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Com seu MonJaignt tm movimtnllJ, Jean

Starobinski nos dá o livro mais original,


o mais abrangente e o mais estimado, já,
entre os que têm renovado e reaquecido,
em anos recentes, a crítica dos Eruaios.
Na contra-corrente de uma tradição
interpretativa bastante arraigada, fixada
- para exaltar ou condenar - no caráter
·'inconstante", lacunar e negativo do texto
montaigniano, Starobinski, mais exigente,
põe todo o seu talento interpretativo a serviço
do resgate, nele, de uma filosofia. Nem um
--
sistema, nem uma doutrina, e\'identemente;
mas um pensamento cujos "momentos" lógicos
ele identifica, mostrando-o num movimento
- dialético - que recolhe e ordena seus
segmentos opostos, de modo a evidenciar em
' ua inflexão final - uma síntese refletida -
1 efeti,·ação de uma filosofia.

Esta ambição e complexidade do projeto


não deYem, entretanto. intimidar o leitor. Ele
l; introduzido a~ "mo,·imento Montaigne ..

pelo exercício paciente de um andamento em


('Spiral que repete e enriquece, a cada volta.
J mesmo percurso. aplicado aos temas da

:1mizade. morte, sexualidade, linguagem


~· política ..\ cada ,·o!ta assiste-se,
,ucmi,·amente, à afirmação do sujeito
ontra o mundo imtá,·el das aparências
,. da alienação. ao imucesso desta vontade
!c autonomia na \U!Ígcm do ceticismo e da
:nelancolia e, enfim. à reconciliação com o
mundo sensível dos fenômenos por pane de
Jma "consciência feliz·', liberta do solipsismo.
Como todo leitor leal, Starobinski
,·unfessa a imbricação de suas próprias
iuestões com as da obra. Ele interroga
\1ontaigne escrut?.ndo também a si próprio e
.to seu mundo, o mundo da crise do espírito
:noderno, do desencanto de suas certezas e
:)romessas. É, assim. contra o pano de fundo
Ja complascência de seus contemporâneos
JEAN STAROBINSKI

MONTAIGNE
EM MOVIMENTO
Tradução:
MARIA LÚCIA MACHADO

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Co:-.1P.-\~HLA.. DAS L ETR ·\S
Copyright © 1981 by Éditions Gallimard
T ítulo o riginal:
,\1ontaigne en mouvement
Capa:
Euore Bouini
sobre Vista de Bordeaux antes Burdiga, capital da Gu_vanne... ( 1650).
gravura em cores de Jean (Paris) ,
c, no detalhe, R etrato de Montaigne,
ÍNDICE
de Tho mas De Leu (in: Essais, Paris. Jean Petit-Pas. 1617)
Ilustração da p . l :
Castelo de Laborde, desenho de 1893
P reparação :
'"fdrio Vilela Filho
Revisão:
Otacl7io F. N unes Jr. P refácio .. ........ . .. . .. .. ..... . .. ........ .. .. ... .. ... ... .. ........ . ..... ..... . 7
Carmen S. da Costa
1. "Para quem escrevemos então?" ...... .. .... ..... . ..... ... .. ... ... ..... 11
A acusação . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . 11
Dados lnternaciona.is de Cata.logar;1o na Public:1ç.!o (o r)
(C1mara Braulciu do Livro, "'· Brasil)
O espaço votivo ....... ... . ........ ... .. . .. . .......... ....... .............. .. 15
Sruobinski. Jean. 19::0.
A questão da identidade ....................... .. ...... .. .. .. .. ....... .... 18
MoniJianc em movimento ; JeJn Star obinski ; tradu· A vida teorética e· a função do exemplo .. .. . .. . .. .. . .. .. .. .. . .. . .. .. 23
çio \I :uia Lucia \lachodo. - São Paulo : Companlua d;u
l(trJ.s, 1991.
A exceção . . . . . . . . . .. . .. . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . .. . . . .. . . . . . . . .. . . . .. . . . 26
O desdobramentó, os monstros, a melancolia .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. . 28
B•bllo;rafia.
tsL• Sl-716-l-2974
A arte do pintor . .. . .. .. .. . .. .. . . .. .. .. . .. .. . .. .. .. .. .. .. .. . .. . . . .. .. .. .. . .. 34
A iminência da morte .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . 41
I . ~tia. 2. Fllosor~ francesa J. ~lontaiane. ~lichd Ey-
quem de, 1.533 -1 592- Cnuca e intcrpretaçjo 1. Titulo. I O amigo perdido ..................... ._. .................................... 43
92-lUO l " At tibi certamen maius", ................ ......................... ..... . 58

fndices pua catilogo sistemático:


I. FUosof. a francesa 194
2. F~ósol01 lranttsa : Bioarafia c obra 194
l
~
2. "Essa máscara arrancada" . ...... . .... .. ....................... .... .....
"A verdadeira face das coisa~ " .. . .. .. .. .... ............ .. . .... .. . .... .. 71
O ser último: o suicídio .. .... .. . .. . .. .. .. . .. .. .. .. . .. ........ . .... .. ... .. 74
Crítica da morte .... . . .... . . . .. .. .. . . . . . . . . . . . . . . .. . ... .. . .. ... . . .... .. ..... 78
A felicidade de senti~: entre vigília e sonho .. ...... .. ......... .. .. .. 82
71

3. "A relação com outrem" .............. .. . ........ .. ... .. .... ........ .. .. 93


O ensaio da independência .. .. .. .. .. .. .. . .. . .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. 93
1993 A relação restabelecida .. .. .. .. .. .. .. .. . .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. 98
T odos os direitos desta edição reservados à A recusa dos livros, os empréstimos, a apropriação .. ...... ...... 108
EDITORA SCHWARCZ LTDA. Economia da relação ~ ..... ..... ......... .. ........ ........ ............... . 121
Rua Tupi, 522 A " revolta do estômago" e ~s "braseiros" ........................ 124
01233-000 - São Paulo - SP
O desejo e o mundo aberto .. .... ....................................... 126
Telefone: (011) 826-1822
Fax: (011) 826-5523 Nota sobre o agrupamento ternário . .. .............. .............. :'.. . 129
4. O momento do corpo .. ....... ... ...... .... ............ ......... .... ...... 137
O impudor ... ....... .. .... .. .... . ...... .. .. ...... ..... .............. ......... 137
A rebelião do corpo ..... ....... . .. , ...... .. ... .. ....... .... .... ... .... . ... 140
Os "erros médicos" ...... ...... .. ... ......... .. .. .. ... .... ...... .. ........ 145
As confissões estudadas . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. .. . .. . . . . . . . . . . . . . . . . 153
O escanção eloqüente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ............. .. . . .. .. . .. . . . . . . . . . . 155
PREFÁCIO
5. Dizer ~ amor . .. .. . . ... .. .. . .. ... .. . .. . . . . . ..... .. ...... .. ... .. . ... . .. .... ... 179
Livros proibidos, livros desejados . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179
Os serviços recíprocos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 190

6. "Cada um está em sua obra" .. .. .. ........................ ............ 205


A Natureza e a obra ......... .. ..... ..... ...... ............ ....... ..... .... 205
Aspectos do movimento .. ... :. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213 Antes de mais nada, há esta pergunta feita a Montaigne- esta per-
A obra-prima de viver .... ... ................. ........ ..... ... ............ 229 gunta que o próprio Montaigne coloca: uma vez que o pensamento me-
lancólico recusou a ilusão..das apa • ·as o e ac tece em seguida? O
' ..que vai descobrir aquele que denunciou à sua volta o artifício e õCfí'Sfar-
7. Quanto aos " costumes públicos" ...... ...... .. .............. .... ... ... 235
ce? É-lhe permitido ter acesso ao ser, à verdade, à identidade, em nome
Da simpatia à crítica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235 dos quais considerava insatisfatório o mundo mascarado de que se des-
A obediência descrente ............. ... .............. ... ........... .. .. ... . 241 pediu? Se as palavras e a linguagem são uma "mercadoria tão vulgar e
A ação calma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 246 tão vil", que paradoxo compor um livro e testar-se a SI mesmo fazend o
' ' Conservar e continuar" ....... ... .... .... ............ ....... .......... .. 254 obra de linguagem! O movimento que este estudo se esforça em retraçar
O crédito recusado: o tempo estreito e a "grande imagem" ... 266 ~le que, tendo origem nessa pergunta, encontra o paradoxo e não
pode, a partir dai, encontrar facilmente o repouso.
Notas ·················································· ························ 293 Procurei discernir as etapas sucessivas de um pensamento que toma
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321 seu impulso primeiro em um ato de recusa. Não se tratará de recomeçar
aqui o que outros fizeram, freqüentemente muito bem: expor as idéias
de Montaigne sobre o movimento e a passagem universais, organizar em
uma filosofia as afirmações esparsas no livro dos Ensaios ou tentar situar
os conceitos e as atitudes intelectuais que, na ordem cronológica das edi-
ções, vêem-se atribuir sucessivamente um papel dominante. O mo vimen-
to a que prestei atenção é aquele que anima as conseqüências lógicas da
negação inicial. Sem ser indiferente ao problema da evolução dos Ensaios
de Montaigne (tratado em uma obra fundamental por Pierre Villey, e re-
tomado por outros) , julguei dele poder afastar-me, segundo a perspecti-
va por mim adotada.
Se ocorre que grande parte dos problemas de pensamento e de escri-
ta da obra montaigniana entra aqui em consideração , o leitor deve ser
prevenido de que não encontrará, nas páginas que seguem, um livro de
conjunto concebido (como os de Friedrich, de Frame ou de Sayce) tendo
em vista uma descrição global da vida, do pensamento e do estilo de Mon-
taigne. Esta obra não procura situá-lo em sua época nem retraçar a histó-
ria de sua recepção. Pretende apenas seguir um percurso - ou uma série

7
de percursos - a partir de um ato inicial que é, a uma só vez, de pensa- encadeando-se umas às outras, só re.QetemJ!.m·.~esmo
movimento/ par'!
m ento e de existên cia. Assim procedera eu para interrogãfã obra de"Rõü'S- melhor desenhar um percurso através de di ferentes registros: a amizade,
seau, em que tantos elementos - autobiografia, pedagogia, pensamento a morte, a liberdade o corpo, o amor, a linguagem, a vida públic~
sócio-político- dão a réplica, por vezes muito conscientemente, aos En- r lontaigne preveniu os comentadores: " Interpretar as interpretações
saios de Montaigne. Desde seu primeiro esboço, Montaigne em movimento dá mais. trabalho do que interpretar a própria coisa, mas escrevemos mâiS
foi concebido para ser simétrico a Jean-Jacques Rousseau: a transparên- 1lvros sobre livros do que sobre os assuntos mesmos· comentamo-nos u
cia e o obstáculo. Esses estudos paralelos recebem seu sentido da simili- ãõs ~ Há exc - comentadores mas escassez de autore-" •
tude do ato inicial de que partem - a contestação do malefício da apa- outro lado , Montaigne deseja um leitor capaz que saberá imaginar, com
rência-, enquanto os pontos de chegada respectivos diferem de maneira base nos Ensaios, os infinitos ensaios a que esse livro oferece o pretexto.
significativa: na falta de p.9S>r alcançar o ser. Moorajgne reconhece a le- Esse leitor tiraria partido da fortuna que colaborou com o escritor e que
gitimidade da aparenc1a; em compensação. Rousseau, irreconciliado, vê se manifestou por traços que ultrapassam sua concepção e sua ciência.
acumular-se à sua volta a sombra hostil, a fim de não perder a convicção Compus este livro com a preocupação de respeitar ao mesmo tempo a
de que em seu próprio coração a transparência encontrou um último advertência e a permissão que me vinham de Montaigne.
refúgj_o.
Não se deixará de observar que, na presente obra, a pergunta inicial
é um lugar-comum da mais antiga retórica moral, ao mesmo tempo em
que constitui uma versão antecipada da suspeita que caracteriza muitas
atitudes contemporâneas. Estas - é preciso confessá-lo? - não são es-
tranhas ao partido que tomei, de conferir precisameme à denúncia da men-
tira a função de um tempo primordial em minha leitura de Montaigne.
Escutei Michel de Montai ne o melhor que pude; desejei que a iniciativa
do movimento permanecesse sua tanto guanto posstve . as, partindo
~a ioqujetude moderna. fazendo a Montaigne, em seu texto, as per-
guntas de nosso século...n.ã procurei evitar que este Montaigne em movi-
~nto fosse jgualm~nte um mo vimento em i\1ontaigne e que, assim, are-
!}.e'i_ão observadora estabelecesse um nó, ou quiasma, com a obra obser-
vada. Movimento da leitura interrogativa em que o crítico empreende es- !
I
clarecer sua própria situação interpretando, em seu afastamento e em sua r
particularidade, um discurso do passado vivo.
~bjljtação dos fenômenos (o "fenoweAi5ma") o valor extremo
conferido ao instante, o recurso à ex eriência sensível são as canse üên-
ctas bem conheci as a uvtda cética. Igualmente, em meio cristão, o fi-
deísmo. Pode-se ler isso nas histórias da filosofia. E poder-se-ia crer, com
base nisso, que o termo final a que chega o movimento de Montaigne es-
tá definido por antecipação. Mas não se pode designá-lo sob essa forma
senão à custa de um esquematismo extremo. Esse esquematismo, ao fa-
zer abstração do andar muito pessoal com que Montaigne se encaminha
para um fim que lhe escapa sempre, não faria justiça ao mais precioso
do livro dos Ensaios. Todas as variações de uma chacona são virtualmen-
(•) Para as citações dos Ensaios, utilizei a tradução de Sérgio Milliet (coleção Os Pen-
te exigidas pela primeira progressão do baixo; a obra, contudo, só se rea-
sadores, vol. XI, São Paulo, Abril Cultural, 1972). Nas passagens em que o comentário de
liza quando todos os seus desenvolvimentos foram produzidos. Os sete Starobinski exigiu uma tradução mais literal para que o leitor pudesse acompanhar os pas-
capítulos de que se compõe a presente obra são igual número de--;;aria- sos de sua "análise textual", foram acrescentadas notas que não visam corrigir o ~celente
Çôes sobre o tema do retorno refletid cias ou aos · · · trabalho de Milliet, mas apenas seguir o mais de perto possível a letra do texto de Montaig-
de início o pensamento acusador rene ara. \Variações, portanto, mas que, ne. (N. T .)

8 9
l HPARA QUEM
ESCREVEMOS ENTÃO?,,
1

A ACUSAÇÃO

O mundo em volta não passa de mentira e traição. "Ela [a dissimu-


lação] se tornou uma das qualidades mais apreciadas do século [... ]1 A
malandragem [... ] não raro presta serviços e é necessária em mais de uma
ocasião. " 2 Massacramo-nos mutuamente acobenados por pretextos mui-
to nobres que dissimulam baixos interesses.
Montaigne, com toques dispersos e acumulados, desenvolve um ve-
lho tema, anterior a Platão, o qual lhe deu a dimensão do mito; explora-
do pelos estóicos e pelos céticos; retomado por Boécio; amplamente ilus-
trado na Idade Média, especialmente por João de Salisbury; 3 argumento
inesgotável dos moralistas e dos pregadores: o mundo é um teatro, os ho-
mens aí sustentam papéis, declamam e gesticulam como atores- até que
amorte os expulse da cena. Tema utilizado ora para exaltar a om potên-
Ciãde um Deus a uma só vez autor, encenador e espectador, ora para
denunciar as vãs fie ões em que os homens se deixam a anhar. Montaig-
ne não se abstém de citar a rase atn u1 a a etromo, Mun us universus
exercei histrioniam, 4 que encontrará seu eco nas paredes do Globe Thea-
tre e na boca de Jacques, o Melancólico (As you like it): o mundo inteiro
re resenta a comédia, o mundo i · · atro. s
E no efeito e 1 usao desse teatro que Montaigne insiste, como tan-
tos de seus contemporâneos. Esse jogo que se impõe a nós é um jogo de
sombras. A grandeza dos príncipes é pura comédia: simulacros hábeis bas-
tam para figurar a majestade e para suscitar o respeito dos povos. ~ ~
bedoria dos rudentes e a doutrina dos sábios não são me · usór" . 'll'\í""
Tudo é trapaça, logro, aparência art1 ICIO. ais: no teatro a grandeza
nos im ressiona e ilude." -
Tudo é e emprest1mo, tudo é para ser "apresentad[o] publicamente
a fim de dissimular", 7 exibição cruel e fútil. Mai or fraqueza do que
por intenç~aligna •.JLCQmum..dos..hQ!nens ~st~e à imJ}OStura: catl;.
vos de sua imaginação, vivendo no esquecimento_de si próprios, deixam-

lJ
(; ':l'"
se log~. Tomam a aparê ncia pela essência. O ardo r guerreiro dos mo- defi ne, em seu princípio, como ostentação, astúcia, artimanha - d efesas

fA-. lt/ l..J.•


narcas, a propaganda das facções religiosas acomodam-se muito bem a bastante legítimas contra as ciladas dos inimigos e a inconstância d a fo r-
essa cegueira. Precisam de homens crédulos, fáceis de conquistar pela opi- ,[C- !,Yna._" A própria inocência_não oderia em nossa éQoca, d ispensar a ~ 1 -e _.,.
nião e prontos, em seguida, a derramar por ela seu sangue e o dos outros. simulação , nem negociar~entl.L.: ' 13 Assim, a mentira se esconde tão ~ -----...1-.
·~ualquer idéia pode apoderar-se de nós com força bastante p-ª.@._gll.e pouco quese torna figura de convenção universalmente aceita . A másca-
a sustentemos até a morte. , g O olhar, em toda a parte a que se dirige, ra e a dupllctdade sao a "forma" comum, a "maneira" que cada um adota
encontra im ~tura;triüilfantes ou enganados satisfeitos. "Tenho visto - o subentendido erigido em regra geral.
fato~raordinários que demonstram com que facil idade incomQreensí- De resto, entre as palavras de uma humanidade tagarela, não é raro
vel os povos se deix am convencer e gutar pelos seus chefes quando se tra- que se ouça denu nciar as aparências enganadoras. A acusação da menti-
ta de crenças e esperanrn; apesar das desilusõe~tidas:- são levados ra uni versal, o protesto de sinceridade, a recusa de lisonjear, a veracida-
pela fantasia e o so nh o. " 9 - - -- - - de im prudente têm suas fó rmulas consagrad as, devidamente consignadas
Montaigne, ao denunciar o malefício do parecer, está de acordo com nos tratados, e faze m parte do arsenal o ratório. A " parrésia" , o protesto
o espírito da época: explora, segundo o gosto domi nante, um grande lugar- de sinceridade e de liberdade de ex ressão são meios entre outros à dispo-
comum, que a mplifica e varia , q ue o rnamenta de citações e de suti lezas; sição d os bem-falantes . 1J A retórica que opõe o ser e o pa recer, o topos
mas, por meio desse lugar-comum. ele \·js.a um aspecto da realidade con- que acusa o log ro das cois s mun anas são uma das artima nhas conven-
temporânea à gual a antítese tradicional do ser e do parecer se aplica mai~ cionadas em que a du plicidade se compraz. Os hipócritas sabem d isco r-
ifo ue a nenhum outro momento da história . As lutas dos príncipes pelo rer admira\·elmente contra a hipocrisia. Qualquer um que espere beneficiar-
aumento de poder (tendo, no horizonte, a criação dos grandes Estados ~m isso fará , à força de muitas citações , a condenação das máscaras;
europeus); as querelas religiosas, que põem em discussão o próprio prin- ele próprio permanece uma personagem mascarada. Assume um último
cípio da autoridade (tendo, no horizonte, a elevação do "foro íntimo" papel, o do sábio descrente. O código da dissimulação permaneceria im-
à condição de autoridade suprema); a violência difundida por toda a par- perfeito se não previsse, entre os gestos de seu repertório, aquele mesmo
te, o perigo corrido a todo o instante: aí estão umas tantas incitações in- da recusa da dissimulação. O inimigo das máscaras não é, com freqüên-
sistentes ao fingimento e à dissimulação , que fazem destes, a uma só vez, cia, senão um papel suplementar na comédia d isfarçada : o espetáculo se
princípios de conduta geralmente observados e temas literários tratados torna crível (parece to rnar-se crível) pela presença de uma personagem
em toda a oportunidade. Nessa era de excesso. fazem-se brilhar hiperbo- que, o stensivamente, recusa acreditar nas aparências que encontra. N a
licamente as li ões da tradição reli iosa e moral do contem tus mundi: era barroca , essa ilusão superlativa se exprime, emblematicamente, pelo
as seduções do mundo são armadilhas, os verdadeiros bens estão em ou:- teatro sobre o teatro. O ator que se defende das ilusões adquire ele pró -
tra par!_e..: O teatro barroco logo fa rá da desilusão- desengano- o ins- prio o estatuto de um ser real -- pelo jogo das oposições relativas. Acre-
tante de uma Graça amarga que bruscamente devolve a visão a persona- dita-se que ele não está em cena porque denuncia outra cena. (Assim ocorre
gens por muito tempo cegas. 10 hoje com a ideologia, de que uma das melhores manobras diversionárias_
O mundo que Montaigne acusa é um labirinto no qual os simulacro~ é fazer-se acusadora da içkQJQgia.)_;; .
têm, por assim dizer, curso legct~. A hipocrisia não é um segredo que seja -~Montaigne, por certo, é ele próprio levado por essa retórica; ele exa-
preciso desvendar: todo o mundo preconiza "essa nova virtude do artifí- gera; extrai do repertório oferecido pela tradição humanista metáforas
cio e da dissimulação, tão aJ)reciada nestas eras":11() engodo d õS'Cãr- da deslealdade e acusações da mentira. Mas ele o faz, simultaneamente,
gos e das dignidades se denuncia ao primeiro que aparecer, por seu pró- com mais seriedade e mais ironia. É preciso acreditar nele quando pr.otes:
prio exagero. Quem se ocupa dos negócios públicos aprende isso de ime- ta sua veracidade, quando declara que "sofr[e] quando precis[ru.._dissim\1;..
diato, e, para não se afastar do uso, tom.ará de saida o partido de se pro- _p.cc} e- lar", 16 que se "imp[ôs] a obrigaçãod e ousar dizer tudo o que ous[a] f a.:.
1 zer", 17 ou guando conta como, em várias ocasiões, sua "fisionomia'' e.
teger e de desconfiar. "~re...nós. hoje em dia, .a verdade não é o gue11 .Je
é, mas o que co segue_pecsuadir os ouuos." 12 A duplicidade, a cautela a "fi~ de suas palavras" 18 lhe salvaram a vida . •Os preceitos tradi-
não são descobertas que se tarde a fazer- são o aspecto pelo qual o mun- cionais encontram nele uma acolhida leal: para Montaigne, viver de co-
do se oferece a quem nele se aventura. São coisas que se aprendem como ração aberto não é simples cláusula de estilo, é uma injunção que não
se aprende a falar, escutando a palavra que circula, repetindo o que se considera difícil colocar em prática. Da mesma maneira, a porta de seu
-
viu ser bem-sucedido. A educação é rapidamente adquirida. A política se
)
castelo permaneceu aberta atodos .. .

12 13
Montaigne estende muito am~mente o alcance de seu ceticismo. Ao / ''Luto e melancolia", para legitimar a clarividência da auto-acusação me-
examinar a históí1ãli"Urnana, constata qu~s efeitos da sinceridade e da · lancólica. 23 Por qual privilégio, mais do que outras ·palavras, as senten-
simulação são imprevisíveis. "Por diversos meios chega-se ao mesmo fim" ças da reflexão melancólica se propagam ao longo das eras, dominando
(título do ensaio I, I). Mas dessa própria imprevisibilidade, pela qual a 1\ autores e leitores, que as lêem e as pronunciam cada um por sua vez? De-
simulação nem sequer está segura de prevalecer na ordem do fato, Mo11: veríamos considerar o recurso à citação (a que deveremos voltar) urna con-
taigne onclui a favor do ue a tradição moral estabelece de direito _fQ- oS~ ___ ._ , seqüência da autodepreciação melancólica? Falar pela voz vigorosa de Sê-
mo o valor superior: a sinceridade Qualquer que seja o desfecho de nos- neca ou de Plutarco, na falta de uma linguagem pessoal bastante forte
sas ações-=- par a o qual é preciso remeter-se a Deus - , Montaigne não - essa é a escusa de Montai ne para os emQréstimos que cumprem ãõ ..J?
faz incidir a dúvida sobre suas escolhas morais; ele não hesita: a exigên- mesmo tempo a função de~mento . A citação, confissão de fraquez~ 1\~
cia de veracidade pem1anece um dos critérios estáveis de seu jul&a;nento, recita com predileção os discursos da melancolia._
de sua crítica dos costumes, de sua conduta essoal. Esse é um "lugar- Montaigne, entretanto, faz mais que levar a sério a lição dos mestres
comum", por certo, maSMontaigne não se pretende origin a ponto e antigos e tentar viver em conformidade com os preceitos de uma moral
:ecusá-lo. !::!ªnele uma[ preocupação de honestidaderque o reconhecim~o consagrada. Ele vai mais longe. À sua volta, é aQFentemente o fim de
da mutação universal deixa intacta. um mundo:-'.,:Se olharmos ao redor de nós, podemos observar que todos
Diante da comédia geral, Montaigne extrai da tradição humanista os países [... ] correm o risco de transformações e desastres [... ) Parece:
o modelo de sua resposta. Se "a maior parte das funções públicas tem / ; 1 '.:. .:t~ me terem os astros decretado que já duramos demais. E aflige-me ainc!,a

algo de cõmico" , 19 deve-se rir ou ·chorar por isso? À compaixão afligi- imaginar que o mal mais próximo não está na alteração da massa inteira
da, ilustrada pelo exemplo de Heráclito, Montaigne prefere seu comple- e aparentemente sólida e sim na sua possível divisão" . 24
mento legendário: o riso de Demócrito. Opção que faz intervir uma sepa- Quando tuào parece desabar, não é chegado o tempo de fazer j usti-
ração mais acentuada, uma distância mais isenta de todo compromisso. ça à insatisfação, de questionar com mais insistência, de armar-se de uma
E tudo nos incitª' mais uma vez, a acreditar que Montaigne apropria-se exigência mais alta, de afastar-se de todas as vaidades (e do próprio dis-
plenamente da liçã;;Qüe retifãde uma imagem ftxada pela memóriã 11 curso da sabedoria sobre a vaidade), de mobilizar todos os recursos de-
cultural. i-< ~(~fensivos da reflexão e da ironia? O desejo de independência se torn~
/v('~l -()e!" ~~'-:r~nergia predominante, sem que por iss~e interrompam a e~ta do p~
(a) Demócrito e Heráclito eram dois filósofos. O primeiro, achando que a
9~~ ~J ....,~ cJ. ~ .rG's ado e a leitura dos textos exemplares. /
humana condição é vã e ridícula, apresentava-se sempre em público a rir e
motejar. Heráclito, tomado de piedade por essa mesma humanidade, anda- rl~c: ~ ...-i~~;~~~
\, <e §'o"" .fV" ~ c,. .
- /
va permanentemente triste e de lágrimas nos olhos [... ] Prefiro o primeiro,
não porque seja mais agradá,·el rir do que chorar, mas porque sua atitude
?ce.;,c.', c- 1~o '\ / O ESPAÇO VOTIVO \... .Jg,c )
\ ~J ,.,r>.~ ~ .>r""'1

é testemunha de seu desdém, porque ela nos condena mais do que a o ut ra y.J \)e. (o ~~C>'<' Para discernir tão claramente o "desamor à verdade", 25 é preciso
e acho que nunca podemos ser desprezados quanto o merecemos [... ) Pen so
q ue há em nós mais vai dade do que infelicidade, mais tolice do que malícia,
mais \·azio do que maldade, mais vileza do que miséria. 20
Jt' ~--~~ que Montaigne tenha formulado em seu íntimo uma exigência de fran-
queza e de veracidade, que o mundo decepcionou continuamente. Fala-
ria ele com tanta freqüência de inconstância e de impost ura se não se re-
\!ontaigne reaj ust a momentaneamente a seu uso pessoal uma at it u- metesse a uma possibilidade de constância e de lealdade, a inda que co-
de que data dos começos da filosofia: Demócrito ri da loucura do mun-
do, mas é ele ~óprio atormentado pelo humor sombrio e agrava sua me-
nhecendo a norma apenas graças a uma esperança confusa? Toda acusa- fk
ção da falsidade do mundo suR_õe a crença em um valor oposto: uma ver-
lancolia por sua obstinação em a reender as causas da loucura. 21 (Ro- •
J '~c"" •
(\<C. o('- ~ - -~-
dade que se situaria alhures (neste mundo ou fora deste mundo) e que
-

bert Burton, em I 62 I, apresentará sua Anatomy of melancholy sob o pseu- ~ ~ .l~J ,;>._~.... nos autorizaria a intervir em seu nome e a fazer-nos os acusadores da mw -
1 >!.I f"" 'v ~ ...-= tira. Ao denunciar os prestígios do parecer, Montaigne toma partido, im-
dônimo de Democritus Minor e se valerá, por sua vez, de Montaigne.)
Hamlet retomará quase textualmente uma das frases da passagem de Mon- ~. d ). ~ pÜ~itamente, pela plenitude sem equívoco do ser verdadeiro. 26 Mas ele * '
taigne que acabamos de citar: "Se fôssemos tratados segundo nossos mé- t\~e' só ..2 conhece pela força da 'r ecusa que o faz considerar inaceitáveis a ~­
ritos, quem escaparia à fustigação ~ .}2 ,Essa frase de Shal<espeare cha- tira e a m~. Montaigne, no instante em que se opõe ao mundo, não l
=--~·. +.~--\-e
mará a atenção de Freud, que a evocara mrus de uma vez, especialmente em pode valer-se de nenhuma verdade possuída; proclama apenas seu ódio

14 15
da " simulação". O v rdadeiro é o positivo ainda des~ido imQlica- O tempo adquire nova origem e a uma só vez ganha um outro sentido:
,_,,~~\,. .... ;\,, -.
do ela negação dirigida contra o mal pululante; o verdadeiro não te_!!! é o tempo limitado que resta a viver (quantillum in tandem superabir de-
fisio nomia determinada, é apenas a energia não aplacada que anima e que ,... cursi multa jam plus parte sparil), os poucos dias que se acrescentarão
arma o ato da recUSi!: à vida já transcorrida. Uma no va lei, uma nova regra entram em vigor.
De início, a oposição não tem outro meio de se manifestar que não Laços reatados compensam o desapego ao mesmo tempo sofrido e dese-
sob as figuras do espaço . A recusa dubitativa se exprime metaforicamen- jado. Essa ordem não é mais a do serviriu"!_, mas a da liberta§._. A liberta-
te pelo ato de afastar-se, de se abs-ter. Montaigne experimenta a nece~i- , '- _ "'' '"""'f - C> ção vai de par com o encerramento. Uma estrita oposição se manifesta
dade de reservar para si mesmo um lugar àd istância do mundo - um. '""' .,..tX 1 r -.... J .,.,cJ.c entre a expressão do desgosto, a vontade de ruptur~ (servirii aulici er mÜ-
lugar de onde possa fazer-se espectador da vida dos homens e onde s~ ~ ...... ~" -~ c nerum publicorum pertaesus) e o ato votivo que consagra e circunscrey:
sinta liberto de todas as armadilhas.:. Se o mundo é um teatro enganado!:.! _ ,... , r estreitamente o lugar d o retirQ ([ .. .] liberrati suae, rranquillitatique, er otio
não se deve mais permanecer em cena; é preciso enco ntra r o meio cl.e consecravir) . Esse lugar é metaforicamente o "seio d as doutas i\ l ug~s"
estabelecer-se em outra parte. Exilar-se de um mundo de onde a verdade (doctarum virginum sinus): trata-se, seguramente, de paredes que lhe ofe-
foi banida não é verdadeiramente exilar-se. (E Montaigne se espantará j""'4., .i ,. ...
t. .... ';:
29
~ ~~ C.:::- recem, " ao curvar-se" , a coleção das obras de poesia, de filosofia, -a_e
de que Sócrates, para escapar às "leis de uma época tão corrupta" ,
dos ,... ........, ,.
- ...... , ..... _
,' .J.-
~ c ~ - ,..._' > história de que ele quer cercar-se.
_,~,)+"-r...,t,.
... .... A imagem do a fastamento (recessit),
atenienses , não tenha preferido uma "condenação ao exílio" .)-7 "'J ~~ 1 do lugar oculto (dulces latebras), a figura feminina das Musas (Montaig-
Assim, a~tssáo''a~qul~e1figura de ato inaugural. Determina o sítio · ne dirá que não sabe se não preferiria ter produzido um fil ho " nascido
em qlie~lontaigne deLxa de pertencer ao tráfico enganador; estabelece de um comércio com as musas a um produto das [suas] relações com [sua]
uma fronteira, consagra um limiar. Esse sítio não será um promontório mulher") 30 evocam, para o leitor moderno, o conceito psicanalítico de
abstrato: em Montaigne, tudo ganha corpo: o lugar separado será a " bi- "regressão", com seu cortejo de noções associadas. Quando Montaignel
blioteca" na torre- lugar dominante, mirante arrumado no último ! n- evoca a tranqüilidade (quietus, depois tranquillitas), a segurança (secu-
dar do castelo familiar. Sabe-se que Montaigne dele não fará de modo rus), o repouso (otium), pode-se acreditar que não faz mais do que con-
algum sua residência cõ ntínua; dará ainda muito de seu tempo às ques- firmar a natureza regressiva de seu desej o. Por certo, a casa é o lugar an-
tões públicas, às negociações conciliadoras. Não se esquiva do que consi- cestral (a vitas sedes) e remete à li nhagem dos ancestrais masculinos, mas
dera um dever em relação ao bem comum. Mas o importante, para ele, essa masculinidade, ligada desde 1477 à propriedade do minial, acha-se
é ter conquistado a p05~dade de estabelecer-se em um terntono pes- contrabalançada (para a argumentação psicanalítica) pelo gênero femini
~rivado , de ali tomar a todo o momento um recuo absoluto, sain- no de sedes e pela predominância dos nomes femininos, na lista dos ter-
E._ d jo o o ·~p;rtante e ter dado à distância reflexiva sua !ocalização m~s que a_ inscri~ã? consagra (depois de libert~ e tranquil/itas: ape~at,
a um s p htitlca e concreta, ter-lhe reservado um SitiO sempre otlum é nao femmmo, mas neutro!). Em tudo 1sso, contudo, e preCISo
- acolhedor, sem se obrigar a habitá-lo constantemente. Desde então, en- reconhecer, como bem mostrou Hugo Friedrich, 31 as fórmulas tradiciQ.-
ireõõlhar do espectador e as agitações humanas um vazio ótico se inter~ ~ do otium cum litteris, variante "contemplativa" da vida humanista,
põe, um intervalo puro, que lhe permite perceber a escravidão em que tal como foi preconizada quando a via ativa do humanismo cívico revelou-
a multidão se lança voluntariamente, ao passo que, em troca, ele próprio se impraticável ou semeada de perigos excessivos. (Montaigne, que soube
se assegura de uma nova liberdade. Percebe os laços que sujeitam os ou- honestamente cumprir suas missões políticas, fornece a prova de que as
tros; sente cair os seus. Pois o lance primeiro não é o saber; é a presença duas atitudes podem alternar-se .) A inscrição inaugural de 1571 não deve
para si. ser lida essencialmente como um documento psicológico : ela ermanece
i.
. Ora, essa tomada de posse de um lugar, esse arranjo de um espaç~ v:,_ .:l n .. ~ .l L.; b• · f t .-....~ em conformidade com um paradigma cultural - impessoal e generaliÜi-
inacessível à mentira do mundo marcam também uma censura no t~p~. ~1!1 .. ~O " ... ,, 1 .._
Ba5ta prestar atenção aos termos das inscrições que Montaigne manda
pintar em 1571. Uma data precisa assinala a ruptura introduzida na exis- '" . . . ~ .-- • "-
Jt< .... _
.._ r
- • ~ t-. ,
a
v~. No entanto, poder-se-ia sustentar que nesse caso - ao exaltar a A;_
tigüidade como fonte e como seiva nutriz, ao justificar a vida solitária
e o recolhimento na intimidade (sibi vivere)- a tradição humanista co-
tência. Uma nova era começa e deve ser fixada simultaneamente em um ~..... "" _.~..., locava à disposição do desej.o individual as expressões pré-formadas nas
ponto dete~ado do tempo coletivo da cristandade (Anno Christi 157r
1
, a
quais podiam escoar-se a insatisfação, nostalgia, o esforço de sublima-
[... ] pridie cal. mart.)28 e do tempo biográfico pessoal J pet. 38 [ .. .] die l ção, a necessidade de segurança: todo um uso "pulsional" de uma !in-
suo natall). O aniversário reforça a idéia de um nascimento voluJ!.tário. f guagem codificada deixa-se adivinhar ...

16 17
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A inseri ão la qual Montaigne consagra sua "biblioteca" à sua li- estóicos, como também de Epicuro) que preconizam o retorno a si, are-
berdade e à sua_p..r.Qpria tranqüilidade estava duplicada por uma seguru!a tomada de posse de si mesmo. Esses argumentos, Montaigne os repe~
inscrição (de texto há~ tempo m~nos nitidamente decifrável) que__gm,- arafraseia reitera, variando-os- aliás, até o fim de sua vida, continua-
sagrava esse mesmo lugar à memória do amigo Qerdido: La_Boétie. 32 A rá a fazê-los seus. -
consagração ao "irmão" desaparecido acrescenta-se à consagração a si: Releia-se, entre outros, o capítulo "Da solidão" (I, XXXIX), a que
a biblioteca de que Montaigne pretende usufruir contém também os li- fazem eco muitas outras passagens; o que Montaigne busca é um lugar,
vros legados por La Boétie. A tranqüilidade de ue uer rovar nessa se- j !:J 17 ~ /_ "' neste mundo. que seja realmente seu diferentemente dos outros homens,
gunda parte da vida (que confina com a morte) prolonga e ~rpetua o .:- que, deixando-se arrastar pela imaginação, pela presunção, pela vaidade,
diálogo com o amigo preferido. A permanência na biblioteca é portan- ).., r' c t ausentam-se de si mesmos, desertam, para conquistar uma posição ou uma
- • - 'V\9~t'C. 1
to, duplamente cercada pela morte: por aqy_ela que Montatgne espera e riqueza imaginárias. Montaigne, retomando por sua conta essa argumen-
- - -.... L,:.~ I \ . , - J -
por aquela de que é o sobrevivente; e, nas duas perspectivas, a noção de tação, inclui-se a si próprio no nós coletivo da advertência: "Em nossas
identidade desempenha ~apel fundamental. Em relação a La Boétie, Mo~: ocupações habituais não há uma entre mil que nos diga respeito[ ... ] Quem
taigne se sente responsável por uma imagem, por uma semelhança: cui- não troca dehbetadamente a saude, o repouso, a v1da, pela reputacâo e
dou de editar suas obras (1570-1)·, assumiu o compromisso de conservar, a glória, as mats múte1s e vãs e falsas, das moedas correntes?" .34 C~
de transmitir, inteira, intacta, a fisionomia do companheiro admirável, mos, assim, em poder da pãlavra dos outros. Dessa impaciência que im-
tal como ele foi em vida. 33 ~ regra da i~entidade está ~q~: nada deix'!!" pele cada um a abandonar seu verdadeiro lugar, dessa necessidade de
perder, nada alterar, disputar à morte e ao tempo as imagens que eles PLe· valorizar-se em uma outra cena, resultam a comédia do mundo e a multi-
cipitam no esquecimento e na obscuridàde._(Precisaremos voltar a isso plicação das máscaras. Pois os homens criam para si mesmos a aparência
por várias vezes ainda.) Quanto à sua própria vida, ao assegurar-lhe o e o disfarce que por antecipação os transportam para o futuro quimérico
repouso, a liberdade, o lazer, a tranqüilidade, a segurança, Montaigne a que aspiram. E ssa é a inevitável progressão que, de um ser seduzido
pretende antes de tudo libertá-la da "mutação", da vã cerimônia a que por sua imaginação, transforma o homem em um ser mentiroso e masca-
a vida pública condena aqueles que lhe estão sujeitos: trata-se agora de rado. Tendo conferido falsas fisionomias a todas as coisas, ele não pode
viver em diálogo consigo mesmo, sem mais perder-se, fifuUãiiãillrg_ã, ;.... ir ao encontro delas senão com uma careta ou uma máscara. É hipócrita
fiel à grande Natureza:.. - - porque alienado (como o dirá uma linguagem mais tardia): colocou seu
ser wóprio sob a dependência da opinião, do olhar ~a/avras pel~s
qua1s os outros (o "mundo", a "sociedade") conferem a "reputação"
A QUESTÃO DA IDEN TIDADE e a " glória". (Rousseau não formulará em termos diferentes seu primek
ro ato de acusação.)3:_
A escolha (a crise) a que o retiro de 1571 forne~ res osta deci.:. Tudo que é da ordem do projeto, toda antecipação em que o indiví-
si\'a !· port~.~olha da identidade, da vida_wabilizada ~ rela~o duo conta com um futuro, torna-se suspeito para essa moral que conside-
consigo - em uma oposição precavida ao mundo e ao seu teatro de ilusãQ. ra a mira de um alhures uma fraqueza condenáveL ~1ontaigne fará disso
Tem-se o costume de considerar os primeiros capítulos redigidos por • > . o título de um de seus primeiros capítulos (I, IJI}: "Dos n-ossos ódios e
Montaigne (entre 1572 e 15 74) textos "impessoais", ao passo que os tex- Lf· ,-L~ afeições": " "Nunca estamos em nós; estamos sempre além. O temor, o
tos posteriores marcariam a entrada em cena do eu e da preocupação em . "'"':- { ,.-í'~'- desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro " _36 Essa sabedorlà ..
descrever-se. O que se de,-e reconhecer, no entanto, é que a "pintura do \. ~ ~ : \ "i-- condena o impulso, sempre incerto, que nos faz tra~cender o presente
eu" não é senão a evolução mais tardia de um pensamento orientado de em direção ao futuro; não poupa nem mesmo a previdência, que põe em
imediato para a ,-ida pessoal; a questão do eu é colocada desde o início. perigo a coesão e a constância do indivíduo - as quais não podem en-
Montaigne tentou a ela responder primeiramente pelos meios tradicionais; contrar sua base senão sobre um aqui e um agora perpetuados: moral da
e foi por tê-los considerado incapazes de satisfazer sua expectativa que contenção (em todos os sentidos do termo), que impede o homem de di s-
recorreu, mais tarde, a outro método e que fez a tentativa de uma outra persar seu conteúdo próprio, que o destina à breviloqüência e à lingua-
atitude. gem sentenciosa e, quando se trata dos objetos do desejo, que o destina
Basta ler os textos do primeiro período para constatar que Montai&,:
ne é particularmente sensí,:el aos argumentos da moral filosófica (a c!.,Qs (•) No original, " Nossas afeições se apoderam de nós" . (N. T.)

18 19
à continência (de que Montaigne terá muitas vezes a oportunidade de se na decisão de ser si mesmo e de não pertencer senão a si./0 tempo e o -
dizer incapaz). espaço, em vez de ser sofridos como potências destruidor~vãÕser prO-~
"r A secessão do desejo: aí está o erro universal que Montai ne, seguindo ta uzidos do interior pela decisão voluntária que afirma o aqui e o agora
.â_êneca, estigmatiza. ~ quãl deseja escapar: "Meus atos cond.ici.onam_: de seu decreto. Assim, a consciência pode esperar não ser jamais d istrar
2
se ao que sou (. .. ]" 7 Ele faz voto ou, ao menos, aconselha reSIStir a to- da da presença para si. Ela salvaguarda uma energia não despendida q ue
-das as seduções que, mais tarde, Pascal caracterizará por um substantivo se perpetua de instante em instante, sem visar outra coisa que não ela mes-
sintético, o divertimento: 38 "São os efeitos produzidos em nós, e não ma; portanto, sem mais buscar investir-se fora de si. Essa ação de si so-
alhures, pela ação da alma que se devem ponderar [ ... ]39 É preciso ter bre si, para realizar-se, deve frustrar ~s ap~os lisonjeiros do mundo ex.le-
como reserva um recanto pessoal, independente, em que sejamos livr.e_s rioJ:, Ela obriga a manter-se em estado de alerta, em uma desc onfiao~
~toda a acepção da palavra, que seja nossÚprincipal retiro e onde es!!- perpétua, baldando as seduções que riscam dist rair ou subt rair uma pa r.!_e
jamos absolutamente sozinhos [... ]" ~ Pensar aqui será dirigi r toda a das forças necessárias ao domínio e à defesa de §i. E a desconfiança não
atenção possível pa ra o lugar atual habitado pela consciência, para a iden- poupar á o pró prio sujeito: a solidão não o liberta de seus vícios, de su as
tidade para a qual está destinada e para os poderes que ela reencontra fraquezas, de suas " concupiscências": "Não basta pois deslocar-se, e vi-
nessa conversão a si mesma. (E a inaptidão do animal para prever o futu- tar a multidão, é preciso ainda afastar de nós as idéias que nos são co-:
ro poderá tornar-se, aos olhos de ~ lontaigne, um título de superioridade.) mu ns~ e a nós. É preciso que nos seqüestremos e tomemos poss e
A pedagogia eficaz, a escolha ética salutar fornecem uma resposta de nós mesmos" .42 Esse superinvestimento no ideal do eu não deixa de
sem equívoco a uma série de alternativas que, todas, opõem a concentra- ser perigoso paraÕ próprio eu, dirá a psicologia de hoje. Mas Montaigne
ção do eu à sua dispersão. A escolha se oferece, e a decisão é instantan~­ também o d irá, à sua maneira.
mente evidente, entre ser e parecer, entre aqui e alhures, entre mim e ~ Os intérpretes de Montaigne geralmente viram bem quanto esse ' ' r e- v'... ., ,.
outros, o meu e o estranho, o natural e o artificial, o espontâneo e o apr~­ torno a si", inspirado pela sabedoria greco-latina, diferia daquele de~~- '" A.. ...
dido, o interior e o exterior, o profundo e o superficiaL Cada uma dessas minado pela piedade cristã e, sobretudo, pela pregação agostiniana: es t~ ... "
antíteses contém ou chama em eco todas as outras. São intercambiáveis convidam a recolher-se em si mesmo para aí escutar a voz de Deus e para " '
e passíveis de ser sobrepostas. A decisão é alcançada por antecipação: es:_ sofrer seu julgamento, segundo uma exigência que interioriza a relação
sas antíteses não admitem a indecisão nem a hesitação. Todas designam de submissão à transcendênci'!: Em contrapartida, o recolhimento dese-
um partido a tomar: o retorno a si, a retomada do domínio, a autonoruia jado por Montaigne busca em si apenas um interlocutor especular , visa
e a autarcia. devolver ao indivíduo mortal o pleno exercício de seu próprio julgamen-
O que-diz a antiga lição de filosofia? 41 Que, submetido às forças de to, em um desdobramento que tende a instaurar no interior de si uma re-
fora o homem se dilapida para nada: é paixão e passividade, não perse- lação de igual para igual, sem nenhuma submissão a uma autoridade ex-
gue ~enão gozos decepcionantes, sua substância se dissi~, sua vontade terna. Se a injunção humanista e a injunção religiosa preconizam ambas
seextenua e se torna serva. Que, em compensação, tudo volta a ser sóli- a "conversação" interior e a reapropriação, esse é, na perspectiva do cr en-
do e precioso na medida ffit que se recolhe em si mesmo e se concentra te, apenas um primeiro tempo, ao qual darão continuidade a obediência
na fortaleza interior. É a saúde redescoberta: o ser se descobre alegre e à autoridade divina e a esperança da salvação. Para o humanista que to-
d isposto, devolvido ao seu vigor nativo_. Aliviado de tudo que não é ele mou suas distâncias da devoção, essa reapropriação, uma vez consegui-
próprio, pode gozar de sua verdadeira força, puramente possuída. Ele coin- da, é em si um fim satisfatório. A solidão que ele preconiza não oderja
cide consigo; proíbe suas energias de lançar-se para um futuro quimérico con~-se com a tradicional vita contemplativa que a religião opõe !
ou para um objeto exterior: a partir daí, nenhum desperdício da substân- vita activa, à vida no mundo.:..Condenável complacência da criatura com
cia do eu pode sobrevir. Ao agir, escolhe sua ação de maneira que esta relação a si mesma, dirão os moralistas de Port-Royal e, depois, Male-
encontre seu ponto de aplicação o mais perto possível do próprio agente. branche ... Montaigne sabe muito bem que sua escolha não é a da vog.-
A ação perfeita, no limite, consistirá em se refletir inteiramente, em não ção espirituah Disso se desculpa alegando sua fraqueza, enquanto assi-
ser senão a reasserção de uma identidade perseverante: voltada sobre si nala sua reverência àqueles que são capazes de verdadeira devoção: "As.:
mesma, a ação não sai dos limites do aqui e do agora, ela os preenche, piram a Deus, infinitamente bom e poderoso, e sua alma, livre, encontra
os consolida, os habita e os possui ao se possuir, ao "retesar-se'~ Agora, à saciedade a satisfação dos desejos que concebe no retiro[ ... ] Quem po-
aqui: esse instante e esse lugar serão doravante contidos e preservados, de abrasar a alma com a chama dessa fé que nada ·a bala e dessa esperançã":_

20 21
que engendra uma convicção real e constante, leva na solidão uma exi~ para reformar os dogmas ou as .leis civis, em nome de uma verdade que
tência cheia de volúpias e de delícias, que deixa muito distantes todas ~ acreditam possuir ... A única atividade que não é enganadora é aquela em
satisfações outorgadas por qualquer outro gênero de vid~' . 43 Mas a ne- que o indivíduo age sem se abandonar: é a atividade do julgamento diri-
gação do corpo, a ruptura demasiado radical com as realidades do mun- gido ao mundo - ou a si mesmo - ; será, finalmente, aquela em que o
do, Montaigne as declara fora de seu alcance; sob a aparência de louvar eu é simultaneamente a origem e o fim e que se exprime pelos verbos re-
a ascese, dela se diz incapaz: "As essoas mais sábias do que eu, de alma \
mais forte e elevada, podem criar para si um repouso inteiramente espíri- l
·: "'-- flexivos: experimentar-se, examinar-se, pintar-se - movimentos auto-
referidos aos quais deveremos, na seqüência, dirigir mais particularmen-
- -J
tual. Eu, que a tenho como todo mundo, preciso crn_e as comodidades_do te nossa atenção. Palavras e atos reencontrarão, afinal, sua validade, mas
corpo me ajudem:.' ... 44 Ocorrer-lhe-á ser mais severo com aqueles que le- sob a garantia da consciência e da indiferença refletidas. A identidade,
vam o desprezo do mundo a ponto de "dissociar-se do corpo": "As pe~­ j._. ---~ ~ .. tal como nos será finalmente oferecida no trabalho do ~tista e na pÍJl-
soas obcecadas por essa idéia de separar o corpo do espírito, de se torna: ,-=- tura de si, é de uma natureza diferente da identidade tal como Montaigne
rem diferentes e de deixar de ser homens não passam de loucos; não ~e J rt-; __....... .-~inicialment~perseguira sob a forma da estrita e tácita igualdade des i

transformam em anjos e sim em feras; em lugar de se elevarem, abaixall}: :(.::.:~~ ...... para sl.. Tratemos agora de retraçar a progressão efetuada por Montaigne
se. Esses humores transcendente~ apavoram-me, como os sítios excessi- ' ',. • de uma exigência de identidade a outra. Q_movimento que tento descrs.-
vamente altos e inacessh~s [ ... ]" .45 Já não é permanecer na unidade de ver aqui não é nada mais do que o esforço que, começando por pensar
uma existência que se redescobriu:. é novamente sofrer o malefício da ex- a identidade como constância, estabilidade, conformidade consigo ~S:
terioridade- colocando-se "fora de si'-'. Montaigne reservará sua mais mo, reconhece que não pode alcançar o que visou de início, mas permA-
viva desaprovação para a ueles que, tendo aparentemente rompido com nece suficientemente fiel ao apelo da identidade para buscar conferir-lhe
o mundo, voltam-se contra ele para emendá-lo, para submetê-lo mais pu- outro conteúdo, outra significação:.. -
ramente às vontades de Deus, das quais se pretendem informados; aoj_
olhos de Montaigne, esses fanáticos são apenas atores mascarados, pri-
meiras vitimas da opinião nova que querem impor... - A VIDA TEORÉTICA E A FUNÇÃO DO EXEMPLO
.\1ontaigne escolhe a identidade interna, a relação constante e está-
vel de si para si, mas continua a dirigir seu olhar para o mundo, salva- ~ .~ r A reJa ão com o mundo, tal como a inaugura Montaigne a a rtir
guardando os laços que não entravam a vinculação a si. Das janelas de do lugar de ÓCIO e de e1tura o qual fez seu refúgio, é aquela que os anti-
sua biblioteca, a vista dá para pátio e galinheiro. Ele pretende preservar gos chamavam theoria, viÔa teorética, isto é, compreensão contemplati -
toda a presença do mundo compatível com a recusa da servidão (~e va do mundo oferecido ao olhar. Encontrar-se-á sob sua pena (em um
a mais livre existência pessoal inclui a vida do_f9r~e porque o corllQ J acréscimo posterior a 1588) um dos topoi clássicos que justificam o exer-
é uma "peça" do mundo, uma pane da natureza 46 cício da rheoria: "Nossa vida, àizia Pitágoras, assemelha-se à grande e
Retomando, assim, alguns dos grandes temas da moral antiga, Mon- populosa assembléia dos jogos olímpicos. Uns se exercitam para co nquistar
taigne adota argumentos ambíguos que, em nome da plenitude verídica, a glória; outros levam sua mercadoria para vend er e ganha r. Out ros , e
podem fa vore~er altern aJamente o engajamento e o desengaja mento, a não são os piores, nada querem senão ver o porquê e o como de cada
ação e a negação da ação. Quando se trata de opor a solidez dos aros coisa e ser espectadores da vida dos outros para assim julgarem e regula-
à futilidade das palavras, Montaigne aceita a li ão da moral tradicional, rem a sua" . 48 Existe aí não apenas um "grito"- a evocação de uma
opta pelos atos. Sua "pretensão nobijiária" (Friedrich)47 aí encontra um opinião autorizada e digna de ser aprovada- mas, sobret udo, a atitude
apoio oport ü;;"o: um fidal o bem:;;:sB'dõ tem aversão a dar a pre~­ que o próprio Montaigne pretende adotar diante da realidade presente:
cia à linguagem, à eloqüência, às seduções da Q_alavra artificiosa (remon- "Sempre lamentei, ao ler as histórias das_perturp_!ções políticas, não as
temos ao capítulo LI do liHo I, "Vãs são as palavras"). Na Õ rd -:m da ter presenciado, mas minha curiosidade_Etisfaz-se agora com o espetá-
moral, a tradicional antinomia resl verba convida a optar pela .solidez das culo de nossa agonia pública, com seus sintomas e formas. Como não
coisas contra o vento da palavra. Mas, quando se trata de opor o fora posso retardá-la, conterrt'õ-me com presenciá-la e instruir-mL Bus~
e o dentro, segundo outra injunção da moral e outra antítese tradicional, com avidez no teatro as trágicas peripécias do destino humano". 4 9
ele recusa deixar-se levar pela ação, que pertence à região falaciosa do Diante da agitação dos homens absorvidos por seus in~s e por
exterior - acabo de lembrar o que pensa daqueles que passam aos atos suas lutas, o espectador imóvel remonta às causas : aplica-se em discernir

22 23
o como e o porquê, a fim de satisfazer sua curiosidade; mas não é, por compreendereis quais os verdadeiros bens. de que gozamos na medida em
isso, desinteressado; se o quiser- e Montaigne parece tê-lo querido , pe- que os vamos entendendo, e assim sereis felizes, sem desejar que vos~
lo menos no início de sua empresa-, pode zelar para que a verdade ma- vida se prolongue e vosso no me se torne famoso. Eis um conselho deve"?-
nifesta no espetáculo do mund o encontre sua aplicação na vida interior; dadeira e natural filosofia [ .. J.:.:.. 50 Devemos dirigir nosso olhar aos indi-\ -... r . -- .
para chegar a isso, será preciso o concurso do julgamento e da vontade; víduos e"'emplares para imaginar, em troca, seu olhar dirigido a nós: sob I
o julgamento, ato intelec ual em q ue o indivíduo se olha, por sua vez, o controle desses seres aos quais nos submetemos como a preceptores ou
e se compara; a vontade, ato formador- oU-tr.alli(ormador, Qelo gual o
indivíduo regula sua vida.
- a pais, estamos destinados à nossa própria verdade, ao ato de reasserção j
que constitui nossa identidade pessoal, na pura presença para si.
A investigação, atentamente prosseguida através do espetáculo va- A eficácia do exemplo se deve, em grande parte, à sua qualidade de
riegado das ações humanas, aspira a aí reconhecer encadeamentos regu- a contecimento passado; a imagem de perfeição moral que ele nos propõe
lares; estes não terão apenas valor explicativo, têm também, direta ou in- se conj uga, temporalmente, no perfeito . A nitidez de seu traçado vai de
diretamente, valor regulador. A felicidade ou o infortúnio dos homens .... ._,.....,, ..~ . · >._-...te par com seu afastamento no tempo. Mas o passado do exemplo, para quem

cam em evj dencia modelos de co nduta; e~essa maneira, contriQ_uem p~" '"oA.. c..•~~., -
ra a unifica ão da vida moral. Uma verdade moral, percebida no exterior
...
il ustres são modelos, ou advertências: por seus erros mesmos, estes colo- ~o r "<.-""c. ......_ to-.. oJ. c..
a ele se apega, é secretamente habitado pelo futuro d o dever-ser. O CU!_e
f oi o homem exemplar devemos sê-lo por nossa vez, nós o seremos se a
tsso nos aplicarmos com toda a n~ nergk, Po~xemplo - é preci-:-
em sua validade universal, deveria poder ser identicamente revivida no
so lembrá-lo? - é Uma fo rma cultural preexistente que se propõe à nossa
interior; sua eficácia se traduziria pela identidade consigo mesmo, isto é, I emulação: a aposta é de construir o eu, de chegar à nossa própria forma,
pela constância e pela coesão da alma. A esperança que anima essa atitu-
superando o que a existência cotidiana tem de amorfo e de indeciso. To-
de é que a fidelidade imitativa sele ao mesmo tempo uma fidelidade inter-
d a a apática substância, toda a indistinção de nossas "condições e humo-
na. Uma vez apreendida pelo olhar contemplativo (pela theoria), a ver-
r es" vão cercar-se de um contorno traçado ao vivo, vão apoderar-se de
dade, em seguida, não pode ser senão reiterada, semelhante a si mesma,
assegurando assim a identidade e a estabilidade do sujeito que dela to- si e enrijecer-se. Uma marca, então, imprime-se para sempre em nós. (La
mou posse. A continuidade interna tem sua origem na fidelidade ao mo- Boétie, "alma de velha marca" .) 51
~ jmitação do exemplo é um simulacro, mas um simulacro ue visa
delo externo. Essa é, especialmente, a função que o espectador atribuirá
às existências exemplares: o exemplo é a figura que, posta à parte (ex- a identi fica~. E um papel, mas um papel que devemos moldar em nós,
emplum) mas reclamando a imitação e a generalização, pode fortalecer deixando-nos habitar por sua lei. Oferecemo-nos inteiros ao poder for-
o indivíduo , em sua singularidade virtuosa: esforçando-se por se manter m ativo do exemplo . Este, "dando-nos contorno e constância, de início pa-
em estado de semelhança contínua em relação àqueles que foram mila- rece roubar-nos nossa espontaneidade ou obrigar-nos a reprimi-la. Mas,
gres de constância, ele se exercitará em tornar-se idêntico a si mesmo. Pa- sem tardar, o exemplo, tendo-nos invadido inteiramente, confundir-; -á
ra satisfazer tal exigência, ou pelo menos para iniciar-lhe a realização, comnossa existência. E nossa espontaneidade segunda realizará sem e5:""
a simples evocação do exemplo, seu emblema- a efígie na medalha-, forço os gestos exigidos pelo modelo encarnado. A ssimilar a lição exem-
deveria bastar . A literatura impessoal dos adágios e das lições será eficaz, plar: esse é o programa clássico de uma pedagogia que pretende inculcar
na medida em que o leitor a ela corresponda com todãSãSsuas energiãS /r- normas mediante a imitação das grandes vidas, nas quais essas normas
pessoais. Mas as histórias serão mais eficazes. Basta fixar nosso olhar so- se atualizaram. (Mensuremos aqui a distância entre o humanismo e a si-
bre a ~idência admirável que exige, em nós, sua repetição: "Enguan.!_o tuação contemporânea: no universo humanista, õexemPIOse perma~
não uderdes mostrar uma atitude irrepreensível, enquanto não inspirar- Ü m horizonte de perfeição passada- o mundo antigo - ; ou, ainda,
des a vós mesmos respeito e pudo~ 'oferecei a vosso espírito nobres ima- oferece-se em uma figura a uma só vez próxima e transcendente- Cristo
gens'; tende sempre presentes à im2&ffiação Catão, Fócion, Aristides, di~- - ; no mundo contemporâneo, os exemplos -heróis, estrelas, figur~
te dos quais os próprios loucos esconderiam seus_erros; e fazei-vos juízes carismáticas - , com freqüência efêmeros e intercambiáveis, pro~êmn a
de vossas il!!enções. Se estas não forem o que deveriams er, a deferên~ maioria das vezes do próprio mundo contemporâneo; são freqüentemen-:-
que por eles tendes vos indicará o caminho certo. Eles vos ajudarão a V.Q.S te o objeto de uma "manipulação" que os torna utilizáveis para fins e~­
bastardes, a.nada pedirdes senão a vós mesmos, a fazerdes com que vos- nômicos e políticos, pois as figuras exemplares são um poderoso meio de
so espírito se atenha às meditações em que possa comprazer-se. Assiin orientar nossos desejos.)_

24 25
O exemplo antigo aparece em um teatro absoluto, separado de nos- tência singular: isso pôde ocorrer, testemunhas dign~s de fé o relatam ....
so mundo como o "palco italiano" está separado da sala: o exemplo fa- São exem lares, ortanto a enas or sua ossibilidade realizada não in-
la, tem a força de uma sentença admirável, é ao mesmo tempo sentença dicam nada mais que sua ocorrência, advinda muitas vez_es contra toda
e ato. Digamos mais: ele nos julga, pois determina a escala de valores,
a medida pela qual nosso m.érito e nosso demérito podem ser mensurados
.- a expectativa e fora do andamento ordinário do mundo - merecendo,
por isso, nossa admiração (mirabilia), mas de maneira neilhüinafiõSSã
- a palavra e a imagem exemplares são por demais poderosas para que irnifação. Ao manifestar sua própria particularidade, designam por m~
o esquecimento jamais chegue a apagá-las. Sua marca é indelével, pois · desta um mundo feito de particularidades dessemelhantes: um mundo da
o exemplo, como veremos mais de uma vez, manifesta-se quase sempre diversidade em que os "testemunhos fantasistas" merecem nossa audiên-
em uma cena memorável. Aí nos são oferecidas, indissoluvelmente liga- cia, quando não nosso inteiro crédito. Assim, cada novo acontecimento
das, as palavras, a vida e a morte do herói. Deveremos, na seqüência, tomado como testemunho confirma ainda mais a figura variegada de um
examinar mais de perto duas de suas grandes ilustrações: a morte de La mundo entregue à heterogeneidade, à passagem, à contradição. É mais
Boétie, o suicídio de Catão. um "fragmento" em um amontoado de fragmentos, um "aspecto que
pode assumir a natureza humana" ~contingente, desprovido de au-
toridade normativa.
A EXCEÇÃO Sem dúvida, por ter recortado e retido, nos livros dos antigos, mui-
tos traços (palavras, gesto's) que introduz em seu próprio discurso, Mon-
Não é impossível, como se afirmoú, 52 que Montaigne, no início da taigne percebeu-lhes de maneira mais aguda sua aptidão para deixar-se
redação dos Ensaios, tenha partido em busca de paradigmas de toda or- mobilizar, alterar, permutar- em suma, sua qualidade de passagens, no
dem (políticos, militares, morais) e que tenha tentado escrever um ma- sentido ambíguo da palavra. A leitura dos autores doxógrafos (Estobeu
nual do erfeito f1_dalg2.:_Mas sua atenção voltou-se de imediato, como etc.) encoraja a isso. O exemplo não é mais um termo fixo, que se eleva
o notam justamente Hugo Friedrich e Karlheinz Stierle, 53 para a exceção e brilha para além das vicíssituêles do mundo corruptível. E um elemeniõ
que desmente o paradigma, para a discordância entre as lições implícitas desse mundo desordenadÕ, um instante de sua oscilação, uma figu ra Õo
dos grandes exemplos propostos pela tradição ou para o que dizem os fluxo universal. O curso do tempo, o malefício da multiplicidade arraS-'
memoralistas sobre os resultados ora favoráveis ora desastrosos de uma tam e destituê'in o exemplo, despojam-no de toda preeminência, de todo
mesma conduta. Considerando os exemplos uns após os outros, ele os privilégio de permanência. A figura paradigmática perde a autoridade uni-
vê, por sua própria justaposição, contradizerem-se e destruírem-se mu- versal de que fora investida, retoma à existência acidental de que não é
tuamente. Nenhum ato humano pode pretender a di nidade de modelo mais do que uma das manifestações. A regra presumida se dissolve e se
fixo , de regra universa ; a ocorrenCias smgulares, acontecimentos notá- reabsorve na irregularidade do universo fenomênico. Em compensação,
veis e pessoas fora do comum, dignos de reter nossa reflexão. Não exi- o espetáculo do mundo histórico e natural, enriquecido nesse século por
gem a imitação e, de resto, mesmo se quiséssemos segui-los , revelam-se tantas maravil has assinaladas em outros continentes, adquire um aspecto
inimitáveis, incapazes de balizar nossa rota e de garantir-nos a seguran- inesgotável e pululan te: talvez prevaleça a insegurança, ao termo do alar-
ça. Há então, tanto no passado quanto no mundo contemporâneo, uma gamento enciclopédico dos "quadros" e das "histórias", que, a despeito
multidão de feitos dignos de curiosidade, mas dos quais nenhum possui do esforço de nomenclatura e de classificação, recusam deixar-se subme-
um título qualquer para exercer plena autoridade sobre nossa existência. ter a uma ordem irrefutável e fazem romper-se os limites do saber tradi-
Por certo, esses feitos estão longe de equivalerem-se; trazem a face do cional. Os monstros, os jogos da natureza reivindicam o direito de figu -
mal ou a do bem, e o veredicto da consciência moral , em Montaigne, em rar na mesma condição que as formas regulares, já que a natureza, por
geral não é de maneira alguma Yacilante. Como já dissemos: ele não hesi.- toda a parte igual a si mesma, não saberia distinguir entre seus filhos uma
ta jamais sobre o inadmissfvel. Mas uma coisa é atribuir a um ato famoso descendência legítima e uma progenitura bastarda. O desvio é doravante
umWiiõr morãl; outra coisa é ver nesse ato o valor que orienta nossa pró- apenas uma das vias possíveis: o escândalo do desvio se abole quando
pria";ção, a estrela polar de nossa viãa. No final aas contas, os exem- desaparece o privilégio de um fim e de um caminho exemplar indiscutí-
plos, por mais nobres que sejam, são remetidos à condição de anedota veis. "A identidade com um dado exemplo nunca é absoluta",ss dirá fi -
(no sentido de "singularidade curiosa" ou, no limite, de " história prodi- nalmente Montaigne, depois de nos ter prescrito não falhárdiante dos
giosa'', digna de não permanecer inédita). Assinalam apenas sua exis- homens exemplares.

26 27
A partir daí, é o circuito fechado da exemplaridade externa e da cons: e se apoderam do espaço oferecido. O teatro que o eu é para si mesmo
tância interna que se torna irrealizável. O apoio exterior vem a faltar. E )C,... vê surgir uma multidão de figuras, provindas de dentro. (Admitamos que
preciso arriscar-se a viver sem a proteção oferecida pelo exemplo ... Mon- se trate de um ardil da linguagem: logo que o eu se torna gramaticalmen-
taigne chegará a dizer de sua própria vida moral que ela é "bastante exem-/ te objeto, nada impede gue cada uma de suas paixões, de suas idéias etc.
piar, se se tomar o ensinamento a contrapelo". • 56 tenha, por sua vez, o mesmo estatuto de objeto quase autônomo.) A cena
povoa-se de intrusos; regê-la ou regrá-la torna-se uma empresa desespe-
rada. O repouso tão desejado, no entanto, não se deixa alcançar. Em uma
O DESDOBRAMENTO, OS MONSTROS, A MELANCOLIA passagem importante (que constitui o essencial do breve capítulo " Da ocio-
sidade". 1, vm), Montaigne reconhece que não pôde obter o benefício que
Fazer-se espectador do mundo, examinar-se a si mesmo . O fim bus- de início esperara do retiro:
cado é a unidade, a vida regrada. É a reapropriação. Ora, eis que, para- (a) Retirei-me há tempos para as minhas terras, resolvido , na medida d o pos-
doxalmente, ocorre o contrário. A unidade se esq uiva. A cena interi or sível, a não me preocupar com nada, a não ser o repouso, e viver na so lidão
se desregra. os dias que me restam. Parecia-me que não po dia dar maior satisfação a meu
Como ocorre essa in versão? Digamos que se trata - no pensamen- espírito senão a ~d.s_, para que se concentrasse em si mesmo , à vonta-
de, o que esperava pudesse ocorrer , porquanto , com o tempo, adquiria ma is
to, no discurso -de uma conseqüência imprevista do desdobramento que
peso e maturidade. Mas percebo que : "na ociosidade o espírito se dispersa
separa do contemplador o objeto contemplado.
em mil pensamentos diversos"; e, ao co ntrário do que imaginava, caraco-
lando como um cavalo em liberdade, cria ele cem vezes maiores preocupa-
-
Tentemos retraçar as etapas desse processo.
ções do que quando tinha um alvo preciso fora de si mesmo . E engendra
tantas quimeras e idéias estranhas, • sem ordem nem propósito, que para
Desde o seu primeiro enunciado, a sabedoria da theoria compreensi- perceber-lhe melhor a inépcia e o absurdo as vou consignando por escrito,
va vai ao encontro dos preceitos da auto-suficiência, da autarcia. Não basta na esperança de, com o correr do tempo, lhe infundir vergonha. 58
observar o mundo como um espetáculo: é ainda fazer demasiado caso da É a primeira confidência que faz Montaigne sobre a própria origem
exterioridade. É preciso converter-se para si mesmo em seu próprio te_a- de seu livro. Ele precisou sofrer uma inversão do a favor ao contra, um
tro. Segundo uma injunção formulada por Sêneca e acentuada por Mon- jogo malicioso dos contrários. Desejava a calma e segura base (para que
taigne: "Vós e mais um já vos bastareis neste teatro da vida, em vos ~­ se concentrasse em si mesmo, à vontade), a conversação silenciosa apenas
vindo mutuamente de público; e, se estais só, sede a um tempo ator e ~­ consigo (não podia dar maior satisfação a meu esplrito senão a ociosida-
pectador" _57 A cisão necessária à observação faz necessariamente preva- de). Ao invés disso, conheceu o arrébatamento desordenado, a prolifera-
lecer a duãiidade. Dualidade de início aceita como um estado provisório ção da preocupação. Ao invés da vid~ regrada restituída a sua plena reali-
- na expectativa da unidade consciente, que ocorrerá quando o eu ob- dade, viu nascer a horda pululante dos monstros e das criaturas irreais.
servado se houver submetido aos comandos do eu observador, quando Viu-se então obrigado a anotá-los, a registrá-los, ales mettre en rol/e. Bus-
o eu-espectador tiver podido dar sua plena aprovação ao eu-espetáculo. cou socorro no ato de escrever, no livro por fazer. Como não renunciou
Mas, na experiência que disso realiza Montaigne, a cisão autocontempla- ao fim moral da edificação interior, precisou afetar de vergonha seu espf-
tiva, ao invés de ser estabilizadora, torna-se o princípio de uma pluraliza- rito. Aquele que, nesse texto, diz eu e recorre à primeira pessoa do singu-
ção rápida. O desdobramento, ao invés de assegurar a repetição do mes- lar afirma-se diferente, não idêntico, em relação ao que descobre em si
mo, abre caminho para a diferença e desencadeia toda a série dos núme- mesmo. A unidade desejada é assim diferida, adiada para mais tarde: é
ros. Pela brecha aberta, o múltiplo e as mudanças ilimitadas se engolfam preciso primeiro domar o cavalo em liberdade. repreender o espJrito fal-
toso como se repreende uma criança. A atitude contemplativa (teorética)
(*) Não cito aqui a tradução de Sérgio Milliet, que impediria a compreensão do co- não é por isso abo.lida, mas ao invés de instaurar, de si para si, uma sim-
mentário de Starobinski, já que exige uma leitura a partir do inicio ·do parágrafo, reprodu- patia aprovativa, ela constata a presença de uma alteridade que se recusa
zido a seguir: "Em suma, todo este ensopado de frases aqui jogadas algo confusamente
a toda identificação (para perceber-lhe melhor a inépcia e o absurdo).
constitui uma espécie de registro das experiências de minha vida. No que concerne à saúde
do esplrito, fornecem elas muitos exemplos instrutivos, conquanto façam o contrário do
que disse e eu mesmo fiz" . (N. T .) (•) No original, "quimeras e monstros fantasiosos". (N. T.)

28 29
Façamos, nesta página, a conta das instâncias nas quais a pessoa se Eis-nos em presença de uma série de causas e de efeitos em que as
distribui; ficaremos impressionados com sua multiplicidade. Aquele que modificações do corpo e do espírito se determinam reciprocamente. O que
diz eu mantém com seu espfrito (entidade distinta, em posição gramatical deve deter-nos não é a interpretação que Montaigne propõe aqui, impli-
de complemento indireto) uma relação de observação e de ação. O espíri- citamente, das relações da alma e do corpo; não há nada aí que não este-
to, por sua vez, estabelece uma relação refletida consigo mesmo (relação ja de acordo com a antropologia médica herdada de Galeno e geralmente
que substitui a relação com outrem); além disso, esse mesmo espírito en- aceita no século XVI. A doutrina galênica é uma psicossomática que Mon-
gendra a multidão desordenada dos monstros. E é em relação a essa ema- taigne, tão desejoso de respeitar a "fraternal união" da alma e do corpo
nação eAierior, a essa progenitura segunda (sendo a primeira meu espfri- ~I
pode aprovar sem dificuldade, ainda que não creia muito nas deduções
to), que o sujeito primeiro (eu) retoma a atitude do contemplador. Onde in verificáveis que dai tiram os médicos. Ela lhe parece adequada, de ma-
a unidade pode encontrar refúgio? De um lado, na permanência do pri- neira muito geral, a uma só vez no plano descritivo e no da imputação
meiro sujeito, testemunha perseverante da escapada de seu espírito e da causal. 60 Segundo a convicção habitualmente partilhada em sua época,
sucessão das criações monstruosas. De outro lado, no rol/e final- regis- ele estabelece uma relação estreita entre solidão e melancol@.lprocura-se
tro que, na continuidade de seu espaço próprio, deve recolher a plurali- a Sõliaão porque se está melancólico· fica-se melancólico RQI.gue se 1~
dade irreal e descontínua das quimeras e monstros fantasiosos. O regis- uma existência solitária ; conhece também o risco de melancolia que aco;:-
tro e a voz que profere o primeiro ~u tenderão cada vez mais, como vere- panha toda vida intelectual (aqueles cujo tem eramento é melancólico P-ªS.:
mos, a reforçar-se mutuamente. sarão sua vida a ler.E_U a escrever livros; éi_QI!_eles que consagram sua exis-
Um outro texto, referente à gênese dos Ensaios, deve reter paralela- ~ência aos trabalhos literários se expõem a tornar-se melancólico1}.; nã~
mente nossa atenção. É a confissão que faz Montaigne à sra. D'Estissac 1gnora que a melancolia pode ter dois efeitos inteiramente contrários: a
no começo do capítulo vm do livro n ("Da afeição dos pais pelos fllhos"): inspiração genial e o sombrio estupor. 61 Sabe também que o atrabiliário,
segundo as idéias médicas mais difundidas, é o homem que se encerra,
; .. c..e~ &b *'
(a) Uma melancólica disposição de espírito, inimiga de meu temperamentJ .,
natural, mas provocada pelas tristezas da solidão em que vivo sumido há
alguns anos, engendrou em mim a idéia de escrever. Achando-me inteira- e
c..
---..c.
t ._ ;c
-c.·
~~
0 que desconfia, aquele cujo olhar inquieto vê o mundo como uma comé-
dia sinistra, o misantropo que se acredita cercado de inimigos masca-
rados.
mente desprovido de qualquer assunto específico, tomei a mim mesmo co-
mo objeto de análise e discussão. s9 Para a fisiologia da Renascença, a melancolia (ou atrabílis) é, com
o sangue, a bílis e a fleuma, um dos quatro humores fundamentais cuja
A explicação que nos propõe aqui Montaigne não é menos impor- mescla determina o "temperamento" do indivíduo. A feliz proporção dos
tante que a anterior. As duas frases exibem uma cadeia de razões. Estas humores faz do corpo um instrumento que a alma governa sem muita di-
fazem intervir, na origem dos Ensaios, uma causalidade complexa, que flc uldade. Mas todo desequihbriõ , e sobretudo o excesso da bílis (ou có-_
se inscre,·e simultaneamente no fio da duração (há alguns anos... primei- lera) ou da melancolia, permite à paixão corporal assumir o comando.
ramente... e depois... ), • e em um triplo espaço, incluindo o mundo (a A atividade voluntária é então eclipsada; o homem é conduzido à sua re-
solidão em que vivo sumido), o corpo (humores, cabeça)•• e o espírito velia por uma fatalidade material. Por tudo que esta o obriga a realiza r,
(achando-me desprovido ... ). Montaigne incrimina uma disposição física, ele, dorava.nte, já não é responsável. Incriminar, como o faz Montaigne,
uma desordem do "temperamento" (o humor melancólico), eles próprios ~ncoha (que me pôs na cabeça o desvario de escrever) é desculpar-s~
produzidos por um estado afetivo (a tristeza que resultava da escolha mo- da falta de escrever, é fazer saber que Qão nos tornamos escritores volun-_
mentânea da vida solitária). E o humor melancólico determina, por sua tariamente: a causa disso se encontra nas trevas do corpo, na mais som-
vez, o desvario•• • - termo que é preciso entender no sentido forte de bria das substân~ias que nos compõem~ Se prestamos atenção à pasSa-
delírio, loucura, obsessão -, equivalente bastante exato das "quimeras gem que acabamos de citar,~- único ato voluntário mencionado or .Mon--
e morutros fantasiosos" do texto anterior. taigne é a escolha da solidão: deliberadamente aí se lançf!.!1.: • Co~e -" <.
fim? Lembremo-nos do texto da inscrição que ele mandou pintar nas pa- ~ ~ $
(
0
) ~o original, "primeiramente engendrou em mim. E depois, a chando-me [ ... )".
redes de sua "biblioteca": a escolha da solidão equiYalia, na intenção de · '- (
(N. T.)
(••) So original, " Um hu;nor melancólico[ .. . ) primeiramente me pôs na cabeça( .. . )".
(N. T.) (•) No original, "provocada pelas tristezas da solidão em que há alguns anos
cei [ ... )" . (N. T .)
me~n- 1~:
'
~;
(•••) ~o original , "primeiramente me pôs na cabeça esse desvario [ ... )" . (N. T .)

31
~lontaigne, à escolha da liberdade. Aborrecido (pertaesus) com os car- ~ razão ! À curiosa e laboriosa investigação científica que o levou à loucura!
gos públicos, cansadodo jugo (servir i um) do Parlamento, acreditou que A rara aptidão para os trabalhos do espírito que o deixou sem espírito e sem
a vida solitária seria a vida livre. Ora, eis que assistimos a uma inversão possibilidade de trabalhar! 63
da mesma ordem daquela que substituía a unidade virtuosa pelo plural
Nada de semelhante, por certo, em Montaigne, mas apenas a cons-
monstruoso. A solidão provoca a tristeza e a melancolia. A esperança de
liberdade se dissipa: é preciso sofrer a lei do humor sombrio, sentir-se
invadido pelo desvario, que é alienação no sentido patológico do termo.
I ciência de um perigo e o sentimento de um desarranjo sempre possível.
Além disso, salientemos que, ao atribuir à melancolia uma partici-
pação decisiva na origem de seu livro, Montaigne fala dela como de uma
Uma outra sujeição começa ... (Por certo, essa confiss~o pode ser coloca-
causa inabitual, excepcional, contrária a sua verdadeira natureza. É, as-
da, até certo ponto, na conta da coqueteria e da pretensão nobiliária: L
inconveniente para um nobre exercer o oficio de escrever. " Pouco me in- segura ele, "uma melancólica disposição de espírito, inimiga de meu tem-
perame~o natural". 6-1 Tornou-se escritor, portanto, por ocasião de uma
comodei com criar.!:!!!!-ª obra literária", 62 dirá Montaigne a outra gra;
de dama. O _bumor melancólico e· o constrangimento laboriosQ.JI~e mudança brusca de humor, que o tornou momentaneamente dessemelhante
impõe têm valor de álibi morng1tâneo para um fidalgo que, ao tomar_a de si mesmo. No\"O aspecto da alteridade! Como! eis aqui um livro do
pena, ainda que seja para zombar dos fazedores de livros, esqueceu o que:_ qual se declarará que "autor e livro constituem um todo"65 e que tem
deve a si mesmo.}. origem por ocasião de um afastamento, de um desvio passageiro do an-
A preocupação de escrever é, portanto, a conseqüência de uma in- damento habitual da existência. O começo da escrita nos é apresentado
trusão da estranheza, que violentou o livre querer da alma e lhe subtraiu como uma aberração, doravante irrevogável, que um retorno a disposi-
o fruto de seu primeiro esforço. Melhor dizendo: para Montaigne, a preo- çõe.s ~-enos. som~rias não. anulará. Fora das circunstânciasJnsóli~e
cupação de escrever visa reconquistar um domínio interno posto em risco de IniCIO o 1mpehr~ a_d1tar ou a tomar a 11ena, Montaigne continuará_
pelas extravagâncias de seu espírito ocioso ou pelo irresistivel desvario do a escrever; não ren_Egará o "desvario" que o fez autor, com o risco de
pesar melancólico. Escrever constitui o último recurso para se recuperar destituir de toda autoridade esse livro cuja o rigem lhe Qarece tão fú til.-
da passividade multifo rme que StUJlanta a posse ativa que ele esperara. . Se, segundo Montaigne, a melancolia foi para ele um estado exc;p-
- A passividade adquire aspectos variáveis.NõTexto que h avíamos IT: CIOnal, tentemos medir a amplit ude do desvio comparando-o ao que ele
do, o espírito de Montaigne não apenas representava o "cavalo em liber- considera seu "temperamento natural". Confissões não faltam. Aqui es-
dade" mas também se tornava produtor de monstros, em virtude de uma tá um ~reve auto-retrato do físico: "S~rracado e forte, tenho o ro.s;
fecundidade espontânea: o sujeito primeiro se redescobria na situação pas- to che10 sem ser balofo; meu humor flutua entre jovial e melancólko,
siva da testemunha que assiste ao turbulento espetáculo surgido nele. En- meu temperamento é algo sangüineo...:_~A descrição não pode fJxar-se
tre as duas passagens que explicam o começo da empresa de escrever, a em um tipo íntegro e puro: são o misto e o intermediário que revalecem
diferença principal reside no contraste entre a multiplicação evocada pela segundo o conceito de idiossincrasia,Pelo qu~ a doutrina galênica consi-
primeira ("cem vezes maiores preocupações[ ... ] sem ordem nem propó- dera a particularidade individual em um sentido que pode harmonilãr':se
sito") e ·a vacuidade alegada pela segunda ("achando-me inteiramente des- com as preferências nominalistas de Montaign~ E, além disso, esse "teffi-
provido"). Mas o excesso de imagens e o vazio dependem ambos do ex- peramento" situado "entre o jovial e o melancólico" não se estabiliza
cesso de humor melancólico. Este se dirige naturalmente aos extremos, em um equilíbrio fixo: exprime-se por uma sucessã;de estados opostos.
que alterna ou até mesmo faz coexistir de maneira surpreendente. Filóso- A mutação, de que Montaigne fará a lei do mundo, governa ordinãiTa-
fos e médicos, desde a Antigüidade, repetiram-no. E Montaigne, falando mente seu próprio corpo e seu espírito: "Quero e não quero empreender
da loucura de Tasso, disso se lembrou: alguma coisa, e o que me apetece agora contraria-me depois. Mil agita-
ções inoportunas e acidentais verificam-se em mim; ou sou tomado de
(a) Diz Platão que os melancólicos são os mais aptos à disciplina e os melho-
res, mas não há também mais propensos à loucura. Inúmeros espíritos se melancolia ou de cólera; em outro momento é a tristeza que me envolve,
consomem pela sua própria força e brilho. Assim vimos que, pela fulguran- mas logo a seguir a alegria vence''. 67 Demasiado móvel para J)ertencer
te excitação de seu espírito, se consumiu o mais judicioso, engenhoso e su- a_um único humor, inconstante por uma espécie de fãtãlid ade psicológi-
perior de todos os poetas italianos, na tradição da antiga e pura poesia. Sim, ca, Montaigne beira a melancolia, ou a ela se vê entregue brevemen~
tem de ser grato realmente à vitalidade que o matou! À claridade que o ce- para logo passar à sujeição, igualmente transitória, a outra potência inte-
gou! Ao acertado e constante exercício de suas faculdades que lhe destruiu rior. · -

32 33
No conhecimento que tem de sua "compleição natural", Montaigne descreve e condena (ou desculpa) a variabilidade. O erojeto desse discur-
não vê prevalecer, portanto, nenhum temperamento puro. Mas~ " co~- so já não será realizar a estabilidade moral, mas dizer "como" e "ROr
pleição" estabelece um equilíbrio estritamente in~ivi?ual, um nusto sm- que" esta esquivoú-se, por quais motivos o repouso esperado não foi al-
gular, que a sabedoria médica e as.regras da prudencta recomen~am res- cançado, que obstáculos, pouco a pouco, fiZeram recuar a miragemd e
peitar, ou não contrariar senão com circunspecçã~. O que Mo~t~gne nos uma sabedoria transparente, unívoca e sim les. ~ livro é o lugar uni~ .ot"
dá a entender é que empreendeu a busca melancólica da constancta a par- m.tde se Q_ode efetuar a reunião do dive~ O fio de uma mesma escrita
tir de um momento de infidelidade à sua própria norma física: a procura não é incompatível com a mutabilidade dos humores, com o combate das
da identidade começava mal e estava destinada a ser subvertida pela ine- idéias contraditórias, com a "passagem", o movimento, a viagem. E, ao
lutável variabilidade do temperamento. Então, não é apenas na ordem sabor de uma leitura posterior, pois Montaigne é seu primeiro leitor, o
do espírito que o desejo de "se concentrar em si mesmo" engendrav~, traçado unificador da escrita se reforçará, não sem dar lugar a acrésci-
paradoxalmente, agitação; contrariava também a lei do corpo, que desti- mos, a ornamentos, a digressões. A dualidade, a alteridade não são su-
nava Montaigne às alternâncias de humor. A empresa de escrever reco- primidas, mas a unidade do livro as engloba sem as reduzir. "Meu livro
nhece em seu princípio uma es12erança de estabilLdade inimiga do dado é sempre o mesmo", escreve Montaigne, mas imediatamente depois, e sem
natural e fadada a tanto melhor conhecer a força da corrente _quanto de contradição, acrescenta: ''O meu eu de agora e o meu eu de outrora são
inicio se orientara para a comracorrente . Contradição insolúvel? Ela s_ç na realidade dois" . 68 ,-i.., ..-. J..~, ;. 8 \. ... '-O. -

resolverá pela aceitação do páradoxo, pela coexistência dos contrári~ É preciso aqui avaliar tudo que implica transferir para o livro o de-
pela reconciliação da identidad.e e da alteridade.:. ver de unidade. A primeira esperança de !viontaigne, como vimos, fora
cumprir a tarefa ética da constância, da reasserção virtuosa de si mesmo,
em conformidade com uma regra supostamente conhecida, com exem-
A ARTE DO PINTOR plos considerados decisivos. Os linos eram necessários a essa busca -
mas eram os livros dos outros, os livros fundamentais que contêm os pre-
Montaigne não renuncia à identidade. Mas descobriu que a ela não ceitos a serem seguidos, as histórias exemplares, os modelos que convi-
pode ter acesso diretamente. Em lugar da unidade, encontrou a fragmen- dam à identificação. O acesso à verdade interior, se fora possível, teria
tação. É preciso haver-se com isso de outra maneira. E essa outra abor- certamente passado pela conversão íntima, mas apoiada em uma expe-
dagem, como já dissemos, é a que passa pelo ato de escr~ver, pelo ato riência de leito r voltada para o que diz, no perfeito, a palavra dos mes-
de " registrar". Ao longo de todo esse caminho, a melancoha está ~r~s~~­ tres. Como a virtude exclui toda busca da glória, toda preocupação com
te. Era ela que inspirava já a recusa do papel social, das formas arttf1cta1s a posteridade, a aquiescência de Montaigne à sua própria verdade, à sua
que o costume impõe aos nossos gestos; é ela novamente que, tornando identidade virtuosa, teria permanecido silenciosa - de uma irradiação
impossível a identidade simples, incita a preencher o "vazio" , a. cobrir toda interior, invisível a todo olhar estranho, " sem desejar que [a] vida
as páginas do "registro" em que se fixarão os monstros, as qUimeras, se prolongue e [o] nome se torne famoso". 69 Q recurso à escrita tran~­
as fantasias - para o olhar dos outros. forma a primeira experiência de leitor em uma_experiência de autor; ac~r­
Já o indicamos: o malogro da tentativa auto-reguladora acar~ reta, simultane!!.!!lente, a transformação da primeira leitura obediente, sua
reforço da "curio sidade" ~a ati\·idade de pura obse rvação_. Ant~ uma transmut ação em uma leitura crt'tica, explorando os textos do passado em
alteridade interior doravante instalada em caráter permanente, que Impe- benefício do livro novo empreendido, apropriand o-se de sua substância
de a tranqüila igualdade de si para si, um olhar inalteravelmente vigil.a~te para fins imprevistos, para além de qualquer projeto de identificação rei-
se esforçará em impor a única continuidade possível: sua presença Inin- terante. Convertendo-se no receptáculo da identidade, o livro confere- a
terrupta. Esse olhar não deixa de ter algum efeito sobre as paixões que esta um sentido inteiramente diferente. Não se tratará mais da equação
observa, não é desprovido de poder. Mas não pode impor a ordem que de- que, de si para si, estabelece uma indissolúvel fidelidade. Não será mais
seja. A divis::.o não se deixa superar. Jamais haverá coincidência perfei- a essência permanente, recobrada no interior, aquém das aparências ilu-
ta, calma e silenciosa identidade, entre o ~ observador_e e obs~­ sórias. É uma relação, que passa pelo exterior e na qual se atesta a seme-
Yado. lhança de uma imagem com um "original", ele próprio autor da ima-
O único recurso, para quem permanece apaixonado pela unidade, gem. Em o utras palavras, a identidade assim concebida já não é a aquies-
é estabelecê-la no discurso que exprime a mudança, no julgamento que cência tácita, do mesmo ao mesmo, pela qual se reforça e se confirma o

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foro íntimo; ela inclui e mantém a diferença, aceita o risco do parecer, ti natário exterior e que o obriga a buscar em outrem a garantia de sua
o do devir e o da linguagem. presença para si mesmo. (Acrescentemos de passagem: por toda a parte
A diferença, a não-identidade não se podem eludir. Permanecerão onde opera uma exigência de identidade, de qualquer natureza que seja ,
instaladas de maneira permanente. E isso por duas razões pelo menos: uma ética está presente. Aqueles mesmos cuja ética apela à liberdade da
em primeiro lugar, porque o eu, tal como se observa a si mesmo, não ces- pulsão exigem que essa liberdade seja permanente.)
sa de variar e de dessemelhar-se; e, em seguida, porque o livro e a vida, O dever estético de semelhança consigo implica , então, a media't!o
tão próximos e conformes quanto o escritor os deseja, constituem níveis de outrem. Anteriormente, a exigência de identidade virtuosa, de igual-
de realidade distintos, entre os quais o desacordo ameaça sempre so- dade consigo mesmo, não se dava, igualmente, sem uma intervenção ex-
brevir. trínseca: a do exemplo e do preceito - dotados de autoridade soberana
Acrescentar-se-á, à maneira de corolário, que ~u empreenJk_ -,cuja interiorização o indivíduo devia assegurar, deles se apropriando,
manifestar-se 1duplamenlf!.J. De um lado, habita o presente da escrita,..Q obedecendo-os literalmente. Mas que diferença! O preceito, o exemplo
momento da enunciação, apresenta-se no exercício do olhar observado.r emanavam do passado. A uma só vez desaparecidos e salvos da morte,
e do julgamento; de out ro lado , entrega ao leitor as "afeições" múl!_i- deviam sua força à perfeição de um tempo find o. Em co mpensação, a
plas, os "humores" instáveis e cambiantes, as "fantasias'"que discernrn, mediação do espectador vivo, que a veracidade do retrato solicita, inscre-
objetivou e transcreveu. Leremos um retrato; mas o pintor não quis ve-se em ou tra dimensão temporal: habita um futuro próximo mas ainda
esquecer-se: o ato de observar e de representar constitui ele próprio o ob- indeterminado; é o ato de consciência que o texto espera de seu "recep-
jeto de uma representação. O "registro" nos mostrará o pintor no traba- I tor ' ' . Evidentemente, a exigência estética de semelhança, em Montaigne,
lho, diante do espelho e da tela em que figura um auto-retrato em vias vem ocupar o lugar deixado vazio pelo relativo declínio das autoridades
de execução. O autor, em seu livro, anuncia-se distinto desse livro, em- tradicionais - a d o cristianismo, a do estoicismo - inscritas nos grandes
bora solidário com ele; reciprocamente, o livro, em sua perpétua imper- livros do passado. Doravante, o que decide em último recurso, o que tem
feição, inclui o seu autor enquanto juiz de sua imperfeição. função de critério, é o êxito, traço a t raço, do "retrato", tal como é ates-
Essa operação põe em jogo uma exigência estética. As metáforas pic- tado ao olhar do espectador futuro e, em primeiro lugar, do próprio es-
tóricas de que Montaigne se serve com insistência e que completa com critor em situação de primeira testemunha. A "relação com outrem" (te-
imagens extraídas de diversas outras artes -pintar, retrato, cores, mol- remos de voltar a isso mais demoradamente ) já não é, a partir daí, u'!T
dar, edificar - têm um valor profundamence revelado r . A identidade é perigo, uma perda de si, um supérfluo; é o lugar de passagem obriga~­
confiada à obra, à produção de uma imagem. A empresa de Montaigne, ria, fora ~o gual a identidade não se poderia assegurar QOr si mesm~ A
começada na esperança de alcançar o repouso da alma, sem jamais es- 1
noção de 1boa-jé, pela qual começa a advertência liminar que Montaigne
quecer esse primeiro desígnio, terminará em obra-prima literária. O re-
dirige a seu leitor, define, antes de qualquer coisa, uma moralidade da
curso à escrita e, depois, o auto-retrato não devem ser considerados as
relação com outrem. Nesse texto, em seguida, a promessa de pintura fiel
etapas de uma progressiva "descoberta do eu". 0 \eu,, ~ vimos, é de
será formulada nitidamente, mas como uma atividade subordinada ao pro-
imediato o objeto de uma preocupação e de uma atenção dominao~ .
jeto de comunicação. A boa-fé, a lealdade, que são relativas ao leitor,
O que se produz é a progressiva transferência para a escrita, para o livro,
precedem e acompanham o olhar sobre si.
para a imagem, da responsabilidade de flxar a identidad~ O que foi tare-
fa moral imediata se torna tarefa artística e cumpre uma função moral Ao leitor
distinta. Isso não resulta apenas em admitir, como um dos temas, como
Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. Adverte-o ele de inicio que só o escrevi
um dos traços do retrato, o fracasso reconhecido da tentativa moral de para mim mesmo, e alguns íntimos, sem me preocupar com o interesse que
estabilização; daí não resulta apenas que a alienação, a dessemelhança, poderia ter para ti, nem pensar na posteridade. Tão ambiciosos objetivos
a mutabilidade podem ser confessadas sem comprometer a unidade da estão acima de minhas forças. Votei-o em particular a meus parentes e ami-
obra que as "registra". Ocorre além disso que, requerendo a comunica- gos e isso a fim de que, quando eu não for mais deste mundo (o que breve
ção, pedindo a aquiescência da testemunha (leitor, espectador do retra- acontecerá), possam nele encontrar alguns traços de meu caráter e de mi-
to), a exigência estética abre a possibilidade de uma nova ética- ética nhas idéias• e assim conservem mais inteiro e vivo o conhecimento que de
que não encerra o indivíduo no dever da silenciosa autarcia, mas que o
destina à exigência da veracidade na representação que faz de si a um des- (•) No original, "alguns traços de minhas condições e humores•.:: (N. T.)

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mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeita- ao buscar diretamente regular sua vida, submetê-la ao exemplo normati-
do e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir me- vo, Montaigne descobrirá que pode delegar a responsabilidade disso a seu
lhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, livro, nele se representando fielmente, à maneira do escultor e do pintor.
sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto. Vi- O projeto de comunicação, de que este texto nos adverte, apreSe;!!.·
vos se exibirão meus defeitos• e todos me verão na minha ingenuidade física ta-se de saída como um desejo de relação restrita: foi para o círculo limi-
e moral, pelo menos enquanto o permitir a conveniência. Se tivesse nascido tado dos "p~rentes e amigos" que o livro foi concebido, e é em razão
entre essa gente de quem se diz viver ainda na doce liberdade das primitivas dessa destinação privada que a minúcia do retrato torna-se desculpável;
leis da natureza, asseguro-te que de bom grado me pintaria por inteiro e nu. melhor ainda, se essa relação é " mais inteira e viva", é porque se destiÜ::a
Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro, o que será talvez razão a eles "em particular": de maneira quase paradoxal, a restrição da au-
suficiente para que não empregues teus Jazeres em assunto tão fútil e de tão diência vai de par c~o aumento da plenitude, o menos quantitativo {!io
mínima importância. que diz respeito ao número dos verdadeiros destinatários) dá lugar a um
E agora, que Deus o proteja. De Montaigne, em 1? de março de 1580.
mais qualitativo (no que se refere à veracidade da mensagem1 O que~a
À leitura desse texto curto mas fundamental, percebe-se que o livro universalidade do discurso perde pela destinação particular é compensa-
é nomeado em primeiro lugar e mantido presente, através de toda a pági- do, na ordem da compreensão individual, pelo caráter inteiro do conhe-
na, pelo pronominal locativo y, que o representa e constitui, por assim cimento comunicado.
dizer, o lugar de amarração anafóriéo de quase todas as frases. A ~epeti­ Mas o leitor desconhecido não deixa de ser interpelado; ele se vê con-
ção obstinada de5se y constitui o embasamento de uma identidade. E nesse ferir esse título - leitor - para ouvir-se imediatamente excluir e dispen-
luear estável que o eu que toma a pena para se dirigir ao leitor e o eu- sar. A coqueteria do autor é evidente: nada dá mais vontade de ler do
obJeto de que ele se declara o pintor podem encontrar-se. A pluralidad_e que ser rogado a abandonar uma leitura. O estatuto que Montaigne atri-
do eu-espetáculo se revela no plural de traços, condições, humores: a um- bui inicialmente a seu leitor é o do intruso, que se imiscui no que não
dade, expressa no singular, será reencontrada pela intervenção dos ver- lhe diz respeito e cujo "serviço" não se quis levar em consideração. Ora,
dadeiros destinatários - "parentes e amigos" - sob a forma do "co- essa recusa da relação, esse adeus ao leitor são de fato o começo de uma
nhecimento, mais inteiro e vivo", que estes terão ativamente (conservem) relação. Relação exigente: Montaigne precisa de um "leitor capaz". E,
do escritor - depois de sua morte. A plenitude expressa aqui pela pala- entre os proveitos que "tira de escrever", classificará a possibilidade de
vra inteiro está no pensamento e na memória dos outros que ele deseja atrair os desconhecidos para o número de seus amigos. Pois, ao dar a to-
que a alcancem . Recusando um leitor inadequado que ele dispensará no dos - ao "público" - a possibilidade de conhecê-lo tanto quanto, ou
final da dedicatória, Montaigne não apela menos a um olhar ("Prefiro melhor do que, o faz sua família, não lhes oferece ele o meio de torna-
que me vejam ... ") e a uma leitura ("Meus defeitos ai se lerão ao vivo"). rem-se verdadeiramente seus íntimos?
Forma e maneira, nas quais se inscreve a identidade singular, só podem (b) Além desse proveito que tiro de meu estudo, sempre esperei que, se meu
manifestar-se mediante uma escrita que terá tomado sob sua responsabi- modo de ser agradar c con,·ier a algum homem de bem, tah·ez se decida ele
lidade a pluralidade das condições e humores, defeitos, para representá- a ligar-se de amizade a mim . Dou-lhe uma "antagem grande, porque a fami-
los a um grupo (supostamente intimo) de destinatários . Pouco importa liaridade e o conhecimento que só teria com anos de freqüentação pode
que o livro não encontre leitores; basta que tenha sido pensado "para~­ alcançá-los com segurança e exatidão em três dias de leitura. (c) O curioso
é que não diria em particular o que consigno por escrito publicamente e que,
trem": Montaigne receberá então sua identidade diretamente de seu !!;_
para penetrar meus pensamentos mais íntimos, de\'am os amigos mais fiéis
vro . A~ ficácia ordenadora, autopedagógica, estabilizadora, poderá pa-
recorrer a um li vro. 71
radoxalmente resultar de uma atividade que não terá tido de inicio outra
intenção que não a de registrar a existência, em conformidade com o pos- O livro, dessa \'eZ, parece desfavorecer os amieos fiéis e favorecer
tulado estético da semelhança. O livro, como " registro", retoma a fun- o "povo" ou algum de~onhecido con\'idado a vir a; encontro do auto;
ção que Montaigne atribuíra inicialmente a ''Catão , Fócion e Aristides": Assim, de uma maneira ou de outra , Montaigne se compraz em instit:ir
"Fazei-vos juizes de vossas intenções" . 70 O que não terá podido obter a relação sobre o fundo de uma não-relação, de uma situação de ruptura
ou de afastamento: com seus "parentes e amigos", sobre o fundo de seu
( 0 ) No original, "Meus defeitos ai se lerão ao \'ivo". (N. T.) próprio desaparecimento próximo; com seu leitor, depois de tê-lo dispen-

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sado. Distância e plenitude, voltaremos a isso, determinam-se mutuamente, de ser meu. Ele pode saber coisas que já não sei mais e ter recebido de mim
e isso Montaigne nos faz saber desde que abrimos seu livro. coisas de que não recordo. Se devesse emprestar-lhe algo, precisaria um con-
~rato como se fora um estranho .73
Acrescentemos que a exigência estética - pintar, traçar de si um.rs-
trato parecido-. de início associada a uma fidelidade mimética que subs- Retomando, em tom mais modesto, a imagem platônica da progenitura
titui o irrealizável ideal de constância, vai levar Montaigne a aceitar, sob_ espirituar dotada de imortalidade, Montaigne aceita desapossar-se em fa-
certas condições, o que no princípio mais vigorosamente denunciara:~ vor de seu livro; para essa figura "mais rica" de si mesmo, aceita tornar-
aparência, o exterio~ A advertência ao leitor faz saber que Montaigne se em estranho. Uma paradoxal conciliação faz do livro si multa neamente
se obrigou a evitar o ornamento e o artifício. Mas pintar-se é uma arte um ser diferente de nós e " mais nosso" que um filho da carne. Ele viverá
e não pode evitar recorrer ao artifício sob uma forma ou outra. Ele dirá em nosso lugar, ao passo que nosso quinhão é o esquecimento e , logo,
alhures: a morte.
É preciso reconhecê-lo: a existência indi vidual não alcança sua de-
(c) Não há descrição mais difícil do que a de si próprio, n.:m mais aproveitá-
vel, mas é necessário enf.:itar-se, arranjar-se para se apresentar em pú blico. terminação completa senão no ato de mos tra r-se; ora, o olh ar dos ou-
Assim, enfeito-me sem descontinuar, por isso que: m.: descrevo constante- tros, em troca do apoio que nos pro porciona, nos faz passar, durante nossa
mente.72 vida m esma, pela prova da mort e, da negatividade, e é por sua mediação
que t e mos acesso à identidade pessoal completa. Ao most ra rmo-nos,
Da semelhança à ficção produz-se um resvalamento que o ato de es-
perdemo-nos parcialme nte , expomo-nos ao risco, remetemo-nos à guar-
c rever não pode evitar. Mas esse retorno da aparência e do artifício, lon-
da dos outros, "hipotecamo-nos". O ato de e~ve!_,__para Montaig.!!_e,
ge de desacreditar o livro, marca a etapa final da experiência em que se
é a a centuação deliberada dessa relasão que nos dá a nós mesmos por in~
comprometeu Montaigne e consagra a tardia reconciliação com o que cons-
termédio da imagem que nossas testemunhas nos furtam e nos restitueJ!l.
tituíra o objeto da acusação inicial. A oposição antitética do começo, ori-
Escrever é, por uma alienação consentida, constituir o corpo segundo aque-
gem do movimento, resolve-se, ao termo de um longo trabalho, po r uma
le que se aparece para si mesmo, é produzir o tecido verbal - o te@
síntese de um tipo novo .
- oferecido à compreensão do leitor virtual. O texto é esse estranho ob-
Na série das oposições e das antíteses vigorosas em que Montaigne
jeto que tira sua vida do desaparecimento de seu artesão. A obra escritã:
inscreve suas preferências, o jazer silencioso prevalecera de início contra
modo vicariante de nossa existência, rastro destinado aS'Obreviver a nós ,
o arrebatamento fútil do dizer. Mas o dizer, condição de toda pintura
exterioriza a vida e interioriza a mort e,_ Em uma frase significativa, que
de si, não permanece objeto de uma recusa inapelável. Mais uma vez, na
à primeira vista não passa de um ímpeto hiperbólico, Montaigne escreve:
ordem da linguagem , Montaigne estabelece uma nova oposição, que lhe
"Nada deixo por adivinhar, po-rém, do que desejam saber. Quero que fa-
permite professar seu gosto pela palavra viva, contra a forma imobiliza-
lem de mim com conhecimento de causa e com justiça; e voltaria do ou-
da do escrito. Contudo, o escrito será finalmente a ceito - escolha que
tro mundo se pudesse para desmentir quem me retratasse diferente do que
se justifica pela preferência que Montaigne experimenta com relação a
sou, embora para elogiar" . 74 Montaigne aqui outorga a si mesmo como
uma progenitura espiritual, mais fiel e semelhante que qualquer descen-
morada imaginária a própria morte, enquanto a paixão da veracidade se
dência segundo a carne:
exprime como um retomo furioso para junto dos vivos, para corrigir aque-
O que nossa alma engendra, o que nasce de nosso espírito, de nossa cora- le que se tornasse culpado, a seu respeito, de afirmações mentirosas. Essa
gem, de nossa capacidade, provém da parte mais nobre de nosso corpo e passagem metafórica de um mundo ao outro coloca em plena evidência
é mais nós mesmos do que os nossos filhos , pois é a um tempo pai e mãe. · a sucessão de uma ausência e de uma presença, de uma ruptura e de uma
Essas criações custam-nos muito mais caro, mas também quando dão certo relação avivada.
nos honram muito mais. Nossos filhos valem pelo que são, nossa parte neles
é pequena; nessas outras emanações de nós, ao contrário, a beleza, a graça,
tudo o que as valoriza, é de nossa exclusiva autoria. Por isso nos represen-
A IM!Nf.NCIA DA MORTE
tam melhor do que os filhos e mais do que estes chamam a atenção dos ou-
tros para nós [... ] A este [os Ensaios] que sou forçado a aceitar tal qual é,
o que dou, dou-o simplesmente e de maneira irrevogável como tudo o que "[ .. . ] Quando eu não for mais deste mundo": retenhamos que, na
damos a nossos filhos de carne e osso; o bem que lhe faço deixa de imediato advertência Ao leitor, toda a empresa de escrever se coloca na perspec-

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tiva da morte - mas para arrancar imediatamente esse livro à morte e reside inteira no memorial de que não terminou de compor o texto. Não
fazer dele a imagem viva, sobrevivente, de um ser que não se resigna a pode valer-se de nenhuma obra-prima anterior. Montaigne adotaria an-
ser esquecido. Uma imagem plena e viva se desenhará nessas páginas na tes a atitude contrária, acusando a negligência e a imperfeição de sua pa-
previsão de uma perda próxima. A pintura de si, obra de vida, adquire lavra. Assim, a bela língua que ele maneja adquire seu vigor, isenta que
seu relevo sobre o fundo melancólico do desaparecimento esperado. A está da preocupação de uma realização formal segundo os modelos acei-
despedida do mundo precede a opção estética e condiciona a atividade tos, enquanto tantos escritores e oradores da época, na ambição de fazer-
de representação literária. A palavra atual prepara-se para afrontar um se admirar, entravam-se em um ciceronismo pomposo. Montaigne, ade-
futuro em que será o substituto, o único vestígio, de um ser desapareci- mais, imagina apenas uma posteridade breve. O monumento que assegu-
do. Como Carlos v, Montaigne antecipa seus funerais -=-.não para exi- ra sua sobrevivência é ele próprio perecível: " Escrevo meu livro para po~­
bir o luxo negro de uma pompa fúnebre, mas para lixar as mais fortes cas pessoas e pouco tempo; se se tratasse de Üma obra destinada a durã;.
imagens da vida que foge. E~ra não esteja certo, escreve ele à sra. De houvera empregado uma linguagem mais elevada" . 78 - '
Duras, no fim do ensaio il. XXXVII, de ter conseguido salvaguardar o me- Enfim, é preciso lembrá-lo? O testemunho de Montaigne não se as-
lhor de si mesmo: "Pois esse retrato morto e mudo de mim mesmo não semelha em nada ao dos apologetas que- à maneira de santo Agostinho
me favorece excessivamente. Não me mostra na melhor fase de minha e~­ em suas Confissões- apresentam como exemplo a intervenção de Deus
tência e sim já decaden ~. sem 2 vigor primeiro, sem alegria e em vias em sua vida. Trata-se apenas de deixar, na página do livro, a lembrança
de me tornar rançoso" 75 . / de uma vida comum, e é isso mesmo que é exorbitante e escandaloso. Pois
Imaginemos Montaigne apoiando-se no futuro póstumo em que vi- a vida em sua simplicidade mais nua, em sua naturalidade não redimida
verá apenas na memória de seus amigos, para provar mais intensamente mas recobrada em uma arte que nega a arte, retoma por sua própria con-
da parte de existência que lhe resta aquém da morte. A ponte que estabe- ta a reivindicação que fora, em outros, a do feito militar ou da eleição
lece antecipadamente com o além-túmulo, ele a transpõe em seguida ao divina. Uma ~m se expõe no que tem de não exemplar: exibe-se
contrário, para melhor saborear a antemorte. Se não houvesse temid.2,2 como o contra-exemplo de todas as imagens paradigmáticas sobre as quais
esquecimento como um total anig!lilamento, teria ele tomado a pena? ~ a vida moral, a vida guerreira, a vida religiosa se haviam modelado. On-
so ele é pouco cristão. Experimenta a preocupação de sobre\'iver segundo de não há mais exemplos, tudo pode tornar-se exemplo. O monumento
sua verdade particular na memória de outra geração: é que perdeu _2 tt- funerário edificado por Montaigne à sua própria memória nos remete aos
perança na imortalidade espiritual e na iluminação eterna que a lgrc:j_a aspectos triviais de uma existência "vulgar e privada" que logo não exis-
prometia aos eleitos acolhidos na pátria celeste. "O tolo projeto que ele ti rá mais. O último ensaio - "Da experiência" (lll, XII I ) - enumera mi-
tem de pintar-se": 76 a reprovação de Pascal, pãrece-me, não \'isa apeilis nuciosamente as "condições corporais", os gostos e os pequenos gestos
um ato de orgulho, mas, mais profundamente, o pecado de desespero çg- de que se compõe o ordinário de uma \'ida " particular". A escrita viva
metido por Montaigne quando, em vez de responder à morte por um ato que tentará transportar para o papel a inflexão familiar da fala (" Escre-
de fé na promessa divina, recorre à literatura, à arte, para traçar de ~ a vo como falo ao primeiro indi\'íduo que encontro")i 9 recebe da morte
\"ida uma imagem confiada à posteridadç_,_A existência nas páginas do sua necessidade. A passagem pelo pensamento da morte, em vez de de-
lino \'ale mais que o nada e o esquecimento. O livro dos Ensaios terá sembocar no além, reconduziu-nos para o detalhe mais íntimo e apare; -
valor de...monumenro."' temente mais fútil de um andamento de "ida pessoal, inscrito na trama
Mas não será u~onumento como aqueles que tantos fidalgos man- dos dias mortais. ~
dam edificar para glorificar seus feitos militares e o brilho de sua casa.
Aquilo de que Montaigne deseja perpetuar a memória não é uma seqüên-
cia de façanhas militares ou políticas, mas uma "vida das mais vulgares, O AMIGO PERDIDO
que nada tem de especial" ,77 semelhante a todas as outras.
O monumento que Montaigne constrói não se assemelha mais àque- Em 1569, Montaigne publica a tradução da Teologia natural de Rai-
le edificado pelos artistas e pelos poetas que, a exemplo de Horácio, cele- mond Sebond; esse trabalho realiza"a um pedido de seu pai, Pierre de
bram triunfalmente a obra anteriormente realizada: Exegi monumentum ... Montaigne. A carta-dedicatória traz propositalmente a data de 18 de ju-
Montaigne não tem atrás de si uma obra acabada, da qual possa nho de 1568; está datada de Paris: é o dia em que Pierre de Montaigne
vangloriar-se de tê-la fundido em uma matéria incorruptível. Sua obra morre (sem dúvida, em Montaigne, ond e será enterrado). O filho não -as-

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sistia à morte do pai, mas essa au sência era reparada pelo oferecimento essa assidu idade no luto convertem-se, assim, em " gozo"; com isso, o
do livro. sentimento do valor pessoal se acha aumentado. Pois a escolta ininter-
Em 1570, Montaigne faz publicar, em vários "livretes" reagrupados rupta (" rememorar constantemente") de um amigo guardado na memó-
em duas coletâneas, os manuscritos que lhe ficaram de Étienne de La Boé- ria constitui um elemento de constância e de continuidade- talvez o único
tie, morto sete anos antes: as traduções de Plutarco e de Xenofonte, os -em uma vida que se sabe entregue à inconstância e à descontinuidade.
versos latinos, os poemas franceses. As cartas-dedicatórias de que os acom- Há ai simultaneamente o reconhecimento de um interesse egocêntrico ("te-
panha espaçam-se entre abril e setembro de 1570. Nesse mesmo ano, ele rá sido um bem para mim?") e a confissão de uma dependência consenti-
vende seu cargo de conselheiro no Parlamento de Bordeaux. da em relação ao objeto exterior. A atenção consagrada à própria pessoa
Alg.uns meses mais tarde, em março de 15 71, data do dia de seu pró- e a saudade de um ser perdido, por sua singular mescla, revelam a estrei-
prio aniversário as inscrições votivas de sua biblioteca, que marcam o iní- ta interdependência que ata o sentimento do eu e o pensamento vo ltado
cio de seu "retiro" ... Logo começará a redação dos Ensaios, cuja edição para o outro privilegiado ("Ó meu amigo!"); essa conjunção se traduz
de 1580 termina, em post-scripcum, com uma carta-dedicatória (do en- pela experiência paradoxal de um luto e de um "gozo" simultâneos. A
saio 11. \:\:\:VII) à sra. De Duras; o livro começa pela ad\·ertência ao leit or salvaguarda de uma figura que se continua a conduzir à sua última mora-
anônimo d a qual acabamos de falar, sem dúvida redigida em último da acompanha-se d e prazer; assim, atesta-se uma onipotência do pensa-
lugar. mento, uma capacidade de vencer o esquecimento, na qual o indivíduo
Encadeiam-se, assim, as marcas do apego de Montaigne a seres ama- toma consciência de sua força.
dos (ao pai e ao amigo perdidos), a renúncia ao cargo público e a obra O olhar do amigo exercia uma função essencial de conhecimento e
pessoal empreendida para os amigos e os próximos que a ele sobreviverão. de direção morais. Ele era o detentor de urna verdade completa sobre Mi-
Montaigne empreende seu livro porque pensa no pouco tempo que chel de Montaigne, verdade que a própria consciência de Montaigne não
lhe resta até a morte. Mas suas razões para escrever se reforçam ainda soubera levar a um grau de plenitude comparável. Releiamos: "Apenas
mais quando se lembra do amigo desaparecido, do qual salvou do esque- ele desfrutava de minha verdadeira imagem, e levou-a" . A morte de La
cimento toda a herança literária. "Apenas ele desfrutava de minha ver- Boétie subtraiu de Montaigne seu único espelho: a perda do amigo apa-
dadeira imagem, e levou-a. É por isso que decifro a mim mesmo com tanta gou p ara sempre a imagem que este det inha. O duplo mais completo e
curiosidade. "8° Portanto, a relação entre o ato de escrever e a morte é verídico foi suprimido. A renexão interna deverá tardiamente substi-
dupla, pois implica simultaneamente a morte próxima do escritor e aque- tuí-lo : "É or isso que deci fro a mim mesm • tanta curio;idade" .
la, muitos anos antes (1563), do amigo em quem Montaigne não deixou No paralelismo essas frases, e preciso prestar atenção aos termos substi-
de pensar. tuídos . O eu toma o lugar de apenas ele, e o verbo me decifro substitui
É preciso lembrar as múltiplas ocasiões em que Montaigne relata es- desfrutava de minha verdadeira imagem. Constatamo-lo imediatamente :
sa perda e seu luto? A carta datada de 1563 a seu pai na qual conta a perdeu~se com a troca, a verdade dá imagem já não tem detentor. e tudo
doença e a morte de La Boétie, as cinco cartas-dedicatórias de 1570; nos está por recomeçar. Em vez do "g~zo" que era o apanágio do amigo,
Ensaios de 1580, todo o capítulo "Da amizade" (I, xxvm): "Desde o dia em vez de uma intuição direta e total da mesma ordem que a exercida
em que o perdi [... ] não faço senão me arrastar melancolicamente. Os pelas inteligências celestes segundo a doutrina dos neoplatônicos, é preci-
próprios prazeres que se me oferecem, em vez de me consolar, ampliam so passar pelas dificuldades, pelos esforços, pelas descobertas parciais e
a tristeza que sinto da perda". 8! Em 1581, no Diário de viagem, enquanto sucessivas da decifração introspectiva. No lugar do saber imediato que
toma os banhos das águas de La Villa, um súbito pensamento o entriste- La Boétie possuía sobre Montaigne, este não pode contar senão com uma
ce: "Mergulhei em um pensamento tão penoso do sr. De La Boétie, e ne- abordagem tateante, destinada ao cuidado ("curiosamente" , derivado de
le permaneci por tanto tempo sem me dar conta, que isso me causou grande cura, comporta ainda esse sentido no século XVI) . No melhor dos casos,
mal";82 depois, em um acréscimo marginal ao ensaio n. vm. que será in- a decifração, por etapas sucessivas, justapondo as palavras, elaborará um
tegrado no texto de 1595: "Ó meu amigo, essa permuta de idéias entre saber discursivo por toques descontínuos. Mas Montaigne envelheceu desde
nós terá sido um bem para mim? Ou um mal? Foi um bem, sem dúvida; a morte de La Boétie; portanto, não poderá jamais reconstituir a imagem
a saudade que conservo de ti honra-me e me consola. É dever piedoso levada, tal como ela vivia na consciência do amigo; o retrato do jovem
e agradável de minha vida rememorar constantemente os fatos que pas- Michel de Montaigne por Étienne de La Boétie está perdido· para sempre.
saram, mas cuja privação nenhum gozo compensa". 83 Essa fidelidade,

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É preciso produzir, para outras testemunhas, à custa de um trabalho con-
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t

siderável, outra imagem, tão semelh~to possível à efígie cuja posse vontade foi o primeiro motor dessa tradução. Significa dizer, ao datar
éiieS ont oferec· i o e espont neamente acolh1da põr a dedicatória do próprio dia da morte do pai, que a obra publicada é a
este. No lugar do espelho fiel em que se refletia a "verdaae1ra 1magem", vontade continuada e realizada daquele que desaparece. A sobrevivência
grâçàs à qual Montaigne vivia duplamente - em si mesmo e no olhar arni- da vontade paterna no livro traduzido será lembrada no início da Apolo-
_gável ==.. resti"apenas a pâgina 6iãrié"a onde se dizer a si mesmo, envetne- gia de Raimond Sebond (n, XII), e a própria Apologia, pretextando a de-
cendo, com palavras que serão sempre insuficientes em relação à recipro- fesa das idéias do teólogo espanhol, será uma maneira de assegurar uma
cidade viva. A perfeita simetria, em que a amizade se explica por sua cau- duração aumentada ao último desejo do pai:
sa individual - "porque era ele; porque era eu" -,S4 tornou-se para
(a) Dias antes de morrer, tendo meu pai por acaso encontrado o livro sob
sempre impossível; a morte do amigo destruiu essa tautologia que, por
um monte de papéis abandonados, pediu-me que o vertesse para o francês
meio dos encorajamentos, das exortações, dos projetos partilhados, do [... ] Para mim tratava-se de trabalho inédito, mas ocorrendo, por felicida-
comércio de idéias, chegava ao "gozo" mudo da similitude fraternal. Do- de, ter então alguns Jazeres, e nada podendo recusar ao melhor dos pais,
ravante é preciso, em uma relação assimétrica consigo mesmo e com os fiz o possível e terminei a tradução. Meu pai ficou satisfeitíssimo e quis que
outros, salvar tudo que pode ser salvo dessa felicidade abolida, dando-lhe a obra se imprimisse, o que se fez depois de sua morte.s'
outro corpo: a palavra escrita, ·o livro. Perpetuar aquilo para cuja perda
O livro de Sebond, recomendado ao pai de Montaigne pela ação con-
não há resignação é penetrar emuma atividade de substituição, de supri-
servadora que poderia exercer ao fazer melhor respeitar " nossa antiga cren-
mento, de tradução ... ça", tem, portanto, duplamente a função de fazer durar o que está amea-
A partir daí, compreende-se melhor uma atitude que Montaigne ma-
çado de destruição: o pai, no momento em que P ierre Bunel lhe o ierece
nifesta desde a carta-dedicatória (a seu pai agonizante) da tradução da
a obra do teólogo espanhol, já não tem muito tempo de vida; as "antigas
Teologia natural de Sebond. ~crever se justifica em primeiro lu ~ar co-
crenças" religiosas estão abaladas pela " Reforma de Lutero", compara-
mo o cumprimento de uma missão comunicada e aceita, de uma tarefa
da a um "princípio de doença". 88 Trata-se, em todos os aspectos, de pre-
prõiiletida; Montaigne faz saber com ue escrúpulo fez questão de
servar o que está em perigo, de conjurar os sintomas de ruína. Mas, da
mesma maneira que a carta-dedicatória ironizava a "mercadoria tão vul-
Meu senhor, segundo a missão que me destes no ano passado em vossa casa gar e tão vil" das "palavras e da linguagem", a Apologia de Raimond
em Montaigne, talhei e ajustei com minhas mãos para Raimond Sebon, esse Sebond, ao atacar os adversários do livro (que são indiretamente os ini-
grande teólogo e filósofo espanhol, uma vestimenta à francesa [... ].ss migos do pai), desenvolve os argument os do nominalismo cético até ope-
A tradução confere ao texto um segundo "feitio" . E essa transfor- rar uma inversão perigosa para a autoridade mesma que Montaigne dese-
mação comporta um aspecto muito vantajoso: o li vro pode doravante ''se jaria preservar. Era a uma humilde confissão de "insuficiência" pessoal
apresentar em muito boa companhia". Vai, assim, "ganhar crédito", gra- que ele desejaria chegar, a isso arrastando os adversários de Sebond . O s
ças à vontade de Pierre de Montaigne e ao trabalho de Michel, que o "des- leitores não demoraram a perceber que o pensamento do próprio Sebond,
vesti ram" de seu latim escolástico ("esse po rte feroz e esse aspecto ba r- longe de encontrar-se mais bem protegido , caía sob os golpes dessa crít i-
baresco"). Mas essa "emenda e reforma" só concernem à vestimenta . Pier- ca radical do saber humano. A humildade do filho, desejoso de sustentar
re de Montaigne (a quem Michel atribui respeitosamente a paternidade a causa do pai, corre o risco de desservi-la por excesso de zelo ... Trata-se
da tradução) permanece, "de resto", devedor: "Pois em troca de seus aí de uma conseqüência involuntária, e talvez de uma artimanha do in-
excelentes e religiosos discursos, de suas concepções, elevadas e como que consciente. Em sua vontade consciente, no entanto, Montaigne não dei-
divinas, ver-se-á que tereis fornecido de vossa parte somente palavras e ~ou de procurar manter sob seu olhar tudo o que lhe recordava seu pai.
linguagem: mercadoria tão vul gar e tão vil que quem mais a tem vale, E longa a lista do que ele quis conservar para honrar essa memória: hábi-
talvez, menos" .s6 O orgulho de ter melhorado o texto pela tradução se tos de vestuário, pequenos objetos, funções públicas, estrutura da resi-
converte em humildade; em relação às "concepções" do filósofo , trata-se dência familiar:
apenas de vãs palavras, de simples mudança de vesti menta. A vida segun- (b) Meu pai gostava de construir em !\1on:air:ne, onde nascera, e em tudo
d a do livro de Sebond não atesta em nada o valor daquele que lhe forne- o que diz respeito às questões domésticas atenho-me a seu exemplo e procu-
ceu " palavras e linguagem" . Mas de quem se trata? Michel de Montaig- ro fazer com que do mesmo modo ajam os que me sucederem. O que puder
ne, tradutor da obra, confunde-se com o vós que se dirige a seu pai, cuja realizar em atenção à sua vontade sempre o farei e, se mandei terminar um

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pedaço de muro ou retificar algo mal executado, foi pensando em sua inten-
l d o de nosso comércio. Ora, senhor, porque cada novo conhecimento que dou de-
ção mais do que em minha comodidade. (c) E censuro-me a indolência que le e de seu nome é igualmente m ultiplicação dt!sse segundo vi1•er, e ainda mais
me impediu de levar a cabo a reforma que ele iniciara, tanto mais quanto q ue seu nome se enobrece e se honra pelo lugar que o recebe, cabe a mim faze r
me arrisco a ser o último varão da família e o último a tocar na mansão.
89 não apenas com que se expanda o mais que me for possível, mas ainda confiar-
lhe a guarda a pessoas de honra e de virtude [... ]. 91
A vontade do pai, que já se estendera à publicação de Sebond, estende-
A I\lichel àe L' Hospital, Montaigne dirá que seu amigo jamais rece-
se ainda aos trabalhos que concluem, pelos cuidados do filho, a morada
beu emprego à sua altura na " coisa pública" e que apenas escreveu " à
familiar. Montaigne não quer falhar na tarefa de continuar e conservar
ma neira de passatempo". Não se fez reconhecer; foi "displicente em co-
o que lhe fo i transmitido; está aí, poder-se-ia dizer. o aspecto privado de
loca r a si mes mo em evidência" . 9 ~ Os versos latinos de La Boétie devem
seu conservadorismo político, e talvez esse seja, secretamente, seu elemento
ser co nsiderados o ponto de part ida de uma indução divinatória. Mon-
fundamental. Aqui, mais uma vez, a auto-acusação, em Montaigne, acom-
t a igne su plica ent ão ao chance le r De L' Hospital q ue " se eleve po r essa
p a nha o voto de salvaguard a r o que lhe foi co nfiado por um agonizante: sua o bra ao conhecimento dele, e que am e e ab race em conseqüência seu
encarregou-se da vontade do pai, mas poderia ter feito mais. Ele acusa nome e sua memória [... ] Pois não haveria no mundo homem em cujo
sua "indolência": não soube dar belos acabamentos ao que "ele [o pai] co nheci mento e amizade ele de mais bom grado se teria visto alojado do
iniciara". Mas propõe também uma desculpa: não tem descendência mas- que no vosso " .93 \Iontaigne apóia-se aqui em um raciocínio q ue remon-
culina a quem transmitir a morada e o nome. Pode, então, construir sua ta d a pa rte visÍ\·el (por vezes imperfeita) ao todo admirá vel q ue não te\·e
vida, construir seu livro, renunciando a "construir Montaigne" além dos a possibilidade de manifestar-se: " [... ] Mesmo as brincadeiras das gra n-
projetos concebidos por seu pai. 90 Ora, construir seu livro é assegurar à des personagens trazem aos clarividentes alguma marca honorável d o lu-
vontade de seu pai a sobrevivência que os muros do castelo, destinados gar de onde partem [... ]". 94 Da mesma maneira, dirá ele nos Ensaios, a
a passar a outras mãos, não podem mais lhe garantir; uma mesma inten- pro pósito dos jogos de xadrez de A lexandre : "Todo pormenor da exis-
ção de piedade filial, um mesmo desejo de salvar uma "imagem de vida" t ência do homem, toda ocupação a que se entregue o revelam e o m os-
mudam de lugar, descobrem um novo material, conferem-se outro ponto tram com suas qualidades e defeitos" . 95 Quanto a La Boétie, não teve
de aplicação . tempo de mostrar o que valia: "O verdadeiro suco e medula de seu valor
No que se refere a Étienne de La Boétie, o mesmo desejo de conti- o seguiram , e dele não nos restaram senão a casca e as folhas" _96 M on-
nuação póstuma é nitidamente proclamado por Montaigne. Em primeiro taig ne, ao se dizer incapaz de os "fazer ver", evoca p~r preterição
lugar, pela publicação das obras de seu amigo e pelo oferecimento que os regulados movimentos de sua alma, sua piedade, sua virtude, sua Justiça,
delas faz, em suas cartas-dedicatórias, a leitores privilegiados; estes se vêem a vi vacidade de seu espírito, o peso e a sanidade de seu julgamento, a eleva-
confiar a guarda das reliquiae que prestam testemunhos sobre a pessoa ção de suas concepções tão alto erguidas acima do vulgar, seu saber, as qua-
do desaparecido. Testemunho que Montaigne considera imperfeito em re- lidades excepcionais, companheiras ordinárias de suas ações, o terno a mor
lação ao que era e, sobretudo, ao que prometia Étienne de La Boétie. Qua- que tinha por sua infeliz pátria, e seu ódio capital e declarado contra todo
lidades e promessas que permaneceram desconhecidas. Essa é a argumen- vício, mas principalmente contra esse vil tráfico que se trama sob o honorá-
vel título de justiça [... ].97
tação q ue ele expõe inicialmente ao sr. De Mesmes:
La Boétie teria merecido um grande emprego; ele p róprio o lamen-
Considero [...)que seja um grande consolo à fraqueza e brevidade desta vi-
tou durante sua última doença, segundo o relato que disso fez Montaig-
da crer que ela se possa fortalecer e prolongar pela reputação e pelo renome
ne;98 e Montaigne pede que se creia em sua palavra, pois deseja assegu-
[... ) De maneira que, tendo amado mais do que a qualquer coisa o falecido
rar um "lugar", uma morada, para essa figura ameaçada de esquecimen-
sr. De La Boétie, em minha opinião o maior homem de nosso século, pensa-
to, para esse amigo cujos escritos, por si sós, não bastam para garant ir-
ria faltar com gravidade a meu dever se, cientemente, deixasse dissipar-se
e perder-se um nome tão rico quanto o seu, e uma memória tão digna de lhe a sobrevivência: "Desejo muito que ao menos depois dele sua memó-
recomendação, e se não tentasse, por essas qualidades, ressuscitá-lo e recolocá- ria, única a que doravante me ob~igam os deveres de nossa amizade, re-
lo em vida. Creio que ele o sente e que esses meus serviços o comovem e ceba a recompensa de seu valor, e que se aloje na recomendação das pes-
alegram. Na verdade, ele se aloja ainda em mim tão inteiro e tão vivo que soas de honra e de virtude" .99 Montaigne pode responder por isso, pois,
não posso crer nem tão pesadamente enterrado nem tão inteiramente afasta- diz ele, ''jamais houve nada dito nem escrito com mais exatidão nas esco-

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!~
I~

ra multiplicar-lhe os destinatários (no interior de um volume que se asse-


las dos fllósofos do direito e dos deveres da santa amizade_ do que aqu~lo melha a uma coletânea factícia):
que essa personagem e eu praticamos juntos" . 100 Montrugne o repetirá
na carta-dedicatória ao sr. De Lansaé; roga-lhe que "conserve", em rela- [... ] Tendo cuidadosamente recolhido tudo o que encontrei de inteiro entre
ção ao "nome" e à "memória" de La Boétie, sua "bo~ opinião_ e vonta- esses rascunhos e papéis esparsos aqui e ali, joguete do vento e de seus estu-
de"; e acrescenta, para engrandecer a imagem do am1go perd1do: dos, pareceu-me bom, de um modo ou de outro, distribu{-lo e reparti-lo em
tantas peças quanto me fosse poss{vel, para daí tirar ocasião de recomendar
E ousadamente, senhor, não temais aumentá-las em alguma coisa: ~ois não sua memória ao maior número de homens, escolhendo as mais not áveis e
0 tendo apreciado senão pelos testemunhos públicos _que dera d_e s1, cabe _a dignas pessoas de meu conhecimento, e das quais o testemunho possa ser-
mim responder-vos que possuía tantos graus de capac1dade a mrus que estrus lhe mais honroso. 104
longe de tê-lo conhecido por inteiro. Em vida, fez-me ele a ho~ra, que tenho
na conta da melhor das minhas fortunas, de estabelecer com1g0 um laço d_e A diversidade dos destinatários contribuirá para a difusão do louvor
amizade tão estreito e tão unido que não houve viés, movimento nem moti- póstumo. Em compensação, para preservar a imagem única desse homem
vo em sua alma que eu não tenha podido considerar e julgar, a m~nos que único, a consciência de Montaigne, confidente privilegiado, oferece-se co-

f
~ minha visão tenha algumas vezes percebido pouco. Ora, sem mentir, ele es- mo o núcleo onde se reúne tudo aquilo que permaneceu esparso; ele é o
:.n tava, tudo considerado, tão perto do milagre que,lança~do-me fora ~as bru:- único depositário, o único fiador, a quem revelou sua "grandeza em seu
:::) reiras da verossimilhança, para não me fazer desacreditar de todo , e p~ecl­ inteiro valor". 105
101
;~;: ~ so, ao falar dele, que me contenha e me restrinja abaixo do que dele seL
A posteridade nisso acreditará se bem lhe parecer, mas eu juro sobre tudo que
~ ~~ Dirigindo-se ao sr. De Foix, Montaigne se valerá mais explicitamen- tenho de consciência tê-lo conhecido e visto de tal maneira que, tudo consi-
I •~
.' "-' I
1·,
te ainda das confidências que recebeu, para dar testemunho_ de uma gra~­ derado, dificilmente, por desejo e imaginação, poderia eu exagerar; estou
deza que não deixou marcas suficientemente comproba~óna~ ~~": na v~:
'i·:: da ativa nem na obra escrita; a "glória" que ele quer hgar a v1rtud~
longe de lhe atribuir muitos companheiros; suplico-vos muito humildemen-

i ---.J ~,~ de La Boétie não é indevida; é preciso acreditar nele, Michel de ~~ntal~­
te, senhor, não apenas aceitar a geral proteção de seu nome, mas ainda des-
ses dez ou doze Versos franceses, que se lançam como por necessidade ao
..i ne, como se fosse um apóstolo, ou um discípulo de Sócrates, po1s e o pn- abrigo de vosso favor. 106
meiro a saber quão "perniciosa" é a "licença de lançar [ ... ] ao _v~nto,
• •
..
.,
,I
Que se leiam então esses versos franceses como simples exercício: " Es-
..,.-I
a nosso bel-prazer ' os louvores de alguém"; e considera que o "v1c10
'd "
da
102 sa não era sua ocupação, nem seu estudo[ ... ] mal tomava ele a pena uma
mentira" é " sempre muito inconveniente a um homem bem-nasc1 o . vez ao fim de cada ano, como testemunha o pouco que nos resta de t oda
( ... )E embora me tenha fornecido, tant o quanto um homem possa, justiss~­ a sua vida. P ois vedes, senhor, em esboços ou remates, tudo que dele me
mas e muito visíveis ocasiões de louvor, tenho bem poucos me10s e ca~act­ chegou às mãos, sem escolha e sem triagem; de maneira que aí estão mes-
dade para prestar-lhe esse louvor: eu, o único com quem e~e s_e comumcou mo os versos de sua infância. Em suma, parece que disso não se ocupa\'a
ao vivo, e que sou o único que pode responder por u~ m1lhao de graç':,s, senão para dizer que era capaz de tudo fazer. Pois, de resto, muitas e mui-
de perfeições e de virtude que mofaram ociosas no seto de u~a alma :a~ tas vezes, mesmo em suas palavras ordinárias, vimos parti r dele as coisas
bela, graças à ingratidão de sua sorte (... ) Acho-me tã_o_ de~prov1do de c.redl- mais dignas de ser sabidas, mais dignas de ser admiradas" . 107 Mas essa
to para autorizar meu simples testemunho, e de eloquenc1a para o ennque- alma superior não teve o tempo nem a possibilidade de se produzir no
cer e valorizar, que pouco faltou para que abandonasse todo esse cu1dado,
palco do mu ndo. Montaigne, tão inclinado a acusar "a vaidade das pala-
não me restando senão o dele por onde possa dignamente apresentar ao mun-
vras" (título do ensaio I, LI), vê-se obrigado a constatar que apenas a sua
do ao menos seu espírito e seu saber. (... )Mas afinal tomei o partido de que
seria bem mais desculpável para ele ter enterrado consigo tantos raros favo- palavra serve de intermediário entre o que foi Étienne de La Boétie e a
res do céu do que seria para mim enterrar ainda o conhecimento que deles memória gloriosa que desejaria ver acolhida, abrigada, guardada por vá-
me dera. 103 .
rias grandes personagens. E quando Montaigne, na última das cartas-
dedicatórias, dirige-se a sua mulher, 108 não é apenas para lembrar-lhe o
E Montaigne se põe a justificar a justaposição arbitrária dos dife-
legado de papéis e de livros que "esse meu caro irmão" lhe fe z ao mor-
rentes tivretes de seu amigo pela necessidade de estender tão amplamente
rer; é sobretudo, depois da morte de uma filha "perdida no segundo ano
quanto possível sua memória. Esse legado literário, tão ~eterogêneo, ~à? de vida". para lhe recomendar que leia, na tradução de La Boétie, a "carta
se compara à personalidade soberana do morto: Monta1gne, de proposl-
consoladora" escrita por Plutarco à mulher em u ma circunstância análo-
to, publicou-o por fragmentos, de maneira sistematicamente esparsa, pa-
51
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ga. Como melhor escutar a voz da filosofia senão quando a "fortuna" da o nome de La Boétie. E os leitores de 1570, ao ler as canas-dedicatórias,
nos impõe a provação mesma de que fala essa voz consoladora? ":\luito não podiam ignorar esse alojamento, esse "abrigo" honroso que um au-
desolado", escreve Montaigne, "que a fortuna vos tenha entregue esse tor desconhecido, Michel de Montaigne, implorava para um grande ho-
presente tão apropriado." O pesar materno assegura aqui a apropriação, mem subestimado, muito cedo levado deste mundo. A tarefa não estava
a "guarda", que Montaigne desejava em cada uma das precedentes cartas- termináda, já que Montaigne reservava o Discurso da servidão voluntá-
dedicatórias . Desta vez ainda, a voz de La Boétie, que se introduziu no ria para colocá-lo no lugar de honra, no centro do primeiro livro dos En-
pensamento de Plutarco, não deixará de ser ouvida. No círculo dos ami- saios. Ele merecia esse lugar, pois era o equivalente de uma "obra rica,
gos, a quem Montaigne quis "participar" os escritos de La Boétie (para polida e constituída em obediência às regras da arte", ao passo que a seu
não "usá-los apenas eu com avareza"), não há "ninguém mais íntimo" redor a prosa de Montaigne não podia compor senão uma moldura de
do que sua mulher. Montaigne, uma vez mais, alega sua própria fraque- "arabescos" decorativos. 111 Aqui ainda, como nas cartas-dedicatórias,
za, para anular-se e deixar falar La Boétie, que se pôs ele próprio a servi- Montaigne se declara inferior, menos "capaz", embora a obra de seu ami-
ço de um texto antigo exemplar: go não tenha sido nada mais que um exercício de adolescente, escrito "a
fim de se exercitar". O ensaio "Da amizade " (1. XXVIII) retoma e desen-
[... ] Deixo a Plutarco a missão de consolar-vos, e de vos advertir de vosso
volve livremente um motivo com o qual já entretivera os destinatários de
dever nisto, rogando-vos crer nele por amor a mim: pois ele vos desvendará
minhas intenções, e o que se pode alegar nesta situação muito melhor do suas cartas de 1570. Faz então a história dessa amizade, compara-a com
que eu mesmo o faria. 109 outras, para torná-la inigualivel...
Montaigne pode, portanto, com justa razão, considerar-se o fiel exe-
Nesse último aspecto de seu segundo viver, La Boétie, intérprete de cutor dos últimos pedidos de seu amigo; preservou a imagem de La Boé-
Plutarco, é expressamente chamado a contribuir para encorajar o traba- tie, deu-lhe um lugar, permaneceu seu guarda e depositário cioso: "E,
lho do luto . Arrancado à sua primeira morte, o irmão ressuscitado sob se não me tivesse esforçado por fazer com que não desfigurassem um amigo
a forma do livro deve ajudar a curar a ferida produzida pela criança per- perdido, tê-lo-iam mostrado de mil maneiras contraditórias" .m
dida, pela descendência ainda ausente. Contudo, ter salvaguardado o nome de La Boétie, ter tornado públi-
Convém reler aqui uma das passagens importantes da longa carta que cos seus es~ritos, ainda não é ter feito sobreviver suficientemente um ser
Montaigne escrevera a seu pai para contar-lhe os últimos instantes de La que se entregara mais aos deveres da amizade que aos da escrita ou aos
Boétie: da vida pública (onde não se soube empregá-lo nas altíssimas tarefas de
Então, entre outras coisas, ele se põs a me rogar e rogar com extrema paixão que era capaz). Ter publicado suas obras é ter-lhe concedido todo o lugar
que eu lhe desse um lugar: de maneira que tive medo de que seu julgamento que ele reclamava? '
estivesse abalado. Embora o houvesse muito suavemente repreendido de que A experiência da amizade fora a de um "arrebatamento" recíproco
se deL"<ava dominar pelo mal, e de que essas pala.,ns não eram de um ho- das vontades- uma alienação voluntária de ambas as partes. Releiamos
mem ponderado, ele não se rendeu de modo algum da primeira vez, e reto- estas linhas célebres:
mou ainda mais alto: "Meu irmão, meu irmão, então me recusais um lu-
gar?". Até que me obrigou a convencê-lo pela razão, e a dizer-lhe que, co- (a) Não ocorreu em conseqüência de um fato específico, de dois, de três ou
mo respirava e falava, e como tinha corpo, tinha conseqüentemente seu lu- de mil; a ela fomos levados por não sei que atração total, a qual em se asse-
gar. "Sim, sim", respondeu-me ele então, "eu o tenho, mas não é aquele nhoreando de nossas vontades as impeliu a um impulso simultãneo e irresis-
de que preciso: e depois, quando tudo foi dito, não tenho mais existência." tível de se perderem uma na outra, de se fundirem em uma só. E digo
"Deus logo vos dará uma melhor" , fiz eu. "Quisera já estar nela, meu ir- "perderem-se" porque na verdade essa associação de nossas almas se efe-
mão", respondeu-me ele, "há três dias anseio por partir." 110 tuou sem reserva de espécie alguma; nada tínhamos mais que nos pertences-
se pessoalmente, que fosse dele ou meu. 113
A súplica do agonizante, que Montaigne parecia não compreender,
foi desde então plenamente entendida. O espaço de La Boétie, seu lugar, O lugar de La Boétie era em Montaigne, o qual, por sua vez, "perdera-
está doravante não apenas na "biblioteca" para onde Montaigne man- se" na vontade de seu amigo. Notemos de passagem que esse paradigma
dou transportar os livros e os papéis desse irmão desaparecido, mas está da reciprocidade completa na oferenda total realiza no par amistoso o
ainda na memória de algumas altas personagens a quem ofereceu publi- movimento que Rousseau, no inicio do Contrato social, fará intervir en-
camente o "livrete de suas obras", recomendando-lhes tomar sob sua guar- tre o indivíduo e a comunidade inteira, no instar1:te fundador: "Cada um

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de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder [... ]" . 114 Essa "alie- 122
[... ]". Dobrar-se: a expressão pode designar o acréscimo por redobra-
nação total" torna-se constitutiva de um novo corpo, de uma nova von- mento de uma identidade primeira - e a cisão, por desdobramento, de
tade- a vontade geral. Não seria arriscado afirmar que Rousseau se ser- uma substância única. Minha vontade se redobra e aumenta na vontade
ve do modelo daphilia e da amicitia (tal como o podia encontrar em Aris- do amigo; minha imagem se desdobra na imagem mais verdadeira reco-
tóteles e Cícero, ou em Montaigne), para aplicá-lo à polis, à Cidade ani- lhida pelo olhar do amigo para oferecê-la a mim. Se ele vier a morrer,
mada por um "eu comum" .115 Nada é mais claro, em Montaigne, do que · sou a uma só vez remetido à minha singularidade primeira, como a uma
a imagem de dois corpos habitados por uma única alma "procurando ser semivida, e privado da certeza em que estava de que minha verdade intei-
apenas uma alma em dois corpos, na expressão muito certa de Aristóte- ra residia fora de mim, em um olhar fraterno e severo:
les",116 e a de uma vontade que, estando fundada em uma certeza pes-
(a)[ ... ) Se comparo minha vida inteira aos quatro anos durante os quais me
soal, confunde-se com a de um outro; para ele, contudo, a perfeita ami- foi dado gozar a companhia tão amena de La Boétie, ela não passa de fuma-
zade não pode estender-se a mais de dois parceiros. Não se podem "divi- ça. É uma noite escura e aborrecida. Desde o dia em que o perdi [ ... ) não
dir" senão as "amizades comuns" .117 A amizade superior só pode ser faço senão me arrastar melancolicamente. Os próprios prazeres que se me
realizada a dois, na geminação . .o exemplo romano que ele cita é o de oferecem, em vez de me consolar ampliam a tristeza que sinto da perda, pois
Tibério Graco e de Caio Blóssio: éramos de metade em tudo e parece, hoje, que lhe sonego a sua parte [.. .)
Já me acostumara tão bem a ser sempre dois que me parece não ser mais
(c) Tinham-se dado inteiramente um ~o outro, suas \·ontades marchavam senão meio [.. .) Nada fazia , nem um só pensamento tinha que não lhe per-
lado a lado [ ... ]. 118 cebesse a ausência, como certamente, em caso semelhante, eu lhe faltaria.
Ocorre aí, diz Montaigne, que "as vontades [estão tão] intimamente Porque, se me ultrapassava em méritos de toda espécie e em virtude, tam-
fundidas" que, em conseqüência, "não duvido um só instante de meu bém me sobreexcedia nos deveres da amizade . 12 l
domínio sobre a minha vontade, como não ponho em dúvida a deste O sobrevivente é simultaneamente o culpado (porque, em todos os
meu amigo". 11 9 A certeza, quanto ao querer do "irmão" em amizade, prazeres de que goza sozinho, "sonega" a parte do outro) e aquele que
não é menos inteira que a certeza de si: "Todos os argumentos do mundo vive doravante como um ser mutilado. Experimenta em si mesmo um ex-
não me tirarão a certeza que tenho de suas intenções e de sua maneira cesso e uma falta. Carrega sozinho o fardo por demais pesado de sua vi-
de pensar" . 120 da sem fiador, não tem mais depositário; e, por outro lado, já não é se-
Ora, essa troca das vontades é igualmente uma troca recíproca de não fragmento ou "fumaça", perdeu a consistência ontológica da exis-
olhares, uma evidência sem sombra oferecida ao conhecimento: tência dobrada. Conhece apenas o redobramento do pesar.
(a) Nenhuma de suas ações poderia ser-me apresentada sem que de imediato
Prolongar o nome de La Boétie, "prolongar sua existência", 124
lhe percebesse o móvel. Nossas almas caminharam tão completamente un i-
preservar-lhe uma "imagem de vida" não é, então, apenas um piedoso
das, tomadas uma pela outra de tão ardente afei ção. essa afeição q'ue pene- dever em relação ao amigo perdido; é fazer de modo que, segundo uma
tra e lê no fundo de nós mesmos, que não somente eu conhecia a sua como modalidade para sempre insuficiente, Montaigne possa ver brilhar, na ima-
a minha, mas teria, nas questões de meu interesse pessoal, mais confiança gem fraterna que guarda em sua memória, o olhar que La Boétie dirigia
nele do que em mim mesmo. 121 a ele e a imagem de si mesmo que esse olhar lhe oferecia. O lugar recla-
A "fusão das vontades" ia de par com a troca das imagens , em que mado pelo amigo agonizante encontra-se na própria consciência-de Mon-
taigne: será restituir a La Boétie como se uma sombra de sua "pane"
cada um dos dois amigos oferecia ao outro um espelho verídico. Unidade
sonegada e, ao mesmo tempo, na "curiosa" decifração de si, cumprir a
no desdobramento: unidade tanto melhor sentida quanto superava a dua-
título substitutivo a função do amigo perdido. Assim, pela memória e pe-
lidade; desdobramento tanto mais precioso quanto confiava à consciên-
la reflexão, em uma relação tornada assimétrica pela morte, o par das
cia do outro a verdade total de que o eu, em si mesmo, não_possuía a
imagens fraternas pode ser perpetuado graças ao trabalho de uma só cons-
certeza no mesmo grau {"teria, nas questões de meu interesse pessoal, mais
ciência. Tendo "mantido um amigo perdido", 125 Montaigne obrigou-se
confiança nele do que em mim mesmo"). A perda de si na vontade do
a perpetuar, como um dever legado, a extrema atenção e a vigilante seve-
amigo era, igualmente, a expansão da esfera do eu: "O segredo que ju- ridade que seu amigo lhe testemunha\'a.
rei não comunicar a ninguém, posso, sem ser perjuro, comunicá-lo a
Assim, renova-se e acentua-se, na relação póstuma, uma experiência
quem não é outro senão eu mesmo. Já é grande milagre dobrar-se assim sentida no vivo da existência: a proximidade do amigo era experimentada
54
55
como uma espécie de redundância, ao passo que a separação lhes dava ção à ausência, na lembrança ou na antecipação da perda. E todo o seu
a ambos o sentimento de uma " posse" acrescida da vida: esforço se desenvolve em vista de uma proximidade salvaguardada. O que
Montaigne realizou em relação a La Bo~tie e a seu pai (salvar uma "ima-
{b) Quando nos separávamos, enchíamos melhor a vida e a enriquecíamos;
ele vivia , apreciava, via por mim e eu por ele, tão completamente como se
gem de·vida") caberá a seu livro realizá-lo em relação a ele próprio. A
estivéssemos no mesmo lugar. E, quando estávamos de fato juntos, uma me- livre conversação com os autores com que compôs sua biblioteca revelou-
tade de nós (visto que éramos um só) permanecia ociosa; separados, exerci- lhe a possibilidade de uma relação de leitura que desafia a distância e o
tavam nossas vontades cada uma por seu lado, em conjunto produziam tempo; e é sob re esse modelo de sobrevivê ncia pela obra escrita que, com
mais. 116 mais modéstia e mais audácia - pois pretende não ser nada e não ter na-
d a d e importante a dizer - , ele se con fia à posteridade. A subjetividade
A sepa ração, na época em que podia ser seguida de uma reunião,
solitária não se mantém viva senão pela sociedade exterior que t ranspor-
era provedora de plenitude: o afastamento permitia um exercício mais ági l
ta co nsigo, qu e protege ou que fom enta.
da reciprocidade. O d iálogo da amizade prosseguia a di stância. Não era
Lem b remos as pala vras que Montaigne util izava na carta-dedicatória
já um exercício de preparação para o afastamento definiti\·o? "ELE via
ao sr. De Mesmes: "Na ve rdade ele se aloja ainda em mim tão inteiro
por ~!!~I. e EU por ELE." O quiasmo, figura do entrecruzamento dos olha-
res, torna-se um recurso para aquele que permanece só , se ele co nserva e tão vivo q ue não o posso crer nem tão pesadamente enterrado nem tão
a imagem do amigo perdido. O olhar refletido, a soberania do julgamen- in teiramente afastado de nosso comércio". E ao sr. De Foi.·c "[ ... ] Eu,
to, que Montaigne preserva em si incorruptíveis e firmes, substituem, mais o único com quem ele se comunicou ao vivo [ ... ]". São exatamente os
ou menos, a metade de si mesmo de que se sente diminuído . Assim mesmos termos que Momaigne utilizará para definir, na advertência " Ao
encontra-se interiorizado, " introjetado", o olhar amistoso e lúcido de La leitor", em relação a seus "parentes e am igos" , mas também com respei-
Boétie: ele é a luz voltada para dentro, a vigilância afetuosa que observa to ao leitor desconhecido, a intenção do livro dos Ensaios: "[ ... ] E assim ·
e "controla" a vida mutável e fantasiosa. Do fundo da morte, continua conservem mais inreiro e vivo o conhecimento que de mim tiveram (.. .]
a velar no olhar vivo da consciência de si e da escrita. A dualidade inte- Vivos se exibirão meus de feitos [.. .]" . 1:s Singular eco, em que o livro está
rior, que cinde o ato introspectivo em um sujeito que olha (a "consciên- e n carregado de assegurar, mediatamente (" por esse meio"), a plenitude
cia") e um objeto olhado (a existência variável), é oriunda da morte; e viva que a mais estreita amizade produzira de maneira direta , pela comu-
é o sujeito observador - aquele em quem se situa habitualmente nosso nicação imediata. Com base nisso, compreende-se melhor o lugar ocupa-
ato mais puro e mais independente - que está no lugar do morto, como do por La Boétie e pelo pai de Montaigne no interior dos Ensaios: eles
sua vida segunda e sua ausência acentuada. A consciência de si, o julga- são , a tít ulos diferentes, os iniciadores com os quais o ato de escrever se
mento em sua continuidade, em sua fixidez, em seu desejo incessante de justifica; Montaigne não pode escrever sobre si sem remontar a eles, co-
recolher a imagem mais verdadeira, trazem consigo a presença persisten- m o se lhes devesse ao mesmo tempo seu man dado e a desculpa de sua
te de um outro, sua morte sofrida e negada: a consciência escapa à mu- própria imperfeição. Mas, ao escrever a partir deles e de sua morte, não
dança porque não pertence mais à vida, mas à sobrevida. Ela é a uma os imita, não os toma como modelos; jamais poderá ser como eles. Não
só vez a testemunha mais íntima e o espectador de além-túmulo. Assim, tem, como seu pai, posteridade masculina; não possui a virtude de La
a solidão do escritor permanece obsedada e atravessada pela continuação Boétie, que foi empregada intei ramente nos deveres da amizade. A esse
interiorizada de uma "sociedade" perdida, assim como é orientada pela amigo que a fortuna privou de obra pode apenas corresponder uma obra
expectativa de uma " sociedade" futura, formada de outros amigos: o ato cujo autor, "privado do mais doce amigo", d irá quanto ele teria sido su-
de escrever tem por função partilhar com o amigo perdido, para transmi- perado pelos livros que este teria escrito: "[ ... ] Se na idade, já mais ma-
tir viva a imagem de um autor que logo não terá mais, ele próprio, outro dura, em que o conheci, tivesse, como eu, concebido a intenção de escre-
lugar onde residir, outro corpo nem outro " fiador" 127 senão seu próprio ver seus pensamentos, houvera deixado coisas notáveis, bem próximas da-
livro, oferecido à posteridade. Portanto, o período de retiro estudioso ad- quelas de que se orgulha a antigüidade" . 129 La Boétie não terá edificado
quire seu sentido como o tempo intermediário entre dois "comércios" : senão uma grande amizade ("tantas circunstâncias se fazem necessárias
o comércio exaltado, antes do livro, com o companheiro eleito; o comér- para que esse sentimento se edifique, que já é muito vê-lo uma vez cada
cio póstumo, pelo livro, com aqueles que terão sido os próximos do se-
nhor de Montaigne. Nas duas faces temporais, o ensaio trabalha em rela- (•) No original, "E por esse meio conservem .. . " (grifo de Starobinski). (N. T.)

56 57
I
131 diatamente inteligíveis para um homem de sua cultura, a denúncia dos
três séculos"), DO e resta a Montaigne "enriquecer e edijicar" a si mes-
mon~c_as oprc:sso~es; foi sobretudo porque La Boétie, para completar sua
mo, para seu livro, por seu livro. . defiruçao da ttrarua, celebrava por contraste a amizade, nela mostrando
A solidão em que Montaigne conversa consigo mesmo e, segundo a
o que a .onipotên~ia tirânica excluía radicalmente. A amizade, segundo
fórmula humanista, torna-se urria multidão para si mesmo (sibi turba) não
~a Boétte (fie}: ru~so, a ~:n topos. co~sagrado pela tradição humanista),
é alimentada, portanto, apenas pelas potências do eu. Traz consigo a exi-
e a forma de soctedade que a ttrarua torna impossível em todas as es-
gência do outro, a lembrança ou o apelo de um comércio estreito com calas da vida coletiva:
uma consciência estranha. É o fruto tardio do diálogo interrompido com
aquele que, segundo Cícero, est [... ] tanquam a/ter idem (De amicitia, É isso que certamente o tirano jamais amou nem ama. A amiz.ade é um no-
XXI); prepara-se para oferecer ao leitor um auto-retrato póstumo. A exi- me sagrado, é uma coisa santa; ela só circula entre homens de bem, e não
gência de comunicação ocupa todas as dimensões temporais em Montaig- se adquire senão por uma mútua estima; mantém-se não tanto por benefí-
cios quanto pela vida feliz.. O que torna um amigo seguro do outro é o co-
ne. Ela volta ao passado:
nhecimento que tem de sua integridade: a garantia que disso tem está na sua
(a)[ ...] Bem o sei, por experiência, que nada suaviza mais a tristez.a que sen- bondade natural, na fé e na constância. Não pode haver amiz.ade onde exis-
timos com a perda de um amigq quanto a certeza de não havermos omitido te a crueldade, onde existe a deslealdade, onde existe a injustiça; e entre os
o que quer que fosse do que cumpria dizer-lhe, e de ter estado com ele em maus, quando se reúnem, há um complô, não uma companhia; eles não se
comunicação perfeita de idéias ~ emoções.
132
amam mutuamente, mas se temem; não são amigos, mas cúmplices.
Ora, embora isso não impedisse, ainda assim seria difícil encontrar em um
E se volta para o futuro: o amigo éom quem se esteve em inteira co-
tirano um amor seguro, porque, estando acima de todos e não tendo nenhum
municação é também aquele de quem se falará a outros destinatários. Não
companheiro, está já além dos limites da amizade, que tem seu verdadeiro
basta ter-lhe dito tudo, é preciso ainda, gratuitamente e sem esperança alimento na igualdade, que não quer jamais falhar mas, ao contrário, é sem-
de retorno, encarecer a benevolência depois de seu desaparecimento: pre igual. m
(b) Os que mereceram minha amizade e gratidão não as perderam porque . A amizade, do~ de si recíproco, verídico e desinteressado, é o pró-
deixaram de existir. Melhor e mais escrupulosamente os pago sabendo-os pno oposto da submtssão interessada do bajulador que se lança na servi-
ausentes e ignorantes de meus gestos, e mais afetuosamente falo de meus
133 dão voluntária. Por maiores que sejam os privilégios do vício o desfecho
amigos quando não têm a possibilidade de saber o que digo deles.
não deixa dúvidas. O assentaror (adulador), de início acarinhado, cumu-
lado de recompensas, cedo ou tarde sofrerá o capricho do tirano. Depois
de ~aver ~ostrado long~mente o mecanismo imitativo que reproduz a tran-
"AT TIBI CERTAMEN MAIUS" saçao serVI~ de alto a bat~o da sociedade tirânica, La Boétie não lhe opõe,
com exceçao da fratermdade restrita, nenhum modelo preciso de socie-
Ao povoar todo o espaço tempo ral - o passado habitado pela lem-
dade livr~; ~ ev~dente que a amizade constitui para ele a única possibilida-
brança do amigo, o projeto de falar dele, no futuro, "mais afetuosamen-
de de reststencta ou de salvação - resef\·ada aos "homens de bem". o
te" a partir do presente que é luto e privação - , a consciência do escritor
exemplo de Harmódio e de Aristogíton, de Bruto e de Cássio faz o tirani-
consagra-se a uma experi ência de si e da duração que simultaneamente
cídio apare~er, nos horizontes legendários, como a obra heróica a que uma
altera~ enriquece a exaltação que ele conh ecera no tempo da amizade viva. grande amtzade pode consagrar-se. Não é, por certo, um projeto dessa
Montaigne lera o Discurso da servidão voluntária antes de encontrar
ordem que selará a amizade de Montaigne e de La Boétie, mas antes, no
La Boétie, e essa obra o fizera desejar aproximar-se dele: momento em que o poder se dispersa entre tiranos e tiranetes, "partidos"
(a} Por isso sou muito apegado a esse ensaio, tanto mais quanto foi o ponto ou bandos anárquicos, a idéia de encontrar, fora do poder e inacessível
de partida de nossas relações. Fora-me comunicado muito antes que conhe- a seus atos arbitrários, um abrigo seguro em um "nome sagrado" e em
cesse o autor cujo nome só então me foi revelado, e assim se preparou essa uma "coisa santa". Eles se consagrarão a um comércio privado, mas tão
amizade que nos uniu e durou tanto quanto Deus o permitiu, ·tão inteira e elevadamente emp~egado no culto da virtude que escapa à reprovação de
completa que por certo não se encontra rá igual entre os homens de nosso ter desertado o cutdado dos interesses públicos.
tempo.n• Na carta em que Montaigne relata a doença e a morte de La Boétie
o agonizante apostrofa seu "irmão" em termos que fazem eco àquele~
Se !\1ontaigne percebeu um apelo de amizade no Discurso, não foi
que acabamos de extrair do Discurso da servidão voluntária:
apenas porque ali encontra,·a, graças às referências ao mundo antigo ime-
59
58
E depois, voltando sc:u discurso para mim: :l.lc:u irmão, disse ele:, que: amo E-.:ilium, mortemve vebit currens rota, rerum
tão afetuosamen te:, e que: escolhc:ra entre tantos homens, para renovar con- Insanos spectat, media arque immobilis, aestus.
vosco essa virtuosa e sincera ami:;ade, cujo uso está, pelos vicios, há tanto Huc arque huc fortuna f urens ruir: i/la suis se
tempo afastado de: nós que dc:le não restam senão alguns velhos vestigios na Exercer laeta officiis, secum bona vere
memória da antigüidade:: Suplico-vos, como sinal de minha afeição por vós, Tuta fruens, ipsoque sui flt ditior usu.
que: aceiteis ser o sucessor de minha biblioteca e de meus livros, que vos dou O mibi si liceat tantos decerpere fructus,
( ... )_llo Si liceat, Montane, tibi! Experiamur uterque:
Quod ni habitis potiemur, at immoriamur habendisfl38
Na verdade, para construir essa amizade, la Boétie apelou incessan-
temente a esses "velhos vestígios", a essas imagens exemplares conserva- Traduzamos livremente:
das " na memória da antigüidade". Claramente, é ele quem constitui o Ou não existe nc:nhuma fc:licidade. ou apenas a virtude nos pode tornar feli -
elo entre o passado admirável e o amigo que escolheu. É a prova viva zes. Só ela possui sempre em si mesma o objeto de seu gozo, plenamente
de que a excmplaridade pode revi\·er, como re\·ive entre eles a língua lati- consciente do passado, capaz de fazer face hoje a todos os golpes da sorte,
na. l a Boétie, em seus poemas, reservou a língua latina às suas amizades ~on:iante em seu ~estino futuro. Ela não tem nc:cessidade de nada, apóia-se
masculinas; o francês, em compensação, lhe servia quando se dirigia a mte1ramc:nte em s1 mesma: fora, não deseja nc:m teme nada; nc:nhum feri-
damas. Pois o latim, dirá :--lontaigne, é dotado de uma energia, de uma mento pode atingi-la; erguida para as alturas, reta e estável, pouco lhe im-
densidade de ser, de um vigor moral que ultrapassam os fracos poderes porta que a fortuna, num giro de: roda, imponha-lhe a pobreza, o exílio ou
da língua vulgar, retlexo de uma era abastardada. O latim é a língua da a morte: permanece imóvel, ocupa o centro e contempla o desencadeamento
exemplaridade viril, em razão mesmo de seu mais alto tt'wlo ontológico. insensato dos acontecimentos. A fortuna em delírio precipita-se em todas
Nos três poemas latinos que dirige a Montaigne, la Boétie assume a fun- as direções: mas, serena, a virtude aplica-se a seus deveres; em sua própria
ção do guia. Sua idade lhe deu a dianteira (tem três anos mais que Mon- companhia, goza dos tesouros que não lhe podem ser arrancados, e torna-se
taigne). Para cumprir uma das funções de amizade definidas por Cícero mais rica do usufruto que tira de si mesma.
- monere et moneri, "advertir-se mutuamente", admoestar e ser admoes- Oh, possa eu colher tão belos frutos! Possas tu, Montaigne, colhê-los igual-
tado -, 13 7 ele toma a iniciativa. É ele quem, com o olhar erguido para mente! Tentemo-lo ambos: e, se deles não nos tornarmos possuidores, mor-
o astro imutável da virtude, repreende seu caçula, reprova-lhe seus des- ramos buscando possuí-los!
vios, sua fraqueza diante das tentações da carne. É ele quem o encoraja Reconh~cemos aqui a voz que Montaigne escutou de início, e que
a dirigir seus passos (a exemplo, também, de seu pai) para a região dos convida a buscar a estabilidade, a reapropriação de si, a coerência ínti-
grandes modelos e das essências incorruptíveis. Montaigne é convidado
ma, a serenidade contemplativa diante das agitações humanas. A exigên-
a ir ao encontro do irmão que o precede e que lhe fala a linguagem da
cia do "próprio", da relação exclusiva consigo, pode ser vivida a dois,
superação e do esforço. Trata-se ora de partir (a três, em companhia de
na relação que forma um ser dobrado: "Nada depende mais de nosso li-
Belot, para um outro hemisfério, para fugir da desolação das guerras ci-
vre arbítrio que a amizade e a afeição" . 139 Por certo, essas são palavras
vis, mas sem perder a triste lembrança da mãe pátria), ora de escalar a
senda da virtude, ora de afastar-se dos prazeres ilusórios, de conquistar retomadas dos livros (e talvez textualmente transcritas); apenas La Boé-
o repouso reservado aos sábios: ao termo desse movimento mantido pela tie, em sua insistência afetuosa, prova não só que essas palavras podem
energia da recusa e do sacrifício, atinge-se o legítimo gozo de si, o domí- ser repetidas, mas que sua lição pode ser revivida e reencarnada. A injun-
nio calmo de todos os horizontes temporais: ção experiamur uterque poderia igualmente ser traduzida: "Façamos am-
bos o ensaio"; definiria assim um sentido primeiro do ensaio (bem de-
Aut nihif est felix usquam, aut praestare beatum pressa abandonado por Montaigne), concebido como a tentativa que sa-
Sola potest virtus. Sola haec, quo gaudeat, in se be antecipadamente o que visa, e o sabe muito bem, já que se trata do
Semper habet, bene praeteriti sibL conscia, sorti soberano bem, no que ele tem de superior, de único e de universal: a vir-
Quaecumque est praesenti aequa, et secura futurae. tude. Esta é o sacramento da comunhão amistosa. O apelo da exemplari-
Jndiga nullius, sibi tota innititur: extra
dade, dominado pelos modelos antigos e formulado agora em uma lín-
Nil cupit aut metuit, nu/lo violabilis ictu,
·sublimis, recta, et stabilis, seu pauperiem, seu
gua do passado, é uma modalidade exaltada do laço amistoso. Implica

60 61
Durante toda a sua agonia, La Boétie, atentamente observado por
emular e, ao mesmo tempo, partilhar e viver consagrado ~ essa única ~a­ seu amigo, representa admiravelmente o papel do sábio agonizante: mor-
refa, até os seus últimos limites: AI ·immoriamur habendzs!_ O que fot a re como um livro. Montaigne permanecerá deslumbrado. Em sua lem-
finalidade da vida torna-se a finalidade da morte: morrer asprrando a p_o~­ brança, a amizade com La Boétie não apenas terá alcançado as amizades
suir esses maravilhosos "frutos". A bandeira da amizade traz como dlVl- exemplares da Antigüidade (Caio Blóssio e Tibério Graco, "mais amigos
sa· a virtude ou a morte! do que cidadãos"), 141 não terá apenas correspondido à expectativa de La
· Como veremos ainda mais de uma vez, o sacrifício da vida é o ato Boétie, que escrevia em sua carta a Montaigne: ''Não temo absolutamen-
capital do destino exemplar. Proclamar o imperativo da virtude não é na- te que nossa descendência recuse inscrever nossos nomes (desde que odes-
da se não se sabe morrer por aquilo que se proclamou. Apenas uma mor- tino nos conceda vida) na lista dos amigos célebres"; 142 ela superou mes-
te em conformidade com o discurso o impede de dissipar-se em "vãs pa- mo, dirá Montaigne, os exemplos consignados nos livros: "Por certo não
lavras" em retórica fútil. Ela é o selo que autentica a sentença, que con- se encontrará igual entre os homens de nosso tempo" . 143 No ímpeto hi-
firma e ~olidifica aquilo que, confinado apenas na matéria da linguagem, perbólico da superação, ela foi mais longe: "A nossa foi única no gênero
jamais possui consistência suficiente. Os grandes homens do passado per- e deve-se tão-somente a si própria. 144 [ ••. ) As próprias obras que a esse
maneceram memoráveis porque morreram pela palavra, segundo a pal~­ respeito nos legou a antigüidade parecem-me insossas, se comparadas com
vra que haviam dado. Para escapar à derrisória grandiloqüência, é pr~ct­ os sentimentos que experimento e cujos efeitos ultrapassam até os precei-
so que a atividade discursiva continue ,até na morte, dela _se apropne e o
tos dos filósofos" . 145 La Boétie tinha o espírito "moldado sobre mo-
se eleve à condição de efeito supremo. A morte se torn~, asstm, a ?ontua- delo de séculos diferentes dos nossos", 146 mas a amizade que "edificou"
ção que dá sentido, o traço que define, a ação oratóna ~uperlauv~ , que com Montaigne alcançou tão bem a exemplaridade das amizades antigas
não apenas escolta o discurso como um gesto mas tambem o finahza na que, com isso, tornou-se ela própria sem exemplo. O êxito na imitação
imobilidade sem retorno. Só então é permit ido afirmar que a pala~ra tra- tornou-a única e inimitável. Já não é simples aproximação da plenitude
zia consigo uma força "desempenhadora" e era um!a;:;er desde? mstan- da amizade; é essa plenitude mesma, atingida e encarnada. Tendo-se anu-
te em que começava o dizer. Essa morte eloqüente pro~eta retroativamente lado a distância entre a vida e o exemplo, a existência pôde confundir-se
seu sentido forte sobre toda a duração da vida antenor. O exemplo cul- com a essência. Ela não se contentou em elevar-se acima do "comum", 147
mina em uma morte monumental, erguida como uma coluna ou _um tro- em superar as "outras amizades comuns", 148 em não "tomar por mode-
lo outras amizades banais e moles"; 149 na superação descrita por Mon-
féu, obrigando os homens nas eras futuras a lembrar-se, a ~aranlhar-se,
taigne, um leitor moderno poderia decifrar o orgulho estético de escapar
a tentar imitar. Assim, quando a natureza ou a fortuna a tss.o atende~,
a toda norma, a superestimação de um narcisismo a dois, que abole a tu-
0
exemplo novo surge ao apelo do exemplo antigo; dessa manetra, La Boe-
tela inicial dos exemplos indo mais longe na direção que eles indicavam.
tie pode, sob os olhos de Montaigne, mostrar-se o equi,·alente dos mode-
À força de idealização, Montaigne estima que sua amizade se desligou
los anti!!OS e morrer de uma morte admirável, toda pontuada de sente~­
dos modelos, a ponto de ela própria não poder oferecer- se como um mo-
ças. \1;nt aigne as recolheu, desde o primeiro dia da doen~a de seu a~t­
delo: ninguém a alcançaria.
go, cvm uma a\'idez fascinada. No espírito da époc~ •. os ulnma rer~.a..n~o
são apenas um testamento espiritual, mas trazem Ja a marca da 'tsao
direta" dos bem-aventurados. A morte de La Boétie lançou Montaigne na "noite escura e tedio-
Assim, eu prestava a maior atenção possível{ ... ) Para o representar assim sa". Ao sentimento de superioridade apaixonada a que se elevara às ins-
altivamente detido em sua brava caminhada, para vos fazer ver essa cora- tigações do amigo, sucede a autodepreciação, de coloração melancólica:
gem invencível em um corpo aterrado e atormentado pe!os furiosos esforços é o negror da "fumaça". E, depois de tê-lo ou,·ido tão altivamente
da morte e da dor, confesso que seria preciso um esrtlo mutto melhor. do distanciar-se do "comum" (formando com La Boétie uma amizade em
que 0 meu. Pois, embora durante sua vida ele falasse de coisas graves e Im- que suas duas almas "entro sam-se e se confundem [... ] tão unidas uma
portantes, delas falava de tal maneira que era dijt"cil escre1·é-las rão bem; mas à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de
dessa vez parecia que seu espírito e sua líng"Ja se esforça~·am. sem .desca.ns~, demarcação"), 150 veremos Montaigne, privado de seu amigo e reduzido
como para lhe prestar seu último sen·iço. Pois sem dúnda Jamais o n tao apenas a si mesmo, proclamar mais de uma vez que se classifica no co-
pleno de tão belas imaginações, nem de tanta eloqüência, como este,·e .ao mum: "Conduzo-me como todo mundo, salvo em relação a mim mes-
longo dessa doença. 140
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mo" . 15 1 A amizade havia-lhe permitido subtrair-se, pelo alto, pelo esfo r- pu blicado os papéis que lhe haviam sido confiados, ele te ntará co ntinuar
ço de t ranscendência, ao império dos exemplos ; a perda do amigo, dora- sozin ho o trabal ho de unificação moral pa ra o qua l seu amigo quisera
vante, relega Montaigne a uma "vida das mais vulga res, que nada tem co n d uzi-lo . Mas, como vimos , descerá novamente ao mu ndo da diversi-
de especial" - · 151 vida cuja diversidade, cuja riqueza polimorfa, cujo an- dade, do " remendo" e da " miscelã nea' ' , para criticá-lo , po r certo, e, no
damento instável recusam, de outra maneira, as palavras de ordem unifi- entanto , ·para a ele aderir finalmente, já que nossa condição é de habitar
cadoras da exemplaridade. Em vez da virtude única, os fenômenos pulu- esse mundo . E, enquanto a admirável unidade de La Boétie de si mesma
lantes de um mundo e de uma existência "inconstantes e diversos". deixava, no exterior, para o s olhares do público, apenas uma obra espar-
Estranha reviravolta suscitada pela morte! La Boétie, nesse par fra- sa e curta, a d iversidade subjetiva de Montaigne será recolhida por um
terno, era o mais a vançado em sabedoria, o mais bem avisado das exi- "regist ro" , tomará a fo rma d o livro (e não mais do livrete), em que to-
gências da virtude, o mais senhor de suas paixões: o molde que dava for- dos os acrésci mos, todos os orna men tos serão integrados numa totalida-
ma à sua alma a reunia toda sob uma " marca" única. A fortuna (esse de multiforme. O dever d e unidade, a que a consciê ncia sabe não poder
é o termo incansa\·elment e utili zado por Mo ntaign e), interrompe ndo essa restringir-se, se rá delegado ao livro, no qual jamais fa ltará o cordão que
vida aos 32 anos, coloca de súbito toda essa perfeição sob o signo do ina- se rve para fazer da multidão das " Oores est ra nhas " um só " ramilhete" ,
cabamento, da fragmentariedade. Em seu pesar, Montaigne vê a grande- um b uquê único: " Exatamente o que se poderia dizer de mim que aqui
za moral incom parável de seu amigo malservida pelos atos ou obras nos ju nto um ra milhete de n o res estranhas, fornece ndo a penas o cordão para
quais não terá pod ido objetivar-se por inteiro . La Boétie não deixou mo- ama rrá-las. Fiz em verdade à opinião pú blica a concessão de me enfeitar
n umento em que sua nobreza de alm a fosse plenamente reconhecível. Des- co m esses ornatos de em préstimo; mas não quero que me cu bram e es-
de então, o testemunho de l\ lichel de Montaigne é indispensável para ates- co ndam; seria o contrário d o que me proponho, que é most rar o que é
tar que essa ausência de grande carreira política, essa produção literária naturalmente meu [.. . ]" . 153 Ora, o que é mostrar o que é seu? É, para
fragmentada em alguns livretes póstumos não têm relação com a verda- Montaigne, no próprio fio de seu d iscurso, denunciar sua propensão a
deira "capacidade" de seu amigo, ou dela são apenas indícios distantes: perder o fio: "Se, falando, deixo-me d esviar um pouco do assunto, perco
simples brincadeiras que, com exceção de raríssimos observadores, não o fio do pensamento "; 15.s é declarar: (b) " A esse respeito não me do mi-
revelariam a ninguém o valor de um ser superior. O amigo sobrevivente no por completo . O acaso é meu senhor [... ] ( c) E advém disso que não
é o único a poder atestar que existe disparidade entre a obra heterogênea me encont re onde me procuro, e mais me d escubra por acaso do que a pe-
e limitada e as grandes ações ou os livros fundamentais de que seu autor, lando para a inteligência" . 155 Mas, como em relação aos empréstimos
com a ajuda da fortuna, teria sido capaz. Ao publicar os papéis de seu ( .. flores estranhas") , o "cordão" do texto permite reunir em " ramilhe-
amigo , ao multiplicar os " livretes" , ao escrever o capítulo "Da amiza- te' ' os momentos e os fragmentos esparsos do eu, e, ao falar do fio perdi-
de", Montaigne empenhou-se em provar uma relação de desigualdade entre do do pensamento, ele jamais deixá interromper-se o discurso da re fle-
a medíocre herança objetiva e a personalidade miraculosa de La Boétie. xão - que se resigna à insciência e ao esquecimento . A força de La Boé-
Nesse sentido, a imperfeição forçada da obra serve para colocar em evi- tie perma necera contida nele mesmo e culminava em uma bela morte; a
dência uma perfeição espiritual reduzida a permanecer quase inteiramen- fraqueza confessada de Montaigne se transformará em força ao objetivar-
te interior. Esse tipo de relação de desigualdade está tão ligado à afirma- se no livro. Um livro que anda, que "caminha", mas com um "andar"
ção da subjetividade soberana que muitos escritores da época "moder- livre e caprichoso, que já não se submete à injunção de seguir o reto ca-
na" (do romantismo a Valéry, e mais além) editarão a si mesmos como minho da virtude.
Montaigne editou La Boétie, adotando eles próprios o papel do fiador Na longa epístola latina dirigida a Montaigne, La Boétie se atribui
póstumo: o inacabado, o fragmentário, o texto interrompido, oferecidos um espírito mais estreito e mais estável: Montaigne, alma mais comple-
como um jogo em que o escritor não empenhou todas as suas forças ou xa, parece-lhe, em compensação, destinado às grandes coisas, mas ao mes-
não pôde apreender o infinito visado por seu desejo serão provas de um mo tempo exposto às mais fortes tentações e aos maiores riscos: "Quan-
excesso da livre subjetividade sobre seus próprios produtos . to a ti, ao contrário, há mais a combater, tu, nosso amigo, que sabemos
Mas a reviravolta suscitada pela morte de La Boétie não se limita igualmente capaz dos vícios e das virtudes brilhantes". AI tibi certamen
a esse aspecto de sua fortuna póstuma. Afeta também Montaigne. Tendo maius. 156 Montaigne, nesse momento de juventude, está entregue aos
apelos contraditórios, aos desvios perigosos; tem necessidade de "adver-
(")No original , "vida baixa e sem brilho" (grifo de Starobinski). (N. T.) tênçias e correções". Outro poema endereçado a Montaigne evoca a si-

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tuação emblemática de Hércules na encruzilhada ?os cami~hos, en.tre esperará delas os conselhos e as advertências que constituíam o nervo da
0
vício e a virtude: mais uma vez, o risco do desviO, o pengoso atrat1vo amizade viva. A participação da testemunha, ainda que profundamente
da libertinagem são os temas do discurso amistoso. Pode-se dizer. que e~­ interiorizada, terá perdido muito de sua insistência e de sua eficácia prag-
sas aflrmações são verdadeiras, em um plano mais geral e de manerra mrus máticas; sobreviverá no julgamento severo e sereno, no exame de si, e
permanente, em relação ao próprio pensamento de Montai~ne. Para e~e, não na injunção de agir, nem na expectativa de uma glória futura. Ela não
não há nenhuma via que não ofereça bifurcação; nenhuma vrrtude que na_o exercerá o efeito disciplinar, porém desastroso, que a psicologia moder-
se converta em seu oposto; nenhum exemplo que não chame um exemplo na atribui a um superego tirânico. Tudo se passa como se o desapareci-
contraditório. mento de La Boétie houvesse de súbito revelado a Montaigne sua própria
o conflito, para ele, não consiste apenas no choque dos valores mo- morte, atingindo de inanidade toda empresa assinalada pela esperança e
rais antinômicos, tal como são defi~dos no interior da linguagem do hu- voltada para o futuro: "Posso parar onde queira, não tendo programa
manismo cristianizado, mas coloca em causa essa mesma linguagem, sua organizado de antemão; cada jornada é um fim em si mesma, e assim tam-
validade, a obrigação de obedecê-la. La Boétie, até o fim de sua brevíssi- bém a vida" } 59 Nada impediu Montaigne de recair nessa "irresolução"
ma vida deixara-se guiar por essa linguagem: Montaigne a põe à prova, a que La Boétie quisera arrancá-lo; doravante, aceita fazê-Ia figurar, co-
interrog~-a. afasta-se dela ... Esse código, esse sist~ma de valores, ~ni~i~l­ mo um "estigma", em seu auto-retrato - "defeito nocivo para quem
mente respeitados, tornam-se para ele problemáttcos; logo constltmrao se ocupa com os negócios do mundo. Não sei tomar partido nas questões
apenas uma lição entre outras, diant~ da qual convém adotar uma sabe- duvidosas. Discuto muito bem uma opinião, mas não sou capaz de jul-
doria uma "arte de viver" independentes. gar" . 160 A escolha, a resolução eram possibilidades da amizade partilha-
Á vista da obra realizada, é lícito deturpar o sentido das palavras da. A parte da melancolia resulta precisamente do véu, da "fumaça" que
latinas de La Boétie e dizer que o maior combate, para Montaigne, resi- doravante enevoa o futuro e que obriga a consciência a recolher-se ora
diu precisamente na relação ambígua - a um só tempo ate~ ta_ e infiel no presente ora, muitas vezes também, no espaço da memória ret rospec-
- com a lição aprendida. O ensaio, no que comporta de dubnauvo e d_e tiva. Tudo que Montaigne pôde salvar do naufrágio e incorporar em si
reflexivo mas também de vida improvisada, deverá ocupar o lugar del- mesmo foi o ato da reflexão vigilante: desejará oferecer-lhe o campo de
xado va.z'io pela supressão da fidelidade aos exemplos. La Boétie foi o um vasto tempo disponível, em que desaparecerá pouco a pouco a neces-
homem-exemplo, e seu desaparecimento, antes que tenha início a empre- sidade do combate para o qual La Boétie destinava seu amigo. O repouso
sa de escrever, reveste-se de uma significação emblemática: não poderá feliz suplantará o ardor belicoso.
jamais ser apagado pelo esquecimento. Mas a virtude que vivia nele não Como o ato po~ vir já não impõe sua tensão e já não obriga a pou-
par o tempo, a palavra pode fazer-se sinuosa e sem termo: nenhuma ur-
tem mais representante nem campo de ação neste mundo; mais nada po-
de ser feito daquilo que ele teria feito e do que sem dúvida teria levado gência a apressa. Como não tem out ro fi m que não sua pró pria manifes-
Montaigne a realizar com ele: apenas, essa impossibilidade pode e deve tação, nenhuma digressão pode desorientá-la. Seu tempo próprio é o do
prazer, e não mais o que reina sobre a vida ativa e im põe est rita econo-
ser dita, confiada ao papel, comunicada ao leitor.
mia aos discu rsos da eloqüência persuasi,·a; é aquele qu e se estende além
La Boétie, diante da morte, deixou a Montaigne a lembrança de uma
ou aquém da vida prática: sobre a vida privada ou sobre a mort e. O ócio
resolução exemplar: infinito, subjacente aos Ensaios, remete tanto à intimidade da Yida quan-
(... ] Porque pela singular e fraterna amizade que nos dedicávamos mutua- to à inanidade da morte. Recorrendo a um termo caro a Maurice Blan-
mente, eu tinha certíssimo conhecimento das intenções, julgamentos e von- chot, podemos dizer que é da ociosidade" que nasce a obra multiforme
tades que ele tivera durante sua vida, sem dúvida tanto quanto um home~ da escrita.
pode ter de um outro; e, porque os sabia elevados, ,·irtuosos, plenos ~e mul- Exemplarmente resoluto, La Boétie celebrava a ,·irtuàe e acrescenta-
to segura resoluçiio e, quando tudo foi dito, admiráveis, eu bem preVIa que, va: Experiamur uterque. Ao mesmo tempo, como vimos, definia uma sig-
se a doença lhe deixasse o meio de se poder exprimir. não lhe escaparia nada
158 nificação primeira do ensaio: tentativa que sabe por antecipação o que
nessa aflição que não fosse grande e pleno de bom exemplo.
visa, mesmo ignorando se terá a força necessária para alcançá-lo. La Boétie
Ora, uma vez desaparecido La Boétie, falta a Montaigne aquele que queria seguir o caminho mais reto: Montaigne, ficando só, não se impe-
foi o próprio exemplo da resolução. E, mesmo concedendo um " lugar".
em sua própria consciência, à imagem e à voz do amigo, Montaigne não (")Em francês, désoeu1·rem ent, isto é, da "des-obra" nasce a obra.(!'\. T .)

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dirá mais de tresvariar, de obliquar, de "desviar" . A irresolução de Mon- lo, não deixo de perceber nas nuvens, por mais alto que se elevem, certas
taigne transforma radicalmente o sentido do ensaio, cuja fo rma tão ori- almas que se distinguem pelo heroismo . J á é muito para mim ter o julga-
ginal apenas pode ser compreendida plenamente pela distância que a se- mento justo, ainda que não o acompanhem minhas ações, e manter ao me-
para do experiamur de La Boétie: nos assim incorruptível essa qualidade. Já é muito ter boa vontade, mesmo
quando as pernas fraquejam. Nosso século , pelo menos no meio em que vi-
(b) Se minha alma pudesse fixar-se, eu não seria hesitante ; falaria claramen- vemos, é tão viciado que não somente não pratica a virtude como ainda não
te, como um homem seguro de si. Mas ela não pára e se agita sempre à pro- a concebe sequer. Dir-se-ia que já não passa ela de jargão acadêmico: " Pen-
cura do caminho certo. 161
sam que a virtude é apenas uma palavra, e em um bosque sagrado não vêem
O que animará o movimento do ensaio será a confissão do esforço senão madeira para queimar" . (c) "A virtude que deveriam respeitar ainda
ineficaz, sempre recomeçado, rapidamente esmorecido, a despeito do fas- que não possam entender. ' ' A virtude tornou-se um penduricalho bom para
cínio dos grandes modelos: se pendurar no gabinete , uma palavra solta na po nta da língua. um simples
enfeite, como um brinco.
(a) A contece-nos, a nós mesmos, miseráveis abortos humanos , ter por vezes (a) Não se verificam mais atos de virtude. Os que assumem esse aspecto
a alma despertada por palavras e exemplos e transportada bem acima de seu não lhe tC:m a essência. São o lucro, a glória, o hábito e o medo que nos
clima no rmal. É, porém, uma espécie de paixão que a impele e agita, e a levam a praticá-los. Os atos de justiça, coragem ou bondade que emanam
projeta fora de si. Passado o tu fão , vemo-la que, sem sequer o perceber, de nós podem ser considerados pelos o utros como provocados pela virtude,
se acalma e relaxa, senão até o fim, ao menos até voltar ao estado anterior.
mas não é a virtude que no-los inspira. Têm outro objetivo, (c) provêm de
E bastará então um incidente qualquer, um copo quebrado , po r exemplo ,
outras causas (a) e a virtude só admite o que se faz por ela e para ela. 16-l
para que nos comovamos como um homem comum. 162
Escrever, exercer seu julgamento não será apenas, por via desviada
A suspeita chega até a supor que, mesmo entre esses "heróis dopas-
sado", o heroísmo prevalecia só "ocasionalmente", como "ações prodi- (e por um desvio que inclui o pensamento da morte), voltar ao que fora
giosas": "Mas trata-se em verdade de feitos passageiros [... ]". 163 inicialmente acusado, ao que não deixa, como acabamos de ver. de ser
O ensaio, mais ainda, será a mobilização de um novo tipo de identi- recusado: a aparência. Ademais, isso será permanecer em relação, mas
ficação: simpatia toda mental, compreensão das grandes almas do passa- negativamente, com o que se buscara atrás das aparências e que se esqui-
do, admiração estudada pelos modelos de virtude. Mas ao mesmo tem- va: a essência, a exemplaridade vi rtuosa: relação do ravante desprovida
po: consciência aguda de pertencer a uma " fôrma" diferente, de não dis- de esperança, marcada de humildade, mas convertida em matéria de um
por das forças necessárias para passar da identificação intuitiva à imita- discurso sem fim . Esse eu que " se arrasta ao nível do solo" é o mesmo
ção ativa . A partir daí, o eu se percebe por sua distância e sua disparida- que. se proclama "matéria de [seu] livro" .
de; e escolhe como tema de seu discurso essa diferença mesma. Dirá aquilo A questão inicialmente colocada era a da relação consigo e das ra -
que, simultaneamente, o faz venerar a figu ra exemplar e o obriga a dela zões de escrever, em um mundo entregue às ilusões e à hipocrisia. Vimos
afastar-se: não será inútil reler aqui (prestando atenção às diferentes ca- a resposta de Montaigne desenvolver-se segundo as etapas de um percur-
madas do texto) todo o começo do capítulo " Catão, o jovem" (1, XXXVII): so em que a morte, a forma estética, a relação com os outros intervêm
como encontros capitais. E constatamos que Montaigne, depois de haver
(a) Não cometo esse erro tão comum de julgar os outros por mim. Acredito
de bom grado que o q ue está nos outros possa divergir essencialmente da-
tentado inutilmente se libertar dos prestígios exteriores, encontrava-se re-
quilo que está em mi m. (c) Não obrigo ninguém a agir como ajo e concebo conduzido a uma aceitação refletida do mundo fenomênico , recolhido e
mil e uma maneiras diferentes de viver; e, contrariamente ao que ocorre em representado na obra literária. Resta-nos examinar mais de perto, e sepa-
geral, espantam-me bem menos as diferenças entre nós do que as semelhan- radamente, alguns dos problemas que nos apareceram em sua interdepen-
ças. Não imponho a outrem nem meu modo de vida nem meus princípios; dência esquemática: o recurso ao ser' a "relação com outrem"' o com-
encaro-o tal qual é, sem estabelecer comparações. O fato de não ser conti- prometimento na obra. Veremos confirmar-se o itinerário que acabamos
nente não me impede de admirar e aprovar os cistercienses e os capuchi-
de anotar? Se, nessas diversas direções, um mesmo traçado fundamental
nhos que o são; pela imaginação ponho-me muito bem em sua pele e os esti-
persistisse, aí encontraríamos a oportunidade não apenas de melhor
mo e honro tanto mais quanto divergem de mim. Aspiro particularmente
a que julguem cada qual como é, sem estabelecer paralelos com modelos ti- apreender, em seu movimento indefinidamente repetido e variado, a
rados do comum. (a) Minha fraqueza não altera absolutamente o apreço em "forma-mestra" de que Montaigne não deixou de valer-se, mas ainda de
que deva ter quem possui força e vigor. (c) "Há pessoas que só aconselham perceber mais nitidamente o que o livro de Montaigne, em seu afastamento
aquilo que imaginam poder imitar." (a) Embora me arraste ao nível doso- e em sua proximidade, convida-nos a pensar de nossa presença no mundo.

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2
HESSA MÁSCARA
ARRANCADA"

"A VERDADEIRA FACE DAS COISAS"

Inicialmente, a tarefa parece clara. Se a mentira, se o parecer são


simples fantasias, resta apenas arrancá-las como se arranca uma másca-
ra . De todas as coisas, assim como de nós mesmos, será preciso subtrair
o que está acrescentado, eliminar o que é de empréstimo, demolir tudo
que dissimula a nudez essencial - curar-nos da tentação de nos misturar
àquilo que não é nós mesmos, repelir as influências estranhas que se imis-
cuem em nós, recusar o que nos vem de fora, refrear os desejos que pode-
riam tender para o exterior. Uma vez dissipado esse turvo "meio" inter-
posto entre nós e o mundo, descobriremos simultaneamente nossa verda-
deira face e o "Yerdadeiro valor de cada coisa": 1 um novo mundo e um
novo eu se oferecem ao mesmo tempo a nossos olhos. Um mundo limpo
do Yapor que nele projetavam nosso desejo e nossa imaginação; um eu
purificado de todas as suas escórias estranhas. Doravante, uma rel ação
justa entre nossa vida e o mundo, entre o externo e o interno , pode
estabelecer-se. Essa relação , uma vez reajustada, institui um elo de ver-
dade. Liberto dessa "influência exagerada de certos costumes" , 2 o ho-
mem poderá enfim decifrar "a verdade essencial das coisas " que "ocos-
tume nos esconde". 3 Depois de completa purificação (mas quando esta-
rá ela acabada?), o homem retomará pé no real e aí se orientará de acor-
do com a sabedoria. Cedendo por um momento ao que se poderia cha-
mar a alegria do " desmascaramento", Montaigne afirma: "Arrancando-
lhes a máscara[ ... ] e os examinando do ponto de ,·ista da razão e da ver-
dade, o que descobrir o espantará a ponto de indagar de si mesmo se está
na plena posse de seu bom senso, o qual nunca lhe terá, entretanto, fa-
lhado menos". 4

i/
Perseguido rigo rosamente, onde se deterá o esforço de despojamen- Se a espo ntaneidade é portadora de verdade - segundo a versão oti-
to que subtrai o factício para descobrir o autêntico? Em que momento mista que evocávamos há u m instante - , então vemos instaurar-se, em
se alcança, atrás das aparências enganado ras, uma definitiva e estável subs- todos os d omínios, uma primazia e uma su perioridade ontológicas does-
tância? Por qual sinal se reconhece que enfim se tocou o fundo, o verda- tado nascente: cada instante vê nascer uma nova experiência sensível, um
deiro eu , o ouro puro que se ocultava sob tantos invó lucros enganado- novo impulso do pensamento e da vontade, uma palavra em seu frescor.
res? Quando se autorizará a agir e a falar aquele que houvesse resolvido Na medida em que são originais, são infalivelmente justos. Sua verdade
não discorrer e não empreender senão com a condição de deter, sobre si, é garantida pelo caráter primeiro de seu surgimento. Nada parece precedê-
sobre o s outros, sobre o mundo, uma verdade isenta de toda suspeita? los: nenhuma reflexão, nenhum desígnio premeditado puderam falseá-los.
As respostas de :'vlontaigne são amb íguas. T rata-se de tirar másca- Então, trata-se apenas de aderir o mais estreitamente possível a essa evi-
ras? Antes, de jamais as colocar. M uitas passagens dos Ensaios respon- di:ncia perpetuamente renovada; trata-se apenas de conte r-s~ para não ul-
dem pela veracidade espontânea de seu autor: ele se oferece a nós tal co- trapassar os limites do p resente em que a revelação eclode. E preciso aco-
mo é, no primeiro ímpeto, sem alteração. É o privilégio qu e reserva ao lher, de instante em ins tante, a mensagem sensível d o m un do, o pensa-
pequeno círculo d e seus "parentes e amigos" : tomou a pena em sua in- mento que prolonga essa sensação, e é preciso precaver-se de que rer em -
tenção, para preservar a imagem de sua " ingenuidade" . Não tem nenhu- bdezJr artificiosamente (com base em conceitos preexistentes ou em vis-
ma ambição, senão a de ser conhecido; nada, portanto, o obriga a di ssi- ta de um objetivo longínquo) o que nos é outorgado pela graça do instan-
mular. E ntregar-se-á sem escrúpulo ao movimento livre de seu humor. te ... i\ las quem pode prevalecer-se de um privilégio d essa espécie? Pode-
Ele detém, a cada instante, uma ve rdade n o estado nascente, e a dificul- mos contar, ainda que fosse apenas no fulgor mais fugidio, com a mani-
d ade (como veremos) é apenas não a corromper de modo algum ao contá- festação de nossa verdade intacta? As precauções que tomamos para
la. A linguagem, contudo, não é incapaz de seguir o mais de perto possí- conse rvá-Ia pura já não a pert urb am ? Tudo não é falseado po r antecipa-
vel, de registrar fielmente as variações do pensamento e do sentimento. ção? Somos influenciados, o que quer que façamos, po r um poder de men-
Essa é a primeira resposta - que poderíamos qualificar de otimista - tira - o costume - que altera nossas sensações, nossos pensamentos,
ao problema do conhecimento de si. nossas palavras . P or nossos sentidos, por nosso corpo, por nossa condi-
No oposto, entretanto, podem-se alegar, nos Ensaios, inúmeras pá- ção limitada, estamos aprisio nados em uma "fôrma" sem relação com
ginas em que o conhecimento interior constitui o termo sempre fugidio o "ser original" das coisas. As regras convencionais de nossa linguagem
de uma busca infinita. Em vez de ser o que se entrega no ímpeto imedia- nos retêm em um sistema a rbitrário em que jogamos com sombras. A trai-
to, o eu verdadeiro esquiva-se ao olhar introspectivo à medida que este ção está po r toda a parte, sem que isso seja nossa culpa: não sou eu que
crê progredir. A procura se vê arrastada para os longes; por mais profun- m e mascaro , é o real, em mim e fora de mim, que se esquiva. Eis por
damente que o olhar mergulhe, a verdade interior permanece inapreensí- que a desconfiança pode parecer o começo da sabedoria. Prender-se às
vel: não se deixa possuir como uma coisa, nem simplesmente fixar como evidências primeiras é deixar-se enganar ingenuamente. 8 Atrás das sedu-
uma figura. Recusa-se a toda objetivação e recua à medida que Montaig- ções da espontaneidade há um poder astuto e maléfico que se diverte em
ne dela acredita se aproximar. Ele permanece em presença de um hori- lograr-me. Como frustrá-lo? Como dominá-lo? Dessa vez, em vez de es-
zonte confuso e ilimitado - de uma transcendência íntima: preitar, na proximidade sem intervalo, o instante em que m inha vida e
(c) É mais difícil do que parece acompanhar o espírito na sua marcha inse- o mundo se tornam sensíveis, vai ser preciso destruir o s obstáculos inter-
gura, penetrar-lhe as profundezas opacas [... ) Não há descrição mais difícil postos, afastar-se de um aqui enganador para lançar-se na busca de um
do que a de si próprio [... ]5 (b) Quanto mais me analiso e conheço, tanto ali que se dissimula além das aparências.
mais minha deformidade me espanta e menos eu me compreendo. 6 Ora, qual vai ser o desfech o de semelhante busca do ser? Em que
Como considerar o eu? Intimamente presente para si mesmo ou in- nos empenhamos, se se tenta apreender, para além das qualidades variá-
definidamente ausente? Essa ambigüidade constitui um d os paradoxos fe- veis da experiência sensível, uma substância permanente, "a própria es-
cundos do pensamento de Montaigne. O ensaio segundo Montaigne é al- sência da verdade, uniforme, entretanto, e constante"? 9 Não vamos
ternadamente (ou simultaneamente) uma revelação instantânea do eu e transformar em outras aparências tudo que acreditamos d escobrir a trás
uma perseguição que não pode ter fim . Logo se constata que a esse equí- das aparências? Se o erro é inseparável dos fenômenos, sairemos algum
voco se liga ainda outro, o qual diz respeito à aptidão da linguagem para dia do erro? Pois ao fim de nosso trajeto nossos sentidos não deixaram
nomear veridicamente o ser. 7 de ser o que eram no início; nosso olhar, nossas mãos contaminam por

72 73
Quando penso em Catão a arrancar-se as entranhas para morrer, não posso
seu contato todas as imagens sobre as quais pousam e aquelas mesmas crer que o haja feito simplesmente porque sua alma estava isenta de medo
em que acreditam encontrar o ser puro: "Como se tivéssemos infeccioso e inquietação, nem que assim tenha agido unicamente para obedecer às re-
o tato, ocorre-nos corromper, em às manuseando, as coisas que, em si, gras dos estóicos, os quais exigiam que o ato executado o fosse deliberada-
são belas e boas" . 10 mente, sem emoção e sem que a impassibilidade se desmentisse. Creio que
Atrás dos discursos ilusórios, Montaigne descobre apenas outros dis- devia haver em sua virtude um excesso de energia, que ela era de uma têm-
cursos, do mesmo estofo; atrás das sensações, outras sensações, igualmente pera excepcional. E penso que encontrava prazer e volúpia na realização de
tão nobre gesto, comprazendo-se nele mais do que em qualquer outro de sua
incertas e enganadoras. Ele sabe antecipadamente que não sairá mais do
existência: (c) "saiu da vida, feliz por ter encontrado uma razão para mor-
domínio das palavras e que os vocábulos substituídos permanecerão vo- rer". (a) E tanto assim o creio que duvido tivesse ele desejado que tão boa
cábulos humanos, carregados de confusão e de ambigüidade. É por isso oportunidade para um tal feito não se apresentasse. E eu estaria convencido
que Montaigne não empreende absolutamente reformar o discurso nem disso, não fosse a elevação de sentimento que o levava a colocar o bem pú-
regular a experiência. Para isso, teria sido preciso uma ambição que não blico acima do seu próprio; e estou persuadido de que foi grato ao destino,
o qual, em favorecendo um bandido inimigo das liberdades de sua pátria ,
possui.
lhe reservara tão bela provação. Parece-me ver em sua conduta, nessa cir-
No entanto, Montaigne não é insensível ao apelo heróico de uma sa-
cunstância, sua alma, a qual devia experimentar um prazer extraordinário,
bedoria que adotasse como princípio a recusa da máscara. No domínio uma volúpia viril ao considerar a nobreza e a elevação do que ia fazer:
moral, permanece atraído por uma conquista cuja realização no plano
(b) "tanto mais orgulhosa de si quanto ia morrer"
do saber lhe parece duvidosa. É ·e m suas decisões fundamentais, no cla-
rão de seus atos premeditados, que os homens terão o poder de se revelar (a) e sustentado não pela vontade de conquistar glórias, como pretende-
em sua verdade, sem disfarce e sem dissimulação. Esse é o caminho que, ram alguns que o julgaram como julgam as massas, pelo lado mesquinho
num mundo em que a verdade das coisas nos é recusada, conduziria con- - o que fora indigno de tão generoso e escrupuloso espírito - mas pela
beleza do gesto, cuja sublimidade apreciava melhor do que nós , porquamo
t udo à verdade do eu. Na falta de saber a verdade, poder-se-ia , no entan-
mais do que ninguém lhe conhecia os móveis. 12
to, vivê-la ...
O momento que Montaigne desejaria mandar esculpir é o do último
esforço e do suicídio de mãos nuas, pelo qual o herói se dá verdadeira-
O SER ÚLTIMO: O SUICÍDIO mente a morte. Tal será o perfeito emblema dessa violenta sabedoria, va-
riedade romana e republicana do estoicismo. \'é-se desembocar aqui, na
O próprio Montaigne envereda por esse caminho? Tenta-o servindo-se glória sangrenta, o movim ento de subtração qu e arranca da vida todo o
de diários , curioso de conhecer-lhe o desfecho e de julgar-lhe os resultados, não-essencial, todo o imaginário, todos os arrebatamentos que tornam
estimulado talvez pelo maligno prazer de chegar final mente a den unciar o homem estranho a si próprio; é preciso considerar a vida com o resto.
a vaidade e o malogro derradei ro da empresa. Examina atentamente o Ao se dar a morte, Catão dá a si mesmo seu limite e dá pro,·as de posse
que ocorre com outros - nos livros dos antigos - que se empenharam absolu ta. Seu ser inteiro se encontra em suas mãos, a seu alcance e a sua
na contestação heróica das aparências. Ora, entre essas a lmas soberanas mercê. Mais nada lhe pode escapar. O gume da sentença, voltado contra
existe uma que provoca particularmente a admiração de Montaigne: Ca- as entranhas do herói, prova que o discurso adquiriu definiti,·arnente força
tão, vencido, mas vitorioso a despeito de sua derrota, morrendo por suas de ato e que nenhuma refutação pode doravante atingi-lo.
próprias mãos e reunindo nesse ato supremo o consentimento no destino O despojamento das máscaras alcança, com isso, seu momento final.
e a recusa da servidão. Montaigne se pergunta que imagem poderá me- O despojamento parecia dever ser interminável - pois máscaras novas
lhor eternizar a façanha de Catão; e scolhe representar o instante mais se recompõem diretamente na face desnudada - , mas eis que se atin-
próximo da morte, o moment o em que a veracidade do pensamento é ge o ponto em que o ser verídico está inteiro imobilizado e definido em
referendada pelo sacrifício da vida: seu fim; em que a consciência, senhora de si mesma, destrói alegremente
toda possibilidade de fuga e de hipocrisia. Reduzida apenas a si, lib erta
(a) Se me fosse dado representá-lo na atitude que considero mais honrosa, de todos os ouropéis fortuitos que a d issimula,·arn, a verdade interior se
mostrá-lo-ia ensangüentado e arrancando as entranhas. e não de espada na recobra e resplandece na iminência de morrer. Toma a morte por cúmpli-
mão como fizeram os escultores de sua época. O segundo ato de sua morte ce, como se só pudesse desvelar-se sobre um fundo de nada, no breve ins-
revela sem dúvida alguma coragem bem maior que o primeiro [... ] 11 (a)
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tante em que o herói encara as nevas antes de confundir-se com elas. Por- ral; especula, de um lado, sobre o ser e, do outro, sobre a virtude. A pró-
que não há mais saída em direção a um futuro vivido - o que significa pria mo ral se subdivide em uma teoria (o conhecimento do soberano bem)
dizer que já não há meio de " pensar alhures" - , o ser se estabelece em e em uma prática. Mas aprender a morrer é reunir, é fazer convergir em
um aqui e agora perfeitamente plenos. O herói exibe e fixa todo o seu um único ponto todos os objetivos da filosofia; é conciliar o saber e a
poder, que nada doravante poderá disputar-lhe; um poder infinito, já que prática, tomar posse da verdade impessoal em um movimento de apro-
não pode ser limitado por nenhuma força exterior. Resta a possibilidade priação que faz dela a minha verdade. No instante que decide de minha
abena de uma imortalidade gloriosa, na qual a palavra dos outros perpe- vida para sempre, cessa a distância entre a palavra e o ato, entre o discur-
tua o nome daquele que teve a coragem de preferir a morte à ignomínia. so e a conduta da vida. Antecipar esse instante é, então, possuir previa-
Assim, a morte, e singularmente a morte voluntária, procede a um mente a unidade que falta à maior parte dos homens. Nossa vida é uma
desnudame nto. A hora da mo rte é o espelho verídico em que, pela pri- fu ga perpétua , um recomeço desordenado; a morte é o traço que barra
f
meira e pela última vez, o ser alcança a si mesmo. Suas qualidades per- o horizonte dessa fuga. Se nos instalamos antecipadamente no exclusivo
mane ntes são en fim ressaltadas, suas fa lhas são descobertas. Sabe-se quais pensa mento d a mo rt e, co nferimos coerência ao que, se m isso , não é mais
foram falsas, quais são verdadeiras: vicio ou virtude, coragem ou covar- do que " um amálgama de peças d esengonçadas" . 15
dia, a hora derradeira deles decide para sempre e permite julga r retros- Assim, a morte se torna a "única garantia d e nossa liberdade" ; 16
pectivamente roda uma vida: pois não sou meu próprio senhor, meu ún ico senhor, senão na medida
exata em que sou senhor da minha morte- em que .a tenho nas mãos.
(a) Quanto a tudo mais podemos dissimular; fazer como filósofos belos dis-
cursos de forma excelente; conservar a nossa serenidade em face de aciden- Nenhuma tirania pode mais me atingir, nenhuma vontade pode avançar
tes que nos atinjam superficialmente. Mas na última cena, a que se represen- sobre a minha. A morte voluntária me eleva quase ao poder de um Deus;
ta entre nós e a morte, não há como fingir, é preciso explicar-se com preci- pois não é uma faculdade divina determinar-se e definir-se inteiramente
são em linguagem clara e mostrar o que há de autêntico e bom no fundo a si mesmo? Sendo capaz de dar fim (de me "desfazer") a mim mesmo
de nós mesmos: "então a necessidade arranca-nos palavras sinceras, então voluntariamente, adquiro com isso a convicção de que sou o único a me
cai a máscara e fica o homem" . Eis por que a esse momento• devem fazer, a me dar a existência- a cada instante em que consinto em pro-
relacionar-se todos os demais atos de nossa vida. É o dia principal, o dia longar minha vida.
que valoriza todos os outros. É o dia, diz um escri tor antigo, que julgará O pri vilégio de autenticidade que há pouco -como vimos - Mon-
todo o meu passado. Deixo que a morte se pronuncie•• sobre minhas ações; taigne estava tentado a conferir ao estado nascente, ei-lo retomado (a tí-
por ela se verá se minhas palavras saem dos lábios ou do coração . 13 tulo de ensaio) pelo estado agonizante. Se a verdade não está no primeiro
"Último traço", que não apenas possui o privilégio da autenticida- impulso, é porque está, ao coritráriq, no último suspiro; se não é designa-
de mas também se torna imediatamente a pedra de toque de todas as nos- da pela palavra do começo, é porque está encerrada no silêncio do fim:
sas ações anteriores. A hora da morte aclara e fixa irrevogavelmente o o espírito é tentado a buscar a certeza incontestável nos pontos gêmeos
sentido - até então indeciso - de todo o nosso passado. Não é indife- e antitéticos da vida aparecente ou declinante . Os ultima verba, pronun-
rente que Montaigne recorra aqui à palavra ensaio: a idéia de pôr à pro- ciados na margem extrema, recebem da eternidade que os cerca o valor
va, que descobrimos nessa passagem, é idêntica à que se enuncia no pró- insuperável de uma verdade derradeira. Ora, a sentença, palavra densa
prio título dos Ensaios, e a intenção de pedir socorro à morte, porque e orlada de morte, tende a restabelecer no cerne da existência presente
ela é ensaiadora por excelência, constitui um dos primeiros movimentos a energia decisiva dos ultima verba. A palavra estóica é um decreto de
do pensamento de Montaigne - de acordo, como vimos, com a lição de morte voluntariamente reiterado no seio da própria vida.
La Boétie. Tal é a argumentação a que Montaigne empresta longamente sua pró-
"Filosofar é aprender a morrer." Dessa afirmação de Cícero, Mon- pria voz. A morte desmascara. Então, por que temê-la? Ao invés de nela
taigne faz o tema de todo um ensaio do primeiro livro (1, xX). 14 A filoso- ver o que dá acesso à liberdade, a maioria dos homens a considera uma
fia, comumente, distingue o conhecimento da verdade e as tarefas da mo- terrível ameaça. Mas é sua imaginação que se amedronta; o horror é ape-
nas uma máscara com que o vulgo costuma revestir a morte. Comecemos
(") No original, "Eis por que a esse último traço devem [ ... )". (N. T.) por desmascarar a hedionda aparência da morte; depois, é dela que nos
("")No original, "Remeto à morte o ensaio do fruto de meus estudos" (grifo deSta- virá o conhecimento de nossa identidade posta a nu. Assim, a morte des-
robinski). (N. T.) mascarada poderá tornar-se a morte desmascaradora. Dupla revelação que

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logo será apenas uma, na medida em que a morte interiorizada e volunta- toda a extensão de minha vida, como p osso persistir em ver aí o aconteci-
riamente possuída se toma minha, une-se a mim e faz parte de minha iden- mento supremo de que minha vontade se apoderaria para o transformar
tidade definitiva. A verdade desvelado r a da morte se confunde então com em ato puro? A reivindicação heróica já não tem, literalmente, objeto;
a verdade desvelada da vida. Ao desmascarar essa coisa ameaçadora, des- a morte vai escapar-me da maneira pela qual minha vida me escapa. Ela
cobrimos nossa própria pessoa. Montaigne repete, parafraseando Sêne- já não é uma missão precisa a cumprir, na tensão de um esforço decisivo .
ca: "As crianças amedrontam-se quando as pessoas, mesmo suas conhe- Sofro-a por bem ou por mal e morro insensivelmente, t al como respiro.
cidas, se apresentam mascaradas; pois é o que ocorre nesse momento . Ar- Não posso mais contar com ela para me revelar a mim mesmo. Ao con-
ranquemos as m áscaras as . co1sas
. como às pessoas [ . . . )" . 17 trário, minando o instante presente, secretamente dissimulada no escoa-
"A meta de nossa existência é a morte: é este o nosso objetivo fa- mento de minhas alegrias e de minhas penas, é ela que faz com que eu
ta1. "18 Antecipando essa meta pelo pensamento, fazendo como se cada fracasse em me conhecer. Pelo próprio excesso de sua intimidade e de sua
um de meus instantes fosse o último, eu me pertenceria imutavelmente. proximidade, a m orte não me oferece mais nenhum apoio . Fund iu-se sob
Dessa maneira, pela premeditação, terei tomado posse desse "dia que va- meu olha r, e apenas posso adivinhá-la vagamente sob a trama da vida
loriza todos os outros'' , 19 tê-lo-ei incorporado desde já à minha vida pre- mutável e familiar pela qual não experimento nenhum h o rror. A morte
sente, que dele tirará sua plenitude e sua verdade. Não apenas pensarei é doravante tão constantemente atual, acompanha-me de m odo tão fiel,
a morte, mas também, pensando-a como minha morte, pensarei a mim que já não p osso extraí-la de minha vida pa ra erguê-Ia solitariamente, t al
mesmo por intermédio da morte - uma continuidade perfeita, uma coe- qual um monumento glorioso, na margem do ser.
rência sólida religará todos os meus atos, sob a luz unificadora da hora A esse argumento, que dissolve a morte e recusa-lhe a dignidade de
final. A partir daí, essa "morte minha" me terá dado o gozo de uma "for- um acontecimento isolável, acrescenta-se outro: este consiste em negar
ma minha" que tantas máscaras me haviam subtraído. que a morte tenha domínio sobre nós e, conseqüentemente, tira do ho-
mem a possibilidade de ter, em troca, domínio sobre ela. "Morto ou vi-
vo, vós não lhe escapais: vivo, porque sois; morto, porque não sois mais
CRÍTICA DA MOR TE ( ... ) O tempo que perdeis não vos pertence mais do que o que precedeu
vosso nascimento, e não vos interessa. " 21 Dessa vez, ao invés de ser in-
Mas a argumentação de Montaigne se exalta até inverter - por ex- teriorizada e de se confundir com cada instante de n ossa vida, a morte
cesso de ardor, é o q ue poderia dizer - o que tenta provar. Os raciocí- é exteriorizada: torna-se um exterior absoluto. É tão outra que não nos
nios utilizados para tirar da morte sua máscara de pavor vão, em conse- concerne mais. ~1inha consciência pessoal permanece sempre aquém da
qüência, despojar de seu papel excepcional o "último dia". Ele deixará morte. Para o conheciment o objetivo, esta se torna a ocasião de um jul-
de ser o "dia capital". As demonstrações destinadas a domesticar a mor- gamento geral, que reconhece nela uma necessidade universal, da mesma
te, a nos familiarizar com ela, \'ão ao mesmo tempo abolir sua função ordem que o dia ou a noite. Desse modo, longe de me definir em minh a
de critério privilegiado . Por uma re\·iravolta "dialética", perderá o que individual idade e em minha verdade singular, morre r é o que me torna
fa zia dela a portadora de uma re\·elação \·erídica. semelhante a todos os o utros seres vi vos, o que me "desindi\'idualiza"
Para conjurar o temor da morte, Montaigne lança mão de todos os e me remete à condição comum. É ao que conduz o argumento do des-
meios. T odos os argumentos que lhe são oferecidos pelo vasto arsenal da mascaramento da morte, que acabamos de evocar: "Arranquemos as más-
tradição lhe são bons. Limitemo-nos a assinalar dois deles, cujas conse- caras às coisas como às pessoas e por baixo veremos muito simplesmenre
qüências serão destrutivas para as prerrogativas ontológicas da m orte e, a morte. A mesma com a qual partiu ontem sem maior pavor tal ou qual
sobret udo, para o seu direito de julgamento sobre o resto da vida. Em cri ado ou aia". 22 A morte perde seu aguilhão, mas , dessa vez, em lugar
primeiro lugar , a morte está j á presente em nós desde o nosso nascimen- de mesclar-se à totalidade de nossa experiência sensível, torna-se o limite
to. Morremos a cada instante, sem nos darmos conta disso : o inst ante banal onde se interrompe, para cada um, toda experiência sensível.
final será semelhante a todos o s outros de que não pensamos em nos la- Ela não é mais "o morrer", o ato de d espedida da existência: é o
mentar. "Por que temeis \'OSSO último dia? Ele não vos entrega mais à fato de ter cessado de viver. É \'ão temê-la, como é vão querer enfren-
morte do que o faz cada um dos dias anteriores. Não é o último passo tá-la; ela não é nada. A sabedoria consiste em remeter esse nada a seu
a causa de nossa fadiga; ele apenas a determina. Todos os dias levam à verdadeiro lugar, que está fora de nós, fo ra de nossa subjetividade; ele
morte, só o último a alcança. " 20 Se minha morte está assim difusa em é o que jamais se pode encontrar. O sábio, decidido a encerrar-se em seu

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foro íntimo, abster-se-á de emprestar uma face imaginária a um nada sem po adquirido. Montaigne escreve, comentando a morte de Carão e a de
face. Sabe antecipadamente que o instante da passagem para a morte não Sócrates:
tem realidade, não é um acontecimento. Esse instante, em todo o caso,
Depara-se nas almas de Carão e Sócrates[ ... ] uma prática tão p.:rfeita e cons-
oferece muito pouco suporte para que um ato heróico encontre meio de
tante da virtude que se diria ter ela se incorporado à natureza deles . 1\'ào
aí se apoiar. Depois de haver afirmado que a morte está sempre em nós,
é uma virtude nascida de um esforço, nem ditada pela razão; a própria es-
Montaigne declara que estamos sempre aquém da morte. Argumentos que
sência de suas almas, sua vida normal e cotidiana elevaram-na a tal alturl,
são contraditórios mas que excluem, ambos, a possibilidade do desvela-
mercê do prolongado exercício da filosofia, a qual encontrou neles um es-
mente do ser pela morte voluntária. E, em ambos os casos, premeditar plêndido e rico temperamento. ~5
a morte torna-se vão cuidado, tão condenável quanto as antecipações di-
tadas pelo desejo ou pela paixão. "Perturbamos a vida com a preocupa- O desmascarador acreditava dever rejeitar o hábito, o uso, o costu-
ção de morrer e a morte com a preocupação de viver" (111 . XII, p. 1051; ro~. para melhor alcançar uma essência estável. Mas eis q ue, por um a rt'-
T. R., p. 1028). vira \'Olta inesperada, é preciso vol tar a eles, e interrogá-los. Pareciam dis-
Além disso, eis ago ra uma constatação que vem arruinar definitiva- simular o ser substancial, e agora aprendemos que uma prática, enxerta-
mente a esperança que pretendia que a hora final fosse a hora da verda- da em um esplêndido e rico temperamento , pode constituir "a própria
de. Interroguemos escrupulosamente as histórias; descobriremos que, mui- essência" da alma. O parecer não é, então, o irredutível inimigo do ser;
t o freqüentemente, a cena final produz não a unidade, mas a contradi- é, ao contrário, seu aliado obrigatório, seu complemento necessário. Se
ção. Ao invés de constituir o momento exemplar de um retorno à ordem a verdade do eu não é apreensível no campo da experiência sensível, não
e à verdade, leva ao auge o escândalo da mentira. O equívoco da conduta nos será revelada no instante da morte, que é apenas a últ ima experiência
humana, longe de se dissipar, agrava-se. Quem nos garante que uma bela sensível, a qual nenhum privilégio distingue da série das experiências sen-
morte não é uma obra-prima d~: artifício? "De meu tempo três pessoas síveis que constitui a trama de nossa vida. Se o ser interior deve desvelar-
das mais execráveis que conheci , e cuja vida não fora senão um amontoa- se na hora final, ele o será igualmente em cada um dos minu tos de nossa
do de abominações e infâmias, tiveram morte decente e tal que em ne- existência. Nada nos desculpará, doravante, de ser desatentos à vida e às
nhuma circunstância se poderia querer melhor. " 23 Ao invés de um des- aparências que nos propõe.
mascaramento, é o último malefício da máscara ... Dessa atitude- no momento mesmo em que Montaigne se a fasta
Talvez, então, seja preferível renunciar a julgar a vida por seu fim, de todos os exemplos- resta uma imagem exemplar, a de Sócrates: nos
e proceder ao inverso. Um instante único não pode constituir o critério últimos textos de Montaigne, Sócrates é o fiador dessa humildade con-
decisivo: é preciso dirigir o olhar para a totalidade de uma existência: "To- sentida e dessa vigilância inflexível; sua ciência (aceitável para o cético)
da morte deve estar de acordo com a vida a que põe fim. No momento consiste em saber que nada sabe e em prestar atenção a todos os atos da
de morte, não devemos ser diferentes do que fomos. Sempre julgo a mor- vida ordinária. Esse último exemplo não habita um lugar separado; é nosso
te pela vida e, se aludem a alguém cuja morte revela energia em contraste semelhante, um homem vivo, um homem mortal, uma consciência q ue
com uma vida de fraqueza, penso que se trata apenas de uma aparência, "se contenta consigo". Sua lição, para quem sabe escutá-la, não nos ar-
que na realidade essa morte foi provocada por uma causa fraca e adequa- rasta para fora de nós, mas reconduz-nos a nós; o universal não nos é
da à vida do morto". 24 O suicídio de Catão é apenas a última expressão estranho, está em nós, em nossa vida particular, isto é, única e limitada,
de uma vida já inteiramente submetida à virtude. O privilégio da hora insensata e instada a chegar à sua própria razão.
final, sua luz de verdade, não lhe vem senão da atenção que se lhe consa- O estado nascente, oriundo de uma noite anterior, o estado agoni-
gra. Ela nada nos ensina, entretanto, que não pudéssemos aprender me- zante, que desemboca nas trevas posteriores, são instantes que encostam
lhor ainda pela consideração da vida. Por isso, não procuremos isolar a no nada. Beneficiam-se do contraste mas não têm direito a nenhum privi-
essência de uma alma em um instante sem realidade. Evitemos, sobretu- légio ontológico. A plenitude do ser aí não reside mais- nem menos-
do, tomar por não essencial tudo que precede o ato final. Ao querer iso- do que no resto de nossa vida. Não há mais verdade última do que verda-
lar assim "o morrer", fazemos dele uma abstração sem conteúdo, enquan- de primeira. Por mais que nossa vida seja instável, movente, atravessada
to seu verdadeiro conteúdo está na vida que ele coroa. A iminência de de aparências ilusórias, é uma longa hora de verdade, a única a nos ser
morrer faz ainda parte da existência, e a virtude que eclode no último mo- concedida. O estado nascente e o estado agonizante não são residências
mento não faz mais do que continuar um h~bito virtuoso há muito tem- do ser, receptáculos da essência; são mutações, do mesmo estofo que

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simulacros. A sabedoria autêntica, essa sim conhece os limites que o espí-
toda a nossa existência passageira, acidentes de mesma natureza que to- rito jamais transporá. Essa "ignorância forte e generosa" estabelece a im-
dos aqueles que atravessam nossa experiência cotidiana. É a noção da pas- possibilidade de saber: "Não, não sentimos nada, não vemos nada; tudo
sagem que triunfa, pois, ao olhá-los mais de perto, o estado nascente se
se nos esconde; não há nada cuja existência possamos afirmar". 27 As-
dissimula na própria morte e o estado agonizante se insinua em cada mo-
sim, ao termo de sua busca, a razão chega a um suicídio filosófico, e sua
mento de nossa existência. "0 fim de uma vida dá nascimento• a mil
mais alta lucidez consiste em sacrificar a si mesma imobilizada na sus-
outras[ ... ]" (m. xu, p. 1055; T. R., p. 1032). "Pinto-o {o ser] como
pensão de todo julgamento, salvo aquele mesmo pelo qual se abstém. É
aparece em dado instante, apreendo-o em suas transformações suces__si-
vas."•• 26 Isso não é conseqüência de uma escolha e de uma preferen- o ápice de sua coragem, como para Catão o suicídio era o último recurso
da virtude.
cia· só a passagem se oferece à nossa pintura.
' Reencontramos aqui a atitude que nos impressionara na advertência A única esperança que nos resta é que o ser venha a nós e se revele
"Ao leitor". Enquanto a iminência da morte incita o cristão a dirigir seu aos nossos olhos, no aspecto da Graça. O homem só se eleva até a verda-
pensamento para o além, Montaigne, ao contrário, reporta seu olhar ao de se "Deus lhe quiser dar a mão" .28 A iniciativa do movimento então
' '
aquém; a ausência ameaçadora o remete a uma presença acrescida e tor- não nos pertence mais, pois nesse momento já não somos mais nós mes-
nada mais preciosa por sua própria precariedade. Nesse presente redes- mos. A última frase da Apologia termina com a evocação de uma "divi-
coberto é-lhe concedido o poder de pensar sua própria finitude, e a li- na e milagrosa metamorfose". 29 Passar para o lado do ser é, portanto,
berdad; que recompensa a aceitação da finitude. Para Montaigne, o me- tornar-se um outro. Como no instante da morte, o sureimento do ser ver-
mento mori transmuta-se em projeto de outorgar a cada instante de vida dadeiro coincide estranhamente com o último esvaeci~ento de uma vida
a mais completa justificação. Dessa maneira, ele chega a conciliar e qua- continuamente esvaecente. Viver exilado do ser ou exilar-se da Yida -
se a confundir a espera do estuário longínquo em que a existência, es- a alternativa é inapelável, e nos dois casos é preciso sofrer uma ruptura:
coando na morte, será arrastada no circuito de "mil vidas" desconheci- existir, aqui, separado do ser; ou encontrar, ali, a morada do ser, deixando-
das - e a atenção a cada detalhe roçado pelo curso da vida presente. A se afastar totalmente de si mesmo. Não podemos contar com nenhuma
palavra, em seu deslizamento próprio, figurará essa plenitude efêmera e possibilidade de reconciliação. Para Montaigne, não há mediador encar-
perpetuará o rastro de uma vida que, sem esse fútil mas inesgotável dis- nado, assim como não há ascensão possível por via de analogia (como
curso, não teria deixado nenhum vestígio . o afirma a teologia tradicional). Enfim, nada é mais estranho a Montaig-
ne do que a noção platônica de parricipação nas essências: "Não temos
nenhuma comunicação com o ser". 30 Permanência, estabilidade, pleni-
A FELICIDADE DE SENTIR: ENTRE VIGÍLIA E SONHO tude, substância encontram-se do lado do que é radicalmente outro, es-
tranho, não meu.
Paralelamente, a Apologia de Raimond Sebond (esse perigoso com-
plemento de teologia negati\·a acrescentado à teologia positiva do Liber Nossa fé, não a adquirimos, é um presente puríssimo de liberal idade
(a)[ ... ]
crea/urarum) conclui pela transcendência absoluta do ser: a verdade das alheia. Não foi pelo raciocínio, pela inteligência, que acolhemos nossa reli-
coisas está fora de alcance, o mundo das essências se furta ao homem à gião; foi porque assim o quis uma autoridade situada f ora de nós [... ]3 1 (a)
medida que sua inspeção dos fenômenos crê progredir. Ele jamais toca Não podemos conceber dignamente a grandeza das altas e divinas promes-
nada nem de firme, nem de constante, nem de seguro. A verdade habita sas que nos foram feitas, a nós cristãos, se delas temos uma concepção qual-
quer. Para as imaginarmos como são, é-nos imprescindível imaginá-las ini-
com Deus e não pertence senão a Deus, em um além que o homem ape-
magináveis, inexperimentais, incompreensíveis (c) e essencialmente diferen-
nas pode "imaginar inimaginável". Um dos piores defeitos humanos -
tes daquelas de que tivemos uma miserável experiência. 32
a presunção, a "ambição" -consiste em se acreditar possuidor da ver-
dadeira imagem das coisas e da verdadeira figura de Deus. Não fazemos, O que nos resta, propriamente, é o vazio. O homem é "nu e va-
então, mais do que as forjar segundo a nossa conveniência. Construímos . " 33 •
z1o , e uma " pagma
• .
em branco .. .34 Que pode ele encontrar em si mes-
mo? Recolhendo-se, retomado a si mesmo, como o convida a moral da
( 0 ) No original, "0 fim de urna vida é a passagem para mil outras ,·idas" (grifo de posse de si, não se aproxima de uma plenitude, entrega-se ao vazio. " O
Starobinski). (N. T.) pior lugar que podemos ocupar está em nós mesmos ... 35 Quanto ao co-
(••) No original, "Não pinto o ser. Pinto a passagem" (grifo de Starobinski). (N . T .)

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mum de nossa vida, eis-nos, portanto, condenados a sofrer uma ausênci_a infinito de Deus e das essências puras. A lição do ceticismo, para ele, é
irrevogável, a sentir nossa duração escoar-se no seio de um v~i~ ontolo- precisamente o retorno às aparências. As aparências são intransponí,·eis
l.!ico a não conhecer senão a passagem e o parecer. Nosso umco saber -eis o que, longe de nos afastar delas, livra-nos da preocupação de bus-
~on;iste nessa dúvida que "se expek"l6 a si mesma. Somos ar~a~tados car uma realidade oculta em nome da qual as desprezaríamos. Podemos
("somos levados")3- em um fluxo perpétuo. "Tudo o que pa~t1:1pa da dcra..-ante nos abandonar a elas sem reservas, como também sem vã am-
natureza humana está sempre nascendo ou morrendo, em cond1ç?es q~e bição de surpreender um mundo inteligível para além dos fenômenos sen-
só dão de nós uma aparência mal definida e obscura. " 38 Esse ou e ~ pro- síveis. O hol!'em simplesmente "precisa entregar-se , confiando nas apa-
prio vazio, onde as coisas e ~ós me~mos somo~.~pe~as aparências. E ape- rências" _.w E convidado a dar boa acolhida ao que se apresenta e àquilo
nas possível descreú~-las? \ ossa linguagem, mte1ramente for~ada de que o "agita". A despeito do vazio que marca o homem e sua condição
afirmações", 39 atribui ainda demasiado ser ao que não o possui absolu- a possibilidade de uma plenitude lhe é restituída. Isso Montaigne nos f a~
tamente. ·ào contente em denunciar , como fazem tantos outros, a fra- saber literalmente. O sábio cético " não deixa de conduzir sua vida nas
que~a da linguagem diante da realidade essencial, Montaigne critica ~ua condições mais cômodas e melhores". • ~ 5 Quando a confrontávamos com
força excessiva, sua presunção ao ser, quando se trata de d~screver a Ilu- a região das puras essências, nossa existência era um vazio, e a plenitude
são não essencial: "Precisariam de outra língua" .~0 Uma linguagem que se situava além de nosso alcance . Mas, uma vez que essa região seja con-
não afirmasse nada, que se negasse a si mesma, sem n~m sequer_for~ul~r siderada fora de alcance, basta que nos abandonemos com confiança à
sua negação : Que sei eu?~ I A dúvida, em sua forma mterrog~u~a, e fe~­ percepção fugidia: ai nos é oferecido um completo gozo, o qual conserva
ta do encontro de uma afirmação impossível e de uma negaçao Jmpos_sl- seu valor apesar das objeções da metafísica. Ainda quando houvéssemos
vel. Não se pode dizer nem " eu sei" nem "eu não sei". Apenas uma m- descoberto que ela não dá acesso à "própria essência da verdade" ~6 es-
terrogação sem resposta pode marcar a suspensão, corresponder verbal- sa experiência conserva para nós seu valor de plenitude vivida. E q~e im-
pena se é apenas para nós? Se não nos põe em comunicação com nenhu-
mente à "divisa de uma balança".
o ceticismo de 1\lontaigne, segundo sua intenção confessa, visa fa~ ma verdade estável, ao menos nos oferece plena medida de presença para
zer do homem a "página em branco'' em que o dedo d~ D~us es~r~ver~~ nós mesmos, para nosso eu empírico.
o que Lhe aprouver escrever. Como, para chegar a esse f1~e1smo_ c~uco, - Em seu impulso de pessimismo ontológico, como observamos, Mon-
pensamento de :-.lontaigne partira de uma posição mu1to prox1ma do taigne clamara: "Não , não sentimos nada, não vemos nada" .~i Isso não
0
estoicismo, pode-se legitimament: ~ensar n~s _momentos ~~e ~e ~uce~e~ ~ impede de manifestar, em !odas as circunstãncias, um desejo muito
na Fenomenologia de Hegel: estolcJsmo, ceuc1smo, consc1enc1a mfehz .. Intenso de sentir, e de nos administrar a prova disso, em uma lingua-
Do estoicismo ao ceticismo, a consciência acentua a afirmação de sua li- gem que escolhe suas palavras em função de sua riqueza sensorial (pala-
berdade em relação ao mundo e a torna absoluta; ela não é mais apenas vras que proporcionam um prazer fônico- acústico ou muscular-, pala-
livre em meio às circunstâncias e à necessidade universal que sofre, mas vras que evocam os gestos que nos colocam em situação de contato mate-
se apreende em sua indi.,idualidade irredutível e em sua indepe~d.~ncia rial). O querer sentir, sempre em estado de alerta em Montaigne, é um
completa diante dos fenômenos, destruindo ao mesmo te~po a tdel~ de querer ser que tende a realizar-se em uma percepção imediata, na falta
necessidade e a idéia do mundo exterior organizado (o s1stema estÓICO, de outro ponto de apoio substancial. Incapaz de avançar algo sobre a na-
sua cosmologia). Se é rigorosa em seu propósito, a consciência não pode turez~ das coisas, o fenomenismo (que aceita os fenômenos enquanto tais,
atribuir nenhum valor de verdade à sua própria dúvida. Tudo se furta, depo1s que a epoké [suspensão do julgamento] cética lhes tenha negado
a vertigem a toma. Se chega a imaginar, além de sua esfera limitada, uma toda legitimidade ontológica) encerra-se na certeza sensível. Corrigindo
inacessível região do Ser da qual está separada e diante da qual se sente o que tinham de excessivo as linhas que consagrava ao louvor da indolên-
humilhada, insuficiente, ei-la convertida em "consciência in-feliz": o ho- cia, Montaigne acrescenta: "Alegra-me não estar doente, mas se o estou
mem se reconhece isolado e nulo, em face da transcendência de Deus. Ora, quero sabê-lo, e se me cauterizam ou me operam quero sentir" .48 É as-
Montaigne vai transfonnar resolutamente a "consciência infeliz" em cons- sim que, depois de haver fornecido a prova de uma separação radical,
depois de ter feito recuar Deus e o Ser a uma distância infinita, Montaig-
ciência feliz. .
O ser está alhures. Mas tão forte é a sedução do aqui, tão vigorosa ne nos convida a que nos prendamos, para senti-la, à nossa existência vul-
a preferência pelo que é nosso (contra a atração do est;anho), que Mon-
taigne volta aos fenômenos, depois de haver estabelectdo o afastamento (")No original,"[...] de conduzir sua vida plenamente" (grifo de Starobinski). (N. T .)

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t
I
I
!j nerável e privada de toda participação no absoluto. Tal é a contrapartida
positiva da "negação" cética: o
verdadeiro. Temos diante de nós coisas moventes. movimento se pro-
l Só enxergas a ordem e a regra que reinam no porão em que te alojas, se é
duz ao mesmo tem~o fora de nós e em nós. É impossível distinguir a mu-
I que as enxergas. Mas a jurisdição de Sua divindade estende-se muito além,
dan:a que nos habita e o fluxo das coisas que nos cerca. Devolvidos aos
fenomen~s, somos novamente mergulhados em todos os fenômenos, es-
ao infinito [... )A lei que invocas diz respeito apenas à esfera em que vives;
tamos uru~os ~ eles P?r u.ma solidariedade que nos abre para 0 mundo
não conheces a lei universal. Ocupa-te com o que te concerne e não com Deus,
e que nos Imphca por mteiro em sua "agitação" o sol· · d
que não é teu confrade, nem teu concidadão, nem teu companheiro.•9 - · Ipsismo a sensa-
çao, no qual corríamos o risco de nos encontrarmos cativos é im d" t _
O afastamento de Deus vai provocar, portanto, uma intimidade acres- mente superado. • e Ia a
cida do homem com sua condição, no próprio seio do mundo das apa- No ensaio intitulado "Da incoerência das nossas aço-es" ( d
1 M . . . . um aque-
rências. O que não era mais nada em relação ao ser absoluto reencontra ~s em que ontaigne mrus InSiste na fluidez e na impermanência do espí-
um direito de presença e de existência. Na falta de coisa melhor, o injus- nto human~) •. encontraremos a própria idéia da máscara explicitamente
tificável redescobre uma justificação. Montaigne diz: "Não trato de na- posta em duvida:
da expressamente e se falo de saber e ciência é só para que verifiquem
que tudo ignoro" .50 Mas, doravante, é o nada que conta; a insciência é Os melhores au~ores erravam em se obstinar a dar de alguém uma idéia bem
a única ciência possível. Merecem ser tratados. Esse nada é ao menos nos- assent~da e lóg1ca. Adotam um princípio geral e de acordo com este orde-
nam e mterpretam as ações, tomando o partido de as dissimular quando não
so; é nosso corpo, atravessado de prazeres e de alegrias, atacado de doen-
as deformam para que entrem dentro do molde preconcebido.s2
ças e de dores. Sabores se oferecem a nós continuamen te, e seríamos to-
Jos se não os aceitássemos e não os experimentássemos. No próprio seio ar Somos apenas_ uma sucess~o rápida de instantes dessemelhantes. Se
do nada, cada objeto nos impõe uma e,·idência imediata que, por não ( g~menta. Monta1gne), no me10 da alegria, nosso rosto mostra de súbi-
ser explicável com base em sua natureza intrínseca, não é menos capaz to tnsteza, 1sso não quer dizer que fingíamos nossa alegria; significa ape-
de cumular-nos. O consentimento ao nada da existência nos permite go- nas ~ue n:udamos repentinamente e fomos abandonados pela alegria que
zar de toda presença que nos aparece, graças ao que o nada é progressi- marufestavamos havia um instante. Tornamo-nos diferentes. Nossos es-
vamente transformado em um todo pululante. O que de início era apenas tados se suc_edem e se ~ontradizem, sem que nenhum deles jamais seja
vaidade ou vento reencontra uma legitimidade a partir do instante em que bas~~nte estavel para ahcerçar a superposição do ser e do parecer. Quan-
o reconhecemos como nosso. A imagem negativa do vento preenche-se do uma mesma coisa nos faz rir e chorar". 53 não é hipocrisia é 0 _
então de valores alegres e positi,·os- basta que o vento se aceite a si mes- sultado da " facilidade e flexibilidade q ue tem a alma". 0 cun' r~
XXXVII d . . ]" O enSaiO
mo e se aproprie do prazer de sua inconstante mobilidade: "Entretanto, , .. I o ~nme1ro 1v~o ~ostr~ admiravelmente a maneira pela qual a
mais sábio do que nós, o nnto compraz-se em se agitar e mover, mob1hda~e mc~ssante d1ss1pa e d1ssolve a antítese da máscara e da ,·erda-
contentando-se com seu próprio ofício, sem desejar a estabilidade e a so- ~e. ~ _ammom1a _demasiado rígida do ser e do parecer é reabson ·ida na
lidez que não são qualidades suas " .51 Que importa, então, se as causas 111lUIÇao do mov1mento universal:
nos escapam? Permanecemos no meio das coisas e delas temos "o uso
(a) Diz~m os_ historiadores que, quando lhe apresentaram a cabeça de P om-
perfeitamente pleno'' .
peu, ~esar v1r?u o ros~o, desviando o olhar, como o faria diante de um tris-
A partir daí, não temos mais o direito de reivindicar a autoridade
te e !elO espeta.culo. ~m~am estado tanto tempo de acordo e associados na
do Ser para contestar as aparências que nos cercam. Se cessamos de nos g~stao dos negoc1os pubhcos, seus destinos se haviam ligado tão amiúde h _
deixar cegar pela presunção, devemos admitir que jamais saímos do pa- ".Jam prestado mútuos serviços tantas vezes, e tantos interesses lhes ti nha~
recer, que passamos continuamente de uma aparência a outra. Não po- s1do comu~s , que n~o _se dirá fosse hipócrita a atitude de César ou comrá:-:a
deríamos interpor recursos contra nossa condição. O problema da más- a_seus senumentos mumos [... ) Sem dúvida nossas ações em sua maioria
cara, na ordem do conhecimento, vai dissipar-se como se dissipou no do- sao más~a e a rtifício •. e é verdade por vezes que "as Jág;imas do herdei r~
mínio da ética. Há máscara apenas se podemos esperar encontrar uma se fazem nsos_ sob a mascara" . Cabe, porém, a fim de emitir um juízo em
face acessível atrás da máscara . Ora, a face que buscávamos conhecer re- semelhant~s :•rcu~stâncias, considerar a que ponto somos por vezes agita-
cuou ao infinito: permanecemos em um mun do em que tudo se equivale, dos _por pa1xoes d1versas. Em nosso corpo, dizem os médicos, produz-s; um
e no qual dizer que tudo é falso conduz igualmente a dizer que tudo é conJunto de humores di~erentes; um deles domina, aquele que segundo 0 nosso
temperamento atua mrus comumente sobre nós. Da mesma forma , entre os
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87
j

de homem era. P:nso que o mesmo, pouco mais ou menos, se pode afirmar
múltiplos sentimentos que agitam nossa alma um prevalece, mas não a pon- de todo mundo.l•
to de impedir que, em virtude da facilidade e flexibilidade que tem a alma
de modificar o curso de: suas impressões, os mais fracos sejam capazes, oca- . Não_ há aí uma fi_losofia do devir evolutivo ou da "duração pura".
sionalmente, de sobrepujar o mais forte durante alguns momentos [... ] (c) s:na ~rr_~neo ver aqut uma espécie de pré-bergsonismo . l\lontaigne pro-
Nenhum adjetivo nos .! aplicável sem restrição [... ] (b} Quem me vê embur- poe a tdeta de uma espontaneidade que, de instante em instante, redesco-
rado diante de uma mulher e logo em seguida sorridente, e pensa que: c:m bre-se no estado nascente e que improvisa seus atos sem jamais reco .
um caso ou noutro não sou sincero, é um imbecil [... ] (a) Dizem que a luz çar de um saber adquirido. Nada se conserva (senão com a idade cemte
do sol não nos atinge de um jato; que o sol nos envia raios sucessivos mas "f " f • • r as
orm~_s_ t_rans ormadas em hábitos). O momento que vivemos não é a
com uma tal rapidez e em tal profusão que não lhe podemos apreender a
~onseque~c1a do momento anterior. De cada instante podemos dizer que
intermitência [... ] Da mc:sma forma, lançam-se de nossa alma, sem que: nos
54 e uma ongem absol ~ta e q~e nos faz nasce r para nós mesmos e para 0
apercebamos, mil e uma manifestações.
mu ndo . tvlas essa on?m nao tem futuro. Quando l\lontaigne se queixa
Tal é, em definitivo, a imagem perfeita da mudança : esta já nem se- de su_a fal ta de m_emo~1a, ~ ão faz mais do que ressaltar 0 aspecto de es-
quer é um nuxo contínuo e nexível , revela-se a nós como uma desconti- quecimento perpetuo 1mphcado no impulso da espontaneidade inovado-
nuidade infinitamente rápida, na qual cada instante inaugu ra um novo ra. Todo novo ato faz surgir um novo eu , sobre quem não pesa nen hum
eu que suplanta o eu precedente. A representação do movimento, toman- passad~ (salvo ~q_uele a que o livro já terá dado forma) e que se escoará
do de empréstimo a imagem da luz solar, abandona aqui um modelo de sem de:xar vest1g10, se não o espreitamos bem de peno.
tipo " ondulatório" para passar a um modelo de tipo "corpuscular", que Na~. ~e ~ode, e~tão, busc_a: nenhum apoio em uma fração de tempo.
torna cada instante vivido mais efêmero e mais independente, conferindo- Se a s_equencta dos m~tantes e mcapaz de constituir um conjunto, 0 ins-
lhe , assim, o privilégio de uma autenticidade a curto prazo, plename nte tante tsolado o pod~ amda menos. Ele é turvo, é informe, uma irremediá-
legítima, mas imediatamente desmentida. "A passagem de um aspecto ~e l fra~ueza o habita. Sua evidência não ultrapassa jamais a do sonho .
é tão brusca que se torna imperceptível. " 55 Montaigne chama essa suces- E por 1sso ~ue Montaigne define tão comumente seu pensamento como
são descontínua de "esses movimentos todos". Mas toma o cuidado de u~ devaneiO, u~ sonho •. ~rr:afantasia. Metáfora que evoca um intermé-
acrescentar que esses movimentos não constituem um conjunto; são in- diO, um_ e~tado mter~ed1ano entre a consciência em vigília e 0 sono; en-
formes. O erro consiste em querer a toda a força atribuir-lhes uma for- tre a at 1~ tdade susp~tta dos sentidos e aquela, impossível, da razão.
ma. " E erramos quando com esses movimentos todos queremos consti- . Asstm, a fantas1a aceita é, uma síntese, ou uma solução de compro-
56
tuir um conjunto a desenrolar-se de maneira seguida." Constituir um mtsso - u~a terceira ~oss~bilidade - que sobrevém depois das etapas
conjunto seria fazer obra artificial, querer impor uma figura constante preceddent~s~ recusa da tlusao sedutora, depois constatação do malogro
ao que está sujeito a uma "agitação perpétua". Forma, constância, esta-
bilidade, firmeza - todas qualidades que invocávamos para definir as
d e to a vtsao pura. ·
No si~te~a metafó~ric? más:ar~lface, da mesma maneira que nos pa-
essências - são apenas ilusões; só os lógicos profissionais (que ensinam res de antommos aparenc/Gi essencra, artificiol natureza, vimos freqüen-
sua arte aos estudantes) poderão recorrer a elas. Seu ofício é presumir, temente se re~ov~r uma "dialética" cujo terceiro termo consistia em um
isto é, atribuir uma identidade única e estável ao que tem mil faces. Ao retorn~ _ao _pnmetro ~ermo, mais bem aceito e mais bem compreendido:
menos o conseguem? reconc_thaçao com a mevitável aparência do mundo, reconhecimento da
(b) DeLxo aos artistas - e não sei se o conseguem em se tratando de coisa n~cesstdade de um recurso à forma estética e, portanto, ao artifício e ao
tão fortuita- o cuidado de distribuir por categorias a variedade imensa dos dtsfarce, par_a c?egar ~identidade pessoal. Ao fazer uso da oposição en-
aspectos, fixando e ordenando a nossa inconstãncia. Não somente acho di- tre sono e vtg~ta - tao banal e tão passível de se sobrepor sob tantos
fícil ligar nossos atos uns aos outros, mas ainda encontrar a qualidade es- aspectos à antttese da máscara e da face - , Montaigne se encontra em
sencial de cada um, suscetível de defini-lo de um modo específico, já que p~esença de te_rmos mais fluidos, mais fáceis de mesclar. VigHia e sono
são tão variegados c numerosos. sao estados ffilsturáveis; sua mistura é o devaneio. O mesmo não ocorre
(c) Afirmava-se que Perseu, rei da Macedônia, era um homem raro, por- com a me~áfora da máscara e da face que separa com um traço preciso
que seu espírito não se preocupava com nada, não se ft.Xava em coisa algu- o verdadet_ro e o falso, ~ "próprio" e o "acrescentado" - e que revela
ma, e porque ele levava assim todos os gêneros de vida com hábitos tão li- menos factlmente seu mtsto, seu meio-termo: a máscara que cola ao ros-
vres e cambiantes que nem ele próprio ne~ os outros podiam saber que tipo
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RR
to, a disciplina convertida em "segunda natureza". A oposição másca-
graves; que partido deles tiraria o músico que gostasse de uns e renegasse
ra/face pode menos facilmente se distender e se despolarizar; ela obriga os outros? Cumpre-lhe empregá-los todos e misturados. Assim devemos fa-
a fazer passar uma demarcação .decisiva entre o oculto e o descoberto, zer com os bens e os males que são parte integrante de nossa vida· nosso
entre a superfície e a profundidade. Montaigne ama, na escrita, o com- ser só é possível com essa mistura.s9 '
bate dos contrários, as energias que se descarregam alegremente no con-
flito das palavras antagonistas. Encontra aí o estimulante que o faz pro- Faláv~mos.~e s(ntese; Montaigne, ao celebrar a mistura, redescobre
gredir e que o obriga a reabrir todos os debates. Mas não tem menos ne- a m~ral anstotehca do meio-termo, do justo meio, mas a concebe har-
cessidade de chegar, ainda que apenas para uma parada provisória, a al- morucamente, como uma composição musical. Stntese, composição: é a
guma solução média, a alguma "mescla" que associe os contrários sem mesma palavra em duas línguas diferentes.
os abolir. A dualidade se oferece tanto ao jogo das exclusões quanto ao
dos acoplamentos. É o caso destas linhas em que o devaneio constitui o
resultado do conflito entre sonho e vigília:
(b) Os que compararam nossa vida a um sonho foram mais judiciosos talvez
do que pensavam. Em nossos sonhos nossa alma \·ive, age, exerce todas as
faculdades, tal qual quando está acordada. Admitamos que o faça de um
modo menos eficiente e \isíyel, a diferença ainda não será tão grande quan-
to entre um dia de sol e a noite, mas apenas como esta e o crepúsculo. Se
ela dorme durante o nosso sono, cochila mais ou menos quando estamos
acordados. Em um e outro caso, permanecemos nas trevas mais profundas.
(c) Durante o sono, não vemos com nitidez, mas acordados não é tam-
pouco perfeita a claridade. • O sono profundo apaga por vezes os nossos so-
nhos; despertos, nunca o estamos bastante para nos livrarmos de todos os
devaneios que são sonhos de gente acordada e piores do que os verdadei-
ros. 58
Enquanto a antítese da máscara e da face dividia o mundo, a ima-
gem do sonho dá à experiência sensível uma espécie de unidade e de uni-
formidade que exprime a confusão da qual nenhum de nossos estados de
consciência pode libertar-se. O quiasma opera aqui a mistura e a interpe-
netração: "Velamos dormindo e velando dormimos". Essa unidade se enu-
mera em uma infinidade de instantes dessemelhantes, mas que se equiva-
lem em sua opacidade e em sua imprecisão. A única constante que impõe
um limite à dispersão e à diwrsidade de nossos instantes é que todos eles
pertencem, mais ou menos, a um mesmo sonho, a um mesmo sonhador
e, mais tarde, a um mesmo livro, coletânea das "imaginações" de seu
autor.
Outra comparação - a que transporta para a nossa ,·ida a diversi-
dade sonora do cosmo, o grande diapasão da música das esferas - tam-
bém admite a possibilidade da mistura, a conciliação dos opostos, sua
feliz fusão:
(b) Nossa "ida, como a harmonia dos mundos, é composta de elementos con-
traditórios e tons variados: doces e est ridentes, agudos e surdos. frágeis e

(•) No original, "Velamos dormindo e yeJando dormimos ". (:-.l. T .)

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3
·~ RELAÇÃO COM OUTREM"

O ENSAIO DA IN DEPENDÊNCIA

"É digno de piedade e bem arriscado depender-se de outrem. [ ... )


T udo isso leva-me a um ódio mortal às obrigações de qualque r espécie;
nada quero dever a outrem e nada quero que me devam . Esforço-me d e
todos os modos por não recorrer a ninguém." 1 Montaigne proclamou in-
cessantemente seu desejo de independência, seu ódio da obrigação - se
esta deve arrastá-lo para além das "obrigações comuns e naturais". 2
Montaigne desenvolve essas considerações para justificar a viagem
que o conduziu a Roma. Os distú rbios civis reduziram-no a depender da
b enevolência de seus vizinhos: "Vivo assim em boa parte graças à bene-
volência alheia, o que me pesa' extraprdinariamente". 3 Situação em que
ele não pode escapar ao sentimento de ser devedor - e, o que é p ior,
d evedor de sua própria salvaguarda: .
(b) Ora, acho que a vida é um dom de Deus e não deveria ser considerada
(c) recompensa ou (b) graça especial. Quantos não preferiram perdê-Ia a devê-
Ia a outrem?
(b) Detesto toda espécie de obrigações, em particular as que possam resul-
tar de um ponto de honra. E qualquer dom que implique reconhecimento
de minha parte parece-me demasiado oneroso. Quero valer-me de serviços
pagos. Em troca destes, dou dinheiro e em troca dos outros dou-me a mim
mesmo. 4 [ ... ) (b) Como agradeço a Deus por somente dever à Sua bondade
tudo o que possuo! (c) E suplico de Sua misericórdia que me permita nunca
dever a ninguém um grande favor.'
Deus, invocado com tanta reserva por Montaigne, é aqui agradecido
por tê-lo preservado de ser o devedor de outrem. (Rousseau se inspirará
nessa argumentação quando, com mais exagero, fará profissão de ingra-
tidão: os benefícios escravizam aquele que os aceita.) O dom de si é reser-

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vado ao único amigo. Todo outro "compromisso" de nossa vontade é Esses outros, que não nos vêem de modo algum, mas se dão 0 direi-
um perigo capital. to de -~lh:u-nos , decretam sua "sentença": é preciso buscar refúgio na
O viajante que escapa à dependência doméstica e aos. "favores" de consc_1enc1a que tomamos, a sós, de nós mesmos. Mas destaquemos aqui
seus vizinhos reencontra no caminho o risco da dependência em outros ante~1~adamente, que os vici.os. (covarde e cruel ) ou as qualidades (leai
aspectos. Não pode esquivar o olhar dos outros, por exemplo, quando e relt~toso), de que ~omos as umcas testemunhas, definem disposições em
gasta seu dinheiro. E confessa que não é insensível a essa consideração: relaçao a outrem: sao traços de caráter que dizem respeito ao nosso com-
"Se [meus gastos] contribuem para uma satisfação pessoal, despendo sem por:amento social. A partir daí, o que é recusado é a nossa submissão
contar; mas, se não me contentam particularmente ou não me prestigiam, ao JUlgamento dos outros, e de maneira nenhuma o sistema dos valores
restrinjo-os ao máximo". 6 Mas essa confissão é a oportunidade de uma éticos que regulam e qualificam nossa conduta em relação aos outros.
reflexão muito mais geral -em que Montaigne denuncia a "relação com A independência rompe os laços da obrigação e instaura um afasta-
outrem'' como um prejuízo que infligimos a nós mesmos: mento. Como esse afastamento pode ser vivido? Por certo - e os exem-
(h) Seja por artifício, ou por impulso natural, o fato de viver a comparar-
plos não faltam- pode-se sair do mundo, morrer para o mundo e viver
mo-nos com os outros causa-nos mais prejuízos do que benefícios. Priva- na silenciosa fidelidade a si mesmo. Mas e se se permanece entre os ho-
mo-nos do que nos é útil para fazer como os demais. E menos nos importam mens? Se_, mais ainda, aceitam-se funções públicas? A independência to-
as condições em que vivemos, .e suas conseqüências, do que o que exibimos mará fac1lmente os ares da superioridade desdenhosa. O individuo aten-
em público. Os próprios bens do espírito, e a sabedoria, parecem-nos sem to em preservar sua preciosa verdade interior, sua virtude sem mácula
sabor se os gozamos longe da vista e da aprovação das pessoas que nos são
estranhas. 7
nã~ ~-ode deixar de exasperar os homens "comuns". Sua indiferença à
opm1ao o coloca - querendo ou não - em evidência e lhe pode valer
Desertamos de nosso ser; deixamo-nos roubar. Quem é culpado dis- a hostilidade daqueles de quem se mostra tão d essemelhante. Aceita ele
so? A opinião comum, o conhecimento público, por certo, mas a culpa c~rrer esses riscos e, se a comunidade o rejeita, afrontar a morte? Aqui
nos pode ser imputada na medida em que a isso nos submetemos volun- amda, para essa constância desdenhosa, não faltam exemplos. Mas e se
tariamente. Resta descobrir, por trás de nossa conduta, uma causa mais ele quer escapar a esse destino? A solução consistirá em preservar a ·in-
geral: Montaigne deixa indecisa a questão de saber se é "artifício" ou t:gri_d ade _d~ relação c~nsigo, enquanto interpõe, para outrem, as apa-
"impulso natural" que nos inspira esse comportamento. (Observar-se-á renclas ex1g1das pelas Circunstâncias: oferecer-se-á no exterior uma ima-
que, sobre o rapto de nosso ser pelo olhar de outrem, essas linhas de Mon- ge~ sem verdade, menos para enganar os outros do que para proteger
taigne formulam, na linguagem tradicional da reprovação moral, uma a SI mesmo.
constatação que será retomada por Sartre em sua descrição fenomenoló-
(c) Quando nos mist uramos à multidão, cabe-nos abrir o caminho aos em-
gica do "para outrem"- descrição que se retraduz sem demora em lição
purr?e~, a,·ançar e recuar e por vezes tomar por atalhos; e ,·iver, não como
moral, quando Sartre dá forma teatral a seu pensamento: "O inferno é dese)an_amos, mas como querem os outros; não segundo o que nos propo-
os outros".) mos e stm de acordo com o que nos impõem ; seg undo o te mpo, os homens
Montaigne não deixa de elaborar os preceitos de um "para si", em e as coisas. 9
oposição simétrica aos malefícios da "relação com outrem". É preciso
remeter-se apenas a si para conhecer seus vícios e suas virtudes. Em " Do Se a necessidade a isso o obriga, ele ,·oltará contra os outros o meca-
arrependimento'' (111, 11), Montaigne não hesita em atribuir ao artifício nismo de prestígio que de início atuara em seu detrimento. A rei,·indica-
(deixando de oscilar, como ainda há pouco, entre "artifício ou impulso ção de autonomia, reforçada pelos conselhos d a prudência, fixa as con-
natural" ) a parte de nós mesmos acessível ao olhar dos outros: o artifié:io dições nas quais, na corte, diante dos inimigos dissimulados, não é de-
define então a obra deliberada que interpomos entre nós e o mundo exte- sonroso usar a máscara ou, pelo menos, separar os sentimentos "interio-
rior: r:s" da _c ond~ta ."exteri_or", conformando-a a um modelo comum que
nao dara enseJO a atençao maldosa. Se o mundo é demasiado insensato
(b) Só nós mesmos sabemos se somos covardes e cruéis, ou leais e religiosos;
para aceitar nossa sabedoria, testemunhemos um respeito todo exterio r
não nos vêem os outros, tão-somente nos adivinham de acordo com conje-
turas duvidosas. Não é a nossa natureza real que percebem, e sim a aparên- aos usos e às leis vulgares. Em um período conturbado, não é d es,·anta-
cia que, mediante artijicios, conseguimos exibir. (c) Atentemos, portanto, joso passar despercebido ou, até mesmo, passar por outro. Montaiene
unicamente para a nossa própria opinião.• formula assim as regras daquilo q ue os italianos, no século seguinte, cha-

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marão de "dissimulação honesta" : " 0 sábio precisa concentrar-se e dei- Por isso, a pergun ta se coloca imediatamente: semelhante ruptura
xar a seu espírito toda a liberdade e faculdade de julgar as coisas com po de ser indefinidamente sustentada? Corresponde a uma verdadeira li -
serenidade, mas quanto ao aspecto exterior delas cabe-lhe conformar-se bertação? Não vai revelar-se intolerável? Examinemos precisamente se
sem discrepância com as maneiras geralmente aceitas. A opinião pública Montaigne pode deter-se aí. E, em primeiro lugar, procuremos ver no que
nada tem a ver com o nosso pen<;amento (.. .]" . 10 Esses preceitos de in- · converte - na situação de ruptura com o exterior - a vida "interna"
dependência podem conduzir a um conformismo de fachada, mais próxi- do eu. Quando se abole a dualidade polêmica em que se opõem o dentro
mo do abandono complacente do que da comédia deliberada. Mas não e o fora, o meu e o seu, o eu pode estabelecer-se em uma verdade simples
e sólida? Lemb ramo-nos deste conselho: "Atentemos, portanto, u nica-
deixa de ser uma lição de duplicidade. Montaigne adere a uma opinião
mente pa ra a nossa própria opinião " . 12 Ora, para enunciar essa "senten-
já mu itas vezes expressa: os homens são feitos de tal maneira que é preci-
ça" que será minha, e para que me mantenha nela, é preciso, paradoxal-
so enoaná-los para o seu bem. Convicção aristocrática, ou "maquiavéli-
"' .
ca", que autor iza o cortesão, o magist rado ou o legislad or a usa r ck Im-
men te, que eu pe rpetue em mim a cisão que, há pouco, separa\·a o in ter-
no e o externo , o "meu" e o "vosso"; o esquema dualista, suste ntado
postura quando o fim visado justifica semelhante meio:
pelas est ru turas persistentes da sintaxe (que distinguem o sujeito e o obje-
lb) o que estes apreciam são as apar~ncias ; se não ouvem nenhum ruído ima- to, dos dois lados do verbo de ação, mesmo qua ndo a ação é re flexiva) ,
ginam que dormimos.[ ... ] poderia reprimir quaisquer agitações sem me agi- mantém a distância entre a consciência que julga e o objeto que meu ser
tar e punir a desordem sem me exaltar. Se tenho necessidade de me most rar é pa ra esta. Expressões como "freqüentar-se", "entreter-se consigo mes-
encolerizado, faço de conta que o estou, uso máscara [... ]. mo" etc. projetam no interior a relação com o outro . A intimidade sóli-
(d) Se os homens são incapazes de apreciar a moeda verdadeira, usa-se da que Montaigne queria recriar em si mesmo, a plenitude que desejava
11
a falsa. Todos os legisladores assim o fize ram ( ... ]. substituir à dispersão externa- nada disso se deixa instaurar. Por assim
É reconhecer q ue, se nós mesmos saímos do reino da opinião, con- dizer, há espaço demais "dentro" para que a pluralidade e a alteridade
vém levar em conta sua inelutável presença nos assuntos humanos. O ho- n ão o invadam. No momento em que Montaigne tenta retomar-se por um
mem responsável, uma vez prevenido contra a aparência sedutora, dela a to do julgamento, precisa criar ou sofrer uma distância que o torna es-
se fará o utilizador experimentado, a fi m de preservar a ordem social e tranho a si mesmo. Lembremo-nos das "quimeras e monstros fan tásti-
a paz pública. A preocupação com a opinião nos fazia perder uma parte cos" que irrompiam à hora do retiro e da solidão.
de nosso verdadeiro cabedal; o olhar dos outros nos capturava na arma- Algo nele se torna fato, para um olhar que não é um fato, mas uma
dilha da consideração: assim, deixávamos explorar e manobrar. Agora pura e livre exigência. O ato pelo qual ele se percebe o faz existir como
é a vez dos outros: ao menos nós os guiaremos à sua revelia, na direção uma coisa análoga a todas as coisas· que constituem o mundo exterior.
preconizada pela sabedoria e pelo cuidado da estabilidade pública (em um Ele chega, deliberadamente, a consid~rar-se "como a um vizinho ou ár-
momento em que "tudo desmorona") . À primeira vista, não resultará vo re" . 13 A objetivação do sentimento interior o faz deixar de ser real-
daí nenhum dano, nenhuma alteração para a verdade interna que assim mente interior. O exterior se transporta para ele.
protegemos: não nos exporemos, um simulacro agirá em nosso lugar. Assim ocorre com a mobilidade, a instabilidade, que de inicio pare-
Mas, ao não deixar transparecer nada de seus "verdadeiros sentimen- ciam ser os vícios exclusivos do mundo exterior. Por definição, a retórica
tos", não se escapa à dependência do olhar público senão o enganando; da mutabilidade não conhece nem parada nem limite. Se o indivíduo ten-
não se muda uma relação desequilibrada senão a invertendo em detrimento ta afastar-se do mundo, deixará ele de ser um fragmento do mundo, su-
de outrem. Agrava-se o mal que afeta os laços dos homens em sociedade, jeito à lei do mundo? Quanto mais tenta recompor-se, mais variegada e
ele é levado ao limite ao assegurar para si mesmo, por meio da máscara, contraditória lhe parece a sua própria natureza, entregue a uma mutação
uma espécie de imunidade. A infecção não nos atingirá, mas, à custa da que o arrebata continuamente e o impede para sempre de encontrar ore-
cirurgia que afasta tudo que não é estritamente nosso, lançamos os ou- pouso. Ele não pode coincidir com sua própria fonte, pois um longo des-
tros na ilusão da qual nos libertamos. De um mal-estar causado por uma vio o separa de sua origem. Se ao menos o ser interior estivesse sujeito
relação falseada acreditamos curar-nos pela ruptura e pela divisão com- apenas ao movimento da natureza! Seria, em sua própria diversidade, con-
pletas. A partir desse lugar separado onde assim nos protegemos, sem dú- tinuamente natural. Mas um fator de descontinuidade e de heterogenei-
vida dirigimos melhor as coisas do mundo, mas não estamos mais no mun- dade vem deformar tudo: a lei natural, que nos dirige e nos atravessa,
não foi pervertida de uma vez por todas quando despertamos para a pos-
do, "entre os vivos".

96 97
sibilidade do artifício? E quando volto para mim a minha afeição, por mais
desejoso que esteja de me possuir em minha verdade, o artifício não está in- da qual nada pode ser afirmado. Mas, por isso, o desespero não o to-
corporado em cada um de meus gestos, em cada um de meus olhares? O pa- mou. A reflexão cética, depois de haver provado que a~ aparências bar-
recer,,.. esse ex~utor qas. altas obra,s da mutação :- não insinua_seus male- ram todo acesso ao ser. restitui-lhes uma legitimidade nova: se não reve-
fícios entre mim e eu .~. pi9.i' ~nsfa, n~g. r:pa!lt~Il!.E!e so~ s~u encanto, a lam a essência dos objetos, não são por isso menos ricas, nem menos de-
uma só vez, o eu-sujeito e o eu-objeto? No limite, o próprio devir, a pas- leitáveis: Já qu_e nos impedem de ir ao encontro de uma ~rdem ontológi-
sãgem são irrépresentávéfs.-O '(opÓs do flÍÚÓ -perpétuo põe em xeque to- ca supeoor, SéUbarnos acomodar-nos a isso, saibamos conceder-lhes nos-
da realização do topos.moral da-apropriàÇão de si mesmo. Montaigne tenta sa mais grave atenção, nossa avisada adesão. Não se nos oferece coisa
"consentir na natureza", deixar-se "molemerite" arrastar por ela, dar- melhor: é preciso abandonar-se "despreocupado e ignorante à grande lei
lhe livremente a palavra - "similar profunda desenvoltura nas frases e geral que rege o mundo'' . 17 O homem não sai dos fenômenos, mas pode
nos gestos e dar a impressão de que improvisava"; 14 isso é, sem dúvida, aí provar da alegria. O mundo fenomênico abre a nossa experiência sen-
tomar todas as precauções possíveis contra as afetações de linguagem, mas sível e a nossos prazeres perceptivos um campo infinito, aquém de toda
falar nos liga às convenções comuns da inteligibilidade. A "fala natural", verdade certa. A vertigem, a lassidão espreitam, talvez, a consciência de-
qualquer que seja a sua fidelidade em relação à fonte interior, deve de- sejosa de desposar o ritmo dessas imagens em perpétua mudança; mas,
sembocar no exterior e deixar-se governar pelas conveniências externas, por o~tr~ lado, sua equivalência, sua igual fraqueza ontológica, a igual
pelas regras aprendidas. No limite, incapaz de libertar-se inteiramente das verossnrulhança das opiniões são um motivo paradoxal para permanecer
servidões da sociedade, a consciência descobre-se, em seu âmago, artifi- em repouso e deixar nossos semelhantes em repouso.
cial e artificiosa (o que a levará a perguntar a si mesmo se o homem não O mesmo ocorre com a verdade do eu. O ser estável e permanente
se define precisamente pela aptidão para colocar as forças moventes da não se deixa apreender, elude toda captura. Ele é como se não fosse . Vi-
natureza a serviço de uma obra). Seus hábitos transformaram-se em na-
mos que não pode contar nem com o estado agonizante nem com o esta-
tureza; ao se descobrir e descrever-se, é-lhe forçoso reconhecer que não
do nascente. _$e o homem não se acomoda nem ao seu reflexo na cons-
pode impedir-se de intervir entre o dado " fortuito" da experiência ime-
ciência dos outros nem à ficção que se inventa a todo instante em seu fo-
diata e o ato pelo qual tenta " representar" o que experimenta. Falar é
sempre um ato social. De resto, Montaigne evita contradizer a tradição, ro íntimo, nada lhe é oferecido em troca. A consciência deve então re-
que define o homem como naturalmente sociável: "A natureza parece mui- considerar suas recusas: não encontrou abrigo seguro, não d~u a si ~es­
to particularmente interessada em implantar em nós a necessidade das re- ma melhores possibilidades por ter rompido com o " exterior"; ao con-
lações de amizade" . 15 Assim, o malefício da aparência, o mal que sofre- trário, vê a exterioridade invadir e esvaziar paradoxalmente o centro sub-
mos pela necessidade de "viver pela relação com outrem", pertence sem jetivo que se pretendia autônomo e sólido, fazer dele um mundo analógi-
retorno a nossa condição natural. Opor arte e natureza é ingenuamente co, dotado de distância e de profundidade, entregue ao movimento, par-
desconhecer a evidência: que a aptidão a9 artifício, no homem, pertence ticipando na "agitação" universal. Ao recusar a "relação com outrem ",
a sua própria natureza ou, pelo menos, ai tem origem. O homem é por não se faz mais do que transferir a alteridade para si mesmo de maneira
natureza esse ser que tem o poder de desnaturar o que ele é naturalmen- que jamais se pode conviver consigo mesmo senão no modo,da "relação
te .. . Para o homem que se quer ater a sua própria "sentença", o perigo com outrem". E é forçoso reconhecer que a opinião nos segue em nós
não é menor do que na "relação com outrem". O orgulho, a vaidade, o de- mesmos como nossa sombra.
sejo insinuam suas lisonjas e suas mentiras. A alteridade encontra bastante Era preciso desconfiar da consciência de outrem? Ela só é armadilha
oportunidade de nascer sem a intervenção dos outros. O próprio Mon- para aqueles que aí não sabem encontrar uma referência, a um só tempo
taigne, ao definir a presunção, fornece a Pascal e aos moralistas de Port- revogável e necessária, frágil e proveitosa. Assim, desde o começo de seu
Royal os argumentos de sua crítica: "Essa afeição imprudente faz que trabalho de escritor, Montaigne recorreu ao poder estabilizador do olhar
nos representemos aos nossos próprios olhos diferentes do que somos". 16 dos outros. Essa intervenção externa contribui para a definição de uma
forma: a presença da testemunha exige uma mobilização, um esforço cons-
trutivo. A noção de forma, que Montaigne utiliza ainda no sentido tradi-
A RELAÇÃO RESTABELECIDA
cional da escola ("deparamos em qualquer homem com o Homem"), • 18
No final da Apologia, como vimos, Montaigne deixa o homem no
seio de um universo incognoscível, diante de uma divindade inacessível, (•) No original, "cada homem traz a forma inteira da condição humana" (grifo de
Starobinski). (N. T.)

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aplica-se, com igual pertinência, ao que realiza a natureza quando pro- O perigo da mentira e da hipérbole é inseparável do próprio ímpeto
duz um indivíduo e ao resultado de um aro "de trabalho", regido pela da palavra, mesmo em um homem de boa-fé. O arrebatamento não che-
vontade do próprio indivíduo. ga, contudo, até a vertigem. Há um limite para essa "exageração", e um
Importa aqui destacar, novamente, a ·'irresolução" de Montaigne ret?rno possível à "verdade nua e crua". O significativo, aqui, é que, d e-
entre duas filosofias da forma. Uma forma nossa nos foi atribuída de fo- pots de ter encontrado seu estímulo em uma "resistência" exterior, o im-
ra, de uma vez por todas, pela natureza ou por Deus? Então, todo ato pulso deformador se vê impor, igualmente de fora, seu limite e seu freio.
saído de nossa condenável liberdade, todo ato solicitado por nossa "rela- A verdade nua é redescoberta graças ao diálogo e às objeções do interlo-
ção com outrem", será pelo menos suspeito de trair a forma primeira, cutor: se alguém me chama à ordem ... Montaigne reecontra instantanea-
de nos "contrafazer" e de nos deformar. Se, ao contrário, temos o direi- mente a verdade de que corria o risco de perder o rastro ao abandonar-se
to legítimo de participar na constituição de nossa forma, se nos é conce- à deriva inebriante da "palavra viva e ruidosa". O afastamento é causa-
dido "perfazer-nos", então é ao dar forma a uma obra exterior que tere- do pela " relação com outrem", sem a qual não teria havido palavra viva;
mos possibilidade de dar forma a nós mesmos. Relembremos aqui a frase mas o retorno à veracidade lhe é igualmente devido. A relação é a lterna-
famosa: "Fez-me o meu livro, mais do que eu o fiz; e autor e livro consti- damente o que compromete e o que restabelece a verdade. A nós cabe
tuem um todo; é estudo de mim mesmo e parte integrante de minha vida regular nossas relações.
De fat~, nada garante antecipadamente a exatidão do movimento que , _
[... ]". ~lontaigne acrescenta: "[ ... ] não objetiva, como outras obras, um ' ~ ..-w

fim outro que não a personalidade do autor" . 19 Assim fazendo, recusa nos comumca com os outros, nada nos assegura que saberemos encon- '1 - -

apenas a finalidade prática, a destinação utilitária - no que se declara trar as palavras adequadas. Ao menos, i\.lonraigne sente-se protegido por '1 :::
fidalgo, desdenhoso de exercer uma atividade plebéia. Mas não recusa de seu natural horror à mentira. A veracidade é uma necessidade vital para
~ -
I ..
modo algum o olhar dos outros; este presta uma assistência decisiva à aquele que descobriu que sua imagem não é nada sem referência às cons- I. •
I ~~ '!
descrição de si. As linhas que acabamos de citar são imediatamente pre- ciências estranhas. (Quem quer que desejasse romper absolutamente com l ~ l
cedidas por estas: o "exterior" deveria renunciar a toda imagem, consentir no silêncio e na
morte.) Se meu ser e minha forma se tornam inconcebíveis fora da "rela- I

!:.:l ;
(c) Fazendo o molde de meu próprio rosto, mais de uma vez precisei enfei- I ul
ção com outrem", a mentira não é apenas uma deslealdade condenável
tar-me e ajustar-me, de modo que o modelo se afirmou e tomou forma sozi- 'J'; ,.
em relação ao nosso próximo; é, para nós mesmos, uma catástrofe onto- )

nho. Pintando-me para outrem, pintei a minha alma com cores mais nítidas
Ió~ica: perco minha verdadeira forma, já que não me é possível preservá-
do que apresentava primitivamente. 20
la mtacta em meu foro íntimo e já que meu foro íntimo, privado de toda
Por certo, a consideração de outrem provoca aqui uma acentuação relação externa, não é senão incerteza. Mentir aos outros é enganar a si
da imagem. O pintor exagera. Houve traição? Sim, em um sentido, se próprio, lograr-se por não querer ser logrado. Não se pode salvaouardar
se consideram as únicas autênticas as "primeiras" cores. Mas, se o mo- pelo embuste, a fidelidade que se deve a si mesmo. A veracidade"'deve se;
delo muda, se chega a se parecer com o retrato mais nítido que traçou, ininterrupta. No mundo dos fenômenos (no qual a Apologia de Raimond
terá encontrado sua imagem, terá "incorporado" as cores do retrato, ter- Sebond nos ensinou que se joga o nosso destino), o homem se vê cortado
se-á pintado " em si". Não terá mentido. de toda relação com as essências eternas; não lhe resta mais que a relação
De resto, se a presença da testemunha provoca por vezes uma exage- temporal com o mundo e com os vivos. Já não somos obrigados a estabe-
ração da palavra, há outras circunstâncias em que o interlocutor inter- lecer uma relação estável com a transcendência (Deus é incognoscível),
vém, ao contrário, para reprimir e contrabater o excesso verbal em que mas nosso dever é instaurar relações eqüitativas no seio da imanência.
Montaigne se deixa arrebatar. O indivíduo está ligado apenas a coisas e a seres perecíveis, não tem con-
tato com nenhuma causa nem com nenhuma verdade eternas; mas existe
(b) Eu mesmo, que tenho exagerado escrúpulo em mentir e não me preocu-
po com impor o que digo, verifico que, (c) no calor da discussão , (b) alteio uma evidência que se revela a ele no universo sensível e no exercício de
a voz, amplio os gestos, acentuando e fortalecendo minhas expressões, não sua existência: a verdade é sustentada por sua frágil relação com os ou-
sem dano para a verdade inicial. Entretanto, se alguém me chama à ordem tros, esses viventes tão precários quanto ele. A sinceridade, relação instá-
e exige a verdade nua e crua, logo a exponho sem ênfase nem comentário. vel com outrem, nos é tanto mai·s indispensável que, se viesse a faltar,
(c) Uma linguagem viva e ruidosa como a minha facilmente se inclina para sofreríamos um aniquilamento definitivo; não poderíamos recorrer nem
a hipérbole. 21 à transcendência nem à nossa própria intimidade, ambas inapreensíveis;

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permaneceríamos perdidos entre o longe inacessível de Deus e a inconsis- fazê-lo tomar corpo como um gesso que endurece: ''Tiro deste estudo de
tência de nossa interioridade. Nosso único ser possível joga sua sorte na meus costumes um inesperado proveito: serve-me até certo ponto de re-
sociedade de nossos semelhantes, isto é, no mundo do comum parecer. gra de conduta. Obriga-me por vezes a não desmentir o que sempre fui.
Por isso, a palavra verídica é simultaneamente o cimento da vida pública Esta declaração pública força-me a manter-me obediente à direção toma-
e o de nossa identidade privada: da e a não desacreditar a descrição de minhas condições" .26 Como se vê,
Montaigne, tão inimigo da obrigação, tão tentado pelo desejo de tresva-
(a) Nossas relações recíprocas estabelecem-se pela palavra; faltar à palavra
riar, de deturpar, de escapar, obriga-se a se parecer com a pintura que
é, pois, trair a sociedade, porquanto é o meio de comunicar nossos pensa-
mentos e nossas vontades e o único intérprete de nossa alma. Se esse inter-
traçou. Sua própria variabilidade, uma vez consignada sobre o papel,
mediário nos falta, desfaz-se a associação, não mais nos reconhecemos uns converte-se para ele em regra. Seguramente, essa fidelidade ao retrato co-
aos outros; se nos ilude, rompem-se nossas relações, destroem-se os laços meçado (e sempre inacabado) não é alegada como uma preocupação cons-
que nos prendem.U tante; se se acreditar em Montaigne, essa é uma consideração experimen-
tada apenas por intermitência, por vezes; e, tendo Montaigne tomado a
Que os homens deixem de se conhecer mutuamente não é de pouca precaução de pintar-se ora sujeito à mudança ora fixado por seus hábi-
conseqüência para um autor que tem o maior desejo de [se] mostrar co- tos, não lhe custará demasiado assemelhar-se à representação que deu de
mo [el e que sentiria grande desprazer em • ser considerado diferente do seus "costumes", dos quais garante muitas vezes a "uniformidade e sim-
que [el pelos que vierem a saber da [sua] existência. 23 Por que semelhan- plicidade". A ética da lealdade, que obriga a manter a palavra, implica
te temor? Por que o risco é declarado mortal? É que, se não tem a quem de maneira conjunta as considerações em relação a outrem e a salvaguar-
se opor nem a quem se mostrar, não lhe resta nenhuma preensão sobre da da forma pessoal. Como seria de outro modo, já que manter a palavra
si mesmo. Sem dúvida, ele pode variar a distância que o separa dos ou- é manter, através da duração e para o mesmo destinatário, um mesmo
tros: essa distância, se a leva ao seu grau extremo , lhe permitirá sentir-se "conteúdo" de discurso? Ora, o conteúdo do discurso de Montaigne é
independente. Acreditará ter-se reencontrado e, efetivamente, ter-se-á des- \1ichel de \1ontaigne. A escolha moral é fundamental aqui: Montaigne
prendido do afã e da distração do mundo. Mas, tão logo empreende detesta trair, detesta desmentir a imagem que traçou e que traz consi12o
conhecer-se e, para melhor se conhecer, descrever-se, os outros estão par- não apenas a marca de um presente transcorrido mas também uma pr~­
ticipando novamente, ainda que de maneira surda e sub-reptícia. A sós, messa implícita . Quando se trata de se manter em sua rota, ele aceita a
não somos capazes de nos esboçar. Logo que intervém a exigência de uma obrigação.
forma, uma testemunha (ainda que imaginária) torna-se-nos indispensá- É, no entanto, o mesmo homem quem escreve: "Quanto a mim, con -
vel. Conhecer-se e ser conhecido são atos solidários. A falência de um sidero que sou somente eu mesmo. Essa out ra vida, feita com o que meus
seria ao mesmo tempo a ruína do outro. "Quem não se conhece pode amigos sabem de mim, a encará-la como é, despojada de qualquer artifí-
empanturrar-se com elogios imerecidos; eu não, porque me vejo, me ana- cio, bem sei que o que dela ti ro e o gozo que me dá não passam de vaida-
liso e sei muito bem o que sou; agrada-me que me louvem, mas com co- de produzida pela imaginação" .1' Podemos crer que .\1ontaigne perma-
nhecimento de causa. " 24 A dissimulação diante de outrem desemboca fa- nece hesitante ent re a tese e a antítese, entre a afirmação de independên-
talmente no desconhecimento de si. Esconder-se dos outros conduz a cia e o reconhecimento de obrigação, entre a recusa e a necessidade dos
esquivar-se diante de si mesmo: " É preciso discernir seu vício e bem out ros? Constatemos que há alternância, que nenhuma das duas atitudes
analisá-lo para o contar; os que o escondem dos outros escondem-no a o arrebata absol utamente e que essa alternância pode ser lida não como
si mesmo as mais das vezes; não o consideram suficientemente dissimula- o conflito de duas proposições logicament e antagonistas, mas como a ex-
do quando o vêem. Disfarçam-no mesmo perante a própria consciên- periência sucessiva de duas exigências que se reclamam mu tuamente. Mon-
cia".2S Nada é visto no interior senão para ser repetido no exterior, na- taigne, de início , rei,·indica sua liberdade, quer " desalienar-se"; comes-
da é dito senão para ser melhor visto. Nesse ponto, o parecer não é mais se fim, precisa denunciar os "compromissos" nos quais se "hipotecou"
uma potência inimiga, não é mais o reflexo fantasmático nos olhos dos e romper os laços múltiplos- redes do costume, da opinião, das autori-
outros, por onde escapa e se dispersa nossa verdadeira substância; é, ao dades instituídas etc. - nos quais a consciência se descobre cativa antes
contrário, o agente que, do exterior, nos ajuda a solidificar nosso ser, a de nascer para a reflexão; mas, ao fazer o esforço para se retomar. para
se definir, para pensar sua "verdadeira natureza", .\lontaigne postula,
(")No original. "temo mortalmente ~:r :onsiderado [... 1" (grifo de Starobinski). (N. T.) por sua palana mais line, no,·os laços, apela a consciências estranhas que,

102 J(H
dessa vez, passam à categoria de interlocutores, de leito res, de público; Montaigne declara:
e, assim fazendo, chega ao reconhecimento da legitimidade relativa da
primeira dependência- o homem não se concebe fora de uma sociedade (b) Põs-nos a natureza nc:stc: mundo, livres de quaisquer compromissos, e
civil - e pode doravante fazer j ustiça a esses "laços artificiais", a esses nós nos prendemos dentro de estreitos limites. 29
"costumes" de que de inicio se desobrigara como de uma servidão. Pode No instante da partida, abandonamos a prisão e recuperamos a li-
a eles voltar livremente, daí extrair o que lhe convém; as inflexões vigoro- berdade original; porque sabemos reconhecer que esta nos é comum com
sas da linguagem familiar provêm dessa região. A ruptura, a concentra- todos os homens, por direito de nascença, nossa libertação implica ime-
ção na existência individual não podem ser mais que uma fase interme- diatamente a adesão a uma sociedade mais vasta. Um direito natural e
diária entre dois estilos de "relação com outrem": o primeiro, imposto
uma filosofia moral universalizada podem então se exprimir:
pelo enraizamento social e pelos víncu los costumeiros, sofrido de manei-
ra quase inconsciente, ligado aos interesses especiosos do prestígio, es- [ ... ] (b) Todos os homens são meus compatriotas [... ] Abraço um polonês
treitamente determinado pelo meio circ undante; o segundo, infinitamen- como abraçaria um francês, fazendo passar os laços que unem os indivíduos
te mais a mplo, implicando a plena posse de si, vi rtu alme nte aberto para de uma nação após os que vinculam un s aos ou tros os habitantes do
mundo _;o
o universal, reconhecido e consentido com toda a clareza. O trajeiO as-
sim percorrido vai da dependência cega à relação dominada . O exemplo O beneiicio da viagem não pára ai. Te ndo conduzido Montaigne do
de Sócrates intervém de maneira decisiva: ele representa o homem que, particular ao geral, permite-lhe em seguida voltar ao particular e r evê-lo
por ter-se desprend ido das servidões locais e ter-se afirmado em sua indi- sob outro aspecto. A separação prepara um retorno e o torna desejável
vidualidade racional e livre, com isso apenas se torna mais capaz de con- ao fim de certo tempo: retornar ao país natal, ao horizonte vicinal, à mo-
trair laços universais e de consentir no veredicto dos juízes de sua cidade; rada familiar, depois de ter-lhes preferido o vasto mundo, não é encerrar-se
relembremos estas linhas célebres: nas mesmas servidões imediatas. O viajante que vem de longe e retom a
(a)Vivemos todos apertados, dentro de nós mesmos, e não vemos um pal- o gosto por sua casa não pode mais olhar com o mesmo olho o seu domí-
mo diante do nariz. Perguntaram a Sócrates de onde era e ele não respon- nio privado; nele descobre uma nova face, um novo valor, revelados pela
deu: de Atenas, mas: do mundo. Para ele, cuja inteligência mais vasta e aberta distãncia a travessada. Sabe melhor, doravante, que está tratando com o
que a de outrem abarcava o universo e dele fazia sua cidade, o objeto de particular e pode amá-lo como taL Se o conhecimento do universal tem
sua afeição era o gênero humano; e não agia como nós, que apenas olhamos por efeito relativizar o amor instintivo que dirigíamos outrora aos nossos
em torno de nós.28 próximos, não abole de maneira alguma esse amor, mas lhe dá uma justi-
A lição das viagens é da mesma ordem e constitui o objeto de uma ficação mais completa. O desejo que nos chama de volta, de longe, para
a segurança do méstica já não é o vínculo impensado e triste que nos reti-
admirável meditação em "Da vaidade" (111, IX) . A partida nos desliga;
rompe por um tempo os vinculas familiares e locais, mas essa ruptura nha à distância de um mundo mais-vasto. Os lugares familiares que se
nos torna aptos a entrar em uma ligação humana, geral e universal. Ga- redescobrem não são mais a prisão que nos incomodava. Da distância que
nhamos com a troca, pela substituição de um laço de necessidade por um Montaigne conquistou ao afastar-se de sua morada, uma plenitude har-
laço de solidariedade, de uma comunidade rest rita por uma comunidade moniosa lhe parece realizável naquela casa onde, cansado de seus primei-
mais ampla. Com algumas linhas de distância, Montaigne pleiteia a fa- ros vínculos, via de inicio apenas impedimento . Montaigne chega mes-
vor e contra nossos vínculos, segundo se trate de uma ligação universal mo, em uma passagem comovente, a fazer da interrupção uma fonte de
ou particular. Da mesma maneira, empregará a palavra comum e seus plenitude, como se não se chegasse à verdadeira presença senão pela in-
derivados (comunicar, comunicação) em um sentido alternadamente pe- tercessão do afastamento .
jorativo e laudatório. O que está pronto a renegar é a comunicação ime- (b) Não há quem não saiba por experiência que o prazer de ver-se continua-
diata e impensada, a "comunicação do clima e do parentesco" que nos mente não iguala o de se encontrar após uma separação. Essas interrupções
são impostas sem nosso livre consentimento. Em compensação, nada é avivam o amor que dedico aos meus e torna mais aprazível o tempo que pas-
mais legítimo que uma relação aprovada pela razão, fundada na cons- so em casa; sucedendo o lar à viagem e reciprocamente, com muito mais agra-
ciência (e não mais nos laços de sangue}, e que nada impede de estender- do vou de um a outro prazer.31 ·
se à humanidade inteira ... O laço, desde então, já não é um entrave- Por um oxímoro surpreendente, o impedimento adquire um valor po-
é uma garantia de liberdade. sitivo: desde que não entrava mais a nossa liberdade, o obstáculo presta

104 105
o insigne serviço de definir nosso ser, delimitando um espaço sujeito à O pensamento de Montaigne se determina negativamente em relação
nossa vontade e recusando-nos o acesso a um horizonte em que nossas ao meio que o cerca: a distração (no sentido mais forte) é sua regra. Pen-
forças se extenuariam. O homem precisa " pedir-nos a esmola de uma re- samos sempre em outra coisa. 39 A partir daí, como surpreender-se se o
sistência; sua felicidade é incompleta e ele sofre com isso''. 32 Nossa maior jogo dos contrários faz nascer a expansão na solidão e o monólogo inte-
riqueza está no consentimento à finitude, no enfrentamento do obstácu- rior em plena multidão?
lo. Assim, . depois de haver desejado o espaço aberto dos caminhos es- Assim se explicam o interesse e a indiferença que Montaigne expri-
trangeiros, Montaigne retoma a seu ponto de partida; aí se sentira aper- · me alternadamente em relação à vida pública. No interior de suas ativi-
tado e desprovido de verdadeira comunicação; agora, aí descobre a pos- dades políticas, Montaigne se pretende incapaz de se entregar inteiro às
sibilidade de se realizar segundo seu "ser". tarefas que o requisitam; delas se desobriga por princípio, domina sua
Tal é a pulsação do pensamento de Montaigne. A paixão das distân- vontade, *40 protege-se interpondo uma margem de indiferença entre os
cias, alternadamente, é aceita e condenada. Ora é tolice fechar-se entre "negócios" e sua própria vida. Mas, reengajado em si mesmo, recolhido
quatro paredes, ora é loucura lançar-se para os confins incertos. Depois em sua tranqüilidade privada, Montaigne não tarda em descobrir a signi-
de haver declarado que "só o culpo [nosso espírito) de uma coisa: ficação histórica e moral de sua abstenção e de sua ociosidade. Em com-
preocupar-se com tudo", 33 Montaigne escreve o mais belo elogio da ex- paração com os infortúnios da época, sua solidão lhe parece dificilmente
tensão e define a vida do espírito como uma caçada no espaço aberto: justificável. Ele lança seu pensamento para "os negócios do Estado" e
se acusa de ser co-responsável (por uma parte mínima, é verdade) pelas
(c) Nenhum espírito generoso se detém por si mesmo, antes vai sempre para
misérias da França. A vida livre, o otium cum litteris, as fantasias da tor-
diante e além de suas forças. Se não se afana, não se apressa, não acua, não
re e todo o recolhimento estudioso de que fixara o programa nas inscri-
se choca, não gira sobre si mesmo, é porque não está vivo, vegeta. (b) Suas
buscas não têm forma nem fim; alimenta-se (c) de admiração, de pesquisas, ções de sua bibilioteca, agora que deles provou, despertam-lhe o senti-
(b) de dú\·idas. ~· mento de uma deserção. Diante da corrupção do século , tem aleu ns ~

remorsos:
Em um mesmo ensaio, " Da companhia dos homens, das mulheres
e dos liHos" (Ill, IIJ), Montaigne declara-se pouco apto aos contatos hu- [ ... ] (b) nasce do desinteresse que demonstramos pelos deveres de nossos car-
manos e, depois, apresenta-se como uma consciência destinada por natu- gos. A corrupção do século deve-se à cooperação de cada um de nós em par-
reza à comunicação. "Tenho uma maneira de pensar que me isola dos ticular; uns contribuem com a traição, outros com a iniqüidade, a irreligião,
outros", 35 afirma ele, para acrescentar pouco depois: " Há naturezas par- a tirania, a a\·areza, a crueldade, segundo as suas forças; os mais fracos dão
a estupidez, a \·aidade, a ociosidade; sou destes.' 1
ticularmente voltadas para si mesmas; eu sou essencialmente comunicati-
vo e exuberante; sou um indivíduo inteiramente e \·isivelmente voltado Ei-lo então mais solidário (mas solidário na participação no mal) do
para fora, nascido para a sociedade e a amizade. [... ]36 Nenhum prazer que quando toma\·a pane nos negócios públicos . Enquanto a reserva in-
tem sabor para mim, se não posso entreter-me a respeito com alguém; terior o contivera no momento em que se mist urava à "multidão ", o es-
e o mais insignificante pensamento gosto de tê-lo a quem dizer" .37 Essas crú pulo que lhe inspira a sua ociosidade vem corrigir a inação e o recon-
declarações se contradizem apenas para completar-se e condicionar-sere- duz ao pensamento dos infortúnios do século . As linhas que acabamos
ciprocamente. A aparente contradição se explica pelas relações do espíri- de citar dão imediatamente seqüência a um julgamento severo (do qual
to com o espaço que se oferece a ele: o espaço está aberto para aquele ~1ontaigne não se excetua) sobre a \'aidade da ati\'idade de escrita em uma
que medita solitariamente; mas, para aquele que se mistura à multidão, época de corrupção : "A mania de escre\'er parece ser sintoma de um sé-
o único espaço livre é interior: culo perturbado. ~unca escrevemos mais do que depois que a era das agi-
tações se iniciou ". 42 O escritor refugiado em sua torre é tomado de má
(b) Para dizer a verdade, a solidão, quando causada por um isolamento efe·
consciência em relação à situação dramática de seu país. Mas terá sido
tivo, tende a dilatar-me as idéias e a fazer que se voltem um pouco mais para
os fatos exteriores. Quando só, é principalmente acerca dos negóçios do Es- preciso, para chegar a essa reflexão, que ele se tenha previamente separado.
tado e do mundo que medito. No Lou\Te e em numerosa companhia, recolho- Montaigne retorna a seu país, a sua morada, a sua família, depois
me em mim mesmo. A multidão impele-me a fechar-me em mim mesmo, de haver tomado consciência da "ligação universal"; ora, essa ligação uni-
e nas con\·ersações que então mantenho com meus botões os assuntos são
bem menos agradáveis e pessoais do que quando me encontro em lugares (•) Ko original, "poupa sua vontade" . Como lembra Starobinski, poupar a própria
em que se obsen ·am o respeito e o silêncio. 38 vontade 1em em Momaigne o sentido econõmico de não a desperdiçar. (N. T.)

106 107
versa! fora-l he uma razão , inicialmente, para afirmar sua liberdade, sua possui ciência nem memória: tira suas afirmações de seu próprio cabe-
independência, ao se libertar de seus primeiros laços familiares e nacio- dal, não emprega "senão os [seus] recu rsos naturais"; mesmo quando se
nais. A dependência primeira, imediata e impensada, foi superada; mas sente su perado pelos antigos, está decidido a deixar "os [seus] pensamen-
esse afastamento, por sua vez, foi ele próprio superado, para dar lugar tos correrem assim fracos e pequenos, como os conceb[eu], sem rebocar
a um retorno refletido, d ominado, aos antigos vínculos. Tal é o modelo nem tapar os buracos que a comparação [lhe] revelou" .45 O que ele quer
do movimento percorrido por Montaigne através dos três tempos da rela- oferecer a seu leitor são suas próprias "cogitações", seus •·sentimentos
ção - movimento que se repetirá em diversos tipos de relações. O pri- e opiniões"~ pessoais. Por certo, suas opiniões podem referir-se a acon-
meiro tempo era aquele da dependência; o segundo é marcado pela von- tecimentos, ou a outras opiniões, relatados por livros. Mas Montaigne
tade de reapropriação e pelo afastamento liberador; em um terceiro tem- reivindica o direito e a possibilidade de deles falar por si mesmo, em seu
po, uma plena legitimidade é restituída à ligação, tecida de obrigações próprio nome, sob sua própria responsabilidade- diferente, nisso, da-
e de de\·eres concre tos, que nos une ao que nos cerca. É o particular re- queles que "não te ndo em si nada que os realce pretendem valer pelo que
descoberto, tal como se inscreve doravante no universal. é alheio [... ]''.~ 7 Para realizar esse programa de independência, para ser
Isso permite a Montaigne preconizar um ajustamento maleável da "o único a falar", ~8 é preciso "não [recor rer] nem aos li vros nem à lem-
relação, segundo a exigência do momento e a qualidade dos parceiros. brança que deles tenha" - 49 impedir a intrusão dos outros textos na obra
A cada circunstância convirá um tipo de relação adaptada; cabe-nos ava- pessoal; não deixar a voz dos outros int roduzir-se na de 1\lichel de Mon-
liar as conseqüências, o risco e o que está em jogo. Em suma, a relação taigne, pois ela arrisca-se a encobri-la ou deformá-la. A advertência "Ao
deve modular-se com delicadeza, ora no interesse de sua beleza própria leitor" bem o faz saber: nos Ensaios, não haverá absolutamente enfeite ,
ora para a salvaguarda de nosso repouso, e sempre no respeito pela vida "uma forma mais cuidada". Pouco falta para que o autor se exponha
e pela independência dos outros; há "certo respeito não somente pelos a nós, impudicamente, candidamente, em sua completa nudez.
animais, mas também por tudo o que encerra vida e sentimento, inclusive Ora, tal como é reivindicada, essa independência se atribui o direito
árvores e plantas. Aos homens devemos justiça; às demais criaturas ca- d e olhar para tudo o que se oferece ao seu alcance: para a consciência
pazes de lhes sentir os efeitos, solicitude e benevolência. Entre elas e nós e a existência pessoais fundamentalmente, mas também para a sabedoria
existem relações que nos obrigam reciprocamente". 43 A obrigação, de iní- e a insensatez do mundo, para as ações e as sentenças memoráveis, as leis,
cio suspeita, torna-se a regra geral de todas as nossas relações. os costumes, os abusos do universo inteiro. Por que se privaria ele de fa-
lar dos odores (I. LV), dos correios (11, XXII) ou dos polegares (11. XXVI)?
Tudo comporta signo; tudo serve para comunicar. A fim de afirmar a
A RECUSA DOS LIVROS, OS EMPRÉSTIMOS, A APROPRIAÇÃO singularidade do eu, de seus "sentimentos e opiniões", não é indispensá-
vel opõ-los à infinita variedade daquilo que não é ele- do que não quer
Ler, escrever . Montaigne conhece o atrativo dos grandes textos, das nem pode ser? É preciso, então, entrar em diálogo com os livros, ainda
obras admiráveis. Folheia mais do que lê, garante ele. É o bastante para que fosse apenas porque fornecem uma matéria ao nosso julgamento, pelos
se sentir dominado pelos mestres: Sêneca, P lutarco. Reconhece-se neles, exemplos o u pelas opiniões que propõem.
mas eles sabem dizer tão melhor o que ele próprio desejaria dizer. Como Desde então, a independência vai estar ameaçada por aquilo de que
escrever sem lhes ser devedor? Não foi ele igualmente devedor dos conse- tinha necessidade para afirmar-se. Mesmo quando Montaigne recusa ou
lhos e do exemplo de Étienne de La Boétie? Como, sobretudo, não sen- não dá razão a nenhum dos exemplos e opiniões que examina, não é me-
tir, diante de semelhantes predecessores, sua própria "incapacidade"? nos verdade que estes lhe forneceram seu tema: seu julgamento se terá
[ ... ) (a) Ao me reconhecer diante deles tão fraco e insignificante, tão pesado exercido sobre uma citação controvertida, vinda da tradição ou construí-
e sem vida, tenho piedade de mim mesmo, e desdém. Todavia, sinto prazer da com base nesta. Para expor lealmente tal opinião (antes de contestá-la
em verificar que minhas opiniões têm a honra de ir ao encontro das deles, ou rejeitá-la), é preciso dar a palavra àqueles que a sustentaram: vale di-
às vezes, (c) e, embora de longe, sigo-lhes as pegadas. (a) E também tenho zer, citá-los, "alegá-los", esperando submetê-los à crítica, ou citar aque-
esta vantagem que nem todos têm, que é conhecer a profunda diferença que les que os .criticaram. Assim, o . texto estranho, tomado como testemu-
há entre mim e eles. 44 nha, infiltra-se no texto "próprio", que pretende dar-lhe resposta. No
A partir daí, ao admitir a inferioridade, Montaigne contenta-se com entanto, permanece perceptível uma linha de demarcação entre o julga-
uma vantagem que não se lhe pode contestar: sua independência. Não mento de Montaigne e a opinião combatida. Mas o perigo aumenta quando

lflR 109
Montaigne se apercebe do " encontro" entre suas idéias próprias e as que variadas e belas soluções. Por isso mesmo lamento vê-lo tão exposto ao sa-
fllósofos ou poetas da Antigüidade exprimiram - em urna linguagem mais que dos que o conhecem. (c) Eu mesmo, cada vez que o encontro, não posso
vigorosa - antes dele. Como resistir à tentação de citá-los por sua vez, deixar de surrupiar-lhe alguma coisa. Sl
já que fornecem um "auxílio" tão bem-vindo? Várias possibilidades são Mais livre é a confissão da dependência, e melhor se opera, pela re-
então exploráveis. Em primeiro lugar, literalmente, na língua original, co- flexão crítica, a vinda ao mundo de um novo autor, para além das "cita-
locando a citação (e o próprio ato de citar) em plena evidência. Ela tem ções" em que se encontrou com outros e que às vezes tratou por intermé-
valor, neste caso, de enfeite, de ornamentação, de emblema:S0 o leitor dio delas . A submissão a "outrem" terá servido, então, para estabelecer
que entende o latim encontrará ora sentenças que repetem ou completam, uma relação refletida consigo m esmo.
com força, o s argumentos intelectuais desenvolvidos por Montaigne, ora De resto, não é apenas a autoridade dos livros e dos autores admira-
fragmentos poéticos que, de mqdo geral, proporcionam um enriquecimen- dos que explica o uso que deles fez Montaigne no interior de seu próprio
to metafórico ou alegórico a um d iscurso já todo carregado de elementos livro; a "relação com outrem" atuou ainda em um outro sentido . Ele se-
metafóricos. Aí estão "flores" cujo aspecto "transportado" ou incrus- guiu uma moda; esses "ornatos d e empréstimo" que são " o contrário
tado não escapará ao leitor. Mas a alegação do texto que fornece um re- do que [se] propõ [e], que é mostrar o que é naturalmente [seu]" , Mon-
forço de autoridade (a "garantia" ) pode ainda recorrer à tradução fran- taigne é levado a eles " pela moda e também pelos Jazeres de que dis-
cesa. E a tradução pode tornar-se paráfrase. A menção do autor, neces- põ[e]". • 54 O empréstimo de materiais estranhos foi ele próprio sugerido
sária para "autorizar" a opinião avançada, poderá, além disso, desapa- por uma intervenção estranha . Dupla "alienação". Mas, uma vez passa-
recer se Montaigne experimenta o sentimento de uma completa identida- das tais confissões, o mais precioso, isto é, a confidência pessoal, está
de de pensamento, sem se crer ele próprio capaz de " contribuir" d e ma- "registrado" e, conseqüentemente, salvo. A subtração das "plumas" ou
neira tão ,·igorosa quanto seu predecessor latino ou grego. A partir daí, das "flores" com que se e nfeitou não o assusta:
não é mais uma citação, mas um "empréstimo" , um "furto" . Um out ro
fala no lugar de Montaigne, com seu consentimento, por certo, mas (c) De bom grado veria alguém, clarividente e avisado, arrancar-me as plu -
ditando-lhe seu discurso. mas com que me adornei, distinguindo simplesmente pela diferença de força
e beleza as minhas das alheias. Se por falta de memória não consi2o deslindar-
Como justificar essa invasão de palavras estranhas, depois de tão vi-
Jhes as origens, sei reconhecer entretanto que minha terra é p~bre demais
vamente ter feito profissão de independência? Montaigne tem mais de uma para produzir as ricas flores que entre elas se acham desabrochadas e que
explicação ao seu di sp or: pois se trata, para ele, da reconquista (embora apesar dos maiores esforços não as igualaria jamais.~~
parcial) da autonomia de seu próprio discurso, de que confessa ter-se dei-
xado desapos sar-se . Reconhece que alguns de seus primeiros ensaios "sa- ~1ont aigne não se contenta com essa estratégia que lhe assegura, in

bem a uma região diferente".~~ É uma retratação, e a retratação é já uma exrremis, uma nova independência por meio da dependência reco nhecida
maneira de retomar a iniciativa que outras páginas cederam à palavra es- e reflexi,·amente superada. Encontra-se ainda, sob sua pena, toda uma
tranha. Se o di scurso desses ensaios era de empréstimo, o metadi scurso série de argumentos que justificam a coexistência, nos Ensaios, do · •meu· ·
que acusa o empréstimo restitui a l'vlontaigne a função do juiz íntegro: e do " estranho" . Por meio desses argumentos, Montaigne ,·olta a tomar
o próprio gesto do empréstimo, descrito por ele mesmo, torna-se, no auto - posse de si mesmo não mais a posteriori, com base na observação retros -
retrato, um traço original. Ao descrevê-lo, Montaigne fala como ninguém pectiva, mas reivindicando a originalidade primeira de seu projeto o u ju s-
falou antes dele: "Como os macacos, tenho fo rt e tendência para a imita- tificando o empréstimo, a ''marchetaria'' , como procedimentos perfeita-
ção [.. .]". ~~ Adotando essa estratégia, Montaigne recupera tudo que ce- mente compatíveis com a invenção pessoal. Essas justificações são de di-
dera. Não está mais sob a dependência de Sêneca ou de Plutarco, tão lo- versos tipos, e sua diversidade mostra bem a importância que Montaigne
go faz dessa dependência o objeto de sua reflexão perspicaz. Recupera atribui à tese que pretende defender: a compatibilidade do empréstimo
a vantagem no momento mesmo em que relata ao leitor a relação de infe- com uma real autonom ia do discurso, a possibilidade de u ma coexistên-
rioridade que o incitou a pilhar certos auto res antigos: cia da palavra própria com uma palavra estranha que não lhe traria ne-
nhum prejuízo. Como se verá, alguns desses argumentos são reverSÍ\'eis.
(j) É-me mais difícil esquecer P lutarco. Esse autor é tão universal e comple-
to que em todas as ocasiões, por extraordinário que seja o assunto, ele se (•) I' o original, pela " fantasia do século e pelas exortações de outrem" (grifo de Sta·
intromete no trabalho alheio, oferecendo generoso auxílio, sugerindo as mais robinski). (N. T. )

110 111
Uma das imagens justificati\·as que Montaigne utiliza (e que, aliás, tamente ao acrescentar: "O proveito de nosso estudo está em nos tornar-
toma de empréstimo a uma antiga tradição) é a da assimilação. O leitor mos melhores e mais avisados" .ss
avisado retém e faz seu o que pode contribuir para fortalecê-lo. O que De fato, Montaigne muitas vezes inseriu textos estranhos sem lhes
terá lido não será mais um ornamento ou uma peça acrescentada, mas indicar a fonte. "Ocultou" seus emprésti mos. (É o caso, como se sabe,
fará parte integrante de uma sabedoria cada vez mais bem consolidada; do texto de Plutarco introduzido no fim da Apologia de Raimond Sebond.)
ele o declara, sob forma prescritiva, no texto de 1580 de " A educação E Montaigne, além disso , confessa-o, mas em termos gerais e sem indicar
das crianças" , ao falar da conduta que espera do jovem discípulo: o lugar em que dissimulou seus "furtos". A se crer nele, é ao mesmo tempo
uma manobra defensiva e uma maneira de se proporcionar o prazer mali-
[ ... ) (a) Porque, se por ref1exão própria abraçar as opiniões de Xenofonte
cioso de ver críticos imprudentes insultar Sêneca ou Plutarco ao atacar
e Platão, elas deixarão de ser deles e se tornarão suas. [... ) Não se trata de
aprender os preceitos d~sses filóso fos, e sim de lhes entender o espírito. Que Michel de Montaigne:
os esqueça à \'Ontade, mas que os saiba assimilar. A \·erdade e a razão são Quanto às razões, às comparações e aos argumentos que transplanto pa-
(c)
comuns a todos e não pertencem mais a quem as diz primeiro do que ao que ra meu jardim, e confundo com os meus, omiti muitas vezes, voluntaria-
as diz depois. As abelhas li bam f1ores de toda espécie, mas depois fazem o mente, o nome dos autores, a fim de pôr um freio nas ousadias desses críti-
mel que é unicamente seu e não do tomilho ou da manjerona. Da m.:sma cos apressados que se espojam nas obras de escritores vivos e escritas na lín-
forma os elementos tirados de outrem, ele os terá de transformar e misturar gua de todo mundo, o que dá a quem queira o direito de as atacar e insinuar
para com eles fazer obra própria, isto é, para forjar sua inteligência. Educa- que planos e idéias sejam tão vulgares quanto o estilo ; e eu quero que dêem
ção, trabalho e estudo não visam senão a formá-la .!6 um piparote nas ventas de Plutarco pensando dar nas minhas, e que insul-
O trabalho da apropriação é obra da "reflexão", que " transforma" tem Sêneca de passagem. Preciso esconder minha fraqueza sob essas gran-
o que provém de fora. Se se admite que o individuo possui , de saída, a des reputações. 59
faculdade racional, não é menos verdade que o empréstimo intervém no Objetar-se-á que, antes de proteger Montaigne, essa manobra expõe
im'cio: e é ao termo da transformação assimiladora que o julgamento se os grandes autores transcritos sem aviso. Mas sua autoridade é tida como
achará formado. Montaigne expõe aqui uma das teses fundamentais da tão bem assegurada que todo ataque desacredita a crítica que a ele se aven-
tradição humanista, para a qual toda língua é necessariamente de emprés- turasse; Montaigne previne, assim, seus detratores: estendeu-lhes arma-
timo, toda forma (e todo estilo) é de apropriação. dilhas. O que reprovam bem poderia ser uma idéia ou uma argumenta-
De maneira constante, Montaigne emprega as comparações inspira- ção muito mais fortemente autorizada do que imaginam. Acreditando cor-
das pelas noções de empréstimo e de pilhagem ("as abelhas libam" ). Por rigir um jovem autor, terão criticado alguém mais forte do que eles.
mais que o empréstimo tenha sido legitimado pela apropriação, não dei- Ocultar seus furtos: no capítulo '·' A propósito de Virgílio", Mon-
xa de ser o equivalente de um roubo. Conseqüentemente, a assimilação t aigne (voltaremos a isso) utilizará os mesmos termos, mas para falar da
deve acompanhar-se de um outro trabalho, que consistirá em dissimular estratégia amorosa e da representação poética do amor: ''A ação e a des-
a fonte estranha; em um curioso desenvolvimento, essa dissimulação é crição valorizam-se com a maneira de falar''. • 60 Ora, algumas linhas an-
comparada a uma despesa- isto é, a uma operação econômica: tes Montaigne afirmara que ocultar é avivar o desejo e, no limite, pôr
em destaque, por uma exibição contida ou por uma contenção demons-
(c)Que ponha de lado tudo aquilo de que se socorreu e mostre apenas o que
trativa :
produziu. Os ladrões e os que vivem de empréstimos fazem alarde de suas
casas, de suas compras, não do que tomam aos outros. Não se conhecem (b)Sábia resposta deu um egípcio a alguém que lhe perguntou o que ele trans-
os ganhos de um magistrado, vêem-se os casamentos e as honrarias que ar- portava escondido sob o manto: Hse o escondo é para que não saibas". Mas
ranjou para os seus. Ninguém publica suas receitas e sim suas despesas.s7 há coisas que só se ocultam para que melhor se admirem.61
A educação (e com mais forte razão a produção literária) se aparen- O recurso a um mesmo vocab!Jlário metafórico é aqui o indício de
taria ao enriquecimento fraudulento? A comparação com os saqueado- uma erotização do furto (do empréstimo) e do comportamento ambiva-
res e os tomadores de empréstimos pode inquietar-nos . Contudo, trata-se Iente que consiste ora em ocultá-lo ora em mostrá-lo.
apenas de uma imagem que sublinha a diferença entre o que é tomado
e o que é posteriormente mostrado. E Montaigne nos tranqüiliza imedia- (*)No original, "devem saber a furto" . (N. T.)

11~
Montaigne não apenas não rejeita mostrar seus empréstimos mas tam-
h O empréstimo é o gesto primeiro? Ou intervém depois, para preen-
bém considera que, na escolha daquilo que toma de empréstimo, seu jul-
~ er u'?a lacuna? As duas afirmações se encontram alternadamente em
gamento intervém de maneira ativa e se oferece, assim, à apreciação do on.trugne. Elas certamente se contradizem. Mas, em ambas as hi óte-
leitor . ses, msta.ura-se um compromisso entre a atividade própria e a ins! ão
(c) No que tomo de empréstimo aos outros, vejam unicamente se soube es- do matenal estranho. Forma-se um misto, no qual participam a dinâ~i­
colher algo capaz de realçar ou apoiar a idéia que desenvolvo, a qual, sim, ca pessoal e .os. textos tomados de empréstimo.
é sempre minha. Não me inspiro nas citações; valho-me delas para corrobo- O emprestimo se vê atribuir uma presença precedente? O .
rar o que digo e que não sei tão bem expressar, ou por insuficiência da lín- to que então anima Montaigne é de emulação· ele na· h . . movimen-
al ( · d • o esita em tentar
gua ou por fraqueza dos sentidos. Não me preocupo com a quantidade e cançar run a que de maneira irregular) seus grandes modelos:
sim com a qualidade das citações. Se houvesse querido tivera reunido o
dobro. 62 (c) Bem sei com qu.e ousadia eu próprio tento igualar-me por todos os meios
aos meus furtos e Ir de par com eles não sem a teme ár"
de . . ' r 1a esperança de po-
A confissão de fraqueza (em comparação com a força dos "antigos") . r enga~ar os JUIZes que os examinam; mas não é tanto pelo proveito ue
acompanha-se da menção de uma qualidade que Montaigne expõe ao olhar !Ir~d~~ trus confrontações quanto pelo que pode resultar de vantajoso p'!ra
do leitor: o sentido da apreciação, o julgamento da oportunidade dos em- as I elas propugnadas e de força para pô-las em evidência. Ademais não
préstimos. Isso, Montaigne o diz muitas vezes, não é dado a todo mun- procuro lutar corpo a corpo com esses velhos cam - . I '
. . . peoes, uto por assaltos
do. Ele pode, portanto, fazer valer-se por isso. Encontrar a citação mais ataques re?eudos e rapldos. Não me obstino, não faço senão tocá-los e nun'
ca vou ate onde desejaria ir. 6S -
apropriada ao pensamento que se quer exprimir é, de alguma maneira,
reconquistar a propriedade do texto que se escreve com a ajuda dos ou- A rel~ção com o autor citado torna-se luta e rivalidade; mesmo quan-
tros; é (diz Montaigne em uma primeira versão da passagem citada há do ~ontaJgne confessa alguma hesitação, e quando deprecia (como o faz
pouco) conservar a iniciativa da invenção, ao escolher, para a elocução, nas hnhas que acabamos de ler) sua " invenção" pessoal .
em · ·d . , a energ1a que
os auxílios mais eficazes: "Vejam, no que tomo de empréstimo, se soube prega e consl eravel. Reconh ece sua inferioridade e a ela - .
na A metáf d nao se resig-
escolher como realçar ou apoiar propriamente a invenção, que vem sem- . - ora o ~orpo a corpo (recusada) ou a da corrida estabelecem
pre de mim". u~.a relaçao.combativa que associa mais ou menos estreitamente os adver-
sanos-parceiros.
Mas não é apenas a escolha da citação que intervirá como marca de
apropriação. Nesse processo de reconquista da matéria estranha, mais um Em sen.tido inverso, Montaigne se atribui a iniciativa. Tudo ue es-
grau é alcançado quando o empréstimo não apenas é oportunamente es- ~reve_u provem. de seu próprio cabedal: os autores alegados só tiver~m por
colhido mas também recebe do tomador do empréstimo uma modifica- unçao consolidar um pensamento que já se forma ra de mane· . d
pendente e espontânea: ' Ira m e-
ção que o faz dizer algo diferente de seu contexto primeiro. A citação ma-
nipulada dá a Montaigne o sentimento de um domínio que compensa em
(a) Essa aptidão para reconhecer em mim o que quer que seja de verdadeiro
parte a "fraqueza" que tornou a citação necessária: de real . e essa predisposição para me tornar escravo de minhas crenças de ·o'
as a m1m mesmo po· ·d.. · • 1 -
(c) Entre os muitos empréstimos feitos, agrada-me poder mascarar alguns . : IS as ' t'Jas gerais que possuo nasceram comigo se e
que arranjo de acordo com o emprego que lhes dou. Mesmo correndo o ris- qu~t~sso exp:lm:r~me .dessa maneira. Expu-las simplesmente e despid,as de
co de ou1·ir dizerem que não lhes apreendi o sentido exato, empresto-lhes aro ICIOS, a pn ncJpl~, smceras e ousadas, mas sob uma forma algo indecisa·
uma forma particular e pessoal de modo que o plágio seja menos visível. 63 forralecr-~s, em seg~Jda, e as formulei apoiando-me na autoridade de outro;
e nos exemplos orados dos antigos com os quais estou de ac d
Esse procedimento supera a assimilação; consiste em variar o tema es- Confirmaram-me na decisão de mantê-las e tornaram-me m . or o.
tranho, dando-lhe uma forma panicular, acrescentando-lhe uma "maneira'' pieto o gozo e a posse delas. 66 OIS caro e com-

pessoal. Enquanto os outros "confessam seus furtos e os ostentam", Mon-


- A primazia é indiscutivelmente atribuída nessas li'nhas a· " d
taigne dedica-se a levar adiante seu propósito, impondo aos autores cita- çao" · ( · • • , pro u-
. nativa e mgenua); a autoridade dos antigos intervém apenas poste-
dos uma marca de sua própria autoridade e reservando-se, novamente, normente, para assegurar a Montaigne um "domíni·o" . f'
a prerrogativa da im·enção: "(c) Eu, na minha ingenuidade, penso que s "'d ·· , . mais 1rme sobre
uas J elas ~es:oals. Eles são, em conseqüência, os mediadores de uma
em inventar há muito mais mérito do que em simplesmente reproduzir" .64
melhor apropnaçao de si mesmo; o auxílio que deles recebeu consiste em
114
115
atribuirá importância variável. Assim, oferece a seu leitor sua própria ex-
melhor interpretar seu próprio pensamento, em melhor gozar de um bem
periência de leitor, mas sem querer fazer exibição de memória nem de sa-
proveniente de seu próprio espírito. Os outros, no caso, lhe terão permi-
ber. No momento mesmo em que poderia fazer admirar o que reteve do
tido "fortalecer" uma plenitude toda pessoal.
comércio com as "doutas Musas", declara-se ignorante, esquecido, se-
Mesma perspectiva no ensaio "Do desmentido" (ll. XVIII). A reda-
guro d esde então de revelar um traço autêntico de seu "ser" (ao passo
ção do livro, afirma ~lontaigne, precedeu o estudo dos autores; a obra
que os pedantes, ao exibir sua ciência, atraem talvez a consideração para
não deve sua "forma" senão a ele próprio. O empréstimo, o estudo pro-
o seu nome - esse sopro vão - mas se escondem inteiramente atrás dos
porcionam, por certo, uma assistência, um reforço, mas o pensamento
despojos com que se enfeitam).
estava já todo elaborado, o trabalho essencial estava já realizado:
Tendo aspirado à independência da expressão, tendo precisado re-
(c) Não estudei, absolutamente, com o intuito de escre\·er uma obra, mas conhecer sua dependência, l\lontaigne chega a fazê-Ias coexistir e a colocá-
trabalhei um pouco enquanto a fazia, se é que se pode dizer "trabalhar" las uma e outra a serviço da auto-referência. A independência contraria-
apenas folheand o ora um ora outro livro do começo ao fim ou vice-versa , da, a dependência superada servem o eu , apesar da inev itável interposi-
e não com o desejo de ter uma opinião mas com a intenção de reforçar a ção dos outros e da palavra dos outros. Correspondendo à exigência do
67
sua própria. público letrado, que tem o gosto dos ornamentos acrescentados, é preci-
O empréstimo é limitado, então, a um papel ornamental, acrescen- so semear citações para os outros; e é preciso também escrever por meio
tado . É um acréscimo facultativo. Pouco importa, afinal, a proporção dos outros, quando o texto dos outros (dos antigos) diz melhor do que
do "meu" e do " estranho". Se, como Montaigne faz "alguém" dizer, Montaigne poderia dizer o que ele próprio pensou. Mas o recurso aos textos
os Ensaios não são mais que um "ramilhete de flores estranhas", ao me- imperecíveis equivale ao esquecimento de si, enquanto a palavra imper-
nos ele terá fornecido "o cordão para amarrá-las" ,68 e terá feito de ma- feita, que diz o ser perecível e seu "alcance" tão limitado, lhe restitui uma
neira que esses "ornatos de empréstimo" o acompanhem sem o cobrir presença e, por isso, uma possibilidade de duração. Assim, estabelece-se
nem esconder. Ne~se jogo, o livro , ao longo das edições sucessivas, pode- um compromisso entre o pensamento que se inventa, que impõe seu "an-
dar", e as palavras que a pena retoma de outras "fontes". Quando ~lon­
rá carregar-se de elementos suplementares (sobre os quais Montaigne evi-
taigne, por exemplo, fala de seus próprios empréstimos, as metáforas que
ta precisar se são de proveniência estranha ou de sua própria lavra):
utiliza são elas mesmas, em grande parte, de proveniência tradicional, mas
(c) Meu livro é sempre o mesmo, só que acrescento alguma coisa a mais* o uso que delas faz, a maneira pela qual as acumula e mistura, lhe confe-
em cada nova edição, a fim de que o comprador não saia lesado. Esse acrés- re o comando sobre esse material regulado por um código preexistente.
cimo não modifica a primeira edição, apenas valoriza as seguintes, o que Metáforas agrárias (semear, transplantar); metáforas artísticas (esmaltar,
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é em verdade uma sutileza algo pretensiosa de minha parte. marchetar, ornar); metáforas digestivas· (assimilar, "embeber", transfor-
O acréscimo da exclusiva invenção de Montaigne (quando ele insere mar em mel etc.); metáforas econômicas (emprestar, pilhar, comprar);
um "conto"), a citação ou o empréstimo estranhos são igualmente in- metáforas de vestuário (opondo ao corpo a toga, a armadura, o traje de
cluídos na metáfora do "emblema supranumerário", imediatamente reab- gala); metáforas visuais da ostentação (colocar "em exposição", "em exi-
sorvida em uma totalidade indefinidamente acolhedora. O texto, quer pro- bição") ; metáforas conjugais ("alojar", contrariamente a "desposar" a
lifere por seus "ornamentos", quer por seus elementos "pessoais", é sem- ciência) ... A lista poderia ainda se alongar. O essencial, contudo, é a ma-
pre um único e mesmo organismo em crescimento, a despeito de "peque- neira pela qual Montaigne utiliza esses diferentes registros metafóricos
para confessar suas dívidas ou para delas se declarar liberto; é a maneira
nas inversões cronológicas".
Ornamento de um discurso autônomo ou socorro de uma aptidão pela qual consegue dirigir a seu modo o concerto das vozes estranhas, fazê-
demasiado fraca para exprimir a "imaginação" pessoal, o empréstimo, las ressoar segundo ele mesmo, ao contrário da prática geral dos autores
seja como for, se compõe com a palavra independente. Esta se lhe torna eruditos.
tributária, ora por a ele misturar-se até comprometer sua independência, Ademais, a oposição antitética cio meu e do estranho adquire singu-
ora por dele desprender-se vigorosamente. Montaigne aí encontra a opor- lar importância, se se recorda o que Montaígne conta de seu próprio apren-
dizado lingüístico. O latim foi para ele língua "materna". 70 Seu pai, es-
tunidade de medir seus recursos próprios, aos quais, segundo o humor,
tando convencido de que a ignorância das línguas antigas era "o único
(*)No original, "algum emblema supranumerário" (grifo de Starobinski). (N. T.)
motivo por que não podíamos alcançar a grandeza de alma e os conheci-

117
116
. " "antes que se [lhe] destravasse a lín- (a) Meu gosto pelos livros nasceu do prazer que tive à leitura das fábulas
mentos dos anttgos ' confiara-o, latim" 71 Curiosa lín- das Metamorfoses de Ovídio. Aos sete ou oito anos mais ou menos, fugia
gua"' a três preceptor~s. que "só _[Ih~] falãa;~~:ivament~ pela boca da para as ler, desprezando quaisquer outros divertimentos; era o livro mais
fácil que eu conhecia e o mais adequado pelo assunto à minha idade. 75
gua "materna" ' esse -~~toma ensma o. ~·do por "dois outros menos sá-
mãe, mas por um lattmsta alemão a~SlS 1 ode acreditar em Montaig- O primeiro livro, Ovídio, em sua facilidade brincalhona e na mobili-
b .tos" executantes da vontade do pru. Se se P . ça-o or"tgi- dade de sua substância, permite redescobrir o uso "passivo" de uma lin-
, ai f t u para ele a apropna
ne, o latim foi o sistema no qu se ~ e ~o . - na ordem simbóli- guagem cuja prática "ativa" foi perdida. Um dos componentes do pra-
nal do instrumento lingüístico, a pn~etr~ onentaçaoem latim· o mundo zer se deve, sem dúvida, ao fato de que o "fácil" latim de Ovídio repatria
ca. Atos e objetos ~eceberamliseus pnme~~oJ.: ~~t::za estrang~ira a criart- o jovem leitor ao período primitivo em que tomou posse da linguagem
ganhou sentido mediante uma nguagem, e de suas formas. Ao longo da narrativa ovidiana, Montaigne é recondu-
ça não percebia de modo algum: . zido ao que designa "língua minha", mas da qual não ignora que, se ela
ai nem minha mãe, nem cnados lhe foi "materna", a devia à solicitude de seu pai e que ela substituiu a
(... ](a) Era regra inviolável _que ne~s:e~ ~e~ão as palaHas latinas que ha- língua vulgar de que teria feito a aprendizagem sob a guarda exclusiva
ou criadas d~ssessem em mm~:r~~ co~igo. Excelente foi o resultado. Meu de sua mãe.
vi~ ap_re:dtd~ p~~~~r~;: conhecimento suficiente dessa língua para_um De resto, na escolha dos livros que exerceram seu fascínio fictício,
pru e mm . a m~e mo aconteceu com as outras pessoas que hda- uma outra substituição se efetuou. Essa substituição é exatamente homó-
caso de n:cesstdade, e o mes · Jatinizamos que a coisa se estendeu às al-
vam comtgo. Em suma, tan~o nos . - onservam pelo uso vários nomes loga: a aventura mitológica, antiga e pagã, suplanta o romanesco autóc-
deias circunvizinhas onde amda ho~ se cto a mim 'aos seis ~nos não com- tone (Huon de Bordeaux!) graças ao qual um jovem francês se teria dota-
latino~_de ary~c;:a~c~e;~:moe~~:~~to ~:~erra do q~e 0 árabe. Mas, sem mé-
do de uma memória legendária menos estranha à sua paisagem ou à sua
religião; o humanismo latino obliterou os restos da legenda cavalheires-
preen ta m_ats amática sem regras, sem chicote nem lágrimas, apren-
todo, sem li~ros , _sem gr , o do meu professor, porquanto nenhuma ca. (É verdade que a educação, nos colégios, tendia ao mesmo resultado .)
dera um latim tao puro qua~to
_ r a podta perturbar. Se por exemplo ·
queriam dar-me (... ] (a) Quanto aos Lançarotes do Lago, (b) aos Amadis, (a) aos Huões de
noçao de outra mgu 0 . . . h ue o dar em mau latim, a fim de Bordéus, e outras obras do mesmo gênero, com que divertem as crianças,
Um tema , à moda dos colegJOs, 72
tm am q
não as conhecia sequer pelos títulos e não lhes conheço ainda o conteúdo,
que o vertesse para o bom. .
tão forte foi a minha obediência às proibições que me eram impostas .76
E ssas linhas famosas (e discutidas) nos ensi~am que a_ h~gdua~;~;~:~ Nada aí que, por si, saiYo a facilidade e a precocidade da experiên-
" entos" dos Ensaros teve pnon
aparec~rã~ ~s fu~ur~s. ornam ual a língua do Montaigne criança se "des- cia, constitua exceção ao alvo geral da educação humanista , que tem con-
periêncta \"IVtda: e 0 tdJOma no q . f' . 0 que Jhe permitiU sua aquisição fiança na fábula antiga e lhe atribui uma eficácia formadora superior.
' " - mediante um custoso aru tct . . f
tra' ou . " ominar essa língua era satisfazer o deseJO do pat e or- Em Montaigne, a substituição é mais completa, mais bem-sucedida, e su a
" sem metodo . D . .· de de um investimento que sacrificara a or- irregularidade consiste apenas em antecipa r os dispositivos gradu ados do

~~~rs~~~~~~a~~1~~~~~~\~~d~ ~a classe noe~:~::~~~:o~:~~~e~::~~ i~:~ programa escolar. Essas fruições atípicas são já "furt os" ; mas, como di -
zem respeito a textos cuja descoberta mais tardia não é proibida, a solu-
dagó_gica e m~ral. l\!~~e~ ~s:~1~~:~g:~ruma nature::a rebelde, caracte_ri- ção para a qual contribui um preceptor cúmplice consiste em encontrar
rruçao se opos .<n.o . . I Se o sucesso não correspondeu m- um meio-termo , um "misto", em que a proibição (aparente) e a permis-
zada por uma mema _quase m~te~~~taigne o imputa em primeiro lugar são (efetiva) entram em composição. O prazer a umentará (como mais tar-
teiramente à expectauva do pat, I ' t"co":i3 ele acusa , em seguida, de, muitas vezes, conforme confessa o próprio Montaigne, o do amor)
a seu próprio natural '_'ler?o, mo e e_ apar:vad~ e sob a pressão do uso pela interposição de um simulacro de obstáculo, facilmente superado:
a interrupção dessa pnmetra educa~a?. por volta dos seis anos':, de enviá-
d · ão tomada por seu pru, P . (a) Mas felizmente encontrei um homem inteligente e cônscio de seu dever
comum, a ects R "damente o latim deixou , para a cnança, de preceptor que soube tirar partido desses excessos e de outros semelhan-
dt
lo ao C~légiof ~a~):~~;ee~ la~i~ do quai perdi o hábito por falta ~e exer- tes. De modo que de\·orei de fio a pavio a Eneida , e Terêncio e Plauto, e
de ser hngua a a . I " 74 M~s de\'ia permanecer língua de lenura, e as comédias italianas, sempre levado pelo que essas obras têm de agradável.
cicio, abastardou-se ogod . . ·o a prioridade perdida na expressão oral: Se tivesse tido a mania de mo impedir, creio que só houvera trazido do colé-
mesmo conservar, nesse omtnt '
Jl9
JI8
gio ódio aos livros, como acontece com quase toda a nossa nobreza. Proce- l~s para este li vro no qual não se tomam por certo mais minhas do que
deu com inteligência, fingindo nada ver, aguçando-me a curiosidade com la onde se achavam".81
deixar-me ler tão-somente às escondidas tais livros e obrigando-me a traba-
~a apropriação à denegação do material estranho - da prioridade
lhar, quanto ao resto, sem exagerada autoridade.;;
do laum (aprendido "sem método" mas ao sabor de um artifício perfei-
O prazer está salvo e conserva o gosto do fruto proibido: a compara- to) a~ s~u retr~cesso a situação secundária, Montaigne só chega à inde-
ção com satisfações mais materiais (libertinagem, fome) atesta o caráter pendencta deseJada à custa do reconhecimen to de uma dependência for-
libidinoso dos reencontros com a "língua materna" , desenvolvida e utili- çada, d~ uma escuta do idioma antigo que presidiu ao " d estravamento"
zada pela fabulação épica ou cômica. O objeto do desejo coincide assim, de sua_l mgua, de uma influência de Sêneca e de Plutarco d a qual não po-
parcialmente, com uma aptidão pessoal perdida. Aptidão que encontra, d_e facilmente se "desfazer ". Ele só se tornou livre ao aceitar não 0 ter
entretanto, uma oportunidade de ressurreição lúdica quando o lat im se std o sempre, de o ser apenas imperfeitamente ai nda. É bem isso ser se-
oferece no processo teatral de fazer-se persona. Montaigne faz questão nhor de sua pala\Ta? Com certeza, é o que disso ma is se aproxima.
de nos d izer que foi excelente nos papéis que teve de representar nos exer-
cícios cênicos de seu colégio:
ECO/'v'O.H!A DA RELAÇÃO
(b) Direi ainda desta qualidade que tinha em criança: uma segurança na ex-
pressão, uma voz e um gesto flexiveis que me permitiam desempenhar qual-
Na "relação com outrem". três momentos apareceram-nos sucessi-
quer papel? Antes da idade normal ("mal entrava eu então no ano doze"),
vamente; vamos nomeá-los , de maneira esquemática, retomando os ter-
representei as primeiras personagens das tragédias de Buchanan, de Gueren-
mos a que j~ r~corremos muitas vezes: I) a dependência impensada; 2)
te e de Muret que dignamente se montaram no Colégio de Guyenne. 78
a recusa autarctca; 3) a relação dominada. Não vamos crer que esses mo-
Pode-se discernir aqui não apenas a aptidão para representar os he- m entos ~arquem necessariamente, na vida de Montaigne, fases d istin·
róis fictícios, a confissão de um evidente prazer da simulação e da másca- tas. Des1g~am um~ sucessão lógica e não uma ordem cro nológica. A um
ra, mas também, enquanto se torna outro, a felicidade de se redescobrir exame ma1s aproxtmado, veríamos essa "dialética" governar muitos as-
em seu elemento: abandonar-se e reencontrar-se simultaneamente. Repre- pectos .da experiência de Montaigne. Baste aqui sublinhar uma notável
sentar uma personagem e aí redescobrir seu latim. Com base nisso, analogta: quando se trata de seu dinheiro, .\lontaigne vive sua relação com
compreende-se que, mais tarde, o retiro no "seio das doutas Musas" (con- outrem da mesm.~ ~aneir_a que quando se trata de sua própria imagem.
sagrado por uma inscrição latina) e a busca de si não tenham podido cons- Na ordem pecumana, o ntmo ternário dos três momentos é indicado de
tituir senão uma e mesma coisa. Compreende-se também que, ao citar n:a~eira ain_da m~is nítida e mais 'explícita. Aqui, o próprio Montaigne
os latinos na língua deles, Montaigne tenha tido certamente a consciência dtst_mgue tres peno dos de sua vida - d ivisão, a meu ver , mais rica de
de recorrer a um material estranho, mas sem por isso abandonar um do- ensmam~nt? d~ que aquela que os comentadores tentaram estabelecer,
mínio, uma zona de experiência íntimos que podia considerar seus- sa- de r:nanetra mtetramente hipotética, entre as "fases" estóica, cética e epi-
bendo claramente quanto essa apropriação devia à arbitrariedade e à be- cunsta do pensamento de Montaigne:
nevolência paternas. É na própria substância da linguagem que se enraí- (b) Minha _vida ao sair da infãncia apresentou três fases. A primeira durou
za a convicção de Montaigne quando declara no mesmo ensaio: "E se c:rc~ de vmte anos, durante os quais vi\i de recursos fortuitos , na depen-
cito os outros é para melhor dizer de mim" . 79 Ora, quase ao mesmo tem- dencta de outros, sem renda própria, sem uma situação definida nem previ-
po, é-lhe permitido retomar uma posição de exterioridade, em que recon- são orçamentária. 82
quista sua independência em relação às obras pelas quais foi "levado";
De início tudo vem de fora, para esse jovem fidalgo cuja família não
pode formular a mais viva denegação: "Não me enfronhei em nenhum carece de recursos; é graças a outrem -em primeiro lugar seu pai _ que
livro sólido senão nos de Plutarco e Sêneca, em cuja obra, a exemplo das ele pode prover à sua subsistência ou às suas fantasias . Nesse período
Danaides, busco sem cessar aquilo que logo entrego alhures. Em meus o ~emor da fal~a p~r certo jamais deveu assaltá-lo. Mas não era seu pró~
escritos alguma coisa fica; em mim quase nada".80 Ou ainda: "(c) Vou pno senhor; nao vmham apenas dele ·mesmo os meios que lhe eram ne-
filando aqui e além, deste e daquele livro, as sentenças que me agradam, ce~;ários . ~erman.~cia d~pendente de uma vontade estranha, e seu "gas-
não para armazená-las, que não possuo armazém, mas a flm de transportá- to , nos dtz ele, provmha dos acasos felizes da sorte". 83 ·

120 121
O segundo momento é o da dominação autárcica. Tornando-se o le- taigne representa a segurança, a possibilidade do ócio, o retiro confortá-
gítimo possuidor de sua fortuna, Montaigne entende exercer sobre ela a vel entre os livros, a independência da reflexão e toda a obra que pode
mais rigorosa vigilância. Desconfiando dos outros, exerce controle assí- edificar-se com base na autonomia protegida. Ora, a salvaguarda do pre-
duo sobre seus bens, para os conservar e aumentar. Nesse domínio, não cioso cofre condena o pensamento a espreitar ansiosamente o espaço ex-
deixa nenhum olhar estranho cometer intrusão. Ele se possui plenamen- terior: ele deve empenhar-se em frustrar os embustes, em prevenir os da-
te, importa aqui citar mais longamente, pois tudo é revelador: nos. Em vez de escapar aos outros, o espírito é vítima de sua malevolên-
cia antecipada, permanece constantemente em alerta diante do que pode-
(f) A segunda fase de minha existência ocorreu quando eu tinha dinheiro. ria tramar-se no exterior. Mais vale renunciar a carregar sozinho seme-
Tomando gosto nisso, não demorei em criar reservas, importantes para a lhante fardo e abdicar de tão custosa dominação, cujos efeitos são o com-
minha condição, estimando que somente o que sobreexcede a despesa co- pleto oposto da liberdade esperada. Montaigne, a partir da viagem à Itá-
mum constitui um haver e que não podemos ter por seguro um bem apenas
lia, aceita a "despesa"; está pronto a confiar-se a outrem, pronto tam-
augurado, por mais justas que sejam as esperanças, pois, dizia a mim mes-
bém a confiar-se ao capricho do instante. Pois doravante é bastante forte
mo, que me aconteceria se me surpreendesse tal ou qual acidente? O resulta-
do de pensamento tão fútil e doentio foi que me esforcei, com a criação des- para não se deixar entravar. Reconheceu que a preocupação solitária é
sa reserva supérflua, por me garantir contra qualquer eventualidade desa- mais escravizadora que a consciência avisada; esta, resignando-se aos ris-
gradável. E, aos que observaram serem essas eventualidades demasiado nu- cos inevitáveis, provará tanto mais da plenitude do instante presente e da
merosas para que me precavesse cqntra elas, eu respondia que, se não me relação momentânea, sem lhes pedir mais do que podem dar. Assim, Mon-
podia resguardar de todas, podia atentar para algumas e em particular para taigne pode fazer o elogio de uma independência que chega ao desapos-
as mais prováveis. Isso não se verificava sem me causar apreensões. (c) samento; encontrou a fórmula de uma autonomia comunicativa, de um
Mantinha-as secretas, e eu, que falo tão livremente de tudo que me diz res- domínio de si que inclui a relação com outrem, senão mesmo o aban-
peito, não falava a verdade quanto ao dinheiro que possuía. Agia como muitos dono:
outros, os ricos que se dizem pobres e os pobres que afirmam ser ricos, dis-
pensando a consciência de um testemunho sincero, o que constitui ridícula (b) E desse modo cheguei a um terceira fase, certamente muito mais agradá-
e vergonhosa prudência. (j) Se viajava, parecia-me sempre não estar su fi- vel e normal, penso eu , deixando que corram despesas e renda, sobreexce-
cientemente provido de dinheiro e quanto mais levava comigo tanto mais dendo-se mutuamente ao acaso, mas sem diferenças sensíveis. Vivo assim
preocupado me tornava, já por causa da insegurança das estradas, já por- ao sabor do momento, contentando-me com atender às necessidades do pre-
que não depositava confiança na fidelidade da criadagem encarregada das sente e às despesas pre,·istas. Quanto ao impre,·isto, não bastariam todas as
bagagens. Se deixava meu cofre em casa, quanta suspeita e inquietação, tan- previsões do mundo (... ]
(b) Se junto ainda, não o faço em vista de despesa futura, nem para com-
to piores quanto não podia confessar-me a ninguém e tinha o espírito cons-
prar terras, (c) de que não preciso, (b) mas para me divertir (... ] (c) E muito
tantemente voltado para esse lado.~
lou,·o o sábio partido que tomou um velho prelado meu conhecido, o qual
Acumulação, concentração, ,·igilãncia: Montaigne não fala diferen- entrega muito simplesmente sua bolsa e suas rendas e o cuidado de sua exis-
temente (no primeiro período dos Ensaios) quando com·ida o sábio a reunir tência ora a um ora a outro servidor. Desse modo viveu longos anos tão ig·
suas forças para as "retesar" contra as usurpações exteriores e contra o norante de seus negócios domésticos quanto um estranho. A confi ança na
temor da mort e. A preocupação parcimoniosa (não chegamos a falar de bondade alheia é um testemunho nada desprezível da própria bondade, e Deus
a protege. 8 ~
avareza) é paralela à tentação de não depender senão de si e de nada de-
ver senão a si; aí vemos edificarem-se as mesmas defesas, constatamos Montaigne imagina uma autonomia superior, que faz justiça aos ou-
o mesmo recurso ao segredo ou, até, à máscara. Mas descobre-se tam- tros, porque o interesse ,·erdadeiro do indivíduo não é zelar avidamente
bém que a recusa da dependência exterior provoca, paradoxalmente, um por suas vantagens particulares, mas "[se] divertir" . Ele aceita uma des-
retorno ofensivo da exterioridade. A premeditação da ruína, como a da pesa em que se consome uma parte relativa da "provisão" ; imprevidên-
morte, lança a consciência fora do presente estável em que almejaria cia calculada, que se transforma em intensidade sensível, em felicidade
estabelecer-se. Desejosa de dominar o tempo, é dominada pelo pensamento de existir. Doravante, a consciência libertada, voltando ao imediato e à
do tempo por ser dominado. Preocupada em escapar às empresas hostis , heteronomia de que se eximira, sabe que uma relação eqüitativa deve rei-
ela se esforça por se manter a distãncia dos outros, mas a ruminação des- nar entre o fora e o dentro, entre "mim" e "outrem", entre a integrida-
confiada imagina continuamente a agressão que teme. O cofre de Mon- de de uma existência única e o consentimento no risco material.

122 123
A "REVOLTA DO ESTÔ.HAGO" E OS "BRASEIROS" de pensar que a atenção inicial de Montaigne a seu mal-estar corporal pre-
parou e tornou possível a estreita simpatia pelos sofrimentos suportados
Nas páginas mais acabadas dos Ensaios, a abertura para o mundo por outros homens em um mundo longínquo. Falando, no começo do en-
vai de par com a atenção em si mesmo. Contrariamente a uma opinião saio, dos " movimentos bruscos" que são tão desagradáveis, ele nos diz
preguiçosa, o esquecimento de si não é a condição indispensável da com- que tem "por hábito reagir contra os [seus] defeitos e procurar submetê-
paixão. Sobre esse ponto, o singular capítulo "Dos coches" 86 é particu- los à [sua] vontade" . 87 Sua "condição corporal" infundira-lhe uma ex-
larmente ilustrativo: sua composição deu margem a discussão, mas seu periência do mal-estar, da dor, da resistência difícil. Sofrer de cálculos
percurso - de um tema relativo ao próprio corpo a um tema relativo à nos rin s é familiarizar-se com o suplício. Como Montaig ne ficaria indi fe-
tortura sofrida pelos outros- é de uma evidência exemplar. Montaigne rente aos torment os dos príncipes índios que os espanhóis "torturam"?
começa por uma confidência referente à sua sensibilidade ao enjôo dos
[ .. . ) {b) Este [fidalgo). enfiado em um braseiro , acabou por deitar um olhar
transportes; nele isso não é, assegura-nos, um efeito do medo, a despeito
dc:sespe rado ao monarca como para dizer- lhe que não podia mais resistir à
da idéia sustentada pelos médicos, que atribuem o enjôo ao temor. O eu dor. O rei, que se achava em situação id ~ncica , respondeu-lhe com voz firme:
- a instância subjetiva livre- afirma-se, assim, duplamente: primeiro, e rude:: " Estarei porventura em uma banhc:ira? E mais à vontade do que tu?".
pelo exercício do julgamento crítico em relação a uma teoria que a expe- Ouvindo tais palavras, o fidalgo rendc:u seu último suspiro. s~
riência pessoal contradiz; depois, pela confidência sobre a experiência ce-
nestésica da náusea e da " revol ta do estômago". (Esse gênero de confis- A ética humanista de Montaigne se manifesta aqui sem nem sequer
são, referente à sensação corporal, é excepcional na prosa da época.) Em ter de formular seus princípios: a anedota cruel comporta um valor de-
seguida, o interesse pela Antigüidade e pelas civilizações índias da Amé- monst rativo . O exemplo não é apenas destacado como uma prova de fir -
rica conduz o pensamento, guiado por leituras exatamente localizáveis, meza de alma. Convida a imaginar o sofrimento supqrtado. E, se o co-
para os lugares mais afastados no tempo e no espaço. Como essa expan- meço do ensaio não nos houvesse mostrado, em Montaigne, tanta aten-
são se efetua? O impulso é dado pelo pensamento crítico: a crítica do pen- ção ao mal-estar corporal e tanta resolução em combatê-lo, a relação nos
samento médico, de início limitada a um único objeto, generaliza-se e se teria aparecido menos nitidamente entre a experiência pessoal do tormento
dirige para ignorâncias mais graves. O afastamento temporal e espacial físico e a intuição escandalizada do suplício sofrido pelos índios. Po-
autoriza o julgamento a alçar um vôo mais vasto. Para começar, a am- der-se-ia até chegar a dizer - diante do elogio do esforço de resistência,
pliação do espetáculo oferece o pretexto de uma crítica intelectual: a so- que já não tem a mesma audiência em nossos dias -que a maneira pela
ma das coisas conhecidas é apenas uma parte ínfima daquilo que é, da- qual Montaigne recusa deixar-se dominar pela náusea e seu desejo de "do-
qui lo que foi e que ignoramos. Montaigne aí encontra em seguida a opor- mar" o desfalecimento interno levam muito diretamente à compreensão
tunidade de uma crítica cultural: a "pompa e magnificência" dos anti- da coragem do rei torturado e ao protesto contra os tratamentos inuma-
gos, especialmente nos jogos do circo, ultrapassava a nossa; e o fausto nos infligidos aos índios cativos. É o elo que liga o início do ensaio à sua
dos americanos, em muitos aspectos, nada tinha a invejar aos esplendo- conclusão. É preciso haver conferido o maior valor à posse de si para se
res da Antigüidade. Nesse plano, a vantagem é concedida aos outros, con- indignar diante da violência que tenta desapossar um ser humano de sua
tra nós. Mas a crítica não se detém aí: ao falar dos imperadores romanos, vontade. No caso, o ideal do domínio de si se desenvolve e se inverte em
incrimina, de maneira mais geral, a prodigalidade dos príncipes que to- imperativo do respeito pelo outro; é sua versão exteriorizada. O indivi-
rnam os recursos do povo para brilhar por suas liberalidades públicas; dualismo de Montaigne, se faz justiça ao apelo do recolhimento na sub-
ataca, sobretudo, a brutalidade dos conquistadores da América. É ape- jetividade pessoal, não se limita a isso: reivindica o mesmo direito para
nas então que a crítica adquire toda a sua envergadura ética e polüica. cada um, sem se desinteressar de maneira alguma (como foi acusado muitas
Desse modo, um engajamento inteiramente pessoal assinala-se com refe- vezes) das condições políticas e sociais capazes de garanti-lo. Por isso,
rência a uma realidade aparentemente situada nos antípodas da existên- o individualismo está estreitamente associado a um postulado universa-
cia pessoal. Esses acontecimentos, aprendidos por meio da relação e do lista; Montaigne, conhecendo de dentro, pela experiência da vida corpo-
testemunho que deles fornecem os livros, suscitam em Montaigne, leitor ral, a fraqueza e a precariedade da existência individual, é levado a apoiar
atento e vulnerável, uma resposta apaixonada: com isso ele estabelece, espontaneamente o partido dos fracos quando a violência, a injustiça, o
em troca, uma relação, de uma ordem inteiramente diferente, que não fanatismo combatem seu pensamento, seus costumes, sua própria vida,
se limita ao exercício de um julgamento distante e neutro. Não posso deixar para reduzir o escândalo e o desafio "dissidente" que toda individualida-

124 125
de representa aos olhos do poder tirânico. A ideologia de que esse.fidalgo nos voltaremos para outras ausências, escutaremos outras sereias e não
provinciano de origem burguesa é o expositor é menos a de uma • 'classe'' cessaremos ?e ac~edit_:u-nos pobres. Penúria inteiramente imaginária, pela
determinada (qual? nobreza provincial? burguesia?) do que a da mobili- qual nossa Imagmaçao doente é a primeira responsável. Basta resistir à
dade social de que sua família foi o testemunho exemplar. O "mobilis- se~ução do irreal, e reencontraríamos nossos verdadeiros bens, inaliená-
mo" de Montaigne não é apenas a visão de um mundo dominado por veis, sempre ao nosso alcance. Mas Montaigne, em um paradoxo que ul-
um fluxo incessante; é também a intuição da mudança inevitável - quando trapass~ os.conselhos do bom senso, está pronto a fazer justiça à loucura
gira a roda da fortuna - que põe os pobres no lugar dos ricos, os venci- do deseJo; consente em confessar sua privação quanto ao que lhe falta.
dos no lugar dos vencedores; toda experiência humana, a mais elevada Que ~tem as sereias! 90 Que cintilem as tentações imaginárias! Apraz-
como a mais baixa, é virtualmente minha; e mais: com base nessa visão lhe senttr sua separação e sua indigência, mas sem querer preencher a fal-
do mundo e nessa intuição, pode-se perceber a similitude profunda que ta ~la posse. O espaç_o se abre e se esvazia porque o desejo aí manifesta
assegura a " ligação universal" entre indivíduos de todas as nações e de seu Impulso; e Montatgne mantém o desejo vivo, impondo-lhe uma sus-
todas as condições; um universo de vicissitudes, habitado pela consciên- pensão indefinida: a saciedade não é seu objetivo. Já existe felicidade em
cia, pode tornar-se um universo de reciprocidade. A "ligação universal" conhecer o desejo como desejo - a "busca". Assim, 0 intervalo criado
só pode ser protegida pela salvaguarda de cada um de seus participantes: pelo apelo ~o prazer ausente se torna o espaço transparente em que po-
o eu não se confere tão altos privilégios, em Montaigne, senão para fazer de_m at~ar livremente as potências da inteligência e do julgamento. o de-
entender que nenhum ser humano deve ser preterido. Montaigne evocou SeJO exige a presença mas procura-a apenas nos objetos proibidos ou "es-
com demasiada freqüência, em seu ·próprio caso, o movimento da queda tranhos"; substituindo a obra do desejo, a consciência reflexiva mantém
(queda do espírito por demais ambicioso: queda de cavalo, queda infligi- a distância e dela tira proveito para sua felicidade própria. Nada possuir
da pela velhice) para que não descubramos a simpatia dissimulada no re- P:Ua ela, é tudo poder considerar com igual paixão e com igual despren~
lato aparentemente impassível da queda do "último rei do Peru". O en- d1mento.
saio termina assim: "Para voltar a nossos coches [... ) No dia em que o . Tendo provocado o sentimento da existência desprovida mas tendo
aprisionaram, o rei do Peru fazia-se assim transportar, sobre um assento 1guah~ente renunciado à sua saciedade, o desejo oferece à c~nsciência 0
de ouro, durante o combate. Queriam-no vivo os espanhóis, mas, à pro- espet~:ul~ de um mundo aberto em que nada poderia ser indiferente. A
porção que matavam os carregadores, outros surgiam para substituir os consc1encJa tentada foge de si mesma na direção de todas as coisas mas
mortos, e o soberano só foi detido afinal quando um cavaleiro o derru- ta~bém tem o poder de se recobrar para formular sobre todas as ~oisas
bou por terra". o Julgamento pelo qual afirma sua autonomia. A distância oriunda do
desejo, projeção do desejo para o longínq uo Uamais suficientemente lon-
gínquo), adquire então um sentido novo e se torna o afastamento eneen-
O DESEJO E O MUNDO ABERTO dra?? pelo poder de desprendimento e de recolhimento que recond~z 0
espm~~ às s_uas posições intimas Uamais su ficientemente íntimas); pois
Plenitude e falta estão profundamente ligadas por sua oposição. ~1on­ o. e~pmto nao conhece os objetos senão na medi da em qu e se descobre
taigne terá precisado prender-se para se saber e se querer diferente; terá d1stmto deles, recuando em sua diferença essencial para pro,·ar das for-
precisado afastar-se pa ra compreender o sentido da intimidade. Essa des- mas e dos. sabores est.ranhos. O espaço ,.i,·ido é ent ão definido por uma
coberta é aquela mesma da lei do desejo: uma sabedoria imemorial acusa dupla ,.ert1gem. O ma1s longe possível se encont ra o Ser inacessível, o Bem
o homem de desejar o que não está em seu poder- a mulher do \'izinho, supremamente desejável (o Deus que a Apologia de Raimond Sebond nos
a saúde perdida, os prazeres dos grandes. ''As mulheres com as quais não fez entender que não é nosso confrade); o mais perto possível se encontra
priYamos parecem-nos sempre desejáveis.' ' 89 A falta dirige nosso olhar o_ ~undo sensível; e a ausência de Deus vai tornar-se o correlativo neces-
ao longe, e, reciprocamente, o distante nos faz experimentar nossa indi- sano da presença para si, precária e preciosa. A consciência descobre-se
gência. A glória ou a ciência são desejáveis porque ausentes, ou ausentes tão s~~ar~da de. Deus que não lhe resta mais que aceitar a plenitude da
porque desejadas. Montaigne, tanto quanto qualquer outro, cónheceu a exper~enc1a sens1vel e da vida "mundana", aí reconhecendo a própria ex-
sedução do que nos atrai enquanto se furta; repreendeu-se, repetindo as pressao da vontade de Deus, a qual relega o homem a não ser senão 0
91
lições clássicas da moral: o inacessível, que nos parece precioso e que nos que é: plenitude sem garantia metafísica, mas sustentada pela verdade
faz deplorar nossa pobreza, nos decepcionará tão logo possuído; então da separação.

126 127
A intimidade, a plenitude feli z, que são a recompensa da sabedoria, esse q.u~s tionamento de todas as coisas . Aí está sua riqueza, que tem por
só são obtidas se consentimos na distância e na fraqueza de nossa apreen- corolano um extraordinário enriquecimento da idéia de mundo. A Apo-
são . A separação é o caminho secreto para a presença , ainda que o apelo logw de Ra1mond Sebond seria um texto de pouco interesse se se limitas-
das distâncias jamais deixe de distrair-nos: transportamo-nos em espírito se a desqual iiicar a ciência e a denunciar a fraqueza da razão· mas ao
para onde não estamos, para onde não deveríamos estar, e não ocupa- reduzir o h.omem a não ser senão o pouco que é, ao contê-lo n~s li~ites
mos senão levemente nosso presente. Isso se chama "pisar com cuidado" de seu do~ínio e~gu?, ~ texto de Montaigne não lhe opõe apenas a in-
no mundo .92 E é bom que seja assim . Desse modo, pensar em outra coi- compreens!ve! on1potenc1a de Deus; opõe-lhe igualmente a infinita rique-
sa é alternadamente, ou simultaneamente, uma impaciência de abando- za do mundo e da natureza. A partir daí, enquanto o homem é recondu-
nar a si mesmo e a própria condição de um retorno a si; aqui é o lugar zido à sua consciência nua, o universo finito da cosmologia tradicional
de nosso aprisionamento e se torna a área de nossa expansão . A distância v~ seus limi.tes dissolverem-se e torna-se um universo ilimitado, que seria
é ambígua , e o imediato não o é menos. Alieno-me ao desejar mas não v a o querer lO\ entariar: o espaço assim aberto, o pulular das formas vivas
tenho identidade senão co m a condição de ter aceito essa al ienação. Mi- e das qualid ades sensíveis , a fecundidade da natureza se ofe recem e se
nha tarefa é, a uma só \'eZ, de me separar e de me reun ir. Essa oscilação rec usam inesgotavelme nte ao nosso o lhar. Revelam-se como aquilo so bre
não termina, e i\lontaigne não deseja que tenha fim po r alguma reconci- o qual nenh uma revelação total jamais nos será comunicada. Diante do
liação final. Se há um assentimento a si em Montaigne, não é para fazer mundo, o homem sabe q ue é uma criatura finita em um infinito físico.
triunfar uma sabedoria conclusi va; é um consentimento na imperfeição. ~ saber que. pos~ui é nulo, mas o horizonte do possível que se estende
Estou sempre imperfeitamente aqui e imperfeitamente em outra parte. Se- diante dele e ma.Js vasto do que jamais foi. O que reconforta o homem
ria vão querer superar a imperfeição: ela entra na própria definição da não é ver-se incluído e compreendido nessa generosa natureza que ele não
vida: " Movimento essencialmente desregrado e imperfeito que procuro comp.r eende, assim como não é a esperança de que "se elevará [... } [ao]
orientar segundo minhas aspirações" . 93 se de1xar erguer e elevar-se unicamente pelos meios que lhe vêm do
95
A cumplicidade que \lontaigne requer de seus leitores chega a cons- céu" • mas é sentir que diante da imensidão do universo sua consciên-
tituir uma solidariedade fel i::., na consciência do comum despojamento. cia P~~s~i o recurso de uma liberdade frágil e, ao mesmo tempo, invencí-
Privados de todo saber e de todo papel privilegiado no universo, os ho- vel. So pode ver com seus olhos e apreender com seus próprios
mens são apenas consciências estreitamente limitadas mas capazes de . " 96 . Ih
me10s ; ass1m, restam- e tantos objetos para ver e apreender! Ao in-
encontrar-se, de "discutir"', de entreter-se. Ora, existe aí uma nova auto- fini to do uni\·erso corresponde, na consciência livre, um infinito de ini-
ridade, que deve fazer-nos renunciar de coração alegre a essas essências ciativa- a possibilidade jamais esgotada de uma retomada e de um "co-
e a essas causas cuja apreensão nos é vedada. Assim, o eu descobre sua nhecimento" de si, no caminho q~e se abre à palavra: Quem não vê que,
dimensão subjetiva e intersubjetiva, ao termo de um movimento de críti- enquanto houver papel e tinta, seguirei sem parar o caminho que ado-
ca que de início tendia a desacreditar a condição humana. Ser apenas uma tei?97 Essa caminhada infinita não é uma caminhada solitária: escrever
consciência, confinada no relativo e, por isso mesmo, na rede de suas re- é "falar.no papel", e para Montaigne, falar no papel toma por modelo,
lações, é redescobrir-se rico àe tudo que pode uma consciência, religada corno VImos, a palavra que dirige " ao primeiro indivíduo que en-
a outras consciências. O movimento pelo qual eu me limito me faz conce- contr[a] " .98 Ora, ele conhece, em sua fórmula mais aguda, a lei quere-
ber também o ilimitado que não sou, que me é proibido, mas cujo pensa- ge a comunicação verbal: "Metade da palavra pertence a quem fala e me-
mento terei de sustentar continuamente. tade a quem escuta" .99

[ ... ] (c) minha consciência contenta-se com seu próprio testemunho, não o
de uma consciência de anjo ou de animal, mas o de uma consciência huma-
NOTA SOBRE O AGRUPAMENTO TERNÁRIO
na. (b) A isso acrescentarei o que também repito sempre: que não se trata
aqui de simples palavrório e sim de um ato de humildade completa e absolu-
ta: o que digo provém de alguém que não sabe e procura [... ].94 Montaigne ama as tríades. Seu livro, que comporta de início duas
partes~ terá finalmente três, e três edições principaís.1oo A organização
O nada da ignorância e a inesgotável possibilidade da indagação es- ternária se anuncia no próprio título ~e certos capítulos: "Três boas mu-
tão ligados um ao outro no eu falo. Se a consciência não fosse desprovi- lheres" (11, XXXV), "Da companhia dos homens, das mulheres e dos li-
da e ignorante, não poderia ser essa infinita pergunta para si mesma, nem vros" (m. m); reencontramo-la, bem entendido, sob títulos que não a fa-

128 129
zem esperar; assim, "Dos homens preeminentes" (n. XXXVI), que dá se-
qüência a "Três boas mulheres", constitui-lhe o correspondente perfei-
tamente ajustado: trata de três personagens ilustres: Homero, Alexandre,
:~~:;: :eg~:~:t~:::~~a::;:~~o ~~to~ da Teologia natural; é a opor-
a essas duas ré . CJencJa, em todos os seus aspectos·
Epaminondas .. . A disposição triádica não serve apenas para agrupar exem- plicas se acrescentará, em terceiro lugar o " me' tod d d" '
cussão"•I06 M · • o e Js-
plos estáticos; vemo-la animar-se-no movimento da argumentação dialé- . . em que ontrugne desenvolve plenamente as conse ü ~ .
tica, segundo o modelo herdado da disputatio medieval: 1) quod sic, 2) do pmom~mo - até reencontrar os argumentos da fé que de . ,q. enclas
batera 101 El · · · . IniCIO com-
quod non, 3) sed contra. Foi detectada, entre outras, no capítulo "Dos . e cnstJamza, m extremis a dúvida ce't" . - é
" ord d d " ' Ica. nao ' afinal pela
nomes" lO! (I. XLVI); e, mais de uma vez ainda, o leitor atento a localiza- em o mun o ' mas por Deus, que o homem deve d . '...
rá sob a aparente desordem de um discurso fervilhante. Citemos apenas e guiar, "erguer e elevar [ )" 108 Sol - . etxar-se dmgJr
alguns exemplos:102 ver-se-á que o dispositivo ternário, muitas vezes, aju-
da Montaigne a determinar o lugar em que se classifica, a posição em que ~~~:;ó~~':::~:~~:~~~:::i:~:~~·:~J~~;:.:;~:~~:=ã~-~:~~,~~::~:
entre a atividade (" ele se elevará") e a d .l.d d ' :um meiO-termo
se encontra fixado, por oposição a dois contrários que recusa. · oct J a e pass1va em 1 -
Freqüentemente, depois de haver oposto duas atitudes que consti- uma mtervenção externa - a de Deus - que "dá - " re açao a
tuem dilema, Montaigne introduz uma terceira possibilidade, que recebe Assim, a te~ceira e última parte do imenso capítulo t:r:;noa :~ ~ornem.
sua adesão. É o procedimento utilizado no quadro da filosofia que cons- de um n:ovJmento composto: "Elevar-se-á sob a condição d~ ~ ~~agem
titui o objeto de uma longa exposição na Apologia de Raimond Sebond. se~s meJOs de ação, de renunciar a eles e de se deixar a an onar
A uma filosofia afirmativa e dogmática, que se crê dona do saber, Mon- umcamente pelos meios que lhe vêm do céu" _109 erguer e elevar-se
taigne opõe o não-saber professado pelos "acadêmicos"; mas a ignorân-
cia dos acadêmicos se enuncia ainda com demasiada segurança, e a ter-
ceira possibilidade sobrevém sob a forma do pirronismo e de sua suspen- No capítulo anterior (11. XI " Da crueldade") 1•" .
são interrogativa: · 1 ' • ''•0ntrugne se compra-
zera, Jgua mente, em classificar por ordem de . . d
d · mento e e beleza trê f
(a) Quem procura alguma coisa acaba por declarar ou que a encontrou, ou ~osà e vmud~:. a mais alta supõe o hábito virtuoso tão bem "incorp~r~~
que não a pôde descobrir, ou que continua a busca. Toda a filosofia tende o . naturez~ . que a al_ma_não experimenta em si mesma nenhum c -
a uma dessas três conclusões; seu objetivo é procurar a verdade, penetrá-la ~~~e~ ~r d~;_m~-~~~a razao e tão comple_t~ q~e nenhuma sedição inte~:r
e convencer-se dela . Os peripatéticos, os epicuristas, os estóicos e outros pen- . g se, a segunda, ao comrano, Implica o co fT .
sam tê-la encontrado; estabeleceram o rol dos nossos conhecimentos e os con- o acirramento da luta: é a virtude militante que " . n I! o mt erno e
sideram ind iscutíveis. Clitômaco, Carnéades e os acadêmicos em geral de- contra as paixões contrárias"; IJJ a última nã p~ecJsa [.: .) de !ut~s
sesperam de encontrar a verdade e julgam que nossas faculdades são incapa- para fazer o mal: o passa e uma JmpotencJa
zes de descobri-la; dai concluírem pela fraqueza e ignorância do homem. Sua
doutrina foi a que mais se expandiu e conta entre seus adeptos os mais no- (a) Or~ .~umpre rec?nh_ecer que é mais belo , em conseqüência de uma eleva-
bres espíritos. :~aef:l~ma r~s~luçao, Imped ir as tent ações de nascerem e edifi car a virtude
Pirro e os outros céticos [ ... ] acham que a \·erdade ainda está por se en- n o o VJ~JO em embrião do que se esfo rça r por detê-lo em sua ev -
.:ontrar. Acham que os que acreditam tê-la descoberto laboram em profun- e contra ele tn_unfar após se ter entreg ue às suas primeiras seduções ~uçao
do erro, e os que afirmam não serem as nossas forças capazes de alcançá-la, segunda maneJra de se conduzir é por sua vez mais meritó . . esta
são, embora em menor grau. demasiado temerários ainda em sua asser- nhor de um temperamento bondoso e fácil na d? que ser se-
.d . - • por natureza alheiO ao víc"
ção. lOJ a evassJdao. Nesta terceira e última hipótese o home lO e
pode permanecer inocente, mas não será \·in~oso Nã; f ao que ~e pare~e,
Os pirrônicos são aqueles que se deixam guiar e "atent[am] tão-so- tem energia suficiente para fazer o bem E . . . . . az o ma ' mas nao
mente para a ordem estabelecida neste mundo " . 104 É o partido que, pa- .
nha d a 1mper f . -
e1çao e da fraqueza
. Isso constlluJ uma condição viz'-
· 1- · - - . ·
ra Montaigne, tem a mais "incontestável utilidade" _los cer.ll2 • CUJOS Jml!es sao tao difíceis de estabele-
Ora, na arquitetura de conjunto da Apologia é fácil reconhecer uma
arquitetura tripartida, graduada segundo as etapas de um acirramento po- I ~~ontaigne, definindo seu próprio lugar, reconhece que não pode
lêmico. Primeiro, Montaigne responde às objeções da fé contra o méto- c assJ Jcar-se nem na primeira nem na segunda categoria: não é capaz da
do racional de Sebond; depois, critica aqueles que atacam a validade cien-
(' ) No original, o "último golpe de esgrima" (erifo d• St b" k.
- , aro ms "!). (:--1. T .)
130
131
"resolução" que atestaria a "divina" superioridade da alma sobre qual- o estudo. Invocar o nascimento é recorrer a uma terceira possibilidade,
quer emoção viciosa; não possui nem a altiva "facilidade" nem a sobera- entre o que se deveria apenas aos outros e o que o exagero autárcico dese-
na " alegria" de Catão ou de Sócrates. Não é muito capaz, igualmente, jaria dever apenas a si.1 17
de batalhar contra o tumulto das tentações; não poderia sustentar a ten- Resta_uma oposição fu ndamental: as duas primeiras categorias são
são do combate . Não lhe resta senão a terceira categoria, isto é, o peque- marcadas pela posse de uma qualidade eminente; hábito virtuoso ou for-
no mérito de uma "natural inclinação para a bondade": 113 ça combativa. t 18 A categoria em que se classifica ~lontaigne é caracteri-
(... ] (a) Aliás, estou tão longe daquele grau • de perfeição em que a virtude zada apenas pela ausência, completamente involuntária, de certos defei-
se torna hábito, que nunca dei provas de haver sequer alcançado o grau pre- tos. Pelo "instinto e impressão" que diz que " remonta aos (seus] primei-
cedente, •• não me tendo nunca esforçado de fato para conter os meus dese- ros anos" , 119 acontece de Montaigne " não exibir muitos vícios". Mas
jos. I\ linha virtude não passa de inocência, ou melhor, ela é acidental e for- tem alguns e não pode evitar ceder à sua inclinação, que por sorte não
tuita. Se tivesse vindo ao mundo com um temperamento mais desordenado, é demasiado violenta. "Viu-se incitado" a a lguns "desregramentos"·
creio que meus sofrimentos houveram sido grandes, pois quase nunca sei opor não os combateu . No máximo, evitou que chegassem a " perturbar" se~
uma vontade firme ao assalto das paLxões. Por um pouco violentas que se "discernimento ' ':
tivessem mostrado, houvera-me rendido . Não sei alimentar querelas e con-
flitos dentro de mim. 114 (a) Reprovo-os mesmo mais acerbamc:nte em mim do que em outrem. É tu-
do, porém, pois lhes oponho resistência diminuta e deixo-me levar facilmen-
O termo próprio, retido por Montaigne, é inocência; esta, marcada te por eles, conquanto saiba evitar abusos e impedir que degenerem em ex-
pelo prefixo de negação, designa simplesmente uma inaptidão para o mal. cessos, porque, se não tomamos cuidado, novos vícios nascem dos vícios an-
Em relação àqueles que têm direito ao título da virtude, Montaigne di fe- tigos [... ]. 1: 0
re (segundo declara) por uma disposição inteiramente passiva, resultado
do acidente e do acaso. Para isso, foi preciso que seu "temperamento", Tomando a precaução de isolar cada um de seus vícios, evitando
isto é, a mistura mais ou menos estável de seus humores, entrasse em com- deixá-los "atuar simultaneamente" ,12 1 não lhe foi preciso muito esforço
posição com a Fortuna (a que remete a palavra "fortuita"), esse princí- para escapar aos mais graves perigos.
pio de variabilidade e de imprevisibilidade que partilha com a natureza Essa "terceira" condição não é desonrosa , já que dela o mal está
o governo do mundo. Por "aborrec [er] os vícios" , 115 teve apenas de acei- excluído; mas ela exclui igualmente a glória ligada ao vigor moral. No
tar, como vinham, as influências mais diversas: os "exemplos de [sua] e~tanto, se assim se atribui uma posição inferior, Montaigne pode men-
família", "a boa educação que receb [eu] na infância": c~onar uma compensação não desprezível: detesta a crueldade, é compas-
stvo. ~?ntai~n~ não_ receia ~onfessar fr.ancamente esses sentimentos que
(a) Ao contrário, as boas qualidades que tenho, devo-as à boa estrela que a tradtçao claSSlca nao assocta à força de alma. Pois ele têm um objetivo
presidiu ao meu nascimento; não as obtive por decreto, preceitos nem apren- que tende à salvaguarda da vida dos outros, ao passo que os dois tipos
dizado. (b) Minha inocência é inata e ingênua; tenho pouca vontade e pouca superiores de virtude têm em vista apenas a constância do indivíduo diante
malicia. 116
de sua própria morte. Portanto a di ferença entre os três tipos de virtude
Desprovido de força, e não possuindo essa " malícia" que La Boétie não reside apenas em seu grau de força, mas em seu objeto. Sócrates e
desejava inculcar-lhe, Montaigne só pode prevalecer-se da moderação na- Catão, figuras emblemáticas da mais elevada virtude, deixaram a ima-
tiva de suas paixões. Deve-a tão-somente a seu nascimento. gem de uma defrontação soberana da morte. A virtude do segundo tipo,
Significa dizer que não tem aí nenhuma participação? Por certo, pe- aqu~Ia ~ue luta contra um inimigo interior sempre ameaçador, na qual
Ja maneira como emprega esse conceito, é evidente que o nascimento não "a n sptdez e as dificuldades são condições essenciais à sua existência",
é desprovido de ambigüidade. De um lado, é um dado contingente, de- trava o combate " da febre, da vergonha, da pobreza, da morte, das pri-
terminado pelo acaso da procriação, mas, do outro lado, é o que define - ".. 122M
s~es , · urna vez aqm,· na Iuta ativa, a atenção se fixa no mal que
ats
melhor a constituição natural do indivíduo, na qual se impõe uma neces- o mdlVlduo deve superar em seu próprio corpo. Uma atitude deve ser man-
sidade mais forte que tudo que aí poderiam acrescentar o aprendizado e tida a qualquer preço, sob o assalto da "dor", da "cólica" etc. No senti-
do em que é força e posse de si, a virtude repele o perigo que ameaça o
(*)No original, "daquele primeiro grau" (grifo de Starobinski). (N. T.) indivíduo em seu próprio ser: mas os dois tipos de virtude superior consi-
(..) No original, "o segundo" (grifo de Starobinski). (N. T.) deram a intervenção de outrem apenas no papel do agressor. Em com-
132 133
pensação, a terceira categoria, em que Montaigne reconhece o seu lugar, ca das guerras de religião e das conquistas coloniais. Uma vez mais, a " re-
é ilustrada por exemplos bem diferentes: a "relação c.om outrem" aí a.d- lação com outrem" vem proporcionar, no domínio das relações entre os
quire uma importância que não tinha nas formas maJS exaltantes .de Vlr~ seres, a mais generosa compensação para a carência de ser e de força que
tude (mais altivas também, e mais desdenhosas). Basta prossegmr aqu1 Montaigne diz perceber no seio de sua própria existência.
uma citação que interrompemos: Mesmo sistema de compensação, mas em sentido inverso, na ordem
literária, está no ensaio " Da presunção" (11, xvn).
[... ) (b) Minha inocência é inata e ingênua; tenho pouca vontade e pouca
malícia. Entre os vícios, um há que detesto particularmente: a crueldade. Montaigne procede, novamente, a uma tripartição. Dessa vez, po-
Por instinto e por reflexão, considero-o o pior de todos; e cheguei .mesmo rém, o partido ao qual ele se filia não é mais o da fraqueza. É, ao contrá-
a esta fraqueza de não poder ver matarem um frango sem que me seJa desa-
rio, o da força:
gradável, nem posso ouvir uma lebre gemer nos dente~ ~~s cães, .apesar de (c) Para quem escrevemos então? Os sábios que têm por profissão julgar os
adorar a caça. [... ) (a) Entristecem-me grandemente as nusenas albe1as. Quan- livros só dão valor ao que concorda com sua doutrina; só admitem as obras
do, por uma circunstância qualquer, me encontro com algué~ em lágrimas, de espírito em que encontram arte e ciência; se alguém se engana ent re os
choraria facilmente junto, se alguma coisa me arrancasse lágnmas. (c) Nada dois Cipiões, por certo já não pode dizer nada que preste. Quem, ao verdes-
me comove mais do que ver chorar, de verdade ou fingidamente, e até e~ ses cavalheiros, ignora Arist óteles , ignora-se a si próprio. Por outro lado,
pintura. (a) Não me apiado dos mortos; antes os invejaria, mas tenho do as almas comuns, que constituem a massa, não percebem a graça de uma
- e muito- dos agonizantes. Os _selvagens, que assam e comem o corpo obra que trata com leveza um assunto elevado. Ora, essas duas espécies de
dos mortos, provocam em mim uma impressão menos penosa do que os _q~e gente dominam o mu ndo. Há uma terceira, mais preparada para nos com-
os atormentam e torturam quando ainda em vida; não posso sequer asSIStir preender, a qual se compõe de esp{riros ponderados e lúcidos* mas é tão ra-
calmamente às execuções capitais impostas pela justiça, por mais razoáveis ra que não tem nome nem situação; e é perder tempo, por assim dizer ,
que sejam. [ ... )121 esforçar-se por lhe agradar. 124
Para Montaigne, como se vê, aceitar classificar-se na terceira e últi- Praticando um discurso "elevado" (mas não erudito), dotado de "le-
ma categoria é tanto renunciar a se prevalecer de uma excelência moral veza" (mas não comum e popular), Montaigne se classifica em uma "ter-
egocêntrica quanto deslocar para fora de si, ~a so':e dos outros •. ~omens ceira" espécie que supera as duas outras, as quais "constituem a massa".
ou animais, o objeto da "bondade" de que nao qms fazer um mento seu . A compensação será de si nal oposto: os "espíritos ponderados e fortes"
Ao invés de saber suportar Yitoriosamente a violência infligida, ou ator- constit uem um grupo numericamente fraco. Contudo , essa ínfima mino-
tura oriunda do corpo doente, Montaigne se diz incapaz de aceitar-lhes ria de "homens de bem" (cuja hora Yirá no século seguinte, mas sem que
o espetáculo quando outros as sofrem. A sublime tensão de Catào, a ma- deixem de se prevalecer de sua raridade) é o único lugar possí\'el de uma
raYilhosa "alegria" de Sócrates elevam-se at é o "prazer " na cena ~o r­ relação plenamente humana. A força do espírito é reconhecida apenas em
tal· mas esse " contentamento" (que qualificaríamos de masoqUista) um mundo estreito: é aí que podem nascer as mais refinadas ligações de
im~biliza-se em uma perfeição fechada, recolhe-se em si mesmo e inclui amizade.
os outros apenas a título de admi rad ores. Essa virtude isola o indiv_íduo, Eis aqu i um último exemplo de tripartição, que não deixa de ter al-
ele\·ando-o acima de todos os ou tros ou destinando-o ao combate mces- guma relação com o anterior:
sante contra si mesmo. Ao contrário, a "inocência" de Montaigne con-
(b) Quando moço, estudei para brilhar . mais tarde para alcançar a sabedo-
trabalança, pela extensão de sua atenção compassiva, o que de início .se ria e, agora, faço-o para distrair-me [... ) Por \·aidade 2astei muito com li-
definia como uma falta de energia moral. A fraqueza pela qual :-.1ontaJg- vros, (c) não somente para prover minhas necessidades ,;• (b) mas a.i nda pa-
ne se reprova é compensada pela abertura de um poder de simpatia qu e ra \·er aumentar o número de \'Olumes e ampliar-se a minha biblioteca. H á
se estende a todo sofrimento . Ao abrir-se para o destino de outrem, a pas- muito que isso não me acontece mais . 1 ~~
sividade do padecer (não isenta, em Montaigne, do desejo de dominar
A t ri partição diz respeito às três partes da exi stência e à relação que
a desordem corporal na medida do possível) expande-se em "ódio da cruel-
Montaigne mante\'e com os livros em cada uma delas. As etapas sucessi-
dade". Não podendo seguir um modelo de perfeição ~gocêntri ca em _q~e
domina o gozo masoquista, :-.1ontaigne vê-se conduz1do a uma pos1çao
(•) :>lo original, "ponderados e jorres" . (. ·. T .)
exatamente inversa: o reconhecimento de uma natureza imperfeita, per- (••) No original, "não somente para prover minhas necessidade! . mas rrés passos além"
turbada pelos comportamentos sádicos, universalmente difundidos na épo- (grifo de Starobinski}. (N . T .)

134 135
vas que observamos ao longo desse capitulo reenco~tram-se aqui, sob sua
forma mais breve e mais nítida. T rês estilos de.r~l~çao se sucedem. A uma
atitude dominada pela preocupação com a optntao ~os outros (a ostenta-
ção) se2 ue-se uma tentativa de reapropriação in tenor, co~forme a~ nor-
mas da~sabedoria; enfim, em terceiro lugar, desabrocha? hvre movt~e~­
to da alma, sem tensão nem coerção e, a exemplo da amtzade, se~ fmalt-
dade exterior. (Montaigne chega a renegar os três passos pelos q~~IS avan-
4
çou p~a prover-se de livros além do necessário.) Do.ravante, Ja que La
O MOMENTO DO CORPO
Boétie não está mais vivo, a vida de Michel de Montatgne. pode escoar~se
" ao sa b or do momento" •1: 6 fazendo das Musas e dos hvros os medta- , 1'7
dores da relação reOetida consigo mesmo, no "passate~.~o e praz~r ·
É a terceira condição, em que prevalece a relação tranqUtla e domtn~da.
Thibaudet, 0 qual lembra (a propósito da pas;age~ que ~cabo de cnar)
que a torre de Montaigne tinha três andares, t.s te na pod~d~, ac_:es.centar
igualmente que 0 terceiro andar - a biblioteca - possUta tres Janelas O /,VfPUDOR
. I , t29
pelas quais (pode] gozar uma vtsta be a e extensa .
Mais de uma vez, como acabamos de ver, Montaigne reconhece a
necessidade da " relação com outrem", enquanto exprime, quase simul-
taneamente, seu desprezo pela opinião exterior. O laço é requerido ao mes-
mo tempo em que é expressa uma recusa. O laço: pois Montaigne se mos-
tra para ser visto; a recusa: pois, enquanto busca reter o o lhar dos ou-
tros, exibe o maior desdém pelo julgamento que dele farão. Com a con-
dição de ser reconhecido tal como é, a reprovação ou o louvor lhe são
indife rentes. " Tenho tanto prazer em ser julgado e apreciado que me é
indife rente a maneira por que o fazem." 1 Os outros são livres para
condená-lo. A reprovação nãq o incomoda. Por certo, seu respeito pelo
"honesto" é para ele uma razão válida para proibir certos atos ou certas
palavras; mas não teme escandalizar ao expor sua imagem nua; quanto
a seu próprio valor, declara-se o único j uiz qualificado: "Confesso que
pode haver alguma altivez e obstinação na inteira liberdade e sinceridade
que mantenho para com todos sem distinção". • 2 Afirmar-se des-
cobrindo-se para outrem, mas negando-lhe qualquer consideração, é
fazer coincidir um apelo e uma ruptura. A bem dizer, a altivez de que
Montaigne se acusa aqui não está fora de propósito em uma proclama-
ção dos direitos do impudor. O impudor alicia e desqualifica simultanea-
mente o espectador, solicita e recusa; capta o olhar e faz pouco do julga-
mento. A atitude de Montaigne traz um componente exibicionista;
consideremo-la, sumariamente, um narcisismo que toma por espelho o
olhar da testemunha. O impudor força a atenção, e o sujeito desnudado,
tendo imposto aos outros uma imagem provocante, encontra ai com que

(•) No original, "em manter-se assim inteiro e descoberto sem consideração de ou-
trem" (o grifo~ de Starobinski). (N. T .)

136 137
reforçar o sentimento incerto ("turvo") que tem de sua própria existên- aparenta ao olhar de Deus ... Que aí se trate de estratégia literária, e não
cia; esta adquire uma consistência que lhe faltava. Assim, vê-se intervir de um comportamento vivido, basta, para confrrmá-lo, lembrar (com Al-
conjuntamente a intimidade forçada t o afastamento, a necessidade de bert Thibaudet) esta declaração que coloca singular distância entre "o ho-
comunicação e a recusa (provisória) da reciprocidade. A relação funda- mem do livro e o homem da realidade":7
se no circuito de uma única e mesma imagem entre o escritor e seu leitor, (b) Eu, que tão impudente tenho a língua, sou entretanto, por temperamen-
não sendo este muito mais que um relé- imaginário e virtual- da cons- to, igualmente inclinado a semelhante discrição. E, a menos que a tanto seja
ciência de si. No caso, o valor que o eu se atribui é muito ambíguo: de levado por necessidade ou volúpia, não exponho aos olhos de ninguém as
um lado, explicitamente, afirma sua importância privilegiada, sua inde- partes de meu corpo ou os atos íntimos que nossos costumes recomendam
pendência; de outro lado (implicitamente), imputa a si mesmo uma insu- se soneguem à vista; e faço disso uma obrigação talvez maior do que con-
vém a um homem, e em particular de minha profissão .8
ficiência radical, que o obriga a buscar no exterior a confirmação de sua
singularidade e o reforço indispensável à sua figura por demais precária. Isso é reconhecer, na ordem do jazer, a legítima autoridade do "cos-
Singular autarcia, que não pode prescindir de recorrer à exibição! O erro tume" em nossas vidas; mas, na ordem do dizer, essa autoridade é afas-
dos outros ou sua indiferença colocariam em perigo a imagem a que Mon- tada: o livro é o espaço de uma outra liberdade.
taigne confia sua cartada máxima: o contorno se tornaria indistinto, as De fato, quando Montaigne falar do pudor, aí mostrará, tão nitida-
cores empalideceriam, os traços individuais se tornariam irreconhecíveis. mente quanto em relação ao impudor, o jogo de um duplo movimento.
Para evitar esse prejuízo que o atingiria em sua existência segunda, Mon- O pudor, ao recusar o desejo, não faz mais que exasperá-lo. Sincero ou
taigne toma o partido de se "descobrir" 'até em suas "cicatrizes" e em artificioso, ele estabelece uma distância que tem como resultado seduzir
suas deformidades. mais infalivelmente. Montaigne tira essa lição de Ovídio e de Virgllio, que
o projeto de se mostrar "por inteiro e nu" se formula desde a ad- consideram o pudor o estratagema mais eficaz do coquetismo. Ele se lem-
vertência " Ao leitor" . Será reformulado em muitas outras circunstâncias, bra também de Sabina Popéia, a qual, segundo Tácito, só saía coberta
com uma energia veemente: " Devemos jogar fora esse pobre farrapo que por um véu: " Por que imaginou Popéia esconder sob uma máscara sua
disfarça os nossos costumes" . 3 Mas sua justificação é dupla. De um la- beleza senão para a valorizar aos olhos de seus amantes? Por que cobrem
do, trata-se de fazer justiça à natureza corporal que nos constitui. Somos as mulheres com véus que descem até os calcanhares os encantos que de-
devedores de "nosso ser" ao "ato sexual" .4 O homem de\'e ser reconhe- sejariam mostrar e que todos gostariam de ver? Por que amontoam sobre
cido em suas funções físicas, pelo que se aparenta a todos os ,.i\'OS. De as partes ambicionadas de seu corpo tantas e tantas coisas? Para que ser-
um outro lado, qualquer que seja nossa vontade de proteger nossos \'er- vem esses baluartes com que acabam de guarnecer as ancas senão para
gonhosos segredos, o olhar de Deus tem acesso sem dificuldade a essas ludibriar nosso apetite e nos atrair embora nos afastando?" .9 Atrai r afas-
realidades do sexo e do corpo das quais tentamos fazer mi stério. E a ima- tando: a fórmula é muito expressiva; ilustra à mara\'ilha o título do capí-
eem do "farrapo" jogado fora reaparece, em um alongamento, para de- tulo 111. xv: "Nosso desejo cresce com a dificuldade" . A dissimulação e
fini r concretamente a onisciência divina: a máscara, os eufemismos ou as perífrases pudicas, ao interpor obstácu-
los , aumentam o prazer do encontro:
(c) Todas essas convenções não passam de pára-\'entos atrás dos quais nos
confiamos e regulam os nossas relações sociais; mas não nos permitem liber- (a) Na Lacedemõnia, Licurgo, a fim de manter desperto o amor, ordenou
tar-nos, antes aumentam nossos deveres para com o grande juiz que , afas- que os casados só o praticassem às escondidas e que ser encont rados dor-
tando trapos ouropéis, nos examina em nossa nudez total, pois não lhe esca- mindo juntos fosse tão vergonhoso como se dormissem com outros. As difi-
- . . 5
pam nem mesmo as nossas vergonhas e os nossos VJCIOS mats secretos. culdades dos encontros, o perigo das surpresas, a vergonha do dia seguinte
[... ] eis o que põe pimenta ao molho. Que prazeres realmente lascivos po-
O impudor, como se vê, consiste, de um lado, em des,·elar no ho-
dem nascer de conversações honestas e discretas sobre o a mor? [ ... ] Nosso
mem o que o liga à natureza, o que o "emparelha" aos "animais"; 6 mas, apetite despreza o que se acha à sua disposição; corre atrás do que não
de outro lado, ele vai ao encontro do conhecimento di,·ino. O ·homem tem. 10
tem ao mesmo tempo o dever de confessar sua animalidade e o poder de
conhecer a si mesmo sub specie dil·initatis. Em conseqüência, o impudor Assim se complica a significação primeira da máscara e da confis-
escrito de Montaigne se beneficia de uma du pla justificação: o que o im- são: é preciso reconhecer doravante que a máscara esconde e atrai , que
pudor mostra pertence ao reino da natureza, o olhar que ele aí lança se a confissão aproxima e separa, pelo menos na medida em que a confissão

138 139
implica essa altive:. e essa indiferença (de que fala Montaigne), que recu- constit uído entre os filósofos. É acolhedora para a diversidade e a singu.
sam respeitar ("considerar" ) as testemunhas de nosso impudor. Não há laridade. ~l ontaigne pode, portanto, ocasionalmente, tomar-lhe de em-
relação dominada senão entre indi víduos que aceitam seu afastamento re- préstimo sua linguagem para descreve r seus "humores" . E, como vere-
cíproco, sem contudo perder os benefícios de um comércio perseverante. mos, talvez lhe deva mais ainda.
Assim Montaigne imagina a possibilidade de tomar suas distâncias, e de Mas as queixas de Montaigne contra o "oceano tão vasto e turvo
brincar com a distância, para dar à comunicação sua sutileza mais refina- d os erros cometidos pelos médicos" (11 , XII, p. 556; T . R., p. 538) nã o
da ... são infundadas: a medicina, em sua fidelidade literal à autoridade de Ga-
leno, não soube resistir à tentação de se constituir em sistema e de se imo-
bilizar em dogm a; mesmo quando faz profissão de respeitar o tempera-
A REBELIÃO DO CORPO mento particular do doente, alega entidades ilusórias. Apóia-se em uma
física e em uma fisiologia que substancializam os dados da percepção sen -
O impudor nada quer deixa r ignorar a respeito do corpo. P ois o ho- sorial. Não os recoloca em causa. A experiência que alega atua no senti-
mem é co njuntamente espírito e corpo. Não é ter-se pintado suficiente- do da autoconfirm ação, não da descoberta. Seus próp rios fracassos não
mente se se deu conta apenas das "imaginações" de sua alma. A pintura a instruem: encontra em sua linguagem com que os interp retar e explicar;
completa requer a representação não menos exaustiva das "condições cor- e, assim como não duvida das qualidades substanciais que reencontra em
porais" . Montaigne não deixa de fazê-lo: entretém-nos com sua altura, todos os corpos do universo- o quente, o frio, o seco, o úmido, o amar-
seu temperamento, suas doenças, seus apetites. Esse aspecto da pintura go, o doce, o salgado etc. -, vangloria-se de conhecer a natu reza exata
de si é o que, entre os leitores, ao longo dos séculos, suscitou ora a irrita- das doenças e a ação específica das drogas. Autoriza-se a intervir em qual-
ção ora a distração condescendente. Suas razões foram mal compreen- quer ocasião, como se detivesse a chave dos fenômenos que observa ou
didas. que provoca. Mas, quando aplica ao paciente os remédios que compôs,
No que se refere à vida corporal, Montaigne devia inevitavelmente já se afastou da experiência ou da série de experiências fundadoras de que
se encontrar em presença das pretensões da medicina - esse saber cuja se vale. Ela age às cegas; longe de poder autorizar-se de uma certeza co n-
competência concerne precisamente ao corpo. E a doença iria, não me- f irmada, toma iniciativas que são outras tantas experiências sem garan-
nos inevitavelmente, dar a esse confronto sua forma mais dramática. Tra- tia, com as quais padecerá o doente a quem prometeu mundos e fundos.
ta-se de uma matéria suficientemente importante para que Montaigne a Assim, no que se refere ao conceito de experiência, Montaigne faz
ponha em particular evidência - no último ensaio do segundo livro (II, ver que ele se presta a dois empregos radicalmente diferentes: em pri mei-
:x-xxvii, "Da semelhança dos filhos com os pais") e depois, como em eco, ro lugar, o uso que dele fazemtodos os médicos que, com base em cons-
no último ensaio do terceiro livro (111, XIII, "Da experiência): a disposi- tatações freq üentemente muito insu.ficientes, citam os casos de que tive-
ção final é significativa por mais de um motivo. ram conhecimento, invocam causas frágeis, tiram conseqüências abusi-
À primeira vista, trata-se apenas de um pretexto para uma crítica ge- vas, pretextando similitudes, antagonismos, poderes infalíveis, efeitos sa-
ral da presunção do saber, sobre o exemplo particular oferecido pela mais lutares;12 bem ao contrário, uma atitude mais modesta, a sua, que se
conjetura!, pela mais pretensiosa e, em muitos aspectos, pela mais peri- prende ao fenômeno sensível, mas que se limita a registrá-lo sem o con-
gosa de todas as disciplinas tradicionais. Montaigne não visa apenas a fra- ceituar, que permanece o mais perto possível da coisa vivida, na qual se-
gilidade desse pretenso saber: o mais grave é que avança sobre um terre- ria inútil buscar o meio de um saber mais vasto, ciente das causas antece-
no sensível, é que pretende legislar sobre o corpo, sobre meu corpo. dentes e das conseqüências ulteriores. Encontramo-nos na linha divisória
De imediato, esperar-se-ia certa indulgência em relação à medicina semântica, de onde se separarão posteriormente, e cada vez mais, a expe-
- de todas as ciências herdadas da Antigüidade, é a que presta mais aten- riência "objetiva", fundada na qual, com uma exigência metodológica
ção à individualidade: a doutrina dos temperamentos (da "crase" dos hu- apurada, se instruirá a ciência moderna, e a experiência "pessoal" (ou
mores, da idiossincrasia própria a cada vida particular) deixa o campo interior) na qual o indivíduo experimenta a qualidade singular de sua pró-
livre à infinidade das combinações possíveis; desde as suas origens, a me- pria existência. Por ora, uma aparência de unidade aproxima ainda as
dicina clássica grega associa raciocínio e experiência, 11 temperando um duas acepções da experiência: a experiência alegada pelos médicos tem
pelo outro; sabe fazer justiça às ocorrências particulares; pratica a obser- valor de exemplo e com isso justifica sua repetição; a experiência de que
vação dubitativa (skepsis) antes mesmo que uma escola cética se tenha Montaigne se vale traz em si mesma sua evidência, mas por isso não cons-

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titui menos um outro exemplo, cuja autoridade direta permite combater
dolorosa, a mais mortal, diante da qual os médicos se confessam impoten-
os exemplos (geralmente tirados de mais longe) de que se gabam os ho- tes. Já sofri• três ataques, longos e penosos; no entanto, ou muito me enga-
mens da arte: quando Montaigne evoca a doença hereditária do cálculo no ou ainda sobram nesse estado razões para suportá-la, conquanto não se
renal em sua família, acompanhada por uma aversão não menos heredi- tema a morte e não se preste às ameaças, conclusões e advertências dos mé-
tária à medicina e compatível com notável longevidade, é simultaneamente dicos. A dor em si não tem tal acuidade que provoque desespero e furor em
à experiência e ao exemplo que ele apela, para opor-se, com as próprias um homem calmo. Essas cólicas comportam ao menos a vantagem de me
armas da medicina, às pretensões dos médicos: familiarizar enfim com a idéia da morte, pois quanto mais me atormentam
e importunam menos me sinto preso à vida. 15
[... )(a) A minha antipatia pela sua arte é hereditária. Meu pai viveu 74 anos;
meu avô, 69; meu bisavô, quase oitenta, todos sem que nunca tomassem qual- Nessa página, vê-se perfeitamente o que caracteriza a experiência ín-
quer medicamento [... ] A medicina tem origem em observações e experiên- tima, em sua oposição à experiência alegada por um saber dogmático que
cias; do mesmo modo formei minha maneira de ver. Essa longevidade não se gaba de prognosticar a seqüência (a conseqüência) dos fenômenos físi-
revela também uma experiência, e das mais belas? Não creio que todos os cos- efeitos distantes seja da doença entregue a si mesma seja da admi-
médicos reunidos pudessem observar em seus registros três casos semelhan-
nistração dos remédios. A experiência íntima não tenta de modo algum
tes, de homens nascidos, educados e falecidos no mesmo lar e que lhes de-
vessem sua longa vida. [... )Na realidade, esses exemplos familiares, embora fundar uma indução causal, de ordem geral, interpretando a origem dos
pouco numerosos e restritos, dão-me alguma vantagem [... ].U fatos constatados, para chegar à série futura dos efeitos previsíveis; ao
contrário, permanece ligada ao que "experimenta" no momento, à qua-
Experiência contra experiência; ensaio (exterior) contra ensaio (ínti- lidade única e individual do sentir, do qual não tira nenhuma lei, nenhu-
mo), exemplos contra exemplos: Montaigne atribui a preexcelência aos
ma regra de ação na ordem física; sua ",·antagem" não é o domínio do
arquivos autênticos de uma família iatrofóbica. O ensaio pessoalmente
mundo, é de ordem ética e ontológica: consiste em "se familiarizar" com
Yerificado vale mais do que a ciência presuntiva dos sábios - ainda que
a morte. A morte, que se situa no fim, para além do desenrolar temporal
Montaigne devesse morrer proximamente da doença cujos ataques come-
dos fenômenos, é ao mesmo tempo a realidade que deve ser apreendida
ça a sentir:
aqui mesmo, desde agora, misturada à trama presente do sensível. O en-
(a) Mas as coisas humanas não duram tanto, pois dezoito anos faltam, ape- sinamento do cálculo renal substit ui, com maior insistência, o "exercí-
nas, para que minha experiência alcance dois séculos [... ) Não seria portan- cio" proporcionado pela queda de cavalo (11 , \"!). O fato natural do so-
to de espantar que desta feita tomasse outro rumo. Que não me censurem frimento, limitado à consciência sofredora, não aumenta em nada nossos
os males que nesta hora me ferem; já vivi 47 anos com excelente saúde, parece- meios de ação sobre a natureza; dele resulta uma sabedoria que consiste
me suficiente. E, se minha vida findasse agora, ainda seria das mais longas. 14
em se "confiar à natureza". em deixá-la fazer sua obra .. . A fórmula mestra
As próprias palavras o dizem: para Montaigne, a experiência pessoal dessa at itude aparecerá em uma página famosa de " Da experiência" (111.
do sofrimento entra no registro do ensaio, é coisa que se ,·ive e que se XIII): "Na minha experiência própria já tenho com que me tornar sábio,
diz- que se ,.i,·e a fim de se dizer. E tê-la assim experimentado, "prova- desde que atente para seus ensinamentos" . 16 Portanto, é radical a opo-
do", permite-lhe reivindicar para si mesmo uma autoridade bem supe- sição entre a experiência médica que, tendo tomado a natureza como ob-
rior a todos os discursos da medicina. Escutemos Montaigne participar- jeto de observação, procura dirigir ou contrariar suas operações e a expe-
nos sua experiência da doença e sua surpresa (em seus primeiros ataques) riência pessoal refletida, que se resigna a ignorar as operações da nature-
em achá-la menos assustadora do que temera: za, enquanto aceita tomá-la como guia, e que com isso conta apenas com
[.. .](a) Quanto aos sofrimentos físicos, a que não podemos obviar, sou, ao uma vida mais sábia e uma morte menos crispada. A preferência que Mon-
contrário, extremamente sensível. Mas, outrora, encarando-os com esse olhar taigne concede à experiência íntima não deixa de te r relação com a oposi-
amedrontado, e que o longo período de saúde que Deus me proporcionou ção do ser e do parecer. Pois as "promessas" da medicina são ilusórias,
tomara mais tímido ainda, concebi-os tão temíveis e intolerá,·eis que em ver- são puro parecer, vã presunção- e, em conseqüência, requerem do pa-
dade foi então maior o receio do que o mal ocorrido depois; o que me con- ciente uma confiança ilu dida: "E é inteligente de sua parte exigir do pa-
firma na idéia de que as faculdades da alma, (c) como as empregamos, (a) ciente, como fazem as artes baseadas no sobrenatural e na fantasia, uma
antes provocam em nós perturbações do que nos prestam serYiços.
Sou atualmente presa da pior das doenças, a mais repentina, a mais (") No original, "Já experimentei" (grifo de Starobinski) . (N. T .)

142 143
fé suficiente para auxiliar a ação do méd ico e o efeito do remédio" . 17 Se
os efeitos da medicina fossem sólidos e certos, a medicina possuiria as d~ rela:ionados com a doença. Em suma, cudo posso fa::er, conquanto não
SeJa co1sa prolongada. Como gostaria de ter a sorte daquele 1"nd" "d
próprias qualidades do ser; mas, como esses efeitos dependem da crença • lVI uo, a que
se re~ere C1cero, que sonhava dormir com uma cortesã e se achou assim livre
que lhes é devotada, ela só pode inscrever-se no registro da aparência -
do cálculo que lhe obstruía o canal da uretra. Outros são os efeitos d
daí os qualificativos que lhe são atribuídos : fantástica, vã, sobrenatural. males!:o • e meus

A consciência do corpo, acentuada pela doença delimita um lug


e · · - • ar
A experiência interna constitui igualmente a pedra de toque que per- m que o SUJeito ~a~ depende de nenhuma outra jurisdição que não da
mite julgar outra "ciência" - a filosofia - e ver se as condutas que ela natureza, a qu~ o Intima a sofrer seu destino corporal. Lugar frágil e amea-
prescreve dependem do ser ou do parecer. Para quem faz, como Mon- çado, a ~e~peno d~ ?roteção que o homem tem o direito de esperar da
taigne, a prova da dor corporal, é e\·idente que a serenidade prescri ta pe- natu:e~a, e o dommto do m eu , do próprio, do inalienável; é também
los filósofos não passa de fingime nto e máscara: domt~to em que o tem po exerce sua devastação , arrastando 0 corpo para0
a velhtce e a morte. A natureza é o poder ambíguo que nos salva guarda
( . .. ] (a) Aliás, sempre considerei puro exibicionismo o preceito que ordena
e que nos altera . Para que servirá a intervenção da medicina
tão rigorosa e positivamente que se mostre alguém desdenhoso e calmo ante d dT , que preten-
o sofrimento físico. Por que a filosofia, que só leva em conta o que é real e ~o 1 tear ~ corpo segundo o sistema codificado das entidades e das
e suas conseqüências, se compraz nessas exrerioridades? (c) Que deixe isso q~altdades peng~samente atribuídas à natureza (sistema cujo modelo con-
aos tolos e aos retóricos que tão grande importância emprestam aos nossos ~enual por demats esquemático comporta um aspecto de raciocinação con-
gestos. Que nos acorde o direito à covardia verbal - desde que não prove- Jetura! que n~o escapa a Montaigne)? O corpo sofredor recusa com mes-
0
nha do caráter - e a classifique entre os suspiros, e palpitações, soluços e mo alento a mtervenção da filosofia, que pretende ditar-lhe uma "atit _
lágrimas que a natureza não nos permite e vicar. E desde que não atinjam d e" u "d • · · .. u
, m~ ecencta extenor , ao passo que a submissão a semelhante
o ânimo, e não fraqueje a nossa mente, pouco im portam as caretas e os tre- regra esta f~ra de seu P?~er. Se a biblioteca, no topo da torre, pôde ser
jeitos. É para nós mesmos e não para os outros que nos educa a filosofia;
para que sejamos e não para que pareçamos ser [... ). 18 para Montatgne um refugiO contra os avanços do mundo, 0 corpo, mais
uma vez, torna-se um refúgio contra os avanços das "artes" _
Ainda que a filosofia possa fortalecer-nos a "coragem", ela ultra- d. - d . com a
con Içao e que a Independência do julgamento, que permite analisar-se
passa os seus direitos quando pretende reger os movimentos corporais do " _d urante es~es ataques", seja ao mesmo tempo preservada. o que indi-
VIduo expenment~ em _seu corpo depende apenas de sua relação imediata
0
doente - em quem o gesto voluntário, o "grito", se distingue tão mal
das reações involuntárias: que a filosofia "impeça então Sócrates de co- com a Natureza, Isto e, com uma autoridade capaz de manifestar-se es-
rar de afeição ou de vergonha, de piscar os olhos à ameaça de um golpe, ~ontanearn~nte nele próprio, sem que um discurso técnico interponha sua
de tremer e de suar aos abalos da febre (... )" .1 9 Ao marcar os limites de mterpreta~ao. (Na mesma época, entre os místicos e em particular
uma filosofia do absoluto domínio, a experiência do corpo- de que Mon-
re~a d'A VI·1a, o corpo e• o palco em que Deus, e não
Te ' mais a Natureza em
taigne faz o ensaio pela dor - conduz a uma sabedoria humilde, a qual
ma~festa suas graças e suas iras, em uma evidência que se inscreve ~e~
não se revolta diante do involuntário ou diante da vontade vencida que
rodeios na carne, não sem que se alarmem os detentores do saber teólo-
imprimem sua marca em nossos suspiros, em nossos gemidos. Por certo, gos e confessores.) '
convém salvar o que pode ser salvo dos poderes da reflexão e do julga-
mento: muito, mas não tudo; o excesso do sofrimento traça um limite
e constitui um critério, que separa o possível e o impossível: OS "ERROS MÉDICOS"
(c) Analiso-me durante esses ataques e sempre verifiquei que continuo capaz
de falar, pensar, responder como de costume, não, contudo, de maneira fluen- Montaigne conhece suficientemente Ósistema médico de sua ép
te, pois a dor perturba por vezes a atenção. Quando os que me assistem pro- par~ o expor em um resumo circunstanciado e preciso. Mas não 0 ex~~:
curam poupar-me, eu mesmo me ponho a discorrer• sobre assuntos em na-
senao p~a mo~trar quanto, em seus entrelaçamentos, os fatores levados
em constderaça.o podem ocasionar erros: como apreciá-los exatamente?
(•) No original , "efi.Saio muitas vezes minhas forças" (o grifo é de Starobinski). (N. T.)
Como apreende-los todos? O menor erro importa:
144
145
[ ... ) (a) E, se o erro de um médico é perigoso, eis-nos em bem
repleç~o exagerada, calor contra aumento de frio, umidade contra secura
má situação, pois é muito difícil que não o repita amiúde. Preci-
excessiva, substâncias "tônicas" contra relaxamento etc.) um equil!b ·
sa ele de demasiado número de exames e de informações circuns- " . . , . , no,
Fisiologia tanciadas para opinar judiciosamente: cabe-lhe conhecer o tem- uma ~Imetna , um meio-termo, que reconstituirá a saúde comprometi-
peramento do doente, sua temperatura, seus humores, suas pre- da. ~ois a saúde se defi_ne pelo equihbrio exato das funções e dos elemen-
disposições, suas ocupaçqes e até o que pensa e sonha; cumpre- t~s mternos, pelo movimento favorável das influências externas sobre a
Higiene lhe saber das condições ambientes, da natureza do lugar, do ar,
vida corporal - seg_undo o princípio da isonomia respeitado pela ciência
do clima, da posição dos astros e suas influências; é necessário
grega desde os escntos de Alcméon de Crotona.22
Patologia que não ignore as causas da doença e seu caráter, seus efeitos,
Terapêutica os dias críticos; precisa conhecer o peso da droga que ministra, . Em ~~umas linhas sucintas, Montaigne reúne então o aparelho con-
sua ação, o país de onde vem, seu aspecto, a data em que foi ceitual utihzado por todos os médicos da época quando discutem _ sob
preparada, a fim de calcular a quantidade a ser receitada. Tudo o _nome técnico de indicações- as decisões que a situação observada im-
calculado e entrosado harmonicamente. Por pouco que se enga-
poe ao homem do ofício. Assim, pode-se ler em Paré:
ne, que entre tantos elementos diferentes um só venha a falhar,
eis-nos perdidos. Ora, só Deus sabe das dificuldades que há em Os cirurgiões e médicos usam essa palavra Indicação, que é própria deles
Semiologia
conhecer tantas particularidades! Como, por exemplo, determi- e_~ora do uso ~omum [... )Chamamos indicação, em cirurgia, 0 que 0 cirur-
nar o caráter• preciso da doença, se ela se apresenra sob rão va-
glao coloca d1ante dos olhos, como um indício, para divisar que remédio
riadas formas? Quantos debates e dúvidas provoca a análise da
urina? Sem tais dificuldades não andariam a discutir permanen- d.eve esc~lher par_a cu!ar ou para ?reservar a pessoa [... ) Ora, há três espé-
temente acerca do diagnóstico e não teriam desculpas para o er- CI~s. gerrus ~e lnd1caçoes, das qua1s cada uma se divide em várias outras es-
ro que cometem não raro de confundir alhos com bugalhos. Ca- pe~Jes p~rtJculare~: a primeira espécie é das coisas naturais; a seg unda, das
da vez que os consultei, por ínfima que fosse a dificuldade, nun- co_1s~s n_ao naturrus; a terceira, das coisas contra a natureza. As coisas natu-
ca encontrei três da mesma opinião. Naturalmente, minhas ob- rais md1cam e ensinam que devem ser conservadas pelo que lhe é semelhan-
servações basetanr-se principalmente na minha experiência pes- te; e_ n.estas estão compreendidas todas as Indicações que se tomam do corpo
soal [... ]. 21 e SUJeito colocado em nossas mãos, que são as indicações tomadas das for-
Ao enumerar a série das coisas que o médico deve Je,·ar em conside- ças do doente, a temperatura, a idade, o sexo, o hábito, o costume emanei-
ra de viver. 23
ração, Montaigne segue muito exatamente a ordem metódica das partes
em que os tratados da época expõem os princípios da medicina. Na maior Quanto às "coisas não naturais", acrescenta Paré, é preciso delas
parte dos livros, recomenda-se conhecer primeiro a fisiologia, isto é, as reter sobretudo a qualidade do ar (que Montaigne também destaca):
"coisas naturais": os humores e o temperamento (ou "crase", ou "tem-
[ ... ] Pois é preciso, queiramos ou não, su port ar e tolerar a condi ção presen-
peratura" ) que os mistura em proporção variável segundo os indiYíduos, te ~o ar. O ar e~tão nos dá alguma indicação ou. antes , co-indicação; pois,
as idades, as estações. A segunda rubrica concerne à higiene, a qual con- se e_se~elhan.t~ a doe~ça, simboliza indicação com a doença, porque a indi-
siste no uso que o indivíduo faz das "seis coisas não naturais", coisas caçao e corng1r; se e cont rário à doença, indica e mostra que de\·e ser
" indiferentes", entre os quais o ar é considerado a principal, ao lado do conservado. 2•
beber e do comer, do trabalho e do repouso, do sono e da ,·igília, da ex-
Enfim, "as coisas contra a natureza nos indicam que devem ser tira-
creção e da retenção, assim como das paixões da alma. das, e proibid~~· ou corrigidas por seu contrário. Portanto, por dedu:;ir
O conhecimento da doença (ou "coisas contra a natureza ") depende o ~odo pelo mJUdo, as espécies das indicações, ou indícios tomados das
da patologia, cuja exposição nas principais obras trata sucessivamente dos coisas natur~is, q~e _chamamos conservadoras, são várias [... ]". ~s
objetos indicados por Montaigne: "causas, sinais" (ou sintomas), "efei- A doutnna medica de Paré (e seria a mesma coisa se lêssemos os au-
tos, dias críticos". Enfim, Montaigne, a exemplo dos autores médicos, tores q_ue _Montaigne evoca: "Fernel ou Escalígero")26 admite, no plano
evoca a sanção terapêutica, arte de escolher as drogas apropriadas em ca- dos propn_o s fatos, uma pluralidade de sinais ("indícios" ou "sintomas")
da uma das circunstâncias dadas; as medicações devem ser administradas e, c.or~el~tJ:amente a essa polissemia, desenvolve um discurso explicati\'O
a fim de restabelecer, pelo movimento dos contrários (e\'acuação contra p~!JeuologJco. As causas agem em múltiplos níveis; podem remontar a
di:ersas etapas da duração precedente. É por isso, precisamente, que Mon-
() So original, " o sinal próprio da doença, sendo cada uma
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capa~ de um infinito taJgne vê sobreviver o ine\·itável risco de erro. E argumenta implacavel-
número de sinais?" (o grifo é de Starobinski). (N . T.)
mente: no momento em que o médico obser\'a um sinal (por exemplo,

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na urina) e em que deve tirar a indicação de uma administração tera~êu­
tica que aliviará ou curará o sofrimento de tal indivíduo, como sera ele distância respeitosa que equivale a uma recusa; a ironia não é irreconhe-
cível:
capaz de operar sem "erro" a dedução que lhe permitiria passar das re-
gras gerais (puramente verbais) ao caso particular (habitualmente m~ ob- (a) Entre as provas de eficiência, dizem eles, algumas lhes foram reveladas
servado)? No plano do caso especial, o raciocínio tomou tantos cammhos por demônios! Quando o alegam, contento-me em verdade com ouvi-los
que, incapaz de discernir o "sinal próprio da doença", ati~ge ao lado do pois não discuto milagres. ~s '
alvo: "confundir alhos com bugalhos" é precisamente, em linguagem pro-
Em segundo lugar, pode tratar-se de uma experiência que "inferem
verbial, enganar-se sobre a espécie. Ora, pior do que isso, o que está ex-
de alguma qualidade ocasionalmente verificada. Assim, a lã de nossas rou-
posto a padecer o erro não é apenas o meu mal enquanto espécie da doença;
pas teria propriedades secativas e serviria para curar as bicheiras das mu-
sou eu, enquanto indivíduo singular. O "erro" importa quando se trata 29
las [... ]". Sobre esse ponto, pelo uso, pelo "costume", o vulgo sabe
de minha vida ...
ta nto quanto o médico. Mo ntaigne ironiza no vamente. Existe aí apenas
Se o raciocínio deduti vo está exposto a tantas armad ilhas, não é di-
uma constatação banal, experiência de todo mundo, que é fácil traduzir
fere nte com o raciocínio indutivo que, com base em algum dado de ob-
em jargão médico, alegando uma "oculta propriedade secativa" ... To-
servação, pretende estabelecer uma regra ou lei geral. Atingid.o _em sua
dos nós remediamos nossos males pelo uso costumeiro. O jargão acres-
qualidade de doente, Montaigne dirige sua crítica ao que os med1cos de- centado não muda nada nisso. ~
claram a respeito da eficácia das drogas. Eles legislam fundando-se em
_Enfim- terceira eventualidade-, certo objeto natural terá sido es-
um "exemplo" fornecido pelo acaso, estabelecem relações simples, de cau-
colhido e certo efeito terá sido constatado por acaso; postular-se-á uma
sa a efeito, e, ainda aqui, não levam em conta a diversidade do real, das
relação constante, na expectativa de outra ocasião em que verificar nova-
inúmeras bifurcações que podem confundir a progressão causal direta pos-
mente esse efeito. Está aí o princípio do empirismo "cego", e não de
tulada pelo raciocínio. Para além da crítica das indicações, Montaigne 0
uma verdadeira "ciência experimental" , da qual Montaigne, do mesmo
acusa (como precursor de Descartes) as qualidades substanciais e as vir-
tudes ocultas atrib.uídas aos objetos naturais. Assim, é denunciado o pró- modo ~u~ seu~s c~~t~mporâneos, pouco entrevê as regras de método; pois
a mult1phcaçao 1hm1tada dos observadores, cujo consenso lhe pareceria
prio fundamento da terapêutica. Como negar sua frag ilidade? A expe-
mais digno de fé, é ao mesmo tempo irrealizável e (contrariamente ao que
riência alegada pelos médicos é quase sempre uma experiência singular, 30
afirma Lanson) em nada contribui para organizar a experiência· Mon-
da qual não se tem o direito de induzir uma lei geral que, em troca, seria
taigne, assim, critica o empirismo tradicional sem nada propor ~m seu
aplicável aos casos singulares que caíssem sob a sua jurisdição. lugar: '
Ao terminar, no ensaio 11, XXXVII, sua argumentação contra os mé-
dicos, Montaigne se dá conta de que ainda não encerrou a questão da ex- (a) Quanto às outras experiências, a que foram levados pelo acaso ou pela
periência que levantou ao longo do percurso. A eàição de 1580 comporta sorte, não me parecem dignas de fé. Imaginemos o homem a contemplar
0
já uma página final (precedendo a epístola à sra. De Duras) que tem o ~~~ero infinito de coisas, plantas, animais, metais que o cercam; por onde
aspecto de um prolongamento: lnJC!ará suas experiências? Suponhamos que o faça pelo chifre do veado· só
um capricho poderá explicar a escolha; e não menos inexplicável será a' se-
(a) Não quero terminar sem me referir ainda ao que os médicos nos apon- gunda operação . Tem à sua frente tantas enfermidades, e tão variadas são
tam como garantia da eficiência de suas drogas: a experiência. Dois terços as circunstâncias em que elas ocorrem, que não poderá jamais determinar
pelo menos.das virtudes dos remédios provêm da quinta-essência das e_rvas o ponto em que deverá sustar as provas e concluir [...].li
medicinais cujas propriedades recônditas somente o uso revela; ora, a qum~a­
essência de uma coisa não é senão a qualidade principal que lhe é peculiar Do agente, escolhido ao acaso e supostamente portador de virtude
e que escapa à nossa razão, a qual não lhe pode descobrir a causaY m~dicamentosa, à afecção de que poderia ser o remédio específico, os ca-
~l~os são inumeráveis: vale dizer que estão bloqueados; a condição su~
De que experiência os médicos se valem? Montaigne examina três f1c1ente permanece indeterminável:
eventualidades. Em primeiro lugar, a experiência "inspirada", tão fre-
qüentemente alegada por Paracelso e seus discípulos; é um modo do c~­ [ ... ) (a) Ser-lhe-ia necessário decldir previamente que entre os milhares de
nhecimento imediato, da visão intuitiva, em relação à qual, desde que nao coisas q~e ?recisa pesquisar figura em primeiro lugar o chifre de veado; que
se trate mais do "eu", mas da verdade do mundo, Montaigne marca uma entre as mumeras doenças deve aplicá-lo à epilepsia; entre os diferentes tem-
peramentos, ao melancólico; entre as estações, escolher o inverno; entre os
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diversos povos, preferir o francês; entre pessoas de todas as idades, lembrar
os velhos; entre os momentos assinalados pelo movimento dos astros, apon- importantes que tenham sido, nesse ensaio, as revelações de Montaigne
tar a conjunção Vênus-Saturno como a mais propícia; e en~m, entre as P~­ sobre sua doença, ele. ainda não expôs todas as razões que tornam legíti-
tes do corpo, determinar o dedo como a mais favorável. Nao tendo por gUia mo a seus olhos o outro tipo de experiência, a experiência direta e íntima,
em tudo isso nem argumentos, nem conjeturas nem inspiração divina, e em sua singularidade e unicidade.
fiando-se tão-somente na sorte, fora preciso que uma coincidência realmen- Confronte-se o final do capítulo rr. XXXVII, que acabamos de ler e
te admirável, perfeita, interviesse em seu auxílio! Mas admitamos a cura; o início do capítulo m. xm: serão encontradas frases que, em termos m~s
fora ainda imprescindível provar que o mal não estava chegando natural- gerais, dão continuidade àquelas que acabam de ser citadas; poder-se-ia
mente ao fim; que não pode ser atribuído a uma outra causa, a alguma coisa sustentar que o ensaio "Da experiência" é ele próprio uma longa glosa
diferente que a vítima tenha comido ou bebido; ou que não se de~e. às ora- enxertada no ensaio "Da semelhança dos filhos com ·os pais".
ções de alguma avó ou tia. E, ainda que o fato se ~rovasse , c_~m~nna sa?er
quantas vezes se repetiu. E se houve essa longa séne de expenenctas e venfi- (b) O desejo de conhecimento é o mais natural. Experimentamos todos os
. a uma coneI usao.
cações necess á nas - 32 meios suscetíveis de satisfazê-lo, e quando a razão não basta apelamos para
. Aqui terminava o texto de 1580. Em 1588, Montaigne acrescenta um a experiência. (c) "Através de várias provas, a experiência cria a arte e
0
exemplo alheio mostra-nos o caminho." (b) Este segundo processo é menos
último parágrafo para melhor concluir, sempre insistindo nas condições
seguro do que o primeiro e menos digno; mas a verdade é tão valiosa que
de validade da experiência; e um breve acréssimo posterior revela que o nada devemos desdenhar capaz de nos levar a ela. JS
problema não cessava de o preocupar:
É novamente, pa ra Montaigne, confessar que não pode "terminar",
(b) E a quem cabe tirá-la? Entre mil indivíduos entregues a tais experi~ncias, dessa vez não mais "esse ensaio", mas seu livro inteiro, sem colocar uma
três talvez as terão registrado, e será um desses, porventura, quem haJa che-
última vez,-com noves esforços, a questão do saber e da experiência; não
gado a essa conclusão? Estaríamos mais esclarecidos se os juízos e raciocí-
transige então em especificar, desde as p rimeiras linhas, que a experiên-
nios de todos nos fossem conhecidos; mas admitir-se que três testemunhos
de três doutores bastem para estabelecer as leis da saú de humana não seria cia é um conhecimento mediato e que, na categoria dos conhecimentos
razoável. Para que tivessem real autoridade, fora preciso que os houvésse- mediatos, ocupa uma posição inferior, pois, apoiando-se no exemplo,
mos escolhido (c) como mandatários. 33 compromete-se necessariamente com o sensível. Distingue-se por isso do
conhecimento racional puro, o qual recorre apenas ao encadeamento dos
A busca de uma "regra" universal só pode ser vaga e errante. Quan- meios conceituais.
do a asserção se pretende geral e repousa apenas, quando muito, em três
indivíduos (os "três" que Montaigne jamais encontrou "de acordo") que
registraram "suas experiências", nenhuma necessidade pode ser atribuí-
Assim, o ensaio Ill. X I II será em primeiro lugar a oportunidade de vol-
da-à predicação causal. (Por seu lado, como se viu, Montaigne pode citar
tar a uma idéia cuja importância já sublinhamos; é inútil fixar o olhar
três exemplos antimedicinais em sua própria família: seu pai.'. se~ a,·ô e em raros exemplos pri,·ilegiados e consagrar-lhes uma atenção res peito-
seu bisavô: "Essa longevidade não revela também uma expenenc1a c das
sa. Para qu em sabe tirar-lhes a lição, as vidas comuns não são menos exem-
mais belas? Não creio que todos os médicos reunidos pudessem observar
plares que as vidas ilustres; no limite, nossa própria vida nos provê de
em seus registros três casos semelhantes" [ ... ].) 34 A relação que eles afir-
exemplos perfeitamente adequados, se simplesmente aceitamos colocar
mam é, segundo toda a probabilidade, casual, dependente da '.'sor~e".
nossos erros na categoria de exemplos negativos; sublinharemos de pas-
o saber geral é não apenas, na prática, inaplicável em razão da dJversJda-
sagem uma ocorrência do "erro" que faz eco à página do ensaio 11.
de das " indicações"; é, além disso, em sua ambição de certeza, não cons-
xxxvn, que acabamos de examinar, na qual Montaigne enumerava tudo
tituivel, em razão da insuficiência e da fragilidade das seqüências causais que torna inevitável o "erro" do médico:
que considera regulares. . .
Sem nenhuma dúvida, Montaigne, depois de haver escnto o ensaiO [... ] (b) Quem se recorda dos males de que foi vítima, ou de que se viu amea-
"Da semelhança dos filhos com os pais", teve a impressão de não teres- çado, e das circunstâncias sem gra,·idade que o puderam perturbar, já se acha
gotado o tema da experiência; falou dela apenas de maneira polêmica, preparado para as agitações futuras e conhece sua condição. A vida de Cé-
visando aqueles que dela se valem para inspirar confiança, para tornar sar não nos oferece mais exemplos do que a nossa, porque tanto a de um
respeitável sua teoria e sua prática, seu saber e sua arte. Ademais, por imperador como a de um homem vulgar são vidas humanas e sujeitas a to-
dos os acidentes humanos. Escutemos nossa experiência, e veremos que nos
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I 'i!
diz tudo aquilo d~ que temos n~cessidade especial. Não é um tolo quem não À experiência e aos exemplos estranhos citados como testemunho pe-
desconfia afinal d~ seu juizo, s ~ reconhece t~r sido por ele enganado mil los "sábios" (e, sob retudo , pelos médicos), Mo ntaigne considera-se au-
vezes? 36 tori:.ado a opor uma experiência e uma escolha de exemp!os das quais
Montaigne nos dissera que "o erro do médico é perigoso" para seu é, por si só, a única testemunha. Paradoxo aparente: o que não se pode
paciente. Agora, damos um passo mais no progresso da consciência: des- crer de "três homens entregues a registrar suas experiências" 3S (busca-
sa vez, a experiência consiste na lembrança de nós mesmos nos termos das no mundo dos objetos exteriores e formuladas como regras gerais)
"enganado" muitas vezes. O malogro da experiência que se propunha co- torna-se digno de atenção quando se trata de um único homem - mas
mo fim a ciência objetiva se transmuta em um saber do malogro. E esse do qual toda a atenção consiste em manter um "registro das e:rperiências
saber d e mãos vazias se torna constitutivo da experiência íntima que, sa- de [sua] vida". 39 Experiência que um sujeito enuncia na primeira pessoa,
lutarmente, nos faz "desconfiar" . Experiência de uma ordem inteiramente limitando-se à particularidade do que ensaiou, provou, experimentou -
diversa - chamei-a ética e ontológica - em que a relação atual consigo enquanto deixa seu leitor decidir, por comparação, sobre uma eventual
mesmo é primordial. Portanto, o fracasso refletido, a reflexão sobre o similitude de experiência, em q ue se esboçaria uma generalização ( .. de-
fracasso constituem o exemplo que poderemos declarar nosso. Na evidên- paramos em qualquer ho mem com o H omem") ..;o
cia do presente experimentado, o despojamento possui paradoxalmente Em razão da própria qualidade de atenção que Montaigne dirige a
a autoridade que já não detêm mais os grandes autores do passado, quando si mesmo, considera-se no direito de oferecer aos outros sua experiência,
o q·ue está em jogo é nossa própria vida. para que dela tirem proveito . Seguramente, sua experiência corporal é li-
Para Montaigne, essa autoridade viva não se limita apenas ao teste- mitada apenas à sua pessoa, mas ele não receia desafiar os "artistas" que
munho de nossa consciência falível. Consente em estendê-la à palavra que se prevalecem de um saber geral de que nenhum doente se beneficia. i\ão
se ouviu diretamente, no círculo dos amigos presentes. Se é preciso con- hou\·esse ele demonstrado mais que a possibilidade de opor ao saber da
fiar em alguém, por que não lhes dar a preferência sobre tudo que se im- escola o de um individuo isolado, a empresa lhe parece valer a pena.
prime e se dá a ler, a despeito da reverência "popular" de que os livros
são cercados?
AS CONFISSÕES ESTUDADAS
(b) Que pensar deste povo que só aceita testem unhos escritos, que só acredi-
ta nos homens quando falam por meio de livros, e na verdade se é idosa?
[... ]e dizer "li" é para ele muito mais importante do que "ouvi". Por mim, Embora Montaigne não queira assemelhar-se aos eruditos e aos sá-
dou igual valor ao que sai da boca como ao que vem da mão, sei que se es- bios que classi ficam sistematicamente os gêneros e as espécies, 41 é possí-
creve tão indiscretamente como se fala , acho meu século igual aos outros vel reconhecer, no longo ensaió conclusivo "Da experiência", uma orga-
e acredito tanto em um amigo quanto em um macróbio e no que vejo como nização a um só tempo rigorosa e maleável. Depois de uma introdução
no que escrevem. 37 muito ampla sobre a noção de experiência e sobre as dificuldades da in-
Coletado no mais próximo - no que ouvimos, vemos ou senti- terpretação em matérias religiosas e legais, Montaigne coloca o princípio
mos - , o exemplo só tem por ganhar em validade; o texto prossegue: do estudo auto-referido que ele substitui às disciplinas aceitas; em segui-
da, em um acréscimo, prepara o leitor para ouvir o que será a sua
[.. .] (b) Amiúde declaro que é pura tolice recorrer a exemplos alheios e esco- conclusão:
lásticos; nossa época fornece-nos um tão grande número deles quanto as épo-
cas de Homero e Platão. Não provirá o nosso erro de emprestarmos mais (b) Estudo-me a mim mesmo mais do que qualquer outra coisa, e esse estu-
veracidade às citações do que ao que dizemos? Como se, apoiando-nos em do constitui toda a minha física e a minha metafísica [... ] (c) Nesse grande
Plantio, provássemos mais do que em nos atendo ao que vemos em nossa todo abandono-me despreocupado e ignorante à grande lei que rege o mun-
aldeia! Ou provirá do fato de não termos suficiente inteligência para anali- do; conhecê-la-ei suficientemente quando lhe sentir os efeitos. 42
sar e realçar o valor e tirar conclusões do que ocorre ao redor de nós? Não
Portanto, é ao sentir que Montaigne transfere a tarefa do saber: o
há como admitirmos que careçamos de autoridade para dar crédito a nosso
papel do corpo, de i:nediato, anuncia-se fundamental. Por certo, cabe tam-
testemunho, pois entendo que as coisas mais vulgares e comuns poderão,
se soubermos esclarecê-las, colocar-nos em presença dos maiores milagres bém à alma sentir a si mesma, intúitivamente, segundo uma das faculda-
da natureza e fornecer-nos os mais maravilhosos exemplos, em particular des reservadas ao "senso interno". O sentimento, em sua acepção mais
se nos referirmos às ações humanas. ampla, consiste em perceber tanto os pensamentos quanto as modifica-

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ções corporais. Mas conhecer-se " por sentimento" exclui a intervenção pois, iniciando seu desenvolvirnento46 pela questão da beleza, descreve-
da razão discursiva: "Julgo-me pelo que sinto realmente e não pelo ra- ra bem rapidamente seu corpo (sua baixa estatura, seu rosto, seu .tempe-
ciocínio" (111, XIII, p. 1095; T . R., p. 1074). Sentir é a condição necessá- ramento, sua saúde, sua idade, suas aptidões para os diversos exercícios).
ria do julgamento- de que Montaigne trata em um primeiro tempo: não Enfim, explicava-se sobre sua alma, suas faculdades e suas "paixões",
apenas a observação de si não tem fim (p. 1075; T. R., p. 1052) mas tam- de que falava dernoradamente, 47 insistindo sobretudo em sua ausência de
bém observar-se lhe permite conhecer e advertir os outros (p. 1076; memória. A subdivisão e a transição entre coisas do corpo e qualidades
T . R., p. 1054). Na vida prática, essa faculdade o teria tornado capaz de espirituais eram muito bem marcadas pelo começo de dois parágrafos su-
ser o conselheiro de um príncipe, a quem teria defendido contra a perfí- cessivos: "Minhas qualidadesjisicas estão em suma perfeitamente de acor-
dia de "seus aduladores" (pp. 1077-8; T . R ., p. 1055). Contudo, a des- do com as de minha alma [. .. ] Minha alma ama a liberdade e a indepen-
crição de si não deve limitar-se às faculdades da alma; para ser completo, dência e está habituada a conduzir-se a seu bel-prazer [... ] " .48
é preciso manter registro das aptidões e dos hábitos corporais. Montaig- Na "Experiência", não apenas a ordem das matérias está invertida ·
ne assinala muito claramente essa subdivisão: os desenvolvimentos descritivos são também de urna extensão proporcio~
nalrnente inversa: aí se tratará mais longamente do corpo do que da alma
(b) Em suma, todo este ensopado de frases aqui jogadas algo confusamente
constitui uma espécie de registro das experiências de minha \ida. No que con- de Michel de Montaigne (da qual resume brevemente as faculdades ao di-
cerne à saúde do espkito, fornecem elas muitos exemplos instrutivos, zer o que, aplicando-as, " pensava que fora capaz de fazer": "Nada[ .. . )
conquanto façam o contrário do que disse e eu mesmo fiz. Quanto à saúde Mas fora capaz de dizer verdades a meu senhor e criticar-lhe os costu-
do corpo, ninguém há de falar com maior experiência do que eu, e ofereço-a mes, se ele quisesse"). 49
em toda a sua pureza, não alterada por artifícios ou preconceitos.43
Com certeza, esses dois temas distinguidos aqui por preocupação de
Corno se vê, dizer o corpo não é de modo algum , para Montaigne,
clareza- saúde da alma (saúde interna, segundo o uso filosófico, desig-
uma empresa nova, que teria reservado ao ensaio final de 1588. Jamais,
nando o que depende da alma) e saúde corporal- serão objeto do esfor-
entretanto, a isso terá consagrado tão longa seqüência de páginas. Elas
ço de Montaigne em reuni-los e em mostrar-lhes a conexão necessária,
se exibem no próprio centro do ensaio. E a importante adjunção póstu-
seus "mútuos serviços" ,44 mas ele o fará mais tarde, quando se houver
ma de 1595 ao capítulo u , VI ("Do exercício" ) comportará a justificação
desobrigado plenamente da descrição de suas "condições" corporais. A
dessa franqueza totaL Pintar-se é "principalmente" pintar suas "cogita-
conclusão do ensaio, conciliadora e apaziguada, será consagrada à afir-
ções"; mas não é preciso limitar-se a isso. Não é a título apenas meiafóri-
mação serena dos deveres recíprocos da alma e do corpo, cuja harmonia co que Montaigne acrescenta:
"conjugal" torna possível o gozo da Yida. Ele poderá recorrer, pa ra me-
lhor dizê-lo, a um de seus quiasmas mais expressivos : "~1as eu [ .. . ] n ão (c) Eu me mostro por inteiro, como uma PEÇA ASA TÓ\llCA, cujas veias ,
posso ventilar tão singelo tema sem deixar de inclinar-me fortemente pa- músculos, tendões, di\'isamos em seus lugares [.. . ) Não são apenas
ra os prazeres presentes da lei humana em geral, intelectualmente sensi- meus gestos que escre,·o, sou eu mesmo , é a minha essência. >o
reis e sensivelmente intelectuais" (p. I 107; T. R., p. 1087). E nesta outra adjunção a "Da arte de con\'ersar" (lll . vm):
Mas então terá sido preciso, antes de chegar aí, di:.er o corpo, exibir-
lhe sem falso pudor as principais características, ainda que fosse apenas (c) Apresento-me de pé e deitado, de frente e de trás, de direita e de esquer-
da, tal qual sou realmente.SI
para estabelecer correspondência, quase simetricamente, com o que Mon-
taigne acaba de dizer de suas faculdades "internas" Uulgamento, sinceri -
dade, ignorância e fraqueza). O ESCA NÇÃO ELOQÜEN TE
Evidentemente, não é a primeira Yez que Montaigne se empenha em
montar de sua pessoa um retrato geral e que procede segundo a biparti-
Nos dois domínios que constituem o homem- alma e corpo-, !'11on-
ção tradicional da alma e do corpo. Já o fez, especialmente, em uma lon- taigne, repitamos, está decidido a escutar a experiência íntima e direta
ga seção do ensaio 11. X\'ll (" Da presunção" ), mas em ordem in,·ersa: co- de preferência ao que eles dizem (e prometem) as artes especializadas;
meçara então pelo que será a conclusão da "Experiência", isto é, pela quanto à alma, a teologia e a filosofia; quanto ao corpo, a medicina. Re-
afirmação da estreita união de nossos "dois elementos principais"; 45 de- tomemos aqui a lei tura da "Experiência":

154 155
(b) As artes que nos prometem a saúde do corpo e da alma muito prometem,
fazendo a defesa da legitimidade de uma prática especificamente médica
mas não h:í. nenhuma que cumpra menos suas promessas. Entre nós, os que atest~rn que não era evidente para todo mundo. '
exercem essas profissões são os que menos mostram sua eficiência; pode-se As t rês autoridades invocadas por Montaigne acrescentam-se os ar-
12 :;
dizer deles que vendem drogas medicinais, mas não que sejam médicos. gumento ~x~:aídos da ampla tradição primitivista veiculada pela literatu-
Mo ntaigne vai aplicar-se em inverter os papéis. No lugar das artes i ra da AntigUidade: os homen:. das primeiras eras, por ignorantes que fos-
s:m, levavam uma existência mais inocente, mais feliz e, sobretudo, mais
que fazem da vida seu objeto e pretendem dirigi-la, coloca a própria vi-
sa: ~:sse aspecto •. Montaigne representa um elo importante entre 0 pri-
da, tal como dela tem diretamente a experiência - a vida elevada à cate· m~ttvlsmo dos a~ttgos e as idéias antimédicas que Rousseau exprimirá no
goria de arte. "Meu ofício, minha arte, é viver." 53 O sujeito singular se I?tscurso da desigualdade e no Emt7io e cuja repercussão é ainda percep-
libena do discurso geral que a ele se refere, e reivindica para si mesmo, t !vel nos debates de nossa época ... Projetando no mundo dos "canibais"
apenas p ara si, a auroridade do saber, de um saber rad icalmente diferen- a s image ns míticas ela idade de ouro, Mont aigne não deixa de celeb rar
te, do q ual vimos que quase se confundia com o sentir. ~ perfeita sa~de de que gozam: " A região em que esses po vos habi tam
\lontaigne se d iz convencido de que, no que concerne ao corpo, esse e de resto multo agradável. O clima é temperado a ponto de, segundo mi-
novo saber, nascido da experiência própria, torne supérflua a intrusão nhas testemun has .. raramente se encontrar um enfermo. Afirmaram mes-
de toda regulamentação externa. A concorrência com a ci~nc.:ia médica mo nunca terem v1sto algum epiléptico, rerneloso , desdentado ou curva-
não o assusta. Ele pode apoiar-se mesmo em autoridades antigas: toma d o pela idade" .55 Na Apologia de Raimond Sebond, Mo ntaigne atribui
como garantia em primeiro lugar o imperador Tibério; depois , mais hon- nossas doenças tanto à "agitação de nosso espírito" quanto ao nosso re-
rosamente, o Sócrates das Memorabt1ia* e o Platão da República, os quais curso intempestivo aos serviços da medicina: "Compare-se a existência
asseguram que a experiência pessoal da doença, da dieta e da terapêutica de um homem escravizado a essas idéias imaginárias com a de um lavra-
constitui a co ndição necessária e suficiente para se manter com saúde - dor que se entrega ao fluxo norm al da vida, levando em conta as coisas
a plena autarcia pretende que o indivíduo deva seu " regime" apenas a no momento em que ocorrem e sem se preocupar com o que diz a ciência
si mesmo e que seja, em qualquer circunstância, o seu próp rio curandeiro: sem se prender às. ~onjeturas; q~e só adoece quando a doença chega, a~
(b) E quando se trata de medicina ela [a experiência] está à vontade; a razão p~ sso que ~utros Ja t razem os calculos na alma antes que alcancem a be-
cede-lhe seu lugar. Dizia Tibério que bastava ter vivido vinte anos para sa- XI ga, antecipando-se pela imaginação aos sofrimentos reais, correndo ao
ber o que nos convém e o que nos é nocivo; e poder, portanto, dispensar seu en~ontro como se não lhes sobrasse tempo para sofrer na hora certa.
o médico. (c) Deve ter aprendido isso com Sócrates, o qual recomendava [ ..._J _Dizem que no Brasil as pessoas só morrem de velhice, o que se atri-
a seus discípulos, como estudo principal, o da própria saúde, acrescentando bUI a purez~ e à calma do ar que respiram, e que, a meu ver, provém an-
que um homem de bom senso, simplesmente com observar seus atos, sua tes da seremdade e da tranqü ilidade de suas almas isentas de paixões, de
maneira de comer e beber, devia distinguir, melhor do que o médico, o útil d esgostos, de preocupações que excitam e contrariam. Ignorantes iletra-
e o prejudicial. (b} Proclamando a medicina que assenta seus mandamentos dos, sem lei nem rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve-s~ numa
na experiência, observa Platão que o médico precisava então ter sido vítima admirável simplicidade" .56 Montaigne estabelece perfeita homologia en-
de todas as doenças que pretende curar, e nas circunstâncias em que lhe cum- tre o selvagem e o homem do povo (da qual Rousseau, mais uma vez
se lembrará~. Todas essas idéias são formuladas no ensaio 11, xxxvu, e~
pre pronunciar-se. Assim, para curar a sífilis devia primeiramente con-
traí-la.14 sua generahdade aparentemente indiscutível:
Os testemunhos antigos invocados por Montaigne tratavam de uma
(a) Não há povo que não tenha permanecido durante séculos sem médicos.
medicina cujos meios de ação consistiam principalmente na dietética, com-
E esses sé~~os , os prim~iros, foram sempre os mais felizes. [ ... ) E entre nós
preendida, no sentido amplo, não apenas como a disciplina do regime ali- o povo nuu~o passa mu1to bem sem eles. [... ] Essa denominação de medici-
mentar mas também corno a regulação salutar ("higiênica") do conjunto na pode aplicar-se a tudo o que contribai para a conservação da saúdeY
das atividades e do estilo de vida do indivíduo. Montaigne torna corno
aliados homens que combatiam a profissionalização do conhecimento da Para.?esq.ual,i,ficar a ~edicina das universidades e a linguagem dou-
toral dos sáb1os , Montrugne apenas retoma objeções antitécnicas bas-
dieta - especialização erudita que os escritos hipocráticos mais antigos,
tante clássicas. Apela a um discurso devidamente transmitido pela cultu-
ra - apologia da "apatia" corno prevenção da doença, elogio da auto-
(0) Obra do historiador grego Xenofonte. (N. T.)

157
156
medicação instintiva - a fim de lançar a dúvida sobre os benefícios ilu- observadores que povoam as arquibancadas de um "teatro anatômico" .
sórios da cultura. Atribuir, por exemplo, a saúde dos indígenas do Brasil O filete nervoso que os antigos ignoravam se isola em plena evidência sob
à "tranqüilidade e serenidade de suas almas", antes que às vantagens do a fina e fria ponta do escalpelo, antes de ser consignado pelo buril do
ar, não é afastar-se da linguagem médica - é fazer uma escolha entre gravador nas pranchas do livro impresso. Em prazo mais ou menos lon-
duas das categorias causais estabelecidas pela própria medicina (como te- go, esse inventário exato aumentará os poderes de uma ciência cujas pro-
remos a oportunidade de lembrar), entre as ''seis coisas não naturais" messas ~o~taigne considera ilusórias. Ora, tudo o indica, Montaigne per-
cujo bom uso constitui a higiene. m~ne.ce mdtferente (embora delas tenha tido conhecimento) às correções
Montaigne, no entanto, fala como leigo, como simples particular, objetivas que a ciência anatômica rejuvenescida fornece às velhas idéias
e faz questão de o fazer saber. Não se autoriza com nenhum título para aceitas. Enquanto os anatomistas refutam as asserções de Galeno e 0 ul-
desenvolver suas objeções contra os práticos portadores de diplomas. No trapas~am em precisão, Montaigne retoma, bem aquém de Galeno, a um
que bem se vê (se é necessário disso fornecer uma demonstração) que Mon- socratismo que confia ao indivíduo vivo o cuidado de regular ele próprio
taigne já não pertence à era na qual a "renascença das letras" está acom- todos os aspectos de sua vida: dieta da alma e dieta do corpo. Mas esse
panhada do respeito por todas as fontes da Antigüidade; pertence bem
r:t~rno a uma at~tude delib.er~damente reconduzida para aquém das am-
mais à época mais tardia em que o !!Spírito crítico, de início desenvolvido biçoes do conhecimento objettvo faz de Montaigne (à sua revelia, segura-
para reconstituir o texto dos antigos em toda a sua pureza ftlológica, volta- mente) o precursor do protesto que se desenvolverá uma vez estabelecida
se contra as doutrinas que esses textos veiculam. Montaigne se pretende a descrição sistemática do corpo humano, estudado nos parâmetros da
plenamente livre dos conceitos e dos decretos de uma ciência que outros "substância extensa". Embora o conhecimento do corpo objetivado
persistem em reverenciar (mas que são contestados, de dentro, por seus apreendido "na terceira pessoa", esteja longe de estar acabado. cada um~
representantes dissidentes, dos quais vários são conhecidos por Montaig- das grandes etapas em que se aperfeiçoava o modelo verossímil de um
ne: "Paracelso, Fioravante e Argentário" 58). Ele prefere escutar não os corpo-máquina suscitou a réplica de um pensamento adverso que recusa-
discursos dessa ciência, mas o objeto de que fala -nosso corpo - , que va, em nome da experiência íntima, as demonstrações que faziam do ho-
pode igualmente falar em seu lugar, e de maneira mais direta. Montaigne mem uma coisa sem relação com a apreensão direta da subj etividade vi-
propõe, de início para seu uso pessoal, mas com a preocupação de nos va. Falando da a tualidade de Rousseau, Mareei Raymond escreve: "As
conquistar para a sua causa, uma antimedicina fundada no que aprendeu exigências e as necessidades fundamentais subsistem. A obsessão de um
sobre seu próprio corpo, e não no que dele diz a duvidosa técnica (a "ar- conhecimento imediato, de um pensamento que tenha peso, de um co-
te' ) que se atribuiu competência na matéria. A 'ciência do corpo" pode nhecimento pelo corpo, pela sensação e pela alma não nos a bandonou
e deve compreender-se como ciência possuída pelo corpo, e não como ciên- de maneira alguma" . 59 Isso significa afirmar igualmente a at ualidade de
cia aplicada a descrever o corpo e a manipular-lhe as energias íntimas, Mont aigne, que, como já vimos, é, nesse e em muitos outros aspectos
sem eficácia demonstrada. É preciso que o corpo, com a discreta assis- o. pre.c~rsor m~is direto de Rousseau. Seu recuo para uma sabedo ria p ré:
tência de nosso julgamento pessoal, torne-se o sujeito de seu próprio CJenllftca pref1gura a renexão que somos inclinados a encetar em uma si-
conhecimento. tuação que se pode qualificar de pós-científica. Sua nostalgia de uma saúde
Semelhante apelo à "sabedoria do corpo" - que confia, contra o conse rvada sem arte (no sentido técnico do termo) aparenta-se incontes-
obscurantismo dogmático, no obscuro trabalho, em nós, das forças na- tavelm~nte à n~~essidade que experimentamos hoje de uma arte (desta vez
turais- inscreve-se na contracorrente de um poderoso impulso da renas- no sentido estet1co do termo) que completasse em nossa experiência cor-
cença científica que visa corrigir e superar os mestres da Antigüidade, par- poral os poderes puramente práticos de que a técnica e a ciência nos do-
ticularmente na descrição do corpo humano. Montaigne convida a renun- taram .
ciar à medicina, no momento mesmo em que outros trabalham com su- Em diYersas épocas, os desenvolvi mentos da ciência objeti,·a e racio-
cesso em ap : feiçoá-la. Estes, pela dissecação , pela exigência do olhar, nal suscitaram a confusa rebelião daqueles que consideravam que tal sa-
pela preocupação com a minuciosa representação gráfica, depuram e en- ber, por suas generalizações "abstratas", exercia o seu rigor contra a es-
riquecem o conhecimento do organismo humano em sua qualidade de ob- sência " concreta" e contra a originalidade singular de seu objeto. Quer
jeto natural - de coisa (admirável, por certo) entre as coisas. Os pro- se trate do mundo natural, quer do próprio homem, a manobra defensi-
gressos da anatomia, desde Da Yinci e Yésale, fizeram do corpo um espe- va consiste, como vimos , em restabelecer esses objetos em sua d ie ni dade
táculo a céu aberto, no estado de cadáver anônimo, exposto à vista dos e em suas prerrogati,·as de sujeitos, aptos a apreender-se a si mes~os i m e-

158 159
diatamente em um conh<!cim<!ntO interno e mudo - e aptos igualmente O que Montaigne exporá de sua saúde corporal será, portanto, um a
a deixar-se compreender por uma ciência de outro tipo, mais próxima da antimedicina, mas habilitada a fazer frente à medicina, pelo fato de que
escuta respeitosa do que da explicação redutora. Essa reação , que pode pode, com mais razão, invocar a experiênçia em que a medicina, como
suscitar a reflexão filosófica mais fecu nda (em nosso tempo, a fenome- vimos, "assenta seus mandamentos" . 6 ~ A relação de autor a leitor, no
nologia) , assim como a melhor poesia, muitas vezes deu lu~ar à "ciên- que tem de·singular, será o veículo desse saber rebelde, o qual se manifes-
cia" mais suspeita - a uma ciência " heterodoxa" , que asptra a conser- ta em uma livre conversação sobre o prazer de viver. Confie-se, então,
var o estatuto e o prestígio da ciência, sem consentir nas sujeições meto- na experiência de um indivíduo único; conceda-se-lhe tomar como desti-
dológicas que condenam toda ciência digna desse nome a estabele~er ape- na tário não a comunidade erudita, mas outro indivíduo singular:
nas relações verificáveis e mensuráveis, em um campo voluntanamente
(b) Vivi bas tante para que me julgue no d ireiro de expor as práticas que me
restrito, no qual as coisas são apreendidas segundo seus condicionamen- levaram tão lo nge. Quem o qu isc:r tentar que atente pa ra minhas informa·
tos. No século de Montaigne, Paracelso estima que a natureza pode con- ções. • 63
fiar seus arcanos aos raros privilegiados capazes de ler suas " assinatu-
ras" e de prestar ouvidos aos seus mistérios; 60 no século_ xvtll, a _hipót:- Na frase que acabamos de ler. o ensaio, tal como nele se exercita \lon-
se de uma sensibilidade, ou mesmo de um pensamento, merente a mate- taigne, vê-se at ribuir uma acepção suplementar: pelo jogo de uma metá-
ria inanimada dá eloqüentemente a réplica às ambições por vezes exage- fora (que com igual direito poderia passar por uma metonímia), o ato
radas da física geometrizada ... 61 Reviravoltas análogas não deixaram de sensível da gustação designa a experiência corporal em seu conjunto. E
produzir-se em-nosso século, sobretudo nas ciências psicológicas. Para observemos que a metáfora gustativa se duplica aqui com uma metáfora
resistir a uma psicologia e a uma psicanálise cuja ingenuidade objetivista "conviva!". Montaigne fez o ensaio dos pratos e das bebidas no banque-
aplicava-se em armar a cartografia ou a dinamometria das funções psí- te da vida, antes do leitor que se decidirá talvez a reunir-se a ele, a feste-
quicas, viu-se opor-se outra psicanálise, a qual, declarando que a verda- jar com ele, imitando-o. Essa antimedicina substitui o conhecimento pe-
de não se dizia senão na própria linguagem do inconsciente, abdicava de lo gozo, assim como substitui a experiência raciocinadora pela experiên-
toda cientificidade: para afastar as armadilhas epistemológicas de uma cia íntima e como retém, no complexo semântico da palavra arte, a acep-
linguagem calcada na das ciências da natureza, caía em uma armadilha ção que lhe associa a produção do prazer e não mais a que a liga a uma
pior, que consiste em se valer do saber enquanto se furta a todo controle habilidade técnica. A techné do médico é suplantada pelo saber viver do
experimental. individuo exposto à doença. Releiamos esta afirmação: "Meu ofício, mi-
Não é preciso dizer que esse tipo de reviravolta resulta sempre em nha arte, é viver". É preciso restituir a essa frase toda a sua energia
reabilitar a experiência singular ou em fazer dela o ponto de partida de paradoxal.
uma nova generalidade. Em Montaigne, a importância conferida ao eu, Dizer o acontecimento corporal, náquilo que pode ter de único e de
a atenção de que ele se beneficia, exigia necessariamente o primado epis- não repetível, Montaigne o fizera no relato de sua queda de cavalo e de
temológico do conhecimento por "sentimento", tanto em relação ao corpo seu desfalecimento (11, VI). Esse acontecimento, mais tarde, podia ser in-
quanto à alma. Digamo-lo novamente: o sujeito corporal, tal como se sente terpretado como o ensaio antecipador de sua perda mais decisiva: a mor-
existir, reivindica uma legitimidade superior ao discurso da ciência (de toda te. O relato impõe sua ordem necessária, quaisquer que sejam as digres-
ciência) sobre o corpo. Mas nada está mais distante do espírito de Mon- sões de que o narrador o cerque.
taigne do que a idéia de fazer escola professando uma ciência heterodo- Mas como dizer o uso da vida, o costume corporal? Não é mais ques-
xa; sua rebelião, quanto ao essencial, tende a restituir uma função poéti- tão de um relato. É preciso descrever o detalhe dos hábitos. E, ainda que
ca àquilo de que a ciência fala necessariamente sem poesia. A en:presa se estivesse resolvido a falar displicentemente, é preciso adotar certo sis-
de dizer o corpo leva não apenas à permissão dada ao corpo de dtzer-se tema de referências para evocá-los. Onde encontrar esse sistema, senão
a si mesmo pela voz viva, pelo gesto, pelos movimentos etc., mas tam- no uso descritivo comum, tal como foi ele próprio profundamente influen-
bém à possibilidade, para o corpo, de oferecer o repertório metafórico ciado pelo discurso médico? A atenção se dirige a uma ordem de fatos
por meio do qual , na escrita do livro, todos os atos de pensamento, todas cuja importância e cujo caráter de realidade foram constituídos, de gera-
as emoções serão representados. Dizer o corpo é verdadeiramente voltar
à fonte, já que tantos objetos - e, no limite, tudo que se pode dizer - (*)No original, " [... ] expor as práticas que me levaram tão longe. Para quem delas
quiser provar eu, seu escanção, fiz-lhes o eiiSQio" (grifo de Starobinski). (N. T.)
são dizíveis pelo corpo.

160 16/
ção em geração, sob a influência dos conceitos fixados pelos médicos.
e exemplos amplamente influenciados pelos escritos do filósofo-médico
Montaigne anuncia que exporá "as práticas que [o] levaram tão longe",
Ficino e muitas vezes alegados na literatura médica (Jean Wier, Ambroi-
"ao sabor da memória";• 64 mas a própria lembrança não revela tudo se Paré, Levinus Lemnius, Fienus, Huarte ... ).
e não reteve tudo; escolheu os materiais que lhe pareciam dignos de ex-
O longo desenvolvimento que Montaigne consagra à sua "saúde cor-
por. E sua escolha, sua própria percepção, foi guiada por uma linguagem
poral" em "Da experiência" pode inscrever-se quase inteiramente sob a
em que as categorias médicas desempenham um papel maior do que ela rubrica do que a medicina denomina "coisas não naturais" ou coisas in-
presume ou reconhece. Para dizer o corpo melhor do que o faz a medici- ?iferentes; esse. no_m,e lhes é dado porque não estão diretamente ligadas
na, é preciso encontrar uma linguagem adequada e inteligível: a lingua- a natureza dos mdtvtduos (humores, temperamento), mas à maneira pela
gem comum oferece seus serviços - ora, ela está crivada de reminiscên- qual ordenam ou sofrem suas condições de existência. As "coisas não na-
cias médicas. Daí a dificuldade de sair da linguagem médica para falar, turais" são em si indiferentes, mas o uso que delas fazem os indivíduos
no caso, contra a medicina. pode influir em sua saúde. Nesse domínio- a higiene-, o médico leva
O leitor (por pouco que tenha percorrido os livros médicos da épo- em consideração a maneira de viver de seu paciente e o interroga sobre
ca) perceberá que Montaigne só pode narrar-se apropriando-se da lingua- seus hábitos. Aqui ainda, Paré expõe excelentemente a opinião reinante·
eem dos médicos ,Jazendo uso de suas categorias, virando-as em seu pro- não hesitemos em citá-lo longamente: '
~eito, segundo a regra que aplica em todos os seus empréstimos.
Tais coisas [... ) estão compreendidas na segunda parte da medicina dita Hi-
Desse recurso sub-reptício aos conceitos da medicina, e da modifica- giene, isto é, preservação de saúde - não porq ue algumas delas seJam sem-
ção que .!\1ontaigne lhes impõe ao inseri-Iós em suas afirmações pessoais, pre salubres e o utras insalubres po r sua natureza, mas apenas porque são
um excelente exemplo nos é fornecido por um detalhe: a conclusão do feitas o u tornadas tais por uso cômodo ou incômodo.
ensaio "Do arrependimento" (m, 11). Montaigne podia ter lido em Am- Tal uso consiste em quatro condições, a saber, em quantidade e qualida-
broise Paré: "A velhice, por mais bem-disposta que seja, é por natureza de, na ocasião e na maneira de usar que, se observares, farás com que essas
como uma espécie de doença [.. .]" .65 E Paré daí concluía que "parece coisas que de si são indiferentes sejam sempre salubres - pois dessas quatro
melhor nutri-la com alimentos contrários a seu temperamento- a saber , depen~em todas as regras e preceitos dessa parte da medicina, a qual diz res-
petto a conservação da saúde. Essas coisas não naturais, como diz Galeno
quentes e úmidos - , para retardar sempre as causas da morte, frialdade
no primeiro livro De sanitate tuenda, estão compreendidas entre q uatro gê-
e secura, que a persegue bem de perto". Montaigne, no último parágrafo neros e expressões universais, que se chamam sumenda, admovenda, edu-
do ensaio "Do arrependimento", o repete, mas segundo o seu ritmo e cenda, facienda. Sumenda, isto é, coisas que se usam internamente seja pela
em um mo,·imento de invenção pessoal, em que a reflexão moral se poetiza: boca seja por outra parte, são o ar, beber e comer. Admo1·enda, isto é coi-
sas que se aplicam por fora, são todos os medicamentos e toda outra ~oisa
(b) [ ... ) Parece-me que na velhice nossas a lmas estão sujeitas a doenças e
que se aproxima tanto do corpo quanto de a lguma parte que seja. Educen-
imperfeições mais importunas do que na mocidade[ ... ]. É uma do~nça ler-
da, isto é, aq uilo que é tirado fora, são todos os excrementos que saem for a
rire! que se in filtra naturalmente em nós, sem que o percebamos. E preciso
do cor~o, to?as as coisas estran has que se tiram dele. Facienda, isto é, aqui-
ter-se preparado cuidadosamente e tomado grandes precauções para e\·itar
lo que e prectso fazer , seu trabalho, repouso, d ormir, velar, e outros; contu-
a decadência com que nos castiga ou , ao menos, para atrasar-lhe a marcha. do , comumente são divididos em seis, que são:
Sinto que, apesar de toda a minha resistência, ela ganha terreno, palmo a O ar.
palmo. Luto na medida de minhas forças, mas sem saber até onde poderei Beber e comer.
chegar. O que quer que aconteça, entretanto, q uero que saibam de que a ltu-
Trabalho, o u exercício e repouso.
ra cai. 66
Dormir e velar.
Quanto ao valor terapêutico do calor (contra a "frialdade e secura" Excreção e retenção, ou repleção e inanição.
da velhice), Montaigne também não o esquecerá; mas, como veremos, é A s perturbações da alma .67
no capítulo "A propósito de Virgílio" (111, v) que dele falará , não a pro- P aré toma o cuidado de acrescentar que em todos esses d omínios
pósito dos "alimentos", mas do reaquecimento provocado pelo amor, e especialmente no que se refere à alimentação, é preciso ter a maior con~
que poderia ser aprovado pela arte médica como um antídoto apropria- sideração pelo costume, o qual contribui para o temperamento próprio
do. As páginas sobre "A força da imaginação" ( I. XXI) comportam idéias do indíviduo (idiossincrasia):

(•) :'\o original, "ao sabor da lembrança". Ver nota 64. (N . T .)


Não é suficiente apenas ter conhecido a quantidade e qualidade dos a limen-
tos, mas é preciso também prestar atenção ao costume e maneira de tomá-los,
162
163
se é verdade que, segundo o dizer dos principais médicos, o costume (isto
é, maneira de viver) é outra nature::.a. Pois este algumas vezes muda o pró- racterizam na singularidade de sua existência. E , quando Montaigne ge-
prio temperamento natural e dei.xa outro adquirido: portlnto, o costum.: d.:ve neraliza, redescob re, num estilo mais expressivo, a generalidade do dis-
ser conservado não apenas nos sãos mas também nos doentes- pois, se pron- curso médico. Vale a pena con frontá-los mais uma vez. Escutemos Paré:
tamente o quereis mudar de pior para melhor, fareis certamente mais mal
Segundo o dizer d.: Hipócrates , [... ) as mutações súbitas e repentinas são
do que bem. 68 perigosas. Por essa razão, se queremos a maneira de viver habitual, que é
Devemos surpreender-nos de ver ~1ontaigne, ao coml!çar o dl!senvol - viciosa, ou que engendra o mal, ou o mantém, é preciso fazer essa mudança
vimento de "Da Experiência" sobre a "saúde corpo ral", insistir no im- pouco a pouco, a fim de que a natureza não se irrite e que sem grande per-
turbação possa adquirir novo costume; pois, embora um alimento seja por
pério do costume? Existe aí, da parte de um homem que quer libertar-se
si mesmo um bom hábito, será cozido e digerido menos ou mais tarde que
da tutela m édica, uma excessiva docilidade à própria linguagem dos outro pior e costumeiro. Que assim seja, vemos p.:las pessoas rústicas
médicos? que cozinham antes porco salgado ou boi, os quais usam comumente, do que
uma perdiz ou capào, ou outra carne de boa substância [.. .]. 72
(b) Doente ou com saúde meu modo de vida é idêntico. Uso o mesmo leito,
as horas de refeição não mudam, como e bebo as mesmas coisas: nada acres- Montaigne o dirá mais sucintamente:
cento nem retiro, apenas faço o que exigem minha disposição e meu apetite.
Não vejo melhor meio de os enfermos assegurarem sua cura do que o de
Consiste minha saúde em manter sem perturbações o meu estado habitu:1l.
continuarem a levar a vida a que estão a'ostumados: qualquer mudança é
[... ] Creio fi rmemente nisto: não podem prejudicar-me as coisas a que estou
prejudicial. Podereis por acaso admitir que as castanhas façam mal a um
há tanto tempo acostumado; nossos hábitos moldam nossa vida a seu b.:l-
perigordino ou a um luquens.:? E que o leite e o queijo sejam nocivos a um
prazer, como a bebida de Circe que modifica a nossa natureza a seu talante. montanhC:s? 73
Quantos povos [... ) não consideram ridículo o nosso medo do sereno? E co-
mo zombam disso os nossos campõnios! 69 E m suma, Montaigne preenche, com base em sua experiência pes-
soal, o questionário que a medicina coloca em termos gerais e do qual
E Montaigne se põe a enumerar exemplos surpreendentes dos efeitos ele próprio enumerara as rubricas no ensaio final do segundo livro, quando
do costume. Agora, a crítica epistemológica do cosLUme, o qual impede evocara os múltiplos considerandos de que o médico devia manter-se in-
nossos espíritos de apreender a verdade nativa, cede o passo à constata- formado, com o risco de se "enganar" se um deles fosse mal estabeleci-
ção médica da necessidade, para quem q uer conservar sua saúde, de não do : "O temperamento do doente, sua temperatura, seus humores, suas
interromper uma maneira de viver habitual. predisposições, suas ocupações e até o que pensa e sonha"; as "condi-
P o r certo, Montaigne não quis tomar-se escravo de seus hábitos: "Mi- ções ambientes" , a " natureza d o lugar, do ar, do clima" ... 7-t Montaigne
nha melhor qualidade consiste em ser flexível e pouco obstinado. Tenho n ão pode, por certo, dar resposta' a tod.a s as perguntas com que vê preo-
inclinações mais pessoais, que me são mais agradáveis, mas com um pe- cupada a medicina: a " posição dos astros e sua influência"- tão distan-
queno esforço afasto-as ou as contrario". Mas , com a idade, o costume te, tão conjetura} - o deixa indiferente. No que se refere à sua doença,
tornou-se mais imperioso, e é longa a lista dos hábitos a que Montaigne às suas "causas" , "sinais", "efeitos", " dias críticos", com eles entrete-
não pode renunciar : ve devidamente seu leitor no ensaio " Da semelhança dos filhos com os
pais", insistindo no fenômeno quase miraculoso da transmissão heredi-
[ ... ] (b) o hábito, sem que o percebesse, já imprimiu em mim sua marca, tária:
e muitas coisas já considero difícil não as fazer ou as fazer diferentemen-
te.70 Não posso mais dormir ao ar livre, comer entre as refeições, deitar-me [... ) há nas obras da natureza qualidades e condições cujas causas escapam
após o almoço, ou o jantar, (c) sem pelo menos três horas (b) de intervalo; ao nosso entendimento. [... ) Prodigioso é com efeito o que o sêmen prolífi-
ter relações com minha mulher senão antes de dormir, suportar o suor no co engendra e traz a marca não somente da constituição física de nossos pais,
meu corpo, beber água ou vinho puros, permanecer durante muito tempo mas ainda de seus pensamentos e tendências. Onde se aloja, nesse germe,
com a cabeça descoberta, cortar o cabelo depois da refeição. Não prescindo esse número infinito de formas embrionárias? 75
de luvas como não fico sem camisa, e é-me uma necessidade lavar-me pela Ao indicar no " sêmen prolífico" paterno a causa necessária de seu mal,
manhã e ao levantar-me da mesa; julgo imprescindíveis um dossel e corti- Montaigne não deixa de sublinhar os limites de nossa compreensão, inca-
nas. [... ) Outras delicadezas dessa ordem impôs-me o hábito71 [etc.). paz de apreender, para além da causa necessária, as verdadeiras causas
Montaigne, como se vê, não contradiz aqui a medicina por seu exem- suficientes . Em matéria de patologia, o paciente bem sabe que não é ad-
plo particular: traz-lhe confirmação, multiplicando os detalhes que oca- mitido no conhecimento das causas (mas, com razão , duvida de que o

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médico delas saiba mais do que ele). O que dirá por ter tido a experiência
das doenças é que elas próprias são como "animais" 76 que têm uma du- sou grande amador de saladas e frutas, salvo melões" (p. 1102; T. R.,
ração de vida limitada. Concepção ontológica da doença, cuja idéia Mon- p. 1082). A questão do jejum, da quantidade de alimento, do ritmo das
taigne encontrou nos filósofos e nos médicos, mas para a qual credita sua refeições ocupa os parágrafos seguintes: "(b) Na minha mocidade
experiência própria: · aconteceu-me suprimir uma refeição [... ] Acho que é mais saudável co-
mer devagar, pouco e arniudadamente" (p. I I03; T . R., pp. I082-3).
(b) Ensinou-me ainda a experiência que nós nos perdemos por falta de pa- Quanto ao beber, que, em bom método, devia estar emparelhado com
ciência. Os males têm sua vida, com limites determinados, (c) suas doenças a questão do comer, o desenvolvimento é retardado pela interposição de
e seus estados de saúde.n um breve parágrafo consagrado ao vestuário (cuja consideração também
No que se refere ao seu "temperamento", sua "temperatura", seus faz parte, tradicionalmente, da higiene médica, a título de admovenda ou
"humores", Montaigne os deu a conhecer, na própria linguagem da me- de applicata): "(b) Tanto no inverno como no verão uso simplesmente
meias de seda" (p. I I03; T. R., p. I083). Montaigne volta por um instan-
dicina, no ensaio n , xvn (" Da presunção"): seu temperamento está "(b)
te às considerações sobre a hora das refeições do fim do dia; depois, trata
entre jovial e melancólico, [ ... ]é algo (c) sanguíneo". Portanto, não terá
enfim das bebidas: "(b) Não sinto muita sede nem mesmo quando enfer-
de voltar a isso demoradamente. O que lhe resta dizer, no ensaio conclu-
mo" (p. I 104; T. R. , p . 1084). Sobre essa matéria, igualmente, Montaig-
sivo do livro inteiro dos Ensaios, refere-se às "predisposições" e às "ocu-
ne faz o elogio do costume: "(b) O modo de vida preferível é o mais co-
pações" , ao que "pensa e sonha" e, sobretudo, à série dos comporta-
mum; toda singularidade deve ser evitada, e parece-me tão errado um ale-
mentos e das experiências que dependem das "seis coisas não naturais". mão que mistura água ao vinho como um francês que o bebe puro . O
Essas confidências puderam parecer fúteis ou escabrosas a leitores uso é lei nessas coisas" (p. I 104; T . R ., p. 1084).
que não estavam a par das matérias a que se referia sistematicamente a Sobre o aspecto do dormir e velar e, em seguida, do trabalho, exerd-
pesquisa do médico. Ao examiná-las de perto, não há nada do que Mon- cio e repouso, Montaigne tem muito para nos dizer; não é sem importân-
taigne evoca, aparentemente sem se obrigar ao menor movimento siste- cia que a primeira das ações que menciona seja "o falar": "Verifiquei
mático, que não se disponha de maneira a preencher os casos previstos que, quando estou doente ou machucado, falar me cansa e me prejudica
pelo traçado médico- e a preenchê-los sem omitir nenhum. O que suce- tanto quanto uma loucura qualquer. Falo com dificuldade e sinto-me
de com cada uma das "seis coisas não naturais"? Sigamos aqui a ordem exausto porque o timbre de minha voz é alto e exige um esforço [ ... ] O
em que são enunciadas por Ambroise Paré. tom da voz encerra uma parte da expressão, cumpre graduá-lo portanto .
Há um tom para ensinar, outro para adular, outro para advertir. Não
somente é preciso que a voz alcance o ouvinte, mas ainda que o fira e,
O ar. Montaigne quase se deixou persuadir de q ue o "sereno" é m ais por vezes, o traspasse" (pp. 1087-8; T . R., pp. 1065-6). Bem mais abaixo
perigoso antes do pôr-do-sol (p. 1084; T. R., p. 1062). "Sou avesso ao no texto, o tema do exercicio será retomado de maneira completa, come-
ar carregado e detesto a fumaça [... ) Respiro com desenvoltura [ ... ] O çando por mencionar a experiência do sono e da vigília:
rigor do verão é-me mais insuportável que o do inverno" (p. 1104-5; (b) Nada se deve recomendar mais à juventude do que a aril·idade e a \"igi-
T . R., p. 1084). láncia; a ,;da é movimento. Sou tardo em tudo, custo a Je,·anrar-me. a deitar-
O beber e o comer. :\1ontaigne deles falará várias vezes, segu ndo seu me, a comer; para mim , sete horas é cedo [.. .].80
procedimento às "cabriolas": 78 "São ou enfermo, satisfaço os meus ape- Já que a questão da vigília e do sono se liga tradicionalmente à do
tites" (p. 1085, T. R., p. 1064). Mas se trata ainda apenas do conjunto exercício, não se ficará surpreso de que Montaigne, depoi s de ter confes-
das paixões (ou apetites corporais), em que os prazeres do paladar e os sado sua " propensão para a preguiça", 81 passe ao outro extremo: sua ca-
prazeres sexuais 79 podem ser enumerados lado a lado. A questão mais es- pacidade, quando é preciso, de entregar-se a esforços contínuos, sacri fi-
pecifica do comer e do beber, entrecortada de digressões, começa pela cando as oito ou nove horas que consagra habitualmente ao sono. Faz
declaração: "(b) À mesa não tenho preferências" (p. 1099; T. R., p. 1078). questão de lembrar-nos de que aceitou bravamente seu quinhão de cor-
E Montaigne prossegue: "(b) Aborrece-me demorar à mesa .e isso (c) me véias militares:
faz mal" (p. 1100; T. R., p. 1080). Se a queda de um dente se torna pre-
(b) Quando é preciso, liberto-me dessa propensão para a preguiça e dou-me
texto para um desenvolvimento sobre a morte que se introduz insensivel- visivelmente bem; a mudança é-me penosa , mas durante dois ou três d ias
mente em nós, Montaigne não esquece seu propósito principal : "(b) Não tão-somente. Não sei de muita gente que seja mais frugal e simples do qu e

166 167
tez e a minha fisionomia, o que os médicos atribuíam a um estado de espiri·
eu quando o exigem as circunstâncias, nem que se exercitem mais e achem
to provocado por alguma paixão maligna. E se iludiam. Se meu corpo awm -
menos duras as atividades militares. !\leu corpo é capaz de suportar durante
panhasse a alma, estaria muito bem. 83
muito tempo uma vida agitada, mas não se adapta a uma agitação veemente
e repentina. Evito, porém, agora os exercí~ios violentos suscetíveis de me Ocorre então com os indícios relativos ao estado físico o mesmo que
fazer transpirar; meus membros cansam antes de se aquecerem os músculos. com os indícios de moralidade discutidos no ensaio sobre a "fisionomia"
Fico sem dificuldade em pé durante um dia inteiro, e passear nunca me ente- e, mais geralmente, com toda causalidade presumida: " [... ] Parece-me
dia [... ] Tanto estendido como sentado, agrada-me ter sempre as pernas a
que as formas e as linhas do rosto, pelas quais se inferem algumas carac-
altura do assento ou mais alto. 81
terísticas internas, bem como algo de nosso destino, não têm relação di-
Nem tudo foi dito ainda sobre o exercício. Algumas páginas adian- reta com a beleza e a feiúra, assim como um ar sereno e perfumado não
te, depois de haver tratado do comer, do beber, do ar, de uma leve fadiga garante a salubridade, nem uma atmosfera pesada e malcheirosa é indí-
visual, Montaigne acrescenta algumas informações: "Tenho o andar vi- cio certo de infecção em tempo de epidemia. Os que acusam as mulheres
vo e firme" (p. 1105; T. R., p. 1085). i\las se trata já do problema mais de desmentirem sua beleza com seus costumes nem sempre acertam, pois
particular das relações entre a alma e o corpo: "Eu não sei o que sou mais em um rosto que deixe a desejar pode alojar-se a probidade, ao passo que
capaz de sustar em um dado ponto, se o corpo ou o espírito" (p. 1105; muitas vezes deparamos em lindos olhos ameaças reveladoras de um ca-
T. R., p . 1085). Montaigne reconhece a dificuldade que experimenta ao ráte r mau e perigoso[ ... ] O rosto é uma garantia frágil; merece, entretan-
permanecer atento e calmo ("Nunca pude conseguir que alguma coisa em to, consideração". B-4
mim não destoasse; ainda que sentado não fico calmo"). Da mesma ma- t-.las, antes das paixões da alma, a lista que lemos em Paré mencio-
neira, imediatamente depois, a confidência relativa ao modo voraz com nava a excreção e a retenção. Nesse ponto, Montaigne responde escrupu-
que come, embora referente, mais uma vez, à rubrica do comer e do be- losamente ao questionário. Não há razão para que deixe em branco essa
ber, introduz a questão da concorrência entre comer e falar (pp. 1105-6; subdivisão: "(b) Reis e filósofos precisam diariamente esvaziar os intesti-
T. R., pp. 1085-6). Nova rivalidade entre atividades corporais e espiri- nos; e também as mais belas damas [... ] Posso, pois, dizer o que penso
tuais: "Nossos deleites invejam-se mutuamente e lutam entre si" (p. 1106; desse ato" (p. 1085; T. R., p. 1063). Também ai, é preciso que um costu-
T. R., p. 1086). Montaigne, tratando ainda das "coisas não naturais", me se imponha: essa ação deve ser deixada para a "noite, em horas cer-
prepara já o tema da interdependência aceita entre alma e corpo, que ocu- tas; consegue-se pelo hábito" 85 (p. 1085; T. R., p. 1063). Indiscrição? Im-
pará as páginas conclusivas do ensaio. As transições são tão numerosas pudor? Certamente. Mas como omitir, se se quer replicar ponto por pon-
que tornam irreconhecível uma construção muito bem traçada em suas to aos médicos, um capítulo a que eles próprios atribuem tanta impor-
grandes massas. Assim, é ainda no registro do exercício (do movimento tância?
em geral) que se pode referir o que diz Montaigne da expressividade de Quanto aos seus cálculos, que fazem parte também do domínio das
sua fisionomia: "(b) Meu rosto e meus olhos revelam imediatamente meu excreções, Montaigne consagra-lhes longo desenvolvimento. Entre todas
estado de saúde" (p. 1097; T. R., p. 1076). Trata-se, no caso, de sinto- as suas "condições corporais", é a única em que a doença se imiscui. Em
matologia médica, tendo a questão da sintomatologia moral, da relação toda outra parte, o costume estabelece um equilíbrio salutar. Aqui des-
entre caráter e indícios fisionômicos, sido devidamente tratada nas páginas ponta, ao contrário, a ameaça interna. Ora, precisamente sobre esse pon-
finais do ensaio "Da fisionomia" (m, XII); o rosto é agora considerado to, Montaigne faz questão de declarar uma vez mais, como fuera no
espelho da saúde e da doença: "(b) Por aí começam todas as mudanças, ensaio 11. xxxvu, seu antagonismo em relação aos procedimentos e aos
e meus amigos não raro se compadecem de mim antes que perceba a cau- comportamentos dos médicos. O melhor partido que possa adotar, de-
sa". Então, será que se poderia ler em seu rosto, como em um livro aber- clara ele, é a resignação: "É injusto queixar-se do que pode ocorrer a to-
to, seu estado de saúde? De maneira nenhuma. Quando a tez de Mon- dos [... ] A gota, os cálculos, a indigestão são inerentes à idade, como o
taigne se alterava, os médicos ficavam perplexos e, não podendo desco- calor, as chuvas, os ventos comuns às longas viagens [... ] É necessário
brir uma causa orgânica ou humoral, contentavam-se com a sexta das "coi- aprender a sofrer o que não há como evitar" (p. 1089; T. R., pp. 1067-8).
sas não naturais", as "paixões da alma", sem aí ver com maior clareza: Estabelecido esse princípio, que necessidade há de recorrer aos médicos,
sobretudo quando sua intervenção se limita a formular previsões alar-
(b) Eles [os amigos] vêem nesse espelho que não engana, pois, mesmo na
mocidade, mais de uma vez ocorreu que se alterassem sem motivo a minha mantes?

168 169
(b) Mesmo quando sinto que a saúde se altera, consulto raramente os médi-
cos porque são indivíduos que, quando nos têm nas mã~s, nos enchem a
nos é relatado sob forma alegórica: ele se passa entre duas das faculdades
cabeça com seus prognósticos. Vendo-me outrora ~batido pela doença, que, segundo a doutrina tradicional, constituem o sensus internus. (Elas
esmagaram-me ultrajosamente com sua ciência e suas atitudes, ameaçand~-me são três no total: razão ou espírito, imaginação ou fantasia, memória;
com dores violentas e até com a morte próxima. Isso não me desmorali~ou a terceira faculdade, que é a memória, não está desocupada, já que, des-
mas irritou-me e magoou-me; e, embora não se contur~ass: o ~eu espínto, de o inicio da descrição da experiência corporal, Montaigne reuniu os re-
sentia-me algo incomodado; e a discussão provoca ag~taçao. cursos de suas lembranças para retraçar-lhe todos os detalhes pertinen-
tes.)
"Agitação": é uma paixão da alma. A sexta das "coisas não nat.u-
rais" se encontra, assim, estreitamente ligada à doença causada pelo ~Is­ Duas instâncias do eu cindiram-se. Um ele, que é o espírito, prega
túrbio da excreção. Não há aí nada de surpreendente: segundo a doutnna e tenta persuadir um tu, que é a imaginação, isto é, o ser que corre o risco
de inquietar-se, de se deixar ganhar pela perturbação e o sofrimento. Na
médica geralmente ensinada, as paixões da alma podem ora pr~vocar .a
doença ora, ao contrário, ser agitadas pela doença. Para M~ntaigne, di- hierarquia das funções do sensus internus, o espírito ocupa a posição su-
perior. Montaigne nos convida, assim, a ouvir um discurso que procede
zer como resiste aos cálculos é matar dois coelhos de uma caJ~dada: co~­ do mais alto recurso interior:
tinua a prestar conta de suas excreções e nos revela o que sao suas .pai-
xões diante dos "cálculos", em que bem sente que a morte o espreita. (b) "O mal assustava-me antes de eu o conhecer; os gritos e lamentos dos
Como se vê, a importância do assunto requer um destaque t~do par- que o exageram por falta de resignação faziam que o temesse muito. E , mais
ticular. De que modo agirá Montrugne?_Em primeiro.ltJgar, desu~a a es- ainda, é um mal que nos castiga onde mais pecamos.'' E acrescenta o espíri-
sa matéria uma posição central, no meio da parte mediana ~o ensaio, c?n- to: "Se tens consciência encara o castigo como doce e paternal em compara-
sagrada a seu "hábito" corporal. Além disso, vai dramatizar ~ questao, ção com outros"; "o mal que não se mereceu é o único de que se tem o di-
dando-lhe um desenvolvimento considerável, fora de proporçao com os reito de queixar". " Pensa como te chegou tarde a descarga, no momento
outros assuntos tratados. Assim, imediatamente depois de ter evocado a em que tua vida já se tornou vã e estéril; ela substit ui os prazeres e as licen-
ciosidades adolescentes. Tiras cena vaidade do receio e da piedade que a doen-
"ciência" dos médicos e seus veredictos brutais, recorre.a uma longa pro-
ça inspira, é um defeito de que imaginas ter-te curado mas que teus amigos
sopopéia, para fazer ouvir um discurso dirigido e~ senu~o oposto ao dos ainda percebem em ti. E é agradável ou vir dizer: que energia, que paciência !
homens da arte. O procedimento consistirá em c1~ar (evJdent.emen:e, e~ Vêem-te suar, empalidecer, tremer, vomitar sangue, verter lágrimas, expelir
fingir citar) as palavras que seu espfrito dirige habitualmente a sua Imagi- urinas espessas e escuras ou deixar de urinar porque um cáJculo cruelmente
nação para socorrê-la e reconfortá-la: se inscrustou na uretra. Não obstante conversas com os presentes como de
costume, gracejas, desmentindo as dores com tuas palavras, e su perando o
(b) Sou todo cuidados com minha imaginação; se pudes~e, evitar-lhe-ia tod? so frimen to [.. . )". 88
trabalho e pena. É preciso auxiliá-la, lisonjeá-la, engana-la mes~o se posst-
vel. É tarefa de que meu espirito en~ende e, se.soubesse pers~ad~r como ar- No entanto, essa apóstrofe em que são exibidos todos os recursos
gumenta, prestar-me-ia grande servtço . QuereiS um exempl~ . . ~ts o qu~ me da retórica (interrogação, injunção, sentenças, dialogismos, hipotiposes
d " Esses cálculos são um bem para mim, já que todo edtftcto da mmha
·7.
etc.) não esgota todos os argumentos dirigidos à imaginação pelo espíri-
1&... ' , 87
idade tem suas goteiras [... ) Deve consolar-me [.. . ) . to. Muito resta ainda por dizer. Mas Montaigne muda de registro. À após-
o destaque adquire, assim, a forma de um discurso no discurso. Ha- trofe sucedem-se afumações na primeira pessoa, nas quais parece que Mon-
via pouco, no momento de começar a descrever seus "costumes", ~1on­ taigne retoma a palavra como o fazia anteriormente: "Sou grato à sorte
taigne apelara ao leitor: "Quem o quiser tentar que a~ente para m1~has por me assaltar tão freqüentemente com as mesmas armas; molda-me as-
informações [... ]". • Agora, o leitor é interpelado ~ais um~ ~ez, aind.a sim e me educa, e fortalece-me" (p. 1092; T. R., p. 1071). Poderíamos
mais dirétamente: "Quereis um exemplo?". Em meiO aos muluplos arti- crer que Montaigne, mais uma vez, dirige-se a nós diretamente, como faz
gos fornecidos pela "lembrança", Montaigne dá a palavra: um novo lo- por toda a parte nos Ensaios. Mas, três páginas adiante, saberemos que
cutor, que vem ocupar a cena em seu lugar e requer a atençao red.obra.da se tratava ainda de uma autocitação, isto é, de uma continuação do dis-
do leitor. Nessa apóstrofe do espírito à imaginação, um debate mtenor curso no discurso:

(b) Com esses argumentos , uns fortes, outros frágeis, e agindo como Cícero
(") Ver nota do tradutor na página 159. (N. T .)
agia no combate à velhice, essa outra enfermidade, procuro adormecer e dis-

170
171
trair a imaginação, tento pensar as chagas. Se porventura vierem a agravar-se, gem e transcrição de uma sinestesia profundamente experimentada. r\o
~·erei outras escapatórias. 89 entanto, Montaigne faz questão de reforçar sua afi rmação pela autorida-
A argumentação exemplar sobre os cálculos , oferecida ao leito r na de dos estóicos e pela de Sócrates . (Mesmo quando declara fazer pouco
parte central do inventário corporal, prolongou-se até essa espécie de con- d e toda ciência estranha, não pode negligenciar testemunhos tão precio-
clusão. No intervalo, Montaigne nos terá dito, em um alongamento, que .sos para confirmar o que ele próprio sentiu: " A estreita ligação existente
redige um diário de sua doença, que "forja" uma memória "de papel " ,90 entre o sofrimento e a volúpia" . A final, p recisa contar com a resistência
que, ao folhear "essas notas", ocorre-lhe "deparar na experiência dopas- ou com a má vontade do leitor diante da experiência individual exclusiva
sado com algum prognóstico favorável" .91 A argumentação muda de na- de Michel de M ontaigne: "Os que não quiserem admitir minha opinião
tureza: de moral que era, quando o espírito repreendia a imaginação, não sobre a ignorância hu mana (em verdade, sem conseqüência) ou hesitam
hesita em imitar a linguagem da medicina, para arranjar uma hipótese ante o que vêem, hão de concordar diante do pensamento de Sócrates
o mest re dos mestres" . ) 9 ~ '
encorajadora sobre o desfecho do mal. Os raciocínios elaborados por Mon-
taigne assemelham-se surp reendentemente aos dos médicos, mas para Com essas considerações, a argumentação ainda não chesw u a seu
contradizê-los: as promessas plausíveis com que se acalma equivalem às termo. Ainda tem muitos outros recursos: " Deduzo disso que o~ võmit os
ameaças que eles lhe desferiam: violentos e freqüentes me purgam [.. . ] Citarei outra vantagem particular
d e minha doença. Age sem me impedir de agir [ ... ] Ainda encontro em
(b)A idade atenuou o calor de meu estômago; menos bem-feita a digestão, minha moléstia uma comodidade especial: é um m al que não nos dá mui-
os alimentos alcançam os rins menos elaborados. Pode também acontecer tos motivos de dúvida, ao passo que os restantes n os enchem de incerteza
que em dado momento se debilite igualmente o calor de meus rins e que,
acerca de suas causas, condições e progressos, o que é infinitamente pe-
não produzindo mais secreções arenosas, tenha a natureza de inventar outro
noso. E não sei que fazer de médicos; o que sinto j á revela em que consis-
modo de evacuação. Os anos acabaram com meus defluxos; por que não
acabariam também com esses cálculos?92 t e e onde se localiza" .95 O cálculo pode então ser vivido no presente, no
sentir, sem especulação retrospectiva, assim como sem ad ivinhação do fu-
Mas que necessidade há de conceber hipóteses fisiológicas sobre a turo.
feliz evolução da doença? Por que não considerar t ambém o gozo que Se o privilégio do cálculo é de ser vivido na ausência de toda "previ-
se experimenta por ocasião da remissão, uma vez passada a crise? são aborrecida", a argumentação de Mo ntaigne toma o cuidado de
(b) Nada me parece mais delicioso do que o que sinto quando, depois de fornecer-lhe a p rova, ocupando, ela sim, todas as p osições temporais. Re-
expelir um cálculo, recupero de imediato a saúde, • inteira e perfeita. Have- monta ao passado, recorda-se dos acessos transcorridos, seguidos do r e-
rá na dor experimentada algo comparável ao prazer da repentina melhora? torno à saúde. Na longa autocitação, por mais que a primeira parte (pro-
Muito mais bela é a saúde depois da enfermidade, e segue-a tão de perto sopopéia do espírito) tenha recorrido ao presente do indicativo, a repre-
que posso distingui-las ambas, na sua luta encarniçada. Dizem os estóicos sentação do discurso confere a este um aspecto fi ndo, rememorado. O
que os vícios são úteis porque valorizam a virtude; com maior razão pode-se segundo movimento, em que M ontaigne recorre n ovamente ao eu e se ex-
dizer que a natureza nos deu o sofrimento a fim de realçar a excelência do
p rime em seu próprio nome, enuncia-se mais nitidamente no presente (mas
prazer e da tranqüilidade. Quando lhe tiraram os ferros, sentiu Sócrates a
em um presente no qual uma "memória de papel" é necessária). Enfim,
sensação agradável de se libertar do entorpecimento que o peso causara às
pernas e constatou então a estreita ligação existente entre o sofrimento e a Montaigne nos adverte de que sua argumentação não está acabada. Se
volúpia, tão intimamente associados que se sucedem e se engendram reci- preciso, no futuro, dirigirá a si mesmo outras exortações de mesmo esti-
procamente [... ]. 93 lo. Já encontramos essa antecipação hipotética: " Se porventura vierem
a agravar-se [minhas chagas]. verei outras escapatórias". Ora, a redação
Se, na prosopopéia do espírito, o acesso de Iitíase nos era represen-
d os Ensaios por camadas sucessivas permite aqui a Montaigne- em uma
tado em sua fase mais aguda, a nova argumentação apóia-se na acalmia
das raras passagens em que ele próprio assinala um acréscimo - confir-
que se sucede. A experiência do alívio, tal como acabamos de lê-la, cor-
mar sua promessa à maneira de post-scriptum ou de atualização:
responde, certamente, a uma vivência corporal autêntica; e sua transpo-
sição na metáfora da "bela luz" é, ao mesmo tempo, figura de lingua- (c) Em verdade, de uns tempos para cá, os mais ligeiros movimentos fazem
que urine sangue puro; por que razão? Isso não me impede, entretanto, de
(*)No original, " recupero de imediato a bela luz da saúde" . (N. T .) ir e vir como antes, de acompanhar meus cães à caça com um ardor juvenil;

172 173
esse grave acidente não me causa senão um entorpecimento passageiro e al- do indivíduo que se dissipa e se dispersa, esvaziando-se das substâncias
guma irritação na parte do corpo em que se situa o cálculo. Essa recrudes- que "digeriu" e "cozinhou". (Lembremos que a comparação digestiva
cência da doença deve provir de um ~cuJo grande que me comprime os rins é reencontrada, mas no registro da absorção, na imagem da pedagogia
e se forma a expensas desse órgão, o qual assim se esvai aos poucos - e
que se torna eficaz pela inibição e assimilação dos sucos estranhos, assim
com ele minha vida-, não sem que eu sinta um pequeno alivio, como quem
expila uma coisa• incômoda e sup~rflua. 96 como na freqüente evocação do pensamento enquanto ruminação ... )
Quanto ao "pequeno alívio" que experimenta Montaigne no momen-
A doença reapareceu. E se fosse a morte que se anunciasse nessa nossa to mesmo em que sua vida "se esvai aos poucos" , lembra-nos a insistên-
re~aída? Nesse aspecto, não seria tão·temível, não custaria muito caro ... cia com que, no relato de sua queda de cavalo, fala da " doçura" que acom-
panha o langor no qual se sente penetrar em direção a um estado que,
à reflexão, assemelha-se perfeitamente à morte. Aí reconhece a "qu ietu-
Ao longo do percurso, durante toda a consolação que Montaigne di- de que se apodera de nós ao sermos dominados pelo sono". 99 Quando
rige a si mesmo e que nos oferece em espetáculo, a rubrica do excremento Montaigne fala do "exercício" inesperado que o familiarizou com a morte,
urinário (e de outras evacuações que são sua conseqüência: os vômitos) não esquece que também a resp iração, aos olhos da medicina, comporta
foi devidamente completada; e as paixões da alma foram manifestadas, u m elemento "excrementício": " Parecia-me que a vida estava suspensa
tais como o espírito se esforça por tomá-las sob seu domínio. Pois é nesse a meus lábios e eu fechava os olhos a fim de ajudá-la a desprender-se de
campo preciso das funções corporais que deve manifestar-se a fraternal mim (.. . ]" . 100 Parece que o ú ltimo suspiro é ao mesmo tempo evacua-
assistência do espírito . Como se viu, o pensamento desdobra-se e lança ção e alívio. E Montaigne não se cansa de evocar a doçura dessa expe-
mão de tudo, desde a interpretação penitenciai da doença (é um "casti- riência: "A sensação que tinha era de calma e de doçura[ ... ] Quando me
go", mas " doce em comparação com outros") até as idéias tranqüiliza- deitaram, o repouso causou-me infinito bem-estar [... ] Deixei-me ir ao
deras sobre sua evolução - como resultado da idade e de um progressi- léu, tão suavemente, de maneira tão indolente e fácil que nada sei de me-
vo resfriamento geral; o calor dos rins, que " petri fica a fleuma" , pode nos penoso" . 101
Da dor [douleur] à doçura [douceur] extremas: na distância de uma
enfraquecer-se, como já o fez o do estômago: o fogo vital baixa, a cura
paronomásia, 102 tal é o diapasão da experiência do mal e da doença. E
pode acompanhar o progresso da velhice. Afinal, qualquer que tenha po -
a doença mesma, Montaigne experimentou-a em sua oposição (que é ao
dido ser a acuidade, em certos momentos, da d or, essa evacuação, de que mesmo tempo sua ligação) com a saúde e a volúp ia. A experiência do cor-
não fica senão um ''entorpecimento passageiro'' , é aquela pela qual, não po, que nos faz sentir "a estreita ligação existente entre o sofrimento e
sem " alívio", a própria vida se evacua; releiamos essa frase surpreenden- a volúpia", prepara-nos para aceitar a idéia de outra ligação, igualmente
te: ''Essa recrudescência da doença deve provir de um cálculo grande que est reita: a da alma e do corpo. Vêem-se suceder-se, assim, as ant íteses
me comprime os ri ns e se íorma a expensas desse órgão , o qual assim se aceitas, as entidades irmanadas e a afirmação de sua coexistência obriga-
esvai aos poucos - e com ele minha vida - , não sem que eu si nta um tória, o u de sua necessária união. As páginas conclusivas de "Da expe-
pequeno alívio, como um excremento doravan te supérfluo e incômo- riência", em termos inesquecíveis, insistirão nos "mút uos serviços" da
do". 97 Como não aproximar essa frase de algumas outras passagens dos alma e do corpo e na necessidade de sua "cultura" simultânea.
Ensaios em que, de maneira metafórica, o próprio texto é designado um Ora, se em seu tema (ou seu enunciado) o ensaio chega à aliança dos
excremento: "O que exponho aqui [ ... ] [são] as lucubrações•• mal dige- opostos, é importante observar que, em seus aspectos formais (e, mais
ridas de um espírito envelhecido e ora prolixo o ra reservado" .98 No fi- particularmente, em seu modo de enunciação), o ensaio nos oferece um
nal do ensaio 111. v, "A propósito de Virgílio", Montaigne fala com uma exemplo notável de contradição superada. Manifesta-se uma homologia
condescendência depreciativa das páginas que acaba de escrever: esse "co- entre o conteúdo de pensamento, em seus elos essenciais, e a elocução
mentário prolixo (... ] deu azo a um fluxo de palavras pouco comedidas inventada por Montaigne. E le faz desembocar a experiência de uma vida
e por vezes inconvenientes" . A metáfora corporal coloca em pé de igual- inteira no elogio, discretamente lírico, da assistência recíproca que de,·em
dade o escoamento da vida e o escoamento do texto: é o próprío corpo prestar-se a alma e o corpo; e o formula em um discurso no qual a espon-
taneidade, referida à vida corporal, alia-se necessariamente (ainda que con-
(• ) No original, "como um excrl'ml'nto dora\'ante supérfluo e incômodo" (grifo de tra a vontade)• aos artifícios empregados pela razão erudita.
Starobinski). (N. T .)
(••) No original, "os excrementos". (N. T .) (• ) A expressão francesa é à son corps défl'ndanr (grifo de Starobinski). (N . T .)

174 175
Para quem lê o ensaio " Da experiência", de início nada parece mais a doença inspira [ ... ]" . 103 Phobos kai eleinos! O artifício se acentua. As-
nítido do que a distinção entre os sistemas discursi vos elaborados pela sistimos ao espetáculo. Fazem-nos ouvir as exclamações admirati vas dos
razão nas ciências e nas artes (legislação, teologia, filosofia, medicina, espectadores: "Que energia, que paciência!" . 10·' Assim, o corpo, em seus
nas quais nada escapa ao "connito das interpretações") e a verdade que piores sofrimentos, nos é mostrado de fora, tal como é visto por todos,
se dá a conhecer, em nós e, sobretudo, em nosso corpo, pelo sentir, pela ator do ''ato de um só personagem'': 105 '' Vêem-te suar, empalidecer, tre-
experiência direta, em tudo aquilo que a torna singular, diferente e, por mer, vomitar sangue [... ]". 106 No momento culminante do sofrimento,
isso mesmo, mais apta a se universalizar. Levada a sério, essa distinção como se toda a linguagem vinda diretamente do corpo fosse impossível ,
teórica deveria ter conseqüências no plano da enunciação ; deveria incitar Montaigne enumera do exterior, e no afastamento da lembrança repre-
o ensaísta a repudiar a linguagem das ciências e das artes, no momento sentada , os sinais percebidos pelos parentes e amigos reunidos, no ceri-
em que, contra estas, ele empreende comunicar sua experiência, para di- monial que cerca aquele que se supõe agonizante mas que, na circunstân-
zer-se a si próprio segundo a conformidade à natureza d e que francamen- cia, mantém admira\·el mente sua "convers[a] com o s presentes como de
te faz profissão. Ora, da mesma maneira que o costume e o hábito "se costume" . 107 Tudo se dramatiza e se dialetiza: o "espírito" que interpe-
ingerem" na natureza até produzir uma segunda natureza, da mesma ma- la a ''imaginação" de Montaigne evoca a cena do leito de sofrimento em
neira que o socorro do espírito é chamado a confortar o corpo sofredor, que, para que a existência permaneça diálogo até seu termo , Montaigne
Montaigne, a despeito do ardo neglectus a que se abandona, só consegue entretém os "assistentes" , graceja com os "presentes" ... Estamos no au-
expor sua "forma de vida" por meio das categorias fixadas pela arte mé- ge da arte. A experiência vivida, no que tem de literalmente pungente,
dica; trata-se do campo definido, desde a medicina grega, pelos conceitos nos é comunicada como uma cena patética - êxito da ars moriendi se-
de dieta e de higiene, e distribuído, segundo a tradição galênica, nas seis gundo a verdadeira filosofia - inserida em um discu rso consolador, ele
rubricas das "coisas não naturais" . A classificação médica das faculda- próprio inserido na exposição do costume e das "atitudes" a que Mon-
des da alma (de um lado, sentidos internos, isto é, razão, imaginação e taigne submeteu sua vida corporal- exposição que ele destina ao leitor-
memória; do outro, sentidos externos), o conceito humoral de tempera- con viva.
mento, as diferentes funções fisiológicas reconhecidas pela medicina cons- O corpo, afinal, só se poderia dizer indiretamente, por meio do olhar
tituem o fio condutor, ou o lugar de passagem obrigatório, de um discur- do "espírito)' alegorizado, que evoca por sua vez a cena de martírio tal
so que se pretende antimédico e que ambiciona dizer o corpo natural em como a observam outros espectadores? Pelo menos, reconheçamos que
sua singularidade irredutível. o apelo à verdade de dentro torna inevitável a intervenção de um olhar
Obrigado a passar pela linguagem codificada de uma arte (a medici- de fora. A experiência do corpo, para enunciar-se, reclama a "estreita
na) para dizer o que teria desejado manifestar diretamente, sem arte, Mon- ligação" com a linguagem da arte, mesmo quando se trata de entregar
taigne ornamenta seu discurso, confunde suas pegadas: comenta, digres- as armas à natureza. Ali mesmo onde o indivíduo sofre em seu âmago
siona, exorta, passa do particular ao geral, menciona exemplos, cunha carnal, há sentido dizível apenas no ponto de encontro com outrem: suar,
sentenças - não se poderia acusá-lo de abandonar seu tom desigual e "ex- empalidecer, corar, tremer -para nós, leitores- são acontecimentos
travagante", mesmo quando responde ao questionário da medicina. Ele que vivemos ao nos identificarmos com o homem dilacerado por suas pe-
não expulsou a linguagem de medicina; rompeu-lhe a unidade e a coerên- dras e, simultaneamente, com os espectadores que seu texto, depois, põe
cia sistemática, para dispersar-lhes os disjecta membra em uma "marche- em cena em torno dele e que o vêem sofrer. Porque ele assim se ofereceu
taria" em que são acolhidas todas as linguagens. Trata-se aqui de uma a nós de fora, temos a sensação de participar do que experimenta por
arte que consiste em negar a arte. Melhor ainda, o mais notável de seus dentro.
desvios - a longa apóstrofe de seu "espírito" à sua "imaginação" - Assim sucede com o corpo sofredor. O corpo amoroso, por sua vez,
não afasta Montaigne da linguagem médica senão por um acréscimo de só poderá dizer-se, apesar da vontade de dispensar o artifício e a dissimu-
arte: esse inimigo da eloqüência escreve aí uma grande peça de retórica lação, por intermédio de um artifício e de uma simulação supremos: a
eloqüente. Não há motivo para se surpreender quando, a fim de dizer o poesia. Vamos constatá-lo nas páginas que se seguem.
corpo naquilo que o fere mais profundamente, Montaigne simula ceder
a palavra a um locutor independente, a uma terceira pessoa? E, nessa elo-
qüente apóstrofe a si mesmo, a retórica chega a evocar o móvel principal
da dramaturgia clássica: "Tiras certa vaidade do receio e da piedade que

176 177
5
DIZER O AMOR

I
O capítulo v do terceiro livro ("A propósito de Virgílio") é para
li Montaigne a oportunidade de desenvolver da maneira mais completa seu
pensamento sobre "a relação com outrem", pois o amor, que é o tema
I central desse ensaio, constitui a " relação com outrem" por excelência ,
embora ao lado da amizade e " muito mais baixo" 1 que esta. Conseqüen-
temente, vale a pena ver como Montai gne desenvolve sua argumentação
ao longo do ensaio.

L I VROS PROIBIDOS, LIVROS DESEJADOS

É a relação consigo que constitui o ponto de partida. O movimento


é dado por uma série de inversões: o que a velhice traz em excesso (pleni-
tude, gravidade, lentidão, temperança, secura, frio etc.) exige o seu con-
trário. O corpo adoentado impõe sua presença incômoda , que deve ser
contrabalançada em nome da "moderação" e do domínio de si :
(b) Não passo uma hora que seja, acordado ou dormindo, sem que me en-
tretenha acerca da morte , da paciência e da penitência. Hoje , defendo-me
contra a temperança como outrora me defendia conta a volúpia, pois ela
me domina a tal pont o que me sinto apoucado. Ora, quero permanecer se-
nhor de mim mesmo em quaisquer circunstâncias; a sabedoria também tem
seus excessos e tanto quanto a loucura precisa ser moderada. 2
O motivo, vê-se, é d uplo: de um lado, é o princípio médico (e moral)
que pretende que se tratem os contrários pelos contrários; o frio pelo ca-
lo r, a severidade pela alegria, a própria "sabedoria" pela "loucura" -
para compor um justo "temperamento"; e, de outro lado, é a preocupa-
ção de não pertencer a uma de nossas "peças" que reine em excesso, no
caso, o corpo. Portanto, a livre posse de si exclui a própria "sabedoria",

179
se esta, paradoxalmente, é excessiva. Daí a permissão que Montaigne se res e dos livros") qu e Montaigne primeiro chama em se u socorro. Ainda
concede de se "entreg[ar] hoje, de quando em quando, a certo desregra- que fosse um desejo destinado a permanecer sonho, vê-se bem por que
mento". 3 Tratar-se-á apenas de pensamentos "de outra idade",~ da razões a imagem de alguém ou de uma companhia - cuja presença terá
"lembrança das loucuras da mocidade". 5 Aqui, em face do "céu borras- mais eficácia do que tudo aquilo que a imaginação solitária pode ofere-
coso e nublado" 6 que Montaigne tem diante de si, em face da morte cer - provoca a esperança da alegria tão necessária a um homem que
ameaçadora, a diversão consiste em ato de memória: " Enquanto meus está doente e envelhecendo. Para ele, o que esperar do exclusivo tête-à-
olhos reconhecerem a bela estação que não mais existe para mim, eu a tête consigo mesmo? Muito pouca coisa, se se deve acreditar numa frase
contemplarei de quando em quando. Ainda que fuja de meu sangue e de como esta, na qual a auto-estimulação permanece sem efeito: "Posso fazer-
minhas veias, não quero que se apague a imagem em minha memória" .7 me cócegas, não consigo mais arrancar um riso deste pobre corpo" . 1 ~ Na
Exemplo suplementar da diversão preconizada no capítulo anterior (111 . estreita "aliança" que une o espírito ao corpo, é impossível que o espíri-
IV), esse retorno ao passado é uma "trapaça", um remédio tomado "em to possa "fugir à velhice" 15 quando a saúde do corpo está enfraqueci-
sonho": "É em vão que a arte luta contra a natureza". 8 Em todo o mo- d a. A bela imagem do agárico verdejante e florescente "em árvore mor-
vimento d essa página, o recurso é interior: são pensamentos, imagens, ta"l6 exprime um voto irrealizável. O espírito " está tão intimamente li-
recordaçõ es que ~lontaigne chama em seu socorro. Apenas uma adjun- gado ao corpo que se desvencilha continuamente de mim para segui-lo
ção de 1595 cita a autoridade de Platão, para justificar outro método, e participar de sua decad ência. Chamo-o de lado então e o adulo. Em
no qual a atenção se voltaria para o espetáculo exterior: " Platão reco- vão" _17 O espíri to não é um interlocutor independente. Portanto, a as-
menda aos velhos que assistam aos exercícios, às danças e aos folguedos sistência de outrem é indispensável a quem quer livrar-se do peso moroso
da juventude e que recordem as graças e as vantagens dos verdes anos, da idade e da doença. "Apraz-me uma sabedoria jovial e sociáve/" :18 a
a fim de que gozem através dos outros a flexibilidade e a beleza física alegria ainda junto com a sociabilidade, reclama a "comunicação" .
perdidas ( ... )" .9 Mas esse é um exemplo recolhido no decorrer de uma Na falta de poder "levar [.. . ) os Ensaios em carne e osso" a " al-
leitura, e não um remédio considerado por Montaigne. guém" ou "alguma boa companhia" que lhe seria preciso descobrir, Mon-
Por sedutora que seja a compensação imaginária em que, despertan- taigne contenta-se com o comércio que mantém com seus contemporâ-
do as imagens do passado, a consciência " se nutre de sua própria subs- neos por meio do livro que escreve. Mas, tão logo evocada esse relação,
tância" (como a isso se resignará mais tarde Rousseau), ela jamais mas- descreve-a nos termos de uma oposição: sua atitude, que consiste em "ou-
carará a ausência das volúpias reais. Esses caprichos da " fantasia" são sar dizer tudo o que ous[a) faze r" , 19 constitui a exceção. Os outros, "de-
apenas um último recurso. Nada supera o prazer em ato. "Aproveito os fendendo as aparências", não chegam à mesma tranqüila e inteira igual-
menores prazeres que encontro [ ... ]' 0 Minha filosofia atém-se aos atos dade do di:;.er e do jazer. Em uma época de insinceridade, Montaigne é
e ao presente; não se subordina à fantasia. Bem quisera ainda jogar o único a confessar-se com total franqueza. "Deus queira que essa minha
pião!" 11 Montaigne desejaria encontrar no instante atual o antídoto con- licença excessiva decida os outros a se expandirem um pouco mais, levan-
tra os "assuntos graves sobre os quais não podemos meditar muito tem- d o um pouco menos em conta essas virtudes timoratas nascidas de nossas
po sem cansar" : 12 ao peso que o acabrunha desejaria ser capaz de opor imperfeições [ .. .]Os males da alma, ao contrário , tornam-se menos visí-
o s jogos da leveza, os j ogos que se jogam com coisas leves. Ora, a pró- veis com a agravação; o mais doente é quem menos os sente. Eis por que
pria idéia da presença, do jogo, o desejo da alegria despertam em Mon- é preciso não raro examiná-los de perto, arrancando-os sem dó do fundo
taigne a esperança de um encontro, o voto da " relação com outrem": do coração."2o É uma das inúmeras declarações em que Montaigne se
(b) Iria de bom grado buscar no fim do mundo um bom ano de verdadeira aplica em mostrar a que ponto difere de seus contemporâneos (eles, os
tranqüilidade e alegria, eu que só tenho como objetivo viver de bom humor. homens, os outros), que, todos , seguem caminhos contrários. Mas Mon-
Sou muitas vezes de uma serenidade tristonha e estúpida, que me adormece taigne, em seu movimento de reprovação polêmica, determina e especifi-
e me dá dor de cabeça; não me basta. Se há por aí, em França ou alhures, ca seu projeto de escritor, sua vontade de se dar a conhecer por aquilo
alguém que aprecie a boa companhia em viagem ou no lar, que ·se adapte que é (ao contrário de "quem não se conhece" e "pode empanturrar-se
a meu humor e a quem eu me ajeite, que me comunique logo: levar-lhe-ei com elogios imerecidos"). 21 Nós o vimos comprazer-se muitas vezes em
os Ensaios em carne e osso. 13
assim tomar distância, em colocar-se à parte, mas para chamar sobre si
É então o comércio de amizade e de conversação (de que se tratou um olhar que o alcançará em seu ser verdadeiro, o qual ele tem a preocu-
pouco antes, no ensaio m , m, "Da companhia dos homens, das mulhe- pação de representar da maneira mais exata: "É preciso discernir seu vicio

180 181
e bem analisá-lo para 0 contar[ ... ] É preciso estar aco~dad.o para .contar ' la Montaigne, a propósito da sexualidade, é a proibição que impede de
um sonho". 22 Ora, aqui 0 apelo se precisará de maneira sm~lar. ele se falar sobre ela. Há então, à primeira vista, um laço muito estreito entre
dirige às damas e espera (em razão do t~ma que tratará) ser hdo em um amor e palavra; mas é um laço paradoxal, já que quanto menos se fala
das coisas do sexo mais se pensa nelas: "É de se observar, em verdade,
lugar mais secreto do que o "salão" :
que as palavras que menos pronunciamos são as que melhor conhece-
(b} Lamento que as senhoras da sociedade encarem meus Ensaios como ~bra mos" . 26 E acrescenta este desenvolvimento: "Essa, quaisquer que sejam
de salão e espero que este capítulo ve.nham a ler no touca?o~, às escondtdas. a idade e os costumes, ninguém a ignora, como não ignora o pão.
Confesso, aliás, que aprecio sua companhia a sós; em publico ela carece de Imprimiu-se em nós sem que fosse preciso ouvi-la ou vê-la escrita; e o
23
sabor e deixa de ser um privilégio. sexo que mais pratica a ação é o que mais discreto se mostra. O que há
Montaigne, depois de ter voltado seu olhar para a s~a ~róp~ia juven- de notável é que cercamos o ato de silêncio e deste não o tiramos nem
tude, não pôde contentar-se apenas com o ato d~ mem~na; imagmou um~ mesmo para acusá-lo e condená-lo; e só o criticamos com perífrases e me-
"companhia" que lhe conviesse e à qual corren~ a umr-s~ se fosse convi~ táforas[ ... ] Não ocorre com ele o que se verifica com os livros proibidos,
dado. Seu único verdadeiro recurso, contudo, sao os ensaws que escreve, os quais, justamente por isso, tanto se lêem?" . 27 A sexualidade é simul-
graças ao livro, levará sua leitora para a intimi~a~e do ~ouc~d?r. A ofer- taneamente onipresente e protegida pelas conveniências que pretendem
ta de leitura é uma sedução simbólica: é o comercto mats proXImo do24co- que a silenciemos. No entanto, a se crer em nosso texto, ela própria está
mércio amoroso. Anunciando seu tema - " o a to sexual" . . - ..e atada a essas palavras que se calam, assemelha-se a uma escrita interior,
anunciando-se consubstanciai à sua ôbra, ~le transpõe um hrruar protbt- impressa mas não expressa, a qual não se desenvolve em "voz" e "figu-
do; e toca de leve um corpo, por pouco que o volume penetre em um quarto ra" . Esse "criminoso" que só ousamos criticar com "perífrases e metá-
onde a leitora costuma ficar só e entregue aos seus segredos. Sem~lhan~e foras", Montaigne se apressa em compará-lo a um livro proibido (o que
intimidade não terá nada de ilícito, já que coincide com.a separ~çao mats põe imediatamente em movimento o poder contrário: o desejo de adqui-
radical: os preparativos da morte. Jamais talvez Montatgne tera po.sto os rir e de ler o texto proibido).
contrários em mais estreita relação do que quando ~screve estas hnhas, A máscara, no caso, consiste em silenciar sobre a sexualidade, em
imediatamente depois daquelas que acabamos de cttar: não a nomear. Mas qual é, em sua essência, essa realidade oculta que,
no entanto, não é segredo para ninguém? O leitor não tardará a perceber
(b)Em nossos adeuses exageramos em geral o ~m.or às coisas que, abandona-
que Montaigne lhe propõe, pelo menos, uma dupla resposta: é uma pala-
mos, às vésperas de partir; são estes os meus ulumos abraços. \ oltemos ao
vra reprimida mas é apenas um ardor fugidio. De início, prestemos aten-
nosso tema. 25 ção ao primeiro desses aspectos: o amor é a linguagem oculta, são as pa-
É tanatos que libera a possiQ.ilidade de deixar falar eros. laHas impressas "em nós"; cabe às Musas, à mais alta poesia exprimir-
Nesse capítulo, o livro oferece·se então conjuntamente como men~a- lhes toda a força. Só a obra de linguagem pode manifestar o imaginário,
. de morte e de amo r. O adeus à ,·ida autoriza nada calar daqmlo figurar a parcela de ficção que confere ao amor todo o seu valor. Daí
getr 0 . . . . ,n ·
que_ já no imperfeito- constnma o calor da ;·t~a. O ~u~ se m:.amara o recurso a Virgílio, que se anuncia no título do ensaio, título alusi,·o mas
nesse capítulo é um último fogo, e as imagens caloncas ~e tnstnu~ao quase ligado a um propósito central :
em cada parágrafo, para conjurar o frio que se anuncta , tambem, a to~o
momento. Os abraços rememorados (ou vagamente ainda esperados) sao (b) Quem sonegasse às Musas a inspiração amorosa roubar-lhes-ia seu mais
belo tema, e o mais nobre; quem fizesse com que o Amor perdesse a colabo-
"os meus últimos abraços". ~enhuma frivolidade, port~nto , _n~ ~ue se ração da poesia tê-lo-ia enfraquecido, privando-o de sua melhor arma. [... ]
traça sobre fundo de morte. Pode-se falar dos laços ~~r~at~ ~a:~ mumos, E, por mais esgotado e lerdo que me encontre, ainda experimento uns pou-
quando todos os laços estão prestes a desatar-se._A. dtaleuca de Mon-
taigne aparece aqui em plena evidência: a perd~ tmm_ent e confere um v~­
i cos efeitos dos entusiasmos idos (... ) Mas, na medida em que posso assegurá-
lo, o poder e o valor desse deus apresentam-se mais "vivos e animados na poesia
lor infinito ao que se deixa ainda dizer e possmr; rectprocamente~ a mrus do que na realidade: "O verso do poeta tem dedos acariciadores", porque
livre das palavras se autoriza da morte para nada ocultar dos mrus secre- a poesia encerra, efetivamente, algo mais amoroso do que o próprio amor.
tos pensamentos. . Vênus nua, viva e palpitante não é tão bela como no-la pinta Virgílio: .. Fa-
Em primeiro lugar, trata-se da linguagem. E, ma1s uma vez, de uma la, e como ele hesita, a deusa envolve-o docemente em seus belos braços mais
discordância entre o di:er e o jazer. A primeira das coisas de que fa- brancos do que a neve, e aquece-o num amplexo''. 28

182 183
A admirável cena erótica representada no texto virgiliano não é ape- nitude de nosso sentimento tem necessidade de um objeto no qual algum
nas obra de linguagem; é, ademais, encetada pelo discurso dos esposos último seg redo parece esquivar-se. Ora, a essa linguagem que instiga o
(dixerat [.. . ] ea verba loquutus). O ardor do corpo, o langor que se segue amor pela astúcia de sua reticência Montaigne atribui o mérito da presen-
ao abraço estão misturados a uma conversação. T odas as imagens do ar- ça; aí descobre não apenas o pensamento presente mas também o próprio
dor se desenvolvem, entre a apresentação poética da palavra trocada e corpo; aí a palavra já não é vã "loucura" nem "alusão" . Quando "ru-
a evocação do raio que ilumina e corta as nuvens ao descer do céu. A mina" os vocábulos de Virgílio e de Lucrécio, ele prova de uma "lingua-
chama amorosa que atravessa um corpo divino é traçada como o aconte- gem rica, plena, naturalmente vigorosa. Tudo o que dizem é epigrama,
cimento que simultaneamente resulta de um ato de linguagem e assemelha- e não vem este apenas na cauda mas também na cabeça, no estômago e
se a um fenômeno natu ral. Se, como diz Juvenal, citado mais acima por nos pés [... ] O que pintavam os antigos não decorria da habilidade e sim
Montaigne, o verso pode ter dedos, é porque a palavra pode fazer-se cor- d a impressão sincera que sentiam" .30 É igualmente o caso de H orácio,
po e penetrar o corpo e essa "pintura" do amo r pode superar "o próprio q ue "vê mais clara e profundamente".• 31 Nas cenas amo rosas de Virgí-
amor". H á pouco, Montaigne parecia reprovar as proibições que fazem lio e de Lucrécio, e mesmo quando se trata de ficções fabulosas, "o senti-
com que só ousemos criticar esse "ato" "com perífrases e metáforas". do ilu mina e realça as palavras, fazendo-as não de vento mas de carne
No entanto, eis que dá sua preferência ao que nos oferece, do amor , "a e ossos; significam mais do que dizem". 32 Se cremos em Montaigne, a
pintura da poesia' •. Ademais, depois de ter acrescentado ao texto de Vir- fo rça de encarnação e de sexualização da linguagem não se distingue do
gílio (representando os amores de Vênus e de Vulcano) uma bela passa- excesso de significação que se acrescenta, como uma aura, a cada palavra
gem de Lucrécio sobre os amores de Vênus e de Marte, ele louva os dois e q~e , desse modo, transpõe o intervalo que Montaigne vê quase sempre
autores por não terem dito tudo do ato amoroso. Essa pintura que Mon- interpor-se entre a palavra (simples " vento") e a coisa. ("Há em tudo
taigne coloca acima da própria realidade do amor deve sua superioridade o nome e a coisa [ ... ]": assim começa o ensaio 11. xv1.)
ao que permanece velado, ao que, nela, arrastando a imaginação, respei- Montaigne, que tantos traços aproximam da arte maneirista, conde-
ta a parte de ilusão de que o amor não poderia prescindir: a elipse mosrra na uma poesia que cultivasse a maneira, em seu sentido primeiro de "ha-
melhor o que cala: bilidade", e da qual não resta mais que "vento". Contra os poetas que
cultivam a "locução", ou a "cauda" epigramática, protesta: "Se eu fos-
(b) Os versos desses dois poetas que tratam com distinção e discrição da las- se do ofício, esforçar-me-ia por tornar natural a arte, como eles se esfo r-
cívia parecem-me esclarecê-la e realçá-la. As senhoras não cobrem os seios çam por artificializar a natureza". Mas quanta arte é preciso para dar
com gazes? . Não ocultam os padres certos objetos sagrados aos olhares
vida ao discurso amoroso! A poesia que melhor diz o amor é ao mesmo
curiosos? Não dão os pintores relevo a seus quadros com as sombras que
tempo aquela cujas palavras são hab'itadas pelo "sentido" (" o sentido
aplicam? E não se diz que o sol e o vento são mais fortes por reflexão do
que diretamente? ( ... ) Mas há coisas que só ocultam para que melhor se ad- ilumina e realça as palavras"), aquela. que se faz "carne e ossos" pelo
mirem. Pois, quando Ovídio escreve "Toda nua, apertei-a contra o seio", movimento mesmo em que o significar ult rapassa o dizer, e aquela que
sinto-me castrado. E Marcial, por mais que exiba as seduções de Vênus, não acrescenta ao amor físico o componente imaginário que, ao velá-lo, o
a consegue apresentar na plenitude de seus encantos. Quem tudo diz trans figura. Uma mesma mais-valia faz com que, nas palavras, a signi fi-
empanturra-nos e nos repugna. Quem, ao contrário, se empenha em ser dis- cação exceda em relação ao seu sentido primeiro e que o amor servido
creto sugere-nos mais do que comporta a realidade. Há algo traiçoeiro em pelas musas prevaleça sobre a própria "essência" do amor. Ora, como
tal modéstia. É o que fazem Virgílio e Lucrécio, indicando apenas um belo acabamos de ver, esse acréscimo é o resultado paradoxal de uma reserva ,
caminho para a nossa imaginação. A ação e a descrição valorizam-se com de um impedimento (véu, ou máscara, ou rodeio) que a cultura interpõe
a maneira de falar. 29 entre nosso desejo e a satisfação natural que é seu fim. Daí esse elogio
O poder que, na poesia do amor, supera o amor, e que, nos textos - inesperado em um inimigo das máscaras - do logro, da ilusão, das
de VirgHio e de Lucrécio, comporta "algo mais amoroso do que o pró- manobras do pudor ou da coqueteria que mantêm a esperança desperta:
prio amor" alia-se à reserva que, para nos oferecer Vênus mais inteira, ''Ensinemos às nossas mulheres a se valorizarem, a nos divertirem e mes-
persiste em velá-la, em nem tudo dizer. Eis que a força da linguagem do mo se divertirem à nossa custa" .33 · A duração do desejo (e o gozo que
amor - que Montaigne critica seus contemporâneos de dissimularem por a isso se liga) beneficia-se de tudo que retarda a conquista e que adquire
pudicícia hipócrita - lhe vem de ser ela própria uma linguagem dissimu-
/adora, a qual se utiliza do claro-escuro para cativar a imaginação. A pie- (")No original, "vê mais clara e profundamente na coisa" (grifo de Starobinski) . (N. T.)

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figura de itinerário alegórico: "Quem só aprecia o gozo, quem só quer mulheres e a realidade do desejo que as atormenta como aos homens: "Não
tirar a sorte grande, quem só ama a caça pelo que caça, não é de minha há palavras, ato ou malícia que não conheçam, e melhor!• Têm isso no
escola; quanto maior número de degraus mais alto se eleva quem os gal- sangue [.:.J.Todo o movimento do mundo tem essa conjunção dos sexos
ga, e mais honrado é. Deveríamos comprazer-nos em ser guiados quando como ob]etrvo; ela se encontra em toda a parte; é o centro para 0 qual
pleiteamos os favores da mulher, como quando penetramos nesses palá- 38
tudo C:?nverge". Onipresente, irresistível, a sexualidade, quando se lhe
cios suntuosos cujo acesso é dificultado por inúmeras galerias e compli- subtrai a parte da "fantasia" e da valorização cultural, reduz-se a uma
cados corredores. Isso só nos traria vantagens, pois faríamos paradas em função natural, ao "m~s ~gar dos amores". 39 A exaltação do amor pe-
caminho e nosso amor duraria mais. Ao passo que, quando o desejo e lo pensamento neoplatoruco (que Montaigne conhece por Ficino, Bem-
a esperança se extinguem, nada mais pode interessar-nos".~ É preciso bo, Leão H e breu, Eqüícola) é preciso opor o que dele diz o saber m édico
progredir em amor como em um labirinto. É preciso aumentar o amor o qual desde a Antigüidade, em Hipócrates ou Galeno , nele não via mai~
para além da instantaneidade decepcionante do prazer físico - daí a pas- que uma_evacuação entre outras: "Deixando os livros de lado e encaran-
sagem pelo discurso poético, a caminhada através das galerias do palácio do as cotsas com simplicidade, unicamente do ponto de vista material
metafórico. ach~ que o amor não passa de uma vontade de possuir o fruto de nosso~
Montaigne prefere um amor mesclado à ficção porque sabe muito des:JOS, e que Vênus não é senão o prazer de aliviar certos órgãos, satis-
bem avaliar esse "ato" quando ele se reduz apenas à sua realidade física. façao que outras partes do corpo também exigem. Sede e prazer q ue só
Não subsiste senão seu aspecto de ardor passageiro e sempre renascente. se tornam vícios quando carecemos de m o deração". 40 Que distância en-
Em uma passagem da Apologia de Raimónd Sebond (11. XII), Montaigne
parece prefigurar a teoria enunciada por Freud em Além do principio do
tr:o ~or reduzido à sua expressão material e a elevada figura que lhe
dao os hvros ! E que pensar dessa distância? Em p rimeiro lugar (com Pla-
prazer: o desejo visa aplacar um "mal-estar" e redescobrir a "ausência tão), que a volúpia física é uma suj eição h umilhante, que nos rebaixa ao
de sofrimento" e a "calma": nível dos a nimais:

[ ... )(a) Essa comichão, essa excitação que nos causam cenos prazeres, afigura- (b? cr~io que (c) Platão está com a razão quando afi rma que (b) o homem
se a um tempo excesso de saúde e de mal-estar. Essa volúpia que nos atrai fo1 cn ado p.elos deuses para servir-lhes de brinquedo. [... ) E penso que foi
e a que cedemos, apesar do que comporta de irritante, não terá por objeto por zomb~na que a nat~reza nos outorgou essa faculdade, a mais desregra-
aplacar em nós a sensação? O impulso que nos leva às mulheres obedece tão- d~ ~ a ma~s comum; qu1s com isso colocar no mesmo nível os loucos e os
somente à necessidade de aplacar o mal-estar que produz em nós o desejo sabws, homem e animais. [.. .) É sem dúvida um sinal de nossa \'aidade e
ardente e excessivo; e não visa a outra coisa senão saciá·lo, extingt:indo a deformidade, como também um comprovante do pecado originaJ.'I
febre e devolvendo-nos a calma. [ p. 493; T. R., p. 4i3)
Mas. essa r~f~rência a Platão e ao dogma c ristão da queda só aparece
Ora, a busca do repouso não conhece nenhum repouso. "Não há pai- de mane1ra fugtdJa, no arrebatamento de uma redução depreciati\'a. 0
xão mais imperiosa do que essa. " 35 Po r um encadeamento que a frase que se red uz à natureza não demora a encontrar, na própria natu reza
de Montaigne procura imita r, o amor não pode fixar-se em um objeto uma justificação plena. O leitor da Apologia de Raimond Sebond be~
permanente: "É verdade que, se o amor não é \'iolento, não é amor e que sabe que uma sabedoria mais profunda que a do homem pode manifestar-
a Yiolência e a constância não andam juntas". 36 \1esmo em seu aspecto se no comportamento dos animais: o que nos emparelha aos animais não
físico, "o amor é antes de mais nada um desejo violento do que nos esca- nos degrada, portanto. O texto prossegue, especialmente em suas últimas
pa" (I, X.'\\'111, p. 186; T. R. , p. 184). Mas, cont rariament e aos animais , adjunções, como uma defesa em favor das operações físicas do amor:
o homem não se atém apenas à satisfação corporal; a ela mistura sempre
o imaginário: "Essa paixão do amor não é apenas física [... ] Esta sobre- (b) Por u.m lado a .n.atureza nos impele à união sexual, ligando ao desejo a
\'ive à satisfação, e não se pode determinar que tenha um mesmo objeto nossa ma~s nobre, uul e agradável função; por outro, induz-nos a desrespeitá-
!~, a. tachá-la de desonesta, a nos envergonhar dela e a propugnar a absti-
sempre e um fim previsível. Prossegue sem cessar em sua marcha. esten- nencJa.
dendo seu domínio" _37 E por certo não há necessidade da companhia dos
(c) Seremos tão estúpidos assim para qualificar de brutal o ato ao qual
liHOS e dos poetas para conhecer a exorbitância do am or. Se Montaig ne devemos a ,·ida? [... )
atribui às mulheres, nesse domínio , um apetite insaciá,·el, é menos por
misogi nia do que para insistir no contraste entre a castidade imposta às (•) No original, "melhor do que nossos li1·ros" (grifo de Starobinski). (N. T. )

186 187
(c) Consideramos que existimos em conseqüência de um erro cometido. 42 Na digressão sobre a arte de escrever, que dá seqüência à citação de
Lucrécio, Montaigne fala da fuga do pensamento quase nos termos em
Depois de haver situado o melhor do amor no verbo poético - em
q ue fala da fuga da volúpia. Como chega ele a isso? Por etapas. Procla-
versos de Virgílio e de Lucrécio - esse consentimento na materialidade!
. ma em primeiro lugar sua vontade de independência em relação aos li-
da vida sexual pode fazer-nos crer que Montaigne acomoda-se à coexis-
vros e a toda autoridade anterior - vontade que deve acomodar-se à in-
tência dos contrários, à sua antinomia persistente. Mas, no decorrer de
ferioridade da língua francesa diante das línguas amigas:
nossa leitura, damo-nos conta de que é a aceitação do prazer físico em
sua materialidade e sua universalidade que faz :'vtomaigne voltar aos "ver- (b) Quando escrevo, não recorro nem aos livros nem à lembrança que deks
sos desses dois poetas" 43 e que o faz desenvolver o elogio da imagina- tenha, de medo que influam na minha maneira de escrever, sem contar que
ção, da reserva, do cerimonial galante, cuja extrema importância vimos os bons autores me desesperam e desanimam .-16
há pouco. Pois o prazer físico, reduzido ao que dele experimenta o cor- A ambição de Momaigne, como sabemos, é de realizar a perfeita apro-
po, é rápido e fugidio. Isso \-lontaigne nos diz aí, introduzindo de passa- priação recíproca entre seu livro e ele próprio:
gem uma confidência pessoal:
(b) Escrito alhures [não "em casa"), fora talvez melhor mas não tão meu,
(b)Não sei mais quem dizia, na Antigüidade, que desejara ter um pescoço e seu objetivo principal, bem como seu mérito, está em ser a minha imagem
de grou, bem comprido, para mais demoradamente apreciar o que engolia. exataY
Um tal desejo se justificaria melhor quanto ao prazer amoroso, demasiado
rápido e repentino mesmo para os que, como eu, gostam de satisfações ime- Ora, esse projeto é contrabalançado pela admiração que Montaigne
diatas. Para ampliar as sensações, cumpre prolongar os preâmbulos. Entre consagra a certos autores, cujo pensamento se apodera dele: sua influên-
espanhóis e italianos qualquer sinal da mulher é uma recompensa para o pre- cia alienante é poderosa demais:
tendente: um olhar, um abano de cabeça, uma palavra, um gesto. [... ) O (b) É-me mais difícil esquecer Plutarco. Esse autor é tão universal e comple-
amo r é uma paixão em que a uma pequenina dose de seriedade se misturam
to que em todas as ocasiões, por extraordinário que seja o assunto, ele se
muita vaidade e fantasia; cumpre atentar para isso.u intromete no trabalho alheio, oferecendo generoso au:<.1lio, sugerindo as mais
Tal é o caminho que conduz à reabilitação da aparência. Lembramo- variadas e belas soluções. 48
nos: o ensaio começara, como tantos outros capítulos, por uma crítica De maneira mais geral, Montaigne reconhece que tem "forte tendência
da dissimulação; silencia-se sobre as coisas do amor, não se ousa nomeá- para a imitação" ,49 o que o faz falar como aqueles com quem acaba de
las. Entretanto, a linguagem do amor, entre aqueles que a levam à sua se encontrar ... Ei-lo , a partir daí, o inais longe possível da exclusiva se-
mais eficaz expressão, reserva sombras, introduz ainda um leve véu. Ar- melhança consigo mesmo que deseja. Como conciliar essa perpétua desa-
rancaremos esse véu, aceitaremos o amor em sua realidade natural? Cer- propriação com o desejo de escrever um livro que seja " meu"? Certa-
tamente. Mas a volúpia, tendo " uma pequenina dose de seriedade", é mente, pelo reconhecimento da inevitável dependência, do crédito que se
fugidia, inapreensível; e, se a essência se furta, não se deve acusar, desta oferece às palavras dos outros. E, além disso, pela preocupação de evitar
vez, a falha de nossa preensão; essa falta de substância constitui a pró- "os assuntos mais batidos, de medo de os tratar a expensas de outrem" .50
pria realidade do prazer físico. Quem quer " ampliar as sensações" deve Mais vale falar de qualquer coisa, daquilo que nunca interessou a ninguém:
mesclar-lhes vaidade, "ilusão", "gradação" e essa "demora na distribui-
ção" que as damas fazem de seus "favores" . A partir daí, embora inimi- (b) Qualquer tema me serve, uma simples mosca pode ser pretexto. E Deus
go do parecer, Montaigne não hesita em lhes aconselhar a duplicidade: queira que o que estou ventilando agora não provenha de fonte estranha. •
que aceitem os amantes, enquanto representam a comédia da castidade Pouco importa o começo, vou encadeando as idéias umas nas outras.s•
- "Prego-lhes, pois, a abstinência, como aos homens; e, se o século é O remédio para a desapropriação consiste, portanto, em uma extre-
por demais inimigo da castidade, que, ao menos, ajam com discrição e ma disponibilidade, na qual a ocorrência fortuita (uma "mosca", a "vo-
modéstia. [... ] Que quem não se esforça por salvar a consciência, salve látil" vontade do prazer) pode servir de ponto de partida, por via de en-
ao menos a reputação; se o fundo pouco vale, preserve-se a aparência" .45 cadeamento, para a universalidade das questões que o espírito se coloca.
Por certo, a aparência assim preconizada é uma aparência refletida , sem
ingenuidade, de maneira nenhuma enganada por seu jogo: a reputação, (")No original, " não provenha de uma vontade igualmente volátil!" (grifo de Staro-
essa coisa tão vã, merece contudo ser protegida. binski). (N. T.)

188 189
(b) Deve ser uma agradável associação de duas vidas, cheia de constância
É a plena e definitiva desforra da adequação a si mesmo? Não. Pois confiança, serviços recíprocos e obrigações comuns.s. '
resta ainda, na consciência devolvida a si mesma, um perpétuo risco de
interrupção, uma fuga incessante. O melhor não se deixa apreender e di- Mas, falando de sua própria vida, Montaigne insiste inicialmente em
zer. Finalmente, é no interior de si mesma, em seu âmago, que a cons- sua inaptidão para se comprometer no estado de casamento:
ciência experimenta simultaneamente a iluminação e a obscuridade, a posse (b) Os temperamentos desregrados como o meu, rebeldes a quaisquer liga-
e o despojamento, a apreensão e à perda: ções e obrigações, não se adaptam muito bem ao matrimônio. 55
(b) Desagrada-me, contudo, que as mais profundas reflexões, as mais ousa- Terá sido preciso que a isso Montaigne se deixasse conduzir d e ma-
das e as que mais aprecio, surjam ao acaso do devaneio, quando menos as neira inteiramente passiva (marcada pelas formas gramaticais a que
espero e quando não as posso registrar. É em geral quando estou a cavalo, recorre):
à mesa ou na cama que me ocorrem, principalmente a cavalo. [... ) Em seme-
lhantes circunstâncias acontece-me como quando sonho, procuro fazer com (b) Por inclinação natural, teria preferido fugir a desposar a sabedoria em
que a memória retenha os pensamentos, mas no dia seguinte já não sei se- pessoa, mas os usos e costumes nos amarram e condicionam. Meus atos em
quer se eram tristes, alegres ou estranhos. Em vão me esforço por conservá- sua maioria, decorreram sempre dos exemplos que ti"e à minha frente ~ui·­
los na lembrança; quanto mais busco mais esqueço. E das idéias que me vêm to mais que de minhas preferências. Ao do casamento, em particular, não
à mente apenas guardo uma vaga recordação, exatamente o suficiente para me dobrei voluntariamente; fui impelido a ele por circunstâncias estranhas
que me canse e atormente. 52 [... ] Fui levado ao casamento bem menos preparado então, e cont rariado,
do que o seria hoje após o haver conhecido de peno.56
O sonho se apresentou mas permaneceu elusivo, inapreensível. Dele
Não lhe ocorreu ao espírito, como a alguns que reprova, desprezar
a memória nada conservou . O amor (cantado por Virgílio), a língua lati-
as "leis do matrimônio" e retornar sua liberdade:
na, as visões do sonho são os representantes multiformes de uma presen-
ça já desaparecida que se t entará inutilmente reconquistar ou fixar. Ela (b) E, por mais livre e desregrado que me considerem , observei severamente
habita um passado perdido. Resta dizer esse fracasso, para que o esque- as leis do matrimônio bem melhor do que prometera e esperava fazê-lo. Não
cimento do sonho ou do pensamento fugazes se t orne por sua vez essa cabe mostrar-nos recalcitrantes quando concordamos em nos amarrar. De-
"mosca", esse nada volúvel e informe a que o ensaísta poderá, sem imi- vemos procurar não nos comprometer imprudentemente, mas se aceitamos
tar ninguém , associar seu argumento , a fim de revelar-se e de compor seu a obrigação cumpre-nos observar as leis comu ns, ou, pelo menos, esforçar-
nos por observá-las. Os que se prestam à realização desse ato com ódio e
livro. desprezo agem de modo injusto [... ] (c) É uma traição contrai r matrimônio
sem atender às obrigações conjugaisY

OS SER VIÇOS RECÍPROCOS A situação fi nal marca urna dupla superação: contrariamente ao seu
humor, Montaigne aceitou as "ligações e obrigações"; mas essa lil!ação,
Montaigne, com sua época, distingue o casamento e o comércio amo- exprimindo-se na relação reflexiva e reciproca do desposar-se, supera~igual­
roso. "Ninguém se casa só por seu prazer e vontade; casamo-nos tam- mente a passividade implicada no fato de ser amarrado, impelido, leva-
bém, senão mais, por causa da família e da posteridade. " 53 Ele nos con- do , em que se confessava a incapacidade de resistir às "circunstâncias es-
fiará então , de maneira ao mesmo tempo p recisa e indeterminada, o que t ranhas". Quando se sabe o que Montaigne pensa da amizade (da qual
foi o seu comporta mento nas duas circun stâncias. Ora, em ambos os ca- nos diz, a propósito de La Boétie, que pode superar os prazeres do amor),
sos é fácil reconhecer um esquema ternário em que intervêm sucessiva- não se lhe criticará falar de maneira condescendente do casamento, o qual
mente a abrupta vonta de de autonomia, depois a autonomia perdida, o separa do amor e aproxima da amizade:
arrebatamento involuntário e, enfim, a relação com outrem, na qual o (b)Um bom casamento, se é que existe, recusa-se ao amor; deve antes ,·isar
indivíduo se reencontra ao aceitar os laço s que o obrigam a u~ dever ex- a uma boa amizade. 58
terior, e desde e ntão renuncia a proteger a preciosa substância do eu que
No momento em que fala rá do amor, ~1ont aigne modificará apenas
de início queria defender contra toda alienação.
muito levemente as diferentes etapas do esquema ternário que acabamos
A definição que !\1ontaigne dá de um "bom casam ento" vai direto
de destacar: o texto se torna mais exuberante, mais nuançado, mais au-
à conclusão:
19!
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dacioso. Reencontraremos a vontade de autonomia: "Demais, nessas ques- a cepção mais extensa do que hoje) que ele recorre para metaforizar a eq üi-
tões não me entregava completamente. Buscava o prazer, mas não me es- dade amorosa: mercado, pagamento, mercadoria, moeda etc. Essa metá-
quecia; conservava intalO, no interesse da companheira momentânea co- fora lhe s_erve para figurar a reciprocidade da transação erótica, e de ma-
mo no meu próprio, o pouco de razão e discernimento que a natureza neira nenhuma sua reificação, sua transformação em "valor mercan til" .
me outorgou". 59 Ora, o leitor acaba de ser informado, no ensaio 111, 111, É para Montaigne uma "convenção voluntária" em que o amante não
"Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros" , de que Mon- tem direito a nenhuma "usurpação de autoridade". 6-1 O amor, em sua
taigne foi presa, em sua juventude, dos arrebatamentos amorosos. A pas- materialidade corporal, não lhe é imaginável como uma posse unilateral;
sividade, o "deixar-se levar" foram anteriores. Foi pela viva lição que possuir um corpo sem sua afeição consentida não lhe parece muito d ife-
deles guardou que lhe vieram sua reserva e sua vontade de independência: rente do fetichismo e da necrofilia:
(b) i\l as trata-se de um comércio q ue deve pra ticar co m cuidado quem, co- (b) É esta [a vo ntade] que se procura conquistar, e com razão, mas isso só
mo eu, tem apetites sexuais muito vivos. As experiências de minha juventu- se consegue med iante genti leza. A idéia de possuir um co rpo sem afeição
de escaldaram-me, pois sofri todos os tormentos que os poetas afi rmam se horroriza-me. Parece-me um ato absurdo de superexcitação , como o daque-
agregarem ao gozo desregrado. É verdade que a lição valeu. 60 le rapaz que se mast urbava po r amor à es tátua de Vênus esculpida por P ra-
xiteles. Ou o daquele egípcio louco conspurcando o cadá ver de uma morta
No intervalo entre o deixar-se levar juvenil e a atitude ponderada em
que lhe cumpria embalsamar[ ... ) Amamos um corpo sem alma quando a ma-
que Montaigne já não se "entregava completamente", intervém uma von- mos sem que nos deseje e o queira .6S
tade de recompor-se, a qual Montaigne menciona mais explicitamente em
outro ensaio: Por certo, ao menos uma vez descobre-se uma atitude de Montaigne
em relação ao amor na qual a mulher não serve senão de pretexto para
(b) Na minha juventude combatia o amor quando o julgava exagerado e pro- um fim todo pessoal, que não lhe diz respeito. Depois da morte de La
curava torná-lo menos agradável, a fim de que não acabasse por me domi- Boérie, procurou no "comércio amoroso" a "diversão enérgica" que lhe
nar inteiramente. 61
era necessária; com esse fim, "apaixon[ou-se] por cálculo e ao mesmo
Mas o domínio estudado e calculado, mais conforme aos modelos tempo para dedicar-[se] a um estudo desse sentimento" .66 Essa confidên-
da autarcia filosófica, não é o último termo da experiência amorosa. Es- cia simultaneamente discreta e precisa deixa adivinhar uma aventura em
se último termo se apresenta, no ensaio 111, v, como um dos mais belos que predominava de modo consciente a vontade de substituir uma lem-
exemplos da relação dominada. brança dolorosa por um objeto presef!te, um comércio espiritual (homos-
Entre o arrebatamento passivo, que nos entrega a um "furor" estra- sexual) por uma ligação carnal (heterossexual). A aplicação em conquis-
nho, e a dominação refletida, em que o indivíduo se entrincheira atrás tar uma mulher fazia parte do "trabalho de luto" pelo amigo desapareci-
da muralha inviolável de sua identidade, há uma solução mediana, um do. Não sem que essa distração voluntária tenha acarretado talvez algu-
equilíbrio difícil, a que Montaigne se apegou e do qual diz ter encontrado ma secreta reprovação. Pois o cálculo e o estudo, em um compromisso
poucos exemplos em sua época. Em um primeiro sentido, trata-se de uma muito mais satisfatório, iriam depois se reportar ao livro, imagem do eu
regulação interna, entre o excesso da tensão e o excesso do abandono: para um olhar interior no qual sobrevive o amigo perdido. Em urna aven-
tura amorosa em que buscava um impossível esquecimento, representava
(b) Detesto igualmente uma ociosidade entorpecente e sonolenta e uma ati-
vidade árdua e penosa; agita-me esta, embrutece-me aquela. Tanto me desa-
a comédia para curar-se de outra dor. E ele não nos diz (como faz em
gradam os ferimentos como as machucaduras, e tanto os golpes que pene- outras ocasiões) que os sentimentos fingidos se tornaram progressivamente
tram como os que não ferem. Assim consegui, nessas questões, um justo equi- sentimentos verdadeiros ...
o
llôrio entre os extremos. amor é uma agitação viva e alegre; não me per- Mas não gosta da mentira e o faz saber sem rodeios. Se teme o com-
turbava nem afligia; animava-me tão-somente e eu sabia poupar minhas for- prometimento excessivo e a servidão amorosa, Montaigne se mostra ain-
ças. Cumpre fazê-lo, pois é nocivo aos loucos. 62 da mais severo com aqueles que se contentam em simular a paixão:
Ferimentos e machucaduras: Montaigne, nesse mesmo ensaio, reco- (Q) É loucura concentrar todos os seus pensamentos em uma afeição apaixo-
menda o emprego do "jargão de nossas guerras e caçadas" 63 para dar nàda. Por outro lado, entregar-se a isso sem amor, como comediantes de-
mais "caráter" e energia à língua francesa; em seguida, é à linguagem sempenhar sem escrúpulo o papel que todos desempenham nessa idade, é
da troca comercial (em uma época em que a palavra comércio tem uma por certo velar pela própria segurança mas de um modo covarde, como se,

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de medo do perigo, abandonássemos a honra ou renunciássemos a um pra- do que já lemos a propósito do casamento: " Observei severamente as leis
zer. E os que assim agem nada podem esperar suscetível de satisfazer uma do matrimônio bem melhor do que prometera e esperava fazê-lo''. Mon-
bela alma. 67 taigne se vangloria, em sua relação com as mulheres, de jamais ter deixa-
A dissimulação acaba por trazer prejuízo ao próprio enganador. Se do a palavra exceder a conduta ou o sentimento. Nesse mercado, portan-
os homens não são leais, deverão co~tar com as traições e a coqueteria to, não cometeu nenhuma fraude : comunicou-se, a cada instante, tal co-
das mulheres. Antes que o mito de Don Juan tenha tomado forma, Mon- mo era, sem dissimulação nem exagero verbal. O fazer (ou a realização,
taigne sabe que o "burlador", ao término de sua representação, não será como Montaigne gosta de chamá-lo) nele prevaleceu sobre a promessa:
menos enganado do que suas vítimas: generosidade que equivale a uma espécie de sobrepaga. É o que ama nos
poetas quando suas palavras " significam mais do que dizem". Seria exa-
(b) Mas a atitude dos homens de nossa época faz, como o demo nstram os
fatos, que as mulheres se unam para nos escapar ou, imitando-nos, repre-
gero ver ternura onde Montaigne fala apenas de benevolência, ou acreditá-
sentem igualmente e se prestem à comédia das relações íntimas sem paixão lo atento em não causar sofrimento, quando sua aversão em ro mper con-
nem ternura [.. . ] Ademais, a trapaça volta-se contra o trapaceiro; e, se não siste em uma consideração qu e concerne apenas a ele:
68
lhe custa muito , tampouco lhe rende bastante . (b) Nunca ro mpi co m elas enquanto lhes ded iquei alguma ternura, por insig-
A perda da relação se define, em termos econômicos, como um mercado nificante que fosse. E j amais me separei delas com rancor ou desprezo , em-
bora pudesse ter razões para tanto, pois sempre considerei q ue tais intimida-
nulo.
Ora o "mercado" amoroso c·o nsiste na troca do desejo. Isso impli- des , ainda q ue a lcançadas à custa de combinações vergonhosas, merecem
alguma gratidão de nossa parte. • 7 ~
ca o fran,co reconhecimento do desejo fe~inino (ao passo que uma ficção
hipócrita nega-lhe a existência) e a recusa de tudo que entra,·a a recipro- Aliás, com a maior franquez.a, é na troca do prazer que Montaigne
cidade da troca; ao se reservar o direito de estabelecer sozinhos as regras faz consistir o mercado amoroso. Toda a sua argumentação Yisa
desse jogo, os homens induziram as mulheres à astúcia e à desconfiança. estabelecer-lhe o recon hecimento e, em troca, desarma r aqueles que com
A distância entre nós e elas parece então separar adversários em luta. Mon- isso se chocariam: "Cada uma de minhas peças é igualmente minha, e
taigne, por sua parte, não admite ai comprometer sua consciência ao ponto nenhuma mais do que essa me torna mais essencialmente homem". 73
de chegar " à ingratidão, à traição, à maldade, à crueldade·• .69 Adotou Trata-se do sexo. Na troca física, na reci procidade do prazer, a relação
uma regra de veracidade: am orosa, consumando-se, se torna relação dominada- dom que aliena,
presença para si que é ao mesmo tempo presença para o outro:
(b) Neste século é preciso mais temeridade d o que tenho , essa temeridade
que os jo,·ens atribuem ao ent usiasmo da idade, mas que, se a olharmos de (b) O comércio amoroso exige equilíbrio e correspondência. P odemos pagar
peno, não passa , na realidade , de desprezo pela ,·irtude das mu lheres que os out ros prazeres com recompensas de di,·ersos :ipos, mas este só com a
as~edia m . Não o fen dê-las é para mim ,·erdadeira superst ição e le,·a-me ares- mesma moeda. (c) Na realidade o prazer que damos é-nos mais doce, inten-
peitar o que amo. Demais, independentemente do fato de que em tais cir- so e generoso do que o que recebemos. (b) Ora, nada tem de generoso aque-
cunstâncias a falta de respeito amesquinha a prefe rência con:edida [... ].· 0 le que pode receber prazer sem o dar [... ]. ·•
(b) Em meu tempo observei (dentro das limitações naturais) a orientação
que defendo e agi com alguma justiça e conscienciosamente nas questões dessa Sem dúvida, em parte alguma mais do que nesse ensaio \1 ontaigne
ordem. Só disse de minha afeição às mulheres na medida em que realment e desenvolveu tão amplamente o elogio dos "sen·iços recíprocos·'. Não faz.
a senti, e com inteira f ra nqueza mostrei o nascimento, o apogeu e a deca- deles tão-somente, em graus diversos, o propósito essencial do "bom ca-
dência da inclinação, bem como meus entusiasmos e desinteresses. pois nem samento" e do comércio amoroso. O amor, por sua vez, em quem a ele
sempre estamos bem-dispostos. A tal pon to evitei d esmandar-me em pro- se entrega, implica uma reciprocidade de serviços entre o corpo e a alma:
messas q ue sem dúvida cumpri muito mais do que prometi e mesmo do que
deria [... ] Se lhes dei moti,·o de queixa foi talvez por as ter amado de uma Podemos d izer que enquanto permane~emos nesta prisão terrestre nada nos
maneira incom um, possivelmente tola porque demasiado conscienciosa pa- a feta exclusi,·amente a alma ou o corpo; que com um a tal distinção desmem-
ra o nosso tempo. Cumpri minha pala1·ra em coisas em que talvez o dispen- bramos o ho mem em vida ; e que é tão normal sentirmos o prazer quanto
sassem [.. .].- 1 o so fr i mento_-~

Se há um po nto comum , em ~1 ontaigne, entre o casamento e o amor,


(") No original, "Nunca rompi enquanto a ela~ me ap~f uei, ainda que por um fio
é que nas duas ordens de relação ele mante,·e a palaHa. Lembremo-nos )... 1 merecem alguma benevolência de nossa pane ... (!\. T.)

194 195
dos ~~t~;t~ ~e~~~~;;~Iontaigne citar~, muito curiosamente, o exemplo Tem da poesia apenas uma experiência de leitor. No final do ensaio , ele
penitência: pela qual tremavam o corpo no exercício da
o dirá mais precisamente: o verdadeiro amor (sob o signo de Vênus) pode
ter por objeto apenas um ser dotado de todas as graças da juventude -
(b) Assim, por exemplo, graças ao es írit d .. .
a dor causada pelos pecados ?d o e pennencla que os dominava, ora, o que resta por esperar para um velho (Montaigne tem 53 anos! );
era senti a pelos santos co . . a tão louvada reciprocidade lhe é permitida?
que os levava à perfeição· e em . d d . . m uma tntens1dade
• • Vlrtu e a muma união .
a Ima e o corpo 0 sofrimento at" . eXJstente entre a
recamem e ligado à causa me tndgla também este, embora não estivesse di· (b) Por fraqueza e experiência nosso gosto se faz mais exigente e requinta-
tavam com 0 fa to d sma o tormento · Mas os samos nao - se conten· do ; e tanto mais queremos selecionar quanto menos possibilidades temos de
e o corpo acompanhar a aJ ser aceitos. Reconhecendo nossos próprios defeitos, tornamo-nos mais des-
innigiam.Jhe ainda tort uras at fi ma nas suas desgraças,
rozes, a lm de que ambos o Ih confiados e tímidos. Nada pode assegurar-nos que sejamos amados, dadas
em um estado de sofrimento qu . 1 . s mergu assem
agudo. 76 e J U gavam tanto mais salutar quan to mais as condições em que nos achamos e as da juventude entusiasta e vi va, "que
exibe um membro incansável e mais rígido do que a árvore plantada na

passou:~ i:~~~~~; ~dsi~~~!:~ts:~


colina".'8
inverte essa_ re_lação masoquista. Ao
(Ter-se-á observado: mais de uma vez, Montaigne, para designar as
experiência do prazer de• ·e se o col rpo assiStia a alma penitente, a
• r pa ra a a ma a opo 'd d d coisas d o sexo - aqui a ereção - , as faz dizer, no interior mesmo de
vez, assistir o corpo E veremos f' 1 reuni a e e, por sua
exprimir-se na substélncia mes d ma mente a relação de reciprocidade sua frase, pelos poetas latinos.) Nenhuma si metria pode subsistir para um
fei tam ente equilibrado: ma o texto, p or meio de um quiasma per- "velho" na relação erótica, tanto mais que Montaigne recusa a única pos-
sibilidade que teria restabelecido a igualdade; àqueles que lhe prescreves-
(c) Não haverá injustiça no caso dos r . sem dirigir-se às mulheres de sua idade responde de maneira desiludida:
a alma se alheie ou deles •pare· . p azeres sensuaJs, em fazer com que
Ihe, ao contrário buscar e f 1c1pe como que por obrigação.? A meu ver cabe- (c) Pois eu acho mais voluptuoso simplesmente contemplar um casal de jo-
bém lhe compec'e qu d omen tar esses prazeres e orientá-los; como tam- vens amorosos do que participar de uma união lamentável e monótona.i9
' an o se trata de prazeres qu Ih -
comunicá-los ao corpo e esf e e sao peculiares, Em um mercado em que a troca se efetua de corpo pa ra corpo, qual-
P OIS, se é razoável dizor queorçar-se por
.
_
que lhe se1·am d· · ·
agra ave1s e uteis.
0 quer diminuição da integridade corporal compromete a felicidade esperada:
detrimento da alma t;mp corpo _n ao deve procurar sua satisfação em
• ouco sena JUstificável q d · ·
preju(zo daquele. n ue esta se eleltasse com (b) Não vos parece impudente apresentar-se alguém com suas imperfeições
Nos " serv1ços
· e fraquezas a quem deseja agrádar, da boa impressão de si e ser apreciado?
recíprocos" do · ·
ca a "aliança" do corpo e da al co~erctO _amoroso, ou daquele que mar- Pelo pouco de que sou hoje capaz não importunaria alguém de quem gos-
tasse e que não quisesse ofender: "Já não tenho forças". 80
análogo àquele que, na mais alt:a~esi:n~rugne n~s faz perceber um laço
do e a expressão, o "pensar" e o '~dizer·'· ne a cot~a e a palavra, o senti- Em relação a isso, e até nos insucessos de sua antiga carreira amoro-
escolhe em Virgt1io e Lucrécio - - . Como vtmos, os exemplos que sa, Montaigne (que, no entanto, não hesita em dizer: "Nenhuma outra
''referente'') da u ·- . nao sao apenas emblemas (no plano do paixão poderia excitar-me agora")81 está pronto a fazer recair a culpa em
ruao conJugal (Vênus e Vulc
zeres adúlteros (Vênus e Marte L
v· ·
. . ano em trg11to) ou dos pra- sua conformação física, isto é, nas dimensões demasiado ex!'guas de sua
o modelo profano (no plano d em ~crectO), mas também lhe oferecem mentula, como dizem claramente os versos latinos que cita, no interior
a escnta) de uma com t - f ·
carne e do verbo A oesia pene raçao ellz da de uma confissão pessoal, deles se apropriando - prótese antiga e poéti-
substancial da al~a :do c~~~~ essencta, metaforiza o amor e a união
A •

ca para um déficit do francês e para suas interdições:


Tal é o modelo de reciprocidade que M · . . (b) Nunca atribuí à mulher e à sua indiferença o fato de se ter algum dia
valecer na ordem erótica e !in ... t' ontrugne deseJana fazer pre-
aborrecido com minhas carícias; a princípio pensei que devesse acusar a na-
pria Natureza o prescreve guJs Jca e que se compraz em crer que a pró-
início do ensaio que dor~vNo ent~nto, é-lhe forçoso constatar, desde o
tureza, pois deve ter-me tratado com parcialidade e de maneira pouco amá-
vel: "Foi comigo avarenta". "E pbr certo tinham razão as mulheres de des-
de seus sonhos ;morosos· d~~;-a Idade lhe pro!'be uma satisfação fácil prezar tão magras aparências." Lamentável imperfeição. • 82
trariamente a La Boétie j~ai :~permanecer sonhos e fantasias. Con-
. ' s OI poeta; tentou-o, e nisso foi "pueril ".
(•) No original, "lesão enormíssima". (N. T.)
196
197
Enorme, enormfssima, a lesão sofrida por Montaigne, enquanto as plurais: as citações latinas podem fornecer um suprimento útil no que "fa-
damas são (antes da experiência) induzidas em erro pelos grafites que as lha" e "vacila" em francês (e acabamos de ver Montaigne recorrer ao
fazem esperar bem o contrário- órgãos enormes: latim para melhor dizer, em seu próprio caso, o vigor ou o enfraqueci-
mento sexuais). Mas o recurso à citação é um ato ambíguo: é ostentação
(b) Que prejuízo moral causam esses desenhos obscenos• que as crianças tra- de saber, sem dúvida; contudo, de um saber de empréstimo e, por isso,
çam nos muros e nas portas dos edifícios públicos! Induzem a mulher a um é confissão de insuficiência ... Outro recurso consiste em utilizar de ma-
cruel desprezo por nós quando constatam a desproporção da imagem com
neira figurada as "frases" que "em França se ouvem nas ruas" :86
o objeto.83
(b) Talvez o jargão de nossas guerras e caçadas devesse ser aproveitado nela,
Montaigne se queixa de ter sido maltratado pela natureza. Assim,
pois seria filão de bom rendimento, sem dúvida. A exemplo das plantas, as
eis aí inculpada, e ligada a um humilhante defeito fálico, essa natureza
formas da língua corrigem-se e se fortalecem com a transplantação. 87
da qual Montaigne tão freqüentemente declara que é preciso tomá~la co-
mo guia e como norma. Era à arte, era às instituições, ao costume, que A imagem da transplantação é ela própria uma metáfora para dizer
Montaigne imputava mais comumente o desregramento, a falta de reci- a translação metafórica. A arte se autoriza aqui com uma analogia vege-
procidade nos "serviços recíprocos" ... Descobre-se aqui que a natureza, tal e agrária, isto é, com uma quase-natureza.
tão justa em todas as suas operações, tão generosa e maternal em seus Mas a transplantação que Montaigne levará a bom termo é a que es-
dons, é também capaz de subtrair, de castrar, de tratar "ilegitimamen- tabelecerá entre seu livro e ele próprio o campo de serviços recíprocos.
te" , de romper o equilíbrio e a bela sime_tria que parece buscar em todas Por mais longe que esteja da perfeição "nervosa e sólida" dos antigos,
as ocasiões. Existe aí um mistério de iniqüidade ... por " efeminada" que seja a língua - o instrumento - de que dispõe,
Lesado em seu corpo, diminuído pela idade, Montaigne considera- basta que Montaigne possa dizer que, em todo o caso, seu livro é seu.
se, além disso, desfavorecido pelo falar "comum" no qual escreve. Às No plano de representação, e na aceitação mesma da falha e da irregula-
confidências que acabamos de citar pode-se acrescentar esta, a qual diz ridade, o princípio de reciprocidade expressiva se restabelece - o quias-
respeito ao órgão \'erbal de que dispõe um escritor francês; na confissão ma liga o livro e o eu:
de fraqueza, o paralelismo é notável:
(b) Pois não é assim mesmo que falo habitualmente? ~ão me mostro tal qual
(b) ~ossa língua parece-me bastante rica, mas algo grosseira. [... ) A nossa sou? Está certo então. Cheguei ao que queria, pois todos me reconhecem
é assaz abundante mas pouco flexível e \'igorosa .. 'ão exprime em geral com em meu livro e a este em mim. 88
felicidade as idéias fortes. Se as queremos exprimir, sentimos que o instru-
mento falha e vacila e temos de apelar para o latim ou o grego. 84
A vista de todos, o dizer amoroso se transplanta, sinuosamente, pa-
ra a subjetividade. A relação especular da representação do eu no lino.
Em todos os níveis em que localizamos a exigência da relação har- do lino no eu, apresenta-se como o substituto narcisico de todas as rela-
moniosa e dos "sen·iços recíprocos", impõe-se a constatação de uma fal- ções de reciprocidade irrealizadas ou dora\'ante irrealizáYeis. Permite
ta, de uma limitação, de um defeito material ou energético. A inferiori- resignar-se às imperfeições da língua, a partir d o momento em que est as
dade se diz aqui na mesma linguagem carregada de metáforas sexuais que são a réplica idêntica das imperfeições pessoais do escritor e que se resta-
dizia o mérito dos poetas antigos; a oposição é a da impotência e da po- belece a adequação res! rerba que a justiça da escrita tem a função de as-
tência: segurar.
(b) :'\ão é uma eloqüência efeminada em que nada choca; é nervosa, sólida, Com base nisso, deve-se chegar a supor que escrever o ensaio "A
antes satisfaz e entusiasma do que agrada e encanta [... ] A força da imagi- propósito de Virgílio" faça as vezes, para Montaigne, da troca amorosa,
nação realça e valoriza as palavras. 8 ~ no momento em que se dissipa o calor corporal tão necessário ao ato eró-
Lamentavelmente, essa linguagem erotizada já não tem curso. Já não tico? E que, desse modo, ele se resigna a substituir o prazer carnal pelo
nos é dado falar amorosamente, nem amar eloqüentemente . . prazer de escrever e, mais precisamente, de se escre11er, em um sentido
Montaigne não se contenta em anotá-lo. Experimenta o desejo dos no qual predomina a tendência narcisica? De fato , se escreve esse capitu-
remédios e da reparação. ~o que diz respeito à língua, as respostas são lo, se quer, graças a este, penetrar no toucador das damas, é para dizei
quantO essa resignação lhe é difícil e quanto lhe parece legítimo, quando
(•) So original. "esses dcsl'nhos enormes'' (grifo de Starobinski). (N. T .) a natureza está enfraquecida, recorrer à antinatureza. isto é, à arte- que

198 199
comparação mais uma vez extraída da arte de curar, seu voto de calor
em tantas outras ocasiões condenara, quando podia opor-lhe uma natu-
reza triunfante. reconquistado:
No início do ensaio, lembramo-nos, ele não parecia contar com uma (b) Quanto a um corpo debilitado, parece-me inútil• ~ema: aqu~l~ e a;;i~~­
vitória da arte, se se espera da arte mais que uma satisfação sonhada: lo mediante processos artificiais, ou recorrendo_ à tmagmação a tm e e
devolver o apetite e a alegria que já não possut.'l4
(b) Só me alegro em pensamento ou sonho, mitigando com tais trapaças as
. . . . ação (a "fantasia") mais uma vez encarre-
tristezas da velhice. Gostaria, porém, de outro remédio! Mas é em vão que P ortanto, e1s a1 a 1magm _ d 1
a arte luta contra a natureza.~~'~ gada de uma esperança de palingenesia. Por que ~ao se aban onar • pe ~
~ l·nstante ao sonho do rejuvenescimento, do recomeço -
Ora, a quimérica hipótese de uma terapêutica (de uma arte) por e menos por um •
para o amor reaparece no final do ensaio; a medicina galênica recebe a . - -·a (o amor) o cuidado com minha pessoa, a \igilà~cia, a
(b) Devo 1\ er me 1 lh. - de·ft<>uras
aprovação (a exceção não faz a regra) de Montaigne em uma de suas afir- . ··alidade· faria com que os tristes scstros da ve tce ~ao_ me ~ "' -
JO\ ~. ( ) e s~m dúvida me induziria a estudo; úteis e louvavets que me torna-
mações fundamentais: as discrasias frias devem ser combatidas pelo ca-
s~m, ~ais querido· libertaria meu espírito do d.:scspero e da falta de con-
lor; o verdadeiro remédio deve ria ser dispensado por um corpo jovem: r~am .' . (b) afastar-me-ia de mil pensamentos aborrecidos, (c)
ftança em seus metos, d ·d
(b) É por certo o amor uma ocupação frívola, chocante, vergonhosa, ilegíti- de mil melancólicos desgostos (b) que a ociosidade (c) e a falta e sau e pro-
ma; mas, conduzida como o recomendo, passa a ser útil à saúde , capaz de . . (b) e pelo menos em son ho, aquecen
·a este sangue que
. a natureza
.
desentorpecer o espírito e o corpo. E, se fosse médico, aconselharia-o, como ~~=~ a ab~ndonar, sustentaria esta cabe~a que s~ in~li~:· v~~s:;~:;r~ae~:~ ' ..
terapêutica, a um homem de meu temperamento e condição, a fim de tes nervos (c) e outorgaria um pouco de -.lgor e a egna. 9s '
i ..:..
despertar-lhe as forças e o manter em forma, retardando os efeitos dos anos. pobre homem que caminha a grandes passos para a ruma. . . ,-
j
Enquanto não nos aproximamos demasiado da velhice, enquanto nosso pul-
O fantasma do fogo redescoberto, longe de tomar por objeto a ftgu-
so bate ainda [... ), temos necessidade de ser solicitados por essa sensação
ra de uma desconhecida (papel que não parece que a srta. p e Gourna_y
que nos agita e estimula. Vede como o amor rejuvenesceu, revigorou e ale-
grou o sábio Anacreonte! E dizia Sócrates, em idade mais avançada do que possa desempenhar), manifesta-se na enumeração dos beneflct~s pessoais
a minha, de uma pessoa pela qual concebia esse sentimento: "Com os om- ue Montaigne poderia ti rar de algum último amor. Mas _ele na o s~ enga-
bros apoiados um no outro, como se olhássemos juntos um livro, senti re- ~a. No final do ensaio, vê toda a distância que o separa , meparavelmen-
pentinamente uma picada, como de um inseto, e essa impressão de formiga- te do amor:
Em suma, diria de bom grado que o amor só me p~ece nat~ral na idade
mento persistiu durante cinco dias comunicando-se ao meu coração". As-
'
sim um contato fortuito bastava para aquecer e perturbar uma alma já amor-
tecida pela idade e que mais se aproximava da perfeição !90
~~s próxima da infância. Mas que não se tome a cotsa ao pe da letra. (c)
E 0 mesmo digo da beleza. 96 .
Uma lembrança livresca - uma palavra de Sócrates (em situação de
É preciso ao mesmo tempo dispensar todas as esper_an?~s ~ga.das à
leitura a dois) citada por Xenofonte- vem fornecer o exemplo da medi-
arte e contemplar de longe os passos do amor' cujo cortejO )a nao e pos-
cação viva. E o exemplo é o de um contato epidérmico fortuito , de um
encontro superficial de acaso; dai resulta, mediante o eco profundo que sível acompanhar:
atinge o centro do indivíduo (o "coração"), um aquecimento que reani- (b) Vede como vai cambaleante, trôpego e brincalhão; aprisi~-n~oi~ q~:~
ma ao mesmo tempo o corpo e a alma (" uma alma amortecida"). O que do o guiamos com arte e sa~edoria, e constrange~~!, sua lVIOa er
não pode o mais leve toque! Falando da serenidade dos adeuses do ago- quando O submetemos a maos peludas e calosas. . • .
nizante à vida, Montaigne teme que a perturbe "um aperto de mão"!91 S b . te um último sonho, tomado de emprésti'?o à utopia ~lato~­
Em outra parte, ao contrário, deseja ao agonizante " uma mão hábil ca- u SIS d ·vado desta Que os privilégios eróticos que Platao atn-
ca ou, antes, en ·
paz de pensá-lo onde lhe doa".92
A autoridade de Sócrates, no caso, justifica o que tantos outros "' .. ai "quanto a um corpo debilitado, é justificável tentar aquecê-lo{...)".
( 0 ) , ... o ongm , .
teriam condenado, em nome mesmo da filosofia: "E por que não?
Sócrates era homem e não desejava ser nem parecer outra coisa" .93 (N. T-(~•) Não cito aqui a tra~~ç-ão de Sérgio Milliet, que, nessa pas~ag:m, refere-se_ à bele-
. t rpretação de Starobinski deixa clara a referencta de MontaJgne ao
E Montaigne - que, no entanto, se empenhou com tanta freqüência za, ao passo que a 10 e
em desacreditar as empresas de medicina - reforça, por meio de uma amor. (N. T.)
201
200
bui aos guerreiros valorosos sejam também outorgados àqueles que ad- do que Montaígne pretende dizer: a pouca diferença entre os sexos? Mas
quiriram outros méritos; quimera de uma recompensa carnal reservada ao efeito de confirmação acrescenta-se o efeito de inversão. A força da
aos bem-falantes, àqueles que, como Virgílio, são poetas, ou, na falta dis- poesia se manifesta uma última vez: é rejuvenescedora, feminizante, evo-
so, àqueles que sabem perceber o refinado calor da grande poesia amorosa: ca o contato de um fruto e de um seio jovem, restitui a vida, o quente
rubor; é retorno ao amor, no momento mesmo em que Montaigne, em
(c) O que esse filósofo considera justo prêmio ao valor militar deveria aplicar- seu próprio texto, diz dele estar afastado. Nesse sentido, a citação exerce,
se a outros valores igualmente. Não haverá nenhum que àquele (b) se substi-
ao distender a frase, o efeito reparador da arte; é "mais amaros~ do que
tua no gozo desse amor casto? E digo casto porque, "se nos ocorrer travar
o próprio amor". Ao mesmo tempo, compensa o "fluxo de palavras pouco
a batalha, não passa de um fogo de palha em que a chama não tem força,
nem o furor dá fruto". Em verdade os vícios que se sufocam no pensamen- comedidas" do ensaio prosaico ao lhe conferir analogicamente (e contra-
to, não são os piores. 97" ditoriamente) o valor da prenda de amor.
E a afirmação final, de aspecto apressado e zombeteiro, desemboca
De todo o imaginário do calor reconquistado, resta o que Montaig- em um provérbio que se refere às costumeiras técnicas da lareira:
ne faz dizer aqui por esses versos admiráveis de Virgl1io.98
Para concluir, Montaigne afmna a igualdade dos sexos. Mas o faz (b) É bem mais fácil acusar um sexo do que desculpar o outro. Atente-se
no final de uma frase na qual fala em termos depreciativos do texto que para o ditado: o roto ri-se do esfarrapado. • 101
acaba de escrever em que insinua de passagem seis versos de Catulo: O atiçador e a pá estão ambos a serviço de um mesmo fogo. Mas
(b) Para acabar com este comentário prolixo que deu azo a um fluxo de pa-
são ambos igualmente negros, e, fo ra do fogo, os dois são feitos do mes-
lavras pouco comedidas e por \'ezes inconvenientes: "assim cai do seio vir- mo frio metal. O atiçador (masculino) é bem tolo de se rir da pá (femini-
gem a maçã, presente furtivo do bem-amado. Esquecendo que o escondera na). A idéia da necessária reciprocidade não desapareceu do espírito de
sob o vestido, ergue-se ao ver aproximar-se a mãe e o fruto rola a seus pés. ~1ontaigne - ao contrário, a expressão trivial e popular serve-lhe para
Eis que de rosa se tinge o seu rosto revelando a falta cometida"; para aca· lançar o ridículo sobre aqueles que não a aceitam. O irônico recurso ao
bar, portanto, com este comentano, direi que machos e fêmeas saem de um provérbio ,·isa causar vergonha em um mundo no qual o homem não con-
mesmo molde e que[ ... ] em bem pouca coisa diferem. 99 sente em encontrar na mulher a sua igual.
"Fluxo de palavras pouco comedidas": depois de haver insistido, ao
longo de toda a página anterior, em sua condição de velho, é ainda a um
defeito de velhice (na qual "catarros" e "fluxões" predominam) que Mon-
taigne atribui o longo ensaio que se acaba de ler. E a asserção final, para
dizer a igualdade dos sexos, toma toda a distância necessária: os dois se-
xos, q ue "saem de um mesmo molde", são considerados objetos, do ponto
de vista do fundidor ou do demiurgo. A frieza da velhice se traduz pela
frieza objetiva, a qual tem dificuldade em fazer caso de uma débil dife-
rença.
Mas a citação poéti ca latina opera um si ngul ar deslocamento, cujo
efeito é análogo àquele que Montaigne atribui, no decorrer do ensaio, aos
versos de Virgílio e de Lucrécio: o poema citado compensa verbalmente
a falta sofrida na existência. A citação aqui introduzida é, à primeira vis-
ta, apenas uma engenhosa comparação que joga com a imagem do que
escapa. O "fluxo de palavras" que escapou a Montaigne se assemelharia
à maçã caída do maleável vestido da jovem. A analogia diz respeito ao
oculto que se torna manifesto. Ora, a passagem à poesia latina não ape-
nas faz reviver as imagens da extrema juventude 100 mas também arreba-
ta Montaigne, no papel de uma jovem cujo amor é denunciado pela pren-
da que ela não soube esconder. Não é, de certa maneira, a confirmação (
0
) ~o origi nal. "o atiçador ri- ~e da pá". (N. T.)

202 203
6
HCADA UM
ESTÁ EM SUA OBRA"

A NA TU REZA E A OBRA

"Nada conheceremos de nosso ser", • 1 diz Montaigne. Mas, em ou-


tra parte: "O homem não pode ser senão o que é" .2 Por afastado que
esteja da verdade essencial, o homem mantém sua posição entre aquilo
que existe; e, por mais "insuficiente" que seja a sua condição, não deixa
de representar, bem ou mal, um modo particular do ser, o qual faz com
que o homem seja o que é. Enquanto ao longo de sua argumentação céti-
ca Montaigne se aplica em descrever, multiplicando-os, todos os obstá-
culos que se interpõem entre nossa consciência e o Ser verdadeiro (defini-
do como o que permanece eternamente uno, e idêntico a si), propõe alhu-
res uma definição inteiramente diferente: "Esta [a vida] consiste em mo-
vimento e ação. •• 3 À idéia do ser imutável que nos transcende sucede~
se, então, a imagem de um ser dinâmico, não apenas fonte de mudança
e criador de formas moventes, mas ele próprio conduzido por sua potên-
cia móvel.
Se carecemos de uma autoridade, nosso recurso não se deve dirigir
à natureza? Não é ela precisamente "movimento e ação"? Reina univer-
salmente; por que não estaria igualmente presente no curso confuso e so-
nhador de nossos instantes? No que "somos", e que parece tão frágil em
comparação à idéia quimérica de um Ser ftxo, devemos reconhecer a von-
tade dessa Mãe admirável que engendra a uma só vez a inesgotável diver-
sidade do mundo e seu inexaurível reflexo em nós. Para viver em confor-
midade com a natureza (como nos convidam os estóicos e tantos outros),
é preciso, desta vez sem ilusão ontológica, abandonar-se maleavelmente
à espontaneidade interior, a qual muito freqüentemente contrariamos. Eis

(") No original, "Não temos nenhuma comunicação com o ser". (N. T .)


("") No original, "Ser consiste em movimento e ação". (N. T.)

205
aí então, a despeito do eclipse do absoluto, uma norma redescoberta, que gundo a Natureza não é menos difícil do que uma ciêncià da natureza.
nos desembaraça de toda preocupação com os longes. Se a natureza não O poder da Natureza não é ilimitado: existe um " fora da natureza", e
pode ser conhecida no movimento das causas, pode ser aceita no sistema o homem tem a faculdade de. a ele apelar - para sua infelicidade.
de seus efeitos. Não se trata mais de apreender o segredo da Natureza,
mas de se deixar levar por ela.
Teríamos podido crer que nossa separação em relação à Verdade É preciso mais uma vez combater ferrenhamente a razão humana?
transcendente nos deixava sujeitos à arbitrariedade e à cegueira; ora, eis É preciso ainda considerá-la culpada de lesa-natureza, no momento m es-
que uma lei se enuncia, não para além de nossa existência, mas no inte- mo em que teríamos renunciado a todos os exageros do "cogitar"? É o
rior desta. A Natureza nos inclui. Está ativa em nós. Escutemo-la, que Montaigne sustenta mais de uma vez. Mas, em muitas circunstâncias
deixemo-la agir. "Sempre acertaremos seguindo a natureza [.. .]4 Sou co- também, defenderá a idéia inversa e tomará o partido de aprovar o poder
mo sou, e não combato coisa alguma. (... ]" 5 Por mais cambiante que se- em nós Oiberdade, julgamento, razão, costume) que se opõe à natu reza
ja o impulso da natureza, obedecê-lo constitui uma sabedoria sólida e, e lhe resiste; o "fora da natureza" torna-se então, como em tantos h u-
além disso , uma sabedoria cujo fundamento é universal e pode unir os manistas, a expressão da dignitas hominis:
homens. Em "todo homem que não foi formado em oposição à nature-
za" foram lançadas "raízes, mercê do senso comum". • 6 Sem passar pela (a) Visto que aprouve a Deus dotar-nos de alguma capacidade de raciocínio
especulação filosófica, sem exigir que essa razão se eleve até a clareza con- a fim de que nos assemelhássemos aos animais, sujeitos às leis comuns, e
ceitual, o homem (o primeiro rústico que aparecer) possui em si mesmo nos foi permitido aplicá-las judiciosamente de acordo com o nosso arbítrio,
a regra infalível que lhe permite viver bêm, morrer com serenidade e ser devemos atentar para os desígnios da Natureza, sem contudo nos escravi -
plenamente o que quer a natureza. Pois nosso dever coincide com o dita- zarmos a ela, pois somente a razão deve regular as nossas inclinações. Quanto
a mim, não sinto nenhuma simpatia por essas inclinações que surdem um
do da necessidade natural... Bastam uma pura obediência, uma passivi-
nós. independentemente da nossa razão. 9
dade tranqüila, e tudo se passa como se esse quietismo "naturalista" nos
devolvesse (sob forma diferente) uma "comunicação com o ser" que a O que, então, é preciso escolher (se temos escolha)? Abandonar-nos
curiosidade filosófica, depois de a ter esperado, resignou-se a jamais ou rebelar-nos diante dos " desígnios da natureza"? Dessas duas event ua-
possuir. lidades, Montaigne adota alternadamente uma e outra, sendo cada uma
Apenas, esse vínculo com a Nat ureza, tão logo descoberto, é instan- declarada por sua vez a única preferível e a única praticável. Ora Mon-
taneamente posto em discussão. O homem não é, de todos os animais, taigne dirá q ue o homem obedece, queren do ou não, às exigências da na-
o único que tem o poder de recusar e de contrariar a natureza? Não resta tureza (e é a própria natureza que o proclama na prosopopéia final do
em nós "nenhum vestígio da natureza. Com esta fizeram os homens o ensaio 1, xx); ora verá no homem a única criatura que desde o seu nasci-
que os perfumistas fizeram com o azeit e; sofisticaram- na tanto com ar- mento faz uso de sua liberdade para escapar à lei comum:
gumentos e raciocínios alheios a ela, que ela apresenta hoje um caráter
(b) O s filhotes de ursos e de cães mostram sua tendência natural; os homens,
essencialmente variável, peculiar a cada um, tendo perdido o que lhe era
porém, metendo-se desde logo em hábitos , preconceitos, leis, mudam ou se
inerente e a todos se aplicava. [ ... f É possível que haja leis naturais co-
mascaram facilmen te. 10
mo ocorre em certos animais, mas nós as perdemos, porque nossa bela
razão humana em tudo se mete para dominar e comandar, perturbando Daí a ambigüidade da educação , segundo Montaigne: t rata-se de fa-
e confundindo a fisionomia das coisas a seu talante, segundo sua vaidade vorecer o desenvolvimento das faculdades naturais inatas? O u se trata,
e sua inconstância". 8 Constata-se aqui, novamente, que a "natureza" do ao contrário, de fazer com que à força de exercícios agradáveis e de hábi-
homem consiste paradoxalmente na faculdade racional de contradizer e tos insensivelmente adquiridos a criança receba uma segunda natureza,
de desfigurar o dado natural, de particularizar o universal. Não seremos faça sua uma "forma" produzida pelo esforço incessante e pelo uso? Pe-
talvez mais felizes quando quisermos deixar agir a natureza do que quan- la autoridade do exemplo, pelo efeito da prática, a virtude viria incorporar-
do desejávamos perceber-lhe a verdadeira fisionomia. Uma ética se- se à alma, impregná-la e tingi-la inteiramente com sua cor. Não se sabe
que à força de " fingir de doente" (tít ulo de 11, xxv) fica-se doente de fa-
( ) No original. em "todo homem não desnaturado" foi lançada uma
0
" sem~nte da to? A máscara se torna face. " Lass mich scheinen bis ich werde", canta
razão universal"' (grifos de Starobinski) . (N. T.) Mignon, em Goethe. Deixe-me parecer até que me torne. "O parecer é

206 207
um caminho para o ser" (Alain). Só uma ação humana pode impor uma tural mas também se volta para esta a fim de apreendê-la e mod ificá-la .
forma à substância natural que, deixada a si mesma, permanece indeter- "Todos os meus esforços visaram a vida e pouco me incomodei com criar
minada. Isso é um bem? É um mal? É um estado de fato que não se pode uma obra literária.,. 14 A obra é a ação reflexiva que confere forma
contestar. Como vimos, a vida do corpo é um tecido de hábitos, o qual àquele que ·a fez . Única ação válida, aos olhos de Montaigne, que habi-
é perigoso contrariar. Permanecer o mais perto possível da natureza é, tualmente tem, como já sublinhamos, apenas desprezo (talvez por pre-
na maioria das vezes, consentir no informe. Submeter-se ao costume é, conceito de fidalgo) pelas ações transitivas cujo fim se encontra em al-
recebendo uma forma, 11 correr o risco da deformidade, da deformação. gum objeto ou em algum resultado pagáveis em moeda. O fazer só o inte-
Como conciliar natureza e forma? Como, sem trair a natureza, realizar ressa quando se trata de se fa:er: ele se diz pouco apto às atividades que
a vocação racional do homem? têm como meta apenas produzir ou modificar objetos, em vista do pro-
A conciliação, entretanto, não é impossível. Ela recorre, aqui ainda, ve ito ou da simples utilidade. Montaigne não faz questão de ser louvado
à oposição semântica do interior c do exterior, do "meu" e do "estra- por ter sido bom magistrado, nem mesmo por saber escrever: 15 não quer
nho", que serve de critério e de regra para fa vo recer o processo da apro- se r especialista em nenhuma matéria, nem sequer em bela linguagem. Um
priação, pois o valor positivo pertence à ordem do "meu" , do "interior", homem de bem não tem profissão, insistir-se-á no século XVII. Não é ver-
do " próprio". Marcado pela exterioridade, o costume é qualificado ne- dade que "qualquer magistratura ou arte tem um objetivo situado fora
gativamente: é nefasto, como toda coerção estranha, e Montaigne nos in- de si"?'6 A utilidade pública o exige, e Montaigne pode apenas aprovar-
cita a voltar a essa natureza que, do interior, pede apenas para dirigir-nos lhe o princípio. Quanto a ele, Montaigne lançou seu fim principal em si
segundo sua lei . Mas desde que o costume, o poder formador podem ser próprio . .
considerados atributos ou realizações do próprio sujeito, desde que po- Lançar seu fim em si próprio. E, mais uma vez, transformar o eu
dem ser ditos meus, ei-los desculpados e legitimados. A alienação cessa em espaço. É fazer do próprio eu o campo em que se manifestará sua
no ponto em que o modelo e a coerção externos são livremente assimila- ação. Isso significa dizer que há de início um sujeito que empreende agir
dos, devidamente apropriados . A forma é então imposta de dentro, é o e que, constituindo-se como o objeto privilegiado de seu gesto, se faz coi-
resultado de um esforço e de um trabalho interiores. O indivíduo, embo- sa ("mim") para se apreender como fim. Invento assim um eu semipassi-
ra dócil ao costume social, deverá apenas a si próprio o que o constitui vo, o qual é o tema (ou o mito) que se propõe ao meu trabalho. Uma
como indivíduo. Da mesma maneira, terá operado a interiorização do que pseudo-exterioridade se interpõe entre o eu e ele próprio, em virtude da
de início lhe era estranho ou hostil. Assim ocorre, por exemplo, com o metáfora do trabalho. A distância que imagino expõe minha existência
exercício pelo qual nos acostumamos a suportar a doença ou a antecipar ao meu olhar: é (eu sou) a obra á realizar, o meio em que encetar meu
a morte: familiarização que inverte o traço das forças adversas dirigidas esforço. Decerto, sou o senhor dessa distância, mas não a pude criar se-
contra nós pela natureza ou pelo destino. "Por efeito de um demorado não ao explorar uma fraqueza, uma possibilidade de desdobramento que
uso, meu estado atual passou a fazer parte integrante de mim. Minha na- habitam minha vida desde seu começo. "Somo, não sei como, dois seres
tureza está no que a sorte fez de meu ser." 12 Nesse momento, o costume em um só."" Não aderimos completamente a nós mesmos. Nossa espon-
tornou-se inteiramente nosso; pertence-nos, é obra humana. E, longe de taneidade natural, tão franca em seu primeiro impulso, é sempre macula-
alterar nossa verdade, faz-nos o que somos. da por uma fragilidade que nos deixa livres para os desprender e nos de-
saprovar. "O que faz que, em uma mesma coisa, acreditemos e não acre-
ditemos, não podendo desfazer-nos do que condenamos." 18 Antes mes-
"Ser consiste em movimento e ação": havíamos entrevisto, nessa de- mo que tenhamos tomado nossas distâncias, a distância está secretamen-
claração, a possibilidade de reencontrar o ser no movimento das potên- te em nós, a duplicidade nos mina, nossa identidade está fendida. Resta
cias naturais . De fato, é à ação e ao movimento humanos que se refere tirar partido disso. ·
essa frase. A afirmação que a segue não deixa nenhuma dúvida: "Por Sendo tal clivagem explorável, o eu pode tornar-se sua própria obra.
isso cada um está em sua obra": 13 Pode formar sua vida, como um artista modela uma estátua, buscando
A idéia de uma obra, que encontra aqui sua definitiva confirmação, despertar na pedra uma imagem dormente. Como vimos, o ato reflexivo
indica uma atividade que não apenas se distingue da espontaneidade na-
(*)No original, "Pus todos os meus esforços em formar minha vida. Eis ai meu ofí-
(*) Na tradução de Sérgio Milliet, a frase é omitida. (N. T.) cio e minha obra" (grifo de Starobinski). (N. T.)

208 209
pelo qual Montaigne se olha e se aceita possui uma virtude plasmadora: O julgamento que conquistou sua autonomia quer tudo perceber sem
nele, a consciência de si é um pôr-se em ação. Decidiu ele ''considerar- ser obrigado a intervir. Aspira a conciliar distância e proximidade sem
se" e "buscar curiosamente"? O esforço (cura) de apreensão perceptiva, nada mudar no espetáculo. Mas sua presença introduz, quer queira quer
por si só, comporta simultaneamente uma "afeição interna" e o desejo não, uma mudança radical. Porque tão próximo, o julgamento não pode
de "erguer uma figura", por fugidia que seja. O prazer ótico alia-se ao deixar de influenciar o que observa. Esse olhar, ao objetivar os sentimen-
prazer da modelagem. · tos, os modifica por sua atenção mesma. Resultado pelo qual é preciso
Em Montaigne, a vontade formadora pretende alterar apenas o mais · se felicitar, quando seu efeito é atenuar os movimentos involuntários da
discretamente possível o elemento movente e variável da existência espon- vida afetiva: "Se cada um observasse de perto as causas e os efeitos das
tânea. A forma "ensaiada" tende a situar-se o mais perto possível do in- paixões que o dominam, como eu estudo as minhas, vê-las-ia aproxima-
forme; ela se proíbe de violentar a natureza fluida e indeterminada que rem-se e lhes atenuaria a violência" . 22 Mas aí está, por outro lado, o que
pretende superar e que, entretanto, aspira a imitar. Montaigne só pode torna equívoca toda sinceridade. Para quem pretende exprimir-se de boa-fé
amar a ação refletida até o ponto em que ela mais se aproxima da percep- e apresentar-se nu aos olhos do mundo, como evitar a atenuação, a de-
ção voluntária: a economia do ato formador pretende que ele se confun- formação (esse dar forma ao que é naturalmente informe) impostos ne-
da com a simples descoberta da experiência menos afetada. Assim, a ação cessariamente pela tomada de consciência e pelo emprego da linguagem?
de si sobre si será menos uma transformação inovadora do que uma vi- Apreender-se e comunicar-se é criar-se a si mesmo, mas é ao mesmo tem-
são e uma pintura daquilo que, em nós e a despeito de nós mesmos, está po modificar-se ao se descrever. No momento em que nos definimos, tor-
já entregue à transformação, associado ao "movimento comum" do mun- namo-nos nossa obra, e toda obra é artifício: "( ... ]são sobretudo os pen-
do e à deriva universal. Pintar a passagem é ao mesmo tempo aceitá-la samentos que me agitam e, em sua forma mal definida, não podem
e transportá-la para uma obra, e é, ao representá-la, inevitavelmente a traduzir-se por atos, que procuro reproduzir. Já me custa muito traduzi-
modificar. los pela voz, que é coisa aérea e sem consistência" . 23 Um "custo" é exi-
O ato formador quase não é discernível do consentimento consigo gido para que o " pensamento" encontre um corpo, mesmo que se trate
mesmo. Com efeito, é preciso um mínimo de objetivação para dar pre- de um corpo quase imaterial: um corpo vocal, o mais tênue possível. Mas
texto ao consentimento. Consentir, segundo a própria estrutura desse ter- assim se manifesta necessariamente o nosso ser, uma vez admitido que
mo (cumsentire), é afastar-se do que se sente, para aprová-lo, para se lhe "cada um está em sua obra". 24 Esse ser só se realiza no instante em que
associar. É necessário suspender, ainda que por um segundo , a confusa se torna ambíguo, isto é, no instante em que, tornando-se comunicável,
inerência consigo que nos é habitual; já encontramos a metáfora dessa tendo tomado forma em urna linguagem, torna-se suspeito de se t rair: com-
separação. "Não me estimo a ponto de não poder distinguir-me e consi- promete-se e se altera, no movimento mesmo em que pretende exibir-se
derar-me como a um vizinho ou ánore." 19 O vizinho, a árvore são se- fielmente às suas testemunhas. Seria preciso que a obra desaparecesse,
guramente alheios, mas são também próximos, no grau mais aproxima- para ceder todo o lugar à realidade do sujeito. Mas o sujeito é autor da
do da proximidade. Assim, o julgamento abandona os impulsos da vida obra e não pode aparecer senão por e na obra - uma obra que sempre
"ordinária"- mas deles se afasta apenas para melhor os perceber e pa- se envergonhará de sua parte de arti fício e que desejaria rivalizar com a
ra lhes deixar mais liberdade. Não lhes opõe senão uma atenção anuente. dócil espontaneidade natural , adotar seu ritmo, " fantasiar e divagar"25
Se o ser se desdobra, se há em nós um espetáculo e um espectador d istin- como ela. A obra então parece voltar-se nostalgicamente para a inconsis-
tos um do outro, Montaigne não experimenta, nessa divisão, nenhuma tência, a insuficiência, a fraqueza primeira que tinha por missão superar.
luta interior e, em conseqüência, não procura mais, por fim , restabelecer Não o consegue- da mesma maneira que Orfeu e Narciso estão conde-
a unidade perfeita. Se distância existe, será a menor distância - justa- nados a não apreender a imagem de que estão separados-, e dessa im-
mente aquela que é necessária para dar consistência a uma obra heterogê- possibilidade result a o caráter interminável do lino. Os Ensaios "repre-
nea. Montaigne acolhe o espetáculo tal como se oferece, e deixa o julga- sentam" a inconsistência natural conferindo-lhe sempre um excesso de
mento fazer "seu jogo à parte" .20 O di stanciamento e o desdobrame nto consistência; são-lhe o "registro", isto é, a imagem muito fiel e, no en-
interiores favorecem a constatação, não o conflito. "O julgamento ocu- tanto, radicalmente alterada de que toma nota o. julgamento.
pa em mim o primeiro lugar; ao menos esforça-se por isso. Deixa inteira Tal é o paradoxo. A insatisfação primeira, diante das máscaras, da
liberdade a meus apetites; nem o ódio, nem a amizade, nem a afeição que opinião, da mobilidade interior, encontrara refúgio na unidade do livro
dedico a mim mesmo o alteram ou corrompem. " 21 (do " registro"); nele se recolhera, na falta de coisa melhor, o apetite do

210 21/
ser, a esperança ontológica, uma vez convencidos do malogro inevitável culo que reflete. Ao contrário, todas as aptidões sensitivas colaboram com
na busca metafísica da essência: o livro é a única superação das aparên- ele: o julgamento segundo l\lontaigne é uma vigilância sensual; sua apreen-
cias enganadoras. Mas quando o espírito se encontra remetido ao mundo são é uma preensão tátil, uma pesagem, uma gustação. Ele quer duplicar
fenomênico, e a si mesmo como "peça" desse mundo ; quando descobre o gozo pelo conhecimento. No ato do julgamento, o sujeito espectador
- recusadas toda metafísica, toda ontologia- que a sabedoria está em participa com todo o seu corpo desse movente espetáculo que ele é para
se deLxar levar pelo movimento universal, então se dá conta de que o li- si próprio. É, portanto, um corpo aplicado por inteiro em escutar-se vi-
vro, a obra pecam por excesso de unidade : esse pouco de ser e de estabili- ver, distinto de si mesmo, mas dirigido para si próprio. Basta prestar aten-
dade que os habita é ainda excessivo, comparado à passagem que se trata ção ao estilo de Montaigne para constatar que, se a obra tende a adquirir
de descrever e ao fluxo a que é lícito abandonar-se. Não se pôde alcançar corpo e forma, é antes de tudo a obra de um ser vivo que procura consu-
o ser. Podem-se alcançar melhor as aparências? A cada vez, um poder mar a posse "plena e inteira" de sua consciência corporal. O estilo de
adverso constitui obstáculo. Mas é preciso, afinal, reconciliar-se com o Montaigne nos mostra que a operação do julgamento é sempre contami-
poder adverso, sem cessar de combatê-lo- e fazer dele o parceiro graças nada, por assim dizer, pela confusão que afeta a experiência natural do
ao qual conheceremos nossa força ao conhecer nosso limite. Daí os pro- corpo. O julgamento entrevê com mais freqüência do que vê. Sua visão
longamentos sucessivos dos Ensaios; o esforço não pode jamais se pro-
é embaralhada, sua apreensão é tateante. Precisa constantemente reco-
duzir senão no meio u nificador da linguagem, mas acusando, revelando
meçar, renovar continuamente a tentativa de apreensão. Pois o ato que
e traindo a multiplicidade e a mutação (às quais Montaigne deve perfeita
visa a apreensão é tão efêmero, tão ameaçado de esvaecimento, quanto
fidelidade se quer oferecer uma pintura verídica de si mesmo) . Ele apenas
o objeto movente de que procura apoderar-se. Convém agora olhá-lo mais
se separa da mutação para descobrir que sua tarefa é recriá-la e nela vol-
de perto.
tar a mergulhar, cada vez com uma consciência mais aguda da vaidade
da mutação e da vaidade contrária de querer escapar-lhe. Montaigne con-
dena uma obra que tomasse uma forma definitivamente fixa : "Nossas
tolices[ ... ] adquirem dignidade quando impressas". 26 A obra deve ser ASPECTOS DO MOVIMENTO
apenas a breve parada, o instante em que se opera a apreensão do mo-
vente, mas de onde irrompe novamente o movimento. O escoamento da "Qualquer ato nosso revela o que somos. "• 28 Quem quiser desco-
fluidez natural não se interrompe: contudo, a atenção redobrada que lhe brir Montaigne deve escutar seu conselho e considerar o seu movimento.
presta o julgamento fará parecer mais lento o ritmo de sua passagem e Ler uma página dos Ensaios é fazer, no contato com uma linguagem pro-
dará a cada instante um valor mais rico. A passagem que vai de esvaeci- digiosamente ativa, toda uma série de gestos mentais que transmitem ao
mento em esvaecimento, o devaneio confuso tornam-se plenitude, uma nosso corpo uma impressão de agilidade e de energia. O mais íntimo de
vez retomados pela consciência que os espreita: Montaigne se manifesta nessa vitalidade corporal tão poderosamente co-
municativa.
(b) Sentem outros a doçura da satisfação e da prosperidade; sinto-a tam-
Uma descrição adequada do movimento de Montaigne não pode ser
bém, mas não de passagem e sem me apegar a ela. Cabe estudá-la, saboreá-
la, ruminá-/a para melhor devolver àquele que no-la outorga a graça que lhe empreendida senão sob a forma da análise textual. O impudor do gesto
devemos. Gozamos os prazeres como gozamos o sono, sem sentir. Pois, pa- exige uma crítica impudica, aplicada ao mais perto possível de seu obje-
ra melhor apreciar esse prazer do sono, lembrei-me outrora de mandar que to. Leiamos:
me acordassem.• 27
(a) Minha opinião acha-se sempre disposta a condenar minhas insuficiên-
O julgamento que percebe e domina a letargia do indivíduo não é cias. É verdade que se trata de assunto em cuja análise me aplico mais do
uma faculdade intelectual abstrata e pura. Emerge com dificuldade do que em outro. Em geral, os homens voltam-se para f orá; eu, volto-me para
sono, para o "entrever" e "saborear". Não é um olhar impassível, um dentro de mim mesmo, demoro-me na investigação e nela me comprazo. To-
espelho intelectual, límpido e indiferente, sem conivência com o espetá- dos olham para a frente, ao pass? que eu olho para mim, observando-me,
analisando-me. Os outros, se pensam seriamente, tocam para diante: "Nin-
(•) No original, "que me acordassem para que o entrevisse" (grifo de Starobinski).
(N. T.) (•) No original, "qualquer movimento nos descobre". (N. T.)

212 213
guém tenta descer de si mesmo"; eu paro, e fico a enredar-me no pensa-
nasce da constatação da fraqueza. A falha profunda, a falta de suficiên-
cia fazem surgir uma força compensadora, uma vigilância redobrada.
mento.*29
Olhar intacto, não comprometido pela debilidade interna a que faz fren-
A primeira frase tem um aspecto .notável: destaca-se a{ a presença te, o julgamento explora e interroga sem descartso. Montaigne vai mostrar-
do eu em sucessão, em todos os níveis sintáticos. Ela começa por ~ma nos, por metáforas sucessivas, os gestos de uma alma em exercício, que
coloc~ção em evidência: minhas opiniões, que a seqüência do en~nc1ado não acaba mais de ensaiar-se a si mesma. Nele não há base nem apoio
coloca pronominalmente (acho-as) na posição de comp~e~ento_ d1r_eto _do - há um ímpeto que se renova perpetuamente.
verbo principal, francamente formulado como uma atm~a~: JUdlcauva "O mundo olha sempre em frente": não é apenas por oposição ao
na primeira pessoa: eu acho. Dessa maneira, ~i~has op1~1oes (onde se vazio interior, mas por oposição ao mundo que a palavra de Montaigne
concentram atos de pensamento) estão em pos1çao de obJ_eto do verbo se põe em movimento. Montaigne recusa a direção para a qual os outros
"achar", que é um novo ato de pensamento: O eu.' que e o a~ente da se encaminharam. O mundo (síntese aqui do vulgus dos moralistas lati-
descoberta, é também, pela marca do possessiVO (mmh~~: o objeto de~­ nos e do mundus da teologia da queda) escolheu a exterioridade, a fu-
coberto. Ora, em sua qualificação desenvolvida, as opmwes se determi- ga ... Por três vezes, Montaigne constrói uma frase antitética, que desig-
nam como uma atividade pessoal (audaciosas em condenar) voltada, por na primeiro o que fazem o mundo, cada um, os outros- exemplos nega-
sua vez para um aspecto do eu (minha insuficiência). A segunda frase tivos-, mas cujo segundo membro põe em evidência o pronome mim,
' - de fato a mesma "estrutura do conteúdo", pois o eu aí está e ricocheteia em uma série de verbos de ação, orientados em sentido in-
nos propoe, • · ( 1
representado em primeiro lugar no sujeito do verbo da relauva no qua verso, em virtude de uma vigorosa antítese adverbial (em frente/ para den-
exerço), depois no complemento do verbo\meu jul_gamento) e, enfim, no tro; diante de si/dentro de mim). O eu se define e se afirma pela energia
paradigma que substitui minha insuficiência (esse e um assunto_ n_o qu.al), de sua negação. Em seu âmago, descobriu a insuficiência; no exterior,
que a forma apresentativa (esse é... um assunto) col~co_u er1_1 ~os1çao a' an- constata a mais vã agitação. Um círculo de figuras decepcionantes o cer-
çada. As "opiniões", o "julgamento" , como se ~e, .sao h1postases do eu ca por todo lado. Mas a vertigem não se apossa dele: por uma decisão
primeiro: representam o instrumento e a operaçao mterpost~s e~tre um soberana, proclama sua diferença, e nesse ato descobre uma superabun-
agente (aquele que diz: eu acho, eu exerço) e um po_nt~ de_aphcaçao (cha- dância de força livre. Não encontrando apoio nem na intimidade nem no
mado: minha insuficiência, um assunto) . O eu se d1stnbU1 entre todos es- mundo exterior, o julgamento fica reduzido a apoiar-se em seu decreto
ses níveis sintáticos - entra em jogo como agente, instrumento e ponto e a se fazer fonte de seu ímpeto.
" Eu curvo minha vista para dentro." Dirigida para o interior, a ener-
de aplicação. . .
\1ontaigne condena sua insuficiência. Ora, para JUlga-la e con~ená- gia não se dissipará: o sujeito, anteposto nos postos avançados do enun-
la, suas opiniões são "audaciosas e constant~s". A~ui •. estamos dJante ciado, conservar-lhe-á constantemente o domínio. Voltar-se para fora, co-
mo faz o mundo, teria sido entregar-se ao que é outro, sofrer uma servi-
de uma singular constância: voltada para uma mconstancJa, _rara uma ~al­
dão estranha, dilapidar o mais precioso de si mesmo. Ao refletir seu olhar
ta, que será 0 objeto priYilegiado de sua aten~ão. O que e, com efeito,
para o espaço interno, Montaigne escolhe o domínio que os outros aban-
essa insuficiência de que fala Montaigne? E precis.o rem~ntar, para
donam. Mesmo que não haja nada para apreender no centro desse espa-
compreendê-la, ao verbo latino sufficere e ao seu sent1d0 m_aJS co~cret~:
ço, mesmo que sua própria profundidade permaneça um lugar vago, ele
da r apoio, oferecer um suporte. Montaigne acusa, ao chama-la de 1~suf1~
não terá conhecido nenhuma perda de substância, não se terá sujeitado
ciência, a ausência de um apoio interior. No entanto, a falt~ de apolO. va1
a ninguém.
con\'erter-se no tema e no pretexto de uma ati,·idade agrada,·el: um ngor
A volta sobre si, a reflexão do ato sobre o agente são expressos da
maneira mais clara. Consideremos a rica série dos verbos que se sucedem:
(•) Dada a "análise textual" que acompanha es~a cit_ação, traduzo ~ trecho o mais
. a1 oss ·,·el· "Ora minhas opiniõe~ acho-a~ m[imtamente audaciosas e constan· planto-a aí, entretenho-a, olho dentro de mim, ocupo-me apenas comi-
1ner mente p 1 · • ' · 1
tes em condenar minha insuficiência. De fato, esse é um assunto no qual exe~ço m:u JU ga- go, considero-me sem cessar, eu me examino, eu me degusto, enrosco-me
ro O mundo olha sempre em frente; eu curvo mmha v1sta para em mim mesmo. A verve lúdica é despertada. Não se trata de uma sim-
mento com 0 em nenhum Out · . . . _
dentro. planto-a ai e a entretenho. Cada um olha diante de s1; e~ olho dentro de m1m, nao ples enumeração sinonímica. Não estamos em presença de uma ação úni-
me ocupo senão de mim. considero-me sem cessar, eu me exammo, ~u me ~e.~usw. Os ou- ca, mas diversamente designada; e não existe aí, igualmente, uma ação
tros vão sempre a outra pane, se pens:1m bem nisso; vão sempre ad1ante: Nmguem tenta
descer em si mesmo'; eu enrosco-me em mim mesmo".(~. T.)
contínua e progressiva: com cada Yerbo, Montaigne, recomeçando um no-

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vo ensaio de si, inaugura uma nova experiência. Cada olhar, cada movi- em que o corpo se exercita por inteiro. "Enroscar-se em si mesmo .. pos -
mento em direção ao interior é seguido de um breve espaço livre, de uma sui um valor positivo: é um movimento centrado; qu ando ~l ontaigne fa -
respiração. Essa retomada permite uma nova partida, depois de renova- la de giros, em outras passagens, trata-se de uma giraçào vã no espaço
da a condenação que Montaigne dirige à conduta habitual do " mundo" externo, fora de qualquer objetivo. Para quem se enrosca em si m esmo,
e dos "outros". A pausa da vírgula basta para representar esse espaço a iniciativa motriz comporta a uma só vez o impulso propulsor e a mais
livre e permite o impulso de uma vigorosa iniciativa. De fato, por mais completa reflexão sobre si mesmo: a resultante é uma intimidade acresci-
que os verbos se acumulc!m, cada um deles adquire o valor de uma ação da. De um lado, a figuração reflexiva de si multiplica as dimensões do
primeira, ora no modo sério (eu me examino) ora no modo lúdico (eu ser, propõe-lhe de si mesmo uma imagem espacializada, fabulosamente
a entretenho at); e percorrem-se diversos domínios da sensibilidade: de- transformada em extensão, com o risco de! perder-lhe os limites; mas, de
pois da visão, o sentido gustativo (eu me degusto), em seguida a ceneste- outro lado, o contato confiante da busca interior tende a negar toda d is-
sia motriz (enrosco-me em mim mesmo). As adições, que em outras oca- tância e a reunir, em uma coesão em que o espaço, o corpo e o movimen-
siões l\lontaigne intercala à medida que amplia seu livro, ocorrem muitas to se compenetram estreitamente, tudo que o desdobramento reflc!xi vo
vezes no meio de suas frases, as quais se distendem flexivelmente: isso parecia ter separado. O enrolamento do movimento assim descrito cria
mostra bem o valor de oeil dormant• que possui o breve repouso da vír- a possibilidade de um desenrolamento posterior, sob a figura escrita do
gula; um pensamento inesperado, uma variação suplementar pode brotar "registro".*
e bifurcar-se , mesmo muito tempo depois da primeira redação. Aqui, o Enroscar-se em si mesmo é para Montaigne a forma mais intensa e
verso de Pércio (ninguém tenta descer em si mesmo), corolário negativo mais completa da ação: não apenas é dirigida para o interior, mas o cor-
de eles vão sempre para diante, foi acrescentado no corpo mesmo da fra- po inteiro é ai a uma só vez agente, instrumento, lugar e finalidade. Um
se, dando um bom exemplo da construção por germinações sucessivas que exame dos diferentes tipos de ato (e, sobretudo, dos valores que Mon-
é a maneira mesma de Montaigne. Pela citação latina, fragmento estra- taigne lhes atribui) nos mostraria que ele faz muito pouco caso d o gesto
nho convertido em material de "marcheteria", Montaigne entende for- que se aplica à matéria exterior por intermédio de uma ferramenta. Vi-
necer uma substância mais rica e mais plena que a sua: a sentença latina mos isso a propósito da idéia de obra: a atividade técnica, o fazer que
forma um arcobotante e determina uma interrupção provisória no movi- tem necessidade de um instrumento distinto para atingir seu fim, é obra
mento da busca. Longe de ser um ornamento supérfluo, a citação latina "mecânica" e, como tal, pouco estimáveis. (Montaigne tem, nesse pon-
permite uma economia de energia: é um agente de solidificação, uma su- t o, preconceitos de fidalgo rural. Não apenas as artes liberais são, aos
tura, um remédio para a insuficiência de que Montaigne acusa o francês seus olhos, superiores às artes mecânicas, mas também a livre conversa-
em que escreve. ção, a comunicação desinteressada, supera qualquer ofício lucrativo, ainda
Os verbos pelos quais Montaigne evoca seu exercício são quase to- que fosse o das letras. Assim, Montaigne desculpa-se de tomar a pena.
dos verbos reflexivos. Entretanto, a última expressão mostra um lance Não faz profissão de escrever. Esse é um último recurso, para conversar
maior: "Eu enrosco-me em mim mesmo". Como se arrebatada por todo a distância e ser ouvido depois de sua morte.) Melhor obra resultará da
o movimento que a precede, essa frase evoca uma ação duplamente refle- atividade de mãos nuas, que se aplica imediatamente ao seu objeto. Pe-
xiva, para o que servem o pronome e o complemento de lugar do verbo: gar, apalpar, segurar, modelar, manusear: ai estão atos ao mesmo tempo
enroscar-se e, além do mais, enroscar-se em si mesmo. "Temos uma al- mais elementares e mais nobres, cujo fruto não é uma transformação ma-
ma suscetível de se recolher", 30 diz em outra parte Montaigne. As metá- terial, considerada vã, mas um enriquecimento da experiência pessoal. O
foras visuais (considero-me etc.) dão lugar aqui a uma mobilização pura- manusear interessa Montaigne não para mudar as coisas, mas porque a
mente dinâmica. "Eu" era de inicio um horizonteaberto a um olhar que mão se instrui em seu manuseio, porque está atenta à sua própria manei-
mantinha sua distância; agora é um espaço aberto à ação de um corpo. ra e, por isso, se conhece melhor a si mesma. O que conta no fazer é a
Ora, "eu" é ele próprio esse corpo, o agente do movimento que exige consciência que o corpo toma do jeito que ele confere a seu movimento,
esse espaço. Portanto, é ao mesmo tempo, e indissoluvelmente, o ser em é o estilo sentido de dentro, como se a energia se dispensasse no ato ape-
movimento e a extensão livre de que o movimento precisa para se reali- nas para se perceber, para se exercitar a si mesma, recuperando-se na me-
zar. O movimento, ademais, não é um gesto parcial, é um impulso global, dida mesma em que se dispende. Aqui, o eu se anima totalmente, em uma

(*)Tipo de enxerto que utiliza brotos com folhas . (N. T.) (*) No original, rolle, "escrito", " rolo". (N. T.)

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ação intransitiva na qual não abandona a si próprio. A iniciativa, tendo "A vida é movimento constante e efetivo do corpo."3 2 Um movi-
passado da visão ao corpo inteiro, exalta-o, aclara-o e, sem o abandonar, mento carnal, que anima e manifesta sem cessar a presença do corpo. Mas,
resolve-se em conhecimento e em prazer. alhures, Montaigne descreve outro movimento, destruidor de toda con-
O que resultará dai? Sublinhemos um ponto significativo: o que se sistência e toda coerência materiais, uma volubilidade extrema, que se ma-
define e adquire forma sob os nossos olhos não é a geografia do espaço nifesta em uma série de instantes descontínuos cuja soma não chega ja-
explorado, mas a energia do eu explorador. Montaigne não nos diz o que mais a "constituir um conjunto" .33 O corpo aí não se afirma, aí não reú-
descobre na dimensão interior para a qual voltou toda a sua curiosidade. ne suas energias; deixamo-nos levar por um "devaneio sem corpo". O
Desde o começo, esse espaço foi designado por um termo negativo: insu- homem perde o pé no espaço móvel e indefinido em que se converte para
ficiência; qualificou-se como um vazio e uma carência. Não saberemos si mesmo.
mais sobre o espaço interno. Ele só se enriqueceu do movimento que o Essa dupla intuição do movimento, alimentada pela experiência sen-
penetrou. Pois o que Montaigne descreve com exuberância, por retoma- sível, dá lugar a um pulular de imagens dinâmicas que desenvolvem as
das sucessivas, é a maneira pela qual a ação refletida, dirigida para o in- figuras opostas da passividade e da tensão ativa, em um espaço magnifi-
terior, toma conhecimento de sua própria tensão e do ritmo de seu ímpe- camente suscitado e povoado pela linguagem. Assim, vemos alternar-se um
to. Se o espaço explorado permanece indefinido, nulo, o corpo explora- movimento-escoamento em que se dissipa molemente toda forma e
dor se experimenta no próprio ato da busca, toma forma ao se sensibili- um movimento-gesto em que o ser assume a forma voluntária de seu ato,
zar com seu gesto. A evidência que se oferece aqui não é, portanto, a pai- aí se detém e coincide sem dificuldade com sua experiência motriz. Ora
sagem ou o relevo de um eu "profundo"/mais bem decifrado, mas a do as imagens do movimento atribuem ao corpo o poder de produzir e de
sujeito ignorante e incansável que jamais termina de inquirir sobre si mes- governar !h·remente suas iniciativas, ora o desarmam e entregam-no es-
mo . A inspeção do eu, qualquer que seja sua progressão interior , jamais parso, leve, desfeito, ao fluxo universal em que se perde com resignação.
adquire nada que não seja a consciência muscular do moYimento mesmo Pois tão grandes são, alternadamente, a força e a impotência de nossa
da inspeção. O que Montaigne nos comunica não é o detalhe mais bem "condição corporal", que o pensamento de \1ontaigne parece contradizer-
conhecido de uma realidade confusa sobre a qual sua apreensão procura se a seu respeito. De um lado, ele conhece seu corpo como um foco de
aplicar-se, mas os aspectos sempre mais ricos de uma consciência e de um energias, que se empenha em conservar ciosamente e em não dilapidar
corpo que se preparam para o ato de apreender. Sem dú,·ida, pode-selem- no exterior; o ser que age só gozará de seu esforço ao procurar vencer
as resistências do mundo: se não encontrar "um objetivo", 34 é em vão
brar aqui a noção de sentido muscular, ou de sensibilidade propriocepti-
que aguçará sua atenção para melhor se perceber e "se concentrar em si
va (Sherrington), da qual se servem os fi siologistas para designar a infor-
mesmo". Assim, por sua constante retomada de si, e sobre o apoio que
mação que, com base no estado de contração das massas musculares,
lhe oferece a resistência das coisas, o corpo at h·o encontrará sua recom-
adverte-nos da postura de nosso corpo. Estamos , mais uma Yez, "sem
pensa na percepção quase erót ica de uma energia reunida, concentrada,
saída". O conhecimento de si, para !\1ontaigne, é a "deliciosa" sensação
bem "retesada" . De outro lado, \1ontaigne descre,·e esse mesmo corpo
proprioceptiYa do mo,·imento pelo qual ele se lança para o conhecimento
como um farrapo entregue ao fluxo , como um agregado frágil, que se
de si. É o prazer interno da tentativa.
deixa "desmanchar" não apenas pelo men or piparote ,·indo de fora mas
Talvez não te nhamos nada de mais importante para descobrir : nos-
também pelo efeito de sua própria Yaidade, de sua ·'inépcia " , de sua "in-
so Yerdadeiro eu não é a realidade obscura e inconsistente à qual se dirige suficiência" , de sua incapacidade para resisti r à deriYa interna, "como
o esforço inacabado do conhecimento , é essa tensão e esse inacabamento os objetos que flutuam, o ra deYagar ora co m Yiolência, segundo o ven-
mesmos. Ele não é então alguma coisa que nos permanecesse oculta e que to" (11, 1, p. 333; T. R., p. 316). Jamais conseguimos manter coerentes
só se descobrisse depois de d emorados tateios. Está ai, (quase) in teiro, as tendências heterogêneas que se disputam em nós. O conjunto instáYel
(quase) aqui, (quase) agora, não diante da mão tateante, mas no tateio se desfaz sem cessar: ''Cad a peça funciona independentemente das de-
e simultaneamente no vazio que nasce em nós, yazio sem o qual não ha- mais [... ps Nós, nosso julgamento, e todas as coisas mortais, seguimos
,·eria tateio mas não sei que estabilidade opaca e maciça. "No que faço , uma corrente• que nos Je,·a sem cessar de ,·olta ao ponto inicial. De sorte
Yejo apenas o que me cabe faze r. " *' 1
(• ) ~o original, "!'ó~. nosso julgamento e toj<S as coi~as monai~ vão escoando e
(•) ~o ori~inal. "Ao agir não pretendo outro fruto senão agir" . (~. T .) girando sem cessar". (~ . T .)

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ção impalpável: o movimento que desfaz o ser se desfaz ele próprio na
que nada _de certo se pode estabelecer entre nós mesmos e 0 que se situa
desordem estacionária da extrema leveza. O fluxo tinha originalmente um
fora_de nos, ~stando tanto o juiz como o julgado em perpétua transfor-
sentido, uma orientação? Era apenas para desembocar nessa leveza des-
m~çao e movtmento '' , 36 Dessa vez o giro, associado ao escoamento, des-
POJa-nos rad tcalmente. provida de sentido. Um pouco mais, e é o vazio perfeito. Ao contrário,
. o. escoamento e o gesto voluntário são movimentos perpetuamente a iniciativa voluntária quer tomar corpo, fortalecer seu gesto, sentir em
m~oattvos, que permanecem à distância de seu fim e não encontram tér- si uma solidez que nenhum objeto exterior fará ceder. A energia,
mmo. No r_epouso passivo, estamos sempre nos dispersando e nos dissol- adensando-se, faz-se massa, peso, plenitude. Mas há um bom e um mau
v.endo; n~ ~mpulso ativo, inclinamo-nos para a solidez, a estabilidade, a peso, assim como há uma boa e uma má leveza.
f1r_mez~ sohda e segura, mas sem as alcançar decisivamente. Observemos A boa plenitude, o bom peso evocam sempre um contato, uma posse
alem ~~~so,, que cada um dos dois movimentos acarreta e provoca 0 se~ atual : a mão que empunha um objeto sólido que se presta à preensão.
contra.no. ~.o que ocorre, como vimos, no momento do retiro: Montaig- A boa plenitude é uma qualidade comum ao objeto possuído e ao corpo
ne asptra a "se concentr~r em si mesmo"? Apercebe-se de que seu espíri- q uc o explora. Quando Montaigne fala de apreensão e de gozo "firmes
to banca o cavalo em liberdade", engendrando "quimeras e idéias es- e plenos", firmeza e plenitude são valores mistos que pertencem conjun-
tranhas, ~em ordem nem propósito" Y Em compensação reOetir sobre tamente à preensão e à coisa exterior sobre a qual a tomada se aplica.
~. "volubtli~ad.e" interior permite a Montaigne engendra; em si mesmo A mão, o corpo, em sua pressão, estão em contato tão estreito com o
certa conun~1dade de opinião" (11, XII, p. 569; T. R., p. 553); de modo objeto exterior que com isso se encontram mais conscientes de Süa pró-
que, ao expenmentar o movimento passivo e seu arrebatamento vertioi- pria forma; por essa razão, o objeto se interioriza e se torna cúmplice da
noso, ele sente de. imediato a necessidade de uma resistência ativa que op"o- ação que se apóia nele e que, por assim dizer, anexa-o e o dota de nervos.
~.ha, contra aquilo que o_ domina, todas as suas energias disponíveis: A plenitude não é nem da ação nem do mundo, mas se revela e se realiza
{Que] olhássemos para nos mesmos, que volvêssemos o espírito e a von- no ponto em que estes se encontram.
tade para. as nossas próprias coisas, que em lugar de nos espalharmos nos A busca da plenitude, no mais das vezes, é o ato do eu que se volta
concentrassemos, porquanto o exterior nos atraiçoa, diminui e dis- sobre si mesmo como sobre um objeto privilegiado que é preciso apreen-
solve". 3 8 der o mais de perto possíveL A consciência, de início estranha e especta-
Anda:- se: levado. Apreender- dissipar-se. Sustentar-se- escoar- dora, considera a sua própria vida um fragmento do mundo objetivo mas
se. Mo~ta1gne nao apenas "ensaia" alternadamente uma e outra espécie não tem descanso até que tenha restabelecido a unidade comprometida.
de mo_:-'t~ento, mas delas faz um julgamento variável, concedendo sua Para além da busca de uma apr_eensão possessiva, ela avança sobre sua
p~ef~rencta o~a a uma ~r~ a outra. Aqui, é um apelo à ação e à tensão; presa para abolir o desdobramento do.eu-sujeito e do eu-objeto, para pôr
ali, e ~m el~g10 da pass1v1dade consenciente, tão menos vaidosa e menos fim à divisão reflexiva. "Meditar é ocupação das mais importantes . "* 39
t~la. E. prec1so tent~ apreender - mas é querer ' 'agarrar a água ••! É pre- Plenitude que se explícita imediatamente em termos de ação e de esforço
CISO deiXar-se maneJar- mas que fraqueza ser 0 joguete do primeiro cho- laborioso : "{... ] Para quem sabe auscultar-se e tirar partido de suas ob-
que que aparecer!
servações [.. .] prefiro formar meu espírito a mobiliá-lo".
Mas há um mau peso, uma má plenitude, que é inércia, paralisia,
atulhamento. "Antes me encontro sempre bem firme em meu equilibrio,
Essas ~posições, essas reviravoltas de valor são reencontradas no pla- como os corpos pesados e maciços.'.' 40 E sabe-se que uma cabeça "exa-
n_? ~as qual~da~es m~teriais do cheio e do vazio, do pesado e do leve, que geradamente cheia" jamais valerá uma cabeça "bem formada" .41 Aqui,
sao msep~rave1s das Imagens do movimento . Nas metáforas de Montaig- a plenitude já não é posse atual, é um preenchimento passivo em que o
ne, a densidade dos corpos se modifica ao sabor de seus movimentos. Con- ser se torna pesado de substância estranha, de bagagem pedantesca. Con-
forme o c~r~o sofre o movimento ou o produz, torna-se mais leve ou mais
tra esse peso, Montaigne se proclama vazio, leve, esquecido, pronto a tu-
pesado, diSSipa-se como uma fumaça ou se faz mais maciço. Não há es-
do deixar escapar e a tudo perder. É privilégio apenas de Deus ser "todo
coamento sem dimi.nuição do peso; a água se torna mais leve à medida
plenitude"; de nosso lado, devemos aceitar nossa "essência imperfeita"
que es,~?a, e. Mon.t.rugne passa facilmente da imagem da água à do vento,
à sua mamdade pura, sem massa, sem direção nem corrente constan- (•) No original, " Meditar~ um poderoso estudo, e pleno" (grifo de Starobinsla). (N. T.)
tes. Ao termo de seu aligeirar-se, a imagem do escoamento se torna agita-

220 221
(a) Contemplando o trabalho de um pintor que tinha em casa, tive vontade
e reconhecer que " somos ocos e vazios". E, falando contra a tentação
de ver como procedia. Escolheu primeiro o melhor lugar no centro de cada
da glória, Montaigne acrescenta: "Não é de vento e de palavras que de-
parede para pintar um tema com toda a habilidade de que era capaz. Em
vemos encher-nos; precisamos, para fortalecer-nos, de alimentos mais subs- seguida encheu os vazios em volta com arabescos, pinturas fa ntasistas que
tanciais e sólidos" . 42 Pois ele conhece por experiência o apelo de lingua- só agradam pela variedade e originalidade. O mesmo ocorre neste livro, com-
gem que resulta do vazio: o "vento" e a "palavra" se oferecem como posto unicamente de assuntos estranhos, fora do que se vê comumente, for-
uma primeira reparação - mas tão vã: Montaigne nos diz isso, no ensaio mado de pedaços juntados sem caráter definido, sem ordem, sem lógica e
"Da glória", ao acusar o excesso insubstancial com que tentamos inchar que só se adaptam por acaso uns aos outros( ... ) Quanto ao segundo ponto
nossa reputação. É-nos permitido, entretanto, esperar algo de "maciço" fiz, pois, como o pintor, mas em relação à outra parte do trabalho, a me-
e de "firme"? A "substância mais sólida" nos será concedida? Não con- lhor, hesito. Meu talento não vai tão longe, e não ouso empreender uma obra
sistiria a sabedoria em consentir no vazio? É o que pensa Montaigne quan- rica, polida e constituída em obediência às regras da arte. 46
do afirma que uma alma "vazia, dócil e presumindo pouco de si" possui Como contorno, o fundo vazio chama uma proliferação de formas
o "alicerce sobre o qual assenta a conservaçao - d a soc1e
. d a d e h umana , . 43
livres, o despojamento faz surgir uma louca "originalidade". Pode-se real-
Por certo, o vazio é um estado perigoso. Estamos entregues à mercê mente falar de uma paradoxal fecundidade do vazio, pois a vegetação das
de outrem, se se quer fazer-nos acreditar em alguma opinião: "Quanto figuras "fantasistas" brota para povoá-lo e animá-lo. Falta muito, no en-
mais a alma é vazia e nada tem como contrapeso, tanto mais ela cede fa- tanto, para que satisfaçam a necessidade de riqueza substancial: o pri-
cilmente à carga das primeiras impressões" .44 Assim, a ignorância pode meiro " ponto" - o do quadro "polido e constituído segundo as regras
expor-nos à credulidade. Que fazer? Manter a escancaração do vazio, não da arte" - permanecerá irrealizado. Mas dessa não-realização resulta a
se satisfazer com o primeiro pretexto que se ofereça para preenchê-lo. So- expansão feliz do cenário marginal, a forma tão particular que consiste
bret udo, se é preciso aí admitir a "palavra" e o "vento" , velar para que em tirar partido da ausência de forma. ·
essa palavra ao menos seja nossa; que a imagem que aí se inscreva ema-
ne, não se sabe como, de nosso próprio fundo. Lembremos, ainda que Assim, peso e leveza, plenitude e vacuidade representam alternada-
já a tenhamos mencionado, uma das explicações (ou desculpas) que Mo!l- mente estados desejáveis ou fraquezas do ser. Sim, há uma euforia da
taigne dá para o nascimento do livro dos Ensaios. Ao reler essa frase tao
plenitude, há uma firmeza t ranqüilizadora, mas a massa de um corpo de-
importante, agora saberemos melhor reconhecer aí a parte do vazio: masiado denso impede todo impulso e nos aprisiona em uma invish·el ar-
"Achando-me inteiramente desprovido• de qualquer assunto específico, madura. Assim, está preso nas malhas de seu próprio peso quem acredi-
tomei a mim mesmo como objeto de análise e discussão". 45 Curiosa an- ta\'a segu rar firmemente a presa desejável: o gesto YO!untá rio, co mo se
títese: a constatação d o vazio precede e provoca o ato de presença para agravado por sua tensão interior, pode conduzir para além de seu fim e
si. Presença de um modelo a ser pintado de alto a baixo, e não simples
atolar-se em seu próprio excesso, na estabil idade passi ,·a. Ao contrário,
e\·idência do eu sou, eu penso a que, metodicamente, uma vez operado
a leveza é um mara\·ilhoso privilégio: a consciência aligei rada jamais está
o yazio, restringir-se-á Descartes.
cativa e pode transportar-se sem esfo rço d e uma sensação a outra; mas
Falar de si será preencher um yazio. No começo do capítulo "Da ami- logo se perde em sua ubiqüidade, não ret ém nenhum poder , \'ê apagarem-se
zade" (1, x x v111), será esta belecida, em uma página famosa, a compara- sua identidade e seus limites, diflui na insignificância , não passa de um
ção co m o trabalho do pin to r que cobre d e ramage ns deco rativas o espa-
sopro inconsta nte e derrisório. Na imaginação de ~ lontaig n e , o mau pe-
ço \·azio e livre que cerca , na parede de uma sala, um quadro pintado
so e a má Jeyeza são as d uas variantes de uma infelicidade adinâmica: um
em afresco. É a esse preenchimento marginal que Montaigne assi mila o
representa a imobilização completa do corpo, sua parada defini ti\'a na
que escreve: teria desejado, como se sabe, fazer a La Boétie a honra de
inerte gravidade; a outra, sua dissipação total. São os dois estados últ i-
tomar-lhe de emprésti mo o quadro central : mas, não podendo publicar
mos a que podem chegar o movimento passiYo e o gesto \·oJu ntário. Mar-
o Contr ' Un, substituindo-o pelos 29 sonetos inéditos, que fará desapare-
cam os limites em que o moYimento cessa ou, então , se desnorteia. ~1as,
cer posteriormente, Montaigne resigna-se a deixar um vazio central, me-
felizmente, quanto mais nos aproximamos de um extremo, mais se torna
dida exata da insuficiência que atribui a si próprio:
im periosa a re\·iravolta que nos remete ao extremo opos1o.
Para Momaigne, essa oposição a parece com freqüência como o con-
( ) No original , " dcspro,·ido e m: io de qualquer assunto especifico, apresentei eu mesmo
0

a mim [ ... ]" (grifos de Starobim ki). (N. T . ) traste da alma (demasiado fluida) e do corpo (pesado demais). O corpo é

222 223
uma massa entregue à inércia; a alma é uma agitação perpétua. Mas a uma força nefasta, contrária ao interesse vital do homem. Montaigne só
alma e o corpo podem assistir-se reciprocamente. Montaigne crê na pos- conhece tensão feliz quando esta não paralisa a faculdade do movimento .
sibilidade de uma associação do pesado e do leve, de uma conciliação em
que um tempera e modera o outro. Para ele, a união da alma e do corpo
se traduz em termos de imaginação dinâmica: sua diferença é metafísica, A imaginação dinâmica de Montaigne não conhece apenas o
mas física. Não há problema aqui, como haverá em Descartes, em fazê- movimento-escoamento e o movimento-gesto: inventa também sua resul-
los agir um sobre o outro. O movimento de um se harmoniza e se compõe tante, um composto em que as duas experiências contrárias se misturam
sem dificuldade com o movimento do outro; o menos denso e o mais denso e se confundem. Quando Montaigne declara que o sábio pirroniano "pre-
podem, em certas condições, tornar-se miscíveis. O homem feliz conhece cisa entregar-se, confiando nas aparências", • 50 aproxima estreitamente
essa correspondência íntima do pesado e do leve. Separá-los é desmem- um gesto ativo (ir) e uma passividade consenciente (se deixar mover). Os
brar um " homem em vida":~ 7 na retórica das justificações da existência dois movimentos aqui são conjuntos, orientados para uma mesma dire-
corporal, Montaigne não se contenta com o motivo tradicional da conju- ção, quase fundidos um no outro. O movimento ativo não opõe resistên·
galidade (ou da fraternidade) e dos serviços mútuos. Experimenta a ne- cia ao movimento passivo, e a passividade não impede a ação. A harmo-
cessidade de especificar em termos dinâmicos o serviço recíproco que ca- nia assim realizada se definirá como uma maleabilidade, como um desli-
racteriza o laço mais estreito e que toma indiferentemente por modelo a zar em que a iniciativa do corpo, adaptando-se à corrente que lhe é im-
afeição entre amigos ou entre esposos. É na ordem da sensibilidade cines- posta, coincide com o fluxo que a arrasta. Na maleabilidade, a liberdade
tésica que Montaigne busca as imagens que fornecerão a evidência da con- d eliberada do gesto permanece compatível com a inclinação sofrida, mas
ciliação dos contrários e da relação dominada: também pode dela se desprender sem excessiva tensão: "Minha melhor
qualidade consiste em ser jlextvel e pouco obstinado. Tenho inclinações
(b) Por que desmembrar e divorciar tais elementos de uma associação tão
mais pessoais, que me são mais agradáveis, mas com um pequeno esfor-
fraternal? Apertemos ao contrário o laço que os prende e façamos com que
se prestem mutuamente serviço. Que o espírito desperte e vivifique o corpo ço afasto-as ou as contrario". •• 51 O deslizamento flexível é a forma per-
tão pesado em si e que este modere a leveza daquele e o torne estável. 48 feita e feliz desse tipo de "movimento composto". Montaigne se com-
praz em exprimir essa euforia pelo emprego transitivo de um verbo habi-
Montaigne faz questão, fundamentalmente, de reduzir os contrários tualmente intransitivo: escoar a vida, deslizar a vida. Há aí um abando-
à composição: não lhe importa muito estabelecer uma associação cons- no, por certo, mas que transforma imediatamente em ato o impulso so-
tante entre espírito e leveza, corpo e peso, se a inversão dos atributos se frido; a passividade se converte em atividade, na qual a simples passagem
faz simetricamente, respeitando a oposição e, ao mesmo tempo, a possi- da vida se torna o objeto de uma vonfade que a ela se aplica. O impulso
bilidade de conciliação dos contrários. Eis aqui uma passagem em que voluntário vai ao encontro do repouso e do abandono confiante, para a
o espírito, ao contrário da citação anterior, caracteriza-se pelo peso e pe- eles incorporar-se. A fim de passar de uma " inclinação" a outra, é preci-
lo poder de "esforço": trata-se, no caso, de nossa imaginação e de nossa so uma decisão: ela se realizará com o mais leve esforço. Quase não é
vontade que interpretam exageradamente as "cargas" vindas de fora. mais um ato: é um deslizamento guiado : eu me escôo facilmente .. .
(b) O corpo recebe as cargas que lhe impõem, mas é o espfrito que as distri-
bui e, distribuindo-as mal, ultrapassa por vezes a medida recomendável. Uma
mesma coisa faz-se com esforços físicos e determinações diferentes. • 49 Uma variedade menos constante de movimento composto aparece por
vezes em Montaigne: movimento em que a tensão voluntária opõe resis-
A vontade é uma faculdade do espírito , e Montaigne, ao atribuir-lhe
tência ao transporte passivo (que se torna irregular, brusco); e em que
uma energia metaforizada pelas imagens da tensão (intenção, "esforço"),
a corrente é, entretanto, bastante violenta para impedir o gesto voluntá-
confere dessa vez ao espírito o perigoso poder do adensamento. O espíri-
rio de alcançar o fim que visava. Ein uma longa alternância de derivas
to aparece então como o responsável por uma sobrecarga- o que lhe e de correções, o corpo não cessa de se recobrar do estado passivo: não
vale uma apreciação pejorativa. Em Montaigne, a tensão é um estado am-
bíguo: que se entregue ao excesso, que se crispe em seu gesto, e se torna (•) No original, "deve ir e se deixar mover pelas aparências". (N. T.)
(••) No original, "afasto-as c me esc6o facilmente para a atividade contrária" (grifos
(•) No original, "e diferente esforço de vontade". (N. T.) de Starobinski). (N. T.)

224 225
quer a ele abandonar-se completamente, nem pode resistir-lhe com suces- divisão: ."Erram os que o querem [o corpo] encarar à parte, isolando-o
so. O movimento permanecerá titubeante, vacilante, errante, rodopian- da alma, outro elemento primordial do nosso ser. É necessário, antes,
te, claudicante, desancado (não faltam qualificativos sob a pena de Mon- juntá-los se se acham desunidos e apertar o nó que os prende um a ou-
taigne). É o andar da embriaguez, em que o corpo não controla inteira- tro" .53 Nossa dupla natureza alimenta um risco de conflito; só podemos
mente suas iniciativas, perde o domínio de sua direção, e no qual sua enfrentá-lo com nossa aptidão para viver, de maneira complementar e si-
apreensão não pode mais "ter confiança em seu objeto". Diferentemen- multânea, qualidades dinâmicas opostas: viver a atividade sobre um fun-
te do movimento flexível, em que se expande uma continuidade fácil, o do de passividade; viver a passividade como o que se dissimula no pró-
ser titubeante só se move "abruptamente", de maneira descontínua: de prio coração da ação. O homem feliz, o ser harmonioso, não ocupa um
instante em instante sua energia se esgota e renasce. Que essa desigualda- lugar intermediário entre os extremos, medianamente ativo e mediana-
de de andar, essa recuperação à beira da perda possam ter um valor eróti- mente passivo; não é a personagem que se recusa à experiência da contra-
co, Montaigne o atesta no que diz do amor da "coxa" {m, XI) ... dição e que não quer ser nem cheia nem vazia, nem leve nem pesada. É,
No sistema dos movimentos metafóricos, vacilar nem sempre é cair. ao contrário, aquele que pertence ao mesmo tempo a todos os extremos,
"Vacilar" mantém o meio entre o caminho reto e a queda. Ir direto à
sem dilaceração, sem desmembramento; é aquele em quem se efetua, co-
verdade das coisas é o sonho do conhecimento filosófico: mas há sempre
mo resultado de uma graça espontânea, o casamento paradoxal do aban-
uma verdade mais próxima que a filosofia negligencia, e a Montaigne
dono passivo e do assenhoreamento ativo, do consentimento e do esfor-
"compraz [... ] a idéia da jovem de Mileto que, vendo o filósofo Tales
ço. Aceita que se manifestem os diversos registros do movimento.
continuamente ocupado a contemplar a abóbada celeste, colocou alguma
coisa em seu caminho para que tropeçasse (... ]" (11, XII , p. 538; T. R.,
p. 519). A queda é o castigo da presunção, que esquece de "olhar para
si". E quem olha para si se destina a seguir um mo\'imento irregular, mul- Que, sobre o fundo de um movimento inteiramente passivo,
tiforme, imprevisível. É-lhe necessário muita força para "prosseguir", pois inscre\'am-se um gesto, uma atividade densa e de um perfeito traçado vo-
a velhice é ela própria uma "queda" (1, XXXIX, p. 242; T. R., p. 237). luntário. Que, longe de ignorar-se um ao outro, longe de simplesmente
Resta a vagabundagem: "Passo de um assunto a outro sem regra nem se superpor sem relação recíproca, eles se entrelacem e se designem neces-
transição; meu estilo e meu espírito vagabundeiam juntos" (111, IX, p. 994; sariamente. Que a intenção ativa implique um pleno consentimento no
T. R., p. 973). "Se deixo para trás alguma coisa por ver, volto; qualquer arrebatamento passh·o e que, ao contrário, o fluxo passivo se deixe reto-
caminho é meu caminho, porque não tenho itinerário predeterminado" mar pela ação. A tensão do gesto e o repouso do escoamento se acen-
(111, IX, p. 985; T . R., p. 963). tuam um pelo outro, e o ser encontra a inspiração de seu vigor no senti-
mento da dispersão fugidia.
O mesmo desdobramento harmonizado rege, em Montaigne, a rela-
A nexibilidade é a mais perfeita experiência do movimento. !\1as não ção entre o julgamento e o ser natural , sua distância e sua cumplicidade.
qualquer nexibilidade. !\'lontaigne não quer perder nada: faz questão de Ao julgamento penence a tensão; ao ser natural, a nuidez. Assim podem
experimentar a uma só vez o gesto de ir e a embriaguez de ser levado. tornar-se compatí\·eis o conhecimento de si e o abandono ao mo\·imento
A síntese feliz m:~ntém intacta a diferença dos contrários que nela se har- natural. Uma atenção \·igilante se volta para o escoamento e\'asivo e \'a-
monizam. A fusão demasiado intima dos extremos nos condenaria à sim- go, para traduzi-lo em uma sensação consciente: "Muito há que fustigar
ples moderação, a uma sabedoria medíocre, fraca e prudente, que não a alma para que sinta como se esvai aos poucos''. 54 A alma é ao mesmo
é de modo algum do feitio de \1ontaigne, a despeito de uma legenda soli- tempo substância nuida e mola tensa; o ato de sentir se situa no contato
damente propagada. É-lhe necessária uma maleabilidade contrastada, em dessas duas forças representadas por imagens de sinal contrário; ele in-
que o peso e a leveza permaneçam distintos, formando um par no qual tervém no ponto em que se retesar e ser levado coexistem em uma pleni-
se exigem e se cumprem os "ser\'iços recíprocos". O corpo e a alma, uni- tude fugidia; isto é, em uma plenitude que a leveza do escoamento "des-
dos por uma "associação tão fraternal" P encontram na dualidade pre- perta e \·ivifica". Ora, essa sensação , que é um peso momentaneamente
servada a condição fundamental de uma riqueza que se manifesta em diá- \'i\·ificado, também é uma leveza momentaneamente adensada. A pleni-
logo e em tensão harmonizada. Essa "correspondência" é preciosa por- tude sensível sobre\·ém quando o gesto "detém e fixa" uma substância
que deve ser conquistada contra uma constante ameaça de divórcio e de infinitamente leve - a \'ida - , conferindo-lhe peso, adensando-a pelo

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breve instante de uma apreensão. Então a tensão do julgamento, sua vi- sua preferência por uma morte que ocorresse longe dos seus, em plena
gilância ativa, tem por efeito deter o que, entretanto, não cessa de fugir: viagem: ele poderá mais atentamente aplicar-se em mo rrer- pois a mor-
te ideal é uma morte agi da, uma morte ' 'dirigida'', na qual a co nsciência
(b) Sobretudo neste momento em que percebo que a minha [vida] toca d.:
espreita o acontecimento que, na profundeza do corpo, põe fim à presen-
tão perto o fim, quero sublinhar quanto a aprecio, sustar a rapidez de sua
ça do corpo:. "A morte é, em verdade, coisa de um instante, mas daria
fuga com minha presteza em detê-la e compensar, quanto possível, a transi-
toriedade pela intensidade. Na medida em que diminui o tempo de que ain- muitos dias de vida para que esse instante fosse o melhor possível" Y A
da disponho, aplico-me em fazer que a posse seja mais profunda e com- morte é a fuga absoluta, mas se oferece ainda a uma apreensão perfeita.
pleta. 55 Ela nos " desprende", e até o último instante podemos "construí-la" e
percebê-la como se fosse nossa obra. Ela é um sono, por certo , mas Mon-
Se a experiência imediata é a da fuga, do escoamento, a consciência taigne jamais q uis dissociar completamente o sono e o agir, ou o sentir.
refletida que lhe faz face não é apenas um espelho distante no qual se "Agir com simplicidade custa-lhe [ao espírito] tão pouco que mesmo dor-
traçam as imagens da fuga e do escoamento. É uma atividade de captura; mindo age" .ss Montaigne se fazia despertar para "entrever" o sono; de-
ela confere um peso imaginário ao que não tem peso . Daí resulta um pra- sejaria, da mesma maneira, entrever a morte e avaliar seu peso.
zer intenso e calmo, em que o ser pro va a uma só vez do vazio e da pleni-
tude, da fraqueza e do vigor, da pobreza de quem nada tem e da riqueza
de quem guarda tudo em sua posse. A OBRA-PRIMA DE VIVER
Muitas vezes, em expressões tais como deíxar-se ír, deíxar-se mane-
jar ou deixar-se levar, discernimos esse duplo movimento: é a passivida- Mas essa conciliação da captura e do abandono , da apreensão ativa
de que predomina, mas não sem que intervenham um consentimento ati- e da passividade, esse consentimento refletido no que é preciso sofrer ine-
vo na passividade, uma distensão e um relaxamento voluntários da alma vitavelmente, primeiro encontra na vida meio de se manifestar- na vida
que teria podido recusar-se à deriva, resistir ao movimento que a arrasta. em que cada instante pode aclarar-se por essa duplicação.
Pois deixar-se arrastar não é ser arrastado: é to lerar de bom grado a cor- Nada mais fácil, mas também nada mais difícil, do q ue viver. Tudo
rente a que não teria sido impossível resistir; é saber que se teria em si está dado, e não há nada para procurar; mas tudo está por fazer. Trata-
próprio o poder de lutar e renunciar a essa luta. A renúncia, então, não se apenas de aceitar, de receber, de se abandonar; mas é preciso empreen-
der " viver bem e natu ralmente essa vida", "viver com acerto", e não há
é covardia: serve ao "princípio de prazer", tira do instante sofrido o maior
nenhuma "ciência tão árdua" - ela constitui a "mais admirável obra-
partido possível. Depois de sua queda de cavalo, como vimos , Montaig-
prima do homem".s9 Viver é, então, o que nos é concedido, o que pre-
ne não era a presa inteiramente passiva da vertigem: a ela se entregava
cede em nós todas as nossas razões de agir; mas é também o ato e a obra
deliberadamente, nela se deixava deslizar, não sem " doçura" . Com toda por excelência, a fi nalidade projetada para além de todos os nossos atos
a consciência tênue que restava ainda nele, consentia em que a vida se e de todas as nossas outras obras. É um estado de fato, e é uma tarefa.
escoasse e fugisse. Mesmo quando Montaigne aceita a extinção da cons- Nossa existência nos é atribuída, e permanece um trabalho inacabável.
ciência e a abolição do sentir, enuncia o aniquilamento em uma frase co- Assim, a consciência que se aplica em viver deve aceitar-se imediatamen-
mandada por um verbo pronominal em que se inscreve a ação voluntária te, ao mesmo passo em que se desprende de si para se construir a si mes-
refletida: ma como uma obra-prima. A própria idéia da vida implica a adesão a
príori a si mesmo e o perpétuo alvo do "viver" como um fim distante.
(b) Precipito-me então na morte, nela mergulho, sem sequer a perceber, co-
rno se me jogasse em um abismo silencioso e escuro que me engolisse repen- Distante, mas não exterior, pois se trata de conquistar uma proximidade,
tinamente. E invade-me um pesado sono sob o efeito do qual tomo-me iner- uma plenitude sensível.
te, insensível. 56 · A cada instante, a vida se oferece como já ali, no surgimento instan-
tâneo da consciência e do mundo que a cerca. Não resta senão a "perfa-
No ponto mais crepuscular da consciência, ainda é preciso que Mon- zer". Ora, à medida que progride a experiência de Montaigne, o instante
taigne tome seu impulso pela decisão mesma de "precipitar-se". Ai está, em que a vida se manifesta ganhará a ·q ualidade de um último instante:
mais uma vez, uma imaginação acompanhada de "algum prazer". Ele- momento de graça, de sursis inesperado, que coroa uma existência intei-
remos, algumas páginas mais adiante, as razões que Montaigne nos dá de ramente despendida. A vida estájá ali porque já se passou. Todas as car-

228 . 229
tas foram jogadas . A preocupação com o futuro não o atinge mais. Nes- são apenas pensamentos, alvos da co nsciência: a passagem para a morte
se frágil instante final, plenitude e vazio coexistem. Tudo se reduz à mais não se realizou, e a posse da vida permanece incompleta. O olhar, ao me-
tênue consciência de viver ainda, enquanto para trás tudo é pleno, tudo nos, dirige-se a limites que não poderia ultrapassar. A consciência pensa
recebeu forma: o corpo que conhectu tantos prazeres e que logo não per- então a distância absoluta e a intimidade absoluta, e as pensa insepara-
ceberá mais nada, a série doravante imóvel dos atos e das palavras trans- velmente: que possa reunir em si mesma esses dois pensamentos, e fazer
corridos, a marca irreversível e frágil de uma existência. de maneira que a distância contribua para o advento da presença, é tal-
" Agora, está feito ... Meu bom homem, está feito . " 60 Acabamento; vez o verdadeiro triunfo da consciência sobre a morte, mas um triun fo
perfeição na imperfeição. Montaigne está ali, com suas doenças, seus há-· sempre inacabado, como é inacabável a conquista de si mesmo.
bitos, seus defeitos. A ceitar a vida, para ele, é aceitar ter vivido e se rece- Aos ataques da d oença, à ameaça da morte iminente, Montaigne res-
ber tal como o s anos o modelaram. Está feito. É tarde demais. Que não ponde pelo elogio d e nossa condição corporal. Dorava nte, conhece me-
lhe peçam que se emende. Montaigne sabe apenas contar-se tal como é, lhor a felicidade de ter um corpo e o valor da saúde, esse fogo de artifí-
isto é, tal como sua vida o construiu, tal como a doença o destruiu. Mas cio.64 Verdade aparentemente banal, lugar-comum inesgotável: os infor-
eis que se contar torna-se uma tarefa infinita, a qual vai contradizer a túnios reavivam o sabo r da felicidade finda. Os poetas latinos d isseram-
aparente imobilização do está feito. Nada está estabilizado. Pois contar- no de mil maneir as, e Montaigne citou su as sentenças. M as n ão é uma
se é continuar na duração própria à linguagem a vida e o movimento que felicidade passada que a doença e a morte iminente revela m agora a Mon-
se acreditava parados. Assim, Montaigne se corrige e se transforma por taigne - é uma ventura presente, uma felicid ade a t ual.
incessantes acréscimos, mesmo quando se declara incapaz de arrependi- "Quando d anço, danço ; qu ando durmo, durmo." 65 Adesão total a
mento. No capítulo xm do terceiro livro , depois de tudo o que parecia si: o gesto da dança, o repouso do sono são instantes de completa coinci-
imobilizar-se no está feito, vem o convite de construir a vi da como urr.a dência. Aqui , a duplicação do verbo é fruto do desdob ra mento reflexivo,
obra-prima, em seguida à constatação: "Assim me dissolvo e vou-me sub- mas o que é constatado pela consciência reflexio nante é a repetição per-
traindo a mim mesmo" , 61 isto é, o apelo ao ato formador e a resignação feita, a reafirmação pura e simples da ação em que Montaigne se empe-
ao escoamento perpétuo - tudo está por fazer, no mo mento mesmo em nhou. A identidade especula r dos verbos repetidos manifesta o acordo
que tudo se desfaz. " A vida é movimento desigual, irregular, de múlti- consigo mesmo, sem segunda intenção nem reserva. Assim, o escritor prova
plas formas."62 O que há de mais maravilhoso do que a ex peri ência des- de sua própria plenitude: aparece para si mesmo tal como é, aprova-se
sa adesão e dessa fuga simultâneas, dessa impossibilidade de ser diferente instantaneamente e participa isso ao seu leitor. Ora , u ma ad esão tão feliz
de si e desse incansável distanciar-se? Cada um desses estados - adesão ao instante ,·ivido só é possível porque a consciência reconheceu definiti-
ou distância - a pa rece alternadamente como uma fraqueza ou como um vamente que "em tud o e por toda a parte a morte mistura-se à vida" .66
fim desejável , como a prova ou de um poder ou de uma impotência da Para encontrar a plenitude absol uta no instante fugidio, terá sido preciso
consciência viva. primeiro romper em pensamento com a vida. P a ra enco nt rar a riqueza,
" Em geral dou-me por inteiro ao que faço; nenhum movimento se terá sido preciso co nsenti r em perder tudo. É no momento em que todos
sonega à minha razão nem se executa, senão por consenso de todas as os laços foram desatados que a preensão se afirma mais forte e o gozo,
p artes de meu ser. " 63 Montaigne proclama sua unidade, sua unanimida- mais saboroso.
de interior; mas a unidade, tão logo afirmada, desdobra-se em um movi-
(c) Penso somente em meu fim e desfaço-me de toda no,·a esperança, bem
mento e em uma razão. Um mo,·imento que se mostra com toda a evi- como e\·ito novos empreendimentos. Do u um adeus defi niti,·o aos lugares
dência. Uma razão que consente no movi mento surgido diante dela ... O que deixo e d iariamente alieno algo do que possuo [... ]67 (c) Estou em re-
desdobramento e a unidade: é preciso agora vê-los aprofundar-se em uma gra com tudo e como que já disse adeus a todos , salvo a mim mesmo. Nun ca
nova dimensão. Na proximidade da morte, mo,·iment o e razão revelam homem se apresentou mais bem preparado para deixar a vida no momento
seu sentido último. O mo,·imento é movimento para a morte, e a razão necessário e sem a menor dissimulação . Ninguém se desprendeu melhor e
reconheceu que a vid a é "perecível por sua condição". O consentiment o mais completamente da \'ida do que eu . [... ]68 (b) Não me detenho, em via-
na morte é apenas a contrapartida necessária de uma conversão total à gem, em nenhum lugar, sem que me pergunte se poderia aí morrer tranqüi·
la ment e. ~;
vida. Quando a distância colocada pela consciência é a ruptura absoluta,
isto é, a morte, e ntão a intimidade que ela reencont ra por inversão é a O pensamento da morte opera um desprendimento total mas , ao mes-
evidência calorosa da vida. Sem dú,·ida, no caso, distância e int imidade mo tempo, redobra a atenção voltada para cada minuto e para cada ob-

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jeto q~e a vida oferece ainda. Montaigne ultrapassa a lição dos estóicos, Assim, para além da idéia do ser que nos falta e do parecer que nos
os qua1s aconselhavam viver cada instante como se fosse o último. Para engana, para além da idéia do nada do ho mem e da vaidade da vida, a
a consciência liberta, a vida já teve fim, e o mundo se afastou para sem- simples existência que nos é restituída, o corpo perecível que é o nosso,
pre: entretanto, um sursis de pura graça adia a morte para mais tarde torna-se o lugar onde se revela uma verdade; minha verdade, humilde,
e doravante todos os instantes podem ser saboreados como se fossem de~ mas absoluta; única, mas sustentada pela universal natureza; incomuni-
volvidos depois da hora da morte. São dados por acréscimo, como resul- cável, mas cúmplice de todas as consciências humanas . Perdemos o ser
tado de ~m favor inapreciável, que é o da vida simples, uma vez que ela essencial, mas o ser relativo ejenomênico nos foi devolvido. Empobrece-
se despOJOU de todo desgosto do passado e de toda preocupação com 0 mo-nos apenas para nos enriquecer. O ser é ao mesmo tempo o que há
futur~. Es.tando já consumada a ruptura, cada instante aparece como um de mais oculto e o que é imediatamente sensível. Nossos sentidos nos men-
dom 1med1ato e gratuito, o gozo não é obscurecido pela preocupação com tem quando nos falam do ser, e eis que o ser vem habitar nossa vida e
a. morte.' ~ preensão e a apreensão se tornam mais ágeis: superabundân- nossos sentidos. Revela-se incessa ntemente, mas cada aparição o mani-
Cia de!enav~l, ~asc~da do desp?jamento e do desapossamento; presença festa e o oculta imediatamente. Ele é, ele parece e ele se esconde quase
que n~.o t:na s.Ido tao substancial nem tão plena se não fosse dada a uma ao mesmo tempo. Precisamos consentir nesse cheio e nesse vazio (que tra-
c~n.sc•encJa CuJa despedida já foi feita. Os mísdcos, que praticam essa es- zemos em nós, que descobrimos fora de nós), desposar o movimento que
pecJe de adeus ao m~ndo, já não se voltam para ele e desfrutam apenas nos desagrega, nele mergulhar e redescobrir no gestO desse mergulho uma
de Deus . Mas Monta1gne, dados os seus adeuses à vida, redescobre a vida plenitude sensível, um corpo firme e feliz, desperto para a ventura de sentir
h~mana e o mundo terrestre sob uma nova luz: degusta, vivo, um gozo se u gesto. Então, a uma só vez tensos e displicentes, ativos e passivos,
postumo. indestrutíveis e levados pela duração, apaixonados e indiferentes, confia-
A partir daí, quantas contradições se esclarecem, revelando cada um mos no que nos é dado e nos contentamos com o pouco que podemos
d~s termos ~postos sua necessidade e sua função complementar! Mon- agarrar. É uma presa magra, em comparação com o que a filosofia pre-
~:•gne nos d1sser.a. qu.~ de iní~~o _emp.r eendera escrever seu livro por um tendia possuir e conhecer. Mas é tão mais; pois o que doravante possuí-
hum~r melancol!c?. e que nao ha nada que [sua] imaginação vascu- mos é o instrumento pelo qual todas as coisas podem ser representadas
lhe ma1s d~ que a 1de1a da morte, e isso desde sempre, mesmo no período ou negadas, afirmadas ou recusadas, aproximadas ou afastadas: nossa
de [sua] v:d:
e~ que mais [se] dedicou aos prazeres", 70 mas recebemos consciência, que nada possui mas conhece sua pobreza e, assim, se supe-
uma c~nf1denc1a não menos sincera quando d escreve sua alma "não so- ra a si mesma. "Meu tema se volta para si mesmo. " 74 A consciência é
m~nte •senta ~: preocupações, mas ainda satisfeita e festiva, o que é em porque aparece para si. Mas não pode aparecer para si sem fazer surgir
n:_1m normal, Ja porque assim quer a natureza, já porque me esforço por um mundo no qual está indissoluveJmente interessada. É-lhe necessário
71
~ao ~ perturbar". Terá sido preciso, em primeiro lugar, que a alma um espaço, e, em caso de necessidade, ela o criará, assegurando-se assim
tmagme sua morte como uma tempestade: de que detém um livre poder de afastamento e de aproximação. Ela se
busca e foge de si mesma entre as coisas; está ali para constatar uma rup-
[... ] {b) Encolho-me em mim mesmo ante a tempestade que se desencadeou
tura e para estabelecer laços, para padecer e para querer, para acusar sua
e aguardo que algum golpe de vento mais forte me arraste sem que eu 0 sin-
ta.• 72 própria leveza e para fazer-se plenitude de experiência. Estabelece-se no
afastamento de Deus (no qual confia) e na presença do mundo; no hori-
Mas essa cegueira torna possível um novo olhar, e a antecipação da zonte da morte e na intimidade da vida. Enfrenta seu fim e descobre em
tempestade converte-se no céu sereno que recompensa a razão: si mesma o poder de um incansável recomeço.
[... ] {b) De_ onde quer que dirija a vista, depara com um céu sereno que ne-
nhum deseJO, temor ou ~úvida perturba; {b) e sempre pode sua imaginação
representar-se, sem sofnrnento, qualquer dificuldade (c) passada presente
ou futura. 73 '

(")No original, "Entro em confidência com o morrer. Envolvo-me e encolho-me nes-


sa ~empestade, q~e m~ deve cegar e arrebatar de fúria, numa investida rápida e insensível"
(gnfos de Starobmski). (N. T.)

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7
QUANTO AOS
aCOSTUMES PÚBLICOS"

DA SIMPATIA À CRÍTICA

O magistrado que fugia da servidão do Parlamento e que buscava


o repouso "no seio das doutas Musas" encontrou, em lugar disso, o mo-
vimento sem termo. Agora o sabemos, esse movimento, sem se sujeitar
a uma ordem, sem se curvar a uma "disposição" retórica, está submeti-
do a um sentido. Vimos, em toda uma série de domínios, um inimigo da
aparência (considerada uma máscara) voltar à aparência, recorrer à fic-
ção e à representação. A aventura, começada pela dispensa do parecer,
termina pelo retorno do parecer e de sua infinita diversidade, reabilita-
dos pela reflexão, que doravante sabe a que se ater. Aquele que não que-
ria depender de ninguém para apreender a si mesmo em sua verdade des-
cobre a necessidade de se "compor" e, para se pintar, de aceitar a "rela-
ção com outrem". Embora as palavras e a linguagem sejam uma "mer-
cadoria ,·ulgar e ,·il", é po r seu intermédio que se faz necessário const ruir
o livro: si ngular vitalidade vem animar esse material considerado tão fra-
co e tão pouco digno de confiança. Se as palaHas, que são apenas voz
e vento, não alcançam a essência das coisas, o ser imutável, então, em
contrapart ida, um indivíduo singular, um homem em sua vida mut áve l,
pode ma nifestar-se ,·igorosamente nas palavras com que constrói seu li-
vro. O êxito expressivo compensa o fracasso "referencial": a impossibi-
lidade de dizer a verdade do mundo se torna um meio de se dizer a si mes-
mo em sua verdade pessoal. Ela própria apanhada na rede das aparên-
cias, a linguagem, em sua instabilidade e em sua cintilação cambiante,
sabe dizer adequadamente o ato variável do sentir, o gesto que desejaria
acabar em "captura e prisão". Quanto mais ela recorrer às metáforas,
às "transplantações" do sentido das palavras, mais estará apta a repre-
sentar a mutabilidade que Montaigne experimenta em seu corpo e em seu
espírito. Nossa linguagem é limitada, como o são os nossos sentidos: não

235
.
d

lário filosófico da idade moderna. Trata-se do sentir e da obra: do sentir


podem dizer qual é a lei do mundo, mas eles próprios são mundo; podem
convertido em obra. Misturada ao universo infinitamente variável das apa-
declarar sua lealdade à natureza e, na falta de a conhecer, declarar-lhe
rências a consciência é senhora apenas da área finita n a qual, no instante
sua fidelidade do próprio fundo de seu artifício. Nossa li nguagem não
que p~sa, exerce seu julgamento e seus poderes sensoriais. Aliando o in-
tem poder, se dela esperamos a revelação de um mundo mais verdadeiro:
finito e 0 · finito, ela faz assim coincidir sua riqueza com sua extrema po-
mas nos oferece a plenitude, se consentimos em viver nele, nesse mundo
primeiro em que encontramos a desordem, a volúpia e o sofrimento . Se . breza. Recebe incessantemente os prazeres da vida, ainda que deles nada
o ser se esquiva, se a dúvida tem a última palavra, não ficamos de mãos deva conservar, senão a aptidão para os celebrar~ para "devolv~_: à~ue\e
vazias - não estamos no exílio. Estamos em casa nesse mundo de apa- que no-[\os] outorga a graça que lhe devemos". Para a consctencta de
rências instáveis de que, de início, havíamos constestado a legitimidade si, a posse nunca é mais int~ira d~ que q~ando se ~bando~~· se P~~cebe
mas no qual nos descob rimos, com tudo o que existe, os participantes abandonando-se, para, por mtençao d o lettor , constgnar a fo rma des-
legítimos. A aparência nos engana; mas não é moeda falsa, já que não sa posse e desse abandono nas páginas do "registro" que : la mantém aber-
há outra moeda de melhor quilate. to e do qual as próprias margens se enchem de uma escnta sempre nov~.
A fi m de que seja despertada a simpatia do leito r na ordem do se~st­
ve\, é preciso que \-lontaigne tenha ele pró~rio e_fetuado. todo o traJeto
"Puro fenomenismo" , 1 perfeito "mobilismo" , diz Thibaude t para que r eliga 0 sentir à obra de linguagem. P01s a vtda senstvel de q ue nos
caracterizar a filosofia de Montaigne. Definição que, completada por mui- fala M ontaigne está enterrada, em conseqüência mesma do texto, na obs-
tas citaçõ es, tende a fazer do pensamento de Montaigne um bergsonismo curidade da existência anterior à elabo ração do texto . O despertar senso-
antecipado. É ainda atribuir a Montaigne a coerência do sistema, que ele rial, para 0 leitor, começa apenas no contato com a me~sagem formula-
recusa . Mais prudente, Merleau-Ponty fala de Montaigne como fenome- d a . É 0 efeito estético da página escrita - com seu deshzamento ou com
nólogo, sem fazer dele um husserliano. Mas não pode deixar de ver o que, seu martelamento, suas aliterações, suas paronomásias, seu ritmo,_ su~s
nessa filosofia da consciência, tornará possível uma fenomenologia: "O antíteses e suas palavras emparelhadas, seus jogos de figuras, sua v_t~ac_t­
ceticismo é movimento em direção à verdade". 2 Merleau-Ponty, tão aten- dade e suas surpresas - que representa e reaviva, pa ra nós, a ex?ene~c1a
to em retornar ao "quiasma" fundamental que u