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CRISTologia

Prof.º Lucas Roberto

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Sumário
Unidade 1 – Os ofícios de Cristo ........................................... 01
- Introdução
- Cristo
- Jesus, nosso profeta
- Jesus, nosso sacerdote
- Cristo, nosso rei
- Mestre

Unidade 2 – Cristo no Antigo Testamento ............................. 06


- Cristo nos patriarcas
- Cristo tipificado em Moisés
- Cristo, filho de Davi
- A figura do Messias nos profetas

Unidade 3 – Cristo no Novo Testamento ............................... 09


- Cristo nos evangelhos
- Cristo na igreja primitiva
- Cristo na compreensão apostólica

Unidade 4 – Ressurreição de Cristo ...................................... 12


- A ressurreição

Unidade 5 – Dupla natureza ................................................. 17


- A segunda pessoa da trindade
- As heresias e o concílio de Calcedônia

Unidade 6 – Os nomes de Jesus ........................................... 21


- Jesus
- Senhor
- Filho do Homem
- Filho de Deus
- O Verbo

Unidade 7 – Cristo: Caminho, Verdade e Vida ...................... 24


- Caminho
- Verdade
- Vida
Unidade 8 – A Suficiência de Cristo ...................................... 26
- Jesus, a suprema revelação (v. 1)
- Cristo, o herdeiro e feitor de todas as coisas (v. 2)
- Cristo, o Deus conosco (v. 3)
Unidade 1 – Ofícios de Cristo

Introdução
Quem é Jesus? Quase toda pessoa adulta já formou alguma opinião sobre
Jesus. Essas opiniões podem ser superficiais, desinformadas ou totalmente
heréticas. A verdade sobre Jesus, não a mera opinião, é importante… e é
eternamente importante.
Aqueles que carregam o nome de cristãos professam seguir a Cristo como seus
discípulos. Eles dispõem de uma cristologia – uma doutrina de Cristo – que
reflete a visão que têm de Cristo. Essa cristologia poderá ser professada de modo
implícito ou explícito. Ela poderá refletir a profundidade da revelação bíblica e
da reflexão cristã histórica sobre as Escrituras ou poderá ser uma inovação sem
ligação com a Palavra de Deus. Mas todo cristão professo possui uma cristologia.
Nesta matéria, falaremos sobre a pessoa e obra de Cristo. É significativo que
nossa fé é chamada de “cristianismo”, porque nossa atenção está focalizada
corretamente naquele que nos redimiu. Qualquer estudo sobre a pessoa de
Cristo pode abordar apenas a superfície, porque o retrato de Jesus na Escritura
é tão profundo que desafia a capacidade humana de compreendê-lo totalmente.

Cristo
Nós o conhecemos melhor como Jesus Cristo, mas esse não é realmente seu
nome. Seu nome é Jesus, Jesus Bar-José (Jesus, filho de José) ou Jesus de
Nazaré. Entretanto, “Cristo” é um título. Aplica-se a Jesus mais frequentemente
do que qualquer outro título na Escritura. Às vezes, a Bíblia inverte a ordem e
fala de “Cristo Jesus”. A palavra Cristo é uma tradução grega da palavra hebraica
Messias, do Antigo Testamento, e significa “alguém que é ungido”.
Quando Jesus fez seu sermão na sinagoga de Nazaré, leu o profeta Isaías: “O
Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres.
Enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pregar liberdade aos cativos,
e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o
ano aceitável do Senhor.” (Lc 4:18-19, Is 61:1-2a). Depois de ler o texto, Jesus
disse: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.” (Lc 4:21). Jesus
estava se identificando com as palavras de Isaías a respeito do Messias.
O conceito de Messias é extremamente complexo, mas há vários fios
entrelaçados na revelação bíblica progressiva sobre a função, caráter e a
natureza do Messias que viria e livraria seu povo, Israel. No Antigo Testamento,
haviam três ofícios (ou funções) em que a pessoa era ungida com óleo: Profeta,
Sacerdote e Rei; por isso eles eram chamados de messias, que na verdade
apontavam para O Messias que viria. De fato, uma das extraordinárias
evidências da inspiração divina da Bíblia é a maneira em que todos os fios da
expectativa messiânica apresentados no Antigo Testamento unem-se e se
cumprem em uma única pessoa, de forma incrível. Sendo assim, Jesus exerce,
de uma só vez, as 3 funções de Profeta, Sacerdote e Rei, mostrando ser a
cumprimento do que foi prometido no Antigo Testamento. Portanto, veremos
separadamente cada ofício exercido por Jesus.

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Jesus, nosso profeta
No Antigo Testamento, o profeta era um porta-voz, um agente de revelação
pelo qual Deus, em vez de falar diretamente do céu à congregação de Israel,
colocava suas palavras nos lábios de homens. Quando o profeta se levantava
diante do povo, Deus estava por trás dele, uma postura que indicava que o
profeta falava em lugar de Deus. As mensagens dos profetas eram iniciadas
frequentemente por “assim diz o SENHOR...”.
No Novo Testamento, vemos que Cristo é o Profeta por excelência. Há um
entendimento progressivo a respeito de Jesus visto naqueles que se
encontraram com ele. A mulher samaritana lhe disse: “Senhor, vejo que és
profeta.” (Jo 4.19). Isso foi quase um elogio, mas ela ainda não tinha chegado
à sua confissão máxima, que aconteceu quando reconheceu a Jesus como o
Messias (v. 29). Jesus não somente proclama a Palavra de Deus, Ele é a Palavra
de Deus (Jo 1.1). O autor de Hebreus escreve: “Havendo Deus antigamente
falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-
nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem
fez também o mundo.” (1.1-2). Jesus disse: “Porque eu não tenho falado de
mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, Ele me deu mandamento sobre o que
hei de dizer e sobre o que hei de falar.” (Jo 12.49). Jesus é o Profeta fiel do Novo
Testamento. Ele não ensinou apenas sobre o futuro ou apenas declarou a Palavra
de Deus. Jesus é a Palavra de Deus. Assim, Jesus é, simultaneamente, o profeta
e a profecia. E, como tal, Ele é o foco de todo o ensino bíblico.

Jesus, nosso sacerdote


Diferentemente dos profetas do Antigo Testamento, que ficavam de frente para
o povo quando anunciavam a Palavra de Deus, os sacerdotes do Antigo
Testamento ficavam de face voltada para Deus e as costas voltadas para o povo.
Como o profeta, o sacerdote era um porta-voz, mas ele falava pelo povo e não
para o povo. Fazia intercessão em favor do povo e orava por eles. Além disso, o
sacerdote oferecia sacrifícios a Deus pelo povo. Os principais sacrifícios eram
oferecidos no Dia da Expiação, pelo sumo sacerdote. Mas, antes que o sumo
sacerdote fizesse os sacrifícios pelo povo, tinha de fazer sacrifícios por seu
próprio pecado. Seu sacrifício, assim como o do povo, tinha de ser repetido
anualmente.
Jesus é o nosso Sumo Sacerdote. O texto do Antigo Testamento citado
frequentemente no Novo Testamento é o Salmo 110. Esse texto contém uma
afirmação extraordinária sobre o caráter do Messias:

“Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que
ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. O Senhor enviará o cetro da
tua fortaleza desde Sião, dizendo: Domina no meio dos teus inimigos. O teu
povo será mui voluntário no dia do teu poder; nos ornamentos de santidade,
desde a madre da alva, tu tens o orvalho da tua mocidade. Jurou o Senhor, e

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não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de
Melquisedeque.” (v. 1-4).

Há um problema em Jesus ser sacerdote, pois este ofício era exclusivamente


dos da tribo de Levi – os levitas – porém Jesus é da tribo de Judá. O autor de
Hebreus soluciona esse problema dizendo que o sacerdócio de Cristo é superior
ao levítico, pois é segundo a ordem de Melquisedeque.
Melquisedeque foi um personagem enigmático do Antigo Testamento, pois é
citado apenas duas vezes (Gn 14:8-20; Sl 110:4). Ele era rei de Salém e recebe
os dízimos de Abraão dos despojos de uma guerra. Não consta nada sobre sua
genealogia ou morte, por isso, muitos pensam que ele tenha sido uma aparição
de Cristo (algo que, particularmente, não concordo). Então, o argumento de
Hebreus é o seguinte:
• Levi deu os dízimos, através de seu bisavô Abraão, a Melquisedeque; isso
mostra que o sacerdócio levítico é inferior ao melsedequiano (7:9).
• Por não constar relato de nascimento e morte de Melquisedeque, esse
sacerdócio é eterno. O Salmo 110:4 profetiza que o Messias seria sacerdote
deste sacerdócio (7:3, 17).
• Mudando o sacerdócio, também é necessário que se mude as leis, portanto
a lei de Cristo não serve para nossa condenação, mas para nossa santificação,
nos conformando à Sua imagem (7:12).
Nos capítulos 5 a 7 de Hebreus, é abordado sobre a supremacia do sacerdócio
de Cristo. Além dos fatores mencionados acima, é dito que Cristo foi o verdadeiro
sacerdote, pois Ele se ofereceu como sacrifício e um sacrifício único. Por não ter
pecado, Ele não necessitou sacrificar por si mesmo, nem usou animais que não
poderiam satisfazer a justiça divina (Hb 10:4). Assim Cristo é o sacerdote e o
sacrifício simultaneamente. Ele é o Sacerdote perfeito e o mediador perfeito,
agora e para sempre.

Cristo, nosso rei


O terceiro ofício de Cristo é também indicado no Salmo 110: “Disse o SENHOR
ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos
por escabelo dos teus pés.” (v. 1). Isto é uma referência ao ofício de rei. Muitos
têm dificuldade para conciliar o ofício de rei com o de um mediador, mas, se
retornarmos às raízes do Antigo Testamento, veremos essa união. O rei de Israel
não era autônomo, não tinha em si mesmo autoridade absoluta. Recebia seu
ofício de Deus. Seu chamado era de vice regente, pelo que deveria manifestar a
justiça e o governo de Deus. O rei era um mediador porque estava debaixo da
lei divina, mas ajudava a estabelecer e manter a lei de Deus para o povo.
Infelizmente, a história dos reis no Antigo Testamento está cheia de corrupção
e fracasso daqueles monarcas em cumprir sua responsabilidade.
Achamos o mesmo princípio no Novo Testamento com respeito aos
magistrados civis. A Bíblia admite duas esferas de operação – a igreja e o estado
– que têm deveres diferentes, mas nunca as Escrituras afirmam a separação

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entre a política e Deus, porque todos os governantes são designados por Deus.
São ordenados para estabelecer e manter a retidão e a justiça, e são
responsáveis para com Deus pela maneira como exercem seu governo.
O modelo mais próximo do rei ideal no Antigo Testamento – o rei Davi – foi ele
mesmo corrupto. Mas Davi introduziu a era de ouro monárquica em Israel, e,
depois de sua morte, o povo ansiava por ver a restauração do reino davídico.
Deus falou por meio do profeta Amós: “Naquele dia tornarei a levantar o
tabernáculo caído de Davi, e repararei as suas brechas, e tornarei a levantar as
suas ruínas, e o edificarei como nos dias da antiguidade.” (Am 9:11).
No coração da expectativa messiânica no Antigo Testamento, estava o anseio
do povo para ter novamente um rei semelhante a Davi. No Salmo 110, Deus
prometeu que seu Filho seria esse rei e que ele reinaria pelos séculos dos
séculos. Portanto, quando Cristo veio, foi anunciado como o recém-nascido Rei.
De fato, ele foi crucificado por causa de suas afirmações quanto ao reinado. Ele
disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste
mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus;
mas agora o meu reino não é daqui.” (Jo 18:36). Deus levou Cristo à sua
coroação e o colocou à sua direita como o governante de todo o universo, como
o Pastor e Rei cujo reino prosseguirá eternamente.
A única diferença entre o reino hoje e o reino que conheceremos no futuro é
sua visibilidade. Jesus é Rei agora mesmo. Ele mantém o mais elevado ofício
político no universo porque foi instalado nessa posição por Deus. Estar à direita
de Deus é estar na posição de autoridade, pela qual Ele governa não somente a
Igreja, mas também o mundo. Nosso Messias é não somente nosso Profeta e
Sacerdote, mas também nosso Rei.

Mestre
O ofício de mestre não é algo que esteja diretamente relacionado à construção
teológica do Messias. Também não parece fazer parte da esperança popular ao
longo da história. Talvez, a maior aproximação que possamos fazer esteja na
compreensão de que seria óbvia a expectativa de que o Messias fosse alguém
cheio de sabedoria. Vale lembrar a importância que esse tema recebe nas
Escrituras, sendo a sabedoria até mesmo representada como a essência de
Deus. Outra possível associação que poderíamos fazer, usando um texto
messiânico para tal, é ver na expressão “Maravilhoso Conselheiro” essa função
de mestre, conforme a descrição presente no livro de Isaías:
“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre
os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus
Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” Isaías 9:6.
Olhando para a vida e ministério de Jesus concluímos que essa parece ter sido
a função que mais O identificou. O início de Sua vida pública se deu na formação
de um grupo de discípulos que Ele se encarregou de convidar para segui-lo como
sendo seu mestre. A forma de tratamento usada por esses discípulos, registrada
nos evangelhos, indica essa relação (Mt 9:11; Mc 4:38; Lc 5:5; Jo 4:31).

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O tipo de ensino característico dos mestres daquele tempo incluía leitura,
estudo, exposição, questionamento, mas também, em igual proporção, a
imitação de ações e atitudes. Esse ensino ocorria na caminhada, ou seja, no
desenrolar da vida, e aos poucos o mestre transferia autonomia ou delegava
funções aos discípulos para que praticassem aquilo que haviam aprendido. Nas
suas ações, na ausência do mestre, o objetivo último deles seria o de se
tornarem mestres de outros ou, em outras palavras, fazerem discípulos. A
chamada Grande Comissão carrega um pouco dessa ideia. (Mt 10:5-15; 14:16;
17:16; 28:19; Mc 16:15; Jo 20:21).
Além dessa relação mais íntima com os discípulos, Jesus também priorizou o
ensino quando estava na presença da multidão. Um resumo das atividades
ministeriais de Jesus é dado por Mateus: “E percorria Jesus todas as cidades e
aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do reino, e
curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo.” (Mateus 9:35).
Em seu ensino, Jesus queria conduzir as pessoas a uma nova forma de ver a
vida, a um novo modo de vida. Ele ensinava nas sinagogas, nas ruas e em
espaços amplos e abertos afastados das cidades. Perceba que o estilo usado
para proferir a maioria de seus discursos possuía um tom de professor. Também
as suas conversas tinham a intenção de orientar, corrigir, estimular e,
principalmente, levar à reflexão e mudança de vida e atitude. O maior dos
exemplos talvez seja o conhecido Sermão do Monte.
Ainda uma última nota curiosa sobre a priorização do ensino no ministério de
Jesus é a sua relação com o Templo. Não há qualquer registro de outra atividade
feita por Jesus no Templo a não ser a do ensino, nem mesmo oração. Os
evangelhos sinópticos concentram os relatos de Jesus no Templo em seus
últimos dias antes de ser morto. João, no entanto, estabelece outra cronologia,
mais espaçada ao longo de todo o ministério de Jesus (Mt 21:23; 26:55; Mc
11:15-17; 12:35; Lc 2:46; 19:47; Jo 7:14, 28; 8:1, 20; 18:20).
O que percebemos no ofício de mestre desempenhado por Jesus é que, embora
não correspondesse à expectativa messiânica, foi por meio dessa transmissão
de conhecimento e sabedoria que Ele deixou um legado a ser seguido.

Agora que já entendemos o por quê de chamar Jesus de Cristo, prosseguiremos


nosso estudo cristológico mostrando como Deus foi revelando aos poucos sobre
seu Filho que viria redimir a humanidade, até chegar na plenitude dos tempos,
onde tais promessas são cumpridas em Jesus de Nazaré.

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Unidade 2 – Cristo no Antigo Testamento

Nossa investigação bíblica sobre o Messias tentará seguir o percurso histórico


do povo de Israel obedecendo a ordem dos livros bíblicos, mostrando como foi
sendo revelado as características do Messias que viria.

Cristo nos patriarcas


Começando com as origens do povo de Israel, que se encontra nos relatos dos
patriarcas, encontramos no livro de Gênesis o protoevangelho (ou primeiro
evangelho): “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a
sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Gênesis 3:15.
Este é o primeiro texto que nos fala do Messias e sua obra retentiva.
Voltando os nossos olhos para outros textos do Antigo Testamento, parece que
encontramos em Isaque alguns fatores que serão compreendidos,
posteriormente, como sombras apontando o Messias. A história de Isaque está
inserida no tema maior da promessa e aliança de Deus com Abraão. Ele nasce
em meio a desconfiança da possibilidade do casal Abraão e Sara poderem gerar
filhos para fazer valer a promessa da posteridade que viria a abençoar todas as
famílias da terra (Gn 12:2). Em um tipo de teste de fé, Deus requer de Abraão
o sacrifício de Isaque, considerado na narrativa como seu único filho. Elementos
da narrativa do texto de Gênesis 22:1-19 chamam a atenção para referências
representantes da morte substitutiva de Cristo. O primeiro paralelo entre o
sacrifício de Isaque e o de Cristo está na atitude de entrega, por parte do pai,
de seu filho único. O segundo paralelo está na provisão divina de um substituto
para a vítima a ser sacrificada, no caso, um carneiro. Esses paralelos são
interpretados pelo Novo Testamento como sendo integrantes do sacrifício de
Cristo, sendo Jesus o único filho de Deus e o cordeiro santo que é sacrificado no
lugar dos seres humanos.
De todos os outros personagens do tempo patriarcal, talvez o que mais
carregue alguma semelhança com o perfil messiânico seja José, ainda que
distante da figura messiânica. A complexa história de José traz alguns paralelos
com a história de Jesus, não na mesma ordem de acontecimentos. Ambos são
levados ao Egito (Gn 37:25; Mt 2:13), são rejeitados e traídos por aqueles que
lhes são mais próximos (Gn 37:14-28; Mt 26:47-50) e enfrentam dores e
sacrifícios com o objetivo de promoverem salvação para todo um povo, incluindo
os que os traíram (Gn 39:20; 45:7; Mt 27:27-56). Esses paralelos só foram
estabelecidos após os evangelistas narrarem a história de Jesus.
Não podemos esquecer de um personagem emblemático, chamado Anjo do
Senhor, que aparece em todo o Antigo Testamento (Gn 16:7-13; Cap. 18;
22:11-18; Ex 3:2-18; Jz 2:1-7; 6:11-24; 13:3-22; Zc 3:1-7.). Entendemos que
esta figura seja uma cristofania, ou seja, uma aparição corpórea de Cristo, antes
de sua encarnação. Os motivos são: Ele identifica-se como Deus, fala como
Deus, exerce as responsabilidades de Deus, e até recebe adoração – algo que
os anjos rejeitam (Ap 19:10). Em Gênesis 32:24-30 não se usa a expressão
“Anjo do Senhor”, mas a expressão “um homem”, que logo no decorrer do texto,
o próprio “homem” diz a Jacó com quem este estava lutando e então Jacó
percebeu que era o próprio Deus manifesto em forma humana.

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Cristo tipificado em Moisés
Mesmo sendo na imagem do rei que encontramos a maior alusão ao título de
Ungido, ou seja, algo desenvolvido apenas após a instauração da monarquia em
Israel, talvez Moisés seja o maior dos protótipos messiânicos. Isso porque ele
reúne as funções de liderança de governo (rei), de intermediação religiosa
(sacerdote) e de mensageiro de Deus (profeta).
Na maneira como foi relatada a vida e ministério de Jesus, muitos paralelos
acabaram sendo estabelecidos entre Ele e Moisés: perseguição na infância pelo
soberano da nação com ameaça de morte (Ex 1:15-16, 22; Mt 2:16), refúgio no
Egito (Ex 2:9; Mt 2:13), experiência no deserto com efeito determinante para o
resto de suas vidas e ministérios (Ex 3:1-2; Mt 4:1), realização de sinais e
maravilhas (Ex 7:1-3; At 2:22), íntima relação com Deus (Ex 33:7 11; Jo 14:9),
falavam em nome de Deus (profeta) (Dt 34:10; Jo 12:50), Moisés liberta o povo
da escravidão do Egito, Cristo liberta Seu povo da escravidão do pecado.
Também foi Moisés quem inseriu e representou a principal teologia para o povo
de Israel composta pela a libertação do Egito e pela aliança com base na Lei.
Este é outro paralelo que podemos verificar entre Moisés e Jesus, a
intermediação da Lei de Deus. Moisés é o grande líder histórico que estabelece
os princípios legais para vida cotidiana do povo. É ele quem pessoalmente
intermedia a aliança com Deus e entrega a Lei ao povo (Ex 34:29). Por outro
lado, Jesus é aquele que cumpre essa Lei, mas também a reinterpreta e a
expande, estabelecendo novos princípios que devem ser seguidos com o mesmo
rigor (Jo 14:21). Jesus substitui a força da Lei pela oferta da Graça sem,
contudo, deixar de estabelecer os princípios do Reino que devem prevalecer na
vida do cristão, não pela obrigação e temor da Lei, mas pela obediência amorosa
ao seu Mestre e Salvador.
A aparição de Moisés no monte da transfiguração atesta sua ligação com Jesus,
dando a entender que Cristo é o cumprimento das sombras que foram reveladas
a Israel por Moisés (Lc 9:30). Assim, mesmo sem uma referência explícita de
Moisés como um ungido, ele estabelece um referencial teológico e popular para
a figura messiânica que estava sendo construída e revelada progressivamente.

Cristo, filho de Davi


Certamente é a figura de Davi que carrega a maior informação sobre o Messias.
Em primeiro lugar, porque a prática da unção parece ser originária do ato de
coroação do rei intermediada por algum representante divino, o profeta ou o
sacerdote. Depois, porque é na condição de rei que se estabelecem as funções
de domínio político que irão criar a maior esperança para o povo de Israel,
principalmente, considerando-se o fato da perda frequente de sua autonomia
nacional.
Após o fim do reino do Norte, com o exílio de seus habitantes para a Assíria,
no século 8 a.C., e o fim do reino do Sul, no século 6 a.C., com o exílio para a
Babilônia, Israel jamais voltou a ser uma nação independente, com exceção do
breve período dos Macabeus, entre os séculos 2 e 1 a.C. É, portanto, em torno
de Davi e sua dinastia que a maior parte dos textos messiânicos se desenvolve.
Na promessa presente na aliança entre Deus e Davi, quando este assume o trono
de Israel, encontramos uma abrangência que extrapola o tempo e espaço:

7
“Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu
trono será firme para sempre.” 2 Samuel 7:16. A ideia de um reino eterno só
poderia se concretizar em uma figura maior.
Retomando a ideia do reino eterno de Davi, que permite a inclusão de um
elemento transcendente, encontramos algumas alusões misteriosas, como a do
já dito Salmo 110. O próprio Jesus teria citado parte desse texto para dar
explicação sobre si mesmo (Mt 22:41-45). O evangelista Mateus é, dessa forma,
intencional ao associar Jesus à linhagem davídica, na introdução do seu texto,
fazendo menção em sua genealogia (Mt 1:1), e ao longo do livro (Mt 12:23;
15:22; 20:30; 21:9).

A figura do Messias nos profetas


As primeiras ideias proféticas concordam com a expectativa messiânica do
descendente do trono de Davi e associam a sua função com o domínio dos
soberanos. O texto de Isaías 9:1-7 pinta um quadro típico daquele contexto de
batalhas políticas por territórios. O profeta Jeremias elabora um texto similar (Jr
23:5-6).
Ezequiel, por sua vez, ainda que faça referência a Davi, em um tempo mais
apropriado ao exílio, reforça a imagem do pastor, que cuida e consola (Ez 34:23-
24).
Não há o uso explícito da palavra ungido nesses textos, mas subentende-se
que se trata desse herói esperado. Muito comuns são os termos “broto” e
“renovo”, ou seja, um ramo ou fruto de uma árvore. Especificamente,
proveniente do tronco de Jessé, pai de Davi.
Além das referências davídicas, é enfatizado uma característica, que
aparentemente é contraditória à glória de um rei. Essa característica é a de
Servo. Isaías é o profeta que melhor descreve essa nova concepção nos capítulos
52 e 53 de seu livro. O chamado Servo Sofredor de Isaías revela outra face do
Messias, mostrando que a vitória deste ungido se daria por meio de um sofrido
sacrifício em benefício de muitos.
Completando a teologia messiânica na tradição profética, encontramos no livro
de Daniel, uma imagem apocalíptica do Ungido. A contribuição da teologia de
Daniel para a construção da esperança messiânica foi grande. É ele também
quem introduz a figura do Filho do Homem que Jesus teve como preferência
para se referir a si mesmo (Dn 7:13-14) (falaremos deste termo na Unidade 6).
Daniel, de forma escatológica (referente ao fim dos tempos), mostra a figura do
messias vitorioso e que governa sobre todas as coisas.

O Antigo Testamento pintou um quadro do Messias que viria, onde havia


algumas características que, aparentemente, se contradiziam, como Rei e Servo
Sofredor. Os judeus, não conseguindo conciliar tais características, formaram
uma figura messiânica popular distorcido do que foi revelado no Antigo
Testamento; eles criaram uma figura política e exclusivista, onde só os judeus
seriam beneficiados – se esquecendo da promessa feita a Abraão que, por meio
do Messias, todas as nações seriam abençoadas (Gn 12:3; Gl 3:16). Essa figura
distorcida, criada pelos judeus, entrou em atrito com a mansidão e humildade
de Jesus; este foi um dos fatores determinantes que causou a rejeição de Israel
ao seu Messias prometido.

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Unidade 3 – Cristo no Novo Testamento

Tendo como pano de fundo as características principais do Messias reveladas


no Antigo Testamento; no Novo, vemos tais profecias sendo concretizadas em
Jesus de Nazaré, e novas particularidades sendo reveladas a respeito do Deus
encarnado. Novos atributos foram revelados, algumas profecias que estavam
sendo interpretadas erroneamente sobre o Messias, foram corrigidas e, por fim,
a máxima revelação de Deus é exposta em carne e osso. Vejamos como o Novo
Testamento traz sentido pleno ao Antigo Testamento.

Cristo nos evangelhos


Um fato que demonstra a compreensão errônea que os judeus tiveram sobre
quem seria o Messias, é aquilo que o apóstolo João afirma em seu evangelho,
dizendo que Jesus não foi reconhecido como o enviado de Deus pelos seus
irmãos judeus: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (João
1:11). Esse fato marcou todo o ministério de Jesus na Terra, inclusive seus
discípulos não compreendiam alguns fatos, sendo apenas após a Sua morte e
ressurreição, que ocorre um entendimento pleno de sua messianidade. De fato,
é a ressurreição que dá sentido pleno no entendimento dos apóstolos.
A encarnação e a ressurreição podem ser consideradas, em certo sentido,
temas irmãos, pois, ambos tratam da perspectiva especial e divina de Jesus
como o Messias. Por isso, houve a intencionalidade dos evangelistas em
esclarecer, principalmente citando textos do Antigo Testamento, como Jesus era
de fato o Messias de Israel. Os evangelistas chegaram ao ponto de ampliar a
interpretação de vários textos, até então não considerados como messiânicos,
na construção dessa teologia.
Os evangelistas serão bem enfáticos na questão de tentar esclarecer a
esperança messiânica que se cumpre na pessoa de Jesus ao fazerem os seus
registros, sendo Mateus o que mais se dedica a isso. (Mt 1:1, 22; 2:15, 17, 23;
Lc 3:30-31; 4:17-21; 24:27; Jo 1:45; 5:39; 12:37-41).
Mesmo se olhássemos para Jesus apenas como um personagem histórico
teríamos que admitir que as coincidências entre a sua pessoa e as profecias
bíblicas são gigantescas para serem apenas coincidência. Exemplos delas são: a
descendência davídica (Is 11:1); o nascimento em Belém (Mq 5:2); as vestes
sorteadas (Sl 22:18); a condenação e morte entre ladrões (Is 53:12); o
sofrimento que o desfigura (Is 52:14) e o abandono e desprezo na morte (Is
53:1-5).
Por outro lado, observando o comportamento de Jesus relatado nos
evangelhos, ainda que tivesse consciência de sua messianidade, optou por ter
uma vida comum. Ele foi identificado como um simples galileu (Mt 26:69), ou
nazareno (Mc 10:47), ou carpinteiro (Mc 6:3), ou como apenas o filho de José
(Jo 1:45). Ele teve uma família como as pessoas comuns, mas escolheu deixá-
la em segundo plano em função de sua missão (Mt 13:55-56). Sua primeira
demonstração pública, indo além de um cidadão comum, aconteceu no papel de
mestre (Jo 1:38; Mc 10:18), mas aos poucos Jesus foi sendo reconhecido como
um profeta semelhante aos grandes do passado e isso em função dos sinais e
maravilhas que fazia, assim como pelos seus ensinamentos (Mt 16:13-14).

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Em algumas raras ocasiões Jesus se auto identificou como o Messias. Foi assim
na experiência com a mulher samaritana (Jo 4:24-26) e na chamada confissão
de Pedro (Mt 16:16-17). Mas como regra, ele preferiu manter o fato em oculto.
Em outras ocasiões, ele optou por deixar a dúvida no ar como se tivesse o
objetivo de que o reconhecimento por parte das pessoas de sua messianidade
fosse algo que devesse brotar do íntimo, de uma aproximação de fé, tendo efeito
apenas na vida cotidiana sem que isso tomasse maiores proporções. Já ao
término de seu ministério, Ele finalmente se auto identificou como o Messias, o
que o levou a receber a ira dos religiosos e a articulação de um plano para tirar-
Lhe a vida (Mc 14:60-65).
Em nenhum momento, no entanto, Jesus assumiu explicitamente a expectativa
mais importante da religiosidade judaica sobre o Messias, associada à tomada
de poder ou domínio político frente à dominação romana. Pelo contrário, Jesus
foi enfático ao estabelecer os princípios do seu reino como algo que extrapolava
tanto aquela expectativa quanto às outras formas humanas de estruturação
sócio-políticas (Lc 17:20-21; Jo 18:36).

Cristo na igreja primitiva


O livro de Atos é a sequência do evangelho de Lucas, sendo a continuação do
movimento que Jesus iniciou, a Igreja; portanto, vemos neste livro como, desde
o início da Igreja, Cristo foi entendido.
É fundamental notar que o evento que conecta o fim do evangelho com o início
da narrativa da missão da Igreja é a ressurreição de Jesus e seus
desdobramentos. Como já mencionado, a ressurreição de Jesus confirmou a sua
messianidade para os apóstolos e discípulos, exterminando qualquer dúvida que
pudesse haver sobre Sua identidade. Dado, porém, o surgimento de um novo
grupo ou de uma nova concepção de povo, formado pelos judeus-cristãos, foi
na igreja primitiva, judaica e depois gentílica, que a identificação de Jesus como
o Messias divino veio a ser entendida em sua plenitude e aprofundada.
Pela narrativa de Lucas dos episódios da igreja primitiva no livro de Atos,
vemos um desenvolvimento do pensamento e compreensão da messianidade de
Jesus e todas as implicações que isso trouxe para a fé nascente. Os vários
discursos presentes no livro mostram a argumentação lógica, histórica e
teológica, que demonstram ser Jesus o Messias prometido.
Os dois primeiros discursos registrados são feitos pelo apóstolo Pedro. O
primeiro ocorre durante a festa de Pentecostes, por ocasião da descida do
Espírito Santo, em que ele argumenta com os judeus ali presentes que os
acontecimentos que ocorreram cinquenta dias antes, naquela mesma cidade de
Jerusalém, eram a confirmação de que Jesus era o Messias (At 2:22-36).
Novamente, agora perante o Sinédrio (At 4:1-27), Pedro oferece a mesma
argumentação afirmando, como conclusão, que Jesus era o Messias, ainda que
rejeitado pela liderança do povo.
Algum tempo depois, também perante o Sinédrio (Atos 7), Estevão, o primeiro
mártir da Igreja, discursa de maneira ainda mais eloquente, fazendo uma
apresentação histórica ampla da teologia judaica, demonstrando uma
argumentação organizada da interpretação da vida de Cristo, à luz da
compreensão do Antigo Testamento, para finalmente identificar Jesus como o
Messias de Israel.

10
Saindo um pouco do ambiente judaico, Lucas relata que Filipe pregava na
cidade de Samaria afirmando que Jesus era o Messias (At 8:5). Em outra
ocasião, em seu proposital encontro com um eunuco etíope, na região de Gaza,
Filipe explica a passagem do livro de Isaías como se referindo a Jesus, tendo
sido cumprida em sua morte (At 8:26-40). A partir daí, o restante do livro de
Atos irá se concentrar na vida e ministério do apóstolo Paulo. Pela formação
farisaica rígida que teve, é ele quem trará a maior contribuição para a igreja
gentílica, pois aplica todo seu conhecimento dos escritos judaicos, estendendo
tais benefícios ao Israel de Deus – que não era mais a nação judaica, mas a
Igreja, constituída de judeus e gentios (não judeus).
Toda essa experiência encontra-se baseada na visão que ele teve de Jesus
ressurreto, fazendo com que tivesse que reinterpretar tudo o que conhecia a
partir dessa nova realidade, entendendo que Jesus era o Messias, o Filho de
Deus (At 9:20). Os seus discursos e pregações passaram a ter a seguinte
mensagem como centro: Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o Messias
prometido, que morreu e ressuscitou e, assim, oferece o perdão dos pecados e
a salvação a todos os que n’Ele creem (At 13:16-41; 17:16-31; 22:1-21; 26:1-
23).

Cristo na compreensão apostólica


A introdução de quase todas as cartas e epístolas do Novo Testamento traz a
expressão “Senhor Jesus Cristo”. Chama à atenção a associação direta do nome
Jesus ao título Cristo, ou Messias, ao ponto de se confundir com o próprio nome
de Jesus. É também a partir dessa associação e expressão que aqueles que
criam nessa mensagem foram chamados de cristãos (At 11:26).
Embora o maior desenvolvimento da interpretação de Jesus como Messias seja
encontrado nos evangelhos e na vivência da igreja primitiva, o ápice dessa
compreensão foi alcançado no livro de Apocalipse. É nesse livro, atribuído ao
apóstolo João, que encontramos Jesus, de maneira mais clara, em sua condição
divina. O livro que procura apresentar uma visão simbólica das regiões celestiais,
apresenta Jesus como o Messias glorificado. A figura messiânica dominante é do
Cristo vitorioso, que governa todas as coisas e controla a história, inclusive o
quanto Sua Igreja sofre. Mas o ponto que mais chama a atenção é a junção de
características, aparentemente, contrárias em Jesus, principalmente figuradas
no simbolismo do Cordeiro e do Leão. No capítulo 5, do livro de Apocalipse, é
retratado um rolo do qual ninguém é digno de abrir os sete selos que o lacra,
então João chora muito, pois este livro contém o desfecho da história humana,
sem a abertura dele, não há justiça. Então um ancião consola o apóstolo e diz
que o Leão de Judá foi achado digno de abrir o livro, mas quando João olha sobre
o trono, a figura que ele vê é a de um Cordeiro que havia morrido, mas vive.
Esta imagem é um exemplo vívido do profundo contraste que existe entre a
humilhação de Cristo e sua exaltação, entre seus sofrimentos e seus triunfos.
Jesus cumpriu ambas as figuras. Ele é o Leão de Judá, o novo Rei de Israel; é
também o Cordeiro, que foi morto em favor de seu povo. Isto nos dá uma
indicação quanto à complexidade de seu caráter e dignidade.

Por fim, vemos que o Novo Testamento enfatiza que Cristo é a máxima
revelação de Deus (Hb 1:1-3) e a exata expressão do Seu ser (Cl 1:15-18).

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Unidade 4 – Ressurreição de Cristo

A vida de Jesus segue um padrão geral de movimento da humilhação à


exaltação. O movimento não é linear, visto que às vezes há picos de glória e, na
maioria das vezes, a glória é revelada por meio da humilhação. A narrativa do
nascimento contém tanto vergonha como majestade. O ministério público de
Jesus atrai louvor e desprezo, aceitação e rejeição, clamores de “Hosana!” e
“Crucifica-o!”. Próximo à sombra da morte, ele exibiu a glória translúcida da
transfiguração (Mt 17:1-8; Lc 9:28-36). O clímax de glória e exaltação se dá na
ressurreição de Cristo e Sua ascensão, que são o nosso foco nesta unidade.

A ressurreição
A ressurreição de Jesus é o coração e a raiz da fé cristã. O cristianismo se
sustenta no fato de que Jesus de Nazaré, três dias após ser crucificado,
ressuscitou fisicamente. Analisaremos umas das confissões de fé mais antigas
da igreja primitiva sobre a ressurreição de Cristo, citada por Paulo em 1 Coríntios
15:3-8:

“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu
por nossos pecados, segundo as Escrituras, E que foi sepultado, e que
ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas
(Pedro), e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos
irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também.
Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de
todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.”

Podemos destacar 10 crenças reveladas nesta confissão (ou credo, que vem
da palavra “creio”):
1) A Igreja confessava que Jesus morreu;
2) Isso tinha valor para a expiação dos pecados (v. 3);
3) A Igreja confessava que Jesus foi sepultado;
4) Depois de três dias, ressuscitou, o que pressupõe o túmulo vazio (v. 4);
5) A Igreja entendeu que tudo ocorreu segundo o que as Escrituras do Antigo
Testamento profetizaram;
6) A Igreja afirmou que a ressurreição foi confirmada, pois Jesus apareceu vivo
a Pedro;
7) Apareceu vivo também aos doze discípulos (v. 5);
8) Jesus foi visto por mais de 500 cristãos, a maioria dos quais ainda estavam
vivos — subentendendo-se que estes poderiam confirmar o fato (v. 6);
9) A Igreja afirmou que, depois disso, Jesus apareceu a Tiago e aos outros
apóstolos (v. 7);
10) E, por fim, Paulo acrescentou ao credo que ele mesmo vira a Jesus
ressurreto (v. 8).
Numa cena de crime, uma das maiores evidências que pode existir são
testemunhas oculares. Basicamente, Paulo esta listando mais de 500 pessoas
que viram Jesus ressurreto, mostrando que ele não temia os incrédulos, pelo

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contrário, Paulo incentiva os céticos a averiguarem por si mesmos, pois ele não
tinha nada a temer.
Além destas afirmações do credo, podemos destacar outras evidências da
ressurreição de Cristo, a partir dos relatos encontrados nos evangelhos (Mt 28;
Mc 16; Lc 24; Jo 20).

1. O sepulcro de Jesus foi encontrado vazio por um grupo de suas seguidoras,


no primeiro dia da semana após sua crucificação.
a. A confiabilidade histórica do relato do sepultamento de Jesus sustenta o
sepulcro vazio, pois não há intervalo de tempo significante entre o
acontecimento e os escritos – ainda mais se levarmos em conta as confissões
orais que circulavam na igreja primitiva, como a de 1 Co 15:3-8.
b. O relato do sepulcro vazio está registrado de forma independente em fontes
muito antigas. Exemplo: Profissão de fé que Paulo cita, antes dos evangelhos;
os próprios evangelhos.
c. O relato de Marcos é singelo e carece de criações lendárias. Ao contrário de
relatos mentirosos, os evangelistas não enfeitam seus relatos da ressurreição,
forçando uma mentira. Veja um exemplo de relato enfeitado e mirabolante e
compare com o capítulo 16 de Marcos; esse relato foi extraído de um apócrifo
gnóstico chamado “Evangelho de Pedro” pertencente ao século 2, onde relata a
ressurreição de Cristo, nele temos uma cruz falante e anjos gigantes:

“Bem cedo, ao amanhecer o Sabat (sábado), uma grande multidão veio de


Jerusalém e das redondezas para ver o sepulcro selado. Mas durante a noite que
precedia o domingo, enquanto os soldados estavam fazendo a guarda de dois a
dois, uma grande voz produziu-se no céu. Viram os céus abertos e dois homens
que desciam, tendo à sua volta um grande resplendor, e aproximaram-se do
sepulcro.
Aquela pedra que haviam colocado sobre a porta rolou com o seu próprio
impulso e pôs-se de lado, com o que o sepulcro ficou aberto e ambos os jovens
entraram. Ao verem isto, aqueles soldados despertaram o centurião e os
anciãos, já que também estes encontravam-se ali fazendo guarda. Estando eles
explicando o que acabara de acontecer, viram três homens que saíam do
sepulcro, dois dos quais servindo de apoio a um terceiro, e uma cruz que ia atrás
deles. A cabeça dos dois primeiros chegava até o céu, enquanto que a daquele
que era conduzido por eles ultrapassava os céus. Ouviram uma voz vinda dos
céus que dizia: "Pregaste para os que dormem?". E da cruz fez-se ouvir uma
resposta: "Sim".”

d. O sepulcro foi encontrado por mulheres. Naquela época as mulheres eram


rebaixadas socialmente, tanto que num tribunal elas não poderiam ser
testemunhas. Se os evangelistas quisessem inventar algo, eles deveriam ter
colocado homens de influência para encontrarem o túmulo vazio, porém vemos
que não se importando com o que a sociedade pensaria, os evangelistas foram
fiéis aos fatos.
e. A primeira reação dos judeus aos discípulos pressupõe o sepulcro vazio. Os
fariseus subornaram os soldados para mentirem que os discípulos haviam

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roubado o corpo, se o sepulcro ainda estivesse com o corpo, a solução era
simplesmente apontar o túmulo.

2. Os primeiros discípulos vieram a crer com sinceridade na ressurreição de


Jesus, indo contra a imagem distorcida que tinham do Messias.
a. Os judeus não nutriam nenhuma expectativa de um Messias que, em vez de
triunfar sobre os inimigos de Israel, seria vergonhosamente executado por eles
como um criminoso.
b. As crenças dos judeus sobre a vida após a morte excluíam a possibilidade
de que alguém ressuscitasse da morte, para a glória e a imortalidade, antes da
ressurreição do fim do mundo.

3. Os apóstolos morreram por essa verdade.


Ao contrário do que muitos pensam, os apóstolos não ganharam nada além de
perseguição e mortes horríveis. Ninguém em sã consciência morre pela própria
mentira.

4. A conversão de céticos.
Outro fator que apenas a ressurreição explica é o da conversão de incrédulo e
perseguidores dos cristãos, como Tiago, irmão de Jesus, e Paulo. Até a morte
de Jesus, Tiago não acreditava em seu irmão, mas houve algo que o transformou
em líder da igreja de Jerusalém e do primeiro concílio da igreja (At 15:13); o
que aconteceu para haver esta transformação brusca? Paulo nos responde:
“Depois [Cristo ressurreto] foi visto por Tiago” (1 Co 15:7).
Paulo é outra incógnita para aqueles que não creem na ressurreição, pois, a
princípio, Lucas nos relata, em Atos, que Paulo respirava “ameaças e mortes
contra os discípulos do Senhor” (At 9:1), porém alguns versículos depois ele nos
conta que Paulo “nas sinagogas pregava a Cristo, que este é o Filho de Deus”
(At 9:20). O que causou essa mudança brusca de inimigo para exímio defensor?
Nos versos 3 a 6 é relatado o encontro que Paulo teve com o Cristo ressurreto,
o motivo de sua mudança brusca.

5. Mudanças em estruturas sociais fundamentais.


Houve, pelo menos, cinco estruturas mudadas ou abandonadas:
a. Sacrifícios de animais cessaram.
b. A obediência das leis foi mudada, estando agora debaixo da lei de Cristo,
não por obrigação, mas por gratidão.
c. A guarda do sábado foi abandonada. Os cristãos passaram a cultuar no
primeiro dia da semana, chamado “dia do Senhor” (At 20:7; Ap 1:10), que
é Domingo, devido ter sido o dia da ressurreição.
d. Mudança do monoteísmo unicista para monoteísmo trinitariano, passou a
se desenvolver o conceito da trindade, crendo num Deus subsistindo em
três pessoas distintas.
e. Mudança da visão do Messias rei e reformador político para o Messias
sofredor e servo.
Tais crenças estavam enraizadas em Israel por séculos, qual seria a causa da
mudança tão radical num tempo tão curto, a não ser a ressurreição do Messias?

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6. Surgimento da Igreja com os sacramentos.
a. De um dia para o outro surge uma comunidade de crentes em Jesus, com
três mil almas (At 2:41). Alguns dias depois esse número chega a quase cinco
mil (At 4:4). É impossível acontecer esse movimento sem nenhuma causa
razoável ou baseado em mentiras.
b. Além de surgirem cinco mil pessoas, quase que instantaneamente, crendo
nas doutrinas cristãs, foi-se instituído (pelo próprio Cristo) dois sacramentos
(ou símbolos da graça) que são: o batismo e a ceia (também conhecida como
eucaristia que significa “ação de graças”). Ambos os sacramentos fazem
referência à morte de Jesus. Seria tolice tal prática se Ele não houvesse
ressuscitado, pois estariam celebrando um Messias morto e derrotado.

Além dos fatos esboçados, a ressurreição nos dá 3 certezas:


1. Deus aceitou o único e suficiente sacrifício de Cristo. Se Jesus não tivesse
ressuscitado, não saberíamos se Seu sacrifício está realmente consumado.
2. Deus não verá mais nossos pecados, mas vê a justiça de Cristo sobre nós.
3. Assim como Ele ressuscitou, nós seremos ressuscitados com corpos
glorificados, semelhante ao d’Ele (Fp 3:20-21).

O pastor John Piper listou dez consequências maravilhosas que devemos à


ressurreição de Jesus:
1) Um Salvador que nunca mais morrerá. “Sabendo que, tendo sido Cristo
ressuscitado dentre os mortos, já não morre.” (Romanos 6.9a).
2) Arrependimento. (At 5.30-31).
3) Novo nascimento. (1 Pe 1.3).
4) Perdão do pecado. (1 Co 15.17).
5) O Espírito Santo. (At 2.32-33).
6) Nenhuma condenação para os eleitos. (Rm 8.34).
7) A comunhão e proteção pessoal de Jesus. (Mt 28.20).
8) Evidência do juízo futuro. (At 17.31).
9) Salvação da ira vindoura de Deus. (Rm 5.9; 1 Ts 1.10).
10) Nossa própria ressurreição dentre os mortos. (Rm 6.4; 8.11; 1 Co 6.14;
15.20; 2 Co 4.14).

Mais à frente, no capítulo 15 de Primeira aos Coríntios, o apóstolo Paulo


descreveu com clareza as consequências irrefutáveis de um cristianismo “sem
ressurreição”. Se Cristo não ressuscitou, argumentou, as seguintes conclusões
nos são deixadas (1 Co 15:13-19):

1. Nossa pregação é fútil.


2. Nossa fé é vã.
3. Damos um testemunho falso a respeito de Deus.
4. Ainda permanecemos em nossos pecados.
5. Nossos queridos que já morreram, pereceram.
6. Somos mais infelizes de todos os homens.

Após Sua ressurreição, Cristo permanece ainda 40 dias na Terra com Seu corpo
glorificado, onde passava aos discípulos as últimas ordens, antes de voltar ao

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Pai nos céus. Quando Jesus ascende ao céu, cumpre-se efetivamente dois ofícios
que citamos anteriormente: Rei e Sacerdote. Assentado à direita de Deus, Cristo
governa todas as coisas, pois Seu Reino já foi inaugurado, porém ainda não está
pleno; cabe à Igreja tornar visível o Reino invisível de Cristo. Além disso, logo
após subir aos céus, Ele reveste Sua Igreja com o poder do Espírito Santo,
capacitando-a a proclamar o Evangelho, cumprindo a grande comissão dada pelo
Senhor (Mc 16:15). Descansemos e confiemos, pois assentado à direita de Deus,
Jesus não apenas governa como Rei, mas intercede por nós, diante de Deus,
como nosso Sumo Sacerdote. A Ele seja toda a glória!

16
Unidade 5 – Dupla natureza

Durante a história da igreja, houve diversas controvérsias sobre a natureza de


Jesus, seria Ele apenas Deus? Ou apenas homem? Se ambos, como essas
naturezas coexistem? É isso que abordaremos nesta unidade, as duas naturezas
de Cristo.
A Bíblia nos ensina que Jesus é Deus pelos seguintes motivos:
- Jesus foi chamado por nomes divinos (Mt 8:29; Mc 14:61, 62; Jo 1:1; Rm 9:5;
16:16; 27:40; Ap 1:8; Is 44:6; At 3:14; Is 41:14).
- Ele recebeu (e aceitou) adoração (Mt 14:33; Lc 5:8; 24:52; At 7:59, 60; 2Co
12:8-10).
- Atributos divinos (de natureza e morais) Lhe foram atribuídos: Onisciência (Mt
11:27; 12:25; Jo 1:47-51; 4:16-19, 29; Cl 2:3). Onipresença (Mt 18:20; 28:20;
Jo 3:13; 14:23; Ef 1:23). Onipotência (Mt 8:26, 27; 28:28; Hb 1:3; Ap 1:8).
Eternidade (Jo 8:58; 17:5, 24; Cl 1:17; Hb 1:8; 13:8; Ap 1:8; Is 9:6; Mq 5:2).
Vida (Jo 10:17, 18; 11:25; 14:6). Imutabilidade (Hb 1:11; 13:8; Sl 102:26,
27). Auto Existência (Jo 1:1, 2).
Mas também afirma que Ele é homem com limitações físicas (Mt 4:2; Mc 11:12;
Jo 4:6; 18:22; 19:2, 3, 28). A questão é: como conciliar ambas as naturezas?

A segunda pessoa da trindade


Para melhor compreensão da Encarnação de Cristo, é necessário que tenhamos
uma certa compreensão da Trindade. A Doutrina da Trindade declara que Deus
é um Ser que existe em três Pessoas distintas. Antes de tudo, isto significa que
devemos distinguir cada uma das Pessoas da Trindade das outras duas. O Pai
não é o Filho nem é o Espírito Santo. O Filho não é o Espírito Santo nem é o Pai.
O Espírito Santo não é o Pai nem é o Filho. Cada uma delas é um centro distinto
de consciência. Contudo, elas compartilham exatamente a mesma
natureza/essência divina. Desse modo, as três Pessoas são um único Ser. O
Ser/essência divino não é algo dividido entre as Pessoas, como se cada Pessoa
recebesse 1/3. Em vez disso, o Ser divino é total e igualmente possuído pelas
três Pessoas, de modo que as três Pessoas são plena e igualmente Deus.
Como o fato de Deus ser três Pessoas em um Ser se relaciona com a
Encarnação? Para responder isto devemos considerar outra pergunta: qual das
três Pessoas se encarnou como Jesus Cristo? Todas as três? Ou apenas uma?
Qual delas? A resposta bíblica é que somente o Filho Se encarnou. O Pai não Se
encarnou em Jesus e nem o fez o Espírito Santo. Desse modo, Jesus é Deus,
mas não é o Pai nem é o Espírito Santo. Jesus é Deus o Filho.
Por que é importante sabermos que Jesus é, especificamente, Deus o Filho?
Por uma razão: se o entendermos, não cometeremos erros sobre a verdadeira
identidade do nosso Salvador. Além do mais, isto é algo que afeta grandemente
o modo como nos relacionamos com o Deus Trino. Se pensarmos que Jesus é o
Pai ou o Espírito Santo, ficaremos confusos em nossas orações. Finalmente, é
uma heresia acreditar que o Pai Se encarnou em Jesus.

17
As heresias e o concílio de Calcedônia
Nos primeiros 400 anos da igreja, um dos pontos teológicos que mais teve
discórdia e ataques de heresias foi sobre a natureza de Jesus. Diversos
movimentos heréticos enfatizaram uma natureza de Cristo, desprezando a
outra. Veja alguns exemplos:

• Modalismo (também conhecido como Patripassionismo e


sabelianismo): Desenvolvido no século 2 d.C. Diz que o Pai, o Filho e o Espírito
não são três pessoas distintas, mas três modos ou aspectos do único Deus;
como se Ele trocasse de roupa, num momento Ele é o Pai, em outro é o Filho
e em outro é o Espírito Santo. Argumenta-se que há apenas um Deus, que só
pode ser três pessoas em aparência, não de fato.
• Adocionismo: Desenvolvido no século 2 d.C. Afirma que Jesus nasceu
humano, foi unido com o espírito de Deus em seu batismo e adotado ao ser de
Deus em sua ressurreição. Tal ideia é baseada no argumento de que há apenas
um Deus criador pré-existente, portanto, para Jesus ser Deus, Ele tornou-se
divino.
• Apolinarianismo: Criado por Apolinário de Laodicéia no século 4 d.C. Afirma
que o espírito/alma humano de Jesus foi substituído pelo divino Logos (o Verbo)
em Sua encarnação. Argumenta-se, para sustentar tal visão, que Jesus não
poderia pecar e então não podia ter um espírito humano (a fonte do pecado
humano).
• Arianismo: Desenvolvido por Ário no século 4 d.C. Afirma que o Logos (o
Verbo) era “o primogênito” da criação, tornando carne humana na encarnação.
“Houve um tempo em que o Filho não existia”, dizia Ário. Afirma-se que o
Criador divino e transcendente não pode compartilhar seu ser com outro,
portanto, Jesus foi criado.

Essas heresias, em especial o arianismo, forçaram uma resposta da igreja, e


isso se deu no concílio de Nicéia, em 325 d.C. Onde se criou o famoso credo de
Nicéia, que abordava a doutrina da trindade. Porém, surgiram novas
controvérsias sobre a humanidade e divindade de Jesus, em especial duas
heresias.

• Monofisismo: produzida por um homem chamado Eutiques, no século 5 d.C.


O nome desta posição vem do prefixo mono, que significa “um”, e da
palavra physis, que significa “natureza”. Os monofisistas acreditavam que
Cristo tinha apenas uma natureza; eles negavam que Cristo era uma pessoa
com duas naturezas: uma divina e uma humana. Mesmo antes de Eutiques,
alguns haviam argumentado que Cristo tinha apenas uma natureza. Destes,
alguns diziam que Cristo era apenas humano, sem uma natureza divina.
Outros, como os docetistas, argumentavam que Cristo era totalmente divino,
apenas com aparência humana. Eutiques formulou a ideia de que Cristo tinha
uma natureza teantrópica. Esta palavra vem da palavra grega theos, que
significa “Deus”, e da palavra antropos, que significa “homem”. Eutiques dizia
que a natureza de Cristo não era nem verdadeiramente divina, nem
verdadeiramente humana; era uma mistura da divina e da humana.

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• Nestorianismo: Desenvolvida por Nestório, no século 5 d.C. Argumentava
que as naturezas humana e divina de Jesus foram completamente separadas
na encarnação. Maria era a “portadora do Cristo”, não a “portadora de Deus”*.
E por ser impossível que as duas naturezas se unam, havia duas pessoas em
Cristo (a humana e a divina).
*Aqui, o termo que Nestório recusa usar é theotokos (Mãe de Deus). Embora
para nós evangélicos este termo parece errado, a princípio ele era usado pela
igreja com outro sentido. Maria era chamada de mãe de Deus no sentido de que
a criança que estava no seu ventre era Deus e homem, Jesus não se tornou
Deus depois de um tempo, mas desde a concepção Ele possuía as duas
naturezas. Conforme foi se passando os tempos, esse termo foi sendo usado
para fomentar a adoração à Maria. Mas lembre-se, a princípio, esse termo tinha
em vista a natureza de Cristo e não a adoração de Maria.

Estas duas heresias desencadearam o Concílio de Calcedônia em 451 d.C.


Deste concílio procede a formulação clássica sobre a natureza dupla de Cristo,
veja na íntegra a Definição de fé de Calcedônia:

“Seguindo, pois, os santos Pais, ensinamos todos a uma voz que deve ser
confessado um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, o qual é perfeito
em divindade e perfeito em humanidade; verdadeiro Deus e verdadeiro homem,
de alma racional e corpo; consubstancial (de mesma substância) ao Pai em
divindade, e assim mesmo consubstancial a nós em humanidade; semelhante a
nós em tudo, porém sem pecado; gerado pelo Pai antes dos séculos de acordo
com a divindade, e, nos últimos dias, por nós e nossa salvação, da virgem Maria,
mãe de Deus (theotokos), segundo a humanidade; um e o mesmo Cristo Filho
e Senhor Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, sem mutação, sem
divisão, sem separação, e sem que desapareça a diferença das naturezas por
causa da união, mas mantendo as propriedades de cada natureza, e unindo-as
em uma pessoa e substância; não dividido ou partido em duas pessoas, mas um
e o mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo e Senhor Jesus Cristo, como foi dito
acerca dele pelos profetas de antigamente e o próprio Jesus Cristo nos ensinou,
e o Credo dos Pais nos transmitiu.”

As mais importantes implicações dessa declaração são as seguintes:


1. As propriedades de ambas as naturezas podem ser atribuídas a uma só
pessoa, como, por exemplo, onisciência e conhecimento limitado.
2. Os sofrimentos do Deus-homem podem ser reputados como real e
verdadeiramente infinitos, ao mesmo tempo que a natureza divina não é passível
de sofrimento.
3. É a divindade, e não a humanidade, que constitui a raiz e a base da
personalidade de Cristo.
4. O Verbo não se uniu a um indivíduo humano distinto, e sim à natureza
humana. Não houve primeiro um homem já existente com quem se teria
associado a Segunda Pessoa da Deidade. A união foi efetuada com a substância
da humanidade no ventre da virgem.

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Sabemos que Jesus é 100% Deus e 100% homem, mas o “como?” nos é um
mistério. Muitas doutrinas bíblicas são chamadas, pelos teólogos, de
“antinomianismo” que consiste em duas proposições que aparentam se
contradizer, mas que são afirmadas de forma que uma completa a outra. A
natureza de Jesus é uma dessas questões. Porém a confissão de Calcedônia nos
dá limites que devemos respeitar, para não cairmos em alguma heresia.
Uma frase importante do credo tem sido deploravelmente negligenciada no
decorrer da história: “mantendo as propriedades de cada natureza”. Cristo não
deixou de lado qualquer de seus atributos divinos. A natureza divina de Cristo é
eterna, infinita, imutável, onisciente e onipotente. A natureza humana de Cristo
também retém os atributos da humanidade; é finita e restrita ao espaço e
tempo. A fórmula de Calcedônia nos dá uma direção enquanto continuamos
nosso estudo sobre a pessoa de Cristo.
Jesus precisava ser 100% Deus e 100% homem, pois o castigo que nos era
demandado pela justiça de Deus era eterno (o inferno), sendo assim, apenas
Deus – que é eterno – poderia pagar nossos débitos; porém, por ser a
humanidade que pecou, era necessário que um homem sofresse o castigo justo.
Sendo assim, Cristo atende ambas as necessidades, nos dando salvação e
redenção.

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Unidade 6 – Os nomes de Jesus

Cristo foi chamado por diversos nomes, cada nome e título atribuído a Ele, no
Novo Testamento, tem um significado especial. Cada um deles nos releva algo
sobre quem Ele é e o que Ele fez. Veremos nesta unidade alguns dos principais
nomes dados ao Messias e seus significados.

Jesus
O anjo Gabriel instruiu Maria nomear a criança em seu ventre, concebida pelo
Espírito Santo, de Jesus (Mt 1:21; Lc 1:31). No Antigo Testamento, este nome
foi traduzido (na maioria das vezes) como Josué. Tal nome tem muito a nos
revelar, pois seu significado nos mostra o propósito da encarnação da segunda
pessoa da trindade, o Filho. O nome Jesus significa “salvação” ou “O Senhor
salva”, mostrando que seu propósito em vir à Terra foi nos reconciliar com Deus.
Muitas vezes este nome é unido ao termo “Cristo”, tanto que se tornou comum
usarmos ambos juntos, como se fosse um sobrenome, Jesus Cristo; mas Cristo
(como vimos na Unidade 1) é um título profético que significa ungido.

Senhor
O segundo título usado mais frequentemente em relação a Jesus no Novo
Testamento é “Senhor”. Esse título, ou referência, era o mesmo usado para Deus
no Antigo Testamento, quando identificado pelo o nome que Ele revelou a
Moisés, YHWH (pronuncia-se Iavé ou Javé, que significa EU SOU O QUE SOU).
A tradução das Escrituras hebraicas para o grego, especificamente na
Septuaginta, que foi a versão usada na citação dos textos do Antigo Testamento
pelos autores do Novo, traduziu YHWH como kyrios (Senhor). Cremos que o uso
da expressão kyrios pelos autores do Novo Testamento tenha sido intencional
para fazer essa associação entre Javé e seu Ungido, atribuindo-lhe tratamento
e consideração igual. Este título formou o primeiro credo da comunidade cristã:
“Jesus é o Senhor”. Esta confissão esteve no centro do conflito que a igreja
primitiva experimentou com as autoridades romanas. Exigia-se que os cidadãos
romanos recitassem publicamente as palavras “César é Senhor”. Os primeiros
cristãos eram profundamente comprometidos com o mandato que receberam de
Cristo e dos apóstolos para serem obedientes às autoridades civis, eram
cuidadosos em pagar seus impostos e obedecer às leis do estado. Mas uma coisa
que eles não faziam era atribuir a César a honra que acompanhava o termo
Senhor.
O termo senhor nem sempre é usado de uma maneira que inclui majestade.
De fato, há três significados distintos da palavra grega kyrios.
Primeiramente, a palavra kyrios funcionava como uma forma de tratamento
simples e educada. Quando lemos o Novo Testamento e observamos pessoas se
encontrando com Jesus pela primeira vez e se dirigindo a ele como “Senhor”,
não devemos concluir imediatamente que elas tinham um entendimento
profundo da plena medida da majestade de Cristo. Poderiam estar apenas se
dirigindo a ele de uma maneira educada. É claro que a palavra senhor pode ter
um significado mais elevado.

21
A segunda maneira como a palavra kyrios é usada no Novo Testamento é com
referência específica a um dono de escravos, um indivíduo rico que tinha dinheiro
suficiente para comprar escravos. O escravo era um doulos, e uma pessoa não
podia ser um doulos se não pertencesse a um kyrios, um senhor. Portanto, o
termo senhor foi usado para se referir a alguém que possuía escravos. O
apóstolo Paulo usou frequentemente o título senhor desta maneira, descrevendo
a si mesmo como escravo de Jesus Cristo e orientando os crentes a pensarem
em si mesmos sob essa luz: “Porque fostes comprados por bom preço” (1 Co
6.20; 7.23). Quando confessamos que Jesus é Senhor, entendemos que Cristo
nos comprou por meio da expiação e, portanto, nos possui. Somos sua
propriedade.
O terceiro uso – e o mais elevado – da palavra kyrios no Novo Testamento é o
uso imperial, que César procurava arrogar para si mesmo, pelo que causava
grande problema para os cristãos. É claro que alguém pode verbalizar o título
de maneira falsa, pelo que Jesus disse: “Este povo se aproxima de mim com a
sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
(Mt 15.8). Entretanto, o Novo Testamento nos diz: “Ninguém pode dizer que
Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo.” (1 Co 12.3).

Filho do Homem
O terceiro título usado mais frequentemente em referência a Jesus, no Novo
Testamento, é “Filho do Homem”. Embora seja o terceiro em frequência de uso
no Novo Testamento, como um todo, esse é, evidentemente, o título primário
que Jesus usou ao falar de si mesmo. Isso é importante. Dentre as mais de 80
ocorrências deste título no Novo Testamento, todas, exceto três, são usadas
pelo próprio Jesus. Embora os evangelistas não costumassem chamá-Lo desta
forma, retrataram de forma fiel como o Salvador se autodenominava.
Alguns veem nesta designação uma expressão da humildade de Jesus, mas
isso não é exato. Na visão de Daniel sobre as cortes celestes, Deus aparece no
trono do julgamento como o Ancião de Dias e recebe em sua presença Aquele
que é semelhante a “Filho do Homem”, o qual chega a Ele em nuvens de glória
e recebe autoridade para julgar o mundo (Dn 7.13-14). No uso que o Novo
Testamento faz deste título, o Filho do Homem é uma pessoa celestial que desce
à terra, e Ele representa nada menos que a autoridade de Deus. Ele vem para
trazer julgamento ao mundo, no dia do Senhor. Portanto, este é um título
exaltado, dado exclusivamente a Jesus no Novo Testamento. À medida que você
lê as Escrituras e se depara com este título, examine o contexto e começará a
ver que este título é uma designação majestosa e exaltada de Jesus.

Filho de Deus
Este termo é usado comumente entre os cristãos, embora muitas vezes não
refletimos sobre a profundidade de seu significado.
O islamismo rejeita vigorosamente esse título dado a Jesus, pois eles
entendem, de forma errônea, que esse termo se refira a literalmente Jesus ser
filho de Deus, como se Deus tivesse casado com Maria (ou algo parecido) e
Cristo tenha nascido desta união. Não, nada mais longe da verdade do que isso.
No credo de Calcedônia (citado na Unidade 5), o termo usado para descrever a
relação do Pai e do Filho, na trindade, é “gerado”; inclusive, no credo de Nicéia

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é enfatizado que Cristo foi “gerado” e não “criado” pelo Pai. Mas como entender
essa diferença? C. S. Lewis nos explica, de forma clara:

“Gerar é ser pai de alguém; criar é fazer, construir algo. A diferença é a


seguinte: na geração, o que foi gerado é da mesma espécie que o gerador. Um
homem gera bebês humanos, um castor gera castorzinhos e um pássaro gera
ovos de onde sairão outros passarinhos. Mas, quando fazemos algo, esse algo é
de uma espécie diferente. Um pássaro faz um ninho, um castor constrói uma
represa, um homem faz um aparelho de rádio - ou talvez algo um pouco mais
parecido consigo mesmo que um rádio: uma estátua, por exemplo. Se for um
escultor habilidoso, sua estátua se parecerá muito com um homem. Mas é claro
que não será um homem de verdade; terá somente a aparência. Não poderá
pensar nem respirar. Não tem vida.
Esse é o primeiro ponto que devemos deixar claro. O que Deus gera é Deus,
assim como o que o homem gera é homem. O que Deus cria não é Deus, assim
como o que o homem faz não é homem. É por isso que os homens não são filhos
de Deus no mesmo sentido em que Cristo o é.” (Cristianismo Puro e Simples –
C. S. Lewis).

Ao contrário do entendimento distorcido dos mulçumanos sobre o título “Filho


de Deus”, ele ressalta que Jesus é nada mais nada menos que Deus.

O Verbo
O apóstolo João inicia seu evangelho falando de Jesus da seguinte forma: “No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (Jo 1:1).
A palavra grega que ele usa para Verbo é Logos. Ele empresta esse conceito da
filosofia grega que tinha o Logos como uma energia impessoal que mantinha
todo o universo funcionando. João usa este termo, só que amplia seu significado,
dizendo que Jesus é o que sustenta o universo, como diz Colossenses 1:17: “E
ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.”.
O termo Logos pode ser traduzido como “Verbo” (no sentido de ‘palavra’).
Porém Gordon Clark traduz Logos, de forma alternativa, como “lógica”. Então o
versículo ficaria assim: “No princípio era a Lógica, e a Lógica estava com Deus,
e a Lógica era Deus.”. Neste sentido, não estamos dizendo que Deus é
totalmente compreensível, mas que n’Ele não há contradição. Embora Deus
esteja além de nosso entendimento fraco e limitado, Ele se revela a nós em
linguagem inteligível. Deus está acima de nossa razão (suprarracional), porém
nunca está contra a razão, ou seja, Deus não é contraditório.

Há ainda diversos nomes que não foram mencionados, porém os principais,


citados acima, nos revelam a glória pertencente ao Senhor Jesus. Sempre que
fizer uso destes títulos, lembre-se o significado e o que você está professando
com isso. Que a cada dia possamos nos aprofundar em conhecer a Cristo, com
temor e tremor!

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Unidade 7 - Cristo: Caminho, Verdade e Vida

“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida;


ninguém vem ao Pai, senão por mim.” João 14:6

Esta é uma das passagens mais conhecidas pelos evangélicos, citamos ela
diversas vezes, mas compreendemos a profundidade destes termos usados por
Cristo?
Primeiramente, vamos ao contexto da passagem. Aqui trata-se dos últimos
ensinos de Jesus, antes de ser crucificado; Ele está conscientizando seus
apóstolos de que é necessário voltar ao Pai, onde Ele preparará moradas para
seus discípulos e voltará para buscá-los. Cristo afirma que seus apóstolos sabem
para onde Ele vai, e que conhecem o caminho para lá, ou seja, o caminho para
o Pai. Porém Tomé nega que eles conheçam o destino de Jesus, além disso,
pergunta: “como podemos saber o caminho?”. Nisso, Jesus lhes responde com
a frase acima, dizendo ser Ele mesmo o único meio de se obter a resposta para
suas dúvidas. Em Sua resposta, Jesus usa 3 palavras para O descrever, as quais
analisaremos separadamente.

Caminho
Um dos pontos do cristianismo que mais escandaliza as pessoas é arrogar
exclusividade. Tem-se dito atualmente, de forma a violentar a própria
consciência, que todas as religiões levam a Deus; porém não devemos aceitar
esse discurso irracional, pois é impossível que duas religiões que se contradizem,
possam ambas levar a Deus. Jesus não ignora esse fato, basta analisarmos a
forma que ele expôs cada termo com artigos definidos. Ele não disse que era
um caminho, mas o caminho; isto mostra que Ele é o único e não um dentre
outros existentes.
Outro contraste que vemos Jesus fazer com as demais religiões é na direção
deste caminho. Lactâncio (240 – 320 d.C.), escritor cristão dos primórdios da
igreja, define que a origem da palavra religião vem do termo religar, nos dando
a entender de que todas as religiões consistem em esforços humanos tentando
se religar a Deus. Sem exceção, todas as religiões apresentam preceitos e obras
a serem feitas pelos homens, na esperança de ganhar o favor divino, o
cristianismo rejeita tal visão. Jesus é o caminho, pois nenhum esforço humano
pode alcançar a Deus, “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de
Deus” (Rm 3:23) e nossas obras são como panos imundos, encharcados de
pecado (Is 64:6). Sendo assim, o próprio Deus, em Cristo, vem ao nosso
encontro, religando-nos e nos reconciliando consigo. Este caminho tem mão
única, Deus ao nosso encontro; e esse caminho é exclusivo, Cristo é o único e
suficiente, não há possibilidade de salvação além de Cristo, pois Ele é o único
caminho que nos leva à Deus, o resto é atalho que nos leva à perdição.

Verdade
Muito do que se disse a respeito do caminho se aplica também à verdade. Jesus
é a própria encarnação da verdade. Ele é a verdade em pessoa. Como tal, Ele é
a realidade última em contraste com as sombras que o precederam. Verdade é

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algo que é incontestável, fiel, absoluto, que é fato, em que não há sombra de
dúvida. Mas, no presente contexto, o termo “a verdade” parece ter um sentido
diferente. É aquele que se opõe à mentira. Jesus é a verdade, porque Ele é a
fonte fiel da revelação redentora. Que este é o sentido no qual a palavra é usada
está claro no versículo 7, que ensina que Cristo revela o Pai.
O mundo vive na mentira, pois segue os passos de seu pai (Jo 8:44); apenas
Cristo, mediante o Espírito Santo, pode tirar a venda de nossos olhos para
vermos o resplendor da glória de Deus, que é a máxima verdade. Esta verdade
é uma verdade viva. É ativa. Ela nos domina e nos influencia poderosamente.
Ela nos santifica, nos guia, nos liberta (Jo 8:32; 17:17). Ele é a verdade, Ele
próprio em pessoa. Pilatos perguntou, “O que é a verdade?” (Jo 18:38). Essa
tem sido a pergunta da humanidade, buscamos em todos os cantos pela
verdade, porém o máximo que encontramos neste mundo são meias verdades,
ou seja, mentiras suavizadas. Jesus, em contraste, é a verdade de forma plena.
N’Ele não há meias verdades, não há variações ou limitações.

Vida
Jesus não está se referindo aqui ao fôlego ou espírito que anima nosso corpo.
Ele não está pensando na alma, nem na vida biológica, mas à vida em oposição
à morte. Todos os gloriosos atributos de Deus habitam no Filho de Deus. E por
ter a vida em si mesmo, Ele é a fonte e o doador da vida para os seus. Ele tem
a luz da vida (Jo 8:12), as palavras da vida (Jo 6:68) e Ele veio para que
tenhamos vida em abundância (Jo 10:10).
João inicia seu evangelho dizendo que “Nele [Cristo] estava a vida, e a vida
era a luz os homens” (Jo 1:4), mas “os homens amaram mais as trevas do que
a luz, porque as suas obras eram más” (Jo 3:19). Nascemos mortos em ofensas
e pecados (Ef 2:1), amando das trevas e odiando a luz da vida, pois estávamos
separados da comunhão com Deus (Rm 3:23). Mas, pela graça de Deus, Cristo
nos vivificou, Sua luz resplandeceu em nós e não pudemos resistir, Sua voz nos
chamou vencendo nossa surdez, de modo que temos vida por meio de Cristo.
Da mesma forma como a morte significa separação de Deus, também a vida
implica união com Ele (Jo 17:3); não podemos alegar estarmos vivos, se não
temos comunhão com Deus.

Todos os três conceitos são ativos e dinâmicos. O caminho leva a Deus; a


verdade torna o homem livre; a vida produz comunhão.

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Unidade 8 – A Suficiência de Cristo

Um dos pilares da Reforma Protestante foi a suficiência de Cristo, chamada em


latim de Solus Christus que significa “somente Cristo”. Nesta última unidade
faremos as últimas considerações a respeito do Senhor Jesus e relembraremos
os principais pontos abordados neste curso, definindo de forma clara o que a
Bíblia nos diz sobre Cristo.

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos


pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem
constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o
resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando
todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a
purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas
alturas.” Hebreus 1:1-3

Jesus, a suprema revelação (v. 1)


Nesta passagem, é enfatizado a supremacia de Cristo. O autor (provavelmente
o apóstolo Paulo) faz três contrastes. Em primeiro lugar, o Filho de Deus é
contrastado com os profetas; em segundo lugar, nós, com os patriarcas; em
terceiro lugar, as variadas e múltiplas formas de expressão que Deus adotou em
relação aos pais, mediante Sua multiforme graça, até chegar à última revelação
que nos é comunicada por Cristo.
Desde Gênesis, Deus vem revelando progressivamente e apontando Cristo, por
meio de sombras, as quais teriam cumprimento em Cristo (Mt 5:17, Jo 5:39).
Antes mesmo do tempo existir, Deus, na perfeita harmonia da trindade,
estabeleceu que o propósito da criação seria Ser glorificado na salvação dos
pecadores mediante a morte de Seu Filho, que é a máxima expressão do Pai.
Vemos isso nas diversas histórias apresentadas no decorrer da Bíblia. Embora a
princípio, possamos pensar que a Bíblia é uma série de histórias desconectadas,
Ela é uma única narrativa na qual cada história, cada personagem, aponta para
além de si, para alguém maior.
A história de Adão e Eva não trata apenas do primeiro homem e mulher. Há
um Adão melhor e verdadeiro, que passou no teste do jardim, cuja a obediência
é atribuída a nós.
Há um Abel melhor e verdadeiro, assassinado sem ter culpa, cujo o sangue
clama não pela nossa condenação, mas pela nossa absolvição.
Há um Abraão melhor e verdadeiro, que atendeu ao chamado de Deus para
deixar seu lar e todo conforto, partindo ao vazio e ali criando um novo povo de
Deus.
Há um Isaque melhor e verdadeiro, filho da graça e da promessa que não foi
apenas oferecido por seu pai sobre o monte, mas de fato foi sacrificado por todos
nós.

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Há um Jacó melhor e verdadeiro, que lutou e recebeu o golpe do castigo que
cabia a nós, afim de que, como Jacó, apenas recebêssemos a ferida da graça,
que nos desperta e nos disciplina.
Há um José melhor e verdadeiro, que estando à direita do rei, perdoa aqueles
que o traíram e o venderam, usando seu novo poder para salvá-los.
Há um Moisés melhor e verdadeiro, que se põe no abismo entre o povo e o
Senhor, mediando uma nova aliança.
Há uma rocha de Meribá melhor e verdadeira, ferida pela vara da justiça de
Deus, que agora nos dá água no deserto.
Há um Jó melhor e verdadeiro, alguém que conhece o sofrimento injusto, que
intercede e salva seus tolos amigos.
Há um Davi melhor e verdadeiro, cuja vitória se torna a vitória de seu povo,
ainda que eles mesmos não tenham levantado uma pedra se quer, para
conseguir isso.
Há alguém melhor e verdadeiro que, como Ester, não arriscou apenas perder
um palácio terreno, mas abriu mão do trono celestial, e não apenas arriscou sua
vida, como a deu por completo para salvar seu povo.
Há um Jonas melhor e verdadeiro, que foi lançado à tempestade, afim de que
dela nós fossemos resgatados.
Há um cordeiro da páscoa melhor e verdadeiro, inocente, perfeito, que se
deixou ser morto para que o anjo da morte não atentasse contra nós.
Ele é o verdadeiro templo;
O verdadeiro Profeta;
O verdadeiro Sacerdote;
O verdadeiro Rei;
O verdadeiro Sacrifício;
A verdadeira Luz;
E o verdadeiro Pão.
A Bíblia não é uma série de histórias desconectadas, ela é uma única narrativa
que aponta para uma única pessoa... JESUS!

Na parte em que diz “a nós falou-nos nestes últimos dias”, o sentido é que não
há mais razão para continuarmos em dúvida se devemos esperar alguma nova
revelação. Não foi apenas uma parte da palavra que Cristo trouxe e sim a palavra
final – sendo Ele próprio a Palavra de Deus encarnada. É nesse sentido que os
apóstolos entenderam as expressões “últimos tempos” e “últimos dias”.
A epístola aos Hebreus é mais um tratado teológico do que uma carta. Foi
escrita aos cristãos judeus que, sob a pressão da perseguição, estavam sendo
tentados a renunciar a Cristo e voltar ao judaísmo. A tática do autor foi
demonstrar a supremacia de Jesus Cristo. Os capítulos do livro de Hebreus
podem ser organizados desta maneira:
• Capítulos 1 a 10 apresentam o argumento de que a aliança de Jesus é
superior, porque o próprio Jesus é superior aos patriarcas, aos anjos, a Moisés,
e aos sacerdotes e sacrifícios do Antigo Testamento.

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• Capítulo 11 usa uma lista de exemplos de personagens do Antigo
Testamento (os heróis da fé) para demonstrar a necessidade da fé ativa para
agradar a Deus.
• Capítulos 12 e 13 oferecem orientações práticas sobre as provações, a
santidade e as responsabilidades para com os irmãos na fé.

Portanto, assim como o Espírito de Deus, nesta passagem, convida a todos a


irem a Cristo, assim os proíbe de ultrapassarem essa palavra final da qual Ele
faz menção. Não podemos retirar nem acrescentar nada à obra consumada de
Cristo.

Cristo, o herdeiro e feitor de todas as coisas (v. 2)


A ideia de herdeiro nos remete a Adão. Deus havia estabelecido o homem como
seu filho, para ser ele o herdeiro de todas as coisas; mas o primeiro homem,
por meio de seu pecado, alienou-se de Deus, tanto ele próprio como também
seus descendentes, e privou a todos tanto da bênção divina quanto de todas as
demais coisas. Sendo assim, o título herdeiro é atribuído a Cristo em sua
manifestação na carne. Pois, ao fazer-se homem e revestir-se de nossa própria
natureza, Ele recebeu para si essa herança a fim de restaurar em nosso favor o
que fora perdido em Adão. Só começaremos a desfrutar as boas coisas de Deus,
por direito, quando Cristo, que é o herdeiro de todas as coisas, nos admitir em
sua comunhão. Aliás, o autor lhe atribui esse título para que pudéssemos saber
que, sem Ele, somos destituídos de todas as boas coisas.
Na segunda parte do verso dois é dito que Deus fez o mundo por meio de
Cristo. Lembremos que, no primeiro capítulo de Gênesis, Deus cria o universo
por Sua Palavra, e vimos no evangelho de João que Jesus é a Palavra de Deus,
estando de acordo com o que é dito em Hebreus. Outras duas passagens nos
falam mais a respeito da obra criadora de Jesus:

“Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.”
João 1:3

“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque


nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e
invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam
potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas,
e todas as coisas subsistem por ele.”
Colossenses 1:15-17

Assim, vemos que Cristo é a causa da criação e ela está sob seu governo e
domínio. Um dos problemas que temos hoje, é que tendemos a colocar sob o
Senhorio de Cristo apenas algumas coisas que nos parecem santas e imaculadas,
mas o restante colocamos sob o domínio de Satanás. A Bíblia não expressa essa
opinião, Ela nos revela que TODAS as coisas estão debaixo da autoridade de
Cristo: a sociedade, a igreja, a política, as artes, a ciência etc. Até o Diabo é o
Diabo de Deus, como dizia Lutero, significando que até Satanás está debaixo do
domínio de Deus e não pode fazer nada contrário à permissão divina. Por isso,

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tudo que fizermos, seja pescar numa lagoa ou pregar um sermão na igreja,
devemos fazer para que Cristo seja glorificado, pois Ele é Senhor de TODAS as
coisas (1 Co 10:31).

Cristo, o Deus conosco (v. 3)


Deus, em si e por si mesmo, é incompreensível à nossa percepção, até que
sua forma nos seja revelada no Filho. Deus não nos é revelado de outra maneira
senão em Cristo. Porque O brilho e intensidade da glória de Deus é tão forte que
fere nossos olhos, até que ela nos seja projetada na Pessoa de Cristo. Segue-se
disso que somos cegos para a luz de Deus, a menos que ela nos ilumine em
Cristo. Tudo quanto é peculiar ao Pai é igualmente expresso em Cristo, de modo
que, quem O conhece, também conhece tudo quanto está no Pai (Jo 14:9).
Blaise Pascal diz o seguinte:

“É não somente impossível, mas também inútil conhecer a Deus sem Jesus
Cristo. [...] O conhecimento de Deus sem o da própria miséria faz o orgulho; o
conhecimento da própria miséria sem o de Deus faz o desespero; o
conhecimento de Jesus Cristo faz o meio-termo porque aí encontramos tanto
Deus como a nossa miséria”.

Isaías profetiza o seguinte sobre o Messias: “Eis que a virgem conceberá, e


dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.” (Is 7:14). O nome Emanuel
significa “Deus conosco”. Em Jesus, Deus esteve conosco de forma que
pudéssemos contemplar Sua glória sem sermos aniquilados.
Na parte em que diz que Cristo sustenta “todas as coisas pela palavra do seu
poder”, o termo “sustentar” é usado no sentido de cuidar e conservar toda a
criação em seu próprio estado. Tudo se desintegraria instantaneamente se não
fosse sustentado por sua vontade. Além de criar todas as coisas, Cristo a
mantém. Os cientistas só conseguem estudar a natureza e suas leis, pois Cristo
as mantém. Nenhum conhecimento seria possível se o Senhor Jesus não
escrevesse as leis físicas e as aplicasse, evitando que o universo se torne caótico
e inabitável. Temos as estações do ano; as 24 horas diárias, divididas em dia e
noite; as marés alta e baixa, porque Cristo as controla e organiza.
Prosseguindo, o apóstolo enfatiza o sacerdócio de Cristo – que falamos na 1ª
Unidade. Diz que o Senhor fez a purificação de nossos pecados. Estávamos
perdidos, totalmente separados da glória (comunhão) de Deus (Rm 3:23). Na
cruz Deus revela Seu amor, resgatando-nos da morte e do inferno; revela Sua
justiça, por derramar o castigo que nos era devido em Cristo (Rm 6:23; Is 53:4);
e revela sua santidade, mostrando que todo pecado é abominável a Deus e deve
ser destruído. Quando o escritor diz “por si mesmo”, devemos entender que
existe aqui um contraste com a antiga aliança, pois Cristo não foi auxiliado, em
seu propósito, pelas sombras da lei mosaica. A passagem mostra uma nítida
diferença entre Cristo e os sacerdotes levíticos, que precisavam, eles mesmos,
de perdão para seus pecados - na verdade, lhes foi dito que perdoassem os

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pecados, mas esse poder lhes foi concedido de uma outra fonte. A intenção do
autor é excluir todos os demais meios ou mediadores, colocando em Cristo tanto
o valor quanto o poder de nossa purificação.
“Assentou-se à destra da majestade nas alturas;”. É como se dissesse: assim
que conferiu salvação aos homens neste mundo, ele foi recebido na glória
celestial, para que pudesse governar todas as coisas. O apóstolo adicionou esta
sentença para mostrar que não foi uma salvação temporária que Cristo
conquistou para nós, pois em outros aspectos, somos inclinados a medir Seu
poder segundo Sua aparência no tempo presente. Ele nos acautela a que não
façamos pouco de Cristo só porque não O vemos com nossos olhos nus. Tal
coisa, ao contrário, é o clímax de Sua glória, ou seja, Ele recebeu e assumiu o
mais elevado assento de Seu império. À direita se aplica metaforicamente a
Deus, que nem se restringe a um lugar nem tampouco possui esquerda ou
direita. O fato de Cristo achar-se assentado significa, nada mais nada menos,
que o Pai Lhe conferiu o reino, e o poder a que Paulo se refere é que em Seu
Nome todo joelho se dobrará (Fp 2:10). Assentar-se à direita do Pai significa
simplesmente governar no interesse do Pai, justamente o que fazem os vice-
reis a quem se concedem plenos poderes sobre todas as coisas. A isso se
adiciona a descrição “da majestade”, em seguida “nas alturas” para mostrar que
Cristo se acha colocado no mais sublime trono donde a majestade de Deus
brilha. Quando Ele é amado em virtude de sua redenção, também é adorado
nessa majestade.
Nesta passagem se encontram os três ofícios de Cristo: o Pai falou por meio
de Cristo na qualidade de Profeta; Ele fez expiação pelos nossos pecados na
qualidade de Sacerdote; e assentou-se à destra de Deus na qualidade de Rei.

Sendo assim, a doutrina da suficiência de Cristo (Solus Christus) pode ser


resumida da seguinte forma:
Cristo é a suprema e última revelação de Deus, Ele é o próprio Deus. Não há
salvação fora de Cristo, pois Ele é o único caminho. Não há outro nome que nos
traz salvação, exceto Jesus. Ele é o único mediador entre Deus e os homens,
pois todos estão debaixo da lei do pecado e apenas Cristo é o Cordeiro imaculado
de Deus que nos reconciliou com o Pai. Jesus é suficiente para aperfeiçoar a boa
obra que começou em nós, pois comprou com Seu sangue povos de toda tribo,
língua e nação para que sejam conformados segundo a Sua imagem.
Referencias bíblicas: Jo 1:1-18; Jo 5:21,24-27; Jo 6:40,44-51; Jo 7:37-38;
Jo 10:25-30; Jo 14:6; Jo 15:1-5; At 4:11-12; Rm 5:10-21; Rm 8:29; 1Co 6:11;
1 Co 8:5-6; Gl 2:16; Gl 3:22,24-29; Ef 2:13-22; Fp 2:5-11; Fp 3:7-11; 1 Tm
2:5; Hb 5:1-10; Hb 9:11-12; Ap 5:6-10.

Espero que você tenha absorvido o máximo possível desta pequena e singela
apostila. Minha oração é que através do conhecimento transmitido aqui, você
busque se aprofundar em conhecer o nosso Redentor. Encerro este material
citando a confissão cristológica do ministério Ligonier. A Deus seja toda glória!
Amém!

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Confissão Ligonier
Confessamos o mistério e a maravilha
de Deus feito carne
e nos regozijamos na nossa grande salvação
por meio de Jesus Cristo nosso Senhor.

Com o Pai e o Espírito Santo,


o Filho criou todas as coisas,
sustenta todas as coisas,
e faz novas todas as coisas.
Verdadeiro Deus,
tornou-se verdadeiro homem,
duas naturezas em uma pessoa.

Nasceu da Virgem Maria


e viveu entre nós.
Foi crucificado, morto e sepultado,
ressuscitou ao terceiro dia,
subiu ao céu
e virá novamente
em glória e juízo.

Por nós,
Ele guardou a Lei,
expiou o pecado
e satisfez a ira de Deus.
Ele levou nossos trapos imundos
e nos deu
seu manto de justiça.

Ele é o nosso Profeta, Sacerdote e Rei,


edificando sua igreja,
intercedendo por nós,
e reinando sobre todas as coisas.

Jesus Cristo é o Senhor;


nós louvamos o seu santo Nome para sempre.
Amém.

Bibliografia
Quem é Jesus? – R. C. Sproul
Somos Todos Teólogos – R. C. Sproul
Jesus: Deus e homem? – John Piper
Um Homem chamado Jesus Cristo - John Piper
Por Que Jesus é Diferente - Ravi Zacharias

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