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IDENTIDADE COMO CONCEITO SOCIOLÓGICO

J. Ivo Follmann
Setembro, 2000

Introdução

O objetivo deste artigo é retomar brevemente certos usos do conceito de identidade na


sociologia para, depois, salientando os aspectos principais que marcam estes usos, construir
um conceito que possa ser operacional em pesquisas sociológicas.

O conceito de identidade está bastante desenvolvido nas áreas da filosofia, da psicologia, da


psicanálise e da antropologia, mas ainda não foi bem acolhido no seio da sociologia. Essa
espécie de “reserva” sociológica é devida, principalmente, ao fato de se tratar de um termo
que é extremamente polissêmico e ocupa uma posição às vezes central em outras áreas do
pensamento. Na verdade, somar um novo sentido a um termo já bastante carregado de
sentidos nem sempre é o melhor caminho...

No entanto, a “re-subjetivação” dos atores sociais que se afirmou nas últimas décadas e a
conseqüente retomada do “lugar sociológico” do sujeito individual, reforçam a
importância e urgência da identidade como categoria de análise na sociologia.

Problematizar a questão do sujeito e da responsabilidade pessoal conduz o sociológo a


levantar a questão da identidade. (J. REMY, 1991-b), Isto, contudo, não ocorre sem
problemas. Segundo T. EVERS, “’identidade’ é, provavelmente, uma das noções mais
multifacetadas e intrigantes das ciências humanas” (1984, p.18). A discussão em torno da
questão de identidade atravessa todas as fronteiras do pensamento humano e se apresenta
com uma longa história. Já na Grécia Antiga, encontramos referências bem vigorosas à
questão da identidade nas discussões heraclitianas e parmenidianas. A noção de identidade
retorna na nossa época em diferentes áreas do pensamento, na discussão de questões
fundamentais da sociedade.

1
O nosso ponto de vista, no que se refere ao estudo da identidade está marcado pelo
pressuposto de que “o ser humano é um ser de projeto”.1 Nós trabalhamos a idéia de
identidade em estreita ligação com esse pressuposto. Estamos com isto colocando entre
parênteses todas as maneiras de trabalhar a idéia de identidade voltadas à construção de
categorias ou tipos estáticos, para nos fixarmos na questão da identidade enquanto processo
de um constante estar em interação do “ser de projeto” que é o ser humano, dentro da
complexidade de relações sociais que o envolvem.
Partimos da idéia corrente de projeto. A idéia de projeto reporta-se a uma dinâmica
complexa em que estão implicadas várias dimensões que exigem nossa atenção. É através
da “decomposição analítica” da idéia de projeto (objetivo ou proposta, justificativa,
maneira de fazer, recursos) que chegamos a uma chave útil para a construção de um
conceito operacional para pesquisas sociológicas.

Também é referência importante nesta construção o fato de que os projetos normalmente


constituem-se em uma trama complexa de competição, tendo em seu horizonte a gestão dos
“bens limitados” e resultando assim, muitas vezes, de uma busca de resposta em termos de
“contraprojetos” ou de alternativas aos projetos existentes.

Em outro nível, quando um ser humano é esvaziado de seu projeto (ou de seus projetos) e
se encontra obrigado a viver segundo projetos que não são os seus, ele perde sua identidade
e fica reduzido a uma situação de alienação.(Ver BERGER, 1971; TOURAINE, 1993;
EVERS, 1984).

Tomamos como ponto de partida o tema da “oposição” ou da “contra-identidade” e o tema


da contradição “identidade X alienação”. Em seguida, retomando alguns pontos de
discussão realizada em um artigo anterior (FOLLMANN, 1999), nossa atenção se voltará
para alguns elementos-chave extraídos de estudos sobre o tema da identidade. Enfim,
voltaremos à idéia do ser humano como um “ser de projeto” para, retomando este
pressuposto de fundo em nosso horizonte, propor a construção de um conceito de
identidade que seja operacional para nossas pesquisas.

1
O “sujeito como ser intencional“ é, sem dúvida, um dos pilares da sociologia de J. REMY
2
1 - Algumas contribuições à discussão do conceito

Um aspecto fundamental na discussão sobre o conceito de identidade é o “sentimento de


diferença”. Esse tema, além do fato de evocar a importância do “sentimento de
singularidade” ligado à idéia de identidade, evoca também a idéia de “identidade negativa”
concebida por E. ERIKSON (1972), significando a representação mais ou menos clara de
uma identidade do outro, mediante um conjunto de traços e qualidades que, então, se rejeita
e evita. Se o “sentimento de diferença”, portanto, “de singularidade” é essencial ao
desenvolvimento da idéia de identidade, a consciência da “identidade negativa” parece-nos
ser uma força de propulsão e de aceleração do processo de identidade (Ver MUCCHIELLI,
1986, p. 54-56).

Se é verdade que não se pode trabalhar a idéia de identidade sem tomar este aspecto chave
que é o “sentimento de diferença” ou, a questão da alteridade, 2 isto assume maior vigor
como força de identidade, à medida em que se explicita a “identidade negativa”, em que o
alter é percebido como uma “contra-identidade” ou como uma força a ser rejeitada e
negada.

Tudo isto, sem dúvida, também está presente em A. TOURAINE (1993), na sua teoria dos
movimentos sociais, quando ele fala do princípio da “identidade” e do princípio da
“oposição” constituindo-se essencialmente em movimentos em função de projetos
envolvendo um terceiro princípio, que é o da “totalidade”, ou seja: o que está sendo
colocado em jogo dentro da historicidade presente.

Em um outro nível, para além das idéias de singularidade diferente, de identidade negativa
e de oposição, devemos estar atentos também à questão-chave da alienação. A construção
do conceito de identidade não pode deixar isto de lado. Evocamos para tal A. TOURAINE
(1993) quando trata deste tema em sua teoria sobre os movimentos sociais. Segundo este
autor, “os movimentos sociais a que nos referimos, o da classe superior e o da classe
popular, ou de alguns de seus elementos, não estão em relação de igualdade, não estão na
situação de dois cavaleiros se opondo em um torneio. A situação de conflito é, também em
seu início, uma relação de dominação.” O autor conclui “a consciência popular pode ser
dominada pela alienação; ela o é quando não se forma um movimento social”.(p.339)

2
Aqui podemos relembrar também as duas dimensões fundamentais sobre as quais (ou a partir das quais) G.
BAJOIT (1992, p. 91) concebe seu conceito de relação social. Estas dimensões são: a identidade e a
alteridade, ou seja, o processo de identificação e o processo de diferenciação.
3
Nesta perspectiva, encontramos ricas sugestões nas reflexões feitas por T. EVERS (1984),
quando ele, em seus estudos sobre os movimentos sociais na América Latina, opõe a idéia
de identidade à idéia de alienação. O autor faz desta oposição um dos pontos centrais em
um artigo em que se interroga sobre o “novo” dos “novos movimentos sociais” na América
Latina. Segundo T. EVERS, “a idéia de identidade parece estar cada vez mais na mente
dos participantes e observadores desses movimentos”.(1984, p. 18)

Um aspecto central a ser analisado, segundo o mesmo autor, é o fato de que estes “novos
movimentos” se auto definem como sendo “novos e diferentes em relação à política
tradicional e em se colocarem como fundadores e guardiães de suas próprias tradições e
experiências sociais.” (1984, p. 12) Há aqui uma luta visível manifesta pela “identidade
autônoma” contra toda prática de tutela, seja a do paternalismo conservador, seja a
inspirada pela manipulação paternalista de esquerda. Isto é válido também no que concerne
às interpretações mecanicistas da história legitimadora de certas vanguardas iluminadas que
querem escrever a história antecipadamente... Dizendo de outra maneira, a luta pela
“autonomização” de identidade expressa nestes movimentos rejeita todo tipo de alienação,
seja ela prática ou teórica.

Na sua reflexão, o autor reúne outros estudos que, segundo ele, expressam bem o que está
em jogo no que diz respeito ao “locus de identidade”. Nestes estudos, os movimentos
sociais são considerados como ligados seja à “questão da autonomia” (M. CHAUI), seja à
“necessidade de uma mudança dos valores fundamentais da sociedade para vencer a crise
de identidade“ (C. PORTANTIERO), seja à construção da “hegemonia alternativa” (T.
MOULIAN), seja ainda à idéia da “redescoberta da liberdade e da soberania do povo” (C.
MÜLLER-PLANTENBERG).3 De uma certa maneira, tudo isto carrega em si o principal
daquilo que está posto na discussão da identidade. A identidade “não pode ser encontrada
dentro de estruturas autoritárias e, mais que isso, exclui a uniformidade: só pode se
desenvolver na diversidade, que requer um cenário político no qual ‘todas as vozes, todas’
(como diz uma canção chilena) possam ser escutadas”. (EVERS, 1984, p. 19)

3
Ver T. EVERS, 1984, p. 18. O autor se refere, entre outros, aos seguintes trabalhos: M. CHAUI, Notas sobre
la crisis de la izquierda en Brasil, Nueva Sociedad, n. 61, 1982; J. PORTANTIERO, Transicion a la
democracia en Argentina: un trabajo de Sísifo?, Cuadernos De Marcha, México, Jul. 1983; T. MOULAIN,
La crisis de la izquierda, Revista Mexicana de Sociologia, n. 2, 1982; C. MÜLLER-PLANTENBERG, Wer
sind die Subjekte der Interessenvertretung im neoliberalen Wirtschafts- und Gesellschaftsmodell in
Lateinamerika?, Texto-Seminário, Bielefeld, junho de 1983.
4
As referências trazidas por este autor e muitas outras do mesmo teor, que aqui poderiam ser
arroladas, não devem fazer concluir que a América Latina é um imenso campo atravessado
por um poderoso Movimento Social Popular (MSP). Os atores sociais populares são
marcados por uma fraqueza estrutural bastante acentuada, mas, em certos casos, esta
fraqueza se encontra misturada a uma grande força, uma vez que eles em geral estão em
cena ao mesmo tempo no campo político, no campo religioso e no MSP propriamente. 4
Trata-se de atores tanto individuais como coletivos assim multi-facetados e multi-
motivados que são os propulsores e as forças avançadas deste movimento.

A discussão sobre “identidade X alienação” a que nos referimos também chama a nossa
atenção para a questão da ética, ou melhor ainda, sobre a ancoragem desta questão na
definição de identidade. A frase de T. EVERS citada acima, em que o autor condiciona a
“identidade” à existência de um “cenário político em que ‘todas as vozes, todas’ possam
ser escutadas”, nos permite perceber em sua maneira de definir a identidade a força da
afirmação do sujeito individual a partir de seus valores, - ou seja, sendo dono de uma voz! -
que orienta sua prática. Dizendo de outra maneira, a discussão sobre a identidade nos leva a
nos conscientizarmos da oposição entre “auto-nomia” e “hetero-nomia”. Excluímos de
nosso quadro conceitual a idéia de “identidade heterônoma”. Para nós, a identidade não
existe a não ser na forma de manifestação da capacidade autônoma dos indivíduos e grupos
na construção de sua história.

O sujeito individual em sua afirmação ética pode tomar diferentes caminhos de


engajamento, ou seja, ele se manifestará sempre na sociedade, em suas diferentes
expressões coletivas (grupos, organizações, movimentos, partidos), acionando e
alimentando processos de identidade. No caso concreto do estudo que realizamos sobre a
identidade dos militantes católicos no PT, por exemplo, partimos da suposição de que o
grupo pesquisado diversifica-se segundo a intensidade dada a engajamentos diferentes e
que isto pode ser atribuído em grande parte à busca desta afirmação do sujeito
FOLLMANN, 1993).

Isto, aliás, não constitui uma novidade, e as dificuldades de que está carregada a distinção
entre o nível pessoal e o nível social, no que concerne à identidade, foram explicitadas
repetidamente. O modo dicotômico de propor a questão, no entanto, nunca satisfez e

4
Ver sobre este assunto A. TOURAINE, La parole et le sang: Politique et société en Amérique latine, Paris:
Odile Jacob, 1988, p. 253.
5
sempre foi considerado problemático. Diversos autores já tentaram ultrapassar essa
dicotomia. Existem três posições ou tendências muito distintas: Em primeiro lugar, há
aqueles autores que unem as duas dimensões compreendidas na noção de identidade – a
pessoal (individual) e a social (coletiva) – “enquanto dimensões de um mesmo e inclusivo
fenômeno situado a diferentes níveis de realização”(CARDOSO DE OLIVEIRA, 1976, p.
4). Em segundo lugar, outros autores não estabelecem nenhum limite para trabalhar a
identidade ligando-a à individualidade construída pela interação social e reestruturada
constantemente. Para estes, a dimensão coletiva, de certa forma, perde-se de vista (Ver
COHEN, 1978, p. 73-78). Em terceiro lugar, existem aqueles que em sociologia tendem a
realçar a dimensão coletiva e, quando empregam o conceito de identidade, tem presente a
identidade social (ou coletiva).5

Partilhamos, como ponto de partida, da perspectiva do primeiro grupo, por entendermos


que o conceito de identidade encontra o seu lugar na sociologia, na medida em que
consegue dar conta da “dualidade” de ser, ao mesmo tempo, “para o outro” e “para si”,
dualidade essa que faz parte de sua própria definição. Não se trata, no entanto, de um
simples dar conta da dualidade. A construção do conceito de identidade tem valor e
importância em sociologia, na medida em que ao mesmo tempo está referida à relação entre
o individual e o coletivo e ultrapassa esta relação, resultando num processo novo que dá
conta da dimensão biográfica e da dimensão relacional (DUBAR, 1991, p. 109-128), ou
seja, o conceito de identidade na nossa maneira de ver, considera a interação em diversos
níveis. Unimo-nos a C. DUBAR em seu esforço de construir um conceito sociológico de
identidade que, englobando o individual e o coletivo, não seja redutível nem a um nem a
outro e também não seja redutível à simples soma harmoniosa dos dois.

O conceito de identidade que propomos e que construímos para a nossa pesquisa sobre a
identidade dos católicos no PT deriva de um posicionamento idêntico a este. Situando nossa
perspectiva desta forma, a discussão sobre a identidade conduz-nos a uma concepção com
estatuto muito parecido a diversas outras categorias teóricas cuja função é a de serem

5
Colhemos essas referências inicialmente em M. PENNA, 1992, p. 162-163. Este autor usa em seu trabalho
um conceito de identidade social (ou coletiva), reportando a idéia de identidade pessoal ao terreno da
psicologia etc. M. CASTELLS (2000) é talvez o sociólogo que coloca com maior ênfase a questão das
identidades coletivas, vendo nelas núcleos resistentes à homogeneização que pode resultar da sociedade em
rede no atual processo de globalização. Este autor fala em “identidade legitimadora“, “identidade de
resistência“ e “identidade de projeto“.(CASTELLS, M. O poder da identidade. A era da informação:
economia, sociedade e cultura. 2.ed., v. 2, São Paulo: Paz e Terra, 2000 (Inglês, 1996). Esta obra é posterior à
redação original do presente artigo.
6
“pontes heurísticas” entre as micro-análises e as macro-análises na sociologia. (Alguns
falam em “meso-sociologia”...)

A riqueza da idéia de identidade trona-se mais explícita quando nos damos conta da
complexa interação que nela está implicada. Esta complexidade interagente dá-se
sobremaneira em dois eixos fundamentais, a saber: o do “tempo” e o do “espaço”.

Com a idéia de identidade, supera-se a simples oposição entre o “passado” e o “futuro”,


entre as “trajetórias” e os “projetos”. Segundo F. DEBUYST (1992, p. 405), a noção de
identidade implica em reposicionar o passado em relação ao futuro. Este autor, por ocasião
de um Colóquio em fevereiro de 1992, no início da sua Conferência sobre “O que está em
jogo na América Latina”, questionou a noção de identidade, dizendo que não é
simplesmente com uma volta ao passado, às experiências e características acumuladas, que
se encontra a identidade, pois aí reina sobretudo o “mal integrado” e o “não definível”.
Identidade está na capacidade de elaborar um projeto de sociedade, tirando partido da
riqueza e da particularidade das experiências históricas. E identidade não é somente a
herança histórica, ela é também a maneira com que pode ser atualizada, comportando
reações próprias frente aos desafios atuais. Na verdade, a relação entre a dimensão
projetiva, ou seja, da busca e abertura para o futuro, e a história passada com tudo o que
isto significa em termos de experiências acumuladas, é fundamental para a análise das
realidades sociais mais diversas. No que diz respeito ao processo de identidade, isto toma,
contudo, uma significação ainda mais acentuada. É na maneira com que um indivíduo ou
um grupo (uma coletividade) estabelece a relação entre seu futuro e seu passado ou, ainda,
entre seus projetos e sua trajetória, que temos, de forma particular, as indicações principais
para desvendar qual é sua identidade. Pode-se definir identidade como resultante, em
grande parte, da tentativa constante de buscar a coerência lógica entre as experiências
vividas e aquilo que se tem como objetivo (REMY; VOYE; SERVAIS, 1991 e
RUSCHEINSKY, 1990).

Ao lado desse eixo da “temporalidade”, nossa atenção não pode deixar de focar o eixo da
“espacialidade”. Em outras palavras, o tomar como referência o futuro em relação ao
passado, o projeto em relação à trajetória feita é sempre acompanhado ou atravessado pela
relação de um “espaço interior” com um “espaço exterior”, de um “espaço superior” com
um “espaço inferior”, sendo o “interior”, geralmente, associado ao “superior” e o “exterior”
ao “inferior”. Trata-se de uma estruturação (individual e coletiva) do “espaço”. Falamos,
7
evidentemente, de uma organização do espaço em nível simbólico, não estando isto
necessariamente ligado aos espaços social e físico concretos. Existem sempre em nível
simbólico “coisas” que são mais centrais e mais valorizadas e “coisas” que são mais
periféricas e menos valorizadas... (HIERNAUX; REMY, 1975 e REMY; HIERNAUX,
1984).

Intimamente associada a tudo isto, encontra-se ainda a questão da relação entre a


singularidade e a pluralidade. Trata-se de um aspecto fundamental que não pode ser
descurado na construção do conceito de identidade. Isto faz-nos retornar, em outro nível, ao
que falamos anteriormente sobre o “sentimento de singularidade” e de “diferença”... A
identidade, à medida em que é construída em sociedade, não pode ser vista em função da
singularidade que se diferencia, mas ela resulta sempre da articulação de uma singularidade
no seu entorno de pluralidade, ou seja, uma pessoa ou um sujeito tendo vários
engajamentos diferentes e tendo experimentado situações variadas. Fala-se de um “núcleo
de identidade”,6 em torno do qual ocorre um processo de síntese integrando a pluralidade
das referências. Uma nova luz neste debate é, sem dúvida, a idéia da “dupla transação entre
uma complexidade interna e externa” de que nos fala J. REMY (1991-b) e a idéia de
“transação objetiva” e “transação subjetiva” de que nos fala C. DUBAR. 7 O primeiro,
desenvolve esta reflexão no quadro da proposição de uma “sociologia do sujeito crítico”,
tendo como referência a noção de E. GOFFMANN (1973) de “distância do papel”. As
sugestões teóricas ligadas a esta contribuição dão-nos, entre outros, uma chave importante
para trabalhar as questões de nosso estudo que levam à identidade de um conjunto de
sujeitos que, tendo provavelmente uma base comum forte, apresentam experiências
passadas e engajamentos presentes múltiplos.

Em suma, o conceito de identidade, como o trabalhamos, nasceu dessa idéia de “esquina”,


ou melhor, dessa “encruzilhada” e complexo “cruzamento” de vias, ou de “lugar de
encontro” de diferentes projetos. Em uma palavra: nasceu da idéia da interação, ou seja, a
identidade é uma constante “costura” que se faz no seio da interação.

6
Segundo A. MUCCHIELLI, 1986, p. 119, “a identidade é um conjunto de referentes materiais, sociais e
subjetivos, escolhidos para permitir uma definição apropriada de um ator social. A identidade é também
para o autor um conjunto de processos de síntese de integração, de interpretação do mundo e de formação de
expressões próprias que chamamos o núcleo de identidade. A identidade subjetiva do ator tem, aliás, suas
raízes no sentimento de identidade que dá ao ser inteiro a coerência e a orientação dinâmica“.
7
São importantes as noções de transação “objetiva“ e “subjetiva“ em C. DUBAR, 1991, p. 116)
8
Quando o “ser de projeto”, que é o ser humano, “mergulha” nesse complexo cruzamento e
torvelinho das águas concretas da interação social (o concreto sociológico), uma
multiplicidade de limites torna-se visível, até mesmo a ponto de uma total fragmentação ou
mesmo de uma perda de referência para o futuro, um vazio de projetos. “Costuras” fazem-
se sempre necessárias e até urgentes...

2 - Conceito operacional de identidade para uso em pesquisas sociológicas

2.1 - Dimensões a serem levadas em conta

Entre os aspectos que colaboram para a construção da identidade, acabamos de salientar os


seguintes: 1) o sentimento de diferença e da “identidade negativa”, podendo este até mesmo
significar a consciência de “contra-identidade” ou de oposição; 2) a negação de situação de
alienação e a questão da autonomia; 3) a inter-relação ou a relação complementar entre o
individual e o coletivo; 4) o constante re-situar-se em coerência com o tempo na relação
entre passado e futuro; 5) a estruturação do “espaço” simbólico; 6) a articulação entre a
singularidade e a pluralidade complexa.

Além dessas ricas indicações, queremos ainda lembrar rapidamente de certos aspectos
fundamentais presentes na síntese feita por C. DUBAR (1991, p. 108-128), de quem já
mencionamos a idéia central de “identidade marcada pela dualidade”, sendo, ao mesmo
tempo, um “processo relacional” e um “processo biográfico”. Juntamente com este autor,
queremos inicialmente destacar que “a identidade jamais está aí, pronta, ela sempre deve
ser construída e (re)construída em uma incerteza maior ou menor e mais ou menos
duradoura”(p. 111). Nesta construção entram em jogo, de um lado, em nível de processo
social, elementos atribuídos e propostos assim como assumidos e incorporados, e, de outro
lado, em nível de processo biográfico, elementos herdados e elementos almejados (p. 110-
116).

Vários outros aspectos, relembrando os mais diversos estudos, poderiam ainda ser
adicionados a essa lista... Não é, porém, nosso objetivo fazer aqui uma revisão completa
das contribuições sociológicas para o estudo da identidade. Seria necessário, por exemplo,
revisar a história da sociologia para encontrar o fio condutor do desenvolvimento do
conceito e as diferentes direções que o mesmo tomou. Os limites deste artigo não nos

9
permitem avançar com a discussão por este caminho. A questão do lugar sociológico do
sujeito individual já foi objeto de outro artigo nosso publicado recentemente
(FOLLMANN, 1999).

Voltando ao nosso pressuposto central “o ser humano é um ser de projeto!”, relembramos


como ponto de partida os quatro elementos centrais que não podem ser omitidos para
poder-se falar da existência de um projeto: o “objetivo”, a “justificativa”, a “maneira de
fazer” e os “recursos”. O termo “projeto” é freqüentemente utilizado para indicar a
“proposta”, o “visado”, o “objetivo” etc. A utilização neste trabalho, na definição das
dimensões da identidade, encontra-se neste último sentido. Eis como nosso pressuposto
central – “o ser humano é um ser de projeto!” –conduziu-nos à concepção das quatro
dimensões da identidade: a dimensão do projeto (o visado), a dimensão da motivação, a
dimensão das práticas e a dimensão do vivido (“trajetória vivida”). Há uma quinta
dimensão, a das estratégias, que atravessa, e de uma certa maneira, sobrepõe-se às
dimensões da motivação e das práticas. Todas essas dimensões podem ser abarcadas tanto
em nível individual, como coletivo, como ainda no que se refere à inter-relação entre os
mesmos.

O esquema 01 (que se encontra mais abaixo) tenta visualizar resumidamente a maneira pela
qual concebemos a construção do conceito de identidade. Ele mostra dimensões que
consideramos fundamentais para uma sociologia da identidade. Ele tenta, também,
visualizar o fato de que cada uma dessas dimensões deve ser vista tanto na sua relação com
as outras dimensões, como em referência aos níveis do individual e do coletivo e ao nível
da inter-relação entre estes.

Não se trata de retomar todo o debate já acumulado em torno do emprego de cada um


desses termos usados para dar nome às dimensões. Escolhemos termos que indicam o mais
próximo possível, segundo nossa compreensão, o conteúdo específico atribuído a cada uma
dessas dimensões...

Vejamos qual é o conteúdo atribuído a cada uma das dimensões contempladas no conceito
de identidade que estamos propondo como instrumento em nossas pesquisas sociológicas.

Comecemos pela dimensão de projeto, que consideramos central. Este tópico já foi
retomado várias vezes na nossa reflexão. Ele está ligado ao pressuposto de base que é a
nossa referência de partida: “o ser humano é um ser de projeto!”
10
No concreto do dia-a-dia, podemos dizer que os indivíduos se tornam-se sujeitos históricos
a medida em que conseguem mobilizar a sua capacidade de conceber e produzir projetos,
de avaliá-los e de engajarem-se neles ou de afastarem-se deles. É na concepção de seus
projetos pessoais de existência e no empenho de fazer as “costuras” necessárias que os
indivíduos tornam-se estes sujeitos. Isto não ocorre a não ser em interação com os projetos
dos outros e com os projetos coletivos.

Segundo G. VELHO (1987, p. 26ss), os projetos estão sempre ligados a contextos


específicos. Um projeto não é jamais um fenômeno puramente subjetivo. Ele sempre é
elaborado em um “campo de possibilidades”. De acordo com este autor, o projeto pode ter a
inspiração em outro lugar, mas o sujeito do projeto deve fundamentalmente considerar seus
contemporâneos com os quais deverá estar em contato para atingir seus objetivos. Levando
essa idéia ao extremo, o projeto, dentro da experiência de fragmentação que é a experiência
diária dos indivíduos em sociedade, não é nada mais que a tentativa permanente de dar
sentido e coerência à sua existência em interação com a complexidade plural que os
envolve e atravessa.

O engajamento em projetos coletivos, que são espaços que podem facilitar a realização dos
projetos individuais, deve ser considerado como um indicador importante desta tentativa de
dar coerência.

Em ligação estreita com esta dimensão projetiva, situam-se a dimensão motivacional e a


dimensão prática, os motivos e as práticas, e, no seio deles, as estratégias.

11
ESQUEMA 01: IDENTIDADE – CONCEITO E DIMENSÕES

CONCEITO DIMENSÕES (níveis)

PROJETO

E
S I
MOTIVOS T N C
IDENTIDADE R D O
A
I L
T
É V E
G I T
PRÁTICAS I D I
A U V
S A O
L
L
VIVIDO

Afirmamos em “ligação estreita” no sentido de que, inicialmente, é necessário ter-se


presente que a dimensão projetiva é por si mesma uma dimensão motivacional. Se formos
coerentes com nosso pressuposto inicial – o “ser humano é um ser de projeto!” – não
podemos senão concluir que o que mais motiva os sujeitos em sua prática é essa tentativa
fundamental de ultrapassar os limites e as barreiras presentes ou de manter as condições
favoráveis já conquistadas.

Mas as “razões”, os “porquês” não ficam por aí. Os motivos também são sempre
expressões de valor, de interesses, de cálculos, de sentimentos, de convicções ou mesmo de
senso do dever cujas origens podem ser as mais diversas. Não é fácil estabelecer boas
distinções a este nível. Em vários textos de sociologia, a categoria de motivação e mesmo a
de projeto parece mais estar “encoberta” pela categoria de interesse social.

Em nosso ponto de vista, os motivos trazem consigo uma busca de justificação ou de


legitimação do projeto e do caminho para concretizá-lo. Aproximar-se dessa dimensão
motivacional para abarcar tanto a origem dos cálculos, dos interesses e dos valores como os
sentimentos, as convicções e o senso de dever, que dão “razões” e que expressam os

12
“porquês”, é, sem dúvida, um instrumento importante nos estudos sociológicos da
identidade.

Isto vale igualmente no que se refere às práticas e às maneiras de fazer e de agir. “Projetos”
que não consideram o “como fazer” ou o “como fazer-se” para alcançar a sua realização,
não deixam o nível das “ilusões” e dos “sonhos”. Quando falamos de práticas, nós nos
referimos às ações com uma certa permanência, quer dizer, às condutas individuais e aos
comportamentos coletivos. Tais condutas e comportamentos podem ser trabalhados como
referências para a indicação da existência ou não de um senso estratégico ligado aos
projetos, tanto em nível individual e coletivo, como em nível de interação entre os dois
níveis.

Essa dimensão apresenta sobremaneira uma importância particular para o estudo da


identidade, pois leva a nos interrogarmos também sobre a “intensidade” dos elos dos
indivíduos com os diferentes projetos coletivos. J. REMY (1989) e G. BAJOIT (1992)
falam-nos em “estratégias de solidariedade”. Tomando emprestada a categorização presente
nas contribuições desses autores, parece-nos importante, nas pesquisas sobre identidade,
abarcar a intensidade dos elos (ou solidariedades) de tipo “expressivo” em que o sujeito faz
do projeto coletivo um projeto seu e os elos (ou solidariedades) de tipo “instrumental” em
que o sujeito não assume plenamente o(s) projeto(s) coletivo(s), mas utiliza-o(s) na medida
de sua funcionalidade frente a outros projetos. Nós preferimos falar em diferentes
intensidades de adesão: adesão expressiva e adesão instrumental.

Para aprofundar a análise dimensão estratégica identificável em nível de motivos e de


práticas, é sobretudo importante identificar quais são os esquemas de causalidade de que as
pessoas dispõem e qual o controle que elas têm sobre seus próprios limites – ou sobre os
limites de seu grupo – e quais são as condições que elas dispõem para um desdobramento
analítico de sua própria ação, em vista da eficácia, quer dizer, em vista da realização do
projeto ou do que é visado.

Sobrepomos as estratégias aos motivos e às práticas no nosso esquema para indicar que
essas duas dimensões – a “motivacional” e a “prática” – podem, de uma certa maneira, ser
englobadas pela dimensão estratégica. Dizemos, de “uma certa maneira”, porque não se
pode reduzir tudo ao estratégico.

13
A última dimensão a salientar é a do “vivido”, ou, mais precisamente, das trajetórias
vividas. Já salientamos que a identidade é sempre o resultado da reposição do passado em
coerência com o que se propõe para o futuro. A noção de “trajetória vivida” é emprestada
de C. DUBAR, que designa como tal “a maneira como os indivíduos reconstróem
subjetivamente os eventos que julgam significativos em sua biografia social” (1991, p.
115)8 Pode-se dizer, usando a analogia do trampolim, que as experiências significativas
acumuladas na trajetória são “os limites de que o indivíduo dispõe para mergulhar”, como
comentou um dia o Prof. Paul NINANE. Em outras palavras, é uma importante indicação
da posição social que o indivíduo alcançou, ou ainda, isto ajuda a sugerir qual é o “capital”
ou quais são os recursos de que ele dispõe para conduzir seu projeto.

Tais dimensões devem ser tratadas tanto no nível individual como no nível coletivo, assim
como no que concerne à inter-relação entre os dois níveis.

2.2 - O conceito

Para resumir os elementos fundamentais que explicitamos até aqui devemos dizer que uma
identidade pode ser concebida como o processo resultante de uma construção social, de
uma construção pessoal e de uma construção na interação do nível pessoal com o social
sendo assim, ao mesmo tempo, algo proposto socialmente e algo reivindicado
pessoalmente... Ela é, na nossa concepção, uma construção realizada tanto para outrem
como para si mesmo, tendo por resultado sempre uma “costura” de uma parte, entre o que é
“herdado” e o que é “almejado” e, de outra parte, entre o que é “atribuído” e o que é
“assumido”. Trata-se de uma “costura” feita com as agulhas do “tempo” e do “espaço”.

Como acabamos de mostrar, um bom caminho para abarcar os aspectos essenciais de tudo
isso é colocar em relação, em todos os níveis, os projetos, os motivos, as práticas - e as
estratégias! – e o “vivido”.

O conceito a que chegamos é o seguinte: a identidade é o conjunto, em processo, de traços


resultantes da interação entre os sujeitos, diferenciando-se e considerados diferentes uns
dos outros ou assemelhando-se e considerados semelhantes uns aos outros, e carregando em
si as trajetórias vividas por estes sujeitos, em nível individual e coletivo e na interação entre

8
Esta noção relembra também a noção de “identidade narratiava ” em P. RICOEUR. Soi-même comme un
autre. Paris: Le Seuil, 1990.
14
os dois, os motivos pelos quais eles são movidos (as suas maneiras de agir, a intensidade da
adesão e o senso estratégico de que são portadores) em função de seus diferentes projetos,
individuais e coletivos.

2.3 - Um exemplo de operacionalização9

No processo de pesquisa junto a militantes católicos no Partido dos Trabalhadores – PT (e é


desta pesquisa que extraímos o conceito operacional de identidade aqui apresentado),
fomos despertados para a necessidade de trabalhar nosso objeto simultaneamente a partir de
três perspectivas teóricas distintas.

Primeiramente, o ponto de vista da produção da historicidade tem como referência principal


a existência do conflito central dentro da sociedade, estando em questão a apropriação e
gestão de sua historicidade. Este conflito central é marcado por uma lógica, que pode ser
denominada de lógica dos movimentos sociais na concepção de movimentos sociais de
A.TOURAINE (1993).

Em segundo lugar, o ponto de vista das lógicas dos campos de atividade apresenta como
referência principal o espaço social onde se realizam a produção e a reprodução da
sociedade, "distribuídas" pelas diferentes atividades, tendo cada uma sua lógica social
própria. No caso concreto dos estudos mencionados, estavam em questão o campo político
e o campo religioso, ou seja, a lógica política e a lógica religiosa (P.BOURDIEU, 1971,
1974, 1980).

9
Apresentamos aqui a operacionalização do conceito tal como a trabalhamos na pesquisa realizada sobre a
identidade dos católicos no Partido dos Trabalhadores – PT, concluída em 1993.
15
ESQUEMA 02: A IDENTIDADE A PARTIR DE DIFERENTES
PERSPECTIVAS

Campos Produção
de da
Atividade Historicidade

IDENTIDADE

Dinâmica
Pessoal

Finalmente, o ponto de vista da dinâmica pessoal apresenta como referência principal a


importância das iniciativas em nível de sujeito individual, apresentando-se este como um
lugar de iniciativa coletiva. Em outras palavras, há uma lógica do sujeito e da dinâmica
pessoal que deve ser levada em conta nos estudos sociológicos (J. REMY, 1991-a;
G.BAJOIT, 1992; A MELUCCI, 1994, 1996).

As dimensões constituintes do conceito de identidade podem assim ser retomadas de pontos


de vista teóricos diferentes. Isto implica, evidentemente, que se tenham presente os
pressupostos teóricos com que cada um destes pontos de vista está carregado.

Como já sugerimos, foi no “diálogo” com o nosso objeto empírico ou com os “sujeitos de
nossa pesquisa” que despertamos para a necessidade dessa tríade teórica. De fato, a
mediação empírica também sugeriu imediatamente um desdobramento das mesmas três
perspectivas teóricas, resultando num olhar: 1) a partir do envolvimento dos militantes no
Movimento Social Popular; 2) a partir do envolvimento dos militantes no Partido dos
Trabalhadores; 3) a partir do envolvimento dos militantes na Igreja; 4) a partir do
envolvimento dos militantes consigo mesmos em suas relações pessoais.

Assim, as três perspectivas teóricas apontadas no Esquema 02 passam a apresentar-se de


fato em forma de quatro olhares – ou melhor, de um olhar a partir de quatro ângulos! –
16
sobre o processo de identidade dos católicos engajados no PT no Brasil. Em cada olhar ou
a partir de cada ângulo, novos elementos juntam-se para situar os projetos, os motivos, as
práticas – as estratégias! – e as trajetórias vividas. O Esquema 03, a seguir, tenta visualizar
esse procedimento de maneira sintética. Nele situamos o mesmo conceito de identidade
visto a partir da lógica dos movimentos sociais, a partir da lógica do campo político, a
partir da lógica do campo religioso e a partir da lógica do sujeito individual.

ESQUEMA 03: IDENTIDADE, SUAS DIMENSÕES E OS QUATRO OLHARES

Movimentos sociais:
o conflito central da
sociedade pela
apropriação e gestão
da historicidade

Campo
Campo político: Projeto religioso:
a produção e a a produção e a
reprodução da Motivos Estratégias reprodução da
sociedade sociedade
obedecendo a Práticas obedecendo a
uma lógica uma lógica
política religiosa
Vivido

Sujeito individual:
Apoderar-se de si
mesmo com o uso
da reflexibilidade,
da projetividade e
da “prática”

Os indivíduos que constituem o grupo estudado são percebidos empiricamente como


indivíduos cuja vida é, de maneira mais ou menos intensa, marcada pelos aspectos comuns,
ligados tanto a seus engajamentos como as suas maneira de perceberem a si próprios.

Todo o nosso estudo havia iniciado com a narrativa de cenas do cotidiano de uma família
de militantes católicos do PT. Foram essas cenas do cotidiano que nos ajudaram a
identificar como quatro referências temáticas como estão expressas no Esquema 03: 1) os
Movimentos Sociais (Movimento Social Popular); 2) Campo Político (Partido dos
Trabalhadores); 3) Campo Religioso (Igreja); 4) Sujeito Individual (Envolvimento Pessoal).

17
Considerando essas referências que são percebidas empiricamente no grupo pesquisado, as
perguntas implicadas na questão central de nossa pesquisa foram formuladas de maneira a
considerar dois grandes conjuntos de componentes ou aspectos (dos quais tentamos
apresentar uma síntese no Esquema 04). Os dois conjuntos são os seguintes:

Primeiro, estamos atentos às relações dos sujeitos perante os movimentos sociais (MSP), o
campo político (PT) e o campo religioso (atividade da Igreja). Isto é feito no nível das
percepções, avaliações e opções pessoais frente a projetos, motivos ligados às opções,
maneiras de agir, intensidade dos elos, estratégias e experiências consideradas significativas
nas trajetórias dos sujeitos.

Segundo, nossa atenção também considera de maneira especial o que está explícito em
termos de projetos pessoais, de motivos e maneiras de agir, em termos de “preocupação
consigo” (“espiritualidade pessoal”) e de sentido estratégico e ainda em termos de
trajetórias vividas. A este último componente estamos muito atentos, de um lado, à “auto-
compreensão” da vida pessoal (“idéia de vocação”?), e, de outro lado, à avaliação das
influências externas sofridas...

18
ESQUEMA 04 – IDENTIDADE: DIMENSÕES E COMPONENTES

DIMENSÕES DA
IDENTIDADE COMPONENTES A PRIVILEGIAR

- Movimento social popular


- Campo religioso e político
Percepções, avaliações e
Projetos Opções  Projetos Projeto pessoal de vida
considerando tudo isto

- Movimento social popular


Motivos da opção - Campo religioso e político
(sentimento, convicção,
Prática E dever, valor, interesse, - Influência de
S cálculo) outras pessoas, “auto-
compreensão“ (vocação)
T pessoal. Avaliação das
R influêncais sofridas.
A
T
- Movimento social popular
É Maneiras de agir - Campo religioso e político
Motivos G Intensidade dos
engajamentos - Percepção e
I avaliação do engajamento
A dos cristãos
Espiritualidade pessoal e
S cuidado consigo

- Movimento social popular


Experiências acumuladas - Campo religioso e político
O vivido
-- Reviravoltas e
mudanças na trajetória
pessoal

Eis o caminho que tomamos para nos interrogar sobre a identidade dos católicos engajados
no PT brasileiro, tendo sempre presente as três perspectivas teóricas: a lógica dos
movimentos sociais (produção da historicidade), a lógica dos campos de atividades e a
lógica dos sujeitos e dinâmica pessoal.

Se a lógica dos movimentos sociais e a lógica dos campos de atividade ajudaram-nos mais
a dar conta dos projetos coletivos, a lógica dos sujeitos individuais auxiliou-nos a penetrar
no mundo dos projetos pessoais. Colocar as três lógicas em diálogo, possibilitou a perceber
o processo de permanente “costura”, que é a construção da identidade.

19
Conclusão

O conceito operacional de identidade para estudos sociológicos, aqui apresentado, foi


construído em função de uma pesquisa muito específica: a identidade dos católicos no
Partido dos Trabalhadores – PT, no Brasil. Esta construção muito “localizada” em nada, no
entanto, invalida que seja “aplicável” ou re-trabalhável em função de outros estudos. Todo
o nosso esforço neste artigo foi o de sugerir exatamente isto.

Todo o pesquisador que fizer este esforço, ou seja o de empregar (“aplicar” ou re-trabalhar)
esta sugestão de conceituação operacional, estará sem dúvida associando-se ao trabalho de
todos aqueles que, ao longo da história da sociologia, sobretudo em sua história mais
recentes, procuraram caminhos de viabilização daquilo que alguns chegaram a denominar
de “meso-sociologia”, ou seja: uma sociologia a meio caminho entre a abordagem micro e a
abordagem macro.

Quando falamos que o “ser humano é um ser de projeto” estivemos dizendo sobretudo que
ele está em constante processo de construção de identidade. O ser humano que é “um ser de
projeto” vive em permanente ato de “costurar” no tempo e no espaço os seus projetos
pessoais com os dos outros e com os projetos coletivos das mais diversas procedências e
direções. A identidade é resultado em processo dessa “costura” permanente. O conceito
operacional de identidade, que procuramos aqui explicitar, quer ser uma contribuição, ainda
que incipiente e limitada, enquanto instrumento para a sociologia, com vistas a dar conta
dessa realidade.

20
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ABASTRACT: This article briefly retakes in his first part some uses of the concept of
identity in sociology, enphasizing the most relevant aspects of thier uses. Thereafter, in the
second part, assuming that the “human being is someone in project”, a concept of identity
is constructed, in a way of being na operational instrument in sociological research. The
author takes as a reference example in his elaboration the operacionalization process of this
identity of catholics in the Labour Party – PT, of Brazil.

22
RESUMO: O artigo retoma, brevemente, na sua primeira parte, alguns usos do conceito de
identidade na sociologia, salientando os aspectos mais marcantes nesses usos. Em seguida,
na segunda parte, partindo do entendimento de que o “ser humano é um ser de projeto”,
constrói um conceito de identidade, que possa ser instrumento operacional em pesquisas
sociológicas. O autor toma como exemplo de referência, em sua construção, a maneira
como trabalhou este conceito em sua pesquisa sobre a identidade dos católicos no Partido
dos Trabalhadores – PT, do Brasil.

KEY WORDS: Identity, Sociology of identity, deimension of identity, components of


identity, identity in Sociology.

PALAVRAS CHAVE: identidade, sociologia da identidade, dimensões da identidade,


componentes da identidade, identidade na sociologia.

AUTOR: José Ivo Follmann. Doutor em Sociologia, Professor do Programa de Pós-


Graduação em Ciências Sociais Aplicadas da UNISINOS, linha “Políticas e Práticas
Sociais”. E-mail: follmann@poa.unisinos.br

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