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PÃO, DISCIPLINA E TRABALHO: uma proposta de educação religiosa no Brasil colonial


ANA PALMIRA BITTENCOURT SANTOS CASIMIRO
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA - UFBA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA – UESB

Esta apresentação é parte da proposta de tese que analisa a concepção pedagógica do Jesuíta
italiano Jorge Benci, em cujo livro Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos,
publicado em 1700, propõe uma pedagogia religiosa de duplo destino: orienta os senhores coloniais
e preconiza uma educação para os escravos, desdobrada em 4 categorias a partir das três
obrigações, que o senhor deve ao escravo:

O trabalho, o sustento e o castigo: e que todas três são igualmente necessárias, para que plena e
perfeitamente satisfaça ao que como senhor deve ao servo. Porque sustentar ao servo sem lhe dar
ocupação e castigo, quando o merece, é querê-lo contumaz e rebelde; e mandá-lo trabalhar e castigar,
faltando-lhe com o sustento; é coisa violenta e tirana (Benci, 1977, p. 49). E assim, nestas três palavras,
panis, disciplina, opus, se compreendem todas as obrigações, que não são poucas as que devem os
senhores aos servos. Por isso nelas fundarei os discursos desta Economia Cristã, em que pretendo instruir
aos senhores, e especialmente aos do Brasil, no modo com que devem tratar os escravos, para que façam
distinção entre eles e os jumentos. (idem, p.52).

O texto é um tratado missionário recheado com conteúdos religiosos, morais e pedagógicos,


como outros da época, na qual o autor evidencia a realidade colonial e o pensamento dos jesuítas e
da Igreja sobre a educação dos escravos. Preconiza para os senhores e para os escravizados uma
pedagogia religiosa, adaptada à situação colonial. Ademais, reafirma conceitos sapienciais que
remontam às origens da humanidade. É principalmente no Eclesiástico, como ele mesmo afirma,
que vão ser buscadas as premissas da sua essência pedagógica:
25 Para o asno forragem, chicote e carga; para o servo pão correção e trabalho. 26 Faze teu escravo
trabalhar e encontrarás descanso; deixa livre as suas mãos e ele procurará a liberdade. 27 Jugo e rédea
dobram o pescoço, e ao escravo mau torturas e interrogatório. 28 Manda-o para o trabalho, para que
não fique ocioso, porque a ociosidade ensina muitos males. 29 Emprega-o em trabalhos, como lhe
convém, e, se não obedecer, prende-o ao grilhão. (Eclo 33, 25-31).
É, pois, no Eclesiástico, cujas categorias ‘pedagógicas’ são as mesmas de Aristóteles, que o
autor vai buscar o modelo que ele considerou mais adequado para reformar a escravidão colonial:
Estas mesmas obrigações, que achou nos senhores o Eclesiástico por instinto do Espírito Santo, alcançou
Aristóteles com a luz da razão natural (...) chegando ao ponto de como se há de haver o senhor com os
servos, diz que lhes deve três coisas, que são o trabalho, o sustento e o castigo: e que todas três são
igualmente necessárias, para que plena e perfeitamente satisfaça ao que como senhor deve ao servo. Porque
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sustentar ao servo sem lhe dar ocupação e castigo, quando o merece, é querê-lo contumaz e rebelde; e
mandá-lo trabalhar e castigar, faltando-lhe com o sustento; é coisa violenta e tirana. (Benci p.52).

Jorge Benci, de acordo com as disposições tridentinas e as preocupações religiosas com a


evangelização, vai acrescentar uma quarta categoria, pois fala, também, do pão espiritual, e
concede um espaço bastante significativo à questão doutrinária. A obra foi, então, organizada em
quatro discursos, que correspondem aos quatro deveres do patrão para com seus escravos:

Discurso 1: Benci fala do Pão ou do sustento corporal, bem como das vestes e do cuidado que os
senhores deveriam ter com seus escravos nas suas enfermidades;

Discurso 2: o Pão espiritual ou da doutrina que os senhores são obrigados a ensinar. Além de
exortar o patrão a ensinar os escravos, Benci fala aos párocos, também responsáveis pela doutrina;

Discurso 3: Benci diz que os senhores devem dar o Castigo aos servos, caso mereçam; relevar
algumas faltas; não praguejar e injuriar os servos; não usar de sevícia; e o castigo não deve passar de
açoites e prisões moderadas;

Discurso 4: Benci preconiza o Trabalho como forma de educação. Fala que os senhores devem
ocupar os servos no trabalho e que estes só devem desocupar nos domingos e dias santos; que o
trabalho deve ser interpolado pelo descanso e não deve ser superior às forças do escravo.

Benci redigiu a sua obra seguindo as normas eruditas de redação vigentes, com paráfrases
dos autores referenciados, citações e notas explicativas. Pelo quadro 1, observa-se que o conjunto
pedagógico sintetizado por Benci se ampara na Sagrada Escritura, nos argumentos da Patrística,
Escolástica, clássicos greco-romanos, Direito Natural, Direito Romano, Direito Positivo, Direito
Divino, cânones da Igreja e nos comentários de alguns teólogos, seus contemporâneos. Mas, se
ampara, antes de tudo, no referencial bíblico: Na Revelação antico-testamentária, nos livros dos
Provérbios, Eclesiástico, e na Revelação Crística. Algumas referências foram abreviadas, outras,
sem datas, ou incompletas. O total das citações, está assim distribuído:

Quadro 1 - Total das Citações do Texto Benciano


Natureza das Citações
Localização Bíblicas Leis, Padres Clássicos Total
das Citações e Teólogos Greco-Romanos

Introdução 8 7 1 16
Discurso I 33 25 4 62
Discurso II 44 23 2 69
Discurso III 35 28 16 79
Discurso IV 42 25 11 78
Conclusão 8 10 4 22
Total 170 118 38 326
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O presente texto se limita a analisar, apenas as citações bíblicas mais significativas da Obra.
De acordo com a distribuição das citações, constata-se que os dois primeiros discursos, aqueles que
dizem respeito à salvação do corpo e da alma somam, juntos, 131 citações, e os dois últimos
referentes à ordem social e à produção material, somam 157. A concentração das citações neo-
testamentárias está nos dois primeiros discursos, principalmente dos Evangelhos de Mateus e João
(as quais preconizam caridade e doutrina), e a concentração de citações do Antigo Testamento, nos
dois últimos discursos (as quais regulamentam o trabalho e o castigo). Tomando estes textos como
base argumentativa, Benci condena a escravidão com base na visão humanística do Gênesis:
“Donde vemos que quando deu o supremo Senhor o domínio a Adão e Eva (p.48). (...) lho
restringiu para com os animais: Piscibus maris, et volatilibus coeli; para que entendessem que o
seu domínio não passava dos brutos, e que não se estendia aos mais homens, que deles haviam de
nascer” (p.48). Em outros parágrafos, ele explicara a existência do cativeiro ‘justo’ como
conseqüência do pecado original:
Que sendo o gênero humano livre por natureza, e senhor não sòmente de si, senão também de todas
as mais criaturas (pois todas elas as sujeitou Deus a seus pés, como diz David (p.47), chegasse
grande parte dele a cair na servidão e cativeiro, ficando uns senhores e outro servos, foi sem dúvida
um dos efeitos do pecado original de nossos primeiros pais Adão e Eva, donde se originaram todos
os nossos males (idem p.48).

Do Livro dos Provérbios, citado exatamente 16 vezes, o Missionário exemplifica com a


atitude da Perfeita Dona de Casa, ‘mulher talentosa que vale muito mais do que pérolas’, e
tomada como modelo de como se tratar os escravos coloniais, pois, as rações que repartia pelas
escravas, não as media pelo singular, senão pelo plural: Porque não lhes dava o sustento com
mão escassa, mas mui liberal; nem só lhes dava o pão, mas também o conduto. Porque como é
possível que o escravo ou escrava, andando em contínua lida e trabalho, sustente a vida com
uma ração escassa de farinha de pau? ( idem p.62). O Autor recorre, ainda, à sabedoria de
Salomão, para bem ‘domar’ os escravos, muitas vezes reduzidos à condição de ‘coisas’ e
comparados aos animais, segundo os costumes da época:
Para trazer bem domados e disciplinados os escravos é necessário que o senhor lhes não falte com o
castigo, quando eles se desmandam e fazem por onde o merecem. Diz Salomão nos seus Provérbios:
Assim como o ginete necessita da espora e o jumento do freio, para serem governados; assim os
imprudentes e maus necessitam da vara e do castigo, para que sejam morigerados como devem, e
não faltem à sua obrigação (idem p. 126).
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Apesar de todo o conhecimento que Benci tinha da pedagogia religiosa crística e das outras
fontes bíblicas, ele se ateve mais ao Antigo Testamento, deixando em plano secundário a pedagogia
de Jesus Cristo ⎯ baseada no mandamento que já contém todos os outros: ‘amar a Deus sobre
todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo’. Vez por outra, porém, Benci clama contra a
crueldade dos patrões, com base no Evangelho de Cristo, cujo modelo pedagógico viera consumar a
ordem religiosa do Antigo Testamento mas não de forma a subverter a escravidão, e sim, de forma a
torná-la mais ‘humanizada’:
Usar o senhor dos escravos como de brutos, é coisa tão indigna, que Clemente Alexandrino julgou
que não podia caber em homem de razão e de juízo — Clem. Alexand., Lib. 3, Pædag. Cap.11. E se
isto não é obra de homem racional, muito menos o pode ser de homem Cristão, a quem o mesmo
Cristo encomendou tanto o amor e caridade com o próximo.(idem p.52).
Observando-se um pouco os números, percebe-se que, das 170 citações bíblicas, 127 são do
Antigo Testamento. Os livros mais citados foram o Gênesis, 27 vezes, o Eclesiástico, 22 vezes, o
Livro dos Provérbios com 16 citações, e o Êxodo, com 14.

Quadro 2 - Citações do Antigo Testamento


Livro Introdução Discurso I Discurso II Discurso III Discurso IV Conclusão Total
Gênesis 1 8 7 8 1 2 27
Eclo. 3 4 1 7 6 1 22
Prov. 6 5 5 16
Êxodo 14 14
Salmos 1 1 6 1 9
Isaías 6 2 1 9
Jó 3 3 1 7
Deut. 1 1 3 1 6
1 Reis 2 1 3
Jeremias 1 2 3
2 Reis 2 2
Daniel 2 2
Ezequiel 1 1 2
Levítico 2 2
Paral. 2 2
Amós 1 1
TOTAL 5 24 24 30 38 6 127

É interessante notar a relação entre o diminuto número de citações do Novo Testamento e o


Livro que Benci intitulou de Economia Cristã. Em se tratando de uma tese que se intitula ‘cristã’, é
notável que, das citações diretas, somente 43 digam respeito ao Novo Testamento, contra 127 do
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Antigo Levando-se em conta apenas o valor numérico, pode-se afirmar que a obra reflete bem mais
a ordem do Antigo Testamento do que a mensagem de Cristo.

Quadro 3 - Citações do Novo Testamento


Livro Introdução Discurso I Discurso II Discurso III Discurso IV Conclusão Total
Mateus 4 5 1 10
João 1 9 1 11
Lucas 1 2 2 5
Colos. 2 2 4
1 Cor. 1 1 1 3
Tiago 1 1 2
Gálatas 1 1 2
Atos 1 1
1 Pedro 1 1
Judas 1 1
2 Cor. 1 1
Apoc. 1 1
Romanos 1 1
TOTAL 3 9 20 5 4 2 43

Diferenciou a natureza das citações bem como variaram as intenções do autor. O que
predominou na sua escolha foram, realmente, princípios fundamentais religiosos, gestados ao longo
da caminhada dos hebreus, cujas bases iniciais foram a Fé e Lei Mosaica. Em uma compreensão
histórica, pode-se dizer que, a estes princípios foram, aos poucos, incorporando-se outros,
culminados na Lei Evangélica. São princípios oriundos de livros diferentes, escritos em tempos
diferentes, impregnados com realidades e visões de mundo contextualizadas.

Princípios Fundamentais Bíblicos - Das citações de Benci, foram elencadas 46 que são
princípios retirados principalmente dos Livros Sapienciais, dos quais Benci extraiu a idéia do
trabalho e do castigo. Do Eclesiástico, por exemplo, saiu o núcleo central da tese, reforçada pela
idéia antico-testamentária de que Deus castigava com pobreza, fome, doenças, peste, secas. Os
Provérbios também trazem princípios, que ajudariam a normatizar as relações senhor-escravo. Para
Benci, os servos não deveriam ser ensinados apenas com palavras, mas com merecidos castigos.
Infelizmente, ao utilizar máximas que comparam os servos aos animais, Benci o fez em detrimento
do Evangelho de Cristo. Sem levar em conta a qualidade humanística, esses livros apresentam forte
caráter didático, na forma de máximas, exemplos e conselhos, advindos da cultura semita e
adequados para uma sociedade de classes extremamente rígida. O Livro de Isaias concorre para
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reforçar o temor colonial, quanto à ira e ao castigo divino, que Benci quer incutir nos senhores que
levam os escravos ao pecado; e os Salmos vão fornecer a moldura ideal para a imagem do homem
criado por Deus, ‘pouco menos do que um anjo’, que não deveria ser escravizado.

Do Evangelho de São Mateus, Benci defende o direito dos escravos ao alimento, fala da
caridade e das obras de misericórdia. De S. João, extrai princípios básicos do Cristianismo,
entretanto, não utiliza convenientemente a força contida nos ensinamentos daquele Apóstolo,
incompatíveis com a escravidão. Relatando o episódio do lava-pés, como um serviço que Cristo
transmite a todos, Benci poderia ter afirmado, por exemplo, não ser possível harmonizar essa
atitude de ‘lavar os pés’ do próximo, símbolo do relacionamento fraterno dos seguidores de Jesus,
com a escravidão. Ainda fundamentado no Evangelho de S. João, Benci justifica a obrigação dos
senhores e dos párocos de doutrinar os escravos, propiciar o uso dos sacramentos e de dar o bom
exemplo de vida. Para isso, ele usa o mesmo argumento empregado no Concílio de Trento, ou seja:
Cristo entregou esta tarefa de apascentar as suas ovelhas diretamente a S. Pedro:
E se me perguntam em que consiste o alimento espiritual? Digo que em três coisas, que correspondem ás três
vezes que mandou Cristo a S. Pedro que apascentasse as suas Ovelhas. Mas que três coisas são estas? 0 Concílio
Tridentino as declara, e diz que são a Doutrina Cristã, uso dos Sacramentos, e o bom exemplo da vida (m). E,
suposto que neste lugar fala o Concílio particularmente com os Párocos e Pastores de Almas, não deixa contudo
de falar também com os senhores, pois também de algum modo são Curas das almas de seus servos (p. 83).

O Evangelho de S. Lucas está presente com uma idéia fundamental do Novo Testamento, que
é a preferência de Jesus pelos pobres. Porém, Benci compreende evangelizar os pobres sobretudo
como ensinar-lhes a doutrina evangélica, segundo a prática colonial. Da Epístola aos Coríntios,
argumenta que o senhor não deveria ser injusto na distribuição do sustento aos escravos. Da mesma
Epístola, retira um fundamento básico cristão, ao advertir que o senhor que induz os servos ao
pecado, peca contra Cristo.

Exemplos Pedagógicos Bíblicos - Outra intenção de Benci, é a de fornecer exemplos de


como os senhores deveriam tratar seus escravos. Trata-se, além de uma questão de conteúdo, de
uma forma de persuasão, muito característica da linguagem barroca. E Benci é pródigo nessa
técnica, com exemplos da mais variada natureza, repetidos e redundantes. Mais uma vez, é no
Antigo Testamento, que ele vai buscar os maiores subsídios para a sua tese, com 31 exemplos
contados, ao contrário do Novo Testamento, do qual ele extrai apenas 8.
A maior parte, sobre a fé, a obediência, a desobediência, e a misericórdia de Deus — ele retira
magistralmente do Gênesis, tomando como modelo o próprio Deus: Aquele que dá o pão a Jacó;
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que castiga, mas cobre, com suas próprias, mãos a nudez de Adão e Eva; ou que castiga, mas sem
pressa, somente depois de ouvir o pecador. Outra vez, o modelo é Abraão, cuja obediência a Deus
deveria espelhar o relacionamento senhor e servo, num exemplo adequado com as intenções de
Benci de reformar os costumes da escravidão colonial. Do Êxodo, Benci retira exemplos do que não
deveria ser feito, para evitar a ira e o castigo de Deus, discorrendo sobre o tratamento dado pelos
egípcios aos cativos hebreus.

Sem dúvida, o exemplo mais contundente usado por Benci, fica por conta da conhecida
‘mulher forte’ do Livro dos Provérbios, a Perfeita Dona de Casa que ‘vale muito mais que pérolas.
Como não poderia deixar de ser, Jó, o mais perfeito modelo de paciência, é mencionado por Benci,
exatamente sobre esta sua virtude. No seu texto, Benci declara, abertamente, que se Jó foi “o
exemplar melhor da paciência, assim o foi também dos senhores” (p. 133).
Do Novo Testamento, Benci tira poucos exemplos, que seriam fundamentais para uma relação
verdadeiramente cristã, se a interpretação do texto bíblico fosse conduzida em um sentido diferente.
Entretanto, estes exemplos são usados, mais para argumentar acerca de cada discurso,
especificamente, do que para uma compreensão da mensagem cristã como um todo. Do Evangelho
de S. Mateus, Benci compara os senhores que desamparam os escravos enfermos ao centurião
romano de Cafarnaum, que, apesar de gentio, tratava da saúde do seu servo, na sua própria casa,
segundo as palavras do texto bíblico: ”Senhor o meu criado está em casa paralítico, sofrendo dores
atrozes. Jesus lhe disse: eu irei curá-lo. ( Mat. 8, 6).
Do Evangelho de S. Lucas, refere-se à narrativa de Jesus, que fala do amigo importuno que
bate tarde da noite em casa alheia e que não é atendido (Luc. 11,5), pois, à noite não se deve
perturbar o descanso da família, incluindo os servos. Para Benci os senhores deveriam permitir aos
servos o descanso noturno, nivelando-os com os outros membros da casa. O maior exemplo
escolhido pelo Jesuíta se refere à própria pedagogia de Jesus, narrada por S. Lucas nos Atos dos
Apóstolos. Argumenta Benci que
0 melhor modo de doutrinar não é com palavras, é com as obras. As obras vêem-se, as palavras
ouvem-se: e o que se ouve talvez entra por um ouvido e sai por outro, e o que se vê entra pelos olhos,
e, como não tem porta para sair, penetra até o coração. Por isso o mestre, que é mestre, mais há-de
ensinar como que faz, do que com o que diz.. Logo, se quereis que saiam bem doutrinados os
escravos, obrai primeiro o que lhes haveis de ensinar. Assim o fez o mesmo Cristo: Primeiro obrou;
e depois ensinou o que obrava,. Mais hão-de aprender os escravos em poucos, dias da vida exemplar
de seu senhor, do que podem aprender em muitos anos de doutrina. Tem muito que andar, quem
caminha para a virtude pelo caminho dos preceitos; e a poucos passos se acha no termo quem toma o
caminho pelo atalho dos exemplos (p. 106).
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Apesar do excelente exemplo do lava-pés, como um serviço que Cristo transmitiu a todos,
Benci não questionou sobre como harmonizar a escravidão com a atitude de ‘lavar os pés’ do
próximo — símbolo do relacionamento fraterno dos seguidores de Jesus— principalmente numa
obra que pretende ensinar aos senhores a economia cristã no trato dos escravos. Na verdade, no que
concerne aos exemplos oferecidos por Benci, este, que é o mais completo, o mais significativo,
pedagogia do próprio próprio Cristo — como mestre, como modelo de amor — ficou reduzido a um
aspecto circunstancial e a uma categoria pedagógica estanque.

Escravidão justificada – A interpretação do texto bíblico, sobre as desigualdades de


classes, sempre variou de acordo com cada contexto cultural. No caso da escravidão colonial, não
foi diferente. Assim, a partir de leituras diferentes e significados específicos, foram atribuídas
palavras e idéias a Deus, a Jesus, ao Espírito Santo e aos Evangelistas, sobre a escravidão.

No parágrafo inicial do seu livro Benci afirma que “Deus os abençoou e lhes disse: sêde
fecundos, multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do
céu e todos os animais que rastejam sobre a Terra “ (Gen. I, 28). Logo, ele se posicionou, como
religioso, contra a dominação do homem pelo homem, ou seja, contra a escravidão. Entretanto, no
parágrafo seguinte, justifica a escravidão, ao seu ver, surgida por causa do pecado:
0 pecado, pois, foi o que abriu as portas por onde entrou o cativeiro no mundo; porque rebelando-se
o homem contra seu Criador, se rebelaram nele e contra ele os seus mesmos apetites. Destes tiveram
sua origem as dissensões e guerras de um povo contra outro povo, de uma nação contra outra nação,
e de um Reino contra outro Reino. E porque nas batalhas, que contra si davam as gentes, se achou
que era mais humano não haver tanta efusão de sangue introduziu o direito das mesmas gentes que se
perdoasse a vida aos que não resistiam, e espontaneamente se entregavam aos vencedores; ficando
estes com o domínio e senhorio perpétuo sobre os vencidos, e os vencidos com perpétua sujeição e
obrigação de servir aos vencedores. (Benci p.49).
Justifica também, de modo especial, a escravidão africana, com um dos mais conhecidos
argumentos: a ascendência dos negros de seu pai Cam. Enquanto o pecado original justifica a
escravidão de uns povos por outros povos, a origem camita justifica especialmente a escravidão dos
negros africanos. Estas idéias retiradas do Gênesis foram utilizadas muitas vezes na ideologia
religiosa
Benci, retira outro forte argumento da Epístola aos Colossenses, ao sublimar a obediência
dos escravos ao patrão, como obediência ao próprio Cristo, e divinizar a autoridade do patrão:
“Servos, obedecei em tudo aos senhores desta vida, não quando vigiados, para agradar a homens,
mas em simplicidade de coração, no temor do Senhor (...) Em tudo o que fizerdes ponde a vossa
alma, como para o Senhor e não para homens, sabendo que o Senhor vos recompensará como a
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seus herdeiros: é Cristo o Senhor a quem servis” A citação continua o argumento anterior, já
direcionada aos senhores: “Senhores, dai aos vossos servos o justo e eqüitativo, sabendo que vós
tendes um Senhor no céu.”( Cl. 3,22). Entretanto, o autoritarismo não vem de Deus. E o ‘Senhor no
céu’ não é um parceiro do ‘senhor na terra’, como Benci faz parecer, mas trata-se de um senhor de
escravos, muitas vezes cruel. Em uma leitura bíblica, verdadeiramente cristã, patrão e escravo
deveriam ser iguais perante Deus.

Atribui idéias a Deus e acrescenta textualmente idéias que induzem a pensar que Deus
permitia o cativeiro, completando, por sua conta, o texto bíblico: “Manda Deus por meio da Igreja
aos escravos que nos domingos e dias santos vão ao templo e lá assistam ao sacrossanto sacrifício
do Corpo e sangue de Cristo”. Igualmente, significados dúbios podem levar ao entendimento de
que a escravidão foi uma instituição de Deus ou, quando menos, aprovada por Ele. Como no
Eclesiástico que diz: “Não sejas como um leão em tua casa e um covarde com teus domésticos”. O
texto bíblico eclesiástico está de acordo com a Lei Mosaica, a tradição semita, e o contexto onde e
para quem foi escrito. No seu texto Benci acrescenta: “Ao leão compara o Espírito Santo o senhor,
que sem haver nos servos culpa, só porque lhe dá na vontade, os castiga” (p.129). Mas, na verdade,
não é o Espírito Santo quem regulamentou as relações senhor e servo, nem na Antigüidade, nem no
tempo de Jorge Benci.
Ao admoestar os senhores que por qualquer motivo castigam severamente os escravos e que
não perdoam as mínimas faltas, Benci, novamente, atribui ao Espírito Santo a receita equânime de
como se deve proceder. Diz ele: “porque há-de-ser o senhor tão rigoroso, que faça caso de tudo, e
não deixe passar a mínima falta do servo, que a não castigue? Não é isto querer ser demasiado
justo, contra o que expressamente ordena o Espírito Santo?” Novamente Benci utiliza o nome do
Espírito Santo e os preceitos do Eclesiástico para normatizar as relações senhor-escravo, quando, na
verdade, o Espírito Santo nunca se pronunciou sobre o castigo dos servos.

Também no Novo Testamento, Benci atribui idéias a Cristo. Sobre a obrigação dos senhores
de catequizar os servos, ele mesmo responde que está “no poder e domínio que têm sobre eles;
porque o doutrinar aos rudes é conseqüência de quem tem neles senhorio”. Ardilosamente,
completa seu discurso com um trecho evangélico que se refere à aparição de Jesus aos discípulos,
na montanha da Galiléia, e às Suas palavras: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem
discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar
tudo quanto vos ordenei”(Mt.28,18-19). É de notar que, tanto neste texto como em todo o
Evangelho, não está dito que Jesus transmitiu poder para um homem escravizar outro homem. Nesta
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mesma passagem Benci coloca na boca do próprio Jesus qualificações discriminatórias aos negros.
Segundo suas próprias palavras;
Não se desculpam bem, torno a dizer; porque a esses mesmos brutos e boçais, e incapazes, quer Deus
que se ensine e pregue a sua doutrina. Em conseqüência do poder, que tinha sobre todas as gentes,
mandou Cristo doutriná-las a todos por meio de seus Discípulos, ‘docete omnes gentes’. A todas as
Gentes, Senhor! Entre essas gentes há gente, que mais tem de bruto , que de gente (Benci, p. 86).

A despeito das contradições encontradas no seu discurso, algumas das afirmações de Benci,
mesmo sem características revolucionárias podem ter contribuído para despertar as consciências
contra as crueldades da escravidão e podem, mesmo, ter plantado algumas sementes libertárias nos
corações coloniais. Podemos considerar como tal a própria citação inicial do Gênesis, onde está dito
que Deus criou o homem para dominar apenas sobre os animais.
Ou a afirmação de Benci de que o mau procedimento do patrão em relação aos seus
escravos é uma ofensa ao próprio Cristo. Isto levaria a um questionamento mais profundo sobre a
própria escravidão, porém, somente se houvesse coerência entre os argumentos. Infelizmente,
simultaneamente, Benci desmonta essas idéias com idéias reformistas. Sobre quando José foi
vendido por seus irmãos, Benci diz: “Porque o venderam para ser cativo, por isso o mataram”.
Esta afirmação de que o cativeiro corresponde a uma morte, levaria ao questionamento sobre o
sistema escravocrata. Entretanto, Benci utiliza essa idéia de maneira isolada no texto, desfazendo
sua eficácia.
Da mesma forma, Benci cita o texto de Gálatas, que diz: “vós todos sois filhos de Deus pela
fé em Cristo Jesus, pois todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo”. O
versículo 28, ao qual Benci se refere diz: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não
há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”. (Gl.3,28) Benci poderia ter
usado essa passagem para discutir a escravidão como uma condição incoerente com a mensagem da
Epístola. Mas não o fez. Seria, entretanto, uma semente libertária?

BIBLIOGRAFIA

FRAGOSO, Hugo (OFM). O Etnocentrismo na Primeira Evangelização do Brasil. In: Convergência. Junho, 1990, ano
XXV, número 233, pp.289-303.

BENCI, Jorge (S.J.). Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos (livro brasileiro de 1700) Estudo
preliminar de Pedro de Alcântara Figueira e Claudinei M.M. Mendes. São Paulo: Grijalbo, 1977.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional/Paulus. 1995.


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