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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 626.034 - RS (2004/0015832-1)

RELATOR : MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA


RECORRENTE : RENE PACHECO DE ROSE
ADVOGADO : RAFAEL DA CÁS MAFFINI
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
EMENTA

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. PRINCÍPIOS DA MORALIDADE E LEGALIDADE.
CONDUTA DOLOSA. TIPICIDADE DO NO ART. 11 DA LEI N. 8.429/92.
1. O tipo previsto no art. 11 da Lei n. 8.429/92 é informado pela conduta e pelo
elemento subjetivo consubstanciado no dolo do agente.
2. É insuficiente a mera demonstração do vínculo causal objetivo entre a conduta
do agente e o resultado lesivo, quando a lei não contempla hipótese da responsabilidade
objetiva.
3. Recurso especial provido.

ACÓRDÃO

Prosseguindo no julgamento, após o voto-vista da Sra. Ministra Eliana Calmon, os


Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça acordam, por maioria, conhecer do
recurso, vencido o Sr. Ministro Castro Meira, e, no mérito, por unanimidade, dar provimento ao
recurso nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Francisco Peçanha Martins e
Eliana Calmon (voto-vista) votaram com o Sr. Ministro Relator.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro João Otávio de Noronha.
Brasília, , 28 de março de 2006 (data do julgamento).

MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA


Relator

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RECURSO ESPECIAL Nº 626.034 - RS (2004/0015832-1)

RECORRENTE : RENE PACHECO DE ROSE


ADVOGADO : RAFAEL DA CÁS MAFFINI
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA:

Tratam os autos de ação civil pública proposta pelo Ministério Público do Estado
do Rio Grande do Sul em face de Rene Pacheco de Rose, que, sendo Oficial de Registro
Imobiliário, teria descumprido ordem judicial na qual havia sido determinada o registro de
restrição (sequestro prévio) junto à matricula de imóvel de propriedade de Eucalixtino José
Manosso. Requereu-se a condenação do oficial nas “penas previstas nos artigos 10 e 11 da Lei
n. 8.429/92”.

O Juiz sentenciante entendeu que houve o descumprimento de ordem judicial sem


dano ao erário público e que também não houve proveito patrimonial pelo agente. Condenou-o,
então, nos termos dos artigos acima indicados, ao pagamento de multa no valor de R$ 4.898,40.

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região manteve a sentença em acórdão assim


ementado:
“AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ORDEM JUDICIAL. CUMPRIMENTO.
OFICIAL TITULAR DE OFÍCIO DE REGISTRO IMOBILIÁRIO.
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA CONFIGURADA. MULTA CIVIL.
Afronta a Lei n. 8.429/90 da Improbidade Administrativa o servidor –
Oficial Titular de Ofício Imobiliário, que deixa, de pronto, de cumprir ordem
judicial, no sentido de proceder ao seqüestro prévio de 50% de imóvel, ao
argumento de que o Ofício oriundo do Juízo competente ressentia-se de
elementos formais indispensáveis ao seu cumprimento, ainda que venha a fazê-lo
posteriormente. Não causando dano ao erário, a aplicação da multa civil, como
pena, é medida correta adotada pelo Juízo.”

Inconformado, o réu interpôs recurso especial com base na alínea “a” do permissivo
constitucional, alegando que foram vulnerados os arts. 11, II, e 12 da Lei n. 8.429/92.

Apresentadas as contra-razões, os autos vieram a esta Corte por decisão positiva de


admissibilidade constante da fl. 307.

O Ministério Público Federal, às fls. 313/315, exarou parecer pelo não-conhecimento


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ou não-provimento do recurso especial.

É o relatório.

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RECURSO ESPECIAL Nº 626.034 - RS (2004/0015832-1)

EMENTA

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. PRINCÍPIOS DA MORALIDADE E LEGALIDADE.
CONDUTA DOLOSA. TIPICIDADE DO NO ART. 11 DA LEI N. 8.429/92.
1. O tipo previsto no art. 11 da Lei n. 8.429/92 é informado pela conduta e pelo
elemento subjetivo consubstanciado no dolo do agente.
2. É insuficiente a mera demonstração do vínculo causal objetivo entre a
conduta do agente e o resultado lesivo, quando a lei não contempla hipótese da
responsabilidade objetiva.
3. Recurso especial provido.

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA (Relator):

Primeiramente, afasto a preliminar levantada pelo MPF, em suas contra-razões, de


óbice ao conhecimento do recurso ante a Súmula n. 7 deste Tribunal, porquanto o recorrente não
buscou revolver os fatos como assentados no acórdão recorrido. Ao contrário, a partir deles
sustentou a inexistência de ato de improbidade.

A celeuma instaurada nos autos diz respeito ao art. 11, II, a Lei n. 8.429/90
(improbidade administrativa), que estabelece o seguinte:

“Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta


contra os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão que viole
os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e
notadamente:
I - omissis;
II - retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício;”

Este artigo versa sobre os atos de improbidade que atentam contra os princípios da
administração pública, e, de tais princípios, no acórdão recorrido, foi, ressaltado que, in casu, o
ato perpetrado pelo recorrente atingiu mais especificamente o da legalidade e moralidade.

É certo que os atos contidos no rol dos incisos do art. 11 são os que atentam contra
os princípios da administração pública, princípios estes que também constam do art. 37, § 4º, da
Constituição Federal. E, tratando-se de princípios, não obstante a previsão na lei positiva, ao se
mensurar acerca da honestidade, imparcialidade, legalidade e lealdade que devem nortear a

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conduta administrativa, não se exige o efetivo dano ao erário público, pois são valores que visam
resguardar a moralidade administrativa. Também por esse motivo, há doutrinadores, e parte da
jurisprudência, sustentando que o elemento volitivo atinente ao dolo não se apresenta como
requisito motivador do ato de improbidade, porquanto esse seria presumivelmente doloso.

Todavia, não se pode atribuir a nenhum dos atos tipificados nos arts. 9, 10 e 11, da lei
em questão a presunção de dolo, pois é elemento subjetivo necessário à configuração do tipo
contido em tais normas.

Emerson Garcia explica o seguinte:

“Ressalvados os casos em que a responsabilidade objetiva esteja


expressamente prevista no ordenamento jurídico, é insuficiente a mera
demonstração do vínculo causal objetivo entre a conduta do agente e o resultado
lesivo. Inexistindo um vínculo subjetivo unindo o agente à conduta, e esta ao
resultado, não será possível demonstrar 'o menosprezo ou descaso pela ordem
jurídica e, portanto, a censurabilidade que justifica a punição ('malum passionis ob
malum actionis').

No presente caso, afere-se, de várias passagens do acórdão recorrido, o


entendimento de que o ato praticado pelo recorrente – descumprimento de ordem judicial –
ajusta-se ao tipo previsto no inciso II, do art. 11, mais propriamente na parte que define: “deixar
de praticar”; observe-se:

“Quando o magistrado expede uma ordem , a partir do que decidiu em um


processo judicial, almeja que esta seja imediatamente cumprida, conferindo à ela a
efetividade da tutela requerida. Ao instante em que o destinatário do mandado
opõe recusa para atender o que lhe foi ordenado, a primeira idéia que se tem é que
aquele agente público malferiu uma parcela de soberania do estado, e que por
isso, deve ser punido.”

“Concluindo, entendo que a conduta do agente está efetivamente tipificada


na Lei nº 8.492/92, porquanto deixou de atender, de pronto, e na condição de
agente público, ordem judicial para fins de registro de seqüestro prévio de bem
imóvel.”

Como se vê, o tribunal a quo entendeu, para avaliação da tipicidade da conduta,


que o não-cumprimento de pronto da ordem judicial era suficiente para caracterizar o ato de
improbidade. Restringiu-se, portanto, à conduta, deixando de aferir sobre a vontade do agente em
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desrespeitar princípio administrativo, ou seja, não houve identificação do dolo.

Na verdade, dolo não houve. Extraio também do acórdão parte do depoimento do


recorrente, que, quando da instrução processual, afirma o seguinte:

“ (...) Requisitos que o art. 239 do Lei 6.015 determina que eu tenho que
exigir. E a minha intenção foi exatamente essa aí. Porque em todos os outros
procedimentos, em outros casos semelhantes, eu fiz, o documento voltou para a
repartição de origem, foram completados, voltaram e foram cumpridos.”

Do próximo depoimento citado, percebe-se que o recorrente, ao devolver o ofício


expedido pelo Juízo, informando que não o cumprira, contou com o respaldo de sua consultoria
jurídica; de forma que outra não pode ser a conclusão a não ser a de que agiu crendo que
satisfazia seu dever de ofício, e, ao dar interpretação ao art. 239 da Lei de Registro Públicos, não
intentou descumprir ou desacatar ordem judicial; ao contrário, pois, mesmo que equivocadamente,
agiu crendo que bem desempenhava sua função pública.

Essa Turma já teve oportunidade de analisar a questão, decidindo que o tipo do art.11
da Lei n. 8.429/92, para configurar-se como ato de improbidade, exige conduta comissiva ou
omissiva dolosa. Confira-se:

“ADMINISTRATIVO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - ATO DE


IMPROBIDADE:
TIPIFICAÇÃO (ART. 11 DA LEI 8.429/92).
1. O tipo do artigo 11 da Lei 8.429/92, para configurar-se como ato
de improbidade, exige conduta comissiva ou omissiva dolosa.
2. Atipicidade de conduta por ausência de dolo.
3. Recurso especial provido.” (REsp n. 534;575-PR, relatora Ministra
Eliana Calmon, DJ de 29.3.2004.)

Faço a ressalva de que, ao valer-me das citações acima indicadas, não busquei
revolver os fatos informadores da presente ação, mas, demonstrar que o tribunal a quo, na
aferição da tipicidade da conduta do réu, ora recorrente, deixou de examinar um de seus
requisitos essenciais, aqui consubstanciado no elemento volitivo do agente, o que já é suficiente
ao provimento do presente recurso, uma vez que a tipicidade dos atos previstos na Lei n.
8.429/92 não se esgota na conduta do agente. Ademais, trata-se de fatos incontroversos.

Portanto, entendo que, no acórdão recorrido, incidiu-se em vulneração do disposto no

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inciso II do art. 11 da Lei n. 8.429/92, pois, ao se proceder à subsunção dos fatos in concreto à
referida norma, deixou-se de considerar todos os elementos que ensejariam a tipificação da
improbidade administrativa.

Ante o exposto, conheço do recurso especial e dou-lhe provimento para julgar


improcedente a presente ação civil pública.

É como voto.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
SEGUNDA TURMA

Número Registro: 2004/0015832-1 REsp 626034 / RS

Número Origem: 200071070063910

PAUTA: 03/11/2005 JULGADO: 08/11/2005

Relator
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. DULCINÉA MOREIRA DE BARROS
Secretária
Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : RENE PACHECO DE ROSE
ADVOGADO : RAFAEL DA CÁS MAFFINI
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

ASSUNTO: Ação Civil Pública - Improbidade Administrativa

SUSTENTAÇÃO ORAL
Dr(a) RAFAEL DA CÁS MAFFINI, pela parte: RECORRENTE: RENE PACHECO DE ROSE

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"Após o voto do Sr. Ministro-Relator, dando provimento ao recurso, pediu vista dos
autos o Sr. Ministro Castro Meira."
Aguardam os Srs. Ministros Francisco Peçanha Martins e Eliana Calmon.
Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Franciulli Netto.

Brasília, 08 de novembro de 2005

VALÉRIA ALVIM DUSI


Secretária

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RECURSO ESPECIAL Nº 626.034 - RS (2004/0015832-1)

RELATOR : MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA


RECORRENTE : RENE PACHECO DE ROSE
ADVOGADO : RAFAEL DA CÁS MAFFINI
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

VOTO-VISTA

O EXMO. SR. MINISTRO CASTRO MEIRA: Cuida-se, na origem, de ação civil


pública por ato de improbidade administrativa promovida pelo Ministério Público Federal contra Rene
Pacheco de Rose, Oficial Titular do Registro Imobiliário.

Consta dos autos que o recorrente teria deixado de cumprir ordem judicial para a
realização do seqüestro prévio de 50% de um bem imóvel, cujo proprietário estaria sendo processado
na esfera criminal pela prática de crime contra a ordem tributária, servindo o imóvel como garantia de
eventual e futura execução.

O Juízo sentenciante considerou configurado o ato de improbidade tipificado no art. 11,


II, da Lei n.º 8.429/92. Entretanto, por não haver dano ao erário ou locupletamento ilícito por parte do
agente, julgou procedente em parte o pedido, condenando o réu ao pagamento de multa civil fixada em
R$ 4.898,40.

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região manteve a sentença condenatória, por


entender que o descumprimento de mandado judicial ou o retardo no cumprimento da medida implica
ato de improbidade, nos termos do art. 11, II, da Lei n.º 8.429/92.

O Ministro João Otávio de Noronha conheceu do recurso para dar-lhe provimento,


entendendo que "o tipo previsto no art. 11 da Lei n.º 8.429/92 é informado não apenas pela conduta,
mas também pelo elemento subjetivo consubstanciado no dolo do agente".

Pedi vista dos autos para um melhor exame.

Para chegar a conclusão sobre a tipicidade da conduta, o aresto impugnado valeu-se dos
elementos de prova existentes nos autos, especialmente da prova testemunhal. Do voto condutor,
destacam-se os fragmentos seguintes:

"Feitas as considerações, cabe aferir, no caso concreto, a natureza do


comportamento do agente, que deixou de cumprir, de plano, a ordem que lhe foi
encaminhada por meio de Oficio do Juízo, no sentido de registrar medida de
seqüestro de um bem imóvel. E o faço considerando essencialmente, além dos
documentos contidos no feito, o depoimento pessoal de fls. prestado pelo réu. Em
relação à alegação de falta do mandado e a ausência de elementos como matrícula,
qualificação, depositário no Oficio oriundo do Juízo, como impeditivos para o cumprimento
da ordem, o réu expressamente consignou no depoimento (sem grifos no original):

'(...) Requisitos que o art. 239 da Lei 6015 determina que eu tenho que
exigir. E a minha intenção foi exatamente essa aí. Porque em todos os outros
procedimentos, em outros casos semelhantes, eu fiz, o documento voltou para a
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repartição de origem, foram completados, voltaram e foram cumpridos. (...)'

E na falta de todos esses dados, Sr. Rene, o Sr. poderia ter procedido a
averbação, e não o registro definitivo desse seqüestro?

Poderia se tivesse vindo, pelo que diz a Consolidação, o mandado. E eu


estranhei porque eu nunca vi, e não está elencado na Lei de Registros Públicos,
um seqüestro prévio. Eu estranhei o seqüestro prévio. Na Lei de Registros
Públicos não diz. E não seria um mandado, que ali diz que eu poderia,
eventualmente, fazer a notícia. Então eu entendi que, devolvendo à origem, seria
feito dentro do prazo normal, e eu iria cumprir normalmente. Eu agi jamais com
outra intenção que não seja facilitar o trabalho, fazendo tudo isso que eu fiz. Eu
acho que não houve, em momento algum, um pensamento que não fosse outro.
Entendi que, sendo seqüestro prévio, não estaria elencado entre aqueles
relacionados na Lei de Registros Públicos. Então, entendi por bem devolver."

E o depoimento de fl. 190 da testemunha Stefani de Rose Trunfo (Consultora


Jurídica do Registro de Torres) assim revela:

'(...) E a orientação que nós passávamos a todos os cartórios, e não seria


diferente para o dele, era de que... claro, havia aquela questão de se fazer a
averbação quando o mandado vinha incompleto. Mas no caso em questão, nós
examinamos lá na Corregedoria, e por ser um seqüestro prévio, do qual nós não
conhecíamos, não tínhamos tomado conhecimento deste suposto seqüestro
prévio, não cumprindo nenhuma das características, a orientação, como seria
passada para qualquer .Cartório, é de que fosse feita essa impugnação e devolvido
para o Juiz, que expediu a ordem, para serem cumpridos os requisitos da Lei, do
art. 239 e CPC. Foi orientado, porque se imaginou que fosse um seqüestro, como
não dizia a origem do processo, que depois a gente veio a saber qual era, fosse
uma penhora normal do CPC. E depois, nos autos mesmo, o Juiz disse que era do
Código penal o seqüestro'. (...)

Perguntado sobre a possibilidade de ter sido feita averbação, assim respondeu:

'Porque a orientação da Corregedoria é de que essas averbações, até porque


geram um certo pressuposto de direito, elas dependem de mandado incompleto.
Um mandado de penhora, que não venha, por exemplo, que não tenha depositário,
que não venha completa a descrição do imóvel, que não venha completa a
qualificação da parte. Aí sim se faz uma averbação, porque os requisitos são
mínimos, para o registro. Esse é o entendimento da Corregedoria. Agora, outro
tipo de documento, como por exemplo, esse caso oficio; ele não é um mandado.
Não ficou claro desde o princípio, do protocolo ele, qual seria toda a natureza.
Até porque, se a Sra. Examinar os autos que deram origem a esse oficio, a Sra.
Vai ver que foi feita uma consulta do cartório, independente das impugnações
todas, foi deita uma consulta para se chegar à conclusão de que seria esse
seqüestro prévio'. (...)

Cotejando os depoimentos mencionados com os demais documentos

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contidos nos autos, chega-se a conclusão de que a sentença deve ser integralmente
mantida. Com efeito, o Oficio oriundo do Juízo (fl. 63), não deixa dúvidas em relação ao
sua autenticidade, com clara identificação do seu remetente, assim como em relação ao seu
conteúdo mandamental: ordem judicial, e como tal não está submetido à impugnação
extrajudicial, hipótese que não encontra previsão no ordenamento jurídico. Não cabe ao
agente administrativo impugnar ordem judicial recebida, sob pena de, admitindo-se tal
conduta, desrespeito ao próprio Estado Democrático de Direito. E não merece relevo o
argumento de que o Oficio ressentia-se dos elementos indispensáveis, porque .poderia o
agente proceder à averbação do gravame à margem da matricula do imóvel, e,
posteriormente, solicitar a regularização de supostos vícios (sem grifos no original).

E a sentença enfrentou com maestria a questão, e, por conta disso, peço vênia
para transcrevê-la parcialmente, verbis:

'Na esteira de tais posicionamentos, a atitude tomada pelo réu, frente à


ordem judicial a ele direcionada, destoou do dever de probidade norteador da
atividade pública. De fato, o ordenamento confere remédios jurídicos específicos
aos jurisdicionados que, eventualmente, venham a ser lesados em seus direitos
por ilegalidade ou abuso de poder - mesmo emanados de órgão do Poder
Judiciário. Nessa seara, caso entendesse ilegal ou atípica a ordem judicial a ele
direcionada, o demandado deveria ter dirigido sua pretensão ao próprio estado,
invocando a tutela jurisdicional para a composição da questão, considerando-se,
acima de tudo, a presunção de legitimidade próprio dos atos judiciais. Importa
igualmente consignar que o oficial registrador possuía legitimidade para suscitar
dúvida acerca da questão controvertida junto à instância adequada, o que não foi
feito no caso em apreciação. Em vez disso, o réu desconsiderou a determinação
do Magistrado Federal, procedimento que não se coaduna com os princípios
basilares que regem a atividade pública. Nesse ponto, sublinhe-se que, no
transcorrer do feito, não restou nem mesmo demonstrada a efetivação de
consulta, pelo réu, sobre o caso vertente junto à Corregedoria-Geral de Justiça do
Estado, não-obstante menção a esse respeito, de parte de sua filha, Stefani de
Rose Trunfo, ouvida pelo JuÍzo na qualidade de Informante (termo às fis.
186,190-192).'

Concluindo, entendo que a conduta do agente está efetivamente tipificada na Lei


n° 8.429/92, porquanto deixou de atender, de pronto, e na condição de agente público,
ordem judicial para fins de registro de seqüestro prévio de bem imóvel. Havendo a
possibilidade de averbação, não há justificativa que ampare o comportamento, tal como
sugerido pelo agente. Nesse sentido, correta também a sentença ao reconhecer que o
retardo no cumprimento de decisão judicial afronta o art. 30 da Lei n° 8.935/94, segundo o
qual são deveres dos notários e dos oficiais de registro atender prioritariamente as
requisições de papéis, documentos, informações ou providências que lhes foram solicitadas
pelas autoridades judiciárias ou administrativas".

Não se discute nos autos se o tipo previsto no art. 11 da Lei de Improbidade é de mera
conduta ou exige prova da ação ou omissão dolosa do agente. Se a controvérsia estivesse posta nestes
termos, efetivamente não haveria necessidade de revolver os elementos de fato e de prova que cercam
o processo.

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O Tribunal de origem, em momento algum, afastou o dolo como elemento subjetivo do tipo.
Apenas concluiu ser dolosa a conduta do agente em face das provas coligidas aos autos. Em outras
palavras, considerou que o descumprimento da ordem judicial é ato de manifestação livre e consciente
da vontade, ou seja, ato doloso. É o que evidencia a leitura atenta do voto condutor, cuja
fundamentação tem início nos seguintes termos:

"Cotejando os depoimentos mencionados com os demais documentos contidos


nos autos, chega-se a conclusão que a sentença deve ser integralmente mantida (...)"

Após analisar a prova testemunhal e as provas documentais colacionadas, concluiu:

"(...) entendo que a conduta do agente está efetivamente tipificada na Lei n°


8.429/92, porquanto deixou de atender, de pronto, e na condição de agente público, ordem
judicial para fins de registro de seqüestro prévio de bem imóvel. Havendo a possibilidade de
averbação, não há justificativa que ampare o comportamento, tal como sugerido pelo
agente.

Tivesse o acórdão recorrido afastado o dolo como elemento do tipo, não seria necessária a
análise das provas testemunhal e documental. A simples configuração da conduta omissiva consagrada
no art. 11, II, da Lei n.º 8.429/92 - "retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício" - seria
suficiente para a condenação.

Está expresso no voto condutor que a análise do comportamento do agente deu-se à luz
das provas constantes dos autos e, justamente com base nesse contexto probatório, o Tribunal de piso
concluiu estarem presentes os elementos necessários a configuração do tipo, inclusive o dolo:

"Feitas as considerações, cabe aferir, no caso concreto, a natureza do


comportamento do agente, que deixou de cumprir, de plano, a ordem que lhe foi
encaminhada por meio de Oficio do Juízo, no sentido de registrar medida de seqüestro de
um bem imóvel. E o faço considerando essencialmente, além dos documentos contidos no
feito, o depoimento pessoal de fls. prestado pelo réu (...)".

Da manifestação do Ministério Público em segunda instância, na qualidade de custos legis,


destaco o fragmento seguinte:

"Desse modo, muito embora o Recorrente sustente que não pretende o


reexame da prova acostada aos autos, não há como conferir outro intuito ao recurso
interposto.
Esse propósito, aliás, fica evidente com a leitura da parte 'b' do item III da
peça recursal (fls. 282/285), na qual se encontra uma série de argumentos visando à
comprovação da inexistência de dolo na sua conduta, com o que a alegada
contrariedade aos art. 11, inc. II, e 12, inc. III, da Lei n.º 8.429/92, na verdade, requer a
reapreciação do conjunto fático-probatório dos autos, sobre o qual os ilustres Julgadores
de primeiro e segundo graus firmaram o seu convencimento, para que se defina o
elemento subjetivo preponderante na conduta do Recorrente, ou seja, o dolo ou a culpa"
(fl. 301).

Não cabe a esta Corte, na via estreita do recurso especial, reexaminar o conjunto de
provas (Súmula 7/STJ) para aferir se da conduta do agente exsurge o elemento dolo, indispensável à
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configuração do tipo previsto no art. 11 da Lei de Improbidade.

Com estas considerações, pedindo vênia ao ilustre Relator, não conheço do recurso
especial.

É como voto.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
SEGUNDA TURMA

Número Registro: 2004/0015832-1 REsp 626034 / RS

Número Origem: 200071070063910

PAUTA: 03/11/2005 JULGADO: 06/12/2005

Relator
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. CARLOS EDUARDO DE OLIVEIRA VASCONCELOS
Secretária
Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : RENE PACHECO DE ROSE
ADVOGADO : RAFAEL DA CÁS MAFFINI
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

ASSUNTO: Ação Civil Pública - Improbidade Administrativa

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"Prosseguindo-se no julgamento, após o voto-vista do Sr. Ministro Castro Meira,
divergindo do Sr. Ministro-Relator para não conhecer do recurso, pediu vista dos autos,
antecipadamente, a Sra. Ministra Eliana Calmon."
Aguarda o Sr. Ministro Francisco Peçanha Martins.

Brasília, 06 de dezembro de 2005

VALÉRIA ALVIM DUSI


Secretária

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RECURSO ESPECIAL Nº 626.034 - RS (2004/0015832-1)

VOTO-VISTA

A EXMA. SRA. MINISTRA ELIANA CALMON: O presente recurso


especial tem como relator o Ministro João Otávio de Noronha e versa sobre a configuração ou
não de ato de improbidade, tipificado nos arts. 10 e 11 da Lei 8.429/92.
Superados os aspectos formais de admissibilidade do recurso em exame, a tese
meritória situa-se na indagação seguinte: as infrações constantes dos artigos mencionados exigem
a presença do elemento subjetivo, ou constituem-se em tipos cuja responsabilidade objetiva está
configurada? Esta é a questão enfrentada pelo relator, que trouxe à colação precedente desta
Turma, da minha relatoria, no qual afirmei na ementa:
O tipo do artigo 11 da Lei 8.429/92, para configurar-se como ato de
improbidade, exige conduta comissiva ou omissiva dolosa.

Pedi vista porque fui assaltada por dúvida e o fiz em boa hora. Constatei, ao
pesquisar os precedentes, que, diferentemente do que asseverei no precedente trazido à baila
pelo Ministro Noronha – REsp 534.575/PR, afirmei, com todas as letras, no REsp 708.170/MG,
no que fui acompanhada pelos meus pares, em julgamento ocorrido em 06 de dezembro de 2005:
O ato de improbidade é constatado de forma objetiva,
independentemente de dolo ou culpa e é punido em outra esfera, diferentemente da via
penal, da via cível ou da via administrativa.

Na mesma sessão – 6/12/05, foi julgado o REsp 617.851/MG; assegurei, ao


redigir a ementa:

..., o ato de improbidade se configura a partir de sua ilegalidade,


independentemente de prejuízo ao erário, má-fé, dolo ou culpa do agente administrativo.

Em um terceiro precedente da minha relatoria, cujo julgamento se findou em 16


de fevereiro, após o voto-vista do Min. Castro Meira, REsp 621.415/MG, disse, no curso do meu
voto:
..., deve-se observar que o ato de improbidade é constatado de forma
objetiva, independentemente de dolo ou culpa, e é atualmente punido em uma outra esfera,
diferente da via penal, da via cível ou da via administrativa.

Como se pode verificar, estou em evidente contradição comigo mesma, o que


exige reflexão e posicionamento firme, a partir da constatada divergência.

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Superior Tribunal de Justiça
Na abordagem do tema, é necessário que também se estenda o posicionamento
para um segundo aspecto: a natureza jurídica do dano, porque este tem efetivamente muito a ver
com o elemento subjetivo.
Os tipos caracterizadores do ato de improbidade estão nos arts. 9º, 10 e 11 da Lei
8.429/92.
O tipo do art. 9º não exige a prova da ocorrência do dano ao patrimônio, sendo
suficiente que o sujeito ativo obtenha algum tipo de vantagem patrimonial – por exemplo: aquele
que explora prestígio pessoal em função do cargo para obter vantagens pessoais, como favores e
presentes, causa dano ao patrimônio, mas esse dano não é material. Nem por isso deixa de
configurar-se o ato de improbidade.
O mesmo se diga do art. 11 da referida lei, no qual estão concentrados os atos
que atentam contra os princípios da Administração Pública inseridos nas Constituição.
Diferentemente, o tipo do art. 10 exige para sua configuração a prova da lesão ao
erário.
Estabelecidas as premissas quanto ao tipo de lesão, é indispensável, para tanto,
que se faça a distinção entre patrimônio e erário, vejamos o elemento subjetivo.
O tipo do art. 10, por definição legal expressa, pode ser dolosa ou culposa.
Pergunta-se então: e as modalidades dos demais arts. 9º e 11? Não há discrepância na doutrina
quanto a só punição a título de dolo.
Assim sendo, a conclusão a que se chega é a de que não há espaço para a
responsabilidade objetiva, sendo necessária a prova do dolo, ou do dolo ou culpa, na hipótese do
art. 10 da lei em apreciação.
Com essas breves considerações, posiciono-me em relação ao ato administrativo,
acorde com o entendimento esposado no voto do relator.
Em conclusão, acompanho o relator, dando provimento ao recurso.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
SEGUNDA TURMA

Número Registro: 2004/0015832-1 REsp 626034 / RS

Número Origem: 200071070063910

PAUTA: 28/03/2006 JULGADO: 28/03/2006

Relator
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. JOSÉ FLAUBERT MACHADO ARAÚJO
Secretária
Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : RENE PACHECO DE ROSE
ADVOGADO : RAFAEL DA CÁS MAFFINI
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

ASSUNTO: Ação Civil Pública - Improbidade Administrativa

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"Prosseguindo-se no julgamento, após o voto-vista da Sra. Ministra Eliana Calmon, a
Turma, por maioria, conheceu do recurso, vencido o Sr. Ministro Castro Meira e, no mérito, por
unanimidade, deu provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro-Relator."
Os Srs. Ministros Francisco Peçanha Martins e Eliana Calmon (voto-vista) votaram com
o Sr. Ministro Relator.

Brasília, 28 de março de 2006

VALÉRIA ALVIM DUSI


Secretária

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