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LUCAS DE CASTRO LAMONICA

FILOMENA BORGES: ROMANCE, IMPRENSA E POLÍTICA

CAMPINAS,
2015

i
ii
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE
CAMPINAS
INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM

LUCAS DE CASTRO LAMONICA

FILOMENA BORGES: ROMANCE, IMPRENSA E POLÍTICA

Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Estudos da


Linguagem da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do
título de Mestre em Teoria e História Literária na área de História e
Historiografia Literária

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Orna Messer Levin

CAMPINAS,
2015

iii
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem
Crisllene Queiroz Custódio - CRB 8/8624

Lamonica, Lucas de Castro, 1986-


L191f LamFilomena Borges : romance, imprensa e política / Lucas de Castro Lamonica.
– Campinas, SP : [s.n.], 2015.

LamOrientador: Orna Messer Levin.


LamDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de
Estudos da Linguagem.

Lam1. Azevedo, Aluísio, 1857-1913. Filomena Borges - Crítica e interpretação. 2.


Gazeta de notícias (Jornal : RJ). 3. Ficção brasileira. 4. Imprensa. 5. Jornalismo e
literatura. 6. Política na literatura. I. Levin, Orna Messer,1960-. II. Universidade
Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Filomena Borges : novel, press and politics


Palavras-chave em inglês:
Azevedo, Aluísio, 1857-1913. Filomena Borges - Criticism and interpretation
Gazeta de notícias (Jornal : RJ)
Brazilian fiction
Press
Journalism and literature
Politics in literature
Área de concentração: História e Historiografia Literária
Titulação: Mestre em Teoria e História Literária
Banca examinadora:
Orna Messer Levin [Orientador]
Silvia Maria Azevedo
Ana Gomes Porto
Data de defesa: 30-01-2015
Programa de Pós-Graduação: Teoria e História Literária

iv

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v
vi
RESUMO

Filomena Borges é um romance de Aluísio Azevedo, publicado em folhetim


pela Gazeta de Noticias entre 18 de dezembro de 1883 e 13 de janeiro de 1884. Esta
dissertação resulta do estudo desse romance em seu contexto de produção e circulação,
recorrendo à leitura de periódicos coetâneos e de obras literárias relacionadas. Através
das fontes primárias, descobrimos que esse romance foi constituído em íntima relação
com a imprensa. Ao invés de seguir o caminho convencional, de obra literária que usa o
jornal como veículo de publicação, Filomena Borges surgiu a partir do jornal; a
imprensa foi mais para esse romance que um suporte – foi uma matriz da qual ele tirou
recursos de conteúdo e forma. Por seu caráter folhetinesco, ele foi desconsiderado pela
história literária, tendo sido tratado como um romance menor dentro do conjunto da
obra de Azevedo. Sua única função seria, então, o divertimento. No entanto,
recuperando a crítica coetânea do romance e suas repercussões, descobrimos que ele
tinha outro sentido, que se perdeu com o tempo: o político. Por incluir D. Pedro II como
personagem e colocá-lo em situação indecorosa, Aluísio Azevedo dividiu a crítica
coetânea entre detratores e defensores do imperador. Revelou-se, assim, o caráter
político da obra, que serviu como intervenção no debate político. As críticas do romance
puderam ser compreendidas através da comparação com outras obras do período e com
outros aspectos da atuação do autor e da Gazeta. A partir dessa reconstituição, os temas
do romance, como o casamento, as viagens e a política, puderam ser explicados de
maneira mais adequada, levando em consideração os critérios de sua época.

Palavras-chave: Literatura brasileira; imprensa; Aluísio Azevedo; Filomena


Borges; Gazeta de Noticias.

ABSTRACT

Filomena Borges is a novel by Aluísio Azevedo published in a feuilleton by


Gazeta de Noticias between December 18th 1883 and January 13th 1884. The study of
this novel results on this dissertation and it consider its context of production and
circulation, recurring to the reading of coeval periodics and related literary works.

vii
Through primary sources we have discovered that this novel was conceived within an
intimate relation with the press. Instead of following a traditional path, a literary work
that uses a newspaper as a publication vehicle, Filomena Borges arose from the
newspaper itself; the press had more than a supporting role - it was a source from which
the novel gathered form and content. Because it had a feuilletonistic character it was
disregarded by literary history, being considered only as a minor book within Azevedo’s
work. Its only function would be, therefore, entertainment. Nonetheless by recovering
the novel coeval critic and the repercussions, we have found out that it had another
meaning that was lost in time: political. Since it included D. Pedro II as a character, and
by putting him in an unseemly situation, Aluísio Azevedo has divided the contemporary
critics within the emperor’s detractors and defenders. It was thus revealed the novel
political feature, which has been used as an intervention on the political debate. The
criticism around the novel could be understood throughout the comparison with other
works of the period and other aspects of the author’s procedure as well as the procedure
of Gazeta. From this reconstitution, the themes presented in the novel, such as marriage,
travels and politics were able to be explained in a more adequate matter regarding the
criteria of its time.

Keywords: Brazilian literature; press; Aluísio Azevedo; Filomena Borges;


Gazeta de Noticias.

viii
SUMÁRIO
Introdução ..................................................................................................................................... 1
Capítulo 1 - Preparação ............................................................................................................... 11
1.1.a Os primeiros estalos ....................................................................................................... 11
1.2.a As aparições ................................................................................................................... 21
1.2.b Filomena sai das “Balas” e vai para as folhas: “Um encontro, um leque, um cartão” ... 26
1.2.c Filomena, mulher de imprensa ....................................................................................... 28
1.2.d Filomena nas páginas policiais....................................................................................... 32
1.2.e Filomena no Maranhão ................................................................................................... 33
1.3.a Adiamentos ..................................................................................................................... 34
1.3.b Os últimos estalos .......................................................................................................... 36
1.3.c Anúncios......................................................................................................................... 40
1.3.d Prefácio .......................................................................................................................... 41
Capítulo 2 – Circulação, recepção, repercussão .......................................................................... 45
2.1 Circulação ......................................................................................................................... 45
2.1.a O folhetim................................................................................................................... 45
2.1.b Edições em livro ......................................................................................................... 47
2.2 Recepção ........................................................................................................................... 55
2.2.a A polêmica.................................................................................................................. 55
2.2.b A. de B. F. no Brazil................................................................................................... 63
2.2.c Outras críticas ............................................................................................................. 69
2.3 Repercussão....................................................................................................................... 75
2.3.a Anúncios ..................................................................................................................... 75
2.3.b Carnaval ..................................................................................................................... 80
2.3.c Filomena vai aos teatros ............................................................................................. 82
2.4 Uma hipótese de fechamento ............................................................................................ 93
Capítulo 3 – Crítica do romance Filomena Borges ..................................................................... 99
3.1 Crítica recente ................................................................................................................... 99
3.1.a Prefácios ..................................................................................................................... 99
3.1.b Crítica acadêmica ..................................................................................................... 107
3.2 O casamento .................................................................................................................... 108
3.3 Aventuras e sensações ..................................................................................................... 125
3.4 Cenas políticas ................................................................................................................ 140
3.5 O fim de Filomena .......................................................................................................... 155
Conclusão .................................................................................................................................. 157
Referências ................................................................................................................................ 163
Fontes primárias .................................................................................................................... 165
Sítios consultados .................................................................................................................. 165

ix
x
AGRADECIMENTOS

À CAPES, pelo auxílio financeiro.


À Orna, pela oportunidade e pelo direcionamento da minha transformação
em pesquisador.
À Márcia, pela ajuda na orientação e pela liderança de nosso grupo de
pesquisa.
Aos professores: Sílvia Azevedo, pelas contribuições na banca de
qualificação e no SEL; Jefferson Cano e Ana Porto, que, muito antes das contribuições
nas bancas, me conquistaram para o estudo das letras; sem deixar de lado as dicas
preciosas de Pedro Paulo Catharina – eu li os romances, e parece ter funcionado.
Aos colegas pesquisadores, em ordem aleatória: Leandro, pelo ceticismo e
pela amizade; Maria e Daniel, por serem os meninos do Rio; Clara, pela força e pelo
carinho; infalibilidade da Izenete, afabilidade da Ana Laura e determinação da Valéria;
Renata pelo compartilhamento; Dodô pela fofura; Bruna, pela parceria (sem ironia);
Alexandro pela palmada e Anderson pelo afago; Atilio, incomparável editor e professor;
Janaína, agregada, porém fiel; Raquel pela Juanita e Bia pela encheção, do além-mar ou
daqui mesmo; Priscila, pelo modelo; Rafa, pela alegria; sem esquecer do suspiro de
juventude trazido por Ligia, Julio e William.
Aos funcionários da Rádio e TV Unicamp, sobretudo Narcilene e Kátia, por
terem me ensinado a trabalhar.
Aos funcionários do IEL, do IFCH e do AEL.
À minha família, velhinho, velhinha, La, Dani, Andreza, Fe, Duda, Ale, tios,
tias, avós e avôs.
À Gica, minha companheira e substância mesma da minha liberdade.
Ao IURE, Caio e Ribas pelos cruzamentos, cabeceios e trancamentos de
Cthulhu, Dé pelo domínio da língua da rainha, Josh pela citação de Senhor dos Anéis.
Aos colegas e alunos do Cursinho Avante, principalmente Nícolas,
Kutuvelo, Josimar, Sílvia, Cláudia, Keven, Vagner, Aleda, Sté, Clara, Oshiro, Luan,
Douglas, Vitor, Susana, Amanda, Jéssica, Alessandra, Mariazinha. Às colegas do
Colégio PoliBrasil, Samara e Dona Gina.

xi
Aos capiais, por viverem o sonho: Miguel, Renan, Rodrigão e Bussunda.
Xerife, Sandro e Pupi pelas risadas. E ao Thomaz por nos receber anualmente em sua
casa.
Ao Caconde, pela referência, e à Letícia pela chefia.
Aos eventos: ESPEA, SETA, SEL, Semana de História, Colóquio PPLB.
Ao basquete da LHU. Dá-lhe dá-lhe!

xii
Introdução

Parte I

Aluísio Azevedo – o cânone

Aluísio Azevedo é atualmente conhecido como maior representante do


Naturalismo na literatura brasileira. Este “título”, se assim podemos chamá-lo, lhe foi
atribuído pelas histórias literárias e calcificado pelo ensino escolar. O autor, nascido no
Maranhão, tem, no entanto, uma obra muito diversificada. Escreveu, além dos romances
mais famosos, integrantes do “episódio” naturalista brasileiro, como O cortiço e O
mulato, muitos outros romances, tão variados em estilo e temática que geraram opiniões
conflitantes sobre sua produção.
Da história literária e crítica do fim do século XIX e virada do XX, ficou a
imagem de autor naturalista, pintor de quadros realistas através de seu grande poder de
observação;1 no correr do século XX, somou-se a esta primeira imagem outro tipo de
apreciação, focada em criticar o autor, argumentando que sua produção seria
conservadora e retrógrada, despreocupada com os problemas do país.2 Recentemente,
outros estudiosos do naturalismo têm resgatado sua obra em toda sua amplitude, além
da de outros naturalistas “menores”, procurando reescrever essa história3 – e, em certo
sentido, defendendo Azevedo e seus contemporâneos, senão em sentido geral, ao menos
da acusação de alienados.

1
Cf. ARARIPE JÚNIOR, T. A. Araripe Júnior: Teoria, crítica e história literária. (org. Alfredo Bosi).
Rio de Janeiro: LTC; São Paulo: Edusp, 1978; CÂNDIDO, A. Sílvio Romero: teoria, crítica e história
literária. Rio de Janeiro: LTC; São Paulo: Edusp, 1978; VERÍSSIMO, J. José Veríssimo: Teoria, crítica e
história literária. (org. João Alexandre Barbosa). Rio de Janeiro: LTC; São Paulo: Edusp, 1977.
2
PEREIRA, L. M. História da literatura brasileira: prosa de ficção: de 1870 a 1920. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1988; SUSSEKIND, F. Tal Brasil, qual Romance? Rio de Janeiro: Achiamé,
1984.
3
Cf. ALMEIDA, L. T. Literatura Naturalista, Moralidade e Natureza. 2013. Tese (Doutorado em Teoria
e História Literária) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas.
Campinas, 2013; FANINI, A. M. R. Os romances-folhetins de Aluísio Azevedo: Aventuras periféricas.
2003. Tese (Doutorado em Teoria Literária) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade
Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2003; MENDES, Leonardo. O retrato do imperador:
Negociação, sexualidade e romance naturalista no Brasil. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000; PORTO, A.
G. Novelas sangrentas: literatura de crime no Brasil (1870-1920). 2009. Tese (Doutorado em História) –
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2009.

1
A “alienação” proviria tanto da maneira conservadora como os temas teriam
sido tratados nas obras, como da preferência pelo “modelo francês”. Essa questão é de
suma importância, primeiro porque a ideia de “importação” se baseia numa visão
dualista, que contrapõe nacional e estrangeiro como se contrapõem subdesenvolvido e
desenvolvido, nesta ordem respectiva, relacionando um termo a outro: nacional-
subdesenvolvido, estrangeiro-desenvolvido.4 É uma visão que relega ao Brasil a
condição de atrasado e, por extensão, à literatura brasileira a condição de influenciada
por literaturas centrais, no caso do século XIX, principalmente a francesa. Um segundo
ponto de importância é o do possível sentido político da obra de Azevedo. Aos olhos de
alguns pesquisadores do século XX, pautados também por essa visão de
subdesenvolvimento, os romances do maranhense seriam conservadores e atuariam no
sentido de manutenção do status quo. Neste trabalho, procuramos tratar sua obra como
filiada à geração 1870, pois tem um sentido de crítica às bases do Império, seguindo os
passos do grupo heterogêneo, mas combativo, daquela geração.5 Cabe dizer que não
esperamos fazer de Aluísio Azevedo um revolucionário, muito menos um “homem à
frente de seu tempo” – o que tencionamos é tratar de maneira adequada sua atuação
política através da literatura.
Costuma-se fazer uma divisão na obra do autor: de um lado ficam os
romances considerados naturalistas; de outro, o restante. Dá-se um peso muito maior à
porção naturalista, que acabou sendo responsável pela canonização; a “não naturalista”
ficou fadada ao esquecimento. Geralmente essa divisão acompanha uma marca
qualitativa: as primeiras seriam boas, ou no mínimo aceitáveis; as últimas, ruins,
indignas de história literária. O interesse em “resgatar” estas últimas é recente e
acompanha o estudo menos pejorativo que se faz do naturalismo atualmente.
Nesse ponto, adotamos, a partir de Mérian, a visão de que não há cisão clara
na obra de Azevedo.6 De fato, há uma continuidade, que é política, e um projeto estético
que vai se alterando aos poucos até culminar nas obras mais bem acabadas, como O

4
OLIVEIRA, Francisco. A economia brasileira: crítica à razão dualista. Estudos Cebrap, São Paulo, v. 2,
p. 3-82, 1972.
5
ALONSO, Angela. Idéias em movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e
Terra, 2002.
6
MÉRIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo: Vida e Obra (1857-1913). 2ª ed. Rio de Janeiro: Fundação
Biblioteca Nacional; Garamond, 2013.

2
cortiço. Há estudos que mostram como as primeiras obras preparam as últimas.7 É
importante ponderar que o projeto declarado pelo escritor maranhense, de adequar o
público nacional ao romance naturalista em pequenas doses, liga-se à sua tentativa de
constituir uma imagem pública como grande autor naturalista, quando, na realidade, ele
foi um autor muito híbrido.
Sobre a ideia de que a primeira metade da obra é primordialmente romântica
e a segunda primordialmente naturalista, talvez o problema seja outro: a primeira parte
está mais ligada à imprensa, a segunda menos, publicada diretamente em livro numa
época em que o autor já se distanciara da atividade jornalística. Ainda assim, o caráter
combativo e mesmo paródico das obras persiste. O que dá unidade à obra é, portanto,
seu caráter polêmico e combativo.
E é justamente a parte “esquecida” da obra que está muito ligada à
imprensa, do modo como apresentaremos a seguir.

Aluísio Azevedo – a amplitude

Um aspecto constantemente negligenciado na apreciação da obra do


maranhense é o importante papel que nela têm a imprensa e o teatro. Como um dos
primeiros escritores profissionais no Rio de Janeiro, Aluísio Azevedo apoiou sua
atividade em jornais e revistas, nos quais publicou romances em folhetim e alguns
contos. Para um jovem literato que buscava se firmar, essa participação era interessante
econômica e profissionalmente, já que garantia uma divulgação mais ampla de seu
nome e de sua obra.
Também não se deve desconsiderar que ele trabalhou em diversos
periódicos. Essa atividade, além da importância pelos motivos acima apontados,
também garantia a participação em um grupo, que vai se formando e fortalecendo no
correr da década de 1880. Aluísio, seu irmão Artur, Valentim Magalhães, Raul
Pompeia, entre outros, frequentam redações, cafés e teatros do Rio, e, para além da
boêmia que geralmente se sugere aqui de maneira anedótica, conformam um grupo de
literatos que tem sua importância para a luta pelos direitos dos escritores.

7
MARQUES JÚNIOR, Milton. Da ilha de São Luís aos refolhos de Botafogo. João Pessoa: Editora
Universitária/UFPB, 2000.

3
Em sua primeira passagem pelo Rio, no final da década de 1870, Azevedo
atuou principalmente como caricaturista, participando de periódicos ilustrados como O
Mequetrefe. Sua intenção, naquele momento, era conseguir estudar pintura na Europa,
sonho que nunca veio a realizar. A morte do pai o forçaria a voltar a São Luís, onde
passaria a atuar na imprensa como cronista e polemista, participando ativamente das
discussões da época na Pacotilha e em outros periódicos. Depois da publicação de Uma
lágrima de mulher e de O mulato, obra muito polêmica, ele regressou ao Rio, onde
ficaria até que sua carreira diplomática o fizesse viajar pelo mundo, já no final do
século.
De volta à capital, o maranhense passou a viver das letras. O período de
1881 a 1885 marcou o auge da sua produção folhetinesca e de sua participação na
imprensa. Seria uma obviedade afirmar que uma coisa está ligada à outra, mas a relação
é mais íntima do que parece. A importância da imprensa para esses romances é central:
ela não foi só veículo, foi também matriz.8
É muito famosa a relação entre Casa de pensão e o “caso Capistrano”,
ocorrido alguns anos antes no Rio de Janeiro. A pesquisa sobre Filomena Borges
revelou que existem relações ainda mais íntimas. Ao contrário de Casa de pensão,
Filomena Borges não se inspirou em um “caso real”: para promover este romance,
Aluísio Azevedo e a Gazeta de Noticias criaram a história de uma mulher que teria
distribuído cartões de visita a boa parte do Rio de Janeiro. A partir da discussão sobre
quem seria essa mulher, retratada como se fosse real, criou-se grande expectativa no
público. Azevedo prometeria, então, contar a “história real” daquela mulher misteriosa
em folhetins, publicados pela Gazeta entre dezembro de 1883 e janeiro de 1884.
Nesse processo de composição diária e coletiva, há trocas entre o romance e
seu suporte, a imprensa, que afetaram determinantemente não só seu conteúdo, mas
também sua forma. Os romances publicados de maneira seriada foram intimamente
afetados pela porosidade entre imprensa e literatura.9

Para além da atividade periódica, Aluísio Azevedo foi homem de teatro.


Com seus conhecimentos de pintura, preparou alguns cenários de peças. Também foi

8
THÉRENTY, Marie-Ève. La Littérature au Quotidien: Poétiques journalistiques au XIXe siècle. Paris:
Éditions du Seuil, 2007.
9
Ibidem.

4
comediógrafo e, apesar de não ter obtido destacado sucesso no ramo, participou
ativamente da vida teatral da capital. Essa atividade, aliada à de jornalista e folhetinista,
garantiu ao maranhense o sustento e uma série de relações pessoais muito importantes:
as amizades e parcerias com atores e atrizes, empresários e dramaturgos.
Ele adaptou dois de seus romances para os palcos, O mulato e Filomena
Borges, e escreveu uma dezena de peças, muitas delas em colaboração com o irmão
Artur ou com Emílio Rouède.
Seu teatro também tem a marca da polêmica. Além do escândalo de A flor-
de-lis, foram feitas apropriações abolicionistas de outras peças, como O mulato e
mesmo Filomena Borges, que a princípio não teria uma relação explícita.10

Essa atuação cultural ampla deve ser levada em conta no estudo do autor.
Ele foi um homem bastante inserido no seu meio cultural, que por sua vez não era
isolado: a literatura, o teatro, a imprensa brasileira estavam inseridos no âmbito
transnacional. É levando em conta esse mundo de relações diversificadas e de atuação
política pronunciada que estudamos a obra deste autor.
Mas o que é, afinal, a época ou o meio cultural em que se insere Aluísio
Azevedo? É, como sugere a história literária, tempo da voga realista/naturalista? Ou,
como sugerem as pesquisas mais recentes, um tempo de convivência entre aquela
literatura moderna que se ensaiava fazer no Brasil e uma grande quantidade de
romances franceses, publicados e lidos nos periódicos, muito vendidos em livros e
acessíveis nos gabinetes de leitura e bibliotecas? O que estava sendo encenado nos
teatros?
Estas questões são fundamentais para o modo como esta pesquisa foi
realizada. É através delas que esperamos dar a Filomena Borges uma história e uma
interpretação mais afinadas com os critérios e preocupações de seu próprio tempo,
levando em conta a relação essencial desse romance com a imprensa. O principal meio
de circulação literária no século XIX foi a imprensa.11 A afirmação, ainda que destinada
a dar conta da França, mais propriamente de Paris, adequa-se ao Brasil, mais
propriamente ao Rio de Janeiro.

10
V. Capítulo 2 da dissetação.
11
KALIFA, Dominique; RÉGNIER, Philippe; THÉRENTY, Marie-Ève; VAILLANT, Alain. (orgs.) La
civilisation du journal: Une histoire de la presse française au XIXe siècle. Paris: Nouveau Monde, 2011.

5
Trajetória da pesquisa

O presente trabalho foi desenvolvido dentro do grupo “Circulação


Transatlântica dos Impressos”. Ele se constituiu, portanto, sobre uma base coletiva,
contando com a ajuda de muitos outros pesquisadores, que oportunamente serão
indicados.
Dentre a bibliografia do grupo, optamos pela prioridade à relação entre
literatura e imprensa, melhor estudada, a nosso ver, pelo grupo de Marie-Ève Thérenty e
Dominique Kalifa. Contribuíram muito para a discussão desenvolvida nos capítulos o
livro La littérature au quotidien de Thérenty, e alguns artigos de Civilisation du journal.

Este trabalho se baseou na pesquisa em periódicos conciliada à leitura de


romances, contos e peças.
A primeira parte foi realizada principalmente na Hemeroteca Digital da
Biblioteca Nacional Digital. Pesquisamos, através da ferramenta de busca do sítio, pelas
palavras-chave “Aluizio”, “Aluizio Azevedo”, “Philomena”, “Philomena Borges”; a
partir daí, fizemos a leitura dos periódicos com maior número de ocorrências através da
mesma ferramenta. Também foi consultado o Jornal do Commercio no Arquivo Edgard
Leuenroth da Unicamp e O provinciano na sessão de periódicos raros da Biblioteca
Nacional. Os romances franceses foram lidos graças ao sítio Internet Archive, que
compila diversas obras digitalizadas. Também foi essencial a contribuição da Biblioteca
Brasiliana Guita e José Mindlin, para a consulta às primeiras edições das obras de
Aluísio Azevedo, e do Real Gabinete Português de Leitura, sem o qual não teríamos
acesso à primeira edição de Filomena Borges.12

A matriz midiática e a matriz literária

O romance Filomena Borges mobilizará todos os recursos da matriz


midiática antes mesmo de ser publicado. A sua publicidade deve ter sido a grande

12
Ela está muito bem conservada, consideradas a idade e a qualidade da edição popular.

6
responsável por isso. O fato de a obra nascer do próprio jornal em que será publicada
faz com que ela já venha carregada de características desse suporte.
Sua produção é periódica, aparecendo de tempo em tempo até se tornar
romance-folhetim; coletiva, pois envolve um grande número de escritores e colunas
dentro da Gazeta e mesmo outros periódicos em contribuição polifônica;13 baseia-se na
rubricité,14 por seu envolvimento íntimo com a série “Balas de estalo”, filiando-se a um
público e o fidelizando; e é atual, articulando assuntos políticos e culturais coetâneos e
vendendo a história de uma mulher “real”, de “carne e osso”, contemporânea dos
leitores.
Ao mesmo passo, o jornal que lhe serve de suporte conta com traços do
ficcional, fazendo questionar o que é real ou não; é irônico, contestando as fronteiras do
que é sério e do que é satírico num jornal de grande circulação e tom pretensamente
neutro; e baseia-se na conversação e na escrita íntima, tomando muitas vezes o tom
anedótico para se aproximar dos leitores.
Partindo das teses de Thérenty, tomamos como uma das hipóteses do
trabalho, portanto, que o jornal é meio, fonte e modelo de Aluísio Azevedo ao compor
Filomena Borges. Defenderemos que, através da obra, o autor debate o seu contexto
social e o cotidiano carioca, posicionando-se politicamente em articulação com o
periódico que serve ao romance de suporte e matriz.

A divisão dos capítulos

No primeiro capítulo, recuperamos os fragmentos iniciais que irão compor o


romance. Demonstramos o processo de criação e anúncio do romance, dentro do qual a
personagem Filomena Borges é composta coletivamente, criando a expectativa para a
recepção do romance.
No segundo capítulo, recuperamos mais fragmentos que se desdobraram a
partir da publicação, como a crítica coetânea, a adaptação em espetáculos, a
transformação em mercadorias. Discutimos, então, a 1) forma como o romance foi

13
Polifonia é usada, aqui, de acordo com Thérenty. THÉRENTY, Marie-Ève. op. cit.p. 62-70.
14
Termo para o qual não encontramos tradução. Refere-se às colunas dos periódicos e das características
decorrentes dessa organização de conteúdo: “la rubrique, c’est-à-dire l’espace régulièrement assigne à
l’intérieur du quotidien à un certain type de nouvelle ou d’écriture, est l’instrument clé de ce système”.
Ibidem. p. 78.

7
publicado, demonstrando que não fez sucesso; 2) a recepção crítica coetânea, revelando
diversos pontos além do literário, como o comércio e a política; por fim, demonstramos
que, 3) apesar da falta de sucesso comercial e literário da obra, ela repercutiu com força
considerável no seu contexto. Discutimos também a apropriação comercial e política do
romance.
No terceiro capítulo, discutimos, através de críticas acadêmicas e prefácios,
como o romance tem sido visto recentemente, para comparar essa apreciação com a do
passado e apresentar uma nova possibilidade de interpretação, pautada nas referências
do próprio período. Para tanto, relacionamos os romances e referências levantados nos
capítulos anteriores com o romance Filomena Borges.

Parte II

A mãe: Gazeta de Noticias

A Gazeta de Noticias, criada em 1875, viria a se tornar um dos jornais mais


importantes do país na década de 1880. Fundada por Ferreira de Araújo, Henrique
Chaves, Manoel Carneiro e Elísio Mendes, a folha inaugurava na capital imperial aquilo
que se chamaria de “jornalismo moderno”: um veículo de imprensa “neutro”, como ela
se reivindicava, e “comercial”, de que ela era acusada. Esse novo caráter jornalístico é
um dos segredos de seu sucesso. A Gazeta era vendida em edições avulsas por apenas
dois vinténs (40 réis), um preço bastante acessível, numa época em que os periódicos
funcionavam por assinaturas.15 Já pelo preço e pela forma de comercialização, a folha se
populariza. O processo é intensificado, por outro lado, pelo próprio conteúdo do jornal,
com a marca predominante da leveza e do humor.
Apesar de sua postura “apartidária”, a Gazeta foi reconhecidamente um
jornal abolicionista e republicano. Num período em que as folhas partidárias rareavam,
o apoio financeiro deveria vir dos anúncios e “a pedidos”, daí a grande importância que
a publicidade vai tomando na imprensa do fim do século XIX.
15
A inovação é mais a venda avulsa que o preço. Em 1875, a assinatura do Diario do Rio de Janeiro para
a Corte custava 6$000 a cada três meses (24$000 anual), resultando num preço por edição de
aproximadamente 60 réis ou três vinténs. Diario do Rio de Janeiro, 01/01/1875. p. 1. ed. 1. A assinatura
mensal da Gazeta de Noticias custava, no mesmo ano, 1$000, metade do preço da assinatura mensal do
Diario do Rio de Janeiro (que nem era possível, sendo que o tempo mínimo era de três meses). Gazeta de
Noticias, 01/01/1875. p. 1. ed. 1.

8
“Balas de estalo”: paternidade coletiva

Dentro da Gazeta de Noticias, destacou-se uma série - de crônicas - muito


estudada devido à participação de Machado de Assis: as “Balas de Estalo”. Tendo como
assunto os acontecimentos cotidianos mais variados, e como tom um humor ácido, a
série foi um grande sucesso durante o período de sua existência, de 1883 a 1886.
Dela participaram diversos autores, todos sob pseudônimos, alguns deles
reconhecidos atualmente, outros desconhecidos. Destacamos os que serão mais
importantes para este trabalho: Lulu Sênior, Décio, Zig-Zag e Lélio. Cada um desses
pseudônimos envolve, mais que a ocultação de um nome, a construção de uma
personagem com características bem definidas.
Ana Flávia Cernic Ramos liga o humor e a leveza da Gazeta à busca por um
público amplo, processo que abre espaço para “Balas de estalo” em suas colunas. Nossa
hipótese se aproveita da tese da autora: se humor e crítica política são as propostas de
“Balas” e da Gazeta, seriam também a proposta de Filomena Borges, o romance-
folhetim daquele jornal? Acreditamos que sim, e que esta obra integra o questionamento
das grandes instituições, linha política do jornal de Ferreira de Araújo.
Citando Ramos, estudiosa das “Balas”:

Assim era vista a política imperial pelos cronistas da série. Ao longo


de seus três anos e meio de publicação, comentou sistematicamente o
cotidiano da política imperial. Alegre, bem humorada e disposta a
preencher os requisitos da Gazeta de Notícias em atingir popularidade
e cativar o público leitor, esta série discutiu diariamente as principais
tensões políticas e sociais pelas quais passava o Brasil naquele
momento. Fosse como “doces guloseimas”, “estalinhos de criança” ou
“balas de artilharia”, a série lia e interpretava o jornal para o leitor. As
atividades das Câmaras, do Gabinete de Ministros, as ações do
imperador nada escapava aos atentos e perspicazes narradores de
“Balas de Estalo”. Através destes textos brincalhões, cada um dos
narradores colaborava na construção de um projeto político bastante
definido: a falência das principais instituições do país, tais como a
monarquia, a igreja e a escravidão eram denunciadas como forma de
proselitismo do novo projeto político, republicano e liberal. A
modernidade era dissociada da monarquia católica e escravagista, a
separação entre igreja e estado era pressuposto da então chamada
modernidade. Os literatos se valiam então do velho “ridendo castigat
mores” para propor as inovações. E foi este conjunto de críticas às
instituições do período que a série cuidadosamente tratou de inserir

9
nas páginas daquele que se tornou um dos maiores e mais populares
jornais da corte, a Gazeta de Notícias. Contando com a assídua
colaboração do dono deste jornal, a série tratou de muitos assuntos
polêmicos e importantes para o período. Crítico ferrenho do poder da
igreja naquela sociedade, Ferreira de Araújo definiu os parâmetros
gerais da série a partir das críticas e discussões que já travara anos
antes no jornal O Mosquito. A diferença era que em seu novo jornal
ele decide fazer isso em grupo, e assim nasce “Balas de Estalo”.16

Acreditamos que o caráter popular, comercial e humorístico da Gazeta,


além de sua atuação política, reflete-se não só em “Balas”, mas em Filomena Borges, o
romance-folhetim que provavelmente foi encomendado a Aluísio Azevedo por Ferreira
de Araújo. Vale destacar que as primeiras edições de Filomena Borges continham uma
dedicatória a Ferreira de Araújo, mais um argumento em favor de que é o romance de
seu periódico.
Como será demonstrado a seguir, Filomena Borges se constituirá a partir
das “Balas de Estalo” como o romance da Gazeta. A partir disso, articulará literatura,
imprensa e política num contexto de crise e decadência do Império.

16
RAMOS, Ana Flávia Cernic. Política e humor nos últimos anos da monarquia: A série “Balas de
Estalo” (1883-1884). 2005. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005. p. 27.

10
Capítulo 1 - Preparação

1.1.a Os primeiros estalos

A primeira referência a Filomena Borges na imprensa encontra-se na Gazeta


de Noticias de 07 de outubro de 1883, dentro da série “Balas de estalo”.17 No texto, o
cronista Lulu Sênior, pseudônimo usado por Ferreira de Araújo,18 conta, de maneira
cômica, que recebeu dois cartões de visita, em dias consecutivos, com o seguinte nome:
Filomena Borges. Ao receber o primeiro cartão ele acreditou “modestamente” que a
motivação seria a admiração ao seu talento, por suas “Balas” recentes.19 Quando chegou
o segundo cartão o colunista concluiu, “ainda mais modestamente”, que o motivo de tais
envios seria a admiração aos seus “encantos físicos” – sempre lembrados por um amigo.
O que o espanta, portanto, não é a “violenta paixão” da senhora, mas sua timidez – ela
teria tão somente mandado o cartão, sem se declarar (“nem ao menos me faz versos”).
Lulu Sênior então incentiva que a autora dos cartões se revele, sem medo de ser
desprezada, já que seu coração é “uma casa de diversos andares, e em um deles
estabeleci uma série de quartos, dos que se alugam por hora” em que “sempre posso
acomodar mais uma”.20 Caso Filomena seja apenas uma admiradora do talento, talvez
pela publicação de “Por conta”,21 ele a convida para ler belos serões em sua casa: “a
minha casa é perto de um convento, et plus on est de fous, plus on s’amuse.”22
O texto constrói sua comicidade através da malícia e da imodéstia do autor.
A primeira está nas referências ao sexo e à prostituição;23 a segunda, está nas partes
acima descritas, melhor ilustrada pelo próprio autor no penúltimo parágrafo:

17
Lulu Sênior, “Balas de Estalo”, Gazeta de Noticias, 07/10/1883. p. 2. ed. 280.
18
Para a identificação dos pseudônimos, seguimos o trabalho de Ana Flávia Ramos (eles são
identificados na nota 21 de sua dissertação). RAMOS, Ana Flávia Cernic. Política e humor nos últimos
anos da monarquia: A série “Balas de Estalo” (1883-1884). Dissertação (Mestrado em História) –
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.
19
Os autores da coluna se referem a seus textos como balas, como se eles fossem balas de estalo.
20
Aqui começam as referências à prostituição, que só seria proibida para estrangeiros. A ironia do
cronista sobre o assunto é bastante grande.
21
Conto publicado pelo pseudônimo na Gazeta de Noticias alguns dias antes. “Por conta”, Gazeta de
Noticias, 05/10/1883. p. 1. ed. 278.
22
Provérbio francês que significa algo como “quanto mais, melhor”.
23
Como exemplo, transcrevemos o trecho em que Lulu Sênior cita parte de um poema de Tomas Ribeiro:
“... a propria camisa, / Ficando risonho e nú”.

11
Eu estou resignado com a minha sorte, e ha muito me convenci de que
n’esta terra um homem não póde ser bonito, bem feito, elegante,
espirituoso, intelligente e illustrado como eu, sem fazer estalar de
raiva os outros homens e arder em brazas as mulheres.

Existem, no entanto, sentidos mais profundos sob o pano cômico. O flerte


de Lulu Sênior revela sua posição sobre a prostituição no país. A discussão sobre o tema
pode ser encontrada na imprensa da época e se repetirá algumas vezes nas referências a
Filomena. Também a discussão sobre a mulher, em geral, está presente de alguma
maneira, e acompanhará as tentativas de definição da senhora dos cartões.
Esse texto, publicado no domingo, despertará as conjeturas sobre quem seria
esta misteriosa mulher, que continuarão durante a semana, dentro da série.

No dia seguinte, na mesma série do mesmo jornal, Décio, pseudônimo de


Demerval da Fonseca (ou Montaury),24 contradiz Lulu Sênior.25 Este estaria enganado,
já que não foi o único a receber o cartão de Filomena: ela distribuiu uma profusão de
cartões pela cidade, “cumprimentando a torto e a direito”. Décio também teria recebido
o seu, e também se sentiu intrigado.
Segundo ele, várias pessoas estão procurando saber quem é Filomena
Borges e apresentando suas versões.26 O Dr. Furquim Werneck27 acredita que ela seja
uma parteira; seu colega Pedro Paulo28 diz que se trata de uma senhora portuguesa,

24
Não há consenso sobre o pseudônimo Décio: ele poderia ser usado tanto por Demerval da Fonseca
como por Montaury, um repórter da Gazeta. BERGAMINI JUNIOR, Atilio; TATIM, Janaína. Machado
de Assis no tabuleiro das Balas de Estalo. Organon, Porto Alegre, v. 28, n. 55, p. 33-53, jul./dez. 2013.
25
Décio, “Balas de Estalo”, Gazeta de Noticias, 08/10/1883. p. 2. ed. 281.
26
Neste trabalho, para a identificação das pessoas referidas nos periódicos, cruzamos os dados
encontrados na Gazeta de Noticias e de seu Almanak com os dados dos sítios da Câmara dos Deputados e
do Senado Federal (para os políticos) e do sítio Literatura Digital (projeto do Núcleo de Pesquisa em
Informática, Literatura e Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina), que contém um catálogo
com dados biobibliográficos.
27
Dr. Furquim Werneck, médico. Na época da discussão, pudemos encontrar algumas referências a ele
nos jornais: era associado ao Sr. Aguiar num estabelecimento farmacêutico que vendia “líquidos
milagrosos”; era presidente do Club Internacional de Tiro ao Alvo; anunciava um livro de sua autoria, em
colaboração com o Dr. Feijó Filho: “Questão médico-legal; Defloramento, documentos oficiais e sua
análise”. O que parece mais interessante na perspectiva deste trabalho, no entanto, é a tentativa de se
fundar uma instituição, o Asilo Furquim. O Dr. Caetano Furquim de Almeida, pai de Furquim Werneck,
morreu e deixou um prédio em Vassouras para que se fundasse a instituição. Participaram da coleta de
doações tanto o filho quanto Ferreira de Araújo.
28
Dr. Pedro Paulo, médico, “operador e parteiro”. Décio aproveita as opiniões dos doutores para alfinetar
Maciel e Penna: Francisco Antunes Maciel, ministro dos negócios, e Affonso Penna, ministro da
agricultura, comércio e obras públicas. Eles são apresentados como “inimigos das acumulações”.

12
lavadeira, criada e moça de recados, que conheceu em Viena.29 Já Lopes Cardoso30
afirma que Filomena “é uma filante de mais”. Belarmino,31 o chefe de polícia da corte,
especula que ela possa ser uma “futura proprietaria de casa de alugar quartos!” e que
possua nomes tão sibilinos quanto provocantes.32 Faro & Lino33 consideram a
“possibilidade de uma litterata que os tomará por editores”; Cotegipe34 acredita que ela
é a “chave do mysterio em que se envolveu durante todo o anno uma desconhecida que
assistiu imperturbavel a todas as sessões do senado – ou do Sr. Corrêa35 – com um
pesado véo sobre o rosto”. O chefe da Igreja Positivista, Miguel Lemos36 “cuida ter
descoberto a unica competencia para o papado – ou a papança – do positivismo”; o
médico Freire37 avista uma “estrangeira recem-chegada, que se prestará facilmente a
deixal-o inocular n’ella o seu microbio” e o Club Beethoven38 “pensa em requerer uma
verificação de sexo, afim de certificar-se de que esta mulher não é realmente algum
homem, e de que não seja capaz de tocar alguma cousa no seu primeiro concerto
classico”.

29
A acumulação de funções da senhora portuguesa de Viena é uma brincadeira com os decretos dos
ministros citados, que vetavam a acumulação de cargos públicos – outro assunto muito discutido na
imprensa.
30
Antonio Lopes Cardoso. No ano de 1883, lutava pela patente do querosene inexplosivo. Tinha um
irmão, Manuel Lopes Cardoso, redator e proprietário do Diario de Noticias da Bahia. Tinham mãe
portuguesa. Algum dos dois escreveu uma comédia representada no teatro Novidades, Russinho
(referência no jornal simplesmente a Lopes Cardoso; o que nos leva a crer que é Antonio na referência de
Décio é que ele morava na corte e era uma das pessoas que figurava nos jornais).
31
Belarmino Peregrino da Gama e Mello merece mesmo um artigo. Ele se envolveu em várias polêmicas
no ano de 1883. Era mal visto pela Gazeta de Noticias, que começa o ano criticando a censura ao
carnaval, por conta dos carros representando D. Pedro II e o ministro da guerra. Um pouco depois, ele
pede recursos para melhoria das cadeias, em resposta à cobrança do presidente da comissão sanitária. Pelo
visto, era também um dos responsáveis por liberar as peças para encenação, e Lulu Sênior o repreendeu
pela demora em aprovar O nihilista (que passaria a se chamar A vigança à um nihilista). Já próximos da
citação por Décio, dois textos chamam bastante atenção: no dia 30 de setembro, uma aparente notícia com
formato de narrativa policial retrata a ineficiência de Belarmino no caso de Loquin, antigo traficante de
notas falsas e agente de polícia que se prostitui no Rio; no dia 5 de outubro, vários textos contam casos de
corrupção policial. Então aparece a referência a ele no meio da discussão de Filomena, que liga a figura
da mulher à cafetinagem, prostituição e corrupção (novamente). Em outubro, ele será demitido em razão
do caso Apulco de Castro.
32
A referência aos nomes Filomena e Borges vem do cronista: Filomena é indecifrável e provocante. No
caso, o recurso às palavras é um duplo chiste, tratando da ineficiência da polícia em decifrar os casos e da
prostituição.
33
Faro & Lino, livreiros e editores. Publicarão a primeira edição de Casa de Pensão, de Aluísio Azevedo,
em 1884.
34
João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, senador.
35
Manoel Francisco Correa, senador.
36
Miguel Lemos, chefe da Igreja positivista do Brasil.
37
Dr. Domingos José Freire, médico. Elabora uma vacina para febre amarela, segundo ele causada
unicamente pelo micróbio cryptococco xanthogenico (sic).
38
Club Beethoven. Clube musical fundado por Roberto Kinsman Benjamin, funcionou de 1882 a 1889.
Aparentemente o clube não aceitava mulheres.

13
Todas as referências mencionadas acima têm duplo sentido: enquanto
discutem a definição de Filomena, provocam diversas celebridades da época. Esse
procedimento é recorrente na série: o tema principal, Filomena Borges, é usado para
comentar vários temas secundários. Da mesma forma que Lulu Sênior incluiu no texto
inicial uma crítica à prostituição, aqui são incluídas discussões sobre diversos tópicos
que ocupavam os jornais da época. Critica-se, sob tom de descrença e descrédito, a
medicina e a ciência (médicos, positivismo); o Estado, o governo e a polícia (senadores,
ministros, Belarmino); a mulher, a prostituição, o estrangeiro.
Seguindo o texto, o cronista Décio afirma ser o único a ter opinião formada
sobre Filomena: “é um D. Juan de saias, uma mulher perigosa”,39 afinal, “diante da
nevrose amorosa de Filomena, deste seu hysterismo sem limites, não ha feio possivel”.
As senhoras, portanto, deveriam suspeitar de seus maridos, “por mais conselheiro-
henriques40 que elles sejam”; os chefes de família deveriam proibir os filhos de 16 a 21
anos de sair à rua desacompanhados de uma (ou mesmo duas) amas secas. Ora, essa
mulher, “insaciavel”, “caprichosa e voluvel”, quer conhecer tudo, acumular
experiências, estando, consequentemente, “fadada a promover o escandalo n’esta
capital”.
As provocações também se direcionam para as letras:

Ella ha de possuir o Sr. Taunay,41 que dizem ser o moço mais bonito
da nossa litteratura; e no dia seguinte terá o prazer extravagante de ser
possuida pelo Sr. Hudson,42 que não passa por ser o Apollo de
Belvedere da nossa poesia.

Taunay e Hudson, além de literatos, eram colunistas do Jornal do


Commercio, concorrente direto da Gazeta de Noticias. Eles são constantemente
atacados nas “Balas”, junto com Carlos de Laet, muitas vezes respondendo do outro
lado. Essa “inimizade” tem tanto viés jornalístico, marcado pelas posições dos jornais,

39
O tom da afirmação é cômico, mas interessante, porque vai construindo a personagem.
40
Henrique Francisco D’Avila, conselheiro do Império e ministro da Agricultura. No período, era
senador. Infelizmente não há informação suficiente para entendermos totalmente a piada.
41
Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, então deputado por Santa Catarina, político, militar,
romancista. Usava o pseudônimo Sílvio Dinarte. Sua família era muito ligada a D. Pedro II. DEL
PRIORE, Mary. Visconde de Taunay: cadeira 13, ocupante 1 (fundador). Rio de Janeiro: Academia
Brasileira de Letras; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2011.
42
Otaviano Hudson, poeta, responsável pela coluna de poesia satírica “Musa do povo” no Jornal do
Commercio.

14
quanto literário: os colunistas do Jornal são associados a um grupo mais antigo da
literatura nacional, ligado ao Império, ao passo que a Gazeta se pretende mais moderna.
Para um leitor atual, essas disputas podem parecer pessoais, mas elas devem ser
matizadas, já que as polêmicas eram um recurso comum na imprensa da época.43
Para finalizar sua crônica, Décio faz uma provocação bem-humorada: ele
conjetura que Filomena não fará muito sucesso entre os membros da série, e a desafia a
abraçar Lulu Sênior em menos de três dias (que seriam necessários para dar-lhe a volta).
As falsas polêmicas e as provocações eram comuns entre os autores das “Balas”, e é
justamente através delas que se vai construindo a imagem pública de Filomena Borges,
até então uma misteriosa senhora sobre a qual muito pouco se sabia.

No dia 9 de outubro, aparecem duas referências ao caso, que já devia


despertar ampla curiosidade, ao menos nos assinantes da Gazeta e nos profissionais da
imprensa, que tinham o costume de ler diversos periódicos. Nas “Balas de estalo”,
Henrique Chaves, assinando com o pseudônimo Zig-Zag, conta ter também recebido o
bilhete, reafirmando e complementando a opinião de Décio: Filomena estaria invadindo
os lares para arruiná-los através dos ciúmes.44
Essa “mulher, que, como a Morgadinha de Val-Flôr,45 póde ser um diabo,
segundo a opinião do Leonardo, ou um anjo, segundo o Sr. Furtado Coelho, na edição
Luiz Fernandes”, e “confia mais no serviço do Sr. Betim Paes Leme46 do que na sua
belleza”, com seus nomes “tão vulgares, [...] tão burguezes, tão insignificantes”,47
incomoda o cronista, cuja preocupação está resumida na passagem seguinte:

Se eu fosse o unico a receber o cartãosinho, pouco me importaria que


n’elle estivessem escriptos estes detestaveis nomes de Philomena e de
Borges. Creio mesmo que ficaria lisongeado. Mas a tal mulhersinha

43
Mais adiante, veremos que Taunay frequentava a livraria de Faro & Lino com os “inimigos” da Gazeta.
Hudson já havia contribuído com a Gazeta na década anterior.
44
Zig-Zag, “Balas de Estalo”, Gazeta de Noticias, 09/10/1883. p. 2. ed. 282.
45
Peça de Manuel Pinheiro Chagas. É um grande sucesso de público e crítica desde a década de 1870.
Henrique Chaves foi um dos primeiros a criticar a peça quando da sua primeira representação. Henrique
Chaves, “Comunicado”, Diario do Rio de Janeiro, 10/01/1870. p. 1. ed. 10.
46
Betim Paes Leme: chefe dos correios. É muito citado na imprensa, sendo retratado como uma espécie
de herói.
47
Repete preocupação com os nomes que teve Décio. Lá, eles eram sibilinos e provocantes e teriam
motivado a opinião de Belarmino.

15
não é de miudezas. Quando trata de expedir cartões, fal-o aos
milhares.48

Ela, que apenas com o nome já seria tão conhecida quanto o Hudson,
deveria, para o cronista, revelar mais informações para se tornar tão conhecida quanto a
“Musa do povo”,49 por mais que ela não fosse uma musa; se ela fosse parteira, “como
affiança Mme. Durocher”,50 far-se-ia necessário também revelar o número do telefone.
O tom do texto é de revolta e mau humor. O autor começa por dizer que não
escreverá sobre Filomena, que não se importa em saber quem é ela – e ainda assim gasta
uma boa parte da coluna tratando do assunto. Isso pode ser explicado pelo perfil do
pseudônimo, que faz o papel de mal-humorado na série.

A discussão, até aqui, figura-se como a luta de um bando de rapazes por


uma pretendente em comum. Eles disputam a melhor versão de Filomena como se
disputassem sua atenção ou seu amor - como se a disputassem. Por mais que Décio seja
um pouco cético, ele entra nessa disputa, e Zig-Zag contraria a previsão do primeiro, de
que Filomena não teria muito sucesso com os membros da coluna. Mas não são todos
que pretendem investir sobre o “D. Juan de saias”.

A segunda referência do dia 9 de outubro pode ser encontrada no Corsario,


dentro da “Seção humorística”, sob o título “É a tal cousa”.51 O artigo faz pilhéria com
Lulu Sênior e aconselha a senhora dos cartões a não aceitar os convites que recebeu do
cronista:

Não caias nessa, Philomena.


A barriga prejudica o desenvolvimento da tal cousa, e, em vez de teres
alguma coisa por conta, terias de fazer de conta, porque lá diz um
dictado franco-brazileiro: Plus on est gordo, moins on s’amuse à
l’amourette.52

48
O problema parece ser o D. Juan ser mulher.
49
“Musa do povo”. Coluna de poesia satírica assinada por Hudson no Jornal do Commercio.
50
Madame Durocher, célebre parteira.
51
“É a tal cousa”, Corsario, 09/10/1883. p. 3. ed. 4. A coluna “Seção humorística” era anônima, mas
possivelmente escrita pelo redator, Apulco de Castro. Acreditamos que sua função fosse polemizar
comicamente com outros jornais e colunas.
52
Brincadeira com a passagem francesa do texto de Lulu Sênior. Aqui, em tom aportuguesado, temos:
quanto mais gordos, menos nos divertimos no amor.

16
A brincadeira se dá em torno de “Por conta”, conto de Lulu Sênior
publicado na Gazeta um pouco antes do fenômeno Filomena.
O tom do texto anônimo, polêmico e agressivo, não surpreendente muito se
consideramos o seu veículo de publicação, o Corsario, pasquim provocativo a ponto de
custar a vida de seu redator dentro de alguns dias.53

Até aqui, três dentre os quatro principais cronistas das “Balas”, e um


adversário, no Corsario, apresentaram suas opiniões sobre Filomena. Restava o quarto
cronista, que dá seu parecer nas “Balas” seguintes, do dia 10 de outubro: Lélio,
pseudônimo de Machado de Assis.54 O autor relata em seu texto que acordou com “o
desejo de desfalcar alguem ou alguma instituição” e começa a coluna com um plano de
roubo arquitetado a partir de uma notícia de que um agente do correio teria sido
flagrado com 14 contos de réis. 55 Após a voz de prisão, aconteceu a intervenção de dois
“cavalheiros de superior posição”, que prometeram acompanhar o carteiro à cadeia,
dispensando o oficial de justiça. Lélio apresenta então sua ideia: copiar o acontecido,
mas, ao invés do que ocorre com o carteiro, ser acompanhado até o cais por dois amigos
disfarçados de “pessoas sérias”. O trecho, primordialmente cômico, é interrompido por
um travessão, depois do qual começa uma narrativa:

....Interrompo o que ia dizendo, para contar o que me aconteceu agora.


Vieram dizer-me que uma senhora queria fallar commigo, e estava na
outra sala. Vou à outra sala, e acho uma graciosa dama, vestida de
preto, olhos grandes, apaixonados, rendas pretas na cabeça e no collo.

Quem seria essa senhora? Filomena Borges, obviamente. Note-se que é a


primeira vez que a heroína é apresentada em carne e osso; ela seria, então, uma mulher
real. Segue no texto um diálogo, acompanhado de narração, entre a mulher e o cronista.
Lélio conta que Filomena o procurou para esclarecer a situação: ela mandou
imprimir dois mil cartões, mas, ao recusar-se a pagar por achá-los ruins, desentendeu-se
com o litógrafo, que os distribuiu em retaliação. Filomena seria, na verdade, uma mãe
de família, viúva do coronel Graça Borges, residente na rua de Santo Antônio, número

53
Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 4ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.
54
Lélio, “Balas de Estalo”, Gazeta de Noticias, 10/10/1883. p. 2. ed. 283.
55
Não encontramos a notícia, descrita assim: “em um municipio do sul o agente do correio foi achado em
alcance do valor de 14:000$.”

17
96,56 e pede ao colunista que interceda em favor dela, para que seu nome pare de ser
comentado. Lélio afirma não poder garantir isso, dada a paixão de Lulu Sênior.
Notamos aqui que uma nova versão de Filomena surge nas páginas das
“Balas de estalo”. Se a primeira, de Lulu Sênior, Décio e Zig-Zag, caracteriza-a como
uma mulher sedutora, misteriosa, portanto atraente e perigosa, a versão de Lélio
distingue-a como uma mãe de família, viúva,57 sincera, aberta, incomodada e ofendida
com a notoriedade que alcançava seu nome. A primeira é disputada pelos três cronistas;
a segunda é por Lélio protegida.
Apesar da discordância entre os quatro, há um ponto em comum: a visão da
extravagância feminina. Se nos três primeiros ela está explícita nos textos e no diálogo
que estabelecem entre si, no texto de Lélio ela é marcada pelo primeiro parágrafo da
coluna, que anuncia o primeiro assunto:

Acordei hoje com o desejo de desfalcar alguem ou alguma instituição.


Se eu fosse mulher - Lelia, por exemplo, - explicava-se a
extravagancia; era signal de que andava alguma cousa no ar. Mas,
homem! Emfim, são segredos da natura.

Segredos? Se não se conhece a natureza do problema, ou se ela não é


apresentada, os seus efeitos estão muito bem caracterizados.
As três primeiras crônicas perguntam: quem é Filomena? Nas formulações
dos três primeiros cronistas, há uma ideia de mulher ainda abstrata, nebulosa. Lélio,
porém, procura tornar a discussão mais material, desvendando questões que punham em
xeque a existência de Filomena. A personagem mora em determinado endereço, é mãe e
viúva e, dessa forma, aquela figura de mulher torna-se concreta.
Possivelmente nascida de uma fofoca das ruas ou de uma brincadeira entre
os jornalistas, a mulher, antes misteriosa, ao cabo de uma semana está bem definida e
conhecida. Todavia, a real natureza da criação desta personagem só será esclarecida nos
próximos meses, em que se vai revelando o viés comercial que o nome ganha.

56
A título de curiosidade, procuramos pelo nome do suposto marido e pela rua na Hemeroteca Digital,
concentrando a busca nos Almanaques, mas nada encontramos – o que já era esperado. Resta saber se o
local significa alguma coisa socialmente ou se é referência a algo ou alguém.
57
Na XIX Semana de História, realizada entre 10 e 12 de setembro de 2013 no campus de Franca da
Unesp, a prof.ª Daniela Magalhães da Silveira nos chamou atenção para a possibilidade de que ser viúva
moça, na época, poderia conter sentido negativo: virar cocotte.

18
A personagem Filomena Borges vai sendo construída coletivamente, dentro
de uma discussão periódica e atual que se dá no interior de uma coluna. Ela nasce,
portanto, como personagem midiática, nos termos de Marie-Ève Thérenty.58
Sua formação segue o movimento comum das “Balas de Estalo”: Lulu
Sênior, o chefe, lança a pauta, que será comentada pelos outros cronistas; Décio, o
médico, apresenta o problema dentro da ciência; Zig-Zag, o cético, desconfia; Lélio, o
empulhador, define, ao mesmo tempo em que dissimula, com seu desejo de desfalcar.59

Restava, porém, explicar de onde a personagem viera, para que, por quais
motivos – os determinantes de seu caráter. Tal papel coube a Aluísio Azevedo, que
entrou na discussão no dia 11 de outubro.60 Na primeira página da Gazeta de Noticias
foi publicada uma carta de sua autoria, datada do dia 4 do mesmo mês. O título,
“Philomena Borges”, marca a primeira vez em que o nome aparece com destaque, em
caixa alta, justamente na primeira página do jornal (é inclusive o primeiro texto da
edição, logo abaixo de “Expediente”).
A carta foi precedida por uma pequena apresentação, que enfatiza a
ansiedade geral do público por desvendar quem seria a dona daquele nome:

De ha alguns dias conheciamos parte do romance – se romance


podemos chamar a uma historia tristemente verdadeira – de que é
heroina, protagonista, victima, e não sabemos que mais, aquella
mulher que é hoje celebre por andar o seu nome por toda esta
população, repetido de bocca em bocca.

O jornal afirma ter tomado conhecimento de sua história, aqui comparada a


um romance, através de Azevedo, que colheu informações pessoalmente e que começa,
na carta, a contar brevemente a história de Filomena. O escritor teria ido à casa de
Filomena, da qual voltou impressionado com o relato da mulher, questionando-se se ela,

58
THÉRENTY, Marie-Ève. La Littérature au Quotidien: Poétiques journalistiques au XIXe siècle. Paris:
Éditions du Seuil, 2007.
59
Essa interpretação foi auxiliada pela prof.ª Ana Flávia Cernic Ramos, também na XIX Semana de
História. Coincidentemente, apresentamos neste evento comunicações com títulos e resumos muito
semelhantes. Ela publicou, nos anais, um artigo que reconstituiu o processo de que ora tratamos. Cf.
RAMOS, Ana Flávia Cernic. Philomena Borges: uma leitora de folhetins sob o olhar de Aluísio Azevedo.
In: XIX SEMANA DE HISTÓRIA DA UNESP HISTÓRIA, LEITURA E CULTURA MIDIÁTICA,
2014. Franca. Anais... p. 346-355.
60
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/10/1883. p. 1. ed. 284.

19
de fato, seria a maior culpada pelas fortunas que destruiu. A explicação se dá também
como uma espécie de defesa de Filomena Borges:

Bem sei que Philomena não é um modelo de virtudes domesticas; bem


sei que na febre de suas paixões mais de um futuro se tem estiolado;
bem sei que muito coração ainda hoje sangra a ferida de seus osculos
vermelhos.
Mas será ella porventura a maior culpada de tudo isso, será ella a
unica responsavel pelo mal que fez, e pelas fortunas que destruiu?!
Não caberá alguma parte d’essa culpa à nossa sociedade, aos nossos
costumes, à nossa educação, e finalmente ao triste meio onde cresceu
e palpitou essa desventurada e formosa creatura?!
As mulheres são fatalmente aquillo que os homens decretam que ellas
sejam.
Philomena Borges é um producto legitimo dos vicios e da covardia de
seus pais.
Se não a educassem no falso luxo; se não lhe ensinassem todas as
miserias de uma pobreza sem coragem e sem dignidade; se não a
vendessem ao primeiro noivo rico e brutal que a desejou; Philomena
Borges seria talvez n’este instante o melhor modelo das mãis de
familia.

A citação é longa, mas essencial. Aqui já estão apresentados alguns dos


temas que serão desenvolvidos no romance, a tal “verdadeira história”: os costumes, o
casamento, a educação da mulher. O romance aparecerá como mais um relato, desta vez
completo e isento, que dará aos leitores a condição de formar a própria opinião sobre
Filomena:

E, no fim de contas, qual é o motivo de tanta guerra?! De que lado


está a razão?!
Isso só o público decidirá, depois de ler o apanhado de todos os factos,
o extracto de todos os documentos, que me foi permittido descobrir a
respeito de Philomena Borges.
Não hei de inventar, nem esconder cousa alguma; a verdade
apparecerá nua e limpa, ainda que tenha de arcar com o resentimento
de algumas pessoas.
Rio, 4 de outubro. – Aluizio Azevedo...

A carta, portanto, trata-se de um texto em defesa de Filomena Borges. Sua


datação, anterior às “Balas” que iniciam a discussão, dá a ela uma marca de
precedência, que atesta a autenticidade do relato de Aluísio Azevedo frente ao público.
Nela, planta-se a ideia do romance no terreno preparado pelas “Balas de Estalo”. O
caráter da personagem já estava bem formulado pela coluna; restava a Azevedo definir

20
as determinações desse caráter, que já começaram a ser por ele descritas. Há que se
destacar ainda que Filomena, na versão do autor, não é o melhor modelo de mãe de
família, o que, de certa forma, rebate a versão de Lélio.61 Assim, Azevedo resume e
concentra as definições anteriores: a mulher é concreta, mas se une à sua abstração,
mantendo a marca de mistério e sedução; ao mesmo tempo, ela também é detestada e
temida.
Note-se, na continuação do capítulo, como a caracterização das “Balas” se
repetirá em outros textos, que apresentaremos a seguir. Todos eles são desdobramentos
dessa discussão inicial, agora acrescida fortemente do caráter comercial que esse
romance toma.

1.2.a As aparições

A partir do dia 11 de outubro, podem ser encontradas diversas referências a


Filomena nos mais diversos espaços dos jornais.
Em um artigo, por exemplo, o nome serve como pseudônimo para uma
elegante senhora brasileira, frequentadora da “primeira sociedade parisiense”;62 em
outro momento, surge como pseudônimo para uma cafetina húngara que importava suas
compatriotas com promessas de casamento e as prostituía.63 Mas, afinal, o que une essas
outras aparições, além do uso do mesmo pseudônimo? Em primeiro lugar, a
excentricidade: ambas se vestem de homem, a primeira para explorar um prazer
desconhecido (que acaba virando moda), a segunda para fugir da polícia; em segundo, o
impacto comercial: ambas estão ligadas a estabelecimentos de vestuário, “Au
Boulevard” e alfaiataria Estrela do Brasil, respectivamente. Por fim, ambas são
apresentadas em textos de jornal com formato de notícia que, aproveitando-se da
celebridade crescente do nome, dele se utilizam como título e assunto para chamar
atenção para outras coisas.64

61
Apesar de se poder considerar que a referência à viúva ironize o “mãe de família”.
62
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/10/1883. p. 2. ed. 284. O texto aparece nas “Publicações a
pedido”. A toilette que descreve “acha-se à venda no grande armazém de fazendas, modas, confecções e
armarinho ‘Au Boulevard’, largo de S. Francisco de Paula”.
63
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 14/10/1883. p. 2. ed. 287. Importante notar que a cafetina
“mudou de sexo” na Alfaiataria Estrela do Brasil para escapar da polícia.
64
O vestir-se de homem, e sua possível relação com o teatro (D. Juanita, Morgadinha...) e com o
romance, ficará por ser discutido mais a fundo.

21
Nossa hipótese é que não passam de propagandas para as vendas de roupas
citadas, exemplos ótimos do caráter comercial que o nome vai ganhando. Essa hipótese
se fortalece quando encontramos outras referências a Filomena, que se tornam cada vez
mais comuns até a publicação do folhetim.
Aproveita-se a curiosidade e o mistério em torno do nome para chamar
atenção para diversos eventos. No anúncio abaixo, há uma possível relação entre o
nome e a excentricidade que passa a acompanha-lo, ainda mais se o leitor teve acesso à
versão de que Filomena seria uma mulher da alta sociedade, bem vista em Paris. À
mulher perigosa das “Balas”, soma-se a mulher chic dos boatos e anúncios:

Figura 1 – Paradis des Dames

Gazeta de Noticias, 12/10/1883. p. 1. ed. 285.65

Em outro anúncio, Filomena está para debutar frente à sociedade do Rio de


Janeiro, contribuindo para a composição do clima de mistério:

Figura 2 – Esquina do Ouvidor com Uruguaiana

65
Esta notinha foi publicada na primeira página, entre notícias.

22
Gazeta de Noticias, 13/10/1883. p. 3. ed. 286.66

Outros anúncios não possuem aparentemente relação alguma com a


personagem das “Balas de estalo”. A seguir, um exemplo em que se utiliza o nome
apenas como chamada para anunciar uma polca, possivelmente inspirada pela opereta
“Dona Juanita”,67 que estava sendo encenada no período, mas que aparentemente não
tem nenhuma relação com a “D. Juan de saias”,68 Filomena:

Figura 3 – Polca Dona Juanita

Gazeta de Noticias, 18/10/1883. p. 6. ed. 291.

O anúncio da polca tem um formato tão absurdo que motiva a correção, que
aparece dias mais tarde, duas vezes na mesma página:

Figura 4 – Não é polca

66
Não encontramos o que haveria nesta esquina. Possivelmente seria uma loja com uma vitrine bastante
atrativa, aproveitando-se da situação. A nota encontra-se na sessão de anúncios.
67
Donna Juanita, opereta com música de F. Suppé e libreto de F. Zell e R. Genée.
68
Pretendemos, futuramente, estudar com maior profundidade uma possível relação entre a opereta, a
personagem midiática, Filomena Borges, e o romance Filomena Borges. Isto não foi possível aqui pela
dificuldade de acesso ao texto da tradução portuguesa de Eduardo Garrido.

23
Gazeta de Noticias, 02/12/1883. p. 4. ed. 336.69

Uma nota neste estilo tem a óbvia função de informar, mas também pode
ajudar a preencher espaços vazios na página de anúncios. Seja como for, a Gazeta de
Noticias já era um jornal sustentado pelos anúncios e pelas publicações a pedido, o que
torna ainda mais intrigante a presença relevante de Filomena Borges nos dois espaços.
A misteriosa senhora serve para vender roupas, partituras, e também para chamar
atenção para festas:

Figura 5 – Festa do oitavário de Nossa Senhora da Penha

Gazeta de Noticias, 27/10/1883. p. 4. ed. 300.70

Mais tarde, será publicado, também na sessão dedicada aos anúncios, o tão
falado cartão:

Figura 6 – Cartão de visitas

Gazeta de Noticias, 04/12/1883. p. 4. ed. 338.71

69
Há duas notinhas iguais na mesma página. Elas poderiam cumprir uma dupla função: informar e ajudar
a preencher o jornal.
70
Filomena poderia, afinal, não ser uma mulher tão perigosa, frequentando festas religiosas.
71
O cartão é repetido em várias edições, nos anúncios.

24
Para manter cativados os leitores, os seguintes “Avisos” foram publicados
em diversas edições:

Figura 7 - Aviso

Gazeta de Noticias, 05/12/1883. p. 2. ed. 399.72

A repetição desse tipo de nota, que promete que ela estará em tal evento, ou
que aparecerá em tal momento, dá a entender que ela nunca apareceu em nenhum.73 O
que, por sua vez, não impediu que seu nome circulasse também por outros meios, como
na homenagem que lhe prestam os Tenentes do diabo:74

Figura 8 – Tenentes do Diabo

72
Aviso repetido em diversas edições.
73
Só nos jornais, conforme defendemos a seguir.
74
Uma das três grandes sociedades carnavalescas do período. Cf. PEREIRA, Leonardo Affonso de
Miranda. O carnaval das letras: literatura e folia no Rio de Janeiro do século XIX. Campinas: Editora da
UNICAMP, 2004.

25
Gazeta de Noticias, 09/12/1883. p. 3. ed. 381.75

Note-se que “em virtude da decisão tomada em assembleia geral, não se


dará convites a pessoa alguma.” Ou seja, nem Filomena debutará, nem o baile
acontecerá.
O nome Filomena Borges, que já vinha ocupando as primeiras páginas da
Gazeta, passa a ocupar as últimas. Ele vai sendo associado a festas, bailes, espetáculos,
peças de vestuário, casas comerciais, sempre contribuindo para a marca principal da
personagem: a extravagância.76

1.2.b Filomena sai das “Balas” e vai para as folhas: “Um encontro, um leque, um
cartão”

O folhetinista J.A.77 do Brazil publicou, em 14 de outubro de 1883, uma


carta sob o título de “Um encontro, um leque [e] um cartão”, que ele teria recebido pelo

75
Anúncio repetido em várias edições.
76
Geralmente relacionada ao vestir-se de homem, como na Morgadinha.
77
Pseudônimo não identificado.

26
correio.78 Na narrativa, um marido conta três eventos em que o ciúme de sua esposa é
despertado. No primeiro ela se ressente pelo encontro dele com um amor do passado
durante um baile; no segundo, por achar um leque na sua gaveta, que ela supõe ser de
outra; no terceiro, por achar um cartão, também na sua gaveta, com o nome: Filomena
Borges. Para se livrar dessa situação, o marido lhe mostra a Gazeta de Noticias:

Adda comprehendeu então que eu não fôra o unico marido a quem


Philomena Borges se dirigira, embora sem dar o seu adresse.
Tratava[-]se de uma mulher mysteriosa e ella promette ler com a
maior curiosidade o romance que se annuncia do fecundo litterato
Aluizio de Azevedo.

O comentário final do folhetinista é também significativo: “não é uma


pagina realista, no entanto descreve com muita naturalidade a mulher pelo seu lado mais
fraco e feminil, - o ceume”.

O marido resistiu à conquista, mas, como já vimos, não são todos os homens
que resistem ao charme da moça. Dentre os conquistados, destaca-se um, que resolve se
declarar por meio da imprensa, coincidentemente o lugar onde ela é mais facilmente
encontrada:

Figura 9 – M.

78
J.A., “Um encontro, um leque [e] um cartão”, Brazil, 14/10/1883. p. 1-2. ed. 78. O mesmo folhetim
será reproduzido dois dias mais tarde na Gazeta de Noticias. J.A., “Um encontro, um leque e um cartão”,
Gazeta de Noticias, 16/10/1883. p. 1-2. ed. 289.

27
Gazeta de Noticias, 18/10/1883. p. 3. ed. 291.79

Filomena, a mulher misteriosa que é ao mesmo tempo cafetina e socialite,


sai do jornal para circular nas ruas e chegar às casas de família. Não há como supor que
o relato que J.A. transcreve seja verdadeiro – ele mesmo dá razões para que se não
acredite nisso; nem que M. seja um amante fisgado – seria, muito mais facilmente, só
um texto para preencher espaços vazios no jornal. Mas é justamente nessa linha tênue
entre o que, dentro do jornal, é fato ou ficção, que Filomena vai sendo construída e,
provavelmente, concebida. Suas aparições são recorrentemente marcadas para qualquer
dia, no evento tal ou qual, mas elas acontecerão apenas nos periódicos.

1.2.c Filomena, mulher de imprensa

79
O trecho, encontrado nas “Publicações a pedido”, lembra os galanteios de Lulu Sênior, apesar de não
ter o tom irônico daqueles.

28
Estranhamente, na mesma época em que Lulu Sênior, principal responsável
pelo fenômeno na imprensa, se diz cansado de Filomena Borges em uma de suas “Balas
de Estalo”, ela passa a aparecer “pessoalmente”, assinando publicações.
É importante citar esse trecho, pois ele será retomado quando formos tratar
da crítica:

O assumpto Philomena Borges tambem já não dá panno para mangas,


porque o Aluizio tomou conta d’elle, e vai dizer a respeito cousas do
arco da velha. Até agora anda callado como um peixe, e não quer
dizer o que sabe da heroina.
O Montaury,80 que como reporter é o que se chama um alho, disse-me
que a referida Philomena é uma sogra,81 que tendo perdido o ultimo
genro que lhe restava, diverte-se a atormentar os genros das outras,
unicamente por amor [à] arte.82

O amor à arte desta “sogra” se estende do tormento dos genros à poesia. A


30 de outubro ela assina um poema n’O Mequetrefe:

O mandarim Tong-King-Sing
I
Estudar o que ha por cá
Vem da China o mandarim;
Antes de ir para Pekim;
Ninguem sabe onde elle irá.
Vem da China o mandarim;
Estudar o que ha por cá.
II
É bom letrado e faz versos,
Tem diversos pergaminhos;
Cita às vezes pedacinhos,
De Bellegarde e diversos.
Tem diversos pergaminhos,
É bom letrado e faz versos.
III
Não guarda nada no buxo!
Diplomata de rabicho,
A palavra n’um esguicho
Vem-lhe aos labios, de um repucho!...
Diplomata de rabicho,
Não guarda nada no bucho.
IV

80
Montaury, repórter da Gazeta de Noticias. Possível responsável pelo pseudônimo Décio das “Balas de
Estalo”.
81
Um dos temas favoritos de Lulu são a sogras: ele adora fazer piadas com elas. RAMOS, A. F. C. op.
cit. p. 39.
82
Lulu Sênior, “Balas de estalo”, Gazeta de Noticias, 19/10/1883. p. 2. ed. 292.

29
No bello idioma chinez
Não se entende o que elle diz;
O Lafayette já quiz,
Dizer-lhe a coisa em francez.
Não se entende o que elle diz,
No bello idioma chinez.
V
Hei de dar ao chim um chá,
Se a missão levar ao fim.
Antes de ir para Pekim
Relatar o que ha por cá,
Se a missão levar ao fim...
Hei de dar ao chim um chá.83

O poema homenageia o mandarim que estava no Rio, que é o outro grande


acontecimento do período, também muito comentado nas “Balas” e nos outros
periódicos.84 A importância dos dois assuntos é evidenciada pela sua presença na
Revista de ano de Artur Azevedo e Moreira Sampaio, intitulada O Mandarim. Na peça,
a Gazeta de Noticias e o Mandarim travam um diálogo:

FOLHA NOVA – Oh, que cabeça minha! É a tal coisa! Senhor


Mandarim, consinta que lhe apresente minha amiga, Dona Gazeta de
Notícias...
MANDARIM – Oh! minha senhora! Tenho muito prazer em travar
relações com Vossa Excelência... Já de há muito a conhecia, mas não
ligava o nome à pessoa. Como passa Dona Filomena Borges, essa
interessante senhora que se acha atualmente alojada no pavimento
térreo da casa de Vossa Excelência?
GAZETA DE NOTÍCIAS – Perfeitamente, obrigada. (Oferecendo-lhe
um rebuçado, que tira do bolso.) Há de permitir que lhe ofereça uma
bala...
MANDARIM (Recuando.) - Uma bala?
GAZETA DE NOTÍCIAS – De estalo. São inofensivas.
BARÃO (À parte.) – Conforme.
MANDARIM – Aceito. (Chupando a bala e fazendo uma careta, à
parte.) Pode ser que seja feita de açúcar, mas amarga como fel!85

Tornando-se autora, Filomena Borges também assinará dois textos de


resposta ao Jornal do Commercio, apresentados a seguir:

83
Filomena Borges, “O mandarim Tong-King-Sing”, O Mequetrefe, 30/10/1883. p. 7. ed. 325.
84
Chegamos a imaginar que a Filomena pudesse ser, de algum modo, uma representação do próprio
Mandarim – ideia que abandonamos. Há uma ampla discussão, na época, sobre a imigração chinesa e a
visita do mandarim aquece e acentua os debates.
85
AZEVEDO, Artur. O Mandarim. In: Teatro de Artur Azevedo II. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de
Artes Cênicas, 1985. p. 265.

30
Figura 10 – Lucros e perdas

Gazeta de Noticias, 18/10/1883. p. 3. ed. 291.

Figura 11 – Mme. Philomena Borges

Gazeta de Noticias, 19/10/1883. p. 2. ed. 292.

31
Ela toma, assim, parte de sua mãe, a Gazeta de Noticias, nas polêmicas com
Carlos de Laet e o jornal rival.86

1.2.d Filomena nas páginas policiais

Não é só de conquistas, moda e literatura que vive a heroína:

Figura 12 - Cadáver

Gazeta de Noticias, 11/11/1883. p. 3. ed. 315.87

Ou morre!
Seria mais uma propaganda da Estrela do Brasil se utilizando da fama e do
interesse pelo nome? Possivelmente. Mas Filomena entrará mais contundentemente no
mundo das narrativas criminais.
Na mesma Gazeta de Noticias, foi publicada em 4 de dezembro uma notícia
instigante.88 Sob o título de “Caso singular”, conta-se que uma possível ladra, ricamente
vestida, estuda as portas e fechaduras na madrugada, e é pega pela polícia. “Na estação,
diante do respectivo commandante, a illustre desconhecida levantou o veu e... caso
singular: Não era Philomena Borges!”
Essa incursão pelo mundo do crime liga duas facetas de Filomena que já
vinham circulando: 1) perigosa e 2) ricamente vestida. Anteriormente, ela serviu de

86
Esses dois textos foram publicados na sessão “Publicações a pedido”. Encontramos o folhetim
“Microcosmo” assinado por C. de L., Carlos de Laet, mas não achamos referência ao nome Philomena
(nem nos “Avisos” ou “Publicações a pedido”). A crítica a Lucros e perdas não foi encontrada, como a
“Musa do povo”, que não vimos como coluna nesses meses (outubro, novembro e dezembro de 1883).
87
Texto encontrado em “Publicações a pedido”.
88
“Caso singular”, Gazeta de Noticias, 04/12/1883. p. 1. ed. 338. A mesma notícia é reproduzida no
Correio Paulistano, 06/12/1883, agora com o título “Não era Filomena Borges!”, p. 1, ed. 8193.

32
pseudônimo para uma cafetina húngara; no futuro, servirá como apelido para um rapaz
preso pela polícia.89
O nome da célebre mulher é usado como chamada em anúncios, como
pseudônimo em poema e polêmica, como personagem em uma suposta notícia.
Participa, assim, de diversos processos de ficcionalização do cotidiano que acontecem
simultaneamente no jornal.

1.2.e Filomena no Maranhão

Filomena também aparecerá na Pacotilha, jornal maranhense que já havia


contado com a contribuição de Aluísio Azevedo no começo da carreira. Duas pequenas
notas levam notícias do novo romance ao norte:

Figura 13 – Anúncio na Pacotilha

“Telegramas”, Pacotilha, 30/10/1883. p. 3. ed. 294.

Figura 14 - Petrópolis

Eloy, o heroe (Artur Azevedo), “Cartas Fluminenses”, Pacotilha, 03/12/1883. p. 2. ed. 327.

89
“Augusto Cordeiro é conhecido no mundo de suas relações por ‘Philomena Borges’ e da policia como
notavel vagabundo. Por possuir estes predicados foi preso ante-hontem.” Diario Portuguez, 09/07/1885.
p. 2. ed. 238.

33
É importante destacar que essa nota de Artur Azevedo terá um efeito na
análise do final do romance. Não sabemos se Aluísio Azevedo realmente foi a
Petrópolis, mas isso revela duas coisas: o desejo de levar os personagens do romance até
lá; e a construção do escritor-jornalista, cara aos naturalistas, que vai atrás dos fatos para
retratá-los fielmente.
Além disso, a grandeza de “occupa [...] a attenção de meio Rio” é marcante:
seria só retórica ou realidade? Se considerarmos que o jornal “constrói” a realidade em
certa instância, faz pouca diferença; para todos os efeitos, Filomena já prende a atenção
de meio Rio.

1.3.a Adiamentos

A viagem ao Maranhão, sua morte, sua perseguição pela polícia, sua


carreira de poetisa, devem ter deixado Filomena Borges um pouco cansada. Na virada
de novembro para dezembro, a heroína passa por momentos de enfermidade e vaidade.
A questão é que o romance que ocupa o pé de página da Gazeta, “O
grilheta”, está acabando. Resolvem então os editores do jornal usar seus últimos
recursos de publicidade, ganhando também algum tempo para Aluísio Azevedo,
possivelmente atrasado na escrita do romance original.
A culpa cairá sempre em Filomena, sua vaidade e fraqueza feminis, como
em texto da Gazeta de 30 de novembro: “A heroina do romance de Aluizio Azevedo, se
romance se póde chamar a veridica historia de uma vida cheia de accidentes, obrigou-
nos a adiar por algum tempo a publicação do folhetim.” 90 Ela teria ocultado algumas
coisas, mas agora “confessou tudo e mais alguma cousa”. É um anúncio de atraso que
ao mesmo passo ganha tempo para o autor e aumenta a curiosidade do leitor.
Em seguida, uma pequena notícia, que contribui com a curiosidade e com o
retrato de uma mulher de carne e osso, além de, possivelmente, completar um espaço
em branco do jornal:

Figura 15 – Enfermidade

90
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 30/11/1883. p. 1. ed. 334.

34
Gazeta de Noticias, 02/12/1883. p. 1. ed. 336.

Em texto publicado no dia 8 de dezembro, também na Gazeta, Filomena


voltará a ter um acesso de vaidade, pedindo para adiar a publicação do romance até a
virada do ano, pois assim o jornal ganharia novos assinantes “unicamente pela
curiosidade de conhecer a sua vida aventurosa”.91 As senhoras poderiam, então,
acompanhar o romance para ver se as cenas parecem com as escapatórias dos maridos
que receberam os cartões. O jornal concorda com Filomena, mas tenta conciliar os
interesses dos novos e dos atuais assinantes da seguinte maneira: no intervalo entre o
folhetim “O grilheta”, que havia terminado no dia anterior, e o folhetim “Philomena
Borges”, eles publicarão no rodapé dois contos traduzidos do francês pela própria
Filomena; os novos assinantes passarão a receber a Gazeta a partir do início da
publicação do romance de Aluísio Azevedo (dezembro), pagando a mesma quantia das
assinaturas que começariam em janeiro.
Os dois contos, de fato, saem entre 8 e 17 de dezembro, tomando cinco
folhetins cada um, com os títulos “O vampiro” e “Minha prima Laura – História
autêntica – Versão”.92

Figura 16 – Tradução dos contos

91
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 08/12/1883. p. 1. ed. 342.
92
Os originais franceses foram publicados no Journal pour tous, periódico francês que circulou no Brasil,
chegando a ter versão nacional. Uma das pesquisadoras do grupo, Izenete Nobre Garcia, estuda os
chamados jornais-romance, definição na qual se encaixa o Journal. Infelizmente, não pudemos descobrir
ainda se a versão em português dos contos foi feita para essa edição nacional do jornal ou se poderia ter
sido feita especialmente para a Gazeta. Na versão em português, trocou-se o título “Le but de ma vie” por
“Minha prima Laura – versão”.
Charles Narrey, “Le but de ma vie”, Journal pour tous, 10/07/1867; 13/07/1867; 17/07/1867. ed. 1020,
1021, 1022.
Louis Bailleux [?], “Le vampire”, Journal pour tous, 17/07/1867; 20/07/1867. ed. 1022, 1023.

35
Gazeta de Noticias, 13/12/1883. p. 1. ed. 347.

1.3.b Os últimos estalos

Depois de passear por todos os espaços dos mais variados periódicos,


Filomena Borges voltará às “Balas de estalo” para, finalmente, ser encaminhada ao
romance em folhetim.
Nas “Balas” de 8 de dezembro, Lulu Sênior faz uma espécie de história da
publicação do romance. O colunista começa reclamando de que muitos têm insinuado
que a distribuição de cartões partiu da Gazeta, na tentativa de fazer “réclame à
americana”.93 “A verdade” é que os cartões foram distribuídos por alguém que queria
fazer mal a Filomena; como a sua circulação fez “barulho na cidade”, os reporters da
Gazeta foram atrás da senhora, mas quem a descobriu foi Aluísio Azevedo. Este, então,
teria proposto a “publicação da veridica historia de Philomena”. Lulu aproveita o final
do texto para propagandear a “promoção” das assinaturas, ainda que escreva: “da
Philomena, do Aluizio, digo eu que não precisa de réclame, porque se recommenda por
si.”
Dois dias depois, o mesmo cronista publica, em suas “Balas”, uma carta de
Aluísio Azevedo a ele endereçada, supostamente particular.94 O romancista pede que o
cronista acabe com as brincadeiras a respeito de Filomena, que anda muito
sobressaltada e se sente perseguida pela Gazeta. Ao invés de procurar um médico ou um
advogado, Filomena sempre recorreria ao romancista, o que traz diversos incômodos.

93
Lulu Sênior, “Balas de Estalo”, Gazeta de Noticias, 08/12/1883. p. 2. ed. 342. Seria “réclame à
americana” o puff de que tratam os franceses? THÉRENTY, Marie-Ève. Médiatisation et création
littéraire. In: KALIFA, Dominique; RÉGNIER, Philippe; THÉRENTY, Marie-Ève; VAILLANT, Alain.
(orgs.) La civilisation du journal: Une histoire de la presse française au XIXe siècle. Paris: Nouveau
Monde, 2011. p. 1507.
94
Lulu Sênior, “Balas de Estalo”, Gazeta de Noticias, 10/12/1883. p. 2. ed. 344.

36
Ele narra um exemplo que sucedeu “ainda hontem”: enquanto tomava um café na Faro
& Lino95 saboreando “pacificamente a bella prosa do Joaquim Serra96”, Filomena
aparece e aponta Azevedo como o culpado por tudo, por ter prometido o romance de sua
vida. O autor argumenta que o romance vem a favor dela, em sua defesa, e que ele não o
escreveria se o nome dela “não estivesse espalhado por todo o Rio de Janeiro!” A
discussão deflagra uma crise histérica, sob a qual Filomena agarra Lino e obriga-o a
dançar uma valsa! Segue uma cena cômica em que o Faro cai no Veríssimo,97 que se
assusta e esbarra no Alencar Araripe,98 pisa no calo de Silvio Dinarte99 e cai nos braços
de Lopes Cardoso.
Como no texto de Décio, Azevedo faz referências a diversas personalidades
do Rio em meio a essa narrativa: além dos diretamente envolvidos, algumas pessoas
apareceram para ver a confusão e outras são citadas na conversa com Filomena.
Os curiosos são: Luiz de Andrade,100 Clapp,101 Victor Meirelles,102
Vasques,103 Pacheco fotógrafo,104 Valentim Magalhães,105 Emílio Rouède,106 padre
Antonio Manuel,107 Salustiano Sebrão,108 “a bella romancista” D. Adelia,109 Urbano
Duarte,110 Duque-Estrada,111 Artur Azevedo, Silvestre de Lima,112 Heller do
Sant’anna,113 Manuel Carneiro,114 Navarro da rosa,115 França Junior,116 Casella – sujeito

95
Livraria contemporânea de Faro & Lino.
96
Joaquim Serra, literato maranhense.
97
Verissimo do Bom-sucesso, descrito lendo um almanaque Antonio Maria, era poeta e jornalista.
98
Alencar Araripe, possivelmente o pai de Tristão de Alencar Araripe Júnior.
99
Sílvio Dinarte, pseudônimo do Visconde de Taunay.
100
Luiz de Andrade, escritor.
101
João Clapp, fundador da Confederação Abolicionista.
102
Victor Meirelles, pintor.
103
Francisco Vasques, ator.
104
Pacheco, fotógrafo.
105
Valentim Magalhães, advogado e colunista da Gazeta de Noticias. No período, é responsável pela
coluna “Notas à margem”, assinando como V.
106
Emílio Rouède, artista polivalente. Escreveria, em parceria com Aluísio Azevedo, duas peças: Venenos
que curam e O caboclo.
107
Padre Antonio Manuel.
108
Salustiano Sebrão, jornalista.
109
Adélia Josefina de Castro Fonseca, poeta, ou Adélia Camargo, romancista.
110
Urbano Duarte, dramaturgo e jornalista.
111
Pela idade, provavelmente se refere a Gonzaga Duque, o autor de Mocidade Morta.
112
Silvestre de Lima, poeta, jornalista (Gazeta da Tarde), abolicionista. Mais tarde, coronel.
113
Jacinto Heller, então empresário do Theatro Sant’Anna.
114
Poderia se tratar de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, pai de Manuel Bandeira, irmão mais velho do
acadêmico Souza Bandeira.
115
Navarro da rosa, possível apelido de Joaquim Navarro.
116
França Junior, dramaturgo.

37
de suíças ruivas da Camisaria Especial,117 Madame Durocher, “emfim quasi todo o Rio
de Janeiro”.118
Depois de todo esse alvoroço, finalmente aparecem os socorristas: Dr. Pedro
Paulo acode, Montaury chama um carro e se dispõe a acompanhá-la mais o Dr. Josino
de Brito.119
Nas justificativas de Azevedo para Filomena, são citados: “Dr. Antonio
Cardoso de Menezes,120 que me falou da vida privada de V. Ex.”; “Filinto d’Almeida,121
que a conhece muito bem”; “Dr. Macedo de Azevedo,122 que a tratou de uma
pneumonia”; “Alberto de Oliveira,123 que já lhe offereceu versos”. Seriam estes
responsáveis, também, por compor a personagem? Antonio Cardoso de Menezes e
Filinto de Almeida parecem conhecê-la bem; Macedo de Azevedo teria sido seu
médico, possivelmente cuidando de suas enfermidades recentes; Alberto de Oliveira
teria sido fisgado, como Lulu Sênior e M., ou seria ele o autor do poema publicado com
a assinatura de Filomena Borges?124
Azevedo pretende que a carta demonstre a Lulu Sênior as consequências de
suas pilhérias. No fim, provoca, desafiando o interlocutor a fazer da carta uma “Bala de
estalo”: seria o cúmulo da maldade.

Passada uma semana, acaba a paciência de Lulu: “já estou cheio de


Philomena Borges”.125 Ele estaria recebendo muitas cartas e bilhetes sobre o assunto,
dentre as quais uma o ofende em sua virtude, o que o motiva a esclarecer:

Respondo, pois, ao detractor, que não tenho o prazer de conhecer a


Sra. Philomena Borges, que nunca a vi mais gorda, que não sei de que
freguezia é, e que só terei conhecimento d’essa importante

117
A camisaria especial parece ter sido um estabelecimento importante e conhecido – há muitos anúncios
nos jornais que a utilizam como ponto de referência: “ao lado da Camisaria especial”.
118
Note-se que “quasi todo o Rio de Janeiro” inclui quase exclusivamente homens, à exceção de D.
Adelia, definida como “bella”, e Mme. Durocher, parteira.
119
Dr. Josino de Brito, médico.
120
Dr. Antonio Cardoso de Menezes. Formado em direito em S. Paulo, compunha música para o teatro,
tendo se apresentado no Club Beethoven entre 1882 e 1889.
121
Filinto de Almeida, jornalista e poeta, futuro marido de Júlia Lopes de Almeida.
122
Dr. Macedo de Azevedo, médico.
123
Alberto de Oliveira, poeta.
124
Mais importante que descobrir quem era ou como se relacionava cada um dos citados, é notar que eles
povoavam a imprensa da época, aparecendo em anúncios e crônicas variadas, sendo, portanto, conhecidos
do público.
125
Lulu Sênior, “Balas de Estalo”, Gazeta de Noticias, 17/12/1883. p. 2. ed. 351.

38
personalidade amanhã, quando o Aluizio começar a publicar a
veridica historia da heroina.

O texto é, mais uma vez, primordialmente cômico, utilizando-se de uma


historinha da infância do autor, quando se vestiu de anjinho numa procissão, para
provocar um dos “inimigos” clássicos das “Balas” e do autor, O Apostolo.
Para que se não diga que é propaganda da Filomena, ele muda de assunto.
Apresenta a reclamação de um colega do Diario do Brazil, que se incomoda pelo livro
do Dr. Moncorvo126 sobre a coqueluche ser escrito em francês. A justificativa, que Lulu
foi colher com autores brasileiros, é que há poucos leitores em português “e que,
escrevendo em francês, se não tiverem muito maior proveito, pelo menos terão mais um
pouquinho de glória.” No entanto, não era essa a preocupação do cronista. Ela vem na
passagem a seguir, os dois parágrafos finais do texto:

E ahi está por que escrevem em francez os auctores brazileiros que


querem ser lidos; e eu, para prestar culto à verdade, roubei o espaço
d’estas linhas, ao unico assumpto momentoso do dia: - a publicação
do grande romance Philomena Borges, original de Aluizio Azevedo,
que começa amanhã n’esta folha.
Se, depois d’isto, os auctores brazileiros de livros em francez não me
mandarem a preta dos pasteis, e se os patrões não me augmentarem o
ordenado, sempre são muito pingas!

Ou seja, toda a pretensão do cronista era tratar do romance, que começará a


ser publicado no dia seguinte. A discussão em torno dos livros publicados em francês
nem chega a ser um desvio: ela encaminha a grande expectativa presente no fim do
texto.
Pelo visto, Ferreira de Araújo apostava alto no sucesso do romance.
Contando com a ajuda de Aluísio Azevedo, ele mobilizou outros periódicos e outros
escritores na discussão, definição e difusão daquela mulher misteriosa que se tornará
romance. Às “Balas” coube a discussão inicial, a Azevedo, a definição final; aos outros
periódicos, restou a difusão do nome e, consequente e indiretamente, do romance, que
contou portanto com uma grande publicidade.
Tanto Aluísio Azevedo quanto Lulu Sênior relataram receber numerosas
cartas e bilhetes sobre o caso, num esforço de engrandecer o assunto. Acompanhando os

126
Dr. Moncorvo, médico.

39
textos e os periódicos que lhe servem de veículo, percebe-se a tentativa de fazer parecer
que, como dito na Pacotilha, a mulher ocupava a “attenção de meio Rio”.

1.3.c Anúncios

É nesse contexto que aparecerá o folhetim “Philomena Borges”, assunto dos


próximos capítulos. A publicação é precedida, na Gazeta, por alguns anúncios, que se
repetem algumas vezes:

Figura 17 – Anúncio da publicação

Gazeta de Noticias, 15/12/1883. p. 1. ed. 349.

Figura 18 – Anúncio da publicação datado

Gazeta de Noticias, 16/12/1883. p. 3-5,127 ed. 350.

Dado o esforço mercadológico narrado até aqui, esses anúncios não têm
muita elaboração – aparentemente nem seriam mais necessários. Aquele que contém a
data foi publicado diversas vezes, podendo exercer a função acessória de preencher a
página, já destacada anteriormente.

127
Há alguns anúncios iguais espalhados pelas páginas.

40
Se nos parece que Filomena Borges ocupou a atenção de muitos dos leitores
de periódicos, entretendo-os e provocando-os, criando uma ansiedade pelo romance,
não foram todos que se divertiram com a brincadeira do réclame:

Figura 19 - Cacetação

Julio Dast, “Crônicas fluminenses”, Revista Illustrada, 16/12/1883. p. 2. ed. 364.

O aspecto comercial da literatura já era mal visto no campo literário, como


ficará claro nas críticas ao romance, tratadas no capítulo seguinte.

1.3.d Prefácio

No dia 17 de dezembro, véspera do primeiro folhetim “Philomena Borges”,


Aluísio Azevedo publicou na Gazeta uma espécie de prefácio ao romance.128 Intitulado
“Filomena Borges – antes de principiar”, o texto procura preparar o leitor e antecipar
algumas reações, negativas ou positivas, que o romance poderia receber.129
Apresenta-se o diálogo entre dois leitores, discutindo suas opiniões sobre
“Philomena Borges”. Um deles aponta alguns defeitos; o outro, mais favorável, faz
objeções às opiniões do primeiro.
O primeiro problema levantado é o da verossimilhança, logo no início do
diálogo:

- Pouco enredo... pouca fórma... e, com franqueza, achei tudo aquilo


falso.
- Falso? Não! Isso tem paciencia. Tudo aquillo é vasado na
observação e na verdade!

128
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges – antes de principiar”, Gazeta de Noticias, 17/12/1883. p. 1-2.
ed. 351.
129
E, note-se, receberá. V. Capítulo 2.

41
- Talvez seja por isso mesmo! N’esse caso ha excesso de fidelidade e
a cousa parece falsa. Às vezes um retrato a oleo é mais verdadeiro do
que uma photographia.
- Ora essa!...
- Parece-te uma asneira o que acabas de ouvir, mas não é, acredita!
Nada é tão inverossimil como a propria verdade, quando ella se
apresenta com toda a brutalidade de seu peso.
- Estás metaphysico, homem!

O leitor mais cético parece ligado à visão estética antiga – o assunto da arte
é o belo. A questão se coloca dentro do debate da arte moderna: ela deve ser baseada na
observação e na verdade, trazendo à tona tudo aquilo que se vê. O cético teria uma visão
conservadora ou estetizante.

Em seguida, o problema volta a ser a réclame:

- Não sei se estou metaphysico, o que te afianço, é que não gostei da


tal Philomena Borges, tão apregoada, tão anciosamente esperada.
Confesso, achei-a fraca, desengraçada, inutil. Póde ser, se o romance
não fosse tão annunciado, que eu achasse bom, porém pucharam tanto
pela minha curiosidade, tanto mexeram commigo, que, palavra
d’honra, esperava outra cousa!
- Ora! Isso não é critica!

O que, para o defensor, não vale como critério de crítica. A expectativa e o


comércio não tem nada a ver com o livro, como já defendido por Azevedo
anteriormente: isso é assunto para os editores da obra.
Segue uma breve discussão em torno das personagens. O cético questiona
sua composição e verossimilhança, o defensor aponta que aquelas situações são
cotidianas e que já foram vividas pelo próprio interlocutor.
Isso puxa a discussão sobre a função da obra:

- Não! Não cites! Já vejo que não chegaremos a um accordo; quanto


mais citares, é peior! Eu, por mim, digo-te ingenuamente: não
desgostei de Philomena Borges. Achei-a fóra do commum,
despretenciosa e divertida.
- São opiniões! Eu não lhe descobri nenhuma d’essas qualidades! Não
sei qual seja o fundo filosófico d’aquella obra, não sei o que ella
prove, o que ella affirme!
- Nem eu, mas fico satisfeito em saber que ella me divertiu, que ella
me prendeu a attenção por muitos dias! E, digo-te agora: certas scenas

42
que encontrei alli fizeram-me pensar... Acredito que em tudo aquillo
ha uma intenção muito accentuada, ha a intenção de...
- É inutil continuares! Já sei do que me vais fallar, e a esse respeito
temos conversado!

Qual seria sua tese? Divertir basta? Quando eles vão chegar a discutir a
intenção, há um corte muito sugestivo na conversa: provocação ou suspensão?
Finalmente, a ideia central do texto aparece:

- O que eu vejo, é que é muito difficil escrever romances no Brazil!...


O pobre escriptor tem a lutar com dois terriveis elementos – o publico
e o critico. O publico que sustenta a obra, e o critico que a julga e às
vezes a inutilisa; o publico que compra um livro para aprender, e o
critico que exige que o livro sustente as suas idéas e pense justamente
com elle – critico.
- E d’ahi?
- D’ahi é que tudo isso seria muito razoavel, se o publico caminhasse
ao lado do critico; mas assim não succede – aquele navega ainda no
romantismo de 1820, e este não admite litteratura que não esteja
sujeita às regras de 1883. A difficuldade está em agradar a ambos, ou,
pelo menos, não desagradar totalmente a nenhum dos dous. Isso,
quero crer, é a grande preocupação de Philomena Borges. Ella tanto
pertence ao publico como pertence ao critico!

Discorda-se sobre a função que o romance deveria ter, não sabemos ao certo
sua intenção; mas sua pretensão é clara: não desagradar. O autor quer, ao mesmo
tempo, vender e se firmar como literato, evitando se indispor com público ou crítica. É
por isso que ele escreve um prefácio na defensiva, finalizado da seguinte maneira:

Será este o dialogo que se travará depois do ultimo folhetim de


Philomena Borges?
Pode ser. Em todo o caso, a obra principiará a sair de amanhã em
diante no rodapé d’esta folha, e o leitor que a julgue à vontade, que
diga o que entender, que a condemne ou que a proteja, porque eu cá
tenho as minhas razões para não a ter feito melhor nem peior.
Boa ou má, esta é a unica Philomena Borges, legitima, verdadeira, a
Philomena Borges da Gazeta de Noticias, aquella que mandou o seu
cartão a varios cavalheiros d’esta cidade e aquella de quem até hoje se
tem occupado a nossa imprensa e o nosso publico.
Sirva isso de resposta às cartas dos Srs. A. P. Ramos de Almeida,
Niemeyer L... O. Borgea, P. de Oliveira130 e tantos outros que me
honraram com as suas letras; como igualmente sirva de réplica ao Sr.

130
Mesmo que tivéssemos descoberto quem eram, não teríamos tido acesso à correspondência para
explicar a referência.

43
Julio Alberto Machado131, que não teve o menor escrupulo em
aproveitar aquelle nome para título de um romance de sua folha, e,
outrosim, ao velhaco que publicou ha pouco tempo um detestavel
fasciculo intitulado: Philomena Borges, a mulher demonio.
O publico que evite as contrafacções e desconfie das Philomenas que
não trouxerem o seguinte carimbo:
Aluizio Azevedo.

O texto defende esteticamente e comercialmente um romance sobre o qual


se criou grande expectativa. No aspecto estético, procura articular duas perspectivas
teoricamente muito distantes. De um lado, ele cede às esperanças de um público ainda
pouco erudito, buscando divertimento e, quem sabe, uma lição de moral, o público das
senhoras leitoras de folhetim, a quem se destina abertamente a promoção da Gazeta. De
outro, procura atender critérios tidos como modernos, a escrita pautada pela observação
e pela verossimilhança. E se, por essa razão, o autor pode parecer titubeante, no aspecto
comercial ele é enfático: “Philomena Borges” é da Gazeta de Noticias e traz a minha
assinatura.

Filomena Borges nasce, como personagem, do burburinho das ruas e das


folhas, agregando valores e concepções que se faziam das mulheres naquele exato
contexto. Como romance, estaria entre o romantismo de 1820 e a modernidade de 1883,
tentando, na medida do possível, transitar entre os dois mundos. De que maneira isso é
realizado e se é bem sucedido é assunto para os próximos capítulos.

131
Pesquisamos o jornal Provinciano: jornal agricola, commercial, litterario e noticioso na sessão de
periódicos raros da Biblioteca Nacional. Ele era publicado em Paraíba do Sul, RJ, sendo propriedade de
F. X. Paes Leme e Julio Alberto Machado. Em 1883, mudou o subtítulo para órgão conservador. A
escassez de edições conservadas não permitiu que constatássemos a publicação de um plágio.

44
Capítulo 2 – Circulação, recepção, repercussão

2.1 Circulação

2.1.a O folhetim

Finalmente, Filomena Borges começou a ser publicado em 18 de dezembro


de 1883. O romance foi lançado em 27 folhetins numerados, terminando em 13 de
janeiro de 1884. Há um problema na numeração dos folhetins e dos capítulos,
provavelmente devido a erros tipográficos, que não eram incomuns. O folhetim 16 é de
2 de janeiro; o número 16 é repetido equivocadamente em 3 de janeiro. O 17 e o 18, de
4 e 5 de janeiro, estão, portanto, com numeração errada, que será corrigida pelo número
20, em 6 de janeiro. O capítulo XVIII, “Celebridades”, iniciado em 7 de janeiro de
1884, é continuado no dia seguinte como capítulo XIX, ocasionando uma sequência de
erros na numeração dos capítulos finais: o capítulo “Petrópolis” seria o décimo nono,
mas aparece sob o número XX, e assim sucessivamente.
O segundo e o terceiro folhetins, de 19 e 20 de dezembro, contêm uma nota
que reivindica os direitos autorais da obra, resgatando a cobrança feita pelo autor no
“prefácio”: “o autor e os editores deste romance reservam-se os direitos de propriedade
litteraria e protestam contra as reproduções.”132 Não sabemos se ele chegou a ser
reproduzido por outros periódicos, mas o aviso marca mais uma vez o
compartilhamento da propriedade da obra entre autor e editores, no caso, a própria
Gazeta de Noticias.
Seguindo a descrição inicial, o segundo folhetim tem outra peculiaridade: é
o único a contar com uma errata, que corrige alguns erros de tipografia.
A maior parte dos folhetins está no rodapé da primeira página, mas algumas
vezes eles foram colocados na terceira página: em 20 de dezembro, 3, quinta; em 23 de
dezembro, 6, domingo; em 30 de dezembro, 13, domingo; em 01 de janeiro, 15, terça;
em 10 de janeiro, 24, quinta; em 13 de janeiro, 27, domingo. O seu desfecho, portanto,
está na terceira página do jornal. Deve-se ponderar que a maioria dos folhetins da
terceira página aparece no domingo, tradicionalmente o dia nobre do jornal, de mais
132
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 19/12/1883. p. 1. ed. 353.
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 20/12/1883. p. 3. ed. 354.

45
conteúdo, então não parece defensável uma hipótese de destaque menor – talvez, pelo
contrário, haja um destaque maior por se tratar de uma edição de domingo.
Há duas edições da Gazeta do final de 1883 que estão ausentes tanto na
Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional Digital quanto no Arquivo Edgard
Leuenroth da Unicamp, portanto não pudemos consultá-las: edições 361 e 362, de 27 e
28 de dezembro de 1883 – folhetins 10 e 11, respectivamente.
Quanto ao conteúdo dos folhetins, os cortes não respeitam necessariamente
os capítulos, ou vice-versa. A princípio, eles seguem uma lógica de terminar em
“(Continua)” apenas se quebram um capítulo; no fim da publicação, todos terminam
desta maneira. Era um modo de reforçar a continuidade do romance e pode ter sido uma
forma de manter ainda mais cativados os leitores, que poderiam se desesperançar com a
ausência da nota. Além do corte por edições, o autor usava um espaço maior entre
alguns parágrafos, fazendo divisões dentro do mesmo capítulo. O primeiro capítulo
apareceu completo no primeiro folhetim. Depois disso, os cortes não coincidem mais
com os capítulos, necessariamente.
Um dos pontos levantados pela crítica coetânea, como veremos a seguir, é o
do fim do romance. As críticas apontam que Aluísio Azevedo teria cortado a história,
interrompendo-a de maneira brusca, especulando alguns motivos. Para os leitores atuais,
talvez o corte não fique claro, mas para os leitores corriqueiros de folhetins do século
XIX a questão surgiu com clareza.
Para iniciar uma discussão sobre esse ponto, situemos Filomena Borges
dentro do histórico da sessão Folhetim da Gazeta de Noticias, conforme a tabela a
seguir:

Tabela 1 - Folhetins da Gazeta de Noticias (dez.1882 - fev.1885)


Autor Título N. edições Início Término
Eugène Moret O Segredo do 70 26/12/1882 05/03/1883
Jesuíta
Emilio João Fera 188 06/03/1883 11/09/1883
Richebourg
G. Pradel O Grilheta 84 12/09/1883 07/12/1883
* O Vampiro 5 08/12/1883 12/12/1883

46
* Minha Prima 5 13/12/1883 17/12/1883
Laura
Aluizio Philomena 27 18/12/1883 13/01/1884
Azevedo Borges
A. Mathey A Brazileira 56 14/01/1884 09/03/1884
F. du Margot 90 10/03/1884 08/06/1884
Boisgobey
Alexis Bouvier O Filho de 85 09/06/1884 01/09/1884
Antony
Alexis Bouvier O caminho do 52 02/09/1884 23/10/1884
crime
Eugenio O Paio em Pé 108 24/10/1884 08/02/1885
Chavette
NOTA: recuperamos apenas os folhetins publicados entre o final de 1882 e o início de 1885,
dando conta dos dois anos da publicação de “Philomena Borges”.133

De fato, Filomena Borges é um romance muito curto. A média dos


romances publicados no período aproxima-se de 90 edições, com a maior parte em torno
de 80. Outro dado interessante é que o romance de Azevedo é o único nacional em dois
anos de jornal, portanto ele se insere em uma sessão acostumada a receber romances
franceses traduzidos.

2.1.b Edições em livro

Pode-se considerar que a publicação em livro é um dos caminhos da


consagração ou um dos indicadores do sucesso de um folhetim. No caso de Filomena
Borges, talvez esse argumento não se aplique. Duas semanas após o seu término na
Gazeta, a folha o lança em formato de livro, e passa a anunciá-lo:

133
A listagem dos folhetins da Gazeta de 1875 a 1940 pode ser consultada no livro Rodapé das
miscelâneas, de Yasmin Nadaf. A lista, apesar de excluir obras que não estão no rodapé, como O Ateneu,
mostra uma prevalência grande dos franceses sobre os brasileiros, sobretudo no século XIX. NADAF,
Yasmin Jamil. Rodapé das miscelâneas. O folhetim nos jornais do Mato Grosso (séculos XIX e XX). Rio
de Janeiro: 7Letras, 2002. p. 397-402.

47
Figura 20 – Anúncio de venda do livro

Gazeta de Noticias, 27/01/1884. p. 2. ed. 27.134

Os anúncios nesse formato se repetem por alguns dias, e sempre aparecem


entre as colunas “Theatros e...”, responsável pelas notícias e críticas teatrais, e
“Gazetilha”, responsável por avisos e notícias diversos. Note-se que o título é
destacado, chamando a atenção com a referência a esse nome já bastante conhecido
pelos leitores da Gazeta.
Depois dessa série de anúncios que destacam o livro de forma solitária, ele
volta a ser ostensivamente anunciado como integrante da “Bibliotheca da Gazeta de
Noticias”:

Figura 21 – Biblioteca da Gazeta de Noticias A

134
Repetido em 31 de janeiro, 01 e 02 de fevereiro, todos na segunda página.

48
Gazeta de Noticias, 25/06/1884. p. 3. ed. 177.135

Esta coleção organiza e publica os romances-folhetins da Gazeta de


Noticias. Há outra parte do mesmo anúncio:

Figura 22 – Biblioteca da Gazeta de Noticias B

135
Repetido em 19 de julho de 1884, 17 de agosto de 1884.

49
Gazeta de Noticias, 25/06/1884. p. 3, ed. 177.

O Grilheta, romance-folhetim anterior a Filomena Borges, integra a lista, ao


lado de outras publicações que, se não têm o peso de obras consagradas, têm na
popularidade o seu forte: João Féra, Sua Alteza o Amor (com o nome do autor Xavier
de Montépin em destaque, o único literato a merecer referência).
Em 14 de julho de 1886, também na Gazeta de Noticias, há um anúncio de
liquidação da livraria de João Martins Ribeiro. O romance de Aluísio Azevedo está
entre os anunciados, encaixado na categoria geral “Florestal sortimento de romances”;

50
as outras categorias são: “leitura de gabinete particular” (que inclui Naná e O artigo
47), “romances de Camillo Castello Branco” e “varietas delectat”.136
No final de 1884, o livro estará entre as opções de prêmio de assinatura.
Caso o assinante optasse pelo pacote de seis meses, receberia como brinde somente o
Almanak da Gazeta de Noticias; caso comprasse um ano, ganharia o Almanak e mais
um dos romances de uma lista que continha a maior parte daqueles títulos da
“Bibliotheca da Gazeta de Noticias”.137
A “Bibliotheca...” já havia crescido, incluindo as novas publicações do
jornal, Margot e O filho de Antony:

Figura 23 – Biblioteca da Gazeta de Noticias C

136
Gazeta de Noticias, 14/07/1886. p. 6. ed. 195.
137
Gazeta de Noticias, 18/11/1884. p. 1. ed. 323.

51
Gazeta de Noticias, 25/11/1884. p. 6. ed. 330.

Filomena Borges continua à venda no escritório do jornal até 1885, como


mostra o anúncio a seguir:

Figura 24 – Biblioteca da Gazeta de Noticias D

52
Gazeta de Noticias, 11/10/1885. p. 5. ed. 283.

Alguns meses antes, a 31 de agosto de 1885, há na Gazeta outro anúncio,


agora entre os “Livros baratissimos” da Livraria do Povo: “Philomena Borges, por
Aluizio de Azevedo, 1 vol. 800rs.” As categorias, neste anúncio como no da liquidação,
estão divididas, apesar dos critérios diferentes: livros em português, que inclui o
romance estudado; “engenharia”; e livros em francês.138

138
Gazeta de Noticias, 31/08/1885. p. 3. ed. 242.

53
O livro Filomena Borges não foi um sucesso de vendas. Não fica claro se há
mais de uma impressão nesse período, mas o título está disponível desde o seu
lançamento até dois anos e meio mais tarde.
A falta de sucesso comercial do livro também pode ser defendida pelo seu
padrão de edições seguintes. Filomena Borges não tem vida própria; sua sobrevivência
dependeu das outras obras de Aluísio Azevedo, com suas publicações integrando as
obras completas do autor, salvo raras exceções.
Vejamos na tabela a seguir a lista das primeiras edições:

Tabela 2 - Primeiras edições de Filomena Borges


Edição Editora Ano Obras completas
1ª Edição Tipografia da 1884
Gazeta de Noticias
2ª Edição Garnier 1895-7 X
3ª Edição F. Briguiet & Cia. 1938 X
Editores
4ª Edição “ 1943 X
5ª Edição “ 1952 X
5ª Edição Livraria Martins 1954 X
Editora
6ª Edição Clube do Livro 1955
7ª Edição Livraria Martins 1960 X
Editora

A tabela demonstra que, após a primeira edição, em 1884, o romance só foi


republicado como parte das Obras Completas, já na década de 1890.139 A terceira edição
só será publicada décadas mais tarde, em outra compilação de obras completas. A

139
Não encontramos a segunda edição do romance. Pela consulta às obras disponíveis no sítio da
Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, constatamos que ela dataria do período de 1895 a 1897. A
edição de 1895 de Livro de uma sogra, editada por Domingos de Magalhães, anunciava Philomena
Borges como “Edição esgotada”. A edição de 1897 de Pégadas pela editora Garnier traz uma listagem
das obras de Aluísio Azevedo, incluindo uma nova edição de Philomena Borges. Garnier deve ter
publicado a nova edição entre 1895 e 1897, portanto. AZEVEDO, Aluísio. Livro de uma sogra. Rio de
Janeiro: Domingos de Magalhães, 1895; Idem. Pégadas. Paris; Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-
Editor, 1897.

54
lacuna, apesar de explicável pela perda de interesse no naturalismo, não deixa de
demonstrar a falta de interesse nesse romance em específico.

2.2 Recepção

Sob o aspecto comercial, o livro Filomena Borges não foi bem sucedido.
Teria ele sido bem recebido?

2.2.a A polêmica

Para um romance que gerou tantos comentários,140 a publicação do folhetim


foi relativamente calma. Algumas referências141 são encontradas, mas as atenções
pareciam estar voltadas para a leitura da história de Filomena Borges. Esse silêncio não
é, no entanto, fenômeno peculiar. Era comum que os folhetins não fossem comentados
durante a sua publicação.

Passados alguns dias do último folhetim, o Diario do Brazil inaugura as


críticas ao romance. Czr Ony (anteriormente, Czz Ony), na coluna “Às quintas-feiras”,
apresenta as razões possíveis para o fim de Filomena Borges:

Philomena Borges já não existe.


Sobre sua morte levantou-se uma nuvem de opiniões como da pelle
arroxeada do cadaver os vapores da putrefacção.
Dizem os patriotas que tendo Sua Magestade o Imperador sido
irreverentemente introduzido nas columnas de um roda-pé, S. Ex. o
mordomo, sabendo que se tratava da reproducção de um facto
palacial, ordenou a retirada do romance da via circulatória ou, em caso
contrario a ordem, o processo por injuria á seu autor.
Dizem outros que a Gazeta, que recebia ás rações o folhetim, entendeu
que a obra não valia a paga e suspendeu-a: que o autor então, em
vinganca, fez como o Visgueiro: não quer?... resiste?... pois, morre.
Ainda outros apregoam que o folego com que era feita a narração
faltou ao narrador, precipitando-o do alto de uma expectativa
envergonhada ao chão funebremente lastimavel daquelas tres lettrar
fataes: -“Fim”.142

140
V. Capítulo 1.
141
Chapéu na Folha Nova, notícia no Publicador maranhense, menção no folhetim de Ony no Diario do
Brazil, notícia por Eloy na Pacotilha. O anúncio e o folhetim serão comentados ainda neste capítulo.
142
Czr Ony, “Às quintas-feiras”, Diario do Brazil, 17/01/1884. p. 3. ed. 14.

55
Especula-se, portanto, três razões para o fim do romance, que se supõe
adiantado. Teria ele sido interrompido por censura imperial, problemas comerciais ou
falta de talento?
A condução do texto não deixa dúvidas de que trata o romance em termos
negativos. O autor sugere que “a Bohemia do vintem está de luto” pela morte de
Filomena Borges, assassinato este “cometido em plena sociedade, à face da literatura,
acobertado pela policia do elogio proprio.” Ele liga o romance a dois grupos: a
“Bohemia do vintem”143 e o “elogio proprio”.144 O ataque, então, direciona-se menos à
obra literária que aos grupos a ela associados.
O próprio Ony, uma semana antes, destacou a presença do imperador no
romance, escrevendo em seu folhetim “Às quintas-feiras”: “me acompanheis em um –
viva – enthusiastico áquele que até já entrou sorrateiramente, como bom padrinho
burguez e sahio colleccionador de botocudos, pelas alamedas typographicas da –
PHILOMENA BORGES: Viva o Imperador!”145
Surgem, nos textos do Diario, dois problemas que acompanharão a recepção
crítica do romance: a questão política, pautada pela presença do imperador e marcada
pelas posições dos periódicos; e, a partir destas posições, a questão literária, dividindo
dois grupos distintos pelas opiniões estéticas e pelas posições midiáticas – elogio mútuo
e lira de Apolo. Acompanhando paralelamente as duas pautas, sempre aparecerá a
questão do dinheiro e da literatura comercial, já destacada por Ony na expressão
“Bohemia do vintem”.

Diario do Brazil e Gazeta de Noticias contra Brazil – F.F. x A.A.

Na sessão anônima “Bibliographia” do periódico Brazil, Filomena Borges


foi comentado ao lado de Helena, de Oscar do Amaral. Esse tipo de coluna era muito
comum nos periódicos, responsável por relatar as novidades bibliográficas e, por vezes,
comentá-las.

143
Boêmia do vintém provavelmente se refere aos grupos da Gazeta da Tarde e da Gazetinha, jornais dos
quais participaram Artur e Aluísio Azevedo.
144
Na realidade, como veremos a seguir, esses dois grupos são praticamente um só.
145
Czz Ony, “Às quinta-feiras”, Diario do Brazil, 10/01/1884. p. 2. ed. 8.

56
Após elogiar ambos os autores e fazer a ressalva de que estes trabalhos não
representam o melhor dos jovens escritores, o texto se debruça sobre cada um dos
livros. Sobre Aluísio Azevedo, diz ainda que tem o mérito de “ser um operario activo
das lettras que à custa de seus proprios exforços conseguiu vencer a indifferença
publica”. Sobre Filomena Borges, cujo primeiro capítulo considera bom, acrescenta que
tem boa linguagem, por mais que não prenda o leitor “senão por uma curiosidade vaga
de saber-se onde irá parar tudo isso: - uma mulher doida casada com um imbecil, a
percorrerem ambos séca e méca, ella sem saber onde irá e elle sem saber afinal o que
ella quer.” O crítico destaca que as cenas são desconexas e sem objetivo, culminando na
morte da mulher antes do marido, o que para ele constituiu um erro: “sem se lembrar
que a Philomena pouco tempo antes tinha escripto uma carta que foi publicada na
Gazeta e o proprio Sr. Aluizio o dissera tambem pela mesma Gazeta, que ella era viuva
e ainda viva, muito apoquentada da curiosidade publica desde que uns indiscretos
cartões de visita andavam a propalar-lhe a existencia.” Por fim, destaca como pontos
positivos a imaginação, a vontade e o talento do jovem escritor, que deve perseverar e
triunfar.146
Os destaques do Brazil demonstram, primeiro, que a saga de Filomena na
Gazeta foi acompanhada, tornando-se um ponto de referência e comparação para o
romance. O bibliógrafo cobra que a história da heroína no romance acompanhe os traços
publicados anteriormente no jornal; seu resumo, muito coeso, mostra a sua compilação
e leitura daquelas diversas versões, misturando Aluísio Azevedo e Lélio. Por outro lado,
o romance, como as versões midiáticas da vida de Filomena, teria falhas e incoerências
internas que incomodam o bibliógrafo e não seguem, segundo ele, o sucesso do
primeiro capítulo. O final é criticado tanto na incoerência externa quanto interna.
Alguns dias mais tarde, talvez incomodado pelo dito sucesso de crítica,
talvez pressionado pelo seu jornal, o mesmo crítico anônimo assinou sob o pseudônimo
F.F. um folhetim intitulado “A proposito de Philomena Borges”.147
O folhetinista começa depreciando o romance, que, contando com muitos
anúncios e promessas, não teria alcançado o resultado esperado: “afinal tudo se

146
“Bibliographia”, Brazil, 23/01/1884. p. 2. ed. 19.
147
É o próprio autor que permite a identificação: “Já em outro logar desta folha disse o mais que pensava
da Philomena Borges e de seu autor...”. F.F., “A proposito de Philomena Borges”, Brazil, 27/01/1884. p.
1. ed. 23.

57
converteu em muita fumaça e nenhum effeito”. Para rebuscar o estilo, usa em seguida a
expressão latina “mons parturiens, mus”, traduzível como “a montanha gemeu, mas
pariu um rato”. Segundo o crítico, o réclame não bastaria para obter mérito, nem o
“côro de louvores a modo de ouverture ruidosa de peça magica” que teria acompanhado
a obra. Faltaria para Aluísio Azevedo tanto bom gosto quanto bom senso, termos muito
sugestivos que começam a revelar a motivação do texto.148
O folhetinista argumenta que criticar Azevedo é expor-se à inimizade de seu
grupo e à acusação de integrar a “Nova Lyra de Apollo”, associação literária que o
próprio crítico liga ao imperador. Ele contrapõe, então, dois grupos literários rivais: a
“Nova Lyra de Apollo” e o “elogio mutuo”. Segundo ele, a fama de Filomena Borges e
o silêncio e a complacência dos críticos mais ferozes sobre o romance de Aluísio
Azevedo se deveram ao pertencimento do escritor ao grupo do “elogio mutuo”.
Exposto o problema dos grupos, da filiação literária e da propaganda, todos
intimamente ligados, F.F. chega ao cerne de seu texto. O problema central de Filomena
Borges, para ele, é o ataque que se faz ao imperador. Azevedo teria atacado o monarca
“por ser moda, para não sahir fóra do tom”.
Incomoda-o tanto o reclame do romance quanto o retrato que Azevedo fez
do imperador. O que motiva a crítica, segundo o modo como o texto se desenvolve, é a
presença do imperador – caso contrário, escreve o crítico, ele a deixaria no silêncio
como fizeram os elogiadores mútuos, para que não tivessem que falar mal.
F.F. faz a ressalva de que nunca recebeu “de Sua Magestade o menor favor,
o mais banal cumprimento, nada lhe pedi e nada lhe devo”... A preocupação em
demonstrar a falta de comprometimento com D. Pedro II faz coro com o aspecto
político do texto, elucidado nos próximos argumentos.
Incomoda o crítico que D. Pedro II tenha sido retratado como um
conquistador maniqueísta:

[...] sabe bem que Sua Magestade não é o Lovelace que pintou em seu
romance, nem cynico a ponto de requestar a propria afilhada: sabe
bem que Sua Magestade nunca fez intervir na politica do paiz a
influencia das alcovas; outros o terão feito e o diz a voz publica, mas
d’elle ainda não ousou tanto nem o Corsario; porque pois assim o

148
Bom gosto e bom senso nos termos de uma brochura que circularia na época. Possivelmente, refere-se
à questão do realismo em Portugal. Em todo caso, os sentidos tomam outras formas na discussão que
apresentamos.

58
disse e descreveu o autor da Philomena e descreveu o chefe da nação,
que além de outros titulos ao nosso respeito é quasi um sexagenario, e
sexagenario que não ridicularisa a velhice procurando occultar os
estragos da idade?

Não seria ato de coragem criticar um sexagenário indefeso; não seria ato de
coragem criticar o imperador; segundo a moda dos tempos, seria ato de coragem
defendê-lo. Esta defesa se dá em dois campos: o pessoal, que nega a possibilidade de
atitudes indecorosas por parte do “bom velhinho”; e o político, que nega a prática do
apadrinhamento. Defender o imperador, aqui, não é meramente ato de coragem, como
quer fazer parecer F.F., mas é ato político, que revela uma posição favorável ao
monarca e, por conseguinte, a seu governo.
Interessante notar também que o crítico não descarta o gosto pelo escândalo,
um dos possíveis fatores do sucesso do romance: “si tivesse levado mais longe as scenas
do Imperador, não faltará quem lh’o repita, o successo seria mais estrondoso.”
Incomoda tanto pela postura indecorosa, desrespeitosa, quanto pela postura
política de apadrinhamento decorrente de sedução. As duas posições, moralistas, são
também políticas, pois vêm em defesa da pessoa Pedro de Alcântara e do monarca D.
Pedro II.

F.F. tinha razão em se preocupar com a inimizade do “elogio mutuo”. Seu


folhetim recebe duas réplicas, uma de Quincas Junior no Diario do Brazil, outra do
próprio Aluísio Azevedo na Gazeta de Noticias. A primeira concentra-se no ataque à
forma do texto e no desmerecimento retórico de seus argumentos. Através de jogos bem
humorados, Quincas Junior questiona o critério do bom gosto e do bom senso e faz
piada com a citação latina:

Ora, o bom senso, é realmente uma individualidade muito conhecida


neste imperio... de nome! !... Deixemol a, portanto, in pace, porque, à
força de vender-se carissima, aquelles poucos que a consomem
chegam parecer que a desconhecem. Isto, sem a menor aluzão ao
critico alludido...
Quanto ao bom gosto, o Sr. F. F. não é o mais competente para ditar
regras aceitaveis. Quem como S. S. à despeito de pertencer à ‘Nova
Lyra de Apollo’, tão pouco se importa de castigar o proprio estylo,
não tem o direito de invectivar a calvice do proximo...
Isso, na hypothese de ser o proximo... careca !...
[...]

59
S. S. disse que: ‘Mons parturiens, mus...
E, eu pergunto:
- Então... onde está... o ‘rato’?
Porque, ha muita gente que o suppõe... encruado !...
E, obrigado a S. S. pela resposta que se dignar mandar-me. 149

Mais importante é a réplica de Aluísio Azevedo. A resposta é redigida de


maneira feroz, atacando diversos pontos da crítica e do crítico.
A primeira ofensiva é direcionada ao jornal:

A demora de chegar-me ás mãos o [fol]hetim do Sr. F. F. fica de sobra


ex[pli]cada se considerarmos que elle foi imp[pre]sso em uma triste
folha politica, [esc]ripta lentamente por meia duzia de
[con]servadores, que esperam alguma [coi]sa do governo, e lida por
outra meia [duz]ia, que já não espera nada, nem do [gov]erno, nem
d’esta vida.
[...] jornal[zin]ho sujo, silencioso, sorrateiro, [...] tropego e gago.150

Ele retorna ao texto da “Bibliographia” para reclamar da comparação feita


com Oscar de [do] Amaral, “um pobre rapaz, que [...] cometera a levian[dad]e de
publicar dous volumes, dous vo[lum]es de má prosa e de maus versos.” Azevedo apura
que o jovem literato é filho do barão de Canindé, proprietário do Brazil, e questiona
portanto a validade dos comentários feitos nesse jornal.
Depois, concentra-se em rebater os argumentos do folhetim:

[Se] Fidelis entendesse um pouco, muito [pouc]o, de literatura, não


diria que [Phil]omena Borges é realista. Fidelis é [pulha???], porque
diz que o romance não [agrad???]a e não expõe a razão por que não
[agrad???]a; pulha, porque se mette a criti[car li]vros, sem dispor pra
isso de cri[tério,] nem fórma, nem estudo; pulha, [porqu]e em vez de
analysar a obra, per[de-se?] em commentarios sobre os recla[mes]
sem se lembrar de que o autor de [qualq]uer livro nada tem que ver
com [re]clames promovidos pelos editores [d]a obra; pulha, porque
Fidelis, que [nunc]a produziu cousa alguma, que nunca [deu??? à] luz
o menor produto de sua con[???], Fidelis, que não existe, Fidelis, [...
n]ão ha, quer ser juiz dos trabalhos [alhei???]os.151

Em seguida, critica os paradoxos de sua argumentação, que ao mesmo


tempo: descreve o autor como inteligente e talentoso, mas sem bom-senso e sem bom-

149
Quincas Junior, “Apanhados”, Diario do Brazil, 30/01/1884. p. 2. ed. 25.
150
Aluísio Azevedo, “A proposito de Philomena Borges”, Gazeta de Noticias. 30/01/1884. p. 3. ed. 30.
151
Tentamos completar o texto para permitir a leitura.

60
gosto; afirma que a crítica fez silêncio e grande estrondo; e defende que é honesto e
covarde.
Enquanto alguns críticos liam Filomena Borges como parte da Gazeta e de
seus propósitos políticos, Aluísio Azevedo tentou se esquivar, reivindicando que lessem
o romance como uma unidade em si e considerassem-no um autor independente dos
editores. Assim, além do campo de lutas políticas, há um campo de lutas para definir
qual o papel do escritor (e do crítico) em meio a editores e jornalistas. Deve ser marcada
a jogada dupla: na escrita, Azevedo defendia a separação; mas na prática, participara da
divulgação.152
De maneira indecorosa, Azevedo finaliza o texto desafiando F.F. para um
duelo, depois de acusá-lo de ser pretensioso: “pretende arvorar-se campeão de Sua
Magestade”.
A ferocidade da réplica motiva uma tréplica curta em que F. F., agora
assinando como Felix Ferreira, recusa-se a acompanhar Aluísio Azevedo no “terreno da
injuria”, mas aceita o duelo.153 Este é prontamente dissuadido pelo adversário num curto
quarto texto.154
A brutalidade que os ataques foram ganhando pode hoje parecer banal,
porém, relevando-se o exagero, ela demonstra a tensão política e literária em que o
romance se inseriu.155
A discussão travada pelos três escritores envolve mais que um simples
joguete de lógica e argumentação. Os periódicos a que eles recorrem influem
decisivamente no curso da polêmica, e suas posições conflitantes em outros campos se
estendem para a literatura.
O Brazil era declaradamente o jornal conservador; o Diario era tido como
jornal liberal; a Gazeta como jornal crítico ao Império.
O Brazil – Orgão do partido conservador iniciou suas atividades em 16 de
julho de 1883, encerrando-as em 06 de junho de 1885. Reivindicava-se abertamente
como defensor das causas do partido conservador, criticando o governo liberal e os

152
O autor já havia se armado contra as acusações de publicitário no texto que serviu de prefácio ao
folhetim. Cobrar um romance pela sua publicidade não seria válido como crítica. V. Capítulo 1.
153
Felix Ferreira, “A proposito de Philomena Borges”, Brazil, 31/01/1884. p. 2. ed. 26.
154
Aluísio Azevedo, “A proposito de Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 01/02/1884. p. 2. ed. 32.
155
Também, em parte, a boêmia “juvenil” em que viviam os escritores?

61
outros periódicos do Rio de Janeiro, principalmente o Diario do Brazil e a Gazeta de
Noticias.
O Diario do Brazil surgiu em 1881. Como não tivemos acesso à primeira
edição, recorremos então à primeira de 1882. Nela, repetem-se trechos do programa de
1881. Um deles declara a opinião política do jornal:

Nos negocios politicos, como em todos os outros, não nos prende


espirito partidario, nem laço ou preconceito de especie alguma. Nossa
penna é livre como o nosso pensamento: como o pensamento de
qualquer brasileiro, de qualquer europeu ou americano, que quiser
estudar as questões e reflectir sobre ellas.156

No entanto, o jornal era tido pelos seus pares como ligado ao partido liberal.
O Brazil serve de exemplo, escrevendo no começo de 1884: “diz o governo que o
partido liberal tencionou fundar um jornal politico (o pobre do Diario do Brazil não
vale nada!) que defendesse a causa do partido”.157 A provocação junta-se a muitos
outros textos criticando o rival, no início do mesmo ano.158
A Gazeta de Noticias, por sua vez, foi ainda mais radical na defesa de sua
imparcialidade. Em seu primeiro número, de 2 de agosto de 1875, lê-se: “Não sendo a
Gazeta de Noticias folha de partido, apenas tratará de questões de interesse geral,
acceitando n’esse terreno o concurso de todas as intelligencias que quizerem utilisar-se
das suas columnas.”159 Ela tenta passar a imagem de jornal neutro e, mais importante,
de “interesse geral”. Este aspecto é essencial para as intenções comerciais da folha que
então surgia, e que, segundo a literatura acadêmica, modernizará o periodismo
brasileiro.160

156
Diario do Brazil, 01/01/1882. p.1. ed. 1.
157
“Corrupção”, Brazil, 11/01/1884. p. 1. ed. 9.
158
Há pouca informação bibliográfica sobre esses dois jornais. O Brazil começou com tiragem de 5000
exemplares; no início de 1884, ela já havia subido para 8000; no início de 1885, imprimem-se 10000
exemplares. O jornal conservador era vendido de maneira avulsa por 40 réis; no início de 1883, sua
assinatura anual custava 16$000, semestral 8$000; no início de 1885, a edição avulsa tem o mesmo preço,
mas as assinaturas foram barateadas: 3$000 pelo trimestre, 6$000 pelo semestre. O Diario do Brazil
praticava preços semelhantes: 40 réis avulso, 10$000 anual, 6$000 semestral (1881); em 1884, a
assinatura anual passa a 12$000. Informações mais precisas sobre os proprietários e redatores dos dois
jornais políticos estão por pesquisar.
159
Gazeta de Noticias, 02/08/1875. p. 1. ed. 1.
160
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 4ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999. As
primeiras edições da Gazeta fazem piada dos programas de jornais e de partidos. O folhetim da primeira
edição, assinado por Bob, foi iniciado de maneira bastante enfática: “Ha uma cousa muito tola em todos
os jornaes que começam: o programma.” Bob, “Folhetim”, Gazeta de Noticias, 02/08/1875. p. 1. ed. 1.

62
Não acreditamos que tenha havido qualquer tipo de neutralidade por parte
de qualquer um dos periódicos. Havia, dentre os responsáveis pela redação e
composição, heterogeneidade considerável, mas há um sentido político por trás da
atuação de cada uma das folhas. Esse quadro é composto e, simultaneamente, ajuda a
compor a discussão sobre Filomena Borges. As folhas mais conservadoras, ligadas ao
Império, atacaram o romance de Aluísio Azevedo, enquanto as folhas críticas ao
Império apoiaram. Ou seja, as diferentes opiniões sobre o romance demonstram a
polarização política entre os periódicos; e a apreciação do romance depende e é
composta por esse posicionamento político, que não deve ser desconsiderado na análise.
Nossa hipótese, portanto, é que há uma estreita relação entre literatura e política. A
crítica literária e a crítica à ordem política estão articuladas, sendo que a posição do
periódico repercute a sua posição no jogo político.

2.2.b A. de B. F. no Brazil

Passada a polêmica, acalmados os ânimos, Filomena Borges volta a ser


assunto no Brazil. Desta vez, uma crítica bem estruturada, repartida por diversas
edições, dará conta de outros aspectos ainda não discutidos do romance. Assinados por
A. de B. F161, os textos partem da comparação entre Oscar de Amaral e Aluísio
Azevedo, como na polêmica, mas tomam um caminho diferente. A série intitula-se
“Horacio e Philomena Borges”.
A primeira crítica surge em 2 de fevereiro de 1884. No geral, ela faz um
elogio ao romance Horacio, de Oscar de Amaral, destacando seu “modo especial de ser
brilhante e fluente” e as qualidades de seu autor. O livro teria surgido sem muito alarde,
pois “não quiz fazer o reclame vergonhoso das mercadorias falsificadas.” O crítico
então acusa a “sociedade do elogio mutuo” de ter silenciado sobre o romance, que
apesar de “condemnado ao esquecimento, [...] correu de mão em mão, despertando
enthusiasmo e interesse.”162 Tivesse respondido essa série crítica, Aluísio Azevedo
apontaria mais uma vez a argumentação contraditória e sorriria cinicamente ao
comentar os elogios direcionados ao outro escritor, cujas relações com o periódico ele já

161
Pseudônimo ainda não identificado. A dificuldade é grande, por só termos as iniciais e pela assinatura
não se repetir no periódico, ao menos nos meses que cercam esse conjunto de críticas.
162
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges I”, Brazil, 02/02/1884. p. 3. ed. 28.

63
havia revelado. O livro pode ter corrido de “mão em mão”, mas ainda assim foi
relegado ao esquecimento, provável destino de seu concorrente Filomena Borges, não
tivesse Azevedo logrado sucesso com outros romances e alcançado o cânone da
literatura nacional.
A segunda crítica é publicada na edição seguinte do jornal. Ela faz coro aos
comentários de Felix Ferreira, aproveitando-se da imagem que ele usara: a montanha
pariu um rato. Incomoda o crítico o “barulho infernal” que transformou Filomena em
“assumpto de conversas, de anedoctas e de debiques”. Volta a aparecer, portanto, a
crítica ao reclame, bem resumida no parágrafo seguinte:

A Gazeta de Noticias tratava d’ella como de um verdadeiro


acontecimento, nos annuncios, nos a pedidos no noticiario e nos
artigos edictoriaes. Obrigava[-]se a attenção publica á aquelle nome e
por fim a montanha pario e um romance do Sr. Aluizio arrebenta do
meio d’este cortejo de chalaças, de annuncios e de reclames.163

O texto continua, agora tratando especificamente do romance, nos dois


parágrafos seguintes:

A anciedade foi geral e todos querião ler, mais que decepção!... Foi
uma ouzadia avivar d’este modo a curiosidade litteraria para um livro
que como Philomena não tem escola nem arte e quando muito
representa uma collecção de palavras sem grammatica e de idéas sem
nexo. Nota[-]se em Philomena a falta completa de espirito o mais
vulgar. Seus personagens são verdadeiros monstros. Philomena é um
impossivel; Borges é uma mentira; não ha na creação uma Philomena
nem um Borges e João Touro... Touro é quem o descreveu.
E demais, onde se permitiu apparecer nas paginas de um romance
personagens com os proprios nomes, que eles vivos na nossa
contemporaneidade trazem? Pois o autor de Philomena não achou
uma alusão qualquer, e para fazer imaginar este ou aquelle individuo,
foi preciso trazel-o com o nome por extenso?

A análise se fundamenta em dois pilares: o estilo e a verossimilhança,


passando pelo bom senso e pelo bom gosto em ambos. Cobra-se que Filomena e o
marido tenham correlatos materiais, e a aparição do imperador com o nome próprio
incomoda novamente.

163
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges II”, Brazil, 03/02/1884. p. 2. ed. 29.

64
O texto é finalizado com um ataque ao próprio escritor, taxado de
romancista medíocre e presunçoso por ter criticado Oscar de Amaral. A. de B. F.
também recomenda que Aluísio Azevedo arranje outra profissão, porque se fosse viver
de literatura, morreria de fome ou abandonaria a atividade. É importante notar que o
escritor maranhense pode ter sido o primeiro romancista profissional da literatura
brasileira, apesar de ter mantido a profissão por pouco tempo, vindo a se tornar
funcionário público depois de menos de duas décadas de escrita.
O terceiro texto torna ainda mais interessante esse descompasso entre o
Aluísio Azevedo canônico e o escritor jovem de 1884. Apesar de não lhe negar
inteligência, A. de B. F. nega tendência literária ao maranhense por uma razão que hoje
soa impossível, de acordo com as características sacramentadas pelas histórias literárias:
“Falta-lhe absolutamente a qualidade essencial ao romancista; o Sr. Aluizio não é
observador e si tem pretenções a isto não faz estudos necessarios.”164
Neste trecho, o autor se concentra em acusar Azevedo de presunção por
querer “esmagar [...] um moço que modestamente apresentou-se com dous livros na
mão” pelas críticas que fez na Gazeta.
Faz então um elogio a Helena, livro de versos de Oscar de Amaral,
ponderando sua pouca idade e a dificuldade em se fazer poeta, processo que levaria
tempo e estudo. O livro seria incorreto, mas demonstraria o talento do jovem escritor.
Em seguida, elogia brevemente Horacio e o texto termina.

Dois dias mais tarde, vem a público a quarta parte da crítica. É um texto
com mais voltas, mas segue a tônica dos últimos – o ataque a Aluísio Azevedo e a
defesa de Oscar de Amaral. Sua linha parte do que seria o axioma de crítica, “a
litteratura deve dar a medida de uma época”, para recomendar ao maranhense o estudo
de seu meio e a leitura de Zola e Daudet: “Zola, diz-nos De Amicis, não inventa seus
personagens, vai buscal-os no mundo real.” Outra interessante citação que marca a
grande diferença entre a visão atual de Azevedo e a visão da época sobre ele, motivada
por Filomena, além de outras literaturas. Oscar de Amaral, por sua vez, seria um grande
estudioso e leitor de literaturas as mais afastadas, como a inglesa e a alemã.165 É
importante destacar que A. de B. F. segue o padrão naturalista de crítica, mostrando que
164
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges III”, Brazil, 05/02/1884. p. 2-3. ed. 30.
165
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges IV”, Brazil, 07/02/1884. p. 2. ed. 32.

65
a diferença entre os grupos pode ser mais política que propriamente estética,
adicionando complexidade à discussão: não haveria, assim, correspondência direta entre
opiniões políticas, econômicas e estéticas, compondo grande heterogeneidade.166
O texto seguinte seguirá nessa linha, e A. de B. F. mostrará toda sua
erudição. Citando escritores da Polônia, Finlândia, Rússia, Boêmia, que formariam uma
“brilhante constellação litteraria”, o crítico dá ao autor brasileiro mais opções de leitura
e estudo, esperando ouvir futuramente: “a minha Philomella, digo a minha Philomena é
um romance impossivel, é uma ulcera litteraria que precisa do ferro em brasa da critica
e de desinfecção immediata.”167

Na sexta parte, A. de B. F. entra na discussão da composição do romance


propriamente dito. Ele aponta diversos pontos de semelhança, para ele plágio, entre
Filomena Borges e outros folhetins franceses célebres, como Mlle. Giraud, de Belot, Sr.
Dupont de Paul de Kock, e Moicanos de Paris de Dumas Pai. Deste, o romancista
brasileiro teria copiado João Touro, com o mesmo nome e as mesmas características
físicas, “forte, redondo, cheio de uma força descommunal”, além de descrever a mesma
cena que exemplifica esses traços, “aparando do mesmo modo um homem que cahe de
um andaime”. Os traços psicológicos, no entanto, teriam sido melhor trabalhados no
francês, já que “Dumas era incapaz de produzir aquelle aborto”. Dos outros, o escritor
brasileiro teria retirado a cena do ferrolho (Mlle. Giraud): “pois ella fez o mesmo
exactamente o mesmo”.168
Mais uma vez, o crítico cobra realismo na obra:

Eu, já não exigia que o Sr. Aluizio fosse um creador, mas ao menos
que fosse um photographo, que nos désse photographias parecidas,
mas que agarrasse em producções alheias para engastal-as n’um livro
seu, oh! não é decente!

166
A ideia da heterogeneidade está presente em Angela Alonso, apesar da autora não entrar na discussão
estética, que sugerimos a partir dela. Cf. ALONSO, A. Idéias em movimento: a geração 1870 na crise do
Brasil-Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
167
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges V”, Brazil, 08/02/1884. p. 3. ed. 33.
168
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges VI”, Brazil, 09/02/1884. p. 2-3. ed. 34.

66
Há um intervalo maior entre a sexta e a sétima partes. Esta foi publicada em
13 de fevereiro, voltando à discussão do reclame. Depois de acusar os literatos
brasileiros de conhecer pouco e mal a literatura, A. de B. F. conta uma anedota:

Um francez para dizer “j’ai mon livre”, escreveu um romance


“L’homme barbu”, e muito tempo antes do apparecimento do livro, os
annuncios mais extraordinarios despertavam a curiosidade publica.
Via-se “L’homme barbu” escripto nas esquinas, nos theatros, nos
carros, e até nas costas de quem passava.
Quando a curiosidade chegara ao auge um cabellereiro mandou
annunciar que “L’homme barbu” era o melhor tonico para os cabelos,
e que se vendia a cinco frs. o frasco na rua tal n. tal.
O homem vendeu tudo e enriqueceu, e o romancista quiz processar o
cabellereiro por ter abusado de sua toleima e tel-o-hia feito se aquelle
não lhe offerecesse dous vidros do dito tonico, afiançando em voz
baixa que o curaria da calvice.
Ahi está um perigo do reclame comercial aplicado ás lettras.169

A conclusão é enfática e contém uma pitada de previsão, que será discutida


em breve no presente capítulo.

O oitavo e conclusivo trecho sai no dia seguinte. A. de B. F. retorna aos


comentários sobre o romance, comparando-o novamente a Horacio. Os comentários
resumem o que vinha sendo dito negativamente sobre o romance:

Philomena é um livro sem originalidade, uma verdadeira colxa de


pedaços dde chita, a laia destas que cobrem os garotos e as velhas
indigentes. Traz o máo cheiro das roupas enxovalhadas.
Não tem espirito: as graças que n’elle se encontram são destas que
ouvimos pelas esquinas e com as quaes até nos desgostamos.
Não tem moralidade. As pessoas mais dadas ás leituras indecentes
muitas vezes o tem [?] de deixar para levar o lenço á cara.
Não é conveniente. O chefe da nação nos é apresentado como um
libertino que mercadeja com a honra de sua afilhada.
Digam o que quizerem os inimigos do Imperador; será, porém,
profundamente injusto aos olhos de todo o homem honesto, o papel
que lhe dá o Sr. Aluizio naquellas scenas de vil e acanalhada torpeza.
Continuando, Philomena não tem estylo, não tem absolutamente por
onde se o pegue, é um cadaver litterario, que deixamos em paz para
dizer algumas palavras sobre o livro que Oscar do Amaral acaba de
nos offerecer.170

169
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges VII”, Brazil, 13/02/1884. p. 3. ed. 37.
170
A. de B. F., “Horacio e Philomena Borges VIII”, Brazil, 14/02/1884. p. 3. ed. 38.

67
Em oposição, os comentários sobre Horacio têm tom positivo:

Horacio é um livro brazileiro inspirado em nosso meio social. O autor


mostra a sua enorme repugnancia pela escravatura e aponta-nos um
desgraçado escravo de nascimento abandonado na lama das ruas
apanhado por especulações e que tendo resistido a todos os golpes da
sociedade, mata[-]se por não poder se unir á idéa de que ia ser privado
de sua liberdade por um horror da lei. Este infeliz ama uma mulher
branca a quem salvou a vida e tem um rival que vai ser justamente o
seu senhor.
Apezar da simplicidade do enredo, as lutas são perfeitamente
descriptas transpirando mesmo o livro em que de combate. Tem uma
lenda que é um verdadeiro trabalho de arte, onde o autor reune os tres
elementos que constituem a nossa nacionalidade: Supy [tupi?],
africano e portuguez. Este livro desperta-nos portanto enthusiasmo e
raiva. Faz-nos firmes as crenças, crenças que são boas; logo este livro
é bom. Faz sectarios á uma causa santa, logo é util. Póde ser lido pela
mais recatada das mulhers, é um livro decente.
Não injuria ninguém, não é um sacco de odios!
Tem grande estylo e os defeitos que n’elle se encontram desaparecem
ao peso das grandes qualidades.
Leiam[-]no sem prevenções, desculpando pequenas lacunas que
possão ter escapo á quem se inicia n’este genero de trabalhos e
concordarão commigo em felicitar ao talentoso mancebo.

De todos os elogios a Oscar feitos até aqui, este é o mais aprofundado.


Comparando a avaliação feita para um e para outro, desvenda-se a posição do crítico e
as expectativas que se tinha em relação à literatura. Como eram cobrados os escritores?
Um dos critérios baseia-se na nacionalidade: a obra é um “livro brazileiro”, como
Horacio, ou um plágio francês, como Filomena Borges? Outro, num “pacto de
verdade”: a obra trata da realidade ou é “um romance impossivel”? Para Filomena
Borges, está reservada a segunda apreciação, negativa; para Horacio, a primeira,
positiva e relacionada ao abolicionismo, realidade nacional que discute diretamente. O
abolicionismo, como veremos no final deste capítulo, já era bem aceito no período, e
poderia facilitar a recepção de uma obra.171
A moralidade, a verossimilhança e o apelo comercial são os pontos de
ataque ao romance de Aluísio Azevedo, critérios que ele já previra na defesa prévia que
fez no texto que serviu de prefácio ao folhetim na Gazeta de Noticias.

171
Ao menos entre os críticos. Mais uma adição à heterogeneidade: o crítico parece ser monarquista e
abolicionista, defendendo o naturalismo na literatura. Para a visão tradicional de história literária, isto
seria contraditório; este trabalho, em conformidade com o de Alonso, mostra que não. Cf. ALONSO, A.
op. cit.

68
Por fim, surge novamente o boato sobre o cancelamento do romance:

Eu vou deixar o livro do Sr. Aluizio. Não sei se perdi meu latim; só
tive, porém, em mira mostrar que elle era o menos competente de
todos os escrevinhadores para dar um golpe em qualquer produção
litteraria. É bom ser-se conhecido, e o Sr. Aluizio hoje o é; dou-lhe os
parabens. Já não é pouco! Falla-se que a Gazeta de Noticias foi quem
lhe apressou o terminar o seu Philomena; a Gazeta fez bem, aquillo
devia acabar o mais depressa possivel.
O autor de Philomena deve estar envergonhado de sua notoriedade, é
por isso que cala-se depois de ter atacado; comprehendi que não gosta
que se falle mais em si e satisfaço-lhe fazendo hoje estas ultimas
considerações.

A seguir, trataremos de outras críticas, mais positivas, e poderemos


comparar os critérios anteriormente apresentados com os de Alfredo de Paiva,
Mequetrefe, para, no terceiro capítulo, discutir as críticas mais recentes, dos séculos XX
e XXI.

2.2.c Outras críticas

Alfredo de Paiva – “nem tanto, nem tão pouco”

Outra série de críticas tratará de Filomena Borges, de sua polêmica e da


recepção crítica que vinha recebendo. No periódico O Mercantil, Alfredo de Paiva
vinha de fundar uma nova coluna sob o título “Litteratura”. Com o subtítulo “Notas da
actualidade”, este novo crítico, que se apresentava ao público como “um desconhecido
nas lettras”, procura fazer na coluna um balanço do estado da literatura em sua época.
Obviamente, não escaparia a uma série de textos com esse propósito o assunto Filomena
Borges, que já havia despertado a oposição do Brazil, o apoio da Gazeta e a posição
ambígua do Diario.
Voltando à apresentação de Alfredo de Paiva:

Sou um desconhecido nas lettras, é verdade; mas por isso não deixo de
ser um de seus cultores e um admirador constante das bellezas da arte
e dos que a sabem cultivar com talento e aproveitamento.
Não faço parte do elogio mutuo, se é que elle exite.

69
Atarefado no magisterio particular, não disponho de tempo senão para
empregal-o na cultura da arte e das lettras.
Vivo, portanto, arredado do grande centro onde a mocidade congrega
suas forças para as guerras da actualidade.
O campo de batalha, vastissimo, perdendo-se ao longe, sem limites,
vae infelizmente absorvendo os grandes espiritos.172

Com a apresentação, o crítico pretende posicionar-se no “campo de batalha”


em lugar neutro, não fazendo parte do “elogio mutuo”. Seu primeiro texto lamenta as
polêmicas literárias, que, por se darem no domínio das paixões, não da razão,
prejudicam o progresso das letras no país. Ele cobra maior fraternidade entre os
escritores.
Alfredo de Paiva cita, como “nova geração litteraria, feita nos moldes dos
principios modernos”: “Valentim Magalhães, Luiz Murat, Aluizio de Azevedo,
Silvestre de Lima, Raul Pompéa, Filinto de Almeida, Mucio Teixeira, Theophilo Dias,
Raymundo Corrêa, Arthur de Azevedo”, que no romance, na imprensa e na poesia se
mostravam grandes cultores do espírito. Como exemplo de polêmicas, cita a do
folhetinista do Brazil contra Aluísio Azevedo, a de Carlos de Laet contra Artur Azevedo
e Moreira Sampaio, e a de Valentim Magalhães contra Sílvio Romero.
No dia 16 de fevereiro de 1884, o segundo texto de Alfredo de Paiva se
subdivide em alguns itens que dão conta dos acontecimentos literários recentes. É neste
texto que o crítico se detém em Filomena Borges. Ele supõe Aluísio Azevedo como um
dos redatores da Gazeta de Noticias. Seu parecer pode ser resumido nos seguintes
parágrafos:

Palavra de honra que muitos trechos [de Filomena Borges] fizerão-me


agua na bocca.
Certos caprichos de Philomena erão mesmo para estonteiar!
Esse romance é trabalho de um moço; de um moço naturalmente
ardente e de um temperamento violento.
Educado na escola dos principios modernos, observando os costumes
do actual viver social, morando-se no espelho das diversas escolas
litterarias e principalmente na que actualmente está em voga, não
podia deixar de apresentar como produto intellectual trabalho senão na
ordem da Philomena Borges.
Em sua confecção, afastou-se o escritor da róta commum seguida
pelos escriptores desse genero.

172
Alfredo de Paiva, “Notas da actualidade”, O Mercantil, 09/02/1884. p. 3. ed. 11. O texto tem
assinatura datada de 01/02/1884.

70
Dando nova feição ao romance, descreveu scenas com bastante
naturalidade, com primor e elegancia.
Foi bastante correcto e accentuou perfeitamente sua individualidade
litteraria.
Está visto que o Sr. Aluizio é talhado para o romance.173

Em muitos aspectos, o colunista discorda dos críticos do Brazil,


repreendendo de maneira geral as críticas que só veem negatividade.

Em 20 de fevereiro, O Mercantil publicou o último texto sobre Filomena


Borges na coluna. Alfredo de Paiva aponta que a crítica literária caminha para a
decadência com a rivalidade de egos, a inveja, as críticas pelo nome do autor ou pelo
título da obra. Ele defende que a crítica deve seguir a finalidade de “apontar as bellezas
e os defeitos dos trabalhos”, conforme os exemplos do visconde de Chateaubriand, de
Jules Janin e de Gustave Planche.174 Como exemplos negativos, ele cita novamente
Sílvio Romero e Valentim Magalhães.
O gancho é aproveitado para voltar a Filomena Borges. A crítica de A. de B.
F. (citado como “Sr. A. B. de F.”) é tachada de injusta:

Dizer que o romancista da Gazeta de Noticias não tem em absoluto a


comprehensão do romance é tanta injustiça quanta a do Sr. Aluizio ao
se exprimir sobre as producções do Sr. Oscar do Amaral.
O Sr. Aluizio Azevedo de ha muito revelou o seu talento no romance.
É facto incontestavel.
O Sr. Amaral, que apenas estréa, apresentou um romance medíocre, é
verdade, mas não deixou de se revelar e póde ser que não mui longe
virá honrar a litteratura romantica do paiz.
E no entanto do Sr. A. B. de F. desconhece inteiramente a
competencia do Sr. Aluizio, emquanto eleva e engrandece o Sr.
Amaral.
Nem tanto, nem tão pouco.175

173
Alfredo de Paiva, “Notas da actualidade”, O Mercantil, 16/02/1884. p. 3. ed. 13. O texto tem
assinatura datada de 10/02/1884. Outro subitem desse texto trata da educação feminina.
174
Literatos e críticos franceses célebres. Janin, o “príncipe da crítica”, e Planche são mais conhecidos
pelo trabalho crítico; Chateaubriand é mais conhecido pelo trabalho literário. Sobre a crítica nos
periódicos franceses, ver: MELMOUX-MONTAUBIN, Marie-Françoise. La critique littéraire. In:
KALIFA, Dominique; RÉGNIER, Philippe; THÉRENTY, Marie-Ève; VAILLANT, Alain. (orgs.) La
civilisation du journal: Une histoire de la presse française au XIXe siècle. Paris: Nouveau Monde, 2011.
p. 937-952.
175
Alfredo de Paiva, “Notas da actualidade”, O Mercantil, 20/02/1884. p. 2-3. ed. 14. O texto tem
assinatura datada de 12/02/1884.

71
A “verdadeira critica, [a justa,] desprendida de todas as paixões, de todos os
interesses e rivalidades, é que póde fazer realçar tanto o merito como os defeitos das
alheias producções”, portanto, seria aquela que deveria ser perseguida.
Por mais que Alfredo de Paiva fizesse uma avaliação positiva do romance,
ele também cobrava mais decoro: “Philomena Borges é um bom romance com alguns
defeitos, taes como os de haver o autor introduzido a pessoa do chefe do estado na sua
obra sob seu verdadeiro nome.” E, por fim, invocava os escritores “á união de classe!” e
“á fraternidade litteraria!”.

Alter – “acabou mal”

Na Revista Illustrada de 9 de fevereiro, na coluna “Livros a Ler”, Alter176


criticou tanto Horacio, de Oscar de Amaral, quanto Filomena Borges. Sobre esta,
escreveu o seguinte:

Não se póde applicar ao ultimo romance do Sr. Aluizio Azevedo a


maxima: Tudo está bem – que bem acaba.
Justamente acabou mal a pobre Philomena Borges; o nosso
intelligente romancista, tão humano, tão promettedor no Mulato, foi
entretanto cruel demais com a Borges, foi sobretudo apressado em
desembaraçar-se da sua heroina, matando-a quando menos se
esperava.
Foi caipoira, confessemos, essa Philomena, a segunda obra apenas do
romancista,, que tão bem se estreou; os puffs desordenados etc...
mataram-n’a antes mesmo de nascida. Eu, que o predisse com o pesar,
verifico agora com magoa.177
Entretanto, que o Sr. Aluizio não esmoreça; ha na sua obra a idéa
d’um romance, como ha um romance no Mulato; continúe, lucte, tem
ainda muito tempo diante de si; é joven, inteligente; trabalhe, que
vencerá. E eu aplaudi-lo-ei com prazer, creia.”178

Novamente aparece o problema do fim do romance e dos puffs, que aqui são
também responsabilizados pelo insucesso do romance.

Mequetrefe – “desillusão”

176
Pseudônimo provável de Julio Dast. V. próxima nota.
177
Se Alter o predisse, ele provavelmente é o mesmo autor da “cacetação antes do parto”, Julio Dast. V.
Capítulo 1.
178
Alter, “Livros a ler”, Revista Illustrada, 09/02/1884. p. 7. ed. 371.

72
N’O Mequetrefe de 20 de fevereiro de 1884 foi publicada uma crítica
bastante diversa das outras apresentadas. Sob o título “Philomena Borges” em negrito
há uma ressalva entre parêntesis, em letras menores: “(Não é critica)”. No entanto, o
texto é uma das críticas mais interessantes do romance, colocando-se ao lado de Alfredo
de Paiva como pareceres positivos.
Assinado por “O mequetrefe”,179 o texto elogia o escritor maranhense e
destaca dois aspectos: a educação da protagonista e o paralelo possível entre Filomena
Borges e Dom Quixote. Quanto ao primeiro tema, “o mequetrefe” escreveu:

A educação de Philomena é um traço de costumes nacionaes; aquelle


caracter que, pela charge do genero a’ que se filiou a obra, a muitos
parecerá exagerado, mas que é filho de uma observação muito
rigorosa, aquelle caracter, diziamos, é o produto logico, fatal, do
systema de educação adoptado por D. Clementina, a mãe de
Philomena.”180

A crítica propõe o seguinte paralelo: Filomena Borges seria o D. Quixote do


romantismo, enquanto João Borges seria seu “marido-escudeiro cheio de bom senso e
de passividade”, seu Sancho-Pança. Nápoles, para Filomena, teria sido sua versão dos
moinhos de vento. Para Borges, a “jaula do urso” e a fantasia de botocudo, a ilha da
Barataria de Sancho. O asno deste seria comparável ao urso. O episódio da Espanha, a
caça de aventuras românticas, tudo se assemelharia a D. Quixote buscando aventuras de
cavalaria. O mais interessante na comparação é a razão que a crítica encontra para a tão
comentada morte de Filomena, que aqui é engrandecida pela comparação:

A muitos ouvi perguntar de que molestia falleceu Philomena Borges.


A esses poderá responder o autor com uma phraze em que envolverá
todo o seu orgulho: - Matou-o [sic] a mesma doença que matou D.
Quixote.
[...]
Tanto um como outra morreram desta molestia terrivel – a desillusão.

A revista O Mequetrefe contou com a participação de Aluísio Azevedo em


sua primeira passagem pelo Rio de Janeiro, no final da década de 1870. O maranhense

179
Pseudônimo não identificado.
180
O mequetrefe, “Philomena Borges: não é crítica”, O Mequetrefe, 20/02/1884. p. 3-6. ed. 335.

73
ainda tinha contato e amizade com os responsáveis por aquela folha, o que nos faz
conjecturar que as opiniões expostas por ela possam ter sido sugeridas por ele ou ter
recebido o seu aval, se não escritas por ele.
Daí surge uma questão interessante: seria possível estender a comparação,
relacionando a desilusão de Azevedo como folhetinista malsucedido, possivelmente
censurado, e a de sua personagem?

Considerações

Ora, é de mau gosto e mau senso a representação do imperador dentro do


romance. Da forma como é posta por F.F., pode parecer mesmo uma questão de mera
etiqueta, mas não é – é questão estética e política. Em termos estéticos, volta-se à linha
sempre forçada pelo naturalismo, uma discussão muito importante para a literatura: o
que deve e o que pode ser representado? Por outro lado, em termos políticos,
ridicularizar o imperador não é apenas desrespeitar um sexagenário que não dá razões
para tal, ou incorrer em moda – é ato político de protesto, este sim em certa moda na
época dentro dos periódicos que acompanharam e contribuíram para a formação de
Filomena Borges.
Esse problema revela uma separação entre dois grupos literários, que são
também dois grupos políticos, a Nova Lyra de Apollo e o “elogio mutuo”, um ligado ao
monarquismo, o outro ligado ao republicanismo – por mais que haja heterogeneidade, o
sentido da atuação dos grupos é polarizado e polarizável desta maneira. Seguindo a
divisão desses dois grupos, chegamos na divisão entre os próprios periódicos, alguns
alinhados com a monarquia, outros dela críticos. Todo o processo de desenvolvimento,
criação, publicação e recepção de Filomena Borges vai “desmascarando” e revelando
essas oposições, separando, entre seus apoiadores e detratores, antimonarquistas (por
assim dizer) e monarquistas, respectivamente.
O romance, portanto, não envolve tão somente o aspecto literário. Ele
envolve toda a luta política que se travava nos periódicos da época, e toma posição
dentro dessa luta, uma posição eminentemente antimonarquista.

74
2.3 Repercussão

Filomena Borges, nome que passou a ser conhecido por todo o Rio de
Janeiro, tornou-se romance, desdobrou-se em crítica política e revelou um grande
aparato comercial e uma grande polarização política, tinha peso demais para morrer de
desilusão. A montanha preparada pela Gazeta de Noticias não pariu apenas um rato, o
romance; pariu mesmo uma ninhada: anúncios, adaptações, menções.
O romance pode não ter tido muito sucesso como folhetim nem como livro,
mas o reclame da Gazeta, este sim teve muitos efeitos. É deles que trataremos aqui.
Filomena Borges repercutiu de maneira intensa e abrangente nos meses posteriores ao
seu lançamento, tornando-se peça, teatro, chapéu, tecido; para generalizar através de um
termo caro ao comércio, tornou-se mercadoria.
O nome, o livro e o folhetim se desdobraram em outras mercadorias; ao
contrário do que gostariam de imaginar os críticos da época, a literatura também era
mercadoria.

2.3.a Anúncios

Era de se esperar que uma obra tão antecipada quanto Filomena Borges
mantivesse o ritmo da publicidade após seu lançamento em folhetim e consequente
publicação em livro. Montanha que foram os anúncios, o rato que deles sai parece ter se
multiplicado com velocidade: para um romance medíocre, mesmo ruim, com possível
pouca aceitação do público, Filomena Borges repercute com bastante força em diversas
áreas.
Em processo semelhante àquele da criação da personagem na imprensa, em
que ela saiu das crônicas e apareceu por todos os espaços do jornal, o romance sairá do
folhetim e romperá a barreira literária, demonstrando relações íntimas entre literatura,
imprensa, teatro e a comercialização de todos eles.

Música/moda

75
Uma das primeiras apropriações comerciais de Filomena Borges, após o
término do folhetim, é musical. A Lyra do Povo anuncia a “polka Aluizio, Philomena e
o Borges”:

Figura 25 – Polca Aluizio, Philomena e o Borges A

Gazeta de Noticias, 19/01/1884. p. 4. ed. 19.

A composição foi bem recebida na Gazeta da Tarde, que identifica seu


autor como Antonio Francisco Braga:

Figura 26 – Polca Aluizio, Philomena e o Borges B

76
“Tangões e gambiarras”, Gazeta da Tarde, 23/01/1884. p. 2. ed. 19.

A autoria é confirmada pela Gazeta de Noticias, alguns dias mais tarde:

Figura 27 – Polca Aluizio, Philomena e o Borges C

“Recebemos”, Gazeta de Noticias, 25/01/1884. p. 1. ed. 25.

Há, no entanto, outra polca inspirada por Filomena Borges circulando no


período. Intitulada simplesmente “Philomena Borges”, ela foi composta por Alfredo
Augusto Correa, tido como autor prolífero por seus contemporâneos. Essa outra
composição pode ter feito algum sucesso, já que é usada para anunciar outro tango do
autor, “Se eu pedisse”:

Figura 28 – Polca Philomena Borges

77
O Programma-Avisador, 29/05/1885. p. 2. ed. 297.

Encontramos, no sítio da Biblioteca Nacional, a partitura da polca


“Philomena Borges” por Alfredo Augusto Corrêa.181 O documento, no entanto, pode
quebrar o argumento de sucesso da polca da heroína da Gazeta de Noticias e de Aluísio
Azevedo: nela constam, como exemplos, outras composições do mesmo autor.
Aparentemente, era comum identificar os autores musicais relacionando seu nome a
outros títulos de sua autoria e, quando da publicação da partitura, aproveitar o espaço
para anunciar outras partituras.
Tornar-se título de pequenas composições para piano parece ter pouco
efeito, ainda que tenha existido mais de uma versão. É muito mais significativo o outro
tipo de apropriação comercial que Filomena recebeu: a da moda. Exemplo interessante é
o seguinte:

Figura 29 – Fazenda Philomena Borges


181
Nesse ponto, agradecemos o auxílio da pesquisadora Renata Romero Geraldes. CORRÊA, Alfredo
Augusto. Philomena Borges. Polka Lundu. 1 partitura. Piano. Disponível em:
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_musica/mas194667/mas194667.pdf. Acesso: 05 jan. 2015.

78
Gazeta de Noticias, 05/05/1884. p. 3. ed. 127.

Este é um anúncio de uma loja na Rua da Assembleia, 111, que vende


fazendas, miudezas, porcelanas, cristais, vidros, louças, ferragens, metais, “christofle” e
variedades. É um tecido caro comparado aos outros do anúncio, a 1$500.
Não parece haver razão para dar ao tecido esse nome senão se aproveitar da
publicidade do nome da personagem e do romance, como em outros casos. No entanto,
este tem uma particularidade: o nome é ligado a um dos melhores produtos da loja,
tentando se aproveitar, possivelmente, de uma ideia de luxo e bom gosto que a
personagem pode ter passado ao público. Pode haver uma dupla determinação: o
romance dá esse sentido ao anúncio e o anúncio reforça esse sentido no romance.
A personagem ainda era usada como uma referência de estilo, mesmo algum
tempo depois da publicação. Lembremos que, durante a discussão sobre quem seria
Filomena Borges na Gazeta de Noticias e em outros periódicos, seu nome já havia sido

79
usado em referências de vestuário.182 Também durante a publicação do folhetim, há um
anúncio na Folha Nova, 23 de dezembro de 1883, que vende “ditos de palha, a
Philomena Borges.................. 1$200”. A prática de usar nomes de personalidades
para comercializar mercadorias, parece ter sido comum, já que encontramos também
chapéus a Lafayette.183

2.3.b Carnaval

As relações entre Filomena Borges e as outras personalidades e


acontecimentos de seu tempo não se resumiu às investidas e apropriações comerciais.
No primeiro capítulo, vimos que alguns anúncios já utilizavam o nome da senhora
misteriosa para divulgar e valorizar eventos sociais. Os Tenentes do Diabo chegaram a
anunciar um baile dedicado a ela, que nunca deve ter ocorrido.184
Outra agremiação carnavalesca, no entanto, levará finalmente Filomena
Borges às ruas. O Clube dos Fenianos, no carnaval de 1884, anuncia um grande desfile
para a terça-feira, destacando em seus carros alegóricos alguns dos acontecimentos mais
marcantes do ano anterior. Filomena Borges é um deles:

Figura 30 – Carro Philomena Borges

Gazeta de Noticias, 26/02/1884. p. 3. ed. 57.

A Folha Nova, no dia seguinte, descreveu o desfile dos Fenianos. O 7º carro


foi descrito da seguinte maneira: “Philomena Borges, que surgia de repente, e, quando o
espectador ia a affirmar-se para lhe vêr as graciosas fórmas, desapparecia para ceder o
logar a um enorme cacete.”185 Outros assuntos artísticos notáveis de 1883 também

182
Estrela do Brasil, Au Boulevard.
183
Gazeta de Noticias, 31/12/1883. p. 3. ed. 365. Anúncio da Chapelaria Aristocrata, que também vende
chapéus Victor Hugo, Maciel, Abolicionista.
184
V. Capítulo 1.
185
“A terça-feira de carnaval”, A Folha Nova, 27/02/1884. p. 1. ed. 460.

80
foram transformados em carros alegóricos: D. Juanita e O Mandarim, conforme os
trechos seguintes do mesmo anúncio:

Figura 31 – Carro Juanita

Nota: recorte do anúncio anterior. Gazeta de Noticias, 26/02/1884. p. 3. ed. 57.

Figura 32 – Carro Mandarim

Nota: recorte do anúncio anterior. Gazeta de Noticias, 26/02/1884. p. 3. ed. 57.

O relato d’A Folha Nova “confirma” o desfile – agora não estamos mais no
campo das suposições e puffs. Outros assuntos, como a greve dos urbanos e a vacina da
febre amarela, também foram incorporados ao desfile. A Terça-Feira Gorda, como era
chamada, era o dia de carnaval mais aguardado por aqueles que acompanhavam as
grandes sociedades carnavalescas, e seus desfiles contavam com carros de ideias que
faziam referência aos grandes acontecimentos recentes.
Tais desfiles também se inseriam no contexto das lutas políticas, incluindo
um esforço civilizador que, de acordo com Leonardo Pereira, agradava aos literatos do
grupo de Aluísio Azevedo. Nesse sentido, os carros não só comentavam os temas
relevantes do cotidiano, mas tinham intenção de instruir, levando uma mensagem
civilizadora que condizia com as opiniões políticas daquele grupo:

Os carros de crítica, que na maior parte das vezes faziam alusões aos
principais acontecimentos políticos do período, ironizando acidamente

81
a polícia da Corte e as grandes figuras dos gabinetes imperiais, tinham
ainda outros alvos freqüentes: as práticas e costumes difundidos entre
os grupos iletrados da Corte, que são condenados e satirizados nos
préstitos das grandes sociedades. Ao criticar e atacar tais práticas,
lançavam sobre o público mensagens pretensamente civilizadoras –
que, tendo por fim o extermínio de determinadas tradições, eram em
geral apoiadas com entusiasmo pelos literatos do período.186

Esses desfiles tinham, portanto, caráter político eminente. Isso era festejado,
por exemplo, por Valentim Magalhães, integrante do grupo de literatos identificado por
Pereira; e criticado por Carlos de Laet, segundo o historiador um dos poucos literatos
“infelizes” com o uso político do desfile. Dentre os temas, destacavam-se o
abolicionismo, sempre presente da década de 1880.187

2.3.c Filomena vai aos teatros

O teatro exerce um papel importante no romance Filomena Borges. A


fundação e falência do teatrinho particular e as excursões de Filomena e João Borges
com o circo, culminando em turnê europeia e regresso bombástico à pátria marcam dois
momentos do romance que discutiremos de maneira mais aprofundada no terceiro
capítulo.
O que interessa agora é saber que o romance e a personagem emprestaram
sua fama e sua “montanha” de publicidade a alguns empreendimentos teatrais de que
trataremos a seguir.
Não é novidade que o teatro teve papel importantíssimo na vida cultural do
período, dividindo com o circo, opção mais popular, a responsabilidade de entreter e,
quando possível, educar as gentes na noite carioca. Essa importância já foi revelada na
apresentação da publicidade de Filomena Borges, em que diversas referências teatrais
podem ser identificadas. Algumas delas se repetirão na repercussão teatral da heroína
azevediana.

A comédia Philomena Borges

186
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. O carnaval das letras: literatura e folia no Rio de Janeiro
do século XIX. Campinas: Editora da UNICAMP, 2004. p. 127.
187
Ibidem.

82
Romances eram convertidos em peças. Este fato nada incomum no século
XIX, exemplificado de maneira célebre por A dama das camélias, de Alexandre Dumas
Filho, permite à literatura uma sobrevida nos palcos, representação após representação.
Um romance de sucesso pode vir a ampliá-lo; um romance sem sucesso pode vir a obtê-
lo. A adaptação teatral é especialmente relevante se considerarmos que o público do
teatro é mais abrangente que o público do romance: os espetáculos não eram caros e não
exigiam leitura.
Filomena Borges, romance comercial por excelência, não escapará a essa
lógica. A mercadoria folhetim, convertida em mercadoria livro, é também transformada
em mercadoria espetáculo. A celebridade do nome da personagem e do título do
romance foi, deste modo, aproveitada.
No dia 27 de janeiro de 1884, uma nota na Gazeta de Noticias anuncia o
início dos ensaios de uma “nova comedia em um acto, sob o titulo de Philomena
Borges, que é o mesmo do ultimo romance de Aluizio Azevedo.” Ainda segundo a nota,
que apresenta as notícias do Teatro Príncipe Imperial, “é uma peça de actualidade, e, se
fôr boa como nos affirmam, fará sem duvida carreira longa.”188 A “carreira longa” é
menos uma aposta e mais um chamariz para a peça, que estreará no teatro onde a revista
O Mandarim causava grande estardalhaço. A revista de Artur Azevedo e Moreira
Sampaio contribuía, ela mesma, para a publicidade de Filomena Borges, romance e
peça. Pelas relações pessoais, não é de se estranhar que a comédia em um ato tenha
conquistado espaço no palco desse teatro.
A autoria, hoje reconhecida como de Aluísio Azevedo, era considerada
anônima pelo periódico O Mequetrefe:

Serve de lever de rideau ao Jovem Telemaco uma espirituosa comedia


intitulada Philomena Borges, escripta por auctor anonymo a proposito
do lindo romance de Aluizio Azevedo. Herminia, Martins e Peixoto
dão-se as deixas valentemente.189

188
Gazeta de Noticias, 27/01/1884. p. 3. ed. 27.
189
“Os theatros”, O Mequetrefe, 10/03/1884. p. 7. ed. 337. As edições de O homem (1887), O Coruja
(1889), O cortiço (1890), A mortalha de Alzira (1894), Livro de uma sogra (1895) e Pégadas (1897)
disponíveis na Brasiliana apresentam a peça como parte da obra do autor. Considerando-se que são
edições em vida, achamos confiável a atribuição da autoria a Aluísio Azevedo, vista por exemplo em João
Roberto Faria. FARIA, João Roberto. Teatro de Aluísio Azevedo e Emílio Rouède. São Paulo: Martins
Fontes, 2002. p. XIII, nota 2.

83
Este comentário é de 10 de março, posterior, portanto, à primeira
representação da peça, ocorrida em 18 de fevereiro. O anúncio do Teatro Príncipe
Imperial dá mais detalhes:

Figura 33 – Philomena Borges no Príncipe Imperial

Gazeta de Noticias, 18/02/1884. p. 4. ed. 49.

Philomena Borges encabeçava um programa de comédias, com seu título


em destaque. Pouco tempo depois, ela passará a ser usada como abertura para O jovem
Telemaco, conforme o anúncio a seguir:

Figura 34 – O jovem Telemaco no Príncipe Imperial A

84
Gazeta da Tarde, 08/03/1884. p. 4. ed. 56.

Eduardo Garrido era um autor português de bastante prestígio e evidência na


época e aparece pela segunda vez neste trabalho.190 Ele foi o tradutor de D. Juanita,
ópera cômica que estava em cartaz em mais de um teatro durante o período. Seu nome é
destacado no anúncio da segunda representação, n’A Folha Nova:

Figura 35 – O jovem Telemaco no Príncipe Imperial B

190
Raquel Pereira Leite desenvolve atualmente uma pesquisa de iniciação científica sobre Eduardo
Garrido como mediador cultural entre França, Portugal e Brasil.

85
A Folha Nova, 07/03/1884. p. 4. ed. 469.

A pequena comédia Philomena Borges emprestava, então, publicidade do


nome do romance e da personagem de Aluísio Azevedo e da Gazeta e do renome do
escritor português. Isso, no entanto, não bastou para que ela sobrevivesse por muito
tempo. A adaptação não foi muito bem recebida, como ilustra o comentário crítico do
colunista do Brazil:

86
Hontem fui assistir no Principe à primeira representação de uma
comedia que tem por titulo o nome da heroina do ultimo romance do
Sr. Aluizio Borges.
Detestavel!...191

Já foi demonstrado na discussão sobre a crítica ao romance que o Brazil não


foi um dos periódicos que se deixou conquistar por Filomena Borges; ao contrário, ele
foi o periódico que mais combateu a obra do maranhense. O comentário de Rorbas
Folaca pode conter má vontade, mas o próprio folhetinista e crítico teatral da Gazeta,
escrevendo no periódico que mais apoiou Filomena Borges, mede as palavras para falar
sobre a peça:

Representou-se, ante-hontem, pela primeira vez, no theatro Principe


Imperial, uma comedia intitulada D. Philomena Borges.
Entram n’esta comedia a actriz Herminia e os actores Martins e
Peixoto.
O enredo é simples e ha algumas scenas bastante engraçadas, das
quaes se depreende que a paz do lar depende muitas vezes de algumas
bordoadas entre os conjuges.
A comedia agradou, embora um pouco longa.192

Nem tanto, nem tão pouco. O comentário publicado na coluna “Theatros


e...” dá um indício interessante do que poderia ser a conversão do romance em peça,
com o foco no casamento e o uso de cenas de pancadaria para a comicidade.
A peça pode não ter sido um grande sucesso,193 mas foi levada para uma
excursão pelo estado de São Paulo, com representações na capital e em Campinas, ao
menos:

Figura 36 – Cia. Braga Junior em SP

191
Rorbas Folaca, “Chispas”, Brazil, 20/02/1884. p. 3. ed. 43.
192
“Theatros e...”, Gazeta de Noticias, 20/02/1884. p. 2. ed. 51.
193
Uma crítica do Diario do Brazil diz, por exemplo, que a peça tem “pouco merecimento”. “Salões e
bastidores”, Diario do Brazil, 20/02/1884. p. 3. ed. 40.

87
Correio Paulistano, 18/04/1884. p.2. ed. 8299.

A troupe continuou em São Paulo por mais algum tempo.194 No outro


anúncio encontrado, de volta à capital, Philomena Borges seria representada juntamente
com Os apuros de um noivo, A viuva das camelias, Um marido nas palminhas e Provas
publicas, compondo um programa cômico e musicado. Note-se, pelos títulos, a grande
presença de peças com temática de casamento e família: Conferencia sobre o
casamento, Os apuros de um noivo, Um marido nas palminhas. O anúncio afirma que
Philomena Borges fora incluída a pedidos:

Figura 37 – Philomena Borges em SP

194
Sobre a Companhia de Braga Júnior, acompanhar o trabalho de Renata Romero Geraldes (até a revisão
final deste trabalho, sua monografia não estava disponível).

88
Correio Paulistano, 13/05/1884. p. 3. ed. 8320.

Este anúncio também revela outro indício importante, a relação de atores e


personagens. Como não temos o texto da peça,195 só podemos imaginar como ela foi
composta. Quais elementos do romance ela teria selecionado? Pelo texto da Gazeta e
por esse anúncio do Correio, cremos que o cerne é a relação entre marido e esposa, na
qual devem-se ter destacado momentos e cenas cômicas, talvez transportadas do próprio
romance. A presença de Guterres, no entanto, sugere que a parte final do romance, mais
pronunciadamente política, pode ter encontrado algum espaço no palco.

O Theatro automático Philomena Borges

Outro empreendimento teatral emprestaria o nome da heroína azevediana.


Desta vez, no entanto, não se tratou de uma adaptação cênica, mas de um teatro.
A primeira referência encontrada na imprensa é um anúncio da segunda
representação de Fausto:

Figura 38 – Theatro Philomena Borges

195
O texto da peça não foi encontrado durante esta pesquisa.

89
Gazeta de Noticias, 31/01/1884. p. 4. ed. 31.

O teatro, situado na Rua Formosa, n. 176, por vezes referida como Rua
General Caldwell, abrigava uma empresa de bonecos automáticos com repertório
variado: Fausto, Salteadores da Floresta Negra, Um marquez por meia hora, Uma
vespera de reis,196 D. Juanita, O filho do Inferno,197 A sogra. Seu preço bastante
acessível sugere um divertimento popular, frequentado por famílias, como afirmava O
Espectador: “o theatro automatico Philomena Borges continua a ser ponto de distracção
ás[?] famílias.”
196
Comédia de Artur Azevedo.
197
Haveria relação com Eduardo Garrido e sua A filha do Inferno? Possível paródia?

90
Artur Azevedo alertava, no entanto, contra os “perigos” do teatro
automático no Rio de Janeiro. O crítico e dramaturgo não frequentava o Theatro
automático Philomena Borges, mas descreveu da seguinte maneira um espetáculo que
acompanhou no outro Theatro automático:

Levado pela curiosidade... da minha pequena, dirigi-me uma das


noites passadas ao tal Automatico.
[...]
Representava-se, porém, a Festa da Gloria, e eu fui obrigado a retirar-
me, com a pequena, ao fim do 1º acto, como SS. Magestades quando
pela primeira vez se representou no Sant’Anna a Flor de Liz.
Imaginem que na Festa da Gloria ha, entre outras coisas, um dialogo
de amor entre um frade e uma preta, dialogo constantemente
interrompido por beijos, abraços e desaforos quejandos!198

O comentário é uma entrada para a discussão da censura de Escravocrata,


de Urbano Duarte, e da crítica do Jornal do Commercio a O Mandarim. A questão é: o
Conservatório Dramático permite que um espetáculo de bonecos, pretensamente
destinado a famílias e crianças, tenha diálogos e ações indecorosas, mas persegue outras
peças feitas para adultos.199

O Pavilhão Americano

No romance, Filomena Borges e o marido entram para uma companhia


circense. Um dos momentos mais significativos da narrativa, ele marca uma fase de
paixão recíproca entre os cônjuges e a erotização do corpo de Filomena, que passa a
estar em evidência.
Na vida “real”, Filomena Borges também encantará os homens em uma
apresentação circense. O Pavilhão americano se apropria da ideia do romance e leva aos
palcos a dança de Filomena:

Figura 39 – Pavilhão Sul-Americano

198
Artur Azevedo, “A festa da Glória”, Gazeta da Tarde, 06/06/1884. p. 2. ed. 131.
199
Como perseguira A flor-de-lis, referida no texto, que será tratada no próximo capítulo.

91
Gazeta de Noticias, 08/03/1884. p. 6. ed. 68.

Figura 40 – Philomena Borges: A linda vênus sul-americana

92
Gazeta de Noticias, 22/03/1884. p. 4. ed. 82.

O espetáculo teve sucesso de acordo com o relato da coluna “Theatros e...”:


“Todos os artistas foram muito applaudidos, sendo chama á scena tres vezes a
sympathica artista que desempenhou o papel de Philomena Borges.”200

2.4 Uma hipótese de fechamento

Apesar de não haver aparente relação entre as repercussões teatrais do


romance, elas se envolvem com o movimento abolicionista. O Pavilhão realizou um

200
“Theatros e...”, Gazeta de Noticias, 01/04/1884. p. 2. ed. 92.

93
espetáculo em benefício do diretor da companhia, “que generosamente concedeu
metade dos lucros para a liberdade de um escravo, d’entre os sete apresentados
n’aquella occasião”.201 Os atores e atrizes do Theatro Philomena Borges participaram da
festa nacional de 25 de março, doando prendas;202 e o mesmo teatro montou
representação em homenagem à emancipação no Ceará:

Figura 41 – Theatro Philomena Borges festeja abolição no Ceará

Gazeta de Noticias, 25/03/1884. p. 4. ed. 85.

201
“Theatros e...”, Gazeta de Noticias, 01/04/1884. p. 2. ed. 92.
202
“A festa nacional de 25 de março”, Gazeta da Tarde, 26/03/1884. p. 2. ed. 71.

94
Os autores e artistas teatrais também integravam aquela geração que, além
de trazer novas propostas jornalísticas e estéticas, lutava por uma renovação política.
Apesar de não haver necessariamente correspondência direta entre ideias politicamente
“progressistas” e “modernidade” estética e jornalística, muitos deles se envolveram
diretamente na luta abolicionista, articulando a atividade nos jornais e teatros, espaços
coletivos por excelência.
Há íntima relação entre os jornalistas, os artistas teatrais e as mais diversas
organizações abolicionistas, como a Confederação Abolicionista. Na época da
repercussão de Filomena Borges, as conferências abolicionistas vinham sendo
substituídas por matinées, e a frequência dos espetáculos que libertavam escravos era
grande e crescente. Andrea Marzano, ao discutir a relação entre o ator Vasques e o
abolicionismo, levanta:

Humberto Machado também aponta a estreita relação entre a atividade


teatral, a imprensa e o abolicionismo parlamentar, bem como a
importância das festas beneficentes, meetings e quermesses, que
buscavam não apenas angariar fundos para a compra de alforrias, mas
também conquistar a simpatia popular para a causa.203

Os benefícios em favor de escravos e a apropriação abolicionista das peças


fazem parte da carreira de Aluísio Azevedo, que adaptou O mulato para os palcos
justamente nesse período (primeira representação em 17 de outubro de 1884).204 A
respeito desta adaptação, João Roberto Faria escreveu:

Aluísio enfrentou o desafio e, segundo alguns comentários da época,


não se saiu mau [sic]. O mulato resultou num drama forte, fiel ao
espírito do romance, agitando no palco a questão da escravidão e do
preconceito racial num momento em que a sociedade brasileira estava
dividida entre o abolicionismo e a conservação do sistema escravista.
Alguns folhetinistas, porém, não gostaram da adaptação, exatamente
porque trazia para a cena alguns aspectos desagradáveis da vida
cotidiana, reproduzidos com a exatidão desejável num espetáculo
naturalista.205

203
MARZANO, Andrea. Cidade em cena: o ator Vasques, o teatro e o Rio de Janeiro (1839-1892). Rio
de Janeiro: Folha Seca: FAPERJ, 2008. p. 76.
204
Gazeta de Noticias, 17/10/1884. p. 6. ed. 322.
205
FARIA, João Roberto. op. cit. p. XIV.

95
O maranhense, que também marcava presença em outros eventos
abolicionistas, agradava a parte do público favorável à libertação. No entanto, não
foram só alguns folhetinistas que não gostaram da adaptação. O leitor deve estar se
perguntando qual a postura do próprio monarca, D. Pedro II, frente às repercussões do
romance e da personagem de Aluísio Azevedo e da Gazeta de Noticias. Até agora, neste
trabalho, ele sempre apareceu como objeto, nunca como sujeito. Uma fofoca, publicada
na Gazeta da Tarde um pouco antes da estreia cênica de O mulato, permitirá
conjecturas:

Ainda ha poucos dias a Sra. Helena Cavallier, que se beneficia no dia


15 com a primeira do Mulato de Aluizio Azevedo, foi pedir à sua
majestade que honrasse esse espectaculo com a sua presença, ao que o
imperador se recusou.
Foi assaz commentada essa recusa à uma conhecida actriz, de um
favor que o imperador concede quasi que constantemente à quem o
pede.
Uns attribuiram-n’a à reminiscencias da Flôr de Liz e da Philomena
Borges.
Disseram outros ter havido imperial confusão e sua magestade ter
julgado que o Mulato de Aluizio Azevedo era o mesmo Mulato, já não
me lembro de quem, que aqui foi representado ha tempos e que...
Seja como for, está sua magestade no direito de recusar-se à assistir a
um espectaculo e suponho que bem fortes foram as razões que
actuaram no espirito do imperador.206

O texto é assinado por D. Quixote, um pseudônimo que parece se referir à


crítica d’O Mequetrefe à Filomena Borges, sugerindo que fosse alguma pessoa próxima
de Azevedo. Com esse boato, o romance-folhetim recente é vinculado a um
desentendimento entre os irmãos Azevedo e a família real, por conta da representação
de A flor de lis. 207 A família real teria abandonado o espetáculo, tido como indecoroso,
antes do fim, gerando comentários e curiosidade pública.208

Os efeitos de Filomena Borges são impressionantes para um romance pouco


conhecido e estudado, mas não podem ser exagerados. Não se pode, também, ser
ingênuo a respeito do abolicionismo, que não era necessariamente causa humanitária.

206
D. Quixote, “Atravéz da semana”, Gazeta da Tarde, 13/10/1884. p. 1. ed. 239.
207
A flor-de-lis era uma adaptação de Droit du Seigneur, de Burani e Boucheron. LEVIN, Orna Messer.
Aluísio Azevedo: cadeira 4, ocupante 1(fundador). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; São
Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2013. p. 19.
208
FARIA, João Roberto. op. cit. p. XII.

96
Ele era antes causa política e, como fazem parecer as relações entre Filomena e os
teatros, pode ter tido sentido comercial. Há alguns anúncios que se aproveitam da
emancipação cearense, como se aproveitaram da celebridade do romance de Aluísio
Azevedo.
Emília Viotti da Costa dá à questão um tratamento que nos parece bastante
adequado. Ainda que trate de uma elite, composta por Joaquim Nabuco e Luiz Gama,
entre outros, ela faz uma reflexão que pode ser estendida aos artistas boêmios:

Todos pertenceram mais ou menos à mesma geração, tendo iniciado


sua vida pública na década de 1870, durante o período de ostracismo
do Partido Liberal, quando o movimento reformista tomou ímpeto.
Todos, de uma forma ou de outra, foram afetados pelo discurso
reformista que se constituiu nessa época em resposta às
transformações econômicas e sociais ocorridas na segunda metade do
século e em razão da crise política desencadeada em 1868 com a
queda do Gabinete Zacarias. Todos foram vítimas dos altos e baixos
da política. Seu sucesso ou insucesso dependeu do apadrinhamento
que receberam ou deixaram de receber, por parte das oligarquias no
poder. Todos mantiveram com as oligarquias uma relação ambígua,
encontraram no abolicionismo não só uma forma de identificação
como uma arma de ataque às oligarquias. Para uns, o abolicionismo
foi tema de inspiração; para outros, instrumento político. Para uns o
abolicionismo deu um público; para outros, um eleitorado. Para todos
foi um modo de condenar o ‘atraso e a ignorância’ da sociedade
brasileira e de se identificarem com a causa do ‘progresso e da
civilização’ européia. Fazendo-se abolicionistas, eles se faziam
arautos do ‘progresso’ no Brasil. Se seu papel foi importante no
movimento abolicionista talvez mais importante foi aquele
desempenhado por um sem-número de indivíduos brancos, negros e
mulatos, livres e escravos que lutaram anonimamente pela abolição.209

A análise, aplicada a Aluísio Azevedo em específico, sugere questões


importantes: 1) a queda do gabinete Zacarias, que aparece no encaminhamento final de
Filomena Borges, tem função além de marca temporal? 2) Até que ponto o
posicionamento político pode ter rendido a Azevedo um público? 3) Ele começou sua
produção (como caricaturista) justamente na década de 1870. Seus temas são
reformistas? Seus objetivos são de fazer progredir e moralizar? Parece-nos que sim.
Quanto ao posicionamento político garantir um público, é difícil afirmar, mas ele
certamente influenciou a recepção crítica da obra, como demonstramos neste capítulo.

209
COSTA, Emília Viotti da. A abolição. 8ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2008. p. 109-110.

97
A questão do modo como a queda do gabinete Zacarias é tratado no
romance fica para o próximo capítulo. Nele, pretendemos articular o contexto literário,
midiático e político que traçamos nos dois primeiros capítulos para melhor entender a
obra no seu contexto de produção e circulação. Também discutiremos as críticas mais
recentes, que se distanciaram da análise histórica que aqui propomos.

98
Capítulo 3 – Crítica do romance Filomena Borges

Depois de tratar da circulação, produção e recepção coetânea do romance


Filomena Borges, resta apresentar e discutir as críticas recentes que a obra recebeu.
Trataríamos também da sua apreciação nas histórias literárias, mas a ausência quase
completa de referências ao romance nesse tipo de trabalhos nos fez dar preferência aos
prefácios e aos trabalhos acadêmicos.
Separamos os prefácios do que chamamos “crítica acadêmica”. Estes são
textos maiores, mais desenvolvidos, teses e artigos científicos; aqueles são textos
menores, mais focados na apresentação da obra quando das edições em livro.

3.1 Crítica recente

3.1.a Prefácios

A primeira edição de Filomena Borges foi publicada sem prefácio ou


qualquer nota explicativa. Entre a folha de rosto e o início da narrativa, há apenas uma
dedicatória a Ferreira de Araújo.210 Não tivemos acesso à segunda edição da obra,
produzida pela Editora Garnier no final do século XIX quando da compra dos direitos
da obra completa de Aluísio Azevedo.211 A terceira edição, de 1938, pela editora F.
Briguiet & Cia., será considerada a primeira a conter um prefácio. A distância de 45
anos entre esta edição e os folhetins da Gazeta de Noticias justifica a necessidade de
explicar o texto para os leitores de então. O 6º volume das obras completas, que ainda
mantinha a grafia antiga no título, Philomena Borges, conta com o prefácio do
responsável pela edição, M. Nogueira da Silva, membro da Academia Carioca de
Letras.
Nogueira da Silva considera que a circunstância dos primeiros romances de
Aluísio Azevedo terem sido publicados em folhetins levou a um julgamento severo, o
qual ele contesta:

210
AZEVEDO, Aluísio. Philomena Borges. 1ª ed. Rio de Janeiro: Typ. Gazeta de Noticias, 1884.
211
A partir da consulta às obras digitalizadas na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, apuramos que
esta edição foi publicada entre 1895 e 1897. V. nota da Tabela 2.

99
Há em todos os seus livros, se excluirmos Uma lágrima de mulher,
porque pensado e escrito sob o domínio da escola romântica, um traço
invulgar de técnica, de originalidade, de ‘savoir faire’, qualidades
essas que raramente encontramos reunidas em qualquer dos outros
nossos romancistas.212

O autor exclui, portanto, Filomena Borges do domínio romântico,


destacando aspectos que considera positivos e raros. Nogueira da Silva cita outro
crítico, Artur Mota, para reforçar sua opinião: “Mas êsses próprios romances,
destituídos de valor compatível com os méritos do autor, representam algum interêsse,
pois são escritos com certa arte, propriedade de composição e enrêdo atraente”.213 É
notável o cuidado na escolha das palavras: “destituídos de valor”, “algum”, “certa”. É
como se, para elogiar um romance como o daquela edição, fosse necessário um grande
esforço do crítico. Nogueira da Silva, ao optar pela citação deste texto, não percebeu o
cuidado que cercava os elogios, ou não encontrou, entre seus contemporâneos, outros
que permitissem uma análise positiva. Apesar dessa inconsistência, esse prefácio já
apresenta um dos pontos de polêmica em torno de Filomena Borges, o romantismo. As
análises que prevaleceram no século XX, baseadas nas histórias literárias, costumavam
dividir a obra de Aluísio Azevedo em má e boa de acordo com a filiação literária,
romântica ou naturalista, ou de acordo com a forma de publicação, em folhetim ou em
livro. Geralmente a porção considerada boa era naturalista, moderna, publicada
diretamente em livro, enquanto a porção ruim se associava aos folhetins de inspiração
romântica. Nogueira da Silva “positiva” os folhetins excluindo-os do “domínio da
escola romântica”.
Seu prefácio destaca o caráter cômico do romance, que seria uma “deliciosa
comédia, entrecortada de cenas hilariantes pelo ridículo e fina ironia como representava
ao vivo alguns traços da sociedade de então.”214 Segundo suas informações, tanto o
romance quanto a adaptação cênica teriam obtido êxito, o que nosso trabalho já
demonstrou ser bastante discutível.215 É muito relevante, entretanto, que o autor
comente a peça homônima, já que a originalidade de sua crítica reside justamente no
fato de comparar o romance ao teatro: “é o mais teatral de seus romances – só lhe

212
NOGUEIRA DA SILVA, M. (s/ título) In: Philomena Borges. 3ª ed. Rio de Janeiro: F. Briguiet &
Cia., 1938. p. 5-6.
213
MOTA, Artur apud NOGUEIRA DA SILVA, M. op. cit. p. 6.
214
Ibidem. p. 5.
215
V. Capítulo 2.

100
preocupa o homem: a paisagem [...] quase não existe nas páginas de Philomena
Borges.”216 Aluísio Azevedo, que seria um “doublé de comediógrafo”, fez “um romance
para rir, para distrair, para matar as horas de tédio. Um romance que pode estar nas
mãos de toda a gente. Desde os ‘vieux-garçons’ até as ‘jeunes-filles’. Todos encontrarão
nas suas páginas motivos de prazer.”217 Além de cômico, o romance seria popular.218
Essa visão é muito justa, consideradas as condições de publicação do original na Gazeta
de Noticias. O romancista buscou agradar um público amplo, um público de grande
jornal diário, usando para tanto recursos cômicos.
Ainda de acordo com N.S., Filomena Borges seria uma fantasia “feita com
trechos da vida real”, desfilando tipos característicos da corte do segundo reinado e
mostrando com humor os defeitos do mundo político. Portanto, o romance não seria tão
somente fruto da imaginação do autor; ele teria se baseado, também, em tipos da época
por meio da observação.
O texto nos faz refletir: seria defensável levantar a hipótese de um jogo
duplo por parte de Aluísio Azevedo, em que, de um lado, o autor escreveria segundo o
gosto do público e, de outro lado, “tiraria sarro” desse gosto? Também é significativa a
pergunta com que Nogueira da Silva conclui seu texto: “o que significa o romance na
obra de Aluízio”?219

A sétima edição,220 publicada pela Livraria Martins Editora em 1960,


acompanha o célebre prefácio de Antonio Candido (intitulado “Introdução”). O crítico
começa o texto relacionando Filomena Borges à sua concepção geral sobre a obra de
Aluísio Azevedo, situando esse romance como uma “queda” em relação ao “primeiro
grande livro”, Casa de Pensão. A personalidade literária do escritor maranhense estaria
em desajuste permanente, o que teria resultado numa instabilidade criadora. Sua obra
teria, portanto, “oscilações” constantes, ora apresentando um romance bom, ora um
216
Ibidem. p. 6.
217
Ibidem. p. 6.
218
Popular no sentido de amplo, geral, como em Páginas de sensação. A ser discutido abaixo. EL FAR,
Alessandra. Páginas de sensação – Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924). São
Paulo: Companhia das Letras, 2004.
219
Ibidem. p. 7.
220
A quarta e a quinta edições mantêm o prefácio de Nogueira da Silva. A sexta edição contém uma nota
explicativa muito reduzida, que se foca na vida de Aluísio Azevedo e nada diz sobre Filomena Borges.
AZEVEDO, Aluísio. Philomena Borges. 4ª ed. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia., 1943. Idem. Philomena
Borges. 5ª ed. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia., 1952. Idem. Philomena Borges. 5ª ed. São Paulo:
Livraria Martins Editora S.A., 1954. Idem. Philomena Borges. 6ª ed. São Paulo: Clube do Livro, 1955.

101
ruim. Entre os pontos altos estariam O homem, O Coruja, O cortiço, enquanto os baixos
seriam A condessa Vésper, Girândola de amores, Livro de uma sogra, entre outros.
Jean-Yves Mérian contesta essa visão, já pela inconsistência editorial: Candido se
utiliza da ordem de edição em livros, confundindo as datas de publicação dos
romances.221 Nosso trabalho segue a linha de Mérian: considerando o contexto de
publicação e circulação de Filomena Borges, sabemos que ele foi provavelmente
encomendado pela Gazeta de Noticias, e era folhetinesco por visar a agradar a um
grande público; pode-se dizer que o autor falhou nesse sentido, mas daí a dizer que
havia desajuste em sua personalidade já é um exagero.222 O mais adequado parece ser
defender o plano da obra, também a partir de Mérian: Aluísio Azevedo procura adequar
o público ao romance moderno, tornando seu nome conhecido enquanto se mantém e se
estabelece como escritor.
É importante destacar que a visão que se tem da obra de Aluísio Azevedo
em geral influencia as leituras e análises dos romances em particular. Nos prefácios,
encontramos duas visões distintas: Nogueira da Silva iguala, procura continuidade223;
Antonio Candido busca rupturas, vê instabilidade. Neste sentido, Filomena Borges seria
queda; no outro, não necessariamente – faria parte de um todo, de um plano, de um
projeto literário. Nossa pesquisa aponta para esta última visão, apesar de aproveitar
ideias da análise de Antonio Candido.
Prefácios geralmente enaltecem os romances dos quais tratam. Nesse
sentido, Candido passa a buscar os pontos positivos do romance. Como Artur Mota, ele
rebaixa o padrão para encontrar essa positividade: “Abordado com intuitos modestos,
revela-se leitura bastante divertida. Um divertimento vertiginoso, que se sustenta quase
sempre, ou pelo menos quase até o fim, graças ao ritmo vivaz da composição e à

221
MÉRIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo: Vida e obra (1857-1913). 2ª ed. Rio de Janeiro: Fundação
Biblioteca Nacional: Garamond, 2013. p. 431.
222
É notável a comparação feita com Balzac e Dostoiévski: “Não me impressiona a alegação de que os
escrevia [os romances] por motivos não-literários; por necessidade financeira, por exemplo. Esta é
quando muito um favor, mas não se pode erigir uma explicação de mecanismo tão complexo; por
necessidade Balzac e Dostoievski foram levados a concretizar algumas das suas obras-primas.”
CANDIDO, Antonio. Introdução. In: AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. 7ª ed. São Paulo: Livraria
Martins Editora, 1960. p. 1.
223
Depois dele, mais recentemente, Mérian, Marques Júnior e Fanini. MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit.
MARQUES JÚNIOR, Milton. Da ilha de São Luís aos refolhos de Botafogo. João Pessoa: Editora
Universitária/UFPB, 2000. FANINI, Angela Maria Rubel. Os romances-folhetins de Aluísio Azevedo:
Aventuras Periféricas. 2003. Tese (Doutorado em Teoria Literária) - Setor de Ciências Humanas, Letras e
Artes, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2003.

102
concentração em tôrno dos dois personagens centrais.”224 Um foco importante da
análise são os tipos diferentes das personagens centrais: João Borges e Filomena, o
primeiro num “movimento incessante” para agradar a mulher, a última vivendo uma
“fantasia delirante”. A “espinha do romance” seria a “curva das duas vidas”. O caráter
sonhador e fantasioso de Filomena recebe grande destaque, e ela é comparada à
Madame Bovary e a Dom Quixote. A última comparação já foi vista em crítica d’O
Mequetrefe,225 mas a primeira é nova. Ora, não seria Filomena Borges um resquício
romântico? Aproximar a protagonista a uma personagem feminina forte e realista é
significativo. No entanto, a protagonista de Aluísio Azevedo parece ter decepcionado
Candido, pois o personagem “poderia ter resultado bastante rico e profundo”.226 O
Coruja seria, em contraposição, exemplo de boa construção de personagens.
Outro aspecto muito relevante na análise de Candido é a defesa da falta de
coerência técnica que marcaria o romance. Não obstante a predominância cômica, o
autor oitocentista teria misturado diversos tipos de texto, enumerados na tabela a seguir:

Tabela 3 - Tipos de texto presentes em Filomena Borges, de acordo com Candido


Fonte Trecho
Romance de costumes Parte inicial
Conto anedótico Ferrolho
Aventura folhetinesca Espanha
Burleta Festas, circo
Comédia Criados
Chanchadas Barroso e sua mulher
Dramalhão Urso, desfecho
CANDIDO, Antonio. “Introdução”. In: Filomena Borges. 7ª ed. São Paulo: Livraria Martins
Editora, 1960. p. 4-5.

Essa mistura não seria um problema em si, mas a falta de articulação


prejudicaria muito o romance:

224
CANDIDO, Antonio. op. cit. p. 2.
225
V. Capítulo 2.
226
Ibidem. p. 4.

103
Não que seja inviável um livro coerente a partir dessa variedade, que
se encontra noutros de alta qualidade e equivale à própria vida. [...]
Em Philomena Borges, porém, isto se tornou impossível pela ausência
de integração. Daí parecer, o tempo todo, hesitante entre a pantomima
e o drama, entre o sério e o verdadeiro cômico. A estas lacunas,
devemos somar o eventual provincianismo de concepção e de
expressão, que nos aproxima muitas vêzes da literatura barata, - com a
piada vulgar, a tinta facilmente empastada, o descuido no alinhavo de
episódios que se amontoam.227

Concordamos com a falta de integração apresentada, e ela constituirá uma


das bases de nossa interpretação do romance, apresentada mais adiante. Ela é, também,
uma boa hipótese para a falta de sucesso do livro: sendo variada, mas desarticulada, a
narrativa não consegue agradar nem aos leitores sérios do romance moderno, nem aos
leitores frívolos do romance folhetim, para ficarmos nos termos de Brás Cubas.
Lembremos que o próprio romancista já havia publicado uma espécie de prefácio na
Gazeta, no qual revelava sua intenção de agradar tanto ao público romântico de 1820
quando à crítica moderna de 1884.228 Afirmar que o romance muitas vezes se aproxima
da literatura barata é muito acertado, já que a composição e publicação o aproximam
muito dos romances populares, de sensação, para homens etc.229 Também é possível
conjecturar que Aluísio Azevedo tratasse de forma preconceituosa o público para quem
escrevia, respondendo em parte à dúvida suscitada pelo primeiro prefácio: seria o
romance, ao mesmo tempo, humor e paródia?
Finalmente, a função da obra é discutida por Candido: “a leitura de
Philomena Borges não deve ter outro intuito que o divertimento”.230 Essa consideração
pode ser muito válida para um leitor do presente, mas o passado pode ter outras
possibilidades de leitura a acrescentar. Como Mérian defendeu231 e como nosso trabalho
reitera e expande, o romance foi recebido em sua época de forma política, polêmica.232
Afirmar que a leitura deve ter apenas a intenção do divertimento marca certa miopia,
um descompasso entre passado e presente na apreciação desta obra literária. Em seu
tempo, ela concentrava mais significados, que agora se perderam ou se diluíram. Os

227
Ibidem. p. 5.
228
V. Capítulo 1. Aluísio Azevedo. “Philomena Borges”. Gazeta de Noticias, 17-12-1883. p. 1-2. ed. 351.
229
Neste trabalho, ao contrário do texto de Candido, “barato” não tem sentido pejorativo. Cf. EL FAR,
Alessandra. op. cit.
230
CANDIDO, Antonio. op. cit. p. 5.
231
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 439.
232
V. Capítulo 2.

104
dois primeiros capítulos desta dissertação permitiram recuperá-los em parte, para que
possamos analisar o romance levando em conta esse descompasso.
Quanto à função da leitura do romance, Candido prossegue, defendendo que
ela deva ser o:

Divertimento sem refolhos, de quem deseja passar o tempo. Para isto,


o romancista oferece estrada livre, pois é de fato notável a rapidez dos
acontecimentos, entrecruzados, quase todos elevados a peripécia e,
embora tratados com facilidade jornalística, mostrando que quem as
arquitetou sabia escrever.233

No entanto, antecipando o que defendemos acima, o crítico concebe outra


função para o estudo da mesma obra:

Para o estudioso de literatura, o livro tem outros atrativos, pois é


possível averiguar nêle, certas componentes recessivas de melodrama
e vulgaridade, de bom humor e melancolia, que integram a
personalidade literária de Aluísio de Azevedo e aparecem, nos seus
melhores livros, domadas e devidamente polidas. Isto, porém, seria
pano para outra manga.234

É possível que Candido não negasse de todo a tese de Mérian;235 afinal, ele
percebe que os interesses em Filomena podem ser vários e que os temas trabalhados ali
estão presentes nos outros romances, ainda que a escolha das palavras “domadas” ou
“polidas” dê um sentido que nos parece pejorativo. Também parece negativa, no texto
de Candido, a presença do “germe” naturalista no romance. É um sentido invertido: para
Mérian, presença do germe naturalista nos folhetins mostra continuidade, portanto, é
positiva; para Candido, a presença da personalidade de Aluísio nos naturalistas também
mostra continuidade, mas negativada: ele deve domá-las para que o romance seja bom.
A divergência entre Candido e Mérian a respeito das características da obra
de Aluísio Azevedo desdobra-se em questões específicas para Filomena Borges: o
brasileiro dá mais ênfase ao cômico, na composição multifacetada do romance e na sua
função de divertimento; o francês foca na crítica, no caráter híbrido

233
CANDIDO, Antonio. op. cit. p. 5-6.
234
Ibidem. p. 6.
235
Ou de Milton Marques Jr.

105
(naturalista/folhetinesco) e na sua função de crítica social e política. A posição de
Mérian fica clara na seguinte passagem:

Os folhetins não eram escritos unicamente com a finalidade de divertir


o leitor; as críticas sociais e políticas, explícitas ou implícitas, foram
na maioria das vezes esquecidas pelos críticos literários. Estes
geralmente explicaram a obra romanesca de Aluísio partindo de um
princípio de dualidade em sua concepção. Na introdução ao romance
Filomena Borges, Antônio Cândido tentou estabelecer uma
classificação simples, baseada no princípio da alternância...236

O francês classifica a visão que Candido tem da obra de Aluísio Azevedo


como “cartesiana” e “mecanicista”, mostrando que Wilson Martins compartilha com o
crítico brasileiro a visão de personalidade literária; Martins, conforme destaca Mérian,
defende que o “folhetim melodramático [... era] o tipo de literatura que realmente lhe
instigava a inspiração e as tendências”.237 Mérian destaca, contra esse tipo de visão, a
importância dos textos dirigidos aos leitores, veiculados nos periódicos e nas primeiras
edições, posteriormente excluídas dos livros,238 e lembra que a publicação dependia de
“condições do mercado e da relação com os editores”239, o que viemos defendendo
durante todo este trabalho.
A tese de Mérian para os folhetins de Aluísio Azevedo está concentrada na
seguinte passagem:

Os romances folhetins não se opunham de modo absoluto aos


romances naturalistas, mas, segundo o romancista, deviam contribuir
para o progressivo sucesso destes. A relação entre esses dois tipos de
romance era de ordem dialética, sendo o objetivo final a ‘aclimatação’
do naturalismo no Brasil240

Filomena Borges está no meio desse projeto de “aclimatação” e de


conquista de um público leitor. A oportunidade de escrever na Gazeta foi
interessantíssima para Azevedo nesse sentido. Concordamos com Mérian contra

236
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 429-30.
237
MARTINS apud MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 430.
238
Vimos que o “prefácio” de Aluísio à Filomena Borges não foi incluído nas edições em livro do
romance, constando apenas em O Touro Negro. AZEVEDO, Aluísio. O Touro Negro. São Paulo: Livraria
Martins Editora, 1961. Sobre o assunto, ver também Milton Marques Júnior e a exclusão ou atenuação
dessas discussões nas edições revisadas. MARQUES JÚNIOR, Milton. op. cit.
239
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 431.
240
Ibidem. p. 431.

106
Candido quanto ao quadro geral da obra de Azevedo, mas a crítica do último ao
romance é muito relevante e bastante adequada ao entendimento da obra, da maneira
como vamos expandir e articular.
Acreditamos que o adequado seja considerar o humor e o divertimento, e a
crítica e a política como dois lados da mesma moeda, compondo o mesmo romance, que
tentava agradar simultaneamente críticos modernos e leitores sedentos por folhetins
românticos.241 Só assim entenderemos o romance Filomena Borges levando em conta
seu contexto de publicação e circulação.

3.1.b Crítica acadêmica

As críticas acadêmicas, de modo geral, concordam em destacar a dimensão


política, combativa e crítica do romance. Elas enaltecem esse lado do romance, já o
peso dado ao humor é variável. Prosseguindo com Mérian: “É conveniente levarmos em
consideração o papel que Aluísio Azevedo reservava a essa produção em relação ao
conjunto de sua obra. [...] recebidos como obras polêmicas em que a crítica social era
mais importante que a vontade de distrair.”242 O francês, portanto, defende que a crítica
era, destacamos, mais importante.
Angela Fanini, apesar de seguir na esteira de Mérian, discordaria dele neste
ponto. Em sua tese de doutorado, Fanini fez a crítica dos romances-folhetins de Aluísio
Azevedo. Seu trabalho, como o de Mérian, tem a grande vantagem de tratar de todos os
folhetins, o que permite a ambos uma visão geral da obra – que, como já foi referido,
vai no mesmo sentido. No entanto, a análise de Fanini traz para o centro da discussão a
comicidade, que, segundo ela, seria o grande mérito de Filomena Borges:

Acreditamos que nessa diferença se localize um componente


qualitativo importante, pois o riso é usado para polemizar, criticar e
dessacralizar. Aluísio Azevedo se utiliza de uma outra linguagem para
fazer a crítica exigida pela linguagem realista. Em vez da linguagem
séria, comportada, cientificamente legitimada, ele se utiliza do riso, do
jocoso, do cômico para denunciar. Talvez essa linguagem seja mais
poderosa que a outra porque não está dentro do mesmo sistema que
denuncia, ou seja, não é canonizada pela crítica ou pela Academia
Brasileira de Letras daquele momento. Acha-se nos rodapés dos
jornais, servindo pretensamente de diversão pura e simples a uma

241
V. Capítulo 1, prefácio de Aluísio Azevedo na Gazeta.
242
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 439.

107
audiência leiga, não especialista. Essa diversão, no entanto, é crítica,
pois o próprio discurso do cômico é sempre um discurso indireto, ou
seja, ridiculariza um outro. O que está entronizado, oficializado,
convencionalizado é mostrado em suas dimensões históricas e isso o
dessacraliza como discurso natural, estável, sempre igual a si mesmo.
O riso irrompe de dentro do sério, mostrando-lhe as fraturas. Aluísio
Azevedo se utiliza do romantismo dos heróis e de suas situações,
exacerbando, inflacionando e esse exagero se apresenta como
caricatural, revelando-se crítico243

Neste caso, divertir não vem separado de criticar. Fanini concebe o cômico
como fator próprio de crítica em Filomena Borges. Esta tendência estava presente no
jornal em que o romance circulou inicialmente, a Gazeta de Noticias, e nas séries a que
esteve ligado, mais propriamente as “Balas de Estalo”. Ana Flávia Ramos destacou, em
sua dissertação de mestrado, como a série “Balas” articula humor e crítica política,
seguindo o que seria a linha editorial da Gazeta de Noticias.244 Este novo jornal,
moderno, procurava veicular suas críticas aliadas à comicidade para comunicar-se com
um público maior, mais amplo.
Se for possível concordar com as teses de Mérian e de Fanini, de que o
romance de Aluísio Azevedo é híbrido no sentido de mobilizar romantismo folhetinesco
e naturalismo na mesma narrativa, é possível afirmar que também poderia hibridizar
humor e crítica, coisa muito comum nos jornais da época, principalmente na Gazeta de
Noticias, jornal no qual foi publicado e para o qual foi escrito o romance Filomena
Borges.

3.2 O casamento

Situada a apreciação da obra, podemos começar a discutir seus temas


específicos.
Os críticos acadêmicos já apontaram a centralidade do casamento e do
temperamento antagônico das personagens principais no romance.245 Concordamos que
esta seja uma temática central no romance.

243
FANINI, Angela. op. Cit. p. 125.
244
RAMOS, Ana Flávia Cernic. Política e humor nos últimos anos da monarquia: a série “Balas de
estalo” (1883-1884). 2005. Dissertação (Mestrado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.
245
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. RIBEIRO, Luís Filipe. O Sexo e o Poder no Império: “Philomena
Borges”. Luso-Brazilian Review, vol. 30, n. 1, “Changing Images of the Brazilian Woman: Studies of

108
Filomena, a personagem que empresta o nome ao título do romance, é filha
de D. Clementina e um conselheiro do Império. Seu pai, já falecido no começo do
romance, deixou a família em dificuldades financeiras por sua mania de grandeza. Daí
decorre o primeiro problema: casar Filomena. O casamento salvaria a família da ruína e
deixaria sossegada D. Clementina. Em busca de um noivo, elas devem frequentar os
salões e organizar recepções em sua casa, sempre ocultando as dificuldades por que
estavam passando. A empreitada é facilitada e possibilitada pela ajuda do padrinho de
Filomena, D. Pedro II. Note-se que, já no início do romance, o autor nos apresenta a
relação de proteção entre o imperador e a família de Filomena.
Dotada de um pragmatismo extremo, D. Clementina educa a filha sobre que
maridos procurar e como se portar com eles, rendendo trechos muito significativos,
como o seguinte:

A mãi cahia-lhe em cima, a ralhar, a aconselhar “Philomena” que se


deixasse de bobagens, que os tempos não davam para isso!” E dizia-
lhe tim-tim por tim-tim o que lhe convinha fazer, como devia se
conduzir. Ensinava-lhe os segredinhos de agradar a todos, de prender,
de “prometer sem dar, de negar sem desistir.”246

D. Clementina lança, no início do romance, duas diretrizes que, aliadas ao


temperamento excêntrico de Filomena, conduzirão a atuação da personagem. Os
ensinamentos não se limitarão à busca por maridos, estendendo-se às ações da
personagem de modo geral. Seguem as considerações da mãe sobre como conduzir o
casamento:

- Parece-te agora, verás depois que é justamente o contrario!... Em


questões de casamenfo [sic], minha filha, as apparencias quasi sempre
enganam muito! Em geral, os maridos, que nos parecem mais faceis
de tragar, são justamente os mais amargos: ao passo que os outros, os
typos, os “Borges”, esses são os bons, os doces! Cá por mim, nunca
aconselharia mulher alguma a unir-se a um homem, que julgasse o seu
espirito superior ao d’ella. Nada! Para haver perfeito equilibrio n’um
casal, é indispensavel que o marido sempre reconheça alguma
superioridade na mulher; seja essa superioridade de fortuna, de
intelligencia, de educação ou mesmo de força physica. Desgraçada da

Female Sexuality in Literature, Mass Media, and Criminal Trials, 1884-1992” (Summer, 1993), p. 7-20.
University of Wisconsin Press.
246
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 18/12/1883. p. 1. ed. 352.

109
tola que não pense sobre isso antes do casamento – não será uma
esposa, será uma escrava!247

Aparece, oportunamente, um “noivo ‘dos bons’”: João Borges. Filho de um


português que lhe deixou posses imobiliárias, dotado de um espírito prático e pacato,
Borges é perfeito para os planos de D. Clementina, mas insosso para as fantasias da
jovem Filomena. Um golpe do destino, o falecimento da mãe, força Filomena a optar
rapidamente. Ela segue os desejos da mãe e se casa com Borges.
Este é, basicamente, o primeiro capítulo da narrativa. Ele foi elogiado pelos
críticos coetâneos,248 e é um capítulo muito seguro. Nele já está apresentado o motor da
maior parte dos problemas que serão desenvolvidos no correr do romance: a fantasia de
Filomena confrontará o caráter prático e simples de João Borges. O destino de dois
temperamentos tão diferentes, opostos, unidos pelo casamento, servirá como motor para
o restante da narrativa.
O capítulo aproxima sobremaneira Filomena Borges de um dos romances
citados pelo crítico do Brazil249 como possível fonte de plágio de Aluísio Azevedo:
Mlle. Giraud.250 Os bailes na busca de consortes ocupam boa parte do começo daquela
narrativa, com a diferença de que, naquele caso, quem busca o casamento é o homem,
Adrien.
As semelhanças não param por aí. Em seguida ao casamento, esperar-se-iam
as núpcias entre o casal, que não acontecem em nenhum dos dois romances. Seguindo a
descrição de Filomena Borges:

- Podemos fugir.... São horas.... não acha?...


Ella ergueu os olhos, sorriu, depois levantou-se, deu-lhe o braço, e
ambos desappareceram pelos fundos da sala de jantar. A madrinha já
estava à espera da noiva, para a ceremonia do despojamento das
roupas.
Mas o Borges, quando atravessava a sala contigua à alcova nupcial,
ficou muito sorprendido com a mudança brusca, que acabava de se
operar na desposada: o tal arzinho de santa fora substituído por uma
expressão dura de má vontade. E a sorpreza de João Touro cresceu

247
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 18/12/1883. p. 1. ed. 352.
248
V. Capítulo 2, crítica da sessão “Bibliographia”.
249
V. Capítulo 2, críticas de A. de B. F..
250
Romance de Adolphe Belot publicado originalmente no folhetim do Le Figaro em 1869. Foi um
grande sucesso, com diversas edições em livro. No Brasil, será traduzido em 1878 sob o título Espoza e
virgem, enaltecendo o caráter escandaloso da narrativa. Em Portugal, Pinheiro Chagas traduziu o mesmo
romance, intitulando-o Amigas e peccadoras.

110
mais na occasião em que, tentando segurar Philomena pela cintura
para lhe dar o primeiro beijo, ouviu-lhe dizer com um repellão
energico: - Deixe-se d’isso, homem!
E ainda cresceu, muito mais, quando, depois que a madrinha a deixou
só no quarto, elle – o noivo – querendo recolher-se ahi, levou com a
porta no nariz e ouviu ranger um forrolho [sic] que a fechava por
dentro.
- Ora esta! resmungou o Borges, sem saber o que devia fazer.
E bateu, a principio devagarinho, depois mais forte, mais forte ainda.
Só resolveu abandonar o posto, quando Philomena lhe gritou da cama:
- Com effeito! O senhor não tenciona acabar com isso?! Vá dormir,
creatura, e deixe-se de imprudencias! Se espera que eu lhe abra a
porta, perde o seu tempo... Boa noite!
- Bonito! disse o pobre noivo, cruzando os braços.251

Este é o último trecho do primeiro capítulo e do primeiro folhetim. Ele


quebra uma expectativa, a das núpcias, criando duas outras: 1) de que o problema que se
estenderá pelo próximo folhetim, e 2) de que o romance seguirá como os romances de
“ferrolho”. A seguir, citamos o final do capítulo do casamento entre Adrien e Paule em
Mlle. Giraud. É notável o estilo mais enxuto de Belot, que concentra aquela ação em
um só parágrafo, deixando ao narrador toda a responsabilidade. Há de se considerar,
apesar disso, as propostas diferentes: o narrador de Belot é o próprio marido, que
discute sua situação com o leitor à proporção que a descreve.

On appartient à tout le monde excepté à sa femme. Enfin, l'heure du


berger sonne; on oublie les tribulations, les ennuis qu'on vient
d'éprouver, la fatigue qui vous accable, car le bonheur vous attend à
votre nouveau logis, on y court, on s'élance vers la chambre nuptiale.
Hélas! elle reste obstinément fermée.252

O “ferrolho” estava presente de maneira muito marcante neste romance


francês, bem como em outro, citado pelo crítico do Brazil, M. Dupont.253 Enquanto as
cenas de Mlle. Giraud e de Filomena Borges são muito semelhantes, M. Dupont e Mlle.
Giraud apresentam motivos muito distintos para o uso do ferrolho: nos casos franceses,
é o interesse por outra pessoa que faz com que as esposas se neguem a seus maridos. No
caso brasileiro, Filomena se negará a Borges enquanto ele não se aproximar de seus

251
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 18/12/1883. p. 1. ed. 352.
252
BELOT, Adolphe. Mademoiselle Giraud ma femme. 53ª ed. Paris: E. Dentu, Éditeur, 1878. p. 53.
253
Romance de Paul de Kock publicado originalmente em 1826, com numerosas edições até a década de
1880. Apesar de não termos encontrado na imprensa muitas referências a este romance, o autor era
amplamente conhecido pelo público.

111
sonhos e fantasias. Em M. Dupont, a mocinha, Eugénie, ama e jura fidelidade ao jovem
Adolphe, embora seja casada com o velho Dupont, que repugna. Em Mlle. Giraud, a
mocinha, Paule, tem um relacionamento secreto com sua melhor amiga, Mme. de
Blangy, que a impede de se entregar ao marido.
As núpcias aparecem como um costume bárbaro na voz de Filomena, na voz
do narrador-personagem de Mlle. Giraud, conjeturando a opinião da esposa, e na voz do
narrador de M. Dupont:

- Não comprehendo como ainda se conservam na sociedade moderna


certos costumes verdadeiramente barbaros.
As ceremonias do casamento estão n’esse caso. Nada ha mais
grotesco, mais ridiculo, do que essa especie de festim pagão em que se
celebra o sacrificio de uma virgem. Horrorisa-me, faz-me nojo, toda
essa formalidade que usamos no casamento – a exposição do leito
nupcial, os classicos conselhos da madrinha, o acto formalista de
despir a noiva, e, no dia seguinte, os commentarios, as costumadas
pilherias dos parentes e dos amigos... Oh! É indecente! Mas, agora
reparo, o senhor não come!...254

Je me trouvai à mon réveil plus calme que je ne pouvais l'espérer,


moins mécontent de ma femme, plus disposé à l'excuser. Après avoir
réfléchi le plus froidement possible à nos conversations de la veille, et
malgré certains détails qui m'avaient frappé, je crus pouvoir tirer cette
conclusion, que Paule, loin d'être une ingénue ignorante de ses
devoirs, avait au contraire sur le mariage les idées les plus arrêtées:
elle pensait sans doute qu'un mari pouvait se donner la peine de
mériter sa femme, et qu'il était délicat à lui de paraître oublier ses
droits. Dans l'intérêt de notre amour, elle voulait se faire désirer et
m'appartenir comme amante, avant de devenir ma femme. Elle
trouvait, en un mot, qu'il y avait quelque chose d'injuste et d'illogique
à exiger qu'à jour fixe, en sortant de la mairie, une jeune fille se jetât
dans les bras d'um homme qu'elle connaissait à peine, et elle avait
résolu de se soutraire à cette coutume barbare.255

Mais, pour Eugénie et son mari, que ce moment est différent!... La


jeune femme commence à redouter alors l’approche d’un danger
auquel elle n’a point songé depuis le matin, parce qu’elle a cru que
rien ne pouvait augmenter son malheur. Mais la jeune fille la plus
sage, la plus innocente, sait fort bien, em se mariant, qu’um époux a
des droits sur elle; l’instant où elle doit se donner à ce nouveau maître
fait battre avec crainte le coeur de la jeune vierge, même lorsqu’elle

254
Aluísio Azevedo, Gazeta de Noticias, 19/12/1883. p. 1. ed. 353.
255
BELOT, Adolphe. op. cit. p. 66-7.

112
aime celui auquel elle vient de s’engager; quelle doit donc être la
situation de celle qui se voit livrée à um homme qu’elle deteste!256

Este “sacrificio de uma virgem”, “costume verdadeiramente barbaro”,


integra a crítica ao casamento forçado presente nos três romances. M. Dupont é,
possivelmente, o mais enfático nessa censura, com intervenções do narrador e títulos de
capítulos que sugerem uma moral: não se deve casar as moças apesar de sua vontade.257
Em todas as histórias, por mais que haja diferenças entre as motivações das
moças, está posta em questão a relação de poder no casamento. Todas têm um caráter
bastante cômico, apesar de tratarem de um assunto bastante sério, o direito dos maridos
sobre as esposas. M. Dupont é o romance que se pronuncia mais explicitamente sobre
isso, contendo um capítulo em que o marido reclama às autoridades a falta de suas
núpcias e da obediência da esposa. Antes, o marido tentara, sem sucesso, reclamar com
a sogra, tornando-se motivo de piada em ambos os casos:

- Vous voulez!... vous voulez!... je vous trouve bien plaisant, monsieur


mon gendre; est-ce que vous voudriez faire le tyran chez vous?... –
Comment? le tyran! belle-maman. – Je veux que ma fille m’imite, je
veux qu’elle soit maîtresse chez elle, c’est tout simple; vous me l’avez
demandée, je vous l’ai donnée: vous voilà marié, le reste ne nous
regarde plus. Tant qu’Eugénie a été sous ma dépendance, elle a dù
m’obéir; la voilà mariée, elle doit commander chez elle, c’est tout
naturel; et quand une jeune personne a reçu l’éducation que ma fille a
reçue, quand elle a puisé des príncipes et des exemples de sagesse et
de vertu, elle ne peut pas se conduire mal; souvenez-vous de cela,
monsieur Dupont. – Mais cependant, belle-maman... – Non, mon
gendre, non, um mari ne doit jamais se plaindre de sa femme: si
Eugénie ne veut pas descendre à votre comptoir, elle a sans doute de
bonnes raisons pour cela... – Elle ne peut pas eu avoir, belle-maman. –
Vous n’em savez rien, mon gendre; les femmes ne doivent pas rendre
compte de tout à leurs maris. C’est à ceux-ci à se’em rapporter à la
perspicacité de leurs femmes. – Cependant, belle-maman... – En voilà
assez, monsieur Dupont, je vous dis que vous avez tort; que ceci vous
serve de leçon à l’avenir, et rappelez-vous que je vous ai donné um
trésor.258

256
KOCK, Paul de. M. Dupont ou la jeune fille et sa bonne. Paris: Gustave Barba, Éditeur, 1842. p. 268-
9. Há, no mesmo romance, duas outras cenas significativas: a do casamento forçado (p. 241) e a fala de
Eugénie sobre o direito do marido (p. 276).
257
Há um capítulo justamente com este título: “XXI Qui fait voir qu’il ne faut pas épouser une fille
malgré elle”. KOCK, Paul de. op. cit. p. 272.
258
KOCK, Paul de. op. cit. p. 285-6.

113
A reclamação com a sogra não funciona, já que ela quer que sua filha
comande a própria casa, seguindo seus passos e a educação que recebeu.259 Não obtendo
sucesso junto à família da esposa, Dupont recorre às autoridades, envolvendo-se em
mais uma cena cômica. Depois de ter de esperar pelas reclamações dos outros, o senhor
tenta formular sua queixa ao comissário. A conversa se conduz por mal-entendidos, que
levam o comissário a citar o código civil. Dupont se interessa por este, principalmente
na parte que diz que as mulheres devem obediência aos maridos.
Por mais que a queixa de Dupont não tenha efeito prático no romance e não
solucione seu problema, ela é possível. Não é o que acontece em Mlle. Giraud, em que
M. de Blangy, marido da amiga e amante de Paule, Mme. de Blangy, afirma não poder
recorrer às autoridades:

La justice, me dit-il, m'aurait évidemment refusé son concours; le


législateur n'a pas prévu certaines fautes et l'impunité leur est acquise.
C'est à peine si j'aurais obtenu des tribunaux une séparation : les torts
de Mme de Blangy, envers moi, étaient d'une telle nature que les juges
se refusent souvent à les admettre, pour n'avoir pas à les flétrir.260

A natureza da transgressão de Mme. de Blangy não pode ser socialmente


aceita, portanto o marido não pode fazer valer seu direito nos tribunais. Ainda assim, na
relação do outro casal, Paule não nega o direito do marido sobre ela. Quando este
propõe a viagem que separará as amantes, a mocinha responde: “— Nous voyagerons,
soit ! Vous l'exigez, et la loi vous donne des droits sur moi. Mais je ne saurais
m'éloigner ce soir. J'ai des adieux à faire."261 Deve-se ponderar que, nesta cena, a esposa
está sob ameaça de vexação pública, mas ela parece entender, durante todo o romance,
que quem concentra o poder na relação é o marido.
Há, então, uma discussão sobre o direito dos maridos. Por mais que seja
tratado de maneira cômica, esse direito sempre está presente, sempre se mantém e se
manifesta. A resistência das esposas tem um espaço muito pequeno. A solução para o
problema de Eugénie virá somente com a morte de Dupont, que lhe possibilitará casar-
se com seu amor verdadeiro, Adolphe. A solução para o problema de Paule é mais
violenta: o marido tenta corrigi-la, afastando-a de sua amante, Berthe; ele conta com a

259
O que aproxima muito D. Clementina de Madame Moutonnet, a mãe de Eugénie.
260
BELOT, Adolphe. op. cit. p. 202.
261
Ibidem. p. 215.

114
ajuda do marido desta, que também a leva para longe. A viagem dos casais não é bem
sucedida, pois termina com a fuga das amantes, que se reencontram e vão morar juntas
num lugar isolado. Desse modo, a resistência de Filomena Borges é a mais destacada,
porque altera o marido, apesar de não poder romper com o casamento forçado ou com o
direito do marido sobre ela, imposições externas maiores e mais fortes que não têm
possibilidade de serem rompidas no romance.
Ribeiro foi o crítico que mais destacou o tema do casamento em Filomena
Borges, que ele apresenta também como relação de poder. Já no seu título fica clara a
discussão que ele faz: o sexo como poder. Ele compara Filomena Borges a Senhora,
defendendo que haveria inversão de papéis em ambos, ponderadas as diferenças:

Voltando ao paralelo com Alencar, em Senhora existe também uma


tal inversão [entre marido “feminino” e esposa “masculina”]. Mas ali
está fundada na posse do capital, no poder do dinheiro. É coerente
com o sistema, afirma a precedência do econômico sobre o ideológico.
Aqui, em Philomena Borges, há uma inversão do quadro ideológico
dominante: o econômico submete-se ao ideológico. O sexo comanda e
destitui o capital: é a supremacia absoluta do princípio do prazer. Que
proposta mais revolucionária se poderia pedir a um escritor do século
XIX, saído das fraldas do Romantismo, numa sociedade retardatária,
conservadora e imperial?262

Se for o sexo que destitui o capital, não é ao ideológico que se submente o


econômico, mas à carne. Os preconceitos de Ribeiro vão se revelando aos poucos,
mostrando como ele ainda está colado às interpretações canônicas: romantismo,
sociedade retardatária. Como estamos tentando demonstrar, a proposta de Aluísio
Azevedo não é revolucionária; é extremamente mediada, com a sujeição ao sexo tirada
dos folhetins franceses, que o crítico certamente não reconheceria como
revolucionários.
Não sabemos se é defensável, para Filomena ou para os romances franceses,
a inversão de papéis. A comicidade dos romances é construída justamente sobre isso: o
marido, que tem o direito sobre as esposas, não consegue fazer valer de fato sua
vontade. Mas ele nunca deixa de ter o direito. É importante, no entanto, a distinção que
Ribeiro faz: em Senhora há amor verdadeiro, e a relação é mediada pelo dinheiro; em
Filomena não haveria amor verdadeiro, somente interesse econômico e social.

262
RIBEIRO, Luís Filipe. op. cit. p. 17.

115
Discordamos que não haja amor verdadeiro entre Filomena e Borges, já que ele vai se
intensificando no miolo do romance, resultando na entrega completa da mulher ao
marido no capítulo XII, “Amor de Philomena”. Aqui a comparação com Mlle. Giraud
também auxilia o entendimento. Neste romance, Paule não está no comando. Ela acata
as decisões do marido, como visto acima, mas nunca se entrega: sua resistência é
complexa. Filomena, por sua vez, tem uma resistência mais ativa, agressiva,
transformadora.
Outros romances que foram comparados a Filomena são Madame Bovary e
O primo Basílio.263 É realmente muito interessante a comparação entre eles, pelas
proximidades e distâncias. As três mocinhas têm educação parecida, são sonhadoras,
fantasiosas:

O sonho romântico de Philomena encontra, claramente, suas raízes em


Madame Bovary, aparecido em 1857. A personagem identifica-se com
a Luísa de O Primo Basílio, de 1877. As três, mergulhadas no
imaginário construído pela literatura romântica, não conseguem
aceitar a mesmice da cotidiana realidade da vida. Vivem no
imaginário e para ele. A vida deverá ser, necessariamente, uma
imitação da arte. Fora daí, apenas a infelicidade...264

A única que tem uma educação pragmática, no entanto, é Filomena, que


também é a única que tenta usar seu poder para alterar seu marido a seu jeito; as outras,
pelo contrário, preferem a via do adultério. Esta solução nunca chega a passar pela
cabeça de Filomena, por mais que o romance brinque, por vezes, com a possibilidade
(Barradinhas, D. Luís de Portugal, D. Pedro II). Filomena Borges utiliza sempre a
sedução como forma de poder, nunca como forma de obtenção de prazer pessoal.265
Na narrativa de Aluísio Azevedo, ao casamento seguem-se as tentativas de
Filomena de alterar Borges, que Ribeiro reputa como “novidade absoluta” desse
romance. Interessa menos saber se é inédito, e mais qual a função e quais os resultados

263
Madame Bovary já apareceu. O primo Basílio é inédito. É Ribeiro que afirma que eles são raízes do
problema centra de Filomena Borges. Ibidem.
264
Ibidem. p. 10.
265
O grande sucesso que o romance de Eça de Queirós obteve no Brasil devia estar ainda fresco na
memória dos leitores de Filomena Borges. Também existe uma relação, passível de sugestão, entre o
romance português, o romance brasileiro e Mlle. Giraud: todos causaram escândalo. Há de se notar,
entretanto, que o escândalo dentro de Filomena Borges é mais leve. Talvez seja esta uma das razões do
pouco sucesso do romance; ou o fato do escândalo envolver a figura do monarca, o que, conforme visto
no capítulo 2, gerou bastante discórdia.

116
para o romance: o que permitiria à personagem tal atuação? A possibilidade já está
concebida em M. Dupont, em que a mãe diz que fez o marido a seu jeito; mas não foi
praticada por aquela mocinha, que já tinha um amor anterior e não tinha interesse em
fazer funcionar seu casamento. Filomena é quem colocará em curso tal plano:

Será Philomena a primeira personagem feminina em nosso romance a


usar, explícita, e conscientemente, o sexo como instrumento de poder.
Todo o desenvolvimento posterior da narrativa estará centrado nessa
equação. O importante nessa teoria é a colocação do casamento como
um contrato jurídico desvinculado da relação amorosa266

Filomena Borges, através desse esforço, é a única das esposas citadas a


trabalhar em favor do próprio casamento.
Sem dúvida, o casamento é um tema fundamental no romance. Ao juntar os
temperamentos antagônicos de Filomena e João, Aluísio Azevedo soube conduzir sua
narrativa através dessas duas personagens, o que ele já havia feito em Memórias de um
condenado e faria em seguida em O Coruja.267

Também é muito significativo que, dentro do próprio romance, outros dois


casamentos estejam presentes, para que o leitor pudesse compará-los com o casamento
central. Barroso, melhor amigo de João Borges, desfaz a amizade quando tem certeza do
casamento deste com Filomena, por acreditá-lo insensato.268 Aluísio Azevedo insiste,
para contrastar, em apresentar a situação do casamento do próprio Barroso. Há um
capítulo (XI) cujo título se refere a essa comparação: “Qual dos dous maridos será o
mais infeliz?...”.269 Nele, é desmascarada a hipocrisia de Barroso, apresentada a
princípio num diálogo com Borges:

[Borges] – Com que então és feliz!...


E suspirou.

266
Ibidem. p. 15.
267
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 435.
268
“- Tu enlouqueceste, homem de Deus?! Não vês que vais fazer uma reverendíssima asneira?! Não vês
que aquillo não é mulher que te convenha?! Não desconfias, pedaço d’asno, que aquella sirigaita e mais a
raposa da mãi estão a farejar-te os cobres?!... Não comprehendes que ellas te querem porque tens para
mais de quinhentos contos de réis?! Ora vai por um caustico n’essa nunca! [sic]”. Aluísio Azevedo,
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 18/12/1883. p. 1. ed. 352.
269
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 29/12/1883. p. 1. ed. 363.

117
[Barroso] – Sou, graças a Deus! sou! respondeu o Barroso estirando-
se na cadeira. Lá a minha Eva não é nenhuma senhora que metta vista,
lá isso não é!... Ao contrario, coitada! não serve para se haver com
etiquetas e ceremonias; porém, no que se diz – arranjo de casa, doçura
de genio, tratamento do filho e mimos cá com o nhô-nhô... n’isso não
quero que haja segunda! Meiguice alli! Ella é incapaz de uma rezinga!
Sempre a mesma! Sempre! Além d’isso muito asseiada, muito amiga
de arrumar e activa, activa que faz gosto! Ainda ha pouco tempo
ficámos tres dias sem criada. Pois, filho! acredita que a Sabina
arregaçou as mangas, metteu-se na cozinha, agarrou-se a uma
vassoura, e, tantas voltas deu, tanto virou, que a criada não fez falta!
Foi preciso que eu ralhasse para a ver socegar um instante! Não! como
dona de casa não quero que haja outra!... mas também pódes ver de
que maneira a trato!...270

Com Barroso, temos a perspectiva do marido que põe a mulher a seu jeito:
“- Mas por que não a pões a teu geito, filho?” pergunta Barroso a Borges. “- Pol-a a meu
geito!... ella foi quem me poz ao seu. Foi ella que me torceu a seu bel prazer!”, responde
Borges, marido vencido e torcido pelo amor que tinha pela mulher.271 O mesmo amor
não pode ser visto na relação de Barroso, que elogia na esposa justamente a condição de
mulher-escrava da qual tentaram fugir Filomena e Eugénie.
Mas o casamento de Barroso não foge à tensão. O diálogo entre os amigos
ocorre antes do baile de fantasias que os Borges oferecem quando do primeiro retorno
ao Brasil. Barroso aceita o convite para o baile, onde ele encontra um João Borges
totalmente diferente: o amigo que procurara seu ombro para chorar e questionar seu
casamento, perto da mulher, no ambiente de sua casa e de seus amores, era um homem
feliz. Quando Barroso volta para sua casa, extremamente incomodado com a postura de
Borges (“A mulher faz d’elle o que quer.”272), ele discute com a mulher. O assunto, a
princípio o casamento dos Borges, se desdobra em uma discussão sobre as relações de
poder entre marido e mulher. A cena se precipita com o desmascaramento de Barroso e
de seu casamento:

- Uma mulherzinha como a d’elle é que você precisava para o ensinar,


seu unhas de fome! Não devia ser uma toleirona, como eu, que levo
aqui a matar-me, às vezes até fazendo o despejo! e, quando quero ir a
qualquer divertimento, quando appeteço um theatro, um passeio, uma

270
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 30/12/1883. p. 5. ed. 364.
271
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 29/12/1883. p. 1. ed. 363.
272
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 31/12/1883. p. 1. ed. 365.

118
visita, ou quando preciso de um vestidinho mais assim ou de um
chapeu mais assado, você nunca está pela cousa!
- Porque não sou doudo! respondeu o Barroso com máu modo. –
Estaria bem servido se te fosse a fazer todas as vontades! – a estas
horas não teria onde cahir morto!
[...]
Empurrando-a: - Vai-te, peste! Vocês são todas a mesma sucia! E
ainda ha quem dê os homens como culpados das patifarias das
mulheres!...273
- E são! respondeu Sabina. E são! E fazem ellas muito bem! Era do
que você precisava para não ser bruto!
[...]
- Não mates a criança! rugiu o Barroso, puxando a mulher pelo braço
e fazendo-a cahir por terra. Ella não tem culpa que a accordasses tu
com os teus berros!
- Dou! posso dar! retorquiu Sabina, esganiçando-se. É meu filho! não
é seu!
- Não é meu, cachorra?!
[...]
Algumas horas depois dormiam profundamente nos braços um do
outro.
- Vivemos como Deus com os anjos!... balbuciava elle sonhando a
conversa que tivera com o Borges no Passeio Publico. – Meiguice
alli!... Mas tambem podes vêr que maneira a trato!...
Ah! hypocritas! hypocritas!274

O casamento de Barroso serve como um contraponto, em que o marido põe


a mulher a seu gosto. Não é um contraponto positivo, no entanto. Esse modelo de
casamento também não é apontado, dentro do romance, como correto ou feliz. A
resposta à questão do capítulo, “qual dos dous maridos será mais infeliz?” parece certa:
Barroso.
Esse outro exemplo deveria ser apresentado como positivo, se a questão
fosse pura e simplesmente “punir” os modos de Filomena, mas não é. Barroso é
hipócrita, violento, com um casamento tão ou mais problemático que o do amigo – e,
claro, menos feliz. Ao contrário do que possa parecer para o leitor, o casamento de
Filomena e Borges aparece como “feliz” dentro do romance.

Ainda na primeira parte do romance, há outra união discutida, a de Cecília e


Roberto. Novos criados contratados para satisfazer os caprichos de Filomena, que
implicara com os antigos, eles se envolvem no plano de Borges para invadir o quarto

273
Justamente o que fez Aluísio Azevedo na carta à Gazeta sobre Filomena Borges. V. Capítulo 1.
274
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 31/12/1883. p. 1. ed. 365.

119
trancado de sua mulher. Cecília aceita ajudá-lo quando o patrão promete arranjar-lhe o
casamento com Roberto. Os planos vão mal, os criados são demitidos e o patrão deixa
Cecília desamparada.275 A diferença de classe fica evidente; para classes diferentes,
possibilidades de casamento diferentes. Também há certo moralismo, que se vai
revelando aos poucos. Cecília se entregou ao parceiro antes do casamento, ficando
entregue às vontades dele. O sexo é mesmo instrumento de poder neste romance:

- Não tencionas desembuchar, creatura?!


- É que se dou com a lingua nos dentes, vai tudo por agua a baixo!...
- Ora, deixa-te de tolices e conta lá o que houve! Bem sabes que entre
nós não ha segredos!
- E antes houvesse! Mal fiz eu em permittir umas certas cousas antes
do casamento!... Se não fôsse isso, você com certeza não me trataria
d’esse modo, e já me teria levado à igreja!
O Roberto sacudiu os hombros
- É! fez Cecilia, muito queixosa. Até aqui toda a difficuldade era o
enxoval; venho dizer-lhe que o patrão se encarrega d’isso, e você, em
logar de despachar-se por uma vez, ainda me dá muchochos e põe-se a
desconfiar de mim! Tola fui eu em ir atraz de cantigas! Diabo do
traste!
- Deixa-se tu de cantigas, e vamos ao que interessa!... Despeja pr’ahi o
que houve!
- Não despejo nada! Você não merece cousa nenhuma, é um velhaco;
emquanto eu me fiz tesa, não lhe faltaram maneiras; agora é isto que
se vê!...
E começou a chorar:
- É preciso não possuir um bocado de consciencia para enganar d’esta
fórma uma pobre rapariga, que nunca teve pecha que lhe botassem.
- Guarda as lamurias para outra occasião, filha!
- Pois, se é como eu digo!... Ingrato! Se eu não o quizesse tanto, não
estava agora aqui me arreliando!
- Deixa-te de asneiras... fez o criado, passando-lhe por
condescendencia a mão na cabeça. Não te pódes queixar – eu tambem
gosto de ti!
- Sim, sim; mas o casamento não se ata, nem desata! dizia ella
soluçando.
- Ora! E o que teriamos lucrado nós em nos termos já casado?...
- O que teriamos lucrado?! Olha o disparate! Você talvez não lucrasse
nada, mas eu?! Penso nisso todos os dias! Até estou mais magra!
Lembrar-me só de que você é muito capaz de deixar-me n’este
estado... dá-me venetas de acabar com a vida!
- Não digas asneiras, toleirona! O que tem de ser teu, às mãos te
chegará!
E depois de beijal-a, sem carinho:

275
Borges, que até então não apresentava traços viciosos, é bastante impiedoso nas demissões.

120
- Mas vamos lá. Conta o que houve entre vocês, tu e o basbaque do
patrão!...276

Qual a lição da cena para as leitoras? Não se entregar antes do casamento.


Os diálogos citados acima permitem recuperar a opinião de Nogueira da Silva:
Filomena Borges é um romance bastante teatral.

Além das contribuições de comparar o romance aos folhetins franceses que


circulavam na época, há outro aspecto de nosso trabalho que auxilia na compreensão do
romance de Aluísio Azevedo, o tema da mulher e de sua educação.
Mérian defende que o escritor maranhense utiliza, nos folhetins, os mesmos
meios de explicação e determinação que nos romances naturalistas: “À primeira vista,
Aluísio Azevedo utilizou em seus romances-folhetim sistemas de explicação idênticos
àqueles empregados nos romances naturalistas: o jogo dos determinismos que devem
orientar o destino dos heróis.”277
Lembremos o grande debate sobre Filomena Borges na imprensa antes da
publicação do romance. Aquelas discussões criam, entre os leitores coetâneos,
expectativas e opiniões sobre a personagem, que ganhará finalmente uma “compilação”
no romance de Aluísio Azevedo. Na carta em que anunciava a escrita do romance,
Azevedo já antecipava as explicações que daria para o comportamento de sua
personagem excêntrica, a educação. Isso é muito importante para o romance e para a
obra de Azevedo como um todo. A educação de Filomena fá-la ser como é; a “educação
sentimental” de João Borges fá-lo deixar de ser como era. A megera domada, aqui
invertida, marca a determinação e a alteração das pessoas pelo esforço das outras. 278
O crítico francês já havia destacado a importância da educação nos folhetins
do escritor maranhense:

É, porém, no nível da influência da educação que encontramos a


argumentação mais sistemática. [a influência do meio também estaria
presente, mas seria menor] Todos os heróis, homens ou mulheres, têm
o caráter cunhado pela educação que receberam. A educação
romântica exacerba as tendências naturais do temperamento das

276
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 23/12/1883. p. 3. ed. 357.
277
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 441.
278
Ribeiro identifica, nos diálogos entre D. Clementina e Filomena, “a possibilidade de modificação de
uma pessoa pelo trabalho, consciente e sistemático, de outra”. RIBEIRO, Luís Filipe. op. cit. p. 13.

121
personagens. Ambrosina (Memórias de um condenado), Olímpia
(Mistérios da Tijuca) e Filomena Borges foram educadas da mesma
forma, leram os mesmos escritores românticos, sonharam com as
mesmas aventuras. Aluísio insiste longamente sobre as consequências
dessa educação, que não prepara as mulheres para assumirem os
papéis de esposas e mães que ele via para seus personagens
femininos.279

O trecho é revelador. Primeiro, reforça que Azevedo não seria, hoje,


considerado feminista, pois defendia a preparação das mulheres como esposas e mães,
não como livres. Segundo, demonstra que a educação das mulheres é um tema comum
em sua obra. E, apesar da recorrência do tema, ele se desdobra de diferentes maneiras
nas narrativas: dependendo do temperamento das personagens, a educação romântica
ocasiona efeitos diferentes. Em Ambrosina, resultará em libertinagem e
homossexualidade; em Olímpia, levará à histeria; em Filomena, destacará a ambição e a
megalomania.280
Dialogando com as referências midiáticas que tentaram apurar ou criar
quem seria a misteriosa Filomena Borges,281 o autor incorporou em sua narrativa
aqueles elementos, discutidos no primeiro capítulo desta dissertação. Para os leitores da
época, principalmente aqueles que assinavam ou acompanhavam a Gazeta de Noticias
diariamente, os sentidos da personagem eram múltiplos.
Da Filomena Borges dos periódicos, a Filomena Borges do romance
manteve a excentricidade e a sedução. Os motivos da sedução não estavam aparentes
naqueles trechos periódicos, resumindo-se a uma excentricidade geral. Eles seriam
sistematizados no romance de Aluísio Azevedo, articulados pela educação pragmática -
Filomena seduz para transformar ou para não se deixar dominar. Paralelamente, sua
excentricidade, aliada à educação romântica, constituirá o motor da narrativa. Essa
característica ganha, então, nova acepção, mais prática e política.
O diálogo com a imprensa vai mais longe. Mérian identifica, no romance de
Azevedo, relações com a discussão mais ampla que se fazia sobre a educação:

Aluísio Azevedo não se limitou a questionar a educação e as leituras


das jovens burguesas, ele denunciou o conservadorismo e o atraso da
instrução pública no Brasil. O tema da educação era um dos mais
279
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 444.
280
Ibidem. p. 444-445.
281
V. Capítulo 1.

122
polêmicos no começo dos anos 1880. Os mais progressistas queriam
obter do governo a instauração de um sistema de educação inspirado
pelo que se fazia na França. A inspiração vinha de Jules Ferry e
Ferdinand Buisson, os apóstolos da educação laica, obrigatória e
gratuita. Os primeiros decretos nesse sentido foram assinados pelo
imperador em 1879, mas o grande debate só começou em 1882. Os
pareceres do jovem deputado da Bahia, Rui Barbosa, provocaram
debates apaixonados no Parlamento. Para ele como para o imperador,
a questão do ensino era um problema político tão primordial como a
abolição da escravidão. Rui Barbosa considerava que “a ignorância
popular, mãe da servilidade e da miséria”, era a responsável principal
das desgraças do país. Ele chamava os parlamentares a assumir a
responsabilidade de instaurar no país um “grande serviço de defesa
nacional contra a ignorância.”282

O desejo de modernização da educação certamente era compartilhado por


Aluísio Azevedo, que incluiu em O Coruja a luta de André pela reforma educacional.283
Ele se insere nesse debate, caro à sua época, através dos romances. Sua intervenção se
concretiza por intermédio da explicação sistemática sobre a função e o efeito da
educação, e sobre a atuação desta no comportamento humano. Essa intenção já havia
sido anunciada no texto anterior ao primeiro folhetim, na Gazeta de Noticias:

Mas será ella porventura a maior culpada de tudo isso, será ella a
unica responsavel pelo mal que fez, e pelas fortunas que destruiu?!
Não caberá alguma parte d’essa culpa à nossa sociedade, aos nossos
costumes, à nossa educação, e finalmente ao triste meio onde cresceu
e palpitou essa desventurada e formosa creatura?!
As mulheres são fatalmente aquillo que os homens decretam que ellas
sejam.284
Philomena Borges é um produto legitimo dos vicios e da covardia de
seus pais.
Se não a educassem no falso luxo; se não lhe ensinassem todas as
miserias de uma pobreza sem coragem e sem dignidade; se não a
vendessem ao primeiro noivo rico e brutal que a desejou; Philomena
Borges seria talvez n’este instante o melhor modelo das mãis de
família.285

282
Ibidem. p. 458.
283
Sobre modernização e moralização em Aluísio Azevedo, ver Mérian. Ibidem. p. 460-2.
284
Esta opinião será debatida pelas personagens do romance, Barroso e Sabina, durante sua violenta
discussão: “- Vai-te, peste! Vocês são todas a mesma sucia! E ainda ha quem dê os homens como
culpados das patifarias das mulheres!... - E são! respondeu Sabina. E são! E fazem ellas muito bem! Era
do que você precisava para não ser bruto!”. Gazeta de Noticias, 31/12/1883. p. 1. ed. 365. A opinião do
autor e da personagem feminina contrasta de maneira interessante com a seguinte passagem de Mlle.
Giraud, na voz de Paule: “Le plus souvent, j'en suis persuadée, ce ne sont pas les hommes qui perdent les
femmes; ce sont les femmes qui se perdent entre elles.” BELOT, Adolphe. op. cit. p. 242.
285
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/10/1883. p. 1. ed. 284.

123
Mãe de família que ela nunca chegará a ser, ao contrário de Sabina. O que a
impede? Sua educação. É esta educação que faz crescer seu temperamento sonhador e
excêntrico, mas também é ela que permite que Filomena, de novo ao contrário de
Sabina, não seja criada de seu marido, uma mulher-escrava.

Tabela 4 - primeira parte do romance – Casamento


Folhetim Capítulo(s) Título(s) Data
1 I Flores de Laranjeira 18/12/1883
2 II O ferrolho 19/12/1883
3 II, III O ferrolho (cont.), Começam as provações 20/12/1883
4 III Começam as provações (cont.) 21/12/1883
5 III, IV Começam as provações (cont.), 22/12/1883
Veremos quem vence
6 IV Veremos quem vence (cont.) 23/12/1883
7 V Luta aberta 24/12/1883

Na organização do romance, há um pequeno clímax no capítulo V, “Luta


aberta”, quando o marido tenta, sem sucesso, invadir o quarto da esposa. Esta ação
desencadeará a primeira virada na narrativa, fazendo o casal partir em viagem para a
Europa.
Apesar da relevância do tema do casamento, este se concentra quase que
totalmente, como um problema, nesta primeira parte. Nos capítulos seguintes, pesará,
sobretudo, o esforço sonhador de Filomena tentando transformar o marido, que será
bem-sucedido, e seu desejo de aventuras e sensações. O casamento entre os dois, uma
vez consolidado, é considerado como fato dado. A partir daí resta a Filomena tentar
transformar o marido que já tem. Neste sentido, o romance é conservador, já que o
casamento nunca chega a ser questionado enquanto instituição. Isto serve como
argumento contra a inversão.
Qual seria a função da discussão matrimonial dentro deste romance?
Possivelmente, o desejo do autor de moralizar o casamento no Brasil imperial. Neste
sentido, não se trata de acabar com o casamento ou com a dominação da mulher em
sentido amplo. Por isso, nos termos de hoje, ele não poderia ser considerado feminista
ou progressista.
Deve-se notar que os romances franceses citados são todos centrados
essencialmente no casamento. É este o problema central e principal. M. Dupont tem

124
como problema o casamento forçado de Eugénie com Dupont; o problema é resolvido
com a morte de Dupont e o casamento entre Eugénie e Adolphe. Mlle. Giraud tem
como problema o casamento “não concretizado” de Adrien e Paule; tenta-se resolvê-lo
com a “correção” da homossexualidade. Ao final, tem-se o arrependimento da mocinha
e uma tragédia. Em Filomena Borges, este problema se concentra na primeira parte,
nestes cinco primeiros capítulos, para, em seguida, ser substituído por outros, que
veremos a seguir.
O fio narrativo, portanto, é a oposição entre os temperamentos antagônicos
postos em contato através de um casamento arranjado. Para Fanini, uma das linhas
narrativas do romance seria a busca por celebridade;286 defenderemos e apropriaremos,
alternativamente, a busca por sensações.

3.3 Aventuras e sensações

O casamento foi o grande problema da primeira parte do romance,


concentrada nos cinco primeiros capítulos. Depois do casamento forçado, resta a
Filomena tentar alterar o marido, ação que ela coloca em curso no capítulo III, cujo
título remete justamente ao início do processo: “Começam as provações”. A educação
sentimental de João Borges, no entanto, não acontece sem resistência. O marido luta de
volta, tentando fazer valer seu direito. Ele usa de artimanhas para invadir o quarto da
esposa em dois capítulos cujos nomes também são sugestivos: “Veremos quem vence”
(VI) e “Luta aberta” (V). Quando seu plano de tomar a esposa à força falha, Borges,
apesar de reconhecer seu direito (“não estou cometendo um crime”), passa a colaborar
mais abertamente com Filomena.
A virada para a segunda parte do romance se dá com o clímax da violência
do marido. Filomena não se submete à violência, e aquele primeiro tipo de narrativa vai
por água abaixo. O tom se altera sensivelmente. Saímos do domínio dos romances de
casamento franceses e entramos no domínio dos romances de aventura.
Iniciam-se, então, as tentativas de Borges de se adequar aos gostos da
mulher. Deve-se notar, aqui, que não há só exercício de poder de Filomena sobre
Borges; há participação ativa deste na sua própria mudança. As provações do marido,
que já haviam se iniciado no Rio, passarão a se intensificar na primeira viagem do casal.

286
FANINI, Angela. op. cit. p. 134.

125
Eles devem ir a Portugal para receber o título que Borges encomendara, a pedido da
esposa, e estendem o passeio por outras partes da Europa. Esta primeira viagem é a
solução para o primeiro problema intransponível do romance: as vias legais e as vias
violentas não servirão para Borges, então resta a ele jogar conforme as regras da esposa.
A viagem os leva para sítios marcantes dos ideais de Filomena, a Itália de
Nápoles, Veneza e Gênova. Até chegarem a este objetivo, eles passam pela França,
Suíça, Mônaco, Nice, em uma narrativa muito rápida. Ao chegar a Nápoles, a esposa
sonhadora descobre que nada era como em sua imaginação, uma quebra total de
expectativa:

Não obstante, a romantica senhora soffreu uma triste decepção ao


saltar na desejada cidade. Não era o seu Napoles o que tinha defronte
dos olhos, não o reconhecia; faltava-lhe fosse o que fosse – um certo
pittoresco, um certo encanto, que ella, por mais que procurasse, não
encontrava alli.
- Não! Definitivamente não era aquelle o Napoles de seus sonhos!
O que ella via defronte de si era uma população maltrapilha e
desordeira, que a acotovelava grosseiramente, obrigando-a a segurar-
se ao braço do marido, o qual, por mais de uma vez, esteve a cahir
com os encontrões que recebia de todos os lados.
- Safa! Gritou o Borges, tonto – Assim nem a praia do peixe!
Sobre o cáes e nas longas ruas agitadas, que vão a Chiaja, a Santa
Luzia, à rua de Toledo, ao forte de Sant’Elmo – o mesmo formigar, o
mesmo borborinho impertinente e grosseiro.
E que confusão de pescadores, camponeses, frades, mercadores,
garotos nús e lazarones de todos os feitios e de todas as cores.
- Isto parece uma cidade de doudos! Observou Philomena ao marido –
isto nunca foi Napoles!
E aquella multidão irrequieta parecia justamente um bando enorme de
doudos, que iam e vinham em vertigens, empurrando-se uns aos
outros, mettendo-se pelas pernas dos estrangeiros, invadindo-lhes a
bolsa e as algibeiras com olhares de ganancia, e, às vezes, com os
dedos. Vendedores d’agua, de fructas e de peixe, passabem a gritar
como perdidos; burros carregados de legume seguiam a trote,
chocalhando guisos barulhentos; transeuntes de todos os matizes
sociaes, conversavam e gesticulavam agitadamente. E carruagens a
galope cortam as ruas em varias direcções, n’um estardalhaço febril de
matracas, ferragens e campainhas. E tudo, até as casas, as arvores e as
pedras da rua, parece gritar, mover-se, espolinhar-se n’um frenezi
estrepitoso e sem tregoas.
Philomena declarou que estava roubada:
- Qual! Pois aquillo era lá Napoles possivel! Bem longe estava de ser
o Napoles que ella queria – o seu rico Napoles! – Aquelle era um
Napoles de segunda mão! Um Napoles pulha! – Antes não tivesse lá
ido! Mil vezes antes!

126
Que lhe mostrassem as belas scenas napolitanas, que ella vira em
pequena nas lytographias coloridas! Que lhe apontassem os bem
conhecidos e muito pittorescos pescadores napolitanos, com as suas
calezones, a perna de fóra, a sua facha e o seu gorro vermelho, o seu
amoleto ao pescoço.287

Esta “Primeira desilusão”, título do capítulo VI, ocasiona uma alteração na


alma de Filomena. Ela descobre que deve preparar suas próprias aventuras, o que fará
deste trecho até o final do romance:

E um grande vacuo abriu-se nas suas aspirações; um de seus sonhos


acabava de esphacelar-se como uma nuvem dissolvida pelo vento. E
Philomena, desde que se convenceu de que, se quizesse a comoção e a
aventura, tinha de preparal-as por suas próprias mãos, cahiu n’um
estado sombrio de atonia e desanimo.288

Com o apoio do marido, este estado deixará de ser sombrio e passará a ser o
motor do restante do romance. Somos levados, então, a partir dessa consciência, para
dentro de um folhetim rocambolesco. O autor, ao incutir na personagem essa percepção,
arma a sequência do romance e prepara a paródia e a piada, presentes nos próximos
acontecimentos da viagem. O primeiro deles é um clichê dos folhetins e dos romances
de sensação, o rapto. O próprio recurso de intitular um capítulo com esta referência é
um chamariz importante (o capítulo VII se chama “O rapto”). No entanto, um leitor
habituado aos raptos de mocinhas mais comuns poderia sentir um estranhamento ao ler
a seguinte passagem:

Chegado o momento, armou os seus homens; [o estalajadeiro] vestiu-


se de cocheiro (profissão que exercera por muito tempo); muniu-se de
um par de tiros; preparou a bagagem do raptor pela maneira que mais
convinha à conjuncutura, isto é, reduzindo-a o melhor que pôde, e
metteu-se dentro de um coche apropriado, do qual tomaria a boléa; e,
depois de erguer com os outros varios brindes ao Cantonalismo, à
Hespanha, à Liberdade; e depois de embolsados os protestos de
gratidão, que o Borges lhes apresentava na fórma de moedinhas de
ouro, puzeram-se todos a caminho da casa do official, dispostos a
derramar a ultima gota de sangue em prol da gloriosa empresa que
commettiam.
E quem os visse, tão formidaveis nos seus capotes de conspiradores;
os calones convictamente puxados sobre a orelha; os gestos

287
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 25/12/1883. p. 1. ed. 359.
288
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 25/12/1883. p. 1. ed. 359.

127
ameaçadores e trágicos; não seria capaz de supor que se tratava de
raptar uma donzella, mais que ninguém senhora de seu nariz.
Philomena, ébria de prazer com a idéa de ser furtada, palpitante de
comoção, fez a trouxa em segredo e retirou-se ao quarto, pretextando
incommodos para dissimular os seus projectos de fuga.
À meia noite chegava o terrivel grupo dos conspiradores,
acompanhando o coche, que devia conduzir o precioso fructo
d’aquella empresa delicadissima. Borges separou-se de seus
companheiros, mudo e sombrio. E, com o passo firme, a mão armada,
penetrou resolutamente no jardim da casa em que estava a mulher.
Não foi difficil, porque felizmente, o portão se achava apenas
encostado.
Ao chegar debaixo de certa janella, tirou da algibeira um pequeno
assobio de metal e apitou devagarinho. A janella abriu-se logo, e, ao
doce clarão da lua, apareceu o vulto romantico de Philomena, toda de
branco, os cabelos soltos, os braços nús.289

O segmento do rapto não será tão fácil, permitindo à cena certa emoção.
Apesar da sensação, destaca-se o caráter cômico e irônico. A forma como é conduzida a
descrição faz piada com a narrativa folhetinesca e sensacional. Do mesmo modo, o
autor faz pilhéria da repercussão dos acontecimentos nos jornais após a primeira
tentativa frustrada de rapto por Borges:

O facto ganhou logo circulação no bairro, e, à falta de esclarecimentos


verdadeiros, inventou-se toda a sorte de legendas. Uns juravam que
Philomena não era mulher, e sim um grande sonso, que namoriscava a
esposa do official e usara d’aquelle expediente para ir ter com ella;
outros afiançavam que a tal estrangeira era pura e simplesmente uma
cocote, sequiosa por chamar sobre si a attenção do publico; outros lhe
attribuiam intenções politicas. Este notara que ella trazia no corpo as
mais belas joias do mundo, que lhe vira nas orelhas e no collo
brilhantes de um tamanho fabuloso; aquelle protestava que nunca
ouvira uma voz tão estranha e todavia tão melodiosa como a d’ella;
est’outro dava a sua palavra de honra em como a tal sujeitinha era de
uma formosura e de uma graça, que nem as virgenes de Murillo.
Porém a opinião mais seguida rezava que a encantadora e mysteriosa
estrangeira era nada menos do que a fila de um rico negociante
portuguez, de cuja companhia desertara por não querer casar com um
fidalgo velho e debochado que o pai lhe impunha. Pelo menos era esta
a versão que mais se compadecia com o que noticiavam a esse
respeito os jornaes do dia seguinte.
“GRANDE ATTENTADO CRIMINAL, dizia um. – A noche a las
doce poco mas o menos, un malhechor de los muchos que infelizmente
infectam esta hermosa ciudad, intentó introducirse por la ventana de
uma de nuestras mas acreditadas fondas, com el fin perverso de
raptar uma joven estrangera que alli residia esperando sua anciano

289
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 26/12/1883. p. 1. ed. 360.

128
padre, hidalgo portuguez, cuyo nombre nos abstenemos de publicar
por motivos faciles de compreender.
La bella nina, que casi fue victima de tanta atrocidad, hallase, a sua
ruego, depositada em casa del oficial S. D. José Muñoz, hasta que el
competente juiz decida de sua destino.
Debido al delicado estado de natural sobre-excitacion nerviosa, la
señorita aludida aun no ho podido explicar los pormenores del crimen
del cual fue objeto.
El malvado desapareció, pero la policia emplea todos los médios para
alcarzarlo y cremos que sus esfuersos no seran defraudados.
A medida que nos lleguem nuevos pormenores los transmitiremos a
nuestros lectores.”
Outros jornaes iam mais longe. Um chegou a fazer engenhosas
considerações sobre o facto estranho de se achar “desacompanhada
n’um hotel já por si suspeito (o dono do hotel era federalista e o jornal
apoiava o governo) uma senhora tão distincta, tão bem tratada e com
todas as apparencias de donzella! Não estaria ahi a ponta de algum
importante enigma politico?... Em épocas de revolução é preciso
desconfiar de tudo e de todos!...”
Estas noticias excitaram a curiosidade geral. Não faltou quem deixasse
de enxergar no mysterioso homem da escada um malhechor ordinario,
como diziam algumas folhas, e attribruir-lhe fins de grande alcance
politico.290

Utilizando-se desse recurso, Aluísio Azevedo destaca o caráter artificial e


falso não só desse tipo de história sensacional (como feito na narrativa do rapto), mas
também do próprio romance que ele então publicava nas páginas da Gazeta. A grande
publicidade de Filomena Borges forjou opiniões diversas sobre quem seria a misteriosa
mulher, que era apresentada como real. Afinal, aquela mulher virou romance, e dentro
deste ela recebeu novas e diversas apreciações. Há um ponto em comum na discussão
que é bastante relevante: a preocupação com o corpo e com a moral desta mulher. Seria
ela uma cocotte interessada em atenção? O que faria uma senhora distinta
desacompanhada num hotel? A preocupação repete a discussão recuperada no primeiro
capítulo deste trabalho, e vai tornar a aparecer no correr do romance.
O réclame volta a ser usado como recurso narrativo nos capítulos XVII e
XVIII, articulando o ar de realismo, a paródia e o diálogo com jornal:

O botocudo intrigava muita gente: - Seria crivel que uma mulher, tão
formosa e tão lucida, tivesse por marido aquella besta do Alto
Amazonas?!... O monstro seria de facto seu amante, ou ella o
conservaria como um simples reclame?!...

290
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 26/12/1883. p. 1. ed. 360.

129
E os commentarios reproduziam-se entre os frequentadores do Cirque
d’hiver à proporção que Philomena ia se tornando conhecida e sendo
cada vez mais desejada e menos condescendente.
[...]
Entretanto o nome da original e formosa brazileira derramava-se por
Pariz, invadindo as redacções das folhas, os salões, os atteliers, os
boulevards, os cafés, as corridas, os foyers de todos os theatros, as
mansardas das tristes costureiras e o quinto andar dos magros
estudantes.
Attribuiram-lhe anecdotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe
canções e triolets, publicaram-lhe a biographia em pequenas revistas
theatraes.
E o mundo inteiro a viu, a admirou, em caricaturas, em fotografias, em
chrommos, em caixinhas de phosphoros, em bustos de gesso, em
nervosos grevins de terre cuite. E por toda a parte appareceram
chapéus, fazendas, penteados à PHILOMENA BORGES. Seu nome
serviu de titulo a casas de negocio; suas toillettes serviram de modelo;
suas phrases foram repetidas, publicadas, decoradas, traduzidas em
todas as linguas.
Quando ella terminou a longa excursão que fez pelo norte da Europa,
possuia em dinheiro e em joias mais do que o necessario para viver
tranquillamente o resto de sua vida.291

Discussão semelhante à do folhetim seguinte:

Philomena não se enganara quanto à previsão do enthusiasmo que


havia de causar no Rio de Janeiro. Bastou constar que vinha ahi a
famosa cancionista, tão apreciada de Pariz, para que toda a cidade se
mostrasse tomada de uma loucura instantanea.
E desde então até a sua chegada foi ella a ordem do dia; não se fallava
n’outra cousa. Esperavam-n’a contando os minutos: um sussurro
unisono de elogios inhalava da opinião publica, sem que ninguem
pudesse explicar a causa de semelhante alacridade.
Afinal chegou.
Que frenesi! Todos queriam ser o primeiro a vel-a. O caes Pharoux
parecia diminuir sob a multidão que o coalhava. Viam-se enormes
grupos, esparsos, por aqui e por alli, galgando a muralha, invadindo as
lanchas e os escaleres. Nas ruas faziam-se commentarios a respeito da
baroneza de Itassú; os jornaes pregavam na parede noticias a respeito
d’ella; vendia-se o seu retrato em todas as proporções; inventavam-se
biografias.
Uns affirmavam que Philomena Borges era um modelo de virtudes;
outros que era uma grande velhaca. Este jurava que a vira já muito por
baixo, n’um hotel; aquelle dizia que ella sempre fora riquíssima, e que
só trabalhava em publico por amor à arte. Aqui afiançavam havel-a
visto em tal época, dansar uma habanera em casa de tal figurão; logo
alli, negavam: - Que não! que essa Philomena era outra, fallecida
havia já cousa de cinco annos, e que esta, a nova, a do theatro, não
tinha absolutamente nada de commum com a outra, com a tal

291
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 06/01/1884. p. 1. ed. 6.

130
Philomena, cujos bailes, de tão luxuosas e originaes, ainda se
conservavam na memoria de toda a gente!
E as discussões reproduziam-se, cada qual mais disparatada.292

Para além do diálogo com o próprio processo de publicidade do romance,


Aluísio Azevedo estabelece um debate com o métier dos jornais, ao apresentar a
divergência de opiniões e relacioná-la diretamente a interesses políticos. Deste modo, o
autor quase que antecipa a recepção que o romance teria na imprensa, dividida
principalmente por suas diretrizes políticas.
As passagens também evidenciam a porosidade entre o folhetim e o restante
do jornal. Os assuntos se repetem, dialogam, e a própria forma de escrever é muito
semelhante nos dois espaços. O jornal é matriz do romance, tanto no conteúdo como na
forma.

Depois das passagens extraordinárias pela Itália (desilusão) e Espanha


(sensação), a viagem do casal segue seu curso. Eles hospedam-se nas ruínas de um
castelo em Córdoba, onde acontece a primeira identificação entre Filomena e João
Borges, apesar da contrariedade com a qual o último vê sua situação: “Mas no fundo
sentia-se muito mal à vontade e extremamente contrariado. – Por que não havia sua
mulher de ser como as outras?...”293 (“Enfim”, capítulo VIII) Os caprichos de Filomena,
de fato, só se multiplicam e amplificam, levando-os a excursionar pelo Oriente e além:
Egito (onde ela se torna filósofa!), Babilônia (na qual só encontram o deserto, nenhum
vestígio de civilização antiga), Grécia, Índia, Arábia, África (estas passagens quase que
só enumeradas). Ao lembrar-se da Grécia, Filomena cobra:

- E, custasse o que custasse, ele havia de fazer um almoço no tesouro


de Atréus como fizera seu padrinho!...
- Que padrinho é esse? Perguntou o Borges.
- D. Pedro II, o nosso Imperador.
- Ah!...
Coitada! Mal então sabia ela a influência que o monarca estava
destinado a exercer na sua vida!...294

292
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 07/01/1884. p. 1. ed. 7.
293
AZEVEDO, Aluísio. Aluísio Azevedo: ficção completa em dois volumes. (Org. Orna Messer Levin).
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. v. 1. p. 1054. Pelo fato das edições n. 361 e 362 da Gazeta de
Noticias não estarem disponíveis nem na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, nem no Arquivo
Edgard Leuenroth da Unicamp, citamos as passagens correspondentes da obra completa.
294
Ibidem. p. 1059.

131
Se as passagens e os capítulos anteriores estabeleciam um diálogo com a
imprensa, muito evidente para os leitores da época, a viagem do casal pelo Oriente
estabelecerá um novo diálogo com as viagens do imperador. Mesmo se não houvesse
referência expressa ao padrinho, os leitores já teriam suficientes elementos para pensar
numa relação; com a declaração aberta da personagem, fica clara a intenção do autor.
O “almoço no tesouro de Atréus” havia acontecido de fato. Ele foi noticiado
pela Gazeta de Notícias de 6 de fevereiro de 1877: “Depois foi visitar o tesouro d’Atreu
onde foi servido o jantar. Esta refeição no meio d’aquella sombra mysteriosa, em um
edificio subterraneo que tem proximamente 40 seculos de existencia interessou
immenso o imperador.”295
O narrador aproveita a passagem para chamar atenção para a futura aparição
de D. Pedro II no romance. Como não costuma fazer esse tipo de intervenção, o trecho
fica ainda mais destacado. Essas referências a D. Pedro II seriam muito evidentes para
os leitores da época.
As viagens do imperador eram um tema muito em voga nas décadas de 1870
e 1880, período em que ele realizou três grandes viagens para o exterior. A primeira, em
1871, num contexto complicado de intensificação da crítica à escravidão e à monarquia,
levou D. Pedro II à Europa e ao Oriente Médio, motivando piadas dos portugueses Eça
de Queirós e Rafael Bordalo Pinheiro. Em 1876, sob pretexto de doença da imperatriz,
D. Pedro II seguiu para sua segunda viagem, agora incluindo também destinos
americanos (Estados Unidos, Canadá). A primeira viagem durou dez meses; a segunda,
dezoito. Apesar do tempo prolongado das viagens e das sucessivas piadas que elas
inspiraram, o monarca manteve sua postura discreta e burguesa, de negar-se por vezes a

295
Gazeta de Noticias, 06/02/1877. p. 1. ed. 36. As fontes eram os jornais franceses, e os acontecimentos
teriam se dado no dia 25 de novembro. Ainda na mesma notícia, reportava-se: “Em seguida foi vêr o
museu de antiguidades pre-historicas, formado pelos resultados das escavações do doutor e admirou
principalmente uma enorme massa de representações de Juno com fórmas diversas. Foi depois a Argus e
a Napolis, voltou outra vez por Mycenas para tornar a vêr o museu e as escavações, e seguiu por Corintho
para Athenas.” A forma de descrever a viagem é muito semelhante à narrativa de Aluísio Azevedo.
Também é significativa a passagem do imperador por Nápoles no mesmo trecho, traçando outra relação
com Filomena Borges. O imperador estaria visitando as escavações do Dr. Schliemann. O interesse
arqueológico da heroína azevediana, despertado justamente neste período de sua viagem, aproxima a
afilhada ficcional do padrinho real.

132
um tratamento diferenciado, o que, segundo Lilia Schwarcz, auxiliava na construção da
sua imagem pública.296

Jean-Yves Mérian argumenta que as viagens de Filomena seriam “fruto da


imaginação” do autor, pura e simplesmente:

Em Filomena Borges, Aluísio Azevedo conduz em dois momentos sua


heroína através das loucas aventuras na Europa e no Oriente Médio. A
vida agitada na Espanha, na Itália e na França, que se estende durante
quase dez anos, é puro fruto da imaginação do romancista. Poderia ter
inventado outras aventuras em função das necessidades do jornal onde
foi publicado o romance. No entanto, descobriremos que a Europa não
representava apenas o cenário das aventuras de uma heroína
megalomaníaca. Para Aluísio Azevedo foi uma ocasião para dar sua
opinião sobre os estereotipados romances-folhetins europeus e
desmistificar, aos olhos de suas leitoras, Paris, Nápoles e Andaluzia...
esses lugares tão idealizados pela imprensa da época.297

O pesquisador francês está preocupado, na passagem, em defender que o


ponto comum entre os folhetins de Azevedo é o mundo burguês, não o exotismo. Ainda
assim, não nos parece adequada a afirmação. A atuação de Azevedo como caricaturista
provará que as viagens não são provenientes simplesmente de sua imaginação. Na
caricatura a seguir, o maranhense, que ainda não havia se tornado romancista, fez uma
paródia das “aventuras do Barão de Munckausen” relacionando-as às viagens do
imperador:

Figura 42: “As aventuras do Barão de Munckausen por Aluizio Azevedo”

296
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2ª ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 1998.
297
MÉRIAN, Jean-Yves. p. 433-4.

133
Aluísio Azevedo, O mequetrefe, 06/07/1877. p. 2. ed. 105.

Os primeiros quadros mostram um imperador enfastiado e sonhador:

[1] O Barão é un petit bon homme, chic, terno, sabe calçar um par de
luvas e envergar uma casaca
[2] O Barão começou de sentir o fastio dos homens que não têm o que
fazer, uns tedios ideais que só se curão com uma boa viagem.
[3] A imaginação do senhor Barão era já um vulcão: Noutes
hoffmannicas, dias à Theophile Gautier; só via fantasmas, diabos e
mulheres. Estava quasi doudo.
[4] Em delirio o nosso heroe lembrava certo heroe de certa lenda
hespanhola.
[5] Resolveu viajar para se distrahir, e saudoso despede-se da pátria,
abraça os amigos e chora!... Coitado!

134
Com Hoffmann e Gautier298 na cabeça e com delírios de Dom Quixote, esta
representação do imperador se assemelha muito à personagem Filomena Borges. Ao
contrário da heroína, no entanto, o monarca deve pensar no que dizer em sua viagem:

[6] Em caminho entra o Barão comsigo em serias meditacoes: Que


diabo hei-de eu contar nas terras que vou correr?
[7] Optima idéa!!! = Araras = Aquillo que os franceses chamão =
canards =
[8] Uma pequena desharmonia entre os dous viajantes ia pondo em
risco os preciosos dias do nosso Barão.

Na segunda linha dos quadrinhos, o imperador encontra-se nos Estados


Unidos, destino marcante de sua segunda viagem real, partindo rapidamente para a
Inglaterra após uma tradução mal sucedida do hino americano:

[9] Ei-lo nos Estados-Unidos, cercado de um bello auditorio, que se


diverte a custo da scyencia do Barão, que prova nao ser Belem do Pará
a patria de Christo
[10] O Barão ouviu um bello hymno nos Estados-Unidos.
[11] E quiz traduzil-o.... Forte lastima! E maior assunda.
[12] Tão grande que obrigou o pobre Barão a escafeder-se o mais
depressa possivel para
[13] Inglaterra, onde, curado do susto, entesou-se tanto que se podia
confundir com o homem mais teso de que lemos noticia.
[14] E com que gosto e eloquencia fasia, pouco tempo depois o nosso
Barão, preleccões em inglez?
[15] E o chic com que fallava o mais parisiense francez com os
cocheiros? Seria só para mostrar-se?
[16] Coitado! Os habitos ingleses são muito contagiosos....
[17] E o Barão gostou tanto da Inglaterra que chegou a sacrificar as
suas virgens e preciosas barbas.

As piadas se dão em torno da fluência do imperador em várias línguas e da


sua erudição, muito questionadas. Na linha seguinte, as desventuras na Inglaterra levam
o monarca para a França nas costas de um porco alado (parece cada vez mais difícil
acreditar que é a viagem de Filomena Borges que é fruto de pura imaginação):

[18] Finalmente o Barão já não era um homem, era um inglez!


[19] Amigo apaixonado da caça,
298
Aluísio Azevedo parodiaria Théophile Gautier em um de seus últimos romances, A mortalha de Alzira,
encomendado pela Gazeta de Noticias e publicado sob o pseudônimo Vitor Leal. LEVIN, Orna Messer.
Aluísio Azevedo: cadeira 4, ocupante 1(fundador). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; São
Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2013. p. 35-6.

135
[20] Porem um pouco infeliz!.. Do primeiro tiro morreu o cão, teve o
Barão medo de morrer do segundo e...
[21] Deixou-se de caçadas; pençou na ida para a bella França
[22] E foi. Atravessou o Pas de Callais nas costas de um porco alado.
Abençoado porco!
[23] Que o levou para junto das diaphanas dançarinas. Ah! parisienses
que poserão em dança os miolos do Barão. Está elle abismado,
fascinado, está mesmo pelo beiço.
[24] Já não é o mesmo Barão! Nada de barbas a ingleza! Venha o
bigodinho pintado e chic
[25] com que se possa entrar nos bailes carnavalescos e matar de
amores meio Pariz

A inaptidão do imperador não se resume aos discursos, mas se estende a


outras atividades aristocráticas, como a caça. Em seguida, é questionada aquela imagem
de homem sereno:

[26] Está um perfeito crevé! Quem o diria? Um homem tão serio e


bem comportado! Enfin! aborreceu-se e
[27] foge com uma linda criança, roubada por elle da casa dos paes. O
seductor vae com sua victima para
[28] Roma, cujas ruinas, cuja morte e decadencia em tudo apparecião
aos olhos do Barão como um negro espectro de remorso
[29] Por isso que continuou sua viagem sem se quer olhar para traz.
[30] E esqueceu o maldito phantasma ao calor sensual das sultanas:
Que vidão! Que sultão! E com a cara côr de café para maior illusão.
[31] Alem da mania da côr de café teve o Barão a de ser sabio quis ser
[32] astrólogo e... Oh! grandiosa idéa!!! o Barão pensa em ir a lua.
[33] Applica-se o systema = Julio Verni = O Barão foi a lua!

Há alusão ao descaso com o Brasil, o “maldito phantasma” da decadência


que ele encontrou em Roma e que aparece como “espectro de remorso”. A opinião de
abandono parece comum, já que D. Pedro II passava então por um segundo período
longo de viagem. Interessante que o lugar em que se nota a decadência é justamente a
mesma Itália onde Filomena encontrará sua primeira desilusão. Como a afilhada,
também o monarca tem mania de ser sábio. Na viagem pelo Oriente, Filomena se
interessou pela arqueologia e tornou-se filósofa.
Enfim, a mania astrológica do imperador resulta na sua viagem à Lua,
inspirada em Julio Verne:

136
[34] Onde tomarao-no pelo esperado messias. Pobre Barão! viu-se em
um cortado! A iducação da lua não é das melhores e o Barão soffreu
tudo
[35] Até obrigarão-no a uzar os costumes do paiz, e rasparam-lhe as
barbas criadas na Turquia, e lavaram-lhe a cara e vestiram-no de uma
especie de pierrot
[36] Para consolação encontrou, passeiando pela lua um seu amigo
velho
[37] O Barão engordou tanto na lua quem nem se mover podia.
Engordou até nos miolos!
[38] O seu bom amigo, condoendo-se daquelle estado de gordura,
soprou-o dentro de uma bolha de sabão.
[39] E o Barão no elher [ether?] criou raios e revolucionou o mundo
planelario [planetário]
[40] Finalmente o gordo cahiu na rua do Ouvidor, com grande
pandega dos janotas. Viva o gordo pellado!!
[41] Criada nova barba, vestida nova casaca, o que se lucrou com a
viagem do Barão? Algumas arrolas de gordura de mª e uns contos de
rª de menos

Aluísio Azevedo assinou a caricatura com o nome completo, o que não era
comum; seus outros desenhos eram assinados somente com o primeiro nome, enquanto
os colegas caricaturistas geralmente usavam uma rubrica. É um ponto importante,
porque a publicação de Filomena Borges gerou, como vimos, reações exaltadas e até
uma possível censura por parte do próprio imperador. As caricaturas, por sua vez,
chegam a ser mais violentas e diretas, mas não suscitaram reações tão fortes. Será que
elas suscitavam reações, mas ainda não conseguimos encontra-las? Será que a tiragem e
circulação menor das folhas ilustradas resultavam num escândalo de menor alcance do
que o de algo publicado na grande Gazeta de Noticias? Será que a ausência da
referencia nominal a D. Pedro II isentaria a caricatura de culpa?
De todo modo, esta caricatura de Azevedo demonstra que as viagens em
Filomena Borges não são, para o autor, recurso sem propósito. Ele articula, deste modo,
a história de Filomena à crítica ao Império que ele vem formulando no romance. Ela
começa com uma das bases imperiais, o casamento patriarcal, e segue com viagens que
ao mesmo passo parodiam romances folhetinescos e sensacionais, muito em voga com o
público, e fazem referência crítica à figura do imperador. Apesar da relação entre
Filomena e seu padrinho, sugerida pela comparação entre a caricatura acima e o
romance, não defenderemos aqui a alegoria, porque não há formalização suficiente para
tanto. Por outro lado, a relação com as viagens do imperador politiza as aventuras de
Filomena.

137
Se pudermos confiar nas anedotas que contam que Aluísio Azevedo
desenhava seus romances antes de escrevê-los, seria tentador afirmar que ele desenhou a
segunda parte de Filomena Borges nesta caricatura, mas há outros elementos que não
podem ser desconsiderados na análise deste trecho do romance. Antes de concluir a
discussão da caricatura, é importante destacar que as descrições do imperador dentro do
romance se aproximarão de caricaturas:

A gorda figura do imperador, com o seu abdomen saliente, as suas


pernas finas, a testa abaulada, os olhos vulgares, causavam-lhe um
desgosto profundo. Não lhe podia perdoar aquelle aspecto de bom
velho, aquelle ar pacato, aquella proverbial honestidade, aquella
expressão moleirona de homem lymphatico e turgido pela vida
sedentaria. A voz branda e fanhosa, o ar gibboso de Sua Magestade
avultavam no espirito de Philomena como o mais grave attentado que
se pudesse oppor às magnificencias da corôa.299

O romance faz parte, assim, dos esforços por desestabilizar a imagem


pública do imperador; e, mais uma vez, utiliza-se da comicidade para alcançar seu
objetivo, apesar da dubiedade dos efeitos, conforme argumenta Schwarcz:

Graças à liberdade de imprensa o Brasil conheceu uma maneira


divertida de fazer críticas políticas sérias. Com efeito, o humor
cumpria um duplo papel. De um lado, mesmo que pela gozação, as
caricaturas geravam uma certa simpatia com relação a esse
governante, retratando a partir de suas fragilidades. Por outro lado,
exposto desse modo à chacota pública, D. Pedro e seu sistema como
que desmontavam.300

A descrição do imperador ao mesmo tempo desestabiliza sua imagem para o


leitor e para Filomena que, desiludida, deve fazer grande esforço para continuar vivendo
sua fantasia imperial.

Voltando da primeira viagem, o capítulo X, “De volta à pátria”, apresenta


um Borges transformado, inclusive rejeitando a própria pátria.301 O título de Barão de
Itassu é conquistado só aqui, o que impede a leitura de que Filomena exigiria o título

299
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 09/01/1884. p. 1. ed. 9.
300
SCHWARCZ, Lilia. op. cit. p. 424.
301
Fanini defende a infelicidade e o desgosto do casal pelo Brasil, visão que procuro negar. FANINI,
Angela. op. cit. A rejeição de Borges não se seguirá, revelando certa inconsistência no romance.

138
para se entregar ao marido. O baile de máscaras que serviria para comemorar a obtenção
do título acaba servindo para mostrar aos leitores a ruína do casal, condição que
impulsionará uma nova virada na narrativa. Entre a volta ao Brasil e a revelação da
ruína, Borges mostra outras resistências à sua transformação nos desabafos com
Barroso. Por outro lado, é justamente no capítulo em que a ruína é revelada que
Filomena mostra-se finalmente entregue ao marido.
Este trecho do romance se assemelha muito às narrativas de sensação,
estudadas por Alessandra El Far em Páginas de sensação. Gênero de maior visibilidade
no universo de livros destinados ao “povo”, essas narrativas sensacionais eram
constituídas por saídas do cotidiano, emoções imprevisíveis; o caráter sensacional,
quando não destacado no próprio título da obra, era evidenciado pelos editores.302 A
pesquisadora inclui o romance que ora discutimos nessa categoria:

Esse foi o caso de Filomena Borges (1884), de Aluísio Azevedo, que


decidiu trocar seu previsível cotidiano carioca pelos ‘verdadeiros
perigos’, pelas ‘fadigas dos desertos arenosos’ e das ‘florestas
virgens’, pelas ‘longas noites perdidas nos cumes silenciosos das
montanhas’, onde se poderia ouvir o ‘sibilar dos ventos e dos roncos
desesperados das feras que têm fome’.303

A fonte em que El Far se apoia é o Jornal do Commercio de 15 de outubro


de 1891, em que o romance era anunciado como sensacional. A pesquisadora explica a
incursão de Aluísio Azevedo neste ramo literário:

Em busca da preferência desses consumidores, vários literatos


brasileiros, adeptos do estilo elegante e detentores de uma fina
erudição, chegaram a publicar romances nomeados de ‘sensação’. Por
uma repercussão mais acalorada de suas obras, Aluísio Azevedo, por
exemplo, deu vida a Filomena Borges (1884), e, segundo a livraria
Laemmert, Valentim Magalhães entrou na seara romanesca com Flor
de sangue (1897). No entanto, foram os homens de letras de menor
visibilidade e desacreditados pelos críticos que souberam criar enredos
‘ao gosto do povo’, alcançando, com isso, uma repercussão bastante
incomum para os padrões da época.304

302
EL FAR, Alessandra. op. cit. p. 113-114.
303
Ibidem. p. 116. A fonte que a autora utiliza para afirmar que o romance era anunciado como de
“sensação” é o Jornal do Commercio de 15/10/1891 (nota 9).
304
Ibidem. p. 122.

139
É evidente que, para Azevedo, seria interessante conquistar a repercussão e
esse público amplo, mas talvez ele não tenha tido habilidade para cativar como gostaria.
Além das emoções imprevisíveis e do esforço editorial, sem deixar de
considerar o interesse pela polêmica, outros pontos aproximam Filomena Borges da
narrativa de sensação. O casamento é tematizado da mesma maneira, propondo uma
moral que procura fortalecer os laços entre marido e esposa para evitar o adultério, os
filhos bastardos, a prostituição, as “anomalias sexuais”, evitando assim o
enfraquecimento da estrutura familiar. A defesa do maior respeito ao indivíduo e suas
escolhas, permitindo o casamento por qualidades individuais, não por caprichos ou
ambições, é traço comum entre os romances de sensação, Filomena Borges, M. Dupont,
Mlle. Giraud. O rapto, as privações, as misérias, a existência infeliz, o ritmo incessante
da narrativa,305 todos estão presentes no romance de Aluísio Azevedo.
No entanto, o romance não segue a sequência comum aos romances de
sensação: ordem, desordem, restabelecimento (moral). Não há, em nenhum momento,
uma quebra da “ordem”; há diversas “fugas” em busca de sensações novas. A excursão
pela Europa e pelo Oriente é um fato novo e extraordinário, longe da rotina... Fosse
como as narrativas de sensação, Filomena Borges teria um restabelecimento moral da
ordem, que nunca chega nem a estar exatamente estabelecida, sem que, por outro lado,
haja inversão ou carnavalização. A esposa e o marido buscam sensações, aventuras, e é
nesse sentido que aproximamos o romance azevediano daquele tipo de narrativa.306

3.4 Cenas políticas

As “Novas torturas” do capítulo XIII revelam uma nova problemática no


romance: não se trata mais do marido vencer as provações que a esposa lhe impõe;
trata-se do casal vencer as (mais duras) provações da vida, com a nova condição de
miséria. Não é coincidência, portanto, que este seja o título do capítulo seguinte, em que
se narra a vida dos Borges em São Paulo, onde João terá de batalhar para ganhar o

305
Ibidem. p. 178.
306
Ainda dentro da discussão de Filomena Borges como narrativa quixotesca de aventuras e sensações,
recomendamos a análise de Yasmin Nadaf em Rodapé das miscelâneas. A autora fez uma comparação
entre o romance de Aluísio Azevedo e Tartarin de Tarascon, de Alphonse Daudet, publicadas em
sequência no folhetim do periódico mato-grossense O Republicano. Cf. NADAF, Yasmin Jamil. Rodapé
das miscelâneas. O folhetim nos jornais do Mato Grosso (séculos XIX e XX). Rio de Janeiro: 7Letras,
2002. p. 162-164.

140
sustento da família. (capítulo XIV, “Miséria”) Borges revela, aqui, sua opinião sobre o
dinheiro:

Então o Borges, pela primeira vez, comprehendeu que a pureza de seu


caracter e a bondade de seu coração não eram dotes naturaes, mas uma
simples resultante das circumstancias felizes de sua vida.
- Ah! dinheiro! dinheiro! pensou elle, tu és o unico que nos dás o
direito de sermos bons, generosos e abençoados pelos nossos
semelhantes! tu és o unico que conquistas a sympathia e o respeito do
mundo inteiro! Tudo me perdoavam – a estupidez, a brutalidade, a
loucura, a fraqueza, até os crimes, se os cometesse; só não me
perodam já te não possuir. Ó meu chorado companheiro de tanto
tempo!
Que importa que do nosso dinheiro não participe ninguem? Que
importa que elle só preste ao egoista que o possue, que importa?! O
dono será sempre “um homem honesto!” Terá quem o defenda, quem
o elogie, quem o ame, quem o proteja, quem lhe offereça e dê aquillo
que elle não pede e do que não precisa.
“Não ter onde cahir morto”. Isto é que ninguem perdoa! Furta, mata;
prostitue-te; mas, se deres a tua mãi o dinheiro que furtaste, serás “um
bom filho”; se deres a tua mulher o fructo de tua prostituição, serás
“um bom marido” se o deres a tua amante, serás “um fidalgo, um
excellente cavalheiro, um homem de bem.” E todos te abençoarão!
Terás em redor de ti o acatamento, o sorriso, a lisonja, porque és, ou
porque podes ser “bom.” Porque o teu dinheiro vale pelo destino que
ha de ter e não pela procedencia que teve!
Depois de semelhantes considerações, o Borges sentiu um profundo
rancor pelo genero humano e uma pesada indifferença pelo bom
cumprimento do dever.
- Illusão! tudo illusão!... dizia elle, a sacudira cabeça, sem se lembrar
que no meio de toda essa tempestade, o seu amor conjugal, aquillo que
elle mais estimava no mundo, havia-se enfolhado e fructescido.307

Fanini defende que Borges seria o porta-voz do autor.308 Apesar de, nesta
passagem, João Borges cumprir esta função, ela já havia sido cumprida por Filomena no
diálogo do costume bárbaro, por exemplo.309 De acordo com Mérian, o dinheiro é um
problema comum nos folhetins de Aluísio Azevedo, em que as personagens vivem um
mundo maniqueísta e imoral, entre a fortuna e os infortúnios da riqueza e da ruína. A
fala de Borges desmascara esse mundo para o leitor.
O novo trecho do romance traz de volta o Urso, cão São Bernardo de
Borges, que representa um respiro de alívio e esperança. O casal e seu cão entram para o

307
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 03/01/1884. p. 1. ed. 3.
308
FANINI, Angela. op. cit. p. 137.
309
A voz do autor ficará mais evidente na última parte do romance, utilizando-se do narrador, de João e
de Filomena para expressar seus pontos de vista.

141
circo, onde obtêm uma escalada de sucessos até conquistar a própria companhia e
excursionar pelo Brasil, pela América Latina e depois pela Europa. Mais uma vez
chamamos atenção aos títulos dos capítulos: “Coisas extraordinárias”, em seguida
“Segredos de bastidor”, deixando clara a noção de sensação e as referências ao teatro.
É o teatro, portanto, que leva o casal à sua segunda viagem pela Europa. Ele
já havia aparecido no início do romance, como um dos primeiros caprichos de
Filomena. Esta gostaria de montar um teatrinho na própria casa, o que arma o pretexto
para a comicidade do “triângulo amoroso” Barradinhas, ator metido a galã, Filomena e
João Borges. A esposa atuaria como par romântico do ator, que tentava se aproveitar da
situação para obter alguma coisa; João, que suspeitava desde o princípio, segue o
sedutor e surpreende-o no momento em que ele se aproveitaria de estar só com
Filomena.
Mais à frente, quando o teatro volta novamente ao romance, permite
situações mais diversas. Para Fanini, o trecho da excursão teatral se relaciona com uma
discussão azevediana sobre centro e periferia, nacional e estrangeiro.310 Parece, por
outro lado, que o que ele faz é uma provocação autoirônica sobre o teatro em geral. O
romancista participava muito ativamente da vida teatral carioca, a princípio elaborando
os cenários, depois escrevendo e adaptando as próprias peças. Suas preocupações
teatrais eram semelhantes às suas preocupações romanescas. Azevedo reclamava do
público nacional, que, segundo ele, preferiria os gêneros ligeiros aos moralizantes:

[...] procurei demonstrar que a nossa unica manifestação possivel no


theatro é a opereta ou a magica.
E isso mesmo, acrescentemos agora, porque a opereta e a magica,
sobre serem coisa já inventada por outros, é de todos os generos
theatraes o mais ligeiro e o que requer do publico menos esforços de
attenção.
[...]
Para não gostar destas coisas é preciso primeiramente não gostar da
opereta, e nós, nós, confessem, meus senhores, nós não gostamos de
outra coisa.311

Não é sem sentido que o casal Borges alcance estrondoso sucesso através de
gêneros baixos e populares. Eles não são artistas trágicos ou dramáticos; não são nem

310
FANINI, Angela. op. cit. p. 130-133.
311
Aluísio Azevedo, “Litteratura – Nosso theatro”, Gazeta da Tarde, 08/11/1882. p. 2. ed. 256.

142
artistas propriamente cômicos. Sua companhia é circense, e apresenta-se primeiro numa
“barraca de saltimbancos”, ainda no Brasil; depois, na França, em circos e vaudevilles.
Sua cena não é nada elaborada. Borges, figura hercúlea, luta com o Urso disfarçado de
urso. Filomena desfila seus dotes naturais em danças sensuais. Novamente, o corpo da
personagem feminina fica em evidência, causando sensação e escândalo por onde passa.
É uma tirada de Azevedo: para agradar a esse público, música, dança, violência,
sensualidade, aspectos que, contraditoriamente ou não, ele sempre dominou em sua arte,
como adaptador de opereta, escritor de comédias, romancista etc.

Nesta segunda passagem pela Europa, Filomena e o marido encontrarão nos


bastidores um monarca: D. Luís de Portugal. Vimos que a aparição indecorosa de D.
Pedro II incomodou muito os críticos coetâneos; é igualmente importante notar que eles
não mantiveram o mesmo critério para a presença de D. Luís. Esta incoerência parece
comprovar nosso argumento de que a repercussão foi eminentemente política, não
moral. Segue a cena:

N’essa noite, já no theatro, quando ella se preparava para entrar em


scena e o marido mettia no pescoço o seu barulhento aiucará feito de
buzios e dentes de animaes ferozes, foram sorprehendidos por uma
voz que, da porta do camarim, dizia no melhor portuguez:
- É permittido comprimentar a formosa brazileira?...
- Pois não! respondeu esta, ordenando à criada que fizesse entrar a
visita na pequena sala proxima.
E, quando appareceu, já prompta: - Oh! o duque!... Não sabia que V.
Ex. fallava portuguez, e com tanta perfeição!...
- Pois se eu sou portuguez...
- Ah! fez ella, considerando o typo louro que tinha diante de si.
Dir-se-hia um alemão. Era baixo e gordo, vermelho, bigode e barba à
Cavagnac, cabelos de um amarello frio e secco.
- Estimo bastante, acrescentou a brasileira, poder agradecer na sua
propria lingua o rico presente que o Sr. duque...
- Não fallemos n’isso, interrompeu elle – tratemos de outra qualquer
cousa!... De seu esplendido paiz, por exemplo.
- O Sr. duque conhece o Brazil?...
- Não. Nunca fui ao Brazil, mas tenho lá muitos parentes e amigos.
- Parentes? Na côrte ou nas províncias?
Na côrte. [sem travessão mesmo. Vai armando o parentesco!]
- Ah! Então devo conhecer algum d’elles. Eu sou filha da côrte.
- É inutil insistirmos; não conhece com certeza... é uma familia de
estrangeiros... [interessante colocar nesses termos – “familia de
estrangeiros”]

143
- Ah! balbuciou Philomena, tornando-se mais cortez, porque havia já
suspeitado quem vinha a ser aquella incognita visita. – É elle, com
certeza... pensou de si para si.
Mas n’esse momento o Borges acabava de entrar na pequena sala e,
no seu papel de botocudo, foi assentar-se a um canto, sem mais
ceremonias.
- Tomo a liberdade de apresentar-lhe meu marido, disse Philomena,
mostrando-o ao duque.
O selvagem monologou alguns sons gutturaes e sem sentido e encarou
a visita, franzindo as sobrancelhas.
- Ainda não conseguiu se familiarisar com as línguas estranhas,
explicou Philomena.
E, percebendo no duque um gesto de contrariedade:
- Pode conversar à vontade em portuguez; Burucululu não entenderá
uma palavra do que ouvir. Só eu posso me fazer comprehender por
elle, graças ao pouco que sei do Tupy.
- Mas como foi a senhora, tão bonita e tão delicada, descobrir esse
monstro para seu marido?... quiz saber o fidalgo.
- Devo-lhe a vida!... respondeu Philomena – Se não fosse esse bravo
indigena, teria sido devorada pelos seus compatriotas n’uma
lamentavel excursão que fiz ao Alto Amazonas.
- Ah! E sabe o que o levou a salval-a?
- O amor, creio eu. Este pobre monstro viu-me de longe entre os seus
companheiros, correu-me aos pés, ajoelhou-se, em seguida tomou a
minha defesa, matou os que me queriam fazer mal, carregou commigo
para um logar seguro, e desde esse instante segue-me como um cão. É
de suppor que me tomasse por alguma divindade!... Pelo menos, assim
me leva a crer o respeito religioso que elle me tributa!
- Ah!
- De resto, não tem absoluta consciencia do que faz – é uma especie
de bicho! Não sabe a razão por que apparece em publico; não
comprehende nada do que o cerca. Uma occasião, perguntei-lhe, por
curiosidade, que effeito lhe produzia Pariz e, pela resposta que deu,
conclui que o tolo se suppõe n’uma existencia de além tumulo, julga-
se no paraizo de sua religião.
- Como assim? Perguntou o duque, intrigado.
Philomena apressou-se a explicar:
- É que, na occasião de defender-me de seus companheiros,
Borucululu ficou muito ferido e, ao chegar a Manáus, accometteram-
lhe febres tão fortes, que o fizeram delirar tres dias consecutivos. Pois
bem, o toleirão imagina que sucumbiu à molestia e que voou logo às
mansões sideraes, onde eu represento para elle a venerada carnação do
poder altissimo e da suprema divindade!
- De sorte que elle se julga já falecido?... Perguntou o duque com
interesse.
- Em plena bem aventurança eterna. Julga-se uma alma do outro
mundo. Pariz, que é o eden terrestre dos estrangeiros, para elle,
coitado! é nada menos que o paraiso celeste!
- É singular!
- Singular e extremamente commodo para mim, proseguiu a brasileira,
gozando do effeito que as suas palavras produziam na visita – Imagine
o Sr. Duque que o facto de meu marido julgar-se morto faz com que
elle não tenha commigo a menor exigencia e submeta-se

144
humildemente ao que eu lhe ordene. Entretanto é o meu guarda, é a
minha defesa; quando o sinto ao meu lado, não tenho a receiar
qualquer aggressão, venha ella de um leão das salas ou de um leão das
florestas!
- É muito singular! repisou o duque, reconsiderando com um ar de
pasmo a grossa e taciturna figura do Borges acocorado ao canto da
sala. Sim, senhora! Está garantida!
- Ah! perfeitamente garantida! Já vê o Sr. Duque que eu não poderia
encontrar melhor marido em parte alguma do mundo!
- Elle então não consente que lhe toquem sequer com o dedo?...
perguntou o louro, fazendo um ar de desgosto.
- Experimente! disse Philomena, faça que me vai prender o braço.
O duque estendeu a sua mão calçada de luva da Escocia e fez que ia
tocar no carnudo braço da artista.
O Borges ergueu-se logo e, movendo lentamente a cabeça para os
lados, com movimentos de urso velho, principiou a rondar em torno
dos dous, farejando.
- E se eu me arriscasse a dar-lhe um abraço?... perguntou o duque.
- Deus o defenda! Nem é bom pensar n’isso! Burucululu seria capaz
de estrangulal-o no mesmo instante! Não queira experimentar, que eu
não respondo pelas consequencias! [é genial, sedução e ameaça...]
- E não havia meio de estar um momento em sua companhia, sem a
presença d’esta alimaria!?
- Pode haver, mas é muito arriscado! Elle tem um faro mais subtil do
que o de qualquer cão de caça!... Iria descobrir-me no inferno, se no
inferno eu tivesse me escondido!
- E porque não se desfaz a senhora de semelhante bruto?! No fim de
contas deve ser aborrecido supportar eternamente este orangotango.
- Se lhe estou dizendo, Sr. Duque, que o demonio do bicho tem faro!
- Era fazer presente d’elle ao museu zootechnico de França, em nome
do Imperador de seu paiz, que é um sabio. E com isso a senhora ainda
prestaria um relevante servico à biologia. Se quiser eu me encarrego
de remettel-o à comissão que recebe os donativos. [grande piada com
sapiência do imperador e com insapiência de todos, que não percebem
a farsa!]
- Não! disse Philomena, por ora não. Mais tarde pode ser que aceite o
seu offerecimento.
- Pois, quando quizer, estou às suas ordens, acrescentou a ilustre
visita, erguendo-se e tomando a mão de Philomena para depor um
beijo.
Mas o Borges afastou-o da mulher, mettendo-se entre os dous
grosseiramente.
- Este animal não me deixa por o pé em ramo verde! pensou o fidalgo,
sahindo contrariado, depois de cortejar a brasileira.
Borges acompanhou-o até fóra da porta e, ao voltar para junto da
mulher, disse-lhe esta:
- Conheces?
- Quem? Este typo? Não!
- Oh! o D. Luiz, homem!
- Que D. Luiz?
- O D. Luiz de Portugal.
- Ora essa!
- Pois é elle!

145
- Queira Deus que estas brincadeiras não te venham a dar na cabeça!...
observou o botocudo.
- Deixa-te de receios! Meu selvagem – e vem d’ahi, que já deu o
segundo signal para principiar o espectaculo!
(Continúa.)312

Mas já não estava o espetáculo em pleno curso? A cena, além da


comicidade, mostra D. Luís de maneira indecorosa, cortejando uma mulher na frente de
seu marido. Seu “parente” no Brasil, D. Pedro II, aparecerá de maneira menos ativa e
ainda assim mais incômoda para os críticos da época.
Impossível tratar de monarcas e decoro sem reconstituir a polêmica de A
flor-de-lis. A opereta foi adaptada pelos irmãos Azevedo a partir do original francês Le
droit du seigneur, com libreto de Boucheron e Burani e música de Vasseur. Em outubro
de 1882, um ano antes da “questão Filomena Borges” na Gazeta de Noticias, os
comediógrafos brasileiros conseguiram fazer passar sua versão da opereta pela censura
do Conservatório Dramático. O título francês já apontava para o que encontraremos no
enredo: um “senhor” fazendo valer seu “direito” de passar a noite com uma mulher,
“costume bárbaro” da Idade Média, para ficar com os termos da personagem Filomena.
Os autores brasileiros fizeram algumas alterações no texto de modo a adequá-lo à
censura e ao público nacionais.313
O primeiro ato apresenta as duas linhas centrais da ação: o Alcaide-mor
deseja encontrar uma mulher que possa parir seu herdeiro (além da esposa, claro,
apresentada como infértil), e o Capitão-general procura por seu filho, que ele não vê
desde o nascimento há vinte anos. O Físico-mor, interesseiro, vai servindo a quem lhe
fizer a proposta mais vantajosa: a princípio trabalha para o Alcaide, depois para a
esposa deste, a Condessa, depois para o Capitão. A solução inicial para o problema dos

312
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 05/01/1884. p. 1. ed. 5.
313
Infelizmente não tivemos acesso ao texto original para uma comparação. Há um relato na imprensa
que permite compreender melhor a “pequena historia” d’A flor-de-lis:
“Quando, ha alguns annos, a opera-comica franceza foi submetida à aprovação do nosso Conservatorio
dramatico, D. Censura, frazindo o sobr’olho, recusou-a redondamente como imoral, e nunca mais se falou
n’isso. Só ultimamente é que, para aproveitar a partitura de Leon Vasseur, os dois irmãos Azevedo
decidiram, evitando os pontos prohibidos do libreto francez, escrever o libreto óra se representando que o
Conservatorio approvou sem lhe achar espinha.
Ha, entretanto as espinhas, ao que parece; e o facto único de S. M. o imperador se retirar do espectaculo
com toda a familia e comitiva, no fim do primeiro acto, só póde ser explicado por uma forte divergencia
entre a corôa e D. Censura. Consta-me, de resto, que D. Censura completamente ausente na primeira
representação, foi hontem ao Sant’Anna, de tesoura em punho e disposta a cortar tudo quanto possa ter
irritado a petuitaria imperial.” Daniel J, “Chronica theatral”, Revista Illustrada, 28/10/1882. p. 6. ed. 320.
A partir da segunda representação, o texto da peça teria sido alterado.

146
dois “nobres” é Catarina: ela é a mulher ideal para o Alcaide, e o Capitão acredita que
ela possa ser seu filho por ter visto, marcada em sua espádua, uma flor; seu filho teria
uma flor-de-lis nas costas. Catarina, ingênua, está inclinada a aceitar a proposta do
Alcaide, sem entendê-la por completo. Seu noivo, Beija-flor, tenta dissuadi-la, sem
explicar, entretanto, a razão. Para o público já ficou claro: o Alcaide quer se aproveitar
sexualmente da mocinha; a intenção verdadeira do Capitão ainda é nebulosa.
O segundo ato se passa numa festa no palácio, onde o Alcaide tentará tomar
Catarina de seu noivo à força. A Condessa, por um lado, e o Capitão, por outro,
impedirão que o plano do tirano tenha sucesso. O jovem casal consegue fugir, mas uma
grande confusão é armada. O terceiro ato, cujo cenário é uma floresta, traz o amor do
jovem casal consumado religiosa e carnalmente (fora de cena, decerto). O Capitão,
encontrando-se finalmente com a Condessa, descobre que Catarina não pode ser seu
filho, pois ele era homem, tinha vinte anos e uma flor-de-lis gravada, não um girassol,
como a mocinha, que tinha apenas dezesseis anos. É ela quem junta os pontos,
identificando Beija-flor como o filho do caso adúltero entre o Capitão e a Condessa! O
rapaz seria açoitado a mando do Alcaide, mas o castigo é interrompido pelo Físico, que
reconhece a flor-de-lis.314
Ainda mais interessante que o enredo da peça é o acontecimento ocasionado
pela sua primeira representação. Estreando no Theatro Sant’Anna em 27 de outubro de
1882, o espetáculo contou com a ilustre presença da família real. Ao final do primeiro
ato, o cortejo imperial abandonaria o teatro, gerando grande repercussão. O motivo seria
a falta de decoro da peça (ou uma enxaqueca do imperador). Alguns órgãos da imprensa
defendiam os irmãos Azevedo, sem muita convicção, enquanto outros os recriminavam.
O próprio Aluísio, irmão mais novo e então menos conhecido, é quem responde à
polêmica na Gazeta da Tarde:

Voltando porem à Flor de Liz, vemo-nos forçados a confessar que de


todo o clamor levantado em redor della, só conseguimos tirar uma
conclusão – e que a maioria da nossa imprensa e a maioria de nosso
publico são essencialmente monarchistas. A peça não seria reputada
immoral si o imperador não se lembrasse de sahir do theatro no meio
do espetaculo.315

314
AZEVEDO, Artur. A flor-de-lis. In: Teatro de Artur Azevedo II. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de
Artes Cênicas, 1985. Clássicos do Teatro Brasileiro 8.
315
Aluísio Azevedo, “Litteratura – A flor de liz”, Gazeta da Tarde, 03/11/1882. p. 2. ed. 252.

147
Mas, afinal, o que teria incomodado tanto D. Pedro II naquela peça? Teria o
monarca identificado uma relação entre a sua figura e a do Alcaide? Haveria na peça
referências às suas amantes? Um leitor que não conheça a peça pode perguntar: o que há
nela de indecoroso? Abusos sexuais de um “nobre”, insinuações ao ato sexual de um
casal, adultério. As cenas finais do primeiro ato mostram, no palco, o Alcaide agarrando
a inocente Catarina, que nada entende:

O ALCAIDE-MOR - Meu doce amor, dizer desejo


Em que consiste emprego tal.
Curiosa estás, pelo que vejo...
Acho isso muito natural. (Aproximando-se
[dela.)
Olha: eu te aperto esta mãozinha...
CATARINA - ‘Stá bem. Depois?
O ALCAIDE-MOR - E esta cintura...
CATARINA - ‘Stá bem. Depois?
O ALCAIDE-MOR - Oh, que inocente criatura!
[...] [Neste corte, a entrada de Beija-Flor inicia a cena final]
O ALCAIDE-MOR (À parte.) – Eu nunca vi tanto candor.
CATARINA - ‘Stá bem. Depois?
O ALCAIDE-MOR (À parte.) – Quanto ela é pura!
[(Alto.)
Chega-te a mim, não tenhas
[medo...
Tranqüila estás, que não me
[excedo...
CATARINA - Se assim é preciso...
O ALCAIDE-MOR - É, pois não!
CATARINA - Sou toda ouvidos.
O ALCAIDE-MOR - Coração!
[O diálogo se estende mais um pouco, até que Beija-Flor consegue
“deitar água na fervura” do Alcaide invocando o coro para um viva]316

Essa figura de “velho babão” é retomada em Filomena Borges. É assim que


o imperador é descrito, é assim que ele atua, apesar das muitas atenuações. Como o
Alcaide, o imperador, no romance azevediano, utiliza-se do poder em troca de possíveis
favores sexuais. D. Pedro II, no entanto, não chega a ter no romance ares de vilão como
tem a sua contrapartida teatral; ele não explora ou abusa direta e arbitrariamente da
afilhada. O que acontece em Filomena Borges é quase o contrário. A mocinha, agora
nada inocente, é quem identifica a fraqueza do monarca e utiliza-se dela para seu

316
AZEVEDO, Artur. op. cit. p. 126-7.

148
próprio bem. O interesse de Filomena no padrinho não é sexual, mas político; o
interesse do Alcaide em Catarina é eminentemente sexual.
Poderia, deste modo, Filomena Borges ser entendido como extensão ou
resposta à polêmica de A flor-de-lis? Uma fofoca da época permite pensar que sim:

Ainda ha poucos dias a Sra. Helena Cavallier, que se beneficia no dia


15 com a primeira do Mulato de Aluizio Azevedo, foi pedir à sua
magestade que honrasse esse espetaculo com a sua presença, ao que o
imperador se recusou.
Foi assaz commentada essa recusa à uma conhecida atriz, de um favor
que o imperador concede quasi que constantemente à quem o pede.
Uns attribuiram-n’a à reminiscencias da Flôr de Liz e da Philomena
Borges.
Disseram outros ter havido imperial confusão e sua magestade ter
julgado que o Mulato de Aluizio Azevedo era o mesmo Mulato, já não
me lembro de quem, que aqui foi representado ha tempos e que..
Seja como for, está sua magestade no direito de recusar-se à assistir a
um espetaculo e suponho que bem fortes foram as razões que
actuaram no espirito do imperador.
Mas uma cousa que sua magestade não pode e não deve recusar – é o
concurso de sua influencia para o verdadeiro desenvolvimento do
theatro nacional.317

Já citado anteriormente, este texto ganha novo sentido. Pelo visto não era
absurdo considerar que o imperador teria ficado ofendido com os textos de nobreza
indecorosa de Aluísio Azevedo. Filomena Borges e A flor-de-liz, dentro de seu contexto
de circulação e produção, politizam-se, desconstruindo a imagem oficial de D. Pedro II
junto das caricaturas e de outras intervenções de cunho cômico. Uma associação com
um galã, ainda mais “fora de época”, afetava a persona pública do monarca: “Apesar de
ter tido uma vida amorosa bastante repleta, a imprensa e os relatos não exploram essa
imagem, insistindo, ao contrário, no retrato de um monarca sereno, moralmente elevado,
acima das questões mundanas, ou seja, a negação formal de seu pai.”318 Fica a sugestão
de um rei amante, mundano, carnal.
Não é por acaso, portanto, que a “Suprema exigencia”, o último capricho de
Filomena, seja uma incursão pela política. Ela impulsionará o casal para a fase final do
romance, que se passa em Petrópolis. A cidade de Pedro havia sido visitada e estudada

317
D. Quixote, “Atravéz da semana”, Gazeta da Tarde, 13/10/1884. p.1. ed. 239. Esse pseudônimo é
marcante: seria o próprio Aluísio Azevedo ou algum amigo? Não pudemos descobrir.
318
SCHWARCZ, Lilia Moritz. op. cit. p. 383.

149
por Aluísio Azevedo enquanto escrevia o romance, se pudermos nos fiar na palavra de
Artur Azevedo.319
As impressões de cada membro do casal sobre Petrópolis são bastante
distintas:

E no Borges as primeiras impressões foram justamente o contrario de


tudo isso. Espirito pratico, e por demais terrenho, não se cegou logo
pelas apparencias do mimalho de Sua Magestade e tratou de julgar
Petropolis friamente, com todo o peso do seu bom senso grosseiro e
burguez.
O que ele notou, em primeiro logar, foi o engano em que alli viviam
todos, suppondo luzir com o reflexo que vinha do monarcha; quando
aliás Sua Magestade, astro sem brilho proprio, não podia emprestal-o
a quem quer que fosse.
Emquanto a mulher se extasiava defronte dos jardins, das fontes e dos
rios, elle, o Borges, notava que Petropolis, com os seus decrepitos
laudemios, com as suas sesmarias, os seus emphyteuses, os seus
canons, os seus fóros territoriais, continuava a ser uma fazenda, uma
feitoria do imperador, e que era bastante tocar em qualquer cousa, que
lá estivesse, para se sentir logo, a dois passos, o olho vigilante e
reprehensivo do proprietario, do dono.
Por toda a parte, em tudo, o mesmo prestigio do “Senhor”. A mesma
impertinencia do “Amo.”320

João Borges, para além de “porta-voz” do autor, torna-se um cronista. Sua


análise de Petrópolis e seu fastio com o imperador e seu séquito são violentos e
inversamente proporcionais ao gosto da esposa pela cidade, pelo poder, pelo
imperador.321 Neste capítulo XIX, “Petropolis”, joga-se com a diferença entre as
impressões de João e de Filomena. No entanto, o narrador descredita a última,
fantasiosa, com a imaginação dissimulando fatos, dando mais peso à crítica.
Apesar disso, a crítica também é coloca na voz de Filomena, que tenta
convencer o marido que sua nomeação não é absurda e deve ser aceita:

- Mas, João, vem cá, repara que estás no Brazil e lembra-te de que
aqui os empregos de confiança do governo, sejam eles de que genero
for, nada têm que ver com as aptidões individuaes de quem os vai
desempenhar! Que diabo! Não vês ahi todos os dias ministros da
319
V. Capítulo 1.
320
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 08/01/1884. p. 1. ed. 8.
321
No fim deste folhetim, surge a primeira referência a negros no romance de maneira bastante violenta:
“- Isto, quando a mim, classificou elle finalmente, em confidencia com o Guterres – cheira-me assim a
mulata fôrra com pretenções a cocotte.” Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias,
08/01/1884. p. 1. ed. 8.

150
guerra, que não conhecem patavina do militarismo? Não vês que os
ministros da agricultura não sabem para que lado fica a lavoura; que o
ministro do imperio, a cargo de quem está a instrucção publica, já faz
muito quando sabe ler e escrever correctamente?... Não vês que o
ministro da fazenda não pesca nada de economia politica; que o da
pasta de estrangeiros não entende cousa alguma de politica
internacional! E assim o da marinha! e assim todos eles! e assim todo
o mundo! Oh!322

As posições políticas de Borges vão sendo conquistadas com os conselhos


de Guterres323 e com os favores do imperador, que em pouco tempo é tido como amante
da afilhada: “Espalhou-se logo o boato de que o imperador estava deveras apaixonado
pela irresistivel afilhada e que esta lhe correspondia de um modo escandaloso.”324
Boatos à parte, é o narrador que coloca Filomena em posição de destaque:

Não obstante, quatro mezes depois d’isso, a condessa de Itassu era já o


melhor empenho para o Sr. D. Pedro de Alcantara. Pretendente que se
apadrinhasse com ella podia ter a certeza de obter o que desejasse.
De suas mãosinhas aristocraticas sahiram nomeações
importantissimas, licenças escandalosas, remoções, transferencias,
accessos de empregos, privilegios de companhias, concessões de
engenhos centraes. Muita questão importante resolveu-se com um
simples de seus sorrisos.325

Em seguida, as folhas críticas e satíricas atacam a relação:

Mas, em compensação, os jornaes illustrados, os orgãos republicanos


e algumas folhas diarias surgiam pejados de satyras, de pilherias e de
caricaturas contra elle, a mulher e o monarcha.
Deram-lhe alcunhas ridiculas, inventaram-lhe biographias
vergonhosas, crivaram-o de triolets insultuosos. Affirmou-se que
Philomena Borges era de facto a imperatriz do Brazil; que ella, se não
reinava sobre a nação, reinava sobre o monarcha; que sua magestade,
tomado de amores, deixava fazer de si o que bem quizesse a
condessinha de Itassú, e que esta, abusando da posição, pintava o
diabo com o pobre paiz, erguia e desmanchava gabinetes, com o
mesmo capricho com que armava e desfazia os seus penteados e... os
do marido.326

322
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 10/01/1884. p. 3. ed. 10.
323
“- Em politica, meu amigo, disse o outro – verdadeiro é só aquillo que nos convem.” Aluísio Azevedo,
“Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 09/01/1884. p. 1. ed. 9.
324
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 10/01/1884. p. 3. ed. 10.
325
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/01/1884. p. 1. ed. 11.
326
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/01/1884. p. 1. ed. 11.

151
Mas o narrador faz questão de tirar a culpa do imperador:

O Imperador!...
Pobre homem! bem longe estava elle de merecer as accusações que
lhe faziam a respeito da afilhada!
Que estivesse impressionado pela gentil creatura, pode ser, mas é que
o diabrete arranjava as cousas de tal geito, que o bom monarcha não
conseguia ir alem de seus desejos, se é que os tinha.
Por mais esforços que empregasse, se os empregava, fugia-lhe por
entre os dedos, com desculpas banaes, como por exemplo a da
circumstancia de ser sua afilhada, deixando o coração do soberano
ainda mais abrasado e ancioso, o que é possivel, porque
desgraçadamente os imperadores são feitos da mesma carne fresca e
titilante de que se formam as outras creaturas suceptiveis ao amor..327

O recurso irônico é notável, e contribui para fortalecer a ideia de que o que


se tenta fazer é desconstruir a imagem do monarca. Ele seria, afinal, uma pessoa de
carne e osso, tão suscetível ao desejo quanto qualquer outro mortal. Mais uma vez o
jornal entra no romance como veículo de vozes diferentes, demonstrando um embate
ideológico dentro da narrativa.328
Tanto é que Borges, no folhetim anterior, fora descrito como republicano e
tipo do povo, um republicano por excelência:

Burguez completo, amigo sincero do povo, d’onde sahira e onde


crescera, livre por habito e por principio, conhecendo o governo
apenas pelos seus impostos, pelas suas exigencias, pelas suas
oppressões, era, sem nunca o ter dito, talvez até sem o saber, um
inimigo natural do throno, um typo perfeito do revolucionario
moderno, um verdadeiro, um puro republicano.
[...]
Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do
governo, a quem sempre considerou um parasyta importuno, educado
por um pai da mesma fórma trabalhador e independente, Borges nunca
se lembro de pôr a sua consciencia em leilão [...]329

O trecho demonstra, agora na voz do narrador, como as opiniões políticas


do próprio autor são canalizadas em diferentes momentos, através de diferentes
recursos, compondo o romance também como sátira política.

327
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/01/1884. p. 1. ed. 11.
328
A questão ideológica em Filomena Borges foi discutida por Ribeiro. Cf. RIBEIRO, Luís Filipe. op. cit.
329
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 10/01/1884. p. 3. ed. 10.

152
De repente, finaliza-se o capítulo da seguinte maneira: “Cassou-se
imediatamente a nomeação do conde, e, à noite, quando este teve occasião de ver o
amo, notou-lhe na physionomia um certo ar de má vontade. [parágrafo] Lá se ia por
agua abaixo o prestigio do Borges e mais da mulher.”330 A virada é tão repentina quanto
relacionada às recusas de Filomena ao imperador.
No penúltimo capítulo, “Dissolvem-se as ultimas illusões”,331 os Borges
perderam totalmente o apadrinhamento, o “empenho”, perdendo assim todo o poder:

Mas, ai! A linda ambiciosa contava dispor ainda do unico elemento


com que lhe era dado realisar tudo isso – a proteção do padrinho. Não
desconfiava ainda, a visionaria! que já não tinha às suas ordens essa
vontade maravilhosa, que tudo determina no Brazil. E, ao reconhecer
os primeiros symptomas de sua impotencia, teve impetos de
estrangular-se.
Todavia procurou illudir-se. Não desanimou logo e, a despeito dos
protestos do marido, que parecia cada vez mais afflicto, reuniu todo o
seu empenho em um ultimo esforço, a ver se conseguia reatar o sonho,
sem ter de polluir o seu contracto de fidelidade conjugal.332

Ou seja, nunca passou pela cabeça de Filomena trair o marido; ela jogava
com o poder de sedução e conduzia deste modo o imperador, que, ao não ver atendida
sua vontade (no caso, sexual), desfaz os laços. A história é muito semelhante, nesse
sentido, à “proposta indecente” da peça adaptada pelos irmãos Azevedo. A proposta de
D. Pedro II fica nas entrelinhas: se tivesse Filomena, as vantagens prosseguiriam; como
ela se recusa a “poluir o contrato”, cessam as proteções e está traçada a falência final do
casal.
Desfeita a proteção, acaba tudo. O fim da proteção é anterior à queda do
Gabinete, o que enfraquece a leitura de correspondência.333 Não se pode afirmar com
certeza que a queda de Filomena marca o fim de uma era, seja do romantismo, seja do
conservadorismo da elite imperial. Do modo como funciona a política dentro do próprio
romance, o casal poderia continuar atuando normalmente na política com o novo

330
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/01/1884. p. 1. ed. 11.
331
A virada dos capítulos é ruim, apressada.
332
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 11/01/1884. p. 1. ed. 11.
333
A leitura da nova ordem é de Fanini. FANINI, Angela. op. cit. p. 123.

153
gabinete. O real problema foi perder a proteção do imperador.334 Por mais sedutora que
possa parecer a leitura de correspondência, ela não se aplicaria, portanto. O
apadrinhamento é mais importante no romance, já que é essa prática que garante o
casamento de Filomena, depois sua ascensão social; quando o apadrinhamento se perde,
a coisa acaba mal.335
A crítica política de Filomena Borges, portanto, se desdobra em três partes:
1) crítica ao casamento; 2) desconstrução da imagem do imperador; 3) crítica da política
imperial: apadrinhamento, poder moderador. Esta dimensão política crítica do romance,
esquecida durante boa parte do século XX, foi levantada por Mérian, seguido por
Ribeiro e Fanini, que também politizaram a obra, e agora conta com a contribuição
deste trabalho. É uma maneira adequada de leitura, e um dos motivos pelos quais o
romance foi provavelmente concebido.
Ele se relaciona, assim, com as opiniões políticas da Gazeta. A coluna
“Cousas Politicas”, especializada no assunto dentro daquele periódico, atinha-se a
comentários noticiosos sobre as atividades políticas e legislativas imperiais. Coube às
outras sessões do jornal a crítica mais aberta, posto que cômica, das instituições
imperiais. Falava-se mais livremente nesses outros espaços, mais literários.336 Pelo
menos era o que esperavam Aluísio Azevedo e Ferreira de Araújo, que acabaram
decepcionados. Fosse nas “Balas de estalo”, fosse no “Folhetim”, espaço ao qual
pertenceu principalmente Filomena Borges, mas ao qual a obra não se ateve, como visto
nos capítulos anteriores.
Seja visto como exagero,337 positividade338 ou originalidade,339 o
posicionamento político através da literatura foi a opção que tomou Aluísio Azevedo
para sua luta política.

334
O próprio 5 de janeiro de 1879, a queda do Gabinete, é referido no romance como “talvez precipitado
justamente pelo soberano”. Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 12/01/1884. p. 1.
ed. 12.
335
Nesse sentido, podemos voltar a relacionar Filomena Borges e o teatro. Os críticos da época cobravam
o auxílio de D. Pedro II, o que motiva o texto da fofoca de D. Quixote na Gazeta da Tarde, citado
anteriormente.
336
RAMOS, Ana Flávia Cernic. op. cit. V. Capítulo 2 daquela dissertação, “‘Cousas Políticas’ e ‘Balas de
Estalo’”.
337
MÉRIAN, Jean-Yves. op. cit. p. 466-7.
338
FANINI, Angela. op. cit.
339
RIBEIRO, Luís Filipe. op. cit. p. 11.

154
3.5 O fim de Filomena

Por fim, Filomena é abatida por uma melancolia intensa que a levará à
morte. Como D. Quixote, o que mata a heroína é a desilusão. É comum na literatura de
Aluísio Azevedo a morte das protagonistas, como é comum nas obras que relacionamos
com Filomena Borges: Emma, Luísa, Paule.
Dois aspectos são muito relevantes. O primeiro é que, apesar da morte das
mocinhas ser comum,340 o final de Filomena Borges não agradou aos críticos da época.
O segundo é que, se a atuação de Filomena é tão escandalosa e criticada, sua “punição”
ou rendição não a isentam da culpa que os críticos lhe impõem. A resignação da
personagem é marcante: “- Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho
obrigação de acompanhar-te.... respondeu Philomena em voz baixa, fazendo esforços
para conter as lagrimas.”341 Filomena não se limita a ceder às vontades do marido,
desculpando-se de modo enfático:

- Meu amigo, disse Philomena com difficuldade, derramando sobre o


marido um supplicante olhar de extrema ternura, como se lhe quizesse
pedir perdão – Meu bom amigo, sinto que morro, e só me punge a idéa
do bem que te não fiz e do muito que merecias!...
[...]
- Obrigada! muito obrigada, meu generoso e honrado amigo! De tal
modo te habituaste às minhas chimeras e a minha loucura, que não
pódes acreditar que eu tenha um momento lucido antes de morrer.
[...]
- Só tu és bom!... dizia arquejando – só tu mereces todas as bençãos
do céu!... Como eu te adoro e como eu te amo meu...342

Para uma senhora de vontade tão forte, de tantos sonhos e de imaginação tão
fértil, a morte por uma só desilusão parece mesmo não fazer sentido. É o problema de
armar todo o romance sobre as fantasias da personagem título: tudo é possível, mas tudo
parece falso; caberia qualquer solução, mas muitas seriam ruins. Daí resulta tanto a
desarticulação entre as partes, quanto o estranhamento causado pelo desfecho. Devemos
considerar, é claro, a possibilidade de Azevedo querer dar mais relevância à desilusão
política; o que não isenta, ainda assim, o final de sua marca apressada e mal articulada.

340
Apontado por Ribeiro como “imprimatur típico do gênero”. RIBEIRO, Luís Filipe. op. cit. p. 19.
341
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 12/01/1884. p. 1. ed. 12.
342
Aluísio Azevedo, “Philomena Borges”, Gazeta de Noticias, 13/01/1884. p. 3. ed. 13.

155
Tabela 5 - segunda parte, primeira viagem
Folhetim Capítulo(s) Título(s) Data
8 VI Primeira desillusão 25/12/1883
9 VII O rapto 26/12/1883
10 VII, VIII O rapto (cont.), Emfim [ED. FALTANTE] 27/12/1883
11 IX Vôos altos [ED. FALTANTE] 28/12/1883
12 X De volta a pátria 29/12/1883
13 XI Qual dos dous maridos será o mais infeliz?... (cont.) 30/12/1883
14 XI, XII Qual dos dous maridos será o mais infeliz?... (cont.), 31/12/1883
Amor de Philomena
15 XII, XIII Amor de Philomena (cont.), Novas torturas 01/01/1884

Tabela 6 - segunda parte, segunda viagem


Folhetim Capítulo(s) Título(s) Data
16 XIII, XIV Novas torturas (cont.), Miséria 02/01/1884
17 XIV Miséria (cont.) 03/01/1884
18 XV Coisas extraordinárias 04/01/1884
19 XVI Segredos de bastidor 05/01/1884
20 XVII Suprema exigência 06/01/1884

Tabela 7 - terceira parte - Sátira política


Folhetim Capítulo(s) Título(s) Data
21 XVIII Celebridades 07/01/1884
22 XVIII, XIX Celebridades (cont.), Petropolis 08/01/1884
23 XIX, XX Petropolis (cont.), Volta-se à dansa 09/01/1884
24 XX Volta-se à dansa (cont.) 10/01/1884
25 XXI, XXII Torniquetes, Dissolvem-se as ultimas illusões 11/01/1884
26 XXII, Dissolvem-se as ultimas illusões (cont.), 12/01/1884
XXIII Paquetá
27 XXIII Paquetá (conclusão) 13/01/1884

156
Conclusão

Filomena Borges nos parece, hoje, desarticulado. Talvez isso pudesse servir
como elogio, consideradas as contribuições e inovações do romance modernista. Mas
não é. Desarticulação, no caso desse romance, seria tida como defeito de composição.
Não seria possível pensar, por outro lado, que, como romance, Filomena
Borges foi composto da mesma maneira que o jornal, canalizando diferentes vozes,
opiniões, ideais, notícias, concepções sobre os mais variados temas, unidos pela
atualidade? E que, se pudéssemos pensar desta maneira, o romance poderia ter se
utilizado dos mesmos recursos que o jornal que lhe serviu de veículo, de base e de
matriz? Como a Gazeta de Noticias, Filomena Borges discute os temas coetâneos de
maneira cômica, focalizando a crítica ao império e às suas bases em meio a uma
discussão literária. A desarticulação do romance pode ser, nesse sentido, nada mais que
a própria forma de sua articulação, que segue o modelo de um jornal. O jornal é, por
excelência, montado a partir de fragmentos.343
Vimos, nos periódicos, o esforço coletivo para a construção da personagem
Filomena Borges, um lance publicitário a princípio elaborado pela Gazeta de Noticias,
que saiu de controle e foi apropriado por outros periódicos e para outros fins, muito
ligados ao comércio. O processo parece ter chamado atenção razoável dos leitores e
possíveis consumidores da época. No entanto, isso conspirou contra o romance. Seu
reclame criou uma enorme expectativa, que, para infelicidade de Aluísio Azevedo, ele
não soube atender. O insucesso comercial do romance deveu-se, em muito, a este
aspecto; e o insucesso de crítica também esteve a ele relacionado. Os críticos coetâneos
leram o romance tomando por base e levando em conta a construção coletiva da
personagem, convencidos ou confundidos pelas diversas possibilidades que a mulher
misteriosa tinha na imprensa. Aqui, outro dos motivos para o fracasso: a personagem
que aparecia nos periódicos poderia ter resultado mais interessante que a personagem do
romance. A mulher sedutora, vendida no jornal, não teria sido suficientemente
sexualizada no romance? O escândalo que se ligava à sua imagem não teria tido o curso
esperado na narrativa? O aproveitamento político da heroína teria incomodado mais o
público geral que as folhas ligadas ao Império?

343
THÉRENTY, Marie-Ève. La Littérature au Quotidien: Poétiques journalistiques au XIXe siècle. Paris:
Éditions du Seuil, 2007. p. 89.

157
Nos termos do próprio escritor maranhense, podemos pensar as diferenças
entre a expectativa do público e da crítica. O público esperaria um folhetim para
diversão; o autor entregou uma narrativa híbrida, 1) com o problema do casamento à
francesa, 2) as viagens e aventuras à moda de sensação e 3) uma sátira política, muito
ligada à busca por sensação e às referências indecorosas. A crítica esperaria um
romance sério, naturalista; o autor entregou uma mistura entre cômico e político,
parodiando os recursos folhetinescos e sensacionais para satirizar o Império. A
expectativa sobre Filomena Borges deve também ser considerada. Esperar-se-ia uma
personagem extraordinária, sensual, misteriosa; mas Azevedo entregou uma senhora,
apesar de sedutora, séria, sem escândalo e sexualidade explícita.
Por que, afinal, o romance não teria agradado? Por ter frustrado todas as
grandes expectativas? Por ter explicitado mais a política que o apelo sexual? Parece que
sim.

Nossa crítica, partindo da reconstituição histórica que fizemos e das


contribuições das leituras mais recentes, procurou apresentar outra alternativa de leitura,
demonstrando a relação entre Filomena Borges e a crítica política de Aluísio Azevedo e
da Gazeta de Noticias. Não é de se estranhar que o leitor atual não encontre nele outro
chamariz senão o divertimento; seu sentido político se perdeu com o tempo. A essência
desse romance, como a do jornal que lhe serviu de suporte, é efêmera.
É interessante que os atores envolvidos na publicação tenham optado pela
literatura para desmoralizar o imperador. Isso mostra que a literatura servia, também,
como campo para o debate de ideias. A sátira política partia da conjunção de dois
projetos de mudança da ordem política, de Aluísio Azevedo e da Gazeta; a opção pela
mensagem cômica, acessível, apresenta a ligação inegável. Agora, lido no jornal, o
romance faz sentido; para o leitor atual que tenha, por acaso, tentado ler o romance sem
esse suporte histórico, a narrativa talvez parecesse ininteligível.

As trocas entre a linguagem literária e a linguagem própria do jornal, os


modos de escrever e intervir da Gazeta, puderam ser bastante evidenciadas pelo estudo
de Filomena Borges. Os recursos de escrita ficaram bastante claros nas comparações
feitas no Capítulo 3, mas já estavam postos desde o princípio, na composição coletiva

158
da figura Filomena Borges. A intervenção se estendeu do casamento à imagem do
imperador, passando pelo teatro, enfim, constituindo-se como crítica ao Império.
A leitura do romance no jornal permitiu perceber o sentido da sátira política,
que pretendia contribuir para a mudança da ordem política através de uma mensagem
folhetinesca, popular, cômica. Conciliaram-se, deste modo, os projetos da Gazeta e de
Aluísio Azevedo.

O romance não durou, portanto, pois seu valor era menos literário, mais
político e comercial.

O que procuramos fazer foi uma história cultural desse romance, tratando a
literatura em termos mais gerais e levando em consideração a grande relevância da
imprensa na literatura do período; evitamos, deste modo, a tradição de se pensar através
do cânone, recuperando o contexto de produção e circulação da maneira mais completa
possível.

Resta, por fim, uma questão. Por que, nas edições em livro, o autor não
alterou a obra, como fez com os folhetins anteriores (Mistérios da Tijuca e Memórias de
um condenado)? Por achá-la ruim, indigna, ou por achar que ela havia cumprido seu
papel? Dedicá-la a Ferreira de Araújo mostrava uma divisão de paternidade/autoria? É
possível.
As tabelas a seguir possibilitam a comparação entre os folhetins e a primeira
edição em livro:

Tabela 8 – Divisão do romance Filomena Borges


Folhetim* Capítulo(s) Título(s) Data Parte**
1 I Flores de Laranjeira 18/12/1883 1
2 II O ferrolho 19/12/1883
3 II, III O ferrolho (cont.), Começam as provações 20/12/1883
4 III Começam as provações (cont.) 21/12/1883
5 III, IV Começam as provações (cont.), Veremos quem 22/12/1883
vence
6 IV Veremos quem vence (cont.) 23/12/1883
7 V Luta aberta 24/12/1883
8 VI Primeira desillusão 25/12/1883 2

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9 VII O rapto 26/12/1883
10 VII, VIII O rapto (cont.), Emfim [ED. FALTANTE]*** 27/12/1883
11 IX Vôos altos [ED. FALTANTE]*** 28/12/1883
12 X De volta a patria 29/12/1883
13 XI Qual dos dous maridos será o mais infeliz?... (cont.) 30/12/1883
14 XI, XII Qual dos dous maridos será o mais infeliz?... (cont.), 31/12/1883
Amor de Philomena
15 XII, XIII Amor de Philomena (cont.), Novas torturas 01/01/1884
16 XIII, XIV Novas torturas (cont.), Miséria 02/01/1884 3
17 XIV Miséria (cont.) 03/01/1884
18 XV Coisas extraordinarias 04/01/1884
19 XVI Segredos de bastidor 05/01/1884
20 XVII Suprema exigencia 06/01/1884
21 XVIII Celebridades 07/01/1884 4
22 XVIII, XIX Celebridades (cont.), Petropolis 08/01/1884
23 XIX, XX Petropolis (cont.), Volta-se à dansa 09/01/1884
24 XX Volta-se à dansa (cont.) 10/01/1884
25 XXI, XXII Torniquetes, Dissolvem-se as ultimas illusões 11/01/1884
26 XXII, Dissolvem-se as ultimas illusões (cont.), Paquetá 12/01/1884
XXIII
27 XXIII Paquetá (conclusão) 13/01/1884
*contagem corrigida **nossa divisão ***indisponíveis na Hemeroteca Digital e no AEL

Tabela 9 – 1ª edição
Capítulo Título Paginação
I Flores de laranjeira 5-11
II O ferrolho 12-17
III Começam as provações 17-24
IV Veremos quem vence 24-35
V * -
VI Primeira desillusão 35-39
VII O rapto 39-44
VIII Emfim 44-46
IX Vôos altos 46-49
X De volta a patria 49-52
XI Qual dos dous maridos será o 52-59
mais infeliz?....
XII Amor de Philomena 59-63
XIII Novas torturas 64-67
XIV Miseria 67-72

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XV Coisas extraordinarias 72-75
XVI Segredos de bastidor 75-78
XVII Suprema exigencia 78-82
XVIII Celebridades 82-86
XIX Petropolis 86-90
XX Volta-se á dansa 90-95
XXI Torniquetes 95-98
XXII Dissolvem-se as ultimas 98-101
illusões
XXIII Paquetá 101-104
* Atribuímos a falta do capítulo V a uma falha editorial, não a um corte autoral.

Não houve alteração significativa. Nos casos estudados por Milton Marques
Júnior, Azevedo não teve apenas a preocupação em remodelar a linguagem; a própria
estrutura de capítulos foi bastante alterada. Não foi o caso de Filomena Borges.
Respondendo à questão que restou, parece-nos que Aluísio Azevedo
concordaria, afinal, que Filomena Borges é obra efêmera, como sua matriz, a “mãe”
Gazeta de Noticias, de Ferreira de Araújo. Assim, ela pertenceu a seu tempo, teve seus
efeitos, depois se esvaiu, perdendo sentido do mesmo modo que Filomena Borges, sua
protagonista, perdeu o sentido ao serem desfeitas suas últimas ilusões.

161
162
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Journal pour tous (Fr)
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Publicador Maranhense (MA)
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