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ESTADO DO TOCANTINS

PODER JUDICIÁRIO - COMARCA DE PALMAS


1ª VARA D0S FEITOS DAS FAZENDAS E REGISTROS PÚBLICOS

Nº do Processo: 5006372-28.2011.827.2729
Chave Processo: 216506137111

DECISÃO

JOSEFA ELVIRA DE OLIVEIRA SILVA, devidamente


qualificada nos autos, ajuizou a presente Ação Ordinária contra o ESTADO DO
TOCANTINS.

Objetiva, através de tutela jurisdicional que o requerido


custeie o tratamento e a cirurgia para a retirada de tumor cerebral que é
acometida, em hospital que realize neurocirurgias sem hemotransfusão,
alegando ser imprescindível para a manutenção de sua saúde e da própria
vida.

Aduz que está com um TUMOR CEREBRAL (CID D 43.0),


e necessita com urgência de cirurgia para a sua retirada, prevenindo eventuais
complicações inerentes à patologia, conforme laudo médico.

Assevera que a recusa em receber transfusão de sangue


decorre das suas convicções religiosas, declarando a não aceitação de
transfusão de sangue em nenhuma circunstância, uma vez que há alternativas
viáveis à hemotransfusão para tratamento fora do domicílio, conforme subscrito
por neurologista.

Pugna por concessão de tutela antecipada, sustentando


estarem presentes os requisitos legais inerentes a tal instituto.

A inicial veio escoltada pelos documentos digitalizados


constantes do anexo 1.

DECIDO.

A “priori”, defiro em prol da requerente o pedido de justiça


gratuita, nos termos da Lei nº 1.060/50.
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A plausibilidade de concessão de tutela liminar específica,


tal como preconizada no art. 461, “caput”, c.c. § 3º, do CPC, mostra-se
presente na espécie, conquanto, a toda evidência, há justificado receio de
ineficácia do provimento final caso a tutela não seja concedida em caráter
liminar.

Tratam-se na espécie de questões de direitos


fundamentais, quais sejam, o direito à vida e à liberdade religiosa, sendo
obrigação do Estado proporcionar ao cidadão o tratamento médico adequado.

Da documentação acostada aos autos, mormente os


documentos de fls. 04/08 – OUT2, constato que a requerente possui um Tumor
Cerebral (CID D 43.0), patologia que poderá comprometer a sua saúde
trazendo seqüelas irreversíveis, até mesmo a morte.

De outra banda, é sabido que a posição dos pacientes


Testemunhas de Jeová quanto à escolha de tratamento médico sem sangue, é
um assunto rodeado pelo espectro do preconceito, mesmo nos meios jurídicos,
entretanto, os acórdãos endossam sob o enfoque do princípio constitucional da
"dignidade da pessoa humana" (art. 1.º, III, da CF), o direito do paciente
Testemunha de Jeová de receber tratamento médico sem transfusão de
sangue, senão vejamos:

“PROCESSO CIVIL. CONSTITUCIONAL. AÇÃO CIVIL


PÚBLICA. TUTELA ANTECIPADA. CASO DAS
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. PACIENTE EM TRATAMENTO
QUIMIOTERÁPICO. TRANSFUSÃO DE SANGUE. DIREITO À
VIDA. DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. LIBERDADE DE
CONSCIÊNCIA E DE CRENÇA. - No contexto do confronto
entre o postulado da dignidade humana, o direito à vida, à
liberdade de consciência e de crença, é possível que aquele
que professa a religião denominada Testemunhas de Jeová
não seja judicialmente compelido pelo Estado a realizar
transfusão de sangue em tratamento quimioterápico,
especialmente quando existem outras técnicas alternativas
a serem exauridas para a preservação do sistema
imunológico. - Hipótese na qual o paciente é pessoa lúcida,
capaz e tem condições de auto-determinar-se, estando em
alta hospitalar. Número do processo: TJ/MG
1.0701.07.191519-6/001(1) Relator: ALBERTO VILAS BOAS.
ata da Publicação: 04/09/2007”

Impõe-se esclarecer que não se está a debater ética


médica em confronto com o direito à vida e o de liberdade de crença religiosa.
O que se põe em relevo é o direito à saúde e a obrigação do Estado de
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proporcionar ao cidadão tratamento médico que não implique em afronta à sua


liberdade de crença religiosa.

Não cabe à Administração Pública avaliar e julgar valores


religiosos, mas respeitá-los. Se por motivos religiosos a transfusão de sangue
apresenta-se como obstáculo intransponível à submissão da requerente à
cirurgia tradicional, deve o Estado disponibilizar recursos para que o
procedimento se dê por meio de técnica que a dispense, quando na unidade
territorial não houver profissional credenciado a fazê-lo.

Ora, havendo método cirúrgico substitutivo na comunidade


médica, tem a requerente o direito de obter da Administração Pública o
fornecimento de meios para que possa realizar o procedimento fora de seu
domicílio.

Desta forma, reputo como legítimo o direito da paciente de


escolher seu tratamento médico, ciente da existência de procedimento que
poderá evitar o uso de hemocomponentes, posto que o direito à vida não se
exaure somente na mera existência biológica, sendo certo que a regra
constitucional da dignidade da pessoa humana deve ser ajustada ao aludido
preceito fundamental para encontrar-se convivência que pacifique os
interesses das partes.

A meu ver, o direito de escolher tratamento médico sem


transfusão de sangue motivado por questões religiosas, é uma projeção da
dignidade da pessoa humana.

Ademais, resguardar o direito à vida implica também em


preservar os valores morais, espirituais e psicológicos que se lhe agregam.

Cabe ao SUS, além da atribuição do planejamento e


organização da distribuição de serviços de saúde à coletividade, o atendimento
individual ao necessitado, conforme dispõe o art. 18, inc. III, letra “a”, da Lei
Federal nº 8.080/80.

Outrossim, a Constituição Federal preconiza cooperação


financeira entre as Entidades para a prestação de serviços de atendimento à
saúde da população, nos termos do art. 30, inc. VII.

Oportuno mostra-se ressaltar que, nos termos da legislação


pátria, tal obrigatoriedade estende-se a todos os entes políticos da Federação,
que devem manter em seus orçamentos dotações de créditos destinadas ao
gasto com medicamentos, cujos preços extrapolam as possibilidades
econômicas dos necessitados, pelo que, a questão relativa ao repasse de
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verbas deve ser resolvida no âmbito administrativo entre as esferas de poder


que integram o sistema único de saúde (Municípios, Estados e a União).

Inegável, pois, a obrigatoriedade da Administração Pública


em fornecer o tratamento e insumos de que necessitam seus usuários.

Por fim, o fundado receio de ineficácia do provimento, caso


venha a se postergar a apreciação da tutela requerida para o julgamento final,
decorre da própria natureza do pleito, conquanto, abstrai-se dos autos, ser a
cirurgia e o respectivo tratamento imprescindíveis à manutenção da saúde da
requerente, impossibilitada de arcar com os custos.

Confira-se, a tal propósito, a orientação dos Tribunais


Pátrios:

“PROCESSO CIVIL E ADMINISTRATIVO – TUTELA


ANTECIPADA CONTRA A FAZENDA PÚBLICA – SERVIÇO
ÚNICO DE SAÚDE – SISTEMÁTICA DE ATENDIMENTO (LEI
8.080⁄90). 1. A jurisprudência do STJ caminha no sentido de
admitir, em casos excepcionais como, por exemplo, na
defesa dos direitos fundamentais, dentro do critério da
razoabilidade, a outorga de tutela antecipada contra o Poder
Público, afastando a incidência do óbice constante no art. 1º
da Lei 9.494⁄97. 2. Paciente tetraplégico, com possibilidade
de bem sucedido tratamento em hospitais da rede do SUS,
fora do seu domicílio, tem direito à realização por conta do
Estado. 3. A CF, no art. 196, e a Lei 8.080⁄90 estabelecem um
sistema integrado entre todas as pessoas jurídicas de
Direito Público Interno, União, Estados e Municípios,
responsabilizando-os em solidariedade pelos serviços de
saúde, o chamado SUS. A divisão de atribuições não pode
ser argüida em desfavor do cidadão, pois só tem validade
internamente entre eles. 4. Recurso especial improvido” –
(STJ - RECURSO ESPECIAL Nº 661.821 - RS (2004⁄0069004-
8) – Relatora MINISTRA ELIANA CALMON – Julgado em
12/05/2005 – Publicado em 13/06/2005”.

“ADMINISTRATIVO. CONSTITUCIONAL. DIREITO À SAÚDE.


DEVER DO ESTADO.SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE.
ATENDIMENTO ÀS NECESSIDADES BÁSICAS DO
CIDADÃO.- O direito à saúde, estritamente necessário à
proteção da vida humana, deduzido na Constituição,
constitui exigência inarredável de qualquer estado que
inclua nos seus valores essenciais a humanidade e a justiça.
O Sistema Único de Saúde - SUS visa à integralidade da
assistência à saúde, seja individual ou coletiva, devendo
atender aos que dela necessitem em qualquer grau de
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complexidade” – (TRIBUNAL REGINAL FEDERAL – 4ª


REGIÃO - APELAÇÃO CIVEL Nº 544615 - Relatora JUIZA
MARIA DE FÁTIMA FREITAS LABARRÈRE – Julgado em
10/06/2003 – Publicado DJU de 25/06/2003, pg. 715).

Em tais circunstâncias, DEFIRO o pedido de tutela


específica, em caráter liminar, na forma e com fundamento no § 3º, do art.
461, do CPC, para o efeito de determinar que o requerido custeie e providencie
a cirurgia e tratamento da autora em outra localidade, para a retirada de tumor
cerebral em hospital que realize neurocirurgias sem hemotransfusão.

Notifique-se, incontinenti, via mandado, o Secretário de


Saúde do Estado do Tocantins para que, no prazo máximo de 05 (cinco)
dias, a contar da notificação, adote as providências necessárias para que
a requerente seja submetida à realização de cirurgia em outra localidade,
para a retirada de tumor cerebral em hospital que realize neurocirurgias
sem hemotransfusão, conforme transcrito na inicial (fls. 4/8 – OUT2), sob
pena de desobediência.

Sirva-se cópia desta decisão como mandado de


notificação.

Ato contínuo, promova-se a citação da parte requerida, na


forma e com as advertências legais devidas.

Intimem-se. Cumpra-se.

Palmas – TO, em 12 de dezembro de 2011.


Assinado de forma digital por
Wanessa Wanessa Lorena Martins de Sousa
Motta:352457

Lorena Martins DN: c=BR, o=ICP-Brasil,


ou=Autoridade Certificadora da
Justica - AC-JUS, ou=Cert-JUS

de Sousa Institucional - A3, ou=Tribunal de


Justica do Tocantins-TJTO,
ou=Magistrado, cn=Wanessa Lorena
Motta:352457 Martins de Sousa Motta:352457
Dados: 2011.12.12 14:02:10 -03'00'

Wanessa Lorena Martins de Sousa Motta


Juíza de Direito