Resumo
Este artigo pretende discutir o conceito de praça, motivado pela constatação que ele se vem
descolando cada vez mais da base material que lhe dá significado. Em outras palavras, a
palavra praça, hoje, não necessariamente evoca determinados padrões de configuração,
padrões estes que são, historicamente, origem e essência da praça, além de grandes
responsáveis por fazerem dela o que ela é: a materialização do domínio público por
excelência, lugar de trocas, de encontros, de passagem, de permanência, de significado
coletivo em diferentes níveis, de manifestações de diferentes naturezas, de exercício de
cidadania. Tomar qualquer configuração por praça pode significar suprimir da cidade
espaços preciosos que favorecem a urbanidade. Exemplos de praças e “praças” do Distrito
Federal são mostrados para ilustrara os conceitos apresentados. O objetivo é trazer
insumos à prática projetual.
“What's in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.”
Shakespeare, Romeu e Julieta
1 Introdução
Em um livro recente da editora Monsa, de Barcelona, chamado Mini Praças (Mini Plazas,
2008), há uma rotatória de tráfego elevada do chão com iluminação por baixo (figura 1a).
Há ainda uma cobertura de um edifício feita de laje impermeabilizada, na qual foram
pintados círculos concêntricos em dois tons de azul (figura 1b). Nenhum destes espaços é
praça, claro, e é cada vez mais comum depararmo-nos com certos espaços que são
chamados assim, mas que, ao fim e ao cabo, pouco ou nada possuem das características
fundamentais de uma praça. Estes espaços serão aqui denominados “praças”, com aspas.
(a) (b)
Figura 1 – (a) Obertorplatz Rotunda, Schaffhausen, Suíça. (b) Impluvium, Montreal, Canadá. Fonte:
Monsa, 2008, p.178 e 200, respectivamente.
Julieta, na cena do balcão, diz a Romeu que uma rosa, se tivesse outro nome, teria o
mesmo doce perfume. De maneira análoga, uma praça segue sendo uma praça, ainda que
tenha outro nome, ainda que não tenha nome algum. Para reconhecê-la em qualquer lugar
do mundo, para distingui-la de uma “praça”, é preciso saber muito bem quais suas
características inequívocas, insubstituíveis, aquelas que lhe dão seu significado milenar e
que permanecem apesar de variações em seu formato ou em seus elementos constitutivos.
2 A praça
Definição
Praça. S.f. 1 Lugar público cercado de edifícios; largo. (FERREIRA, 1986, p.1376)
Praça. S.f. 1 área pública não construída, dentro de uma cidade; largo, campo 2 local aberto
onde se compra e se vende; mercado, feira 4 área urbana arborizada e/ou ajardinada, freq.
com bancos, chafarizes, coreto etc., para descanso e lazer; jardim público 10 pequena
clareira aberta na mata para a construção do forno onde é fabricado o carvão vegetal
(HOUAISS e VILLAR, 2001. p.2275-2276)
Este vazio não só é evidenciado por sua proximidade com o cheio, mas é indissociável dele.
Desta forma, uma praça é, sim, um vazio, mas um vazio em meio a um cheio circundante,
não um vazio simplesmente. Um vazio no meio de um vazio circundante não é, portanto,
praça: o contraste não se estabelece.
Este cheio circundante não só evidencia o vazio, mas também o delimita. O vazio é, então,
finito e possui limites inequívocos que não são arestas: são planos, pertencem a elementos
construídos – normalmente edifícios – que são tridimensionais. Uma praça, portanto, não é
uma superfície: é um volume. Seu espaço é tridimensional. Possui comprimento, largura e
altura. Ainda que não tenha um teto que limite sua altura, ela se faz presente pela altura dos
planos limítrofes, de acordo com a percepção do indivíduo. Um vazio sem limites
tridimensionais que o configurem não tem existência tridimensional. Não é praça.
Representação
Justamente para mostrar como o cheio circundante (que é a cidade) evidencia, limita e
configura o vazio (que é a praça), plantas de cheios e vazios são recurso de representação
recorrente (ainda que limitado às 2 dimensões) na obra de autores que estudam praças.
Elas permitem ilustrar contraste, formas e dimensões em planta e, eventualmente, algum
elemento constitutivo de destaque (figura 2).
Figura 2 – Representações de praças em (a) KRIER (1981, p.42); (b) ZUCKER (1959, p.90); (c)
SITTE (1992, p.40 – edifício religioso em destaque), (d) CULLEN (1983, p.109), (e) GEHL e GEMZOE
(2002, p.88 – planta complementar representando o efetivo espaço destinado a pedestres), (f) KATO
(1993, p.50).
Destinação
A que se destina uma praça?
Voltando aos verbetes, o primeiro ponto é o da definição da praça como área pública, que
pertence e diz respeito a todos, que é acessível e está disponível a qualquer um. Esse seu
princípio mais fundamental, no entanto, não esclarece muito sobre sua destinação, e apenas
o HOUAISS a menciona: ao comparar a praça a um mercado ou feira, diz que nela se
compra e se vende, ao compará-la a um jardim público, diz que ela se presta ao descanso e
ao lazer.
LEITÃO, 2002, aliás, menciona que a confusão conceitual entre praças e jardins públicos
tem feito com que a praça se preste muito mais atividades de ócio e de lazer contemplativo
que de outra natureza (os comentários são restritos a praças do Recife, mas podem ser
expandidos às praças brasileiras de uma maneira geral). SEGAWA, apud CALDEIRA (2007,
p. 31) chega a denominar o jardim como o “antídoto da praça” e mencionar que a função
jardim restringe o espaço livre característico da praça.
Já no século XV, as Leyes de Índias preconizavam que as praças seriam elementos centrais
na cidade, que suas dimensões deveriam ser proporcionais ao número de habitantes da
urbe e adequadas às atividades que nela se pudessem desenvolver: festas pátrias,
manobras militares, comemorações religiosas. Determinava ainda que nelas ficassem
edifícios públicos e igrejas. Nas cidades criadas pela matriz espanhola, o ócio dos
habitantes não estava entre as funções da praça: era previsto um terreno entre a cidade e a
área agrícola para isso (MORRIS,1998, p.378).
KATO (1993, p. 6) relaciona a praça ao que acredita serem os principais papéis urbanos:
além do comercial, o municipal e o religioso. Todos os estudiosos sobre praças mencionam
repetidamente ágora e fórum como exemplos do seu caráter cívico. A ágora, praça principal
das antigas cidades gregas, era o local onde o povo realizava suas assembléias, onde o
mercado se instalava e era ainda um centro religioso (HOUAISS e VILLAR, 2001, p.118). O
fórum, praça pública dos romanos, destinava-se a reunião e debates (HOUAISS e VILLAR,
2001. p.1379).
SITTE (1992, p. 17) comenta que “nas cidades antigas, as praças principais eram uma
necessidade vital de primeira grandeza, na medida em que ali tinha lugar uma grande parte
da vida pública” (grifo nosso). Para ZUCKER, (1959, p.1) a praça é o coração da cidade, o
elemento que faz de uma comunidade uma comunidade, e não apenas um agregado de
indivíduos. Independente de tamanho ou escala, ela tem uma função física e psicológica
própria: ela cria um lugar de encontro para as pessoas, humanizando-as pelo contato
mútuo. LEITÃO (2002, p.21) diz que praças são “unidades urbanísticas fundamentais”, e
chegam a ser imprescindíveis na cidade, pelo papel que desempenham na vida social de
seus habitantes.
Configuração, localização
Para garantir o senso de comunidade, uma praça deve estar localizada de forma a permitir
que diferentes pessoas a utilizem. Assim, deve estar em um lugar acessível da cidade,
mesmo que diga respeito a uma vizinhança mais imediata. Uma praça localizada em um
local segregado acaba por ser utilizada apenas por um grupo restrito e recorrente de
pessoas (se tanto!), o que faz com que a simples presença de uma pessoa “estranha” gere
insegurança ou desconfiança, o que dificulta contato e interação.
Suas dimensões devem ser conformes com as atividades que nela se pretende
desenvolver, e proporcionais ao número de usuários (habitantes e visitantes). Praças
grandes demais para o número de pessoas que a utiliza tendem a ficar vazias na maioria
das vezes, o que prejudica o contato visual e interpessoal. Dificilmente por outra razão é que
praças criadas para eventos grandiosos apenas nestas ocasiões tenham sua capacidade
máxima ocupada (e não raro extrapolada). O Zócalo, na Cidade do México, seria um bom
exemplo.
Necessita ser permeável. Seus limites não podem ser barreiras físicas ou visuais: devem
possuir portas e janelas voltadas para ela. Eles devem delimitar e configurar sem isolar,
devem permitir o entrar, o sair, o passar através, o ver e ser visto, o encontrar. Uma praça
não pode ser um lugar composto de espaços cegos (aqueles para os quais nenhuma porta
se abre), sob pena de vir a ser inútil.
Uma praça que pretende cumprir com sua destinação na cidade deve apresentar
configuração compatível com várias possibilidades de uso, ainda que ênfase maior
possa vir a ser dada a este ou aquele uso específico (comercial, religioso, cívico, cotidiano).
Uma praça configurada para atender a um uso exclusivo tende a ser subutilizada, ou mesmo
inutilizada, em todo o restante do tempo em que este uso não ocorrer.
Para finalizar, número de praças em uma cidade deve ser proporcional ao seu número de
usuários. Quando há grande oferta de praças, especialmente quando estão próximas umas
das outras, há a tendência de dispersão das pessoas ao invés de sua concentração. Isso
esvazia as praças e desfavorece o convívio.
Algumas praças
A título de ilustração, são apresentadas praças dos diferentes tipos de organização espacial
encontrados em partes do Distrito Federal, para que se possa observar como são
depreensíveis por suas características inequívocas, ainda que enfraquecidas por
determinado desenho ou transformadas por alguma peculiaridade (figura 3).
São representadas aqui por fotos, cortes (onde a área efetiva da praça está representada
em magenta) e plantas de cheios e vazios, estando os últimos na mesma escala, para
favorecer a comparação. Suas localizações são indicadas por meio de um mapa axial. O
mapa axial, explicado brevemente, é feito a partir da geometria da cidade, que finda por ser
simplificada em linhas que correspondem aos eixos de circulação, normalmente da rede de
veículos automotores. É possível calcular a relação topológica entre estas linhas e, a partir
daí, extrair-se uma série de informações, dentre as quais a medida de integração, que diz
quão acessível é uma linha, considerando-se todas as linhas do sistema. Assim é
denominada, tradicionalmente, na Teoria da Sintaxe Espacial, a acessibilidade topológica de
uma linha ante o sistema inteiro, que significa por quantas linhas é preciso minimamente
passar para se chegar de uma certa linha a outra, ou conjunto de outras. Quanto mais
integrada uma linha, mais quente é sua cor.
4 2
Figura 3 – Localização das praças no DF. 1 – Praça Coronel Salviano Monteiro, Planaltina; 2 – Praça
Nelson Corso, Vila Planalto; 3 – Praça do Relógio, Taguatinga e 4 – Praça do Buriti, Plano Piloto.
Praça Coronel Salviano Monteiro, Planaltina (vernáculo) – Depreendida por contraste, a
praça se encontra no setor mais antigo e tradicional da cidade, sendo referência para sua
população. Localiza-se em uma área relativamente integrada (cor quente – amarela), no
prolongamento de um dos principais eixos que dão acesso à cidade. Seus limites
tridimensionais são inequívocos e possuem portas para seu espaço (figura 4).
(a) (b)
(c) (d)
(e)
0 10 50 100
Figura 4 - Praça Coronel Salviano Monteiro, Planaltina. (a) mapa axial da cidade com destaque para
a localização da praça; (b) vista aérea, fonte: Google Earth; (c) planta de cheios e vazios; (d) planta
de cheios de vazios com representação do sistema viário; (e) corte a-a. Acima, aspecto geral.
Praça Nelson Corso, Vila Planalto (modernismo pioneiro) – Originada de um
acampamento de trabalhadores, a Vila Planalto tem na praça Nelson Corso uma de suas
principais referências e um local de intenso convívio. Próxima a um campo de futebol, é
depreendida por contraste entre cheios e vazios. É bem delimitada pelos planos verticais,
que possuem portas voltadas para seu interior (figura 5).
(a) (b)
a
a
(c) (b)
(e)
0 10 50 100
Figura 5 - Praça Nelson Corso, Vila Planalto. (a) mapa axial do bairro com destaque para a
localização da praça; (b) vista aérea, fonte: Google Earth; (c) planta de cheios e vazios; (d) planta de
cheios de vazios com representação do sistema viário; (e) corte a-a. Acima, aspecto geral.
Praça do Relógio, Taguatinga (modernismo periférico) – Principal praça desta cidade
satélite, é facilmente depreensível por contraste e possui limites verticais inequívocos, com
portas voltadas para seu espaço. Está localizada em um eixo integrado (de cor quente) e é
intensamente utilizada (figura 6).
(a) (b)
(c) (d)
Figura 6 – Praça do Relógio, Taguatinga. (a) mapa axial parcial do DF, com destaque para a
localização da praça; (b) vista aérea, fonte: Google Earth; (c) planta de cheios e vazios; (d) planta de
cheios de vazios com representação do sistema viário; (e) corte a-a. Acima, aspecto geral.
Praça do Buriti, Plano Piloto (modernismo) – A praça do Buriti representa a sede do
governo distrital. Ainda que pelos cheios e vazios seja difícil dizer exatamente onde se
localiza a praça (o espaço é demasiado generoso e é baixo o contraste ente cheio e vazio,
com vantagem para o último), os edifícios que a limitam, a sul e a norte, auxiliam a criar os
planos verticais necessários para que a terceira dimensão se estabeleça. Os edifícios abrem
para o espaço da praça, mas infelizmente não há uma única passagem de pedestres, em
nenhum dos lados, que favoreça a travessia. O intenso fluxo de pedestres que ocorre em
horário comercial, de um lado ao outro se dá por outro local (em azul), o que faz com que
ela esteja sempre vazia (figura 7).
(a) (b)
a
a
(c) (d)
Figura 7 – Praça do Buriti, Plano Piloto. (a) mapa axial do Plano Piloto com destaque para a
localização da praça; (b) vista aérea, fonte: Google Earth; (c) planta de cheios e vazios; (d) planta de
cheios de vazios com representação do sistema viário; (e) corte a-a. Acima, aspecto geral.
3 A “praça”
Definição
As praças foram, durante muito tempo, espaços fechados por um entorno contínuo e somente
a partir do final do séc. XIX, com a progressiva abertura de seu pano de fundo, o termo muda
de significado, confundindo-se com os de largo, descampado ou clareira. O termo perdeu seu
significado único, “praça” agora é uma palavra de espectro amplo, que se utiliza para indicar
lugares e intenções de projeto heterogêneos.
(FAVOLE, apud ROBBA e MACEDO, 2001, p. 144)
A citação auxilia a definição de “praça”. O autor comenta que o termo praça começou a
confundir-se com significados de outros espaços para, em seguida, perder seu significado
único. Com isso, hoje ele é utilizado para indicar “lugares heterogêneos” ou mesmo lugar
nenhum: “intenções de projetos” não têm existência material.
Acredita-se, no entanto, que o termo não perdeu seu significado único: ele vem
simplesmente sendo usado indevidamente. Ainda que seu “pano de fundo” tenha deixado de
ser tão compacto, suas dimensões se tenham ampliado, novas funções a ela tenham sido
agregadas, uma praça continua sendo uma praça: não é avenida, não é beco, não é
descampado, não é jardim, não é rotatória, não é cobertura de edifício. Isso constatado,
uma importante ação em favor da retomada do real significado da palavra praça seria
reafirmar suas características fundamentais (o que se buscou fazer anteriormente) e
denominar de outra forma um espaço que, delas, pouco ou nada possui.
Uma “praça” não é evidenciada por contraste, pois costuma ser um vazio em meio a um
vazio circundante. Dessa forma, seus limites são simplesmente arestas, e não planos. Ela
não tem existência tridimensional, apenas bidimensional. Provavelmente por isso, para que
haja alguma variável tridimensional não raro se encontram taludes Uma “praça” se
assemelha bastante a uma superfície com objetos em cima, normalmente em um local
segregado, pouco acessível, composta por espaços cegos. Isso porque uma “praça” não
raro possui internamente elementos que funcionam como barreiras
Representação
A representação das “praças” não se costuma dar por plantas de cheios e vazios pelo
simples fato que elas não são suficientes para evidenciá-las. No livro Praças Brasileiras
(ROBBA e MACEDO, 2001), há tanto praças quanto “praças”, e a representação de todas
elas praticamente não contempla os cheios circundantes, a não ser quando a relação entre
eles e a praça é mais direta, como se dela eles fizessem parte. O que ocorre do outro lado
da rua não aparece em planta, ainda que compareça em algumas fotografias. Um bom
exemplo é o da Praça da Sé, em São Paulo, na qual estão representados a Sé, o Palácio da
Justiça e outros edifícios que estão inseridos em seu perímetro, mas não outros edifícios
que a delimitam (figura 8). Esta representação da praça pode ser considerada sintomática:
ao se colocar praças e “praças” num mesmo compêndio, é necessário encontrar elementos
comuns para realizar a representação. Fundamenta-se, então, na explicitação mais
detalhada de seus elementos componentes – desenho de piso, mobiliário, monumentos,
pequenas construções.
(a) (b)
Figura 8 – (a) Representação da Praça da Sé. (b) Foto aérea da praça. Observar os edifícios
circundantes que não constam na representação anterior. Fonte: ROBBA e MACEDO, 2001, p.130 e
131, respectivamente.
Destinação, localização
A que se destina uma “praça”? Uma “praça”, sendo um vazio em meio a um vazio, não
estando em meio a um cheio de onde saem as pessoas, encontra-se segregada no tecido
urbano. Assim, finda por ser, freqüentemente, um destino final. À “praça” se costuma ir com
o objetivo de conhecê-la e, uma vez conhecida, raramente se volta lá em ocasiões
subseqüentes. É um espaço que, em grande medida, guarda apenas um caráter simbólico e
que se apresenta como uma espécie de enfeite, algo supérfluo, uma curiosidade na cidade.
Uma “praça” não é nem imprescindível nem necessária. Não é por outra coisa que tem
associada a si exclusiva ou predominantemente a função contemplativa (ROBBA e
MACEDO, 2001, na ficha técnica de várias “praças” que comparecem em seu compêndio,
assim o colocam): ela é feita para que seus elementos componentes sejam apreciados.
Configuração
O fato de estar segregada não raro faz com que a “praça” seja criada tendo algum mote
(eventos, personagens etc.) para seu desenho normalmente esmerado. Ela é quase um
cenário, ou um cenário, efetivamente. Há preocupação com tratamento de piso, com
mobiliário, com elementos escultóricos, e a vegetação costuma ser escolhida mais por seu
caráter ornamental que por suas características bioclimáticas. Isso se deve ao fato da
“praça” necessitar ser atraente o suficiente para que se justifique o deslocamento até ela.
É muito freqüente possuir barreiras – escadarias, taludes, muros, diferentes níveis em pisos
elevados e rebaixados, extensos espelhos d´água. Pode-se especular sobre a necessidade
da manipulação do espaço da “praça” pela colocação de barreiras como uma forma de lhe
conferir tridimensionalidade – a tridimensionalidade que lhe falta por não ser uma praça.
Sendo um pedaço de um vazio maior, uma praça normalmente possui grandes dimensões.
O fato de estar sempre vazia e a falta de planos verticais limítrofes potencializa esta
sensação de que é ampla demais.
Algumas “praças”
São apresentadas agora “praças” presentes no Distrito Federal, que comparecem no livro
Praças Brasileiras (ROBBA e MACEDO, 2001) (figura 9). Em todas elas, observam-se
grandes dimensões, a falta de contraste com o entorno, a falta de planos verticais como
limites e de aberturas para seu espaço. Possuem em seu desenho barreiras, desníveis e
espelhos d’água. Não estão em rota de passagem de pessoas, encontrando-se portanto,
freqüentemente vazias. Nota-se, em todas, a preocupação com desenho de piso e
colocação de elementos escultóricos. À parte da praça do Setor Militar Urbano, cuja
manutenção fica a cargo do Exército, todas as demais encontram-se deterioradas, com seus
espelhos d’água desativados.
Figura 9 – Localização das “praças” no DF. 1 – Praça Portugal, Plano Piloto; 2 – Praça Duque de
Caxias, Plano Piloto e 3 – Praça Santos Dumont, Aeroporto.
“Praça” Portugal – localiza-se na porção sul da Esplanada dos Ministérios, atrás da rua
dos anexos, próxima a um eixo pouco integrado (figura 10).
(a) (b)
(c) (d)
(e)
0 10 50 100 200
(f)
Figura 10 – “Praça” Portugal, Plano Piloto. (a) mapa axial do Plano Piloto com destaque para a
localização da praça; (b) vista aérea, fonte: Google Earth; (c) planta de cheios e vazios; (d) planta de
cheios de vazios com representação do sistema viário; (e) corte a-a; (f) representação da praça em
RoBBA e MACEDO, 2001, p. 218. Na foto, detalhe de escultura localizada sobre espelho d’água
desativado.
“Praça” Duque de Caxias – projeto de Burle Marx, localiza-se no Setor Militar Urbano,
próxima a um eixo relativamente bem integrado (figura 11).
(a) (b)
(c) (d)
(e)
(f)
0 10 50 100 200
Figura 11 - Praça Duque de Caxias, Plano Piloto. (a) mapa axial do Plano Piloto com destaque para a
localização da praça; (b) vista aérea, fonte: Google Earth; (c) planta de cheios e vazios; (d) planta de
cheios de vazios com representação do sistema viário; (e) representação da praça em ROBBA e
MACEDO, 2001, p. 120; (f) corte a-a. Na foto pequena, detalhe do espelho d’água com escultura de
Burle Marx. Acima, aspecto geral.
(a) (b)
(c) (d)
(e)
Figura 12 – Praça Santos Dumont, Plano Piloto. (a) mapa axial da cidade com destaque para a
localização da praça; (b) vista aérea, fonte: Google Earth; (c) planta de cheios e vazios; (d) planta de
cheios de vazios com representação do sistema viário; (e) representação da praça em ROBBA e
MACEDO, 2001, p.217. Na foto pequena, detalhe do busto de Santos Dumont. Acima, aspecto geral.
4 Comentários finais
Descolar a palavra praça do que é uma praça, verdadeiramente, nada mais é do que um
sintoma do descolamento prévio da praça com o seu sentido primeiro – lugar do qual se
serve a população. A praça, ao deixar de ser vista como uma necessidade da sociedade,
perde a razão de sua existência. O local onde “concentrava-se o movimento, tinham lugar as
festas públicas, organizavam-se as exibições, empreendiam-se as cerimônias oficiais,
anunciavam-se as leis, e se realizava todo tipo de eventos semelhantes” (SITTE, 1992, p.
25), ao não precisar servir a ninguém, poderia ser, então, qualquer coisa, estar em qualquer
lugar.
Talvez a conseqüência mais perversa da aceitação das “praças” como praças seja a que faz
com que praças legítimas passem a ser criadas como “praças”. São criadas como cenários,
sendo voltadas para si mesmas, ignorando (como nas representações) os limites que são a
própria viabilização da sua existência. Ao não relacionar-se com eles, abrem mão do papel
fundamental que desempenham na cidade.
5 Referências Bibliográficas
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