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Hist ria do Brasil:

dos tempos do
Iluminismo à
Independência
Walfrido S. de Oliveira Jr.
Tiago Rattes de Andrade

IESDE BRASIL S/A


Curitiba
2017
© 2017 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer
processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

O47h Oliveira Jr., Walfrido S. de


História do Brasil : dos tempos do iluminismo à independência
/ Walfrido S. de Oliveira Jr., Tiago Rattes de Andrade. - 1. ed. -
Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2017.
180 p. : il. ; 21 cm.
ISBN 978-85-387-6310-9

1. Brasil - História. I. Andrade, Tiago Rattes de. II. Título.


17-40825 CDD: 981
CDU: 94(81)

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FAEL

Direção Acadêmica Francisco Carlos Sardo


Coordenação Editorial Raquel Andrade Lorenz
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Batel – Curitiba – PR
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Sumário

Carta ao Aluno  |  5

1. O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo  |  7

2. Administração colonial: tensão entre


portugueses e brasileiros  |  27

3. Revoltas coloniais: contextos e propostas  |  43

4. Napoleão e a expansão do Iluminismo  |  59

5. Uma corte nos trópicos  |  77

6. As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital  |  91

7. Elites e povo: laços e distanciamentos  |  107

8. O processo de Independência  |  123

Gabarito | 139

Referências | 149
Carta ao aluno

Quando escrevemos um livro de História, temos em mente


que existem vários caminhos a seguir e, ao traçar o nosso, temos a
esperança de que tenhamos escolhido o melhor. No campo de inú-
meras possibilidades para abordarmos as temáticas que compõem
este livro levamos muito em consideração a relação que ele deve
ter com você, leitor e aluno de História.
A todo o momento nos preocupamos em apresentar neste
livro um texto de caráter objetivo e didático, no intuito de tornar
a tarefa de compreender esse processo histórico tão complexo
em algo prazeroso. Apesar disso, não abrimos mão de mostrar a
você uma série de abordagens que podem fazer a diferença em
sua formação.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Não há evento histórico simples, sabemos. Mas cabe a nós, historiado-


res, oferecermos ao público em geral a chance de compreender da melhor
maneira possível esse evento. E esta será uma tarefa fundamental em suas
vidas profissionais/acadêmicas.
Quando falamos de qualquer coisa que se relacione ao Iluminismo,
estamos tratando de algo que envolve um imaginário considerável na socie-
dade ocidental. Alguns séculos depois de as revoluções que tomaram conta da
Europa no século XVIII se estenderem em ações e transformações pelo XIX,
a chama de muitos daqueles ideais permanece viva e ainda capaz de incendiar
o debate político de nosso tempo.
No capítulo 1 desta obra, abordamos o conceito de Iluminismo em suas
críticas à sociedade vigente no século XVIII. No capítulo 2, essas tensões são
exploradas, partindo das ações do Marquês de Pombal na administração do
reino português, suas ações em favor do absolutismo e enfrentamentos com
a Igreja. A abordagem do capítulo 3 já está centralizada na colônia e em suas
tensões internas. As relações entre senhores e escravos foram rapidamente
abordadas por não constituírem o ponto central de nosso tema, mas não
poderiam ficar de fora desse quadro. No capítulo 4, a narrativa retorna para as
tensões europeias, que tiveram seu auge na Revolução Francesa e nas Guerras
Napoleônicas. No capítulo 5, abordamos os acontecimentos que acabaram
por trazer Dom João VI e sua corte para os trópicos. Ao longo do capítulo 6
aprofundamos os impactos da transferência da corte portuguesa para o Brasil,
mas dessa vez focando no impacto direto que a cidade do Rio de Janeiro
sofreu. O capítulo 7 pretende construir uma análise das características da elite
político-econômica que se formou no Brasil nesse período. Por fim, o capí-
tulo 8 trata do processo da Independência em si. Nessa empreitada, tratamos
de elementos antecedentes importantes, como as preocupações da elite bra-
sileira com os riscos de recolonização, materializados na exigência do retorno
de Dom João VI para Portugal.
Dito isto, esperamos que o trabalho aqui apresentado seja capaz de auxi-
liar a sua formação e despertar ainda mais seu interesse acerca de um evento
tão decisivo na história.
Bons estudos!
Os autores

– 6 –
1
O Iluminismo: do velho
mundo ao novo mundo
Walfrido S. de Oliveira Jr.

Ao abordarmos a temática do Iluminismo, nos vemos diante


de um conceito construído com base em alguns pressupostos que já
se tornaram clássicos, a concepção de que foi um movimento inte-
lectual e de ação política que visava a uma crítica mais acentuada
ao absolutismo, ao clero e à nobreza. Mas, se nos distanciarmos do
ambiente francês e visitarmos outras sociedades, percebemos que há
entendimentos diferentes tanto na origem das críticas quanto no
ritmo das transformações pretendidas.
Para compreendermos melhor essas questões, dividiremos
o capítulo em três subtemas: 1) o conceito de Iluminismo; 2) o
Iluminismo em Portugal; e 3) o Iluminismo na América portuguesa.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

1.1 O conceito de Iluminismo


Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os
outros. A liberdade é um presente do céu, e cada indivíduo da mesma
espécie tem o direito de gozar dela logo que goze da razão. Toda auto-
ridade (que não a paterna) vem duma outra origem, que não é a da
natureza. Examinando-a bem, sempre se fará remontar a uma dessas
duas fontes: ou a força e violência daquele que dela se apoderou; ou
o consentimento daqueles que lhe são submetidos, por um contrato
celebrado ou suposto entre eles e a quem deferiram a autoridade.
(DIDEROT; D’ALEMBERT, 2006, p. 37)

O texto de Diderot1 que introduz este capítulo já aponta para várias


das características basilares2 do Iluminismo3. Podemos indicar uma crítica
à monarquia, principalmente pelo seu caráter absolutista4, que concentrava
decisões nas mãos dos monarcas. Quando Diderot escreve “Nenhum homem
recebeu da natureza o direito de comandar os outros”, posiciona-se de modo
contrário à ideia de que o rei é ungido por Deus, ou seja, que a presença real
é uma escolha divina.
Ao negar tal pressuposto legitimador da monarquia, afirma que as rela-
ções políticas são humanas, são escolhas ou imposições que surgem do pró-
prio jogo político estabelecido na sociedade. A autoridade política, portanto,
é uma resultante da imposição da “força e violência daquele que dela se apo-
derou”, ou por “consentimento” (DIDEROT; D’ALEMBERT, 2006, p. 37).

1 Denis Diderot, filósofo e escritor iluminista (França, 1713-1784).


2 Basilar: que serve de base; básico, fundamental.
3 O Iluminismo foi um movimento intelectual do século XVII cuja ação intelectual visava
criticar as bases intelectuais do “Antigo Regime” e colocar no centro das discussões a ciência, a
razão e a liberdade de expressão.
4 No absolutismo o monarca tem poder absoluto, ou seja, todas as decisões e poderes do Es-
tado estão em suas mãos.

– 8 –
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

Figura 1 – LOO, Louis-Michel van. Retrato de Denis Diderot. 1767. 1 óleo


sobre tela: color.; 81 x 65 cm. Museu do Louvre, Paris.

Outra crítica desferida por Diderot se concentra no papel da nobreza,


que, naquele período (século XVIII), mantinha uma série de privilégios, como
o de não pagar impostos, receber pensões da Coroa e ocupar os principais
cargos públicos. Para tanto, Diderot prega a igualdade com a seguinte frase
“A liberdade é um presente do céu, e cada indivíduo da mesma espécie tem o
direito de gozar dela logo que goze da razão” (DIDEROT; D’ALEMBERT,
2006). Essa sentença pode ser entendida como uma precursora da famosa
expressão “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e
direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos
outros com espírito de fraternidade”, contida na Declaração Universal dos
Direitos Humanos 5.

5 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi criada no século XX, após a Segunda
Guerra Mundial. No entanto, anteriormente a ela, com a Revolução Francesa, foi criada a De-
claração dos Direitos do Homem e do Cidadão, cuja influência foi decisiva para a construção
da moderna cidadania.

– 9 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

O conceito de igualdade para o século XVIII era altamente revolucio-


nário, pois desqualificava toda distinção social e jurídica que sustentava a
nobreza. Sem tais distinções, essa classe se tornaria “igual” às demais e, por-
tanto, não teria os principais instrumentos que lhe permitiam monopolizar os
cargos públicos e influenciar o rei. Como afirma Hobsbawm,
As 400 mil pessoas aproximadamente que, entre os 23 milhões de
franceses, formavam a nobreza, a inquestionável “primeira linha”
da nação, embora não tão absolutamente a salvo da intromissão das
linhas menores como na Prússia e outros lugares, estavam bastante
seguras. Elas gozavam de consideráveis privilégios, inclusive de isen-
ção de vários impostos (mas não de tantos quanto o clero, mais bem
organizado), e do direito de receber tributos feudais. (HOBSBAWM,
1996, p. 40)

Ao expormos essas críticas à nobreza e ao absolutismo, podemos acres-


centar as críticas direcionadas ao poder da Igreja Católica, que exercia certo
controle sobre a produção e circulação das ideias. As preocupações dos mem-
bros da Igreja com os iluministas se dava também pela centralidade que que-
riam manter sobre essa produção de conhecimento, com a manutenção de
certos dogmas. Temiam, além disso, a crítica às estruturas hierárquicas vigen-
tes, em que a Igreja se situava em posição de destaque. Os estudos científicos
poderiam pôr em risco o monopólio que a Igreja queria ter sobre as explica-
ções da origem da vida, visto que os iluministas incentivavam o uso da razão
e o declínio da fé como metodologia de explicação dos fenômenos.
Sendo assim, as principais características do Iluminismo francês no
século XVIII podem ser resumidas nas críticas à nobreza, ao absolutismo
e ao clericalismo6. Defendia a igualdade jurídica dos cidadãos (esse con-
ceito de cidadão foi, geralmente, restrito ao longo do século XIX e ampliado
durante o século XX), a ampliação dos direitos políticos, a expansão da razão
e da ciência.
Mas será que esses princípios nortearam as discussões iluministas em
todas as nações onde os livros e ideias do Iluminismo foram divulgados?
Vamos observar essas questões estudando o Iluminismo em Portugal e
na América portuguesa.

6 Clericalismo: influência temporal da Igreja e do clero.

– 10 –
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

1.2 O Iluminismo em Portugal


Considerando o desejo de “modificar o que existe”, esse texto pom-
balino mostra que o “governo” adotou medidas com os objetivos de:
a) fomentar uma boa caligrafia, capacitando pessoas para trabalharem
nas “contadorias do real erário, [...] outras repartições públicas”; b)
desenvolver as “artes fabris ou ofícios mecânicos, [...]”; c) proteger e
animar as “artes liberais”, de que eram exemplos, entre outros tantos,
os “suntuosos e bem delineados edifícios de Lisboa” [...]; d) promover
o cultivo da “filosofia ou das belas-artes, que servem de base a todas
as ciências”; e) incitar o desenvolvimento das “ciências maiores”, con-
substanciado na reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra;
f ) garantir o crescimento do comércio interno e externo tornando-o
“mais feliz e opulento do que foi naquele século dos senhores reis D.
Manuel e D. João III”; g) assegurar a harmonia entre os “diferentes
estados e entre as ordens, classes e grêmios” [...]; h) garantir “o estado
de opulência dos vassalos” de D. José I. (SANTOS, 2011, p. 80)

As ideias iluministas também circularam em Portugal durante a segunda


metade do século XVIII. As palavras dos filósofos franceses eram lidas e/ou
ouvidas em Lisboa, Porto e outras cidades e vilas, apesar das proibições e das
tentativas de controle exercidas por parte da Igreja e da Coroa.
No entanto, tal como em outros reinos europeus do período, as reformas
da Ilustração foram pensadas e executadas por ministros designados pelos
reis absolutistas – uma contradição, se levarmos em consideração toda a crí-
tica iluminista feita às monarquias absolutistas, mas uma realidade vivida por
reformadores atrelados fielmente aos seus monarcas.
Em Portugal, a figura que se destacou naquele momento foi a de
Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras (em 1759), posterior-
mente conhecido pelo título de Marquês de Pombal (em 1769). Seu governo
é considerado um marco para a História político-administrativa, tanto do
reino quanto para as colônias. Mas o julgamento histórico de seus compatrio-
tas não é unânime, como veremos adiante.
A ascensão de Sebastião José de Carvalho e Melo à condição de ministro
e real condutor da administração em Portugal se deu sob o reinado de D. José
I de Portugal (1714-1777, reinado de 31 de julho de 1750 a 24 de fevereiro
de 1777.)

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História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Figura 2 – AMARAL, Miguel António do. Retrato de D. José I de Portugal.


1773. 1 óleo sobre tela: color. Museu Hermitage, São Petesburgo.

É muito divulgada uma possível situação que contribuiu para a ascensão


do futuro marquês. Quando do terremoto que devastou Lisboa, em 1755,
o rei, atônito, teria perguntado a seu Ministro dos Assuntos Exteriores e da
Guerra (desde 1750): “O que fazer?” Sebastião José de Carvalho e Melo teria
respondido: “Enterre os mortos, feche os portos e cuide dos vivos” (BOTO,
2010, p. 284).
Mas como podemos caracterizar o Iluminismo português, conhecido
como “as luzes pombalinas”?

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O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

Podemos afirmar que as ações que marcaram a administração podem ser


identificadas como pertencentes ao “espírito das luzes”, mas também seriam per-
cebidas como a antítese das propostas dos filósofos franceses. Vamos exemplificar.
Como administrador, Carvalho e Melo tomou decisões no sentido de
incentivar as manufaturas portuguesas, porque percebeu que o reino estava
enfraquecido perante a economia europeia, na medida em que as importações
de manufaturados era uma das causas da perda de recursos do reino.
Por outro lado, reforçou a política da concessão de monopólios, tanto
no reino quanto nas colônias. As práticas monopolistas eram largamente uti-
lizadas, pois, na percepção dos soberanos e seus administradores, resolviam os
problemas ligados ao abastecimento das populações com alimentos e outras
mercadorias e facilitavam a cobrança dos impostos. Mas essas práticas mer-
cantilistas7 estavam muito distantes das propostas do liberalismo econômico,
uma das vertentes da filosofia das luzes.
Nesse projeto monopolista foi fundada, em 1756, a Companhia para
a Agricultura das Vinhas do Alto Douro, estabelecendo a primeira região
demarcada de produção vinícola no mundo, mas que, segundo José Eduardo
Franco, provocou:
O primeiro grande massacre popular de carácter físico [...] em 1757,
quando o povo da cidade do Porto se revoltou contra a decisão
governamental de instituir uma Companhia monopolista para gerir
o comércio do vinho do Porto, chamando a si o direito de negócio
deste produto pertencente tradicionalmente aos pequenos e médios
comerciantes. Aquilo que Camilo chama a criação pombalina das
“companhias violentas” causou insatisfação da parte dos grupos de
interesse atingidos. Para esmagar a revolta do Porto, Pombal mandou
o exército contra o povo insubmisso para abafar o motim. Foram pre-
sas centenas de populares, mandando depois enforcar publicamente
quarenta e cinco homens e mulheres. (FRANCO, 2009, p. 299)

7 Mercantilismo: política econômica dos Estados modernos e absolutistas, cujas características


principais são o controle sobre o comércio, a criação de monopólios comerciais e a busca por
uma balança comercial favorável.

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História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Por outro lado, o Ministro fez outras tantas reformas consideradas mais
modernizadoras. Entre elas, dentro do espírito iluminista, podemos citar a
abolição da escravidão em Portugal, cuja pretensão era impactar a mentali-
dade lusa, com uma ação de combate ao arcaísmo da escravidão, e ampliar o
trabalho livre e assalariado.
Outras reformas de muito impacto se deram no campo da educação e da
religião, as quais estavam intimamente ligadas, pois a Ordem Jesuíta atuava em
todas as esferas da educação, tanto em Portugal quanto na América portuguesa.
A principal medida adotada na reforma religiosa foi a expulsão dos jesuí-
tas em 1759, tanto da metrópole quanto das colônias, confiscando os seus
bens, sob a alegação de que a Companhia de Jesus teria sido a responsável
intelectual por uma tentativa de regicídio8, agindo como um poder autô-
nomo dentro do Estado português.
Com o intuito de enfraquecer e controlar o Tribunal do Santo Ofício, o
marquês nomeou o seu irmão Paulo António de Carvalho e Mendonça pre-
sidente do conselho do tribunal, subordinando a atuação desse importante
órgão religioso aos interesses do reino.
Trabalhou contra o estatuto da Pureza de Sangue, permitindo, e
mesmo incentivando, o casamento entre a alta nobreza com descenden-
tes de árabes e judeus que permaneceram no reino com a designação de
cristãos-novos9. Inclusive, em 25 de maio de 1773, promulgou uma lei que
extinguia as diferenças entre cristãos-velhos e cristãos-novos e proibiu o uso

8 Tentativa, em 1758, em que foram julgados e condenados à morte por suplícios a tradicional
família Távora, uma das mais importantes da nobreza lusitana (FRANCO, 2009, p. 298).
9 Termo utilizado em Portugal para designar descendentes dos judeus convertidos forçosamen-
te ao catolicismo em 1497. Apesar de convertidos, sempre houve suspeitas de que praticavam
o judaísmo longe dos olhos das autoridades católicas, e, devido à conversão, poderiam ser
julgados pelo Tribunal da Inquisição.

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O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

da expressão cristão-novo, quer por escrito, quer oralmente, sob pena de


açoitamento e degredo.
Figura 4 – LOO, Louis-Michel van; VERNET, Claude Joseph. Retrato do
Marquês de Pombal. 1766. 1 óleo sobre tela: color; 290 x 354 cm. Museu da
cidade, Lisboa.

Marquês
de Pombal
retratado
mostrando a
“sua obra” de
restauração
de Lisboa,
destruída pelo
terremoto
de 1755.

A reforma educacional teve de ser levada a cabo após a expulsão dos


jesuítas, que praticamente monopolizavam o ensino básico. O Marquês de
Pombal criou todo um sistema escolar, o sistema das aulas régias, que deveria
ser controlado pelo Estado e possibilitar o acompanhamento das ações edu-
cacionais por meio de relatórios anuais. Por outro lado, preocupou-se com a
censura aos iluministas franceses, os quais considerava perniciosos à moral da
população. É claro que essas críticas ocorriam devido à defesa da participação
dos cidadãos na política, aspecto que o fiel monarquista Pombal não admitia.

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História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Em Coimbra, as ações do marquês foram mais enérgicas, criando um


relatório que apontava todos os vícios da presença jesuítica na universidade.
Os antigos textos de Aristóteles, por exemplo, deveriam ser substituídos por
abordagens mais racionalistas e embasadas na experiência, ou, como afirma
Carlota Boto:
Pombal dava concretude às sugestões que lhe haviam sido feitas por
parte da geração de estrangeirados com quem conviveu. O ponto de
partida da reforma do curso de medicina era o seguinte: “a autori-
dade, comparada com a experiência e com a demonstração racional,
de nada vale”. (BOTO, 2010, p. 295)

Portanto, ao observarmos esse resumo sobre a atuação de Pombal à


frente do executivo português (1750-1777), notamos um conjunto de ações
que não podem ser classificadas apenas no âmbito do Iluminismo.
Ao defender o rei e propor monopólios comerciais, Pombal traba-
lhava com uma política mercantilista, protegendo os interesses da Coroa
portuguesa e reafirmando o absolutismo e o interesse de grandes comer-
ciantes monopolistas.
A expulsão dos jesuítas caminhava no mesmo sentido, o de fortalecer os
interesses do Estado ante essa força “externa” e conservadora, mas nesse caso
os ideais da razão, tipicamente identificados com o Iluminismo, aparecem.
A defesa do método científico, contra o discurso da autoridade, foi uma das
ações mais contundentes da Reforma de Coimbra.
O combate ao estatuto da Pureza de Sangue visava tanto quebrar o
poder das mais tradicionais famílias da nobreza lusitana quanto ampliar a
participação de outras famílias fidalgas no campo da política e da administra-
ção, pois muitas vezes esses fidalgos não tinham status, mas possuíam rique-
zas. Uma das características da sociedade portuguesa foi a mediação entre
os interesses da alta nobreza com os interesses da fidalguia e burguesia, ten-
tando prover os que detinham títulos de nobreza com recursos financeiros e,
do mesmo modo, munir os que detinham recursos financeiros com títulos
de nobreza. O destino final dessa política não era a criação de uma classe
burguesa empreendedora, mas, ao contrário, a incorporação dessa incipiente
burguesia aos quadros nobiliários (FLORENTINO; FRAGOSO, 2001).

– 16 –
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

Podemos, portanto, afirmar que os ideais iluministas chegaram a


Portugal, e isso significa que não foram pensados nesse território, mas sim
adaptados às condições locais – não somente às condições da vida social e
material, mas também a partir das condições da vida intelectual. Assim, as
políticas pombalinas foram marcadas por ações mercantilistas na economia,
absolutistas na política e liberais na educação e organização social, refletindo
as características próprias dessa comunidade.
As ações de Pombal também se refletiram do outro lado do Atlântico, em
colônias que possuíam uma diversidade populacional e cultural e uma plu-
ralidade na organização econômica estendida por um território continental.
Vejamos como foi o impacto das ações pombalinas na América portuguesa.

1.3 Iluminismo na América portuguesa


Pensar na América portuguesa10 ao longo do século XVIII significa ter em
mente as relações próprias que se desenvolviam nesses territórios. Devemos
pensar no processo de expansão territorial e nas relações estabelecidas com os
povos nativos, as quais foram muitas vezes de conflito e de resistência, mas,
por outro lado, também foram utilizadas várias estratégias de convivência ou
de assimilação.
Lembramos a convivência e as trocas culturais estabelecidas entre os
luso-brasileiros e as nações indígenas, especialmente da família linguística
tupi. Dessas trocas desenvolveram-se dois dialetos, as “Línguas Gerais”, desta-
cadamente a da bacia amazônica, que, ao longo do século XIX, consolidou-se
como o nheengatu, e a língua dos bandeirantes paulistas.

10 Ao utilizarmos o termo América portuguesa temos por finalidade repensar as relações históri-
cas. Propomos ser fiéis à formulação de pensamento que não leve a definições equivocadas. Ao
identificarmos o Brasil, identificamos uma construção que está em andamento, pois a marca
colonial e a estreita relação com Portugal não confere uma identidade de nação, território, per-
tencimento, como possuímos hoje. Apesar de o termo brasileiro já ser de uso corrente no século
XVIII, enfatizamos que outras designações também o eram, como “português da colônia” ou
“português do Brasil”, ou, ainda, a identificação de “reinóis” para designar o “português que
era de Portugal”, em diferenciação do português brasileiro.

– 17 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Esses dialetos serviam de base para a comunicação entre os europeus,


fossem eles jesuítas, exploradores, conquistadores ou comerciantes, com as
diferentes nações indígenas que encontravam. A Língua Geral era o idioma
cotidiano de milhares de pessoas, em detrimento do português. Porém, em
1758 ela foi proibida, e, se algum colono a utilizasse no seu dia a dia, era
severamente punido. Esse é mais um exemplo das ações pombalinas, que visa-
vam à centralização do poder; ao proibir a Língua Geral, Pombal pretendia
ampliar, entre os colonos e indígenas, a presença do rei, nesse caso pelo uso
português. Como dito na Lei do Diretório dos índios, de 1758,
§ 6 – Sempre foi máxima inevitavelmente praticada em todas as
nações, que conquistaram novos domínios, introduzir logo nos povos
conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável que este é
um dos meios mais eficazes para desterrar dos povos rústicos a barba-
ridade dos seus antigos costumes e ter mostrado a experiência que, ao
mesmo tempo que se introduz neles o uso da língua do príncipe que
os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração e a obediên-
cia ao mesmo príncipe. (O DIRETÓRIO, 1758)

Figura 5 – Plano da Redução de São Miguel Arcanjo, séc. XVII.

Fonte: BOLCATO, 2012, p. 10.

– 18 –
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

As relações entre europeus e indígenas foram, em grande parte,


mediadas pelas ações educacionais. A educação era baseada na presença e
ação dos jesuítas, que atuavam em duas direções, a catequese indígena e as
escolas para os filhos dos europeus. Porém muitos afro-brasileiros também
foram alvo dessa atuação, principalmente nas fazendas da própria Ordem,
como atestam Ferreira Jr. e Bittar (1999): “Este mesmo princípio de con-
versão religiosa ao catolicismo, a combinação de catequese com o ensino
das primeiras letras, foi utilizado mais tarde, nos séculos XVII e XVIII,
nas próprias fazendas da Companhia de Jesus com os filhos dos escravos
que nelas trabalhavam”.
A presença jesuítica entre os indígenas possibilitou a construção de
diversas missões ou reduções, responsáveis por converter os nativos ao cato-
licismo. Tais reduções também evitavam que esses indígenas fossem dizima-
dos ou transformados em mão de obra escrava para os fazendeiros, minera-
dores ou comerciantes.
Como já mencionamos, a segunda metade do século XVIII foi marcada
pela presença do Marquês de Pombal na administração do governo portu-
guês, e suas ações se estenderam sobre a América portuguesa, apesar de ele
nunca ter ido para as colônias. Uma das ações tomadas pelo marquês foi a
abolição do trabalho escravo indígena, o que ocorreu em 1775 no Estado do
Grão-Pará e Maranhão11, e em 1778, no Estado do Brasil. Essa medida estava
de acordo com o pensamento iluminista que influenciou as ações pombali-
nas, combatendo a arcaica instituição da escravidão e ampliando a presença
do trabalho livre.

11 Podemos afirmar sem muito erro que o território do atual Brasil foi dividido em duas
unidades administrativas entre 1621 a 1774, uma designada “Brasil” e outra designada “Grão-
-Pará e Maranhão”. “A criação do Estado do Maranhão foi decretada em 13 de junho de 1621,
porém, a instalação efetiva só aconteceu em 1626, com a posse do primeiro governador e
Capitão-General Francisco Coelho de Carvalho, que esteve neste governo por dez anos (de
03.09.1626 a 15.09.1636). A vila de São Luis, que já era sede da capitania do Maranhão, foi
escolhida como sede da capital do Estado. O Estado do Maranhão e Grão Pará perdurou até
1772, quando foi anexado ao Estado do Brasil, conforme Decreto Régio de 20 de agosto”.
(OLIVEIRA, 2011, p. 11)

– 19 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Figura 6 – Divisão territorial do Brasil no século XVIII.

MAR ANHÃO
ESTAD O D O

IL

AZ
BR
DO
DO
TA
ES

Outra medida já estudada foi a expulsão dos jesuítas, que criaram


e administravam as missões. Estas existiam de norte a sul da colônia, com
grande destaque para a bacia amazônica. Tais reduções visavam criar núcleos
de povoamento para o desenvolvimento de vilas, preparar a mão de obra
indígena para atividades de domínio de técnicas de trabalho mecânicos e

– 20 –
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

agrícolas, e alterar seus hábitos sociais, constituindo uma noção de família


nuclear tal qual era orientado pela Igreja Católica na época, a “família cristã”.
Ao realizar as duas medidas, abolição da escravidão e expulsão dos jesuí-
tas, Pombal objetivava modernizar a Colônia e proteger as populações indí-
genas, colocando-as sob a administração direta de representantes do Reino.
As missões foram transformadas em vilas ou lugares, segundo o interesse da
Coroa em ocupar o território com uma população de súditos portugueses, e
não de indígenas controlados pelos jesuítas.
Para os indígenas, essas medidas tiveram diversos impactos, sendo que
a transformação da escravidão em alguma forma de trabalho compulsório
não alterou significativamente a sua condição, e essas populações das vilas
foram integradas à sociedade colonial de maneira subalterna, como remado-
res, trabalhadores a serviço dos fazendeiros etc. O destino dessas populações
também foi diverso: alguns grupos indígenas retornaram à vida na floresta,
reinventando suas tradições, e outros foram se tornando portugueses, pela
transformação de seus costumes tradicionais e pela miscigenação.
Ao realizarmos essa rápida abordagem sobre as relações entre indígenas
e europeus, finalizando com as ações pombalinas, propomos uma reflexão
sobre o resultado dessas ações e seu impacto para o cotidiano das pessoas. Ou
seja, de que forma as medidas iluministas do Marquês de Pombal repercuti-
ram na vida dos povos indígenas, com certeza muito diferente do que na das
populações europeias que passaram por medidas semelhantes.
Para as outras camadas da sociedade colonial, em especial para os escra-
vizados, essas transformações em nada alteraram sua vida cotidiana. Já para
os colonos, podemos destacar a criação de companhias de comércio, especial-
mente a Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755-
-1778). Segundo Cardoso,
a companhia pombalina além de dinamizar a produção regional
(cacau, café, arroz, algum açúcar), introduziu em pouco mais de duas
décadas 14.749 escravos no Grão-Pará: mas, mesmo com as amplas
facilidades de crédito a longo prazo que oferecia, a pobreza local fez

– 21 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

com que a maior parte de tais cativos africanos fosse reexportada, via
navegação fluvial, para o Mato Grosso e suas minas. A intensificação
da escravidão negra no Pará, alimentando um breve parêntese agrí-
cola numa zona de coleta, concentrou-se em Belém e seus arredores.
(CARDOSO, 1990, p. 97)

Novamente observamos os limites das ações de Pombal, as quais pre-


tendiam dinamizar as relações de produção e de comércio na região, mas
que esbarram nas condições locais de pobreza e de um mercado consumidor
pouco desenvolvido.
Se nos concentrarmos na circulação das ideias iluministas entre os
colonos, podemos considerar que na Região das Minas (atual Minas Gerais)
surgiram e cresceram cidades, com um dinamismo maior do que em outros
centros urbanos, e assim tais ideias puderam prosperar com maior inten-
sidade. Devido ao fluxo migratório dado ao longo do século XVIII, em
virtude da facilidade de enriquecimento que a exploração do ouro mais
indicava do que de fato proporcionava, esses núcleos populacionais permi-
tiram o surgimento de novas profissões, inclusive com certo refinamento.
Tendo interesse pelo que se passava na Europa, entraram em contato com
os pensadores franceses e ingleses.
A Ilustração começava a fazer uma tímida aparição em plagas colo-
niais. À falta de imprensa na colônia, em Portugal é que foram publi-
cadas algumas obras escritas por intelectuais nascidos no Brasil, como
o poema Uruguai, de Basílio da Gama, violentamente antijesuitico.
Muito longe de ser brilhante, o panorama cultural era, no entanto,
menos insignificante do que havia sido no passado, sobretudo se
nos lembrarmos de que o surto intelectual das cidades de Minas
Gerais sobreviveu por várias décadas à queda da produção de ouro.
(CARDOSO, 1990, p. 99-100)

Podemos afirmar, no entanto, que os intelectuais brasileiros entraram


em contato com o Iluminismo e permaneceram com tal conhecimento muito
mais no campo das ideias do que como norte em ações práticas.

– 22 –
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

Ampliando seus conhecimentos

A Era das Revoluções: 1789-1848


(HOBSBAWM, 1996, p. 29-30)

[...] A grande Enciclopédia de Diderot e d’Alembert não era


simplesmente um compêndio do pensamento político e social
progressista, mas do progresso científico e tecnológico. Pois,
de fato, o “iluminismo”, a convicção no progresso do conhe-
cimento humano, na racionalidade, na riqueza e no controle
sobre a natureza – de que estava profundamente imbuído o
século XVIII – derivou sua força primordialmente do evidente
progresso da produção, do comércio e da racionalidade eco-
nômica e científica que se acreditava estar associada a ambos.
E seus maiores campeões eram as classes economicamente
mais progressistas, as que mais diretamente se envolviam nos
avanços tangíveis da época: os círculos mercantis e os finan-
cistas e proprietários economicamente iluminados, os adminis-
tradores sociais e econômicos de espírito científico, a classe
média instruída, os fabricantes e os empresários. Estes homens
saudaram Benjamin Franklin, impressor e jornalista, inventor,
empresário, estadista e negociante astuto, como o símbolo
do cidadão do futuro, o self-made-man racional e ativo. Na
Inglaterra, onde os novos homens não tinham necessidade de
encarnações revolucionárias transatlânticas, estes homens for-
mavam as sociedades provincianas das quais nasceram tanto
o avanço político e social quanto o científico. A Sociedade
Lunar de Bir-mingham incluía entre seus membros o oleiro

– 23 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Josiah Wedgwood, o inventor da moderna máquina a


vapor James Watt e seu sócio Matthew Boulton, o químico
Priestley, o biólogo e gentil-homem Erasmus Darwin (pioneiro
das teorias da evolução e avô do grande Darwin) e o grande
impressor Baskerville. Estes homens se organizavam por toda
parte em lojas de franco-maçonaria12, onde as distinções de
classe não importavam e a ideologia do iluminismo era propa-
gada com um desinteressado denodo13.
É significativo que os dois principais centros dessa ideologia
fossem também os da dupla revolução, a França e a Inglaterra;
embora de fato as ideias iluministas ganhassem uma voz cor-
rente internacional mais ampla em suas formulações francesas
(até mesmo quando fossem simplesmente versões galicistas14
de formulações britânicas), um individualismo secular, racio-
nalista e progressista dominava o pensamento “esclarecido”.
Libertar o indivíduo das algemas que o agrilhoavam era o
seu principal objetivo: do tradicionalismo ignorante da Idade
Média, que ainda lançava sua sombra pelo mundo, da supers-
tição das igrejas (distintas da religião “racional” ou “natural”),
da irracionalidade que dividia os homens em uma hierarquia
de patentes mais baixas e mais altas de acordo com o nas-
cimento ou algum outro critério irrelevante. A liberdade, a
igualdade e, em seguida, a fraternidade de todos os homens
eram seus slogans. No devido tempo se tornaram os slogans
da Revolução Francesa. O reinado da liberdade individual

12 A maçonaria é uma sociedade considerada discreta, e não secreta. Seus membros discutem
filosofia e as questões da sociedade. Existem lojas maçônicas em quase todos os municípios
brasileiros.
13 Denodo – ousadia, bravura, coragem.
14 Galicistas – referentes à França/aos franceses.

– 24 –
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo

não poderia deixar de ter as consequências mais benéficas.


Os mais extraordinários resultados podiam ser esperados –
podiam de fato já ser observados como provenientes – de
um exercício irrestrito do talento individual num mundo de
razão. A apaixonada crença no progresso que professava o
típico pensador do iluminismo refletia os aumentos visíveis no
conhecimento e na técnica, na riqueza, no bem-estar e na
civilização que podia ver em toda a sua volta e que, com
certa justiça, atribuía ao avanço crescente de suas ideias. No
começo do século15, as bruxas ainda eram queimadas; no final,
os governos do iluminismo. [...]

Atividades
1. Com base no texto de Diderot da abertura do capítulo, explique as
razões que caracterizam ser esse um texto iluminista.

2. Por que podemos afirmar que a ação política e administrativa de


Pombal pode ser, ao mesmo tempo, considerada modernizadora
e conservadora?

3. O Marquês de Pombal tomou algumas medidas que envolviam os


povos indígenas na América. Cite tais medidas, as intenções pelas
quais ele as realizou e as consequências dessas ações para as popula-
ções indígenas.

15 Hobsbawm ressalta as transformações ocorridas ao longo do século XVII, a ruptura com


as tradições medievais que sobreviviam na sociedade europeia. Não é à toa que a Revolução
Francesa é considerada como o início da Idade Contemporânea.

– 25 –
2
Administração colonial:
tensão entre portugueses
e brasileiros
Walfrido S. de Oliveira Jr.

Nada pode ser mais útil e necessário a um Estado do que


o Comércio. Porque ele é a mais caudalosa e inexaurível
Fonte de que emanam todos os cabedais que podem fazer
um reino opulento, rico e respeitado sem nunca se dimi-
nuir a torrente das riquezas e prosperidades que dele se
derivam. (Marquês de Pombal. In: FALCON, 2005, p. 32)

A administração da Coroa portuguesa visava a alguns obje-


tivos sobre suas colônias americanas1. Dentre esses propósitos,
podemos destacar: a manutenção do território, diante das ameaças
internas e externas; a ampliação desses territórios, ocupando espa-
ços para além do Tratado de Tordesilhas; o incentivo à agricultura
de exportação e à agricultura de subsistência; o incentivo à busca
por metais preciosos; a abertura de caminhos e a segurança destes;
o abastecimento dos senhores e mineradores com a mão de obra
escravizada; o monopólio da Justiça; e, não menos importante, a
cobrança de impostos e taxas.

1 Lembramos que a administração da Coroa dividiu a América portuguesa em duas


partes, que, no século XVIII, constituíam-se no Vice-Reino do Brasil e no Estado
de Grão-Pará e Maranhão.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Esses objetivos, por assim dizer, foram realizados com maior ou menor
eficiência ao longo dos mais de três séculos de colonização, e é certo que as
populações locais possuíam razões para reconhecer esses esforços, mas tam-
bém tinham motivos para se queixarem da administração lusitana. Veremos
alguns aspectos dessa administração, focando na figura do Marquês de
Pombal, desde o período anterior a sua nomeação até os anos que se seguiram
à sua destituição como ministro.

2.1 Período pombalino: despotismo esclarecido


No Iluminismo português, destacou-se a presença de Sebastião José
de Carvalho e Melo, conhecido na História como Marquês de Pombal. Tal
agente político pautou suas ações num misto de Iluminismo e mercantilismo,
o que caracteriza bem os esforços ditos modernizadores na Península Ibérica,
em especial em Portugal e seu império ultramarino.
No campo da política internacional, as ações de Pombal refletem os
mesmos dilemas modernizadores e conservadores. Para demonstrá-los, vamos
abordar as análises de Pombal ante as relações comerciais que Portugal man-
tinha com a Inglaterra, em específico com o Tratado de Methuen, conhe-
cido como o “Tratado dos Panos e Vinhos”, firmado em 1703, por meio do
qual se estabelecia um recíproco monopólio. Portugal só adquiriria tecidos
da Inglaterra, e a Inglaterra só adquiriria vinhos de Portugal, além de reforçar
acordos militares.
No início do século XVIII, Portugal enfrentava uma crise financeira e
militar, que envolvia disputas com a Holanda e com a Espanha, e a aliança
militar com a Inglaterra era de fundamental importância.
Segundo as observações de Pombal, o que mais prejudicava os interes-
ses lusos não seria a obrigatoriedade das compras dos tecidos ingleses, mas
os efeitos de outra legislação inglesa, o Ato de Navegação (Navigation Acts),
criado por Cromwell2 em 1651, o qual determinava que todos os produtos

2 Oliver Cromwell (Huntingdon, 25 de abril de 1599 – Palácio de Whitehall, 3 de setembro


de 1658) foi um líder político inglês e comandante das tropas parlamentaristas durante a
Guerra Civil inglesa, iniciada em 1642 e finalizada com a condenação à morte de Carlos I, em
1649. Exerceu o comando durante o período republicano da Inglaterra entre 1649 e 1653.

– 28 –
Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros

comercializados nos portos ingleses deveriam ser transportados por navios


ingleses. Tal política se consolidou em 1654, com a vitória inglesa perante a
Holanda, que contestara tal Ato.
Figura 1 – ABRAHAMSZ, Jan. A Batalha de Terheide. c. 1653. 1 óleo sobre
tela, color.; 176 x 281,5 cm. Rijksmuseum, Amsterdam.

A pintura de
Abrahamsz retrata
uma batalha da
guerra Anglo-Ho-
landesa de 1653,
demonstrando o
domínio naval
inglês estabele-
cido durante o
século XVII.

Esse monopólio de transporte não era previsto no Tratado de Methuen,


mas os ingleses alegavam que não poderiam desobedecer a essa legislação, por
ser uma tradição no país. Tal desvantagem comercial foi relatada pelo futuro
marquês da seguinte maneira:
O puro ganho que pode provir de qualquer Ramo do comércio não é
o único objeto de quem nele trafica. Principal ou juntamente se deve
atender à navegação que o mesmo comércio pode ocasionar. E com
grande razão porque a navegação mercantil é a fonte de onde derivam
as riquezas dos povos [...]. (FALCON, 2005, p. 18)

Notamos o teor das queixas de Pombal sobre o fato de as embarcações


portuguesas não terem livre acesso aos portos ingleses, o que prejudicava a
atividade comercial lusa. Mas o hábil dirigente, ainda na figura de diplo-
mata, percebe que dessa desvantagem seria possível rever a presença inglesa
nos portos da América portuguesa. Uma das máximas do comércio, segundo
Pombal, era o de que se o comércio com as nações estrangeiras seria de grande
importância, o comércio com as próprias colônias seria de importância maior
(FALCON, 2005, p. 18).

– 29 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Nesse caso, a criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e


Maranhão e a de Pernambuco e Paraíba marca uma ação mercantilista e
protecionista de Pombal, tentando minimizar a dependência do comércio
inglês e, assim, favorecer os comerciantes lusos, que investiram seus capitais
nessas companhias.
Por outro lado, a política externa lusitana, antes, durante e depois de
Pombal, não poderia confrontar direta e decisivamente os interesses ingleses,
pois foram várias as ocasiões em que os lusos necessitaram de auxílio militar
de seus fortes aliados3.
As dificuldades nas relações com os ingleses marcaram a política externa
da Coroa portuguesa durante séculos, e mesmo a figura do Marquês de
Pombal, tido por boa parte da historiografia lusitana como um líder “nacio-
nalista”4 não conseguiu romper com essa dependência. Sua administração
foi caracterizada no espectro do despotismo esclarecido, cuja característica
principal seria a de unir práticas do liberalismo iluminista com os interesses
administrativos da Coroa, numa política eclética que envolvia liberalismo
e mercantilismo.
O Tratado de Methuen ficou conhecido na historiografia de Portugal
como uma política mercantil danosa aos interesses locais, pois não incenti-
vou a criação de manufaturas no país, apesar dos esforços da Coroa para o
seu surgimento. Tal afirmação, apesar de correta em certa medida, não leva

3 Os dois reinos possuíam um tratado militar desde 1386, conhecido como “Tratado de Wind-
sor”. Podemos citar como início desse tratado e seus futuros reflexos os seguintes acontecimentos:
a) Batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385, entre portugueses com aliados ingleses,
comandadas por D. João Mestre de Avis, e o exército castelhano e seus aliados liderados por
D. João I de Castela.
b) Expulsão dos holandeses do Brasil de Angola, em 1648, que contou com a mediação inglesa
para o tratado de paz.
c) A aliança como um fator de intimidação sobre a Espanha, tanto no continente europeu
quanto na América.
d) Por fim, o apoio à vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808.
4 Termo anacrônico para o século XVIII, mas que transmite o espírito de suas ações.

– 30 –
Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros

em conta a dinâmica do desenvolvimento das manufaturas inglesas. Devido


ao sistema de putting-out5, podia-se produzir tecidos a preços competitivos e,
após a criação das fábricas, da divisão do trabalho e do desenvolvimento de
máquinas, a produção foi dinamizada e derrubaram-se os preços mais do que
qualquer oficina artesanal portuguesa poderia conseguir.
Já na constituição da identidade histórica brasileira, tal acordo, além
das alegações lusas, também incluía o “roubo” das “nossas” riquezas naturais,
pois os portugueses saldavam os déficits comerciais que realizavam com a
Inglaterra com o ouro extraído do Brasil. Essas afirmações são anacrônicas,
pois o território brasileiro no século XVIII não era autônomo, e sim uma
colônia portuguesa, portanto Portugal não roubava nossas riquezas, mas se
apropriava, por meio da cobrança de impostos, de suas riquezas coloniais.
Uma parte muito importante da administração das colônias foi o sistema
de cobrança de impostos. A cobrança de impostos nunca é uma prática que
agrada à população de maneira geral, sempre foi um tema controverso, pois
quem paga afirma que se cobra exorbitantemente, e o governo que recebe
alega que faltam recursos para suas ações essenciais. Isso não seria diferente na
América portuguesa na virada do século XVIII para o século XIX. Esse tema
foi, com certeza, um dos pontos que mais gerou tensões na sociedade colonial.
Vamos aprofundar essa questão.

2.2 O controle sobre o comércio e os impostos


Há uma tese muito conhecida na historiografia nacional, desenvolvida
por Caio Prado Júnior, denominada “O sentido da colonização”. Nela o autor

5 O sistema denominado de putting-out consistia na ação de um comerciante cujo interesse


era controlar a atividade dos artesãos, para conseguir uma produção constante e direcioná-la
ao mercado. Foi uma prática que retirou dos produtores diretos o controle sobre a origem da
matéria-prima e sobre o destino da produção. Tal sistema dinamizou a produção artesanal, que
era totalmente controlada pelo artesão. O final desse processo se dará com a construção das
fábricas, divisão do trabalho fabril e invenção das máquinas.

– 31 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

propõe uma análise marxista6 do modo de produção, mas muito mais refi-
nada do que encontramos em outros autores. Caio Prado propõe entender
a empresa colonial americana como um apêndice das atividades comerciais
europeias, ou, como ele próprio afirma:
O comércio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este territó-
rio primitivo e vazio que é a América; e inversamente, o prestígio do
Oriente, onde não faltava objeto para atividades mercantis. [...] mas
ocupar com povoamento efetivo, isso só surgiu como contingência,
necessidade imposta por circunstâncias novas e imprevistas. (PRADO
JÚNIOR, 1996, p. 23-24)

As contingências do comércio com o Oriente impulsionaram os euro-


peus, em especial os portugueses, a tomarem efetivamente posse de sua colô-
nia americana, e isso só se tornaria viável com a inserção desse território no
fluxo comercial internacional. Que produtos poderia a colônia oferecer? E
que produtos seriam comercializados para ela?
Essa famosa tese enfatiza as relações comerciais entre colônia e metró-
pole, tendo como base os conceitos de dependência e complementaridade.
Isto é, as colônias só teriam sentido se mantivessem uma relação de depen-
dência econômica com suas metrópoles, necessitando delas para obter as
mercadorias essenciais à sobrevivência de sua população e fornecendo a elas
mercadorias que pudessem ser comercializadas nos mercados internacionais.
Para atingir esse fim, o controle do comércio exercido pela metrópole
era fundamental. Por isso, houve uma política, ao longo dos anos de coloni-
zação, que visava estabelecer esse controle, não uma política única, imutável,
mas que, devido às vicissitudes e contingências, tentava manter o “sentido
da colonização”. Quem poderia comercializar, quais produtos poderiam ser
comercializados e quais portos poderiam exercer o comércio eram preocupa-
ções que nortearam essas políticas envolvendo a colônia.

6 Marx, Karl Heinrich (Trier, 5 de maio de 1818 – Londres, 14 de março de 1883) foi um
cientista social, historiador e revolucionário alemão. Seu pensamento foi de grande impacto na
intelectualidade mundial. Para aprofundar seu conhecimento sobre o tema, indicamos a leitura
do Dicionário do pensamento marxista, organizado por Thomas Bottomore (Editora Zahar).
Disponível em: <http://sociologial.dominiotemporario.com/doc/DICIONARIO_DO_
PENSAMENTO_MARXISTA_TOM_BOTTOMORE.pdf>. Acesso em: 12 mar. 2017.

– 32 –
Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros

Pelas características geográficas e climáticas da colônia, os produtos tro-


picais foram logo percebidos como tendo um apelo de mercado para Portugal
revendê-los no comércio europeu. E é claro que os metais preciosos também
eram bem-vindos para esse fluxo comercial.
Quanto às intenções de controle, a Coroa estabeleceu as companhias de
comércio e o sistema de frotas, em 1649, que visava controlar todo o comér-
cio entre a colônia e a metrópole (também o combate à pirataria motivou o
sistema). O sistema de frotas regulava as datas em que as frotas sairiam dos
portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, e as datas que retornariam de
Lisboa para esses locais.
Mas essas tentativas não obtiveram o sucesso esperado, sendo várias
vezes superadas pelas mais diversas razões. Entre elas, podemos citar: a pres-
são dos ingleses pelo comércio direto; a incapacidade dos comerciantes lusita-
nos sozinhos conseguirem abastecer todas as necessidades coloniais, e depen-
derem de comerciantes de outros reinos para esse fim; e, principalmente, o
dinamismo que os comerciantes lusos estabelecidos na colônia imprimiam
nas relações diretas com os portos portugueses na Ásia e, principalmente, na
África, fugindo, assim, do controle comercial da metrópole, que, por inca-
pacidade de realizar tal comércio, permitia aos seus súditos essa “liberdade”.
O comércio atlântico ligando Recife, Salvador e Rio de Janeiro aos por-
tos de Ajudá (no atual Benin) e Benguela (em Angola) foi intenso e direto
(não passava por Portugal) durante todo o período colonial. Esse comércio
traficava “ouro contrabandeado, óleo de baleia, açúcar, aguardente, tabaco,
farinha de mandioca, arroz e outros produtos, recebendo em troca, sobre-
tudo, escravos [...]” (CARDOSO, 1990, p. 91). Assim, não estava de acordo
com o “sentido da colonização” proposto por Caio Prado7.

7 Uma polêmica muito marcante foi essa discussão estabelecida pelos defensores da tese de
Caio Prado identificados com a Universidade de São Paulo (USP) e o professor Ciro Flamarion
Cardoso, da Universidade Federal Fluminense, que apontava as dinâmicas do mercado interno
no período colonial e as dificuldades da Coroa portuguesa em estabelecer um controle rigoroso
sobre o comércio e outros aspectos da vida social na colônia.

– 33 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Figura 2 – Forte de São João Batista de Ajudá. 1886. 1 gravura, p/b.

Essa gravura, de autoria


desconhecida, mostra o
antigo e, em parte, aban-
donado, forte de São João
Batista de Ajudá, uma
feitoria portuguesa em
Ouidah, antigo Daomé,
atual Benin. Esse entre-
posto era fundamental para
o comércio lusitano de
escravos na chamada Costa
da Mina. Foi uma posses-
são portuguesa até 1961.
A proposta de Caio Prado não está errada em seu sentido teórico, real-
mente as intenções da Coroa residiam em controlar as atividades produtivas
e comerciais de sua colônia, bem de acordo com o espírito do mercantilismo,
mas esse controle não foi possível de ser realizado, abrindo uma série de “bre-
chas”, tanto para os circuitos internos de produção e circulação quanto para
os circuitos externos de comércio. As várias tentativas para se estabelecer esse
controle são indícios de sua estrutural ineficiência.
Visto que o controle sobre o comércio não foi tão eficiente quanto pre-
visto pela Coroa, os esforços maiores se deram na cobrança de impostos. Se
não era possível impedir o comércio direto entre Brasil e Angola, pelo menos
ele deveria ser taxado. A Coroa via a possibilidade de essas taxas e impos-
tos poderem minimizar as perdas com sua ineficiência em tentar estabelecer
monopólios. Na colônia, havia tributos tanto para o comércio interno quanto
para o externo; nas estradas reais, existiam os postos de cobranças ou “regis-
tros” e, nos portos, a alfândega cumpria esse papel.
Com a descoberta e exploração do ouro, na virada do século XVII para o
XVIII, Portugal intensificou as suas ações na tentativa de controlar a extração
e, principalmente, a cobrança do imposto.

– 34 –
Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros

Em 1702, foi instituída a Intendência das Minas, órgão diretamente


ligado à Coroa e que tinha por objetivo recolher o imposto do Quinto, isto é,
uma taxação de 20% sobre o ouro extraído. Em 1734, esse tributo foi substi-
tuído pela capitação, que cobrava imposto de todos os moradores, fossem eles
mineradores, comerciantes, homens livres e pobres ou escravizados. Desse
modo, o sistema de capitação beneficiou em muito os grandes mineradores,
penalizando a sociedade em geral. Em 1850, o Marquês de Pombal terminou
com a capitação e retornou com o Quinto, além de criar a Casa de Fundição,
por onde obrigatoriamente deveria passar todo o ouro extraído, que era trans-
formado em barras, e ali mesmo cobrado o imposto da quinta parte. Também
foi estabelecido um mínimo de imposto de 100 arrobas anuais, o que corres-
ponde a 1.500 kg (TEIXEIRA; TOTONI, 1989, p. 32-33).
Como a margem de 100 arrobas não estava sendo paga, em 1765 foi ins-
tituída a derrama, que deveria cobrar os déficits dos anos anteriores. A pressão
sobre os mineradores era grande, os quais alegavam um declínio da produção
para não pagarem a taxa anual de 100 arrobas. Mas a Coroa e suas autoridades
desconfiavam de contrabando, que efetivamente acontecia em grande escala.
Os mineradores estavam devendo muito imposto para a Coroa e tenta-
vam garantir seus lucros usando fraudes. Esses senhores de minas enviavam
seu ouro em pó aos ourives, para que fizessem barras, falsificando os lingotes
oficiais, ou mesmo para a produção de joias, a fim de alegarem que eram anti-
gas peças de família. Por isso a profissão de ourives foi muito controlada na
colônia, chegando mesmo a ser proibida na região das minas e, em 1766, em
toda a colônia.
O século XVIII chegava a seu fim, e a conjuntura colonial passava por trans-
formações. Em Portugal, Pombal foi destituído de sua função ministerial após
a morte do rei José I, em 1777. A presença econômica do Brasil pesava muito
favoravelmente para a Coroa, no que se costumou chamar de inversão colonial.
Vamos analisar melhor esse contexto de fim de século.

2.3 Portugal e Brasil pós-Pombal


Ao fim do século XVIII, Portugal resignara-se em sua condição de
reino periférico, economicamente atrasado e culturalmente isolado, mas essa

– 35 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

situação não pesava tanto, pois Lisboa ainda era a capital de um grande impé-
rio, que se estendia pela América, África e Ásia.
Apesar de sua economia não ser dinâmica, a Coroa arrecadava das colô-
nias mais recursos do que necessitava para se manter. Os impostos eram
cobrados em Portugal e suas colônias, que pagavam pela produção, circu-
lação e consumo. Como já vimos, a opção por arrecadar via tributos foi a
solução encontrada pela Coroa na medida em que não conseguia monopo-
lizar o comércio.
As reexportações de açúcar e algodão provenientes do Brasil auxilia-
ram a equilibrar a balança de comércio exterior. Com a Inglaterra, de quem
Portugal adquiria tecidos e vários outros manufaturados, as exportações de
vinho e azeite de oliva não eram suficientes para saldar as dívidas, e o ouro
das minas também já estavam em declínio desde a metade do século. Mas a
expansão das exportações de açúcar e, principalmente algodão, para as nas-
centes fábricas inglesas melhoraram a situação alfandegária, gerando superá-
vits para Portugal.
Notamos, assim, uma estreita relação entre a Coroa lusitana e a inglesa,
que se consolidava no campo militar. Portugal teria grandes dificuldades
em manter suas colônias, e também seu território europeu, sem o auxílio
militar inglês. Leslie Bethell firma que a Coroa britânica era “o avalista da
independência de Portugal e da integridade territorial do império português”
(BETHELL, 2001, p. 187).
À época, as ações do Marquês de Pombal foram marcadas pelo libera-
lismo e pelo conservadorismo, numa tentativa de resolver as questões próprias
da Coroa portuguesa. Seu sucessor, Martinho de Melo e Castro (ministro de
1770 a 1795) também trabalhou com essa perspectiva, e o mesmo se pode
dizer de Rodrigo de Souza Coutinho, futuro Conde de Linhares (ministro de
1796 a 1801).
As tentativas de modernizar a economia em Portugal, com a criação e o
apoio à manufatura, a modernização da agricultura e da educação, a melhoria
do comércio com as colônias para reverter déficits comerciais e equilibrar os
gastos do governo envolvido em conflitos territoriais, são até hoje alvo de
discussão na historiografia lusa, em relação a sua eficácia ou não.

– 36 –
Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros

Outro fator que gerou uma melhoria na economia colonial foi de ordem
geopolítica, resultado da neutralidade de Portugal no período das Guerras
Napoleônicas, o qual não sofreu bloqueios navais, como os que a Espanha
enfrentou. Sendo assim, o comércio da metrópole lusitana transcorreu sem
muitos percalços e em vantagem em relação aos produtos coloniais espanhóis.
Quando voltamos nosso olhar para o Brasil, vemos as ações da Coroa
com o intuito de aumentar o controle, por meio de ações administrativas mais
severas e centralizadas, como a mudança da capital de Salvador para o Rio
de Janeiro, em 1763, e a reintegração do Estado do Grão-Pará e Maranhão
à administração do Vice-Reino do Brasil, em 1774. Mesmo possuindo um
vice-rei na colônia, os governadores de província, principalmente os do Norte,
respondiam diretamente a Lisboa, numa política claramente centralizadora.
No campo comercial, o Brasil desfrutava de relativa liberdade, que ficou
mais acentuada com a abolição do sistema de frotas, em 1766 – o qual previa
as datas de saída dos barcos comerciais rumo à Lisboa –, e com o término
das atividades das Companhias de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, em
1778, e de Pernambuco e Paraíba, em 1779.
No que concerne à produção, foi incentivada a agricultura de exporta-
ção, mas proibidas as atividades manufatureiras, em especial as tecelagens,
para que as exportações lusitanas tivessem mercado assegurado. Apesar dos
esforços e controle, a produção das minas entrou em irremediável decadência
após 1750, fato que foi aos poucos sendo admitido, mas que não impedia a
Coroa de tentar cobrar o imposto atrasado. Por outro lado, no litoral, a pro-
dução para exportação estava vivendo uma melhoria.
O cultivo de açúcar, que havia enfrentado uma crise após a expulsão dos
holandeses do Brasil no século XVII, mas que nunca havia deixado de ser
lucrativo e exportado em grandes quantidades, passa a contar com um cená-
rio externo mais favorável e com uma recuperação nos preços. Várias colônias
francesas enfrentavam problemas em sua produção, devido aos reflexos da
Revolução Francesa.
O algodão, que era plantado sobretudo no Norte, também foi cultivado
no Nordeste e no Rio de Janeiro, tornando-se a segunda maior cultura de
exportação. Não podemos esquecer que o fumo plantado na Bahia era expor-
tado, principalmente para comércio escravista na África. Além desses, outros

– 37 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

produtos agrícolas de exportação podem ser mencionados, como o cacau,


no Pará, o arroz, no Maranhão, o trigo, no Rio Grande do Sul, e o “apareci-
mento” do café no Rio de Janeiro, que exportou quantidades significativas já
na década de 1790 (BETHELL, 2001, p. 191).
Esse crescimento das exportações brasileiras refletiu positivamente nas
reexportações portuguesas, e Lisboa novamente passou a se mostrar como um
porto dinâmico no fim do século XVIII. No período entre 1791 a 1807, o
comércio português registrou seguidos superávits (BETHELL, 2001, p, 191);
nesse contexto, o açúcar e o algodão brasileiros eram responsáveis por 80%
dos produtos exportados pelas colônias portuguesas e por 60% das reexpor-
tações de Portugal (BETHELL, 2001, p. 191 e 192).
Figura 3 – BATES, Richard. Largo do Paço. 1808. 1 gravura, color. Biblioteca
do Congresso, Washington.

O Paço Imperial,
construído no
século XVIII, servia
como residência
dos governadores e,
posteriormente, dos
vice-reis e do Impe-
rador D. João VI.

Desse modo, podemos observar que a metrópole se tornava dependente


de sua principal colônia, no que afirmamos ser a “inversão colonial”. Em
termos populacionais, o Brasil possuía (excluindo-se os indígenas não admi-
nistrados) cerca de dois milhões de habitantes, mas esse número, devido à dis-
persão da população e às dificuldades de registro, pode ser bem maior. Sendo
assim, pelo potencial econômico, demográfico e territorial de sua colônia,
Portugal passava a ser eclipsado por ela, e já se falava em rever essa relação,
com a transformação do Brasil em Reino Unido e uma possível transferência
da corte para o Rio de Janeiro. Pois, como afirmou Robert Southey, “Um
galho tão pesado, não pode ficar preso por tanto tempo a um tronco podre”
(In: BETHELL, 2001, p. 192).

– 38 –
Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros

Ampliando seus conhecimentos

A costa dos escravos


(ALBUQUERQUE; BRAGA FILHO, 2006)

Antes de os portugueses começarem a comercializar no Golfo


do Benim não havia grandes reinos africanos em regiões flo-
restais. A exuberante floresta tropical dificultava a penetração
comercial nessas terras. O reino do Benim foi uma exceção.
Nos últimos anos do século XV, uma expedição portuguesa
foi à capital do reino e lá se deparou com uma grande cidade
com ruas largas e compridas e muitas casas. Mas, não há dúvi-
das de que a expansão desse reino foi acelerada com a sua
incorporação ao comércio negreiro nos séculos XVI e XVII.
No Benim o controle comercial era do rei que comprava e
vendia sal, peixe seco, noz de cola, couros, tecidos e cobre.
Cientes de que o monopólio sobre o comércio garantia ao
rei do Benim uma considerável força política, os portugue-
ses tentaram convertê-lo ao catolicismo. Era uma forma de
aproximar aquele reino africano do lusitano. Mas, ao rei do
Benim não interessava ter compromissos exclusivamente com
Portugal, já que outros europeus também cobiçavam inte-
grar-se ao esquema comercial do lugar. Franceses, ingleses
e holandeses também lhes propuseram acordos mercantis.
A atitude do rei do Benim deixa claro que os termos desses
acordos comerciais não dependiam apenas da habilidade
dos europeus, também estavam a mercê dos interesses dos
diferentes povos africanos.
Por isso, não se pode entender a prosperidade do tráfico
de escravos sem levar em consideração a combinação de
interesses entre europeus e africanos. É bem verdade que as
nações europeias tentaram manter o controle sobre as regiões

– 39 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

produtoras de escravos, mas o tráfico africano era um negó-


cio complexo e envolvia a participação e cooperação de uma
cadeia extensa de participantes especializados, que incluía
chefes políticos, grandes e pequenos comerciantes africanos.
Há estimativas de que 75 por cento das pessoas vendidas
nas Américas foram vítimas de guerras entre povos africanos.
A avidez por escravos reorganizou de tal maneira o mapa
político africano que alguns reinos experimentaram o apogeu
nos séculos XVII e XVIII graças ao tráfico negreiro. Foi o
caso dos reinos de Daomé, Sadra, Achanti e Oió. Até o
século XVI, Oió era apenas uma cidade-estado iorubana
que tinha na agricultura e na tecelagem as suas principais ati-
vidades. Dedicava-se especialmente à fabricação de tecidos,
os famosos panos-da-costa que viriam a ser tão apreciados
pelos negros na Bahia. Mas as atividades agrícolas e artesanais
perderam importância diante do tráfico. No final do século
XVI, as cidades iorubanas participavam tão ativamente desse
comércio que a região do golfo de Benim passou a ser conhe-
cida como Costa dos Escravos.
Formou-se ali um mercado bastante competitivo. Entre os ven-
dedores de escravos, principalmente os iorubás e daomeanos
competiam pelas mercadorias europeias. Entre os comprado-
res, a concorrência não era menos acirrada. Nos portos da
Costa dos Escravos, ingleses, holandeses, franceses, portu-
gueses e brasileiros abarrotavam os navios de gente destinada
a ser “exportada” para as Américas. De fato, nenhuma grande
nação europeia ficou fora deste que era o negócio internacio-
nal mais rentável da época. Os africanos escravizados, mora-
dores de pequenas aldeias cada vez mais distantes do litoral,
eram vítimas de assaltos e guerras.

– 40 –
Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros

Presas pelo pescoço umas às outras, essas pessoas eram leva-


das para os mercados onde aguardavam os compradores,
às vezes por meses. Eram então trocadas, no século XVIII,
principalmente pelo fumo de rolo produzido na Bahia, pro-
duto muito procurado naquela região e que garantia a primazia
dos brasileiros. Mas o sucesso comercial não impediu que o
reino iorubá corresse risco. Com a expansão do reino vizinho,
o Daomé, vários territórios subordinados a Oió passaram a
ser saqueados e a ter os seus habitantes escravizados. Desse
modo, de implacáveis caçadores de escravos, os iorubás
foram transformados eles mesmos em cativos, principalmente
a partir do final do século XVIII.
O reino do Daomé foi fortemente centralizado e se desenvol-
veu a partir de 1700 com o próprio tráfico atlântico. Como
era imprescindível a um reino tão intimamente dependente
do comércio de escravos, ali se concentrava um poderoso
exército armado de mosquetes, encarregado de ampliar as
fronteiras e capturar escravos, inclusive, no final do século
XVIII, entre as populações sob o domínio do reino de Oió.
O tráfico era tão fundamental para o reino de Daomé que em
1750, 1795 e 1805 foram enviados embaixadores daomeanos
à Bahia com a incumbência de firmar acordos de monopólio
comercial para o envio de cativos. Como veremos no pró-
ximo capítulo, os negócios entre as elites do Daomé e os
proprietários baianos garantiram a regularidade do tráfico de
escravos para o Brasil. Nesta mesma época, os portugueses já
negociavam com os povos da África centro–ocidental, e com
eles estabeleceram vínculos políticos e religiosos mais estreitos
e negócios bem lucrativos [...].

– 41 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Atividades
1. Estudamos neste capítulo aspectos da relação entre Inglaterra e Portu-
gal. Apontamos que essa relação quase sempre pendia favoravelmente
para os interesses britânicos, mesmo num período de protecionismo
como o pombalino. Identifique uma razão comercial e uma razão
militar para que Portugal não conseguisse superar a dependência que
tinha da Inglaterra.

2. Explique a tese de Caio Prado Júnior apresentada como “o sentido da


colonização” e as possíveis críticas que podemos elaborar a ela.

3. A partir do texto A costa dos escravos, de Albuquerque Braga Filho,


podemos afirmar que os europeus controlavam o comércio de escra-
vos e outras mercadorias na costa atlântica? Justifique a sua resposta.

– 42 –
3
Revoltas coloniais:
contextos e propostas
Walfrido S. de Oliveira Jr.

O espírito de rebelião é quase uma segunda natureza


das gentes de Minas. A própria paisagem parece incitar ao
motim [...] Posto que das Minas e seus moradores, bastava
dizer [...] que é habitada de gente intratável, sem domicí-
lio, e ainda que está em contínuo movimento, é menos
inconstante que os seus costumes: os dias nunca ama-
nhecem serenos; o ar é um nublado perpétuo; tudo é frio
naquele país, menos o vício, que está ardendo sempre. Eu,
contudo, reparando com mais atenção na antiga e con-
tinuada sucessão de perturbações que nelas veem, acres-
centarei que a terra parece que evapora tumultos; a água
exala motins; o ouro toca desaforos; destilam liberdades os
ares; vomitam insolências as nuvens; influem desordens os
astros, o clima é tumba da paz e berço da rebelião; a natu-
reza anda inquieta consigo, e amotinada lá por dentro, é
como no inferno. (VARGAS, 2005, p. 62-63)

Que população será essa? Que impressões horríveis foram tra-


çadas no discurso de Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos,
o Conde de Assumar, em 4 de setembro de 1717, no discurso de sua
posse como Governador da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro
(VARGAS, 2005, p. 62).
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Neste capítulo estudaremos as tensões existentes na Colônia, que pode-


riam ser internas ou externas: tensões entre senhores e escravos, entre as elites
locais e entre as elites locais e o poder metropolitano. Analisaremos as razões
que provocaram diferentes revoltas na América portuguesa, além de com-
preender a diferença entre revoltas nativistas e revoltas separatistas.

3.1 Tensões internas: senhores e escravos


Embora não seja o ponto principal a ser abordado neste livro, não pode-
ríamos deixar de analisar as relações entre senhores e escravos, pois estas marca-
ram profundamente toda a sociedade colonial e a sociedade pós-emancipação.
Em termos quantitativos, novos dados foram apresentados quanto ao
tráfico de escravizados entre África e América, dando destaque ao tráfico com
o Brasil. Ao longo dos quase quatro séculos da escravidão, cerca de 5.848.265
africanos foram transportados por navios luso-brasileiros, como podemos
observar na tabela a seguir.
Tabela 1 – Estimativa de africanos escravizados.

País Estados
Espanha Brasil Grã-Bretanha França
Período Unidos
1501-1600 119.962 154.191 1.922 0 66
1601-1700 146.270 1.011.192 428.262 4.151 38.435
1701-1800 10.654 2.213.003 2.545.297 189.304 1.139.013
1801-1900 784.639 2.469.879 283.959 111.871 203.890
Total 1.061.525 5.848.265 3.259.440 305.326 1.381.404
Fonte: VOYAGES, 2017.
As relações entre senhores e escravizados não podem ser tratadas por
somente um ângulo, por uma visão única; ao longo desses séculos, muitas
nuances puderam ser apresentadas, muitas especificidades foram ressaltadas.
Mas uma condição não mudava: a base do sistema escravocrata era a violência,
e sem esta ameaça constante tal sistema não se estabelecia. Vamos abordar essa
violência e, para além dela, as estratégias diárias de acomodação e negociação.

– 44 –
Revoltas coloniais: contextos e propostas

Nesse sentido, usamos o termo tensão, como exemplo de uma relação


posta em xeque, tensionada por situações que não são facilmente aceitas pelos
“de baixo”, pelos escravizados, os quais não conseguem superar coletivamente
essa condição de escravidão e sofrem as consequências de seus atos de resis-
tência. A chibata deixou suas marcas nas costas de milhares de negros, e nas
mentes de outros milhões1.
Segundo o discurso dominante na época da escravidão, os castigos deve-
riam “ser justos”, pois o escravizado teria cometido algum delito (na concep-
ção dominante dessa sociedade) e, por tal, precisava ser punido, assim como
um pai educa seu filho. Esse castigo também deveria ser “moderado”, pois não
se punia o escravizado de qualquer maneira: quando exercido por um senhor,
o castigo deveria ser realizado num tronco e com o uso da chibata, e a quan-
tidade de chibatadas precisaria ser compatível com a falta cometida. Nessa
sociedade havia recomendações sobre essa reciprocidade entre crime e castigo,
as quais eram publicadas em manuais de administração para os senhores.
Também havia a questão de se mostrar a todos os escravizados de um senhor
as razões que levaram à punição daquele indivíduo, para que os outros não
repetissem tal delito, e, caso o fizessem, receberiam o mesmo castigo – este era
o aspecto “pedagógico” da punição. Ressaltamos aqui que a utilização dos ter-
mos justo, moderado e pedagógico são construções da historiografia, mas que
se remetem à formulação ideológica dominante no período da escravidão,
como um discurso para legitimar suas práticas e ser entendido por todos2.
Determinados autores já destacaram a escravidão como um ganho
para o escravizado3, pois as condições africanas seriam piores que o cativeiro
1 As relações étnico-raciais são marcadas no Brasil pelo estigma da escravidão. Nesses séculos
de exclusão a população negra brasileira foi lançada à margem da sociedade, além disso foram
várias as tentativas para que introjetassem uma condição de inferioridade, para que os afrodes-
cendentes não almejassem participar como cidadãos ativos da sociedade. Mas essas tentativas
foram sempre, e continuam sendo, rechaçadas pelos movimentos que lutam pelos direitos dos
descendentes daqueles seres humanos que foram escravizados.
2 Nesse sentido, recomendamos a leitura da obra de Silvia Lara, Campos da violência. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1988.
3 Citamos a obra de José Joaquim de Azeredo Coutinho, Análise sobre a justiça do comércio
do resgate dos escravos da costa da África, de 1808. Disponível em: <http://200.144.255.123/
Imagens/Biblioteca/L/Media/L373.pdf>. Acesso em: 4 abr. 2017.

– 45 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

brasileiro, já se afirmou que a escravidão era “doce”4, tal o açúcar produzido


pelas mãos dos cativos, ou que o escravo assimilava uma condição de objeto
de seu senhor, que ele era uma “coisa”5.
No século XXI, foram consolidadas algumas visões sobre a escravidão,
as quais buscam estabelecer os vínculos entre senhores e escravos, abordando
vários aspectos dessa imbricada relação.
As tensões e a violência, como já afirmamos, estão na base da relação entre
esses dois grupos, visto que senhores e escravos possuem interesses diametral-
mente diferentes. Mas, no cotidiano, esse vínculo pode desenvolver diversos
contornos, pois as relações sociais não são baseadas na revolta constante, e a
construção de parâmetros de convivência seria uma saída para a anomia6.
Ao falarmos em negociação entre senhores e escravos, estamos tratando
da tentativa de se estabelecer parâmetros de convivência, embora saibamos
que, na escravidão, todos os parâmetros são muito limitados para os escravi-
zados. Negociar um momento de lazer, um batuque, uma folga religiosa, um
tempo livre para se fazer uma horta, uma autorização para poder vender os
produtos desta, a autorização para se casar e constituir uma família, a divisão
dos lucros de um escravo de ganho com seu senhor, a posse de bens pessoais
etc. são exemplos dessas relações de negociação.
As profissões exercidas por esses escravizados também eram variadas e, no
meio urbano, perpassavam quase todas as atividades corriqueiras, alcançando,
em raras ocasiões, algumas funções nas quais o domínio da escrita era indis-
pensável. Na figura 1, a pintura de Jean-Baptiste Debret nos informa sobre
aspectos dessa variedade de atividades desenvolvidas por escravos urbanos.
4 Nesse caso, citamos a obra de Gilberto Freyre em 1933, Casa grande e senzala: formação da
família brasileira sob o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global.
5 Mencionamos a obra de Fernando Henrique Cardoso, Capitalismo e escravidão no Brasil
meridional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
6 Nesse caso o termo anomia refere-se à negação de um setor da sociedade em seguir as normas
sociais. Os escravizados, embora não concordassem com o regime da escravidão, não conse-
guiam viver em um estado de constante revolta e, assim, procuravam criar espaços e normas de
convivência com seus senhores e com o restante do corpo social.

– 46 –
Revoltas coloniais: contextos e propostas

Figura 1 – DEBRET, Jean-Baptiste. Coleta de esmolas para irmandades. c.


1820. 1 aquarela sobre papel, color.: 18,7 x 24,2 cm. Museu Castro Maya,
Rio de Janeiro.

Nessa representação
de Debret, um negro
contribui com dinheiro
a um padre (e uma
mão, da janela da casa,
também), enquanto
escravos exercem
profissões remunera-
das para rendimento
de seus senhores: um
acendedor de lampião e
um entregador de água.

Essas negociações foram percebidas, pela historiografia, de dois modos.


Como tentativa dos senhores de exercer um controle mais pacífico dos escra-
vos, para manter a produção sempre em bom ritmo e exigir a contrapartida
do trabalho, ou como um exemplo da resistência dos escravizados, ao exigi-
rem um reconhecimento de sua humanidade e negarem o discurso jurídico
da coisificação.
Fato é que a tensão permeava toda a sociedade escravocrata, pois em
várias regiões o número de escravizados era superior ao de homens livres. A
parcela livre e branca dessa sociedade se organizava para combater as possí-
veis revoltas. Efetivamente, uma revolta escrava de grandes proporções nunca
ocorreu, já movimentos mais regionalizados levaram ao surgimento de qui-
lombos (o termo poderia ser mocambos, segundo alguns autores7), símbolo
maior da resistência, mas que, ao se constituírem nas terras da própria colô-
nia, mostravam os limites dessas revoltas.
7 Como podemos verificar em notícia da Agência Fapesp, História de Palmares ganha nova
cronologia com análise de fontes originais, disponível em: <http://agencia.fapesp.br/historia_de_
palmares_ganha_nova_cronologia_com_analise_de_fontes_originais/17644/>. Acesso em: 10
fev. 2017.

– 47 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Ao analisarmos a situação dos escravizados na sociedade colonial, perce-


bemos uma unidade de interesses entre os plantadores, mineradores, comer-
ciantes e homens livre em geral, que desfrutavam das rendas produzidas pela
mão de obra escravizada, e as autoridades portuguesas daquém e dalém mar.
Todos atuavam juntos para manter essa forma de trabalho, usufruindo da
exploração do trabalho desses homens e mulheres destituídos de sua condição
de livres, para quem construíram um discurso de retirada de sua condição de
humanidade, instituindo a sua condição de coisa, de não humano, discurso
esse que esses mesmos homens e mulheres escravizados negaram assimilar
como exemplo de suas próprias vidas.
A escravidão era a tensão mais forte e mais presente em toda a sociedade
colonial, mas não foi ela que levou à ruptura da condição de colônia. Vejamos
outras possibilidades.

3.2 Diferenças de interesses entre


a metrópole e as elites locais
Durante o período colonial o Brasil foi dominado, externamente, pela
portuguesa; internamente, por uma burguesia mercantil e patriarcal
que teve seu momento de glória em meados do século XVII, com o
ciclo do açúcar em Pernambuco e na Bahia. O simples fato de que o
auge colonial ocorreu mais de 150 anos antes do final do domínio
português, nos dá ideia do fracasso das elites coloniais e locais em
promover o desenvolvimento do país. (PEREIRA, 2000, p. 236-237)

Essa afirmação de Pereira nos dá uma ideia da dificuldade que foi a for-
mação de uma elite colonial, com um projeto próprio de desenvolvimento,
pois, em grande medida, as ações da elite se davam dos portos para fora da
colônia, muitas vezes numa relação de dependência.
A organização administrativa da colônia obedecia à lógica da portuguesa
em preservar seus interesses. Além da indicação do governador geral, também
se elaboraram estratégias que pudessem garantir influência nas esferas locais
de poder. Na administração das vilas e cidades, foram instituídas as câmaras
municipais, que deveriam tanto tratar dos temas locais quanto representar os
interesses da Coroa. As elites locais exerciam o poder político nessas câmaras,
e, para participar delas, na colônia foi adotada a definição peninsular “dos

– 48 –
Revoltas coloniais: contextos e propostas

homens bons”. Como não havia naquele período a atual ideia de democracia,
existia claramente a necessidade de se estabelecer quem poderia participar
delas e quem não poderia exercer esses cargos. Em Portugal, esse problema
era solucionado pela existência de uma nobreza, que monopolizava quase
todos os cargos, mas, na colônia, com a inexistência dessa classe, deveriam ser
estabelecidos critérios de participação e exclusão.
Assim, o critério principal foi a denominação de “homem bom”, que
seria o indivíduo maior de 25 anos, casado, católico, contra o qual não pesas-
sem denúncias de impureza de sangue e, é claro, que fosse proprietário de ter-
ras. No entanto, esses critérios eram elásticos na colônia, pois, devido à falta
de uma elite de berço, reconhecida pela tradição familiar, a Coroa deveria se
apoiar nos poderes locais. A condição de cristão novo, ou, posteriormente, de
mulato, nem sempre era um impeditivo para se chegar à câmara.
Outra situação que podemos afirmar é a relativa autonomia de que
gozavam essas câmaras, ou por serem importantes economicamente, ou por
representarem comunidades muito isoladas. As câmaras deviam arrecadar os
impostos destinados à Coroa e arcar com diversas despesas locais, mas, por
outro lado, criavam impostos sem a autorização do reino, numa demonstra-
ção de certa autonomia.
Para tentar controlar essa autonomia local, a Coroa indicava o juiz de
fora, que tinha como função verificar o cumprimento das medidas reais e
inibir as iniciativas locais. Esse funcionário deveria manter isenção em rela-
ção às disputas locais, no sentido de promover uma justiça com imparcia-
lidade, mas as suas ações pendiam mais para os interesses da Coroa do que
para os locais.
As relações entre o poder local e a Coroa ficariam ainda mais tensas, che-
gando ao conflito aberto. Uma dessas revoltas ocorreu no Maranhão, onde
funcionava a Companhia do Comércio do Maranhão (1682), que monopo-
lizava o fornecimento de escravos africanos e outros produtos importados e
deveria levar para Portugal produtos da região. Os produtores locais reclama-
vam muito dos preços praticados pela Companhia, e outro motivo de queixa
era a ação dos jesuítas na região, os quais, ao aldearem os indígenas, coibiam
a sua escravização.

– 49 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Percebemos, assim, uma elite local contrariada em seus interesses, a qual


se organiza para tentar modificar a situação. Em 1684, cerca de 80 homens,
sob o comando dos irmãos Manuel e Tomás Beckman, invadiram os arma-
zéns da Companhia de Comércio. Entre as reivindicações do grupo, desta-
cam-se: a deposição do Capitão-mor; a deposição do Governador; a abolição
do monopólio; a extinção da Companhia; e a expulsão dos jesuítas. Notamos
que as reivindicações não são pela autonomia da região, ou seja, o domínio
português não foi posto em questão. Mas esses leais súditos da Coroa não
tiveram o perdão do rei. Em 2 de novembro de 1685, Manuel Beckman e
Jorge Sampaio foram enforcados.
Outra revolta foi a Guerra dos Mascates (1810), que envolveu outra
situação de tensão, a existente entre os senhores de engenho e os comercian-
tes. Na sociedade colonial, o senhor de engenho era uma figura respeitada,
um senhor de terras e de homens, bem ao estilo da sociedade senhorial e
nobiliária portuguesa. Quase ao estilo medieval, esses senhores possuíam mais
poder do que dinheiro; toda a sua produção de açúcar era comprada já nos
portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro por comerciantes – estes sim,
detendo o capital, ligavam o comércio escravista colonial aos circuitos do
mercantilismo europeu.
Os comerciantes costumavam adiantar o dinheiro da compra da safra de
cana para os donos de engenho, fazendo com que esses senhores contraíssem
dívidas e mantivessem uma relação de dependência com eles.
No caso da Bahia, na cidade de Olinda, que era a sede da Capitania,
viviam os senhores, e na cidade do Recife moravam os comerciantes. Mas
estes últimos conseguiram da Coroa a Carta Régia para a transformação de
Recife em vila, e assim ter sua câmara e seu pelourinho. Esse foi o estopim
do conflito da Guerra dos Mascates, que possui raízes mais profundas na
decadência do preço do açúcar e na dependência econômica do fazendeiro
em relação ao comerciante. A Coroa, embora respeitasse os donos de enge-
nho, tinha muito mais interesse nas relações com os comerciantes, já que o
dinheiro dos impostos sobre o comércio sustentava o erário luso.

– 50 –
Revoltas coloniais: contextos e propostas

Figura 2 – POST, Frans. Paisagem com plantação c. 1660. 1 óleo sobre tela,
color.: 71,5 x 91,5 cm. Museu Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.

Após pegarem em armas e proferirem ataques e contra-ataques, as con-


tendas foram interrompidas com a chegada de tropas portuguesas sediadas na
Bahia. Os fazendeiros tiveram de aceitar a elevação de Recife à condição de
vila, o que fortaleceu o poder dos comerciantes.
Observamos que essa sedição também não teve caráter separatista, mas
queria resolver as tensões dentro do sistema colonial. Além disso, podemos
notar que havia a predominância social do senhor de engenho na estrutura
interna daquela sociedade, mas o poder econômico dos comerciantes (depre-
ciados pelos fazendeiros com a alcunha de mascates) estava se intensificando e
impondo sua agenda política.
No que diz respeito às possibilidades de relação entre o poder central e
as lideranças coloniais, é fato que a Coroa portuguesa necessitava das elites
locais para o exercício da administração, mas não podia admitir uma plena
autonomia delas. Por seu lado, essas elites desejavam exercer mais plena-
mente o poder, mas não conseguiam viver sem a presença da Coroa, devido
ao isolamento da colônia, ainda pouco povoada e distante dos principais
centros do comércio.

– 51 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Ao fim do século XVIII, porém, essa conjuntura estava se alterando. Já


havia um desenvolvimento na colônia, com circuitos internos de comércio
e crescimento populacional. Também os ideais iluministas circulavam nos
modestos salões locais, atraindo jovens, geralmente ricos, que haviam estu-
dado em Coimbra e conheciam o ambiente cultural europeu.
Dos questionamentos dos poderes locais, passou-se ao questionamento
da dominação colonial. Mas esses movimentos não foram homogêneos, pois
não defendiam o mesmo projeto para a sociedade. Vamos analisar melhor
esse quadro.

3.3 Revoltas separatistas


Ao analisar a conjuntura do fim do século XVIII, podemos perceber
várias transformações, tanto no cenário internacional quanto no cenário colo-
nial. A colônia se desenvolvera em vários aspectos, entre eles o demográfico,
afetando cidades como Salvador e Rio de Janeiro, que já ultrapassavam os 50
mil habitantes, dentre os quais 50% eram negros, vários deles forros ou livres.
Em geral, nesses ambientes urbanos circulavam os livros proibidos fran-
ceses e ingleses no original e com algumas traduções. As ideias iluministas
eram debatidas em salões clandestinos. A palavra liberdade circulava, tanto
como crítica à tirania política do rei quanto em relação às práticas liberais
de comércio8.
Nas cidades, a tensão entre o poder central e o poder local se acen-
tuava: os “homens bons” desejavam uma maior autonomia, enquanto os
representantes metropolitanos queriam manter os interesses da Coroa. A
questão da cobrança de impostos era sempre motivo para divergências. Mas
também havia uma tarefa em comum para os reinóis e homens bons: o
controle sobre a disciplina dos escravizados e dos homens livres e pobres,
que em número cresciam e se apropriavam das ideias liberais e iluministas
que circulavam na colônia, traduzindo para os seus interesses os conceitos
de liberdade e igualdade.
8 O sentido de liberal é o da defesa do livre comércio, em oposição ao mercantilismo, cuja
característica era o controle das atividades comerciais pelos monarcas absolutistas.

– 52 –
Revoltas coloniais: contextos e propostas

O fim do século XVIII representou um período de certa prosperidade,


mas esta não se refletia em todo o corpo social. Na Região das Minas (hoje
Minas Gerais), a decadência da mineração era evidente, e a prosperidade se
dava no setor da produção voltada para o abastecimento interno e para a
classe de comerciantes, que fazia circular tal produção e trazia os produtos
europeus à colônia.
Na região litorânea, os senhores de engenho ganharam com a melhora
nos preços internacionais do açúcar e ampliaram a produção. Também nessas
localidades os comerciantes ampliaram seus lucros e vendas para o mercado
externo e interno.
A população urbana enfrentou um período de aumento dos preços, pois
as fazendas de cana ampliaram a área plantada e deixaram de lado os espaços
da lavoura de subsistência, e mesmo a mão de obra escravizada tinha menos
tempo livre para produzir suas hortas. Todo um mercado de produção local
de alimentos foi afetado, e assim os produtos deveriam vir de mais longe e
eram mais caros. Nesse contexto, abordaremos a seguir a Conjuração Mineira,
de 1789, e a Revolta dos Alfaiates (também conhecida como Revolta dos
Búzios), de 1798.
Na Região das Minas, para além da decadência da mineração, podemos
destacar o impasse com relação à cobrança de impostos. A elite local controlava
boa parte dos cargos destinados a estabelecer o controle sobre essa cobrança,
dividida entre os impostos de Entrada9 e o Quinto10 do ouro. Em 1751, ins-
titui-se a Derrama, que visava cobrar a diferença entre o imposto do Quinto
arrecadado e as 100 arrobas estipuladas, mas isso só foi exercido em 1765.
Esses impostos afetavam diretamente a elite econômica local, tanto a
que se dedicava à mineração quanto os donos das fazendas de criação e pro-
dução de alimentos. Aliás, um típico plutocrata mineiro estava ligado a todas
essas frentes: era minerador, fazendeiro e contratante.

9 O Imposto de Direito de Entrada servia como tributo alfandegário nas rotas que ligavam
as minas aos portos do Rio de Janeiro e Salvador. O direito de cobrar esse imposto e instalar
uma alfândega foi leiloado pela Coroa; em troca, o contratante deveria dar uma quota por ano
ou triênio.
10 Imposto comum sobre a cobrança de metais preciosos; a Coroa dava permissão para a mi-
neração, mediante a cobrança da quinta parte do minério extraído.

– 53 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Um fator que desencadeou a insatisfação geral dessa elite, segundo


Kenneth Maxwell,
[...] acima de tudo, foi a chegada do Governador e Visconde de
Barbacena em 1788 com instruções detalhadas de Martinho de Melo
e Castro para implementar uma raiz e um ramo da reforma de todo o
sistema tributário de Minas. Em julho de 1788, Barbacena convocou
a Junta da Fazenda Mineira, transmitiu a reprimenda de Lisboa, insis-
tiu na imposição da derrama e anulou todos os contratos. As pala-
vras do novo governador caíram como uma bomba. O atraso com a
Fazenda Real na quota de 100 arrobas anuais chegava ao montante
de 538 arrobas11 de ouro, ou seja, três bilhões e meio de réis. As dívi-
das nos contratos de dízimos e entradas representavam dois bilhões e
meio de réis. (MAXWELL, 1989, p. 16-17)

Essas medidas eram uma declaração de conflito contra esse poderoso


grupo, que mantinha uma relativa autonomia administrativa na região, fazen-
do-os sangrar em bens e em poder. A reação não tardou; destacadamente em
Vila Rica, um grupo reunira-se na casa de Claudio Manoel da Costa:
Entre os visitantes mais regulares do poeta, nos anos do decênio de
1780, contava-se Tomás Antonio Gonzaga, também poeta e o ouvi-
dor de Vila Rica. Tomás Antônio Gonzaga, nascido no Porto, cresceu
no Brasil onde frequentou o Colégio dos Jesuítas da Bahia. Os dois
eram o centro de um grupo que contava com o intendente de Vila
Rica, Francisco Bandeira, o contratante João Rodrigues de Macedo,
o ex-ouvidor de São João d’El Rei, Alvarenga Peixoto, e dois padres
— Carlos Correia, vigário da rica paróquia de São José do Rio das
Mortes, e o cônego Luis Vieira da Silva, da catedral de Mariana.
(MAXWELL, 1989, p. 13)

Dessas reuniões, e de outras, um plano de sedição à Coroa foi formulado


e, segundo Maxwell (1989), ocorreu da seguinte forma:
Os detalhes da proposta revolução mineira foram decididos no fim
de 10 de dezembro de 1788: envolvidos na conspiração estiveram o
tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante
do regimento da cavalaria de Minas, os famosos Dragões, o dr. José
Alvares Maciel, filho do capitão-mor de Vila Rica, o padre José da
Silva de Oliveira Rolim, filho do principal administrador do Distrito
Diamantino, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, Carlos Correia,
vigário de São José, e o ex-ouvidor e coronel de milícias Alvarenga
Peixoto. Os seis reuniram-se para formalizar os planos de um levante

11 Cerca de oito mil quilos.

– 54 –
Revoltas coloniais: contextos e propostas

armado contra a Coroa portuguesa. Eram todos nascidos no Brasil e


representavam diferentes zonas da capitania. E todos eram agentes da
revolução em andamento. (MAXWELL, 1989, p. 17)

Das propostas que ficaram registradas nos autos da devassa, podemos


registrar: a criação de manufaturas e de uma fábrica de pólvora; a alforria
aos escravos e mulatos nascidos no país; a fundação de uma universidade
em Vila Rica; a separação entre Igreja e Estado; o estímulo ao crescimento
populacional; a milícia de cidadãos, em vez de um exército permanente; e
um parlamento em cada cidade, subordinado a um parlamento principal da
capital (MAXWELL, 1989, p. 21).
Esse movimento, no entanto, fracassou, devido à delação de Joaquim
Silvério dos Reis, que, em troca do perdão de suas dívidas, divulgou aos repre-
sentantes da Coroa os planos dos revoltosos. A Derrama estava marcada para
fevereiro de 1789, mas foi suspensa, e as tropas leais à Coroa começaram a
prender os suspeitos. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi preso no
Rio de Janeiro em 10 de maio de 1789.
Assim, percebemos que essa foi uma revolta contra o domínio português
liderada pela elite econômica da região, que se viu aviltada com a dupla pena-
lização da cobrança de impostos e a perda da influência política, resultante de
uma evidente falta de habilidade das autoridades metropolitanas.
Outro movimento pela emancipação em relação a Portugal foi a Revolta
dos Alfaiates, ou Revolta dos Búzios, na Bahia. Na cidade de Salvador, em
1798, num domingo de 12 de agosto, os moradores locais se depararam com
panfletos, redigidos com erros de concordância e gramática, mas que tinham
mensagens claras contra a opressão da Coroa e citavam o exemplo francês:
[...] as naçoens do mundo todas tem seus olhos fixos na França, a
liberdade he agradável para todos: he tempo pôvo, povo o tempo he
xegado para vos defendereis a vossa liberdade; o dia da nossa revolu-
ção da nossa liberdade e da nossa felicidade está para xegar, animai-
-vos que sereis feliz para sempre. (MATTOSO, 1969, p. 149)

Para os interesses coloniais, a citação da França e seu exemplo não agra-


davam em nada os representantes da Coroa, e, para as elites locais, a citação
da palavra escravidão também provocava calafrios. Esses panfletos ficaram
conhecidos como os “boletins sediciosos” (TEIXEIRA, 2013, p. 3).

– 55 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Os sediciosos marcaram uma reunião, secreta, que contou, entre outros


50 participantes, com a presença de três homens que delataram às autorida-
des os participantes, os líderes e as intenções. A partir das investigações, 48
suspeitos foram presos e processados.
Quatro deles foram condenados à morte por enforcamento e exe-
cutados na Praça da Piedade, localizada bem no centro da Cidade
do Salvador.
02 Soldados
- Lucas Dantas de Amorim Torres;
- Luís Gonzaga das Virgens.
02 Alfaiates
- Manuel Faustino Santos Lira (aprendiz);
- João de Deus do Nascimento (mestre). (TEIXEIRA, 2013, p. 8)

É importante notar que, entre os suspeitos,


analisando as condições dos 48 acusados frente às das testemunhas,
verifica-se que prevalece o grande descompasso no que tange à situa-
ção civil e de cor, considerando que aqueles que testemunharam for-
mavam uma população quase total de brancos e livres, enquanto os
acusados eram negros ou afrodescendentes. (TEIXEIRA, 2013, p. 13)

A execução dos condenados à morte se deu no dia 8 de novembro de


1899. Para finalizar, reproduzimos a seguir um trecho da sentença do juiz,
indicando as razões para a condenação e execução dos acusados, o que nos faz
refletir sobre aspectos da atualidade brasileira.
E, pela dedução dos fatos descritos e suas convincentes provas, o
que tudo visto, e mais dos autos, condenam os réus Luiz Gonzaga
das Virgens, pardo, livre soldado, solteiro, 36 anos; Lucas Dantas
de Amorim Torres, pardo, liberto, solteiro, 24 anos; João de Deus
Nascimento, pardo, livre, casado, alfaiate, 27 anos; Manoel Faustino
dos Santos Lira, pardo, forro, alfaiate, 22 anos [...] a que com baraço
e pregão, pelas ruas desta cidade, sejam levados a Praça da Piedade,
por ser também uma das mais públicas dela, onde, na forca, que, para
este suplício se levantará mais alta do que a ordinária, morram morte
natural para sempre, depois do que lhes serão separadas as cabeças
e os corpos, pelo levante projeto, pelos ditos réus, chefes, a fim
de reduzirem o continente do Brasil a um Governo Democrático.
(grifo nosso). (ANNAES... 1922/23)

– 56 –
Revoltas coloniais: contextos e propostas

Percebemos, por essa sentença recebida pelos condenados na época, que


a ação de tornar a Colônia um país democrático foi considerada um crime.
O profissional que trabalha com o ensino da História não pode perder de
vista as lutas do povo brasileiro para a construção de uma nação democrática,
baseada no Estado de Direito, e os esforços que cada geração deve fazer para
sua manutenção.

Ampliando seus conhecimentos

Transcrição paleográfica
(MATTOSO, 1969, p. 149)

3º dos 10 Avisos, e/ou Boletins Sediciosos afixados, em


vários locais da cidade do Salvador, no dia 12 de agosto de
1798 que originou o movimento conhecido como Revolta
dos Alfaiates/ Conjuração Baiana/ Revolta dos Búzios.
O vos Homens Cidadaons, ovos Povos curvados e abando-
nados pelo Rei, pelos seus despotismos pelos seus ministros
[...]
O vos Povo que nascesteis para sereis livres e para gozareis
dos bons efeitos da Liberdade, o vos Povos que viveis flage-
lados com o pleno poder do Indigno Coroado esse mesmo
rei que vos creasteis; esse mesmo rei tirano he quem se firma
no trono para vos veixar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo he xegado para a vossa ressureição; sim
para ressussitareis do abismo da escravidão para levantareis a
sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado felis, no estado livre do aba-
timento: a Liberdade he a doçura da vida, o descanço do
homem com igual paralelo de huns para outros, finalmente a
liberdade he o repouso e bem aventurança do mundo.

– 57 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe


dobrou o juelho, Castela so aspira a sua aliança, Roma ja
vive aneixa, o Pontifice já está abandonado, e desterrado; o
rei da Prucia está prezo pelo seu próprio povo; as naçoens
do mundo todas tem seus olhos fixos na França, a liberdade
he agradável para todos: he tempo pôvo, povo o tempo he
xegado para vos defendereis a vossa liberdade; o dia da nossa
revolução da nossa liberdade e da nossa felicidade está para
xegar, animai-vos que sereis feliz para sempre.

Atividades
1. Elabore um comentário sobre as tensões presentes na relação entre se-
nhores e escravos e as possibilidades de convivência possível entre ambos.

2. Por que podemos afirmar que a Revolta dos Beckman e a Guerra dos
Mascates foram movimentos nativistas, e não separatistas?

3. Diferencie, em relação a suas composições sociais e motivações, a


Conjuração Mineira da Revolta dos Búzios.

– 58 –
4
Napoleão e a expansão
do Iluminismo
Walfrido S. de Oliveira Jr.

Sobreviventes formais de uma era anterior, tais como o


Sagrado Império Romano e a maioria das cidades-Estados
e cidades-impérios, desapareceram. [...] as antigas repú-
blicas de Génova e Veneza desapareceram em 1797 e, ao
final da guerra, as cidades alemãs livres tinham sido redu-
zidas a quatro. [...] Fora da Europa, é claro, as mudanças
territoriais das guerras foram consequência da total ane-
xação britânica das colónias de outros povos/assim como
dos movimentos de libertação colonial inspirados pela
Revolução Francesa (p. ex. em São Domingos) ou que se
tornaram possíveis ou impostos pela separação temporária
das colónias de suas metrópoles (como na América espa-
nhola e portuguesa). [...] o feudalismo foi formalmente
abolido, os códigos legais franceses foram aplicados e
assim por diante. [...]. Uma vez oficialmente abolido, o
feudalismo não mais se restabeleceu em parte alguma.
(HOBSBAWM, 1982, p. 107-108)

Neste capítulo, vamos abordar as alterações na conjuntura


europeia a partir da Revolução Francesa, com ênfase no período
Napoleônico, e os reflexos dessas nos movimentos emancipa-
cionistas. Em particular, daremos destaque às emancipações da
América espanhola.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

4.1 O papel de Napoleão na


Revolução Francesa
Quando a Revolução Francesa teve início, em 1789, os olhos do mundo
ocidental voltaram-se para o entendimento dessa experiência. Quando o
rei Luís XVI foi executado, em 1793, ninguém tinha mais dúvidas sobre os
rumos desse movimento. Os liberais, em vários reinos europeus, apoiavam a
Revolução, e nas colônias também eram lidos e debatidos esses ideais.
Quando Napoleão assume o governo da Revolução, em 1899, após o
golpe conhecido como 18 de Brumário1, a Revolução Francesa tende a se
encerrar no território francês, e seus ideais, a se expandirem pela Europa,
devido às guerras napoleônicas. Vários intelectuais saudavam a entrada das
tropas napoleônicas em seus reinos, na esperança de que junto viessem os
ideais iluministas.
Napoleão foi responsável por uma renovação nas táticas militares e tam-
bém na convocação dos soldados – as convocações maciças (levée en masse2)
modernas. Com as guerras revolucionárias, os jacobinos conseguiram man-
ter viva a Revolução contra as coligações estrangeiras. As vitórias do general
Napoleão o credenciaram a assumir o consulado e, posteriormente, permiti-
ram a sua autocoroação como imperador. Militarmente, lutou mais de sessenta
batalhas e perdeu poucas, principalmente no período final de seu governo.
Hobsbawm nos esclarece:
A relativa monotonia do sucesso francês torna desnecessário discutir as
operações militares de guerra terrestre com grandes detalhes. Em 1793-4,
os franceses preservaram a Revolução. Em 1794-5, ocuparam os Países
Baixos, a Renânia, partes da Espanha, Suíça e Savoia (e Ligúria). Em
1796, a celebrada campanha italiana de Napoleão deu-lhes toda a Itália
e quebrou a primeira coalizão contra a França. [...] Daí em diante a
supremacia francesa nas regiões conquistadas ou controladas em
1794-8 permaneceu inquestionável. (HOBSBAWM, 1982, p. 104)

1 Após a Revolução, o Comitê de Salvação Pública adotou um novo calendário, e o mês de


novembro passou a ser designado como Brumário. Esse calendário foi instituído em 1792 e
abolido em 1805.
2 Termo empregado por Hobsbawm (1982) no capítulo “A Revolução Francesa”, de sua obra
A era das revoluções.

– 60 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

Essas batalhas não representavam somente a vitória militar, mas tam-


bém a expansão da base ideológica iluminista e liberal pela Europa. Os pri-
vilégios de nascimento, o absolutismo e o clero estavam sendo questionados
por todo o continente europeu. Devemos lembrar que todos os importantes
estados europeus eram monárquicos e de base social feudal, com exceção
da Inglaterra3.
Napoleão sofreu um terrível revés na sua campanha da Rússia. Devido
à dificuldade de invadir a Inglaterra após sua derrota na Batalha de Trafalgar,
em 1805, o imperador francês tentou bloquear o comércio com a Inglaterra
em todo o continente. O czar russo desobedeceu a essa ordem de bloqueio, e
Napoleão enviou um exército de mais de 500 mil soldados, que dominaram
Moscou. Mas, segundo Hobsbawm,
[...] o czar não estabeleceu a paz, e Napoleão se viu diante da opção
entre uma guerra interminável, sem perspectiva clara de vitória, ou a
retirada. Ambas eram igualmente desastrosas. Os métodos do exército
francês, como vimos, implicavam rápidas campanhas em áreas sufi-
cientemente ricas e densamente povoadas para que ele pudesse retirar
sua manutenção da terra. Mas o que funcionou na Lombardia e na
Renânia, onde estes processos tinham sido desenvolvidos pela pri-
meira vez, e ainda era viável na Europa Central, fracassou totalmente
nos amplos, pobres e vazios espaços da Polônia e da Rússia. Napoleão
foi derrotado não tanto pelo inverno russo quanto por seu fracasso em
manter o Grande Exército com um suprimento adequado. A retirada
de Moscou destruiu o Exército. De 610 mil homens que tinham,
num ou noutro momento, atravessado a fronteira russa, 100 mil
retornaram aproximadamente. (HOBSBAWM, 1982, p. 105)

Apesar das derrotas sofridas por Napoleão em 1814 e 1815, e todo o pro-
cesso de restauração desenvolvido pela Santa Aliança4, a semente do liberalismo
já havia germinado no continente europeu e fora dele. A sociedade anterior à
Revolução Francesa efetivamente já podia ser chamada de Antigo Regime, pois
uma nova concepção de sociedade, economia, ciência, política e direitos indi-
viduais efetivamente saía do mundo das ideias e se materializava na sociedade.

3 Na Inglaterra o rei João foi obrigado a assinar um documento de 1215 que limitou o poder
dos monarcas ingleses, conhecido como Carta Magna.
4 A discussão da paz após o período napoleônico gerou uma aliança entre os países vencedores,
denominada Santa Aliança. O termo santa já traz seu caráter conservador. Compunha a aliança
o Império Austríaco, o Império Russo e o Reino da Prússia.

– 61 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Figura 1 – MEISSONIER, Jean Louis Ernest. Friedland. 1875. 1 óleo sobre


tela; color.: 135,9 x 242,6 cm. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.

Esta obra constrói uma


representação da vitória
de Napoleão na Batalha
de Friedland, de 1807,
e inspirou o pintor bra-
sileiro Pedro Américo a
produzir a sua repre-
sentação sobre a Inde-
pendência do Brasil, no
quadro Independência
ou Morte, de 18885.
5

O impacto dessas transformações afeta as nossas vidas na atualidade,


pois os conceitos de democracia, direitos humanos, liberalismo e o desenvol-
vimento científico são tributários diretos desse período. Embora, no campo
da política e direitos individuais, essas conquistas não foram desfrutadas pelo
conjunto das sociedades europeias logo no início do século XIX, suas ideias
foram incorporadas ao imaginário popular e se transformaram em bandeiras
de luta, ao longo dos séculos XIX e XX. Vivendo o início do século XXI,
temos o dever de preservar e ampliar essas conquistas.
Desse modo, as ações de Napoleão não foram sentidas apenas no con-
tinente europeu. Do outro lado do Atlântico, as colônias ibéricas também
foram diretamente afetadas pelas investidas das guerras napoleônicas.

5 Sobre esse aspecto da crítica de arte, podemos sugerir as obras de E. H. Gombrich, e seu
conceito de schemata, entendido como a chancela (aprovação) que os mestres e os críticos dão
às novas obras dos jovens artistas. Não se trata de plágio, mas do conceito de homenagem,
muito utilizado no século XIX, ainda mais se tratando de uma pintura oficial, encomendada
por D. Pedro II para enaltecer a figura do pai como o “herói” da independência do Brasil.
Estas representações encomendadas deveriam impressionar pelo tamanho da obra e por sua
dramaticidade, colocando o herói no centro das ações.

– 62 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

4.2 A invasão napoleônica na Península Ibérica


Os espanhóis e portugueses se envolveram nas campanhas contra a
Revolução Francesa desde a primeira coligação contra a Revolução e a execu-
ção do casal real francês. Nesse episódio, o reino espanhol declarou guerra à
França, e tropas espanholas, com a participação de tropas portuguesas, atra-
vessaram os Pirineus e dominaram Toulon em 1793. Rapidamente as tro-
pas francesas estabeleceram um contragolpe e não só desalojaram os invaso-
res como também transpuseram os Pirineus e dominaram vilas espanholas.
Dessa campanha foi assinado um tratado de paz entre Espanha e França, em
que a primeira reconhecia a república francesa e se mantinha atrelada aos
interesses desta.
No entanto, devido à política napoleônica de isolamento comercial da
Inglaterra, conhecida como Bloqueio Continental ou Sistema Continental, a
Coroa portuguesa se viu numa difícil situação, haja vista seus acordos com a
Inglaterra. Nesse sentido, Napoleão instigava a Coroa espanhola a invadir e
anexar o reino luso.
Carlos IV era o rei da Espanha, mas sua imagem já estava desgastada
em seu reino, e por isso aceitou a oferta francesa de pilhagem e anexação de
Portugal. O general Junot, com aproximadamente 25.000 homens, iniciou
a travessia da França para a Espanha no dia 18 de outubro de 1807. Tropas
espanholas encontraram essa expedição em Alcântara, na fronteira com
Portugal. Embora não houvesse resistência militar portuguesa, as condições
do caminho e do clima dificultaram o avanço da coligação. Com aproximada-
mente 1.550 soldados, Junot entrou em Lisboa em 30 de novembro.
Nesse momento a corte portuguesa, com o auxílio inglês, já havia
embarcado para o Rio de Janeiro, transferindo a sede do governo e da Coroa
para sua principal colônia.
Após esse ato em conjunto, Napoleão avaliou que a simples aliança com
o rei Carlos IV já não convinha, e assim se preparou para invadir o reino
aliado. A presença do exército francês excedia os 60 mil soldados em território
ibérico, e sua mobilização já em território espanhol seria prenúncio de uma
fácil vitória.

– 63 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

A falta de coesão interna também favorecia essa invasão. Alguns setores


importantes da sociedade e da economia espanhola desdenhavam a presença
de Carlos IV e seu ministro Godoy6, responsáveis por retornar com práticas
anteriores às reformas liberais de seus antecessores.
Havia uma tensão entre o desgastado rei e seu questionado ministro, e
o jovem príncipe Fernando, apoiado por parte da nobreza e burguesia espa-
nhola, desejosa pela continuidade das mudanças liberais bourbônicas. Essa
tensão se definiu com uma revolta palaciana no dia 17 de março de 1808
(o palácio de Aranjuez, nos arredores de Madri), a qual exigiu a renúncia de
Godoy e a abdicação de Carlos IV. Nessa conjuntura, assume o príncipe com
o título de Fernando VII.
Não obstante, em março do mesmo ano, com a justificativa de acalmar
os ânimos internos e manter a paz na região, Napoleão exige a renúncia de
Fernando VII e repassa a Coroa espanhola para seu irmão José Bonaparte,
coroado José I.
A resistência espanhola não se fez esperar; levantes populares sur-
giram em todo o território, mas foram duramente reprimidos pelas
tropas napoleônicas.
Figura 2 – GOYA, Francisco, O três de maio de 1808, ou Os fuzilamentos na
montanha do Príncipe Pio. 1814. 1 óleo sobre tela; color.: 266 x 345 cm.
Museu do Prado, Madri.

Esse quadro de
Goya representa
a repressão do
exército francês e
a resistência civil
espanhola à invasão
napoleônica em
Madri, no dia 3 de
maio de 1808.

6 Manuel Godoy y Álvarez de Faria (Badajoz, 1767 – Paris, 1851).

– 64 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

Com a alteração do cenário ibérico, cujas monarquias foram destituídas


ou se refugiaram na colônia, as relações entre metrópoles e colônias sofreriam
alterações. Com a lealdade em questão, as colônias espanholas não se viam na
obrigação de obedecer ao rei usurpador.
Com a invasão napoleônica, a Inglaterra passou da condição de inimiga
para aliada, e o bloqueio ao porto de Cadiz transformou-se em resistência às
tropas napoleônicas. Essa presença militar inglesa possibilitou a manutenção
da cidade de Sevilha, e seu porto de Cadiz como foco da resistência espanhola
à invasão.
Na cidade de Sevilha foi criada la Junta Suprema Central, ou Junta de
Sevilha, que acumulou os poderes executivo e legislativo (em 1810, passou
a se chamar Consejo de Regencia de España e Indias). Tal conselho mantinha
a resistência espanhola à invasão e tentava administrar o comércio colonial.
Nas colônias, as camadas ricas da população e que não possuíam os
direitos políticos ficaram conhecidas como criollos, os quais mantinham uma
relação de tensão e acomodação com os representantes da Coroa, que eram
enviados diretamente da Espanha para exercer os cargos de administração.
Apesar de serem vistos com desconfiança pelas autoridades peninsulares, os
criollos mantinham uma lealdade à Coroa espanhola e se viam como integran-
tes e súditos dela.
Essa relação entre as colônias e a metrópole deveria ser de complemen-
tariedade, pois da colônia deveriam vir os produtos agrícolas que não podiam
ser cultivados na Europa e também metais preciosos, e em troca a metrópole
deveria enviar os produtos manufaturados. Mas ela nunca se concretizou,
devido à falta de condições da metrópole em manter uma frota mercante
capaz de suprir as necessidades das colônias, além de não conseguir manter
uma produção própria, necessitando importar e revender os bens de consumo
necessários nas colônias. Assim, nações estrangeiras sempre abasteceram as
colônias espanholas, seja pelo comércio legal, seja pelo contrabando.
Essa metrópole, que não conseguia manter sua parte no acordo colonial,
mantinha-se, em grande medida, pela presença da representação da Coroa, a
construção da figura do rei, da corte, da Espanha e seu império ultramarino.
Mesmo na América, um fidalgo se percebia como membro de uma corte
europeia, um súdito da Coroa espanhola. Com a entrada do rei usurpador,

– 65 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

irmão de Napoleão, essa relação foi rompida, a lealdade passou a ser direcio-
nada ao rei preso, e na prática a aspiração por um autogoverno ganhou força.
Vamos observar melhor esse cenário.

4.3 Movimentos pela independência


na América espanhola
A relação entre as colônias espanholas e a sua metrópole era de falta
de complementariedade, isto é, a colônia cumpria uma função de exporta-
dora de metais preciosos, como ouro e, principalmente, a prata das minas de
Potosí, porém a contrapartida metropolitana era muito deficiente.
Pela lógica desse comércio, a Espanha deveria fornecer os produtos fal-
tantes nas colônias, normalmente manufaturados, ou pelo menos que sua
marinha mercante levasse essas mercadorias até elas. A Espanha não con-
seguia nem produzir esses manufaturados, e, quando conseguia, suas con-
dições de transporte terrestre e marítimo não eram suficientes para levar
os produtos. Tal situação abria, obrigatoriamente, a América espanhola a
comerciantes de outras nacionalidades. Portugueses, franceses, holandeses
e, principalmente ingleses transportavam mercadorias com a utilização de
suas embarcações7. Nem produtos agrícolas espanhóis conseguiam chegar a
contento em suas colônias.
Durante o século XVIII, houve, devido à mesma conjuntura vivenciada
em Portugal, um movimento da Coroa em modernizar as relações sociais e
econômicas na Espanha e em suas colônias. E tal como em Portugal, essa onda
iluminista “era eclética na aspiração e pragmática na intenção” (LYNCH,
2001, p. 19), isto é, utilizava diferentes escolas de pensamento. Dentre elas,
destacamos a fisiocracia, para dinamizar as relações de produção no campo, e
o liberalismo, para as relações de comércio interno. Porém, para as colônias,
foram reorganizadas as práticas do mercantilismo, a fim de obter uma explo-
ração mais eficiente dos recursos coloniais.
7 Os portugueses tinham uma querela com a Coroa espanhola, devido à existência da Colônia
de Sacramento, na margem oposta do Rio de la Plata, em relação à cidade de Buenos Aires.
Realizavam o contrabando de escravos africanos pela prata do Potosí, cuja prática minava as re-
lações entre a Espanha e suas colônias, mas a Espanha, por não conseguir manter um constante
fluxo de escravos para suas colônias, fazia “vista grossa” a esse contrabando.

– 66 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

Porém esse sopro de modernização foi freado pela ascensão de Carlos IV,
cujo interesse era fortalecer as relações aristocráticas, dando vários passos atrás
na implementação da ascensão por mérito, e recolocando o direito de nasci-
mento como critério para ocupação dos postos do Estado. O ministro Godoy,
que não era da alta nobreza, mas almejava esta condição e conseguiu, freou as
transformações iluministas, desagradando elites políticas e, principalmente,
econômicas, tanto nas colônias quanto na Espanha.
Na América espanhola, as elites coloniais eram os criollos, que domina-
vam a economia, como proprietários de minas e de terras, e exploravam a
mão de obra indígena, em maior escala, mas também a mão de obra africana,
principalmente nas regiões de plantation8.
As práticas do Iluminismo português apresentaram semelhanças em relação
às práticas do Iluminismo espanhol para as Américas. O aumento do controle
sobre as colônias foi marcante, intensificando a presença do Estado e aprofun-
dando as relações mercantilistas.
A América espanhola era dividida em dois vice-reinos. O da Nova
Espanha, que abrangia principalmente os territórios do atual México, parte
do atual território dos EUA e a América Central, foi criado em 1535 e per-
maneceu até 1821, com o processo de independência. O vice-reino do Peru,
criado em 1542, com sede em Lima, abrangia toda a América do Sul espa-
nhola e passou pelas seguintes transformações administrativas: em 1717, foi
desmembrado o vice-reino de Nova Granada (atualmente Panamá, Equador,
Venezuela e Colômbia), com capital em Bogotá, e, em 1776, foi desmem-
brado o vice-reino do Rio da Prata, com sede em Buenos Aires, abarcando os
atuais territórios da Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai.
Esse processo de descentralização administrativa tinha por objetivo
ampliar a presença da Coroa nos territórios mais distantes ou de maior difi-
culdade de acesso.
Outro ponto implementado foi a substituição dos repartimientos pelas
intendências. Pelos repartimientos, os administradores (corregidores de índios)
enviados pela Coroa não recebiam salários, mas dinamizavam as relações
8 Plantation, nome dado ao sistema de produção agrícola baseado na exploração extensiva de
largas faixas de terra, com mão de obra compulsória, normalmente escrava, e cujo produto se
destinava ao mercado externo.

– 67 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

internas e conseguiam cobrar diretamente dos fazendeiros e comerciantes,


cujo interesse era o de obrigar os aldeamentos indígenas a comprarem exce-
dentes que vinham do comércio externo, ou produzir para este comércio.
Nessa relação, a Coroa economizava nos salários, mas perdia no controle polí-
tico-administrativo, pois os corregidores estavam sempre dependentes das suas
boas relações com a elite local. As intendências emanciparam os indígenas,
numa tentativa de inseri-los no mercado e não serem mais administrados
pelos corregidores.
As comunidades indígenas, por sua vez, nunca vivenciaram a expe-
riência de uma produção voltada para o mercado, pois viviam de maneira
comunitária, com pouca ou nenhuma presença de moeda (ou suas mais
variadas representações, como penas de pássaros ou sementes de cacau, por
exemplo). Passaram, depois da conquista, à tutela dos funcionários corre-
gidores, e culturalmente não estavam preparados para essas novas relações
pautadas pelo mercado.
Os fazendeiros e comerciantes, pelo seu lado, não gostaram dessas
transformações, pois os indígenas estavam presos nas redes de produção nas
haciendas (aqui definidas como grandes fazendas ou latifúndios, que pode-
riam ser privadas ou eclesiásticas) e também participavam do mercado como
compradores de bens vendidos pelos comerciantes.
Outra medida adotada pela reforma bourbônica9, e similar ao que fora
implementado em Portugal, foi a expulsão da Companhia de Jesus em 1767.
Tal medida causou profundas marcas na sociedade, pois boa parcela dos
jesuítas expulsos era nascido no continente europeu e teve que abandonar
seu território, deixando redes familiares, que demonstraram sua insatisfação
em várias ocasiões. Essa expulsão foi percebida, também, como uma opor-
tunidade para os criollos endinheirados, pois tiveram a chance de adquirir as
terras da Companhia.
Na questão do comércio e dos tributos, as reformas bourbônicas refleti-
ram os interesses mercantilistas. O monopólio sobre diversos produtos, entre
eles o sal, as bebidas alcóolicas, a pólvora e o fumo, visavam à garantia anteci-
pada da cobrança desses contratos de monopólio. Já em relação aos impostos,

9 Casa real europeia, de origem francesa, que no século XVIII passa a deter o trono na Espa-
nha, tornando-se a casa real deste país.

– 68 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

o movimento foi diferente. A cobrança dos impostos era feita por contratan-
tes privados, que compravam o direito de cobrá-los; mas isso foi reformulado,
passando os agentes da Coroa a cobrá-lo diretamente – a chamada alcabala,
ou imposto sobre as vendas, que variava de 4 a 6%.
Grande parte das reclamações se davam porque a renda desses impostos
não gerava as mudanças necessárias na infraestrutura colonial, e sim eram
convertidas em espécie e remetidas para a Coroa. “Nos anos favoráveis, a
renda colonial chegou a representar vinte por cento da receita do tesouro
espanhol” (LYNCH, 2001, p. 29).
Com o período de guerras, no fim do século XVIII e início do XIX, e a
aliança com a França, a Coroa espanhola angariou a inimizade da poderosa
Inglaterra, e os conflitos que se seguiram nas guerras napoleônicas fez com
que a Coroa exigisse uma cota de sacrifícios dos criollos, tanto no controle
sobre os impostos, como no pedido direto de doações. Foi exatamente esse
período de guerras que movimentou definitivamente as elites coloniais em
direção à independência. Lynch nos esclarece:
O papel imperial da Espanha e a dependência da América foram sub-
metidos ao seu teste final durante a longa guerra com a Inglaterra,
a partir de 1796. Em abril de 1797, depois de vencer a armada
espanhola no cabo de São Vicente, o almirante Nelson fundeou um
esquadrão britânico ao largo do porto de Cadiz e impôs um bloqueio
total. (LYNCH, 2001, p. 40)

Sem poder contar com o lucrativo comércio colonial e sem receber as


rendas dos impostos coloniais, a combalida economia espanhola estava à
beira de uma nova bancarrota. Do outro lado do Atlântico, não havia outra
possibilidade se não o livre comércio; os portos se abriram aos países neutros,
que inundavam os portos coloniais com produtos britânicos revendidos.
Essa experiência da guerra e a sua consequência no livre comércio, evi-
denciou a incapacidade da metrópole de proteger os interesses coloniais, na
medida em que não conseguia proteger-se dos inimigos externos, ampliando
a experiência de autonomia colonial, embora as autoridades peninsulares ten-
tassem impor a presença e os interesses da Coroa. Os criollos exigiam uma
maior participação na administração, na medida em que mantinham a maio-
ria das rendas com seus impostos. Um fator que mantinha essa elite criolla em

– 69 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

alerta era a possibilidade de conflito com as raças10, ou seja, a ameaça de uma


guerra social amedrontava os criollos a ponto de manterem a sua lealdade com
uma Coroa que pouco lhes atendia.
Entre outras revoltas, a de Tupac Amaro no Peru foi o exemplo mais aca-
bado. Uma revolta comandada por mestiços com boas condições econômicas,
descendentes da família real inca. Tal rebelião tinha por objetivo abolir os
corregidores e as mitas11 ou seja, eram reivindicações dos indígenas, que afeta-
vam diretamente os interesses dos criollos. Nesse ponto havia uma comunhão
dos interesses da elite colonial com a administração peninsular.
Mas quando a ruptura se daria de maneira definitiva, ou seja, quando a
elite colonial tomaria a definitiva ação de ruptura com a metrópole?
A crise definitiva se deu em 1808, com a imposição de José I como rei
da Espanha. Nas colônias, a lealdade à Coroa se partiu, ninguém queria jurar
lealdade ao rei usurpador, e Fernando VII estava preso.
Os cabildos coloniais12 passaram, na teoria, a jurarem fidelidade ao
rei preso, ou à Junta de Sevilha, mas na prática passaram ao autogoverno.
Nesse contexto se destacou o cabildo Abierto de Buenos Aires, que, em
1810, votou pela remoção do vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros e pro-
clamou um autogoverno; porém nesse momento os cabildos não escreveram
nenhuma declaração de independência e continuaram jurando lealdade ao
rei Fernando VII.
Quando se espalhou a notícia de que o cabildo de Buenos Aires havia
deposto o vice-rei e se proclamado governante de todo o vice-reino do Rio da
Prata, muitas cidades (ou melhor, os cabildos dessas cidades) não aceitaram
a decisão, iniciando assim o período de guerra na região, entre os defensores
do cabildo de Buenos Aires e os defensores do vice-rei. Somente em 1816 foi
redigida uma declaração de independência.

10 Entende-se por raça os vários grupos mestiços que, ao longo da colonização, foram se
inserindo no corpo social, até com destaque econômico, mas, por não serem brancos, não
conseguiam ascender aos cargos públicos.
11 Mita: trabalho indígena compulsório nas minas de prata de Potosí.
12 Se na América portuguesa existiam as câmaras, na América espanhola existiam os cabildos
como órgãos da administração municipal. Era o espaço que permitia ao criollo participar das
decisões políticas.

– 70 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

Algumas regiões do vice-reino tinham tanta vontade de se tornar inde-


pendentes da Espanha, quanto de Buenos Aires. A elite paraguaia conseguiu
expulsar os representantes da Coroa e resistir às tropas enviadas de Buenos
Aires, formalizando sua independência em 1811. Da mesma forma, ocorre-
ram movimentos de resistência à unificação com Buenos Aires nas regiões que
formam o Uruguai e a Bolívia. Mesmo a atual região interiorana da Argentina
não teve nenhum entusiasmo em se unir a Buenos Aires; o atual território
da Argentina foi construído ao longo do século XIX, com muitos episódios
militares e negociações econômicas.
De 1810 a 1821, quase toda a América espanhola conquistou sua indepen-
dência, entre idas e vindas, e após uma recolonização com a queda de Napoleão
e o retorno ao trono de Fernando VII, os vice-reinos espanhóis se transformaram
nas nações americanas. Dos quatro vice-reinos surgiram 18 nações emancipadas.
Espelhamos na figura a seguir a construção dessas nações a partir dos
movimentos independentistas iniciados em 1810:
Figura 3 – América espanhola e o surgimento de nações independentes.

Vice-Reino de
Nova Espanha

México Guatemala El Salvador Costa Rica Honduras Nicarágua


1821 1821 1821-1841 1821-1848 1821-1838 1821-1838
13

Cuba República Dominicana


1898 1865
14

13 Guatemala, Honduras, El Salvador, Costa Rica e Nicarágua romperam seus laços com a Es-
panha, em 1821, e formaram a Federação Centro-Americana, que foi se dissolvendo à medida
que as unidades que a formavam saíam da Federação.
14 A República Dominicana, após períodos de autonomia, invasão e recolonização, solidificou
sua independência em 1865. Já Cuba foi o último território a conseguir sua autonomia da
Espanha, em 1898.

– 71 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Vice-Reino
do Peru

Peru Chile
1821 1818

Vice-Reino de
Nova Granada

Venezuela Colômbia Equador


1810-1830 1810-1830 1822-1830
15

Panamá
1903
16

Vice-Reino do
Rio da Prata

Argentina
1810

Uruguai Paraguai Bolívia


1825 1811 1825
17 18

Fonte: Elaborada pelo autor.

15 O processo de independência da região gerou um território denominado Grã-Colômbia,


que foi dissolvido em 1830.
16 O Panamá conseguiu sua independência no contexto da construção do Canal que leva seu
nome, em 1903.
17 O Uruguai conquistou sua independência do Império brasileiro.
18 O atual território boliviano ficava numa área de disputa entre o vice-reino do Peru e o
vice-reino do Rio da Prata.

– 72 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

Ampliando seus conhecimentos

A Era das revoluções: 1789-1848


(HOBSBAWM, 1982, p. 127-128, 161)

[...]
Poucas vezes a incapacidade dos governos em conter o curso
da história foi demonstrada de forma mais decisiva do que na
geração pós-1815. Evitar uma segunda Revolução Francesa, ou
ainda a catástrofe pior de uma revolução europeia generali-
zada tendo como modelo a francesa, foi o objetivo supremo
de todas as potências que tinham gasto mais de 20 anos para
derrotar a primeira; até mesmo dos britânicos, que não simpa-
tizavam com os absolutismos reacionários que se restabelece-
ram em toda a Europa e sabiam muito bem que as reformas
não podiam nem deviam ser evitadas, mas que temiam uma
nova expansão franco-jacobina mais do que qualquer outra
contingência internacional. E, ainda assim, nunca na história da
Europa e poucas vezes em qualquer outro lugar, o revolucio-
narismo foi tão endêmico, tão geral, tão capaz de se espalhar
por propaganda deliberada como por contágio espontâneo.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo oci-
dental entre 1815 e 1848. (A Ásia e a África permaneciam
até então imunes: as primeiras revoluções em grande escala na
Ásia, o “Motim Indiano” e a “Rebelião Taiping”, só ocorre-
ram na década de 1850.) A primeira ocorreu em 1820-4. Na
Europa, ela ficou limitada principalmente ao Mediterrâneo,
com a Espanha (1820), Nápoles (1820) e a Grécia (1821)
como seus epicentros. Fora a grega, todas essas insurreições
foram sufocadas. A Revolução Espanhola reviveu o movi-
mento de libertação na América Latina, que tinha sido der-
rotado após um esforço inicial, ocasionado pela conquista

– 73 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

da Espanha por Napoleão em 1808, e reduzido a alguns


refúgios e grupos. Os três grandes libertadores da América
espanhola, Simon Bolívar, San Martin e Bernardo O’Higgins,
estabeleceram a independência respectivamente da “Grande
Colômbia” (que incluía as atuais repúblicas da Colômbia, da
Venezuela e do Equador), da Argentina (exceto as áreas
interioranas que hoje constituem o Paraguai e a Bolívia e os
pampas além do Rio da Prata, onde os gaúchos da Banda
Oriental - hoje Uruguai - lutaram contra argentinos e brasilei-
ros) e do Chile. San Martin, auxiliado pela frota chilena sob
o comando do nobre radical inglês Cochrane – em quem
C. S. Forester se baseou para escrever o romance Captain
Hornblower (Comandante Corneteiro) –, libertou a última
fortaleza do poderio espanhol, o vice-reino do Peru. Por volta
de 1822, a América espanhola estava livre, e San Martin, um
homem moderado, de grande visão e rara abnegação pessoal,
deixou a tarefa a Bolívar e ao republicanismo e retirou-se para
a Europa, terminando sua nobre vida no que normalmente era
um refúgio para ingleses endividados, Boulogne-sur-Mer, com
uma pensão dada por O’Higgins. Enquanto isto, Iturbide, o
general espanhol enviado para lutar contra as guerrilhas cam-
ponesas que ainda resistiam no México, tomou o partido dos
guerrilheiros sob o impacto da Revolução Espanhola e, em
1821, estabeleceu definitivamente a independência mexicana.
Em 1822, o Brasil separou-se pacificamente de Portugal sob o
comando do regente deixado pela família real portuguesa em
seu retorno à Europa após o exílio napoleônico. Os EUA
reconheceram o mais importante, dos novos Estados quase
que imediatamente, os britânicos reconheceram-no logo
depois, cuidando de concluir tratados comerciais com ele, e
os franceses o fizeram antes do fim da década.

– 74 –
Napoleão e a expansão do Iluminismo

Fora da Europa, é difícil falar de nacionalismo. As muitas repú-


blicas latino-americanas que substituíram os velhos impérios
espanhol e português (para sermos exatos, o Brasil se tornou
uma monarquia independente e assim permaneceu de 1816 a
1889), com suas fronteiras frequentemente refletindo pouco
mais do que a distribuição das propriedades dos nobres que
tinham apoiado essa ou aquela rebelião local, começaram a
adquirir interesses políticos estáveis e aspirações territoriais. O
ideal pan-americano original de Simon Bolívar (1783-1830)
na Venezuela e San Martin (1778-1850) na Argentina foi
impossível de realizar, embora persistisse como uma pode-
rosa corrente revolucionária em todas as regiões unidas pela
língua espanhola [...].
A grande extensão e variedade do continente, a existência de
focos de rebelião independentes no México (que deram ori-
gem à América Central), na Venezuela e em Buenos Aires,
e o especial problema do centro do colonialismo espanhol
no Peru, que foi libertado a partir de fora, impunham uma
fragmentação automática. Mas as revoluções latino-americanas
foram obra de pequenos grupos de aristocratas, soldados e
elites afrancesadas “evoluídas”, deixando a massa da passiva
população branca, católica e pobre, e dos índios indiferente
ou hostil. Só no México a independência foi conquistada pela
iniciativa de um movimento de massa agrário, isto é, indígena,
que marchou sob a bandeira da Virgem de Guadalupe; e por
isso o México trilhou desde então um caminho diferente e
politicamente mais avançado que o resto da América Latina
continental. Entretanto, mesmo entre a minúscula camada dos
latino-americanos politicamente decisivos, seria anacrónico
falarmos nesse período de algo mais que o embrião da “cons-
ciência nacional” colombiana, venezuelana, equatoriana etc.

– 75 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Atividades
1. Com a presença de Napoleão no comando da Revolução Francesa,
houve uma alteração em seus rumos. Se, por um lado, Napoleão
freou as aspirações mais radicais na França, por outro levou os ideais
da Revolução para toda a Europa. Discorra sobre essa afirmação.

2. Como podemos relacionar as guerras Napoleônicas ao contexto das


independências da América espanhola?

3. No contexto das colônias espanholas na América, houve diferenças


nos interesses entre a ação administrativa colonial e as pretensões po-
líticas dos criollos. Argumente sobre essas diferenças de interesse.

– 76 –
5
Uma corte nos trópicos
Tiago Rattes de Andrade

A persistência dos velhos padrões coloniais viu-se pela


primeira vez seriamente ameaçada, entre nós, em vir-
tude dos acontecimentos que sucederam à migração for-
çada da família real portuguesa para o Brasil, em 1808.
O crescente cosmopolitismo de alguns centros urbanos
não constituiu perigo iminente para a supremacia dos
senhores agrários, supremacia apoiada na tradição e na
opinião, mas abriu certamente novos horizontes e sugeriu
ambições novas que tenderiam, com o tempo, a perturbar
os antigos deleites e lazeres da vida rural. (HOLANDA,
1967, p. 183)

Entre os anos de 1808 e 1821, a presença da Família Real


Portuguesa no Brasil gerou mudanças extremamente significativas
em nossa História. Em decorrência das invasões de Napoleão e do
bloqueio continental, a estratégia encontrada pelo então príncipe
regente de Portugal foi partir para o Brasil, em um gesto histórico
que, durante muitos anos, suscitou debates. Seria esse um ato de
covardia ou estratégia arrojada?
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Muito aconteceu desde o dia em que a corte portuguesa aportou pela


primeira vez na capital Salvador. Ocorreram muitas mudanças institucionais,
culturais, políticas e econômicas, além da inserção em definitivo do Brasil no
mapa das grandes potências da época, com sua elevação a Reino Unido. É essa
fascinante história que iremos contar neste capítulo.

5.1 Razões que levaram Dom João VI


a partir com a corte
Antes de avançar em relação ao processo histórico que iremos analisar
neste capítulo, é fundamental fazermos algumas colocações de fundo histo-
riográfico. Esse episódio de nossa história é muito rico para isso.
É muito comum vermos obras de entretenimento como filmes e séries
de TV, que constroem a imagem de um Dom João VI como glutão, medroso
e hesitante. Boa parte da interpretação acerca da vinda da família real por-
tuguesa para o Brasil, principalmente o senso comum, foca-se na ideia de
que essa partida foi produto da covardia do monarca em enfrentar Napoleão.
Muitas pessoas acabam reproduzindo a ideia de que essa decisão pode ser
observada pelo viés da coragem ou não de entrar em uma guerra.
No entanto, é necessário que ofereçamos um olhar mais complexo sobre
essa realidade histórica, fugindo desses estereótipos. Seria plausível pensar que
um homem educado para ser um monarca de inspiração absolutista seria
incapaz de pensar numa saída que incluísse alguma estratégia?
Por mais que houvesse disparidade entre as forças militares da França e
de Portugal, temos evidências suficientes para acreditar que a opção de Dom
João VI em retirar a corte de Portugal e deslocá-la para o Brasil envolve muito
mais do que o medo do enfrentamento.

– 78 –
Uma corte nos trópicos

Figura 1 – L’ÉVÊQUE, Henry. O príncipe regente de Portugal e toda a família real


embarcando para o Brasil no cais de Belém. 1815. 1 gravura, p/b: 50 x 60 cm.
Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa.

Aliás, um fato um tanto quanto singular é pensarmos que Dom João


VI pode ser considerado um dos últimos representantes de um perfil monár-
quico absolutista. Embora tenha desfrutado da posição de rei e imperador,
sua ascensão contou com alguns caminhos sinuosos. Vale lembrar que seu
irmão Dom José seria o herdeiro do trono caso não tivesse morrido. Além
disso, Dom João VI acabou por assumir o posto de príncipe regente por
decorrência da doença de sua mãe, Dona Maria I, popularmente conhecida
como Maria, a louca.
Embora tenha pouco se destacado em sua juventude, João teve uma
educação extremamente erudita, como era de praxe nas tradicionais monar-
quias. Estudava artes, música e línguas, além de receber a educação política
que os sucessores de casas monárquicas deveriam obter.

– 79 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Ainda no fim do século XVIII, casou-se com a infanta Carlota Joaquina,


apesar da resistência de muitos setores da própria Coroa portuguesa, que temiam
uma nova união ibérica, já que Carlota era espanhola. Nesse mesmo fim de
século, iniciava-se uma série de problemas para a monarquia tradicional de
Portugal. Era o tempo das luzes, e cabeças de monarcas caíam em revoluções.
A ascensão de Napoleão, como veremos, consolidaria ainda mais os pro-
blemas de Dom João VI. Inclusive o afastaria mais uma vez da Espanha, nesse
momento alinhada com a França.
Olhando desse ponto de vista, é possível construirmos outra forma de
narrar esse personagem. É tarefa fundamental do historiador verificar todas
as perspectivas e oferecer uma análise complexa e múltipla, fugindo de este-
reótipos e de visões fechadas.
Outro personagem muitas vezes abordado com pouco rigor é a pró-
pria rainha Carlota Joaquina, muitas vezes tratada apenas como desbocada,
desequilibrada e de hábitos sexuais pouco ortodoxos. Sabemos que a afini-
dade dela com o marido Dom João não era significativa. Porém, é necessário
lembrar que os casamentos desse período eram realizados com o objetivo de
traçar estratégias políticas. A postura firme de Carlota representava, de forma
muito clara, a defesa dos interesses da Espanha diante de Portugal. E isso era
algo corriqueiro na época.
Figura 2 – Autor desconhecido. Retrato de Carlota Joaquina de Borbón (1775-
-1830). c. 1830. 1 óleo sobre tela, color. Acervo do Palácio Nacional da
Ajuda, Lisboa.

Na representação da figura 2 podemos


verificar uma Carlota Joaquina não tão
bela como outras personagens da época.
Vale destacar que o artista procurou
trazer em seu pescoço a imagem de Dom
João VI como forma de simbolizar a
lealdade e a proximidade de ambos, algo
muito questionado no senso comum.

– 80 –
Uma corte nos trópicos

Muito se falou sobre a rainha: que teria inúmeros amantes, crises de histe-
ria e de autoritarismo. Mas o que efetivamente nos importa aqui é o fato que ela
desempenhou um papel político fundamental ao lado de Dom João VI.

5.2 O processo político da retirada


da corte de Portugal
O primeiro elemento a ser retomado é que, à época, a Europa vivia o pro-
cesso de invasões napoleônicas e, por consequência, o Bloqueio Continental.
Um dos objetivos centrais de Bonaparte era justamente derrotar a Inglaterra.
Para isso, era necessário impor sucessivas derrotas também a seus aliados, ou
mesmo subjugá-los. Portugal era uma dessas nações que se tornaram alvo das
ações militares do imperador francês.
Em meio às constantes pressões francesas e à notícia de que um exér-
cito de franceses e espanhóis se aproximara, era necessário tomar uma decisão
objetiva. Os ingleses naquela etapa já haviam se decidido: se moveriam até o
porto de Lisboa e dariam duas possibilidades para Dom João VI e sua corte.
Caso os portugueses optassem em não se curvar diante de Napoleão, teriam
escolta militar até o Brasil; do contrário, a Inglaterra acabaria por atacar Lisboa
e tentar conquistar a cidade. Dom João VI preferiu não entrar em uma guerra
em que não teria chances de vencer e muito menos abandonar aqueles que
poderiam continuar sendo bons aliados políticos e, sobretudo, econômicos.
Antes de partir, o príncipe regente ainda ordenou que fossem afixados
cartazes pela cidade para acalmar o povo. Os dizeres explicavam que a partida
era inevitável e que a população deveria evitar qualquer tipo de resistência,
para que não se derramasse sangue, e que em breve a situação se normalizaria.
Aparentemente tudo estava devidamente calculado nessa decisão política.
Em 22 de janeiro de 1808, Dom João VI chegou a Salvador com a corte.
Desembarcaram e foram recebidos com festas e procissões preparadas pelo
poder político local. É importante dizermos que havia uma expectativa muito
grande dos habitantes da colônia em relação à presença da monarquia nesse
território. Um imaginário significativo estava difundido acerca da corte e de
seus hábitos; tudo era razão para curiosidade: moda, cultura, hábitos alimen-
tares. Definitivamente o Brasil nunca mais seria o mesmo.

– 81 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Entre 1808 e 1822, o Brasil passou a ter um papel central na lógica


administrativa do Império Português. Saiu da condição de colônia impor-
tante para tornar-se o Reino Unido de Portugal e Algarves, abrigando a
administração colonial. Politicamente, essa mudança era algo inusitado para
a época, tanto que não aconteceu de imediato.
Com a presença francesa em Portugal após a invasão de Napoleão, era
mais do que natural que Dom João VI permanecesse cuidando do Império
no Brasil. Mas esse quadro se tornou insustentável quando Napoleão foi der-
rotado e Portugal desocupado, em 1814.
Para resolver essa situação, era necessário formalizar a condição insti-
tucional do Brasil. Assim, em 1815 Dom João VI editou um decreto que
elevou oficialmente o Brasil a Reino Unido de Portugal e Algarves. Vejamos
um trecho desse rico documento:
Carta de Lei de 16 de dezembro de 1815
Eleva o Estado do Brasil á graduação e categoria de Reino.
D. João por graça de Deus, Principe Regente de Portugal e dos
Algarves etc. Faço saber aos que a presente carta de lei virem, que
tendo constantemente em meu real animo os mais vivos desejos de
fazer prosperar os Estados, que a providencia divina confiou ao meu
soberano regimen; e dando ao mesmo tempo a importancia devida
a vastidão e localidade dos meus dominios da America, a copia e
variedade dos preciosos elementos de riqueza que elles em si con-
tém: e outrossim reconhecendo quento seja vantajosa aos meus
fieis vassallos em geral uma perfeita união e identidade entre os
meus Reinos de Portugal, e dos Algarves, e os meus Dominios
do Brazil, erigindo este aquella graduação e categoria politica que
pelos sobreditos predicados lhes deve competir, e na qual os ditos
meus domínios ja foram considerados pelos Plenipotenciarios das
Potencias que formaram o Congresso de Vienna, assim no tratado de
Alliança, concliodo aos 8 de Abril do corrente anno, como no tratado
final do mesmo Congresso: sou portanto servido e me praz ordenar
o seguinte:
I. Que desde a publicação desta Carta de Lei o Estado do Brazil seja
elevado a dignidade, preeminencia e denominação de Reino do Brazil
[...]. (BRASIL, 1815, grifos nossos)

– 82 –
Uma corte nos trópicos

Como é possível verificar, o argumento central de Dom João VI para


esse ato era o de que ele seria vantajoso para todos os seus súditos. Dessa
forma, ele garantiria a regularidade institucional para permanecer ainda por
um bom tempo no Brasil, sem ter de retornar imediatamente a Portugal.
Outro fato político acabaria por deixar esse quadro ainda mais com-
plexo. Em 1816, morre Dona Maria I, rainha de Portugal. Dessa maneira,
Dom João VI passa de regente para rei, ganhando ainda mais visibilidade
e responsabilidades.
Figura 3 – DEBRET, Jean Baptiste. Aclamação do Rei Dom João VI no Rio
de Janeiro. 1834. 1 gravura, color. Acervo da Biblioteca Mario de Andrade,
São Paulo.

Na figura 3, na tela de Debret, é possível observarmos uma representação


da aclamação de Dom João VI como rei de Portugal. A imagem traduz os
elementos de simbologia da corte. Além da tentativa de reproduzir os ele-
mentos luxuosos, é possível verificarmos a presença dos diversos atores
que compunham a corte neste período. Militares, clérigos e nobres eram
parte fundamental na sustentação dessa sociedade e de sua legitimidade.

– 83 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

5.3 O impacto da transferência da corte


para as instituições brasileiras
A chegada da corte portuguesa gera uma série de transformações funda-
mentais para o Brasil, envolvendo fatores culturais, políticos e econômicos.
Uma das primeiras medidas adotadas foi a abertura dos portos às
nações amigas, quando Dom João VI ainda estava em Salvador. O Brasil
passava a ser então o epicentro comercial do Império português, fato que
terá impacto direto e extremamente relevante para a elite brasileira, até
então acostumada com as restrições econômicas impostas pelo pacto colo-
nial. Como afirma Carvalho,
A transformação do Rio de Janeiro em corte real começou apenas dois
meses antes da chegada do príncipe regente, quando as notícias do
exílio real foram recebidas. As ações imediatas deveriam dar conta dos
novos usos, nova classe, novas necessidades e novos agentes que junto
com a corte chegavam ao Brasil. Menos de uma semana após sua
chegada, ainda em Salvador, D. João VI decretou a abertura dos por-
tos às “nações amigas”. Esta medida representou um golpe de morte
no pacto colonial que, na prática, obrigava que todos os produtos
das colônias passassem antes pelas alfândegas em Portugal, ou seja, os
demais países não podiam vender produtos para o Brasil, nem impor-
tar matérias-primas diretamente das colônias alheias, sendo forçados
a fazer negócios com as respectivas metrópoles. (CARVALHO, 2014)

A área cultural também teria impacto significativo no reino. Ainda


em Salvador, Dom João VI autorizou a abertura da primeira faculdade de
Medicina em território brasileiro. A produção de livros finalmente se torna-
ria legal no Brasil, o que significou o surgimento de tipografias e a ampliação
da circulação de conhecimento.
Do ponto de vista prático, uma série de medidas foram extremamente
importantes para o Brasil. Por meio da vinda da Família Real, foi possível
a criação da Biblioteca Real, do Museu Nacional, do Banco do Brasil, da
Academia de Belas Artes e uma série de outras instituições que contribuíram
para a consolidação da vida social e cultural brasileira.

– 84 –
Uma corte nos trópicos

Alguns relatos mostram que essas profundas mudanças fizeram com


que Dom João VI desse um valor significativo para o país e que deixá-lo
um dia tornar-se-ia um imenso desafio. Era claro para a maior parte das
pessoas que circulavam na corte que o rei estava extremamente insatisfeito
de ter de retornar a Lisboa. Alexandre José de Melo Morais (1816-1882),
médico, político e historiador alagoano, relatou sobre a saída de Dom João
VI do Brasil:
Muitas são as referências que o historiador faz à tristeza do monarca
durante os meses que separam a chegada das notícias sobre a revo-
lução em Portugal e sua decisão de deixar o Brasil. “O rei vivia
triste, abatido, embezerrado, [...] Quando no dia 26 de fevereiro
[de 1821] o trouxeram de São Cristóvão para a cidade, foi rodeada
sua traquitana pelos corifeus da revolução, [como] os célebres
Padre Góis, Padre Macambôa, Pimenta, e o famigerado Porto,
que foi empresário do Teatro de São João (hoje de São Pedro) e
outros, que na praça do Teatro ou Rocio, mandando tirar as bestas
da sege, fizeram que algumas pessoas do povo que gritavam – Viva
el Rei Constitucional – puxassem-lhe a mão a carruagem. O rei
[...] banhou-se em lágrimas, e de quando em quando limpava os
olhos até chegar ao Paço da Cidade. Nesse dia decidiu-se a partida
do rei para Portugal”. Também depois do decreto de 7 de março,
que oficializa a decisão, “às vezes chorava – dizia a marquesa de
Jacarepaguá, educada no Paço e familiar da camareira-mor da
rainha-mãe”. (SCARRONE, 2008)

Provavelmente Dom João VI já tinha em mente que as dificuldades


que iria enfrentar no retorno a Portugal não se resumiriam apenas a sua
adaptação à vida na Europa. Como sabemos, já se iniciava um movimento
de cunho liberal em Portugal que iria deixar profundas marcas também
no Brasil.
O que vale demarcarmos aqui é que a presença da Família Real no Brasil
serviu para importantes transformações políticas e econômicas, as quais
devem ser observadas sob um amplo viés.

– 85 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Ampliando seus conhecimentos

O Rio de Janeiro a partir da chegada da


Corte Portuguesa: planos, intenções e
intervenções no século XIX
(CARVALHO, 2014)

A transferência da Família Real portuguesa


A pesquisa que deu origem a este artigo teve como objetivo
recuperar, sob o olhar dos planos urbanísticos, dos projetos,
intenções e transformações efetuados no Rio de Janeiro no
século XIX, a maneira de pensar a cidade a partir da chegada
da corte real, mostrando o quanto esse fato foi fundamental
para alterá-la, posteriormente, no início do século XX.
Colônia de Portugal desde o século o século XVI e capital
do vice-reino desde 1763, o Rio de Janeiro teve seu desen-
volvimento marcado pela transferência da corte portuguesa em
1808. Desde então, até 1821, foi sede da monarquia portu-
guesa, única cidade das Américas na história a receber o apa-
rato burocrático e o contingente populacional antes instalado
na Europa. Até então nenhum rei havia visitado seus territórios
ultramarinos, nem mesmo para conhecê-los, muito menos para
morar e governar.
A fuga da monarquia portuguesa para sua colônia ameri-
cana por ocasião da invasão dos exércitos napoleônicos é
um divisor de águas no processo histórico brasileiro. Os
preparativos iniciais para acomodar a família real marcaram
apenas o começo da transformação do Rio de Janeiro, pois
o projeto de construir uma nova cidade e capital imperial
perdurou por todo reinado brasileiro do príncipe regente
(SCHULTZ, 2008).

– 86 –
Uma corte nos trópicos

A estrutura urbana encontrada pela família real foi em grande


parte construída por Luis de Vasconcelos e Sousa, que admi-
nistrou a cidade entre os anos de 1778 e 1790. O vice-rei é
considerado autor da primeira remodelação urbana do Rio de
Janeiro e precursor das intervenções voltadas à adequação
da cidade aos conceitos modernos das capitais europeias,
atuando não só na expansão da estrutura urbana, mas também
nos usos desses espaços. Sua gestão é conhecida principal-
mente pela construção do Passeio Público e reurbanização
do Largo do Carmo, expressões da prosperidade da época.
A transformação do Rio de Janeiro em corte real começou
apenas dois meses antes da chegada do príncipe regente,
quando as notícias do exílio real foram recebidas. As ações
imediatas deveriam dar conta dos novos usos, nova classe,
novas necessidades e novos agentes que junto com a corte
chegavam ao Brasil.
Menos de uma semana após sua chegada, ainda em
Salvador, D. João VI decretou a abertura dos portos às
“nações amigas”. Esta medida representou um golpe de
morte no pacto colonial que, na prática, obrigava que todos
os produtos das colônias passassem antes pelas alfândegas
em Portugal, ou seja, os demais países não podiam vender
produtos para o Brasil, nem importar matérias-primas direta-
mente das colônias alheias, sendo forçados a fazer negócios
com as respectivas metrópoles.
Permitiu assim a integração do Brasil ao mercado mundial e
consequente invasão de produtos estrangeiros, rompendo
a base sobre a qual se assentava o domínio metropolitano:
o monopólio comercial. De acordo com Pinto (2007), essa
medida era prova de uma contradição inevitável na política
econômica adotada pela Corte, que queria imprimir os prin-
cípios do liberalismo econômico em pleno território colonial.

– 87 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

No que diz respeito ao perímetro urbano do Rio de Janeiro


Dom João VI cria o imposto da décima para os prédios urba-
nos em condições habitáveis dentro dos limites das cidades e
vilas. Prática já conhecida em Portugal, o tributo consistia no
pagamento anual para a Real Fazenda, por parte dos proprie-
tários, de 10% dos rendimentos líquidos dos prédios, com o
objetivo de suprir os cofres da corte portuguesa estabelecida
no Rio de Janeiro, criando uma fonte de renda imediata.
Silva (2012, p. 52) ressalta que três medidas de impacto
devem ser destacas, que foram colocadas em prática logo na
chegada da família real, quando “uma nova forma de orga-
nização começava a ser gestada, articulando conhecimento,
atuação sobre o espaço urbano e normas”. Foram elas: criação
da Intendência Geral da Polícia, o diagnóstico médico e o
mapa oficial, o qual tinha como objetivo registrar a situação
da cidade e servir de instrumento para planejar as mudanças
necessárias à nova sede da corte, articulando o projeto civiliza-
tório ao território. Juntas indicavam uma nova forma de organi-
zação e intervenção, principalmente se atrelados à introdução
da décima urbana.
O diagnóstico é produzido, ainda em 1808, pelo médico
Manuel Vieira da Silva, físico-mor do reino, encarregado
por D. João de investigar as causas da insalubridade da
cidade. O fato de ter sido encomendado pelo príncipe e
publicado na imprensa transformaria o estudo em orientação
oficial. Os objetivos de D. João eram criar uma cultura de
discussão na cidade e divulgar um documento que fosse
visto como inquestionável. Os médicos eram interlocutores
privilegiados para falar dos problemas da estrutura urbana,
principalmente por articular a saúde e doença da população
ao meio geográfico (SILVA, 2012, p. 61). Essa associação
permitiria que o higienismo se tornasse um potente discurso
para pensar a cidade durante o século XIX e primeiras déca-
das do século XX.

– 88 –
Uma corte nos trópicos

Reconstruindo a Corte Portuguesa


A vinda da família real foi o primeiro momento em que a
ideia de civilização começaria a ser articulada ao território
da cidade, e todas as mudanças que ocorreriam na estrutura
urbana e social naquele período teriam como pano de fundo
a sua adaptação à função de sede do Império nos trópicos
(SILVA, 2012); uma nova maneira de se pensar a cidade
seria introduzida marcando definitivamente o futuro da cidade
do Rio de Janeiro.
A instituição responsável pelo bem público e comum era a
Intendência Geral da Polícia, uma das repartições trazidas pela
família real; era responsável pelas obras públicas, abasteci-
mento de água, iluminação e segurança, e ainda pela discipli-
narização da vida dos moradores. A provisão e a regulamen-
tação de moradias figuravam entre os empreendimentos mais
imediatos com que a Intendência estava envolvida
A transformação do Rio de Janeiro em corte real tinha de
envolver a marginalização da estética e das práticas que não
conseguiam refletir essa mudança. Era consenso entre as clas-
ses dominantes que não ser mais colônia significava adotar um
projeto colonial: civilizar- se. Para isso era necessário a criação
e imposição de uma uniformidade estética e cultural “no sen-
tido de tornar a cidade em condições de servir de sede às
principais autoridades do reino” (BRASIL, 1923, p. 11).
Construir uma corte real significava construir uma cidade
ideal; uma cidade na qual tanto a arquitetura mundana
quanto a monumental, juntamente com as práticas sociais
e culturais dos seus residentes, projetassem uma imagem
inequivocamente poderosa e virtuosa da autoridade e do
governo reais. (SCHULTZ, 2008, p. 157)
Em março de 1811 Viana propôs que a solução da crise na
provisão de habitações na já apertada Cidade Velha podia ser
encontrada se a atenção fosse centrada numa região fora do

– 89 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

centro da cidade conhecida como Cidade Nova, aonde os


pântanos cobriam a maior parte de área. Os residentes deve-
riam ser estimulados a secar e aterrar a área e construir casas.
Assim, a cidade seria enobrecida, mais habitações estariam à
disposição, e os alugueis cairiam. A imposição de padrões
para a construção na área poderia ser disfarçada por meio
de isenções. Mais importante, “as intervenções da Coroa
dariam fim à ‘liberdade mal entendida’ de construir como qui-
ser, reforçando consequentemente a autoridade do príncipe
regente” (SCHULTZ, 2008, p. 163).
Ficou estabelecido então que seria concedida isenção da décima
urbana por dez ou vinte anos aos proprietários que edificassem
casas de sobrado nos terrenos situados na Cidade Nova; a
construção de casas de um só pavimento ficava proibida. [...]

Atividades
1. Uma das tarefas do historiador é buscar analisar de forma ampla os
fatos históricos e seus personagens, oferecendo a seu leitor um olhar
que fuja de estereótipos e visões deterministas. Dito isso, como po-
demos utilizar a imagem Dom João VI para exemplificar esse olhar?
Como debater a contraposição entre o senso crítico e o senso comum
em relação a esse personagem?

2. A presença de Dom João VI no Brasil, e por consequência a necessi-


dade de gerir o Império Português no país, acabou por gerar transfor-
mações institucionais relevantes. Uma delas foi a elevação do Brasil a
Reino Unido de Portugal e Algarves. Descreva esse processo.

3. Uma das medidas adotadas por Dom João VI ainda quando estava
em Salvador foi a abertura dos portos às nações amigas. O que repre-
sentou essa medida e quais suas consequências para o pacto colonial?

– 90 –
6
As transformações do
Rio de Janeiro:
a nova capital
Tiago Rattes de Andrade

A vinda da família real foi o primeiro momento em que a


ideia de civilização começaria a ser articulada ao território
da cidade, e todas as mudanças que ocorreriam na estru-
tura urbana e social naquele período teriam como pano
de fundo a sua adaptação à função de sede do Império
nos trópicos [...]; uma nova maneira de se pensar a cidade
seria introduzida marcando definitivamente o futuro da
cidade do Rio de Janeiro. (CARVALHO, 2014, s/p)

Este capítulo tem como objetivo debater as transformações


que se consolidaram no Brasil com a instalação da corte real no país.
O foco, neste caso, é nas mudanças culturais e sociais que acabaram
por se estender no território, em especial na cidade do Rio de Janeiro.
Como sabemos, o Rio de Janeiro viveu uma grande e ampla
transformação para poder sediar o poder político do Império
Português. E, para isso, uma série de mudanças na realidade colo-
nial dessa cidade foram necessárias. É importante salientarmos que
a cidade toda acabou por sentir de alguma maneira esse processo,
que envolveu não só a instalação de novas instituições, mas também
um processo de disciplinarização contínuo.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

6.1 Transformações econômicas


e seus impactos
Nos dias de hoje, talvez seja difícil mensurar o impacto gerado pela
transferência da corte europeia para o Brasil, pois estamos habituados a ter
informações complexas sobre realidades distintas em tempo recorde. Mas, se
pensarmos sobre o cenário de informações do início do século XIX, fica mais
fácil entender esses efeitos.
Quando tratamos especificamente da corte portuguesa, sabemos que
havia uma série de informações necessárias para que se constituísse a relação
entre monarquia e seus súditos. Sendo assim, uma parcela significativa dos
brasileiros conhecia em alguma dimensão a corte de Dom João VI. Mas,
obviamente, muito do que se sabia era também cercado por um imaginário
gigantesco – algo natural, por se tratar de um tema tão edificante para todo
um império.
É mais do que natural que as pessoas, ao tomarem conhecimento da
vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, fossem tomadas por uma
série de curiosidades e desejos. Para a elite local, a corte portuguesa significava
não só uma autoridade política a ser respeitada, mas também certo modelo
de civilidade, de hábitos e costumes. A expectativa criada foi grande, já que
inevitavelmente isso mudaria em definitivo a vida de muitas pessoas, trazendo
novos hábitos de consumo, de vivência e civilidade1.
Entender as mudanças do cotidiano do Brasil no início do século XIX
é justamente construir esse olhar sobre o fascínio e o impacto que a presença
da corte causaria naquele momento. Nada mais seria como antes, e isso traria
consequências muito determinantes para a história do Brasil.
O primeiro destino da corte foi Salvador, onde uma série de medidas
foram tomadas por Dom João VI. Mas, na sequência, toda a comitiva se
deslocou para o Rio de Janeiro, e foi decidido que essa cidade seria a capital.
Tal gesto seria decisivo para uma série de outras transformações políticas,
culturais e econômicas no Brasil.

1 Quando tratamos do conceito de civilidade, estamos aqui nos remetendo de alguma forma
a uma noção derivada do conceito de civilização de Norbert Elias, ao definir a visão que o
Ocidente tem sobre si mesmo. Sobre esse assunto, ver mais em: ELIAS, 1993.

– 92 –
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital

Muitos historiadores buscaram relatar o impacto da chegada da Família


Real ao Rio de Janeiro. O que vale destacar aqui é que essa chegada foi muito
importante para a consolidação do imaginário: as pessoas deslocaram-se para
o porto na expectativa de ver de perto a família, que simbolizava não só um
poder político formal, mas também uma série de elementos culturais que
davam sentido à existência daquele Brasil. E esse Brasil passaria a ser peça
direta e decisiva de toda a lógica política do Império, e não apenas uma rica
engrenagem. É possível inferir que as pessoas que ali estavam acenando para
Dom João VI não imaginassem isso. Algumas delas talvez estivessem atentas
aos traços da moda, tentando identificar hábitos culturais europeus que pode-
riam ser absorvidos por uma elite local ávida de civilização.
O que estava em jogo naquele momento era, antes de tudo, um aspecto
muito significativo da tradição.
A tradição tem, na perspectiva sociológica, a função de preservar para a
sociedade costumes e práticas que já demonstraram ser eficazes no pas-
sado. Para Weber, os comportamentos tradicionais são formas puras de
ação social, ou seja, são atitudes que os indivíduos tomam em socie-
dade e são orientadas pelo hábito, pela noção de que sempre foi assim.
Nessa forma de ação, o indivíduo não pensa nas razões de seu com-
portamento. O comportamento tradicional seria, então, uma forma de
dominação legítima, uma maneira de se influenciar o comportamento
de outros homens sem o uso da força. (SILVA; SILVA, 2005, p. 405)

A instalação da Família Real no Rio talvez seja um dos exemplos mais


significativos para entendermos o sentido do termo tradição. Como uma
corte, até então distante do ponto de vista geográfico e que teria tudo para ser
vista com desconfiança, conseguiria consolidar mudanças tão significativas no
Brasil? Os aspectos apresentados daqui para frente nos ajudarão a entender
melhor esse processo.
É fundamental pontuarmos aqui as transformações econômicas como
peça-chave desse processo histórico tão peculiar e relevante. Como sabemos,
uma das primeiras medidas de Dom João VI ao chegar ao Brasil foi a abertura
dos portos às nações amigas. Esse gesto afetou não só a grande produção colo-
nial. A abertura econômica também teve efeito direto em hábitos cotidianos
de consumo, como alimentação e vestuário. Isso demonstrava claramente que
as transformações que estavam por vir eram muito mais amplas do que sim-
plesmente o surgimento de uma nova ordem política.

– 93 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Figura 1 – DEBRET, Jean Baptiste. Retrato de Dom João VI. 1817. Óleo sobre
tela. 60 x 42 cm. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

O retrato de Dom João VI feito por Debret nos ajuda a entender um


pouco desse projeto de civilização que deveria se perpetrar no Bra-
sil e, ao mesmo tempo, exercer fascínio na elite local. Os apetrechos,
as roupas, a postura, tudo isso indicava o perfil de uma monarquia
forte, erudita e capaz de propiciar estabilidade. Por outro lado, era
necessário que a monarquia fosse capaz de exercer um sentimento
de legitimidade e respeito entre a população menos privilegiada.

Sobre as medidas efetivas que ajudaram a transformar o Brasil e o Rio de


Janeiro naquele período, podemos sintetizá-las no quadro a seguir:

– 94 –
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital

Quadro 1 – Medidas importantes de Dom João VI entre 1808 e 1821.

1808 Banco do Brasil


1808 Escola de Medicina (Bahia)
1808 Imprensa Real
1808 Jardim Botânico do Rio de Janeiro
1808 Primeiro jornal do país, a Gazeta do Rio de Janeiro
1810 Academia Real Militar
1810 Biblioteca Real
1810 Instalação de indústria de ferro em Minas Gerais e São Paulo
1816 Academia Real de Belas Artes
Fonte: Elaborado pelo autor.

6.2 As mudanças culturais e sociais


Mudanças culturais e sociais advêm de transformações complexas do
ponto de vista histórico e acabam por produzir efeitos que podem ser sentidos
ao longo de muito tempo, além de uma série de imaginários que são repro-
duzidos. O caso que estamos levantando aqui não é diferente. Sendo assim,
para entendermos o que mudou efetivamente no Rio de Janeiro naquele
período, é interessante buscarmos algumas informações sobre o processo em
sua completude.
Mas, adequar a cidade à sua nova condição de corte não significava
apenas atender a essas necessidades de caráter pragmático. Como
nova corte real o Rio de Janeiro deveria ser a expressão do poder da
monarquia e do grau de civilização do Império Português, segundo a
representação que seus habitantes faziam da cidade a partir de então.
Transformá-la em corte significava estabelecer aí uma sociedade de
corte, com seus espaços e formas de sociabilidade próprios, copiados
das cortes europeias, condenando hábitos e costumes oriundos do
período colonial como inadequados à nova condição alcançada pela
cidade, ao mesmo tempo em que se buscava difundir na nova capital
do Império os elementos daquilo que era considerado um ideal euro-
peu de civilização. (BARRA, 2015, p. 792-793)

– 95 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Adequar o Rio de Janeiro a um padrão de civilidade que permitisse a


instalação de um corte europeia: esse era o grande desafio a ser resolvido
naquele momento. Por mais que a cultura local partisse do pressuposto de
que fôssemos todos súditos de uma Coroa, é mais do que natural que os
desafios fossem significativos. Não se tratava apenas de construir uma relação
de respeito ou submissão, o que estava em jogo era a criação de um ambiente
apropriado para que a corte se estabelecesse no Brasil e assumisse todas as suas
responsabilidades, tarefas e atribuições.
Um dos desafios para a instalação da corte era, em primeiro lugar, a adequa-
ção do espaço físico. Muito se falou na historiografia acerca das desapropriações
de casas para instalar uma multidão de pessoas que aqui chegava. Sem dúvida,
esse é um impacto significativo e que merece atenção. O cotidiano da cidade,
das pessoas em suas casas, começava a sofrer uma significativa interferência.
Mas um aspecto que nos chama atenção e que vale ser explorado aqui
é o que remete à necessidade de adequação para receber as instituições que
vinham com a família real e que seriam fundamentais para o governo. Como é
de conhecimento, junto de Dom João VI vieram desde bibliotecas até a neces-
sidade de fundação de um banco no Brasil. A mudança na paisagem, no espaço
físico da cidade, seria muito mais complexa do que uma simples ocupação de
imóveis. O Rio de Janeiro passava a ganhar novo sentido em seus espaços.
Se pensarmos no exemplo da Academia Imperial de Belas Artes, temos
uma dimensão da grandiosidade das transformações culturais e sociais. A aca-
demia foi fundada por Dom João VI, e, como forma de dar um pontapé sig-
nificativo para a produção de arte no Brasil, foi trazida uma missão de artistas
franceses para o país em 1816.
Entre os artistas que aportaram no Brasil naquele ano estavam Jean-
-Baptiste Debret, o arquiteto Grandjean de Montigny e o pintor Nicolas-
-Antoine Taunay. A vinda desse grupo teve um papel decisivo na difusão da
arte no Brasil e ajudou a construir um olhar muito peculiar sobre o território,
que influencia até hoje a forma como vemos a nossa formação social e cultu-
ral. Basta pensarmos na coleção de obras deixadas por Debret, retratando o
Brasil, por exemplo.

– 96 –
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital

Quando a corte portuguesa se instala no Rio de Janeiro, em 1808, a


expressão artística brasileira, essencialmente voltada para o domínio
religioso, ainda vive sob o regime de associações de artesãos. Uma vez
restaurada a estabilidade política na Europa, em 1815, o Conde da
Barca, preocupado em atrair talentos estrangeiros para a antiga colô-
nia então elevada à condição de reino ao mesmo nível de Portugal e
dos Algarves, em nome do príncipe regente D. João VI, recorre ao seu
representante em Paris, o Marquês de Marialva. O sábio Alexander
von Humboldt, à época coberto dos louros de sua expedição
sul-americana, é consultado e sugere o nome de Joachim Lebreton,
secretário perpétuo demitido havia pouco da Académie des Beaux-
-Arts de l’Institut de France por causa de um discurso bastante polê-
mico onde ele argumentava contra a restituição das obras “confiscadas”
durante as campanhas napoleônicas. (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA
NACIONAL, 2017)

Como podemos observar pela citação, atos como esse que garantiu a
criação da Academia e a Missão Artística Francesa significavam uma grande
transformação do ponto de vista técnico e cultural para o Brasil. Obviamente
não se trata aqui de hierarquizar a cultura e desprezar o que era produzido no
Brasil antes da vinda de Dom João VI, mas sim de entender como as mudan-
ças institucionais foram significativas para transformações na produção artís-
tica local. Muitos desses artistas que vieram para o Brasil aqui constituíram
família e deixaram um legado.
Figura 2 – TAUNAY, Nicolas-Antoine. Vista do Outeiro, Praia e Igreja da Glória.
1817. Óleo sobre tela. 37 x 48 cm. Museu Castro Maya, Rio de Janeiro.

– 97 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

6.3 O cotidiano da cidade pós-Dom João VI


O dia a dia dos moradores do Rio de Janeiro nunca mais seria o mesmo
depois que Dom João VI passou a ocupar a cidade e impor a ela uma série de
mudanças. Quando falamos em cotidiano, estamos tratando de uma série de
elementos que envolvem a forma de viver de cada habitante. A instalação da
corte no Brasil trouxe mudanças culturais muito fortes.
As modificações do espaço urbano podiam claramente ser notadas à
medida que se caminhasse pela cidade, seja nos largos e praça, no porto, nas
casas comerciais ou nas repartições públicas. Os salões e cafés que concentra-
vam membros da elite local eram tomados pelo mesmo assunto: quais mudan-
ças viriam? A quais novidades eles poderiam assistir nas próximas semanas?
Além disso, vale destacar, a circulação dos membros da corte pelas ruas
do Rio iria influenciar também na moda e no comportamento local. Mais do
que nunca, a elite local tinha agora exemplos a serem observados, padrões a
serem seguidos. Era necessário construir relações, ter acesso à corte, buscar
um espaço de influência que pudesse aumentar ainda mais os privilégios.
Como vimos, o Rio de Janeiro não foi mais o mesmo. O processo de
superação de aspectos coloniais tidos como antiquados e inadequados pre-
cisavam ser superados aos poucos. O cotidiano da cidade passaria então por
um movimento de disciplinarização constante, no intuito de garantir que esse
processo de adaptação se efetivasse e a cidade se tornasse digna de sediar o
poder político de um império tão vasto.
A instituição responsável pelo bem público e comum era a Intendência
Geral da Polícia, uma das repartições trazidas pela família real; era
responsável pelas obras públicas, abastecimento de água, iluminação
e segurança, e ainda pela disciplinarização da vida dos moradores. A
provisão e a regulamentação de moradias figurava entre os empreen-
dimentos mais imediatos com que a Intendência estava envolvida. A
transformação do Rio de Janeiro em corte real tinha de envolver a
marginalização da estética e das práticas que não conseguiam refletir
essa mudança. Era consenso entre as classes dominantes que não ser
mais colônia significava adotar um projeto colonial: civilizar- se. Para
isso era necessário a criação e imposição de uma uniformidade estética
e cultural “no sentido de tornar a cidade em condições de servir de
sede às principais autoridades do reino”. (CARVALHO, 2014)

– 98 –
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital

Como vimos, portanto, as transformações seriam profundas e influen-


ciariam o cotidiano como um todo. A cidade passa a exercer um papel decisivo
no imaginário de toda América portuguesa cumprindo o papel que muitos
imaginaram para ela. Dom João VI, de alguma forma, acabou por mudar o
curso do Brasil por meio das mudanças constituídas na nova capital brasileira.
Figura 3 – DEBRET, Jean-Baptiste. Largo do Paço. 1 gravura, color. In:
______, Voyage Pittoresque et Historique au Brésil. Paris: Firmin Didot,
1834-1839. 3 v. Acervo da Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo.

A gravura de Debret, apontada na figura 3, nos permite observar uma repre-


sentação de um Rio de Janeiro transformado em decorrência da preocupação
com a reformulação dos espaços públicos. Isso nos remete ao fato já citado
de que era fundamental transformar a cidade para que ela se tornasse digna
de sediar um império. A estrutura do portuário, o amplo largo, o casario,
a circulação de pessoas, tudo isso nos ajuda a entender esse processo.

Um fato interessante de se demarcar é que fica claro, para quem percebe


as transformações que o Rio de Janeiro viveu nesse período, que os problemas
locais eram bem significativos. Por mais que possa parecer obvio, é necessário
frisar que as condições do Rio de Janeiro que antecederam a chegada de Dom
João VI não eram das melhores.
Em contraste à riqueza que aportou no Rio de Janeiro em 1808,
as condições urbanas da cidade e de vida da sua população eram
extremamente precárias, e com o aumento repentino das demandas,
as carências ficaram mais evidentes: faltava água, comida e moradia
[...]. Não havia sistema de esgotos. Os restos da casa, do banheiro à
cozinha, eram jogados na praia para que as marés lavassem, e tudo

– 99 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

era transportado em tonéis em ombros escravos. As ruas eram escuras


e perigosas. A água potável era escassa e o abastecimento de alimen-
tos era deficitário, principalmente o de carnes, cujo consumo era
um luxo só presente em poucas ocasiões festivas no ano. (COSTA;
LEMLE, 2008)

Como é possível notar pelo relato, o trabalho que teria de ser desem-
penhado pela corte para tentar tornar o Rio uma cidade “decente” para a
monarquia seria muito mais complexo do que se poderia imaginar. Não à
toa, as medidas envolviam o endurecimento de regras relacionadas ao espaço
público, na tentativa de garantir a superação dos hábitos tidos como “atrasa-
dos”. Mas é claro que muitos dos problemas da cidade vinham da desigual-
dade social e do enorme abismo imposto por uma sociedade extremamente
desigual. Não é difícil imaginarmos que para a aristocracia os problemas eram
diferentes, assim como as soluções tendiam a preservar seus privilégios.
Isso nos leva a tocar em um outro assunto importante de ser frisado:
embora inúmeros avanços tenham acontecido no campo cultural e artís-
tico, a vida seguia muito dura para uma parcela muito grande daquela
sociedade escravista.
Mas que a vida era difícil era. Jurandir Malerba conta que, mesmo
sendo maioria, os negros sofriam com a intransigência da polícia, que
coibia suas principais atividades de lazer, como os jogos de casqui-
nha e a capoeira. Havia várias formas de opressão. De acordo com
Vera Tostes, diretora do Museu Histórico Nacional, os códigos sociais
eram bem diferenciados para cada grupo que compunha a sociedade
– a maioria de escravos, os negros livres, os brancos pobres, os funcio-
nários da Coroa e os nobres que chegavam, entre outros. (COSTA;
LEMLE, 2008)

Sendo assim, o movimento da vinda da Família Real Portuguesa para o


Brasil, embora tenha sido fundamental para uma série de mudanças políti-
cas, sociais, culturais e econômicas, manteve praticamente intacta as relações
sociais, principalmente as que envolviam a vida de milhares de escravos e
descendentes, que seguiriam ainda amargando o cotidiano violento e duro.
O novo Rio de Janeiro talvez não poderia ser classificado como pior
ou melhor. O importante, na verdade, é perceber que as transformações
ocorridas nesse período deixaram marcas essenciais para que entendamos o

– 100 –
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital

processo histórico que o país viveria no período posterior. Sem essa visão,
o entendimento torna-se turvo e incompleto. Muitas das marcas acabaram
por tornar-se tão intrínsecas que praticamente foram naturalizadas em nossos
imaginários, como é o caso das representações que Debret fez do Brasil. Aliás,
uma boa síntese desse período é justamente o Brasil pintado por ele. Em suas
telas, é possível ver a vida nas ruas, os comerciantes, os homens de grosso
trato, os escravos. Há uma vida intensa no espaço público, a convivência,
a interação, a ocupação de paisagens especiais de um Rio de Janeiro que se
construía aos poucos, para se tornar, por mais de um século, uma prodigiosa
capital do Brasil. A musicalidade, a religiosidade, tudo isso estava presente nas
imagens legadas a nós. Essas imagens construíram uma representação sobre o
Brasil, que se baseia no olhar europeu. E o flagelo da escravidão continuaria
vivo e seria, por muitas décadas, o elemento edificante da economia nacional
– mesmo quando inúmeros países já a haviam abandonado.

Ampliando seus conhecimentos

O texto extra desse capítulo pode nos ajudar a construir algu-


mas relações históricos importantes para nosso ofício. Dentre
elas, a capacidade que precisamos ter de estabelecer relações
entre o presente e o passado e construir relações de causa e
efeito. Pense nisso ao longo desta leitura.

A cidade corte: o Rio de Janeiro no


início do século XIX
(BARRA, 2015)

Resumo
A instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro em 1808,
e a transformação da capital da colônia em sede do Império
Português, propiciou uma série de transformações tanto no
aspecto físico da cidade quanto no comportamento de seus

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História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

habitantes. Se, por um lado, a partir de então o Rio de Janeiro


deveria ser a expressão do poder real e do grau de civiliza-
ção do Império Português; por outro lado, a construção dessa
Europa possível nos trópicos apresentava limites. O presente
artigo aborda esse momento crucial da história urbana do Rio
de Janeiro, chamando a atenção para a coexistência de duas
formas distintas de sociabilidade como expressões de duas
cidades que, apesar de divergentes e mesmo antagônicas,
apresentavam necessários pontos de contato e de circulari-
dade cultural por dividirem o mesmo espaço.
[...]

1 Introdução
Há pelo menos cinco anos, os moradores do Rio de Janeiro
têm convivido com um grande volume de obras levadas a
cabo pelos governos municipal e estadual sob o pretexto
de preparar a cidade para receber os “megaeventos” que já
começaram a acontecer. Os principais dos quais, a Copa do
Mundo de Futebol da FIFA, realizada no ano passado, e que
teve o Rio de Janeiro como uma das suas cidades-sede; e as
Olimpíadas, a serem realizadas exclusivamente na cidade em
2016. No meio dos quais, a comemoração dos 450 anos da
cidade, neste ano, se tornou um mero detalhe. Esta prepara-
ção da cidade tem transformado e, como não podia deixar de
ser, transtornado o cotidiano dos moradores, com medidas
tais como uma reorganização geral das linhas de ônibus e a
abertura de novas avenidas rasgando bairros tradicionais e
levando embora, junto com o casario antigo, parte da própria
memória da cidade e de seus habitantes. Com a promessa
de que o legado que essas obras deixarão para os moradores
compensará todo o transtorno presente.
Em outros momentos da história da cidade, outros “megaeven-
tos” também exigiram intervenções que sacudiram o cotidiano
dos moradores. Muitas vezes, sacudindo-os de suas próprias

– 102 –
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital

casas. O mais lembrado dos quais, as reformas urbanas do


prefeito Pereira Passos, no começo do século XX. O “bota-
-abaixo”, que deu origem ao período da história da cidade
que ficou conhecido como belle époque. Mas aquele que
pode ser considerado o primeiro “megaevento” realizado no
Rio de Janeiro aconteceu ainda no início do século XIX. A
instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro em 1808
desencadeou uma série de mudanças na capital da colônia
portuguesa da América que visavam adequar a cidade à sua
nova função: a de sede do novo Império Português recriado
na América de acordo com projetos longamente acalentados
por letrados e estadistas portugueses. Nesse período a cidade
viu um aumento significativo no seu número de habitantes
que, segundo alguns autores, praticamente dobrou entre
1808 e 1821, incrementado pelos incontáveis emigrados
portugueses, por europeus de diversos outros países e por
habitantes de outras capitanias que não cessaram de chegar
ao longo dos treze anos de permanência da corte portuguesa
no Rio de Janeiro. Assim como também não cessaram de
chegar novas levas de escravos vindos da África e, também,
de outras capitanias. No que diz respeito ao aspecto físico
da cidade, o aumento no número de habitantes impulsio-
nou a expansão dos limites geográficos do núcleo urbano;
demandou um grande investimento em obras de melhoria
da precária infraestrutura da cidade; suscitou a preocupação
com a aparência na construção dos imóveis; e determinou a
refuncionalização de diversos espaços tradicionais da cidade
no intuito de abrigarem os serviços do Paço e órgãos da
administração do Império Português.
Mas, adequar a cidade à sua nova condição de corte não
significava apenas atender a essas necessidades de caráter
pragmático. Como nova corte real o Rio de Janeiro deveria
ser a expressão do poder da monarquia e do grau de civiliza-
ção do Império Português, segundo a representação que seus
habitantes faziam da cidade a partir de então. Transformá-la em

– 103 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

corte significava estabelecer aí uma sociedade de corte, com


seus espaços e formas de sociabilidade próprios, copiados
das cortes europeias, condenando hábitos e costumes oriun-
dos do período colonial como inadequados à nova condição
alcançada pela cidade, ao mesmo tempo em que se buscava
difundir na nova capital do Império os elementos daquilo que
era considerado um ideal europeu de civilização.
O Padre Luís Gonçalves dos Santos, um dos principais cro-
nistas do reinado de D. João na América, nas suas Memórias
para Servir à História do Reino do Brasil faz um elogio daque-
les que ele considera os principais atos administrativos do
monarca português durante a sua permanência no Rio de
Janeiro. Na sua interpretação, tais medidas teriam o intuito de
tirar a colônia da situação de barbárie em que até então jazia,
como se aquele estado de coisas não tivesse sido obra da
própria Coroa portuguesa:
Tudo isto vemos hoje, senão com admiração, porque
estas coisas insensivelmente se fazem diante dos nos-
sos olhos, certamente com gratidão à augusta presença
do senhor D. João VI, com a qual este país de rude,
e agreste vai aos poucos povoando-se, civilizando-se,
e embelecendo-se, bem como depois de um rigoroso
inverno se anima, reverdece e floresce a natureza com a
chegada da risonha primavera. (...) Mas, apenas chegou
Sua Majestade, quando logo franqueou o comércio, per-
mitiu a indústria, facultou as artes, e ciências, admitiu os
estrangeiros, mandou abrir estradas, facilitou a comunica-
ção dos povos e, entre outros bens, que nos concedeu,
promoveu a civilização. Ora todos sabem quanto poder
tem ela sobre os homens, e sobre o terreno, que eles
habitam, por mais rudes e bárbaros que tivessem sido.
(SANTOS, 1981, p. 122)

– 104 –
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital

Como explica o sociólogo alemão Norbert Elias, o conceito


de civilização resumiria tudo em que a sociedade ociden-
tal, desde o século XVIII, se julgava superior a sociedades
mais antigas ou a sociedades contemporâneas, porém mais
primitivas (ou menos civilizadas). Dessa forma, tal conceito
expressaria, antes de qualquer coisa, “a consciência que o
Ocidente tem de si mesmo” (ELIAS, 1993, p. 23). Porém,
civilização não seria apenas um estado, mas sobretudo um
processo. Na virada do século XVIII para o XIX, os países
europeus consideravam o processo de civilização como ter-
minado em suas próprias sociedades. Nesse momento em
que a consciência da civilização, vale dizer, a consciência da
superioridade de seu próprio comportamento e sua corpori-
ficação na ciência, tecnologia ou arte começou a se espraiar
pelas nações europeias, estas, se autodefinindo como nações
civilizadas, atribuíram a si próprias o papel de transmissoras
a outrem dessa mesma civilização. Elias estuda o processo
civilizador em termos de um processo de transformação do
comportamento humano.
O controle dos sentimentos individuais pela razão e a eleva-
ção do patamar de sentimentos como vergonha e repugnância
eram sinais específicos de fases particulares da marchada civili-
zação. Esse autor mostrou como a sociedade de Corte, atra-
vés de suas normas de etiqueta a serem observadas por todos
aqueles que dela faziam parte (inclusive o rei), ocuparia um
papel central nesse processo de controle das pulsões, emo-
ções e afetos, e de interiorização individual das proibições
sociais, que constitui o processo civilizador. Dessa forma, da
transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e a
instalação de uma sociedade de corte teria o efeito de impul-
sionar aqui esse processo civilizador. [...]

– 105 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Atividades
1. Uma das características que envolvem o processo da vinda da Família
Real Portuguesa para o Brasil é o imaginário sobre a presença de uma
corte europeia no Brasil. Quais aspectos podem ser destacados sobre
esse tema?

2. As mudanças sociais e culturais do Rio de Janeiro pós-Dom João VI


passavam também por um processo de disciplinarização da sociedade.
Explique.

3. No caso da adaptação do Rio de Janeiro à presença da corte de Dom


João VI, é possível afirmar que isso gerou mudanças significativas na
cidade, que afetam até os dias de hoje o imaginário que se tem do Rio
de Janeiro. Aborde essa questão.

– 106 –
7
Elites e povo: laços e
distanciamentos
Tiago Rattes de Andrade

[...] para compreender a relação do Estado imperial


brasileiro com suas elites é necessário ampliar a abor-
dagem para além das relações bipolares, considerando
as múltiplas direções que apresenta. Ao contrário do
que caracteriza essas interpretações historiográficas, que
em geral analisam a formação das elites situando-a nos
anos de 1830- 1840, torna-se fundamental buscar sua
história antes do século XIX, considerando as relações
de continuidade e as imbricações permanentes entre
Estado e sociedade, entre o público e o privado, entre o
central e o regional, entre a prática política e os interes-
ses econômicos individuais ou coletivos. (MARTINS,
2007, p. 34)

Neste capítulo abordaremos as relações entre as elites e o


povo na construção do estado nacional brasileiro, no século XIX.
Para isso, trataremos de algumas questões conceituais relevantes
sobre a formação dessa elite ao longo do Brasil Colônia, apontando
alguns pensadores que foram fundamentais para o entendimento
desse processo histórico.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Posteriormente, discorreremos a respeito das características culturais e


sociais que envolvem essas elites. Quem são elas? Qual sua origem? Onde
estudaram? Qual o impacto de sua formação? Por fim, apresentaremos algu-
mas características que as tornam um tanto quanto plurais e diversificadas,
algo essencial para compreendermos o Brasil do século XIX.

7.1 As raízes da formação de nossas elites


Um dos grandes desafios da historiografia é entender como constituímos
nossas próprias elites políticas ao longo da história. Durante o século XVI e
em parte do século XVII, o Brasil recebia substancialmente portugueses, que
para cá vinham na tentativa de construir riqueza. Aos poucos uma mudança
demográfica considerável passa a ser notada: nossa própria população se for-
mava, de pessoas nascidas na colônia e não mais em Portugal. Se em outro
momento a elite local era composta essencialmente por europeus, a partir
de determinado momento ela passa a ser composta por pessoas nascidas em
terras brasileiras, com outros vínculos sociais, culturais e políticos.
Ao longo do século XVIII, uma série de movimentos políticos eclodiu
na colônia, os quais questionavam a relação da metrópole com a colônia
e tinham inspiração em ideias liberais. Era o século das luzes, e apareciam
pela primeira vez as elites locais, com reivindicações próprias. Esse foi um
momento marcante, que nos aponta justamente o surgimento e fortaleci-
mento dessa elite política cada vez mais local e com interesses próprios. Dois
movimentos ganharam muito destaque na historiografia e também no senso
comum: a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana, tanto por suas
semelhanças quanto por suas diferenças. Ambos os movimentos reivindica-
vam uma nova relação entre Brasil e Portugal. Questionavam duramente o
pacto colonial, e, no caso da Conjuração Baiana, havia também uma clara
posição contrária à escravidão. Ao tratarmos desses movimentos é inevitável
pensarmos no papel desses novos atores políticos.
Cabe dizer que ao longo desse processo histórico uma série de caracte-
rísticas dessas elites seria determinante para entendermos nossa própria his-
tória. A fim de que possamos analisar isso de maneira mais objetiva, é impor-
tante nos voltarmos ao nosso passado, ao início do processo de colonização.

– 108 –
Elites e povo: laços e distanciamentos

Obviamente esse é um tema complexo, ao qual muitos pesquisadores têm se


dedicado. Porém, é interessante que enfoquemos algumas teorias clássicas de
abordagem desse processo.
Para fins de organização de conhecimento, selecionamos aqui dois auto-
res que acabaram por ajudar a constituir duas grandes correntes de pensa-
mento muito importantes para a historiografia durante décadas. Trataremos
da obra de Caio Prado Júnior e de Sérgio Buarque de Holanda, os quais expli-
caram, de maneiras diferentes, o processo de formação do Brasil Colonial
e, por consequência, a ação de nossas elites. Embora sejam explicações de
caráter distinto, é importante salientarmos que não são olhares excludentes
e, inclusive, muitos pesquisadores procuram dialogar com o tipo de conheci-
mento produzido por ambos.
Caio Prado Júnior foi pioneiro ao construir um grande modelo expli-
cativo acerca do processo de colonização do Brasil, apoiado no marxismo.
Sendo assim, sua base de análise preocupa-se centralmente com os aspectos
econômicos da sociedade. O grande desafio colocado por esse autor é enten-
der como a economia, especificamente o pacto colonial, definiu os rumos
históricos do Brasil em sua colonização. Uma das características desse olhar
marxista sobre a história baseia-se na concepção do materialismo histórico,
em que a história da humanidade pode ser percebida pela sucessão de regimes
econômicos e pela luta de classes. Essa abordagem influenciou as questões
que esse autor procurou responder ao longo de suas teses.
Para Caio Prado, há um “sentido da colonização”, o qual diz respeito à
lógica de que a colônia serve exclusivamente como fonte de exploração para a
metrópole. Sendo assim, não existiria nenhum tipo de acumulação de capitais
no Brasil, e toda riqueza era deslocada para a metrópole.
Sem acumulação e tendo como único objetivo atender os interesses
materiais da metrópole, o papel da elite local seria apenas o de reproduzir esse
sistema de exploração. Por consequência, não há o que se falar sobre proje-
tos locais significativos de poder, visto que a elite local é parte do projeto de
poder da metrópole. A tese do “sentido da colonização” influenciou muitos
historiadores brasileiros, que procuraram dar continuidade às ideias de Caio
Prado ou mesmo aperfeiçoá-las – é o caso de grandes nomes como Fernando
Novais e Ciro Flamarion Cardoso.

– 109 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, certo “sentido”. Este
se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos
fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período
de tempo. Quem observa aquele conjunto, desbastando-o do cipoal
de incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem mui-
tas vezes confuso e incompreensível, não deixará de perceber que ele
se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que
se sucedem em ordem rigorosa, e dirigida sempre numa determinada
orientação. É isso que se deve, antes de mais nada, procurar quando
se aborda a análise da história de um povo, seja, aliás, qual for o
momento ou o aspecto dela que interessa, porque todos os momentos
e aspectos não são senão partes, por si só incompletas, de um todo que
deve ser sempre o objetivo último do historiador, por mais particula-
rista que seja. (PRADO JÚNIOR, 2011, p. 15)

Essa característica de modelo de colonização explicaria, segundo Caio


Prado Junior e seus seguidores, parte dos problemas do desenvolvimento bra-
sileiro. Teríamos uma elite que desde os tempos coloniais era habituada a ser
parte de um processo de acumulação externa. Embora Caio Prado considere
que o século XIX abrira uma série de transformações relevantes para a cons-
trução do Brasil, na prática é esse “sentido” do papel da elite que acaba dando
o caráter do modelo político e econômico que virá após a Independência. Isso
explicaria a manutenção da escravidão, do latifúndio e de um forte modelo
de dependência externa. Uma nova nação surge, porém sua elite local ainda
está atrelada aos interesses internacionais, fazendo do Brasil apenas parte
de um ciclo de exploração. É justamente isso que explicaria nosso atraso
e subdesenvolvimento.
Sérgio Buarque de Holanda, por sua vez, foi responsável por outra tra-
dição de pensamento, inspirada em conceitos mais próximos das ideias de
Max Weber, por exemplo. O centro de sua análise, embora considere tam-
bém aspectos econômicos, preocupa-se em abordar elementos culturais que
ajudam a explicar o perfil de nossas elites na colônia e como elas mesmas se
inserem no século XIX. Um dos conceitos fundamentais trazido por ele é o
de patrimonialismo, um dos mais utilizados pelo pensamento social brasileiro
nas últimas décadas. Basicamente, exprime a não separação dos interesses
privados dos negócios públicos, fato que seria responsável por boa parte dos
problemas brasileiros e operaria fortemente devido a uma herança ibérica.
Em monarquias da península ibérica, seria usual que os negócios públicos

– 110 –
Elites e povo: laços e distanciamentos

fossem conduzidos de forma a beneficiar os interesses privados daqueles que


estavam à sua frente. Essa prática geraria uma grande dificuldade de separação
entre público e privado em nossa cultura política. Isso explicaria em boa parte
as questões históricas de corrupção e apropriação indevida dos recursos do
Estado por parte de nossas elites políticas.
Outra particularidade do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda
que explica o comportamento dessa elite e nos ajuda a entender parte dos
dilemas do Brasil até os dias de hoje é a ideia do homem cordial. A cordiali-
dade em questão não se trata da bondade, mas sim da propensão do brasileiro
a resolver as questões públicas no âmbito privado, o que enfraqueceria bas-
tante o interesse e a esfera públicos e fortaleceria sempre os mais poderosos.
Em vez de recorrermos ao Estado e às leis que poderiam nos proteger, ten-
deríamos a buscar soluções por meio de “conhecidos” e “padrinhos” pode-
rosos, os quais, por terem algum tipo de relação de poder, seriam capazes de
resolver os problemas, usando de sua influência. A consequência dessa prática
de cordialidade é justamente o constante enfraquecimento do público em
detrimento do privado. Isso torna a população pobre ainda mais vulnerável,
em um contexto de desigualdade.
Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para
a civilização será de cordialidade — daremos ao mundo o “homem
cordial”. A lhaneza1 no trato, a hospitalidade, a generosidade, vir-
tudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam,
com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao
menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos
padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriar-
cal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas
maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um
fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade
há qualquer coisa de coercitivo — ela pode exprimir-se em man-
damentos e em sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe,
a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social,
chega a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa.
(HOLANDA, 1995, p. 146)

A cordialidade brasileira também tem como característica uma afetivi-


dade acima da racionalidade. Ao invés de pautarmos as relações por meio de
1 Lhaneza: afabilidade, candura, simplicidade.

– 111 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

elementos objetivos e racionais, como, por exemplo, escolher um político


que seja mais preparado para suas funções e tenha uma reputação digna do
interesse público, seria uma constante em nossa história que as relações de
afeto substituam essas características. Essa propensão à afetividade explicaria
a manutenção de relações clientelares, a ascensão de governos populistas e até
mesmo o caráter autoritário de alguns de nossos governos.
A tese do homem cordial ajudou a construir outras teses que explicam a
formação e o comportamento de nossas elites. Um exemplo é a formulação de
Roberto DaMatta (1986) sobre o “jeitinho brasileiro” e o argumento de auto-
ridade pautado no “você sabe com quem está falando?”, muito difundidos no
Brasil. Para esses autores, a prevalência dos aspectos privados sobre o público
na sociedade brasileira ajuda a construir uma cultura de resolução de conflitos
e problemas fora das instituições. Por isso seria tão importante a constituição
de influência e apadrinhamento.
Uma série de outras teses nas últimas décadas dialogaram com essas
vertentes, contribuindo, e muito, para entendermos de forma mais com-
plexa a formação da elite brasileira. Porém o que nos importa assinalar aqui
é que a consolidação dessa elite ao longo do século XVIII e no início do XIX
passou por relações internas e externas que foram decisivas para determinar
seu caráter.
A economia, a cultura e a política são fatores que precisam ser compreen-
didos de maneira encadeada, para que tenhamos um olhar mais completo e
crítico sobre os passos dados por esses grupos na construção de processos
políticos tão fundamentais como a independência.

7.2 Aspectos sociais e culturais


da elite brasileira
A economia, sem dúvida, é ponto crucial para garantir que um grupo
social conquiste um espaço de elite. Condições materiais, posse de recur-
sos, tudo isso ajuda, e muito. Porém é fundamental conhecermos como
esses grupos pensam e aprender um pouco mais sobre a formação cultural
que receberam.

– 112 –
Elites e povo: laços e distanciamentos

Ao longo do processo de colonização no Brasil, não havia aqui institui-


ções educacionais, principalmente na etapa inicial. Não existia a educação
fundamental, e muito menos a formação superior, o que deixava homens
livres pobres fora de qualquer processo educacional formal, e o mesmo acon-
tecia com os escravos. Aliás, convém lembrar que, em boa parte de nossa
história, era considerado crime alfabetizar um escravo.
Uma alternativa para as famílias da elite local era encaminhar um de seus
filhos para a carreira eclesiástica. Ter um membro da família no clero poderia
também constituir relações de poder significativas além de garantir instrução
adequada e um grau relevante de cultura.
Aos que buscavam uma carreira secular no Brasil deveriam tomar o
rumo da Europa para obter uma formação superior de qualidade. A maio-
ria deles ia estudar na Universidade de Coimbra, em Portugal, e o principal
curso ambicionado por esses jovens ricos era o de Direito. Esse era o campo
de conhecimento mais amplo e relevante no período, o que fazia com que a
maior parte dessas famílias sonhasse em tornar seus filhos bacharéis. Esse é
um dado relevante e que viria a definir em muito os caminhos do Brasil.
A Universidade de Coimbra havia passado por transformações curri-
culares significativas, impulsionadas pelas reformas do Marquês de Pombal,
em meados do século XVIII. O objetivo de Pombal, então primeiro ministro
de Portugal, era impulsionar o desenvolvimento da nação, buscando criar
condições favoráveis ao crescimento e fortalecimento de instituições mais
dinâmicas e modernas. Para isso, um de seus focos era justamente a formação
universitária em Portugal. Como já mencionamos, a Europa vivia o “século
das luzes”; as ideias iluministas transitavam, e era necessário que esse reino de
alguma forma se apropriasse do imaginário liberal do período.
A formação que os filhos da elite brasileira tiveram em Coimbra foi
fundamental para fornecer o repertório cultural determinante nos rumos que
a nação tomou ao longo do século XIX. Em especial durante o processo da
independência brasileira, a unidade de pensamento dessa elite seria funda-
mental para o sucesso do modelo de nação que viria a surgir. Essa é parte
da tese central do historiador José Murilo de Carvalho; para ele, conhecer a
formação comum que esses filhos da elite tiveram é essencial à compreensão
de como, no século XIX, eles se movimentaram no sentido de construir as
bases políticas e sociais do Império.

– 113 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Elemento poderoso de unificação ideológica da elite imperial foi a


educação superior. E isto por três razões. Em primeiro lugar, por-
que quase toda a elite possuía estudos superiores, O que acontecia
com pouca gente fora dela: a elite era uma ilha de letrados num mar
de analfabetos. Em segundo lugar, porque a educação superior se
concentrava na formação jurídica e fornecia, em consequência, um
núcleo homogêneo de conhecimentos e habilidades. Em terceiro
lugar, porque se concentrava, até a Independência, na Universidade
de Coimbra e, após a Independência, em quatro capitais provinciais,
ou duas, se considerarmos apenas a formação jurídica. A concentra-
ção temática e geográfica promovia contatos pessoais entre estudan-
tes das várias capitanias e províncias e incutia neles uma ideologia
homogênea dentro do estrito controle a que as escolas superiores
eram submetidas pelos governos tanto de Portugal como do Brasil.
(CARVALHO, 1980, p. 65)

Uma das características da formação em Direito na Universidade de


Coimbra era o jusnaturalismo, ou direito natural. O intuito do Marquês de
Pombal ao instituir esse modelo era contrapor-se à escolástica, até então pre-
dominante na formação educacional ibérica. A doutrina jusnaturalista procu-
rava distinguir entre aquilo que era razoável ou não como forma de orientar
o justo nas decisões políticas. A fundamentação jurídica de uma sociedade
deveria buscar naturalmente o que fosse mais adequado, racional e equili-
brado, ao mesmo tempo em que se respeitassem as instituições e tradições.
Essa influência do pensamento jusnaturalista nos permite compreen-
der o comportamento das elites políticas brasileiras em momentos como
a construção da primeira Constituição Brasileira, de 1824. Embora essa
Constituição traga algumas inovações, como a separação dos três poderes e a
noção de governo representativo, ela mantém o regime de propriedade lati-
fundiária e a escravidão.
Além da formação universitária, destacamos que o século XVIII teve
grande importância para a questão cultural. Nessa época, consolidou-se a
ideia de que um homem de elite deveria ser um homem culto, disposto ao
estudo das Ciências, como Matemática e Astronomia, mas também conhece-
dor de artes como o teatro e a música. Em regiões com maiores núcleos urba-
nos no Brasil Colônia, era intensa a produção artística e cultural. Podemos
destacar, além da literatura, a consolidação do barroco brasileiro nessa época.

– 114 –
Elites e povo: laços e distanciamentos

Parte significativa dessa arte vinha da Europa, que era considerada o


grande centro cultural do mundo nesse período. Ainda assim, é possível
notarmos o crescimento da produção local em vários campos artísticos e cul-
turais, que deixariam marcas fundamentais ao longo do século XIX.

7.3 A pluralidade da elite brasileira no século XIX


Embora a elite brasileira do século XIX estivesse coesa no seu projeto de
construção de uma grande nação continental e escravocrata, havia algumas
nuances em suas características políticas, sociais e culturais. Apresentaremos
algumas teses que são centrais na compreensão das características desses gru-
pos no Brasil, compreendendo a transição do século XVIII para o XIX.
Ao longo do século XIX, a atividade cafeicultora firmou-se como ponto
forte da economia brasileira, constituindo, em algumas regiões do Brasil, uma
poderosa e rica elite. Dessa elite cafeicultora destacou-se uma série de figuras
proeminentes da política brasileira, com atuação direta nos eventos mais rele-
vantes dessa área em nossa história.
Uma das teses que aponta essa relevância dos cafeicultores para a polí-
tica brasileira na época é de Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo Saquarema
(MATTOS, 1990). Nessa obra, o autor mostra como o grupo dos Saquaremas,
especificamente do Rio de Janeiro, detentor de poderio econômico, construiu
uma hegemonia política decisiva para o Império. Mattos trata do conceito de
classe dirigente para explicar como tal grupo constituiu sua hegemonia, em
um sentido gramsciano2.
não deixamos de “deslocar” ou “ampliar” o conceito de dirigentes
(propriamente falando, de dirigentes saquaremas), os quais não mais
se restringem aos “empregados públicos” encarregados da administra-
ção do Estado nos seus diferentes níveis. Por dirigentes saquaremas

2 Segundo Ana Rodrigues Cavalcanti Alves, “Gramsci afirma que é muito comum um de-
terminado grupo social, que está numa situação de subordinação com relação a outro grupo,
adotar a concepção do mundo deste, mesmo que ela esteja em contradição com a sua atividade
prática” (ALVES, 2010, p. 74). De acordo com Gramsci, “esta concepção do mundo imposta
mecanicamente pelo ambiente exterior é desprovida de consciência crítica e coerência, é desa-
gregada e ocasional. Dessa adoção acrítica de uma concepção do mundo de outro grupo social,
resulta um contraste entre o pensar e o agir e a coexistência de duas concepções do mundo, que
se manifestam nas palavras e na ação efetiva” (ALVES, 2010, p. 74).

– 115 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

estamos entendendo um conjunto que engloba tanto a alta burocracia


imperial [...] quanto os proprietários rurais localizados nas mais diver-
sas regiões e nos mais distantes pontos do Império, mas que orien-
tam suas ações pelos parâmetros fixados pelos dirigentes imperiais,
além dos professores, médicos, jornalistas, literatos e demais agentes
“não públicos” – um conjunto unificado tanto pela adesão aos princí-
pios de Ordem e Civilização quanto pela ação visando a sua difusão.
(MATTOS, 1990, p. 15-16)

A tese de Mattos aborda a importância da economia para o forta-


lecimento dessa elite, mas expõe também o papel que os setores culturais
tinham na perpetuação desse poder. Um ponto muito interessante é que os
Saquaremas seriam parte fundamental no enfrentamento dos interesses dos
Luzias, grupo político mais alinhado aos portugueses.
Por outro lado, estudos atuais mostram que esse poder das elites estava
mais espalhado ao longo do território, não ficando restrito apenas ao Rio de
Janeiro. Além disso, a atividade cafeicultora não era a única que sustentava essa
elite; hoje existem pesquisas que mostram a relevância dos pecuaristas e dos
agricultores de outras culturas. Essas figuras, espalhadas pelo território nacio-
nal, também foram importantes para o jogo político e a construção do Império.
Por sua vez, trabalhos como A velha arte de governar, de Maria Fernanda
Vieira Martins (2007), também mostraram que, além dos interesses eco-
nômicos, essas elites precisavam ordenar uma série de interesses locais, que
incluíam atender as demandas de suas redes sociais e familiares. Ou seja, ao
pensarmos a atuação das elites, devemos pensar também na dimensão micro.
Nesse sentido,
[...] a prática relacional extrapola seu sentido exclusivamente econô-
mico, ligado à necessidade de estabelecer alianças vantajosas do ponto
de vista material ou de manutenção dos bens e propriedades da famí-
lia, para assumir o sentido de busca de uma maior previsibilidade
e mesmo interferência no ritmo dos acontecimentos. É exatamente
essa abordagem que abre espaço para a atuação direta e o estabeleci-
mento de estratégias, sejam individuais ou de grupos. A necessidade
da montagem dessas estratégias tornava-se mais premente quanto
mais se distanciava a esfera de decisão, o que ocorria com a progres-
siva centralização do poder dos Estados nacionais em formação. Essa
situação gerava maior insegurança, porém, por outro lado, provocava,
no nível local, a necessidade constante de adaptação dessas famílias,

– 116 –
Elites e povo: laços e distanciamentos

de reorganização de poder e criação de vias de acesso à informação.


(MARTINS, 2007, p. 29)

Dito isso, podemos fazer um gancho interessante para entender justa-


mente essas relações entre elites e povo. Uma das tradições brasileiras é a
do poder local, e, para o estabelecimento desse poder, é fundamental que se
constituam as chamadas relações clientelares. O fenômeno do clientelismo,
diga-se de passagem, não é exclusivo do Brasil. Remonta a práticas antigas,
inclusive na Europa. A relação entre proprietários de terra e não proprietários
geralmente demarca o clientelismo: aquele que não tem a posse da terra acaba
tendo de se submeter àquele que tem, seja por meio de seu trabalho ou da
lealdade política.
Se por um lado o membro da elite, proprietário de terras, explorava
os não proprietários, existiam também obrigações implícitas nessa relação.
Muitas vezes isso envolvia proteção, segurança e auxílio em momentos difí-
ceis, como doença e morte. Esses vínculos acabaram por marcar historica-
mente as relações sociais no Brasil, com impactos relevantes até os dias de
hoje, inclusive na política.
Por fim, cabe reiterar que o perfil ambíguo dessas elites brasileiras é
determinante para entendermos o processo que viria posteriormente, com
a Independência. Uma elite que busca algumas modernizações porém faz de
tudo para evitar grandes transformações na sociedade.

Ampliando seus conhecimentos

O texto a seguir tem como objetivo apresentar uma possi-


bilidade de entendermos como funcionavam os debates
entre a elite política brasileira do século XIX. A pesquisa
aponta como esses homens percebiam a representação polí-
tica e organizavam seus argumentos na tentativa de ampliar
ou reduzir os meios de participação no período. Convém
observarmos como o pensamento político desses homens vai
se construindo.

– 117 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

“Da Excelência e das vantagens”:


o direito ao voto em debate no
Conselho de Estado Imperial
(ANDRADE, 2012, p. 241-249)

O debate sobre nação sempre foi um grande desafio para os


historiadores. Mais especificamente – no caso brasileiro – a
nação (e sua gênese) está diretamente relacionada à cons-
trução de um Império. Um projeto amplo, grandioso e ges-
tado por décadas através da interação entre diversos atores
daquela sociedade.
Menos nos interessa aqui esse processo, mas sim o seu resul-
tado, que por sua vez é importante para a compreensão do
caráter desse império. Falo aqui de uma sociedade complexa.
Um estado-nação de dimensões continentais, onde a unidade
territorial se manteve para além da simples ideia de força ou
coesão. Trata-se de uma rede de relações políticas, instituições
múltiplas, espaços de sociabilidade, elementos de interação
entre indivíduos, significação e ressignificação de práticas e
relações sociais diversas que envolviam a constante transfor-
mação política, social e cultural. Sendo assim,
considera-se o Estado como uma instância do político,
por sua vez interpretado não como um domínio isolado
da realidade, mas como “o lugar onde se articula o social
e sua representação, a matriz simbólica na qual a expe-
riência coletiva se enraíza e se reflete por sua vez”. Assim,
também o próprio Estado torna-se um espaço onde se
desenvolve uma dinâmica própria, uma instância em
que se inserem as relações sociais e políticas presentes
na sociedade, considerando-se o papel do indivíduo e
sua capacidade de ação, ou, como diz Norbert Elias,
segundo uma interpretação que tem como elemento cen-
tral os atores e suas redes de relacionamentos, e não as
ações despersonificadas. (MARTINS, 2007, p. 24)

– 118 –
Elites e povo: laços e distanciamentos

Esse brainstorm de ideias sobre nação serve aqui apenas para


evidenciar e tentar marcar de forma enfática que tratamos de
uma sociedade muito mais complexa que a historiografia tradi-
cional conseguiu retratar.
Aqui não há o interesse em levantar autores para referendar
posições assumidas em um puro e simples argumento de auto-
ridade, mas sim de erguer uma preocupação em apresentar
caminhos que nos auxiliem a compreender através de outros
autores como a sociedade do XIX, em especial sua elite, não
pode ser tratada de forma singular, assim como a dinâmica de
suas interações com o estado e outros atores. Esse estado
resignifica e se apropria constantemente um passado,
Contudo, não há mais uma distância entre aquele que
exerce algum poder político sobre os outros, e aquele
que está isento de algum tipo de controle das condutas.
Enfim, aquela metáfora do corpo não é mais tomada como
simples analogia funcionalista (segundo a qual apenas um
concebe as ordens e os demais executam), porque o
corpo social depende agora de uma ética para ser tam-
bém o lugar de exercício do poder político: a moderação
das paixões aparece como uma nova função do governo
político. (OLIVEIRA, 2005, p. 63)
Se o tema do estado nacional nos é caro, não menos o é o do
estudo das elites políticas. As perspectivas tradicionais sempre
dedicaram um olhar pejorativo, muitas vezes anacrônico sobre
as elites. Tratadas quase sempre como “reacionárias”, “conser-
vadoras” ou apenas ocupadas com a manutenção do status
quo, em muitos estudos clássicos da historiografia brasileira
foram assim tratados.
Nas últimas décadas boa parte da interpretação da ação das
elites políticas e do caráter do governo monárquico foi pau-
tada basicamente por duas interpretações. De um lado a pers-
pectiva da “elite por formação”, edificada através da obra de

– 119 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

José Murilo de Carvalho (1980) e a perspectiva gramsciana


de Ilmar Rohloff de Mattos (1990).
Ambas as interpretações foram fundamentais para a historio-
grafia em determinado momento, sendo assim, não se trata da
refutação de obras que são importantes e merecem apreço,
mas da necessidade de análise crítica e a busca de responder
a novas questões muitas vezes trazidas pelas fontes primárias
e novos paradigmas. Não se trata aqui de buscar uma “reabili-
tação” das elites brasileiras do XIX, mas sim analisá-las dentro
dos seus marcos temporais. Estudos recentes tem buscado
dar conta desse desafio de retratar o papel das elites políticas
diante o governo monárquico brasileiro dentro de uma lógica
diferente, como o caso de trabalhos de Dolnikhof (2009)
onde a preocupação central é redimensionar a ideia de repre-
sentação política dentro da lógica do século XIX e dessa
forma compreender a ação e funcionamento desses governos
através da lógica de sua própria época.

Atividades
1. Tendo em vista as principais teses de Caio Prado Junior e Sérgio Buar-
que de Holanda, aponte as diferenças entre os dois modelos de expli-
cação do processo colonial brasileiro, destacando as percepções sobre
economia e cultura. Identifique os conceitos construídos por ambos.

2. A formação cultural, em especial a educacional, foi um traço impor-


tante para entendermos o perfil da elite política brasileira do século
XIX. Sobre isso, aborde em um texto:

a. as características da formação universitária que essa elite recebia


em Coimbra, no curso de Direito;
b. como essa educação, em especial o currículo, influenciou na atu-
ação dessas elites no Brasil da época.

– 120 –
Elites e povo: laços e distanciamentos

3. Sobre as características das elites políticas brasileiras, em sua diversi-


dade no século XIX:

a. Como se constituíam as relações clientelares entre povo e elite?


b. Alguns estudos demonstram que havia um grau de pluralidade
dessa elite no período no que tange à origem regional e à atividade
econômica. Disserte a respeito.

– 121 –
8
O processo de
Independência

A dispersa, desarticulada e fluida nação encontra, insta-


lado no Rio de Janeiro, um arcabouço fechado, disposto
a exercer uma vigilante ditadura sobre o país. O banho
liberal, irradiado dos acontecimentos portugueses e bra-
sileiros dos dois últimos anos, não permitia, entretanto,
a passiva adoção do sistema absolutista. Não consentiam
as circunstâncias, de outro lado, potencialmente desagre-
gadoras, a cópia do modelo teórico do liberalismo euro-
peu ou da democracia norte-americana. A organização do
Estado entrelaça-se, dentro das tendências em conflito e
sob o dilaceramento centrífugo das capitanias, ao cuidado
superior de manter e soldar a unidade política do país,
tarefa gigantesca e incerta diante dos obstáculos geográfi-
cos e dos valores provinciais não homogêneos. (FAORO,
1987, p. 250)

Compreender a formação da nação brasileira é, antes de tudo,


compreender o processo político da independência. Esse evento foi
muito marcante, fortemente influenciado por ideias políticas que
circulavam na época e que deixaram marcas até os dias de hoje. Era
o tempo da consolidação das ideias liberais.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

O processo de Independência nos exige entender uma série de peculia-


ridades de nosso poder local: a correlação de força das elites, os desejos do
então príncipe regente Pedro I e também as ações de Portugal. Por fim, com-
preender esse momento histórico passa pela análise de um dos marcos mais
relevantes da construção da nação: a Constituição de 1824. Esse documento
diz muito sobre os conflitos e as negociações do Brasil que surgia.

8.1 Antecedentes do processo de emancipação


A chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil gerou uma série de
transformações sociais, culturais e políticas. Mas, do ponto de vista econô-
mico, elas foram ainda mais significativas.
A abertura dos portos para as nações amigas constituiu-se em uma boa
novidade para a elite local, que tinha agora a oportunidade de negociar pro-
dutos diretamente com os compradores nos portos brasileiros. Na prática,
o pacto colonial esvaía-se, mesmo não tendo ainda o Brasil se tornado uma
nação independente.
Por outro lado, os benefícios da instalação da corte no Rio de Janeiro
não eram sentidos da mesma forma por todas as elites locais. No caso de
Pernambuco, ficava cada vez mais clara a insatisfação com os custos de manu-
tenção de uma máquina de Estado que não promovia os mesmos benefícios
para todo o território. A elite que circundava a corte no Rio de Janeiro aca-
bava por usufruir dela de maneira mais eficiente.
Não é de se estranhar que, em 1817, tenha eclodido uma rebelião em
Pernambuco contestando os impostos e entraves para o desenvolvimento
local, inspirada por ideias liberais, como as que alimentaram a Revolução
Francesa e a Independência dos EUA. A rebelião foi derrotada por Dom João
VI, que, no mesmo período, por ocasião da morte de sua mãe, sagrou-se ofi-
cialmente rei, em uma grande celebração no Rio de Janeiro.
Como podemos perceber, aparentemente tudo caminhava para um des-
fecho tranquilo para os interesses lusitanos. Na Europa, indicava-se a derrota
de Napoleão e, por consequência, a retomada do poder de Dom João em
Portugal. O grande território brasileiro estava apaziguado.

– 124 –
O processo de Independência

Outro episódio histórico precisa ser compreendido para que possamos


avançar: a Revolução Liberal do Porto.
Nesse início do século XIX, as ideias liberais incendiavam a Europa, e
não foi diferente com Portugal. A nação vivia uma grande crise, causada pelas
invasões napoleônicas. A economia ia mal, e uma grande incerteza política se
abatia sobre o país.
Nesse contexto, o movimento revolucionário do porto iniciou-se,
erguendo duas bandeiras. A primeira era a da elaboração de uma constituição
moderna de inspiração liberal, que fosse capaz de dar respostas aos novos
dilemas civilizatórios. E a outra era a reafirmação da soberania monárquica;
porém esta desencadearia uma situação política peculiar.
Para que Portugal constituísse uma monarquia constitucional, era neces-
sário que seu rei retornasse. Dom João VI já havia atrasado em muito seu
retorno à Europa, e, dessa vez, a reivindicação das elites portuguesas era clara:
o rei deveria retornar e assumir seu lugar de fato. Essa exigência agradava
uma parte da elite, a qual considerava fundamental que Portugal retomasse os
lucros efetivos com a exploração colonial do Brasil. E isso significava restituir
o Império Luso-Brasileiro.
Podemos imaginar o que se passou na cabeça das elites brasileiras. Com a
elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, muitas portas haviam sido aber-
tas, e as possibilidades de lucro e crescimento eram claras. Mas se Dom João
VI retornasse, quais seriam as reais possibilidades de tudo isso permanecer? O
futuro do Brasil tornava-se incerto com o movimento das cortes em Portugal.
O pensamento liberal iluminista circulava em Portugal nos debates sobre
a construção da nova Constituição; autores como Rousseau e Diderot eram
lidos com frequência. No Brasil, a repercussão fora imediata; jornais e panfle-
tos eram distribuídos e davam conta da situação portuguesa. Um movimento
intenso se formava e reivindicava o papel do Brasil nesse processo.
Em 1821, Dom João VI achou por bem jurar a Constituição como
forma de demonstrar seu compromisso e legado. Porém um decreto de março
do mesmo ano determinou seu retorno para a capital portuguesa. No Brasil,
o cenário não era nada bom. Além das inúmeras incertezas, um clima de
radicalização parecia erigir no Rio de Janeiro.

– 125 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Nesse ambiente é que, aos poucos, a figura de Dom Pedro I ganhou des-
taque. Até aquele momento, já casado com Dona Leopoldina (uma relação
que historicamente teve muitos problemas), Dom Pedro sabia apenas que
deveria retornar junto de seu pai a Portugal.
No entanto, Dom Pedro I permaneceria no Brasil. Esse gesto envolve
uma série de interpretações históricas. Podemos inferir que havia, por parte
do jovem, um interesse direto em se constituir príncipe regente e dar início a
seu próprio legado político. Há, também, a possibilidade de pensarmos que
Dom João teria sido leniente com a decisão do filho de ficar em terras brasi-
leiras. Dessa forma, pelo menos temporariamente conseguiria garantir que o
território permanecesse sob o poder de sua família.
Pedro I inicia então sua trajetória como regente e busca dar demonstra-
ções de luz própria, ao providenciar algumas iniciativas políticas genéricas.
Ao mesmo tempo, cresce no país a ideia do constitucionalismo, estimulado
pelas cortes ao fim de 1821. Um grande dilema estava colocado para a elite
brasileira: de um lado, a possibilidade de estabelecer um modelo de governo
constitucional, mas, de outro, o risco de que esse constitucionalismo portu-
guês na prática submetesse o Brasil novamente a uma relação de exploração.

8.2 O papel das elites internas:


radicais e moderados
Dois grupos ocupavam um papel fundamental no processo pré-inde-
pendência no Brasil. Havia um grupo mais radical, inspirado por um ideário
liberal e comandado por Joaquim Gonçalves Ledo, um político e jornalista
que editava o famoso jornal Revérbero Constitucional Fluminense. Esse grupo
tinha uma clara aversão aos interesses monárquicos e defendia uma ruptura
clara e objetiva com Portugal, para a construção de uma nova nação. O outro
grupo, mais conservador, era comandado por um dos mais tradicionais polí-
ticos de nossa história, José Bonifácio de Andrada. Esses indivíduos, por sua
vez, queriam garantir um processo que fosse o mais “seguro” para os interes-
ses de todos, inclusive os da Coroa. Autores importantes que se debruçaram
sobre nossa história, como Faoro (1987), já apontavam o quanto o compor-
tamento dessa elite, preocupada sempre com transições que não alterassem a

– 126 –
O processo de Independência

correlação de poder na sociedade, foi decisivo para construirmos uma socie-


dade de privilégios.
Ao mesmo tempo, crescia a exigência do retorno do príncipe regente
a Portugal, o que atemorizava de vez a elite brasileira, tanto a conservadora
quanto a mais liberal. Com a ausência de Pedro I, a possibilidade de seus inte-
resses serem novamente submetidos aos da elite portuguesa era grande. Ainda
ao fim de 1821, firmou-se um movimento chamado Clube da Resistência, que
reunia políticos e membros da elite na tentativa de convencer e dar apoio a
Pedro I, para que ficasse por aqui, rejeitando assim a exigência de seu retorno
por parte da corte.
Embora fossem dois grupos diferentes, é possível perceber a existência
de uma ação unitária pelo objetivo de garantir a permanência de Pedro no
Brasil. No início de 1822, esse movimento das elites locais se acentuou. Em
janeiro, Dom Pedro I recebeu um documento com mais de oito mil assina-
turas, pressionando-o para não deixar o país. Assim, a elite movimentava-se
com agilidade para evitar a todo custo a sanha recolonizadora que vinha de
Portugal. Era necessário agir rápido.
Nesse contexto, Pedro I procurou dar uma resposta à altura às deman-
das locais. Foi o famoso episódio do Dia do Fico, em nove de janeiro de
1822. Nessa ocasião, pressionado, o príncipe regente resolve manifestar-se
oficialmente e, pela primeira vez, fala abertamente em defender os interesses
do Brasil. Embora haja uma série de desencontros sobre os fatos e a forma
como as coisas aconteceram nesse dia, é fato que essa foi uma movimenta-
ção política com o intuito de manter a situação sob controle e evitar uma
possível revolta.
Aliás, esse era um dos pontos debatidos constantemente no país.
Manter-se vinculado a Portugal poderia gerar muitos prejuízos: até que
ponto essa incerteza acerca da recolonização não poderia suscitar um movi-
mento ainda mais radical? Essa era uma das preocupações de figuras como
José Bonifácio. Outros líderes políticos locais temiam que a radicalização do
processo levasse também à radicalização das pautas. E se as palavras de ordem
contra a escravidão aparecessem? Até mesmo o ideário da República poderia
se desenvolver em meio a uma situação como essa.

– 127 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

A resposta de Dom Pedro I causou furor em Portugal. Ele encaminharia


um documento no qual ficava claro que o Brasil não mais queria ser tratado
como “filho de Portugal”, e sim “como irmão” (SCHWARCZ; STARLING,
2015, p. 212). Embora possamos questionar os reais interesses de Pedro, é
notável que um documento como esse foi capaz de gerar uma reação nas elites
locais. O regente estava jogando o jogo para valer.
Enquanto isso, embora concordassem com a permanência do príncipe
regente no Brasil, as elites locais em muito divergiam. Os grupos mais ao
Norte ainda não estavam totalmente convencidos de que a mudança da capi-
tal para o Rio de Janeiro havia sido um bom negócio, ao mesmo tempo que
as elites do Sudeste não cogitavam ceder em qualquer aspecto. E sabemos
bem que estas últimas eram muito beneficiadas. Havia, ainda, as discussões
sobre que modelo político deveria ser adotado por aqui. Um grupo significa-
tivo advogava por uma monarquia constitucional, mas, dentro dele, existiam
discordâncias sobre o tipo de representação e sua abrangência. Uma minoria
defendia o fim da monarquia e o surgimento de uma república, nos moldes
dos EUA.
A pressão das elites seguia, e um novo movimento se deu de forma
homogênea. Por meio de uma nova petição, Dom Pedro I foi pressionado a
convocar uma Assembleia Nacional Constituinte no Brasil. O entendimento
geral de que uma Constituição era um instrumento fundamental estava claro.
Curiosamente, o texto-base dessa convocação fora escrito por Joaquim Ledo
e José Bonifácio, figuras que tradicionalmente estavam em lados opostos.
Porém, a tese de Ledo de que a escolha dos representantes para a constituinte
deveria se dar por eleições diretas acabou sendo derrotada. Bonifácio, por sua
vez, ocupava cada vez mais espaço no governo de Pedro I.
Ao longo do mês de agosto de 1822, o caminho para a ruptura total com
Portugal parecia claro. As tropas portuguesas eram consideradas inimigas e os
governos de províncias não deveriam dar emprego a nenhum português. A
independência parecia inevitável.
No fim de agosto e início de setembro, Pedro I viajou pelo país, na
tentativa de apaziguar os ânimos entre as elites locais. O objetivo era per-
correr algumas regiões e fazer a boa e velha política. Já havia passado por
Minas Gerais, pelo Rio de Janeiro, e encontrava-se, por fim, em São Paulo.

– 128 –
O processo de Independência

Na capital do reino, o conselho de ministros, comandado por José Bonifácio,


queria pressa; cada minuto que atrasasse a independência poderia gerar pro-
blemas. Por isso, um emissário partiu com as recomendações de Bonifácio
para Pedro I.
O então regente acabou sendo pego de surpresa, em uma situação pouco
nobre. A farda, as condições da comitiva e até o cenário não favoreciam o
que chamamos de posteridade histórica. Muitas vezes, a imagem que temos do
Grito do Ipiranga é aquela retratada por Pedro Américo, quase 70 anos depois
do fato ocorrido. Hoje sabemos, por meio de fontes históricas, que a cena não
foi tão triunfante e bela como a pintura retratou.
Mas assim se fez a formalização da separação entre Brasil e Portugal. Nas
margens do Rio Ipiranga, Pedro I dava o grito que ficou tão famoso, embora
seja apenas um pequeno detalhe do que realmente aconteceu naquele período.
Por fim, parecia que Pedro I conseguiria apaziguar os ânimos, satisfa-
zendo as duas facções políticas das elites locais, tanto as mais radicais quanto
as mais moderadas. Para completar a missão, seria recebido com festa no Rio
de Janeiro.
Figura 1 – AMÉRICO, Pedro. Independência ou morte, ou Grito do Ipiranga.
1888. Óleo sobre tela, color.; 415 x 760 cm. Museu Paulista, USP.

– 129 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

No entanto, ainda seria necessário dar uma resposta adequada aos


dilemas que o Brasil precisava enfrentar. Que tipo de governo se insta-
laria? Avançaria a ideia de uma constituição? Quais seriam os limites de
poder? E como ficaria a escravidão? Em resumo, que nação estaria nas-
cendo naquele momento?
Vejamos mais a seguir.

8.3 Uma nova nação que surge


Entender a nação que se constituía em 1822 exige muitas reflexões
acerca de nossas raízes e inovações. O Brasil surge em um contexto de trans-
formações globais, de efervescência de ideias, de questionamentos políticos
profundos e significativas mudanças econômicas.
Uma das primeiras reivindicações da elite local à qual Pedro I teria de
se atentar era a manutenção do território brasileiro nos parâmetros de então.
O exemplo das colônias espanholas não era muito bem-vindo por aqui, já
que a desagregação do território em inúmeras repúblicas parecia gerar uma
consequência clara: precipitar o fim da escravidão e do latifúndio. Esse risco
as elites brasileiras não queriam correr. Além disso, havia nesses homens
alguns resquícios da ideia de um grande império, algo muito forte na cultura
política portuguesa.
Essa relação com o território explica boa parte da mobilização da elite
local em manter a monarquia como sistema de governo, consagrando Pedro I
como imperador. Obviamente isso parece um tanto contraditório se pensar-
mos que um português seria o chefe de uma nação que acabara de se livrar de
Portugal. Mas, como sabemos, no processo histórico nem tudo é tão límpido
quanto parece.
Era necessário fazer de tudo para evitar a desagregação. E, ainda mais
importante eram os ecos de revoltas escravas vindas do Haiti, os quais assom-
bravam os senhores brasileiros. Pior do que o risco do fim da escravidão era
que esse fim acontecesse pelas mãos dos próprios escravos, escrevendo seu
próprio destino.

– 130 –
O processo de Independência

Apesar da unidade em defender a independência, no plano interno


as elites políticas seguiam divididas, e o trabalho de Pedro I não seria fácil.
Acertar os ponteiros dessa nova nação iria requerer muita habilidade política e
o estabelecimento de um marco decisivo: uma Constituição que estabelecesse
um pacto político, contemplando todos e garantindo a ordem que o Império
precisava para deslanchar.
Em 1823, iniciaram-se os trabalhos da constituinte, cujo texto-base
ganhara a alcunha de “Constituição da Mandioca”, devido ao fato de que o
sistema eleitoral proposto era censitário, ou seja, definia um critério de renda
para o voto. E esse critério era estabelecido justamente pela medida de 150
alqueires de mandioca, para efeitos comparativos.
Um dado que sempre devemos retomar é o de que boa parte das ideias
que influenciaram a elaboração do projeto dessa constituição derivavam das
influências diretas do currículo da Universidade de Coimbra, em especial do
curso de Direito. Como nos mostra Carvalho (1980), era justamente essa
formação que dava unidade à maior parte das ideias e possibilitava a constru-
ção de instituições que atendessem os interesses dessa elite. Estudos recentes
como o de Lynch (2014) reiteram a importância desse pensamento político
para entendermos a formação institucional do Brasil.
Os grupos mais liberais, que chamamos aqui de Partido Brasileiro, luta-
ram na constituinte para que houvesse a separação dos três Poderes – exe-
cutivo, legislativo e judiciário –, seguindo os preceitos da época, inspirados
na obra de Montesquieu. Como forma de garantir a liberdade política, esse
grupo defendia a predominância do poder legislativo sobre o executivo, em
que estaria o imperador e seus ministros. Era uma maneira de impedir qual-
quer chance de despotismo por parte do monarca. Obviamente, Pedro I e o
grupo do chamado Partido Português não achavam esse o melhor caminho.
Assim, mais uma vez o jovem imperador se aproximara de José Bonifácio, já
que suas propostas eram as que não reduziriam o poder real.
Cabe dizer que, no geral, as propostas para a Constituição Brasileira
ganhavam contornos liberais. O momento não poderia gerar outro efeito.
Como vimos anteriormente, a Revolução do Porto deixou marcas no Brasil,
e as discussões das cortes haviam gerado uma série de ideias por aqui. Para
Pedro I, esse era um processo arriscado.

– 131 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Em novembro de 1823, o Imperador decide dissolver a Assembleia


Nacional Constituinte usando da força militar. Era um claro recado: não
aceitaria ter seus poderes limitados por ninguém. Já no ano de 1824, o
monarca apresentaria um novo texto constitucional, dessa vez elaborado por
um pequeno grupo de sua confiança. Era necessário conjugar a ideia de um
governo representativo com o poder monárquico.
O início do século XIX havia sido um momento de intensos debates
sobre o tema da representação e legitimidade dos governos. Dessa forma,
a separação dos três poderes estava clara, mas havia a criação de um quarto
poder, o Moderador. Este teria como função garantir a estabilidade do
Império. Por meio dele, o Imperador poderia intervir em decisões fundamen-
tais da nação, sob o pretexto de garantir estabilidade, racionalidade e ordem.
Por um lado, a Constituição de 1824 tinha características avançadas,
apesar de ter sido feita a “portas fechadas” e outorgada. Ela submetia a Igreja
ao Estado, instituía um legislativo bicameral, regulamentava o direito ao voto
(apesar de censitário, analfabetos poderiam votar). Mas, por outro lado, man-
tinha toda a estrutura escravocrata no império, mesmo que boa parte das
nações já a houvesse abolido e que o Brasil já tivesse sofrido muitas pressões
para fazer o mesmo.
É muito importante pensarmos o surgimento da nação brasileira, em
1822, como a conjunção de fatores complexos. O primeiro deles, como
vimos, é a correlação de forças internas entre as elites e a capacidade de Dom
Pedro I de intermediá-las. O segundo, não menos importante, é o caráter
econômico. Os dilemas sobre a escravidão e a propriedade da terra eram fun-
damentais para a decisão de se construir um imenso império ou permitir
a fragmentação, como ocorreu na América Espanhola. Outra característica
é a centralização de poder. Muitos defendiam que a Constituição deveria
garantir uma nação federalista, inspirada no modelo dos EUA, por exemplo.
Mas sabemos que venceu a proposta de uma nação onde o poder central é
forte, algo que reflete até hoje em nossa cultura política. Tais fatores seriam
fundamentais para evitar grandes rupturas e manter a escravidão. E os efeitos
ao longo de nossa história são conhecidos.
Ainda nos dias de hoje temos vários elementos que podem demonstrar
como essa manutenção da escravidão por tempo recorde no Brasil foi decisiva

– 132 –
O processo de Independência

para muitas de nossas mazelas sociais. Construímos uma sociedade na qual a


cor da pele segue determinando posição social, o trabalho braçal é carregado
de um olhar pejorativo e um grande abismo continua separando brancos e
negros no que tange o acesso à educação e ao mercado de trabalho.

Ampliando seus conhecimentos

Representação na monarquia brasileira


(DOLHNIKOFF, 2009)

O excelente texto de Hilda Sabato traz ricas contribuições


para se pensar as experiências de representação política do
século XIX em países recém organizados a partir de um pas-
sado colonial. A análise se concentra na organização republi-
cana, o que obviamente exclui a monarquia brasileira. Mas
um exercício interessante, a meu ver, é, apesar das óbvias
diferenças entre estas repúblicas e a nossa opção monárquica,
procurar traçar algumas semelhanças entre estas experiências.
A proposta se justifica na medida que repúblicas e monar-
quias constitucionais no século XIX eram variações de gover-
nos representativos, modelos surgidos na Europa e Estados
Unidos na transição do século XVIII e XIX e que tinham em
comum o estabelecimento de novas relações entre Estado e
sociedade, com a inclusão na participação política de setores
antes dela alijados. Neste texto pretendo alinhavar alguns ele-
mentos que apontam para o debate no Brasil sobre a cons-
trução da relação entre representantes e representados, tanto
do ponto de vista da cidadania, como do ponto de vista da
normatização das eleições.
A análise da cidadania na América hispânica efetivada por
Sabato ganha imensa riqueza a partir do pressuposto de que
os governos representativos do século XIX não podem ser

– 133 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

examinados sob a ótica das democracias modernas e sim


devem sê-lo de acordo com a especificidade do período.
Desta forma torna-se possível avaliar a natureza e conteúdo
da cidadania e sua importância no jogo político, inclusive
tomando em conjunto as diversas experiências republicanas
latino-americanas. O mesmo ponto de vista deve ser adotado
para o Brasil. A organização da monarquia constitucional
seguiu os modelos prevalecentes na época, notadamente a
Inglaterra e a França. O que significava, conforme as análises
de Bernard Manin, Hannah Pitkin e Giovani Sartori, uma pro-
funda remodelação do Estado, na qual a inclusão de partici-
pação não impedia que se constituísse um regime de natureza
excludente, uma vez que eram preservados a iniciativa polí-
tica e o poder decisório nas mãos de determinados grupos.
Manin aponta inclusive a escolha de eleições como forma de
indicar os representantes como uma opção que visava garantir
que apenas uma elite selecionada pudesse efetivamente ocu-
par os cargos públicos1.
Inclusão e exclusão conformaram, portanto, estas experiên-
cias e, neste contexto, a construção da cidadania foi um
processo pelo qual uma gama de indivíduos passou a gozar
de direitos políticos, sem que, contudo, isto tivesse uma
perspectiva universalizante como nas democracias moder-
nas. Prevaleceu uma concepção cara ao liberalismo europeu
do século XIX de que era preciso garantir a qualidade dos
representantes, de modo que homens devidamente quali-
ficados chegassem ao parlamento habilitados para decidir
de acordo com os “verdadeiros interesses nacionais”. Um
representante de qualidade seria escolhido se o voto fosse
exclusivo de eleitores também qualificados. A consequente
1 PITKIN, H. The concept of representation. Los Angeles: University of California Press,
1967; MANIN, B. Los principios del gobierno representativo. Madrid: Alianza Editorial,
1998; SARTORI, G. A teoria da representação no Estado representativo moderno. Belo
Horizonte: Edições da Revista Brasileira de Estudos Políticos, Faculdade de Direito da Univer-
sidade de Minas Gerais, 1962.

– 134 –
O processo de Independência

limitação dos setores da população que participariam do


jogo político através do voto era tida como virtuosa, da
mesma forma que no século XX, inversamente, se conside-
rará virtuosa a expansão deste eleitorado.
Por esta razão, no século XIX muitos defendiam a adoção de
critérios de limitação da cidadania política, tanto para votar
como para ser eleito, fossem exigências censitárias fossem de
alfabetização. Era considerado necessário que apenas aqueles
com melhor “discernimento” pudessem eleger e serem elei-
tos, de modo a resultar em um parlamento capaz de formular
o “bem comum”. As virtudes que conferiam este “discerni-
mento” poderiam ser a independência material, concretizada
pela propriedade ou pela renda, a capacidade intelectual,
concretizada pela educação, etc. A preocupação em garantir
a escolha de uma elite portadora de virtudes que a diferen-
ciava da massa da população, fosse por sua riqueza, fosse por
sua sabedoria, resultou, na Inglaterra e na França, na restrição
ao direito de voto e ao direito de ser eleito. Nos dois países
o voto era censitário e só proprietários poderiam ser candida-
tos. Nos Estados Unidos, por outro lado, desde o início os
liberais constataram que não era necessário impor restrições
legais para votar e ser eleito, uma vez que as eleições por si só
garantiriam que apenas uma elite pudesse concorrer aos cargos
públicos. Segundo Manin, levou quase “cem anos para que
os europeus chegassem a ver esta propriedade das eleições
ou, ao menos, que recorressem a ela para assegurar a distinção
dos representantes”2, prescindindo assim de regras que limitas-
sem o direito de voto e de ser eleito.
As restrições ao direito de voto calcavam-se na diferenciação
entre cidadania civil e cidadania política. Como aponta Pierre
Ronsavallon ao analisar o caso francês, participar do processo
eleitoral não era considerado um direito inerente do indivíduo,
2 MANIN, B. Los principios del gobierno representativo. Madrid: Alianza Editorial, 1998.
p. 163.

– 135 –
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

mas uma função pública que apenas alguns homens estavam


qualificados para exercer. Os direitos residiam no campo da
cidadania civil e não da cidadania política. Apenas quando
surgiram, no final do século XIX, setores sociais com força
suficiente para pressionarem por mudanças é que o voto pas-
sou a ser considerado um direito associado à idéia de inclu-
são social. A concepção de que a participação eleitoral deve
se estender a todos, associando representação política com
ampla representatividade e inclusão social, foi portanto um
fenômeno emergente no final dos oitocentos3. Até mesmo
um publicista como José de Alencar, que defendia o sufrágio
universal, afirmava: “nenhuma das leis fundamentais dos paí-
ses representativos garante expressamente o direito do sufrá-
gio como um direito absoluto do cidadão”4. Afinado com
o debate sobre representação na Europa e Estados Unidos,
Alencar salientava que a cidadania civil era condição do exer-
cício da cidadania política, mas nem todos que gozavam da
primeira deveriam ter acesso direto à segunda.
O exercício da cidadania colocou problemas semelhantes no
Brasil àqueles estudados por Hilda Sabato, uma vez que se
tratava também aqui do desafio de construir um governo repre-
sentativo em um território de passado colonial com profunda
estratificação social. E este desafio passou também aqui por
definir quem pertencia e quem não pertencia à comunidade
política, quem teria o direito de exercer o papel de represen-
tante e quem seria representado, enfim, quem seria cidadão.
No Brasil é possível identificar as três formas de exercícios da
cidadania apontadas pela autora: eleitoral, militar e expressão
de opinião pública. No caso da cidadania através da ação
militar, ela também se constituiu no Brasil através da Guarda
Nacional, nossa milícia cidadã. No que diz respeito à opinião

3 RONSAVALLON, P. La consagración del ciudadano: historia del sufragio universal en


Francia. San Juan: Instituto Mora, 1999.
4 ALENCAR, J. de. Sistema representativo. Brasília: Senado Federal, 1997. p. 76.

– 136 –
O processo de Independência

pública, a imprensa teve aqui papel similar ao apontado por


Sabato na América hispânica, embora ainda esteja para ser
estudado no caso brasileiro o papel de associações surgidas
da sociedade civil.
No que diz respeito à participação eleitoral, a opção pelo
voto censitário na constituição brasileira de 1824 estava de
acordo com a visão européia de que esta era uma condição
para a “boa representação”. Em que pese as restrições, no
entanto, o eleitorado brasileiro não estava fora dos padrões
da época. No que diz respeito ao universo de votantes,
conforme aponta José Murilo de Carvalho, 13% da popu-
lação total (excluindo os escravos) tinha direito de voto, de
acordo com o recenseamento de 1872. Em torno de 1870,
na Inglaterra eram apenas 7%, na Itália, 2% e na Holanda
2,5%5. Mas é preciso tomar cuidado com estas comparações.
No Brasil as eleições eram realizadas em dois graus (votantes
escolhiam eleitores que por sua vez escolhiam deputados e
senadores), seguindo o modelo adotado na França revolu-
cionária. Como aponta Rosanvallon, o voto de primeiro grau
tem uma natureza distinta do de segundo grau. Só este último
é efetivamente uma decisão política, enquanto os votantes de
primeiro grau exercem apenas um papel de legitimação do
processo eleitoral: “as assembléias primárias não fazem mais
que designar os eleitores: procedem somente a uma espé-
cie de legitimação original do procedimento representativo.
Porém, as verdadeiras eleições têm lugar em outra parte, nas
assembléias eleitorais, as de segundo grau, que só reúnem a
centésima parte dos cidadãos ativos”6. [...]

5 CARVALHO, J. M. de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira, 2001. p. 31.
6 RONSAVALLON, P. La consagración del ciudadano: historia del sufragio universal en
Francia. San Juan: Instituto Mora, 1999. p. 174.

– 137 –
Atividades
1. Entre os antecedentes do processo de Independencia do Brasil, está
um processo ocorrido em Portugal: a Revolução do Porto. Destaque
os principais fatos desse evento histórico que tiveram efeito direito
em nossa Independência.

2. Dois grupos da elite brasileira atuaram firmemente no processo de


Independência, um mais liberal e outro mais moderado. Identifique
esses grupos, seus principais representantes e quais eram as diferenças
de suas ideias.

3. Após a Independência, um grande embate se estabeleceu para a cons-


trução da primeira Constituição Brasileira. Com base nisso, aponte:

a. O que defendia o Partido Brasileiro para a Constituição?


b. Quais os riscos identificados por Pedro I nesse processo?
c. Alguns historiadores acreditam que, apesar de outorgada, a Cons-
tituição de 1824 apresentou alguns avanços. Quais eram eles?
d. Quais a justificativas para a definição de um poder moderador na
Carta Constitucional?
Gabarito

Gabarito

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Histrória do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

1. O Iluminismo: do velho
mundo ao novo mundo
1. O texto se caracteriza por ser iluminista na medida em que faz um
apelo a certos valores iluministas, como o da liberdade, que pode ser
tanto a liberdade política, de escolha de um governante, religiosa, cri-
ticando o catolicismo como uma religião do estado; e de pensamento,
apelando para o uso da razão.

2. Ao observarmos o conjunto das ações de Pombal, podemos identi-


ficar algumas ações que se enquadram no “espírito” do Iluminismo,
como a reforma do ensino em Coimbra, a expulsão dos jesuítas, a
flexibilização das leis de pureza de sangue, o término da escravidão
em Portugal e da escravidão indígena no Brasil.

Por outro lado, algumas medidas se caracterizam por serem bem con-
servadoras, como a extrema lealdade ao rei e as ações para o fortaleci-
mento de sua imagem, por exemplo, a liderança máxima e a criação
das companhias monopolistas de comércio.

3.
a. Proibição do uso da Língua Geral, interesse de reforçar a presença
lusitana na colônia, e, por consequência, a figura do rei D. José I.
Os povos indígenas que viviam administrados pela Coroa se vi-
ram obrigados a adotar cada vez mais os costumes portugueses,
em detrimento de seus costumes ancestrais.
b. A abolição do trabalho escravo indígena. Pombal imaginava in-
corporar essas populações à condição de súditos da Coroa, e a
condição de livre era para esse intento. Os indígenas que eram
escravizados, ou estavam ameaçados de o sê-lo, passaram, em sua
maioria, à condição de trabalho compulsório, muito distante da
condição de um orgulhoso súdito do rei.

– 140 –
Gabarito

c. Expulsão dos jesuítas da colônia. Essa ação pretendia tanto mo-


dernizar a educação na colônia quanto retirar a população indí-
gena da tutela dos religiosos, passando esse papel a ser feito pela
Coroa. Isso resultou na fundação de vilas, mas nem todas pros-
peraram, pois alguns povos indígenas, devido ao estranhamento
dessa nova situação, preferiram abandoná-las e retornar à condi-
ção de seminômades.

2. Administração colonial: tensão


entre portugueses e brasileiros
1. Uma razão comercial foi o Tratado de Methuen, que proporcionava
aos ingleses comercializarem seus tecidos diretamente em Portugal.
Além disso, devido às alterações sociais e econômicas vivenciadas na
Inglaterra após a Revolução Gloriosa, a industrialização estava num
estado bem mais avançado em Portugal, e, como consequência, os
preços dos tecidos ingleses eram mais baixos do que conseguiam atin-
gir as manufaturas lusitanas.

A razão militar é que Portugal necessitava da Inglaterra como aliada,


pois o reino peninsular não conseguia manter todos os seus interesses
e territórios. A simples demonstração dessa aliança evitou uma série de
conflitos bélicos para Portugal, que lhe custariam territórios e recursos.

2. Caio Prado Júnior nos apresenta a tese de que o Brasil é um capítulo


da História do mercantilismo dos séculos XVI e XVII, e, sendo as-
sim, nossa colonização se deu como planejamento do mercantilismo
português, isto é: com o objetivo de fornecer produtos tropicais e
consumir produtos metropolitanos.

– 141 –
Histrória do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

Podemos criticar Caio Prado por não dar a devida importância aos
circuitos internos de produção, circulação e acumulação, nem ao co-
mércio direto que comerciantes luso-brasileiros realizavam principal-
mente com os portos africanos.

3. Não. No texto fica clara a presença das lideranças africanas nesse


processo. A África nunca foi um continente desprovido de cultura
e os reinos africanos, durante a Idade Moderna, dialogaram com as
Coroas europeias nas relações comerciais, religiosas e militares. Não
podemos pensar nos africanos inertes frente a essas atividades: vários
reinos ou grupos armados se fortaleceram nesse comércio, mas com
consequências desastrosas para a sociedade e para a economia das
populações africanas.

3. Revoltas coloniais: contextos e propostas


1. As tensões entre os senhores e os escravos se evidenciam pelo caráter
opressivo dessa relação. A base da escravidão é a violência, pois os
escravizados têm por obrigação o trabalho e por motivação a ameaça
constante da violência. Mas nenhuma relação tão extensa no tempo
e no espaço pode sobreviver somente com a violência, as relações de
convivência também se estabeleceram, com diferentes conformações
e dinâmicas. Negociar um tempo livre para o trabalho em benefício
próprio, ou para exercitar a sociabilidade da dança, da festa, seriam
possibilidades conquistadas pelos escravizados ao longo dos séculos
de escravidão.

2. Porque ambos os movimentos não pretendiam a ruptura política


com a Coroa, não questionavam a vassalagem com o rei de Portugal,
apenas pretendiam resolver questões locais, que afligiam interesses de
certas elites em determinadas regiões, inclusive apelando para a inter-
venção do rei.

– 142 –
Gabarito

3. A Conjuração Mineira teve como seus condutores pessoas ligadas à


elite da Região das Minas, e as suas motivações estavam ligadas à co-
brança de impostos e à perda de sua ação política.

A Revolta dos Búzios foi liderada por pessoas que não faziam parte da
elite local, homens livres e pobres que questionavam o poder colonial
e se utilizavam de um discurso iluminista de liberdade, embora não o
compreendessem tal como os franceses o formularam.

Em relação à punição, percebemos que os negros e mulatos de Salva-


dor sofreram punições mais severas (enforcamento de quatro revolto-
sos) do que os sediciosos mineiros.

4. Napoleão e a expansão do Iluminismo


1. Quando Napoleão assumiu o consulado e principalmente no período
que se autoproclamou imperador, impôs os limites das transforma-
ções iniciadas com o processo revolucionário. O radicalismo jacobino
foi combatido e os interesses burgueses foram assegurados na França
e exportados para o resto da Europa. As guerras, que no início foram
para a defesa da França e dos ideais da Revolução, passaram a ser
guerras de conquista. Isso levou a experiência francesa a outros reinos,
combatendo-se as práticas do Antigo Regime por toda a Europa, até
a restauração de 1815, mas que não mais seriam apagadas nas socie-
dades europeias.

2. Uma das ações relacionadas ao contexto das guerras napoleônicas foi


a invasão da Espanha e a substituição da monarquia espanhola pelo
irmão de Napoleão. Nas colônias americanas, o clima foi de negação
dessa nova realidade, sendo que os cabildos e autoridades peninsula-
res de governo se recusaram a obedecer ao usurpador, mas, na falta
de uma legitimidade peninsular, passaram a desenvolver um governo

– 143 –
Histrória do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

autônomo. Esse foi o início de um processo que levou à criação das


nações latinoamericanas.

3. A elite colonial, conhecida como elite criolla já controlava a vida eco-


nômica das colônias, mas a administração ficava a cargo de agentes
vindos diretamente da Espanha. Os administradores deveriam aten-
der aos interesses da Coroa, mas a elite colonial exercia pressão e,
principalmente, uma influência econômica sobre esses administra-
dores, para que os interesses criollos fossem atendidos. Somente as
camadas mais populares não encontravam espaço de pressão, fazendo
com que, no período das revoltas regionais, surgissem várias revoltas
populares, as quais causaram grande preocupação para os interesses
da Coroa e também para os dos criollos.

5. Uma corte nos trópicos


1. É importante que o historiador, ao analisar Dom João VI, verifique
de forma histórica e não anacrônica os desafios colocados. Como sa-
bemos, ele recebeu uma complexa educação para tornar-se um rei
absolutista e tinha um grau significativo de domínio político. Sendo
assim, é importante que desconfiemos sempre de análises que redu-
zem um personagem histórico a uma caricatura.

2. A elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal permitiu que o país


recebesse uma série de instituições e fosse visto em pé de igualdade, do
ponto de vista legal, com a então sede do Império. Dessa forma, Dom
João VI resolvia o impasse de gerir politicamente todas as possessões
estando em solo brasileiro. Ao mesmo tempo, ele regulamentava uma
situação que o deixava mais confortável, tendo em vista os dilemas
políticos que se constituíram em Portugal no início do século XIX.

– 144 –
Gabarito

3. A abertura dos portos visava instituir novas regras comerciais para


que as transações ocorressem no Brasil. Cabe lembrar que até então
o país estava dominado pelo pacto colonial, que fazia com que todo
comércio ficasse restrito à metrópole. Para a elite local, era um exce-
lente negócio, pois a colocou definitivamente no centro do comércio
mundial. Foi um passo decisivo para o fim do pacto.

6. As transformações do Rio de
Janeiro: a nova capital
1. Um dos elementos a serem abordados aqui é que havia toda uma
expectativa em relação à chegada da corte, já que esta significava para
uma série de habitantes da colônia um modelo de hábitos e cultura.
Sendo assim, a presença da corte por aqui representava a possibilidade
de essa população ter contato com uma gama de hábitos e rituais que
até então habitavam apenas seu imaginário.

2. Uma das necessidades nessa época era justamente garantir que os há-
bitos tidos como coloniais, ou seja, ultrapassados e não condizentes
com a época nova que se inaugurava com a presença de Dom João
VI e a corte, fosse superada. Isso significava, inclusive, regulamentar
formalmente uma série de regras e determinações para garantir que a
cidade fosse adaptada a suas novas funções.

3. Com a vinda de Dom João VI a cidade sofreu grandes impactos des-


de sua estrutura urbana passando por suas instituições culturais. Isso
colocou o Rio de Janeiro em um papel ativo na sociedade brasileira
e se construiu uma forte representação da cidade como expressão de
grande brasilidade, que impera até os dias de hoje. É importante que
imaginemos como um processo desse porte pode ser comparado com
as transformações urbanas decorrentes de grandes eventos como a
Copa do Mundo e as Olimpíadas atualmente.

– 145 –
Histrória do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

7. Elites e povo: laços e distanciamentos


1. Caio Prado Junior, de inclinação marxista, preocupou-se mais com
os aspectos econômicos, procurando entender como o pacto colonial
determinou o desenvolvimento do Brasil. Já Sérgio Buarque de Ho-
landa procurou oferecer uma visão pautada na cultura, explicando
esse processo por meio de conceitos como o patrimonialismo, oriun-
do da tradição ibérica.

2.

a. A formação da elite em Coimbra foi influenciada pelas reformas


de Pombal. Uma das preocupações era a de adequar Portugal ao
século das luzes em que vivia a Europa, trazendo ideias iluminis-
tas para o currículo universitário. Uma das características dessa
formação era o jusnaturalismo.
b. É possível notar a influência de ideias liberais em vários momen-
tos do século XIX no Brasil, com destaque para a formulação da
Constituição de 1824.

3.

a. Geralmente os não proprietários de terra submetiam-se aos inte-


resses dos proprietários de terra, seja pelo trabalho, seja por meio
de favores políticos.
b. Apesar da predominância da cafeicultura e do poder constituído
no Rio de Janeiro, havia elites apoiadas em outras atividades eco-
nômicas, como a pecuária, e em regiões diferentes do Brasil. Essas
elites também foram fundamentais para a construção do Império.

– 146 –
Gabarito

8. O processo de Independência
1. A Revolução do Porto permitiu a circulação de ideias liberais tanto
em Portugal quanto no Brasil. Além disso, acentuou a necessidade
do retorno de Dom João VI a Portugal, o que acabou por mobilizar
ainda mais as elites brasileiras em busca da independência.

2. O grupo mais conservador, liderado por Bonifácio de Andrade, pro-


curava uma ruptura moderada e uma manutenção de relação com
a cultura política monárquica portuguesa. Já o outro grupo, mais
radical, liderado por Joaquim Ledo, lutava pela ruptura imediata
com Portugal e suas tradições para construir um modelo de governo
mais autônomo.

3.

a. Um modelo de separação de três poderes, em que o executivo


estivesse submetido ao legislativo.
b. Tornar-se um monarca sem poderes e, por consequência, decorativo.
c. A Carta Constitucional de 1824 instituía a separação de três po-
deres, o sistema bicameral e a submissão da Igreja ao Estado.
d. O poder Moderador era baseado na ideia de que o monarca de-
veria prezar pela racionalidade, ordem e equilíbrio. Dessa forma,
poderia intervir quando a situação política exigisse, como forma
de corrigir os rumos da nação.

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Referências

Referências

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História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência

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