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Resenha A Invengdo de Hélio Oiticica Celso Fernando FAVARETTO, Siio Paulo, EDUSP, 1992, 234 p. (Texto e Arte, 6), Ricardo Nascimento FABBRINI * A Perlaboragiio de Hélio Oi A Invengdo de Hélio Oiticica de Celso Fernando Favaretto, publicado recen- temente pela EDUSP/FAPESP na cuidadosa colegio Texto e Arte, reconstrdi, nas palavras do autor, a “coeréncia de programa" c a "lucidez critica" dessc “artista in- ventor", que "cavou no desconhecido", definindo "suas regras de criagdo e catego ias de julgamento”, Haviam se somado, até entio coletaneas de seus textos, artigos de circuns- tancia, apresentagées em catalogos ¢ documentagées fotogréficas, Mas so agora to- do este material é submetido a uma atividade interpretativa que tevela sua signifi- cagdo, uma unidade de longo alcance. Isto num momento em que uma retrospecti- va do artista, organizada pelo projeto H.O. do Rio de Janeiro, pelo Witte de With de Roterda e pelo Jeu de Paume de Paris, percorre, até 1994, a Holanda, a Franca, a Espanha e os Estados Unidos. A leitura de Favaretto demonstra que Hétio criou um "dispositive delirante”, constituido de duas séries, a da produgao artistica ¢ a do discurso, ambas coerentes. Seus textos ~ tedricos, programaticos, de andlise de produgio artistica, notas de trabalho, comentarios de leitura, cartas ¢ exercicios de experimentagio da lingua- gem verbal sdo entrecruzados, no curso do livro, ao desaguamento de sua fase vi- sual (da arfe) em sua fase sensorial (ao além da arte) revelando, trago a passo, 0 sentido construtivo de seu "programa in progress". A espinha dorsal de sua criacdo é exposta na circulagao dos capitulos: a evo- Jugao de uma obra para outra, de 54, quando Hélio contava dezesscte anos, a 80, ano de sua morte, é escandida sem abrandar o "valor da novidade, da estranheza, da experiéncia do choque" de seu salto tigrino do plano da pintura para o espago, que acabou por embaralhar a arte e a vida. Nao ha apenas a coleta e 0 relato de sua (1) Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Comunicayio ¢ Filosofia da Pontificia Universidade Catdlica de Sic Paulo ¢ da Escola de Aplicaydo da Faculdade de Educagio da USP, Mestre em Filosofia pelo Departamento de Filosofia da FFILCHUSP. R, Fac. Edue., Sio Paulo, v. 19, n. 1, p, 135-137, jan.fjun. 1993 135, produgéo (um "exercicio experimental da liberdade" no achado verbal de Mario Pedrosa), mas {ambém o reconhecimento de sua legalidade propria, de sua ordem que nunca desmesura, da rede secteta de suas relagées internas, enfim, da razdo de seu funcionamento que interliga diferentes proposigdes: Metaesquemas, Invengdes, Bilaterais, Relevos Espaciais, Nicleos, Penetraveis, Bolides, Parangolés, Manifes- tages Ambientais, Apropriagdes, Tropicdlia, Suprassensorial, Crelazer, Probjeto, Apocalipopétese, Eden, Ninhos, Barracdo, Nao-Narrativas, Subterrdnia, Delirio Ambulat6rio e Contrabélides. Tudo é recriado. Seus primeiros trabalhos no plano (54-56), onde as formas pulsam, se soltam — bailam — com sua insinuagio excéntrica que produz o efeito de anulagéio do fundo e do suporte. Os Parangolés (63-64), capas que enovelando 0 corpo salientam "suas agdes ¢ gestos esplendentes de cor" (Favaretto): cada partici- pante eletrizado pelo espargimento de luz colorida de suas camadas de panos trans- forma-se em um icaro de “asa-delta aberta para o éxtase" (Haroldo de Campos). Também a fase do Suprassensorial (sintetizada no projeto apresentado na Withe- chapel Gallery, em Londres, om 69) é remontada: um nicleo de experimentagdes limites, um "campus experimental", a "célula-mater" de wm "mundo-lazer" a sor vivido num "além-ambiente", "Uma espécie de taba onde todas as experiéncias hu- manas sio permitidas", situada 4 margem do underground, ou das formas de des- sublimagio programada, porque mais "abertas, mutaveis ¢ violentas" (H.O./Fava- Tetto). Por fim, o livro enfrenta o recolhimento fecundo de Hétio em New York, a partir de 70, onde permaneceu revitalizando proposigdes, pesquisando multimeios (uma intersemiose de cinema, fotografia e som), produzindo textos "ndonarrati- vos", elaborando projetos para o Brasil - ¢ sobretudo, aspirando, como Dédalo, a grandes labirintos, a obras piiblicas que injetassem na "convi-conivencia” brasileira “acontecimentos pocticos-urbanos" (H.O.). Em suas ultimas entrevistas "dizia estar apenas comecando”: "Tudo o que fiz antes considera um prologo. O importante est comegando agora", declarou em 78. Mas, conclui Favaretto, "a sua morte deixou suspensa a questiio: depois que a arte deslizon para o além-da-arte, 0 que poderia sobrevir?" Um novo prelidio, pds-tudo? Se tudo fora visto, dito, proposto, nada perdido, em que fresta o imprevisto? O livto, atento ao desenrolamento desta trajetéria, no clidiu os diferentes contextos e as milliplas influéncias atravessados por Oiticica: sua participagiio no Grupo Frente ¢ no Neoconcretismo nos anos 50; 0 contato com a fenomenologia de Merleau-Ponty sob a mira de Pedrosa ¢ Gullar, no mesmo periodo; a descoberta, na década seguinte, do samba da Mangucira "que Ihe deu régua e compasso", do in- conformismo da marginalidade que lhe ensinou que o "crime é uma busca desespe- tada de felicidade" e do espace comunitario das favelas; sua identificagdio com a es- tratégia cultural do Grupo Baiano Tropicalista de Cactano e Gil: sua participacao, 136 R. Fac, Educ., Sto Paulo, v. 19,9. 1, p- 135-137, jan.jun, 1993 em 67, na radicalidade do grupo da Nova Objetividade Brasileira formado por ar- tistas plasticos; sua posig@o no panorama internacional da arte contempordnea face & body art, a arte povera c & arte conceitual, e, por fim, seu insulamento em New York nos anos 70 -, uma "parada titica, reflexiva, mas néio improdativa”. A teoria, neste livro, é “algo que se faz, ndo menos que seu objeto", como quer Deleuze (um autor que também estava, em 79, no horizonte de Oiticica). Seu texto é uma pratica, tanto quanto seu objeto que se esfrega com oulras praticas (literarias, filosoficas, artisticas, etc). Nao é apenas um /ivro sobre Oiticica: é uma produgdo conceitual, um delirio ambulatdrio do sentido movido pela perlaboragdo (de durcharbeiten proximo a working-through ou “elaboragio interpretativa" como sugerem Pontalis e Laplanche), A perlaboragdo, conceito freudiano de 14, que 0 autor aplica 2 pratica de Oiticica (as suas séries em sinapses, discursiva ¢ artistica) move na verdade sua propria /eitura. O texto, como uma ferapia, produz uma inter- pretacdo superando as resisténcias (as dester-ritorializagdes) que o objeto suscita. Ele mostra pela anamnese que as significagdes (como as de "inventar”, de “ir para a frente", de “experimentar", etc) sio as invariantes do percurso, scu ponto mével de fixagéo. O livro apalpa e repisa a cada nova investida este movimento, 0 agui- thao do "experimentar o experimental” — a Beatriz de Helio, lembra Celso -, a pul- sdo vanguardista que tesiste 4 forca da compulsao 4 repetigao dos profétipos in- conscientes, culturais, existenciais, etc. Nao ha assim uma rememoracdo ou a repe- tigdo dos fios soltos do experimental de Oiticica, mas o seu relangamento, uma in- vengao, Um livro de viagem escrito numa linguagem escorreita, diligente mas sem excessos de polimento, nunca rastagiicra, pautada sempre pelo engenho e arte. (Recehido para publicagio em 15.12.92 ¢ liberado em 04.03.93) R. Fac. Educ., Sao Paulo, v. 19, n. 1, p. 135-137, jan Gun, 1993, 137