digno de ser
guardado para a posteridade. . . De quem será esta cabeça?
Mas Eva não estava preocupada com isso. Despojos
humanos dentro de uma gruta significavam uma só coisa:
aquilo era uma toca de uma fera qualquer. Devia haver uma
outra entrada bem mais funda, só acessível aos que tinham
guelras.
Eva apanhou a prancheta e rabiscou algumas palavras.
Depois colocou-a na frente da câmara de Julius e esperou a
resposta.
— O que temos escrito aí, senhorita? Vejamos... Isto
pode ser uma toca de fera... É provável, mas continuaremos
só mais um pouco. Olho vivo, senhorita, e dedo ágil. Só tem
um tiro. E Nguyen não pode ajudá-la.
Eva olhou nervosamente em volta. O local, apesar de
ser todo fechado, tinha claridade suficiente para o olho

— 67 —
humano. E a luz só poderia filtrar-se por um buraco na
rocha.
— Julius, passe o ancinho pela areia.
O mergulhador soltou um pequeno cabo do cinto que,
ligado o contador, passou a percorrer a areia.
Eva fotografou a operação e pediu a Rupert que tirasse
uma foto sua. Mas, com aquela roupa de neoprene, a
máscara e tantos outros apetrechos, ninguém saberia que
era ela mergulhando...
Depois que apanhou a máquina de volta, Eva decidiu
procurar a outra saída. Encaminhou-se para o teto da grota,
quando viu algum movimento. Parou de nadar e flutuou, à
espera de uma definição. Julius percebeu que algo não ia
bem, e fez sinal para a câmera de Rupert.
Uma ilusão de ótica? Talvez. Mas ela vira uma asa
mexer-se no canto à esquerda. Bem, prossigamos e...
Agora não foi ilusão de ótica. Eva grudou-se à rocha e
assistiu horrorizada à chegada do dono da caverna.
Uma enorme jamanta malhada, o esporão bem visível,
que podia cortar um homem ao meio com uma só rabanada.
— Srta. Eva! Volte para a visão das câmeras, eu lhe
disse que comandaria a expedição e... Julius! Rupert! Uma
jamanta monstruosa! Mantenham-se calmos... Não se
mexam!
Os dois mergulhadores olharam para cima e viram a
chegada da fera. Não podiam fazer nada, a não ser apontar
as câmeras da televisão e esperar que Eva agisse.
— Srta. Eva, mantenha-se calma. Tente nadar por baixo
desta fera, mas sem movimentos bruscos. Quando estiver
bem no meio do abdome, dispare. A jamanta será jogada
para o alto com o impacto da explosão, mas depois cairá,
retorcendo-se. Esta é a parte mais perigosa, ouviu? Saia
para uma das grotas. Julius e Rupert correrão para outras.

— 68 —
Agora uma deliciosa tontura apoderou-se da agente. Por
que se preocupar? Matar uma jamanta não era mais
problemático que eliminar uma pessoa.
— Eva?
A agente olhou para o lado e assustou-se. Maggie estava
ali.
— Não se preocupe, querida. Está tudo bem.
“Você está sem aqualung, Maggie... Não há mesmo
perigo?”
Mas a imagem da diretora da L.E.S.B. se desvaneceu, e
Eva descobriu que estava tendo visões.
— Como é, Srta. Eva? Não vai agir?
A agente mergulhou rasante, quase colada à areia, e
meteu-se por baixo da jamanta. Nadou com ela alguns
metros, e Julius e Rupert estavam já em segurança,
enfocados num canto da grota.
— Agora!
Eva virou-se e disparou o arpão. A flecha metálica
subiu velozmente e cravou-se no centro da jamanta. Eva
nadou para trás de um aglomerado de pequenas rochas e
colou-se à areia. O animal retorceu-se em dores, e um súbito
tremor abalou a tranquilidade milenar da grota. A granada
explodira.
A fera desceu lentamente, o corpo retalhado, sua cauda
vibrando para todos os lados. Contorceu-se durante alguns
instantes, até que parou de se mexer.
— Muito bem, senhorita! Um golpe magnífico!
Mas Eva não ouvia as palavras de Albert. Sua visão se
turvou um pouco, mas logo depois clareou novamente. Da
ferida no corpo da jamanta saíam milhares de pequenas
jamantas! Tomada de pânico, sob o olhar assustado dos dois
mergulhadores, a agente começou a se debater.
— Rupert! Julius! Segurem-na! Ela está atacada!

— 69 —
Os dois se precipitaram para Eva, mas esta, ao ver os
dois tritões se aproximarem, as roupas de neoprene
transformadas em escamas repugnantemente verdes, sacou
da faca na cintura.
— Srta. Eva! Preste atenção no que digo! Deixe os
homens se aproximarem!
Eva tentou falar alguma coisa, mas o bocal soltou-se e
ela engoliu um pouco d’água. Aproveitando-se do momento
de indecisão da agente, Rupert aproximou-se e dobrou seu
braço às costas. Apertou bem a cabeça de Eva, até que esta
saísse do transe.
— Vamos subir devagar! Rupert na frente e Julius atrás.
Agora!
A subida pela pequena fenda foi terrível. Eva, com a
coordenação motora em disfunção, tentou várias vezes
libertar-se dos braços fortes dos seus acompanhantes. A
impressão que tinha é que a terra havia aberto os dentes para
engoli-la.
Atingiram então a parte superior da grota; estavam em
alto mar, mas a subida tinha que ser lenta por causa da
descompressão.
E foi no caminho de volta que Eva teve uma das
experiências mais incríveis de sua vida.
Suas forças tinham-se exaurido completamente, e ela se
deixava levar pelos braços dos dois mergulhadores.
Olhando para baixo, viu uma forma feminina subindo até
ela. Era incrivelmente branca, o rosto resplandecente, tão
brilhante que ela teve que proteger os olhos com as mãos
sobre a máscara.
— Não se arrisque tanto, Eva. Eu sei que você gosta de
mim.
A agente espiou por uma fresta dos dedos, assombrada
e temerosa.

— 70 —
— Venha, não lhe vou fazer mal.
Eva sentiu que o apelo era violentíssimo. Tentou livrar-
se do abraço de Rupert, mas não conseguiu.
— Não quer? Eu sei, os humanos não vivem embaixo
da água. Olhe para isto.
E a mulher tirou o véu diáfano que cobria seu corpo,
revelando uma pele branca como a areia do fundo do mar.
— Sou eu, Eva, a Mãe d'Água. Você pode escolher
entre eles lá em cima, o barulho, a miséria, o sofrimento, a
dor, o desespero, a angústia, a fome, o enclausuramento, ou,
por outro lado, a calma das profundezas, as conchas
nacaradas, os cavalos-do-mar, o silêncio e a tranquilidade
eterna. Veja a caveira que você encontrou.
E, imediatamente, materializou-se ao lado de Iemanjá
um soldado espanhol, com suas roupas brilhantes, o rosto
moreno circundado por uma barba espessa.
— Eu te amo, Eva, vem comigo.
Mas o abraço dos dois era forte demais. E Eva estava
confusa, pois podia escutar perfeitamente as palavras da
mulher. Tentou chamar a atenção de Rupert ou Julius, mas
os dois continuavam nadando calmamente para cima.
— Você não quer? Não faz mal. De agora em diante
você será minha filha. Mal algum do mar poderá destruir
seu corpo. Tenho as legiões dos oceanos sob meus pés.
E a Mãe d’Água aproximou-se do rosto da agente e
beijou-a, um ósculo frio e terno, como a trajetória do peixe-
piloto sob o tubarão, ou uma medusa flutuando.
Pouco depois, chegavam à tona d’água. Nguyen,
apressadamente subiu a agente ao bote e deitou-a. Mas Eva
debruçou-se na borda do barco e olhou para o mar. Lá
estava ela, sorrindo, nos braços do soldado espanhol,
beijando-o e apertando-o contra seus seios de marfim.
— Calma, senhorita, o pior já passou.

— 71 —
— Você não vê, Nguyen? Não vê? Olhe bem! É ela, a
deusa do mar.
O vietnamita escorou o corpo cansado de Eva, que se
deitou exausta no fundo do bote.
— Ela me beijou, Nguyen... ela me beijou...
— Onde, senhorita?
— Aqui, aqui!
E apontava a face esquerda. Nguyen aproximou-se e
ficou estarrecido. Havia uma mancha arroxeada em forma
de lábios no rosto da agente. De dois pequenos furos
minavam um pouquinho de sangue, como se uma ventosa
tivesse sido aplicada ao rosto dela.
— Estou vendo, senhorita. Não teria esbarrado em uma
pedra?
— Não esbarrou em lugar nenhum Nguyen — disse
Julius subindo ao barco. Trouxemo-la intata.
Mas ele não havia ouvido a conversa anterior. E
Nguyen calou-se, pois os segredos do mar pertencem a
quem o ama.
— Para o iate, Nguyen! Talvez a senhorita precise de
médicos! — gritou o rádio.
Nguyen apanhou o microfone e respondeu calmamente:
— Não, Sr. Albert. Ela está bem, fisicamente. O mal
das profundezas só é irremediável quando se está sozinho.
Desligo e vou para aí.

— 72 —
CAPÍTULO 7
— Achei, Lucas, achei!
— Fale baixo, italiano. Você quer que a tripulação do
iate saiba disso? Achou o quê?
— O casco do galeão. Está completamente liso por
cima, coberto de lama, e por isso se confunde com a terra.
Está bem mais próximo que eu imaginava.
— Então desceremos juntos. Temos que entrar e ver se
há ouro.
— Vamos logo, encha os tanques!
— Calma, rapaz, calma...
Eva delirou a tarde toda, gritando coisas
incompreensíveis. Mas após tomar uma injeção, a febre
cedeu e ela dormiu tranquilamente até tarde da noite.
Nguyen acordou-a com uma refeição leve na bandeja,
mas Eva só quis beber um suco de laranja.

— 73 —
— Não houve nada demais, e um pouco de sol, a
descida foi muito funda e pronto. Estes são os elementos da
intoxicação do fundo do mar.
— E a marca, Nguyen?
— Ainda está aí.
Eva passou a mão nervosamente pela face e sentiu a
ferida.
— Você acredita em mim, Nguyen?
— É claro, senhorita.
— Iemanjá falou comigo. E ao seu lado estava um
soldado espanhol, vestido.
— Tenho visto coisas fantásticas no mar. Não há porque
duvidar das palavras da senhorita.
— O mais incrível foi o beijo. Parecia que um monte de
algas se agarrara a meu rosto. Foi fantástico.
— Sim, sim, mas a senhorita agora precisa dormir...
Nesse instante Albert entrou na cabine. Abriu um
sorriso franco para Eva e sentou-se à sua cabeceira.
— Está melhor, senhorita? A tripulação está muito
preocupada.
— Agradeça a Julius e Rupert por mim. Eles salvaram
minha vida.
— A senhorita não mergulhará mais. Precisa
restabelecer-se primeiro.
— Foi o que pensei..., mas posso ficar com Nguyen no
bote. Sei atirar bem.
— Como quiser. Se estiver em condições, poderemos
reiniciar amanhã pela manhã. Bem, imagino que queira
descansar, não? Boa noite. Vamos, Nguyen.
Os dois homens saíram da cabina e Eva fechou os olhos.
Parara de transpirar, e a cabeça não pesava mais. Pouco a
pouco mergulhou numa modorna gostosa que levou-a ao
sono.

— 74 —
— Você e a Srta. Eva ficaram muito amigos, não é
mesmo, Nguyen?
— Sim, Sr. Albert, tenho muito orgulho dessa amizade.
A Srta. Eva é uma mulher maravilhosa.
— Agora escute-me bem: nada de paixões, ouviu?
— Não estou entendendo, Sr. Albert.
— Então vou ser mais claro. Não se aproximar dela.
Não propor nada. Não a tocar.
— Sinto-me ofendido, Sr. Albert.
— O problema é seu. Eu o tirei daquele inferno do
Vietname porque precisava de um criado. Não admito que
tenha segundas intenções com minhas convidadas.
— O senhor não pode...
— Nenhum amarelo porá a mão numa branca! Não
enquanto eu for dono deste barco. Entendeu bem?
— Posso me retirar?
— Pode. Mas tome cuidado com seus atos. Estarei
vigiando-o passo a passo.

***

Marcelo e Lucas mergulharam juntos no dia seguinte.


Foram direto ao casco do galeão, procurar uma forma de
entrar sem correr grandes riscos.
O grande problema de um navio afundado é que ele
sempre se move. E se há atuação de elementos estranhos,
pode haver alteração do equilíbrio que mantém o navio, e
os movimentos podem arrastar quem estiver querendo
entrar.
Os dois rapazes rodearam o casco velho e cheio de
carunchos, até que descobriram uma pequena janela na
popa. Retiraram algumas madeiras para dar passagem, e,

— 75 —
cuidadosamente, com as lanternas acesas, entraram no
porão do navio.
Centenas de siris habitavam a embarcação. Peixes
pequenos nadavam entre ripas de madeiras apodrecidas, e o
espetáculo era tétrico.
As lanternas iluminaram alguns esqueletos no chão.
Esses homens tiveram mortes horrendas, presos dentro do
navio, provavelmente eram condenados às galés.
Lucas, com a ponta da faca, abriu a fechadura de um
pequeno baú de madeira, encontrou somente um pano velho
e roto, memória de um tempo póstumo. Marcelo apontou
para um lance de escadas, e nadaram para um
compartimento mais baixo.
Repentinamente, um braço comprido agarrou a cintura
de Marcelo. Ele pôde sentir ventosas agarrando-se às suas
costas, e quase que imediatamente o peito foi comprimido
por uma enorme força.
Lucas percebeu o polvo, que apesar de não ser dos
maiores, poderia assustar um homem a ponto de fazê-lo
cometer uma besteira qualquer, danificando
irreparavelmente seu condutor de oxigênio.
Aproximou-se do octópode, e deixou que seus braços
compridos enrolassem suas pernas. Com a faca na mão,
cortou um dos tentáculos, e depois outro, e mais outro, até
que o polvo se viu reduzido a somente cinco braços.
Lucas então, sem perder a calma, enfiou a faca no ponto
nevrálgico do bicho, um pouco abaixo da boca. O polvo
soltou uma tintura espessa e quis fugir, mas a faca estava
firmemente cravada.
Marcelo sentiu o abraço ceder, e com a própria faca,
cortou mais dois tentáculos. O polvo tombou de lado e
agonizou.

— 76 —
Prosseguiram então na pesquisa. O compartimento
devia ser o empório do navio, cheio de barricas
semidestruídas. Abriram algumas, mas só havia um pó
estranho e branco.
Para passar ao compartimento seguinte, Marcelo teve
que puxar uma ripa, que escorava um caixote, que rolou,
balançando perigosamente o navio.
Lucas parou o amigo e, depois de algum esforço, retirou
a tampa do caixote. Havia seis lingotes de ouro, um pouco
enegrecidos pela passagem do tempo. Os dois rapazes se
entreolharam e se abraçaram. Apanharam as barras e
colocaram-nas num saco especial que trouxeram.
Passaram a manhã toda revistando o galeão; não havia
mais nada. O grande tesouro de Cario Saragoza eram seis
lingotes de ouro.
Depois que terminaram a inspeção, sentaram-se no bote
para conversar.
— E agora?
— Bem, este aí pode-nos dar alguns trocados, mas não
é o que imaginávamos.
— Você tem alguma idéia?
— Vamos requerer permissão para salvar o navio. Há
muita coisa para estudar e confrontar. Qualquer
universidade americana pagaria uma fortuna por ele.
— Mas como vamos salvá-lo? A universidade jamais se
interessaria em gastar dinheiro para recuperá-lo.
— Não sei. Preciso falar com Eva.

***

Os mergulhadores de Albert descobriram o galeão. Eva


suspirou tristemente, pois sabia que Albert ganhara a
corrida. Tudo agora era uma questão de tempo. Procurou

— 77 —
com um binóculo o bote dos rapazes, e viu-os desanimados,
quietos, recolhendo o material.
— Nguyen, os rapazes estão fingindo. Tenho a
impressão que eles já estiveram no navio.
— Será?
— É bem provável.
— Bem, o Sr. Albert estava melhor equipado... Chegará
primeiro a Barbados.
— A competição acabou. Vamos esperar agora pelo
cinismo do Sr. Albert. “Que sorte”, dirá ele. “Achamos um
velho galeão espanhol... não é mesmo emocionante, Srta.
Eva?”
A voz de Albert no rádio foi emocionada, e Eva preferia
não ter ouvido.
— Srta. Eva! Julius me mostra pela câmara um galeão
espanhol afundado... Não é incrível?
— Tem toda razão, Sr. Albert!
Julius e Rupert voltaram à tona sorridentes. Subiram ao
bote com adornos de madeira nas mãos, eram provas
concretas da existência do barco. Agora era retornar à ilha
e pedir a posse ao alcaide.
— Para o barco, Nguyen. Precisamos voltar
rapidamente a Barbados.
O vietnamita acelerou o bote e dirigiu-se para o iate. A
partida estava ganha.
Lucas e Marcelo esconderam os lingotes no fundo do
bote e preparavam-se para zarpar. Tinham que fazê-lo.
— Mano, vamos torcer para esta geringonça não pifar.
— Estou com os dedos cruzados.
O bote encostou no iate e Julius e Rupert, já sem os
tanques, pularam para a água. Estavam contentes e
apostaram uma corrida em torno do barco, nadando.

— 78 —
Eva preparava-se para subir ao convés, quando Nguyen
gritou assustado:
— Julius! Rupert! Tubarões!
As enormes massas cinzentas aproximavam-se do
casco do navio. Dezenas deles, numa roda louca e assassina.
As feras do mar vinham em busca de comida, sempre farta
em torno dos abrolhos de Martin Hierro.
Rupert percebeu o perigo e nadou para junto do iate.
Julius não ouviu os gritos de Nguyen e, quando viu estava
cercado pelos esqualos.
Nguyen ligou o motor e acelerou, Eva na proa do bote,
o rifle pronto para disparar. Quando Julius percebeu, era
tarde, não havia mais nada a fazer.
A enorme boca do animal cortou seus braços, e o
sangue atraiu os outros. Foi um festim horrível, onde não se
ouviu gritos, nem imprecações. Em menos de um minuto, o
corpo de Julius se transformou num monte de pedaços
sangrentos, devorados pouco a pouco pelos tubarões
menores.
Eva acertou um à esquerda, depois outro à direita. O
rifle pulava certeiro em sua mão, e o objetivo era dar tempo
de recolher Rupert.
Nguyen parou o barco no meio do bando e começou a
atirar também. Em breve a água estava tinta de sangue, e os
tubarões, atraídos pelos mortos do próprio grupo,
esqueceram Rupert. Nguyen chegou-se e içou o
mergulhador, que chorava convulsivamente.
Tomada de ódio, Eva começou a disparar
indiscriminadamente num verdadeiro massacre. Os
tubarões, ao invés de se dispersarem, juntavam-se cada vez
mais, ávidos de comida.

— 79 —
Nguyen então teve uma idéia. A pretexto de perseguir
os esqualos, deu uma volta em torno do navio e alvejou o
leme com dois disparos. Foi o suficiente.
— Acabou. Vamos embora.
Mas o perigo estava começando ali. Quando o bote se
encostou no iate foi violentamente sacudido, quase atirando
Eva e Nguyen à água.
— Você viu isso?
— Terrível...!
— Não foi um tubarão comum... é o grande branco! O
maior devorador dos mares.
O sangue de Eva ferveu. Mataria aquele monstro
terrível, nem que fosse a última coisa que fizesse em vida.
— Atrás dele, Nguyen!
— Ele pode virar o barco, senhorita!
— Não seja medroso!
Nguyen seguiu a enorme mancha branca fazendo
ziguezagues, para não deixar que o bote fosse um alvo fácil-
Nesse ponto o rádio começou a gritar.
— Para o barco! É uma ordem! Srta. Eva! Nguyen!
Mas Eva silenciou o rádio com dois tiros e esperou o
momento oportuno para atacar.
O tubarão media sete metros de comprimento, e podia
cortar um cavalo ao meio com sua boca destruidora. Era
uma fera que não dormia, nadava sempre, um bicho
histérico e sanguinário.
Eva apontou o rifle para a cabeça da fera^ na hora em
que ela se atirou contra o barco. A bala estourou seus
miolos, mas seu corpo imenso chocou-se contra o barco,
atirando Eva ao mar.
— Senhorita!

— 80 —
Nguyen largou o leme e apanhou o rifle. Descarregou-
o inteirinho contra o grande branco que, após alguns
espasmos, morreu.
Nguyen trouxe Eva para o barco bem a tempo, pois os
outros tubarões começavam a chegar para retalhar o corpo
do morto.
— Vamos para o barco, Nguyen.
Eva apanhou a máquina e fez algumas fotos do tubarão
sendo engolido pelos companheiros de bando. As bocas
vorazes arrancavam pedaços imensos de carne, os olhinhos
maldosos, muito abertos, os corpos esguios e violentos
mostrando o dorso cinzento como botos inofensivos.
O barco ancorou ao lado do iate, e Eva e Nguyen
ajudaram Rupert, trêmulo e choroso pela morte do
companheiro, a subir as escadas de corda.
— Julius? — perguntou nervosamente Albert.
— Ficou para trás. Não pudemos salvá-lo.
O rosto de Albert escureceu-se um pouco. Abraçou
longamente Rupert e disse para Eva:
— Os dois foram criados juntos. Eram como irmãos.
Eva abaixou a cabeça e ficou pensativa. Caíra na água,
mas os tubarões não a apanharam. A promessa de Iemanjá
fora cumprida.
— Descobrimos um galeão espanhol. É provável que
haja um tesouro. Mas o preço foi muito alto. Julius era um
excelente rapaz.
— Desculpe o acesso de ódio. Mas se eu não matasse
uma meia dúzia, ficaria frustrada para o resto da vida.
— Não devia ter feito isso desnecessariamente. Os
tubarões não são assassinos como a senhorita pensa. São
apenas enormes animais famintos, aprenda isto. Bem, mas
agora vamos logo anunciar a descoberta, antes que alguém
o faça.

— 81 —
“Alguém” eram os rapazes. Um barulho de motor
ouviu-se e todos olharam para o mar. O bote dos rapazes
partia em alta velocidade para a ilha de Barbados.
— Rápido! Motores a toda!
Pouco depois descobriam a avaria no leme. Não podiam
partir sem consertá-lo.
— Como?! Não é possível! Como foi isso?
— Tentando salvar Julius. Acho que uma bala atingiu o
leme — disse Eva.
— Sua estúpida!
— Não fale assim com ela!
A insolência de Rupert causou sensação. Pela primeira
vez ele retrucava ao patrão.
— Ela tentou salvar Julius e não o consegui! Se não
tivesse sido rápida no gatilho, eu também teria morrido!
Não foi de propósito! Ela e Nguyen abriram fogo o tempo
todo. Como pode saber quem o fez?
Albert olhou para Eva, mas esta estava de cabeça baixa.
Olhou para Nguyen, e o vietnamita estava imperturbável.
— Oh, está bem, está bem! Estamos todos nervosos.
Vamos consertá-lo e voltar!
O bote de Lucas e Marcelo praticamente voava sobre o
mar. O tempo foi-se fechando aos poucos e, logo depois,
formou-se uma tempestade.
— Marcha de força, menino!
As vagas aumentaram de tamanho e molhavam o
interior do bote. Por quatro vezes estiveram quase
afundando, mas milagrosamente se salvaram.
No “Morte Branca” o reparo levou quatro horas.
Quando partiram, as chances de chegar primeiro eram bem
remotas. Mas a tempestade prejudicava mais o bote que o
iate.

— 82 —
— Vamos, desgraçado, vamos! — gritava Marcelo ao
pressentir que o motor estava quase morrendo.
A chuva caía violentamente, e a visibilidade era
nenhuma. Tinham que se guiar pela bússola, pendurada no
pescoço de Marcelo.
Três horas depois viram as luzes da baía de Aruba.
Haviam conseguido. Correram para o alcaide, enquanto
aportava o iate de Albert. Ganharam a corrida por questão
de minutos.

— 83 —
CAPÍTULO 8
O alcaide assinou uma declaração de posse e
rendimentos e entregou-a a Lucas, que abriu um largo
sorriso.
— Obrigado, senhor. A descoberta será de grande ajuda
para a Universidade do Mar de Miami.
Albert e Rupert estavam na porta, olhando
desconsoladamente para a cena. Eva, mais atrás, ao lado de
Nguyen, quase não conseguia reprimir o sorriso de alegria.
— Bem, termina aqui mais esta gloriosa página da
minha vida — lamentou-se Albert.
Enquanto Marcelo e Lucas saíam do recinto, Albert e
Rupert adiantavam-se.
— Eu vim comunicar a morte de um dos meus homens.
— Sob que circunstâncias?
Enquanto Rupert relatava o ocorrido, Eva
impacientava-se, louca para falar com Lucas. Mas teve que
esperar o depoimento de todos, inclusive o de Nguyen.

— 84 —
Quando acabou o relatório, o alcaide dispensou-os e
Albert voltou para o iate, seguido de Rupert e Nguyen. Eva,
a pretexto de comprar mais alguma coisa, disse que seguiria
depois.
Entrou no velho bar do cais e acercou-se de um velho
pescador.
— Por favor, onde posso encontrar Lucas Leinster?
— Oh, a senhorita é a tal.
— A tal o quê?
— Não se zangue, por favor. Há muito que eu não via
moça tão bonita. O amigo dele, Marcelo, está na casa de
madame Lia, fazendo um repouso... Lucas está no seu
ancoradouro, do outro lado da Ilha.
— E como posso ir até lá?
— Bem, se a chuva amainar, posso apanhar o jipe... é
que ele não tem capota.
A casa de madame Lia estava em festa. As meninas
prepararam um jantar para Marcelo, que já estava bêbado,
madame sentada em seu colo.
— Vamos ao brinde pela vida!
E todos os copos se levantaram ao mesmo tempo,
brindando a alegria de estarem ali, todos reunidos.
— Agora um brinde para madame Lia, a mulher mais
bela da face da terra!
E os dois se beijaram e se abraçaram, unidos naquele
instante que não valia vinte mil lingotes de ouro.
De repente, houve um silêncio. Rupert entrou na casa.
Vinha com o rosto triste, uma raiva agarrada ao peito. E
ficou com mais raiva ainda quando soube que a casa estava
fechada.
— Eu abro esta espelunca a tiro!
Ninguém respondeu. Marcelo levantou- se, meio
cambaleante, e postou-se na frente do mastodonte.

— 85 —
— Você já apontou uma arma para mim um dia, seu
cachorro... E não vai fazê-lo de novo. Pois se não a jogar
fora, eu tomo a arma e atiro eu.
— Calma rapazes, calma, tudo se resolve sem briga —
tentou conciliar madame Lia.
— Você é o tal que roubou o patrão, não é?
— Não roubei ninguém, seu porco!
— Pois vou-lhe ensinar uma coisa...
— Rupert!
O grandalhão olhou para trás e viu a figura do chefe.
Ficou um pouco perturbado, e não sabia mais o que fazer.
— Vamos para casa, Rupert. Você está perturbado.
— Mas Sr. Albert...
— Rupert... não me obrigue a tomar providências mais
sérias. Eu estou cansado. Ajude-me a voltar para o barco.
Quando Nguyen me disse que você tinha vindo para cá...
— Aquele japonês safado!
— Chame Nguyen de japonês e ele lhe cortará a
garganta. Vamos logo.
Rupert olhou para Marcelo e cuspiu no chão. O italiano
não se importou e voltou aos braços de madame Lia.
— Se aquele brutamontes tocasse em você...
— O que você faria? — Marcelo perguntou divertido.
Madame fingiu puxar uma navalha de dentro do sutiã e
fez um gesto rápido.
— Eu cortava as coisas dele e pendurava em cima da
minha porta.

***

Rupert chegou ao cais e preparou o bote para levar o Sr.


Albert. Quando estavam quase saindo, escutaram a voz
macia de Nguyen.

— 86 —
— Sr. Albert?
— O que faz você em terra, Nguyen? Não disse que
partíamos ainda hoje!
— Estou me despedindo, Sr. Albert.
— Você ficou maluco? E o barco?
— Não gosto de racistas, Sr. Albert. E ouvi coisas más
o tempo todo. O senhor foi muito bondoso trazendo-me
para o barco, mas agora chega. Não vou mais ouvir seus
disparates. Adeus!
— Detenha-o, Rupert!
O vietnamita deu um rodopio e esquivou-se do
grandalhão. Rupert, cego de raiva, sacou um canivete.
— Não Rupert, use as mãos!
Mas Rupert queria matar alguém. Atacou o vietnamita,
que, inesperadamente, não correu. Um curto grito e um
pontapé estrategicamente dado derrubaram o louro.
— Cuidado, Sr. Rupert, esta faca corta.
— Cale essa boca!
Rupert levantou-se para cair quatro segundos depois
com um magnífico hanegoshi, um golpe de judô dos mais
violentos. Levantou-se, já sem a faca, que milagrosamente
estava na mão de Nguyen, que a atirou à água.
— Vá buscá-la, Sr. Rupert.
E Nguyen pulou mais alto que Rupert, a ponta de seu
pé esquerdo no rosto do grandalhão, que caiu dentro da
água.
Nguyen apanhou a mala e dirigiu-se para o bar. Lá
alguém saberia informá-lo onde apanhar um barco para
longe da ilha.

***

— A chuva acabou. O senhor não quer ir agora?

— 87 —
— Vamos garota, vamos. Vejo que você está
impaciente para ver o rapaz.
Na porta do bar Eva encontrou o vietnamita, de mala na
mão.
— Nguyen, onde você vai?
— Embora, Srta. Eva.
— Abandonou o barco? Por quê?
— Porque o Sr. Albert é um homem de mentalidade
doentia e preconceituoso. Disse que nenhum amarelo iria
colocar as mãos em cima de uma branca.
— Que absurdo... E para onde você vai?
— Não sei, senhorita. Vim ao bar para me informar.
— Olhe Nguyen, venha comigo. Amanhã um
helicóptero me apanhará para levar-me a Porto Rico. Você
poderá morar comigo em Nova Iorque.
— Se não incomodar...
— Claro que não. É um prazer imenso. Venha!
Subiram os três no Jipe e seguiram a estrada barrenta,
molhada pela chuva, que levava até ao velho ancoradouro.
Lucas estava tomando banho quando ouviu o barulho do
carro chagando.
— Quem está aí?
— Sou eu; mestre Jesus!
— Entre amigo, entre logo!
— Trago visitas... saia debaixo desse chuveiro!
Lucas desligou a água e enrolou-se numa toalha. Quem
poderia ser?
— Eva!
Os dois se beijaram longamente, sob os olhares
complacentes do velho e do vietnamita.
— Lucas, este é Nguyen, trabalhará comigo agora.
— Um criado?
— Não, um amigo. Vou levá-lo para Nova Iorque.

— 88 —
— Muito prazer, Sr. Lucas, espero que o senhor esteja
bem.
— Bem? Estou ótimo! Venha mestre, vamos abrir uma
garrafa para comemorar o sucesso da expedição!
— Então vocês ficaram ricos?
— Ricos? Nunca. Arrumamos foi serviço para mais três
anos. Temos permissão para desencalhar o galeão do Cario
Saragoza, recuperá-lo e vendê-lo.
— Ótimo, hombre, o tesouro era esse... possibilidade de
trabalho. E ouro?
— Alguns lingotes. O suficiente para comprarmos
material para continuar trabalhando.
— Isto é maravilhoso. Vamos beber à saúde da
expedição!
— Onde está Marcelo? — perguntou Eva.
— Na casa de madame Lia. Ele gosta muito dela. E
poderemos continuar morando na ilha.
Nguyen foi para a cozinha preparar algo, e mestre Jesus
voltou para a cidade.
— Eu estava morto de saudades — disse Lucas
acariciando Eva.
— Mentiroso...
— Sério, não via a hora de acabar essa desgraça logo...
Nguyen entrou na sala e olhou para o casal.
— Senhores, farei ovos com creme para reforçar as
energias dos jovens amantes.
Disse isso e retirou-se imponente para a r cozinha.
— Você vai voltar para a América, Eva?
— Tenho que trabalhar, Lucas.
— Fique aqui.
— Não posso. Tenho um bocado de gente me esperando
lá em cima.

— 89 —
— Bem, então não vamos nos entristecer... Temos
ainda uma noite pela frente.

***

O helicóptero pousou suavemente no aeroporto de San


Juan. Eva e Nguyen desembarcaram e correram para
abrigar-se do forte vento que as hélices levantavam.
— Senhorita, preciso falar-lhe.
— O que é, Nguyen?
— Pensei bastante sobre seu convite para ir morar na
América. Gostaria muito, pela senhora, mas tenho um dever
a cumprir.
— Eu sei, Nguyen. Nossos países estão em guerra.
— Eu sou do Norte, e agora mais que nunca precisam
de mim.
— Está certo, Nguyen. Mande notícias suas, sim?
Gostaria de visitá-lo um dia em Hanói.
— Adeus, senhorita. Obrigado por tudo.
— Obrigada a você. Nguyen.
O vietnamita fez uma reverência e retirou-se. Eva viu-
o afastar-se e emocionou-se; era um grande amigo. Passou
a mão pelo rosto e sentiu a ferida, Iemanjá havia marcado
seu rosto, era uma coisa que não podia esquecer.

***

— Maggie, minhas férias foram uma loucura.


— Sim?
— Fui para as Bahamas conhecer um vietnamita, que
me ajudou a conquistar as graças de um americano
derrotando um suíço.
— O quê?

— 90 —
— Um dia eu lhe conto.
— E essa marca no rosto? Andou brigando?
— Foi um beijo. De uma mulher maravilhosa.
— Feroz, hem?
— Até demais, Maggie, até demais.

FIM

— 91 —
UMA COLEÇÃO
PARA QUEM NÃO PODE
PERDER TEMPO
Nós sabemos que você precisa saber de tudo, mas não
tem tempo a perder. Por isso criamos a COLEÇÃO 25.000
PALAVRAS. Primeiro selecionamos os temas que mais
contribuiriam para que você pudesse se situar melhor diante
das exigências da vida moderna. Depois sintetizamos o
imprescindível/essencial desses temas. E demos ao nosso
material selecionado um tratamento literário que é a soma
de objetivo + + claro + simples.
Agora dê uma olhada nos títulos da COLEÇÃO 25.000
PALAVRAS e veja se não temos razão quando dizemos
que ela é uma coleção para quem quer saber tudo e não tem
tempo a perder.

HISTÓRIA DO BRASIL
AS RELIGIÕES
AS HERESIAS
O BRASIL HOJE/AMANHA
O CORPO HUMANO
A TELEPATIA
A ENERGIA NUCLEAR
A VIDA DE JESUS CRISTO
AS CRUZADAS O MAR
A ESCRAVIDÃO
A PENA DE MORTE

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LEVE EVA BROOKLIN
PARA DORMIR COM VOCÊ

É isso aí, amizade. Você leu e gostou. Fez de


CIRCULO VERMELHO o seu livro de cabeceira, não
dorme sem dar uma lida na Eva Brooklin e coisa e tal. Mas
você anda meio grilado. Nem sempre o jornaleiro tem Eva
Brooklin para você. É, tem gente por aí que é muito viva,
gente que acorda mais cedo e compra primeiro. E você está
sempre correndo o risco de ficar sem sua leitura preferida.
É um grilo, um tremendo grilo. Mas nada disso vai
acontecer mais. Nada de sair por aí desesperado atrás de
Eva Brooklin, amizade. A CEDIBRA está ligada em você
e, como não quer ninguém grilado, montou um serviço de
Reembolso Postal só para você ter Eva Brooklin em casa
todo mês. Preencha o cupom existente no verso desta
página, bicho, e não durma sem ter a Agente da LESB com
você.

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