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CELSO F. FAVARETTO VANGUARDA BRASILEIRA, HELIO OITICICA* A atividade de Hélio Oiticica e a posicao critica que define cifram as propostas da vanguarda brasileira suas intervencdes configuram um trabalho de anamnese; manifestam, pelo vigor das proposigGes e ousadia de agdes, 0 processo de integracAo e destruicao do projeto modemo no Brasil; explicitam os conflitos provocados pela confluéncia da pesquisa dos pressupostos implicitosnamodernidade com a elaboracao das inquietacdes presentes'. Sua investigagio é contudo excén- trica, pois ao expor as margens do processo de integracao do moderno, desloca-as por atividades exemplares catalisadas pela visionaria concepgao de “estado de invencao’’. Ao mesmo tempo que denunciam as ‘‘pragas’’ da vanguarda - esteticismo, competitividade, diluigdo -, a posigao critica e o experimental formuladosno “Parangolé”’ tiveram o poder de exporas ambigilidades do processo €m curso, propondo-se como um reexame dos principios da vanguarda brasileira. A dupla inscricao da atividade de Oiticica desenha um percurso modemode sentidoépico: um esforco deliberadoem reativar intuigdes construtivistas que, para ele, configuravam um fundamental ‘‘sentido de construgéo’’e um impulso de desestetiza¢ao, as vezes voltado para o desenvolvimento de praticas * Este texto articula alguns temas e problemas recontados do nosso livro A Invengdo de Hélio Oiticica (Sdo Paulo, EDUSP., 1992). Porto Arte, Porto Alegre, v. 4, n. 7, p. 27-42, maio 1993, 29 culturais que transgridem a normatividade modemista. Nele brilhao imaginario de uma saga: a busca, implacavel e apaixaonada, de algo que, além da “‘arte experimental’", se manifesta como o puro “‘experimental’’. O seu programa, escandido e radicalizado, libera uma marginalidade nada circunstancial; uma atividade que exige mudanca dos meios e da concepeao da pintura, da arte: ruptura das concrecées artisticas; proposicAo de ‘‘objetos"’ em que se imbricam o plastico, © verbal, 0 musical, 0 tecnolégico; deslizamento da arte para as vivéncias; proposi¢o de praticas dissensuais. Desde omomento inicial,em que Oiticica opera ‘nos limites da arte concreta, evidenciando a ‘‘crise da pintura’’, pulso para a desestetizacao age sobre a determinante construtiva, nela fazendo incidir a negatividade do inconformismo estético € a posicao sobre o valor das praticas em desenvolvimento. Denuncia 0 carter fantastico das concepgoes abrigadas sob 0 rétulo de ‘‘cultura brasileira’’: processo de conservacao-diluicao, misto de cinis- mo, hipocrisia ¢ ignorancia, a que ele denominou de ‘‘convi-conivéncia’”. Construindo-se como um programa em desenvolvimento, as propo- sigdesdesencadeadas por Oiticica manifestam os lancestipicos das vanguardas que se estendem do final dos 50 aos inicios de 70. Fazendo coexistir dualidades - rigor construtivo e desconstrugdo, conceitual e sensivel, exacerbacao individual significagdo social -, esse programa compée uma espécie de “‘organizacao do delirio"”’. Excéntrico e visionario, Oiticica imagina a proeza de conciliar 0 branco no branco malevitchiano eo desregramento de todos os sentidos, numa linguagem em que ‘‘o conceitual ¢ o fendmeno vivo’ se articulam. Lucido e coerente, 0 programa de Oiticica monta um dispositivo delirante constituido de duas séries: a da produgao artistica e a do discurso, ambos produzindo um efeito de logicidade; um nico desenvolvimento que avanga negando ¢ incorporando: cada posicao manifesta paulatinamente o sentido das efetuagGes, afirmando intensidades pro- gressivas do experimental. Nos quadros concretos e nos monocromiticos; nos “'Metaesquemas"”; nos ‘‘Bilaterais”” e ‘Relevos Espaciais’” neoconcretos; nas “novas ordens ambientais’ desenvolvidas em ‘‘Niicleos’’, ‘*Penetriveis’’, “Bélides"’ e ‘‘Parangolés"’, flagra-se a coeréncia do trajeto em que a tdnica construtiva gradativamente torna-se intrinseca as proposigées comportamentais. Inovadoras, as experimentaces de Oiticica reprocessam fundamentos e praticas construtivistas, distinguindo-se, pela radicalidade, de tendéncias similares em ebulicao. Sua visada beneficia-se da situaco nacional e internacional da arte de vanguarda: da redistribuicdo geral da estética, da pulverizagao dos cédigos de produco e recepcao, em grande parte provocados pela pop art. A nova inscri¢o 30 da produgao artistica corresponde um novo espaco estético onde tudo pode surgir, tudo pode realcionar-se com tudo em jogo permanente, A pratica pictural nao sé elimina a referéncia ao ilusionismo, levando ao fim o criticismo moderno, como questiona a formalidade das pesquisas sintaticas amplificadas pela arte concreta. A preocupacao sobre a autonomia da pintura contrapée-se o campo da colagem; assumindo-se como montagem de disparates, as priticas artisticas liberam os elementos que conpdem - técnicas, temas, retéricas, sintaxes -, que passam a gravitar aleatoriamente, Assim, surge anecessidade de anular o quadro ilusionista, de produzir outro espago estético que valorize outras coisas, eliminando de vez os residuos de profundidade visual*. Num primeiro momento, como nas ‘‘Invengdes”’ de Oiticica e nas ‘‘Superficies Moduladas”’ de Lygia Clark, o quadro perde seus poderes encantatdriose também se transmuta em coisa. Depois, como conseqiién- cin da desindividualizagaoda pratica pict6rica, os desenvolvimentos vanguardistas langam a produgo no aleatério. Em Oiticica, a necessidade estrutural solta-se; 0 campo é invadido por agdes, pela vida. A matriz neo plastica - construtivista sofre metamorfose; 0 que esti dentro do quadro, ou virtualmente em nicleos e penetraveis, explicita-se, privilegiando a abertura das proposicées. Frente & diversidade das tendéncias que pretendem por em causa a significagdo da pintura e do processo estético em geral, impugnando convengdes da representaco tradicional e da abstraco e visando ao desrecalque da producdo, pois interessadas na proposicio de um além-da-arte, Oiticica nlio se deixa determinar exclusivamente pelas solugGes predominantes: de um lado as proveni- entes do circuito internacional, e de outro por aquelas que no Brasil pretendem assumit 0 conflito entre experimentagao e participacdo social. Compée uma posicdo de vanguarda que, para ele, resulta da vivéncia da ‘‘crise da pintura’” e da realizagao dos pontos criticos da arte construtiva que tinham sido reprimidos pela sucesso dos diversos movimentos. Com peculiar entendimento do ‘‘desenvolvi- mento construtivo da arte contempordnea’’, Oiticica pretende contribuir para as “‘novas possibilidades ainda nfo exploradas dentro desse desenvolvimento’”*, O experimental retém um fundamental “‘sentido de construgio”’ que orientou os. desenvolvimentos modernos, mas voltado para um impulso paraa invengo de algo novo, que para existir supe a destruigao das formas de evidenciagdo da pinturae daescultura, mantendo delas apenasa possibilidade de fundago de novas relagdes estruturais ¢ humanas. Para ele, é 0 ‘sentido de construcdo”’que articula a “tendéncia contempordnea”” empenhada na abertura de novos rumos da sensibi- lidade contempordnea. Assim, mesmo quando solta-se para as experiéncias da antiarte ambiental, prope sua experimentagiio como um desenvolvimento original do ‘‘estado de invengao" provocado pela arte moderna. Oiticica erige a utopia de 31