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Vinicius Dantas

intenção inicial deste artigo deficiências, força e originalidade, carac-


era efetuar o balanço crítico de terizando tendências e influências, para
alguns volumes de poesia pu- incentivar a disposição porventura exis-
blicados durante o ano de tente de encontrar novas soluções.
1983. O movimento editorial apresenta- Escrito em fevereiro de 84 a pedido
va então sinais de arejamento, incorpo- de conhecido suplemento de certa folha
rando poetas que escreviam em publica- paulistana — que programou e, por ra-
ções nanicas e à margem há pelo menos zões insondáveis, desprogramou um nú-
uma década. Como o acontecimento foi mero dedicado à nova poesia brasileira
mais editorial do que literário — a re- —, o texto não chegou a vir a lume nem
cepção crítica deixando a desejar —, pen- a conhecer o leitor. Hoje, muitas idéias
sei que valesse a pena inverter os termos aqui aventadas encontram-se desenvolvi-
e escrever uma resenha à maneira dos das no ensaio que escrevi com Iumna
bons tempos do rodapé, um artigo de Maria Simon, "Poesia ruim, sociedade
crítica judicativa e de oficina, discernin- pior" (Novos Estudos CEBRAP, n.° 12,
do neste ou naquele verso qualidades, julho, 1985), onde está esboçado um

NOVOS ESTUDOS N.º 16


panorama mais amplo da dinâmica da seus próceres foram logo trocando de
poesia brasileira contemporânea. No en- camuflagem e editora. A própria idéia
tanto, o que aí ganhamos como esquema de marginalidade, encerrado o período de
geral e teórico, além da apreensão histó- censura policial, começou a parecer sus-
rico-social do quadro, significou renúncia peita e tornou-se embaraçosa para quem
a uma discussão minudente das indivi- pretendia agora disputar o mercado, tendo
dualidades poéticas. inclusive de conviver com a barbárie
Acredito que esta publicação extem- poética para a qual euforicamente havia
porânea ainda seja pertinente, não só contribuído ao longo de toda a década
porque o artigo traz à tona um recorte passada. De repente, a produção poética
mais seletivo da nova poesia, mas tam- passou a sentir carência de técnica e inte-
bém porque sua atualidade é, infelizmen- ligência e a cultivar práticas como a da
te, escrava do horizonte poético inaltera- tradução — todos esses, valores abomi-
do e sem surpresas de nossos dias. Pare- nados ou esquecidos no momento em que
ceu-me necessário adicionar informações as falácias de espontaneidade e prazer (o
recentes em algumas notas e reescrever desbunde de, antanho) aproximaram como
passagens da apresentação; no mais, o nunca poesia e bobagem. Esta mudança
texto é o mesmo da gaveta. Estes dois de gosto literário não estabelece de ime-
anos e pouco de molho demonstraram diato condições para que a produção nova
para mim a falta de veículos apropriados adquira uma qualidade e uma densidade
e estímulos ao debate intelectual. O es- antes inexistentes, pois os valores em si,
forço de discutir poesia a partir de seus conquanto pareçam superiores aos ante-
recursos, procedimentos e da sua lingua- riormente cultivados, nada autorizam —
gem, focalizando sua participação no de- e a poesia ainda não se fez anunciar com
bate contemporâneo e procurando am- força.
pliá-la, parece não só inoportuno e árduo Muito silêncio cerca e cerceia a cria-
como passa ao largo daquilo que hoje é ção poética; a própria ausência de uma
praticado como poesia e crítica. É claro recepção crítica estimulante é prova dele.
que não publiquei antes o artigo por pre- Creio estarmos vivendo um fenômeno
guiça e desinteresse pessoal só meus — típico de consumo: após o nihil obstat
contudo, creio que o sentimento íntimo editorial temos livros publicados, temos
sempre tem sua contraparte histórica e público leitor, temos índices de venda-
global, à qual, mais uma vez, voto o meu gem e êxito surpreendentes, os autores
mais fundo horror. se tornam conhecidos e requisitados —
porém, ninguém se engana, não existe
nada mesmo acontecendo ou quase nada.
nda meio difícil conversar so- Este esvaziamento desgasta profunda-
bre poesia. Mesmo após um mente o significado das obras e dos ges-
ano como 1983, tão cheio de tos criadores e embaralha as linguagens.
sinais de poesia nova, com im- A causa desta atonia histórico-cultural
portância pública assegurada pelo sucesso parece estar ao mesmo tempo em muitos
editorial. Para consolidar esse processo lugares — e um vai nos interessar aqui:
de socialização da nova produção, seria a deterioração crítica das estratégias van-
imprescindível a retomada de uma inter- guardistas, a desativação do arsenal de
locução cultural perdida há tempos. O recursos técnicos e dos projetos de cria-
processo de recepção de qualquer obra ção que, bem ou mal, rotulavam as ati-
só se completa com debate e crítica; o tudes e possibilitavam à intencionalidade
que parece estar existindo é boa venda- agressiva e combativa sobressair à dis-
gem, mas não debate. Mesmo assim, há tância. Tal clareza ideológica tinha sua
sintomas evidentes de mudança na roti- dose de ilusão e nos fazia acreditar que
na e ruptura com o marasmo de um esta- existia uma única linha avançada de cria-
do de coisas, no qual, ao se auto-apre- ção. Onde ela está hoje? A própria per-
sentar como "marginal", o último surto gunta não só é estranha como agora
poético dos anos 70 nada mais fazia do parece obsoleta, um pouco como se sou-
que se vangloriar de sua desimportância béssemos que ela está ao mesmo tempo
(embora esta fizesse sentido num mo- em toda parte e em nenhum lugar. Em
mento de fechamento político). Em ter- abstrato, esta paralisia é paradoxalmente
mos de vida literária e moda, nenhum ótima e desencanta, embora em termos de
sinal é mais auspicioso do que este: a criação seja desastrosa, pois nos leva à
poesia dita marginal sumiu da vista e perda de discernimento e crítica, acuan-

DEZEMBRO DE 1986
A NOVA POESIA BRASILEIRA

do-nos em zona indiferenciada e banal. por si só, revela o quanto o radicalismo


Entre os fatores deste esvaziamento, es- era problemático e empobrecedor. A ques-
tão igualmente as condições particula- tão é que este retorno não gerou um em-
res da vida intelectual brasileira após o penho teórico e crítico à altura do ma-
impacto da modernização que, em ma- nifesto de negação e superação do verso;
téria da produção crítico-literária, foi pior, o verso tornou-se um desconhecido,
devastador: a crítica jornalística desapa- pois o mundo das medidas tradicionais
receu com a implantação em vasta escala exige um saber que poucos dominam e
da indústria cultural; a vida intelectual historicamente tem sido desqualificado
e literária se especializou, perdendo sua pelas poéticas modernas — assim, o mais
simpatia provinciana; e, dado seu caráter antigo e o mais vanguardista ficam, ao
vegetativo, a produção universitária no mesmo tempo, desqualificados e confun-
caso das Letras (ao contrário de outras didos.
áreas) não impôs critérios teóricos e crí- A confusão é grande e ela somos nós,
ticos nem travou diálogo com a criação muito embora no meio dela haja sínte-
literária sua contemporânea, de modo a ses originais que no fundo são aquilo
se constituir em alternativa que atenuas- que o confuso tem de mais pessoal. As
se o império dos meios de comunicação melhores qualidades dos poetas aqui dis-
de massa. Ainda assim, olhada de relan- cutidos são dessa ordem, como vamos
ce, a criação poética guardou, contudo, ver. Basta lembrarmos que o modernis-
uma inquietação que não encontramos mo também foi vanguarda para a coisa
em terreno crítico. se complicar ainda mais, desnudando o
A meu modo de ver, qualquer aná- caráter recessivo, de amplo espectro, da
lise que se faça dos impasses, soluções produção contemporânea. É lógico, além
e sei lá o que mais da produção poética disso, que existe a impossibilidade his-
brasileira, não pode prescindir de uma tórica, própria à condição moderna, de
abordagem da ação das vanguardas e, em forjarmos padrões estéticos menos rela-
especial, da Poesia Concreta, em virtude tivos, para compensar a vertiginosa e
de sua inegável agitação e capacidade de anestesiante perda de juízos de valor.
se modificar teórica e criativamente1. A Mas o que ainda é possível é discernir
1 Penso que a repercussão escritas e linguagens por meio da refle-
das vanguardas da década de tradição vanguardista que se consolidou
50 tem gerado efeitos impre-
ao longo de três décadas é o substrato xão crítica e do conhecimento histórico-
vistos e profundos na poesia
brasileira, ao contrário do que que permitiu, aos que dele usufruíram, literário, moderando-se o vale-tudo da
afirmam muitos observadores.
Recentemente, Carlos Drum- contrabalançar as insuficiências da vida intuição e recuperando-se alguma base
mond de Andrade declarou em
literária, as deficiências da formação tra- analítica e judicativa que possa sobre-
entrevista: "...sinto falta no pujar as imposições do mercado e dos
Brasil de um movimento. dicional ou universitária e, ao mesmo
Houve várias tentativas: a modismos.
poesia concretista, a poesia tempo, em microcosmo, participar de dis- Os poetas que vou discutir são mais
Praxis, mas essas coisas não
deixaram eco. Os donos des- cussões intelectuais e culturais amplas e conhecidos que sua poesia. Este é o ga-
ses movimentos alegam que
trouxeram uma contribuição
atualizadas. A poesia nova que vou estu- lardão sacana que a época encontrou para
formidável para a literatura dar de uma maneira ou de outra mani- recompensar, em meio à fechada falta de
brasileira, mas onde é que
está essa contribuição, se a festa isto e, mesmo em seus momentos perspectivas, que é também política e
gente vê que isso não foi
assimilado?" (Folhetim n.°
de antagonismo, manifesta em negativo econômica, heróis sem importância, cria-
385, 3/6/84). O que pretendo esta relevância. Contudo, o que transita dores de um produto socialmente irre-
mostrar é, pelo contrário, jus-
tam ente o grau e o m o d o hoje com muitas roupagens por aí, se ori- levante e sem a menor expressão. Eu
dessa assimilação em vários
escritores, o que não abona
ginariamente pertenceu ao espaço das gostaria de falar da poesia como uma
positivamente as teses outro- vanguardas, deixou há muito de conser- linguagem de expressão maior e com
ra defendidas pela vanguarda,
mas revela sobretudo a exis- var seus significados originais. Mesmo fidelidade a uma relevância que penso
tência de uma resposta crí-
tica e de um diálogo inte-
porque a vanguarda se transformou de subsistir à impotência. Esta relevância só
ressante por parte da nova uma maneira também acrítica como tudo pode ser reencontrada através do argu-
poesia. (Nota de 1986)
mais. Mencionemos, por exemplo, a rela- mento judicativo que repõe o criador
ção dos poetas concretos com a questão mais jovem em contacto com uma comu-
do verso: era ponto de honra e funda- nidade de criadores que se perpetuam ao
mento de todo o projeto do concretismo a longo da história, a qual não participa
abolição do verso como estrutura básica dos interesses editoriais e mercadológi-
do poema; contudo, pouco a pouco, o cos e é estranha à forma de resenha pra-
verso reapareceu e, mais do que este, o ticada atualmente. Quero principalmente
epigrama mais singelo. Não nos cabe con- falar do que me incomoda nesta poesia,
denar a restauração como prova de incoe- por isso escolhi cinco livros, os mais
rência ou falta de radicalismo; afinal, ela, significativos entre os que foram publi-

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cados em 1983, verdadeiras coleções de trabalho intelectual, pela imaginação,
"poemas reunidos", para discutir poesia mas, lançada em bruto, acabasse depu-
— procurar neles o novo e assim ras- rada, graças à disposição espacial na pá-
trear as implicações culturais desta pro- gina. O poema é um resíduo, a sobra
dução. irredutível deste tratamento gráfico. Sua
clareza recusa a metáfora, pois ela nada
quer ceder a uma dimensão mágica do
Sósia da cópia desejo — pedras em carne viva, ou seja,
a matéria bruta do chão urbano posta em
á tempos eu vi um cartãozi- verso e ponto final. As palavras, sim, de-
nho feito por Régis Bonvicino: vem render no poema, em sua nudez,
imitava uma placa de rua com aquilo que cotidianamente não conse-
a inscrição: não há saída/só guem. A realidade coloquial é prosa, a
ruas viadutos avenidas. Este versinho poesia é o que sobra da realidade da pro-
quase popular e anônimo estava inte- sa. É um sinal de menos, obsessiva sub-
grado a um objeto visual, ao mesmo tem- tração. Ao contrário da Poesia Concreta,
po que era um objeto visual. Em Sósia que elege o poema como um artefato de
da Cópia (SP, Max Limonad, 1983), seu tempo-espaço próprio, os versos deste
novo livro, o versinho sobreviveu no Sósia resguardam a temporalidade natu-
branco da página, a placa de rua sumiu. ral insulada, suspensa, dissimulada pelos
O cuidado visual anterior patenteava sua cortes e recortes, animando-a pelas suges-
filiação vanguardista, atenuada contudo tões paratáticas. Por isso, ele não escreve
nas palavras do dístico, além de indicar passar a tarde, mas:
a realidade urbana como matéria de sua
poesia. Pós-vanguardista, Régis olha a passar a
cidade como um núcleo de desespero, tarde
desagregação, neurose — pedras/em
carne/viva. Sua poesia, porém, contra E é a isto que chama de efeito poé-
seu próprio desespero, anseia passá-lo a tico. Seu asseio gráfico-verbal fica osci-
limpo, se possível visualizá-lo com trata- lando desse modo entre dois pólos: a
mento gráfico. Mas o que interessa aqui, pureza (construtiva) do trabalho de ex-
e é o Sósia quem atesta, poesia e visuali- tração verbal e a sujeira da realidade de
dade podem passar muito bem uma sem sua matéria (em prosa e verso /sucata do
a outra; impressiona no seu livro, por universo). Li há tempos uma declaração
outro lado, a persistência de fórmulas do poeta em que ele se confessava um
e convenções vanguardistas do passado concretista que não sabia o que fazer com
(ready-made, fotos com inscrições, figu- o coração (Folhetim, 22/02/82) — o
rinhas, notícias de jornal), assumidas pelo coração aqui é sinônimo de uma cabeça
poeta orgulhosamente como totens (de dilacerada e não tem conotações român-
quê?), quando, de fato, sua poesia delas ticas. Em miúdos: a experiência pessoal
prescinde em absoluto. Em suma, sua do poeta pretende ir numa direção que
experiência humana na cidade nega sua não é autorizada por suas formas. Por
experiência vanguardista, cuja premissa um desses paradoxos do subdesenvolvi-
é dar uma ordem construtiva e funcional mento, a Poesia Concreta tanto se as-
ao espaço urbano. O poeta concilia como sumiu como poesia da linguagem que
pode e precariamente essas duas expe- se esqueceu que era poesia do espaço
riências e, às vezes, com pressa, busca urbano-industrial. Régis é fruto deste
logo uma solução para este conflito, como paradoxo, embora seu impulso seja de-
no caso citado — o versinho agora vale sesperado, dilacerado, autodestrutivo, em
sem o tratamento e o lay-out que o am- suma, maduramente urbano, ao contrá-
parava. rio das idealizações concretistas; seu tra-
Pôr a limpo a cidade, a sensação, o tamento poético, porém, não pensa seu
impulso do instante, liga-se a um ideal impulso, não o resolve, pois ele não en-
de clareza: depurar, à máxima concisão contra no concretismo as formas para ma-
e brevidade, a sua experiência poética. terializá-lo. Daí, o rigor e a limpeza em
Para Régis, secretamente, é poesia aquilo que prima seu livrinho, desarmando o
que, após uma série de exclusões, resta fascínio e o sofrimento do cotidiano bar-
irredutível do trabalho de depuração. O ra pesada. No exemplo abaixo, vejam
poema é uma metonímia da experiência, como o desespero e o desagradável são
como se a experiência não passasse pelo evitados e contidos assepticamente:

DEZEMBRO DE 1986
A NOVA POESIA BRASILEIRA

lavar pratos sujos Muita poesia moderna tem vivido de


na pia da cozinha tirar do refugo uma estranha magia de
(depois do almoço) transfiguração, que é algo autêntico para
quem vive no pior dos mundos, rodeado
limpos de objetos de toda espécie e inúteis.
minha alma Régis desconhece a dimensão transfi-
guradora, pois sua experiência é, diga-
Acho este o melhor poema do livro mos assim, excessivamente material, está
— sua beleza vem do despojamento su- ligada às palavras, que nada mais ofere-
focado da expressão e da elipse repres- cem senão elas próprias. Ele pertence a
sora. O poeta que limpa a alma e se uma linhagem poética que reduziu o fa-
lavou, pouco se dá a ver. A prosa foi moso adágio "um poema se faz com
desbastada, as palavras arranjadas, a es- palavras" a "um poema se faz com o sen-
pessura semântica intimada a ceder lugar tido literal das palavras". Por isso é que
a um ideal literal de brancura, limpeza ele se nega toda possibilidade de vislum-
e contenção. A poesia nesta sua ars poé- brar nas coisas e na vida das palavras o
tica é um branco, uma não-ação quase que não está nelas (o que é poesia). Seu
mística em meio ao correr do tempo ver- autocontrole pode se exibir assim tecni-
bal, o qual se acha como que retido en- camente — através do artesanato do
tre parênteses. O que é violento e deses- verso contido, e nada mais. Já que a pura
perado (qualidades fortes na dicção do referência é sempre exterior, e em bruto,
poeta) é citado e aludido pelo silêncio os elementos de jogo e criação só apare-
do poema acerca da alma que está sendo cem no poema através das marcas técni-
lavada como uma louça. Este é um exem- cas do corte, do silêncio, da elipse.
plo feliz, pois no Sósia encontra-se amiú- Literal, a poesia de Régis acaba não
de uma caricatura deste procedimento: sintonizando o seu sentimento básico:
Régis enumera sucessivos sintagmas no- o sofrimento paulistamente acuado que
minais, quando não palavras soltas, para pede reelaboração. Os poemas não são
evitar a subordinação (as articulações sofridos formalmente (como o poeta que
sintáticas do discurso), geradoras segun- escreveu vida paixão e praga de rb) por-
do ele (seguindo os mestres) de um des- que o seu conceito de poema, impregna-
vio apoético. Obviamente que o proce- do de uma estranha modalidade de pu-
dimento como norma é descabido e em- rismo, sufoca o mero registro — sem
pobrecedor. dramatizações o poema alude a referên-
A poética da rasura e da subtração cias soltas e dispersas, aparentemente
está fundada estranhamente sobre a rea- purificadas do contexto. A sensação de
lidade bruta: Régis quer afastar a reali- vácuo intelectual não é estranha a muitos
dade, dela guardando pequenos souve- dos seus poemas e os sofisticados dirão
nirs. É como se descobríssemos que Mal- que ela tem um gostinho zen. A tena-
larmé trabalhasse com material fornecido cidade purificadora, no entanto, impede
por Ginsberg. Claro que o poeta sabe com precisão e êxito que a subjetividade
desta conjunção esdrúxula entre pureza e confessional empape cada verso. A for-
sujeira. Espertamente Régis homenageia ma limpa e branca demonstra as quali-
Corbière, Pessoa e Sá-Cameiro, como se dades do Sósia, que não tem nenhum
estes coloquiais-irônicos, origem da "anti- resíduo daquelas mil maravilhas líricas
poesia" de nosso século, fossem um pe- que ainda açucaram o poema e mentem
queno socorro para sua formação mallar- sobre o estatuto da percepção e da sensi-
meana (leia-se concretista). Mas Régis é bilidade contemporâneas. A literalidade e
objetivo e literal, o seu verso não acolhe a brancura do eu lírico de Régis é neste
a fala, a gíria e a memória das coisas sentido apreciável — a página em branco
como matéria de uma experiência dos é a sua última plenitude e única emoção.
sentidos, e sim como presença ou refe- Alguém me soprou no ouvido: você
rência em bruto. O que sua poesia revela, está inventando um poeta, o livro dele
mediante o processo de subtração, não é muito ruim! Tenho de convir, a poesia
é o que aparece, mas o que fica — o de RB é rala, mas salvam-se dois ou três
que fica é o mesmo, a prosa da realidade poemas, o que dá para o gasto. Além dele
emagrecida das suas partículas de liga- demonstrar timidez em se autoplagiar,
ção, ainda é a cidade tal qual, é a sua um pudor muito grande de sua própria
própria experiência nua e literal. Não poesia (cf. o título), que são virtudes se
que sujeira e pureza sejam inconciliáveis. não forem afetação. Como se trata, no

NOVOS ESTUDOS N.º 16


entanto, de uma solução poética, de na- poeta de vanguarda. O gigolô agride tudo
tureza reprimida e conflitante, obtida a isso, agride-se, mas se ajoelha ante o
duras penas, podemos esperar recaídas bibelô. Não é estranho que Me segura
confessionais que evidenciarão a nulida- tenha começado a ser escrito na prisão,
de reflexiva. Contudo, alguns poeminhas onde sua condição carcerária só então
do Sósia, como "lavar pratos sujos" so- o absolveu para as Letras.
2 O auto r d e S ó sia d a Có -
pia vem publicando bastante
breviverão ao poeta 2. Me segura é um esforço de deseduca-
e nada me leva a desmentir ção quando a literatura está sob inter-
este diagnóstico sobre o im-
passe entre a pureza (de ma- dição. A escrita impôs a tarefa de forjar
triz concretista) e a confissão
bruta (existencial); creio mes-
Gigolô de bibelôs uma nova gíria e é, ao mesmo tempo,
mo que ele esteja sendo so- uma ascese carcerária, o que exige rigor
lucionado para pior, isto é,
para a confissão grosseira e aly Salomão é o caso oposto. literário e disciplina de criação — o cír-
literal. (Nota de 1986) Seu livro nos confunde: é pro- culo se fecha. Já dentro da literatura per-
sa, poesia visual, baianada, o cebemos que nesta guerrilha sua cultura
que é afinal? Metade é ocupado é beletrística e tradicional, sua imagem
por Me segura qu'eu vou dar um troço do poeta ainda é o herói, e ele um litera-
(1972), venerável clássico de nossa con- to que no fundo se culpabiliza por não
tracultura, matriz da literatura "margi- ser tão grande quanto seus modelos. Ei-lo:
nal" dos anos 70. O restante de Gigolô
de Bibelôs (SP, Brasiliense, 1983) reúne Uma escrita automática é sempre
suas produções mais recentes — prosas, reveladora de uma sensibilidade anti-
exercícios de voz alta, trabalhos gráficos ga. .. final dessublimador: não sou
(os babilaques coloridos são a grande escritor coisíssima nenhuma, não passo
ausência da coletânea), letras de música de um leitor a-pressado b-obo c-alhor-
e poemas. Estamos no terreno do exces- da vá desfiando letra por letra o ABC
so e da desmedida — onde a experiência do cretinismo até o Pe de pretensioso,
literária é nada mais do que a possibili- leitor apressado bobo calhorda. . .
dade de dizer tudo como vem, escrita
plena, nada excluir. Contudo, a fortaleza Sua barafunda estilística, na qual o as-
dele nesta empreitada jaz paradoxalmen- sociacionismo dialoga com o que escuta,
te no demônio da autoconsciência, o que ouve e vê, acaba moldando uma identi-
acentua ainda mais o desconforto salo- dade para o escritor. Em seu furor anár-
mônico em todos seus tons. Tenho fome quico, Waly ultraja deus e o mundo, o
de me tornar em tudo que não sou — leitor e sua própria pretensão literária. A
não sabemos se nosso autor tem esta literatura todavia não é a saída, ela é
fome protéica ou se, de fato, ela é sim- uma identidade circunscrita socialmente.
plesmente uma frase ou uma pose feita Seu juízo (a)final sobrevém como juízo
ao longo de muitas páginas, o que des- literário, daí ressentimento, culpa, impas-
mente o romantismo de sua professada se. Isto é anos 60: ele luta contra as se-
fome. O forte de Waly é precisamente qüelas burguesas e coloniais que impin-
a garra com que briga consigo mesmo. giram à sua personalidade este conflito
O cerne de sua poética se inscreve no psicológico (isto é 68). Me segura me
título — ele se vê cafetão ante sua deu- parece o melhor de Waly: sua mistura
sa, a poesia, seu bibelô. Seu conflito com de dramas e gêneros (tons) é incompa-
a poesia é fonte de autodenúncia, mas rável à ingenuidade experimentalista de
também idealização de uma máscara es- coisas como Percussões da pedra q ronca.
fuziante. Há ressentimento nesta relação Mas vamos aos anos 70 que, de fato, só
que remonta, suponho, a Me segura, ins- começaram mais tarde.
tante em que Waly mais assumiu a vio- O emblema do marginal encarnou
lência contra a literatura; esta represen- como pôde o ataque à literatura como
tava os valores burgueses, tradicionais instituição, contra a qual o rancor ideo-
e colonizados contra os quais investia. É lógico do escritor pós-tropicalista inves-
preciso não esquecer ser Waly o único tia. Antes ser marginal do que literato,
dos autores aqui analisados inteiramente afinal como agüentar a vidinha nada he-
formado pelos anos 60, tem cicatrizes róica da classe média? A recusa marginal
(Fanon, Glauber, foquismo, underground, era negação política do consumo, da pe-
Tropicália) e uma experiência pessoal quena-burguesia e do colonialismo, e
que é bagagem intelectual de peso (o tinha no clima de crise, protesto e rebe-
trocadilho é intencional). Mas é baiano, lião dos anos 60 uma ambiência perfeita.
retórico, grandíloquo, exibicionista e. . . Depois que a tempestade estiou, a con-

DEZEMBRO DE 1986
A NOVA POESIA BRASILEIRA

versa é outra. Agora ressalta em Waly torno de uma linguagem enlouquecida


o lado arcaico do literato, fazendo char- — sua opção é não se render a um poe-
me e barulho. O que ele não podia alar- ma que só se sabe linguagem. O que
dear em certo contexto histórico, no era ressentimento foi superado, a meu
período seguinte alça-se a sua razão van- ver, por uma espécie de estripulia tex-
guardista de ser (sic). É curioso isso, é tual. A transformação do texto em pura
como se Waly preferisse o romantismo performance neutraliza a consciência do-
provinciano e beletrístico à literatura e lorosa e autocrítica que a literatura mo-
aquele fosse agora um exotismo tolerável. derna possui de ser só literatura. Como
Claro que esta guinada se deve a uma a transgressão literária não lhe satisfaz, é
tensão interna da escrita salomônica, pa- melhor ostentar o repertório transgres-
tente desde Me segura: todas as trans- sivo óbvio e pós-burguês da atualidade
gressões sintáticas, narrativas, todas as porque, pelo menos aqui, sua mitoma-
sobreposições, colagens e rupturas, ligam- nia e fantasia se gratificam. Toda trans-
se à sua pessoa. Ele, Salomão, é rei e gressão literária — chegar ao limite, tirar
herói sob a autonomia relativa de seu a máscara — é sempre decepcionante e
texto metalingüístico. meramente textual, além de fundar uma
O leitor, às vezes, estranha sob um nova norma e suscitar novas carências;
texto tão moderno a abelhuda persistên- as outras transgressões — sexuais, alu-
cia do big ego do autor. Aliás, é mesmo cinógenas, morais e o diabo a quatro —
a noção tradicional de autor, com sua passaram a ser em nossos dias curtições
aura romântica, transgressiva e viril o até de tecnocratas (que o digam as ma-
que está lá. Em Waly, o texto se liga gistrais análises de Christopher Lash),
sempre à sua figura, ao gigolô. O prin- os quais ainda têm o raro predicado de
cípio de sua criação exige da experiência transgredir com uma nação inteira, haja
literária uma presença física e esta não vista o resultado da economia brasilei-
3 Relida hoje no auge do se separa do gigolô que nunca deixará ra3 . Nossa sociedade não costuma tratar
pacote econômico do minis-
tério Funaro-Sayad, a frase de vir pegar o michê e receber os aplau- bem os poetas e o romantismo transgres-
ganha um frisson renovado.
Ironia mais uma vez da His-
sos. Esta plenitude é mistificada e ela sivo não passa de mais uma bandeira
tória. (Nota de 1986) convive com sua verve autoconsciente, esfarrapada e aparentemente radical. Nos
irônica e inquieta. Neste confronto há anos 70, a literatice avacalhada se re-
beleza, e a complexidade do texto sai compõe sob a performance da estrela,
enriquecida, sobretudo quando ele des- embora ainda seja aquela literatice exe-
confia de suas poses e é o primeiro a crada no passado e a aura do transgres-
denunciá-las. Pelo contrário, quando re- sor esteja ofuscada. Afinal, os maus cos-
corre a suas quinquilharias, a sua verbor- tumes são a norma numa sociedade me-
ragia e suas parlapatices, o nível cai e nos puritana e mais permissiva.
o literato mostra o dedo. A prosa bagun- O poema não pode ser pensado, se-
çada tem de tecer os lauréis do bardo, gundo Waly, como um artefato, nem ser
pois no fundo seu rancor antiliterário construído — brota do aluvião de sua
ainda crê na pureza romântica. Vejamos: performance expressiva, de saturações,
associações e reiterações. Não pode se
saia da frente espelho opaco de lite- conter em formas breves, a prosa é o seu
rato ..................................................... habitat natural, de preferência sem pon-
(interferência de voz de fantasma do tuação. Sua poesia necessita se espraiar
velho mundo europeu, ininteligível quilometricamente, intercalar trechos dia-
para transcrição) ................................ logados, transcrições, mudanças de tom
.......................................................... e conversa (sempre que lida em voz alta
saia da frente espelho eunuco da lite- ganha em humor e interesse). Quando se
ratura ................................................. exercita em letrismos, cuida do lay-out
meu barco vai partir num mar sem etc., é para declarar sua apreciável aver-
cicatrizes ............................................. são ao design, sujar o bom gosto frígido
da gute Form com uma sensibilidade de
O neobeletrismo seduz o poeta porque almanaque popular. Sua máscara é agora
a literatura autoconsciente não oferecia uma neo-retórica bufa que, com compla-
uma gratificação assaz idealizante para cência, resguarda seu romantismo e sua
seus anseios heróicos, pior, ela desmasca- literatice, comprometendo, porém, e é
raria seus impulsos mitômanos e sua re- pena, sua paródia. Vejam o tanto que a
beldia. Antes o corpo do autor-rei sob a retórica depende da citação erudita, da
escrita do que a autoconsciência sem re- palavra difícil, da grandiloqüência oca,

NOVOS ESTUDOS N.º 16


sobretudo nos últimos poemas do livro marginal era sua difusão personalizada,
(exemplo: o ridículo Selva Jubilosa); o fora dos esquemas editoriais, estes Drops
que era objeto de destruição e paródia são o que restou dela, afinal a própria
se tornou transmissor de brilho, brio e poesia em texto. Para um poeta marginal
opulenta bobagem. Mesmo assim, sua o texto não era o fundamental — a pró-
farsa tem lances de beleza genuína e pria poesia de Chacal é mais um álibi
humor (especialmente em O Monte de do minuto do que uma busca propria-
Arabó). A nova máscara é agora um es- mente poética.
tilo, a identidade que sobreveio ao poeta, Para se compreender os resíduos os-
através da qual ele denega o mito mar- waldianos destes minutos de poesia é
ginal, como neste auto-retrato: imprescindível especificarmos o contexto
cultural do começo dos anos 70, quando
falar recontar para esses estranhos o Modernismo ganhou uma dimensão
olhos ouvidos alheios mais popular e menos literária a partir
foi a tentação de desenvolver uma con- do cinqüentenário da Semana de Arte
versa fiada hambambam Moderna, festivamente comemorado pela
caixa de fósforo desenvolver uma ba- ditadura militar (lembro o violento pro-
lela nome próprio da fábula literária testo de Waly Salomão na revista Visão).
foi o gosto de armar uma armadilha A Tropicália antecipou, é claro, muito
sonora de desse interesse, entroncando com a revi-
abrir um lance pai filho espírito santo são concretista de Oswald e com a mon-
de fiar uma persona tagem de O Rei da Vela do Teatro Ofi-
uma máscara provisória que não chega cina — tudo isso foi aliás a primeira
a colar na cara porque e retardada aceitação da radicalidade pri-
nada como um dia depois do outro mitivista do Modernismo dos 20, feste-
depois do outro depois do jada então por seus impulsos de vanguar-
outro e Alegoria Alegoria é uma coisa da e agressividade (não mais, como era
efêmera consenso, pelo prudente reconhecimento
logo logo se esquece ......................... do processo construtivo deflagrado pela
vê se me esquece.................................. Semana e que deu os melhores frutos
nos anos 30). O cinema também adapta-
Não se pode trocar de escrita literária va o modernismo, em um momento de
com tanta presteza como quem troca de abertura para a conquista do mercado
máscara. A prova está na escrita do Gi- (é o caso de Macunaíma de Joaquim
golô de Bibelôs, nos sulcos profundos e Pedro). A poesia de Chacal brotou dessa
duradouros que o espírito do tempo lhe atmosfera meio nostálgica, numa época
imprimiu — seu estilo se deixa trair em que a obra de Oswald estava sendo
facilmente e as obsessões salomônicas republicada e seu nome radiava uma aura
são sempre as mesmas. Hoje, no entanto, de inconformismo que funcionava como
o Gigolô parece vestir sem ressentimento antídoto contra censura, cultura oficial
a carapuça da literatice e do romantismo, e ausência de perspectivas políticas e
às custas de suas impagáveis força e qua- culturais. Tinha a vantagem de ser o
lidade literária, para animar o mambem- tótem vanguardista oficial e oficiante.
be circo de nossas letras. A desinibição poética de Chacal, mar-
cante nos primeiros livros, provinha da
aplicação ingênua da poesia Pau-Brasil à
Drops de abril própria experiência de vida do autor —
o poema-minuto foi interiorizado como
rops de Abril (SP, Brasiliense, subjetividade. A observação metonímica,
1983) é uma seleção de dez cubista, o recorte e a montagem da poe-
anos de poesia, feita com cri- sia Pau-Brasil tornaram-se, para Chacal,
térios discutíveis, deixando de não formas poéticas, mas algo naturali-
fora alguns poemas interessantes e Quam- zado no mundo e no dia-a-dia, deixando
périus, um dos livrinhos de Chacal. É de ser um procedimento estilístico (estra-
um itinerário pessoal de um autor iden- nhador) para ser componente da própria
tificado inteiramente com a poesia mar- espontaneidade. De certa maneira, o re-
ginal, embora valha como uma estréia gistro malandro do poeta marginal, a
para o leitor que não teve acesso às expressão à flor da fala, a captação de
publicações anteriores. É também uma um certo absurdo do absurdo circuns-
prova de fogo: se o melhor da poesia tante tornaram-se coisas nossas e esque-

DEZEMBRO DE 1986
A NOVA POESIA BRASILEIRA

ceram o projeto poético modernista que de sentido: é preciso apostar na espon-


estava na sua origem. taneidade e na barbárie, porque nelas
Esta naturalização esteticizante do co- estão os valores novos que superarão a
tidiano (com seu gostinho populista) tem cultura tradicional. Estes críticos nunca
uma grave desvantagem: acaba com o especificaram tais valores, e assim prepa-
elemento utópico do construtivismo os- raram o terreno para equiparar a poesia
waldiano. A beleza da poesia regressiva à regressiva infantilização em curso na
de Oswald está precisamente no fato de sociedade pós-moderna, gerada pelo con-
ele colocar à frente da realidade obser- sumo e pelos meios de comunicação de
vada o procedimento, a técnica poética massa.
de fazer e construir, à frente de um mun- A poesia moderna tem uma tradição
do que a desconhece e é excêntrico à de protesto social respeitável, sua nega-
modernidade dessa técnica. Na poesia Pau- tividade quase sempre beira o associal
Brasil o encanto lindo e pitoresco do que, em sua comovente beleza, pode
Brasil mais arcaico idealizava, graças às apresentar uma regressividade sofrida e
técnicas poéticas empregadas, uma mo- maldita. Na poesia de Chacal, a regres-
dernidade virtual e de brincadeira que, são é compensada pelos prazeres do con-
nascida do choque e do contraste, não só sumo, já que o poeta trocou a subjetivi-
ilustrava uma mitopoética como projetava dade por um eu epidérmico de gratifica-
uma utópica liberação. O Brasil é estra- ções automáticas e imediatas (a mesma
nhado e dele Oswald desentranha quali- que a publicidade oferece ao consumi-
dades modernas bastante superiores às da dor). É uma regressão muito nossa co-
metrópole. A "contribuição milionária de nhecida que demonstra como o culto
todos os erros", vislumbrada pela sabedo- narcísico da liberdade e espontaneidade
ria antropófaga, deixava de ser um empe- individuais está integrado e tem função
cilho para ser um desejo desrepressor, um na sociedade atual. É bastante difícil de
programa de vida e beleza, um ideal po- pinçar nos Drops de Abril algum teste-
sitivo. No caso de Chacal os procedimen- munho efetivo de marginalidade e "su-
tos não relevam, o mundo e a vida é que foco" (a palavra mais abominável do
já são tout court assim (ver o conformis- vocabulário recente, depois, é claro, de
mo intragável deste verso: e a vida foi "povão"). O poeta vê a política com
vivida como manda o figurino). Ele abole bons sentimentos: nós que não somos
qualquer ideal e se entrega à materialidade médicos, psiquiatras/nem ao menos
do dado vivido ou registrado. Tudo o que bons cristãos,/nos dedicamos a salvar
conta agora é o próprio poeta; sua pessoas/que como nós/sofrem de um
espontaneidade não é mais regida nem mal misterioso:/o sufoco. O que pre-
pela imaginação nem pela memória e é domina em geral é o cotidiano de adoles-
assim que pensa se liberar sensivelmente cente de classe média: festinhas, lancho-
em bruto: netes, namorinhos. Chacal não chega a ter
de seu cotidiano nenhuma percepção ilu-
o poeta se faz do sabor minadora e poética. Vejamos:
de se saber poeta
Melecas
A poesia não passa de um sucedâneo
do comportamento buliçoso do autor, melecas as tenho,
algo que pode ser colhido diretamente em várias cores e feitios.
na fala e nas coisas. O poeta sente aver- mas não estão à venda.
são pela literatura e por qualquer refle- durmo com elas.
xão intelectual, não pelas razões da con- às vezes tiro uma e como.
tracultura (caso de Waly Salomão) que quando tem gente olhando.
eram motivações de ordem ideológica, enrolo e jogo fora
mas porque admite tão só a brincadeira pra não ganhar fama de porco.
hedonista de sua malandragem poética.
Claro que Chacal está sendo honesto e É difícil aceitar esta prosa mal pon-
não esconde que a "santíssima trindade tuada como poema-minuto, na qual falta
da rapaziada" é o sexo, a droga e o rock, até uma frase rápida de efeito humo-
sacralizando formas de consumo e diver- rístico que, de quando em quando, dá
timento. Na "teoria da poesia marginal" a nota na poética de Chacal. São versos
formulada por Heloísa Buarque, Messe- alinhavados na marra e neles não existe
der Pereira, Cacaso e outros, a coisa muda qualquer tensão verbal, é conversa fiada

NOVOS ESTUDOS N.° 16


(piada?) deslavada. Pode-se alegar que Caprichos & relaxos
Chacal quer dar estatuto poético à "bo-
beira", mas estamos às voltas com uma aprichos & Relaxos (SP, Brasi-
plenitude infantilizada, com um narciso liense, 1983) de Paulo Le-
retardado, onde a "bobeira" é engraça- minski reúne poemas de várias
dinha. Este poema, de fato, só pode épocas, desde sua estréia nos
ser aceito a partir de um raciocínio me- anos 60. No entanto, foi nos anos 70
cânico que inverta preconceito e con- que ele empreendeu uma leitura muito
venção correntes — o que não seria tema pessoal da Poesia Concreta, da qual é o
poético passa agora maniqueisticamente discípulo mais brilhante (com o beneplá-
a sê-lo. Melecas pressupõe o preconceito cito de Haroldo de Campos), ao mesmo
do leitor que não admitiria um poema tempo que tomava pé no refluxo da con-
sobre tal guloseima, garantindo ao poeta tracultura. Sua antologia oferece a opor-
a reputação de liberado, criativo e irre- tunidade de discutir estas assimilações e
verente (adjetivos do nosso tempo). certos aspectos de sua poética.
Quando Bandeira chama de sapo o poeta A Poesia Concreta decretou conteúdo
parnasiano, o acinte repercutia no ritmo, do poema a estrutura gráfico-espacial das
nas imagens, no poema como um todo. A palavras na página, levando à máxima
provocação no caso de Chacal, pelo con- concentração da mensagem poética, con-
trário, está autorizada pela própria evo- cisa e precisa. Sempre que nela a elabo-
lução dos costumes — o bestialógico está ração estrutural se rarefaz, com base em
inflacionado —, a transgressão está no permutações meramente fônico-óticas, o
mundo e não na poesia. Aqui é claro que poema se torna um mero divertimento.
o poema conta com o relaxamento do uni- Muitos poemas concretos o são intencio-
verso familiar — o pai autoritário não nalmente, mas a inteligência poética do
existe mais para espancar o comedor de trio Noigandres viu nestes jogos uma
melecas. A família pode se regozijar com aproximação à natureza alusiva e silen-
as melecas poéticas de seus filhos, auto- ciosa da essência da poesia, escapando
rizadas que são pela inversão de valores desse modo ao literal de suas próprias
própria à modernização do lar. Falta-me palavras. Dentro desta proposta não há
tino para afirmar, à maneira de um scho- lugar para a metáfora; as próprias pala-
lar carioca, se comer melecas no governo vras, delimitadas por uma "área semânti-
Médici representava uma atitude anti-au- ca", armam estruturalmente e com eco-
toritária e propunha uma erotização do nomia o poema. Nele só terão acolhida
cotidiano. Mas não há dúvida: o biscoito aquelas palavras ou sintagmas que funcio-
fino foi deglutido. nalizam o tempo-espaço da organização
Chacal tem alguma desconfiança de "verbivocovisual". O ponto de partida
seus limites: a partir de América (1975), de Leminski é esta idéia de divertimento,
sua poesia piorou, não só pela mescla de não mais calcada em valores geométrico-
falsetes de suas parcas leituras, sobre- abstratos, mas em valores semânticos pu-
tudo porque ele, em razão do sentimento ramente verbais. Na poesia de Leminski,
de "sentir-se literato", advindo provavel- sempre aguçado, existe uma espécie de
mente do reconhecimento, tem ânsias de pendor para o epigrama: tudo leva à con-
confessá-las. O recém-literato escreve en- versão do poema em slogan, em haikai,
tão pérolas do tipo: em poesia de circunstância, em poesia de
pára-choque, todos, gêneros de concisão
eu tinsino a levantar tapetes epigramática, como se ele estivesse vi-
e construir o caos sando criar a trova do Brasil moderno.
ou Leminski dispensa a espacialização, a não
sou o sol de uma sinfonia atonal ser em exercícios ingênuos intencional-
mente relaxados (ver em especial a seção
Drops de Abril propriamente dito, o Sol-te). Nas edições originais de seus li-
último livro da antologia homônima, é vros, as letras eram ampliadas de modo
qualquer coisa de inacreditável, pois a a expor a granulosidade dos tipos. Capri-
lepra da literatice, a empostação forçada, chos & Relaxos empobreceu esta apre-
o anseio de um pastiche digno acabaram sentação de sua poesia, mas, paradoxal-
com a graça ágil de um vivaldino oswal- mente, deixou o epigramático mais epi-
diano. O percurso de Chacal é de qual- gramático.
quer modo exemplar: do horror à litera- Assim ele incorpora o coloquial (o co-
tura à sofreguidão da literatice. loquial da Poesia Concreta não era da fa-

DEZEMBRO DE 1986
A NOVA POESIA BRASILEIRA

la, mas das palavras coloquiais) e as par- vai vir o dia


tículas de ligação e subordinação do dis- quando tudo que eu diga
curso verbal. Seus versos, por isso, são seja poesia
mais facilmente apreensíveis que os do
concretismo ortodoxo, cujas inovações Vamos chegar lá e a linguagem será
lingüísticas e sintáticas acabam suaviza- superada, pensa Leminski com irritação
das; as rupturas desaparecem nesta poe- e antíintelectualismo, embora ele dependa
sia falante e muito falastrona. A própria do que a poesia moderna tem de mais
estrutura que o poema leminskiano co- intelectual. O jogo de palavras é, dessa
munica não é abstrato-geométrica, ao con- maneira, menos metapoético do que "na-
trário, é simploriamente verbal, meio má- tural", há nele uma verdade fluente e
xima meio aforisma, uma frase de efeito simples, serena e proverbial. Querem ver
sintética e exemplar, em que o jogo de nisto Zen e influência da poesia oriental;
linguagem se desfaz em sentença e moral creio, contudo, ser mais um artifício de
corriqueiras. Exemplos: quem trabalhou muito em publicidade e
conhece demais seu ofício, além de visar
passa e volta
principalmente o leitor médio. Confessa
a cada gole
claramente o poeta: "No que faço, sub-
uma revolta
siste um componente acentuado de ex-
.........................
pressão, de comunicação, portanto. Isso
nuvens brancas
só é possível com certo teor de redundân-
passam
cia, de 'facilidades', cuja dosagem controlo
em brancas nuvens e regulo" (Escrita, n.° 28). Por isso,
......................... Leminski faz vista grossa para a evolução
ameixas da Poesia Concreta. Esta, misteriosamente
ame-as literal, não se esgotava no imediato co-
ou deixe-as municativo, e hoje nenhum concretista
Mais comunicativo e mais popular, o defende aquela necessidade então apre-
conteúdo desta poesia quer incorporar goada da comunicação mais rápida e efi-
todo tipo de recursos, dos mais tradicio- ciente, "adequada" à vida moderna. Basta
nais (rimas, métrica, paralelismos) aos examinarmos Signância Quase Céu, de
mais vanguardistas. A agilidade pouco Haroldo de Campos, as "tatuagens" de
ortodoxa de Leminski é enorme, a ponto Edgard Braga ou as "psicografias" de
de, vaidosamente, chamar seu livro de Décio Pignatari, entre outras coisas. Os
Caprichos & Relaxos. Mas sua liberdade poetas concretos não costumam transigir
circunscreveu o epigrama como fôrma em matéria de apelo à comunicação (ao
privilegiada, por boas razões, além de ti- contrário do que reza a teoria) e, graças
rar de recursos antigos uma graça reno- aos deuses e ao fracasso da Poesia Con-
vada, por exemplo, da rima. Em meio à creta como projeto, fizeram boa poesia.
atmosfera livre de sua poesia, a rima ser- Em nome da comunicação fácil, Leminski
ve para guiar a atenção do leitor, o que criou uma poética astuciosamente inven-
é sempre praticado com humor: a regra tiva, mais concretista que a dos poetas
que deveria coagir, em meio à ausência concretos.
de formas fixas e rígidas, acaba amplian- Em Leminski, a metapoesia confunde-
do o campo de invenção do poeta. Pelo se com uma atitude de entusiasmo lírico
descrito, é óbvio que Leminski tem tudo pelo mundo. O puro jogo de palavras,
para ser apreciado pelos arquiinimigos da que na origem era antiilusionista (magia
Poesia Concreta. que se confessa), tomando a própria lin-
Mas o principal da renovação lemins- guagem como sua matéria, serve, em últi-
kiana prende-se a uma utilização parti- ma instância, para confirmar a existência
cular do lirismo. Como não há anteriori- de "um mundo de beleza mais puro". Virá
dade emotiva ou referencial, tudo se re- o dia, quem implora é o poeta, em que
solvendo graficamente na página, o poe- as palavras serão inocentes e o non sense,
ma fecha-se em si, sem metáforas nem sentido. Leminski faz para nossa época
simbolismos. O engraçado nesta poesia um haikai, o que me parece uma atitude
inteiramente auto-referenciada, com toda poética nada interessante e de muita mis-
aparência de uma metapoesia, ao contrá- tificação, por sinal, muito próxima à da
rio do que se esperaria dela, é que tudo poesia marginal, ou de um Chacal. Tal
é transparência, crê-se em uma utópica substrato subintelectual não é negado por
imediatez lírica, quase brejeira: sua perícia verbal; pelo contrário, esta

NOVOS ESTUDOS N.º 16


encontra nele matéria para tudo mesclar: o mundo. A graça fácil e infantilizada de
humor, chiste amoroso, agit-prop, o culto sua poesia, com seu faz-de-conta revo-
do poeta-deus, panegíricos, o culto da lucionário, rebelde ou vanguardista, nu-
eterna adolescência. De tudo isso, advém tre sonhos adolescentes e tem ouvidos
a sensação de alto-astral da poética le- moucos para o desmentido da realidade.
minskiana, que faz charme de sua própria Chegando tarde e cansado para a van-
nulidade, que escracha qualquer preo- guarda e a revolução, só restou ao poeta
cupação cultural (tudo que li me irrita curitibano se entregar à fantasia compen-
4 Hoje já podemos fazer uma
afirmação audaciosa: Paulo
quando ouço Rita lee), que diviniza o aca- satória de suas brincalhonas palavrinhas 4.
Leminski é atualmente uma so e o destino. Qual o sentido desta mis-
das vozes mais influentes na tificação?
poesia brasileira; sua marca
registrada é visível em qual- Criar uma vanguarda popular com um Alba
quer registro lírico que con-
dense brevidade, humorismo incrível tino de publicitário, sem se con-
e frase de efeito. Algumas frontar com os hábitos literários mais
razões deste êxito, impres- rides Fontela é uma poeta que,
sionante principalmente entre arraigados no público? Acredito que tal ao contrário dos poetas acima,
adolescentes e iniciantes, fica-
ram sugerid as no tex to . O atitude tem mais a ver com o desencanto é capaz de ser premiada em
que não especificamos foi a
que contexto esta poética aten-
profundo de Leminski com a própria poe- concursos literários. Este dado
de, tanto pelas motivações sia, com sua época. Após viver monasti- facilita a localização de sua poesia: na
subjetivas de seu lirismo ful-
minante, quanto pelo van- camente um projeto mítico da grande passagem de um conceito de poesia mais
guardismo regressivo de suas obra de vanguarda do século, o catatôni- sublime, típico daquilo que a Geração de
soluções que, mais do que
nunca, têm um apelo popula- co Catatau, ele se voltou para o fácil e 45 vem praticando com tanto ou menos
resco evidente. (Nota de 1986) para o doce, recuperando tudo o que ne- êxito, para uma poética da palavra, con-
gara. Daí esta posição lírica, intencional- cisa, plena de silêncios e vazios, apren-
mente mistificadora, este pôr-se à vonta- dida com a poesia de vanguarda. Pouco
de e com má vontade com a "opressão" Orides tem em comum com outros poetas
da cultura, este culto narcísico de Peter de sua geração — ela crê no lirismo de
Pan como imagem do poeta: tudo é char- símbolos intemporais e na autenticidade
me sob o muxoxo de paranomásias e de uma plenitude subjetiva da qual os
assonâncias para entrever a própria fe- melhores poetas brasileiros (de Bandeira a
licidade já. Assim, ele se concilia abso- Leminski) preferiram guardar distância,
lutamente com tudo, inclusive com a ima- melhor, assumiram sua crise. Chacal, como
gem do poeta mago, com a magia das pa- vimos, é um puro subjeti-vista, só que sua
lavras (não importa agora ser ela meta- autenticidade está em mostrar que entre
lingüística), com o heroísmo romântico Eu e Não-eu inexistem fronteiras, do que
— Leminski mente e está recalcando a ele extrai comicidade como imagem do
perda de sentido da condição moderna surrealismo empírico de nossa época.
da poesia e sua desimportância social. Dessa maneira ele consegue testemunhar
Agora ele pode se tornar um poeta feliz mais sobre o estatuto contemporâneo da
e mediocrizado. subjetividade e oferecer sugestões
Nem tudo em Leminski é alto astral incisivas ao leitor do que o poeta que se
ruim. Vejam o fim deste poema, em que faz sacerdote da voz originária, oculta nos
ele destrói seus sonhos de poeta maldito cafundós heideggeria-nos do ser e do
e/ou revolucionário: tempo.
Se existem qualidades em Alba (SP,
em vez Roswitha Kempf/Editores, 1983), estas
olha eu aqui surgem da dificuldade da autora levar à
pondo sal frente, hoje, um projeto como o seu.
nesta sopa rala Convivem neste livro coisas opostas: um
que mal vai dar para dois afã purista de reduzir o campo semântico
do poema a símbolos vigentes na lírica
Esta autocrítica nada mistificadora e clássica (vôo, rosa, sangue, pássaro, vi-
nada mistificada pela ilusão e magia fá- nho) — esta redução curiosamente se
ceis de seu verbo é o melhor Leminski, apresentando sob uma consciência permu-
o autor dos lindos o pauloleminski ca- tacional moderníssima, os poemas girando
chorro louco, apagar-me e mais meia dú- sobre si como um móbile no qual as
zia de caprichos permanentes. O outro palavras mudam de lugar e sentido. Para
não passa de uma persona cabotina de permutar seus símbolos, Orides concen-
um poeta de vanguarda manqué que pre- tra o verso, despido de melopéia, descar-
feriu entoar um acalanto metalingüístico, nado até a própria materialidade da pa-
fazendo política de boa vizinhança com lavra, empregando uma técnica de corte

DEZEMBRO DE 1986
A NOVA POESIA BRASILEIRA

e espacialização quase concretistas. Em Faces


nenhum poeta deste ano é mais escolar o neutras
sentido espacial da página do que, para- vestes
doxalmente, em Orides. Mas como nela claras
existe um pendor para o decorativo, estas asas tranqüilas
técnicas pouco contribuem para a riqueza imotas.
de sua poesia e o sentido dela, conquanto ........................
atenuem a concisão. imóvel
Acho difícil de engolir sua redução do brilha
poema a um elenco de símbolos com intensa vigília
"senso de perenidade" (Antonio Candido áurea
........................
dixit). O que existe, de fato, é uma
a
inflação de símbolos, simulando um dina-
siderante impossível
mismo que não encontra ressonância no primavera.
demasiado estático da composição. Não ........................
existe uma reflexão se fazendo, cujo mo- Doces pétalas vivas.
vimento implique tais símbolos. Quando
escreve "touro" ou "vinho", ela assume Seu turismo pelo néant acaba no triun-
confiante um valor exterior ao poema, falismo das fulgurações e das iridescên-
um valor de praxe e acadêmico, que cer- cias. Com estas panóplias ela cativa uma
tamente um poeta puro não poderia aco- platéia de raffinés com seus frissons de
lher. Sua parca e sua serpente deveriam nada fresco. O silêncio não é uma amea-
pressupor uma reflexão própria e nascer ça, um risco que o poeta corre, ele, a
de uma aventura pessoal com a poesia. Orides, não diz nada. Comparem Orides
Aqui estes símbolos valem decorativa- com uma poetisa aparentemente tão deli-
mente e, graças à sua conotação perene, cada mas tão sutil como Cecília: a cada
agem como um estímulo para suprir a verso esta rejeita a transcendência ilusó-
falta de tensão verbal e a indigência do ria das palavras, pois sonoridade já é so-
frimento, perda, separação, negação da
artefato criado. Contudo, é assim que
plenitude. Orides persegue plenitudes im-
sua poesia sela um pacto entre o arcaico petuosamente até os versos finais de seus
e o moderno: as palavras estão lá como breves poemas, e engrinalda-se delas —
num poema concretista, embora tendo e não desconfia que foram triunfalmente
trocado a autoconsciência da linguagem obtidas por força da escolha manjada dos
pela suave irracionalidade de uma fulgu- temas, graças à sugestão viciada dos clí-
ração prístina. Alba preserva o sentido maxes. Poesia pura? Mais um romantis-
lírico medieval da cantiga amorosa antes mo azedo para quem degusta a moderni-
do nascer do dia, o sol da linguagem dade poética sob fórmulas convencionais
apavora porém essa amante à antiga. e apaziguadoras.
A materialidade da palavra (suas múl- Este propósito de figurar na página um
tiplas valências, como diria Mário Fausti- desenho riscado a palavras de uma busca
no) cobra do poeta uma percepção qua- interior, em si, é um anseio legítimo em
se desumana. A palavra resiste imponen- muita poesia moderna. Cair na magia de
te ao poeta, sempre orgulhosa lhe nega o uma transcendência falsa, parece-me re-
breve encontro. Na poesia de Orides, em- sultado de uma auto-aceitação acrítica
bora seu centro seja a palavra, esta é e demasiado complacente. Este roman-
diáfana, não tem peso nem como símbolo tismo ainda existe, por exemplo, em li-
nem como conceito. Não restou à sua vros recentes como Signância Quase Céu,
poética senão eleger o adjetivo, e com- de Haroldo de Campos, no qual o precio-
preendemos porquê, como salvação face sismo vocabular escava a todo custo uma
epifania de signos, um êxtase do signi-
à desumanidade mallarmeana da poesia
ficante — o "poético". Mas quando este
pura, fazendo nele aparecer de qualquer poeta escreve versos como esses:
jeito um espacinho subjetivo para o psico-
lógico e a esperada edulcoração reden- por um minuto
tora: o poeta sai dos infernos da lingua- pleniluz,
gem de braço dado com sua Eurídice, in-
cólume e mediocrizado. Observem o co- a fulguração não é nem ilusória nem
lorido fácil da adjetivação por contraste mágica, pois há materialidade nas pala-
com a brancura tácita: vras e elas valem por si, criticando o ro-

NOVOS ESTUDOS N.º 16


mantismo do anseio (genuíno). Falar de A vida viva.
"epifania de signos" ou "erecção de sig-
nos" é assumir uma autoconsciência irô- A vida
nica da linguagem, ou seja, é denunciar quem?
o ilusionismo da representação — a ma-
gia da linguagem é falsa e o romantismo A vida
vão, mas como tais foram desejados. A em branco
transcendência surge da fabricação huma- espelho
na do verso, e só dela, reconciliando o puro:
poeta com sua própria ilusão e sua pró-
pria criação. Quando Orides escreve: ninguém
ninguém.
seda
translúcida de silêncio, As melhores virtudes de sua poesia
proviriam do intuito de conciliar leitores
é Kitsch. A poeta está impregnada de sua afeitos às dicções mais nobres do subli-
magia, humanizando ilusoriamente o si- me, seja ele qual for, com as conquistas
lêncio por meio de uma doce antropo- recentes da vanguarda, sem rupturas ou
morfização. Além do mais a associação soluções de continuidade (como assina-
sinestésica da coisa "seda" com a coisa lou o prefaciador). Assim, o tradiciona-
"silêncio" é um metaforismo surrado, lismo pode se recompor sob os disfarces
cujo fim é reunir abstrato e concreto me- de uma poesia mais contemporânea —
diante o truque da mediação psicológica este argumento, contudo, não está agora
do "translúcido". A poeta dedica-se à sua na boca do crítico que estimularia a pro-
própria magia, sem nenhuma dúvida irô- posta de Alba, assim avaliando sua fun-
nica, e fabrica a "atmosfera" por meio de ção no curso da poesia brasileira, mas
símbolos que substituem o significado in- constitui o próprio projeto estilístico da
terno ao poema pela vaga emoção exte- obra, é intencionalmente o ponto de par-
rior a ele. tida da autora. Por isso, me parece dis-
Pode-se reconhecer na aventura pes- cutível a função contemporizadora que
soal de Orides um esforço notável para esse tipo de poesia pode desempenhar,
evitar facilidades; no entanto, basta que- por mais que os inimigos da vanguarda
rermos lê-la e senti-la contemporanea- venham a descobrir em Alba os encantos
mente para que o seu romantismo, camu- diáfanos da modernidade. Nesta concilia-
flado de modernidade, se torne uma men- ção, o que se celebra é um conceito de
tira estética que simula a superação da poema sublime, amaneirado, elegante-
perene crise da poesia. Sua convenção mente afastado de qualquer marca desa-
tem em mira, isto sim, os pomos e os gregadora do real ou da subjetividade;
vinhos das Academias. O que não deixa poema que ministra homeopaticamente
de me lembrar a recomendação de Mario gotas de plenitude.
de Andrade, que passou o fim de sua Tem ocorrido ciclicamente na evolu-
vida deblaterando contra a edulcoração ção da poesia, e da literatura brasileira
do lirismo e, glosando Gide, dizia que em particular, a confrontação de sublime
bom-comportamento não dá boa poesia. e banal, pureza e impureza — este ma-
A poesia de Orides persegue os ouropéis niqueísmo não resolve. Minha simpatia
do translúcido mas, ao mesmo tempo, se dirige mais para o baixo nível da baixa
não oculta a astúcia da fatura: já que sua mimese de poetas como os quatro ante-
poesia é decorativa, ela não evita esco- riores do que para Orides, porque neles
lhos do tipo "anárquica primavera" e há busca daqueles elementos de uma ver-
vulgaridades tais que trufam seus ver- dadeira meditação, recolhida na intran-
sinhos. Observem como os cortes de qüilidade de seus corpos e de sua época,
fim de verso são péssimos (pp. 32-33, ainda possível através dos materiais os
por exemplo) mas movimentam o desin- mais degradados, mas que são estes mes-
teresse geral do poema: será deficiência mos de que dispomos.
de fatura ou o projeto do poema estufado
de sublime os exige? Sua escolada impe-
rícia a leva a destruir um belo poema, Vinícius Dantas é ensaísta, poeta, tradutor.
este, sim, um dos melhores do ano, caso
ela omitisse os seis primeiros versos: Re- Novos Estudos CEBRAP, São Paulo
n.° 16, pp. 40-53, dez. 86
flexos. Ei-lo, após a poda:

DEZEMBRO DE 1986