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EDITORA DA

UNIVERSIDADE EST ADCAL DE CAMPINAS


lJNICAMl'

Reitor: Paulo Renato Cos!a Souza


Coordenador Geral da Universidade: Carlos Vogt
Co11Selho Editoni:1i: Aécio Pereira Chagas, Alfredo
Miguel Ozorio de Almeida, Attflío Jos6 Giarola,
Aryon Da!l'[gna Rodrigues (Presidente'!, Eduardo
Roberto Junqueira Guimarães. Herrn6genes de
Freitas Leitão .hlho, Jayme 1',ntunes Maciel
Júnior, Michael MacDona!d Hall, Uhíratan
D'Ambrnsio"
Diretor Ew:cutivo: Eduardo Gunnarães
HERMAN PARRET

ENUNCIAÇÃO E
PRAGMÁTICA

Tradução:
Eni Pulcinelli Orlandi
Marco Antônio Escobar
Maria Augusta Babo
Paulo Otoni
Raquel Salek Fiad
Rodolfo Ilari
FICHA CATALOGRÁFlCA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA CENTRAI, - UNICAMP

Parret, Herman
P248e Enunciaçfto e pragmática I Herman Parret;
tradução l:ni l'ulcinelli Orlandi ... ( et ai. ) - .,
Campina.-.; Editora da UNICAMP, 1988.
(Cokção Repertórios)

• 1. Pragnwtka Lingüística. 2. Pragmática -


Elo:mfia. I. I ítulo.

19.CDD- 412
144.3
lSBN 85-268-0118-X 1
~-------------'
Índices para c:atáíogo sistemático:
1. Pragmática; Lingüística 4i2
2. Pragmática; Filosofia 144.3

Coleção Repertórios
Copyright© 1988 by Hem1an PmTct

Projeto gráfico
Camila Cesarino Costa
Eliana Kestenbaum

Revisão
Pmrécia Pulci11elli Orlandi

1988
Editora da Llnicamp
Rua Cecfüo Feltrin, 253
Cidade Universitária -- Barão Geraldo
CEP I 308 l - Campinas SP - Brasil
Tel.: (0192) 39.1301
SUMÁRIO

Apresentação 7

Parte I
O objetivo e o domínio da pragmática 15
Regularidades, regras e estratégias . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
Verdade, verificação, veridicção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
Parte II
A pragmática das modalidades 79
As atitudes proposicionais e o contexto accional 107
P3rrem
A dêixis e os "embrayeurs" desde Jakobson 143
Tempo, espaço e atores: a pragmática do desenvolvimento 175
Parte IV
O contexto como restrição da interação dialógica ....... 205
Para uma teoria enunciativa da paráfrase: a semelhança e o
ato de proximização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221

Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245

5
APRESE1VTACÀ()
.,

Esta coletânea contém a tradução de nove esmdos de


pragmática lingüística e filosófica publicados originalmente em
francês ou em inglês nos últimos dez c:.nos. A reunião e a tradu-
ção para o português destes estudos pareceram oportunas: o
conjunto procura testemunhar, na verdade, uma certa homoge-·
neidade, destacando uma concepção da pragmática bem especí-
fica. Há, além disso, similitudes evidentes na temática dos nove
estudos, nas intuições centrais e nas inquietudt:s teóricas que são
retomadas constantemente. A coerência da coletânea reside SO··
bretudo numa concepção de pragmática que se cristalizou no de-
correr destes últimos dez anos.
Há; na verdade, duas abordagens da pmgmática que estão
baseadas em pressuposições füosóficas muito divergentes. A
primeira, anglo-saxônica e tributihia de Morris e de Om1ap,
coloca a relação entre seqüência discursiva e aquele que "utili-
za" o sistema lingüístico: este usuário é um conjunto de dados
psico-acústico--biológicos que se constitui como um componente
importante do conte:xto indexicalizado. O que marca este primei-
ro tipo de pragmática é a introdução do contexto situacional e
psicológico. Por si só esta abordagem teve uma emm11e impor-
tância para a teoria lingüística: ela foi determinante no processo
d,:; enriquecimento do fenômeno do discurso.

7
Entretanto, a outra abordagem, embora teoricamente menos
segura e mais problemática, é mais adequada: é a pragmática es-
sencialmente "continental" que apresenta uma concepção enun-
ciativa da "vida do discurso". Esta concepção nunca esteve au-
sente da cena das teorias da linguagem desde o início do século:
e a insistência de Benveniste retoma as intuições de Bühler, e,
para além de Bühler, as do primeiro Husserl, o das Investiga-
ções Lógicas (1902). A consideração de que a teoria da enun-
ciação está longe de ser elaborada motivou esta coletânea. Essa
teoria esbarra contra obstáculos que impõem sérios limites à am-
bição científica. É impossível introduzir uma perspectiva enun-
ciativa em lingüística sem estar consciente das implicações filo-
sóficas: a questão central refere-se aos contornos da noção de
subjetividade que está pressuposta pela teoria operacionalizada
da enunciação. A catarse provocada pelos gigantes do início do
nosso século - Husserl, Frege, Russell - consistiu precisa-
mente no deslocamento do historicismo, do psicologismo, e até
mesmo do subjetivismo. O interesse pela enunciação e pela ins-
tanciação discursiva da subjetividade não significa um retroces-
so. A solução fácil seria então levar em conta apenas a enunâa-
ção enunciada sob a forma de indicadores ou de marcadores
convencionais. Opor-me-ei de maneira enérgica, ao longo destas
páginas, a este tipo de reducionismo.(A epistemologia que atra-
vessa os estudos desta coletânea considera a enunciação sobre-
tudo como o resultado de um esforço teórico de reconstrução,
transcendendo em vários aspectos, o império observável das
convenções lingüísticas.) Essa tal concepção não é, de resto, es-
peculativa, já que este esforço de reconstrução é conduzido se-
gundo técnicas de dedução que não admitem nenhuma indeter-
minação. Além disso, ainda que a teoria da enunciação aqui
apresentada encontre-se em seus legômenos, ela já se revela
operacional e "aplicável" a domínios específicos e empirica-
mente reconhecíveis. Entretanto, o conjunto das pesquisas de-
senvolvidas há mais de dez anos, ora apresentado, só pode tes-
temunhar uma sincera modéstia: a pragmática enunciativa, fasci-
nada pela variação e a riqueza de seu objeto, não pode arriscar
nenhum triunfalismo e nenhuma ingenuidade, tão freqüentes em

8
lingüística contemporânea.
Os nove estudos foram por mim organizados em quatro
partes não-cronol6gicas mas temáticas. Espero contudo que o.
leitor detecte atr.1vés destes estudos uma grande unidade de pen-
samento e de intuição assim como a unidade de estilo.

A primeira parte, a mais teórica ou mais filosófica, começa


por um estudo intitulado O objetivo e o domínio da pragmática.
Uma diacronia desta disciplina é apresentada de Peirce, passan-
do por Mortis e Carnap, até os pragmáticos de hoje. Uma tipo-
logia das pragmáticas existentes é proposta a partir dos tipos de
contextos considerados como pertinentes para a constituição da
significação. Em seguida, são enumeradas as características es-
senciais da pragmática, qualquer que seja sua orientação ou sua
tendência:(dependência do contexto; importância da perspectiva
da compreensão; e pertinência da racionalidade do discurso.) O
segundo estudo, Regularidades, regras e estratégias, é de
orientação mais epistemológica. As considerações dizem res-
peito a três paradigmas em lingüística contemporânea: a lingüís-
tica estrutural de obediência saussuriana, a lingüística gerativa
transformacional e a lingüística pragmática. Quis estudar como
funcionam as noções essenciais de regularidade, de regra e de
estratégias nos três paradigmas. Opus sobretudo a concepção do
discurso subjacente à lingüística de Chomsky (que dá uma grnn-
de centralidade à noção de regra) e 'i noc;:ão do discurso segundo
Wittgenstein (e da pragmática que se seguiu desta inspirac;:ão). h
evidente que a tipologia das estratégias é de grande importância
para a pragmática: assim como a regra domina a metodologia cm
sintaxe, a estratégia terá o mesmo papel em pragmática. Um ter-
ceiro estudo intitulado Venkule, ver(ficação, veridicção é de to-
nalidade mais filosófica. Reagindo contra a tendência triunfa-
lista das semânticas que exaltam as condiçôes de verdade, colo-
co a veridicção como uma noção eminentemente pragmática. Ao
substituirmos a verdade (através da verificação) peia veridicção,

9
introduzimos os parâmetros de psicologia pragmática: os moti-
vos, as intenções e os desejos dos interlocutores tomam-se assim
constitutivos do sentido. O querer-dizer a verdade modela o
sentido a ser interpretado ou compreendido pelo destinatário.

II

A pragmática das modalidades faz o inventário dos resul-


tados da sintaxe e da semântica das modalidades para concluir
que só a pragmática das modalidades está em condições de for-
mular os mecanismos . de modalização: aqui como em todo mo-
delo adequado que se confronta com a enunciação, o modelo se-
rá pluriforme e "tolerante", pois coexistem diversos tipos de
modalização ao longo da enunciação de seqüências discursivas.
Retomo na mesma parte um texto retirado de um longo
estudo, publicado já há algum tempo em francês no volume in-
titulado A linguagem em contexto, que trata, mais uma vez, de
apresentar os méritos de uma abordagem pragmática das atitudes
proposicionais. Procuro mostrar, no texto As atitudes proposi-
cionais e o contexto accional, que uma semântica verifuncional
não tem nenhum poder de reconstrução e de tipologização das
chamadas atitudes proposicionais, particularmente das atitudes
epistêmicas (como a crença e o saber). Analiso neste artigo fra-
ses dominadas e modificadas por operadores de crença ("eu
creio que ... ") e indico como o sentido destas frases só pode ser
compreendido se levarmos em conta o contexto da ação, em ou-
tras palavras, se de fato levarmos em conta que estas frases
realmente são verdadeiros atos de linguagem.

III

Em A dêixis e os "embrayeurs" desde Jakobson tomo co-


mo ponto de partida a análise de Jakobson sobre os shifters.
Tento mostrar que a introdução desta noção em lingüística foi
particularmente frutífera, mas que teve necessidade de amplia-

10
ção e de correções. É necessário, entre outras coisas, aceitar que
há mecanismos tanto de debreagem quanto de embreagem, e
aceitar, em seguida, que a embreagem/debreagem não é uma
questão de lexemas particulares, mas sobretudo de frases inteiras
que manifestam atos de enunciação. Será evidente para todos
que a dêixis tem um papel privilegiado em pragmática, como
testemunha explícita da presença do sujeito falante em seu dis-
curso. A deictização e a modalização são as duas manifestações
de ponta da enunciação em ato. O estudo seguinte intitulado
Tempo, espaço e atores: a pragnuítica do desenvolvimento con-
tinua a exploração sobre o componente dêitico da pragmática. O
texto apresenta uma · certa concepção de interdependência dos
três eixos da dêixis: a pessoa, o tempo e o espaço. Argumento
contra a hipótese localista, segundo a qual toda dêixis é um fato
redutível a posições espaciais. Evoco neste estudo alguns pontos
de vista sobre a temporalidade, em especial as intuições witt-
genstainianas que dizem respeito ao tempo na vida cotidiana.

IV

A última parte deste livro introduz dois novos elementos


no panorama das considerações pragmáticas: o diálogo e a pará-
frase. O contexto como restrição da interação dialógica indica
como a compreensão necessária para que haja possibilidade de
diálogo, de conversação, de comunicação simplesmente consiste
de fato numa co-interpretação do contexto. Por "co-interpreta-
ção" designo o fato de que os interlocutores interpretam con-
juntamente, protegendo-se reciprocamente contra os mal-enten-
didos e .. as más interpretações, o contexto é que dá o sentido a
uma seqüência dialógica. O dialogismo, ligado à centralidade da
compreensão enquanto co-inte:rpretação, é um componente in-
dispensável da pragmática contemporânea. O último texto da
coletânea tem como título: Para uma teoria enunciativa da pa-
ráfrase: a semelhança e o ato de proximização. A paráfrase é
geralmente abordada como um tema primordialmente semântico.
Tento mostrar neste artigo que não é pela equivalência mas pela

11
semelhança que <.e estabelece a relação entre o parafraseador e o
parafraseado. Isso significa que é preciso aceítar uma força de
prox.imízação que "faz aparecer" as duas entidades. Esse ato de
proxímízação ~ realizado numa situação de mterJocução onde,
novamente, os dois interlocutorc;s desenvolvem esquemas de in-
tercomprcensão. Como sempre em pragmática,(' o fluido e ova-
go das relações, in cosu da relação de semeliiança, que conta e
não o descontínuo, o opositivo e o bínácio. f'": sobre estas consi-
derações que este livro termina, com plena conscíêncía de que a
riqueza do assunto, pnncipalmentc a pragmática enunciativa,
não está de fomia alguma esgotada, longe dis;;o. Foi sugerida
apenas uma certa concepção do discurso, a qual espero q11c -;eja
útii comn modelo para ns pcsqmsadorc., que 'il dcdiciriío. no
futuro, à iingüísüca e ii filosofia da Jingnage.1rL
Aproveito a ocasião da pub!ic ação deqa obra para apradc
ccr ao Departamento de Lingüística da Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP), nndc fm acolhido vánas vczc, nu:,. úí-
tímns doze ano-;. Numerosa-, consiticrações, apresentadas nesía
coletânea, foram uesenvl.llv idas em Campinas, em sernrnários
com amigos lingü1slas ou filósofos. Pcnsu principalmente no,,
profossores Eduardo (,utmarãcs, Rrn1o1fo llari, Claudia l ,cm<)s.
Eni Orlandi, Carlos Vogt e em seus colegas do Departament(, de
Lingüística. Lembro-me de Lui7 Henrique Lopes dos Sanio'>,
Michel Ghíns e ()swaldo Porchat do Centro de L6gíca e Episte-
mologia da Unic:amp. Encontrei no Brasil ouvintes e interlocuto-
res atentos cm várias universidades, principalmente na Cniver:,1--
dade de São Paulo, cujo Departamento de Lingüística sempre
me acolheu com muita simpatia, assim como em várias universi-
dades do estado de São Paulo, do Rw de Janeiro e do Rio Gran·
de do Sul. E aproveito que este livro aparece em portugubs, para
lembrar-me dos meus colegas ~: ,unígos de Portugal, de Lisboa ,,
do Porto, onde tive e, priviíé.gic., de ensimir várias vezes e de e-x-
por minhas idéias no domínio da prngmátiLa.

Heman PcuTct
O OBJETIVO E O DOMÍNIO
DA PRAGMÁTICA

Ainda mais do que seus correlatos, sintaxe e semântica,


o termo pragmática abrange disciplinas, orientações e perspecti-
vas diferenciadas, tão distintas e à primeira vista incompatíveis
que seu sentido chega a parecer ,.vazio e o próprio termo inútil:
/
alguns estudiosos que são considerados por outros como sendo
'pragmaticistas' questionam o rótulo e sua relevância (Searle,
1969). Além disso, o termo é usado em toda uma série de disci-
plinas tradicionalmente delimitadas, como a filosofia da lingua-
gem, a lógica, a psicologia, a lingüística, a sociologia e a se-
miótica. O limite entre semântica e pragmática é constantemente
discutido, e não se pode prognosticar qualquer acordo acerca
desse problema de delimitação - coisas que, de acordo com este,
pertencem ao domínio da pragmática, são situadas por aquele no
domínio da semântica (tome-se como exemplo a pragmática de
Montague, 1974), que é, de fato, uma semântica 'indiciai', e, na
direção inversa, a teoria causal dos nomes próprios de Kripke,
freqüentemente caracterizada como uma teoria semântica, que é
de fato pragmaticamente motivada (Kripke, 1972). Em primeiro
lugar, distinguir-se-ão aqui algumas orientações representativas;
a seguir, enumerar-se-ão várias características comuns de uma
'atitude pragmática' com respeito à linguagem e aos sistemas de
signos, provando assim a utilidade do termo e de seu caráter

15
operacional ao menos inc~piente; por fim, far-se-á um esboço
diacrônico do termo, com origem principalmente nos trabalhos
de Ch. S. Peirce, com suas interpretações minimalista e maxi-
malista.
O modo mais fácil de classificar 'tipos' de pragmática é
olhar os tipos de contextos que são considerados relevantes para
uma descrição e explicação pertinente do discurso e de outras
seqüências semióticas. Cinco tipos de contexto, com correspon-
dência em outros tantos tipos de pragmática, serão distinguidos
aqui: o contexto co-textual, o contexto existencial, o contexto
situacional, o contexto acional e o contexto psicológico. Evi-
dentemente, esses cinco tipos admitem superposições: por
exemplo, a idéia de que os fragmentos de discurso são ações se-
rá sentida como reai tanto em uma pragmática orientada psicolo-
gicamente como numa pragmática orientada sociologicamente.

O co-texto como contexto

A sintaxe, desde o estruturalismo ( e o distribucionalismo)


até a gramática transformacional (nos moldes de Chomsky e das
orientações pós-chomskianas) nunca ultrapassa a sentença, da
mesma forma que a semântica, tanto em suas versões lingüísticas
como em suas versões lógicas, nunca diz respeito a unidades
maiores do que a proposição.
A gramática de texto, a análise do discurso e a análise
conversacional introduziram recentemente técnicas para analisar
unidades amplas de um todo lingüístico, como parágrafos, frag-
mentos de discurso no diálogo e na conversação, esquemas de
argumentação em tipos de discurso como o didático ou o políti-
co, grandes estruturas de avaliação de outros tipos de sintagmá-
tica, como a ficção e a poesia. As relações descobertas por essas
novas metodologias vão além das relações anafóricas entre sen-
tenças e além das relações de co-referência entre proposições.
Elas reconstroem a coerência e a coesão dos textos como um
macrossistema gramatical que habilita o intérprete, o receptor e

16
o leitor para descobpr a significância dessas macro-unidades.
Em contraste com as gramáticas sentenciais e as semânticas pro;.,
posicionais clássicas, o co-texto funciona aqui como um con"."
texto de descodificação. Contudo. parece difícil explicar a coe'."
rência •e ·a coesão textuais como categorias puramente gramati-
cais, por isso revelar..:se-á necessário considerá-las em conexão
aos procedimentos psicossociológicos, ou seja, aos outros tipos
de contextualidade.

Contexto existencial

Opondo-se à idéia de que o sentido da linguagem ou dos


fragmentos de discurso são imanentes, confonne se defende em
muitas versões do assim chamado estruturalismo (enquanto filo-
sofia ·ou mesmo enquanto .ideologia), ·os lógicos· e os filólogos
têm sustentado tradicionalmente que as seqüências lingü{sticas
ganham seu sentido pela sua relação com seus referentes. O
contexto referencial (o mundo de objetos, estados de coisas e
acontecimentos) contém canonicamente a unidade(item)·aque a
expressão lingüística faz referência. Um deslocamento da se-
mântica para a pragmática ocorre uma vez que quem fala .e quem
compreende (o 'receptor'), e sua localização espaço-temporal
sejam considerados como sendo índices desse. contexto existen--
cial; Considerar esses índices (Benveniste, 1966) ou expressões
indiciais (Russel, 1905, Bar-Hillel, 1970) ou categorias dêiticas
(pessoa, tempo, espaço) na descrição do sentido das expressões
lingüísticas leva a uma 'pragmática indiciai'. Esta disciplina é
plenamente verifuncional (~ontague,1974): as unidades (itens)
ontológicas (objetos, estados de coisas e acontecimentos ·no
mundo) são 'indiciados' ou relativizados com respeito à sua lo-
calização pessoal e espaço.:.temporal. Os. gramáticos· orientados
para a sintaxe (por exemplo, Partee, 1973) não hesitamemrela-
cionar os fenômenos gramaticais da modalidade do modo, do
aspecto e dos tempos do verbo aos índices de pessoa, tempo e
espaço, índices referenciais e· portanto determinados verifuncio-
nalmente. A pragmática indiciai, porém, é tão-somente um pri,.

17
meiro tipo de pragmática que leva em consideração a relevância
da relação com o contexto existencial. Um outro tipo é a que
propõe a proliferação dos 'mundos possíveis' - não só o mundo
real, mas todos os mundos possíveis podem ser tomados como
contextos existenciais de seqüências lingüísticas (novamente,
Montagne, 1974, e também Hintikka, 1962). A teoria dos mo-
delos em colaboração com a lógica modal (ou a lógica da possi-
bilidade, necessidade e contingência) elabora um quadro em
cujo interior um mundo possível pode ser atribuído a uma ex-
pressão lingüística como um dorrúnio. Os lógicos modais fazem
a opção filosófica segundo a qual os contextos existenciais ou
'domínios', quer sejam reais ou possíveis, têm independência e
autonomia ontológica com relação ao discurso. Isto é altamente
questionável. ( Como pode um mundo possível ser um referente
sem qualquer intermediação psicológica ou sem algum impacto j
4
de faculdades psicológicas como a imaginação ou a construção
de conceitos?)

Contexto situacional

Enquanto os contextos existenciais - os objetos, estados de


coisas ou acontecimentos do mundo real e/ou dos mundos pos-
síveis - são expressos por seqüências lingüísticas, os contextos
situacionais só proporcionam "fatores" que determinam par-
cialmente seu significado. As situações enquanto contextos são
uma classe ampla de determinantes sociais ou sociológicas. Pode
consistir no cenário social das instituições (tribunal, hospital,
sala de aulas) ou nos ambientes do dia-a-dia (restaurante, lojas)
com suas regras de conversão específicas e suas rotinas intelec-
tuais próprias. Essas determinantes dão forma principalmente às
propriedades convencionais de unidades textuais amplas, e às
estruturas argumentativas .e persuasivas do discurso. A sociolo-
gia da linguagem e a sociolingüística introduzem uma tipologia
de contextos situacionais: os papéis que os participantes does-
quema da comunicação podem desempenhar impõem restrições à
produção e compreensão de conteúdos comunicativos. Além do

18
mais, as hierarquias sociais e, acima de tudo, a autoridade do
falante reconhecida por uma microcomunidade (por exemplo, a
família) ou por uma comunidade lingüística ou (inter)nacional
são determinantes importantes dos conteúdos significativos das
seqüências lingüísticas.

Contexto acional

A classe de situações que determinam a significância dos


fragmentos discursivos é virtualmente infinita. É por isso que
a tipologia das mesmas continua em larga medida ímpressionís-
tica. Uma subclasse específica de situações são as próprias
ações lingüísticas. A lição essencial de Austin (Austin, 1962)
não é que as seqüências lingüísticas expressam ações, mas que
elas são ações: poder-se-ia dizer que as sentenças com marca de
performatividade e, em primeiro lugar, as sentenças que come-
çam pela fórmula performativa, são os contextos de si próprias.
Nas últimas fases da teoria de Austin, já não se admitia que al-
gumas sentenças tivessem pelo menos um sentido puramente
descritivo, dito "constativo", sem ser performativa: de todos os
tipos de sentença diz-se a essa altura que têm uma força, chama
da força ilocucionária, que se distingue do conteúdo proposicio-
nal e dos possíveis (mas facultativos) motivos perlocucionais. A
força de uma enunciação é colocada 'convencionalmente' em
relação à sentença por todo tipo de operações morfossintáticas:
seja como for, é identificável e, ademais, espera-se que o seja.
Austín introduz na teoria dos atos de fala uma forte afirmação
do caráter contratual da produção lingüística dos falantes da
comunidade (que é acentuada ainda mais por Ducrot, 1972).
A teoria dos atos de fala que se origina na concepção de
Austin da língua como uma ação andou elaborando o fato de
que as condições de produção de um ato de fala (e mais parti-
cularmente de sua forma ilocucionária) são sistemáticas e passí-
veis de especificação: (os atos de fala são governados por regras
(Searle, 1969). Um outro ponto central da perspectiva pragmáti-
ca que a teoria dos atos de fala corporifica é que a ação lingüís-

19
tica é uma ação .iI_lt~g.c::ional} O falante tem intenções específicas
e pretende além do mais que sejam reconhecidas. A transmissão
de intenções particulares fica portanto subordinada a uma inten-
ção geral de comunicação. Se, por um lado, os atos de fala são
ações intencionais, sujeitas a condições de comunicabilidade,
por outro lado, eles não excedem o paradigma acional: a ele de-
veria ser acrescentada a condição de interação, isto é, a condi-
ção de que as ações lingüísticas dos outros falantes que partici-
pam da situação comunicativa são o contexto de produção do
meu discurso, agindo com uma capacidade produtiva semelhan-
te, e assim sucessivamente. Na realidade, a perspectiva intera-
cional completa a intuição austiniana do falar como ação. Outras
teorias intencionais do significado, como a de Grice (Grice,
1957), com a repercussão que lhes corresponde na análise do
discurso - por exemplo, a taxionomia de máximas de Grice, de-
rivada do assim chamado Princípio de cooperação, de grande
importância para a análise da implicatura conversacional (Grice,
1968)- desenvolveram melhor do que os seguidores de Austin o
tema interacional: nenhuma comunicação - nenhum reconheci-
mento de intenções - é possível sem uma interação cooperativa
e coordenada. (Parece que a sistematicidade dos contextos (in-
ter)acionais e de seu impacto sobre a significância do discurso é
mais fácil de reconstruir com teorias lingüísticas do que outros
tipos de contextos como os situacionais e psicol6gicos.)

Contexto psicol6gico

O fato de considerar o discurso como uma ação, e os atos


de fa,fa~o~Õ condiéfonados ÍOtenCÍ011almente: Ievaalllcorporar
as. ~t!tegopas mentais e psicol6gicas na teoria pragmática da lín-
gua. As intenções, crenças e desejos são encarados como esta-
dos mentais que são responsáveis por programas de ação ou de
interação. (A atividade mental enquanto tal, enquanto é mera-
mente postulada como um conteúdo da mente, não é relevante
para a pragmática: somente intenções, crenças e desejos reco-
nhecíveis (e, em algum sentido, 'convencionalizados'), que se

20
traduzam em programas interacionais são importantes para a
descrição e a explicação pragmática - eles são o contexto psi-
cológico para a compreensão e produção lingüística. Estas con-
siderações não são, contudo, psicolingüísticas num sentido es-
trito. A psicolingüística - sobretudo no contexto pós-chomskia-
no - investiga a aquisição da linguagem, e apenas indiretamente
pode estar interessada num estudo sincrônico das relações siste-
máticas entre tipos de contextos psicológicos (na realidade,
constelações de conteúdos mentais) e seqüências gramatical-
mente realizadas. (O context<J psicológico, tal como é relevante
J:>~'1 __~J?ragmática, não é a "vida da mente" em sua totalidade-
para usar uma metáfora perigosa -, mas S()mente aquela parte da
atividade mer1tal que se realiza em procedim~ntos de produção e
C~IIlJ?!e~rt~ão · de proceisos _Jingüísticos determinados gramati-:-
c_é1lrri<!n~_.:) O problema da aquisição da linguagem (por exemplo,
em Piaget e Chomsky, 1979), a discussão sobre inatismo, e a
plausibilidade de fundamentos neurofisiológicos ou biológicos
da atividade mental no uso da língua não tem nenhuma relevân-
cia direta para a pragmática.
Esta resenha de tipos de contextos pretende introduzir um
panorama das orientações mais representativas em pragmática:
pragmática do texto (ou lingüística do texto onde o assim cha-
mado co-texto serve principalmente de contexto), pragmática ló-
gica (contexto existencial), pragmática orientada sociologica-
mente (contexto situacional), teoria dos atos de fala (contexto
acional), e pragmática orientada psicologicamente (contexto psi-
cológico). Conforme ficou dito acima, os tipos que assim se dis-
tinguem constantemente se confundem, e sua taxionomia é in-
clusive incompleta. Mas ainda assim, como noção genérica, o
termo 'pragmática' pode ser empregado adequadamente, porque
indica uma perspectiva específica e uma atitude reconhecível
com respeito à língua e a outros sistemas de signos.(Aqt.1i,~€!rª-()
desenvolvidas três características da 'atitude pragmática': a liga-
ção contexttial do. sentido discursivo, anteriormente mencionada, Jr1
a especificidade da racionaliclade ljga_(Ja ao discurs(), e a heurís-::
tica especial que a compreensão (ao contrário da produção) tem
para uma abordagem pragmática da linguagem.}

21
Ligação do sentido discursivo ao contexto

O contextualismo, em oposição ao 'literatismo' (ver Das-


cal, 1982), defende em filosofia da linguagem que o sentido se
caracteriza como globalmente ligado ao contexto. Várias teorias
exponenciais do sentido, ao contrário, procuram salvaguardar
uma noção de sentido 'literal' ou 'independente do contexto' que
é necessária quando se quer proteger a autonomia e independên-
cia da semântica. A propósito, é importante perceber que a defe-
sa do contextualismo não implica que a teoria pragmática deva
ser vaga e assistemática. Os tipos de contexto devem ser distin-
guidos rigorosamente, e, especialmente, sua relevância gramati-
cal precisa ser investigada. Evidentemente, a 'gramática' que
interessa ao estudioso de pragmática é antes a de Wittgenstein
do que a de Chomsky: Wittgenstein (1953), padroeiro dos filó-
sofos e semioticistas orientados pragmaticamente, desenvolve
uma noção de 'gramática profunda' que é, na realidade, a gra-
mática de todo o uso da língua, em sua diversidade e infinidade,
e portanto não é idêntica à gramática do lingüista, que é por
natureza reducionista em relação à riqueza do discurso como
'forma de vida' (outra noção de Wittgenstein). Não se deve visar
a esse propósito, ou mesmo admitir nenhuma vagueza. No inte-
rior do conjunto dos contextos relevantes, a tipologia deve ser
paralela à tipologia de estratégias da produção/compreensão das
seqüências de discurso. ('~gia' ~ .a noção ~en~_d~_JQçla
pragmática - uma 'gramática profunda da pragmática' nãoé a
gramática profunda do lingüista porque em pragmáticãsãÕ ~!'-
tinentes estratégias ao invés de regras. Além disso,-·âpragmática
não se identifica com a teoria dos atos de fala, onde são centrais
as convenções ao invés das estratégias. Seria um erro pensar os
contextos como conjuntos de variáveis existindo autonomamente
e independentemente do processo de comunicação entre mem-
bros de uma comunidade:(os contextos são dinâmicos, são mol-
\ dados pela própria atividade de fala, e são antes o resultado
~ (output) do que a causa (input) da competência criativa do fa-
lante (ver Parret, 1980b, 1980c). A construção de contextos co-
mo uma dinâmica pressupõe, na verdade, uma competência cria-

22
tiva de compreender por meio de estratégias que assentam na ra-
cionalidade específica ligada ao discurso.

Racionalidade ligada ao discurso

As estratégias são regularidades exteriorizadas por uma


competência comunicativa - são cadeias de razões - e, portanto,
baseiam-se em processos de raciocínio. ( O discurso, para o
p!:3-gmaticista, é a totalidade das regularidades (reconhecíveis
por causa de sua generalidade) que expressam raciocínio teórico
e prático. Essas estratégias (de compreensão) são inferenciais
(não contudo inferências lógicas, porque são realizadas no e por
meio de uso da língua natural). A atividade inferenciª1 é, aqui,
de fato, um procedimento de transposição do sentido, de um
primeiro para um s~gundo nível - parafrástico - do discurso-
objeto. Distinta desse tipo de atividade inferencial é a inferência
lógica, que pressupõe uma metalinguagem em que todo sentido
pode ser finalmente traduzido. A inferência na e pela língua
natural pode ainda ser realizada de duas maneiras: descritiva-
mente e prescritivamente. A racionalidade ligada ao discurso de-
senvolve de preferência cadeias de inferências prescritivas: "Se
você aceitar s, então, você aceitará S", ou mesmo "Se você
aceitar s, então você deveria aceitar S''. A propriedade de acei-
tabilidade de uma inferência baseia-se na evidência. A atividade
inferencial consiste em raciocinar, em usar e reconhecer razões.
Mas as razões aqui não são 'naturais' - descritivas ("a razão
pela qual A produz B") mas 'não-naturais' - prescritivas (uA é
a razão para x, x é para B"). As razões daqueles que raciocinam
no e pelo discurso, e portanto realizam inferências a fim de
compreender, são razões 'não-naturais' - prescritivas. É impos-
sível elaborar aqui técnicas para inferir prescritivamente (ver
Parret, 1983) - permita-se mencionar porém que a evidência que
rege qualquer inferência possível, uma vez que a inferência é
feita por raciocfuio 'não-natural', assenta num esquema de três
termos: a estrutura de um discurso raciocinando/razoável, a es-
trutura do objeto de raciocínio, e a estrutura interna do racioci-

23
nador. É do conhecimento comum que a semântica clássica tra-
balha com um conceito bipolar de racionalidade (cujos dois pó-
los são o pensamento e a realidade). A pragmática, ao contrário,
trabalha com um modelo triangular: o raciocinar não é determi-
nado por sua relação com a real (com o que a racionalidade seria
reduzida a uma faculdade de reconstrução da verdade), mas pela
intermediação do conceito de um ser racional como raciocina-
dor. A noção pragmática de racionalidade acentua o fato de que
se raciocina e se compreende - no interior da generalidade de
propósitos que são compartilhados por quem fala e por quem
entende, tais como a comunicabilidade e a homogeneidade da
estrutura interna daqueles que raciocinam numa comunidade.
O toque pragmático (ou 'antropológico') dado à racionalidade
implica que as estratégias são encaradas como relacionando-se a
valores. Além disso, a centralidade da ligação discursiva dara-
cionalidade e do raciocínio prescritivo-inferencial transforma a
pragmática numa teoria da compreensão - a compreensão é as-
simetricamente prioritária em comparação com a produção, a
partir do momento em que se leva a sério a especificidade dos
processos de raciocinar no discurso.

Estratégias de compreensão

Toda a metáfora das teorias lingüísticas contemporâneas


sugere evidentemente que a produção das seqüências lingüísti-
cas é considerada como paradigmática da atividade lingüística.
A competência discursiva como um mecanismo gerativo,
na gramática transformacional, por exemplo, é claramente vista
como uma competência de produção. Chomsky afinna que a
competência é bidirecional ou neutra com respeito à oposição
produção-recepção, mas o tipo específico de formalismo das re-
gras gramaticais mostra que a competência gerativa deve ser re-
presentada como uma competência produtiva, mais do que inter-
pretativa.
Uma 'competência comunicativa' pragmática, ao êontrário,
é uma competência de compreensão, e é necessário que uma teo-

24
ria pragmática do discurso se oriente heuristicamente:·. compre-
ender, ou 'descobrir' a significância de uma seqüência discursi-
va· é uma exigência à língua como tal ou, dito de outra maneira,
o conceito de compreensão é uma determinação do conceito de
língua. Há portanto uma assimetria essencial entre produção e
compreensão em pragmática: só se pode falar de língua no caso
de a língua ser compreendida (ou, mais explicitamente, "L é
uma lfugua de uma comunidade so~nte no caso de os membros
dessa c:omunidade compreenderem. as seqüências discursivas· de
L"). Nenhum sentido transcende a compreensão, conforme se
declara especulativamente na hermenêutica. Este deslocamento
ra<lical, característico .da. perspectiva pragmática, não s11bestima
a produtividade discursiva, mas afirma que a produção. de dis-"
cursos deve ser vista como um procedimento de compreensão,
ou que o .conceito de·. produção de discurso. deve amoldar-se aQ
conceito de compreensão.

Wittgenstein (1953) sugere ·que a compreensão devê ser


encarada como um conceito de semelhança-de-família, e. sús:,-
tenta que na vida e na língua de todos os dias a compreensão
fun(;iona ora como interpretação, ora como explicação, ora como
tradução. Todavia a compreensão não deve nunca serconsiderâ-
da como um estado mental ou uma experiência específica - é,
antes uma faculdade, uma capacidade, e, por isso, quem com-
preende é capaz de fazer coisas específicas. É uma habilidade
extrínseca, não uma operação puramente-psicol6gica, mas uma
operação-no-mundo.
Essa conotação prática da compreensão é básica para a
perspectiva pragmática. A inferência não.;.natúrâl de que se falou
nos parágrafos anteriores é caracteristica das estratégias de
compreensão. Aqúilo que quem compreende infere praticamente
ao compreender uma seqüência discursiva é; de fato,· um. corre-:
lato de sentido que consta de três componentes: um operador
universal de racionalidade, uma estrutura modal e um coriteudo
proposicional (para detalhes desse modelo, veja-se Parret,
1980c). Em termos informais, o correlato significativo de um
procedimento de compreensão pode-se dizer que seja: "É meio.e

25
nal/razoável (operador de racionalidade universal) que eu/você
julgue/deseje ( estrutura modal) que p". Uma variedade de com-
binações é possível no interior da estrutura modal: o juízo do
falante/ouvinte pode estar encaixado no desejo do falante/ou-
vinte, e pode haver concatenação de seqüências judicativas e
volitivas comandando p.
A partir desses três componentes do correlato significativo,
três tipos específicos de contextos podem ser construídos. O
contexto do operador de racionalidade universal é a comunidade
dos utilizadores racionais/razoáveis do discurso e outros siste-
mas sígnicos; transposto para o nível epistêmico, esse contexto
se transforma na totalidade de suposições prévias que são ofere-
cidas por uma comunidade discursiva aos seus membros. O
contexto de modalidade são as circunstâncias interacionais que
são organizadas em tomo da desejabilidade compartilhada e
mútua dos valores; transposta para o nível epistêmico, essa mo-
dalidade toma-se na totalidade de 'opiniões' que os parceiros
têm numa situação comunicativa (essas opiniões dizem respeito
às necessidades e objetivos de um em relação ao outro). O con-
texto do conteúdo proposicional é obtido da denotação compar-
tilhada das seqüências discursivas; transposto epistemicamente,
esse contexto consiste nas crenças do falante/intérprete ( wz-
derstander ) .

_ suma, a pragmática é caracterizada essencialmente pela


concepção da dependência contextual do sentido discursivo, da
racionalidade dependente do contexto e pela orientação da com-
. preensão. Esses três componentes conceptuais reavaliam a sub-
jetividade na língua. Os clássicos do início do século XX em
filosofia, como Frege, Husserl e Russell, reagiram contra uma
noção de subjetividade de colorações idealísticas, e o estrutura-
lismo, como uma 'ideologia' nas ciências sociais, principalmente
na França na década de 60, solapou o humanismo ingênuo e o \
subjetivismo.(~ pragmática, porém, pressupõe o sujeito e~ dis- "
curso, sem reintroduzir o psicologismo e o subjetivismo.) E por
esse motivo que a 'atitude pragmática' reage contra a lingüística
estrutural, onde, a começar por Saussure, a subjetividade é ex-

26
pulsa da 'língua' para a 'parole', não passível de domínio te6rico
- etambém contra a gramática gerativa chmnskiana -, onde o
'falante/ouvinte ideal' não é o sujeito que fala, mas uma 'mente'
que se identifica com a estrutura neurofisiológica do cérebro.
Benveni~(l266)., um estrutlJralista um tanto marginal,
reintro~_a-suhjetiyi-ºª~-~QlllQ__!,!I!Ul categgtif!_~iD@_}!ª
~1:!ªJ!!tgiifst!~- A subjetividad~~DiO--é-ã individualidade ou
a personalidade idiossincrática do falante - algo como um ema-
ranhado de restos psicológicos originais e internos - mas ~'º~-
somente_ comcu!ºLS:Onjunto_ de _propriedades_ detennin~. dQ
discurso do falante. Lingüistas como Benveniste e Guillaume
reintroduzem a atenção para a dêixis (pessoa, tempo, espaço),
para o amplo campo do funcionamento do discurso como de:-
monstração (pronomes, demonstrativos), argumentação e per-
sua~ão. Além da metodologia pragmática em que a subjetividade
no discurso é estudada através da dêixis, há utrul o~tra em que a
modalidade é central:(não somente .se investigam então os modos _ ~
gramaticais ( grammatical modes ) mas também os modos ( n-ur ~·\
ods·.)p.roposici.on.ais e il.ocu.cionári·.·os, ~..
..b.~ as metodologias .-.. ..·
o estudo çht_.dêixis---º°r um lado e _ela modalidade_w_.r_Qum,- são , -
~essos ~Y!!~giªd-º~-ªQ(Iriiiifi!'i~~-nm~~~~) ---- -- .
Esta constelação de características essenciais da.pragmáti:..
ca (dependência contextual do sentido discursivo,.racionalidade
dependente do discurso e a orientação para a compreensão .de
uma teoria pragmática adequada) acaba de ser esboçada sincro-
nicamente. Mas também há uma diacronia muito relevante,. de
Ch. S. Peirce em diante, passando por todas as teorias contem-
porâneas do signo, do sentido e da língua, em lógica, filosofia e
ciências sociais. Nessa diacronia, podem-se distinguir duas li-
nhas principais: um programa minimalístico da pragmática de
um lado, e um programa maximalista de outro. Pode-se compre-
ender ambos os programas examinando mais de perto a passa-
gem de uma dessas concepções para a outra nos trabalhos de
Charles Morris (de Morris, 1938, para Morris, 1946). Morris
propõe em sua primeira monografia Foundations of the Theory
of Signs a conhecida tripartição da semiótica em sintaxe, semân-
tica e pragmática. A principal fonte de inspiração para Morris na

27
época é a füosofia do empirismo lógico e mesmo a behaviorista.
Todavia, um outro aporte filosófico revela-se importante a Mor-
tis, o pragmatismo americano, através dos trabalhos de George
Mead e Charles Sanders Peirce (Morris, 1970). Deve ficar claro
que o pragmaticismo e a pragmática não devem ser confundidos.
Enquanto o pragmatismo é uma filosofia total (na realidade, uma
combinação de lógica, epistemologia e ética) que acentua opa-
pel central do homem como um ser racional que se insere e atua
como tal na e sobre a realidade, a pragmática é uri'i ramo da se-
miótica ou da 'ciência unificada'. Essa dupla origem das idéias
filosóficas de Morris (de wn lado, o empirisnK> lógico e o beha-
viorismo e, de outro, a filosofia pragmática) também marcam
duas possíveis concepções de pragmática. Numa primeira con-
cepção, a pragmática será reduzida a um componente da semió-
tica tridimensional ( aqui a inspiração é da filosofia da ciência do
empirismo lógico) e, numa segunda concepção, a pragmática
toma-se a base integradora da teoria global dos signos e do sen-
tido ( atua aqui sua ligação essencial com o pragmatismo). A
própria doutrina de Morris, de 1938 a 1946, evoluiu enorme-
mente, e é evidentemente a maior influência de Peirce nos últi-
mos escritos de Morris que transforma sua concepção minima-
lista inicial numa concepção maximalista.
Os critérios pelos quais o primeiro Morris delimita a se-
mântica e a pragmática são conhecidos. A pragmática investiga
a dimensão pragmática da semiose, isto é, a maneira como o
signo expressa seu utilizador (enquanto a semântica investiga a
dimensão semântica da semiose, isto é, a maneira como o signo
denota seu objeto). O que aparece como novo, aqui, na história
da semiótica, é o fato de considerar-se que a dimensão pragmá-
tica é governada por um sistema de regras que são independen-
tes das dimensões sintática e semântica, e simultaneamente cor-
relacionadas com elas. Evidentemente, a natureza dessa correla-
ção é que permanece problemática e nunca é esclarecida e expli-
citada no pensamento de Mortis (sobre este aspecto veja-se, por
exemplo, Granger, 1976). Mortis afirma numa linha claramente
behaviorista que qualquer regra semântica tem como correlato
na dimensão pragmática a tendência do organismo para usar o

28
-
signo em circUilStâncias dadas e determinadas. E, na direção in-
versa, qualquer relação do signo. com o seu utilizador implica no
c<>nhêêimento pelo organismo das relações que o signo mantém
com o sistema de signos de que ele é uma entidade (sintaxe) e
das relações que o signo. mantém com os objetos e estados de
coisas. a. que o utilizador do signo faz referência (semântica):
Mas. essa correlação implica na independência dos comp<>nentes
semi6ticos, mais do que sua interdependência. A semiótica trl.,,
dimensional, de acordo com o primeiro Morris, consiste em três
p<>ntos de vista (a três metodologias) irredutíveis corresp<>nden-
tes a três dimensões objetivas da semi,ose (por exemplo; Morris;
1938: 53). A evolução do pensamento de Morris de 1938a 1946
reflete, entre outros,. o fato de que a semântica e a pragmática,
ainda distintas como duas •atitudes' específicas com suas pro.,,
prias propriedades metodológicas, já não correspondem a di-
mensões objetivas da ~miose. A tridimensionalidade toma-se
uma característica da s~miótica, e não da semiose - a motivação
para a tripartição toma,se heurística, e Morris insiste mais e
ntais · na homogeneidade. da semiose. Os .três _ccmiponentes.Je=
mióticof,l_são. defiaj_<!Q~ Q.a.9.1!!:P!l!!':_~frt::~t~ P2~ -~gp~;cpfagr!_lá.-.
tic~~-~~! na_~aji~~cle_a semiótica ~!'!'--~911ç~~.jgy_~~""
ga.ndo a origem, !)S_~i,<,>S_ ~ .<>s ~f~ítos _ cios sign~ !!<:>~:!,<>!>~. <>
êomp<>rtamento significativo d()s in~rprntantes; a semântic:ª· é
~·semiótica· parcíaj_. (reduced· ), .Ul!J....:~mfoque..~.abstrato:._que .in'-
vestiga o sentidq_~_~i_iiiõ_f!f~!lc!Q-ªbsttaçrui__l!~_s_lla in!._~!R!:e-
tação pelos utilizadores da)íngµa~e a sintax«;Lé _uma semi6tica
ainda mai~uzida, um. enfoque ai!)..4ª_Jl1ªÍ§ ..~ª-b&.~tQ~9.Y~-ª1J~
jãz1i7iive~ti~~2--~~5_C>~bÍl!ªÇ~S_!,iS~~!i~ªs .~!1~~!,!~º~
•fazendo. abstração'· _não· só da. interpre~@~ri~:
nificado (veja-se especialmente Morris~ 1946: 219). Esta tfpíca
;;~llÍção dos escritos de Morris -~~ dkeção· a-·wrui concepção
maximalista da pragmática (que será a única semiótica não..:par-
cial) mostra que a delimitação da semântica e da pragmática não
precisa necessariamente ser motivada pela ontologia da semiose:
é uma delimitação meramente heurística e metódica (veja-:-se Par-
ret, 1981). É preciso aceitar a atitude maximalista empragmática
para evitar paradoxos e qpntradições - é interessante observar

29
que a concepção de Camap a respeito do problema de delimitar
semântica e pragmática é intermediária, hesitante entre as duas
atitudes, e por isso mesmo altamente insatisfat6ria (veja-se Par-
ret, 1980d; 17-20).
A senúótica de Peirce, intrínseca e globalmente depen-
dente do pragmatismo, mostra como uma concepção maximalista
da pragmática enquanto base integradora do estudo do sentido
lingüístico em sua totalidade, transcende qualquer tricotomia (e-
pistemológica ou ontológica) e toda dicotomia (pense-se aqui
nas dicotomias clássicas em teoria lingüística, entre fomia e
substância, 'langue' e 'parole', competência e performance).
Sem tentar sequer um começo de sistematização das idéias de
Peirce sobre esta questão, poderíamos lembrar pelo menos três
pontos particulares a indicar sua convicção de que a semiótica
poderá ser unificada tão logo assente na pragmática como base
integradora. Em primeiro lugar há o interpretante que é, de
acordo com Peirce, a dinâmica dos processos semióticos (Peirce,
5.473, 6.347 e 8.343): o interpretante não é uma entidade psi-
cológica ou um conjunto de estados mentais, ou um catalisador
de fenômenos psicológicos, sociológicos e biológicos (esta é a
maneira como Dewey interpreta Peirce, cf. artigo de 1946, espe-
cialmente pp. 86-87), mas um efeito lógico da ação do signo. Ó
dinamismo semiótico é lógico, portanto unificado, porque as
idiossincrasias psicológicas e mentalísticas são automaticamente
excluídas de uma semiótica pragmaticamente orientada. Em se-
gundo lugar, nem a sintaxe formal nem a semântica pura (a se-
mântica verifuncional), a Morris, são possíveis no quadro teóri-
co de Peirce. A lógica interpretativa da abdução não pressupõe
uma base estável extra-semiótica (existência ontológica ou psi-
cológica), mas somente o funcionamento da máxima pragmatis-
ta. Deve-se lembrar que a imagem corrente da máxima pragma-
tista (segundo a qual a totalidade da concepção corrente do ob-
jeto para uma pessoa corresponde à concepção dos efeitos do
objeto, onde 'efeitos' é interpretado utilitaristicamente: verdade
e utilidade seriam intercambiáveis) está longe da maneira sutil
como o próprio Peirce aborda a máxima: 'efeito' equivale à in-
terpretação, portanto propõe-se o papel central do interpretante

30
ao constituir a objetividade; e a semiótica é unificada funda-
mentando-se toda constituição na base pragmatista. Em terceiro
lugar, a semiótica é unificada pragmaticamente pelo fato de que
a categoria terceiridade ( Thirdness ) é preponáerante no domí-
nio do pensamento e da discursividade: a terceiridade consiste
numa série de propriedades que riertencem paradigmaticamente à
lúigua e ao sistema de signos, como a regularidade, a sujeição a
leis ( Lawfulness ), a contLnuidade e a generaiidade (Peirce,
1.337-349; 8.331-332). O contínuo e o geral cristalizam nas
tendências ( ou atitudes) que são características do interpretante
discursivo. A experiência simplesmente qualitativa e não-diver-
sificada (Primeiridade) bem como a experiência percebida e
portanto diversificada (Segundidade) são tr,msce:m:!idas peia
mais alta forma de interpretação, o interpretante marcado por
atitudes discursivas. Em oposição ao mentalismo e ao psicolo-
gismo, a atitude interpretativa será reconhecível somente como
finalidade ou como ação (Peirce, 5.481). Na verdade, a semióti-
ca de base pragmática é de fato uma lógica da ação, especial-
mente a ação do discurso permeado pelo pensamento. O esforço
de Peirce pela unificação radical da semiótica em sua base
pragmatista é o melhor exemplo de atitude maxirnalisra em teoria
pragmática.
A maioria dos lingüistas e filósofos, tanto da tradição es-
1:mturali.sta corno gerativa, têm uma concepção ,nirrimalista da
pragmática. Admitem a autonomia da sintaxe e da semântica por
causa do argumento defendido por Mor.ris: os donúrrios sintático
e semântico são semioticameme objetivos (isto é, ontologica-
mente autônomos). Uma teoria do sentido inspirada por intui--
ções peirceana<; aceita somente níveis heurísticos (mas não qual-
quer estabelecimento de níveis ontológicos): susi'.enta que as
perspecuvas sintática e semântica são abstrações, de grande im-
portância metodológica, com respeito à 'atitude prngmática', on-
de significar é visto como interpretação ou compreensão ou,
como ficou dito, onde significar é globalmente dependente da
tríade (dependência contextual, racionalidade ligada ao discurso,
compreensão/interpretação). Desde que essa intuiç1io pragma-
tista tem que ser operacionalizada na ciência empírica, uma

31
'gramática profunda' - de que Wittgenstein e Peirce são os tute-
lares - apresenta um sistema de estratégias inferenciais que
pressupõe como fundamento a inserção do homem racional nu-
ma comunidade comunicativa.

Tradução: Rodolfo Ilari

32
As considerações epistemológicas que apresentarei
dizem respeito às regularidades da língua, às regras da gramática
e às estratégias de produção e compreensão das seqüências lin-
güfsticas. Não é meu propósito mostrar que a ordem que vai da
regularidade à regra, e da regra para a estratégia, é uma ordem
progressiva, ou que a noção de 'estratégia' tem uma adequação
descritiva e explicativa final quando comparada às noções de
'regularidade' e 'regra'. Tampouco é meu propósito substituir as
'regras gramaticais', digamos, por 'estratégias pragmáticas'.
Como deverá tornar-se claro neste artigo, adoto uma perspectiva
tolerante (e um tanto ecumênica), e a posição epistemológico-
crítica que assumo nesse confronto com as teorias semióticas e
lingüfsticas será ao mesmo tempo metapragmática e metagrama-
tical. Três autores-alvo ou três paradigmas-alvo serão discutidos
nesta apresentação: Saussure, ChoD1Sky e Wittgenstein (natural-
mente, os paradigmas abrangem as diferentes tendências a que
eles deram origem na teorização contemporânea). Sustentar-se-á
que essas três posições paradigmáticas são dominadas, respecti-
vamente, pela metáfora econômica, pela metáfora biológico-ffsi-
ca e metáfora social, e que, por conseguinte, os conceitos
específicos de regularidade/regra/estratégia, no interior desses
paradigmas, tomam forma de acordo com a força específica des-

33
sas metáforas. Para esclarecer o que entendo por essas correla-
ções, menciono somente a centralidade, no Cours de Linguisti-
que Générale, da noção de valor, inspirada na economia, o es-
tilo galileano, como lhe chama Chomsky, da teoria lingüística, e
o ponto de vista que se costuma chamar "fundado na noção de
comunidade" a respeito dos jogos de linguagem nas Investiga-
ções Filosóficas. Tomar-se-á evidente que nossas três perspecti-
vas paradigmáticas, em sua dependência de metáforas que geram
a compreensão teórica, 'criam', por assim dizer, as restrições,
limitações e possibilidades dos conceitos de regularidade, regra
e estratégia.
Procederei como segue. Admite-se geralmente que a lfu-
gua, em sua estrutura e em seu uso, é uma rede de regularidades,
e que sem regularidade seria impossível comunicar, ou mesmo
aprender uma língua. Além disso, é um traço ( point ) da meto-
dologia geral da ciência que uma teoria reconstrói as regularida-
des de maneira ontogenéticà e filogenética: a regularidade é a
priori de qualquer reconstrução científica. 'Estrutura', 'sistema',
'rede', 'forma', 'configuração teórica' ( pattern ) etc. são con-
ceitos centrais de qualquer metodologia.
O meu primeiro assunto referir-se-á aos pontos de vista es-
pecíficos que nossos três paradigmas têm da regularidade no
· discurso. Esses pontos de vista dependem da concepção que eles
têm da relação constitutiva entre a teoria (em semiótica ou em
lingüística) e seu objeto, e dos modos específicos como é defen-
dida a interiorização das regularidades. É evidente que x regula-
ridades 'estruturais' - no sentido saussuriano de "uma língua e
um sistema", "uma forma" - são epistemologicamente diferen-
tes das regularidades 'de competência' - no sentido de Choms-
ky, para quem a gramática é interiorizada como uma competên-
cia - que são, de fato, estigmatizadas como idealizações psico-
logizantes por aqueles que advogam a concepção das regulari-
dades da lfugua em termos de consenso ou acordo, como acon-
tece no paradigma de Wittgenstein.
Essa resenha das abordagens à regularidade na língua é
tão-somente uma introdução ao meu segundo assunto, a natureza

34
das regras nos três paradigmas. Sustentar-se-á que no primeiro
paradigma não há necessidade intrínseca de regras nem tampou;;.
co ·de. µmâ 'gramática' - seria interessante atentar· para o .uso
frugal dessas palavras na axiomática saussuriana. O primeiro pa-
radigma dá realce a regularidades estruturais que, contudo, não
têm qualquer potencialidade de tornar-se estruturadas como uma
gramática. Naturalmente, isso é diferente do segundo e do ter-
ceiro paradigma: tanto Wittgenstein como Chomsky têm concep-
ções explícitas das regras e das gramáticas, e ambos os termos
são noções nucleares, com impacto a longa distância sobre as
perspectivas a respeito da língua e do díscurso. Todavia, defen-
derei que as regras de Chomsky são de fato leis interiorizadas,
ao passo que as regras de Wittgenstein são ~égias exteriori-
~as. As regras parecem ter uma posição epistemológica inter-
mediária entre as leis e as estratégias, mas ainda assim precisam
ser distinguidas das generalizações. Na verdade, a segunda sec-
ção dJ meu artigo deveria esclarecer a escala generalização/Jei/
regrai ~atégia aplicando parâmetros adequados como a aceita'-
bilidade, a contextualidade e. a normatividade, e relacionando
essas noções epistemológicas e metodológicas distintas . aos pro-
cedimentos dúplices da interiorização e exteriorização, Como.eu
disse, uma inspeção cuidadosa dos parágrafos centrais das In-
vestigações Filosóficas nos diria que os problemas de 'ser go-,
vernado por regra' e 'seguir uma regra' e a noçãó correlata>de
'gramática profunda' evocam, de fato, o jogo lingüístico que é
necessariamente exteriorizado.
O meu terceiro assuntó deveria precisamente reordenar, do
ponto de vista metapragmático, os vários modos de encarar as
estratégias (por exemplo, em sociolingüística ou· em étnômetcí-
dologia} e tentar relacioná-las ao paradigma wittgeristeinianó. A
partir daqui, será desenvolvida uma· crítica da abordagem ~~~­
têmico;;.intencional da Grice do governo por estratégia, bem co-'
mo uma crítica das assim chamadas teorias pragmáticas em que a
perspectiva de comunidade das estratégias baseia-se na necessi-
dade de conhecimento mútuo entre membros da comunidade.
Mesmo quando uma reconstrução 'em gramática profunda' witt-
gensteiniana das estratégias que estruturam os jogos de língua é

35
superior a uma reconstrução 'em pragmática profunda' choms-
kiana das regras da competência, ainda ocorre que nem todas as
noções de estratégias sejam aceitáveis e adequadas. Seria preci-
so definir-se sobre o modo de otimizar a noção de estratégia,
isto é, sobre como obter a noção que pode servir de base mais
segura para a 'pirâmide' da descrição e explicação dos fenôme-
nos de discurso.

As regularidades de língua, e suas metáforas

1 . A economia dos valores lingüísticos

Convém relacionar a metodologia dicotomizante de Saus-


sure a esta afirmação geral no capítulo inicial do Cours: "O ob-
jeto não é dado de antemão com relação ao ponto de vista: longe
disso. Ao contrário, poder-se-ia dizer que é o ponto de vista
adotado que cria o objeto. Além do mais, não há nada que nos
diga de antemão se um desses modos de olhar para ele é anterior
ou superior a qualquer dos outros" (Saussure, 1915/1983/:8).
"O ponto de vista adotado cria o objeto": é assim que as dico-
tomias são motivadas: o objeto da lingüística é a langue, a sin-
cronia, a forma, ao passo que o segundo termo correspondente
das dicotomias, isto é, parole, diacronia, substância, estão no
domínio do resíduo. Uma língua ( langue )- não confundir com
'linguagem' (que é o conceito genérico) nem com 'parole' (que é
resíduo) - "é ao mesmo tempo um todo auto-suficiente e em
princípio de classificação" (Saussure, 1915/1983/:10). As re-
gularidades, de acordo com Saussure, são sistemáticas, além do
mais a sistematicidade é holística. Há regularidades sintagmáti-
cas e associativas (chamadas pelos estruturalistas posteriores de
'paradigmáticas') - tanto as relações sintagmáticas como as as-
sociativas desempenham seu papel específico (por exemplo,
Saussure·encara a sintagmática como incluindo a sintaxe). Esta
lfugua é definida como um sistema de tennos coexistentes, mu-
tuamente dependentes e funcionando de acordo com relações in
praesentia (sintagmática) e in absentia (relações associativas)

36
(veja-se Koemer, 1973: 354-355). Mais importante ainda parece
ser que a sistematicidade é holística - na verdade, não é somente
verdade que uma língua é "um todo auto-suficiente", mas tam-
bém que o todo precede ou domina as partes. É b!lStante conhe-
cido que esta abordagem das regularidades da língua sacrifica
variações de pelo menos três tipos: a variação temporal, a varia-
ção individual e a variação contextual (veja-cse a este respeito
Harris, 1978: 12 ss). De fato, a variação é a-regular"""'. distinguir o e~
de •irregular' que, enquanto violação da regularidade, é ainda 1 ~í\li
•regular' - e por isso pertence ao domínio do resíduo, exata- &._,1{~11.,:
mente do mesmo modo que o subjetivo, o emotivo, o prescriti-,
vo... As regularidades de língua são propriedades dependentes
da teoria - o regular confunde-se com o domínio da langue, em
outras palavras, o sistema holístico, ao passo que o a-regw,ar se
confunde com o resíduo ou o domínio da irredimível parole~
Ü limite entre ambos OS domínios não é de maneira alguma OS:,-
m6tico, e não há expansão do conjunto das regularidades para
ocupar (ainda que em parte) a província da parole.
A dependência da teoria da língua, ou do objeto ·da }in.:.
güística é evidenciada• pelo fato de que a noção de ·entidade
'contol6gica) se confunde com a de valor, ou queahoção deva-'-
lor envolve a de realidade (Sâussure, 1915/1983:110 ss). Diz.;:se
quê os sistemas semióticos são sistemas de valores (ver também
Godel; 1957:281), e introduz-se neste ponto a analogia com o
jogo de xadrez; Saussure diz-nos que "de todas as comparações
em que se poderia pensar, a mais reveladora é a semelhança en-
tre o que acontece numa língua e o que acontece num jogo de
xadrez" (Saussure, 1915/1983:87), porque em ambos os exem-
plos somos confrontados com um sistema de valores --- diz-se
que "um jogo de xadrez é como uma forma artificial daquilo que
as lfu~ apresentam numa forma natural'' (ibidem). É sempre
importante observar cuidadosamente as comparações e analogias
nos textos, e precisaríamos esclarecer se o xadrez é realmente o
jogo prototípico nos paradigmas de Chomsky e Wittgenstein, ·e
mesmo se os jogos são as analogias preferidas das regularidades
de lfugua.•. Mas é ainda mais fundamental a metáfora econômica
dos •valores lingüísticos', que infonna com absoluta determina-

37
ção o conceito de 'regularidade sistemática'. A imagem de que
ao falar "imitamos os banqueiros que, ao manusear valores os
tratam como se eles fossem a própria moeda" é de Locke (ver
Aarsleff, 1982: 307-308) 1; e há uma longa tradição no desen-
volvimento da teoria lingüística em que a comunicação verbal é
vista como uma transação econômica (ver Harris, 1983; Bour-
dieu, 1982). As unidades do sistema são as equivalências abs-
tratas (tipos, não ocorrências) que subjazem à transação; moedas
quando a transação é comercial; sons quando a transação é lin-
güística. E essas equivalências pertencem ao sistema (à langue,
no caso lingüístico). As unidades têm um valor somente quando
ocorre o duplo embricarnento, quer com outras unidades de tro-
ca, quer com uma outra substância disponível em troca por cada
uma dessas unidades. Na opinião de Saussure, esse sistema de
valores tem que ser postulado para justificar o fato de que os
membros de uma comunidade lingüística podem comunicar com
êxito. O grande atrativo da metáfora econômica foi precisamente
que ela proporciona uma explicação do modo como na nebulosa
( la nébuleuse) da diversidade e variação o lingüista consegue
detectar um conjunto de constantes ou regularidades que não são
preestabelecidas por natureza mas que os falantes podem tratá-
las como fixas para fins de comunicação. Mas o perigo da metá-
fora econômica para a teoria lingüística tem sido que, tanto
quanto na situação econômica, o sistema lingüístico de regulari-
dades é considerado como um sistema fechado e imanente, e a
estrutura das regularidades é considerada como uma estrutura
acabada e definitiva de um número finito de regularidades.

H jelmslev, em minha leitura de seu trabalho, escapa das


desvantagens da metáfora econômica, e portanto suplementa a
axiomática saussuriana de um modo original. A crítica à pers-
pectiva de Saussure sobre a dicotomia langue/parole concerne à
definição fixa dos limites do domínio residual, 'perdido para to-
do o sempre'. O objeto da ciência da língua é a língua como tal
(não somente a parte que fica isenta da variação tripla: temporal,
individual e contextual). Isto é possibilitado por peculiaridades
importantes da teorização hjelmsleviana. Basta ler as páginas fi-

38
nais dos Prolegomena para perceber de que modo a imanência e
a transcendência podem ser compostas ou, nas palavras do tra-
dutm de Hjcimslev: '' A teoria lingüística é impulsionada por
uma necessidade interna de reconhecer não só o sistema lingüís-
tico, em seu esquema e em seu uso, em sua totalidade e em sur,
individualidade, mas também o homem e a sociedade humana
por tnís da língua, e toda a esfera de conhecimento do homem
através da língua. Nesse ponto, a teoria lingüística alcançou o
objetivo prefixado: humanitas e universitas (Hjelmslev,
1963:127). A totalidade não é uma totalidade fechada, e é pm
catálise ou "registro de coesão" - não por análi,se que o cam-
po de visão pode ser estendido 2 • A substância, a diacronia e o
discurso (ou subjetividade-na-língua) são descritos adequada-
mente em meta-semiótica, e este é o factual que a semi6tica es-
trutural (a assim chamada "Escola de Paris" de A. J. Greimas)
trilhou depois de Hjemslev. O conjunto das regularidades não é
nem fechado nem finito, porque a construção teórica é uma di-
nâmica contínua e autotranscendente.

2 . Demócrito e Galileu combinados

Seja o que for a concepção estruturalista das regularidades


da língua - seja ela a ortodoxia holístico-sistemática saussuriana
ou o suplemento dinâmico hjelrnsleviano os gramáticos gerati-
vistas continuarão entendendo que, nesse paradigma, as regula-
ridades são propriedades observáveis de superfície: a sintagmá-
tica contém as regularidades de concatenação (cp. a cadeia da
fala) ao passo que a paradigmática (de início, o conjunto das
relações associativas) contém o dicionário e, na melhor das hi-
p6teses. uma lista das possibilidades morfossintáticas da lfugua.
ívlas as teorias científicas - eles dirão - devem ser capazes de
distinguir o modo como as coisas aparecem do modo como as
coisas realmente sào. A distmção aparência-realidade é feita de
acordo com o príncfpio de Dem6crito de que devemos aprofun-
dar, além da aparência superficiai, uma realidade mais profunda
que subjaz a elas (Katz, 1971: 1-4). Quando aplicamos este

39
princípio à nossa discussão, pode-se afirmar que as 'regularida-
des profundas' são muito diferentes de sua forma superficial, e
que isso pode ser conf'~do por postulação hipotética. As teo-
rias não-democriteanas assumem que as regularidades de língua
devem ser definidas em termos das propriedades de superfície da
concatenação sintagmática ou da organização paradigmática do
dicionário, mais uma morfossintaxe (taxionômica). Na verdade,
a assim chamada 'revolução chomskiana' faz reviver a perspec-
tiva democriteana a respeito da língua na medida em que afirma
ser superior empiricamente (por exemplo, gera as teorias mais
adequadas da sinonímia, 'entailment', 'boa formação', etc.) e
mais poderosa empiricamente (já que se podem fazer hipóteses
sobre universais lingüísticos). Conforme se sabe, os gramáticos
gerativistas têm tido desde 1957 uma atitude constante de res-
peito pelo princípio de Demócrito.
Há mais mistério - e também mais incerteza - a partir do
momento em que a natureza da realidade subjacente ou as 're-
gularidades profundas' precisam ser definidas. Em escritores re-
centes, Chomsky cita repetidas vezes o 'estilo galileano' - o que
é, de fato, um termo emprestado de Husserl - na investigação
lingüística, e chega a delinear uma possível 'revolução galilea-
na' em lingüística (Chomsky, 1980). Uma combinação de Gali-
leu e Dem6crito, na verdade, introduz um novo estilo de inves-
tigação - o uso desse estilo de investigação manifesta o voltar-
se da atitude intelectual de uma preocupação em dar cobertura
aos dados para uma preocupação com a acuidade ( insigJ,t ) e
profundidade da explicação (Chomsky, 1978a). O que acarreta,
exatamente, o "estilo galileano" para o estudo das regularidades
de língua? Três mecanismos centrais estão envolvidos: a abstra-
ção, a matematização e a assim chamada "tolerância epistemo-
lógica". Abstração significa que o lingüista se compromete com
"idealização de longo alcance" e que o modelo do lingüista não
contém princípios explicativos ligados por inferência direta aos
dados que eles explicam (por exemplo, o 'princípio de subjacên-
cia' é abstrato neste sentido). (V'?ja-se sobre todos estes aspec-
tos Botha, 1981.) Em segundo lugar, o estilo galileano introduz
o mecanismo da matematização: por exemplo, os modelos da fí-

40
sica •Inatematizam' a realidade física e o conjunto de 'regulari-
dades profundas' reconstruídas pelo gramático tem o mesmo
grau de realidade que o físico atribui aos seus modelos matemá-
ticos do universo" (Chomsky, 1980:223). Lembre-se que Gali-
leu disse: "A natureza é um livro, e os caracteres em que está
escrito são triângulos, círculos e quadrados" (ver Weinberg,
1976:13-29). O terceiro mecanismo é a chamada tolerância
epistemológica: é a atitude que o lingüista precisa adotar com
respeito às inadequações empíricas de teorias lingüísticas quejá
alcançaram um certo grau de profundidade. explicativa; essas
profundidades (sic, parece haver um engano. no texto priginal,
propriedades por teorias) não devem ser abandonadas como. re-
futadas pelo que. parecem. ser evidências .contrárias derivadas do
~nso comum, ou das .sensações do mundo ordinário (por exem-,
plo, as intuições lingüísticas são fonte de sensações desse tipo
ou observações do senso comum). Esses três mecanismos expli-,
cam o grande sucesso das ciências naturais, e a lingüística deve
tirar proveito deles.
Bem entendido, não quero estender aqui a discussão sobre
a.···interpretação ·. que Chomsky· faz da epistemologia. das ciências
na.turais ·em geral, e de Galileu em particular; também não quero
analisar a relevância .desses mecanismos epistemológicos ·em
lingüística (veja-se Both.a, 1981, a este respeito). O que me inte-
ressa é o simples fato de· que as 'regula.ridades profunda.s', re-
construídas de acordo com os princípios de Demócrito e Galileu
são·definidas em termos de metáforabiológico-física. Abiologia
foi apresentada por Chomsky como·· a ciência unificadora. e a
ciêncía alvo - e de fato se disse que a psicologia pode ser redu-
zida à biologia· em última instância. O novo salto deixa claro
que a física poderia, em vez da biologia, vir a ser a. 'ba.se' ·'-· rea-
liza o melhor dos três mecanismos acima menciona.dos, e ofere-
ceria novos. horizontes para a investigação lingüística. Na ver-
dade, poder-se-ia realizar o futuro da investigação lingüística em
termos de noções como estar unificada, estar baseada em princí-
pios, .ter elegância e especialmente naturalidade e profundidade
dedutiva. O sonho e o perigo cJ.a metáfora. tornar-,se-á evidente
tão logo se analisar por que e como essas. 'regularidades profun-

41
das' são regras gramaticais, que são, em minha interpretação - e
precisamente por causa do impacto da metáfora biológico-física
- leis e não regras.

3 . Semelhanças e jogos

"A preocupação com a acuidade e profundidade" e a


"profundidade dedutiva" levam-nos a descobrir as regularidades
da língua. Todavia, uma outra noção de profundidade sem qual-
quer paladar demócrito-galileano pode servir como alternativa.
Wittgenstein faz perguntas como: O que quer dizer quando digo
que uma proposição, quando a entendo, adquire profundidade
para mim? O que significa falar da profundidade de uma sonata
de Brahms ou da profundidade de um ritual? Wittgenstein encara
'profundidade', em suas Observações sobre o Golden Bough de
Frazer, como definido radicalmente por 'conexão': "O que é
que faz dos sacrifícios humanos algo profundo? ( ... )afinal? O
aspecto de profundidade é atribuído a partir de uma experiência
em nós mesmos" e "aquilo que eu vejo neles (os rituais) é algo
que eles adquirem, em última análise, a partir da evidência, in-
cluindo a evidência que parece diretamente conexa com eles -
( ... ) a partir da estranheza do que eu vi em mim mesmo e nos
outros" 3. Afirma-se mesmo, explicitamente, que as explicações,
de natureza causal ou outra, nunca proporcionam profundidade.
A terapia de Wittgenstein dirige-se em primeiro lugar contra a
profundidade demócrito-galileana e as enfermidades epistemoló-
gicas da idealização, matematização e outros procedimentos do
'triunfalismo' metódico. Emerge uma outra concepção de gra-
mática profunda e regularidades profundas quando profundidade
e conexão são inter-relacionadas intrinsecamente.
A clareza sobre as regularidades da lfugua não resulta de
penetrar nas profundezas das seqüências da lfugua de modo a
revelar estruturas abstratas e idealizadas, mas de contrastar os
modos como a língua é usada 'regulannente' em diferentes do-
mínios da vida (ou formas de vida). (Vejam-se comentários em
Katz, 1971, cap.2.) Cito, novamente, Wittgenstein: "Pois nossas

42
Todavia, os próprios jogos podem ser tratados em termos da
metáfora social e é por isso que os jogos de linguagem são jogos
prototípicos. As regularidades que determinam o alcance dos jo-
gos de linguagem são produzidas e compreendidas por jogadores
potenciais, e sua contratualidade só pode ser operacional numa
comunidade dada. É extremamente difícil não seguir em nossas
rotinas intelectuais a hipótese saussuriana do jogo de xadrez
como protótipo de todos os jogos, e voltar-se para a alternativa
wittgensteiniana, onde a própria língua é o protótipo. Embora a
analogia do xadrez sugira uma concepção da língua como cál-
culo, mantém sua função heurística precisamente na medida em
que o xadrez é considerado um jogo entre outros, não como um
protótipo (sobre a analogia com o xadrez, veja-se Wittgenstein,
1953; especialmente os §§ 11-12, 22, 136) - tem um valor heu-
rístico, por exemplo, para dizer que a fim de compreender as re-
gularidades de língua "jogamos o jogo das funções de verdade
com as frases. Pois a asserção não é algo que vem acrescentar-se
à proposição, senão um traço essencial do jogo que jogamos
com ela. Comparando, por exemplo, à característica do xadrez
pela qual está presente nele o ganhar e o perder... " (Wittgens-
tein, 1978: veja-se Waismann, 1965: 372 ss). Somente o caráter
prototípico do jogo de xadrez precisa ser destronado - a força
da metáfora social requer uma "nebulosa" mais ampla (talvez
mesmo infinita) de jogos, todos realizados no uso da língua.
Mas todos - em sua regularidade, em suas similaridades e des-
vios - são familiares e comuns: são familiares na comunidade
daqueles que jogam os jogos. Surge então, rapidamente, a pró-
xima questão{o que são as regras do jogo, ou com que se parece
a gramática das regras, se o jogo sujeito a regras é a própria lín-
gua?)

As regras de gramática e sua dissoluçãp

Deixando de lado por um momento nossos paradigmas, es-


boçarei a semântica do termo "regra", da maneira mais intuitiva
e plausível que for capaz. Distingo três propriedades conotativas

44
no uso desse termo em linguagem corrente. l - Uma regra é
uma expressão metalingüística: é um termo gramatical, uma no-
ção graças à qual é possível teorizar sobre a língua. Esta i_ntui-
ção, - embora seja anti-wittgensteiniana e manifesta por isso as
enfermidades filosófica<; de nossas intuições - é materializada na
concepção das gramáticas, de Panini e os gregos em diante. As
regras devem ser aprendidas, e uma gramática é, em essência,
necessariamente didática ou "adacêmica". As regras, como ex-
pressões metalingüísticas, podem ser representações de todo ti-
po: podem ser descrições estruturais de tipo taxionômico ou po-
dem ser representações derivadas simulando o processo gerati-
vo. Seja como for, um sistema de gramática é intrinsecamente
relacionado à possibilidade de apreno.ízado ( learnability ), a um
programa educacional (veja-se sobre este ponto Harris,
1980:118-126), a uma Academia. Pelo menos, é isto que a dia-
cronia ( ou mesmo a sincronia) da semântica do termo "regra"
mostra. 2 - Acrescento uma segunda propriedade: uma axiomá-
tica saussuriana não s6 ignora a semântica dos três traços que
acabo de esboçar, mas não pode sequer admitir a relevância de
qualquer noção de regra de gramática. Nenhuma descrição es-
trutural é jamais chamada de regra no Curso 4, enquanto o uso
do tenno 'gramática' é tautológico ou com sintaxes ou com teo-
ria lingüística, isto é, a descrição sistemática do "estado de lfu-
gua" ( état de úmgue) (Godel, 1957: 'Grammaire'), e portanto
com sincronia. É uma ironia do destino que Saussure use o ter-
mo 'gramática' duas vezes de maneira idiossincrática e muito
significativa: ele menciona a "gramática do mercado de ações"
( la grammaire de la bourse, Engler, 1968: 'Grammaire') e
chama de gramática ao "manual de xadrez" ( le traité du jeu
d' échecs, ibidem). A primeira frase evoca a dominância da me-
táfora econôrnica sobre a concepção das regularidades de língua,
e a segunda frase lembra-nos do caráter prototípico do xadrez,
com suas conseqüências distantes.

1 . As regras como leis interiorizadas

Não é objetivo deste artigo apresentar uma tipologia de re-

45
gras como elas funcionam numa gramática gerativa. Mencionarei
simplesmente que a idéia de encarar o estudioso que investiga as
línguas como um gramático, e a ciência da língua como buscan-
do formular uma gramática, ou um conjunto de regras é nova
não s6 com respeito aos predecessores tradicionalmente lembra-
dos da lingüística chomskiana, a saber os estruturalistas euro-
peus e americanos, mas também na longa hist6ria do triviwn re-
t6rica/lógica/gramática, em que a gramática recebeu sempre a
importância mais modesta. A gramática não foi nunca um as-
sunto de atenção séria. Quintiliano, Dionísio, Trácio, como
aqueles que refletiram sobre a língua na Idade Média e assim as
escolas tardias, como Port Royal, pensaram que seria legítimo
que as pessoas se dedicassem a lazeres como a gramática, com a
condição de não ficar atoladas neles (Quintiliano usa a palavra
haerere) (veja-se sobre este ponto Harris, 1980:109): as gramá-
ticas eram apêndices da lógica e da retórica. A primazia da gra-
mática na teoria lingüística gerativa tem a ver com a dicotomiza-
ção epistemológica entre competência e performance, entre os
dois tipos de criatividade mencionados por Chomsky, a saber
"algorítmica" em oposição a "romântica" (i.e. Humboldtiana), e
especialmente com a dicotomia entre, de um lado, regras e
constrições e, de outro, tendências e restrições 6. Sistemas peri-
féricos, estruturas superficiais, e mesmo a semigramaticalidade
foram admitidos como existentes (neste sentido, a competência
"estilística" é às vezes considerada como um estágio de pré ou
semicompetência), mas a gramática nuclear ( core grammar)
(Chomsky, 1978:26) deve ser tomada "como um sistema de re-
gras que proporciona representações do som e do sentido, cujo
caráter específico vai ser determinado à medida que a investiga-
ção avança; nossa tarefa é descobrir as representações que apa-
recem e as regras que operam sobre elas e as relacionam; e, mais
importante, descobrir o sistema de gramática universal que pro-
porciona a base sobre a qual se desenvolvem (Chomsky,
1980:65).
A noção de 'regra', como usada aqui, não tem os traços 'a-
cadêmico', 'deôntico' e 'actancial' que atribui à semântica do
uso corrente desse termo. As regras, de acordo com Chomsky,

46
não precisam ser aprendidas - elas não são de maneira nenhuma
arbitrárias, e não existe nenhuma 'Academia dos Gramáticos'
para pôr no. papel uma gramática que funcione a priori; a todo
momento há uma capacidade de língua no universo, isto é; a to-
do momento há uma corporificação humana da gramática uni-
versal. Não há uma estrutura actancial subjazendo às regras,
tampouco, porque não há oposição dialética entre o que· dá as
regras e o que as segue. Mas ainda há a execução de um pro-
grama cognitivo. E essa execução é prescrita? Não, ela é antes
programada ou feita sobre circuitos pré-moldados. (Tenho ddvi-
das de que se possa corretamente qualificar um programa com-
putacional como um imperativo e uma regra (computacional)
como a expressão de uma estrutura modal deôntica). É evidente
que os traços actancial, deôntico e acadêmico são inter-relacio-
nados, e que uma execução sobre circuitos pré'."moldados não
pode ser analisada em termo1> da dicotomia prescrição/descrição.
Quando as regras num paradigma chomskianosão avaliadas da
posição intuitiva em que são consideradas como tendo traços
actanciais, deônticos e acadêmicos, não são regras,. mas leis in'."
teriorizadas.
São leis em decorrência do fato de que os parâmetros ver-
dadeiramente explicativos da normatividade, aceitabilidade e
contextualidade não se aplicam a elas (sobre esses parâmetros,
veja'."se Parret, 1980b). As regras na teoria de ChotnSky não são
'apreciadas' ( valt!ud) ou 'valorizadas' ( valorized) em termos
de relevância, expressividade, contratualidade e autenticidade:
não precisam ser relevantes com respeito à compreensão global
do texto; não precisam ser expressivas com respeito à realidade
- portanto não têm qualquer função de verificação ou .veridici'."
dade ( veridiction );. não são contratuais no. nível interpessoal
e interacional; não precisam ser 'autênticas' com respeito às ne-
cessidades e motivos internos dos falantes. O parâmetro de
·aceitabilidade gradual falta igualmente; a gramaticalidade é for-
temente protegida contra a aceitabilidade, que é intrinsecamente
considerada como um juízo de performance. O contexto - esta-
belecido anteriormente a ele e constituído pelo discurso - é ir-
relevante para a gramática e a obediência das regras. Regras

47
desprovidas de valores, independentes do contexto ( absoluta-
mente, no sentido pragmático) produzindo seqüências gramati-
cais sem qualquer poder sobre a (in)aceitabilidade dessas se-
qüências, são leis e não regras. Esta afirmação não deveria cho-
car ninguém. As regras, segundo Chomsky, são naturais; a
consciência ( mi-nd) é um órgão mental (e "não uma clara linha
de demarcação entre os órgãos físicos, os sistemas perceptuais e
outros, e as faculdades cognitivas" - Chomsky, 1980:39), os se-
res humanos falam da mesma maneira que as aves voam, e aos
que são agora os começos desataviados da ciência da língua está
reservado um futuro brilhante, uma vez que a lingüística foi
motivada pelo princípio galileano, e pela fiscalização da ciênda
que acarreta.
As regras chomskianas são leis de um tipo específico - são
leis interiorizadas. O conceito fundamental, aqui, não é 'gramá-
tica' mas 'saber a gramática' (Chomsky, 1980:126). Uma pré-
condição essencial para essa radicalização epistêmica é que, pa-
ra Chomsky, os sistemas de regras proporcionam representações
da forma e do sentido, e representar é uma relação cognitiva que
é necessária para conhecer a gramática 7. Sem dúvida, repre-
sentar e conhecer são relações cognitivas que são acessíveis so-
mente à "consciência empírica possível" (Kant, 1963:142),
portanto o indivíduo que conhece a gramática não precisa ser
capaz de enunciar as regras da gramática. De novo, não posso
aprofundar-me no debate sobre este ponto essencial da teoria
lingüística chomskiana (veja-se Cooper, 1975: especialmente os
Capítulos 3 e 4), direi simplesmente que estou convencido de
que é sem sentido postular crenças e conhecimentos para os
quais faltam critérios de identidade. Muito grosseiramente, po-
der-se-ia perguntar: "Quais são os critérios de acordo com os
quais se pode dizer que dois falantes têm o mesmo conheci-
mento?'~ Como no quadro mentalista de Chomsky não se acei-
tam nem critérios disposicionais-comportamentais, nem conven-
cionalistas,. não há resposta adequada ao problema da identidade
epistêmica. Exceto a solução naturalística: a mente é um frag-
mento da Natureza, e é reificável como um objeto de ciência
galileana. A psicologia cognitiva mostra-nos por intermédio de

48
que estados mentais esse fragmento da Natureza pode ser inte-
riorizado. Essa interiorização não leva à nonnatividade, à de-
pendência do contexto, e a juízos de aceitabilidade, porque a
Natureza é "objetiva" (ou com forma de objeto) e dada a priori.
A interiorização é passiva e estática: relevantes, aqui, não são os
procedimentos mentais, mas os estados mentais. Além disso - e
este é o ponto a que eu queria chegar - o conceito intuitivo de
regra, com seus traços acadêmico, deôntico e actancial, está ir-
revogavelmente dissolvido.

2 . As regras como estratégias exteriorizadas

Não quero acentuar a força catártica que as Investigações


Filosóficas exerceram sobre todo tipo de essencialismo e logi-
cismo, e sobre a visão mecanicista e naturalista do funciona-
mento da língua. Ainda assim, o argumento sobre dominar por
meio de regras e seguir regras ( rufe governing, rufe following )
é o cerne da preocupação de Wittgenstein 8: os parágrafos
185-242 ocupam posição central nas Investigações, e esses pa-
rágrafos estão relacionados com quase todos os ternas impor-
tantes de seu pensamento: a crítica da visão agostiniana (fregea-
na) da língua, o debate sobre a determinação do sentido e sobre
a· vagueza, e acima de tudo o argumento da linguagem privada.
"Seguir de acordo com a regra está na base de nosso jogo de
linguagem", escreve Wittgenstein (1978: VI, § 28). Natural-
mente, as regras já não são "sublimes", como eram em Choms-
elas são familiares: estamos "em conexão" com elas, e esta
é a maneira como a gramática adquiriu sua profundidade. Não
há n~nhum procedimento direto pelo qual possamos definir e
explicar "seguir as regras", e não deveria haver nenhuma dedu-
ção de uma teoria geral do seguir as regras a partir de um único
jogo prototípico sujeito a regras, digamos, o xadrez. As re 6>ras
funcionam de maneiras bastante heterogêneas: ao guiar uma ati-
vidade, ao dominá-la, ao justificá-la 9. Além do mais há uma
tensão mútua entre o aspecto objetivo da regra - seu funciona-
mento na variedade dos jogos de língua - e sua contrapartida

49
subjetiva de "seguir uma regra" (Baker, 1981: 58 ss.). Ambos
os lados são abordados, como tentativa, de maneira terapêutica,
contrariando a idealização e o "triunfalismo" cientificista. Do
"lado objetivo", diz-se que as regras ·são instrumentos ou sím-
bolos. Não são entidades platônicas, nem têm propriedades uni-
versais. Pensemos as regras como símbolos concretos, à maneira
dos semáforos do trânsito, ou como exemplos peremptórios, co-
mo uma demonstração de como comportar-se em determinadas
circunstâncias sociais. É evidente que nesses casos uma propo-
sição funciona como uma regra, não é o seu conteúdo mas o seu
uso que nos força a seguir regras - este é o motivo por que uma
sentença descritiva e mesmo uma sentença puramente observa-
cional pode ser uma regra, isto é, pode ser usada como um impe-
rativo. De acordo com Wittgenstein, uma regra não é nunca um
artigo de "exatidão lógica" - é um processo simbólico num
contexto específico, um instrumento a causar (inter)ação. Do la-
do 'subjetivo', seguir regras é visto como uma ação de medir (a
contrapartida da descrição das regras como instrumentos). Se-
guir uma regra de gramática é colocar em funcionamento um
sistema de medição. Medir é seguir um procedimento, e os crité-
rios para saber se alguém está medindo ou para saber se mediu
corretamente são públicos e passíveis de revogação. O conceito
de medição pressupõe acordo nos julgamentos - medir e mais
geralmente seguir regras são práticas, e as práticas são intrinse-
camente públicas. "Não há nada por trás das regras" (Wittgens-
tein, 1974:244), "as regras não agem à distância" (Wittgenstein,
.1958: 14, e 1974: 81), são familiares, e são comuns (praticadas
numa dada comunidade) manifestam o caráter de serem as mes-
mas e de regularidade.
Ainda assim, as regras de Wittgenstein não são regras no
sentido da semântica intuitiva que tentei desenvolver. Segundo
Wittgenstein, as regras não podem ser expressões metalingüísti-
cas - as regras não funcionam por obra e graça da Academia dos
Gramáticos. Wittgenstein sugere, num outro sentido, como o uso
da lfugua é governado por estratégias de um tipo especial, a sa-
ber, estratégias exteriorizadas. Que as regras sejam passíveis de
ser aprendidas não é essencial a elas - só é essencial que elas

50
sejam seguidas. Do ponto de vista intuitivo em que se viam as
regras como marcadas pelas características actancial, deôntica e
acadêmica, quero dizer que tão logo uma regra perde sua carac-
terística «acadêmica", tão logo não é mais vista como algo me-
talingüístico, ganharíamos em chamá-la uma estrâtégia. A defi-
nição mínima de uma estratégia é, pois, que expressa uma es-
trutura modal deôntica, a saber, que prescreve o desenvolvi-
mento de um programa, e desdobra relações interactanciais por
manipulação. Em acréscimo a esta definição mínima,. Wittgens-
tein. insiste numa outra propriedade - que é todavia particular. à
sua posição - a saber, a exteriorização. e abertura das .estraté-
gias. As estratégias nem sequer envolvem conteúdos intencio-
nais ou epistêmicos _,, são práticas-no-mundo, e portanto são pú-
blicas. Esta é a solução de Wittgenstein para .o prot>lema dos
critérios de identidade 10 das estratégias. Ainda assim, argu-
mentarei que ''a perspectiva envolvendo comunidade" acerca
das estratégias não implica a abertura das estratégias - as estra-
tégias não são necessariamente exteriorizadas.

Estratégias do funcionamento da lfngua e sua· reconstrução

l . Tática e estratégias

Tendo 'dissolvido' o conceito de regra emfavor de lei de


um lado, e· tendo introduzido o conceito de estratégia de outro
(com suas respectivas modificações procedimentos de interiori-
zação e exteriorização) começaremos a desenvolver considera-
ções metapragmáticas sobre o panorama das possíveis côncei-
tualizações de "estratégia". Para ter alguma diretriz, voltarei ao
sentido original dessa última palavra. Acentuo duas sugestões
que· quero fazer:(estratégia é um conceito polemológico, e, como
na polemologia tradicional, estratégia é oposto a tática.)
1 - Poder-se-ia procurar o conceito prototípico de estraté-
gia na teoria dos jogos ou na teoria da decisão - e é verdade que
isto se faz com freqüência na teoria lingüística, impressionada
pela fama e pelo mito da computação. Mas periso que os úsos

51
matemático e econômico, da noção, e portanto as orientações
voltadas para o cálculo e a tomada de decisão deveriam ser en-
caradas como derivadas do sentido polemológico. O retomo ao
uso etimologicamente primitivo de "estratégia" deveria preve-
nir-nos de ser ingênuos no momento em que precisamos estabe-
lecer as condições de possibilidade do seguir-estratégias deter-
minado interacionalmente. Quando polemos é o ponto de partida
de nossa conceitualização, quando a própria possibilidade de
uma interação governada por estratégias é determinada pelo po-
lêmico, pelo manipulat6rio, procurar arrimo na cooperação (Gri-
ce) na caridade (Davidson) ou na "humanidade" (Quine) 11 será
extremamente desavisado. As estratégias não são nunca inocen-
temente transparentes - são essencialmente opacas, J:X)lêmicas e
comprometidas com o poder.

2 - Na perspectiva polemológica, estratégia deve ser


oposto à tática. Tradicionalmente, estratégia é definido em ter-
mos militares como a arte de empregar a força para realizar ob-
jetivos determinados pela política. A tática difere da estratégia
com respeito a seus atores e sua extensão - consiste em conduzir
operações efetivas que dependem estreitamente das possibilida..
des técnicas disponíveis. Os políticos definem, mesmo em tem-
pos de guerra, a estratégia militar, ao passo que os generais de-
finem a tática. As estratégias, em sua dependência da política,
manifestam uma racionalidade que através da política é depen-
dente da comunidade. As táticas, ao contrário, são contingentes
enquanto determinadas por possibilidades efetivas (principal-
mente tecnológicas). Tanto a estratégia como a tática são ações,
mas sofrem limitações diferentes: as estratégias pelas modalida-
des combinadas do querer e do saber (portanto com colorações
fortemente deônticas), as táticas por contingências reais. Na
verdade, a relação dialética da política e de governo por meio de
estratégias tem sido acentuada por muitos autores, como Clau-
sewitz - não só as estratégias são inspiradas na política, mas
também a política é principalmenté orientada para as estratégias.
A abordagem da teoria dos jogos e os procedimentos da
tomada de decisão dizem respeito à tática, não à estratégia. Os

52
jogadores, na teoria dos jogos, estimam a situação de seus par-
ceiros, e fazem uma seleção entre os cursos de (inter)ação dis-
poníveis. Uma jogada (move) no jogo, na verdade, "é um curso
de ação que envolve conseqüências físicas reais no mundo exte-
rior, e faz surgir alterações objetivas e bastante concretas ... A
própria situação é tal que defronta o jogador com um impasse
premente e urr: contexto claramente determinado em que ele de-
ve enfrentar esse impasse. Num contexto desse modo clarifica-
dor, um curso de ação se torna uma jogada" (ver Goffman,
1969:90-1). Aplicando isso à situação do discurso, poder-se-ia
dizer que as contingências são menos prementes, ou que o pró-
prio contexto sócio-psicológico contingente (bem como outros
aspectos contingentes do contexto) nunca determina globalmente
a estratégia interacional. A dependência de estratégia ( strategy
boundedness ) e o seguir estratégias são marcados por uma ra-
cionalidade que transcende as contingências - é uma racionali-
dade que nos faz raciocinar, ou emprega razões, e portanto nos
permite desempenhar inferências práticas que resultam em ou
modificam relações intersubjetivas. É através da política que as
estratégias são racionais e relacionadas com a comunidade.

2 . "Comum" e "aberto"

A noção adequada de estratégia - aplicável à produção e


compreensão do discuro é a noção polemológica; ademais, é a
noção polemológica purificada da contaminação com a tática.
Para tomar simples uma história verdadeiramente complexa,
formulo agora quatro temas "metapragmáticos" que deveriam
sugerir minha posição no campo de batalha pragmático. Uma ta-
xionomia detalhada das estratégias de discurso não é o objetivo
deste artigo - neste contexto é mais importante alcançar uma vi-
são equilibrada e segura da dependência de estratégias e do se-
guir estratégias em geral. Estas quatro teses formulam minhas
opções por eliminação/Em primeiro lugar, a concepção ligada à
comunidade das estratégias não implica que sejam abertas; em
segundo lugar, que as estratégias sejam próprias de uma comu-

53
nidade não é exigido por conhecimento mútuo, mas por compre-
ensão em perspectiva; em terceiro lugar, a compreensão em
perspectiva não se baseia num princípio de cooperação, mas
num princípio de relevância; por fim, a relevância não é mono-
lítica, mas "piramidal", portanto as estratégias estão hierarqui-
zadas piramidalmente.)
A primeira afirmação desvia-se da ortodoxia wittgenstei-
niana - diz que os critérios de identidade para estratégias não se
baseiam no fato de serem elas abertas, mas no seu caráter comu-
nitário ( conununa,l ) (ou em sua dependência de uma comunida-
de). Não quero dizer que não se deveria estabelecer nenhum
critério de identidade para o funcionamento estratégico da lín-
gua, e me apresso em retomar a formulação de Wittgenstein da
distinção adequada entre critérios e sintomas (por evidência).
Exatamente da mesma forma que posso perguntar "Quando digo
o alfabeto para mim mesmo, qual é o critério pelo qual faço o
mesmo que alguém mais que silenciosamente repete o alfabeto
para si mesmo?" (Wittgenstein, 1953: § 376), seria possível per-
guntar "O que faz ser o mesmo nas estratégias que as pessoas
usam e seguem?" Os critérios mostram-nos "a essência expressa
pela gramática" (Wittgenstein, 1953: § 371); esses critérios
pertencem à gramática, os sintomas não. Eu diria que as táticas
são identificadas por sintomas da evidência, ao passo que as es-
tratégias se fiam a critérios de identidade. Mas isto não deve ser
tomado como significando que as estratégias são abertas - de
fato, introduz-se aqui uma distinção entre a perspectiva da
abertura e a perspectiva da continuidade das estratégias. A
abertura é apenas um dos standards pelos quais os aconteci-
mentos de uma "arena de conduta" (Goffman, 1969: 90-1) são
julgados na interação estratégica.
Aprendemos com a "arte de enganar" que várias estraté-
gias - com efeito quase todo uso da língua governado por es-
tratégia - não são abertas (nem exteriorizadas) nem exteriorizá-
veis. As estratégias da indireta ( indirection ) de que os atos de
fala indiretos no sentido de Searle e seguidores são apenas um
pequeno subconjunto da persuasão, da argumentação, da mani-

54
pulação e da sedução não são exteriorizáveis, e ainda assim são
comunitárias. Uma jogada ou ação enganosa pode ser definida
como. tendo· o objetivo de. levar o ouvinte a fazer uma assunção
falsa (ver Parret, 1979). Não há apenas o caso da mentira direta
ou indireta, mas também os casos mais difíceis de fingir ou fa-
zer-se passar por, de insinuar, fazer piada e todas as formas de
"meias-verdades" e de ambigüidade (deliberada). É mesmo
parte da definição desses atos de discurso que a intencionalidade
subjacente não pode ser aberta (ver Vincent e Cartelfranchi,
1981). Todavia, o realizar.esses atos não implica na auto-expul-
são automática da comunidade de discurso. Ao contrário,. o se-
guir-estratégias de maneira não-aberta é a maneira corriqueira de
modificar e mesmo criar relações comunitárias, mesmo quando
essas relações são essencialmente opacas e assimétricas.
Um grande número de comentadores de Wittgenstein - en-
tre eles, B~er e Hacker (1980) e Kripke (1982) - perceberam a
conexão intrínseca entre o argumento contra a língua privada e a
reflexão sobre "como seguir uma regra" nas Investigações Filo-
s6.ficas. Mas "não ser privado" não significa, em minha opinião,
"ser público'.' ou "ser aberto". Se assim fosse, as intuições
wittgensteinianas seriam inadequadas com respeito aos casos
màisinteressantes de funcionamento da língua, aqueles em•que a
opacidade é a essência do tipo de discurso. E ainda se pode
adotar a posição radical - a que chamo "perspectiva. comunitá-
ria" das estratégias - a sa.ber que aquilo que é necessário para
que uma pessoa siga uma estratégia, mesmo individua.lmente,
não pode ser explicado sem referência a alguma comunidade. "É
UIDa 'coincidência de assentimento' ( corrrmimi.t of assent) que
fornece o fundo em contraste com o qual, .somente, faz sentido
pensar as respostas dos indivíduos como corretas ou incorretas ...
Nenhum de nós pode unilateralmente compreender a idéia do
correto emprego da· língua exceto por referência à autoridade do
consentimento comunitário que se pode obter para o assunto; e
para a própria comunidade não há autoridade, portanto, não há
parâmetro a ser colimado''. Esta formulação da "perspectiva
comunitária" por C. Wright (1981) me parece, tudo somado,
aceitável. Evidentemente, a "perspectiva comunitária" é dirigida

55
contra a idéia de uma linguagem privada(§ 202 das Investiga-
ções: "E pois também 'obedecer uma regra' é uma prática. E
pensar que alguém está obedecendo uma regra não é obedecer a
regra. Portanto não é possível obedecer uma regra 'privadamen-
te' "). Todavia, opor-se à idéia de uma linguagem privada não
significa que toda estratégia de discurso deva ser "pública" ou
''aberta''. Wittgenstein parece subentender este lado positivo,
mais controvertido, do argumento em várias passagens. Mas uma
interpretação mais fraca deveria sugerir somente que o seguir-
estratégias e o estar sujeito a estratégias não são nunca privados,
porque são práticas. Poder-se-ia considerá-los como práticas que
não são "abertas", mas· gradualmente (ou mesmo parcialmente)
descobertas por compreensão em perspectiva. "Não ser aberto
mas ainda assim comunitário", na verdade significa "estar su-
jeito à compreensão perspectiva".

3. Compreensão perspectiva e conhecimento mútuo

O problema da comunicação indireta não aparece facil-


mente numa teoria lingüística que focaliza a produção de breves
fragmentos de língua isolados. Ademais, a persuação, a mani-
pulação e a sedução são reduzidas a mecanismos s6cio-psicol(S.:
gicos (fenômenos de 'performance') especialmente quando são
investigados do ponto de vista da produção. (uma pragmática
'integrada' advoga que se vire a gramática, por assim dizer - pa-
ra, ao invés de concentrar-se em regras de produção, tentar adi-
vinhar estratégias de compreensão.) Wittgenstein encara o pro-
blema da língua como o problema de compreender a língua (ve-
ja-se Baker e Hacker, 1980: 587-621); afortunadamente, já nos
acostumamos com a idéia de que uma teoria do sentido (e mes-
mo do "sentido como verdade") é, de fato, uma teoria da com-
preensão. A compreensão s6 pode ser 'perspectiva', não é nunca
'objetiva'. É uma penosa catarse a de libertarmo-nos da fascina-
ção da filosofia ocidental pela verdade e pela objetividade como
valores essenciais do comportamento significativo e comunicati-
vo (ver Parret, 1980c: especialmente 41-6). Uma teoria adequa-

56
da da compreensão não permite que se reduza o caráter comu-
nitário da significância ( significance ) à objetividade do sentido
( meaning ). Compreender é uma habilidade prática que pressu-
põe o domínio de 'proceduras' - a compreensão deve ser vista
em primeiro lugar não como um processo psicológico em quem
compreende (noções psicológicas intervêm depois que as proce-
duras foram diretamente associadas com os tipos idiossincráticos
de intenção comunicativa e com crenças e desejos locais ou
substanciais), mas como a habilidade prática para interpretar um
contexto. O que se deve garantir, antes e acima de tudo, é are-
lação do que compreende, direta com os contextos de compreen-
são, e não com uma construção imanente de alguma vida inte-
rior.
A prática da compreensão por meio de estratégias sistemá-
ticas se fundamenta no conhecimento. A teoria da compreensão
se torna epistemologicamente orientada uma vez que se admite
que se deve atribuir conhecimento implícito àquele que compre-
ende. Mas como especificar em que consiste esse conhecimento?
Não pode ser um tipo de língua interior, como na perspectiva
mentalista (por exemplo, de acordo com Fodor). Compreender
não é um processo de tradução basicamente análogo ao que
acontece quando uma máquina "compreende" uma setença na
sua linguagem de programação. Também não é verdade (como
quer a perspectiva intuitiva do realismo ingênuo) que compreen-
der uma expressão envolva apenas o conhecimento da definição
de verdade para a língua. Esse conhecimento é uma condição
necessária para compreender a representação das condições de
verdade da expressão (porém não é suficiente, mesmo na abor-
dagem realística). Compreender uma expressão, por aí, é, de
fato, conhecer condições de verdade e falsidade. De acordo com
esse ponto de vista, não há nunca problemas com a acessibilida-
de dessas condições, e é esse o motivo da posição realística ser
em última análise ultrapassada.
Minha posição é, ao contrário, que o conhecimento que as
pessoas têm das condições de verdade/falsidade das expressões
reside em sua capacidade de reconhecer contextos como con-
textos para a expressão, ou, mais precisamente, reside na "inter-

57
pretação,, de contextos. Portanto, a acessibilidade das condições
de verdade/falsidade deve ser posta no coração da teoria. O fato
é que dizer que uma expressão é verdadeira se, e somente se, há
um contextó para ela é dizer que, para toda expressão E, E é
verdadeira se, e somente se, há um contexto que proporciona
uma justificação conclusiva para assertar E. Portanto, a raiz da
controvérsia concerne à primazia, na teoria da compreensão, da
possibilidade de conhecimento (Knowability) ou acessibilidade
dos contextos. O conhecimento suposto habilita aquele que
compreende a interpretar contextos ou, em outras palavras, a re-
conhecer indivíduos, estados e eventos como os contextos para
uma expressão - portanto o conhecimento suposto não pode
existir senão na prática da interpretação. Compreender E, então,
é ter acesso à verdade de E - o conhecimento de que cómpreen-
der sofre determinações por parte da possibilidade de conheci-
mento da condição de verdade de E. Na verdade, o problema da
relevância do contexto para o valor de verdade de uma expres-
são tem sido desesperadamente negligenciado pelas explicações
realista e neo-realista da compreensão.
Uma outra especificação diz respeito à natureza do conhe-
cimento que aqueles que compreendem têm quando se diz que
eles "têm acesso", durante o processo de interpretação, aos
contextos justificatórios. Aqui, faço uma distinção entre conhe-
cimento 'substancial' e conhecimento 'formal'. O conhecimento
'substancial' consiste no conhecimento de conteúdos, ao passo
que o conhecimento 'formal' consiste n<'.r .conhecimento de es-
tratégias. Poder-se-ia dizer que, para pessoas que compreendem
c.om acesso ao contexto justificatório, conhecer significa que
elas compartilham crenças de fundo ou básicas com as pessoas
no interior da comunidade. Isto seria conhecimento substancial,
ou conhecimento de contextos com uma coloração semântica e
um caráter informacional particular. Todavia, esta não é a ma-
neira como uma teoria da compreensão funciona, e eu sustento
que o papel das crenças (crenças de fundo, básicas e mútuas)
tem sido perigosamente exagerado nas discussões atuais ·sobre a
natureza da compreensão. O conhecimento não é necessaria-
mente afetado por conteúdos específicos. Em contraste com isso,

58
o conhecimento 'formal' é um conhecimento de estratégias de
justificação. A interpretação, na verdade, baseia-se no conheci-
mento por parte de quem compreende de estratégias de justifica-
ção compartilhadas no interior de uma comunidade 12. O que se
exige para a compreensão não é um conhecimento mútuo, mas
um conhecimento comum. O conhecimento comum é um conhe-
cimento que é compartilhado, ao pa<;so que o conhecimento
mútuo é um conhecimento não s6 compartilhado, mas que se sa-
be ser compartilhado, e que se sabe que se sabe ser compartilha-
do, e assim por diante (Sperber e Wilson, 1982:61-2). Portanto,
a exigência de conhecimento mútuo nos leva à bem conhecida
regressão ao infinito ("Sei que você sabe que eu sei etc."). To-
davia, para compreender a significância de fragmentos de língua
não é preciso conhecer um conjunto :finito de proposições, mas é
preciso compartilhar estratégia'> comuns - seu caráter comum
não implica nem em abertura, nem em conhecimento mútuo.

4 . O princípio de relevância e o princípio de cooperação

Surge, novamente, a necessidade de dispor de critérios pa-


ra a identidade de "perspectivas" sobre a significância, e para o
caráter comum das estratégias "conhecidas". Na realidade, o
perspectivismo não se baseia na noção epistêmica de conheci-
mento, e pois num conhecimento proposicional ou substancial -
antes é o modo pelo qual a compreensão-como-uma-prática (e
não como um estado mental, como Wittgenstein afirmou com ra-
zão) contextualiza fragmentos de discurso. Isto, também, explica
porque critiquei anteriormente a idéia de tentar fundamentar o
conceito de caráter comum na cooperação entre os membros de
uma comunidade. O que governa as estratégias de compreensão
não é o princípio de cooperação, mas o princípio de relevância.
A orientação polemol6gica de nossa noção de estratégia exclui a
cooperação (ou coordenação) como o a priori que nos habilita a
compreender perspectivamente. Para compreender perspectiva-
mente, isto é, para compreender uma estratégia comunitária é su-
ficiente admitir como nosso a priori mais formal que "o falante

59
tenta expressar fragmentos de discurso que são os mais relevan-
tes possível para o ouvinte" (Sperber e Wilson, 1982: 75). A
vantagem da relevância - em oposição à cooperação, coordena-
ção, caridade, humanidade - é que o discurso, em sua compre-
ensão, pode ainda ser ao mesmo tempo relevante e opaco. Opa-
cidades essenciais 13, como a retórica argumentativa e persuasi-
va das expressões metafóricas, a manipulação e a sedução, são
ainda relevantes para quem compreende, e tomadas como rele-
vantes pelo falante (ou melhor, como é uma noção· normativa, o
falante visa à relevância). Estritamente falando, o que toma a
comunicação possível é que o falante e aquele que compreende
têm em comum o conhecimento estratégico da relevância como
uma norma.
Há, em verdade, dois problemas principais com as teorias
griceanas do sentido (e da compreensão do discurso), e com a
pragmática nelas baseada. Ambas as dificuldades referem-se aos
critérios de identidade da significância-enquanto-compreendida,
e com sua fundamentação. Em primeiro lugar, o ponto de partida
de Grice é a distinção entre aquilo que é dito e aquilo que é im-
plicado (ou passado a título de implicatura). As estratégias de
compreensão daquilo que é transmitido a título de implicatura
são parasitárias em relação "àquilo que é dito". Aquilo que é
dito é aquilo que é verdadeiro ou falso, e aquilo que "está es-
treitamente relacionado ao sentido convencional das palavras
(da sentença que o falante) enuncia" (Grice, 1975: 44). A auto-
nomia daquilo que é dito assenta na base estável das condições
de verdade e do sentido convencional. A reconstrução da signi-
ficatividade implica (digamos: o conjunto das implicaturas con-
versacionais) no câso da compreensão estratégica é estreita-
mente dependente do núcleo estável das condições de verdade e
das convenções (gramaticais e lexicológicas). A identidade da-
quilo que é implicado sofre constrições diretas por parte daquilo
que é dito: O caráter comum tem uma base absoluta na ontologia
dos referentes (condições de verdade) bem como nos sentidos
convencionais. Em segundo lugar, a parte suplementar - aquilo
que é implicado - tem um fundamento não só no núcleo - aquilo
que é dito - mas também em si mesma: a cooperação pressupõe

60
estruturas psicológicas coordenadas entre os membros da comu-
nidade (de fato, .uma· estrutura psicológica é a•.intersec:ção de
componentes judicativo e volitivo). No primeirô caso, aontolo-
gia e a gramática agem como critérios definitivos de identidade,
no segundo caso a psicolôgia. Em verdade, o conhecimento
mútuô . da significância implicada· pressupõe· uma estrutura psi-
cológica idêntica, não só de conteúdos epistêmicos, mas também
de motivos volitivos. Este não pôde ser ô modo comú os mem..
bros de uma comunidade lingüística entendem uns aos outros
estrategicamente. A identificação.·absoluta da significância não
podê sequer ser alcançada; e além disso não é sequer necessária.
Uma identificação ''razoável" é tudo de que sê precisa. Uma
teoria da compreensão não precisa de noções absolutas nem de
fundamentos absolutos - ao cúntrário, noções cúmo perspecti-'
vismo, relevância e· estratégia· determinam o caráter comum mais
adequadamente do que o conhecimento mútuo, a cooperação ou
a abertura. A significância relevante e a compreensão perspecti-
vase correlacionam reciprocamente--,- sugerem que uma.estraté-
gia é questão de grau, ou, para voltar a Wittgenstein, é um con-
ceito baseado. em semelhança de família. Há graus de relevância
porque as estratégias de compreensão não pôdeID: visar amais do
que "perspectivas" da significância. Q caráter comum consiste
precisamente na generalidade, no interior de uma comunidade
lingüística, de uma norma nunca completamente ~alizável, nun-
ca completamente transparente. Os usuários da. língua.compar-
tilham (o conhecimento) desta norma sem necessariamente com-
partilharem fragmentos de conhecimento substancial.

5 . A pirâmide de estratégias

Recentemente, Sperber e Wilson mostraram de maneira


convincente que um·princípio geral de relevância é uma alterna-
tiva adequada em. lingüística empírica à hipótese. de um princípio
de cooperação de Grice (Sperber e Wilson, 1982). O que é real-
menti interessante nessa alternativa é que seu quadro teórico se
coaduna perfeitamente com as intuições que eu quis expor.
Compreender envolve inferências e não só pela aplicação das

61
"regras" da )6gica standard (com seu feedback ontológico),
pois tais inferências não poderiam de modo algum ser feitas se o
contexto do fragmento de língua estivesse faltando. Para usar
a terminologia de Sperber e Wilson, poder-se-ia dizer que as es-
tratégias de compreensão são, de fato, implicações contextuais,
ou, para cunhar uma expressão, proceduras de contextualização.
(Contudo, nenhum contexto está fixado de antemão. O progredir
da compreensão perspectiva é "uma busca do contexto que tor-
nará a interpretação possível. Em outras palavras, a determina-
ção do contexto não é um pré-requisito do processo de compre-
ensão, mas uma parte dele" (Sperber e Wilson, 1982: 76). O
contexto inicial é o co-texto, a estrutura convencional do frag-
mento de língua, e cada expressão do contexto cria novas possi-
bilidades de derivar implicações contextuais. Um tipo de expan-
são inclui todos os referentes possíveis dos fragmentos de lín-
gua, um outro as específicas condições intencionais do ato de
fala:)
Fica além dos limites deste artigo apresentar uma tipologia
completa das contextualizações (veja-se Parret, 1980c: espe-
cialmente 76:92), ou a tipologia das estratégias que é seu corre-
lato (Parret, 1980b e 1980d; uma apresentação mais detalhada
da malha hierarquizada de estratégias é dada em Parret, a sair,
cap. 3). Uma observação final deve ser acrescentada para evitar
equívocos, mesmo neste nível de generalidade metapragmática.
A relevância não pode ser monolítica: os tipos de relevância,
exatamente como os tipos de estratégias, são organizados hie-
rarquicamente. A relevância é piramidal: gera piramidalmente
contextualizações, e portanto permite a compreensão perspectiva
de maneira progressiva e hierarquizada. As estratégias de com-
preensão são estruturadas como pirâmides - alternativamente,
poder-se-ia usar a imagem do iceberg. No alto, estão as "re-
gras" gramaticais, que formam a parte observável (empírica) do
iceberg, permitindo-nos compreender o fragmento de língua em
seu co-texto (incluindo as relações dêiticas e anafóricas). Descer
estrategicamente para a base da pirâmide, contextualizando mais
largamente e mais "a fundo" faz-nos passar por dois níveis da
pirâmide: a função proposicional contextualiza o referente; a

62
condição ilocucionária contextualiza as intenções acionais. A
compreensão r.erspectiva pode ainda necessitar do tipo de con-
textualização mais fundamental- a base da pirâmide - a saber, o
caráter comunitário como um valor com suas máxi.1nas deriva-
das. Uma gramática profunda (wittgensteiniana) nada mais é do
que uma reconstrução da pirâmide das estratégias de compreen-
são. Urna pragmática sistemática e integrada deve considerar o
fum.:ionamento da língua condizente com uma concepção epis-
temologicamente coerente desta pirâmide de estratégias.

Tradução: Rodolfo Hari

63
Notas

1 O próprio Saussure usa o sintagma "economia lingüística" (Saussure,


1915/1983: 170). Saussure conhecia pessoalmente o trabalho de Pareto.
2 Sobre a definição e a força da noção de catálise (em contraposição a análise),
verParret, 1983.
3 Wittgenstein escreveu duas séries de ob~rvações, primeiro em 1930 e de-
pois em 1936, publicadas como "Bemerkungen Uber Frazer's The Golden Bough"
(Wittgenstein, 1967/1971). Vejam-se sobre essas notabilíssimas páginas de Witt-
genstein, Rhees (1982) e Cioffi (1981).
4 O termo não aparece no Lexique de la Tenninologie de Godel (1957) e En-
gler menciona regle mas numa única aplicação acidental.
5 Veja-se Godel (1957) e especialmente Engler (1968), no verbete Grammai-
re. Saussure fala freqüentemente da grammaire générale, que é a gramática dos lógi-
cos, e, num sentido pejorativo, da grammaire comparée ou grarnmaire historique.
6 A distinção entre constrição e restrição é feita por Bazell (1964): uma cons-
trição é imposta pelo sistema da lfngua; às restrições os usuários do sistema da língua
obedecerão 'normalmente'.
7 Esta problemática estreitamente relacionada do conhecimento e da repre-
sentação é debatida em vários artigos de Gelder (1982); veja-se Parret (1982).
8 Esta é a opinião de Saul Kropke (1982), bem como a de Baker e Hacker
(1980).
9 Há um capítulo 'O que é uma regra' em Waisrnann (1965), que é uma boa
resenha de muitos aspectos da concepção de Wittgenstein.
10 Sobre como esta solução do problema dos critérios de identidade poderia
criar uma "Perspectiva Wittgensteiniana em Linguística", veja-se um artigo com
esse título, de Taylor (1981).
11 Tentei sistematizar estes e outros princípios (manifestação, geratividade,
veracidade, reciprocidade, coordenação, cooperação, racionalidade, caridade, hu-
manidade) em Parret (1976).
12 Desenvolvimentos maiores sobre este tema, ver Parret ( 1980b: 46-51 ).
13 Este tema será desenvolvido em alguns capítulos de Parret, em elaboração.

64
VERDADE, VERIFICAÇÃO,
VER/DICÇÃO

Qual é, pergunta Hume, a origem do amor da verdade na


natureza humana? Se é indiscutível que a verdade comporta dois
gêneros, consistindo ou na descoberta das relações de idéias en-
quanto tais - a descoberta de um referente interno - ou na con-
fonnidade das nossas idéias aos objetos tais como eles existem
na realidade - a descoberta de um referente externo -, é também
evidente que qualquer descoberta de referente não proporciona a
mesma satisfação. Esta satisfação não procede unicamente da
verdade como tal, mas apenas da verdade na medida em que ela
é dotada de detemrinadas qualidades. Uma primeira circunstân-
cia é a perspicácia e a aptidão empregues a inventá-la ou a des-
cobri-la. Mas o exercício da perspicácia não bastaria por si só
para nos dar uma fruição considerável. A verdade descoberta
deve ter também alguma importância, apesar dessa importância
só ser necessária para fixar a nossa atenção. Mais importante,
com efeito, é o princípio segundo o qual é preciso um certo grau
de sucesso na posse do fün prosseguido ou na descoberta da
verdade procurada. A paixão da caça, e a paixão do jogo em ge-
ral, é muito semelhante à paixão da filosofia onde o amor da
verdade deveria triunfar. No entanto, !fome hierarquiza estas
três circunstâncias, o desenvolvimento da competência daquele
que ama a verdade, e a importância e a utilidade ou o grau de

65
sucesso. A primeira causa faz alusão à estrutura do sujeito pas-
sional, a realização da sua competência, e a segunda causa -
a importância e a utilidade-, à estrutura do objeto da paixão,
nomeadamente a verdade. O amor da verdade, enquanto paixão
da alma, é motivado antes de mais pela satisfação decorrente da
auto-realização de uma competência, e acidentalmente por pro-
priedades do objeto-verdade, sua importância e sua utilidade.
A curiosidade está também implantada na natureza huma-
. na, e Hume sugere que o amor da verdade é sempre investido
por ela. A vivacidade da curiosidade fortalece-se pela influência
das crenças, e a curiosidade pressupõe certeza afastando o mal-
estar e a dúvida como momento de dor, de instabilidade e de in-
consistência. A curiosidade, esse querer-saber da verdade, é al-
tamente obscurecida pelas modificações epistêmicas, principal-
mente pelas crenças e certezas. A etimologia do termo 'curiosi-
dade' faz-nos constatar que o campo semântico de cura com-
porta, por um lado, o sentido de 'cuidado' e 'distinção', e, por
outro lado, o sentido de 'visão'. Com efeito, a competência do
curioso, e também daquele que está investido do amor da verda-
de, é uma competência zelosa e ao mesmo tempo visionária.

Pode parecer provocador introduzir uma exposição sobre


Verdade, verificação e veridicção a partir de considerações que
dizem respeiio à curiosidade e ao amor da verdade. Não é co-
mum tratar este problema a partir de um Tratado da natureza
humana (o de Hume) e, mais especificamente, de um capítulo
intitulado 'As paixões'. A verdade, para a maioria dos lingüis-
tas, lógicos e filósofos, não é um problema de antropologia, mas
de lógica e de epistemologia. Citaremos de bom grado os gi-
gantes filosóficos do nosso século: Husserl, Frege, Russel. To-
dos se insurgiram contra o psicologismo e o antropologismo,
aliás associados freqüentemente em matéria de verdade. O pres-
tígio da verdade, enquanto conceito tanto constitutivo como
operatório, é total, e domina paradigmaticamente todas as ten-
dências da filosofia. Abordagens extremamente longínquas, co-
mo por exemplo a filosofia especulativa e a semântica formal ou
verifuncional, ficaram marcadas por este prestígio. O objetivo

66
da.minha exposição é precisamente descentrar (para não utilizar
um termo demasiado na moda: des-construir) a verdade, reava-
liando o conceito de veridicção, uma noção não muito afastada
da pathémica de Hurne onde ele discute o amor da verdade en-
quanto paixão. O dizer-verdadeiro ou a veridicção - com o seu
contrário, o dizer-falso ou- a mentira - descentra o verdadeiro e
o falso enquanto valores de verdade autônomos. Eu introduziria
este. desenvolvimento acerca da veridicção pela evocação do
pragmatismo, que considera precisamente que "refletir sobre a
Verdade não ajudará a dizer coisas verdadeiras" e evidente-
mente pela representação de alguns conceitos de Wittgenstein,
que é responsável em grande parte pela colocação entre parênte-
ses de todo o pensamento filosófico (doente segundo ele) basea-
do sobre a hipóstase da verdade.
Essa hip6stase reflete-se num debate eminentemente im,.
portante em filosofia contemporânea, entre o realismo ~ o anti'."
realismo com todas as posições intermediárias e combinadas.
Segundo os realistas, é difíCÍl contornar a idéia de que é o mun-
do que determina o que é verdadeiro, parecendo-lhes portanto
mais intuitivo conceber a verdade em termos de correspondência
do que em termos de coerência. Se a verdade é antes coerência,
o mundo está inexoravelmente ..perdido". Além disso, os que
aceitam uma teoria da verdade em termos de correspondência
admitem facilmente que o referente externo é físico, sendo o
objeto ou o estado de coisas físico pelo menos o protótipo de
toda a realidade. No entanto, a idéia de que a verdade ..corres-
ponde" à realidade constitui, parece-me, mais. uma obsessão do·
que uma intuição. Admito de bom grado que a verdade seja una,
que a proposição "a neve é branca" é verdadeira, se e só se a
neve for branca. Mas o aparelho tarskiano das condições de ver-
dade pode levar tanto ao realismo que exalta a correspondência
como· ao· anti.;.realismo, pragmatismo e holismo que consideram a
própria idéia da correspondência atômica entre a expressão ver-
dadeira ou falsa e o fragmento do mundo como supérfluo (Da-
vidson).
Nestas circunstâncias, prefiro não expor argumentos muito
sofisticados, nem sequer as linhas de força do debate entre o

67
realismo e o anti-realismo. Gostaria antes de dizer algumas pa-
lavras sobre uma concepção pragmatista da verdade, recalcada
pela maior parte das semânticas da moda (Kripke, Field, Katz).
Os defensores da concepção pragmática da verdade afirmam que
a dita intuição de que a verdade é una é simplesmente a espe-
rança de que, mesmo no caso de o conjunto das relações de per-
cepção estarem presentes, haveria um modo de seleção ideal en-
tre estas relações (e entre todas as proposições possíveis) de tal
forma que se chegaria a um sistema idealmente proporcionado
de crenças verdadeiras. O pragmatismo coloca-se portanto de-
cididamente do lado dos defensores da teoria da verdade em
termos de coerência. O contra-argumento dos adeptos da outra
escola - os que afirmam que a verdade "corresponde" à realida-
de - diz que há vários destes sistemas possíveis e que a nossa
escolha entre esses sistemas arrisca-se a ser feita apenas segun-
do critérios 'estéticos' (simplicidade, elegância). Esta objeção
típica contra o pragmatismo não é aceitável, uma vez que s6
uma minoria insignificante e periférica das nossas crenças pode
ser modificada pelas mudanças dos nossos paradigmas físico,
poético, ético. Não é verdade, evidentemente, que haja conjun-
tos globais, coerentes e alternativos de crenças. No :fim de con-
tas, do ponto de vista realista, o "mundo" é um ser-em-si rígido,
duro e resistente, existindo independentemente do nosso conhe-
citnento e do nosso discurso, mas "refletido" ou "espelhado"
por sistemas semi6ticos com valor de verdade, sendo esses sis-
temas simultaneamente isomorfos ao mundo e arbitrários. Deve-
ria ser clara a razão de ser da natureza insustentável, para filóso-
fos como Putnam, da posição do realismo, em função do desen-
volvimento da teoria científica, sobretudo da física. A corres-
pondência, o isomorfismo e a arbitrariedade dos sistemas de ex-
pressão cuja linguagem é de longe o traço mais importante, são
aspectos da constelação teórica dos realismos. Pelo contrário, a
coerência, o holismo e a criatividade interna dos sistemas de ex-
pressão marcam a abordagem pragmatista da verdade.

Basta reler Peirce e sobretudo William James para nos


d.armo~ conta de que o pragmatismo muda radicalmente o teor e

68
o alcance da noção de verdade. Peirce insiste freqüentemente na
idéia de gue a realidade, apesar de independente de tudo o que
uma pessoa ou um grupo de pessoas podem crer, é globalmente
dependente da comunidade de investigação ou de interpretação.
Não há investigação sem experimentação, sem raciocínio, sem
inferência a partir de um conjunto de crenças. Não há investiga-
ção sem processo de interpretação a interpretar por outr,is inter-
pretações, e assim até ao infinito. A realidade é constantemente
atualizada ou realizada pela força do pensamento. Além disso, a
atividade "sígnica" (a atividade por e com a ajuda dos signos,
qualquer signo contendo um interpretante, e sendo qualquer in-
terpretante um signo) não existe fora do duer acerca do que é a
realidade, fora da fommlação das propriedades conhecíveis do
objeto real. Aquilo a que chamarrios então a Verdade está ligado
intrinsecamente às propriedades das crenças que se aàquirem
como o resultado de um processo de interpretação. A verdade
deve ser compreendida nos te1mos de uma atividade continuada
de pesquisa e de experimentação. Fica no entanto claro que o
emprego das noções de 'realidade' e de 'verdade' em Peircc tra-
zem sempre uma certa ambígüidade devida à tensf,o entre o mo-
delo epistemológico clássico que sustenta a concepção de uma
realidade externa e independente causando ceitas idéias no espí-
rito do sujeito. Mas em contraposição com esra primeira tendên-
cia, há uma outra, desta vez pragmatista, em que a realidade é
identificada com a Verdade, com o gue é conhecido como o re-
sultado, nunca definitivo, de um processo de interpretação.
Além djsso,. a doutrina da Verdade em Peirce não é destacável
da sua noção de significação dominada peia famosa n:1áxima
pragmatista ("É necessário consider.ar os efeitos, eventualn1ente
as conseqüências práticas, que o objeto da nossa concepção po-
de possuir. Então, a nossa concepção desses efoitos é o conjunto
da nossa concepção do objeto"). No entanto, o pragmatismo de
James é mais radical, mais unívoco, e de qualquer fomm menos
retido pelo antigo paradigma epistemológico.
A definição do verdadeiro em James como "aquilo que é
bom enquanto crença" ( What is good in the way of belief) é, à
primeira vista, filosoficamente ingênua. Mas a conclusão que

69
James queria tirar é, simplesmente, que não há nada de profundo
a dizer no que se refere à verdade:(a verdade não tem essência.
E, mais especificamente, nada de pertinente se acrescenta quan-
do se diz que 'a verdade é correspondência com a realidade'.
Com efeito é-se levado a comparar fragmentos de linguagem
com fragmentos do mundo, e a proclamar 'verdadeiras' as frases
que têm estruturas internas isomorfas às relações entre os obje-
tos ou entre os estados de coisas e o mundo. Não se toma muito
difícil ver frases categoriais como imagens do mundo, e reunir
essas imagens num mapa do mundo. Este exercício toma-se evi-
dentemente mais difícil quando nos deparamos com tipos de fra-
ses mais complexas, como, por exemplo, frases hipotéticas, ne-
gativas e/ou universais, mas esta complicação não é uma difi-
culdade para James. Os pragmatistas afirmam-nos que o que po-
de ser dito utilmente da verdade, está mais no vocabulário da
prática do que no da teoria, mais no da ação do que no da refle-
xão e da contemplação. Isto toma-se ainda mais imperioso
quando já nos não confrontamos com frases isoladas mas com
textos, discursos, teorias: em vez de se utilizarem então catego-
rias como imagem, símbolo ou metáfora isomorfa, falar-se-á an-
tes de utilidade, de aceitabilidade, de adequação por fim, con-
soante os casos. A decisão de assertar frases ditas 'verdadeiras'
faz parte de um conjunto de decisões que dizem respeito ao dis-
curso a fazer, ao projeto em que nos comprometemos, à vida que
se quer viver. Por isso, o adágio de James ("o verdadeiro, é
aquilo que é bom para a crença") significa de fato que o discur-
so prático e o discurso da prática é inevitável, e que assim qual-
quer discurso dito teórico ou contemplativo não é isolável da re-
flexão moral e da necessidade antropológica. O pragmatismo ca-
racteriza-se com efeito pelo fato de nenhuma diferença episte-
mológica ser admitióa entre a verdade do que deveria ser e a
verdade do que é, nenhuma diferença metafísica entre fato e
valor, nenhuma distinção metodológica entre ciência e morali-
dade. A grande ilusão da tradição realista consiste em crer que
as metáforas de correspondência, de representação, de. quadro
do mundo, de imagem, as quais podem eventualmente ser apli-
cadas a asserções de rotina, padronizadas e de pouco valor co-

70
municativo e intersubjetivo, como "esta.mesa é branca", podem
ser igualmente aplicadas aos fragmentos discursivos maiores e
mais complexos, e no entanto mais comuns na nossa linguagem
do quotidiano. É uma dicotomização inaceitável considerar que
a primeira classe de asserções depende da racionalidade verídi-
ca, ao passo que a segunda classe depende da paixão, do gosto e
da vontade. O questionamento da noção de verdade enquanto
correspondência e representação é portanto ao mesmo tempo
uma acusação de certas distinções clássicas como entre a razão e
o desejo, a racionalidade e o gosto, a razão e a verdade. Acres-
cento uma última marca importante a este esboço pragmatista da
verdade. É que o predicado 'verdadeiro' não é nesta concepção
objeto de limitações impostas pela natureza dos objetos, do espí-
rito. ou da linguagem,. mas apenas condicionamentos impostos
dialogicamente e conversacionahnente pela coxnunidade de co-
municação. Não é portanto a visão mental, a linguagem ideal, a
ontologia transparente que nos introduz na verdade, mas o diá-
logo e a interação entre membros da comunidade. James prefere
falar da lealdade entre seres humanos, e afinnando que "o cami-
nho. da serpente se encontra por todo o lado", rçlembra-nos que
a nossa glória verídica .está na nossa participação em projetos
falíveis e transitórios, portanto humanos, e não na obediência a
condicionamentos permanentes da parte do ontológico, do men-
tal, do lingüístico. Como escreve Rorty, "os pragmatistas consi-
deram que a tradição platônica sobreviveu à sua utilidade. Isso
não significa que possuam um novo conjunto, não-platônico, de
respostas a propor às questões platônicas, mas que não acredi-
tam na necessidade de continuar, seja de que forma for, a colo-
car essas questões.
Quando sugerem que não colocávamos questões sobre a
natureza da Verdade ... , não invocam uma teoria sobre a natureza
da realidade, do conhecimento ou do homem, que diz que não
há nada como a Verdade. Não têm uma teoria 'relativista' ou
'subjetivista' da Verdade. Gostariam simplesmente de mudar de
assunto" (Rorty, Bouveresse),
Mas é sem dúvida aqui que os pragmatistas se confrontam
com um dilema. Para os pragmatistas a melhor esperança para a

71
filosofia consiste em não praticar a filosofia. Refletir sobre a
Verdade não ajuda a dizer coisas verdadeiras, refletir sobre o
bem não ajuda a agir corretamente e refletir sobre a racionalida-
de não ajuda a ser racional (Rorty). O pragmatismo, ao conside-
rar a filosofia como um jogo, abre para a cultura pós-filosófica
em que, diz-nos Rorty, "nem os padres, nem os físicos, nem os
poetas, nem o Partido seriam considerados como mais 'racio-
nais', mais 'científicos' ou mais 'profundos' uns do que os ou-
tros''. Algumas marcas deste radicalismo pragmatista encontram-
se, claramente, em Wittgenstein: a idéia do discu~so :filosófico
como um jogo de linguagem entre outros, a idéia de que o ques-
tionamento acerca da verdade, da racionalidade, constitui preci-
samente a doença da filosofia. Mas o descentramento wittgens-
teiniano é mais estratégico do que negativo, e é assim que a
questão da verdade ressurge sob uma outra forma, a do princípio
de verificação. É que a verdade e a falsidade já não são vistas
como valores autônomos, quase-platônicos: são sempre proposi-
cionais e significativos. Wittgenstein escreve em Philosophiche
Bemerkungen: "a verificação não é um índice, mas o sentido da
proposição"(Rorty). O sentido de uma proposição é o seu méto-
do de verificação. Wittgenstein aplica esta concepção verifica-
cionista na significação, primeiro aos enunciados matemáticos,
mas o princípio de verificação desempenha muito rapidamente
um papel central para qualquer tipo de enunciado: uma proposi-
ção dotada de sentido não é unicamente uma proposição da qual
nós podemos avaliar a verdade ou a falsidade; devemos igual-
mente poder encarar as circunstâncias precisas em que ela deve-
ria ser considerada como verdadeira ou falsa. É assim que a
maior parte das proposições da linguagem quotidiana apresenta
a particularidade de admitir uma pluralidade indefinida de méto-
dos de verificação e portanto de significações, é assim que elas
são ambíguas e polissêmicas.
Apesill" de o elo entre o sentido proposicional e a verifica-
bilidade ser intrínseco, a questão da verificação transforma-se na
questão-chave colocada por Wittgenstein nos parágrafos centrais
das Investigações Filos6ficas, a da natureza da compreensão.
Cito o parágrafo 353: "A questão relacionada com a natureza e

72
a possibilidade de verificação de uma proposição não é senão
uma fonna particular da questão 'como entende você isto?'. A
resposta é uma contribuição à gramática da proposição".

Mas esta marcha para a antropologização da verdade pode


fazer-se ainda por outro caminho. Ern lugar de dissolver a teoria
proposicional da verdade numa teoria do sentido proposicional
e, em suma, numa teoria da compreensão, como é o caso em
Wittgenstein, poderíamos voltar-nos para as condições de pro-
dução da verdade, para a fonte do dizer-verdadeiro e portanto
para a estrutura da verificação. Devemos, em primeiro lugar,
começar por pôr em relevo dois aspectos desta nova perspectiva.
A veridicção não marca o enunciado ou a proposição a não ser
na medida em que a enunciaçã.o está nela onipresente. Qualquer
teoria da linguagem que exclua do seu domfnio de análise os fe-
nômenos de enunciação, marcados no discurso ou por ele pres-
supostos, não terá qualquer impacto sobre a veridicção. O enun-
ciado verídico não é senão o efeito de uma enunciação veridic-
t6ria. É assim que a pragmática acentua a veridicção como a
função enunciativa primordial do discurso. Se a maior parte dos
lógicos e dos lingüistas não nutrem qualquer interesse pela veri-
dicção, é pelo fato de a enunciação ser rejeitada, enquanto fo-
nômeno de pura performance, fora do domínio recuperável, a
'língua' saussuriana, a 'competência' chomskyana, o conjunto
das proposições com valor de verdade, decidível. O outro as-
pecto do conceito pertinente de veridicção é constituído pelo
fato de o discurso não ser considerado significativo a não ser na
e pela comuriidade comunicativa ou enunciativa.•.O dizer-verda-
deiro que é a veridicção não existe enquanto ato solipsista Irk'lS
através de uma sanção que emana da comunidade intersubjetí-
vante. Não há veridicção fora da contratuali.dade que consab>ra o
caráter de qualquer enunciado. A veridícção repousa sobre tran-
sações epistêmicas: o dizer-verdadeiro é um fazer-crer, sancio-
nado por parte do enunciatário, por um crer--verdadeiro. A trans-
ferência da verdade, função primária do discurso, é opacificada
por sobre--deterrninações epistêrnicas que são essencialrnent(';
dialógicas, conversacionaís ou interncionais. Não há veridicção

73
fora da enunciação, não há enunciação fora da comunidade
enunciativa.)
A objeção naturalmente formulada é a que faz apelo à car-
ga referencial do discurso, sendo o referente a função de verda-
de de qualquer enunciado com valor de verdade. É, no entanto,
a partir da questão do referente que eu defendo incoativamente a
pertinência da noção de veridicção. A referência é uma relação
orientada para o mundo real, os seus objetos, as suas qualidades,
as suas ações e acontecimentos. Sabe-se que determinadas cate-
gorias gramaticais, dentre as mais importantes, que certas rela-
ções lógicas não têm referente fixo, remetendo, como é o caso
dos dêiticos, a cada vez para objetos diferentes. Enfraquece-se
ainda a generalidade e a univocidade da função referencial do
discurso notando que o contexto discursivo pode tomar-se o lu-
gar de referência do discurso, ou que os referentes são consti-
tuídos por coisas enquanto objetos nomeados ou pelo menos
nomeáveis. Além disso, reconhece-se, em análise do discurso,
que qualquer discurso constrói o seu próprio referente interno e
dá-se assim um nível discursivo referencial. Pa'ra além do mais,
interessar-se pelo discurso enquanto dinâmica de produção, im-
plica que deixemos de nos interessar pelo referente dado a prio-
ri para nos interessannos pela referencialização, processo que
gera a ilusão referencial ou o efeito de sentido 'realidade' e
'verdade'. É interessante constatar que a debreagem do sujeito
no seu discurso, o processo através do qual o sujeito se ausenta
do discurso usando estratégias específicas (prototipicamente, no
discurso científico) favorece a referencialização do enunciado e
aumenta o grau de ilusão referencial. Se o 'verdadeiro' é um
efeito de sentido do discurso, sendo fruto das operações da veri-
dicção, qualquer relação com o dito referente externo é excluí-
da. É assim que a idéia, enraizada na nossa metafísica, da ver-
dade em termos de correspondência pressupondo a exterioriza-
ção do referente na sua independência é radicalmente transcen-
dida uma vez que se admite a pertinência teórica do conceito de
veridicção.
Esta posição parecerá profundamente pessimista. É verda-
de que a aceitação do alcance subversivo da veridicção desmisti-

74
fica a idéia ingênua, que se encontra muitas vezes em filosofia
analítica, segundo a qual o discurso cola-se às .coisas ou a lin-
guagem exprin!e as coisas, como uma "escrita branca" segundo
a expressão de Barthes. (O ponto de vista 'continental', pelo
contrário, considera antes a linguagem como um écran falseador
destinado a esconder. uma realidade e uma verdade subjacente.
Encarando-se o sujeito de enunciação não como aquele que é
suposto tentar produzir um discurso verdadeiro, mas antes um
discurso que produza o efeito de sentido 'verdade'. O que equi-
vale a insistir ainda no caráter manipulatório de qualquer comu-
nicação. A veridicção ou o dizer-verdadeiro é antes um fazer-
parecer-verdadeiro, portanto a construção de um discurso cuja
função não pode ser o dizer-verdadeiro mas o parecer-verdadei,.
ro. "Este parecer já não visa à adequação ao referente", escreve
Greimas, "mas à adesão por parte do destinatário a que ele se
dirige, e tenta ser lido como verdadeiro por este último. Por seu
lado, a adesão do destinatário s6 pode ser adquirida se corres..:
ponder à sua expectativa, o que equivale a dizer que a constru-
ção do simulacro de verdade é fortemente condicionada pela re-
presentação (dos valores) que o destinador, que·é sempre autor
da manipulação, manipula"(Du Sens II). A camuflagem mais
sutil exercida pelo destinador - do discurso científico, em parti-
cular - consiste no fato de ele procurar fazer parecer o·. seu dis-
curso não como sendo o discurso. de um sujeito, mas como o
enunciado das relações necessárias entre as coisas, apagando as-
sim as marcas da enunciação'. O Eu é eliminado por construções
impessoais como É verdade que ou socializado pela instalação
do Se e do Nós. Um enunciado tal como A terra 8ira à volta do
sol (ou É verdade que ... ) esconde o suporte enunciativo.Eu di-
80 que .. ~ Eu acho que ... , Eu tenho a certeza que ...
A troca comunicativa apresenta-se assim como a dialética
de um fazer persuasivo e de um fazer interpretativo. Sempre que
a verdade é objeto de comunicação, há persuasão de um lado e
verdade fiduciária do outro. Acrescento um último elemento a
este dossiê que diz respeito ao alcance da veridicção. É que, se
toda a comunicação assenta-se num contrato fiduciário, tomar-
se-á difícil distinguir entre verdade e certeza, entre saber e crer,

75
entre saber-verdadeiro e crer-certo. Na perspectiva da veridic-
ção, os juízos epistêmicos ~ão de longe mais importantes do que
os juízos aléticos. A certeza, sanção suprema a que se submete o
discurso verídico, é relativa e gradual, e portanto extremamente
frágil. Que qualquer proposição seja uma proposição de contrato
entre um pólo persuasivo e um pólo interpretativo dá lugar a
muitas manipulações no campo do saber. É assim que a proposi-
ção formulada pelo enunciador repousa sobre uma base epistê-
mica que vai da afirmação à dúvida e da refutação à admissão:
dezenas de verbos, tais como conjecturar, pretender, supor, ad-
mitir, suspeitar, são disso testemunhos. Mas o ato epistêmico do
enunciado é uma solicitação de consenso. Convencer, para-si-
nônimo de persuadir, significa segundo o dicionário: "levar al-
guém a reconhecer a verdade de uma proposição". Reconhecer a
verdade é "admitir como verdadeiro (aceitar) depois de ter ne-
gado ou duvidado, ou apesar das reticências". O ato epistêmico
é uma transformação para um estado de crença, a interpretação é
reconhecimento e identificação por controle de adequação do
novo e do desconhecido ao antigo e ao conhecido, e, mais ain-
da, ela é sobredeterminada por modalizações epistêmicas como a
crença e a (in)certeza.
Tentei mostrar nesta exposição que a noção lógico-lin-
güística de verdade está submetida a uma descentralização salu-
tar se se explorar o alcance das noções de verificação e de veri-
dicção. Vejo uma grande continuidade neste questionamento da
noção platônico-metafísica de verdade, questionamento efetuado
pelo pragmatismo de Peirce e de James, pela terapia wittgenstei-
niana e pela semiótica modal contemporânea. Estas três aborda-
gens são figuras do mesmo paradigma, e não se pode esperar
ainda que a guerra dos paradigmas - o paradigma hipostasiando
a Verdade, e o paradigma contestando esta hipótese - esteja
prestes a extinguir-se.

Tradução: Maria Augusta Babo

76
A PRAGAfÁTICA DAS MODALIDADES

O que se compreende por "modalidades"? As modalidades


são defüúdas nas teorias gramaticais clássicas no nível superfi-
cial da lexicalização: a força semântica das modalidades e sua
distribuiçfio sintática se identificam, nesse caso, ao sentido e ao
comportamento sint<t'itico dos verbos modais, como: poder, de-
ver, saber, querer. Mas esta classe nuclear dos modais pode ser
completada por Iexicalizações periféricas, com outros verbos,
não mais qualificados de "auxiliares", com outras seqüências
morfológicas e mesmo com tipos de entonação e de idiossincra-
sias estilísticas. Sem nenhuma dúvida, é situar-se em um nível
mais profundo considerar as modalidades não mais como pro-
priedades de seqüências lexicalizadas, mas como características
que detem1inam o valor de verdade de proposições; é assim que
se diz, depois de Kant, que a asserção é uma proposição de mo-
do zem, que a proposição apodítica é afetada pelo modo do ne-
cessário ou do impossível, que a proposição problemática é afe-
tada pelo mo<lo do possível ou do contingente. Estas quatro mo-
dalidades tradicionais, algumas vezes chamadas zuistotélicas ou
"aléticas", são pois motivadas extensionalmente já que expri-
mem a verdade de estados de coisas. Sistemas análogos, no gue
se refere ao conhecimento que temos dos estados de coisas, fo-
ram construídos, e é neste sentido que se fala de modalidades

79
"epistêmicas" e "deônticas": ao quadrado "ontológico" do ne-
cessário, do impossível, do possível e do contingente correspon-
dem o quadrado epistêmico do certo (ou do estabelecido), do
excluído, do plausível e do contestável, e o quadrado deôntico
do obrigatório, do proibido, do pennitido e do facultativo. Re-
velou-se possível ancorar os sistemas das modalidades epistêmi-
cas e deônticas em uma lógica extensional, o que não é o caso
da recente ampliação que constitui a terceira abordagem das
modalidades, em que não se trata mais das chamadas atitudes
proJX>sicionais, mas de atitudes (ou de atos) ilocutórias. O ato
proposicional é um ato de referência e de predicação, e, pois,
dominado por restrições ontológicas e epistemológicas, en-
quanto que o ato ilocutório é constitutivo de uma certa realidade
e, além disso, motivado pelo jogo da produção e do reconheci-
mento das intenções, não insondáveis e escondidas mas classifi-
cáveis e "convencionalizadas". É por isso que se diz, nesta ter-
ceira perspectiva, que a fórmula performati va é um operador
modal que domina e modifica globalmente o conteúdo semântico
do enunciado. É claro que nenhuma teoria dos atos de lingua-
gem considera o conjunto das modalidades ilocucionárias como
infinito, e a tipologia se faz a partir da especificidade das regras
que governam a atitude ilocucionária em questão, e a partir das
convenções lingüísticas dos enunciados e das convenções extra-
lingüísticas nas situações enunciativas. rvfas uma quarta figura
das modalidades pode ser superposta às outras três. &ta abor-
dagem, que gostaria de qualificar de axiológica, é marcada por
características formais facilmente recc:n1lleçfyei~: ..~ .<::lllºnicidade,
se posso utilizar esta palavra, e a expaI!sJ9. O sistema das mo-
dalidades é canônico já que é semanticamente elementar e pura-
mente dedutivo; a seqüência e a implicação das modalidades são
governadas por uma lógica profunda cuja única garantia é sua
própria coerência. Mas este sistema de modalidades é, ao mesmo
tempo, capaz de uma expansão sem limites sobre o duplo eixo
do discurso e das esferas "naturais" ou "culturais" cada vez
mais englobantes. Reconhece-se aqui, certamente, a topologia
actancial, a gramática narrativa, a semiótica do mundo natural
em que os valores modais se encarnam não só nas unidades

80
"sintáticas" - no sentido semiótico ou semiolingüístico - de
extensão variada, mas igualmente em mundos que se apresentam
como zonas de conotação cada vez mais englobantes. Estou in-
teressado aqui, sobretudo, não na validade nem na hierarquia
das definições propostas, mas no isomorfismo destes quatro ti-
pos de modalidade: há imbricações e exclusões, os diferentes
níveis podem se manifestar reciprocamente, mas, como se verá,
os deslocamentos entre as modalidades lexícalizadas, as modali-
dades proposicionais (aléticas, epistêmicas, deônticas), as mo-
dalidades ilocucionárias e as modalidades axiológicas resistem a
uma síntese muito prematura e excessivamente redutora.
Abordar-se-á aqui o domínio das modalidades do ponto de
vista de uma pragmática lingüística, com a consciência da parti-
cularidade metodológica desta perspectiva. Como pragmática,
esta abordagem se distingue de qualquer semântica das modali-
dades. O objeto construído em pragmática é o fragmento lin-
güístico em seu contexto. Não o contexto referencial, que diz
respeito ao mundo real ou aos mundos possíveis de estados de
coisas. Sabe-se que uma lógica extensional é baseada em uma
teoria referencial da significação lingüística, e é neste sentido
que Quine se opõe a qualquer recuperação das modalidades e
das atitudes proposicionais em uma semântíca formal: o nó gór-
dio do objeto semântico não é outro senão o contexto referencial
dos enunciados, e os céticos, como Quine, condenam todo con-
texto referencial modalizado que não seja substituível por um
contexto quantificado equivalente. Os semanticistas da referên-
cia e da quantidade limitam-se deliberadamente a aceitar de bom
o que se poderia chamar "as cadeias da necessidade". É
desnecessário dizer que a lógica das atitudes proposicionais
(Hintikka) e a lógica dos mundos possíveis (Kripke), embora
condenadas por Quine como essencialismo, pressupõem, tam-
bém elas, uma teoria referencial da significação, formalizando
os critérios dos valores de verdade de proposições modalizadas.
Esta lógica ampliada não propõe, pois, ainda, uma estratégia
pragmática, uma vez que o objeto da pragmática é o fragmento
lingüístico em sua dependência do contexto "accional", do
contexto da enunciação, composto, pelo menos, pelos três com-

81
pcmentes constitutivos deste tipo de contextualidade: a produção
intencional de um fragmento lingüístico pelo locutor, a recepção
e o reconhecimento da intenção ou do conjunto das intenções
pelo destinatário, o suporte situacional de tempo e espaço deste
processo "accional". Não se trata aqui de um domínio irrecupe-
rável - como pensa boa parte dos semanticistas da ortodoxia
extencionalista - e queria justamente sugerir, em relação aos di-
ferentes tipos de modalidades, alguns pontos de referência ini-
cialmente sistemáticos que tenham um certo poder descritivo e
explicativo da contextualidade comunicativa, conversacional, e,
no limite, intencional dos enunciados mcxlalizados.
A abordagem proposta aqui é a de uma pragmática lin-
güística, o que constitui um segundo estreitamento da perspecti-
va. Existe uma pragmática lógica, que formaliza ao extremo a
noção de contexto e seus três componentes ( em particular Mon-
tague), mas o que aí se denomina pragmática não é, no final das
contas, senão uma semântica indexicalizada cujo aparelho for-
mal só se revela capaz da recuperação dos três componentes
pragmáticos sob a forma de pontos de referência. Quer dizer, os
índices do locutor, do ouvinte e do tempo-espaço são aí tratados
como argumento, não tendo outro estatuto que as variáveis e as
constantes que são os nomes-objeto. O contexto .. accional" é
reduzido então ao contexto referencial, e a pragmática é somente
um ramo da semântica, apenas mais específico. O estudo das
modalidades, no quadro da pragmática lógica, está, aliás, mais
próximo do tratamento proposto na lógica das atitudes proposi-
cionais e dos mundos possíveis do que da análise projetada em
pragmática lingüística. Se se coloca em evidência, por outro la-
do, a faculdade da expansão que é característica da abordagem
axiológica, se está em condições de considerar a semiolingüísti-
ca como uma pragmática: contextos "accionais" cada vez mais
amplos são conotados e construídos como manifestações da es-
trutura elementar e canônica. Mas uma pragmática lingüística se
distingue da assim chamada "pragmática semiolingüística" na
medida em que ela não dispõe deste poder de expansão, sendo
uma forma analítica de fragmentos lingüísticos, o que impõe
uma severa restrição sobre as possibilidades das inferências

82
eventualmente efetuadas pelas estratégias pragmáticas.
Esta pragmática lingüística das modalidades não pode ser \
senão uma pragmática profunda. Não é senão como pragmática \·
profunda que ela estará em condições de formular as regras de
correspondência (das transformações) ligando assim as figuras \
variadas das modalidades e suas encarnações sintáticas ou mor-
fológicas. Somente por mecanismos transformacionais é que se
pode coordenar a distribuição dos quantificadores e a das moda'--
lidades proposicionais, ou que se pode tematizar a correlação
parcial entre os termos modais e a oposição alética de certas
classes de modalidades ilocucionárias, ou ainda estudar a equi-
valência ou a não-equivalência das lexicalizações modais e das
modalidades proposicionais. Esta gramática profunda deve, além
disso, ser semanticamente orientada: uma estrutura profunda
sintática, como em gramática transfonnacional do tipo choms-
kyano, não produzirá nenhum impacto sobre a organização
complexa das significações modais. {}ma gramática profunruu~.
semanticamente orientada, que se quer ·a:o ·mesmo-tempo -uma
p~gm~ca lingüfstic:ª, deyeria eStª1°. elll condições dt:: g~.r.l!-a8
rnodalicÍades~~-sua depef!d~11c:iª do .contexto "accional" c:orre.~-
_pond~11~:É necessário reconhecer que esta pragmática lingüfs:.-
tica começa a existir: não há nenhum método incontestado, e os
resultados são ínfimos, sobretudo no domínio das modalidades,
peça de resistência para toda lingüística, desde sempre. Alguns
passos foram dados no que se chama comumente "semântica ge-
rativa", que pretende ser, afinal de contas, uma pragmática lin-
güística. São estes poucos passos tímidos que serão explorados
agora, apresentando numa primeira parte algum material empúi-
co, construindo numa segunda parte a estrutura colllPlexa de di-
ferentes eixos segundo os quais o campo das modalidades se or.;.
ganiza, e formulando alguns problemas gerais de ordem meto-
dológica, como aquele do isomorfismo das isotQPias modais, à
guisa de conclusão.

Uma vez que as modalidades não podem ser tratadas senão

83
por uma gramática profunda de orientação semântico-pragmáti-
ca, não haverá lugar, não há dúvida quanto a isto, na teoria
standard chomskyana, para uma análise adequada não somente
das modalidades em geral mas também de suas lexicalizações
sob a forma de verbos modais. O que se encontra em Syntactic
Structures e no Aspects é que os modais constituem uma catego-
ria gramatical à parte, ao lado da frase nominal e da frase ver-
bal, que os modais não fazem parte nem do sujeito nem do pre-
dicado da frase, mas que eles têm a função particular de "auxi-
liares" (Chomsky, 1965, 69 e 86):

1 . A sinceridade poderia aterrorizar o rapaz.

2. s
[sujeito] [aux] [predicado]
1 1 1
FN M FV
1
N Ve~
principal Objeto
1 1
V FN
A--.N
Det
1 1
(a) sinceridade poderia aterrorizar o rapaz

Nenhum argumento é dado para o isolamento da função


dos auxiliares, ou para a substituição dos modais na classe dos
auxiliares; a tipologia dos modais em sintaxe profunda não é
feita, e o componente semântico interpretativo da gramática
(Katz e Fodor) não fornece nenhuma indicação para uma de-
composição das significações complexas dos modais. Chomsky
(1965: 212) não resolve a questão de saber se os modais formam
uma categoria lexical ou não-lexical, e a ausência dessa decisão
abole a possibilidade de uma eventual interpretação semântica.
A representação que ele propõe para a derivação dos modais
trai, no entanto, a tendência ao isolamento dos modais fora da
seqüência nuclear da frase (cf. Katz e Postal, 1964: 115).

84
3.

De fato, [Aux] fazia parte ainda da frase verbal em


Syntactic Structures (1957: 39-40).

4. (i ) verbo Aux+ V
(ii) V----;,. bater, pegar, passear, ler, etc.

(iii) Aux - - - - M
(i v) M - - - - pode, quer, deve, ...

enquanto [Aux] é dominado diretamente por S no Aspects: o


fato de os modais serem aí sintaticamente representados como
uma função específica e, :implicitamente, em posição de opera-
dor, aproxima-os de certas funções sintáticas como IMP e P(er-
gunta), igualmente retirados do núcleo sentenciai, já a partir de
Katz e Postal (cf. também Chomsky, 1972: 107-9). Esta posição
particular dos modais testemunha, seguramente, sua grande re-
sistência semântica, e não é de se espantar que Chomsky admita
explicitamente, na teoria standard ampliada, que os modais não
podem recobrir uma interpretação semântica como categorias de
uma sintaxe profunda, mas que sua interpretação depende de
propriedades da estrutura de superfície (Chomsky, 1972: 192-4);
quer dizer que os modais constituem, mesmo para Chomsky, um
argumento válido contra a sintatização radical da significação:
os modais são, na verdade, plenamente semantizados e, como se
verá, submetidos a restrições pragmáticas.
O insucesso das abordagens efetuadas com a ajuda de un1a
gramática sintaticamente orientada é empiricamente evidente, e é

85
necessário recorrer a uma semântica, se não a uma pragmática
das modalidades, se se quer recuperar a estrutura distribucional,
mesmo que superficial, das modalidades. Os dois exemplos que
seguem dizem respeito, primeiro à distribuição de certas formas
gramaticais de verbos modais e, em seguida, àquilo que gostaria
de chamar a homonímia "isotópica" de certas modalidades.
O primeiro exemplo (cf. R. Lakoff, 1972) consiste de dois
casos em que a interpretação da equivalência parcial de duas
fonnas gramaticais de verbos modais e da paráfrase por uma das
modalidades proposicionais só pode ser semânticà (no primeiro
caso) ou pragmática (no segundo). Consideramos as paráfrases
seguintes (a) e (b), cujo verbo modal é poder, e que são paráfra-
ses de (c), que é uma proposição de modo alético (e não epistê-
mico).
5 . a ) Os filósofos podem ser camaleões.
b ) Os filósofos poderiam ser camaleões.
c ) É possível que os filósofos sejam camaleões.!
As frases (a) e (b) não são sinônimas embora parafraseadas
por (c); (a) é falsificável se nenhum filósofo for um camaleão;
enunciando (a), devo conhecer pelo menos uma instância na
qual pelo menos um filósofo se comporte como um camaleão;
(b ), ao contrário, não é falsificável, e sua enunciação é apro-
priada, mesmo sem evidência conclusiva de que haja um filósofo
camaleão. Além do mais, (a) é triplamente ambígua segundo
a quantificação que exerce seu alcance sobre diferentes ele-
mentos da frase. A interpretação semântica de (a) e (b) com
quantificadores explícitos é (faz-se abstração, é claro, de um
eventual desvio entre a quantificação "genérica" das línguas
naturais e a quantificação semântica das línguas fonnais):
6 . a) ( V x) ( 3:t) camaleão (x,t) Todos os filósofos
são às vezes ...
(3:x)(Vt) camaleão (x,t) Alguns filósofos
são sempre ...
( 3: x) ( 3: t) camaleão (x,t) Alguns filósofos
são às vezes ...
b ) ( 3: m) ( V x) ( V t) camaleão (x,t,m)

86
Se as interpretações de (a) têm sempre um valor de verda--
de, a interpretação de (b) está isenta de valor de verdade já que
ela não quantifica somente no interior do mundo real, mas
quantifica igualmente este mundo mesmo no interior do conjunto
dos mundos possíveis. O predicado possível da paráfrase (e) é
pois semanticamente ambíguo: exprime a não-necessidade de
certas variáveis no interior do mundo real e necessário (como
paráfrase de (a)) ou exprime a não-necessidade do próprio mun-
do no interior do conjunto de mundos possíveis (como paráfrase
de (b)). Neste caso, a desambigüização se dá pela interpretação
puramente semântica (pela explicitação da quantificação), o que
não é suficiente no caso que segue.
Consideremos as frases seguintes (a) e (b), cujo verbo mo-
dal é dever, parafraseadas por (c ), que é uma proposição de mo-
do epistêmico (e não deôntico):

7. a ) Os Belgas devem ser maus motoristas.


b ) Os Belgas deveriam ser maus motoristas.
c ) É possfvel ( provável ) que os Belgas sejam (são)
maus motoristas.2

Como explicar esta distribuição das formas gramaticais do


verbo modal dever, e sobretudo como circunscrever a ambigüi-
dade do predicado possfvel ou provável em (c), parafraseando
tanto (b) quanto (a)? A quantificação não nos prende mais a
atenção uma vez que não se está mais sobre o eixo da existência
(do necessário ou possível) mas sobre o da crença (do certo ou
provável). A sistematicidade distribucional aqui é governada por
fatores -contextuais de tipo pragmático (e não mais referencial).
Ninguém negará que (a) é uma proposição conjectura! e (b) uma
proposição de expectativa: (a) é uma hipótese baseada na con-
jectura atual enquanto· que (b) é uma hipótese baseada numa ex-
pectativa futura; (a) é verificável no presente enquanto (b) não
seria controlável senão no futuro. Isto deve ser explicado por /
uma restrição pragmática relativa à natureza e ao grau de certeza

87
do locutor que enuncia. Esta certeza, responsável pela distribui-
ção de certas formas gramaticais, é tributária da situação do lo-
cutor e de sua faculdade material (e até psicológica) de acumular
informação. É por isso que a negação da frase (a) pelo ouvinte
pode ser considerada como uma agressão à credibilidade do lo-
cutor, ou que pela afirmação de (a) o locutor se responsabiliza
performativamente muito mais que pela pseudo-asserção de (b).
Não é difícil ampliar este campo de fatores pragmáticos que do-
minam a distribuição de formas gramaticais dos modais, incor-
porando, por exemplo, as estratégias de polidez (cf. R. Lakoff,
1971) e o estatuto sócio-performativo dos locutores. Poder-se-ia,
além disso, escapando deste modo de qualquer sistematização da
semântica pura, colocar-se a questão de saber se o eixo epistê-
mico, na sua totalidade, não é governado pela contextualidade
"accional".
Meu segundo exemplo diz respeito à chamada homonúnia
isotópica das modalidades. Menciono rapidamente duas figuras
deste fenômeno que mostram que a desambigüização da homo-
nímia em questão não pode ser devida senão a mecanismos
pragmáticos. Em primeiro lugar, como explicar a distribuição di-
ferente de uma forma modal e de sua variante perifrástica? Con-
sideremos as duplas de frases seguintes:

8. a) Stanislas pode beber uma cerveja.


b ) É permitido que Stanislas beba uma cerveja.

9. a) Todos deveriam votar em Stanislas.


b) Todos supõem votar em Stanislas.

10. a) Você deve se desculpar.


b ) Você é obrigado a se desculpar.

A enunciação das frases (a) e (b), embora semanticamente


equivalentes já que as frases (b) não são senão variantes peri-
frásticas das frases (a), não é apropriada em contextos idênti-
cos. É evidente que a participação do locutor é pressuposta na

88
enunciação das (a) e que o locutor manifesta no seu enunciado a
intenção de que seu engajamento seja reconhecido pelo interlo-
cutor. As frases (b) são sobretudo constatações de uma situação
das quais o locutor está singulannente ausente. A oposição das
formas modais e de suas variantes perifrásticas é a das locuções
performativas e das locuções constativas empregando a célebre
dicotomia austiniana (abandonada, como se sabe, pela tricotomia
locucionário-ilocucionário-perlocucionário). Pode-se, com efei-
to, supor na estrutura profunda das frases (a) a fórmula perfor-
mativa abstrata, contrariamente às frases (b): "eu permito a Sta-
nislas ... ", "eu sugiro a você ... ", "eu ordeno a você". A homo-
núnia isotópica de que se trata aqui tem uma estrutura bem ines-
perada: as formas modais simples exprimem as modalidades ilo-
cutórias enquanto as variantes perifrásticas exprimem modalida-
des proposicionais (deônticas em (8) e (10), e epistêmica em
(9)).
No entanto, o fenômeno da homonúnia isotópica exige me-
canismos de interpretação pragmática ainda mais sutis quando se
trata de uma homonúnia no interior da própria forma modal.

11. a) Stanislas deve ter comprado seu carro ontem.3


b ) Stanislas deve ter comprado seu carro por inter-
médio de seu pai.

12. a ) Stanislas pôde comprar seu carro.


b ) Stanislas pôde comprar seu carro quando ganhou
na loteria.

Singulannente, as frases (a) são parafraseadas pelo opera-


dor epistêmico "eu creio que ... ", mesmo que as formas modais
superficiais sejam diferentes (dever, poder); mas este operador
epistêmico é, ao mesmo tempo, um operador ilocncionário já
que exprime a atitude ilocucionária do locutor. As frases (a)
com dupla isotopia (epistêmica-ilocucionária) opõem-se às fra-
ses (b), embora suas formas modais sejam lexicalizações idênti-
cas, na medida em que as frases (b) exprimem atitudes não-ilo-

89
cucionárias (elas se reportam ao sujeito do enunciado e não ac
sujeito da enunciação) e proposicionais de modo idêntico. Ne-
nhuma semântica está em condições de desfazer esta enorme
complexidade modal (outros exemplos em Boyd e Thome, 1969,
e em Van Belle, 1973). Esta incapacidade é parcialmente causa-
da pela distribuição homonímica das modalidades lexicalizadas e
pela ausência de isomorfismo das isotopias modais: esta incapa-
cidade toma-se, além disso, de princípio para as frases do tipo
(a), já que a contextualidade "accional" é constitutiva da signi-
ficação modal, uma vez que as atitudes ilocucionárias estão im-
plicadas na seqüência modalizada. Neste caso, a pragmática não
é mais sorn~mte uma heurística desambigüizante, mas, mais que
isso, o sistema de regras constitutivas da própria significação
modal.

II

Estes poucos elementos. empfricos, ainda que fragmentá-


rios, vão na direção de provar um certo impacto de restrições
pragmáticas sobre o processo de interpretação das significações
modais. Elas não provam em nenhum sentido que uma semântica
das modalidades é ilusória e periférica. A semântica permanece,
pelo contrário, o núcleo de toda interpretação das modalidades;
ela não é senão completada pela pragmática que se insere em
certos pontos bem precisos do percurso deri vacional das moda-
lidades. A questão diz respeito exatamente aos pontos em que a
semântica e a pragmática se encontram, em que a pragmática
ganha relevo. Não é de se espantar que o ponto de partida seja o
esquema das atitudes proposicionais. A estrutura dos modais le-
xicalizados requer uma reorganização na medida em que as for-
mas de superfície são, em gramática profunda, abandonadas; o
sistema de modalidades ilocucionárias, no e pelo espírito mesmo
da filosofia analítica, continua muito dependente de formas ver-
bais de superfície e, pois, da confusão morfológica das línguas
naturais; as modalidades axiológiéas constituem uma para-es-
trutura do modelo elementar em expansão. Mantém-se o esque-

90
ma das modalidades ditas "lógicas", ponto de partida e núcleo
do sistemà global das significações modais. Em conseqüência,
proponho-me a elaborar, nesta segunda seção, primeiramente os
diferentes eixos que organizam as atitudes proposicionais para
as sintetizar em um esquema de coordenação que incorpora
igualmente a estrutura dos quantificadores e alguns paralelismos
lexicais; em um segundo momento, sugerirei em que pontos se
insere, na derivação do sistema global das modalidades, a con-
textualidade e, conseqüentemente, o impacto da pragmática.

a ) Retomemos à fonte aristotélica para a consideração do


eixo das modalidades aléticas. Todos os intérpretes constataram
a ambigüidade do conceito aristotélico do possível (cf. Blanché,
1969: 75 ss.):

13. a ) "necessário" ''contingente'' "impossível"


(nem necessário,
nem· impossível)

NECESSIDADE O p -O P
b ) _______,.._____

- O- P 0-P
IMPOSSIBILIDADE
c) IMP ( - p) - !MP ( - p)

~-------------~
- IMP (p) IMP (p)
POSSIBILIDADE I
d ) - POSS I ( - p) POSS I ( - p)

~----;====::;-------'''-,r----'
IPOSS I (p)I - POSS I (p)
POSSIBILIDADE ll
e) O (p) 1 ross II {p)•1
NEC (p>.: : : :: 1
IMP (p)

POSS II ( - p)

91
Em uma das definições do possível, a possibilidade é dis-
tinta da necessidade e da impossibilidade, enquanto que na outra
o necessário é dito, ele próprio, possível: o necessário e o possí-
vel não são neste caso mais mutuamente exclusivos. Se (13a) é o
eixo alético com três modalidades das quais uma possui um du-
plo nome (o contingente, o possível), (13b) mostra como Aris-
tóteles atribui o valor de necessidade, ( 13c) o valor de impossi-
bilidade, (13d) o valor de possibilidade em que o necessário e o
possível não são mais mutuamente exclusivos e (13e) o valor de
possibilidade em que o necessário e o possível são mutuamente
exclusivos.
A lei da conversão complementar, sustentada por Aristó-
teles e considerada como central em lógica modal,

14. 0 P-+ 0 P

só é válida se se admite ( 13e) ou a exclusão mútua do necessário


e do possível. Convém salvaguardar ao mesmo tempo as três
modalidades (e não as quatro) sobre o eixo alético e o princípio
da conversão complementar. Está-se no direito de perguntar por
que ( 13e) deve ser escolhido como o eixo que atribui o valor de
possibilidade. Os postulados e o silogismo seguintes são, no
entanto, válidos:

1s. D p 1- p Tudo o que é necessário, é;


p t-0 p tudo o que é, é possível,
OPt-0 P tudo o que é necessário, é
possfvel.

Por que não admitir então que o possível é implicado pelo


necessário, como algum por todos? A motivação não é "conver-
sacional"? Ela não obedece à chamada "regra da quantidade",
em lógica conversacional, que motiva o fato de que não se diz a
possibilidade do que se sabe necessário, por economia conver-
sacional? Esta sugestão subversiva consagrará a presença de
uma certa contextualidade no seio mesmo do eixo alético que,

92
no entanto, apresenta-se como o n6 górdio da semântica das
modalidades.
b ) O sentido usual de possível nas línguas naturais não é
alético mas epistêmico (possível oposto a certo antes que a ne-
cessário). Há, no entanto, .razões para não identificar provável e
possível no eixo epistêmico que conserva assim sua trivalência:

16. certo (p) 1-- (pelo menos) provável (p) !-- (pelo
menos) possível (p)

Consideremos as frases:

vossível senão}
, provável
17. a) E que eu parta } esta
{ provável senão { parto tarefe.
certo
b ) É possível (provável) que eu parta (parto) esta tar-
de, e de fato é certo.

e) É possível que eu parta esta tarde, mas não é pro-


vável (É provável que eu parto esta tarde, mas não
é certo.)[Nunca o inverso]4

O eixo epistêmico negativo se apresentaria assim:


r O

18. impossível (p) 2 x (pelo menos) improvável (p)


(pelo menos) não é certo (p),

como se vê nas frases seguintes:

19. a) É improvável senão impossível que eu parta esta


tarde (É impossível senão improvável que eu parta
esta tarde).
b ) É improvável que você tenha razão, mas não é im-
possível (É improvável que você tenha razão, mas
não é duvidoso).

93
O eixo epistêmico é o da crença, e se constata que as im-
plicações conversacionais são aqui mais determinantes que no
eixo da existência. Das duas definições aristotélicas da relação
do necessário e do possível,

20. necessário :) possível e necessário :p possível

deu-se preferência à segunda, que permitia a conversão com-


plementar e que é motivada por uma certa economia conversa-
cional. Sobre o eixo epistêmico, não se tem sequer esta escolha.
Hintikka tem razão em admitir como um postulado de sua lógica
modal que nós asseveramos aquilo de que está certo (o que se
sabe), de modo que as conjunções seguintes não sejam mais vá-
lidas:

21. a) Eu sei que p (Eu estou certo que p) e é possível


(provável) que não p.
b ) Eu sei que não p e é possível que p.

O impacto conversacional na esfera epistêmica é pois de-


terminante para o gênero de inferências permitidas: a afirmação
da certeza (que é sempre uma afirmação da necessidade, como o
prova Hintikka) é mais forte, mais inconvertível que a simples
afirmação da necessidade. Isto não pode ser motivado senão por
uma exigência dita "conversacional" e, pois, pragmática: que a
força de engajamento de uma "atitude" (a crença como estado
de espírito) é mais determinante que a constatação de um estado
de coisas. Este postulado conversacional pode ser representado
como segue:

22. certo 1-- necessário e necessário 1 + certo.

c ) As entidades do eixo deôntico não podem sequer ser


caracterizadas como proposições: a obrigação e a permissão são
atos. Os predicados deônticos são sempre substituíveis por se-
qüências verbais e, no final das contas, por fórmulas performati-
vas. O eixo deôntico é exatamente o ponto em que o sistema das

94
modalidades proposicionais desliza para o sistema das modali-
dades "ilocucionais". É evidente que se admite sobre o eixo
deôntico a tripartição das modalidades (Jespersen, 1924: 324-5)
tal como nos outros eixos:

23. obrigação (p) ~ permissão (p) r proibição (p).


24. a) Você é obrigado a casar com minha filha (eu te
ordeno ... )
b ) Você tem a permissão para casar com minha filha
(eu te permito ... )
c ) Você está proibido de casar com minha filha (eu te
proíbo ... )

Ressalte-se que a "equivalência deôntica", tal como foi


elaborada por Von Wright, é válida no uso mais corrente das
línguas naturais:

25. - O(A) P - (A),


enquanto que uma restrição conversacional (a regra da quanti-
dade) aboliu a implicação seguinte, logicamente válida, no en-
tanto:

26. O(A) ::p P(A).


Não é verdade, como pretende Von Wright, que "em um
lugar de não-fumantes, fumar é proibido e não fumar permiti-
do". A obrigação não implica a permissão, e sobre o eixo deôn-
tico, menos ainda que sobre os outros dois, não há nenhuma
convertibilidade "para a direita". A ordem, a permissão e a
proibição são, com efeito, atos de linguagem que são governa-
dos por regras diferentes das implicações lógicas; mesmo se as
regras preparatórias - para empregar a terminologia de Searle
(1969) - são idênticas (o locutor tem uma relação de autori~de
para com o interlocutor), mesmo se a condição de sinceridade
é idêntica para as três entidades do eixo deôntico ( o locutor quer
que seu ato seja a conseqüência desejada), haverá outras "con-

95
dições essenciais" para a realização apropriada da obrigação, da
permissão e da proibição. Eis a razão pela qual as relações de
implicação das entidades sobre os diferentes eixos tomam-se ca-
da vez mais relativas na medida em que se desce do eixo alético
para o eixo deôntico. Isto é, seguramente, um postulado conver-
sacional que represento como segue:

21. obrigação~ certeza ~ necessidade.

d ) Chega-se assim ao esquema de atitudes proposicio-


nais, completado por algumas sugestões relativas à
quantificação e aos modais lexicalizados.

28.
Valor axial alético epistêmico deôntico quantificação lexicalização

I p neces- n=l obriga- \jtodos deveS


s4rw certo t6rio [must]

pelo 1 ~ n) O pelo me- pelo menos


menos provável nos per- alguns, se- deveria
W*-++N F possí- plausível mitido, não todos [shouldJ
vel, senão
senão obriga-
neces- tório·
sário

I W*-+ NF possf-
wl
I> n) O
poss(vel
permi-
tido
J alguns, uns pode
[can]

não ne- não-ob!1-


cessá- I> n~O tório, não todos,
rio, contestável even- eventualmente poderia
-F....., W even- tual- alguns [may]
tual- mente
mente permi-
possí- tido
vel

impos- n=O proibido nada, nenhum


I II w sfvel [excluído] -
* Forte(F) e fraco (W), por exemplo: w-,. .... F: o fraco
provoca a não-existência do forte.

96
Duas observações:
Quanto às lexicalizações. A distribuição não é universal, e
o sistema do inglês é mais complexo que o do português 6 • Mas a
estrutura dos modais é empiricamente verificável:

29. a) João pode e, de fato, deve ajudar sua mãe.


b) Os padres podem e, de fato, devem ser infelizes.
c ) Ele poderia, e mesmo deveria ter reencontrado
suas forças.

Se se estudasse o comportamento da negação, constatar-se-


ia que os modais "fracos" são negados mais facilmente que os
modais "fortes" na medida. em que aceitam um complemento in-
finitivo negativo:

30 . a ) Ele pode (poderia) não ter razão.


b) Ele deve (deveria) não ter razão.
Os argumentos sintáticos que demonstraram o paralelismo
do comportamento dos quantificadores e dos três eixos modais
não faltam (cf. Horn, 1972). Menciono os dois argumentos mais
geralmente aceitos. Há não pode ser inserido senão nas seqüên-
cias existencialmente quantificadas:

31 . a ) Há alguém que bate à porta.


b ) Há alguns homens no jardim.
e ) *Há todos os animais no zoológico.
Reencontra-se a mesma regra nos pontos paralelos dos ei-
xos alético e epistêmico:

32 . a ) Há uma possibilidade de que você tenha razão.


b ) *Há uma necessidade de que você tenha razão.

Como a inserção de há, requer uma seqüência não-univer-


sal (modal ou quantificada), a inserção de absolutamen:te requer

97
uma seqüência com quantificação ou modalidade universal; o
paralelismo aqui não tem exceção:

33 . a) Ele deve absolutamente ter dúvidas(* pode).


b) Absolutamente todo mundo desapareceu (* al-
guém).
c) É absolutamente necessário (certo) que você vá(* pos-
sível).

Ressalte-se que a negação da universalidade (SC?.m que a


existencialidade surja, é claro) admite absolutamente também:

34. a) É absolutamente impossível sair.


b ) Absolutamente nada é proibido.

É tempo de voltar à hipótese central de que a contextuali-


dade "accional" determina todas as propriedades da linguagem,
de qualquer nível de profundidade que sejam elas. A significa-
ção modal, na medida em que escapa à pura quantificação se-
mântica, é modelada pragmaticamente, o que não exclui, repito,
que a semântica tenha também seu objeto. Seria necessário estu-
dar, em uma perspectiva metcxlológica, a interação da contex-
tualidade "accional" e da contextualidade pressuposicional ou
referencial, as:im como a implicação da contextualidade "accio-
nal" e do sistema lingüístico intrínseco e imanente. Isto levaria à
questão de saber onde exatamente o componente pragmático de-
veria-se inserir no modelo gramatical. A filosofia da linguagem,
entretanto, está mais interessada em uma eventual perspectiva
epistemológica, a saber: qual é a natureza desta contextualidade
e, sobretudo, quais são os sistemas de regras adequados que têm
o poder de recuperar globalmente esta contextualidade. Vejo
aqui duas saídas possíveis, e as apresento mais que sumaria-
mente. Trata-se das máximas conversacionais e das regras cons-
titutivas (convencionais), cujos termos conversação e convenção
evocam, não há dúvida, uma concepção da linguagem como es-
trutura prototípica da comunicabilidade. Convém, no entanto,

98
notar que as máximas e as regras formam dois sistemas autôno-
mos, tendo cada um uma relação específica com a intencionali-
dade comunicativa que a linguagem testemunha. Não é de se
estranhar que, por sua flexibilidade e sua complexidade prag-
mático-semântica, as modalidades sejam eminentemente ilustra-
tivas do esboço que proponho agora.
A teoria das implicações conversacionais (conversational
implicatures) de Grice (1975) é talvez o primeiro ensaio, inci-
piente mas frutuoso, de pragmática universal. Ela formula o
princípio metate6rico de cooperação e as máximas baseadas so-
bre este princípio, não como características semânticas ou sintá-
ticas, superficiais ou profundas, mas como implicações. A con-
textualidade não pode ser constituída neste caso nem pelo con-
junto dos índices de pessoa e de tempo-espaço que se propõe em
pragmática lógica do tipo Montague, já que se trata de implica-
ções, nem mesmo pela estrutura semântica profunda. Grice
opõe, além do mais, as implicações "conversacionais" aos im-
plicantes convencionais. As implicações que interessam à prag-
mática uni versai não são implicações como os subentendidos e
as pressuposições. Elas determinam a própria possibilidade do
discurso; é nessa medida que elas não são arbitrárias, mas de-
terminantes e universais. Estas condições universais pressupõem
o princípio metateórico de cooperação (este princípio é metateó-
rico na medida em que é falsificável por alguma teoria, in casu
por alguma gramática), que pode ser formulado intuitivamente
como segue:
P: Faça que sua contribuição conversacional seja de acordo com
a finalidade e a "direção" da troca lingüística na qual você
está engajado, assim como ao estágio desta troca.
As máximas conversacionais derivadas deste princípio são:
M1 : a máxima da quantidade: faça que sua contribuição seja
tão iftformativa quanto solicitada, e não mais infonnativa
que o solicitado (desejado);
M2: a máxima da qualidade: não diga senão o que você acre-
dita ser a verdade (não diga o que você acredita ser falso;
não diga algo cuja evidência adequada lhe falte);

99
M3 : a má:xima da relação: diga o que está relacionado com o
assunto da troca [be relevant];
M4: a máxima do modo: seja claro [be perspicuous] (evite a
obscuridade da expressão; evite a ambigüidade; seja bre-
ve; seja sistemático.).
É evidente que este "quadro de categorias" e a lista cor-
respondente de postulados não são exaustivos, e é suficiente-
mente evidente que se pcxle expandir, entre outras, a máxima do
modo com o postulado seja polido, e isto não somente para o ja-
ponês! E mais, é necessário ter consciência do fato de que o
princípio e as máximas determinam toda ação cooperativa, e não
somente o ato lingüístico. E sobretudo é necessário saber que a
variedade na tipologia dos discursos consiste exatamente no jo-
go da aceitação e violação das máximas (por exemplo: violação
de uma máxima para se poder aceitar uma outra; ou violação
intencional de máximas para provocar um efeito estilístico como
a metáfora ou um tipo de discurso idiossincrático como a iro-
nia). Uma pressuposição metateórica desta doutrina das implica-
ções conversacionais é, com certeza, o caráter fundamental in-
tencional da linguagem e de toda ação: o ciclo da produção e do
reconhecimento das intenções define a própria essência da signi-
ficação, e a pragmática griceana tende a identificar a contextua-
lidade "accional" à intencionalidade inconsciente e interpessoal
da própria linguagem.
O impacto desta intencionalidade por intermédio das res-
trições conversacionais se faz sentir, como se sugeriu acima, no
domínio das modalidades e da distribuição dos quantificadores
correspondentes. Que a lógica mcxlal explore a segunda defini-
ção aristotélica da possibilidade - aquela que salvaguarda a
conversão complementar, a que favorece a exclusão mútua do
necessário e do possível por economia conversacional- indica a
penetração da pragmática até na esfera das modalidades de
existência; as opções das quais certos postulados sobre o eixo
epistêmico testemunham - entre outras a não-validade das con-
junções proposicionais seguintes: Eu sei que p e é possível que
p, e ainda: Eu sei que não p e é poss(vel que p - indicam que a

100
crença é contextual, que os postulados da lógica epistêmica são
em parte deduções de uma lógica conversacional. O estudo da
motivação contextual da lógica das atitudes proposicionais ainda
está por ser feits,, e seria interessante estudar sistematicamente o
impacto das máximas conversacionais - sendo elas próprias sis-
tematizadas e, se possível, formalizadas a partir das intuições de
Grice - sobre todos os postulados da lógica das atitudes propo-
sicionais. Se esta hipótese se verifica neste caso, poderia supor-
se, a fortiori, que ela seria válida para o domínio das modalida-
des ilocucionárias, em que os tipos de intencionalidade são ex-
plicitamente reconhecidos como formando a própria substância
das regras essenciais que constituem os atos ilocucionários. Se
se consideram as modalidades, investidas em unidades semiolin-
güísticas, poderia constatar-se, estou certo disso, que a comuni-
cabilidade, já constitutiva da estrutura elementar e do modelo
constitucional, se explicita progressivamente no decorrer da ex-
pansão do objeto semiótico: a comunicabilidade não é aliás se-
não um outro nome da intencionalidade interpessoal que sofre a
restrição das implicações conversacionais. Os esforços em
pragmática lingüística foram feitos no domínio das lexicaliza-
ções: os resultados são surpreendentes, talvez porque a distri-
buição das modalidades lexicalizadas constitui uma empiria su-
perlicial. É assim que o comportamento assimétrico da negação
dos lexemas possível e necessário foi estudado por Horn (1972);
esta assimetria não surpreende se se lembra que o necessário
tem um valor forte, enquanto que possível tem um valor axial
intermediário no eixo alético, e que possível, em uma das inter-
pretações de Aristóteles, só é ligado do lado do únpossível. A
assimetria, consistindo no fato, entre outros, de que o possível
se lexicaliza em toda uma série de categorias gramaticais e em
seqüências de extensão variável enquanto que o necessário s6 se
lexicaliza como adjetivo ou na paráfrase ter de, é pois conversa-
cionalmente motivado. Constata-se, aliás, em todas as esferas
modais, que os valores menos fortes se lexicalizam d~ uma ma-
neira mais caótica que os valores fortes. Um outro resultado diz
respeito à semelhança no comportamento sintático de modais le-
xicalizados de quantificadores e mesmo dos conectivos corres-

101
pondentes (todos == e; alguns == ora; nenhum === nem...
nem ... ).
O segundo tipo de restrições pragmáticas é oposto às má-
ximas na medida em que são verdadeiras convenções ou, como
diz Searle, de regras constitutivas e arbitrárias, cuja especifici-
dade (sobretudo as chamadas "regras essenciais") delimita tipos
de atos de linguagem. É claro que as regras constitutivas domi-
nam tanto o âmbito das modalidades proposicionais quanto o das
modalidades ilocucionárias: há que se lembrar que mesmo Von
Wright considera as modalidades deônticas como atos. A inten-
cionalidade é aqui, seguramente, plenamente assumida e tipolo-
gizada: não se trata mais desta intencionalidade anônima ani-
mando a comunicabilidade global da linguagem, mas de uma
intencionalidade convenciop.alizada e, num certo sentido, cons-
tituída por convenções lingüísticas. A contextualidade "accio-
nal" aqui é concretizada pelo triângulo (locutor, destinatário,
situação de troca) e pela dialética da intenção e do reconheci-
mento da intenção pelo canal de fragmentos lingüísticos cujo
suporte é a situação de troca. Sabe-se que todo sistema de regras
constitutivas é formulado em termos de condições sobre a per-
formance do locutor, e esta é sem dúvida uma fraqueza, senão
uma abordagem unilateral do ato ilocucionário. A questão de
saber se a força ilocucionária se esgota na performatividade, ou
se o operador ilocucionário é necessário em posição de embra-
yeur (em posição perfonnativa) não é sem pertinência para o
domínio das modalidades proposicionais e sobretudo semiolin-
güísticas. A crença epistêmica, que não é performativa (en-
quanto que a obrigação o é no sistema deôntico) poderia ser
abordada, parece-me, mais adequadamente por um sistema de
regras constitutivas bilaterais ou omnilaterais que neutralizem as
particularidades dos elementos do triângulo engajado na con-
textualidade "accional". Este desenvolvimento é impossível a
partir de Austin, onde o ato ilocucionário está ligado à fórmula
perfonnativa; é previsível em uma teoria dos atos de linguagem,
como a de Searle, em que a força ilocucionária é considerada
como um aspecto da significação gl~bal dos enunciados e não
mais como um operador-embrayeur. Compreende-se que este de-

102
senvolvimento abriria a possibilidade de tratar todo o domínio
das modalidades proposicionais como sendo dominado por res-
trições "convencionais" ou regras constitutivas. Por outro lado,
a lógica epistêmica - entre outras na obra decisiva de Hintikka -
e sobretudo a lógica alética não estão em condições de consa-
grar o postulado de existência do objeto lógico (Hintikka,
1969a), mesmo no quadro de uma lógica dos mundos possíveis
ou, no registro epistêmico, dos mundos "prováveis" e "não-
certos"; seria necessário encontrar estratégias para salvaguardar
ao mesmo tempo o postulado de existência e a especificidade
intencional das chamadas "referências pragmáticas". Não está
afastada a hipótese de que esta aproximação possa se fazer com
o auxílio da teoria dos modelos: o perigo seria evidentemente
que se sacrificaria a intencionalidade à existência, e a pragmáti-
ca à semântica, transformando a enunciação em um simples
ponto de referência. Uma teoria das mod&lidades ilocucionárias,
que seria despojada do primado da performatividade, é, ao con-
trário, perfeitamente conciliável com a axiologia das modalida-
des identificadas a certos tipos de paradigmas "accionais" dia-
Ietizados na interação comunicativa. Não é inconcebível que
uma lógica conversacional, por um lado, e uma "lógica" ilocu-
cionária, por outro - deduzindo dois sistemas de restrições dife-
rentes mas compatíveis - poderiam estender sua força explicati-
va sobre todo o objeto em questão: as isotopias modais e suas
interrelações complexas.

Ili

Conclui-se onde o verdadeiro trabalho deveria começar.


Não só o trabalho taxinômico e construtivista de descoberta e de
descrição, mas igualmente o verdadeiro trabalho. epistemológico.
O que :fiz não foi senão mencionar três problemas cuja extensão
coloca em jogo a própria possibilidade de uma teoria unificada
das modalidades.
Em primeiro lugar há o problema do estatuto da pragmática
em relação à semântica. Ninguém admitiria a dupla tese de uma

103
semântica transparente e livre de toda neutralização pragmática,
e de urna pragmática livre de qualquer restrição gramatical, sem
se perder nos falsos caminhos da dicotomização (entre outros,
de competência e performance). Trata-se aqui de uma distinção
operatória e heuristicamente interessante, ou de uma abstração
renegando a homogeneidade do próprio objeto? É claro, creio
eu, que se trata de duas metateorias da significação, urna refe-
rencial, outra intencional. As modalidades poderiam ser conside-
radas como a pedra angular em que as duas metateorias mani-
festam ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza. Todo processo
de integração metate6rico sendo ilusório, é necessário proceder,
sem dúvida, mais modestamente colocando em paralelo os sis-
temas de regras construídas independentemente no interior de
cada metateoria.
Um outro problema epistemológico diz respeito ao isomor-
fismo das isotopias modais. Urna gramática profunda das moda,-
lidades deve estar em condições de superpor isotopias modais e
de propor, eventualmente, sua história derivacional comum. A
pragmático-semântica dos modais lexicalizados leva necessaria-
mente às outras isotopias - neste sentido, o sistema lexicalizado
das modalidades é semântica e pragmaticamente dependente das
"isotopias profundas"? A superposição destas três "isotopias
profundas" revela em cada nível um excesso transcendente de
significação modal. O isomorfismo não parece pois senão par-
cial, mas não é por causa da imprecisão de nossos critérios de
generalização?

Isto nos leva ao terceiro problema, primordial para os se-


miolingüistas. Como dominar a expansão da estrutura elementar
das modalidades nos contextos discursivos cada vez mais englo-
bantes? Há que se lembrar dos deslocamentos semânticos que
efetuam a expansão das modalidades-predicado em modalidades-
proposição. As modalidades se encarnam em unidades discursi-
vas em topologia actancial, mas nem a noção de conotação nem
a de manifestação parecem dar conta adequadamente da expan-
são do modelo. Seguramente a expansão poderia ser justificada
por urna certa concepção metate6rica (filosófica) da linguagem,

104
a da comunicabilidade ou da natureza "accional" da linguagem.
Uma tal justificação, sabe-se, é perigosa: não é necessário justi-
ficar a ex1pru1sa.o invocando a natureza do objeto mas invocando
a força do método. Mas nenhum método, no que diz respeito às
modalidades, teve o poder de englobar todas as outras e não
tem, pois, estatuto privilegiado. Estas observações gerais', talvez
muito céticas, não fazem, seguramente, senão incitar a um tra-
balho comum de fil6sofos, lingüistas, 16gicos e semi6Iogos.

Tradução: Marco Antônio Escobar

105
Notas

1 A frase em franc& é R est possible des philosophes qu'üs soient des camé-
léons, cuja tradução correspondente em português seria: "É possível dos filósofos
que eles sejam camaleões". Esta tradução, no entanto, não tem o mesmo grau de
aceitabilidade em portugu&. Não me parece, no entanto, que a tradução dada em (c)
afete a argwnentação do autor (N. do T.).
2 A frase em franc!s éll est pos~ble (probable) des Belges qu'üs soient (sont) de
mauvais conducteurs. Cabem, neste caso, as mesmas observações referentes à nota 1
(N. doT.).
3 As frases em francês são: (11 a) .. Stanislas a dd acheter sa voitu:re hier";
(11 b) .. Stanislas a dO acheter sa voiture buer"; (11 b) .. Stanislas a dO acheter sa voi-
tu:re par l'intermédiaire de son ~re". Em portugubl não se pode usar o passado no
perfeito com o modal dever (N. do T .).
4 Em português, na variante considerada, o mais habitual 6 o uso do subjunti-
vo como o provável. Assim o uso do indicativo como o provável causa certa estra-
nheza. Afora esta ressalva, os fatos em português parecem sustentar a hipótese do
autor (N. do T .).
5 Em português há ainda a forma tem que (de), que não apresenta a ambigüi-
dade de deve (N. do T .).
6 O autor se refere aqui à relação do ingl8s com o francês (N. do T .).

106
AS ATITUDES PROPOSICIONAIS
E O CONTEXTO ACCIONAL

A contextualidade pressuposicional e a contextualidade


accional não são dois domínios distintos mas inspiraram duas
abordagens cuja tradição, em lógica e em filosofia da lingua-
bem estabelecida. Essas duas abordagens têm o mes-
mo ponto de partida: o problema da referência nas l:fuguas natu-
rais. É a partir de uma semântica formal, mas ultrapassando-a,
que categorias mais adequadas devem ser colocadas. Em uma
primeira etapa heurística, pode-se distinguir entre a contextuali-
dade pressuposicional que concerne à relação do discurso com a
realidade, e a contextualidade accional que concerne à relação
do discurso, de um sujeito falante e de uma realidade subjacen-
te. Os fragmentos discursivos não são modelados apenas pelo
contexto de uma certa realidade pressuposta, mas igualmente
pela presença de um enunciador ou de um "ator" (aquele que
faz com que o discurso seja uma atividade); essa presença-aqui
constitui precisamente a contextualidade accional. Uma das ma-
neiras de abordar o estudo desse tipo de contexto consiste na
análise e tipologia das atitudes proposicionais que as seqüências
discursivas testemunham. Como não temos a ambição da exaus-
tividade, será suficiente, ainda aqui, apresentar algumas amos-
tras que ilustram, de maneira exemplar, corno o tratamento
pragmático desses fenômenos é um desvio radical frente ao tra-

107
tamento semântico proposto há já bastante tempo pelos lógicos.
Minhas amostras concernem, de um lado, às modalidades e, de
outro, aos modos que, sem dúvida alguma, estão entre os efeitos
empíricos mais palpáveis da contextualidade accional do discur-
so e de suas "atitudes discursivas" ou "proposicionais". A
orientação de meu argumento será inspirada sobretudo pelos tra-
balhos de Searle (1977) no que concerne às modalidades, e de
Grice ( 1977) no que concerne aos modos.

A. As modalidades

Considero as modalidades, nessa seção, em um sentido


restrito: não se tratará nem do comportamento semântico (e
pragmático) dos verbos modais nem das modalidades semióticas
(especialmente as modalidades narrativas) ou macro-lingüísticas
no sentido de Greimas (ver· Parret, 1976, para a apresentação
desses tipos de modalidades). Falarei apenas das mc>0a110•~
que, como Kant já o havia observado, marcam toda prc:>pi:>s1.01111r1
o necessário, o possível, o impossível e o contingente (podemos
simplificar esse q~ádruplo e propor a oposição necessidade ver-
sus possibilidade como fundamental). Uma boa parte da lógica
contemporânea (exemplificada pela lógica epistêmica ou a lógi-
ca do saber e do crer, em Hintikka, 1962, entre outros) se per-
gunta, assim, como interpretar, sobre o eixo da necessidade-pos-
sibilidade, as proposições que dependem de um verbo que ex-
prime uma "atitude", como os verbos crer, querer, desejar, es-
perar, saber, e, por que não, simplesmente dizer (ou afirmar "a
verdade"). O problema é posto em termos muito claros por Qui-
·ne (1956) que, julgando que o eixo necessidade-possibilidade
não é válido e que assim não se pode liberar impunemente das
"cadeias da necessidade", declara o domínio das atitudes propo-
sicionais como extra-semântico. Ele coloca um belo paradoxo
que só fez fascinar os lógicos interessados nas línguas naturais.
Escapa-se ao paradoxo, ou valorizando o eixo necessidade-pos-
sibilidade, o que permite a semantização do. problema das atitu-
des proposicionais (entre outros, Hintikka, 1969b, e Kaplan,

108
1968)ou, então, elaborando uma pragmática das atitudes propo-
sicionais. Escolherei a segunda via. A atitude proposicional,
nessa perspectiva, depende inteiramente da contextualidade ac-
cional do discurso. Ela é de fato uma atitude do sujeito falante
~em situação de ação intersubjetiva com uma audiência. O.méto-
do consistirá, pois, não na fixação de um domínio sobre o eixo
necessidade-possibilidade de toda proposição que manifesta uma
atitude, mas em caracterizar a relação entre a atitude expressa na
proposição e a atitude do sujeito falante em situação de intera-
ção comunicativa. Numa primeira aproximação, poder-se-ia di-
zer que as atitudes de esperança e de crença manifestadas pelas
frases nominais em face das proposições subordinadas, em

1 . Dorotéia espera que Paulo não bata em sua mulher,


2 . As crianças de Paulo não acreditam que seu pai bata
em sua mulher,
só podem ser analisadas e explicadas em relação à atitude do lo-
curor em situação accional. Por conseguinte, seria preciso com-
pletàr ( 1 ) e ( 2 ) da seguinte maneira:

1 . . .. e eu, eu o espero também; mas eu, eu não o espero


absolutamente; mas isto me deixa indiferente etc.,
2 . ... mas eu, eu acredito; e eu também não acredito;
e/mas eu, eu não sei etc.
Veremos como essa interpretação pragmática das atitudes
proposicionais requer o abandono da lógica puramente extensio-
nal.
A valorização da intencionalidade, para a explicação das
atitudes proposicionais, será ao mesmo tempo uma valorização
da lógica intensional. É só nesse quadro lógico que as modali-
dades não são obrigatoriamentejulgadas sobre o eixo da neces-
sidade.
As modalidades podem ser caracterizadas, assim, como
modalidades intencionais ou, como Searle (1977) preferiria, ilo-
cucionais.

109
1 . Os referentes opacos como domínio extra-semântico

O surgimento do "paradoxo epistêmico" em Quine (1956)


é um excelente ponto de partida para a discussão que concerne
às atitudes proposicionais. A quantificação é o problema central
de uma semântica que se limita à análise das expressões lingüís-
ticas ontologicamente engajadas. O paradoxo não concerne,
pois, de forma alguma, expressões como

3 . Ctesias caça unicornes,

uma vez que simplesmente não há unicornes, devido a uma "la-


cuna zoológica", nem, a fortiori

3'. Ctesias crê (ou espera) caçar unicomes,

nem expressões cujo sentido é "nocional", segundo o termo de


Quine:

4. Ralph crê que há opções:


4'. Ralph crê que ( 3 x) (x é um espião);
5. Witold deseja que haja um presidente:
5'. Witold deseja que ( 3 x) (x é presidente).

O paradoxo só surge quando o sentido é "relacional": a


variável nesse caso é ligada pela existência de um indivíduo
particular como em

6 . Ralph crê que x é um espião:


6'. ( 3 x) (Ralph crê que x é um espião);
7 . Witold deseja que x seja presidente:
7'. ( 3 x) (Witold deseja que x seja presidente).

Fazendo assim uma distinção radical entre o sentido no-


cional e o sentido relacional de uma frase subordinada depen-

110
dente de um verbo modal, Quine afirma que o referente, no sen-
tido relacional, permanece "opaco", por conseguinte, que (6') e
(T) são logicamente malformados: é paradoxal, para Quine,
quantificar no interior de uma frase dependente de um verbo
modal, ou, o que dá no mesmo, ligar existencialmente (e ao ex-
terior) referentes que são. por natureza opacos pois estão sob o
alcance de uma modalização. Essa tese é bastante conhecida pa-
ra que se a desenvolva mais. Não se insistirá mais, também, so-
bre o tratamento quineano das duas soluções que se rejeitam
como ilusórias (a explicação dos contextos opacos pelas inten-
sões ou sentidos fregeanos, e a explicação pela aceitação de uma
certa convencionalidade lingüística ligando os referentes opacos
a fragmentos lingüísticos reconhecidos como manifestando con-
vencionalmente a existência desses referentes). Somente o
exemplo e sua importância argumentativa interessar-me-á no que
segue.
Um homem de chapéu marrom é visto diferentes vezes por
Ralph em circunstâncias duvidosas, e Ralph suspeita que ele
seja um espião. Há também um homem de cabelos grisalhos, co-
nhecido por sua respeitabilidade, que Ralph só viu uma vez na
praia. Ralph não sabe que esses homens são uma única pessoa.
Pode-se dizer desse homem (Quine lhe dá o nome de Bernard J.
Ortcutt) que Ralph acredita-o um espião?

8 . Ralph crê que o homem de chapéu marrom é um es-


pião;
9 . Ralph não crê que o homem que ele viu na praia é um
espião.
Se se aceita ao mesmo tempo (8) e (9), deixa-se de afirmar
qualqu& relação entre Ralph e o indivíduo particular existente
no mundo, e (6') não é o sentido "relacional" de (8). Pode-se
formular o paradoxo da seguinte maneira. Distingamos duas in-
terpretações da crença de Ralph. A crença 1 não aceita a conjun-
ção de (8) e (9), ou

10. w crê que p, e w nega sinceramente que p,

111
mas ela mantém (8) e (9) à parte, eliminando assim a representa-
ção (6'). A crença2 tolera (10) e aceita (6'), mas, nesse caso, é
preciso rejeitar (9); Ralph crê2 que o homem da praia é um es-
pião, visto (6'), mas ao mesmo tempo, ele não crê2 (e, a fortiori,
ele não crêi), visto (9). A crença 1 nega que (8) e (9) referem
a indivíduos, o que implica que "o homem de chapéu marrom" e
"o homem da praia" não teriam denotação, o que é absurdo.
A crença2 de Ralph é contraditória pois se diz de Ralph
que ele crê, visto (6'), aquilo que ele não crê, visto (9). O que
essa desventura ensina é claro, segundo Quine: é preciso aceitar
· a opacidade dos referentes que se encontram sob o alcance de
uma modalidade, ou inversamente, não se pode quantificar do
exterior para a seqüência modalizada de um enunciado.
Muitos filósofos-lógicos não estão dispostos a reconhecer
tão prontamente os limites da semântica extensional em face das
seqüências modalizadas dos enunciados, e a expulsão quineana
da referência opaca para fora da semântica não é sempre aceita
de bom grado. '
A solução intensional, do tipo fregeano ou do tipo inten-
cional (solução que favoreço), não é levada a sério pela maior
parte dos adeptos da semântica extensional (tarskiana).
Davidson (1968) minimiza as dificuldades a propósito das
seqüências modalizadas, identificando essas seqüências a frases
subordinadas no discurso indireto (oratio obliquo) em geral. A
estrutura semântica de ( 6) é, assim, idêntica à do enunciado
( 10), onde se refere indiretamente à existência de uma proprie-
dade, não de um indivíduo:

11 . Galileu disse que a terra se move.

Isso me parece muito contestável, sobretudo se se olha de


mais perto a "forma lógica" que Davidson propõe para todas as
seqüências do discurso indireto. Parece claro que a exigência de
equivalência extensional é obedecida no caso da paráfrase subs-
titutiva

112
11 '. A terra se move, ( 3 x) (O enunciado x de Galileu e
meu enunciado "a terra se move" faz de nós equi-lo-
cutores ( samesayers ) .

Mas a equivalência extensional não é mais garantida desde


que o modalizador é epistêmico (ou é um verbo "psicológico")
como em

1 la . Galileu acreditou que a terra se move,

cuja paráfrase é

1 la'. A terra se move, ( 3 x) (A crença x de Galileu e meu


enunciado "a terra se move" faz de nós dois equi-
locutores).

O argumento conta, a fortiori, para outros modalizadores


mais fortes como esperar, desejar, etc. Essa paráfrase é clara-
mente não-equivalente precisamente pela razão que Quine evoca
que concerne às atitudes proposicionais: não se atribui domínio
(não se efetua predicação) do exterior para a seqüência modali-
zada (aqui, o domínio da crença de Galileu). A técnica davidso-
niana reduz-se, no fim das contas, a uma solução particular para
o problema da equivalência lógica. Davidson só afirma que a
equivalência lógica entre (12) e (13)

12 . A terra se move,
13 . É verdade que a terra se move,

não é diferente da relação entre uma frase independente como


(12) e essa mesma frase encaixada no discurso indireto como

14 . Galileu diz que a terra se move,

desde que o locutor se engaja na verdade da frase encaixada e


que ele aceita tornar-se equi-locutor. Essa intuição de Davidson
é muito interessante e vai, num certo sentido, na direção de meu

113
próprio argumento: que a atitude proposicional é de fato a atitu-
de de um locutor em situação de interação comunicativa. Mas na
formulação de Davidson (ver 11') cuja motivação permanece pu-
ramente extensional, a extrapolação do discurso indireto, cujo
operador é di.z que análogo a é verdade que (desde que o locutor
se propõe como equi-locutor do sujeito de diz que) em direção
às verdadeiras atitudes proposicionais, com modalizador epistê-
mico (ou "psicológico"), não é mais válida. Entretanto, será
preciso retomar a idéia frutífera de equi-locutor, mas no quadro
de uma aproximação intencional das modalidades (ver item 3).

2 . A semantização das modalidades

O fatalismo quineano e sua impotência diante do dilema


que ele reconstrói com tanta coerência são interpretados, com
razão, por certos lógicos, como a conseqüência do fato de que
nenhuma teoria do discurso modalizado é realizável se não se
aceita uma certa complexidade suplementar da relação com
o denotatum no caso de uma atitude proposicional (a.), e, além
disso, se não se aceita a validade do eixo necessidade-possibili-
dade para a explicação dessa (b .). Ainda que a semantização
das mcxlalidades não seja a via que proponho, é preciso de toda
forma, apresentar essa poderosa opção.

a . A relação que caracteriza uma atitude proposicional


não é diádica (relação entre uma expressão e uma denotação)
mas triádica (relação entre a expressão lingüística, um sujeito
nominal portador da atitude proposicional, e uma denotação).
Voltando ao exemplo de Quine que descreve a impossibilidade
de uma quantificação no caso de uma crença "relacional" (não
uma crença nocional), uma parte da solução consistirá na intro-
dução de uma maior complexidade na relação "crença": essa
maior complexidade é devida a uma certa reconstrução "episte-
mológica" do sujeito nominal que crê, no caso, Ralph. É preciso
notar inicialmente que essa complexidade não tem nada a ver
com a atitude do locutor da frase, como era o caso em Davidson,

114
introduzindo a noção interessante de equi-locutor, que nos leva-
ria precisamente na direção de uma pragmática das modalidades
(se o laço com a exigência extensional tivesse podido serdes-
feito adequadamente).

Kaplan (1968), sem também jamais trair o extensionalismo


e sem ultrapassar os limites imanentes do enunciado, oferece
belos argumentos em favor dessa complexidade. Denotar é dar
um nome, mesmo e sobretudo quando o referente arrisca ser
opaco como no caso em que está encaixado no complemento de
um verbo "psicol6gico". Dar um nome é precisamente uma re-
lação triádica, definida pelo sujeito nominal que dá o nome, o
próprio nome e o denotatum. Kaplan distingue entre o conteúdo
descritivo do nome e seu "caráter genético". Esse segundo as-
pecto, que é de uma preponderância extrema nas frases que ex-
primem uma atitude proposicional, é determinado pela cadeia
causal de acontecimentos que provoca a produção do nome, no
sujeito nominal da atitude proposicional. O nome é uma imagem
( picture ), uma representação de um indivíduo, e é claro que o
próprio indivíduo tem um papel considerável na cadeia causal
que leva à produção do nome-imagem-representação. Entretanto,
um nome padrão onde o indivíduo denotado monopoliza a histó-
ria causal inteira· está oposto ao nome vivo ( vivi.d name) que,
como no caso das atitudes proposicionais, "representa" a histó-
ria interna da individuação da atitude proposicional no sujeito
nominal. É, justamente, elaborando toda uma epistemologia
d' "aquele que dá um nome vivo a um indivíduo denotado" que
Kaplan se esforça em escapar ao dilema quineano. Dizer que
"Ralph crê saber quem é Ortcutt" é dizer que Ralph situa Ort-
cutt entre os "caracteres" importantes de sua história interna:
Ralph crê uma proposição da forma [ a Ortcutt] onde a é
um nome vivo. Kaplan propõe como solução ao dilema quineano
que a quantificação do exterior para o complemento, sob o al-
cance de um verbo que exprime uma atitude proposicional, seja
válida se o indivíduo denotado é um caráter ou uma imagem in-
terna representados por um nome vivo. Para excluir uma liber-
dade incontrolada que incitaria a incorporar mesmo "imagens

115
alucinatórias", é preciso impor condições cuja principal é que
o: deve denotar o indivíduo x (se bem que a relação denotativa
é epistemologicamente complexa uma vez que a não é um no-
me padrão mas um nome vivo). A relação denotativa ("dar um
nome") é precisamente triádica (ou uma relação entre Ralph~ um
nome e um indivíduo) se se elabora a seguinte definição da re-
presentação (caracterizando todas as proposições):

15 . a (o nome) representa x (o indivíduo) para Ralph R


(a, x, Ralph) = def. (1) a denota x, (2) a é um
nome de x para Ralph, e (3) a é um nome vivo.

A relação Crença

16 . Ralph crer ("x é um espião", Ortcutt),

escapa à contradição da conjunção (10), firmemente condenada


por Quine.

10. Ralph crê que p (8), e Ralph nega sinceramente que


p (9).

se 16 . é analisada em ( ~ para "relação denotativa"):

17. 3 a [ ~ (a, Ortcutt) /\ Ralph crer ( a é um es-


pião)].

que, segundo a-definição (15), significa afinal de contas:

18 . 3 a [R ( a , Ortcutt, Ralph) /\ Ralph crer ( a é um


espião)].

b ) Este tratamento inteligente que consiste em reformar a


atitude proposicional em relação triádica ( ou complexa, em
analogia com a função "dar um nome") é perfeitamente compa-
tível, e mesmo complemenuµ-, com uma segunda estratégia que
leva à semantização das modalidades. Hintikka (sobretudo

116
1969b), entre outros defensores da lógica modal e da teoria dos
modelos, sempre atribuiu os dilemas na posição de Quine, so-
bretudo no que concerne as atitudes proposicionais, à impotên-
cia de uma lógica de primeira ordem que só produz frases quan-
tificadas apenas a partir das reforêncías de seus termos singula-
res e das extensões de seus predicados. A linguagem ordinária
não pode ser reduzida a essa forma canônica de uma linguagem
de primeira ordem. Nossas intuiçres lingüísticas nos asseguram
que o discurso não é de primeira ordem, pois a compreensão de
un1a seqüência discursiva não consiste somente no conhecinlento
de sua interpretação no mundo atual. Compreender e interpretar
as seqüências discursivas que estão sob o alcance de um verbo
"psicológico" (saber, crer, esperar, desejar) pressupõe que se
considerem várias possibilidades que concernem o mundo ou,
para empregar a terminologia da teoria dos modelos, vários
mundos possíveis. Evita-se o dilema a propósito das atitudes
proposicionais se se aceita, contrariamente a Quine, o eixo ne-
cessidade-possibilidade, e se a quantificação exterior projetada
na seqüência subordinada do verbo psicológico é uma quantifi-
cação cujo domínio é um mundo possível. Atribuir uma atitude
proposiciona ao sujeito nominal do verbo psicológico consiste
na divisão de todos os mundos possíveis em duas classes: os ·
mundos possíveis que concordam com a atitude em questão, e os
mundos possíveis incompatíveis com ela. Conseqüentemente, as
paráfrases seguintes são válidas:

19 . w ! crê I que p = em todos os mundos possíveis


compatíveis com o que w j crê I, dá-se o caso que
p; w não l crê ! que p (no sentido "não se dá o caso
que w j crê I p") = em pelo menos um mundo possí-
vel compatível com o que w ! crê 1, não se dá o caso
quep.
Esse desenvolvimento permite generalizar a exigência de
engajamento ontológico, central em Quine, uma vez que a con-
dição de verdade de urna seqüência compreende agora a quanti-
ficação sobre um certo conjunto de mundos possíveis. As con-
seqüências dessa generalização são importantes: uma constante

117
individual sob o alcance de um modalizador que exprime uma
atitude proposicional não deve especificar um indivíduo único,
mas _pode especificar um indivíduo em cada um dos mundos
possíveis em consideração. Não há pois "referentes opacos" se-
não nas linguagens de primeira ordem, e basta desenvolver téc-
nicas de quantificação com a ajuda da teoria dos modelos para
neutralizar o dilema quineano evocado mais acima. As dificul-
dades são consideráveis, sobretudo se se aborda o problema da
equi-identificação ( cross-identification) dos indivíduos nos di-
ferentes mundos possíveis. Mas elas não são insuperáveis, nos
asseguram os defensores da teoria dos modelos. Uma das técni-
cas preferidas é a de substituir os conceitos individuais por fun-
ções individualizantes capazes de identificar os indivíduos nes-
ses mundos possíveis diferentes e capazes, além disso, de afir-
mar sua identidade. A constante individual b sob o alcance do
modalizador deve ser associada a uma função/, membro de um
conjunto F de funções individualizantes, e esta é a única exi-
gência para que a seqüência discursiva que comporta o modali-
zador tenha um valor de verdade ( w = sujeito nominal; MOO =
mcxlalizador; µ = mundo possível):

20. Uma seqüência discursiva de forma ( 3 x) w


MOO (x) é verdadeira em µ se e somente se há uma constante
individual b, associada a f E: F de modo que MOO (b) é ve.rda-
deira emµ .
Vemos, pois, como os dois tipos de semantização das mo-
dalidades são complementares. Transcendem o ceticismo qui-
neano, um pela complexificação de MOO (em Kaplan), o outro
pela introdução de uma relação sofisticada da constante indivi-
dual b com o indivíduo x. Esses dois tipos têm, é claro, a mesma
conseqüência: as seqüências modalizadas reencontram um valor
de verdade.

3 . A abordagem pragmática das modalidades

Os semanticistas têm, no domínio das atitudes proposicio-


nais, uma motivação comum: a de não atribuir nenhuma força

118
explicativa à contextualidade accional, e de não introduzir, em
nenhum caso, variáveis contextuais das quais a mais importante
é o locutor em interação comunicativa. Essa orientação pragmá-
tica propõe, entretanto, uma alternativa séria para as teorias se-
mânticas que acabamos de evocar brevemente (ver Searle,
1977). Retomemos o exemplo, utilizado por Quine, para ilustrar
o dilema: se (8) e (9) não podem estar conjugados em (10), en-
tão (6') não é nem mesmo válido.
O dilema surge s6 no caso de uma "crença relacional",
expressa por (6) e não no caso de uma "crença nocional", ex-
pressa por (4). Essa distinção que Quine não coloca mais em
questão, prosseguindo a análise da "crença relacional", poderia
estar na própria origem do dilema. Suponhamos que a distinção
concerne de fato duas maneiras que o locutor da seqüência dis-
cursiva (e não o sujeito nominal da frase) pode utilizar para re-
latar uma crença. O primeiro tipo de relato, que chamamos "re-
latar relacionalmente", engaja o locutor em aceitar a existência
do indivíduo sob o alcance do modalizador. O segundo tipo de
relato, que chamamos ''relatar nocionalmente'', não exige esse
engajamento da parte do locutor que pode, assim, permanecer
neutro. Do ponto de vista do sujeito nominal, não há, nessa hi-
p6tese, nenhuma distinção entre suas "crenças relacionais" e
"nocionais" como em

21 . Eu creio que o homem da praia não é um espião,

onde Ralph · exprime suas próprias crenças. Se n6s relatamos a


crença de Ralph sob a forma de

22 . Ralph crê que o homem da praia não é um espião,

n6s nem mesmo nos engajamos em que haveria alguém na praia,


como na forma relacional

23 . ( 3 x) [Ralph crê z (z não é um espião) de x],

mas somente em

119
22' .. Ralph crê ( 3 x) (x não é um espião).

Mas Ralph não vê em (21) a dupla interpretação


21'. Do homem da praia, eu creio que ele não é um espião
(correspondente a 23), e

21". Eu creio do homem da praia que ele não é um espião


(correspondente a 22 ').

A questão de suma importância para a teoria pragmática


das atitudes proposicionais é, então: por que o locutor pode dis-
tinguir entre as interpretações (22") e (23), enquanto que o su-
jeito nominal não distingue entre (21') e (21'')? A resposta é que
em (22) o locutor relata (repete) o conteúdo proposicional global
sob o alcance da crença de Ralph, o que não engaja o locutor na
existência do indivíduo mencionado. Seria diferente na variante

22". Do homem da praia, Ralph crê que ele não é um es-


pião,

onde a referência ao indivíduo é claramente a do relator-locutor.


Em (22"), a existência do indivíduo está sob o alcance da cren-
ça do locutor. Em (22), ela está sob o alcance da crença de Ral-
ph. Quando, ao contrário, Ralph relata suas próprias crenças em
(21), não poderia distinguir entre (21 ') e (21 ").
A distinção entre

24 . ( 3 x) (Creio que x é um espião), e


25 . Creio ( 3 x) (x é um espião),
existe sempre, mas não temos necessidade das noções de "cren-
ça relacional" no caso de (24) e "crença nocional" no caso de
(25), para explicá-la. É preciso, simplesmente, admitir que (23)
e (24) não podem relatar uma crença global da parte de Ralph
em (23), e do relator em (24). Para que um indivíduo específico
faça parte de uma crença, é preciso que ele seja representado

120
como indivíduo: a existência do indivíduo deve-se encontrar sob
o alcance do modalizador sob a forma de uma representação
(simbolizada aqui como xFx), como em

26. Ralph crê (xFx /\ x é um espião), e


27. Creio (xFx A x é um espião).
(26) - (27) significam simplesmente que Ralph/eu mesmo
cremos na existência de espiões, e a diferença entre uma crença
não-especificada (cremos na existência de espiões) e uma crença
especificada (cremos na existência de um certo espião). Nos
dois casos, a crença é globalmente relatada. No caso em que a
quantificação está fora do alcance do modalizador, como em
(23) e (24), a crença não é globalmente relatada: só o predicado
é relatado pois s6 a parte predicativa está sob o alcance do mo-
dalizador. Não há, pois, dois tipos de crenças (relacional e no-
cional), mas dois tipos de relatar crenças: um relato global (de
uma crença especificada ou não-especificada) quando o quanti-
ficador está sob o alcance do modalizador, e um relato frag-
mentário quando o quantificador está fora do alcance do modali-
zador. A atitude proposicional é a atitude do locutor-relator e
não a atitude do sujeito nominal.
Como interpretar, conseqüentemente, o dilema quineano?
O dilema some se se aceita que, no relato global, o locutor re-
pete a proposição inteira, e no relato fragmentário, só a parte
predicativa é repetida pelo locutor que refere ele próprio ao in-
divíduo mencionado pelo sujeito nominal. O locutor pode dizer
sinceramente

28 . Ralph crê de Ortcutt sob uma certa descrição que ele


não é um espião, e ele crê de Ortcutt sob uma outra
descrição que ele é um espião,

o que implica

29 . Ralph crê de Ortcutt que ele é e não é um espião


(compare à ( 1O) de Quine).

121
Isso não é contradit6rio: Ralph crê em dois predicados in-
consistentes, é verdade, mas é o locutor que exerce o ato de re-
ferir ao indivíduo Ortcutt, mencionado por Ralph. Daí, ainda
que os predicados sejam inconsistentes, sua crença expressa em
(28) não o é. Não é Ralph que refere ao indivíduo Ortcutt; é o
locutor que o faz, relatando ao mesmo tempo uma proposição
fragmentária, notadamente a parte predicativa. (10) é contraditó-
ria, mas (29) não o é. Está claro, agora, que a distinção entre
"crença nocional" e "crença relacional" é responsável pelo di-
lema. Os exemplos (3), (5) e (7) o demonstram com a mesma
evidência. Comparemos

30 . Eu quero (desejo) uma almofada,

a (3). Quine diz que (30), assim como (3), (5) e (7), é ambígua:

30'. Eu quero ( 3 x) (x é uma almofada e eu tenho x);


(nocional)
30". ( 3 x) (x é uma almofada. Eu desejo ter x). (relacio-
nal)
Assim como (23) e (24), e os exemplos mencionados por
Quine, (30") relata uma proposição fragmentária, um estado
psicol6gico do sujeito relator de seu próprio estado psicológico.
Relatar implica representar. E uma vez que o eu-sujeito e o eu-
relator são uma só e mesma pessoa, a proposição global (o esta-
do psicológico global) consistirá em um desejo e em uma crença
(xFx é uma representação; ver mais acima):

31 . Eu creio (xFx) e eu desejo [(eu tenho x) x].

Uma conclusão intermediária pode ser formulada nesse


ponto. Toda seqüência discursiva que exprime uma atitude pro-
posicional comporta um sujeito nominal que se diz estar na ori-
gem da ação psicol6gica, e ela é ao mesmo tempo o resultado de
um ato de linguagem da parte de um eu-relator. Dois tipos de
relação entre o sujeito nominal e o eu-relator se revelam possí-
veis.

122
1 . O eu-relator não pode ser identificado ao sujeito nomi-
nal w.

a ) crmnr:1.arno:s, nesse caso, a crença do sujeito nominal,


uma crença especificada quando o relato da crença é fragmentá-
rio (somente a parte predicativa é relatada). É o Eu-relator que
exerce o ato de referência: a quantificação do indivíduo se faz
no exterior da proposição objeto da crença. Isto constitui a solu-
ção do dilema quineano.
32 . Ralph crê do homem de chapéu marrom que ele é um
espião, que significa
32'. Do homem de chapéu marrom, Ralph crê que ele é
um espião:
32". ( 3 x) [Ralph crê z é um espião) de
32'". TIPO I, VARIANTE A: ( 3 [MOD, w, z (x)].

b) Chamamos a crença do sujeito nominal uma crença


não-especificada quando o relato da crença é global (toda a pro-
posição sob o alcance do modalizador é relatada). O ato de refe-
rência não é exercido, mas relatado: a constante individual não é
individuada ao curso da quantificação, mas ela é representada
como parte da proposição sob o alcance do modalizador.

33 . Ralph crê que o homem de chapéu marrom é um es-


pião:
33'. Ralph crê /1. z (zé um espião) de x],
33". TIPO I, VARIANTE B: MOD w, z
2. O Eu-relator se identifica com o sujeito nominal w.
Uma vez que o relato não pode ser global, o indivíduo não está
presente na proposição sob forma de uma representação. Quan-
do se "trata de uma atitude proposicional, não de um ato de lin-
guagem referência é a condição essencial de satisfação, não
haverá nunca uma quantificação da seqüência discursiva, o que
quer dizer que o Eu-relator= sujeito nominal não realiza nunca
um ato de referência. contrariamente a

123
34 . , Eu digo, eu afirmo, eu quero I que o homem de cha-
péu marrom é um espião,

que significa

34'. ( 3 x) (x é o homem de chapéu marrom A x é um es-


pião),
a seqüência discursiva que exprime uma atitude proposicional
(cuja classe forma exatamente esse grupo de atos de linguagem
que não implicam um ato de referência) não estará nunca sob o
alcance de uma quantificação.
É assim que

35 . Eu creio que o homem de chapéu marrom é um espião

significa

35'. Eu creio [x.Fx A_ z (zé um espião) d~ x] ou


35". TIPO II, VARIANTE A: MOO Eu, z (x.Fx).
Acrescentemos que para toda atitude proposicional, dife-
rente de crer, deve ser juntada à notação uma representação do
objeto da atitude proposicional, como se vê em (31). Isto é ab-
solutamente coerente uma vez que o objeto do desejo, da espe-
rança, da expectativa, etc., só pode estar presente para o eu-re-
lator sob a forma de uma representação (e não como existen-
ciahnente presente). Segue-se que
36 . Eu desejo que o homem de chapéu marrom seja um
espião

significa

36'. Eu creio [z (xFx)] e eu desejo z (x), ou


36". TIPO II, VARIANTE B: MODo Eu, z
[x (xFXMODcR)], onde MODo é desejar e MODcR
é crer.

124
Convém, ainda, generalizar os resultados (32"') e (33") do
TIPO I (onde o Eu-relator e o sujeito nominal não são identifi-
cáveis) perguntando-se o que quer dizer exatamente que o lo-
cutor de uma seqüência discursiva relata seja globalmente seja
fragmcntariamente a proposição sob o alcance do verbo psicoló-
gico. A questão é, pois, determinar que aspecto da significação
encaixada na subordinada é repetido pelo locutor. Para discutir
esse problema teoricamente, empresto o exemplo (37) a Searle
(1977):
37 . O inspetor de polícia crê que Mr. Howard é um ho-
mem honesto.
Sendo um caso TIPO I, VARIANTE A, o relator refere a
Mr. Howard e repete fragmentariamente a proposição (de fato,
sua parte predicativa): o locutor afirma pois a existência do refe-
rente mas não afirma seu predicado que é s6 relatado. Eis por-
que as propriedades lógicas de

38 . Mr. Howard é um homem honesto

não são preservadas em (37). Revela-se agora que o relator, que


"repete" (globalmente ou parcialmente) a proposição, se engaja
diferentemente: poderíamos dizer que há uma gradação de en-
gajamento do relator no que ele relata, como o mostram clara-
mente os exemplos seguintes:
39 . O inspetor de polícia pronunciava as palavras:
"Mr. Howard é um homem honesto",
40 . O inspetor de polícia dizia que Mr. Howard é um ho-
mem honesto,
41 . O inspetor de polícia dizia, e eu cito: "Mr. Howard é
um homem honesto",
42 . O inspetor de polícia dizia então e eu o digo também
agora que Mr. Howard é um homem honesto.

Se se aceita, sem introduzir dificuldades teóricas quanto


aos diferentes tipos de atos de linguagem, a distinção austíniana

125
entre ato de enunciação (a), ato proposicional (b) e ato ilocucio-
nal (e), poder-se-ia dizer seguindo suas pr6prias intuições que o
engajamento do relator vai em linha ascendente de (a) a (e). Re-
pete (a) e não (b) e (c) em (39), (b) e não (a) e (c) em (40), (b) e
(c) e não (necessariamente) (a) em (42). Repetir os três tipos de
ato ao mesmo tempo se revela muito excepcional na linguagem
ordinária; um exemplo seria

43. Como Dorotéia dizia, "Mr. Howard é um homem ho-


nesto".
Repetir um certo aspecto da significação ou um tipo parti-
cular do ato do conjunto (a) - (c) significa o engajamento do lo-
cutor nesse aspecto ou nesse tipo. O resíduo da significação ou
do conjunto é simplesmente relatado. Utilizando essa oposição
entre repetir (e se engajar) e relatar (sem se engajar), diremos
que em (32"') o ato de referência como sub-ato do ato proposi-
cional (b) é repetido (e, pois, efetivamente realizado) o que re-
sulta em uma quantificação existencial efetiva, enquanto que o
ato de predicação, outro sub-ato do ato proposicional (b) é s6
relatado. É claro que o que me importa, sobretudo, com essa
análise não é tanto o mecanismo da repetição versus relato para
seqüências assertivas como (39) - (42) mas antes sua importân-
cia para as seqüências que exprimem uma atitude proposicional,
como (37): aliás, já sabíamos que o locutor não se engaja (ou
repete) em todos os aspectos do conteódo proposicional, e que
uma parte desse conteúdo é s6 relatada ("gratuitamente", por
assim dizer). Mas parece-me importante perceber que a solução
(32'") proposta, concernente ao dilema de Quine, não faz outra
coisa que confirmar um fenômeno bem mais geral, atuando nas
línguas naturais: que o locutor não se engaja necessariamente
(globalmente) no discurso relatado nem, a fortiori, na atitude
proposicional relatada. A solução (32 "') para seqüências da
forma (37) é, de fato, um caso especial da análise de (40) onde o
ato proposicional é repetido (e efetuado) pelo locutor mas o ato
ilocucional é s6 relatado. Quando transformamos dizer em crer
(de (40) a (37) ), é preciso, ainda,•sofisticar a fórmula. Em (37)
- e isto é, sem dúvida, similar para todos os espécimes de atitu-

126
des proposicionais - relata-se o ato ilocucional e o sub-ato de
predicação, e efetua-se (ou repete-se) o sub-ato de referência. A
pragmática das atitudes proposicionais relatadas - repetidas é,
pois, apenas um ramo da pragmática do discurso relatado - re-
petido.
O propósito, que acabo de desenvolver em favor de uma
análise pragmática das modalidades, consistia, essencialmente,
em colocar em evidência a presença do locutor em situação de
interação comunicativa no enunciado que exprime uma atitude
proposicional. Avancei, sobretudo, demonstrando que o dilema
de Quine encontra sua solução no quadro de um tal propósito.
Considero que a semantização desses problemas propõe solu-
ções ilusórias, ainda que heuristicamente interessantes, ou que
empobrece os fenômenos. Entretanto, é de todo evidente que
minhas análises incoativas devem ser continuadas para reforçar
o poder da opção teórica geral e para demonstrar seu valor em-
pírico. Assim, considero a análise proposta como uma amosLra
pequena mas representativa da topografia sistemática da prag-
mática.

B. Os modos
Meu segundo exemplo de a,_,.álise da linguagem-em-con-
texto concerne os modos e, em particular, o interrogativo. Ateo-
ria dos atos de linguagem (Searle, 1969) oferece urna abordagem
muito cm1i."lecida da asserção, da ordem e da questão, e a relação
complexa desses atos de linguagem com os modos indicativo,
imperativo e interrogativo é cuidadosamente estudada em traba-
lhos mais recentes (ver entre outros Searle, 1976). Ma5 são, an-
tes, as sugestões de Grice (1977) que serão brevemente apre-
sentadas aqui (B.1.), e que colocarei em contraste com temias
potentes mas fundamentalmente errôneas, desenvolvidas segun-
do as linhas da semântica dos modos (B.2.).
1 . A pragmática dos modos

A significação lingüística é a intencionalidade accíonal do


discurso: o discurso é um processo de coordenação racional das

127
intenções e de sua recognição. Pcxleríamos dizer, conseqüente-
mente, que todo tipo de fragmento discursivo, de qualquer mcxlo
que ele seja, é governado pelos operadores (de alcance global)
racionalidade, coordenação e interpre"tabilidade (a canonicida-
de da produção e da recognição das intenções). Veremos mais
tarde que o sistema de operadores forma um sub-sistema de re-
gularidades pragmáticas, chamadas "princípios da dedução
pragmáticos". A presença desses operadores toma as frases
aceitáveis e sua ausência as degenera em frases inaceitáveis.
Acei"tabilidade é um primitivo "psicológico", analisável em duas
espécies: Q-acei"tabilidade (querer) e J-aceitabilidade (julgar),
correspondente a duas atitudes psicológicas as mais prototípicas,
uma alética ou teórica "pensar/julgar que", e outra "prática"
"desejar/querer que". Segundo a teoria intencional da ação dis-
cursiva, todo fragmento discursivo é dominado, conseqüente-
mente, pelos seguintes operadores:

44 . Q/J aceitabilidade [interpretabilidade, coordenação,


racionalidade].

Esses operadores gerais devem ser distinguidos dos opera-


dores modais, específicos aos tipos de fragmentos discursivos. A
fórmula geral (44) s6 dá a significação de: L (ocutor) enuncia p
ao I (nterlocutor), que é preciso detalhar introduzindo o tipo
mcxlal do enunciado:

45 . L enuncia a I um enunciado da forma [M + p], se ...

(sendo Mo modo e p o radical ou o conteúdo proposicional). O


modo expresso nessa cláusula principal requer sua especificida-
de segundo as condições retomadas no antecedente se. Combi-
nando as duas espécies Q-aceiwbilidade, chamada a partir de
agora "volitivo" e simboliza por !, e J-aceiwbilidade, chamada
"judicativo" e simbolizada por r--, com os modos indicativo,
imperativo e interrogativo, podemos construir o conjunto (46) de
tipos de antecedentes se (ou de condições subjacentes da especi-
ficidade dos modos). O antecedente consiste (a) no preâmbulo

128
idêntico para todos os modos, (b) em um suplemento nos casos
B dos quatro tipos possíveis, (e) em um diferencial, e (d) nora-
dical ou no conteúdo proposicional, pressuposto idêntico em to-
dos os casos. A diferença A/B não é necessariamente marcada
por uma diferença sintática nas línguas naturais. Nos casos A, o
suplemento está ausente, enquanto que nos casos B, está pre-
sente, juntando um elemento volitivo suplementar a I. Os exem-
plos (47) e (48) tomarão a diferença A/B mais clara.
46 . L enuncia a I um enunciado [Mi+ p], se ...

Preâmbulo Suplemento Diferencial Radical Tipc modal

LA Lquerque I - julga p 1- A Judieativo


julguequeL A ('Ind.')

B LquerqueI quer que I julga p 1- B Judicativo


julgue que L B ('Ind.')

2.A LquerqueI - quer p ! A Volitivo


julgue que L A ('Intencional')

B L quer que I querqueI quer p ! B Volitivo


julge queL B ('Imp.')

3.A L quer que I - quer (3a) p ? AI-Judicativo


julgue que L que La- Interrogativo A
julga

B L querqueI quer(3a) quer que p ? Bl- Judicativo


julgue que L que I La - julga foterro gatí vo B

4.A L·quer que I -· quer (3a) p ? A ! Volitivo


julgue que L que La- Interrogativo A
quer

B Lquerquel quer (3a) quer que p ? B l Volí!ivo


julgue que L quel La- quer Interrogativo B

129
Antes de passar aos tipos (3) e (4) (os interrogativos) que
nos interessam particulannente, algumas observações que con-
cernem as classes (1) e (2). É preciso notar que não há marcado-
res que indicam, nas línguas naturais, a diferença AfB para os
indicativos: 1- A é o caso em que L declara ou afirma que p
com a intenção primária de fazer I julgar que L julga que p, en-
quanto que l- B é o caso em que L declara que p com a inten-
ção primária de fazer I julgar que L quer que I julgue que p; em
~ A, é o julgamento que p por L que é tencionado, e em ~B,
é antes o julgamento que p por I. É evidente que a maior parte
das frazes indicativas podem funcionar nos dois sentidos. Mas a
interpretação preferencial é facilmente reconhecível, como em

47. Meu manuscrito comporta 150 páginas,

que será, de preferência, interpretada como l-A, enquanto que

48 . Sua mulher está bêbada,

será preferencialmente interpretada como ~ B. A diferença A/B


é manifestamente mais importante no caso dos volitivos (catego-
rias 2A e 2B). É interessante classificar fragmentos discursivos
como

49. Não vou falhar, e

50 . Eles não vão passar,

que são !A, na mesma categoria que os volitivos ! B, mais fa-


cilmente reconhecíveis, pois são manifestados pelos imperativos,
como

51 . Seja um pouco mais polido com ela.

O tenno "intencional" para os casos 2A é bastante arbitrá-


rio: é claro que todos os tipos modais são intencionais, no senti-
do freqüentemente analisado mais acima e retomado na fórmula

130
geral (44), mas 2A é "intencional" em um sentido mais intuitivo
e mais comumente aceito. A característica comum de !A e !B é
que x ou I) quer que p; mas os volitivos se distinguem então
em 2A onde L é que revela a I que é ele, L, que quer que p, en-
quanto que em é L que faz saber a I que ele, L, quer que I
quer que p. A distinção é geralmente bem marcada nas línguas
naturais. Acrescentemos ainda que, os por assim dizer, "atos de
linguagem indiretos" devem encontrar sempre seu lugar na ti-
pologia proposta aqui: há mesmo casos que, em sua forma de
superfície, são ambíguos entre 1- B e !B como

52 . É melhor que a porta seja fechada,

onde somente o contexto pode determinar se o fragmento é um


judicativo ou um volitivo.

A gama dos interrogativos é bem mais diversificada, e é


preciso conceber uma classe de judicativos interrogativos (sim-
bolizada por ?A/B ~ ) e uma classe de volitivos interrogativos
(simbolizada por ?NB!). A primeira (a classe 3A/B) concerne
às questões cuja intenção é obter uma informação, como

53 . Ele está em casa?

e a segunda classe classe 4A/B) concerne às questões cuja


intenção é colocar um problema que pode provocar uma ação,
como

54 . Devo deixar a porta aberta?


55. Devo continuar a leitura?

A diferença A/B, nas duas classes, não é, em geral, sintá-


tica ou morfologicamente marcada nas línguas naturais. Entre-
tanto, ela está pragmaticamente presente e fácil de detectar. A
frase

56 . Ele é um homem de boas maneiras?

131
JX>de ser "retórica": L se interroga e tenta se formar uma idéia;
é o caso 3A ou ?AI-. A mesma frase pode ser utilizada para re-
querer efetivamente uma informação; é o caso 3B ou ?B 1-. En-
contramos a mesma possibilidade na classe dos volitivos inter-
rogativos. A frase

57. Eu deveria aceitar o convite?

que, sendo volitiva, pode provocar uma ação, pode ser utilizada
por L para ele mesmo se formar uma idéia, ou para encontrar
uma pista ou uma informação efetiva da parte de 1. A variável
a é introduzida em todos os casos interrogativos; ela é substi-
tuível por "positivamente" ou "negativamente" modificando os
verbos julgar e querer: julgar/querer negativamente que p é jul-
gar/querer que não-p. As condições do esquema (46) sob 3 e 4
concernem os "interrogativos sim-não" (notação SN); elas po-
dem ser estendidas aos "interrogativos que-como-onde" (nota-
ção QCO) se mudamos ( 3 a ) em ( 3 À ), e a -julgar/querer em
À -julgar/querer. Ilustremos o esquema com um exemplo 3B ou
?B 1- • A primeira é aquela em que ( 3 a ) faz parte da significa-
ção:

58. João matou Dorotéia?

A significação pragmática de (58) é


SN
59 . L enuncia à I ( ? B 1- : ;: matou Dorotéia) se L
quer que I julgue que L quer [( 3 a ) (1 gostaria que L julgasse
(x matou Dorotéia)], onde ( 3 ex ) está identificado à variável x,
no caso João.

A segunda variante é aquela em que ( 3 >.. ) faz parte da


significação:

60 . Quem matou Dorotéia?

A significação pragmática de ( 60) é

132
QCO
61 . L enuncia a I ( ? B 1- : x matou Dorotéia) se L
quer que I julgue que L quer ( 3 À ) [I gostaria que L julgasse (x
matou Dorotéia)], onde ( 3 À ) é equivalente à variável não-
identificada x.

Uma ilustração da diferença A/B na classe 3 é, por exem-


plo, (58) no sentido de ?A 1- . A significação pragmática é

62 . L enuncia à I ( ? iN 1-. : x matou Dorotéia) se L


quer que I julgue que L quer ( 3 a ) [ L julga (x matou Doro-
téia)], onde ( 3 a. ) está identificado à variável x, no caso João.
A tipologia dos interrogativos apresentada aqui é indepen-
dente de uma classificação gramatical: marcadores sintáticos e
morfológicos são facultativos e não condicionam de nenhuma
forma as distinçé>es propostas. Assim como as condiçé>es de sa-
tisfação da questão como ato de linguagem, o antecedente junta-
do a (45) reúne as condições de sucesso dos quatro tipos de in-
terrogativos 3A, 3B, 4A e 4B. A distinção (3)-(4) concerne ao
fato que, em última instância (como intenção a mais profunda-
mente encaixada), o locutor julga o radical (interrogativo judi-
cativo) ou quer o radical (interrogativo volitivo); a distinção
A/B em 3 e 4 concerne o fato de que uma vontade intermediária
do interlocutor, que o locutor julga/quer, está ausente (3A e 4A)
ou presente (3B e 4B) (presença ou ausência do suplemento).

As condições enumeradas nos antecedentes são, pois, cla-


ramente, condições de sucesso (ou de satisfação): elas só afetam
parcialmente a distribuição sintática e a significação implicada
dos fragmentos lingüísticos. Elas se distinguem também, no que
concerne à sua natureza, de uma lei como (44) que é um opera-
dor geral e, na terminologia que desenvolverei mais tarde, "me-
tateórica". A análise dos modos, na apresentação que acabo de
esboçar, é evidentemente pragmática; ela reúne os dois traços
constitutivos de uma abordagem pragmática: seu objeto é inten-
cional e accional. O subsistema das regularidades que governam
os modos aí é considerado como um sistema de condições de su-
cesso, e o propósito avançado mais acima tem, pois, o mesmo

133
estatuto epistemológico que a teoria dos atos de linguagem e de
seu tratamento da asserção, da ordem e da questão.

2 . A semantização dos modos

Uma teoria verifuncional pode explicar as diferenças entre


os modos? Lingüistas (Karttunen, 1977) e lógicos (Hintikka,
1974 e 1976) propuseram soluções verifuncionais para certos
modos como a questão, não explorando de nenhum modo a aná-
lise intencional dos modos. Uma característica comum desses
ensaios é aceitar conjuntamente o isomorfismo entre as distin-
ções feitas no sistema semântico-sintático dos modos (indicati-
vo, imperativo, optativo, interrogativo) e as distinções no siste-
ma intencional dos modos (asserção, ordem, promessa, questão).
A enunciação de um imperativo é uma ordem, a enunciação de
um interrogativo é uma questão, etc. O fenômeno da indireção
(os chamados "atos de linguagem indiretos") e o fenômeno da
ausência de marcadores semântico-sintáticos (em certos tipos
modais discutidos mais acima) formam uma dificuldade real para
essa abordagem. Dizer que o isomorfismo dos dois sistemas é
"normal", e que os empregos desviantes são "parasitários" não
é, evidentemente, uma solução. Uma teoria semântica satisfató-
ria dos modos deveria ser capaz:
a) de mostrar as relações entre a asserção e os outros modos: é
preciso haver um elemento comum entre:

63 . Você vai abrir a porta, e


64 . Abra a porta!

b) de atribuir um elemento semântico a frases em um certo mo-


do que não está presente em frases em um outro modo. Essa
atribuição deve explicar nossa intuição da relação convencional
entre os dois sistemas, e
c) de representar de maneira verifuncional os modos; se isto é
irrealizável, é porque a teoria da verdade não é uma teoria geral

134
válida da linguagem. Tal teoria semântica dos modos não admi-
tirá jamais a idéia de que a asserção, a ordem, a questão são
ações puramente convencionais e que as intenções primárias dos
locutores são, assim, sempre transparentes no processo accional
do discurso. Essa crítica do convencionalismo é pertinente em
um certo sentido: ela indica que não há relação uma-a-uma da
intencionalidade e da convencionalidade gramatical. A noção de
"convenção", entretanto, é utilizada então de uma maneira
muito restritiva: é preciso enriquecer essa noção destacando-a
das características distribucionais do discurso. Mas, mesmo ad-
mitindo que o modelo convencionalista (no sentido restrito e
efetivamente condenável) é errôneo, a ambição totalizadora de
uma teoria semântica dos modos não se revela, entretanto, váli-
da. Mesmo certos semanticistas, que trabalham segundo a con-
cepção da ortodoxia extensionalista, admitem que a "semântica
dos modos'' deve repousar sobre bases específicas e diferentes
das de uma semântica puramente referencial. Davidson (1975),
por exemplo, faz a seguinte análise, chamada "análise paratáti-
ca": acrescentamos, inicialmente, o performativo explícito indi-
cando o modo, e, em seguida, separamos duas partes nelas mes-
mas e separadamente verifuncionais, sob a forma de duas frases
justapostas. O processo da asserção é, pois

65 . (João diz:) Chove,


65'. Eu, João, afirmo que chove,
65". a-Eu, João, faço uma asserção cujo conteúdo é dado
pelo seguinte enunciado; b-Chove.

Para o caso da ordem, o processo é idêntico:

66 . (João diz:) Vá embora,


66'. Eu, João, ordeno que vá embora.
66". a-Eu, João, dou uma ordem cujo conteúdo proposi-
cional é dado pelo seguinte enunciado; b-Você vai embora.

Esse processo responde às três exigências enumeradas

135
mais acima: há um elemento comum de todos os modos, nota-
damente a frase b. em (65) e (66"), por exemplo; há um ele-
mento distintivo, notadamente a frase a. ou a proposição (verda-
deira ou falsa) do locutor que concerne à performance do sujeito
do enunciado; a semântica pode ser dita "desviante" uma vez
que, mesmo que as duas frases justapostas sejam verifuncionais,
sua conjunção não o é: afirmamos a verdade/falsidade do que é
conjugado, mas não da conjunção ela mesma. Davidson admite,
pois, que a semântica dos modos é "desviante", o que está a fa-
vor de sua teoria. Entretanto, sua solução não satisfaz nem o ló-
gico nem o filósofo da linguagem. O filósofo rejeita essa análise
porque, de um lado, a distinção entre as duas frases justapostas
e, de outro, a distinção entre a verifuncionalidade dos elementos
conjugados a. e b. e a não-verifuncionalidade da conjunção de
a. e b., parecem muito artificiais e sem nenhuma realidade psi-
cológica, para poderem ser consideradas como processos da
competência pragmática dos locutores. Argumentar-se-á em se-
guida que os atos de linguagem são governados por condições
de satisfação e não por condições verifuncionais ou semi-veri-
funcionais (como em Davidson). Os lógicos, por seu lado, criti-
carão o artifício, dizendo que a fraqueza da solução resulta da
lógica particular praticada aqui: uma lógica dos mundos possí-
veis (e a teoria dos modelos), melhor que qualquer tipo de lógi-
ca, como por exemplo a lógica de primeira ordem (como a de
Davidson), poderia superar as dificuldades da análise dos mo-
dos. Mas esse otimismo é justificado?
A lógica dos mundos possíveis de Montague ( essencial-
mente Montague, 1974) foi utilizada por um grande número de
lingüistas e de lógicos (sobretudo Hintikka, 1974 e 1976, e
Karttunen, 1976 e 1977) em seu tratamento dos modos, e so-
bretudo do interrogativo. O problema dos modos aí está exausti-
vamente semantizado, o que, segundo a perspectiva que desen-
volvi em meu ensaio, não pode levar senão a soluções artificiais.
Sem pretender que a abordagem semântica dos modos deva ser
demolida globalmente, é, de toda forma, conveniente determinar
brevemente os limites, tomando como exemplo a análise da
questão. A idéia de base da maior parte dessas análises é assi-

136
milar as questões diretas às questões indiretas: uma questão di-
reta é semanticamente equivalente a um certo tipo de enunciado
afirmativo que contém a questão indireta correspondente encai-
xada sob o verbo perfonnativo apropriado. É assim que

67. a. Chove?
b . Que livro Maria está lendo?

são semanticamente equivalentes a:

67'. a . Eu te pergunto (para me dizer) se chove.


b . Eu te pergunto (para me dizer) que livro Maria
está lendo.

É fácil derivar (67) de (67') por uma transformação que


preserva a significação. A finalidade do processo, entretanto, é
de atribuir contra-intuitivamente uma verifuncionalidade às
questões diretas do tipo (67). Uma semântica das questões não
pode se identificar, por conseguinte, a uma teoria das questões
indiretas que serão interpretadas uniformemente, qualquer que
seja seu tipo (questões sim/não, ou questões quem/coITXJ/onde).
Hintikka (1977) propõe a interpretação (68') das questões indi-
retas (68):

68. a. João se lembra se chove (questão SN),


b. João se lembra quem veio (questão QCO);
68'. a . Se chove, então João se lembra que chove, e se
não chove, então João se lembra que não chove.
b . Toda pessoa é tal que se ela veio, então João se
lembra que ela veio.

Essa interpretação consiste essencialmente na substituição


da cláusula interrogativa (indireta) pela cláusula subordinada
que . . . correspondente, dependente de um condicional existen-
cialmente ou universalmente ligado. Karttunen (1977) observa
com razão que a equivalência (68)-(68') não é válida para todos

137
os verbos que dominam a cláusula subordinada que . . . corres-
pondente. Substituindo se lembrar por perguntar, o resultado
não é mais absolutamente satisfatório:

69 . João perguntava se choveu ( questão indireta SN);


69'. Se choveu, então João perguntava se choveu, e se não
choveu, então João perguntava se não choveu.

Esse resultado absurdo só pode ser evitado pela decompo-


sição lexical de perguntar em pedir para alguém dizer, onde a
regra da substituição proposta por Hintikka, funciona de novo.
Mas o artifício que esse processo de decomposição lexical tes-
temunha toma-se ainda mais evidente se nenhuma forma de de-
composição não chega afinal a nenhuma substituição, ou se ne-
nhuma decomposição lexical é possível como o caso de depen-
der em (70).

70 . Se Dorotéia vem ao baile depende de quem a convide


(questão indireta SN e questão indireta QCO).

A solução alternativa de Karttunen ( 1977) modificando


uma sugestão de Hamblin (1973) e consagrando a semantização
dos modos, no caso da interrogação, diz que as questões indire-
tas denotam conjuntos de proposições. A significação de uma
questão indireta é identificada com uma função que determina,
em todo contexto, o conjunto das proposições que, nesse con-
texto, constituem juntas uma resposta completa e verdadeira à
questão. A denotação de se Dorotéia passeia, em

71 . Eu te pergunto se Dorotéia passeia (questão indireta


SN), é o conjunto cujo membro único e ou a proposição que Do-
rotéia passeia ou então a proposição que Dorotéia não passeia,
dependendo daquela que, de fato, for verdadeira. A denotação
de quem passeia, em

72. Eu te pergunto quem passeia (questão indireta QCO),


é o conjunto das proposições verdadeiras expressas pelas frases

138
da forma x passeia. A regra principal introduzida por Karttunen
chama-se - não nos admiraremos - a regra da quantificação
( Quantification Rule ) governando o comportamento semântico-
sintático dos pronomes desde que são incorporados na cláusula
encaixada das questões indiretas. A teoria das questões, pro-
posta por Karttunen, parece superior à de Hintikka, pois inter-
preta corretamente frases como (70): depender é um verbo que
coloca em relação a verdade da resposta à "se Dorotéia vem ao
baile" e a verdade da resposta à "quem a convida". A maior
parte dos verbos que encaixam uma questão indireta podem
exercer essa função de provocar a atribuição de um valor de
verdade, e, pois, de sugerir uma proposição, isto é, uma (ou um
conjunto de) resposta(s) verdadeira(s). É o caso dos verbos: sa-
ber, ser, consciente, lembrar-se, esquecer (verbos de conheci-
mento); aprender, observar, descobrir (verbos de aquisição de
conhecimento); mostrar, dizer, indicar, informar, desenvolver
(verbos de comunicação); decidir, determinar, especificar, con-
trolar, concordar ( verbos de decisão); predizer, estimar, apostar,
adivinhar (verbos de conjectura); estar certo, ter idéia, estar
convencido (verbos de opinião); perguntar, perguntar-se, estar
interessado em (verbos de inquisição); ser relevante, ser impor-
tante, ser significativo (verbos de pertinência); depender, estar
em relação com, ter uma influência sobre, ser a função de, dife-
rir de (verbos de dependência). A teoria dos modelos oferece as
técnicas de atribuição de valores de verdade a variáveis que são
de natureza diferente, segundo os indivíduos que elas denotam
sejam entidades de tal ou tal mundo. A ambição de Karttunen e
dos que crêem na validade da teoria dos modelos para a recons-
trução semântica das línguas naturais, é de poder prolongar essa
lista de verbos até incorporar todos os verbos que encaixam
questões indiretas, como: imaginar, inventar, construir, etc.
Não convém criticar, aqui, o detalhe da abordagem semân-
tica dos modos e, em particular, da interrogação. Estou de acor-
do com Karttunen em que os modos encontram em parte sua ex-
plicação em um modelo verifuncional: prefiro, de longe, a solu-
ção proposta em Karttunen (1975), onde a verifuncíonalidade
das questões indiretas está investida do que ele mesmo chama as

139
implicações convencionais que têm uma função de "filtragem",
parte essencial do valor de verdade desses fragmentos discursi-
vos que são as questões (e, por extensão, os outros modos). Há,
pois, uma certa verifuncionalidade de todo fragmento discursi-
vo, qualquer que seja sua modalização e seu modo. Mas seria
totalmente falso promulgar o sistema de regras semântico-sintá-
ticas verifuncionais ao nível de sistema central e prioritário,
quando se trata da reconstrução das regularidades que dominam
a produção dos atos de linguagem, como a ordem, a interroga-
ção, etc. O sistema central nesse domínio é o sistema das condi-
ções de satisfação, que não são, de nenhuma forma, verifuncio-
nais. Está claro, lendo Karttunen (1977) sobre as questões, por-
que a semantização dos modos não tem nenhuma chance de su-
cesso. Ela repousa sobre ao menos dois artifícios teóricos que
são contra-intuitivos e desprovidos de toda realidade psicológi-
ca:

1 . a redução das questões diretas - que, para toda intui-


ção lingüística, permanecem o protótipo das questões -
às questões indiretas, e
2. a redução do, por assim dizer, "conteúdo proposicio-
nal" (verifuncional) da questão ao dos conjuntos das
respostas verdadeiras. Considero esse tipo de semanti-
zação da interrogação - e, conseqüentemente, dos mo-
dos em geral - como uma séria distorção da hierarquia
dos diferentes subsistemas de regularidades que gover-
nam a competência pragmática na sua produção de
fragmentos discursivos modalizados e modais.

Tradução: Eni Pulcinelli Orlandi

140
A DÊIXIS E OS "EMBRAYEURS"
DESDE JAKOBSON

O estruturalismo, em lingüística, afirma evidentemente que


a língua é um sistema cuja estrutura tem que ser analisada. Cada
sistema, cujas unidades constituem condição recíproca, distin-
gue-se dos outros sistemas pela forma interna dessas unidades.
Este princípio estrutural, apresentado e desenvolvido por Jakob-
son, Karcevsky e Trubetzkoy (Primeiro Congresso Internacional
dos Lingüistas, Haia), desde o final da década de 20, vem asso-
ciado à tese da autonomia da langue, forma e sincronia em opo-
sição a parole, substância e diacronia. A combinação dos dois
princípios é problemática, especialmente porque a dicotomia
langue-parole (tanto quanto as dicotomias forma-substância e
sincronia-diacronia) tem uma função dupla em Saussure. A pri-
P,leira função é metodológica, correspondendo à distinção clássi-
kl entre o objeto construído pelo lingüista (enquanto cientista),
~ os dados para os quais o objeto proporciona uma explicação.
Entretanto, Saussure usa a mesma dicotomia para introduzir uma
outra distinção - uma distinção 'material' - interna aos dados: o
domínio da langue é assim constituído por meio de algumas re-
lações observáveis por introspecção ou por meio de algum tipo
de análise distribucional, ao passo que o domínio da parole to-
ma corpo a partir de um outro domínio de fatos observáveis, a
saber os eventos históricos que são os vários atos comunicativos

143
efetivamente realizados (Saussure utiliza aqui a comparação en-
tre a partitura e sua execução pelo músico). Deveria ser evidente
que, de acordo com a primeira interpretação da dicotomia, a in-
terpretação metodol6gica, somente a Zangue é sistemática e es-
truturada, ao passo que a interpretação 'material' da dicotomia
abre a possibilidade de aplicar o princípio estrutural tanto ao
domínio da Zangue como ao da parole. É interessante observar
que as duas interpretações das dicotomias de Saussure fizeram
surgir dois tipos de estruturalismo em lingüística. A Glossemáti-
ca, que insiste na formalização e nos critérios epistemol6gicos
que balizam para a construção de teorias, encara a estrutura lin-
güística como uma (re )construção científica, ao passo que o
'funcionalismo' (o de Jakobson, por exemplo) descobre sistema-
ticidades e estruturalidades nos dados materiais e observáveis
das realizações lingüísticas efetivas.
Entretanto, o 'p6s-estruturalismo', principalmente nas dis-
ciplinas lingüísticas com orientação pragmática, denuncia a opo-
sição que há entre a função metodológica e a função 'material'
das dicotomias, e a afinnação central da pragmática lingüística
tem sido que a Zangue enquanto objeto teórico precisa conter
uma referência à parole enquanto domínio empírico. Isso leva a
slogans do tipo: "a parole deve ser reintroduzida na Zangue e
a enunciação no enunciado ( utterance )", ou, "são objeto da
lingüística, ao nível enunciado, as 'marcas' do ato de enuncia-
ção". Essas fórmulas são paradoxais na medida em que se con-
sidera a enunciação como um evento único, implicando um lo-
cutor particular numa situação particular, ao passo que o enun-
ciado é invariante na infinidade de atos de enunciação de que
enunciado é objeto. Mas uma distinção geral deve ser feita
as condições específicas e sempre peculiares da enunciação prd!
<luzida bic et nunc e a enunciação enquanto fato geral, idêntica
através da diversidade dos atos efetivamente realizados. Existe
um esquema geral da enunciação, que pode ser descrito especi-
ficando-se os papéis dos possíveis locutores e interlocutores no
interior das seqüências da ação lingüística. Além disso, a enun-
ciação é sui-referencial: que as seqüências são produzidas e
compreendidas é manifestado pelas próprias seqüências; que

144
elas são orientadas para o tempo, o espaço e o ator, é expresso
por complexos subsistemas gramaticais; que o discurso tem ori-
gem subjetiva é mostrado por seus efeitos observáveis na comu-
nicação e na interação.
Os termos 'subjetividade' e 'subjetivismo' têm má reputa-
ção em lingüística e nas ciências sociais. Ainda assim, Benve-
niste os colocou no âmago de sua concepção geral da língua, e
muitos outros lingüistas, contra a corrente positivista e determi-
nista dominante fizeram o mesmo. Todavia, 'subjetividade' não
é um conceito muito operacional nas disciplinas empfricas, e
precisa ser associado com os donúnios da modalidade, dêixis
e referenciação. Encara-se habitualmente a referência como um
aspecto dependente do contexto da significação do enunciado: a
semântica lógica e a semântica lingüística afirmam que, sendo o
donúnio ( range ) referencial das expressões referenciais fixado
pelo sentido que têm na língua, sua referência efetiva depende
da variedade dos fatores contextuais. O contexto é então cons-
tituído de elementos ( items ) ontológicos (objetos, estados de
coisas, eventos). Considera-se serem os nomes pr6prws ( na-
mes ) e as descrições definidas expressões referenciais prototí-
picas. Mas do uso, por exemplo, das descrições definidas como
expressões referenciais não se consegue dar conta no quadro da
semântica verifuncional, abstraindo da subjetividade do enun-
ciado. Quando o falante emprega uma descrição definida, indica
por esse meio que está realizando um ato de referência, e ga-
rante ~implicitamente) ao destinatário que a expressão conterá
todas as informações que se requerem para identificar o refe-
rente. A origem subjetiva da referenciação é ainda mais evidente
no caso da opacidade referencial e das ambigüidades de reide
dicto. Que o contexto do enunciado não é apenas externo ou
ontológico é verdade no caso das expressões referenciais e, a
priori, das expressões dêiticas. Sua significação é ainda mais
dependente da origem subjetiva do enunciado. O termo 'dêixis'
se origina na noção de referência gestual, isto é, na identifica-
ção do referente por meio de algum gesto corporal por parte do
locutor. Contestarei, mais adiante, a relevância de uma teoria da
dêixis em que o campo dêitico em sua totalidade é associado

145
com a ostensão. Ao contrário, o contexto dêitico centra-se no
aqui e agora do locutor - chamarei este sistema de dêixis basea-
do no falante de sistema egocêntrico. O contexto dêitico não é
exterior (ontológico) mas subjetivo. A partir da organização
egocêntrica da dêixis, pode-se estabelecer a distinção entre dêi-
xis pura e impura. Eu e você, this e that (intraduzível), aqui e lá
são dêiticos puros (fazem referência ao locutor e ao destinatário
sem veicular quaisquer informações adicionais a seu respeito).
Ele, ela e tal coisa ( it) são dêiticos impuros, por codificar dis-
tinções baseadas em propriedades do referente que não têm nada
a ver com os papéis espaço-temporais do locutor ou do receptor
(o gênero e sua classificação, por exemplo). O importante é que
a 'pureza' da dêixis se mede por sua proximidade ao aqui e ago-
ra egocêntrico, e é por isso que a dêixis se aproxima tanto da
modalidade subjetiva. Essa proximidade ou afastamento é emo-
cional, e o ego pode distanciar-se na atitude daquilo a que faz
referência. É sem dúvida um ponto de vista defensável que o
egocentrismo do contexto dêitico é por natureza subjetivo. A
modalidade é o terceiro domínio que precisa ser associado à
subjetividade (embora haja casos em que a modalidade penetra o
domínio da dêixis, como já mencionamos). O único tipo de mo-
dalidade reconhecido em semântica lógica tradicional é o que
diz respeito à necessidade e à possibilidade relacionadas com
valores de verdade. Mas, no caso das línguas naturais, a modali-
dade inclina-se mais para ser epistêmica ou deôntica, e os enun-
ciados que são epistêmicos ou deônticos são antes subjetivos do
que objetivos. Mesmo as asserções implicam num comprometi-
mento epistêmico, e são relativamente poucas as asserções mo-
dalmente neutras.
O estruturalismo saussuriano - e suas dicotomias - pode
ser ultrapassado por uma teoria da linguagem (com uma heurís-
tica própria, apropriada para aos dados empúicos) que leve em
conta a subjetividade do enunciado. Se alguém quiser chamar o
conceito de sentido que resulta deste ponto de vista de 'pragmá-
tico', então a pragmática deverá reconstruir a enunciação, ou
seja, as condições de produção e compreensão das seqüências da
língua. A referência, a dêixis e a modalidade são três domínios

146
que se interpenetram reciprocamente (por· exemplo: o tempo
verbal, uma categoria dêitica, pode ser encarado como sendo
primariamente uma questão de modalidade) e precisam ser in-
vestigados por uma pragmática desse tipo. O termo 'subjetivida-
de' não deve ser entendido aqui em um sentido psicológico ou
'subjetivista': o ego não deve ser compreendido como algo que
se possa distinguir logicamente da atitude expressa pelas moda-
lidades, do papel que desempenha ao realizar o ato de referên-
cia, ou mesmo de sua localização espaço-temporal (por mais que
não se trate de uma localização 'física'). Acrescente-se que o
ego não é uma faculdade de raciocínio independente, que ope-
rasse sobre proposições e produzisse juízos, é emocionalmente e
apaixonadamente atitudinal. A inadequação das teorias da lin-
guagem e do sentido estruturalistas - e da semântica lógica (ve-
rifuncional) - deriva de sua incapacidade em manipular o fenô-
meno da subjetividade.
Não se pode dizer que a subjetividade e os domínios cone-
xos sejam uma prioridade explícita das investigações lingüísticas
de Jakobson. Todavia, seu 'estruturalismo fenomenológico'
(Holenstein) ultrapassa de muitas maneiras o quadro dos axio-
mas de Saussure e a interpretação formalística destes pela Glos-
semática. Jakobson aceita a tese saussuriana da 'arbitrariedade
lingüística', mas a autonomia da lfugua - um princípio sobretudo
metodológico - é relativo e relaciona-se à psicologia, cultura e
sociedade humanas. Além disso, a língua não é urna entidade
formal in se, mas serve à comunicação interpessoal. É impor-
tante assim que a função comunicativa não é um aspecto local
da língua, mas uma propriedade que informa e permeia a estru-
tura em seu todo (Erlich). Que a linguagem é teleológica não é
um princípio meramente estático. Precisa ser combinado com um
outro aspecto central, a saber, sua produtividade e sua criativi-
dade (Waugh), intensamente exemplificada no uso poético (me-
tafórico e metonímico) da língua. Mas o ponto em que as inves-
tigações ~mpíricas de Jakobson chegam mais perto do paradigma
que eu apresento (subjetividade atravessando a enunciação), é
em sua tipologia das funções da língua e em seu estudo (princi-
palmente morfológico) dos embrayeurs ( shifters no original.

147
Foi utilizada a expressão francesa, que é a que consta na primei-
ra tradução portuguesa do texto relevante de J akobson).

Em comparação com B ühler, a apresentação por Jakobson


de um conjunto de suas funções relevantes da língua é certa-
mente mais complexa, e os achados empíricos mais importantes.
Mas parece-me que um traço importante da concepção exposta
por Bühler na Sprachtheorie se perde, a saber o nexo intrínseco
entre funcionalidade lingüística e dêixis (egocentiicamente or-
ganizada: Eu/agora/aqui é a Origo des Zeigfeldes)~. A importân-
cia do evento de fala (enunciação) é reconhecida por Jakobson
mas sua relação com as várias funções da linguagem (excetuadas
as funções emotiva e conativa, onde a relação com eu e tu é evi-
dente) não é explicitada. Dêixis e enunciação são facetas im-
portantes da estrutura lingüística no quadro jakobsoniano, mas
são ainda caracterizadas como fenômenos locais, com efeitos
empíricos específicos, como os embrayeurs. E a verdade é que
Jakobson não chega ao ponto de afirmar que "a dêixis pode
muito bem ser o mais importante fator de integração do sistema
semântico, ( ... ) que o sentido é essencial e inerentemente cons-
truído sobre a noção de dêixis" (Van Schoeneveld, Waugh). É
sabido como Jakobson situa a dêixis: "ela se constrói na tensão
dialética entre código e mensagem, na antecipação da mensagem
dentro do código, e na antinomia do evento narrado com o
evento de fala" (Waugh, 1976:24). A interpretação e compreen-
são do sentido das categorias dêiticas depende do evento de
enunciação, e essas categorias (sejam elas gramaticais ou lexi-
cais) somente podemos diferenciá-las relacionando-as à enun-
ciação do enunciado. A enunciação entra no sentido dos embra-
yeurs ou, para usar o termo de Peirce, dos símbolos indiciais.
Todavia, dois aspectos diferenciam em Jakobson e Peirce as
abordagens dessas categorias lingüísticas e semióticas cardinais.
Em primeiro lugar, Jakobson caracteriza a relação interna da
qual dependem os embrayeurs, a relação entre código e mensa-
gem (substituta de dicotomia saussuriana Zangue/parole e deri-
vada da teoria da informação) ao passo que a noção de Peirce
depende de uma tipologia de signos em que a relação interna é

148
entre a 'qualidade material' ( signans ), e o 'interpretante ime-
diato' ( signatwn ).
Isso leva a uma segunda distinção entre ambas as defini-
ções: o conteúdo, no esquema jakobsoniano, é um dado não
analisado, substancial e positivo, ao passo que em Peirce é um
elemento ( item ) que se submete continuamente à interpretação.
É claro que este traço interpretativo nos leva mais perto do pa-
radigma enunciativo porque a interpretação parece tão necessá-
ria à produção quanto à compreensão das categorias dêiticas e
das seqüências lingüísticas deiticamente marcadas.
Neste artigo, pretendo apresentar algumas proposições que
esclarecem o paradigma enunciativo em seu confronto com a
dêixis e os embrayeurs. Como se organiza a dêixis e como po-
dem ser dermidos os embrayeurs uma vez aceita a subjetividade
do enunciado como um princípio fundamental com conseqüên-
cias heurísticas e metodológicas e longo alcance. Como filósofo,
não desenvolverei esse programa com argumentos empúicos, e
os lingüistas poderão achar estas considerações abstratas, áridas,
e (talvez) supérfluas. Numa primeira parte, delinearei a discus~
são atual sobre dêixis em filosofia da linguagem (II); acrescenta-
rei a seguir algumas idéias ( insights) da narratologia (européia)
e da semiótica sobre o fenômeno da embrayage (III); finalmente,
apresentarei alguns elementos de um modelo para a análise da
temporalidade que respondem às exigências do paradigma enun-
ciativo.

II

Os pronomes e os demonstrativos são um tópico que intri-


ga e desafia filósofos e lingüistas. Quem pretende ter uma teoria
do sent-ido e evidências empúicas para apoiá-Ia, precisa ser ca-
paz de reconstruir o sentido dos demonstrativos. A semântica
dos nomes próprios é uma área bem desenvolvida (eu diria,
Flesmo, demasiadamente desenvolvida) em filosofia da lingua-
gem. A semântica dos demonstrativos, porém, ainda é contro-
vertida e, em alguns aspectos, inexistentes. Minha posição

149
( claim ) é que uma teoria geral do sentido só será relevante se
puder tratar da dêixis e dos demonstrativos de maneira válida e
sensata. Esta foi precisamente a intuição de Frege quando ele
chegou à conclusão de que sua teoria do sentido, em tudo mais
realmente elegante ( aesthetic ) (e em particular sua distinção
entre sentido e referência) exigia emendas radicais por causa das
peculiaridades semânticas das categorias dêiticas da linguagem.
Defenderei, no terreno teórico, uma teoria da dêixis em que todo
o domínio das categorias dêiticas se concentra ao redor de Eu.
Chamo esse tipo de teoria 'teoria egocêntrica da dêixis', em
oposição à teoria ostensiva da dêixis.
Para começar, esclareçamos a temúnologia. Em primeiro
lugar, a noção de ·categoria dêitica ou demonstrativa é tradicio-
nalmente usada para a categoria de palavras cujo sentido tem as-
sociada, como pré-requisito, uma demonstração (incluindo, na
maioria dos casos, o gesto de apontar que acompanha). Os
exemplos mais puros são isto, aquilo (pronomes demonstrativos,
embora o advérbio úi esteja muito próximo a isto, aquilo ).
Aqui, por outro lado, já é um caso problemático: preciso acres-
centar uma demonstração (apontando) para significar alguma
coisa com aqui, ou tenho apenas que estar em algum lugar como
um eu para significar com aqui? Ademais, também ele pode ser
usado como demonstrativo no sentido ostensivo (Ele é um as-
sassüw). Lembre-se porém que isto, aquilo não são sempre usa-
dos como demonstrativos: isto/aquilo podem também ser anafó-
ricos, referindo-se a sintagmas da seqüência anterior do discur-
so; e a anáfora não pode nunca ser demonstrativa no sentido
ostensivo. A fim de dispor de noções distintas, considerarei que
as categorias dêiticas se incluem como um subgrupo entre os
demonstrativos. Eu, tu, agora (e aqui, penso eu) são os exem-
plos mais puros. O referente dessas expressões depende do
contexto de uso, sendo que o sentido da expressão proporciona
uma função ou um meio que determina o referente em termos de
certos aspectos desse contexto. A batalha, certamente, será tra-
vada acerca do modo como se deve tomar exata essa definição
de Eu, tu, agora e aqui. Há categorias derivadas dessas (isto é,
mim, meu, teu, neste momento, hoje, etc.) assim como há exten..'.

150
sões (isto é, nós, ontem, amanhã, etc.). Todas essas entidades
dêiticas adquirem seu sentido por causa de sua relação intrínseca
com o contexto de fala. Muitas denominações já foram usadas
para essa classe de palavras: 'reflexivas de ocorrência ( token-
reflexive )' (Reichenbach), 'particulares egocêntricas ( egocen-
tric parüculars )' (Russell) e 'indiciais ( índexicals )'. Usarei a
seguinte temunologia: 'demonstrativo' como termo genérico,
'indiciais puros' e 'demonstrativos puros' como duas subclasses,
uma das quais requer uma ostensão ou demonstração concomi..
tante ao pa.-;so que a outra não precisa.

indicíal puro
Eu)

Dêíxis Ostensão

A distinção entre 'indícial puro' e 'demonstrativo puro' é


clara enquai.,to abstração, mas defenderei que a distinção não é
uma oposição e si.rn um eixo, com um contínuo de posições Ín··
termediárias. O ponto de partida continua sendo que alguns de-
monstraüvos requerem uma demonstração concomitante para
detemúnar seus referentes; esses demonstrativos são demonstra-
tivos puros e, neste caso, a expressão demonstrativa se refore
àquilo que a demonstração mostra: isto é, uma regra lingüística
presume que essa demonstração acompanha o uso dos demons-
trativos puros. Por outro lado, não se requer nenhuma rnostração
para os indiciais puros; e qualquer mostração feita no caso dos
indiciais puros ou é irrelevante ou ocone por ênfase estilística
ou retórica. O falante fala de si próprio quando usa Eu, e não há
gestos de apontar que alterem essa referência.
Neste ponto, eu poderia concluir que o referente de um
demonstrativo puro depende da demonstrnção conconutante, ao
passo que o referente de um indiciai puro depende do contexto
de uso. Mas isso ainda não é definição substancial do sentido
dos demonstrativos. Sem entraT em questões lingüísticas empíri-
cas, enuncio minha posição por redução e em quatro etapas,

151
concentrando-me no sentido de Eu, que será encarado como pa-
radigmático para o domínio dos demonstrativos como um todo.
As quatro teses que eu defendo são as seguintes:
1 . Eu é uma expressão referencial mas não um nome pró-
prio;
2. Eu é um demonstrativo mas não um demonstrativo pu-
ro;
3 . Eu é uma função proposicional mas não um modo de
identificação;
4. Eu é um designador mas não um designador rígido.
Costuma haver acordo quanto ao fato de que a referência
por meio de fragmentos lingüísticos é realizada, pelo menos,
através dos três procedimentos gramaticais a seguir: 1- por refe-
rência própria (isto é, a referência através de nomes próprios,
como Deng-Xiaoping e Pequim); 2- por referência descritiva: é
o caso das descrições definidas e indefinidas, onde alguns lexe-
mas são modificados pelo artigo definido ou indefinido (seria
preciso dizer que nestes casos a primeira função da expressão
descritiva é sempre predicativa, e a função derivada é referen-
cial, como em descrições definidas do tipo o Vice-Primeiro Mi-
nistro da China); e 3- por referência pronominal (por meio de
pronomes e advérbios pronominais). Os lingüistas alertam para o
fato de que a combinação ulterior desses três procedimentos é
sempre possível: expressões como o Chaplin/de chapéu preto, a
Amsterdãlda geração Punk, qud quer pessoa/daqui, e nossa
adorada/Margarete contêm combinações de elementos próprios,
pronominais e descritivos. Mas essa combinação, mesmo quando
cria redundância semântica, não elimina a especificidade dos
procedimentos em si.
Precisamente do ponto de vista simples da economia dos
meios lingüísticos, a existência dos três procedimentos habilita-
nos para construir uma teoria arquitetonicamente satisfatória.

· 1 . Os nomes próprios fazem referência a indivíduos em sua


· unicidade, mas eles o fazem sem determinação pelo contexto: o

152
ato de pronunciar um nome próprio e o contexto de fala (falante,
tempo, espaço) não influenciam o conteúdo semântico do nome
próprio. É certo que se pode discutir - e esta é a questão can-
dente na controvérsia sobre nomes próprios - se há um aspecto
de seu conteúdo semântico que seja um meio intra.lingüístico de
fazer referência (Frege: sim; Kripke: não); mas é possível aceitar
que o próprio conteúdo semântico é independente do contexto.
A tese kripkeana de que os nomes próprios se referem rigida-
mente à sua história causal (na realidade, ao batismo do indiví-
duo por meio do seu nome próprio) contra-argumenta, precisa-
mente, contra a dependência contextual do sentido dos nomes
próprios.

2. Os demonstrativos fazem referência a indivíduos em sua


unicidade, mas o fazem por determinação a partir do contexto.
Não há história causal para os demonstrativos; ao contrário, há
um uso referencial dos demonstrativos, e esse uso é significativo
no contexto.

3 . As descrições (in)definidas funcionam de muitos modos: po-


dem funcionar quer como expressões predicativas (não referen-
cial.mente) quer como expressões referenciais; e neste último ca-
so podem realizar a referência quer como nomes próprios quer
como os demonstrativos. Essa versatilidade toma o estatuto das
descrições (in)definidas deveras complexo. A teoria das descri-
ções definidas será uma teoria derivada. Do fato de que as des-
crições definidas podem funcionar como nomes próprios e de-
monstrativos não decorre que os nomes próprios e os demons-
trativos sejam adequadamente caracterizados quando se diz que
eles são descrições definidas - todos conhecemos as dificulda-
des de Russell ao definir os nomes próprios como descrições de-
fmidas.
Afirmo que eu é na verdade um tipo de expressão referen-
cial; mas é inadequadamente construída se for encarada como
um nome próprio. Os lingüistas constatam com freqüência que
eu tem a sintaxe de um nome próprio, e que é um substituto dos
nomes próprios pessoais na posição de sujeito (desde que sejam

153
feitos nas terminações do verbo os ajustes apropriados). Mas is-
so não pode significar logicamente que o sentido dos demons-
trativos se reduz ao sentido dos nomes próprios. Anscombe, em
seu artigo pioneiro, "A primeira pessoa", opõe-se corretamente
a essa redução (Anscombe, 1975), e afinna que se eu é um nome
próprio, sua referência não pode ser desprezada, mas deve ser
associada com um critério que dá ênfase à re-identificação do
indivíduo que representa; e, com certeza, a aplicação de um cri-
tério desses parece não ser uma parte essencial do sentido visa-
do pelo uso de eu.
O aspecto filosófico decisivo que eu gostaria de estabele-
cer é que o sentido de um demonstrativo não pode ser identifi-
cado com o sentido de um nome próprio, não importando que se
tenha dos nomes próprios uma concepção russelliana [o sentido
do nome próprio é o sentido como (conjunto de) descriçõ(es) de-
finida(s)], fregeana (o sentido do nome próprio é o modo de
identificação do indivíduo) ou kripkeana (o sentido do nome
próprio é seu referente, a saber, a história causal do referente
nomeado). De fato, todas as teorias paradigmáticas do sentido
têm tomado o uso do nome próprio como uso prototípico das
entidades lingüísticas: esta generalização abarca desde Russell e
Frege até Kripke, Donnellan e Putnam. O sonho de uma língua
apenas com nomes próprios é um velho sonho com fortes raízes
metafísicas - nomeadamente, a idéia de uma língua constituída
por termos cujo sentido se esgota numa correspondência um-a-
um com particulares na realidade. Russell - como de fato muitos
semanticistas e lógicos [ as in fact may (sic) semanticitists and
wgicians ] - dá realce à função representacional da língua: isto
é, ao fato de que a língua representa objetos, acontecimentos e
estados de coisas, enquanto os referentes são as condições de
valor (de verdade) das seqüências lingüísticas. Tão logo os de-
monstrativos são levados a sério como parte da língua, tomar-se
possível uma representação alternativa altamente específica do
funcionamento da língua. As categorias dêiticas e ostensivas não
são nunca representações puras do mundo - elas permitem inter-
venções na estrutura estabelecida da realidade, elas são praxes.
Tão logo nos damos conta das operações ( workings ) dêiticas e

154
ostensivas da linguagem, a linguagem adquire uma força argu-
mentativa, interacional e transformacional, e como tal tem um
valor prático (não apenas veritativo). Tanto a realidade como o
contexto intersubjetivo são modificados por essas operações.
Quando afirmo que eu é uma expressão referencial mas não um
nome próprio, quero dizer, precisamente, que eu não faz refe-
rência como os nomes próprios fazem, representacionalmente. A
sensibilidade para com o contexto dos demonstrativos não é me-
ramente passiva: dizer eu, agora e aqui tem um valor prático,
pois tais fragmentos são constitutivos com respeito ao contexto
interacional e intersubjetivo. Considerar a linguagem como ca-
paz de realizar esse papel de transformação é reavaliar a de-
monstração ( demonstration ) em confronto com a representa-
ção, os demonstrativos em confronto com os nomes próprios.
A segunda afirmação que eu gostaria de discutir é a se-
guinte: {eu é um demonstrativo, mas não um demonstrativo puro)
Isto não é apenas uma tese sobre eu, mas também um modo de
hierarquizar o donúnio dos demonstrativos. De fato, a unifica-
ção do domínio como um todo pode ser conseguida de duas ma-
neiras diferentes: há a qualificação 'ostensiva' dos demonstrati-
vos (da qual Russell deu a versão mais radical), e há a qualifica-
ção 'egocêntrica' dos demonstrativos em que o paradigma dos
demonstrativos é eu (de que Frege é um porta-voz sofisticado).
Todos os demonstrativos (inclusive isto/aquilo) podem ser ex-
plicados por sua relação com eu.
Russell eliminou de maneira fácil o problema da heteroge-
neidade das expressões demonstrativas na língua (Russell,
1905). Segundo ele, todas as categorias dêiticas e ostensivas
podem ser reduzidas à categoria de base isto/aquilo. O sentido
de isto/aquilo, então, não é nem a) o sentido de um nome pró-
prio gramatical ( atende-se para o argumento arrevezado de Rus-
sell: os nomes próprios sempre podem ser aplicados a vários
objetos, e isto/aquilo só se aplica a um objeto, numa situação
espaço-temporal específica); b) nem o de uma descrição defini-
da como, por exemplo, o objeto que está agora no foco de minha
atenção (a individualização de isto/aquilo ainda demandaria ca-
tegorias dêiticas e ostensivas na descrição definida, como agora

155
e minha atenção; c) nem o de conceitos gerais como, por
exemplo, aquilo que todos os objetos chamados sucessivamente
de 'isto/aquilo' têm em comum (porque nenhum conceito geral
comporta o sentido da unicidade espaço-temporal de isto/aqui-
lo). Há três aspectos na solução russelliana para o problema da
unificação dos demonstrativos:

1 . A redução de todas as chamadas partículas egocêntri-


cas ( egocentric particles) se faz numa única direção. O sentido
de aqui é lugar de isto, de agora, o tempo de isto, e de eu, a
biografia à qual isto pertence. Eu estou, de acordo com Russell,
significa isto está; eu estou quente significa isto é calor ou calor
está aqui.

2 . Isto é x, de fato, equivale a a propriedade x está aqui


(está presente). Portanto, as circunstâncias do uso das categorias
dêiticas e ostensivas são os estímulos diretos para o ato lingüís-
tico de dêixis e ostensão. Claramente Russell identifica a pre-
sença física e (físico-psicológica) e o aqui lingüístico.

3 . De fato, o sentido de isto/aquilo é redutível ao sentido


dos nomes daquilo que, na realidade, está presente para o fa-
lante. Isto remonta à ontologia de Russell, o atomismo lógico, e
ao sonho da linguagem logicamente perfeita. As partículas ego-
cêntricas são nomes próprios lógicos, ou seja, expressões em
corres:rx::mdência biunívoca com átomos lógicos.

A doutrina fregeana é mais sofisticada, e a unificação do


domínio dos demonstrativos como um todo vai na outra direção,
a correta. Para compreender as motivações da teoria fregeana
dos demonstrativos, uma orientação sábia é retomar a classifica-
ção dos signos de Peirce nas três conhecidas classes dos símbo-
los, fudices e ícones (veja-se Burle, 1949). Lembremos as defini-
ções: 1 . os símbolos são ligados pelo intérprete ao objeto com
a ajuda de uma regra convencional de grande generalidade: por
exemplo, vennelho é um símbolo na sentença A mesa é verme-
lha; 2 . os índices são ligados ao objeto pelo interpretante, que

156
postula uma relação existencial, por exemplo por meio de um
gesto (o apontar), como em Isto é uma mesa; 3 . e os ícones, de
menor importância aqui, são signos em que o objeto é identifi-
cado, como no diagrama de uma máquina (ver Jakobson, 1965).
Qs. demonstrativos, nesta classificação, são símbolos indiciais:
entidades de linguagem tendo, de um lado, um sentido simbólico
ou convencional fixo, e de outro, um sentido indiciai variável,
que corresponde às circunstâncias particulares da fala. A difi-
culdade que Peirce tematiza com respeito aos demonstrativos,
foi, na verdade, o fato de que os demonstrativos sempre têm o
mesmo sentido simbólico, mas com sentido indiciai variável.
A semântica de Frege, que é uma alternativa à de Russell -
os demonstrativos são organizados egocentricamente - com sua
distinção entre sentido e referência, é candidata adequada para
uma definição coerente do estatuto dos símbolos indiciais, para
usar a terminologia peirceana. O fregeano afinnará que para
compreender o sentido dos demonstrativos, três tipos de conhe-
cimento - dois necessários e um opcional para o domínio dos
indiciais puros - devem ser pressupostos no sujeito falante que
está usando e compreendendo uma linguagem demonstrativa:
1 . o conhecimento da localização espaço-temporal da emissão
( utterance ) da seqüência lingüística: para saber o sentido de
agora, preciso saber quando a seqüência lingüística foi emitida;
para saber o sentido de aqui preciso saber onde a seqüência lin-
güística foi emitida; 2 . conhecimento das regras do uso lin-
güístico (isto .é, o conhecimento do sentido simbólico dos de-
monstrativos): é preciso saber que eu tem o sentido simbólico a
pessoa que emite a seqüência lingüística; e que esta em esta ci-
dade tem o sentido simbólico a cidade na qual a emissão da se-
qüência lingüística se realiza. Este segundo tipo de conheci-
mento tem que ser considerado o meio essencial e necessário pa-
ra a realização do primeiro tipo de conhecimento - isto é, o pro-
pósito do uso demonstrativo da língua; 3 . o primeiro e segundo
.· c.onhecirnento bastarão para a produção e compreensão
closenti(iodêitico; o terceiro tipo é opcional para a compreensão
dos indiciais puros, mas ·é necessário para a compreensão dos
demonstrativos puros. Na verdade, para compreender o sentido

157
ostensivo é preciso ter conhecimento da direção de aplicação,
quer por ostensão explícita ou por descrição suplementar. Esta
torna-se portanto um demonstrativo puro na expressão esta árvo-
re (em oposição a esta cidade, onde esta aparece como exte -
de um indiciai). A solução de Frege no qualificar demons
vos puros é a:finnar que nenhuma localização espaço-tempor
possível sem conhecimento da direção de aplicação.
Há urna dificuldade fundamental em como considerar o
primeiro tipo de conhecimento que se requer para compreender
eu. Acaso será preciso que haja algo no sentido de eu além de,
meramente, a pessoa que está aqui e agora, ou sua qualificação
espaço-temporal? Se eu é uma auto-apresentação incomunicável
- como sugere Frege em Der Gedanke (Frege, 1956) - então
a teoria fregeana da linguagem poderia tomar-se paradoxal. Sua
teoria do sentido dirige-se explicitamente contra a idéia de sen-
tidos privados. No quadro de sua ontologia realística, os senti-
dos incomunicáveis precisam .ser inadmissíveis. Os sentidos são
públicos pelo fato de que a objetividade do mundo é pública. Se
as entidades dêiticas, como eu tivessem sentidos privados, have-
ria ilhas de escuridão subjetivística na língua: alguns aspectos
primitivos de mim (e possivelmente do meu 'lugar no mundo')
seriam passíveis de apresentação (de conhecimento) somente pa-
ra mim. Isto poderia ser uma quebra séria na teoria fregeana do
sentido, mas o fato é que não é.
A questão daquilo que o falante sabe a respeito de si mes-
mo quando ele diz eu não tem nenhuma importância. O proble-
ma do caráter privado do sentido de eu desaparece tão logo se
admite que o sentido de eu não é um sentido epistêmico, não
uma crença e não um pensamento. Afirmo que nenhuma forma
especial de conhecimento ou crença a respeito de um objeto é
exigida ou pressuposta para que uma pessoa possa falar ( enter-
tain) uma proposição singular envolvendo eu. Desta posição
decorre que a ignorância da referência não elimina o caráter re-
ferencial de eu, e, por consegi.tjnte, dos demonstrati
a refutar as assim chamadas 'Teorias da referência
dade ( acquaintance )' segundo as quais é o conhecimento que o
falante tem do referente, e não a forma da referência, que de-

158
termina se o enunciado expressa uma proposição singular con-
tendo eu. Para perceber que eu é um referente fonnal e não um
pensamento ou (um conjunto de) crença(s), poder-se-ia afirmar
numa terminologia mais técnica que o falante da língua precisa
entender eu como uma função proposicional e não como um
modo de identificação.
É precisamente este o ponto em que o filósofo se torna an-
tifregeano. A maneira pela qual eu é uma expressão referencial
não é como modo de identificação. Se isto é verdade para eu,
será verdade também para a escala dos demonstrativos em seu
todo (desde os indiciais puros até os demonstrativos puros, ao
longo do eixo todo).

Kaplan ( The Logic of Demonstratives, manuscrito sem


data) cita sentenças como os exemplos que seguem para ilustrar
a dificuldade do ponto de vista fregeano:

Eu não existo.
Quem me dera que eu não estivesse falando agora.
Logo será o caso de que tudo aquilo que agora está bonito
terá passado.
Eu recebi insultos ontem.
É possível que, no Brasil (original: in Belgium ), daqui a
dois anos, somente aqueles que estão efetivamente aqui
agora serão felizes.

A tese que afirma ser eu uma função proposicional (sem


ser um modo de identificação) não significa que eu e os demais
demonstrativos não têm regras de uso semânticas fixas que de-
terminahi seu referente em cada contexto de uso. Existe, sim,
uma regra semântica que determina seu referente em cada con-
texto de uso, mas a regra não gera o sentido do indicia! a partir
circunstâncias de avaliação [o enunciado ( utterance ) com
seu sentido intrínseco], mas antes a partir do contexto de uso
efetivo. A regra apenas proporciona um objeto, um estado de
coisas ou um acontecimento ( state of affairs or event ) de modo

159
que a distinção entre contexto de uso e circunstâncias de avalia-
ção é altamente adequada. As circunstâncias de avaliação são as
'circunstâncias' que cercam aquilo que é dito numa dada ocasião
de uso. É por isso que o valor proposicional de um enunciado (e
eu enquanto função proposicional) deve ser distinguido do valor
sentencia! de um enunciado: isto é, uma função proposicional
tem um 'contexto de uso' ao passo que um fragmento de discur-
so (palavras e sintagmas, por exemplo) tem 'circunstâncias de
avaliação'.
A regra semântica apropriada para eu (com suas extensões)
poderia ser a seguinte: (em cada contexto de uso possível, eu se
refere ao agente do contexto.lEsta regra de designação não pode
ser usada para atribuir um o6jeto relevante a cada circunstância
de avaliação. Tome-se por exemplo eu não existo: em que cir-
cunstâncias aquilo que eu disse seria verdade? Seria verdade em
circunstâncias tais que eu não existisse. Claramente, eu não faz
referência a circunstâncias de avaliação, mas ao agente do con-
texto de uso; e as circunstâncias de avaliação não envolvem
contextos de uso e agentes que não existem. Analogamente, no
exemplo quem me dera que eu 1Uio estivesse fd ando agora, as
circunstâncias desejadas não envolviam contextos de uso e
agentes que não estão falando. O contexto efetivo de uso inter-
vém para determinar o indivíduo relevante, me; e a seguir esta-
belecemos várias circunstâncias de avaliação desse indivíduo.
Considere-se o que se diz na oração tudo aquilo que agora está
bonito terá passado. Quero avaliar o conteúdo dessa seqüência
em algum momento futuro; mas qual é o tempo relevante asso-
ciado a agora? É o tempo do contexto de uso, (t2). Na sentença
É possível que, no Brasil daqui a dois anos, somente aqueles
que estão efetivamente aqui agora serão felizes, aqui e agora
são o lugar e o tempo do contexto de uso (p 2t2), e não o con-
junto de circunstâncias de avaliação tais como são determinadas
pelos operadores sentenciais (de localização espaço-temporal).
Ontem em Ontem recebi uns insultos é ontem para t2, porque se-
ria hoje se o tempo fosse o tempo das circunstâncias
ção.
Isto leva a formulação da terceira proposta: (o sentido dos

160
mdiciais, e especialmente cte eu ê ctetemunado com respem, •.
contexto de uso.) É irrelevante, ou inaplicável a ele a determina-
ção do referente com respeito às circunstâncias de avaliação.
Segue-se que, em cada uma de suas ocorrências (utterances) eu
é referencial: eu faz referência à pessoa que o pronuncia, mas eu
pode ter um conteúdo diferente em cada uma de suas ocorrên-
cias, de acordo com modos de identificação sentenciais. Hemis-
ticarnente (na perspectiva de alguém que 'descobre' ou compre-
ende eu como uma expressão significativa), a ordem será inver-
tida: compreende-se primeiro a relação do indicial com as cir-
cunstâncias de avaliação sentenciais, e depois sua relação com o
contexto de uso efetivo. David Kaplan, que elaborou a distinção
entre contexto de uso e circunstâncias de avaliação, apresenta a
seguinte terminologia:

SENTENÇA Circunstâncias ln tensões

1
PROPOSIÇÃO Contexto Conteúdo
1 1

Personagem

O conteúdo de eu é uma função sentencia! de possíveis


circunstâncias a intensões; a personagem de eu é uma função
proposicional de possíveis contextos a conteúdos. Os demons-
trativos, e em primeiro lugar eu, tem sua personagem como sen-
tido. Em conclusão, deve-se dizer que eu é uma função proposi-
cional não por ser um modo sentencial de identificação, mas por
ser um designador do contexto de uso. Mas eu não é uma regra
de designação rígida, e os demonstrativos não são designadores
rígidos.·
Conforme já observei, a ordem heurística para entender
seqüências demonstrativas é a seguinte: em primeiro lugar en-
tende-se a relação do indicia! com suas circunstâncias senten-
ciais de avaliação, e em seguida sua relação com o contexto de
uso. Reavaliar a heurística é um efeito colateral de urna opção

161
:.nais geral:(construir uma teoria do sentido como teoria da com-
preensão.) Uma 'competência comunicativa' pragmática é uma
~ompetência da compreensão ou do 'descobrir' a significância
das seqüências discursivas. Há portanto uma assimetria essencial
entre produção e compreensão em pragmática. Todavia, compre-
ender não é um estado mental ou uma experiência específica - é
antes uma habilidade extrfuseca ou uma operação-no-mundo.
Compreender é uma operação prática ou interacional;(compre-
ender aquele-que-fala-eu é outorgar ao falante a Autoridade de
Primeira Pessoa. Davidson escreveu recentemente (texto não
publicado de 1983) a respeito da autoridade especial com que os
falantes se atribuem, a si próprios, estados mentais e aconteci-
mentos. Ele encontra uma explicação para essa autoridade na
natureza do ato interpretativo, pois o argumento visa a mostrar
que a interpretação depende de o intérprete delegar essa autori-
dade ao falante0/
A interpretação e a Autoridade de Primeira Pessoa estão
dialeticamente entretecidas. De um lado, pode-&e encontrar uma
explicação para essa autoridade na natureza do ato interpretati-
vo, e pode-se sustentar que a interpretação depende de que o
intérprete outorgue essa autoridade ao falante. De outro, não há
autoridade que não seja válida intersubjetivamente, por isso a
outorga da autoridade é uma conditio sine qua non da subjetivi-
dade daquele-que-fala-eu. Dada a natureza da interpretação e da
compreensão, a Autoridade de Primeira Pessoa decorre. Dada a
autoridade especial daquele-que-fala-eu, que não é conquistada
nem ganha, mas outorgada, o ato de interpretação ou compreen-
são constitui a subjetividade do falante. A Autoridade de Pri-
meira Pessoa outorgada pela comunidade dos intérpretes àquele-
que-fala-eu, consiste no fato de que se considera ( is asswned)
que aquele-que-fala-eu tem direito à designação dos objetos,
eventos e estados de coisas no mundo, e antes de tudo do sujei-
to, do acontecimento e do valor que ele tem em mente ( means )
ao dizer eu. Ele não precisa saber mais sobre si mesmo do que o
papel que ele desempenha na interação e intersubjetividade; di-
zendo eu (tu, nós, aqui, agora), aquele-que-fala-eu faz referên-
cia ao seu papel no intercâmbio, tem o propósito de ( intends )

162
designar-se a si próprio nesse papel, e é considerado como tendo
esse propósito pela comunidade. Por conseguinte,_ eu é uma re-
gra de designaç-ão ou um designador, mas não um designador rí-
gido: eu não tem uma função referencial transparente - ao con-
trário, eu é uma condição opaca sobre a força, e um princípio
opaco de funcionamento lingüístico racional e cooperativo. Para
concluir, menciono que a ação do eu sobre o discurso como um
todo vai além da categoria gramatical dos demonstrativos. Toda
a estrutura da língua se organiza ao redor daquele-que-diz-eu e
de sua referência ao seu papel, outorgado pela comunidade. Esta
é, sem dúvida, a essência da perspectiva pragmática da língua, e
seria de grande interesse ver de que modo essa posição 'ego-
centricarnente' orientada a respeito dos demonstrativos, do uso
demonstrativo da língua, ou daquele-que-diz-eu se comportaria
submetida a testes em lingüística empírica.

Ili

Uma teoria pragmática da língua entende que todas as se-


qüências lingüísticas são modificadas por aquele-que-diz-eu.
Aquele-que-diz-eu detém a Autoridade de Primeira Pessoa, que
consiste em embrear no/desembrear do discurso ( shifting in and
shifting out of the discourse ). Meu propósito é relacionar a
análise da Autoridade de Primeira Pessoa a uma versão modifi-
cada da teoria jakobsoniana dos embrayeurs lingüísticos.

Oembrear

Mesmo quando o sujeito se torna o 'objeto' de uma atenção


autoconsciente por parte da linguagem, voltada para si mesma,
ainda acontece que a subjetividade se "mostra" sem "dizer-se"
por meio de informações gramaticais-sentenciais. Dizer e mos-
trar são categorias classicamente em contraste, exploradas por
Wittgenstein, Austin, Benveniste e Bühler (veja-se a oposição
'Zeichen/Anzeichen ). Quando o discurso é modificado por

163
aquele-que-diz-eu, o_ é em primeiro lugar por evidência dêitica e
modal. A modificação dêitic;a dá-se, por exemplo quando o eu é
'embreado no' ( shifted in) discurso (não apenas como uma re-
gra gramatical-distribucional, mas como uma função de designa-
ção, e mesmo como uma condição para a interação e intersubje-
tividade, e como um princípio 'axiológico' de cooperação, coor-
denação, veracidade, autenticidade e assim por diante). É evi-
dente que a maneira como estou introduzindo o termo 'embrear
em' nada tem de ortodoxo quando referido ao uso que Jakobson
fez da categoria dos embrayeurs. Há, principalmente, três dife-
renças. Em meu enfoque, não são relevantes os embrayeurs co-
mo categorias morfolexicais estabilizadas, mas o embrear como
um procedimento ou oper;ação discursivo-textual; além disso, o
embrear não diz respeito somente à presença de eu como uma
regra gramatical-distribucional: a ação do eu nesses níveis mais
profundos da proposição, a unidade de ação e a estrutura actan-
cial têm um alcance mais amplo do que simplesmente as catego-
rias e distribuições gramaticais; e, finalmente, o embrear em tem
uma contrapartida perfeita no debrear de: há proceduras que são
efetivadas por estar o eu presente e outras efetivadas por estar o
eu ausente. Esta terceira propriedade é quase geralmente esque-
cida na teorização lingüística em andamento.
A narratologia e a semiótica contemporânea analisam a
dialética do embrear em e debrear de, do 'engajamento' ( em-
brayage em francês no original) e do 'desengajamento' ( débra-
yage, idem) no interior de textos e outros objetos semióticos (do
mundo cultural e mesmo do mundo 'natural'). 'Engajamento' de-
signa o efeito de retomo à enunciação. Cada engajamento pres-
supõe um desengajamento, operação que o precede 'logicamen-
te'. "Quando, por exemplo, o presidente americano diz" '- A
América é um país maravilhoso', ele opera um desengajamento
da fala, que instala no discurso um assunto ( subject) distinto,
distante com respeito ao domínio da enunciação. Por outro lado,
se a mesma pessoa dissesse: '- O presidente americano pensa
que ... ', tratar-se-ia ainda de um desengajarnento da fala, mas um
desengajamento que é suplementado por um conjunto de proce-
duras que chamamos engajamento e que, embora permaneçam

164
implícitas, visam a produzir, entre outras coisas, um efeito de
identificação entre o sujeito da fala e o sujeito da enunciação"
(Greimas, 1979:150). O engajamento pode ser dividido em ato-
rial, temporal e espacial, freqüentemente juntos e acontecendo
sincreticamente. Podemos interpretar o engajamento como a ne-
gação de não-eu, realizada pelo sujeito da enunciação, e visando
a um (impossível) retorno à fonte da enunciação. Um dos prin-
cipais resultados da análise semiótica dos textos narrativos é que
existem todo tipo de estratégias criando o tempo todo a ilusão
enunciativa. Na verdade, o engajamento é a um só tempo um
objetivo da enunciação e uma espécie de fracasso, uma impossi-
bilidade de atingir aquele objetivo. "As duas 'referências' com a
ajuda das quais se busca uma saída do mundo fechado da lin-
guagem são um meio de grampear esse universo sobre uma exte:-:
rioridade totalmente diferente - referência ao sujeito (ao domí-
nio da enunciação) e referência ao objeto (ao mundo que cerca
os seres humanos, como referente). Essas referências são bem-
sucedidas, em última análise, somente em criar ilusões: a ilusão
referencial e a ilusão enunciativa" (Greimas). Um outro movi-
mento dialético deve ser observado: contrariamente ao que
acontece no momento do desengajamento, cujo efeito é o de re.:.
ferencializar o domínio em que sua operação começa, o engaja-
mento produz uma des-referencialização do discurso .que· ela
concerne: aqui, de novo, pode-se identificar a intensidade da
dêixis e da modalidade subjetiva na realidade, a intensidade de
ambas as manifestações da subjetividade (dêixis e modalidade)
afasta o mundo, enquanto· referente objetivo, para longe do dis-
curso.

O desembrear

Observa-se em análise do discurso que alguns tipos pecu-


liares de discurso são caracterizados pelo fato de que aquele-
que-fala-eu tem uma autoridade especial para retirar-se (para au-
sentar-se) - é o caso por exemplo no discurso científicó e no
discurso didático. Verdadeiramente complexos e sutis, os proce-

165
dimentos de debreagem são menos observáveis: a maneira obje-
tiva de falar no uso científico da linguagem é, com efeito, uma
maneira de esconder a subjetividade que o origina, com seus
motivos e objetivos gerais e específicos. Mas também a comuni-
cação indireta, e todos os tipos de comunicação desviante (a
mentira e a manipulação pela linguagem, em especial), são casos
em que o sujeito que fala está 'debreando do' discurso. Há téc-
nicas para simular a ausência de performatividade, expressivida-
de e envolvimento subjetivo nos fragmentos lingüísticos, e estes
são os fenômenos que apresentam a maior dificuldade para se-
rem descritos e explicados sistematicamente. O problema con-
siste no fato de que o debrear é um ataque evidente à comunica-
ção e à solidariedade. A norma comunicativa é que o falante ex-
presse sua intenção de ser comunicativo. O debrear pode marcar
cada um dos três aspectos da dêixis: a dêixis pessoal ou actan-
cial, a dêixis temporal e a dêixis espacial. O eu debréia en-
quanto pessoa aplicando procedimentos em pelos quais se reali-
za um tipo de Ele neutro (a verdade, por exemplo, é uma instân-
cia da universalidade, e é intrínseco à verdade o não ser contin-
gente a um sujeito). A debreagem temporal realiza uma espécie
de tempo u-t6pico onde a indicialidade temporal é colocada en-
tre parênteses e idealizada. Uma neutralização topológica é
igualmente possível quando o sujeito falante localizado espa-
cialmente se retira ou manipula o intérprete com respeito à pos-
sível direção das coordenadas espaciais.
Usando a terminologia semiótica, podemos definir 'de-
brear' ou desengajamento como a operação por meio da qual a
enunciação disjunge e projeta para a frente a partir de si, no
momento de fala, certos termos ligados à sua estrutura de base.
A fala aparece, assim, como um duplo ( split ) que cria, de um
lado, o sujeito, o tempo e o lugar da enunciação e, de outro, a
representação actancial, espacial e temporal da fala. O desenga-
jamento actancial consistirá então em disjungir um não-eu do
sujeito da enunciação, e projetá-lo na fala; o desengajamento
temporal, em postular um não-agora distinto do tempo da enun-
ciação, o desengajamento espacial em opor um não-aqui ao lu-
gar da enunciação. É necessário insistir no fato de que o sujeito

166
da enunciação está sempre implícito e pressuposto, que esse su-
jeito não é nunca manifestado no interior da fala. Começando
pelo sujeito da enunciação, implícito mas produtivo na fala, o
ator da enunciação ou o ator da fala pode ser projetado por sm;,_
instalação no discurso. No _primeiro caso, realiza-se um desen-
gajamento enunciativo, no segundo um desengajamento de fala
( utterative) [como nas narrações que têm sujeitos convencio-
nais ( commonplace ), no assim chamado discurso 'objetivo'].
Notar-se-á que cada desengajamento produz um efeito de refe-
rencialização: o discurso 'desengajado' dá a impressão de que a
narrativa constitui a 'situação real' do discurso: ele referenciali-
za a narrativa. Paralelamente ao desengajamento actancial, o de-
sengajamento temporal pode ser compreendido como um proce-
dimento para projetar o termo não-agora, no momento da fala,
para fora do domínio da enunciação. Essa projeção permite a
construção de um tempo objetivo, que começa pela posição que
pode s~r chamada o tempo-então. Considerando o tempo-então
como um tempo zero e aplicando (a partir desse ponto zero) as
categorias de concomitância/não-concomitância (anteriorida-
de/posterioridade) é possível construir um modelo da temporali-
dade da fala que permite a identificação dos vários tipos de dis-
cursos narrativos. Procedendo de i;naneira inversa, as operações
desengajadas podem ser a partir daí engajadas de modo a produ-
zir a ilusão de sua identificação com o domínio da enunciação
(nisto consiste o engajamento temporal). O desengajamento es-
pacial, por sua vez, é um procedimento que resulta em expulsar
para fora da enunciação o termo não-aqui, fundando o espaço
'objetivo' de fala (o espaço alhures). Vê-se que a projeção do
termo aqui, simulando a localização da enunciação, é igual-
mente possível. Sistemas referenciais secundários para a atoria-
lização, a temporalização e a espacialização do discurso narrati·"
vo são freqüentes. No caso da espacializ.ação, por exemplo, o
domínio da enunciação pode ser instalado na fala na forma de
um simulacro, e o espaço do aqui pode ser inscrito no discurso
como um espaço de enunciação relatado. A semiótica e a narra-
tologia têm uma tarefa uraente na dedução de todas as possibili-
dades tipológicas de desengajamentos e engajamentos, e suas

167
,uperpos1çoes, e na aplicação desse esquema a tantos textos e
discursos específicos quanto possível.

IV

Qualquer que seja o modelo sugerido para a análise da


temporalidade em lingüística (e em lógica temporal), o papel do
tempo é necessariamente determinado com respeito ao do espaço
e da pessoa (agente, ator, falante, sujeito). A dêixis envolve ne-
cessariamente três componentes: o Ego (mais suas relações com
tu, ele e nós), o Nunc e o Hic (mais suas relações a outras posi-
ções espaço-temporais). Há uma conhecida anedota, S<?gundo a
qual o soldado francês responde à chamada pelo equivalente de
Nunc ( Présent ), o soldado alemão pelo equivalente de Hic
( Hier) e o soldado letão pelo equivalente de Ego. Desse modo,
um diferente componente da dêixis é privilegiado em cada uma
das três línguas. No 'triângulo dêitíco', o tempo precisa, obvia-
mente, vir situar-se entre a Pessoa e o Espaço, e o modelo da
temporalidade introduz uma redução quase-automática do tempo
quer ao espaço, quer à pessoa (neste caso falarei de espacializa-

/""
PESSOA

/Eu T?I\
ESPAÇO--- - - - - - - - - ~ TEMPO

Aqm(~N-ao-~1. Agora/N\
ao-agora
/'\.
Lá Alhures
/\.
Antes/depois uma vez
(heterotópico) ( u-tópico) (passado/futuro) (aoristo)

168
ção ou orientação para o ator do tempo). Sou contra o que fre-
qüentemente ocorre em gramática (e na filosofia do tempo em
geral), a saber a espacialização do tempo, e defendo os méritos
da orientàção para o ator. No esquema abaixo, a direção das fle-
chas (. .. reduz-se à... ) denota minha opção, que é também a de
Guillaume.·

A espacialização do tempo

Os gramáticos observam que, pelo menos para as línguas


indoeuropéias, somente as coordenadas temporais são registra-
das na forma do verbo, e às vezes pergunta-se por que o compo-
nente temporal tem esse privilégio quando comparado com as
coordenadas espaciais: não há 'lugares' do verbo, ·apenas 'tem-
pos' do verbo. Por que razão agora não é uma marca mais pro-
nunciada do que aqui? A explicação deve ser buscada na unidi-
mensionalidade ou linearidade do tempo, que permite demarcar
facilmente um antes e um depois, em contraste com a pluridi-
mensionalidade do espaço (o caráter de 'compasso' do aqui):
agora é um limite, ao passo que aqui não é: é na melhor das hi-
póteses o ponto de conexão de várias direções. Esta explicação,
que apela para a estrutura do escopo 'existencial' do tempo e do
espaço, é porém muito insatisfatória, não só porque o aspecto do
verbo expressa em larga medida o seu 'lugar', mas especial-
mente porque a gramática espacializa as especificações tempo-
rais do verbo (da mesma maneira como faz. com todos os outros
indicadores temporais sentenciais). O assim chamado localismo
em teoria gramatical defende a hipótese de que as expressões
temporais são inferidas de expressões de lugar (ver Lyons,
1977:718-724). Preposições tais como por, desde e até foram de
início expressões de lugar que receberam em seguida um sentido
temporal. Mas num nível mais profundo pooer-se-ia dizer que,
na medida em que a progressão do tempo significa a transição
de uni estado para outro, então o movimento temporal expresso
em tempo passa necessariamente a ser interpretado no espaço.
A maioria dos tipos de explicação lógico-filosófica do
tempo mal diferem entre si. Eu poderia mostrar que o agora (em

169
que se concentra toda a dêixis temporal) é de fato espacializado
nas teorias do tempo dotadas de representatividade ( ver Parret,
1985). Qual é o sentido de agora numa expressão como Reagan
é o presidente agora? De acordo com a 'redução colofônica'
(Russell), é: O fato de que Reagan é o presidente é co-temporal
com o dado sensível ( sense datum) que ora ( hereby) se indica
por ostensão (aJ.X)ntando para o falante). A primazia da percep-
ção, o realce dado à co-temporalidade existencial, a ostensão
como uma condição necessariamente significativa de agora, dei-
xam claro que Russell opta por espacializar as espacificações
temporais. Um segundo tipo de redução espacializadora é o de
Quine: é a redução pela data. O sentido daquela sentença, de
acordo com a redução pela data, é: Que Reagan é o presidente é
verdade quando o calendário indica 12 de outubro de 1985, e o
relógio marca... O sentido da especificação de temJ.X) repousa
numa espacialização das condições de verdade. Uma abordagem
mais adequada mas ainda espacializadora é a de Davidson (a re-
dução 'reflexiva de ocorrência') em que o .sentido da sentença é
Há uma seqüência lingüística: Reagan é presidente agora e há a
co-temporalidade do fato de Reagan ser presidente. Aqui, a
co-temporalidade de fato ainda é uma relação espacial (justapo-
sição ou parataxe). É portanto a relação espacial entre o objeto e
a meta-seqüência que substitui a indicação temporal.

A orientação do tempo em relação ao ator

Uma alternativa a essas tentativas de espacializar a tempo-


ralidade J.X)deria ser a orientação no sentido do ator. Poder-se-ia
inverter a direção da redução, dentro do triângulo dêitico: espa-
ço--temJ.X)_.pessoa. Aqui s6 posso formular algumas suges-
tões. A tradição lógico-gramatical vê uma forte ligação entre a
denotação temporal e a forma do verbo. Os tempos do verbo são
encarados antes de mais nada e primariamente como indicadores
de tempo; outras unidades de tempo são os advérbios de tempo
(agora, amanhã ... ); eles modificam o verbo ou, pelo menos, a
parte predicativa da sentença. É típico que Guillaume designasse

170
sua perspectiva 'psicomecânica' da língua como um todo com
base na caracterização da temporalidade e aspectualidade ex-
pressas através das formas verbais, motivo do título de seu livro
Tempo e verbo. Entretanto, poderíamos imaginar uma língua que
lance mão de uma morfologia que especifique o tempo nomi-
nalmente: sintagmas nominais como ex-presidente, a passagem
do tempo, o período recém-findo, indiscutivelmente expressam
temporalidade. Parece mesmo haver casos em que a especifica-
ção temporal não pode ser ligada ao verbo. Considere-se uma
sentença como O sucessor do atual rei ainda está pará nascer,
onde o sucessor do rei é um substantivo futuro. A denotação
futura não pode ser relegada ao verbo, que tem forma de pre-
sente ou de passado. Se o sucessor do rei é um nome futuro, não
é porque o sintagma seria sinônimo da oração relativa "aquele
que sucederá ao rei", onde o verbo está no futuro. Na sentença
encontrei o sucessor do rei, o sintagma nominal está no presente
(sic). Mas ainda é plausível acreditar como fazia Guillaume que
há uma relação intrínseca entre o tempo e o verbo porque o ver-
bo - no contexto da parte predicativa da sentença - expressa um
processo. Ainda assim, uma teoria do tempo textual precisaria
ver, diferentemente do que tem acontecido, que o tempo e o
processo não tem estado tão estreitamente ligados um ao outro,
ao contrário do tempo e da ação (na primeira fase) e, especial-
mente, do tempo e do ator (na segunda fase). A acionalização e
orientação para o ator do tempo oferecem uma alternativa à es-
pacialização do tempo que vem acontecendo com tanta freqüên-
cia.

a) Tempo e ação: O Leidfaden austiniano consiste em que


o falar é tomado como fazer. Compreender sentenças
temporalmente específicas consiste em compreender
ações temporalmente específicas, com a conseqüência
de que a intencionalidade subjaz a essa compreensão.
As condições de êxito dessas ações concernem a pro-
priedade dos possíveis contextos em que esses frag-
mentos de ação podem ser falados. A teoria do tempo
como ação contrasta com a teoria do tempo como co-

171
nhecimento das condições de verdade de falas tempo-
ralmente específicas. Dizer uma sentença temporal-
mente específica x é realizar o ato y em que y estabele-
ce x como a origem temporal de todos os eventos. Se-
ria preciso investigar em extensão qual é exatamente a
relação entre performati vidade e especificação ( ou
mesmo projeção) temporal. Falar uma sentença com
wna especificação de agora organiza por assim dizer
todo o co-texto e contexto em tomo da efetividade
( actualty ) do ato de fala.

b ) Tempo e ator: Este realce ao caráter acional das espe..:·


cificações temporais levará necessariamente a uma teo-
ria da espacialização e especialmente da temporaliz.a-
ção orientadas para o ator. O ator é uma competência
que designa, constrói e projeta espaço e tempo. Por is-
so, as coordenadas espaciais e temporais não são nun-
ca pontos ou relações ( networks ) fixos e eternos, mas
o resultado da espacialização ou da temporalização. O
Ego é central e pelo princípio egocêntrico de organiza-
ção o espaço é criado: por periferização (o espaço ir-
radiando desde o centro do agente para a periferia) ou
por centralização (ou concentração). Na competência
do Ego devem distinguir-se tipos de temporalização: a
afirmação do presente, a determinação da ausência da-
quilo que foi presente; a determinação daquilo que
ainda não é, etc. A essa atividade espaço-temporaliza-
dora do ator uma espécie de ~obredetenninação pode
ser acrescentada: a aspectualização (o caráter diretivo
e a 'tensão' com que se espacializa e se temporaliza) (o
contínuwn desde a tensão até o relaxamento, desde a
força até a fraqueza). É pois a egocentrificação do do-
mínio da dêixis como um todo, a saber, a consideração
do tempo e do espaço como produtos da competência
do ator, que leva a uma teoria alternativa do tempo em
que nenhum tempo, e sim o temporalizar se toma im-
portante.

172
Conclusão

A subjetividade na língua e a dêixis como sua manifesta-


ção importante nunca mais saíram da cena semiótica depois de
Peirce e a cena lingüística depois de Bühler. Em lingüística,
penso em Collinson (1937), Jakobson (1957), Fillmore (1971), e
recentemente Langacker (na perspectiva da gramática cognitiva,
também chamada space gramrnar; vejam-se, por exemplo, 'Ob-
servations and Speculations on Subjectivity', em J. Haiman,
Iconicity in Syntax, 1985). Além disso, há algumas intuições
fundamentais da 'psicomecânica' de Guillaume que se revelam
notavelmente semelhantes às posições filosóficas que venho de-
fendendo (a especificidade da demonstração com respeito à re-
presentação, a organização egocêntrica do conjunto dos de-
monstrativos, a idéia de eu como uma regra de designação de-
pendente do contexto de uso, e a noção aqui proposta (claim) de
Autoridade de Primeira Pessoa com suas funções e poderes
opacos; v.2.). Deve-se lembrar que Guillaume escreveu sobre
dêixis, especialmente sobre temporalidade ( Temps et verbe ),
em 1929, e mesmo anteriormente, antes de Buehler (1934). Há
uma tradição de lingüistas que analisam a dêixis nas linhas ins-
piradas por Guillaume (Culioli, Desclés, Fraser, Joly), e eu
gostaria de apresentar alguns dados lingüísticos [original ilegí-
vel] tais como aparecem na tradição de Guillaume, na [original
ilegível] de meu artigo. Certamente, vale a pena reavaliar esta
orientação, que é marcada de maneira definida pelo paradigma
enunciativo (veja-se, por exemplo, Th. Fraser e A. Joly, 'Le
systéme de la deixis. Esquisse d'une théorie d'expression en an-
glais', in Modeles linguistiques, I (1979), 2).

Tradução: Rodolfo Ilari

173
TEMPO, ESPAÇO E ATORES:
A PRAGMÁTICA Íf,

DO DESENVOLVIMENTO

Meu programa abrange quatro pontos. No primeiro, de ca-


ráter introdutório, eu gostaria de indicar o fato de que, desde
o início do século, o crescimento das ciências sociais em geral e
da lingüística, em particular, pressupõe implicitamente o esque-
cimento da temporalidade e do desenvolvimento. Como objeto
do estudo social, o homem toma-se "atemporal" e pode-se dizer
que o quase-desaparecimento de uma reflexão séria sobre os vá-
rios aspectos da dimensão temporal do homem e da comunidade
caracteriza a maioria das orientações em ciências sociais. Mas a
onde refluiu, e pode-se falar agora de um quase-reviver da aten-
ção para com o desenvolvimento e a temporalidade nos vários
ramos do estudo do homem e sua produtividade. Estas notas
históricas não oferecerão mais do que um esboço impressionista
da dialética do quase-desaparecimento e do quase-reviver do
problema do tempo e do desenvolvimento no pensamento lin-
güístico contemporâneo. Num segundo ponto, eu gostaria de in-
dicar que a consideração para com o desenvolvimento e o tempo
fica ela pr6pria presa num "espartilho paradigmático" que se
pode controlar somente em parte e do qual, na verdade, o ho-
mem é vítima. Dito de maneira menos negativa, isto significa
que falamos e filosofamos sobre o tempo e o desenvolvimento
* Excertos de uma visão anterior deste artigo foram lidos num Congresso In-
ternacional sobre "Tempo e Desenvolvimento" (lnternational Conference on "Time
and Development") organizado pela Universidade de Michigan em Ann Arbor, em
abril de 1982 (debatedor: W.V.O.Quine).

175
numa espécie de metáfora necessária: é a metáfora de um jogo
de linguagem específico, para falar como Wittgenstein, ou de
uma certa episteme, nas palavras de Foucault (1966, 1969). _A
noção de paradigma de Kuhn (1962) também conota esse as-
pecto da subjetividade para incontrolabilidade do modo como -
num período hist6rico e num tipo específico de discurso, em
particular o discurso das ciências - um tema, no caso o tempo e
o temporalizar, é objeto de reflexão e discussão. O tempo numa
episteme, a metáfora de falar sobre o tempo, o conceito para-
digmático de tempo, o tempo num jogo de linguagem, tudo isso
são temas que indicam que não há um conceito atemporal de
tempo, ou ainda que o pensamento sobre desenvolvimento e
tempo está inserido num certo contexto sócio-cultural mas tam-
bém discursivo que dita as normas para jogar com a língua e pa-
ra o jogo do pensar. Num terceiro ponto, gostaria de passardes-
sa abordagem filos6fica um tanto geral e relativística para várias
sugestões referentes a um modelo em que o tempo, em sua rela-
ção com o espaço e a agentividade - e pois as outras dimensões
do implante dêitico de um texto ou fragmento de língua - pode
ser descrito e reconstruído. Provavelmente, alguns dos aspectos
do ponto de vista que estou articulando aqui com excessiva bre-
vidade precisariam ser operacionalizados na pesquisa lingüística
empfrica. Num quarto e último ponto, pretendo correlacionar,
sem uma discussão exaustiva, meu ponto de vista sobre tempo-
ralidade orientada para o agente a alguns insights filos6ficos
implicitamente presentes na assim chamada "lingüística desen-
volvimental" ( developmental linguistics ).

1 . O tempo e as ciências sociais

A colocação entre parênteses da temporalidade

Por longo tempo, as ciências sociais, em seu plano e méto-


do, pressupuseram a colocação entre parênteses da dimensão de-
senvolvimental e temporal de seu objeto. Isto acompanha uma
desconfiança geral por toda variante de descrição e explicação
subjetivista do homem, da cultura e da sociedade. O subjetivis-
mo, o historicismo e o psicologismo são claramente percebidos
como três aspectos do mesmo esquema de pensamento através

176
do qual a realidade é abordada. Os grandes pensadores do co-
meço do século XX - especialmente Husserl e Frege - reagiram
fortemente ao historicismo e psicologiBmo do século XIX, e ao
fazê-lo negaram a relevância da subjetividade e de sua depen-
dência temporal (possível também a experiência do tempo e a
projeção temporal) como categorias descritivas e explicativas.
Desse desaparecimento parcial do interesse pelo tempo e pelo
desenvolvimento, dou a seguir quatro exemplos óbvios.

a ) O objetivismo teórico

O clima filosófico no começo do século é marcado por um


objetivismo teórico francamente declarado. Embora a herme-
nêutica entendida como Einfü1' ung permanecesse viva em am-
bientes filosóficos um tanto idiossincráticos (especialmente na
Alemanha e depois na França), ainda assim a orientação geral
em filosofia (assim como nas ciências) consiste em vir para uma
"visão objetiva do mundo". Isto pode acontecer de um modo
curto e grosso pela hipóstase da observação e dos dados senso-
riais, ou de um modo sutil, acentuando-se a necessidade da re-
dução de uma experiência originalmente pré-científica e indife-
renciada. Estou pensando aqui na 'redução fenomenológica' de
Husserl, que é uma operação metodológica pela qual é possível
ver o mundo como objeto, como fenomenalidade pura. Em Hus-
serl, o tempo acaba por intervir como uma categoria transcen-
dental (um pouco como em Kant), mas a ruptura entre a expe-
riência pré-científica ou subjetiva do tempo e sua reconstrução
filosófica é metodologicamente primária: uma teoria do tempo -
na medida em que se bate pela objetividade - não tem conexão
com o modo como o tempo é experienciado em sua manifestação
do senso comum. Idealizar e transcendentalizar o tempo são as
amostras clássicas de objetivização e retirada do tempo do mun-
do da experiência (deslocamento do observável 'puro' para o
psicológico 'puro')l. Enquanto Husserl transcendentalizou o
tempo, Heidegger o idealizou: o Tempo, o Ser e o Pensamento
recebem maiúscula para povoar a região 'objetiva' da metafísica

177
mais elevada. Este objetivismo teórico pode assumir muitas for-
mas - o tempo enquanto dimensão subjetiva (como experiência
subjetiva ou como projeção de um sujeito) perde continuamente
todo seu sentido e valor.

b ) A semântica fonnal

Desde Frege e Russell mostrou-se que a semântica é inca-


paz de formalizar o tempo em todos os seus aspectos. Mais do
que isso, a semântica formal é de fato guiada por uma grande
desconfiança em relação à temporalidade, algo para que é difícil
encontrar uma ontologia adequada. A grande fascinação com a
semântica formal - e mesmo o "terrorismo" com que trata abor-
dagens menos formais - apóia-se no fato de que a fundamenta-
ção do modelo da semântica formal é simplificada ao extremo
( oversimplified ): é bipolar. A semântica formal formaliz.a a
relação do sistema de expressões com uma ontologia, o que en-
tão implica que esse sistema de expressões - por exemplo um
discurso ou um fragmento de linguagem - está diretamente rela-
cionado com o mundo sem a mediação do tempo incorporado a
um sujeito falante. É como se as palavras fossem coladas às coi-
sas. O discurso ideal é visto como uma "escritura branca"2, isto
é, uma escritura que é não-situada espaço-temporalmente ou 'li-
vre de contexto' (onde contexto é estrutura interna do sujeito, e
não apenas sua localização espaço-temporal). O terceiro pólo -
o pólo da produção e interpretação espaço-temporal (tenho em
mente aqui o interpretante de Peirce) - é esquecido de maneira
'natural'. É interessante observar que a semântica formal clássi-
ca é praticamente inerte com respeito aos fenômenos da dêixis
ou mostração. Frege, em seu menos conhecido artigo 'O pensa-
mento' (1918), exprime claramente o fato de que os demonstra-
tivos (pessoa, tempo, espaço) constituem uma ameaça à bela ar-
quitetura da semântica pura, onde a significação é determinada
pela dicotomia sentido/referência (o suplemento desses, a/orça
que é responsável pelo engajamento do sujeito preso a restrições
espaço-temporais e, por seu discurso, permanece bastante mar-
ginal ao cerne do processo da significação).

178
c ) A lingüística estrutural

Desde Saussure, a Lingüística Estrutural tomou partido


explicitamente contra a tradição anterior, que dava grande peso
à história e à dimensão temporal. A dicotomização empreendida
por Saussure é uma arma metodológica que lhe permite um ob-
jeto teórico ou um objeto de conhecimento: Zangue em oposição
a parole, forma oposto a substância, sincronia oposto a diacro-
nia. Essa dicotomização é, a cada vez, epistemologicamente
motivada: deve haver uma área distinta que pode ser explorada
com os instrumentos metodológicos a nossa disposição, e o resto
- o 'resíduo' - fica rejeitado e relegado ao segundo termo da di-
cotomia, parole, substância, diacronia. No contexto saussuria-
no, o informal é forçado a recuar para a esfera da parole como
conseqüência de se considerar a língua ( Zangue ) como uma
forma . A lingüística do século XX é marcada por uma dicoto-
mização infindável: não só o informal, mas também o que é
prescritivo, valorativo, emotivo, temporal e tudo aquilo que tem
a ver com a produção espaço-temporal de fragmentos de língua
acaba relegado ao domínio residual. Colocada nesta perspectiva,
na gramática gerativa de Chomsky não é nada de novo a per-
formance abranger a totalidade dos fenômenos alegadamente
impossíveis de abarcar e que são afastados do domínio da gra-
mática. O 'falante ouvinte' em Chomsky é ideal e atemporal ou
instantâneo, o que dá no mesmo em última análise. O tempo
contextual, de acordo com Chomsky, é inequivocamente um as-
pecto da performance. É mais notável que fiquemos sabendo que
mesmo o tempo "gramatical" (o tempo e as categorias morfos-
sintáticas) não podem reivindicar um lugar prioritário na hierar-
quia gramatical: o tempo não é notado no nível da árvore sin-
tagmática inicial (o que se chamou no início de 'estrutura pro-
funda'), mas só no nível da forma lógica (onde são introduzidas
as variáveis e a quantificação). Os deslocamentos permissíveis
de indicadores temporais pertencem à classe dos deslocamentos
mais 'superficiais' (quer dizer, modificações que ocorrem na úl-
tima fase de uma derivação). Portanto, tanto o tempo extrínseco
(o tempo como contexto para a produção e interpretação) como

179
o tempo intrínseco (o tempo como uma operação gramatical in-
terna) são subestimados no modelo de Chomsky. Não há dife-
rença quanto a isso entre este modelo de um lado e a tradição
saussuriana ou bloomfieldiana clássicas de outro. Em face das
enérgicas afirmações que anunciam o estruturalismo e a gramáti-
ca gerativa na lingüística contemporânea, e sua fama de serem
realizações empírica e tecnicamente bem pensadas, orientações
alternativas que, ao contrário, consideram a dependência tempo-
ral da produção lingüística sentem-se frustradas e traumatizadas
pelo sucesso de seus opositores, contra o imperialismo da moda
dos quais precisam defender-se constantemente.

d ) A sincronicidade nas ciências sociais

As ciências sociais em geral - e a assim chamada 'filosofia


estruturalista' que se tem desenvolvido a partir delas - pressu-
põem a natureza sincrônica dos objetos que investigam. Os psi-
canalistas, antropólogos e filósofos estrutura.listas, como Lacan,
Lévi-Strauss e Foucault ridicularizaram a visão subjetivista-
idealista e existencialista da história (por exemplo, Sartre). O
assim chamado anti-humanismo do estruturalismo se opõe não
só à idéia de que 'homem' poderia ser uma categoria explicativa
relevante nas ciências sociais, mas também ao fato de que o
tempo pode ser uma força constitutiva ( constituent) no que
respeita à natureza e funcionamento das capacidades humanas.
Assim, a mente humana nada mais é para Lévi-Strauss do que
uma estrutura universal, a saber, a estrutura que é responsável
por toda estruturação possível (Lévi-Strauss, 1962). As inter-
pretações estruturalistas dos trabalhos de Marx - por exemplo as
de Althusser ( 1968) - visam, é verdade, a estruturar a história
ou a formar uma história anônima em que sincronias sucessíveis
são, por assim dizer, pontos: mas a linha geral apresenta-seco-
mo uma macro-sincronia de sincronias.(0 tempo é, na metateoria
das ciências contemporâneas - a começar pela lingüística e pela
antropologia, que tiveram de fato o maior impacto metodológico
- um efeito da estrutura mais c;lo que um motor ou fonte de es-
truturação-)

180
A reconstrução da temporalidade

Considero esta colocação entre parêntesis como sendo uma


catarse que nos livrou definitivamente do historicismo ou qual-
quer variante que seja das visões positivistas do tempo (o tempo
como cronologia, como biografia, como naturalmente dado).
Não pode ficar assim, e de fato a onda está refluindo. Natural-
mente, o caráter misterioso e incompreensível do tempo e seus
efeitos sobre a sociedade e a cultura continuam interminavel-
mente fascinantes. É como se qualquer modelo que escolhamos
tenha ne~essariamente que fracassar quanto a oferecer uma re-
construção adequada da temporalidade. O modelo 16gico-gra-
matical do tempo teve uma grande dificuldade em organizar as
categorias morfossintáticas do tempo, para não falar da concep-
tualização dos aspectos mais globais do tempo numa perspectiva
mais ampla. Ainda assim o parcial reavivar-se da atenção dada à
temporalidade e ao desenvolvimento se impõe a nós, e eu vou
dar alguns exemplos 6bvios disso no que segue.

a) Mudanças de paradigma da teoria lingüística e da análi-


se do discurso

O paradigma clássico em cujo interior tem lugar a reflexão


sobre língua e texto - desde Platão até Kripke - considera a lín-
gua e o texto do ponto de vista de sua função representativa: os
nomes - e antes de mais nada os nomes pr6prios - constituem o
protótipo das categorias gramaticais pelo fato de que a transpa-
rente atribuição de apelativos ( dubbing ) característica do nome
próprio se aproxima do ideal da representação pura. O privilégio
do nome ( e do nome que o nome próprio é) orienta a teoria da
língua e a teoria da significação para o lexicalismo (desde Frege
e os pós-fregeanos até Kripke). Em contraste com este paradig-
ma tradicional - e de fato neoplatônico - emerge um novo para-
digma em cujo interior a língua é encarada do ponto de vista de
sua função demonstrativa. Bühler já fala da língua como um
'campo ostensivo'. Nesta nova perspectiva, os demonstrativos
são modelares, mas como a função demonstrativa é realizada

181
através de operações, como a predicação e outros tipos de ato de
fala, como a afirmação etc., uma concepção lexicalista dos de-
monstrativos estaria longe de adequada 3. Pode-se encontrar
evidência desse interesse pelos processos demonstrativos na re-
novada atenção pelos pronomes - na verdade, é um fato que
Benveniste, o estru.turalista mais aberto de todos colocou em
primeiro plano todo o problema da chamada "subjetividade na
linguagem", mais urna vez, através dos estudos dos pronomes
(Benveniste, 1966). O funcionamento dos pronomes transcende
inclusive o nível lexical e transporta-nos para o nível das unida-
des de ação lingüística, nomeadamente sentenças e outras uni-
dades de texto. Ainda assim, renovada atenção pelos demons-
trativos não vale necessariamente pela introdução de um novo
"paradigma". Resulta em considerar o domínio todo da dêixis,
sem introduzir reduções empobrecedoras. As funções demons-
trativas da língua envolvem urna pessoa (um ator ou agente) si-
tuada no tempo e no espaço.
A pessoa, o tempo e o espaço têm propriedades irredutí-
veis. Quando Russell reduz as propriedades de Eu (e suas rela-
ções com Tu e Ele ) e de Agora (com suas relações a passado
e futuro ) às propriedades de um Aqui/Acolá ulteriormente espe-
cificado, isso vale por urna redução do domínio todo da dêixis
ao espaço (Russell, 1905; 1918):(a "espacialização" do tempo
(e da pessoa) é um perigo que ameaça muitas teorias lingüísticas
e filosóficas dá língua e da significação. Mas é importante per-
ceber que are-avaliação do tempo no interior da dêixis só pode
ocorrer no âmbito de uin novo paradigma em que o discurso não
é mais encarado como a representação de uma ontologia pressu-
posta, mas ao contrário como a revelação de um ator que é espa-
cial e temporalmente sujeito a restrições.

b ) Ataque contra o modelo verifuncional da temporalidade

A lógica aristotélica clássica foi acrescida de urna lógica


temporal (A.N. Prior publicou Time and M odality em 1957,

182
e H.Kamp, D.Gabbay, N.Rescher, von Wrigt, R. Montague e
muitos outros construíram lógicas temporais ·na década de ses-
senta). A lógica temporal, como qualquer outra lógica modal
(lógica epistêmica, lógica erotética, etc.) permanece, contudo,
uma lógica 'desviada' ( deviant) 4. Ainda assim, é evidente que
a noção de verdade continua sendo um conceito central na lógi-
ca temporal. Além disso, as línguas formais e artificiais conti-
nuam sendo encaradas como linguagens 'ideais', e suas proprie-
dades formais são transferidas para a linguagem natural 'desvia-
da' - o que equivale à regimentação quineana do uso da língua
natural. A temporalidade no contexto da lógica temporal nada
mais significa do ci,ue indiciar os objetos no mundo (eventos
possíveis e estados de coisas num mundo real ou possível): o
tempo fica "ontologizado". Tcxlavia, -a indiciação do tempo,
como a espacialização acima aludida, pressupõe uma redução
inaceitável. Sob esse respeito, muitas lógicas temporais são tor-
nadas irrelevantes desde o início. Foram os lingüistas de inspi-
ração lógica ao invés dos lógicos puros que relativizaram a veri-
funcionalidade e a ontologia temporal por meio de urna análise
de um siste~a de tempo que é intrínseco a línguas naturais: (o
r:r,_odo corno as línguas particulares expressam tempo não é nem
verifuncional, nem globalmente universal. O tempo não é nem
um objeto preexistente com relação à língua, nem urna categoria
ontológica; é um princípio organizacional da própria língua.
São as próprias línguas em sua grande diversidade que possibi-
litam e utilizam um conceito de tempo que especifica fragmentos
temporais. Sistemas temporais lingüísticos são constitutivos não
s6 da experiência temporal, mas também do modo corno refleti-
mos de maneira relevante sobre a temporalidade. Os sistemas
temporais são imanentes na linguagem e não são de modo algum
ditados por urna norma universal e abstrata, a saber sua verifun-
cionalidade. A seriedade com que os lingüistas analisam a tem-
poralidade e se desfazem dos traumas que têm com respeito à
função freqüentemente terrorística da lógica (mesmo quando a
lógica é "desviada, corno no caso da lógica temporal) é um se-
gundo caso da parcial revivescência de urna atenção correta-
mente orientada com respeito à temporalidade.)

183
c ) A força subversiva da concepção filosófico-analítica de
tempo no espírito do segundo Wittgenstein

O exemplo ( evidence) do último Wittgenstein e de Austin e


de seus seguidores teve uma influência decisiva para orientar o
renovado interesse pela temporalidade. Wittgenstein mostrou de
maneira convincente que a gramática das palavras verdadeiro
e falso é tal que não lhe pode ser acrescentada qualquer especi-
ficação temporal: as regras de acordo com as quais especifica-
mos o tempo e predicamos a verdade e falsidade pertencem ajo-
gos de linguagem completamente diferentes. "A verdade é
atemporal" é um importante slogan do senso comum que, de
fato, significa que existe uma regra gramatical (' gramática' e
'regra' no sentido de Wittgenstein) pela qual acrescentar uma
especificação de tempo ao sintagma "É verdade que" é proibi-
do. É por isso que· a tese da verifuncionalidade da temporalidade
é paradoxal: evidencia a 'doença logicista' da filosofia. Mas, de
maneira geral, Wittgenstein nos alerta contra filosofar selvage-
. mente sobre tempo. Seguindo Santo-Agostinho ( Confissões, li-
vro XI, cap.XV), diz: "O que é o tempo? Se não me perguntam,
eu sei; se me perguntam eu não sei". Nós sabemos como deve-
mos realizar as especificações, ou, pelo menos, somos capazes
de aprender a usar a palavra 'tempo' numa variedade de con-
textos. Voltarei a esta característica de jogo de linguagem da
aplicabilidade temporal nas lfuguas naturais, da mesma fonna
que também pretendo levantar um possível conceito agostiniano
de tempo como interação lingüística. Aqui importa que a esteri-
lidade da discussão clássica sobre tempo - e também a ausência
de atenção para o problema do tempo - é superada nesta nova
perspectiva em que a temporalidade é vista no contexto mais
amplo do conceito de um uso lingüístico específico temporal-
mente. Nesta perspectiva, são questões centrais a intersubjetivi-
dade e a 'abertura' do jogo de linguagem, a intenção de comuni-
cação a sociedade comunicativa e a contratualidade dos usuários
da linguagem, e o caráter acional dos fragmentos de linguagem.
Deste ponto de vista, pode surgir uma nova visão da temporali-
dade.

184
d) O desenvolvimento adequado da semiótica estrutural

Paralelamente aos desenvolvimentos que acabam de ser


mencionados, principalmente "do outro lado do canal da Man-
cha ou do Oceano Atlântico" (para quem está na Bélgica), ob-
serva-se também "no continente" um interesse crescente pelo
problema do tempo, como nas variantes recentes da semi6tica
estrutural. Durante gerações, a semiótica estrutural ficou tranca-
da na axiomática saussuriana e hjelmsleviana: a 'atitude estrutu-
ralista', em que o discurso é encarado como sendo puramente
'imanente ao signo' pesou por muito temp:J sobre qualquer de-
senvolvimento em semiótica. A temporalidade "fechada" no in-
terior de um sistema de signos parece tão artificial quanto o
ajustamento mútuo do tempo e da verdade, como ocorre na ver-
são da concepção logística do tempo que acaba de ser esboçada.
Já observei que o estruturalismo bane a temporalidade para o
domfuio do residual, da mesma forma que bane a subjetividade e
tOdo o processo de produção, que ficam assim excluídos, em
gl"ande parte, da esfera do conhecimento possível. Isto está mu-
dando depressa, especialmente na medida em que a semiótica
Da.rrativa5 já não se volta para a assim chamada 'estrutura ele-
mentar da significação' (análise de unidades de textos narrativos
até unidades de significação atômica) (Greimas, 1966), mas an-
tes para a assim chamada competência modal do produtor de
signos. Essa competência modal é situada espaço-temporalmen-
te,. ou melhor, temporalizar 6 espacializar fazem parte da com-
petência modal do produtor de sinais e significações. O âmbito
da semi6tica contemporânea abrange tanto a produção cultural
quanto a produção dos assim chamados 'mundos naturais'. Que
a construção de produtos naturais e culturais seja temporalizada
é Um grande avanço em relação ao estruturalismo atemporal que
estava tão en vogue até os anos sessenta. Mesmo no interior da
gramática narrativa, é possível encontrar sistemas temporais al-
taJ:nente interessantes e complexos: considere-se a superposição
nã0-isomorfa (parcial superposição, parcial separação) das espe-
cificações temporais do narrador extrínseco, o autor, no narrador

185
intrínseco, o narrador interno ao texto, e o sujeito intrínseco da
história ou o agente de quem se conta a história 6.

e ) O progresso e a relevância empírica da lingüística fun-


cional e desenvolvimental

Em oposição ao formalismo abstrato da gramática gerativa


de Chomsky e em oposição à lingüística estrutural rígida, a lin-
güística funcional e desenvolvimental afirma as verdades que fo-
ram ignoradas ou esquecidas por gerações: que a língua é um
fato social, e também que a língua muda e se desen;olve e por-
tanto tem dependências temporais radicais 7. Sem dúvida, a
maioria das variantes do funcionalismo lingüístico pecaram por
impressionismo (por exemplo, a etnometodologia) ou por incon-
sistência teórica (aqui, estou pensando nas instáveis ambigüida-
des de Labov ao integrar sociolingüística, teoria dos atos de fala
e alguns aspectos da metateoria de Chomsky) 8; outros tipos de
funcionalismo são em grande parte obsoletos (por exemplo, a
teoria funcionalista de Jakobson, em que se identificam comuni-
cação e informação). Ainda assim, é o fato de que a dependên-
cia temporaJ. da produção lingüística como um fenômeno sincrô-
nico - só Pode ser levada a sério depois que se afirma que a lín-
gua funciona interacionalmente e no âmbito de uma sociedade
que comunica. E esse funcionamento abrange e pressupõe mu-
dança e desenvolvimento. Mostrou-se em trabalhos recentes de
lingüística do desenvolvimento de que maneira uma convicção
tão fundainental como essa pode ser operacionalizada mesmo
nas subdisciplinas mais técnicas da investigação ( entre outras,
a fonólogia e a morfologia) (Bailey, 1980 e 1982).

2. A temporalidade no jogo de lingua.gem

Depois desta seqüência caleidoscópica de observações


históricas Sobre a presença OU ausência do problema do tempo e
desenvolvin:iento na reflexão atual sobre filosofia e ciências so-
ciais, retoll:l.o a linha de minha exposição, embora não com uma

186
interrogação pretenciosa como o seria "O que é o tempo", senão
com a interrogação mais manejável - porque mais modesta -
"Como é que se fala do tempo?". Desta maneira, posso eliminar
toda concepção naturalista ou fisicalista do. tempo como irrele-
vante para a ciência social e o estudo filosófico. Minha interro-
gação tem, de fato, duas facetas: "De que modo a lfugua fala
sobre o tempo?" e "De que modo o falante da lfugua natural usa
as especificações temporais?" A primeira subpergunta é interes-
sante especialmente para os lingüistas que investigam os siste-
mas do tempo gramatical nas lfuguas naturais. Falando desde
minha posição pragmática, continuo acreditando que esta sub-
pergunta fica subordinada à segunda, pela qual Wittgenstein é
principalmente responsáveL Wittgenstein critica Santo Agosti-
nho por deixar-se desorientar pelo fato de que pressupõe que
o tempo, um pouco à maneira de um substantivo como 'carne' e
&chuva' tem uma significação oculta de tipo objetual ( objectli-
ke ), e como tal acarreta toda a panóplia das determinações filo-
sóficas do tempo, por exemplo, "O tempo é a forma do vir a
ser", "A essência do tempo é a sucessão", ou "O tempo é a
possibilidade de mudança''. Seria anormal - e seria um sintoma
da doença filosofística - se, ao invés de "Dá tempo?" alguém
perguntasse "Dá forma do vir a ser?" 9. A terapia que leva à
gramática profunda da temporalidade consiste de fato no retomo
a um uso filogenético das especificações temporais, que deve
revelar os contextos em que os indicadores temporais podem ser
empregados sem anormalidade e em contratualidade comunicati-
va plena. Palavras como agora, hoje, ama-nhã, ontem, domingo,
semana, mês, uma hora atrás, meia-noite em ponto têm para a
criança um potencial de uso restrito, que ela adquire passo a
passo na interação com os outros em contextos quotidianos,
existenciais. Esta filogenética do tempo lingüístico leva a um so-
fisticado afastar-se dos inconvenientes de qualquer lógica tem-
poral, mas ainda assim funciona perfeitamente na comunicação:
"Não tenho tempo agora", "Seu tempo acabou, você tem que
entregar a prova", "No tempo em que o hábito era ... ", "Não o
tenho visto por algum tempo". A filogenética da especificação
temporal é claramente não-universal, portanto a lexicologia

187
comparativa indicará sem dificuldade que a distribuição de
'tempus', 'Z.eit', 'temps' para não mencionar os termos das lín-
guas não-indo-européias, coincidem apenas de modo parcial.
A reificação do tempo é uma ameaça constante porque a medi-
ção do tempo e o uso de instrumentos_ para essa mensuração se
entrelaçam parcialmente no tecido da inferência filogenética.
Ainda assim, o tempo medido ("O que é o tempo?" - "cinco em
ponto") continua sendo uma inferência específica, com um lugar
específico no lado temporal do jogo de linguagem (Wittgenstein,
1958:§§53-4). É especificamente importante perceber que "O
sol se põe às cinco" e que "O sol está-se pondo neste instan-
te" 10 têm significações diferentes porque a função de "neste
instante" difere completamente de qualquer especificação tem-
poral por meio da qual o tempo é medido ou concebido, como
no fixar datas ou fornecer indicações de hora ( Sobre a redução
das indicações temporais à indicação de datas, veja-se em segui-
da minha crítica a Quine.). "Às cinco em ponto" pode serre-
gistrado como um 'ponto de tempo', como uma pedra miliar real
na 'passagem do tempo'; não é nunca o que acontece com 'neste
instante', pois 'neste instante' se subtrai ao registro e à medição.
Como escreve ironicamente Guillaume (1929): "A lei do agora
é a sua estreiteza". Agora concentra-se aqui na inapreensibili-
dade por outros processos do tempo e é não-reificável, não-men-
surável e não-datável. Portanto aprendemos a distribuição de
agora pelo funcionamento do uso da linguagem no dia-a-dia.
Podemos, agora, reformular como segue nossa pergunta:
"O que é o jogo de linguagem da especificação temporal na
ciência?", ou "Como se aplica a indicação temporal num con-
texto científico?" O discurso científico é então visto como um
tipo de uso da língua a par de muitos outros como a língua de
todos os dias e o uso ficcional e poético. Esta relativização em
tons wittgensteinianos da ciência e da racionalidade científica
parece escandalosa e provocativa à _maioria dos filósofos da
ciência 11. Entretanto, essa visão wittgensteiniana não inclui a
estipulação de que o jogo lingüístico jogado pela ciência deva
ser arbitrário: ao contrário, é um jogo de linguagem como todos
os demais, identificado pela regularidade e determinado por um

188
sistema específico de regras de produção. A noção de episteme
de Foucault e o conceito de paradigma de Kuhn são úteis aqui.
Foucault (1966) afirma que o início do século XIX significou
um corte epistêrníco, uma mudança de paradigma, particular-
mente no que concerne às concepções de tempo e de história.
Acontece que isto coincide com o surgimento das ciências so-
ciais como um projeto específico com uma metodologia determi-·
nável. Desde o tempo dos Gregos, e por todo o período de nossa
história ocidental das idéias, falou-se do tempo em temms cos-
mol6gicos: o tempo como memória, como mito, como a descodi-
ficação do fado do homem, como a antecipação de um futuro
ditado sobrenaturalmente. O tempo é uma única grande cronolo-
gia cósmica, uma única história cíclica e uniforme de que todas
as coisas animadas e inanimadas participam. A História é uma
única ordem e é prolongada através de um único Tempo. Basta
abrir uma gramática medieval, ou a Grammaire raisonnée de
Port Royal (1660) ou Hermes ora Philosophical Inquiry con-
cerning Language and Universal Grammar (!751-5) para ver
que o trabalho gramatical - por exemplo, toda classificação dos
tempos do verbo, toda genealogia do léxico é orientada por
uma visão cosmogônica da temporalidade. O mito de Adão e
a teogonia ("No princípio era o Verbo, e o verbo era Deus")
oferecem a história da origem comum das línguas e detemrin.am
a especificidade da historicidade do desenvolvimento das lín-
guas e da variação. Tudo muda no início do século XIX, o mo-
mento do corte cpistêmico revolucionário. A historicidade uni-
fom1e desmoronou, e cresceu uma fragmentação da temporalida-
de. A lingüística (praticada primordialmente como filologia), a
psicologia e a sociologia (e a sociologia-econômica) difundiram
sua<; próprias escalas temporais e classificações temporais: o
modo de desenvolvimento da língua não é o mesmo que o da
estn1tura psicológica ou o desenvolvimento de uma sociedade e
sua economia. O crescimento da competência lingüística: o cres-
cimento da competência psicológica do indivíduo (enquanto
consciência e centro de experiência) e o crescin1ento das capaci-
dades societárias estão sujeitas a generalizações semelhantes a
leis específicas e princípios de funcionamento internos. A idéia

189
de ordem, de um progresso ininterrupto e cíclico, de uma dada
origem pré-Babel e de um ppnto de chegada conhecido ·e anteci-
pado à semelhança do paraíso desaparecerem. Mas esse estilha-
çmnento da temporalidade que se conecta com a irrefutável rea-
lidade dos tipos de temporalidade é neutralizado e como que
contrabalançado pela hip6stase de um tempo 'natural' - o tempo
com que medimos os movimentos dos corpos celestes. O tempo
físico é esse horizonte, por assim dizer, em contraste com o qual
o estilhaçamento do tempo nas ciências sociais é possível. A
norma é pois mensurabilidade: não s6 o tempo mede o dinamis-
mo natural, mas, além disso, o pr6prio tempo é medido por uma
instrumentação cada vez mais perfeita. Desse modo o histori-
cismo (por exemplo, na :fi).ologia), o positivismo e o naturalismo
se combinam como abordagens da indicação e especificação
temporal no interior de um mesmo e único paradigma, a saber, o
discurso das ciências sociais.
Quando se aceita a idéia de que o f~ar acerca do tempo,
no uso lingüístico-científico ou corrente, se insere num jogo de
linguagem com sua pr6pria legalidade, ou que está sujeito à
opressão de um 'paradigma histórico' ou de uma episteme, en-
tão, do ponto de vista da análise do tempo textual, pode-se afir-
mar que não há uma posição neutral ou transparente a partir da
qual a temporalidade pode ser descrita. Wittgenstein ( 1958) fala
a propósito da força irresistível e do perigo do simbolismo em
que se fala do tempo: "Falamos sobre o fluir dos eventos; mas
também sobre o fluir do tempo - o rio sobre o qual viajam tron-
cos". O perigo consiste então no fato de que esse simbolismo é
aplicado como um símile a cada coisa que ocorre no tempo, e
que isso leva a conseqüências como: "Para onde vai o passa-
do?" ou "Para onde vai a chama da vela quando o sopro a apa-
ga?" Ninguém consegue furtar-se à força e à amplitude do sim-
bolismo:(nenhuma terapia pode curar o uso da linguagem da
metáfora.) A linguagem científica não escapa da simbolização
tampouco, e conceitos como o de ( des )continuidade e ( ir )re-
versibliidade, que são centrais na determinação temporal, de-
pendem e derivam da dominância do simbolismo do tempo. A
metáfora do tempo mais dominante é a li-nha ( tempo como linea-

190
ridade ): o agora é um ponto que muda continuamente sobre a
linha, organizada unidimensíonalmente. Oposto a isso é o espa-
ço; o aqui é o centro do compasso, o ponto de união de uma ex-
pansão pluridimensional e de uma circularidade aberta. A linha
do tempo - o refluir do rio - pode ser contínua ou descontínua:
o tempo descontínuo é uma linha pontilhada. Continuidade e
descontinuidade são portanto qualificações dos dois tipos de sé-
ries, - o rio tornou-se uma série, da mesma forma que o com-
Passo se tornou uma rede. A imbrição das dimensões ter)1poral e
espacial concretiza-se na maioria dos registros metafó1icos:
o ponto na reta, que é o agora, é um limite interno da série,
e ponto e limite são em primeiro lugar e acima de tudo conceitos
espaciais. O impacto do simbolismo é suficientemente grande
Para determinar a naturalidade das propriedades temporais. As-
siin como a linha é nornu,1.liter uma série contínua e irreversível
de pontos, assim o tempo contínuo e irreversível é encarado co-
rno 'natural', ao passo que a temporalidade descontínua e a tem-
Poralidade reversível são atribuídas aos casos exorbitantes (ex-
cessive) e marginais da ficção (por exemplo, a ficção científica)
Oti da imaginação. Qualquer que seja o modelo com base no
qual a temporalidade é reconstruída, mantém-se verdadeiro que
0 simbolismo e a metáfora continuam a determinar parcialmente

toctos os conceitos que subjazcm à apreensão científica da tem-


Poralidade (e não apenas a experiência dela).

3. Em direção a um modelo de temporalidade orientada para o


agente

Seja qual for o modelo sugerido pa.ra a análise da tempo-


ral_idade em filosofia, lingüística ou lógica, o papel do tempo é
detenninado pelo papel do espaço e de uma pessoa (agente,
ator, falante, sujeito) espaço-temporalmente situada. A dêixis
envolve necessariamente três componentes: Ego (e suas relações
co:rn Tu, Ele e Nós ), Nunc e Hic (e suas relações com outra'i
:PC>sições espaço-temporais). Há uma anedota conhecida contan-
do que um soldado francês responde à chamada com o equiva-

191
lente de Nunc ( Présent ), que um soldado alemão responde com
o equivalente de Hic ( Hier ), e que úm soldado lituano respon-
de com o equivalente Ego. Desse modo, em cada uma das três
linguagens é privilegiado um componente diferente da dêix.is.
No 'triângulo dêitico', o tempo precisa ficar obviamente situado
entre a Pessoa e o Espaço, e o modelo da temporalidade dota o
espaço ou a pessoa de uma redução quase-automática do tempo
(dessa forma, falarei de espaci.alização do tempo ou da sua
orientação para o ator ). Argumentarei contra algo que ocorre
com freqüência ~a filosofia do tempo e na elaboração de gramá-
ticas, a saber, a espacialização do tempo; ao contrário, argu-
mentarei a favor das virtudes da orientação para o ator. No es-
quema abaixo, a direção das flechas ( ... reduz-se a ... ) expressa
meu ponto de vista 12.

PESSOA

Eu
~ ~

ESPAÇQ.____ _ _ _ _ _ _ IBMPO

~ ~
Aqui Não-aqui A:gora Não-agora
~ /~
Lá Alhures I Antes/Depois 'Certa vez'
1 \ \ 1
(heterot<:ipico) (u-t6pico) (passado/futuro) (aoristo)
A es~acialização do tempo

Os ~amáticos notam que, pelo menos no que respeita às


línguas inQereuropéias, só as coordenadas temporais são regis-
tradas nas fonnas do verbo. Às vezes, pergunta-se por que o
componente temporal é assim privilegiado em confronto com as
coordenadqg espaciais: não há 'lugar' do verbo, só há 'tempo do

192
verbo'. Por que razão agora precisaria ser uma marca mais forte
do que aqui? A explicação deve ser procurada na unidimensio-
nalidade ou linearidade do tempo, que permite a demarcação de
um antes e de um depois, em contraste com a pluridimensionali-
dade do espaço (o caráter de 'compasso' de aqui): agora é um
limite, ao. passo que aqui não é, sendo no máximo um ponto de
conexão de várias direções. Esta explicação, que apela para a
estnltura do escopo 'existencial' do tempo e do espaço, é contu-
do muito insatisfat6ria, não s6 porque o modo do verbo expressa
em grande medida o seu 'lugar', mas especialmente porque a
gramática espacializa as especificações temporais do verbo (co-
mo faz com todos os outros indicadores temporais). O assim
chamado locd ismo na teoria gramatical defende a hipótese de
que as expressões temporais são inferidas de expressões locati-
vas (Lyons, 1977). Preposições corno antes, depois e até eram
originalmente expressões locativas que receberam mais tarde
seus sentidos temporais.
Mas, indo mais fundo, poder-se-ia dizer que, até onde a
progressão do tempo significa a transição de um estado para ou-
tro, o movimento temporal é expresso na lfugua como movi-
mento no espaço. Também as relações lógico-gramaticais fim-
damentais, como a causalidade, apóiam a associação das posi-
ções de causa e efeito às de agente e paciente. Parece que o pri-
vilégio do tempo na morfossintaxe dos verbos é somente um fa-
tor de obscuridade, no que respeita às interpretações gramaticais
possíveis dos indicadores temporais: o tempo acaba por ser ne-
cessariamente interpretado como espaço.
A maioria dos tipos de explicações 16gico-filosóficas mal
se distingue entre si. Seria útil mostrar como o agora (em que se
concentra toda a dêixis temporal) é de fato espacializado nas
teorias filosóficas típicas do tempo (Poliakow, 1981). Qual é a
significação de agora em expressões como:

I - Mitterand é presidente agora.

a ) Redução colofônica : Um primeiro tipo de redução


espacializadora é a teoria, por exemplo, de Russell

193
(1905 ; 1918), em que se afirma que essa enunciação (1) não só
diz algo sobre Mitterand, mas especialmente que diz algo sobre
o produtor da enunciação (1). Há portanto uma mensagem sobre
a localização psicofísica do produtor ou enunciador. A enuncia-
ção especificamente temporal ( 1) é reduzida à sentença atempo-
ral (2):
2 - O fato de que Mitterand é presidente é co-temporal
com o tempo de isto.
Isto é um indicador que faz referência por ostensão ao
evento psicofísico que é o falante localizado.
Apontando o dedo (daí meu uso do termo 'colofônico': o
cólofon é o dedo que se usa na composição tipográfica: @ , é
preciso que a coisa indicada seja perceptfvel, portanto presente
como um percebido, e que meramente exista na memória (passa-
do) ou na antecipação (futuro). O presente, para Russell, é pois
exterior ao 'evento' que é o falante: é o dado sensorial que é lo-
calizado espacialmente. A relação colofônica, então, pode não
ser mais do que situada existencial ou espacialmente. (2) signifi-
ca de fato
2a - O fato de que Mitterand é presidente é co-temporal
com o dado sensorial que é por este mei<? indicado
por ostensão.
A primazia da percepção, o acento colocado na co-tempo-
ralidade existencial, na ostensão como uma condição necessária
da significação de agora, tomam claro que Russell opta pela es-
pacialização das especificações temporais.
b ) Redução a datas : Um segundo tipo de redução
espacializadora é a de Quine (1970): sua proposta
é na verdade uma extensão do critério de verdade
de Tarski no tocante à iniciação temporal. Escre-
ve Quine:

Nossa gramática standard fica evidentemente a salvo


das complicações do tempo gramatical que tanto
dominam as línguas européias. A gramática lógica,

194
como a física moderna, fica melhnr servida quando
se trata o tempo como uma dimensão coordenada
com as dimensões espaciais: tratando a data, em
outras palavras, apenas como um outro determiná-
vel, a par da posição, os verbos podem ser tratados
como atemporais (Quine, 1970:30).

Preenchendo o critério de verdade de Tarski, (1) precisa


significar:

3 - Que Mitterand é presidente, é verdade em t 1·

A dêixis temporal é, desse modo, efetivamente, eliminada.


Uma regimentação ulterior do tempo ocorre pelo preenchimento
do índice de t1, isto é, pelo suprimento de uma data:

3a - Que Mitterand é presidente, é verdade no dia 20 de


junho de 1982, às 10:30 horas da manhã.
Como as datas podem ser determinadas sub specie aeter-
mtatis, (1) é verdadeira - e por via de conseqüência significati-
vá - independentemente de cada interpretação e de cada con-
texto de produção. (3a) é portanto equivalente a:

3b - Que Mitterand é presidente, é verdade quando o ca-


lendário marca 20 de junho de 1982, e o relógio mar-
· ca 10:30 horas da manhã.
A objetivação que acontece aqui, em suma, correlaciona as
condições de verdade das orações temporalmente determinadas
como (1) com a posição do calendário e do relógio, 'objetiva' e
situada espaciahnente. A redução que se implementa aqui des-
via-se radicalmente do sentido original da enunciação temporal-
mente determinada (1): (1) e (3b) têm usos completamente dife-
rentes porque não se faz qualquer menção de que no caso em
foco a própria (3b) ocorre no presente. De fato, a indicação
temporal teria que ser trazida de volta no antecedente de (3b)
como fica expresso aqui:

195
3c - se o calendário e o relógio indicam que é agora o dia
. 20 de junho de 1982, e que são 10:30 horas da ma-
nhã.

Como no exp/,anans (3c) se introduz a mesma especifica-


ção temporal que ocorre corretamente no exp/,anandum (1), a
saber agora, a redução é circular e sem valor. A razão funda-
mental para isso é que se baseia num critério de verdade espa-
cializador que não pode ser identificado de maneira alguma com
uma condição de sentido. A verdade não é critério quando está
em jogo o sentido de agora.

e ) A redução reflexiva-de-ocorrência ( token reflexi-


ve) : Uma abordagem mais adequada mas ainda
espacializadora é a de Davidson13 que afirma que
a seqüência lingüística ( 1) vale ela própria por um
acontecimento, e que a especificação temporal no
interior da seqüência só tem significação na pre-
sença da enunciação lingüística como ocorrência
(a sentença faz referência a um acontecimento,
mas é ela própria uma ocorrência).
Nesse contexto, (1) significa:

4 - Que Mitterand é presidente é co-temporal com esta


enunciação.

Agora significa o tempo de enunciação de uma seqüência


lingüística. A reflexividade de ocorrência é denotada pela ex-
pressão demonstrativa 'esta enunciação'. Essa expressão de-
monstrativa pode por sua vez ser eliminada pela introdução de
wna seqüência metalingüfstica que seja atemporal:

4a - Que Mitterand é presidente é co-temporal com a se-


qüência lingüística "Mitterand é presidente agora".

Somente a seqüência em linguagem-objeto contém especi-


ficação temporal, e a seqüência objeto e a meta-seqüência ficam

196
conectadas parataticamente (uma técnica elaborada por David-
son):

4b - Há uma seqüência lingüística "Mitterand é presidente


agora" e há co-temporalidade do fato de Mitterand
ser presidente.

É interessante notar aqui que a co-temporalidade em (4b)


é, de fato, ainda, uma relação espacial (justaposição ou parata-
xe ). Portanto, é a relação espacial entre o objeto e a meta-se-
qüência que substitui a indicação temporal que estava original:..
mente presente em (1). Precisamos ter consciência dos dois pas-
sos da redução: primeiramente o demonstrativo esta é introduzi-
do em (4) como sendo independente da especificação temporal
de agora, e em seguida é postulada a co-temporalidade entre
duas seqüências lingüísticas (as seqüências da linguagem objeto
e as da metalinguagem): a co-temporalidade é justaposição (es-
pacial).

A orientação do tempo para o ator

Uma alternativa para essas tentativa,;; de espacializar a


temporalidade pode ser a orientação para o ator. Pode-se inver-
ter a direção da redução no interior do triângulo dêitico: espaço
----> tempo ____ ,,. pessoa. Não posso fazer mais do que for-
mular urnas poucas sugestões. A tradição lógico-gramatical põe
uma forte ligação entre denotação temporal e forma do verbo.
Os tempos verbais são vistos principalmente como sendo prima-
riamente indicadores de tempo; outras unidades de tempo são o~
advérbios de tempo ( agora, amanhã, ... ) e é nesse sentido que
modificam o verbo, ou pelo menos a parte predicativa da oração.
É típico que Guillaume tenha designado toda a sua concepção
'psicomecânica' da linguagem com base na caracterização da
temporalidade e aspectualidade expressa através das formas do
verbo; daí o título de seu importante livro Tempo e Ver-
bo (1929). Contudo, poder-se-ia imaginar uma língua que se
valesse de uma morfologia que especificasse o tempo nominal-

197
mente: sintagmas nominais como ex-presidente, a passagem do
tempo, expressam, realmente, temporalidade. Parece inclusive
haver casos em que a especificação temporal não pode ser rela-
cionada com verbos. Considere-se uma sentença como "O su-
cessor do atual rei ainda está por nascer" onde o sucessor do rei
é um nome do futuro. A denotação futura não pode, aqui, ser
imputada ao verbo, que tem forma de presente. Se o sucessor do
rei é uma pessoa futura, quem sabe ainda não existente, não é
porque o sintagma seria sinônimo da frase relativa "aquele/a-
quela que sucederá ao rei", em que o verbo está no tempo futu-
ro. Na setença "Encontrei-me com o sucessor do rei1·', o sintag-
ma nominal está no passado. Mas é ainda assim possível acredi-
tar com Guillaume que existe uma ligação intrínseca entre tempo
e verbo, porque o verbo - na parte predicativa da oração - ex-
pressa wn processo. Ainda assim, uma teoria do tempo textual
pareceria diferente, se o tempo e o processo não tivessem sido
relacionados tão estreitamente, e, ao contrário, o tivessem sido o
tempo e a ação (na primeira fase) e especialmente o tempo e o
ator (na segunda fase). A "acionalização" e a orientação para o
ator do tempo oferecem altemativi;I.S à espacialização do tempo,
tão freqüente.
a) Tempo e ação : A Leidfaden de Austin (1962) consiste
em tomar o falar como um fazer. Compreender frases temporal-
mente específicas consiste em compreender ações temporalmente
específicas; daí a intencionalidade que fundamenta essa compre-
ensão. As condições de sucesso para essas ações envolvem a
compatibilidade dos contextos possíveis em que esses "frag-
mentos de ação" podem ser enunciados. A teoria do tempo co-
rr i0 ação contrasta com a teoria do tempo como conhecimento
das condições de verdade de enunciações temporalmente especí-
ficas. Enunciar uma frase temporalmente específica X é realizar
um ato Y tal que Y estabelece X como a origem temporal de to-
dos os eventos. Dever-se-ia investigar amplamente qual é a rela-
ção en~ per:formati vidade e especificação temporal (ou mesmo
projeção temporal) (Poliakow, 1981). A enunciação de uma fra-
se com uma especificação de agora quase que organiza o co-
texto e contexto todo ao redor da realidade do ato de fala.

198
b) Tempo e ator: Este acentuar-se do caráter acional das
especificações temporais leva necessariamente para uma teoria
da espacialização e especialmente da ternporalização orientadas
para o ator. O ator é uma competência modal que delineia,
constrói e projeta espaço e tempo. Portanto, as coordenadas es-
paciais e temporais não são nunca pontos ou redes fixos e eter-
nos, mas antes o resultado da espacialização e da temporaliza-
ção. O Ego é central, e desde esse ego-cêntrico princípio de or-
ganização, é criado o espaço: por periferização (o espaço irra-
diando desde o centro agentivo para a periferia) ou por focaliza-
ção (ou concentração: o espaço como núcleo). Na con ,r:etência
mcdal do Ego, devem ser distinguidos tipos de temporalização:
a afim1ação do presente, a determinação da ausência daquilo que
foi presente, a determinação daquilo que ainda não é, e _assim
por diante. A essa atividade espaço-temporalizadora do ator,
uma espécie de sobredetcm1inação, pode ser superimposta: a as-
pectualização (a di]etividade e a 'tensão' com que se espacializa
e se temporaliza).(.Tempo e tensão (o contínuo desde a tensão
até o relaxamento, desde a força até a fraqueza) têm muito a ver
um com a outra (7ilbe:rberg, 1981). É pois a ego-centrificação
éo domínio total da dêixis, a saber, a consideração do tempo e
do espaço como produtos da competência modal do ator que le-
va a uma teoria alternativa do tempo tota1uente oposta, em que
se toma decisivo não o tempo, mas a temporalização.

4 . Temporalidade e desenvolvimento

Seria muito interessante investigar a concepção de tempo


que subjaz aos principais escritos sobre lingüística do desenvol-
vimento, e buscar uma integração da teoria do terr:,po orientada
para o atof, neste contexto. Entretanto, nenhuma tentativa séria
será feita nesta nota final, e a discussão desse assunto é deixada
para uma investigação futura 14. Ch.J.Bailey (1980, 1982)
acentua que os processos e a comparação - que têm uma relação
de causa e efeito - deveriam ser encarados como sendo realida-
des lingüísticas fundarrentais, e que a mudança e a variação não

199
deveriam ser atribuídas à "performance" e portanto a disciplinas
estranhas à lingüística. Repete-se sempre que a mente dos lin-
güistas e dos filósofos deveria ser purgada dos entraves não-
temporais e não-desenvolvimentais do 'velho' paradigma (Saus-
sure, Bloomfield e Chomsky) em lingüística. O tempo e o de-
senvolvimento são noções que não podem ser definidas senão
uma pelo uso da outra. A distinção entre desenvolvimento co-
natural e desenvolvimento abnatural também introduz de fato
dois modos de temporalidade. Contudo, ao passo que a gramáti-
ca explora uma variedade de padrões de desenvolvimento, não
se podem fazer distinções sofisticadas quanto a tempo. O tempo
é encarado como um fenômeno 'dado' e estável (ou, na realida-
de, 'natural') que torna possíveis processos lingüísticos e reali-
dades fundamentais. Além disso, explica a sucessividade da
acessibilidade perceptual que é responsável por diferenças de
n:ecanismos centrais nas descrições lingüísticas, como a noção
de marcado. Seria proveitoso procurar outras potencialidades do
conceito de temporalidade, e compreender a gradiência, a inten-
sificação e a 'tensão' no interior do próprio conceito de tempo.
Isto significaria que não s6 a orientaç:ão para a ação é aceita (no
desenvolvimento há uma porção de pontos que encaminham a
esse sentido), mas que a orientação para o ator o é: a competên-
cia modal do ator lingüístico é a fonte dos procedimentos de
temporalização e de sua gradiência e 'tensão' específicas. A
'pragmática do desenvolvimento' deveria acrescentar essa pers-
pectiva a respeito da competência produtiva do ator e seus pro-
cedimentos de temporalização à concepção de tempo que subjaz
ao desenvolvimento.

Tradução: Rodolfo Ilari

200
Notas

1 Isto é, obviamente, muito simplificado, e seria preciso fazer referência aos


finos escritos de Husserl sobre temporalidade, especialmente Fenomenologia da
Consciência Interior do Tempo (traduzido para o inglês por J.S. Churchill). Haia,
Martinus Nijoff, 1964.
2 Roland Barthes menciona a écriture blanche como um rótulo para caracteri-
zar o tipo de discurso ideal e atemporal que tem uma relação não-mediada com a
ontologia.
3 Veja-se, entre meus escritos sobre demonstrativos, Parret (1980a).
4 "deviant logic" é o termo usado por Quine (1970) e também o termo usado
por S. Haack como título de um livro (1974).
5 Estou pensando especialmente na tradição continental da semiótica, que tem
por fundamento o modelo axiomático da teoria do sentido de Hjelmslev: as escolas
de semiótica de Paris, centrada em A.J.Greimas.
6 Os desenvolvimentos recentes podem claramente ser observados em Grei-
mas e Court~ (1979): vejam-se por exemplo as entradas "modalidade" e "compe-
tência".
7 Para uma "descoberta" dessas verdades do senso comum, veja-se Harris
(1980; 1981).
8 Veja-se Labov (1972) e escritos mais recentes, entre outros sobre discurso
patológico.
9 (N .do T .) Os exemplos ingleses são "Take your time" e "Take your form of
becoming".
10 Exemplos tirados de Wittgenstein, op.cit.
11 Para um julgamento equilibrado, veja-se Putnam (1981).
12 W. Mayerthaler tem uma teoria sobre a direcionalidade do espaço e do tem-
po, baseada em seus critérios de marca (comunicação pessoal). Entretanto, isso não
afeta de maneira alguma a opinião de que a teoria do tempo tem que ser orientada
para o ator, como se defende aqui.
13 Davidson (manuscrito). Uma solução semelhante já podia ser encontrada nos
Elements ofSymbolic Logic (New York, Macmillan, 1947) de Reichenbach.
14 A idéia de uma "pragmática integrada" é desenvolvida por Parret (em de-
senvolvimento).

201
O CONTEXTO COMO RESTRIÇÃO
DA INTERAÇÃO DIALÓGICA

Minha contribuição programática se refere à dependência


contextual da compreensão em um diálogo, e gostaria de apre-
sentar em forma preliminar uma tipologia de contextos com seus
valores específicos para a compreensão em uma situação de
diálogo. Antes de fazer isso, vou esboçar algumas opções teóri-
cas centrais do paradigma que me seduzem, que também c.onsti-
tuirão a introdução à minha colocação.

Esta discussão se baseia em duas teses sobre o diálogo.


Primeiramente, uma teoria do diálogo depende completamente
de uma teoria da compreensão. Isto não significa simplesmente
que não há diálogo sem compreensão; minha tese é mais forte:(o
conceito de diálogo deve ser derivado do conceito de compreen-
são.) Como conseqüência, o diálogo e a conversação em gerál
não podem ser reconstruídos adequadamente por posições tradi-
cionais da filosofia da linguagem contemporânea onde prevale-
cem as considerações sobre o significado e não sobre a compre-
ensão. Em segundo lugar, a relação entre compreensão, por um
lado, e contexto, por outro, em umà situação de diálogo, é bidi-
recional. Não vou discutir o fato de que a compreensão "cria"

205
seu contexto e s6 vou elaborar a re~ação no outro sentido, ou
seja, o fato de que a compreensão em um diálogo é determinada
especificamente pelos vários tipos de contextos, o que significa
que esses contextos têm o papel de restringir as qualidades e as
propriedades específicas do diálogo. Discutirei brevemente am-
bas as teses.
Estamos acostumados, na teoria lingüística e na filosofia
da linguagem contemporâneas, à idéia de que uma teoria do dis-
curso é, de fato, uma teoria da produção de fragmentos discur-
sivos. As metáforas da gramática gerativa transformacional e da
teoria de atos de fala são claras nesse ponto: geratividade, pro-
dutividade e "criatividade" são características essenciais do dis-
curso e são vistas do ponto de vista do falante, não do compre-
endedor. Isto tem acontecido em quase todas as abordagens in-
fluentes da comunicação lingüística, desde a abordagem infor-
maciona1 tradicional até a explicação intencional mais sofistica-
da da relação de significado entre uma expressão e seu conteú-
do.
A visão informacional da comunicação nos oferece um
quadro da comunicação como um processo no qual um falante
codifica uma mensagem em um sinal, a partir do qual um ou-
vinte a decodifica. Produção e compreensão envolvem os mes-
mos procedimentos s6 que na ordem oposta. A representação
clássica do fluxo de informação do falante para o ouvinte é a
seguinte (levando-se em conta que a codificação/decodificação
gramatical é feita por regras gerativo-transformacionais) I. No
falante: O significado do falante (intenção pragmática do falan-
te) ~ estrutura profunda sintático-semântica ( significado de
sentença)._.. estrutura superficial _.. sinal acústico; No ou-
vinte: Fones (compreensão 1)......,. estrutura superficial através do
processador do léxico (compreensãoz) ....,.. estrutura profunda
sintático-semântica (significado de sentença = compreensão3)
significado do falante (intenção pragmática do F; compreen-
........, 1

são4). Deve ficar evidente que este quadro idealiza a comunica-


ção lingüística em muitos aspectos. Em primeiro lugar, não há
possibilidade de representar adequadamente no esquema infor-

206
macional o processamento paralelo e simultâneo em diferentes
níveis dentro do falante e do ouvinte separadamente nem de re-
presentar o fato de que a decodificação, ao nível da compreen-
são da intenção pragmática do falante, não tem que percorrer,
necessariamente, todos os outros estágios da compreensão e não
precisa da codificação total de todos os níveis de ·produ-
ção. Além disso, existe a objeção clássica e séria do esquema in-
formacional de comunicação lingüística, se1,:~UI1Ldo a qual ele não
consegue dar conta nem da fala indireta (insinuar, sugerir, fin-
gir, manipular e até mentir) nem da aniligüidade. Na verdade, o
problema é que produção e co:mp,ret~ns.ao são considerados como
globalmente simétricos, ou que a compreensão é vista
como uma produção invertida. Minha opinião, ao contrário, é
que a compreensão dificilmente ser vista como um proces-
so simétrico à on)cttica.o A compreensão é um processo de infe-
rência prática, e é neste ponto que minha preocupação com a
d~pendência contextual da compreensão se toma pertinente. Na
verdade, eu nego que os tipos de contextos sejam de grande im-
portância à compreensão mútua em uma situação de diálogo por
causa de suas propriedades informacionais. As razões pelas
quais os contextos tomam dinâmicos o processo de inferência
são de ordem psicopragmática, como ficará claro quando
eu apresentar minha tipologia. Uma teoria da compreensão deve
ser assimetricamente central em relação a qualquer teoria da
produção, sendo, portanto, o núcleo de uma teoria da interação
discursiva e do diálogo. Isto exclui qualquer redução da ativida-
de discursiva à transferência de informação e também à identifi-
cação da competência lingüística com um conjunto de mecanis-
mos que produzem informação.
O pessimismo justificado em relação à possibilidade de
aplicar uma abordagem de atos de fala ao diálogo tem a ver com
o fato, dentre outros, de que as regras de atos de fala são regras
de produção. A coesão no discurno e a estrutura do diálogo não
se baseiam em regras que regem seqüências de atos. É evidente
que se deve retomar a alguma teoria geral sobre a natureza da
interação interpessoal, onde a 'interação' é mais do que uma me-
ra série de atos de fala paralelos de dois falantes. A teoria

207
de atos da fala não formula regras gerais de concatenação 2,
com exceção de alguns casos periféricos e pouco interessantes
(as chamadas "seqüências relacionais internamente" ou seqüên-
cias com valor semântico idêntico, ou as regularidades óbvias do
gênero de que perguntas tendem a ser seguidas por respostas,
cumprimentos por cumprimentos, ofertas por aceitações ou recu-
sas, pedidos de desculpas pelo perdão e assim por diante). Re-
gularidades de concatenação dialógica de fato (ao contrário das
regularidades de jure acima mencionadas) não são governadas
por "regras", considerando-se uma regra como uma condição de
produção, no sentido da teoria de atos de fala. Deve-se recorrer,
pelo contrário, à noção wittgensteiniana mais ampla de regulari-
dade discursiva, a qual pode ser de suma importância para uma
teoria do diálogo. Uma regra, segundo Wittgenstein, é, na ver-
dade, uma estratégia de compreensão. O debate central em In-
vestigações filos6.ficas é no sentido de igualar compreensão a
uma habilidade que não pode ser reificada como um poder
substancial ou como uma faculdade misteriosa nem pode ser re-
duzida ao seu exercício ou ao seu veículo. Essa habilidade não é
uma competência produtiva, mas sim um conjunto de estratégias
práticas que nos possibilitam inferir a significância, ]jmitada
pelo contexto, de fragmentos lingüísticos determinados pela in-
teração.
Outros aspectos herdados de Wittgenstein são de suma im-
portância para uma teoria possível do diálogo. Wittgenstein en-
fatiza a primazia da compreensão na tríada significado-produ-
ção-compreensão, mas são igualmente relevantes em sua obra
muitos pontos específicos de sua concepção da compreensão:
sua resistência à tendência de fazer da compreensão um super-
conceito, ao invés de um conceito menos preciso de semelhança
familiar (family-resemblnnce ), sua terapia para a nossa tendên-
cia de ver a compreensão como um fenômeno mental, um esta-
do, uma experiência ou outra categoria geral, e também sua re-
núncia à idéia da acessibilidade interior à compreensão (pela in-
trospecção, por exemplo). Esses temas em Wittgenstein favore-
cem a idéia da dependência contextual da compreensão, tal qual

208
a defendo. O compreendedor éjusiiftcado em sua. compreensão
(i.e., "compreende com direito"), não pelas suas experiências
ou estados mentais mas pelas "circunstâncias" do uso da produ-
ção/compreensão do fragmento discursivo~ Evidentemente, as
noções-chave de justificação e circunstâncias do uso devem ser
esclarecidas (esclarecer a noção de "circunstância de uso" im-
plica em uma tipologia dos contextos da compreensão).
John Searle 3 acentua a importância da "consciência com-'
partilhada do contexto do discurso" em uma situação dialógica,
e traduz sua ..consciência compartilhada" automaticamente em
termos de ..intencionalidade compartilhada", reduzindo a coe-
rência dialógica a condições de produção da intencionalidade
em seqüências dialógicas. Eu diria. ao contrário, que os mem-
bros de Unia comunidade compreendem as seqüências em uma
situação dialógica somente se eles interprétam os contextos nos
quais esses fragmentos de diálogo são produzidos. Isso indicaria
que a compreensão como lllnâ habilidade é uma prática"-no--mun-
do e não uma atividade da ·vida interior atuando com elementos
mentais ..primitivos". Enquanto processo de interpretação dê
contextos, a compreensão é uma habilidade extr(nseca e não in-
trínseca. (o contextualismo deve ser uma arma contra a ameaça
do psicologismo. Além disso, os contextos da compreensão não \
existem como itens ontológicos estáticos e prontos: os contextos k
são «contextualizações'' para a compreensão e eles são produzi-
dos pela compreensão.· Desse modo, ·a compreensão não se ba;.;
seia solidamente ·em contextos dados: ela os constitui - logo,
4j
eles são contextualizações NovaII1Cnte nos baseamos em Witt-
genstein: os jogos da linguagem constroem seus contextos. A
idéia de um contexto dado ( quer como item ontológico quer co-
mo conteúdo intencional) é um epifenômeno proveniente da
concepção de linguagem de Santo Agostinho e de Frege. O pa'-
radigma alternativo se baseia na concepção da linguagem como
jogo e na concepção da compreensão como um conceito menos
preciso de family-resemb/,ance, segundo o qual a compreensão é
entendida como uma habilidade de contextualização.
Podem ser desenvolvidas duas abordagens compl.ementares

209
da relação entre diálogo e contexto. Ambos os procedimentos
são abstratos se realizados separadamente. Por um lado, o diálo-
go - como um caso paradigmático de interação verbal e inter-
subjetividade semiótica - determina (molda) o contexto e, por
outro, os contextos restringem a significação dial6gica. A pri-
meira perspectiva é muito fascinante. Tomemos, por exemplo, o
chamado "contexto referencial": a referência ao mundo é go-
vernada·. por condições dialógicas e a referência é necessaria-
mente co-referência (não no sentido gramatical; por 'co-referên-
cia' entendo o ato de referir-junto ou referir-dentro de uma co-
munidade) 5. Esta concepção pode ser aplicada a qualquer rela-
ção ·de verdade: nenhuma noção de verdade é relevante sem a
introdução de uma comunidade dial6gica de falantes da verda-
de 6. Embora a investigação da relação determinante dos frag-
mentos dialógicos sobre os contextos seja heuristicamente pos-
sível e produtiva, ela deve caminhar junto com o procedimento
complementar, ou seja, com a reconstrução dos tipos de contex-
tos com seu impacto específico sobre aspectos particulares da
significação do diálogo. É o que passo a desenvolver na segun-
da parte deste trabalho.

II

Como já foi dito, sou levado a uma tipologia de processos


de contextualização em lugar de uma tipologia de contextos da
compreensão. Ainda resta a ser feito um esclarecimento termi-
nológico preliminar. Tendo em conta a distinção entre co-texto e
con-texto, meu interesse maior se refere a contextos extrínsecos
ou ainda a contextualizações como características próprias da
compreensão vista como uma habilidade extrínseca. Primeira-
mente apresento aqui - sem qualquer possibilidade de justificar
ou desenvolver - o chamado esquema de aceitação, que me
permitirá apresentar minha tipologia.
Existe um E (enunciado) ou uma cadeia semiótica; se E
tem o significado S, então E é enunciado pelo falante F e com-
preendido pelo ouvinte O com a significação ACC (v): "aceitar"
essa significação ou inferir praticamente ACC (v) é compreender

210
1r [ ({) (p)]. \Ü significado S de E tem um co-texto, a significa-
ção ACC (v) tem um contexto.
De início, algumas palavras sobre oco-texto de S. O ante-
cedente do esquema de aceitação pressupõe que F e O podem
confiar no seu conhecimento da linguagem. Não vejo interesse
em discutir aqui a natureza ou da linguagem como um sistema
pré-formado ou do seu conhecimento (é isso que se espera dos
gramáticos e psicolingüistas). O co-texto intervém quando os
enunciados são gramaticalmente ambíguos (devido à homonímia
ou sinonímia ao nível lexical, assim como ambigüidades de na-
tureza fonológica e sintática).Pode ser necessário desfazer a am-
bigüidade, o que geralmente se consegue com a ajuda do co-
texto. Os enunciados e seus fragmentos nunca estão isolados em
uma sintagmática: o co-texto é o "texto que circunda", qualquer
que seja sua extensão e as unidades dialógicas que o constituam.
O co-texto tem uma estrutura macrogramatical; logo, sua capa-
cidade de desfazer a ambigüidade é bastante limitada'. A con-
textualização, através do processo ~e inferir a significação das
seqüências dialógicas, será mais eficaz. No entanto, deve ficar
claro que antes que comece a inferência (ainda dentro da frase
antecedente da condicional), a co-textualização macrogramatical
molda o significado S, do qual a significação será inferida.
Minha preocupação principal é com contextos extrfusecos
que são a base de onde se pode inferir praticamente as significa-
ções. Os tipos de contextos são reproduzidos no quadro a se-
guir. No entanto, esta tipologia não será desenvolvida aqui;
apenas serão acrescentadas algumas observações introdutórias 7.
Conforme mostra o quadro a seguir, faço uma. distinção
entre contextos nucleares e contextos suplementares: os contex-
tos nucleares são contextos fenomênicos dos três componentes
da significação 71' [ ({) ( p )], enquanto os contextos suplementa-
res são os contextos epistêmicos desses componentes (são con-
textos-de-crença, também chamados contextuais). Devo lembrar
aqui que p é um conteúdo proposicional (qualquer que seja),
f/) é o operador-de-modo e 7r o operador-de-racionalidade.
Simbolizo a oposição entre o contexto nuclear e o suplementar

211
Comexto emfruleco
Núcleo renomêmoo Suplemento epia:te~11UCOTipologia do., Critério de M ~ de relam
conlcxt03 jrurtifica,;;oo
J--· Tt I'" ~~t~r:~~;ossinc:tico Circunstâncias Nós/eu estamos/estou
Contexto 1 4·,::. 1 transcedentais (em) C ( 1r)
comunal C ( rr) /1 Contexto B ( 7r) Autenticidade acredito/
Comunidade J. / · ~-~.~ís~~n1ico-Comunal Supobif6e.1 , -·-······----+-1ifulnós acreditamos que
'+ I ; , pretendo/
Con!exto , I'• , .. : ., Circunstâncias Eu/n?s pretendemos
N
,-...
Erotéttco C ( .p) ·!,i! Lontexto
/, Epistêmico-erotético
mterac10rn:us
r Contramaiidade
que C \ <(' /

acredito/
N 13 ( 4")
Eu/nós acreditamos
1
que<{'
desejabilidade
'comum' 1 ,
---·····+L •---+-··•"•• • • • • o s • • · - - - - - + - - - - - - - - - - ;
p 1li' sei/
Contexto ·f· '- Circunstâncias Eu/nós sabemos
Alético C ( p) Contexto referenciais que (
Ep1stêmico/Alético Expressividade
acredito/
denotação B ) Eu/nós acreditamos
! que p º
da seguinte maneira: C (x) versus B (x). Em um caso 'ideal',
a inferência de 1r [ 'P ( p ) ] pode ser realizada sem qualquer
crença contextual, sendo os contextos nucleares suficientes para
se fazer as inferências corretas. Mas, evidentemente, na maioria
das vezes, os contextos epistêmicos também estão dirigindo a
inferência. Metodologicamente é muito importante distinguir, na
parte suplementar dos contextos extrínsecos, dois tipos de esta-
dos epistêmicos: os estados mútuos que têm grande poder cons-
titutivo, embora sejam facultativos e os idiossincráticos, que
estão fora do processo de inferência comunicativa de inferência
da significação, na compreensão. Isso nos deixa com seis tipos
de contextos extrínsecos que devem ser apresentados breve-
mente (começando de baixo para cima).

e (pJ
Abstraindo-se de qualquer influência epistêmica (por
exemplo, crenças mútuas) e dos contextos comunais e erotéticos,
pode-se dizer que o contexto C do conteúdo p é a sua denota-
ção/entendimento' ( grasping) de sua denotação. A denotação
de p é o referente de 1r [ <P ( p )]. No entanto, isso é uma abs-
tração porque o referente é necessariamente comum e intencio-
nado, o que tem como conseqüência que C (p) é modificado por
C ( 'P) e por C ( 1r ). Portanto, falando de forma abstrata, eu po-
deria dizer que o referente (ou as 'circunstâncias referenciais') é
(são) o contexto que determina a significação parcialp. Sabe-se
perfeitamente que a interpretação de C (p), sem ajuda de outras
contextualizações (fenomênicas ou epistêmicas), é simplesmente
impossível para a classe importante de enunciados referencial-
mente opacos, e essa é a melhor prova de que C (p) está profun-
damente" encaixado em todos os outros tipos de contextualiza-
ções, da mesma forma que p é modificado necessariamente por
1/J e por 1r na estrutura 7r [ '/J ( P )].
Não posso tratar aqui dos problemas técnicos devidos às
várias espécies de mecanismos que assinalam o referente (pro-
nomes demonstrativos, descrições definidas, etc) 8. Evidente-

213
mente, a denotação de p contém as especificações de tempo e
espaço do referente e a descrição que permite a predicação de
suas propriedades e relações. Dar uma visão geral de todas as
categorias gramaticais com seu poder expressivo específico em
relação ao contexto de p implicaria em entrar em uma das con-
trovérsias mais prolíficas da filosofia contemporânea, recente-
mente estimulada pelas chamadas teorias 'causais' dos nomes
próprios (e, por extensão, do significado). Minha discordância
dos causalistas (Kripke e, em certo sentido, Putnam) 9 não se re-
fere à análise que fazem da relação entre uma expressão, diga-
mos, um nome próprio ou um termo que designa uma 'espécie
natural', e suas circunstâncias referenciais, mas sim ao fato de
que C (p) não é apresentado por eles como uma abstração ou
como dependente de outros tipos de contextos 10.

B (p)

O conhecimento de C (p) pode ser favorecido ou obscure-


cido ao se acreditar em p. O contexto epistêmico-alético de p
terá que ser interpretado pelo compreendedor a fim de que reali-
ze a compreensão completa da significação 1r [ cp ( p ) ] . So-
mente crenças mútuas de p são relevantes para o processo da
comunicação; as crenças idiossincráticas (crenças não-re.conhe-
cíveis ou não-compartilhadas pelo falante e pelo compreende-
dor) não entram na significação das cadeias semi6ticas. Mesmo
no caso dos nomes próprios, o contexto epistêmico-alético pode
ser uma heurística necessária, embora suplementar, que torne
possível a compreensão da significação parcial de p. Isto fica
claro nos usos não-literais de nomes próprios, como na sentença
"Ele é o Aristóteles do século 20" e mesmo em "Aí vem Aris-
tóteles" (falando da mesma pessoa, considerada um grande filó-
sofo). Não é a verdade de uma crença que lhe confere o poder
de determinar a denotação comum de p. Pode ocorrer que cren-
ças falsas sejam mais efetivas neste caso do que as crenças ver-
dadeiras, é por essa razão que crenças contextuais relevantes
devem ser mútuas em vez de verdadeiras. Crenças falsas comuns
podem auxiliar na detenninação do referente de 7í [ cp ( p ) ] • O
caso mais conhecido disso é aquele em que as crenças são ex-
pressas por descrições definidas que se acredita serem falsas re-

214
!ativamente a certos referentes, mas que melhor servem aos ob-·
jetivos conversacionais do falante/compreendedor ("O homem
com um marti.J:?.i é um grande artista", em que o copo do homem
contém água). Eu não questiono o fato de que expressões de
crença tenham um valor verdade e que, do ponto de vista da psi-
co-16gica, o caráter de funções-de-verdade das operações epis-
têmicas seja da maior importância. Mas eu contesto que este fato
seja de grande importância para a teoria ·da compreensão e do
diálogo. Do ponto de vista da compreensão dialógica,. deve-se
fazer uma distinção cuidadosa entre conhecer C (p) e acreditar
que p, entre o núcleo fenomênico e o suplemento epistêmico:
crenças contextuais têm que se adequar aos objetivos conversa-
cionais (por isso elas são contextualizações) e o valor verdade
da sua expressão deve ser deixado em suspenso. Portanto, as
crenças contextuais não correspondem aos sentidos de Frege -
são posições estratégicas no jogo dialógico, que verificam e fal-
seiam contextos aléticos.

e (Cf' J

A significação parcial r.p (p) é um contexto proposicional


modificado funcionalmente por uma configuração dos primitivos
psicológicos "julgar" e "desejar"ll. O que é, então, o contexto
dessa configuração? F pretende que seja reconhecida a base jul-
gar-desejar de seu enunciado. No entanto, sua intenção não é
necessariamente convencionalizada (i.e., para ser reconhecida, a
intenção de F não tem que se expressar de alguma maneira con-
vencional-gramatical): ela é reconhecível com base em seu con-
texto, especificamente a desejabilidade comum. A busca de re-
conhecimento, por parte do produtor do enunciado, significa a
busca de um contexto justificatório para a configuração de jul-
gamento-desejo. Não se pode pensar em outro contexto justifi-
cando essa configuração a não ser sua desejabilidade comum. É
fácil agora darmos o próximo passo: o critério da justificação é a
contratualidade. Portanto, o contexto C (IP) é, através do pro-
cesso de inferência prática na compreensão, o conjunto de cir-
cunstâncias interacionais. A interpretação de C ( r.p ) ajuda o
compreendedor X a inferir a força interacional dos enunciados.

215
Eu prefiro força "interacional" a "ilocucionária" devido ao fato
da força de um enunciado ppr S ser modificada, desde a sua ori-
gem, pela sua compreensão.
B ('P)
O caminho da inferência pode desviar-se ao nível r.p pelo
fato de se acreditar que l.fJ : se B ( r.p ) substitui C ( <P ) , haverá
mal-entendido; se B ( <P ) é sornado a C ( <P ) , pode ter ou uma
função intensificadora ou uma função de falácia. Este tipo de
crenças contextuais poderia ser chamado de opiniões, para dife-
renciá-lo de suposições e de crenças no sentido estrito. A crença
B ( l.fJ ) ou a opinião de que í/J é uma certa configuração de pri-
mitivos psicológicos, é um contexto de compreensão muito es-
pecífico, distinto de pretender que C ( <P) de, ou do fato de que
essa configuração seja comumente desejável. Estes últimos são
contextos muito especiais, com poder inferencial diferente. O
contexto epistêmico-erotético é o domúrio da argumentação, da
sobre-determinação, e da coloração retórica. É como se o cami-
nho da inferência, fazendo um desvio epistêmico-erotético, fosse
sujeito quase necessariamente à interpretação falaciosa. Esta
concepção é muito pessimista, e eu tenho uma concepção mais
construtiva a respeito do impacto das opiniões mútuas sobre a
significação parcial 'P (p). É necessária uma teoria sistemática
do óbvio, da saliência, da intensificação psicopragmática e da
sobre-determinação, e a retórica da persuação assim como ateo-
ria da argumentação são um bom começo nesse sentido. A inter-
pretação de B ( rp ) como um contexto para compreender com-
pletamente a significação parcial de r.p (p) se toma inevitável
nos casos de significação indireta e de intencionalidade oculta
ou colateral, tais como ambigüidade deliberada, manipulação e
mentira 12: quanto mais encoberta for a intencionalidade de um
fragmento dial6gico, mais forte é o impacto das opiniões sobre
l.fJ (p), quer de maneira correta (heurística) quer incorreta (fala-
ciosa).
B ( 1f)
O contexto epistêmico-comunal B ( 1r ) , como outros tipos
de contexto no suplemento epistêmico, tem ou uma função de
intensificação ou uma função de falácia em relação ao contexto
comunal C ( 1< ), que é a base para a compreensão em uma situa-

216
ção dialógica. Crenças comunais mútuas ou suposzçoes ( pre-
sumptions ) são, sem dúvida, um contexto efetivo de compreen-
são, embora sejam facultativas e potencialmente falaciosas. A
fim de indentificar suposições, eu proponho o seguinte critério:
as suposições são aquela parte do suplemento epistêmico onde é
necessária a máxima concordância entre usuários da lingua-
geml 3. Essa maximização s6 é possível com base na crença co-
munal mútua de que os usuários da língua são autoconsistentes
ou que, ao menos, maximizam sua autoconsistência. A distinção
entre o contexto comunal e o contexto epistêmico-comunal deve
ser feita para explicar tipos de comportamento semi6tico diver-
gente, que é racional por um lado e não-sincero e/ou não-comu-
nicativo por outro: o mentiroso, certamente, é não-sincero e não-
comunicativo sem ser irracional... Deve ficar claro que não há
meios de maximizar a concordância sobre a racionalidade; mas é
claro que isto não é verdadeiro para a sinceridade e para a apre-
ensão (uptake). A discordância sobre a racionalidade de uma se-
qüência semiótica conduz à fragmentação da comunidade, en-
quanto que a discordância sobre a sinceridade ou o desejo de
apreensão pode conduzir à discussão da autoconsistência do fa-
lante/compreendedor e mesmo à minimização ou maximização
do acordo, conforme o caso. Isto significa simplesmente que
existe uma autenticidade ao nível 1r , que é diferente da autenti-
cidade do que é acreditado mutuamente, isto é, a autenticidade
de ser racional com os outros.

e ( 7r J
A interpretação e reciprocidade de perspectivas dos mem-
bros de uma comunidade fazem com que seja possível uma sig-
nificação ser praticamente inferida quando há compreensão. To-
das as regularidades observadas aos vários níveis no núcleo e no
suplemento do contexto epistêmico podem ser interpretadas co-
mo n.ormas, padrões e regras coletivas s6cio-psicológicas e
portanto empíricas. No entanto, a 'regularidade' do gerar o as-
pecto- 7f da significação de C ( 71' ) que não é empírica. A comu-
nidade, que é o contexto de -,. , não é um grupo psicossocíal, ou
seja, empírico. Ela é a circunstância 'transcendental' da raciona-
lidade básica da significação 14.

217
Ili

Concluindo, seria não cauteloso e metodologicamente in-


justificado incentivar a proliferação de contextos. É verdade que
uma idéia não-explícita de dependência contextual serve como
deus ex machina em numerosas teorias lingüísticas e filos6ficas
do significado. A situação é completamente diferente em uma
teoria da compreensão e, portanto, em uma teoria do diálogo,
onde defendo um Princípio de Proliferação de Contextos.
Deve-se acrescentar uma observação final sobre os pa-
drões de inferência da compreensão em uma situação de diálo-
go. O quadro exposto mostra que a inferência prática ao se
compreender tem potencialmente vários caminhos e pode percor-
rer ou não o suplemento epistêmico. A inferência da significa-
ção 1r [ 'P ( P ) ] fará uso ou do núcleo fenomênico do contexto
extrínseco (padrão A), ou tanto do núcleo fenomênico como de
seu suplemento epistêmico (padrão B), ou s6 do suplemento
epistêmico (padrão C). Pode haver desvios em todas as direções.
O padrão de inferência C, em que somente as suposições, opi-
niões e crenças são contextualizadas, leva ao mal-entendido. O
padrão de inferência A em que 1r, 'I' e p sao contextualizados
fenomenicamente sem qualquer influência do suplemento epis-
têmico, deve conduzir à compreensão total. O padrão de infe-
rência B, em que tanto o núcleo quanto o suplemento são rele-
vantes (em um vai-e-vem de um para outro) é o caso mais inte-
ressante: a desambiguação e a ambiguação são passos contradi-
t6rios que podem ou não levar à compreensão. A análise desses
padrões de inferência e a predição do resultado final é da maior
importância para uma teoria completa do diálogo.

Tradução: Raquel Salek Fiad

218
_Notas

l Ver Bach, K. e R.M. Hami,h, Linguistic Communication and Speech Acts,


Camhridge, Mass, The 1\l.LT. Pre9S, 1979, 234-266, principalmente pp. 235-236.
2 l:êsta crítica es,;encrnl foi formulada muito adequadamente por S.C. Levin-
;,m cm "The Es,entíal Inadequacics of Speech Act Models of Dialogue", em Panet,
H., M. Sbisà e J. Verschueren (eds.). Possibilities mui l-1mitations of Pragmatics, Am-
sterdam, J. Benjamins, 1981, 473--492.
3 Em seu artigo, apresentado no Encom:Io Internacional de Filosofia da Lin-
guagem na Unica..rnp, ago~to de l 981.
4 Ver o capítulo 4, Contexmalism mui Fransc<'ndenta/Lym in ilie Tlworv or Un-
derstandmg, em -minha uhra Contexts of Cnderstanding, Amsterdr,m. Ben1amíns,
1980, Tl-95.
5 Este ponto fundamental foi muito adequadamimte enfatizado pnr JC. Jacquc,
em seu trabalho, especialmente em Dialoe;iques Recherches logiques sur /e dialogue,
Paris, 1979 (capítulos III e IV, 151 ss.i.
6 Este ponto de vista está de acordo com as críticas de Schwarz sobre teorias
clássicas da verdade do s1gniftcado em Schwarz, D.S., Naming mui Referring. The
Semantics and Pragmatics of Singular Temis, BerliniNew York, Walter de Gruyter,
1979.
7 Ver minha obra Contexts of Understanding, op. cit.
8 Desenvolvi este aspe.ct.o em 'Dem.onsttaiives and the J-sayer', em J. van der
Auwera (oo.), The Semantics of Dt!termi.riers, london/Baltimore, Croom Helm/Uni-
versity Park Press, 1980, 96-11 i.
9 Pode,,se encontrar bibliografia referente a esse aspecto na Introdução de
S.P. Schwarz, Naming, Necessity mui Natural Kinds. Ilhaca/London, Comdl Uní-
versity Press, 1977.
10 Ver argumentos semelhantes em D.S. Schwarz, Nanung an.d Referring, op .
..;it.
11 Ver o capítulo UI, Perspectival Underslandíng em Come,;rs of Understan-
ding, op. cit., 35- 70.
12 Escrevi extensivamente sobre esse aspecto em "Eléments d'une analyse ph-
ylosophique de !a manipulation et du mensonge", m Afanuscriio, 2 ( 1979), 119-152.
l3 D. Davidson "Radical Interpreration", Dialectica, 27 {1973), 313-327,
fommla um Princfpío da Cruidacle que é, na verdade, um princípio complexo, que
não deve ser identificado com o que denomino Princípio da Camlade em várias pu-
blicações como em "Pnncipes de la déduction pragmatique", Revue Jntemationa!e
de Philosophie, 30 (1976), 486-510.
14 Ver o capítulo IV de Conte.xts o_f Understaru:iing, op. cit., sobre "transam-
dentahsmo" na teoria da compreensiío.

219
PARA UMA TEORIA ENUNCIATIVA
DA PARÁFRASE: A SEMELHANÇA
E O ATO DE PROXIMIZAÇÃO

O conceito lingüístico de paráfrase é particularmente inte-


ressante por pressupor e engendrar uma teoria global que trata
da natureza e do funcionamento do sentido. É assim que a sub-
teoria do ato de parafrasear, apresentado neste artigo, não deve-
rá ter somente uma pertinência em si: deverá igualmente servir
enquanto argumento em favor da teoria do sentido que a engen-
drou. Meu percurso realizar-se-á em três etapas. Gostaria de in-
dicar inicialmente como uma teoria do sentido, onde o conceito
de transposição é central, gera necessariamente a subteoria da
paráfrase ( A paráfrase como técnica de transposição ). Sugeri-
rei em seguida que as abordagens semânticas, em lógica e em
lingüística, que cardCterizam a paráfrase com a ajuda da noção
de equivalência semântica, não são adequadas parei a análise da
paráfrase nas línguas naturais ( A equivalência semântica e a
semelhança pragmática ). Gostaria de propor finalmente alguns
componentes de uma teoria enunciativa do ato de parafrasear
explorando a força explicativa da noção de proximização ( As
estratégias de proximização ). É evidente que este estudo é so-
mente um esboço que deveria ser verificado e justificado pela
sua operacionalização em pragmática lingüística.

A paráfrase como técnica de transposição

Se seguirmos a linha saussuriano-hjelmsleviana na deter-

221
rrúnação do sentido, constatar-se-á que a paráfrase aparece de
imediato como um fenômeno semântico incontornável. É assim
que proponho neste lugar evocar o percurso teoremático segun-
do o qual a teoria estrutural do sentido engendra um conceito de
paráfrase (Parret, 1986b). A partir de Saussure, a lingüística es-
trutural caracteriza a semiosis como uma rede de relações (de
tipo associativo ou paradigmático e de tipo sintagmático ). É um
aspecto fundamental da herança saussuriana considerar "a lín-
gua como um sistema de diferenças" e a rede de relações que é
o sistema lingüístico, não como categorial mas como lwlístico
(as relações não são elas próprias independentes mas entidades
de redes sempre em expansão). Felizmente foi possível desfazer
da hipótese do signo saussuriano, o signo pertencendo de fato
ao nível do parecer lingüístico, e elaborar uma concepção de
rede de relações como um sistema de restriçc'5es do próprio sen-
tido. O esforço teórico que levou à reconstrução da rede de rela-
ções consiste em projetar uma estrutura subjacente e em postular
uma série de níveis de explicitações que atinjam, ao longo de
um percurso gerativo, a superfície dos discursos. Essa ênfase da
verticalidade - e, ao mesmo tempo, o reconhecimento que o sen-
tido não tem nenhuma ancoragem ontológica, já que ele é o re-
sultado de uma projeção teórica - vai marcar todo o desenvolvi-
mento da axiomática estrutural. Vários deslocamentos surgem no
decorrer deste desenvolvimento. A lingüística estrutural se dis-
tancia cada vez mais da concepção estática da relação enquanto
produto para se reaproximar mais de uma concepção dinâmica
da relação enquanto produção. É precisamente a colocação das
relações ou a emergência do sentido que mobiliza progressiva-
mente a atenção na teoria estrutural do sentido. Poder-se-ia
constatar que a idéia de emergência do sentido já está prefigura-
da nas Fontes Manuscritas, onde Saussure distingue o articúlus
d.o lado do signo, do termo (o signo enquanto entidade do siste-
ma das relaçc'5es "associativas") e da unidade (o signo enquanto
entidade da cadeia sintagmática). Na verdade, o articulus é o
produtor do mecanismo de articulação que, em Saussure, é infe-
lizmente e automaticamente associado à faculdade sócio-psico-
lógica (Parret, 1971). Mas o fato de introduzir, mesmo de modo
hesitante, a idéia de que!- a "vida significativa" estaria depen-
dente de um mecanismo dinâmico de produção ou de articulação
já é um passo adiante e um questionamento do estruturalismo fi-
xista. Se bem que Hjelmslev herda sua concepção estratificacio-

222
nal da semiosis de um Saussure oficialmente insensível ao pro-
blema da produção do sentido e desenvolve um conceito muito
mais satisfatório de articulação. A "matéria"-prima ( purport)
manifestada e indeterminada deve ser articulada para se conver-
ter em forma/substância cuja relação constitui a semiosis, ver-
dadeiro objeto da semiótica. Hjelmslev compreende por "re-
construção lingüística" a articulação da forma/substância a par-
tir de uma matéria indeterminada, "esta massa amorfa, esta enti-
dade não-analisada que só se define por funções externas"
(Hjelmslev, 1943). A forma/substância, em contraste com a ma-
téria, é o sentido enquanto que assumido pela lingüística: a arti-
culação do sentido implica a produção lingüística. Entretanto,
esta idéia hjelmsleviana de articulação do sentido só é um pri-
meiro passo em direção a uma perspectiva adequada no que diz
respeito à emergência do sentido.

Proporei, na verdade, que o sentido só é apreendido no seu


"tratamento" no momento em que o sujeito falante é levado a
operar uma transposição de um nível de sentido em direção a
outro. É deste modo que parafrasear é um ato produtor. Esta
abordagem da paráfrase pressupõe a transformação radical da
concepção puramente estratificacional para uma concepção
transpositiva do sentido. Estamos já longe da visão estática de
um Saussure que concebe a semiosis como uma "teia de aranha"
ideal de relações sincronicamente dadas. É uma crítica feroz do
estrumralismo ao afinnar que "a apreensão é logicamente ante-
rior à diferença" e que "a forma da linguagem do
cante), isto é, o conjunto das diferenças, resulta da articulação
da operação de apreensão" (Greimas, 1970:10). Uma concepção
transposítiva do sentido torna possível, desde que se determine o
objeto da semântica como sendo o sentido do sentido, ou o sen-
tido enquanto articulação do sentido pela sua apreensão. É deste
modo que a transposição do sentido poderá ser considerada co-
mo a condição de possibilidade do próprio sentido. A semântica
responsabiliza-se então pela determinação das técnicas específi-
cas da transposição do sentido. O termo transcodificação apare-
ce de imediato corno um concorrente direto da "transposição".
Mas toma-se possível fazer a economia da "transcodificação",
que tem desva.,tagens definicionais. Segundo as conotações ha-
bituais deste termo, a transcodificação só tem como cons,::m.l.e11-

223
eia a constituição de uma metalinguagem. A transposição do
sentido, contudo, não transforma necessariamente o sentido em
sentido "autêntico" e "final", expresso por uma metalinguagem
artificial e arbitrária. Essa é, na verdade, a finalidade dos lógi-
cos quando pretendem representar o sentido de uma linguagem-
objeto (natural) por uma metalinguagem (fonnal). A transposi-
·Ção do sentido, ao contrário, é um processo infinito de articula-
ção, é precisamente este aspecto da infinitude da vida da semio-
sis que deve ser acentuado. Mesmo no interior da axiomática
saussuriano-hjelmsleviana, onde se mantém a tese do "fecha-
mento do universo do sentido", poder-se-ia introduzir a idéia de
mn movimento ininterrupto de transcendência: basta reler os úl-
timos capítulos dos Prolegômenos para se convencer de que o
próprio Hjelmslev era sensível a essa idéia. A segunda razão
que me leva a economizar a noção de "transcodificação" é a de
que esse termo conota a concepção infonnacional da significa-
ção e da comunicação: reduzir totalmente a comunicação signi-
ficante à informação seria um ponto de partida deplorável se
estamos à procura de uma definição adequada do ato de parafra-
sear.

Uma determinação enunciativa da paráfrase só pode ser


encarada se o conceito puramente relacional do sentido (Saussu-
re) for enriquecido pelo suplemento transpositivo. Não é o caso
evidentemente de substituir o conceito de relação pelo de trans-
posição, desde que a transposição enquanto "suplemento" seja
fundadora de sentido. É verdade que a emergência do sentido,
nessa nova perspectiva, toma-se possível pela apreensão trans-
positiva. Contudo, é conveniente determinar agora o ato de pa-
rafrasear no interior do panorama das técnicas de transposição.
Proponho a seguinte tipologia das transposições sem pretender
que os tipos sejam exclusivos.

a) A transposição discursiva: paráfrase


b ) A transposição hermenêutica: interpretação
c) A transposição cientlfu:a: metalinguagem

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A transposição pela paráfrase é aquela exercida "natural-
mente" e infinitamente pelos discursos tanto cotidiano como ar-
tístico e poético. A transposição hermenêutica é aquela efetuada
pelo ato de leitura ou comentário de um texto: utilizo então este
campo conceituai herme~êutico/texto/leitura/interpretaç~o no
sentido mais tradicional. Será evidente para cada um que a in-
terpretação do sentido de um texto ao nível do ato de leitura se
situa em algum lugar "entre" a paráfrase e a metalinguagem.
A leitura, na verdade, funciona como deciframento de um texto
e introduz desse modo o movimento infinito de interpretação
hermenêutica. Se examinarmos as teorias lingüísticas e mesmo a
filosofia da linguagem constatar-se-á que, na verdade, os três ti-
pos de transposição - paráfrase, interpretação e metalinguagem -
recebem freqüentemente interdefinições: são quase sempre trata-
dos como parassinônimos. Entretanto, há constantes nas defini-
ções, neste caso, por exemplo, onde a interpretação é dita não
ser uma coisa em si, ou é dita não poder ser uma atividade fe-
chada e auto-suficiente (Greimas, 1983:214), enquanto que a
metalinguagem s6 pode ser auto-suficiente. De fato, a interpre-
tação não é nunca fechada ou terminada; a metalinguagem, ao
contrário, constitui necessariamente um último julgamento, o
qual estabelece o sentido transposto - a linguagem-objeto - no
nível transpositor como definitiva e completamente reconstruído.
É preciso, então, aceitar que os termos da tríade, paráfra-
se/interpretação/metalinguagem, não são parassmommos.
Constata-se na verdade que algumas propriedades destes termos
não se sobrepõem. Proponho-me agora a especificá-los melhor.
É deste modo que se pode postular que, mesmo intuitivamente, a
paráfrase é vista como uma operação de tradução intralingüfsti-
ca e como uma expansão que se apóia sobre a propriedade de
elasticidaqe do discurso. A paráfrase só pode, além disso, ser
considerada como uma atividade natural onde a semelhança do
sentido transposto e do sentido transpositor está mais ou menos
intuitivamente posta. Faz parte igualmente de toda concepção
pré-teórica da paráfrase que a motivação do ato de parafrasear é
o da desambigüização de conteúdos semânticos pela referência

225
ao contexto ou à instância da enunciação. Ao contrário, é preci-
so afirmar, ao menos provisoriamente, que a interpretação (ao
nível do ato de leitura ou de comentário) não é tanto uma "res-
posta" a uma ambigüidade revelada no nível a ser transposta,
mas de preferência um esforço de estruturação de uma riqueza
inicial e inesgotável; além disso, a interpretação resulta num no-
vo texto que será fonte, ele próprio, de novas interpretações. Pa-
ra utilizar uma terminologia da moda, diria que a interpretação é
criadora de intertextualiçlade. A metalinguagem, enfim, é neces-
sária "para a vocação científica", e é assim, aliás, que esta no-
ção tem sempre funcionado em lógica e em epistemologia.
Para melhor apreender o funcionamento específico da pa-
ráfrase, apresento alguns critérios de distinção suplementar.
1 . É preciso distinguir a paráfrase da per/frase. Uma perí-
frase, em retórica, é um procedimento que substitui uma noção
por um ,grupo de termos. A perífrase é menos "natural", menos
"intuitiva" que a paráfráse. Esta funciona por análise, por de--
composição, por articulação de uma estrutura semântica de su-
perfície em entidades profundas. A perífrase, em contraposição
com a paráfrase, não repousa sobre a expansão e, pois, sobre a
propriedade de elasticidade do discurso.
2 . A paráfrase é uma transposição heterofônica do senti-
do, e não uma transposição homofônica. Uma transposição é
chamada homofônica por Quine se nenhum sistema de produção
ou de compreensão/recepção mediatiza a comunicação de um
conteúdo semântico. É evidente o caso da transposição científica
onde a produção e a recepção não restringem de nenhum modo o
sentido das seqüências. Ao contrário, uma transposição é hetero-
fônica desde que o sentido inerente de uma seqüência discursiva
seja dependente das restrições de produção e/ou de compreen-
são. Esta distinção conceituai nos coloca em posição de especi-
ficar a oposição entre o discurso cotidiano parafraseante por um
lado, e o discurso científico de outro.
3 . A transposição parafrásica é reconstrutiva, e não cons-
trutiva. "Reconstruir" significa construir de novo o que já está
construído: pressupõe-se ou projeta-se uma estrutura existente

226
que se simula depois. "Construir", ao contrário, sugere uma tá-
bula rasa inicial. Esta distinção, para mim, não é ontologica-
mente determinada e não faz alusão à existência ou à não-exis-
tência de um objeto referencial. Ela se aplica de preforência
à modalidade introduzida pela competência produtiva do discur-
so: um discurso reconstrutivo implica a subjetivação, enquanto
que o discurso construtivo procede da objetivação ou da forma-
ção de um "objeto" cada vez mais "objetivo". A paráfrase e
a interpretação são também transposições reconstrutivas e sub-
jetiva-; enquanto que a metalinguagem é construtiva e objetiva.
4 . Acrescentamos, ainda, a estes outros critérios que a pa-
ráfrase se realiza por uma seqüência discursiva, a interpretação
por uma seqüência textud ~ e a metalinguagem por urna seqüên-
cia lingü{stica. Para utilizar distinções em termos de modalida-
de, diria que o discurso parafrástico é um.fazer-dizer do sentido
transposto, o texto interpretativo umfazer-saber e a metalingua-
gem, enquanto linguagem, um fazer-conhecer. Isto corresponde
evidentemente à-; três funções tradicionalmente identificadas aos
três tipos de transposição: faz-se assim apelo à faculdade de di-
zer do discurso, do saber de um texto, e do conhecimento da
ciência.
Não pretendo que os tipos de transposição sejam exclusi-
vos. A tipologia proposta, além disso, não é descritiva mas nor-
mativa, de modo que a tipologia que lhe é dependente s6 se
realiza parcialmente. Sabemos muito bem que hã discurso "coti-
diano" na linguagem científica e há interpretação "textual" no
discurso artístico, füenísio por exemplo. A pureza das distinções
é então continuamente traída e as propriedades ideais estão
constantemente combinadas. Prossigo, entretanto, no esforço de
delimitação da paráfrase e das noções cuncorrentes e parassino-
nímicas. Tomemos um novo ponto de partida, desta vez na Ló-
gica de Port-Royal. Segundo os autores de Port-Royal, pode-se
agrupar sob o tem10 genérico de detenninaçiio as duas ativida-
des de descrição e de definição. "Determina-se" por definição
se se reconstrói a essência das coisas e por descrição se o co-
nhecimento diz respeito à coisa pelos acidentes que lhe são pró-
prios e dessa forma delimitamos a coisa no seu campo textual. É

227
claro q1;1e estes três termos utilizados pelos lógicos de Port-Ro-
yal funcionaram em muitas das teorias semânticas sem nenhuma
especificidade definicional. Este tem sido sobretudo o caso para
"descrição": qual tipo de transposição do sentido pode-se cha-
mar de descritivo? Wittgenstein nos oferece um elemento ade-
quado neste debate nocional, fazendo a crítica terapêutica da
descrição enquanto estipulação e fazendo o elogio da descrição
enquanto interpretação. As Investigações Filos6ficas constituem
um longo requisitório contra a idéia de uma seqüência lingüísti-
ca "com conteúdo descritivo" onde descrição equivale então.
à estipulação: este conteúdo funciona neste caso cqJno uma "i-
magem agostiniana" que se encontra relação "de espelho" com
os estados do mundo. Felizmente há um outro conceito de des-
crição que escapa à crítica w ittgensteiniana, o da descrição, on-
de, na sua oposição com tradução e explicação, é avaliada en-
quanto interpretação. A tradução - técnica transpositiva próxi-
ma da paráfrase e efetuada prototipicamente pelo discurso coti-
diano - é fortemente dependente das propriedades semânticas da
dimensão transpositora, isto é, do discurso no qual se traduz.
Essà dimensão transpositora é carregada do formidável semanti-
cismo de um discurso parafraseante e da própria densidade da
enunciação transpositora. A explicação, por outro lado, está
oposta à tradução naquilo que, na explicação, a dimensão trans-
positora tende a desaparecer: a objetivação e o tipo de modali-
zação primordial dos discursos explicativos. Ela só pode ser
realizada pela perda de toda densidade transpositora. É claro
que a atividade metalingüística é, neste sentido, necessariamente
"explicativa". A interpretação é intermediária entre a tradução
e a explicação. O melhor critério de distinção entre a trilogia
tradução/interpretação/explicação, introduzida por Wittgenstein,
se aplica sem dúvida aos diferentes tipos de profundidade pres-
suposto e, ao mesmo tempo, gerado por estes três procedimen-
tos.
A interpretação pressupõe/gera uma profundidade que foi
bem tematiz?-da por Peirce: a profundidade da semiosis ou da
vida significativa é devida ao trabalho da interpretação: não há
profundidade sem interpretação, daí o papel do intJrpretante na

228
semiótica peirceana. A transposição hermenêutica, já descrita, é
na verdade um mecanismo de identificação ou de apreensão de
identidade. Mas o procedimento de identificação é claramente
infinito: a identidade está sempre e necessariamente projetada na
profundidade que se penetra. É importante perceber que o que
se reconhece, na interpretação, não são tanto os patamares de
profundidades identificados, mas sobretudo as regras segundo as
quais estes patamares são gerados: na verdade, o procedimento
de identificação não pressupõe nenhuma identidade, mas um ato
psicológico progressivo que projeta seu objeto num tempo/espa-
ço irrecuperável. Se há profundidade ao nível da transposição
parafrástica, ela será de outra natureza. Já que é o tipo de trans-
posição realizada pelo discurso cotidiano e ordinário, poder-
se-ia retomar a Wittgenstein para compreender o que é a pro-
fundidade pressuposta/gerada pelo ato de parafrasear. Witt-
genstein vê uma interdefinição possível entre profundidade e
conecção (ou relação). Ele se pergunta na obra Investigações ...
e nos outros trabalhos escritos em que consiste a "profundida-
de" de uma sonata de Brahms, ou a "profundidade" de um sa-
crifício humano, e propõe que o aspecto "profundo" é sempre
devido a uma experiência pessoal, a uma evidência com a qual
nós estamos em relação direta. É assim que Wittgenstein afirma
que nenhuma explicação, seja causal ou não, pode produzir pro-
fundidade. Sua terapia se volta então explicitamente contra a
profundidade "galileana" - como exaltada por Chomsky - e
contra as ''doenças'' metafísicas da idealização e da matematiza-
ção. Wittgenstein, na verdade, não acredita que uma considera-
ção adequada das regularidades discursivas e uma transposição
"translativa" (por tradução), com a ajuda de paráfrases adequa-
das, provêm da penetração nas "profundezas" das seqüências
discursivas, "elevadas" sobre formas de estruturas idealizadas e
matematizadas, mas postas em contraste em virtude das maneiras
pelas quai~ os discursos são utilizados com regularidade nos di-
ferentes domínios ou esferas de vida. A "profundidade" de uma
paráfrase se mede pela qualidade da relação que ela mantém
com nossa experiência. A identificação que o ato de parafrasear
estabelece, não é uma atividade de idealização mas é "profun-

229
damente" sentido na própria experiência discursiva. A profun-
didade pressuposta/gerada pelo discurso científico e sua trans-
posição metalihgüística, ao contrário, é de uma outra ordem.
Chomsky é um bom exemplo prototípico de um "científico"
cujas teorias são evidentemente explicativas já que metalingüís-
ticas: a profundidade de uma lingüística chomskyana ou de uma
gramática gerativa transformacional é criadora de "visão" (no
sentido do "estilo galileano" com os mecanismos de matemati-
zação e de idealização). Os três tipos de profundidade enumera-
dos - a profundidade-conecção, a profundidade-infinito e a pro-
fundidade-visão - correspondem então aos três tipos de transpo-
sição distinguidos: por paráfrase, por interpretação e por meta-
linguagem.
Retomemos à guisa de conclusão desta sessão nossa tríade:
a transposição parafrástica é uma tradução, a transposição her-
menêutica uma interpretação, e a transposição metalingüística
uma explicação. O que é a tradutibilidade das seqüências discur-
sivas, propriedade exploradora a fundo por todo o ato de pará-
frase? A tradução é "uma atividade cognitiva que opera a pas-
sagem de um enunciado dado para um outro enunciado conside-
rado como equivalente" (Greimas-Courtés, 1979). A tradutibili-
dade aparece como o próprio fundamento do procedimento se-
mântico: "entre o julgamento existencial 'há sentido' e a possi-
bilidade de dizer alguma coisa se intercala na verdade a tradu-
ção; 'falar do sentido' é ao mesmo tempo traduzir e produzir
significação" ( lb ). Esta afirmação retoma evidentemente a
concepção transpositi va do sentido que defendi no decorrer
desta sessão. Reconhece-se nas lfuguas naturais um estatuto pri-
vilegiado em relação a outros tipos de lfuguas (formais, lógicas)
pelo fato que elas sozinhas são suscetíveis de servir de línguas
de chegada quando do processo de tradução. Faço neste con-
texto evidentemente alusão à tradutibilidade intralingüística. A
força da enunciação transpositora é particularmente densa e de-
terminante neste mecanismo tradutor. O ato de parafrasear é en-
tão fortemente constrangido pelo semantismo transpositor. Resta
então a questão de saber se a tradução e a paráfrase são noções
simplesmente redundantes ou de preferência interdefinidoras.

230
Parece-me que os termos guardam suas conotações específicas,
mesmo que se possa utilizar a noção de tradução para dar mais
substância a uma eventual teoria do ato de parafrasear. Vejo en-
tretanto uma diferença que explica incoativamente o funciona-
mento levemente desviante dos dois termos. A dificuldade da
tradução consiste no fato de que a estrutura semântico-sintática
da seqüência traduzida e da seqüência traduzível são diferentes.
e específicas. A dificuldade do ato de parafrasear acrescenta um
elemento nesta problemática do não-isomorfismo dos dois ní-
veis: como o veremos, a paráfrase pressupõe uma ambigüidade
na seqüência parafraseada e o ato de parafrasear é necessaria-
mente um ato de desambigüização. Epistemologicamente, pará-
frase é uma noção mais "rica" que tradução: como a tradução, a
paráfrase é um mecanismo intradiscursivo, mas ela se distingue
da tradução na medida em que especifica a seqüência transposta
como sendo ambígua e não somente não-isomorfa.

A equivalência semântica e a semelhança pragmática

Pode-se constatar, a partir da tipologia triádica proposta, a


importância da paráfrase para a caracterização da ''vida do dis-
curso". Mesmo se aceitássemos a idéia de que o ato de parafra-
sear é uma atividade natural e intradiscursiva, dever-se-á estar
em condições de formular a relação entre o sentido transposto e
o sentido transpositor. Os semanticistas submetem a existência
de uma paráfrase ao critério da equivalência semântica entre
dois sentidos. Poucos semanticistas das línguas naturais exigirão
uma relação de pressuposição ou de implicação recíproca entre
os dois enunciados. Constata-se uma direcionalidade entre os
dois enunciados já que um é superposto ao outro, e não necessa-
riamente o inverso. Este é o caso em que já se admite que o ato
de parafrasear é (parcialmente) responsável para .o progresso
dial6gico e conversacional dos discursos, como gostaria de su-
gerir. A exigência da equivalência semântica é evidentemente
menos constrangedora. A definição da equivalência semântica
pode ser verifuncional ou simplesmente formal. A exigência ve-

231
ri.funcional será extensionalmente, ainda que os dois enunciados
(o enunciado parafraseado e o enunciado parafraseante) tenham
o mesmo valor de verdade em relação a suas funções de verdade
comum. Se se ultrapassa a definição puramente extensional, co-
mo é preciso, acrescentar-se-á que as inferências lógicas das
duas seqüências devem ser idênticas. Por outro lado, as proprie-
dades formais da equivalência semântica são simplesmente re-
tomadas da mais clássica definição lógica. Gostaria de, nesta
sessão, sugerir que nem a verifuncionalidade nem a formalidade
da equivalência semântica sejam respeitadas no caso específico
da paráfrase intradiscursiva. Na verdade, a identidade semântica
entre unidades discursivas são somente parciais, e felizmente a
equivalência semântica não exige a identidade perfeita dos dois
sentidos. Ela só exige a identidade no que concerne ao valor de
verdade (extensão) e às inferências lógicas (intenção). Mas
mesmo esta exigência é falseável quando se trata da paráfrase
enquanto fenômeno intradiscursivo. Voltarei a este ponto após
ter indicado que as propriedades formais da equivalência se-
mântica não se encontram no -seu conjunto nas seqüências da
linguagem natural.
"A paráfrase nas linguagens formais interpretadas é uma
relação de equivalência, uma relação pois reflexiva, simétrica
e transitiva e cada uma das expressões substitui a outra em todo
contexto" (Grize, 1985: 214). Grize tem perfeitamente razão
quando constata que as três propriedades da equivalência se-
mântica mencionadas são pouco atestadas no que concerne às
"relações do senso comum" (de fato, das relações expressas nas
seqüências da língua natural), e sobretudo que elas não se mani-
festam nunca juntas numa e na mesma expressão. Parece então
impossível constatar paráfrases da língua natural que são refle-
xivas, simétricas e transitivas em relação aos enunciados de par-
tida, isto é, dos enunciados parafraseados. A transitividade, por
exemplo, s6 se aplica a fragmentos extremamente restritos da
linguagem natural:- "x é o irmão de y" e "y é o irmão dez" de
modo que •·x é o irmão de z' • é uma constelação semântica que
não é nem aplicável a "pai" e "vizinho". A simetria é mais
problemática ainda: Grize observa corretamente que "Seu filho

232
se parece com você" não equivale a "Você se parece com seu
filho". Na linguagem natural, "y quer dizer x" não gera neces-
sariamente "x quer dizer y". Assim, se "Pediatra quer dizer
médico de crianças", é perfeitamente possível que o inverso não
seja verdadeiro. A reflexibilidade, enfim, é pouco atestada em
linguagem natural: posso dificilmente enunciar que "Sou meu
próprio irmão" já que meu irmão e eu-próprio temos os mesmos
pais. É conveniente então concluir que as propriedades formais
da equivalência semântica não coincidem quase nunca em lin-
guagem natural, e também jamais em combinação. Se se mantém
o funcionamento desta noção apesar de tudo, não será mais no
sentido da semântica lógica.
Há ainda hoje alguns lingüistas que continuam a dar uma
autonomia a uma abordagem sintática da paráfrase, por uma
parte, e à abordagem semântica do mesmo fenômeno de outra.
Harris (1976), Hiz (1964) e Smaby (1971) propuseram teorias
sintáticas as mais englobantes, e Martin (1976) privilegia a
abordagem semântica (ou seja, lingüística) distinguindo-a do
estudo da classe das "paráfrases pragmáticas". Harris define
uma relação de paráfrase como uma relação entre duas estruturas
de superfície: o léxico permanece constante mas há esquemas
morfossintáticos diferentes que preservam a significação. Chom-
sky desenvolve uma outra perspectiva: frases (em relação de pa-
ráfrase) tendo uma interpretação semântica idêntica são geradas
a partir de uma representação sintática abstrata comum (a dita
estrutura profunda). A mudança do esquema sintático das frases
parafraseantes diz respeito sobretudo a reduções ou desloca-
mentos. Cito alguns exemplos de reduções:

1 . João viu Maria e João chamou Maria.


João viu e chamou Maria.
(desaparecimento dos termos repetidos)

2 . Procurei o livro e li o livro.


Procurei o livro e o li. '
(pronominalização)

233
3 . Ele lê os livros.
Ele lê.
(desaparecimento de consoantes)

4. João espera até que Maria chegue.


João espera Maria.
(desaparecimento de sintagmas)
Exemplos evidentes de deslocamentos sintáticos são:

5 . Ele pega um cigarro no bolso enquanto fala.


Falando, ele pega um cigarro no bolso.
(permutação)

6 . A vinda de João aconteceu.


João veio.
(deslocamento relativo ao tempo)

Harris considera a supressão dos verbos perfonnativos co-


mo um procedimento sintático, e declara~ por exemplo, que os
pares das frases seguintes são parafraseantes:

7 . Digo que João virá.


João virá.

8 . Peço para você ficar.


Você fica?

A tese do semanticista Martin referente à paráfrase é que o


mecanismo lingüístico da paráfrase se realiza independente-
mente dos contextos de enunciação. É precisamente esta pos&i-
bilidade que gostaria de questionar. Mas olhemos primeiramen-
te, mais de perto, de que fenômenos se trata. Uma primeira elas-

234
se, distinguida por Martin, não tem relação entre frases mas so-
mente entre termos (lexemas) substitutivos: é o caso, por exem-
plo, da substituição sinonúnica. Pode-se substituir "olhar" por
"considerar", "fato" por "acontecimento", "autor" por "escri-
tor", etc. Um problema menor já aparece a propósito desta clas-
se: Martin define a sinonímia a partir da possibilidade de pará-
frase, e o inverso, de modo que, de fato, estas caracterizações
são circulares. Perto desta primeira classe se situa a paráfrase
pela dita variação conotativa: já que neste caso como no prece-
dente a denotação permanece igual, haveria "equivalência se-
mântica" quando se substitui um termo por um outro termo com
conotação diferente (termo com o qual se tem uma outra "rela-
ção afetiva" ou "emocional"): pode-se substituir "estado" por
"pátria", e "animal" por "selvagem". Outros exemplos de va-
riação conotativa dizem respeito à mudança de código entre o
familiar, o técnico, o literário, o cotidiano: é assim que se pode
substituir "abdômem" por "ventre", mudando do registro médi-
co para o registro cotidiano ou popular. Esta espécie de substi-
tuição de termos nas frases não muda evidentemente o valor de
verdade dos enunciados. Entretanto, coloco em dúvida que uma
tal substituição seja pragmaticamente possível: a frase parafra-
seada e a frase parafraseante não pode ser utilizada num só e
mesmo contexto de enunciação. Há restrições específicas para o
emprego dos termos, não somente com valor conotativo mas
mesmo sinonúnico. O mínimo que se pode dizer é que há sempre
contextos possíveis onde os dois enunciados não são aceitáveis
ao mesmo tempo. Constatar-se-á uma mesma impossibilidade no
caso em que se substituem não mais termos mas frases inteiras,
como nos exemplos da paráfrase pela dupla negação ou pela
dupla inversão. Os semanticistas (Martin, 1976) enumeram e
cito alguns exemplos, primeiramente da dupla negação.

9 . Isto é alguma coisa.


Isto não é nada.
(dupla negação gramatical)

235
10 . Partirei.
Não ficarei.
(dupla negação, uma gramatical, outra lexical)

11 . Ele é casado.
Ele não é mais solteiro.
(idem)

12 . Todos os eleitores são maiores.


Nenhum eleitor não é menor.
(negação de um prefixo e negação de um predicado)

13 . É provável que ele venha.


Não é provável que ele não venha.
(negação do modalizador e negação do predicado)

14. É provável que ele diga a verdade.


É improvável que ele minta.
(idem)

15. Não é certo que Pedro venha.


É possível que Pedro não venha.
(idem)

16 . Posso sair.
Não é necessário que eu fique.
(idem, com verbos modais)

17 . Não posso sair.


Sou obrigado a ficar.
(idem, com modalidade deôntica)

236
18. Pedro segue João.
João é seguido por Pedro.
(passivação)

19. O treinador domina o cavalo.


O cavalo obedece o treinador.
(inversão lexical do predicado e permutação dos ar-
gumentos)

20 . ·x é o predecessor de Y.
Y é o sucessor de X.
(inversão de relações espaço-temporais)

21 . O cachorro segue a criança.


A criança foge do cachorro.
(inversão de direção de movimento)

22 . X come mais que Y.


Y come menos que X.
(inversão de intensidade)

23 . X é o triplo de Y .
. Y é o terço de X.
(inversão numérica)

24. Xé o marido de Y.
Y é a esposa de X.
(inversão de gênero)

Todas. estes pares de frases são ditos semanticamente equi-


valentes já que eles têm a mesma denotação. A identidade de

237
denotação é considerada como independente da especificidade
do locl.ltor e da situação. Isto significa dizer que, se uma frase é
verdadeira, a outra é necessariamente verdadeira também, e se
uma é falsa, a outra também o é. Considero, entretanto, que a
verifuncionalidade de uma seqüência s6 é uma hipóstase e uma
idealização se ela não é retomada num contexto de enunciação
mais amplo e realmente produtor de significação. A distinção
entre uma dita ''paráfrase semântica'' e ''paráfrase pragmática'',
introduzida por, entre outros, R. Martin (1976), não me parece
pertinente já que uma ''paráfrase semântica'' também deve fun-
cionar num contexto pragmaticamente determinado. A lista das
paráfrases ( de números 9 a 24) deve ser considerada como uma
lista de caso-limite cuja pragmatização permanece entretanto
sempre possível. Além disso - e isto constitui o principal argu-
mento contra a semantização total da paráfrase - num só e mes-
mo contexto, tomada em toda a riqueza e em toda variedade de
suas propriedades, o par das frases consideradas como parafrás-
ticas, nunca funcionará de maneira idêntica. Mesmo se as duas
seqüências têm a mesma denotação, elas nunca serão todas as
duas adequadas ou "autênticas". Quero dizer assim que wn
contexto, na sua especificidade, gera uma única seqüência,
pragmaticamente "imparafraseável" pela outra. No final das
contas, será preciso mudar radicalmente de direção se quisermos
chegar a uma teoria que reconstrua a intuição discursiva que foi
funcionalmente beneficiada pela paráfrase em situação de troca
conversacional.
O grande obstáculo, que os semanticistas constroem artifi-
cialmente, é o da exigência da identidade de significação entre a
seqüência parafraseada e a seqüência parafraseante. Esta identi-
dade é evidentemente obtida pela imposição da equivalência se-
mântica (mesma denotação das duas seqüências, e estabilidade
das propriedades formais da equivalência). Seria preciso melhor
insistir sobre a importância da produção e da recognição da
identidade, ou sobre o mecanismo de identificação de dóis se-
mantismos (aqueles dos pares de paráfrase). A necessidade de
identificação pressupõe a alteridade dos dois semantismos ou um
mínimo sêmico que faz com que os semantismos sejam de fato

238
distintos. A identidade, na verdade, serve sobretudo para a de-
signação do princípio de pennanência que pennite ao objeto
persistir no seu ser, mesmo durante a mudança que o afeta. A
unidade parafraseada e a unidade parafraseante não são mais
que parassinonfmicas. Naturalmente, é graças à substituição que
a parassinonírnia pode ser identificada. A parassinonírnia é pre-
cisamente esta identidade parcial de duas unidades lingüísticas
reconhecíveis somente no contexto de enunciação. Introduzo
aqui um parâmetro pragmático de muita importância: o contexto.
Na sua posição com a sinonímia, uma relação parassinonúnica
entre unidades só pode ser interpretada como equivalente num
detenninado contexto. Um contexto conversacional ou dialógico
é evidentemente ideal para o estabelecimento de uma parassino-
nímia. O reconhecimento de uma parassinonúnia não pressupõe
a identidade da significação mas somente a "semelhança"
pragmática entre dois semantismos, o da unidade parafraseada e
o da unidade parafraseante. Esta semelhança mínima, necessária
para poder falar de um par de paráfrase, não é, entretanto, "da-
da" objetivamente nos próprios semantismos: ela é de preferên-
cia o resultado de um ato de proximização que, como veremos
na sessão seguinte, constitui a essência do julgamento de identi-
ficação que é o parafraseamento.

As estratégias de proximização

Situando o parafraseamento sobretudo no contexto da con-


versação e do diálogo, admite-se que a paráfrase requer antes de
tudo expansão e a propriedade da elasticidade do discurso. Pa-
rafrasear traz, além disso, sempre um benefício ao capital se-
mântico da interação dialógica: a paráfrase constitui um enri-
quecimento de sentido e provoca a progressão do discurso em
direção a um telos comumente definido ou, pelo menos, aceito.
O progresso de um diálogo é constituído por uma concatenação
de paráfrases ·desambigüizantes por parte dos dois interlocutores
da troca. A teleologia, e o progresso que a marca, é um móvel
da comunicação, mas não é necessariamente interpretar este mo-

239
vimento teleológico como instaurado por ideais transparentes e
preconcebidos e finalidades exteriores à troca. O telos de um
diálogo ou de uma conversação se transforma no decorrer desta
interação, e o parafraseamento provoca a própria mudança radi-
cal da estratégia discursiva inicial. Geralmente, é preciso cons-
tatar que o poder da paráfrase testemunha o domínio da lingua-
gem e uma faculdade ótima de (inter) agir discursivamente. A
concepção enunciativa da paráfrase nos faz considerar a paráfra-
se como um fato de discurso que faz plenamente apelo ao con-
junto dos mecanismos de produção e de recepção <~u de com-
preensão) das seqüências discursivas. Ressalto dois aspectos
desta concepção emotiva da paráfrase. Primeiramente, sustento
que a paráfrase é um princípio de coerência dos mais importan-
tes: o "progresso" de um diálogo é constituído pela concatena-
ção de paráfrases, como já disse anteriormente, e a estrutura de
um "texto" é um fato reconhecido com a ajuda das constantes
que são marcadas pela atividade de parafraseamento. Em segui-
da, o parafraseamento é motivado pela colocação de um objeto
ou de um "tema" que deve se tomar cada vez mais explícito no
decorrer de um diálogo ou de uma conversação. É como se "a
objetividade" do tema de uma conversação gerasse a coerência
das seqüências conversacionais. É uma estratégia conversacional
bem conhecida insistir em "retomar o objeto" da conversação
junto ao interlocutor para salvar a coerência do diálogo. Entre-
tanto, um quadro de referência onde a coerência é definida so-
mente nos termos de "ser-dirigido - em direção do - objeto" é
parcial (parcial) e parcial (pareie/). É preciso acrescentar ao
menos duas modificações corrigindo a idéia antes ingênua de
uma direcionalidade transparente em direção ao objeto. Primei-
ramente, o objeto de uma conversação é necessariamente um
objeto investido de crenças, presunção e opiniões. Falar do ob-
jeto da conversação é necessariamente parafrasear um sentido
que já é conhecido e em que se crê. É assim que as paráfrases
do objeto rp.unca são exaustivas nem globalmente eficazes. Em
seguida, as seqüêr•cias dialógicas são religadas ao comporta-
mento e à atividade discursiva do interlocutor. O Princípio de
Cooperação entre interlocutores consiste na vontade recíproca

240
de parafrasear para clarificar as concepções do objeto da con-
versação. Isto nos faz distinguir dois tipos de paráfrases: a pará-
frase objetal e a paráfrase obl(qua ou interlocutiva. Parafrasear
o sentido de um objeto de diálogo é denotativo: aceita-se um
critério exterior que garanta a "semelhança" do sentido parafra-
seante e do sentido parafraseado. Parafrasear o engajamento do
interlocutor na seqüência conversacional é "oblíquo" e conota-
tivo já que a paráfrase desambigiliza, neste caso, por referência
explícita à situação de enunciação. A intencionalidade parafra-
seante é específica nos dois casos, mas o motivo dos dois tipos
de paráfrase permanece o mesmo: criar ou favorecer a coerência
da conversação. A coesão de um "texto" é devido a esta intera-
ção enunciativa parafraseante.
Pode-se mencionar que o parafraseamento pressupõe, nas
seqüências discursivas anteriores, ambigüidade pragmático-se-
mântica. Admito evidentemente a idéia central da teoria da pará-
frase de C. Fuchs (1982a, 1983, 1985) que as determinações
adequadas da ambigüidade e da paráfrase são interdependentes.
A ambigüidade e a paráfrase funcionam, na verdade, dialetica-
mente. A unidade parafraseada comporta uma certa ambigüida-
de, e a paráfrase tende a eliminar global ou parcialmente esta
ambigüidade. É evidentemente estaI'
dialética que torna possível
a coerência mencionada acima. 1,yejo o progresso de uma con-
versação essencialmente como uma concatenação de unidades
polissêniicas do discurso cuja ambigüidade é retirada ou resolvi-
da pela unidade parafraseante, criando novas polissemias que,
no decorrer da seqüência do diálogo ou da conversação, serão
parafraseadas novamente e assim sucessivamente.)A pertinência
desta concepção é sem dúvida largamente dependente da manei-
rn segundo a qual se define a ambigüidade e a paráfrase. Aqui,
ainda, me coloco decididamente junto de Fuchs-Le Goffic
(1983, 1985) que definem a ambigüidade não em termos de ho-
monúnia ou de índetenninação, mas de polissemia. Se a ambi-
güidade é homonímica, o ato de parafrasear só poderia resultar
no estabelecimento de uma sinonúnia-identidade, e essa exigên-
cia máxin1a transcende o critério pragmático da "semelhança"
entre os sentidos parafraseado e parafraseante. Não entro em

241
detalhes nesta discussão que é o ponto forte da teoria de Fuchs-
Le Goffic que considero co:rp.o definitivamente adquirido. A po-
lissemia está necessariamente sujeita à paráfrase como ato de
proximização. Essa proximização, sobre a qual dir-se-á algumas
palavras nos parágrafos que se seguem, é essencial para a dinâ-
mica dialetizante ambigüidade/paráfrase.
Como definir, ao menos incoativamente o ato de parafra-
seamento? O parafraseamento, enquanto fato de discurso, é res-
tringido pelos mecanismos de enunciação: se realiza não pela
metalinguagem mas ao longo da dimensão de elasticidade da ex-
pansão do próprio discurso. O parafraseamento faz igualmente
apelo à faculdade produtiva da instância da enunciação, e já que
se trata de detectar a "seQielhança pragmática" entre o sentido e
a seqüência parafraseante e o sentido parafraseado, dir-se-á que
o parafraseamento faz apelo à faculdade de julgar do enuncia-
dor/enunciatário. O parafraseamento, na verdade, é um julga-
mento de identificação, um julgamento que consiste em identifi-
car os semantismos de duas seqüências comparadas. Falo aqui
do "julgamento" por analogia com as noções de "julgamento de
gramaticalidade" ou "julgamento de aceitabilidade". O sujeito
falante em questão se esforça em um ato de reconhecimento. Já
que se trata de "julgamento", toda a estrutura pragmático-psi-
cológica do sujeito "discursante" entrará em jogo. O julgamento
é uma perfonnance que aciona todos os parâmetros "psicológi-
cos" (sobretudo as intenções, as crenças e os desejos, tanto in-
dividuais como coletivos). Se falo de "identificação", é para
marcar que não é o resultado que conta, especialmente a identi-
dade dos dois sentidos, m~.s de preferência o processo ou o ato
reconstrutor: o julgamento, na verdade, é uma performance, um
ato, e não um 1esultado ou uni objetivo como a proposição ou
o s mantismc dado. O julgamento de identificação que é o para-
fraseamento é, de fato, o conglomerado de três sub-atos. Cha-
memos, com Fuchs (1982a), o sentido da seqüência parafraseada
de Semantismo de X, e o sentido da seqüência parafraseante de
Semantismo de Y. O julgamento de identificação ( o parafrasea-
mento) se decompõe assim em três atos: 1 . a compreensão do
semantismo de X; 2 . a autocompreensão ou a compreensão do

242
semantismo de Y (produzido pelo enunciador); 3 . o ato de pro-
ximização dos dois semantismos. Já que a compreensão e mesmo
a autocompreensão daquele que produz semantismos não são
nada específicas quando se trata do parafraseamento, mas têm de
fato uma estrutura geral cuja teoria é independente da teoria da
paráfrase (Parret, 1982), todo o peso teoremático recairá sobre a
noção de "ato de proximização".
A idéia de proximização dos dois sentidos não está ausen-
tes da teoria da paráfrase em C. Fuchs (1982a: 127-33, e
1982b): este autor sugere que a paráfrase é "uma conduta dis-
cursiva de restituição do sentido" ou "uma conduta metalin-
güística de identificação dos semantismos" (1982a: 28 e 30).
Estou igualmente de acordo com C. Fuchs que "o ato de proxi-
mização" é antes de tudo um ato de anulação das diferenças
iniciais entre os semantismos de X e de Y. A proximização dos
dois sentidos é, na verdade, uma "encenação,,. que a vida do
discurso apresenta dela própria, e esta encenação só é possível
sobre o fundo de um consenso implícito, de uma confiança, de
um conhecimento comum no interior de uma comunidade inter-
pretativa ou, por que não, "parafraseante". A anulação ou co-
lagem das diferentes ·iniciais (reais ou percebidas como tais) le-
vando à "semelhança pragmática" dos dois sentidos (não a sua
identidade) pressupõe ainda uma vez uma racionalidade e uma
cooperação que é reconhecida reciprocamente pelos dois inter-
locutores em situação comunicativa. A pragmática do ato de pa-
rafrasear terá como tarefa fazer o inventário das técnicas de co-
lagem das riquezas semânticas iniciais e então não-interpretadas
das seqüências discursivas. A colagem das diferenças equivale à
reconstrução da "semelhança pragmática" entre dois sentidos.
Como haverá diferentes tipos de colagem haverá igualmente di-
ferentes tipos de "semelhanças". D~ei algumas indicações bem
rudimentares aqui, esperando voltar mais amplamente a este as-
sunto, e estando seguro de que a teoria da paráfrase, sobretudo a
de C. Fuchs, proporá num futuro próximo os prolegômenos para
esta tipologia das colagens/semelhanças. Fuchs menciona que
"o sujeito faz a colagem de todas as diferenças que podem exis-
tir entre a intenção de significação do sujeito que produziu estas

243
expressões, os semantismos múltiplos e eventualmente multívo-
cos, mesmo ambíguos, que a pr6pria produção das seqüências
acarreta com ela... e o semantismo que o sujeito re-constr6i a
partir destas expressões ... " (1982b: 33). Eis já um primeiro tipo
de colagem, a que "elimina" a distinção inicial entre o sentido
que o locutor dá a suas expressões e o sentido intrínseco das ex-
pressões. Um segundo tipo de colagem terá relação com os es-
tratos específicos no interior do conjunto da significação, retido
ao nível da paráfrase: o que parafrasea pode "fazer a colagem"
de toda diferença semântica ao nível gramatical/distribucional,
ou ao nível proposicional (verifuncional), ou ao nível acional
(força ilocucionária), ou mesmo ao nível acciol6gico (os siste-
mas de valor mantido pelos "textos"). O ato de proximização
pode recair sobre a colagem dos diferentes sentidos em três ní-
veis: "esquece" a diferença ao nível do sentido gramatical, veri-
funcional e ilocucionário, por exemplo, para se "concentrar"
sobre a identificação dos valores (modais, entre outros) dos dois
sentidos. Gostaria de acrescentar somente uma observação final
a esta evocação rápida da perspectiva enunciativa em teoria da
paráfrase: é que a proximização (pela colagem), e então da pró-
pria paráfrase, deve ser negociada, sancionada, aceita no inte-
rior da comunidade "parafraseante": isto implica, antes de tudo,
que todo ato de parafraseamento pode provocar um outro ato de
para:fraseamento, e que nenhum parafraseador se comporta em
juiz final do sentido: (o parafraseamento é infinito, e parafrasear
é um direito sobre o qual é construída a própria possibilidade da
comunicação e do ser-com-os-outros.)

Tradução: Paulo Otoni

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