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A INTRODUCAO DO TRABALHO LIVRE NAS FAZENDAS DE CAFE DE SAO PAULO* Verena Stoleke ¢ Michsel M. Hall (Universidad de Bareclona/Departamento de Historia da UNICAMP) Introdugio Pais de tertas abundantes’¢ populagio relativamente escassa, 0 Bra sil confrontou-se com problemas especificos quando da constituigio de uma forga de trabalho, Até a década de 1850 os escravos formavam 0 grosso do contingente de trabalhadores necessirios’ a uma agricultura de expor- tacio em larga’ escala. Contudo, em meados do século. dezenove, & me- dida que cresciam os ataques & escravidéo, alguns fazendeiros de café de So Paulo comegaram a fazer experiéncias com o trabalho livre. Além dis. 0, 2 aboligio do tréfico de escravos em 1850 coincidiu com a penetra: Go ¢ répida expansio do café no Oeste paulista, em decorrénvia do. de clinio da cutra principal regiéio cafeicultora — 0 Vale do Paraiba — ¢ om resposta & crescente demanda internacional de café, A introdugao do trabalho livre na agricultura de’ Si Paulo constituiu-se num exemplo de criagio de forga de trabalho livre em uma situagio de desenvolvimento agricola extensivo, sob condigées de escassez potencial da oferta de mio- de-obra. “‘Nosso solo oferece-nos riquezas ilimitadas, mas nos faltam bra- * Este texto & uma verso revista e.cortigida de um-satigo publicado no Journal of Peasant Studies (Londres), vol. 10, n.% 2 ¢ 3, janeiro/abril de 1983. Agradecemos a Célia Maria Marinho de Azevedo pela traducio, bem como Evelina Dagnino e ftalo- ‘Tronea pela zeviséo. 80) Revista Brasiteira de Histéria os”, assim expressou-se um observador da época # respeito do obstécule mais importante para o desenvolvimento agricola, a ser enfrentado pelos fazendeiros| paulistas na segunda metade do século dezenoze (1). Ap6s 1850 os cafeicultores mais previdentes percebiam nitidamente que um meio de substituir 0 trebalho escravo, ou 20 menos complementé-lo, deveria ser encontrado num futuro razoavelmento préximo, a fim de proporeionar 0 volume de trabalhadores exigido por esta cultura de trabalho tio’ intensivo. Embora @ escravidio tenha se prolongado até 1888, foi precisamonte 0 crescente debate em torno da questo do trabalho, bem como as experién- cias de fazendeiros paulistes nas décadas seguintes, que tornaram possivel uma transigge relativamente néo violenta para o trabalho livre. A otiagSc de uma forga de trabalho nunca é exclusivamente uma ques- tio demogréfica. Na auséncia de uma reserva de mfio-de-cbra local dis- pontvel, os fazendeitos paulistas recorreram ao uso de trabalhadores imi- grentes, Entretanto, a saa experiéncia com escravos os tinha tornado pro- fundamente cientes da necessidade de formas efetivas de controle do tra- batho. Por isso, a questiio enfrentada pelos fazendeiros durante a segunda metade do século. dezenove nfo era apenas encontrar uma nova fonte de mio-de-obra, mas também, cada vez mais, como organizar e controlar eom eficiéncia o trabatho livre. O desenvolvimento organizacao da forga de trabalho livre destinada as fazendas de café de Sao Paulo foi um proces- 50. 20 mesmo tempo econdmico e politico. A dinimica da situacio decor reu tanto das razdes econdmicas dos fazendeiros, como do poder de bar- ganha utilizado pelos trabalhadores ao resistir as suns imposigtes. © objetivo deste: artigo € compreender como os fazendeiros paulistas conseguicam finalmente solucionar seus problemas com a fora de traba- Iho. A oferta efetiva de méo-de-obra em qualquer momento dado € sem- pre afetada pelas sangbes e incentivos existentes em mfos dos emprega- dores, de modo que eles possam exercer seo poder sobre a produgao. a fim de oxtrair Iueros. No caso de Sdo Paulo, a auséncia de um mercado de trabalho j4 estabelecido determinou decididamente as opgdes feitas pelos fazendeiros em relacGo acs sistemas de trabalho ©: sua evolugéo. As difi- culdades iniciais com o trabalho livre tm sido repetidamente atribuidas & menor rentabilidade relativa dos trabalhadores imigrantes em compara- 1, “Bericht des schweiz. Generalkonsuls in Rioyatteiro an den schweiz. Bun- decrath) Uber: die Auswanderung nach Brasilien”, Schweitzerisches Bundesblatt, X, Tahreang 11, 0° 54,24 do julho de 1858, pp. 18188, ltndo os dlkewros de um ageate de imigrecio chamado Mota em favor da emigreggo para o Brasif. Revista Brasileira de Historia a G0 com os escravos (2). Porém, que primeiro impulsionou os fazen: deiros a introduzir o trabalho livre foi a sua crescente percepgao de que a escravidio estava condenada, Portanto, @ questo inicial mais interessante 6 por que os fazendeiros escolherar, primeira a perceria como o sistema de trabalho sob'o qual se daria a introdugdo do trabalho livre, ao: invés: de optarem por um sistema diteto de saldrios ou algum outro. arrenio, A auséncia de um meteado de trabalho consolidado determinou deci- sivaments no: apenas a. escolha dos fazendeiros em termos de. sistemas: de produsio, mas também a sua propria sorte, O sucesso dos sistomas intro- duzidos nfo foi determinado somente por fatores de custo (no sentido estrito do custo de obtoncdo do brago imigrante), ¢ nem mesmo. por di- ferentes ideologias dos fazendeiros (o sex suposto aitaso ou, por outro lado, © sew espirito' empreendedor exemplar), mas sobretudo pela luta en- tre ® atuagio dos fazendeiros ¢ as reagSes dos trabathadores, moldadas umas ¢ outras pelas circunstancias econdmicas ¢ politicas vivenciadas por les. Como nés tentaremos mostrar, é este interrelacionamento entre sis temas de exploragéo de trabalho © modos de resisténcia dos trabalhadores que explica as transformagses sucessives das formes de contrato de tra- batho adotadas, © contrato de parceria Em 1847, 0 senador Vergueiro, dono de uma grande fazenda perto do Limeira, tornou-se 0 primeiro grande proprictirio a introduzir bragos imigrantes na produgao cafecira (3). Vergueiro, como explicou seu fitho + Viotti da Costa, “Colénias de parceria’ na lavaura de café: primeiras ‘experigncias”, in Da Monarquia 2 Repiiblica: momentos decisivos, SX Paulo, 1977; W. Dean, Rio Claro:. » Brazilian Plantation System, 1820-1920, Stanford, 1976: J. S- jm estubelecimento agricola no estade de’ Sio Paulo’ nos meados do sé Revista de Historia, n? 98, 1974; S. Buarque de Holanda, preticio © notes de T. Davatz, Memdrias de unm colona no Brasil, $80 Paulo, 1941 3. A transformagao. da fazenda Thicabe, de Vergueito, na primeira metade: do steulo dezenove, é um bom exemplo da evolugso da agricultura paulists. Vergucire gomecara g substituir a cansde-apicar pelo café cm 1828 mas tuis atividades foram limitadas equeno niimero de cscravos de sua propriedade. Em 1840 ele fez uma primeira tentativa de reorganizar a fazenda, introduzindo. gradual. ‘mente’ 80 fomffias portugueses em substitwigao aos seus eseravos. Esta experiéacin frecassou devido nov disidrbios politicos de 1842. Sem deeanimar, porém, por. volta do 1847 ele Fundou ume companhia de imigragao ¢ com a ajurda de um empréstimo ge tgs snos do governo provincial conirstou um grupo de 64 families. alemas J. 8. Witter, op. cit.; W. Dean, op. cit., p. 88 a Revista Brasileira de Histéria