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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 5

2 MUNDO PRIMÁRIO: O CONTEXTO PARA A CRIAÇÃO DO

LEGENDARIUM 13

2.1 DESMISTIFICAÇÃO DO HERÓI 15


2.2 O PODER DA PALAVRA 29

3 ARQUITETURA DA FICÇÃO 39
3.1 MITO EM CONSTRUÇÃO 40

3.2 OS PILARES DE ARDA 56

4 A LITERATURA COMO REFERÊNCIA 65

4.1 ARDA: AMBIÇÕES DE UM MUNDO IDEALIZADO 66


4.2 HOBBITS: AS REPRESENTAÇÕES DO HOMEM ENTRE

A FRAQUESA E A GLÓRIA 82

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 93

REFERÊNCIAS 98

4
Capítulo 1

INTRODUÇÃO

De forma geral, não é possível encontrar facilmente,


mesmo em meio a buscas persistentes, estudos concretos que
tenham como base elementos da cultura de massas.
Principalmente aqueles abraçados pela mídia e considerados
por algumas classes de estudiosos como uma trivialidade em
busca da fuga dos problemas do cotidiano. A fantasia permeia
o imaginário de todas as civilizações já conhecidas, uma vez
que, como característica imutável do ser humano, está a
5
elaboração de respostas fantasiosas cujas perguntas se mantém
como enigmas perante conhecimentos fundamentados pela
razão. John Ronald Reuel Tolkien escreveu uma série de obras
literárias do gênero fantástico e as nomeou como o
Legendarium. Tanto seu enredo quanto a sua construção são
objetos que podem ser utilizados como uma importante fonte
do período em que o autor e seu público estavam inseridos.
Desde que, tal pesquisa, tenha o cuidado de não cair no campo
de interpretações vagas com base na fama acumulada ao longo
das gerações que passaram a admirar os livros.
O Legendarium foi escrito por décadas a fio, foram
inúmeras mudanças no enredo, momentos de desistência por
parte de seu autor e euforia daqueles que o tiveram em mãos.
Dentro dele estão inseridas quatro obras publicadas na integra
por Tolkien e uma organizada e publicada por um de seus
filhos após a sua morte. Trata-se de um homem nascido no
final do século XIX que percorreu um longo caminho em um
mundo coberto por disputas de poder e instabilidades. Cada
um dos muitos personagens de suas narrativas representa não
apenas os desejos e expectativas de um universo idealizado por
Tolkien, mas, de muitos indivíduos que passaram e, ainda,
passam pelas mesmas tempestades enfrentadas por ele.
Tolkien definia o seu trabalho como a criação de uma
realidade secundária, uma subcriação. O mundo primário é o
que se vê como real, no qual, pelas forças da razão os
indivíduos estão vinculados. Enquanto isso, o mundo
secundário não está preso às regras regidas pelo mundo
6
primário, nele a mente pode ser livre para acreditar em uma
realidade secundária. Desta forma enquanto realidade
subcriada, no momento da leitura e escrita dos contos tudo o
que pertence a esse novo espaço é de fato realidade. Os termos
secundário e subcriação significam que a existência de tais
informações em uma realidade paralela só são possíveis
através de adaptações e representações de algo precedente.
Não existe coincidência e sim inspiração, as bases dos
personagens, enredo e ambiente em que estão localizados se
remetem a conhecimentos acumulados por aquele que os
escreve.
A primeira narrativa sobre seu universo fantástico teve
seus primeiros esboços datados no ano de 1917. O Silmarillion
foi seu trabalho literário mais cuidadoso e do qual detinha mais
apego. Apesar disso, não caiu nas graças de seus editores que
possuíam desejos muito específicos quanto à utilização de seus
personagens, desta maneira, o livro apenas foi publicado, em
sua memória, no ano de 1977, quatro anos após o seu
falecimento. Seu enredo foi redigido e modificado ao longo de
quase sessenta anos, na perspectiva de seu autor, ele era a
referência de toda a história de seus demais livros, pois falava
sobre a origem da vida dos ancestrais de seus personagens e do
mundo como um todo. Ali estavam registrados a evolução das
raças e os episódios importantes ao longo das eras anteriores
aos acontecimentos dos demais livros.
O Hobbit (1936) foi o primeiro livro a ser publicado, era
uma leitura voltada para o público infantil, que contava a
7
história das aventuras de um personagem que mesmo a
contragosto se colocou em meio a um turbilhão de
acontecimentos perigosos. Com a grande aceitação do público,
pessoas próximas de seu círculo social e seus editores,
pressionaram Tolkien arduamente com o desejo de uma
continuação. O autor aceitou a proposta, mas desejava criar
algo mais complexo. O que deveria ser uma continuação de um
livro infantil se tornou uma leitura adulta e densa. A trilogia O
Senhor dos Anéis veio a público em 19551 e superava qualquer
expectativa que os críticos e leitores poderiam ter sobre livros
do gênero fantástico. Entrou para história ao se tornar um dos
livros mais vendidos do século XX.
A partir de tais constatações, não é difícil chegar à
conclusão de que tal tipo de produção cultural, que mexeu de
forma significativa com a estrutura da memória coletiva de um
período, merece uma atenção maior no âmbito da pesquisa e
análise históricas. Atualmente, dentro do campo da História,
falar sobre investigações com base em trabalhos literários não
se enquadra como inovação. São inúmeros trabalhos cuja
riqueza de análise e estudos devem ser reconhecidos. Mas vale
ressaltar que este tipo de fonte foi desprezada um dia, o medo
de cair no campo da interpretação estava ligado ao desejo de
reconhecimento perante outras áreas do saber. Também não é

1
Os dois primeiros volumes titulados: A sociedade do Anel e As Duas Torres foram
publicados no Reino Unido em 1954, e um ano depois a trilogia se completava com O
Retorno do Rei. No Brasil, O Senhor dos Anéis foi lançado pela editora Artenova na
década de 1970.
8
surpresa que uma especialidade constituída por uma base de
estudiosos focados de início na análise do tempo pelo viés
econômico e político, mantenha alguns de seus preconceitos.
Todavia, se a concepção de documento não se modificava,
o seu conteúdo enriquecia-se e ampliava-se. Em princípio,
o documento era, sobretudo um texto. No entanto o próprio
Fustel de Coulanges sentia o limite desta definição. Numa
lição pronunciada em 1862 na Universidade de
Estrasburgo, declarara: ―Onde falam os monumentos
escritos, deve a história demandar às línguas mortas os seus
segredos [...]. Deve escrutar fábulas, os mitos, os sonhos da
imaginação [...]. Onde o homem passou, onde deixou
qualquer marca de sua vida e da sua inteligência, aí está a
história‖ (Ed. 1901, p.245) (LE GOFF. 2008, p.530).

Os conceitos agregados a noção de documento foram


transformados ao longo do tempo por aqueles que lidam com
a análise da História. De início, o documento era visto apenas
como uma fonte escrita, um texto, como jornais antigos, dados
estatísticos e livros unidos a escritos de outros estudiosos que
também utilizavam deste tipo de fonte. Estes métodos
limitavam o campo do conhecimento, pois, caso um
acontecimento não houvesse sido ratificado com a escrita
estava perdido e fadado ao esquecimento. Tanto a literatura
como a história oral e a música, tem muito a falar sobre seu
tempo, assim, em meio a discussões os estudiosos passaram a
adotar estes como documentos tendo em mente que o saber
historiográfico não está desvinculado do seu meio social.

9
Há muito a se perder ao negar a relação entre o homem
e aquilo que ele deixa como legado de sua existência.
Expressões artísticas, crenças e propensões ideológicas,
mostram como um indivíduo pode representar seus iguais em
muitos aspectos sendo ele integrante de uma construção social
e temporal em comum. Ultimamente não se pode afirmar que
a História se mantém refém de antigas percepções, o
historiador toma o papel de um minucioso investigador do
tempo e se coloca aberto a novas abordagens de acordo com as
mudanças da sociedade. A partir da segunda metade do século
XX, a História redirecionou seu olhar com maior expectativa
para as tradições da cultura popular e interpretações culturais
da experiência histórica e humana. Caminhos tomados
abraçando a interdisciplinaridade, principalmente sua relação
com a antropologia. O estudo dos documentos torna-se focado
nas manifestações culturais, não mais apenas das classes
privilegiadas priorizando a construção da história dentro das
massas anônimas.
Mas a despeito das mudanças, ao se averiguar a aversão
ao uso da Literatura Fantástica como fonte é disseminada até
mesmo entre os acadêmicos de Letras. A grande indagação é:
de que forma o fantástico pode contribuir como fonte para a
História de modo consistente? É muito simples observar que
apesar de ainda não receber a atenção merecida, a validade de
suas contribuições sobre a compreensão do homem
contemporâneo não se mostra inferior às demais fontes mais
aceitas no meio acadêmico. Inclusive, de modo preciso, esta
10
ideia pode ser explicada pelo fato de que a fantasia é uma
atividade natural e não há sociedade que se construa sem
elementos ficcionais. Uma resposta simples que não poderia
ter a sua prática mais complexa. Não se pode desvendar as
motivações de um homem através de suposições infundadas,
observar um indivíduo enquanto parte de uma sociedade com
ideais em comum exige um estudo minucioso. Analisar os
escritos de um homem, que podem falar muito sobre toda a
estrutura social que estava fixada no período da criação de suas
obras, requer uma longa caminhada. Exatamente por isso que
este trabalho deixa em aberto possibilidades para pesquisas
futuras mais aprofundadas, não carrega resultados concretos,
mas sim, uma serie de constatações sobre perguntas
necessárias a serem feitas.
O primeiro capítulo busca através de uma análise e
crítica da figura do literato encaminhar as primeiras ligações
entre as experiências acumuladas por um indivíduo e as suas
construções em sociedade. O segundo tem como objetivo,
refletir sobre a inclinação natural da humanidade às
representações mitológicas de seus desejos idealizados e
reprimidos. A busca por algo que dê sentido a existência por
meio da busca e reprodução de um passado idealizado. Por fim,
o terceiro está presente para mostrar as relações explícitas
entre a caracterização do ambiente e dos personagens no
Legendarium, com as aspirações não somente de seu autor em
específico, mas, de seu tempo e o público que o levou a
ascensão. Relacionar o social e o íntimo com as motivações
11
para a construção das histórias abre portas para informações
sobre os interesses do homem do século XX enquanto
representação da natureza humana em geral no sentido de
apropriação de símbolos.
Os objetivos deste estudo são tecer reflexões quanto às
possibilidades do uso da Literatura Fantástica como fonte para
o historiador, utilizando como principal sustentação o
Legendarium de Tolkien, analisando-o com base em diferentes
referências entre elas teóricas, literárias e biográficas. Além
disso, levantar argumentos que expliquem porque este
universo, essas obras literárias, tornaram-se parte da
identidade cultural de uma sociedade posterior a sua criação.
Trata-se de um trabalho que acumula a cada dia mais fãs, a
ponto de criarem grupos de estudo e se referirem como
Tolkianos. E, por fim, ponderar sobre de que forma a
existência de uma mente nascida no fim do século XIX pôde
causar tamanho deslumbre em indivíduos tidos como “pós-
modernos” e refletir intensamente sobre seus desejos e
fantasias. Algo que causa fascínio na sociedade a ponto de
integrar-se ao imaginário social de forma massiva, deve ser
encarado como objeto de pesquisa histórica.

12
Capítulo 2

MUNDO PRIMÁRIO:
O CONTEXTO PARA A CRIAÇÃO DO LEGENDARIUM

No papel de historiador, descrever um indivíduo se


torna um trabalho exaustivo e angustiante. Exaustivo porque
há inúmeras considerações que se deve ter em mente ao
apresentar um homem como um personagem histórico que
carrega o peso de seus próprios valores, resultados do conjunto
13
de experiências que absorve ao longo da vida em sociedade. E,
ainda que concluída a análise, angustiante pela
impossibilidade de arranhar mais do que a superfície do que se
compreende como a construção de um ser social, que apesar
de se integrar a crenças e atividades de uma comunidade em
comum ainda se vê regido por inúmeras influências ao longo
de sua vida.
Por muito tempo, os historiadores se recusaram a fazer
interpretações quanto a vida pessoal de um indivíduo em
especial. A história foi e tem sido um campo do saber
menosprezado por muitos. A utilização de fontes ignoradas por
outras áreas, como os estudos biográficos, foram negadas por
algum tempo em busca de trazer maior receptividade para a
classe. Mas, com o passar do tempo, os historiadores
perceberam que estavam sendo displicentes sobre tamanha
riqueza deixada de lado por temores que nunca se findariam.
“A biografia constitui na verdade o canal privilegiado através
do qual os questionamentos e as técnicas peculiares da
literatura se transmitem a historiografia” (LEVI, 2006, p. 168).
Se tratando da análise da história de um indivíduo como
representante de seu tempo, os documentos escritos pelo
mesmo tomam novos significados quando colocados perante
as suas experiências em sociedade. De fato, não se mede o
significado da existência de um indivíduo a partir do que ele
tem a falar de si mesmo. Utilizar sua biografia como fonte não
se torna leviano, mas na verdade imprescindível para uma
análise mais elaborada.
14
Buscar informações sobre um ícone popular é atravessar
um mar de fontes onde, na maioria das vezes, a veracidade é
ofuscada pelo deslumbre. Neste caso o problema não está em
encontrar dados que apontem sobre o assunto e sim analisá-
los, separar os interesses pessoais dos que propagam tais
informações dos acontecimentos factuais. Um literato de fama
global como Tolkien, objeto de uma legião de fãs, acaba por
ser até canonizado2. E, por se tratar de alguém cujas obras já
estão para completar quase um século, existe muito trabalho a
ser feito para separar as razões e referências da construção do
Legendarium, daquilo que se espalha em meio às massas.
Neste caso esta pesquisa não busca uma defesa ou
homenagem, mas, apenas o levantamento de informações com
teor crítico em sua memória.

2.1 A DESMISTIFICAÇÃO DO HERÓI


John Ronald Reuel Tolkien nasceu no final do século
XIX, no ano de 1892 e recebeu muitos títulos no seu caminho.
Entre eles, o de Filólogo, doutor, escritor, professor e soldado,
não menos importantes os de filho, irmão, marido e pai. Seu
nascimento ocorreu em Bloemfontei no Estado Livre de
Orange, território hoje conhecido como África do Sul. Neste
momento, várias regiões incluindo a de seu nascimento eram

2
Expressão utilizada para falar sobre o tratamento de fãs com a figura de Tolkien
(White, 2016).
15
dominadas pelos Britânicos. Tornou-se uma figura pública
devido à tamanha fama de suas obras literárias, o tornando alvo
até a atualidade de críticas e especulações, dentre elas sobre a
sua nacionalidade.
Tolkien, ao se apresentar publicamente sempre se
colocou como um inglês, fazendo com que muitos, ao saberem
do local de seu nascimento, o considerem racista por não se
ver como Sul-Africano, inclusive por se tratar de um homem
do fim do século XIX, e de início com boa situação financeira.
Crítica que entra em grande contradição a seus discursos e até
mesmo com a caracterização dos personagens de suas
histórias. Aos seus cinquenta e dois anos, Tolkien comentou
sobre estar ciente dos problemas do local em que viveu por
pouco tempo:
Quanto ao que você diz ou dá a entender das condições
“locais”: eu sabia delas. Não creio que elas tenham mudado
muito (mesmo que para pior). Eu costumava ouvi-las sendo
discutidas pela minha mãe e, desde então, sempre tive um
interesse especial nessa parte do mundo. O tratamento de
cor quase sempre horroriza qualquer um saído da Grã-
Bretanha, e não apenas na África do Sul. Infel[izmente] não
são muitos que mantêm esse sentimento generoso por
muito tempo (TOLKIEN, 2006, p.122)3.

A verdade é que Tolkien e seu irmão Hilary (nascido em


1894), se mudaram logo para a Inglaterra por desejo de sua
3
Carta 61 para Christopher Tolkien, 18 de abril de 1944. Humphrey Carpenter com a
assistência de Christopher Tokien, transformaram em um livro a organização de 354
cartas escritas por John Ronald Reuel no ano de 1981.
16
mãe, Mabel Tolkien. Ela realmente detestava o clima do lugar
em que vivia, o mesmo estava causando problemas de saúde
em seus filhos como alergias e doenças pulmonares,
principalmente ao mais velho. Mabel também se sentia
sozinha, não tinha amigos e seu marido mostrava-se cada vez
mais focado no trabalho como banqueiro4 com medo de perder
seu cargo, fazendo assim com que se distanciassem. Decidida
a fugir do verão desconfortável de Bloemfontei, insistiu para
que passassem uma temporada na Inglaterra. Arthur,
entretanto, se mantivera rígido contra a ideia de deixar seu
trabalho no banco, enviando-a sozinha com seus filhos
prometendo que se encontrariam mais tarde.
Em 1895, com apenas três anos, o jovem Tolkien já
deixava seu país de origem e, um ano mais tarde, seu pai
Arthur Tolkien falece por febre reumática, fazendo com que
ele não retornasse para o local de seu nascimento, perdendo
assim sua nacionalidade de Orange5. Sua infância foi
conturbada, marcada por muitas mudanças de moradia, a
formação de sua identidade aconteceu no primeiro local que
considerou verdadeiramente um lar, a Inglaterra, onde se
inseriam as preciosas memórias dos dias pacíficos no interior.

4
Arthur Tolkien mudou-se inicialmente sozinho para a África do Sul para ser gerente
da filial de Bloemfontei do Bank of Africa. Mais tarde, já em situação estável Mabel
foi a seu encontro.
5
Conforme dispõe a constituição de Orange de 1854, a cidadania do Estado de Livre
Orange é perdida ao fixar residência fora do país com uma intenção evidente de não
voltar ao Estado. Essa intenção é considerada expressa quando o homem se muda
para outro país por mais de dois anos (WHITE, 2016).
17
A morte prematura de seu pai causou o estreitamento da
ligação entre os dois meninos e sua mãe, a mesma vivia em
função de seus filhos e não confiava sua criação a mais
ninguém.
Tolkien se considerava um homem do campo, sua
infância se passou no meio rural em uma pequena aldeia6.
Desde então, demonstrou grande apego e paixão por duas
atividades que seguiu com fervor até o momento de sua morte
em 1973, o estudo de línguas e o amor a natureza. Muitas
crianças em seus primeiros passos abraçam a criatividade e
imaginação marcantes desta fase e criam diferentes formas de
se comunicar. Existem diversos casos de irmãos e amigos que
quando pequenos conversavam com uma linguagem que
apenas eles compreendiam, criando um mundo íntimo e sem
autoridade (interferência dos pais e adultos em geral). Tolkien
fez parte deste grupo, mas, diferente da intensa maioria nunca
abandonou seu interesse por diferentes formas de se
comunicar.
Um dos motivos deste interesse quase obsessivo pela
linguagem escrita, estaria na forma com que foi educado. Até
para jovens que faziam parte da elite do século XX, não era
comum que crianças soubessem ler aos quatro anos de idade,
como ele. Ainda mais incomum, era essa mesma criança, aos
quatro anos, receber aulas de caligrafia e idiomas, influência

6
Aldeia conhecida como Sarehole situada no Norte Worcestershire zona rural do
Reino Unido.
18
de sua mãe que lhe deu as lições e apoiava a sua paixão por
histórias de magia e aventuras desde cedo.
Eles se mantiveram na aldeia, até que, avançando em
seus estudos, ingressou na mesma escola que seu pai havia
estudado a King Edward‘s School, que se encontrava muito
distante de sua atual moradia, culminando, então, em sua
mudança junto a sua mãe e irmão para Birminghan aos seus
oito anos. Acontecimento marcante que os causou tristeza por
abandonarem um lugar tranquilo e pacato em meio à natureza.
Ele nunca se esqueceu de tal amor e o desgosto por precisar se
inserir na vida urbana e agitada.
“Sou de fato um Hobbit (em tudo, exceto no tamanho).
Gosto de jardins, de árvores e de terras aráveis não-
mecanizadas; fumo um cachimbo e gosto de uma boa
comida simples (não-refrigerada) … Gosto de, e ainda ouso
vestir nestes dias sem brilho, coletes ornamentais. Gosto
muito de cogumelos (tirados de um campo); possuo um
senso de humor muito simples (que até mesmo meus
críticos apreciativos acham cansativo); durmo tarde e
acordo tarde (quando possível). Não viajo muito”
((TOLKIEN, 2006, p.478)7.

Em 1958, a apenas um ano de se aposentar do cargo de


professor na Universidade de Oxford, Tolkien escreve sobre o
que acredita ser as suas características mais marcantes à uma
leitora de seus contos. Ele possuía opiniões muito firmes
quanto a sua formação tanto intelectual quanto pessoal. Havia

7
Carta 213 para Deborah Webster, 25 de outubro de 1958.
19
se tornado uma figura pública devido à fama de seus livros e
suposições externas sobre si o incomodavam. Era um homem
muito aberto para falar a respeito de si próprio e de seus
trabalhos, na maioria das vezes para deixar clara a imagem que
desejava expor ao público. Seus trabalhos eram, por falta de
palavra melhor, impecáveis, pois sua dedicação ao que fazia
tinha também como objetivo torná-lo isento de críticas que o
fariam se envergonhar por não ter tomado tais cuidados.
Tinha a escrita de cartas como um prazer que lhe tomava
grande parte do tempo, respondia educadamente cartas de fãs
e críticos sobre seus livros. Inclusive, entrava em discussões
sobre os enredos e descrevia detalhes deles a alguns que o
procuravam. Deborah Webster era mais um dos leitores de
suas obras literárias em torno da Terra Média8, teceu críticas
sobre o assunto e o procurou com a finalidade de esclarecer-se
sobre algumas de suas características pessoais, acreditando
que poderiam situá-la melhor ao analisar seu trabalho.
Se referindo ao teor do trecho da carta, a criação dos
hobbits em seu universo literário surge como representação
nostálgica de seu escritor sobre tempos mais agradáveis em
meio a natureza. Tolkien se coloca como uma pessoa de gostos
simples, porém, subestimados no momento em que escreve a
carta em questão, já se via como um homem esgotado pelas
constantes mudanças causadas pelo progresso no século XX.
Tornou-se professor ainda muito jovem, e carregava consigo,

8
Região de Arda, território que serviu de palco para as histórias do Legendarium.
20
assim como a maioria que se propõe a tal profissão, muitas
expectativas. Adorava se encontrar com outros que assim
como ele possuíam a paixão pela literatura e a escrita, mas, ao
longo de seu percurso como professor se viu desgastado em
funções entediantes e burocráticas. Os hobbits retratavam em
suas características os desejos de seu autor que não poderiam
ser alcançados devido às suas obrigações: viver de forma
simples, sem passar muitas horas em tarefas cansativas que não
lhe davam o mínimo prazer. Os hobbits, no entanto, faziam
apenas o que desejavam, cuidavam da terra que amavam,
contavam histórias e se dedicavam a pequenos prazeres como
a jardinagem e o fumo9.
Mabel, sua mãe, se converteu para o catolicismo um
pouco antes da mudança, tendo que enfrentar a falta de apoio
da família de tradição protestante. Seus filhos foram educados
em sua nova religião perdendo a ajuda financeira de seus
parentes. Mais tarde, ao ingressá-los em uma escola católica,
ganharam a atenção e ajuda do padre responsável por ela,
Francis Xavier Morgan. Ele se tornou um amigo íntimo da
família e criou um verdadeiro apreço por passar seu tempo
fazendo caminhadas com os jovens irmãos Tolkien. Aos trinta
e quatro anos Mabel não se encontrava em bom estado de
saúde. Apesar de nunca ter passado pela cabeça de Ronald,
como era chamado pela mãe, que a mesma pudesse nunca sair

9
Tolkien adquiriu o hábito de fumar constantemente com seu tutor, padre Morgan.
O inseriu na narrativa também como fonte de prazer dos hobbits e alguns outros
personagens como o mago Gandalf.
21
da cama pela diabetes, o padre Morgan se tornou seu tutor com
a morte da matriarca em 1904.
Em 24 de janeiro de 1972, Tolkien envia ao filho uma
carta falando sobre suas novas acomodações e em virtude da
solidão que sentia, relembrou este momento de transição. “Em
1904 tivemos (Hilary e eu) a repentina experiência miraculosa
do amor, carinho e humor de Pe. Francis” (TOLKIEN, 2006,
p.688)10. Ele se referia ao fato do padre que já tinha inúmeras
responsabilidades, tê-los adotado tão facilmente sem
pestanejar. Toda a carta possuía o tom de saudade, ele estava
deveras satisfeito com seu novo apartamento que acomodaria
bem o que restou de sua biblioteca, mas ainda se sentia só. No
entanto, ao mesmo tempo, reconhecia que o momento em que
sua vida se encontrava lhe permitia absorver melhor os
sentimentos de perda11, com mais maturidade do que quando
criança passando pela morte de sua mãe e recebendo o apoio
de seu novo tutor.
Seu interesse por línguas era natural e apoiado por
aqueles que o cercavam e em sua infância, com cerca de doze
anos de idade, ele já carregava certa carga de conhecimento
sobre grego, latim, francês e alemão. Também mantinha acesa
a chama do fascínio por línguas antigas que instigavam a sua
imaginação sobre aventuras em terras distantes. Desde essa
época, já trabalhava em sua mente a ideia de que a linguagem
10
As Cartas de J.R.R Tolkien Carta 332 para Michel Tolkien.
11
Neste período Edith sua esposa também já havia falecido, fato que será abordado
mais a frente.
22
não se constrói do nada, que não existia, na verdade, o conceito
de criação e sim adaptação, inspiração e derivação. A partir
disso, mais tarde desenvolveu diversos idiomas, os mais
conhecidos derivavam-se do Gales e do Finlandês, ambos se
tornaram, em seu universo criativo, as línguas élficas. Seu
interesse nos estudos era agitado por seu tutor, que apesar de
carinhoso tinha métodos extremamente rígidos quanto a sua
educação. Nesta mesma carta à Christopher Tolkien, envolto
pela nostalgia descreveu outro acontecimento de sua
juventude, o que se tornara o mais significativo de sua vida.
(...) e apenas 5 anos mais tarde (o equiv. a 20 anos de
experiência mais tarde na vida) conheci a Lúthien Tinúviel
de meu próprio “romance” pessoal, com seu longo cabelo
escuro, seu belo rosto e seus olhos estrelados e sua linda
voz. (TOLKIEN, 2006, p. 688)12.

Lúthien Tinúviel era o nome de uma princesa élfica que


se apaixonou por um humano chamado Bérien. Este conto se
inseriu em forma de poemas contados pelos elfos e homens
sobre uma antiga história de amor que originou uma nova raça
em O Simarillion13 (1977) e mais tarde em O Senhor dos Anéis
(1955). Claramente inspirado em seu primeiro e único amor,
Edith Bratt, a quem conheceu devido a uma nova mudança de
residência ainda em Birmingham. Em um novo alojamento,
um andar abaixo do seu, vivia esta garota também órfã, apesar

12
Carta 332 para Christopher Tolkien, 24 de novembro de 1972.
13
O trabalho de maior empenho e que foi construído ao longo de 60 anos.
23
da diferença de idade, ele com dezesseis e ela com dezenove
anos, se apaixonaram rapidamente, se viam unidos por serem
dois órfãos que sobreviveram às desventuras da infância. A
relação encontrou no caminho do desejo de união diversos
empecilhos.
Além de ser mais velha, Edith Bratt não era católica, o
que era completamente inaceitável para alguém que possuía
um tutor clérigo. Eles foram forçados a não se encontrarem
mais, seu tutor o proibira para que se empenhasse de maneira
mais rígida nos estudos. Em meio a tal desapontamento,
encontrou jovens que como ele tinham interesse por mitologia
e contos fantásticos, fundando um pequeno grupo informal que
se reunia para falar sobre antigas sagas. A união manteve-se
até mesmo com a sua entrada na Universidade de Oxford como
bolsista onde estudava literatura e inglês antigo. O clube foi
nomeado como TCBS (Tea Club, Barrovian Society, formado
por volta de 1911), dentro dele haviam quatro membros que se
conheceram por interesses em comum na King Edward´s
School: Tolkien, Geoffrey Bache Smith, Robert Quilter Gilson
e Christopher Luke Wiseman.
Eram todos jovens estudantes com grandes aspirações
que acreditavam que a literatura poderia mudar o mundo, e foi
dentro desta sociedade que Tolkien começou a tornar a sua
escrita mais séria. Infelizmente, como característica da
contemporaneidade, a instabilidade política, social e
econômica deu as caras com a eclosão da Primeira Guerra
Mundial em 1914 e a separação dos integrantes deste grupo foi
24
irremediável. Também apenas um ano depois de finalmente ter
alcançado a maioridade, quando de imediato foi em busca de
Edith, formalizando seu noivado após a conversão da noiva ao
catolicismo.
Em 1916, John Tolkien se viu forçado a entrar no Corpo
de fuzileiros de Lancashire poucos meses após seu casamento
partindo para a França. A guerra como para a maior parte da
população lhe rendeu perdas. Dois de seus amigos do grupo de
jovens que conversavam sobre literatura foram mortos em
batalha, Gilson e Smith, Tolkien adoeceu e logo voltou a
Inglaterra. Ronald Kymrse14 em seu livro Explicando Tolkien
(2003) traz em algumas páginas importantes informações
biográficas sobre o literato. Dentre elas ele escreve: “Pode ser
bizarro, mas não exagerado, afirmar de certo modo que
devemos a existência do vasto universo tolkieniano aos
piolhos da França‖ (KYRMSE, 2003, p.9). Kyrmse se refere a
febre das trincheiras, o que manteve Tolkien de cama por um
longo tempo, gasto em colocar no papel o mundo fantástico
com que já sonhava a anos.
É estranho imaginar que um homem recém-saído do
horror da guerra, convalescendo de uma doença causada por
ela, fosse pego preocupado com a construção de um mundo de
fantasia. A ponto de em meio a sua incapacidade de redigir
sobre os contrastes da Terra-Média, envolver sua companheira
14
Ronald Kyrmse (1952) é um estudioso e entusiasta da obra de J.J.R. Tolkien, líder
do grupo de Tolkianos no Brasil, tradutor e consultor sobre as obras de Tolkien pela
editora Martins Fontes.
25
que passava a limpo seu trabalho com a própria caligrafia.
Estes foram os primeiros passos do que viria a se tornar O
Silmarillion, a primeira obra da sua mitologia e a última a ser
publicada. Os encantos de um mundo utópico repleto de
criaturas mágicas, cercado pela natureza e fortemente marcado
pela atmosfera medieval, se tornaram uma distração contra a
angústia de viver na desordem que em sua a perspectiva a
sociedade havia se tornado.
Como muitos contemporâneos, ele se sentia um homem
fora de seu tempo, desejava recriar o passado em seus contos
seguindo seus ideais de moral, que para si já haviam sido a
muito deturpados. Sua formação católica, unida ao seu nível
de instrução intelectual culminou em um amplo desgosto pela
formação de sua sociedade atual. A importância dada a
erudição e devoção a cristandade não eram mais como
deveriam ser, em sua concepção, os indivíduos haviam
deixado de guiar seus passos com base nos conceitos de moral
cristãos e com isso mediam o certo e o errado por puros
interesses pessoais. Além disso, apaixonado pelas artes da
escrita e da língua como também pela história desde a infância,
culpava as novas gerações pelo empobrecimento dos novos
trabalhos acadêmicos. Como professor se sentia desanimado
pelo desinteresse dos jovens com tanto potencial a ser
aproveitado.
Seguindo este raciocínio, é clara a razão do século XX
ter sido o momento do auge da popularidade dos gêneros
fantástico e fantasia. O estopim da mudança da paisagem rural
26
para a urbana, do trabalho no campo ao das indústrias, tudo
isso envolto no clima da aspiração ao progresso. Não obstante,
duas guerras mundiais seguidas de uma guerra ideológica,
cercadas por líderes carismáticos que abusavam da esperança
da população para alcançar seus objetivos, como diria Tolkien,
“obscuros”15. Motivações para se esconder em um canto da
mente onde havia o vislumbre de seres mitológicos como
dragões e bruxas não faltavam. Imaginar cavaleiros medievais
que lutam pela honra e não a ganância, e, onde o bem sempre
submete o mal sem problemáticas, apenas preto e branco, era
o melhor lugar para viajar no tempo livre que se podia dedicar
a leitura por prazer.
Dentre os escritores deste século e gênero que tem sido
referências globais, além de Tolkien está Clive Staples
Lewis16. Que conheceu em Oxford onde viveu com sua esposa
após o nascimento de seu primeiro filho17 até se mudarem
novamente quando aceitou o cargo de professor na
Universidade de Leeds. Lewis viria a se tornar seu melhor
amigo, além de um fã e crítico de seu trabalho. Essa relação
rendeu frutos, haviam os encontros regados a chá e longas e
calorosas conversas dentro de um grupo informal denominado

15
O termo “obscuro” é utilizado algumas vezes no Legendarium para designar as
terríveis intenções dos seres malignos em seu universo criativo.
16
Escritor irlandês mais conhecido como autor de As Crônicas de Nárnia (1950).
17
John Francis Reuel Tolkien, nascido em novembro de 1917 ainda durante o período
em que seu pai estava doente.
27
Inklings18, formado, é claro, por Tolkien e Lewis além de
outros nomes como Charles Willians, e Hugo Dyson. Este
grupo se originou enquanto o TCBS ainda existia, Tolkien se
aproveitou amplamente das discussões que realizava em
ambos os grupos até a dissolução do primeiro com a guerra e
a morte de alguns dos participantes. Tais reuniões tornaram-se
terrenos férteis para o desabrochar das obras de seus membros,
além de possuírem interesses em comum, os encontros
ocorriam de maneira que os envolvidos se beneficiavam
mutuamente, apresentando os trabalhos entre si, se
aproveitando dos conselhos de seus semelhantes.
Sua família havia se tornado grande, aos trinta e sete
anos, Tolkien já possuía quatro filhos, três garotos e uma
menina. Também havia conseguido sucesso profissional ao
abraçar o cargo de cátedro de Anglo-Saxão em Oxford. Seus
filhos eram seus maiores apoiadores, verdadeiramente
amavam as histórias de seu pai. Os hobbits surgiram
novamente quando a sua mente buscava uma fuga, ele se
definia como preguiçoso, gostava de realizar suas atividades a
seu tempo. Mas, para amparar quatro jovens que em breve
ingressariam no caro mundo acadêmico, se obrigou a dar mais
palestras, aulas e a exaustiva correção de provas. Durante o
tédio e cansaço os hobbits surgiram para viverem aventuras na
Terra-Média. Terminou sua história em 1936, publicada no

18
“o nome lembra ink ‘tinta’, sugerindo as pessoas que viviam de escrever, e
também inkling, ‘vaga noção’, dando a entender que haviam ideias ‘mal-cozidas’”
(KYMRSE, 2003, p.11).
28
próximo ano se transformando na semente de que brotaram os
entusiastas de seu trabalho, garantindo a ele a ferrenha
insistência dos editores por uma continuação.

2.2 O PODER DA PALAVRA


Qualquer menção a personalidade deste escritor o liga a
imagem de que em seu cerne, ele era um indivíduo
indiscutivelmente pacifista e guardava facilmente rancores
sobre aquilo que pudesse desestabilizar seu mundo. De fato, é
incontestável que a literatura deve ser vista como um reflexo
da construção da identidade daquele que a criou. Fazer parte
do século de constantes conflitos, cujos preconceitos
infundados foram elevados a um estilo de vida idealizado, fez
com que ao invés de se absorver estes estigmas seus ideais de
moral e comportamento fossem reforçados. Ideais
fundamentados pelas lições aprendidas através de sua mãe e
seu tutor, com conceitos de bem e mal fomentados por meio
da religião católica. Como o mesmo disse em suas cartas,
indivíduos ingleses não eram encorajados a disseminar
preconceitos raciais, apesar de o mesmo não ter sido
inexistente, já que o contexto os incitava a isso. Tolkien fora
criado para ter preconceitos, mas aqueles relacionados a
ignorância do saber acadêmico, o que o tornara pedante, mas
capaz.

29
O nazismo, que abalava as estruturas da sociedade com
um todo, se tornou mais um motivo para que o autor desejasse
abandonar as discussões sociais do universo primário se
afundando em sua criação. Os responsáveis pelas edições de
seu livro iniciaram o assunto de publicar O Hobbit na
Alemanha, lugar onde seu nome já havia recebido certa
atenção, mas, devido aos acontecimentos do período existiam
muitas exigências sobre o tipo de obras e autores que poderiam
ser oferecidos aos habitantes alemães.
O mundo fantástico era sua vida e mais do que a
dedicação ao imaginário, para si existia o apelo à cultura
erudita. Como um ateu é incapaz de acreditar em um ser
superior que move montanhas, para Tolkien, um estudioso não
poderia aceitar a ideia de que as origens de um indivíduo
estavam relacionadas ao seu intelecto ou caráter. Haviam
regras rígidas sobre o tipo de trabalho que poderia ser
publicado e disseminado em solo alemão, sobretudo, envolvia
questões quanto a descendência de seus autores e suas visões
políticas. Assim, Tolkien foi quase que interrogado por
intermédio de seus editores quanto as suas inclinações sobre o
assunto. Logo respondeu às cartas referentes de maneira
cortante:
Obrigado por sua carta.... Lamento informar que não me
ficou claro o que os senhores querem dizer com arisch. Não
sou de origem ariana: tal palavra implica indo-iraniana;
que eu saiba, nenhum dos meus antepassados falava
flindustani, persa, romani ou qualquer dialeto relacionado.
Mas se devo deduzir que os senhores estão me perguntando
se eu sou de origem judaica, só posso responder que
30
lamento o fato de que aparentemente não possuo
antepassados deste povo talentoso (TOLKIEN, 2006. p.
63)19.

Essa foi sua resposta ao ser indagado sobre suas origens.


Posicionando-se completamente contra seu nome ser
relacionado a aceitação aos métodos nazistas, não almejava
que o público o visse se defendendo perante um regime que
pessoalmente detestava. Preferia não publicar seu trabalho no
país do que parecer conivente com seus ideais. Assim, ele se
recusou a fazer qualquer declaração de origem “aish”, ariana,
uma palavra que de acordo com ele, teve seu significado
deformado, elucidando seu julgamento de que o avanço do
fascismo estava apenas utilizando termos desconexos em
relação aos seus verdadeiros significados para apoiar seus
infames objetivos. Preferia não levar seu trabalho a Alemanha
se fosse sobre essas condições. Com seus colegas de trabalho
já falava abertamente sobre o assunto, com seu filho então,
usou o termo “maldito tampinha ignorante”20 referindo-se a
Hitler após observar o avanço do ritmo da guerra.
Encontrou problemas para fazer a tão esperada
continuação de seu livro infantil sobre os pequenos hobbits,
sua idade avançara, possuía um trabalho com alta carga de
atividades e se empenhava como marido e pai. Levou mais de
uma década para que, tanto ele quanto seus editores e críticos
19
Carta 31 para Rütten & Loening Verlag, 25 de julho de 1938.
20
Carta para Michel Tolkien, 9 de junho de 1941.
31
estivessem satisfeitos com a conclusão de O Senhor dos Anéis,
o que causou um enorme cansaço e momentos de desistência
ao escritor. “(...) Ela perdeu minha estima, e não tenho ideia do
que fazer com ela. Em primeiro lugar, o Hobbit original não
estava destinado a ter uma continuação” (TOKIEN, 2006, p.
63)21. Estava certo de que essa dada continuação não se
assemelhava ao primeiro livro em sua estrutura, um trabalho
detalhista ao extremo que chegava a ser quase obsessivo cuja
linguagem e narrativa certamente não agradaria crianças e
jovens. Era sem a menor dúvida um livro para adultos, algo
que mostrava melhor a ambição de seu autor que declarava a
quem desejasse que O Senhor dos Anéis era melhor do que O
Hobbit.
A ideia de ser forçado a escrever sobre o tema que lhe
trazia alegria nos momentos de dificuldade lhe era
inconcebível. Se indagado sobre o orgulho que possuía sobre
seus trabalhos, Tolkien certamente apontaria suas traduções de
Anglo-Saxão e pesquisas dentro do galês e o finlandês. Não de
modo a inferiorizar sua ficção, mas de protegê-la, dentro dela
estava cada desejo e sentimento que possuía em seu íntimo,
imagens que vieram a sua mente em meio a reflexões sobre sua
vida. Por isso tudo aquilo que se referia a ela lhe dizia respeito
em âmbito pessoal.
Ainda assim, com a grande insistência de seu fã clube
pessoal composto pela sua família e seu amigo e crítico Lewis,

21
Carta 31 para Rütten & Loening Verlag 1938.
32
publicou a continuação que veio a se tornar por um dos livros
mais vendidos em toda Inglaterra e mais tarde no mundo. Sua
fama tomou proporções inesperadas mesmo em vida, o
transformando em uma personalidade popular, vítima de
entusiastas e investidas de empresários que desejavam os
direitos sobre seu trabalho. Não se lembrava de um tempo em
que não se preocupava com as finanças, estudava
desesperadamente em sua juventude para conseguir bolsas de
estudos. Trabalhava como professor passando muitas noites
em claro para conseguir uma renda extra, e, ao adquirir a fama
que segundo ele pouco lhe interessava22, não regrava o uso do
dinheiro que passou a dispor o dividindo com a sua família,
uma vez que já possuía inclusive netos. Infelizmente o seu
enriquecimento chegou tarde, podendo aproveitá-lo por um
curto período, se aposentou pouco depois como cátedro de
Oxford, e, tudo deixou de ter importância um pouco mais
tarde.
Deparou-se novamente com a dor de perder alguém
próximo com o falecimento de sua esposa. A perda de sua
Lúthien Tinúviel o abalou completamente, tornando-o recluso
e acentuado uma de suas características mais marcantes, o
pessimismo. Manteve contato com os filhos e netos por meio
de visitas e numerosas cartas enquanto residia no seu

22
Apesar de declarar em inúmeras cartas seu desgosto pela fama repentina, se
tratava de um contador de histórias e um palestrante, ter seus méritos reconhecidos
pelo público claramente fizeram bem a sua vaidade intelectual. Confirmando aquilo
de que já tinha certeza, seu trabalho era digno de admiração.
33
confortável apartamento em Oxford. Em um pequeno intervalo
de tempo ocorreram dois grandes acontecimentos, a Rainha
Elizabeth II se mostrou leitora e admiradora de seus livros, o
que contribuiu para receber a comenda do Império Britânico.
Um título dado a alguém que teve sua excelência em
determinado campo de atuação ratificada. E um ano mais tarde
em 1973, John Ronald Reuel Tolkien veio a óbito devido a
uma hemorragia resultante de uma crise de úlcera.
Indivíduos com personalidades marcantes costumam ser
amados ou odiados, ele podia ser visto como um intelectual
admirável, mas, a arrogância que demonstrava nos meios
acadêmicos que o ajudou a alavancar sua carreira, no entanto,
também o fez acumular uma série de desafetos. Nada estava
dentro do aceitável quando se falava em adaptar seu universo
literário, a lista do que Tolkien detestava era infinitamente
maior do que a que apreciava. Certamente ficaria horrorizado
e desgostoso sobre a fama que a sua figura recebeu após sua
morte e com a vulgarização da utilização de seus personagens
em referências dentro dos meios midiáticos. Se sua figura era
admirada no período em que viveu, com o passar do tempo se
tornou uma lenda, quase como os personagens que criou para
seus livros. No século XXI, existem diversos clubes de
entusiastas espalhados pelo globo que se denominam
“especialistas em Tolkien”, estudam seu trabalho como um
cristão fervoroso estuda a Bíblia e dedicam suas vidas a
aprender as línguas inseridas no Legendarium e as
características de seus personagens. Toda essa obsessão passa
34
muito longe da expectativa que seu criador possuía sobre seus
leitores. Desejava apenas pessoas que, em seu tempo livre,
utilizassem de seu trabalho como um prazer em meio a rotina
cansativa. Tolkien sabia da importância de manter os pés
firmes na realidade, pois o fantástico deveria servir para
projetar desejos impossíveis no mundo primário e não a fuga
desesperada dele.
Como uma pessoa muito reservada, ele rejeitava
particularmente a ideia de que o conhecimento sobre sua vida
pessoal de alguma forma contribuiria sobre o interesse em seu
trabalho na literatura. Quando explicava seu ponto de vista
sobre os fãs e críticos que ansiavam por informações sobre a
vida íntima dos artistas, ele era categórico ao falar que “eles
apenas desviam a atenção das obras de um autor (caso as obras
de fato sejam dignas de atenção) e, como frequentemente se
vê, acabam tornando-se o interesse principal” (TOLKIEN,
2006, p. 478)23. Na sua perspectiva, uma obra não precisa de
adereços quando é bem organizada e escrita. Ademais, ele
tinha em sua mente que o mundo da fantasia deveria ser
desfrutado como um prazer investigativo, que as narrativas
mitológicas despertassem o interesse para além do enredo
assim como ele fazia ao estudar contos antigos.
Foram necessários cerca de dezesseis anos de sua vida
para concluir a trilogia de O Senhor dos Anéis, e uma vida
inteira entre a empolgação desenfreada e a estagnação de

23
Carta 213 para Deborah Webster 25 de outubro de 1958.
35
desenvolver o Legendarium, seriam jogados no lixo a seu ver
se não tivessem o devido interesse e foco no enredo. Desejava
tanto ser desconectado como criador e envolver o leitor na
magia do fantástico, que nunca se anunciou claramente como
criador ou escritor e sim, tradutor de textos antigos que
remetiam a tempos esquecidos pelo homem. Usando seu título
de filólogo para dar um ar a mais de mistério nas suas
aventuras.
O hábito de esperar sempre o pior das pessoas e
situações se mostrou parte de sua formação desde a infância.
A observação de sua trajetória elucida a visão do historiador
de que a formação do homem é resultado da sociedade de seu
período. Apesar de não ser um representante popular, tendo a
vantagem de ser criado por e depois entre estudiosos,
demonstrou em suas obras a instabilidade e contradição
características dos anseios do homem contemporâneo. Sentia-
se como alma antiga perdida em meio a tantas turbulências, “é
uma maldição ter o temperamento épico em uma época
superlotada dedicada a pedacinhos ligeiros!” (TOLKIEN,
2006, p.152)24. Cada indivíduo tem sua maneira de se inserir
em sociedade, a falta do sentimento de pertencimento o
perseguia. Assim como a maioria dos contemporâneos,
procurava um meio de tirar o gosto de cinzas e solidão que a
doença do progresso estava lhe causando. Com o avanço da
idade ele sentiu a exaustão e a descrença sobre tais avanços em

24
Carta 77 para Christopher Tolkien 31 de julho de 1944.
36
que na sua mente não se qualificavam como evolução, em seus
sonhos mais férteis, voltava ao que imaginava ser a beleza do
passado.
No século XXI, Tolkien é um nome que carrega
significados diretamente ligados a memória. É natural esperar
que aqueles interessados pelo estudo das línguas antigas ou
pela Literatura Fantástica reconheçam sua pessoa com grandes
expectativas ao analisar um de seus trabalhos, até mesmo se
mantém reféns do fascínio que a sua maneira meticulosa de
trabalhar carrega consigo. Entretanto, contar com o interesse
em especificidades não gera a repercussão e o peso que seu
nome tomou em nível mundial. Ele criou um mundo de
incrível profundidade onde os anseios e receios do homem
contemporâneo se mesclam a personagens fictícios. Mesmo
quem nunca chegou a tocar em seus livros conhece referências
sobre os mesmos, isso porque suas histórias trazem à tona
desejos em comum de inúmeras pessoas de uma mesma
geração, que tornaram a palavra por meio da memória, imortal.
Seu nome instantaneamente vem à mente dos
interessados por mitologia. É uma verdadeira referência entre
as novas gerações de escritores de fantasia, que respeitam a sua
memória e as suas contribuições neste ambiente. Mesmo após
quase um século da publicação de sua primeira história sobre
a Terra-Média a minuciosidade de sua escrita tornou
impossível se falar sobre as criaturas místicas que estão em
seus livros com uma equiparável sagacidade. Tanto a história
como seu autor foram mitificados pela sociedade, resultado do
37
grande empenho na elaboração dos mínimos detalhes que
prenderiam seus leitores ao desejo que o mesmo possuía o de
acreditar, hesitar, sobre a existência desse mundo fantástico.
Ao contrário daqueles deslumbrados pelo progresso
tecnológico, característico do século XX, que almejavam
dominar o tempo, Tolkien possuía outros objetivos. Sua fonte
de prazer era sua família e a dedicação em suas pesquisas.
Impossível para qualquer um que for tentar entender um pouco
mais sobre sua figura, é separar sua vida acadêmica da vida
pessoal. John Tolkien respirava pela escrita e leitura, não se
reconhecia como um erudito, mas erudição não está longe de
ser a palavra que melhor o representava. Ele, por fim,
representa a aquela parcela da sociedade que se apega a rituais
que as fugazes mudanças deste tempo tentaram apagar a
qualquer custo.

38
Capítulo 3

ARQUITETURA DA FICÇÃO

O Legendarium de Tolkien é visto entre os


maiores nomes em literatura como uma revolução para o
gênero fantástico, nunca houve antes uma fantasia criada com
tantos detalhes, sua existência trouxe novas expectativas sobre
39
os trabalhos futuros e seu método inspirou uma gama de novos
autores com o passar dos anos. Um marco na história da
literatura onde o tempo é dividido entre as criações anteriores
e as póstumas ao seu trabalho. A construção de sua fantasia
almejava o título de mito, ou, ao menos, se apropriar do
significado deste. A riqueza de detalhes até mesmo quanto a
sua origem fantasiosa o insere no gênero fantástico como o
maior representante deste. A complexidade das relações entre
personagens e o ambiente em que a narrativa se passa não
deixam espaço para perguntas sobre o enredo. Mas,
exatamente por ser um objeto nitidamente idealizado para
representar a insatisfação sobre mundo primário, que a criação
de tal universo fantástico e de que maneira o mesmo está
inerentemente ligado às relações do homem contemporâneo
não devem ser ignoradas.

3.1 MITO EM CONSTRUÇÃO


Fábula que relata a história dos deuses, semideuses e heróis
da Antiguidade pagã. Interpretação primitiva e ingênua do
mundo e de sua origem. Tradição que, sob forma alegórica,
deixa entrever um fato natural, histórico ou filosófico.
Exposição simbólica de um fato. Coisa inacreditável.
Enigma. Utopia. Pessoa ou coisa incompreensível25
(MICHAELLIS, 2017).

25
Para Tolkien, o fantástico se tratava exatamente do prazer de suspender a
descrença do mundo secundário momentaneamente.
40
Do latim mȳthos ou mȳthus, a palavra mito significa
pura e simplesmente fábula, história. Os contos acerca da
Terra-Média trazem consigo o forte desejo de afirmar o poder
da crença e da história contada através da tradição, sendo esta
uma das definições do conceito de mito. O Legendarium tem
na base das civilizações em si contidas, a importância que deve
ser dada aos ancestrais e a terra em que seus personagens
viviam. Aborda inegavelmente a história daquele território,
sendo o mundo o protagonista e as aventuras ocorridas nele o
enredo. Os personagens estão lá e são imprescindíveis para o
desenvolvimento da maneira que os leitores conhecem, mas a
narrativa de Tolkien esclarece que aqueles indivíduos
inseridos nos livros são apenas um ângulo, uma visão de
muitos que poderiam ser descritas sobre a história daquela
terra.
“Não despreze a tradição que vem de anos longínquos;
talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas
que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios”
(TOLKIEN, 2001, p.494). Ao se buscar significados informais
que fazem parte do conhecimento popular sobre o termo,
encontra-se em destaque a ideia de uma fantasia com
referências a práticas de tradições orais. Histórias passadas de
geração em geração que tomaram grandes proporções e
tornam-se parte da constituição da identidade de determinados
grupos sociais. Através de um olhar externo a sociedade e o

41
tempo em que são reproduzidos, os mitos são tidos como algo
que não existe, mas que se supõe real.
Tanto a literatura, quanto o cinema e o teatro, mantém
vivos ainda no século XXI antigos mitos, hoje utilizados como
forma de entretenimento de massas. Se resumem a recontar
histórias de grandes heróis, sobretudo, releituras de mitos
greco-romanos. Os ideais de beleza e heroísmo que remetem
ao passado da antiguidade clássica despertam euforia e
deslumbre tanto jovens quanto em adultos. A busca fantasiosa
de ideais utópicos de viver não é uma característica única e
restrita à personalidade de John Tolkien, está ligada ao
imaginário social como um todo, é uma atividade que
transcende a memória individual. Thomas Bulfinch26, um
professor universitário formado em Harvad em 1814, escreveu
antes mesmo do nascimento de Tolkien sobre seu desejo de
manter vivo na sociedade o conhecimento sobre a mitologia,
em especial a de raízes greco-romanas:
As religiões da Grécia e Roma antigas desapareceram. As
chamadas divindades do Olimpo não têm mais um só
homem que as cultue, entre os vivos. Já não pertencem a
teologia, mas a literatura e ao bom gosto. Ainda persistem,
e persistirão, pois, estão demasiadamente vinculadas às
mais notáveis produções de poesia e das belas artes, antigas
e modernas, para caírem no esquecimento. (BULFINCH,
2014, p. 13).

26
Thomas Bulfinch (1796 - 1867), foi professor universitário na Boston Latim School,
graduado em Harvard em 1814. Conhecido também pelos seus outros trabalhos
acerca de contos da literatura medieval como Arte da Cavalaria (1858) e A Lenda do
Rei Magno (1862).
42
Assim como o escritor de O Senhor dos Anéis, Bulfinch
possuía desde cedo o interesse em assuntos mitológicos.
Enquanto Tolkien se aproximava das palavras dos antigos
mitos da cultura nórdica, que mais tarde serviriam como base
para as aventuras de seus personagens no território da Terra-
Média, Bulfinch se mantinha como um escritor de obras com
caráter mais informativo do que fantástico, se afundava nos
mitos gregos e sobre os heróis do Olimpo. Ao contrário de
Tolkien, não era tão apegado a religião e não a relacionava com
atividades eruditas, apesar de acreditar que as pessoas
deveriam se espelhar mais vezes nas antigas normas de
conduta do passado. O grande valor de tais trabalhos estava na
crença com que foram confeccionados, um descrente não seria
capaz de escrever poesias e criar grandes monumentos como
os dos antigos povos por não possuir a paixão necessária.
Exatamente por isso que via tamanha importância em
preservar o conhecimento sobre a mitologia, uma grande gama
de manifestações culturais de um homem que no quesito de
formação ideológica nunca mais iria existir. O que antes era
teologia tornou-se arte a ser apreciada, documentos de um
passado rico em literatura que deixaram marcas e referências
para o futuro.
Para ele, a mitologia era uma ferramenta de pesquisa
dentro da história, o estudo dela não teria sentido sem a
mitologia, a qual movia de forma significativa diversos
ângulos da vida das antigas sociedades. Seu trabalho é
43
marcado pela objetividade, em O livro de ouro da mitologia:
histórias de Deuses e heróis se reúnem cerca de cinquenta
contos que não envolvem apenas a mitologia grega, mas
também histórias relacionadas a contos épicos das antigas
crenças da mitologia oriental, hindu e grandes poemas da
literatura anglo-saxã, área de trabalho de Tolkien. O capítulo
XLII do livro fala vagamente sobre a história de Bewulf27
baseado em um poema épico escrito em língua anglo-saxã. No
período em que Bulfinch dissertou sobre a história por trás do
poema, haviam apenas traduções mais confusas, passadas por
diferentes línguas e a discussão de seus possíveis significados
entre estudiosos.
“Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo
que nos é dado” (TOLKIEN, 2001a, p.53). Esta é uma frase
que faz parte de um dos diálogos de Gandalf o mago, um
importante personagem do universo fantástico de Tolkien,
figura que possui destaque nas aventuras que ocorrem tanto em
O Hobbit, quanto na trilogia O Senhor dos Anéis. Ela explana
claramente a maneira com que Tolkien cobrava de si mesmo o
andamento de seus objetivos, se pressionava a todo o
momento, se colocando em algumas ocasiões como
preguiçoso por ter grandes expectativas sobre aqueles que
dedicavam suas vidas a academia. E, justamente antes de ser

27
Segundo Thomas Bulfinch, em O livro de oura da mitologia, Beowulf se trata da
história em forma de poema épico dos feitos históricos de um herói filho de
Ecgtheow e sobrinho de Hygelac, rei dos Geats, cujo reino ficava onde hoje se
encontra a atual Suécia (BULFINCH, 2014, p. 339).
44
conhecido como O senhor da fantasia28, se orgulhava por ter
construído uma reputação como filólogo e especialista em
literatura medieval. Segundo o autor, seu maior feito
acadêmico foi sem dúvidas a tradução comentada direto do
anglo-saxão do épico poema de Beowulf29, uma narrativa
escrita a mais de mil anos. Tal tradução foi concretizada no
ano de 1926, cerca de setenta e um anos após a criação de O
livro de ouro da mitologia e foi considerada por muitos a
melhor adaptação até então.
Em meio a uma discussão sobre os significados da
mitologia para o ser social, cada geração devido às suas
relações com o seu tempo, irá explorá-la de forma única, se
identificando com os valores que são agregados ao conceito
pela sociedade em que as interpretações pertencem.
(...) o mito trata do desconhecido; fala a respeito de algo
para o que inicialmente não temos palavras. Portanto, o
mito contempla o âmago de um imenso silêncio [...] o mito
não é uma história que nos contam por contar. Ele nos
mostra como devemos nos comportar... (ARMSTRONG,
2005, p.09).

28
Termo presente no título de sua biografia produzida por Michael White (WHITE,
2016).
29
Em uma carta escrita para seus editores em 1837, John Tolkien comenta sobre
Beowulf ser uma valiosa fonte para os mitos do universo de Arda. Carta 25 Para o
editor do Observer20 de fevereiro de 1938 (TOLKIEN, 2006, p. 49).
45
Para Armstrong30 o mito é muito mais que uma fábula,
ele absorve os desejos da comunidade que o propaga. Possui
um motivo para existir, não é de forma alguma supérfluo, nele
estão inseridas as referências das perturbações da mente
humana, a busca por respostas que até aquele momento não
podem ser encontradas pelos meios da razão. Também serve
como uma barreira invisível, que divide os dispostos a
acreditar daqueles que apenas seguem suas vidas levianamente
alheios a tais princípios.
A crença carrega códigos comportamentais, dos quais
Tolkien, Bulfinch e Armstrong, literários focados em temas
mitológicos, acreditam estarem em falta no período do qual
escrevem. Seus trabalhos são complexos e dignos de maior
aprofundamento, mas, o objetivo neste momento é mostrar que
ao longo de três séculos a mesma angústia permaneceu sobre
os que se empenharam a falar sobre mitologia. A perpetuação
dos mitos e como eles são necessários para a formação do
homem enquanto ser humanizado.
Armstrong possui uma visão mais religiosa, adotada por
ter feito parte da Igreja Católica como freira por sete anos de
sua vida. Liga o mito à necessidade que o homem tem de
conforto e também de algo que o dite regras comportamentais
que se emoldurem na escolha entre o bem ou o mal. Para
Tolkien um católico inflamado assim como Armstrong “(...) a
30
Karen Armstrong (1944), uma estudiosa da religião formada pela faculdade de
Oxford em Literatura inglesa. Entre suas obras estão: Uma história de Deus (1993) e
Jerusalém: uma cidade três religiões (1996).
46
moral deveria ser um guia para nossos propósitos
empobrecidos” (TOKIEN, 2006, p.660)31. É natural que as
ideias de dois religiosos tenham muito em comum quando se
trata da necessidade que o ser social possui de ser guiado.
Muitas vezes alheios ao fato de que, como parte da memória
coletiva, tais forças são submetidas aos preceitos maniqueístas
propagados pela geração da qual fazem parte.
Representações de pontos de vista sobre mitologia
vindas do início do século XIX através do olhar de Thomas
Bulfinch, do século XX por John Tolkien, e, do século XXI
por Karen Armstrong, mostram a angústia de três séculos sobre
a forma com que as antigas fábulas foram tratadas. Diferem-se
em estrutura e conteúdo, uma vez que apenas Tolkien vai além
de reproduzir antigos contos, criando uma narrativa com o
objetivo de acrescentar a história já conhecida. Mas se
encontram em perfeita sincronia quanto aos motivos pessoais
e os objetivos de seus autores para as suas elaborações. Em
relação a Tolkien, estes dois autores possuem formações
literárias distintas com base em diferentes momentos sociais.
Mas, ainda assim, defendem a mesma ideia de que a sociedade
em que faziam parte tratava com displicência a importância do
mito e estavam a colocar em risco a manutenção de antigas
tradições, as mesmas estavam caminhando para serem
esquecidas e vulgarizadas.

31
Carta 310 para Camila Unwin 20 de maio de 1969.
47
Bulfinch enxergava a mitologia como a mais pura arte e
seu objetivo era disseminá-la, vivia em um tempo em que
apenas aqueles que faziam parte da camada social mais alta
tinham a oportunidade de levar uma vida voltada para o estudo
e acúmulo de conhecimento literário.Por isso, se concentrou
em transcrever de maneira simples e condensada alguns dos
mitos das antigas civilizações, mantê-los vivos na memória por
mais que a estrutura elitista não permitisse. Ademais, estes
autores iniciaram suas pesquisas sobre mitos e fábulas como
um tipo de hobbie do qual ocupava grande parte de seu tempo
e um enorme espaço em suas mentes. Mas, diferente do caráter
essencialmente acadêmico dos trabalhos de Bulfinch, que
viveu em um tempo de uma velada paz que em breve eclodiria
em um século de tragédia, Tolkien foi afetado pelas constantes
contradições e instabilidades pelas quais o homem do século
XX passava.
Detentores de uma identidade cultural fragmentada32
(HALL, 2006), especialmente aqueles que estiveram presentes
na segunda metade do século, como sobreviventes do terror de
duas guerras mundiais, viram-se frente a frente ao colapso de
crenças antes centralizadas. Os conceitos antes unificados,
como as visões sobre sexualidade, etnia e classes sociais,
entraram em colapso. Tolkien finalizou a escrita de O Senhor
dos anéis no ano de 1949 e só tem seus primeiros dois volumes

32
Apesar de escrever sobre o fim do século XX, após a conclusão de O Senhor dos
Anéis, as suas conclusões sobre a crise das identidades do homem contemporâneo se
encaixam nas motivações de Tolkien para a escrita do Legendarium.
48
publicados em 1954, ele esteve bem em meio à onda de
mudanças drásticas tanto econômicas, políticas e sociais que
não apenas interferiram nas suas obras, mas tiveram em alto
grau a responsabilidade pela origem delas.
Tolkien utilizou como distração durante o período que
serviu como tenente na Primeira Guerra Mundial, a construção
do universo em Silmarillion, da mesma maneira que se
refugiava em sonhos sobre dragões e cavaleiros na sua infância
conturbada. E como hábito decorrente, com o fim da guerra e
a perda de valorosos amigos, transformava os brinquedos de
seu filho primogênito em personagens de aventuras fantásticas
para as histórias de antes de dormir.
Apesar de fazer parte da elite branca e acadêmica da
Inglaterra, não propagava pensamentos esperados de um
homem em sua posição frente ao lugar do qual estava falando.
Falava abertamente sobre como repudiava o preconceito racial
e o antissemitismo. Reclamava a todo o momento sobre a vida
urbana enquanto não se imaginava fora das Universidades.
Bradava sobre a importância da mulher e como a mesma era
superior ao homem de diversas formas, ao mesmo tempo em
que se posicionava de forma conservadora e paternalista com
sua esposa. Mas, acima disso é sensato observar que não se
mede a essência de um indivíduo através do que ele diz sobre
si mesmo. O impacto das constantes mudanças desse período
refletiu no mundo ocidental radicalmente e buscar o
afastamento destes conflitos através do trabalho acadêmico
não o tornava alheio as suas repercussões.
49
O Hobbit nasceu em meio a sua frustração ao ter que
acumular trabalhos da universidade que para si eram
enfadonhos, como a correção de provas. Ter que trabalhar
noites a fio devido a seus problemas financeiros mostravam
que a erudição não era mais contemplada como a mais
próspera área de trabalho. Isso o levou a reforçar seus ideais
contrários ao progresso e às guerras que estavam levando
antigos valores ao esquecimento. Julgava-se um homem fora
de seu tempo, tanto em comportamento quanto em
mentalidade, logo seria um disparate inseri-lo na realidade do
novo mundo globalizado.
Irônico é perceber através de uma visão externa, que em
sua mente o que mais o afastava de ser um indivíduo comum
era não se sentir parte de algo, avesso ao popular e ao
fundamentado. E mais tarde, justamente essa característica que
definiria o homem contemporâneo em diversas áreas do saber
histórico. Exatamente pelo seu desejo de não ser colocado
como prosaico que detestava aquilo que chamava de
“alegoria”33. Pensar sobre a sua vida pessoal colaborando em
sua narrativa era mais que improvável, era inadmissível, uma

33
Tolkien usa o termo alegoria em diversas cartas, trechos de prefácios de seus
livros, ele toma significados diferentes em determinados momentos. Inicialmente ele
significava algo desnecessário e superficial outras vezes, apenas se referia a
interpretações relacionadas ao âmbito social. Utilizava como recurso para repudiar
as tentativas de seus fãs de utilizarem de sua vida pessoal como “pretexto” para dar
diferentes significados à suas obras.
50
alegoria, desnecessário a ponto de atrapalhar a leitura das
obras.
“Quanto a qualquer significado oculto ou mensagem, na
intenção do autor estes não existem. O livro não é nem
alegórico e nem se refere a fatos contemporâneos”
(TOLKIEN, 2001a, p.14). Ao interpretar seu posicionamento
sobre o assunto, considerando além de sua formação e
experiência o momento histórico do qual falava, existem
possíveis motivos para tais afirmações. Tolkien era o maior de
seus críticos literários, admitir certas conexões com sua vida
pessoal seria o mesmo que dizer que, não só não as havia
superado, como também não era um exímio profissional. Uma
vez que não possuía capacidade de dissociar seu eu individual
de seu trabalho como escritor. A alternativa mais possível para
uma resposta a esse comportamento, com base na relação deste
autor com a sua criação, é que o mesmo não desejava destruir
os ideais utópicos de mundo descritos minuciosamente em
busca de uma crença secundária. O mito de sua criação só seria
possível se quem o lesse lhe desse a oportunidade de existir
por si mesmo, exatamente por isso que sempre se colocou
como tradutor da obra e não criador.
Em 1951, Tolkien enviou a seu possível novo editor uma
carta defendendo os motivos pelos quais O Senhor dos Anéis
não poderia ser dissociado de O Silmarillion. A sua luta para
publicar algo que não tivesse ligação com os hobbits já havia
se tornado desgastante. O conteúdo era uma severa defesa
pautada no fato de que eram obras complementares. Onde as
51
bases dos povos do universo da trilogia, tanto na linguística
quanto em questão de julgamento moral, remetiam a antigas
passagens de outras eras das quais seus predecessores viveram
e tais histórias se mantinham fiéis em O Silmarillion. E nesta
carta ele acaba relembrando o motivo que o levou a buscar
mais sobre o mundo secundário em sua juventude. Entre suas
principais razões estava seu desejo desde a infância de ter
vivido em um tempo em que fosse capaz acreditar
verdadeiramente na existência de deuses e heróis.
(...) desde cedo eu era afligido pela pobreza de meu próprio
amado país: ele não possuía histórias próprias
(relacionadas à sua língua e solo), não da qualidade que eu
buscava e encontrei (como um ingrediente) nas lendas de
outras terras. Havia gregas, celtas e românicas, germânicas,
escandinavas e finlandesas (que muito me influenciou),
mas não inglesas, salvo materiais de livros de contos
populares empobrecidos (TOLKIEN, 2006, p.240)34.

Abraçar um mito só é possível quando o indivíduo se


sente acolhido em sua história. Quando a linha entre realidade
e imaginação se torna tênue, para Tolkien só seria possível
alguém se inserir neste contexto quando o sentimento de
pertencimento a tal cultura estivesse fixo em sua formação.
Poder se localizar como parte de tais contos, só faria sentido
se o indivíduo fosse um descendente daqueles que
participaram efetivamente dos mesmos.

34
Carta 131 Para Milton Waldman 1951.
52
A postura que adotamos com respeito ao passado, quais
relações entre passado, presente e futuro não são apenas
questões de interesse vital para todos: são indispensáveis.
É inevitável que nos situemos no continuum da nossa
própria existência, da família e do grupo que pertencemos.
É inevitável fazer comparações entre o passado e o
presente: é essa a finalidade dos álbuns de fotos de família
ou de filmes domésticos. Não podemos deixar de aprender
com isso. Pois é o que a experiência significa
(HOBSBAWN, 2010, p. 36).

O historiador se move em razão de guardar e disseminar


a memória das experiências acumuladas pelo homem ao longo
do tempo. Para que estes possam aprender com aqueles que já
não estão aptos a testemunhá-la. Os mitos, contos e fábulas
estão presentes na base de formação de todas as civilizações
conhecidas na atualidade e em muitos âmbitos, estão
conectados diretamente às tradições de um povo. A falta de
narrativas sobre seu país inspirava Tolkien a “descobrir”35 um
novo mundo repleto de magia e canções antigas, cantadas em
línguas ancestrais por povos que conseguiram manter suas
tradições com o passar das eras. Com isso, veio a dar forma a
uma mitologia mais contextualizada aos conceitos ideológicos
vinculados a sua identidade. Mas, sua intenção nunca foi
substituir ou submeter os antigos contos mitológicos, mas, de
fato trazer algo novo à tona, já que a seu ver, a história de seu
lar se encontrava incompleta.

35
Na narrativa tolkiana nada se descobre, são apenas representações de
conhecimento armazenado.
53
Diferentes gerações veem a mitologia de diferentes
pontos, a sociedade do século XXI a utiliza como adereço,
como uma fuga rápida ao estresse de seu cotidiano conturbado.
Mas é uma qualidade fomentada deste novo indivíduo o peso
da descrença. Um ser racional que se orgulha de seu desapego
do passado. No entanto, aqueles que buscam pela mitologia
existiram e continuarão a existir, pois as pessoas tendem a
buscar nas sombras do passado um significado nos tempos de
crise, algo que a religião pode não ser capaz de abranger por
ser mais ligada ao divino do que ao mortal. A maior parte do
fascínio pela mitologia, a fantasia, não está nos seus deuses
idealizados, mas sim em seus heróis. A possibilidade da crença
secundária, de feitos indescritíveis realizados por indivíduos
comuns que já pisaram no mundo real, alguém digno de ser um
exemplo que os inspire a grandeza.
Por um lado, essas narrativas constituem um mito. Segundo
o próprio autor, mitos não são mentiras, e sim uma
realidade subcriada. O mito não se destina a fazer o leitor
compreender seu significado racionalmente, como algo
mostrado e explicitado, e sim encontrar os conceitos
pessoalmente, vivendo-os em primeira mão. Pelo mito,
podemos experimentar diretamente os perigos da aventura,
o bem e o mal, sem que isso ponha em risco nosso
equilíbrio espiritual. Não se trata de ―literatura escapista‖:
Tolkien distingue claramente entre o escape do prisioneiro
e a fuga do desertor (KYRMSE, 2003, p. 23).

Quando Tolkien se referia ao Legendarium, estava


nomeando seu conjunto de histórias dentro de seu universo
54
literário como mitos e lendas. Não se trata de uma fuga
desesperada, mas, na criação do mito como uma forma de
projetar desejos que não podem ser compridos devido a
realidade amparada pelas normas da razão. Este autor estava
completamente consciente sobre suas inclinações a fantasia,
havia criado como forma de se manter firme a razão, a reflexão
de que a mitologia só teria de fato uma utilidade se comparada
ao mundo primário.
Elfos, hobbits e dragões lhe eram tão especiais
exatamente por não existirem, por estarem em suas narrativas
com a finalidade de expressar o desejo de mudanças na vida
que a seus olhos era entediante em comparação a tudo que lia
e pesquisava. Um ótimo pessimista como era, havia aceitado
que nunca se enquadraria nas novas perspectivas de progresso
e sua literatura servia exatamente para criar uma utopia em que
nunca iria se inserir. Via-se como um observador e não um
aventureiro, e, de forma alguma se imaginava como um de seus
personagens enfrentando o mal e correndo riscos de vida.
Almejava criar o mito do qual as pessoas pudessem se
espelhar, assim como ele tentava a cada dia, ser um pouco mais
como os hobbits que empreenderam as aventuras.
Com base nos significados aqui transcritos sobre mito, a
narrativa de Tolkien em alguns ângulos pode ser vista neste
seguimento. Nela está detalhada a noção de tempo e espaço
que remetem ao passado real e idealizado, heróis e anti-heróis
com códigos de conduta muito bem elaborados, mas, que ao
mesmo tempo refletem medos e desejos de um ser humano
55
comum, isso daria um exemplo aos seus “crentes”. E por
último a memória, onde o tempo é responsável por transformar
história em mito. Ele agrega novos valores com o peso de
diferentes interpretações ao longo das novas gerações. Seus
livros se tornaram referências e mesmo após o centenário
continuam a inundar mentes de jovens e adultos que anseiam
por viver na Terra-Média. Assim, a história deixa de ser
patrimônio daquele que a imaginou e passa a ser algo da
comunidade.

3.2 OS PILARES DE ARDA


“O fantástico é a hesitação experimentada por um ser
que só conhece as leis naturais, face a um conhecimento
aparentemente sobrenatural” (TODOROV, 2008, p. 31). O
leitor deve estar disposto a se inserir na crença secundária para
que o fantástico seja possível e devido a isso que o empenho
em transformar sua narrativa em mito que fez com que Tolkien
revolucionasse este gênero literário. Distante de uma análise
de gênero do meio linguístico, o fantástico tem sido procurado
com maior entusiasmo pelo homem conhecido como
contemporâneo. Inclusive o mesmo agregou a este gênero
novos significados desde o seu ápice na segunda metade do
século XX.
Não há dúvida que o nome Tolkien é citado
instantaneamente quando se fala deste tipo de narrativa, mas,
56
além dele seu companheiro de leituras e crítico de trabalho
Lewis, é um nome bem conhecido com a obra As crônicas de
Nárnia (1850), ambos utilizavam de referências voltadas ao
mundo medieval.
Há, na nossa cultura ocidental, a romântica tradição
cavalheiresca ainda forte, apesar de que, como um produto
da cristandade (porém de modo algum o mesmo que a ética
cristã), os tempos são hostis a ela. Tal tradição idealiza o
“amor” — e, ademais, ele pode ser muito bom, uma vez
que ele abrange muito mais do que prazer físico e desfruta,
se não de pureza, pelo menos de fidelidade, e abnegação,
“serviço”, cortesia, honra e coragem. Sua fraqueza, sem
dúvida, é que ele começou como um jogo artificial de
cortejo, uma maneira de desfrutar o amor por si só sem
referência (e, de fato, contrário) ao matrimônio. Seu centro
não era Deus, mas Divindades imaginárias, o Amor e a
Dama. Ele tende ainda a tornar a Dama uma espécie de
divindade ou estrela guia – do antiquado “sua divindade” =
a mulher que ele ama – o objeto ou a razão de uma conduta
nobre. Isso é falso, é claro, e na melhor das hipóteses
fictício. A mulher é outro ser humano decaído com uma
alma em perigo. Mas, combinado e harmonizado com a
religião (como o era há muito tempo, quando produziu boa
parte daquela bela devoção à Nossa Senhora, que foi o
modo de Deus de refinar em muito nossas grosseiras
naturezas e emoções masculinas e também de aquecer e
colorir nossa dura e amarga religião), tal amor pode ser
muito nobre. Ele produz então o que suponho que ainda
seja sentido, entre aqueles que mantêm ainda que um
vestígio de cristianismo, como o ideal mais alto de amor
entre um homem e uma mulher. (TOLKIEN, 2006, p 80)36.

36
Carta 43 para Michael Tolkien 6-8 de março de 1941.
57
Em 1941 com seus quarenta e nove anos de idade, ainda
em meio à guerra, trabalhando como professor, Tolkien
disserta sobre o seu ideal de amor romântico, sobre sua opinião
quanto a ideia de casamento e relacionamento entre sexos. Ele
deixa clara a sua criação romântica onde inicialmente
idealizava o amor cavalheiresco com referências a moralidade
cristã. Crescendo junto a sua paixão pela fantasia, enquanto
jovem e durante seus estudos nas universidades, se cercou de
toda fonte documental possível sobre as antigas histórias de
sua terra. Apesar de insatisfeito pela Inglaterra, em sua
opinião, não dispor de grandes narrativas se comparadas a
outras civilizações, leu arduamente histórias sobre o Rei
Arthur e suas aventuras na Idade Média.
O fantástico está ligado à ruptura de crenças, a negação
uma estrutura ou ordem natural estabelecida. Está situado no
plano onde seu leitor se submete a acreditar na ambiguidade,
viver no mundo primário tendo em mente, no momento de sua
leitura, a possibilidade da existência de elementos subcriados.
Na maioria das obras do gênero fantástico são feitas conexões
entre o medieval e a cultura atual como dragões e cavaleiros.
Isso se dá ao fato destes autores, assim como Tolkien e Lewis,
terem tido uma formação mais voltada ao estudo e pesquisa
históricos, buscando elementos do passado para levar uma
maior riqueza de detalhes em suas narrativas. Os antigos
poemas e documentos do período medieval são conhecidos por
misturarem a mitologia com os acontecimentos sobre as
sociedades de que estavam relatando. Utilizar detalhes já
58
descritos por outros povos trazia a possibilidade de tornar a
fantasia o mais crível possível.
Quando sua formação permitiu, Tolkien passou a
traduzir antigas poesias e estudar histórias acerca dos
romances de cavalaria. Trabalhou inclusive em uma parceria
com E.V Gordon37, participando de uma edição de Sir Gawain
e o Cavaleiro Verde (WHITE, 2016, p.251) a história de um
sobrinho do Rei Arthur colocado como integrante da Távola
Redonda. No momento de sua vida em que escreveu as cartas,
já havia se conectado melhor a realidade de seu tempo e não
via mais o amor romântico como antes. Inclusive, se
arrependia por seus lamentos durante o tempo em que foi
separado de sua Lúthien, terem o atrapalhado em sua formação
acadêmica, já que culpava a sua instabilidade emocional
naquele período por sido reprovado em sua primeira tentativa
de bolsa na universidade. Estava mais voltado agora a seu
amor incondicional a cristandade, apesar de se manter como
um marido fiel e em sua perspectiva carinhoso.
Assumiu que o amor doce e de cortejo eram impossíveis
no mundo em que vivia a mulher não poderia mais ser vista
como um ser puramente idealizado, pois estava agora inserida
na sociedade como um cidadão que deveria cumprir suas
responsabilidades e sofrer dos mesmos males que os homens.
Deixou a divinização da imagem da mulher para seus livros,
onde as mesmas eram retratadas ora como guerreiras élficas de

37
Eric Valentine Gordon (1896–1938), um Filólogo e editor de textos medievais.
59
beleza e talento para as artes, ora como deusas, mas nunca
como parte das comitivas que iam às guerras.
A revolução de gênero citada só foi possível devido ao
lugar do qual Tolkien falava, se tratando de um homem do
século XX com muitas conexões das quais tirou proveito.
Relatou ter passado por inúmeras desventuras ao longo de sua
vida, como ter se tornado órfão e ter sido impedido de ver a
mulher que desejava por anos a fio. Mas suas reclamações
sobre dificuldades financeiras se colocam onde um homem de
criação simples, distante das universidades e clubes de chá
ingleses, poderia observar como supérfluas e irracionais. De
fato, ele foi elitizado e tinha nessa formação uma eterna
insatisfação e pessimismo daqueles que se dedicam as letras.
A publicação de seus livros não seria possível se o
mesmo não estivesse diante de importantes conexões com
editores e demais estudiosos e críticos literários. Uma das
críticas que alavancaram seu trabalho foi publicada em 1954
pela Time & Tide:
Este livro é como um raio em céu limpo. Dizer que seu
romance heroico, grandioso, eloquente e corajoso volta-se
repentinamente a um período quase patológico em seu anti-
romantismo é inadequado [...] provavelmente nenhum
livro já escrito no mundo é um exemplo bastante radical
daquilo que seu autor chamou em outro lugar de
“subcriação” (apud WHITE, 2016, p. 183).

60
Seu escritor Lewis, não foi o único a derramar elogios
sobre seu trabalho, muitos outros críticos o consideraram épico
e diferente de tudo que já haviam visto. Mas, não deve ser
desconsiderado o fato de que sua posição o favorecia
inegavelmente. Não é correto colocar a sua imagem em um
pedestal, intocável, também seria no mínimo ignorância contar
com a sua ingenuidade sobre os possíveis desdobramentos
consequentes de seu trabalho literário peculiar a época.
Além disso, por possuir uma postura conservadora em
muitas situações o público adulto da época também o aceitou
amplamente como um grande nome da literatura inglesa. Por
um lado, a elite letrada o aplaudia e, por outro, colecionava
uma legião de fãs, em sua maioria, jovens de todas as classes
sociais. Ninguém melhor do que o jovem da segunda metade
do século XX para sonhar, inovar. Exatamente por isso que o
fantástico nunca possuiu um solo tão fértil quanto a
contemporaneidade. A insatisfação com o presente, o desejo
de paz e harmonia fazia com que jovens e adultos desejassem
voltar ao passado.
Se o presente era em algum sentido satisfatório, o passado
fornecia o modelo para reconstruí-lo de forma satisfatória.
Os tempos passados eram definidos – muitas vezes ainda
são – como os bons tempos do passado, e é para lá que a
sociedade deveria voltar. Essa concepção ainda está muito
viva: no mundo inteiro as pessoas e os movimentos
políticos definem utopia como nostalgia: um retorno à boa
e velha moralidade (...) é evidente que o presente não é,
nem poder ser, uma cópia-carbono do passado; tampouco
pode tomá-lo como um modelo em nenhum sentido
operacional (HOBSBAWN, 2010, p. 38).
61
Se não é possível colocar em vigência antigos ideais
propagados no passado através da Literatura Fantástica ao
menos o desejo de estar inserido em um mundo utópico pode
ser aplacado por alguns momentos em meio a leitura
despretensiosa. Arda é o mundo onde está situada a Terra-
Média, a verdadeira protagonista das histórias do
Legendarium, que foi imaginado por seu autor como a
mitologia de tempos distantes. Para dar maior legitimidade
enquanto mito, todos os livros dentro deste universo foram
colocados como traduções de antigos documentos que por um
acaso vieram às mãos de um filólogo capaz de decifrá-los.
Mais peculiar ainda, em O Hobbit e em O Senhor dos Anéis,
tais traduções dizem logo de início que se tratam de
documentos que são um registro de apenas uma raça, os
hobbits, sobre os acontecimentos da terceira era do mundo.
É muito próprio da escrita de Tolkien o conceito de
subcriação, nada se cria do pó somente se transforma, toma
forma com base em informações pré-existentes. Tudo é
inspiração e representação da mesma, esta é uma característica
de sua formação como filólogo. As línguas que construiu
precisavam de sociedades para contarem suas histórias, e, por
isso O Silmarillion se mostrava de tamanha importância para
ele, seu trabalho mais cuidadoso que não foi publicado antes
de sua morte devido o desinteresse dos editores. Os demais
livros sobre o universo de Arda tiveram diferentes propósitos
em sua escrita, O Hobbit só tornou-se parte da narrativa do
62
Legendarium em meio a sua escrita, que foi despretensiosa e
mais voltada para o público infantil.
Mas se for verdade que O Hobbit veio para ficar e mais será
desejado, começarei o processo de consideração, e tentarei
conseguir alguma ideia de um tema tirado desse material
para um tratamento em um estilo similar e para um público
similar – possivelmente incluindo hobbits de fato
(TOLKIEN, 2006, p .23)38.

Apesar de O Senhor dos Anéis ter sido de início obra de


um desejo desesperado de seus editores sobre uma continuação
da história dos hobbits, por fim transformou-se em algo muito
mais elaborado e voltado a uma leitura mais adulta. Superando
os receios de não ser especificamente uma história sobre os
pequenos, se tornou a maior referência de Literatura Fantástica
do século XX, inovando a maneira de se fazer fantasia. As
histórias reunidas em forma cinco livros do Legendarium
perpassam as aventuras ocorridas em um único lugar ao
transcorrer de diferentes eras. Uma mitologia que representava
desejos individuais, que por fim mostrou abranger interesses
não só da sociedade em que estava presente no momento de
sua publicação, mas também de futuras gerações ao redor do
mundo.
Isso significa que ao se falar de elfos, orcs, hobbits e
contos de fadas bem elaborados, até aqueles que nunca leram
nada sobre A Terra-Média instantaneamente citam O Senhor

38
Carta 17 para Stanley Unwin 1937.
63
dos Anéis. O fato dos contos de Tolkien serem lidos com tanta
avidez pelas gerações posteriores a sua criação demonstra o
valor dado a criação do mundo secundário por aqueles que
estão presentes no primário. A mitologia que representa os
anseios não somente do homem contemporâneo, mas, da
natureza humana em geral, a sua eterna busca por respostas
que tragam um significado maior a sua existência e a
representação de desejos fantasiosos dos quais a suas mentes
possuem plena percepção de serem impossíveis devido às
imposições do mundo primário.

64
Capítulo 4

A LITERATURA COMO REFERÊNCIA

Este Capítulo está repleto de alegorias, aquelas


que segundo o autor do Legendarium, são dispensáveis para a
leitura de seus trabalhos literários, dado o fato de que se
empenhava em proporcionar a seu leitor e a si mesmo o prazer
65
da crença secundária sem a interferência do mundo primário.
Observar que dentro de um universo fantástico podem ser
feitas interpretações que fazem menções a identidade de quem
as idealizou e de seu público é algo no mínimo comum para
aqueles que servem a História. Toda e qualquer atividade e
construção humana está diretamente ligada às relações daquele
que as produziu com o tempo em que está imerso. De fato, a
complexidade está em elucidar tais conexões por meio da
narrativa literária, um trabalho que demanda explicações que
se não tecidas com cuidado estarão fadadas a suposições sem
qualquer relevância cientifica. O Legendarium é o trabalho de
uma vida, idealizado e produzido por décadas. São muitos
ângulos a serem analisados e personagens explorados, ambos
mostram como é inevitável perceber a marca das experiências
daquele que os arquitetou e as representações de seu tempo
inseridas como características de seus personagens.

4.1 ARDA: AMBIÇÕES DE UM MUNDO IDEALIZADO


Só o questionamento dessa epistemologia da coincidência
e a tomada de consciência sobre a brecha existente entre o
passado e sua representação entre o que foi e o que não é
mais e as construções narrativas que se propõem ocupar o
lugar desse passado permitiram o desenvolvimento de uma
reflexão sobre a história entendida como uma escritura
sempre construída a partir de figuras retóricas e de
estruturas narrativas que também são as da ficção
(CHARTIER, 2011, p.12).

66
Entender um homem como sujeito histórico é estar
atento às conexões deste com a sociedade da qual fazia parte,
não se olha para o passado tendo em mente apenas os conceitos
propagados através das perspectivas do presente, apesar de
sempre serem utilizados como medida nas interpretações.
Deve-se ter em mente os preceitos propagados no momento em
questão para que a análise seja de fato completa. Mas, o que
podem ser vistas como construções naturais e instintivas do ser
em sociedade se repetem na história, apesar de seus
personagens se modificarem. Crer no divino e mitológico,
como desejo de uma realidade secundária às insatisfações do
presente é algo recorrente no desenvolvimento de uma
sociedade. Desta forma, a literatura se torna uma fonte
inesgotável de conhecimento a respeito das representações
criadas pelo homem sobre o período em que se situavam.
A visão atual que recai sobre um indivíduo de
religiosidade cristã aflorada, é aquela que remete a ideia de um
ser que se fecha sobre novas possibilidades dentro do
imaginário, uma vez que todas as suas respostas são
encontradas através da fé praticada em sua religião. A
existência de possíveis criaturas desconhecidas pelo homem e
uma origem da vida que difere da disseminada pelo
catolicismo com a Bíblia, podem ser vistos como uma heresia
frente a tais crenças.

67
“Da escuridão da minha vida, tão frustrada, coloco
diante de você a única grande coisa para se amar sobre a terra:
o Sagrado Sacramento” (TOLKIEN, 2006, p.80)39. Então,
porque um indivíduo que se colocava como o mais apegado a
estes preceitos dedicaria sua vida a criação de um mundo
secundário? O Silmarillion carrega consigo a história da
criação do mundo; nesta crença secundária, o leitor é levado a
acreditar em uma nova história sobre o surgimento da vida,
algo que ocorreu eras atrás e que os homens a muito se
esqueceram.
Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar.
Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu
pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o
mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo- lhes temas
musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se
alegrou.(...) E aconteceu de Ilúvatar reunir todos os Ainur
e lhes indicar um tema poderoso, desdobrando diante de
seus olhos imagens ainda mais grandiosas e esplêndidas do
que havia revelado até então; e a glória de seu início e o
esplendor de seu final tanto abismaram os Ainur, que eles
se curvaram diante de Ilúvatar e emudeceram. Disse-lhes
então Ilúvatar: – A partir do tema que lhes indiquei, desejo
agora que criem juntos, em harmonia, uma Música
Magnífica. E, como eu os inspirei com a Chama
Imperecível, vocês vão demonstrar seus poderes
ornamentando esse tema, cada um com seus próprios
pensamentos e recursos, se assim o desejar. Eu, porém, me
sentarei para escutar; e me alegrarei, pois, através de vocês,
uma grande beleza terá sido despertada em forma de
melodia. (...) Ilúvatar lhes disse: – Contemplem sua
Música! – E lhes mostrou uma visão, dando-lhes uma
imagem onde antes havia somente o som E eles viram um

39
Carta 43 para Michael Tolkien 6-8 de março de 1941.
68
novo Mundo tomar-se visível aos seus olhos (TOKIEN,
2011, p. 3-6).

O valor dado por Tolkien ao poder da palavra escrita e


falada está em cada centímetro de seus trabalhos, tanto em suas
traduções, quanto nos livros do Legendarium. O mito da
criação de Arda é baseado em todo um universo que nasceu
através de uma extraordinária canção, idealizada por Deus,
tendo Ilúvatar (nomenclatura para Erú na linguagem élfica)
como representante e colocada em prática pelos Ainur, seres
de sua criação. A força do desejo coletivo fez com que a
palavra cantada tomasse dimensões que os mesmos não
esperavam. Ao contrário do propagado popularmente, as
línguas presentes em suas narrativas não foram criadas em
função dos personagens de suas histórias e sim o contrário, as
palavras nasceram primeiro, e, pelo poder delas que os livros
ganharam estrutura. Ele criou desde a infância línguas
completas inspiradas em dialetos antigos que davam asas a sua
imaginação.
Muitas crianças inventam, ou começam a inventar, idiomas
imaginários. Tenho feito isso desde que aprendi a escrever.
Mas nunca parei, e é claro que, como filólogo profissional
(interessado especialmente na estética linguística), mudei
meus gostos, aprimorei minha teoria e provavelmente
minha habilidade. Por trás de minhas histórias há agora um
nexo de idiomas (a maioria apenas estruturalmente
esboçada) (TOLKIEN, 2006, p. 106)40.

40
Carta 51 para Milton Waldman, 27 de outubro de 1943.
69
Este trabalho, iniciado em 1917 e revisado inúmeras
vezes até o momento de sua morte, surgiu para dar palco às
línguas que havia criado em sua juventude, completas em
gramática e sonoridade. As mais conhecidas foram baseadas
nos antigo galês e finlandês, vieram a se tornar as línguas
élficas, o quenya e o sindarin utilizadas pelos primeiros povos
a habitar a Terra-Média. E tal como seus idiomas eram
derivados de fonéticas e gramáticas existentes no mundo
primário, o mito de origem era inegavelmente a união de
crenças cristãs e seus próprios valores adquiridos ao longo do
tempo através do acúmulo de experiências.
Ilúvatar um ser do cosmos teria o poder da criação, mas,
se mantinha distante do seu universo dando a oportunidade das
criaturas terrenas o moldarem, assim como a ideia da origem
do mundo primário oferecida pela fé cristã. Os Ainur, seres
mais divinos que terrenos, ramificação mais próxima de
Ilúvatar, são comparados pelo próprio autor a anjos, inclusive
no âmbito de alguns terem escolhido proteger o mundo o
tornando próspero para os elfos e homens que em breve o
ocupariam. Os que fizeram essa escolha passaram a ser
conhecidos como Valar41. Eles carregavam consigo poderes

41
Os Ainur que decidiram entrar neste novo mundo não poderiam voltar como uma
condição de Ilúvatar, e, seu poder deveria servir como vida para aquela terra. Por
isso se tornaram conhecidos como “Valar os Poderes do Mundo” (TOLKIEN, 2011, p.
10).
70
derivados dos elementos da natureza ou relacionados à fauna e
a flora.
Dentre outras referências está a figura de Melkor, um
dos mais belos Ainur, que ao desejar mais poder teve seu
coração corrompido e se tornou a escuridão que desejava
tomar o mundo. Mais uma ligação com os escritos bíblicos,
onde o anjo Lúcifer devido a sua insubordinação desviou-se
para o mal. Para si, “Mitos e contos de fadas, como toda arte,
devem refletir e conter em solução elementos de verdade (ou
erro) moral e religiosa, mas não explícitos, não na forma
conhecida do mundo real, primário” (TOLKIEN, 2006, p.240).
Segundo Tolkien, o período em que vivia estava repleto de
quebras de tradições, incluindo a devoção a cristandade e o
valor a natureza, o último mais vigorosamente abandonado
com o progresso industrial. Idealizando a construção de um
mito que complementasse a história inglesa, um elemento
crucial eram as normas comportamentais que estavam
caminhando para o esquecimento. Por se tratar do imaginário,
colocando o extraordinário como possível não existiam
motivos em sua mente para não criar uma utopia territorial, que
refletisse seu desejo de viver em um mundo onde a sociedade
desse mais valor à natureza e ao estilo de vida simples.
A Terra-Média era bela e no geral quase perfeita, se a
escuridão que arremetia certos lugares for observada como
imperfeição, mas, os seres que ali viviam não se aproximavam
da mesma expectativa a não ser os elfos, exatamente por não
serem homens. Os homens dentro da narrativa, assim como no
71
mundo primário, são facilmente impressionáveis e
manipuláveis, apesar de nos momentos de maiores
dificuldades tornarem-se capazes de beirar a grandeza.
Mas os Elfos estão lá (em minhas histórias) para
demonstrar a diferença. A “magia” deles é Arte, livre de
muitas das suas limitações humanas: com menos esforço,
mais rápida, mais completa (produto e visão em
correspondência sem imperfeições). E seu objeto é Arte,
não Poder; subcriação, não dominação e reforma tirânica
da Criação. Os “Elfos” são “imortais”, pelo menos no que
diz respeito a este mundo e, consequentemente, ocupam-se
mais dos pesares e fardos da imortalidade no tempo e das
mudanças do que da morte. (TOLKIEN, 2006, p.240)42.

Os elfos são a beleza e a imortalidade, representavam a


perfeição atingida por aqueles fiéis às tradições e crenças de
seu povo. Amavam as artes e não os homens, pois estes tinham
uma passagem muito breve no mundo se comparados aos elfos,
que teriam a eternidade para lamentar o fim dos quais se
apegassem. A arte, no entanto, era significativa e guardava
memórias dos que já foram e poderia sempre ser adorada e
aperfeiçoada. Eram imortais até que a morte fosse infligida a
eles, e com isso, seus espíritos mantidos presos a terra.
Diferentes deles, os homens eram fadados a morte e ao
esquecimento, no fim, eram enviados a um local que nem
mesmo os Valar tinham conhecimento. A narrativa exalta a
ideia de que o homem comum, muito raramente é capaz de

42
Carta 51 para Milton Waldman, 1951.
72
alcançar a nobreza, são necessários além de muito esforço e
dedicação tempo e acumulação de experiências em sociedade.
Devido a isso, os elfos eram superiores de todas as formas, pois
são formados pela idealização de um ser perfeito que já
encontrou a sabedoria por fazer parte da história enquanto a
vida se desenrolava frente a seus olhos.
Os homens, limitados e incompletos, tem muito a
aprender com os heróis de seus mitos e fábulas, mas nunca os
superar, pois são de fato suas características imutáveis as
fraquezas e contradições. Além disso, eram os sucessores,
foram fazer parte da terra depois que os elfos já a haviam
explorado, acumulando certa sabedoria sobre a mesma. A
palavra homem na narrativa de Tolkien engloba diferentes
ramificações devido às ligações entre povos antigos, dentro
delas que se encontravam os hobbits.
Tolkien utiliza de uma organização temporal muito bem
elaborada que mostra “(...) a apropriação, por algumas ficções
das técnicas da prova próprias da história, a fim de produzir
não ‘efeitos de realidade’, mas sim, preferencialmente, a ilusão
de um discurso histórico” (CHARTIER, 2010, p.28). Em
suma, ele divide o tempo no Legendarium em três eras, a
primeira Era abraça o mito da criação e as forças divinas, junto
com os primeiros passos dos primogênitos, os elfos e seus
sucessores os homens nas narrativas de O Silmarillion. A
segunda Era termina com a perda do um anel de poder

73
confeccionado Sauron43, o verdadeiro antagonista das obras e
um dos servos de Melkor também conhecido como Morgoth.
E, na terceira Era que estão presentes os acontecimentos de O
Hobbit e O Senhor dos Anéis. O mundo dividido em Eras
denota origens no passado no qual se pode voltar para
compreender acontecimentos das demais eras, um recurso
utilizado para dar maior veracidade ao discurso mitológico o
assemelhando ao histórico.
Da mesma maneira outro recurso já observado para dar
maior veracidade ao fantástico foi a construção de uma história
sobre a criação da história. Elevar as expectativas de uma
crença secundária, colocando sua narrativa como um mito
traduzido de antigos documentos, que contavam sob a
perspectiva de um povo os grandes acontecimentos da terra em
que viviam.
No final da Terceira Era, o papel desempenhado pelos
hobbits nos grandes eventos que levaram à inclusão do
Condado no Reino Reunido despertou neles um interesse
muito mais amplo por sua própria história, e muitas de suas
tradições, até então na sua maioria orais, foram coletadas e
escritas. As famílias maiores também estavam interessadas
pelos eventos no Reinado em geral, e muitos de seus
membros estudavam suas histórias e lendas antigas. No
final do primeiro século da Quarta Era já se podiam
encontrar no Condado várias bibliotecas com muitos livros
e registros históricos (TOLKIEN, 2001a, p.14).

43
Sauron em origem eram um Maiar, criatura angelical assim como os Valar ma
inferior a eles. Foi influenciado por Melkor e corrompido pela sede de poder se
tornando como ele inimigo do mundo (TOLKIEN, 2011).
74
O prólogo de O Senhor dos Anéis informa que tal
registro que culminou em três volumes sobre a história da
Terra-Média só foi possível devido ao aparato documental que
seu tradutor dispunha. E, que por se tratar de uma única
comunidade, que detinha interesses muito específicos e até
egoístas sobre tais relatos, como o de manterem viva a
memória dos feitos de alguns indivíduos de seu povo, muitos
dos acontecimentos daquela terra podem ter sidos deixados de
lado. Feitos estes que se registrados por outras criaturas de
Arda, poderiam tomar caminhos muito distintos dos
enunciados ao longo dos livros. Tolkien se empenhou ao
máximo para levar aos seus leitores o prazer de se inserir em
uma história sem furos, tanto em construção quanto e enredo e
utilizou de aparatos da história, enquanto ferramenta de
pesquisa e reflexão para dar maior credibilidade a seus contos.
No Legendarium existiam personagens que transitavam
com maior frequência nas histórias documentadas pelos
hobbits, justamente por terem se envolvido com alguns da
espécie de seus criadores. Entre eles estão além dos elfos com
a sua beleza e sabedoria imortais, os anões e os magos, partes
indissociáveis das aventuras ocorridas de início em O Hobbit
e mais tarde nos livros da trilogia O Senhor dos Anéis. Os
anões aparecem na história da origem de Arda em O
Silmarillion como um erro cometido por Aulë, um dos Valar
mencionado como o quarto mais poderoso e o representante do
elemento terra.
75
Dizem que no início os anões foram feitos por Aulë na
escuridão da Terra- média. Pois tão grande era o desejo de
Aulë pela vinda dos Filhos, para ter aprendizes a quem
ensinar suas habilidades e seus conhecimentos, que não se
dispôs a aguardar a realização dos desígnios de Ilúvatar. E
Ailë criou os anões, exatamente como ainda são, porque a
forma dos Filhos que estavam por vir não estavam nítidas
em sua mente e, como o poder de Melkor ainda dominasse
a terra, desejo que eles fossem fortes e obstinados
(TOLKIEN, 2011, p. 39).

Apesar de ter cometido o erro de ir contra os desejos de


Ilúvatar, Aulë não foi visto pelo mesmo como uma criatura
corrompida, uma vez que seu erro foi cometido em razão de
sua afeição às criações de seu Deus. Não os criou com fins
egocêntricos como uma demonstração de poder, não desejava
servos que os seguissem como bonecos sem alma, e nem seres
semelhantes a si mesmo, desejava criaturas para amar e
ensinar. Ilúvatar sentiu pena e não destruiu suas criações, mas
as lançou em um sono profundo para que despertassem apenas
junto a suas criações originais os primogênitos e seus
sucessores.
Devido a sua origem, os anões são caracterizados como
seres fortemente ligados a terra, cavernas e o trabalho de
mineração e metalurgia. Pequenos, robustos e com longas
barbas, são capazes de criar armas quase tão maravilhosas
quanto as dos elfos. Exímios guerreiros, que estavam a todo o
momento preparados para uma luta, quase sempre trajando
suas armaduras sob longas capas para protegê-los das
76
intempéries e mantê-los a sombras de seus inimigos. Eles
foram formados pela a inspiração de Tolkien na mitologia
nórdica, segundo o mesmo as nomenclaturas não foram
premeditadas, foram incluídas casualmente devido a sua
aproximação a tais culturas.
Esses anões não são exatamente os anões da tradição mais
conhecida. Foram-lhes conferidos nomes escandinavos, é
verdade, mas essa é uma concessão editorial. Muitos
nomes nas línguas apropriadas ao período teria sido
alarmante (...). Não há histórias ou canções preservadas
sobre Elfos ou Anões em inglês antigo e muito poucas em
qualquer outro idioma germânico. Palavras, alguns nomes,
isso é praticamente tudo. Não me recordo de qualquer
Anão ou Elfo que desempenhe um papel verdadeiro em
qualquer história (TOLKIEN, 2006, p. 382)44.

Os anões carregavam consigo a nobreza de seus antigos


reis e possuíam sua própria língua, o Khuzdul, inspirada no
anglo-saxão e nos conhecimentos de Tolkien sobre os antigos
povos germânicos, apesar destes não terem sido de grande
ajuda em questão de fontes documentais. Protegiam seu
idioma como uma dádiva preciosa da qual apenas seus
semelhantes possuíam o direito. “Penso nos ‘Anões’ como os
judeus: ao mesmo tempo nativos e estrangeiros em suas
habitações, falando os idiomas do país, mas com um sotaque
devido à sua própria língua particular (...)” (TOLKIEN, 2006,
p. 382).

44
Carta 176 para carta Naome Mitchison, 8 de dezembro de 1955.
77
Ele acreditava em tal semelhança devido a maneira com
que a sua história fez dos anões um povo nômade. Foram
expulsos de sua própria terra segundo conta a história em O
Hobbit. Não faziam parte de lugar algum sempre esperando
recuperar sua terra natal que era deles por direito. E, ao mesmo
tempo, eram parte história das civilizações da Terra-Média
desde a sua origem. Por fim, a busca pelo seu lar que suscitou
as primeiras aventuras de Bilbo Bolseiro o personagem com
maior destaque em O Hobbit.
É neste livro que se encontram as primeiras passagens
de Gandalf o Cinzento, o mago cujos conselhos e poder
guiaram os hobbits a seus destinos. Ele surge de início no
condado dos hobbits e se encontra por “coincidência” com
Bilbo, um hobbit da linhagem dos Bolseiros.
“Tudo o que Bilbo, sem suspeitar de nada viu naquela
manhã foi um velho com um cajado. Usava um chapéu azul
alto e pontudo, uma capa cinzenta comprida, um cachecol
prateado sobre o qual a sua longa barba branca caía até
embaixo da cintura, e imensas botas pretas” (TOLKIEN,
2001b, p.4).

Esta mesma descrição se repete em O Senhor dos Anéis


quando acontece, muitos anos mais tarde, o encontro de
Galdalf com Frodo, primo45 de Bilbo. Em meio a férias de

45
O personagem Frodo aparece em O Senhor dos Anéis como um familiar adotado
como herdeiro por Bilbo mais de cinquenta anos após as aventuras de O Hobbit.
Bilbo se refere a Frodo como seu sobrinho, no entanto, eram na verdade primos de
um grau mais distante.
78
verão no ano de 1911, Tolkien realizou uma viagem pela
Suíça, um lugar que além de ter servido como inspiração das
paisagens em suas obras, lhe rendeu uma imagem perfeita de
Gandalf. “A noção de representação coletiva, entendida no
sentido que lhe atribuíam, permite, conciliar as imagens
mentais claras com os esquemas interiorizados, as categorias
incorporadas, que a gerem e estruturam” (CHARTIER, 2010,
p.19). Uma Imagem se fixou em sua mente quando obteve
como lembrança do passeio, um cartão postal com a imagem
de um Berggeist, em alemão, uma entidade que representava o
espírito das montanhas. Possuía as feições de um velho trajado
de uma longa capa e um chapéu pontudo. Tolkien, de fato
assumiu em alguns momentos tais conexões entre seus
personagens e suas experiências, deixando claro que tudo na
vida se restringe a inspiração e as representações que se
baseavam nela. Um espírito em meio às montanhas, cujo poder
derivava da natureza e se moldava a ela era o esperado para
um mago na Terra-Média. E utilizando de tal conhecimento,
completou tal personagem com suas próprias expectativas.
Gandalf era uma criatura mística, cuja figura estava encoberta
por enigmas desde o início, principalmente quanto a sua
origem, os demais personagens se indagavam se seria ele um
homem ou uma criatura da qual os demais não sabiam
nominar.
Mas G., é claro, não é um ser humano (Homem ou Hobbit).
Não há naturalmente termos modernos precisos para dizer
o que ele era. Arriscaria dizer que ele era um “anjo”
encarnado (...) um emissário dos Senhores do Oeste,

79
enviado à Terra-média, à medida em que a grande crise de
Sauron surgia no horizonte. Com “encarnado” quero dizer
que foram incorporados em corpos físicos capazes de sentir
dor e cansaço, de afligir o espírito com o medo físico e de
serem ―mortos‖, embora, ajudados pelo espírito angelical,
pudessem resistir por muito tempo e mostrar apenas
lentamente um desgaste pela preocupação e trabalho.
(TOLKIEN, 2006, p. 335)46.

Deste modo, Gandaf não era um homem e nem uma


ramificação desta raça como eram os hobbits. Ele era quase
uma figura divina47, mas, que foi inserida em um mundo em
que aqueles que o habitam estão expostos ao mal e a serem
corrompidos por ele. Sua missão era aconselhar e acompanhar
aqueles destinados a salvar a Terra-Média, tomando frente e
se impondo sobre as descrenças do povo sobre a possível volta
do Senhor do Escuro48. Ele foi colocado em Arda como um
velho de estatura média, apesar de ser maior que um anão, para
que seus poderes não alcançassem sua plenitude. Sua figura
delineia a ideia de que o poder não deve ser relacionado à
imagem física e sim ao espírito.
Saruman o branco, o líder de sua ordem de magos, foi
infestado pelo poder do mal com o desejo de governar a terra

46
Carta 156 para Robert Murrey, 4 de novembro de 1954.
47
Era em origem um espírito Maiar, conhecido como Olórin, enviado a terra com
parte de seu poder inacessível para servir de conselheiro contra o poder de Sauron
(TOLKIEN, 2011).
48
Se refere a Sauron, criador dos anéis de poder, personagem presente em todas as
cinco obras literárias mencionadas.
80
que deveria proteger, ressaltando a questão de que todos na
Terra-Média estavam sob a possibilidade de se voltarem as
sombras devido as fraquezas que o mundo mortal os afligem,
principalmente a sede de poder. Os livros caminham a ilustrar
que poder por si só não significa nada sem um propósito moral
direcionado pelo divino, crença enraizada na construção da
identidade religiosa de Tolkien. Não é correto afirmar que tais
relações com o caminho em específico que a obra toma foram
realizados propositalmente. A maior parte destas construções
estava inerente a existência de seu autor e não foram de fato
pensadas com o intuito de serem anexadas na construção do
enredo.
Minha história não é baseada conscientemente em qualquer
outro livro – com exceção de um, e ele não foi publicado:
o “Silmarillion”, uma história dos Elfos, ao qual frequentes
alusões são feitas. Não pensei nos futuros pesquisadores; e,
como há apenas um manuscrito, no momento parece haver
poucas chances dessa referência ser de utilidade
(TOLKIEN, 2006, p. 49).

Em 1938, Tolkien responde a uma carta publicada por


um jornal que o perguntava sobre as origens de alguns
personagens e possíveis ligações com seus conhecimentos
acadêmicos. Em resposta, demonstrou sua preocupação no
momento a respeito da recepção de seu trabalho, o mundo
imaginário que havia criado transformou-se em fonte de
pesquisa para alguns. O Hobbit não havia sido criado sobre tais

81
pretensões, nasceu naturalmente e foi publicado pela
insistência de seus próximos.
Como um estudioso, estava aturdido pelo interesse que
alguns possuíam de dissecar seu trabalho mais despretensioso
e se arrependia por não ter sido tão cuidadoso quanto aos
detalhes, uma vez que, o livro foi escrito e publicado para a
leitura de crianças. Seus esforços estavam mais voltados em O
Silmarillion, por isso faltavam algumas explicações sobre o
mundo e alguns de seus personagens em seu primeiro livro
publicado. Na sua concepção, tal erro não era aceitável, assim
como qualquer erro cometido no âmbito da escrita, deste
modo, assim que foi procurado para escrever uma continuação
se empenhou para que a mesma estivesse isenta de furos e que
não precisasse de O Silmarillion como complemento, pois não
sabia se algum dia o mesmo seria publicado.

4.2 HOBBITS: AS REPRESENTAÇÕES DO HOMEM

ENTRE A FRAQUEZA E A GLÓRIA

Numa época em que nossa relação com o passado está


ameaçada pela forte tentação de criar histórias imaginadas
ou imaginarias, é fundamental e urgente a reflexão sobre as
condições em que permitem sustentar um discurso
histórico como representação e explicação adequadas da
realidade que foi. Supondo em seu princípio a distância
entre saber crítico e reconhecimento imediato, essa
reflexão participa do longo processo de emancipação da

82
história com respeito a memória e com respeito a fábula,
também verossímil (CHARTIER, 2010, p. 31).

Segundo a história de tal tradução, não haviam registros


sobre hobbits antes da terceira era, tornando impossível relatar
nos livros ao certo sua origem ou envolvimento em outros
acontecimentos de Arda. Estes eram os personagens dos quais
seu autor mais se sentia próximo. Referia a si mesmo como um
pelos gostos simples, o amor a terra, os prazeres do ócio e o
desgosto pela violência. Seres pequenos capazes de grandes
feitos, que representaram tanto a si mesmo, quanto inúmeros
leitores que se descobriram hobbits por natureza ao longo de
suas leituras.
São retratados como figuras sem ambição, vivendo sob
a crença de que ter um lar e pessoas agradáveis com quem
partilhar suas histórias e refeições, era a melhor vida que se
podia desejar. Mantinham-se afastados de aventuras, pois as
mesmas eram iguais a problemas, mas se mostravam
obstinados com seus objetivos quando possuíam algo a
proteger. Para um livro publicado em 1937, cuja maior parte
de seus leitores iniciais eram jovens da elite, se afastar de
problemas e desejar estar alheio as grandes disputas em seu
mundo era um tanto quanto comum em demasia para aqueles
que estavam constantemente observando os jogos de poder
entre guerras mundiais.

83
Muitas são as características pessoais de Tolkien
externadas nos pequenos, assim como o hábito de fumar
constantemente. Excluindo a sua idealização física, ele era em
todos os aspectos um hobbit, e, exatamente por isso que seus
livros não poderiam ter sido descritos através da visão de outro
povo a não ser este. Quando perguntado como um hobbit
deveria se parecer, era categórico e detalhista. Eram retratados
como criaturas com arquétipos humanos, e não seres mágicos
e etéreos como muitos imaginavam a primeira mão 49. Rostos
redondos e amigáveis; pequenas orelhas levemente pontudas,
e, mais comumente, o cabelo castanho. Também possuíam
certa proeminência em suas barrigas, já que faziam mais de
cinco refeições ao dia se pudessem50. Tinham os pés cobertos
de pelos e muito grandes para seu tamanho, além de em
estatura serem menores do que um anão comum. Suas roupas
eram simples e apropriadas para a vida no campo, calças
curtas, colete e paletó.
Além das características físicas e passatempos que
apresentavam em comum, os hobbits se apoiavam
imensamente em suas tradições. Por isso que o episódio de
alguns deles terem se envolvido em grandes acontecimentos,
despertou tamanho interesse em seu povo. As relações
familiares são muito bem elucidadas dentro do enredo e em
alguns momentos utilizadas para avaliar o comportamento dos
personagens. Gandalf acreditava que os feitos dos ancestrais
49
J.R. R. Tolkien, Carta 27 para Houghton Mifflin Company 1948.
50
TOLKIEN, 2001a.
84
de Bilbo e Frodo podiam os inspirar a alcançar o que não era
esperado deles.
Bilbo Bolseiro descendia de uma longa linhagem de
Bolseiros, eles eram muito respeitados por fazerem parte da
comunidade desde tempos longínquos, também por serem
ricos e tradicionalmente previsíveis e desinteressados por
aventuras. Já o seu lado Tûk, nome herdado por sua mãe não
era muito bem visto entre seus iguais já que uma vez ou outra
um integrante dessa família sentia a necessidade de sair
caminhando por aí em busca de algo que não sabiam ao certo51.
O Caso é que tanto Bilbo, como seu sobrinho, eram donos de
algo, talvez herdado dos Tûk, que os diferenciava dos demais.
Os dois indivíduos foram os escolhidos para se afastarem de
tais tradições por possuírem em seu interior aquilo que Tolkien
chamava de “centelha”:
Neste quadro, a pergunta “Você é um hobbit?” só pode ser
respondida “Não” ou “Sim”, de acordo com a origem da
pessoa. Ninguém é um “hobbit” porque gosta de uma vida
pacata e de comida abundante; menos ainda por ter um
desejo latente por aventura. Os Hobbits eram uma raça cuja
principal característica física era sua estatura, e a principal
característica de seu temperamento era a quase total
erradicação de qualquer “centelha” dormente,
aproximadamente apenas um em mil possuía algum
vestígio dela. Bilbo foi especialmente selecionado pela
autoridade e percepção de Gandalf como anormal – ele
possuía uma boa quantidade de virtudes hobbit: senso de
perspicácia, generosidade, paciência e fortitude, e também

51
TOLKIEN, 2001b.
85
uma forte “centelha” ainda não acesa (TOLKIEN, 2006, p.
605)52.

Tolkien mostra que o motivo para os pequenos terem


vislumbrado a grandeza foi exatamente por irem contra as
normas pré-dispostas a eles desde seu nascimento. Seus
esforços foram maiores do que os de um elfo, anão ou mago
teriam sido se fossem incumbidos de tais missões, já que se
encontravam completamente despreparados para fazerem
parte de tais aventuras. Mas, talvez, criaturas diferentes não
tivessem alcançado os mesmo resultados, já que segundo a
narrativa, o poder corrompe com mais força aqueles que já
detém o conhecimento de como empunhá-lo. Analisando tais
feitos, se pode concluir que Tolkien tinha em consciência que
a bondade requer uma parcela de ingenuidade, pois o
conhecimento é uma dádiva perigosa.
Segundo Chartier: “As representações do mundo social
assim construídas, embora aspirem à universalidade de um
diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos
interesses de grupo que as forjam” (CHARTIER, 2010, p.17).
Os dois hobbits conseguiram resistir de início ao poder do anel
maligno do qual eram guardiões por serem desprovidos de
ambição. Em um mundo cercado por guerras, seres de
diferentes raças, paisagens impressionantes e tesouros a serem
tomados, seus únicos desejos eram proteger aquilo que lhes era

52
Carta 281 para Rayner Unwin , 15 de dezembro de 1965.
86
imprescindível, amigos leais e um lar para o qual voltar. Visto
como um soldado “fujão” durante a guerra por não se
interessar pela disputa a ponto de desejar colocar sua vida a
prova para defender os ideais de outras pessoas, Tolkien
inseriu em tais personagens o desejo do homem
contemporâneo da paz e do fim das instabilidades.
E por mais que um homem seja forte ele ainda é apenas
um homem. Frodo era diferente de Bilbo, que inicialmente
relutou em participar das aventuras em O Hobbit e apenas a tal
centelha que o diferenciava de seu povo o empurrou para a
batalha. Seu primo, mais de sessenta anos mais jovem53
cresceu escutando suas histórias sobre anões, magos e dragões
e desejava viver suas próprias aventuras apesar de em seu
cerne também dividir o amor pelo condado e a vida pacata. Por
fim, as aventuras foram de encontro a ele que se uniu a um
grupo formado por aqueles que desejavam destruir o um anel
de poder antes que fosse tarde demais.
Parece-me claro que o dever de Frodo era “humano”, não
político. Ele naturalmente pensou primeiro no Condado,
uma vez que suas raízes estavam lá, mas a busca tinha
como seu objetivo não a preservação deste ou daquele
regime (...) na “vida real”, é claro, as causas não são nítidas
– ainda que apenas porque os tiranos humanos raramente
são totalmente corrompidos em puras manifestações de
vontade maligna. Pelo que posso julgar, alguns parecem ter
sido muito corruptos, mas até mesmo estes precisam
governar pessoas das quais apenas parte é igualmente

53
Em O Senhor dos Anéis Bilbo Bolseiro trata Frodo como sobrinho devido a distância
de suas idades e por tê-lo adotado como herdeiro.
87
corrupta, enquanto muitos ainda precisam que “bons
motivos”, reais ou simulados, sejam-lhes apresentados
(TOLKIEN, 2006, p. 398)54.

É claro que nenhum indivíduo se tornaria imediatamente


benevolente e heroico por ter sido colocado a frente de uma
guerra de amplitude mundial. De início, são as preocupações
pessoais que os regeram. Frodo era humano, e, como os
homens do mundo primário não estava livre das fraquezas que
os desejos egoístas proporcionavam. Detinha o pensamento
fechado ao condado por nunca ter criado vínculos com outros
lugares, assim como antes dele, Bilbo. E somente o tempo e as
experiências que obtiveram ao lado de indivíduos de outras
raças, vindos de lugares distantes, que mudaram suas mentes
de maneira gradual.
Em 1956, um ano após a publicação do último livro de
O Senhor dos Anéis, trabalhando como professor de literatura
e língua inglesa em Oxford, Tolkien comenta em tal carta que
apesar de feitos terríveis, os seus personagens ainda não se
assemelhavam a maldade que os homens do mundo primário
eram capazes. Na “vida real” não existem forças de puro mal
impossíveis de serem ignoradas, os vilões utilizam de artifícios
e mentiras para si mesmos acreditarem que os meios justificam
os fins. E não se têm o perverso por si só, um ditador precisa
de apoio de mentes igualmente corruptas. Apesar de a guerra
ter tido um fim para si esperado, nunca se livraria dos rancores,
54
Carta 183 para W.H. Auden. 1956.
88
sobretudo da Segunda Guerra mundial, a qual comentava com
seu filho, possuía motivos muito pessoais dos quais o faria um
melhor soldado naquele momento do que foi aos vinte e dois
anos55. Para ele, não havia mal maior do que corromper mentes
fracas para apoiar ideologias além de ridículas mal
fundamentadas.
Apesar de ter sido alguém que se encontrava em alto
grau imerso aos ideais de vida do passado distante, os
acontecimentos de seu presente não foram ignorados em suas
criações. Existem idiossincrasias que diferem os caminhos
tomados pelos seus personagens daqueles seguidos pelos
heróis dos contos medievais que o inspiravam. Seus heróis
fracassavam, mas o fracasso de Frodo não foi moral, segundo
Tolkien, foi simplesmente esperado, dado que seres comuns
por mais destinados que fossem sucumbiriam sob tal poder
sombrio.
Frodo realmente “falhou” como um herói, tal como
compreendido por mentes simples: ele não aguentou até o
final; ele desistiu, desertou. (...) Tendem a esquecer aquele
elemento estranho no Mundo que chamamos de Piedade ou
Misericórdia, que também é um requisito absoluto no
julgamento moral (visto que está presente na natureza
Divina). A nós mesmos devemos apresentar o ideal
absoluto sem compromisso, pois não conhecemos nossos
próprios limites de força natural (+ graça), e se não
almejarmos o mais elevado, certamente não atingiremos o

55
J. R. R. Tolkien, Carta 45para Michel Tolkien 1941.
89
máximo que poderíamos alcançar (TOLKIEM, 2006, p.
541)56.

O mito para este autor, como já observado no capítulo


anterior, deveria servir em alguns momentos como modelo
comportamental para aqueles que necessitarem de tal apoio.
Foi mais prudente e encorajador a seu ver, existirem heróis
com fraquezas mundanas, que amparados pela amizade e
munidos de coragem para proteger o que lhes era importante,
seriam capazes de feitos que não eram esperados dos mesmos.
Na maior parte do tempo dentro das histórias, os hobbits são
completamente desacreditados pelos companheiros quanto às
suas capacidades, eram pequenos e sem nenhum tipo
treinamento ou habilidade para a sobrevivência. E exatamente
por ultrapassarem tantas barreiras que se tornaram nomes
honrosos para a história da Terra-Média. A falha de Frodo não
significou de modo algum que ele era inferior pelas suas
origens, mas que foi por elas que conseguiu carregar tal peso
que criaturas mais poderosas não conseguiriam sem serem
corrompidas. A fraqueza é natural tanto no mundo primário
quanto no secundário e só se pode descobrir até onde se
consegue chegar começando a caminhada.
Se a história como disciplina de saber partilha suas
fórmulas com a escritura de imaginação, é possível
continuar atribuindo a ela um regime específico de
conhecimento? A “verdade” que produz é diferente da que

56
Carta 246 para Sra. Eileen Elgar, setembro de 1963.
90
produzem o mito e a literatura? (CHARTIER, 2010, p. 12-
13).

A visão que o indivíduo tem sobre si mesmo representa


muito pouco sobre toda a extensão de sua experiência
enquanto sujeito histórico. Ele é um acumulado de
experiências em sociedade que só são possíveis no local e
momento do qual está inserido. Tolkien não poderia ter criado
o Legendarium se não tivesse a nacionalidade inglesa. No
entanto ter nascido na África do Sul também colaborou com
memórias e leituras que serviram de base para representações
em suas narrativas. Similarmente, não existiriam hobbits se
não tivesse se tornado pai de crianças ávidas por histórias antes
de dormir. O desenrolar das guerras fictícias não teriam tais
andamentos se seu escritor não houvesse servido como tenente
na Primeira Guerra Mundial. E também não seria a principal
característica de seus pequenos heróis, o desejo de paz e
harmonia se não houvesse nascido em meio as tempestades do
século XX.
Tolkien era apegado aos preceitos de sua religião, suas
ações eram regidas de fato pelo que compreendia como
aceitáveis dentro da moral cristã. Sua formação intelectual o
tornou capaz de discernir quais vertentes de sua crença eram
aplicáveis ao mundo primário como os valores de moral dos
quais era tão cativo. Apesar disso via as turbulências de seu
período como um perigo para o futuro de tais tradições. Por
isso, em um mundo idealizado seus personagens
91
demonstravam a todo o momento, fé, esperança e o
conhecimento de que o universo era regido por forças
desconhecidas que deveriam ser acima de tudo respeitadas.
Justamente por ser um intelectual que a sua subcriação foi
possível, ele era capaz de separar muito bem a crença da
obsessão, a religião da erudição. Era um escritor e tinha a
literatura como sua segunda maior paixão, seu mundo
fantástico serviu para representar aquilo que o mundo primário
estava se tornando incapaz.
O Legendarium constituiu seguidores ao redor do
mundo, mais do que um público cativo, são indivíduos que
desejam ainda no século XXI fazerem parte do mundo
secundário criado por Tolkien. Considerar que a História não
deve utilizar do conhecimento atribuído por tal fonte, é o
mesmo que jogar no lixo toda a rica estrutura de crença
representativa e apropriada por diferentes gerações providas
dos mesmos sentimentos daquele que as escreveu.

92
Capítulo 5

CONSIDERAÇÕES FINAIS

São inúmeras as expectativas criadas quando se dá


início a uma pesquisa acadêmica. Uma monografia denota o
levantamento de um problema, neste caso as possíveis
contribuições da Literatura Fantástica como fonte para a
História. E dentro dele se faz necessário o recorte específico
de um tema único com argumentos bem embasados em sua
93
fundamentação. O germe que deu início a esta empreitada foi
observar que certas áreas de produção cultural estavam sendo
deixadas de lado quanto às suas possíveis influências dentro da
sociedade, sobretudo, as conhecidas por acumularem fama e
popularidade em massa.
Utilizar obras do Legendarium de Tolkien foi um
desafio, são cinco livros muito bem organizados, onde cada
personagem e ambiente possuem ramificações em que suas
histórias individuais são muito bem elaboradas. Existem
informações que mostram que maioria destes seres fantásticos
desenrolaria por si mesmo, através da grande quantidade de
detalhes sobre ele descritos por seu autor, um novo livro
desprovido de furos no enredo. Ademais, ao contrário da
dificuldade que muitos encontram em descobrirem fontes
sobre seus objetos de pesquisa, foi necessária muita crítica e
pesquisa para fazer o levantamento de dados pertinentes entre
um mar de suposições e divagações sobre Tolkien e seus
livros.
Desvendar todas as nuances do Legendarium não foi a
pretensão deste estudo desde o início. O que cabe à restrição
de uma pesquisa desta magnitude naturalmente não é capaz de
alcançar todos os ângulos de uma construção elaborada por
quase setenta anos. Assim como Tolkien coloca, não existe
descoberta e sim a representação com referências a
conhecimentos adquiridos mesmo que inconscientes. Do
mesmo modo que o autor só veio a perceber que o anel em
posse de Bilbo em O Hobbit, se tratava do um anel de poder
94
ao elaborar a continuação em O Senhor dos Anéis, esta
pesquisa também tomou caminhos inesperados. O objetivo
principal nunca se modificou é claro, utilizar aquilo que é
propagado como subterfúgio do saber, distração e fuga da
realidade, como uma importante ferramenta para tecer
descobertas. Mas o modo de demonstrar tal constatação sofreu
mudanças.
A narrativa dos livros possuía um papel maior de início,
mas, após a absorção de documentos como biografias,
trabalhos já realizados sobre o tema e as cartas escritas por
Tolkien organizadas em um livro após a sua morte, mudanças
se mostraram necessárias. Falar sobre estudar literatura pelos
métodos de um historiador é colocar as características de quem
escreve, para quem escreve e de onde escreve, muito bem
situadas. Consequentemente, não é possível administrar as
correlações entre estas categorias sem determiná-las muito
bem. E para atingir o objetivo de elucidar tais desdobramentos,
foi necessário dar maior atenção a figura de um autor que com
o passar de um século se tornou um enigma talvez maior do
que os presentes em seus livros.
Tolkien se colocava como um hobbit em número e grau,
não apenas sentia-se representado por aquela raça como se
espelhava em seus feitos, assim como se espera da figura do
herói mitológico. Por qualquer ângulo que se observe essas
pequenas criaturas não são de forma alguma o que se espera de
um exemplo de heroísmo, e, exatamente por isso, que suas
escolhas em meio a temeridades moveram tanto o criador
95
quanto aqueles que colocaram as mãos em seus escritos.
Houve aqui, a promessa de mostrar que existe muito a se
aprender com os motivos pelos quais um indivíduo é levado a
produção de Literatura Fantástica, e mais ainda, com o tipo de
leitor que ele alcança. Neste sentido, se pode determinar quais
eram expectativas de mundo idealizado não somente daquele
que o criou, mas do público que o adquiriu tornando seu enredo
fonte de desejo e inspiração.
Como conclusão desta aventura, é definida a
necessidade de pesquisas mais profundas sobre o tema que tem
tanto a provar. E quanto aos objetivos, estes foram alcançados,
mas não tão explorados quanto mereciam. Tolkien e seu
universo mostraram-se referências não apenas dentro da
literatura e linguística, mas, de legítimos representantes dos
desapontamentos dos quais o homem do século XX estava
submetido. Após mais de um século de seus primeiros passos
rumo ao Legendarium as pessoas ao redor do mundo ainda se
sentem representadas pelo seu desejo de um universo
secundário. A insatisfação pela ruptura de valores, os quais
Tolkien mencionava tão arduamente, ainda se refletem nas
gerações posteriores que como ele, sonham com ideais de um
passado idealizado, se apegando a construção de uma fantasia
que carrega muito mais do que uma fuga trivial e desesperada
da realidade primária.

96
Fim

97
REFERÊNCIAS

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