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PROCESSO DE CONDENAÇÃO DE JOANA D’ARC

9 DE JANEIRO DE 1431 A 30 DE MAIO DE 1431

1° FASE – PROCESSO PREPARATÓRIO OU DE OFÍCIO – 9 DE JANEIRO A 25 DE MARÇO.

2° FASE – PROCESSO ORDINÁRIO OU INQUÉRITO COM O PROMOTOR – 26 DE MARÇO


A 24 DE MAIO.

3° FASE – PROCESSO DE RELAPSIA OU CONTUMÁCIA – 28 DE MAIO A 30 DE MAIO.

----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

----- questões sobre a vida pessoal

----- questões sobre as roupas de homem

----- questões sobre as Vozes e santos

----- questões sobre o sinal dado ao rei

----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

----- Joana menciona o processo de Poitiers

----- questões sobre Joana se submeter à Igreja militante

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1° AUDIÊNCIA PÚBLICA

21 DE FEVEREIRO

CAPELA REAL DO CASTELO DE RUÃO

16 PERGUNTAS

PC – Jurais, sobre os Santos Evangelhos, dizer a verdade, como acabo de indicar, sobre o que vos
for perguntado?

J – Não sei sobre o que desejais interrogar-me. É possível que me pergunteis coisas que não vos
direi nunca.

PC – Deveis dizer a verdade sobre o que vos for perguntado, concernente à matéria de fé e ao mais
que souberdes.
J – De meu pai e minha mãe, e do que fiz, depois que vim para a França, jurarei, de boa vontade;
mas das revelações a mim feitas, da parte de Deus, nunca as revelei ou disse a ninguém, a não ser a
Carlos, o meu rei, e não as revelaria ainda que me fossem cortar a cabeça. Tenho ordem das minhas
visões ou do meu conselho secreto, para não as revelar a ninguém. Dento de oito dias saberei, no
entanto, se as poderei revelar.

PC – De novo vos admoestamos e exigimos que presteis juramento de dizer a verdade, sobre o que
tocar à nossa fé!

J – (De joelhos, as mãos sobre um missal) – Juro dizer a verdade em matéria de fé, sobre o que me
for perguntado e eu souber, mas nada direi sobre as minhas revelações.

PC – Quais são vosso nome e sobrenome?

J – Na minha terra chamavam-me “Jeannette”, e, depois que eu vim para a França, chamam-me
“Jeanne”. Do sobrenome nada sei.

PC – Qual o vosso lugar de origem?

J – Nasci na aldeia de Domrémy, junto à de Greux, onde está a igreja matriz.

PC – Quais os nomes de vossos pais?

J – Meu pai chama-se Jacques D’Arc, minha mãe Isabel.

PC – Onde fostes batizada?

J – Na igreja de Domrémy.

PC – Quais foram vossos padrinhos e madrinhas?

J – Uma das minhas madrinhas chamava-se Agnés, outra Joana e outra Sibila. Dos padrinhos, um
chama-se Jean Ligné, outro Jean Barrey. Tenho outras madrinhas, segundo ouvi de minha mãe.

PC – Que padre vos batizou?

J – Foi o padre Jean Minet, ao que me parece.

PC – Vive ele ainda?

J – Sim, segundo creio.

PC – Qual é vossa idade?


J – Tenho cerca de 19 anos, ao que suponho.

PC – Quem vos ensinou vossa crença?

J – Minha mãe me ensinou o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo. Não aprendi de outra pessoa a
minha crença, mas só de minha mãe.

PC – Dizei o Pai Nosso.

J – Eu o direi, se me ouvirdes em confissão.

PC – Indicarei, de boa vontade, um ou dois notáveis senhores de língua francesa, aos quais direis o
Pai Nosso.

J – Só o direi se me ouvirem em confissão.

PC – Nós vos proibimos sair da prisão que vos foi destinada, neste castelo, sem nossa licença, sobre
pena de incidirdes no crime de heresia.

J – Não aceito essa proibição. Se me evadir, ninguém poderá pretender que eu tenha quebrado
minha fé, pois não a empenhei a ninguém. Além disso, queixo-me de estar presa com correntes e
entraves de ferro.

PC – Já tentastes vos evadir de outras prisões, por diversas vezes, e por isso, para que fiqueis segura
e eficazmente guardada, é que foi dada ordem de vos prender com correntes de ferro.

J – É verdade que já quis evadir-me, e ainda o quero, como é lícito a toda pessoa encarcerada ou
prisioneira.

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2°AUDIÊNCIA PÚBLICA

22 DE FEVEREIRO

SALA DO PARAMENTO NO CASTELO DE RUÃO

33 PERGUNTAS

7 ----- questões sobre as Vozes e santos

4 ----- questões sobre as roupas de homem

3 ----- questões sobre o sinal dado ao rei

6 ----- questões sobre a vida pessoal


1 ----- geral

PC – (Dirigindo-se a JOANA) – Deveis prestar, sob as penas de direito, o juramento que fizestes
ontem, de dizer toda a verdade sobre a matéria em que sois acusada e difamada.

J – Já jurei ontem, e isso deve ser suficiente.

PC – Exigimos que jureis, pois ninguém, nem mesmo o príncipe, chamado a juízo, em matéria de
fé, pode recusar o juramento.

J – Fiz ontem o vosso juramento: isso vos deve bastar. Vós me oprimis demasiadamente.

PC – jurai dizer a verdade sobre o que tocar a fé.

J – Juro dizer a verdade no tocante a fé.

JEAN BEAUPÈRE, PROFESSOR DE TEOLOGIA, FOI DESIGNADRROGATO PARA


CONTINUAR O INTERROGATÓRIO.

JB – Em primeiro lugar, eu vos exorto a dizer a verdade, sobre o que vos for perguntado, como
acabais de jurar.

J – Podeis me perguntar coisas sobre as quais eu vos direi a verdade, e outras não. Se estivésseis
bem informados sobre mim, deveríeis desejar que eu estivesse fora de vossas mãos. Nada fiz, a não
ser por revelação.

JB – Qual era a vossa idade, quando deixastes a casa de vosso pai?

J – De minha idade não saberia depor.

JB – Na vossa juventude, aprendestes alguma arte ou profissão?

J – Sim, minha mãe me ensinou a coser e a fiar. Não temo mulher de Ruão, para coser e fiar.

JB – Não deixastes uma vez a casa de vosso pai?

J – Por medo dos borguinhões, deixei a casa de meu pai e fui a Neufchâteau, na Lorena, na casa de
uma mulher chamada La Rousse, onde fiquei por quase quinze dias.

JB – Que fazíeis, quando estáveis na casa de vosso pai?

J – Cuidava das coisas da casa, e não ia ao campo, guardar as ovelhas e outros animais.
JB – Tendes confessado todos os anos?

J – Sim, a meu cura; quando ele estava impedido, confessava-me a outro padre, com a licença dele.
Algumas vezes, também, duas ou três, segundo creio, confessei-me a religiosos mendicantes, e isso
foi na cidade de Neufchâteau. E eu recebia o sacramento da Eucaristia, na Páscoa.

JB – Recebíeis o sacramento da Eucaristia em outras ocasiões além da páscoa?

J – Passai adiante.

JB – Quando começastes a ouvir o que chamais vossas Vozes?

J – Quando tinha a idade de treze anos, recebi uma Voz de Deus, para ajudar-me a me conduzir. Na
primeira vez, tive grande medo. E veio aquela Voz quase ao meio dia, no tempo do verão, no jardim
do meu pai. Eu não tinha jejuado na véspera. Ouvi a Voz à direita, do lado da igreja, e raramente a
ouvi sem claridade. Essa claridade é sempre do lado em que a voz é ouvida, e é, comumente, uma
grande claridade. E quando vim para a França, muitas vezes ouvi essa Voz.

JB – Como vedes essa claridade que dizeis, se essa claridade está do lado?

J – (Sem responder à pergunta) – Se eu estivesse em um bosque, ouviria bem a Voz vindo a mim...
Pareceu-me uma digna voz, e creio que era enviada por Deus. Depois de ouvi-la por três vezes,
conheci que era a Voz de um anjo. Essa Voz me protegeu sempre, e sempre compreendi bem essa
Voz.

JB – Que ensinamento vos dava essa Voz, para a salvação de vossa alma?

J – Ela ensinou-me a proceder bem, a frequentar a igreja, e disse-me que era preciso que eu viesse
para a França.

JB – Sob que forma aparecia essa Voz?

J – Desta vez não tereis de mim a resposta. Essa voz me dizia, duas ou três por semana, que eu
partisse e viesse para a França, e que meu pai nada soubesse de minha partida. A Voz me dizia que
eu viesse para a França, e eu não podia permanecer onde estava. A voz me dizia que eu levantaria o
cerco de Orléans. Dizia-me, ainda, que eu fosse a Vascouleurs, encontrar Robert de Baudricourt,
capitão do lugar, e que ele me daria gente para ir comigo. Eu respondia que era uma pobre menina,
que não sabia cavalgar um corcel, nem conduzir a guerra. Fui, então, a casa de meu tio e lhe disse
que desejava ficar ali algum tempo, e ali fiquei cerca de oito dias. Disse a meu tio que precisava ir a
Vascouleurs, e ele me levou até lá. Quando fui ao castelo de Vascouleurs, reconheci Robert de
Baudricourt, que eu nunca vira antes, e eu o reconheci por aquela Voz, que me dizia que era ele. E
eu disse a Robert que era preciso que eu fosse para a França; mas ele, por duas vezes, recusou
atender-me e repeliu-me. Na terceira vez, porém, atendeu-me e forneceu-me companhia. A voz
tinha dito que isso aconteceria assim.

JB – Que tendes a dizer, quanto ao duque da Lorena?

J – Ele ordenou que me levassem até ele, e eu lhe disse que desejava ir para a França. O duque me
interrogou sobre a recuperação de sua saúde; disse-lhe que nada sabia sobre isso. Falei-lhe pouco de
minha viagem; disse-lhe, no entanto, que me cedesse seu filho e mais homens, para levar-me à
França, e eu rezaria pela sua saúde. Fui até o duque com um salvo-conduto, e de lá voltei a
Vascouleurs.

JB – Quando vestistes roupas de homem, e o que aconteceu depois?

J – Quando parti de Vascouleurs estava vestida como homem, portando uma espada que me fora
oferecida por Robert de Baudricourt, acompanhada de um cavaleiro, um escudeiro e quatro
serviçais. Alcancei a cidade de Saint-Urbain e passei a noite na abadia. Nessa viagem passei pela
cidade de Auxerre, e ouvi missa na catedral; eu ouvia frequentemente as minhas Vozes.

JB – Por conselho de quem vestistes roupas de homem?

J – Passai adiante.

JB – Repito: Por conselho de quem vestistes roupas de homem?

J – Não responsabilizo ninguém por isso.

JB – Que vos disse Robert de Baudricourt, quando da vossa partida?

J – Ele fez jurar àqueles homens que me conduziriam, que eles o fariam bem e seguramente, e me
disse, quando parti: “Ide! E aconteça o que deva acontecer!”

JB – Que me dizeis do duque de Orléans?

J – Sei bem que Deus o ama. Tive dele mais revelações que de qualquer homem vivo, excetuado o
meu rei.

JB – Por que deixastes o traje de mulher?

J – Era necessário que eu mudasse minhas vestes. Creio que meu Conselho me aconselhou muito
bem.

JB – Que cartas enviastes aos ingleses, e o que continham?


J – Enviei carta aos ingleses que estavam diante de Orléans, na qual lhes dizia que se fossem, como
está consignado na cópia que me foi lida nesta cidade de Ruão, excetuadas duas ou três palavras que
figuram nessa cópia; por exemplo, lá onde essa cópia diz: “Entregai à Donzela” é preciso dizer
“Entregai ao rei”. Na cópia figuram, também, estas palavras: “um a um” e “cabo de guerra”, que
não figuram na carta original.

JB – Como chegastes junto àquele a que chamais vosso rei?

J – Cheguei até meu rei sem dificuldade. Quando cheguei à cidade de Sainte-Catherine de Fierbois,
enviei-lhe uma mensagem. Fui, sem seguida, a Château-Chinon, onde ele se encontrava. Cheguei
quase ao meio-dia e me alojei em uma hospedaria. Depois do jantar, fui ao encontro do meu rei, que
se achava no castelo. Quando penetrei na câmara do rei, eu o reconheci entre os presentes, pelo
conselho da minha Voz, que mo revelou. Eu lhe disse que desejava ir fazer a guerra contra os
ingleses.

JB – Quando a Voz vos indicou o rei, havia no lugar alguma luz?

J – Passai adiante.

JB – Viste algum anjo sobre o vosso rei?

J – Perdoai-me, mas passai adiante!

JB – Vosso rei teve revelações?

J – Antes que meu rei me pusesse em ação, ele teve muitas e belas revelações.

JB – Que revelações e aparições teve vosso rei?

J – Não vos direi. Não terei resposta agora, mas ide ao meu rei e ele vos dirá.

JB – Porque vosso rei vos recebeu?

J – A Voz havia prometido que, logo que eu viesse, ele me receberia. Os do meu partido souberam
que a Voz era enviada por Deus, e eles viram e conheceram essa Voz, e eu sei isso muito bem. Meu
rei e muitos outros entenderam e viram as Vozes que vinham a mim. E estavam lá Carlos de
Bourbon e dois ou três outros.

JB – Ouvis muitas vezes essas Vozes?

J – Não há dia que não as ouça, e tenho muita necessidade disso.

JB – Que pedis a essa Voz?


J – Não lhe peço, como recompensa final, senão a salvação da minha alma.

JB – Porque saístes de Saint Denis?

J – Disse-me a Voz que eu ficasse em Saint Denis, e eu queria ficar: mas, contra a minha vontade,
os senhores cavaleiros me levaram dali, porque eu estava ferida. Se eu não estivesse ferida, não
teria saído dali. Fui ferida no fosso de Paris, quando eu lá cheguei procedente de Saint Denis, mas
em cinco dias eu estava curada. Eu promovi um assalto a Paris.

JB – Era dia santificado?

J – Creio que sim.

JB – Era bem feito lançar um assalto em um dia santo?

J – Passai adiante.

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3°AUDIÊNCIA PÚBLICA

24 DE FEVEREIRO

SALA DO PARAMENTO NO CASTELO DE RUÃO

46 PERGUNTAS

8 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

2 ----- questões sobre as roupas de homem

24 ----- questões sobre as Vozes e santos

2 ----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

3 ----- geral

PC – Exigimos que jureis dizer a verdade, pura e simplesmente, sem qualquer condição, sobre o que
vos for perguntado (Por três vezes PC insistiu nessas palavras. Deveis a verdade a vosso juiz.

J – Dai-me licença de falar. Por minha fé, podeis perguntar-me tais coisas que eu não vos direi.
Pode ser que, de muitas coisas que podeis perguntar, eu não vos diga a verdade, do que disser
respeito às revelações. Talvez me obrigues a dizer tal coisa que eu jurei não dizer, e assim serei
perjura, o que não deveríeis querer. E eu vos digo: tomai cuidado com isso que me dizeis, que sois
meu juiz, pois que assumis pesada responsabilidade. Vós me oprimis demasiadamente!
PC – Exigimos que presteis o juramento!

J – Parece-me suficiente já ter jurado duas vezes em juízo.

PC – Quereis jurar, pura e simplesmente?

J – Podeis bem dispensá-lo. Jurei o bastante, duas vezes. Todo o clero de Ruão e de Paris não
saberia condenar-me, sem direito. Da minha vinda para a França, direi de boa vontade a verdade,
mas não direi tudo, e oito dias não seriam suficientes para dizer tudo.

PC – Aconselhai-vos com o assessores, para saber se deveis jurar, ou não.

J – Da minha vinda falarei de boa vontade. Convém que não me faleis mais sobre isso.

PC – Vós vos tornais suspeita, negando-se a jurar.

J – Não me faleis mais nisso!

PC – Exigimos que jureis, precisa e absolutamente!

J – De boa vontade direi o que souber, mas não tudo. Vim da parte de Deus e não tenho o que fazer
aqui. Peço-vos que me devolvam a Deus, de quem eu vim.

PC – Exigimos que jureis, sob pena de serdes julgada culpada daquilo de que vos acusam.

J – Passai adiante!

PC – pela última vez: exigimos que jureis e vos admoestamos para dizer a verdade, no que toca a
este processo. Vós vos expondes a grande perigo, por essa recusa.

J – Estou pronta a jurar dizer a verdade, no que toca ao processo. Eu o juro.

PC – Que o egrério mestre, doutor Jean Beaupère, continue o interrogatório.

JB – A que horas comestes ou bebestes pela última vez?

J – Depois de ontem ao meio-dia, não comi nem bebi.

JB – Quando ouvistes a Voz, pela última vez?

J – Ouvi ontem e hoje.

JB – A que horas, ontem, ouvistes a Voz?


J – Eu a ouvi três vezes durante o dia: uma vez de manhã, outra à hora de vésperas e outra na hora
da Ave Maria.

JB – Que fazíeis de manhã, quando ouvistes a voz?

J – Eu dormia e a Voz me despertou.

JB – A Voz vos despertou tocando o vosso braço?

J – Ela me despertou, sem me tocar.

JB – Está a Voz na vossa cela?

J – Não, ao que eu saiba, mas está no castelo.

JB – Agradecestes à Voz e vos ajoelhastes?

J – Agradeci sentada no leito e juntei as mãos; isso foi depois de lhe pedir conselho, ao que ela me
disse para responder corajosamente.

JB – Que lhe disse a Voz, quando acordastes?

J – Eu lhe pedi conselho sobre o que devia responder, dizendo-lhe para pedir conselho a Deus sobre
isso. E a Voz me disse que respondesse corajosamente, e que Deus me ajudaria.

JB – Disse a Voz algumas palavras, antes que fizésseis vosso pedido?

J – Disse algumas palavras, mas não entendi todas. Quando despertei completamente, porém, ela
me disse para responder corajosamente. (Dirigindo-se ao bispo Pierre Cauchon.) Dizeis que sois
meu juiz: cuidado com o que fazeis, pois na verdade fui enviada por Deus, e vós vos colocais em
grande perigo!

JB – Mudou a Voz, alguma vez, o seu conselho?

J – Jamais a ouvi dizer duas coisas contrárias. Esta noite, disse-me para responder corajosamente.

JB – A Voz vos proibiu dizer tudo que vos fosse perguntado?

J – Não vos responderei sobre isso. E tenho revelações referentes ao rei que não vos direi.

JB – Proibiu a Voz que as revelásseis?

J – Não tenho conselho sobre isso. Dai-me o prazo de quinze dias e eu vos responderei. Mas se a
Voz mo proibiu, o que quereis objetar a isso?
JB – Mais uma vez: isso vos foi proibido?

J – Acreditai que não foram os homens que mo proibiram. Não direi mais nada hoje, e não sei se
deverei responder ou não, até que isso me seja revelado.

JB – Vem de Deus, a Voz?

J – Creio que vem de Deus essa Voz, e por sua ordem; creio firmemente, tão firmemente como
creio na fé cristã, e que Deus nos redimiu das penas do inferno.

JB – É um anjo, essa Voz de que falais, ou vem de Deus diretamente, ou é a voz de um santo, ou de
uma santa?

J – A Voz vem de Deus, e creio que não vos digo tudo que sei. Tenho mais medo de faltar ao dever
para com ela, dizendo alguma coisa que lhe desagrade, do que não vos responder. E sobre essa
pergunta eu vos rogo que me concedais um prazo.

JB – Acreditais que desagrada a Deus dizer a verdade?

J – As vozes me disseram para dizer certas coisas ao rei, e não a vós. Esta noite mesmo, a Voz me
disse muitas coisas para o bem do rei, que eu desejava que ele soubesse desde logo, ainda que eu
não bebesse vinho até a páscoa; ele mesmo estaria muito mais feliz no seu jantar.

JB – Não podeis vos esforçar tanto, junto a essa Voz, que ela vos obedeça e leve essa mensagem ao
vosso rei?

J – Não sei se a Voz desejaria obedecer, salvo se fosse a vontade de Deus e que Deus o consentisse.
E se for do agrado de Deus, ele poderá fazer com que as revelações cheguem até a meu rei. Eu
ficaria muito contente com isso.

JB – Por que essa Voz não fala agora ao vosso rei, como fazia quando estáveis na sua presença?

J – Não sei se é a vontade de Deus. Não fosse a graça de Deus eu não saberia fazer nada.

JB – Revelou vosso conselho que escaparíeis da prisão?

J – Devo vos dizer isso?

JB – A Voz vos deu conselho, esta noite, sobre o que deveríeis responder?

J – Se ela o fez, não a compreendi bem.

JB – Nestes dois últimos dias em que ouvistes a Voz, sobreveio alguma luz?
J – A luz vem com a Voz.

JB – Vedes, com a Voz, alguma outra coisa?

J – Não vos direi tudo, pois não tenho permissão, e o meu juramento não diz respeito a isso. A Voz
é boa e digna, mas não sou obrigada a responder sobre isso. Dai-me por escrito os pontos sobre os
quais não vos respondo agora.

JB – A Voz que vos dá conselhos tem vista e olhos?

J – Não tereis essa resposta agora. O dito das crianças é que se enforca algumas vezes os homens
por haverem dito a verdade.

JB – Sabeis se estais na graça de Deus?

J – Se não estou, que Deus me ponha nela; se estou, que Deus nela me conserve. Eu seria a criatura
mais infeliz do mundo se soubesse não estar na graça de Deus. Se eu estivesse em pecado, não creio
que a Voz viesse a mim. Eu desejaria que todos a ouvissem, como eu mesma.

JB – Qual era a vossa idade, quando ouvistes a Voz pela primeira vez?

J – Teria treze anos, mais ou menos, quando a Voz veio a mim pela primeira vez.

JB – Na vossa meninice, costumáveis ir vos divertir no campo, com os outros jovens?

J – Fui algumas vezes, mas não sei em que idade.

JB – Eram do partido dos borguinhões, os habitantes de Domrémy, ou do partido contrário?

J – Não conheci lá senão um borguinhão, ao qual bem desejei que lhe cortassem a cabeça, se fosse
do agrado de Deus.

JB – Na aldeia de Maxey, eram borguinhões ou adversários dos borguinhões?

J – Eram borguinhões.

JB – Disse-vos a Voz, na vossa juventude, para odiar os borguinhões?

J – Depois que eu compreendi que a Voz era pelo rei de França, não mais amei os borguinhões. Os
borguinhões terão a guerra, se não fizerem o que devem. Sei disso pela Voz.

JB – Na vossa juventude, tivestes revelação, pela Voz, de que os ingleses deviam vir à França?

J – Os ingleses já estavam na França quando as Vozes começaram a vir a mim.


JB – Estivestes alguma vez com os meninos que brigavam pelo vosso partido?

J – Não, ao que me lembre. Mas algumas vezes vi os de Domrémy, que tinham lutado com os de
Maxey, voltarem feridos e sangrando.

JB – Tivestes, na vossa juventude, firme intenção de perseguir os borguinhões?

J – Eu tinha grande vontade e desejo de que o rei tivesse o seu reino.

JB – Desejastes ser homem, quando soubestes que devíeis partir para a França?

J – Já respondi a isso, de outra vez.

JB – Não conduzíeis os animais ao campo?

J – Já respondi a isso. Depois que cresci e tive discernimento não costumava guardar os animais,
mas ajudava a conduzi-los ao campo e, por medo aos homens de armas, a um castelo denominado
“a Ilha”. Não me lembro se, quando era criança, guardava os animais ou não.

JB – Lembrai-vos de certa árvore, que existe nas proximidades da vossa aldeia?

J – Muito próxima de Domrémy, há uma árvore chamada Árvore das Damas, e outros a chamam
Árvore das Fadas, junto da qual existe uma fonte. Ouvi dizer que as pessoas doentes de febre bebem
da sua água, e vão procurá-la para recobrar a saúde. Isso eu mesma vi, mas não sei se elas saram ou
não. Ouvi dizer que os doentes, quando saram, vão à árvore, em passeio. É uma grande árvore
chamada faia, da qual se tira o “ramo de maio”, e que se dizia pertencer ao cavaleiro Pierre de
Bourlemont. Às vezes eu ia passear com as outras meninas e, junto à árvore, fazíamos coroas de
flores para Nossa Senhora de Domrémy. Ouvi muitas vezes os velhos, que não eram da minha
família, contar que as Senhoras Fadas ali conversavam. E ouvi dizer a uma mulher chamada Joana,
esposa do mestre Albery, e que era minha madrinha, que ela mesma tinha visto as Senhoras Fadas,
mas eu não sei se isso é ou não verdade. Quanto a mim, nunca vi Fadas na árvore, nem em outro
lugar. Vi as jovens pendurarem guirlandas de flores nos ramos da árvore, e eu mesma, com as
minhas companheiras, fiz isso muitas vezes; depois as deixávamos ali, ás vezes as levávamos
conosco. Depois que eu soube que devia partir para a França, passei a participar menos dos passeios
e jogos, e quanto menos eu participasse era melhor. Não sei se depois que cresci e tive
discernimento, dancei junto à árvore, mas é possível que o tenha feito; eu teria, porém, mais cantado
do que dançado.

JB – Lembrai-vos de um bosque, denominado Bosque dos Carvalhos?


J – Sim, há lá um bosque, chamado Bosque dos Carvalhos, que a gente vê da ponta da casa do meu
pai, distante menos de meia légua. Não sei, nem nunca ouvi, que as Fadas tenham morado ali. Ouvi
dizer a meu irmão que, na nossa terra, dizia-se que eu tinha tido minhas revelações junto à Árvore
das Fadas. Isso não era verdade, e eu o disse a meu irmão. Quando eu vim perante o meu rei, certas
pessoas perguntvam se existia na minha terra um bosque, que se chamaria em francês “le Bois
Chesnu”, por que havia profecias que diziam que, de perto daquele bosque, devia vir uma jovem,
que operaria maravilhas. Eu não acreditei nisso.

JB – Quereis ter uma roupa de mulher?

J – Dai-me uma: eu a vestirei e irei embora; de outro modo não a vestirei. Estou contente com esta,
pois agrada a Deus que eu a use.

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4°AUDIÊNCIA PÚBLICA

27 DE FEVEREIRO

SALA DO PARAMENTO NO CASTELO DE RUÃO

61 PERGUNTAS

2 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

5 ----- questões sobre as roupas de homem

24 ----- questões sobre as Vozes e santos

4 ----- questões sobre o sinal dado ao rei

12 ----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

5 ----- Joana menciona o processo de Poitiers

3 ----- geral

PC – Prestai juramento de dizer a verdade, no que tocar ao processo.

J – De boa vontade juro dizer a verdade sobre o que tocar ao processo e não sobre tudo que sei.

PC – Deveis jurar dizer a verdade sobre tudo o que vos for perguntado.
J – Deveis estar contente: tenho jurado bastante!

PC – Mestre Jean Beaupère continue o interrogatório.

JB – Como passastes, desde sábado último?

J – Podeis ver como passei: passei o melhor que pude.

JB – Jejuastes todos os dias da Quaresma?

J – Também isso é do vosso processo?

JB – Sim, interessa ao processo.

J – Sim, na verdade, sempre jejuei nesta Quaresma.

JB – Depois de sábado, ouvistes a Voz que dizeis ouvir?

J – Sim, eu a ouvi muitas vezes.

JB – No sábado, ouvistes a Voz nesta sala, em que estáveis sendo interrogada?

J – Isso não é do vosso processo.

JB – Interessa ao processo.

J – Sim, eu a ouvi.

JB – Que vos disse ela, no sábado?

J – Eu não entendia bem a Voz, nem compreendi nada que vos pudesse repetir, até que voltasse para
a minha cela.

JB – E o que ela vos disse, então?

J – Disse-me que vos respondesse corajosamente, e eu lhe pedi conselho sobre o que me
perguntavam. De boa vontade direi tudo o que tiver licença do Senhor para revelar, mas do que
disser respeito às revelações ao rei de França, nada direi sem licença da minha Voz.

JB – Proibiu a Voz que dissésseis tudo?

J – Não vos entendi bem.

JB – Que vos disse a Voz, em último lugar?

J – Eu lhe pedi conselho sobre algumas coisas que me haviam perguntado.


JB – E vos deu ela conselho sobre essas coisas?

J – Sobre alguns pontos, sim; de outros, poderão fazer-me perguntas que eu não responderei sem
licença. E se eu responder sem licença, talvez eu não tenha as Vozes em meu apoio; mas, quando eu
tiver licença do Senhor, não temerei falar, pois terei bom fiador.

JB – É a Voz de um anjo, de um santo, ou de uma santa que vos fala, ou de Deus, sem
intermediário?

J – É a Voz de Santa Catarina e de Santa Margarida. E suas imagens são coroadas de belas coroas,
muito ricas e preciosas. E, se tendes dúvida, mandai saber em Poitiers, onde outrora fui interrogada.

JB – Como sabeis que são essas santas? Sabeis distinguir uma da outra?

J – Sei bem que são elas, e também sei distinguir uma da outra.

JB – Como reconheceis uma e outra?

J – Conheço-as pelas saudações que fazem. Faz bem sete anos que elas se ocupam de mim, para me
dirigir. E eu as conheço porque se nomeiam a mim.

JB – Vestem-se as duas santas com uma mesma fazenda?

J – Não vos direi agora mais nada. Não tenho licença para dizer. Se não me acreditais, ide a
Poitiers! Além do que há revelações que de destinam ao rei de França, e não aos que me interrogam.

JB – Tem as santas a mesma idade?

J – Não tenho permissão para dizê-lo.

JB – Falam elas ao mesmo tempo, ou uma após a outra?

J – Não tenho licença pra dizê-lo; todavia, tenho sempre conselho de ambas.

JB – Qual das duas vos apareceu primeiro?

J – Não as conheci de pronto. Eu soube bem o que me perguntais, antigamente, mas esqueci. Se
tiver permissão, falarei sobre isso de boa vontade. Isso está no registro de Poitiers. Tive também
conforto de São Miguel.

JB – Qual dessas aparições veio em primeiro lugar?

J – São Miguel veio primeiro.


JB – Faz muito tempo, desde que, pela primeira vez, ouvistes a voz de São Miguel?

J – Não vos falo da voz de São Miguel, mas de um grande reconforto.

JB – Qual foi a primeira Voz que vos veio, quando tínheis mais ou menos treze anos?

J – Foi São Miguel que vi ante meus olhos, e ele não estava só, mas acompanhado de anjos do Céu.
Não vim para a França senão por ordem de Deus.

JB – Vistes São Miguel e os anjos corporalmente e realmente?

J – Eu os vi com os meus próprios olhos, como eu os vejo. Quando eles se apartaram de mim, eu
chorei e deseje que me levassem com eles.

JB – Qual era o aspecto de São Miguel?

J – Isso ainda não vos foi dito e não tenho permissão para dizê-lo.

JB – Que vos disse São Miguel, na primeira vez?

J – Sobre isso, não tereis resposta hoje! As Vozes me disseram para vos responde corajosamente.
Eu contei uma vez ao meu rei tudo o que me foi revelado, pois isso lhe dizia respeito. Mas ainda
não tenho licença para vos revelar o que me disse São Miguel. Desejaria que vós, que me
interrogais, tivésseis cópia daquele registro que está em Poitiers, se fosse do agrado de Deus.

JB – Disseram-vos as Vozes para não contardes as revelações sem licença delas?

J – Ainda não vos responderei sobre isso. Sobre o que eu tiver licença, de bom grado responderei.
Se as Vozes, porém, mo proibiram, não o compreendi bem.

JB – Que sinais nos dai de que tendes essas revelações da parte de Deus, e que são Santa Catarina e
Santa Margarida que vos falam?

J – Já vos disso o bastante, que são Santa Catarina e Santa Margarida; acreditai-me, se quiserdes.

JB – Estais proibida de falar?

J – Ainda não entendi bem se me é proibido ou não.

JB – Como sabeis distinguir, para responder sobre certos pontos e outros não?

J – Sobre certos pontos pedi permissão para responder, e sobre alguns eu a tenho. (Falando para si
mesma.) Preferia ser esquartejada por cavalos do que ter vindo para a França sem a permissão de
Deus!
JB – Ordenou Deus que vestísseis traje masculino?

J – A roupa é pouca coisa, e das menores. Não tomei este traje a conselho de ninguém do mundo.
Não vesti esta roupa, nem fiz nada, a não ser por ordem de Deus e dos anjos.

JB – Parece-vos lícita a ordem de vestir traje masculino?

J – Tudo o que fiz foi por ordem do Senhor; se Ele me tivesse mandado vestir outro traje, eu teria
vestido, pois seria pelo mandamento de Deus.

JB – Foi por ordem de Robert de Baudricourt?

J – Não.

JB – Acreditais ter agido bem, vestindo roupa masculina?

J – Tudo o que fiz foi por ordem de Deus; creio que fiz bem, e sobre isso espero segurança e boa
proteção.

JB – Mas, neste caso particular, vestindo roupa de homem, acreditais ter agido bem?

J – Não há nada no mundo que tenha feito sem a ordem de Deus!

JB – Quando vistes a Voz, havia claridade?

J – Havia muita luz, de todo o lado, como convinha; toda a luz não vinha até mim.

JB – Havia um anjo sobre a cabeça do vosso rei, quando o vistes pela primeira vez?

J – Por Nossa Senhora! Se havia, não sei, nem o vi!

JB – Havia luz ali?

J – Ali estavam mais de trezentos cavaleiros e cinquenta archontes, sem contar a luz espiritual.
Raras vezes tenho revelações sem haver luz.

JB – Como vosso rei acreditou nas vossas palavras?

J – Ele tinha bons sinais, e também por causa dos clérigos.

JB – Que revelações teve o vosso rei?

J – Não as terei ainda de mim, este ano. Durante três semanas fui interrogada pelos clérigos em
Poitiers e Chinon. O rei teve um sinal sobre minhas ações, antes que quisesse acreditar em mim. E
os clérigos do meu partido foram de opinião que, no meu comportamento, nada havia senão o bem.
JB – Estivestes em Santa Catarina de Fierbois?

J – Sim, e aí ouvi três missas em um dia, antes de ir a Chinon. Enviei uma mensagem ao meu rei, na
qual dizia que eu a enviava para saber se entraria na cidade, e que eu percorrera bem cento e
cinquenta léguas para vir até ele, sem seu auxílio, e que eu sabia muitas coisas boas para ele. E me
parece que, estava dito que eu facilmente reconheceria o meu rei, entre todas as outras pessoas.

JB – Tínheis uma espada?

J – Tinha uma, que eu ganhei em Vascouleurs.

JB – Não tínheis outra espada?

J – Estando em Tours ou Chinon, mandei buscar uma espada que se achava na igreja de Santa
Catarina de Fierbois, atrás do altar. Logo foi encontrada, toda enferrujada.

JB – Como sabíeis que essa espada estava lá?

J – A espada estava na terra, enferrujada, e havia nela cinco cruzes. Soube que estava lá por minhas
Vozes, e nunca vi o homem que foi buscar essa espada. Escrevi às pessoas da igreja daquele lugar,
que fosse do seu agrado que eu tivesse aquela espada, e eles ma enviaram. Ela não estava muito
enterrada, atrás do altar, segundo me parece. Não sei, com certeza, se ela estava diante ou atrás do
altar, mas creio que escrevi, na ocasião, que ela estava atrás do altar. Logo que ela foi achada, os
padres da igreja a esfregaram e logo caiu toda a ferrugem, sem esforço. Foi um mercador de armas
de Tours que foi buscá-la. Os padres do lugar me deram a bainha, e também os de Tours mandaram
fazer duas bainhas, uma de veludo vermelho e outra de pano dourado. Quando a mim, mandei fazer
uma bainha de couro, bem forte.

Quando fui presa, não tinha mais essa espada. No entanto, eu a portei sempre, desde que a tive, até a
minha partida de Saint Denis, depois do assalto a Paris.

JB – Que benção fizestes, ou mandastes fazer, sobre essa espada?

J – Nunca fiz, nem mandei fazer nenhuma benção, e também não saberia fazê-lo. Eu amava muito
aquela espada, porque fora achada na igreja da Bem-aventurada Catarina, que amo tanto.

JB – Estivestes na cidade de Coulanges-La-Vineuse?

J – Não sei.

JB – Pusestes vossa espada, algumas vezes, sobre um altar?


J – Não, que eu me lembre, pelo menos para que a espada fosse mais afortunada.

JB – Nunca orastes, para que a vossa espada fosse mais afortunada?

J – É bom saber que eu teria desejado que minhas armas fossem bem-afortunadas!

JB – Portáveis vossa espada, quando fostes aprisionada?

J – Não, mas levava outra espada, que tinha sido tomada de um borguinhão.

JB – Onde ficou aquela espada, e em que cidade?

J – Ofereci uma espada, e outras armas, na Abadia de Saint Denis, mas não foi aquela espada. Eu
tinha aquela espada em Lagny, e depois, de Lagny até Compiègne, portei a espada do borguinhão,
que era boa espada de guerra, boa para dar boas pranchadas e bons golpes. Quando a dizer onde
perdi a outra, isso não diz respeito ao processo, e nada direi, por enquanto. Meus irmãos têm os
meus bens, meus cavalos, minha espada, segundo creio, e outras coisas, valendo mais de doze mil
moedas.

JB – Quando fostes a Orléans, tínheis um estandarte e de que cor?

J – Eu tinha um estandarte, cujo campo era semeado de lírios, e nele estava representado o mundo,
com dois anjos ao lado. O estandarte era branco, de tela branca, tinha escrito os nomes Jesus-Maria
e era franjado de seda.

JB – Os nomes Jesus-Maria eram escritos em cima, embaixo, ou do lado?

J – Do lado, ao que me parece.

JB – Que amáveis mais, vosso estandarte ou vossa espada?

J – Amava muito mais, quarenta vezes mais, o estandarte do que a espada.

JB – Quem vos fez mandar executar aquelas pinturas no estandarte?

J – Já vos disse o suficiente, que nada fiz sem a ordem de Deus. Eu mesma levava esse estandarte,
quando acometia os inimigos, para evitar matar alguém. Nunca matei ninguém.

JB – Que companhia vos deu vosso rei, quando vos pôs em ação?

J – Ele me deu dez ou doze mil homens, e eu fui primeiro a Orléans, depois à fortificação de Saint-
Loup e, depois, à da Ponte.

JB – Em que fortificação estáveis, quando fizestes retirar vossos homens?


J – Não me lembro. Eu estava bem segura de levantar o cerco de Orléans, por revelações que me
foram feitas, e isso eu disse ao meu rei, antes de ir para lá.

JB – Quando ia ser feito o assalto, não dissestes a vossa gente que vós receberíeis as flechas, os
virotões e as pedras das máquinas e canhões?

J – Não. Houve cem feridos, ou mais, mas eu disse a meus homens que eles levantariam o cerco e
que não duvidassem disso. No assalto contra a fortificação da Ponte, fui ferida no colo, por uma
flecha ou virotão, mas tive grande consolação de Santa Catarina e sarei em menos de quinze dias.
Não deixei por isso de montar a cavalo e encarregar-me dos meus trabalhos.

JB – Sabíeis, antecipadamente, que seríeis ferida?

J – Sabia, e disse-o ao meu rei, mas apesar disso não deixaria de fazer o meu trabalho. Isso me foi
revelado pelas Vozes das duas santas, a Bem-aventurada Catarina e a Bem-aventurada Margarida.
Fui a primeira a encostar a escada no alto da muralha, na fortificação da ponte; e, no momento em
que erguia a escada, fui ferida no pescoço, pelo virotão.

JB – Por que vos recusastes a tratar com o capitão de Jargueau?

J – Os senhores do meu partido responderam aos ingleses que eles não teriam o prazo de quinze
dias que solicitavam, mas que partissem, com seus cavalos, imediatamente. Quanto a mim, disse
que eles partissem, nos seus gibões ou camisas, com a vida salva, se quisessem; de outro modo os
renderíamos, mediante assalto.

JB – Tivestes deliberação com vosso Conselho, ou vossas Vozes, para saber se daríeis aquele prazo,
ou não?

J – Não me lembro disso.

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5° AUDIÊNCIA PÚBLICA

1° DE MARÇO

SALA DO PARAMENTO NO CASTELO DE RUÃO

58 PERGUNTAS

2 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

23 ----- questões sobre as Vozes e santos


5 ----- questões sobre o sinal dado ao rei

7 ----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

4 ----- geral

PC – Nós vos intimamos, JOANA, e exigimos que presteis juramento de dizer a verdade,
simplesmente e absolutamente sobre o que vos for perguntado.

J – Estou pronta a jurar dizer a verdade sobre tudo que souber e disser respeito ao processo, como já
declarei. Sei muitas coisas que não são relativas ao processo, não sendo necessário dizê-las. Tudo o
que sei e que verdadeiramente toca ao processo, direi de boa vontade.

PC – Jurai, como vos foi determinado!

J – O que eu verdadeiramente souber, no tocante ao processo, direi de boa vontade. Juro-o, sobre os
Evangelhos (JOANA faz o juramento). No que diz respeito ao processo, direi a verdade, de boa
vontade, como diria se estivesse diante do Papa de Roma!

PC – Que dizeis de nosso senhor, o Papa? E qual credes que é o verdadeiro Papa?

J – Há dois?

PC – Não recebestes uma carta, do conde d’Armagnac, para saber ao qual dos três soberanos
pontífices ele devia obedecer?

J – O dito conde me escreveu uma carta sobre isso, à qual lhe respondi, dizendo-lhe, entre outras
coisas, que eu lhe dará uma respostas, quando estivesse em Paris, ou em outro lugar, em repouso.
Eu ia montar a cavalo, quando lhe mandei dizer isso.

(Pierre Cauchon faz ler a carta do conde e a resposta de JOANA.)

PC – Foi essa a vossa resposta?

J – Penso ter dito isso em parte, não no todo.

PC – Dissestes saber, por ordem do Rei dos Reis, o que o conde devia crer, naquela matéria?

J – Nada sei sobre isso.

PC – Estáveis em dúvida sobre a quem o conde devia obedecer?


J – Eu não sabia o que dizer ao conde, com respeito a quem ele devia obedecer, pois ele queria
saber a quem Deus desejava que ele obedecesse. Quanto a mim, creio que devemos obedecer a
nosso senhor, o Papa, que está em Roma. Eu disse ao mensageiro do conde outra coisa, que não se
contém na cópia da carta que foi lida. Se o mensageiro não tivesse partido imediatamente, teria sido
lançado à água, não por mim. Sobre o que o conde me pedia, de saber a quem Deus queria que ele
obedecesse, respondi que não sabia; mas lhe mandei dizer outras coisas, que não foram postas por
escrito. Quanto a mim, creio no Papa que está em Roma.

PC – Por que escrevestes que daríeis a resposta em outro lugar, se acreditais naquele que está em
Roma?

J – A resposta que dei foi sobre outro assunto, não sobre o caso dos três soberanos pontífices.

PC – Dissestes, sobre a questão dos três soberanos pontífices, que iríeis ter conselho?

J – Nunca escrevi, nem fiz escrever, sobre a questão dos três soberanos pontífices. Afirmo, pelo
meu juramento, que nunca escrevi sobre isso, nem fiz escrever.

PC – Costumáveis colocar em vossas cartas os nomes Jesus-Maria, com uma cruz?

J – Em algumas eu punha a cruz, em outras não. Quando eu a colocava, era para significar, àqueles
do meu partido a quem eu escrevia, que não devia fazer o que dizia na carta.

(Pierre Cauchon determina ao escrivão que leia o inteiro teor da carta de JOANA, enviada ao rei da
Inglaterra, ao duque de Bedford e a outros.)

PC –Reconheceis essa carta?

J – Sim, com exceção de três frases, a saber: lá onde se diz “Entregai à Donzela”, deve-se dizer:
“Entregai ao rei”, lá onde se diz “Chefe de Guerra” e onde se pôs “um a um”, não há nada disso na
carta que enviei. Ninguém ditou essa carta; eu mesmo a ditei, antes de enviá-la. No entanto, foi
mostrada a alguns do meu partido.

PC – Que pensais que deva acontecer nos anos vindouros?

J – Antes de sete anos, os ingleses abandonarão bem mais do que em Orléans, pois perderão tudo na
França. Sofrerão maior derrota do que agora, e isso será pela grande vitória que Deus enviará aos
franceses!

PC – Como sabeis disso?


J – Sei por revelação a mim feita, e que acontecerá antes de sete anos. Eu me sentirei bastante
aborrecida, por isso ter sido tão retardado. Sei isso por revelação, tão bem como sei que estais
diante de mim.

PC – Quando isso acontecerá?

J – Não sei nem o dia, nem a hora.

PC – Em que ano acontecerá?

J – Não o ouvireis agora de mim! Bem que eu queria, no entanto, que isso fosse antes do dia de São
João!

PC – Dissestes que isso aconteceria antes da festa de São Martinho?

J – Disse que, antes da festa de São Martinho, a gente veria muitas coisas; e isso poderá ser que
sejam os ingleses que serão lançados por terra.

PC – Que dissestes a Jean Grey, vosso guarda, a respeito da festa de São Martinho?

J – Já vos disse.

PC – Por quem sabeis que isso deve acontecer?

J – Sei isso pelas santas Catarina e Margarida.

PC – São Gabriel estava com São Miguel, quando ele veio a vós?

J – Não me lembro disso.

PC – Depois de terça-feira passada, falastes com Santa Catarina e Santa Margarida?

J – Sim, mas não lembro a hora.

PC – Que dia?

J – Ontem e hoje. Não há dia em que eu não as ouça.

PC – Sempre as vedes com a mesma veste?

J – Vejo-as sempre da mesma forma, e suas imagens são coroadas, muito ricamente. De suas
roupas, nada sei.

PC – Como sabeis que o que vos aparece é homem ou mulher?


J – Sei perfeitamente, e as reconheço pelas suas vozes e porque elas se revelaram a mim. Nada sei, a
não ser por revelação e por ordem de Deus.

PC – Vedes qual aspecto delas?

J – Os seus rostos.

PC – As santas que vos aparecem tem cabelos?

J – É bom saber que sim!

PC – Havia alguma coisa, entre suas coroas e os cabelos?

J – Não.

PC – São longos e pendentes os seus cabelos?

J – Não sei. Não sei também se elas têm alguma coisa como braços ou outros membros aparentes.
Elas falam bem e belamente, e eu as entendo muito bem.

PC – Como falam, se elas não têm membros?

J – Sobre isso, remeto-me a Deus. A Voz é bela, doce, modesta, e fala a língua francesa.

PC – Santa Margarida fala inglês?

J – Por que falaria, se ela não é do partido dos ingleses?

PC – Nas cabeças, com as coroas, havia argolas, nas orelhas ou em outro lugar?

J – Nada sei disso.

PC – E vós, tendes anéis?

J – Vós tendes um que me pertence. Devolvei-o a mim! Os borguinhões têm outro anel. Se o tendes
convosco, mostrai-mo!

PC – Quem vos deu o anel que está com os borguinhões?

J – Meu pai ou minha mãe, e me parece que nele estavam escritas as palavras Jesus-Maria. Não sei
quem as fez gravar, nem se havia nele alguma pedra. Esse anel me foi dado em Domrémy. Meu
irmão deu-me outro anel, que está em vosso poder; encarrego-vos de doá-lo à igreja.

PC – Curastes alguém com os vossos anéis?


J – Nunca curei ninguém com qualquer dos meus anéis.

PC – Santa Catarina e Santa Margarida vos falaram, sob a árvore de que fizestes menção?

J – Não sei.

PC – E na fonte que há junto à árvore, as santas vos falaram?

J – Sim, eu as ouvi ali, mas não sei o que então disseram.

PC – Que vos prometeram as santas, lá ou em outro lugar?

J – Não me fizeram nenhuma promessa, a não ser por permissão de Deus.

PC – Que promessas vos fizeram?

J – Isso não é do vosso processo, de nenhum modo. Entre outras coisas, disseram-me que o meu rei
seria restabelecido o seu reino, queiram ou não os seus adversários. Elas prometeram conduzir-me
ao Paraíso, e eu lhes pedi muito isso.

PC – Tivestes outra promessa?

J – Tive outra promessa, mas não a direi, e ela não diz respeito ao processo. Antes de três meses, eu
direi a outra promessa.

PC – Disseram as Vozes que, antes de três meses, estaríeis livres da prisão?

J – Isso não é do vosso processo; também, não sei quando serei libertada. Os que desejam tirar-me
deste mundo poderão bem ir antes de mim.

PC – Disse-vos o vosso conselho quando sereis libertada da prisão em que estais?

J – Falai-me isso dentro de três meses e eu vos responderei. Perguntai aos vossos assessores, sob
juramento, se isso diz respeito ao processo.

Os assessores – (após deliberação – Isso tem relação com o processo.

J – Já vos disse, muitas vezes, que não saberíeis de tudo. Será preciso, um dia, que eu seja libertada.
Desejo ter permissão para vos responder; por isso, peço um prazo.

PC – Proibiram as Vozes que dissésseis a verdade?

J – Quereis que vos diga o que não interessa senão ao rei de França? Há muitas coisas que não tem
relação com o processo. Sei bem que o meu rei ganhará o reino de França, e isso eu sei tão bem
como sei que estás diante de mim, em audiência. Eu estaria morta, não fosse a revelação qie me
conforta a cada dia.

PC – Que fizestes de vossa mandrágora?

J – Não tenho, nem nunca tive uma. Ouvi dizer que, perto da minha aldeia, existe uma, mas nunca
vi nenhuma. Ouvi dizer que é coisa perigosa e nociva para guardar; todavia, não sei para que serve.

PC – Em que lugar está essa mandrágora, de que ouvistes falar?

J – Ouvi dizer que está na terra, perto da árvore de que já falamos, mas não sei o lugar. Ouvi,
também, que sobre essa mandrágora há uma aveleira.

PC – Para que serve a mandrágora, segundo ouvistes dizer?

J – Ouvi que traz fortuna, mas não creio em nada disso. As Vozes nunca me falaram nisso.

PC – Que aspecto tinha São Miguel, quando vos apareceu?

J – Não o vi com coroa. De suas vestes, nada sei.

PC – Estava ele nu?

J – Pensais que Deus não tem com o que o vestir?

PC – Tinha ele cabelos?

J – Por que lhe teriam sido cortados? Não vi mais o Bem-aventurado Miguel, depois que deixei o
castelo de Crotoy. Não o vejo muitas vezes; não sei se tem cabelos.

PC – Tem ele uma balança?

J – Não sei. Alegro-me muito quando o vejo. Creio que, quando o vejo, não estou em pecado
mortal. Santa Catarina e Santa Margarida me fazem confessar, e eu o faço de boa vontade, de vez
em quando. Se eu estou em pecado mortal, não sei.

PC – Quando vos confessais, acreditais estar em pecado mortal?

J – Não sei se estive em pecado mortal, e não creio que tenho procedido tão mal. Que Deus não
permita que eu tenha jamais estado, e que não permita, também, que eu tenha praticado ou pratique
os atos que pesariam na minha alma com pecado mortal.

PC – Que sinal destes ao vosso rei, para aprovar que viestes da parte de Deus?
J – Já vos disse que não o teríeis da minha boca. Ide perguntar a ele!

PC – Jurastes não dizer o que vos fosse perguntado, no tocante ao processo?

J – Já vos declarei noutra ocasião: o que disser respeito ao rei, não vos falarei, mas direi tudo o que
se referir ao processo e a fé.

PC – Não sabeis o sinal que destes ao vosso rei?

J – Não o sabereis por mim!

PC – Isso diz respeito ao processo.

J – Do que prometi manter em segredo, não vos direi nada. Já declarei que não poderia fazê-lo sem
perjúrio.

PC – A quem prometeste guardar segredo?

J – A Santa Catarina e a Santa Margarida, e isso foi dito ao rei. Eu o prometi às santas sem que elas
o pedissem, de minha própria iniciativa, pois muita gente teria perguntado, se eu não tivesse feito
essa promessa.

PC – Quando mostrastes o sinal ao rei, havia outra pessoa em vossa companhia?

J – Penso que não havia outra pessoa, ainda que estivesse perto muita gente.

PC – Vistes a coroa sobre a cabeça do vosso rei, quando lhe mostrastes o sinal?

J – Não vos posso responder sem perjúrio.

PC – Tinha vosso rei uma coroa, quando foi a Reims?

J – Penso que o meu rei tomou alegremente a coroa que encontrou em Remis, mas uma bem mais
rica lhe foi levada mais tarde. Ele o fez para apressar a cerimônia, a pedido da gente de Reims, que
temia o ataque de inimigos. Se ele tivesse esperado, teria sido coroado com uma mil vezes mais
rica.

PC – Vistes essa coroa mais rica?

J – Não vos posso responder, sem cometer perjúrio. Se não a vi, ouvi dizer que ela era assim, rica e
magnífica.

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6° AUDIÊNCIA PÚBLICA
3 DE MARÇO

SALA DO PARAMENTO NO CASTELO DE RUÃO

62 PERGUNTAS

1 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

10----- questões sobre as roupas de homem

11 ----- questões sobre as Vozes e santos

22 ----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

1 ----- Joana menciona o processo de Poitiers

5 ----- geral

PC – Jurai dizer a verdade sobre o que vos for perguntado, simplesmente e absolutamente.

J – Como jurei das outras vezes, estou pronta a jurar (ela jura, sobre os Evangelhos).

PC – Designo mestre Jean Beaupère para proceder ao interrogatório.

JB – Como dissestes que São Miguel tinha asas, e nada dissestes dos corpos e membros de Santa
Catarina e Santa margarida, o que desejais dizer a esse respeito?

J – Eu vos disse o que sei, e não vos responderei outra coisa. Vi tão bem São Miguel e as santas,
como sei que são santo e santas do Paraíso.

JB – Vistes outra coisa, além dos rostos?

J – Eu vos disse o que sei a respeito disso. Preferiria que me cortassem a cabeça, do que dizer tudo
o que sei, mas direi de ba vontade tudo que tiver relação com o processo.

JB – Acreditais que São Miguel e São Gabriel têm cabeças naturais?

J – Eu os vi com os meus próprios olhos e creio tão firmemente que são eles como Deus existe.

JB – Acreditais que Deus os formou na forma e modo em que os vistes?

J – Sim.

JB – Acreditais que, nessa forma e modo, Deus os criou desde o princípio?


J – Não tereis mais nada de mim, além do que já disse.

JB – Sabeis, por revelação, que escapareis da prisão?

J – Isso não diz respeito ao vosso processo. Quereis que eu fale contra mim?

JB – Disseram-vos as Vozes alguma coisa sobre isso?

J – Isso não é do vosso processo. Entrego-me ao Senhor. Se tudo isso dissesse respeito ao processo,
eu vos diria tudo. Palavra de honra que não sei nem o dia nem a hora em que fugirei.

JB – As Vozes não vos disseram qualquer coisa, em geral, sobre isso?

J – Sim, realmente. Disseram-me que eu seria libertada, mas não sei do dia ou de hora. Disseram-
me que me mostre alegre, corajosamente.

JB – Quando fostes pela primeira vez perante vosso rei, não vos perguntou ele se tinha sido por
revelação que havíeis mudado vosso traje?

J – Já vos respondi; todavia, não me recordo se isso me foi perguntado, e isso foi posto por escrito
em Poitiers.

JB – Recordai-vos se os mestre do outro partido que vos examinaram, uns por um mês, outros por
três semanas, vos interrogaram sobre a mudança de traje?

J – Não me lembro. Eles me interrogaram, porém, onde eu havia vestido esse traje de homem, e eu
lhes respondi que foi em Vascouleurs.

JB – Aqueles mestres vos perguntaram se tinha sido por ordem das Vozes que vestistes essa roupa?

J – Não me lembro.

JB – Vossa rainha não vos interrogou sobre essa roupa, quando a visitastes pela primeira vez?

J – Não me recordo.

JB – Vosso rei, vossa rainha e outros do vosso partido, não vos pediram, alguma vez, para deixar
esse traje?

J – Isso não é do vosso processo.

JB – No castelo de Beaurevoir, não lhe pediram isso?


J – Sim, realmente, e eu respondi que não deixaria este traje sem permissão de Deus. Eu vos direi,
também, que a demoiselle de Luxemburgo e a senhora de Beaurevoir me ofereceram um vestido ou
pano para fazê-lo, pedindo-me para usar essa roupa. Eu lhes respondi que ainda não tinha licença de
Deus e que ainda não era tempo. A demoiselle de Luxemburgo pediu ao senhor de Luxemburgo que
eu não fosse entregue aos ingleses.

JB – O senhor Jean de Pressy e outros, em Arras, não vos ofereceram roupas de mulher?

J – Ele e muitos outros me pediram, várias vezes, para usar aquelas roupas.

JB – Acreditais que teríeis cometido um delito, ou pecado mortalmente, usando roupa de mulher?

J – Creio agir melhor obedecendo e servindo ao meu soberano senhor, isto é, a Deus. Se eu devesse,
porém, voltar a usar roupa de mulher, o teria feito antes pelo pedido daquelas duas senhoras já
mencionadas, do que pela solicitação de qualquer outra dama que haja em França, com exceção de
minha rainha.

JB – Quando Deus vos revelou que mudásseis vosso traje, isso foi pela vos de São Miguel, ou pela
voz de Santa Catarina ou Santa Margarida?

J – Não direi mais nada sobre isso.

JB – Quando vosso rei vos colocou em ação e mandastes fazer vosso estandarte, as outras gentes de
armas não mandaram fazer seus pendões à maneira e exemplo do vosso?

J – É bom saber que os fidalgos mantinham seus brasões. Alguns companheiros de guerra mandara
fazer pendões a seu gosto, outros não.

JB – De que material eles os mandaram fazer , de tela ou de pano?

J – Eram de cetim branco e, em alguns, havia flores de lis. Eu não tinha em minha companhia senão
duas ou três lanças, mas os companheiros de guerra faziam algumas vezes seus estandartes à
semelhança dos meus, e não faziam isso senão para distinguir seus homens dos outros.

JB – Eram os pendões muitas vezes renovados?

J – Não sei. Quando as lanças se rompiam, faziam-se novos.

JB – Alguma vez dissestes que os pendões feitos à semelhança dos vossos eram afortunados?

J – Algumas vezes eu dizia aos meus: “Entrai ousadamente entre os ingleses”, e eu mesma entrava
com eles
JB – Dissestes que levassem ousadamente os pendões e que teriam boa sorte?

J – Disse-lhes às vezes o que tinha acontecido e o que ainda aconteceria.

JB – Lançáveis ou fazíeis lançar água benta sobre os pendões, quando eram usados pela primeira
vez?

J – Nada sei disso, e se isso foi feito, não foi por ordem minha.

JB – Não vistes vossos homens aspergir a água benta?

J – Isso não é do vosso processo, e se eu vi fazer isso, não sou agora instruída para responder.

JB – Faziam vossos companheiros de guerra colocar nos pendões as palavras Jesus-Maria?

J – Palavra de honra, não sei.

JB – Fizestes levar panos em torno da igreja ou do altar, como em procissão, para depois fazer deles
os pendões?

J –Não, nem nunca vi fazer isso.

JB – Quando estivestes diante da praça de Jargueau, o que era que trazíeis atrás do vosso elmo? Não
havia lá alguma coisa redonda?

J – Palavra de honra, nada havia lá.

JB – Conhecestes frei Ricardo?

J – Eu nunca o vira, quando vim diante de Troyes.

JB – Que acolhida lhe fez, esse frei Ricardo?

J – Os habitantes de Troyes, ao que parece, enviaram-no a mim, duvidando que eu fosse enviada
por Deus. Quando ele se aproximou de mim, fazia o sinal da cruz e aspergia água benta. Então eu
lhe disse: “Aproximai-vos sem medo, eu não sairei voando!”

JB – Vistes, ou mandastes fazer alguma imagem ou pintura de vós mesma, ou à vossa semelhança?

J – Vi em Arras uma pintura, em mão de um escocês. Ela me representava toda armada, com um
joelho em terra, apresentando uma mensagem ao meu rei. Nunca vi, bem mandei fazer outra
imagem ou pintura à minha semelhança.
JB – Havia na casa do vosso hospedeiro, em Orléans, um quaseo em que estavam pintadas três
mulheres, com a inscrição: “Justiça, Paz, União”?

J – Nada sei disso.

JB – Sabeis que os do vosso partido ordenaram serviço religioso, missa e orações em vossa honra?

J – Não sei, e se eles mandaram fazer algum serviço religioso, não foi por ordem minha, todavia, se
oraram por mim, parece-me que não fizeram mal.

JB – Os do vosso partido acreditam firmemente que sois enviada por Deus?

J – Não sei o que eles crêem; sobre isso, entrego-me a opinião deles; mas, ainda que eles não
acreditem, eu sou enviada por Deus!

JB – Credes que eles têm uma boa crença, acreditando que sois enviada por Deus?

J – Se eles acreditam que sou enviada por Deus, não estão enganados.

JB – Conhecíeis o pensamento dos de vosso partido, quando eles beijavam os vosso pés, vossas
mão e vossas vestes?

J – Muitas pessoas me viam com satisfação, e beijavam minhas mão, o menos que eu podia; mas os
pobres vinham de boa vontade a mim, porque eu não lhes causava desgosto, antes, pelo contrário,
os ajudava a suportar (a infelicidade).

JB – Que reverência fizeram os habitantes de Troyes, quando entrastes na cidade?

J – Não me fizeram nenhuma reverência. Ao que me parece, frei Ricardo entrou na cidade, comigo
e meus companheiros; mas não me lembro se o vi na entrada.

JB – Frei Ricardo fez algum sermão, quando entrastes na cidade?

J – Não me demorei muito, nem dormi na cidade. Nada sei de sermão.

JB – Ficastes muitos dias em Reims?

J – Ao que me lembro, eu e meus companheiros ficamos ali cinco ou seis dias.

JB – Levastes ali alguma criança à pia batismal?

J – Em Troyes levei uma, mas não me lembro se o fiz em Reims ou Chatêau-Thierry. Levei duas
em Saint Denis, na França. E com satisfação dava aos meninos o nome de Carlos, em honra do meu
rei, e às meninas o de Joana; e, algumas vezes, os nomes que as mães desejavam.
JB – As boas mulheres da cidade não tocavam seus anéis no anel que leváveis no dedo?

J – Muitas mulheres tocaram minhas mãos e meus anéis, mas desconheço o ânimo e a intenção
delas.

JB – Quais foram os da vossa companhia que apanharam borboletas sobre o vosso estandarte, em
Chatêau-Thierry?

J – Ninguém do meu partido fez tal coisa isso foi inventado pelos nossos adversários.

JB – Que fizestes, em Reims, com as luvas com as quais vosso rei foi sagrado?

J – Houve lá uma distribuição de luvas, para os cavaleiros e nobres presentes. Um deles perdeu as
suas, mas eu não disse que as faria encontrar.

JB – Vosso estandarte, quem o levava, em Reims?

J – Meu estandarte esteve na igreja de Reims, parece-me que bem próximo do altar em que meu rei
foi sagrado. Eu mesma o sustive um pouco. Não sei se frei Ricardo também o segurou.

JB – Quando andastes pelo País, recebíeis sempre o sacramento da Eucaristia e da penitência, nas
cidades?

J – Sim, de tempo em tempo.

JB – Recebíeis esses sacramentos com a roupa de homem?

J – Sim, mas não me lembro de os ter recebido armada.

JB – Por que tomastes o cavalo do bispo de Senlis?

J – Ele foi comprado por duzentos saluts, mas se o bispo os recebeu ou não, eu não sei; em todo o
caso, ele recebeu uma requisição, ou foi pago. Além disso, escrevi ao bispo, dizendo-lhe que
poderia ter o cavalo de volta, se o desejasse, pois eu não o queria, uma vez que não era forte o
suficiente para suportar o trabalho de guerra.

JB – Que idade tinha o menino que ressuscitastes em Lagny?

J – Ele tinha três dias, e foi levado diante de uma imagem de Nossa Senhora, em Lagny. Disseram-
me que as jovens da cidade estavam diante daquela imagem, e pediram-me que eu fosse orar a Deus
e a Nossa Senhora para que dessem vida ao menino. Então eu fui reunir-me às outras jovens e rezei;
e, finalmente, a vida apareceu no menino, que bocejou três vezes e foi em seguida batizado. Logo
ele morreu e foi enterrado em terra santa. E tinham passado três dias, ao que se dizia, que a vida não
aparecia no menino, e ele estava preto como minha túnica. Quando começou a bocejar, porém
começou a lhe voltar a cor. E eu estava com as outras, ajoelhada, orando diante de Nossa Senhora.

JB – Foi dito, na cidade, que havíeis feito acontecer essa ressurreição, e que isso tinha ocorrido pela
vossa oração.

J – Não procurei saber a esse respeito.

JB – Conhecestes ou vistes Catarina de La Rochelle?

J – Sim, em Jargueau e Montfaucon, no ducado de Berry.

JB – Essa Catarina vos mostrou uma dama vestida de branco, que ela dizia lhe aparecer de vez em
quando?

J – Não.

JB – Que vos disse, essa Catarina?

J – Essa Catarina me disse que certa dama branca, revestida de um traje dourado, lhe aparecia,
dizendo-lhe que ela fosse pelas cidades, e que meu rei lhe devia dar arautos e trombetas, para fazer
anunciar que quem quer que tivesse ouro, prata ou tesouro escondido, os apresentasse
imediatamente,; quem tivesse essas coisas guardadas e não as apresentasse seria por ela descoberto,
e que ela saberia muito bem descobrir aqueles tesouros; e que isso seria para pagar os meus
soldados. Ouvindo isso, disse a Catarina que voltasse a seu marido, cuidasse da sua casa e tratasse
dos seus filhos. Para ter certeza sobre caso dessa Catarina, falei a Santa Catarina e Santa Margarida,
que me disseram que, na história de Catarina, só havia loucura e nada mais. Escrevi a meu rei,
dizendo-lhe que eu lhe falaria sobre o que ele deveria fazer nesse caso; quando estive com ele,
disse-lhe que era tudo loucura de Catarina, e nada mais. No entanto, frei Ricardo queria que se
pusesse Catarina em ação; por isso, frei Ricardo e Catarina ficaram descontentes comigo.

JB – Falastes a Catarina do projeto de ir a La-Charistésur-Loire?

J – Dita Catarina não me aconselhava a ir lá; fazia muito frio naquele lugar, e ela me dizia que não
iria. Eu lhe disse – pois ela desejava ir ao duque da Borgonha, para fazer a paz que a mim parecia
que não encontraríamos, senão pela ponta da lança. Perguntei a ela se a dama branca que lhe
aparecia vinha todas as noites; disse-lhe que desejava dormir com ela, para vê-la. De fato, recolhi-
me com ela e fiquei acordada até meia-noite, sem ver nada, e depois dormi. Quando amanheceu,
perguntei a Catarina se a dama tinha aparecido. Ela respondeu que sim, enquanto eu dormia, e que
ela não tinha podido me acordar. Indaguei se adama viria na outra noite. Como Catarina dissesse
que sim, dormi durante o dia, para dormir estar desperta toda a noite. Deitei com ela, então, aquela
noite, e fiquei a noite desperta, mas não vi nada, ainda que muitas vezes perguntasse se a dama viria
ou não. Catarina respondia: “Sim, ela virá logo”.

JB – Que fizestes, nos fossos da praça de La Charité?

J – Comandei um assalto, mas não fiz, nem mandei fazer aspersão de água benta.

JB – Por que não entrastes em La Chatiré, se tínheis ordem de Deus?

J – Quem vos disse que eu tinha ordem de Deus?

JB – Não tivestes conselho de vossa Voz?

J – Por mim mesma eu desejava ir para a França, mas os homens de armas me disseram que era
melhor, primeiramente ir diante de La Charité.

JB – Ficastes muito tempo na torre de Beaurevoir?

J – Mais ou menos quatro meses. Quando eu soube que os ingleses vinham me buscar, fiquei muito
zangada. No entanto, as Vozes, muitas vezes, me proibiram de saltar daquela torre. Finalmente, por
medo dos ingleses e encomendando-me a Deus e a Nossa Senhora, saltei e fiquei ferida. Logo a voz
de Santa Catarina me disse que eu iria sarar, que ficasse alegre, e que os habitantes de Compiègne
teriam socorro. Eu rezava sempre por eles, com meu Conselho.

JB – Que dissestes, depois que saltastes?

J – Alguns diziam que eu estava morta, mas logo os borguinhões perceberam que eu estava viva, e
disseram-me que eu tinha saltado.

JB – Não dissestes que preferíeis morrer do que ficar na mão dos ingleses?

J – Disse que eu preferia entregar minha alma a Deus do que ficar na mão dos ingleses.

JB – Não ficastes, então, muito irada, e não blasfemastes o nome do Senhor?

J – Nunca maldisse santo ou santa, nem nunca tive o costume de jurar.

JB – No caso de Soissons e do capitão que entrego a cidade, não renegastes a Deus, dizendo
também que, se tivésseis aquele capitão, o faríeis cortar em quatro pedaços?

J – Nunca reneguei santo ou santa, e aqueles que disseram ou relataram isso, entenderam mal.

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1° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

10 DE MARÇO

CELA DE JOANA

23 PERGUNTAS

1 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

4 ----- questões sobre as Vozes e santos

7 ----- questões sobre o sinal dado ao rei

4 ----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

PC – Deveis prestar juramento e dizer a verdade sobre o que vos for perguntado.

J – Prometo dizer a verdade no que toca ao vosso processo; e quanto mais me obrigardes a jurar,
mais eu demorarei em dizê-la.

(Ela jura.)

Pierre Cauchon encarrega Jean de La Fontaine de proceder à inquirição.

J de La F – Pelo juramento que prestastes, de que lugar partistes, quando viestes pela última vez a
Compiègne?

J – De Crépy-em-Valois

J de La F – Estivestes muito tempo em Compiègne, antes de fazer uma surtida?

J – Cheguei de manhã, numa hora secreta, e entrei na cidade sem que meus inimigos o soubessem,
segundo creio, e no mesmo dia, à tarde, fiz a surtida em que fui aprisionada.

J de La F – Quando saístes, alguém tocou os sinos?

J – Se foram tocados os sinos, não foi por ordem minha, ou com o meu conhecimento. Eu não
pensava nisso, nem me lembro se disse que alguém os tocasse.

J de La F – Fizestes a surtida por ordem das vossas Vozes?


J – Na semana de Páscoa ultimamente passada, estando sobre os fossos de Melun, me foi dito pelas
minhas Vozes, isto é, pelas vozes de Santa Catarina e de Santa Margarida, que eu seria capturada,
antes da festa de São João, e que era preciso que assim fosse; que eu não me assustasse, mas que o
recebesse de bom grado, e que Deus me ajudaria.

J de La F – Depois desse lugar de Melun, não vos disseram as Vozes que seríeis presa?

J – Sim, inúmeras vezes, quase todos os dias. E eu pedia a minhas Vozes que, quando fosse
capturada, morresse logo, sem longo sofrimento de prisão. E as Vozes me diziam que aceitasse tudo
de bom grado, que assim tinha que ser. Mas elas não me disseram a hora. Se eu soubesse a hora,
não teria ido lá. Muitas vezes pedi que me dissessem a hora da minha captura, mas elas não ma
disseram.

J de La F – Se as Vozes tivessem ordenado a surtida dizendo que seríeis presa, teríeis ido lá?

J – Se eu soubesse a hora, e que eu seria presa não teria ido lá de boa vontade. Mas eu teria
obedecido à ordem das minhas Vozes, afinal, ainda sabendo o que deveria me acontecer.

J de La F – Quando saístes de Compiègne, tínheis tido voz ou revelação, de partir e fazer aquela
surtida?

J – Não soube de minha captura, naquele dia, mas tive ordem de sair, mas sempre me foi dito que
era necessário que caísse prisioneira.

J de La F – Quando fizestes a surtida, passastes pela ponte de Compiègne?

J – Passei pela ponte e pelo baluarte, e fui, com a gente do meu partido, sobre a tropa do monsenhor
Jean de Luxemburgo e a repeli por duas vezes, até o campo dos borguinhões; e na terceira vez, até
meio caminho. Então os ingleses que estavam lá cortaram o caminho, a mim e à minha gente, entre
mim mesma e o baluarte. E por isso minha gente se retirou. Então, quando eu me retirava, fui presa
no campo, naquela parte que é do lado da Picardia, perto do dito baluarte. Entre olugar emque fui
presa e Compiègne, havia o rio e o baluarte com o seu fosso, nada mais.

J de La F – No estandarte que portáveis, estava pintado o mundo e dois anjos et caetera?

J – Sim, e eu nunca tive mais que um.

J de La F – Que significado tinha pintar Deus segurando o mundo, e dois anjos?


J – Santa Catarina e Santa Margarida disseram-me para ter um estandarte e leva-lo ousadamente, e
para pintar nele o Rei do Céu; e eu disse isso a meu rei, bem contra a vontade. Quanto ao
significado, nada sei.

J de La F – Tínheis um escudo e armas?

J – Nunca tive, mas meu rei conferiu armas aos meus irmãos, a saber: um escudo azul, sobre o qual
estavam dois lírios de ouro e uma espada ao meio. Nesta cidade, eu descrevi essas armas a um
pintor, que me perguntou que armas eu usava. Aquelas armas foram dadas pelo rei aos meus
irmãos, sem que eu pedisse e sem revelação.

J de La F – Tínheis um cavalo, quando fostes presa, corcel ou cavalo de serviço?

J – Eu montava, na ocasião, um meio corcel.

J de La F – Quem vos deu esse cavalo?

J – O meu rei, ou gente dele, com dinheiro do rei. Eu tinha cinco corcéis, comprados com dinheiro
do rei, sem contar os troteadores, que eram mais de sete.

J de La F – Tivestes outras riquezas de vosso rei, além desses cavalos?

J – Nunca pedi coisa alguma a meu rei, a não ser boas armas, bons cavalos e dinheiro para pagar a
gente da minha companhia.

J de La F – Possuíeis um tesouro?

J – Tinha dez ou doze mil escudos, que não era grande tesouro para conduzir a guerra; creio mesmo
que era pouco, e meus irmãos é que devem estar na posse disso, segundo penso. Tudo o que tenho é
do próprio dinheiro do meu rei.

J de La F – Que sinal destes a vosso rei, quando viestes a ele?

J – Ele é belo e honroso, e bem crível e bom, e o mais rico que haja no mundo!

J de La F – Por que não quereis nomear e mostrar esse sinal, como quisestes saber o sinal de
Catarina e de La Rochelle?

J – Se o sinal de Catarina, como o meu, tivesse sido patenteado diante de notáveis pessoas da Igreja
e outras, arcebispos e bispos, a saber: diante do arcebispo de Reims e de outros, cujo nome não sei;
e mesmo ali estavam Carlos de Bourbon, o sire de La Trémouille, o duque de Alençon, e outros
cavaleiros que o viram e ouviram, como eu vejo os que me falam hoje, então eu não teria pedido
para conhecer o sinal de Catarina. Todavia, eu já sabia de antemão, por Santa Catarina e Santa
Margarida, que o caso de Catarina de La Rochelle era absolutamente nada.

J de La F – Esse vosso sinal, ainda existe?

J – É bom saber isso, e que ele durará mil anos ou mais. Esse sinal está no tesouro de meu rei.

J de La F – Trata-se de ouro, prata, pedra preciosa ou coroa?

J – Não vos direi outra coisa sobre este assunto, e um homem não saberia descrever uma coisa tão
rica como o sinal. Todavia, o sinal que vos falta é que Deus me livre de vossas mãos, e é o mais
certo que Ele saiba vos enviar! Quando foi do meu dever partir, para ir ao encontro do meu rei,
minhas Vozes me disseram: “Vai ousadamente! Quando chegares diante do rei, ele terá bom sinal,
para te receber e crer em ti!”

J de La F – Quando o sinal veio ao vosso rei, que reverência lhe fizestes? E ele veio da parte de
Deus?

J – Eu dei graças a Deus, por me livrar do sofrimento que me impunham os clérigos do meu
partido, que argumentavam contra mim, e eu me ajoelhei várias vezes. Um anjo, da parte de Deus, e
não de outra parte, deu o sinal ao meu rei, e por isso agradeci ao Senhor muitas vezes. Os clérigos
do meu partido cessaram de me arguir, quando conheceram o dito sinal.

J de La F – As pessoas da Igreja, do vosso partido, viram o dito sinal?

J – Quando o meu rei e os que estavam com ele viram o sinal, e também o anjo que o entregou,
perguntei ao meu rei se ele estava contente e ele respondeu que sim. Então saí e fui a uma capela
muito próxima; ouvi dizer que, depois da minha partida, mais de trezentas pessoas viram o dito
sinal. Por amor de mim, e para que cessassem de me interrogar, Deus quis permitir que, aqueles do
meu partido, que viram o sinal, o tivessem visto.

J de La F – Fizestes, vosso rei e vós, reverência ao anjo, quando ele trouxe o dito sinal?

J – Eu fiz uma reverência, ajoelhei-me e descobri minha cabeça.

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2° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

12 DE MARÇO

CELA DE JOANA
27 PERGUNTAS

1 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

3 ----- questões sobre as roupas de homem

16 ----- questões sobre as Vozes e santos

3 ----- questões sobre o sinal dado ao rei

4 ----- geral

PC – (dirigindo-se a JOANA) – Jurai dizer a verdade, sobre o que vos for perguntado.

J – Daquilo que toca ao vosso processo, como já disse anteriormente, de boa vontade direi a
verdade, e assim o juro.

PC – Designo o mestre Jean de La Fontaine para proceder ao interrogatório.

J de La F – (iniciando o interrogatório) – O anjo que trouxe o sinal ao vosso rei, e do qual já se


tratou no último interrogatório, disse ou não alguma coisa?

J – Sim, disse ao meu rei que me pusesse em ação e o País seria logo aliviado.

J de La F – Esse anjo que trouxe o sinal ao vosso rei, foi o mesmo que primeiramente vos apareceu?

J – É sempre o mesmo, e nunca me faltou.

J de La F – Não vos faltou esse anjo, quanto à boa sorte, pois fostes feita prisioneira?

J – Acredito, pois que isso agradou a Deus, que é para o melhor que fui presa.

J de La F – Não vos faltou esse anjo, nos bens da graça?

J – Como me faltou, se ele me reconforta a cada dia? Eu penso que essa consolação vem de Santa
Catarina e Santa Margarida.

J de La F – Como chamais as santas, ou elas vêm sem que sejam solicitadas?

J – Muitas vezes elas vêm sem nenhum chamado, mas algumas vezes, se elas não vinham, eu pedia
a Deus que as enviasse.
J de La F – Algumas vezes elas não vieram, mesmo que as chamásseis?

J – Nunca tive necessidade delas que elas não tivessem vindo.

J de La F – Saint Denis nunca vos apareceu?

J – Não que eu saiba.

J de La F – Falastes a Deus, quando lhe prometestes guardar vossa virgindade?

J – Era suficiente prometer isso àquelas que eram enviadas por Deus, a saber: às santas Catarina e
Margarida.

J de La F – Que voz fez citar um homem, na cidade de Toul, em causa de matrimônio?

J – Não o citei, ele é que me fez citar, e lá, diante do juiz, jurei dizer a verdade. E finalmente eu
declarei que nenhuma promessa fizera aquele homem. Na primeira vez em que eu ouvi minha Voz,
fiz voto de guardar a virgindade, pelo tempo que fosse do agrado de Deus. Eu tinha então treze
anos, mais ou menos. As Vozes me asseguraram que eu ganharia o processo, na cidade de Toul.

J de La F – Falastes a vosso cura, ou a outro homem da Igreja, a respeito das visões que dizeis ter?

J – Não, mas somente a Robert de Baudricourt e a meu rei. As Vozes não me obrigaram a guardar
segredo, mas eu temia muito revela-lo, por medo dos borguinhões, não fossem eles impedir a minha
viagem; e, especialmente, eu temia que meu pai impedisse essa viagem.

J de La F – Acreditais ter agido bem, partindo sem licença do vosso pai e da vossa mãe, quando
devemos honrar pai e mãe?

J – Em todas as outras coisas, sempre obedeci a meus pais, menos com relação à minha partida;
depois, no entanto, eu lhes escrevi sobre isso e eles me perdoaram.

J de La F – Quando deixastes vossos pais, acreditastes pecar?

J – Se Deus ordenava, era necessário fazê-lo. Se Deus ordenava, tivesse eu cem pais e cem mães, ou
fosse filha de rei, teria partido assim mesmo.

J de La F – Perguntastes às vossas Vozes se deveríeis falar da partida a vossos pais?

J – No que diz respeito a meu pai e minha mãe, as Vozes ficariam bem contentes se eu lhes falasse,
não fosse a dificuldade que me causariam, se lhes comunicasse a minha partida. Quanto a mim, não
lhes teria dito, por motivo nenhum. As Vozes deixavam a meu critério, falar-lhes ou não.
J de La F – Fazíeis reverência, quando São Miguel e os anjos vos apareciam?

J – Sim, e eu beijava a terra que eles tinham pisado.

J de La F – Ficavam eles por muito tempo convosco?

J – Eles vêm muitas vezes entre os cristãos, mas não são vistos; e os vi muitas vezes entre os
cristãos.

J de La F – Recebestes cartas de São Miguel ou de vossas Vozes?

J – Não tenho permissão para vos responder sobre isso. Daqui a oito dias, responderei de boa
vontade o que souber.

J de La F – Não vos chamaram vossas Vozes “filha de Deus, filha da Igreja, corajosa Donzela”?

J – Antes que o cerco de Orléans fosse levantado, e depois, todos os dias, quando elas me falam,
frequentemente me chamaram “Joana, a Donzela, filha de Deus”.

J de La F – Se vos dizeis “filha de Deus”, por que não dizeis o Padre Nosso?

J – Eu o direi de boa vontade. Quando, da outra vez, eu não quis dizê-lo, foi com a intenção de que
monsenhor de Beauvais me ouvisse em confissão.

No mesmo dia, à tarde, Jean de La Fontaine continua o interrogatório.

J de La F – Que sonhos teve vosso pai, antes da vossa partida?

J – Quando eu estava ainda na casa de meus pais, minha mãe me disse, muitas vezes, que meu pai
dissera ter sonhado que eu deveria ir embora, em companhia de soldados. Por isso meus pais tinham
grande cuidado de me guardar e me traziam em grande sujeição. Eu obedecia a eles em tudo, salvo
no caso do processo que tive na cidade de Toul, em causa de matrimônio. Ouvi minha mãe deizer
que meu pai dissera a meus irmãos: “Na verdade, se eu acreditasse que iria acontecer o que temo,
com respeito à minha filha, eu desejaria que vós a afogassem, e se não o fizésseis, eu mesmo a
afogaria.” Meus pais quase perderam o juízo quando eu parti, para ir a Vascouleurs.

J de La F – Vieram a vosso pai esses pensamentos e sonhos, depois que tivestes vossas visões?

J – Sim, mais de dois anos depois que ouvi as Vozes.

J de La F – Foi a pedido de Robert de Baudricourt, ou por vossa decisão mesma, que vestistes
roupas masculinas?
J – Foi por mim mesma, e não a pedido de qualquer homem vivente.

J de La F – Ordenou a Voz, que vestísseis aquelas roupas?

J – Tudo o que fiz de bom foi por ordem das minhas Vozes. Quanto às vestes, responderei noutra
ocasião; não estou agora aconselhada, mas amanhã responderei sobre isso.

J de La F – Vestindo trajes masculinos, não pensais estar agindo mal?

J – Não, e se agora estivesse entre a gente do meu partido, neste traje, parece-me que seria um
grande bem para a França fazer o que eu fizera antes da minha prisão.

J de La F – De que modo teríeis libertado o duque de Orléans?

J – Eu teria capturado aqui muitos ingleses, para tê-lo de volta; se não conseguisse isso, atravessaria
o mar, para ir busca-lo pela força, na Inglaterra.

J de La F – Disseram-vos Santa Catarina e Santa Margarida, sem condição e absolutamente, que


prendêsseis gente suficiente para ter de volta o duque de Orléans?

J – Sim, e eu disse ao meu rei que me permitisse agir assim com os ingleses prisioneiros. Se eu
tivesse permanecido três anos, sem impedimento, teria libertado o duque. Para fazer isso, haveria
um prazo mais breve que três anos e mais longo que um, não me lembro bem.

J de La F – Que sinal destes ao vosso rei?

J – Sobre isso, terei o conselho de Santa Catarina.

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3° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

13 DE MARÇO

CELA DE JOANA

34 PERGUNTAS

1 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

3 ----- questões sobre as Vozes e santos

23 ----- questões sobre o sinal dado ao rei


4 ----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

3 ----- geral

PC – Exorto-vos a dizer a verdade, para a salvação da vossa alma, sobre tudo em que sereis
interrogada, neste processo. Jurais fazê-lo?

J – Sim, como o fiz anteriormente.

J de La F – Qual foi o sinal que destes aos vosso rei?

J – Acaso ficaríeis contente se eu cometesse perjúrio?

J de La F – Jurastes e prometestes a Santa Catarina não revelar esse sinal?

J – Jurei e prometi a mim mesma não revelar o sinal, por que muito me pressionavam para fazê-lo.
Prometi a mim mesma que não mais falaria disso a ninguém.

(Continuam a pressioná-la, e ela, finalmente, recorre à alegoria do anjo apresentando ao rei a coroa.
Era transparente a alegoria: JOANA, como mensageiro de Deus, era o anjo que trouxera a coroa a
seu rei. Os juízes, no entanto, entenderam-na como se ela relatasse um fato realmente acontecido.)

J – O sinal foi que o anjo dava segurança a meu rei, trazendo-lhe a coroa, e dizendo-lhe que ele teria
todo o Reino de França, inteiramente, com a ajuda de Deus e mediante o meu esforço; que ele me
pusesse logo em ação, que me desse soldados, pois de outro modo ele não seria tão cedo coroado e
sagrado.

J de La F – Falastes, depois de ontem, a Santa Catarina?

J – Sim, eu a ouvi, e ela me disse, muitas vezes, para responder corajosamente aos juízes sobre o
que me perguntarem, no que tocar ao processo.

J de La F – De que maneira o anjo trouxe a coroa? Colocou-a ele sobre a cabeça do vosso rei?

J – Ela foi entregue a um arcebispo, ao arcebispo de Reims, como me parece, na presença do rei. O
Arcebispo recebeu-a e entregou-a ao rei. Eu mesma estava presente. E a coroa foi posta no tesouro
do rei.

J de La F – A que lugar foi trazida a coroa?


J – Ao aposento do rei, no castelo de Chinon.

J de La F – Em que dia e hora isso aconteceu?

J – Do dia, nada sei; quanto à hora, era muito tarde. Não me lembro da hora. Isso foi no mês de
abril, ou neste de março, faz dois anos. Foi depois da Páscoa.

J de La F – No mesmo dia em que vistes o sinal, vosso rei também o viu?

J – Sim, e ele mesmo o recebeu.

J de La F – De que matéria era a coroa?

J – É bom saber que era do mais fino ouro, e tão rica que eu não saberia descrever sua riqueza. A
coroa significava que o meu rei teria o Reino de França.

J de La F – Havia pedras preciosas, na coroa?

J – Já vos disse o que sabia.

J de La F – Segurastes ou beijastes dita coroa?

J – Não.

J de La F – O anjo que a trouxe, veio do alto ou da terra?

J – Veio do alto. Penso que ele vinha por ordem de Nosso Senhor. Ele entrou pela porta do
aposento.

J de La F – Veio pela terra e andou, desde a porta do aposento?

J – Quando ele chegou diante do rei, ele lhe fez uma reverência, inclinando-se perante ele e
pronunciando as palavras que eu disse do sinal. E com isso, o anjo lembrou ao rei a bela resignação
que havia tido, nas grandes atribulações por que passara. Desde a porta, o anjo andava pela terra,
vindo na direção do rei.

J de La F – Que espaço havia entre a porta e o lugar em que estava, então, o vosso rei?

J – Ao que penso, havia bem o espaço do comprimento de uma lança; e, por onde veio, o anjo saiu.
Quando ele veio, eu o acompanhei e fui com ele, pelos degraus, até o aposento do rei. O anjo entrou
primeiro, depois eu entrei, e disse ao rei: “Sire, eis vosso sinal, tomai-o!”

J de La F – Em que lugar o anjo vos apareceu?


J – Eu estava quase sempre em oração, para que Deus enviasse o sinal ao rei. Estava no meu
aposento, na casa de uma boa mulher, perto do castelo de Chinon, quando o anjo veio, e depois eu e
ele fomos até o rei. O anjo estava bem acompanhado de outros anjos, aos quais ninguém via. Não
fosse por amor a mim, e para livrar-me do sofrimento causado por aqueles que me arguiam, creio
bem que muita gente que viu o anjo não o teria visto.

J de La F – Viram o anjo todos os que estavam com o rei?

J – Segundo creio, viram-no o arcebispo de Reims, os senhores d’Alençon e de La Trémouille e


Carlos de Bourbon. Quanto à coroa, muitas pessoas da Igreja, e também outras, a viram, embora
não vissem o anjo.

J de La F – De que aspecto e tamanho era o dito anjo?

J – Não tenho licença para dizê-lo; amanhã responderei.

J de La F – Todos os outros anjos que acompanhavam aquele tinham o mesmo aspecto?

J – Alguns entre si se pareciam, outros não, do modo como eu os via; alguns tinham asas, outros
usavam coroas; com eles estavam Santa Catarina e Santa Margarida, até o aposento do rei.

J de La F – Como o anjo se apartou de vós?

J – Ele se afastou de mim na pequena capela. Fiquei muito aborrecida com a partida dele, e chorei;
iria de boa vontade com ele, isto é, minh’alma iria.

J de La F – Na partida do anjo, ficastes alegre, assustada ou com medo?

J – Não fiquei assustada, ou com medo, mas muito aborrecida.

J de La F – Foi pelo vosso mérito que Deus vos enviou o seu anjo?

J – Ele veio por uma grande causa, na esperança de que o rei acreditasse no sinal e que os clérigos
deixassem de me arguir, e para levar socorro à boa gente de Orléans, e também pelo mérito do meu
rei e do bom duque de Orléans.

J de La F – Por que fostes a escolhida, e não uma outra?

J – Foi do agrado de Deus fazer essas coisas por uma simples donzela, para expulsar os inimigos do
rei.

J de La F – Disseram-vos onde o anjo achou aquela coroa?


J – Ela foi trazida da parte de Deus, e não há ourives no mundo que soubesse fazê-la tão bela e tão
rica. Onde o anjo foi pegá-la, remeto-me a Deus, pois não sei dizer onde foi apanhada.

J de La F – Essa coroa tinha bom odor e brilhava?

J – Disso não tenho lembrança, mas procurarei saber. (Após algum tempo.) Ela cheira bem, e
continuará, sendo bem guardada, como convém.

J de La F – Como era ela?

J – Á maneira de coroa.

J de La F – Escreveu-lhe cartas o anjo?

J – Não.

J de La F – Que sinal teve o vosso rei, os que estavam com ele e vós mesma, para acreditar que era
um anjo que tinha trazido a coroa?

J – O rei acreditou pelo ensinamento das pessoas da Igreja, que estavam lá, e pelo sinal da coroa.

J de La F – Como as pessoas da Igreja souberam que era um anjo?

J – Pela sua ciência e porque eram clérigos.

J de La F – Que dizeis de um padre concubinário e de uma taça perdida, da qual se dizia que vós a
encontrastes?

J – Nada sei e nunca ouvi falar disso.

J de La F – Quando fostes diante da cidade de Paris, tivestes revelação de vossas Vozes para ir lá?

J – Não. Fui a pedido dos gentis-homens, que queria fazer uma escaramuça ou um assalto. Eu tinha
bem a intenção de ir além e ultrapassar os fossos de Paris.

J de La F – Tivestes revelação para ir diante de La Charité?

J – Não. Fui a pedido dos homens de armas, como já disse da outra vez.

J de La F – Tivestes revelação para ir a Pont-L’Evêque?

J – Depois que tive a revelação de que seria capturada, sobre os fossos de Melun, preferi confiar nos
capitães, para os assuntos de guerra. Todavia, não lhes disse que tivera revelação de que seria
capturada.
J de La F – Foi coisa bem-feita atacar Paris no dia da Natividade de Nossa Senhora, um dia santo?

J – É bom guardar as festas de Nossa Senhora. Em minha consciência, parece-me bom guardar as
festas de Nossa Senhora, do princípio ao fim.

J de La F – Não dissestes diante de Paris: “Entregai a cidade a Jesus”?

J – Não, mas disse: “Entregai a cidade ao rei de França”.

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4° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

14 DE MARÇO

CELA DE JOANA

24 PERGUNTAS

1 ----- questões sobre as roupas de homem

7 ----- questões sobre as Vozes e santos

9 ----- geral

J de La F – Qual foi a causa pela qual saltastes da torre de Beaurevoir?

J – Eu ouvira dizer que todos os habitantes de Compiégne, até os que tinham sete anos, deviam ser
postos a ferro e fogo, e eu desejaria mais morrer do que viver , após tão grande massacre daquela
boa gente. Isso foi uma das causas do meu ato. A outra foi que eu soube que tinha sido vendida aos
ingleses, e eu teria preferido morrer do que cair na mão dos ingleses, meus inimigos.

J de La F – Foi o salto aconselhado por vossas Vozes?

J – Santa Catarina me dizia, quase todos os dias, que eu não saltasse, e que Deus me ajudaria e
também a boa gente de Compiègne. E eu disse a Santa Catarina: “Se Deus vai ajudar os de
Compiègne, eu quero estar lá”. Então Santa Catarina me disse: “É absolutamente necessário que
recebas tudo alegremente. Não serás libertada até que tenhas visto o rei dos ingleses.” Eu respondi:
“Na verdade, não desejaria vê-lo; desejaria antes morrer do que ser posta na mãos dos ingleses.”
J de La F – Dissestes às Santas Catarina e Margarida: “Deixará Deus morrer tão injustamente a boa
gente de Compiègne”?

J – Não disse essas palavras “tão injustamente”, mas falei assim: “Como Deus deixará morrer essa
boa gente de Compiègne, que sempre foi e é tão fiel ao Senhor?” Depois que caí da torre, passei
dois ou três dias sem comer. Fiquei tão abalada que não podia comer, nem beber. Todavia, fui
reconfortada por Santa Catarina, que me disse para confessar e pedir perdão a Deus por ter saltado;
e que os de Compiègne teriam socorro antes de festa de São Martinho. Então eu entrei em
convalescença, comecei a comer e logo fiquei boa.

J de La F – Quando saltastes, pensastes em vos matar?

J – Não; mas, saltando, encomendei-me a Deus. Acreditei que, saltando, escaparia de ser posta em
poder dos ingleses.

J de La F – Quando recobrastes a fala, não renegastes a Deus e os santos, como nos revelaram
certas informações?

J – Nunca reneguei Deus nem os santos, nem lá, nem em qualquer outro lugar.

J de La F – Desejais confiar-vos, sobre isso, às informações colhidas ou a colher?

J – Eu me remeto a Deus, e não a outrem, e a uma boa confissão.

J de La F – Vossas vozes vos pedem prazo para responder?

J – Santa Catarina às vezes me responde; às vezes não a entendo, pelo tumulto da prisão e barulho
dos guardas. Quando eu faço pedido a Santa Catarina, ela e Santa Margarida fazem pedido a Deus,
e, então, por ordem de Deus, me dão a resposta.

J de La F – Quando as santas vêm a vós, há luz com elas? Não vistes luz, quando ouvistes a Voz
neste castelo e quando não sabíeis se ela estava na vossa cela?

J – Não há dia que não venham a este castelo, e não vêm sem luz. E naquela vez sobre a qual me
interrogais, não me recordo se vi luz, nem mesmo se vi Santa Catarina.

J de La F – Que pedistes às vossas Vozes?

J – Pedi três coisas: uma, a minha libertação; outra, que Deus ajude os franceses e guarde bem as
cidades a eles obedientes; e outra, a salvação da minha alma. Além disso, pedi que se acontecer que
eu seja levada a Paris, que eu tenha a cópia dos meus interrogatórios e respostas, a fim de que possa
entregá-los aos de Paris e possa dizer-lhes: “Eis como fui interrogada em Ruão e as minhas
respostas”, e que eu não seja mais atormentada por tantas perguntas.

Pierre Cauchon – (intervindo no interrogatório) – Considerando que dissestes que nós nos
colocávamos em perigo, por vos submeter a processo, perguntamos o que isso quer dizer, e em que
perigo incorremos, nós e os outros juízes.

J – Eu vos disse, a vós, bispo: “Dizeis que sois meu juiz; não sei se o sois, mas tomai cuidado para
não julgar mal, porque vos colocais em grande perigo. Eu vos advirto, a fim de que, se Deus vos
castigar, eu tenha feito a minha obrigação de vos avisar.”

J de La F – Qual é esse perigo?

J – Santa Catarina me disse que eu teria socorro não sei se isso significa que eu serei libertada da
prisão, ou, quando do julgamento, haverá grande tumulto, pelo qual eu possa ser libertada; será uma
coisa, ou outra. As Vozes me dizem que eu serei libertada por uma grande vitória e, depois, me
dizem: “Recebe tudo alegremente; não te aflija o teu martírio; tu virás enfim ao reino do Paraíso.” E
as Vozes me disseram isso simplesmente e absolutamente, sem nenhuma dúvida. Eu chamo martírio
a dor e a adversidade que sofro na prisão. Não sei se sofrerei mais ainda; quanto a isso, entrego-me
a Deus.

J de La F – Depois que as Vozes disseram que ireis ao Paraíso, estais certa da vossa salvação e de
não ser condenada ao inferno?

J – Creio firmemente no que as Vozes me disseram, isto é, que me salvarei, tão firmemente como se
já o fosse.

J de La F – Depois dessa revelação, não acreditais que possais pecar mortalmente?

J – Nada sei sobre isso; mas de tudo, entrego-me a Deus.

J de La F – Essa resposta é de grande peso.

J – Também a tenho por um grande tesouro.

No mesmo dia, à tarde.

Pierre Cauchon: Entendestes bem o que dissestes, quanto à vossa salvação?

J – Entendi, e, para mim, me salvarei, desde que guarde a promessa e o juramento que fiz a Deus, a
saber: desde que eu guarde a minha virgindade, tanto do corpo como da alma.
PC – Tendes necessidade de confessar, uma vez que tivestes revelação de vossas Vozes e que sereis
salva?

J – Não sei se pequei mortalmente; mas se estiver em pecado mortal, confio em que Santa Catarina
e Santa Margarida me livrem dele logo. E, respondendo à vossa pergunta: nunca é demais limpar a
própria consciência.

PC – Depois que estais na prisão, renegastes ou amaldiçoastes a Deus?

J – Não; e quando eu disse, alguma vez, em francês: Bon grè!, ou Saint Jean, ou Notre Dame!, os
que podem ter transmitido as minhas palavras as entenderam mal.

PC – Não é pecado mortal prender um homem para resgate e, depois, fazê-lo morrer prisioneiro?

J – Nunca fiz isso!

PC – Falamos de Franquet d’Arras, que fizestes morrem em Lagny.

J – Consenti que ele morresse se o merecesse, porque se confessara assassino, ladrão e traidor. O
seu processo durou quinze dias, e ele foi julgado pelo bailio de Senlis e pelos homens de justiça de
Lagny. Eu quis ter esse Franquet prisioneiro para trocá-lo por um homem de Paris, dono da
hospedaria do Urso; quando eu soube que esse homem estava morto, e havendo o bailio me dito que
eu desejava fazer grande injúria à justiça, libertando esse Franquet, eu disse ao bailio: “Posto que
está morto o homem que eu queria resgatar, fazei deste o que deveis fazer por justiça”.

PC – Destes dinheiro, ou fizestes que o dessem, àquele que prendeu Franquet?

J – Não sou moedeira ou tesoureira da França, para dar dinheiro.

PC – Quanto ao que vos lembramos anteriormente, a saber: que fizestes um assalto a Paris, em dia
santo, que tivestes o cavalo do monsenhor bispo de Senlis, que saltastes da torre de Beaurevoir, que
usais trajes masculinos, que consentistes na morte de Franquet d’Arras, não acreditais ter cometido
algum pecado mortal?

J – Quanto ao assalto a Paris, não creio ter cometido pecado capital, mas se o cometi, isso pertence
a Deus, e ao padre conhece-lo, em confissão. Quanto ao cavalo do bispo, creio firmemente não ter
pecado contra Deus, pois o cavalo foi estimado em duzentos saluts de ouro, dos quais o bispo teve o
documento devido. Ainda mais: o cavalo foi enviado ao monsenhor de La Trémouille, para
devolvê-lo ao bispo. De outra parte, eu não queria retê-lo, pois ouvi que o bispo estava descontente
por haverem tomado o seu cavalo, que não tinha nenhum valor para os homens de armas. Em
conclusão: não sei se o bispo foi pago pelo valor da requisição, nem se ele teve o seu cavalo de
volta; creio que não. Quanto ao caso da torre de Beaurevoir, respondo: fiz aquilo não por desespero,
mas na esperança de salvar o meu corpo e ir socorrer muitas boas pessoas que estavam em
necessidade. E, depois do salto, confessei-me e pedi perdão a Deus. Assim, tive o perdão de Deus,
mas não creio que tenha agido bem, saltando como fiz. Sei que fui perdoada por revelação de Santa
Catarina, depois da confissão, e foi por conselho de Santa Catarina que me confessei.

PC – Foi imposta a vós, por isso, grande penitência?

J – Tive uma grande parte dessa penitência pelo mal que sofri na queda.

PC – A falta que cometestes, saltando, acreditais que foi um pecado mortal?

J – Não sei; quanto a isso, entrego-me a Deus.

PC – E o traje masculino?

J – Se eu uso esta roupa por ordem de Deus e a seu serviço, não creio fazer mal. Quando aprouver a
Deus ordená-lo, abandonarei estas vestes.

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5° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

15 DE MARÇO

CELA DE JOANA

27 PERGUNTAS

4 ----- questões sobre as roupas de homem

15 ----- questões sobre as Vozes e santos

2 ----- geral

4 ----- questões sobre a submissão de Joana à Igreja Militante

J de La F – (após “caridosas exortações”) – Nós vos advertimos que, se fizestes alguma coisa contra
a fé, vos submetais à determinação de nossa santa madre, a Igreja.
J – Que minhas respostas sejam vistas e examinadas pelos clérigos, e depois me seja dito se h-a
nelas qualquer coisa contra a fé cristã. Eu saberei, pelo meu Conselho, expressá-la muito bem; e
depois direi o que penso, pelo meu Conselho. Se houver qualquer coisa contra a fé cristã, que Deus
ordenou, não a manterei, e ficarei mesmo muito aborrecida por contrariá-la.

PC – (intervindo) – É preciso distinguir entre a Igreja triunfante e a Igreja militante, e o que


pertence a uma e a outra (o bispo explica a JOANA esses conceitos). De momento, submetei-vos à
determinação da Igreja, quer quanto ao que fizestes, quer quanto ao que dissestes, seja bem, ou seja
mal?

J – Não vos direi nada agora.

J de La F – Dizei-nos, sob o juramento que prestastes: como pensastes vos evadir do castelo de
Beaulieu, entre duas peças de madeira.

J – Nunca estive presa em lugar de onde não desejasse escapar. Estando naquele castelo, teria
fechado os guardas na torre, não fosse a sentinela, que me viu e me impediu. Ao que me pareceu,
não agradara a Deus que eu fugisse dessa vez, e que era preciso que eu vise o rei dos ingleses, como
as Vozes me haviam dito e foi escrito acima.

J de La F – Tendes licença de Deus, ou de vossas Vozes, para fugir da prisão, quando vos agradar?

J – Eu a solicitei muitas vezes, mas não a tenho ainda.

J de La F – Escaparíeis agora, se tivésseis ocasião?

J – Se eu visse a porta aberta, fugiria, e isso seria para mim a ordem de Deus. Eu o creio
firmemente: se eu visse a porta aberta, e meus guardas e os outros ingleses não soubessem obstar,
eu pensaria que era a Sua licença, e que Deus me enviava socorro. Mas sem a Sua licença eu não
partiria, a menos que eu, por força, tentasse a fuga, para saber a vontade de Deus, pelo que diz o
ditado: “Ajuda-te e Deus te ajudará”. E eu digo isso para que não aleguem, se eu fugir, que foi sem
permissão.

J de La F – Como pedistes para ouvir missa, não vos parece mais honesto vestir roupas femininas?
Que preferis: vestir roupa de mulher e ouvir missa, ou ficar com traje de homem e não ouvir missa?

J – Dai-me a certeza de que ouvirei missa, se usar traje de mulher, e eu vos responderei.

J de La F – Eu vos asseguro que ouvireis missa, se estiverdes usando roupa de mulher.


J – E o que dizeis, se eu tiver prometido ao meu rei, e jurado não deixar este traje? Todavia, eu vos
respondo: Dai-me um vestido longo, até o chão, sem cauda, para eu ir à missa; na volta, vestirei de
novo a roupa que estou usando.

J de La F – Vestiríeis, definitivamente, roupa de mulher, para poder ir à missa?

J – Terei conselho sobre isso e depois vos responderei. Peço-vos, porém, em honra de Deus e de
Nossa Senhora, que me seja concedido ouvir missa, nesta boa cidade!

J de La F – Vesti roupa de mulher, pura e simplesmente!

J – Dai-me uma roupa como a de uma filha de burguês, isto é, uma sai longa, e eu a vestirei, para ir
ouvir missa. No entanto, com o maior empenho possível eu vos suplico: permiti que eu ouça missa
com esta roupa que estou usando, sem precisar muda-la.

J de La F – Com relação a tudo que fizestes ou dissestes, quereis vos submeter à determinação da
Igreja?

J – Tudo o que disse ou fiz está na mão de Deus e a Ele me entrego. Eu vos asseguro que não
desejaria dizer ou fazer coisa alguma contra a fé cristã; e se eu tiver dito ou feito alguma coisa, ou
se estiver sobre o meu corpo alguma coisa que os clérigos possam dizer ser contra a fé cristã, que
Deus estabeleceu, não desejaria sustentá-la, mas lançaria fora de mim.

J de La F – Sobre esse ponto, desejais vos submeter ao mandamento da Igreja?

J – Não vos direi agora outra coisa. No sábado próximo, porém, enviai-me o padre, se não quiserdes
vir, e responderei sobre isso, e a resposta será tomada por escrito.

J de La F – Quando as Vozes aparecem, fazeis reverência a elas, como a um santo ou santa?

J – Sim, e alguma vez em que não faço, peõ-lhes perdão depois. E eu não sei fazer-lhes a grande
reverência que elas merecem, por creio firmemente que são Santa Catarina e Santa Margarida. O
mesmo diria em relação a São Miguel.

J de La F – Como aos santos do Paraíso fazem-se comumente oferendas de velas, ofereceis aos
santos que vêm a vós velas acesas ou outras coisas, na igreja ou em outro lugar, ou mandais dizer
missas?

J – Não, a não ser em oferta na missa, em mão do sacerdote, em jonra de Santa Catarina. Creio que
ela é uma das que me aparecem. Não acendo tantas velas quantas acenderia de boa vontade, para as
santas Catarina e Margarida, que estão no Paraíso, e que eu creio firmemente serem aquelas que me
aparecem.

J de La F – Quando colocais velas diante da imagem de Santa Catarina, fazeis isso em honra
daquela que vos aparece?

J – Faço isso em honra de Deus, de Nossa Senhora e de Santa Catarina, que está no Céu. Não faço
diferença entre a que está no Céu e a que me aparece.

J de La F – Fazeis sempre o que as vossas Vozes vos ordenam?

J – De todo o meu poder, cumpro o mandamento de Deus, a mim feito pelas Vozes, naquilo que eu
soube entender. Elas nada me ordenaram sem o agrado de Deus.

J de La F – Quanto às ações de guerra, fizestes alguma coisa sem o conselho de vossas Vozes?

J – Já tivestes essa resposta. Lede bem o vosso registro e a encontrareis. Toda via vos direi que, a
pedido dos homens de armas, foi levado a efeito um assalto a Paris; e também fui diante de La
Charité, a pedido do meu rei; e tudo isso não foi por ordem das minhas Vozes, nem contra a ordem
delas.

J de La F – Jamais fizestes nada contra a vontade e ordem de vossas Vozes?

J – O que pude e soube fazer, eu o fiz por ordem delas. Quanto ao salto da torre de Beaurevior, eu
não pude me conter. Quando elas viram o meu estado, que eu não podia nem sabia me conter, elas
protegeram minha vida e impediram que me matasse. Qualquer coisa que eu tenha feito, alguma
vez, em meus grandes trabalhos, elas sempre me socorreram, e isto é um sina de que são bons
espíritos.

J de La F – Tivestes outro sinal de que as Vozes são bons espíritos?

J – São Miguel assegurou-me isso, antes que as Vozes aparecessem.

J de La F – Como soubestes que era São Miguel?

J – Pelo falar e pela linguagem dos anjos! Creio firmemente que eram anjos.

J de La F – Como conhecestes que era a linguagem dos anjos?

J – Acreditei logo, e tive vontade de crer. Quando São Miguel me apareceu, disse-me que Santa
Catarina e Santa Margarida viriam a mim, e que eu agisse de acordo com o conselho delas. Elas
tinham ordem de me guiar e aconselhar no que eu tivesse de fazer, que eu acreditasse no que
dissessem, pois agiam por mandamento de Deus.

J de La F – Se o Diabo se pusesse em forma e aspecto de anjo, como conheceríeis tratar-se de anjo


bom ou mau?

J – Eu saberia se era São Miguel, ou alguma coisa fingindo ser ele. A primeira vez, tive grande
dúvida se era ele. E tive, também, muito medo. Eu o vi muitas vezes, antes de saber que era São
Miguel.

J de La F – Por que reconhecestes mais facilmente São Miguel, na vez em que acreditou que era ele,
do que na primeira vez?

J – Na primeira vez, eu era criança e tive medo. Depois, São Miguel me ensinou tantas coisas que
eu acreditei firmemente que era ele.

J de La F – Que doutrina ele vos ensinava?

J – Dizia-me, principalmente, que eu fosse uma boa menina, e que Deus me ajudaria; e, entre outras
coisas, que eu viesse em socorro do rei de França. A maior parte daquilo que o anjo me ensinou está
neste livro; e ele me falava da calamidade que havia no reino de França.

J de La F – Qual era a grandeza e estatura desse anjo?

J – Sábado próximo responderei, com a outra coisa que devo responder, isto é, o que for do agrado
de Deus.

J de La F – Não acreditais ser um grande pecado ofender Santa Catarina e Santa Margarida que vos
aparecem, e agir contra as suas ordens?

J – Sim, mas sei expiar a culpa. No que eu mais as ofendi, foi no salto de Beaurevoir, do que lhes
pedi perdão, assim como de outras ofensas que eu possa ter cometido contra elas.

J de La F – Santa Catarina e Santa Margarida tomarão vingança corporal por aquela ofensa?

J – Não sei; não lhes perguntei.

J de La F- Dissestes, outro dia, que, por dizer a verdade, a gente às vezes é enforcada. Sabeis existir
em vós algum crime ou falta, pelo qual pudésseis ou devêsseis morrer, se o confessásseis?

J – Não.

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6° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

17 DE MARÇO

CELA DE JOANA

51 PERGUNTAS

1 ----- discussões sobre o juramento de dizer a verdade antes dos interrogatórios iniciarem

4 ----- questões sobre as roupas de homem

19 ----- questões sobre as Vozes e santos

20 ----- questões sobre os anéis, as armas, estandarte , árvore das fadas, nomes nas cartas, coisas que
segundo os clérigos seriam afortunadas etc

4 ----- geral

4 ----- questões sobre a submissão de Joana à Igreja Militante

Pierre Cauchon – Deveis prestar juramento de dizer a verdade, sobre o que vos for perguntado com
relação ao vosso processo.

J – Juro.

Jean de La Fontaine – (designado por PC) – Em que forma e espécie, grandeza e traje São Miguel
aparece?

J – Ele apareceu na forma de um verdadeiro gentil homem. Do traje e de outras coisas, não direi
nada. Quanto aos anjos, eu os vi com os meus próprios olhos, e não tereis mais nada de mim. Creio
tão firmemente nas palavras e feitos de São Miguel que me apareceu, como creio que Nosso Senhor
Jesus Cristo sofreu morte e paixão por nós. E o que me faz crer nele é o bom conselho, o conforto e
a boa doutrina que ele me trouxe e me ofereceu.

J de La F – Quereis vos colocar sob a determinação as santa madre Igreja, por todos os vossos atos
e palavras, sejam bons ou maus?

J – Quanto à Igreja, eu a amo e desejaria sustenta-la com todo o meu poder, pela nossa fé cristã, e
não é a mim que se deva impedir de ir à igreja e de ouvir missa. Quanto às boas obras que fiz e à
minha vinda, entrego-me a Deus, que me enviou a Carlos, filho de Carlos, rei de França, e que era
rei de França. E vereis que os franceses vencerão logo uma grande empresa que Deus lhes mandará,
fazendo estremecer todo o reino de França. Eu o digo para que, quando isso acontecer, todos
lembrem o que eu disse.

J de La F – Quando isso acontecerá?

J – Quanto a isso, espero em Deus.

J de La F – Vós vos entregais, por vossas palavras e obras, à determinação da Igreja?

J – Entrego-me a Deus que me enviou, a Nossa Senhora e a todos os santos e santas do Paraíso. E a
mim parece que Deus e a Igreja são a mesma coisa, não se devendo criar dificuldade. Por que criais
dificuldade sobre isso?

J de La F – Há uma Igreja triunfante, onde estão Deus, os santos e as almas já salvas; e há uma
Igreja militante, na qual está o papa, vigário de Deus na Terra, os cardeais, os prelados e o clero, e
todos os bons cristãos e católicos. Essa Igreja em ordenada não pode errar e é governada pelo
Espírito Santo. Pergunto-vos se desejais vos submeter à Igreja militante, a saber, àquela que está na
Terra e que foi assim explicada.

J – Vim ao Reino de França da parte de Deus, da parte da Virgem Maria e de todos os benditos
santos e santas do Paraíso, e da Igreja vitoriosa do Céu, e por sua ordem. A essa Igreja submeto
todos os meus bons atos, e tudo o que fiz ou farei.

J de La F – Vós vos submeteis à Igreja militante?

J – Não vos responderei agora outra coisa.

J de La F – Que dizeis do traje feminino que vos é oferecido, para que possais ir ouvir missa?

J – Quanto ao traje feminino, não o vestirei ainda, enquanto agradar a Deus. E se eu tiver que trocar
o meu traje para o julgamento, peço aos senhores da Igreja que me concedam a graça de ter uma
veste de mulher e uma touca para a cabeça. Prefiro morrer do que desfazer o que Nosso Senhor me
mandou fazer, e creio firmemente que Nosso Senhor não permitirá que eu seja posta tão baixo que
não tenha socorro de Deus, por milagre.

J de La F – Já que dizeis que usais roupa de homem por ordem de Deus, por que pedis roupa de
mulher, em artigo de morte?

J – É suficiente, para mim, que ela seja longa.


J de La F – Vossa madrinha, que viu as fadas, é tida por mulher sensata?

J – É tida e reputada como boa mulher, não adivinha ou feiticeira.

J de La F – Dissestes que vestiríeis roupa de mulher, se a deixássemos ir e fosse do agrado de Deus?

J – Se me deixassem ir embora em roupas de mulher, eu logo vestiria roupa de homem e faria o que
me é ordenado por Deus. Já respondi assim, em outra ocasião. Não faria por nada o juramento de
não me armar e portar traje masculino, para cumprir a ordem de Nosso Senhor.

J de La F – Falai-me da idade e das vestes de Santa Catarina e Santa Margarida.

J – Já vos foi respondido o que teríeis de mim, e não tereis outra coisa. E eu vos respondi o mais
certo que eu sei.

J de La F – Acreditáveis, antes deste dia, que as fadas fossem maus espíritos?

J – Nada sei disso.

J de La F – Sabeis que Santa Catarina e Santa Margarida odeiam os ingleses?

J – Elas amam o que Deus ama e odeiam o que Deus odeia.

J de La F – Odeia Deus os ingleses?

J – Do amor ou ódio que Deus tenha pelos ingleses, ou do que Deus fará quanto às suas almas, nada
sei; mas sei que eles serão expulsos da França, excetuados os que aí morrerão, e que Deus enviará
vitória aos franceses, contra os ingleses.

J de La F – Deus estava a favor dos ingleses, quando eles obtinham sucesso na França?

J – Não sei se Deus odiava os franceses; mas creio que ele desejava permitir que eles fossem
batidos pelos seus pecados, se eles estavam em pecado.

J de La F – Que segurança e que socorro esperais ter de Deus, por usardes roupa de homem?

J – Tanto do traje, quanto das outras coisas que fiz, não espero outro prêmio a não ser a salvação da
minha alma.

J de La F – Que armas oferecestes a Saint Denis, em França?

J – Uma armadura branca completa para um homem de armas, e uma espada que ganhei diante de
Paris.
J de La F – Por que a oferecestes?

J – Foi por devoção, como é costume dos homens de armas, quando são feridos. Porque eu fui
ferida diante de Paris, eu as ofereci a Saint Denis, visto que é o brado de guerra da França.

J de La F – Foi para que as gentes adorassem essas armas?

J – Não.

J de La F – Para que serviam as cinco cruzes que estavam na espada que achastes em Santa Catarina
de Fierbois?

J – Nada sei.

J de La F – Que vos levou a mandar pintar os anjos com braços, pernas e vestimentas, no vosso
estandarte?

J – Já tivestes resposta.

J de La F – Fizestes pintar os anjos que vos aparecem?

J – Eu os fiz pintar como são pintados nas igrejas.

J de La F – Nunca os vistes como foram pintados?

J – Não vos direi mais nada.

J de La F – Por que não fizestes pintar a claridade que vem a vós, com os anjos ou as Vozes?

J – Isso não me foi ordenado.

No mesmo dia, à tarde.

J de La F – Os dois anjos pintados no vosso estandarte representavam São Miguel e São Gabriel?

J – Eles não estavam ali senão em honra de Deus, que estava pintado no estandarte. Não mandei
fazer essa representação dos dois anjos senão em honra de Deus, que ali estava representado,
segurando o mundo.

J de La F – Esses dois anjos, que estavam pintados no estandarte, eram os guardiães do mundo? Por
que não eram mais numerosos, visto que fora ordenado por Nosso Senhor que tomásseis aquele
estandarte?
J – Todo o estandarte foi ordenado por Deus, por intermédio de Santa Catarina e Santa Margarida,
que me disseram: “Tomai o estandarte, da parte do Rei do Céu”. E porque elas me disseram isso, eu
mandei pintar nele a figura de Nosso Senhor e dos dois anjos, em cor. E fiz tudo por ordem de
Deus.

J de La F – Perguntastes, então, às duas santas, se em virtude daquele estandarte, ganharíeis todas as


batalhas em que vos empenhásseis, e se teríeis vitórias?

J – Elas me disseram que o empunhasse ousadamente e que Deus me ajudaria.

J de La F – Quem ajudava mais, o estandarte a vós, ou vós ao estandarte?

J – Da vitória minha, ou do estandarte, tudo pertencia a Deus.

J de La F – Estava a esperança de vencer fundada no estandarte, ou em vós mesma?

J – Fundava-se em Deus, essa esperança, e não em outra coisa.

J de La F – Se outra pessoa o empunhasse, teria ele a mesma sorte que vós?

J – Não sei, entrego-me a Deus.

J de La F – Se alguém do vosso partido vos entregasse o próprio estandarte, o teríeis empunhado? E


teríeis posto nele uma tão boa esperança como no vosso, que vos fora ordenado por Deus? E o
estandarte do vosso rei? Chegastes a empunhá-lo?

J – Eu empunharia com mais boa vontade aquele que me fora ordenado por Deus. Todavia, de tudo
eu me entregava a Deus.

J de La F – Para que servia o sinal que colocáveis em vossas cartas: Jesus-Maria?

J – Os clérigos que escreviam minhas cartas o colocavam. E alguns diziam que era conveniente que
eu pusesse esses dois nomes: Jesus-Maria.

J de La F – Não vos foi revelado que, se perdêsseis vossa virgindade, perderíeis a boa fortuna e as
Vozes não viriam mais a vós?

J – Isso não me foi revelado.

J de La F – Se fôsseis casada, acreditais que as Vozes viriam a vós?

J – Não sei; quanto a isso, entrego-me a Deus.


J de La F – Pensais e firmemente acreditais que vosso rei agiu bem matando monsenhor, o duque da
Borgonha?

J – Foi um grande dano para o Reino de França; e, qualquer coisa que tenha havido entre os dois
príncipes, Deus me enviou em socorro do rei de França.

Pierre Cauchon – (intervindo no interrogatório) – Dissestes a mim e aos meus delegados que nos
respondeis como faríeis ao nosso Santo Padre, o papa; todavia, há muitas perguntas às quais não
quisestes responder. Responderíeis mais amplamente ao papa do que o fazíeis a nós?

J – Responde a tudo tão verazmente quanto pude. E se eu souber alguma coisa que me venha à
memória e que eu não tenha respondido, eu o direi de boa vontade.

J de La F – Não vos parece que estaríeis obrigada a responder a verdade a nosso senhor o papa,
vigário de Deus, sobre tudo o que vos for perguntado, tocante à fé e à vossa consciência?

J – Peço-vos que me levem perante nosso senhor, o papa, e então eu responderei, diante dele, tudo o
que eu deva responder.

J de La F – De que matéria era um de vossos anéis, sobre o qual estavam escritas as palavras Jesus-
Maria?

J – Não sei exatamente; se ele era de ouro, não era ouro fino; na verdade, não sei se era de ouro ou
de latão. Penso que sobre ele havia três cruzes, sem outro sinal, ao que me lembro, excetuados os
nomes Jesus-Maria.

J de La F – Por que gostáveis de olhar para esse anel, quando partíeis para a batalha?

J – Por prazer, e em honra de meu pai e minha mãe. E eu, tendo o anel na mão e em meu dedo,
toquei em Santa Catarina quando ela me apareceu.

J de La F – Tocastes em que parte de Santa Catarina?

J – Não vos direi mais nada.

J de La F – Alguma vez beijastes ou abraçastes Santa Catarina e Santa Margarida?

J – Eu abracei as duas.

J de La F – Elas cheiravam bem?

J – É bom saber que cheiravam bem.


J de La F – Abraçando-as, sentíeis calor ou outra coisa?

J – Não podia abraçá-las sem senti-las e tocá-las.

J de La F – Por que parte as abraçáveis, pela parte superior ou inferior?

J – É mais conveniente abraça-las por baixo do que pela parte de cima.

J de La F – Não lhes destes guirlandas ou chapéus de flores?

J – Em sua honra, muitas vezes coloquei essas guirlandas nas suas imagens, nas igrejas. Quanto às
que me aparecem, não lhes ofereci flores, ao que me lembre.

J de La F – Quando colocáveis guirlandas na árvore de que falastes, era em honra das santas que
vos aparecem?

J – Não.

J de La F – Quando aquelas santas vos apareciam, fazíeis reverência, inclinando-vos ou ajoelhando-


vos?

J – Sim, e quanto eu podia reverenciá-las eu o fazia, pois sei que são as que estão no reino do
Paraíso.

J de La F – Não sabeis nada dessas pessoas que vão pelo espaço com as fadas?

J – Nunca fiz isso, nem nada sei a respeito. Ouvi realmente falar disso, e que as pessoas faziam isso
na quinta-feira. Mas não acredito nisso e penso que se trata de feitiçaria.

J de La F – Alguém fez flutuar vosso estandarte em redor da cabeça de vosso rei, quando ele foi
coroado, em Reims?

J – Não, que eu saiba.

J de La F – Por que vosso estandarte foi levado à igreja de Reims, na sagração do vosso rei, e não o
dos outros capitães?

J – Ele enfrentara o sofrimento: era razão suficiente para que tivesse a honra.

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REUNIÃO DE PIERRE CAUCHON E ASSESSORES

18 DE MARÇO
RESIDÊNCIA DE PIERRE CAUCHON EM RUÃO

“Pierre Cauchon tomou a palavra e explicou que JOANA havia sido interrogada durante vários dias,
e que ele estava de posse das atas desses interrogatórios. Solicitou aos assessores o exame desses
documentos e a manifestação deles, sobre a melhor maneira de proceder ulteriormente na causa. No
dia 22 de março eles deviam dar o seu parecer. Nesse meio tempo, seriam elaborados os artigos
precisos de acusação, que oportunamente deveriam ser apresentados contra JOANA.”

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REUNIÃO DE PIERRE CAUCHON E ASSESSORES

22 DE MARÇO

RESIDÊNCIA DE PIERRE CAUCHON EM RUÃO

“Conferenciaram os presentes, sendo resolvido que se condensariam os artigos que tinham sido
extraídos dos interrogatórios e que deveriam ser examinados pelos mestres e doutores. Se fosse
necessário interrogar JOANA sobre alguma coisa fora desses artigos, isso seria feito, de tal modo
que o caso “fosse conduzido em louvor de Deus e exaltação da fé, de tal modo que o processo não
sofresse nenhum vício”.”

Jean Le Maistre, delegado do Inquisidor, esteve presente nas duas reuniões.

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7° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

24 DE MARÇO

CELA DE JOANA

NESSA AUDIÊNCIA FOI FEITA A LEITURA DO REGISTRO DOS INTERROGATÓRIOS

Jean d’Estivet – Antes que seja feita a leitura, declaro-me disposto a provar a veracidade do que se
contém nesse registro, no caso em que JOANA queira negar alguma coisa.

Joana – Juro que nada acrescentarei às minhas respostas que não seja verdade.
O escrivão Guillaume Manchon inicia a leitura, JOANA o interrompe, quando ele chega à questão
sobre o seu nome:

J – Meu sobrenome é D’Arc ou “Romée”. Na minha terra as filhas usam o sobrenome da mãe.
Prossiga a leitura das perguntas e respostas: o que for lido sem que eu o contradiga, deve ser tido
por verdadeiro e confessado.

Quando Guillaume Manchon chega ao ponto em que se tratava de saber se JOANA voltaria a usar
roupas femininas, ela o interrompe novamente, aditando sua resposta anterior:

J – Trazei-me roupa de mulher, para eu ir a casa da minha mãe, e eu a aceitarei. É para estar fora da
prisão. Quando eu estiver fora, eu me aconselharei sobre o que deva fazer.

Terminada a leitura ela diz:

J – Creio ter falado como consta desse registro e como foi lido. Não contesto nada do que neles se
contém.

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8° AUDIÊNCIA NA PRISÃO

25 DE MARÇO

CELA DE JOANA

5 PERGUNTAS

5 ----- questões sobre as roupas de homem

2 ----- questões sobre as Vozes e santos

Pierre Cauchon – Muitas vezes, JOANA, e principalmente ontem, pedistes que vos fosse concedido,
por causa da solenidade destes dias e do tempo, ouvir missa neste Domingo de Ramos. Se vos
concedermos essa graça, deixaríeis esse traje de homem e vestiríeis roupa de mulher, como estáveis
acostumada, no lugar em que nascestes, e como as mulheres da vossa terra estão acostumadas a
vestir?
J – Eu vos peço que me seja permitido ouvir missa nestes traje, e receber a Eucaristia na festa de
Páscoa.

PC – Respondei-me o que vos foi perguntado. Deixaríeis esse traje, se vos concedermos o que
pedis?

J – Ainda não tenho conselho sobre isso, e não posso, ainda, retomar aquelas vestes.

PC – Quereis ouvir vossas santas, se retomareis o traje de mulher?

J – Bem podíeis permitir que eu ouvisse missa assim como estou vestida, pois eu o desejo muito.
Não posso deixar este traje; essa decisão não está em mim.

Os assessores – Nós vos exortamos, JOANA, por tão grande bem e pela devoção que pareceis ter, a
vestir as roupas próprias do vosso sexo.

J – Não está em mim fazê-lo; se estivesse em mim, eu logo o faria.

PC – Falai às vossas Vozes, para saber se podeis tomar o traje feminino, e, assim, receber a
comunhão na Páscoa.

J – No que depende de mim, não receberei a comunhão tocando de traje. Peço-vos ouvir missa
como estou vestida. Esta roupa não pesa em minh’alma, e vesti-la não é contra a Igreja.

Jean d’Estivet – De tudo isto, peço um instrumento autêntico, na presença dos senhores e dos
mestres Adam Milet, secretário do rei, William Brolbster e Pierre Oriént, das dioceses de Ruão,
Londres e Châlons.

AQUI TERMINA O PROCESSO PREPARATÓRIO OU DE OFÍCIO, QUE TRANSCORREU DO


DIA 9 DE JANEIRO DE 1431 AO DOMINGO DE RAMOS, 25 DE MARÇO DE 1431.

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PROCESSO ORDINÁRIO

26 DE MARÇO DE 1431 ATÉ 24 DE MAIO DE 1431

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REUNIÃO DE PIERRE CAUCHON, JEAN LE MAISTRE E ASSESSORES

26 DE MARÇO

RESIDÊNCIA DE PIERRE CAUCHON EM RUÃO


“Decidiram os juízes, tendo em vista os elementos colhidos contra JOANA, no processo
preparatório, mover contra ela o processo ordinário.

O promotor Jean d’Estivet apresentaria, deduzido em artigos, o libelo acusatório.

JOANA seria ouvida sobre cada artigo, e se ela recusasse responder, o referido artigo seria tido por
confessado.

Ficou decidido que, no dia seguinte, JOANA seria ouvida sobre o libelo.”

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O LIBELO

27 E 28 DE MARÇO

SALA DO PARAMENTO DO CASTELO DE RUÃO

É LIDO O LIBELO DE JEAN D’ESTIVET COMPOSTO POR 70 ARTIGOS

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NOVA AUDIÊNCIA NA PRISÃO

31 DE MARÇO

CELA DE JOANA

5 PERGUNTAS

1 ----- questões sobre as Vozes e santos

4 ----- questões sobre a submissão de Joana à Igreja Militante

Pierre Cauchon – Desejais vos submeter ao julgamento da Igreja que está na Terra,
relativamente a tudo que dissestes ou fizestes, seja bem ou mal, especialmente os casos, crimes
ou delitos que vos são imputados, assim como tudo que toca ao vosso processo?

J – De tudo o que me pedis, eu me submeto à Igreja militante desde que ela não me ordena nada
impossível de fazer. Reputo impossível revogar o que eu fiz ou disse, declarado no processo, a
respeito das visões e revelações que eu declarei enviadas por Deus. Não o revogarei de forma
alguma. O que Deus me fez fazer, me ordenou e ordenará, não deixarei de fazer, por nenhum
homem vivo. No caso em que a Igreja pretenda que eu faça outra coisa, contrária à ordem que eu
disse ser de Deus, não o farei, por nada no mundo.

PC – E se a Igreja militante vos disser que vossas revelações são ilusões, coisas diabólicas ou
malignas, vós vos submeteríeis à Igreja?

J – Submeto-me sempre a Deus, a cuja ordem sempre obedecerei. Sei perfeitamente que aquilo que
está no meu processo aconteceu por ordem de Deus. O que eu afirmo no processo ter feito por
ordem de Deus, teria sido para mim impossível fazer o contrário. Se a Igreja militante me ordenar
fazer o contrário, não me submeterei a homem do mundo, mas a Deus, pois sempre cumpri a boa
ordem de Deus.

PC – Credes que estais sujeita à Igreja da Terra, a saber, ao papa, aos cardeais, arcebispos,
bispos e outros prelados da Igreja?

J – Sim, Deus sendo servido em primeiro lugar.

PC – Tendes ordem de vossas Vozes para não vos submeter à Igreja militante, que está na
Terra, nem ao seu julgamento?

J – Nada respondo da minha cabeça, mas por ordem delas. Elas não me ordenaram que eu não
obedeça à Igreja, Deus servido em primeiro lugar.

PC – No castelo de Baurevoir, em arras, ou em outro lugar, tínheis limas convosco?

J – Se as encontraram comigo, não tenho o que vos responder.

DELIBERAÇÕES DOS JUIZES

RESOLVEM REDUZIR O LIBELO A 12 ARTIGOS E NO DIA 5 DE ABRIL CAUCHON OS


ENVIOU À CONSIDERAÇÃO DE TEÓLOGOS, DOUTORES E PERITOS, PARA QUE ELES
OFERECESSEM SEUS CONSELHOS E DELIBERAÇÕES.

RESUMO DOS DOZE ARTIGOS DO LIBELO


1 – As vozes de Joana, na sua infância. A árvore das fadas. As santas. A missão de
Joana. O traje masculino. A conduta desonesta. O fato de dizer-se enviada por Deus.
A recusa de submeter-se à Igreja. A certeza da salvação.
2 – A afirmação de Joana sobre o anjo que levou o sinal (a coroa) ao rei.
3 – O fato de Joana reconhecer São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida e,
acreditar que eram eles realmente, como acreditava que Jesus sofreu e morreu pela
nossa redenção.
4 – As revelações das quais Joana se jactava, reconhecimento de pessoas e coisas
ocultas, o que ela atribuía às vozes.
5 – A insistência em usar roupas masculinas.
6 – O uso do sinal da cruz e das palavras Jesus-Maria em suas cartas. As ameaças
nelas contidas. A afirmação de que tudo fazia por ordem de Deus.
7 – A desobediência aos pais. O que ela disse ao Rei.
8 – O salto da torre de Beaurevoir. A certeza de haver sido perdoada.
9 – A afirmação de que Santa Catarina e Santa Margarida prometeram levá-la ao
paraíso, se ela, conservasse a virgindade, conforme o voto feito.
10 – A declaração de que Deus amava determinadas pessoas deste mundo. A
declaração de que as santas falam francês e não inglês, porque não são do partido dos
ingleses. Quando ela soube que as vozes eram a favor dos franceses, deixou de amar
os borguinhões.
11 – A crença de Joana nas suas visões e sua devoção para com elas.
12 – A desobediência de Joana à Igreja.

O PARECER DOS DOUTORES (16 DOUTORES E 6 LICENCIADOS E BACHARÉIS EM


TEOLOGIA)

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A EXORTAÇÃO DE 18 DE ABRIL

CELA DE JOANA

12 PERGUNTAS

6 ----- questões sobre a submissão de Joana à Igreja Militante

3 ----- geral

Os juízes, já tendo recebido as respostas dos doutores e mestres, vão à cela de JOANA, para
lhe dirigir uma “caridosa exortação”. JOANA estava doente, e foi Pierre Cauchon quem lhe dirigiu
a palavra, rememorando o decorrer do processo e declarando que muitas coisas, ditas e confessadas
por ela, eram perigosas para a fé, no juízo dos mestres e doutores. Como ela era pessoa iletrada e
ignorante das escrituras, ele lhe indicaria, dentre os presentes, algumas pessoas para instruí-la, e se
ela conhecesse outros, capazes para essa missão, seriam trazidos para aconselhá-la. A missão dele e
dos demais era esforçar-se para a salvação da sua alma e do seu corpo. Ele ficaria contente de lhe
fornecer tais conselheiros, todos os dias, para que fosse feito tudo o que a Igreja em tal caso,
costumava fazer, para que ela voltasse ao seu seio. Se ela preferisse conduzir-se por si mesma, seria
abandonada, e correria grande risco.

J – Agradeço o que dizeis, para minha salvação. A mim parece, dada a doença que tenho, que estou
em grande perigo de morte. E se assim é que Deus quer dispor de mim, eu vos peço para ter
confissão e comunhão, e ser enterrada em terra santa.

PC – Se desejais ter os sacramentos da Igreja, seria necessário que vos confessásseis como boa
católica e vos submetêsseis à Igreja. Se perseverardes no vosso propósito de não vos submeterdes à
Igreja, não vos poderemos administrar os sacramentos que pedis, salvo o de penitência (confissão),
que estamos prontos a vos conceder.

J – Não saberia vos dizer mais nada.

PC – Tanto mais temeis por vossa vida, por causa da doença, tanto mais deveríeis corrigir vossa
vida. Não tereis os direitos da Igreja, como católica, se não vos submeteis à Igreja!

J – Se meu corpo morrer na prisão, confio em que o fareis enterrar em terra santa. Se não o fizerdes,
entrego-me a Nosso Senhor.

PC – Dissestes, no vosso processo, que se tivésseis feito ou dito qualquer coisa que fosse contra a
nossa fé cristã, ordenada por Nosso Senhor, não a desejaríeis manter.

J – Eu me reporto ao que disse, então, e ao Senhor.

PC – Dissestes ter tido, muitas vezes, revelações de Deus por São Miguel, Santa Catarina e Santa
Margarida. Se aparecesse uma boa criatura, dizendo ter tido revelações a vosso respeito,
acreditaríeis?

J – Não há ninguém, no mundo, que pudesse vir a mim, dizendo ter tido revelações, que eu não
soubesse se dizia a verdade ou não. Eu o saberia, por Santa Catarina e Santa Margarida.

PC- Não pensais que Deus possa revelar algo a uma boa criatura, que a vós mesma seja oculto?

J – É bom saber que sim; mas eu não acreditaria em homem ou mulher, se não tivesse um sinal.
PC – Acreditais que a Santa Escritura foi revelada por Deus?

J – Vós os sabeis muito bem, e é bom saber que sim.

PC – Nós vos exortamos, intimamos e exigimos que tomeis o bom conselho dos padres e doutores,
e acrediteis nele, para a salvação da vossa alma! Quereis submeter vossos ditos e fatos à Igreja
Militante?

J – Qualquer coisa que deva me acontecer, não farei ou direi outra coisa do que já disse no
processo.

PC – Nós vos exortamos a submeter vossos ditos e fatos à Igreja Militante!

Um assessor – (após a exortação de outros presentes) – Nós vos exortamos a submeter vossos ditos
e fatos à Igreja Militante. Está escrito em São Mateus, capítulo XVII: “Se teu irmão pecou contra ti,
vai falar com ele, a sós. Se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão”. E depois: “Se ele recusa te ouvir
diz isso à Igreja; e se ele recusar a ouvir a Igreja, que ele seja para ti como um pagão ou publicano”.
Se não desejais vos submeter à Igreja e obedecer a ela, será necessários que vos abandonemos,
como a uma sarracena.

J – Sou boa cristã, e bem batizada, e morrerei como boa cristã.

PC – Posto que pedis para receber a Eucaristia, quereis vos submeter à Igreja militante? Se o
fizerdes, prometo que vos será ministrado esse sacramento.

J – Dessa submissão, não vos direi outra coisa. Amo o Senhor, eu o sirvo e sou boa cristã. Desejaria
ajudar e sustentar a Igreja como todo o meu poder.

PC – Não desejais que seja ordenada uma bela e notável procissão, para que retorneis a um bom
estado, se não estais nele?

J – Quero muito que a Igreja e os católicos orem por mim.

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A ADMOESTAÇÃO DE 2 DE MAIO

SALA DO PARAMENTO NO CASTELO DE RUÃO

PIERRE CAUCHON DISCURSO E DEPOIS JOANA É INTRODUZIDA NO RECINTO

22 PERGUNTAS
8 ------ questões sobre a submissão de Joana à Igreja Militante

1 ----- geral

Perante essa assembleia, Pierre Cauchon toma a palavra e pronuncia longo discurso, que é
por nós resumido:

PC – Depois que Joana foi devidamente interrogada e respondeu aos artigos apresentados
pelo promotor, transmitimos seus fatos e dizeres, em artigos precisos (os doze artigos), a eminentes
doutores, para o seu parecer. Logo, de acordo com a opinião deles, achamos que, em muitos pontos,
JOANA é culpada, ainda que isso não esteja por nós definitivamente estabelecido. Pareceu a muitos
que deveríamos tentar, por todos os meios, trazê-la ao bom caminho. Era esse o nosso desejo, e
ainda é. Com o auxílio de vários doutores em teologia, tentamos, ora com uns, ora com outros,
trazê-la ao bom caminho, reconduzi-la à verdade. Prevalecendo, no entanto, a astúcia do diabo, eles
nada puderam conseguir. Pareceu-nos, logo que verificamos que admoestações privadas não
surtiam efeitos, que convinha trazê-la perante vós, solenemente reunidos, para que ela seja
admoestada, com doçura e caridade, sobre o seu arrependimento. Talvez vossa presença, e uma
exortação feita por diversas pessoas, possa mais facilmente induzi-la à humildade e â obediência.
Para essa admoestação designamos mestre Jean de Châtillon, arcediago de Evreux, antigo e douto
teólogo, particularmente perito em tais matérias. Se qualquer de vós, porém, quiser dizer qualquer
coisa, para o bem de JOANA, rogamos que não deixe de se dirigir a nós, ou a assembleia.

JOANA é introduzida no recinto.

PC – (dirigindo-se a ela) – Deveis aquiescer aos conselhos e advertências que vos serão
dirigidas por monsenhor Jean de Châtillon, para a salvação da vossa alma e do vosso corpo; se não
o fizerdes, correreis grande perigo, quanto ao corpo e quanto à alma.

Jean de Châtillon – Todos os fiéis de Cristo estão obrigados a manter a fé cristã e os artigos
de fé. Eu vos advirto e reclamo que vos corrijais e emendeis, vós e vossos atos, segundo a
deliberação dos doutores.

J – Lêde vosso livro (a cédula que o arcediago segurava) e depois vos responderei. De tudo
descanso em Deus, meu criador, eu O amo de todo o coração.

J de C – Não quereis responder mais longamente à admoestação geral que vos fiz?

J – Confio em meu juiz: é o Rei do Céu e da Terra.

Jean de Châtillon passa, então, a ler a cédula que tem em mãos, traduzindo-a do latim para o
francês. Os doze artigos tinham sido resumidos em apenas seis, que são lidos. São as mesmas
acusações, em um estilo severo, terminando cada artigo por uma admoestação. Malgrado sua
extensão, convém transcrever pelo menos o item II desta cédula que, segundo nota o Pe. François
Marie Lethel (op. Cit. Pág.186) torna bastante explícita a eclesiologia dos universitários parisienses,
dentro daquele espírito de totalitarismo eclesiástico, a que ele se referiu:

“II - ...ele lhe expôs, como relativamente às revelações e aparições que ela afirma ter tido,
ela não quer se submeter à Igreja militante, nem a homem nenhum, mas só a Deus. Declarou-lhe, a
respeito disso, o que é a Igreja militante, e que autoridade recebe de Deus e em que essa autoridade
reside; e como todo cristão é obrigado a crer que há somente uma santa Igreja católica, que é
sempre regida pelo Espírito Santo e jamais erra ou falha; à qual, também, todo católico é obrigado a
obedecer como um filho à mãe e submeter ao seu julgamento todas as suas palavras e atos.
Ninguém, quaisquer que sejam as revelações e aparições que tenha, não deve por isso subtrair-se ao
julgamento da Igreja, quando até os apóstolos submeteram seus escritos à Igreja. Toda a Escritura,
que foi revelada por Deus, nos é dada para crer nela por nossa mãe, a Igreja, que é a regra infalível,
à qual devemos nos conformar em tudo, sem cisma ou qualquer divisão, assim como em várias
passagens ensinou o apóstolo Paulo. Mesmo uma revelação feita por Deus sempre induz a observar
a obediência e humildade com relação aos superiores e à Igreja, e nunca ao contrário, e não quer o
Senhor que alguém ou se dizer-se submetido somente a Deus, e a Ele somente submeter suas
palavras e seus atos. Ao contrário. Ele cometeu aos clérigos a autoridade e o poder para conhecer e
julgar os atos dos fiéis, sejam bons, sejam maus; e quem os despreza, despreza Deus, e quem os
escuta, escuta Deus. Finalmente, (J de C) exortou JOANA a crer que a dita Igreja católica não pode
errar, nem julgar alguém injustamente; quem não crê nisso, erra contra o artigo de fé “Uma só santa
Igreja, etc...”, que foi explicado a JOANA; e se alguém permanece irredutível nisso, deve ser tido
como herético. Ela foi advertida, igualmente, para submeter todas as suas palavras e atos, pura e
simplesmente, à nossa santa mãe, a Igreja, pois quem não o faz é cismático e mostra que pensa mal
sobre a santidade da mesma Igreja e sua infalível direção pelo Espírito Santo. E o arcediago
explicou as graves penas que as disposições canônicas infligem aos que se desviam dessa maneira.”

Terminada a leitura de toda a cédula, JOANA declara:

J – Quanto aos artigos I e II que acabastes de ler (sobre sua promessa de corrigir qualquer
coisa que fosse achada de errado em seus ditos e fatos, e como vimos, sobre a necessidade de sua
submissão à Igreja), eu vos respondo como antigamente já respondi.

J de C – Já vos foi explicado o que é a Igreja militante, e fostes admoestada para crer e
manter o artigo Unam Sanctam Eclesiam..., e para vos submeter à Igreja militante.
J – Eu creio na Igreja aqui da Terra; mas dos meus fatos e ditos, como já disse
anteriormente, eu me entrego a Deus. Creio que a Igreja militante não pode errar ou enganar-se;
mas, quanto aos meus ditos e fatos, eu os submeto todos a Deus, que me fez fazer o que fiz. Eu me
submeto a Deus, meu Criador, que me fez agir assim. Submeto-me a Ele, à sua própria Pessoa!

J de C – Quereis dizer que não tendes juiz na Terra, e que nosso Santo Padre, o papa, não é
vosso juiz?

J – Nada mais direi sobre isso. Tenho um bom mestre, Deus, em quem confio para tudo, e
em ninguém mais.

J de C – Se não quereis crer na Igreja e no artigo Ecclesiam sanctam catholicam, sereis


considerada herética, e sofrereis a punição do fogo, pela sentença de outros juízes.

J – Não vos direi outra coisa. E se eu visse o fogo, diria o que vos digo, e não faria outra
coisa.

J de C – Se o concílio geral, como o nosso Santo Padre, os cardeais ou outras pessoas da


igreja estivessem aqui, vós vos submeteríeis?

J – Não tirareis sobre isso outra coisa de mim.

J de C – Quereis vos submeter a nosso Santo Padre, o papa?

J – Levai-me a ele, e a ele eu responderei. Não vos direi mais nada.

J de C – E quanto à roupa masculina? (Lê, novamente, os artigos III e IV da cédula).

J – Eu bem queria vestir um vestido longo, e ter um chapéu de mulher, para ir à Igreja e
receber o sacramento da Eucaristia, como já respondi da outra vez, desde que, depois, eu tirasse
essa roupa e retomasse a que uso agora.

J de C – Usais a roupa de homem sem necessidade, especialmente depois que fostes presa.

J – Depois que eu tiver feito aquilo para que fui enviada, por Deus, vestirei roupa de mulher.

J de C – Acreditais agir bem, usando essa roupa?

J – Entrego-me a Nosso Senhor.

J de C – Quando dizeis que fazeis bem e não pecais, usando essa roupa, e que Deus e os
santos é que vos fazem usá-la, blasfemais, como foi dito na cédula, errais e agis mal.
J – Não blasfemo Deus, nem seus santos!

J de C – Nós vos admoestamos, para que deixeis essa roupa, e para que deixeis de crer que
fazeis bem ao usá-la, e para que retomeis a roupa de mulher.

J – Sobre isso, nada farei, além do que já disse.

J de C – Cada vez que Santa Catarina e Santa Margarida vêm a vós, fazeis o sinal da cruz?

J – Algumas vezes faço, outras não.

J de C- E quanto às vossas revelações, de que trata o artigo V da cédula?

J – Entrego-me a meu Juiz, isto é, a Deus. Minhas revelações vem de Deus, sem outro
intermediário.

J de C – Em relação ao sinal que destes ao rei, gostaríeis de vos submeter ao testemunho do


arcebispo de Reims, do senhor de Boussac, de Carlos de Bourbon, do senhor de La Trémouille e de
Étienne, chamado La Hire, ou ao testemunho de outros do vosso partido?

J – Dai-me um mensageiro e eu lhes escreverei sobre este processo; de outro modo, não
quero crer, nem me sujeitar ao testemunho deles.

J de C – E quanto à vossa presunção de anunciar, por adivinhação, acontecimentos futuros,


de acordo com o artigo VI da cédula?

J – Entrego-me a meu juiz, a Deus, e reporto-me ao que já respondi e consta do processo.

J de C – Se nós vos enviássemos dois, três ou quatro cavaleiros do vosso partido, que viriam
sob salvo-conduto, submeteríeis a eles vossas aparições e o mais que se contém neste processo?

J – Fazei com que eles venham, e depois vos responderei. De outro modo, não quero me
sujeitar a eles, nem submeter-me quanto a este processo.

J de C – Á Igreja de Poitiers, onde fostes examinada, quereis vos confiar e submeter?

J – Acreditais cativar-me por essa forma, e assim atrair-me a vós?

J de C – Em conclusão e de novo vos admoestamos, em geral, para vos submeterdes à


Igreja, sob pena de serdes abandonada por ela. Se a Igreja vos deixa, correreis grande perigo, no
corpo e na alma; quanto á alma, o fogo eterno; quanto ao corpo, o fogo temporal, por sentença de
outros juízes.
J – Não agireis como dizeis, contra mim sem que vos sobrevenha mal, ao corpo e à alma.

J de C – Dizei uma só razão, pela qual nãos quereis vos submeter à Igreja.

J – Não quero dar outra resposta.

(Os assessores reforçam a admoestação de Jean de Châtillon, mas JOANA responde do


mesmo modo.)

Pierre Cauchon – (falando a JOANA) – Tomai cuidado; pensai bem sobre as advertências e
admoestações, e mudai vosso pensamento.

J – Quanto tempo tenho para pensar?

PC – Pensai agora e responderei o que desejardes.

(Como JOANA nada respondesse, foi reconduzida à prisão.)

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A AMEAÇA DE TORTURA

9 DE MAIO

A GRANDE TORRE DO CASTELO DE RUÃO

4 PERGUNTAS

2 ----- questões sobre as Vozes e santos

1 ----- questões sobre o sinal dado ao rei

Pierre Cauchon – Nós vos admoestamos e exigimos que faleis a verdade sobre numerosos
pontos do vosso processo, sobre os quais respondestes mentirosamente, uma vez que temos sobre
eles informações certas, provas e presunções veementes.

(Foi feita a leitura desses pontos.)

PC – Se não declarardes a verdade sobre esses pontos, sereis sujeita à tortura.

(Mostraram a JOANA os instrumentos de tortura e os homens que os usariam, “para trazê-la


à via e ao conhecimento da verdade, a fim de que, por esse meio, fosse possível alcançar a salvação
da sua alma e do seu corpo, que por suas invenções mentirosas ela expunha a graves perigos”.)
J – Na verdade, se deveis fazer arrancar meus membros e minha alma partir do meu corpo,
não vos direi outra coisa. E se outra coisa eu disser, direi sempre, depois, que me obrigastes a dizer
pela força.

PC – Depois do outro dia, ouvistes vossas Vozes?

J – No dia da Santa Cruz (3 de maio), tive a consolação de São Gabriel. Acreditei que foi
São Gabriel. Soube que era ele, pelas minhas Vozes.

PC – Pedistes conselho às vossas Vozes?

J – Pedi conselho às minhas Vozes, para saber se me submeteria à Igreja, pois que as
pessoas da Igreja me pressionavam muito para que eu me submetesse. Elas me disseram que, se eu
quisesse que Deus me ajudasse, que eu me entregasse a Ele, por todos os meus atos. Sei bem que
Nosso Senhor sempre foi o senhor dos meus atos, e que o diabo jamais teve poder sobre eles.
Perguntei às Vozes se eu seria queimada, e elas me disseram para confiar em Deus, que ele me
ajudará.

PC – Sobre o sinal da coroa que dissestes ter dado ao arcebispo de Reims, quereis que o
consultemos?

J – Fazei com que ele venha até aqui e que ele fale, e então vos responderei. Ele não ousará
dizer o contrário do que eu vos disse.

PC – (dirigindo-se aos circunstantes) – Considerados a obstinação desta mulher e seus


modos de responder, temo que a tortura lhe seja de pouco proveito. Decido sustar a sua aplicação,
até que tenha sobre isso mais amplo conselho.

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A DELIBERAÇÃO SOBRE A APLICAÇÃO DA TORTURA

12 DE MAIO

RESIDÊNCIA DE PIERRE CAUCHON

Ouvidos, por Pierre Cauchon, os pareceres dos assessores, apenas três deles (Thomas de
Courcelles, Nicolas Loiseleur e Aubert Morel) opinaram favoravelmente à aplicação da tortura em
JOANA. Pierre Cauchon decidiu, porém, que não era necessário, nem conveniente, submeter
JOANA à tortura.

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AS RESPOSTAS DA UNIVERSIDADE DE PARIS

19 DE MAIO

CAPELA DA CASA ARCEBISPAL DE RUÃO

Pierre Cauchon – Recebemos, recentemente, numerosas deliberações e pareceres de notáveis


doutores e mestres, sobre as asserções de JOANA. Com isso, poderíamos proceder até à conclusão
da causa. No entanto, para honrar e reverenciar nossa mãe, a Universidade de Paris, para ter um
esclarecimento mais amplo e mais preciso da matéria, para maior tranquilidade das consciências e
edificação de todos, decidimos ouvir nossa mãe, a Universidade, principalmente as Faculdades de
Teologia e de Direito Canônico. Faremos ler as suas conclusões, palavra por palavra; depois,
queremos a opinião dos senhores, sobre essas conclusões, além da que já ofereceram neste
processo.

São lidas, então, as respostas da Universidade.

Resumindo o texto muito extenso, eram as seguintes as conclusões da Faculdade de


Teologia:

RESUMO DAS CONCLUSÕES DA UNIVERSIDADE


I – As declarações de Joana sobre suas revelações e aparições eram mentiras
perniciosas, procedendo de espíritos malignos e diabólicos, belial, satã, behemoth.
II – As declarações sobre o sinal dado ao rei não eram verossímeis, tratando-se, antes,
de mentira presunçosa, corruptora, perniciosa e inventada, atentatória à dignidade
angélica.
III – As razões dadas por Joana, para o reconhecimento dos anjos e dos santos, não
eram suficientes, ela acreditava levianamente e afirmava com temeridade, dizendo
que acreditava nas suas visões com tanta firmeza quanto acreditava na fé de Jesus
Cristo. Ela errava na fé.
IV – As previsões de Joana eram superstição, adivinhações presunçosas e jactância.
V- Joana blasfemava contra Deus e desrespeitava seus sacramentos, dizendo que
usava roupas masculinas por sua ordem; ela se afasta da lei divina, da doutrina
sagrada e das leis eclesiásticas; ela é suspeita de idolatria e de consagração de sua
pessoa e de suas vestes aos demônios, imitando os ritos pagãos.
VI – As suas cartas em que usava as palavras Jesus-Maria e, às vezes, uma cruz, para
significar que as instruções ali contidas não deveriam ser seguidas, e nas quais se
vangloriava de que Deus lhe daria a vitória, mostravam que ela era traidora,
trapaceira, cruel, sedenta de sangue humano sediciosa, instigando a tirania e
blasfemando contra Deus.
VII – Ao deixar a casa dos seus pais, sem permissão, e ao dirigir-se a Robert de
Baudricourt, e depois ao Rei, a quem dissera que Deus a enviara para restituir-lhe o
seu reino, ela transgrediu o mandamento sobre o respeito devido aos pais, fora
escandalosa, blasfemando contra Deus, errando na fé e fazendo a promessa temerária
e presunçosa.
VIII – No episódio do salto da torre de Beaurevoir, encontra-se covardia que se torna
desespero e leva ao suicídio; a afirmação de que fora perdoada é presunçosa e
temerária; ela pensa mal sobre a doutrina do livre arbítrio.
IX – Acreditando não ter cometido pecado mortal e que os santos a levariam ao
paraíso, Joana era presunçosa e temerária, sua afirmação era uma mentira perniciosa.
X – A afirmação de que os santos eram favoráveis aos francesas, e que passara a não
gostar dos borguinhões, quando tomara conhecimento disso, era blasfêmia contra os
santos e transgressão do mandamento do amor ao próximo.
XI – A reverência que Joana tinha para com os seus santos, e sua crença de que eram
enviados por Deus, o voto de virgindade de que lhes fizera, tudo isso mostrava que
ela era idolatra, invocadora de demônios e que errara na fé e fizera um juramento
ilícito.
XII – A recusa de Joana a submeter-se à Igreja na terra, e a qualquer homem vivo, a
afirmação de que seria julgada por Deus, mostravam que ela era cismática, mal
pensante sobre a unidade e autoridade da Igreja, apóstata, e que até o momento errava
obstinadamente na fé.

As respostas da Faculdade de Direito Canônico iam pelo mesmo caminho. Deduzidas em


seis artigos, concluíam que JOANA era cismática, errava na fé, era herética, apóstata, mentirosa,
adivinha, presunçosa... Se JOANA, “advertida pelo juiz competente, não quiser voltar de boa
vontade à unidade da fé católica, abjurar publicamente seu erro, segundo a decisão do juiz, e
fornecer uma adequada reparação, será necessário abandoná-la à decisão do juiz secular para que
ela receba a punição decida à qualidade do seu crime”.

Os assessores, ouvidos um a um, manifestaram-se de acordo com as conclusões da


Universidade, diversos deles ressaltando que JOANA devia ser admoestada, uma vez mais; se ela
persistisse na desobediência à Igreja, deveria ser encerrada a causa e proferida a sentença. Os juízes
decidiram assim proceder, o que foi feito na quarta feira seguinte, dia 23.

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ADMOESTAÇÃO DE PIERRE MAURICE

23 DE MAIO

SALA DO CASTELO DE RUÃO, PRÓXIMA A CELA DE JOANA

1 PERGUNTAS

1 ----- Submissão à igreja

Pierre Cauchon mandou ler e explicar a JOANA as conclusões da Universidade de Paris, o


que foi feito por Pierre Maurice, eximium doctorem in sacra theologia. A seguir, ele dirige uma
exortação e admoestação a JOANA, solenemente, longamente, não sem emoção, ao que parece.

“JOANA, amiga muito cara, é tempo agora, no fim do vosso processo, de bem pesar o que
foi dito... Se bem que os juízes pudessem se contentar com as provas até aqui colhidas da vossa
culpa, ordenaram que fôsseis mais uma vez admoestada, que vos advertíssemos quanto aos vossos
erros, escândalos e outras faltas, rogando-vos, exortando, advertindo, pelas entranhas de Nosso
Senhor Jesus Cristo, que quis sofrer morte tão cruel para redimir o gênero humano, a fim de que
corrijais vossos ditos, submetendo-os ao julgamento da Igreja. Que o respeito humano não vos
domine, não vos retenha, em razão de que estivestes em grandes honras que pensais perder, agindo
como eu digo. No domínio do vosso rei, se um cavaleiro se levantasse e dissesse: “Não obedecerei
ao rei e não me submeterei a nenhum dos seus oficiais” – não teríeis achado que era necessário
condená-lo? Que direis de vós mesma, que fostes criada na fé de Cristo, se não obedeceis aos
oficiais do Cristo, isto é, aos prelados da Igreja? Eu vos exorto, pela reverência que dedicais à
Paixão do vosso Criador, emendai vossos erros, retornai à via da verdade, obedecendo à Igreja. Se
assim fizerdes, salvareis, como eu espero, o vosso corpo da morte... Se não o fizerdes, vossa alma
será submersa na voragem da danação; e temo quanto à destruição do vosso corpo. Que Jesus Cristo
se digne preservá-la disso!”

Terminada essa admoestação, da qual demos, apenas, um resumo, ouviu-se a resposta de


JOANA:

J – Quanto às minhas palavras e obras, sobre as quais testemunhei no processo, remeto-me a


ele e as mantenho.
Pierre Cauchon – Credes que não estais obrigada a submeter vossas palavras e obras à Igreja
militante, ou a outros que não a Deus?

J – Manterei o que sempre disse e afirmei no processo. Se eu estivesse em julgamento, e


visse a tocha acesa e a lenha preparada, e o carrasco ou aquele que devesse pôr o fogo pronto para o
fazê-lo, e eu mesma estivesse na fogueira, não diria nada mais e manteria o que disse até a morte.

Os juízes declararam encerrado o processo, designando o dia seguinte para dar a sentença,
“procedendo ulteriormente de acordo com a lei e a razão”.

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A ABJURAÇÃO

24 DE MAIO

CEMITÉRIO DE SAINT-OUEN, EM RUÃO

Vai ser lida a primeira sentença.

JOANA está sobre um estrado, à frente da tribuna em que se colocam os juízes.

Estavam presentes altos dignitários: o chamado cardeal da Inglaterra, Henri de Beaufort, os


bispos de Thérouanne, de Noyon, de Norwich, os abades de Sainte Trinité de Fécamp, de Saint-
Ouen, de Jumiège, de Bec-Hallouin, de Cormeilles, de Saint-Michel, de Mortemer, de Preaux... E
havia outras personalidades, clérigos e muita gente do povo.

Os próprios juízes, na ata posteriormente lavrada, narram o acontecimento:

“Fizemos, primeiramente, pronunciar uma prédica solene, pelo mestre (Guillaume Erard),
personagem insigne, doutor em teologia sagrada, para salutar admoestação a JOANA, e a todo o
povo, do qual havia numerosa multidão. O referido doutor iniciou seu sermão, tomando por tema
uma palavra de Deus escrita no Capítulo XV de João: “O ramo da videira não pode produzir fruto
por si mesmo, se não permanecer ligado à videira”. Ele continuou, solenemente, dizendo como os
católicos devem permanecer ligados à verdadeira vinha de nossa santa madre a Igreja, que a mão
direita de Cristo plantou. Mostrou que JOANA, por numerosos erros e graves crimes, foi separada
da unidade dessa mesma santa madre Igreja e que, em numerosas ocasiões, ela escandalizou o povo
cristão; exortou, então, JOANA e todo o povo a aderir à salutar doutrina da Igreja.”

Terminado o sermão, mestre Guillaume Erard falou assim a JOANA:


“Eis os senhores juízes, que diversas vezes vos exortaram e pediram que submetêsseis todas
as vossas palavras e obras à santa madre igreja, advertindo-vos de que nessas palavras e obras havia
muitas coisas que, no parecer dos clérigos, não deviam ser ditas e mantidas.”

JOANA respondeu:

“Eu vos responderei. Pelo que toca à submissão à Igreja, eu lhes disse que tudo o que disse
ou falei devia ser submetido a Roma, ao nosso senhor e sumo Pontífice, a quem, depois de Deus, eu
me submeto. Quanto às minhas palavras e atos, o que disse e fiz foi em nome de Deus. Não
responsabilizo ninguém pelos meus atos e palavras, nem meu rei, nem outra pessoa; se há qualquer
falta, a mim deve ser imputada, não a outrem.”

Guillaume Erard:

“Quereis\revogar vossas palavras e atos que foram condenados pelos clérigos?”

JOANA:

“Submeto-me a Deus, e a nosso santo padre, o papa.”

Guillaume Erard:

“Isso não é suficiente. Não é possível r procurar nosso senhor, o papa, tão longe. Os bispos
são juízes, cada um em sua diocese. É preciso que vos entregueis à Igreja e concordeis com o que os
clérigos e as pessoas que conhecem essas coisas dizem e têm determinado.”

Essa exortação foi repetida três vezes. Então, como JOANA não dizia outra coisa,
começamos a ler a sentença. Já tínhamos lido grande parte da sentença, quando JOANA começou a
falar, dizendo que ela queria observar tudo o que a Igreja ordenasse, e que nós, os juízes,
quiséssemos dizer e determinar; em tudo ela obedeceria à nossa ordem. E ela disse, várias vezes,
que se as pessoas da Igreja diziam que as aparições e revelações que ela dizia ter tido não deviam
ser mantidas ou acreditadas, ela não desejava sustenta-las, mas em tudo ela se submetia à nossa
santa mãe, a Igreja, e a nós, juízes.

Assim, na presença das pessoas inicialmente citadas, e à vista de uma multidão de clérigos e
de populares, ela fez e tornou pública sua revogação e abjuração, segundo o conteúdo de uma
cédula que lhe foi lida, redigida em francês. (Segue-se o longo teor da cédula, em que JOANA
reconhecia “seus erros e crimes, que pelo bom conselho que recebera ela abjurava, detestava e
renegava”. Ela jurava que não mais retornaria àqueles erros, e ficaria para sempre em união com a
Igreja.)
A sentença, lida por Pierre Cauchon após a abjuração, foi longa: rememorava todo o
processo, a opinião dos mestres e doutores, da Universidade de Paris, e terminava com estas
considerações:

“Como delinquistes temerariamente contra Deus e a santa Igreja... nós te condenamos,


JOANA, por sentença definitiva, a observar uma salutar penitência em prisão perpétua, ao pão da
dor e à água da agonia, a fim de que aí chores pelo que fizestes, e não cometas a seguir nada mais
por que tenhas de chorar, ressalvados sempre nossa graça e nosso poder de moderação.”

NO MESMO DIA, À TARDE

CELA DE JOANA

Jean Le Maistre – (dirigindo-se a JOANA) – Deus vos fez, hoje, uma grande graça. também
a igreja foi misericordiosa convosco, recebendo-vos em seu seio. É preciso, portanto, que obedeçais
com humildade à sentença e ao mandamento dos juízes, e que abandoneis inteiramente os vossos
erros, e não volteis a eles de nenhum modo. Se voltardes aos vossos erros, a Igreja vos abandonará
completamente. Deveis, também, deixar as roupas de homem e vestir roupas de mulher, como a
Igreja vos ordenou.”

J – De boa vontade vestirei roupas de mulher e em tudo me submeterei e obedecerei aos


clérigos. (Ela vestiu, então, o traje feminino que lhe foi apresentado. Como penitente, teve os
cabelos raspados.)

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PROCESSO DE RELAPSIA OU CONTUMÁCIA

Como já dissemos, esse processo (processus relapsus), durou apenas três dias, de 28 de
maio de 1431 a 3 do mesmo mês e ano, data em que JOANA foi executada.

28 DE MAIO

CELA DE JOANA

10 PERGUNTAS

1 ----- questões sobre o sinal dado ao rei


3 ----- questões sobre as Vozes e santos

4 ----- questões sobre as roupas de homem

Os juízes e assessores encontraram JOANA vestida com o traje masculino.

Pierre Cauchon – Quando e por que vestistes de novo essa roupa de homem?

J – Eu a vesti há pouco, deixando a roupa de mulher.

PC – Por que a vestistes e quem vos fez vestir?

J – Eu mesma a quis, sem que ninguém me obrigasse. Prefiro a roupa de homem.

PC – Havíeis jurado não tornar a vestir essa roupa.

J – Jamais pensei que tinha jurado isso.

PC – Por que razão a vestistes?

J – Porque me é mais lícito e conveniente ter uma roupa de homem, estando entre homens,
do que usar roupa de mulher. Eu a vesti de novo, porque não cumpriram o que me prometeram, a
saber: que eu iria à missa, receberia o corpo de Cristo e ficaria livre destes ferros.

PC – Não abjurastes e, especialmente, não prometestes não voltar a usar esse traje?

J – Prefiro morrer do que ficar acorrentada! Se me permitirem ir á missa, livrarem-me destas


correntes, e se me puserem numa prisão conveniente, eu serei boa e farei o que a Igreja quiser.

PC – Depois de quinta-feira, ouvistes as vossas Vozes?

J – Sim.

PC – Que vos disseram elas?

J – Elas me disseram que Deus me expressava, por Santa Catarina e Santa Margarida, a
grande pena pela traição em que consenti, fazendo a abjuração e retratação para salvar a minha vida.
Antes de quinta-feira, as Vozes tinham me avisado do que eu faria, e fiz, naquele dia... As Vozes
me disseram, quando eu estava naquele estrado, diante do povo, que eu respondesse corajosamente
aquele pregador, que então pregava. Era um falso pregador, que disse que eu fizera uma porção de
coisas que nunca fiz. Se eu disser que Deus não me enviou, eu me condenarei, pois, na verdade,
Deus me enviou. As Vozes me disseram, depois da quinta-feira, que eu cometi um grande crime,
confessando que não agira bem, fazendo o que fiz!
PC – Acreditais que as Vozes são de Santa Catarina e Santa Margarida?

J – Sim, e de Deus.

PC – Dizei a verdade, a respeito da coroa de que falastes, no processo.

J – De tudo eu vos disse a verdade, no processo, da melhor maneira que pude.

PC – Mas sobre o estrado, diante de nós, os juízes, e diante de todo o povo, quando fizestes
a abjuração, dissestes que vos vangloriastes, mentirosamente, de que as Vozes fossem de Santa
Catarina e Santa Margarida!

J – Não pretendia dizer ou fazer isso. Não disse, nem compreendi, que eu renegava minhas
aparições, a saber: que fossem Santa Catarina e Santa Margarida. Tudo o que fiz foi por medo do
fogo, e nada revoguei que não fosse contra a verdade! Prefiro fazer a minha penitência de uma vez,
morrendo, do que suportar por mais tempo esta prisão. Nunca fiz nada contra Deus ou a fé, ou
qualquer coisa que me fizeram revogar. O que estava na cédula de abjuração, eu não entendia. Eu
disse que não queria revogar nada, se não fosse da vontade de Deus. Se os senhores quiserem,
retornarei a roupa de mulher; quando ao resto, não farei mais nada.

Consta da ata que, ouvindo isso, os juízes se retiraram. Duas testemunhas do Processo de
Reabilitação referiram que, ao sair, Pierre Cauchon disse alegremente aos ingleses, que estavam do
lado de fora: “Alegrai-vos, está feito! Nós a pegamos!”

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REUNIÃO PARA DECIDIR A RESPEITO DA ABJURAÇÃO

29 DE MAIO

CAPELA DO PALÁCIO ARCEBISPAL DE RUÃO

O bispo Pierre Cauchon relata o que se passou, no dia anterior, na cela de JOANA, e como,
quebrando o juramento feito na sua abjuração, ela havia retornado aos seus erros, “pela sugestão do
diabo”. Fez ler as perguntas por ele feitas a Joana e a suas respostas, solicitando o parecer dos
assessores.

Apenas três dos assessores, sem outras indagações, pronunciaram-se no sentido de que
JOANA era relapsa e devia, após julgamento, ser imediatamente entregue à justiça secular. Todos
os outros se declararam de acordo com o voto do monsenhor Gilles, abade do monastério da Santa-
Trindade de Fécampe, concebido nestes termos:
“JOANA é relapsa. É bom, porém, que a cédula que lhe foi lida da outra vez, lhe seja lida
novamente e lhe seja explicada, propondo-se-lhe a palavra de Deus. E isso feito, nós, juízes, temos
de declará-la herética e abandoná-la à justiça secular, rogando a esta de agir brandamente com a dita
JOANA.”

Thomas de Courcelles e frei Isambart de La Pierre aderiram ao voto acima, acrescentando


que JOANA “fosse caridosamente admoestada sobre a salvação da sua alma, e que lhe dissessem
que ela não tinha mais o que esoerar da sua vida temporal”. Essa frase foi interpretada, por alguns
autores, como se eles pretendessem que se explicasse a JOANA tratar-se, para ela, de uma questão
de vida ou morte.

Pierre Cauchon, que não estava obrigado a seguir a opinião dos assessores, agradeceu a eles
pelos seus pareceres, e concluiu que seria procedido contra JOANA como relapsa, segundo o que
fosse de direito e razão.

No mesmo dia, à tarde, foi expedida uma carta a todos os priores da Igreja de Ruão,
informando que JOANA, tendo voltado aos erros que havia abjurado, seria levada no dia seguinte à
praça do Mercado Velho, às oito horas da manha, para ser declarada “relapsa, herética e
excomungada”.

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A MORTE

30 DE MAIO

PRAÇA DO MERCADO VELHO EM RUÃO

Ás oito horas da manhã, revestida de uma túnica de pano cru enxofrado, JOANA chegou à
praça do Mercado Velho. Foi posta sobre um estrado, em frente à fogueira preparada, muito alta. O
carrasco não poderia, como era comum, alcançar a condenada e abreviar-lhe o sofrimento,
esganando-a (a “graça do carrasco”). O clero estava em uma tribuna, as autoridades civis em outra.

Mestre Nicolas Midy, um dos assessores, insigne teólogo, pregou sobre o tema: “Se um
membro sofre, todos os outros sofrem com ele” (São Paulo aos Coríntios). Concluiu:

NM – JOANA, vai em paz, a Igreja não pode mais te defender, e te entrega ao braço secular.

Então Pierre Cauchon começou a falar:


PC – Nós vos admoestamos de novo, JOANA, para que penseis na salvação da vossa alma,
reflitais nos vossos delitos, arrependendo-se e alcançando uma verdadeira contrição. Nós vos
exortamos a crer no conselho dos clérigos e notáveis pessoas que vos ensinavam e instruíram no
concernente à vossa salvação, e especialmente no conselho de dois veneráveis irmãos pregadores
(Isambart de La Pierre e Martin Ladvenu) que estão junto de vós, e que nós havíamos designado
para vos instruir continuamente e vos prodigalizar, com muito zelo, salutares admoestações e
conselhos.

Ditas essas palavras, Pierre Cauchon, considerando que JOANA “não se afastou nunca dos
seus crimes e erros, obstinadamente”, demonstrando ao contrário “diabólica malícia na simulação
da contrição, da penitência e da conversão”, passou a ler a sentença definitiva, que transcrevemos a
seguir, na sua conclusão:

“...Assim, pois, nós, Pierre, pela misericórdia divina do bispo de Beauvais, e frei Jean Le
Maistre, vigário do ilustre doutor Jean Le Graverent, inquisidor da percersão herética, e por ele
especialmente delegado nesta causa, juízes competentes nesta matéria, nós temos, por um justo
julgamento, declarado que tu, JOANA, comumente chamada a Donzela, caístes em diferentes erros
e diferentes crimes de cisma, idolatria, invocações de demônios, e em numerosos outros, e, contudo,
porque a Igreja não fecha o seu seio a quem ele volta, nós pensamos que tu tinhas te afastado dos
erros e dos crimes, com espírito puro e fé não fingida, quando, certo dia, renunciastes a eles e
publicamente jurastes, feito o voto e prometido jamais voltar àqueles erros e a qualquer heresia, sob
a sugestão de quem quer que fosse ou de qualquer outra maneira, mas, antes prometestes ficar
sempre na unidade da Igreja Católica e comunhão do Pontífice romano, como está dito mais
amplamente na cédula de abjuração subscrita da tua própria mão; mas, depois dessa abjuração dos
teus erros, o autor do crime e da heresia, assaltando o teu coração o seduziu, e novamente caístes
(oh, dor!), como o cão tem o costume de voltar ao seu vômito, nos mesmos erros e crimes já ditos,
como está manifesto pelas tuas confissões e asserções espontâneas; e nós reconhecemos pelos mais
claros juízes, que, anteriormente, era por palavras apenas, antes com um coração falso do que com
alma sincera e leal, que havias renegado tuas intenções enganadoras. Donde se segue que, te
declarando novamente incursa nas sentenças de excomunhão em que havia ocorrido, e recaído nos
teus primitivos erros, nós te declaramos relapsa e herética, e pela presente sentença julgamos que,
tal um membro apodrecido, para que não infectes também os outros membros, é preciso te repelir
da unidade da Igreja, te secionar do seu corpo e te abandonar ao poder secular, rogando a este que
modere o seu julgamento para contigo, a menos do que a morte e mutilação dos teus membros. E se
em ti verdadeiros sinais de arrependimento aparecerem, que te seja administrado o sacramento da
penitência”.
O poder secular estava representado pelo bailio de Ruão, Raoul Bouteiller, seu lugar-tenente
Pierre Daron e seu assessor Laurent Guesdon, além de esbirros e oficiais. JOANA caíra de joelhos.
Enfiaram-lhe na cabeça uma espécie de mitra irrisória, em que havia as palavras: “feiticeira,
herética, relapsa”. Não houve sentença do juiz civil condenando-a à morte, o que era necessário, de
acordo com a lei e o costume. A um simples gesto do bailio, dois esbirros a agarram e entregaram-
na ao carrasco. “Cumpre o teu ofício!”, diz-lhe o bailio. E JOANA foi amarrada ao alto do poste e
chegaram fogo ao monte de lenha...

JOANA então morrer queimada na fogueira gritando: “Jesus, Jesus, Jesus!” e muitos ao redor se
assustam e comentam: “Queimamos uma santa!”