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C radição
PERIÓDICO FORMATIVO E INFORMATIVO DA COMUNIDADE DE TRADIÇÃO CATÓLICA EM PARNAÍBA/PI - CAPELA SANTO AGOSTINHO

C atólica

edição
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A obrigação de evitar as ocasiões perigosas * A perseverança final * A diferença
entre fé e sentimento religioso * Intervenções de Maria na história da Igreja * Se
teu olho direito te faz pecar, arranca-o... * A doutrina do Verbo * Odília, a princesa
cega * Os cátaros, os valdenses e outras heresias * e mais...
Nesta edição:

ARTIGOS e MATÉRIAS
05 - A obrigação de evitar as ocasiões perigosas
(Santo Afonso de Ligório)
10 - A perseverança final
(São Boaventura)
13 - Qual a diferença entre fé e sentimento religioso?
(Pe. Emmanuel-André)
DOM LEFEBVRE - MEMÓRIAS
15 - Um verdadeiro golpe de mestre conseguiu satanás
REAPRENDENDO O CATECISMO
21 - Creio em Jesus Cristo, um só seu filho, Nosso Senhor
A IGREJA NOS ENSINA
26 - Intervenções de Maria na história da Igreja
(Encíclica Supremi Apostolatus - Leão XXIII)
CATENA ÁUREA
28 - A fuga do pecado - Se teu olho te faz pecar, arranca-o... (Mt 5, 29-30)
ESCRITOS DE GUSTAVO CORÇÃO
30 - A descoberta da outra
ARTIGOS e MATÉRIAS
33 - Pode um católico crer nos pré-adamitas?(Caixa de perguntas)
ESPECIAL
35 - Via-Sacra
(Dom Antônio de Castro Mayer)
MURAL DE CITAÇÕES
41
INSTRUÇÕES PARA A VIDA ESPIRITUAL
43 - O humilde sentir de si mesmo
(Tomás de Kempis)
OS SANTOS NOS ENSINAM A SERMOS SANTOS
44 - Leitura Espiritual para jovens - Considerações para cada dia da
semana (Dom Bosco)
ORAÇÃO
54 - Oração para alcançar uma boa morte
(Adoremus)
AGOSTINHO, O DOUTOR DA GRAÇA
55 - A doutrina do Verbo
IDE A TOMÁS
57 - Haveria outro modo mais conveniente de libertação humana do que a
paixão de Cristo?
CONTOS DE FÉ
60 - Odília, a princesa cega
(Daniel Rops)
COMO VIVERAM OS SANTOS
65 - Santa Pelágia
(Pe. Manoel José Gonçalves Couto)
POESIA
68 - Falando com Deus
(Jerónimo Baía)
FILOSOFIA
69 - Princípios da escolástica e causas das heresias
(Jerónimo Baía)
HISTÓRIA
72 - Os cátaros, os valdenses e outras heresias
(Jerónimo Baía)
CAÇA RESPOSTA
78
TIRINHAS DA TRADIÇÃO
80 - Pai Todo-Poderoso
(Leidivania)
COLUNA ATUALIDADES
81 - Vinte novos membros no seminário da FSSPX na América do Sul em
2014
... e três novos sacerdotes
A obrigação de
evitar as ocasiões
perigosas
Um sem-número de cristãos se Falando aqui da ocasião de peca-
perde por não querer evitar as ocasiões do, temos em vista a ocasião próxima
de pecado. Quantas almas lá no inferno do pecado, pois deve-se distinguir en-
não se lastimam e queixam: Infeliz de tre ocasiões próximas e remotas. Oca-
mim. Se tivesse evitado aquela oca- sião remota é a que se nos depara em
sião, não estaria agora condenado por toda a parte e que raramente arrasta o
toda a eternidade. homem ao pecado. Ocasião próxima é
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a que, por sua natureza, regularmente curando a quem devorar” (1 Pe 5, 8).
induz ao pecado. Por exemplo, achar- São Cipriano, explicando essas pala-
-se-ia em ocasião próxima de pecado vras, diz que o demônio espreita uma
um jovem que muitas vezes e sem ne- porta pela qual possa entrar na alma.
cessidade se entretém com pessoas levi- Logo que se oferece uma ocasião peri-
anas de outro sexo. gosa, diz consigo mesmo: eis a porta
Ocasião próxima para uma certa pela qual poderei entrar, e imediata-
pessoa é também aquela que já a arras- mente sugere a tentação. Se então a al-
tou muitas vezes ao pecado. Algumas ma se mostrar indolente para fugir da
ocasiões consideradas em si não são tentação, cairá seguramente, em espe-
próximas, tornam-se contudo tais para cial se se tratar de um pecado impuro. É
uma determinada pessoa que, achan- a razão por que ao demônio mais desa-
do-se em semelhantes circunstâncias, gradam os propósitos de fugirmos das
já caiu muitas vezes em pecado em ra- ocasiões de pecado, que as promessas
zão de suas más inclinações e hábitos. de nunca mais ofendermos a Deus, por-
Portanto, o perigo não é igual nem o que as ocasiões não evitadas tornam-se
mesmo para todos. como uma faixa que nos venda os
O Espírito Santo diz: “Quem ama olhos para não vermos as verdades eter-
o perigo nele perecerá” (Ecl 3, 27). Se- nas, as ilustrações e as promessas feitas
gundo São Tomás a razão disso é que a Deus.
Deus nos abandona no perigo quando a Quem estiver, porém, enredado
ele nos expomos deliberadamente ou em pecado contra a castidade deverá,
dele não nos afastamos. São Bernardi- para o futuro, evitar não só a ocasião
no de Sena diz que dentre todos os con- próxima mas também a remota, en-
selhos de Jesus Cristo o mais importan- quanto possível, porque um tal se sen-
te e como que a base de toda a religião é tirá muito fraco para resistir. Não nos
aquele pelo qual nos recomenda a fuga deixemos enganar pelo pretexto de a
da ocasião do pecado. ocasião próxima ser necessária, como
Se fores, pois, tentado, e especi- dizem os teólogos, e que por isso não
almente se te achares em ocasião pró- estamos obrigados a evitá-la, pois Je-
xima do pecado, acautela-te para te não sus Cristo disse: “Se teu olho direito te
deixares seduzir pelo tentador. O demô- escandaliza, arranca-o e lança-o de ti”
nio deseja que se entretenha com a ten- (Mt 5, 29). Mesmo que seja teu olho
tação, porque então torna-se-lhe fácil a direito, deverás arrancá-lo e lançar fora
vitória. Deves, porém, fugir sem demo- de ti, para que não sejas condenado.
ra, invocar os santos nomes de Jesus e Logo, deves fugir daquela ocasião, ain-
Maria, sem prestar atenção, nem se- da que remota, já que em razão de tua
quer por um instante, ao inimigo que te fraqueza tornou-se ela uma ocasião pró-
tenta. xima para ti.
São Pedro nos afirma que o demô- Antes de tudo devemos estar con-
nio rodeia cada alma para ver se a pode vencidos que nós, revestidos de carne,
tragar: “Vosso adversário, o demônio, não podemos por própria força guardar
vos rodeia como um leão que ruge, pro- a castidade, só Deus, em sua imensa
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bondade, nos poderá dar força para tan- repetidos olhares.
to. Para se livrar de tentações impu-
É verdade que Deus atende a ras um antigo filósofo arrancou os
quem lhe suplica, mas não poderá aten- olhos. Nós, cristãos, não podemos as-
der à oração daquele que consciente- sim proceder, mas devemos cegar-nos
mente se expõe ao perigo e não o deixa, espiritualmente, desviando os olhos de
apesar de o conhecer, pois, como diz o objetos que possam ocasionar-nos ten-
Espírito Santo, quem ama o perigo, pe- tações. São Luís Gonzaga nunca olha-
recerá nele. va para uma mulher e, mesmo em con-
Ó Deus, quantos cristãos existem versa com sua própria mãe, tinha os
que, apesar de levarem uma vida pie- olhos postos no chão. É claro que o mes-
dosa, caem facilmente e obstinam-se mo perigo existe para as mulheres que
no pecado, só porque não querem evi- cravam seus olhos em homens.
tar a ocasião próxima do pecado impu- Em segundo lugar, deve evitar
ro. Por isso nos aconselha São Paulo todas as más companhias e as conver-
(Fl 2, 12): “Com temor e tremor operai sas e entretenimento em que se diver-
a vossa salvação”. Quem não teme e tem homens e mulheres. Com os santos
ousa expor-se às ocasiões perigosas, santificarás e com os perversos te per-
principalmente quando se trata do peca- verterás. Anda com os bons e tornar-te-
do impuro, dificilmente se salvará. -ás bom, anda com os desonestos e tor-
nar-te-ás desonesto.
Algumas ocasiões que devemos evi- O homem toma os hábitos daque-
tar cuidadosamente les que convivem com ele, diz São To-
más de Aquino. Se estiveres metido em
Como queremos salvar nossa al- uma conversação perigosa, que não
ma, é nosso dever fugir da ocasião de possas abandonar, segue o conselho do
pecado. Principalmente devemos abs- Espírito Santo: Cerca teus ouvidos de
ter-nos de contemplar pessoas que pos- espinhos para que os pensamentos im-
sam suscitar-nos maus pensamentos. puros dos outros não achem nele entra-
“Pelos olhos entra a seta do amor impu- da. Quando São Bernardino de Sena,
ro e fere a alma”, diz São Bernardo, e ainda pequeno, ouvia uma palavra de-
essa seta, ferindo-a, tira-lhe a vida. O sonesta, sentia o rubor subir às suas fa-
Espírito Santo dá-nos o conselho: “Des- ces, e por isso seus companheiros toma-
viai vossos olhos de uma mulher ador- vam cuidado para não pronunciar tais
nada” (Ecl 9, 8). palavras em sua presença. E São Esta-
Mas será pecado fitar pessoas de nislau Kotska sentia tal asco ao ouvir
outro sexo? Se estas forem jovens, será tais palavras, que perdia os sentidos.
pecado venial, pelo menos; e quando Quando ouvires alguém conver-
se prende nelas atenciosa e demorada- sando sobre coisas impuras, volta-lhe
mente as vistas, e isso repetidas vezes, as costas e foge. Assim costumava pro-
há mesmo perigo de pecado mortal. ceder São Edmundo. Havendo uma
Segundo São Francisco de Sales, um vez abandonado seus companheiros
só olhar já é prejudicial e muito mais por estarem conversando sobre coisas
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desonestas, encontrou-se com um jo- veniente e mesmo a assistência e repre-
vem extraordinariamente belo que lhe sentações imorais. “Quem foi casto pa-
disse: Deus te abençoe, querido. Ao ra o teatro, de lá volta manchado”, diz
que o santo perguntou, admirado: São Cipriano. Se para lá se dirigiu aque-
Quem és tu? Olha para minha fronte e le jovem ou aquela donzela em estado
lerás meu nome. Edmundo levantou os de graça, de lá voltam ambos em esta-
olhos e leu: Jesus Nazareno, Rei dos do de pecado.
Judeus. Com isso Nosso Senhor desa- Proibi também a vossos filhos a
pareceu e o santo sentiu uma alegria ida a certas festas, que são festas do de-
celestial em seu coração. mônio, nas quais há danças, namoros,
Achando-te em companhia de canções impudicas, gracejos e diverti-
rapazes que conversam sobre coisas mentos perigosos. Onde há danças, ce-
desonestas e, não podendo retirar-te, lebra-se uma festa do demônio, diz San-
não lhes dês atenção, volta-lhes o rosto to Efrém.
e dá-lhes a conhecer que tais conversas Mas que há de ruim quando se
te desagradam. graceja? Dirá alguém. Esses tais grace-
Deves também abster-te de con- jos não são gracejos, mas crimes, res-
siderar quadros menos decentes. São ponde São João Crisóstomo, são gra-
Carlos Borromeu proibiu a todos os ves ofensas contra Deus.
pais de família conservarem tais qua- Um companheiro do Pe. João Vi-
dros em suas casas. Deves igualmente tellio, contra a vontade deste servo de
evitar a leitura de maus livros, revistas Deus, se dirigiu uma vez para um tal
e jornais, não só dos que tratam osten- divertimento em Nórcia. Que lhe acon-
sivamente de coisas imorais, como tam- teceu? Perdeu primeiramente a graça
bém dos que se ocupam de histórias de Deus, entregou-se em seguida a
eróticas, como certos poetas e roman- uma vida desregrada e foi finalmente
cistas. assassinado por seu próprio irmão.
Vós, pais de família, proibi a vos- Poderás aqui perguntar-me se é
sos filhos a leitura de romances: estes pecado mortal namorar. Responderei a
causam muitas vezes maiores danos essa pergunta na segunda parte (em ou-
que os livros propriamente imorais, tro artigo). Aqui só direi que tais namo-
porque deixam nos corações dos jo- ros tornam-se ocasião próxima do peca-
vens certas más impressões que lhes do.
roubam a devoção e os induzem ao pe- A experiência ensina que em tais
cado. casos só poucos deixam de pecar. Se
São Boaventura diz: “Leituras não pecam já no começo, caem no de-
vãs produzem pensamentos vãos e des- correr do tempo. No princípio se entre-
troem a devoção”. Dai a vossos filhos têm só por inclinação mútua. A inclina-
livros espirituais, como a história ecle- ção mútua torna-se, porém, em breve
siástica, ou vidas dos santos e seme- paixão, e a paixão, uma vez arraigada,
lhantes. cega o espírito e arrasta a muitos peca-
Proibi a vossos filhos representar dos de pensamentos, palavras e obras.
um papel qualquer em comédia incon-
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Fúteis objeções contra as sobreditas -lo e lançá-lo longe de ti, diz o Senhor.
verdades Nota as palavras: lança-o de ti, não de-
ves deixá-lo perto, mas repeli-lo para
Objetar-me-ás: Mudei de uma longe, isto é, deves evitar por completo
vez de vida. Não tenho nenhuma má a ocasião. Mas daquela pessoa nada
intenção, nem mesmo uma tentação tenho a temer, pois ela é tão devota. A
quando vou visitar fulana ou sicrana. isso responde São Francisco de Assis:
Respondo: Conta-se que há uma espé- O demônio tenta diversamente os cris-
cie de ursos que dão caças aos maca- tãos piedosos que se deram inteira-
cos: Ao avistar o urso, fogem estes para mente a Deus e os que levam uma vida
as árvores. Mas que faz o urso? Deita- desregrada. Ele não procura prendê-los
se debaixo da árvore e faz-se de morto. com uma corda já no princípio. Con-
Descem os macacos com esse engano e tenta-se com um cabelo, servindo-se
então de um salto captura-os e devora- então de um fio e finalmente de uma
-os. É o que pratica o demônio: repre- corda, arrastando-os ao pecado.
senta a tentação como morta e mal des- Quem quiser ser preservado des-
ceres, isto é, logo que te expuseres ao te perigo deve já no começo evitar to-
perigo, desperta-a, de novo, e ela traga- dos os fios, todas as ocasiões, quer se-
rá. Ó, quantos cristãos, que se davam jam saudações, quer presentes.
ao exercício da oração e comunhão e, Ainda uma observação impor-
mesmo, levavam uma vida santa, não tante: Um penitente que nunca evitou
caíram nas garras do demônio, porque seriamente as ocasiões perigosas, nas
se expuseram ao perigo. quais tem regularmente caído em peca-
A história eclesiástica narra que do mortal, apesar de todas as suas con-
uma mulher muito piedosa se ocupava fissões, deverá fazer uma confissão ge-
em obras de caridade e em especial em ral, visto a falta de propósito de evitar a
enterrar os corpos dos santos mártires. ocasião próxima.
Encontrando uma vez o corpo de um O mesmo se deve dizer a respeito
mártir, que ainda dava sinais de vida, dos que confessam seus pecados, mas
levou-o para sua casa, curou-o e o már- nunca deram sinal de emenda, continu-
tir restabeleceu-se. Mas o que aconte- ando logo depois da confissão a come-
ceu? Por causa da ocasião próxima, es- ter os mesmos pecados, sem empregar
ses dois santos – pois este nome mere- nenhum meio contra a queda. Só uma
ciam – primeiramente perderam a gra- confissão geral poderá trazer-lhes ga-
ça de Deus e depois a fé. rantia e tranquilidade, servindo de base
Mas a visita àquela casa, a conti- para uma verdadeira emenda. Feita a
nuação daquela amizade me traz pro- confissão, poderão começar uma vida
veito, dizes. Sim, porém se notares que nova e perfeita, pois os maiores peca-
“aquela casa é o caminho para o infer- dores, como anteriormente provamos,
no” (Prov 7, 27), nenhum proveito te poderão, com a graça de Deus, alcan-
trará, e tu a deves deixar se desejas ser çar a perfeição. TC
feliz. Mesmo que fosse teu olho direito Fonte: Escola da perfeição cristã. Obra compilada dos escritos de
a causa da perdição, deverias arrancá- Santo Afonso de Ligório, pelo Pe. Saint-Omer, C.SS.R.
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A perseverança final
por São Boaventura, na obra a perseverança e nem os obséquios,
“A direção da alma e a vida perfeita”, nem os benefícios merecem gratidão,
Embora tenha alguém alcançado nem a fortaleza ,gloria.
o fundamento de todas as virtudes, De pouco serviria ao homem, ter
contudo não aparece glorioso diante sido religioso, paciente e humilde,
dos olhos de Deus se lhe falta a perse- devoto e continente, ter amado a Deus
verança, que é a consumadora das e possuído as demais virtudes, se fal-
virtudes. tasse a perseverança.
Nenhum mortal, por mais perfeito É verdade que todas as virtudes
que seja, é digno de louvor durante a correm, mas só a perseverança recebe
sua vida enquanto não conclui com um o prêmio, porque não aquele que prin-
bom e feliz êxito o bem que começou. cipiou, mas quem tiver perseverado
É porque a perseverança é o fim e a até o fim, será salvo. Pelo que diz São
consumadora das virtudes, nutridora João Crisóstomo: Para que servem
dos merecimentos, a medianeira do searas florescentes se depois mur-
prêmio. Por isto diz São Bernardo: Tira cham? Isto quer dizer: não servem pra
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coisa alguma. mais , é o próprio Filho de Deus eter-
Se, pois, virgem diletíssima de no, conforme ele mesmo diz de si no
Cristo, possuíres alguma habilidade Evangelho:
em boas obras, ou antes, porque tens Na verdade, vos digo, cingir-se-
muitas virtudes, persevera nelas, pro- -á e as fará sentar à mesa e passando,
grida e com ânimo varonil exerce nelas lhes servirá.
a milícia de Cristo até a morte. Oh! Quanta honra para ps pobres
Desta forma, quando vier o último desprezados, quando terão o Filho de
dia, e o fim de tua vida, receberás em Deus, do sumo Rei, e toda a corte
recompensa e prêmio de teu labores, a celeste por servo.
coroa da honra e glória. Cristo, o teu Preparado está também um
único dileto, te fala por isso no Apoca- manjar precioso e delicioso para te
lipse: Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a saciar. O próprio Filho de Deus prepa-
coroa da vida. rara a mesa com suas próprias mãos,
Não é outra coisa esta coroa senão o conforme atesta de si no Evangelho,
prêmio da vida eterna, que todos os dizendo: Eu vos preparo o reino como
cristãos devem ardentemente desejar. meu pai me preparou, para comerdes e
Tão grande é este premio que, segundo beberdes a minha mesa no meu reino.
São Gregório, absolutamente ninguém Oh! Como é suave e delicioso o man-
é capaz de tê-lo em devido apreço, tão jar, que Deus, em sua bondade prepa-
abundante é que ninguém pode enume- rou aos pobres!
rá-lo; é, enfim, de tanta duração que Como é feliz quem saboreia no
jamais pode acabar e terminar. reino dos céus aquele pão que pelo
A este prêmio, a esta coroa te convi- fogo do Espírito Santo foi feito no seio
da teu amado Esposo Jesus Cristo nos da Virgem! Quem come deste pão,
cantares com as palavras: Vem do viverá eternamente. Com tal comida,
Líbano, esposa minha, amiga minha , com tal pão esse Rei celeste alimenta-
vem do Líbano, vem para ser coroada. rá e saciará os seus eleitores a sua
Levanta-te, pois, amiga de Deus, espo- mesa, consoante as palavras do livro
sa de Jesus Cristo, pomba do rei eterno, da Sabedoria: Nutristes o teu povo
vem, corre a núpcias do filho de Deus, com a comida dos Anjos e deste-lhe
eis que toda corte celeste te aguarda, sem trabalho pão do céu que encerra
porque tudo está preparado. todas as delícias e toda a suavidade de
Aguarda-te um servo rico e nobre sabor – e servindo a vontade de cada
para te servir; um manjar precioso e um. Eis, desta natureza é a refeição
delicioso para te saciar; uma compa- divina.
nhia doce e amável sobretudo, para se Não menos está preparada uma
alegrar contigo. companhia doce e amável para se
Levanta-te, pois, e corre apressa- alegrar contigo. Aí estará Jesus com o
damente as núpcias aí te espera um Padre e o Espirito Santo; aí Maria
servo rico pra te servir. Este servo não é rodeada de um coro florígero de vir-
outro senão o coro angélico; ainda gens; aí os apóstolos, Mártires, con-
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fessores e o exército celeste de todos ra? Pois bem: Serão saciados quando
os eleitos. Muito digno de compaixão aparecer a glória de Deus. Desejas,
é quem não for associado a tão nobre porventura, a ebriedade na abundância
sociedade e todo morto deve ser o da casa de Deus. Tens agrado numa
desejo de quem não almeja ser recebi- doce melodia? Aí cantam os coros dos
do nesta companhia. anjos o louvor de Deus sem fim. Dese-
Mas sei, precaríssima serva de jas amizade? Aí os Santos amam mais
Cristo, que tu desejas a Cristo; sei que a Deus do que a si mesmos se amam.
envidas todos os esforços para unires Procuras concórdia? Todos eles têm só
com o Rei eterno e gozar de seus am- uma vontade , porque não têm outra
plexos. senão a vontade de Deus. São a honra e
Anima, pois o teu coração e a tua a riqueza tua alegria? Deus colocará
alma, aguça toda tua inteligência e sobre muitos os seus servos e servas
reflete quando puderes. Se os bens em bons e fiéis, serão mesmo chamados
separado causam tanto prazer, ponde- filhos e filhas de Deus. Onde está Deus
ra atentamente quanta delícia encerra estarão também eles como herdeiros
aquele bem que contém reunida a de Deus, coerdeiros, porém, de Cristo.
doçura de todos os bens. Se a vida Quão profunda e quão grande
criada é um bem, quão grande bem deve ser a alegria onde há um bem
deve ser a vida que tudo criou? Se é grande? Certamente, Senhor Jesus, o
doce a salvação que é feita, quão doce olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem
deve ser a salvação que é a fonte de o coração sentiu nesta vida quanto os
toda a salvação? Quem possui este teus bem-aventurados te amarão e
bem que é que possuirá e que é que lhe quanto gozo terão em ti nesta vida
faltará? Certamente terá tudo quanto feliz. Quando alguém ama a Deus
deseja; e o que não quer ficará longe. nesta vida, tantos gozos aí encontrará
Aí se encontram bens do corpo e da em Deus.
alma que nenhum olho viu, nenhum Ama, portanto, aqui, muito a Deus
ouvido ouviu e nenhum coração sen- para aí muito te alegrares nele; cresça
tiu. Porque, pois, serva de Deus, andas aqui em ti o amor de Deus para aí
atrás de muitas coisas a procura de possuíres a plenitude do gozo de Deus.
bens para tua alma e teu corpo? Ama o Sobre isto reflita o teu espírito, sobre
único bem que encarra todos os bens e isto fale a tua língua, isto ame o teu
basta ; deseja o bem simples, que é a coração, disso fale a tua boca, disso
plenitude de todos os bens e nada te tenha fome a tua alma e sede a tua
faltará. carne, isso deseje todo o teu ser, até
Nele encontrarás o que amas, que entres no gozo de teu Deus. Até
minha madre, tudo quando sejas, bem que chegues ao amplexo de teu dileto,
aventurada Virgem... Amas a belíssi- até que te introduza no talamo do teu
ma? Os justos fulgirão como o sol. Esposo, que com o Padre e o Espírito
Gostas de uma vida longa e sadia? Aí Santo vive e reina, um só Deus, por
há saúde eterna. Tens prazer na fartu- todos os séculos dos séculos. Amém.TC
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Qual a Diferença entre

Fé e
Sentimento
Religioso?
pelo Pe. Emmanuel-André, na obra Cartas sobre fé

CARTA 6

A senhora leu com atenção minha de erros como entre os infiéis, os idóla-
carta anterior e pede-me para que eu a tras, etc.
ajude a compreender bem a diferença Entre os povos, há alguns cujo
que há entre Fé e sentimento religioso. sentimento religioso é naturalmente
A tarefa será fácil, desejo que meu tra- muito profundo, por exemplo os ára-
balho lhe seja útil. bes. Um árabe não faltará à prece da
Lembre-se das breves palavras manhã, à do meio dia e à da noite. Ao
do Pe. Lacordaire: A Fé é a Fé. escutar o muezzin gritar do alto do mi-
O sentimento é assim o respeito narete a fórmula sagrada: La Allah,
que temos, como criaturas, por nosso etc., imediatamente ele se põe a rezar,
Pai que está no Céu e que, unicamente esteja na companhia de quem quer que
porque nos criou, nos olha como filhos, seja, no lugar que for, no meio de uma
nos dá o pão de cada dia, a luz de seu praça ou no trabalho; quando chega a
sol, os frutos da terra, a vida, a saúde, e hora, ele reza. Por este mesmo senti-
mil outros bens igualmente da ordem mento religioso, o árabe relaciona tudo
natural. à vontade de Deus; os acidentes da vi-
O sentimento religioso sendo na- da, a saúde, a doença, mesmo a morte,
tural ao homem, se encontra em todos ele relaciona com Deus e em todas as
os homens fiéis ou infiéis; pois todos circunstâncias ele repete: Deus é gran-
têm esse fundo comum de respeito a de! Eis o sentimento religioso em todo
Deus, que algumas vezes se traduz por seu poder.
um ato religioso fundado sobre a ver- Mas lembre-se que nossa nature-
dade, como entre os cristãos; outras za decaiu com Adão, e uma natureza
vezes por um ato religioso manchado decaída só pode ter um sofrimento reli-
13
Ÿ A Fé esclarece o espírito e o despoja
gioso também abatido pela decadên- do erro; levanta o homem caído, re-
cia. A natureza não pode se elevar sozi- coloca-o no caminho de Deus: a Fé
nha; o sentimento religioso puramente põe as bases da obra da salvação, en-
natural não pode, de modo algum, le- caminha o homem para o bem.
var o homem a Deus nem tirá-lo do pe- Ÿ A Fé é essencialmente fortificante.
cado. Confortus fide, diz São Paulo (Rom.
Com toda a religiosidade natural, 4,20). E ainda, Fide stas: se estás em
este mesmo árabe conservará todos os pé, é pela Fé (id. 11,20).
vícios que infelizmente lhe são tam- Ÿ A Fé é vivificante: o justo vive da
bém naturais: ele será vaidoso, menti- Fé, diz São Paulo (Gal. 3,11)
roso, ladrão; praticará, por exemplo, a Ÿ Se o sentimento religioso nos deixa
hospitalidade, mas sabendo por onde frios em relação a Nosso senhor Je-
seu hóspede vai passar, mandará al- sus Cristo, já não é assim com a Fé;
guém para o assaltar, ou irá ele mesmo pela Fé, Nosso Senhor Jesus Cristo
fazer ao longe o que não faria estando se torna presente, vivo em nossos
em sua tenda. corações: Christum habitare per
Por este traço característico a se- fidem in cordibus vestris – Cristo
nhora poderá reconhecer o sentimento habite pela Fé em vossos corações.
natural; este sentimento nada vê, nada (Ef. 3,17).
quer, nada pode contra o pecado. Ÿ A Fé é o princípio de um mundo no-
O sentimento religioso quando vo, regenerado em Jesus Cristo Nos-
permanece em estado natural, é indife- so Senhor; a Fé é a luz que anuncia
rente em matéria de religião. O senti- os esplendores da eternidade onde
mento religioso se acomoda a tudo, se veremos Deus; a Fé é a mãe da santa
arranja com tudo, se presta a tudo e não Esperança e da divina Caridade.
se entrega a nada. Ÿ A Fé é sobre a terra, a fonte pura de
Perdão, pode entregar-se à maço- todas as verdadeiras consolações. É
naria, ao menos quando os maçons re- ainda São Paulo quem nos diz: Con-
conhecem o Grande Arquiteto, como solemo-nos juntos na Fé que nos é
eles dizem. comum, a vós e a mim (Rm. 1,12).
Tendo mostrado o primeiro qua-
dro, chego ao segundo. Quando se fala da Fé, São Paulo é
Ÿ A Fé não é um sentimento, a Fé não é um mestre incomparável. Dele é que
da ordem natural. tomo uma última palavra para terminar
Ÿ A Fé é um assentimento de nosso es- esta carta: Saudai os que nos amam na
pírito à verdade revelada por Deus. Fé. TC
É um bem que não deriva de nossa
natureza, mas lhe é dado para curá-
la.
Ÿ A Fé é essencialmente purificante. http://permanencia.org.br/revista/Livros/
Purificando pela Fé os corações.(At. carta6.htm 2 de 2 29/5/2007 17:52

15,9).
14
“Um verdadeiro golpe
de mestre conseguiu
satanás: fazer com
que sejam
condenados aqueles
que conservam a fé
católica por aqueles
mesmos que a
deveriam defender e
propagar.”
Dom Lefebvre
Dom Marcel Lefebvre, em trechos do livro “O golpe
Memórias de mestre de satanás”.

Satanás é homicida nas persegui- Concílio Vaticano II.


ções sangrentas, pai da mentira nas he- Para fazer isso, Satanás inventou
resias, em todas as falsas filosofias e palavras chaves que permitiram que os
nas palavras equívocas que estão na erros modernos e modernistas pene-
base das revoluções, das guerras mun- trassem no Concílio: a liberdade foi
diais, das guerras civis. Não cessa de introduzida mediante a Liberdade reli-
atacar Nosso Senhor em seu Corpo giosa, ou Liberdade das religiões; a
Místico: a Igreja. No curso da História igualdade, mediante a Colegialidade,
empregou todos os meios, dos quais que introduz os princípios do igualita-
um dos últimos e mais terríveis foi a rismo democrático na Igreja e, final-
apostasia oficial das sociedades civis. mente, a fraternidade mediante o
O laicismo dos Estados foi e será Ecumenismo que abraça todas as here-
sempre um escândalo imenso para as sias e erros e oferece a mão a todos os
almas dos cidadãos. E é por esse sub- inimigos da Igreja. O golpe de mestre
terfúgio que conseguiu laicizar pouco de Satanás será, por conseguinte, di-
a pouco e fazer perder a fé numerosos fundir os princípios revolucionários
membros da Igreja, a tal ponto que es- introduzidos na Igreja pela autoridade
ses falsos princípios de separação da da própria Igreja, pondo esta autorida-
Igreja e do Estado, da liberdade das reli- de em uma situação de incoerência e de
giões, do ateísmo político, da autorida- contradição permanente; enquanto es-
de que toma sua origem dos indivídu- te equívoco não for dissipado, os de-
os, terminaram por invadir os seminá- sastres se multiplicarão na Igreja[...].
rios, os presbitérios, os bispados e até o É preciso reconhecer que a trapa-
15
ça foi bem feita e que a mentira de se profanam em sua vestimenta, em
Satanás foi utilizada maravilhosamen- sua linguagem, em sua alma!... temos
te. A Igreja vai destruir a si mesma por que obedecer. Roma, as Conferências
via da obediência. A Igreja vai se con- Episcopais, o Sínodo presbiterial o que-
verter ao mundo herege, judeu, pagão, rem. É o que todos os ecos das Igrejas,
pela obediência, mediante uma dos jornais, das revistas repetem: aggi-
Liturgia equívoca, um catecismo ambí- ornamento, abertura ao mundo.
guo e cheio de omissões e de novas ins- Desgraçado seja aquele que não con-
tituições baseadas sobre princípios de- sente. Tem direito a ser pisoteado, calu-
mocráticos. niado, privado de tudo o que lhe permi-
As ordens, as contraordens, as tiria viver. É um herege, é um cismáti-
circulares, as constituições, as cartas co, que merece unicamente a morte.
pastorais serão tão bem manipuladas, Satanás conseguiu verdadeira-
tão bem orquestradas, mantidas pela mente um golpe de mestre: consegue
onipotência dos meios de comunica- fazer com que sejam condenados aque-
ção social, pelo que resta dos movi- les que conservam a fé católica por
mentos da Ação Católica, todos marxi- aqueles mesmos que a deveriam defen-
zados, que todos os fiéis honrados e os der e propagar.
bons sacerdotes repetirão com o cora- Já é tempo de encontrar nova-
ção quebrado mas consentindo: Temos mente o senso comum da fé, de reen-
que obedecer! A quem, a quê? Não se contrar a verdadeira obediência à ver-
sabe exatamente: à Santa Sé, ao Con- dadeira Igreja, oculta sob essa falsa
cílio, às Comissões, às Conferências máscara do equívoco e da mentira. A
Episcopais? Qualquer um aqui se per- verdadeira Igreja, a Santa Sé verdadei-
de como nos livros litúrgicos, nos or- ra, o Sucessor de Pedro, os Bispos en-
dos diocesanos, na emaranhada bagun- quanto submetidos à Tradição da
ça dos catecismos, das orações do tem- Igreja, não nos pedem e não nos podem
po atual, etc. Temos que obedecer, com pedir que nos tornemos protestantes,
perigo de se tornar protestante, marxis- marxistas ou comunistas. Pois bem, se
ta, ateu, budista, indiferente, pouco im- poderia crer ao ler certos documentos,
porta! Temos que obedecer através das certas constituições, certas circulares,
negações dos sacerdotes, da inoperân- certos catecismos que nos pedem que
cia dos Bispos, salvo para condenar abandonemos a verdadeira Fé em no-
àqueles que querem conservar a Fé, me do Concílio, de Roma, etc.
através do matrimônio dos consagra- Devemos negar a tornarmo-nos
dos a Deus, da comunhão aos divorcia- protestantes, a perder a Fé e a apostatar
dos, da intercomunhão com os here- como o fez a sociedade política depois
ges, etc. Temos que obedecer! Os semi- dos erros difundidos por Satanás na
nários se esvaziam e são vendidos co- Revolução de 1789. Recusamo-nos a
mo os noviciados, as casas religiosas e apostatar, ainda que fosse em nome do
as escolas; se saqueiam os tesouros da Concílio, de Roma, das Conferências
Igreja, os sacerdotes se secularizam e Episcopais.
16
Permanecemos aderidos, sobre- no do catecismo e nas instituições da
tudo, a todos os Concílios dogmáticos Igreja?
que definiram a perpetuidade de nossa Que se leia e releia São Francisco de
Fé. Todo católico digno desse nome Sales, São Roberto Belarmino, São
deve rejeitar todo relativismo, toda evo- Pedro Canísio e Bossuet e se encontra-
lução de sua fé no sentido de que o que rá com assombro que tinham que lutar
foi definido solenemente pelos contra os mesmos falsos procedimen-
Concílios em outros tempos deixaria tos. Mas desta vez o drama extraordi-
de ser válido hoje e poderia ser modifi- nário consiste em que estas desfigura-
cado por outro Concílio, com maior ções da Tradição nos vêm de Roma e
ainda razão se é simplesmente pasto- das Conferências Episcopais. Se al-
ral. guém quer por conseguinte guardar sua
A confusão, a imprecisão, as mo- Fé temos que admitir sim que algo anor-
dificações dos documentos sobre a mal ocorre na administração romana.
Liturgia, a precipitação na aplicação, Devemos, certamente, manter a
demonstram bem claramente que não infalibilidade da Igreja e do Sucessor
se trata de uma reforma inspirada pelo de Pedro, devemos também admitir a
Espírito Santo[...] situação trágica em que se encontra nos-
Quando se sabe que esta concep- sa Fé católica pelas orientações e os
ção da “Missa normativa” é a do Padre documentos que nos vêm da Igreja; a
Bugnini e que ele a impôs tanto ao conclusão volta ao que dizíamos no co-
Sínodo como à Comissão de Liturgia, meço: Satanás reina pelo equívoco e
pode-se pensar que há Romas e pela incoerência, que são seus meios
Romas, a Roma eterna com sua fé, seus de combate e que enganam os homens
dogmas, sua concepção do Sacrifício de pouca Fé.
da Missa e a Roma temporal influenci- Este equívoco deve ser suprimi-
ada pelas ideias do mundo moderno, do valentemente para preparar o dia
influência à que não escapou o próprio eleito pela Providência em que será su-
Concílio – o qual, propositadamente e primido oficialmente pelo Sucessor de
pela graça do Espírito Santo quis ser Pedro.
unicamente pastoral. Que não nos tachem de rebeldes
Santo Tomás se perguntava na ou orgulhosos, porque não somos nós
questão da correção fraterna se con- os que julgamos, senão que Pedro mes-
vém que seja praticada às vezes com os mo quem como Sucessor de Pedro con-
Superiores. Com todas as distinções dena o que ele por outro lado fomenta,
úteis, o Anjo da Escola responde que é a Roma eterna a que condena a Roma
deve ser praticada quando se trata da temporal. Nós preferimos obedecer a
Fé. eterna.
Pois bem, quem pode com toda
consciência dizer que hoje em dia a Fé Em 13 de outubro de 1974, no
dos fiéis e de toda a Igreja não está ame- aniversário das aparições de Fátima.
açada gravemente na Liturgia, no ensi- Marcel Lefebvre
17
Reaprendendo o
CATECISMO
Creio em Jesus Cristo,
um só seu Filho,
Nosso Senhor
Catecismo dos Párocos, redigido por
decreto do Concílio Tridentino, publicado
A Fé e o Símbolo da Fé por ordem do Papa Pio V. Primeira Parte,
capítulo III

I. A importância deste Artigo se de- pois, todo o possível, para que os fiéis
duz: reconheçam nisso, a causa das misérias
e desgraças que todos nós padecemos.
Em crer e professar o presente Adão apartou-se da obediência
Artigo, encontra o gênero humano devida a Deus, quando violou a proibi-
imensas e admiráveis vantagens, con- ção: "De todas as árvores do Paraíso
soante o testemunho de São João: poderás comer, mas não comas da árvo-
"Quem confessa que Jesus Cristo é o re da ciência do bem e do mal. No que
Filho de Deus, Deus permanece nele, e dia dela comeres, morrerás de morte".
ele permanece em Deus". Ele caiu logo no maior dos infor-
Prova-o também a palavra de túnios, perdendo a santidade e justiça
Cristo Nosso Senhor, quando procla- em que fora constituído, ficando sujei-
mava a bem-aventurança do Príncipe to a outros males, conforme ensina
dos Apóstolos: "Bem-aventurado és tu, mais longamente o Santo Concílio de
Simão, filho de Jonas, pois não foi a Trento.
carne nem o sangue que te revelou, De outro lado, o pároco fará ain-
mas antes Meu Pai que está nos céus". da ver que o pecado e seu castigo não se
Realmente, esta fé e esta pro- detiveram só na pessoa de Adão; mas
fissão constituem a base mais sólida que de Adão, como sua fonte e origem,
para nosso resgate e salvação. passaram merecidamente para toda a
sua posteridade.
1. Da desgraça do homem decaído
2. Da única possibilidade de reden-
Os admiráveis frutos deste ção
Artigo aparecem com maior evidência,
se considerarmos como se destruiu o Uma vez decaído de tão alta dig-
venturoso estado em que Deus coloca- nidade, nada podia levantar o gênero
ra os primeiros homens. O pároco fará, humano e reintegrá-lo no estado primi-
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tivo, nem as forças humanas, nem as mais explícitas.
forças angélicas. Em vista de tal ruína e Deus, com efeito, lhe dissera:
desgraça, não restava, pois, outro remé- "Porque assim procedeste, a ponto de
dio, senão o infinito poder com que o não poupar teu filho único, Eu te aben-
Filho de Deus, assumindo a fraqueza çoarei, e multiplicarei tua descen-
de nossa carne, devia destruir a infinita dência como as estrelas do céu, e como
malícia do pecado, e pelo seu Sangue a areia que jaz nas praias do mar. Tua
reconciliar-nos com Deus. geração possuirá as portas de teus ini-
migos, e em tua raça serão abençoados
3. Da promessa de redenção todos os povos da terra, porque obede-
ceste à minha voz".
a) no Paraíso Destas palavras, era fácil reco-
nhecer que, da posteridade de Abraão,
Ora, o crer na Redenção e o pro- nasceria Aquele que havia de livrar to-
fessá-la sempre foram condições ne- dos os homens da horrenda tirania de
cessárias para a salvação dos homens. Satanás, e trazer-lhes a salvação. Ora,
Assim Deus o ensinou, desde o início [o Libertador prometido] devia ser
da Revelação. [também] Filho de Deus, ainda que fos-
No mesmo instante que condena- se, como homem, gerado do sangue de
va o gênero humano, imediatamente Abraão.
após o pecado, Deus fez nascer a espe-
rança de resgate, pelas [próprias] pala- c) a Jacó
vras com que anunciou ao demônio a
dura derrota que lhe resultaria da liber- Pouco tempo depois, para que se
tação dos homens: "Porei inimizades conservasse a recordação da promessa,
entre ti e a mulher, entre a tua raça e a o Senhor reafirmou a mesma aliança
sua descendência. Esmagará ela a tua com Jacó, neto de Abraão.
cabeça, e tu armarás traições ao seu cal- Na ocasião de ver, durante o so-
canhar". no, uma escada firmada na terra, mas
com a ponta a tocar o céu; e [vendo]
b) a Abraão também os Anjos de Deus que por ela
subiam e desciam, como afirma a
Mais tarde, Deus confirmou por Escritura, - Jacó ouviu ao mesmo tem-
muitas vezes a mesma promessa. Fez po a voz do Senhor que, apoiado na es-
revelações mais positivas de Seus de- cada, lhe dizia: "Eu sou o Senhor, Deus
sígnios, mormente àqueles varões, de teu pai Abraão, e Deus de Isaac.
com os quais queria usar de uma bene- Dar-te-ei, a ti a tua posteridade, a terra
volência toda particular. Entre outros, em que estás dormindo. E tua geração
o patriarca Abraão recebeu frequentes será como o pó da terra. Hás de esten-
indicações a respeito deste mistério. der-te para o Oriente e o Ocidente, para
Na hora, porém, em que ia imolar o Setentrião e o Meio-dia. Em ti e na
Isaac, seu filho único, por obediência a tua geração serão abençoadas todas as
Deus, Abraão veio a ter revelações tribos da terra".
19
Posteriormente, Deus nunca dei- que é Deus e homem ao mesmo tempo.
xou de renovar a recordação de Sua pro- Significa "Salvador". Não Lhe foi pos-
messa, nem de manter a esperança do to casualmente, por escolha e vontade
Salvador, não só entre os filhos de dos homens, mas por ordem e intenção
Abraão, mas também entre muitos ou- de Deus.
tros homens. Assim o declarou o Anjo Gabriel
Desde a consolidação do regime a Maria, Sua Mãe: "Eis que conceberás
político e da religião judaica, o povo ia em teu seio, e darás à luz um filho, a
ficando cada vez mais ciente dessa ex- quem porás o nome de Jesus". E depo-
pectativa. As coisas mudas torna-vam- is ordenou a José, esposo da Virgem,
se sinais [da Redenção]. Homens hou- desse tal nome ao menino, e indicou-
ve que anunciavam quais e quantos be- lhe ao mesmo tempo as razões por que
nefícios havia de trazer-nos Jesus devia chamar-Se assim: "José, filho de
Cristo, nosso Salvador e Redentor. Davi, não tenhas receio de levar para
tua casa Maria, tua esposa; pois o que
d) aos Profetas em geral nela foi concebido, obra é do Espírito
Santo. Portanto, ela há de dar à luz um
Os Profetas, cujo espírito era filho, a quem porás o nome de Jesus,
aclarado por uma luz celestial, falavam porque Ele há de remir Seu povo de se-
diante do povo, e anunciavam-lhe o us pecados".
nascimento do Filho de Deus, as obras
admiráveis que havia de praticar de- Corolário: Os homônimos no Antigo
pois da Sua Encarnação, Sua doutrina, Testamento
Seus costumes, Seu trato, Sua Morte e
ressurreição, e os outros mistérios. Verdade é que, nas Escrituras, se
Falavam com tanta clareza de to- nos deparam muitas pessoas com esse
dos estes fatos, como se os tivessem mesmo nome. Assim se chamava o fi-
presentes à própria vista. Se, pois, abs- lho de Navé que sucedeu a Moisés; te-
trairmos da distância que medeia entre ve o privilégio, negado a seu ante-
o passado e o futuro, já não podemos cessor, de levar à Terra de Promissão o
notar nenhuma diferença entre os orá- povo que o mesmo Moisés havia arran-
culos dos profetas e a pregação dos cado do cativeiro do Egito. Assim se
apóstolos, entre a fé dos antigos patri- chamava também o filho de Josedec,
arcas e a nossa própria fé atual. sumo sacerdote.
Mas bom será passarmos, agora,
a tratar cada um dos termos do presente 2. Justeza desse nome
Artigo.
A nosso ver, com quanto mais
II. O nome de Jesus acerto não se deve atribuir esse nome a
Nosso Salvador! A Ele que deu luzes,
1. Origem liberdade e salvação, já não a um povo
singular, mas a todos os homens de to-
Jesus é o nome próprio d'Aquele das as épocas. A Ele que os livrou, não
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diremos da fome ou da opressão do de de seu ministério.
Egito e da Babilônia, mas das sombras Sacerdotes são aqueles que, por
da morte em que estavam sentados, pre- meio de assíduas preces, recomendam
sos com os duríssimos grilhões do peca- o povo a Deus. São eles que oferecem
do e do demônio. A Ele que lhes adqui- sacrifícios a Deus, e aplicam pelo povo
riu o direito à herança do Reino dos o poder de sua intercessão.
céus, e os reconciliou com o Pai Aos reis, porém, está confiado o
Eterno. governo dos povos. Seu dever primor-
Naquelas pessoas não vemos se- dial é salvaguardar a autoridade das
não uma figura de Cristo Nosso leis, proteger a vida dos inocentes, e
Senhor, que de tantos benefícios cumu- punir a audácia dos criminosos.
lou o gênero humano, como acabamos Ambos os ministérios são, pois,
de explicar. uma imagem da majestade de Deus,
aqui na terra. Por isso, os que eram elei-
3. Seu aspecto total tos para a dignidade real ou sacerdotal,
recebiam a unção do óleo santo.
Além do mais, todos os outros
nomes que, segundo as profecias, devi- b) profetas
am ser dados ao Filho de Deus, estão já
incluídos nesse único nome de "Jesus". Era também costume ungirem-se
Cada um deles exprime aspectos parci- os Profetas. Na qualidade de intérpre-
ais da salvação que nos devia trazer; ao tes e mensageiros de Deus imortal, eles
passo que o nome de Jesus abrange, revelavam os credos do céu, e com salu-
por si só, o resgate do gênero humano, tares conselhos e predições do futuro
em toda a sua extensão e eficácia. nos exortavam à regeneração dos cos-
tumes.
III. Significação de "Cristo"
2. No Novo Testamento: O Redentor
1. No velho Testamento designa foi ungido pelo esse Espírito Santo...

a) reis, sacerdotes Ora, quando veio a este mundo,


Nosso Salvador Jesus Cristo tomou
Ao nome de Jesus também se sobre Si o tríplice encargo e função de
acrescentou o apelido de "Cristo", cuja profeta, de sacerdote e de rei. Por moti-
significação é "Ungido". Serve para vo é que foi chamado "Cristo", e ungi-
designar uma dignidade e um ministé- do para o desempenho daqueles minis-
rio. Não é próprio de uma só categoria, térios. Não o foi, contudo, por obra de
mas é uma designação comum de vári- nenhum mortal, mas pela virtude do
as funções. Pai Celeste. Não o foi com uma unção
Na antiguidade, nossos pais cha- de óleo terrestre, mas de óleo espiritu-
mavam de "cristos" aos sacerdotes e al, quando em Sua Alma santíssima se
aos reis, porquanto Deus ordenara que derramaram a graça, a plenitude e os
fossem ungidos, em atenção à dignida- dons do Espírito Santo, em tal supera-
21
bundância que nenhuma outra criatura c) rei universal...
a poderia jamais comportar.
É o que muito bem exprime o Reconhecemos, igualmente, que
Profeta, quando interpela o próprio Cristo é Rei, não só como Deus, mas
Redentor: "Vós amastes a justiça, e também enquanto Homem, partici-
aborrecestes a iniquidade. Por isso pante de nossa natureza. De Sua digni-
Deus, o vosso Deus, vos ungiu com dade real disse o Anjo: "Há de reinar
óleo de alegria na presença de vossos eternamente na casa de Jacó, e Seu rei-
companheiros". A mesma ideia, Isaías no não terá fim".
a exprime com muito mais clareza, na
passagem seguinte: "O Espírito do cujo domínio é a Igreja...
Senhor está sobre Mim, porque o
Senhor Me ungiu, e Me enviou para Esse Reino de Cristo é espiritual
pregar aos que são mansos". e eterno. Começa na terra, e consuma-
se no céu. É com admirável provi-
a) como sumo profeta... dência que Cristo presta os ofícios de
Rei à Sua Igreja. Ele a governa; defen-
Jesus Cristo foi, portanto, o de-a dos ataques e embustes do inimi-
Profeta e Mestre supremo que nos ensi- go; prescreve-lhe leis; comunica-lhe
nou a vontade de Deus, e cuja doutrina santidade e justiça; proporciona-lhe,
fez ao mundo conhecer o Pai Celestial. ainda por cima, força e meios de perse-
Cabe-lhe o nome de Profeta com mai- verar.
or glória e distinção, porquanto não
passavam de discípulos Seus todos que abrange bons e maus...
aqueles que [anteriormente] tiveram a
honra desse nome, e que não foram en- Nos limites deste Reino, existem
viados senão para anunciar o Profeta bons e maus. Por direito, fazem parte
por excelência, que viria salvar todos dele todos os homens. No entanto,
os homens. aqueles que levam uma vida pura e san-
ta, segundo os Seus Mandamentos, che-
b) eterno sacerdote... gam a sentir, mais do que os outros, a
suma bondade e benevolência de nosso
Cristo foi também Sacerdote, não Rei.
na ordem pela qual na Antiga Lei os
sacerdotes procediam da tribo de Levi, e também o mundo inteiro.
mas por aquela que o profeta Davi exal-
tou em seu vaticínio: "Vós sois sacer- Este Reino, porém, não Lhe foi
dote eternamente, segundo a ordem de adjudicado por direito de herança ou
Melquisedec". Na epístola aos sucessão humana, ainda que Cristo des-
Hebreus, o Apóstolo explana detida- cendesse dos reis mais ilustres. Era
mente o fundo desta passagem. Rei, porque Deus reuniu em Sua huma-
nidade tudo o que a natureza humana
podia comportar de poder, grandeza e
22
dignidade. Entregou-Lhe, portanto, o imaginar que em Sua geração exista
governo do mundo inteiro. E Cristo já algo de terreno ou mortal. O ato pelo
começou a dominar, mas só no dia do qual o Pai gera ao Filho desde toda a
Juízo é que todas as coisas se curvarão eternidade, não o podemos absoluta-
plena e incondicionalmente, à Sua auto- mente perceber com a inteligência, e
ridade. muito menos compreendê-lo de mane-
ira adequada. Devemos, no entanto,
Um só Seu Filho acreditá-lo com firmeza, e adorá-lo
com a maior devoção de nossa alma.
IV. Jesus Cristo é Como que arrebatados de admiração
pelo Mistério, cumpre-nos exclamar
1. Filho de Deus com o Profeta: "Quem poderá explicar
a Sua geração?"
São mais profundos ainda os mis-
térios que estas palavras nos propõem a c) consubstancial ao Pai
respeito de Jesus. Levam os fiéis a crer
piedosamente que é Filho de Deus, e Deve crer-se, portanto, que o
verdadeiro Deus como o Pai, que O ge- Filho tem a mesma natureza, o mesmo
rou desde toda a eternidade. poder, a mesma sabedoria que o Pai,
conforme o confessamos mais explici-
a) de igual natureza como as outras tamente no Símbolo de Nicéia: "E em
pessoas; Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus,
e gerado pelo Pai antes de todos os sé-
Além disso, confessamos que é a culos, Deus de Deus, Luz de Luz, ver-
Segunda Pessoa da Santíssima Trinda- dadeiro Deus de Deus verdadeiro, gera-
de, perfeitamente igual às duas outras do, não feito, da mesma substância que
Pessoas Divinas. Nenhuma desigual- o Pai, e pelo qual foram feitas todas as
dade ou diferença pode haver, ou ima- coisas".
ginar-se nas três Pessoas divinas, por-
que em todas elas reconhecemos a exis- Corolário: Comparações
tência de uma só natureza, de uma só
vontade, de um só poder. De todas as comparações que se
Esta verdade se nos antolha em fazem, para explicar o modo e a razão
muitos lugares da Sagrada Escritura. O de ser desta geração eterna, nenhuma
mais claro, todavia, é o testemunho de parece tão próxima da realidade, como
São João: "No princípio era o Verbo, e aquela que se tira da formação do pen-
o Verbo estava com Deus, e o Verbo era samento em nossa alma. Por isso, São
Deus". João dá o nome de "Verbo" ao Filho de
Deus.
b) gerado desde toda a eternidade; Como nossa alma, reconhecen-
do-se até certo grau, concebe uma ima-
Ouvindo, porém, que Jesus é gem de si mesma, imagem que os teó-
Filho de Deus, não nos ponhamos a logos chamam de "verbo"; assim tam-
23
bém, quanto as coisas humanas podem Nosso Senhor
comparar-se com as divinas, Deus, re-
conhecendo-Se a Si mesmo, gera o V. 1. Jesus, nosso "Senhor":
Verbo Eterno.
Entre as muitas afirmações da
2. Filho do Homem (união hipostá- Sagrada Escritura a respeito de Nosso
tica) Salvador, não é difícil reconhecer que
umas Lhe convêm como a Deus, outras
No mais, é preferível contemplar como a Homem. Das duas naturezas
simplesmente o que a fé nos propõe, e diversas, [Cristo] recebeu também as
crer e confessar, com sinceridade, que diversas propriedades. Assim dizemos,
Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro com toda a verdade, que Cristo é oni-
Homem. potente, eterno, imenso. Estes atribu-
Como Deus, foi gerado pelo Pai tos Lhe advêm da natureza divina. E
antes de todos os séculos; como dizemos também que Ele sofreu, mor-
Homem, nasceu no tempo, de Sua Mãe reu e ressurgiu. Ninguém duvida que
a Virgem Maria. tais fatos só podem ser atribuídos à na-
Posto que em Cristo se deve ad- tureza humana.
mitir um duplo nascimento, cremos,
todavia, que há um só Filho. É pois a) como Deus
uma e a mesma Pessoa, na qual se
unem as naturezas divina e humana. Mas existem ainda outros atribu-
tos que convêm a ambas as naturezas,
3. Nosso Criador, e nosso Irmão como o nome de "Nosso Senhor", que
ora Lhe damos. Se, portanto, este nome
Da parte da geração divina, se aplica a uma e outra natureza, é com
Cristo não tem irmãos nem coerdeiros, toda a razão que Cristo deve ser cha-
visto ser Ele o Filho Único do Pai, en- mado "Nosso Senhor". Do mesmo mo-
quanto nós homens somos apenas uma do que Ele é Deus eterno como o Pai,
formação e obra de Suas mãos. assim é também, como o Pai, Senhor
Se entanto considerarmos Sua de todas as coisas. Como Ele e o Pai
origem humana, veremos que Cristo não são dois deuses diversos, mas inte-
não só dá a muitos o nome de "irmãos", iramente o mesmo Deus, assim tam-
mas também os trata realmente como bém Ele e o Pai não são dois Senhores
tais, para que com Ele alcancem ao diferentes.
mesmo tempo a glória da herança pa-
terna. São aqueles que pela fé recebe- b) como Homem... por causa da
ram a Cristo Nosso Senhor, e por obras Redenção...
de caridade comprovam a fé que pro-
fessam de boca. Eis por que o Apóstolo Com razão é chamado "Nosso
Lhe chamou o "Primogênito entre mui- Senhor" também em Sua condição de
tos irmãos". Homem. Há muitos títulos que o justi-
ficam. Em primeiro lugar, por ser nos-
24
so Redentor, e nos ter livrado de nossas entrega e consagração de nós mesmos
culpas, recebeu por direito o poder de a Nosso Senhor e Redentor, na qualida-
ser deveras e chamar-se "Nosso de de escravos totalmente Seus.
Senhor".
É o que nos ensina o Apóstolo: pelo compromisso batismal...
"Humilhou-se a Si mesmo, fazendo-Se
obediente até a morte, e morte de cruz. Na verdade, assim o promete-
Por essa razão, Deus também O exal- mos à porta da igreja, quando recebía-
tou e Lhe deu um nome que fica acima mos a iniciação do Batismo. Ali decla-
de todos os nomes, para que ao Nome ramos que renunciávamos a Satanás e
de Jesus se dobre todo joelho, dos que ao mundo, para nos consagrarmos inte-
estão no céu, na terra, e nos infernos; e iramente a Jesus Cristo. Mas, desde
toda língua proclame que Jesus Cristo que, para entrar na milícia cristã, nos
está na glória de Deus Pai". Após a entregamos a Nosso Senhor, por tão
Ressurreição, Cristo disse de Si mes- santo e solene compromisso, que casti-
mo: "A Mim foi dado todo o poder no go não merece-ríamos, se, depois de
céu e na terra". entrar no grêmio da Igreja, depois de
conhecer a vontade e os preceitos de
por causa da união hipostática Deus, depois de receber a graça dos
Sacramentos, fôssemos viver segundo
Em segundo lugar, é chamado as leis e normas do mundo e do demô-
"Senhor" também, porque reúne numa nio, como se no dia do Batismo nos hou-
só Pessoa duas naturezas, a divina e a véramos alistado no serviço do mundo
humana. Ainda que Cristo por nós não e do demônio, que não de Cristo Nosso
morrera, contudo essa admirável união Senhor e Redentor.
Lhe teria merecido o título de soberano
Senhor de todas as coisas criadas, em mas Cristo nos chama de "amigos e
particular dos fiéis que Lhe prestam irmãos".
obediência, e que O servem com o mai-
or afeto de seu coração. Em vista de tanto amor e benig-
nidade para conosco, que coração se
2. Nós, somos seus escravos... não sentiria abrasado de amor por tão
grande Senhor? Apesar de nos ter deba-
Como nos resta ainda dizer, o pá- ixo de Seu poder e domínio, servos que
roco inculcará aos fiéis que, levando somos remidos pelo Seu sangue, Cristo
nós de Cristo o nome de cristãos, não no ama com tais extremos que já não
podemos ignorar os imensos benefí- nos chama de servos, mas de amigos e
cios de que Ele nos cumulou, máxime a irmãos. Esta é, sem dúvida, a mais jus-
bondade com que, pela luz da fé, nos ta, e talvez a mais forte de todas as ra-
fez conhecer todos estes mistérios. zões, por que devemos para todo o sem-
Convém, pois, e força é repeti-lo, que pre reconhecê-lO, venerá-lO e servi-lO
nós - com maior obrigação que os ou- como Nosso Senhor. TC
tros mortais — para sempre façamos
25
A IGREJA NOS ENSINA
Documentos do Sagrado Magistério

Nesta edição trazemos trechos da


encíclica Supremi Apostolatus
Officio, de Leão XIII narrando
Fatos históricos que comprovam a
intervenção de Nossa Senhora em
favor da Igreja, quando invocada
através do Santo Rosário durante
época de grande tribulação.

Intervenções de Maria na
história da Igreja
Encíclica Supremi Apostolatus guerras, Senhora das vitórias, Pacifica-
Officio, de Leão XIII (Trechos) dora. Entre os quais é principalmente
digno de menção o título, tão solene,
“Mas esta ardente e confiante do Rosário, que consagra à imortalida-
piedade para com a augusta Rainha do de os seus assinalados benefícios em
Céu foi posta em mais clara luz quando favor da inteira Família cristã.
a violência dos erros largamente Nenhum de vós, ó Veneráveis
difundidos, ou a transbordante Irmãos, ignora quantas dores e quantas
corrupção dos costumes, ou o assalto lágrimas, no fim do século XII, propor-
de inimigos poderosos, pareceram pôr cionaram à santa Igreja de Deus os
em perigo a Igreja militante de Deus. hereges Albigenses, que, nascidos da
As memórias antigas e modernas seita dos últimos Maniqueus, haviam
e os sagrados fastos da Igreja relem- infectado de perniciosos erros a França
bram, de uma parte, as súplicas públi- meridional e outras regiões do mundo
cas e particulares e os votos elevados à latino. Espalhando em torno de si o
divina Mãe, e, de outra parte, os auxíli- terror das armas, eles tramavam esten-
os por meio dela obtidos, e a tranquili- der o seu domínio pelos morticínios e
dade e a paz pelo Céu concedidas. Daí pelas ruínas. Contra esses péssimos
tiveram origem esses títulos insignes inimigos Deus misericordioso susci-
com que os povos católicos a sauda- tou, como vos é bem conhecido, um
ram: Auxiliadora dos cristãos, Socor- homem virtuosíssimo: o ínclito padre
redora e Consoladora, Dominadora das fundador da Ordem dominicana. Insig-
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ne pela integridade da doutrina, por Deus, invocada por meio do santo
exemplos de virtude e pelos seus labo- Rosário, viesse em auxílio do povo
res apostólicos, ele se preparou com cristão. E a resposta foi o maravilhoso
intrépida coragem para travar as bata- espetáculo então oferecido ao Céu e à
lhas da Igreja Católica, confiando não terra; espetáculo que empolgou as
na força das armas, mas sobretudo na mentes e os corações de todos!
daquela oração que ele, por primeiro, Com efeito, de um lado os fiéis,
introduziu sob o nome do santo Rosá- prontos a dar a vida e a derramar o
rio, e que, ou diretamente ou por meio sangue pela incolumidade da religião e
dos seus discípulos, depois divulgou da pátria, junto ao golfo de Corinto
por toda parte. esperavam impávidos o inimigo; de
Visto como, por inspiração ou outro lado, homens inermes, com
por impulso divino, ele bem sabia que, piedosa e suplicante falange, invoca-
com o auxílio desta oração, poderoso vam Maria, e com a fórmula do santo
instrumento de guerra, os fiéis poderi- Rosário repetidamente a saudavam, a
am vencer e desbaratar os inimigos, e fim de que assistisse os combatentes
forçá-los a cessar a sua ímpia e estulta até à vitória. E Nossa Senhora, movida
audácia. E é sabido que os aconteci- por aquelas preces, os assistiu: por-
mentos deram razão à previsão. De quanto, havendo a frota dos cristãos
feito, desde quando tal forma de oração travado batalha perto de Lepanto, sem
ensinada por S. Domingos, foi abraça- graves perdas dos seus desbaratou e
da e devidamente praticada pelo povo matou os inimigos, e alcançou uma
cristão, de um lado começaram a revi- esplêndida vitória. Por este motivo o
gorar-se a piedade, a fé e a concórdia, santo Pontífice, para perpetuar a lem-
e, de outro, foram por toda parte que- brança da graça obtida, decretou que o
bradas as manobras e as insídias dos dia aniversário daquela grande batalha
hereges. Além disto, muitíssimos fosse considerado festivo com honra
errantes foram reconduzidos à trilha da da Virgem das Vitórias; festa que depo-
salvação, e a loucura dos ímpios foi is Gregório XIII consagrou sob o título
esmagada por aquelas armas que os do Rosário.
católicos haviam empunhado para Igualmente são conhecidas as
reprimir a violência. vitórias alcançadas sobre as forças dos
A eficácia e o poder da mesma Turcos, durante o século passado,
oração foi, depois experimentada primeiramente perto de Timisoara, na
também no século XVI, quando as Rumania, depois perto da ilha de Cor-
imponentes forças dos Turcos ameaça- fu: com dois dias dedicados à grande
vam impor a quase toda a Europa o Virgem, e após muitas preces a ela
jugo da superstição da barbárie. Nessa elevadas sob a forma do Rosário. Esta
circunstância, o Pontífice S. Pio V, foi a razão que levou o Nosso Prede-
depois de estimular os soberanos cris- cessor Clemente XI a estabelecer que,
tãos à defesa de uma causa que era a com prova de gratidão, a Igreja toda
causa de todos, dirigiu todo o seu zelo a celebrasse cada ano a solenidade do
obter que a poderosíssima Mãe de santo Rosário.” Leão XIII TC
27
catena Áurea
A fuga do pecado
“Se teu olho direito te faz pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é preferível que
se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado na geena. Se a tua mão
direita te leva a pecar, corta-a e lança-a para longe de ti, pois é preferível que se perca um
dos teus membros do que todo o teu corpo vá para a geena. ” (Mt 5, 29-30)
GLOSA dos e esposas, pais e filhos, parentes e
Depois de nos ter ensinado a evitar o amigos, os quais, se vierem a nos impe-
pecado de adultério, não só na prática dir de conhecer a verdade, devemos
mas também no coração, Jesus nos ensi- deles nos separar.
na que nós não só devemos evitar o pe-
cado, mas também as ocasiões de peca- SANTO AGOSTINHO
do, por isso disse “Se teu olho direito te Do mesmo modo que o olho denota
faz tropeçar...”. contemplação ,assim se deve entender
que a mão denota ação. Por olho deve-
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO (PSEUDO) mos entender como sendo um amigo
Mas, se de acordo com o profeta (Sl 37, muito querido, como se diria para ex-
4) , não há nada em nosso corpo que pressar um afeto muito ardente: “Eu o
não está ferido pelo pecado, devemos amo como meu próprio olho”. Convém
cortar nossos membros de acordo com entender aqui por olho um amigo que
a maldade da carne, a fim de ser sufici- dá conselhos, como o olho nos mostra
ente para a punição dos membros. Mas, o nosso caminho. A referência ao olho
vejamos se devemos compreender des- direito talvez seja para expressar um
ta forma o olho corporal ou a mão. maior grau de afeição. Sempre temem
Assim como todo homem quando se os homens muito mais perder o olho
volta para Deus, ele está morto para o direito. Ou, por olho direito pode ser
pecado, assim também é o olho, quan- entendido aquele que nos aconselha a
do deixa de olhar o mal é cortado do respeito das coisas divinas, e por es-
pecado. Porém, esta explicação não irá querdo aquele que nos aconselha em
atender o todo. Pois, se o teu olho direi- coisas mundanas. E este será o sentido:
to te faz tropeçar, o que se dá com olho o que quer que seja que você ama como
esquerdo? Será que contradiz o direito se fosse seu próprio olho direito, se te
e é mantido inocente? faz tropeçar e lhe traz qualquer impedi-
mento para a vida eterna, corta-o e lan-
SÃO JERÔNIMO ça-o de ti. Porque se o olho direito não
Por olho direito e mão direita, se insi- foi poupado, é supérfluo falar do es-
nua o afeto para com os irmãos, mari- querdo. Se considera a mão direita co-
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mo um estimado auxílio para as boas mo se eu visito alguma mulher por cau-
obras, e a esquerda como um auxílio sa da fé, este motivo é bom e se chama
nas coisas necessárias para esta vida e olho direito. Porém, se visitando-a
para o corpo. com frequência eu venha a cair dese-
jando-a, ou se os quem vêem são ofen-
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO (PSEUDO) didos, então o olho direito, ou seja, al-
Ou, de outro modo: Nosso Senhor Je- go em si bom, se torna uma armadilha.
sus Cristo quer que nos preservemos O olho direito é um olhar para um bom
não só do perigo do pecado, mas tam- propósito, ou seja, uma boa intenção. A
bém das pessoas próximas que nos po- mão direita é a boa vontade.
dem fazer mal. Por exemplo, se você
tem um amigo que é como seu próprio GLOSA
olho direito, ou que cuida de suas coi- Teu olho direito é também a vida con-
sas que considera como sua própria templativa, que escandaliza quando cai
mão, se você souber de qualquer ato em desídia ou em arrogância, ou quan-
escandaloso dele, o lançaria longe de do não podemos por debilidade nossa
você, pois não só daremos conta de nos- contemplar as coisas santas. A mão di-
sos pecados, mas também dos nossos reita é uma boa obra, ou a vida ativa, a
próximos que podendo evitá-los, da- qual escandaliza quando se desordena
mos-lhe a razão. Este olho de carne é o com a frequência das coisas mundanas
espelho do olho interior. O corpo tem e o tédio da ocupação. Se alguém, por-
seu significado, que é o olho esquerdo, tanto, não pode desfrutar da vida con-
e o apetite e a mão esquerda. As ações templativa, que não negligencie a vida
da alma são chamadas de direita, por- ativa, ou, por outro lado enquanto é re-
que a alma foi criada com o livre arbí- tomado com a ação, venha a secar a fon-
trio e sob a lei da justiça, para que pos- te da contemplação doce.
sam ver e fazer o bem. O corpo não tem
livre arbítrio, está sob a lei do pecado e SÃO REMÍGIO
se lhe chamam mão esquerda. Nosso Nosso Senhor Jesus Cristo manifesta
Senhor não nos manda cortar o sentido por que deve-se arrancar o olho direito
ou o apetite da carne. Nós podemos su- e quando se deve cortar a mão direita,
primir o desejo da carne, contanto que quando disse: “Porque te convém per-
não façamos o que a carne deseja. Mas, der um de teus membros, etc.”.
não podemos evitar de ter desejos. Qu-
ando propositadamente queremos uma SÃO JOÃO CRISÓSTOMO (PSEUDO)
coisa má e pensamos nela, é então que Como somos membros uns dos outros,
o sentido direito e a vontade direita nos melhor é que nos salvemos sem um des-
escandaliza, e portanto, temos a ordem tes membros, que querendo conservá-
de cortar essas coisas, o que fazemos los, eles e nós pereçamos. Ou, é melhor
através do livre arbítrio. Ou, de outra que nos salvemos sem um bom propó-
forma, toda coisa boa que nos escanda- sito ou um bom trabalho, de que, que-
liza, ou a outros, deve ser separada da- rendo fazer todas as boas obras, peren-
queles a quem escandaliza. Assim co- cendo com elas. TC
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Escritos de Gustavo Corção
Jornalista e escritor católico

“A descoberta da outra”
Um leitor que se diz assíduo, Igreja Católica de sempre, e a Outra. E
numa longa conversa telefônica, note bem, leitor: quando acaso der a
estranhou o pós-conciliar. O leitor essa outra o nome de Igreja pós-
entende o termo como se significasse a conciliar não quero de modo algum
mesma Igreja Católica, na era pós- insinuar a infeliz ideia de que, após o
-conciliar. Bem sei que nesse período Concílio, a Igreja de Cristo se teria
conturbado continua a existir, na terra, transformado a ponto de tornar-se
a Igreja Católica dita militante. Ora, irreconhecível, devendo os fiéis de
minha sofrida e firme convicção, bem formada doutrina católica
tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá acreditar nessa nova forma visível da
é que existe, entre a Religião Católica Igreja, por pura disciplina, ainda que a
professada em todo o mundo católico maioria das pregações e dos novos
até poucos anos atrás e a religião ensinamentos sejam ostensivamente
ostensivamente apresentada como diversos e às vezes opostos à doutrina
"nova", "progressista", "evoluída", católica. Não! A Igreja Católica e
uma diferença de espécie ou diferença Apostólica continua a existir na era
por alteridade. São portanto duas as pós-conciliar, submetida a duras
Igrejas atualmente governadas e provações, mas sempre permanente e
servidas pela mesma hierarquia: a fiel guardiã do depósito sagrado.
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Se o leitor me perguntasse agora Nova Igreja são os "teólogos da
quais são as essenciais diferenças que libertação".
separam as duas religiões, eu Devemos dar especial atenção
responderia: diferença de espírito, aos pronunciamentos das Conferên-
diferença de doutrina, diferença de cias Episcopais que rarissimamente
culto e diferença moral. Como terei dizem coisa parecida com a Santa
chegado a tão assustadora convicção? Religião ensinada por Jesus Cristo.
Com muito sofrimento e muito Basta prestar atenção, ler, e comparar
trabalho, são milhares os católicos que toda a prodigiosa logorreia dos
chegaram à mesma convicção. reformadores com o que já lemos dos
Começamos por confrontar os santos doutores, dos santos Papas, e de
novos textos, as novas alocuções, as toda a Tradição católica. Eles não
novas publicações pastorais com a falam a mesma língua de nossa Mãe
doutrina ensinada até anteontem. A Igreja, não usam o mesmo léxico, não
começar pelos textos emanados dos seguem o mesmo espírito. Evidencia-
mais altos escalões, citemos alguns -se com brutalidade dolorosa o fato de
daqueles que mais dolorosamente e ter sido a Igreja invadida, ou de ter se
mais irresistivelmente nos levaram à deixado seduzir pelos mesmos inimi-
conclusão de que se inspiram em outro gos que combatia. Uma das notas mais
espírito e se firmam em outra doutrina. características do novo espírito é a da
Entre os textos conciliares, citamos os tolerância erigida em máxima virtude,
seguintes: Constituição Pastoral sobre e o correlato horror por qualquer
a Igreja e o Mundo Atual (Gaudium et espécie de luta ou combate. Os novos
Spes); Decreto sobre o Ecumenismo levitas corrompem a juventude,
(Unitatis Redintegratio); Declaração destroem as famílias, mas quando
sobre a Liberdade Religiosa (Digni- alguém ergue a voz pedindo punição
tatis Humanae); Discurso de Encerra- severíssima para os sequestradores e
mento do Concílio, 7 de Dezembro de para os traficantes de drogas, logo
1965; Institutio Gene-ralis do Novus começam a esganiçar gritinhos:
Ordo Missae: Ponto 7 (na primeira Violência, não! Violência, não!
redação, de 1967, e principalmente a E aqui encerro a concisa resposta
segunda redação de 1970). Além que dou ao leitor escandalizado: foi a
desses documentos dos mais altos atenta observação desses fatos, foi a
escalões, poderíamos encher as paciente leitura de himalaias de
páginas deste jornal com obras e mediocridade e foi a comparação
pronunciamentos de cardeais, arcebis- gritante entre o que ensinam e o que
pos, bispos e padres que eram ensinaram os santos, e creio que foi
bisonhos, retraídos e discretos quando principalmente a graça de Deus
tinham vaga consciência de suas certamente pedida cada dia, cada hora,
deficiências filosóficas e teológicas e nessa especial e gravíssima intenção,
que subitamente descobrem que na que nos levaram a essas conclusões. Se
"nova Igreja" podem dizer tudo o que é preciso usar o recurso dos gritos que
lhes vem à boca que fala ou à mão que tanto usam hoje, gritarei eu também, e
escreve. O que menos se conhece é a não esconderei a reação que tive em
Teologia, mas o que mais abunda na 1965 após a primeira leitura da
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Constituição sobre a Sagrada Liturgia: me faz uma pergunta muito séria e de
corri ao telefone do amigo mais importância capital:
próximo já chorando, já engasgado de — Qual é, na sua convicção, o
soluços que me sacudiam o corpo todo. traço principal, o conteúdo essencial
E gritei: eles estão loucos! Eles estão dessa Outra religião que o senhor vê
loucos! E mais não digo. nos recintos da Igreja Católica?
Vejo em seguida nos meios — Mais uma vez insistido neste
católicos um dilúvio de calamidades ponto: a desordem que se observa nos
pavorosas. Nas melhores famílias meios eclesiásticos e que produz tais
católicas, tradicionalmente católicas, malefícios, não pode ser apenas uma
os jovens, pervertidos pelos profes- pura desordem. A desfiguração da
sores de colégios católicos, se transfor- Igreja do Verbo Encarnado, isto é, da
mam em anormais, comunistas, religião do Deus que se fez homem,
criminosos sequestradores, ou em tem uma figura: a da religião do
inutilizados toxicômanos. Meu Deus! homem que se faz Deus. Essa é a figura
Como pode? Como pode? Como da desfiguração.
Pode? O mistério da permissão divina — Não foi o próprio Papa Paulo
nos traz vertigens quando pensamos VI quem disse no discurso de
em tantos bons pais tão terrivelmente encerramento do Concílio que "a
atingidos. Igreja de Deus que se fez homem
Mas quando pensamos que a encontrou-se no Concílio com a
crise de costumes que dissolve todos os religião do homem que se faz Deus"?
valores morais de uma civilização é — Exatamente. E se o amigo
principalmente gerada pela impiedade continuar a atenta leitura desse
e pelo orgulho dos homens, que documento, se convencerá de que não
reivindicam todas as liberdades e todos exagero nem me perco em fantasias se
os direitos; e principalmente quando lhe disser que a figura essencial da
pensamos que é exatamente nessa hora Outra é a de um humanismo que se
sombria que os homens de Igreja torna uma nova religião que difere do
julgam ter feito uma descoberta muito cristianismo por seu desolado
inteligente, e muito oportuna – a de se naturalismo, isto é, pela ausência da
abrir para o mundo e até a de nele mais bela de todas as obras de Deus – a
procurar inspirações para o novo ordem da graça e da salvação.
humanismo que apregoam – então, Eles tentam disfarçar a chatice e a
com temor e terror, pensamos que a tristeza sinistra e feia, com retalhos de
misteriosa permissão divina, já nos foi cristianismo sem vida mas a anemia
profeticamente revelada na Sagrada profunda do corpo sem sangue está na
Escritura, e durará até o dia em que os visibilidade da Outra que só serve para
homens descobrirem apavorados que eclipsar a Santa Visibilidade da Igreja
desprezaram Deus, que contrariaram de Cristo.
Deus, que se riram de Deus. E, nesse — E como poderá a Igreja
dia de espantosa desolação descobri- Católica desembaraçar-se desses equí-
rão "que não passam de homens" e que vocos e voltar a ser visível, dourada,
só Deus é o Senhor. um pouco mais hoje, um pouco menos
Neste ponto da entrevista, o leitor amanhã, mas sempre anunciando aos
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homens, aprisionados no efêmero, um
Reino que não é deste mundo?
— O senhor espera ainda ver
neste mundo a Igreja Militante em todo
o seu esplendor?
— Não. A desordem é profunda
demais e chegou aos vasos capilares
dos membros da Igreja. Se ela não
fosse obra sobrenatural de Deus eu
diria, em termos usados pelos físicos,
que a desordem é sempre prodigiosa-
mente irreversível.
E, no caso, a improbabilidade de
tal recuperação seria expressa por
números espantosos como dez elevado
a menos mil (10-1000) que, na verdade,
não exprimem nada. Não são números
concretos nem entes de razão; quando
muito diríamos que só são entes de giz
no quadro negro. Emile Borel dizia
francamente que, diante de tais
improbabilidades, é melhor dizer
simplesmente que são impossíveis.
Mas nós aqui estamos falando da mais
maravilhosa das obras de Deus:

"Deus qui humanae substantiae


dignitatem mirabiliter condidisti, et
mirabilius reformasti"

E o que a nós parece impossível, Caim casou-se com uma


é possível para Deus. Mas nossa mulher de origem anterior
esperança teologal não nos obriga a
esperar acontecimentos neste mundo. à família de Adão?
No ponto da vida em que me acho, só
posso esperar, pela misericórdia de Pode um católico crer
Deus e pelo Sangue de Cristo, a nos pré-adamitas?
felicidade de ver brevemente a Igreja
do Céu em toda a sua beleza eterna e
fora do alcance dos flagelos humanos. Não, um católico não pode crer
E é a alegria dessa esperança nos pré-adamitas porque é um artigo de
teologal que, nestes dias de transição fé que todos os homens descendem de
desejo aos meus leitores e compa- um só par humano: Adão e Eva.
nheiros de trabalho. A unidade da raça humana prova-
(O Globo, 29/12/1977) -se pela Escritura, que declara que to-
dos os homens vêm de um só casal dos pelo calvinista De La Peyrère, em
(Gên. 1, 26-28). Bordeaux (França) em 1655, para de-
Eva é chamada “mãe de todos os monstrar a existência dos pré-
viventes” (Gên. 3, 20), e Adão “foi for- adamitas, nada provam e foram por ele
mado por Deus primeiro pai da redon- mesmo enfim abandonados, fazendo-
deza da terra, tendo sido criado só” se católico e entrando no Oratório de
(Sab. 10, 1; Gên. 1, 27). São Filipe Néri.
S. Paulo prova aos gregos de Ate- Quanto a Caim, é muito provável
nas a unidade de Deus pela unidade da casasse com uma de suas irmãs.
raça humana, dizendo: “De um (ho- “Como então, diz Santo Agosti-
mem) fez todo o gênero humano, para nho, não havia mais seres humanos,
que habitasse sobre toda a face da ter- além dos nascidos de Adão e Eva, os
ra” (At 17, 26). homens casavam com suas irmãs. Este
Na ordem sobrenatural, São Paulo ato era, sem dúvidas, ditado pela ne-
prova a unidade da raça humana pela cessidade daqueles dias; cessando ela,
doutrina do pecado original. Escreve: foi condenado pela religião” (Cidade
“Portanto, assim como por um homem de Deus, 15,16).
entrou o pecado neste mundo e pelo Há coisas que são proibidas por
pecado a morte, assim passou também sua mesma natureza: são intrinseca-
a morte a todos os homens por um ho- mente e sempre más, que nunca podem
mem, no qual todos pecaram” (Rm. 5, ser permitidas, como o perjúrio ou a
12). blasfêmia de Deus; outras há, porém,
Que todos os homens vêm de um permissíveis em determinadas circuns-
só tronco, prova-o também: a história, tâncias, como lançar mão ao alheio em
declarando a Ásia berço do gênero hu- necessidade extrema, matar em própria
mano; a filologia, dizendo-nos que to- defesa, casar com sua irmã no princí-
das as línguas vêm de uma só língua pio do mundo, por não haver mais mu-
primitiva; a fisiologia, ensinando que lheres.
todas as raças, não obstante suas dife- É a simples aplicação do axioma: A
renças acidentais de cor, formação cra- necessidade não tem lei: “Necessitas
niana, etc., têm a mesma estrutura ana- caret lege”. E ainda: a lei então era:
tômica; a psicologia, mostrando-nos a (Gên. 1, 28) “Crescei, multiplicai-vos
unidade intelectual de todos os povos. e enchei a terra” . TC
Os argumentos bíblicos excogita- Da obra“ Caixa de Perguntas”

Uma coletânea de

TC
textos tradicionais
para uma autêntica
formação católica.
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34
Via-Sacra
composta por Dom Antônio de Castro Mayer

ORAÇÃO PREPARATÓRIA

Meu Senhor Jesus Cristo, dispo-


nho-me a acompanhar-Vos no caminho
que trilhastes do pretório de Pilatos ao
Calvário, para Vos imolardes por mi-
nha salvação. Peço-Vos a graça de con-
ceber grande dor e arrependimento de
ter pecado, causando vossos atrozes
sofrimentos, e que vosso Sangue preci-
osíssimo infunda em minha alma o pro-
pósito firme de nunca mais pecar.

ANTES DE CADA ESTAÇÃO

Dirigente: Nós Vos adoramos, Senhor,


e Vos bendizemos;

Todos: Porque pela vossa Santa Cruz


remistes o mundo.

No final da consideração, depois da Dirigente: Que as almas dos fiéis de-


Ave Maria: funtos, por misericórdia de Deus, des-
cansem em paz.
Todos: PESA-ME, SENHOR, de todo
o meu coração ter ofendido a vossa infi- Todos: Amém.
nita bondade, proponho com vossa gra-
ça a emenda, e espero que me perdoeis OBS.: O FIEL DEVE FICAR:
por vossa infinita misericórdia. Amém.
DE PÉ: Durante o Cântico e a Leitura
Dirigente: Compadecei-vos de nós, do Texto.
Senhor!
DE JOELHOS: Durante a leitura do
Todos: Compadecei-vos de nós! texto da 12.ª Estação e demais orações.
35
I ESTAÇÃO graça de aceitar com alegria as mortifi-
cações que nos impõe o cumprimento
A morrer crucificado de nossos deveres de estado.
Teu Jesus é condenado Ave Maria…
Por teus crimes, pecador.
III ESTAÇÃO
Jesus é condenado à morte
Pela Cruz tão oprimido,
Dirigente: Cedendo aos clamores dos Cai Jesus desfalecido
judeus, Pilatos condenou Jesus à morte Pela tua salvação.
na Cruz.
O que levou os judeus a pedirem Jesus cai pela primeira vez
a morte de Jesus Cristo foi sua infideli-
dade. Quiseram seguir uma religião do Dirigente: Já esgotado pela insônia,
seu agrado, e não a Religião revelada fome e perda de sangue, Jesus sucum-
pelo Filho de Deus humanado. Nisto be ao peso da cruz e cai por terra.
imitaram a desobediência de Adão e a Nos desígnios de Deus, esta que-
rejeição da vontade de Deus. da é para descontar as ofensas de nos-
Nós estamos na mesma miserá- sos pecados, e para nos alertar contra
vel condição. Humilhemo-nos e peça- nossa presunção. Por nós mesmos só
mos a Nossa Senhora nos alcance a gra- vamos de pecado em pecado, de queda
ça de sermos fiéis à Santíssima Vonta- em queda.
de de seu Divino Filho. Peçamos a Nossa Senhora nos
Ave Maria… alcance a graça da vigilância na oração
e na fuga das ocasiões de pecado.
II ESTAÇÃO Ave Maria…

Com a cruz é carregado IV ESTAÇÃO


E do peso acabrunhado:
Vai morrer por teu amor. De Maria lacrimosa,
Sua Mãe tão dolorosa,
Jesus com a Cruz às costas Vê a imensa compaixão.

Dirigente: Depois da vigília no Horto Jesus encontra-se com


das Oliveiras e da atrocíssima flagela- sua Mãe Santíssima
ção, Jesus se submete ainda ao sacrifí-
cio de carregar a Cruz até aa Calvário. Dirigente: Na agonia, do Horto do Get-
Jesus o fez para reparar os nossos sêmani e no processo infame a que foi
pecados. Aprendamos que sem sacrifí- submetido seu Divino Filho, esteve au-
cio e o habitual espírito de mortifica- sente Maria Santíssima. Quando, po-
ção, nossa religião é vã, vazia, sem me- rém, vai Ele consumar o sacrifício da
recimento. Peçamos a Nossa Senhora a redenção do mundo. Ela se apresenta.
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É que ambos, Jesus e Maria, no VI ESTAÇÃO
decretos do Altíssimo, estão como iden-
tificado na missão redentora do ho- O seu rosto ensanguentado,
mem. É como Mãe dos remidos que Por Verônica enxugado,
Maria coopera na obra da salvação. Eis no pano apareceu.
É a esta Mãe que recorremos para
nos assegurar a fidelidade a seu Divino Verônica enxuga a face de Jesus
Filho, e meio da sociedade paganizada
que nos envolve. Dirigente: Do meio daquela multidão
Ave Maria… sádica que formava o séquito nefando
do Salvador no caminho do Calvário,
V ESTAÇÃO destaca-se uma mulher forte que, ar-
rostando a arrogância dos soldados,
Em extremo desmaiado, aproxima-se de Jesus e com uma toalha
Deve auxílio, tão cansado, Lhe limpa o sagrado rosto desfigurado
Receber do Cirineu. pelo sangue da coroa de espinhos pelos
escarros dos sicários do Sinédrio e pe-
Simão Cirineu ajuda Jesus las bofetadas da soldadesca bestial.
a levar a Cruz Admiremos envergonhados a for-
taleza desta mulher e peçamos a Nossa
Dirigente: A breve trecho, no caminho Senhora nos alcance a graça de nunca
do Calvário, convencem-se os verdu- trairmos por respeito humano nossa
gos do Salvador de que pela extrema religião, com nosso procedimento.
debilidade, consequência das torturas a Ave Maria…
que tinha sido submetido, Jesus Cristo
não estava em condições de carregar o VII ESTAÇÃO
seu patíbulo até ao cimo do monte. For-
çaram Simão de Cirene a carregar a Outra vez desfalecido,
cruz do Salvador. Pelas dores abatido,
Nossa salvação, por vontade de Cai em terra o Salvador.
Deus, não se realiza sem nossa coope-
ração. Precisamos, a nosso modo, aju- Jesus cai pela segunda vez
dar Jesus Cristo a carregar a Cruz. E o
fazemos quando não nos conformamos Dirigente: Não obstante o auxílio do
com a maneira de proceder de uma soci- Cirineu, a enorme fraqueza do Salva-
edade que, na prática, se afastou da aus- dor fê-lo cair uma segunda vez no cami-
teridade cristã. Que Nossa Senhora nos nho do Calvário.
alcance esta graça. Esta segunda queda do Salvador
Ave Maria… lembra nossas repetidas culpas e, de
outro lado, da infinita misericórdia de
Deus que só espera nosso arrependi-
mento para nos soerguer.
37
Que a fraqueza do Redentor que IX ESTAÇÃO
o prostrou por terra, seja a nossa forta-
leza, e não nos permita aceitar um Cai terceira vez prostrado,
meio-catolicismo ao sabor da sensuali- Pelo peso redobrado
dade feito mais de quedas do que de Dos pecados e da cruz.
virtudes.
Ave Maria… Jesus cai pela terceira vez

VIII ESTAÇÃO Dirigente: Novamente a extrema debi-


lidade prostra a Jesus por terra. É mais
Das matronas piedosas, uma humilhação que se junta a todas,
De Sião filhas chorosas as outras igualmente atrozes a que se
É Jesus consolador. sujeitou o Salvador na sua Paixão.
Fê-lo por nosso amor, nossa sal-
Jesus consola as vação, mas também para que compre-
filhas de Jerusalém endêssemos que, sem a aceitação amo-
rosa das humilhações que Nosso Se-
Dirigente: Ao ver os tormentos a que nhor nos envia, não participamos da
os sicários do Sinédrio submetiam Je- Redenção, porquanto não nos asseme-
sus no caminho do Calvário, umas pie- lhamos a Jesus Cristo.
dosas mulheres de Jerusalém não con- Que a Virgem Santíssima, Mãe
tiveram as lágrimas e expandiram em das Dores, nos compenetre desta ver-
altos prantos suas consternação. Jesus, dade.
agradecido, exortou-as a que tornas- Ave Maria…
sem profícuos seus prantos, chorando
mais por elas e seus filhos, do que por X ESTAÇÃO
Ele.
O que Jesus deseja é a nossa sal- Dos vestidos despojado,
vação. Por isso ferem-Lhe mais nossos Por verdugos maltratado
pecados do que O afligem as chagas de Eu Vos vejo, meu Jesus.
seu corpo ou Lhe pesa a coroa de espi-
nhos. “Chorai por vós e por vossos fi- Jesus é despojado de suas vestes
lhos” – nos repete o Senhor, quando
nos vê mais preocupados com nossas Dirigente: Chegado ao Calvário, foi ,
moléstias e os bens terrenos do que Jesus despudoradamente despido de
com os nossos pecados. Abra-nos os suas vestes pela soldadesca imunda.
olhos a virgem Santíssima para purifi- Jesus, o cândido lírio da inocên-
car nosso catolicismo. cia, mais branco, mais puro do que o
Ave Maria… mais puro arminho e que a mais branca
neve, é apresentado nu aos olhos da
multidão, tendo apenas para velar seu
corpo sagrado a túnica do seu sangue
38
sacrossanto. cados. Foi assim que Ele nos libertou
Foi certamente a mais sensível da escravidão do demônio da morte
das humilhações a que nossos pecados eterna, e nos mereceu o céu no seio de
submeteram o Filho de Deus. No en- Deus.
tanto, é a humilhação a que mesmo as Com o coração agradecido,
pessoas que se dizem cristãs e tementes aprendamos a apreciar as humilhações
a Deus, continuam a submeter o Divi- e os sofrimentos com que Deus purifi-
no Salvador. A Virgem Mãe, pureza ca a nossa alma, especialmente quando
alvinitente, nos alcance o apego ao re- exigidos pelo cumprimento dos deve-
cato, à modéstia, ao comedimento, que res de nosso estado.
são as condições indispensáveis para a Ave Maria…
prática da virtude.
Ave Maria… XII ESTAÇÃO

XI ESTAÇÃO Por meus crimes padecestes.


Meus Jesus, por mim morrestes.
Sois por mim à Cruz pregado, Como é grande a minha dor!
Insultado, blasfemado
Com cegueira e com furor. Jesus morre na Cruz

Jesus é pregado na Cruz Dirigente: Depois de três horas de tor-


mentosa agonia, Jesus inclinou a cabe-
Dirigente: Estirado Jesus sobre a Cruz, ça e morreu.
esticaram-Lhe violentamente os mem- Consumou-se o sacrifício. O véu
bros e os cravaram no madeiro com do templo rasgou-se de alto a baixo
grossos e pontiagudos cravos. anunciando a abolição da lei mosaica
O suplício da Cruz era reservado substituída pela lei de Cristo que a aper-
aos escravos, com os quais era legítimo feiçoa e supera, e atinge todos os ho-
não ter a menor comiseração. Além dis- mens.
so, Jesus Cristo foi crucificado entre Exclama São Paulo: “Estou pre-
dois ladrões, como a indicar – diz S. gado na cruz com Cristo.” É este tam-
Boaventura – que era o pior deles. bém o ideal da vida do fiel: unir-se a
Tudo concorria para levar aos ex- Jesus Crucificado. Ou seja, tomar o ca-
tremos os sofrimentos físicos e morais minho da renúncia de si mesmo na obe-
do Divino Salvador. Cravado na Cruz diência aos legítimos superiores, nas
após a flagelação e coroação de espi- humilhações, no espírito de mortifica-
nhos, não é possível imaginar sofri- ção, nos sacrifícios exigidos para o
mentos mais atrozes. Considerado mal- cumprimento dos próprios deveres.
feitor vil e abjeto como os crucifica- São as disposições da alma que pedi-
dos, é impossível humilhação maior. mos à Virgem Santíssima presente ao
Pois esses sofrimentos, essas hu- pé da Cruz.
milhações foram o preço de nossos pe- Ave Maria…
39
XIII ESTAÇÃO sé de Arimateia. Foi Ele deposto num
sepulcro novo, aberto na rocha, no qual
Do madeiro Vos tiraram ninguém tinha ainda sido sepultado.
E à Mãe Vos entregaram, Sobre todos desceu um ambiente
Com que dor e compaixão. de paz que sepultou o alarido da multi-
dão infrene, quando pedia a morte do
Jesus é descido da Cruz Salvador.
A paz do Senhor é a paz de cons-
Dirigente: Nicodemos e José de Ari- ciência que repercute no homem todo,
mateia obtiveram de Pilatos o corpo de dando-lhe a sensação de um profundo
Jesus. Cuidadosamente O retiraram da bem-estar. Esta paz encontramo-la
Cruz e O entregaram à sua Mãe, Maria quando desalojamos de nosso coração
Santíssima, a quem Ele pertencia por os sentimentos egoístas e sensuais para
direito materno. enchê-lo de caridade de Nosso Senhor
A Virgem Mãe contemplou em Jesus Cristo. Virtude que obteremos
silêncio a retidão profunda daquele ros- pela intercessão de Maria Santíssima.
to sempre senhor de si mesmo, embora Ave Maria…
desfigurado pelos atrozes sofrimentos
e morte violenta. Contemplou, adorou, Meu Jesus, por vossos passos,
e O apresentou ao Padre Eterno como Recebei-me em vossos braços,
propiciação pelos nossos pecados, nos- A mim, pobre pecador.
sos de seus filhos adotivos.
Habituemo-nos a viver com Ma- ORAÇÃO FINAL
ria. Ela nos levará a Jesus. Ela nos dará À VIRGEM DOLOROSA
sua graça e seu vigor para triunfarmos
da multidão dos atrativos para o mal Ó Maria, minha Mãe, comparti-
que emergem de uma sociedade imersa lho convosco as dores e sofrimentos
no egoísmo e na sensualidade. que suportastes no corpo e na alma, ao
Ave Maria… acompanhardes Vosso Divino Filho no
caminho do Calvário, e ao assistirdes à
XIV ESTAÇÃO sua dolorosa e humilhante morte na
Cruz.Peço-Vos que me guardeis sob
No sepulcro Vos deixaram, vossa proteção para que não torne a pe-
Sepultado Vos choraram, car, renovando a Paixão de Vosso Divi-
Magoado o coração. no Filho.
(Padre-Nosso e Ave-Maria, na
Jesus é depositado no sepulcro intenção do Sumo Pontífice para se lu-
crarem as indulgências).
Dirigente: Atendida a exigência de seu
direito materno, Maria Santíssima Pela Virgem Dolorosa,
acompanho o enterro de Seu Divino Vossa Mãe tão piedosa,
Filho organizado por Nicodemos e Jo- Perdoai-me, meu Jesus! TC
40
‘‘ mural d e c i t a ç õ e s
’’
QUE FELICIDADE TENS?

“Nada há mais infeliz do que a


IR À MISSA: IR AO CALVÁRIO
felicidade dos que pecam!”
Santo Antônio
“Eis o meio mais adequado para
assistir com fruto à Santa Missa:
BOM NEGÓCIO
consiste em irdes à Igreja como se
fôsseis ao Calvário, e de vos com-
“A salvação da alma é de todos os
portardes, diante do altar, como o
negócios o mais importante; é o
faríeis diante do trono de DEUS,
negócio dos negócios; por isto
em companhia dos Santos Anjos.
merece nossa maior atenção, o
Vede, por conseguinte, que mo-
máximo cuidado da nossa parte”.
déstia, que respeito, que recolhi-
São Pedro Damião
mento são necessários para rece-
ber o fruto e as graças que DEUS
ALMAS DO DEMÔNIO
costuma conceder àqueles que
honram, com sua piedosa atitude,
"O demônio só tenta as almas que
mistérios tão santos”.
querem sair do pecado e as que
estão em estado de graça. As ou-
São Leonardo de Porto Maurício
tras são dele, ele não precisa ten-
tá-las."
São João Maria Vianney

41
AOS QUE NÃO QUEREM ENTENDENDO A JUSTIÇA DE
SOFRER DEUS

"Martírio! eis o sonho de minha “Toda boa obra será remunerada,


juventude! O sonho que cresceu como todo mal terá seu prêmio.
comigo à sombra dos claustros do Quando praticada no estado de
Carmelo... Aí, também, percebo graça, a boa obra merece o céu;
que meu sonho é loucura, pois quando feita em pecado, embora
não conseguiria limitar-me a sem merecimento, terá sua paga
desejar um só gênero de martí- de várias maneiras: umas vezes,
rio... Para me satisfazer, precisa- Deus concede vida mais longa ou
ria de todos eles... Quisera, como inspira a seus servidores contínu-
tu, meu adorado Esposo, ser fla- as orações em favor, com o que
gelada e crucificada... Como São tais pessoas se convertem, outras
Bartolomeu, quisera morrer esfo- vezes, em lugar de vida mais longa
lada... Como São João, quisera e das orações, concede bens mate-
ser escaldada em azeite a ferver. riais. Neste caso, os pecadores são
Quisera submeter-me a todos os como animais de engorda para o
tormentos que Se infligiam aos matadouro. Se recusam conver-
mártires... com Santa Inês e San- ter-se através dos meios acima
ta Cecília, quisera apresentar citados, com que os chamo, vida
meu pescoço à espada, e, como mais longa, preces, Deus recom-
Joana D'Arc, minha querida irmã, pensa o pouco de bem que fazem;
quisera sobre a fogueira murmu- Dá-lhes bens temporais, com os
rar teu nome, ó JESUS... Pensan- quais “engordam”. Não havendo
do nos tormentos que serão a mesmo conversão, vão para o
sorte dos cristãos na era do Anti- inferno.”
cristo, sinto o coração alvoroçar- Santa Catarina de Sena
se, e quisera que tais tormentos
me fossem reservados... Jesus, O MUNDO OU A VERDADE?
Jesus, quisesse escrever todos os
meus desejos, ser-me-ia necessá- “Se o mundo for contra a verda-
rio pedir emprestado teu Livro da de, então Atanásio será contra o
Vida, onde se relatam todos os mundo.”
feitos dos Santos, e quereria tê-los Santo Atanásio
praticado por amor a Ti..."
ESCANDALIZOU-SE?
Santa Teresa de Lisieux
"É preferível que ocorra um es-
cândalo do que esconder a verda-
de"
São Gregório Magno

42
INSTRUÇÕES de ser vistos e tidos por sábios. Muitas
coisas há cujo conhecimento pouco ou
nada aproveita à alma. E mui insensato
PARA A é quem de outras coisas se ocupa e não
das que tocam à sua salvação. As
VIDA muitas palavras não satisfazem à alma,
mas uma palavra boa refrigera o

ESPIRITUAL
espírito e uma consciência pura inspira
grande confiança em Deus.
da Imitação de Cristo Quanto mais e melhor souberes,
tanto mais rigorosamente serás
julgado, se com isso não viveres mais
santamente. Não te desvaneças, pois,
com qualquer arte ou conhecimento
que recebeste. Se te parece que sabes e
entendes bem muitas coisas, lembra-te
que é muito mais o que ignoras. Não te
presumas de alta sabedoria (Rom
11,20); antes, confessa a tua
ignorância. Como tu queres a alguém
te preferir, quando se acham muitos
mais doutos do que tu e mais versados
O humilde sentir na lei? Se queres saber e aprender coisa
de si mesmo útil, deseja ser desconhecido e tido por
nada.
Não há melhor e mais útil estudo
Todo homem tem desejo natural que se conhecer perfeitamente e
de saber; mas que aproveitará a desprezar-se a si mesmo. Ter-se por
ciência, sem o temor de Deus? Melhor nada e pensar sempre bem e
é, por certo, o humilde camponês que favoravelmente dos outros, prova é de
serve a Deus, do que o filósofo soberbo grande sabedoria e perfeição. Ainda
que observa o curso dos astros, mas se q u a n d o v e j a s a l g u é m p e c a r
descuida de si mesmo. Aquele que se publicamente ou cometer faltas graves,
conhece bem se despreza e não se nem por isso te deves julgar melhor,
compraz em humanos louvores. Se eu pois não sabes quanto tempo poderás
soubesse quanto há no mundo, porém perseverar no bem. Nós todos somos
me faltasse a caridade, de que me fracos, mas a ninguém deves
serviria isso perante Deus, que me há considerar mais fraco que a ti mesmo.
de julgar segundo minhas obras?
Renuncia ao desordenado desejo
de saber, porque nele há muita Da obra“ Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis
distração e ilusão. Os letrados gostam

43
os santos nos ensinam a sermos santos
Eles são santos por que nos provaram que é possível viver o evangelho, cumprir os preceitos
cristãos. Quem conhece suas vidas, suas obras, os reconhecem como exemplos a serem
seguidos. Seus ensinamentos são expressões da mais pura teologia da doutrina cristã.

dom bosco
Leitura espiritual o v e n s
par a j
Considerações para cada dia da semana
Desejando eu muito que cada dia façais um pouco de leitura espiritual, e
como acho que nem todos podeis ter à mão livros apropriados para isto, apresento-
-vos aqui sete breves considerações, uma para cada dia da semana, com o fim de
servirem aos que não podem ler outros livros deste gênero. Antes de começar a
leitura, reze de joelhos esta oração:

“Meu Deus, arrependo-me de todo meu coração de vos ter ofendido;


concedei-me a graça de compreender bem as verdades que vou meditar e
abrasai-me no vosso amor. Virgem Maria, Mãe de Jesus, Anjo de minha
guarda, Santos e Santas do Céu, roguem por mim”.

DOMINGO nura de pai e criou-te para este único


fim: para que o ames e o sirvas nesta
Fim do homem vida e possas assim ser um dia eterna-
mente feliz com Ele no Céu.
Considera, meu filho, que este Não estás portanto no mundo so-
teu corpo, esta tua alma te foram dados mente para gozar, nem para enriquecer,
por Deus, sem nenhum merecimento nem para comer, beber e dormir, como
de tua parte, quando te criou à sua ima- os animais; o teu fim é muitíssimo mais
gem. Ele te fez seu filho no Santo Ba- nobre e mais sublime; o teu fim é amar
tismo; amou-te e ama-te ainda com ter- e servir ao teu Deus e salvar a tua alma.
44
Se assim fizeres, quantas consolações, médico te venha depois curar a ferida?
experimentarás na hora da morte! Mas Afasta pois a enganadora ideia de
se não procurares servir a Deus, quan- poderes entregar-te a Deus mais tarde;
tos remorsos terás no fim da vida! As neste mesmo momento detesta e aban-
riquezas, os prazeres que buscaste com dona o pecado, que é o maior de todos s
tanto empenho, somente te servirão males e que, afastando-te de teu fim, te
para amargurar o teu coração e então priva de todos os bens.
conhecerá o mal que tais coisas fize- Quero ainda indicar á tua consi-
ram á tua alma. deração um laço terrível com que o de-
Meu filho, não queiras de modo mônio prende e arrasta á perdição tan-
algum ser do número daqueles que pen- tos cristãos: é deixar que aprendam as
sam somente em satisfazer o corpo coisas da religião, mas não as prati-
com atos, conversas e divertimentos quem. Eles sabem que foram criados
maus. Naquela hora extrema, esses se por Deus par amá-Lo e servi-Lo e en-
encontrarão em grande perigo de se tretanto, com suas obras, parece que
condenarem eternamente. Um secretá- buscam somente a própria ruína. Q u-
rio do rei da Inglaterra expirava dizen- antas pessoas não vemos nós neste
do: “Ai de mim! Gastei tanto papel em mundo que em tudo pensam menos em
escrever as cartas do meu príncipe e salvar-se? Se digo a um jovem que fre-
não usei uma folha para tomar nota dos quente os Sacramentos que faça um
meus pecados e fazer uma boa confis- pouco de oração, responde-me: “Te-
são!”. nho mais que fazer; preciso trabalhar,
Torna-se ainda maior aos teus preciso divertir-me”.
olhos a importância deste fim, se con- Ó infeliz! E acaso não tens uma
sideras que dele depende a tua salvação alma para salvar?
ou a tua perdição. Se salvas a alma, tu- Por isso, tu, ó jovem cristão, que
do estará bem e gozarás para sempre; lês esta consideração, vê lá, não te dei-
mas se não alcançares isto, perderás xes enganar desta maneira pelo demô-
alma e corpo, Deus e Paraíso e serás nio; promete a deus que tudo o que fize-
condenado para sempre. Não imiteis res ou disseres e pensares no futuro se-
aqueles infelizes que se iludem dizen- rá para o bem da tua alma; porque seria
do: “Cometerei este pecado, mas depo- a maior loucura ocupar-te com tanto
is me confessarei”. Não te enganes a ti empenho no que acaba tão depressa e
mesmo desta forma: Deus amaldiçoa a pensar tão pouco na eternidade, que
quem peca na esperança do perdão. nunca há de acabar. São Luis podia ter
Lembra-te que todos os que estão no prazeres, riquezas e honras, mas re-
inferno tinham esperança de emendar- nunciou a tudo dizendo: “Que me serve
se mais tarde e no entanto se perderam tudo isto para a minha eternidade?” –
eternamente. Quem sabe se depois te- Conclui também tu da mesma maneira:
rás tempo para confessar-te? Quem te “Tenho uma alma; se a perco, perco tu-
garante que não hajas de morrer logo do. Que me vale ganhar o mundo intei-
depois do pecado e que a tua alma não ro, se isto for com prejuízo de minha
seja precipitada no inferno? Além dis- alma? De que me serve vir a ser um
so, que grande loucura não seria ferir- grande homem, um ricaço, adquirir fa-
-te a ti mesmo na esperança de que o ma de sábio tornando-me conhecedor
45
de todas as artes e ciências deste mun- pés, são todos dons de Deus e tu deles
do, se depois vier a perder a minha al- te serviste para ofendê-lO! Ah! Ouve
ma? De nada te serviria toda a sabedo- pois o que te diz o Senhor: “Filho, eu te
ria de Salomão, se vieres a perder-te. criei do nada; dei-te tudo o que agora
Dize pois assim: “Fui criado por tens, fiz-te nascer na verdadeira reli-
Deus para salvar a minha alma e a que- gião e receber o Santo Batismo. Podia
ro salvar a todo o custo; quero que no deixar-te morrer quando estavas no pe-
futuro o único fim das minhas ações cado: conservei-te a vida para não te
seja amar a Deus e salvar a minha alma. condenar ao inferno; e tu, esquecido de
Trata-se de ser ou para sempre feliz ou tantos benefícios, queres servir-te dos
para sempre infeliz. Perca-se tudo con- meus próprios dons para ofender-
tanto que me salve! Meu Deus, conce- Me?” Quem não se sentirá tomado de
da-me o perdão dos meus pecados e profundo pesar por ter feito tamanha
fazei que não caia jamais na desgraça injúria a um Deus tão bom, tão benfa-
de ofender-vos. Ajudai-me com a vos- zejo para conosco, suas criaturas?
sa santa graça para que possa fielmente Deves ainda considerar que este
amar-Vos e servir-Vos fielmente no fu- Deus, embora seja bom e infinitamente
turo. Maria, minha esperança, interce- misericordioso, todavia fica muito in-
dei por mim”. dignado quando o ofendes. Por isso,
quanto mais tempo viveres no pecado,
SEGUNDA-FEIRA tanto mais vais provocando e acumu-
lando a ira de Deus contra ti. Deves por-
O pecado mortal tanto recear muito que os teus pecados
cheguem a tal número que Ele por fim
Oh! Se soubesses, meu filho, o te abandone. In plenitúdine peccató-
que fazes quando cometes um pecado rum púniet. Não que isto aconteça por
mortal? Dás as costas aquele Deus que te faltar a misericórdia divina, mas é
te criou e te cumulou de benefícios; des- que te faltará o tempo para pedir per-
prezas a sua graça e a sua amizade. dão, pois que não merece a misericór-
Quem peca diz com os fatos ao dia de Deus quem abusa para ofendê-
Senhor: “Apartai-vos de mim, já não -lO. Com efeito, quantos viveram no
quero obedecer-Vos, não vos quero ser- pecado na esperança de converter-se e
vir, não vos quero reconhecer por meu entretanto chegou a morte e faltou-lhes
Senhor: Non sérviam. O meu Deus é o tempo para disporem os negócios da
aquele prazer, aquela vingança, aquele consciências e agora estão eternamen-
ódio, aquela conversação obscena, te perdidos! Teme que não te venha
aquela blasfêmia”. Poder-se-á imagi- acontecer a mesma coisa a ti. Depois
nar ingratidão mais monstruosa do que de tantos pecados que Deus te perdoou,
esta? Entretanto, meu filho, tudo isto deves com razão recear que, com mais
fizeste quando ofendes-te ao teu Se- algum pecado mortal, a ira divina te
nhor. fulmine e te precipite no inferno. Dê
Maior ainda se torna esta ingrati- graças a Deus por ter-te esperado até
dão, refletindo que, para pecar, serviste agora e toma desde já uma firme reso-
das mesmas coisas que Deus te deu. lução dizendo: “Basta, meu Deus; o
Ouvidos, olhos, boca, língua, mãos, pouco de vida que ainda me resta não a
46
quero desperdiçar em ofender-Vos; hei violento, mas aos poucos e precedida
de empregá-la em vos amar e chorar os de uma doença comum. Mas há de che-
meus pecados. Arrependo-me de todo gar um dia no qual, estendido numa ca-
o coração. Meu Jesus, quero amar-Vos; ma, estarás prestes a passar a eternida-
dê-me força. Virgem santíssima, Mãe de, assistido por um sacerdote que en-
de meu Jesus, ajudai-me. Assim seja”. comendará tua alma, tendo um crucifi-
xo ao lado e uma vela acesa do outro, e
TERÇA-FEIRA derredor os aparentes que choram. Te-
rás a cabeça dolorida, os embaçados, a
A morte língua ressequida, a garganta presa, a
respiração ofegante, o sangue a arrefe-
A morte é a separação da alma do cer, o corpo consumido, o coração afli-
corpo, como total abandono das coisas to. E logo que a alma expire, o teu cor-
deste mundo. Considera portanto, meu po vestido de poucos andrajos será a
filho, que a tua alma deverá separar-se apodrecer em uma cova. Aí os ratos e
do corpo; mas não sabes se a morte te os vermes roeram todas as tuas carnes e
assalta na tua cama, ou durante o traba- de ti restaram apenas quatros ossos des-
lho, ou na rua, ou em outra parte. carnados e um pó nauseabundo. Abre
A ruptura de uma veia, um catar- um sepulcro e vê a que ficou reduzido
ro, uma hemorragia, uma febre, uma aquele jovem rico, aquele ambicioso,
chaga, uma queda, um terremoto, um aquele soberbo. Lê com atenção estas
raio, bastam para te tirar a vida. Isso linhas, meu filho, e lembra-te que elas
pode acontecer daqui a um ano, daqui a se aplicam também a ti igualmente co-
um mês, a uma semana, a uma hora e mo a todos os demais homens. Agora o
talvez ao terminar a leitura desta consi- demônio, para induzir-te a pecar, pro-
deração. Quantos se deitaram à noite cura arrancar-te deste pensamento e
cheios de saúde e de manhã foram en- levar-te a escusar a tua culpa, dizendo-
contrados mortos! Quantos acometi- te não ser enfim tão grande mal aquele
dos de algum ataque morreram de re- prazer, aquela desobediência, aquela
pente! E depois para onde foram? S e omissão da missa nos domingos; mas
estava na graça de Deus, felizes deles! na hora da morte descobrir-te-á a gra-
Gozarão para sempre. Se, pelo contrá- vidade destes e de outros teus pecados,
rio, se achavam em pecado mortal, es- pondo-os diante de ti. E que haverás de
tão para sempre perdidos. Dizei-me, fazer tu então, no ponto de te encami-
filho, se tivesses que morrer neste ins- nhares para tua eternidade? Ai de
tante, o que seria de tua alma? Ai de ti, quem, se achar em desgraça de Deus
se não te manténs sempre preparado! naquele momento!
Quem não está hoje preparado para Considera que do instante da mor-
bem morrer, corre grande perigo de te depende a tua eterna salvação ou eter-
morrer mal. na perdição. Nas proximidades da mor-
Embora seja incerto o lugar e in- te, ao avizinhar-se aquela última vez
certa a hora de tua morte, é porém mui- que se fecha a boca, a luz daquela vela,
to certo que a morte há de vir. Quero quantas coisas se hão de ver! Duas ve-
esperar que a última hora de tua vida zes temos diante de nós uma vela ace-
não venha repentinamente ou de modo sa: Quando somos batizados e em pon-
47
to de morte; a primeira vez, para co- terrível momento. Jesus, José e Maria,
nhecermos os preceitos da lei divina espire em paz entre vós a minha alma.
que devemos guardar; A segunda, para
que vejamos se os temos cumprido. QUARTA-FEIRA
Por isso, meu filho, a luz dessa vela hás
de ver se amas-te o teu Deus ou se o des- O Juízo
prezas-te; se honras-te o seu santo no-
me ou se O blasfemaste; hás de ver os O Juízo é a sentença que o salva-
dias santos profanados, as missas dei- dor há de pronunciar no fim de nossa
xadas, as desobediências aos superio- vida, sentença com a qual fixará o des-
res, os maus exemplos dados aos com- tino de cada um por toda a eternidade.
panheiros; verás aquela soberba, aque- Apenas a alma tiver saído do corpo,
le orgulho que te lisonjeava; verás... comparecerá logo perante o supremo
mas, oh! Deus! Tudo verás naquele mo- juiz. A primeira coisa que torna este
mento, no qual se abrirá diante de ti o comparecimento terrível á alma do pe-
caminho da eternidade: Moméntum a cador, é que a alma se encontrará sozi-
quo pendet aéternitas. Oh! grande, oh! nha na presença de um Deus despreza-
terrível momento, do qual depende do, de um Deus que conhece todos os
uma eternidade de glória ou de tormen- segredos do nosso coração, todos os
tos! compreendes bem o que te digo? nossos pensamentos. E que levare-
Quero dizer que daquele momento de- mos conosco? Levaremos aquele pou-
pende ir para o Céu ou para o inferno; co de bem ou de mal que tivermos feito
ser para sempre feliz ou para sempre durante a vida: Ut réferat unusquísque
infeliz; para sempre filho de Deus ou própria corporis, prout gessit, sive bo-
para sempre escravo do demônio; para num, sive malum. Não se pode então
sempre gozar com os anjos com os san- inventar nem escusa nem pretexto ne-
tos no céu ou gemer e arder para sem- nhum. Santo Agostinho, falando deste
pre com os condenados no inferno! tremendo comparecimento, disse: “Qu-
Teme grandemente pela tua alma ando tu, ó homem, compareceres dian-
e pensa que do viver bem depende uma te do criador para seres julgado, terás
boa morte e uma eternidade de glória. sobre tua cabeça um juiz indignado; de
Por isso, não difiras por mais tempo e um lado os pecados que te acusam; de
prepara-te desde já para fazer uma boa outro os demônios prontos a executar a
confissão e dispor bem as coisas da tua condenação; dentro de ti uma cons-
consciência, prometendo a Nosso Se- ciência que te agita e te atormenta; de-
nhor perdoar os teus inimigos, reparar baixo de ti um inferno aberto, pronto a
os escândalos dados, santificar os dias tragar-te. Em tais apertos, para onde
de guarda, cumprir os deveres do teu irás, para onde fugirás?” Feliz de ti, ó
estado. meu filho, se tiveres feito o bem duran-
E agora, põe-te na presença de te a tua vida. Entretanto o divino juiz
teu Deus e dize-Lhe de coração: Meu abrirá os livros da consciência e come-
Deus, desde este momento eu me con- çará o exame: Judícium sedit, et livre
verto a Vós; amo-Vos, quero amar-Vos apérti sunt.
e servir-Vos até a morte. Virgem santís- Então dirá aquele juiz inapelável:
sima, minha Mãe, ajudai-me naquele quem és tu? – Sou um Cristão, respon-
48
derás. – Bem, replicará Ele; se és Cris- dição. Agora pague a tua alma por aque-
tão, vamos ver se procedeste como la outra que deitaste a perder com os
Cristão. Em seguida começará a recor- teus escândalos: Répetam anima tuam
dar as promessas feitas no Santo Batis- pro anima illíus.
mo, pelas quais renunciaste ao demô- Que te parece, meu filho, deste
nio, ao mundo, á carne; lembrar-te-á as exame? Que te diz a consciência? Estás
graças que te concedeu, as muitas ve- ainda em tempo, se quiseres; pede a De-
zes que recebeste os sacramentos, as us perdão de teus pecados e faze um
pregações, as instruções, os avisos dos sincero propósito de não tornar a pecar;
confessores, as correções dos pais: Tu- começa desde hoje uma vida de bom
do será posto diante de ti. –Mas tu, dirá cristão, preparando-te assim um tesou-
então o divino juiz, apesar de tantos ro de boas obras para o dia em que deve-
dons, de tantas graças, oh! Quão mal rás comparecer perante o tribunal de
correspondestes a tua profissão de cris- Jesus Cristo.
tão! Mal chegando a idade em que ape- Á vista das rigorosas contas que o
nas começavas a conhecer-Me, come- juiz supremo exige do pecador, tentará
çaste a ofender-Me com mentiras, com este abduzir alguma escusa ao pretex-
faltas de respeito na igreja, com deso- to, dizendo que não sabia que deveria
bediências a teus pais e com muitas ou- ser submetido a um exame tão rigoro-
tras transgressões dos teus deveres. so. Mas receberá esta resposta: E não
Ainda bem se com o ocorrer dos anos ouviste aquele sermão e aquela expli-
tivesses melhorado o teu procedimen- cação do catecismo? Não leste naquele
to; mas não: Justamente com a idade livro que eu haveria de pedir rigorosas
aumentou em ti, infelizmente, também contas de tudo? O infeliz então se enco-
o desprezo a minha lei. Missas perdi- mendará a misericórdia divina; mas a
das, profanação dos dias santos, blas- misericórdia não é mais para ele, por-
fêmias, jejuns não observados, confis- que não merece misericórdia quem por
sões mal feitas, comunhões às vezes tanto tempo dela abusou e porque na
sacrílegas, escândalos dados aos com- morte termina o tempo da misericór-
panheiros: Eis o que fizeste em vez de dia. Recomendar-se-á aos anjos, aos
servir-Me. santos, a Maria Santíssima; e Maria
Voltar-se-á para o escandaloso, responderá por todos: Agora é que pe-
cheio de indignação, dizendo: Vês des o meu auxílio? Não me quiseste
aquela alma que caminha pela estrada por Mãe durante a vida e agora já não te
do pecado? Foste tu, com as tuas con- quero por filho; já não te conheço.
versas imorais, que lhe ensinaste a Então o pecador, não encontrando mais
malícia. Tu, como cristão que és, devi- nenhum refúgio, bradará as monta-
as ensinar com o bom exemplo o cami- nhas, aos rochedos, que o cubram e
nho do Céu aos teus companheiros; pe- eles não se moveram.
lo contrário, traindo o meu sangue, lhes Invocará o inferno e vê-lo-á aber-
ensinaste o caminho da perdição. Vês to: Inférius horréndum chaos. Esse é o
aquela alma no inferno? Foste tu com momento em que o inexorável juiz pro-
os teus pérfidos conselhos, que a arran- ferirá a tremenda sentença: filho infiel,
caste a mim para entregá-la ao demô- dirá, para longe de mim. Meu Pai ce-
nio. Foste tu a causa de sua eterna per- leste te amaldiçoou: Eu também te
49
amaldiçoo. Vai para o fogo eterno a ge- QUINTA-FEIRA
mer e sofrer com os demônios por toda
a eternidade. Aquela alma infeliz, an- O Inferno
tes de afastar-se para sempre do seu De-
us, volverá pela última vez o olhar ao O inferno é um lugar destinado
Céu e no auge da desolação dirá: Ade- pela justiça divina para punir com su-
us, companheiros, adeus, amigos que plícios eternos os que morrem em peca-
habitais o reino da glória; adeus, pai, do mortal. A primeira pena que os con-
mãe, irmãos, irmãs; vós gozareis para denados sofrem no inferno, é a pena
sempre e eu serei para sempre ator- dos sentidos, que são atormentados por
mentado. Adeus, meu anjo da guarda, um fogo que queima horrivelmente,
anjos e santos todos do paraíso: Não sem nunca diminuir de intensidade.
vos tornarei a ver jamais. Adeus, ó Sal- Fogo nos olhos, fogo na boca, fogo em
vador, adeus ó cruz santa, adeus, ó san- todas as partes. Cada sentido sofre a
gue em vão por mim derramado; não própria pena; os olhos sofrem pela fu-
vos tornarei a ver jamais. Desde este maça e pelas trevas e são aterrados pela
momento eu não sou filho de Deus; se- vista dos demônios e dos outros conde-
rei para sempre escravos dos demônios nados. Os ouvidos, dia e noite só escu-
no inferno. Então os demônios, que se tam contínuos uivos, prantos e blasfê-
tornaram senhores desta alma, arras- mias. O olfato sofre enormemente pelo
tando-a e empurrando-a, a farão cair mal cheiro daquele enxofre e pez ar-
nos seu abismos de torturas, de miséri- dente que o sufoca. A boca é atormen-
as, de tormentos eternos. tada por sede devoradora e fome cani-
Meu filho, não receais que tal sen- na: At famem patiéntur ut canes. O
tença seja também a tua? Ah! por amor mau rico no meio daqueles tormentos,
de Jesus e de Maria, prepara com boas ergueu o olhar ao céu e pediu, como
obras uma sentença favorável e lem- grande graça, uma pequena gota de
bra-te que como é terrível a sentença água para mitigar a aridez de sua língua
proferida contra o pecador, igualmente e também essa gota de água lhe foi ne-
consolador será o convite que há de diri- gada. Por isso aqueles infelizes, reque-
gir Jesus a quem viveu cristãmente. imados de sede, devorados pelas cha-
Vem, dirá, vem para posse da glória mas, atormentados pelo fogo, choram,
que te preparei. Tu me serviste com fi- gritam e se desesperam. Oh! inferno,
delidade no breve tempo de tua vida; inferno! Como são infelizes os que ca-
agora gozarás eternamente: Intra in em em teus abismos! - E Tu que dizes,
gáudium Dómine tui. meu filho? Se tivesses que morrer nes-
Meu Jesus, concedei-me a graça te instante, para onde irias? Se agora
de poder ser também eu um desses não podes conservar um dedo sobre
bem-aventurados.Virgem santíssima, uma pequena chama de vela, se não po-
ajudai-me; protegei-me na vida e na des aguentar nenhuma fagulha de fogo
morte e especialmente quando me apre- na mão sem gritar, como poderás
sentar ao vosso Filho para ser julgado. aguentar-te então entre aquelas cha-
mas por toda a eternidade?
Considera além disso, meu filho,
o remorso que experimenta a consciên-
50
cia dos condenados. Eles padeceram o não te abandona e não te deixa cair na-
inferno na memória, na inteligência, na queles eternos suplícios! Oh! meu Je-
vontade. Recordaram continuamente o sus, livrai-me do inferno!
motivo da sua perdição, isto é, por te-
rem querido secundar alguma paixão. SEXTA-FEIRA
Esta lembrança é o verme que nunca
morre: Vermis eórum non móritur. A Eternidade das Penas
Recordaram o tempo que Deus
lhes deu para evitar a perdição, os bons Considera, meu filho, que se fo-
exemplos dos companheiros, os propó- res para o inferno, nunca mais dele sai-
sitos feitos e não cumpridos. Pensarão rás. Lá se sofrem as penas e todas eter-
nos sermões ouvidos, nos avisos do namente. Passarão cem anos que caíste
confessor, nas boas inspirações para no inferno, passarão mil e o inferno es-
deixar o pecado; vendo que já não há tará ainda em seu começo; passarão
remédio, lançarão gritos desesperados. cem mil, cem milhões, passarão mi-
A vontade nada terá do que deseja e ao lhões de séculos e o inferno terá apenas
contrário padecerá todos os males. A principiado. Se um anjo levasse aos
inteligência conhecerá finalmente o condenados a notícia que Deus os quer
grande bem que perdeu. libertar do inferno depois de passados
A alma separada do corpo, ao tantos milhões de séculos quantas são
apresentar-se no tribunal divino, entre- as gotas de água do mar, as folhas das
vê a beleza de Deus, conhece toda a sua árvores e os grãos de areia da terra, esta
bondade, chega quase a contemplar notícia lhes causaria a maior satisfa-
por um instante o esplendor do paraíso, ção. É verdade, diriam, que devem pas-
ouve talvez também os cantos harmo- sar ainda tantos séculos, mas um dia
niosíssimos dos anjos e dos santos. hão de acabar. Pelo contrário, passarão
Que dor ver que tudo isso se perdeu pa- todos estes séculos e todos os tempos
ra sempre! Que poderá resistir a tais que se possam imaginar e o inferno es-
tormentos? tará sempre no princípio. Todos os con-
Meu filho, tu que agora não se denados fariam de boa vontade com
importas de perder o teu Deus e o para- Deus o seguinte pacto: Senhor, aumen-
íso, conhecerás a tua cegueira quando tai quanto entenderdes este meu suplí-
vires tantos companheiros teus, mais cio; deixai-me nestes tormentos por
ignorantes e mais pobres do que tu, tri- quanto tempo quiserdes, contanto que
unfarem e gozarem no reino dos céus, me deis a esperança de que um dia hão
ao passo que tu serás amaldiçoado por de acabar. Mas nada; esta esperança,
Deus e serás arrojado para longe da- este termo nunca chegará.
quela pátria feliz, do gozo do mesmo Se ao menos o pobre condenado
Deus, da companhia da Santíssima Vir- pudesse enganar-se a si mesmo e ilu-
gem e dos santos. dir-se dizendo:
Eia pois, faze penitência, não es- Quem sabe, um dia talvez terá
peres para quando não houver mais Deus piedade de mim e me arrancará
tempo, entrega-te a Deus. Quem sabe deste abismo! Mas não, nem isto: verá
se não é este o último chamado e, se sempre escrita diante de si a sentença
não correspondes, quem sabe se Deus de sua eternidade infeliz. Pois então,
51
irá ele dizendo, todas estas penas, este o mundo, a pátria, os parentes, foram
fogo, estes gritos, nunca mais acabarão viver isolados nas cavernas, nos deser-
para mim? Não, lhe será respondido, tos, alimentando-se somente de pão e
não, jamais. E durarão sempre? Sem- água, e até às vezes só de raízes, e tudo
pre, por toda a eternidade. Sempre, ve- isto para evitar o inferno! E tu que fa-
rá escrito naquelas chamas que quei- zes, depois de tantas vezes que mere-
mam: sempre, na ponta das espadas ceste o inferno com o pecado, que fa-
que o transpassam; sempre, naqueles zes? Lança-te aos pés do teu Deus e di-
demônios que o atormentam; sempre, ze-Lhe: “Senhor, estou pronto a fazer o
naquelas portas eternamente fechadas que Vós quiserdes; nunca mais hei de
para ele. Oh! eternidade! Oh! Abismo pecar em minha vida; já por demais vos
sem fundo! Oh! Mar sem praias! Oh! tenho ofendido; mandai-me todos os
Caverna sem saída! Quem não tremerá sofrimentos que quiserdes durante esta
ao pensar em ti? Maldito pecado! Que vida, contanto que eu possa salvar a mi-
tremendos suplícios preparas para nha alma”.
quem te comete! Ah! nunca mais, nun-
ca mais pecarei durante a minha vida. SÁBADO
Mas o que deve encher de pavor é
pensar que aquela horrível fornalha O Paraíso
está sempre aberta debaixo de teus pés
e que é suficiente um só pecado mortal Quanto nos apavora o pensamen-
para lá te fazer cair. Compreendes bem, to e a consideração do inferno, igual-
meu filho, o que estás lendo? Uma pe- mente nos consola a lembrança do Para-
na eterna por um só mortal que come- íso, preparado por Deus para todos os
tes com tanta facilidade. Uma blasfê- que o amam e o servem durante esta
mia, uma profanação dos dia santos, vida. Para que possas fazer dele uma
um furto, um ódio, uma palavra, um ideia, contempla uma noite serena. Co-
ato, um pensamento obsceno basta pa- mo é belo contemplar o céu com aquela
ra seres condenado ás penas do infer- multidão e variedade de estrelas!
no. Oh! meu filho, escuta pois o meu Umas menores, outras maiores, outras
conselho: Se a consciência te acusa de estão prestes a desaparecer. Todas po-
algum pecado, vai depressa confessar- rém com boa ordem e segundo a vonta-
te para começar uma vida boa. Põe em de do seu Criador.
prática todos os meios que te indicar o Acrescenta a isto a visão de um
confessor. Se for necessário, faze uma belo dia, mas de tal forma que o esplen-
confissão geral. Promete que hás de dor do sol não ofusque a claridade das
fugir das ocasiões perigosas, dos maus estrelas e da lua. Supõe além disto ter a
companheiros e se Deus te indicasse mão tudo o que de belo se encontrar no
até que deves deixar o mundo, segue mar, na terra, nos povoados, nas cida-
logo a sua voz. des, nos paços dos reis e dos monarcas
Tudo que se fizer para evitar uma do mundo inteiro. Acrescenta a isto as
eternidade de tormentos, é pouco, é na- bebidas mais delicadas, os alimentos
da: Nulla nímia secúritas, ubi pericli- mais saborosos, a música mais doce, a
tátur aetérnitas.(São Bernardo).Oh! harmonia mais suave. Pois bem: tudo
quantos na flor da idade abandonaram isto junto não é nada em comparação
52
da excelência, dos bens, dos gozos do ra de si: Senhor, bom é para nós que fi-
Paraíso. Oh! como bem merece ser de- quemos aqui. E lá teria ficado para sem-
sejado e ardentemente amado aquele pre.
lugar onde se goza de todos os bens! O Que prazer não será pois contem-
bem-aventurado não poderá deixar de plar, não por um instante, mas para sem-
exclamar: Estou saciado da glória do pre, para sempre gozar desse rosto divi-
Senhor: Satiábor cum apparúerit gló- no que enleva os Anjos e os santos e
ria tua. que aformoseia todo o Paraíso! E a bele-
Considera além disso o gozo que za e amabilidade de Maria, de que pra-
inundará a tua alma ao entrares no Para- zer deve também encher o coração do
íso. O encontro, o acolhimento dos ami- bem-aventurado! Oh! Sim! Quanto são
gos; a nobreza, a beleza dos Querubins, amáveis os teus tabernáculos , ó Se-
dos Serafins, de todos os Anjos e de to- nhor!
dos os Santos, que aos milhões e mi- Quam dilécta tabernácula tua,
lhões louvam o Criador; o Coro dos Dómine virtútum! Por isso os coros dos
Apóstolos, a multidão imensa dos Már- anjos e dos bem-aventurados cantam a
tires, dos Confessores, das Virgens. Há sua glória dizendo: Santo, Santo, Santo
também um exército enorme de jovens é o Deus dos exércitos. A ele seja dada
que, por terem conservado a virtude da honra e glória por todos os séculos.
pureza, cantam a Deus um hino que nin- Coragem pois, meu filho; neste
guém mais pode entoar. Oh! quanto mundo terão que sofrer alguma coisa,
gozam naquele reino os bem- mas não importa: o prêmio que hás de
aventurados! Sempre mergulhados na receber no Céu compensará infinita-
alegria, sem a menor doença, sem des- mente todos os teus sofrimentos.Que
gostos e preocupações que perturbem a consolação não será a tua, quando te
sua paz e o seu gozo. encontrares no Céu na companhia dos
Considera além disso, meu filho, parentes, dos amigos, dos Santos, dos
que todos os bens até aqui considera- Bem-aventurados e exclamares: Estou
dos são um nada em comparação do salvo e estarei sempre com Deus.
grande prazer que se experimenta na Então é que hás de abençoar a hora em
visão de Deus. Ele alegra os bem- que abandonaste o pecado, a hora em
aventurados com o seu olhar amorável que fizeste aquela boa confissão e co-
e derrama no seu coração um mar de meçaste a frequentar os sacramentos, o
delícias. dia em que deixaste os maus compa-
Da mesma forma que o sol ilumi- nheiros e te entregaste à virtude; e che-
na e embeleza o mundo inteiro, assim io de gratidão te volverás para o teu De-
Deus, com a sua presença ilumina todo us e cantarás. TC
o Paraíso e enche os seus afortunados
habitadores de gozos inefáveis. Nele
hás de ver, como em um espelho, todas
as coisas, gozarás de todos os prazeres Fonte: O jovem instruído na prática de seus deveres religiosos
da mente e do coração. São Pedro no
Monte Tabor, por ter visto uma só vez o
rosto de Jesus radiante de luz, ficou re-
pleto de tanta doçura que exclamou fo-
53
ORAÇÃO PARA ALCANÇAR UMA BOA MORTE

Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Ó


meu Deus. Ei de morrer com certeza, mas não sei quando,
nem de que modo, nem onde. Só uma coisa sei, que perecerei
eternamente, se expirar em algum pecado mortal.
Beatíssima Virgem Maria, Santa Mãe de Deus, rogai
por mim pecador agora e na hora de minha morte. Amém.
.

Fonte: Adoremus. Manual de Orações e Exercícios Piedosos, por D. Frei Eduardo José Herberhold, OFM

54
A doutrina do Verbo
Mas eu então julgava de outro mo-
do. Considerava meu Senhor Jesus Cris-
to apenas um homem de extraordinária
sabedoria, a quem ninguém poderia igua-
lar. Sobretudo seu miraculoso nascimen-
to de uma virgem, que nos ensina a des-
prezar os bens temporais para adquirir a
imortalidade. Parecia-me ter merecido,
por decreto da Providência divina, uma
soberana autoridade para ensinar os ho-
mens.
Mas nem suspeitava o mistério que
se encerra nestas palavras: o Verbo se fez
carne. Somente conhecia, pelas coisas
que dele nos deixaram escritas, que co-
meu, bebeu, dormiu, passeou, que se ale-
grou, se entristeceu e pregou, e que essa
carne não se juntou a teu Verbo senão
com alma e inteligência humanas. Tudo
isso sabe quem conhece a imutabilidade
de teu Verbo, que eu já conhecia quanto
me era possível, sem que disso nada duvi-
dasse
Com efeito, mover os membros do
corpo à vontade, ou não movê-los, estar
dominado por algum afeto ou não o estar,
traduzir por palavras sábios pensamen-
tos e depois calar, são caracteres próprios
da mutabilidade da alma e da inteligên-
cia. Se esses testemunhos das Escrituras
fossem falsos, tudo o mais correria o ris-
co de ser mentira, e o gênero humano não
teria mais nesses livros a fé, condição de
salvação. Mas como são verdadeiras as
coisas nela escritas, eu reconhecia em
55
Cristo um homem completo, não so-
mente o corpo de um homem, ou um
corpo sem uma alma inteligente, mas Capela
um homem real, que eu julgava superi-
or a todos os outros não por ser a perso- SANTO
nificação da verdade, mas em razão da
singular excelência de sua natureza hu- AGOSTINHO
mana, e de uma mais perfeita participa- COMUNIDADE DE TRADIÇÃO CATÓLICA EM PARNAÍBA - PI

ção na sabedoria.
Alípio porém pensava que os ca-
tólicos, crendo em um Deus revestido
de carne, entendiam que em Cristo,
além de Deus e da carne, não havia al-
ma humana; e não julgava que lhe atri-
buíssem inteligência humana. E como
estava bem persuadido de que os atos
atribuídos tradicionalmente a Cristo
não podiam ser senão obras de um cria-
tura cheia de vida e de inteligência, Alí-
pio se aproximava com certa relutância
da fé cristã. Mas depois, ao saber que Rua José Bonifácio, 589
Bairro São Francisco
este erro era próprios dos hereges apo- Parnaíba - Piauí
linaristas, aderiu alegremente à fé cató-
lica.
De minha parte, confesso que só
ATIVIDADES
aprendi mais tarde a diferença de inter-
pretação das palavras “o Verbo se fez Sábados:
carne”, entre a verdade católica e o erro
do Fotino (bispo de Sírmio, afirmava 18:30 h: Reza do Santo Terço
que o Verbo não havia sido Filho de De- 19:00 h: Catecismo da Crise na Igreja
us até encarnar-se nas entranhas da Vir-
gem Maria, negando toda união subs- Domingos:
tancial entre a natureza humana e o Ver-
bo divino). A reprovação dos hereges 17:00 h: Catecismo para crianças
põe às claras o pensamento da tua Igre- 18:30 h: Reza do Santo Terço
ja e o que esta considera como doutrina 19:00 h: Liturgia do dia
sã. 19:30 h: Reunião dos membros
Convém pois que haja heresias,
para que os fortes se distingam entre os Santa Missa (no Rito Tridentino):
fracos. TC
Da obra “Confissões”
Consultar dias e horários.

56
IDE A TOMÁS
Haveria outro modo mais
conveniente de libertação
humana do que a paixão de
Cristo?

Parece que haveria outro modo


mais conveniente de libertação huma-
na do que a paixão de Cristo, pois:
1. Com efeito, a natureza em sua
operação imita a obra divina, pois é
movida e regulada por Deus. Ora, a
natureza não emprega dois meios
quando apenas um é suficiente. Logo,
como Deus poderia libertar o homem
somente por meio de sua vontade,
parece não ter sido conveniente que
para a libertação humana acrescentas-
se a paixão de Cristo.
2. Além disso, o que se faz segun-
do a natureza realiza-se de modo mais
conveniente do que o que se faz com
violência, pois a violência é "de certo
modo um rompimento ou um desvio do
que se comporta conforme a natureza",
como se diz no livro Do Céu. Ora, a
paixão de Cristo levou a uma morte
violenta. Logo, seria mais conveniente
que Cristo libertasse o homem morren-
do de morte natural e não pelo sofri-
mento.
3. Ademais, parece muito conve-
niente que o detentor violento e injusto
seja despojado por uma força superior.
É o que diz Isaías: "Gratuitamente
fostes vendidos, sem dinheiro sereis
resgatados" (52, 3). Ora, o diabo não
57
tinha nenhum direito sobre o homem, a como abaixo se dirá.
quem enganara de modo fraudulento e, Quarto, mostra-se ao homem,
com certa violência, o mantinha em por esse fato, que é ainda mais necessá-
escravidão. Logo, parece ter sido mui- rio ele se manter imune do pecado,
to conveniente que Cristo tivesse des- segundo a primeira Carta aos
pojado o diabo apenas pelo próprio Coríntios: "Alguém pagou o preço do
poder, sem a paixão. vosso resgate. Glorificai e levai a Deus
Em sentido contrário, Agostinho em vosso corpo" (6, 20).
diz: "Não houve outro modo mais Quinto, esse fato trouxe maior
conveniente de sanar nossa miséria do dignidade ao homem. Ou seja, como o
que pela paixão de Cristo". homem fora vencido e enganado pelo
diabo, seria também um homem a
RESPONDO. Um modo é tanto vencer o diabo; e como o homem mere-
mais conveniente para atingir um fim cera a morte, seria também um homem,
quanto mais ocorrem, por meio dele, ao morrer, que venceria a morte, como
resultados adequados a esse fim. Ora, o diz a primeira Carta aos Coríntios:
fato de o homem ter sido libertado pela "Rendamos graças a Deus, que nos dá a
paixão de Cristo teve muitas conse- vitória por Jesus Cristo" (15, 57).
quências apropriadas à sua salvação, Portanto, foi mais conveniente
além da libertação do pecado. que fôssemos libertados pela paixão de
Primeiro, o homem conhece, por Cristo do que somente pela exclusiva
esse fato, quanto Deus o ama, sendo vontade de Deus.
assim incentivado a amá-lo também, e Quanto às objeções iniciais,
é aí que está a perfeição da salvação portanto, deve-se dizer que:
humana. É o que diz o Apóstolo na 1. Também a natureza, para
Carta aos Romanos: "Nisto Deus prova produzir alguma coisa de modo mais
o seu amor para conosco: Cristo mor- conveniente, usa vários meios para um
reu por nós quando ainda éramos ini- só objetivo, como dois olhos para ver.
migos" (5, 8-9). E o mesmo se observa em outros casos.
Segundo, deu-nos exemplo de 2. Afirma Crisóstomo: "Cristo
obediência, de humildade, de constân- viera destruir não a sua morte, a que
cia, de justiça e das demais virtudes não estava sujeito, uma vez que é a
que demonstrou na paixão de Cristo, vida, mas a morte dos homens. Por
necessárias todas para a salvação huma- isso, não morreu de morte natural, mas
na. É o que diz a primeira Carta de suportou a morte que os homens lhe
Pedro: "Cristo sofreu por nós, deixan- infligiram. E se seu corpo ficasse doen-
do-nos um exemplo, a fim de que siga- te e diante de todos perdesse a vida,
mos suas pegadas" (2, 21). seria um contrassenso ter o próprio
Terceiro, Cristo, por sua paixão, corpo corroído pela doença justo aque-
não apenas livrou o homem do pecado, le que viera curar as doenças dos ou-
mas também lhe mereceu a graça santi- tros. E se tivesse morrido sem doença
ficante e a glória da bem-aventurança, alguma, isolado em algum canto, e
58
depois se manifestasse, ninguém lhe ça, fosse libertado da escravidão do
daria crédito, ao falar de sua ressurrei- diabo, tendo Cristo, com sua paixão,
ção. Pois como se manifestaria a vitó- dado satisfação por ele.
ria de Cristo sobre a morte se ele, so- Isso foi também conveniente
frendo-a diante de todos, não provasse para vencer a soberba do diabo, que é o
que a tinha extinto pela incorrupção de desertor da justiça e o amante do poder,
seu corpo?" a fim de que Cristo "vencesse o diabo e
3. Embora o diabo tenha investi- libertasse o homem, não apenas pelo
do contra o homem de modo injusto, o poder de sua divindade, mas também
homem, por causa de seu pecado, fora pela justiça e abatimento da paixão",
com justiça abandonado por Deus sob como diz Agostinho. TC
a escravidão do diabo. Portanto, foi
conveniente que o homem, pela justi- Suma Teológica III, 46, 3.

CAPELA SANTO AGOSTINHO


Comunidade de Tradição Católica em Parnaíba - PI
Associe-se!
Contato: (86) 9849-5664

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Contos de Fé

Odília, a princesa cega

Situado no alto das montanhas ergue-se como uma vela: a da catedral


dos Vosgos, na França, dominando de de Estrasburgo, obra-prima de arte góti-
muito alto a rica planície onde corre o ca. Este sítio abençoado de onde sobe a
rio Reno, que convento é aquele do Deus, há mil e duzentos anos, uma ora-
qual os moradores daquela região fa- ção constante, é Santa Odília, o mostei-
lam sempre com emoção? Que esteja ro da padroeira de Alsácia, que ela tor-
um sol ardente ou que chova, que os nou ilustre e onde vive a sua lembran-
pinhais estejam cobertos de neblina ou ça.
que uma luz azulada se estenda no lado Era no século VIII da nossa era.
dos montes, a paisagem é sempre admi- Lembram-se do que aconteceu no sécu-
rável. Vinte cidades, trezentas aldeias, lo VII? Carlos, chamado Martel por
eis o que se avista do maravilhoso ter- causa de seu trabalho com armas, aca-
raço; ao longe uma flecha cor-de-rosa bava de conter os Mouros em Poitiers.
60
Seu filho Pepino, o Breve – “o Breve” que nascera, apesar de tão linda e tão
quer dizer “o baixinho” – conseguira loira, tinha uma enfermidade muito tris-
do Santo Padre o título de rei e ao seu te: os seus olhos continuavam fecha-
lado o jovem príncipe Carlos começa- dos. Seria cega toda a vida... Quando
va a mostrar a coragem e o gênio que soube a notícia, o duque Aldarico zan-
lhe hão de valer mais tarde o título de gou-se muito. Com que então, não lhe
Carlos, o Grande - Carlos Magno. A havia Deus feito a vontade, senão para
região da Alsácia estava, então em po- lhe dar um desgosto maior ainda? Teria
der de um duque célebre não só pela sido melhor não ter filhos do que ter
sua valentia nos combates, como tam- aquela miserável ceguinha! Não ia o
bém pela sua brutalidade: Aldarico. povo murmurar que uma maldição pe-
Nada até então lhe tinha resistido. Ne- sava sobre o seu senhor? De maneira
nhum inimigo que não tivesse vencido, que, quando Beresvinda perguntou que
nenhum urso perseguido pelos seus nome havia de dar à filhinha: “Ne-
cães que não tivesse morto. E, no en- nhum! Respondeu. Nenhum! Proíbo
tanto, tinha um grande desgosto na sua que seja batizado esse aborto cego que
vida: a sua mulher, Beresvinda, ainda me envergonha! Que o matem o mais
não lhe tinha dado filhos. Já via, depois depressa possível, que atirem o seu cor-
da sua morte, as ricas terras de Alsácia po aos porcos!”
entregues à cobiça de seus vizinhos, A desgraçada mãe, apesar de ro-
divididas entre mãos ávidas. E estava gar, de se lançar de joelhos, de suplicar
triste... ao marido que deixasse viver a crian-
Aldarico e Beresvinda estavam ça... tudo foi inútil! Não conseguindo
tão tristes que resolveram afastar-se do convencer o marido, propôs que a le-
mundo e instalar-se num alto cume das vassem para muito longe, que a crias-
montanhas dos Vosgos para aí medita- sem às escondidas, sem nunca revelar a
rem na sua tristeza. Escolheram o mon- ninguém quem eram os pais da desgra-
te mais íngreme, protegido de um lado çada criança.
por um precipício e do outro por uma Aldarico manteve-se inflexível;
muralha de rochedos intransponíveis, e aquela menina era uma vergonha para
mandaram construir um castelo, o cas- ele, que desaparecesse! Então, de noi-
telo alto, o Hohenburgo. Perto de sua te, Beresvinda pegou na criança, aga-
residência, Beresvinda, que ora devota salhou-a muito bem, colocou-a numa
e instruída na Sagrada Escritura, man- cestinha, saiu em segredo e lançou o
dou fazer um convento para freiras a frágil barco ao rio Ehn, cujas águas fa-
fim de que rezassem com ela e pedis- zem mover o moinho de Obernai. De-
sem a Deus que lhe desse enfim um fi- pois, voltando para o quarto, pôs-se a
lho. rezar. Deus, Deus Todo-Poderoso, que
E Deus ouviu as suas orações. A salvara o pequeno Moisés abandonado
duquesa pôde anunciar ao marido que no Nilo, conforme narra a Sagrada
dentro em breve teria uma grande ale- Escritura, não teria piedade desta ino-
gria. Ai! Breve alegria... pois a filhinha cente criatura?...
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Ora, nessa mesma noite, o dono meiga, tão piedosa, tão inteligente. Ti-
do moinho de Obernai acordou em so- nha os olhos sempre fechados, mas dir-
bressalto. O barulho habitual da roda -se-ia que, nas trevas, via coisas que os
acionada pela água parara de repente. outros não viam.
Em cuidado, foi ver o que se passava. Com cinco ou seis anos já falava
Trazido pela corrente, um objeto que como as pessoas crescidas – melhor
parecia uma grande cesta fechada blo- mesmo do que muitas pessoas cresci-
queara as maquinarias. Abriu e que en- das! – Quando rezava, parecia que toda
controu? Uma pequena viva, que cho- a luz do céu se refletia no seu rosto tão
rava muito baixinho e que tinha os suave. “Uma santinha..., murmuravam
olhos fechados... A filhinha de Beres- as boas freiras, temos uma santinha co-
vinda estava salva. nosco...”. Ora, do outro lado do rio Re-
Foi por isso que passou os seus no, havia um bispo chamado Erardo,
primeiros anos no moinho de Obernai. que também era conhecido pela sua san-
A mulher do dono do moinho tinha-a tidade. Numa noite em que estava a re-
recolhido com ternura. O fato de a pe- zar, como de costume, o Cristo em pes-
quena ser cega aumentou ainda a pie- soa apareceu-lhe e disse-lhe: “Vai até
dade que sentia. Ninguém reclamou a aos montes dos Vosgos, até o sítio que
abandonadazinha, e a pobre mulher só te indicarei. Encontrarás um convento,
tinha uma ideia: guardá-la. Mas os vizi- onde vive uma menina cega. Ninguém
nhos tagarelaram. De onde tinha vindo sabe o nome dos seus pais. Nunca foi
essa miúda? Não teria pais? Essa histó- batizada. Batiza-a, que, assim que dei-
ria do corpo à tona da água parecia mui- tares água benta sobre ela, os seus
to estranha. Começavam a murmurar olhos abrir-se-ão à luz!”.
que podia muito bem ser uma criança Erardo obedeceu imediatamente.
roubada... Pôs-se a caminho, atravessou a Bavie-
Então, para acabar com essas his- ra, a Turíngia, a Floresta Negra, o Re-
tórias, a mulher do dono do moinho re- no. Uma força misteriosa guiava-o nos
solveu entregar a pequena às boas frei- caminhos e nunca se enganou na estra-
ras que, lá em cima, no monte, viviam da. Chegou ao convento, foi recebido
ao pé do castelo. Diziam que eram tão com mil cuidados e as freiras ficaram
meigas e tão caridosas! Levou-lhes a muito admiradas quando ele perguntou
sua protegida, e foi assim que a filha de pela ceguinha que lá vivia. Muito mais
Beresvinda foi viver para o convento admiradas ficaram quando, tendo bati-
criado por sua mãe, a dois passos do zado a noviça, esta soltou um grande
castelo paterno. Mas a duquesa tinha grito de alegria: “Vejo!” E a comunida-
morrido, roída pelo desgosto de ter per- de, toda, caiu de joelhos para agradecer
dido a sua única filha. a Deus o milagre.
Durante a sua infância, a menina O nome que o bispo Erardo dera à
abandonada foi educada no convento. menina era aquele que Jesus lhe ensi-
As freiras, de ano para ano, mais se ad- nara quando lhe apareceu: “Odília” e é
miravam de a ver com tanto juízo, tão um bonito nome que usam agora mui-
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tas moças da Alsácia – e de outros síti- rico, o terrível duque. De muitos lados
os também. lhe vinham dizer que a santinha do con-
Desnecessário será dizer que fi- vento era a sua filha, a ceguinha que
cou no convento e que, quanto mais mandara matar. Aconselhavam-no a
crescia, mais excepcionais virtudes trazê-la para o castelo e reconhecê-la
mostrava. Deliciava-se com os lindos e por sua filha. Mas de cada vez que lhe
demorados ofícios em que toda a comu- falavam nisso zangava-se e ameaçava
nidade cantava a glória de Deus. Só co- bater nas pessoas.
mia pão de cevada e hortaliça cozida, Certa manhã em que regressava
dormia no chão, estendida sobre uma da caça por um caminho da floresta, o
pele de urso. Mas, se era rigorosa para cavalo que montava parou de repente.
consigo, era maravilhosamente suave Sentada ao pé duma árvore, uma mu-
para com os outros, especialmente para lher vestida pobremente, uma freira,
com os pobres, os indigentes, os doen- tinha a seu lado um alforje muito pesa-
tes, para os quais tinha pedido à Aba- do; parecia muito cansada. “Olha lá,
dessa que mandasse fazer um hospital. mulherzinha, que tens?” A freira levan-
Falava-se da sua santidade em tou a cabeça, e, de repente, Aldarico
todos os arredores. Por toda a parte, nas sentiu-se empalidecer. Aquela face...
aldeias mais pequenas da Alsácia, se aquela linda face de adolescente, pare-
contavam os milagres que fazia Odília. cia a da sua mulher, de Beresvinda,
Desde o dia em que fora batizada, e que aquela cuja morte ele, em segredo, se
via, não tinha o poço do convento mui- sentia culpado. Que parecida era! Era
ta água que curava as doenças dos sua filha, não havia dúvida possível!
olhos? Uma vez que a freira encarrega- Ficou tão emocionado que toda a sua
da da sua tarefa, na altura em que o pa- cólera, todo o seu orgulho desaparece-
dre deu por isso; Odília disse uma ora- ram de repente. Com a voz a tremer,
ção e imediatamente a água e o vinho perguntou:
apareceram nos vasinhos, enchendo- - Que tens nesse alforje? Parece
os até acima. Uma outra vez, no regres- muito pesado para ti...
so duma cidade vizinha onde fora visi- - É pão para os meus pobres. Te-
tar os pobres, num dia quentíssimo do nho mesmo de me apressar, por-
mês de Agosto procurara, em vão, na que estão cheios de fome.
planície, um lugar com sombra mas A voz da sua filha! Não lhe foi
logo um anjo, vindo do céu, plantara na possível suportar mais e, a chorar, pe-
terra três ramos de tília que em dez se- diu-lhe perdão. Aquilo é que foram fes-
gundos se transformaram em árvores e tas no castelo e em Obernai, no dia em
deram sombra à santinha... que Odília voltou a ser princesa! Mas
E assim chegou Odília aos seus ela, a santinha, só tinha uma ambição:
quinze anos, bonita, pura, e sempre ficar ao serviço de Deus e dos pobres,
agradável a Deus. continuar a ser freira. De noite, fugia
Uma única pessoa, na região, não dos seus aposentos, para ir juntar-se às
queria ouvir falar nessa história: Alda- suas companheiras, as freiras, ou visi-
63
tar os seus queridos pobres. E todo o desaparece e, no lugar por onde desa-
dinheiro que recebia agora não lhe ser- pareceu, jorra uma fonte, que ainda ho-
via senão para manter o hospital e mul- je corre, segundo dizem, e onde os cris-
tiplicar as esmolas. tãos da floresta negra vêm piedosa-
No entanto o pai repetia-lhe: mente buscar água.
“Tens de casar! És a minha filha única; Odília saiu do rochedo, viva e
quem há de suceder-me se não tiveres bem viva, e os soldados do pai acom-
filhos? Casa com quem quiseres, esco- panharam-na até ao castelo com mil
lhe entre os melhores barões da nossa provas de grande veneração. Mas ao
terra. Na Alsácia ou do outro lado do chegar à cidade de Obernai, ouviram
Reno, não faltam rapazes novos, boni- dobrar os sinos. O duque morrera e o
tos e valentes, que gostariam imenso coração de Odília encheu-se de amar-
de casar contigo. Escolhe!”. gura.
Mas Odília respondia que já ti- Não queria mal a quem tão mau
nha escolhido, que não queria casar-se, pai tinha sido. Afligiu-a sobretudo o
que não tinha vontade de ser a mulher pensar que morrera encolerizado com
de qualquer dos guerreiros no gênero ela e, por isso, pecador. Toda a noite
dos que o pai lhe trazia às dúzias a casa, chorou, pedindo a Deus que tivesse dó
e que tinha feito voto de ficar sempre da sua alma... Ao amanhecer o céu
ao serviço do Cristo. De tal maneira se abriu-se à sua frente. Uma forte luz en-
evitava, que Aldarico recomeçou a fi- volveu-a e ouviu uma voz que dizia:
car furioso. “Por tua causa, porque te ama, o Se-
Até que um dia o pai disse a Odí- nhor perdoou a teu pai. Alegra-te por-
lia que lhe tinha escolhido um marido e que ele está salvo!”.
que, a bem ou a mal, teria de o aceitar. De coração tranquilo, Odília re-
Casariam logo no dia seguinte, no cas- gressou ao seu querido convento, onde
telo. Mas, nessa noite, a corajosa moça viveu ainda muito anos. Chegou a ser
fugiu. Abadessa e juntou à sua roda mais de
Atravessou o Reno no barco de cento e cinquenta freiras, fundou um
um pescador. Correu para a espessa flo- segundo convento na base do monte, e
resta negra para aí procurar abrigo, pen- construiu mais hospitais.
sando que o pai a devia ter mandado Vieram peregrinos de toda a parte
perseguir pelos seus cavaleiros. Brus- pedir à Santa da Alsácia que interce-
camente, atrás de si, que ouve? A ca- desse por eles no céu. E, séculos após
dência dos cavalos a trote... Atira-se séculos, até hoje, quantos continuaram
para o primeiro atalho que encontra. Ai a subir ao monte que tem o nome da ce-
dela! Não leva a mais parte alguma que guinha, certos de lá encontrarem a paz
a um grande rochedo intransponível. do coração e tão belas lições de fé e de
Vai ser apanhada; volta-se, e encosta- caridade! TC
se ao rochedo. Milagre! Devagar, mui-
to devagarinho, a pedra abre-se. À vis- Da obra “Legenda de Oiro”, de Daniel Rops
ta dos cavaleiros de Aldarico, Odília
64
Como viveram os santos

SANTA PELÁGIA

pelo Padre Manoel José Gonçalves Couto,


na obra “Missão Abreviada”.

Santa Pelágia primeiro foi isso?


uma pecadora, e a mais escandalosa. Para agradar a Jesus Cristo?
Isto, na impureza e desonestidade. Era Isso não.
muito formosa. Andava muito esmera- É para imitar os santos? Tam-
da no vestir e enfeitada. Vivia no maior bém não.
luxo. Era acompanhada de muitas cria- Logo, então, para que gostais
das também ricamente vestidas. Final- dos asseios, dos enfeites e das modas?
mente, os homens mundanos pecavam Porque andais mal contentes, se o vos-
só em a ver, e não podiam saciar de con- so pai ou mãe não vos cumpre esses
templar sua lindeza e rara formosura! vossos desejos? Ah, desenganai-vos, o
“Eu, (diz ela depois de convertida) te- vosso coração ainda está cheio de vai-
nho sido o laço e o engano das almas” dade. O vosso coração ainda não é o
Aqui devia eu clamar contra templo vivo do Divino Espírito. Vós
certas mulheres ainda novas, que não não quereis pecar, mas, muitas e mui-
querem cair no mal, mas querem andar tas vezes fazeis pecar a esses jovens
sempre com as modas, sempre muito que olham para vós e a quem vos mos-
esmeradas no vestir e enfeitadas, ba- trais, e até muitas vezes sem ser neces-
nha no cabelo, véu na cabeça, bastante sário. Finalmente, sois um laço de que
ouro e seda e os dedos carregados de o demônio se serve para caçar as al-
anéis. Ora, pergunto eu: para que tudo mas, assim como Pelágia, cuidais mui-
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tas vezes que estais inocentes, e aos do meu. Eu estou nu, Senhor, na vossa
olhos de Deus sereis pecadoras, e mui- presença, porque não tenho cumprido
to escandalosas. Podeis estar bem cer- com os vossos mandamentos, por isso
tas que só por meio da vaidade cai mui- confio na vossa misericórdia”.
ta mulher no fogo eterno!... No dia seguinte foi este bispo
Certos bispos que naquela pregar ao povo, aonde assistiu a famo-
ocasião se reuniram, vendo passar esta sa pecadora. E teve ela um tão grande
mulher tão desonestamente, deram arrependimento, que mandou logo este
grandes suspiros, e não puderam olhar recado ao bispo: “Eu sou uma mulher
para ela, conhecendo sua loucura e vai- pecadora e discípula do diabo. Ouvi
dade. dizer que o Deus a quem servis viera lá
Porém, um deles, que era va- dos céus à terra para salvar os pecado-
rão santo, olhou para ela com toda a res e que até comia e bebia com os peca-
atenção, e disse depois para os seus dores para mais os atrair. Pois se vós
companheiros: “Não folgastes de ver sois discípulo seu, não me desprezeis,
tanta formosura?” E não respondendo porque estou muito arrependida e ver-
eles, depois de grandes suspiros e mui- dadeiramente quero salvar-me”. O bis-
tas lágrimas tornou a perguntar-lhes: po respondeu: “Quem quer que és, co-
“Pois não gostastes de ver aquela tão nhecida és de Deus. Não me queiras
grande formosura?” E eles nada res- tentar, mas se te queres salvar, então
pondendo, disse ele então: “Pois eu gos- vem quando eu estiver com os meus
tei muito de a ver, e deu-me uma severa companheiros, pois só, nunca me ve-
repreensão. Porque se esta mulher tem rás”.
tanto cuidado e faz tais excessos para Foi logo ter com o bispo, e lan-
agradar ao mundo, que passa ligeiro çando-se aos pés dele, toda debulhada
como sombra, que devo eu fazer, ou em lágrimas lhe disse: “Tende piedade
quais devem ser os meus esforços para de mim porque sou uma grande peca-
agradar a Jesus Cristo, que é Esposo dora. Eu sou um mar de maldades, sou
imortal? E também quão grandes de- um abismo de perdição. Tenho sido um
vem ser os meus cuidados para conse- laço com que o demônio tem caçado
guir as riquezas do céu e os bens eter- muitas almas. Batizai-me, Padre, para
nos da glória!” que fique purificada de tantas malda-
Dizendo estas palavras, reti- des e impurezas”.
rou-se e foi pedir perdão a Deus, dizen- Aqui o Santo Bispo a batizou
do: “Perdoai-me, Senhor, que sou pe- e a ensinou a temer a Deus. Nisto come-
cador e indigno. Ó, quanto me excedeu ça o demônio a dar vozes: “Grande for-
esta má mulher. Ela preparando-se pa- ça me faz este bispo. Maldito seja o dia
ra o mundo, e eu para vós! Com que pa- em que ele nasceu para me ser contrá-
lavras me justificarei na vossa presen- rio, pois me tirou a minha esperança!”.
ça? Ela prometeu de agradar ao mun- Em certa noite, estando Pelá-
do, e fê-lo. E eu prometi de agradar a gia a dormir, veio o demônio acordá-la
vós, e faltei-vos por preguiça e descui- e lhe disse: “Que te fiz eu para me dei-
66
xares? Não sabes que por mim tens ad- e aparente, ou pensais vós que todos
quirido tantas riquezas e honras no aqueles que se confessam com as lágri-
mundo? Em que te descontentei, por- mas nos olhos estão arrependidos e al-
que me quero emendar?” Que fez Pelá- cançam perdão de Deus? Isso não é ver-
gia ouvindo estas palavras e conhecen- dade.
do a tentação? Benzeu-se, e o demônio As conversões do nosso tem-
desapareceu. E daí a três dias deu tudo po são quase todas falsas e aparentes,
aos pobres e fugiu para o monte Olive- tanto assim que, ouvindo-se que uma
te, para aí fazer penitência. missão completa, parece que tudo está
Nesse monte foram tão rigo- convertido. Porém, se daí por um ano,
rosos os seus jejuns, tão grandes as su- ou meio ano, houver exame sobre essas
as abstinências, e tão ásperos os seus almas, então se verá que quase todas
cilícios, que só tinha a pele e os ossos. tornam a estar com o demônio. E serão
Estava tão desfigurada e mortificada, estas conversões verdadeiras? Hoje
que tinha os olhos sumidos! Finalmen- com Deus, amanhã já outra vez com o
te, era tida por uma grande penitente, e demônio?
por uma grande Santa! Antes morrer, que pecar. Ou isto
E que penitências fazeis vós, é de verdade, ou não é de verdade. Se
pecadores? Talvez ainda dormireis nos não é verdade, a confissão fica nula, e
vossos delitos, não é verdade? Será, a confissão não é verdadeira. Ora,
não duvido. Pois se ainda viveis no cri- pois, pecadores, imitai esta santa, isto
me, desenganai-vos, não vos salvais. é, convertei-vos de uma vez para De-
Porque se o demônio vos engana hoje, us, e não torneis para o demônio, que
mais adiante acontece o mesmo. Há de ficais sempre piores do que antes. TC
enganar-vos com uma conversão falsa

67
Poesia
FALANDO COM DEUS

Só vos conhece, amor, quem se conhece;


Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;


Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,


Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.


Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.
(Jerónimo Baía)

68
FilosofiaFilosofiaFilosofiaFilsofia

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Princípios da escolástica e causas das heresias


Como a vida religiosa e monásti- tão grandemente excitara os espíritos
ca, assim também as ciências eclesiás- da antiguidade, o problema da relação
ticas receberam, na alta idade média, o entre a fé e a revelação, de um lado, e a
primeiro impulso pela reforma clunia- razão e a ciência, do outro. Solucionar
cense-gregoriana. Nos períodos anteri- este problema foi o que visou a ciência
ores houve, no ocidente, só uma escola escolástica.
teológica, a tradicional, que simples- Os primeiros tratados que se fize-
mente colhia e transmitia os conheci- ram neste sentido basearam-se neces-
mentos teológicos dos Santos Padres. sariamente nos trabalhos que os Santos
Neste período, pelo contrário, surgiu Padres haviam redigido conforme às
novamente o problema teológico, que necessidades do tempo, por diferentes
69
motivos e em circunstâncias diferen- antigas escolas se achavam no cami-
tes, e os quais nem sempre concorda- nho da decadência, no século XI, se for-
vam em todas as particularidades. Um maram novas em redor de doutores par-
sistema perfeito de teologia ainda não ticulares. Berengário de Tours e Lan-
existia. franco de Bec foram os mais celebra-
Como, porém, o princípio carac- dos. No século XII, se tornaram mais
terístico da vida medieval fosse o uni- importantes as escolas de Paris e de Bo-
versalismo e a centralização, a sua ten- lonha.
dência mais acentuada foi, no campo Paris veio a ser centro intelectual
doutrinal, harmonizar as diversas opi- de todo o ocidente e conservou a hege-
niões teológicas anteriores aparente- monia no campo teológico durante to-
mente opostas e sistematizar, unir num da a idade média. Pelo ano de 1200, os
corpo orgânico todas as sentenças filo- professores das quatro disciplinas prin-
sófico-teológicas. Foi este o fim da es- cipais, teologia, direito, medicina e filo-
colástica. sofia, se uniram para proteger os seus
Para realizá-lo, baseava-se na fé interesses, elaboraram uma constitui-
e na razão. São estes os seus elementos ção e obtiveram do rei e do papa impor-
constitutivos. Realizou-se, de fato, pe- tantes privilégios. Assim formaram o
lo método dialético e sistemático, for- primeiro studium generale, modelo de
mando claras distinções e conceitos todos os outros. Desde o século XIV
nítidos e precisos das verdades revela- são chamados universidades.
das, seguindo nas suas conclusões sem- Os dominicanos e franciscanos
pre os ditames da lógica mais rigorosa. obtiveram, desde logo, cadeiras de teo-
Todo o conjunto é reunido nas chama- logia na universidade de Paris, estes
das sentenças ou sumas, que, pela gran- em 1231, aqueles em 1229. E foram
diosa harmonia e fidelidade, justamen- precisamente os mendicantes que de-
te foram comparadas com as magnífi- ram ao instituto os mestres mais ilus-
cas catedrais góticas do tempo. O obje- tres. É verdade que, desde 1252, uma
to da nova teologia não foi, portanto, parte dos professores seculares os com-
outra coisa senão a doutrina dos Santos batia. Guilherme de Saint-Amour es-
Padres, mas a sua forma foi a filosofia, creveu contra eles um tratado apaixo-
especialmente a de Aristóteles, grande- nado De periculis novissimorum tem-
mente apreciada pelos teólogos da alta porum. Mas os mendicantes, chefiados
idade média como verdadeira ancilla por Tomás de Aquino e Boaventura de
theologiae. Bagnorea, mantiveram-se vitoriosa-
O nome de escolástica indica que mente.
a nova ciência foi um fruto das escolas Por longo tempo, a universidade
de então. As escolas mais importantes de Paris era tida por terceira grande po-
foram, ainda no tempo de São Bernar- tência, ao lado do papado e do império.
do, as que se erguiam junto aos mostei- E, de fato, teve, não raras vezes, um pa-
ros e às grandes catedrais. A Igreja ain- pel decisivo nas questões políticas do
da era única mestra e protetora das ciên- ocidente. A fim de preservar os estu-
cias. No entanto, como muitas destas dantes dos muitos perigos a que esta-
70
vam expostos na capital, e para apoiar lular na Igreja como cizânia no meio do
os estudantes pobres, foram fundados trigo. Todavia, muito se enganara
diversos colégios, dos quais o mais im-
portante foi o instituto de Roberto de
RETIROS DE
quem quisesse comparar estas heresias
da idade média com as da antiguidade.
Sorbon, capelão de Luís IX, e daí cha-
mado de Sorbonne. Tal foi a sua impor- SANTO INÁCIO
Tais heresias dogmáticas só eram pos-
síveis num ambiente helênico onde a
tância que, no século XVI, toda a facul- filosofia era propriedade de quase todo
dade teológica adotou o nome de Sor- o povo, enquanto que ela, no ocidente
bonne. medieval, estava reservada a relativa-
Se Paris era a cidade dos teólogos mente poucos espíritos.
e dos filósofos. Bolonha granjeou gran- As causas decisivas das heresias
de renome pelo estudo da jurisprudên- medievais não devem, portanto, ser
cia. Infelizmente, os legistas se foram procuradas na escolástica, mas sobre-
afastando, cada vez mais, dos senti- tudo na vida prática e social. Uma das
mentos eclesiásticos, formando, pelo causas principais foi o mundanismo, o
estudo do antigo direito romano, um luxo, a riqueza de muitos clérigos, que
conceito anticristão e antieclesiástico provocaram o espírito da crítica. “Co-
do Estado, fator poderoso de dissolu- mo sempre, o povo fazia recair as faltas
ção da cultura medieval. As conse- dos padres sobre o corpo sacerdotal in-
quências fizeram-se sentir, do modo teiro e sobre todo o estado eclesiástico.
mais doloroso, na luta que o papado Os cátaros e valdenses afirmavam posi-
teve de sustentar contra os Hohenstau- tivamente que todo o padre em estado
fen da Alemanha e contra Filipe, o Be- de pecado mortal perdia os poderes do
lo, da França. sacerdócio”. Daí resultou a ideia de
De fato, o novo método das esco- uma Igreja espiritualística, que não co-
las tinha os seus perigos para a verda- nhece sacramentos, nem sacerdócio.
de. Sentiu-o perfeitamente São Bernar- Acrescem ainda o espírito democrático
do. Observava ele que na seita dos cáta- da burguesia, o contato com a cultura
ros e nas obras de Abelardo renascia o liberal e com o laxismo moral do orien-
livre pensamento, que necessariamen- te e, finalmente as ideias maniqueístas
te havia de conduzir a novos erros e he- e panteístas, que tiveram a sua origem
resias. Por isso, Bernardo previne os em períodos anteriores. Da concatena-
seus contemporâneos do perigo que se ção de todos estes fatores resultaram as
escondia num interesse demasiado heresias medievais, movimentos reli-
grande pela filosofia de Platão e de gioso-democráticos, diametralmente
Aristóteles. Não despreza a filosofia, opostos aos princípios fundamentais
mas é e permanece representante do da idade média: universalismo, objeti-
tradicionalismo crente. vismo e clericalismo. Por conseguinte
E, de certo modo, tinha ele razão. mantiveram-se nelas, já muito antes de
Até àquela época, a idade média só co- chegar a idade média a seu apogeu, as
nhecia heréticos isolados. Não havia origens da sua dissolução. TC
seitas. Com o novo movimento das Texto da obra Compêndio de História da Igreja
ciências, porém, começaram eles a pu- Volume II, do Frei Dagoberto Romano
71
HistóriaHistóriaHistóriaHistória

Os cátaros,
os valdenses e
outras heresias
A seita mais importante no perío- dos e dos comerciantes penetraram no
do da alta idade média foi a dos cátaros ocidente. Aqui se uniram com elemen-
(puros) , herança dos erros gnóstico- tos antieclesiásticos, reavivando, ao
maniqueus da antiguidade. É provavel- mesmo tempo, os restos do maniqueís-
mente pelos paulicianos e bogomilos mo que ainda existiam, cá e lá. Da sua
que aqueles erros foram transmitidos origem oriental são indicados também
do oriente. Pelos caminhos dos cruza- os mesmos, e de búlgaros, bugres, pau-
72
licianos, publicanos, como eram cha- próprio com pregação e orações, um
mados por seus adversários. rito de admissão e própria hierarquia
Encontram-se vestígios da seita com diáconos, bispos e um papa (?).
já no século XI; e tornou-se perigo ame- No entanto, a tudo isso estavam
açador, no século XII, espalhando-se obrigados só os perfeitos ou apóstolos,
por toda a Europa central. Tinham a que tinham recebido o batismo espiri-
sede principal em Albi, no sul da Fran- tual, que eles chamavam de consola-
ça, onde se chamavam albigenses, e no mentum. Era este o único sacramento
norte da Itália, onde eram chamados de que reconheciam e que administravam
gazzari ou patareni. depois de uma espécie de catecumena-
Dividiram-se, bem cedo, em dois to, mediante certas fórmulas, como a
ramos. Uns, principalmente na França, recitação do Padre Nosso e a imposi-
professavam, como os paulicianos, um ção das mãos e do livro dos Evange-
dualismo absoluto, admitindo dois lhos.
princípios eternos. O princípio mau, Julgavam ser este sacramento de
criador do mundo material, e Jeová, necessidade absoluta para a salvação, e
autor do Antigo Testamento. O bom renovavam-no quando tinham pecado.
princípio é autor do Novo Testamento, Os simples fiéis, os crentes ou audito-
criador das almas. O espírito mau sedu- res, só eram obrigados a receber o con-
ziu algumas almas a unirem-se com a solamentum antes da morte.
matéria. Os que predominavam na Itália
Para libertá-las, o bom Deus envi- professavam, no essencial, as mesmas
ou Jesus, criatura mais nobre, que com ideias. Só se diferenciavam por um ou-
corpo etéreo entrou em Maria, que era tro conceito do princípio mau. Como
um anjo, em forma de mulher. A cristo- os bogomilos, opinavam ser ele o espí-
logia dos albigenses é, portanto, um rito rebelde, Satanás, a quem confundi-
puro docetismo. A redenção consiste am com o autor do Antigo Testamento.
na doutrina sobre o modo pelo qual as Partindo da Itália, a seita se espa-
almas podem libertar-se da matéria. lhou por Lião, até Flandres, especial-
Daí resulta o princípio moral da mente entre os tecedores. E de Flan-
abstinência de tudo o que é material, dres se irradiou para a Renânia, onde
como matrimônio, uso de carnes e lon- Colônia e Strassburgo foram os seus
gos e rigorosos jejuns. Professavam centros.
também a reencarnação, e por isso se A heresia dos cátaros causou, nos
abstinham de matar animais, da guerra seus vários ramos, imenso mal à socie-
e da sentença de morte. Negavam, dade. Mas, embora inconsciente e nega-
além disso, o juramento, a autoridade tivamente, causou também um grande
civil, os sacramentos e todo culto exte- bem. Despertou as consciências e pro-
rior. vocou uma reforma na Igreja, que teve
Tinham, todavia, um certo culto a sua expressão mais nítida na funda-
73
ção das ordens mendicantes, domini- Mas eles estavam longe de submeter-
canos no sul da França, franciscanos na se a esta restrição; e, por isso, Lúcio III
Itália, e beguinas e begardos em Flan- os declarou heréticos e os excomun-
dres. gou, no sínodo de Verona, em 1184.
A riqueza da Igreja e a avareza de Não podendo, por isso, continuar
muitos clérigos foram a causa de outra publicamente a sua pregação, fizeram-
seita, a dos valdenses. Como São Nor- no às escondidas, iscando prosélitos,
berto de Xanten, São Francisco e ou- amigos ou crentes, que lhes davam o
tros varões ilustres, compenetrados do sustento. Eles mesmos, os perfeitos,
espírito apostólico, surgiram contra o renunciavam a toda propriedade e ao
luxo exagerado e contra os males que trabalho manual. Faziam voto de po-
dele resultavam, assim o fizeram, a breza, de castidade e de obediência.
princípio, também Pedro Valdes e seus Mas obedeciam só a seus próprios supe-
companheiros. Valdes de Lião, tendo- riores, Valdes, enviado de Deus, e sa-
se enriquecido por um comércio, nem cerdotes e diáconos por ele ordenados.
sempre justo, mas, arrependido de suas Pouco a pouco, a sua doutrina mistu-
injustiças, e movido pela leitura da rou-se com muitas outras heresias, con-
Escritura Sagrada e pelo exemplo de denadas por Inocêncio III. Chagaram
Santo Aleixo, entregou a maior parte até a negar a hierarquia eclesiástica, o
das suas fortunas a sua mulher, distri- sacerdócio, os sacramentos, o purgató-
buindo o resto entre os pobres (1176). rio, e condenavam o serviço militar e a
Em seguida, começou a pregar a pena de morte.
penitência, projetando renovar a vida Mas, no princípio do século XIII,
apostólica que, a seu ver, consistia na a seita dividiu-se em dois ramos. Pois
pobreza e na pregação popular. Sua pre- os lombardos aspiravam a maior liber-
gação não careceu de êxito. Em breve, dade e não queriam renunciar aos fru-
se lhe associaram muitos sectários, os tos dos seus trabalhos. A separação pro-
valdenses ou pobres de Lião, que per- duziu outras diferenças. Os franceses
corriam, dois a dois, o país, pregando. procuravam reatar suas relações com a
Espalharam-se logo também em outras Igreja e tomar parte no culto católico,
regiões, principalmente na Lombardia, enquanto que os italianos formaram
onde se lhes associaram alguns grupos um próprio culto com próprios bispos,
de humilhados. sacerdotes e diáconos.
Como não tivessem a necessária Estes desenvolveram uma prodi-
autorização da Igreja e tomassem uma giosa atividade e espalharam-se não só
atitude cada vez mais arrogante, o arce- no norte e sul da Itália, mas também no
bispo de Lião lhes proibiu a pregação. sul e leste da Alemanha, na Boêmia, na
Da sentença do arcebispo apelaram pa- Polônia e na Hungria. No século XVI,
ra o papa, que estava inclinado a con- fundiu-se uma parte da seita com os
ceder-lhes a simples pregação moral. protestantes. Na Itália, ainda hoje em
74
dia, existem uns trinta mil valdenses. Os pedrobrusianos têm por fun-
Fora das grandes seitas dos cáta- dador Pedro de Bruys, sacerdote sus-
ros e dos valdenses, apareceram nume- penso, que pregou igualmente no prin-
rosas outras de menor importância. cípio do século XII, no sul da França.
Umas tinham pontos de contato com os Pedro, o Venerável, afirma que foi um
cátaros, outros com os valdenses, em- dos mais perigosos hereges do tempo.
bora externamente não tivessem rela- Negava o batismo das crianças, a euca-
ções nem com estes, nem com aqueles. ristia e a missa, a veneração das ima-
As demais são aberrações mais ou me- gens, as orações e as esmolas pelos de-
nos esquisitas por seu modo panteísti- funtos e, em geral, todo o cristianismo
co-racionalista de considerar o mundo, exterior.
ou pelos excessos do antinomismo. Desprezava, também, como os
Uma destas seitas tem por funda- maniqueus, o Antigo Testamento. Qu-
dor a Tanquelmo, leigo dos Países Bai- ando um dia, numa praça de S. Gilles,
xos. Atacou, pelo princípio do século tinha preparado uma fogueira para nela
XII, furiosamente os eclesiásticos, de- queimar quantos crucifixos podia
clarando, como os donatistas, que por achar, o povo agitado atirou-o no fogo.
seus pecados eram inválidos os sacra- Sua obra foi continuada por um monge
mentos que administravam. Entrega- apóstata de Clúni, Henrique “de Lau-
vam-se, porém, ele mesmo, a uma vida sana” (Henricianos), que já antes in-
opulenta e licenciosa. Fazia-se passar quietara, por suas pregações fanáticas,
por filho de Deus e chegou a casar-se, a Igreja de Le Mans. No ano de 1148,
na sua loucura religiosa, publicamente foi citado pelo sínodo de Reims e con-
com uma imagem de Nossa Senhora. denado ao cárcere, onde no ano seguin-
Foi assassinado, afinal, por um sacer- te morreu. O maior adversário da seita
dote. Contra ele e seus adeptos prega- foi São Bernardo de Claraval.
ram São Norberto e seus filhos espiri- Os luciferianos, seita dualista-
tuais. -antinomista, veneravam a Lúcifer, pre-
Espírito semelhante a Tanquel- tendendo que houvesse sido injusta-
mo e extremamente fanático foi Eon ou mente arrojado do céu. Ensinavam a
Eudo de Stella, natural da Bretanha. futura reintegração de Satanás em seus
Dizia ser juiz dos vivos e dos mortos, direitos de primogênito de Deus e a con-
referindo a si as palavras da oração li- denação de Miguel e de seus anjos. Os
túrgica: per eum qui venturus est judi- membros da seita se entregavam, nas
care vivos et mortuos. O sínodo de Re- suas reuniões, às mais vergonhosas de-
ims (1148) tratou-o de anormal e o fez vassidões. Combateu-os principal-
internar, pelo chanceler Suger, num mente Conrado de Marburgo, sacerdo-
mosteiro, onde, pouco depois, veio a te secular, inquisidor eclesiástico nas
falecer. Alguns dos seus sectários, obs- regiões do Reno e confessor mais que
tinados, foram condenados à morte. severo de S. Isabel. Gregório IX lhe
75
concedeu poderes extraordinários. Apocalipsim e Psalterium decem chor-
Mas os seus excessivos rigores causa- darum, desenvolvera o venerável asce-
ram-lhe a ruína. Alguns cavaleiros o ta as suas opiniões sobre a história mun-
assassinaram perto de Marburgo dial e eclesiástica e as suas ideias místi-
(1233). cas e apocalípticas.
Os irmãos apostólicos reduzem a Admitia três idades correspon-
sua origem a Geraldo Segarelli de Par- dentes às três pessoas divinas. A idade
ma, que adotou as ideias de Arnoldo de pré-cristã é a época de Deus Padre, da
Bréscia. Não sendo admitido na ordem letra do Antigo Testamento, época dos
franciscana, resolveu renovar assim casados e dos leigos. A idade cristã é a
mesmo a vida apostólica por meio da época de Cristo, da letra do Novo Tes-
pobreza e da pregação (1260). A prega- tamento e dos clérigos. Quarenta e du-
ção lhe foi proibida pelos papas Honó- as gerações seguem-se umas às outras,
rio IV (1286) e Nicolau IV (1290). Mas de trinta anos cada uma (cfr. Mt 1, 17).
nem ele, nem os seus sectários obede- Em 1260, começará a época do Espíri-
ceram. A sua desobediência e os seus to Santo e dos monges. Dominará o
extravios lhes acarretaram a persegui- Evangelho eterno (cfr. Ap. 14, 6), pre-
ção e a Segarelli mesmo a morte na fo- gado por uma ordem de monges. A Igre-
gueira (1300). ja material será substituída por uma
Seguiu-he como chefe da seita Igreja espiritual.
Fra Dulcino, que, vagueando com cer- Joaquim quis ser sincero filho da
ta Margarida pela Itália, anunciava Igreja. Mas a sua doutrina, diametral-
uma era do Espírito Santo. Atacava a mente oposta à ideia da Civitas Dei na
Igreja ainda mais violentamente do terra, devia necessariamente alterar o
que o fizera Segarelli, chamava-a de conceito da Igreja e da sua hierarquia.
prostituta babilônica e profetizava-lhe E, todavia, encontrou eco em largas
iminente castigo. Quando, no princípio camadas da sociedade. Com especial
do século XIV, cometia, com os seus simpatia foi acolhida pelos espiritua-
quase dois mil sectários, numerosos listas da ordem franciscana. O próprio
latrocínios nas vizinhanças de Vercelli, ministro geral da ordem, João de Par-
foi derrotado, finalmente, por um exér- ma, simpatizava com ela, embora não
cito de cruzados (1307). Dulcino foi fosse o autor do livro Evangelho Eter-
supliciado e também Margarida foi me- no que lhe foi atribuído.
tida numa fogueira. Mas os principais fautores do joa-
Pela volta do século XII, os âni- quinismo foram o douto Hugo de Dina
mos ficaram excitados, não pouco, pe- e Frei Geraldo de Borgo San Donnino,
las profecias do abade cisterciense Joa- ambos amigos de João de Parma. Quan-
quim de Fiore na Calábria († 1202). do, porém, Frei Geraldo no seu Intro-
Em três livros principais, Concordia ductorius in Evangelium Aeternum
Novi et Veteris Testamenti, Expositio in (1254), apresentou os livros de Joa-
76
quim como o próprio Evangelho Eter- lei de Moisés, assim no tempo do Espí-
no e os espiritualistas como seus prega- rito Santo, já vindo, são ab-rogados os
dores, levantou-se logo uma viva opo- sacramentos e todo o culto divino. Cri-
sição. O Introductorius foi condenado ticavam, portanto, a igreja e chama-
pelo papa Alexandre IV (1255) e para vam o papa de anticristo. Para si recla-
Geraldo foi decretado o cárcere perpé- mavam uma liberdade desenfreada de
tuo no claustro. Os escritos de Joaquim todas as paixões. Um sínodo de Paris
foram igualmente sentenciados, pouco (1210) condenou a seita. Os chefes fo-
depois, num sínodo de Arles. ram por parte encarcerados, por parte
Apesar de tudo, as ideias joaqui- condenados à fogueira. O 4º Concílio
nistas continuaram perturbando os âni- de Latrão repetiu, mais uma vez, a sen-
mos. Os chefes dos espiritualistas, Pe- tença contra a seita.
dro de João Olivi († 1298), Ubertino de Pouco depois, apareceu em
Casale, Ângelo Clareno († 1237), co- Strassburgo outra seita semelhante,
mo também Jacopone da Todi († fundada por um certo Ortlieb. Na sua
1306), estavam dominados por elas. A doutrina se nota tendência mais acen-
doutrina foi condenada, por várias ve- tuada do racionalismo-panteístico.
zes, e em diversas épocas, recentemen- Ensina que o mundo é incriado, uma
te pelo decreto Lamentabili de 3 de ju- auto manifestação de Deus, a alma,
lho de 1907, que fulminou a seguinte uma passageira individualização da
proposição: “A revelação, que consti- substância divina. Adão tinha ainda
tui o objeto da fé católica, não se com- consciência desta divindade; pelo peca-
pletou com os apóstolos” (DB 2021). do a percebeu. Jesus Cristo, filho de
Certa semelhança com o joaqui- José e de Maria, era chamado para reno-
nismo tem doutrina de Amalrico de Be- var esta consciência, em que consiste a
na, professor de teologia em Paris. Ensi- verdadeira religião.
nava a identidade do criador e a da cria- Herdeiros do espírito de Amalri-
ção e declarou, no mesmo sentido pan- co de Bena foram os irmãos e as irmãs
teístico, ser o cristão membro de Jesus do Livre Espírito, que apareceram, no
Cristo. A doutrina foi condenada em século XIII, em várias regiões da Fran-
1206. Mas tinha já numerosos adeptos. ça, às margens do Reno, na Suíça e na
David de Dinanto lhe deu uma forma Itália. Distinguiam-se por uma vida
mais sistemática e completamente pan- libidinosa, proclamando a completa
teística. emancipação do espírito e da carne e
Os amalricianos falavam de uma dizendo que os que estavam unidos
tríplice emanação de Deus, que se teria com Deus não podiam mais pecar. TC
manifestado como Pai em Abraão, co-
mo Filho em Jesus Cristo, com Espírito Texto da obra Compêndio de História da Igreja
Santo em cada um dos fiéis. E como na Volume II, do Frei Dagoberto Romano
época de Jesus Cristo foi ab-rogada a
77
Após responder às questões procure as palavras no quadro ao lado.

Pecado capital que se refere a presun- - Novíssimos.


ção de se salvar sem merecimentos.
.............................................................
.............................................................
- Esposa de Abraão.
Aquele com o qual todos nascemos, ex-
ceto a Santíssima Virgem Maria, e que .............................................................
contraímos pela desobediência do nos-
so primeiro pai Adão. - Significado do nome “José”.

............................................................. .............................................................

Vício Capital. - Prima de Maria Virgem.

............................................................. ...........................................................

Mistérios do santo terço rezados nas - 5º mandamento da lei de Deus.


quartas-feiras, sábados e domingos.
...........................................................
.............................................................

Um dos Sacramentos que pode receber


só uma vez.

.............................................................

E S C A P U L A R I O I G A

A S G B J H U I I K L Ç A F

C A C R E O O R S R J O U C
Solução do Caça Resposta da edição anterior

I B F U I R Ç J F A A F O T

S G L O L A D E A D J S L D

M J U I P Ç E A Q A C I I Y

A D T P R A M J S O O J M O

T R A M O O O E T E C E B C

I D P O N D N O P E T S O U

C C O Z E O I I I V Z U B Q

O C S F U M O U L A T J S A

S A T N B I S B A I A H E W

E S A J E N X D T O I J T O

D I T L W I Y Q O B Z W Y Q

Z T A Z I C D I S C E N T E

A D S T B A I D B A T D X B

G O D U I L N H D A L M A T
K
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L M
N

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Caça Resposta O
DP H
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B F
I

P G H J N M K I A V A R E Z A P J O F K
E H Y T I O D E C S F R R F C W S A R A
C G F B V R N V R U I S M N D R W B Q Ç
A F C V S Q H A E H T X Z H T R E T O A
D A G U D Y Q X S J A R J F J Y T P I H
O D H Ç K L O J C I L B A T I S M O I H
O G O G I Q J Ç I P W H F D K O T R S J
R G D C L A E K M O D K U G S E Q P H I
I D P I Ç O I J O L M R Ç Z F S G J L P
G C O M R U R F J T D K L Q C A J L I U
I N F N P J U I Z O W R P A G N M Y R R
N M T P E S D S O F Y E U D I T A L I E
A L K L D J L A G S D P L S J A A O P D
L O W T U N V V G H O I Ç U D I H K L B
G I E W Q Q D Ç Y O P S N H B S C X R G
F U G R H A R H L Ç K M C Z Q A F H K T
R U N A O M A T A R M Ç K F T B R P S R
Q S F H I L Ç G D E T B N R S E V F B B
Y Q W E R T Y U I O P A S E D L F G H J
L P R E G U I Ç A Z X C V G B N H L M Y

79
T I R I NHA S DA TRAD I ÇÃO

PAI TODO-PODEROSO

FALAVA UM PASTOR PROTESTANTE COM UM MENINO QUE SE PREPARAVA PARA A


PRIMEIRA COMUNHÃO E PERGUNTOU-LHE:

por Leidivania

O PASTOR, NÃO SABENDO O QUE RESPONDER, CONFUNDIDO, DEU POR


TERMINADO O DIÁLOGO.
80
COLUNA ATUALIDADES
Vinte novos membros no seminário tiago, o que foi suficiente para não po-
da FSSPX na América do Sul em der mais abandoná-la. Sobre isso nos
2014 diz “creio que duas coisas chamaram
minha atenção: a beleza da liturgia – e a
A comunidade do Seminário beleza é algo importante para um ar-
Internacional Nossa Senhora Corre- quiteto – e a predicação dos padres por-
dentora, na província de Buenos Aires, que, como diz Nosso Senhor, as ove-
Argentina, contou com a inclusão de lhas reconhecem a voz de seu pastor”.
20 novos membros durante o ano pas- Com o tempo, manifestou aos padres o
sado. Foram 11 pré-seminaristas, 4 se- desejo que tinha de entregar sua vida
minaristas de 1º ano e 3 postulantes a por Deus, e depois de 2 anos ingressou
irmão, oriundos da Argentina, Brasil, no seminário. Hoje, considerando esta
Chile, Guatemala e México. O cres- etapa de formação, qualifica-o como
cente número de vocações na Fraterni- “tempos cheios de graça, nos quais a
dade Sacerdotal São Pio X nos faz espe- Providência forma a Nosso Senhor em
rar com alegria a criação de novos prio- nossas almas e em que passamos a ter
rados mundo afora e principalmente no uma perspectiva de unidade em que
Brasil tudo se vincula em ordem a Deus”.
O Pe. Felipe Echazú,
... e três novos sacerdotes de 32 anos, nasceu na
Argentina, em uma fa-
Além disso, três novos sacerdo- mília consciente da
tes foram ordenados em 20 de dezem- crise religiosa e da
bro de 2014. ação da FSSPX, mas
O Pe. Fernando que morava longe de
Monckeberg, de 32 nossos priorados. Conta-nos uma his-
anos, nascidos no Chi- tória de sua infância, quando alguns
le, ouviu falar pela pri- companheiros, vendo a piedade de sua
meira vez da FSSPX família, perguntaram-lhe se queria tor-
por meio de alguns nar-se padre, sua resposta foi: “sim, se
primos. Passando o eu encontrasse uns bons padres”. Quan-
tempo, e no quarto ano de sua faculda- do começou a cursar a universidade em
de de arquitetura, pôde fazer um inter- Buenos Aires, foi aconselhado por sua
câmbio na Itália, onde seu talento artís- mãe a assistir a missa no priorado, o
tico o fez compreender a grandeza do que foi seu primeiro contato com a Fra-
espírito católico que havia edificado ternidade e com os bons sacerdotes que
tais maravilhas. De volta a seu país, tra- procurava. Participou do grupo de jo-
balhando já como arquiteto, ele quis vens chamado Legião Macabéia, e tra-
assistir a uma missa no priorado de San- balhando em um Juizado Federal, depo-
81
Expediente:
is da faculdade de Direito, quis entre-
gar-se ao serviço de outra justiça, da
Justiça (com maiúscula). Entrou no cur-
so de pré-seminário, chamado Ano de
Humanidades, e depois de 7 anos de
estudo e oração, os resume assim: “o
Tradição Católica
PERIÓDICO FORMATIVO E INFORMATIVO DA
COMUNIDADE DE TRADIÇÃO CATÓLICA
seminário... o paraíso na terra. Não pos-
EM PARNAÍBA - PI
so dizer mais”. CAPELA SANTO AGOSTINHO
O Pe. Santiago Villa-
nueva, de 25 anos, edição
também nasceu na
Argentina, em uma 32
família fiel da FSSPX,
Publicação desta edição
o que possibilitou o FEVEREIRO/2015
contato com bons sa-
cerdotes e boas amizades. Não tinha
Imagem da capa:
pensado seriamente na vocação, até
que um dia, um amigo do priorado o A Confissão,
convenceu, e com poucos argumentos,
de Giuseppe Molteni[1800-1867]
segundo nos conta, a entrar no Ano de <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/
Humanidades. O padre diz que “estan- 3/32/Artgate_Fondazione_Cariplo_-
_Molteni_Giuseppe,_La_confessione.jpg>
do assim no ambiente do seminário, as
coisas progrediram por si mesmas e a Equipe:
graça me convenceu de que em ne- Coordenação
Márcio Régis
nhum outro lugar poderia encontrar Francinaldo Gomes
tanta felicidade. O seminário é uma es-
cola de vida, onde, além do estudo sa- Editoração
Claudiomar Filho
grado e da oração, aprendemos alforjar Dyones Souza
virtudes, a conhecer-nos a nós mes- Antônio Júnior
mos, a ver tudo com mais serenidade, Mariela Medeiros
Antônio Silva
equidade e sabedoria”.
Como conselho aos jovens, o pa- Jornalista
dre diz duas coisas: “primeira, que toda Francisco Fontenele - SRTE 1640/PI
vocação exige sacrifício e renúncia e Adaptação de texto
que por isso não se enganem desejando Claudiomar Filho
a carreira ideal, com o trabalho ideal e a
Revisão
esposa ideal e segunda, que não se as- Leidivania Rodrigues
sustem com a consideração da voca-
ção, porque seguir a Deus assim é uma Cadastro de sócios / Assinaturas
Iara Meneses
bênção, um tesouro escondido e uma
felicidade que só quem a vive pode en- Tiragem
tender”. TC Fonte: Boletim Credidimus Caritati
Impressão sob demanda

82
Proesa
PROJETOS EDITORIAIS
SANTO AGOSTINHO