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A Lógica da Poesia

Raul de Souza Püschel

A LÓGICA DA POESIA

Prof. Dr. Raul de Souza Püschel


Doutor em Comunicação e Semiótica e Professor de Língua Portuguesa, Redação e
Literaturas do Brasil e de Portugal no CEFET-SP

Neste ensaio, será mostrado de que modo a poesia segue as leis da analogia,
como princípio organizador. Assim, a postura do poeta, bem como sua forma
de pensar, baseiam-se nas simetrias. Complementa-na, de modo antitético,
as assimetrias provocadas pela busca das inovações, das singularizações.
Todavia, o estranhamento é um procedimento, não uma forma organizadora de
base de sustenção lógica. Ou seja, o poeta pensa por analogias, mas buscando
paradoxalmente certas diferenciações.

POESIA E ANALOGIA possui o prefixo ex (= fora de) e o


radical plicare (= pregar). Um casaco
Não sou o primeiro a dizer que abandonado de qualquer modo em cima
a natureza da poesia se reveste de de uma cadeira, um tanto amassado,
uma lógica diversa da existente na por exemplo, possui uma série de
prosa, principalmente se pensarmos dobras que devem ser desfeitas se
no que ocorre com o pensamento quisermos usá-lo novamente assim
teórico que tende para um pólo que a temperatura decai. O casaco
completamente oposto. possui sua ordenação e sua inteireza
A dissertação trabalha com que o ajustam ao uso, portanto.
uma espécie de linearidade, já que Do mesmo modo, o texto teórico
desdobra todas as conseqüências precisa se desenvolver em torno
possíveis de sua argumentação. do eixo desejado. Por isso, se vale
Não é possível apenas afirmar algo, em geral da função referencial e
é necessário prová-lo integralmente. da metalingüística. A exceção fica
Alguém pode dizer que “o sol é por conta da prosa ensaística que
quadrado” ou que “o Guapira é p e n d e p a r a o e s té tic o , c o mo c e r t o s
o campeão mundial de futebol”. textos escrituráveis à Barthes, em
Entretanto, todos sabemos que tais que a metalinguagem proposta adere
asserções são falsas. Ou seja, o autor isomorficamente ao objeto analisado,
de tais expressões terá que arranjar tornando-se um tanto poética.
argumentos e dados que, no entanto, A prosa de ficção, por sua vez,
se mostrarão frágeis e inconsistentes. tem a possibilidade de inventar
Qualquer um o derrubará, da mesma c e ná r ios, se qüê nc ia s e pe r sona gen s
maneira como se derruba um castelo que transcendem as limitações do
de areia. mundo real com sua concretude.
Assim, por mais complexo que Todavia, se comparados com a poesia,
seja um pensamento teórico, em última até mesmo o romance, o conto, a
instância ele terá um encadeamento, novela, etc., obrigam-se a um certo
suas explicações mostrarão cada encadeamento, a um desenvolvimento.
uma de suas pregas. Aliás, é sempre De fato, obedecem a injunções muito
bom lembrar que etimologicamente a menos severas que as impostas aos
palavra explicar (do latim explicare) textos dissertativos e argumentativos,

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mas de qualquer modo a limitação é Cinco, seis, sete certeiros gols no


muito mais clara do que a existente grogue goleiro do espanto espantalho
na poesia lírica, a mais analógica adversário”. Aqui o importante não
de todas as obras escritas. Aliás, foi informar, mas selecionar palavras
deve-se em um pequeno parêntese que de alguma forma ricocheteassem
aproximar a natureza da epopéia seus sons e sentidos umas nas outras.
das narrativas em prosa, sob alguns Isto é, a frase — aliás muito parcial
ângulos, excetuando-se, é claro, — segue uma orientação analógica.
aqueles em que os efeitos da analogia Quem tenta ser criativo com maior
se mostrarem. ou menor felicidade expressiva
A poesia, diferentemente da escolhe em seu dicionário mental as
prosa, trabalha com frases mais livres palavras que devem ser agrupadas
e soltas, como se muitas vezes seu para criarem efeitos, e não meras
processo de criação derivasse de significações objetivas.
algumas células, ou seja, de versos
que serviriam como ponto de partida,
e não como oração principal que UMA FORMA DE PROCEDER E
estaria a exigir uma complementação. DE PENSAR
Não por acaso, insistentemente, Décio
Pignatari (1991, p. 45-58) afirmou que O que acontece é que a poeticidade
a prosa era mais hipotática, enquanto exige outra postura de pensamento.
que a poesia mais paratática. Trocando Na prática, isso quer dizer que não faz
em miúdos, a poesia, e principalmente um bom poema quem busca conceber
a lírica, trabalha com frases que não um texto de tal ordem que tente se
seguem uma lógica digital (palavra ajustar ao tom muito “explicadinho”.
derivada do latim digitus = dedo). O poeta trabalha com algo mais
Se pensarmos na já célebre cortante, com menos vínculos a uma
formulação de Jakobson sobre a sintaxe definida. Mesmo um poema
função poética, veremos que ela conceitual, como alguns de Camões
corresponde à sobreposição do eixo ou outros dos chamados “metafísicos”
paradigmático ao sintagmático. Isto é, ingleses, é trabalhado para criar
a linguagem tem dois eixos, o da analogias. Quando elas não ocorrem
combinação e o da seleção. Pelo da no ritmo (vide métrica etc.), podem
combinação, juntamos palavras num ocorrer sob outros efeitos sonoros
e n c a d e a m e n t o l i n e a r. P o r e x e m p l o : (vide aliterações, rimas, assonâncias,
O Santos foi bicampeão mundial. p a r o n omá s ia s , a n a g r a ma s , e tc . ) , o u
Tal frase é bastante simples e trivial. podem acontecer sob o império das
A preocupação é mais referencial. transferências semânticas semoventes
A informação prevalece. A palavra (pensem agora nas comparações ou
o juntou-se à palavra Santos que foi nas metáforas).
seguida pelas demais. Não se pensou O último caso merece uma
em tirar partida de jogos sonoros consideração adicional reveladora.
e expressivos. O importante não Metáforas são transportes,
foi a criatividade lingüística. Uma etimologicamente falando.
palavra acompanha a outra, tal como Elas apr oximam sentidos distantes .
num encadeamento, dedo a dedo. Na sua recepção, tal como o diz
Há apenas, então, um arranjo sintático. Umberto Eco (1991), provocam um
No entanto, algo diferente ocorre curto-circuito neuronal. Ou seja,
em “O Santos sempre sambava bola sob elas nos obrigam a reformular nosso
o céu, sobre o sopro do silêncio da serra. pensamento, desmobilizando arranjos

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lingüísticos previsíveis. O seu sentido e decifrar condiz com as formas de


é buscado com um saber saboroso, a t u a r. H á u m a c o n f o r m i d a d e e n t r e
valendo-se do jogo etimológico sentir, agir e pensar, sob um ângulo
celebrizado por Barthes (1980). profissional. Habitamos um hábito,
Quando José de Alencar (1978, tal como se nossa moradia no mundo
p. 14) diz que seria “Iracema, a fosse a nossa roupa-profissão.
virgem dos lábios de mel”, temos Em conseqüência disso, ser
o deslocamento de certos traços um mecânico de automóvel depende
semânticos. Iracema é tão bela que também de uma postura adequada,
seus lábios têm o gosto do mel e que pressupõe a leitura correta de
devem ser saboreados. Seus lábios ignições, carburadores, embreagens,
não são somente vermelhos e carnudos. e t c . Te m - s e q u e v i v e r r o d e a d o p o r
Possuem algo ainda mais forte, ou mecanismos, respeitando o automóvel
seja, os traços sinestésicos do paladar. não como peças, mas como uma
Por isso, o que temos nessa unidade capaz de sentir os espaços,
narrativa é uma prosa poética, pois a vencendo-os como ruas e esquinas.
similaridade estrutura todo o romance Te m d e s e r e s p e i t a r a n a t u r e z a
e o eixo da seleção (o da substituição do carro.
de palavras escolhidas para criar Ta m b é m a p o e s i a e x i g e u m a
efeitos estéticos) sobrepõe-se ao da forma peculiar de percepção. O sujeito
c o m b i n a ç ã o . Tr o c a n d o e m m i ú d o s , pode ser até simultaneamente um
o lirismo que escolhe palavra por poeta e outra coisa, como Fernando
palavra avança sobre o enredo. Quem P e s s o a , q u e f o i c o n t a d o r. O u u m
procura história em Iracema pode vice-presidente de uma companhia
ficar decepcionado. No entanto, quem de se gur os, c omo Wa lla c e Ste ve n s ,
sabe ler a matriz Iracema, tal como ou um médico, como William Carlos
foi ela concebida, delicia-se e perde Williams, ou um diplomata como João
tempo (no sentido mais positivo do Cabral de Melo Neto, ou um juiz como
termo) com cada charada semântica. Régis Bonvicino. No entanto, na hora
E descobre na atraente personagem de fazer um poema, esses escritores
a sedução da fertilidade. Iracema se despojam de outras práticas e
é exuberante (ex: para fora; úbere: pensam em conformidade com o fazer
fértil). Essa bela mulher atrai de tal e proceder poético.
modo que há em sua natureza um certo Qualquer pessoa pode fazer
chamamento, pleno de sensualidade poesia. Não é o caso de dizer se ela é
e de fertilidade. Assim, Iracema boa ou má, inicialmente. No entanto,
é também anagrama de América. para fazê-la é necessário pensar como
Ou seja, ela é a mãe de uma raça. poeta e guiar-se primeiramente por
A genitora do primeiro cearense, pois procedimentos analógicos, que tentam
Moacir (etimologicamente, o filho da aproximar tudo o que é diverso.
dor) é a junção feliz e miscigenada do Harmoniza-se, faz-se um concerto,
europeu Martim com a índia Iracema. por meio de sons, ritmos, símiles,
A narrativa se constrói com chaves etc. Ao se buscar analogias, deve-se,
de comparações. Ao final, a alegoria todavia, persegui-la mas sob a ótica
revela-se no anagrama, estrutura que é da diferença. Ou seja, do igual
perseguida por poetas e matemáticos, diferente 1 .Para não se dizer sempre
assim como os étimos são buscados o mesmo, o poeta apercebe-se do que
por poetas e filósofos. Isto porque
1 Décio Pignatari (1991, p. 17) afirma que “em poesia, você observa
o estar no mundo, as maneiras de se a projeção de uma analogica sobre a lógica da linguagem, a projeção
preocupar (pré-ocupar) e de operar de uma ‘gramática’ analógica sobre a gramática logica.

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é novo, daquilo que é inventividade. lágrimas e salinidade do mar como


D o e u re k a , é i s t o ! D e s c o b r i a l g o elementos da mesma equação na
novo. Eis Pasárgada! história das conquistas portuguesas.
E é por isso que não é possível Diz-se em seguida: “Por te
fazer leitura dinâmica de poesia. cruzarmos, quantas mães choraram, /
Ela procura o estranhamento, de acordo quantos filhos em vão resaram! /
com Chklovski (1973, p. 39-56). Quantas noivas ficaram por casar /
A poesia resiste a uma leitura mais Para que fosses nosso, ó mar!”.
encadeada. O verso verte pela página e Depois de se indicar a finalidade
é governado por uma força centrípeta, em “Por te cruzarmos”, seguem
não por uma força centrífuga. afirmações sucessivas que se repetem
Veja o que acontece neste poema coordenativamente através de uma
de Fernando Pessoa. Observamos, estrutura simétrica: o intensificador
a n t e s d e transcrevê-lo que a g r a f ia quantos (as) + substantivo no
é arcaica (português, rezaram, quer, plural + verbo ou locução verbal,
abismo e nele estão escritos da acompanhado ou não de elemento de
seguinte forma, respectivamente: caráter adverbial + exclamação.
portuguez, resaram, quere, abysmo e Assim, a repetição marca o
nelle — sic). Portanto, não se assuste: ritmo e também mostra o esforço
coletivo. As mães carpem saudades,
os filhos rezam pelos pais que partem
MAR PORTUGUEZ e as noivas aguardam o retorno dos
marinheiros. A estrofe é encerrada com
Ó mar salgado, quanto do teu sal duas duplicações. A primeira repete
São lágrimas de Portugal! o nexo sintático de finalidade, agora
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, com o usual para que, que retoma
Quantos filhos em vão resaram! o teleológico “por te cruzarmos”.
Quantas noivas ficaram por casar As duas orações finais emolduram as
Para que fosses nosso, ó mar! estruturas que se repetem pelo esforço
de cada segmento do povo português.
Valeu a pena? Tudo vale a pena Ou seja, as orações com a palavra
Se a alma não é pequena. quanto, três vezes usada, aparecem
Quem quere passar além do Bojador cercadas. Inicialmente indicando o
Tem que passar além da dor. desejo de ir além (“Por te cruzarmos”),
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, ao final mostrando algo já consolidado
Mas nelle é que espelhou o céu. (“Para que fosses nosso”). O termo
nosso encapsula de modo conciso o já
referido esforço de cada grupo (mães,
No poema, há uma personificação filhos, noivas). Ao cabo, por sua
do mar, que é invocado logo no início vez, o vocativo que abrira a estrofe é
(“Ó mar salgado”). Em seguida, é repetido (“ó mar!”). Vê-se, então, que
feita uma afirmação em tom emotivo: todo a estrofe é concebida por certas
“quanto do teu sal/São lágrimas formas de simetrias estruturais ou por
de Portugal!”. Já aqui, governado concepções de semelhanças. Todavia,
por uma função analógica, há a o igual é sempre um igual diferente.
r i m a e x t erna sal-Portugal, além do Fica claro isso, quando se percebe que
jogo especular lágrimas-Portugal. a segunda oração final diz algo que
Como eixo de orientação, tem-se não é o mesmo da primeira. Ou seja,
o sofrimento, elemento que adensa a poesia trabalha por analogias, só
semanticamente o poema, ligando que a criação exige que algo difira.

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A segunda estrofe traz o dístico (realizar) o que foi inicialmente


já hoje célebre. O tom é proverbial: concebido somente no plano da
( “ Va l e u a p e n a ? Tu d o v a l e a p e n a / imaginação. Pode-se até, como o fez
Se a alma não é pequena”). Por ele o prefeito carioca Pereira Passos,
temos outro elemento escolhido pela obrigar os moradores da antiga capital
mente que pensa analogicamente: federal a higienizarem suas casas
a palavra pequena contém em si a construindo estranhas portas pequenas
palavra pena. A densidade dá-se pelo (ou seja janelas, eis o étimo! Sic) em
estilo pergunta-resposta, de modo suas moradias. Aquilo que parece
aforismático. É um saber que uma óbvio para nós hoje foi um construto
cultura tece e constitui, tece enquanto humano. É certo que janelas não eram
descobridora de rotas alternativas nem de longe novidades, entretanto
para a Índia e para a América. as pessoas conseguiam projetar
Segue o poema com a expressão casas sem janelas numa cidade que
“Quem quere passar além do Bojador/ chega a ter temperaturas próximas
Tem que passar além da dor”. Há em de quarenta graus no verão. Ou seja,
tais versos a rima Bojador/dor. Isso se a imaginação tem algo que não é
dá de maneira clara e evidente. Todavia dedutivo (pelo duto, pelo caminho
todo poema mostra (eVIDEncia — do lógico; do geral para o particular)
latim videre = ver), mas esconde, já nem indutivo (dentro do duto, do
que um poema é sempre um gesto caminho; do particular para o geral).
i n a u g u r a l . Ve j a m c o m o a s g r a n d e s Há algo que Peirce (1977, p. 32-35)
c i v i l i z a ç ões, em seus m om entos de chama de abdutivo (afastado do duto
fundação, tentam perpetuar-se através previsível: a eureka de Arquimedes,
de fórmulas repassadas por seus o insight ( gr osse ir a me nte f a la ndo ) ,
cantadores, que com seus poemas o modelo do átomo vislumbrado pela
orais mantêm, através de mitos e cobra que morde a própria cauda
narrativas, o religamento e a coesão em Kekulé; a lendária ou não maçã
sociais. Dessa forma, o que se tem newtoniana). Aliás, é a abdução o
à nossa frente é aquilo que o poema caminho criativo, é o que aproxima
quer abrir à recepção, os arcanos (= cientistas e artistas a quererem
os mistérios) que revelam (= tiram o b u s c a r o n o v o . É o p a re c e s e r q u e
véu) o mundo (o universo). O que se exige depois o ato, a comprovação
descobre também caminhando pelo do cientista e a realização do poeta.
mar português, agora já contornando Aliás o termo grego póiesis significa
a África, rumo às Índias, é que f a z e r. A s s i m , a p o e s i a c o n g r e g a a
necessitamos transcender a dor para determinação da realidade e a abertura
ir além do Bojador. Passar além é do imaginário. É um sonho, mas é
provação, mas é também provocação. um sonho que e xige c onc r e tiz a ç ão .
É seguir o imaginário. Não adianta dizer que seu tio tem a
Portanto, se como diz Wolfgang alma de poeta se ele não materializou,
Iser (1983, p. 386) a realidade (que com palavras, suas formulações.
p r o v é m d o l a t i m re s , c o i s a ) é a l g o O poeta precisa sentir a dificuldade
totalmente determinado, sofrendo do fazer. Aliás, a palavra técnica, para
as injunções do mundo concreto, a os gregos, tanto significava produção
imaginação, por seu turno, é totalmente quanto arte.
i n d e t e r m i n a d a . Vo c ê p o d e c r i a r Depois dessa longa série de
projetos (etimologicamente lançar-se considerações, terminemos a análise
à f re n t e ) . C a s o f a l t e u m a j a n e l a , do poema, retomando os dois últimos
alguém pode querer concretizar versos: (“Deus ao mar o perigo e o

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abysmo deu,/Mas nelle é que espelhou Desse modo, em conformidade


o c é u ” ) . D e n o v o h á o e s p e c u l a r. com Paul Schrecker (1975), em
O espelhamento estrutura a seqüência sua classificação estrutural das
final. Dessa feita, no eixo horizontal, o civilizações, pode-se dizer que
penúltimo verso abre e fecha de modo há seis setores em uma cultura
quase igual na forma Deu(s) — deu. (o econômico, o político, o científico,
Só o s é que difere. No sentido o religioso, o lingüístico e o estético).
vertical, por seu turno, a cor do Em muitas manifestações concretas
mar é apresentada como tendo sido, na história, os dois últimos setores
explicitamente dessa vez, espelhada foram preponderantes para a
na do céu. Se, por um lado, o mar edificação de uma civilização. Por
é abissal, por outro ele é o paraíso, isso, a poesia é alguma coisa —
edênica região avistada ao se buscar apesar de aparentemente inútil, no
Eldorados. sentido de não ter aplicação direta
— que move montanhas, percepções,
compreensões e formas de estar
CONCLUSÃO no mundo. Ela também problematiza
e povoa o mundo, pelo menos o de
O poeta é movido pela exploração nossa imaginação.
de formas. Mesmo em um poema,
no qual estão inseridos diversos
c o n c e i t o s, há a preocupação co m a REFERÊNCIAS
busca de equivalências. Entrementes,
como todo ser criativo, o poeta tenta ALENCAR, José de. Iracema. 8.ed. São
fugir do intumescimento da cultura. Paulo, 1978. 94 p.
Assim, seu cérebro prefere pensar em
células que imantem outras células, BARTHES, Roland. Aula. Tradução de Leyla
ou seja, segmentos que por alguma Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1980.
razão assemelham-se a outros, mas, Tradução da conferência Leçon.
ao seguir tal procedimento, não
deixa de perquirir o novo, aquilo CAMPOS, Augusto de, CAMPOS, Haroldo
que Merleau-Ponty (1974, p. 26- de, PIGNATARI, Décio. Mallarmé. 2.ed.
2 9 ) c h a m a , p o r s er v iv o e q u eim a r São Paulo: Perspectiva, 1980. 220 p.
como fogo, de linguagem falante (em
oposição à linguagem falada, isto é, a CHKLOVSKI, Victor. “A arte como
já amplamente conhecida e sedimenta procedimento”. Tradução de Ana Maria
por convenções). A linguagem falante Ribeiro Filipouski et al. In: TOLEDO,
nos ensina. No momento mesmo em Dionísio (org). Teoria da Literatura:
que estamos formulando algo nos Formalistas russos. 2ª reimpressão da
surpreendemos com sua força. 1.ed. Porto Alegre: Globo, 1973, p. 39-56.
Quando o poeta enriquece a
língua, usa uma linguagem falante, ECO, Umberto. Metáfora e semiose. In:
pois entranha-a com singularidades, Semiótica e filosofia. São Paulo: Ática,
com novas percepções. Por isso, 1991, p. 141-194.
seu trabalho é civilizatório, porque
oferece “um sentido mais puro ISER, Wolfgang. Os atos de fingir ou o que
às palavras da tribo”, tal como é fictício no texto ficcional. Tradução:
diria Mallarmé (cf. CAMPOS, Heindrun Krieger Olinto e Luiz Costa
A . ; C A M P O S , H . e P I G N AT A R I , Lima. In: LIMA, Luiz Costa (org) Teoria
D ., 1980, p. 67) da literatura em suas fontes, 1983, v. 2, p.

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384-416. Tradução de: Akte des Fingierens PESSOA, Fernando. “Mar Portuguez”.
oder was ist das Fiktive im fiktionalen Text. In: Mensagem. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1981, p. 33.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e
Comunicação. Tradução de Izidoro PIGNATARI, Décio. O que é comunicação
Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: poética. 3.ed. São Paulo: Brasiliense,
Cultrix [s.d]. 162 p. 1991, 64p.

MERLEAU-PONTY, Maurice. O homem e a SCHRECKER, Paul. La Estructura de


comunicação. A prosa do mundo. Tradução la civilizacion. Tradução de Blanca
de Celina Luz. Rio de Janeiro: Bloch, 1974. Pascual Leone e Elsa Cecilia Frost. 1ª
160 p. Tradução de La prose du monde. reimpressão da 1.ed. México: Fondo de
Cultura, 1975, 397 p. Tradução de: Work
PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. and history; an essay on the structure
Tradução de José Teixeira Coelho. São of civilization.
Paulo: Perspectiva, 1977. Título do
original: Collected Papers of Charles Para contatos com o autor
Sanders Peirce, 342 p. puschel@uol.com.br

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