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Jacqueline Magalhães Paiva

Meu nome é Jacqueline, tenho oito anos e eu ando bastante irritada, frustrada e
com muito medo do futuro. Até briguei com um amigo, na escola, meu melhor amigo.
Foi feio: saímos rolando no chão em meio aos tapas e socos; fomos parar na diretoria e lá
ficamos de castigo um tempão, nós dois chorando muito. Fiquei morrendo de medo de a
diretora chamar minha mãe na escola. Sentia muita culpa. Eu não podia ser mais um
motivo de decepção para ela, não agora. Eu sei que eu não posso falhar.

Eu explico. Tem algo muito grave acontecendo na minha família, embora eu não
entenda muito bem. Aqui em casa não conversamos abertamente sobre as coisas e eu
tenho muito medo de perguntar. Está tudo tão ruim que eu não gosto de ficar em casa. Eu
acordo com barulhos de briga quase todos os dias. Estou com uma cena fixa na cabeça
que me atormenta muito: meu irmão e meu pai atracados em uma briga corporal,
quebrando o vidro da porta da sala, a única coisa que conseguiu segurar os dois.

Meu irmão teve um surto, eu nunca tinha ouvido falar nisso, mas agora está todo
mundo usando essa palavra. Eu acordei de madrugada com ele gritando, todo molhado de
suor, batendo desesperadamente na porta dos meus pais, dizendo que tinha um homem
escondido no banheiro do quarto dele para matá-lo. Enquanto meus pais foram lá ver, eu
fiquei escondida atrás da porta, com muito medo. Lá, perceberam que não tinha ninguém
e então começou a briga que nunca mais acabou. Eu tive que entrar no meio, na frente do
meu irmão, para meus pais não baterem mais nele, que gritava e chorava.

No dia seguinte, já estávamos no hospital, onde deixariam meu irmão internado


por alguns dias. Uma médica falou comigo, me fez algumas perguntas. Eu não respondi
muito bem, estava confusa e com muito medo. Na minha família, ficam falando que meu
irmão usa drogas. Eu não sei direito o que é drogas, só sei que custa muito dinheiro e que
quando a pessoa fica devendo e não paga, os bandidos vão na casa do devedor com armas
e metralham a casa toda, até morrer toda a família. Você não imagina o quanto eu morro
de medo de bandidos. O meu medo mais mortal é do Bandido da Luz Vermelha, embora
seus crimes tenham ocorrido há mais de 20 anos.

Também falam que meu irmão é louco. Eu conheço alguns loucos, tem uns dois
no meu bairro e minha mãe diz para eu ficar bem de olho neles, porque eles podem me
fazer mal. Eu nem passo na calçada da frente da casa do Pelezão, de tanto medo que sinto
dele. Ele tem filhas, crianças como eu. Já ouvi minha mãe dizendo que meu pai também
é louco. Será que eu sou louca também? Como é que se sabe? De longe, sempre que
cruzamos pela rua, eu observo as filhas do Pelezão, buscando algum sinal da loucura
nelas. Ninguém fala ou brinca com elas.

Minha mãe está dizendo para todo mundo que vai ter que deixar de trabalhar para
cuidar do meu irmão. Para mim, ela falou que vai ganhar um dinheiro, mas que é um
dinheiro muito menor do que ela ganha todo mês trabalhando. Penso que isso vai
significar que vamos ficar muito pobres, mais pobres que meu tio Assis, provavelmente.
Diz que não vai mais poder comprar as coisas que eu gosto de comer, porque são
supérfluas, e que, quando isso acontecer, será só o básico em casa. Meu pai vive
desempregado... A minha cabeça ferve de preocupação com o futuro.

Em casa, os dias são silenciosos quando não estão brigando, gritando ou chorando
– às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Eu tenho aprendido a ser silenciosa, mais
especificamente a odiar tudo isso silenciosamente. E, como disse antes, tenho ficado com
muito medo de causar algum problema a mais para a minha mãe. Todos dizem que ela
está só pele e osso. Ela toma remédio para conseguir dormir. Chora muito e diz que vai
ter um piripaque a qualquer momento. É tão doloroso em mim o choro dela. Tenho muito
medo de ela morrer. Implorei para a diretora não a chamar lá por causa da briga. Falei
algumas coisas que estão acontecendo em casa. Ela disse que ia pensar, mas que eu não
deveria mais me meter em confusão alguma. Eu prometi. Eu sei que eu não posso falhar.
Depois disso, eu passei dias no escuro do meu quarto, quieta, só pressentindo o momento
do esporro.