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Junguiana

v.35-1, p.41-48

O fim da análise*

Maria Carolina Barrieu**


Silvana Parisi***

Resumo
O artigo trata do fim da análise, o que não como analogia para o papel do terapeuta: além Palavras-chave
implica em cura, alta ou individuação, pois esta de curador, cuidador. Por fim, são apresentadas Análise junguiana,
última pode ter continuidade mesmo após o en- reflexões sobre o mistério que envolve os pro- fim da análise,
fracasso,
cerramento das sessões. São discutidos os tér- cessos de vida e morte, e dor e sofrimento que
individuação,
minos abruptos e que podem mobilizar senti- afetam os analistas e constituem desafios em seu
sombra.
mentos de impotência, fracasso e aspectos da processo de individuação, na aprendizagem da
sombra do terapeuta – algumas situações são humildade de conviver com o não saber. „
ilustradas com casos clínicos. O arquétipo da
criança e as análises intermináveis também são
abordados, assim como a operação alquímica
separatio em relação ao fim da análise. As ima-
gens do médico e do enfermeiro são utilizadas

*Material apresentado originalmente em português, com o título


“O fim da análise”, sob a forma de palestra no XXIII Congresso
Nacional da AJB: A Práxis Analítica, um evento da Associação
Junguiana do Brasil, filiada à International Association for Analytical
Psychology, em Ouro Preto (Minas Gerais), 2016.
** Psicoterapeuta junguiana formada pela PUC-SP. Trainee da So-
ciedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA, filiada à Inter-
national Association for Analytical Psychology – IAAP, em Zurique
(Suíça). Aprimorada pela Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic –
PUC-SP em psicoterapia de casal e família.
E-mail: <mcbarrieu@gmail.com>.
*** Psicoterapeuta junguiana formada pela PUC-SP. Trainee do Ins-
tituto Junguiano de São Paulo – IJUSP, filiado à Associação Jun-
guiana do Brasil – AJB e à International Association for Analytical
Psychology – IAAP, com sede em Zurique (Suíça). Doutora em
psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Coordenadora de
curso de expansão no Sedes Sapientiae e professora e supervisora
no curso de pós-graduação latu sensu Psicoterapia Junguiana
da Universidade Paulista – UNIP.
E-mail: <silparisi@gmail.com>.

RevistaRevista
da Sociedade
da Sociedade
Brasileira
Brasileira
de Psicologia
de Psicologia
Analítica,
Analítica, 2016 „ 41
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Junguiana
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O fim da análise
Este artigo é fruto das reflexões que surgiram O processo analítico não é, de fato, indispen-
em um grupo de estudos formado por psicote- sável para que ocorra a individuação. Entretanto,
rapeutas junguianas, que se reúnem há mais de o convite ao exame da vida interior e do mundo
dois anos para a discussão de temas da atualida- das imagens e dos sonhos e o enfrentamento das
de e da prática clínica. Nos encontros, foram le- questões cruciais da existência humana são um
vantadas inúmeras questões que constituem o estímulo para a individuação. Mesmo que se en-
pano de fundo deste artigo. O fim da análise é cerre o encontro com o analista, o processo ini-
um tema pouco discutido entre colegas de pro- ciado pode ter continuidade.
fissão, uma vez que esbarra na sombra do ana- Assim, uma análise pode terminar por con-
lista e pode, em algumas de suas facetas, macular senso entre as duas partes, em que, de forma
a imagem de terapeuta bem-sucedido, bastante harmoniosa, o paciente segue seu processo de
trabalhado e consciente, constelando o outro polo individuação e sai satisfeito com suas conquis-
do binômio sucesso/fracasso. tas e ampliação de consciência. O analista, por
De forma a contextualizar “o fim”, objeto do sua vez, fica realizado com seu trabalho, na certe-
presente artigo, surgem alguns questionamentos, za de que auxiliou o paciente e cumpriu seu pa-
tais como: o fim é quando há cura e acaba o so- pel. Esse é um modelo ideal, mas que nem sem-
frimento? Analistas junguianos podem utilizar o pre ocorre no consultório.
termo alta? Também há motivos concretos ou plausíveis
Muito embora ainda levemos em nossa ba- que ocasionam um término ou interrupção do pro-
gagem o modelo médico, Jung aponta um cami- cesso analítico, tais como: alívio dos sintomas ou
nho que vai além da cura de neuroses, alívio de das queixas que motivaram a busca por análise,
sintomas ou adaptação social ao considerar o mudança de residência (embora, hoje em dia, a
processo de individuação como meta central da internet e o mundo globalizado tenham facilitado
análise. Jung (2000) é bastante claro ao reconhe- esses casos), doenças graves, dificuldades finan-
cer que “a análise não é uma cura que se pratica ceiras ou a transferência/contratransferência eró-
de uma vez para sempre, mas, antes do mais e tica que impede o vínculo profissional.
tão somente, um reajustamento mais ou menos Nem sempre o término da análise se dá de
completo” (par. 142). Além disso, o autor também forma simples ou bem resolvida. E quando traz
afirma ser improvável que uma terapia elimine desconforto para o paciente ou para o terapeuta?
todas as dificuldades, as quais são necessárias, E quando ocorre uma interrupção abrupta por
uma vez que o objetivo da análise não é o estado parte do paciente, sem aviso, sem aparente ex-
de felicidade, mas possibilitar ao paciente “su- plicação? É comum entender essas situações
portar” o sofrimento (JUNG,1981, par. 185). Em seu como resistência do paciente: ele não quer mais
entendimento: investir no processo, ele está fugindo do confron-
to com seu inconsciente ou reagindo de forma
A experiência, porém, mostra que há um núme- “complexada”. E aí o problema fica fora, nele, e
ro relativamente grande de pacientes para os não no terapeuta – lá, e não cá. Mesmo que tudo
quais a conclusão aparente do trabalho junto isso possa ser verdadeiro em relação ao pacien-
ao médico não significa de modo algum o fim te, também representa uma maneira segura de
do processo analítico. Pelo contrário, o confron- proteção do terapeuta contra eventuais sentimen-
to com o inconsciente continua do mesmo modo tos de impotência e fracasso.
que no caso daqueles que não interromperam o Pode-se pensar que a desistência do pacien-
trabalho junto ao médico. (JUNG, 1991, par. 4). te foi por inabilidade do terapeuta, que este não

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trabalhou bem, que algo lhe escapou – ou seja, compreender que esse era seu único caminho
que falhou. Essa visão o aproxima de sua som- de salvação, o que, de certa forma, preencheu o
bra, mas pode também não ser totalmente ver- vazio que ela deixou ao abandonar a análise sem
dadeira, à medida que um complexo provavel- se despedir.
mente foi ativado, intensificando o sentimento de Assim como esse caso deixou claro, algumas
incompetência ou culpa. vezes fica exclusivamente a cargo do terapeuta a
Vale trazer alguns exemplos de casos clíni- elaboração da interrupção ou término da terapia,
cos para ilustrar os questionamentos levantados que funciona como depositário dos conteúdos
a partir da práxis analítica. que o paciente não consegue integrar. No caso
Uma paciente de meia-idade procurou aten- exposto, isso se deu de forma concreta, por meio
dimento psicológico por apresentar sintomas do presente oferecido à terapeuta. Em outras
relacionados a ansiedade e depressão, que sur- situações, pode acontecer de o paciente não rea-
giram após uma situação de violência seguida lizar o pagamento das sessões, deixando uma
de morte no seu contexto familiar. O aconteci- porta entreaberta para que possa manter algum
mento a deixou muito abalada e em situação de tipo de vínculo com o terapeuta.
extrema crise emocional. Seu pai era uma figura Outro caso relevante para ilustrar a presente
conhecida por sua agressividade, principalmen- reflexão foi o de uma jovem imigrante que trou-
te no que diz respeito à educação dos filhos; no xe, como queixa inicial, a sua dificuldade de se
entanto, jamais haviam presenciado tamanha relacionar com as pessoas, tanto em relaciona-
violência na família. Ela estava totalmente des- mentos amorosos como em amizades ou rela-
controlada e desamparada frente a esse trágico ções de trabalho. Apresentava certos episódios
ocorrido, e o vaso terapêutico propiciou a trans- depressivos e foi diagnosticada com doença
ferência da mãe boa que acolheu seu sofrimen- neurológica incapacitante. Na primeira entrevis-
to e iluminou um pouco seu caminho. O proces- ta, contou sobre sua triste história familiar de
so terapêutico durou quase três meses, confi- abandono e negligência por parte da mãe bioló-
gurando-se uma psicoterapia breve com enfoque gica e o desconhecimento do pai. Era uma pes-
no atual momento de crise. Certo dia, a paciente soa globalizada, com carreira internacional. Sem-
resolveu que voltaria a morar perto da família e pre adaptou-se às mais variadas realidades de
se mudaria para sua região de origem, onde tudo todos os continentes nos quais morou. Entre-
aconteceu, e encerrou a terapia sem avisar, ain- tanto, não conseguiu criar raízes em nenhum
da que houvesse um combinado prévio de fazer lugar. Teve um filho, fruto de um relacionamento
uma sessão de finalização, que nunca ocorreu. com um colega de trabalho, com o qual nunca
Antes de partir, presenteou a analista com um se casou, nem sequer morou junto. Conquistou
artigo de decoração que claramente remetia à tudo sozinha e nunca pôde contar com a ajuda
situação vivida. O presente soou um tanto quan- de ninguém, sofrendo de forma totalmente soli-
to fúnebre, o que, a princípio, dificultou o real tária, o que contribuiu para a sua descrença nas
entendimento do significado daquele símbolo. relações humanas. Construiu uma persona dura,
Após o término da análise, concluiu-se que a rígida, muito dominada pelo animus, apática, em
paciente precisava transferir para a terapeuta o certa medida depressiva e totalmente sozinha se
peso da morte e da violência, representado de não fosse pelo filho, sua razão de viver. A cada
forma simbólica pelo presente, a fim de que ela nova mudança, ela recomeçava do zero. Sonha-
pudesse continuar a viver em paz. Nesse caso, a va repetidamente com casas, que construía e
paciente interrompeu abruptamente a análise, depois destruía. A paciente faltava frequente-
sem a abertura de qualquer tipo de devolução mente na terapia e, por vezes, desaparecia por
por parte da analista. No entanto, foi possível um longo período sem dar nenhuma satisfação,

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deixando a analista no limbo. Como consequên- ocorresse de forma mais sutil, propiciando à
cia, demandava uma postura ativa da analista criança um espaço de elaboração desse fim. En-
para trazê-la de volta à análise. Esse movimento tretanto, os pais estavam irredutíveis. No dia da
era correspondido pela paciente, que, então, última sessão, a mãe revelou que o seu filho es-
aparecia para a sessão e agradecia que a tera- tava apreensivo porque achava que nunca mais
peuta não tivesse desistido dela. No entanto, voltaria a ver a terapeuta. Portanto, conclui-se que
logo em seguida tornava a faltar. Diversos tipos os pais adotivos estavam repetindo inconscien-
de contato foram experimentados, com o intuito temente a história de abandono vivida pelo pa-
de garantir a assiduidade e continuidade do pro- ciente em relação aos pais biológicos. Nesse ca-
cesso. Porém, após muitas tentativas, ela parou so, a decisão em relação ao fim da análise foi
de se comunicar e não acertou os valores devi- unilateral, o que gerou uma grande frustração e
dos. Após muitos meses, finalmente quitou a sentimento de falha, impotência e anulação por
dívida, de forma que o único motivo de comuni- parte da terapeuta. Porém, vale lembrar que a re-
cação se extinguiu. Esse caso tratou de um tér- sistência era dos pais e não da criança, que, por
mino não abrupto, porém silencioso. A paciente sinal, estava muito vinculada.
não deixou explícito que gostaria de finalizar a É muito comum na psicoterapia infantil a in-
análise, e quem precisou colocar um fim foi a tervenção dos pais na análise dos filhos, uma vez
terapeuta, já que a paciente dificultou qualquer que têm expectativas diferentes em relação ao pro-
tipo de contato ou proximidade. A paciente não cesso e não o vivenciam diretamente. Tal inter-
conseguiu conversar, refletir, elaborar sobre o venção pode decorrer da melhoria das queixas ou
fim. Em vez disso, sufocou e matou lentamente da dificuldade de enxergar os próprios filhos e
qualquer resquício de vínculo. suas necessidades. De qualquer forma, o tera-
Por fim, cabe descrever um caso de psicote- peuta sente essa ruptura como um aborto, uma
rapia infantil, já que é frequente o término ou vez que seu trabalho é podado e ele dificilmente
interrupção da análise imposto pelos cuidado- poderá fazer algo para mudar essa condição.
res. O paciente era um menino de 6 anos que O espaço analítico é o temenos, o lugar pro-
tinha sido adotado aos 3 anos de idade. Ele fora tegido em que a alma pode se manifestar em to-
acolhido em uma casa lar (abrigo) aos 2 anos de da sua dor e fragilidade, expondo seus medos
idade, após denúncia de abuso sexual pratica- e emoções mais profundas e escuras; onde há
do por membro de sua família biológica. Após a empatia, aceitação e segurança. Sem dúvida, é
adoção, ele mudou-se para outro estado. A quei- um lugar no qual a criança1 – ou, antes, o arqué-
xa dos pais adotivos girava em torno de seu com- tipo da criança – encontra abrigo para sua vulne-
portamento opositor. Ao longo do processo te- rabilidade e é chamada a se manifestar. Hillman
rapêutico, que durou aproximadamente um ano (1981), em seu texto “Abandonando a criança”,
e seis meses, foi visível sua mudança de com- chama atenção para “a fantasia do crescimen-
portamento. A partir desse momento, a propos- to” que está alojada na forma como encaramos
ta da análise passou a ser a de oferecer um es- a psicologia e a psicoterapia. A ideia presente
paço de expressão e elaboração dos traumas em geral é a de que essa criança deve crescer,
provenientes da sua sofrida história durante a uma vez que a meta é o desenvolvimento e o cres-
primeira infância. Os pais adotivos resistiram, ale- cimento da personalidade. Mas, alerta Hillman,
gando que era uma patologização da criança, e ao caminharmos nesse sentido, abandonamos
quiseram interromper o processo. De forma inci- a criança, porque “o arquétipo da criança não
siva, comunicaram que a criança só teria mais uma cresce – permanece sempre como um habitante
sessão. Foram alertados para a necessidade de do país da infância, como um estágio do ser”
haver mais de uma sessão, para que o término (HILLMAN, 1981, p. 45).

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É essa criança que pode aparecer no paciente não contaminá-lo e não se cristalizar, colabora
que chega falando em parar a análise e quer a para que o analista fique mais atento e cuidado-
opinião do analista. Mesmo que esse desejo seja so em relação às saídas dos seus pacientes e ao
legítimo e costume revelar uma atitude de matu- que esses términos lhe refletem e espelham.
ridade no relacionamento, às vezes o paciente É interessante observar as oscilações que afe-
parece um jovem que pede autorização dos pais tam o consultório como um todo. A progressão
para sair de casa. O analista pode agir como um e a regressão da libido se manifestam nas fases
pai superprotetor, identificado contratransfe- em que o consultório fica cheio, há muita pro-
rencialmente com a figura parental, acreditando cura por horários, entrevistas e consultas. E há
que o paciente não está suficientemente ma- momentos em que, em uma ou duas semanas,
duro para sair do ninho. Ainda, pode interpre- vários pacientes decidem parar a terapia por mo-
tar seu desejo como resistência, ou apontar que tivos os mais diversos, para aflição do terapeuta
tal e tal complexos não foram bem trabalhados. iniciante. O que esses movimentos dizem para
Como discriminar se é de fato uma resistência o analista naquele momento?
ou um desejo de poder do analista? Não vamos Há aqueles pacientes que vão e voltam tem-
nos aprofundar aqui, mas vale lembrar como pos depois, em outros momentos da vida, às
Guggenbühl-Craig (2004) nos chama atenção vezes muitos anos depois. Há aqueles que nun-
para vários aspectos da sombra do analista, e ca interrompem a análise. Um exemplo retrata
como podemos atuar a partir da figura do char- esta última situação. Uma mulher está em tera-
latão prendendo o paciente à análise. pia há cerca de 20 anos. Ela teve uma infância
Outra possibilidade é o paciente (a criança) se muito difícil, com uma separação traumática dos
rebelar e sair, virando as costas repentinamente, pais. Sua mãe teve um surto quando a paciente
e o analista, assim como pais de adolescentes, era muito nova. Durante um longo tempo, sonhou
viver o sentimento de perda, o ninho vazio. com animais feridos, machucados ou presos.
Às vezes, é o terapeuta que empurra o pa- Depois, os animais começaram a aparecer em
ciente para fora ou indica a ele um colega, pois a seus sonhos de formas mais saudáveis. Uma cla-
teimosia da criança ou sua enorme carência é ra imagem de seu processo.
insuportável, já que dialoga com a sua própria Há alguns anos, ela manifestou a vontade de
criança abandonada que tanto quer reprimir ou interromper a análise, mas decidiu continuar com
negar. Outra possibilidade é o terapeuta incenti- frequência quinzenal. A terapeuta se perguntava
var o paciente (a criança) a dar o passo, o salto no se ainda havia sentido atendê-la. Era um proces-
ar em direção ao mundo, com medo, tremendo so de muitos anos e, em certos momentos, pa-
junto com ele e prendendo a respiração no mo- recia não haver muito progresso. Assim como em
mento do voo. outros processos que podem ser considerados
Não podemos deixar a criança para trás para “intermináveis”, a terapeuta sente que a acom-
nos tornarmos adultos, maduros. Ela está sem- panha em sua vida e que a análise ofereceu a
pre conosco. Nos momentos mais difíceis da vi- ela um eixo e uma base que lhe faltaram muito
da ou quando vivemos perdas, é a criança órfã cedo. Recentemente, a paciente trouxe um so-
que pede acolhida e aceitação. nho com a terapeuta, em que esta lhe falava que
Em sua formação e treinamento, geralmente era o momento de parar a análise, o que inco-
o terapeuta passa por algumas experiências co- modou a paciente. Será agora esse momento? A
mo paciente, eventualmente vivendo vários tipos questão que se faz sempre presente em casos
de términos, desde os mais tranquilos aos mais como esse é: qual é o sentido da permanência
difíceis – isso compõe sua bagagem como ana- na terapia? É necessário investigar se a perma-
lista. Ter passado por alguns fins dolorosos, se nência está a serviço do Self do paciente ou da

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sombra do terapeuta, que precisa se sentir útil e 1981) sempre falou a respeito de não ficarmos do
imprescindível. lado de fora mas, sim, junto do paciente, dentro
É importante assinalar que uma separatio 2 se do vaso. Recomendava abandonar as teorias e per-
anuncia quando o tema do encerramento da análi- manecer junto ao mistério vivo da alma humana.
se surge na sessão. Uma separatio que pode ser Quando alguém está sofrendo na nossa frente, é
vivida objetiva ou subjetivamente, de modo con- inútil explicarmos que ela está dominada por seu
creto ou simbólico, e que manifesta a necessidade complexo. Mais vale, nesse momento, estar ali em
do ego de sair do estado de participation mystique silêncio, em sintonia com sua dor, apenas trocan-
que pode ocorrer na análise. A separação ou a di- do os curativos, como bons enfermeiros.
ferenciação entre sujeito e objeto, entre os opos- Uma última analogia. No hospital, os médi-
tos, é passo importante para o processo de indi- cos não conseguem prever o momento da mor-
viduação e sempre precede a coniunctio. Tornar-se te, falam em semanas ou em dias. Quando não
um indivíduo implica estar “separado”, o que é um há mais o que fazer, a sombra da impotência se
ato da consciência. Mas, como afirma Edinger: “Ao faz presente e, ao mesmo tempo, é o que os hu-
separar os opostos, o Logos traz clareza; mas ao maniza. Poder conviver com o mistério da vida e
torná-los visíveis, traz também o conflito” (EDINGER, da morte nos aproxima de nosso tema. Quando
1990, p. 207). Essa característica de discórdia pre- entramos na jornada de atender um novo pacien-
sente na separatio pode ser a causa de alguns fins te em análise, não sabemos aonde ela vai nos
complicados de análise, resultado de uma aplica- conduzir, quais os caminhos que juntos iremos
ção errônea da separatio. percorrer. Podemos intuir, sentir e perceber, já
Uma analogia interessante relacionada à análi- nas primeiras sessões, os sinais de sua intensi-
se é a diferença entre médico e enfermeiro. O mé- dade, sofrimento e profundidade. Mas não sa-
dico, identificado com o arquétipo do curador, e bemos qual, como ou quando será seu término.
que geralmente carrega essa projeção, faz o diag- E nem como seremos afetados por tudo. Talvez
nóstico, passa as prescrições, mas se retira. Quem esse seja o grande desafio de individuação do
cuida, mede a pressão, colhe o sangue, limpa a analista. Jung (1986) nos ensina isso dizendo que
sujeira, alimenta, lava, troca o soro e a sonda é o aprendeu muito mais com os fracassos do que
enfermeiro ou o técnico de enfermagem. O médi- com os casos bem-sucedidos. Nas vicissitudes
co, o dr. X, detém o poder, nada é feito sem sua dos términos mal resolvidos, dos pacientes que
assinatura; mas a enfermagem, em seu anonima- se vão sem explicação, fins sem finalização, te-
to, cuida dos detalhes e fica mais tempo com o mos oportunidades para aprender a humildade
paciente. Além de ativarmos o lado ferido na equa- de conviver com a nossa ignorância diante do mis-
ção curador/paciente para que a relação analítica tério que o outro representa.
possa fluir e ativar o arquétipo do curador no pa- Segundo Hillman, a análise, como a conhe-
ciente, precisamos convidar o enfermeiro, com seu cemos, é interminável:
olhar atento, prático e constante, a participar do
espaço analítico. Essa figura anônima, mas pres- O “Conhece-te a ti mesmo” é seu próprio fim e
tativa, é quem cuida de nossa vulnerabilidade ex- não tem fim. É Mercurial. É uma arte hermética
posta e frágil, de nossos fluidos e lamentos. O paradoxal tanto direcionada a um fim quanto
enfermeiro nos remete à atitude paciente, empática sem fim, muito como o velho Freud disse da
e humilde no trato diário com as tarefas de rotina, análise, em seu último ensaio antes do exílio
como ouvir as repetitivas lamúrias dos pacientes, de Viena, tanto de seu fim como objetivo quan-
nas incontáveis sessões, meses ou anos a fio, pon- to de seu fim no tempo: “Não só a análise do
do em cheque muitas vezes as certezas e convic- paciente, mas a do próprio analista, deixaram
ções dos terapeutas. Lembremos o que Jung (1990, de ser termináveis e se tornaram uma tarefa

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interminável”. Não há outro fim senão o ato em Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor
si de fazer alma, e a alma não tem fim. (HILLMAN, tudo o que não sei e – por ser um campo virgem
2010, p. 127). – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei
é a minha parte maior e melhor: é a minha lar-
Guggenbühl-Craig ressalta a importância do gueza. É com ela que eu compreenderia tudo.
arquétipo curador-ferido e como é difícil para a Tudo o que não sei é que constitui a minha ver-
psique suportar a tensão das polaridades, o que dade. (LISPECTOR, 2004, p. 74). „
pode levar à cisão do arquétipo e, portanto, à
vivência cristalizada de um só polo. A fim de evi- Recebido em: 6/3/2017 Revisão: 26/5/2017
tar a cisão enrijecida em que vive o analista, diz
Guggenbühl: “Ele tem que ser sacudido. O se-
1
A referência à criança não significa que o paciente seja visto
nil ‘eu sei, eu sei’ deve transformar-se no socrá- como uma criança, mas se relaciona à manifestação do arquétipo
tico ‘eu não sei’” (2004, p. 137). Essa mesma ideia da criança, à criança interior.
2
Separatio é uma operação alquímica que produz ordem a partir
é expressa em linguagem poética por Clarice
do caos, promovendo a separação dos opostos e a criação da
Lispector no seguinte trecho: consciência. Medir, cortar e pesar são símbolos da separatio.

Abstract

The end of the analysis


This article analyses the end of the analytical as the alchemical separatio operation. The im-
process, which does not mean healing neither ages of the doctor and of the nurse are used as
release nor individuation. The latter may go on an analogy of the role of the therapist, both as a
even after sessions stop. Sudden analytical pro- healer and as a caretaker. Last, the article con-
cess endings which may result in a sense of help- siders the mystery that involves the process of
lessness and failure are also examined here, as life and death and pain and sorrow that affects
well as the interference of the therapist’s shadow analysts – whose own individuation process is
components. Some clinical cases illustrate such challenged and who needs to learn about hum-
situations. The child archetype and the endless bleness in order to cope with the unknown. „
analysis are also dealt with in this article as well

Keywords: Jungian analysis, the end of analysis, failure, individuation, shadow.

Resumen

El fin del análisis


El artículo trata del final del análisis, lo que sentimientos de impotencia, fracaso y aspectos
no implica la cura, el alta o la individuación, de la sombra del terapeuta y se ilustran algunas
porque ésta última puede continuar incluso situaciones en casos clínicos. Se abordan tam-
después del cierre de las sesiones. Se discuten bién el arquetipo del niño, los análisis inter-
los finales repentinos que pueden movilizar minables y la operación alquímica separatio

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relacionada con el fin del análisis. Además, se comprende los procesos de vida y muerte, dolor
utilizan las imágenes del médico y de la enfer- y sufrimiento que afectan a los analistas y cons-
mera como analogías del papel del terapeuta: tituyen desafíos en su proceso de individuación,
además de curador, cuidador. Finalmente, se en el aprendizaje de la humildad de convivir con
presentan reflexiones acerca del misterio que el no saber. „

Palabras clave: analisis junguiano, fin del analisis, fracaso, individuación, sombra.

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