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O pneu furado

Ricardo B. Santos

É costume nas escolas onde trabalho, as pedabobas, perdão, pedagogas, se utilizarem


das dinâmicas de grupo e alguns textos bonitos. Tudo faz parte de uma estratégia que
não é estranha aos professores: antes de tratar algum assunto desagradável, faça o
pessoal descontrair, se desarmar... Naquele dia teríamos uma reunião decisiva com o
diretor e as pedagogas aplicaram a estratégia. E funcionou bem, diga-se de passagem.
Expor as contradições a que todos vivemos, nas coisas as quais lutamos a vida inteira, é
no mínimo, digamos, uma estratégia com garantia de êxito. Ia dizer no mínimo
apelação. Mesmo sabendo ser uma estratégia, não havia como não discutirmos assunto
de tão grande importância.

Terminada a dinâmica, entrou o diretor. O borbúrio que ainda persistia na casa do saber
rapidamente se esvaiu. O diretor, Laércio, 40 anos, caminhou lentamente com passos
firmes até a junção de dois semi-cículos de professores que permaneciam abertos a
menos de uma carteira, que repousava na posição em que o círculo se completava. Ali
ele sentou. A expectativa aumentava, conforme ele remexia aqueles papéis sobre sua
mesa. As pedagogas o olhavam como se confiassem na sua destreza. Ele, por sua vez,
registrava com os olhos a presença dos professores presentes. Frisou a testa e disse:

–Bom, professores: estamos aqui porque nós fizemos um acordo, um pacto de


cavalheiros que não foi cumprido – relembrou a história que já havia sido repetida a
semana inteira, razão pela qual estávamos ali.

Não quero cansar o leitor contando tudo o que aconteceu. O fato é que houve
alguns desentendimentos entre o diretor e os professores. Esse era o dia “D”, de
resolver o conflito.

Eu, então, aguardava o momento da bomba explodir. Controlava os movimentos e


reações do Israel, colega agressivo que estava ao meu lado, toda vez que o diretor
falava. Volte e meia ele fazia uma piadinha procurando não demonstrar preocupação.
Contra as expectativas, contudo, e para a nossa surpresa, a reunião se desenvolveu
tranqüilamente. De fato a estratégia havia sido bem sucedida. Com dialogo solto
chegamos rápido num consenso. Pra mim, porém, algo ainda pairava no ar. Como um
enigma. Um mistério. Por que o Laércio estava tão diferente, flexível? Na reunião
anterior, ontem, ele estava no extremo oposto. Haveria acontecido alguma coisa? Como
alguém poderia mudar tão radicalmente em apenas 24 horas? Enquanto a reunião
caminhava para o fim, pensava no que poderia justificar a abrupta mudança de
comportamento.

Terminada a reunião, estávamos todos reunidos conversando, como de costume,


conforme apreciávamos o lanche, especial, naquela noite. Observava o diretor de longe.
Minha mãe, que é professora como eu , se aproximou:
– Tudo bem lá em casa?
– Tudo.
– Almoçou?
– Sim.
– Seus irmãos foram pra casa?
– Não.
Os demais professores acompanhavam nosso diálogo. Eu sabia que ela queria chegar no
pneu furado. Para o leitor que não está a par da história, eu explico: na noite anterior
tivemos o infortúnio de ter um pneu furado. Pior ainda: não tínhamos um estepe.
Conseguimos chegar em casa só Deus sabe como. É claro que não sobrou nada do pneu.
Brigamos no carro; disse a ela que não iria arrumar. Entretanto mudei de idéia pela
manhã: fui a pé até o banco mais próximo e saquei, com sacrifício, o dinheiro que não
tinha. Voltei. A pé, também fui à borracharia de um espertalhão do bairro e, a contra
gosto, lhe comprei um pneu. Levei-o nas costas. Troquei. Coloquei combustível,
calibrei, lavei o carro. Por isso tudo chegara 15 minutos atrasado na reunião. Então,
estava disposto a não falar nada para ela sobre o pneu, a não ser que me perguntasse.
– Veio de ônibus – finalmente perguntou ela crente que a resposta seria
afirmativa.
Pensei em faze-la acreditar que sim. Valkíria, a pedagoga, me encarava
esperando uma resposta como se fosse para ela.
– Não – prossegui na seqüência de respostas curtas.
Minha mãe sorriu.

Valkíria olhou para minha mãe como que sem entender o diálogo. Eu fiz a mesma
expressão aguardando que minha mãe tomasse a iniciativa de explicar. Não queria
admitir a minha displicência com relação ao estepe em frente a todos os professores.
Laércio, que estava sentado na mesa próxima abocanhando seu cachorro quente, fingia
não estar prestando a atenção.
– Ontem o pneu do carro furou bem aqui em frente – disse minha mãe com bom
humor. Os professores escutavam com atenção. Eu, discreto, observava as reações,
tentando também achar, naquilo tudo, alguma graça, não fosse o fato de minhas pernas
ainda latejarem pela maratona do dia.

Num dado momento o diretor, que estava até então em silencio, se manifestou:

– Eu passei por um carro piscando com o pneu na lona ontem! – Eram vocês –
exclamou como se tivesse algo para revelar.

Todos aguardávamos a sua explicação.

– Você disse que passou no posto e não tinha ar no calibrador? – Que


coincidência – dizia o diretor reticente, sem procurar esconder a diversão que mantinha
com o mistério. – Vocês não imaginam tudo o que aconteceu comigo nestas últimas 24
horas.

Então eu estava certo, imediatamente pensei. De fato algo havia acontecido.


Fiquei subitamente tomado de interesse para saber a história que ele iria contar; e que
agora sabia ainda estar relacionado com...o nosso pneu furado? Mas como nós
poderíamos ter influenciado o seu dia se nem sequer nos encontramos? Olhava-o
atentamente me consumindo de curiosidade.

– Tudo começou quando eu passei por um carro “piscando”. Eu nunca ia


imaginar que eram vocês naquele carro.
O diretor fez uma pausa, pensativo.

– Há males que vem para o bem – continuou ele.


– Fala logo o que aconteceu homem! – disse a pedagoga já aos pulos de
ansiedade.
– Responda a pergunta da Valkíria – disse minha mãe calmamente enquanto ele
enrolava falando de outras coisas.
– Que pergunta?
– Ora, como que pergunta...
– Ah...sim. Vocês não têm idéia de tudo que aconteceu a partir do momento que
eu vi o carro de vocês piscando ontem.

Não conseguia imaginar o que teria acontecido com ele. Será que também ele tivera
infortúnio parecido? E será que coincidentemente também estava sem estepe? Não, isso
era muito pouco provável. Organizado e precavido, com uma caminhonete daquele
tamanho, ele não poderia se dar ao luxo destes desvarios. Não descartei a hipótese.

– Tudo começou quando eu vi o carro de vocês piscando, piscando como um


sinal de alerta, de emergência – o diretor representava o pisca com o movimento das
mãos. – É como a dor. Sabia que a dor é um sinal de alerta?

Neste momento tive uma intuição. Para mim estava claro que, como filósofo, ele
poderia estar se referindo a algo muito mais subjetivo. A luz do alerta piscando;
emergência; ele tem um insight de alguma coisa urgente que precisa resolver. Fica
agradecido pelo carro que o fez lembrar, embora não tivesse a mínima idéia de quem
estava no automóvel. A partir dali, sua noite já programada, muda completamente. Não
aconteceu algo muito diferente comigo: o pneu furado me fez pensar em coisas que
nada tinham a ver com carros e borracha...

– Não enrrola Laércio – disse minha já impaciente.


– Tudo bem.

Nisto tocou um celular. Era o do diretor.

– Dá licença um minuto.
O diretor saiu a passos largos da sala em direção a secretaria.

Todos voltaram a conversar. Eu, porém, estava atormentado pela curiosidade de saber o
que se passara no dia anterior. Se estivesse certo, em nosso infortúnio, eu minha mãe
faríamos parte de algo muito maior, que nem sequer desconfiávamos em nossa
medíocre percepção da realidade. Não conseguia pensar noutra coisa. Mas uma dúvida
me fez parar: Será que ele estaria falando sério? Ele gostava de fazer das suas também.
Por várias vezes fizera um suspense que havia terminado com um frustante “viu como é
fácil manipular a mente das pessoas?”. Não poderia ser o caso. Ele de fato estava
mudado. Eu havia reparado no seu comportamento antes dele comentar qualquer coisa.
Por um momento hesitei lembrando-me da ilusão de ótica que tivera no momento da
reunião. Não fora uma ilusão de ótica. Enxerguei escrito no texto da pedagoga
“Borracharia – pneu novos e usados”. Minha mente havia criado aquelas palavras,
devido o dia exaustivo que tivera. Vivi meu drama com pneus e só enxergava pneus. A
nossa vida é quem determina o nosso mundo. Será que o Laércio estava diferente
mesmo, ou eu é que estava? Não seria tudo fruto de uma mente cansada em plena dez
horas da noite de sexta-feira, depois de uma semana inteira de trabalho cheia de
surpresas? Existiria realmente alguma relação objetiva entre o pneu furado e o suposto
incidente que fez o Laércio mudar de atitude, ou sua consciência apenas usou o nosso
carro para conseguir uma audiência com ele, assim como a minha usou o pneu furado
para conseguir uma audiência comigo?

Não havia como responder todas aquelas perguntas. O jeito era esperar.