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Páscoa: muito açúcar e pouco


sentido?
Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos, três ovos
assim... A música fez parte da infância de muitos e ainda hoje integra o
repertório infantil nas escolas. Mas além de cantar músicas, colorir
coelhinhos e pintar o rosto das crianças, os educadores sabem que
precisam ir além, trabalhando os valores e buscando uma reflexão
profunda sobre o consumismo em comemorações, seja na Páscoa, no
Natal, no Dia das Crianças… Vale lembrar que a Páscoa é uma
comemoração religiosa e é importante pensar como as famílias, que
podem seguir várias crenças, encaram o papel da escola nessas
datas. Apesar do caráter laico da escola pública no Brasil, em respeito
a todas as religiões, também encontramos a comemoração de datas
religiosas em muitas delas.
Em casa, as famílias que celebram a Páscoa devem também ter uma visão
crítica da forma como o mercado apresenta a data. É, sem dúvida,
necessário um esforço conjunto diante do bombardeio da mídia que passa
por cima do real significado da data e incentiva intensamente a compra de
ovos de chocolate. No caso dos ovos com apelo infantil é importante
lembrar que a prática é abusiva e ilegal. Conheça a nova plataforma
do OPA – Observatório da Publicidade de Alimentos e faça a sua
denúncia.

Consciência antes do consumo


Quando um produto chega até nossas mãos, costumamos saber a marca,
o peso, os ingredientes, o valor calórico, o preço, a loja onde foi comprado.
Pode parecer que sabemos muito mas, na verdade, pouco sabemos sobre
o seu processo de produção. É preciso que o consumidor tenha uma
noção mais ampliada dos impactos pessoais, sociais e ambientais de suas
escolhas de consumo. Sabemos, por exemplo, quantos litros de água são
necessários para produzir um quilo de chocolate, ou seja, a sua pegada
hídrica? Segundo a Water FootPrint Network, são gastos 17.196 litros de
água, considerando toda a cadeia de produção. Em se tratando de ovos de
Páscoa, que têm um processo diferenciado, a quantidade de água é ainda
maior. Temos noção do volume de gases de efeito estufa emitidos em toda
a produção e no transporte dos ovos? E o tempo que os resíduos como
plástico decorado, papel alumínio, adesivo, fita e pequenos brinquedos irão
continuar existindo no ambiente após serem descartados? Quais
substâncias tóxicas ou nocivas à saúde humana e ao meio ambiente estão
em sua composição? Como é o trabalho nas fábricas e nas lojas que
vendem o produto? E o tipo de trabalho empregado nas lavouras de cacau
que existem no mundo? Conhece as marcas que usam trabalho escravo
de crianças? E a situação dos solos e as mudanças do clima que
ameaçam a produção do fruto que dá origem ao chocolate?

Outras informações como os efeitos de seu consumo para a saúde e o


endividamento gerado pela compra de ovos de Páscoa também são temas
importantes para dentro e fora da sala de aula. As lojas chegam a vender
ovos em dez parcelas no cartão de crédito. O chocolate acaba em algumas
horas e a dívida dura quase até a Páscoa do ano seguinte. E, mais ainda,
educadores e pais podem incentivar um olhar crítico sobre a publicidade
abusiva que estimula o consumo de ovos de Páscoa e de uma infinidade
de outros produtos e serviços. A publicidade é considerada abusiva
quando ela se aproveita da deficiência de experiência e julgamento da
criança, como define o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor e é
explicitado pela resolução 163 do Conanda. No caso dos ovos de Páscoa,
o uso de personagens infantis nas embalagens e a oferta de brinquedos
têm o objetivo de persuadir a criança para o consumo, o que é ilegal.
Reflexão sobre o consumo
Resgatar o sentido das datas comemorativas não é tarefa fácil. O volume
de comunicação mercadológica que reforça o consumismo domina a mídia
e as crianças são as mais impactadas. Abrir espaço para incentivar uma
reflexão crítica acerca de nossos hábitos de consumo depende de um
esforço de pais, mães, educadores e todos os interessados na relação
consumo e infância.
A professora de filosofia Débora Figueiredo, de Fortaleza, se diz
incomodada com os ovos com apelo infantil. Ela lembra que, no meses de
março ou abril, se os pais precisam ou mesmo querem levar seus filhos ao
supermercado, para fazer as compras do mês, vão se deparar com túneis
de ovos de Páscoa. São dezenas de marcas que usam personagens
infantis licenciados nas embalagens ou que oferecem “brindes” para
chamar a atenção dos pequenos. “Produtos licenciados não existem à toa.
É fato que eles mexem com o imaginário infantil. As crianças, que se
identificam muitas vezes com mais de um personagem, ficam encantadas
e deslumbradas com tantas opções. Não vai adiantar explicar que com o
preço de qualquer ovo daqueles você poderia levar umas seis barras de
chocolate. Barra de chocolate não tem o desenho preferido. Barra de
chocolate não vem com brinquedos”, lembra Débora.
O drama de quem vai ao supermercado com crianças na época que
antecede a Páscoa é ainda maior para aquelas famílias cujos filhos são
alérgicos ou têm algum tipo de intolerância alimentar. O apelo infantil está
sempre lá mas ainformação sobre alérgenos, apesar de obrigatória, nem
sempre está bem visível. “A informação está ali, mas é muito difícil de
enxergar, especialmente porque a iluminação nos corredores fica
prejudicada pelos túneis de ovos de páscoa”, explica Cecília Cury, do
Movimento Põe no Rótulo. Ela enfatiza que a relação de alérgenos tem
que estar ao alcance efetivo do consumidor, tanto na etiqueta frontal do
produto quanto nas placas que ficam penduradas nos corredores de
ovos, onde há a relação dos produtos e os respectivos preços. Ou seja,
quanto mais informação sobre os ingredientes dos produtos, melhor
para todos.

Educação crítica
Para o pedagogo Leo Nogueira, que mora em Florianópolis, “esses
chocolates artificiais são prejudiciais para a saúde e o bolso dos
consumidores. Eles beneficiam apenas as empresas e as marcas que
enchem seus cofres explorando uma celebração que perdeu totalmente
seu sentido espiritual nesse mundo de necessidades criadas pelo
mercado.” Para ele, na “compração” da “pá$coa” e na celebração das
“páscoas” (judaica e cristã), “tudo é uma confusão de interesses e ideias
que nos deixam atônitos.” Ele conta que faz tempo que aboliu o costume
dos ovos de Páscoa. “Em qualquer espaço e tempo eu celebro sempre
Feliz Paz! Só isso!,” conta Leo Nogueira.
Marialice Levy, de São Paulo, acha que o apelo infantil é prejudicial pois o
ovo e a data festiva, que têm toda a simbologia da época, acabam ficando
em segundo ou terceiro planos. “Além disso, se a criança opta pelo
personagem ou pelo “brinde” pode levar artigo de pior qualidade como
aqueles ovos feitos à base de chocolate ou sabe-se lá de quê.” Ela lembra
que a procura por personagens ou brinquedos leva, também, a um
consumo excessivo pela busca de se colecionar tais “brindes” o que
representa um incentivo ao consumismo infantil.

A educadora Regina de Assis lembra da importância de se trabalhar a


leitura crítica da Páscoa nas escolas. Os ovos são uma tradição da Páscoa
e seu simbolismo remete à fertilidade, ao renascimento e à esperança. Ela
conta que, segundo a tradição cristã, a “Páscoa representa a passagem
das trevas da morte para a luz da Ressurreição de Cristo. O ovo
representa vida e os coelhos, primeiros animais que surgem na primavera
do hemisfério norte, anunciam a vida nova”. Para ela, se os pais e os
professores souberem trabalhar esta simbologia de origem religiosa,
independente da religião, podem oferecer tudo o que valorize a Vida,
especialmente o Amor!”
Em casa e na escola é possível buscar alternativas para uma Páscoa sem
consumismo e com menos impacto ambiental. Envolva as crianças na
reflexão e priorize comprar de fabricantes artesanais, fazer em casa os
ovos ou adotar uma outra forma de presentear e celebrar. Envie sua
sugestão para contato@rebrinc.com.br.
Veja algumas sugestões de atividades para refletir sobre a Páscoa:
– Uma conversa com os alunos sobre a forma como eles gostariam de
comemorar a data na escola;
– Uma pesquisa sobre as religiões e as principais celebrações de cada
uma delas;
– Um bate-papo que ajude a pensar na geração de lixo antes de propor
uma atividade. Máscaras e enfeites de coelhinhos serão usados um dia e
depois descartados? Vamos gerar mais lixo?
– Uma decoração especial na escola utilizando material reutilizado, como
embalagens, ou usando galhos, folhas e sementes. Que tal criar uma
escultura coletiva com mensagens especiais sobre a data, usando o
mínimo de cola, tinta e fita adesiva que dificultam a reciclagem do papel
usado.
– Uma lição de casa que ajude a debater com os pais sobre a cultura do
consumo de ovos de Páscoa? Quais os benefícios e os prejuízos do
incentivo ao consumo dos ovos?
– Que tal propor a produção de um vídeo coletivo sobre as armadilhas da
publicidade na Páscoa?
– Pesquisas e debates sobre a publicidade direcionada às crianças (que é
abusiva e ilegal) e que na Páscoa torna-se ainda mais intensa.
– Que tal pensar em ações de boicote a marcas que anunciam para
crianças.
– Uma aula especial sobre educação alimentar e a busca de alimentos
mais saudáveis para ofertar na data.
– Ações solidárias para entidades assistenciais com a doação de
alimentos, material escolar, livros e material de higiene, com o cuidado
para não recolher apenas alimentos açucarados e pouco saudáveis.
– Um piquenique comunitário para celebrar a Páscoa em uma praça ou
parque perto da escola com a presença das famílias.
– Uma aula sobre como fazer uma horta e plantar cenouras e outros
alimentos saudáveis.
– Uma gincana divertida que estimule a garotada a se movimentar.
– Uma aula com chocolateiras artesanais da região e sobre a modelagem
de ovos.
– Uma mostra de desenhos ou de fotografias sobre o que é a Páscoa e
outras formas de se celebrar a data.
– Uma aula de culinária que busque fazer um bolo de cenoura ou outro
alimento nutritivo.
– Um amigo secreto com opções com pouco ou sem açúcar.
– Uma oficina de educação financeira com reflexões sobre os preços dos
ovos de Páscoa e o endividamento.
– Um debate sobre direito do consumidor e práticas abusivas.
– Um debate sobre os brinquedos que vêm dentro dos ovos e sua
utilidade.
– Uma pesquisa sobre resíduos gerados pela produção dos ovos de
Páscoa.
– Uma oficina de confecção de ovos com argila ou papel machê com
pintura e customização.
– Uma oficina de jardinagem para ver a natureza como elemento de
renovação e esperança.
– Aulas de dança e música para uma comemoração artística da Páscoa.
– Páscoa é renovação. Que tal reformar um espaço na escola e criar um
novo espaço de convivência?
– Vivenciar o período que antecede a Páscoa pode ser bem interessante
na sua escola se existir a tradição de fazer coisas novas, que vão além de
máscaras de coelhos e de troca de chocolates.
– A escola pode também refletir com as famílias sobre o ato de presentear
os educadores com os ovos de chocolate. A prática sempre cria uma
competição e um constrangimento para aquelas crianças que não levam o
chocolate para os professores.
Envie sua sugestão de atividade para completar esta lista para
contato@rebrinc.com.br.
E se você tem uma relato interessante sobre o tema para compartilhar
mande para a gente.

Jornalista: Desirée Ruas – Rebrinc


Fotos: arquivo Rebrinc e internet
3 Comments
1.
Curso de confeitaria10/05/2018
Realmente hoje em diversas comemorações há esse apelo para que o
consumidor se sinta atraído pelo produto, e na páscoa o apelo parte para o
lado das crianças, que assim como diz o artigo se interessam mais pelos
brinquedos do que pelos ovos que são o símbolo desta comemoração.
Acho que isso devia mudar.
REPLY

2.
Curso de confeitaria online25/05/2018
Ótimo artigo.
uma verdadeira realidade, hoje as indústrias atraem as crianças não mais
pelos ovos que são o símbolo desta data, mas sim pelos brindes e
surpresas que neles contém.
REPLY

3.
Claudio 22/12/2018
Realmente nesta data que é tão especial, as empresas de ovos visam mais
o lucro do que o grande significada que ela tem.
REPLY
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