Anda di halaman 1dari 609

MORAES

PARASITOLOGIA &
MICOLOGIA HUMANA
MORAES

PARASITOLOGIA &
MICOLOGIA HUMANA

III
MORAES

PARASITOLOGIA &
MICOLOGIA HUMANA
RUY GOMES DE MORAES
• Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro
• Professor Emérito da Escola de Medicina e Cirurgia
• Professor da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ
• Professor da Faculdade de Medicina da UFRJ
• Professor da Faculdade de Farmácia da UFRJ
• Professor da Escola Superior de Veterinária de Viçosa
• Diplomado pelo Instituto Oswaldo Cruz – FIOCRUZ
• Professor de Parasitologia da Escola Nacional de Saúde Pública

IGNÁCIO DA COSTA LEITE ENIO GARCIA GOULART


• Ex-Professor-Adjunto de Parasitologia da Uni- • Doutor em Parasitologia pela Universidade do
versidade Federal do Rio de Janeiro Brasil
• Ex-Professor Titular de Parasitologia das Univer- • Professor-Adjunto de Parasitologia da UFRJ
sidades Federais de Santa Catarina e Goiás • Coordenador de Ensino na UFRJ
• Ex-Professor de Parasitologia da Escola Nacional • Pesquisador do CNPq
de Saúde Pública • Ex-Professor de Parasitologia da Escola Nacional
de Saúde Pública

REVISTA E ATUALIZADA

REGINALDO PEÇANHA BRAZIL

• Doutor em Parasitologia pela Liverpool School of Tropical Medicine, Liverpool, Inglaterra


• Pesquisador Titular do Instituto Oswaldo Cruz – FIOCRUZ
• Ex-Professor-Adjunto de Parasitologia da Univerisdade Federal do Rio de Janeiro
5ª Edição

Rio de Janeiro – RJ – Brasil

V
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
M823m
Moraes, Ruy Gomes de, 1909-1973
Moraes, Parasitologia & Micologia Humana / Ruy Gomes de Moraes, Ignácio da Costa Leite,
Enio Garcia Goulart. – 5. ed. / revista e atualizada [por] Reginaldo Peçanha Brazil. –
Rio de Janeiro : Cultura Médica : Guanabara Koogan, 2008.
608p. : il.

Contém glossário
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7006-414-1

1. Parasitologia Médica. 2. Micologia Médica. I. Leite, Ignácio da Costa.


II. Goulart, Enio Garcia. III. Brazil, Reginaldo Peçanha. IV. Título.
V. Título: Parasitologia & Micologia Humana.

08-1692 CDD – 616.96


CDU – 616.995.1

© Copyright 2008, by Cultura Médica®

Esta obra está protegida pela Lei nº 9.610 dos Direitos Autorais, de 19 de fevereiro de 1998, sancionada e publicada no
Diário Oficial da União em 20 de fevereiro de 1998.
Em vigor a Lei 10.693, de 1º de julho de 2003, que altera os Artigos 184 e 186 do Código Penal e acrescenta Parágrafos ao
Artigo 525 do Código Penal.
Caso ocorram reproduções de textos, figuras, tabelas, quadros, esquemas e fontes de pesquisa, são de inteira responsabili-
dade do(s) autor(es).

Qualquer informação, contatar a Cultura Médica®

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

Cultura Médica®
Rua São Francisco Xavier, 111
20550-010 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Tel.: (55 21) 2567-3888 – Fax: (55 21) 3259-5443
Site: www.culturamedica.com.br
e-mail: cultura@culturamedica.com.br

VI
Colaboradores

OMAR DOS SANTOS CARVALHO ESTER MARIA MOTA


Capítulos 28 e 46 Capítulo 46
• Pesquisador Titular do Instituto de Pesquisas • Pesquisadora do Instituto de Pesquisas René
René Rachou – FIOCRUZ Rachou – FIOCRUZ
ROBERTA LIMA CALDEIRA HENRIQUE LEONEL LENZI
Capítulo 28 Capítulo 46
• Pesquisadora Assistente do Instituto de Pesqui- • Pesquisador Titular do Instituto Oswaldo Cruz
sas René Rachou – FIOCRUZ – FIOCRUZ
CRISTIANE LAFETA FURTADO DE MENDONÇA MARIA ELIZABETH M. CAVALHEIRO
Capítulo 46 Revisão Técnica do Livro
• Pesquisadora do Instituto de Pesquisas René • Professora Associada da Universidade Federal
Rachou – FIOCRUZ do Mato Grosso do Sul, UFMS

VII
Apresentação da 5ª Edição

Mais uma vez a Editora Cultura Médica, agora gas parasitologistas brasileiros e os estudantes
em conjunto com a Editora Guanabara Koogan, dos cursos de graduação em Biologia, Enferma-
traz a público esta nova edição de nosso livro gem, Farmácia, Medicina, Nutrição e Odontolo-
“Parasitologia & Micologia Humana”. gia.
Chega-se, assim, à 5ª edição do texto elabora- Esta nova edição chega como complementa-
do pela primeira vez em 1971, pelos saudosos ção das várias obras de Parasitologia existentes
Prof. Ruy Gomes de Moraes, Prof. Ignácio da em língua portuguesa, e com a esperança de que
Costa Leite e Prof. Enio Garcia Goulart. este livro seja útil aos leitores, estudantes, profes-
Na há dúvida que esta obra continuará susci- sores e pesquisadores que se dedicam aos estu-
tando o interesse acadêmico entre nossos cole- dos das doenças parasitárias.

Reginaldo Peçanha Brazil

IX
Prefácio da 5ª Edição

É com grande satisfação que apresento a 5ª Helmintologia, Entomologia, Animais Peçonhen-


edição desta obra, continuando a missão delega- tos, Micologia e Técnicas Parasitológicas. Um
da por meu mestre e orientador Enio Garcia glossário de termos científicos é apresentado
Goulart. como addendum para facilitar sua consulta.
Respeitando o princípio da objetividade, pro-
curei revisar e atualizar a edição anterior com a Tratando-se de tarefa excessiva para um só
preocupação inicial de introduzir somente as autor, é natural que tenha procurado a colabora-
mudanças mais recentes, sem descaracterizar o ção de colegas especialistas para a atualização
aspecto didático do livro. desta edição. A todos que contribuíram direta ou
Esta edição consta de 83 capítulos distribuí- indiretamente ficam consignados os meus agra-
dos em 7 seções: Generalidades, Protozoologia, decimentos.

Reginaldo Peçanha Brazil

XI
Prefácio da 1ª Edição

Este livro foi feito com a pretensão de alcan- patrimônio comum da Parasitologia Médica. Essa
çar os seguintes objetivos: é a razão pela qual as citações de publicações
a) propiciar aos estudantes de Medicina, Far- neste livro foram reduzidas, não devendo ser
mácia e Saúde Pública conhecimentos prope- considerado uma obra de referência para pes-
dêuticos de morfologia e biologia dos parasitos, quisa bibliográfica.
indispensáveis ao estudo da patologia, diagnósti- O livro possui 83 capítulos divididos em sete
co, terapêutica, epidemiologia e profilaxia das seções. A Seção 1 – Generalidades – trata das de-
doenças parasitárias do homem; finições da terminologia e dos aspectos doutriná-
b) servir de consulta aos analistas e patologis- rios da parasitologia; as Seções 2 e 3 tratam, res-
tas clínicos na avaliação dos dados de laboratório pectivamente, dos protozoários e helmintos e
relativos ao diagnóstico das doenças parasitárias; das doenças por eles determinadas; a Seção 4
c) dar, de modo conciso, os fundamentos que estuda os artrópodes parasitos e transmissores de
em medicina preventiva sirvam de base para a doenças; a Seção 5 estuda os animais peçonhen-
compreensão dos mecanismos de transmissão e tos, se constitui em um addendum que estuda os
propagação das doenças parasitárias. animais iógenos ou venenosos, por tradição in-
A Parasitologia Médica tem sua posição defi- cluídos nos manuais de parasitologia e doenças
nida nos cursos de Medicina, Farmácia e Saúde tropicais; a Seção 6 – Micologia – por convenção
Pública. Seu estudo deve anteceder e vincular-se tratada na parasitologia stricto sensu, estuda os
ao da clínica das doenças parasitárias, da pato- fungos, agentes das micoses humanas; a última
logia clínica, da anatomia patológica e da epide- seção aborda as técnicas parasitológicas.
miologia e profilaxia das doenças produzidas Os autores esperam que este livro possa ser
e/ou transmitidas pelos parasitos. útil aos seus leitores, estudantes nos cursos uni-
Sendo uma obra didática para uso nos cursos versitários e graduados nos trabalhos de labora-
de formação ou graduação, os autores preferi- tório, e se sentirão felizes se ele puder despertar
ram expor a matéria abordando exclusivamente crescente interesse para o ensino e a investiga-
os dados científicos definidos e escolhidos em ção da ciência que tem por objetivo o estudo dos
consenso pela maioria dos parasitologistas. Sen- parasitos e das doenças parasitárias que assolam
do trabalho de muitos, constitui, no entanto, o endêmica ou esporadicamente nosso país.

OS AUTORES

XIII
XIV
Sumário

SEÇÃO 1 – GENERALIDADES Capítulo 11 – Classificação Geral dos


Protozoários – Posição Sistemática
Capítulo 1 – Definição – Divisões – das Espécies de Interesse 55
Objetivos – Importância 3
Capítulo 12 – Classe Rhizopoda
Capítulo 2 – Modalidades de
Von Siebold, 1845.
Parasitismo 9
Amebídeos de Interesse 57
Capítulo 3 – Parasitismo e Doença
Capítulo 13 – Amebíase 69
Parasitária 15
Capítulo 4 – Ações dos Parasitos no Capítulo 14 – Classe Mastigophora
Hospedeiro 21 Diesing, 1865 –
Flagelados de Importância 83
Capítulo 5 – Alterações Mórbidas
nas Doenças Parasitárias 25 Capítulo 15 – Tripanossomídeos –
Gêneros e Formas Evolutivas –
Capítulo 6 – Transmissão das Gênero Leishmania –
Doenças Parasitárias 31 Leishmanioses 95
Capítulo 7 – Propagação das Doenças Capítulo 16 – Leishmania infantum chagasi
Parasitárias – Zoonoses, (Cunha e Chagas, 1937) –
Antroponoses e Leishmaniose Visceral Americana
Antropozoonoses 39 ou Calazar 103
SEÇÃO 2 – PROTOZOOLOGIA Capítulo 17 – Leishmania spp. –
Leishmaniose Tegumentar 111
Capítulo 8 – Ramo Protozoa Goldfuss,
1817 45 Capítulo 18 – Gênero Trypanosoma –
Espécies Parasitas do Homem –
Capítulo 9 – Estudo Geral da Tripanossomoses Africanas 119
Morfologia dos Protozoários
de Interesse Biomédico 47 Capítulo 19 – Trypanosoma cruzi e
Doença de Chagas 123
Capítulo 10 – Estudo Geral da
Biologia dos Protozoários Capítulo 20 – Trypanosoma rangeli
de Interesse Biomédico 51 e sua Ação Patogênica 137

XV
Capítulo 21 – Classe Sporozoa Capítulo 37 – Superfamília
Leuckart, 1879 – Sistemática – Ascaroidea. A. lumbricoides e
Eimeriídeos de Interesse 139 Ascaridíase. Toxocara e Larva
Capítulo 22 – Sarcocistídeos – Gênero Migrans Visceral 271
Sarcocystis – Toxoplasma gondii Capítulo 38 – Superfamília
e Toxoplasmose 143 Oxyuroidea. Enterobius
Capítulo 23 – Plasmodiídeos – vermicularis e Enterobiose 281
Plasmódios Parasitos do Capítulo 39 – Superfamília
Homem 155 Rhabdiasoidea. Strongyloides
Capítulo 24 – Malária Humana 165 stercoralis e Estrongiloidose 287
Capítulo 25 – Ciliophora. B. coli e Capítulo 40 – Superfamília
Balantidiose 179 Strongyloidea.
Ancilostomídeos e Ancilostomose.
SEÇÃO 3 – HELMINTOLOGIA Larva Migrans Tegumentar 295
Capítulo 26 – Introdução à Capítulo 41 – Superfamília Filarioidea.
Helmintologia. Morfologia, Filarídeos. Filariose de Bancroft.
Biologia e Classificação dos Mansonelose. Oncocercose 311
Trematódeos 185 Capítulo 42 – Superfamília
Capítulo 27 – Família Schistosomidae. Dracunculoidea 325
Gênero Schistosoma. Capítulo 43 – Superfamília Trichuroidea.
Morfologia e Ciclo Evolutivo Trichuris trichiura e Tricurose 327
do Schistosoma mansoni 191 Capítulo 44 – Superfamília
Capítulo 28 – Hospedeiros Trichinelloidea. Trichinella
Intermediários de Schistosoma spiralis e Triquinelose 333
mansoni no Brasil 199 Capítulo 45 – Nematódeos de
Capítulo 29 – Esquistossomose Importância Secundária 337
Mansônica 207 Capítulo 46 – Superfamília
Capítulo 30 – Trematódeos de Interesse Metastrongyloidea.
Secundário no Brasil 215 Angiostrongylus costaricensis e
Capítulo 31 – Classe Cestoda Angiostrongilíase Abdominal 341
Rudolphi, 1808. Morfologia, Capítulo 47 – Superfamília Ascaroidea.
Biologia e Classificação dos Lagochilascaris minor e
Cestódeos 217 Lagochilascaríase 347
Capítulo 32 – Tenídeos. Teníase e SEÇÃO 4 – ENTOMOLOGIA
Cisticercose Humana 225
Capítulo 48 – Ramo Arthropoda.
Capítulo 33 – Gênero Echinococcus. Morfologia. Importância
E. granulosus e Biomédica dos Artrópodes.
E. multilocularis. Hidatidose Classificação 351
Humana. Tenídeos Raros 239
Capítulo 49 – Classe Arachnida.
Capítulo 34 – Outras Famílias de Sistemática. Ordem Acarina.
Ciclofilídeos de Interesse 249 Famílias e Espécies de
Capítulo 35 – Ordem Importância 355
Pseudophyllidea Carus, 1863 259 Capítulo 50 – Subordem Ixodides.
Capítulo 36 – Ramo Nemathelminthes. Morfologia. Biologia.
Classe Nematoda. Nematódeos Classificação. Argasídeos e
de Interesse Biomédico 263 Ixodídeos 365

XVI
Capítulo 51 – Classe Hexapoda. Morfologia. Capítulo 62 – Micoses
Biologia. Classificação. Ordens Observadas no Brasil 451
Anoplura e Mallophaga 373 Capítulo 63 – Dermatofitoses 455
Capítulo 52 – Ordem Hemiptera.
Capítulo 64 – Dermatomicoses
Triatomíneos. Morfologia e
Discrômicas 469
Biologia. Espécies de Interesse 379
Capítulo 65 – Tricomicoses
Capítulo 53 – Ordem Siphonaptera.
Nodulares 473
Morfologia. Biologia. Famílias.
Espécies de Importância 385 Capítulo 66 – Candidoses Superficiais
Capítulo 54 – Ordem Diptera. Sistemática. e Profundas 477
Famílias Ceratopogonidae, Capítulo 67 – Actinomicetoma 483
Psychodidae e Simuliidae 393 Capítulo 68 – Eumicetoma 489
Capítulo 55 – Família Culicidae. Capítulo 69 – Esporotricose 493
Morfologia. Biologia. Sistemática.
Anofelinos e Culicíneos 401 Capítulo 70 – Cromoblastomicose 497
Capítulo 56 – Braquíceros. Orthorrhapha. Capítulo 71 – Paracoccidioidomicose 501
Cyclorrhapha. Principais Capítulo 72 – Micose de Jorge Lôbo 507
Famílias e Espécies. Miíases 409
Capítulo 73 – Criptococose 509
SEÇÃO 5 – ANIMAIS PEÇONHENTOS Capítulo 74 – Histoplasmose 513
Capítulo 57 – Conceituação. Capítulo 75 – Rinosporidiose 517
Empeçonhamentos. Principais
Capítulo 76 – Pneumocistose 519
Agentes no Brasil. Fatores
Condicionantes e Capítulo 77 – Micoses Oportunistas 521
Desencadeantes 419
SEÇÃO 7 – TÉCNICAS PARASITOLÓGICAS
Capítulo 58 – Araneídeos. Sistemática.
Famílias e Espécies de Capítulo 78 – Exame Parasitológico
Importância. Araneísmos 425 das Fezes 527
Capítulo 59 – Escorpionídeos. Capítulo 79 – Exame Parasitológico
Sistemática. Famílias e Espécies do Sangue 539
de Interesse. Escorpionismo 431 Capítulo 80 – Técnicas Protozoológicas 543
Capítulo 60 – Ofídios. Morfologia. Capítulo 81 – Técnicas Helmintológicas 551
Biologia. Famílias de
Importância. Ofidismo 435 Capítulo 82 – Técnicas Entomológicas 559
Capítulo 83 – Técnicas Micológicas 563
SEÇÃO 6 – MICOLOGIA
Glossário 567
Capítulo 61 – Fungos de
Importância Biomédica. Referências Básicas 577
Morfologia e Classificação 443 Índice Alfabético 581

XVII
SEÇÃO 1

GENERALIDADES

1
1
Definição – Divisões –
Objetivos – Importância

Definição – Divisões – Objetivos – Importância

Parasitologia Biomédica é a ciência que tem não utilizadas pelo organismo. Esses microrganis-
por fim o estudo da morfologia e da biologia dos mos são abundantes na pele, nas cavidades natu-
parasitos como fundamento para o conhecimen- rais, nas vias respiratórias superiores e no intesti-
to da patologia, do diagnóstico, da terapêutica, no.
da epidemiologia e da profilaxia das doenças pa- O mutualismo do homem com bactérias que
rasitárias. compõem a microbiota é um fenômeno conhe-
Compreende-se por parasito o ser que de mo- cido graças a observações clínicas e ao que se in-
do permanente, periódico ou ocasional vive em fere de experiências de refecção em animais de
outro organismo, se nutrindo e determinando, laboratório.
de modo variável, algum dano. Em indivíduos submetidos a intensiva e pro-
Esse modo de vida associativa é denominado longada medicação por via oral com quimiote-
parasitismo, sendo um fenômeno geral na natu- rápicos e antibióticos, a microbiota do intestino é
reza. em grande parte destruída, provocando a ruptura
No parasitismo, dois seres vivos – o parasito e do equilíbrio biológico entre seus componentes.
o hospedeiro – relacionam-se ecologicamente, Assim, os agentes resistentes aos medicamentos
estabelecendo uma comunidade biótica de duas usados passam a proliferar intensamente e, de
espécies. simples comensais, assumem a condição de pa-
Além do parasitismo, há dois outros modos de tógenos. Estão, neste caso, certas amostras do
vida associativa: o comensalismo e o mutualis- “enterococo” e de leveduras do gênero Candida,
mo, ambos bem conhecidos em Biologia. No co- acabam provocando retite e proctite.
mensalismo há um hóspede comensal e um hos- Admite-se, com base em experiências e em
pedeiro em associação obrigatória, ou facultati- dados clínicos, que certas bactérias hóspedes do
va, na qual o primeiro, abrigando-se e nutrin- intestino humano participem do equilíbrio eco-
do-se no segundo, não lhe causa malefícios nem lógico no meio intestinal por elaborarem as vita-
benefícios. No mutualismo, dois seres associam- minas do grupo B, a biotina, o ácido fólico, o ino-
se, com ou sem obrigatoriedade, porém, as inte- sitol e a vitamina K, princípios ativos que são ab-
rações biológicas são reciprocamente favoráveis. sorvidos e incorporados nas funções orgânicas.
Sob a condição de comensais, vivem no ho- É correto, portanto, considerar essas bactérias
mem bactérias, fungos e alguns protozoários intestinais mutualistas do homem, que delas re-
inócuos que se nutrem de células desvitalizadas, cebe em troca do habitat que ele lhes proporcio-
excreções e secreções bem como de substâncias nam tais substâncias.

3
4 r Parasitologia e Micologia Humana

Em determinadas circunstâncias, não é fácil tologia – estudo dos helmintos ou vermes; Ento-
estabelecer os limites entre esses três tipos de mologia – estudo dos artrópodes.
vida associativa que estamos tratando: o parasi- Na maioria dos cursos da área biomédica no
tismo, o comensalismo e o mutualismo. Brasil o ensino da Parasitologia aplicada, no sen-
Alguns parasitos, em condições particulares, tido amplo, é realizado em dois setores:
assumem o papel de comensais, como a Enta- a) Microbiologia e Imunologia – compreende o
moeba histolytica, agente da amebíase, que às estudo dos vírus e bactérias e os fenômenos
vezes não invade a parede intestinal e se equipa- de imunidade.
ra a outros protozoários e bactérias inofensivos b) Parasitologia – abrange o estudo dos fungos,
que vivem exclusivamente ao lúmen do intestino protozoários, helmintos e artrópodes e, como
grosso. Ao contrário, outros como a Candida al- addendum, o estudo dos animais iógenos.
bicans, habitualmente um saprófito vivendo no
organismo, deixa essa condição e invade os teci- OBJETIVOS
dos, provocando lesões.
A noção de parasito conduz a de patógeno. A Parasitologia Biomédica, aliada à Microbio-
Porém, para um parasito ser considerado um logia Biomédica, tem por objeto o estudo dos
agente patogênico é necessário que se associem agentes das infecções do homem.
a ele e ao hospedeiro certos fatores, sem os quais Denominamos infecção a implantação no or-
a doença parasitária não se manifesta. ganismo de um parasito que pode ser vírus, bac-
No parasitismo, o biologista vê a relação para- téria, fungo, protozoário ou helminto.
sito-hospedeiro como um fenômeno natural de O resumo, a seguir, dá a idéia do conjunto das
ajuste biológico. Há aí uma sucessão de causas e doenças parasitárias do homem:
efeitos que não tem um plano preordenado para 1) Por vírus – viroses.
prejudicar ou não o hospedeiro. Os danos causa- 2) Por bactérias – bacterioses.
dos a este refletem as dificuldades biológicas de 3) Por fungos – micoses.
co-adaptação dos dois seres associados. 4) Por protozoários – protozooses.
Para o patologista, o parasitismo é uma mani- 5) Por helmintos – helmintoses.
festação de antagonismo de ações do parasito 6) Por artrópodes – zooses parasitárias.
agressor e de reações do organismo agredido; de A rigor, o termo zoose, em sentido geral, signi-
luta entre dois seres vivos, tendo por expressão fica doença produzida por animal, seja ele para-
as alterações mórbidas no hospedeiro. sito ou iógeno.
As diferenças dos conceitos doutrinários na Neste livro, conservamos os termos protozoo-
apreciação desse modo de vida associativa, tor- ses e helmitoses, já consagrados, e reservamos a
nam necessário o estabelecimento da significa- denominação zoose para as demais doenças cau-
ção prática dos conceitos de parasito e patóge- sadas por animais.
no, ou melhor, de parasitismo e doença para-
Temos, assim, as zooses parasitárias e as zoo-
sitária, assunto que abordaremos mais à frente
ses produzidas por animais iógenos.
neste livro.
Como se depreende, a distribuição desses as-
DIVISÕES suntos é convencional, o que, aliás, não prejudi-
ca sua explanação.
Os parasitos do homem podem ser encontra- A Parasitologia Biomédica, tal como a consi-
dos entre os vírus, bactérias, fungos, protozoá- deramos, é ciência básica, propedêutica para o
rios, helmintos e artrópodes. estudo das doenças parasitárias e seus diversos
Esses diferentes grupos de parasitos são estu- aspectos.
dados nos seguintes ramos em que se divide a O conhecimento da morfologia e das inte-
Parasitologia Biomédica: Virologia – estudo dos rações do parasito e do hospedeiro serve de fun-
vírus; Bacteriologia – estudo das bactérias; Mico- damento para a compreensão das alterações mór-
logia – estudo dos fungos ou cogumelos; Pro- bidas de natureza humoral e celular no organismo
tozoologia – estudo dos protozoários; Helmin- parasitado.
Definição – Divisões – Objetivos – Importância r 5

O estudo da biologia dos parasitos é funda- da ao diagnóstico laboratorial das doenças para-
mental para se traçar os modos de transmissão e sitárias.
disseminação das doenças parasitárias e estabe-
lecer as medidas necessárias à sua profilaxia. Na prática, o diagnóstico etiológico consiste
A partir do conhecimento da morfologia e da na identificação do parasito em material cole-
biologia, podem ser empreendidas pesquisas bio- tado dos doentes. Em muitos casos, porém, é es-
químicas sobre as exigências nutritivas, o meta- tabelecido indiretamente por provas imunológi-
bolismo e os processos de evolução e repro- cas, culturas em meios apropriados ou em teci-
dução dos parasitos, as quais têm, por fim, a des- dos e inoculações em animais de laboratório.
coberta de substâncias capazes de atuar sobre
eles de modos variáveis, ora por ação letal dire-
ta, ora impedindo a multiplicação celular, ora IMPORTÂNCIA
paralizando os processos de evolução e matu-
ração. Essas investigações realizadas in vitro e em
animais experimentalmente inoculados com pa- A importância da Parasitologia Biomédica no
rasitos a que são suscetíveis têm permitido a des- Brasil e em todos os países de condições climáti-
coberta de quimioterápicos, antibióticos e mes- cas iguais, tanto do ponto de vista clínico quanto
mo de inibidores hormonais. É de se esperar que do sanitário, decorre do grande número de para-
o prosseguimento das pesquisas neste campo sitoses neles existentes, das quais algumas são es-
possa contribuir para a descoberta de novas subs- porádicas, outras endêmicas em certas áreas e
tâncias, não só para o tratamento das afecções outras epidêmicas. A lista sinótica das parasitoses
parasitárias, mas também para serem usadas observadas no Brasil, muitas delas endêmicas,
como rodenticidas, moluscicidas e inseticidas no realça a necessidade do conhecimento da Parasi-
combate a reservatórios, hospedeiros interme- tologia Biomédica, na qual se aprendem os fun-
diários e vetores animados de agentes morbíge- damentos doutrinários e práticos relativos ao co-
nos. nhecimento da etiopatogenia, da clínica, do diag-
Além dos objetivos da Parastologia Biomédica nóstico, da terapêutica, da epidemiologia e da
que acabamos de citar, ela é de imediato aplica- profilaxia das doenças parasitárias.

PARASITOSES HUMANAS OBSERVADAS NO BRASIL – SEUS AGENTES

I – Protozooses
Amebíase – Entamoeba histolytica
Giardíase – Giardia intestinalis
Tricomoníase intestinal – Pentatrichomonas hominis
Tricomoníase urogenital – Trichomonas vaginalis
Leishmaniose tegumentar americana – Leishmania braziliensis, L. guyanensis e
L. amazonensis
Leishmaniose visceral – Leishmania infantum chagasi
Doença de Chagas – Trypanosoma cruzi
Malária - terçã benigna – Plasmodium vivax
Malária - terçã maligna – Plasmodium falciparum
Malária - quartã – Plasmodium malariae
Isosporose – Isospora belli
Toxoplasmose – Toxoplasma gondii
Sarcocistidose – Sarcocystis lindemanni, S. hominis e
S. suihominis
6 r Parasitologia e Micologia Humana

Balantidiose – Balantidium coli


Encefalite amebiana – Naegleria fowleri, Hartmannella sp. e
Acanthamoeba sp.
Criptosporidiose – Cryptosporidium sp.

II – Helmintoses
Esquistossomose mansônica – Schistosoma mansoni
Teníase – Taenia solium e T. saginata
Cisticercose – Cysticercus cellulosae
Himenolepisiose – Hymenolepis nana e H. diminuta
Dipilidiose – Dipylidium caninum
Hidatidose – “Hidátide”
Ascaridíase – Ascaris lumbricoides
Enterobiose – Enterobius vermicularis e E. gregorii
Estrongiloidose – Strongyloides stercoralis
Ancilostomose – Necator americanus e Ancylostoma
duodenale
Filariose de Bancroft – Wuchereria bancrofti
Mansonelose e oncocercose – Mansonella ozzardi e Onchocerca volvulus
Tricurose – Trichuris trichiura
Larva migrans tegumentar – Larvas de Ancylostoma caninum e
A. braziliense
Larva migrans visceral – Larvas de Toxocara canis e T. cati

III– Zooses parasitárias


Escabiose – Sarcoptes scabiei
Ixodismo – Acarinos superiores ou Ixodides
Acarismo – Acarinos inferiores
Toxicoses – Insetos hematófagos
Pediculose da cabeça – Pediculus humanus
Pediculose do corpo – Pediculus humanus
Fitirose – Phithirus pubis
Tungíase – Tunga penetrans
Miíases – Larvas de dípteros ciclorrafos

IV – Micoses
Pityriasis versicolor – Malassezia furfur
Tinea nigra – Exophiala Werneckii (= Cladosporium)
Eritrasma – Nocardia minutissima
Candidose – Candida albicans e outras
Dermatofitoses – Microsporum, Trichophyton e
Epidermophyton
Piedra negra – Piedraia hortai
Piedra tricospórica – Trichosporon Beigelii
Triconocardiose – Nocardia tenuis
Esporotricose – Sporothrix schenckii
Cromoblastomicose – Phialophora Pedrosoi
Paracoccidioidomicose – Paracoccidioides brasiliensis
Definição – Divisões – Objetivos – Importância r 7

Micose de Jorge Lôbo – Loboa loboi


Histoplasmose – Histoplasma capsulatum
Criptococose – Cryptococcus neoformans
Rinosporidiose – Rhinosporidium seeberi
Eumicetoma – Aspergillus, Monosporium, Cephalosporium,
Madurella, Indiella e Acremoniella
Actinomicetoma – Actinomyces israelii, Nocardia sp. e
Streptomyces sp.
Aspergilose, Peniciliose e Mucormicose – Aspergillus, Penicillium e mucoráceas
Pneumocitidose – Pneumocystis carinii
2
Modalidades de
Parasitismo

Mo ali a es e Parasitismo

O parasitismo é observado na natureza de • Quanto ao número de hospedeiros necessá-


modo freqüente e variado nos seus graus e mo- rios ao ciclo evolutivo: a) monoxenos; b) he-
dalidades. teroxenos; c) autoxenos.
Fato que de início chama a atenção no parasi- • Quanto às anomalias de localização: a) ató-
tismo é a natureza do parasito e do hospedeiro. picos ou erráticos; b) transviados ou desvia-
Há parasitos vegetais de outros vegetais e de ani- dos.
mais, e parasitos animais de outros animais e de • Quanto à localização habitual: a) cavitários;
vegetais. b) teciduais.
Aos parasitos vegetais denominamos fitopara-
sitos e aos animais, zooparasitos. PARASITOS OBRIGATÓRIOS
No homem, os fitoparasitos são representados
São seres que em condições naturais não po-
pelas bactérias e fungos e os zooparasitos pelos
dem prescindir da vida parasitária, pelo menos
protozoários, helmintos e artrópodes. Quanto
em uma parte de sua existência. O grau máximo
aos vírus, por não terem natureza vegetal nem
de obrigatoriedade ao parasitismo é representa-
animal, não são considerados fitoparasitos, nem
do pelos vírus que são parasitos intracelulares es-
zooparasitos, constituindo-se um grupo à parte.
tritos, não possuindo sistemas enzimáticos pró-
Os parasitos podem ser classificados, de acor- prios.
do com seu comportamento biológico, nas se-
Segundo nossa conceituação de parasitismo
guintes modalidades:
obrigatório, todos os agentes de protozooses e
• Quanto à sua maior ou menor exigência à helmintoses são parasitos obrigatórios por não
vida parasitária: a) obrigatórios; b) facultati- sobreviverem, em condições naturais, fora do or-
vos; c) acidentais. ganismo. Vários desses protozoários podem ser
• Quanto à sua maior ou menor permanência mantidos artificialmente em meios de cultura,
no hospedeiro: a) permanentes; b) periódi- porém, não perdem seu caráter de parasito estri-
cos; c) temporários. to. Do mesmo modo que os protozoários e hel-
• Quanto à especificidade parasito-hospedei- mintos agentes de doenças, numerosas espécies
ro: a) estenoxenos; b) eurixenos; c) oligoxe- de fungos e artrópodes são também parasitos
nos. obrigatórios. Alguns fungos são encontrados ex-
• Quanto à especificidade alimentar: a) este- clusivamente em vida parasitária, não se desen-
notróficos; b) euritróficos. volvendo em meios artificiais, como o Rhinospo-
1 r Parasitologia e Micologia Humana

ridium seeberi, agente da rinosporidiose. Outros Essas larvas se alimentam vorazmente do ex-
são isolados do homem em cultura artificial, po- sudato e das substâncias resultantes da necrose
rém jamais do meio externo, como o Trichophy- tecidual e, conquanto não invadam os tecidos vi-
ton violaceum e o T. tonsurans, agentes da tinha vos, exercem intensa ação irritativa. Em certos
tonsurante tricofítica. casos não seria correto considerar tais larvas co-
Entre os artrópodes de parasitismo obrigatório mo parasitos, uma vez que elas não se nutrem da
estão os acarinos e insetos hematófagos, o Sar- matéria viva do hospedeiro. Sua ação como pa-
coptes scabiei, agente da escabiose, as larvas de tógeno, entretanto, é inegável.
algumas espécies de moscas agentes de miíases,
como as da Dermatobia hominis, causadoras do PARASITOS ACIDENTAIS
berne.
Os parasitos acidentais são, como os facultati-
A importância do conhecimento de que um
vos, representados por saprófitos ou saprozoários
determinado ser é um parasito obrigatório de-
que, em condições fortuitas ou acidentais, im-
corre da certeza de que seu respectivo hospedei-
plantam-se transitoriamente em diferentes hos-
ro, ou hospedeiros, constitui o seu reservatório,
pedeiros, mais freqüentemente animais.
a fonte de infecção e propagação da doença que
determina, o que é fundamental em Saúde Pú- Distinguem-se dos parasitos facultativos pela
blica. existência precária no hospedeiro, no qual não
evoluem e restringem o parasitismo ao lúmen do
PARASITOS FACULTATIVOS tubo digestivo ou à superfície da pele, aos fâne-
ros e mucosas. É pouco freqüente a ocorrência
Entre estes se incluem animais ou vegetais ha- de parasitos acidentais no homem, porém é ne-
bitualmente livres, saprozóicos ou saprófitos, cessário fazer-se referência a eles quando encon-
respectivamente, que, implantando-se em ou- trados em casos clínicos para uma adequada in-
tros seres, evoluem, podendo ou não se reprodu- terpretação e diferenciá-los dos pseudoparasitos
zir, desempenhando seu papel de parasito e, em que, por vezes, são levados aos laboratórios de
muitos casos, de patógeno. parasitologia para identificação.
Algumas espécies de fungos ou cogumelos sa- Consideramos parasitos acidentais as larvas
prófilos disseminados em diversos substratos, saprozóicas de dípteros que, sendo acidental-
contendo matéria orgânica em decomposição, mente ingeridas com alimentos, após permane-
são parasitos facultativos que, em condições es- cerem algum tempo no trato digestório, são es-
peciais, são introduzidos no organismo onde se pontaneamente eliminadas vivas nas fezes, não
multiplicam e com freqüência se tornam patogê- sem produzir, em alguns casos, perturbações gas-
nicos. trintestinais.
Estão nesse grupo Sporothrix schenckii, causador Pode-se observar também na bílis coletada
da esporotricose, Histoplasma capsulatum, da histo- por tubagem duodenal, ou nas fezes, pequenos
plasmose, e Cryptococcus neoformans, da criptoco- acarinos, acidentalmente ingeridos com alimen-
cose, todos pertencentes ao importante grupo de tos, os quais, quando presentes em grande nú-
fungos produtores de micoses profundas do ho- mero, podem ser a causa de alguma ação irritati-
mem. va na mucosa duodenal. A observação microscó-
São também parasitos facultativos do homem pica de fungos saprófitos em lesões cutâneas ou
e outros animais as larvas saprozóicas de algumas mucosas pode conduzir a erros diagnósticos por
espécies de moscas que geralmente se nutrem lhes atribuírem o principal papel na etiologia de
de cadáveres de animais em putrefação. Essa certas afecções, quando na realidade, ali, só po-
ocorrência resulta da atração das moscas adultas dem ser considerados simples agentes de associa-
pelas lesões preexistentes na pele ou nas muco- ção ou de invasão secundária.
sas das cavidades naturais em que haja exsudato A diferença entre pseudoparasitos e parasitos
abundante ou substâncias de origem necrótica, acidentais nem sempre é fácil, principalmente
nas quais fazem a postura das larvas ou dos ovos, quando aqueles são seres vivos semelhantes aos
de onde, logo após, libertam-se. parasitos autênticos. No parasitismo acidental há
Mo ali a es e Parasitismo r 11

uma relação de proximidade entre o parasito e o PARASITOS TEMPORÁRIOS


hospedeiro, ainda que pouco íntima, porém ca-
paz de produzir algum efeito nocivo ao organis- Em sua maioria são representados pelos artró-
mo. podes hematófagos que, de tempo em tempo,
entram em contato com o hospedeiro para lhe
Quanto aos pseudoparasitos, não há qualquer
sugar o sangue.
relacionamento biológico com o organismo e,
embora sejam seres animados, não exercem Podem ser parasitos temporários intermiten-
qualquer ação sobre eles. Os pseudoparasitos tes quando, após o repasto sanguíneo, afastam-
mais freqüentemente observados são ovos e lar- se do hospedeiro como fazem os mosquitos, os
vas de nematódeos, parasitos de vegetais, larvas triatomíneos e as moscas hematófagas; ou são re-
e ovos de insetos, particularmente dos dípteros, mitentes quando, após a picada, permanecem
cistos de protozoários, parasitos de outros ani- no hospedeiro, como os piolhos da cabeça, as
mais e a carapaça de diatomáceas que, ingeri- pulgas do cão e do gato e os carrapatos que se fi-
das, são eliminadas nas fezes. xam na pele.

PARASITOS ESTENOXENOS
PARASITOS PERMANENTES
São parasitos nos quais a exigência de uma
Têm como exigência fundamental o contato determinada espécie de hospedeiro é elevada ao
contínuo com o hospedeiro, fora do qual não se grau máximo. Neste caso estão Plasmodium vi-
reproduzem, não evoluem e apenas sobrevivem vax, agente da malária na sua forma terçã benig-
algum tempo, caso sejam mantidos em líquidos na, Enterobius vermicularis, Wuchereria bancrof-
isotônicos de composição imitando o meio natu- ti, Pediculus humanus e outros.
ral oferecido por seus respectivos hospedeiros. Tão específica é esta exigência nessa modali-
Todos os vermes são parasitos permanentes na dade de parasitismo que a identificação do para-
sua fase adulta, tais como Schistosoma mansoni, sito conduz imediatamente à identificação do
Taenia saginata, Enterobius vermicularis e outros. hospedeiro. Se pela morfologia se identifica Tae-
Também se incluem neste grupo as formas larvá- nia solium, conseqüentemente podemos afirmar
rias dos cestódeos e protozoários, como as espé- que este cestódeo é proveniente do intestino
cies de Plasmodium, agentes da malária. delgado do homem, único hospedeiro deste pa-
rasito. Se identificarmos um Sarcoptes encontra-
PARASITOS PERIÓDICOS do da pele do homem, ele será Sarcoptes scabiei,
pelo fato de ser um parasito estenoxeno do ho-
Caracterizam-se por passarem parte de sua mem.
vida como parasitos e parte no meio externo,
como seres de vida livre. Em algumas espécies as PARASITOS EURIXENOS
formas adultas vivem nos seus hospedeiros, en-
quanto suas formas larvárias são livres, como no Ao contrário dos estenoxenos, esses parasitos
caso do Necator americanus e Ancylostoma duo- podem infectar diferentes espécies de animais.
denale, helmintos do intestino delgado nas for- Como exemplo citamos Trypanosoma cruzi que é
mas adultas e livres na larvária, vivendo saprozoi- encontrado, em condições naturais, no homem,
camente no solo poluído com matéria fecal hu- no cão, no gato, nos tatus e em numerosas espé-
mana. cies de mamíferos. Outro parasito eurixeno é To-
xoplasma gondii, capaz de viver em grande nú-
Em outros parasitos as larvas são as formas pa-
mero de aves e mamíferos.
rasitárias e os adultos as formas livres, como no
caso das moscas, cujas larvas, agentes de miía- PARASITOS OLIGOXENOS
ses, vivem no tegumento do hospedeiro, en-
quanto os adultos alados são de vida livre. Neste Em um grau intermediário de especificidade
caso estão algumas moscas das famílias Callipho- parasito-hospedeiro, entre os parasitos esteno-
ridae e Sarcophagidae, conhecidas pelo nome xenos e os eurixenos encontram-se os oligoxe-
vulgar de varejeiras. nos que podem parasitar um hospedeiro, que é o
1 r Parasitologia e Micologia Humana

habitual, e mais um ou dois, provocando nestes, ser obrigatórios ou facultativos e permanentes,


entretanto, infecções geralmente de curta dura- periódicos ou temporários.
ção. Como exemplos dessa modalidade de para- Para ilustrar o assunto, damos os seguintes
sitismo citamos Plasmodium malariae, agente da exemplos:
malária quartã do homem, que pode infectar o Entamoeba histolytica e Giardia intestinalis são
chimpanzé; Balantidium coli, que infecta o ho- parasitos monoxenos porque perfazem toda a sua
mem e o porco; Necator americanus, o homem, evolução em um único hospedeiro, são obrigató-
o gorila e o porco-espinho. rios porque não prescindem da condição de para-
A avaliação dos graus de especificidade para- sitos e são permanentes porque só sobrevivem
sito-hospedeiro tem importância para a com- fora do hospedeiro por tempo limitado.
preensão da epidemiologia de certas doenças Necator americanus, Ancylostoma duodenale
parasitárias e infecciosas. e Strongyloides stercoralis são parasitos monoxe-
No caso dos parasitos eurixenos e oligoxenos, nos obrigatórios e, por terem uma fase de vida li-
a doença pode ser transmitida entre os animais, vre, são periódicos.
de homem a homem, dos animais para o homem Sporothrix schenckii é um parasito monoxeno
e deste para os animais. A doença de Chagas, to- e ao mesmo tempo facultativo.
xoplasmose, febre amarela e a peste produzidas Os insetos hematófagos são também parasitos
por parasitos eurixenos têm, conservados os as- monoxenos, obrigatórios e temporários.
pectos peculiares de cada uma, epidemiologia Os exemplos citados mostram o grande nú-
muito diversa das doenças determinadas por pa- mero de aspectos biológicos com que se mani-
rasitos estenoxenos, tais como a enterobiose, fi- festa o parasitismo, aspectos que devem ser co-
lariose de Bancroft e teníase, cujos agentes etio- nhecidos para o estabelecimento de medidas
lógicos são parasitos exclusivos do homem. adequadas ao combate das doenças parasitárias.

PARASITOS ESTENOTRÓFICOS PARASITOS HETEROXENOS


São parasitos que têm exigência para um úni- Ao contrário dos parasitos monoxenos, neces-
co tipo de alimento, podendo ser, entretanto, es- sitam de dois ou mais hospedeiros para que sua
tenoxeno ou eurixeno. Os piolhos da cabeça e evolução se complete.
do corpo são estenotróficos e estenoxenos por- No caso de dois hospedeiros, diz-se que o pa-
que se nutrem exclusivamente de sangue hu- rasito é dieteroxeno e quando há três ou mais,
mano. Os mosquitos, as moscas hematófagas e os polieteroxeno.
triatomíneos são estenotróficos por se alimenta- Denomina-se hospedeiro definitivo aquele
rem obrigatoriamente de sangue, sendo, entre- que abriga a forma adulta do parasito, e interme-
tanto, eurixenos, uma vez que podem sugá-lo de diário, a forma larvária ou jovem.
diferentes espécies de vertebrados. Wuchereria bancrofti, agente da filariose de
Bancroft, é encontrada, em sua forma adulta,
PARASITOS EURITRÓFICOS nos linfáticos do homem, e as formas larvárias
evolutivas, em diferentes espécies de mosquitos.
Nutrem-se das diferentes substâncias com as
Nessa modalidade de parasitismo o homem é o
quais entram em contato no organismo do hos-
hospedeiro definitivo e o mosquito, o interme-
pedeiro. Necator americanus, Enterobius vermi-
diário.
cularis, Entamoeba histolytica e as larvas causa-
doras de miíases alimentam-se de todas as subs- Schistosoma mansoni, causador da esquistos-
tâncias ao seu alcance no organismo, inclusive o somose intestinal, é, em sua fase adulta, hóspede
sangue, sendo, portanto, parasitos euritróficos. do lúmen dos vasos mesentéricos e, em suas for-
mas jovens, evolui na massa visceral de um mo-
PARASITOS MONOXENOS lusco dulcícola, sendo o homem o hospedeiro
definitivo e o molusco, intermediário.
São parasitos que completam seu ciclo evolu- No ciclo evolutivo de certas espécies de para-
tivo parasitando um único hospedeiro. Podem sitos, o homem desempenha o papel de hospe-
Mo ali a es e Parasitismo r 13

deiro intermediário e alguns mamíferos de hos- uma localição e as larvas outra. Duas espécies de
pedeiro definitivo. Um importante exemplo des- interesse médico são parasitos autoxenos: Hy-
sa ocorrência é Echinococcus granulosus, cuja menolepis nana e Trichinella spiralis.
forma adulta vive no intestino delgado do cão e
de outros carnívoros, e a forma larvária, em ór- PARASITOS ATÓPICOS OU
gãos profundos de vários hervívoros e onívoros, ERRÁTICOS
inclusive do homem. A forma larvária de E. gra-
nulosus é a “hidátide” a qual, desenvolvendo-se Em cirurgia e em clínica não são raras as ob-
no hospedeiro intermediário, produz a hidatido- servações de parasitos em localizações estranhas
se. às que lhe são peculiares, ocasionando, às vezes,
Como dissemos, o hospedeiro definitivo é graves perturbações mórbidas. Alguns exemplos
aquele no qual vivem as formas adultas dos para- põem o assunto em destaque.
sitos, e o intermediário o que hospeda as formas Entamoeba histolytica, que em condições ha-
jovens ou larvárias. Entretanto, quando o parasi- bituais vive no lúmen e na parede do intestino
to é um microrganismo em que uma fase do seu grosso, pode ser levada passivamente para outras
ciclo evolutivo se passa em um vertebrado e a regiões do corpo, como o fígado, onde, sob a
outra em um invertebrado, é conveniente usar as condição de um parasito atópico ou errático,
expressões hospedeiro vertebrado e hospedeiro produz a necrose amebiana.
invertebrado, como na doença de Chagas, nas Ascaris lumbricoides, habitante do lúmen do
leishmanioses e na malária. intestino delgado, pode se insinuar no colédoco
Quando o hospedeiro intermediário, ou o ou no canal de Wirsung, obstruindo-os e provo-
hospedeiro invertebrado, toma parte ativa na cando, na primeira eventualidade, grave hepati-
transmissão é denominado transmissor ou vetor. te obstrutiva e na segunda, a não menos grave,
Os mosquistos que servem de hospedeiro in- pancreatite.
termediário da Wuchereria bancrofti, por trans- Os ovos de Schistosoma mansoni que, em
portarem para o homem as larvas que neles evo- obediência às exigências biológicas do verme,
luíram, são denominados transmissores ou veto- devem ser postos na parede intestinal de onde
res. atingem o lúmen do órgão, podem ser carreados
Os planorbídeos, nos quais evoluem as for- por via venosa para o fígado, os pulmões e, mais
mas jovens do Schistosoma mansoni, não tomam raramente, a medula espinhal, onde suscitam a
parte ativa na transmissão da esquistossomose, formação de processos reacionais mais ou menos
sendo apenas hospedeiros intermediários, mas intensos.
não transmissores.
Os termos transmissor e vetor são também
PARASITOS TRANSVIADOS OU
empregados para artrópode ou mesmo vertebra- DESVIADOS
dos que transportam agentes morbíficos. Sabe-se
São parasitos habituais de um determinado
que a mosca doméstica, e outras, pode carrear
hospedeiro que se implantam em outros. Há na
bactérias, vírus e até cistos de protozoários, não
literatura médica um grande número de observa-
sendo necessária à evolução dos agentes trans-
ções de parasitos de outros animais que, ao aca-
portados. Trata-se de uma transmissão do tipo
so, implantam-se no homem, determinando le-
contaminativo. Por extensão, pode-se dizer que
sões.
os morcegos hematófagos podem transmitir a
raiva entre os animais, e os ratos, a “febre pela Syngamus laryngeus, da laringe dos bovinos,
mordedura de ratos”. tem sido observado na garganta do homem, pro-
vocando sintomatologia benigna.
PARASITOS AUTOXENOS Ancylostoma caninum e Ancylostoma brazilien-
se, habitantes do intestino delgado do cão e do
São parasitos para os quais o mesmo organis- gato, podem parasitar o homem nas formas lar-
mo desempenha o papel de hospedeiro definiti- várias, ficando o parasitismo restrito à pele. Nes-
vo e intermediário, com os adultos ocupando se tipo de infecção, os parasitos são transviados e
14 r Parasitologia e Micologia Humana

atópicos, porque não atingem o intestino huma- intermediários e transmissores, com freqüência
no. apresentam incidência regional, são heteroxe-
Uma outra infecção do homem por larvas de nos, exibindo uma ontogenia mais complexa. A
helmintos é a de Toxocara canis e de T. cati, asca- maior intimidade com o hospedeiro, em nível
rídeos dos intestinos do cão e do gato domicilia- textural ou celular, propicia respostas imunológi-
dos na forma adulta, cujas formas larvárias, quan- cas mais acentuadas.
do libertadas dos ovos no intestino, atingem o fí- Terminando este capítulo, aduzimos à termi-
gado onde permanecem vivas produzindo as le- nologia já tratada e que constitui um instrumento
sões da doença denominada larva migrans visce- de comunicação científica bem como mais algu-
ral. mas definições que são úteis ao estudo da Parasi-
Angiostrongylus costaricensis, parasito das me- tologia.
sentéricas superiores de roedores, pode parasitar
o homem simulando um quadro clínico de apen- Os parasitos recebem denominações especiais
dicite. conforme a posição que ocupam no organismo,
Um outro parasito, Lagochilascaris minor, é pa- como se segue:
rasito intestinal de felídeos selvagens, mas pode Ectoparasitos – parasitos da pele, fâneros e
ocasionar lesões tumorais subcutâneas no homem. mucosas das cavidades naturais abertas para o
meio externo. Exemplos: dermatófitos, agentes
PARASITOS CAVITÁRIOS das dematofitoses da pele, cabelos e unhas; Can-
Recebem esta denominação os parasitos que dida albicans, agente de estomatite e vulvovagi-
são habitualmente encontrados no interior de nite; Sarcoptes scabiei, agente da escabiose; in-
cavidades naturais do organismo e no lúmen de setos e acarinos hematófagos.
órgãos, como os intestinos grosso e delgado. Endoparasitos – parasitos dos ductos internos
O trato digestório humano representa a prin- e dos tecidos profundos. Enteroparasitos é o no-
cipal localização dos parasitos cavitários que in- me dado aos endoparasitos do trato intestinal. A
cluem numerosas espécies. maioria das infecções é causada por endoparasi-
Giardia intestinalis, Entamoeba histolytica (for- tos.
ma apatogênica), Ascaris lumbricoides e ancilos-
tomídeos são alguns exemplos. Citoparasitos – são parasitos obrigatoriamente
Os parasitos cavitários, cuja transmissão de- endocelulares, como os plasmódios, agentes da
pende essencialmente do meio ambiente, geral- malária, Toxoplasma gondii e Histopasma capsu-
mente mostram uma incidência mundial, são mo- latum, este quando em vida parasitária.
noxenos, apresentando uma ontogenia mais sim- Histoparasitos – são parasitos dos tecidos, po-
ples. Além disso, pela menor intimidade com o rém, não obrigatoriamente endocelulares. São
hospedeiro, suscitam respostas imunológicas me- exemplos: os aglomerados de formas amastigo-
nos acentuadas. tas do Trypanosoma cruzi no miocárdio, Cysticer-
cus cellulose e as larvas de Trichinela spiralis nos
PARASITOS TECIDUAIS músculos e Entamoeba histoytica nos tecidos da
Também denominados texturais ou textrinos, parede intestinal.
são os parasitos do sangue, liquor, linfa e líquidos Hemoparasitos – são parasitos que transitam
intersticiais e de diferentes tecidos, desde o con- ou são observados permanentemente no sangue,
juntivo até o sistema nervoso central (SNC). tais como as espécies de Plasmodium e os tripa-
Para exemplificar podem ser mencionados nossomas em sua fase sanguícola. Antigamente,
Trypanosoma cruzi e as várias espécies de agen- os agentes da malária eram chamados hemato-
tes responsáveis pela malária humana. zoários ou, mais precisamente, hematozoários
Os parasitos teciduais, cuja disseminação ba- de Laveran, em homenagem ao estudioso fran-
sicamente está na dependência de hospedeiros cês que os descobriu.
3
Parasitismo e Doença
Parasitária

Parasitismo e Doença Parasit ria

Os fatores pertinentes ao hospedeiro são:


Por definição, a condição de parasitismo im-
a) idade
porta na existência de um prejuízo, maior ou
b) imundade
menor, infligido pelo parasito ao hospedeiro.
c) alimentação
A idéia do aparecimento de perturbações
d) doenças intercorrentes
mórbidas no hospedeiro decorre do parasitismo,
e) microbiota associada
quer de natureza celular com formação de le-
f) medicamentos usados
sões, quer de natureza funcional, ou carencial.
g) usos e costumes
Em parte, o conceito de parasitismo super- h) tensão emocional
põe-se ao de doença parasitária, porém outros
fatores são necessários para que ela se manifeste. FATORES INERENTES AO
Esses fatores são pertinentes ao parasito, de PARASITO
um lado, e ao organismo infectado ou contami-
nado, do outro. Estudaremos concisamente os fatores ligados
Os fatores pertinentes ao parasito condicio- aos parasitos.
nam sua patogenicidade, isto é, transformam-no
em agente morbífico ou patógeno; os ligados ao Número de Exemplares
organismo criam condições que não só favore- A relação entre o número de exemplares de
cem a implantação e a sobrevivência do parasito, determinado parasito e os danos causados pelo
como lhe possibilitam exercer suas diversas ações parasitismo varia de acordo com a espécie em
parasitárias. causa. Na maior parte das doenças parasitárias
Os fatores inerentes ao parasito são: há estreita correlação entre o número de exem-
a) número de exemplares plares do parasito e os sintomas observados nos
b) capacidade de multiplicação dos parasitos no doentes. De modo geral, nas protozooses, hel-
hospedeiro mintoses intestinais, micoses e zooses parasitá-
c) dimensões do parasito rias, quanto maior o número de agentes infec-
tantes, maiores as perturbações mórbidas no or-
d) localização no organismo
ganismo parasitado.
e) virulência Nas formas agudas da amebíase e da giardíase
f) vitalidade as formas vegetativas de seus respectivos agentes
g) associações parasitárias etiológicos são abundantes nas fezes, traduzindo

15
16 r Parasitologia e Micologia Humana

a gravidade dos processos mórbidos. Em casos pida for a reprodução desses protozoários, na
de ancilostomose, ascariose e tricurose, em suas dependência de seus próprios atributos e dos fa-
fases iniciais, o número de ovos nas fezes indica tores favoráveis oferecidos pelo organismo, mais
o número de exemplares parasitos e é direta- graves são os sintomas, em correlação ao grande
mente proporcional à sintomatologia. Assim, em número de elementos parasitários resultantes
casos de parasitismo pelo Necator americanus das formas infectantes primárias. A gravidade da
e/ou Ancylostoma duodenale, agentes da anci- amebíase, da doença de Chagas e da malária
lostomose, pode-se estabelecer a relação entre o produzidas, respectivamente, por tais protozoá-
número de ovos desses parasitos por grama de rios é medida pela sua capacidade de multiplica-
fezes e a queda do teor da hemoglobina no san- ção.
gue circulante, demonstrando-se que a anemia No caso das infecções por vermes, cada ovo
provocada por esses vermes é diretamente pro- embrionado, ou larva, ao atingir o organismo,
porcional ao número de exemplares existentes passiva ou ativamente, evolui individualmente,
no intestino. Na tricurose, a gravidade da doen- salvo exceções, para adulto, de modo que o nú-
ça, que pode culminar com o prolapso retal, é mero de formas parasitárias é determinado pelo
inteiramente correlata com o número de exem- de elementos infectantes, indicando que a capa-
plares de Trichuris trichiura, determinado indire- cidade de reprodução não terá influência sobre
tamente pela contagem de seus ovos nas fezes. o agravamento ou não dos sintomas.
Na malária, os acessos têm lugar quando o No parasitismo por alguns artrópodes, como
número de formas esquizogônicas na corrente Sarcoptes scabiei, Pediculus e Phthirus pubis, a
sanguínea atinge um nível crítico capaz de de- forma infectante é geralmente o adulto, que se
sencadear a sintomatologia característica da reproduz na pele ou nas vestes, produzindo uma
doença. Abaixo de tal nível, variável entre as es- crescente progênie com agravamento dos sinto-
pécies de Plasmodium, o indivíduo parasitado mas das respectivas infecções por esses parasi-
temporariamente pode não apresentar sintomas tos.
da malária.
Em determinadas parasitoses, como teníase, Dimensões do Parasito
hidatidose e cisticercose, entretanto, não há re- Excluídos outros fatores pertinentes ao parasi-
lação numérica do parasito com as manifesta- to, as dimensões têm importância na produção
ções mórbidas, que dependem de outros fatores, de alterações mórbidas. Como exemplo, citamos
como localização, vitalidade e dimensões. Taenia saginata, habitante do intestino, que pode
atingir vários metros de comprimento, e a larva
Capacidade de Multiplicação dos de Echinococcus, que no fígado chega a ter 1 de-
Parasitos no Hospedeiro címetro, ou mais, de diâmetro. Em tais casos é
fácil avaliar os efeitos do parasitismo.
Após terem acesso ao organismo do hospedei-
ro, de acordo com sua espécie, os parasitos po- Localização no Organismo
dem ou não se multiplicar, dependendo dessa
possibilidade, em alguns casos, o estabelecimen- Em relação a este tópico, ao qual já nos referi-
to da doença e, em outros, o agravamento ou a mos, insistimos nas localizações atópicas ou errá-
atenuação da sintomatologia. Os exemplos que ticas de parasitos em órgãos que não represen-
citaremos a seguir dão idéia da importância des- tam o seu habitat, produzindo graves alterações,
ses fatos na patologia das parasitoses. não raro fatais, como a obstrução das vias biliares
pelo Ascaris lumbricoides.
Nas infecções humanas por vírus, bactérias,
fungos e protozoários o parasitismo somente é Virulência
mantido no caso de haver multiplicação dos mi-
crorganismos invasores, decorrendo delas seu É inegável a diferença entre a capacidade
poder patogênico. Para exemplificar, citamos as morbífica de cepas ou variedades na mesma es-
infecções por Entamoeba histolytica, Trypanoso- pécie. São conhecidas cepas muito virulentas de
ma cruzi e plasmódios. Quanto mais intensa e rá- Plasmodium vivax e Trypanosoma cruzi; distribuí-
Parasitismo e Doença Parasit ria r 17

das em diferentes áreas geográficas. As cepas tro- parasitado pelo verme, facilitando o apareci-
picais do P. vivax produzem infecções muito mais mento dos sintomas da doença.
intensas que as encontradas em países de clima Um fator que indica a ação combinada de
temperado e, no Brasil, T. cruzi no oeste de Mi- dois parasitos ou a potencialização de um deles
nas Gerais e em Goiás, causa lesões mais destru- por outro pode ser apreciado nos graus de eosi-
tivas nos neurônios do miocárdio e da parede nofilia decorrentes do parasitismo de cada um
gastrintestinal que nos casos encontrados no Rio dos nematódeos e observados na sua associação.
Grande do Sul. Nos casos de parasitismo pelo Strongyloides ster-
No caso de duas espécies capazes de produzir coralis, isoladamente, 77,16% dos indivíduos in-
a mesma doença, como Necator americanus e fectados têm hipereosinofilia; nos parasitados
Ancylostoma duodenale, agentes da ancilosto- apenas pelo Ascaris lumbricoides, 47,43% e, na
mose, admite-se que o último possua poder pa- associação dos dois, a eosinofilia atinge a taxa de
togênico maior. 81,25%.
Como a eosinofilia traduz uma resposta do or-
Vitalidade ganismo à ação dos helmintos, tais percentuais
indicam a conjugação das ações dos parasitos as-
Em alguns tipos de infecção, a sintomatologia sociados.
observada na doença mantém-se inalterada du-
rante a vida do parasito. Entretanto, se ele morre FATORES PERTINENTES AO
por reações do organismo parasitado, modifi-
ca-se a sintomatologia por se constituir um cen- HOSPEDEIRO
tro de esclerose e posterior mineralização. Comentados, de modo geral, os condiciona-
Em certas infecções, a desvitalização do para- mentos que determinam a patogenicidade dos
sito conduz à atenuação de sintomas como na parasitos, passamos ao estudo dos fatores perti-
triquinelose; em outros, como na cisticercose ce- nentes ao organismo parasitado que facilitam sua
rebral, enquanto o Cysticercus cellulosae, seu ação morbífica.
agente etiológico estiver vivo, provoca sintoma-
tologia discreta, tornando-se intensa após sua Idade
morte e posterior calcificação. Nestes casos, as
perturbações neurológicas podem simular os tu- Com base em observação e experiências nos
mores encefálicos malignos. animais domiciliados e de laboratório, compro-
vou-se que os indivíduos jovens são mais suscetí-
Na esquistossomose mansônica, o parasito
veis às infecções que os adultos.
pode morrer graças à medicação, porém a cura
parasitária não conduz à cura clínica, devido à Alguns explicam que as crianças se infectam
persistência das lesões cirróticas em alguns ór- com agentes infecciosos por não saberem se pro-
gãos, como o fígado, baço e pulmões. teger contra a infecção; o que é verdade. Entre-
tanto, os dados coletados da parasitologia com-
Associações Parasitárias parada indicam que as defesas naturais dos ani-
mais jovens, inclusive o homem, estabelecem-se
Em geral, nas associações de duas ou mais es- lentamente com o aumento da idade.
pécies de parasitos, a sintomatologia manifesta- Por isso, em adultos e crianças sujeitos às
da nos doentes reflete a soma das ações dos se- mesmas possibilidades de infecção, os índices de
res associados. infecção são mais altos nas crianças. Sabe-se
No poliparasitismo pode haver várias combi- como são graves, na infância, doença de Chagas,
nações, algumas das quais consideradas necessá- malária, amebíase, giardíase, estrongiloidose e a
rias para que um determinado parasito atue co- ancilostomose. Presume-se que por falta de for-
mo patógeno sobre o hospedeiro. Representam mação de anticorpos e, nas enteroparasitoses,
essa eventualidade Wuchereria bancrofti, nema- por não se ter modificado com a idade, o quimis-
tódeo causador da filariose, e bactérias piogêni- mo intestinal seja próprio da infância.
cas associadas que agravam os processos infla- Um exemplo nítido da relação entre a baixa
matórios nos tecidos circunjacentes ao linfático, idade do indivíduo e sua suscetibilidade às infec-
1 r Parasitologia e Micologia Humana

ções é observado nas tinhas tonsurantes produzi- Na malária, na toxoplasmose, na leishmanio-


das por várias espécies de fungos dos gêneros Tri- ses e nas micoses produzidas por dermatófitos
chophyton e Microsporum. São doenças quase tem-se verificado o desenvolvimento de graus
exclusivas da infância, que se curam espontanea- variáveis de resistência adquirida que protegem
mente com a chegada da puberdade. Não se tra- o indivíduo contra novos ataques dos seus para-
ta de imunidade, mas de resistência do couro ca- sitos atenuando os sintomas e tornando a doença
beludo e cabelos à invasão pelos fungos, graças a assintomática.
modificações na composição das secreções da Vários parasitos que são normalmente de ani-
pele resultantes dos hormônios que, então, co- mais, desempenham o papel de parasitos opor-
meçam a ser produzidos. tunistas humanos em indivíduos imunocompro-
metidos. Algumas dessas parasitoses podem ser
Imunidade consideradas como fator associado de óbito,
principalmente em indivíduos com síndrome de
A imunidade, tal como a consideramos, é a imunodeficiência adquirida (AIDS).
resistência que o indivíduo apresenta à invasão e
à implantação de parasitos, na dependência de Alimentação
anticorpos no seu organismo.
Em algumas parasitoses, os regimes alimenta-
Resistência natural é a refratariedade do indi-
res podem favorecer, ou não, os hospedeiros em
víduo a um agente infectante, independente da
face das ações parasitárias.
presença de anticorpos específicos. Dizemos
No parasitismo pelos ancilostomídeos, quan-
que o homem tem resistência natural aos parasi-
do no regime alimentar do indivíduo as proteínas
tos de outros animais, porque estes não encon-
e sais minerais são abundantes, os sintomas da
tram em nosso organismo as condições necessá-
ancilostomose são discretos ou mesmo inexisten-
rias ao ajustamento biológico do binômio parasi-
tes em virtude da compensação que esse regime
to-hospedeiro e nele não sobrevivem.
oferece à espoliação sanguínea produzida pelos
Nas doenças infecciosas, são consideradas em parasitos. Indivíduos infectados pelo Necator
sentido particular como provocadas por vírus e americanus, cujo regime alimentar consiste só de
bactérias e, nas parasitárias, determinadas pelos amiláceos, podem apresentar taxas baixíssimas
protozoários, fungos, helmintos e artrópodes; os de hemoglobina e acentuada hipoglobinemia,
fenômenos de imunidade são em essência idên- taxas que podem melhorar com a instituição de
ticos, assim como a terminologia usada na expo- dietas balanceadas e medicação, persistindo, en-
sição do assunto. tretanto, o parasitismo.
Qualquer que seja a posição sistemática dos Em experiências com animais demonstrou-se
parasitos, há que considerar o antígeno e o anti- que os regimes carenciais em vitaminas, em par-
corpo. ticular a vitamina A, facilitaram a implantação de
As excreções e secreções do parasito, bem vermes intestinais, sendo possível que no ho-
como as substâncias de seu corpo, são os antíge- mem os fatos se comparem aos observados em
nos, enquanto as elaboradas pelo hospedeiro tais experiências.
como resposta a seu estímulo são os anticorpos.
O estudo da imunidade é objeto dos cursos
Doenças Intercorrentes
de Microbiologia e por esse motivo trataremos As doenças intercorrentes de natureza dege-
neste capítulo apenas dos aspectos relacionados nerativa e carencial facilitam a multiplicação dos
com o parasitismo e a doença parasitária. parasitos e somam-se às alterações mórbidas de-
Os anticorpos protetores nas doenças parasi- correntes do parasitismo que, desse modo, assu-
tárias, em stricto sensu, não são tão conhecidos me aspectos muito mais graves que nos casos em
quanto nas doenças produzidas pelos vírus e que os sintomas dependem exclusivamente da
bactérias, mas, em algumas, esses anticorpos de- causa parasitária.
sempenham importante papel, impedindo a in- Todas as infecções em indivíduos desnutridos,
vasão parasitária ou atenuando a sintomatologia. com síndrome de má absorção pluricarencial,
Parasitismo e Doença Parasit ria r 1

sobretudo na infância, são agravadas e, não raro, Quanto ao uso dos citostáticos, a diminuição
fatais. No diabetes e nos períodos avançados de da resistência decorre do comprometimento dos
linfopatias carcinomatosas, não é difícil a obser- órgãos hematopoiéticos e possivelmente do sis-
vação de casos graves de candidomicose e crip- tema monocítico fagocitário, possibilitando a in-
tococose, cujos parasitos encontram nos organis- vasão do organismo por fungos de parasitismo
mos doentes habitat propício à sua proliferação. fortuito.
É possível que as doenças degenerativas criem
no organismo condições adequadas para a im- Usos e Costumes
plantação e multiplicação dos parasitos por bai-
xarem a resistência natural, que depende de vá- Neste tópico citaremos apenas dois fatos: a) pie-
rios fatores, entre eles o aumento da produção dra negra, que é uma tricomicose nodular, quase
de cortisona. extinta no Brasil, por se ter abolido o uso do chapéu
que mantinha no couro cabeludo um micro-habitat
Microbiota Associada quente e úmido, favorável à implantação da Pie-
draia hortai, agente dessa doença; b) a raridade no
A associação de bactérias saprófitas do intesti- Brasil e em outros países de clima quente, do Pedi-
no com Entamoeba histolytica, segundo a opi- culus humanus, graças ao hábito da troca das vestes
nião geral dos protozoologistas, condiciona o pa- de uso diário. Pela grande exigência que esses pio-
pel morbífico da ameba. Acredita-se que a inva- lhos têm de uma temperatura próxima à do corpo
são da mucosa intestinal por suas formas vegeta- humano, a sua vitalidade, desse modo, decresce e
tivas seja facilitada pela hialuronidase, que é eles acabam sucumbindo.
uma enzima elaborada por tais bactérias. Esta
enzima, atuando sobre o ácido hialurônico que Tensão Emocional
conecta as células da mucosa, o decompõe, per-
mitindo que os trofozoítas migrem do lúmen in- As implicações psicológicas da crescente com-
testinal para os tecidos que, então, passam a so- plexidade da vida em todas as áreas, constituem o
frer a ação histolítica do parasito. conhecido stress, e têm grande influência na exa-
Em sentido inverso, a redução da microbiota cerbação da etiopatogenia de várias entidades
do intestino como resultado da medicação anti- mórbidas, como, principalmente, a doença de
microbiana, referida em outro capítulo, poderá Chagas, estrongiloidose e amebíase intestinal.
facilitar a multiplicação de outras bactérias e de
fungos, tal como tem sido observado com o ente- CONCLUSÃO
rococo e diferentes espécies de Candida.
Terminada a exposição sobre parasitismo e
doença parasitária, concluímos pela possível exis-
Medicamentos Usados tência no organismo parasitado de duas situa-
Os medicamentos mais importantes que pos- ções, a saber: a) parasitismo sem manifestações
sibilitam o agravamento das doenças parasitárias, clínicas ou assintomático; b) parasitismo com
são os corticóides e os citostáticos, sendo presu- manifestações clínicas ou sintomático, revelando
mível que os imunossupressores também exer- doença parasitária.
çam ação perniciosa. O emprego dos corticóides O parasitismo assintomático pode ser eviden-
em algumas doenças parasitárias agrava os sinto- ciado em muitos casos por meio de provas imu-
mas por diminuir a formação de anticorpos no nológicas ou outros recursos de laboratório. Em
organismo, sendo conhecidas neste sentido as portadores de infecções assintomáticas pelo Toxo-
experiências em animais infectados pelo Trypa- plasma gondii, a intradermorreação à toxoplasmi-
nosoma cruzi e Strongyloides stercoralis. Em tais na e as reações sorológicas são positivas; nas in-
casos, as doenças podem evoluir rapidamente fecções pelo Histoplasma capsulatum, grande nú-
para a morte, quando os animais recebem aque- mero de pessoas sadias são reatoras à histoplasmi-
les medicamentos. na em injeções intradérmicas.
r Parasitologia e Micologia Humana

São numerosos os casos assintomáticos de in- indivíduo embora parasitado, não apresenta sin-
fecções intestinais por protozoários e helmintos, tomas correlacionados com o parasitismo e é
respectivamente, nos quais o parasitismo é diag- considerado portador assintomático; na segun-
nosticado pela descoberta, nas fezes, dos cistos e da, os danos decorrentes do parasitismo mani-
dos ovos daqueles parasitos. festam-se por sinais clínicos, mais ou menos in-
Há, portanto, necessidade de considerar na tensos nas diferentes parasitoses e nas sucessivas
prática médica as duas situações: na primeira, o fases de sua evolução.
4
Ações dos Parasitos no
Hospedeiro

ções os Parasitos no Hospe eiro

Ação Espoliadora
No capítulo anterior foram estudados os fato-
res necessários para que um determinado ser Sua conceituação decorre da própria defini-
vivo passe de sua condição de parasito a de pató- ção de parasito, porém nem sempre é esta ação
geno. Neste, serão consideradas as ações dos pa- a mais importante na patogenia das parasitoses.
rasitos no hospedeiro e, no próximo, as suas res-
postas biológicas. Ela pode ser direta quando o parasito se nutre
de células, tecidos, líquidos intersticiais e do san-
Vem do estudo das interações parasito-hospe- gue do organismo parasitado; ou indireta quan-
deiro o conhecimento da patogenia das doenças do ele se aproveita das substâncias alimentares
parasitárias que deve ser apreciada como um contidas no tubo digestivo nas fases da digestão
processo dinâmico. que antecedem a absorção.
As alterações mórbidas do organismo parasi-
No primeiro caso são todos os citoparasitos,
tado, traduzindo-se por sintomas, resultam do
histoparasitos e hemoparasitos; no segundo, os
comportamento dos dois seres associados, ten-
que vivem no lúmen do trato gastrintestinal.
dendo para o ajustamento biológico, porém com
atividades antagônicas. Em certas condições é difícil saber qual a na-
Apresentamos, a seguir, as diversas ações pa- tureza do alimento utilizado, como no caso de
rasitárias seguidas de uma apreciação geral sobre Enterobius vermicularis, que parece nutrir-se do
cada uma delas. muco que recobre a superfície da mucosa do in-
testino grosso. Em algumas infecções micóticas,
como as piedras e a pityriasis versicolor, não é fá-
AÇÕES PARASITÁRIAS cil avaliar-se a espoliação do organismo por seus
agentes, tão superficial é sua localização nos ca-
a) ação espoliadora: 1. Direta; 2. Indireta belos e na epiderme, respectivamente.
b) ação tóxica: 1. Local; 2. Geral
Em casos como esses, os limites entre o para-
c) ação traumática: 1. Destrutiva; 2. Pungitiva sitismo e o comensalismo esmaecem-se e seria lí-
cito pensar que seres comensais, em certas cir-
d) ação mecânica: 1. Obstrutiva; 2. Compressiva
cunstâncias, poderiam ser considerados patóge-
e) ações antigênica e alérgica nos.

1
r Parasitologia e Micologia Humana

Ação Tóxica Ação Traumática


É a ação parasitária que provoca qualquer solu-
Esta ação resulta da introdução no hospedeiro ção de continuidade nos tecidos do hospedeiro.
de secreções e excreções elaboradas pelo parasi- Ela pode ser exercida de vários modos: por simples
to ou de substâncias que entram na composição contato do parasito com os tecidos, por seus movi-
de seu corpo. As substâncias tóxicas, ora exer- mentos, pelos órgãos de fixação e pelas peças bu-
cem sua ação no ponto onde o parasito se locali- cais pungitivo-sugadoras próprias dos artrópodes.
za, ora, difundindo-se no organismo, agem a dis- A ação traumática destrutiva efetua-se por
tância, produzindo efeitos gerais de intensidade contato demorado do parasito com os tecidos
variável. circunjacentes sujeitos, ao mesmo tempo, às de-
A ação local dos parasitos é observada nas in- mais ações. O cisto hidático com localização ós-
fecções pela Entamoeba histolytica e pelo Balan- sea insinua-se pelos canais ósseos e, à proporção
tidium coli, os quais, devido a sua secreção histo- que se estende no órgão lesado, vai produzindo
lítica, provocam lesões necróticas nos tecidos da rarefação no tecido, o que pode resultar em sua
parede intestinal. A saliva dos artrópodes hema- fratura.
tófagos geralmente é tóxica, variando sua ação As larvas de Strongyloides stercoralis, na pare-
de acordo com a espécie. São conhecidos os aci- de intestinal, e as de Ancylostoma caninum, na
dentes causados pela picada de borrachudos (Si- pele do homem, ao escavarem suas galerias nos
mulium) e maruins (Culicoides), bem como a dos tecidos, produzem traumatismos, cujas lesões
carrapatos (Ixodides), cujos sintomas podem ser são características dessas infecções. As peças bu-
graves. Há espécies de carrapatos que inoculam, cais dos ancilostomídeos, seus órgãos de fixação,
durante sua prolongada fixação na pele, sua sali- causam na mucosa intestinal, onde se ancoram,
va tóxica de apreciável ação neurotrópica, res- lesões destrutivas que chegam a romper os capi-
ponsável pelos raros casos de paralisia ascenden- lares, provocando pequenas hemorragias, cujos
te de carrapato. efeitos somados são de grande importância na
patogenia da ancilostomose.
A ação das substâncias tóxicas a distância é As picadas de artrópodes hematófagos, além
bem conhecida nas infecções bacterianas, tais de pruriginosas ou dolorosas em sua maioria, po-
como tétano, botulismo e difteria. Entretanto, dem produzir hemorragias petequiais, como as
nas infecções pelos parasitos não-bacterianos, provocadas pelas peças bucais dos borrachudos
esta ação também pode ser observada. e mutucas.
Os efeitos da ação traumática pungitiva resul-
No período inicial de infecções maciças por tantes da picada dos artrópodes hematófagos,
Thichinella spiralis, Schistosoma mansoni, Strongy- por si, têm significação patogênica secundária.
loides stercoralis, Ascaris lumbricoides e ancilos- Alia-se à ação traumática das peças bucais
tomídeos, em decorrência da invasão abrupta do pungitivo-sugadores dos artrópodes hematófa-
organismo por suas larvas infectantes, pode ins- gos o papel de órgãos de inoculação de nume-
talar-se um quadro toxêmico intenso, devido à rosos vírus, bactérias, protozoários e helmintos
difusão das substâncias por elas segregadas ou causadores de importantes doenças do homem,
excretadas. Em casos inveterados de ancilosto- como febre amarela, peste, malária e filariose de
mose, as alterações dos órgãos hematopoiéticos Bancroft.
poderiam ser produzidas, a distância, por secre-
ções tóxicas elaboradas em glândulas especiais Ação Mecânica
existentes no Necator americanus e no Ancylos-
toma duodenale. Esta ação parasitária ora se manifesta pela
compressão de órgãos, ora por obstrução de
Nenhum parasito, considerado em sentido es- condutos. A compressão de órgãos é, em muitos
trito, salvo o Sarcocystis, forma toxina verdadei- casos, o principal fator responsável pelas altera-
ra. E esta só tem ação quando é introduzida no ções mórbidas. São exemplos o cisto hidático e
organismo artificialmente. Cysticercus cellulosae.
ções os Parasitos no Hospe eiro r 3

O primeiro geralmente é localizado em ór- bidas que provocam elefantíase no órgão ataca-
gãos como o fígado, pulmões e outros, onde do; uma proglote de Taenia pode se insinuar no
cresce exageradamente, atingindo, por vezes, 10 interior do apêndice causando apendicite.
cm de diâmetro, ocupando, nos órgãos parasita-
dos, espaço equivalente a seu volume, provo- Ações Antigênica e Alérgica
cando profundas modificações estruturais nos te-
Estas ações estão relacionadas com a tóxica,
cidos e, conseqüentemente, sintomas muito gra-
pois são as excreções e secreções dos parasitos,
ves.
ou mesmo os componentes de seu corpo, que
Cysticercus cellulosae, localizando-se no glo- desempenham o papel de antígenos.
bo ocular, desloca os elementos nobres da visão, A resposta do hospedeiro aos estímulos anti-
ocasionando a cegueira em numerosos casos. gênicos é representada por anticorpos de vários
Implantando-se no cérebro, desorganiza as es- tipos, diferenciados pelos efeitos nele observa-
truturas nervosas comprimidas por ele, provo- dos.
cando intensas perturbações neurológicas. Desses efeitos, alguns são favoráveis por pro-
A ação mecânica obstrutiva tem sido observa- vocarem a imunidade do organismo, outros des-
da em casos clínicos diversos. O enovelamento favoráveis por tornarem-no hiperérgico à ação
de alguns exemplares de Ascaris lumbricoides dos parasitos.
pode provocar obstrução intestinal; os vermes No próximo capítulo será abordado o assunto
adultos de Wuchereria bancrofti obstruem o lú- relativo às reações de imunidade nas doenças
men dos linfáticos, originando as alterações mór- parasitárias.
5
Alterações Mórbidas
nas Doenças Parasitárias

lterações M rbi as nas Doenças Parasit rias

No binômio parasito-hospedeiro, as ações do Depleção e Perda de Substâncias


primeiro e as reações do segundo são considera-
das como uma relação de causa e efeito. Por definição, não há organismo parasitado
Não é, porém, da natureza dos parasitos se- que não seja espoliado em maior ou menor grau.
rem ou não nocivos aos hospedeiros, embora o Ao tratarmos da ação dos parasitos sobre o hos-
sejam muitas vezes. Por isso não se pode concei- pedeiro, lembramos que nem sempre ela é a
tuar o parasitismo como a reunião de dois seres mais importante entre as ações parasitárias, po-
em situações teleologicamente antagônicas, nem rém, inegavelmente, em algumas parasitoses, a
entendê-lo pelo princípio da causalidade, em anemia resultante da perda de sangue constitui o
que a causa final deva ser o prejuízo infligido ao sintoma dominante do quadro mórbido. A de-
hospedeiro pelo parasito. pleção na ancilostomose resulta da espoliação
As ações dos parasitos não são agressões e as de sangue exercida pelo Necator americanus e/ou
reações do hospedeiro não são revides. Não há, Ancylostoma duodenale que, fixando-se na mu-
nessa associação, luta propriamente dita, nem cosa do intestino delgado por meio da cápsula
mesmo competição biológica semelhante à que bucal guarnecida de órgãos de fixação, provo-
se observa em algumas comunidades biológicas. cam uma solução de continuidade por onde o
O comportamento do parasito e do hospedei- sangue é extravasado.
ro tem que ser compreendido em seu conjunto, Parte do sangue é sugado pelos helmintos e
como uma unidade ecológica, na qual os proces- parte é eliminada para o exterior.
sos biológicos são favoráveis ora a um, ora a ou- Do sangue sugado pelos vermes, pequena
tro dos dois seres associados. porção é aproveitada e quase todo ele flui ao
longo do tubo digestivo do parasito, do qual es-
ALTERAÇÕES MÓRBIDAS capa para também ser eliminado para o meio ex-
Considerado o assunto quanto ao objeto da terno nas fezes do doente. A perda sanguínea to-
Parasitologia Médica, as alterações mórbidas no tal, por dia ou em outra unidade de tempo, é a
homem resultantes do parasitismo são: soma das hemorragias provocadas por cada
a) depleção e perda de substâncias exemplar de verme, macho ou fêmea, cujo nú-
b) processos degenerativos mero global pode chegar a dezenas e até cente-
c) mobilização dos sistemas reacionais nas.
d) mobilização dos processos de reparação teci- Na anemia que se instala, além da hipoglobi-
dual nemia e da hipoemoglobinemia, há hipoproteine-

5
6 r Parasitologia e Micologia Humana

mia, provocando alteração nas frações dos próti- mando uma massa gelatinosa, em torno da qual a
des séricos, com desequilíbrio oncótico dos lí- reação inflamatória é, em geral, discreta.
quidos orgânicos de que resultam edemas mais Em doenças como a ancilostomose não-trata-
ou menos pronunciados. da, de curso prolongado, podem surgir altera-
No parasitismo intestinal por outros helmin- ções degenerativas no fígado, nos rins e no cora-
tos, a espoliação sofrida pelo organismo não é ção, de natureza lipídica, possivelmente em de-
tão relevante quanto a que acabamos de referir, corrência da hipoproteinemia e de um estado to-
mas não deixa de contribuir para acentuar a sin- xêmico, freqüente nesta helmintose.
tomatologia da doença parasitária, bem como de Na malária provocada pelo Plasmodium mala-
outros estados mórbidos associados. riae e P. falciparum tem-se observado o apareci-
Nas infecções por Taenia solium e T. saginata, mento da nefrose lipídica, não se podendo, en-
que medem vários metros de comprimento, po- tretanto, determinar os elementos condiciona-
de-se imaginar o constante prejuízo imposto ao dores do processo degenerativo na dependência
organismo, sabendo-se que esses grandes cestó- da infecção malárica.
deos, imersos nos líquidos intestinais, nutrem-se Atualmente, tem-se considerado que as le-
por osmose. Sabendo-se que várias proglotes grá- sões do miocárdio e do trato digestório na
vidas são eliminadas diariamente, a absorção das doença de Chagas são provocadas por uma “neu-
substâncias nutritivas é ininterrupta para permitir rotoxina” de ação degenerativa, agindo sobre os
a renovação das proglotes desprendidas do es- plexos nervosos daqueles órgãos.
tróbilo do cestódeo.
Mobilização dos Sistemas
Nas enteroparasitoses geralmente o destaque
de substâncias alimentares é maior por causa da Reacionais
diarréia e do estado dispéptico que costumam Às ações dos parasitos contrapõem-se as rea-
ocorrer, estabelecendo-se o quadro mórbido de ções do organismo resultando nas alterações mór-
má absorção encontrado nos distúrbios plurica- bidas observadas na doença parasitária.
renciais. A presença do parasito no hospedeiro estimu-
A espoliação de sangue pelos artrópodes he- la respostas biológicas que, na conceituação mé-
matófagos é importante em medicina veteriná- dica de parasito, são, por tradição, denominadas
ria, porém desprezível para o homem. reações de defesa.
Estas respostas biológicas ou reações de defe-
Processos Degenerativos sa são de natureza celular e humoral.
Tanto as reações celulares quanto as humorais
As lesões degenerativas podem resultar dire- variam muito de acordo com os diferentes para-
tamente da ação das secreções e excreções dos sitos, como também variam em diferentes indiví-
parasitos ou de substâncias elaboradas pelo orga- duos parasitados pelo mesmo patógeno. E, no
nismo no curso da doença ou, ainda, de modifi- curso das doenças parasitárias, as reações celula-
cações bioquímicas dos humores, como, por res ou humorais variam no processo mórbido em
exemplo, a hipoproteinemia já citada. andamento.
No primeiro caso estão as lesões necróticas As reações de natureza celular manifestam-se
produzidas pela Entamoeba histolytica nos teci- pelas lesões e as de natureza humoral, pela for-
dos da parede intestinal, no fígado ou em qual- mação de anticorpos. As lesões são estudadas na
quer outra localização no organismo atingido citologia e na histologia patológicas, enquanto os
pelo protozoário. Essas lesões são diretamente anticorpos, na imunopatologia. Estando além
causadas pela ação necrosante da secreção ela- dos objetivos deste livro o estudo minucioso da
borada pela ameba, lesões que se ampliam, de- patologia das doenças parasitárias, trataremos
pois, devido à invasão bacteriana. apenas, de modo geral e resumido, dos principais
Na micose determinada pelo Cryptococcus sistemas de defesa do organismo parasitado.
neoformans há também um processo degenerati- • Reações celulares:
vo no tecido onde o fungo se multiplica, for- fagocitose;
lterações M rbi as nas Doenças Parasit rias r 7

reações inflamatória; Na leishmaniose visceral e na doença de Cha-


reações hiperplásicas; gas a fagocitose pode ser benéfica ou não ao orga-
• Reações humorais: nismo, porque as formas amastigotas de Leishma-
de proteção; nia infantum e de Trypanosoma cruzi, respectivos
de hipersensibilidade. agentes dessas doenças, podem ou não ser des-
Fagocitose – a introdução de partículas ani- truídas no citoplasma das células fagocitárias. Na
madas ou inanimadas no organismo suscita-lhe eventualidade de não serem destruídas, as células
de imediato uma reação que se manifesta pelo que as contêm transportam-nas aos órgãos afasta-
importante fenômeno da fagocitose. dos, onde se reproduzem, generalizando os pro-
As células que a realizam são encontradas no cessos mórbidos.
sangue e nos tecidos. As do sangue são os poli- No caso dos macroparasitos, a fagocitose não
morfonucleares e os monócitos, e as dos tecidos se efetua, porém os fagócitos se acumulam em
são os elementos que constituem o sistema mo- torno deles, imobilizando-os e desvitalizando-os,
nocítico fagocitário (SMF). de modo a que possam ser lisados, ou envoltos
A fagocitose, como mecanismo de defesa, é por tecido fibroso, ou mineralizados.
mais freqüente no parasitismo por microparasi- Ocorrência que pode acontecer com as larvas
tos que no macroparasitismo. de vermes como o Cysticercus cellulosae e Trichi-
Em geral, em uma primeira infecção, a fagocito- nella spiralis, como também com os ovos do
se dos parasitos é inespecífica, comparável a uma Schistosoma mansoni.
fagocitose de corpo estranho, tal como a provoca- Reações inflamatórias – a inflamação é um fe-
da experimentalmente pela introdução no organis- nômeno biológico complexo de localização teci-
mo do azul de tripan ou de partículas de carvão. dual, do qual participam células fixas e móveis, lí-
Algum tempo depois, o parasito instala-se no quidos intersticiais, vasos linfáticos e sanguíneos.
organismo, onde elabora substâncias, provocan-
As reações inflamatórias são muito variáveis em
do, então, em determinadas células, a produção
relação aos parasitos, às fases do curso da doença e
de anticorpos específicos.
ao grau de imunidade do organismo.
Na fagocitose específica, as opsoninas exer-
cem uma ação preparatória sobre o parasito, Na prática, as inflamações podem ser classifi-
acelerando-a possivelmente como resultado de cadas de acordo com sua intensidade, duração e
um fenômeno de superfície. natureza dos elementos celulares em: a) agudas;
Em alguns doenças parasitárias, entre as quais b) subagudas; c) crônicas.
malária, leishmaniose visceral, doença de Cha- Nas inflamações agudas, os fenômenos do
gas e histoplasmose, a atividade dos fagócitos li- complexo inflamatório são intensos e de evolu-
vres do sangue e os fixos do SMF constitui-se no ção rápida, com aumento de volume da área in-
principal sistema reacional diante da invasão pa- flamada, transudação de líquidos, vasodilatação
rasitária. e infiltração leucocitária. A inflamação aguda
O estudo desses aspectos da patologia de tais pode evoluir para o retorno à normalidade, ou
doenças será abordado na parte especial e, aqui, para a formação de granulomas, ou reparação ci-
apenas o enunciamos para realçar sua importân- catricial, neste caso, com invasão de fibrócitos.
cia. As inflamações crônicas distinguem-se das
Na malária, a fagocitose age não só para en- agudas pela moderação e lenta evolução do pro-
globar as formas parasitárias do Plasmodium, cesso mórbido e pela formação de escasso exsu-
como também para retirar da corrente sanguínea dato. As inflamações crônicas também poderão
a hemozoína que é um catabólito da hemoglobi- evoluir, como as agudas, para reparação tecidual
na. A atividade do SMF é tão intensa que órgãos, completa, formação de granuloma ou fibrose.
como o fígado e baço, ricos em elementos celu- Abstraindo-nos das viroses e bacterioses, que
lares desse sistema, tomam a cor castanha do ca- constituem objeto de estudo à parte, trataremos
tabólito. dos principais aspectos da inflamação nas proto-
Mesmo nos polimorfonucleares e nos monóci- zooses, helmintoses, zooses parasitárias e mico-
tos circulantes podem-se ver grãos de hemozoína. ses.
r Parasitologia e Micologia Humana

Nas protozooses intestinais, as reações infla- gos, a intensidade da resposta inflamatória às


matórias são mais intensas na amebíase e balan- substâncias irritantes varia com a sensibilidade
tidiose, embora estejam na dependência da mi- do indivíduo e com a espécie do artrópode.
crobiota associada, que exerce papel coadjuvan- Nas micoses superficiais da pele, mucosas e
te na formação das lesões. fâneros, as reações inflamatórias são fracas e, em
Na giardíase e tricomoníase intestinal os pro- algumas delas, como a piedra e a triconocardio-
cessos inflamatórios ficam restritos à superfície se, não há reação.
da mucosa intestinal. Nas micoses profundas, as lesões podem ser
Na leishmaniose tegumentar, os processos in- francamente exsudativas, como na esporotrico-
flamatórios são variáveis, tanto em relação a in- se, ou de natureza histiocitária e granulomatosa,
tensidade dos fenômenos quanto ao substrato como na cromoblastomicose e na paracoccidioi-
histológico. Nas formas ulcerosas o complexo in- domicose.
flamatório é de natureza infiltrativa, exsudativa e A evolução das lesões inflamatórias e a nature-
degenerativa e nas não-ulcerosas e verrucosas é za de seu substrato histológico são condicionadas
mais proliferativo, com invasão de grande núme- pelos anticorpos formados no curso da doença.
ro de histiócitos. Admite-se que as lesões do miocárdio na doen-
Na leishmaniose visceral, as reações inflama- ça de Chagas decorram de um estado hiperérgico
tórias são de natureza histiocitária, com evolu- do indivíduo infectado pelo Trypanosoma cruzi.
ção para a fibrose. A formação dos granulomas parasitários é
Na doença de Chagas, a lesão inicial, denomi- condicionada por um certo grau de imunidade
nada chagoma primário, é aguda, exsudativa, adquirida no curso da doença. Esses fatos indi-
enquanto as secundárias, com localização visce- cam que as reações do organismo aos estímulos
ral, são de caráter histiocitário. parasitários estão na dependência da conjuga-
Na malária, as lesões inflamatórias são domi- ção de fatores de natureza celular e humoral que
nadas pelos histiócitos, com invasão secundária se associam e completam-se, subordinados à
pelos fibrócitos. unidade biológica do organismo parasitado.
Nas helmintoses, cujos agentes se fixam dire- Reações hiperplásicas – essas reações podem
tamente na mucosa intestinal, as lesões inflama- resultar de uma hipertrofia das células ou da ati-
tórias são discretas e superficiais; nas infecções vação de sua reprodução.
por nematódeos com fase pulmonar, pré-intesti- Em geral, essa ativação da multiplicação celu-
nal (Necator americanus, Ancylostoma duodena- lar faz parte dos processos inflamatórios, porém
le, Ascaris lumbricoides e Strongyloides stercora- há lesões em que a hipertrofia de certas áreas do
lis), as lesões inflamatórias podem ser intensas no organismo é quase exclusivamente dependente
nível do parênquima pulmonar. Na filariose de da hiperproliferação das células que compõem
Bancroft as lesões inflamatórias exsudativas e os tecidos.
proliferativas estão na dependência das bactérias Na filariose de Bancroft e na sarna crostosa as
piogênicas associadas. lesões hiperplásicas da pele são bem conhecidas,
Na esquistossomose, as lesões em torno dos das quais resultam a paquidermia por hiperproli-
ovos distribuídos nos tecidos da parede intestinal feração das células da camada de Malpighi da
e no fígado são inicialmente exsudativas e depois derme. Ainda na pele, a derme sofre hipertrofia
proliferativas, evoluindo para o granuloma es- nos casos avançados de cromoblastomicose, na
quistossomótico. qual as lesões profundas da hipoderme são de
Nas zooses parasitárias, como a escabiose, natureza granulomatosa.
pediculose, fitirose e acarismo, a reação inflama- Exemplo dos mais importantes é a formação
tória é superficial, só se agravando em caso de de lesões polipomatosas na mucosa intestinal de
invasão bacteriana. Em certas miíases, como o casos de esquistossomose mansônica, resultantes
berne determinado pela larva de Dermatobia ho- da hiperproliferação das vilosidades intestinais.
minis, a reação inflamatória pode ser muito in- Os pólipos aí formados se projetam para o lúmen
tensa, com infiltração e formação de exsudato da cavidade intestinal e por causa da neoforma-
purulento. Nas picadas de artrópodes hematófa- ção de vasos sangram facilmente.
lterações M rbi as nas Doenças Parasit rias r

Reconhece-se também a hiperplasia em casos ráveis ao organismo, devido à hipersensibilidade


de dermatofitose plantar em que haja hiperque- celular deste, ora com manifestações a longo prazo
ratose. de natureza alérgica, ora nos choques anafiláticos.
Em geral, as lesões hiperplásicas são benignas, A anticorpogênese varia com a localização do
porém, na literatura médica, são registrados ca- parasito no organismo. Tanto mais íntimo o con-
sos em que há coexistência de uma infecção tato dos parasitos com as células e os tecidos,
com hiperplasias malignas ou carcinomatosas. mais intensos os processos reacionais, não só de
A propósito dessa eventualidade, alguns auto- natureza tecidual como humoral.
res estabeleceram estreita correlação entre o Nas protozooses e helmintoses, cujos respec-
câncer de bexiga e o parasitismo pelo Schistoso- tivos agentes têm por localização o lúmen intesti-
ma haematobium, agente da esquistossomose nal, é mínima ou mesmo nula a formação de an-
vesical, indicando que a área do mundo onde o ticorpos (giardíase, tricomoníase, teníase, tricu-
câncer vesical teve maior freqüência foi aquela rose).
em que coexistia endemicamente este parasito. O contrário é observado nas parasitoses pro-
Não há, entretanto, provas definitivas de que vocadas por parasitos que vivem no interior dos
os parasitos, salvo os vírus, possam ter uma ação tecidos em posição intra ou extracelular, onde os
cancerígena. anticorpos podem ser demonstrados por meio
Seria de se indagar se os agentes do carcino- de diversas provas imunológicas.
ma, possivelmente vírus, não poderiam viver em Estão, nesse caso, diferentes protozooses (leish-
determinados parasitos do homem e animais e manioses, doença de Chagas, malária, toxoplas-
serem por eles veiculados. mose); helmintoses (cisticercose, hidatidose, es-
Reações humorais – estas reações se traduzem quistossomose, estrongiloidose, filariose de Ban-
pela formação de anticorpos. Estes têm origem croft); micoses (esporotricose, histoplasmose, para-
em diferentes tipos de células do organismo, das coccidioidomicose).
quais as mais importantes são as do SMF. Os anti- Em relação aos efeitos, os anticorpos podem
corpos são globulinas quimicamente diferencia- ser divididos em anticorpos de resistência ou
das de globulinas preexistentes graças ao estímu- proteção e anticorpos de hipersensibilização.
lo de determinados antígenos com os quais se Os primeiros impedem a reinfecção pelos pa-
combinam. rasitos graças à sua combinação com a substân-
Os anticorpos podem ser de tipos diversos, de cia de seus corpos, secreções, excreções e enzi-
acordo com os efeitos resultantes de sua ativida- mas, impedindo-lhes os processos metabólicos e
de, efeitos postos em evidência por provas de la- reprodutivos.
boratório realizadas in vitro e in vivo, estas no ho- Os segundos podem ser favoráveis em alguns
mem e em animais de laboratório. casos, porém, na maioria deles, criam estados
Há anticorpos neutralizantes de toxinas (tetâ- mórbidos de longa evolução, caracterizados por
nica, botulínica, diftérica) e peçonhas (escor- manifestações alérgicas, como na doença de Cha-
piões, aracnídeos e ofídios). gas (chagásides) e dermatofitoses (dermatofíti-
Na prática, esses anticorpos são obtidos em des), ou condicionam crises anafiláticas graves,
animais submetidos a doses subletais das subs- como a decorrente da ruptura de um cisto hidáti-
tâncias antigênicas anteriormente citadas que co liberando o seu líquido sobre os tecidos, pro-
provocam neles a formação de anticorpos. Utili- vocando choques cataclísmicos no organismo pa-
za-se o soro desses animais na terapêutica espe- rasitado.
cífica de várias doenças bacterianas e nos aci- São numerosos os estudos sobre a imunidade
dentes provocados por animais peçonhentos. nas doenças parasitárias, principalmente em pa-
Os anticorpos, de modo geral, são moderna- rasitologia comparada, porém ainda não foram
mente classificados de acordo com as suas carac- introduzidos na sua profilaxia métodos de imuni-
terísticas imunoquímicas e imunobiológicas em zação eficazes como os aplicados na prevenção
IgG, IgA, IgM, IgD e IgE. de grande número de viroses e bacterioses.
Determinados anticorpos, combinando-se com A importância dos estudos de imunologia nas
os antígenos, produzem efeitos nem sempre favo- doenças parasitárias evidencia-se na compreen-
3 r Parasitologia e Micologia Humana

são de certos aspectos de sua patologia e no crostosa, podem regredir lentamente para a nor-
aproveitamento dos dados experimentais para o malidade, sem invasão fibrótica. As lesões infla-
estabelecimento de técnicas de diagnóstico. matórias do tipo exsudativo, em certos casos,
Ao tratarmos das doenças parasitárias, quan- tornam-se abscessos e o exsudato é, em parte,
do ensejar a necessidade de apreciar o papel absorvido e, em parte, eliminado para o exterior,
que cabe à imunidade em sua patologia, aponta- como acontece na esporotricose, cujas lesões,
remos os fatores que mais influenciam o agrava- regredindo sob a ação da medicação, atingem a
mento ou a atenuação dos sintomas, a resistên- normalidade tecidual.
cia às superinfecções, o estabelecimento de for- Em outras parasitoses, como a esquistossomo-
mas latentes assintomáticas, a cura espontânea e se mansônica, os ovos do Schistosoma mansoni
a resistência às reinfecções. distribuídos no tecido da parede intestinal ou no
Em cada doença parasitária e na seção técni- parênquima hepático, constituem centros de um
ca deste livro serão consideradas as reações de microabscesso com o complexo inflamatório do
imunidade que testemunham a existência de in- tipo exsudativo-infiltrativo que evolui para a for-
fecções. mação de um granuloma. Os componentes da
Várias doenças parasitárias podem ser diag- lesão inflamatória inicial constantes de células
nosticadas com reações sorológicas, outras com locais, elementos figurados do sangue e da linfa
reações intradérmicas e outras com provas de e os líquidos intersticiais e plasmáticos são substi-
proteção em animais. tuídos por linfócitos, histiócitos, células epiteliói-
des e gigantócitos que caracterizam os granulo-
Mobilização dos Processos de mas – no caso, o granuloma esquistossomótico.
Reparação Tecidual As lesões francamente exsudativas podem so-
Nas páginas anteriores chamamos a atenção frer um processo resolutivo e evoluir diretamen-
para a grande variedade de comportamentos dos te para a cirrose, devido à intensa proliferação
termos do binômio biológico parasito-hospedei- dos fibrócitos.
ro. Procuramos mostrar que as alterações celula- Em outros casos, os granulomas parasitários
res e teciduais, variáveis entre as doenças parasi- são lentamente invadidos por fibrócitos e acabam
tárias e de caso para caso, dependem das intera- sendo substituídos por focos limitados de fibrose.
ções naquele binômio. As lesões que se formam
refletem os graus de ajustamento entre o parasito Os processos de reparação tecidual nem sem-
e o hospedeiro e, a cada momento, modificam-se pre são favoráveis ao hospedeiro. Na esquistosso-
no seguimento do processo mórbido, evoluindo mose, que tomamos como exemplo, além das lo-
para um clímax lesional favorável, ou não, ao or- calizações na parede intestinal e no fígado, os
ganismo. ovos do S. mansoni podem-se localizar ectopica-
Estabelecidas as lesões de natureza necrótica, mente no pulmão, em torno dos capilares do seu
hiperplásica ou inflamatória, elas podem evoluir sistema arteriovenoso. No fígado, as lesões cirróti-
para resolução, formação de granulomas ou fi- cas periportais provocam o estreitamento dos va-
brose. sos, prejudicando o fluxo sanguíneo da veia porta
As lesões necróticas, como as da amebíase na e, conseqüentemente, o estabelecimento de esta-
parede intestinal e no fígado, sob a ação da me- se e, em seguida, transudação e ascite. No pul-
dicação específica, tendem para a cura a qual se mão, a cirrose de reparação em torno dos capila-
efetua graças à proliferação do tecido conjuntivo res arteriovenosos provoca um estreitamento do
que é eminentemente reparador e substitutivo. lúmen, dificultando a circulação cava de que po-
Mesmo lesões degenerativas limitadas ao fígado de resultar a cor pulmonale crônica.
e ao baço, no curso da malária e da leishmaniose Em alguns casos, como na paracoccidioidomi-
visceral, podem sofrer um processo cirrótico ci- cose do agente Paracoccidioides brasiliensis, a
catricial. esclerose das lesões resultantes da proliferação
As lesões hiperplásicas, como as observadas dos fibrócitos no curso do tratamento é indício
na pele de portadores de filariose e de sarna de que ele foi favorável.
6
Transmissão das
Doenças Parasitárias

ransmissão as Doenças Parasit rias

As infecções são transmissíveis diretamente, após um ciclo biológico complexo em determi-


de pessoa a pessoa, ou por um agente interme- nadas espécies de hospedeiros intermediários,
diário, animado ou não. Há nas doenças parasi- tornando difícil sua transmissão.
tárias, Iato sensu, uma fonte de infecção e um or-
Nas infecções por parasitos estenoxenos, co-
ganismo receptor (infector e infectee dos autores
mo Trichomonas vaginalis, Plasmodium falcipa-
ingleses).
rum, Enterobius vermicularis, Phthirus pubis e
A fonte de infecção pode ser o hospedeiro do outros, a única fonte possível de infecção e pro-
parasito, denominado portador, ou o meio exter- pagação é o homem portador destes patógenos.
no de onde seres de vida livre têm acesso ao re-
ceptor, no qual passam a viver na condição de Nas parasitoses produzidas por agentes mor-
parasitos facultativos ou acidentais. bíficos eurixenos, uma ou mais espécies podem
desempenhar o papel de portadores, como nos
O homem é portador do vírus do sarampo, de
casos do calazar, da doença de Chagas, da toxo-
Mycobacterium leprae, Plasmodium vivax, Wu-
plasmose, da febre amarela e da peste, pois seus
chereria bancrofti, Sarcoptes scabiei, pois todos
respectivos agentes podem viver em duas ou
esses agentes morbíficos são, em condições na-
mais espécies de hospedeiros vertebrados.
turais, parasitos e, portanto, a fonte de infecção
é o homem. Em infecções por fungos saprófitos Os portadores do parasito podem ou não
ou por larvas saprozóicas de moscas não há fonte apresentar os sintomas da doença, sendo conhe-
de infecção determinada e, assim, não há porta- cidos em epidemiologia como portador-doente
dor, como na esporotricose e nas miíases ocasio- e portador-são. Melhor seria denominá-los sinto-
nadas por larvas necrobiontófagas. máticos e assintomáticos.
Sendo as doenças parasitárias transmissíveis, Para os animais domiciliados ou selvagens
são, entretanto, imensamente variáveis os graus portadores de parasitos empregam-se os nomes
de sua infecciosidade ou transmissibilidade, na de reservatórios ou hospedeiros naturais. Assim,
dependência das características biológicas de a raposa do Nordeste brasileiro é considerada
seus agentes e, em certos casos, de seus hospe- um dos reservatórios da Leishmania infantum
deiros intermediários ou vetores animados. O chagasi, agente do calazar; o cão, nas áreas de
resfriado comum e a varíola são infecções alta- incidência da doença de Chagas, é o hospedeiro
mente transmissíveis. A filariose de Bancroft e a do Trypanosoma cruzi; certas espécies de prima-
esquistossomose só podem infectar outra pessoa tas são reservatórios do vírus da febre amarela.

31
3 r Parasitologia e Micologia Humana

TRANSMISSÃO POR CONTATO As viroses e algumas infecções bacterianas,


cujos respectivos agentes podem ser eliminados
DIRETO DE PESSOA A PESSOA OU com as gotículas de Flügge, são incluídas na mo-
POR MEIO DE OBJETOS dalidade de infecção por contato direto, de indi-
INANIMADOS víduo a indivíduo. Exemplos: caxumba, rubéola,
varíola, difteria, meningococcia.
Nessa modalidade de transmissão estão viro- Há parasitos que, após sua saída do portador,
ses, bacterioses, micoses, protozooses, vermino- permanecem vivos, suspensos no ar durante al-
ses e zooses parasitárias. gum tempo e, levados pelas correntes aéreas,
A infecção, ou transmissão, na maioria dos ca- podem infectar, a distância, outros indivíduos
sos, dá-se diretamente do portador para o recep- por vias oral ou nasal.
tor pelo simples contato de pele ou mucosas, por Entre eles encontram-se cocos e bacilos con-
sangue, saliva, leite materno e, com menor fre- taminando ambientes fechados e ovos de Ascaris
qüência, por intermédio de objetos inanimados, lumbricoides bem como de Enterobius vermicu-
como peças do vestuário, calçados, toalhas, pi- laris que podem ser encontrados na poeira intra
sos de banheiro, água de piscina, utensílios do- e extradomiciliar.
mésticos etc., sujeitos à contaminação por excre-
Alguns fungos saprófitos também podem ser
ções, secreções, escamas, pêlos e membranas do
levantados de seus substratos naturais por movi-
portador do patógeno.
mentação do ar e virem a infectar o homem por
Para resumir, citaremos apenas alguns exem- vias oral ou nasal. Estão, neste caso, Aspergillus fu-
plos de cada um dos grupos de doenças parasitá- migatus, cujos esporos quando inalados germi-
rias. nam nos pulmões, produzindo a aspergilose pul-
Viroses: raiva, linfogranulomatose inguinal su- monar; Histoplasma capsulatum que vegeta nas
baguda, hepatite de soro. fezes de aves no interior de grutas, paióis e casas
Bacterioses: sífilis, piodermites, lepra. abandonadas e que, também por inalação, atinge
Micoses: dermatofitoses, candidoses, Pityria- os pulmões, ocasionando as lesões da histoplas-
sis versicolor. mose pulmonar ou, em casos raros, depositado
Protozooses: tricomoníase urogenital, doença sobre as mucosas, produz as lesões da doença.
de Chagas (pelo leite materno e por transfusão
de sangue), toxoplasmose (do organismo mater- TRANSMISSÃO POR VIA ORAL
no para o filho em vida intra-uterina).
Verminoses: enterobiose e himenolepsiose por Por essa via tem acesso ao organismo um
Hymenolepis nana. grande número de vírus, bactérias, protozoários
Zooses parasitárias: escabiose, pediculose, fi- e helmintos, veiculados em sua maior parte por
tirose. água e alimentos e em menor número pelo ar,
Nessa primeira modalidade de infecção incluí- onde podem encontrar-se em suspensão.
mos as micoses ocasionadas por fungos saprófi- Nas viroses e doenças bacterianas, os agentes
tos, geofílicos, de parasitismo facultativo, como a eliminados pelo portador nas fezes, urina e se-
dermatofitose pelo Microsporum gypseum, a cro- creções contaminam a água e os alimentos, por
moblastomicose pela Phialophora pedrosoi, a es- meio dos quais infectam, por ingestão, o homem
porotricose pelo Sporotrix schencki, a maduro- receptor.
micose pelo Monosporium apiospermum e ou- Entre as viroses transmitidas por via oral en-
tras. Em tais micoses o fungo do meio externo contram-se a hepatite tipo A, poliomielite, cox-
atinge o organismo por contato direto deste com sackioses e echoviroses.
o solo, os vegetais, as fezes de aves, através de Das doenças bacterianas de infecção por via
uma solução de continuidade preexistente na oral são importantes a febre tifóide, as salmone-
pele ou na mucosa, ou indiretamente por meio loses e a brucelose.
de qualquer objeto penetrante, tais como espi- A transmissão das protozooses intestinais re-
nhos vegetais, farpas de madeira, dentadas ou sulta da ingestão da água ou alimentos conten-
arranhões de animais. do, em alguns casos, as formas císticas e, em ou-
ransmissão as Doenças Parasit rias r 33

tros, as formas vegetativas dos protozoários. Em segundo, das do homem, porque o cão é o hos-
Pentatrichomonas hominis, que não forma cistos, pedeiro definitivo de E. granulosus e o homem,
a forma infectante é a vegetativa; em Giardia in- de Taenia solium. Depois de ingeridos os ovos
testinalis, agente da giardíase, e na Entamoeba desses helmintos, os embriões libertam-se, atra-
histolytica, agente da amebíase, os cistos são os vessam a mucosa intestinal, penetram em um
elementos infectantes. Fato interessante é que os vaso e, pela circulação geral, atingem diferentes
cistos de Giardia e Entamoeba só são viáveis no órgãos onde se imobilizam e evoluem para larva
caso de sofrerem ação do ar, razão pela qual não Echinococcus e Cysticercus cellulosae, respecti-
há auto-infecção originária sem passagem pelo vamente.
meio externo. Há helmintoses que são adquiridas por via
O fato de terem sido encontrados cistos de oral graças à ingestão do hospedeiro intermediá-
Giardia e Entamoeba nas unhas de portadores rio completo, ou de parte dele, contendo a larva
(Goulart et al., 1966) justifica a opinião de que infectante do helminto.
possam infectar receptores diretamente, princi- As infecções pelo Dipylidium caninum e pela
palmente crianças, no meio domiciliar e em en- Hymenolepis diminuta decorrem da ingestão for-
fermarias de pediatria. tuita ou acidental dos pequenos artrópodes que
A rara localização de lesões primitivas, isola- exercem o papel de seus hospedeiros interme-
das na região cecal, da paracoccidioidomicose diários, nos quais se desenvolveram, respectiva-
conduz-nos à idéia de que a infecção pelo Para- mente, a larva Cryptoscystis trichodectis do pri-
coccidioides brasiliensis possa dar-se por via oral. meiro e a larva cisticeróide do segundo.
Em casos de parasitismo acidental por larvas A teníase intestinal pode ser produzida pela
de insetos e por acarianos a infecção realiza-se Taenia solium ou T. saginata. A infecção pela T.
pela ingestão de alimentos contaminados. solium tem lugar pela ingestão da carne do porco
Na transmissão das helmintoses por via oral dis- crua ou malcozida contendo sua larva, o Cysti-
tinguem-se alguns aspectos particulares que neces- cercus cellulosae; a da T. saginata, pela carne do
sitam ser conhecidos para a melhor compreensão boi, que é o hospedeiro de sua forma larvária, o
de sua epidemiologia. Cysticercus bovis.
A infecção por Enterobius vermicularis e Hy- Nas quatro últimas infecções que acabamos
menolepis nana dá-se pela ingestão dos ovos que de citar, as larvas ingeridas fixam-se na mucosa
no meio exterior não necessitam passar por fases intestinal e originam as proglotes que, dispostas
evolutivas para se tornarem infectantes. Por essa em cadeias, formam o estróbilo do cestódeo.
razão, a infecção inter-humano direto pode ocor-
rer, bem como a auto-infecção exógena ou por TRANSMISSÃO RESULTANTE DA
via oral, desde que tais ovos entrem em contato PENETRAÇÃO ATIVA DO
com o ar.
PARASITO ATRAVÉS DA PELE
Nas infecções pelo Ascaris lumbricoides e Tri-
churis trichiura os ovos contidos nas fezes dos Inclui-se nessa modalidade, com as variações
portadores são lançados no meio exterior, onde peculiares a cada espécie ou grupo de espécies,
deverão encontrar condições adequadas de tem- a transmissão da ancilostomose, da estrongiloi-
peratura, umidade e sombreamento para evoluir dose, da larva migrans e da esquistossomose man-
e tornarem-se infectantes, o que exige aproxima- sônica.
damente 2 semanas. Os ovos desses vermes po- A rigor, o parasitismo por diversos artrópodes,
dem contaminar a água, os alimentos, o ar e te- cuja infecção é direta por contato, efetiva-se por
rem acesso ao organismo por ingestão de vários sua ativa penetração na pele do hospedeiro. Es-
modos. tão nessa categoria Sarcoptes scabiei, agente da
A formação da larva Echinococcus (hidátide) e escabiose, cujas fêmeas quando penetram na epi-
de Cysticercus cellulosae no homem resulta, res- derme escavam galerias onde fazem a postura; a
pectivamente, da ingestão dos ovos de Echino- Tunga penetrans, cujas fêmeas vivem internadas
coccus granulosus e de Taenia solium. Os do pri- na pele; as larvas de Dermatobia hominis e de
meiro são provenientes das fezes do cão, os do Callitroga hominivorax que penetram na pele on-
34 r Parasitologia e Micologia Humana

de se nutrem e evoluem até a fase em que se hospedeiro intermediário que, no caso, é repre-
desprendem do hospedeiro. sentado por moluscos dulcícolas da família Pla-
Com exceção da esquistossomose mansônica, norbidae.
cujo agente – o Schistosoma mansoni – é hetero- O S. mansoni vive no interior de vasos do sis-
xeno, as parasitoses anteriormente citadas são tema portal e seus ovos, em razão de um proces-
determinadas por parasitos monoxenos. so que lhes é peculiar, são depositados nos teci-
O Nector americanus e o Ancylostoma duode- dos da parede intestinal, de onde são libertados
nale, agentes da ancilostomose, bem como o no lúmen do órgão, sendo então conduzidos nas
Strongyloides stercoralis, agente da estrongiloi- fezes para o exterior.
dose, são parasitos monoxenos em cuja evolução Na eventualidade de os ovos atingirem qual-
há uma fase de vida no solo. O portador destes quer coleção de água doce, eclode do seu interior
nematódeos é, em condições habituais, o ho- o embrião denominado miracídio. Se a água esti-
mem, que os abriga no intestino delgado. ver povoada pelo planorbídeo que serve de hos-
Os ovos de tais ancilostomídeos quando lança- pedeiro intermediário do verme, o miracídio evo-
dos no meio externo nas fezes em condições fa- lui, dando formação a um grande número de lar-
voráveis, libertam as larvas que evoluem em pou- vas infectantes, as cercárias. Estas deixam o corpo
cos dias, tornando-se infectantes. Quanto ao S. do molusco e permanecem vivas na água por 1 a
stercoralis, suas larvas rabditóides, que chegam ao 2 dias.
meio exterior pela emissão fecal, evoluem em ci- A infecção do homem terá lugar quando, por
clos direto ou indireto, dando origem às larvas fi- qualquer circunstância, ele entra em contato com
larióides infectantes. a água contendo tais cercárias, as quais penetram
A infecção estabelece-se quando o homem em seu corpo ativamente através da pele. No ho-
entra em contato com as larvas infectantes exis- mem, as larvas evoluem e migram para os vasos
tentes no solo, nos pisos, no fundo das minas e tributários da veia porta, onde se tornam vermes
nas valetas, contaminados por matéria fecal. Pe- adultos.
netrado ativamente através da pele, as larvas atin-
gem uma veia e pela circulação chegam aos pul- TRANSMISSÃO POR
mões onde, atraídas, presumivelmente pelo oxi- INTERMÉDIO DE ARTRÓPODES
gênio, passam para os alvéolos. Destes, são passi-
vamente conduzidas à nasofaringe e depois de Os artrópodes podem desempenhar o papel
deglutidas chegam ao intestino, completando sua de transmissores de agentes morbíficos de dois
evolução. modos.
No primeiro, eles são simples veiculadores
Os agentes da larva migrans são as larvas infec-
acidentais de agentes patogênicos, conduzindo-
tantes do Ancylostoma caninum e A. braziliense
os dos portadores, ou de suas excreções e secre-
do cão e do gato domicilados que representam o
ções, para o receptor, sem que este transporte
papel de portadores do parasito. Em seus aspec-
seja condição necessária e exclusiva para a pro-
tos gerais, a evolução desses ancilostomídeos é
pagação da doença.
idêntica à dos ancilostomídeos parasitos do ho-
mem. No cão e no gato o ciclo evolutivo de seus No segundo, o artrópode tem a participação
ancilostomídeos completa-se de modo compará- biológica essencial na transmissão dos agentes
vel ao do N. americanus e A. duodenale no ho- patogênicos, sem a qual a doença não se propa-
mem. Quando, entretanto, as larvas de Ancylosto- ga.
ma de tais animais, como parasitos transviados, Assim, as modalidades de transmissão das
penetram na pele do homem, limitam seu parasi- doenças pelos artrópodes dividem-se em trans-
tismo ao tegumento cutâneo, onde serpeando for- missão acidental (contaminativa) e transmissão
mam as lesões lineares da larva migrans, em essencial (biológica).
uma situação de “impasse parasitário”.
Transmissão Contaminativa
A transmissão da esquistossomose é mais
complexa que a dos helmintos citados em decor- A transmissão contaminativa, embora não se-
rência da exigência biológica do parasito de um ja necessária e exclusiva para a propagação das
ransmissão as Doenças Parasit rias r 35

doenças, tem importância como fator secundá- Transmissão Biológica


rio na disseminação de algumas infecções.
Há observações e dados experimentais que A transmissão biológica distingue-se da conta-
comprovam a capacidade de alguns artrópodes minativa pelas seguintes características: a) o trans-
transmitirem, em certas circunstâncias, doenças missor é sempre um artrópode hematófago; b) o
do homem. agente etiológico no artrópode, em alguns casos,
multilica-se, em outros, evolui e multiplica-se e,
Musca domestica e outras espécies de moscas em alguns, apenas evolui; c) o artrópode é essen-
que freqüentam o domicílio podem-se contami- cial para que a doença, em condições naturais,
nar por ingestão das fezes humanas, pelos vírus transmita-se do portador ao receptor.
da poliomielite, das coxsackioses, das echoviro-
Segundo Huff (1931), a transmissão biológica
ses e da hepatite tipo A e, em seguida, conta-
das doenças parasitárias comporta as seguintes
minar os alimentos que representam uma fonte
modalidades:
de infecção de tais viroses. Além das moscas, a
barata também pode disseminar o vírus da polio- a) transmissão biológica propagativa
mielite. b) transmissão biológica ciclo-propagativa
Em pesquisas de laboratório têm-se isolado c) transmissão biológica ciclo-evolutiva
várias bactérias patogênicas de moscas, tais co- Transmissão biológica propagativa – o agente
mo Salmonella typhi, outras espécies de Salmo- patogênico multiplica-se por simples divisão no
nella, cocos piogênicos e outros agentes. Pode- transmissor ou vetor, não passando por fases evo-
se concluir dessas pesquisas a facilidade com lutivas. O tempo entre a picada do transmissor
que tais moscas podem veicular um grande nú- no portador da doença e o momento em que é
mero de microrganismos das excreções para os possível a transmissão a um receptor, denomi-
alimentos. na-se período extrínseco de incubação. Esse tem-
Há doenças, como o tracoma e a bouba, que po é o necessário para que o agente morbífico se
nas áreas endêmicas, além de serem transmitidas multiplique suficientemente, de modo que o ar-
por contato direto, são propagadas por meio de trópode possa transmiti-lo.
pequenas moscas do gênero Hippelates. São exemplos dessa modalidade de transmis-
são a febre amarela, as encefalomielites, a peste
Os cistos de Entamoeba histolytica conser-
e as riquetsioses.
vam-se viáveis por 1 dia no trato digestório da
mosca domiciliada, de onde podem ser elimina- Os transmissores da febre amarela e das ence-
dos pelos vômitos e fezes. falomielites são mosquitos de diferentes espécies
que se infectam no homem ou em animais porta-
É fácil admitir a possibilidade de esse e outros dores dos vírus causadores dessas doenças. Em
insetos, também coprófilos, como a barata, car- condições favoráveis de temperatura e umidade
rearem os cistos de tal protozário das fezes para do meio ambiente, os vírus multiplicam-se no
os alimentos. hemocele dos mosquitos e invadem suas glându-
Os ovos dos helmintos intestinais, assim como las salivares. Os mosquitos transmissores, após o
os cistos dos protozoários, também podem ser período extrínseco de incubação dos vírus no
disseminados por insetos. seu organismo, tornam-se aptos a transmiti-los
Alguns insetos hematófagos podem transmitir pela picada, durante a qual a saliva infectante é
contaminativamente agentes morbíficos por meio inoculada nos receptores.
das peças bucais, após uma picada interrompida, A peste, cujo agente etiológico é a Yersinia
enquanto os microrganismos do portador conser- pestis, é transmitida pelas pulgas. Estas se infec-
vam-se vivos e aptos a infectar o receptor na pica- tam no homem ou nos animais e o agente multi-
da subseqüente. Experimentalmente, essa possi- plica-se no coágulo do sangue sugado que fica
bilidade foi verificada na transmissão da peste retido no seu proventrículo. O coágulo sanguí-
pela dupla picada; a primeira no portador de Yer- neo e o agente causam a obstrução da parte an-
sinia pestis, agente da doença, e a segunda no re- terior do trato digestório das pulgas de tal forma
ceptor da infecção pestosa. que elas ao tentar sugar um animal provocam a
36 r Parasitologia e Micologia Humana

regurgitação do agente que é inoculado na pele de modo semelhante ao observado nas pulgas por-
deste. tadoras da Yersinia pestis referidas na transmissão
As riquetsioses são provocadas por diferentes propagativa da peste.
espécies de bactérias do gênero Rickettsia, cada Nestas condições, quando o inseto suga um
uma delas sendo transmitida por determinada indivíduo, dá-se o refluxo dos líquidos da sua fa-
espécie de artrópode ou grupo de espécies pró- ringe que contêm as formas promastigotas e que
ximas. são, então, inoculadas no referido indivíduo, re-
No Brasil e em outros países americanos exis- ceptor da infecção.
te a riquetsiose produzida pela Rickettsia rickettsi,
que em nosso país é transmitida por carrapatos, Nota-se aqui a evolução da forma amastigota
dos quais o mais importante é o Amblyomma ca- existente no portador da infecção, para a pro-
jennense. mastigota no transmissor, no qual se multiplica
intensamente. As formas promastigotas resultan-
O carrapato, que desempenha o papel de
tes dessa multiplicação quando inoculadas pelo
transmissor, infecta-se no homem ou em animais
flebotomíneo no receptor sofrem regressão para
portadores da Rickettsia. Esta, multiplicando-se,
a forma amastigota.
invade todo o corpo do carrapato, inclusive as
glândulas salivares dos machos e das fêmeas bem A transmissão da doença de Chagas é também
como os ovários destas. ciclopropagativa. O transmissor, ou vetor natu-
A infecção se dá pela picada em um animal ral, é um triatomíneo no qual Trypanosoma cruzi,
suscetível, inclusive o homem, havendo necessi- ao mesmo tempo que se divide, passa por diver-
dade da fixação do carrapato no hospedeiro por sas fases evolutivas.
algumas horas para que a Rickettsia seja inocula- O triatomíneo infecta-se com a forma tripo-
da em quantidade suficiente para provocar a in- mastigota ao sugar o sangue do homem ou de
fecção. outro portador vertebrado. No trato digestório
Na transmissão desta riquetsiose há alguns fa- do triatomíneo, o Trypanosoma passa para a for-
tos importantes no estudo de sua epidemiologia, ma amastigota que evolui para a promastigota,
aos quais faremos breve referência. A Rickettsia de existência transitória. Esta, por sua vez, evolui
pode infectar o macho e a fêmea, as larvas e as na parte média do trato digestório do triatomí-
ninfas. O ovário das fêmeas também pode ser neo, assumindo a forma epimastigota, que tem a
atingido e, assim, infectar sua progênie por via capacidade de se multiplicar ativamente. Após
transovariana. alguns dias, as formas de epimastigota migram
Tais fatos indicam a possibilidade de a doença para o reto do triatomíneo onde evoluem para as
ser transmitida, não só pelas formas evolutivas de formas tripomastigotas que, por representarem o
uma geração de carrapatos, como também pelas término da evolução de T. cruzi, são chamadas
gerações seguintes, que podem adquirir a infec- formas metacíclicas. Tais formas são infectantes
ção por via transovariana. para os animais suscetíveis à infecção.
Transmissão biológica ciclopropagativa – nesta A infecção realiza-se pelas fezes do triatomí-
modalidade de transmissão biológica, o agente neo contendo as formas infectantes que são eli-
determinante da doença necessariamente evolui minadas sobre a pele do indivíduo receptor no
e multiplica-se no transmissor. momento em que ele o suga. As formas infectan-
Transmitem-se por essa modalidade as leish- tes do T. cruzi penetram no organismo através
manioses, a doença de Chagas e a malária. das mucosas íntegras ou de qualquer solução de
Os transmissores da leishmanioses são espécies continuidade da pele.
de pequenos dípteros flebotomíneos. Tais insetos
se infectam no homem ou em animais portadores Na transmissão da malária, a coexistência do
do protozoário em sua forma amastigota. Esta, na processo evolutivo e propagativo no transmissor
parte anterior do trato digestório do invertebrado, atinge um alto grau de complexidade biológica.
evolui para a forma promastigota sob a qual se Na malária humana, o transmissor é obrigato-
multiplica ativamente por divisões binárias sucessi- riamente um mosquito da subfamília Anopheli-
vas, resultando na obstrução do lúmen do órgão, nae.
ransmissão as Doenças Parasit rias r 37

Em resumo, a transmissão do Plasmodium, da filariose de Bancroft e da mansonelose; a pri-


agente da doença, do portador para o receptor, meira produzida pela Wuchereria bancrofti e a
compreende: segunda pela Mansonella ozzardi.
O anofelino, ao sugar o homem portador da
infecção malárica, infecta-se com os gametócitos Os transmissores da filariose de Bancroft são
masculinos e femininos. Estes dão origem aos ga- espécies de culicídeos, e os da mansonelose, si-
metas sexualmente diferenciados no estômago mulídeos; a seqüência da transmissão de ambas
do mosquito. O gameta feminino ao ser fecun- as helmintoses é semelhante.
dado pelo masculino transforma-se no ovo que Ao sugar o portador da doença, o inseto infec-
por ser móvel é denominado oocineto. Graças à ta-se com as larvas do parasito, que atravessam a
sua motilidade, o oocineto atravessa a parede do parede de seu estômago e vão-se encistar na
estômago do anofelino e, junto à sua superfície musculatura torácica, onde evoluem e em pou-
externa, imobiliza-se, contorna-se por uma mem- cos dias transformam-se em larvas infectantes.
brana e transforma-se no oocisto. No interior Estas, por um tropismo particular não-explicado,
deste, o núcleo único inicial divide-se em um deixam os músculos do tórax e vão-se localizar
grande número de núcleos-filhos que constitui- no espaço situado entre o lábio e as peças bucais
rão os núcleos de cada um dos esporozoítas re- estiliformes que compõem a probóscida do díp-
sultantes da divisão do citoplasma do oocisto. tero.
Estes elementos, uninucleados, alongados, são
as formas infectantes do Plasmodium, as quais, O acesso das larvas infectantes ao corpo do
graças à ruptura do oocisto, são libertadas no he- homem ocorre no momento da picada do dípte-
mocele, de onde invadem as glândulas salivares ro hematófago. Nessa ocasião, segundo se presu-
do vetor. me, as larvas, compelidas agora por algum tropis-
A infecção do homem receptor é feita pela mo, abandonam sua localização junto à probós-
inoculação dos esporozoítas contidos na saliva cida e movimentam-se para a pele, na qual pe-
do anofelino transmissor no momento da picada. netram ativamente ou através da solução de con-
A sucessão das fases evolutivas e a formação tinuidade feita pelas peças bucais pungitivo-su-
de grande número de esporozoítas do Plasmodium gadas do inseto.
no anofelino, como processo obrigatório da trans- Cada larva do helminto existente no homem
missão da malária, enquadram-na na modalida- portador da infecção, passando para o vetor, trans-
de ciclopropagativa. forma-se em larva infectante, que, ao penetrar no
Transmissão biológica cicloevolutiva – nesta organismo de outra pessoa, completa sua evolu-
modalidade de transmissão, o agente morbífico ção, transformando-se em machos e fêmeas.
passa por sucessivas fases do seu ciclo evolutivo
no vetor, porém não se reproduz. Não há, portanto, qualquer processo prolifera-
Dos parasitos do homem existentes no Brasil tivo das formas evolutivas desses vermes. Por isso,
estão incluídas nesta modalidade a transmissão nestas infecções, a transmissão é cicloevolutiva.
7
Propagação das Doenças
Parasitárias – Zoonoses,
Antroponoses e Antropozoonoses

Propagação as Doenças Parasit rias – oonoses ntroponoses e ntropo oonoses

O estudo da propagação das doenças parasi- DOENÇAS CUJA ÚNICA FONTE


tárias do homem é objeto da epidemiologia, ra- DE PROPAGAÇÃO É O HOMEM
zão pela qual os autores deste livro se limitarão
ao delineamento dos dados parasitológicos ne- São doenças provocadas por parasitos esteno-
cessários à sua compreensão. xenos, embora os seus transmissores possam ser
eurixenos.
Do ponto de vista epidemiológico podemos
dividir as doenças parasitárias nos seguintes gru- Viroses
pos:
1) Doenças cuja única fonte de propagação é o As principais viroses humanas são: poliomieli-
homem, determinadas por parasitos esteno- te, coxsackioses, echoviroses, resfriado comum,
xenos. gripe, hepatites A e B, meningite, caxumba, ru-
béola, varíola, roseola infantum, adenoviroses,
2) Doenças que são habitualmente encontradas herpes simples, herpes-zoster, varicela, linfogra-
em vertebrados, porém, circunstancialmente, nulomatose inguinal subaguda, tracoma, conjun-
transmissíveis em condições naturais ao ho- tivite de inclusão, verruga comum e mononucleo-
mem – zoonoses – determinadas por parasitos se.
oligoxenos de vertebrados.
3) Doenças que são habitualmente encontradas Bacterioses
no homem, porém transmissíveis, em condi- Das doenças produzidas por bactérias, as
ções naturais, circunstancialmente, aos verte- principais são: gonococcia, lepra, difteria, me-
brados – antroponoses – produzidas por para- ningococcia, febre tifóide, shigelose, sífilis, bou-
sitos oligoxenos do homem. ba, granuloma venéreo, cancro mole e coquelu-
4) Doenças que são encontradas tanto no ho- che.
mem quanto nos vertebrados, independentes
de qualquer situação circunstancial – antro- Micoses
pozoonoses – determinadas por parasitos eu- São as seguintes as principais micoses no Bra-
rixenos. sil que têm o homem como fonte de sua propa-
5) Doenças dos vertebrados que, em condições gação: dermatofitoses pelo Epidermophyton floc-
naturais, não se transmitem ao homem, deter- cosum, Trichophyton rubrum, T. violaceum, T.
minadas por parasitos estenoxenos. tonsurans, Pityriasis versicolor e eritrasma.

3
4 r Parasitologia e Micologia Humana

Protozooses dos, aves). Encefalomielite eqüina da Venezuela


(eqüídeos, animais domiciliados, aves). Febre ama-
Entre as protozooses exclusivas do homem rela (primatas, marsupiais). Febre aftosa (bovinos).
destacamos: tricomoníase intestinal, tricomoníase Raiva (cão, gato e outros animais). Psitacose (aves).
urogenital, giardíase e malária. Varíola bovina (bovinos). Virose sincicial respiratória
(chimpanzé). Doença de Newcastle (aves).
Helmintoses
As helmintoses que ocorrem no homem são, Bacterioses
na sua maioria, produzidas por parasitos esteno- Carbúnculo (bovinos, eqüídeos, ovinos etc.)
xenos, raramente oligoxenos, razão pela qual, Brucelose (ovinos, suínos e caprinos). Salmone-
em condições naturais, é o homem a fonte de lose (várias espécies de aves e mamíferos). Erisi-
propagação de ancilostomose, ascaridíase, es- pelóide (suínos). Mormo (eqüídeos, muares e
trongiloidose, tricurose, enterobiose, esquistos- asininos). Leptospirose (cão, ratos). Peste (ratos).
somose mansônica, teníase, filariose de Ban- Tularemia (ratos e vários animais silvestres). Fe-
croft. bre Q (marsupiais e outros animais). Tuberculose
(bovinos).
Zooses Parasitárias
As zooses parasitárias determinadas por Sar- Micoses
coptes scabiei, Pediculus humanus e Phthirus pu-
Dermatofitoses pelo Trichophyton menta-
bis são exclusivas do homem, que é, assim, a úni-
grophytes (eqüídeos), T. verrucosum (bovinos) e
ca fonte de transmissão e disseminação da esca-
Microsporum canis (cães e gatos). Pneumocisti-
biose, da pediculose da cabeça e do corpo bem
dose (coelhos, ratos, cães).
como da fitirose.

DOENÇAS QUE SÃO Protozooses


HABITUALMENTE Balantidiose (suínos).
ENCONTRADAS EM Helmintoses
VERTEBRADOS, PORÉM
CIRCUNSTANCIALMENTE Larva migrans tegumentar (ancilostomídeos
do cão e do gato).
TRANSMISSÍVEIS AO HOMEM Larva migrans visceral (ascarídeos do cão e do
Essas doenças representam as zoonoses pelo gato).
fato de os vertebrados parasitados por seus res- Singamose (bovinos). Lagoquilascaríase (felí-
pectivos agentes constituírem a principal fonte deos). Angiostrongilíase (roedores). Dipilidiose
de infecção para o homem e, assim, serem res- (cão). Himenolepsiose por Hymenolepis diminu-
ponsáveis por sua propagação. ta (rato). Fasciolose (ovinos e bovinos). Hidatido-
Para dar tratamento conciso a esse grupo se, triquinelose e cisticercose.
destacaremos, a seguir, as principais zoonoses
ocasionadas por vírus, bactérias, fungos, proto- Zooses Parasitárias
zoários, helmintos e artrópodes.
Ixodismo (por larvas e adultos de carrapatos
Viroses do cavalo e de outros vertebrados). Acarismo
(por larvas e adultos de ácaros inferiores de aves
Encefalomielite eqüina do Leste (eqüídeos, ani- e de outros vertebrados). Berne (dos bovinos e
mais domiciliados, aves). Encefalomielite eqüina do outros vertebrados). Miíase por larva de Cochlio-
Oeste (eqüídeos, animais domiciliados, aves). Ence- myia hominivorax (dos bovinos e de outros verte-
falomielite de St. Louis (eqüídeos, animais domicilia- brados).
Propagação as Doenças Parasit rias – oonoses ntroponoses e ntropo oonoses r 41

DOENÇAS QUE SÃO homem e vários roedores – na África; homem e


cão – no Mediterrâneo). Doença de Chagas (ho-
HABITUALMENTE mem, cão, gato, tatus, macacos, ratos, morcegos
ENCONTRADAS NO HOMEM, e outros vertebrados). Tripanossomose pelo Try-
PORÉM TRANSMISSÍVEIS, panosoma rangeli (homem e cão). Toxoplasmose
CIRCUNSTANCIALMENTE, AOS (homem, cão e outros vertebrados). Tétano (ho-
mem, porco, cavalos e outros vertebrados). Es-
VERTEBRADOS porotricose (homem, cavalo e outros vertebra-
Essas doenças têm o nome de antroponoses dos). Histoplasmose (homem, cão e outros verte-
por oposição à zoonose. Assim sendo, antropo- brados). Criptococose (homem, cavalo e outros
noses são doenças do homem transmissíveis, em vertebrados). Dermatofitose (homem, cão, gato
condições naturais, aos vertebrados; e zoonoses, e outros vertebrados). Candidomicose (homem e
doenças dos vertebrados que, em condições na- galinha).
turais, são transmissíveis ao homem.
Poucas são as doenças desse grupo. Damos DOENÇAS DOS VERTEBRADOS
como exemplos as seguintes: amebíase (do ho- QUE, EM CONDIÇÕES NATURAIS,
mem para o cão). Tuberculose (do homem para o
cão e bovinos). Esquistossomose mansônica (do NÃO SE TRANSMITEM AO
homem para roedores e primatas). Sarampo (do HOMEM
homem para macacos em cativeiro). Hepatite A
(do homem para o chimpazé em cativeiro). Ca- Muitas das doenças que ocorrem nos verte-
xumba (do homem para macacos em cativeiro). brados domiciliados e silvestres são provocadas
Infecções pelo Strongyloides stercoralis (do ho- por parasitos estenoxenos ou oligoxenos e, como
mem para o cão). tais, não se encontram no homem. Entre elas ci-
Outras infecções, em circunstâncias particula- taremos as mais importantes:
res, poderão ser transmitidas aos vertebrados,
porém, sem importância epidemiológica.
Viroses
DOENÇAS QUE SÃO Cinomose dos cães domiciliados. Hepatite in-
ENCONTRADAS TANTO NO fecciosa dos cães domiciliados. Gastrenterite infec-
HOMEM QUANTO NOS ciosa dos felinos. Peste suína. Peste bovina. Influen-
VERTEBRADOS, za eqüina. Neurolinfomatose das galinhas. Mixo-
matose dos coelhos. Varíola das aves domiciliadas.
INDEPENDENTEMENTE DE
QUALQUER SITUAÇÃO Bacterioses
CIRCUNSTANCIAL
Nas antropozoonoses, as doenças podem ser Carbúnculo sintomático dos bovinos e outros
transmitidas tanto do homem para os vertebra- animais. Necrobacilose dos bovinos e suínos.
dos quanto destes para o homem. Espiroquetose aviária. Pasteurelose suína. Pioba-
cilose dos bezerros e suínos.
Em um conceito dinâmico, na primeira even-
tualidade a doença seria uma antroponose e, na
segunda, uma zoonose. Protozooses
Principais doenças desse grupo: reoviroses
(homem, boi, macacos). Leishmaniose tegumen- Tricomoníase dos bovinos. Malária das aves,
tar americana (homem, cão, gato, rato silvestre, dos roedores e de quase todos os primatas. Duri-
paca, cutia, rato domiciliado). Leishmaniose vis- na (Trypanosoma equiperdum). Mal de cadeiras
ceral (homem, cão e raposa – no Brasil; homem, (Trypanosoma equinum). Eimerioses das gali-
chacal, cão e roedores silvestres – na Rússia; nhas. Babesiose dos bovinos e do cão.
4 r Parasitologia e Micologia Humana

Helmintoses outras são zoófilas, apenas sugando o homem oca-


sionalmente ou na ausência de seus hospedeiros
Com as exceções citadas nos grupos anterio- habituais.
res, as helmintoses dos animais domiciliados e
silvestres não são observadas no homem. CONCLUSÃO
É de se notar a alta freqüência das helminto-
ses nos suínos, bovinos, ovinos, eqüídeos, mua- Neste capítulo e nos seis que o precederam
res e asininos, nas aves domiciliadas e a inexis- procuramos estabelecer os conceitos básicos
tência dos vermes que as determinam no orga- relativos ao parasitismo bem como delinear os
nismo humano. princípios fundamentais de biologia que são pro-
pedêuticos ao estudo da patologia e da epidemio-
Zooses Parasitárias logia das doenças parasitárias.
Mostramos, inicialmente, que o binômio pa-
É fato bem conhecido dos veterinários e trata- rasito-hospedeiro constitui um tipo particular de
dores de animais que seus sarcoptídeos e ano- biocenose ou comunidade biótica limitada a dois
pluros não parasitam o homem, senão muito ra- seres vivos, a qual se relaciona com o meio am-
ramente. As seguintes doenças dos animais do- biente e com outros seres vivos, de modo a cons-
miciliados, embora relativamente freqüentes, não tituírem um ecossistema.
atingem o homem: O estudo da patologia e da clínica das doen-
Sarna otodética do cão. Sarna corióptica dos ças parasitárias tem por base o conhecimento
bovinos. Sarna psoróptica dos cavalos. Sarna cne- das interações parasito-hospedeiro, enquanto o
midocóptica das galinhas. de sua epidemiologia e profilaxia fundamenta-se
O Sarcoptes scabiei, var. suis pode produzir na ecologia dos parasitos, dos seus hospedeiros
infecções fugazes no homem. habituais, dos seus vetores bem como dos seus
Os anopluros do porco (Haematopinus suis), do reservatórios naturais. Neste livro de iniciação à
boi (Haematopinus euristernus) e dos eqüídeos, Parasitologia Biomédica, tais assuntos são trata-
asininos e muares (Haematopinus asini) não parasi- dos de modo geral, ficando a cargo dos patolo-
tam o homem. gistas e ecologistas, em cursos mais avançados,
As pulgas do cão (Ctenocephalides canis), do os estudos complementares necessários ao co-
gato (Ctenocephalides felis), algumas pulgas do rato nhecimento das doenças parasitárias nos seus
(Leptopsyla segnis, Nosopsyllus fasciatus) e muitas múltiplos aspectos.
SEÇÃO 2

PROTOZOOLOGIA

43
8
Ramo Protozoa Goldfuss,
1817

amo Proto oa ol fuss 1 17

dois reinos, sob certas circunstâncias, passa a ter


Os protozoários são animais unicelulares. Al-
um caráter convencional.
guns biologistas, devido às dificuldades para de-
finir a natureza de certos microrganismos, esta- Há parasitos do homem que foram descritos
beleceram um reino à parte dos animais e vege- como protozoários, como o Rhinosporidium see-
tais, o Reino Protista, no qual se incluem os pro- beri que só muitos anos depois foi considerado
tozoários. um fungo com caracteres semelhantes aos dos
Phycomycetes, e outros como Pneumocystis cari-
Se não é fácil, em certos casos, determinar a
nii, cuja natureza só recentemente foi estabeleci-
natureza animal ou vegetal dos seres vivos infe-
da em definitivo.
riores, não nos parece razoável incluir, entre os
Protistas flagelados clorofilados de nutrição holo-
fítica juntamente com protozoários holozóicos. HABITAT E MODALIDADES DE
Outro aspecto da questão é a existência de
VIDA
flagelados que, expostos à luz solar, compor- Os protozoários podem ser encontrados nos
tam-se holofiticamente, por possuírem grânulos mais variados meios, sob as mais diversas moda-
de clorofila e holozoicamente, quando cultiva- lidades de vida.
dos na obscuridade. Desse modo participam ora
As espécies de vida livre são observadas nos
dos caracteres dos vegetais, ora dos animais.
mares, lagos, águas estagnadas, infusões vegetais,
Exemplo desse fato são os flagelados do gêne- esgotos, enfim, em todas as coleções de água
ro Euglena, que os protozoologistas incluem na onde se encontram substâncias que lhes sirvam
Subclasse Phytomastigina da Classe Mastigopho- de alimento.
ra, e os botânicos, na Divisão Flagellatae da clas- Grande número deles vive associativamente
sificação de Engler. Por outro lado, os Myxomy- com animais ou vegetais, ora como mutualistas,
cetae, considerados vegetais pelos botânicos, ora sob a condição de comensais, ora, ainda, co-
são classificados pelos zoólogos na Classe Rhizo- mo parasitos.
poda, do ramo dos protozoários, sob a denomi-
No látex e na seiva de alguns vegetais superio-
nação Mycetozoa.
res podem viver protozoários flagelados do gêne-
Estas considerações mostram que as afinida- ro Phytomonas, que são transmitidos entre eles
des entre certos vegetais e animais inferiores são por insetos fitófagos. No organismo de muitos in-
muito estreitas e que sua inclusão em um dos vertebrados e vertebrados, incluindo o homem,

45
46 r Parasitologia e Micologia Humana

podem ser encontradas espécies comensais sem ou menor poder invasor. Assim, Trichomonas tenax
qualquer atividade patogênica. e Entamoeba gingivalis são espécies exclusivas da
Como mutualistas são conhecidos os ciliados cavidade oral e amígdalas; Trichomonas vaginalis,
da pança dos ruminantes e do ceco dos eqüídeos, do aparelho genital masculino e do feminino; Pen-
que digerem a celulose e reproduzem-se tão in-
tatrichomonas hominis, do intestino grosso. Outras
tensamente, que as proteínas do seu organismo
espécies podem ser encontradas no sangue, no lí-
somam-se às ingeridas pelos referidos vertebra-
dos. quido cefalorraquidiano, nos tecidos, como o Try-
Na condição de parasitos podem ser encon- panosoma cruzi; e outras, nos histiócitos de vários
trados praticamente em todos os vertebrados e órgãos, como a Leishmania spp.
em grande número de invertebrados.
O homem pode abrigar no seu organismo, O conhecimento da localização das espécies
aproximadamente, três dezenas de espécies, das no organismo, além de orientar sua identifica-
quais a maioria mostra atividade patogênica mais ção, serve para facilitar a compreensão da pato-
ou menos intensa. genia das protozooses, bem como suas altera-
Algumas espécies que têm por habitat o lú-
ções anatomopatológicas e imunológicas. Quan-
men do intestino são consideradas simples co-
mensais, sem participação direta em qualquer to mais profunda a localização e mais estreitas as
processo mórbido no homem. relações entre as células do organismo e o parasi-
A localização dos protozoários no organismo to, mais intensas as lesões e os processos reacio-
varia de espécie e, nesta, de acordo com seu maior nais.
9
Estudo Geral da
Morfologia dos Protozoários de
Interesse Biomédico

stu o eral a Morfologia os Proto o rios e Interesse iom ico

O estudo da morfologia dos protozoários coin- espécie de flagelado intestinal, causador da giar-
cide, em linhas gerais, com o da citologia. Neles, díase.
como nas células dos demais seres vivos, os ele- Nos casos citados, alguns autores costumam
mentos fundamentais são o citoplasma, o núcleo se referir às membranas celulares como conden-
e a membrana. sações do ectoplasma, às quais denominam, de
acordo com sua distensibilidade, periplasta flexí-
A estrutura dos protozoários apresenta graus
vel e periplasta rígido.
variáveis de complexidade, desde as formas mais
Em outros grupos de protozoários, a membra-
simples representadas pelos trofozoítas dos plas-
na apresenta-se microscopicamente diferencia-
módios, agentes da malária, até as dos ciliados
da, como em Balantidium coli, ciliado do intesti-
com organelas diferenciadas para a realização de
no, sendo denominada película por alguns pro-
funções especializadas.
tozoologistas.
Os protozoários que vivem no homem, sejam Os cistos são sempre envoltos por membrana
parasitos ou comensais, podem ser estudados diferenciada que proporciona forma constante
nas formas vegetativas, císticas e de reprodução, em cada espécie. Assim, os cistos de Entamoeba
usando-se, para isso, técnicas de estudo adequa- são esferóides, os de Chiomastix, piriformes, os
das a cada espécie ou grupos de espécies. de Giardia, elipsóides.
As dimensões dos protozoários do homem va-
FORMAS E DIMENSÕES riam desde 1 micrômetro (trofozoítas do Plasmo-
A forma depende da natureza do envoltório do dium falciparum) até 200 mm (Balantidium coli).
corpo do protozoário. Em certas espécies este en- Na mesma espécie notam-se dimensões variá-
voltório é representado por uma simples mem- veis, como, por exemplo, a raça minuta de Enta-
brana celular distensível que permite ao proto- moeba histolytica, com cistos pequenos (10 a 12
zoário vivo, na sua forma vegetativa, assumir su- mm de diâmetro) e as variações no Balantidium
cessivas e diferentes formas, graças a expansões coli, entre 30 e 200 mm de comprimento.
do citoplasma ou pseudópodes considerados or-
ganelas de locomoção próprias dos amebídeos. CITOPLASMA
Em certas espécies, como Giardia intestinalis, É constituído pela porção do protoplasma de-
a membrana celular é mais rígida, condicionan- limitada internamente pelo núcleo ou núcleos e
do uma forma constante e característica dessa externamente pela membrana plasmática. Seu

47
4 r Parasitologia e Micologia Humana

aspecto microscópico varia, conforme examina- ORGANELAS


do a fresco ou após a coloração pelos métodos
usados em protozoologia. As organelas podem ter funções motora, es-
As diferenciações citoplasmáticas nas espécies quelética, nutritiva e excretora.
de interesse médico são menos complexas que as Organelas de função motora – são os pseudó-
observadas nos protozoários de vida livre. podes, flagelos, cílios e membrana ondulante.
As estruturas mais simples são encontradas Os pseudópodes, além da função motora,
nos trofozoítas intra-hemáticos das espécies de exercem papel na apreensão de partículas ali-
Plasmodium e dos amebídeos, nos quais se no- mentares, razão pela qual são também conside-
tam apenas o núcleo e o citoplasma homogêneo. rados organelas de função nutritiva.
Estruturas mais complexas são vistas em Tricho- São expansões citoplasmáticas móveis que se
monas, Balantidium e Giardia (Fig. 1). projetam ora em uma, ora em outra direção, de
modo a apresentar, de instante a instante, uma
forma diferente. Podem ser mais ou menos alon-
gados e distendem-se com maior ou menor rapi-
A dez, segundo a espécie.
B No exame a fresco, os trofozoítas de Entamoe-
ba histolytica apresentam pseudópodes longos e
C
rápidos, ao contrário daqueles da E. coli que são
curtos e de movimentos lentos.
D Os flagelos são organelas longas e muito finas,
E de estrutura muito delicada.
A parte central do flagelo é o axonema e a ex-
terna a bainha. Cada flagelo origina-se em um
corpúsculo denominado blefaroplasto. Nos tri-
panossomídeos, ao lado do blefaroplasto, há um
outro corpúsculo – o corpúsculo parabasal. Ao
conjunto de blefaroplasto e corpúsculo paraba-
Fig. 1 – Giardia intestinalis, trofozoíta. A – Blefaroplasto; sal dá-se o nome de cinetopasto.
B – núcleo; C – corpúsculo enigmático; D – flagelo; E – Os cílios são estruturalmente semelhantes aos
axonema. Original. flagelos, porém mais curtos e sempre mais
numerosos. Cada um insere-se em um grânulo si-
A porção periférica do citoplasma denomi-
tuado no ectoplasma denominado, por alguns
na-se ectoplasma e a interior, endoplasma.
protozoologistas, grânulo basal.
Encontram-se no citoplasma inclusões ali- A membrana ondulante encontrada nos gêne-
mentares e de reserva, várias organelas, além do ros Trichomonas e Trypanosoma, é uma estreita
núcleo ou núcleos bem como áreas diferencia- fímbria do ectoplasma, delimitada externamente
das para determinadas funções. por um flagelo, chamado recorrente, que per-
corre marginalmente o corpo do protozoário
Em algumas espécies de protozoários podem
(Fig. 2).
ocorrer inclusões citoplasmáticas de natureza ali-
Além da motilidade proporcionada pelas or-
mentar. São exemplos as hemácias fagocitadas
ganelas, o protozoário pode se mover, por con-
pelas formas vegetativas da Entamoeba histolyti-
tração do citoplasma, graças a partes diferencia-
ca, assim como bactérias e leveduras no citoplas-
das, às quais denominamos mionemas.
ma da Entamoeba coli e de outros amebídeos in-
Organelas de função esquelética – são estrutu-
testinais não patogênicos.
ras citoplasmáticas relativamente rígidas, que con-
Além das partículas alimentares, pode haver correm para dar ao protozoário uma forma mais
no citoplasma substâncias de reserva, como o gli- ou menos constante.
cogênio dos cistos de amebídeos intestinais e os Nos protozoários de interesse médico, temos
grânulos de volutina dos tripanossomas. a considerar o axóstilo e a costa do Trichomonas,
stu o eral a Morfologia os Proto o rios e Interesse iom ico r 4

Organelas de função nutritiva – estas organe-


las ora são permanentes, ora transitórias. O citós-
toma dos flagelados (Trichomonas e Chilomastix)
e ciliados (Balantidium) é permanente, servindo
para a ingestão de partículas alimentares que
nele são introduzidas, graças aos batimentos dos
flagelos ou cílios que movimentam tais partículas
suspensas nos líquidos onde vivem essas espécies
de protozoários.
Nos ciliados, o citóstoma prolonga-se para o
interior do citoplasma com a citofaringe e, às ve-
zes, com o citoesôfago.
Os vacúolos nutritivos são organelas transitó-
rias observadas durante a digestão de partículas
alimentares fagocitadas ou ingeridas pelos proto-
Fig. 2 – Gênero Trypanosoma, forma tripomastigota. No- zoários.
tar a fina fímbria que representa a membrana ondulante.
Original.
Organelas de função excretora – são represen-
tadas pelos vacúolos excretores e citoprocto en-
o lábio cromófilo do Chilomastix e o axonema contrados nos ciliados. Os primeiros coletam os
dos flagelos da Giardia, na sua porção intracito- produtos resultantes do metabolismo celular
plasmática. que, levados passivamente pela ciclose, são ex-
O axóstilo é uma haste hialina, rígida, que pelidos pelo citoprocto, situado posteriormente
atravessa longitudinal e medianamente a célula no corpo do protozoário.
de Trichomonas, do núcleo à extremidade poste-
rior, onde, às vezes, projeta-se para fora da NÚCLEO
membrana (Fig. 3).
A costa, observada no gênero Trichomonas, é O número de núcleos das formas vegetativas
uma formação linear, curva, cromófila que se dos protozoários pode ser igual ou não ao de
dispõe no citoplasma como um sustentáculo da suas respectivas formas císticas.
membrana ondulante. Na maioria das espécies parasitas ou comen-
O lábio, ou rebordo citostômico do Chilomas- sais do homem, as formas vegetativas são uninu-
tix, é constituído de uma condensação de proto- cleadas, sendo a minoria binucleada e, neste
plasma em torno do citóstoma, no interior do caso, os núcleos podem ser iguais, como em Giar-
qual se movimenta um curto flagelo – flagelo ci- dia intestinalis e Dientamoeba fragilis, ou desi-
tostômico. guais, como no Balantidium coli, em que o ma-
cronúcleo é grande, com função trófica, e outro
pequeno, o micronúcleo, com função genérica
(Fig. 4).
A Os cistos ou formas císticas dos protozoários
B do homem podem ser uni ou plurinucleados.
Os cistos maduros de Iodamoeba bütschlii e
Chilomastix mesnili são uninucleados, como nas
C respectivas formas vegetativas; os de Entamoeba
D histolytica, Entamoeba hartmanni, Endolimax na-
na e Giardia intestinalis têm quatro núcleos; os
E de Entamoeba coli, oito. Os cistos de Balantidium
coli mostram os mesmos núcleos da forma vege-
Fig. 3 – Gênero Trichomonas. A – Blefaroplasto; B – nú- tativa, o macro e micronúcleos.
cleo; C – axóstilo; D – membrana ondulante; E – flagelo O núcleo dos protozoários, como o dos orga-
recorrente. Original. nismos pluricelulares, apresenta os mesmos ele-
5 r Parasitologia e Micologia Humana

A
B

A B
Fig. 5 – Tipos de núcleo dos protozoários. A – Compacto;
Fig. 4 – Balantidium coli, trofozoíta. A – Micronúcleo; B –
B – vesiculoso. Original.
macronúcleo. Original.

gêneros e espécies de protozoários parasitos do


mentos constitutivos, a saber: o nucleoplasma,
homem.
plastina, cromatina e cariomembrana.
Costuma-se descrever nos protozoários dois ti-
pos de núcleo: o compacto e o vesiculoso (Fig. 5). MEMBRANA
No primeiro tipo, a cromatina distribui-se de mo-
do homogêneo por todo o nucleoplasma, de O estudo da membrana dos protozoários já
modo a tomar aspecto uniforme nas preparações foi abordado no início deste capítulo. Ela pode
coradas; no segundo, a cromatina condensa-se ser ou não visível ao exame microscópico.
de modo peculiar a cada espécie em pontos defi-
nidos que, após a coloração, contrasta com o nu- Em geral, as membranas bem diferenciadas
cleoplasma claro, devido à pouca afinidade des- são impermeáveis às soluções, inclusive a dos
te para determinados corantes, como a hemato- medicamentos. A membrana dos cistos de re-
xilina férrica. pouso e de divisão dos amebídeos e flagelados é
É exemplo de núcleo compacto, o macronú- inextensível e assim suas dimensões são inalterá-
cleo do Balantidium coli e de núcleo vesiculoso, veis. O mesmo não acontece com a membrana
o dos amebídeos. dos oocistos dos esporozoários que, distensível e
O conhecimento da estrutura do núcleo é de permeável, permite o seu aumento graças à nu-
fundamental importância para a identificação dos trição do tipo osmotrófico do qual são dotados.
10
Estudo Geral da
Biologia dos Protozoários de
Interesse Biomédico

stu o eral a iologia os Proto o rios e Interesse iom ico

NUTRIÇÃO As espécies parasitas das células, dos espaços


intersticiais e do sangue são osmotróficas e se
Os protozoários comensais e parasitos do ho- nutrem estritamente dos líquidos orgânicos do
mem, como todos os seres que vivem sob as con- hospedeiro ou, possivelmente, do hidrolizado de
dições do comensalismo e parasitismo, são seres suas células, resultante da atividade enzimática
heterotróficos. dos parasitos.
A nutrição pode ser osmotrófica, por osmose
dos líquidos nutritivos existentes no hospedeiro, Digestão
por fagocitose ou ingestão de partículas alimen-
tares (nutrição fagotrófica) e por englobamento As substâncias nutritivas introduzidas na célu-
de gotículas (pinocitose), esta só passível de ob- la do protozoário sofrem a ação de enzimas eleti-
servação à microscopia eletrônica. vas sobre os protídios, os lipídios e os glicídios e,
No caso dos protozoários comensais, as subs- no curso da digestão, as reações químicas do ci-
tâncias nutritivas são restos de alimentos do hos- toplasma e dos vacúolos digestivos passam de
pedeiro, células mortas, exsudatos, excreções e ácidas a alcalinas e vice-versa.
microrganismos, representados por bactérias e le- Nesses últimos anos vem sendo estudada a
veduras. Os amebídeos e flagelados comensais da atividade metabólica dos protozoários, bem co-
boca e do intestino aproveitam, em suas respecti- mo sua utilização e eletividade para determina-
vas localizações, os alimentos assinalados, sendo das substâncias nutritivas.
freqüente a presença de cocos, bacilos e levedu- Os estudos sobre esse assunto são empreendi-
ras no citoplasma de Entamoeba coli, Endolimax dos ora em culturas, ora em inoculações experi-
nana e outros protozoários. mentais, e tendem a demonstrar o grau de utili-
Os protozoários parasitos do intestino, em cer- zação daquelas substâncias, bem como os fato-
tas condições, assumem características de sim- res necessários à multiplicação dos protozoários.
ples comensais, como Entamoeba histolytica na As investigações sobre a biologia dos proto-
sua forma minuta, não patogênica. De outro mo- zoários, que apenas mencionamos, são de in-
do, modificada a situação biológica do intestino, teresse doutrinário e prático, uma vez que é da
E. histolytica sofre modificação da forma minuta bioquímica do seu metabolismo intermediário
para a magna e passa a exercer sua atividade pa- que poderemos alcançar novos conhecimentos
togênica como parasito osmotrófico e hematófa- relacionados com a terapêutica e a imunoquími-
go. ca das protozooses.

51
5 r Parasitologia e Micologia Humana

RESPIRAÇÃO portamento idêntico ao dos flagelados intestinais


e de Balantidium coli.
Como bactérias, os protozoários podem ser
Os tripanossomas e leishmânias em cultura
classificados de acordo com sua maior ou menor
são aeróbios, porém podem suportar uma relati-
exigência ao oxigênio livre em: aeróbios, anae-
va anaerobiose, havendo evidência de que, sob
róbios, microaerófilos e facultativos.
essa condição, diminuam, ou mesmo paralisem,
Os aeróbios, ou oxibióticos, recebem oxigê- sua reprodução.
nio livre do ar por difusão através de sua mem-
brana; os anaeróbios, ou anoxibióticos, aprovei-
tam o oxigênio liberado no curso de processos EXCREÇÃO
metabólicos no interior da célula; os microaeró-
Nas espécies de protozoários que vivem no
filos vivem em um meio de baixa tensão de oxi-
homem, salvo para Balantidium coli provido de
gênio e os facultativos podem, indiferentemente,
vacúolos excretores e do citoprocto, a excreção
participar de uma ou outra modalidade de respi-
dos catabólitos se processa por exosmose através
ração.
da membrana.
Os protozoários do lúmen intestinal vivem em
anaerobiose, pois que a tensão de oxigênio neste Para algumas espécies se tem demonstrado a
local é praticamente nula; ao contrário, as espé- natureza dos produtos resultantes do metabolis-
cies sanguícolas e as dos espaços intercelulares mo dos glicídios e protídios, havendo poucos es-
dos tecidos são consideradas aeróbias. tudos com relação aos lipídios.
Difícil é saber se os protozoários intracelula- Em culturas de Leishmania tropica, L. donova-
res são aeróbios ou não. É possível que aprovei- ni, L. braziliensis e Trypanosoma cruzi, em aero-
tem o oxigênio difundido através da membrana biose, verificou-se que os produtos finais do me-
da célula parasitada ou o que resulta dos proces- tabolismo dos glicídios eram os ácidos lático, fór-
sos metabólicos intracelulares. mico e succínico.
Em relação aos protozoários intestinais, lem- Nas culturas de Leishmania tropica e Trypano-
bramos que a tensão do oxigênio na mucosa in- soma cruzi o principal produto resultante da de-
testinal, segundo vários autores, é semelhante à gradação das proteínas é a amônia.
dos espaços intercelulares dos órgãos, e que o
Digno de nota é a formação da hemozoína
oxigênio se difunde da mucosa para o lúmen in-
pelas espécies de Plasmodium, que é um catabó-
testinal.
lito resultante do metabolismo da hemoglobina
Desse modo, o grau de anaerobiose ou de ae-
da hemácia parasitada.
robiose dos protozoários intestinais deverá ser
condicionado à sua maior ou menor proximida-
de da mucosa onde é maior a tensão de oxigê- SECREÇÃO
nio.
Além das excreções resultantes do metabolis-
Outro fato a ser considerado é a influência que
mo celular, os protozoários eliminam secreções
a microbiota aeróbia exerce em certas porções li-
responsáveis por alterações mórbidas nas células
mitadas do organismo, delas retirando o oxigênio
e tecidos adjacentes e a distância, quando carrea-
e, assim, estabelecendo um micro-habitat anaeró-
das pela corrrente sanguínea.
bio ou microaerófilo, como se observa nas infec-
ções alvéolo-dentárias por Trichomonas tenax e As secreções elaboradas pelos protozoários
no trato geniturinário por Trichomonas vaginalis. suscitam, no organismo, reações celulares e hu-
Em culturas, o comportamento biológico dos morais evidenciáveis por provas in vitro e in vivo,
protozoários parasitos do homem ainda não está uma vez que possuem atividade antigênica ca-
definitivamente estudado. paz de provocar a formação de anticorpos.
Entamoeba histolytica, ainda que se desenvol- As secreções, na sua maioria, são meras subs-
va bem em anaerobiose, suporta uma tensão tâncias de ação tóxica, sendo as toxinas verdadei-
moderada de oxigênio e, assim, até certo ponto, ras, raras nos protozoários, como a “sarcocistina”
é facultativamente anaeróbia e microaerófila. Com- elaborada pelo Sarcocystis.
stu o eral a iologia os Proto o rios e Interesse iom ico r 53

REPRODUÇÃO pora, com duas espécies agentes da isosporose,


Toxoplasma e Plasmodium, com as quatro espé-
Há protozoários que se reproduzem exclusi- cies que produzem a malária humana.
vamente por via assexuada, outros, só sexuada- Em princípio, na copulação, os elementos se
mente, e outros ainda, que, no seu ciclo biológi- diferenciam em gametas, um masculino e outro
co, alternam os dois modos de reprodução. feminino, que se unem por singamia, tendo
Em resumo, são as seguintes as modalidades como resultado ovo ou zigoto. Este, evoluindo,
de reprodução dos protozoários: transforma-se em oocisto, no interior do qual se
1 – Reprodução assexuada: formam numerosos esporozoítas. Estes esporo-
a) por divisão binária ou cissiparidade; zoítas resultantes da reprodução sexuada, ao pe-
b) por divisão múltipla ou esquizogonia. netrarem em células do hospedeiro, iniciam a
2 – Reprodução sexuada: fase assexuada do ciclo evolutivo dos esporozoá-
a) por copulação; rios. Seu estudo será feito com minúcia ao serem
b) por conjugação. abordados os esporozoários de interesse biomé-
Na divisão binária a célula do protozoário se dico.
divide por mitose ou amitose, resultando em A reprodução sexuada por conjugação é ob-
suas células iguais. Em algumas espécies a divi- servada exclusivamente nos ciliados, dos quais
são se processa em qualquer sentido, como nos apenas o Balantidium coli parasita o homem.
amebídeos; em outras, no sentido longitudinal, Nesse tipo de reprodução, dois indivíduos
como nos tripanossomídeos e, mais raramente, iguais se unem temporariamente para permutar
no transversal, como em Balantidium coli. parte de sua substância nuclear, separando-se
A divisão múltipla ou esquizogônica constitui depois.
a fase assexuada da alternância de gerações dos Com base na reprodução de ciliados de vida
esporozoários. Em essência, de uma célula-mãe livre, sabe-se que dois indivíduos entram em
resultam, por divisão, a um só tempo, várias cé- contato. O micronúcleo de cada um dos conju-
lulas-filhas. Tal fenômeno é observado nas es- gantes divide-se duas vezes sucessivamente, for-
pécies de Plasmodium, agentes da malária, em mando quatro núcleos, dos quais três degene-
sua posição intracelular nas células parenquima- ram. O micronúcleo restante divide-se mais uma
tosas do fígado e nas hemácias. vez resultando em um pronúcleo estacionário e
Na fase do parasitismo intracelular, o núcleo um migrador. Os pronúcleos migradores cruzam
do protozoário é único e, em seguida, graças às para o conjugante parceiro e se fundem aos pro-
sucessivas divisões nucleares, formam-se vários núcleos estacionários. Nesse momento, os con-
núcleos-filhos que permanecem no interior do jugantes se separam, recebendo o nome de ex-
protozoário. Em uma fase mais avançada do pro- conjugantes. Em cada ex-conjugante o sincário
cesso reprodutor, o citoplasma se condensa em se divide sucessivamente, produzindo oito nú-
torno de cada um dos núcleos resultantes da di- cleos, dos quais quatro permanecem com os ca-
visão do núcleo primitivo e, logo após, toda a cé- racteres do micronúcleo, enquanto os outros
lula do Plasmodium se fragmenta em tantas no- quatro se transformam em macronúcleos. Nessa
vas células quantos os núcleos-filhos. ocasião, cada ex-conjugante sofre duas sucessi-
Nesse momento, a célula parasitada é destruí- vas divisões, resultando em quatro indivíduos,
da, e os novos elementos parasitários resultantes morfologicamente iguais aos conjugantes da fase
da esquizogonia são libertados e, se não forem inicial da conjugação, ultimando a reprodução
destruídos pelas reações do organismo, pene- sexuada dos ciliados.
tram em outras células para repetir o mesmo Em Balantidium coli, único ciliado parasito do
processo assexuado de reprodução. homem, até o momento não são bem conheci-
A copulação é o processo sexuado de repro- das as fases sucessivas de sua reprodução por
dução dos esporozoários, que se alterna com a conjugação, inferindo-se dos estudos de outras
divisão múltipla ou esquizogônica. Ela é encon- espécies que são, em linhas gerais, as mesmas
trada em três gêneros parasitos do homem: Isos- observadas nos demais ciliados.
11
Classificação Geral dos
Protozoários – Posição Sistemática
das Espécies de Interesse

lassificação eral os Proto o rios – Posição istem tica as sp cies e Interesse

Das numerosas classificações dos Protozoários, B – Sub-ramo Ciliophora Doflein, 1901. Motili-
adotamos, em parte, a de Wenyon (1926) que, dade realizada por meio de cílios.
embora antiga, satisfaz as exigências de um curso Grupo I – Protociliata Metcalf, 1918. Com dois
de Protozoologia Biomédica. ou mais núcleos iguais; reprodução assexuada
Preliminarmente, daremos a classificação do por divisão binária.
ramo Protozoa, até classes, com suas respectivas Classe Opalinata Wenyon, 1926. Com os carac-
caracterizações, e, posteriormente, abordare- teres do grupo. Sem interesse biomédico.
mos o estudo das subclasses, ordens e famílias Grupo II – Euciliata Metcalf, 1918. Com um ma-
que incluem espécies de interesse biomédico. cronúcleo e um micronúcleo. Reprodução se-
Entre centenas delas, apenas 3 dezenas po- xuada por conjugação; reprodução assexuada
dem ser encontradas no homem, ora na condi- por divisão binária.
ção de comensais, ora na de parasitos. 1 – Classe Ciliata Perty, 1852. Cílios presentes
durante toda a vida do protozoário.
RAMO PROTOZOA GOLDFUSS, 2 – Classe Suctoria Claparède e Lachmann,
1817 1858. Cílios presentes apenas na fase jo-
vem, que são substituídos por tentáculos
A – Sub-ramo Plasmodroma Doflein, 1901. Mo- suctoriais na fase adulta. Sem interesse bio-
tilidade realizada por meio de pseudópodes médico.
ou flagelos.
1 – Classe Rhizopoda von Siebold, 1845. Fase POSIÇÃO SISTEMÁTICA DOS
predominante amebóide; locomoção por
meio de pseudópodes; de vida livre ou pa- PROTOZOÁRIOS DE INTERESSE
rasitos. (Modificado)
2 – Classe Mastigophora Diesing, 1865. Fase
predominante flagelada; locomoção por Classe Rhizopoda
meio de flagelos; de vida livre ou parasitos.
3 – Classe Sporozoa Leuckart, 1879. Parasitos Ordem Amoebida Calkins, 1902.
obrigatórios; reprodução sexuada por co- Família Amoebidae Bronn, 1859.
pulação resultando em oocistos, no interior Gênero Entamoeba Casagrandi e Barbagallo,
dos quais se formam os esporozoítas; repro- 1895.
dução assexuada por esquizogonia. E. histolytica Schaudinn, 1903.

55
56 r Parasitologia e Micologia Humana

E. coli (Grassi, 1879) Casagrandi e Barbagallo, Gênero Trypanosoma Gruby, 1843.


1895. T. gambiense Dutton, 1908.
E. gingivalis (Gros, 1849) Brumpt, 1910. T. rhodesiense Stephens e Fantham, 1910.
E. hartmanni von Prowazek, 1912. T. cruzi Chagas, 1909.
Gênero Endolimax Kuenen e Swellengrebel,
T. rangeli Tejera, 1920.
1917.
E. nana (Wenyon e O’Connor, 1917). Ordem Diplomonadida Wenyon, 1926.
Gênero Iodamoeba Dobell, 1919. Família Octomitidae Minchin, 1912.
I. bütschlii (Prowazek, 1912) Dobell, 1919. Gênero Giardia Kunstler, 1882.
Gênero Dientamoeba Jepps e Dobell, 1918. G. intestinalis (Lambl, 1859).
D. fragilis Jepps e Dobel, 1918.
Classe Sporozoa
Classe Mastigophora
Ordem Coccidiida Labbé, 1899.
Subclasse Zoomastigina Doflein, 1916. Família Eimeriidae Poche, 1913.
Ordem Protomonadida Wenyon, 1926. Gênero Isospora Aimé Schneider, 1881.
Família Cercomonadidae Kent, 1880.
I. belli Wenyon, 1923.
Gênero Enteromonas Fonseca, 1915.
E. hominis Fonseca, 1915. Família Cryptosporidae.
Família Embadomonadidae Alexeief, 1917. Gênero Cryptosporidium.
Gênero Embadomonas Mackinnon, 1911. Família Sarcocystidade Poche, 1913.
E. intestinalis (Wenyon e O’Connor, 1917). S. hominis (Rivolta, 1878).
Família Chilomastigidae Wenyon, 1926. S. lindemanni Rivolta, 1878.
Gênero Chilomastix Alexeief, 1910. Gênero Toxoplasma Nicolle e Manceaux, 1908.
C. mesnili (Wenyon, 1910). T. gondii Nicolle e Manceaux, 1908.
Família Trichomonadidade Wenyon, 1926. Família Plasmodiidae Mesnil, 1903.
Gênero Trichomonas Donné, 1837.
Gênero Plasmodium Marchiafava e Cell, 1885.
T. tenax (Müller, 1773).
T. vaginalis Donné, 1837. P. vivax (Grassi e Feletti, 1890).
Gênero Pentatrichomonas Davaine, 1860. P. falciparum (Welch, 1897).
P. hominis (Devaine, 1860). P. malariae (Laveran, 1881).
Família Trypanosomatidae Doflein, 1901. P. ovale Stephens, 1922.
Gênero Leishmania Ross, 1903.
L. donovani (Laveran e Mesnil, 1903); L. in- Classe Ciliata
fantum (Nicolle, 1908).
L. (i) chagasi (Cunha e Chagas, 1973). Ordem Heterotrichida Delage e Herouard,
L. tropica (Wright, 1903); L. major (Yakimoff, 1896.
1915). Família Bursariidae Perty, 1852.
L. braziliensis Vianna, 1911; L. amazonensis Gênero Balantidium Claparède e Lachmann,
Lainson e Shaw, 1972; L. peruviana; L. mexicana; 1858.
L. panamensis; L. guyanensis. B. coli (Malmsten, 1857).
12
Classe Rhizopoda
Von Siebold, 1845.
Amebídeos de Interesse

lasse i opo a on iebol 1 45 meb eos e Interesse

Wenyon (1926) inclui na classe Rhizopoda as Iodamoeba e Dientamoeba, de que daremos a


seguintes ordens: Amoebida, Heliozoa, Radiola- seguir o diagnóstico baseado na estrutura do nú-
ria, Foraminifera e Mycetozoa. Destas cinco or- cleo, evidenciada pela hematoxilina férrica, o
dens, só Amoebida apresenta espécies de inte- corante de escolha para os protozoários intesti-
resse biomédico. nais.

ORDEM AMOEBIDA CALKINS, Gênero Entamoeba Casagrandi e


1902 Barbagallo, 1895
Protozoários parasitos de animais ou de vida Amebas de dimensões variando de 5 a 50 mm.
livre; organização celular simples; um ou mais Formas vegetativas uninucleadas, salvo nos mo-
núcleos vesiculosos; desprovidos de carapaça ou mentos da divisão binária em que apresentam 2
estrutura esquelética; motilidade exercida por núcleos ou mais nas formas jovens excistadas. Cis-
pseudópodes; nutrição heterotrófica dos tipos tos maduros com 4 ou 8 núcleos, raramente mais.
osmotrófico e fagotrófico; reprodução geralmen- Núcleo vesiculoso, com cariossomo central ou
te por divisão binária. subcentral pequeno, cromatina em grânulos ou em
Desta ordem interessa-nos apenas a família massas compactas junto à cariomembrana; rede
Amoebidae, que inclui as espécies parasitas do de linina delicada, às vezes com escassos grânulos
homem. de cromatina (Fig. 1). Espécies de interesse: E. his-
tolytica, E. coli, E. gingivalis e E. hartmanni.
Família Amoebidae Bronn, 1859
Nesta família se classifica um grande número Gênero Endolimax Kuenen e
de amebas de vida livre e alguns parasitos ou co- Swellengrebel, 1917
mensais do homem e de animais.
As espécies de vida livre são na sua maioria Amebas geralmente pequenas, variando de 5
encontradas nas coleções d’água ricas em maté- a 12 mm. Formas vegetativas uninucleadas. Cis-
ria orgânica em decomposição, como as valetas, tos com 1, 2 ou 4 núcleos. Núcleo vesiculoso,
os poços poluídos, as infusões vegetais, os esgo- com grande cariossomo central ou excêntrico e
tos e mesmo o solo úmido. escassa cromatina distribuindo-se homogenea-
As espécies hóspedes do homem pertencem mente junto à cariomembrana (Fig. 2). Espécie
aos seguintes gêneros: Entamoeba, Endolimax, de interesse: E. nana.

57
5 r Parasitologia e Micologia Humana

Gênero Dientamoeba Jepps e


Dobell, 1918
A
Amebas variando de 5 a 12 mm. Formas vege-
tativas habitualmente com 2 núcleos, menos fre-
qüentemente uninucleadas. Cistos desconheci-
B dos. Núcleo vesiculoso com vários grânulos de
C cromatina apregados no centro, formando um
cariossomo característico e grânulos isolados,
muito pequenos, junto à membrana nuclear (Fig.
Fig. 1 – Estrutura do gênero Entamoeba, trofozoíta. A –
4). Espécie de interesse: D. fragilis.
Núcleo; B – citoplasma; C – membrana. Original.

B
A

B
C
C
D

Fig. 2 – Estrutura do gênero Endolimax, trofozoíta. A –


Núcleo; B – citoplasma; C – membrana. Original. Fig. 4 – Estrutura do gênero Dientamoeba. A – Núcleo; B –
citoplasma; C – núcleo; D – membrana. Original.

Gênero Iodamoeba Dobell, 1919 ESPÉCIES DE INTERESSE


Amebas de tamanho médio, variando de 8 a
15 mm. Formas vegetativas e císticas uninuclea- O estudo das espécies de amebídeos de inte-
das; cistos com um vacúolo iodófilo bem delimi- resse biomédico pode ser empreendido no exa-
tado no citoplasma. Núcleo vesiculoso com volu- me microscópico do material a fresco, no líquido
moso cariossomo contornado em parte ou total- de Lugol e após fixação e coloração pela hema-
mente por grânulos menos corados que o carios- toxilina férrica. Cada uma das espécies deve ser
somo (Fig. 3). Espécie de interesse: I. bütschlii. conhecida nas suas formas císticas e vegetativas.

ENTAMOEBA HISTOLYTICA
SCHAUDINN, 1903
É o agente da amebíase, vivendo no lúmen in-
A testinal ou nos tecidos profundos do intestino, fí-
B gado e outros órgãos. Foi descoberto por Losch
C (1875) nas fezes de um doente em São Peters-
burgo, hoje Leningrado, antiga capital da Rússia,
que lhe deu o nome de Amoeba coli, nome que
deveria ter prioridade sobre todos os demais
aplicados a esse parasito. A rigor, a ameba, pato-
gênica para o homem, deveria ser denominada
Fig. 3 – Estrutura do gênero Iodamoeba, trofozoíta. A – Entamoeba coli e outro nome deveria ser confe-
Núcleo; B – citoplasma; C – membrana. Original. rido à não patogênica. No momento atual, qual-
lasse i opo a on iebol 1 45 meb eos e Interesse r 5

quer tentativa para se atender às regras de no-


menclatura poderia criar confusão na literatura A
médica sobre o assunto e seria difícil contrariar a
tradição do nome Entamoeba histolytica criado
por Schaudinn, em 1903. Assim, devemos consi- B
derar esse nome válido para a Entamoeba de cis-
tos tetranucleados, capaz de invadir os tecidos, e C
o de Entamoeba coli para a espécie não patogê-
nica de cistos octonucleados.
D

MORFOLOGIA
A) Formas vegetativas – suas dimensões são mui- Fig. 6 – Trofozoíta de E. histolytica, forma magna. A –
to variáveis entre as raças e na mesma raça, Ectoplasma; B – núcleo; C – endoplasma; D – hemácia fa-
de acordo com certos fatores dependentes do gocitada. Original.
habitat no organismo ou em culturas.
Há raças normalmente pequenas e outras gran- rença entre o endoplasma granuloso e o ecto-
des, estas consideradas patogênicas. No mesmo in- plasma hialino.
divíduo, em fases diversas da infecção amebiana, No exame a fresco é difícil a identificação des-
ora encontramos, na mesma amostra de material te amebídeo, salvo se um ou mais glóbulos ver-
em exame, formas pequenas a que denominamos melhos fagocitados estiverem presentes no endo-
minutas (Fig. 5), medindo 12 a 20 mm de diâmetro; plasma. As hemácias são facilmente reconhecidas
ora as formas grandes que podem atingir 50 mm, no interior da célula pelo seu contorno circular e
são muito móveis, que com freqüência exibem he- a cor amarelada que apresentam. Geralmente
mácias fagocitadas no citoplasma, as quais são de- elas se encontram no interior de vacúolos digesti-
nominadas magnas (Fig. 6). vos que apresentam um líquido de tonalidade es-
As formas vegetativas são observadas nas fe- verdeada. As hemácias apresentam diâmetros va-
zes diarréicas, geralmente contendo sangue e riáveis, por serem digeridas da periferia para o
muco e raramente no muco que acompanha as centro. Tratadas pelo líquido de Lugol, as formas
fezes moldadas ou pastosas. Vistas a fresco, à vegetativas apresentam aspecto inexpressivo em
temperatura de 25°C, movem-se ativamente por sua caracterização.
meio de pseudópodes que se projetam, um de Quando corados pela hematoxilina férrica, os
cada vez, deslocando a célula em um ou em ou- trofozoítas apresentam sua estrutura em toda
tro sentido, graças a estímulos de difícil determi- plenitude (Fig. 7).
nação. Movendo-se o protozoário, vê-se a dife- O núcleo esferóide, nitidamente individuali-
zado no interior do citoplasma, ostenta delicada
disposição de seus elementos: o cariossomo cen-
A
tral ou ligeiramente excêntrico, pequeno e de
contorno regular; o carioenquilema claro, às ve-
zes traçado em sentido radial pela rede de lini-
B na; e a cromatina disposta ora em grânulos isola-
C dos junto à membrana nuclear, ora formando
placas compactas intensamente coradas, tam-
D bém rentes à cariomembrana.
O citoplasma, quer na forma minuta, quer na
magna, é finamente granuloso, deixando, em ge-
ral, revelar a diferença entre o endo e o ectoplas-
ma. Nas formas hematófagas, os eritrócitos fago-
Fig. 5 – Trofozoíta de E. histolytica, forma minuta. A – citados se apresentam corados em escuro pela
Ectoplasma; B – cariomembrana; C – cariossomo; D – en- hematoxilina e com os diâmetros variáveis, co-
doplasma. Original. mo já nos referimos anteriormente. Habitual-
6 r Parasitologia e Micologia Humana

tingui-los dos cistos de E. coli, cujos cromatóides


têm as extremidades aguçadas (Figs. 8 e 9).
Às vezes, nas mesmas fezes, vêem-se cistos
uni, bi e tetranucleados e, neste caso, o tamanho
dos núcleos vai se reduzindo gradualmente das
formas uninucleadas para as tetranucleadas.

Fig. 7 – Microfotografia de trofozoíta de E. histolytica. For-


ma magna, corada pela hematoxilina, 1.000 X. Original.

mente não são observados no citoplasma fungos


e bactérias, fato que serve para se distinguir esta
ameba de Entamoeba coli.
Fig. 8 – Microfotografia de cisto uninucleado de E. his-
B) Formas císticas – são globulosas, contornadas
tolytica; corado pela hematoxilina, 1.000 X. Original.
por delgada membrana e medem de 10 a 20
mm de diâmetro.
Examinadas a fresco, mostram-se claras e ligei-
ramente refringentes, apresentando os núcleos
indistintos e os corpos cromatóides nítidos, com
forma cilindróide.
No Lugol, embora ainda de modo impreciso,
pode-se individualizar o núcleo ou os núcleos,
que nos cistos maduros são 4. É freqüente se ver
nos cistos da E. histolytica, tratados pelo Lugol,
um vacúolo contendo glicogênio, que se cora de Fig. 9 – Cisto tetranucleado de E. histolytica, corado pela
hematoxilina. Notar os corpos cromatóides. Original.
modo peculiar pelo iodo, razão pela qual é cha-
mado vacúolo iodófilo. Este vacúolo é de contor-
no pouco nítido e seu volume é sempre máximo Reprodução e Evolução
nos cistos uninucleados.
Nos preparados microscópicos corados pela
hematoxilina, os cistos da E. histolytica são mais A Entamoeba histolytica, em seu ciclo vital,
bem caracterizados. Os núcleos são bem visíveis, comporta sucessivos estágios evolutivos, incluin-
com sua estrutura idêntica à dos trofozoítas e em do as formas vegetativas ou trofozoítas que ante-
número de 1, 2 ou 4. Com freqüência apresen- cedem o encistamento, as formas císticas ou cis-
tam no seu citoplasma um ou mais cromatóides tos resultantes do encistamento e as formas me-
ou inclusões siderófilas em forma de bastonetes tacísticas que se originam dos cistos, em conse-
com as extremidades rombas, o que permite dis- qüência do excistamento.
lasse i opo a on iebol 1 45 meb eos e Interesse r 61

Os tofozoítas do lúmen intestinal e dos teci- pelo meio externo e introdução no organismo
dos se reproduzem por divisão binária, possivel- por via oral. Isto significa que os cistos maduros
mente por mitose. Inicialmente, divide-se o nú- só se tornam viáveis quando sujeitos aos fatores
cleo e depois o citoplasma, havendo assim um do meio ambiente ou à ação dos líquidos das
período em que a forma vegetativa se apresenta partes altas do trato digestório.
binucleada. A infecção se realiza pela ingestão dos cistos
A ontogenia se caracteriza pela monoxenia. A maduros contidos na água e em alimentos conta-
evolução mostra duas formas vegetativas: uma minados. Os cistos, sob a ação dos líquidos di-
do lúmen intestinal, minuta, não patogênica, ou- gestivos, sofrem o excistamento de que resulta
tra tecidual, patogênica, magna, hematófaga, re- uma ameba tetranucleada, que, por divisão múl-
sultante da transformação da forma minuta que, tipla, origina 4 ou 8 amébulas uninucleadas. Es-
sob certas condições do meio intestinal ou dos tas, desenvolvendo-se, constituem a forma mi-
tecidos, passa da sua condição de comensal a nuta que habita o lúmen do órgão, mais precisa-
parasito com virulência mais ou menos exaltada. mente a parede da mucosa em função do pH.
Consideramos dois ciclos; um, denominado nor- Na vigência do desequilíbrio da microbiota, já
mal, representado pela forma minuta, processan- anteriormente mencionado, a E. histolytica deixa
do-se totalmente no lúmen intestinal, portanto, a condição de comensal e passa à de parasito e
sem invasão dos tecidos. Outro, patogênico, no patógeno, configurada pela forma magna que é
qual a ameba, sob a influência de fatores condi- virulenta, hematófaga e tecido-invasora.
cionantes, principalmente representados pelas
No interior dos tecidos, a ameba se multiplica
variações da microbiota com dominância Gram-
por divisão binária, resultando em um grande nú-
positiva ou negativa, invade os tecidos onde se
mero de elementos parasitários que ampliam os
multiplica por divisão binária e determina lesões
processos lesionais, inicialmente de natureza ne-
de intensidade variável (Fig. 10).
crótica e, secundariamente, complicados pela in-
Os aspectos doutrinários que estamos abor-
vasão bacteriana. As amebas no recesso dos teci-
dando de modo conciso têm grande significação
dos não apresentam hemácias no seu endoplas-
para uma melhor conceituação da etiopatogenia
ma, podendo entretanto apresentá-las, quando li-
da amebíase e mais correta avaliação dos dados
vres, nos exsudatos sanguinolentos, tal como as
estatísticos que revelam em diferentes grupos
observamos nas fezes disentéricas de indivíduos
populacionais elevada incidência de E. histolyti-
portadores da forma intestinal aguda da amebía-
ca e baixa morbidade da amebíase.
se.
O encistamento e o excistamento têm lugar
no lúmen intestinal, representando fases do ciclo
evolutivo normal ou não patogênico.
ENTAMOEBA COLI (GRASSI, 1879),
No excistamento é considerado como fator CASAGRANDI E BARBAGALLO,
indispensável a atividade da lipase ativada por 1895
esteróides existentes na bílis, sendo importante
no processo o pH alcalino. Este amebídeo é um comensal do intestino do
O encistamento, exclusivo da forma minuta, homem, observado em extensas áreas do globo,
está na dependência da dieta do portador, como principalmente nas regiões intertropicais. Até os
também das condições adversas ao parasito, no primeiros anos do século XX, esse protozoário foi
lúmen intestinal. O citoplasma torna-se homo- confundido com a E. histolytica, devendo-se a
gêneo, a motilidade desaparece e o periplasta vários autores os estudos que permitiram sua di-
flexível se diferencia na membrana cística, resul- ferenciação desta espécie: Grassi, (1879-1888),
tando, assim, o cisto uninucleado. O núcleo do Quincke e Ross (1893), Casagrandi e Barbagallo
cisto sofre duas divisões sucessivas, passando de 1895-1897) e por fim Schaudinn (1903), que es-
uni a binucleado e, finalmente, a tetranucleado. tabeleceu em definitivo a diferença entre as duas
Estes cistos tetranucleados não estão sujeitos espécies.
ao excistamento no organismo, não sendo obser- Esse comensal alimenta-se, por osmose, dos
vada a auto-infecção sem a passagem dos cistos líquidos do lúmen intestinal e, fagotroficamente,
6 r Parasitologia e Micologia Humana

A B

6
7
5

4 8

9
3

2 10

1 11

15

13

14

12

Fig. 10 – Ciclos evolutivos da Entamoeba histolytica. Segundo Piekarski, em “Tablas de Parasitologia Medica” – Edição Bayer.
Ciclo patogênico: A e B – trofozoítas da forma magna; A – nas fezes recentes de amebíase aguda, coloração natural; B – corte
esquemático da parede do intestino grosso parasitado, coloração pela hematoxilina férrica. A reprodução se faz por divisão bi-
nária. Ciclo normal ou apatogênico: 1 – cisto maduro tetranucleado que chega ao intestino grosso; 2 e 5 – desenvolvimento
que origina ameba tetranucleada conduzindo, por divisões nucleares, a formação de 8 amebas distintas; 6 e 8 – trofozoítas da
forma minuta que se reproduzem, por divisão binária, no lúmen intestinal; 9 a 11 – encistamento (respectivamente, cisto mo-
nonucleado típico com corpos cromatóides, cistos binucleado e tetranucleado maduros); 12 – contaminação ambiental; 13 a
15 – mecanismo de infecção (veiculação de cistos para os alimentos através de moscas; 13 – via hídrica; 14 e 15 – contato com
alimentos por mãos contaminadas).
lasse i opo a on iebol 1 45 meb eos e Interesse r 63

por ingestão de bactérias, fungos e mesmo ou- los de cromatina grosseiros e suco nuclear mais
tros protozoários ali encontrados. escuro que o observado na E. histolytica.
O citoplasma normalmente não mostra apre-
Morfologia ciável diferenciação entre o endo e o ectoplasma
A) Formas vegetativas – essas formas medem 15 a e apresenta inúmeros vacúolos contendo bacté-
40 mm, são móveis e, no exame a fresco em rias que se coram em negro pela hematoxilina.
25°C, sua motilidade é pequena em compara- Esse aspecto é, por si só, suficiente para uma se-
ção com a E. histolytica. Os pseudópodes, gura diferenciação de E. histolytica, salvo se esta
àquela temperatura, geralmente se distendem apresenta os fenômenos degenerativos resultan-
lentamente e são pouco salientes e, desse tes da fixação do material em estudo, muitas ho-
modo, observa-se que o ectoplasma é fraca- ras após sua emissão pelo doente, quando, en-
mente diferenciado do endoplasma. Nas fe- tão, surgem alterações picnóticas e o citoplasma
zes líquidas ou pastosas, nem sempre é possí- se torna vacuolizado.
vel uma segura diferenciação entre E. coli e E. B) Formas císticas ou cistos – são globulosas e
histolytica, quando esta se encontra sob a for- medem 15 a 30 mm de diâmetro. A fresco são
ma minuta, sendo necessária a coloração pela refringentes, apresentam membrana diferen-
hematoxilina férrica para a evidenciação dos ciada e não podem ser distinguidas dos cistos
caracteres de cada um dos amebídeos. de E. histolytica.
Ao exame microscópico direto, podem-se ob- Corados pelo Lugol, os núcleos, em número
servar no seu citoplasma, vacúolos contendo bac- de 1, 2, 4 ou 8, são perfeitamente individualiza-
térias com morfologia de cocos e bacilos, levedu- dos com seu cariossomo nítido. É freqüente ne-
ras e raramente cistos de Giardia intestinalis. Nos les um vacúolo iodófilo de contorno pouco pre-
trofozoítas de E. coli jamais se observaram hemá- ciso, sendo este vacúo máximo nos cistos binu-
cias (Fig. 11). cleados, diferindo dos cistos de E. histolytica, nos
A observação do núcleo a fresco é difícil, sen- quais o vacúolo é máximo nos cistos uninuclea-
do apenas notado por ser mais refringente que o dos.
endoplasma, no seio do qual ele se encontra. Fi- Os cistos maduros se caracterizam por serem
xado o material e corado pela hematoxilina férri- octonucleados e os imaturos, com 1, 2 ou 4 nú-
ca, podemos observar minuciosamente toda a cleos, só podem ser diferenciados dos de E. his-
estrutura da ameba. De modo geral, essa estrutu- tolytica tomando-se em consideração outros as-
ra é grosseira em relação à da Entamoeba histoly- pectos morfológicos.
tica. O núceo apresenta o cariossomo relativa- Nas preparações pelo Lugol, os cistos de E.
mente volumoso, geralmente excêntrico, grânu- coli apresentam os núcleos bem individualiza-
dos, com seu cariossomo distinto; tingem-se de
castanho-amarelado e o vacúolo iodófilo, quan-
A B do presente, cora-se de castanho-escuro. Os cis-
tos de E. histolytica, ao contrário, apresentam os
núcleos pouco individualizados, o citoplasma é
amarelo-claro ou amarelo-esverdeado e o va-
cúolo, se existente, é castanho-claro ou amare-
lo-esverdeado.
Nas preparações coradas pela hematoxilina,
os cistos de E. coli se coram bem, porém sua es-
trutura não aparece tão nítida quanto nos cistos
de E. histolytica. Na prática, não é difícil distin-
gui-los dos de E. histolytica levando-se em conta
o número de núcleos, o volumoso cariossomo, o
vacuólo máximo nos cistos binucleados e, quan-
Fig. 11 – Trofozoíta de E. coli. A – Cariossomo; B – bacté- do existentes, os cromatóides alongados e com
rias. Original. extremidades aguçadas (Fig. 12).
64 r Parasitologia e Micologia Humana

presença, no seu endoplasma, de bactérias, fungos


e células epiteliais do hospedeiro (Fig. 13).

Fig. 12 – Cisto de E. coli. Notar os 8 núcleos e os corpos


cromatóides, raros. Original.

Transmissão e Reprodução
A infecção do homem pela E. coli decorre da
ingestão dos cistos contidos na água ou em ali-
mentos contaminados por matéria fecal. As taxas Fig. 13 – Trofozoíta de E. gingivalis. Original.
de infecção variam nos diferentes países e gru-
pos populacionais de acordo com os fatores de Transmissão e Reprodução
natureza econômica e social; quanto mais bai-
Não se conhecem os cistos desse amebídeo,
xos, mais altas as cifras de sua freqüência.
podendo-se presumir que a infecção inter-hu-
A reprodução de E. coli se processa de modo mana se dê diretamente pela boca ou por vasi-
semelhante ao descrito no ciclo normal de E. his- lhames contaminados pelo exsudato da boca de
tolytica, forma minuta. portadores do protozoário. A reprodução é dire-
ta, por divisão binária.
ENTAMOEBA GINGIVALIS (GROSS,
1849), BRUMPT, 1910 ENTAMOEBA HARTMANNI VON
Esta ameba vive na cavidade bucal do homem, PROWAZEK, 1912
sendo observada principalmente nas afecções al-
véolo-dentárias. Embora tenha sido acusada de Este amebídeo, habitante do intestino do ho-
produzir piorréia e outras alterações gengivais e mem, embora pouco freqüente, é encontrado
dentárias, não há provas de que seja uma ameba em várias regiões do mundo. Para alguns especia-
patogênica per se e, assim, poderíamos conside- listas, E. hartmanni não constitui senão uma raça
rá-la como um agente de invasão secundária que pequena ou a forma minuta de E. histolytica tran-
agravaria um processo mórbido preexistente. sitoriamente não patogênica.
Esse parasito é pouco freqüente no Brasil. Outros consideram-na uma simples variedade
ou subespécie de E. histolytica com a denomi-
Morfologia nação de Entamoeba histolytica hartmanni.
A constância de suas exíguas dimensões, pe-
Este protozoário possui, de certo modo, al- quena motilidade e capacidade de fagocitar bac-
guns caracteres de E. coli e de E. histolytica. térias nos parece suficiente para considerá-la
As dimensões variam de 5 a 35 mm, sendo mais uma espécie distinta das outras incluídas no
freqüentes as formas de 10 a 20 mm. Assemelha-se gênero Entamoeba.
à E. histolytica pela estrutura delicada do núcleo,
diferenciação entre o endo e o ectoplasma, motili- Morfologia
dade e hematofagia observada em alguns exem-
plares; e à E. coli, pelo citoplasma muito vacuoliza- Do ponto de vista morfológico, esta espécie
do e pela atividade fagotrófica da qual resulta a poderia ser comparada a uma miniatura da for-
lasse i opo a on iebol 1 45 meb eos e Interesse r 65

ma minuta de E. histolytica, medindo 5 a 10 mm na água e em alimentos poluídos por matéria fe-


a forma vegetativa. cal.
Em preparados corados pela hematoxilina,
pode-se observar o núcleo de estrutura muito ENDOLIMAX NANA (WENYON E
delicada, com diminuto cariossomo central e pe- O’CONNOR, 1917) BRUG, 1918
queninos grânulos de cromatina dispostos sob a
cariomembrana; o citoplasma é finamente gra- É um comensal do intestino grosso do ho-
nuloso, com poucos vacúolos, onde raramente mem, praticamente encontrado em todos os
se encontram bactérias fagocitadas (Fig. 14). continentes, principalmente nas regiões quen-
Os cistos de 5 a 7 mm, globulosos, são de es- tes.
trutura fina e só se distinguem dos de E. histolyti-
ca pelas dimensões; sendo importante notar que Morfologia
os cromatóides são, como nessa espécie, baci- A forma vegetativa mede 6 a 12 mm, podendo
lóides e com as extremidades rombas (Fig. 15). raramente atingir 18 mm. Apresenta um núcleo
A E. hartmanni não é patogênica e, pequena único, com a estrutura descrita no gênero. O ci-
como é, jamais poderia fagocitar as hemácias, toplasma é granuloso, com vacúolos pequenos
cujo diâmetro é maior ou igual ao seu. contendo bactérias (Fig. 16).
A observação microscópica de suas formas ve- Em geral são pouco móveis, os pseudópodes
getativas e císticas reforça a idéia de que dificil- são pouco salientes e há pequena diferenciação
mente esta ameba possa representar uma forma entre o ecto e o endoplasma.
transitória ou uma variedade de E. histolytica. Os cistos são uni, bi ou tetranucleados e, tan-
to a fresco quanto nas preparações pelo Lugol e
hematoxilina, os núcleos são mal individualiza-
dos. Os cistos medem 8 a 10 mm e apresentam
várias formas – ovóides, elipsóides e globulosas
(Figs. 17 e 18).

Fig. 14 – Trofozoíta de E. hartmanni. Original.

Fig.16 – Trofozóita de Endolimax nana. Original.

Fig. 15 – Cisto de E. hartmanni. Original.

Transmissão e Reprodução

A reprodução e evolução, por analogia, de-


vem-se realizar de modo semelhante ao que se
passa com E. histolytica, forma minuta, e a trans-
missão se daria pela ingestão dos cistos contidos Fig. 17 – Cisto de Endolimax nana. Original.
66 r Parasitologia e Micologia Humana

Fig. 18 – Microfotografia de Endolimax nana, forma cística.


Coloração pela hematoxilina, 1.000 X. Original.
Fig. 19 – Trofozoíta de I. bütschlii. Original.
Transmissão e Reprodução
A transmissão se processa pela ingestão dos plasma e cora-se em acaju pelo iodo, por conter
cistos de modo semelhante ao descrito para os glicogênio.
amebídeos em geral. É desprovido de atividade Nas preparações pela hematoxilina férrica, o
patogênica, sendo considerado um simples co- vacúolo iodófilo se apresenta claro devido à dis-
mensal do organismo e, no máximo, poderia ser solução do glicogênio nos líquidos que entram
considerado um agente de associação em pro- nesse processo de coloração, porém, aqui, como
cessos mórbidos do intestino, de natureza bacte- na coloração pelo Lugol, é nítido seu limite com
riana ou dispéptica. o citoplasma, onde se encontra (Figs. 20 e 21).
A reprodução de E. nana se processa dentro
das características gerais dos amebídeos.

IODAMOEBA BÜTSCHLII
(PROWAZEK, 1912) DOBELL, 1919
Este protozoário intestinal é relativamente fre-
qüente em todos os países, principalmente em
regiões intertropicais. Antes de ganhar o nome
atual, sua forma cística era conhecida pelos au-
tores ingleses que a denominavam iodine cysts.

Morfologia Fig. 20 – Microfotografia de cisto de I. bütschii. Coloração


A forma vegetativa mede 10 a 20 mm, é pouco pela hematoxilina, 1.000 X. Original.
móvel e não apresenta senão discreta diferen-
ciação entre o endo e o ectoplasma (Fig. 19).
Corada pela hematoxilina, mostra citoplasma
vacuolizado e algumas bactérias no interior de
pequenos vacúolos; o núcleo bem visível exibe
os caracteres já descritos ao tratarmos do gênero
Iodamoeba.
As formas císticas, contornadas por fina mem-
brana, medem, como os trofozoítas, 10 a 20 mm
de diâmetro, e podem ser globulosas, elipsóides
ou ovóides.
Nas fezes coradas pelo Lugol, os cistos apre-
sentam o vacúolo iodófilo característico dessa Fig. 21 – Cisto de I. bütschlii. Notar o vacúolo característi-
espécie. Ele é nitidamente delimitado do cito- co. Original.
lasse i opo a on iebol 1 45 meb eos e Interesse r 67

Transmissão e Reprodução
Este amebídeo é considerado um simples co-
mensal do intestino. Sua transmissão se processa
pelos cistos ingeridos com a água ou alimentos
contaminados por matéria fecal humana. A repro-
dução segue o esquema geral dos amebídeos.

DIENTAMOEBA FRAGILIS JEPPS E


DOBELL, 1918
Esta ameba tem sido observada esporadica-
Fig. 22 – Trofozoíta de D. fragilis. Original.
mente em diferentes países, sendo rara no Brasil.

Morfologia, Transmissão e
Reprodução dos no gênero. A multiplicação desse amebídeo
É conhecida apenas na sua forma vegetativa, se realiza por divisão binária.
acreditando-se que seja muito resistente no
meio externo, de tal modo que a transmissão po- Sua patogenicidade é assunto controvertido; al-
deria se dar por ingestão. guns protozoologistas o consideram comensal, en-
Apresenta dimensões variáveis, de 8 a 14 mm, quanto outros capaz de provocar uma enterocoli-
citoplasma vacuolizado com bactérias fagocita- te, na qual são observadas evacuações mucossan-
das e diferenciação entre o endo e o ectoplasma guinolentas. É possível que este protozoário possa
(Fig. 22). exercer, de fato, ação patogênica, porém como um
Quase todos os exemplares são binucleados e agente de associação em processos mórbidos de-
os núcleos apresentam os caracteres já estuda- terminados por outras causas.
13
Amebíase

meb ase

É a afecção produzida pela Entamoeba histolyti- Nossa impressão, sem entretanto apresentar
ca. Em razão da maior freqüência dos casos de dados numéricos, é de que no Brasil a incidência
amebíase com lesões e sintomas intestinais, a de amebíase-doença é relativamente pequena,
doença é habitualmente denominada disenteria em comparação com a considerável freqüência
amebiana, embora, na realidade, esta forma repre- de amebíase-infecção.
sente apenas um de seus aspectos. De fato, nesta
protozoose, podem ocorrer não só lesões intestinais, Transmissão
mas também extra-intestinais, como as do fígado e
A propagação da doença se processa pelos
pele e, mais raramente, de outras partes do orga-
cistos tetranucleados e a infecção se faz por via
nismo.
oral. As formas vegetativas eliminadas pelos
doentes na fase aguda da doença não são infec-
INCIDÊNCIA E DISTRIBUIÇÃO tantes, devido a sua pequena sobrevivência no
GEOGRÁFICA meio externo, como também por não resistirem
à ácidez do suco gástrico.
Quando se estuda a epidemiologia da ame-
bíase, nossa atenção é alertada para a circuns- A infecção por via oral decorre da ingestão
tância de que em uma determinada comunidade dos cistos viáveis contidos na água e nos alimen-
é relativamente pequeno o número de casos clí- tos contaminados por matéria fecal de indivíduos
nicos em contraste com a incidência, por vezes portadores.
elevada, de indivíduos infectados pela E. histoly- Os cistos, ao contrário dos trofozoítas, resis-
tica, tal como nos revelam as pesquisas coproló- tem vivos alguns dias no meio exterior e não per-
gicas realizadas em muitos países. dem a vitalidade sob a ação do suco gástrico,
Esta discordância deve ser analisada tendo-se que parece prepará-los para o excistamento no
em vista os problemas da patogenia da doença, intestino.
dependentes que são dos fatores pertinentes ao A água poluída constitui o principal veículo
hospedeiro e parasito. dos cistos, seja usada para beber, lavar, regar ou
Realmente, não só nos países de clima tropi- refrescar os alimentos. Estes, em geral, não estão
cal, como nos de temperado, as estatísticas reve- sujeitos diretamente à contaminação pelas fezes
lam altos percentuais de portadores do parasito e e, por isso, são de importância secundária na
um número muito baixo de pessoas com sinto- transmissão da amebíase. Eles podem, entretanto,
mas peculiares à doença. ser contaminados pela água, por insetos coprófa-

6
7 r Parasitologia e Micologia Humana

gos, como moscas e baratas, e por indivíduos que tes no campo microscópico de cor avermelhada
os manipulam. devido ao corante; os mortos, ao contrário, co-
Nas localidades desprovidas de esgotos urba- ram-se de modo mais ou menos intenso.
nos ou rurais, as fezes podem atingir os poços, A sobrevivência dos cistos no meio exterior
tanques, riachos ou pequenas barragens, cujas pode ser verificada nas fezes in natura ou dissol-
águas constituem as fontes de infecção do ho- vidas na água, variando muito em função da
mem diretamente pela ingestão ou, indiretamen- temperatura.
te, quando de um ou outro modo entram em con- Em fezes conservadas em frascos, Kuenen e
tato com os alimentos. Swellengrebel (1913) verificaram que à 37°C to-
As plantações de hortaliças regadas com tais dos eles morrem em 3 dias e, entre 27°C e 30°C,
águas ou os próprios legumes por elas refresca- morrem em 9 dias; para Thomson e Thomson, os
dos constituem fontes de disseminação dos cis- cistos vivem 3 semanas; para Yorke e Adams
tos da ameba. morrem em 10 dias em temperaturas inferiores a
As baratas e moscas, por serem coprófagas, 20°C.
podem veicular cistos das fezes para os alimen- Na água, segundo Kuenen e Swellengrebel
tos e assim desempenhar um papel secundário (1913), não sobrevivem mais de 13 dias, porém
na transmissão da doença. A veiculação dos cis- Penfold, Woodcock e Drew observaram vitalida-
tos tanto pode se processar pelas fezes dos inse- de após 15 dias. Para Wenyon e O’Connor, os cis-
tos quanto por suas peças bucais, asas e patas. tos na água se conservam viáveis durante 30 dias;
Indivíduos de baixo padrão higiênico, porta- para Dobell, durante 5 semanas; para Boeck, 153
dores de cistos, quando empregados na manipu- dias.
lação de alimentos, podem disseminar o parasi- Colocados a 50°C, morrem em 5 minutos e,
to, se bem que essa modalidade de transmissão instantaneamente, na água em ebulição. Do
tem importância limitada. mesmo modo não suportam a dessecação, por-
A contaminação das águas de abastecimento tanto, não resistem suspensos na poeira.
por esgotos é possível devido a defeitos em suas Os cistos ingeridos pelas moscas e baratas so-
canalizações que permitem intercomunicações brevivem um tempo variável entre 10 e 72 horas,
dos dois sistemas, fato consignado na literatura por isso esses insetos podem desempenhar al-
sobre o assunto. gum papel na disseminação da amebíase.
Ação das substâncias químicas – o sublimado
Sobrevivência e Resistência dos a 0,1% mata os cistos em 4 horas (Kuenen e
Cistos aos Agentes Físicos e Swellengrebel); a creolina e similares a 0,4%, en-
Químicos tre 5 a 10 minutos; o álcool a 50%, instantanea-
mente; o formol a 5%, em 30 minutos; o cresol e
A verificação da viabilidade dos cistos se ba- similares a 0,4%, em 10 minutos; o lisol e simila-
seia em três recursos técnicos, a saber: a) cultura res a 1%, em 30 minutos.
em meios apropriados; b) inoculação em animais
O cloro só tem ação sobre os cistos em eleva-
sensíveis; c) coloração por uma solução de eosi-
das concentrações: a 0,2% mata os cistos em 7
na recentemente preparada.
dias, a 1%, em 24 horas. Os cistos tratados pelo
Na prática, é usado esse último recurso por cloro, 1 p.p. milhão durante 30 minutos, conser-
sua fácil execução, se bem que passível de críti- vam-se viáveis e, desse modo, a água clorada nas
ca, em face das dificuldades para se estabelecer condições ordinárias pode veicular cistos vivos.
uma rigorosa correlação entre a colorabilidade
dos cistos pela eosina e sua vitalidade experi- PATOGENIA
mentada em inoculação e culturas.
A eosina é dissolvida em solução fisiológica, Várias experiências indicam a influência da
sendo em geral usada a 1:1.000, havendo auto- microbiota intestinal como fator necessário para
res que a preconizam a 1:10.000. que E. histolytica passe de sua condição de co-
Os cistos vivos não se impregnam pelo coran- mensal no lúmen do intestino a de um agente in-
te e se destacam como corpos claros e refringen- feccioso invasor.
meb ase r 71

O regime alimentar, por si só ou pela micro- cosae, e, aí se reproduzindo, formam aglomera-


biota desenvolvida no intestino, em decorrên- dos com número variável de elementos parasitá-
cia das modificações bioquímicas dele depen- rios. Graças à atividade proteolítica do protozoá-
dentes, também exerce influência na gênese rio, surgem na profundidade da parede intestinal
das lesões. lesões degenerativas que podem se intercomuni-
A implantação e adaptação do parasito depen- car com outras lesões e, assim, solapar a mucosa
dem fundamentalmente do pH alcalino, no nível do órgão.
da mucosa, e da microbiota associada. Manten- Muitas vezes essas lesões profundas e dilata-
do-a equilibrada, o caso é assintomático. Rompi- das se comunicam com o lúmen do intestino por
do o equilíbrio, na dominância Gram-positiva ou fístulas estreitas, tomando a forma de frascos de
na negativa, teremos, respectivamente, casos sin- gargalo longo (Fig. 1). Com freqüência as lesões
tomáticos e oligossintomáticos. iniciais de natureza necrótica são invadidas por
As lesões teciduais observadas na amebíase bactérias que, exercendo o papel de agentes as-
decorrem inicialmente da ação necrótica do pa- sociados, acentuam seu caráter inflamatório.
rasito causada por sua secreção histolítica. Chama a atenção do patologista que estuda a
Nas lesões iniciais, a forma magna, livre no amebíase o fato de as lesões ulcerosas da muco-
lúmen intestinal, entra em contato com a muco- sa, resultantes da destruição dos tecidos, serem
sa, produzindo, às vezes, uma necrose superfici- isoladas, de bordas irregulares e descoladas, com
al e, outras vezes, ao penetrar, atinge a intimida- o fundo recoberto por exsudato amarelado. Es-
de dos tecidos da parede do órgão, onde se mul- sas lesões amebianas, ao contrário das observa-
tiplica e exerce sua ação patogênica. das nas disenterias bacilares, são profundas e
A invasão da mucosa, segundo vários autores, bem delimitadas da mucosa sadia. Nas disenterias
ora se realiza pelas criptas das glândulas de Lie- bacilares as lesões são eminentemente exsudati-
berkühn, em seu fundo ou lateralmente, ora pela vas, hiperemiadas, pouco profundas e se esten-
substância intersticial existente entre elas. dem por grandes áreas da mucosa.
Alguns autores presumem que a penetração Em alguns dos portadores assintomáticos do pa-
das amebas nos tecidos seja facilitada pela pre- rasito, as lesões são superficiais e evoluem para
sença de uma enzima, a hialuronidase, não pro- cura espontânea, com ou sem processo cicatricial.
priamente elaborada pelo parasito, mas por bac- Nesses portadores, por vezes, as lesões permane-
térias associadas do intestino, dos gêneros Staphy- cem não-ulceradas, como nódulos de tamanho va-
lococcus, Streptococcus, Clostridium e outros. riando desde o da cabeça de um alfinete até alguns
O condicionamento etiopatogênico de E. his- milímetros. É possível se observar, no mesmo caso,
tolytica nos permite considerá-la um parasito fa- lesões com aspectos muito variáveis dependentes
cultativo, vivendo em sua forma minuta, inócua, de sua fase evolutiva, extensão e profundidade.
no lúmen intestinal, como um comensal, e, em As úlceras amebianas, nos casos graves, po-
sua forma magna, parasita, patógena, no interior dem se ampliar, em decorrência da necrose e in-
dos tecidos. tensificação dos processos inflamatórios e, assim,
extensas áreas da mucosa se apresentam desnu-
Lesões Amebianas Intestinais dadas e, nos casos de cura parasitológica, tais le-
A lesão primária, na maioria dos casos, insta- sões tendem para a reparação tecidual, sendo in-
la-se nas primeiras porções do intestino grosso: vadidas por tecido conjuntivo cicatricial.
ceco, áreas periapendiculares, cólon ascendente Raramente, volumosas formações tumorais de-
e, menos freqüentemente, na alça sigmóide. As senvolvem-se na parede do órgão, macroscopica-
formas vegetativas da ameba, atingindo a pro- mente confundidas com neoplasmas, porém, his-
fundidade da mucosa, multiplicam-se ativamen- tologicamente granulomatosas. A tais lesões de-
te por divisão mitótica e provocam necrose dos nominamos granulomas amebianos.
tecidos, com pequena reação inflamatória. Embora de ocorrência rara, as lesões podem
Da base do revestimento mucoso, as amebas atingir o plano muscular da parede intestinal e ir
atingem a submucosa através da muscularis mu- além dele, acometendo a serosa.
7 r Parasitologia e Micologia Humana

Fig. 1 – Amebíase intestinal. Lesão da submucosa configurando o aspecto de “frasco de gargalo longo” ou “botão de ca-
misa”. Reproduzindo de Ash e Spitz, Pathology of Tropical Diseases.

Lesões Amebianas e
Extra-Intestinais
São secundárias às lesões intestinais e resul-
tam da implantação da E. histolytica em diferen-
tes pontos do organismo, aos quais chega, na
maioria dos casos, por via sanguínea. As lesões
extra-intestinais da amebíase são, portanto, me-
tastáticas, salvo aquelas que decorrem da propa-
gação por contigüidade, a partir de uma lesão da
parede intestinal.
Os órgãos mais atingidos são o fígado, pul-
mões, pele, cérebro e baço.
No Brasil, essas localizações no homem são
relativamente raras, sendo na maioria dos casos Fig. 2 – Amebíase hepática. Abscesso localizado no lobo
diagnosticadas post-mortem. direito. Observar a trabeculação característica do parên-
Na pele, as lesões são ulcerosas, saniosas, te- quima necrosado. Reprodução de Ash e Spitz, Pathology of
rebrantes, em geral resultantes de fístulas entero- Tropical Diseases.
cutâneas ou hepatocutâneas, com o exsudato de
lesões amébicas do intestino grosso, da sigmóide
tecidual que pode evoluir assepticamente ou so-
e do reto escoando para o exterior. Por isso, as
frer invasão bacteriana e, conseqüentemente, vi-
lesões cutâneas observadas nas regiões perineal,
perianal e abdominal se relacionam com as le- rar abscesso.
sões específicas dos órgãos subjacentes.
Nos órgãos internos – fígado, baço, cérebro e Na necrose hepática, a lesão pode atingir até
outros – a lesão é correntemente chamada abs- 10 cm de diâmetro. Em seu interior coleta-se um
cesso amebiano, havendo autores que preferem líquido espesso de cor castanha, resultante da
denominá-la necrose amebiana por seu caráter degeneração do parênquima do órgão. No inte-
degenerativo (Fig. 2). rior da cavidade do abscesso ou da necrose ame-
A patogenia das lesões extra-intestinais é se- biana restam apenas as trabéculas conjuntivas do
melhante à das intestinais; a lesão se instala órgão e, em sua parede, de superfície irregular,
como um processo degenerativo por proteólise encontram-se os trofozoítas do amebídeo.
meb ase r 73

63%
SINTOMATOLOGIA
60%
A sintomatologia na amebíase depende de di-
versos fatores, tais como a localização das lesões,
61%
a fase ou período da invasão parasitária, as infec- 60%
ções bacterianas associadas, o estado de nutri-
ção do doente e a resistência do organismo. 78%
Na prática, é difícil se estabelecer um quadro 53% 71%
clínico característico da amebíase, salvo para as
formas agudas representadas pelos sintomas de
uma enterocolite. O estudo da doença, assim 88%
como a conceituação da patogenicidade do seu 40%
agente, deve ser apreciado levando-se em conta 72%
os sintomas variáveis em intensidade e duração e
os aspectos ecológicos do protozoário em sua Fig. 3 – Distribuição das lesões amebianas no intestino
vida parasitária. grosso em 186 exames post-mortem. Segundo Clark, in
O período de incubação é muito variável e ra- Belding (1942).
ramente coincide com o início do parasitismo;
alguns autores, entretanto, puderam observar
um período de incubação mínimo de 1 semana, Formas intestinais agudas – a sintomatologia
enquanto outros assinalaram um período máxi- destas formas é a de uma enterocolite aguda com
mo de pouco mais de 1 ano. evacuação de fezes mucossanguinolentas acom-
Para se ter idéia da dificuldade em se determi- panhadas de dores abdominais, tenesmo e sinto-
nar o período de incubação, basta considerar os mas gerais, como toxemia, desidratação e lassi-
casos de parasitismo assintomático que em cer- dão. Estas formas denominadas “disenteria ame-
tas comunidades constituem a maioria. biana”, a qual realmente representa apenas um
Esses portadores assintomáticos de Entamoe- aspecto clínico da doença, visto que nem sempre
ba são indivíduos sem lesões teciduais e indiví- estes sintomas estão presentes no curso da ame-
duos portadores de pequenas lesões intestinais bíase.
que não se traduzem pelos sintomas da doença, A gravidade dos sintomas da enterocolite
como foi verificado por Faust (1941) em necrop- amebiana aguda varia de caso para caso, desde
sias de indivíduos infectados pela E. histolytica, as que não apresentam senão uma, duas ou três
que haviam morrido por acidentes. evacuações disentéricas por dia, com poucas
Os portadores assintomáticos, erradamente manifestações gerais, até os casos graves, por ve-
denominados portadores sadios, ora são indiví- zes fatais, com numerosas evacuações mucos-
duos convalescentes da doença ou em fase de sanguinolentas, dores abdominais, tenesmo in-
remissão sintomática, ora pessoas que jamais tenso, febre elevada, desidratação, toxemia e
apresentaram sintomas de amebíase. profunda adinamia.
Para ordenar a exposição do assunto perti- Na maioria dos casos, a temperatura conser-
nente à sintomatologia da amebíase, dividimos va-se normal ou apenas se eleva a 37,5°C e 38°C.
suas formas clínicas em: Temperaturas acima de 38°C, indicam doença in-
a) formas intestinais tercorrente ou invasão bacteriana das lesões do in-
b) formas extra-intestinais testino.
Formas Intestinais Nos casos em que predominam as lesões do
ceco e adjacências, os sintomas são de uma tiflite
As formas intestinais, agudas ou crônicas, em e, às vezes, de uma apendicite, nas quais não fal-
alguns casos correspondem a uma enterocolite ta a tríade de Dieulafoy. Nesses casos, o trata-
generalizada e, em outros, a lesões limitadas ao mento cirúrgico, se não puder ser adiado, deve
ceco e regiões próximas e/ou à alça sigmóide e ser acompanhado do tratamento específico da
reto (Fig. 3). infecção amébica.
74 r Parasitologia e Micologia Humana

Em outros casos, dominam as lesões da alça tivo, podendo-se notar as hemácias em vias de
sigmóide e do reto e, então, pode-se perceber à destruição.
palpação aquela porção do intestino, em decor- As fezes dos casos de disenteria bacilar reve-
rência do aumento do órgão resultante de sua in- lam, ao exame microscópico, um exsudato mu-
filtração. Nestes casos, o tenesmo constitui sinto- cossanguíneo purulento em que predominam,
ma habitualmente presente, ao contrário das for- ao lado das hemácias e células epiteliais do re-
mas cecais da doença. vestimento intestinal, os neutrófilos polimorfo-
As complicações mais graves da enterocolite nucleares. Esse aspecto permite aos microscopis-
amebiana, tanto na forma aguda quanto na crô- tas experimentados firmar o diagnóstico presun-
nica, são hemorragia intestinal, caquexia, perfu- tivo da disenteria bacilar, a ser confirmado pelo
ração da parede intestinal e lesões metastáticas exame bacteriológico.
observadas a distância em outros órgãos e que Nas diarréias, de modo geral, os elementos
constituem as formas extra-intestinais da ame- celulares, ao contrário dos casos da amebíase e
bíase. disenteria bacilar, são relativamente escassos e o
O diagnóstico diferencial da enterocolite ame- muco é pouco abundante.
biana aguda deve ser feito com a disenteria baci-
Devemos chamar a atenção para os aspectos
lar, as diarréias toxiinfecciosas, a colite membra-
microscópicos das fezes observadas em outras
nosa, as diarréias de natureza emocional e alérgi-
afecções parasitárias, nas diverticulites e nos neo-
ca.
plasmas. Há de se ter em mente, entre as doen-
Os exames macro e microscópico das fezes,
ças parasitárias, a giardíase, tricomoníase, tricu-
aliados ao exame clínico, permitem o diagnósti-
rose, enterobiose, estongiloidose e esquistosso-
co da amebíase intestinal aguda.
mose. Nestas parasitoses, o tipo do exsudato ob-
O número de evacuaçõoes geralmente varia
servado nas fezes poderia apresentar alguma se-
de duas a doze por dia, podendo ou não ser
melhança com o das disenterias, porém, a pre-
acompanhadas de tenesmo. As fezes são elimi-
sença de seus agentes ou de seus ovos e larvas
nadas juntamente com muco e sangue e, nos ca-
nas fezes rapidamente esclareceria o diagnótico,
sos mais graves, o indivíduo não elimina senão
mesmo na vigência de entidades mórbidas asso-
muco e sangue, por vezes em pequena quantida-
ciadas.
de, sendo, nesta eventualidade, mais freqüente
o tenesmo. Nas diverticulites, o sangue predomina nas fe-
O aspecto macroscópico das fezes difere do zes, há pouco muco e não existem outros ele-
encontrado na disenteria bacilar, porque na mentos celulares. Nas neoplasias dos segmentos
amebíase o muco é impregnado pelo sangue de inferiores do trato digestório, o aspecto micros-
cor acastanhada, indicando sua decomposição cópico das fezes, em certos casos, assemelha-se
precoce, evidenciada também pelo odor forte e ao da amebíase intestinal e torna-se necessário o
ofensivo. Na disenteria bacilar, o número de eva- encontro das formas vegetativas de E. histolytica
cuações é freqüentemente maior e o aspecto para se firmar o diagnóstico.
macroscópico é de um exsudato mucossangui- Formas intestinais crônicas – a maioria dos ca-
nolento, cor de groselha ou vermelho, próprio sos de amebíase intestinal se manifesta de modo
do sangue recém-extravasado. crônico, insidioso, durante semanas, meses, anos,
O exame microscópico das fezes de doentes a menos que seu curso seja interrompido pela te-
de amebíase, nos casos típicos, revela um exsu- rapêutica adequada.
dato contendo hemácias, células epiteliais abun- Não se conhecem casos de cura espontânea,
dantes, poucos leucócitos e formas vegetativas podendo-se notar, entretanto, longos períodos de
de Entamoeba histolytica em número variável. remissão ou latência intervalados por crises disen-
Esses elementos celulares geralmente se encon- téricas que denotam a agudização de uma infec-
tram aglomerados no muco abundante, viscoso e ção crônica despertada por diversos fatores difí-
impregnado da hemoglobina alterada. Um exa- ceis de se determinar, como, por exemplo, doen-
me mais cuidadoso dos elementos celulares indi- ças intercorrentes, alcoolismo, toxiinfecções ali-
ca que eles se encontram em processo degenera- mentares, distúrbios emocionais e outros.
meb ase r 75

Os sintomas da disenteria amebiana crônica, 16% 3%


tanto os relacionados com as lesões do intestino
quanto os gerais, nada têm de característicos e,
nesse particular, ela poderia ser confundida com 15%
outras afecções do trato digestório.
Essa forma clínica da amebíase se instala após
6%
a remissão da forma aguda, e, às vezes, sem que 15%
se notem as crises disentéricas agudas de doen-
ças que de início seguem seu curso crônico, com
sinais mutáveis e pouco característicos.
Os sintomas intestinais subjetivos assinalados
30% 3% 12%
pelos doentes são dores epigástricas ou abdomi-
nais difusas, pouco pronunciadas, inconstantes,
às quais se associa sensação de plenitude e des-
conforto abdominal. Os sintomas objetivos prin-
cipais são pequenos períodos de diarréia interva- Fig. 4 – Localizações mais freqüentes do ameboma no in-
testino grosso. Segundo Niño.
lados com fases de constipação. Em certos casos,
a constipação e a sensação de mal-estar abdomi-
nal constituem os fenômenos dominantes. Formas Extra-Intestinais
Devido aos processos infiltrativos da parede
do cólon e da alça sigmóide, estes segmentos do As formas extra-intestinais correspondem às
trato intestinal tornam-se palpáveis. lesões de vários órgãos internos, como o fígado,
os pulmões, o cérebro, o baço e outros, e ainda
Não raro, advêm crises agudas da doença com lesões tegumentares.
evacuações disentéricas, como as descritas ante- No Brasil, a ocorrência das formas clínicas ex-
riormente. tra-intestinais da amebíase são relativamente ra-
Os sintomas gerais, variáveis entre os doentes, ras e geralmente as formas viscerais constituem
são irritabilidade, neurastenia, dispepsia gástrica e achados de necropsia. Comparando os dados es-
intestinal, cefaléia e outros dificilmente correlaci- tatísticos, sobre a incidência do abscesso amebia-
onáveis com a amebíase, sobretudo quando um no ou necrose amebiana no Brasil, Índia, Egito,
exame de fezes ainda não revelou a presença de Chile e outros países do Novo e do Velho Mundo,
Entamoeba histolytica no doente. surpreendem-nos, no Brasil, a disparidade numé-
rica entre os portadores do parasito, os doentes
Nessa forma da doença podem surgir compli- de amebíase e os casos raros de amebíase com lo-
cações idênticas às enumeradas na forma aguda calização extra-intestinal.
e, fato digno de nota, em casos nos quais a sin- As localizações extra-intestinais das lesões
tomatologia intestinal é pouco acentuada. amebianas decorrem da multiplicação, em pon-
Complicação rara da amebíase é o granuloma tos diversos do organismo, da Entamoeba histoly-
amebiano ou ameboma, que pode situar-se na tica procedente do intestino grosso onde se esta-
parede do intestino grosso, desde o ceco até o belece o foco primitivo do parasito.
reto (Fig. 4). Esse ameboma consiste de massas Em todos os casos da amebíase extra-intesti-
tumorais, duras e aderentes ao órgão, de tama- nal, as lesões são secundárias às lesões intestinais
nhos variáveis, de modo a se tornarem proemi- e podemos considerá-las ectópicas e metastáti-
nentes na parede abdominal, ou a obstruir o cas.
lúmen intestinal. In vivo, é difícil o diagnóstico De modo geral, as localizações ectópicas dos
diferencial desse granuloma com outras lesões, órgãos profundos decorrem da migração do pa-
como as neoplasias, as formas circunscritas isola- rasito por via sanguínea a partir das lesões intesti-
das da micose de Lutz e outras formações tumo- nais, enquanto as lesões da pele são consecutivas
rais do abdome. a lesões contíguas situadas em órgãos profundos,
76 r Parasitologia e Micologia Humana

como fígado e intestino grosso, particularmente inflamatório agudo com intensa infiltração leu-
no ceco e reto. cocitária.
O esquema da Figura 5, baseado em Ash e
Os sintomas dominantes são: dor na região do
Spitz, dá uma idéia de conjunto da distribuição
fígado, hepatomegalia, dor escapular direita, fe-
das lesões extra-intestinais da amebíase. Destas,
bre, em geral elevada, estado toxêmico e hiper-
a mais importante é a hepática, em que podem
leucocitose com predominância de polimorfo-
ocorrer três modalidades de processos mórbi-
nucleares. Nestes casos, a leucometria global po-
dos: a hepatite amebiana, a necrose amebiana e
de atingir 30.000 leucócitos por mm3, com uma
o abscesso amebiano, os quais, na maioria das
neutrofilia de 85%.
vezes, apenas correspondem a três fases de um
processo mórbido em evolução. A necrose amebiana hepática pode ser solitá-
A hepatite amebiana resulta da invasão do te- ria ou apresentar focos múltiplos, de dimensões
cido hepático pelas formas magna da ameba variando desde alguns milímetros de diâmetro
que, multiplicando-se, provocam um processo até 5 centímetros.

AMEBÍASE EXTRA-INTESTINAL

ABSCESSO CEREBRAL

FÍSTULA
ABSCESSO PULMONAR HEPATOBRONQUIAL

ABSCESSO
SUBDIAFRAGMÁTICO
ABSCESSO HEPÁTICO

FÍSTULA HEPATOCÓLICA
ABSCESSO SUB-HEPÁTICO

PERITONITE

FÍSTULA ABDOMINOCÓLICA

DERMATITE PERIANAL
Fig. 5 – Localizações extra-intestinais da amebíase. Esquema baseado em Ash e Spitz.
meb ase r 77

A lesão é geralmente solitária ou única e si- A maioria dos casos de formas extra-intesti-
tua-se no lobo direito do fígado. nais é diagnosticada post-mortem e o diagnósti-
Os sintomas da necrose amebiana do fígado co em vida é difícil devido ao reduzido número
variam de intensidade na medida da extensão de exemplares livres das formas vegetativas do
dos processos destrutivos do órgão e da quanti- parasito no exsudato amebiano. Estas formas são
dade de substâncias tóxicas que resultam de de- mais abundantes na periferia das lesões, onde di-
generação tecidual. Em geral, a necrose resulta ficilmente podem ser coletadas para exame. Das
da evolução dos processos mórbidos de uma he- lesões extra-intestinais, tais como as da pele e va-
patite aguda e se for invadida por bactérias pio- gina, o material para exame pode ser coletado
gênicas, como estreptococos, estafilococos, ba- por curetagem ou biópsia. Quando por biópsia,
cilo coli e outras, a lesão assume aspecto infla- o exame será feito em cortes histológicos.
matório diverso e então lhe convém o nome de Feitas estas considerações sobre o diagnóstico
abscesso amebiano do fígado. das formas extra-intestinais da amebíase, passa-
remos ao das formas intestinais.
As lesões amebianas do pulmão podem ter
Na prática médica, o diagnóstico laboratorial
duas origens. Em uma, a ameba provém do intes-
da amebíase intestinal é estabelecido pelo en-
tino por via hematogênica de modo idêntico ao
contro do seu agente nas fezes ou no material
que se passa na amebíase hepática; em outra, as
coletado diretamente das lesões que podem ser
lesões representam a progressão do processo mór-
observadas ao exame retossigmoidoscópico.
bido do fígado para o pulmão, através de uma
fístula diafragmática. A conduta técnica a seguir no exame micros-
cópico das fezes varia com seu tipo. Nas fezes, vi-
As lesões amebianas do sistema nervoso cen- sar as formas vegetativas da ameba; nas pastosas
tral, raras e sempre fatais, resultam da implanta- ou moldadas, os cistos, salvo se existir muco, no
ção das amebas oriundas das lesões intestinais qual se deverão pesquisar também os trofozoítas.
ou pulmonares levadas por via sanguínea. Os exames microscópicos das fezes para a
Outras localizações extra-intestinais da ame- pesquisa das formas vegetativas devem ser reali-
bíase em órgãos profundos são secundárias às le- zados logo após a evacuação, por causa dos fe-
sões primitivas do intestino. nômenos degenerativos que se observam no pa-
As lesões da pele coincidem topograficamente rasito após sua eliminação no meio exterior. Este
com a necrose em órgãos profundos que lhe são cuidado é imprescindível quando se necessitam
subjacentes, tendo sido descritas úlceras amebia- obter preparações coradas para estudo da estru-
nas parietais relacionadas com lesões amebianas tura celular do amebídeo.
do fígado, do ceco, da alça sigmóide e do reto, úl- Para os exames a fresco, é tomada uma pe-
ceras situadas na parede abdominal e nas regiões quena porção do muco que é examinada ao mi-
perineal e perianal. Não abordaremos de modo croscópio entre lâmina e lamínula, sendo acon-
mais minucioso os diferentes aspectos da patolo- selhável examinar porções diferentes do material,
gia da amebíase por constituirem assunto além do quando não se encontrar imediatamente o para-
escapo deste livro. sito.
Recomenda-se cuidado ao analista, a fim de
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL evitar confusão entre Entamoeba histolytica e ou-
tro amebídeos intestinais, ou células epiteliais e
O diagnóstico da amebíase, em qualquer de leucócitos eliminados nas fezes pelo doente. Nos
suas formas clínicas, só pode ser firmado pelo casos típicos de disenteria amebiana aguda, en-
encontro de Entamoeba histoytica nas fezes, no contram-se nas fezes os trofozoítas da ameba,
exsudato das lesões ou nos tecidos invadidos. Os apresentando no citoplasma número variável de
métodos diagnósticos baseados nas modifica- hemácias fagocitadas, se bem que possam existir
ções imunoalérgicas, se bem que de importância outros sem os tais glóbulos vermelhos.
doutrinária, não são usados na prática devido às Há casos em que a maioria das formas vegeta-
dificuldades técnicas para sua execução e por tivas, senão todas, não mostra hemácias fagocita-
não diagnosticarem a totalidade dos casos. das, sendo difícil, no exame a fresco, a diferencia-
7 r Parasitologia e Micologia Humana

ção entre E. histolytica e E. coli. Nesta circunstân- tudo quando já maduros, pela presença dos seus
cia, impõe-se o exame do material após colora- quatro núcleos característicos.
ção pela hematoxilina, o qual permitirá a identi- O exame direto das fezes tratadas pelo Lugol,
ficação de um dos dois protozoários ou dos dois, segundo o consenso dos autores, diagnostica ape-
quando houver associação deles no mesmo indi- nas a 33% dos casos de infecção. Acreditamos
víduo. que, repetindo-se o exame por essa técnica em
A pesquisa das formas vegetativas de E. his- diferentes porções do bolo fecal, possamos diag-
tolytica poderá ser empreendida nas fezes elimi- nosticar maior número de casos do que o estima-
nadas pela ação de purgativos salinos (Método do habituamente pelos autores.
de Magath) ou clisteres, sendo nesses casos se- Como os métodos diretos de exames de fezes
guida a conduta técnica preconizada para o exa- não revelam senão uma fração do total dos casos
me das fezes disentéricas espontaneamente eva- de infecção pela E. histolytica, foram propostos
cuadas. vários métodos de concentração para diagnosti-
O uso dos purgativos e clisteres é aconselha- car maior número de casos de amebíase.
do por alguns autores para a evidenciação do pa- Destes, os mais empregados são o de Faust et
rasito em doentes acometidos pela forma crôni- al. e o de Ritchie, que na prática revelam em cada
ca da doença nos períodos de remissão dos sin- amostra de fezes examinada maior número de
tomas e em portadores assintomáticos. O material cistos e, conseqüentemente, diagnosticam maior
a ser examinado é o muco que acompanha as fe- número de indivíduos infectados. O método de
zes, o qual deve ser separado por meio de alça sedimentação, mesmo não tão eficaz quanto os
de platina ou de pipeta, operando-se, se neces- dois anteriores, tem, entretanto, a vantagem so-
sário, com decantações sucessivas com solução bre eles de revelar nitidamente os corpos croma-
fisiológica aquecida a 37 a 38°C. tóides característicos dos cistos de E. histolytica.
Essa providência permite a descoberta do pa- O número de cistos eliminados varia extraor-
rasito nos casos em que a pesquisa dos cistos ha- dinariamente em fases diferentes da doença e
via sido negativa. mesmo em dias sucessivos, sem qualquer causa
determinada.
Constitui, portanto, mais um recurso para o
Para dar uma idéia da extrema variação numé-
diagnóstico da infecção amébica, embora não
rica dos cistos nos exames coprológicos, citamos o
infalível, como os demais.
estudo de Lincicome (1943) que, examinando as
As formas vegetativas também podem ser ob- fezes de uma pessoa durante 26 dias consecuti-
servadas no material coletado diretamente das vos, observou uma eliminação diária dos cistos
úlceras amebianas do reto e da alça sigmóide, que oscilava entre 330.000 a 45.000.000.
constituindo essa providência um dos recursos Goulart et al. (1967), examinando amostras
de valor no diagnóstico da amebíase, quando as diárias de 44 portadores durante 33 dias, de-
lesões são acessíveis ao exame retossigmoidoscó- monstraram não só a grande variação numérica
pico. O induto amarelado que recobre as úlceras dos cistos nas fezes, como também comprova-
é coletado por curetagem ou aspiração, sendo ram a existência de períodos negativos de elimi-
indicado para este fim a cureta de Volkmann. nação dos mesmos.
O exame do material poderá ser feito entre São, portanto, necessários sucessivos exames
lâmina e lamínula, dissolvendo-o previamente em dias diferentes para aumentar a probabilida-
em solução fisiológica a 37°C, porém, são obti- de de detecção do parasito.
dos melhores resultados após fixação e colora- É possível que a variação do número dos cis-
ção pela hematoxilina férrica. tos nas fezes esteja na dependência dos fatores
Nas fezes pastosas ou moldadas, pesquisam- ecológicos variáveis do meio intestinal que con-
se as formas císticas. Ao exame a fresco, os cistos dicionam o encistamento.
são incaracterísticos e se apresentam no campo Em nossa experiência, o exame a fresco das
microscópico como círculos claros e refringen- fezes disentéricas permite o diagnóstico de todos
tes. Tratados pelo Lugol, coram-se intensamente os casos de disenteria amebiana aguda, pelo en-
e podem ser identificados com segurança, sobre- contro das formas vegetativas do parasito.
meb ase r 7

Chamamos a atenção para o aspecto citológi- b) 5,7-diiodo-8-hidroxiquinolina (Diodoquin,


co das fezes dos portadores de amebíase intesti- Discural, Yatrofórmio etc.)
nal aguda, bem diverso do da disenteria bacilar, c) clorquinaldol (Siosteran)
como já referido anteriormente. d) iodocloroquinolina (Anamebil)
Nos casos crônicos, aconselhamos a pesquisa e) 5-cloro-7-iodo-8-quinolinol (Viofórmio, En-
dos cistos pelos métodos de Faust ou Ritchie teroviofórmio)
que, embora não sejam infalíveis pelas razões já f) halquinóis (Quixalin)
enumeradas, na prática dão resultados satisfató- g) mistura de halquinol com quinaldina (Intes-
rios, mormente se repetidos os exames. Não há topan)
razão para dar preferência ao exame das fezes 3 – Amino-o-cresóis: Bialamico (Camoform).
obtidas por clisteres ou purgativos que, ao invés 4 – Dicloracetamídicos:
de concentrá-las, as diluem. a) clorbetamida (Diantil)
Outros métodos de laboratório foram propos- b) clefamida (Mebinol)
tos para o diagnóstico da amebíase: c) diloxanida (Amebiazol)
a) isolamento do parasito em cultura d) teclozan (Falmonox)
b) inoculação das fezes em animais suscetíveis e) etofamida (Kitnos)
c) reação de fixação do complemento 5 – Quinonas: Fenantrolinadiona (Entobex).
d) intradermorreação 6 – Antibióticos:
e) imunofluorescência a) tetraciclinas (oxitetraciclina, clorotetracicli-
Estes métodos, mesmo apresentando impor- na, dimetilclorotetraciclina)
tância do ponto de vista teórico, na prática não b) eritromicina (IIosone, IIoticina, Pantomici-
são empregados por causa das dificuldades téc- na)
nicas para sua execução e da inconstância dos c) bacitracina (Bacidrina)
resultados. d) aminosidina (Gabromicina)
e) paromomicina (Humatin)
TRATAMENTO 7 – Sulfamidados:
a) sulfadiazina
Vamos nos limitar ao tratamento específico
b) sufatiazol
antiparasitário da amebíase. É claro que ao clíni-
c) sulfaguanidina
co compete, além deste, o tratamento sintomáti-
d) sulfassuccidina
co, a prevenção e o combate às complicações e
8 – Cloroquina: (Aralen, Nivaquina).
às doenças associadas em cada caso.
9 – Nitrimidazólicos:
Aconselhamos, portanto, além da medicação
a) metronidazol (Flagil, Anagiardil etc.)
antiamébica específica, tratamento geral do doen-
b) tinidazol (Fasigyn)
te e normas dietéticas adequadas a cada caso clíni-
co. Emetina
Medicamentos Antiamébicos É um dos alcalóides da Rubiaceae brasileira, a
Cephaelis ipecauanha.
Podemos dividir os medicamentos antiamébi-
Seu cloridrato é usado por vias intramuscular
cos nos seguintes grupos:
ou subcutânea, na dose diária de 1 miligrama
1 – Emetina: (0,001 g) por quilo de peso do doente, em séries
a) cloridato de emetina máximas de dez injeções.
b) canfossulfonato de emetina Assim, um indivíduo de 60 kg receberá em 10
c) iodobismutato de emetina dias 0,6 g do medicamento.
d) periodeto de emetina Acima da dosagem útil, o medicamento é tó-
e) 2,3 deidroemetina xico, exercendo sua ação principalmente sobre a
2 – Derivados do 8-quinolinol: musculatura.
a) sódio-7-iodo-8-hidroxiquinolina-5-sulfona- Reserva-se o emprego de emetina para o trata-
to (Yatren, Chiniofon, Anayondin etc.) mento de ataque dos casos agudos e para as for-
r Parasitologia e Micologia Humana

mas extra-intestinais da doença. Nos casos agudos, tra-intestinais, nas qual há sinais de associação
logo que cessam os sintomas mais graves, a emeti- bacteriana. Para as formas intestinais, a via de in-
na é suspensa e, então, o tratamento será prosse- trodução do antibiótico é a oral e, nas extra-in-
guido com um dos medicamentos de emprego testinais prefere-se a via parenteral.
por via oral ou, mais raramente, por clisteres. A ação dos antibióticos no tratamento da
Os compostos da emetina para uso oral, como amebíase tem sido comprovada em numerosos
o canfossulfonato, o iodobismutato e o periodeto estudos.
de emetina, não são preconizados no Brasil, em- Sabe-se que eles atuam a um só tempo sobre
bora recomendados por autoridades médicas de a Entamoeba histolytica na sua forma vegetativa,
língua inglesa. A 2-3-deidroemetina, usada por e sobre as bactérias que desempenham o papel
via oral, é considerada mais eficaz e menos tóxica de agentes patogênicos associados nas lesões.
que a emetina. Passada a fase aguda da doença, deve ser
prescrito um dos fármacos dos grupos 2, 3, 4 e 5.
Derivados do 8-Quinolinol
Sulfamidados
Neste grupo de fármacos são incluídas várias
especialidades farmacêuticas, apresentando, en- Sua ação é comparável à dos antibióticos e,
tre elas, pequenas diferenças na sua constituição nos casos agudos, são usados por via oral nas do-
química estrutural, de modo que o teor em iodo ses recomendadas para as infecções bacterianas.
ou em iodo e cloro seja mais elevado em uma Nos casos muito graves, pode-se associar o
que em outras. Alguns autores acreditam que a sulfamidado ao cloridrato de emetina. Após a re-
eficácia dos fármacos desse grupo depende do missão da sintomatologia aguda, institui-se a me-
maior teor em cloro e iodo, o que, entretanto, dicação com um dos amebicidas dos grupos 2, 3,
não foi confirmado. 4 e 5, para consolidar o tratamento.
O uso e a dosagem dos fámacos citados variam Dos sulfamidados, o mais eficaz é a sulfadiazi-
de um para outro, sendo a eficácia praticamente na, e sua indicação é recomendável nos casos
a mesma, desde que os esquemas de tratamento em que há associação da amebíase à disenteria
sejam criteriosamente seguidos. bacilar.
Em nosso país são usados com êxito o só-
dio-7-iodo-8-hidroxiquinolina, o 5,7-diiodo-8-hi-
Cloroquina
droxiquinolina e o 5-cloro-7-iodo-8-quinolinol e, Deste grupo são mais conhecidos o Aralen e a
mais recentemente, os demais. Nivaquina, produtos orgânicos primeiramente
Os fármacos deste grupo são indicados na for- preconizados no tratamento da malária. Usa-se
ma crônica intestinal, havendo cuidado de que por via oral, em substituição ao cloridrato de
nas doenças tireoidianas e na hipersensibilidade emetina, no tratamento das formas extra-intesti-
ao iodo, sejam substituídos por outros de idênti- nais da amebíase, particularmente na necrose
ca indicação. hepática.
Indica-se em doses inicialmente altas de 0,06
Amino-O-Cresóis, g nos dois primeiros dias, depois 0,30 g por mais
Dicloracetamídicos e Quinonas 4 dias e, a seguir, 0,15 g durante 24 dias.

O bialamicol, clorbetamida, clefamida, dilo- Nitrimidazólicos


xanida, teclozan e fenantrolinadiona são produ-
tos sintetizados nos últimos anos e preconizados O metronidazol e o tinidazol são fármacos
na amebíase crônica, enquanto a etofamida tem úteis no tratamento da amebíase intestinal (agu-
indicação nas formas aguda e crônica. da e crônica) e da extra-intestinal. O primeiro é
empregado na dose de 2 comprimidos a 250 mg,
Antibióticos 4 vezes/dia durante 5 dias, na amebíase intesti-
nal, e 10 na forma hepática. O segundo, respec-
Os antibióticos são indicados nas formas agu- tivamente, 4 drágeas de 500 mg/dia durante 2 a
das da doença, tanto as intestinais quanto as ex- 3 dias.
meb ase r 1

PROFILAXIA rios em obras de campo, manipuladores de ali-


mentos e outras.
A profilaxia da amebíase se fundamenta no Descobertos, os portadores de cistos são tra-
conhecimento dos mecanismos de infecção da tados até que se negativem seus exames para o
doença e dos meios de disseminação dos cistos protozoário.
de E. histolytica. Subsidiariamente são instituídas medidas edu-
A infecção se efetua, nas condições habituais, cativas visando eliminar a contaminação fecal da
por via oral, por ingestão de água ou alimentos água, dos alimentos e do solo. Essas medidas po-
contaminados por matéria fecal contendo os cis- dem ser divulgadas pelos meios de comunicação
tos do parasito. ou levadas às residências rurais e urbanas pelas vi-
A fonte de propagação dos cistos é o homem, sitadoras sanitárias.
embora outros animais, como o cão, porco e al- Cumpre às autoridades sanitárias a execução
guns primatas, possam apresentar infecções na- de obras de engenharia visando a um adequado
turais, porém de importância epidemiológica se- tratamento dos dejetos humanos e de animais.
cundária. Estas medidas sanitárias nas cidades são constituí-
A forma infectante do parasito é o cisto tetra- das pela rede de esgotos e estação para trata-
nucleado maduro, eliminado pelo portador nas mento e, nas vilas, povoados e no meio rural, pe-
fezes que, na água ou em meio úmido, pode per- los esgotos canalizados para fossas sanitárias e,
manecer vivo e viável por alguns dias. em casos especiais, para depósitos perdidos a
céu aberto.
As formas vegetativas não resistem às condi-
Com relação aos meios de disseminação dos
ções do meio externo e, na eventualidade de se-
cistos e às vias de sua introdução no organismo,
rem ingeridas pelo homem ou outro animal sus-
são preconizadas medidas de ordem geral relacio-
cetível, não sobrevivem à ação do suco gástrico.
nadas com o saneamento urbano e o rural e de
Por isso os doentes da forma aguda da amebíase
natureza individual e doméstica.
não são considerados propagadores da parasito-
se. As medidas de ordem geral consistem no tra-
tamento da água de abastecimento e de sua dis-
O homem, principal reservatório do parasito
tribuição livre de qualquer contaminação poste-
e eliminador dos cistos infectantes, pode ser sin-
rior.
tomático ou assintomático, sendo, neste último
O tratamento da água consiste de três fases:
caso, erradamente denominado “portador são”.
1ª – precipitação das impurezas com sulfato
Os portadores sintomáticos, em geral, são doen- de alumínio; 2ª – filtração em filtro de areia; 3ª –
tes crônicos, muitas vezes com quadros clínicos in- cloração.
definidos; os assintomáticos não apresentam sinto- A precipitação e subseqüente filtração da
mas, embora na realidade possam apresentar le- água são suficientes para eliminar os cistos.
sões intestinais que por serem discretas não se tra- Por contraposição, a simples cloração com o
duzem por sintomas correlacionáveis com os da teor de cloro usado nas condições ordinárias não
amebíase. é suficiente para destruir os cistos de E. histolyti-
Na dependência de fatores individuais, todas ca.
as pessoas são suscetíveis à infecção amebiana. A profilaxia da amebíase em caráter definiti-
As medidas profiláticas devem visar: a) a fonte vo, como também de todas as demais protozoo-
de infecção e a via de eliminação do parasito; b) ses intestinais, depende das obras de engenharia
os meios de disseminação dos cistos de E. histoly- sanitária relativas ao abastecimento da água e à
tica e as vias de sua introdução no organismo. canalização e tratamento dos esgotos.
Em relação ao portador do parasito, a medida Algumas medidas complementares podem ser
profilática preliminar é a descoberta e o trata- preconizadas para a prevenção individual, do-
mento dos eliminadores de cistos, o que é obtido méstica ou de comunidades segregadas, como
mediante inquéritos coprológicos gerais ou em asilos, conventos, prisões, internatos e outras.
comunidades como colégios, internatos, asilos, Destas, citamos a limpeza das mãos, princi-
quartéis, núcleos de operários em usinas, operá- palmente as dos manipuladores de alimentos,
r Parasitologia e Micologia Humana

proteção dos alimentos contra moscas e baratas, e nos quais podem-se excluir outras causas, im-
desinfecção dos frutos e hortaliças por solução põe-se uma medicação antiinfecciosa contra as
de ácido acético a 5%, ou em vinagre (30 minu- bactérias coexistentes, oriundas da água e/ou de
tos), ou aquecimento a 65°C durante 1 minuto. alimentos contaminados por matéria fecal.
Outras medidas importantes a serem usadas,
principalmente no meio rural, são a proteção É fácil concluir que, no momento em que tais
dos poços ou cisternas contra a água de enxurra- amebídeos têm acesso ao organismo humano
das, a construção de fossas afastadas dos poços, por via oral, as bactérias também de origem in-
a proteção das fontes de água contra a poluição testinal sejam ingeridas, vindo instalar-se no in-
fecal, a rigorosa interdição do uso de fezes como testino, provocando ou não infecções.
adubo, a proibição do uso das águas de córrego,
Complementando o assunto, focalizamos al-
riachos ou poços contaminados para regar e re-
guns aspectos que não podem ser subestimados
frescar as hortaliças.
ou ignorados.
Com estas providências e o uso contínuo de
água filtrada, evita-se, com relativa segurança, a Estudos atuais demonstram a possibilidade de
infecção pela Entamoeba histolytica. que amebas de vida livre possam, fortuitamente,
Quanto aos demais amebídeos, hóspedes do produzir no homem uma meningoencefalite de
intestino humano, considerados desprovidos de evolução muito rápida e fatal. São responsabili-
ação patogênica, é dispensável o tratamento e zadas espécies dos gêneros Acanthamoeba, Nae-
qualquer medida profilática. gleria e Hartmanella, encontradas em coleções
Para o sanitarista, entretanto, podem ser con- líquidas, inclusive piscinas, pela acentuada resis-
siderados indicadores de poluição fecal da água tência dos cistos, que são ingeridos ou inalados.
e/ou de alimentos, uma vez que são hóspedes do
intestino do homem na condição de comensais O diagnóstico da meningoencefalite amebia-
obrigatórios. na raramente é obtido em vida. O único trata-
Em casos com sintomas de enterocolite, em mento conhecido é representado pela anfoterici-
que estes amebídeos comensais estão presentes na B.
14
Classe Mastigophora
Diesing, 1865 –
Flagelados de Importância

lasse Mastigop ora Diesing 1 65 – lagela os e Importância

A classe Mastigophora divide-se em duas sub- Ordem Protomonadida – em geral com me-
classes: Phytomastigina Doflein, 1916 e Zoomas- nos de seis flagelos. De vida livre, comensais ou
tigina Doflein, 1916. parasitos.
Phytomastigina – Flagelados providos de cro- Ordem Hypermastigida – flagelos numerosos.
matóforos contendo clorofila, holofíticos, aquáti- Hóspedes do intestino de isópteros, blatários e
cos, de vida livre. coleópteros.
Zoomastigina – Flagelados sem cromatóforos Ordem Cystoflagellata – grandes protozoários
contendo clorofila, holozóicos, de vida livre ou de forma globular, com um flagelo e um tentácu-
associativa como mutualistas, comensais ou pa- lo peculiar. Marinhos.
rasitos.
B – Formas diplozóicas – dois núcleos e número
par de flagelos e blefaroplastos. Corpo com si-
SUBCLASSE ZOOMASTIGINA metria bilateral.
DOFLEIN, 1916
Ordem única – diplomonadida – de vida livre
São flagelados de vida livre ou associativa; ou hóspedes de animais.
nesta modalidade podendo ser mutualistas, co-
C – Formas polizóicas – mais de 2 núcleos e nu-
mensais ou parasitos. Todos são desprovidos de
merosos flagelos e blefaroplastos.
clorofila, tendo nutrição heterotrófica, quer do
tipo osmotrófico, quer do tipo fagotrófico. Nas Ordem única – polimonadida. Hóspedes do
espécies de vida associativa, a associação pode intestino de isópteros.
ser com vegetais e animais, e nestes, com verte-
brados e invertebrados. Das espécies parasitas
de vertebrados, algumas são agentes de doenças
LOCALIZAÇÃO NO ORGANISMO E
com grande importância veterinária e médica. PATOGENICIDADE
De acordo com Wenyon (1926), esta subclas-
As espécies de interesse biomédico, já relacio-
se é dividida em cinco ordens, agrupadas como a
nadas no Capítulo 11 em função da posição sis-
seguir:
temática, podem agora ser agrupadas segundo
A – Formas monozóicas – um único núcleo e nú- sua localização no organismo e sua patogenici-
mero variável de flagelos e blefaroplastos. dade.

3
4 r Parasitologia e Micologia Humana

Grupo I – Flagelados do Trato sangue, o liquor e os tecidos, de modo que suas


secreções e excreções são imediatamente difun-
Digestório e Vias Geniturinárias didas no organismo ou exercem ação direta sobre
1 – Não patogênicos ou simples protozoários de as células contíguas.
associação em processos mórbidos depen-
dentes de outras causas: ENTEROMONAS HOMINIS
a) do intestino grosso: Enteromonas hominis, FONSECA, 1915
Embadomonas intestinalis e Chilomastix mes-
nili (comensais). Sin.: Tricercomonas intestinalis (Wenyon e O’Con-
b) da cavidade oral e amígdalas: Trichomonas nor, 1917).
tenax (comensal). Este pequeno flagelado foi descoberto e des-
2 – Ação patogênica variável, por vezes intensa. crito por Fonseca, em 1915, nas fezes diarréicas
a) do intestino grosso: Pentatrichomonas ho- de um indivíduo da cidade do Rio de Janeiro.
minis (tricomoníase intestinal). Embora de baixa incidência, tem sido encon-
b) das vias geniturinárias do homem e da mu- trado em vários países do Novo e do Velho Mun-
lher: Trichomonas vaginalis (tricomoníase do, principalmente nas regiões intertropicais. No
urogenital). Brasil, onde foi descoberto, são muito baixos os
percentuais de incidência deste protozoário, pos-
3 – De ação patogênica pronunciada. Intestino
sivelmente por não ser pesquisado sistematica-
delgado: Giardia intestinalis (giardíase).
mente em fezes diarréicas e, ainda, pela confusão
Grupo II – Flagelados do Sangue, que pode ocorrer entre os seus cistos e os de
Endolimax nana.
Liquor e Tecidos Enteromonas hominis é considerado um co-
1 – De ação patogênica imprecisa, pouco pro- mensal do lúmen intestinal, não sendo, entretan-
nunciada: Trypanosoma rangeli (tripanosso- to, conhecida sua exata localização, presumin-
mose americana benigna). do-se que seja o intestino grosso. Em razão de as
2 – De ação patogênica bem determinada, em formas vegetativas aparecerem em fezes diarréi-
geral pronunciada: cas, é de se presumir que as alterações intestinais
a) Gênero Leishmania: favoreçam a sua multiplicação, e nesse caso, o
L. braziliensis e outras espécies, agentes da protozoário talvez pudesse ser considerado um
leishmaniose tegumentar americana; agente de associação em processos mórbidos de-
L. tropica, agente da leishmaniose tegu- pendentes de outras causas.
mentar oriental;
L. infantum chagasi, agente da leishmanio-
Morfologia
se visceral. Nas fezes diarréicas se apresenta como um
b) Gênero Trypanosoma: pequeno protozoário móvel e metamórfico, me-
Trypanosoma gambiense, doença do sono; dindo 6 a 10 mm de comprimento por 4 a 6 mm
Trypanosoma rhodesiense, doença do so- de largura.
no; A motilidade é proporcionada por três curtos
Trypanosma cruzi; doença de Chagas. flagelos anteriores e um alongado, originado na
Geralmente, a patogenicidade dos flagelados extremidade anterior e orientado para trás, aco-
que vivem no homem decorre da sua localiza- plado ao corpo da célula. Os flagelos são mais
ção, sendo mais intensa a dos sanguícolas e li- bem observados quando o protozoário vai en-
quóricos e a dos que vivem no interior dos teci- trando em agonia, havendo então tendência ao
dos. arredondamento da célula.
Os flagelados do intestino grosso, que se nu- Em material corado pela hematoxilina férrica
trem osmotroficamente dos líquidos existentes no é possível observar o núcleo bem individualiza-
lúmen intestinal, são menos patogênicos que as do, próximo à extremidade anterior da célula, e
espécies de Trypanosoma e Leishmania. Nestes, o o citoplasma finamente granuloso e vacuolizado,
corpo do parasito entra em contato direto com o por vezes com bactérias fagocitadas (Fig. 1). O
lasse Mastigop ora Diesing 1 65 – lagela os e Importância r 5

Transmissão e Reprodução
AB
A transmissão se processa pela ingestão dos
cistos veiculados pela água e alimentos contami-
nados por matéria fecal humana. As formas vege-
tativas reproduzem-se por divisão binária, e os
cistos, por analogia com E. histolytica, devem ori-
ginar quatro pequenos trofozoítas.

EMBADOMONAS INTESTINALIS
(WENYON E O’CONNOR, 1917)
Sin.: Retortamonas intestinalis (Wenyoon e O’Con-
nor, 1917) Wenrich, 1932.
Fig. 1 – Trofozoíta de E. hominis. A – Núcleo; B – carios- Este flagelado, como o anterior, enquanto pou-
somo; C – blefaroplasto; D – flagelo. Original. co freqüente, é observado em vários países. No
Brasil é raro, como se depreende das estatísticas
núcleo é vesiculoso, com um cariossomo volu- sobre exames coprológicos levantadas em nosso
moso em seu interior. Junto do núcleo pode-se país.
observar, de modo indistinto, os blefaroplastos É também um habitante do intestino grosso
de onde se originam os flagelos. do homem e as considerações sobre sua ativida-
No exame das fezes a fresco, é relativamente de patogênica são as mesmas relativas ao Entero-
fácil a diferenciação desse flagelado de Pentatri- monas hominis.
chomonas hominis por sua presença na membrana
ondulante, delimitada externamente pelo flagelo Morfologia
recorrente; de Chilomastix mesnili, pelo seu citós- As formas vegetativas são alongadas, medindo
toma com seu flagelo; de Embadomonas intestina- 4 a 9 mm de comprimento por 3 a 5 mm de largu-
lis, por sua forma alongada e seus dois flagelos, um ra, porém são metamórficas (Fig. 3); os cistos são
dos quais emergindo de pequeno citóstoma.
Os cistos, muito raros e medindo 5 a 8 mm por
3 a 4 mm, assemelham-se aos de Endolimax nana
e não estando corados pela hematoxilina dificil-
mente podem ser diferenciados deles. São uni,
bi ou tetranucleados e, segundo os autores que
estudaram esse mastigóforo, os núcleos se colo-
cam no pólo do cisto que é, em geral, elíptico A
(Fig. 2).
B

Fig. 3 – Trofozoíta de E. intestinalis. A – Flagelado; B – ble-


Fig. 2 – Cisto de E. hominis. Original. faroplasto; C – cariossomo; D – núcleo. Original.
6 r Parasitologia e Micologia Humana

piriformes, um pouco menores que os trofozoí- Corado pela hemtoxilina normalmente este
tas e sempre uninucleados (Fig. 4). microrganismo se mostra alongado, com a extre-
midade anterior arredondada e a posterior pon-
tiaguda. O núcleo se situa anteriormente, junto à
extremidade, e apresenta grânulos cariossômicos
com disposição variável. O citoplasma é granulo-
so, com pequenos vacúolos, por vezes contendo
bactérias.
O citóstoma é profundo, medindo aproxima-
damente um terço do comprimento da célula e,
no microganismo vivo, é percebido graças ao
movimento do flagelo citostômico que dá uma
Fig. 4 – Cisto de E. intestinalis. Original. impressão visual de pulsação.
No protozoário fixado e corado é o citóstoma
bem individualizado com uma depressão alonga-
A forma vegetativa, quando observada viva da, contornada por um rebordo cromófilo, que
nos preparados a fresco, é reconhecida por sua os protozoologistas denominam lábio do citósto-
forma alongada, seu movimento peculiar e seus ma (Fig. 5).
dois flagelos; nas preparações coradas nota-se o
núcleo anteriormente colocado, o citoplasma gra-
nuloso e o citóstoma visível conforme a posição
de um ou outro exemplar no campo microscópi-
co.

Transmissão e Reprodução
A transmissão se faz pela ingestão dos cistos e
a reprodução se processa por divisão binária.

CHILOMASTIX MESNILI (WENYON,


1910) ALEXEIEF, 1912 Fig. 5 – Trofozoíta de C. mesnili. Original.

Sin.: Macrostoma mesnili Wenyon, 1910.


Mais freqüente que as duas espécies anterio-
res, também é observado em vários países, prin- É de se assinalar que, em conseqüência do
cipalmente naqueles com regiões tropicais. metamorfismo dessa espécie, é freqüente o en-
O C. mesnili, para alguns autores, possui poder contro de formas arredondadas, de dimensões
patogênico definido, porém, de fato, é um co- muito variáveis, que não se confundem com os
mensal do intestino, possivelmente do intestino outros flagelos intestinais.
grosso. É provável, entretanto, que exerça o papel
de agente de associação em doenças preexisten-
Os cistos são característicos, devido a sua for-
tes, de modo semelhante aos dois outros flagela-
ma de pêra ou limão, e medem 7 a 10 mm de
dos anteriormente estudados.
comprimento por 4 a 6 mm de largura. Mesmo
quando examinados no Lugol, são facilmente re-
Morfologia conhecidos por sua forma e pelo núcleo único
A forma vegetativa, metamórfica, alongada, disposto assimetricamente.
apresenta tamanhos variando de 6 a 20 mm de
comprimento por 4 a 10 mm de largura. É muito Nas preparações coradas, além do núcleo,
móvel, graças a seus três flagelos anteriores e a pode-se ver o esboço do citóstoma contornado
seus movimentos de contorção. por seu lábio (Figs. 6 e 7).
lasse Mastigop ora Diesing 1 65 – lagela os e Importância r 7

A B

Fig. 6 – Cisto de C. mesnili. A – Núcleo; B – esboço do ci-


tóstoma. Original.

Fig. 8 – Microfotografia de Trichomonas. Coloração Giem-


sa, 1.000 X. Original.

Cultiva-se facilmente em diferentes meios usa-


dos em protozoologia e podem-se obter culturas
Fig. 7 – Microfotografia de cisto de C. mesnili. Coloração
puras quando se adicionam aos meios antibióti-
pela hematoxilina, 1.000 X. Original. cos, como a estreptomicina e a penicilina.

Reprodução e Transmissão
Transmissão e Reprodução A reprodução se realiza por divisão binária no
A infecção se realiza pela ingestão da água e sentido longitudional. Não se formam cistos nes-
alimentos contendo as formas císticas. A repro- se gênero, e a transmissão do protozoário de
dução se processa por divisão binária. hospedeiro a hospedeiro se efetua pelas formas
vegetativas que são resistentes e sobrevivem al-
GÊNEROS TRICHOMONAS guns dias no meio aquático exterior.
DONNÉ, 1837 E ESPÉCIES DE INTERESSE
PENTATRICHOMONAS DAVAINE, BIOMÉDICO
1860
Numerosas espécies comensais ou parasitas
Estes dois gêneros de flagelados se caracteri- de muitos animais, entre eles o gato, cobaio, ra-
zam pela presença de três a cinco flagelos anterio- tos, bovinos, aves e muitos outros, inclusive o
res, por um flagelo recorrente que delimita exter- homem, pertecem aos gêneros Trichomonas e
namente a membrana ondulante, por um núcleo Pentatrichomonas.
vesiculoso, um citóstoma anterior junto ao núcleo e As três espécies que vivem no homem são,
por duas formações esqueléticas, a costa e o axós- morfologicamente semelhantes, porém, biologi-
tilo. camente bem individualizadas, em conseqüên-
A forma geral é piriforme e as dimensões mé- cia da especificidade de seu habitat.
dias variam entre as três espécies de interesse Durante algum tempo, persistiu a controvérsia
médico; o citoplasma é vacuolizado e contém sobre a unicidade e a pluralidade das espécies de
bactérias fagocitadas ou ingeridas através do ci- Trichomonas que vivem no homem. Atualmente,
tóstoma. entretanto, são consideradas duas espécies: T. te-
A extremidade anterior é arredondada e a nax (Müller, 1773), comensal da boca e criptas
posterior, menos dilatada, apresenta a ponta do amigdalianas, e T. vaginalis (Donné, 1837), parasi-
axóstilo saliente para fora da membrana celular, ta do trato geniturinário da mulher e do homem.
emprestando ao protozoário feição característica No gênero Pentatrichomonas, uma espécice, P.
(Fig. 8). hominis (Davaine, 1860), parasito no intestino.
r Parasitologia e Micologia Humana

PENTATRICHOMONAS HOMINIS monstração experimental da ação patogênica


deste flagelado, a maioria dos parasitologistas
(DAVAINE, 1860) considera-o capaz de provocar diarréias ou de
Sin.: Trichomonas intestinalis Leuckart, 1879. agravá-las, quando decorrentes de outras causas.
Este flagelado é encontrado em todas as par- À infecção, denominamos tricomoníase intes-
tes do mundo, principalmente nas regiões quen- tinal, e seu sintoma principal é a diarréia profusa
tes e temperadas. É hóspede da última porção do com eliminação de fezes com cheiro pútrido.
intestino delgado e do grosso, particularmente Transmissão – contaminação fecal e ingestão
do ceco. das formas infectantes.
Morfologia – as dimensões oscilam entre 7 e Diagnóstico laboratorial – facilmente realiza-
15 mm de comprimento e as dimensões médias do pelo exame microscópico das fezes onde, na
são maiores que as de T. tenax e menores que as maioria dos casos, o parasito é abundante.
de T. vaginalis. Tratamento – são indicados os medicamentos
Núcleo situado anteriormente, globuloso ou preconizados para a amebíase, devendo-se res-
elipsóide, de estrutura vesiculosa, com grânulos de saltar as quinolinas. A sulfadiazina também tem
cromatina individualizados. A membrana ondulan- sido usada com pleno êxito nas doses adotadas
te, dispondo-se lateralmente na célula, aproxima- para a disenteria bacilar, podendo-se acreditar
se, ou mesmo, atinge a extremidade posterior, de que a erradicação do protozoário decorra, pelo
onde o flagelo recorrente se torna livre (Fig. 9). menos em parte, da ação que o quimioterápico
O protozoário, por só se apresentar sob a for- exerce sobre as bactérias intestinais que criam
ma vegetativa, só é observado em fezes diarréi- condições favoráveis à multiplicação do parasito.
cas, onde é facilmente reconhecido, graças aos Profilaxia – como Pentatrichomonas hominis
movimentos dos flagelos anteriores e da mem- não possui cistos, a infecção inter-humana deve
brana ondulante. se estabelecer pelas formas vegetativas. Não se
Na prática, embora apresente certos aspectos conhece o limite de sobrevivência das formas ve-
morfológicos que o distinguem das duas outras getativas deste flagelado na água e no meio exte-
espécies, o fato de ser encontrado nas fezes nos rior, devendo-se presumir que o tempo entre sua
permite sua identificação. eliminação com as fezes do portador e seu aces-
Ação patogênica – ainda se discute se o T. ho- so ao receptor, com a água ou alimentos conta-
minis é um comensal inócuo do intestino ou um minados, seja muito curto.
agente patogênico capaz de produzir, per se, as Essa ocorrência só poderá ter lugar em ínfimas
alterações mórbidas decorrentes de sua pre- condições de higiene, razão pela qual a tricomo-
sença no organismo. Embora seja difícil a de- níase intestinal é relativamente rara. Sua pre-
venção se baseia no mínimo de higiene individual e
doméstica compatível com pessoas adultas men-
talmente normais.

TRICHOMONAS TENAX (MÜLLER,


1773)
Sin.: Trichomonas elongata Steinberg, 1862.
Este protozoário é considerado um comensal
da boca e das criptas amigdalianas, encontrado
principalmente em indivíduos portadores de in-
fecções alvéolo-dentárias e anginas crônicas. A
incidência em certas comunidades é elevada e o
parasito é cosmopolita.
Morfologia – mede 5 a 12 mm de comprimen-
Fig. 9 – Pentatrichomonas hominis. Observar a membra- to, sendo um pouco menor que P. hominis, do
na ondulante alongada. Original. qual se diferencia com dificuldade pelo núcleo,
lasse Mastigop ora Diesing 1 65 – lagela os e Importância r

que é ligeiramente maior, pela membrana ondu- Morfologia – esta espécie de flagelado é se-
lante mais curta e pelo habitat (Fig. 10). melhante às anteriores, das quais, na prática, dis-
Transmissão – entre os indivíduos, dá-se dire- tingue-se pelo habitat. Mede 7 a 23 mm de com-
tamente pelo beijo, pelas gotículas de saliva e primento por 5 a 15 mm de largura; o núcleo
por vasilhames usados para alimentos e água. elipsóide é relativamente grande e a membrana
Diagnóstico – o parasito é reconhecido ao mi- ondulante é bem mais curta (Fig. 11).
croscópico no material coletado no tártaro dentá- Ação patogênica – o Trichomonas vaginalis é o
rio, na base dos dentes, nas cáries e inflamações agente da tricomoníase urogenital.
dentárias, no exsudato das criptas amigdalianas. Os sintomas decorrentes da infecção variam
Tratamento – a erradicação do protozoário de intensidade de caso para caso e, no mesmo
pode ser obtida com anti-sépticos bucais em so- indivíduo, em épocas diferentes.
lução ou pastilhas. Na mulher, em que a infecção é muito mais
comum, podem-se observar casos de simples por-
tadoras do parasito sem sintomatologia apreciá-
vel e casos com sintomatologia patente, não raro
graves. Nestes casos, os sintomas são de uma vul-
vovaginite com exsudato abundante, branco ou
branco-amarelado, alcalino. O exame local reve-
la hiperemia da mucosa, com áreas hemorrági-
cas, áreas de granulação e, mais raramente, de
necrose. Na vulva, notam-se edema e congestão
e, subjetivamente, intenso prurido.
A intensidade das alterações mórbidas no cur-
so da tricomoníase vaginal depende, fundamen-
talmente, do pH do meio. Elevado nível de estro-
gênio no sangue propicia, no epitélio vaginal, o
aumento de glicogênio e, conseqüentemente, de
ácido lático, que mantém o pH normal, entre 3,8
Fig. 10 – Trichomonas tenax. Observar a membrana on- e 4,5, impedindo a agressão na tricomoníase,
dulante mais curta. Original.
fato que não ocorre na candidomicose. Em con-
dições antagônicas, com a elevação do pH, de-
sencadeia-se a agressão pelo flagelado. Assim
TRICHOMONAS VAGINALIS
DONNÉ, 1837
Este flageado cosmopolita tem como habitat
as vias geniturinárias femininas e masculinas. Em
certas comunidades, a incidência nas mulheres
pode atingir 60%, sendo mais comuns nas adul-
tas em atividade sexual. Nas jovens virgens e
mesmo em meninas a infecção pode ocorrer, po-
rém, em menor percentual.
No sexo feminino o flagelado se implanta na
vulva, vagina, fundo-de-saco de Douglas, colo
uterino e, menos freqüentemente, na uretra.
A infecção do homem pelo T. vaginalis, com-
parativamente à da mulher, é muito menos fre-
qüente, porém, não são raros os casos de invasão Fig. 11 – Trichomonas vaginalis. A membrana ondulante
dos órgãos urogenitais masculinos. é bem curta. Original.
r Parasitologia e Micologia Humana

sendo, em função da variação hormonal, a T. va- se presentes, na correção da acidez do meio va-
ginalis agride a mucosa da cavidade no período ginal e no emprego de tricomonicidas.
pós-menstrual e na menopausa. A reação do meio vaginal é normalmente áci-
No homem, o flagelado é observado na maio- da, caso contrário, deve ser acidificada com o
ria de casos na uretra, produzindo uretrite, dita emprego de soluções, geléias ou óvulos, tendo
inespecífica, porém pode invadir as vesículas se- por base os ácidos lático ou acético.
minais, a próstata e o sulco balanoprepucial. No mercado, há numerosas preparações far-
Transmissão – a transmissão do parasito pode macêuticas com propriedades acidificantes e tri-
ocorrer diretamente entre o homem e a mulher, comonicidas, ora sob forma de comprimidos va-
pelo contato sexual ou indiretamente, por peças ginais ou óvulos, ora de geléias.
de vestuário, toalhas e água do banho. Os quimioterápicos empregados como trico-
Nem sempre é fácil, entretanto, explicar a in- monicidas são substâncias do grupo 8-quinoli-
fecção das meninas e moças virgens, de padrão nol, sulfonamidas, arsenicais e nitrimidazólicos.
higiênico elevado; nesta circunstância, a infecção Alguns antibióticos, como a cabimicina e a tiro-
poderia ser indireta, como dito anteriormente, ou tricina, constituem a base de algumas especialida-
no momento do parto, da mãe para o recém-nas- des farmacêuticas preconizadas para infecções
cido, que obrigaria o parasito, inicialmente sem do aparelho genital feminino, inclusive a trico-
sintomas, os quais surgiriam mais tarde, na puber- moníase.
dade. O tratamento da tricomoníase urogenital de
No sexo masculino, a infecção é exclusiva dos meninas e virgens, devido a exigências éticas, re-
adultos, na maioria das vezes em conseqüência quer cuidados especiais a cargo dos ginecologis-
da promiscuidade sexual, sendo encontrada nas tas.
mais variadas idades, inclusive em velhos há mui- Para a tricomoníase das vias geniturinárias mas-
to sem atividade sexual, que adquiriram o parasi- culinas, o tratamento consiste na instilação de lo-
tismo vários anos antes. ções anti-sépticas.
Diagnóstico – na mulher, o diagnóstico é feito
Em todos os casos, é possível o tratamento por
pela observação de Trichomonas vaginalis no ex-
via oral com substâncias de síntese com o núcleo
sudato vulvovaginal e urina. No primeiro caso, o
orgânico imidazol.
material é coletado no local da infecção e trata-
do por solução fisiológica a 37°C e examinado ao Profilaxia – os mecanismos de infecção e pro-
microscópico entre lâmina e lamínula. Para a uri- pagação da tricomoníase geniturinária ainda não
na, procede-se ao exame microscópico do sedi- estão completamente elucidados.
mento. Entre os adutos em atividade sexual e pro-
No homem, a microscropia é feita no exsudato míscuos, a transmissão se processa reciproca-
uretral, no líquido de lavagem das vesículas semi- mente pelo ato sexual.
nais, no líquido prostático coletado por massagem Entretanto, é difícil explicar a infecção das
da próstata e no sedimento urinário. meninas, adolescentes e mulheres adultas fora
A observação do parasito ao microscópio é fa- de qualquer atividade sexual.
cilitada, tratando-se o material por um corante Pelo fato de a T. vaginalis sobreviver várias ho-
diluído, sendo usado o vermelho-neutro ou o ras na água, é possível a infecção pelo uso desta,
azul-brilhante de cresil, ambos a 1:1.000. Com desde que tenha sido usada para banho de uma
este artíficio, as partículas microscópicas tomam pessoa portadora do parasito.
fracamente o corante, enquanto o flagelado não- As medidas profiláticas se resumem no trata-
corado, hialino, móvel, contrasta no conjunto. mento de todos os doentes e na adoção de re-
Tratamento – o tratamento da tricomoníase gras de higiene individual e doméstica. Quando
urogenital feminina, a cargo do ginecologista, um dos cônjuges for tratado, o outro também
consiste na correção dos distúrbios endócrinos, deve ser.
lasse Mastigop ora Diesing 1 65 – lagela os e Importância r 1

GIARDIA INTESTINALIS LAMBL, nulos isolados, ora um volumoso cariossomo. En-


tre os núcleos observam-se os blefaroplastos, de
1859 onde se originam os oito axonemas dos flagelos
Sin.: Giardia lamblia Stiles, 1915. (Fig. 12). Devido à dificuldade de se obter uma
Dos flagelados parasitos do trato digestório do perfeita diferenciação das estruturas do proto-
homem, o mais freqüente e de ação patogênica zoário, não há acordo sobre o número de blefa-
mais intensa é Giardia intestinalis. Em nosso país, roplastos; dois pares, na opinião de alguns para-
a incidência desse flagelado varia muito entre sitologistas, quatro pares, na de outros. Wenyon
localidades e diferentes grupos populacionais, ha- considera que são oito os blefaropastos e que,
vendo em alguns deles uma incidência da ordem em razão de se disporem estreitamente unidos, é
de 25%. A infecção é mais freqüente na infância, difícil sua observação.
entre os pré-escolares e os escolares, acreditan- A denominação dos flagelos varia entre os au-
do-se que os menores percentuais nos adutos tores e, para evitar controvérsia, poderemos sim-
decorram da cura espontânea, em conseqüência plesmente nomeá-los ordenadamente, da frente
do desenvolvimento da imunidade do organismo para trás, do primeiro ao quarto par.
ao parasito. Os flagelos do primeiro par originam-se em
Localiza-se nas partes altas do intestino delga- blefaroplastos situados no lado oposto ao da sua
do, em particular no duodeno e na porção inicial libertação da célula, de modo que eles formam
do íleo, fato comprovado pelo exame dos líquidos anteriormente uma decussação. Os do segundo
coletados por tubagem do interior destes órgãos. É e terceiro pares se orientam para trás e para os
provável, contudo, que a infecção possa atingir lados e os do quarto par emergem da extremida-
todo o intestino delgado e até mesmo o intestino de posterior.
grosso, diante da sintomatologia de enterocolite Os axonemas dos flagelos do último par se
que alguns indivíduos infectados apresentam. Cons- dispõem paralelamente em situação ventral e
titui ponto controvertido a localização do proto- longitudinal e, por serem espessos, desempe-
zoário nas vias biliares, sendo raras as referências nham o papel de uma organela de função esque-
de sua presença na vesícula biliar, onde poderia ser lética. Alguns especialistas consideram erronea-
causa de perturbações inflamatórias. mente esses axonemas como axóstilos.
Contornando o disco suctorial, pode-se ob-
Morfologia servar nas preparações bem coradas uma fibrila
cromófila. Na região mediana do corpo do flage-
Este protozoário é de morfologia muito ex- lado, notam-se duas formações alongadas e cur-
pressiva e característica, tanto em sua forma ve-
getativa quanto cística.
A forma vegetativa lembra uma raquete, com
a extremidade anterior larga e curva e a posterior A
mais ou menos pontiaguda. Observada lateral- B
mente, mostra uma face dorsal convexa e outra
ventral, côncava em sua parte anterior, forman-
do uma depressão denominada disco suctorial.
Examinada a fresco, é muito móvel, graças
E
aos seus quatro pares de flagelos.
Após fixação e coloração pela hematoxilina
férrica, pode-se estudar sua estrutura caracterís-
tica. Mede 12 a 20 mm de comprimento por 8 a
12 mm de largura e sua simetria é bilateral, fato
que a distingue de todos os demais protozoários
hóspedes do homem. Fig. 12 – Giardia intestinalis, trofozoíta. A – Blefaroplas-
Há 2 núcleos iguais e simétricos de estrutura to; B – núcleo; C – corpúsculo enigmático; D – flagelo; E –
vesiculosa e com a cromatina formando ora grâ- axonema. Original.
r Parasitologia e Micologia Humana

vas, em posição oblíqua, intensamente coradas, Reprodução


e de significação obscura, as quais se denomi-
nam corpúsculos enigmáticos. A reprodução das formas vegetativas se opera
As formas císticas ou cistos são elipsóides, me- por uma complexa divisão binária no sentido
dindo 8 a 12 mm de comprimento por 8 a 10 mm longitudinal. Os cistos ingeridos sofrem o excis-
de largura (Fig. 13). A membrana é espessa e no tamento e, de cada um deles, resultam duas for-
seu interior são observados 2 ou 4 núcleos, bem mas vegetativas, que são encontradas em grande
como os esboços dos axonemas, da fribrila peris- número nos líquidos do lúmen do duodeno e
suctorial e dos corpúsculos enigmáticos. íleo e nas fezes diarréicas; os cistos são observa-
A forma elipsóide e os núcleos, geralmente, dos nas fezes pastosas e moldadas.
mais próximos a uma das extremidades, bem
como os vestígios das estruturas internas, tornam Giardíase
os cistos deste flagelado inconfundíveis (Fig. 14). A localização de Giardia intestinalis no duo-
deno e íleo condiciona alterações mórbidas de
intensidade variável, decorrentes de sua ação
mecânica e irritativa sobre a mucosa dessas por-
ções do intestino, modificando os processos de
digestão e absorção dos alimentos e perturbando
os reflexos de esvaziamento do estômago e da
vesícula biliar.
Sintomatologia – os sintomas mais freqüentes
são os de uma duodenite ou colecistite. Os sinto-
mas intestinais são dor difusa no hipocôndrio di-
reito, meteorismo, diarréias transitórias, evacua-
ção de fezes pastosas, sensação de plenitude gás-
trica, náuseas e, raramente, vômitos.
Os sintomas gerais são: sonolência pós-pran-
A B dial, cefaléia, perturbações visuais, crises de en-
xaqueca com vômitos, nervosismo, anemia e
Fig. 13 – Giardia intestinalis. A – Cisto binucleado; B – cis- emaciação discretas, perda da atenção, princi-
to tetranucleado. Original. palmente nos jovens.
A intensidade dos sintomas varia de indivíduo
para indivíduo, existindo casos assintomáticos
ou com sinais clínicos discretos e casos de relati-
va gravidade, exigindo pronto tratamento.
A localização de Giardia na vesícua biliar e
nos ductos biliares é questão controvertida, sen-
do considerada rara. Nestes casos, o protozoário
desempenharia o papel de um agente de associa-
ção, agravando estados mórbidos preexistentes,
como a angiocolite e a colecistite.
Transmissão – processa-se pelos cistos madu-
ros, tetranucleados, de modo semelhante ao que
se observa na amebíase.
Diagnóstico laboratorial – obtido pela demons-
tração do flagelado nas fezes ou no líquido duo-
denal coletado por tubagem. Nas fezes diarréicas
e no líquido duodenal que, em grande parte, é re-
Fig. 14 – Microfotografia de G. intestinalis, forma cística. presentado pelas biles A e B, o parasito é visto em
Coloração pela hematoxilina, 1.000 X. Original. suas formas vegetativa ou trofozoíta.
lasse Mastigop ora Diesing 1 65 – lagela os e Importância r 3

Encontram-se os cistos nas fezes pastosas e Para crianças, as doses são proporcionais ao
moldadas. peso. Para lactentes ou infantes, há no mercado
A pesquisa das formas vegetativas é feita pela emulsões de furazolidona e metronidazol.
microscopia direta das fezes ou da bile, entre lâ- O tinidazol é empregado, para adultos, na
mina e lamínula. dose diária e única de 4 drágeas de 500 mg.
Estes medicamentos são eficazes e, em geral,
A pesquisa dos cistos pode ser feita em prepa- bem tolerados pelos doentes.
rações diretas, coradas pelo Lugol, ou por meio Profilaxia – a profilaxia da giardíase se baseia
dos métodos de Faust ou Ritchie, descritos na nas medidas preconizadas para a amebíase, uma
parte técnica, que garantem resultados muito se- vez que a resistência dos cistos de Giardia intesti-
guros, sendo por isso preconizados na maioria nalis é comparável à da Entamoeba histolytica e
dos laboratórios de parasitologia. os mecanismos de infecção e propagação são
Tratamento – são usados os nitrofurâmicos re- idênticos.
presentados pela furazolidona (Furoxona, Giarlam Em relação aos flagelados intestinais não pa-
etc). Na nossa experiência, o melhor tratamento é togênicos, é dispensável preconizar uma tera-
a prescrição dos nitrimidazólicos (metronidazol pêutica para sua eliminação.
Flagil, Anagiardil etc., e tinidazol-Fasigyn). Em clínica e saúde pública estes flagelados têm
significação idêntica à dos amebídeos comensais,
Para a furazolidona emprega-se a dose diária representando sua existência no indivíduo o papel
de 400 a 500 mg para adulto, tomada em 2 ou 4 de indicadores de contaminação fecal da água
vezes durante 5 a 7 dias. e/ou alimentos usados, portanto, de precariedade
A dose de metronidazol para adultos é de 250 de hábitos higiênicos e ausência de saneamento
mg, 2 vezes/dia durante um período de 5 dias. básico.
15
Tripanossomídeos – Gêneros e
Formas Evolutivas – Gênero
Leishmania – Leishmanioses

ripanossom eos – neros e ormas volutivas – nero Leishmania – eis manioses

A família Trypanosomatidae Doflein, 1901, Forma epimastigota – estrutura fusiforme dife-


inclui 8 gêneros e numerosas espécies de flagela- renciada de promastigota pela presença de uma
dos parasitos de vertebrados, invertebrados e membrana ondulante e pelo cinetoplasto anterior
mesmo de certos vegetais. e próximo ao núcleo (Fig. 4).
A família caracteriza-se pela presença de um Forma tripomastigota – estrutura fusiforme di-
único flagelo originando-se no cinetoplasto, fla- ferenciada de epimastigota pela posição do cine-
gelo que falta na forma amastigota, que constitui toplasto, que é posterior ao núcleo (Fig. 5). Apre-
o estágio mais simples da evolução desse grupo senta uma longa membrana ondulante.
de mastigóforos. Forma opistomastigota – estrutura semelhante
à tripomastigota, porém desprovido de membra-
FORMAS E EVOLUTIVAS na ondulante porque o flagelo é intracitoplasmá-
tico (Fig. 6).
As formas evolutivas são: amastigota, promas-
A B
tigota, coanomastigota, epimastigota, tripomasti-
gota e opistomastigota.
As formas amastigota, promastigota, epimasti-
gota e tripomastigota foram anteriormente conhe-
cidas, respectivamente, pelas denominações de
leishmania, leptômona, critidia e tripanossoma.
É convenção geral que a extremidade do ci-
tossomo onde o flagelo se torna livre representa
a porção anterior.
Forma amastigota – estrutura globulosa, ovói- Fig. 1 – Forma amastigota. A – Núcleo; B – cinetoplasto;
de e elipsóide; membrana celular, núcleo, cine- C – membrana celular; D – axonema. Original.
toplasto; flagelo ausente (Fig. 1).
A B
Forma promastigota – estrutura globulosa ou
fusiforme, longa ou curta; núcleo, cinetoplasto
anterior e flagelo livre (Fig. 2).
Forma coanomastigota – estrutura curta, trunca-
da na extremidade anterior; núcleo, cinetoplasto Fig. 2 – Forma promastigota. A – Núcleo; B – cinetoplas-
próximo e anterior ao núcleo, flagelo livre (Fig. 3). to, bem anterior; C – flagelo. Original.

5
6 r Parasitologia e Micologia Humana

A B morfobiologicamente pelas formas evolutivas, na-


tureza e número dos hospedeiros necessários.

Gênero Leptomonas Kent, 1880


Flagelados que incluem em seu ciclo evoluti-
vo as formas amastigota e promastigota (Fig. 7),
monoxenos e parasitos de invertebrados.
A espécie mais bem estudada é Leptomonas
ctenocephali da pulga do cão (Ctenocephalides
Fig. 3 – Forma coanomastigota. A – Núcleo; B – cineto-
canis), que pode ser cultivada em meio de NNN
plasto; C – flagelo. Original. e não infecta vertebrados.
Em outros artrópodes também foram observa-
dos tripanossomatídeos do gênero Leptomonas.
A B A transmissão de invertebrado a invertebrado
se realiza pela ingestão das amastigotas encista-
das, eliminadas nas fezes dos hospedeiros.

Fig. 4 – Forma epimastigota. A – Núcleo; B – cinetoplasto


anterior e próximo ao núcleo; C – membrana ondulante.
Original.

A B Fig. 7 – Formas evolutivas de Leptomonas. Original.

Gênero Phytomonas Donovan, 1909


Flagelados, incluindo em sua evolução as for-
mas amastigota e promastigota (Fig. 8), heteroxe-
nos, vivendo em várias espécies de vegetais e in-
Fig. 5 – Forma tripomastigota. A – Cinetoplasto; B – setos fitófagos.
membrana ondulante; C – núcleo. Original. Em condições naturais são transmitidos pela
picada de insetos da ordem Hemiptera, sendo
consideradas infectantes as formas promastigotas
A B encontradas nas glândulas salivares do inseto. As
formas amastigotas são raras e tanto ocorrem no
vegetal quanto no transmissor.
Entre as espécies, a mais conhecida é Phyto-
monas davidi (Lafont, 1909). Os vegetais natural-
Fig. 6 – Forma opistomastigota. A – Cinetoplasto; B – nú- mente infectados pertencem às famílias Euphorbi-
cleo; C – flagelo. Original. ceae, Asclepiadaceae, Apocynaceae, Sapotaceae e
Urticaceae. Experiências para infectar vertebra-

GÊNEROS

Integram a família Trypanosomatidae os gêne-


ros Leptomonas, Phytomonas, Crithidia, Blasto-
crithidia, Herpetomonas, Leishmania e Trypano-
soma e Endotrypanum, que são caracterizados Fig. 8 – Formas evolutivas de Phytomonas. Original.
ripanossom eos – neros e ormas volutivas – nero Leishmania – eis manioses r 7

dos (macacos, cães, cobaios e camundongos) fo-


ram negativas.

Gênero Crithidia Leger, 1902


Este gênero inclui tripanossomídeos monoxe-
nos parasitos de artrópodes, cujas formas evolu-
tivas são amastigota e coanomastigota (Fig. 9).
As espécies mais importantes são: C. gerridis Fig. 11 – Formas evolutivas de Herpetomonas. Original.
Patton, 1908, parasito do intestino de hemípteros
aquáticos; C. hyalommae O’Farrell, 1913, parasi-
moscas, é a espécie mais estudada. Desta espécie
to da cavidade geral do carrapato; Hyalomma
foram obtidas culturas em meio NNN, as quais
aegyptium e C. euryophthalmi Mc Culloch, 1917,
não infectam experimentalmente ratos e camun-
parasitos do trato digestório do hemíptero fitófago
dongos.
Euryophthalmus convivus.
Não há evidência de que as espécies de Crithi- Gênero Endotrypanum Mesmil &
dia possam infectar vertebrados.
Brimont, 1908
Tripanossomídeos parasitos intra-hemáticos de
preguiça de dois dedos (Choloepus) e preguiça de
três dedos (Bradypus).
Os estágios evolutivos do parasito conhecidos
até o presente são formas promastigotas no vetor e
Fig. 9 – Formas evolutivas de Crithidia. Original. em cultura, epimastigotas e tripomastigotas dentro
de hemácia, ou livre no sangue. Os flebotomíneos
são incriminados como vetores.
Gênero Blastocrithidia Laird, 1959
Tripanossomídeos monoxenos ou monogenéti- Gênero Leishmania Ross, 1903
cos parasitos de invertebrados, cujas formas evo- Tripanossomídeos parasitos dos tecidos de ver-
lutivas são amastigota, promastigota e epimastigo- tebrados e do trato digestório de insetos. Nos ver-
ta (Fig. 10). tebrados observa-se a forma amastigota e nos in-
vertebrados, a forma promastigota (Fig. 12). Neste
gênero, as espécies de interesse médico formam
dois grupos clinicamente distintos: a leishmaniose
visceral e a tegumentar.

Fig. 10 – Formas evolutivas de Blastocrithidia. Original.


Fig. 12 – Formas evolutivas de Leishmania. Original.

Gênero Herpetomonas Kent, 1880 Gênero Trypanosoma Gruby, 1843


Tripanossomídeos monoxenos parasitos do tra- Parasitos de vertebrados (com espécies repre-
to digestório de insetos, apresentando três formas sentadas em todas as classes) e de invertebrados
evolutivas: amastigota, promastigota e opistomas- (artrópodes e hirudíneos). Em algumas espécies
tigota (Fig. 11). Herpetomonas muscarum (Leidy, há quatro formas evolutivas: amastigota, promas-
1856), que parasita Musca domestica e outras tigota, epimastigota e tripomastigota (Fig. 13);
r Parasitologia e Micologia Humana

em outras duas formas: epimastigota e tripomasti- GÊNERO LEISHMANIA. ESPÉCIES


gota (Fig. 14); e, em raras, só a forma tripomastigo-
ta (Fig. 15).
PARASITAS DO HOMEM.
Há numerosas espécies que infectam os ma- LEISHMANIOSES
míferos, das quais apenas quatro são observadas, Os primeiros estudos de microscopia dos agen-
em condições naturais, parasitando o homem: tes das doenças, hoje coletivamente denominadas
1 – Trypanosoma gambiense Dutton, 1902. leishmanioses, são de Cunningham (1885) e Firth
2 – Trypanosoma rhodesiense Stephens e Fan- (1891), que não deram uma interpretação precisa
tham, 1910. de seus achados microscópicos.
3 – Trypanosoma rangeli Téjera, 1920. Leishman (1903) publicou a descrição dos pa-
4 – Trypanosoma cruzi Chagas, 1909. rasitos por ele vistos 3 anos antes em casos de fe-
bre “dum-dum” indicando sua semelhança com
algumas formas encontradas em infecções por
tripanossomas. Poucas semanas depois, Dono-
van (1903) encontrou o parasito em esfregaços
de órgãos de indivíduos sucumbidos à mesma
doença.
Logo a seguir, Laveran e Mesnil, examinando
o mesmo material de Donovan e acreditando
tratar-se de um esporozoário, deram-lhe o nome
de Piroplasma donovani. Ainda no ano de 1903,
Ross criou o gênero Leishmania para o qual a
espécie foi transferida. Desse modo, o nome do
agente do calazar passou a ser Leishmania dono-
Fig. 13 – Espécies com quatro formas evolutivas (T. cruzi
vani (Laveran e Mesnil, 1903), Ross, 1903.
e T. lewisi). Original. Ainda em 1903, Wright, nos Estados Unidos
descreveu o agente do botão-do-oriente em uma
criança vinda da Armênia, ao qual denominou
Helcosoma tropicum e que, devido a sua identi-
dade morfológica com L. donovani, foi transferi-
do por Lühe (1906) para o gênero Leishmania,
sendo por isso denominado Leishmania tropica
(Wright, 1903).

Morfologia
No gênero Leishmania Ross, 1903, incluem-se
duas formas evolutivas: amastigota e promastigo-
ta. A primeira é encontrada em vertebrados, em
Fig. 14 – Espécies com duas formas evolutivas (T. gambi- condições naturais ou em inoculações experi-
ense e T. rhodesiense). Original. mentais; a segunda pode ser observada no trato
digestório dos seus vetores ou em culturas.

Forma Amastigota
Nos vertebrados, o parasito é habitualmente
observado no interior de células do sistema mo-
nocítico fagocitário, em cujo citoplasma se re-
produz e se acumula em número variável.
Fig. 15 – Espécie com uma só forma evolutiva. (T. equi- O estudo do parasito, em sua vida parasitária
perdum durina dos eqüídeos). Original. nos hospedeiros vertebrados, pode ser feito em
ripanossom eos – neros e ormas volutivas – nero Leishmania – eis manioses r

esfregaços corados pelo método de Giemsa ou e mesmo as formas exoeritrocitárias de Plasmo-


em cortes histológicos corados pela dupla colo- dium.
ração hematoxilina eosina ou outros métodos de
coloração histológica. Forma Promastigota
Nos esfregaços de material coletado nas le-
A) Nos vetores – no intestino médio dos dípte-
sões tegumentares ou vísceras (baço, fígado, me-
ros hematófagos flebotomíneos, que represen-
dula óssea), corados pelo método de Giemsa, o
tam o papel de vetores naturais das espécies de
protozoário é observado sob várias formas: arre-
Leishmania, as formas amastigotas provenientes
dondadas, ovóides, elipsóides, curtas ou alonga-
dos vertebrados, evoluem para promastigotas,
das, de dimensões variando entre 2 a 5 mm ou,
multiplicando-se, então, ativamente por divisão
excepcionalmente, mais. O citoplasma se cora
binária longitudinal.
em azul pálido, o núcleo arredondado em ver-
As formas promastigotas invadem depois o
melho e o cinetoplasto bacilóide, em vermelho
esôfago e a faringe, que podem se tornar parcial
intenso (Prancha 1 no CD).
ou totalmente obstruídos. Essas formas ora são fi-
Em preparações especiais coradas pela hema-
xas na parede do trato digestório, ora livres em
toxilina férrica, pode-se apreciar melhor a estru-
seu lúmen. São alongadas, fusiformes e móveis,
tura do núcleo que é vesiculoso, com um grande
graças ao flagelo livre que se origina no cineto-
cariossomo central e, menos facilmente, o esbo-
plasto anterior ao núcleo e geralmente distante
ço do flagelo, representado por sua porção intra-
(Fig. 17).
citoplasmática, originando-se do blefaroplasto,
As formas promastigotas podem ser estudadas
que, juntamente com o corpúsculo basal, forma
a fresco ou após coloração no material obtido
o cinetoplasto (Fig. 16).
por dissecção do invertebrado ou por meio de
Nos esfregaços, a maioria dos parasitos é en-
cortes do inseto, usando-se inclusão em parafina
contrada livre, em conseqüência da dilaceração
e coloração, segundo a técnica histológica.
das células parasitadas ocasionada pelas mano-
B) Nas culturas – em meios de cultura ade-
bras na feitura das preparações.
quados, a 22 a 25°C, os parasitos originários das
Nos cortes histológicos, a estrutura do parasi-
lesões no vertebrado evoluem para promastigo-
to é menos conspícua, porém pode-se entrever,
tas, que se multiplicam por divisão longitudinal
ao lado do núcleo, o cinetoplasto, em geral em
de modo idêntico ao observado no transmissor.
posição transversa, permitindo com segurança a
O parasito apresenta diversos aspectos morfoló-
identificação da forma amastigota. O reconheci-
gicos: arredondado, fusiforme curto e alongado,
mento da estrutura da forma amastigota nas sec-
atingindo até 18 mm de comprimento, com ex-
ções histológicas é de fundamental importância
clusão do flagelo (Prancha 1 no CD).
para sua diferenciação de outros parasitos intra-
celulares, como os fungos Histoplasma capsula-
tum e Cryptococcus neoformans e o protozoário A B
Toxoplasma gondii, desprovidos de cinetoplasto,

A B

Fig. 17 – Forma promastigota. A – Núcleo; B – cineto-


plasto; C – flagelo. Original.

REPRODUÇÃO E EVOLUÇÃO
Como ocorre em todos os tripanossomídeos,
a reprodução se realiza por divisão binária.
Fig. 16 – Forma amastigota. A – Núcleo; B – cinetoplasto; As formas amastigotas se multiplicam no inte-
C – axonema. Original. rior das células do vertebrado infectado, porém
1 r Parasitologia e Micologia Humana

ainda não são completamente conhecidas as mi- 4


núcias de reprodução intracelular. 3 5
Nas formas promastigotas, em culturas ou no
trato digestório dos transmissores, observa-se me-
lhor a seqüência da divisão celular. Inicialmente, 6
divide-se o cinetoplasto, originando-se um se- 2

gundo flagelo no decurso do processamento; a


A
seguir, o núcleo cinde-se em dois núcleos-filhos
e, então, o citoplasma se parte longitudinalmen-
te em duas porções, cada uma com seu núcleo,
cinetoplasto e flagelo, completando a divisão bi- 1
7
nária.
A evolução das espécies do gênero está repre- 10 8
sentada na Figura 18.
As formas amastigotas no citoplasma das célu-
las parasitadas podem formar aglomerados resul-
tantes de sucessivas divisões binárias, dando a B
falsa impressão de se tratar de uma esquizogo-
nia. 8 10
Os elementos parasitários possivelmente são
libertados das células, em decorrência da desin-
tegração destas, não se sabendo se são fagocita- 7
1
dos ou se invadem ativamente outras células. É
de se presumir, entretanto, que muitos parasitos
são naturalmente destruídos no curso da infec- 6

ção, graças à formação de anticorpos.


2
TRANSMISSÃO
Em condições naturais, a transmissão das es-
pécies de Leishmania parasitos do homem se rea- 5 3
liza pela picada dos psicodídeos hematófagos 4
flebotomíneos. Estes insetos se infectam no ho-
Fig. 18 – Ciclo evolutivo das espécies do gênero Leishmania.
mem ou nos animais durante o repasto sanguí- Baseado em Piekarski, in Tablas de Parasitologia Medica, Edi-
neo, e as formas amastigotas, atingindo o intesti- ção Bayer.
no médio, evoluem para promastigotas e se mul- Em A – No homem:
tipicam ativamente por divisão binária. 1 – forma promastigota, transmitida pelo flebotomíneo,
Ao término do terceiro dia, as formas promas- penetra em uma célula endotelial;
tigotas invadem em sentido retrógrado o proven- 2 a 6 – reprodução binária intracelular;
trículo, o esôfago e a faringe do inseto, onde 7 – linfócito do sangue periférico parasitado.
Em B – No transmissor:
continuam a se reproduzir de modo a obstruir
8 – formas amastigotas ingeridas;
total ou parcialmente o lúmen destes órgãos, o 9 – evolução e multiplicação (formas promastigotas);
que se vertifica, em geral, a partir do quinto dia 10 – forma promastigota infectante.
de sua infecção no vertebrado. Em C – Nos reservatórios naturais: idêntico ao verificado no
Nestas condições, o díptero, ao picar o animal homem.
receptor do protozoário, introduz por regurgita-
ção as formas infectantes promastigotas, acredi- As formas infectantes introduzidas na derme
tando-se que o processo se realiza de modo se- invadem ou são fagocitadas pelas células do SMF
melhante ao observado na transmissão da peste e, assim, como citozoários, iniciam sua fase de
pelas pulgas “bloqueadas”. parasitismo no vertebrado.
ripanossom eos – neros e ormas volutivas – nero Leishmania – eis manioses r 1 1

Os conhecimentos atuais relativos à transmis- De acordo com Lainson e Shaw, 1987, o gêne-
são das leishmanioses resultaram de pertinazes ro Leishmania está dividido em dois subgêneros:
estudos realizados por numerosos pesquisadores Leishmania Saf’yanova, 1982, e viannia Lainson e
desde o início do século até o presente. Shaw, 1972.
A propósito de cada uma das subespécies de
Leishmania, focalizaremos alguns aspectos parti- A – AGENTES DE LEISHMANIOSE VISCERAL
culares do problema da transmissão das leishma-
nioses, como as condições necessárias para se
tratar a infecção dos vetores, sua distribuição geo- 1 – L. (L.) donovani (Laveran e Mesnil, 1903) –
gráfica e suas preferências alimentares. calazar indiano.
2 – L. (L.) infantum (Nicolle, 1908) – calazar
ESPÉCIES DE INTERESSE do Mediterrâneo.
3 – L. (L.) infantum chagasi (Cunha e Chagas,
Como mostramos anteriormente, foram des- 1937) – calazar neotropical.
critas em 1903 a Leishmania donovani (Laveran e
Mesnil, 1903), Ross, 1903, agente do calazar in-
diano, e Leishmania tropica (Wright, 1903) Lühe, B – AGENTES DE LEISHMANIOSE TEGUMEN-
1906, do botão-do-oriente. TAR
Em 1908 foi descrita L. infantum Nicolle,
1908, causadora do calazar infantil do Mediter- 1 – L. (L.) tropica Yakimoff, 1915 – bo-
râneo; em 1911, L. braziliensis, Vianna, 1911, da tão-do-oriente dos núcleos populacionais den-
leishmaniose cutaneomucosa do continente ame- sos (Typus urbanus).
ricano e, em 1937, L. chagasi Cunha e Chagas, 2 – L. (L.) major Yakimoff, 1915 – leishmaniose
1937, da leishmaniose visceral subamericana. tegumentar das áreas semidesérticas do Turques-
Apesar de morfologicamente idênticas, as duas tão (Typus rusticus).
primeiras espécies descritas foram, de início, bem 3 – L. (V.) braziliensis (Vianna, 1911) – leish-
individualizadas, em razão do viscerotropismo de maniose tegumentar americana (tipo espúndia).
L. donovani e ao dermatotropismo de L. tropica.
4 – L. (V.) peruviana (Velez, 1913) leishmanio-
Em relação a L. infantum e L. chagasi, após
se tegumentar americana (tipo Uta).
vários estudos e controvérsias, chegou-se à con-
5 – L. (L.) mexicana Biagi, 1953 – leishmaniose
clusão de que deveriam ser consideradas uma
tegumentar americana (tipo úlcera de los chicle-
única espécie, ou mesmo uma subespécie da L.
ros).
infantum.
Quanto à L. braziliensis, não considerada pe- 6 – L. (V.) guyanensis Floch, 1954 – leishmanio-
los autores na época de sua descrição, foi poste- se tegumentar americana (tipo pian bois).
riormente acolhida como espécie válida por sua 7 – L. (L.) amazonensis Lainson e Shaw, 1972 –
capacidade de produzir formas graves de leish- leishmaniose tegumentar americana.
maniose tegumentar. 8 – L. (V.) panamensis.
16
Leishmania infantum chagasi
(Cunha e Chagas, 1937) –
Leishmaniose Visceral Americana
ou Calazar

Leishmania in an m ha asi un a agas 1 37 – eis maniose isceral

A leishmaniose visceral, observada na Ásia, da doença. Em outros países da Europa, a raposa


Europa, África e América, é uma entidade mórbi- apresenta importante papel epidemiológico.
da autônoma, incluindo tipos que se distinguem O agente é a L. infantum. Em certas localida-
por atributos ecológicos, geográficos, clínicos e des a doença pode ser considerada uma zoono-
imunológicos e pela resposta ao tratamento anti- se.
monial específico e diferentes agentes etiológi-
cos. Calazar Neotropical
Existente no Brasil e em vários países hispa-
VARIEDADES DE CALAZAR no-americanos, onde são atacados tanto adultos
quanto crianças.
Calazar Indiano
O agente causador da doença no homem é L.
Encontrado na Índia e em outras áreas meridio- i. chagasi, que também infecta, em condições
nais da Ásia. naturais, o cão e duas espécies de raposa, a
É também denominado calazar asiático, sen- Dusicyon vetulus e Cerdocyon thous. Sendo as-
do observado principalmente no homem, que sim, o calazar neotropical pode ser considerado,
constitui seu reservatório natural. Seu agente é L. em algumas áreas, uma zoonose.
donovani e é considerado uma antroponose. O transmissor no Brasil é o Lutzomyia longi-
palpis.
Calazar do Mediterrâneo
Calazar Africano
Conhecido pelo nome de calazar infantil, é
encontrado em todos os países da Europa, África Alastra-se em amplas áreas intracontinentais
e Oriente Médio banhados pelo Mediterrâneo e da África (Sudão, Etiópia, Kênia e outros países).
em outras regiões continentais da Ásia, tais como O agente é L. donovani, que, além do ho-
as margens do Mar Cáspio, Turquestão, Arábia, mem, parasita várias espécies de roedores silves-
Pérsia e outras. tres (gerbilíneos e esquilos). Nas áreas de in-
Acomete o homem, principalmente as crian- cidência da doença não foram encontrados cães
ças, e o cão, o qual desempenha o papel de re- e chacais infectados.
servatório do parasito. No sul da Rússia, o chacal O calazar africano é muito resistente ao trata-
é encontrado contaminado em condições natu- mento antimonial e às pentamidinas. Como seu
rais e ali exerce o papel de fonte de propagação agente parasita, em condições naturais, roedores

1 3
1 4 r Parasitologia e Micologia Humana

silvestres, o calazar africano é considerado, em pudesse demonstrar sua importância na trans-


algumas áreas, uma zoonose. missão da protozoose.
Em 1922, Sinton e, pouco depois, no mesmo
Calazar Chinês ano, Napier, em vista da coexistência, em certos
pontos de Calcutá, de grande número de doen-
É próprio da China, onde ataca o homem e o tes de calazar e da prevalência do Phlebotomus
cão, sendo este o reservatório natural da doença, argentipes, espécie eminentemente antropófila,
que pode ser considerada uma zoonose. O agen- sugeriram que a transmissão da doença deveria
te é a Leishmania donovani. se realizar por este inseto. Aliás, esta presunção
possivemente decorreu da hipótese de Wenyon
MORFOLOGIA DO PARASITO E (1911) de que o botão-do-oriente fosse transmi-
SUA LOCALIZAÇÃO NO tido por tais insetos, bem como da comprovação
ORGANISMO experimental desse fato no ano anterior (1921)
pelos irmãos Sergent et al., na Argélia.
A morfologia da L. chagasi nas células dos ver- Em 1924, Knowles, Napier e Smith consegui-
tebrados, em culturas e nos flebotomíneos, foi ram a multiplicação de Leishmania donovani no
estudada na descrição do gênero. tubo digestivo do P. argentipes, sob a forma pro-
Seu principal caráter é o acentuado viscero- mastigota, e em 1926, Shortt, Barraud e Craighead
tropismo e o poder de se multiplicar no interior comprovaram a invasão da faringe e da cavidade
das células do sistema monociticofagocitário em bucal pelas referidas formas flageladas.
diversos órgãos, principalmente no baço, fígado, Parrot, Donatien e Lestoquard (1930) e, logo
medula óssea, gânglios linfáticos profundos, mu- depois, Adler e Theodor (1930) conseguiram a
cosa intestinal e, em menor número, rins, supra- evolução da Leishmania infantum no Phlebotomus
renais, pele e mucosas. É muito rara nos pul- perniciosus, em Catânia, e estes últimos autores
mões. Pode, também, ser vista nos monócitos, ainda demonstraram a libertação das formas pro-
onde parece sobreviver, e nos neutrófilos, no in- mastigotas pela probóscida do inseto quando esta
terior dos quais possivelmente é destruída. é introduzida em tubos capilares contendo uma
A disseminação do parasito no vertebrado, solução de citrato de sódio.
produzida pela destruição das células parasita- No ano seguinte, Shortt et al. (1931) obtêm a
das, decorre da libertação de suas formas amasti- infecção experimental do hamster chinês pela
gotas que, sendo fagocitadas por leucócitos, são picada de flebotomíneos, que é confirmada em
carreadas a todos os pontos do organismo. 1933 por Napier, Smith e Krishnan.
Smith, Hader e Ahmed (1941) descobrem
TRANSMISSÃO que, nos insetos infectados, as formas promasti-
gotas do parasito sobrevivem e se multiplicam
O problema da transmissão do calazar, duran- mais ativamente quando alimentadas com passas
te os 30 primeiros anos deste século, constituiu e, assim, se estabelece o bloqueio do proventrí-
objeto de inúmeras pesquisas, sem que se logras- culo, esôfago e faringe, possibilitando a transmis-
se uma solução definitiva para o mesmo. são por regurgitação no momento da picada do
Aventou-se a possibilidade da transmissão se psicodídeo. Com essa técnica, os autores infecta-
operar por contato direto, pelas secreções ou ex- ram todos os cinco hamsters sujeitos à experiên-
creções e, embora isto pudesse ser admitido co- cia, e dois de oito camundongos. Acredita-se
mo verdadeiro, chegou-se à conclusão de que que o sangue possua algum poder inibidor da
não era este o processo natural dominante da multiplicação das promastigotas no trato digestó-
transmissão da doença. rio dos transmissores, e Napier (1946) admite
Trabalhou-se ativamente com pulgas e perce- que, nos sucos vegetais que lhes possam servir
vejos de cama para comprovar a hipótese de se- de alimento, deve existir um princípio que favo-
rem estes insetos os vetores da protozoose, po- reça a proliferação do parasito.
rém as experiências foram negativas. Pensou-se, A transmissão experimental ao homem pela
por fim, no papel dos flebotomíneos, sem que se picada de flebotomíneos foi obtida por Swani-
Leishmania in an m ha asi un a agas 1 37 – eis maniose isceral r 1 5

nath, Shortt e Anderson (1942), que consegui- terrânea e do Mar Cáspio, ao sul da Rússia; na
ram infectar cinco de seis pessoas, que se sub- África, em toda a Berbérie, do Marrocos ao Egito
meteram à picada infectante. e para o sul, nas regiões intracontinentais, tais
As espécies de transmissores do calazar variam como no Sudão, Quênia, Abissínia, Senegal e em
de acordo com as diversas áreas em que incide a outros países.
doença, uma vez que cada uma delas possui suas Na América é encontrada com incidência ir-
espécies autóctones. regular em vários países (México, Salvador, Gua-
A importância de cada espécie depende prin- temala, Colômbia, Venezuela, Suriname, Brasil,
cipamente de sua antropofilia, domiciliação e in- Bolívia, Paraguai e Argentina).
fectibilidade. Assim, verificou-se que o P. argenti- No Brasil, a LV é encontrada predominante-
pes é antropófilo e se infecta com L. donovani, o mente nos Estados do Nordeste. A partir da dé-
mesmo não ocorrendo com o P. minutus; e na cada de 1970 novas áreas foram então incluídas
Itália, o P. perniciosus infecta-se com facilidade, como áreas endêmicas. São Luís, no Maranhão,
ao contrário do P. papatassi. é um exemplo da dispersão da LV a partir de
Deane e Deane (1954 a 1956), realizando no 1981 nos bairros periféricos da capital e nas áreas
nordeste brasileiro estudos comparáveis aos dos rurais da ilha. Outro aspecto importante da doen-
pesquisadores que trabalharam na Índia e no sul ça no Brasil é sua urbanização em cidades como
da Itália com a transmissão do calazar, demonstra- Belo Horizonte, Fortaleza, Teresina, Natal, Co-
ram o papel epidemiológico do Lutzomyia longi- rumbá e Campo Grande, hoje consideradas áreas
palpis como vetor da Leishmania chagasi, basea- endêmicas de LV.
dos na infectibilidade, na relativa antropofilia, do-
miciliação, distribuição e prevalência. Esses inves- PATOGENIA
tigadores verificaram que essa espécie de díptero As alterações mórbidas decorrentes da in-
é muito abudante nas localidades de incidência fecção pela L. chagasi resultam, principalmente,
da leishmaniose visceral e que se infecta facil- do parasitismo das célulals do SMF que são lesio-
mente no homem, no cão e na raposa (Dusicyon nadas ou mesmo destruídas, pondo em risco as
vetulus). defesas de natureza humoral e fagocitária do or-
Embora eles não tivessem conseguido a veicu- ganismo.
lação experimental pela picada, consideraram- Nos órgãos invadidos pelo parasito, as células
na o principal, senão o único, transmissor da L. fixas daquele sistema proliferam ativamente e,
chagasi no Brasil. Desse modo, o L. longipalpis associando-se a congestão e infartos, ocasionam
compara-se ao P. argentipes da Índia, ao P. perni- aumento dos mesmos.
ciosus do Mediterrâneo e ao P. chinensis no Posteriormente, as lesões são invadidas por fi-
Extremo Oriente. No Brasil, os animais que ser- brócitos, resutando em processos cirróticos irre-
vem como fonte de disseminação da doença são versíveis. Em geral, notam-se anemia, leucope-
o homem e o cão. A raposa, embora possa se nia relativa e absoluta e aumento dos monócitos,
apresentar fortemente infectada, em condições por comprometimento do sistema hemoleuco-
naturais, desempenha papel secundário na epi- poiético.
demiologia da doença. Mais recentemente a des-
coberta de gambás (Didelphis) naturalmente in- SINTOMATOLOGIA
fectados sugere que estes animais possam tam-
bém ter importância epidemiológica. O período de incubação varia muito, desde
poucos dias até muitos meses.
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA Os sintomas do calazar são também muito va-
riáveis, escalonando-se os casos desde os assin-
A doença é encontrada em extensas regiões tomáticos ou frustos até os muito graves e mes-
da Ásia, Europa, África e América. mo fatais.
Na Ásia, é observada na Índia, China, Mand- Geralmente a parasitose assume o aspecto de
chúria, Turquestão, Irã e Oriente Médio; na Eu- uma doença febril, de curso longo, insidioso e de
ropa, em quase todas as regiões da costa medi- evolução inexorável.
1 6 r Parasitologia e Micologia Humana

No período inicial da doença há febre de cur- Na Índia, e raramente no Brasil, pode-se ob-
va irregular, que pode ceder espontaneamente servar lesões nodulares na pele, as quais os auto-
para recorrer alguns dias depois ou, então, a in- res denominam leishmaniose dérmica post cala-
fecção evolui apireticamente com sintomas mui- zar, lesões que persistem nos indivíduos tratados
to discretos. e recuperados das lesões viscerais.
O período de estado do calazar coincide com No sangue, além das modificações assinaladas
a disseminação do parasito por via sanguínea e no hemograma, nota-se hipoproteinemia com al-
sua multiplicação nos órgãos profundos, particu- terações na relação entre suas frações séricas, mais
larmente no baço, fígado e medula óssea. sugestivamente evidenciadas pelos perfis eletrofo-
Os sintomas mais freqüentes são febre irregu- réticos.
lar, anemia evidenciada pelo descoramento das
mucosas e palidez da pele, emagrecimento, es- DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
plenomegalia e hepatomegalia (Fig. 1). Além des-
tes sintomas, podem surgir perturbações gastrin- Os métodos de laboratório propostos para o
testinais representadas por estomatite, anorexia, diagnóstico da leishmaniose visceral se dividem
náuseas, vômitos, diarréia e perturbações do trato em dois grupos. Os do primeiro grupo têm por
respiratório, tais como tosse sem formação de ex- objetivo evidenciar o parasito ao exame micros-
sudato, bronquite e broncopneumonia; estas últi- cópico diretamente no material dos órgãos infec-
mas como infecções associadas. tados; os do segundo se baseiam em reações so-
O último período, que se instala após meses rológicas.
ou mesmo anos, apresenta os sintomas já referi- 1. Métodos que evidenciam o parasito no baço,
dos e ainda acentuada emaciação, edemas dis- na medula óssea, no fígado, nos gânglios linfá-
crásicos, hemorragias nasais, gengivais ou mes- ticos na pele e no sangue:
mo intestinais e caquexia. a) exame microscópico de esfregaços corados
Neste último período, os doentes são presa pelo método de Giemsa e similares
fácil de infecções supervenientes que os condu- b) cultura em meio de NNN ou outros ade-
zem, em grande número, à morte. quados às culturas de Leishmania

Fig. 1 – Leishmaniose visceral. Observar a hepatoesplenomegalia. Segundo E. Chagas, Memórias do Instituto Oswaldo
Cruz (1937).
Leishmania in an m ha asi un a agas 1 37 – eis maniose isceral r 1 7

c) inoculação em animais suscetíveis, como o Alguns tratadistas dão preferência à punção


hamster da crista ilíaca, mesmo para adultos, em razão de
2. Métodos sorológicos: lhes proporcionar menos emoção.
a) reação de imunofluorescência indireta Para a punção óssea usam-se trocartes espe-
(RIFI) ciais, que são introduzidos em dois tempos. Pri-
b) ELISA meiramente, atravessa-se a pele e depois o pe-
riósteo resistente que, ultrapassado, permite que
Demonstração do Parasito a ponta do aparelho toque a medula, que não
oferece resistência. Com a seringa montada no
Pesquisa no baço – o material é obtido por trocarte, faz-se a sucção de pequena porção do
punção e aspiração, mediante prévia anti-sepsia tecido medular para os exames recomendáveis.
e anestesia do local a ser puncionado, anestesia É evidente que devem preceder a punção a
que deve atingir o peritônio. necessária assepsia e a anestesia da área da pele
Este procedimento, em vista dos riscos de he- a ser puncionada, como foi referido anterior-
morragia esplênica, só deve ser praticado em mente.
condições de segurança para o doente. Punção ganglionar – a punção dos gânglios
Usa-se uma agulha longa e calibrosa que é in- para a coleta do suco ganglionar é operação sim-
troduzida na pele, sob o rebordo costal, na dire- ples, desde que sejam palpáveis.
ção do órgão. Logo em seguida à introdução, Feita a assepsia da pele e, neste caso, com ou
faz-se a aspiração com seringa, e rapidamente se sem anestesia local, é introduzida no gânglio uma
retira a agulha, que deve conter algum material agulha calibrosa já montada na seringa. Para faci-
da polpa esplênica, o qual servirá para o exame litar a operação, o gânglio deve ser firmemente
microscópico, para as culturas e, havendo inte- fixado entre os dedos indicador e polegar. Pro-
resse, também para inoculação em animais. cura-se, então, obter por pressão negativa, no in-
Segundo alguns autores, a pesquisa do parasi- terior da seringa, uma pequena porção do suco
to no baço constitui o melhor recurso diagnósti- ganglionar que será usado para pesquisa do parasito.
co quando se usa conjuntamente o exame mi- Alguns autores têm obtido resultados positi-
croscópico e a cultura. vos com o uso deste método para pesquisa do
Punção do fígado – este recurso técnico, em- protozoário no homem, embora sua eficiência
bora de valor no diagnóstico do calazar, é menos seja maior para o diagnóstico da leishmaniose
empregado na prática médica, em razão das difi- visceral do cão.
culdades para sua execução, como também pe- Pesquisa na pele – é particularmente indicada
las implicações de ordem psicológica relativas no cão, no qual o parasito é mais abundante na
aos doentes e seus familiares. pele do que na medula óssea e no baço.
Segundo alguns autores, é menos perigosa que No homem, em áreas da pele aparentemente
a punção esplênica, porém requer habilidade de normais, Deane (1956) obteve, em 27 doentes,
quem a pratica e cooperação do doente, que cinco resultados positivos.
deve ficar em apnéia voluntária durante a opera- Pesquisa no sangue – pode ser feita em exa-
ção. mes microscópicos, culturas e inoculações em
Punção da medula óssea – é o método de es- animais suscetíveis à infecção.
colha na prática, devido à facilidade para sua Para o exame microscópico do sangue foram
execução e ausência de perigo para o doente. idealizadas várias técnicas, todas de resultados
Em geral, usa-se a punção esternal, porém, inferiores aos das punções óssea e esplênica.
para crianças de meses ou poucos anos, prefe- Alguns autores preconizam técnicas de con-
re-se a punção da crista ilíaca ou da região inter- centração dos parasitos no sangue, das quais as
na da epífise superior da tíbia. A punção ester- mais usadas se baseiam na separação dos leucó-
nal, segundo Napier, embora não sendo superior citos em uma camada diferenciada do sangue
à esplênica, poderá revelar 89% dos casos de ca- em tubos de centrifugação. Procede-se desse mo-
lazar. do por se acreditar que os parasitos existentes no
1 r Parasitologia e Micologia Humana

sangue se encontram no citoplasma dos monóci- não são usadas para o diagnóstico, sendo reser-
tos ou mesmo nos neutrófilos. vadas para fins experimentais.
Com este objetivo, podemos usar a técnica
empregada habitualmente para a pesquisa de cé- Métodos Sorológicos
lulas LE. O sangue é coletado na veia e associado
a um anticoagulante (heparina, citrato de sódio No diagnóstico sorológico de leishmaniose vis-
ou oxalato de potássio) e, em seguida, centrifuga- ceral, a imunofluorescência indireta (RIFI) é a mais
do. No tubo de centrifugação formam-se três ca- utilizada. Embora a RIFI possa apresentar reações
madas distintas, a superior, composta pelo plas- cruzadas com outras patologias, tais como leishma-
ma, a inferior, pela massa das hemácias, e a inter- niose tegumentar e doença de Chagas, os títulos
mediária, muito estreita em relação às duas ou- observados na LV são sempre mais elevados, sendo
tras, pelos leucócitos. considerados positivos títulos iguais ou superiores a
1:80. No caso da LV canina, a RIFI é usada como
Para retirar os leucócitos aspira-se cuidadosa-
diagnóstico para o sacrifício dos cães nas áreas en-
mente o plasma e, então, a massa leucocitária é
dêmicas. Outras reações sorológicas têm sido em-
coletada por uma alça de platina de modo igual
pregadas com relativo sucesso no diagnóstico da
ao que se faz no método de Faust para pesquisa
LV, sendo o teste de ELISA o mais usado, seguido
de parasitos intestinais. Pode-se também aspirar
de suas variantes Dot-ELISA e fast-ELISA.
a massa de leucócitos com pipeta de Pasteur e,
com ela, um pouco de plasma e dos glóbulos
vermelhos e centrifugar de novo em tubos de he- TRATAMENTO
matócrito de Wintrobe, de modo a se conseguir
uma camada de leucócitos bem individualizada, Além dos cuidados gerais que devem ser pro-
com a qual se preparam esfregaços, que, depois porcionados aos doentes de calazar, são preconi-
de secos e ao abrigo de poeiras, são corados pe- zados medicamentos que promovam a destrui-
los métodos habituais. ção do parasito no organismo. Atualmente, os
medicamentos são distribuídos em três grupos:
Culturas – são executadas a partir do material 1) antimoniais; 2) diamidinas aromáticas; 3) an-
obtido por punção dos órgãos ou do sangue. O fotericina B.
material é diluído em solução fisiológica citrata-
da e semeado em vários tubos com um meio de
cultura, dos quais o mais usado é NNN (Novy,
Antimoniais
MacNeal e Nicolle). Os primeiros antimoniais usados foram o tár-
As hemoculturas são feitas diluindo-se o san- taro emético (tartarato de potássio e antimônio)
gue em solução fisiológica citratada. Após a cen- e o tartarato de sódio e antimônio que, inegavel-
trifugação, coleta-se com pipeta de Pasteur a mente, possuem grande eficácia. Usam-se solu-
massa de leucócitos visível entre a fase líquida ções destes dois sais a 1 ou 2% por via rigorosa-
superior e a massa dos glóbulos vermelhos inferio- mente endovenosa. As doses para adultos são de
res e semeia-se em meios de cultura contidos em 5 ou 10 ml, conforme sejam usadas soluções fra-
tubos altos (tubos de Veillon). A temperatura cas ou fortes, respectivamente. Para crianças, as
aconselhável é de 25°C, usando-se, para esse doses são reduzidas a 33% ou 50%.
fim, estufas com regulação térmica especial.
O número de injeções varia de acordo com a
O desenvolvimento das formas promastigotas gravidade de cada caso, sendo aplicadas de 30 a
se evidencia a partir do segundo dia, porém, só 40, de modo a perfazer um total de 3 a 4 g do
após 5 dias atinge franca multiplicação, a qual é fármaco. Apesar de eficazes, esses antimoniais
evidenciada ao exame microscópico entre lâmi- trivalentes apresentam os seguintes inconvenien-
na e lamínula ou após coloração pelo Giemsa ou tes: a) pouca estabilidade das soluções; b) uso
outro método. exclusivo por via endovenosa; c) forte ação so-
Inoculação – pode-se usar o cão, o hamster, o bre o sistema muscular, inclusive sobre o miocár-
camundongo, preferindo-se as vias intraperito- dio, cujas alterações são postas em evidência
neal e subcutânea. Na prática, as inoculações pelo traçado eletrocardiográfico.
Leishmania in an m ha asi un a agas 1 37 – eis maniose isceral r 1

Em conseqüência destes incovenientes, os an- Diamidinas Aromáticas


timoniais trivalentes vêm sendo substituídos por
antimoniais de síntese, nos quais o antimônio é São usadas nos casos rebeldes aos antimoniais
ligado a núcleos orgânicos. Esses antimoniais sin- ou naqueles em que há intolerância. No passado
téticos podem ser divididos em trivalentes e pen- várias diamidinas eram usadas como alternativa
tavalentes, conforme o antimônio na fórmula es- no tratamento das leishmanioses, mas em razão
trutural se apresente com três ou cinco valências, dos freqüentes efeitos colaterais, somente a pen-
respectivamente. Destes, os preferidos para o tamidina (isotiocianato) ainda vem sendo usada.
tratamento do calazar são os pentavalentes.
Anfotericina B
De modo geral, os antimoniais pentavalentes,
Este antibiótico, usado como último recurso,
ao contrário dos trivalentes, permanecem em
é administrado por via endovenosa na dose diá-
maior quantidade no plasma, são mais rapida-
ria de 50 mg veiculados em 500 ml de soluto gli-
mente excretados, não produzindo efeito cumu-
cosado a 5%, lentamente aplicados.
lativo e, por não se difundirem, senão escassa-
mente no citoplasma, possuem menos toxicida-
de, o que é, aliás, comprovado pela observação
PROFILAXIA
dos traçados eletrocardiográficos. A profilaxia da leishmaniose visceral se resu-
me nas seguintes providências: a) tratamento em
São os seguintes os quimioterápicos antimoniais massa de todos os doentes da área a ser saneada;
usados: b) combate ao transmissor, mediante o emprego
a) antimoniato de metilglucamina (glucanti- de inseticidas de efeito residual; c) combate à
me) – há vários esquemas para o tratamento, po- epizootia e/ou enzootia caninas da doença, exis-
dendo-se usar as vias endovenosa ou intramus- tentes na mesma área juntamente com a doença
cular profunda. No Brasil, o glucantime é apre- do homem.
sentado em ampolas de 5 ml contendo o corres- O esforço inicial no trabalho de saneamento é
pondente a 425 mg do antimonial pentavalente o diagnóstico dos casos que serão tratados, de
(Sb5+); modo a não mais representarem o papel de por-
tadores da L. chagasi e de fontes de propagação
b) gluconato de antimônio e sódio pentava- da doença.
lente (Pentostam) – usos intramuscular ou endo- A aplicação dos inseticidas nas moradias re-
venoso. Os esquemas de tratamento, bem como duz rapidamente a população flebotomínica in-
as doses, variam de acordo com diferentes auto- tradomiciliar, fazendo cair a incidência de novos
res. Manson-Bahr recomenda, entre outros es- casos de calazar.
quemas, uma série de 6 injeções em dias segui- Os cães portadores da leishmaniose visceral
dos, por via intravenosa, na dose de 3 ml de uma deverão ser abatidos, por serem hospedeiros do
solução a 6%. parasito.
17
Leishmania spp. –
Leishmaniose Tegumentar

Leishmania spp – eis maniose egumentar

A leishmaniose tegumentar do Velho e do rans). É o botão-do-oriente clássico, geralmente


Novo Mundo, em suas diversas modalidades, é benigno, respondendo prontamente à medicação
produzida por diferentes subespécies de Leish- antimonial. As lesões são quase exclusivamente
mania. cutâneas, de curso crônico e se ulcerando tardia-
Para a maioria dos autores há duas formas de mente. O cão, em certas localidades, também
leishmaniose tegumentar: a) Leishmaniose tegu- pode se apresentar infectado pela L. tropica.
mentar oriental, produzida pela Leishmania tro-
pica e L. major, existente na Europa, Ásia e Áfri- Leishmaniose Tegumentar Úmida
ca; b) Leishmaniose tegumentar americana, cau- do Turquestão
sada por várias espécies de Leishmania, própria
dos países latino-americanos. Agente: Leishmania (L.) major (Yakimoff, 1915).
Corresponde ao Typus rusticus de Piekarski e
VARIEDADES OU TIPOS DE úmido de Kojevnikov (leishmaniasis cutanea cito
exulcerans).
LEISHMANIOSE TEGUMENTAR
No Turquesão pode coexistir com o botão-
De modo análogo ao que estabelecemos para do-oriente em indivíduos diferentes ou no mes-
a classificação da leishmaniose visceral ou da ca- mo, independentemente, já que são imunologi-
lazar, podemos considerar vários tipos, varieda- camente distintas. As lesões são úmidas, ulceran-
des ou formas de leishmaniose tegumentar, indi- do-se precocemente e semelhantes às da es-
vidualizados pelos seus respectivos agentes etio- púndia. Ocorre nas regiões semidesérticas do sul
lógicos, atributos clínicos, imunológicos, ecológi- da Rússia. Os vetores são flebotomíneos que su-
cos e geográficos. gam o homem e gerbilíneos que, nestas regiões,
são os hospedeiros do parasito.
Botão-do-Oriente ou Leishmaniose
Tegumentar Oriental Leishmaniose Tegumentar
Americana Tipo “Espúndia”
Agente: Leishmania (L.) tropica (Yakimoff, 1915).
Esse tipo alastra-se nas populações urbanas de ex- Agente: Leishmania (V.) braziliensis (Vianna,
tensas regiões da Europa, Ásia e África. 1911). É a forma mais disseminada na América
Corresponde ao Typus urbanus de Piekarski e Latina, ocorrendo nas áreas florestais quentes e
seco de Kojevnikov (leishmaniasis tarde exulce- úmidas (leishmaniose florestal americana de

111
11 r Parasitologia e Micologia Humana

Brumpt) e nos ambientes modificados pelo ho- Leishmaniose Tegumentar


mem.
Americana Tipo Panamensis
As lesões tomam aspectos clínicos muito varia- Agente: Leishmania (V.) panamensis (Lainson e
dos, atingindo a pele e, em elevado percentual, as Shaw, 1972). Encontrado na América Central e
mucosas (leishmaniose cutaneomucosa). A doença na costa pacífica da América do Sul.
é de curso crônico, grave e inexorável, responden-
do com dificuldade ao tratamento antimonial. O Leishmaniose Tegumentar
cão é o principal reservatório nas áreas rurais e pe-
riurbanas. Americana Tipo Difusa
Agente: Leishmania (L.) amazonensis (Lainson
Leishmaniose Tegumentar e Shaw, 1972).
Doença existente no norte da América do Sul
Americana Tipo “Uta” e no Brasil. As lesões são geralmente simples, de
forma úmida, ou apresentando numerosos nódu-
Agente: Leishmania (V.) peruviana (Velez, 1913). los na pele.
Própria das encostas andinas, em localidades de Questão ainda não resolvida é a de saber se a
grande altitude. Formas em geral benignas com le- leishmaniose tegumentar existia antes da desco-
sões ulceradas ou não. O cão é o hospedeiro do berta da América. Há indícios arqueológicos da
agente da doença que ocorre predominantemente existência desta doença no Peru, em épocas
em crianças. Este tipo é encontrado freqüente- pré-colombianas, a se inferir da presença de es-
mente nos aglomerados urbanos. culturas incas nas quais se esculpiram lesões
comparáveis às das formas clínicas da doença
ainda hoje existentes naquele país.
Leishmaniose Tegumentar America-
Os tipos da doença existentes em vários
na Tipo Ulcera de los Chicleros países latino-americanos constituem um grupo
de afecções não totalmente definidas, a que de-
Agente: Leishmania (L.) mexicana (Biagi, 1953). nominamos leishmaniose tegumentar america-
Encontrada no México e países centro-americanos. na.
Ataca principalmente as pessoas que permanecem
muito tempo nas florestas, como os colhedores de MORFOLOGIA E LOCALIZAÇÃO
borracha (chicle dos mexicanos), de onde vem a DA LEISHMANIA NO ORGANISMO
denominação de ulcera de los chicleros.
A morfologia do parasito é idêntica à da L.
As lesões são geralmente na cabeça, particular- chagasi, tanto em sua vida parasitária nos verte-
mente no pavilhão da orelha (oreya de los chicle- brados e invertebrados quanto nas culturas.
ros), raramente invadindo as mucosas. A doença é No homem, o parasito é nitidamente dermo-
comumente menos grave que o tipo “espúndia”. trópico, parasitando as células dos tegumentos
cutâneo e mucoso, como se verifica nas infecções
pela L. braziliensis, nas quais são invadidas as mu-
Leishmaniose Tegumentar cosas das cavidades naturais ou, mais precisa-
Americana Tipo Pian Bois mente, a boca, a faringe, o nariz e a laringe. O
protozoário pode se encontrar dentro ou fora das
Agente: Leishmania (V.) guyanensis (Floch, 1954). células do tegumento, porém sua localização na-
Encontrada nas Guianas e no norte do Brasil. As le- tural é no interior de células histiocitárias, abun-
sões são, na maioria dos casos, na pele; poucos ca- dantes nos processos lesionais (Prancha 1 no CD).
sos apresentam lesões restritas à mucosa nasal. A Em cortes histológicos das lesões recentes,
doença é adquirida nas florestas e distingue-se do não-invadidas por bactérias, ou nas ainda não-
tipo “espúndia” por ser menos grave que esta, mas tratadas por anti-sépticos, o parasito é em geral
geralmente se apresenta com múltiplas lesões. freqüente, principalmente para dentro da cama-
Leishmania spp – eis maniose egumentar r 113

da de Malpighi, onde é reconhecido por suas pe- botomíneos na América é de Cerqueira (1919),
quenas dimensões e pelo cinetoplasto próximo porém sem comprovação experimental.
ao núcleo. Em 1922, Aragão obteve experimentalmente
Da pele, os parasitos podem se disseminar no uma úlcera no focinho de um entre vários cães
organismo, se bem que raramente pelas vias san- inoculados com emulsão de Psychodopygys in-
guínea e/ou linfática, explicando a ocorrência de termedius (L. intermedia) coletados no interior
casos com numerosas lesões cutâneas e o apareci- de residências de leishmanióticos, situadas na
mento de lesões mucosas, em geral secundárias às proximidade dos bosques da cidade do Rio de
cutâneas. Janeiro.
A possibilidade de disseminação por via he- As experiências que comprovaram a transmis-
matogênica no homem, não lhe tira o caráter são da L. tropica pela picada dos transmissores
dermotrópico. Nos animais, entretanto, o der- foram realizadas por Adler e Ber (1941).
motropismo pode faltar; assim, no hamster e no Esses autores tornaram infectantes os fleboto-
camundongo, Nery Guimarães (1947), em infec- míneos alimentando-os com uma emulsão de
ções experimentais, obteve a visceralização de L. formas promastigotas do parasito mantida em
braziliensis, e vários autores conseguiram isolar um frasco contendo sangue de coelho, diluído
por hemoculturas, amostras de Leishmania de di- em solução fisiológica.
ferentes espécies de roedores. No Panamá, Her-
No Brasil, além de Aragão (1922), outros in-
tig et al. (1957) a isolaram do sangue de uma es-
vestigadores brasileiros também se ocuparam do
pécie de rato-de-espinho, o Proechemys semis-
estudo da transmissão da leishmaniose tegumen-
pinosus panamensis; no Brasil, Forattini et al.
tar, entre eles Pessôa e Coutinho (1940 a 1941),
(1959), em São Paulo, obtiveram hemoculturas
que demonstraram a presença de formas pro-
positivas de dois roedores silvestres Kannabateo-
mastigotas atribuíveis a L. braziliensis no trato di-
mys amblyonix amblyonix e Cuniculus paca paca,
gestório de flebotomíneos de diferentes espé-
bem como Alencar et al. (1960), no Ceará, do
cies, bem como a infecção experimental, obtida
Rattus alexandrinus, também por hemoculturas.
na Lutzomyia whitmani.
Aos estudos destes pesquisadores, muitos ou-
TRANSMISSÃO tros se seguiram no Brasil e em países da América
A transmissão da doença, em condições natu- Latina (Forattini et al. 1959; Coelho e Falcão,
rais, efetua-se pela picada de flebotomíneo in- 1962; Strangways Dixon e Lainson, 1962). Ca-
fectado previamente em animais ou no homem, be, entretanto, a Pifano et al. (1959) a priorida-
portadores da Leishmania. Esse modo de trans- de, no continente americano, da transmissão da
missão foi entrevisto por Pressat (1905), pelos ir- leishmaniose tegumentar pela picada de L. pana-
mãos Sergent (1905) e por Wenyon (1911), ten- mensis.
do este observado formas promastigotas nos trans- Tantos anos passados após as verificações da
missores de Aleppo que ele considerou como possibilidade da evolução de Leishmania no trato
formas flageladas de L. tropica. digestório dos flebotomíneos até a comprovação
Vários autores, em diferentes épocas, após da transmissão pela picada resultou da incons-
1911, trabalharam nesse assunto antes que se vies- tância do bloqueio da porção anterior do trato
se demonstrar a transmissão da leishmaniose tegu- digestório dos vetores e/ou dos graus de resistên-
mentar pela picada de tais insetos. cia dos indivíduos sujeitos à picada infectante.
Das experiências empreendidas, ressaltam-se Numerosas espécies neotropicais de fleboto-
as de Et. e Ed. Sergent et al. (1921), na Argélia, míneos são responsabilizadas como vetores das
que infectaram pessoas depositando sobre sua diferentes espécies da Leishmania, não só pela
pele escarificada uma suspensão do triturado de suscetibilidade à infecção como pela ocorrência
Phlebotomus capturados em uma localidade on- em áreas de leishmaniose, onde manifestam pro-
de era endêmico o botão-do-oriente. nunciada antropofilia.
A primeira referência de que temos notícia da No Brasil, as principais são Lutzomyia inter-
transmissão da leishmaniose tegumentar por fle- media, L. pessoai, L. whitmani, L. migonei.
114 r Parasitologia e Micologia Humana

Em áreas de incidência da leishmaniose tegu- A lesão é inicialmente inflamatória, pequena,


mentar, diferenciadas em suas modalidades clini- papulosa ou nodular. As formas flageladas trans-
coetiológicas, os animais domiciliados e silvestres formam-se em amastigotas no interior das célu-
podem apresentar infecções naturais pelo proto- las do tegumento. Estas se multiplicam ativamen-
zoário e, assim, a doença assume as característi- te e depois são libertadas das células parasitadas,
cas de uma zoonose. atingindo outras células contíguas ou, pelo san-
Na América, tem sido verificada a presença gue ou linfa, são levadas a outras áreas, ocasio-
de Leishmania em várias espécies de roedores, nando as metástases.
principalmente na América Central e no Brasil, A multiplicidade das lesões leishmanióticas na
como citamos anteriormente. Ainda na América pele e a presença de lesões nasais, nasobucais e
Central, em Honduras Britânica, Lainson et al. nasobucofaringeanas, presumivelmente decorre
isolaram L. mexicana de roedores dos gêneros da disseminação, por vias sanguínea ou linfática,
Ototylomys e Heteromys. dos elementos parasitários desenvolvidos na le-
No Brasil, o cão tem sido encontrado infecta- são primária.
do pela L. braziliensis, bem como o gato e os Graças à ação do parasito em sua localização
eqüinos. intracelular e às substâncias por ele elaboradas e
O achado de mamíferos infectados em condi- difundidas nos tecidos, estabelece-se um proces-
ções naturais pela L. braziliensis (no Brasil) e mexi- so inflamatório cuja intensidade ora resulta em
cana na América Central não parece suficiente uma lesão ulcerada, ora em lesões tuberosas, pa-
para caracterizar a leishmaniose tegumentar como pilomatosas ou verrucosas.
uma zoonose de modo idêntico ao conhecido no Devido às variações dos tipos lesionais, são
Velho Mundo, porém explicaria os surtos da doen- diversos os aspectos histológicos, nem sempre
ça em áreas onde dificilmente se poderia conside- característicos da doença, a qual, na maioria das
rar o homem o hospedeiro do parasito. vezes, só é identificada pela presença das formas
Não resta dúvida, entretanto, de que a doen- amastigotas, em geral localizadas em células his-
ça pode ser considerada inicialmente uma zoo- tiocitárias.
nose e, secundariamente, uma infecção de ori-
gem humana. SINTOMATOLOGIA
Uma classificação clinicodermatológica da le-
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA ishmaniose tegumentar não é fácil de se traçar,
por vários motivos. Primeiramente, em conse-
A leishmaniose tegumentar do grupo america-
qüência dos vários aspectos que a doença assu-
no existe em quase todos os países da América,
me em uma mesma área geográfica, diferentes
exceção feita ao Canadá, Uruguai e Chile.
de caso para caso ou, no mesmo, em sucessivos
No Brasil, a leishmaniose tegumentar ameri- períodos de sua evolução; em segundo lugar,
cana é distribuída em todos os Estados, principal- pela existência de formas com caracteres clínicos
mente na zona rural e em áreas florestais que so- muito constantes em determinada área de inci-
frem o desmatamento pelo homem. Ela ocorre dência, em contraste com a variação clínica das
ora em casos isolados, ora com freqüência maior, formas de outras áreas em que podem coexistir
endemicamente, ora ainda em surtos epidêmi- dois ou mais tipos da doença.
cos.
As classificações dermatológicas da leishmanio-
se tegumentar se baseiam na morfologia e localiza-
PATOGENIA ção das lesões na pele, na pele e nas mucosas ou
Após um período de incubação, na maioria somente nas mucosas.
dos casos difícil de se determinar, indo de alguns A essas classificações serve de base a de Eduar-
dias até vários meses, a doença instala-se por do Rabello (1925), que dividia as formas clínicas
uma lesão cutânea, no ponto de penetração das da doença inicialmente em:
formas promastigotas infectantes inoculadas pela a – formas cutâneas
picada dos flebotomíneos transmissores. b – formas subcutâneas
Leishmania spp – eis maniose egumentar r 115

c – formas mucosas Formas Subcutâneas


d – formas mistas
As inovações ou acréscimos à classificação de Nestas formas podemos incluir o tipo difuso
Rabello não conseguiram simplificar ou aclarar a descrito pelos autores venezuelanos, tendo como
complexidade inerente ao problema da ordena- agentes L. amazonensis e L. mexicana.
ção das formas de leishmaniose tegumentar com
suas implicações clínicas, imunológicas, ecológi- Formas Mucosas
cas e terapêuticas. Nestas, as lesões de aspecto dermatológico
variável são quase sempre secundárias às lesões
Formas Cutâneas cutâneas; raramente são primitivas. As mucosas
Nestas, as lesões se situam no tegumento cu- mais atingidas são as do nariz, da abóbada palati-
tâneo, geralmente nos membros superiores e in- na, da nasofaringe e, menos freqüentemente, da
feriores descobertos e no rosto (Fig. 1). faringe e laringe.
Nas áreas florestais do México e América Muitas vezes, nos doentes crônicos, as lesões
Central, os colhedores de borracha (chicle) apre- cutâneas se curam com o tratamento, persistindo
sentam as lesões localizadas nas orelhas, de onde as lesões nas mucosas.
o sugestivo nome de oreya de los chicleros.
Na pele, podem surgir uma ou várias lesões, Formas Mistas
decorrentes das picadas dos vetores ou resultan- Nestas há, concomitantemente, lesões cutâ-
tes da disseminação do parasito por vias sanguí- neas e mucosas isoladas, ou lesões cutaneomu-
nea ou linfática. cosas, isto é, lesões cutâneas contornando a
Na maioria dos casos da forma cutânea, as le- boca e o nariz, em continuidade com as lesões
sões são francamente ulcerosas; em outras, ver- da mucosa destes órgãos. As lesões mucosas, na
rucosas, nodulares, tuberosas, impetiginóides e maior parte dos casos, são ulcerosas ou ulcerove-
liquenóides. getantes, de evolução inexorável.
Da mucosa nasal, as lesões podem invadir as
cartilagens do nariz, ocasionando profundas e ir-
reparáveis mutilações (Fig. 2).
Por vezes, dependendo do tipo da doença, há
comprometimento dos gânglios e vasos linfáti-
cos, simulando a esporotricose linfangítico-go-

Fig. 1 – Lesão cutânea de leishmaniose tegumentar ame- Fig. 2 – Leishmaniose cutaneomucosa. Segundo R. D. Azu-
ricana. Original. lay (1952).
116 r Parasitologia e Micologia Humana

mosa, tal como tem sido observado no tipo “es- melhante à distensão do sangue para contagem
púndia” sul-americano, ocasionado pela L. brazi- diferencial dos leucócitos.
liensis, e no tipo úmido do Turquestão, determi- Dos métodos de coloração, os melhores são o
nado pela L. major. de Giemsa e de May-Grünwald Giemsa.
Para o estudo mais minucioso das formas A descoberta de parasitos em casos não-trata-
clínicas da leishmaniose tegumentar, sugerimos a dos pelos antimoniais e que ainda não sofreram
consulta às obras de dermatologia. tratamento tópico violento é relativamente fácil.
As formas parasitárias distiguem-se dentro ou fora
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL das células e, embora menores que as hemácias,
são imediatamente reconhecidas pelo seu núcleo
Na prática médica, três são os recursos de la- arredondado vermelho-claro e por um cineto-
boratório para o diagnóstico de leishmaniose te- plasto bacilóide, vermelho-intenso. O corpo do
gumentar, qualquer que seja o tipo em causa: parasito é quase sempre elipsóide, alongado, com
1 – Pesquisa do parasito em esfregaços do mate- seu citoplasma azul muito claro.
rial coletado nas lesões e corados pelo méto-
do de Giemsa ou similar. Pesquisa do Parasito em Cortes
2 – Pesquisa do parasito em cortes histológicos Histológicos
do tecido das lesões, coletado por biópsia e
corados pela hematoxilina-eosina. A coleta do tecido bem como sua fixação, in-
3 – Intradermorreação de Montenegro. clusão, corte e coloração se fazem segundo a
Outros recursos de pouco valor prático, po- técnica histopatológica. Nos cortes, o número de
rém de importância teórica que podem ser usa- parasitos varia muito e em geral são aglomerados
dos, são: logo abaixo da camada de Malpighi.
1 – Cultura em meios adequados para isolamen- Não há um processo histológico característico
to do parasito. da leishmaniose. As alterações teciduais variam
2 – Inoculação em animais suscetíveis à infecção de acordo com o tempo de duração da doença
leishmaniótica. bem como com o tipo das lesões.

Pesquisa do Parasito em Esfregaços Intradermorreação de Montenegro


Consiste em se injetar por via intradérmica
Para sua execução, procede-se à coleta do
0,1 a 0,2 ml do antígeno preparado com formas
material das lesões por raspagem, escarificação,
promastigotas de cultura de Leishmania, de pre-
biópsia ou punção, de acordo com o tipo da le-
ferência da espécie local.
são.
No Brasil, usa-se o antígeno preparado com
As lesões ulcerosas, ulcerovegetantes ou ver-
Leishmania braziliensis ou L. amazonensis.
rucosas, são previamente lavadas com sabão e
enxaguadas com solução fisiológica e, logo a se- A leitura da reação é feita 48 horas após a in-
guir, enxugadas com gaze. jeção, aparecendo, nos casos positivos, uma pá-
pula eritematosa endurada e persistente durante
Nas lesões da pele, a anestesia pode ser dis-
alguns dias, com 5 mm ou mais.
pensada, porém nas mucosas recomenda-se pe-
Logo no início da infecção, a reação de Mon-
quena anestesia com anestésico tópico ou por
tenegro pode ser negativa e, em casos graves,
infiltração, ou as duas combinadas. O material
com grande número de lesões, a reação também
deve ser coletado na área de progressão das le-
pode ser negativa, vindo entretanto positivar-se
sões, no limite entre os tecidos alterados e nor-
após vários dias. Nas formas anérgica ou difusa, a
mais.
reação de Montenegro é sempre negativa.
Os esfregaços devem ser feitos logo após a co-
leta do material, evitando-se excesso de sangue. Cultura
Para isso, um fragmento do tecido da lesão é to-
mado entre os ramos de uma pinça e esfregado A cultura não constitui recurso prático para o
em lâminas em um sentido único, de modo se- diagnóstico da leishmaniose tegumentar. O isola-
Leishmania spp – eis maniose egumentar r 117

mento da Leishmania, entretanto, torna-se ne- Antimoniais


cessário para a caracterização do parasito ou
quando a pesquisa do parasito é negativa. O tratamento pelos antimoniais foi proposto
As culturas são de difícil obtenção, salvo se o por Gaspar Vianna, em 1912, que empregou o
material semeado for de lesões fechadas, tais tártaro emético (tartarato de potássio e antimô-
como nódulos ou gânglios não-ulcerados. nio) em doentes com leishmaniose tegumentar,
Das lesões ulceradas, é difícil o isolamento na cidade do Rio de Janeiro, obtendo pleno êxi-
devido à contaminação bacteriana que não só to. O medicamento preconizado é o glucantime,
diminui o número de parasitos na lesão, como como relatado no Capítulo 17.
exerce poder impediente nas culturas sobre o
crescimento do protozoário. Diamidinas Aromáticas
Há certos artifícios de técnica que são sugeri-
dos para o isolamento, entre eles a coleta do ma- Das diamidinas aromáticas, a mais usada é a
terial por punção na periferia da úlcera. pentamidina isotionato em solução de água des-
Outro recurso é o tratamento tópico das le- tilada, na dose de 2 a 3 ml/kg, IM, em dias alter-
sões com antibióticos que não afetam a vitalida- nados, até completar 10 injeções.
de da Leishmania, porém são ativos sobre a mi-
crobiota associada. Antibióticos
As culturas em meio de NNN ou outros são man-
Dos antibióticos, o único ativo para o trata-
tidas em estufas especialmente graduadas a 25°C,
mento da leishmaniose tegumentar americana é
que constitui a temperatura ótima para a multipli-
a anfotericina B, usada por via endovenosa na
cação do parasito.
dose diária de 50 mg dissolvidos em 500 ml de
Imunofluorescência soluto glicosado a 5%, lentamente aplicados (3 a
4 horas para a aplicação).
A técnica empregada é a indireta (RIFI), que Este medicamento, devido às dificuldades pa-
propicia uma segurança em torno de 85%, sendo ra sua aplicação e sua toxicidade, é reservado
útil no controle do tratamento. para os casos em que os medicamentos anterio-
Tal recurso imunológico dá respostas cruzadas res não se mostraram eficazes.
com a leishmaniose visceral e doença de Chagas,
A resposta terapêutica aos medicamentos pre-
nas quais a RIFI também é adequadamente apli-
conizados para o tratamento da leishmaniose te-
cada.
gumentar varia de acordo com seu tipo.
TRATAMENTO O tratamento tópico deve ser feito de modo a
eliminar a infecção secundária, devendo-se para
Atualmente, os medicamentos preconizados isso usar os antibióticos (tetraciclinas, neomicina
para o tratamento da leishmaniose tegumentar e outros).
são divididos em 3 grupos:
a) antimoniais PROFILAXIA
b) diamidinas aromáticas
c) antibióticos Ver Capítulo 16.
18
Gênero Trypanosoma –
Espécies Parasitas do Homem –
Tripanossomoses Africanas

nero an s ma – sp cies Parasitas o Homem – ripanossomoses fricanas

O gênero Trypanosoma é bem mais antigo GÊNERO TRYPANOSOMA GRUBY,


que Leishmania, tendo sido criado por Gruby, em 1843
1843, para um flagelado sanguícola da rã. Em
1880, Evans descobriu na Índia outro Trypanoso- O gênero Trypanosoma inclui tripanossomatí-
ma no sangue de cavalos e camelos atacados de deos parasitos de vertebrados e invertebrados,
Surra e, em 1895, na África, Bruce, identificou cuja transmissão, em condições naturais salvo ra-
em cavalos e bovinos com Nagana, flagelados ras exceções, realiza-se por meio de vetores ani-
dos mesmo gênero. mados. A exceção principal é o Trypanosoma
equiperdum, agente da durina dos eqüídeos e
Depois destes achados, outros tripanossomas muares, cuja transmissão se realiza no ato sexual,
foram descritos em várias espécies de vertebra- devido à presença de lesões nos órgãos genitais
dos, culminando com as descobertas dos agentes infectados pelo agente. Esse modo de transmis-
etiológicos das doenças do sono, na África (1902 são por contato direto é igual ao da infecção in-
a 1910) e de Chagas (1909), na América. ter-humana da sífilis.
No momento, são quatro as espécies de Try- Como acentuamos anteriormente, as formas
panosoma parasitos do homem, sendo duas afri- evolutivas do gênero podem ser em número de 4,
canas e duas americanas: 2 ou 1, conforme as espécies.
Em Trypanosoma cruzi são três: amastigotas,
1 – Trypanosoma gambiense Dutton, 1902 – Agen- epimastigotas e tripomastigotas; em T. gambiense
te de uma forma clínica da doença do sono de e T. rhodesiense, duas: epimastigota e tripomasti-
curso lento gota e em T. equiperdum, uma: tripomastigota.
2 – Trypanosoma rhodesiense Stephens e Fantham, No T. rangeli as formas evolutivas ainda não fo-
1910 – Agente de uma forma da doença do ram completamente estudadas, mas é possível
Sono de rápida evolução que sejam as mesmas observadas no T. cruzi.

3 – Trypanosoma rangeli Tejera, 1920 – Agente de Reprodução e Evolução


uma forma benigna de tripanossomose ameri-
cana A reprodução dos tripanossomas é realizada
por divisão binária no sentido longitudinal, a qual,
4 – Trypanosoma cruzi Chagas, 1909 – Agente da segundo a espécie, pode ocorrer em qualquer
doença de Chagas. uma das quatro formas.

11
1 r Parasitologia e Micologia Humana

Na seqüência da divisão, biparte-se inicial- I – Tripanossomas que evoluem nas partes anterio-
mente o cinetoplasto, depois o núcleo e, ao fi- res do trato digestório dos vetores, nos quais as
nal, o citoplasma, originando-se duas células. formas metacíclicas infectantes são transmitidas
No processamento da divisão celular, uma das pela picada (anterior station – Duke, 1913)
células-filhas detém o flagelo da célula-mãe, ori- Trypanosoma gambiense e T. rhodesiense.
ginando-se, então, do cinetoplasto de sua parcei- II – Tripanossomas cuja evolução termina na parte
ra, seu flagelo próprio. posterior do tubo digestório do vetor, na qual
O esquema da Figura 1 mostra a sucessão que se encontram as formas infectantes metacícli-
se observa na multiplicação das diferentes formas. cas que são transmitidas contaminativamente
As espécies de Trypanosoma, patogênicas pa- pelas fezes (posterior station – Wenyon, 1926)
ra o homem e outros mamíferos e transmitidas Trypanosoma cruzi.
por insetos, foram divididas por Wenyon (1926) Entre estes dois grupos se encontra o Trypano-
em dois grupos: soma rangeli, cujas formas infectantes tanto po-

1 2 3 4

5 6 7 8

10 11 12

13 14 15 16

Fig. 1 – Reprodução geral dos tripanossomas. Segundo Wenyon (1926). 1 a 4 – Divisão da forma amastigota; 5 a 8 – divi-
são da forma promastigota; 9 a 12 – divisão da forma epimastigota; 13 a 16 – divisão da forma tripomastigota.
nero an s ma – sp cies Parasitas o Homem – ripanossomoses fricanas r 1 1

dem ser encontradas na saliva quanto nas fezes sas três formas, o T. gambiense é considerado um
dos vetores, embora a infecção ocorra principal- tripanossoma polimórfico (Fig. 2).
mente pela picada. O núcleo é ligeiramente anterior à metade do
As espécies do primeiro grupo, agentes de tri- corpo e o cinetoplasto pequeno é subterminal.
panossomoses africanas, são transmitidas por mos- Em preparações pelos métodos de Wright, May-
cas hematófagas do gênero Glossina, enquanto as Grünwald ou similares, são vistas no seu citoplas-
duas outras, agentes de tripanossomoses america- ma granulações metacromáticas de volutina.
nas, o são por hemípteros triatomíneos. Reprodução – a reprodução em vida parasitá-
ria nos vertebrados se realiza por divisão binária
TRIPANOSSOMOSES AFRICANAS no sentido longitudinal, podendo ser vistas no
DO HOMEM sangue formas em divisão, fato jamais observado
no T. cruzi, agente da doença de Chagas.
Agentes Etiológicos
São afecções produzidas pelo Trypanosoma
gambiense e T. rhodesiense, coletivamente deno-
minadas doença do sono, de ocorrência exclusi-
va na África.
Como não existe no Brasil, faremos um estu-
do resumido dela e de seus agentes.

Trypanosoma gambiense Dutton, 1902


É o agente da forma menos grave da doença Fig. 2 – T. gambiense, forma tripomastigota no sangue.
do sono, de evolução crônica e, na maioria dos Original.
casos, de longa duração.
Parasita o homem e várias espécies de animais
Trypanosoma rhodesiense Stephens e
em diversas áreas intertropicais da África, esten- Fantham, 1910
dendo-se pelos países da Costa Ocidental, do
Esta espécie é morfologicamente indistinguível
Senegal a Angola, e para o Leste.
do T. gambiense (Fig. 3), porém se diferencia por
A distribuição geográfica é condicionada por
sua maior virulência no homem e em animais de
fatores ecológicos favoráveis à existência dos ve-
laboratório, como também por parasitar certas es-
tores que são moscas hematófagas do gênero
pécies de antílopes que lhe servem de reservató-
Glossina, conhecidas na África pelo nome vulgar
rio, fato não observado no T. gambiense.
da tsé-tsé.
O homem constitui o principal reservatório Alguns autores identificam o T. rhodesiense no
da infecção, se bem que várias espécies de ani- T. brucei, agente da doença africana dos bovinos
mais domésticos, como os bovinos, suínos e ca- denominada Nagana, e outros o consideram uma
prinos, podem se apresentar infectados sem sin- simples variedade do T. gambiense, mais virulenta
tomalogia apreciável e, nesse caso, poderão de- e transmitida por espécies particulares de Glossina,
sempenhar algum papel como hospedeiro do entre as quais a principal é a G. morsitans.
parasito. Atualmente, a tendência é considerar T. gam-
Morfologia – no sangue, liquor e líquidos in- biense, T. rhodesiense e T. brucei, morfológica e
tersticiais do homem e animais suscetíveis à in- biologicamente relacionados, formando o com-
fecção, este Trypanosoma se apresenta com as plexo brucei.
dimensões de 13 a 39 mm de comprimento por Evolução – os ciclos evolutivos do T. gambiense
1,5 a 3,5 mm de largura. Há três formas do T. e do T. rhodesiense são substancialmente iguais
gambiense: uma curta, com membrana ondulan- no tocante às sucessivas fases e às espécies trans-
te, porém sem flagelo livre; uma longa, delgada, missoras, todas do gênero Glossina.
com flagelo livre na sua extremidade anterior; e A transmissão destes tripanossomas é biológi-
uma intermediária. Em virtude da existência des- ca, do tipo ciclopropagativo, por haver no artró-
1 r Parasitologia e Micologia Humana

Doença do Sono
É uma doença parasitária que apresenta, na
fase terminal da maioria dos casos, sintomas gra-
ves, dos quais chama a atenção a profunda sono-
lência. Outros sintomas, como a adinamia, ptose
Fig. 3 – T. rhodesiense, forma tripomastigota no sangue. palpebral, indiferença ao meio ambiente, sono vi-
Original. gil ou comatoso, compõem o quadro mórbido
que sugeriu o nome dessa importante protozoose.
A doença é exclusiva de extensas áreas da
pode transmissor, concomitantemente, fases su- África, onde constitui importante problema mé-
cessivas de um processo evolutivo do parasito e dico-sanitário.
uma multiplicação do mesmo.
Por ocasião do tráfico de negros do continente
As glossinas são moscas hematófagas em ambos
africano para o Brasil, nos séculos XVIII e XIX, po-
os sexos e se infectam sugando o sangue do ho-
deriam ter vindo indivíduos infectados pelos tri-
mem ou dos animais portadores do protozoário.
panossomas agentes da doença do sono para nos-
As formas sanguícolas do Trypanosoma no es-
so país, porém, sem possibilidades de surgir novos
tômago das glossinas evoluem inicialmente para
casos de infecção, por não existir aqui as moscas
formas alongadas onde se multiplicam.
do gênero Glossina, únicas que podem desempe-
Essas formas migram do estômago, de trás para
nhar o papel de transmissores desta protozoose.
frente, e invadem o proventrículo, a probóscida e
As alterações mórbidas da doença do sono
as glândulas salivares, evoluindo para a forma epi-
decorrem, na maioria dos casos, do comprometi-
mastigota, que se reproduz ativamente.
mento dos linfáticos e do sistema nervoso central
Por sua vez, as formas epimastigotas evoluem
(SNC), incluindo-se as meninges.
para novas formas tripomastigotas, denominadas
metacíclicas, que são infectantes para os verte- Diagnóstico – o diagnóstico etiológico é feito
brados suscetíveis à infecção. pelo encontro dos parasitos no sangue periféri-
A fase final da evolução dessas espécies de co, no liquor, no material obtido por punção dos
Trypanosoma se passa na porção anterior do tra- gânglios linfáticos e da medula óssea, em parti-
to digestório do vetor (anterior station) e a trans- cular, a esternal.
missão das tripanossomoses, por elas determina- A inoculação em alguns animais de laborató-
das, realiza-se pela introdução da saliva, conten- rio também pode ser utilizada, sendo preferido o
do as formas metacíclicas do parasito no mo- cobaio, que é muito suscetível à infecção e de fá-
mento da picada. cil tratamento.
A evolução nas moscas vetoras ultima-se en- Há algumas provas imunológicas e outras ines-
tre 12 e 20 dias, quando, então, se tornam infec- pecíficas que podem ser subsidiariamente usadas,
tantes. entre as quais a fixação do complemento com antí-
Em áreas endêmicas, é possível a transmissão geno preprarado com Trypanosoma equiperdum, a
mecânica da doença do sono de indivíduos doen- hemossedimentação, a formol-geleificação e ou-
tes a sadios, pela picada sucessiva das tsé-tsé no tras.
primeiro deles e, logo a seguir, no segundo, por Tratamento – consiste no uso de medicamentos
simples contaminação das peças bucais pungiti- pertencentes a três grupos: 1 – Sintéticos orgânicos
vo-sugadoras. (Antrypol B. P., Bayer 205, Germanin, Fourneau
Experimentalmente, pouco menos de 10% das 309, Moranyl, Nagano); 2 – Arsenicais (Tryparsa-
glossinas se infectam em vertebrados portadores mide B. P., Tryparsone, Tryponarsyl, Trypotan, No-
do Trypanosoma gambiense ou T. rhodesiense e vatoxyl, Glyphenarsine, Melarsen B); 3 – Diamidi-
nas áreas endêmicas, em condições naturais, a nas aromáticas (propamidine Isothionate, Lomidi-
taxa de infecção é da ordem de 1%. ne).
19
Trypanosoma cruzi e
Doença de Chagas

an s ma i e Doença e agas

O Trypanosoma cruzi e a doença por ele deter- doença que tem o seu nome, foi o inter-relacio-
minada foram descobertos em 1909, pelo cientis- namento ecológico de diferentes seres no mes-
ta brasileiro Carlos Chagas, na pequena localida- mo habitat. Encontrou nas casas toscas o nicho
de de Lassance, situada no norte do Estado de Mi- de hemípteros hematófagos que traziam no tubo
nas Gerais (Fig. 1). digestivo um novo Trypanosoma; e observou, tam-
O que possibilitou a descoberta de Chagas foi bém, no sangue de pessoas doentes dessas casas
sua sólida cultura em protozoologia e entomolo- e do seu cão, um tripanossoma identificado co-
gia, aliada ao seu conhecimento em patologia mo o mesmo observado nos hemípteros; viu e
médica, atributos sem os quais um único pesqui- relacionou os elos de um ecossistema, interpre-
sador não poderia descobrir doença ainda não tou-os e mostrou a existência de uma entidade
suspeitada, seu agente etiológico, seu modo de mórbida que constituía e constitui ainda um im-
transmissão e os mamíferos que representam os portante problema médico-sanitário para o con-
hospedeiros naturais do parasito. tinente americano.
O que Chagas percebeu em 1909 e o levou, Na fase inicial das investigações sobre a doen-
por raciocínio e não por acaso, à descoberta da ça de Chagas, de 1909 a 1916, além de novos
trabalhos de Chagas, houve várias contribuições,
entre as quais as de Hartmann (1910) e Vianna
(1911) sobre a reprodução intracelular do T. cru-
zi, sob a forma amastigota; as de Brumpt (1912)
sobre o ciclo do parasito nos invertebrados; as
de Neiva (1913), de Brumpt e Gonzalez-Lugo
(1913), de Mayer e Rocha Lima (1914) e de Tor-
res (1915) sobre os aspectos particulares da
transmissão da doença pelos artrópodes; as de
Brumpt (1914) sobre o xenodiagnóstico por ele
idealizado; as de Machado e Guerreiro (1913)
sobre a adoção da fixação do complemento para
o diagnóstico desta protozoose.
Fig. 1 – Foto histórica: Carlos Chagas examina o primeiro Muitas outras publicações foram feitas naque-
doente, a menina Berenice, em Lassance (Minas Gerais). le período de estudo sobre esta tripanossomose,
Segundo G. Halfed (1973). porém as citadas aqui constituem os fundamen-

1 3
1 4 r Parasitologia e Micologia Humana

tos para todas as pesquisas que então se realiza-


ram no Brasil e em outros países até hoje, no to-
cante a patologia, imunologia, epidemiologia e
profilaxia da doença de Chagas.

TRYPANOSOMA CRUZI CHAGAS,


1909 Fig. 3 – T. cruzi, forma tripomastigota delgada. Original.

Sin.: Schizotrypanum cruzi Chagas, 1909


Ainda não está esclarecido o significado da
Morfologia e Evolução existência de formas curtas e longas de T. cruzi
em sua fase sanguícola, alguns autores acreditan-
O estudo da morfologia e reprodução do T. do que as curtas sejam as jovens, recém-libera-
cruzi pode ser feito em sua condição de parasito das dos tecidos onde são formadas graças a sua
de vertebrados, no trato digestório dos artrópo- evolução, partindo das formas amastigotas intra-
des vetores e em culturas em meios apropriados. celulares.
Nos vertebrados – nesses animais, natural ou A forma amastigota (Fig. 4) tem sua localiza-
experimentalmente infectados, distinguem-se ha- ção intracitoplasmática nas células de diversos
bitualmente a forma tripomastigota, no sangue e órgãos, onde se reproduz por divisão binária, re-
liquor, e amastigota em posição intracelular nos sultando em aglomerados de elementos parasitá-
tecidos. rios aflagelados, ovóides, elipsóides ou esferói-
A forma tripomastigota (Prancha 1 no CD) nos des, pequenos, medindo de 2 a 4 mm de diâme-
vertebrados pode assumir duas configurações. tro. Nessas formas o núcleo é arredondado, bem
Uma curta e larga, não atingindo 20 mm de com- individualizado pelas técnicas usuais de colora-
primento, caracterizando-se nas preparações co- ção; o cinetoplasto, bem menor, bacilóide, é in-
radas pelos métodos hematológicos pela disposi- tensamente corado, e a membrana, apenas visí-
ção em C e pelo volumoso cinetoplasto situado vel.
próximo a sua extremidade posterior (Fig. 2). A As células mais freqüentemente parasitadas
outra forma é delgada e um pouco mais longa pelas formas amastigotas de T. cruzi são os histió-
que a primeira, atingindo 20 mm ou pouco mais citos, fixos ou móveis, da pele, fígado, baço, me-
(Fig. 3). dula óssea e gânglios linfáticos; as células muscu-
T. cruzi, sob sua forma tripomastigota no san- lares estriadas do coração e as nervosas. Outras
gue, liquor, linfa e líquidos intersticiais, não se células, como as da musculatura estriada de con-
reproduz, ao contrário de T. gambiense e T. rho-
desiense, dos quais se podem ver nesses humo-
res elementos parasitários em divisão binária.

Fig. 4 – T. cruzi, formas amastigotas no miocárdio. Micro-


Fig. 2 – Microfotografia de T. cruzi em esfregaço sanguí- fotografia de secção histológica corada pela hematoxilina,
neo. Coloração pelo Giemsa, 1.000 X. Original. 1.000 X. Original.
an s ma i e Doença e agas r 1 5

tração voluntária, neuróglia, plexos nervosos que parte anterior do intestino médio, arredondam-
inervam o trato digestório, cápsulas supra-renais se e tomam ora a forma amastigota, ora a epi-
e tireóide, podem abrigar as formas amastigotas mastigota. Ainda no intestino médio, em posição
de T. cruzi. posterior, essas formas epimastigotas reprodu-
Em esfregaços de certos tecidos, como o mio- zem-se ativamente por divisão binária e invadem
cárdio de ratos experimentalmente infectados, o intestino posterior, onde se transformam em
podem ser observadas, ao lado das formas amas- tripomastigotas metacíclicas.
tigotas, raras formas epimastigotas e tripomasti- Os autores que estudaram a evolução de T.
gotas jovens. cruzi nos triatomíneos dão às formas epimastigo-
As formas tripomastigotas extracelulares, e tas livres no lúmen do intestino posterior o nome
amastigotas intracelulares, representam fases al- de nectômonas, as quais, antes de evoluírem
ternadas da evolução de T. cruzi no vertebrado; a para tripomastigotas metacíclicas, fixam-se na
primeira flagelada, móvel, introduz-se na célula superfície epitelial do órgão, recebendo por isso o
e se metamorfoseia em amastigota; esta, por sua nome de haptômonas.
vez, após sucessivas divisões binárias, evolui para Em síntese, as formas tripomastigotas transfor-
tripomastigota (Fig. 5). As minúcias desse proces- mam-se em epimastigotas, que se reproduzem
so evolutivo foram estudadas em culturas de te- ativamente; estas, enquanto livres nos líquidos
cidos, porém os passos do mesmo não ficaram do intestino, são as nectômonas e ao se fixarem
totalmente esclarecidos. recebem o nome de haptômonas que, ao final,
Em geral, as formas amastigotas resultantes de transformam-se em tripomastigotas metacíclicas
sua reprodução permanecem juntas em aglome- infectantes (Fig. 5).
rados no interior de células ou nos locais onde A identificação das formas epimastigota e tri-
foram destruídas pelo parasitismo. Há, entretan- pomastigota é importante para a determinação
to, um outro tipo de aglomerado de amastigotas, do índice de infecção natural dos triatomíneos
mais freqüente em amostras de T. cruzi de dasi- nos estudos epidemiológicos sobre doença de
podídeos, que permanecem no interior de gran- Chagas, sendo necessária rigorosa diferenciação,
des células neoformadas, multinucleadas, envol- de T. rangeli e T. conorrhini.
tas em espessa membrana e que são denomina- Na prática, as fezes do barbeiro são inicial-
das “gigantócitos de Torres e Azevedo” por terem mente examinadas a fresco em solução fisiológi-
sido descritas por esses dois cientistas, em 1929. ca para evidenciação das formas flageladas mó-
A morfologia de T. cruzi no sangue e em líqui- veis e, se presentes, o material é corado para es-
dos orgânicos, a ausência de divisão da sua for- tudo de sua morfologia, que permite sua identifi-
ma tripomastigota e a fase intracelular de sua cação específica graças ao volumoso cinetoplas-
evolução sob a forma amastigota diferenciam es- to em posição anterior ao núcleo, em epimasti-
ta espécie, de T. gambiense, T. rhodesiense e T. gota, e posterior, em tripomastigota.
rangeli, parasitos do homem, bem como T. co- A evolução de T. cruzi nos barbeiros se pro-
norrhini, parasito de triatomíneos, porém ino- cessa em 1 a 2 semanas nas ninfas e em 2 a 4,
culável com êxito em ratos (Prancha 1 no CD). nos adultos.
O fato de o T. conorrhini viver no trato digestório Cultura – T. cruzi, ao contrário das espécies
de triatomíneos deve ser considerado na execução agentes das tripanossomoses africanas, cultiva-se
do xenodiagnóstico da doença de Chagas. com relativa facilidade em diversos meios, tais
Nos invertebrados – nesses hospedeiros, re- como o de NNN, Tôrres, Bonacci, Kelser e outros.
presentados por hemípteros hematófagos da fa- Em todos eles, a adição de sangue é de funda-
mília Reduviidae, subfamília Triatominae, co- mental importância para favorecer a reprodução
nhecidos no Brasil pelo nome vulgar de “barbei- do protozoário.
ros”, sucedem-se no trato digestório, de frente As culturas puras são obtidas semeando-se o
para trás, as fases evolutivas do protozoário. sangue do homem ou de animais infectados em
O inseto infecta-se ingerindo as formas san- um dos meios anteriormente citados, usando-se
guícolas de T. cruzi existentes na corrente circu- a técnica preconizada em bacteriologia para as
latória dos mamíferos infectados, as quais, na hemoculturas.
1 6 r Parasitologia e Micologia Humana

3 epimastigotas (Prancha 1 no CD) e raras tripo-


mastigotas, morfologicamente idênticas às en-
contradas no trato digestório dos triatomíneos,
2
vetores da doença de Chagas.
4 A infectibilidade das culturas em animais sus-
cetíveis é variável e sempre dependente da pre-
A sença da forma tripomastigota infectante.

Hospedeiros
1
Vertebrados – além do homem, inúmeros ma-
5
míferos podem se apresentar parasitados, em con-
dições naturais, pelo T. cruzi, fato de grande im-
8 6
portância no conhecimento da epidemiologia da
doença.
Entre os mamíferos domésticos, o cão, o gato,
7
7 o rato-de-forro e o camundongo são os mais im-
B
portantes no Brasil. Na Bolívia e no Peru, além
destes, em certas áreas, o cobaio, criado no do-
6
8 micílio para alimentação, apresenta infecções
espontâneas pelo T. cruzi.
Dos animais peridomiciliados, apresentam in-
5
fecções naturais pelo parasito o rato-de-esgoto, o
1 porco e algumas espécies de marsupiais e quiróp-
teros, que ocasionalmente invadem instalações
próximas ou contíguas às moradias rurais.
A lista dos animais silvestres que podem ser pa-
4 rasitados pelo T. cruzi vem crescendo nestes últi-
mos anos, havendo nela espécies de primatas, roe-
2 dores, carnívoros, desdentados, marsupiais e qui-
rópteros.
3 Tanto os animais domiciliados quanto os peri-
domiciliados e os silvestres representam o papel
Fig. 5 – Ciclo evolutivo do T. cruzi. Baseado em Piekarski,
de reservatórios ou hospedeiros naturais de T.
in Tablas de Parasitologia Medica. Edição Bayer.
cruzi e, como tais, podem ser responsáveis pela
Em A – No homem:
1 – Tripomastigotas infectantes atingem o vertebrado
persistência de endemias da doença de Chagas
pelas dejeções do triatomíneo. em determinadas localidades ou pelo apareci-
2 – Multiplicação intracelular na forma amastigota. mento de casos esporádicos em áreas onde ela
3 – Forma epimastigota. não tem caráter endêmico.
4 e 5 – Tripomastigotas no sangue periférico. Invertebrados – os hospedeiros naturais de T.
Em B – No transmissor: cruzi são hemípteros, reduvídeos da subfamília
6 – Tripomastigota ingerida pelo triatomíneo. dos triatomíneos. Nesta subfamília foram incluí-
7 – Epimastigota em divisão.
das 88 espécies, das quais 80 existem na Améri-
8 – Formas tripomastigotas metacíclicas.
Em C – Ciclo idêntico ao verificado no homem ocorre no
ca e destas, 37 foram encontradas no Brasil.
animal reservatório. Acredita-se que todas as espécies de triatomí-
neos sejam suscetíveis à infecção experimental
pelo T. cruzi, porém, nem todas se apresentam
T. cruzi desenvolve-se bem à temperatura de infectadas em condições naturais e, nas espécies
28°C e em poucos dias podem ser evidenciadas em que foi verificado o parasitismo por tal proto-
algumas formas amastigotas, numerosas formas zoário, os índices de infecção variam entre áreas
an s ma i e Doença e agas r 1 7

geográficas ou mesmo entre localidades não mui- Sua distribuição geográfica é condicionada à
to distantes. coexistência, no mesmo local ou área, do ho-
De modo semelhante aos hospedeiros verte- mem ou mamífero infectados pelo T. cruzi e de
brados, os triatomíneos podem ser distribuídos triatomíneos transmissores.
em três grupos: domiciliados, peridomiciliados e É o reflexo dos processos dinâmicos de um
silvestres. Quase todos são eurixenos em relação ecossistema, em que o meio é a moradia tosca
aos mamíferos, havendo, entretanto, espécies que (Fig. 6) e a comunidade biótica, o homem e os
preferem o sangue de aves. mamíferos, Trypanosoma cruzi bem como os tria-
Das várias dezenas de espécies de triatomíneos tomíneos ecologicamente relacionados, forman-
observados no Brasil, em cerca de 14 foram en- do uma cadeia parasitária na qual os barbeiros
contradas as formas evolutivas de T. cruzi, po- dependem dos vertebrados, e o protozoário, de
rém, destas, apenas algumas são de importância todos.
epidemiológica como vetores da doença de Cha- A rigor, a doença de Chagas é de infecção in-
gas por serem domiciliadas, apresentarem eleva- tradomiciliar em razão da exigência alimentar
dos índices de infecção natural e terem extensas dos triatomíneos que, sendo obrigatoriamente
áreas de distribuição geográfica. Essas espécies hematófagos, sugam indiferentemente o sangue
são: Triatoma infestans, Panstrongylus megistus, do homem e dos mamíferos domiciliados, doen-
Triatoma sordida, Triatoma brasiliensis, Triatoma tes e sadios, transmitindo o parasito de uns a ou-
maculata e Triatoma rubrofasciata. As outras espé- tros.
cies, todas silvestres e de importância epidemio- O fato de a doença de Chagas ser de infecção
lógica secundária são: Triatoma vitticeps, Pans- intradomiciliada não exclui a possibilidade do
trongylus lutzi, Rhodnius neglectus, Rhodnius do- homem, do cão, do gato e do rato serem infecta-
mesticus, Rhodnius pictipes. dos fora das casas por espécies silvestres de tria-
O percevejo-de-cama, Cimex lectularius, po- tomíneos que mantêm as enzootias entre os ver-
de abrigar em condições naturais T. cruzi, não tebrados, também silvestres, suscetíveis à infec-
tendo este fato grande importância epidemioló- ção chagásica.
gica na doença de Chagas. Teoricamente, antes da descoberta da Améri-
ca, as infecções pelo T. cruzi eram exclusivamen-
Ciclo do Trypanosoma cruzi no te selváticas e, a partir daí, tornaram-se por ex-
gambá (Didelphis marsupialis) tensão domiciliares devido às migrações huma-
nas da Europa e África. Esses imigrantes construí-
Foi observado por Deane, Lenzi & Jansen, em ram um tipo rústico de casas com paredes de tai-
1984, um ciclo extracelular de T. cruzi nas glân- pa, nas quais se adaptaram algumas espécies de
dulas anais do gambá (Didelphis marsupialis). No triatomíneos silvestres.
lúmen das glândulas o parasito se multiplica co-
mo epimastigotas dando origem a tripomastigo-
tas infectivas em um ciclo idêntico ao encontra-
do no tubo digestório dos triatomíneos vetores
de T. cruzi. Mais recentemente, tem-se observa-
do ciclo idêntico em outros marsupiais, mas suas
implicações epidemiológicas ainda não estão to-
talmente compreendidas.

DOENÇA DE CHAGAS
Distribuição Geográfica
É uma doença do continente americano, on-
de é observada, de modo esparso, desde o sul
dos Estados Unidos até o sul da República Argen- Fig. 6 – Nicho ecológico dos triatomíneos. Segundo G.
tina. Halfeld (1973).
1 r Parasitologia e Micologia Humana

As áreas de distribuição de T. cruzi em hospe- tunidade de sugar o homem, é bastante agressivo


deiros vertebrados e nos triatomíneos são maio- quando este invade seu ecótopo natural.
res que as da doença de Chagas do homem, não Estes fatos poderiam explicar a disparidade
sendo completamente esclarecidas as razões des- entre as áreas de distribuição dos triatomíneos
sa diferença. Acreditamos que esta decorra dos silvestres infectados pelo T. cruzi e as de inci-
seguintes fatos: a) isolamento da fauna silvestre dência da doença de Chagas do homem e ani-
de mamíferos que exercem o papel de reservató- mais domésticos.
rio de T. cruzi; b) impossibilidade de povoamen- A doença de Chagas é rara nos EUA e pouco
to pelos triatomíneos, de habitat extradomiciliar, freqüente no México e em países da América
de casas rebocadas onde eles não encontram es- Central. Na América do Sul é observada em todos
conderijos; c) isolamento dos triatomíneos em os países, com exceção do Suriname. A maioria
ecótopos peculiares, afastados das moradias. dos casos humanos é encontrada no Brasil e Ar-
É de conhecimento geral que quase todos os gentina, ora esporadicamente, ora constituindo
mamíferos silvestres, inclusive os portadores de T. focos endêmicos.
cruzi, jamais penetram espontaneamente nas resi- A distribuição geográfica da doença de Cha-
dências e, por isso, nunca se constituem hospedei- gas humana no Brasil coincide com a da domici-
ros intradomiciliados deste parasito, razão pela liação de algumas espécies de triatomíneos e, até
qual têm pouca importância como fonte de infec- certo ponto, com a coexistência do gato e do cão
ção para o homem no interior das residências. contaminados pelo T. cruzi.
Em diferentes áreas da América tem-se verifi- Nos Estados do litoral – do Ceará ao Rio Gran-
cado a presença de triatomíneos infectados pelo de do Sul e nos centrais, de Goiás e Minas Gerais,
T. cruzi em ecópotos silvestres vivendo do sangue há doença de Chagas humana com freqüência
de vertebrados aparentemente em equilíbrio eco- variável. Nos demais estados e territórios, onde
lógico. No Brasil são conhecidas as biocenoses foram encontrados triatomíneos infectados, po-
dos tatus com Panstrongylus geniculatus e dos dem aparecer casos humanos.
mocós com Triatoma brasiliensis, em seus respec-
tivas locais. Transmissão
Nos EUA, várias espécies de triatomíneos vi- A transmissão da doença de Chagas é biológi-
vem nos ninhos de roedores silvestres, entre elas ca, do tipo ciclopropagativo nas fases de evolu-
encontramos Triatoma protracta, Triatoma neoto- ção e multiplicação de T. cruzi no tubo digestório
mas e Triatoma gerstackeri. Estas espécies, res- dos barbeiros, resultando as formas metacíclicas
ponsáveis pelas enzootias silvestres de infecções infectantes, e é contaminativa ao término destas
pelo T. cruzi, não procriam nas casas com pare- fases, quando as fezes do transmissor contendo
des rebocadas, razão pela qual a doença de Cha- as formas infectantes do parasito são lançadas na
gas em algumas regiões fica restrita aos vertebra- pele ou nas mucosas do hospedeiro vertebrado
dos silvestres. (Fig. 7).
Há espécies que em uma localidade são do- Essa ocorrência resulta do fato de os triatomí-
miciliadas e, em outras, silvestres. Panstronyglus neos freqüentemente defecarem sobre a pele do
megistus é domiciliado no Estado de Minas Gerais hospedeiro ao término do repasto sanguíneo.
e um dos responsáveis pela transmissão intrado- Quando as fezes contêm as formas metacíclicas,
miciliar de T. cruzi; no Município do Rio de Ja- estas, graças à sua motilidade, penetram ativa-
neiro ele é silvestre e, embora infectado e capaz mente no animal receptor através das mucosas
de ocasionalmente invadir os domicílios, não se ou por qualquer solução de continuidade da pe-
estabelece e assim exerce apenas o papel de um le.
transmissor fortuito de T. cruzi. Os triatomíneos são insetos de atividade no-
Foram observados triatomíneos em ecótopos turna e sua picada é realizada no escuro, nas par-
especiais. Rhodnius brethesi vive na fronte de tes descobertas do corpo, inclusive no rosto, de-
palmeiras da Amazônia freqüentada por verte- correndo deste fato, o nome vulgar de “barbei-
brados arborícolas e embora tenha pouca opor- ro”.
an s ma i e Doença e agas r 1

A segunda é a transmissão por via oral que


tem sido relatada com certa freqüência nos últi-
mos anos, principalmente nas regiões Norte e
Nordeste do país. Este tipo de transmissão é pos-
sível através da ingestão de carne de mamíferos
infectados ou de alimentos contaminados por fe-
zes de triatomíneos ou urina de marsupiais.
A terceira é congênita, do organismo materno
portador da infecção chagásica para o filho. Pos-
sível, porém, rara.

Patogenia
T. cruzi, introduzindo-se ativamente no orga-
nismo, atinge a derme, onde tem início sua pri-
meira fase de parasitismo intracelular, na qual as
formas metacíclicas se transformam em amasti-
gotas.
Em cortes da pele de animais experimental-
mente infectados, verificam-se, entre 3 e 5 dias,
Fig. 7 – Mecanismo natural de infecção na doença de
em posição intracelular, as formas amastigotas
Chagas. Segundo G. Halfeld (1973). formando pequenos aglomerados resultantes de
sua divisão binária.
Na derme, as células parasitadas são os histió-
A coprofagia e o canibalismo mantêm a infec- citos, as células conjuntivas e as fibras muscula-
ção chagásica entre os triatomíneos. res aí existentes.
Em algumas pessoas, a picada não é percebida Ao serem destruídas as células parasitadas e li-
durante o sono por não haver reação local. Em bertados os parasitos, surge no local a primeira
outras, a pele reage de modo variável, formando reação do organismo de natureza inflamatória,
uma pápula eritematosa, pruriginosa no ponto em inicialmente com infiltração de polimorfonuclea-
que foram introduzidas as peças bucais e a saliva res, linfócitos e monócitos e, logo em seguida, de
do inseto. histióctos que predominam na parte central do
Outras modalidades de transmissão da doen- processo infeccioso.
ça de Chagas, ainda que menos importantes, de- Concomitantemente à instalação desse pro-
vem ser consideradas. cesso mórbido, há reação dos gânglios próximos,
que se tornam tumefatos.
A primeira delas é a transmissão pela transfu- Esta é a lesão primária ou chagoma de inocu-
são sanguínea onde vem sendo a principal via de lação, também denominada complexo primário
transmissão nas zonas urbanas, principalmente da primoinfecção pelo T. cruzi. Quando localiza-
em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. O da na pele, assume aspecto furunculóide, rece-
uso de violeta-de-genciana na concentração de bendo de Basso e Basso este conjunto sintomáti-
1:4.000 para a adição ao sangue pelo menos 24 co o nome de “complexo cutaneoganglionar”.
horas antes de transfusão é suficiente para inati-
Se as formas metacíclicas penetrarem na mu-
var o T. cruzi.
cosa da conjuntiva, haverá intensa reação infla-
A possibilidade da transmissão da doença de matória nos tecidos subjacentes, com congestão
Chagas por essa modalidade exige rigorosa se- ocular, edema palpebral, dacriocistite e adenopa-
leção dos doadores de sangue e, entre as provas tias dos gânglios satélites. A esse conjunto de sin-
preconizadas, não pode faltar uma prova soro- tomas encontrado em numerosos casos de doen-
lógica de triagem, como, por exemplo, a reação ça de Chagas se denomina sinal de Romaña ou
de imunofluorescência. complexo oftalmoganglionar de Mazza (Fig. 8).
13 r Parasitologia e Micologia Humana

Pela localização intracelular em inúmeros ór-


gãos, a forma amastigota tem importância funda-
mental na patogenia da doença de Chagas não
só devido à destruição das células por ela parasi-
tadas, como pela elaboração catabólitos e secre-
ções de ação local ou a distância, graças à sua di-
fusão no organismo.

As formas amastigotas são encontradas princi-


palmente nas células do sistema monocítico-fa-
gocitário que se distribuem por todo o organis-
mo. Outras células também são parasitadas, co-
mo as musculares e as nervosas.

Nas fibras musculares, lisas e estriadas, en-


contram-se aglomerados de amastigotas alonga-
dos no sentido longitudinal das fibras. Tanto as fi-
bras estriadas do aparelho locomotor quanto as
do miocárdio podem estar parasitadas pelas cita-
das formas de T. cruzi; entretanto, alguns autores
Fig. 8 – Sinal de Romaña ou complexo oftalmoganglionar lhes atribuem uma certa eletividade para a mus-
de Mazza. Original. culatura cardíaca.
No estudo da patogenia da doença de Cha-
As células do sistema nervoso central também
gas, Mazza (1935) reconhece três períodos:
podem ser parasitadas e destruídas pelas formas
O primeiro inclui a lesão primária, que acaba-
amastigotas.
mos de referir, coincidente com a parasitemia e a
invasão e multiplicação do protozoário sob a for- O comprometimento do sistema nervoso autô-
ma amastigota no interior de células de diversos nomo, segundo Köberle (1959), decorre da ação
órgãos, provocando a formação de lesões visce- tóxica de substâncias elaboradas pelo parasito so-
rais. bre os neurônios dos plexos nervosos do trato di-
O segundo período coincide com as reinfec- gestório e miocárdio.
ções endógenas sucessivas, resultantes da alter-
nância das fases sanguícola e tecidual de T. cruzi Outra alteração importante na doença de
no hospedeiro vertebrado. Chagas é a degeneração das fibras musculares do
O terceiro, acentuadamente proliferativo, cor- miocárdio, estudada por Torres e Azevedo, que a
responde à invasão por células conjuntivas das consideram resultante de uma reação hiperérgi-
lesões do coração, fígado e outros órgãos, lesões ca do organismo ao T. cruzi.
estabelecidas nos dois períodos anteriores.
A ação patogênica de T. cruzi é exercida pela Mazza e Jorge (1939) resumem as alterações
forma tripomastigota do sangue, liquor e líquidos anatomopatológicas da doença de Chagas do se-
intersticiais e pela forma amastigota em sua loca- guinte modo: nas formas agudas, as lesões são de
lização intracelular. hepatite nodular, miocardite aguda difusa, celulite
Coincidindo com as alterações celulares e te- aguda difusa, meningites e miosites agudas múlti-
ciduais, aparecem anticorpos circulantes que po- plas; nas formas crônicas, as lesões decorrem de
dem ser postos em evidência por várias reações repetidas infecções endógenas e de focos inflama-
sorológicas. Acreditamos que a destruição das tórios evoluídos para a regressão e cicatrização.
formas tripomastigotas e amastigotas possa libe- Incluem-se nestas formas a miocardite crônica es-
rar seus componentes que, no organismo infec- clerosa, miosite crônica, esplenite crônica, conges-
tado, representam o papel de substâncias anti- tão hepática com atrofia parenquimatosa e nódu-
gênicas. los gliais pós-inflamatórios do neuraxe.
an s ma i e Doença e agas r 131

Sintomatologia graves, com insuficiência cardíaca, megacólon


ou paraplegias, escalona-se uma série de casos
Desde os trabalhos iniciais de Chagas, reco- com sintomatologia intermediária, nem sempre
nhecem-se, na doença que tem seu nome, duas característica.
formas clínicas: a aguda e a crônica. Alguns autores classificam a forma crônica da
Os sintomas da forma aguda aparecem após doença de Chagas em cardíaca, nervosa e diges-
um período de incubação de 1 a 2 semanas. Em tiva.
grande número de casos, os sintomas iniciais são
A forma cardíaca é conhecida na linguagem
os complexos cutaneoganglionar de Basso e Bas-
médica habitual pelo nome de cardiopatia cha-
so e o oftalmoganglionar de Mazza (sinal de Ro-
gásica e sua sintomatologia varia desde simples
maña).
extra-sístoles até insuficiência cardíaca descom-
Concomitantemente à parasitemia pela forma
pensada, não sendo raros os casos de parada car-
tripomastigota e à disseminação da forma amas-
díaca mortal (Fig. 9).
tigota nos tecidos, a doença assume o aspecto de
uma infecção aguda com febre, adinamia, ede- A forma nervosa, menos freqüente, inclui os
mas limitados ao rosto ou atingindo extensas re- sintomas neurológicos relativos ao comprome-
giões, adenopatia satélite à lesão primária ou po- timento da córtex cerebral, das meninges e do
limicroadenopatia, hepatomegalia e hipotensão. neuraxe, como paralisias espásticas, afasia, para-
Em alguns casos surgem sintomas de miocar- plegia e diplegia.
dite aguda, tais como hipotensão, taquicardia, A forma digestiva, cujos conhecimentos se de-
sopros e abafamento dos ruídos cardíacos; em vem principalmente a Köberle e Nador (1955),
outros, os sintomas de meningoencefalite. Köberle (1957), Rezende (1959) e outros, é repre-
A forma aguda na infância é em geral grave e, sentada principalmente pela dilatação do esôfago
não raro, fatal, como observou Chagas e muitos (megaesôfago) e do intestino grosso (megacólon –
pesquisadores que também estudaram o assun- Fig. 9).
to. Há alguns fatos relacionados com a patologia
Não sucumbindo à forma aguda, o doente da doença de Chagas, controvertidos ou não es-
passa à forma crônica, cuja sintomatologia tem clarecidos.
como substrato as seqüelas lesionais da forma Um deles é a disparidade em determinadas
aguda, agora em fase proliferativa em determina- áreas entre o grande número de pessoas porta-
dos setores do organismo e degenerativa em ou- doras de infecção assintomática, e os poucos ca-
tros. sos sintomáticos, como se observa no Rio Gran-
No estudo da forma crônica da doença de de do Sul, onde os inquéritos sorológicos empre-
Chagas é conveniente se considerar duas situa- gando-se a reação de Machado e Guerreiro reve-
ções: a) infecção assintomática; b) infecção sin- lam, em certas localidades, uma positividade de
tomática. 31,92%. Apesar do elevado percentual de indiví-
Na primeira não há qualquer sintoma relacio- duos sorologicamente positivos, não se observam
nado com a doença, porém, a infecção pelo pro- naquele Estado o megacólon e o megaesôfago e
tozoário pode ser evidenciada pela reação de são pouco freqüentes os casos graves de cardio-
Machado e Guerreiro, xenodiagnóstico e inocu- patia chagásica. Contrapondo-se a esse fato, são
lação do sangue em animais novos que são mais relativamente freqüentes as formas cardíacas e di-
suscetíveis que os adultos. gestivas graves em Minas Gerais e Goiás.
São conhecidos casos assintomáticos de indi- T. cruzi apresenta algumas variações morfoló-
víduos que muitos anos antes foram portadores gicas e biológicas que sugerem ser o parasito um
de forma aguda da qual se curaram clinicamen- complexo de espécies. Na verdade, o que está
te, porém, continuaram infectados pelo T. cruzi. bem caracterizado são diferenças bioquímicas
Na infecção sintomática, os sintomas variam através de eletroforese enzimática de diversos
quanto à gravidade e os caracteres clínicos. isolados de T. cruzi, demonstrando, até o mo-
Entre os casos benignos, com pequenas alte- mento, três zimodemas: tipos I e II encontrados
rações cardíacas reveladas pelo ECG, e os casos no norte da América do Sul, incluindo a Região
13 r Parasitologia e Micologia Humana

Fig. 9 – Organomegalia chagásica. À esquerda, cardiomegalia – comparar as dimensões normais com as apresentadas
pelo órgão comprometido na fase crônica da doença (segundo Ramos, J. et al.) À direita, megacólon (segundo G. Halfeld,
1973).

Amazônica e o tipo III nas Regiões Sul e Central mente, a presença de Trypanosoma cruzi no indi-
do Brasil. víduo suspeito de infecção chagásica.
Outro fato de grande importância é o das re- No segundo, são aproveitadas provas imuno-
infecções como causa determinante da instala- lógicas que possibilitam a descoberta de anticor-
ção das formas crônicas e graves da doença de pos específicos no organismo submetido ao diag-
Chagas. Este problema foi considerado por Dias nóstico.
(1963), que observou em certas localidades de Abordaremos os métodos utilizados, fazendo
Minas Gerais, onde a doença de Chagas é en- sobre cada um os comentários necessários à sua
dêmica, que em decorrência do combate ao ve- indicação e avaliação.
tor, diminuiu a possibilidade de reinfecções, de- 1 – Métodos que evidenciam o parasito:
crescendo assim a freqüência de casos graves da
doença. a) pesquisa da forma tripomastigota no san-
gue
As observações de Dias e os trabalhos experi-
mentais de Azevedo (1929) sobre o desencadea- b) pesquisa da forma tripomastigota no liquor
mento das lesões em animais previamente sensi- c) pesquisa da forma amastigota em esfrega-
bilizados pelo T. cruzi poderiam explicar a exis- ços ou cortes histológicos dos gânglios sa-
tência de casos benignos ou assintomáticos em télites da lesão primária
localidades onde as reinfecções são pouco fre- d) pesquisa da forma amastigota em cortes de
qüentes. músculos esqueléticos
e) xenodiagnóstico pelo método natural de
Diagnóstico Laboratorial Brumpt
Os métodos de laboratório usados na prática f) xenodiagnóstico pelo método artificial de
parasitológica para o diagnóstico da doença de Nussenzweig e Sonntag
Chagas são divididos em dois grupos. g) hemocultura
No primeiro, os métodos têm por objetivo h) inoculação em animais suscetíveis à infec-
evidenciar ao microscópio, direta ou indireta- ção chagásica
an s ma i e Doença e agas r 133

2 – Métodos imunológicos: mas metacíclicas do parasito que compõem o


a) reação de fixação de complemento (Ma- complexo primário da doença de Chagas.
chado Guerreiro) Os gânglios são fixados e tratados segundo a
b) reação de imunofluorescência (RIFI) técnica histológica para serem submetidos à mi-
c) reação imunoenzimática (ELISA) croscopia. Antes da fixação, uma pequena parte
d) reação de hemoaglutinação (HA) é separada para a confecção de esfregaços que,
e) reação de aglutinação de látex de imediato, podem permitir o diagnóstico.
f) teste de floculação rápida (TFr) Alguns autores obtiveram resultados positivos
Pesquisa de T. cruzi no sangue – é indicada em exames de esfregaços do material coletado
para diagnóstico da forma aguda da doença. por punção dos gânglios linfáticos.
O exame poderá ser feito a fresco, entre lâmi- Biópsia muscular – a pesquisa das formas amas-
na e lamínula, em gota espessa e esfregaço. A tigotas em cortes dos músculos esqueléticos exige
gota espessa é muito valiosa pela concentração sempre biópsia e é recomendada nos casos agudos
dos elementos figurados do sangue e, entre eles, em que há sinais de miosite. Não sendo mais efi-
as formas tripomastigotas existentes nos casos caz que outros recursos de laboratório para o diag-
positivos. Em geral, estas formas são raras, tor- nóstico da doença de Chagas, só tem indicação
nando-se necessária demorada microscopia para para os casos em que há suspeita de miosite chagá-
encontrá-las. sica.
Há coincidência da febre com a parasitemia, Xenodiagnóstico natural – em 1914, o sábio
sendo aconselhável a coleta do sangue nos mo- parasitologista francês. E. Brumpt estabeleceu o
mentos em que a temperatura do doente se apre- xenodiagnóstico da doença de Chagas, que se
senta mais elevada. baseia na suscetibilidade dos triatomíneos às in-
O exame a fresco é usado de preferência quan- fecções pelo T. cruzi (ver Seção 7 – Técnicas Pa-
do a microscopia pode ser feita logo após a coleta rasitológicas).
do sangue, e o encontro do parasito é facilitado
Na forma aguda, o xenodiagnóstico é positivo
por sua motilidade em meio às hemácias agitadas
na quase totalidade dos casos, enquanto nas for-
por ele.
mas crônicas, embora negativo em muitos casos,
Os esfregaços são examinados após coloração
este método deve ser tentado, podendo revelar a
por um dos métodos usados em hematologia
presença de T. cruzi no sangue, indicativa de ati-
(Giemsa, Wright etc.), sendo imprescindíveis pa-
vidade parasitária.
ra o estudo da morfologia do protozoário. Alguns
autores preferem juntar ao sangue um anticoagu- Tem-se verificado irregularidade nos resulta-
lante e, na ocasião do exame, centrifugá-lo. No dos do xenodiagnóstico em dias diferentes, no
tubo, após a centrifugação, formam-se três ca- mesmo indivíduo.
madas: a superior é o plasma, a inferior é a mas- Acreditamos que a irregularidade dos resulta-
sa das hemácias e a intermediária, os leucócitos, dos decorra de parasitemias episódicas no curso
onde se acumula Trypanosoma. Recolhida a ca- da forma crônica da doença.
mada intermediária, se fazem esfregaços para Xenodiagnóstico artificial – para evitar o in-
pesquisa do parasito. conveniente de submeter os doentes à picada
Pesquisa de T. cruzi no liquor – indicada nas dos triatomíneos e para realizar o diagnóstico em
formas graves meningoencefalíticas. pessoas residindo em locais afastados do labora-
O material é centrifugado em rotação baixa tório, aconselha-se o xenodiagnóstico in vitro
durante 10 minutos e o depósito é examinado a proposto por Nussenzweig e Sonntag (1952). Es-
fresco e depois por coloração. Para fixar o mate- te método tem a mesma eficácia do de Brumpt e
rial na lâmina, mistura-se a ele uma pequena será descrito na última seção deste livro.
gota de soro humano. Hemocultura – a hemocultura para isolamen-
Biópsia ganglionar – a pesquisa das formas to e identificação de T. cruzi do sangue é seme-
amastigotas de T. cruzi nos gânglios exige a coleta lhante à usada em bacteriologia. Dos vários meios
do material por biópsia. Os gânglios escolhidos propostos para esse fim, o meio LIT (Liver Infusion
são os satélites do ponto de inoculação das for- Triptose) é satisfatório.
134 r Parasitologia e Micologia Humana

O desenvolvimento do protozoário ocorre em Desses antígenos, os mais usados são os de


aproximadamente 1 semana, quando aparecem Kelser e Davis para reações qualitativas e o de Pe-
em grande número as formas epimastigotas jun- dreira de Freitas e Almeida para as quantitativas.
tamente com algumas formas tripomastigotas. Importantes do ponto de vista doutrinário, as
A hemocultura tem indicação para o diagnós- reações quantitativas são pouco usadas na práti-
tico da forma aguda da doença, porém com re- ca, sendo satisfatórias as reações qualitativas.
sultados inconstantes, sendo, entretanto, impres- A reação de fixação do complemento é bas-
cindível para isolamento de amostras de T. cruzi tante eficaz para o diagnóstico das formas crôni-
necessárias à preparação de antígenos usados cas da doença de Chagas, falhando nas formas
nas reações sorológicas. Para a manutenção de T. agudas, para as quais há outros métodos de labo-
cruzi no laboratório, os meios de Kelser, de NNN ratório para diagnosticá-las.
e de outros autores podem ser empregados. Para a maioria dos casos de forma crônica da
Inoculações em animais – muito úteis para o doença, o único recurso válido para seu diagnós-
diagnóstico da forma aguda e das recorrências tico é a reação de Machado e Guerreiro ou a
da parasitemia na forma crônica. Como T. cruzi é RIFI.
um parasito eurixeno, várias espécies de mamí- Reação de precipitação – na forma aguda da
feros são suscetíveis à infecção, sendo aconse- doença de Chagas, na qual a reação de fixação
lhável exemplares jovens. do complemento é geralmente negativa, a pes-
O cão, o gato, o camundongo, o cobaio, o quisa das precipitinas proposta por Muniz e Frei-
hamster, o rhesus e os macacos neotrópicos con- tas é positiva na quase totalidade dos casos.
traem facilmente a infecção. Esses pesquisadores brasileiros usam como
antígeno na sua reação de precipitação os polis-
A via de inoculação preferida é a intraperito-
sacarídeos de T. cruzi extraído pelo método de
nial e a parasitemia pode ser precoce, manifes-
Füller, partindo de culturas do protozoário em
tando-se em 48 horas, se bem que pode se mani-
meios adequados, onde ele se multiplica abun-
festar só após 2 semanas.
dantemente.
Contrastando com o pequeno número de for- A execução e a leitura desta reação são tão
mas sanguíneas no homem, pode-se observar, em simples quanto reais sua especificidade e sensibi-
cada campo microscópico, um ou mais exempla- lidade. Em tubinhos de hemólise de calibre de 3
res de Trypanosoma no sangue dos animais inocu- mm ou nos de Uhlenhut, coloca-se 0,1 ml do soro
lados. do doente, juntando-se, superpondo-o, igual vo-
Além de permitir o diagnóstico dos casos clí- lume do antígeno. Na superfície do contato dos
nicos da infecção chagásica, as inoculações em dois líquidos forma-se em poucos minutos, nos
animais de laboratório servem para conservação casos positivos, um anel de precipitação, indican-
de amostras de T. cruzi. do a reação antígeno-anticorpo.
Reação de fixação do complemento – esta rea- A reação é positiva em quase todos os casos
ção foi estabelecida pela primeira vez em 1913 agudos da doença de Chagas e em apenas 18%
por Machado e Guerreiro, razão pela qual con- dos crônicos.
serva até hoje o nome desses investigadores bra- Fato interessante – a reação de Machado e
sileiros. O antígeno usado por eles foi um extrato Guerreiro é positiva em grande número de casos
glicerinado do baço de cães novos intensamente crônicos e apenas em alguns da forma aguda.
parasitados pelo T. cruzi. Mais tarde, em 1923, Hemólise condicionada – é indicada para a
Vielal e Bicalho modificaram o antígeno primiti- forma crônica. O soro do paciente, devidamente
vo, preparando-o com o coração e o baço de adsorvido e diluído em série, é incubado com
cães infectados. complemento e hemácias de coelho previamen-
Esses dois antígenos, por ordem técnica, fo- te tratados com um antígeno de T. cruzi.
ram substituídos por outros, preparados com o A positividade é demonstrada pela ocorrência
próprio T. cruzi cultivado em meios adequados. da hemólise.
an s ma i e Doença e agas r 135

Imunofluorescência indireta (RIFI) – é a mais 5 – Fenantridínios (sulfato de carbídio).


sensível, demonstrando casos agudos e crônicos 6 – Sulfonamidas hipoglicemiantes.
e, com IgM, as formas inicial e congênita. 7 – Violeta-de-genciana.
Emprega como antígeno as formas epimasti-
8 – Antibióticos (aproximadamente 30).
gota e tripomastigota obtidas de culturas do pa-
rasito, em meios apropriados. 9 – Corticóides.
Reagente de Chagas-Látex – consiste em uma 10 – Anti-histamínicos.
suspensão de partículas de polistirol-látex carre- 11 – Nitrofuranos (Lampit).
gadas com antígenos específicos de T. cruzi. É 12 – Benzonidazol (Rochagan).
uma reação de aglutinação, realizada sobre uma 13 – 4-aminoquinolinas (Nivaquina).
pequena placa, que representa um teste de tria- 14 – Diamidinas aromáticas (Lomidina).
gem, rápido, cuja leitura é feita em 7 minutos.
Dos medicamentos utilizados no tratamento
Teste de Coombs – fundamenta-se, também,
da doença humana, os seguintes tiveram eficácia
na reação de aglutinação. As formas móveis das
relativa na forma aguda, reduzindo ou fazendo
culturas do parasito são previamente sensibiliza-
desaparecer a parasitemia: Bayer 9736, Spirotry-
das pelos anticorpos do soro do doente e agluti-
pan, Bayer 7602, M. 3024, pentaquina, prima-
nadas pela antiglobulina humana.
quina e, recentemente, Lampit e Rochagan, am-
Tratamento bos por via oral. Nenhum deles, entretanto, cura
a parasitose.
O tratamento da doença de Chagas vem sen- É do maior interesse o conhecimento de que a
do estudado por vários especialistas do Brasil e isoniazida, as tetraciclinas e os corticóides agra-
de outros países, sem que se tenha conseguido vam a sintomatologia.
chegar a resultados práticos definitivos. Na maioria dos casos clínicos, os sintomas da
Ensaios de tratamento de infecções no ho- fase aguda cedem espontaneamente e a doença
mem e em animais são objeto de numerosas pu- passa à forma crônica, sintomática ou não.
blicações, ora com resultados nulos, ora com al- Na ausência de medicação específica, haverá
gum êxito, porém, até o momento, não se conse- necessidade de recorrer a um dos medicamentos
guiu um medicamento capaz de destruir as for- que manifestam alguma eficácia, porém, o mais
mas teciduais de T. cruzi no homem. Em animais, importante é a prescrição de uma judiciosa me-
alguns produtos químicos têm-se mostrado efica- dicação sintomática e a instituição de rigorosas
zes, porém, no homem, a dose curativa desses normas de enfermagem.
produtos é tão próxima da tóxica que o organis-
A avaliação da eficácia terapêutica por qual-
mo pode não tolerar.
quer medicamento, até o momento, é um pro-
O máximo que se tem conseguido é diminuir
blema não solucionado.
ou fazer desaparecer a parasitemia nas formas
agudas e conduzir o doente para as formas crôni-
cas sintomáticas ou assintomáticas.
Profilaxia
Prata (1963) fez importante revisão dos medi- A instituição das medidas profiláticas contra a
camentos utilizados no tratamento da doença de doença de Chagas deve ser precedida de inqué-
Chagas, que usamos para elaborar a lista que da- ritos epidemiológicos, visando a descoberta dos
remos a seguir. portadores humanos da infecção, a identificação
No homem e em animais foram experimenta- das espécies de triatomíneos na área em estudo,
dos medicamentos dos seguintes grupos: a determinação dos seus índices de infecção pe-
1 – Arsenicais (Bayer 9736, Spirotrypan, Arsenosan). lo T. cruzi e a averiguação dos animais domésti-
2 – Antimoniais (Fuadina, tártaro emético etc.). cos e peridomiciliados infectados pelo parasito.
3 – Bisquinaldinas (Bayer 7602, M. 3024, Win. Essas providências preliminares não só permi-
1959). tem a avaliação da endemia, como servem de
4 – 8-aminoquinoínas (pentaquina, isopentaqui- ponto de referência para a verificação do êxito
na, primaquina etc.). dos trabalhos de profilaxia da doença.
136 r Parasitologia e Micologia Humana

Como não existe um medicamento capaz de e a proteção individual no caso de pernoite em


curar a doença de Chagas, sua profilaxia se limita casas infestadas por barbeiros.
ao combate aos triatomíneos transmissores. Nada, entretanto, é melhor na profilaxia da
As medidas de erradicação desses insetos são doença de Chagas que o extermínio dos triato-
de duas ordens: em uma, procura-se melhorar as míneos e nada é mais eficaz e duradouro que a
condições das moradias de modo a não lhes pro- melhora das moradias nas áreas de incidência da
piciar habitat adequado à sua sobrevivência; em doença.
outra, visa-se a sua destruição por meio de inseti- Construída a casa em alvenaria e paredes re-
cidas de ação imediata ou residual, embora eles bocadas, desfaz-se o elo do ecossistema por fal-
sejam muito resistentes a tais agentes químicos. tar à cadeia alimentar triatomíneo-vertebrado o
Além das medidas gerais de profilaxia, podem meio em que se abriga e procria o inseto, meio
ser sugeridas algumas providências a serem to- representado pelas fendas nas paredes de taipa
madas em casos especiais. das habitações pobres do meio rural.
Entre elas, a seleção de doadores de sangue li- A obtenção de uma vacina, tentada algumas
vres da infecção chagásica, a proteção dos recin- vezes, é uma grande esperança que ainda preci-
tos, à noite, com telas à prova dos triatomíneos, sa ser concretizada.
20
Trypanosoma rangeli
e sua Ação Patogênica

an s ma an e i e sua ção Patog nica


T. rangeli foi descrito por Tejera, na Venezue- Além de R. prolixus, outros triatomíneos foram
la, em 1920, em Rhodnius prolixus sob denomi- encontrados com T. rangeli, entre eles Triatoma
nação provisória, a se depreender do título de rubrofasciata e o Panstrongylus geniculatus.
sua publicação – Trypanosoma (ou Crithidia) ran- Tem-se conseguido a infecção experimental de
geli. outras espécies em laboratório, indicando esse
Wenyon (1926) consignou-o com o nome fato, analogia entre T. cruzi e T. rangeli.
Herpetomonas rangeli Tejera, 1920. Em 1943,
Dias e Torrealba, na Venezuela, encontraram nas MORFOLOGIA E EVOLUÇÃO
fezes do Rhodnius prolixus formas evolutivas A morfologia de T. rangeli pode ser estudada
comparáveis às observadas, em condições natu- no sangue de seus hospedeiros vertebrados, no
rais, no mesmo triatomíneo, não só por Tejera conteúdo do tubo digestório, nos líquidos do ce-
(1920) como por Uribe (1922), Rey Matiz e loma e das glândulas salivares dos triatomíneos e
Ucroz Gusmán (1939), Rey Matiz (1941) e Floch em culturas.
(1941). A suspeita inicial de Tejera de que as for- As formas sanguícolas de T. rangeli têm em
mas epimastigotas descritas por ele representa- média 31 mm de comprimento, sendo muito del-
vam formas evolutivas de um Trypanosoma de gadas (Fig. 1). No sangue corado observam-se o
vertebrados foi confirmada por Pifano, Mayer, núcleo oval ligeiramente posterior ao plano
Medina e Pinto em 1948, que isolaram esta es- equatorial do parasito, cinetoplasto puntiforme
pécie, por hemocultura, de um menino na Vene-
zuela.
No homem, no cão, no gato e em alguns ani-
mais silvestres, o T. rangeli vem sendo observado
na Venezuela, Colômbia, Guiana Francesa, Chi-
le, Guatemala, Costa Rica e Brasil.
Em nosso país é muito raro, tendo sido verifi-
cado por Lucena e Marques (1954), parasitando o
homem, e por Deane (1958), em um marsupial.
Ambas as observações foram feitas no Pará.
É interessante a ocorrência de infecções asso-
ciadas de T. rangeli com T. cruzi, tanto no homem
quanto no cão, bem como em Rhodnius prolixus. Fig. 1 – T. rangeli, formas sanguícolas. Original.

137
13 r Parasitologia e Micologia Humana

afastado da extremidade posterior e extremida- missor, a infecção dos vertebrados poderá ocor-
des afiladas. Esses caracteres são suficientes para rer pela inoculação da saliva do inseto no mo-
distinguir T. rangeli de T. cruzi, pois este é mais mento da picada.
curto e possui cinetoplasto volumoso. Há, portanto, duas modalidades de infecção:
Alguns autores afirmaram que T. rangeli se pelas fezes e líquido salivar, circunstância que
multiplica por divisão binária no sangue dos seus coloca a espécie em situação biológica interme-
hospedeiros vertebrados, fato ainda não confir- diária entre T. cruzi e o complexo brucei.
mado. Até o momento não foram encontrados
Os dados experimentais são contraditórios no
nos tecidos desses animais formas amastigotas,
tocante à transmissão de T. rangeli, indicando va-
sendo por isso desconhecido o processo de re-
riações dentro desta espécie.
produção deste Trypanosoma no organismo dos
vertebrados.
No lúmen do tubo digestório dos triatomíneos PATOGENIA
encontram-se formas epimastigotas muito longas,
com até 60 mm de comprimento, e formas meta- A ação patogênica de T. rangeli no organismo
cíclicas tripomastigotas também longas, com o humano ainda constitui assunto controvertido.
máximo de 53 mm. Acredita-se que, após uma Há autores que não lhe atribuem qualquer papel
fase evolutiva que se realiza no tubo digestório, o patogênico, enquanto outros o consideram ca-
parasito invada sob a forma epidemastigota a ca- paz de produzir alterações mórbidas que se tra-
vidade celomática e as glândulas salivares, onde, duzem por sintomas variáveis, tais como febre,
multiplicando-se por divisão binária, evolua para hipertrofia ganglionar, hepatomegalia e espleno-
a forma tripomastigota metacíclica. megalia pouco acentuados.
Nas culturas observam-se as formas epimasti- Na maioria dos casos, os sintomas desapare-
gota e tripomastigota, idênticas às observadas no cem espontaneamente sem deixar seqüelas.
organismo dos barbeiros.
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
TRANSMISSÃO
O diagnóstico da infecção pelo T. rangeli é fei-
A transmissão natural de T. rangeli é do tipo ci-
to pelo exame microscópico do sangue, em es-
clopropagativo, realizando-se por meio dos tria-
fregaço e gota-espessa, por culturas e xenodiag-
tomíneos.
nóstico.
A presença de formas metacíclicas do parasito
nas fezes do barbeiro permitiu verificar que a Para as hemoculturas, são preferidos os meios
transmissão era semelhante à da doença de Cha- preconizados para isolamento de T. cruzi.
gas, o que foi confirmado experimentalmente. Para o xenodiagnóstico, pelos métodos de
Entretanto, como as formas infectantes de T. Brumpt ou de Nussenzweig e Sonntag, a maioria
rangeli invadem as glândulas salivares do trans- dos autores prefere empregar Rhodnius prolixus.
21
Classe Sporozoa
Leuckart, 1879 – Sistemática –
Eimeriídeos de Interesse

lasse poro oa euc art 1 7 – istem tica – imeri eos e Interesse


A – Gregarinina Dufour, 1828, compreenden-
A classe Sporozoa inclui protozoários de vida do apenas espécies parasitas de inverte-
parasitária obrigatória em vertebrados e inverte- brados.
brados. É caracterizada por um conjunto de atri- B – Coccidiomorpha Doflein, 1901, incluindo
butos morfológicos e biológicos que a tornam ao espécies parasitas de invertebrados e ver-
mesmo tempo homogênea e bem diferenciada tebrados e, entre estes, o homem.
das demais classes. Em Coccidiomorpha há duas ordens:
Os esporozoários, além de serem parasitos es- A – Coccidiida, onde se classificam entre nu-
tritos, são intracelulares, pelo menos em uma das merosas espécies os esporozoários parasi-
fases de seu ciclo biológico. Todas as espécies se tos do homem.
reproduzem sexuadamente por copulação iso ou B – Adeleida, sem espécies de importância.
anisogâmica e, com poucas exceções, multipli- A sistemática que adotamos, baseada em Le-
cam-se assexuadamente por esquizogonia. vine (1971), é muito simplificada porque enten-
Há espécies monoxenas, nas quais a alternân- demos que classificações completas e exaustivas
cia de gerações sexuada e assexuada se processa comprometeriam a objetividade de nosso propó-
no mesmo hospedeiro e espécies dieteroxenas, sito.
nas quais a alternância de gerações coincide com A ordem Coccidiida encerra cinco famílias:
alternância de hospedeiros. Assim, encontram-se a – Eimeriidae
as formas sexuadas em um deles e, no outro, as b – Sarcocystidae
resultantes da esquizogonia. c – Plasmodiidae
d – Cryptosporidae
Toxoplasma gondii, recentemente incluído en-
tre os esporozoários, apresenta em certos felinos e – Klossielliidae
alternância de gerações sexuada e assexuada, en-
quanto nos demais, numerosos mamíferos e aves
Caracterização das Famílias
suscetíveis apenas à reprodução assexuada. Eimeriidae – esporozoários monoxenos, para-
sitos de vertebrados e invertebrados. A maioria
SISTEMÁTICA das espécies é parasito das células epiteliais do
revestimento do tubo digestório e vias biliares,
A classe Sporozoa divide-se em duas subclas- onde se alternam as gerações sexuada e assexua-
ses: da.

13
14 r Parasitologia e Micologia Humana

Sarcocystidae – esporozoários heteroxenos sa intestinal, com alternância da esquizogonia


e/ou monoxenos, parasitos de vertebrados. Para- com a esporogonia.
sitismo intracelular ou de tecido muscular. Re- O parasitismo inicia-se pela penetração do
produção geral assexuada. Nesta família são in- esporozoíta em uma célula epitelial da mucosa
cluídos dois gêneros: Sarcocystis e Toxoplasma; do intestino, onde, arredondando-se, passa a de-
neles também ocorre a reprodução sexuada. nominar-se trofozoíta; o núcleo único inicia su-
Plasmodiidae – esporozoários heteroxenos, cessivas divisões, recebendo então o nome de
parasitos de mamíferos, aves e insetos hematófa- esquizonte.
gos, com alternância de gerações e de hospedei- Prosseguindo esse processo de divisão múlti-
ros. Evolução esquizogônica no interior das he- pla ou esquizogônica, o citoplasma do parasito
mácias e em células endoteliais ou parenquima- condensa-se em torno de cada núcleo-filho re-
tosas de vertebrados. Parasitismo obrigatório dos sultante da divisão do núcleo primitivo, originan-
eritrócitos com decomposição da hemoglobina e do vários elementos alongados, denominados
formação de hemozoína ou pigmento malárico. merozoítas. Devido à destruição da célula para-
A reprodução nos invertebrados processa-se por sitada, os merozoítas são libertados e entram em
esporogonia. Gênero único: Plasmodium. contato com outras células, penetrando-as para
Cryptosporidae – esporozoário monoxeno, pa- repetir a esquizogonia.
rasito de vertebrados. Parasita células epiteliais do Após algumas esquizogonias, alguns merozoí-
revestimento do tubo digestório, alternando-se tas, em vez de retomar o processo assexuado, so-
em geração sexuada e assexuada. frem no interior da célula parasitada uma dife-
Klossiellidae – esporozoário monoxeno, para- renciação morfológica e funcional, transforman-
sito das células das vias respiratórias de mamífe- do-se em células sexuadas – os gametócitos. Os
ros. gametócitos masculinos são chamados microga-
metócitos e, por um complexo processo de divi-
EIMERIÍDEOS DE INTERESSE. são, dão origem a algumas formas delgadas, mó-
ISOSPOROSE HUMANA veis – os microgametas, que se tornam livres no
lúmen intestinal. Os gametócitos femininos ou
Na família Eimeriidae são incluídas as subfa- macrogametócitos, em posição intracelular, trans-
mílias Isosporinae e Eimerinae. formam-se em um único macrogameta. O micro
Em Isosporinae são classificadas Isospora belli, e o macrogameta correspondem, respectivamen-
espécie cosmopolita parasita do homem, I. rivol- te, ao espermatozóide e ao óvulo dos animais su-
ta e I. natalensis, observadas em raros casos hu- periores.
manos na África. O microgameta, móvel, aproxima-se do ma-
Em Eimeriinae, com o gênero Eimeria, classifi- crogameta, no qual penetra, fecundando-o. O
cam-se inúmeras espécies hóspedes das células óvulo fecundado ou zigoto contorna-se de uma
epiteliais do revestimento do tubo digestório de membrana e, então, recebe o nome de oocisto.
vertebrados e invertebrados e, raramente, das Este cai no lúmen do intestino, sendo lançado no
vias biliares de vertebrados. Das espécies de Ei- meio exterior juntamente com as fezes.
meria, as mais comuns são as causadoras da ei- Em tempo variável com a espécie, o oocisto
meriose do coelho, da galinha e do boi que, por evolui para a maturação. De início, o citoplasma
vezes, causam desastrosas epizootias. Há refe- divide-se em duas massas protoplasmáticas bem
rências a cinco casos de parasitismo das vias bi- delimitadas, os esporoblastos, que logo após se
liares do homem pela Eimeria stiedae, parasito contornam de uma membrana, passando então a
comum do coelho (in Manson’s). esporocistos. No interior de cada um dos esporo-
cistos, ao se completar a maturação do oocisto,
Ciclo Evolutivo diferenciam-se quatro esporozoítas, que são as
O ciclo evolutivo dos eimeriídeos do gênero formas infectantes do parasito.
Isospora foi estudado em Isospora felis, I. rivolta Ingeridos os oocistos maduros ou os esporo-
e I. bigemina, parasitas do gato e do cão. Toda a cistos já libertados, sofrem a ruptura da membra-
evolução se passa nas células epiteliais da muco- na, sob a ação dos líquidos digestivos, tornando
lasse poro oa euc art 1 7 – istem tica – imeri eos e Interesse r 141

livres os esporozoítas. Estes, introduzindo-se nas Na prática, a distinção entre elas fundamen-
células da mucosa intestinal, iniciam a esquizo- ta-se no grau de maturação dos oocistos evacua-
gonia. dos do lúmen intestinal para o exterior.
A evolução das espécies do gênero Eimeria, Em S. hominis (Fig. 2), devido à maturação
em linhas gerais, é igual à de Isospora, distinguin- dos oocistos se completar na mucosa intestinal,
do-se dela por ter quatro esporocistos, cada um geralmente só se observam no exame microscó-
com dois esporozoítas (Fig. 1). pico das fezes os esporocistos deles libertados,
Em resumo, os oocistos de Isospora são di-es- graças à ruptura de sua membrana envoltória.
porocístico-tetra-esporozoíticos; os de Eimeria te- Em geral, os dois esporocistos permanecem jun-
tra-esporocístico-di-esporozoíticos. tos, contendo, cada um, quatro esporozoítas
curvos e alongados.
Em I. belli (Fig. 3), os oocistos ainda se encon-
tram em via de maturação ao serem eliminados,
de modo que podem ser observados os sucessi-
vos aspectos da divisão intracelular para dar lu-
gar à formação dos esporozoítas. Para se acom-
panhar a maturação dos oocistos, tratam-se as
fezes, como sugere Hoare (1949), com uma solu-
ção de ácido crômico a 0,5 a 1% ou bicromato

A B
Fig. 1 – Oocistos de eimeriídeos. Em A – Eimeria; B – Isos-
pora. Original.

Isospora belli Wenyon, 1923


A espécie em questão tem uma ampla distri-
buição geográfica, porém, reduzida freqüência
nos países em que tem sido encontrada.
Fig. 2 – Esporocistos de Sarcocystis hominis. Original.
No Brasil, há referências de sua presença em
vários estados e o maior número de casos de in-
fecção por esta espécie tem sido registrado em
São Paulo. É possível que muitos casos não te-
nham sido publicados porque são considerados
simples achados fortuitos de laboratório.
Os autores, em milhares de exames coproscó-
picos, só encontraram I. belli em três indivíduos,
um no Espírito Santo e dois no Rio de Janeiro.
Estas observações não foram publicadas.
Morfologia – para orientação do diagnóstico,
lembramos que os oocistos de I. belli medem de
20 a 33 mm por 10 a 19 mm e são ovóides, de con-
torno irregular.
Considerando que a espécie Isospora hominis
recentemente foi transferida para o gênero Sar-
cocystis (S. hominis), torna-se necessária uma di-
ferenciação. Fig. 3 – Oocisto de Isospora belli. Original.
14 r Parasitologia e Micologia Humana

de potássio a 2% para impedir a proliferação Sintomatologia – é muito variável, havendo


bacteriana e, periodicamente, faz-se a microsco- casos assintomáticos e casos em que os sintomas
pia dos oocistos, cuja maturação se completa em disentéricos são pronunciados, possivelmente na
5 dias. dependência da extensão das lesões e na demo-
rada persistência do parasitismo.
Isosporose Humana Na realidade, a isosporose não tem sintoma-
Transmissão – consiste na ingestão de água ou tologia característica, sendo comum às enteroco-
alimentos contaminados por matéria fecal, na lites em que se associam os sintomas intestinais e
qual se encontram os esporozoítas maduros con- os gerais. Conforme o caso, há diarréia, cólica,
tidos nos esporocistos, no interior do oocisto. náuseas, anorexia, mal-estar e lassidão.
A fonte de infecção é o homem portador do A doença habitualmente não é grave e não
parasito. raro se cura espontaneamente ou com prescri-
Profilaxia – as mesmas medidas usadas nas de- ção de tratamento sintomático.
mais enteroprotozooses. Diagnóstico laboratorial – quase sempre cons-
Patogenia – as lesões de isosporose no ho- titui uma surpresa, pois raramene há suspeita des-
mem até hoje não foram estudadas em necropsia sa protozoose.
e os poucos estudos em material coletado por O encontro dos oocistos nas fezes firma o diag-
biópsia não foram conclusivas. Desse modo, a nóstico da infecção. Para a pesquisa desse parasito,
patogenia desta protozoose só pode ser com- sugerimos o método de sedimentação, como foi
preendida com os dados da parasitologia com- estabelecido por Lutz (1918), porém divulgado co-
parada, obtidos do estudo da isoporose dos ani- mo de Hoffman, Pons e Janer (1934).
mais, de preferência o cão. Tratamento – deve ser, concomitantemente,
As lesões da parte terminal do íleo e do ceco sintomático e etiológico.
têm início com a penetração dos esporozoítas O tratamento sintomático consiste no empre-
nas células do revestimento da mucosa desse se- go de antiespasmódicos e analgésicos para dimi-
tor do trato digestório. Em decorrência da multi- nuir as dores abdominais e no uso de antidiarréi-
plicação do parasito por esquizogonia, numero- cos, como o subnitrato de bismuto, o carvão ati-
sas células são parasitadas e destruídas, ocasio- vado e outros.
nando denudação da mucosa em áreas mais ou Não há medicação específica, porém, alguns
menos extensas. A invasão do tecido subepitelial autores preconizam a sulfadiazina, outros, uma
da mucosa poderá ocorrer, como se nota, nas das 4-aminoquinolonas antimaláricas ou um ame-
peças anatômicas do intestino do cão. bicida do grupo 8-quinolinol.
22
Sarcocistídeos –
Gênero Sarcocystis –
Toxoplasma gondii e Toxoplasmose

arcocist eos – nero a s is – asma n ii e o oplasmose


estriada, sendo o hospedeiro definitivo até agora
A família Sarcocystidae, caracterizada no Ca-
desconhecido.
pítulo 22, compreende as espécies do gênero
Sarcocystis e Toxoplasma gondii. Morfologia e Evolução
GÊNERO SARCOCYSTIS Os cistos parasitários, encontrados nos hospe-
LANKESTER, 1882 deiros intermediários, têm a forma cilíndrica,
alongada no sentido das fibras musculares, com
Inclui parasitos obrigatórios de mamíferos, as extremidades em ponta romba (Fig. 1). Sua di-
aves e répteis, tendo como função principal o mensão varia entre 50 mm a 5 cm e, assim, as for-
parasitismo dos músculos dos hospedeiros inter- mas maiores são visíveis a olho nu, devido à sua
mediários, onde formam estruturas císticas, con- coloração mais clara, contrastando com a cor do
tendo numerosos bradizoítas. músculo parasitado.
As dezenas de espécies descritas são parasitos No interior do cisto, que é envolto por uma
dieteroxenos, envolvendo na sua ontogenia hos- cutícula ou membrana, são observados vários
pedeiros intermediários, animais herbívoros ou
onívoros e hospedeiros definitivos representados
por animais carnívoros. Observa-se uma acentua-
da eurixenia em várias espécies, relativamente a
ambos os hospedeiros.
As espécies parasitas do homem, atualmente,
são S. hominis (Rivolta, 1878), até então denomi-
nada Isospora hominis, S. suihominis Heydorn,
1977 e S. lindemanni Rivolta, 1878.
Nas duas primeiras, o homem representa o
hospedeiro definitivo que elimina no meio exte-
rior, por via fecal, os esporocistos que infectam
os hospedeiros intermediários, respectivamente,
o bovino e o suíno. Ao contrário, na última espé-
cie citada, ele funciona como hospedeiro inter- Fig. 1 – Cisto de Sarcocystis, mostrando nos tubos de Miescher
mediário, apresentando cistos na musculatura inúmeros trofozoítas. Original.

143
144 r Parasitologia e Micologia Humana

compartimentos denominados tubos de Mies- menor pela ausência da evolução esquizogônica


cher. Estas formações delimitam uma cavidade nas células epiteliais do órgão. O quadro sinto-
repleta de pequenas estruturas recurvadas, de- mático, pelo motivo explicado, embora seme-
nominadas trofozoítas ou bradizoítas, que se for- lhante ao da isosporose, é mais moderado e de
mam por endogenia. curta duração.
Os trofozoítas são alongados e recurvados em
Sarcocistidose muscular – as poucas dezenas
forma de banana, tendo uma das extremidades
de casos de infecção pelo S. lindemanni, na sua
um pouco mais larga que a outra. Medem de 12
quase totalidade, foram verificadas em necropsia
a 16 mm. Corados pelo Giemsa apresentam cito-
de indivíduos, tendo outras doenças como causa
plasma azul e o núcleo vermelho.
da morte.
Acredita-se que, formado o cisto no tecido
muscular, ele persista íntegro durante a vida do Comparativamente com o parasitismo de ou-
hospedeiro. tras espécies, como o S. cruzi, parasito do boi e
A ingestão dos cistos maduros pelos carnívo- do cão, a infecção é benigna.
ros, hospedeiros definitivos, promove a sua infec- No organismo humano, o parasito tem sido
ção. No trato digestório, sofrem a ação enzimáti- encontrado no miocárdio, na laringe, na língua e
ca liberando os bradizoítas no intestino delgado, mais raramente nos músculos locomotores, ocor-
que evoluem esporogonicamente, não ocorrendo rendo pequenas alterações que não são suficien-
a esquizogonia. tes para fazer surgir sintomas consideráveis.
Os oocistos formados geralmente têm a sua
parede envoltora muito frágil, fato que explica a
eliminação dos esporocistos maduros na matéria Diagnóstico Laboratorial
fecal dos parasitados.
Ingeridos os esporocistos esporulados pelos Na sarcocistidose intestinal, seguindo a mes-
hospedeiros intermediários, por vias hídrica ou ma metodologia usada na isosporose, deve ser
alimentar, os esporozoítas libertam-se no intesti- feita a caracterização morfológica (Figs. 2 e 3 do
no dos animais herbívoros, disseminando-se por Capítulo 21) das formas observadas no exame
via hematogênica no organismo, resultando da das fezes, como descrito no capítulo anterior.
reprodução assexuada, os cistos que se localizam Convém assinalar que a diferenciação estrutural
na musculatura, completando-se a evolução. entre as duas espécies não foi estabelecida.
Na parasitose muscular humana, é feita median-
Etiologia e Epidemiologia te reações sorológicas. A prova do corante de Sabin
Pelo que foi estabelecido na introdução ao e Feldman para Toxoplasma gondii é positiva em
gênero, podemos estabelecer duas formas clíni- animais portadores de Sarcocystis, indicando afini-
cas de sarcocistidose humana: a entérica e a dade entre os parasitos em questão. Embora afins,
muscular. são antigenicamente específicos, podendo ser dife-
A forma intestinal, cuja etiologia é decorrente renciados pela reação de fixação do complemento.
de S. hominis e S. suihominis, apresenta in-
cidência mundial na dependência do seu meca- Tratamento e Profilaxia
nismo de transmissão, representado pela inges-
tão das carnes bovina e suína malcozidas. A terapêutica na sarcocistidose entérica é
A forma muscular, cujo agente etiológico é o mais dispensável do que na isosporose. Na forma
S. lindemanni, é rara, não sendo conhecida a muscular, não há tratamento específico.
transmissão.
Profilaticamente, na parasitose intestinal é re-
Patogenia e Sintomatologia comendada a educação sanitária para impedir o
consumo de carne de boi ou de porco mal pre-
Sarcocistidose entérica – no momento, sabe- paradas. Na miossarcocistidose, cuja epidemio-
se menos ainda do que em relação à isosporose logia não está totalmente estudada, não há me-
humana. O comprometimento, inclusive, é bem didas a sugerir.
arcocist eos – nero a s is – asma n ii e o oplasmose r 145

TOXOPLASMA GONDII NICOLLE E O número de indivíduos assintomáticos com


reações imunológicas positivas para toxoplasmo-
MANCEAUX, 1908 se, nas mais diversas comunidades humanas,
Este protozoário é o agente da toxoplasmose compara-se ao que se observa nas infecções,
do homem e de várias espécies de vertebrados. também assintomáticas, pelo Histoplasma capsu-
Foi descrito em 1908 por Nicolle e Manceaux latum e Mycobacterium tuberculosis, cujos por-
em um pequeno roedor norte-africano – o gondi, tadores são, respectivamente, reatores à histo-
que se encontrava em cativeiro no Instituto Pasteur plasmina e tuberculina.
de Túnis. No ano anterior, esses dois autores já o Estudos imunológicos realizados em vários paí-
haviam visto, julgando tratar-se de Leishmania. ses, inclusive no Brasil, revelam, em diferentes
Logo após, no Brasil, Splendore (1909) en- grupos populacionais, índices acima de 80% de
controu em coelhos idêntico parasito, ao qual indivíduos portadores da infecção pelo T. gondii,
denominou Toxoplasma cuniculi. dos quais raros apresentam sintomas atribuíveis
Após estas duas observações, vários pesquisa- exclusivamente à toxoplasmose. Em meio à maio-
dores descobriram, em diferentes animais, for- ria dos portadores assintomáticos, surgem entre-
mas semelhantes às descritas por Nicolle, Man- tanto, ainda que esporadicamente, casos clínicos
ceaux e Splendore e que recebiam nomes deri- graves da doença adquirida congenitamente ou
vados de seus respectivos hospedeiros, tais como após o nascimento e que se constituem importan-
T. talpae, da toupeira; T. musculi, do camundon- tes problemas de diagnóstico e tratamento.
go; T. ratti, do rato; T. caviae, do cobaio e muitos
outros.
Habitat
A primeira citação de Toxoplasma no homem Nos inúmeros animais que, em condições na-
foi feita por Castellani, em 1913, ao qual cha- turais ou experimentais, servem de hospedeiros
mou Toxoplasma pyrogenes, tendo-o encontrado ao T. gondii, o parasitismo é obrigatoriamente in-
no baço de um indivíduo, no Ceilão. Esta refe- tracelular e, embora manifeste geralmente sua
rência é consignada em Castellani e Charmers eletividade para o sistema monocítico fagocitá-
(1919), porém, posta em dúvida por Wenyon, rio, quase todas as células nucleadas do organis-
em 1926. mo podem ser invadidas.
Verificou-se posteriormente que as espécies Assim, este citozoário tem sido observado nos
encontradas em diferentes mamíferos e também gânglios linfáticos, cérebro, pulmões, serosas, mio-
em aves eram idênticas, sendo chamadas, então, cárdio, fígado, retina e em vários outros locais.
Toxoplasma gondii. T. gondii, nas infecções congênitas, encontra
É um parasito acentuadamente eurixeno que nas células nervosas sua localização mais favorá-
tem sido encontrado, em condições naturais, em vel, a se depreender dos sintomas neurológicos e
cerca de 330 espécies de vertebrados e pode ser mentais observados nas crianças nascidas vivas
transmitido a vários outros, em condições expe- ou nas alterações anatomopatológicas no siste-
rimentais. ma nervoso dos natimortos.
Atualmente, em decorrência dos estudos de
Frenkel, Dubey e Miller; Hutchinson, Dunachie, Morfologia
Siim e Work; Sheffield e Melton; Witte e Piekars-
O estudo morfológico de T. gondii até recen-
ki; Work e Hutchinson; Sogor, Jamra, Deane e
temente, envolvia somente as formas assexuadas
Guimarães e outros, Toxoplasma gondii foi in-
do parasito, ou seja, os trofozoítas intra e extra-
cluído na classe Sporozoa, subclasse Coccidio-
celulares e os cistos. Era desconhecido o ciclo
morpha, ordem Coccidiida.
que se observa nos hospedeiros definitivos re-
Distribuição Geográfica presentados por certos felinos, principalmente o
gato.
A infecção humana pelo T. gondii é pratica- Os trofozoítas (endozoítas, segundo Hoare,
mente observada em todas as partes do mundo e ou taquizoítas, conforme Frenkel), examinados
certamente a de maior incidência. em preparações coradas pelo método de Giemsa
146 r Parasitologia e Micologia Humana

ou similares apresentam-se como elementos pe-


quenos, alongados, ligeiramente arqueados, às
vezes, entretanto, ovóides ou elipsóides, medin-
do 4 a 6 mm de comprimento por 2 a 3 mm de
largura (Fig. 2).
O citoplasma cora-se em azul-claro e o nú-
cleo, próximo a uma das extremidades, em ver-
melho intenso.
Fora das células, independentes uns dos ou-
tros, podem formar pequenos aglomerados de
dois, três ou mais elementos (Fig. 3). No interior
das células que lhes servem de hospedeiro, man-
têm-se unidos dentro do citoplasma ou apenas
nelas contidos pela membrana celular, formando
pseudocistos prestes a liberar os elementos para- Fig. 4 – Pseudocisto de T. gondii. Esfregaço corado pelo
sitários, resultantes de sucessivas divisões (Fig. Giemsa, 1.000 X. Original.
4).
Os trofozoítas proliferativos, de rápida multi-
plicação, são observados na forma aguda da to-
xoplasmose.
Os trofozoítas de repouso, de lenta multiplica-
ção e denominados cistozoítas (Hoare) e bradizoí-
tas (Frenkel), são encontrados, na forma crônica,
nos cistos que constituem formações parasitárias
globulosas ou um pouco alongadas quando nos
músculos, contornadas por um invólucro espesso
e elástico, de dimensões muito variadas, podendo
atingir até 100 mm de diâmetro (Fig. 5). Contêm
no seu interior, por vezes, milhares de células
compactadas entre si, porém mantendo a estrutu-
Fig. 2 – Leucócito mononucleado parasitado por T. gon- ra e a morfologia do parasito. Desfeito o cisto e
dii. Original.
corados os cistozoítas libertados, sua morfologia
revela-se característica, sendo similar à dos taqui-
zoítas.
No ciclo sexuado formam-se os oocistos que
são eliminados pelas fezes dos gatos e outros feli-
nos. Tais formas evolutivas são semelhantes aos

Fig. 3 – Toxoplasma gondii. Parasitos extracelulares em es-


fregaço corado pelo Giemsa, 1.000 X. Original. Fig. 5 – Cisto de T. gondii. Original.
arcocist eos – nero a s is – asma n ii e o oplasmose r 147

oocistos de Isospora, contendo, quando madu- Os esporozoítas, com dimensões em torno de


ros, dois esporocistos que abrigam, cada um, qua- 6 mm por 2 mm, são ultra-estruturalmente simila-
tro esporozoítas. Medem cerca de 16 mm por 12 res às formas taquizoítas e bradizoítas.
mm (Fig. 6).

Reprodução e Ciclo Evolutivo

Tendo por base as recentes investigações de


vários pesquisadores já citados anteriormente, T.
gondii envolve na sua ontogenia (Fig. 7) dois ti-
pos de hospedeiros denominados definitivos ou
completos e intermediários ou incompletos. Os
primeiros são representados pelo gato e outros
felinos, como o ocelote, lince e puma; enquanto
os segundos, por 300 espécies de mamíferos
Fig. 6 – T. gondii. Oocisto maduro, no meio ambiente não-felinos, inclusive o homem, e 30 espécies de
contaminado por fezes de gato. Original. aves.

Tc

Ic
Ia

Ia
3

Tc

Ma 1

Ic

Fig. 7 – Ciclo evolutivo do T. gondii. Original. Esquema representando os principais componentes da cadeia epidemioló-
gica. No gato, hospedeiro definitivo ou completo, fase intestinal: A – ciclo assexuado por endogenia; B – ciclo sexuado
(esporogônico), com formação do zigoto (1) e posterior liberação do oocisto imaturo (2). C – infecção por carnivorismo.
No meio ambiente (Ma), maturação do oocisto (3) infectante. Nos hospedeiros incompletos, a ingestão das formas infec-
tantes conduz a infecções aguda (Ia) e crônica (Ic), com possível transmissão congênita (Tc).
14 r Parasitologia e Micologia Humana

Nos hospedeiros completos observa-se a exis- crogameta. A evolução do zigoto conduz à for-
tência de dois ciclos teciduais: um entérico, nas mação do oocisto, cuja maturação se fará em 3
células epiteliais do intestino delgado e outro ex- ou 4 dias no meio exterior, após a eliminação por
tra-intestinal. via fecal.
A evolução nos hospedeiros incompletos apre- Ciclo tecidual extra-intestinal – é caracteriza-
senta apenas o ciclo tecidual extra-intestinal. do pela reprodução assexuada, sendo comum
Ciclo tecidual entérico – este ciclo comporta aos hospedeiros completos e incompletos.
uma fase assexuada e outra sexuada esporogô- Nos felinos, a partir da infecção intestinal, por
nica. contigüidade ou via sistêmica, são estabelecidos
Os felinos, principalmente o gato, infectam- os processos metastáticos.
se por carnivorismo ou ingestão dos oocistos eli- A infecção dos hospedeiros incompletos (se-
minados por eles nas suas fezes. Respectivamen- jam eles carnívoros, herbívoros ou onívoros), par-
te, os trofozoítas ou esporozoítas libertados no ticularmente a do homem, faz-se por vários e
intestino delgado penetram ativamente nas célu- complexos mecanismos de transmissão, que se-
las epiteliais onde, por um processo de endodio- rão mencionados no tópico correspondente.
genia (Fig. 8) ou endopoligenia (em conjunto de-
O processo reprodutivo é semelhante ao da
nominados endogenia, embora possa variar o
fase assexuada do ciclo tecidual entérico.
número dos trofozoítas formados endogenamen-
te), reproduzem-se sucessivas vezes esgotando e Praticamente todas as células nucleadas dos
destruindo as células hospedeiras. As formas pa- hospedeiros podem ser parasitadas. Nelas, após
rasitárias extracelulares vão invadir outras células a invasão, vai ocorrer a multiplicação por endo-
do epitélio repetindo várias fases assexuadas. genia, que se faz em 24 a 48 horas. A agressão
Algumas formas, biologicamente diferencia- celular dá origem às lesões localizadas das quais,
das, dão origem à fase sexuada. No interior das pelas vias sanguínea e linfática, sobrevêm a dis-
células parasitadas, diferenciam-se em macro e seminação no organismo, que se faz de dois mo-
microgametócitos; formam-se os gametas ocor- dos: um proliferativo, intracelular, representado
rendo a fecundação do macrogameta pelo mi- pelos pseudocistos da forma aguda, outro crôni-
co, em que há o aparecimento de cistos extrace-
lulares em várias localizações, como o sistema
nervoso central, a retina, o miocárdio etc.
Os cistos apresentam uma sobrevivência esti-
mada em meses e anos, acreditando-se que até
mesmo por toda a vida do hospedeiro.
Este é o ciclo biológico de T. gondii que so-
mente foi estabelecido nestas duas últimas déca-
das de grandes avanços. Todavia, tudo indica
que o assunto ainda não foi esgotado.

TOXOPLASMOSE HUMANA
Há duas formas de toxoplasmose humana di-
ferenciadas pelo modo de infecção e pela sinto-
matologia: a congênita ou pré-natal e a adquiri-
da após o nascimento ou pós-natal.

Transmissão
A transmissão da toxoplasmose realiza-se por
vários mecanismos e modalidades de infecção.
Fig. 8 – T. gondii. Endodiogenia, segundo Wanderley de De modo geral, são admitidos os seguintes
Souza (1974). mecanismos:
arcocist eos – nero a s is – asma n ii e o oplasmose r 14

1) Via oral: genital. Nas relações sexuais, a presença de tro-


– ingestão de água e alimentos contamina- fozoítas livres nas secreções vaginais e no sangue
dos com oocistos; menstrual pode promover a infecção.
– canibalismo e carnivorismo animal; A forma de toxoplasmose congênita tem na
– ingestão da carne de ovelha, porco, vaca, via transplacentária o seu mecanismo de infec-
coelho e galinha; ção. Segundo Frenkel (1976), no homem tal me-
– ovos de galinha; canismo ocorre durante a fase aguda; enquanto
– leite bovino, humano e de cabras. nos camundongos, durante a fase crônica. Na es-
2) Via respiratória. pécie humana, portanto, a transmissão pré-natal
3) Via mucosa. ocorre quando a infecção materna foi adquirida
4) Via genital. recente ou coincidentemente com o início da
5) Via transplacentária. gravidez, quando durante 3 a 4 meses o organis-
6) Via cutânea. mo materno ainda não se apresenta venéreo. A
7) Transmissão mecânica por artrópodes. incidência é comumente observada no primogê-
8) Possibilidade de transmissão biológica, por nito de uma prole.
outros artrópodes. A transfusão sanguínea é uma das possibilida-
A infecção por via oral (per os) apresenta várias des de transmissão que deve requerer certas pre-
modalidades. Os hospedeiros completos e incom- cauções para evitar que doadores com toxoplas-
pletos ingerem, por vias hídrica ou alimentar, os mose aguda promovam a disseminação da para-
oocistos viáveis, que libertam no intestino delgado sitose.
os esporozoítas que invadem o organismo, parasi- A via cutânea é outra porta de entrada que
tando as células epiteliais do intestino (exclusiva- pode realizar-se pela mordedura de animais in-
mente em gato e felinos silvestres), extra-intestinal- fectados ou, muito raramente, em acidentes de
mente, e vários tipos de células em diferentes ór- laboratório.
gãos de todos os hospedeiros. Animais coprófagos, como as baratas e mos-
O canibalismo e o carnivorismo entre os ani- cas, podem mecanicamente veicular os oocistos
mais envolvidos na cadeia epidemiológica, princi- disseminados pelas fezes dos gatos, inclusive
palmente o binômio gato-camundongo, mantêm contaminando os alimentos.
o parasitismo entre eles pela ingestão de trofozoí- Finalmente, admite-se a hipótese, ainda não
tas originários de pseudocistos e cistos, que cons- comprovada, da transmissão biológica por artró-
tituem nestes casos as formas infectantes. podes hematófagos, como Stomoxys caciltrans,
A ingestão da carne de ovelha, porco, vaca, sifonápteros, carrapatos etc., que já foram en-
coelho e galinha, como também de leite bovino contrados naturalmente infectados. Alguns deles
e de ovos de galinha pelo homem, infectados e foram suscetíveis à infecção experimental.
indevidamente preparados, é responsável pela Como se depreende do exposto, a toxoplas-
infecção a partir de trofozoítas. É conveniente mose adquire, simultaneamente, as característi-
assinalar que é possível a transmissão pelo leite cas de zoonose, antropozoonose e antroponose,
humano, quando a mãe, durante a fase aguda da sendo por esta razão a parasitose de maior inci-
doença, amamenta o lactente. dência mundial.
Os ooccistos eliminados pelos hospedeiros
completos e tornados viáveis no meio exterior, Patogenia e Sintomatologia
onde resistem por muito tempo às condições
ambientais, podem ser suspensos no ar e, se ina- Forma congênita ou pré-natal – a infecção in
lados, penetrar no organismo. utero pode originar natimortos ou crianças apre-
As secreções das mucosas conjuntival, nasal e sentando alterações mórbidas mais ou menos
oral podem veicular formas trofozoíticas. Conse- pronunciadas, com manifestações sintomáticas
qüentemente, através da saliva e do beijo pode- ora imediatas, ora tardias.
se verificar a contaminação com trofozoítas. Os casos mais característicos apresentam a
Reforçando o mecanismo sexual de infecção, síndrome de Sabin, com quatro sinais, a saber:
já previsto pelo beijo, deve ser salientada a via a) hidrocefalia ou microcefalia (Fig. 9)
15 r Parasitologia e Micologia Humana

b) coriorretinite sumir tipos clínicos variáveis, dependentes da lo-


c) retardamento mental calização e da intensidade das lesões.
d) calcificações cerebrais (Fig. 10) Há casos em que se manifesta uma linfadeno-
Essas alterações mórbidas resultam da eletivi- patia febril ou não, que evolui para cura clínica
dade de T. gondii para os tecidos embrionários e
particularmente para o cérebro e a retina. Os es-
tigmas dessa forma da doença são graves e irre-
paráveis.
Em alguns casos, a infecção, no momento do
nascimento, ainda está em curso, manifestando-se
com sintomas de uma infecção aguda, com febre e
comprometimento dos órgãos da visão e do encé-
falo. Sobrevêm convulsões, espasticidade, menin-
goencefalite, hepatomegalia, esplenomegalia, icte-
rícia e erupções cutâneas. Não sucumbindo à in-
fecção logo após o nascimento, a criança poderá
apresentar posteriormente perturbações neuromo-
toras e retardamento mental, além dos estigmas fí-
sicos já enunciados (Fig. 11).
São freqüentes o abortamento e a prematuri-
dade no processo gestacional. No feto são obser-
vadas malformações, mongolismo e morte intra-
uterina.
Forma pós-natal – a maioria dos casos da for-
ma adquirida é clinicamente assintomática e a
infecção só pode ser comprovada por provas Fig. 10 – Calcificações cerebrais. Toxoplasmose congêni-
imunológicas. Os casos sintomáticos podem as- ta. Delascio, D. (1956).

Fig. 9 – Toxoplasmose congênita. Microcefalia e estrabis- Fig. 11 – Retardamento mental na toxoplasmose congê-
mo. Segundo Delascio, D. (1956). nita. Delascio, D. (1956).
arcocist eos – nero a s is – asma n ii e o oplasmose r 151

sem conseqüências; outros, cujos sintomas prin- nimo 5 mm de diâmetro. É prova bastante sensí-
cipais são os de um exantema, com lesões erite- vel e específica, servindo não só para o diagnóstico
matosas maculopapulosas, acompanhando-se de de casos clínicos de toxoplasmose em atividade,
febre, miosite; outros, em que dominam per- como para estudos entre os portadores assinto-
turbações nervosas indicando comprometimento máticos da infecção.
do sistema nervoso central e, finalmente, os ca- Sabin e Feldman usam como antígeno um ex-
sos com generalização visceral (miocardite, he- trato diluído de membrana corioalantóide de em-
patite, pneumonite intersticial), com sintomato- brião de galinha, com resultados comparáveis aos
logia dos processos infecciosos agudos, não raro, de Frenkel.
fatais. Reação do corante de Sabin e Feldman – há
Tem-se destacado a importância da toxoplas- uma reação qualitativa e outra quantitativa, sen-
mose em oftalmologia, por se ter evidenciado T. do a segunda preferida pela maioria dos técnicos
gondii como causa de coriorretinite, catarata e neste assunto.
microftalmia. Esta reação é também denominada prova de
Não só na oftalmologia, mas também na obs- neutralização em lâmina (ver Seção 7 – Técnicas
tetrícia e na neurologia, é relevante o conheci- Parasitológicas).
mento da toxoplasmose, mormente por ser uma Na reação quantitativa, títulos de 1:16 ou me-
parasitose de epidemiologia complexa no tocan- nos, são de significação duvidosa. Nos casos sus-
te aos modos de infecção e disseminação. peitos de toxoplasmose congênita, títulos de
1:256 ou mais altos, tanto na mãe quanto no fi-
Diagnóstico Laboratorial lho, são relativamente sugestivos.
Em casos de toxoplasmose humana, é muito Reação de imunofluorescência – esta reação
difícil demonstrar o parasito nas lesões, salvo na constitui um avanço técnico no diagnóstico imu-
fase aguda da doença. Quando há lesões ganglio- nológico da toxoplasmose, diante da equivalên-
nares, o parasito é encontrado em cortes histoló- cia de seus resultados aos da prova do corante.
gicos ou esfregaços dos gânglios atacados e, se Sua vantagem sobre esta reside no fato de se po-
houver comprometimento do sistema nervoso der conservar o agente em esfregaços secos e, as-
central, a pesquisa será positiva no líquido cefa- sim, diminuir a manipulação de Toxoplasma vi-
lorraquidiano. vo.
Geralmente recorre-se às provas imunológi- Para consulta dos interessados, sugerimos o
cas, das quais citamos as principais: trabalho de Goldman, 1957.
a) intradermorreação à toxoplasmina Reação de fixação do complemento – esta rea-
b) reação do corante de Sabin e Feldman ção, embora específica e sensível, não é no mo-
c) reação de imunofluorescência mento a preferida para fins práticos de diagnósti-
d) reação de fixação do complemento co devido às dificuldades técnicas em sua exe-
Intradermorreação à toxoplasmina ou reação cução.
de Frenkel – o antígeno para esta reação é o líqui- Para consulta sobre a reação de fixação do
do sobrenadante obtido por centrifugação do ex- complemento, sugerimos o trabalho de Warren e
sudato peritonial de camundongos previamente Sabin (1943).
infectados pelo T. gondii. Outras reações – também podem ser explora-
O exsudato é coletado por punção e macera- das as reações de hemaglutinação, aglutinação e
do por congelação e degelo, alternadamente, neutralização.
por três vezes e em seguida centrifugado. Indicação das provas imunológicas – estudos
O sobrenadante é diluído a 1:500 em solução realizados em infecções experimentais, segundo
fisiológica, à qual foi associado o mertiolato na Maecket (1970), mostraram que a reação de Sa-
proporção de 1:10.000. bin e Feldman é a mais precoce, em torno de 10
Injeta-se na derme 0,1 ml do antígeno e faz-se dias da inoculação, enquanto a imunofluores-
a leitura da reação em 48 horas. Nos casos positi- cência responde após 2 semanas, e a reação de
vos, forma-se uma pápula eritematosa de no mí- fixação do complemento, decorridos 16 a 21
15 r Parasitologia e Micologia Humana

dias. A reação de Frenkel só se positiva ao longo guintes. Para o outro tipo citado, a máxima ocor-
de um ou vários meses. re aos 6 meses de infecção, permanecendo du-
Com base nestas observações, pode-se dedu- rante 8 a 10 anos.
zir que as indicações das provas nos casos huma- É conveniente lembrar que a IgG atravessa a
nos são as seguintes: barreira placentária, o que não ocorre com a
1) A intradermorreação (IDR) tem grande valor na IgM.
forma crônica da toxoplasmose, como tam- Nos vários casos clínicos, enfatizamos a neces-
bém nos inquéritos epidemiológicos. sidade da repetição, a intervalos determinados,
2) A prova de Sabin e Feldman (SF), que exige da prova sorológica empregada. Eletivamente a
soro humano negativo para controle, apre- RIFI por ser a única que permite detectar também
senta indicação geral nas formas aguda e crô- níveis de IgM, para uma correta e segura avalia-
nica. ção dos resultados.
3) A imunofluorescência, empregando técnica
indireta (RIFI) graças a um conjugado fluores- Tratamento
cente antiglobulina, igualmente é preconiza-
A terapêutica específica da toxoplasmose hu-
da nas formas aguda e crônica, sendo consi-
mana é assunto relativamente atual e ainda não
derada como o mais valioso recurso diagnósti-
totalmente assentado.
co por apresentar, entre outras razões, a van-
tagem de comprovar a presença da IgG e IgM, Os medicamentos que vêm sendo usados com
fato importantíssimo para o diagnóstico das algum êxito são distribuídos nos seguintes grupos:
infecções congênitas. 1 – Sulfonamidas:
4) A reação de fixação do complemento (RFC), a) de absorção e eliminação rápidas (sulfame-
que encontra problemas na padronização an- razina, sulfadiazina e sulfametazina)
tigênica, responde com títulos mais baixos na b) de absorção e eliminação lentas (sulforme-
forma aguda, sendo precocemente negativa- toxina)
da. 2 – Pirimetamina (Daraprim).
Avaliação dos resultados – Maeckelt (1970) 3 – Antibióticos:
estabelece um conjunto de interpretações que a) espiramicina
nos parece muito útil. b) tetraciclinas.
1) SF e RIFI positivas (títulos de superiores a Os esquemas para tratamento variam entre os
1:1.000); RFC e IDR negativas: infecção re- autores, todos procurando atingir a dose tera-
cente, sintomática ou assintomática. pêutica máxima, aquém do limite de sua toxici-
2) SF e RIFI positivas IgM, com títulos altíssimos dade.
IgG; RFC com título superior a 1:10 e IDR ne- Há esquemas em que um único medicamento
gativa: infecção aguda ou subaguda. é usado de cada vez, outros, em que se usam três
3) SF e RIFI positivas (geralmente 1:1.000); RFC do mesmo grupo e, ainda outros, em que são
fracamente positiva ou negativa e IDR forte- aplicados, concomitantemente, medicamentos de
mente positiva: infecção crônica, sintomática grupos diferentes.
ou assintomática. As sulfas podem ser usadas isoladamente ou
4) SF e RIFI negativas ou com títulos inferiores a em associação tripla – sulfadiazina, sulfametazi-
1:256; RFC negativa e IDR fracamente positi- na e sulfamerazina – como no apogeu da sulfa-
va: infecção crônica latente. midoterapia. O tratamento com esses medica-
Complementando, é necessário salientar que, mentos deve ser feito como o preconizado para
na previsão de uma toxoplasmose congênita, o os processos bacterianos e prolongado por mui-
diagnóstico deva ser esclarecido entre o segundo tas semanas.
e o quinto mês da gestação pela RIFI a nível de Das sulfonamidas de absorção e eliminação
IgM. Tal providência é explicada pelo fato de lentas, a que oferece mais esperança no momen-
que anticorpos deste tipo são mais precoces do to é a sulfometoxina, usada em doses semanais
que os do tipo IgG, atingindo a concentração de 0,5 g durante muitas semanas, isoladamente
máxima em 4 meses, declinando após os 6 se- ou em associação com o Daraprim, em esque-
arcocist eos – nero a s is – asma n ii e o oplasmose r 153

mas semelhantes aos aplicados na terapêutica ra- rável, e a prevenção da toxoplasmose-doença


dical da malária. nas suas formas adquirida e congênita.
O Daraprim pode ser usado isoladamente du-
rante 4 semanas, na dose de 0,025/dia. Assim sendo, é fundamental a descoberta dos
Há autores que têm obtido resultados muito portadores e o diagnóstico dos indivíduos doen-
favoráveis na toxoplasmose com lesões dos ór- tes para o tratamento necessário. Os recursos la-
gãos da visão, empregando, em tratamento in- boratoriais, principalmente em estudos da IDR
tensivo, a pirimetamina associada à tríplice sulfa, de Frenkel, e o arsenal terapêutico disponível
no seguinte esquema: no primeiro dia 0,05 g de tornam viável tal medida.
pirimetamina e, 6 horas após, mais 0,025 g e, do A educação sanitária é também de grande re-
2º ao 15º dia, 0,025 g da pirimetamina e 6 g diá- levância. A população deve ser esclarecida para
rias da tríplice sulfa (sulfadiazina + sulfametazi- o perigo da promiscuidade doméstica com os ga-
na + sulfamerazina). tos e da ingestão de carnes, cruas ou mal prepa-
Os resultados com a espiramicina e as tetraci- radas, de ovelha, porco, vaca, coelho e galinha.
clinas em séries prolongadas por várias semanas, Leite e ovos-de-galinha crus também devem ser
segundo alguns autores, têm sido promissores. evitados.
Na medida do possível, cada medicamento
deve ser usado isoladamente no início do trata- Exames médicos de rotina devem incluir uma
mento e, só depois de verificada a tolerância do das provas sorológicas indicadas, particularmen-
doente para ele, é que se pode associá-lo. te em doadores de sangue. O mesmo cuidado
Os estigmas observados nos nascituros portado- deve haver no exame pré-nupcial. Não sendo to-
res da toxoplasmose congênita são irreversíveis, mada esta providência para prevenção da forma
mesmo nos casos em que a infecção foi debelada congênita, originária de infecção contraída por
pela medicação específica. mecanismo sexual, é conveniente o casal prote-
lar a reprodução por 1 ano.
Profilaxia
Secundariamente, nos locais freqüentados por
O conhecimento atualizado do ciclo evoluti- gatos, deve ser promovido o combate às moscas e
vo e dos mecanismos de transmissão do T. gondii baratas com inseticidas para impedir a possibili-
permite o estabelecimento de importantes medi- dade de transmissão mecânica de oocistos do pa-
das profiláticas. Estas objetivam o controle da to- rasito que podem contaminar o ambiente, a água
xoplasmose-infecção, cuja incidência é conside- e os alimentos.
23
Plasmodiídeos –
Plasmódios Parasitos do Homem

Plasmo i eos – Plasm ios Parasitos o Homem


A família Plasmodiidae, caracterizada no Ca- EVOLUÇÃO DOS PLASMÓDIOS
pítulo 21, é representada pelo gênero, único, PARASITOS DO HOMEM
Plasmodium Marchiafava e Celli, 1885.
Neste gênero são incluídas inúmeras espécies Histórico
hóspedes de mamíferos, aves e répteis.
Além das espécies agentes da malária huma- O primeiro parasito agente da malária foi des-
na, outras espécies são importantes por terem coberto por Laveran, em 1880, na Argélia, quan-
servido em parasitologia comparada para investi- do pesquisava em um doente de febre quartã a
gações sobre a biologia dos plasmódios, a pato- origem do pigmento malárico já visto por Meckel
logia da malária e a terapêutica antimalárica. em 1847.
A seguir, daremos uma lista das espécies de O parasito recebeu o nome de Oscillaria ma-
Plasmodium do homem, assim como de algumas lariae. Este foi o ponto de partida para os estudos
espécies parasitadas de animais usadas nos estu- sobre a malária que se sucederam até hoje.
dos antes referidos. Em 1885, Marchiafava e Celli redescreveram
A – Agentes das formas de malária humana: o parasito e criaram o gênero Plasmodium e, no
P. vivax – agente da terçã benigna; ano seguinte, apareceu o trabalho de Golgi em
P. falciparum – agente da terçã maligna; que são descritas as sucessivas fases da evolução
P. malariae – agente da quartã; dos parasitos no sangue, mostrando a correspon-
P. ovale – agente da terçã ovale. dência da periodicidade dos acessos maláricos
B – Principais espécies parasitas de primatas: com a fase final dessa evolução. Ainda em 1886,
P. cynomolgi; Golgi revelou a diferença dos ciclos evolutivos
P. knowlesi; dos agentes da terçã e da quartã, com seus res-
P. inui; pectivos agentes etiológicos.
P. brasilianum. Em 1890, Grassi e Feletti criaram os nomes
C – Principal espécie parasita de roedor: para as espécies da terçã e da quartã, Haemamoe-
P. berghei. ba vivax e H. malariae, esta última transferida de
D – Principais espécies parasitas de aves: Oscillaria.
P. relictum; Em 1897, Welch deu ao parasito já conhecido
P. gallinaceum; de Laveran (1881), Golgi (1885) e Marchiafava e
P. cathemerium; Bignami (1891), no qual encontrou gametócitos
P. elongatum; em crescente, o nome de Hematozoon falcipa-
P. lophurae. rum. Este foi transferido pelo próprio Welch para

155
156 r Parasitologia e Micologia Humana

o gênero Plasmodium (1897). Segundo Faust, E. C., Baseado nessa verificação, Garnham, no mes-
1955, foi Schaudinn quem, em 1902, o transferiu mo ano, trabalhando com Hepatocystis kochi de
para o gênero Plasmodium. Cercopithecus, observou a esquizogonia desta
Após 1894, Ross, baseado na hipótese de Man- espécie nas células parenquimatosas do fígado.
son relativa à transmissão da malária pelos mosqui- A descoberta da fase hepática da evolução das
tos e exortado pelo mesmo, estudou a evolução do espécies de Hepatocystis, antes considerado Plas-
agente da malária dos pássaros no Culex fatigans. modium, orientou os pesquisadores ingleses para
Em outra experiência, Ross observou no estômago a procura das formas pré e exoeritrocitárias nas
de mosquitos de asas manchadas a evolução par- células do fígado do homem e dos primatas.
cial dos oocistos dos parasitos da malária humana. Em 1948, Shortt e Garnham fizeram centenas
Os resultados das pesquisas de Ross foram comu- de anofelinos infectados pelo Plasmodium cyno-
nicados por Manson à British Medical Association molgi picarem o Macacus cynomolgus e, do quin-
de Londres, em 1898. to ao décimo dia da picada infectante, estudaram
As descobertas de Ross orientaram Grassi, por meio de biópsias, no interior das células pa-
Bignami e Bastianelli (1898) em suas investiga- renquimatosas do fígado, a sucessão das fases da
ções que culminaram com o estabelecimento do esquizogonia desta espécie de Plasmodium.
ciclo evolutivo completo do agente da terçã ma- A descoberta da fase tecidual da evolução de
ligna no Anopheles claviger (ou A. maculipennis). Plasmodium cynomolgi foi um passo para o co-
Em 1900, Grassi fechou o ciclo dos 20 anos nhecimento do ciclo pré-eritrocitário e exoeri-
de investigações sobre os agentes da malária, pu- trocitário das espécies de Plasmodium agentes da
blicando sua monografia que trata de modo defi- malária humana: do P. vivax, por Shortt, Gar-
nitivo do ciclo evolutivo dos parasitos da malária nham, Covell e Shute, em 1948; do P. falcipa-
humana nos anofelinos. rum, por Shortt, Fairley, Covell, Shute e Gar-
nham, em 1949; do P. ovale, por Garnham, Bray,
De 1900 a 1934, poucas foram as pesquisas
Cooper, Lainson, Awad e Williamson, em 1954,
tendentes a esclarecer alguns aspectos obscuros
e, por último, do P. malariae, por Bray, em 1959.
da patologia da malária, como as recaídas e a di-
ferença observada na evolução clínica e na res- Com estes últimos estudos encerra-se a histó-
posta à terapêutica específica entre as formas re- ria da evolução dos plasmódios parasitos do ho-
sultantes da inoculação dos esporozoítas e as for- mem, desde sua descoberta por Laveran, em
mas induzidas por transfusão do sangue de por- 1880, até o trabalho de Bray (1959) quase 80
tadores do parasito. anos depois.
Em 1934, Raffaele restabeleceu o curso das Nesses longos anos foram fatos culminantes a
grandes investigações sobre a evolução dos plas- determinação das quatro espécies de Plasmodium
módios, observando no interior das células do parasitos do homem, o estabelecimento do ciclo
sistema monocítico fagocitário de pássaros as esquizogônico intra-hemático por Golgi, o conhe-
formas esquizogônicas exoeritrocitárias de Plas- cimento do ciclo esporogônico e da transmissão
modium elongatum. da malária humana por Grassi e seus colaborado-
res, a descoberta da fase monocítico fagocitária
Para os plasmódios dos mamíferos, apesar das
dos plasmódios aviários por Raffaele, por fim, a
numerosas pesquisas evidenciando a localização
comprovação dos ciclos pré e exoeritrocitário dos
e a natureza da fase pré-eritrocitária, só em 1948
plasmódios dos primatas e do homem pelos mala-
foram conseguidos os primeiros êxitos experi-
riologistas ingleses contemporâneos.
mentais.
Mer (1947), estudando comparativamente Hae- Ciclo Ontogênico
moproteus columbae do pombo e Hepatocystis
murinum do morcego, nos quais só os gametócitos Por definição, todas as espécies de Plasmodium
são observados no sangue periférico, verificou que, são dieteroxenas; parte da evolução processan-
enquanto no primeiro a esquizogonia se passa nas do-se em um vertebrado e outra parte em um díp-
células endoteliais do pulmão, no segundo se reali- tero hematófago que desempenha o papel de ve-
za nas células do fígado. tor ou transmissor do parasito.
Plasmo i eos – Plasm ios Parasitos o Homem r 157

A reprodução assexuada por esquizogonia ocor- espaços intercelulares e podem penetrar em ou-
re no vertebrado e a sexuada ou esporogônica ini- tra célula do fígado ou cair na corrente circulató-
cia-se no vertebrado, onde se diferenciam os game- ria, onde invadem as hemácias.
tócitos, porém só termina no inseto hematófago. 2 – Ciclo exoeritrocitário – na eventualidade
Há, assim, alternância das gerações assexuada e se- de os criptomerozoítas penetrarem em outros
xuada, concomitantemente à alternância de hospe- hepatócitos, inicia-se uma segunda esquizogonia
deiros. de duração ainda não determinada.
As quatro espécies parasitas do homem reali- Esses criptomerozoítas evoluem para esqui-
zam sua evolução sexuada em mosquitos da tri- zonte, os quais, nesta segunda geração e em to-
bo Anophelini, única que inclui os transmissores das as subseqüentes, recebem o nome de meta-
da malária humana. criptozoítas. Estes, por divisão múltipla, dão ori-
A evolução completa dos plasmódios agentes gem aos metacriptomerozoítas que terão, cada
da malária humana (Fig. 1) compreende os se- um, um dos dois destinos, como descrito para os
guintes ciclos: criptomerozoítas no ciclo pré-eritrocitário.
No homem – reprodução esquizogônica: No estado atual de nossos conhecimentos
A – Fase tecidual hepática: não é admitido no Plasmodium falciparum o ci-
1 – Ciclo pré-eritrocitário; clo exoeritrocitário e, assim, todos os criptome-
2 – Ciclo exoeritrocitário. rozoítas, isto é, os merozoítas da esquizogonia
B – Fase sanguínea: pré-eritrocitária não terão novas gerações nas
3 – Ciclo eritrocitário. células parenquimatosas do fígado e o parasitis-
No anofelino – reprodução esporogônica: mo desta espécie ficará limitado às hemácias.
4 – Ciclo esporogônico. 3 – Ciclo eritrocitário – inicia-se com a pene-
tração dos criptomerozoítas ou dos metacripto-
1 – Ciclo pré-eritrocitário – inicia-se pela in- merozoítas no interior das hemácias. Pelo fato de
trodução no organismo dos esporozoítas do pa- ter sido descrito por Golgi (1885) é chamado ci-
rasito contido na saliva dos anofelinos, no mo- clo de Golgi.
mento da picada. Os sucessivos aspectos morfológicos da esquizo-
Os esporozoítas, ao contrário do que se pen- gonia eritrocitária, embora semelhantes nas quatro
sava no início deste século, permanecem livres espécies de Plasmodium, não são suficientemente
no sangue periférico durante 30 a 60 minutos, diferentes para permitir com segurança a diagnose
quando, então, penetram ativamente nas células específica.
parenquimatosas do fígado, para nelas realizar o Penetrando no glóbulo vermelho, o merozoíta
ciclo pré-eritrocitário. originário das esquizogonias hepáticas arredon-
No interior do hepatócito arredondam-se e da-se e vacuoliza-se, recebendo o nome de trofo-
iniciam a divisão esquizogônica, recebendo o zoíta, que nas preparações coradas pelos méto-
nome de esquizonte pré-eritrocitário ou cripto- dos hematológicos habituais, assume um aspecto
zoíta. anelar.
O ciclo pré-eritrocitário completa-se entre 5 a Dividindo o núcleo, o protozoário passa à fase
10 dias, de acordo com a espécie de Plasmodium. de esquizonte e, então, todo o corpo parasitário
O núcleo primitivo do esporozoíta, que é a forma no interior da hemácia invadida por ele cresce
infectante, divide-se rápida e sucessivamente no por nutrição osmotrófica. Em tempo variável para
interior do parasito, resultando em milhares de cada uma das espécies, o esquizonte completa
núcleos-filhos. A esquizogonia termina no mo- sua evolução e divide-se em tantos merozoítas
mento em que ao redor de cada núcleo-filho o ci- eritrocitários quanto os núcleos-filhos resultantes
toplasma condensa-se e, após, separa-se em pe- da divisão do núcleo primitivo do trofozoíta.
quenos elementos celulares uninucleados que se Na fase final da esquizogonia eritrocitária os
denominam merozoítas pré-eritrocitários ou crip- merozoítas permanecem juntos, ainda que por
tomerozoítas. instantes, no interior da hemácia, dispostos co-
Em conseqüência da destruição da célula pa- mo pétalas de uma flor e, não raro, centrados
rasitada, os criptomerozoítas são libertados nos pelo pigmento malárico ou hemozoína, origem
15 r Parasitologia e Micologia Humana

24 1
2

3
23

A 5
22

21
A

7
16
B
18
20

8
1
14 12

17

15 13
10

11

Fig. 1 – Ciclo evolutivo dos plasmódios. Original. No homem: reprodução esquizogônica. A – Ciclos pré e exoeritrocitá-
rio (fase tecidual hepática): 1 – esporozoíta, oriundo da picada infectante do anofelino, que penetra na circulação sanguí-
nea; 2 – invasão do hepatócito; 3, 4 e 5 – esquizogonia tecidual; 6 – rotura do hepatócito com liberação dos
criptomerozoítas e metacriptomerozoítas. B – Ciclo eritrocitário: 7 – forma trofozoíta; 8 – esquizonte jovem; 9 – esqui-
zonte médio; 10 – merócito ou rosácea; 11– rotura do eritrócito com liberação dos merozoítas que vão repetir o ciclo eri-
trocitário ou dar origem aos gametócitos; 12 e 13 – respectivamente, micro e macrogametócitos no sangue circulante. No
anofelino: reprodução sexuada. C – Ciclo esporogônico; 14 e 15 – gametócitos ingeridos pelo mosquito, respectivamen-
te, micro e macrogametócitos maduros expelindo corpos solares; 16 – exflagelação do microgametócito produzindo
microgametas no estômago do mosquito; 17 – macrogameta sendo fertilizado por um microgameta para formar o zigoto; 18 –
oocineto, resultante do alongamento do zigoto para penetração na parede gástrica do anofelino; 19, 20, 21, 22 e 23 – de-
senvolvimento do oocisto sob o epitélio de revestimento do órgão; 24 – o oocisto maduro rompendo-se e liberando espo-
rozoítas que vão localizar-se nas glândulas salivares do transmissor.
Plasmo i eos – Plasm ios Parasitos o Homem r 15

do nome de rosácea ou margarida dado a esse se transforma em um macrogameta ou célula se-


conjunto. xual feminina.
A duração da esquizogonia no Plasmodium vi-
vax é aproximadamente de 48 horas, a de P. falci- Movimentando-se no coágulo sanguíneo con-
parum de 36 a 48 horas, a de P. malariae de 72 tido no estômago do anofelino, o microgameta
horas e a de P. ovale como no P. vivax. penetra no gameta feminino e fecunda-o.
Ao término da esquizogonia, a hemácia para-
O ovo, ou zigoto, então formado, recebe o
sitada rompe-se, libertando no plasma os mero-
nome de oocineto e, por movimentos amebói-
zoítas eritrocitários, dos quais, parte é fagocitada
des, arrasta-se até o epitélio da parede do estô-
e destruída e parte invade novas hemácias para
mago atravessada, vindo imobilizar-se na perife-
continuar o processo reprodutivo.
ria do órgão, no espaço entre a face externa do
Desde Golgi (1886) sabe-se que a periodici- epitélio e a membrana limitante do órgão.
dade dos acessos maláricos coincide com a fase
final da esquizogonia, quando os merozoítas, os Imobilizado o oocineto, diferencia-se na peri-
restos da hemácia parasitada e a hemozoína re- feria do seu citoplasma uma membrana envol-
sultante da metabolização de hemoglobina são tória, transformando-o em oocisto.
lançados no plasma, desencadeando a crise fe-
bril característica da malária. O núcleo do oocisto, resultante da fusão dos
4 – Ciclo esporogônico – a reprodução sexua- núcleos do macro e microgametas, inicia sucessi-
da ou esporogônica começa no organismo hu- vas divisões e, devido à permeabilidade de sua
mano, onde se diferenciam os gametócitos, e membrana, o oocisto nutre-se por osmose da he-
termina em um mosquito que obrigatoriamente molinfa do mosquito e aumenta de volume. Em
deve ser um anofelino. condições favoráveis de temperatura e umidade
No sangue do homem, alguns merozoítas, pe- para cada espécie de Plasmodium, os oocistos evo-
netrando nas hemácias, em vez de iniciar nova luem e completam sua maturação entre 10 e 21
esquizogonia, transformam-se em elementos se- dias.
xualmente diferenciados, os gametócitos. O ga-
metócito masculino é denominado microgame- Os núcleos originários da divisão do núcleo
tócito e o feminino, macrogametócito. primitivo do oocisto são individualmente contor-
No P. vivax, P. malariae e P. ovale são globulo- nados por uma pequena porção do citoplasma,
sos ou ovóides; no P. falciparum têm a forma de resultando em numerosos elementos celulares
foice, crescente ou banana. No sangue, os ga- uninucleados de forma alongada e dispostos la-
metócitos completam sua maturação, mas não do a lado. A esse peculiar processo de reprodu-
evoluem e, após algum tempo, envelhecem e ex- ção sexuada de que resultam milhares de espo-
tinguem-se espontaneamente. rozoítas se denomina esporogonia.
A evolução dos gametócitos começa no estô- Completada a maturação, a membrana do
mago do anofelino, no sangue sugado. Os ele- oocisto é rompida e os esporozoítas livres na he-
mentos figurados do sangue e as formas parasitá- molinfa invadem todo o corpo do anofelino. Os
rias do ciclo esquizogônico estão sujeitos à diges- autores acreditam que os esporozoítas possuem
tão e os gametócitos evoluem para formar os ga- um especial tropismo para as glândulas salivares
metas. do inseto hospedeiro, por serem invadidas por
O microgametócito divide sucessivamente o grande número deles.
núcleo e o citoplasma, originando 4 a 6 microga-
metas delgados, que se movimentam ativamente Nesse ponto do ciclo esporogônico, o anofeli-
no momento em que estão se individualizando, no, picando outro indivíduo, introduz a saliva
fato que propiciou a este processo de divisão o contendo os esporozoítas que são as formas in-
nome de “exflagelação”. fectantes do Plasmodium através da pele. Estas,
O macrogametócito, por sua vez, também abandonando a corrente sanguínea, penetram
evolui, devendo reduzir metade da sua cromati- na células hepáticas e iniciam o ciclo pré-eritro-
na pela eliminação dos “corpos polares” e assim citário.
16 r Parasitologia e Micologia Humana

PLASMODIUM VIVAX (GRASSI E rozoítas que se dispõem em torno dos grânulos da


hemozoína agora reunidos, formando a rosácea.
FELETTI, 1890) LABBÉ, 1899 Os merozoítas relativamente grandes e a rosácea
É o agente da forma clínica da malária deno- maior que as hemácias normais constituem um
minada terçã benigna, cujos acessos febris, nas aspeto importante do P. vivax.
curvas térmicas típicas, repetem-se de 48 em 48 Com a ruptura da hemácia parasitada são lan-
horas. Das quatro espécies de Plasmodium para- çados no plasma circulante os merozoítas, a he-
sitos do homem, é a mais freqüente em quase to- mozoína e o resíduo da hemácia parasitada, pro-
das as áreas malarígenas do mundo. vocando o desencadeamento do acesso malárico
característico. Durante o acesso que pode durar
Caracteres Morfobiológicos de 1 a 3 horas, são facilmente observados no
sangue periférico trofozoítas, esquizontes em di-
No sangue periférico corado pelo método de ferentes graus de evolução e rosáceas.
Giemsa ou similares, podemos estudar os carac- Além das formas parasitárias do ciclo assexua-
teres das sucessivas formas do ciclo esquizogôni- do eritrocitário, são encontrados, no sangue pe-
co eritrocitário e os gametócitos. A forma inicial riférico, os gametócitos.
do parasitismo intra-hemático é o trofozoíta, que O macrogametócito maduro no sangue cora-
assume o aspecto de anel, no qual o citoplasma do tem, no interior da hemácia, aparência globu-
corado em azul representa o arco, e o núcleo em losa, sendo maior que as hemácias normais. A
vermelho, a pedra. Este aspecto anelar resulta da hemácia parasitada é quase totalmente ocupada
existência de um grande vacúolo contornado por ele, restando-lhe apenas uma estreita orla hi-
pelo citoplasma. O anel tem o diâmetro aproxi- pocrômica.
mado de 33% das hemácias normais. O núcleo apresenta a cromatina densa, com-
O trofozoíta cresce e, em virtude da sua gran- pacta e bem diferenciada; o citoplasma é azul-
de motilidade, toma formas irregulares após sua acinzentado e a hemozoína, em grânulos bacilói-
fixação. des castanhos, está dispersa no citoplasma.
Ao se realizar a primeira divisão nuclear, o pa- O microgametócito tem a forma do macroga-
rasito passa a esquizonte jovem e, prosseguindo metócito, porém, diferencia-se por ser um pou-
a esquizogonia, chega à fase de esquizonte adul- co menor, ter a cromatina nuclear menos densa
to, em cujo citoplasma, aumentando de volume, e o citoplasma corado em rosa-claro.
observa-se um número variável de núcleos resul- Acredita-se que os gametócitos amadureçam
tantes da divisão do núcleo do trofozoíta (Pran- nos capilares viscerais, particularmente no baço,
cha 2 no CD). porém, não é raro o encontro de formas imaturas
Ao mesmo tempo em que se processa a evo- no sangue periférico.
lução do protozoário, a hemácia parasitada au- Os gametócitos são do tamanho dos esqui-
menta de volume e torna-se hipocrômica, cons- zontes, diferenciando-se pelo núcleo único, re-
tituindo estas duas alterações caracteres muito lativamente grande, citoplasma compacto e con-
importantes para a identificação específica. torno regular.
Em muitas preparações de sangue com coran- A esquizogonia pré-eritrocitária nas células he-
te em solução ligeiramente alcalina, podem-se páticas dura 7 a 9 dias, havendo a estimativa de
observar no citoplasma da hemácia parasitada que cada criptoesquizonte produza 10.000 cripto-
granulações vermelhas, muito pequenas, conhe- merozoítas. Inúmeros invadem as hemácias, onde
cidas como granulações de Schüffner, constantes evoluem e reproduzem-se por esquizogonia, en-
nas infecções pelo P. vivax e também encontra- quanto outros penetram em outras células do fíga-
das nas de P. ovale. do para realizar o ciclo exoeritrocitário. Este ciclo
No P. vivax, a hemozoína, pigmento malárico pode se repetir por semanas, meses e raramente
ou palúdico, resultante da metabolização da he- anos, aparentemente sem parasitos no sangue pe-
moglobina, é castanho-clara e bacilóide. riférico, em casos assintomáticos.
Decorridas aproximadamente 48 horas da evo- As infecções latentes, nas quais ocorrem as re-
lução eritrocitária, individualizam-se 12 a 24 me- caídas, têm sua explicação na persistência do ci-
Plasmo i eos – Plasm ios Parasitos o Homem r 161

clo exoeritrocitário. Deste ciclo, originam-se os Em casos com intensa parasitemia, não são ra-
metacriptomerozoítas capazes de parasitar as he- ras as hemácias parasitadas por 2 ou 3 anéis, fato
mácias. excepcional nas outras espécies.
Esta ocorrência, segundo se presume, tem lu- Na maioria dos casos de infecções pelo P. fal-
gar quando o estado prodrômico do indivíduo ciparum no sangue periférico, são observadas
infectado pelo Plasmodium diminui em conse- apenas as formas em anel ou estas e os gametóci-
qüência de outras doenças, da subalimentação e tos muito característicos, por causa da sua forma
da fadiga. de banana.
O ciclo esporogônico nos mosquitos da tribo Os esquizontes em fase adiantada da evolu-
Anophelini varia, como nas demais espécies de ção bem como as rosáceas são raros no sangue
Plasmodium, com a temperatura e o grau higros- periférico, embora muito abundantes nos capila-
cópico do ambiente. A 20°C, o ciclo esporogôni- res viscerais. Quando existentes na circulação
co requer 16 dias; a 25°C, 11 dias; a 15°C não geral indicam prognóstico ruim e são freqüentes
ocorre evolução. Há exigência de um grau hi- no período pré-agônico da infecção palúdica cau-
groscópico do ar acima de 60% de umidade rela- sada por este Plasmodium.
tiva. No material da medula óssea ou do baço, ob-
tido por punção, pode-se observar essas formas
avançadas do ciclo esquizogônico eritrocitário.
PLASMODIUM FALCIPARUM Os esquizontes, de contorno mais regular que os
(WELCH, 1897) do P. vivax, não ocupam todo o corpo da hemá-
cia, que não se apresenta hipertrofiada e em ge-
Agente etiológico da terçã maligna ou subter- ral não é hipocrômica.
çã, na qual os acessos maláricos ocorrem em um
A hemozoína é grosseiramente granulosa, cas-
tempo variável entre 36 e 48 horas.
tanho-escura ou mesmo negra. Raramente no ci-
Com freqüência próxima à do P. vivax, habita toplasma da hemácia parasitada aparecem gra-
todas as áreas quentes e úmidas do mundo, sendo nulações vermelhas, de formas irregulares, co-
responsável pela grande maioria das formas per- nhecidas como granulações de Maurer.
niciosas da malária, das quais muitas são fatais. As rosáceas são características desta espécie
porque não ocupam senão 2/3 da hemácia. O
Caracteres Morfobiológicos número de merozoítas resultantes da esquizogo-
nia varia de 8 a 30, sendo menores que os de P.
No sangue corado pelos métodos usuais, o vivax, P. malariae e P. ovale. Após sua individuali-
parasito apresenta caraterísticas bem definidas zação e antes da ruptura da hemácia, permane-
(Prancha 2 no CD). O trofozoíta, no início do ci- cem unidos, dispostos circularmente em torno
clo eritrocitário, pode ter duas posições na he- do pigmento malárico aglomerado no centro.
mácia: no seu interior, onde assume a forma de Os gametócitos de ambos os sexos são incon-
anel, ou acoplada à sua superfície, acompanhan- fundíveis, devido a seu feitio recurvado em arco,
do seu contorno e por isso chamada forma mar- com as extremidades rombas lembrando a forma
ginal. de uma banana. Seu comprimento é maior que o
O anel do P. falciparum é, em geral, menor diâmetro da hemácia parasitada. Desta, às vezes,
que o das outras três espécies, correspondendo se liberta e permanece livre no sangue circulan-
o seu diâmetro a 1/4 ou 1/5 da hemácia parasita- te.
da. Os trofozoítas de menor tamanho são mais A parte da hemácia não ocupada pelo parasi-
freqüentes na fase inicial da infecção por esta es- to é hipocrômica e permanece unida à concavi-
pécie, sendo possível que eles correspondam aos dade deste como se fosse um simples suporte.
criptomerozoítas recém-introduzidos nas hemá- O macrogametócito é relativamente mais es-
cias, enquanto os maiores resultem de merozoí- treito, a cromatina nuclear é compacta, o cito-
tas eritrocitários. plasma corado em azul-acinzentado e os escuros
É de contorno regular e muitas vezes com o grânulos de hemozoína são aglomerados na peri-
núcleo precocemente dividido. feria do núcleo. O microgametócito, ao contrá-
16 r Parasitologia e Micologia Humana

rio, é um pouco mais largo, a cromatina nuclear mozoína é grosseiramente granulosa, negra e de
frouxa, o citoplasma corado em rosa-claro e a tom esverdeado.
hemozoína próxima ao núcleo, porém, relativa- As rosáceas ocupam todo o corpo da hemácia
mente dispersa. e possuem 6 a 12 merozoítas maiores que os de
O ciclo pré-eritrocitário dura 6 dias e cada P. falciparum, dispostos em torno do pigmento
criptoesquizonte dá origem a aproximadamente malárico acumulado na parte central.
40.000 criptomerozoítas.
Os autores que estudaram o ciclo hepático Os gametócitos são esferóides, nunca maiores
dos plasmódios do homem acham improvável a que as hemácias normais. O macrogametócito
existência do ciclo exoeritrocitário do P. falcipa- tem a cromatina nuclear densa e o citoplasma
rum. Está neste fato a explicação da inexistência azul-escuro, enquanto o microgametócito tem o
das recaídas a longo prazo e das remissões em núcleo com a cromatina frouxa e o citoplasma
curtos intervalos na terçã maligna, ao contrário rosa-claro. Tanto no macro quanto no microga-
do que é observado nas infecções pelo P. vivax e metócito, os grânulos da hemozoína negro-es-
P. malariae. verdeados, irregularmente esparsos no citoplas-
A infecção residual pelo P. falciparum, após a ma, facilitam a diferenciação deste Plasmodium
extinção do ciclo pré-eritrocitário, segundo Gar- dos demais agentes da malária.
nham (1951), é mantida pelas formas eritrocitárias A fase tecidual hepática pré-eritrocitária pro-
acumuladas nos capilares viscerais. cessa-se entre 11 e 12 dias, sendo formados de
O ciclo sexuado ou esporogônico nos anofeli- cada criptoesquizonte, aproximadamente, 2.000
nos, em apropriado grau de umidade relativa, rea- criptomerozoítas. Destes, parte penetra nas he-
liza-se a 20°C, em 33 dias, e a 30°C, em 1.011 mácias, para realizar a evolução assexuada eri-
dias. trocitária, e parte em novos hepatócitos, onde
tem lugar o ciclo exoeritrocitário.
PLASMODIUM MALARIAE
Não há correlação entre o tempo de duração
(LAVERAN, 1881) do ciclo pré-eritrocitário e o período de incuba-
É o agente causal da malária na sua forma ção da quartã, geralmente acima de 25 dias. Po-
quartã, cujos acessos repetem-se de 72 em 72 der-se-ia pensar que o número relativamente
horas nos casos típicos. baixo de criptomerozoítas não seria suficiente no
A quartã é observada em todas as áreas palú- início da infecção para originar esquizogonias
dicas do mundo, porém com freqüência muito eritrocitárias capazes de provocar o acesso malá-
inferior à terçã benigna e à subterçã. rico.
As recaídas tardias na quartã têm sua etiopa-
Caracteres Morfobiológicos togenia na longa persistência da evolução teci-
No sangue corado pelos métodos de Giemsa, dual de P. malariae.
Wright ou similares, P. malariae apresenta carac- A esporogonia nos anofelinos, em boas condi-
teres bem definidos que permitem diferenciá-lo ções de umidade, processa-se em 32 a 35 dias, a
das três outras espécies de Plasmodium (Prancha 20°C, e em 18 a 21 dias, a 22°C.
2 no CD).
A forma em anel é, em média, maior que a de PLASMODIUM OVALE STEPHENS,
P. falciparum e menor que a de P. vivax e geral-
mente de contorno regular. 1922
Os esquizontes são encontrados no sangue
periférico em diferentes graus de evolução e, ha- Este Plasmodium tem sido encontrado em ex-
bitualmente, tomam a forma de uma faixa esten- tensas regiões da África e, fora desse continente,
dida de um lado a outro da hemácia, o que lhes apenas raramente nas Filipinas, Turquestão, Pa-
empresta um aspecto característico. lestina e Venezuela. Não ocorre no Brasil.
A hemácia parasitada não se mostra hipertro- É o causador de uma forma particular de ter-
fiada nem hipocrômica como em P. vivax. A he- çã, a terçã ovale.
Plasmo i eos – Plasm ios Parasitos o Homem r 163

Caracteres Morfobiológicos 1 2 3 4

Esta espécie apresenta caracteres em parte se-


melhantes ao P. vivax e em parte ao P. malariae.
Segundo Manson-Bahr, ele poderia ser descri-
to: as a quartan parasite in a benign tertian cell, or
a round parasite in an oval cell.
Os seguintes atributos morfológicos permitem
sua identificação: as hemácias parasitadas têm
contorno irregular e muitas assumem a forma 5 6 7 8
oval; as granulações de Schüffner aparecem pre-
cocemente, antes mesmo da primeira divisão nu-
clear do parasito; as rosáceas não ocupam toda a
hemácia e têm 6 a 12 merozoítas (Fig. 2).
As hemácias parasitadas são hipocrômicas, 10 11 12
como nas infecções pelo P. vivax e menos hiper- Fig. 2 – Plasmodium ovale. 1 – Hemácia normal; 2, 3, 4 e
trofiadas que nesta espécie. 5 – trofozoítas; 6, 7, 8 e 9 – esquizontes; 10 e 11 – meróci-
Os gametócitos são maiores que os do P. mala- tos; 12 – merozoítas. Segundo Stephens.
riae e semelhantes aos do P. vivax, distinguin-
do-se de ambos pela forma oval e o contorno ir-
regular dos glóbulos vermelhos parasitados. 15.000 criptomerozoítas. É provável a existência
O ciclo pré-eritrocitário dura 9 dias e cada do ciclo exoeritrocitário. O ciclo esporogônico
criptoesquizonte dá origem a aproximadamente em anofelinos realiza-se em 15 dias, a 25°C.
24
Malária Humana

Mal ria Humana

A malária humana inclui quatro formas funda- dia e do grau de umidade relativa do ar. Enfim,
mentais, discriminadas a seguir, com seus res- são necessárias as condições climáticas e físicas
pectivos agentes. que não só favoreçam a proliferação dos anofeli-
1) Terçã benigna ou terçã vivax – Plasmodium nos, como também a evolução dos plasmódios
vivax. no seu organismo.
2) Terçã maligna ou terçã falciparum – Plas- Nas áreas de clima frio ou temperado, a exis-
modium falciparum. tência de casos autóctones de malária só é possí-
ve se, pelo menos durante algum tempo, a umi-
3) Quartã – Plasmodium malariae.
dade relativa do ar for superior a 60% e a tempe-
4) Terçã ovale – Plasmodium ovale.
ratura permanecer acima de 16°C, para permitir
As quatro formas da malária possuem em co- a esporogonia dos agentes da terçã benigna e da
mum, características que as aproximam, dos quartã, e de 21°C, para a da terçã maligna.
pontos de vista patogênico e sintomatológico, e
A distribuição dos anofelinos é também con-
outras, pertinentes a cada uma, isoladamente,
dicionada pelos fatores climáticos e, em alguns
que as individualizam como entidades mórbidas
casos, pelo isolamento geográfico em ilhas oceâ-
diferenciadas.
nicas e em oásis dos desertos das regiões inter-
Estudaremos a doença em seus aspectos gerais tropicais.
e anotaremos as peculiariedades de cada uma de
A malária tem sido observada a 65° de latitu-
suas formas clínicas, atendendo concisamente aos
de norte na Rússia e 40° de latitude sul na Argen-
objetivos de ordem doutrinária e aplicada que
tina; a 2.850 metros de altitude do sul da Rússia
este assunto comporta.
Asiática e a 400 metros abaixo do nível do mar
no Mar Morto.
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA Atualmente, no estudo da distribuição geo-
A distribuição geográfica da malária humana gráfica da malária, tem-se a considerar os seguin-
é condicionada pelos fatores ecológicos que de- tes tipos de áreas:
terminam a existência dos anofelinos transmisso- A) Áreas em que os fatores climáticos e edáficos
res. Esses fatores dependem precipuamente de impedem a proliferação dos anofelinos (latitu-
latitude e altitude e, em associações com estas, des e altitudes extremas, savanas, caatingas,
das correntes marítimas, da flora, do regime plu- desertos).
viométrico, da topografia, da distribuição das co- B) Áreas potencialmente malarígenas por possuir
leções e dos cursos de água, da temperatura mé- os fatores climáticos e edáficos necessários à

165
166 r Parasitologia e Micologia Humana

proliferação dos anofelinos e à evolução dos Constituem exemplos de total erradicação da


oocistos, porém não-invadidas por espécies malária todo o território dos EUA e as áreas histo-
transmissoras. ricamente palúdicas da Itália.
C) Áreas malarígenas onde houve erradicação No Brasil, nossas autoridades sanitárias nesses
dos transmissores, graças à aplicação dos inse- últimos 20 anos, com a instituição do rociamen-
ticidas de ação residual e às obras de enge- to das casas com inseticida de ação residual,
nharia sanitária. conseguiram sanear extensas áreas do país, em
D) Áreas malarígenas onde não houve combate vários estados, onde não apareceram novos ca-
aos transmissores e que não foram beneficia- sos ou baixou consideravelmente sua freqüên-
das pelas obras de engenharia sanitária. cia.
No Brasil, as áreas não-malarígenas, livres de Há no Brasil áreas malarígenas não-controla-
anofelinos transmissores, são representadas pe- das ou parcialmente assistidas, de onde a doença
las regiões florísticas de vegetais xerófilos, como dificilmente poderá ser erradicada devido à ex-
as caatingas do Nordeste, em partes do Ceará, tensão territorial e à rarefação demográfica. Essas
Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e áreas são encontradas no Acre, Rondônia, Mato
Bahia e, mais para o sul, os cerrados da Bahia e Grosso, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Goiás,
Minas Gerais. Neste estado, as zonas de serras Maranhão e Piauí.
que compõem parte dos maciços Atlântico e Não são raros os casos de malária em viajan-
Central também não são povoadas por anofeli- tes provenientes daquelas zonas, alguns dos quais
nos. No sul do país, nas regiões serranas do inte- têm sido diagnosticados na cidade do Rio de Ja-
rior do Paraná e de Santa Catarina, como tam- neiro.
bém no Rio Grande do Sul, tanto na zona monta- A persistência da malária em algumas partes
nhosa ao norte quanto na “campanha”, não há do território brasileiro decorre não só dos fatores
malária. Neste estado sulino, a malária só existe que acabamos de apontar, como também de
em alguns pontos do litoral e às margens do rio dois outros não menos importantes, a saber: a
Uruguai. resistência adquirida pelos anofelinos aos inseti-
As áreas potencialmente malarígenas do Brasil, cidas e a dos plasmódios aos quimioterápicos.
onde não há malária ou apenas casos esporádicos
da doença, são regiões não-invadidas por anofeli- DADOS FUNDAMENTAIS PARA O
nos transmissores, fato bem conhecido pelos ma- ESTUDO DA PATOLOGIA DA
lariologistas, porém ainda não elucidado. Há re-
giões em que as espécies de anofelinos são zoófi- MALÁRIA
las e, por não picarem o homem, não se infectam
e não transmitem a malária. Duração do Ciclo Pré-Eritrocitário
Essas áreas esparsas do território brasileiro são e Períodos Pré-Patente e de
escolhidas pelos leigos para estabelecerem suas Incubação
lavouras, em contraposição a outras reconheci-
das como palúdicas. Eis a razão pela qual as car- Compreende-se por período pré-patente o
tas nosográficas nem sempre traduzem a realida- tempo decorrido entre o momento da introdu-
de, cobrindo municípios, estados e países com ção dos esporozoítas no organismo e o apareci-
marcações cartográficas contínuas, como a indi- mento das primeiras formas eritrocitárias detec-
car que a área de incidência da doença coincide tadas ao exame microscópico e, por período de
com a área geográfica. incubação, o tempo decorrido entre a introdu-
De extensas áreas malarígenas, em vários paí- ção daquelas formas infectantes e o início das
ses e no Brasil, a doença foi erradicada; em algu- manifestações clínicas da doença.
mas, pelo emprego sistemático de inseticidas de A duração destes dois períodos pode variar
ação residual, em outras, pelo estabelecimento entre si, ambos dependendo do tempo necessá-
de obras de engenharia sanitária e, ainda em ou- rio à multiplicação de cada uma das espécies de
tras, pela associação dessas duas providências. Plasmodium na sua primeira fase hepática, bem
Mal ria Humana r 167

como do número de criptomerozoítas lançados quartã com 2 dias, originando a denominação lei-
na corrente circulatória. ga de febres intermitentes como é conhecida a
Assim, na terçã benigna, o ciclo pré-eritrocitá- doença nas áreas malarígenas.
rio do parasito é de 8 dias, o período pré-patente A periodicidade dos acessos maláricos foi ex-
de 12 e o de incubação, 14 a 19; na terçã malig- plicada por Golgi, em 1885, ao estudar as fases
na a fase tecidual é de 6 dias e os períodos evolutivas dos plasmódios no sangue, verifican-
pré-patente e de incubação, de 11 e 13 dias, res- do a coincidência dos mesmos com o término
pectivamente; na quartã, a fase hepática pré-eri- das esquizogonias eritrocitárias.
trocitária é de 12 dias, o período pré-patente, de Admite-se que o acesso malárico seja de na-
32 e o de incubação, de 38 dias. tureza alérgica, decorrendo da libertação brusca
Os tempos da fase pré-eritrocitária e dos pe- no plasma circulante dos merozoítas eritrocitários
ríodos pré-patente e de incubação representam juntamente com a hemozoína e os retalhos da
a média, podendo haver variações para mais ou hemácia parasitada, esses elementos comportan-
para menos em cada espécie e respectiva forma do-se como substâncias pirogênicas, capazes de
clínica. Em infecções experimentais, aumentan- provocar no organismo uma pirexia comparável
do o número de picadas infectantes com as quais à observada nas inopinadas bacteriemias.
cresce proporcionalmente o número de esporo- Não há relação entre a intensidade do acesso
zoítas, o período de incubação pode retrair-se a malárico e o número de parasitos no sangue, ha-
5 dias (Manson-Bahr, 1964). Em infecções pelo vendo casos em que a parasitemia é tão peque-
P. vivax e P. malariae, o período de incubação na, que se torna necessário repetir a hematosco-
pode-se alongar por meses com a doença laten- pia para estabelecer o diagnóstico da malária,
te, às vezes com a hematoscopia positiva, po- principalmente no início da doença. Em alguns
rém, assintomática. desses casos o período pré-patente poderá ser
Podemos presumir que as variações cronoló- mais longo que o de incubação. Seria de se con-
gicas dos períodos pré-patente e de incubação siderar, então, que durante o acesso malárico as
decorrem não só do tempo exigido nas esquizo- hemácias parasitadas se acumulem nos capilares
gonias pré-eritrocitárias, como também do nú- viscerais, só aparecendo no sangue periférico
mero de criptomerozoítas originários de cada após alguns daqueles acessos.
criptoesquizonte. Com base em dados de obser-
vação, verificou-se que há variedades intra-espe- PATOGENIA
cíficas que produzem infecções com períodos de
incubação longos em algumas e curtos em outras. Em decorrência das ações parasitárias dos plas-
módios sobre o organismo, resultam alterações
Relação Entre o Ciclo Eritrocitário mórbidas celulares, teciduais e humorais, incluin-
e a Periodicidade dos Acessos do nestas as modificações bioquímicas e a forma-
ção de anticorpos. Essas alterações mórbidas po-
Maláricos dem ser evidenciadas por meio dos recursos da
Na sintomatologia dos casos típicos de malá- anatomia patológica, da bioquímica e da imuno-
ria distinguem-se um período febril, conhecido logia.
como acesso malárico, com a duração de 1 a 6 Teoricamente, as primeiras alterações mórbi-
horas, e um apirético, mais longo, variável entre das provocadas pelos plasmódios no organismo
as três formas da doença. resultam do parasitismo das células hepáticas,
Assim, na curva térmica da terçã benigna há que são destruídas por suas formas criptozóicas,
uma ascensão da temperatura, repetindo-se a ele- seguindo-se a elas o acometimento de outras
vação de 48 em 48 horas; na terçã maligna o espa- células do fígado, nas quais se processa o ciclo
ço de tempo entre os acessos é menor, variando exoeritrocitário.
entre 36 e 48 horas e, na quartã, de 72 em 72 ho- As lesões provocadas pelas formas pré e exoe-
ras. ritrocitárias ainda não são bem conhecidas e é
Desse modo, verifica-se que nas terçãs os possível que não cheguem a ser muito intensas, a
acessos se repetem com um dia de intervalo e na ponto de se traduzirem por sintomas.
16 r Parasitologia e Micologia Humana

Com a penetração dos merozoítas nas he- Há destruição por lise das hemácias não-para-
mácias, inicia-se o processo mórbido do qual re- sitadas, atribuindo-se esse fato a sua auto-agluti-
sulta a transformação da sua hemoglobina em nação, resultante de fatores obscuros e à hiper-
hemozoína e, em seguida, a sua própria destrui- sensibilidade de sua membrana envoltório às li-
ção. Duas conseqüências advêm de imediato da sotecitinas plasmáticas.
destruição das hemácias parasitadas: a queda do Durante o acesso malárico, em conseqüência
seu número e do teor da hemoglobina e desen- da fragmentação da hemácia durante a esquizo-
cadeamento do acesso malárico. gonia ou da hemólise de que acabamos de tratar,
A hematimetria após o acesso malárico pode liberta-se no plasma a oxiemoglobina e a me-
revelar uma sensível redução do número de he- temoglobina, que são fixadas pelos elementos do
mácias por mm3, que é acompanhada por pro- sistema monocítico fagocitário ou, no caso de
porcional queda do teor de hemoglobina. Com a excessiva produção, parte é eliminada pelos rins.
sucessão dos acessos, instala-se uma anemia, em Em casos graves, a hematina formada a partir
geral dos tipos normocrômico e normocítico, mais da hemoglobina combina-se com a albumina sé-
grave na terçã maligna, devido à elevada parasi- rica, originando a metalbumina, que não atra-
temia observada nessa forma clínica da malária. vessa os rins.
O acesso malárico resultante da abrupta liber- Com a sucessão dos acessos maláricos no ata-
tação no plasma circulante das proteínas da he- que primário ou nas recaídas, há hiperprolifera-
mácia desintegrada, dos merozoítas e da hemo- ção das células do sistema monocítico fagocitário
zoína, além da pirexia que domina o quadro sin- de vários órgãos que exercem ativa fagocitose
tomático, provoca a mobilização dos leucócitos, dos parasitos transitoriamente livres no final das
como aumento relativo dos monócitos. Inicia-se esquizogonias, da hemozoína, enfim, dos resíduos
intensa fagocitose do pigmento malárico não só hemáticos.
por parte dos leucócitos, como pelas células en- Há então deposição da hemozoína e de um
doteliais que interiormente atapetam os capila- outro pigmento, a hemossiderina, nos tecidos
res. que são invadidos por células conjuntivas que,
Surgem, concomitantemente, alterações na vas- ao final, constituem os extensos processos fibró-
cularização visceral e nos componentes humorais, ticos das fases adiantadas da malária.
sempre mais acentuadas nas infecções pelo Plasmo- A congestão e a proliferação das células con-
dium falciparum. juntivas nos tecidos condicionam o aumento de
Nos capilares dos órgãos internos acumulam- certos órgãos, sendo bem conhecidas na malária
se as hemácias parasitadas e, decorrente de sua a espleno e a hepatomegalia.
auto-aglutinação e aderência ao endotélio da
parede do vaso, o fluxo sanguíneo altera-se, pro- SINTOMATOLOGIA
vocando congestão e anóxia tecidual.
No estudo da sintomatologia da malária deve-
O estudo histopatológico das lesões dos casos
mos observar os sinais prodrômicos da doença,
fatais de malária, em sua quase totalidade provo-
os acessos febris do ataque primário e das recaí-
cados pelo P. falciparum, mostra os capilares
das e as manifestações patológicas na fase crôni-
cheios de hemácias parasitadas, reconhecidas pe-
ca, resultantes das alterações mórbidas surgidas
la cor escura da hemozoína, sugerindo a existên-
no organismo no decorrer dos acessos maláricos
cia de trombose e infarto, bem como de hemor-
precedentes.
ragias puntiformes.
Melhor seria considerar na malária uma forma
Essas alterações nos pequenos vasos e capila-
aguda e outra crônica, esta secundária, cada qual
res viscerais podem ser encontradas no baço, fí-
com seus sintomas peculiares, como em outras
gado, medula óssea, cérebro, coração, cápsulas
doenças parasitárias.
supra-renais, rins e outros órgãos, explicando a
diversidade dos sintomas da malária. Sintomas Premonitórios
Concomitantemente às alterações mórbidas
que acabamos de assinalar, surgem modificações Os sinais prodrômicos ou premonitórios da
humorais não menos importantes. malária são imprecisos e, em geral, tão discretos
Mal ria Humana r 16

que podem passar despercebidos. São: sensação doente acusa sensação de alívio, se bem que
de cansaço, mal-estar, cefaléias, náuseas e uma acompanhada de lassidão.
febrícula irregular que, em conjunto, constituem
os sintomas prodrômicos da malária, que ja eram Formas Simples, Duplas e Triplas
conhecidos desde o início deste século. da Malária
Acesso Malárico Na maioria dos casos os acessos maláricos, re-
petindo-se inicialmente com irregularidade, pas-
O acesso malárico compreende três períodos,
sam a oferecer regular periodicidade.
a saber:
Na terçã benigna, de 48 em 48 horas, na
a) período do frio
quartã, de 72 em 72 horas e na terçã maligna, de
b) período do calor
36 a 48 em 36 a 48, em concordância com o an-
c) período da sudorese damento e o término das respectivas esquizogo-
O período do frio corresponde à fase final das nias eritrocitárias.
esquizogonias eritrocitárias, das quais resultam
Por determinismo obscuro podem ocorrer no
os elementos desencadeadores do choque he-
mesmo indivíduo infectado pelo P. vivax ou P. fal-
moclássico correspondente ao acesso malárico.
ciparum duas linhagens do parasito, cada uma
Na terçã benigna e na quartã, o período do com suas esquizogonias independentes e crono-
frio inicia-se abruptamente, durando de 30 min logicamente autônomas. Por este fato o doente
a 1 hora, fazendo o doente tiritar e agasalhar-se. pode ter em um dia o acesso malárico corres-
A esse sintoma, juntam-se outros, como horripi- pondente a uma das esquizogonias e, no imedia-
lação, náuseas e às vezes vômitos. Na terçã ma- to, outro, resultando uma terçã dupla pelo P. vi-
ligna, o período do frio é em geral muito curto vax ou P. falciparum, recebendo esta forma o no-
ou mesmo inexistente. me de cotidiana. Nas infecções pelo P. malariae,
Neste período a sensação de frio é subjetiva, pode haver uma quartã dupla ou uma tripla, nes-
pois o termômetro já acusa temperaturas superior te caso, com acessos maláricos diários.
a 38°C. O acesso malárico assemelha-se a uma
súbita bacteriemia ou a um choque provocado Formas Mistas
pela introdução por via venosa de um medica-
mento contendo pirogênio. Embora raras, existem, oferecendo um quadro
Passado esse período de frio, inicia-se o se- clínico bizarro, decorrente da independência das
gundo, cujo sintoma é inicialmente de intenso esquizogonias das espécies associadas. Nas áreas
calor que leva o doente a se despojar das cober- malarígenas ocorre, principalmente, a associação
tas. A temperatura do doente, salvo nas formas do P. vivax com o P. falciparum, sendo raríssimas as
ditas álgidas, continua a subir até atingir 41°C, associações de uma destas espécies com o P. ma-
quando, então, a fácies torna-se congesta, os lariae.
olhos brilhantes, o pulso cheio, a pele seca.
Nesta fase, ainda persistem os vômitos e a ce- Sintomas da Malária na Fase
faléia e não é raro ocorrerem pequenas hemor- Crônica
ragias conjuntivais. Nas infecções pelo P. vivax e
P. malariae, o período de calor é de 2 a 3 horas; Em casos em que se pode observar a evolução
pelo P. falciparum de 3 a 5 horas. Em casos que clínica da malária sem tratamento específico, os
evoluem para as formas perniciosas, é no perío- acessos maláricos repetem-se periodicamente du-
do de calor que se instalam os sintomas de maior rante algumas semanas, para então cessarem de
comprometimento visceral, como manifestações modo definitivo; fato muito raro. Em outros ca-
cardíacas, cerebrais, digestivas e outras. sos podem cessar transitoriamente durante se-
Nos casos de evolução mais favorável, passa- manas ou meses, para depois reiniciarem as re-
do o paroxismo febril, a temperatura cai em cri- caídas.
se, desvanecem-se os sintomas agudos e estabe- Nas infecções pelo P. vivax e P. malariae, em-
lece-se uma sudorese copiosa, quando, então, o bora com intensos acessos maláricos, as formas
17 r Parasitologia e Micologia Humana

perniciosas são raras e, apesar de debilitante, a por serem mais intensos em determinados casos,
doença não é fatal. sugerem os nomes para as diversas formas parti-
Nos casos em que o agente da doença é o P. culares da malária.
falciparum, em geral o quadro clínico é grave, Não são raros os casos fatais de malária pro-
mormente se provocado por certas variedades vocados pelo P. falciparum, principalmente devi-
do parasito existentes nas áreas intertropicais, do à resistência à ação dos antimaláricos que al-
como grande parte do nosso país. O nome terçã gumas raças desenvolvem nas áreas malarígenas.
maligna, dado a esta forma da malária, decorre Na quartã e na terçã benignas os sintomas do
da tendência para a forma perniciosa, não raro acesso malárico podem ser intensos, porém de
fatal. No doente que não sucumbe ao ataque menor duração que os da terçã maligna e por
primário da terçã maligna, as recaídas advêm a isso não são fatais.
curto prazo, ao contrário do que se observa na A gravidade da terçã benigna e da quartã de-
terçã benigna e na quartã. corre das alterações viscerais que evoluem ao
Durante a fase clínica dos acessos do ataque longo dos acessos primários e das recaídas, tor-
primário e das recaídas e ainda na fase latente da nado o doente mais vulnerável a infecções asso-
infecção com parasitemia, não cessa a atividade ciadas.
fagocitária do sistema monocítico fagocitário e a
Na quartã, vários autores têm observado ca-
participação do tecido conjuntivo, resultando em
sos de nefrose lipídica, não se sabendo em defi-
acentuada deposição do pigmento malárico e
nitivo qual a relação entre esse tipo de lesão de-
formação cirrótica nos órgãos internos, principal-
generativa e o parasitismo pelo P. malariae.
mente no baço e no fígado.
Em outros órgãos, como a medula óssea, rins, Recaídas
cápsulas supra-renais, cérebro, também se esta-
belecem alterações semelhantes. Em malariologia, considera-se recaída o retor-
O conjunto dos processos mórbidos assinala- no dos sintomas característicos da malária em um
dos resulta dos danos causados ao organismo du- indivíduo aparentemente curado, porém ainda
rante a fase dos acessos, bem como nas latências infectado pelo plasmódio.
mais ou menos prolongadas, ou mesmo após a Reinfecção é a invasão do indivíduo, já cura-
vigência do parasitismo. Ressaltam, entre os sin- do em definitivo, pela mesma espécie de Plas-
tomas, a esplenomegalia e hepatomegalia, ane- modium. Embora incorreto, dá-se o nome de re-
mia, leucopenia, subicterícia, hipotensão arterial infecção ao parasitismo por outra espécie de
e, mais raramente, albuminúria e cilindrúria. Plasmodium, diversa da que produziu a infecção
anterior.
Formas Perniciosas Denomina-se superinfecção a infecção de um
Estas formas são exclusivas das infecções pelo indivíduo já infectado pela mesma espécie de
P. falciparum, nas quais se observam as mais ele- Plasmodium ou por outra.
vadas parasitemias e o mais intenso embolismo Nas áreas endêmicas da malária podem advir
visceral, provocando colapso vascular e acentua- essas três eventualidades: as recaídas, as reinfec-
da anóxia tecidual. ções e as superinfecções.
Nessa forma, os acessos febris são muito lon- Assim, um indivíduo curado da terçã benigna
gos e os períodos apiréticos curtos, de modo a se pode ser reinfectado tanto pelo P. vivax quanto
observar, em certos casos, um tipo de febre qua- pelo P. malariae e P. falciparum. O exemplo cita-
se contínua. Em muitos casos os sintomas nervo- do aplica-se a todas as espécies de plasmódios
sos de vários tipos, caracterizando as formas ce- do homem, não só no caso de reinfecções, como
rebral, comatosa e álgica, dominam o quadro no de superinfecções.
mórbido. Em outros, dominam as perturbações As recaídas no parasitismo pelo P. vivax e P.
cardiovasculares (forma cardíaca), os fenômenos malariae podem ser a curto prazo, entre 15 e 30
hemorrágicos (forma hemorrágica), os vômitos dias, e longo, após 30 dias, estendendo-se por
biliosos (forma biliosa) ou outros sintomas que, meses e mesmo anos.
Mal ria Humana r 171

Na terçã maligna as recaídas são sempre a vação de Nabarro e Edward de uma criança, em
curto prazo, em 1 mês ou um pouco mais. Londres, que, tendo recebido sangue de seu pai,
As recaídas na terçã benigna e na quartã têm faleceu de quartã. O pai havia residido no Ceilão
sua explicação na persistência da fase exoeritro- 12 anos antes e jamais havia tido acessos de
citária que mantém o parasitismo latente pelo P. malária.
vivax e P. malariae, de cuja fase se originam os A malária induzida com fins terapêuticos foi
metacriptomerozoítas. Estes invadem as hemá- preconizada por Wagner von Jaureg e teve largo
cias e evoluem produzindo, ao final da esquizo- emprego no tratamento da sífilis nervosa em to-
gonia, os elementos desencadeadores do acesso dos os países, sendo conhecida como malariote-
malárico. rapia.
Na terçã maligna, por não se ter comprovado a A inoculação do sangue pode ser feita por vias
persistência da fase hepática além do ciclo pré- endovenosa ou subcutânea. Para a venosa, apli-
eritrocitário, no qual se esgota a formação dos ca-se de 0,5 a 2 ml de sangue e para a subcutânea,
criptomerozoítas, o parasitismo latente é mantido de 2 a 4 ml, como recomendam Nocht e Mayer
em um limite crítico pelas esquizogonias eritrocitá- (1938).
rias no sangue da capilarização visceral.
Presume-se que, em qualquer uma das for- O período de incubação é de 8 a 10 dias, po-
mas clínicas, as recaídas desencadeiam-se como dendo encurtar, porém, no caso de se aumentar
resultado da queda da resistência do indivíduo, a quantidade de sangue inoculado.
decorrente da fadiga, má alimentação, doenças O sangue para a inoculação pode ser coleta-
intercorrentes, raios X, choques alérgicos, inter- do diretamente do doente doador e, em seguida,
venções cirúrgicas, traumatismos etc. injetado no receptor ou, então, pode ser conser-
As infecções assintomáticas, inaparentes, que vado a baixas temperaturas (-80°C) durante me-
antecedem as recaídas, segundo a maioria dos ses, sem perda da infecciosidade.
autores, são mantidas por um certo grau de imu- A gravidade da malária provocada pela inocu-
nidade, na vigência do parasitismo, que se deno- lação de sangue depende da quantidade deste,
mina imunidade lábil. como acontece nos casos fatais, resultantes das
Em geral, as manifestações sintomáticas das transfusões com finalidade terapêutica. Há, en-
recaídas são mais atenuadas que nos acessos pri- tretanto, raças de alta virulência que, mesmo nas
mários e mais rápida a resposta favorável à tera- doses preconizadas na malarioterapia da sífilis,
pêutica com os antimaláricos, salvo nas infec- produziram infecções fatais (Comissão de Malá-
ções determinadas pelas raças de Plasmodium ria da Sociedade das Nações, 1933).
que se tornaram resistentes. Na malarioterapia, o curso da infecção é em
geral benigno e prontamente detido com o uso
Malária Produzida por Inoculação de poucas doses dos antimaláricos comuns, salvo
de Sangue quando há resistência ao medicamento.
A introdução de sangue contendo plasmódios Fatos bem conhecidos em malarioterapia são:
em uma pessoa não-imune, determina uma in- a imunidade que os doentes adquirem com a re-
fecção malárica semelhante, porém não igual, à petição das inoculações da mesma espécie e raça
resultante da picada de anofelinos infectados. e a ausência das recaídas quando são usados o P.
vivax e P. malariae. Desse fato, infere-se a irrever-
Esse tipo de malária pode ser observado nas
sibilidade das formas eritrocitárias para as exoeri-
seguintes circunstâncias: a) acidentalmente, por
trocitárias.
transfusão de sangue de doador inaparentemen-
te infectado; b) deliberadamente, para fins expe- Nas infecções pelo P. falciparum pode haver
rimentais ou terapêuticos. exacerbação sintomática nos casos não devida-
Há referências na literatura de casos graves ou mente medicados.
mesmo fatais de malária em conseqüência da As infecções por espécies de primatas são be-
transfusão de sangue de indivíduos aparente- nignas, muitas vezes fugazes, o que não impede
mente sadios. Manson-Bahr (1964) cita a obser- o desenvolvimento da imunidade.
17 r Parasitologia e Micologia Humana

No sangue dos indivíduos desenvolvem-se to- uma concentração estimada em 20 vezes a des-
das as formas evolutivas e os acessos podem as- te. Sua adoção propicia economia de tempo na
sumir uma freqüência cotidiana. hematoscopia e aumenta a possibilidade de se
Os gametócitos, embora não tão freqüentes detectar o parasito em casos em que a microsco-
quanto nas infecções resultantes da infecção pe- pia dos esfregaços é negativa.
los esporozoítas, são capazes de infectar anofeli- A tomada de sangue para diagnóstico deve ser
nos, tanto experimentalmente quanto em condi- feita durante o paroxismo febril, momento em
ções naturais. Neste particular, Nocht e Mayer que é mais alta a parasitemia, por coincidir com
(1938) citam uma pequena epidemia de malária o fim das esquizogonias eritrocitárias.
em Huesca (Espanha) na periferia de um hospi- Ao se proceder a microscopia, a regra é asso-
tal, onde se fazia malarioterapia. ciar os caracteres morfológicos de vários elemen-
tos parasitários, a cor e o aspecto da hemozoína
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL e as alterações das hemácias parasitadas para es-
tabelecer a identificação de cada espécie. Para
Na prática, o diagnóstico laboratorial da ma- isso, diversos campos microscópicos do esfrega-
lária consiste na evidenciação, ao exame micros- ço ou da gota espessa devem ser examinados.
cópico, do seu agente etiológico no sangue do A identificação da espécie de Plasmodium no
doente. esfregaço não oferece dificuldade.
Várias reações imunológicas foram propostas, O exame microscópico da gota espessa mos-
porém, ainda que importantes do ponto de vista tra os leucócitos bem diferenciados sobre um
teórico, não são preconizadas, porque, além de fundo azulado e entre eles, nos casos positivos,
trabalhosas, não são mais eficazes que a hema- os elementos parasitários com seu citoplasma
toscopia. azul e a cromatina nuclear vermelha. As formas
Habitualmente, a pesquisa do Plasmodium no parasitárias mais evoluídas apresentam os grânu-
sangue é feita em esfregaço ou preparação dis- los de hemozoína que, por sua cor castanha ou
tendida e em gota espessa (ver Técnicas Parasito- negra, ressaltam o parasito no campo microscó-
lógicas). pico azul-claro.
É relevante na clínica a identificação de cada Se na preparação só se observam pequenos
uma das espécies de Plasmodium, uma vez que a anéis de contorno regular, alguns deles com dois
patologia de cada uma das formas da malária, ao pontos vermelhos de cromatina, presupõe-se o
lado dos caracteres comuns a todas elas, possui diagnóstico de P. falciparum e, quando a estes
os que lhe são peculiares no tocante ao seu curso anéis se associa o gametócito recurvado em for-
e gravidade, às recaídas e à terapêutica. ma de banana, não haverá dúvidas quanto à
No esfregaço corado por um dos métodos de identificação desta espécie.
coloração usados em hematologia, a identifica- No caso de serem observados anéis grandes
ção de cada uma das espécies baseia-se nos seus juntamente com elementos parasitários maiores
respectivos aspectos morfológicos, na cor e na de morfologia irregular, possuindo um ou mais
forma da hemozoína bem como nas alterações núcleos e um ou outro grão bacilóide de hemo-
da hemácia parasitada. zoína, pensa-se em P. vivax. A identificação do P.
Na gota espessa, corada pelo método de Giem- vivax será definitiva quando forem encontrados
sa sem prévia fixação, o reconhecimento das es- os gametócitos grandes, globulóides, com hemo-
pécies de Plasmodium exige maior experiência, zoína castanha e seu único núcleo, ou as formas
embora não apareçam as hemácias, e o contorno de rosácea com seus merozoítas grandes em nú-
do parasito não se apresente tão nítido quanto em mero acima de 12.
sua posição intracelular. O reconhecimento do P. malariae na gota es-
O esfregaço diagnostica a maioria dos casos pessa será feito por exclusão dos caracteres do P.
de malária, desde que a coleta do sangue seja fei- vivax e do P. falciparum. Os esquizontes são de
ta preferencialmente durante o acesso. contorno regular, presentes no sangue periférico
A gota espessa tem vantagem sobre o esfrega- em todas as seqüências evolutivas, o pigmento é
ço por oferecer, para cada campo microscópico, castanho-escuro ou negro com tom esverdeado,
Mal ria Humana r 173

os gametócitos são globóides e pequenos, as ro- ordem clínica devem ser tomadas, para que o
sáceas pequenas com menos de 12 merozoítas, doente receba o tratamento sintomático e os cui-
menores que os do P. falciparum. dados de enfermagem exigidos nas doenças in-
Recurso importante para a diferenciação das fecciosas graves.
espécies de Plasmodium do homem é o reconhe- O tratamento específico da malária teve iní-
cimento da ocorrência no sangue periférico de cio com o uso empírico do pó do córtex da qui-
todas as formas evolutivas nos casos de terçã be- neira, no século XVII, pelos colonizadores espa-
nigna e de quartã, enquanto na terçã maligna, nhóis no Peru, a quem os índios transmitiram o
salvo em casos gravíssimos, só aparecem os tro- conhecimento das propriedades medicamento-
fozoítas ou estes acompanhados pelos gametóci- sas desse vegetal nativo em algumas regiões da
tos característicos do P. falciparum. No caso de Cordilheira dos Andes.
aparecerem as rosáceas desta espécie, a identifi- Os historiadores relatam que a introdução do
cação é estabelecida pelas pequenas dimensões “pó da quina” na Europa foi feita em 1639 pelo
de seus merozoítas, bem menores que os do P. Conde de Chinchon e que, após esta data, inú-
malariae e do P. vivax. meras tentativas para cultura da árvore da quina
Quando houver forte suspeita clínica de malá- naquele continente foram frustradas, tendo-se
ria, em que a gota espessa for negativa, recomen- obtido só muito mais tarde sua aclimatação fora
da-se o exame da medula óssea. O material é co- da América, porém na Indonésia.
letado por punção esternal e examinado em es- Mais de um século se passou para que De la
fregaço e gota espessa, após coloração pelos mé- Garaye (1746) e Furcroy (1792) isolassem os alca-
todos habituais. A coleta é feita com prévia an- lóides da quina e, ainda assim, em estado impuro.
ti-sepsia local e pequena infiltração com anestési- Desta mistura, o médico português Antonio Ber-
co, usando-se uma agulha para punções subocci- nadino Gomes (1810) separou uma substância
pital ou lombar. Alguns autores ingleses consegui- cristalina que denominou “cinchonino”. Em 1820
ram diagnosticar por esse meio muitos casos de Pelletier e Caventou separaram no “cinchonino”
malária, nos quais a hematoscopia havia sido ne- de Gomes, dois alcalóides: a cinchonina e a qui-
gativa. nina.
Há alguns clínicos que preconizam recursos di- De 1820 até 1926 o único medicamento es-
versos para favorecer o desencadeamento da pa- pecífico para o tratamento da malária foi a quini-
rasitemia nos casos em que há suspeita de latên- na, sob a forma de um dos seus diferentes sais.
cia da infecção malárica. Destes recursos, uns são Em 1926, os químicos da I. G. Farbenindustrie
de ordem física, tais como massagem ou aplica- sintetizaram a plasmoquina e, em 1932, a mepa-
ção de frio ou calor sobre o baço e ginástica; ou- crina, que foi no mesmo ano patenteada com o
tros, medicamentos, como injeções de adrenalina nome de Atebrina. Daí em diante foram sinteti-
ou substâncias pirogênicas, entre elas a vacina an- zadas e experimentadas dezenas de substâncias,
titífica. das quais foram selecionados os poderosos anti-
Na experiência dos autores, esses recursos maláricos usados atualmente.
não se mostraram eficazes. Em 1939, ainda na I. G. Farbenindustrie, An-
dersag et al. sintetizaram a primeira 4-aminoqui-
TRATAMENTO nolina, que recebeu o nome de cloroquina; em
1944, a paludrina, sintetizada pelo Imperial Che-
A instituição da terapêutica da malária pressu- mical Industries, da Inglaterra; a amodiaquina
põe o conhecimento da biologia de cada uma (Camoquin) na Parke, Davis & Company, em
das espécies de Plasmodium relacionada com a 1950; a pirimetamina (Daraprim) na Burroghs
patologia da doença. Permanecendo dentro dos Wellcome, em 1951; e, finalmente, o antimalári-
objetivos deste livro, que é uma iniciação ao co- co de depósito, conhecido inicialmente pelo no-
nhecimento da Parasitologia Biomédica, aborda- me de CI-501, sintetizado nos laboratórios de
remos somente o tratamento etiológico, conside- Parke, Davis & Company, em 1951.
rando, entretanto, que, juntamente com o em- Atualmente, na prática médica, segundo a
prego da medicação antimalárica, medidas de orientação de Manson-Bahr (1964) e Mingoia
174 r Parasitologia e Micologia Humana

(1967), os medicamentos antimaláricos são in- ao medicamento, 0,50 g ou 0,65 g dos respecti-
cluídos no seguintes grupos: vos sais de quinina, diariamente durante mais 3
1) Sais e ésteres da quinina (cloridrato, formiato, semanas. Com este esquema obtém-se na primei-
dicloridrato, dibromato, sulfato básico, sulfa- ra semana de tratamento a cura clínica e, nas 3
to neutro, tanato e etilcarbonato de quinina). subseqüentes, a cura radical da maioria dos ca-
2) Mepacrina (cloridrato e metanossulfonato de sos de malária.
mepacrina).
Para as crianças, são usadas as soluções acidu-
3) 4-aminoquinolonas (cloroquina, amodiaquina
ladas, edulcoradas a do sulfato de quinina, ou o
e hidroxicloroquina).
tanato da quinina, ou a euquinina pulverizados e
4) 8-aminoquinolonas (plasmoquina, pentaquina incorporados aos alimentos nas doses proporcio-
e primaquina). nais ao peso do doente.
5) Paludrina (clorguanida ou proguanila).
6) Pirimetiamina (Daraprim, Malocide). A quinina pode curar as infecções provocadas
7) Pamoato de cicloguanila (Camolar). pelas três espécies de Plasmodium, porém não
8) Sulfas (sulfas de absorção e eliminação rápidas evita as recaídas da terçã benigna e da quartã em
e sulfas de efeito prolongado). grande número de casos. Providencialmente, as
Antes do estudo de cada um dos citados gru- recaídas são curadas com o tratamento quinínico
pos, é necessário assinalar que os antimaláricos intensivo, em 1 semana, salvo nos casos em que
são classificados de acordo com as ações clínica se tratam de raças específicas resistentes ao alca-
e parasitária. No primeiro caso: curativos, su- lóide.
pressivos e profiláticos; no segundo: esquizonti-
O uso parenteral da quinina tem decisiva in-
cidas sanguíneos, teciduais (hepáticos primários
dicação como tratamento de emergência nos ca-
e secundários) e gametocitocidas.
sos graves das formas biliosas e cerebrais, coma-
tosas ou não. As injeções intramusculares de al-
Quinina guns sais de quinina são dolorosas e podem pro-
Os sais e ésteres da quinina, que foram usa- vocar forte reação nos pontos da aplicação, dan-
dos no tratamento da malária como único trata- do-se preferência à via endovenosa. A dose para
mento conhecido durante mais de um século, cada injeção é de 0,65 g de cloridrato ou diclori-
caíram subitamente em desuso em 1932 com o drato de quinina dissolvidas em um mínimo de
advento dos antimaláricos de síntese, a partir da 20 ml de solução fisiológica ou de soro glicosa-
mepacrina, inicialmente denominada atebrina. do. A introdução do medicamento deve ser gota
Hoje, em conseqüência do aparecimento de a gota, lentamente, e a dose máxima em 24 ho-
raças de plasmódios resistentes aos modernos ras é de 3 injeções. O sal de quinina, previamen-
quimioterápicos, a quinina voltou a ser usada te dissolvido em pequena porção de água desti-
nos casos em que estes não debelam os acessos lada, é esterilizado por simples fervura em tubos
maláricos, tanto os primários quanto os das recaí- de ensaio estéreis e depois incorporado à solu-
das. ção fisiológica ou soro glicosado. É de lamentar
Pode ser usada por vias oral, intramuscular e que não haja no mercado farmacêutico brasilei-
endovenosa. Por via oral, são preferidos o clori- ro os sais de quinina, secos e já esterilizados, em
drato, o sulfato, o etilcarbonato e o tanato, em frascos ou âmpolas, para o uso imediato.
comprimidos, drágeas ou cápsulas, para adultos; Na França existe comercializado o formiato
e para crianças, o sulfato de quinina em soluções de quinina (Quinoforme) para ser usado em in-
aciduladas pelos ácidos sulfúrico ou fosfórico ou, jeções intramusculares profundas.
no caso do tanato e etilcarbonato (euquinina),
pulverizados. Para esclarecer o valor terapêutico das in-
Em adultos aplica-se, para tratamento dos jeções de quinina lembramos os seguintes con-
acessos, 0,50 g de cloridrato de quinina ou 0,65 ceitos de Manson-Bahr (1964): “Quinine is the
g de sulfato básico de quinina, 3 vezes/dia du- most effective drug for intravenous injection” e “It
rante 7 dias e depois, não havendo intolerância is alife-saving drug in acute malaria”.
Mal ria Humana r 175

Mepacrina Outro medicamento do grupo das 4-amino-


quinolonas é a amodiaquina, considerado mais
No Brasil é conhecido pelos nomes comerciais eficaz que a cloroquina, bastando uma única
de Atebrina e Metoquina. Tem indicação como dose de 0,6 g para impedir a sucessão dos aces-
poderoso esquizonticida sanguíneo em todas as sos maláricos, mas não para produzir a cura radi-
formas etiológicas da malária, sendo muito eficaz cal. Esta poderá ser obtida com a dose semanal
na terçã maligna. de 0,6 g em uma série de 4 semanas.
O tratamento supressivo dos acessos malári-
Além da cloroquina e da amodiaquina há a
cos para uma pessoa adulta é de 3 comprimidos
hidroxicloroquina prescrita em esquemas seme-
do cloridrato de mepacrina, de 0,10 g/dia duran-
lhantes aos da cloroquina.
te 57 dias. Para crianças, as doses variam com o
seu respectivo peso. É inegável a eficácia da me-
pacrina e, de acordo com grande número de ma- 8-Aminoquinolonas
lariologistas, é superior à quinina na prevenção
das recaídas, nas infecções pelo P. falciparum. Destas, a plasmoquina sintetizada no I. G. Far-
Por não atuar sobre as formas exoeritrocitárias benindutrie em 1926 foi o ponto de partida para
do P. vivax e do P. malariae, não impede as re- outras, consideradas menos tóxicas que ela, co-
caídas da terçã benigna e da quartã. mo a pentaquina e a primaquina.
Como esquizonticidas sanguíneos têm valor
4-Aminoquinolonas limitado, porém agem sobre os gametócitos dos
três agentes da malária sobre as formas pré-eri-
Neste grupo se encontram os mais importan-
trocitárias de P. falciparum e as exoeritrocitárias
tes esquizonticidas sanguíneos, não só pela efi-
da P. vivax e P. malariae. Daí sua plena indicação
cácia, como pela curta duração do tratamento e
para a consecução da cura radical da malária e o
reduzidos efeitos colaterais.
impedimento da infecção antes de se completar
Há diferentes esquemas para o uso da cloro-
a fase hepática primária.
quina, dos quais citaremos dois. Um deles em
grandes doses, assim divididas: no primeiro dia Há malariologistas que preferem usar isolada-
uma dose inicial de 1 g do medicamento e 6 ho- mente cada uma das 8-aminoquinolonas, para a
ras após, 0,5 g; no segundo e terceiro dias, 0,5 g. obtenção da cura radical, outros preferem asso-
Outro esquema, com pequenas doses: no primei- ciá-las à quinina ou a uma das 4-aminoquinolo-
ro dia, 0,5 g, como dose inicial e, 6 horas depois, nas.
0,25 g; seguindo o segundo, terceiro e quarto dias Atualmente a preferência cabe à primaquina
com 0,25 g. que é usada em associação com a quinina, a clo-
Não havendo resistência medicamentosa, a roquina e a amodiaquina.
cura clínica dos acessos nas infecções por qual- Nos serviços brasileiros de combate à malária,
quer uma das três formas da malária é assegura- vem-se usando uma mistura em comprimidos da
da por 80 horas. amodiaquina com a primaquina e há no merca-
O emprego de 0,5 g de cloroquina 1 vez/se- do brasileiro um medicamento com esta associa-
mana durante 4 semanas, produz a cura radical ção (Camoprin).
da quase totalidade das infecções pelo P. falcipa-
rum, porém não impede as recaídas pelas do P. Todos os autores insistem na contra-indicação
vivax e P. malariae, que já não agem sobre suas do uso associado ou em continuidade de qual-
formas teciduais hepáticas. quer uma das 8-aminoquinolonas com a mepa-
Em casos graves, comatosos ou com graves crina, em virtude do reforço de suas ações tóxi-
sintomas nervosos, pode-se usar o medicamento cas.
por via intravenosa na dose de 10 mg/kg. Assim, Com as 8-aminoquinolonas são gametocitoci-
uma pessoa de 60 kg receberia uma injeção de das, sua importância na profilaxia da malária tor-
12 ml de uma solução do medicamento a 5%. na-se patente, pois o ciclo esporogônico dos plas-
Há no mercado farmacêutico este medicamento módios, não se realizando nos anofelinos, impede
em ampolas de 1 ml prontas para uso imediato. a propagação da doença.
176 r Parasitologia e Micologia Humana

Paludrina Pamoato de Cicloguanila ou


Diidrotriazina
Tem ação esquizonticida sanguínea compará-
vel à da quinina, porém seu valor como medica- Anteriormente denominado CI-501. É um an-
mento antimalárico decorre de sua ação sobre as timalárico de depósito, usado em injeções aquo-
formas pré-eritrocitárias do P. falciparum, que sas ou oleosas, cuja absorção é muito lenta. A
são destruídas antes de iniciar o ciclo eritrocitá- dose única de 5 mg/kg de peso do indivíduo o
rio. protege contra infecções pelo P. vivax e P. falcipa-
rum, por um período de 6 meses. Este medica-
Esse fármaco tem valor profilático por desvita- mento já foi introduzido na prática como agente
lizar os gametócitos, impedindo o ciclo esporo- terapêutico curativo ou protetor. Seu nome co-
gônico dos plasmódios nos anofelinos vetores do mercial é Camolar.
Plasmodium.
A ação esquizonticida é mais enérgica sobre P. Sulfas
falciparum, que sobre P. vivax e P. malariae.
Das sulfas de eliminação rápida preconizadas
Para o tratamento da terçã maligna a dose é para tratamento da malária, em casos de resis-
0,1 g, 3 vezes/dia durante 8 dias e, para a terçã tência aos antimaláricos habituais, têm sido usa-
benigna e quartã, 0,25 g 3 vezes/dia também du- das com algum êxito a sulfadiazina e o sulfatiazol
rante 8 dias. nas doses recomendadas para as infecções bac-
terianas e, das de eliminação lenta, a sulformeto-
De todos os antimaláricos, a paludrina é o xina em doses semanais de 0,5 g.
menos tóxico, porém de ação mais lenta e com o
Geralmente, são usadas em associação com a
inconveniente de produzir com mais freqüência
pirimetamina, porém, só em casos clínicos de
cepas de Plasmodium a ela resistentes.
comprovada resistência medicamentosa aos di-
No Brasil, o emprego de paludrina, também ferentes antimaláricos.
denominada clorguanida e proguanila, tem sido
muito limitado. PROFILAXIA
Na profilaxia da malária, as medidas a serem
Pirimetamina tomadas incidem no homem portador das for-
mas infectantes, nos anofelinos vetores ou trans-
No Brasil é conhecida pelo nome comercial missores e no homem receptor da infecção.
de Daraprim. Embora certos primatas possam ser infectados
A eficácia deste medicamento antimalárico por espécies humanas de Plasmodium, na práti-
varia com relação às diferentes raças intra-espe- ca, é o homem o portador e a fonte de propaga-
cíficas de Plasmodium. Sua ação sobre as formas ção da malária.
eritrocitárias é menos intensa que a das 4-amino- O indivíduo em cujo sangue se encontram os
quinolonas, porém impede a evolução dos ga- gametócitos é denominado gametóforo e é nele
metócitos nos anofelinos. Acredita-se que impe- que os anofelinos se infectam.
ça a evolução das formas pré-eritrocitárias de P. Os gametóforos devem ser protegidos contra
falciparum. Produz com freqüência raças resis- a picada dos anofelinos e tratados com um medi-
tentes e, fato difícil de explicar, pode haver resis- camento gametocitocida como a plasmoquina,
tência cruzada com a paludrina, resistência que primaquina, paludrina ou pirimetamina. Estas
é conservada mesmo após a esporogonia nos substâncias nem sempre destroem de imediato
transmissores. Tem uso limitado no Brasil por os gametócitos, porém impedem a evolução es-
não ser muito eficaz como agente esquizonticida porogônica nos anofelinos.
e não ser superior à primaquina em sua ação so- A profilaxia da malária baseia-se no combate
bre as formas exoeritrocitárias de P. vivax e P. ma- aos anofelinos, com vistas a resultados eficazes e
lariae. duradouros.
Mal ria Humana r 177

O combate aos transmissores exige providên- citárias dos plasmódios (primaquina, paludrina,
cias sanitárias de dois tipos: um, visando à elimi- pirimetamina), principalmente os fármacos deri-
nação das formas adultas e larvárias dos anofeli- vados das 8-aminoquinolonas que também agem
nos por meio de inseticidas de ação imediata ou sobre os gametócitos.
residual; outro, compreendendo as obras de sa- O pamoato de cicloguanila ou diidrotriazina,
neamento a cargo dos serviços de engenharia sa- pelas suas características, é o mais eficaz quimio-
nitária. terápico de ação profilática porque uma única
Na Seção 4 deste livro será feito o estudo dos injeção intramuscular protege o homem por um
anofelinos transmissores da malária no Brasil. período de 6 meses. Seu uso tem plena indica-
As medidas de proteção do homem contra a ção na prevenção da doença nos trabalhadores
infecção malárica são a quimioprofilaxia, a tela- que são deslocados para áreas malarígenas.
gem das moradias e o uso de repelentes contra Os repelentes empregados contra os transmis-
os anofelinos. sores são o dimetil-ftalato (DMF) e o dietil-ftalato
Na quimioprofilaxia, preconizam-se os anti- (DEF) que são aspergidos nas áreas descobertas
maláricos ativos contra as formas pré e exoeritro- do corpo.
25
Ciliophora. B. coli e
Balantidiose

iliop ora ie alanti iose


Os protozoários do sub-ramo Ciliophora, habi- Habitat, Morfologia e Reprodução
tualmente denominados ciliados, caracterizam-se
pela presença de cílios que lhes facultam o movi- Vive no intestino grosso do homem, porém
mento. tem sido encontrado em outros mamíferos, como
Os ciliados são muito abundantes na natureza, o porco, o cavalo e algumas espécies de primatas.
quer como seres de vida livre em meios aquáticos, É provável que em condições habituais seja hos-
quer associativamente com animais, na condição pede do lúmen intestinal, na condição de simples
de comensais, mutualistas ou parasitos. comensal, nutrindo-se das substâncias orgânicas
ali existentes e que, na vigência de certos fatores
Para se ter idéia da abundância destes micror-
biológicos, invada a parede do órgão, passando à
ganismos, é suficiente preparar uma infusão ve-
condição de parasito e patógeno.
getal com água de esgotos ou sarjetas e examinar
após dois dias, quando já é intensa a fauna e a O B. coli pode ser estudado nas suas formas
flora microbianas. vegetativa e cística, a fresco ou em preparações
São também muito abundantes em alguns ani- fixadas e coradas.
mais, como os ciliados comensais do trato diges- É um protozoário grande, com dimensões
tório dos anfíbios e os mutualistas da pança dos muito variáveis, acreditando-se que dentro da
ruminantes. espécie existam raças pequenas, médias e gran-
Há espécies parasitas de patogenicidade va- des. As formas vegetativas são um pouco maiores
riável e, entre elas, Balantidium coli, único cilia- que as císticas, tendo de 30 a 200 mm de compri-
do parasito do homem. mento, são ovóides ou elipsóides, enquanto os
cistos, embora ovóides ou elipsóides, tendem
BALANTIDIUM COLI (MALMSTEN, para a forma esferóide.
1857) STEIN, 1862 No exame a fresco, as formas vegetativas mo-
vem-se ativamente no campo microscópico, gra-
Sua posição sistemática no sub-ramo Ciliopho- ças aos abundantes cílios que lhes revestem a
ra é a seguinte: membrana e aos que se diferenciam na extremi-
Classe Ciliata dade anterior da célula, formando a zona adoral
Subclasse Spirigera de cílios em torno do perístoma, no fundo do
Ordem Heterotrichida qual se encontra o citóstoma (Fig. 1).
Família Bursariidae Pertry, 1853 A fresco, pode-se perceber o movimento de
(Sin. Balantidiidae). ciclose do endoplasma, mobilizando os vacúolos

17
1 r Parasitologia e Micologia Humana

B
A

Fig. 3 – Cisto de B. coli. A – Micronúcleo; B – macronú-


Fig. 1 – Trofozoíta de Balantidium coli. A – Perístoma; B – cleo; C – vacúolo excretor. Original.
citóstoma; C – micronúcleo; D – macronúcleo; E – vacúolo
excretor; F – citoprocto. Original.
Reproduz-se assexuadamente por divisão bi-
digestivos e excretores. Uma atenta microscopia nária transversal. Inicialmente, o macro e o mi-
poderá permitir a observação do citoprocto no cronúcleos dividem-se dois a dois e, em seguida,
momento em que as excreções são expulsas. o citoplasma cinde-se em duas partes, comple-
Em preparações fixadas e coradas, vêem-se a tando a divisão celular. Uma das partes resultan-
membrana celular diferenciada, um macronú- tes da divisão conserva o citóstoma, formando-se
cleo alongado ou reniforme e, na sua concavida- na outra o seu próprio.
de, um micronúcleo puntiforme. Ainda podem A divisão sexuada por conjugação foi descrita
ser vistos os vacúolos digestivos, contendo restos primeiramente por Leuckart e depois por Brumpt,
alimentares, e os excretores, claros, sem elemen- porém é de rara observação e não parece ser indis-
tos figurados (Fig. 2). pensável à perpetuação da espécie.
Os cistos apresentam a membrana mais es-
pessa, bem diferenciada, o citoplasma homogê- BALANTIDIOSE
neo, com ou sem vacúolos e os dois núcleos, ma- Esta protozoose é observada em todos os con-
cro e micronúcleo, respectivamente idênticos tinentes, porém, com maior freqüência nos paí-
aos das formas vegetativas (Fig. 3). ses intertropicais e, nestes, particularmente nas
áreas rurais, onde há criação de suínos. Apesar
de sua ampla distribuição geográfica, a doença
raramente ocorre em epidemias e a maioria dos
casos é esporádica.

Transmissão
A infecção do homem realiza-se por via oral,
ao ingerir com água ou alimentos as formas císti-
cas do protozoário.
O porco é considerado o hospedeiro natural
do parasito, razão pela qual muitos casos são ob-
servados em pessoas que lidam com este animal.
Nos suínos adultos a infecção é geralmente
assintomática, o mesmo não acontecendo nos
Fig. 2 – Microfotografia de B. coli, trofozoíta. Coloração leitões, onde há sintomas disenteriformes evi-
pela hematoxilina, 450 X. Original. dentes.
iliop ora ie alanti iose r 1 1

Patogenia O exame microscópico direto das fezes revela


a presença do B. coli na maioria dos casos.
A patogenia das lesões é, sob alguns aspectos,
comparável à da enterocolite amebiana. As for- Dos métodos de concentração para pesquisa
mas vegetativas livres no lúmen do órgão entram deste protozoário, sugerimos o da sedimentação.
em contato com sua parede e, graças à ação de
uma substância histolítica e fatores ligados às va-
riações da microbiota, nela penetram para pro-
Tratamento
vocar lesões necróticas na intimidade da mucosa
ou, mais profundamente, além da muscularis mu- Para o tratamento da balantidiose são preco-
cosae. nizadas as iodoquinolonas nas doses indicadas
Essas lesões evoluem e, em decorrência do para a amebíase, ou antibióticos do grupo das te-
esfacelo, formam-se úlceras na mucosa do intes- traciclinas, principalmente a oxitetraciclina nas
tino grosso, em geral bem delimitadas das partes doses aconselhadas para as infecções bacteria-
íntegras. nas agudas.
Examinando-se o induto amarelo-escuro que
recobre as úlceras balantidianas de leitões, en- Profilaxia
contram-se inúmeras formas vegetativas do B.
coli e, é razoável inferir-se, que nas lesões do in-
A profilaxia da balantidiose, em princípio, é
testino do homem infectado, o ciliado seja tam-
idêntica à da amebíase e giardíase.
bém abundante.
Como os suínos são os reservatórios do B. coli
Sintomatologia nas localidades onde é observada a doença, de-
Os sintomas são de uma disenteria e este fato vem ser tomadas medidas especiais de controle
justifica a denominação de disenteria balantidia- da poluição fecal por aqueles animais. Desse mo-
na. Dominam o quadro sintomático as evacua- do, a construção das pocilgas deve obedecer a ri-
ções diarréicas com muco e sangue, o tenesmo, gorosas normas de higiene veterinária, de modo
desconforto e dores abdominais, o mal-estar ge- a evitar a contaminação da água e dos alimentos
ral e, por vezes, a febre. usados pelo homem.

Diagnóstico Laboratorial Cuidado especial deve haver no manuseio


pelos magarefes dos intestinos dos suínos abati-
O diagnóstico é feito pelo exame de fezes, dos, não só para não se infectarem pelo B. coli,
onde se evidenciam as formas vegetativas e císti- como para não disseminarem no meio ambiente
cas do parasito. os cistos do parasito.
SEÇÃO 3

HELMINTOLOGIA

1 3
26
Introdução à
Helmintologia. Morfologia,
Biologia e Classificação dos
Trematódeos

Intro ução Helmintologia Morfologia iologia e lassificação os remat eos


A Helmintologia Biomédica é o ramo da Para- 2) Ramo Nemathelminthes Vogt (ver Carus, 1863).
sitologia que tem por objeto o estudo dos vermes
ou helmintos parasitos do homem, assim como RAMO PLATYHELMINTHES
das doenças ocasionadas por eles.
Compreende-se por vermes ou helmintos um São animais parasitos ou de vida livre, com si-
agrupamento heterogêneo de animais pertencen- metria bilateral, formados por um ou mais seg-
tes aos ramos Platyhelminthes e Nemathelminthes, mentos achatados no sentido dorsoventral, po-
artificialmente reunidos por comodidade de estu- rém não-metamerizados, cavidade celômica ocu-
do. pada por tecido mesenquimatoso e tegumento
Alguns autores desaconselham o uso do ter- liso ou guarnecido de cílios.
mo verme pelo risco de confusão com os animais
incluídos na classe dos vermes das classificações Classificação
zoológicas mais antigas ou pela significação am-
bígua com que é usado na linguagem popular. Classe Turbelllaria Ehrenberg, 1831 – Corpo ci-
Esse inconveniente não existe mais devido ao liado. Vida livre. Tubo digestório sem ânus. Unis-
desaparecimento daquela classe, cujas espécies segmentados.
hoje se distribuem em ramos zoológicos diversos
Classe Polystomata Zeder, 1800 – Com vento-
e bem definidos.
sas em número variável. Ectoparasitos de verte-
Embora usado com significação lingüística va- brados aquáticos. Monoxenos. Trato digestório
riada, não há impedimento para empregar o ter- sem ânus. Unissegmentados.
mo verme como sinônimo de helminto, palavra
que em grego significa verme intestinal e que Classe Trematoda Rudolphi, 1808 – Geral-
nós, por extensão, incluímos os extra-intestinais mente com uma ventosa anterior ou oral e uma
como Dracunculus medinensis, parasito do teci- posterior ou acetábulo. Endoparasitos de verte-
do celular subcutâneo, Wuchereria bancrofti, brados. Heteroxenos. Trato digestório sem ânus.
dos linfáticos, e outros. Teremos assim vermes ou Unissegmentados.
helmintos, verminoses ou helmintoses, vermici- Classe Cestoda Rudolphi, 1808 – Corpo for-
das ou helminticidas. mado por três partes: escólex, pescoço e estróbi-
Os vermes ou helmintos estão incluídos nos lo, este formado de um número variável de seg-
dois seguintes ramos de animais: mentos. Trato digestório ausente. Tegumento sem
1) Ramo Platyhelminthes Claus, 1880. cílios. Heteroxenos.

1 5
1 6 r Parasitologia e Micologia Humana

CLASSE TREMATODA RUDOLPHI, Revestimento Musculocutâneo


1808 EMEND. TRAVASSOS, 1950 O corpo dos trematódeos é revestido por uma
Platyhelminthes endoparasitos de vertebrados, parede musculocutânea constituída externamen-
não-segmentados, geralmente achatados no sen- te pela cutícula, abaixo da qual se estende a sub-
tido dorsoventral e com aspecto foliáceo; tegu- cutícula e, finalmente, a camada muscular inter-
mento sem cílios; trato digestório rudimentar, sem na composta por feixes dispostos longitudinal e
ânus; em geral com duas ventosas. São parasitos transversalmente e raros feixes interligando as fa-
heteroxenos; os adultos vivem necessariamente ces dorsal e ventral.
em vertebrados. O sistema muscular possibilita ao helminto
uma mobilidade pouco ativa. A parede musculo-
Nas espécies dieteroxenas, o hospedeiro in-
cutânea delimita uma cavidade ocupada por um
termediário é obrigatoriamente um molusco e
tecido mesenquimatoso frouxo, lacunoso, no
nas trieteroxenas, o primeiro hospedeiro inter-
seio do qual se encontram os órgãos dos apare-
mediário é sempre um molusco, sendo, o segun-
lhos e sistemas.
do, um peixe ou um crustáceo.
Com exceção das espécies de Schistosomi- Anatomia Interna
dae, todos os trematódeos são hermafroditas.
As formas adultas localizam-se em pontos di- Trato digestório – é muito simples, embora va-
versos no organismo de seus respectivos hospe- riável nas diferentes espécies. Consta de uma bo-
deiros. ca localizada geralmente na ventosa anterior. A
No homem, há espécies no intestino, nas vias esta boca seguem-se, sucessivamente, uma farin-
biliares, nas vias pancreáticas, nos brônquios e ge curta e um esôfago que se bifurca em dois ce-
no lúmen dos vasos mesentéricos. cos alongados, em geral acompanhando as bor-
Devido à diversidade das localizações dos tre- das do animal, uma de cada lado (Fig. 1).
matódeos no organismo é muito variável a pato- Em certas espécies não há faringe, em outras, os
logia das diferentes parasitoses produzidas por cecos são ramificados, em outras, ainda, unem-se
eles. posteriormente formando um ceco único, como
no gênero Schistosoma.
Morfologia Geral Trato genital masculino – o trato genital mas-
culino compõe-se de dois ou mais testículos, dos
Geralmente apresentam aspecto foliáceo (Fig. quais se originam canais eferentes que se reú-
1), com uma face dorsal e outra ventral, extremi- nem para constituir o canal deferente. Este, diri-
dades anterior e posterior e bordas direita e es- gindo-se para frente, atravessa um órgão cavitá-
querda. Certas espécies, entretanto, são cilin- rio alongado, denominado bolsa do cirro. No in-
dróides ou espessas e bastante diferentes da for- terior desta bolsa observam-se, em geral, a vesí-
ma geral. cula seminal representada por uma dilatação do
As dimensões das espécies parasitas do ho- canal deferente, as glândulas prostáticas e o cirro
mem variam desde 1 mm (Heterophyes hetero- (Fig. 2).
phyes) até 70 mm (Fasciola gigantica).
A grande maioria das espécies apresenta duas
ventosas, das quais uma está situada na extremi-
dade anterior, a ventosa anterior ou oral, e outra
posterior, situada a distâncias diversas da extre-
midade anterior, na face ventral e, às vezes, na
extremidade posterior. A ventosa posterior é de-
nominada venosa ventral ou acetábulo. Tanto a
ventosa oral quanto a ventral são guarnecidas de
músculos que lhes asseguram suficiente fixação
na superfície interna dos ductos, onde se locali-
zam. Fig. 1 – Anatomia de um trematódeo. Original.
Intro ução Helmintologia Morfologia iologia e lassificação os remat eos r 1 7

I I

E
B

B
Fig. 3 – Trato genital feminino do trematódeo. Original. A –
A Ovário; B – oviduto; C – canal de Laurer; D – receptáculo se-
minal; E – oótipo; F – glândula de Mehlis; G – viteloduto; H –
glândulas vitelinas; I – útero.

Fig. 2 – Trato genital masculino do trematódeo. Original. A –


Testículo; B – canal eferente; C – canal deferente; D – bolsa do
À proporção que os óvulos vão chegando ao
cirro; E– vesícula seminal; F – glândula prostática; G – cirro; H
oótipo, em frente ao receptáculo seminal, são fe-
– átrio genital; I – poro genital; J – abertura uterina.
cundados e impelidos para o útero.
O comprimento do útero é muito variável,
havendo os muito longos, descrevendo inúmeras
O trato genital masculino termina em uma pe- circunvoluções ou alças e contendo milhares de
quena cavidade, o átrio genital, onde, nas espé- ovos, e os curtos, não possuindo senão alguns
cies hermafroditas, vem também terminar o trato ovos, como se observa no Schistosoma mansoni,
genital feminino. O átrio genital comunica-se pa- do qual faremos oportunamente o estudo.
ra o exterior pelo poro genital. O útero desemboca no átrio genital próximo
à embocadura do trato genital masculino, nas es-
Trato genital feminino – apresenta organiza-
pécies hermafroditas, ou diretamente no exteri-
ção mais complexa que o trato anterior (Fig. 3).
or, nas espécies gonocóricas.
Em geral consta de um ovário, órgão elabora- Sistema nervoso – é rudimentar. Compreende
dor das células germinais femininas, e dos óvu- um colar periesofagiano, de onde saem filetes
los, que são eliminados pelo oviduto que vai nervosos que se distribuem para o corpo do ani-
continuar pelo útero. mal, principalmente para as ventosas.
Ocupando posição e configuração variáveis, Nas preparações habituais não se vêem os
as glândulas vitelógenas eliminam sua secreção elementos do sistema nervoso, evidenciáveis por
por seus vitelodutos próprios que, unindo-se, técnicas especiais de microcoloração.
formam o viteloduto comum que desemboca no Aparelho excretor – é representado pelas cé-
oviduto. Contíguo à embocadura do viteloduto, lulas excretoras, denominadas solenócitos ou cé-
o oviduto apresenta uma dilatação chamada oó- lulas de flâmula vibrátil, que recolhem de sua vi-
tipo, que é contornada pela glândula de Mehlis. zinhança os produtos resultantes do metabolis-
Ainda comunicando-se com o oviduto, há o re- mo do parasito e os conduzem para os canalícu-
ceptáculo seminal, onde se acumulam os esper- los excretores mais calibrosos que se reúnem
matozóides e o canal de Laurer, de função inde- para formar o canal excretor longitudinal. Este,
terminada. próximo à extremidade posterior do verme, dila-
1 r Parasitologia e Micologia Humana

ta-se em uma vesícula excretora que se comuni-


ca com o exterior pelo poro excretor.
As células excretoras não são observadas nas
formas adultas em preparações comuns coradas
pelo carmim. Nas cercárias, em geral, podem ser
vistas em preparações a fresco ou com coloração
vital.
Não há aparelhos circulatório e respiratório
diferenciados nos trematódeos.

Biologia
Nutrição – varia com o habitat do verme. Os
dos sistemas arterial ou venoso nutrem-se de
sangue; os das vias biliares, dos canais pancreáti-
cos, do intestino e de outros órgãos, dos líquidos
aí existentes e das células provavelmente semidi- Fig. 4 – Ovo de Fasciola hepatica. Original.
geridas do revestimento destes condutos.
Pouco se sabe sobre o metabolismo e as exi-
gências alimentares dos trematódeos, bem como Os ovos, atingindo a água, após alguns dias, a
sobre a natureza dos catabólitos. uma temperatura apropriada, libertam o mirací-
Respiração – é também limitado o conheci- dio, móvel graças aos cílios que revestem a pare-
mento sobre a respiração desta classe de helmin- de do seu corpo.
tos. O miracídio entrando em contato com o tegu-
Há espécies, como o Paragonimus westerma- mento de um molusco dulcícola, penetra ativa-
ni, hóspede dos brônquios, que vivem pratica- mente favorecido pela ação de uma substância ci-
mente sob a ação direta do oxigênio atmosféri- tolítica, elaborada por um par de glândulas, cujos
co; a maioria, entretanto, como decorrência do canais excretores se abrem para o exterior na sua
seu habitat, é anaeróbia ou microaerófila e os extremidade anterior.
processos respiratórios são do tipo anoxobiótico. Embora o miracídio possa penetrar em qual-
Reprodução e evolução – os trematódeos, em quer molusco de água doce, só evolui se este per-
sua grande maioria, são hermafroditas e, assim, a tencer a uma determinada espécie de Lymnaea.
autofecundação é habitual neles, se bem que se Nos tecidos da Lymnaea o miracídio imobili-
acredite na possibilidade de ocorrer a fecunda- za-se, perde os cílios, transformando-se no espo-
ção cruzada. Todos são ovíparos e heteroxenos. rocisto. Este, nutrindo-se dos líquidos intercelu-
A evolução é variável entre as espécies, não lares, cresce e evolui e, decorridos poucos dias,
só quanto à complexidade das sucessivas fases mostra no seu interior massas celulares que se
evolutivas, como ao número e espécies de hos- transformam em rédias com uma organização
pedeiros. mais adiantada, apesar de apresentarem um tu-
Nas espécies de evolução mais complexa esca- bo digestório rudimentar.
lonam-se as seguintes fases: ovo – miracídio – es- As rédias, originadas em grande número no
porocisto – rédia – cercária – metacercária – adul- interior do esporocisto, escapam e migram para
to. Conforme a espécie, pode faltar ou acrescer o fígado do molusco, onde se desenvolvem len-
uma ou mais fases. tamente. No interior das rédias, diferenciam-se
O ciclo da Fasciola hepatica, parasito habitual rédias-filhas no verão e cercárias no inverno.
dos canais biliares de ovinos e bovinos, é tomado As cercárias distinguem-se das rédias pela pre-
como tipo pela maioria dos autores. sença de um tubo digestório bifurcado e de uma
Neste ciclo, os ovos postos pelo verme na luz cauda alongada.
dos canais biliares são arrastados pela bile para o As cercárias, muito ativas, libertam-se do mo-
intestino e daí para o exterior nas fezes (Fig. 4). lusco hospedeiro intermediário e, nadando, atin-
Intro ução Helmintologia Morfologia iologia e lassificação os remat eos r 1

gem os vegetais, sobre os quais se encistam, con- hospedeiros intermediários. Nesta espécie, o mi-
tornando-se por um invólucro calcáreo segregado racídio libertado na água infecta ativamente o
pelas “células cistógenas” do seu corpo. As cercá- molusco, no qual se passam as fases de esporo-
rias encistadas são denominadas metacercárias. cisto, rédia e cercária. Esta, libertando-se do mo-
Estas metacercárias ingeridas pelo hospedeiro lusco, primeiro hospedeiro intermediário, pene-
definitivo (ovinos, bovinos e diversos outros ani- tra no corpo de crustáceos superiores (carangue-
mais, inclusive o homem), sob a ação dos sucos jos e lagostas), usados na alimentação, que re-
digestivos, libertam o trematódeo imaturo que, presentam o segundo hospedeiro intermediário.
atravessando a parede do tubo entérico, atinge Aí se encista metamorfoseada em metacercária,
inicialmente a cavidade peritonial e posterior- que é o elemento infectante para os hospedeiros
mente, através da cápsula e do parênquima he- vertebrados.
páticos, os canais biliares, onde completa sua Além dos ciclos exemplificados, outros pode-
evolução (Fig. 5). riam ser focalizados, indicando a extrema varia-
Diferindo do tipo evolutivo da Fasciola hepati- ção no comportamento biológico das diferentes
ca, há grandes variações não só entre as espécies espécies e, por conseqüência, refletindo-se na
parasitas de animais silvestres e domésticos, como epidemiologia das parasitoses ocasionadas por
também entre as do homem. eles.
Nas espécies do gênero Schistosoma, o mira-
cídio no molusco, hospedeiro intermediário, Classificação
evolui e transforma-se em esporocisto primário,
no interior do qual se diferenciam os esporocis- Seguindo o ponto de vista de Travassos (1950),
tos secundários. Ao migrarem para os espaços in- consideramos a classe Trematoda em sentido es-
terviscerais, dão origem, no seu interior, às cer- trito, correspondendo à subclasse Digenea das
cárias. Estas são libertadas na água e, quando en- classificações da maioria dos helmintologistas.
contram o hospedeiro definitivo, penetram nele A subclasse Monogenea, incluída até o mo-
ativamente através da pele, indo completar sua mento na classe Trematoda, foi erigida por Tra-
maturação nas veias mesentéricas. vassos à categoria de classe sob a denominação
O ciclo evolutivo do Paragonimus westermani, de Polystomata. Esta classe inclui parasitos de
parasito dos brônquios de alguns carnívoros e do peixes, selacianos, répteis, anfíbios e crustáceos,
homem em várias áreas do mundo, inclui dois e são, na maioria, ectoparasitos. Não possui inte-
resse médico.
A classe Trematoda divide-se em duas ordens:
I – Gasterostomata Odhner, 1905 – Parasitos do
S intestino de peixes. Ventosa anterior imperfu-
rada. Boca no meio da face ventral. Sem inte-
resse médico.
II – Prosostomata Odhner, 1905 – Endoparasitos
de vertebrados em geral. Ventosa anterior
T perfurada, tendo a boca no fundo.
Em três subordens de Prosostomata incluem-
se as espécies de trematódeos parasitos do ho-
mem.
A – Distomata Zeder, 1800 – Hermafroditas.
Ventosa ventral não muito afastada da vento-
sa oral.
B – Amphistomata (Rudolphi, 1801) Bojanus,
1817 – Hermafroditas. Ventosa ventral muito
Fig. 5 – Fasciola hepatica L., 1758. Segundo Sommer e afastada da ventosa oral.
Brumpt. O – Ventosa oral; S – ventosa ventral; Ov – útero; C – Strigeata La Rue, 1926 – Gonocóricos. Ven-
Dr – ovário; T – testículo; Do – glândula vitelina. tosa ventral próxima da ventosa oral.
1 r Parasitologia e Micologia Humana

A seguir daremos a lista das espécies mais im- Subordem Strigeata


portantes. Superfamília Schistosomoidea Stiles e Hassall,
Subordem Distomata 1926
Superfamília Fascioloidea (Stiles e Goldberger,
Família Schistosomidae Looss, 1899
1910) Faust, 1929
Família Fasciolidae Railliet, 1895 Schistosoma mansoni Sambon, 1907
Fasciola hepatica Linnaeus, 1758 Schistosoma japonicum Katsurada, 1904
Fasciola gigantica Cobbold, 1855
Schistosoma haematobium (Bilharz, 1852)
Fasciolopsis buski (Lankester, 1857)
Superfamília Heterophyoidea Faust, 1929 emend.
Família Heterophyidae Odhner, 1914
Espécies de Interesse no Brasil
Heterophyes heterophyes (von Siebold, 1852)
O Schistosoma mansoni (Schistosomidae) é a
Metagonimus yokogawai (Katsurada, 1912)
única espécie de importância médica existente
Superfamília Troglotrematoidea Faust, 1929 emend.
no Brasil.
Família Troglotrematidae Odhner, 1914
Paragonimus westermani (Kerbert, 1878) A Fasciola hepatica (Fasciolidae), parasito ha-
Superfamília Echinostomoidea Faust, 1929 bitual das vias biliares dos bovinos e ovinos, rara-
Família Echinostomidae Looss, 1902 mente é observada no homem. Foram verifica-
Echinostoma ilocanum (Garrison, 1908) dos vários casos de parasitismo do homem por
Superfamília Dicrocoeloidea Faust, 1929 esse trematódeo, em Cuba, Porto Rico, Costa
Família Dicrocoeliidae (Looss, 1907) Rica, Venezuela, Uruguai, Argentina e Chile. No
Dicrocoelium dendriticum (Rudolphi, 1818) Brasil o parasito tem sido observado em bovinos
Superfamília Opisthorchoidea Faust, 1929 emend. e ovinos nas áreas de pecuária do Rio Grande do
Família Opisthorchiae Lühe, 1901 Sul e, mais raramente, em outros estados. O pa-
Opistorchis felineus (Rivolta, 1884) rasitismo do homem foi verificado pelo cirurgião
Clonorchis sinensis (Cobbold, 1875) A. Caltabiano, do Rio de Janeiro, em caso inédi-
Subordem Amphistomata to. Tratava-se de um paciente operado de coles-
Superfamília Paramphistomoidea Stiles e Gold- cistectomia que havia recebido um dreno. Atra-
berger, 1910 vés deste foram coletados 8 exemplares da Fascio-
Família Paramphistomidae Fischoeder, 1901 la hepatica, identificados pelos autores.
Watsonius watsoni (Coningham, 1904) O Paragonimus westermani (Troglotremati-
Família Gastrodiscidae Stiles e Goldberger, 1910 dae) foi verificado algumas vezes no Brasil em
Gastrodiscoides hominis (Lewis e Mac Connell, imigrantes, não havendo indicação de que haja
1876) no país casos autóctones.
27
Família Schistosomidae.
Gênero Schistosoma.
Morfologia e Ciclo Evolutivo do
Schistosoma mansoni

am lia c istosomi ae nero his s ma Morfologia e iclo volutivo o


A família Schistosomidae Loss, 1899, apresen- Machos mais curtos que as fêmeas, com duas
ta os mesmos caracteres da superfamília Schisto- porções distintas, a anterior curta, fina e cilíndrica
somoidea. Sexos separados, com nítido dimorfis- com as ventosas; a posterior muito mais longa e
mo sexual; tem faringe muscular; útero anterior de forma foliácea, porém, graças ao reviramento
ao ovário; poro genital posterior à ventosa ven- no sentido longitudinal de suas bordas laterais re-
tral. Ovos não-operculados; cercárias com cau- sulta uma depressão ventral, alongada, denomi-
da bifurcada. Parasitos de vasos sanguíneos. nada canal ginecóforo. Poro genital posterior à
Nesta família há apenas um gênero de inte- ventosa ventral. Testículos em número variável,
resse: Schistosoma Weinland, 1858 com três es- agrupados atrás do poro genital.
pécies parasitas do homem: Fêmea alongada, cilindróide, com as porções
Schistosoma mansoni Sambon, 1907 anterior e posterior de diâmetros semelhantes.
Schistosoma haematobium Bilharz, 1852 Ovário pequeno, anterior à união dos cecos late-
Schistosoma japonicum Katsurada, 1904 rais; glândulas vitelógenas na parte posterior do
corpo, ao longo do percurso do ceco único. Úte-
GÊNERO SCHISTOSOMA ro simples, sem alças, curto e disposto para fren-
WEINLAND, 1858 te na direção do corpo, contendo número variá-
vel de ovos de acordo com a espécie. Ovos gran-
Ventosas salientes, relativamente próximas, sen-
des, não-operculados.
do a ventral maior que a oral. Ramificação do in-
testino próxima ao nível onde se acha a ventosa Cercárias com cauda bifurcada, infectando o
ventral, as ramificações dispondo-se para trás, late- hospedeiro definitivo ativamente através da pe-
ralmente, para de novo se unirem posteriormente, le.
de modo a formar um ceco único que se alonga O Quadro I mostra as principais diferenças
até próximo à extremidade posterior. entre as três espécies de interesse.

1 1
1 r Parasitologia e Micologia Humana

QUADRO I – Caracterização das espécies do gênero Schistosoma


CARACTERÍSTICAS S. mansoni S. haematobium S. japonicum
Macho
Comprimento médio 10 mm 13 mm 15 mm
Grosseiramente
Cutícula Finalmente tuberculada Lisa
tuberculada
Mais longo que a metade Um terço do comprimento Um terço do comprimento
Ceco único
total do corpo do corpo do corpo
Testículos 6a9 4 7
Fêmea
Comprimento médio 14 mm 20 mm 19 mm
Posterior à metade do
Posição do ovário Anterior à metade do corpo No meio do corpo
corpo
Ocupando a metade Ocupando o terço Ocupando o quarto
Glândulas vitelógenas
posterior do corpo posterior do corpo posterior
Muito longo – com 50 a
Útero Curto – com 1 a 4 ovos Longo – com 20 a 30 ovos
100 ovos
Espinho lateral rudimentar
Ovo Com espinho lateral (Fig. 6) Com espinho apical (Fig. 1)
(Fig. 2)
Plexo hemorroidário e Plexos vesicais, prostáticos, A mesma do S. mansoni,
Localização no organismo veias mesentéricas púbico e uterino com predominância da me-
superior e inferior Veias mesentéricas sentérica superior
Hospedeiro intermediário Espécies de Biomphalaria Espécies de Bulinus Espécies de Oncomelania
Esquistossomose arteriove-
Esquistossomose Esquistossomose vesical ou
Doença produzida nosa ou doença de Kataya-
intestinal ou mansônica hematóbia
ma

B
B
Fig. 1 – S. haematobium, segundo Piekarski em “Tablas Fig. 2 – S. japonicum, segundo Piekarski, em “Tablas de
de Parasitologia Medica” – Edição Bayer. Ovo do helminto Parasitologia Medica” – Edição Bayer. Ovo do helminto e
e conchas dos hospedeiros intermediários. Em A – Bulinus conchas dos hospedeiros intermediários. Em A – Schistoso-
truncatus; B – Bulinus globosa. mophora; B – Oncomelania; C – Katayama.
am lia c istosomi ae nero his s ma Morfologia e iclo volutivo o r 1 3

SCHISTOSOMA MANSONI Os adultos, no interior dos vasos, realizam mi-


grações no mesmo vaso ou de um para outro
SAMBON, 1907 através de anastomoses.
Este trematódeo habitualmente é hóspede das
vênulas tributárias do sistema portal, particular- Morfologia
mente das mesentéricas inferior e superior, do Os caracteres genéricos e específicos descri-
plexo hemorroidário e mesmo da porção intra- tos no quadro diferencial permitem uma perfeita
hepática da veia porta. identificação deste verme. A fresco, os machos
No interior dos vasos, em geral, o macho e a são esbranquiçados e as fêmeas escuras. As di-
fêmea encontram-se acasalados; a fêmea dispos- mensões do macho variam entre 6,5 e 12 mm
ta no canal ginecóforo e, por ser mais longa que (Fig. 4) e as da fêmea, 7 a 17 mm (Fig. 5).
o macho, ultrapassa-o para frente ou para trás ou
recurva-se em uma a duas flexões (Fig. 3).
O número de exemplares é muito variável e
habitualmente os sexos equivalem-se numerica-
mente, embora seja possível o parasitismo por
apenas um dos sexos.
O determinismo dos sexos, como se sabe,
efetua-se no momento da fecundação e todas as
formas evolutivas – miracídios, esporocistos pri-
mários, esporocistos secundários e cercárias –
pertencem, isoladamente, às linhagens feminina
ou masculina. Um hospedeiro intermediário po-
de ser parasitado só por formas femininas, só por
masculinas ou por ambas, como habitualmente
se observa.
Standen (in Manson’s Tropical Diseases) de-
monstrou que nas infecções por formas masculi- Fig. 4 – Exemplar macho de S. mansoni. Original.
nas isoladamente, um número variável de ma-
chos atinge em 10 semanas as veias mesentéri-
cas, o mesmo não se dando nas infecções exclu-
A B E
sivas por fêmeas, que permanecem imaturas até
o momento em que ocorra a infecção pelas cer-
cárias de linhagem masculina. Este autor pensa Fig. 5 – S. mansoni, fêmea. Original. A – Ventosa oral; B – ven-
que o fator que controla o tempo de migração tosa ventral; C – poro genital; D – útero; E – ovário.
dos casais do S. mansoni é o mesmo que assegu-
ra às fêmeas atingir a maturidade. Partindo dos
resultados dessas experiências, pode-se prever
A cutícula observada ao microscópio com gran-
que o parasitismo exclusivo por fêmeas do S.
mansoni tem duração efêmera, pelo fato de per- de aumento apresenta tuberosidades grosseiras e
manecerem imaturas e de não possuírem por si espinhos, principalmente nas margens laterais que
mesmas capacidade de migração para as veias delimitam o canal ginecóforo.
mesentéricas.
Os ovos de S. mansoni, muito característicos
pela presença do espinho lateral, têm uma forma
elipsóide irregular com duas membranas envol-
toras, a externa, o cório e a interna, o âmnio.
Têm em média 115 mm de comprimento por 65
mm de largura e nas fezes apresentam-se com a
Fig. 3 – S. mansoni. Macho e fêmea acasalados. Original. coloração castanho-clara ou amarelada (Fig. 6).
1 4 r Parasitologia e Micologia Humana

ainda esclarecidos, sendo várias as hipóteses for-


muladas a este respeito. Para alguns autores, os
ovos são postos no interior das vênulas de pe-
queno calibre e destas libertados por migração
através de sua parede ou pela rotura da mesma;
para outros, a fêmea rompe a parede vascular e,
livre nos tecidos ou apenas insinuando no exterior
a extremidade anterior, lança os ovos fora dos
vasos. O que se sabe ao certo é que os ovos são
observados nos tecidos circunjacentes aos vasos,
de onde, após algum tempo, são libertados no
lúmen intestinal e conduzidos para o meio exte-
rior nas fezes do indivíduo parasitado.
Ao serem postos, os ovos ainda são imaturos.
A maturação ultima-se durante sua permanência
no recesso dos tecidos, quando, então, organi-
Fig. 6 – Ovo de S. mansoni. Desenho esquemático origi-
za-se em seu interior, o embrião denominado
nal. Observar o espículo lateral.
miracídio, fato que ocorre em 6 a 7 dias.
No meio externo, a libertação do miracídio só
tem lugar quando o ovo atinge a água que pene-
Evolução trando por osmose provoca intensa movimenta-
ção do embrião que acaba por romper a casca
S. mansoni é, como todos os trematódeos, he- do ovo.
teroxeno. O homem constitui, em condições na- No bolo fecal os ovos mantêm-se viáveis por
turais, o seu principal hospedeiro definitivo, po- alguns dias, desde que as fezes sejam conserva-
rém, recentemente o parasitismo por este hel- das úmidas e ao abrigo da luz solar direta.
minto também foi observado na natureza, em Os ovos, entretanto, são muito sensíveis ao
certas espécies de animais domésticos e silves- dessecamento, aos desinfetantes, à água salgada
tres. Na África foram observadas infectadas uma e à urina que exercem ação nociva sobre eles,
espécie de macaco e diferentes espécies de roe- impedindo sua eclosão e matando o miracídio.
dores e, no Brasil, várias espécies de ratos silves- O miracídio, que representa a primeira forma
tres, o rato domiciliado (Rattus norvegicus), a larvária ou embrionária, possui uma organização
preá (Cavia aperea) e o gambá (Didelphis para- relativamente complexa (Fig. 7).
guayensis).
Os hospedeiros intermediários são moluscos
aquáticos da família Planorbidae, incluídos no
gênero Biomphalaria, conhecidos durante muito
tempo como Australorbis.
Em 1965, o grupo de peritos da Organização
Mundial de Saúde (OMS) resolveu acolher o nome
Biomphalaria, previamente adotado pela Comissão
Internacional de Nomenclatura Zoológica.
As fêmeas grávidas, no momento da postura,
isoladas ou unidas ao macho, encaminham-se
para as vênulas de menor calibre onde deposi-
tam seus ovos, que, em parte, são lançados na
corrente sanguínea, enquanto outros vão ter ao
lúmen intestinal.
O local exato da postura e o mecanismo da li- Fig. 7 – Miracídio de S. mansoni. Desenho esquemático
bertação dos ovos no lúmen intestinal não estão original.
am lia c istosomi ae nero his s ma Morfologia e iclo volutivo o r 1 5

São organismos muito móveis graças aos inú- onde se imobilizam e, por um modo peculiar,
meros cílios que lhes revestem a delgada cutícula dão origem às cercárias em seu interior.
e a seu sistema muscular. Desse modo, nadam li- Decorridas 4 a 7 semanas, as cercárias aban-
vremente na água e alongam-se ou encurtam por donam o esporocisto por um poro de nascimento
contração muscular. e, migrando para o tegumento do molusco, pro-
Na região anterior do corpo há dois pares de duzem uma vesícula que, rompendo-se, liber-
glândulas adesivas e uma glândula de penetra- tam-nas no meio aquático.
ção. As secreções destas glândulas são elimina- A libertação das cercárias é sensivelmente in-
das pelos condutos terminados na extremidade fluenciada pela luz solar e pela temperatura da
anterior e servem para fixar os miracídios no te- água. Colocado um planorbídeo infectado em
gumento do planorbídeo e facilitar-lhes a pene- um recipiente de vidro transparente, com água à
tração. temperatura entre 25 a 30°C e exposto à luz so-
O aparelho excretor é formado por dois pares lar direta, as cercárias não tardam a se libertar na
de células excretoras e o sistema nervoso é re- água onde podem ser observadas com seus mo-
presentado por uma massa ganglionar na região vimentos característicos.
mediana do corpo. Na parte posterior do corpo Estima-se que o número de cercárias resultan-
há um grande número de células germinativas. te da evolução de um único miracídio seja da or-
A eclosão dos ovos depende da temperatura dem de muitos milhares, sabendo-se que duran-
da água, sendo a de 30°C considerada ótima. te meses, diariamente, elas são libertadas em
A sobrevivência dos miracídios é limitada ao grande número na água.
máximo de 1 dia, havendo mortandade desde as As cercárias apresentam a cauda bifurcada
primeiras horas, quando vão aos poucos modifi- (furcocercárias) e, na água, são observadas ora
cando a forma e perdendo a atividade. em movimento, ora em repouso. A birfucação da
Os miracídios livres na água, como demons- cauda é próxima de sua extremidade e os ramos
trou S. Barbosa, dirigem-se ao acaso para os pla- da furca são recurvados para frente (Fig. 8).
norbídeos e não, como se pensava, quimiotatica- A organização das cercárias é relativamente
mente. Entrando em contato com o tegumento, complexa. Há um trato digestório rudimentar
penetram ativamente graças à atividade das subs- formado por um longo tubo que se abre no exte-
tâncias histolíticas segregadas pelas glândulas de rior pela boca situada na ventosa anterior. A ven-
penetração. tosa ventral é pequena (Fig. 9).
A penetração dos miracídios nos moluscos po- A cutícula é guarnecida de diminutos espi-
de-se dar em qualquer região da sua superfície nhos e, na extremidade anterior existem peque-
externa, sendo, entretanto, mais freqüente na re- nos estiletes de penetração.
gião cefalopodal, parte anterior do corpo, parti- Na organização interna, além do trato diges-
cularmente nos tentáculos. tório, há dois pares de glândulas de penetração
Nem todos os miracídios penetram nos pla- anteriores e, variando com os autores, três ou
norbídeos existentes na água onde se encontram quatro pares posteriores; os condutos das glân-
ativos e aparentemente normais.
Nos tecidos, o miracídio imobiliza-se e trans-
forma-se no esporocisto primário que se nutre
por osmose através de sua parede envoltória e,
em seu interior, iniciam-se, a partir das células
germinativas, inúmeras formas evolutivas deno-
minadas esporocistos secundários.
O número de células germinativas varia de 50
a 100 e cada uma delas dará quatro esporocis-
tos-filhos ou secundários, os quais, ao final da se-
gunda semana da infecção do hospedeiro inter-
mediário, deixam o esporocisto materno ou pri- Fig. 8 – Microfotografia de cercária de S. mansoni, 100 X.
mário e migram para os espaços interviscerais, Original.
1 6 r Parasitologia e Micologia Humana

A Acredita-se que a penetração das cercárias se


dê mais intensamente quando o indivíduo entra
na água contaminada e ao se retirar as traz aderi-
B das à pele molhada, que ao secar pela evapora-
ção, estimula a atividade das cercárias que são
compelidas a penetrar no tegumento, talvez à
procura dos meios líquidos do organismo.
E Após a penetração no revestimento cutâneo,
as cercárias perdem a cauda e transformam-se
em metacercárias, denominadas por alguns au-
tores esquistossômulos.
No homem ou em outro vertebrado que possa
servir de hospedeiro definitivo, o parasito vai evo-
Fig. 9 – Cercária de S. mansoni. Desenho original esque-
luir da forma jovem para a forma adulta sexual-
mático. A – Orifício da ventosa oral; B – ceco; C – ventosa
ventral; D – glândulas de penetração; E – canal excretor
mente diferenciada, no interior do sistema veno-
caudal. so, em um tempo variando entre 4 e 7 semanas.
Nem todas as metacercárias que tiveram aces-
so ao organismo prosseguem sua evolução; algu-
dulas desembocam na ventosa anterior ao lado
mas imobilizam-se nos tecidos profundos do te-
da boca. O aparelho excretor é formado por cé-
gumento e outras encalham nas glândulas linfáti-
lulas excretoras, cujo número é controverso. O
cas, onde são destruídas.
sistema nervoso é muito rudimentar e os órgãos
reprodutores são representados por um conjunto As metacercárias, por vias linfática ou sanguí-
de células formando o esboço genital. nea, atingem a circulação venosa que as conduz
A sobrevivência das cercárias na água é limita- ao coração e deste aos pulmões pelas artérias
da a pouco mais de 2 dias, muitas morrendo na- pulmonares. Dos pulmões, onde permanecem
turalmente após poucas horas de sua libertação algum tempo, não sem provocar alterações mór-
do hospedeiro intermediário. bidas, ganham os vasos venosos e pelas veias pul-
São indiferentes à água clorada nas condições monares alcançam o coração esquerdo, de onde
em que é habitualmente distribuída e, vivas, ul- são lançadas na circulação geral pelo sistema ar-
trapassam os filtros grosseiros de areia. Na práti- terial, fixando-se eletivamente no fígado.
ca, porém, o simples fato de manter a água cole- Nos vasos hepáticos, as formas jovens do pa-
tada por 60 horas, torna-a inócua quanto à infes- rasito diferenciam-se sexualmente e, alimentan-
tação pelo S. mansoni. do-se de sangue, crescem e, ainda imaturas, gal-
A penetração das cercárias no homem ou em gam pela veia porta e suas tributárias às vênulas
outro vertebrado suscetível à infecção realiza-se da parede do intestino. Destas vênulas, os parasi-
através dos tegumentos cutâneo e mucoso, em tos orientam-se eletivamente para os afluentes
geral pelo cutâneo, graças a seus ativos movi- do ramo ileocólico da mesentérica superior e os
mentos e à ação das secreções histolíticas das ramos cólicos das mesentéricas superior e inferior
glândulas de penetração. onde completam sua evolução.
A penetração processa-se em aproximada- Alojada no canal ginecóforo do macho a fê-
mente 15 minutos, ocasionando irritação da pe- mea é inseminada e, logo após, inicia-se a postu-
le, de intensidade variável de indivíduo para in- ra, completando-se assim o ciclo evolutivo do
divíduo. helminto (Fig. 10).
am lia c istosomi ae nero his s ma Morfologia e iclo volutivo o r 1 7

10 11

12

13

7 14

6 1

3
Fig. 10 – Ciclo evolutivo do S. mansoni. Original. No meio aquático (Ma): 1 – ovo eliminado com a matéria fecal; 2 – mi-
racídio, que penetra no hospedeiro intermediário. No planorbídeo: 3 – esporocisto primário; 4 – esporocisto secundário,
no interior do qual se formam as cercárias que são liberadas no meio aquático (5). No homem: 6 – penetração ativa per
cutem das cercárias infectantes; 7 – coração direito; 8 – pulmões; 9 – veias pulmonares; 10 – coração esquerdo; 11 – cir-
culação sanguínea; 12 – sistema portal; 13 – veias mesentéricas; 14 – alça sigmóide e reto.
28
Hospedeiros
Intermediários de Schistosoma
mansoni no Brasil

Hospe eiros Interme i rios e his s ma mans ni no rasil

POSIÇÃO SISTEMÁTICA pares de tentáculos de tamanhos diferentes e por


um par de olhos localizado na extremidade dos
Os moluscos que servem de hospedeiros in- tentáculos mais longos.
termediários do Schistosoma mansoni perten-
Os Basommatophora vivem na água doce e
cem à família Planorbidae, que inclui espécies
possuem apenas um par de tentáculos retráteis,
do Velho e do Novo Mundo.
na base dos quais se localizam os olhos, um de
Entre as sete classes que constituem o filo cada lado. Possuem aberturas masculinas e femi-
Mollusca (Poliplacophora, Cephalopoda, Bival- ninas separadas e os ovos são depositados em
via, Scaphopoda, Aplacophora, Monoplacopho- cápsulas gelatinosas.
ra e Gastropoda), a classe Gastropoda é a maior,
No Brasil, esta ordem é representada pelas fa-
sendo que muitos são hospedeiros intermediários
mílias Planorbidae, Lymnaeidae, Physidae, An-
de parasitos humanos e de animais.
cylidae e Chilinidae.
Classe Gastropoda compreende três subclas-
A família Planorbidae, na qual se incluem os
ses.
hospedeiros intermediários do S. mansoni, dis-
Subclasse I – Prosobranchia:
tingue-se das demais pela concha discoidal em
(com três ordens).
espiral plana, com os lados aproximadamente
Subclasse II – Opisthobranchia:
paralelos, os orifícios genitais localizados do lado
(com três ordens).
esquerdo do corpo e os tentáculos finos e lon-
Subclasse III – Pulmonata:
gos.
Ordem Soleolifera.
Ordem Stylommatophora. MORFOLOGIA
Ordem Basommatophora.
Os Prosobranchia e os Opistobranchia respi- Concha
ram, salvo poucas exceções, por meio de brân-
quias e, em sua maioria, são marinhos. É um produto de secreção do manto, consis-
Os Pulmonata respiram diretamente o ar por tindo de camadas de carbonato de cálcio deposi-
pulmões especiais e são, em sua maioria, dulcíco- tadas em uma matriz orgânica (conchiolina), re-
las ou terrestres. São monóicos (hermafroditas), vestida externamente por uma cutícula de mate-
geralmente ovíparos e não possuem opérculo. rial orgânico (perióstraco). Em quase todos os
A ordem Stylommatophora inclui espécies gastrópodes a concha reveste quase todo o cor-
terrestres e caracteriza-se pela presença de dois po, servindo-lhes de esqueleto e proteção.

1
r Parasitologia e Micologia Humana

A concha de Biomphalaria apresenta aspecto superfície ventral, está a boca contornada, pela
geral planispiral (Fig. 1). Os giros, delimitados mandíbula, que é quitinosa e tem a forma de T.
pelas suturas, são estreitos no centro, alargan- O pé é oblongo, com a extremidade anterior
do-se gradativamente até a abertura da concha, arredondada nos cantos, a posterior mais estreita
cujo contorno se denomina perístoma. O diâme- e a superfície ventral lisa, sendo o órgão utilizado
tro nos animais adultos, varia de 7 a cerca de 40 para a locomoção.
mm, de acordo com a espécie.
No lado esquerdo da massa cefalopodal loca-
Os lados, côncavos ou planos ou levemente lizam-se as aberturas genitais masculina e femini-
convexos, podem apresentar os giros regular- na em pontos isolados, porém próximos.
mente arredondados ou angulados formando ca-
rena. A massa visceral está enrolada e protegida no
interior da concha e é envolvida pelo manto ou
A cor natural das conchas, dependente do pe- pálio, cujo revestimento epitelial externo está
rióstraco, é amarelo-palha, variando com as subs- em contato permanente com a superfície interna
tâncias contidas na água ou na lama onde vivem. da concha.
Quando jovens, são amarelados, escurecendo pos-
teriormente e apresentando cores diversas: casta- A extremidade cefálica do manto (colar ou
nho, ocre ou mesmo negro. borda do manto) é mais espessa que o resto da
membrana e é o órgão formador da concha. No
Variedades específicas, albina e pigmentada,
manto encontra-se ainda o principal órgão de
têm sido relatadas prestando-se a estudos de ge-
excreção, o rim, constituído por uma porção sa-
nética.
cular justaposta à esquerda do pericárdio, conti-
nuando-se na direção cefálica por uma porção
Corpo tubular (tubo renal) em forma de J, situada entre
O corpo de um planorbídeo está fixado à con- as veias renal e pulmonar.
cha pelo músculo columelar. A contração deste As espécicies do gênero Biophalaria são her-
músculo retrai as partes expostas do corpo intei- mafroditas. Seu sistema genital compreende es-
ramente para dentro da concha. sencialmente um órgão produtor de células ger-
Na cabeça prelotam-se dois tentáculos extensí- minais masculinas e femininas (ovoteste), que
veis que possuem função tátil. Os olhos estão situa- por um canal hermafrodita ou ovispermiduto
dos na base dos tentáculos (Fig. 1). A parte anterior atingem as partes diferenciadas sexualmente.
da cabeça entre os tentáculos e a boca é a mufla, Os órgãos femininos são a glândula de albú-
que projeta para diante dois palpos labiais separa- men, o oviduto, a glândula nidamental, o útero,
dos por uma chanfradura medial. Em seguida, na a vagina e a espermateca. O sistema masculino

a c

ca
c

a a
ac

Fig. 1 – Concha de Biomphalaria vista pela direita (A), de frente (B) e pela esquerda (C). Legenda: ac: abertura da con-
cha; ag: abertura genital masculina; bm: borda do manto; ca: calo; co: colo; di: diâmetro da concha; ga: giro apical ou
interno (primeiro giro); gc: giro corporal ou externo (último giro); Ic: largura da concha (diâmetro horizontal da abertura);
Id: lado direito; le: lado esquerdo; mu: mufla; ol: olho; pb: pseudobrânquia; pe: pé; pf: periferia; pl: palpos labiais; pn:
pneumóstoma; ps: perístoma; so: sola; su: sutura; te: tentáculo (Paraense, 1972).
Hospe eiros Interme i rios e his s ma mans ni no rasil r 1

a
a
c
c c
a
c
c

Fig. 2 – B. glabrata parcialmente dissecada (vista do lado


esquerdo) Legenda: an: ânus; c: cabeça; cl: crista dorsola-
teral; cm: colar do manto; ct: crista retal; rt: reto, et: estô- a
mago; ga: glândula do albúmen; gd: glândula digestiva;
ia: intestino anterior; im: intestino médio; ip: intestino Fig. 3 – Aparelho genital de B. glabrata. Legenda: bo:
posterior; mc: músculo columelar; mf: mufla; ms: massa bolsa do oviduto; bp:bainha do pênis; bv: bolsa vaginal;
cefalopodal; om: orifício genital masculino; ot: ovoteste; cd: canal deferente; ed: espermiduto; eg: encruzilhada
p: pé; pn: pneumóstoma; ps: pseudobrânquia; te: tentá- genital; es: espermateca; ga: glândula do albúmen; gn:
culo; vr: veia renal; tr: tubo renal; vp: veia pulmonar (Pa- glândula nidamental; od: segmento proximal do ovisper-
raense 1975). miduto; od’: segmento distal do ovispermiduto; ot: ovo-
teste; ov: oviduto; pp: prepúcio; pr: próstata; ut: útero;
compreende o espermiduto, a próstata, o canal va: vagina; vs: vesícula seminal (Paraense 1975).
deferente e o complexo peniano.

IDENTIFICAÇÃO ESPECÍFICA fundo, lado esquerdo com concavidade rasa. Su-


perfície ventral do tubo renal com uma crista pig-
Até o momento foram descritas no Brasil dez mentada, parede ventral da vagina expandida
espécies e uma subespécie do gênero Biomphala- em bolsa bem delimitada. Bainha do pênis apro-
ria: B. glabrata, B. tenagophila, B. straminea, B. ximadamente do mesmo tamanho que o prepú-
peregrina, B. schrammi, B. kuhniana, B. interme- cio, porém delgada, com a porção média aproxi-
dia, B. amazonica, B. oligoza, B. occidentalis e B. madamente do mesmo diâmetro que a porção
tenagophia guaibenses. Entre estas, somente as mais larga do canal deferente.
três primeiras têm sido encontradas naturalmente B. tenagophila – concha com no máximo 35
infectadas pelo S. mansoni. Outras duas espécies, mm de diâmetro e até oito giros carenados no
B. amazonica e B. peregrina, foram infectadas ex- lado esquerdo; lado direito ligeiramente cônca-
perimentalmente, sendo consideradas hospedei- vo e o esquerdo mais côncavo que o direito. Su-
ras em potencial deste trematódeo. perfície ventral do tubo renal sem crista, parede
A identificação específica dos planorbídeos ventral da vagina expandida em bolsa bem deli-
do gênero Biomphalaria somente pode ser esta- mitada. Bainha do pênis aproximadamente do
belecida pela caracterização anatômica dos tra- mesmo tamanho que o prepúcio, porém delga-
tos genitais masculino e feminino (Fig. 3) e pelos da, com a porção média aproximadamente do
caracteres da concha. Segundo Paraense (1975), mesmo diâmetro que a porção mais larga do ca-
as características morfológicas que se seguem nal deferente.
devem ser observadas para a separação das três B. straminea – concha com no máximo 16,5
espécies hospedeiras. mm de diâmetro e até cinco giros arredondados;
B. glabrata – concha com no máximo 40 mm lado direito ligeiramente côncavo, com o giro
de diâmetro e até sete giros arredondados; lado central profundo, e o lado esquerdo apresentan-
direito bastante côncavo com giro central pro- do uma concavidade maior que o direito. A su-
r Parasitologia e Micologia Humana

perfície ventral do tubo renal é desprovida de por apresentar altos níveis de infecção, compati-
crista. Presença de enrugamento na porção dor- bilidade e ter sua distribuição quase sempre asso-
sal da vagina. A bainha do pênis é aproximada- ciada à ocorrência da esquistossomose no Brasil.
mente do mesmo tamanho que o prepúcio, com Sua distribuição está limitada pelos paralelos 13 e
a porção média quase igual ao diâmetro da por- 21W, área onde dominância e freqüência são
ção mais larga do canal deferente. O percurso do maiores. Esta região corresponde ao sudeste da
espermiduto é geralmente bastante ondulado. Bahia e à metade oriental de Minas Gerais e ao
estado do Espírito Santo (Fig. 5). Entretanto, sua
IDENTIFICAÇÃO MOLECULAR presença é observada desde Touros, no Rio Gran-
de do Norte, até as imediações de Valença, no sul
Em decorrência das dificuldades da identifi-
da Bahia, correspondendo ao seu limite da região
cação morfológica, técnicas moleculares foram
nordestina. A partir desta área sua presença é ob-
introduzidas na tentativa de auxiliar a morfolo-
servada para o sudoeste, em direção ao rio São
gia. A técnica de PCR-RFLP (reação em cadeia da
Francisco e ao centro-sul de Minas Gerais. Popu-
polimerase e análise do polimorfismo de frag-
lações isoladas são observadas no Pará, Mara-
mentos de restrição) mostrou-se muito útil para a
nhão, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e
separação das espécies do gênero Biomphalaria
Rio Grande do Sul.
presentes no Brasil. A PCR-RFLP baseia-se na
B. tenagophila distribui-se continuamente por
amplificação pela PCR das regiões espaçadoras
larga faixa costeira do sul da Bahia até o Chuí, no
transcritas internas ITS1, ITS2 e do gene 5.8S do
Rio Grande do Sul. Nos estados de São Paulo e Rio
RNA ribossomal e subseqüente restrição desse
Grande do Sul a espécie estende-se para o inte-
fragmento com enzimas que cortam a fita dupla
rior (oeste) mais que nos outros estados. Algumas
da molécula de DNA em sítios específicos de re-
populações isoladas são observadas no Distrito
conhecimento, denominados sítios de restrição.
Federal e Minas Gerais. Apesar de sua dominân-
Na Figura 4 podemos observar uma representa-
cia em algumas áreas, B. tenagophila é encontra-
ção esquemática dos perfis espécie-específicos
da na natureza com baixas taxas de infecção. É
de moluscos brasileiros pertencentes às dez es-
responsável pela maioria dos casos autóctones
pécies e uma subespécie do gênero Biomphala-
de esquistossomose no estado de São Paulo e pe-
ria.
los focos da doença no estado de Santa Catarina.
IMPORTÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA Em Minas Gerais este molusco é responsável pe-
lo foco de esquistossomose em Itajubá, no sul, e
E DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA foi encontrado naturalmente infectado nos mu-
Biomphalaria glabrata é a mais importante hos- nicípios de Jacoticatubas e Belo Horizonte (lago
pedeira intermediária de S. mansoni nas Américas da Pampulha).

B B B B c B B B B B B c Ba

31

11

Fig. 4 – Representação esquemática dos perfis espécie-específicos de moluscos brasileiros pertencentes a dez espécies
e uma subespécie do gênero Biomphalaria. Bg: Biomphalaria glabrata; Btt: B. tenagophila tenagophila; Btg: B.t. guaiben-
sis; Boc: B. occidentalis; Bk: B. kuhniana; Bs: B. straminea; Bi: B. intermedia; Bp: B. peregrina; Bo: B. oligoza; Bsch: B.
schrammi; Ba: B. amazonica (Vidigal et al., 2000).
Hospe eiros Interme i rios e his s ma mans ni no rasil r 3

ca a

Biomphalaria glabrata

Biomphalaria straminea

Biomphalaria tenagophila

Fig. 5 – Distribuição das três espécies hospedeiras intermediárias de S. mansoni no Brasil (Paraense 1986, atualizado).

B. straminea é a espécie mais bem-sucedida e paralelos 15 e 18S e pelos meridianos 40 e 44W.


adaptada às variações climáticas, sendo encon- É muito menos suscetível que B. glabrata, sendo,
trada em quase todas as bacias hidrográficas do entretanto, a principal responsável pela trans-
país. Deste modo, os espaços claros nos mapas missão de S. mansoni no Nordeste, sobretudo no
de distribuição geográfica são decorrentes, em interior, na Região do Agreste, onde é a principal
grande parte, da falta de pesquisas nestas re- espécie transmissora. De fato, observa-se que,
giões. Este molusco apresenta distribuição mais apesar de a B. straminea ser uma hospedeira
densa no Nordeste, compreendendo o norte da pouco eficiente (menos de 1% desse molusco é
Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Rio Gran- encontrado infectado e a taxa de infecção expe-
de do Norte e Ceará, na área limitada entre o pa- rimental é menor que 4%), essa espécice é uma
ralelo 11S e meridianos 41W, e no nordeste de ótima vetora, pois mantém a prevalência acima
Minas e sul da Bahia, na área delimitada pelos de 50% em algumas localidades de Pernambuco.
4 r Parasitologia e Micologia Humana

BIOLOGIA tuação das espécies. De fato, por serem herma-


froditas, em condições favoráveis optam pela fe-
Os planorbídeos habitam o planeta desde o cundação cruzada, induzindo a recombinação
período jurássico, ocupando grandes extensões genética. Em condições desfavoráveis, um ou
territoriais entre as latitudes 70N e 40S, vivendo poucos iundivíduos podem utilizar o mecanismo
em ambientes naturais, artificiais e temporários. de autofecundação, dando início a uma nova
A altitude parece não influenciar a sobrevivência população (efeito fundado). Os planorbídeos são
desses moluscos, uma vez que são observados altamente prolíficos. De fato, um único indiví-
desde o nível do mar até a 3.000 metros de alti- duo é capaz de gerar, ao final de 3 meses, cerca
tude, nas Montanhas Rochosas, ou no lago Titi- de 10 milhões de descendentes. Em todos os ca-
caca, a 4.280 metros. De modo geral são encon- sos podem promover, em pouco tempo, um rápi-
trados em pequenas coleções hídricas com velo- do repovoamento dos criadouros.
cidade inferior a 30 cm/segundo, com vegetação A possibilidade da formação de uma nova po-
vertical ou flutuante e algas utilizadas como ali- pulação a partir de um único indivíduo, permite
mentação. Entretanto, alguns exemplares podem explicar a ocorrência de certas colônias de pla-
migrar contra a correnteza ocupando lentamen- norbídeos com características peculiares e pe-
te outros criadouros a montante das colônias ori- quena variação individual. De fato, esses planor-
ginais. bídeos apresentam uma baixa variabilidade ge-
Os planorbídeos estão sujeitos a fortes pres- nética intrapopulacional e uma alta variabilidade
sões ambientais, como a mudança drástica de intra-específica. Isso ocorre devido a um baixo
temperatura, inundação ou dessecação rápida fluxo gênico entre as populações, o que faz com
do volume d’água, tornando desfavoráveis as que elas se tornem bem diferentes. A baixa varia-
condições do meio. Entretanto, se o processo de bilidade que ocorre nas populações deve-se, tal-
dessecação se fizer de forma lenta, mas progres- vez, às pressões ambientais, que induzem a hi-
siva, como é comum ocorrer em algumas áreas bernação, a diapausa, a estivação ou o enterra-
do Nordeste brasileiro, os planorbídeos podem mento desses caramujos.
resistir vivos por um longo período (anidrobiose). As temperaturas favoráveis para B. glabrata
Esses moluscos desenvolveram inúmeros meca- oscilam entre 25 a 30°C; abaixo de 20°C a ativi-
nismos de sobrevivência e escape, como a brusca dade do molusco decresce, sendo que a 10°C os
parada no desenvolvimento, controlada por fato- moluscos já não se alimentam nem se observa
res internos, mesmo quando as condições do meio oviposição. A 45°C morrem em pouco tempo.
são favoráveis (diapausa) ou a quiescência, que é O teor de cloreto de sódio da água é um fator
determinada diretamente por condições desfavo- limitante para a sobrevivência e a distribuição
ráveis do meio, manifestando-se na forma de para- dos planorbídeos. Estes animais são encontrados
da do desenvolvimento, induzida pela elevação da em águas com concentrações de cloreto varian-
temperatura (estivação), ou pelo abaixamento da do de 0,02 g/l a 3,5 g/l. Entretanto as altas con-
temperatura a um nível tal que faz cessar todo o centrações são danosas para muitas populações de
desenvolvimento (hibernação). Biomphalaria.
São capazes de enterrarem-se no solo dos Na natureza, excluídos os fatores nocivos for-
ambientes aquáticos (hidropsamon) e fora deles tuitos, em geral a sobrevivência dos planorbídeos
(eupsamon), devido à formação de ambientes não vai além de 1 ano, sua persistência nos focos
aquáticos temporários, como poças d’água for- decorre do ritmo de multiplicação, que está na
madas por chuvas ou inundações, que vão resse- dependência de diversos fatores ecológicos que
cando lentamente. Esse comportamento parece influenciam a fecundidade, a postura e a viabili-
estar relacionado a hábitos de nutrição ou prote- dade dos ovos.
ção, ou mesmo ambos. O enterramento pode
coincidir também com a aplicação de moluscici- Habitat
da.
O mescanismo reprodutivo entre os planorbí- Os planorbídeos são habitantes de água doce e
deos desempenha papel fundamental na perpe- podem ser encontrados em coleções hídricas varia-
Hospe eiros Interme i rios e his s ma mans ni no rasil r 5

das, quer em extensão, profundidade e altitude, quer Reprodução


em diferentes graus de transparência e poluição.
Os planorbídeos são hermafroditas (monói-
Os criadouros de planorbídeos podem ser cos), apresentando uma alta prolificidade, repro-
classificados em naturais, artificiais e temporários. duzindo-se tanto por autofecundação quanto
São naturais os brejos e pântanos mais ou menos por fecundação cruzada. Em condições favorá-
permanentes; os córregos, pequenas nascentes, as veis optam pelo último mecanismo. Assim sen-
margens em remanso dos ribeirões e rios, as de- do, um dos exemplares desempenha o papel de
pressões naturais das rochas contendo água. Cria- macho e o outro de fêmea, raramente observan-
douros artificiais são as coleções d’água resultantes do-se a cópula cruzada.
da atividade humana, como as valas e canais de es- Os planorbídeos são ovíparos, sendo que a
gotamento e irrigação, as barragens ou represas, os postura se realiza geralmente à noite e pode ser
atoleiros, as cacimbas ou poços artificiais de uso observada durante todo o ano.
domiciliar, as valetas de estradas de ferro e de ro- Os ovos, depositados um a um, são envolvi-
dagem e, até mesmo, os lagos artificiais para orna- dos por uma cápsula ovígera constituída por uma
mentação. Os criadouros temporários são os alaga- fina camada de substância gelatinosa, produzida
diços, conseqüentes de inundações ocasionadas pela glândula nidamental. As desovas, ovipostas
por águas pluviais ou de rios ou outros mananciais. diariamente no lado inferior de folhas flutuantes
ou qualquer superfície submersa, enrijecem len-
Um fato importante que deve ser ressaltado é
tamente em contato com a água apresentando
a resistência dos planorbídeos à dessecação. Esse
em menos de meia hora uma cor amarelada com
fato explica o encontro de planorbídeos em re-
aspecto de um disco elíptico transparente, firme
giões onde ocorrem longos períodos de estiagem,
e flexível (Fig. 6). O número de ovos varia de 1 a
nos intervalos das estações chuvosas. Com o re-
cerca de 100 por desova. A infecção do ovoteste
torno das chuvas, os moluscos retomam sua ativi-
pelo S. mansoni, interfere na oviposição, que é
dade reproduzindo-se e repovoando rapidamen-
suprimida em muitos casos.
te os criadouros. Na estação seca a mortalidade
A eclosão da maioria dos embriões ocorre
dos moluscos parasitados é alta se permanecerem
cerca de 6 a 9 dias após a postura, a uma tempe-
fora d’água. Durante o período de estivação o pa-
ratura de 26°C.
rasito pode interromper o processo de desenvol-
A evolução de ovo a ovo, entre duas gera-
vimento, retomando seu ciclo juntamente com o
ções, varia dentro de limites amplos, que podem
retorno do hospedeiro ao meio hídrico.
se estender de 2 a 3 meses.

Nutrição e Respiração
Os planorbídeos alimentam-se de vegetais
aquáticos, restos de animais e vegetais em de-
composição e algas, bactérias e microrganismos
presentes no limo que se forma nas superfícies
encobertas pela água. Por outro lado, as algas
unicelulares são o alimento de escolha dos mo-
luscos recém-eclodidos.
A respiração atmosférica, predominante neste
grupo de moluscos, realiza-se pela cavidade pulmo-
nar. Quando submersos, a principal fonte de oxigê-
nio são as pregas do tegumento, ricamente vascula-
rizadas, que recebem o nome de pseudobrânquias.
Esses moluscos são relativamente resistentes à as-
fixia e podem viver entre 3 e 6 dias em anaerobiose. Fig. 6 – Cápsula ovígera de B. glabrata. Original.
6 r Parasitologia e Micologia Humana

CONTROLE DOS MOLUSCOS bia splendens) como um potente e específico


moluscicida com efeito para moluscos adultos.
A eliminação dos planorbídeos constitui uma
das medidas de controle da esquistossomose No controle biológico dos planorbídeos uma
mansônica e pode ser feita pela utilização de grande variedade de peixes (Cichlasoma ocella-
moluscicidas, competidores biológicos e modifi- tum, Tilapia melanopleura e Astronotus ocellatus) e
cações do habitat. Numerosos produtos quími- moluscos (Marisa cornuarietis, Pomacea haustrum,
cos foram estudados com o objetivo de serem Helisoma druyi e Thiara granifera) tem sido estuda-
usados como moluscicidas, entretanto apenas al- da. Entretanto os ensaios realizados com estes ani-
guns merecem ser destacados: sulfato de cobre, mais têm produzido resultados desanimadores, ex-
carbonato de cobre, pentaclorofenato de sódio, ceto em coleções hídricas muito específicas. Em
entre outros. decorrência dos resultados obtidos, a Organização
Atualmente, o moluscicida mais utilizado é a Mundial de Saúde (OMS) não recomenda a intro-
niclosamida (Bayluscid), que é um sal de etano- dução de nenhuma espécie de molusco ou utiliza-
lamina da 5,2-dicloro-4-nitro-salicinilida com ção de qualquer outro meio de controle biológico,
ação tanto para os moluscos adultos quanto para uma vez que esta atividade pode ser extremamen-
seus ovos. Pode ser aplicado pelo processo de te danosa ao equilíbrio ambiental.
gotejamento, em ambientes lóticos (águas cor- A modificação do habitat dos moluscos, ape-
rentes), ou por bomba de aspersão em ambien- sar de constituir-se na atividade mais onerosa e
tes lênticos (águas paradas). necessitar de estudos ecológicos prévios, pode
O alto custo dos moluscicidas sintéticos asso- ser, em determinadas circunstâncias, o método
ciado a uma crescente preocupação com a pre- de escolha, pois freqüentemente estão associa-
servação ambiental tem incentivado a pesquisa e dos efeitos benéficos para a população. Essas
ensaios com substâncias de origem vegetal com modificações podem ser feitas através de remo-
efeito moluscicida que não causem danos ao ções periódicas de vegetação, retificações de co-
meio. Entre as substâncias de origem vale desta- leções hídricas, drenagens, canalizações, modifi-
car o látex obtido da “coroa de Cristo” (Euphor- cações de canais etc.
29
Esquistossomose
Mansônica

s uistossomose Mans nica


A esquistossomose mansônica é também de- bídeos, hospedeiros intermediários de Schistoso-
nominada esquistossomose intestinal e doença ma mansoni.
de Manson-Pirajá da Silva. No Brasil esta vermi-
nose constitui importante problema médico-sa- PATOGENIA
nitário, tanto pela sua elevada incidência em de-
terminadas regiões do país quanto pela gravida- As manifestações mórbidas da esquistossomose
de dos sintomas. decorrem das ações parasitárias das cercárias, dos
Sua distribuição geográfica muito extensa é adultos e dos ovos no organismo parasitado bem
caprichosa, devido aos diversos fatores de ordem como dos processos reacionais deste, variáveis em
climática e outros de difícil explicação. Sua inci- suas características, de acordo com o comporta-
dência é também muito variável no país, entre os mento imunobiológico do indivíduo infectado.
estados e, nestes, de localidade para localidade. Para melhor se compreender a patogenia da
esquistossomose mansônica, é necessário se con-
Sem precisar em dados numéricos, os percen-
siderar os fatores anteriormente enumerados co-
tuais de infecção pelo S. mansoni são mais eleva-
mo elementos conjugados na gênese das altera-
dos nos estados do Nordeste e da região Cen-
ções teciduais e humorais.
tro-Leste do Brasil. Assim, as áreas mais assoladas
pela endemia esquistossomótica são observadas
nos estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe,
Primeiro Período
Bahia e Minas Gerais. Em outros, a doença tam- As cercárias, ao penetrarem no organismo e
bém ocorre em focos mais ou menos extensos, em sua migração passiva na corrente sanguínea,
estando presente no Pará, Maranhão, Piauí, Cea- desempenham sua ação tóxica, irritativa e sensi-
rá, Rio Grande do Norte, Paraíba, Espírito Santo, bilizadora por meio de suas secreções, provo-
Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. cando uma reação alérgica e inflamatória que,
Em outros estados e nos territórios a doença em muitos casos, traduz-se por crises de urticá-
tem sido observada, não havendo, entretanto, ria, por prurido localizado nos pontos de pene-
indicação de que sua presença seja autóctone. tração do parasito, por focos de pneumonite e
Não é de se estranhar que novas áreas de inci- de hepatite, geralmente fugazes. No pulmão e
dência da esquistossomose venham a aparecer, no fígado, a cercária, já sob a forma de esquistos-
em conseqüência das intensas correntes migrató- sômulo, provoca alterações traumáticas e he-
rias internas e da ampla distribuição dos planor- morrágicas e consecutiva infiltração de células,

7
r Parasitologia e Micologia Humana

particularmente eosinófilos, células epitelióides matosas com invasão de células epitelióides,


e gigantócitos. plasmócitos e gigantócitos, dando lugar, algumas
Essas alterações coincidem com o período de vezes, a lesões difusas e em outras, a pseudotu-
incubação ou de invasão parasitária correlato ao bérculos.
crescimento e maturação dos parasitos que mor- Têm-se verificado, ao lado das lesões decor-
rem ao término de 5 ou 7 semanas da infecção. rentes da ação direta dos ovos nos tecidos, alte-
A ação patogênica dos helmintos adultos é re- rações intersticiais, observadas com maior fre-
lativamente discreta em comparação com a dos qüência no fígado e nos pulmões, que têm sua
seus ovos. Supõe-se que os parasitos adultos, origem no estabelecimento de um estado hipe-
hóspedes do lúmen dos vasos mesentéricos ou, rérgico do organismo.
ocasionalmente, de outros vasos, exerçam, ma- Tal como se dá em outras doenças parasitárias,
chos e fêmeas, diferentes ações sobre o organis- a histologia das lesões revela-nos um dado mo-
mo parasitado, provocando reações de variável mento de sua evolução. E, para melhor se com-
intensidade. Podemos lhes atribuir uma ação preender a patogenia da esquistossomose, não
mecânica por obstrução do vaso onde se encon- podemos ater-nos aos seus aspectos estáticos e,
tram, uma ação traumática e irritativa sobre o sim, compreendê-los em sua seqüência dinâmi-
endotélio venular, e uma ação espoliadora, re- ca, como fases sucessivas de um processo bioló-
sultante da ingestão do sangue em que se ba- gico em andamento.
nham. Mais importante que estas são as ações tó- Desse modo, as lesões iniciais de natureza ex-
xica e alergizante das secreções e excreções do sudativa com infiltração leucocitária, particular-
helminto adulto, suscitando a formação de anti- mente eosinofílica, transformam-se em granulo-
corpos de proteção e hipersensibilidade, eviden- mas parasitários, com infiltração de células epite-
ciáveis por sinais clínicos e provas de laboratório. lióides, plasmócitos e gigantócitos, com os ovos
Outra atividade patogênica dos vermes em de S. mansoni mais ou menos alterados.
sua localização endovascular é a formação da É de se notar que essas estruturas histológicas
hematina, resultante da metabolização da hemo- se modificam pela invasão de fibrócitos, da qual
globina, graças às suas enzimas. A hematina en- resultam cicatrizes fibróticas e, em outros casos,
tão formada é fagocitada pelos elementos do sis- hiperplasia celular e neoproliferação vascular
tema monocítico fagocitário e acumula-se nos com formação de papilomas.
tecidos de certos órgãos, principalmente o fíga-
do e o baço, de modo comparável ao que se ob- Terceiro Período
serva na malária com esta mesma substância e
também com a hemozoína. A fase de invasão das lesões por células conjun-
tivas e de reparação tecidual com formações cica-
É inegável a atividade dos adultos de S. man-
triciais caracteriza o terceiro período da doença,
soni sobre o organismo, porém, sem dúvida, ca-
cuja sintomatologia variável tem como substrato as
be aos ovos do parasito o papel mais importante
alterações mórbidas em diversos órgãos internos.
na patogenia da esquistossomose mansônica.
Podem-se observar lesões no intestino, gânglios
Segundo Período linfáticos do abdome, fígado, baço, pulmões e,
menos freqüentemente, coração, sistema nervoso
O início da postura dos ovos e sua deposição central, pâncreas e rins.
no recesso da parede intestinal, onde podem No intestino, as lesões determinadas pelos
permanecer ou então ser libertados no lúmen do ovos do parasito situam-se principalmente no
órgão, marca o segundo período da doença ca- cólon descendente, alça sigmóide e reto e po-
racterizado pelas lesões decorrentes das reações dem ocupar níveis diferentes, porém mais fre-
teciduais por eles suscitadas. qüentemente na mucosa e submucosa e menos
Os ovos no interior dos tecidos, como corpos na serosa e gânglios mesentéricos.
estranhos vivos, provocam ao seu redor infiltra- As lesões são de caráter variável, ora repre-
ção de células de natureza variável, com forma- sentadas por pseudo-abscessos, ora por pseudo-
ção de processos exsudativos, reações granulo- tubérculos relacionados com a presença de ovos
s uistossomose Mans nica r

que, ao invés de se libertarem no lúmen intesti- megalia, segundo a teoria de Girges, seria decor-
nal, permanecem no interior dos tecidos. rente do parasitismo pelos machos do verme.
Estas lesões ora sofrem uma transformação fi- Ainda que sejam freqüentes os casos clínicos
brótica, ora ocasionam uma hiperplasia da mu- com cirrose e aumento do baço, não se conhece
cosa. Resultam desses processos teciduais úlce- uma explicação definitiva para esse fato.
ras intestinais de dimensões variáveis e pólipos As lesões pulmonares são ocasionadas pelos
salientes no lúmen do órgão. ovos, embora os adultos possam erraticamente
Na fase avançada da doença, a fibrose da pa- ser encontrados nos vasos dos pulmões. Os ovos
rede intestinal e a calcificação dos ovos ocasio- atingem esses órgãos pelo sistema venoso e acre-
nam o estreitamento das partes inferiores do tu- dita-se que se originem das fêmeas parasitas dos
bo entérico e alteram-lhe a motricidade. No Bra- vasos mesentéricos. Graças às anastomoses entre
sil, felizmente, não são observados no curso da os sistemas portal e cava inferior no nível do reto
esquistossomose, senão raramente, o prolapso e da sigmóide, os ovos, pela veia cava, chegam
retal e as fístulas comunicando o reto com o perí- ao coração direito, onde atingem os capilares,
neo. pelas artérias pulmonares, nas quais são retidos
No fígado, as alterações mórbidas na fase ini- ou através deles são lançados no parênquima
cial da doença decorrem da ação das formas pulmonar.
adolescentes do verme no lúmen dos vasos do As lesões pulmonares são causadas pelos ovos
sistema portal em sua localização intra-hepática. dentro e fora dos capilares e acredita-se que as
Essas formas imaturas, segundo Faust (1939), mi- substâncias elaboradas por eles constituam um
gram desta posição para os ramos ileocólico e dos componentes do processo lesional.
cólico da mesentérica superior e para o ramo có- Entre as alterações dos pulmões, chama a
lico da mesentérica inferior. atenção a endarterite difusa de que resulta a es-
No período de postura, os ovos desgarrados tenose vascular e o reforço do ventrículo direito
das vênulas da parede do intestino atingem, pela com seu aumento e depois, como conseqüência,
veia porta, os capilares hepáticos, cujas paredes as manifestações do cor pulmonale crônico.
atravessam por um modo obscuro, constituindo A descoberta de lesões provocadas pelos ovos
focos inflamatórios periportais. em diversos órgãos é explicada por sua dissemi-
Estes focos acabam por se transformar em le- nação através do sistema arterial.
sões cirróticas decorrentes da sua invasão pelo te- Os ovos chegados aos ramos da artéria pul-
cido conjuntivo que estreita os vasos sanguíneos, monar podem passar diretamente para a veia
embaraçando ou impedindo a circulação portal. pulmonar através de fístulas arteriovenosas e,
Resultam dessa cirrose hepática o estabeleci- conduzidos ao coração esquerdo, são lançados
mento da circulação vicariante visível sob o tegu- aos locais mais remotos do corpo, onde produ-
mento do abdome e, a seguir, nos casos graves e zem lesões.
inveterados, transudação peritonial e ascite. Por esse mecanismo se explicam as raras lesões
Ponto controvertido na patologia da esquis- coração, medula espinhal, pâncreas e cérebro.
tossomose é o da gênese da esplenomegalia nas
fases graves e avançadas da parasitose. SINTOMATOLOGIA
Para alguns autores, a congestão passiva do
baço seria resultante das interligações e da siner- Os sintomas da esquistossomose apresentam
gia funcional deste órgão com o fígado; para ou- extrema variação quer em intensidade, quer em
tros as lesões esplênicas correriam por conta dos suas manifestações dependentes da duração, do
ovos erráticos do verme passivamente conduzi- período da doença e do comprometimento dos
dos e imediatamente destruídos, o que explica- diferentes órgãos.
ria a raridade dos mesmos nos tecidos; para ou- Com relação à intensidade, escalonam-se os
tros, ainda, seriam as alterações esplênicas de- sintomas observados nos diferentes casos, desde
correntes de substâncias tóxicas elaboradas a dis- aqueles em que são muito discretos e imprecisos
tância pelos parasitos e, finalmente, a espleno- até os graves, encontrados nos indivíduos forte-
1 r Parasitologia e Micologia Humana

mente parasitados, em que as lesões podem cau- Laboratório – exame de fezes pode ser negati-
sar invalidez ou morte. vo. Deve-se fazer, então, biópsia retal. Intrader-
Segundo Meira (1960), a esquistossomose man- morreação positiva. Eosinofilia. Anemia modera-
sônica apresenta as seguintes formas: a) toxêmica, da.
inicial ou aguda; b) intestinal ou hepatointestinal; e) Tipo 4 – Hepatoesplênica – Fase de cirrose
c) hepatoesplênica. descompensada – grandes esplenomegalias; em
Além destas formas, Meira consigna outras re- geral, baços palpáveis até ou além da cicatriz
lacionadas com sua localização particular, como umbilical, fígado pequeno, contraído, ou tam-
formas pulmonar e nervosa. bém hepatomegalias. Em geral ascite, hematê-
Os casos clínicos agudos são raramente obser- meses ou circulação colateral. Perburbações fre-
vados, só ocorrendo em indivíduos submetidos a qüentes do trato respiratório. Magreza, desnutri-
uma primeira infecção e de grande intensidade. ção acentuada.
A predominância é, portanto, dos casos crôni- Laboratório – exame de fezes pode ser negati-
cos, sobretudo nas áreas endêmicas. vo. Deve-se então realizar biópsia retal. Ten-
Pessôa e Barros (1953) criaram um sistema em dência à leucopenia; anemia acentuada; eosino-
que a doença é dividida em cinco tipos definidos filia menos acentuada que nos outros tipos. In-
pelos sintomas em associação com os dados de tradermorreação positiva.
laboratório. Esse sistema é de grande valor no es-
tudo da epidemiologia da parasitose. Transcreve- DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
mos a seguir esse esquema.
Os métodos preconizados para o diagnóstico
A) Tipo 0 – Toxêmico – manifestações cutâneas do
laboratorial da esquistossomose dividem-se em
tipo urticária. Surtos febris, fenômenos pulmo-
dois grupos. O primeiro compreende os méto-
nares e outras manifestações alérgicas. Podem
dos diretos, que se propõem a evidenciar os ovos
ocorrer diarréia e hipotensão.
de Schistosoma mansoni nas fezes, nos fragmen-
Laboratório – exame de fezes negativo. Leuco-
tos da mucosa retal e, circunstancialmente, em
citose e acentuada eosinofilia. Intradermorreação
fragmentos do fígado.
positiva na fase final deste tipo.
O segundo grupo inclui provas imunoalérgi-
B) Tipo 1 – Intestinal – diarréia com ou sem expul-
cas, como a intradermorreação e reações soroló-
são de fezes mucossanguinolentas. Dor abdo-
gicas diversas.
minal e no hipocôndrio direito. Dor à palpa-
ção cecal. Fígado e baço não-palpáveis. São Métodos Diretos
incluídos aqui os casos aparentemente assinto-
máticos. A) Pesquisa de ovos nas fezes – pode ser feita exa-
Laboratório – exame de fezes positivo. Núme- minando-se as fezes entre lâmina e lamínula.
ro de leucócitos normal ou, em alguns casos, um Se diarréicas, recolhe-se uma pequena porção
pouco aumentado. Eosinofilia. Intradermorrea- do material, de preferência com muco, e pro-
ção positiva. cede-se à microscopia com lentes de pouco
C) Tipo 2 – Hepatointestinal – sintomas intestinais aumento e iluminação adequada. Se molda-
semelhantes aos do Tipo 1. Maior porcenta- das, pode-se examinar o muco que as recobre
gem de casos com diarréia e epigastralgia. Fí- em parte ou dissolvê-las em solução fisiológica
gado aumentado de volume; baço não-palpá- e, da solução, examinar-se uma pequena por-
vel. ção entre lâmina e lamínula.
Laboratório – exame de fezes positivo; eosi- Na prática lança-se mão dos métodos de con-
nofilia. Intradermorreação positiva. centração, dos quais os mais usados são o de
D) Tipo 3 – Hepatoesplênica – Fase de cirrose Kato-Katz e o de sedimentação, este proposto
compensada – além da sintomatologia intesti- por Lutz em 1918, e dos quais daremos a descri-
nal, apresentam fígado aumentado de volu- ção na seção dedicada à parte técnica desta
me, com tendência aos grandes fígados. Baço obra.
palpável, sem tendência aos grandes baços. A positividade dos exames, quando se empre-
Estado geral deficiente. ga o método da sedimentação, está mais na de-
s uistossomose Mans nica r 11

pendência de causas ligadas ao doente e ao pa- superiores, passando pelas fases de miracídio,
rasito do que ao método em si, e o número de esporocisto primário, esporocisto secundário, cer-
ovos encontrados nas fezes nem sempre oferece cária e adulto.
qualquer correlação com a extensão das lesões e Os inviáveis não evoluem e, em tempo variá-
a gravidade da doença. vel, parados no recesso dos tecidos da parede in-
A presença de ovos nas fezes indica sempre testinal, acabam por sofrer alterações degenera-
doença mais ou menos ativa, com parasitos vi- tivas de diferentes graus.
vos, estando a fêmea em atividade reprodutora. Os ovos imaturos evoluem nos tecidos, dos
Neste caso os ovos são morfologicamente nor- quais se libertam no lúmen intestinal quando
mais, com o miracídio parcial ou completamente atingem a maturidade. Por isso é comum não se
desenvolvido e, portanto, viáveis. encontrarem ovos imaturos nas fezes.
A presença de ovo de S. mansoni nas fezes, Os ovos viáveis maduros, ao contrário dos de-
qualquer que seja o método empregado, conduz mais, são os únicos indiferentemente encontrados
ao diagnóstico de esquistossomose ativa com o nos tecidos e nas fezes, sendo sua migração e sua
parasito vivo, porém não permite avaliar na maio- libertação dos tecidos duas das suas peculiarida-
ria dos casos a gravidade da infecção. des.
É claro, entretanto, que nas fases iniciais da
A coleta do material da mucosa retal e alça
parasitose, o número de ovos observados nos
sigmóide é feita por biópsia, por meio de retos-
exames de fezes seja diretamente relacionado
sigmoidoscopia, usando-se uma pinça especial
com o número de exemplares infectantes do tre-
longa que funciona como um saca-bocado.
matódeo, podendo-se estabelecer nestes casos a
relação entre o seu número e a extensão das le- A conduta a seguir, feita no exame do frag-
sões. mento da mucosa, será estudada na última seção
Nos tipos avançados da doença, como no he- deste livro.
patoesplenomegálico, com lesões muito graves e O ponto preferido pelos gastrenterologistas e
irredutíveis, o exame de fezes é em geral negati- proctologistas é a válvula de Houston; outros
vo, evidenciando uma esquistossomose às vezes pontos, entretanto, devem ser examinados se
parasitariamente extinta. mostrarem lesões suspeitas.
Com base na estrutura histológica das lesões, Para melhor orientação prática na avaliação
pode-se pensar que, mesmo em casos com doen- dos dados de laboratório estabeleceremos as se-
ça em atividade, os ovos viáveis, todos ou em par- guintes proposições:
te, não cheguem ao lúmen do intestino e perma- 1 – Exame de fezes positivo – doença ativa, com
neçam encalhados no tecido fibroso das lesões. parasitos vivos.
Ao contrário do exposto, há casos de infecção 2 – Exame de fezes negativo:
pelo S. mansoni assintomáticos ou com sintoma- a) a doença em questão pode não ser a es-
tologia discreta, com ovos presentes nos exames quistossomose;
de fezes.
b) doença na fase inicial, antes da postura e
eliminação dos ovos;
B) Pesquisa de ovos em fragmentos da mucosa
(repetindo os exames, estes poderão pos-
retal – antes de passarmos aos comentários sobre
teriormente mostrá-los);
a pesquisa de ovos em fragmentos da mucosa re-
tal e da alça sigmóide coletados por biópsia, fa- c) postura interrompida temporariamente por
remos breve estudo das suas diferentes catego- medicação insuficiente;
rias: d) doença ativa, com poucos parasitos e es-
Ovos viáveis – Imaturos e maduros. cassa eliminação dos ovos ou em períodos
Ovos inviáveis – Recentemente mortos; calci- negativos de postura e eliminação, decor-
ficados; enegrecidos, não-fecundados; residuais rentes de causas indeterminadas;
e teratológicos. e) parasitismo por machos, ocorrência, aliás,
Os ovos viáveis são capazes de, em condições muito rara;
naturais, evoluir para atingir estágios evolutivos f) erros técnicos na execução dos exames.
1 r Parasitologia e Micologia Humana

3 – Exame da mucosa retal positivo: torno irregular, traduzindo uma reação de preci-
a) ovos viáveis maduros ou imaturos – doença pitação antígeno-anticorpo.
ativa; A reação é precoce, sendo positiva antes que
b) ovos maduros ou imaturos recentemente se evidenciem os ovos nas fezes e persiste positi-
mortos – doença inativa ou postura parali- va durante a sobrevivência do helminto, servin-
zada por medicação; do assim para diferenciar a doença em atividade
c) ovos inviáveis calcificados, enegrecidos ou parasitária da extinta, graças à terapêutica insti-
residuais – doença extinta. Os ovos não fe- tuída.
cundados e os teratológicos são muito ra- Essa reação só pode ser realizada nos labora-
ros e, em geral, coexistem com os de ou- tórios que disponham de planorbídeos infecta-
tras categorias, não tendo sua presença va- dos.
lor prático na interpretação dos resultados. Reação de precipitação periovular – semelhan-
4 – Exame da mucosa retal negativo: te à anterior, empregando-se em vez de cercárias,
a) a doença em questão não é a esquistosso- ovos normais do parasito coletados das fezes ou
mose mansônica; tecidos.
b) doença ativa ou inativa, porém ocasionada A reação é positiva quando se forma um halo
por parasitos machos, o que é excepcio- de precipitação (Fig. 1) em torno dos ovos viáveis
nal; de S. mansoni imersos no soro do doente. O ma-
c) erros na coleta do material. terial é incubado a 37°C, durante 2 a 24 horas na
Como se depreende do exposto, a interpreta- estufa.
ção dos resultados dos exames de fezes e da mu-
cosa devem ser apreciados com reserva e espíri-
to crítico para maior segurança no diagnóstico,
melhor avaliação do prognóstico e acertada con-
duta terapêutica.

Métodos Indiretos
A) Reação da fixação do complemento.
B) Reação cercariana de Vogel e Minning.
C) Reação de precipitação periovular.
D) Reação de soro-precipitação.
E) Imunofluorescência indireta.
F) ELISA. Fig. 1 – Reação positiva de precipitação periovular. Segun-
do Kloetzel.

Fixação do complemento – esta reação é tam-


bém chamada de Fairley, que a usou pela primei- Embora na prática seja difícil sua execução
ra vez em 1917. O antígeno empregado na rea- por não se dispor a qualquer momento de ovos
ção é um extrato alcoólico de vísceras de planor- recentemente eliminados, a reação é não só es-
bídeos infectados pelo S. mansoni. pecífica, mas sensível.
A reação é muito sensível e específica, porém,
Reação de precipitação – consiste na observa-
na prática, é pouco usada.
ção in vitro de um disco de precipitação quando,
Na execução da reação segue-se a técnica da
em um tubo de hemólise, superpõe-se ao soro
reação de Wassermann ou de suas variantes.
do doente um extrato de adultos de S. mansoni
Reação cercariana de Vogel Minning – consis- ou de vísceras de molusco infectado.
te em colocar no soro previamente inativado do
doente, cercárias de S. mansoni coletadas em A reação, embora suficientemente específica,
planorbídeos e, ao microscópio, apreciar em tor- não é preferida devido a sua reduzida sensibili-
no do corpo da cercária, após incubação, a for- dade, não sendo positiva senão em aproximada-
mação de uma membrana transparente de con- mente 50% dos casos da doença.
s uistossomose Mans nica r 13

Imunofluorescência – este teste, que emprega Oxamniquine


uma técnica indireta e equipamento apropriado,
tem grande valor a partir do terceiro mês de in- Várias drogas já foram usadas no tratamento
fecção. da esquistossomose mansônica, destacando-se
A prova é altamente específica e de grande os antimoniais e as tioxantonas. Atualmente a
sensibilidade. oxaminiquine é a droga de escolha no tratamen-
to dessa helmintose.
O antígeno é representado, na ordem de prio-
ridade, pelas cercárias ou miracídios, recente- O tratamento por via oral, sob a forma de
mente tratados e fixados no formol a 10%. cápsula de 250 mg e suspensão de 50 mg/ml em
dose única de 15 mg/kg.
Colocado o material antigênico em contato
Os efeitos colaterais observados são geral-
com o soro contendo anticorpo, após lavagem e
mente muito discretos e transitórios, como ton-
posterior exposição à globulina marcada com
tura, sonolência, náuseas, que geralmente ocor-
isotiocianato de fluoresceína, as formas parasitá-
rem nas primeiras 24 horas após a administração
rias mostram uma coloração amarelo-esverdea-
da droga.
da brilhante.
Mostra-se altamente eficaz sobre todas as for-
Técnica de ELISA – método imunoenzimático
mas evolutivas do parasito no organismo, tendo
mais sensível que os anteriores. Usam-se antíge-
indicação na forma aguda e nas diferentes fases
nos altamente perificados de ovos e vermes adul-
da forma crônica, atingindo um percentual de
tos que reconhecem os anticorpos IgA, IgM e IgG
cura em torno de 95% dos casos.
nas infecções.

Métodos Subsidiários Extração dos Vermes Adultos


Além do tratamento com medicamento, vem-
Hemograma – nos casos de esquistossomose se empreendendo a retirada dos vermes adultos
em atividade, particularmente no período inicial, do interior dos vasos do sistema portal, usando-se
o exame do sangue revela em grande número de um filtro e uma bomba de sucção e de pressão
casos uma hiperleucocitose e, em todos eles, uma entre a veia porta e outra veia, de modo a se esta-
franca eosinofilia. belecer um circuito sanguíneo extracorpóreo.
Em muitos casos, antes que se tenha suspeitado Este circuito compõe-se de uma tubulação
de esquistossomose, é o hemograma que orienta plástica ligando a veia porta ao filtro, para reten-
os exames para o diagnóstico da doença, tão su- ção dos vermes, e este a uma bomba aspiran-
gestiva é a eosinofilia no curso dessa helmintose. te-calcante que aspira o sangue da veia porta e o
A eosinofilia relativa pode ir além de 70% nas lança a outra veia, como a safena ou a umbilical.
formas agudas da doença, baixando gradativa- A operação é realizada em uma hora, sendo
mente à proporção que passa às formas crônicas recolhidas centenas de vermes, indicando êxito
hepatointestinais e hepatoesplenomegálicas. no tratamento.
Das verminoses, só a estrongiloidose se com-
para à esquistossomose como causa eosinofilo- PROFILAXIA
gênica, e dificilmente se observam eosinofilias
mais altas em outras entidades mórbidas não-pa- A profilaxia da esquistossomose mansônica
rasitárias. fundamenta-se no conhecimento da biologia de
S. mansoni e dos planorbídeos que desempe-
TRATAMENTO nham o papel de hospedeiros intermediários do
parasito.
Limitaremos nosso estudo ao tratamento etio- Enunciamos, de modo conciso, as principais
lógico ou causal da doença. As medidas terapêu- medidas de ordem profilática visando a impedir a
ticas gerais, assim como o regime a que se devem disseminação dos ovos do verme, a infecção dos
submeter os doentes, ficarão a cargo das obras planorbídeos pelos miracídios e a infecção do re-
especializadas de clínica. ceptor pelas cercárias infectantes:
14 r Parasitologia e Micologia Humana

1 – Tratamento adequado das fezes humanas de 3 – Combate e destruição dos planorbídeos em


modo a impedir a contaminação das coleções seus focos nas coleções de água naturais e ar-
d’água que servem de habitat aos planorbídeos. tificiais.
4 – Educação sanitária orientada para o esclare-
2 – Tratamento sistemático de todos os portado- cimento das pessoas sobre o modo de infec-
res do parasito de modo a torná-los incapazes ção e disseminação da doença.
de desempenhar o papel de fontes de infec-
ção e propagação da doença. 5 – Legislação capaz de coibir a poluição do solo
e da água por fezes humanas.
30
Trematódeos de
Interesse Secundário no Brasil

remat eos e Interesse ecun rio no rasil


Neste capítulo relacionamos as demais espé- OUTROS TREMATÓDEOS DE
cies de trematódeos que, por não serem autócto- INTERESSE
nes, têm interesse secundário no Brasil. Salvo ra-
ríssimos casos de Fasciola hepatica, tais helmin- Trematódeos Parasitos do Intestino
tos são observados exclusivamente em imigran-
tes de várias nacionalidades. Fasciolopsis buski (Lankester, 1857) Odhner,
1902 – vive no intestino delgado do homem, do
OUTRAS ESPÉCIES DO GÊNERO porco e raramente do cão, em várias regiões da
SCHISTOSOMA PARASITAS DO Ásia (China, Formosa, Vietnan, Tailândia, Índia),
Indonésia e Bornéu.
HOMEM Este verme provoca a fasciolopsiodose, doen-
ça grave que acomete milhões de pessoas nas
Schistosoma haematobium áreas referidas.
(Bilharz, 1852) Weinland, 1858 Echinostoma ilocanum (Garrison, 1908) Odhner,
É o agente da esquistossomove vesical, que 1911 – além desta, várias outras espécies do gê-
constitui problema médico-sanitário em exten- nero Echinostoma e de gêneros próximos têm
sas regiões da África e regiões delimitadas do sido observadas em pontos diversos do mundo,
Oriente Próximo. Não foi observado no Brasil. particularmente no Extremo Oriente. O E. iloca-
num é difundido em certas áreas das Filipinas e
Schistosoma japonicum Katsurada, provoca no homem distúrbios intestinais.
Watsonius watsoni (Conyngham, 1904) Stiles
1904 e Goldberger, 1910 – Helminto do trato intesti-
Agente da esquistossomose arteriovenosa ou nal de símios asiáticos e africanos, uma única vez
doença de Katayama. Ataca as populações rurais observado parasitando o homem, na África Oci-
de grandes áreas do Japão, China, Formosa, Fili- dental.
pinas, Burma, Celebes. Não foi observado no Gastrodiscoides hominis (Lewis e Mc Connel,
Brasil. 1876) Leiper, 1913 – É um parasito do intestino
Outras espécies de Schistosoma parasitas de do porco e de outros animais em diferentes re-
animais da África e Ásia podem parasitar o ho- giões da Ásia. Tem sido observado parasitando o
mem, não tendo, portanto, importância na nossa homem na Indonésia, Índia, China e Guiana.
nosologia. Não parece patogênico.

15
16 r Parasitologia e Micologia Humana

Heterophyes heterophyes (Siebold, 1852) Sti- qüente no homem, porém largamente distribuído
les e Hassal, 1900 – parasita o intestino de vários no mundo, em vários países da Europa, África e
carnívoros domiciliados e selvagens e é também Ásia.
encontrado no homem, na China, no Japão e Fasciola hepatica Linnaeus, 1758 – parasitos
Egito. Ocasiona distúrbios intestinais. de herbívoros e de outros animais, inclusive o
Metagonimus yokogawai (Katsurada, 1912) – homem, em diversas áreas do Velho e do Novo
Como o anterior, vive em diversas espécies de Mundo. No Brasil foram observados raros casos
animais e também no homem, provocando diar- humanos.
réias. É encontrado na Coréia, Japão, Formosa e Fasciola gigantica (Cobbold, 1856) – parasitos
Balcãs. de ruminantes na África e Oriente. Raro no ho-
mem.
Trematódeos Parasitos das Vias
Biliares Trematódeo Parasito das Vias
Respiratórias
Opisthorchis felineus (Rivolta, 1884) Blan-
chard, 1895 – distribuição geográfica: Alema- Paragonimus westermani (Kerbert, 1878) Braun,
nha, Sibéria, Filipinas, Japão, China. 1899 – é um trematódeo parasito de felídeos do-
Clonorchis sinensis (Cobboid, 1875) Looss, miciliados e selvagens, ocorrendo também no ho-
1907 – distribuição geográfica: China, Indochi- mem em amplas regiões da Ásia (Japão, China,
na, Coréia, Japão, Formosa. Em certas áreas é Índia, Formosa, Java, Mandchúria). Foram também
muito freqüente. observados casos de parasitismo na África (Congo,
Dicrocoelium dendriticum (Rudolphi, 1818) Nigéria, Camarões). No Brasil não foram observa-
Looss, 1899 – distribuição geográfica: pouco fre- dos casos autóctones.
31
Classe Cestoda
Rudolphi, 1808. Morfologia,
Biologia e Classificação dos
Cestódeos

lasse esto a u olp i 1 Morfologia iologia e lassificação os est eos


Platyhelminthes endoparasitos de vertebrados três partes: o escólex, onde se encontram os ór-
na forma adulta, de corpo nu, alongados e acha- gãos de fixação; o pescoço, onde se observa a re-
tados no sentido dorsoventral, segmentados, sem gião de crescimento, e o estróbilo, resultante da
trato digestório, hermafroditas, possuindo órgãos união em cadeia de elementos mais ou menos
de fixação em uma das extremidades, representa- numerosos denominados anéis ou proglotes (Fig.
dos por ventosas ou por estas e um rostelo guar- 1).
necido de ganchos ou acúleos. São, salvo raras Do ponto de vista estrutural, o corpo dos ces-
exceções, heteroxenos; os adultos vivem no intes- tódeos é semelhante ao dos trematódeos, sendo,
tino de vertebrados e as formas larvárias, em dife- como nestes, revestido de uma parede musculo-
rentes órgãos dos hospedeiros intermediários que cutânea envolvendo um tecido mesenquimatoso
podem ser, de acordo com a espécie, vertebrados frouxo que ocupa a cavidade celômica, na inti-
ou invertebrados. midade da qual se encontram os órgãos dos siste-
mas e aparelhos.
MORFOLOGIA GERAL A parede musculocutânea é formada pela cu-
tícula externamente disposta, pela subcutícula e,
Anatomia Externa para dentro desta, pela camada muscular com fi-
bras longitudinais e circulares. Além da camada
Os cestódeos apresentam dimensões muito muscular que compõe a parede musculocutâ-
variáveis, tanto nas formas adultas quanto nas nea, há fibras musculares que atravessam o me-
larvárias. Entre as espécies parasitas do homem sênquima nos sentidos dorsoventral, transversal,
na forma adulta, as maiores são a Taenia saginata longitudinal e, às vezes, diagonal.
e o Diphyllobothrium latum, que podem atingir
10 metros de comprimento, e a menor, a Hyme- A B
nolepis nana que mede apenas alguns milíme-
tros. Das formas larvárias, a maior é o cisto hidá-
tico ou hidátide que pode ter 20 cm de diâmetro
e, as menores, são as larvas de Hymenolepis e
Diphylidium que não chegam a 1 mm.
O aspecto geral é o de uma fita de cor branca Fig. 1 – Morfologia de cestódeo. Echinococcus granulo-
ou branco-marfim, móvel à temperatura do hos- sus. Original. A – Escólex; B – região proglotogênica; C –
pedeiro definitivo e com o corpo dividido em estróbilo.

17
1 r Parasitologia e Micologia Humana

A camada muscular é fortemente impregnada O número de anéis imaturos, maduros e grá-


por sais de cálcio que a opacificam, tornando di- vidos é muito variável; no Echinococcus granulo-
fícil a observação da estrutura interna do verme. sus (Fig. 1) há apenas um imaturo, um maduro e
O escólex, situado na extremidade que, con- um grávido; nas demais espécies se encadeiam
vencionalmente, denominamos proximal, por os anéis em graus crescentes de diferenciação da
ser a que se fixa na mucosa intestinal do hospe- região proglotogênica para a distal do estróbilo,
deiro, é em geral muito pequeno, alongado, havendo um número variável de anéis imaturos,
quadrangular ou globóide, e possui duas ou qua- maduros e grávidos.
tro ventosas e, em determinadas espécies, um As proglotes apresentam bordas anterior e pos-
órgão de fixação, o rostelo armado de ganchos terior, margens direita e esquerda, uma face ven-
ou acúleos. tral e outra dorsal.
Nos cestódeos portadores de quatro ventosas Por convenção, a face dorsal é aquela a que
(Ordem Cyclophyllidea), as ventosas são arre- mais próximos se encontram os órgãos do trato
dondadas e orbiculares e providas de um con- genital masculino, porém, na prática, é difícil seu
junto de fibras musculares que lhes asseguram o reconhecimento.
exercício de sua função fixadora; nos de duas
À proporção que a proglote evolui, aumenta
ventosas (Ordem Pseudophyllidea), estas são
de tamanho e forma. Assim, na Taenia saginata as
alongadas e pouco profundas, denominadas bo-
proglotes imaturas são mais largas no sentido
trídias.
transversal; nas maduras, quadradas; e nas grávi-
O rostelo é retrátil em virtude de um conjunto das, alongadas.
de fibras musculares e, em geral, guarnecido de
acúleos de forma e disposição variáveis. Nos anéis observam-se os poros genitais, um
ou dois por anel. Nos Cyclophyllidea os poros
Ao pescoço segue-se o escólex, podendo ser
genitais são marginais, ora alternados regular ou
mais ou menos alongado e não se delimitando
irregularmente (Taenia), ora unilaterais como em
nitidamente daquele.
Hymenolepis, ora bilaterais como no Dipylidium
É no pescoço que se processa a formação das caninum. Nos Pseudophyllidea há, na face ven-
proglotes à custa de um modo especial de brota- tral, além do poro genital, um orifício de postura,
mento. O pescoço é a região proglotogênica do o tocóstomo, podendo-se notar em algumas es-
helminto e aí deve-se realizar uma intensa ativi- pécies duplicidade do poro genital e do tocósto-
dade biológica, tal a rapidez com que se formam mo (Diplogonoporus grandis).
novos anéis que, dispostos em cadeia, compõem
o estróbilo.
Anatomia Interna
Os anéis ou proglotes são em número, forma
e dimensões muito variáveis, de acordo com a Aparelho excretor – aoparelho excretor é re-
espécie ou, na mesma espécie, conforme o seu presentado pelas células vibráteis, idênticas às
grau de maturação. observadas nos trematódeos. Destas células par-
Cada proglote isoladamente constitui uma te um canalículo que, unido a outros, forma ca-
unidade reprodutora, hermafrodita, com organi- nais coletores que desembocam nos canais ex-
zação semelhante à dos trematódeos. cretores longitudinais em dois pares, situados la-
Embora autônomos sob o ponto de vista da teralmente em cada proglote. Os canais de uma
reprodução, são interligados pelos sistemas ner- proglote comunicam-se com os da proglote se-
voso e excretor, como veremos mais adiante. guinte, de modo a se disporem quatro canais ex-
De acordo com o grau de maturação, as pro- cretores ao longo do estróbilo.
glotes podem ser imaturas, maduras e grávidas. Os canais excretores longitudinais, um dorsal,
Nas proglotes imaturas, apenas se esboça a orga- outro ventral, de cada lado, se reúnem no escó-
nogênese; nas maduras diferenciam-se os órgãos lex com os do lado oposto, formando um arco.
dos tratos genitais, e nas grávidas, o útero ocupa Posteriormente, em cada anel, os canais excreto-
quase toda a parte interna da proglote, com atro- res de cada par são interligados por canais trans-
fia total ou não dos demais órgãos locais. versais.
lasse esto a u olp i 1 Morfologia iologia e lassificação os est eos r 1

No último anel, os canais dorsais e ventrais se A parte terminal do trato genital masculino
fundem formando de cada lado um canal único termina em uma depressão pouco profunda, o
que, próximo à extremidade distal da proglote, átrio genital, onde se inicia a vagina. O átrio ge-
dilata-se em pequenas vesículas excretoras que se nital, por sua vez, abre-se para o exterior pelo
comunicam com o exterior pelo forame caudal. poro genital situado marginalmente nos Cyclo-
Sistema nervoso – a organização deste sistema phyllidea e na face ventral dos Pseudophyllidea.
é rudimentar; consta de gânglios e comissuras si- Trato genital feminino – situa-se em posição
tuados no escólex que formam um anel nervoso, ventral em relação ao trato genital masculino.
de onde partem os nervos longitudinais, dois a Compõe-se dos seguintes órgãos: ovário com
três de cada lado do estróbilo, paralelamente aos um ou mais lobos, oviduto, glândulas vitelóge-
canais excretores. Em cada proglote os nervos nas, vitelodutos, oótipo, glândula de Mehlis, úte-
longitudinais de um lado são interligados aos do ro, receptáculo seminal e vagina.
lado oposto por comissuras transversais. O ovário, com número variável de lobos, pro-
Trato genital masculino – hermafroditas, os duz os óvulos que atingem o oótipo pelo ovi-
cestódeos apresentam na mesma proglote os ór- duto. O oótipo é um órgão cavitário pequeno, si-
gãos dos tratos reprodutores masculino e femi- tuado em geral na região mediana da proglote
nino (Fig. 2), devendo-se observar que a diferen- que se comunica com os demais órgãos do trato
ciação dos órgãos masculinos precede à dos fe- genital feminino. Em torno dele observa-se a
mininos, fato conhecido pelo nome de protran- glândula de Mehlis de função obscura, porém,
dria. provavelmente secretora de uma substância lu-
O trato genital masculino compreende um brificadora dos ovos. A vagina, iniciando-se no
número variável de testículos, indo de 3 (Hyme- átrio genital, é um conduto muito delgado que
nolepis) a mais de 300 (Taenia), situados junto à vem terminar no oótipo, antes, entretanto, co-
face dorsal do anel. municando-se com o receptáculo seminal, onde
De cada testículo parte um delgado canal efe- se acumulam os espermatozóides. As glândulas
rente que, unindo-se a outros, forma o canal de- vitelógenas elaboram o vitelo, ou substância nu-
ferente, geralmente entortilhado, que atinge a tridora, que é lançado no oótipo pelo viteloduto
bolsa do cirro. comum, órgão resultante da confluência dos vi-
A bolsa do cirro, em geral, contém a vesícula telodutos que brotam dos ácinos que compõem
seminal, a glândula prostática e o cirro. as glândulas vitelógenas.
Presume-se que os óvulos, ao atingirem o oóti-
po, sejam fecundados pelos espermatozóides co-
letados no receptáculo seminal e, então, impeli-
dos para o útero que se amplia à medida que se
T
acumulam os ovos nele.
No Pseudophyllidea o útero se comunica com
o exterior por um orifício de postura situado na
face ventral, o tocóstomo, independente do po-
ro genital; nos Cyclophyllidea não há tocóstomo
e habitualmente os ovos só se libertam com a ro-
tura do útero e da parede musculocutânea, o
que em outros casos ocorre ainda com o parasito
no intestino (Hymenolepis), ou após sua liberta-
ção no meio exterior (Taenia). Por essa razão, os
S ovos daquele gênero são observados nas fezes,
Fig. 2 – Anatomia de um anel maduro de Taenia saginata, enquanto os deste só são encontrados ocasional-
in Brumpt. Ut – Útero; T – testículos; Wc – canal excretor; mente.
Vd – canal deferente; Cb – bolsa do cirro; K – orifício geni- A disposição, a morfologia e a maior ou me-
tal; Va – vagina; Ds – glândula vitelina; Sd – gl