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OILUMINISMO l

política autoritária e a classe média burguesa


Éoportuno ter presente,e por issoo indicamos(se
ascendente,com a progressivatensão social,são
O Iluminismo foi um amplo movimento de ideias, não apenasde carácter estritamente 6Jlosófico,mas bem que de forma sucinta), que o Iluminismo tem
mais relevantes as questões de ordem moral, de
cultural num sentido lato, que constituiu um «estadode espírito» que impregnou todas asactividades lugar na época das revoluções liberais burguesas:
direito (especialmentedireito político) e do pro-
literárias, artísticas, histórica e religiosas desde a inglesa 1688 até à revolução francesa de
Estende-seedl 1789.Em certa medida, o pensamento iluminista gresso histórico. O Iluminismo alemão carac-
aproximadamente durante o século XVlll, denominado século da Ilustração
ouséculodasluzesort W terizar-se-á, não por novos temas, mas pela análise
lte em virtude da exigência de clareza, melhor, de clzificação necessária vem coadjuvar no processo contra o a/zczen
da «razão» no intuito de encontrar nela e dela Emer o
relativamentea todos os npectos e dimensõesda vida humana A este propósito, convém Emerduas nlg/mes,exprimindoa ideologiacríticadasclasses
nhçpnrnrfh'ç- sistema de princípios que oriente fundadamente e a
médias e a mncepção liberal e tolerante em todas as
ordens, e significa o que PaulHazard denominou «a partir de si própria o saber da natureza e a acção
crisedaconsciênciaeuropeia». moral e política da vida humana. Kant vira a ser
e do mundo; e assim pode Falar-sede «iluminismo», tanto, por exemplo, na sofística grega, como em (como Veremos) a expressão mais depurada e
sistemasposteriores ao século XVIII. O genuíno do Iluminismo do séc XVlll consiste numa particular Os países em que o Iluminismo teve maior força e Hlosóntc4 da atitude e odgência do Iluminismo
relevo foram a Inglaterra, onde propriamente se
iniciou; a Françaonde adquiriu maior brilhantismo e \.Enciclopédia
ou Dicionáriojundamentado
das
b) que, enquanto movimento filosófico e cultural que se estende por um século e em diferentes onde se converteu em foco de irradiação; e a cíê/zcias. íím czdes e dos (ócios passa por ser a obra
âmbitos geográficos, culturais e sociopolíticos, não é possível estudar aqui o Iluminismo porme- Alemanha, para onde passou provindo de França. O maisépreseótativa do Iluminismo francês.Princi-
norizadamente
e em detalhe,porque o movimentoiluministanão é separável,
salvopor razões Iluminismo, atitude e mentalidade racionalistade palmentesob'aégidede Diderot e D'Alembert,
(como é o nosso caso), dos düerentes Rlósofosque já foram estudados(locke, Hume, clarificação,configurou-se e repercutiu-se de um significou uma grande revolução na cultura e no
por exemplo) ou o serão mais adiante(por exemplo, Kant) . modo muito diversonos diferentespaíses.Em pensamento. Os seus objectivos foram: a) .difundir
Inglatena, num enquadramentode menortensão a cultura e os conhecimentos, proporcionando
sociopolítica, o Iluminismo (E?z/{gb/e7zme?z/)
teve informação e instrução; b) criar uma opinião critica
um carácter preponderantemente empirista-episte- e antidogmática; c) sobretudo, levar a cabo uma
mológico, e previligiou asciênciasda naturezae as dum crítica dos pKconceitos e das crenças tradicionais

questões sobre a religião num espírito de liberdade Neste sentido, e por este espírito crítico, a E?zci-
etolerância. c/opédíaé uma obra representativa
da atitude
iluminista
Em Fiança, onde se conjugava a organização

O tema do Iluminismo está estruturado nas seguintes partes:


1. Enquadramentohistórico e sociopolítico do Iluminismo
2. O conceito de «razãoesclarecida».
3. Newton e o problema da natureza. AEnciclopédia.
o trabalhode uma

M
4. Homem e Deus: o deísmo e a religião natural.
5. Homem e sociedade (Rousseau). @brica(séc.XVlll). M
2 0 CONCEITO DE {cRAZÂO ESCLARECIDA» 2 0 CONCEITO DE {(RAZÃO ESCLARECIDA)}
Assim compreendida, a razão crítica esclarecida não
é a absoluta e simplista negação de certas dimensões
da vida e da realidade, ou de certas questões (a
No pensamento iluminista a «razão»é, segundo se
escreveu com acerto, «sinónimo de todas as forças
Quandono desenrolardo Iluminismocome história, a legalidade política, a religião), mas a
çarem a surgir com clareza os limites da razão e rejeição do modo de entendê-las, que contraria a sua
espirituais fundamentais e independentes».
se verificar que a sua «natureza» está submetida, ideia de clarificação racional. Neste sentido, a lazão
Vejamos como esta razão, assim entendida, se de um modo profundo, à marcha e à evolução da esclarecida é tolerante. A tolerância é, nas
configura e exerce. Na referida configuração se história,e que o compomente
racional está palavras de Voltaire, «o património da razão»
exprime o «espírito»iluminista. condicionado pelas suas raízes emocionais ou
passionais, então estará a asistir-se ao começo de 2.4.Carácteranalítico da razão
outro mundo intelectual e filosófico, o mundo
2.1. A autonomia da razão romântico. A razão não só tem uma natureza mas é também um

O Iluminismo consiste no Factopelo qual o homem "erga/zozz»,


isto é, o instrumentoou meio para
sai da menoridade. Ele próprio é culpado dela. A 2.3. Carácter <tcríticol} da razão conhecer,e como qual interpretaro mundoe
menoridade fundamentava-se na incapacidade de se exercer a crítica. De acordo com a sua natureza, no
servir do próprio entendimento, sem a orientação Aquilo de que esta razão, autónoma por si, necessita seu proceder cognoscitivo a razão é analítica. Com
de outro. Cada um é culpável desta menoridade, é de ser «clarificada» no seu poder e independência este termo se estabelece a diferença relativamente à

dado que a sua causanão reside num defeito do relativamente ao que a sufocava. E pois uma razão ideia de orientação «racionalista» que se fez da razão
crítica,nosseguintessentidos: no séculoXVll
entendimento, mas na falta de decisão e ânimo para
dele se servir com independência, scm a orientação Contra uma razão prenhe de conteúdos (teoria das
a) Não tanto contra a ignorância, pois esta pode
de outros.Supereazzde-- tcm a coragemde te ideias inatas), que pretende conhecer a partir de si
facilmente ser superada, mas contra os pre- própria de um modo dedutivo e ízpnon e que crê
servir do teu próprio entendimento. Eis a divisa do
conceitos, que a cegam e paralisam; possuir em si mesma os esboços, certamente gerais,
Iluminismo.» Nestas palavras de Kant fica mode-
mas sem dúvida essênciais de toda a realidade;
larmente expressoo carácter autónomo da razão b) Não contra a história c o passado,como se Voitaire ?mBmtilba escreumdo la Henhade.
esclarecida.A razão é suficiente em si e por si quisessee pudessecomeçar absolutamente de novo contra uma razão que poderia denominar-se «siste-
mática» e dedutiva, a razão esclarecida entende-se
mesma, pelo que se exige conntança nela, e por a estrear o mundo (uma ilusão e uma quimera), mas
consequência
a decisãode se servirdela com como: a) capacidade de adquirir conhecimentos
contra a tradição,entendidacomo a cargaque
independência, sem outros limites pam além daque- com referência especial à experiência e ao empírico;
pressiona e se suporta sem outro motivo que não
les que são dados pela sua própria natureza. Daí a seja o de ser passado,não permitindoa sua b) capacidadede analisaro empírico, procurando
necessidade de analisa-la e conhecer os seus limites. reapropriação racionalelivre. compreender, numa aliançaentre o empírico e o
racional, as leis gerais nos elementos particulares.
c) Crítica, por isso, não tanto contra a legalidade,
2.2. Os limites da razão pois a razão tem seuspróprios princípios e leis , mas
contra a autoridade externa, isto é, contra a auto- Necessidade
e perigo do momento regressivo, estará a assinar a sua própria
Os limites do entendimento, são impostos pela ridade não reconhecida nem reconhecível como tal A aporia que nos surgiu revelou-seassimcomo o condenação.E se a reflexão sobre o aspectodestrutivo
sua própria natureza. A razão é uma e a mesma primeiro objecto do nosso estudosobre a auto- do progresso é deixada aos seus inimigos. o pen
pela própria razão. Autoridades externas serão a
em todos os povos, homens, culturas e épocas, e destruiçãodo Iluminismo. Não temos nenhuma lamento cegamente pragmatizado perde ao mesmo
tradição e o passado, mas também o presente e o
tem uma «essência ou natureza» fixa, desen- dúvida iluminista -- e é essaa nossa posição desde o tempo o seu carácter de superação e conservação e
vigente se não for racional, se não se submeter ao
volvendo-se no tempo, é verdade, mas sempre início -- em relação ao facto de que na sociedade a também a sua relação com a verdade. Em rodo este
juízo da razão.
segundo a conformação da sua natureza e de liberdade é inseparável do pensamento Mas julgamos absurdo incompreendido, a debilidade da compreensão

acordo com a sua essência.Supõe-seque há uma d) Crítica não apenascontra a credulidade, pois a ter descoberto com igual clareza que o próprio teórica de hoje revela-sena misteriosa atitude das
natureza da razão, como há uma natureza ou conceito de tal pensamento, assimcomo as formas massastecnicamente educadas para se submeterem ao
própria razãopoderiareconhecero sentidoda
históricas concretas e as instituições sociais às quais despotismo e na sua tendência autodestrutiva para a
legalidade do mundo físico. E, além do mais, esta religião, mas contra a superstição e a idolatria. Não,
está intimamente ligado, implica lá o gérmen da paranóia«popular"
natureza da razão é «racional».Constitui o que pois, contra o sentido da ideia de Deus, e do divino,

E
regressão que hoje se veriRca em todo o lado. Se o
poderíamos chamar o «naturalismo»da razão mascontrauma determinada
representação
de Iluminismo não acolhe em si a consciência deste Horkheimer, Adorno, Dia/éc/íca do 17zlm/?zíp77zo.
ilustrada. Deus.
(D O ILUMINISMO 2 0 CONCEITO DE {eRAZAO ESCLARECIDA)>
2.5. Secularização
da razão e, de certo modo, dando-lhes um significadosecular. presençapelo espírito humano»6Zzções
soó7eóz E tudo isso a partir do conceito de «natureza
Assim, face ao «teocentrismo»,postula-se «Hisio- Filosofia da História Uniuersat). Coma se pode humana» ou «razão natural» e da exigência de uma
Face à concepção racionalista da razão que se
centrismo»(de «pbysis»,
natureza),com a natureza reconhecerno texto de Hegel,os grandestemasdo total clariHlcaçãoracional. O Iluminismo iria assim
remetia, em última análise,para a teologia e Iluminismosão:
como ponto de referência e com a sua«fé»secular- sentar realizar o projecto que já cume acaHciara de
pretendia ter um uso e alcancetranscendente, o .racional nas leis naturais. Face ao «providencialismo
a) a natureza física e o conhecimento da sua uma «ciência do homem»: «É evidente» -- escreveu
Iluminismo tem uma ideia ou concepçãosecula-
divino», manter-se-áa fé no progresso contínuo e
rizadada razão.O Iluminismo vem romper o equi- legalidadee o seu subsequente
domínio; \a seu Tratado da Natureza Humana «que
sem limites da razão e da humanidade. E face à
bodas as ciências se relacionam em maior ou menor
líbrio entre a fé e a razão, mediante um processo
redenção sobrenatural, a razão secularizada defen- b) a religião e o sentido da íé e de Deus (deísmo e
redutivo da fé ao racional, vem exigir e realizar a grau com a naturezahumanae que, embora
derá a salvaçãodo homem como resultado do seu religiãonatural)
progressiva e total secularização da vida humana. Ê pareçam desenvolver-se a grande distância desta.
próprio trabalho na história: a sociedade e a história regressam afinal a ela por uma ou outra via
importante apreciar e reconhecer que esta c) a sociedade e a história, isto é, a organização
são assim o novo enquadramento e horizonte de Inclusivamente as matemáticas, a filoso6la natural e a
secularizaçãose efectuatranspondo os grandes racional da sociedade e da convivência política; e o
çnlxFaí-ãn
gemasdo pensamento teológico para o nível do estabelecimento de um progresso histórico com religião natural dependem de algum modo da
A partir destes caracteres da razão esclarecida pode- ciência do homem, pois estão sob a compreensão
mundano, onde se mantêm reinterpretados num base e em consonância com as exigências da razão
mos apreciar melhor o espírito e o sentido do dos homens e são julgadas segundo as capacidades
sentidosecular.
Iluminismo, bem como os seusprincipais núcleos e faculdades destes»
Efectivamente, a concepção religiosa-teológica do temáticos. O grande filósofo e «historiador» alemão Como lema do Iluminismo,'poderia servir a frase de
mundo mantinha-see sobrepunha-seà relação Hegel escreve:«O princípio do Iluminismo é a Pope: «Oestudo próprio da humanidadeé o
homem-Deus. Deus constitui o centro, origem e soberania da razão. a exclusão de toda a autoridade.
homem». O homem, eixo e matriz da natureza, Deus
princípio do sentido do mundo (teocentrismo); As leis impostas pelo entendimento, essasdeter- e sociedade,é o ponto vivo de união em torno do
o sentido da humanidade e da história é esta- minações fundadas na consciência presente e qual se articulam todos os esforços do século Xylll
belecido e regido por Deus providente(provi- referentes às leis da natureza e ao conteúdo do que
E seráo mesmoAlexander Pope quemexaltaráa
dência); o destino último do homem e o fim da é justo e bom, são o que se chamou a razão. figura de Newton que desenvolveráesplendida-
história é constituído pela salvaçãosobrenaturale Chamava-seIluminismo à vigência destas leis. O mente o Iluminismo, ao enlaçarharmonicamentea
eterna do homem, realizadapor e com a graça de critério absolutofacea toda a autoridadeda íé
naturezae adivindade.O epitáfioque ornao túmulo
Deus(redençãodivina). religiosa e das leis positivas do direito, e em de Newton servir-nos-áde charneira para expor o
Ora, a razão seca/aàzízdózvai transpor estas particulardo direito político, era então que o seupensamentoc assuascontribuições:
questões para um nível mundano, reinterpretando-as conteúdo fosse visto com evidência e em livre
Enooltas estaoam em trevas
h.natureza e suasreis.
.oe consciênciacrítica da actualidade no interior da qual desempenha o seu próprio papel? EDeusdisse:Faça-seNewtonl
Seria sem dúvida uma questão hilcd pam o estudo do AAzl®ümng é um período, um período que formula EtudofoiLuz.
século XVll em geral e, mais concretamente, da a suaprópria divisa e os seuspróprios preceitos e que
Áze®/ãruzzg.interrogar-se sobre o seguinte facto: a diz o que se [em de Ezer, tanto em relaçãoà história ?\nte!
deNewton
qPape
,EpitqiodeNau;tan]
Áze@/eímng di a s] propna é geral do pensamento como em relação ao seu
sem dúvida um processo cultural muito específico que presente e às formas de conhecimento, de saber, de
teve consciência de si mesmo dando-se um nome ignorância e de ilusão, nasquais sabe reconhecer a sua
situando-se em relação ao seu pesado e ao seu futuro situaçãohistórica.
e designando as operações que teria de efectuar no Parece-me que nesta questão da Ázz@/clmng radica
interiordoseu próprio presente. umadasprimeiras de um determinado
Não será a Az{/k/c?ran8
a primeira época que se modo de filosofar que teve uma longa história desde
designa a si própria e que, em vez de se há séculos. Uma das grandes funções da chamada
simplesmente, de acordo com um velho hábito, como 6ilosoHiamoderna (aquela cujo começo pode ser
período de decadênciaou de prosperidade,
de situado nos finais do séculoXVIII) é interrogar-se
esplendor de miséria, se denomina por via de um sobrea sua própria actualidade
determinado acontecimento, que é próprio de uma
história geral do pensamento, da razão e do saber, e Foucault, O Qzle E o //zzmz/zlsmo?.
3 NEWTON EO PROBLEMADA NATUREZA 3 NEWTON E O PROBLEMA DA NATUREZA
3.1. A maquina cartesiana do mundo micas de Galileu(queda dos graves) e de lÍepler
lsaac Newton
(segunda lei). Por outro lado, o seu repúdio das
O século XVlll vê triunfar na Europa a revolução Woolsthorpe, 1642; Londres, 1727. o seu mandato É. no dizer dos espe-
qualidades ocultas leva-o necessariamente a postular
cientfíficainiciadapor Copémico, Kepler e Atrabiliário, ásperoe mal-humorado, cialistas,o maior cientista de todos os
um espaçopleno(acção por contacto). A descoberta jamais reconheceuo valor dos seus tempos.A sua imensa influência
Galileu. Aos esforços destes pioneiros para ins-
de forças aparentemente actuantes à distância companheiros e fez o possível por estende-se
daa?zá/fse(cálculode flu
taurar um método experimental, e à sua insistência
(gravidade,magnetismo e electricidade) ficava no diluir as pegadasdos que o prece- xos) à maca?zfca(lei da gravitação
quase religiosa em valorizar a precisão e a exactidão
seu sistema reduzida à imaginária, não matemática, deram: Culpado de dezanove mortes universal),à @/zca(teoria corpuscular
das matemáticas, junta-se agora uma cosmovisão de dosturbilhões. durante o seu cargo de Director da da luz), à astro/zom/a(construçãodo
perspectivas tão ambiciosascomo as do derrubado Com efeito, para poder explicar estes novos fenó- Casa da Moeda. Presidente da Royal primeirotelescópiode reflexão)e à
sistemaaristotélico:a filosofiamecanicista de Society,nunca houve tantos nobres teologia(Comentário aos livros profé-
menos Descarnesfoi obrigado a nlngirum Universo
René Descartes. estúpidos na sábiainstituição como sob ticosde Danielejoão)
pleno composto por três elementos:
Podemos agrupar assim as linhas essenciais deste
mecanicismo: a) As partes mais espessasda matéria, agrupadas
em diferentes centros pelo movimento universal em
a) SÓ existe o matematizável: figura, tamanho e turbilhão. a) tratava-se de conjugar a geometria analítica Pn7zcÜios da Ff/os(@a de Descartes(1638). No
movimento; que são as qualidades primárias. As cartesianacom o conceito dinâmico de derivada do entanto,a precisão«prz7zciPios
mzzremár/cos,,
não
restantes qualidades ficam reduzidas ao âmbito do b) Partículasmais subtis e redondas, transparentes tempo, implicitamente descoberto por Galileu. deve induzir em erro. Apesar desta insistência no
subjectivo. e em contínuo movimento, introduzidas nos inters- Assistiam assim aos alvores da razão empírico- matemático,Newton vai efectuar uma viragem
tícios da matéria espessae preenchendo os espaços -analítica anteriormente explicada. O resultado, decisivana HilosoHla
natural(física),abandonandoo
b) Por consequência, as «coisas»naturais reduzem-se
interplanetários.
Descarnes
chamoué/a a esta decisivo na história da matemática, foi a invenção do racionalismo dos pioneiros e cumprindo, antes, o
a massaspontuais movendo-se no espaço eucli-
matéria, seguindo uma respeitável tradição grega cálculo in6initesimal. programa empirista iniciado por Francis Bacon
deano(infinito, isotópico e tridimensional).
(assim chamava também Aristóteles à sua gz///zlcz b) Tratava-se, também, de atribuir uma causa física (1561-1626)
e RobertBoyle(1627-1691).
Com
c) Toda a acçãoe reacçãodevem exercer-seme- esse7zrlóz
). às leis empíricas de Kepler. O resultado seria a Newton, a matemáticadeixa de ser o fundamento
diante choque ou impulso. Em todo o caso, por descoberta,
aindanão ultrapassada,
da teoriada
c) Partículas mais diminutas ainda, que formam o parase converter num meio auxiliar: a geometria
contacto. gravitação universal nasce da mecânica e sem ela não tem sentido. Está
tecido das estrelase ocupam os interstícios do éter:
d) Ésuficientedescrever
matematicamente
asleis constituem a luz. c) Em terceiro lugar, havia que combinar a cine- no próprio Prefácio dos Pnnc@íos:
que regem estes movimentos e acções;o âmbito da mática cartesianacom a dinâmica de Galileu num
causalidade reduz-se à causa eficiente e esta à Rinção Este artifício do turbilhão explicavacertamente único sistema físico: a mecânica. «Descrever linhas rectas e círculos são problemas,
que relaciona duas variáveis. alguns factos interessantes em astronomia, a saber, d) Por último, haviaque tentar introduzir no mas não problemas geométricos. Precisamosda
que todos os planetasse moviam aproximadamente edifício da mecânicaforças como o magnetismo e a mecânica para a solução destes problemas; e uma
e) O tempo torna-se um conceito secundário a
no mesmoplano e na mesmadirecçãoem volta do electricidade, incompatíveis com o Universo inerte vez demonstrados, a geometria esclarece o seu
partir do momento em que a ubiquidade das massas Sol de Descarnes. uso. E é uma glória para a geometria que com
se dá num espaçoinfinito: o ponto de partida de um Estasquatro conquistas, pilares do imenso edifício
Mas para o cientista, e precisamente em nome das estes poucos princípios, trazidos do exterior.
movimento (medida do tempo) é arbitrário e da ciência moderna, reúnem-se em torno de um possa fazer tantas coisas. Portanto, a geometria
reversível. exigênciasabsolutasda matemática o próprio
homem (embora na primeira e na quarta não deva fundamenta-se na prática da mecânica, e não é
programa cartesiano --, não deixava de ser um
f) Os princípios que regem a imensa maquinaria do silenciar-se
a decisivacontribuiçãode Leibniz): mais do que uma parte da mecânica universal,
escândaloque o sistemafísico do mundo fosse
sistemasão dois: o princípio de inércia e o de lsaac Newton (1642-1727). que se propõe e demonstra exactamente a arte
irredutível às matemáticas,tendo de refugiar-sena
conservação
do momentoou quantidadede de medir.»
fantasia dos turbilhões. E também não deixava de o
movimento(mu). ser o facto de que as decisivas descobertas de 3.2. O sistema do mundo
Como consequência deste postulados do meca- Galileu (dinâmica) e de Kepler (astronomia física) Assim, na contínua polémica entre a resolução e
nicismo cartesiano,a física fica integradana não tivessemcabimento na cinemática cartesiana. São duas as obras que cimentam a glória de Newton: composição, entre análise e síntese, Newton
cinemática(deslocaçãode massas pontuaisnum A segunda metade do século XWI está inteiramente os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural concededecididamente a primazia à segunda(o que
espaço infinito). Assim, se Descartes podia enunciar preenchida por um esforço de renovação mental (1687) e a OP//ca (1704). Nesta exposição vamos vem a ter consequênciasdecisivas na filosofia de
pela primeira vez, explicitamente, a lei da inércia poucas vezes igualado na história, orientado para a limitar-nos, claro está, à importância Hilosó6ica
das Kant). Note-seque, destaforma, Newton acabapor

E (princípio fundamental da física), era-lhe impossível


introduzir no seu sistema as considerações dinâ-
conciliação num sistema unitário das descobertas
parciais destes grandes homens:
descobertas
newtonianas.
O título da primeira obra é um claro desafio aos
se separar do ideal Iluminista da razão empírico-
-analítica,que ele próprio tão poderosamente E
(D O ILUMINISMO 3 NEWTON E O PROBLEMA DA NATUREZA

contribuiu para forjar. A geometria serve para «lll. As qualidades dos corpos que não admitem por causade uma hipótese, um argumento indu- qualidades ocultas e escolásticas), como mecânicas
esclarecer, para expor com maior exactidão o que já aumento ou diminuição de graus e que pertencem a tivo» (as teorias a pr/on cartesianas ou galilaicas)
de antemão se demonstrou (diríamos melhor: godosos corposnos quaissejapossívelexpe- E escusado insistir na importância decisiva-- Curiosamente,
se por um lado o sistemafica
mostrou, pois aparecenum modelo mecânico). rimentar, deverão ser consideradas como qualidades embora nem sempre favorável-- que estasregras reconhecidamentereduzido aoverosímil (voltando
Falando com rigor, a ciência não começaria pois por universais dos corpos (...). A extensão, dureza, têm tido na história da ciência moderna. assim à velha exigênciaplatónica de «conto
uma demonstração matemática, mas por uma impcnetrabilidade, mobilidade e forças de inércia do provável»paraa ciência natural) , assegura-se,por
A primeira, expressão da famosa «navalha de
construçãoapartir do sensível.O método da ciência todo surge da extensão, dureza, impenetrabilidade, outro a sua validade quaseeterna, pois -- salvo um
Ockham»,é o postulado de regularidadee simpli-
é a indução afirma Newton face ao racionalismo mobilidade e forças inerciais das partes: donde milagre os fenómenoscontinuama ser como
continental. Estudem-seatentamente as famosas concluímos que as partes mínimas de todo o corpo cidade na natureza (e, por conseguinte,na são, sem poderem ser explicados mediante
investigação cientÍ6Jca),que desempenhou um papel
regzz/aepbí/osopbízlzdi(regras
do íilosofz) do Livro são extensas, duras, impenetráveis e dotadas de hipóteses diferentes (o que vai em certa medida
força de inércia. E este é o fundamento de toda a
decisivo como vimos-- na aceitaçãodo siste-
111 dos Pn'zzczPza: contra a regra 1: Newton assumetacitamente que
ma copernicano.
«l. Não devem admitir-se como causasdas coisas filosofia (. . .). Mas eu não aHrmo em absoluto que a ninguém encontrará princípios mais simples e
gravidade seja algo constitutivo dos corpos. Por A segunda, que hoje, poderíamos chamar, /ez de .evidentes»)
naturais mais do que aquelasque simultaneamente
força inerente entendo apenasa força inercial. confz7zu/dízde cimento a chamada «síntese newto-
sejam verdadeiras e bastem para explicar os Também no 6tnaldos Palzc@/a se voltará a insistir,
fenómenos.Assim, dizem os filósofos: a natureza niana». Esta lei permitiu a Newton distinção entre obsessivamente, nas duas proibições:: a atribuição de
.IV. Na filosofia experimental, as proposições, céu e terra e cntre diversas classes de elementos
nada faz em vão; e se faz em vão é aquilo que, extraídasmediante indução a partir dos fenómenos actividadeaos corpos e a postulaçãode hipóteses
(presente ainda, paradoxalmente, em Dcscartes),
podendo ser produzido por poucascoisas,o foi por e apesar de hipóteses em contrário --, devem ser «Naverdade,a razãodestaspropriedades da gravi-
mas é também esta mesmalei que impedirá a
muitas. Com efeito, a naturezaé simples, e não se tidas por verdadeiras,
seja exactamente
ou da dade não se pode deduzir a parir dos fenómenos, e
constituição da química (baseada na diferença dos
preocupacomascausassupérfluas. maneira mais aproximada possível, enquanto não eu não simulo hipóteses»
elementos) até ao século XIX
:ll. Na medida do possível, a efeitos naturais do aconteçam fenómenos pelos quais essas propo-
A terceira mostra o princípio de indução (ou, mais Ora, esta afirmação é falsa no âmbito do próprio
mesmo género há que atribuir causasdo mesmo sições se tornem ainda mais exactas ou sujeitas a
exactamente,
da transdução:
passagem
do obser- sistema newtoniano, que utiliza hipóteses mecânicas
genero. excepções.Ê isto que deve fmer-se, e não suprimir,
vável ao não observável, de consequências graves na (a construção de modelos segundo o modelo da
geologia de Newton, como depois veremos). simplicidade), metafísicas (o espaço e o tempo
Newton volta assim, claramente, a Arquímedes: absolutos) e metodológicas (o princípio de trans-
primeiro faz-se uma experiência mecânica, cons- dução, que passa do genil para o universal). Se assim

truindo um modelo físico aproximado,e logo se for e há inumeráveis provas disso--, devemos
idealizageometricamente.
Observe-se
que este questionar-nos sobre a origem desta má vontade
«Não siínulo hipóteses» planetas,e inclusive o afélio mais remoto dos cometas, método está em absoluta oposição directa com o de contra as hipóteses. A resposta será dada de seguida,
se tais afélios forem também invariáveis.Mas até hoje ao aprofundarmos as implicações destes três tipos
Até aqui explicámos os fenómenos dos céus e do nosso Galileu, e que não permite nunca uma confiança
mar pela força da gravidade, mm ainda não atribuímos não se conseguiuainda descobrira causadessas absoluta no poder matemático da razão. de hipóteses.
uma causaa essaforça. A sua origem deve com certeza da gravidadea partir dos eeu
radicar numa causaque chega a penetrar nos próprios não vou simular hipóteses Devemos chamar hipótese
Nesta terceiraregra (Newtonnão era muito
centros do Sol e dos planetas sem que a sua força sofra
cuidadoso na exposição doutrinal), abandonam-se 3.3. A antologia dualista de Newton
a mínima diminuição; também não opera segundo a fenómenos, e as hipóteses metafísicas ou físicas, sejam por um momcnto os aspectos metodológicos para
quantidade das superãcies daspartículas sobre M quais elasde qualidadesocultas ou mecânicas,não têm lugar nos mostrar a estrutura da matéria. Trata-se de um 3.3.1 Actividadee passiüdade
actua (como acontece com as causasmecânicas),mas na 61osofiaexperimental Nesta filosofia, M claro atomismo (frente ao continuismo cartesiano)
de acordo com a quantidade de matéria sólida que elas particulares são inferida a partir dos fenómenos e são do qual se exclui explicitamente toda a afirmaçãode As hipóteses mecânicas são fornecidas pela
contêm. propagando-seem todas as direcções até logo generalizadas por via da indução. Foi deste modo vivacidadeou actividadepor parteda matéria.A crença de que a natureza não actua em vão; é
distância enormes e decrescendo sempre como o que se descobriu a impenetrabilidade, a mobilidade, a atracção da gravidade é extrínseca aos corpos. simples e não se preocupa com o supérfluo. Ora,
quadrado inverso das distância A gravidade até ao Sol Forçaimpulsivados corpos e asleis do movimento e de Vamos deixar sem resposta, por agora, a inter- sabemosque o Universo newtoniano é composto
é formada pela gravidade das diversaspartículas que gravidade E é suficiente que a gravidade exista
TI rogação acerca da sua origem. por átomos inertes, absolutamente passivos. O
compõem o seu corpo; e ao afastar-sedo Sol essa realmente e actue conforme as leis que
gravidade decresce exactamente como o quadrado servindo paraexpli(nr todos os movimentosdos corpos Por Rm, a quarta regra continuaçãoda tercei- conjunto destaspassividadesnão pode, obviamente,
inverso das distânciasaté à órbita de Saturno,como o celestese do nossomar. ra insiste no carácter indutivo da ciência e é a má originar uma actividade. O que é pois a natureza
demonstra com clareza a quietude do afélio dos Newton,Pn/zc@ios daFitosoÍiaNatural. vontade newtoniana contra as hipóteses. Note-se
que se trata tanto de hipóteses metafísicas (as
para actuar sempre infalivelmente e para ordenar o
mundo do modo mais simplespossível? E
(D O ILUMINISMO 3 NEWTON E O PROBLEMA DA NATUREZA
No final da OPI/cízNewton suou uma série de vindade. Newton não lera os atomistas. Mas, em
guenes(«questões») de importância fundamental, já contrapartida, havia estudado apaixonadamente os Princípios gerais da 61osofia natural forças ou acções derivavam de qualidades des-
que nelas se vislumbram os verdadeiros interesses filósofosplatónicos de Cambridge(em cujo Tdnity me parece que estas partículas não só conhecidas que não podiam ser descobertas mas que
do cientista. E na questão 28 que encontramos uma Collegeestudoue ensinou)e especialmente
Henry possuem uma z/zs/?ze zae. acompanhadadas leis setomavam visíveis. Essasqualidades ocultas colocam
passivasdo movimento que derivam naturalmente obstáculos ao desenvolvimento da âlosoãa natural. e
resposta, tão audaz quanto clara: More e Ralph Cudworth. Esteúltimo defendiaa
existência de uma idade de ouro, inconnminada, na dessaforça, masque estãotambém moídas por certos por isso foram refutadasnos últimos anos.Dizer que
:Para a rejeição de tal meio (refere-se ao éter
princípios activos,como a gravidadee aquelesque todas ascoisas estão dotadas de uma qualidade oculta
contínuo cartesiano) dispomos da autoridade dos qual os homens possuíam uma priscóz saPze?zlicz
causam a fermentação e a coesão dos corpos. Julgo que específica pela qual actua e produz efeitos visíveis
mais antigos e célebres filósofos da Grécia e Fenícia, («sabedoriaantiga»), segundo a qual dividiam o
estes princípios não são qualidades ocultas, supos' equivalea não doer nada.Com efeito, constituiria um
que fizeram do vácuo, dos átomos e da gravidade mundo em potência activa (Deus) e passiva lamente derivadas du formas específicasdas coisa, grande passo na filosofia conseguir derivar dois ou
dos átomos, os primeiros princípios da sua filosofia, (matéria). Uma centelha desta sabedoria perdida mas sim leis gerais da natureza por via das quais as três princípios gerais do movimento a partir dos
atribuindo tacitamente a gravidade a uma causa teria chegado até à Feníciae à Grécia(note-se quc as próprias coisas se formam e cuja verdade nos é dada fenómenos para depois dizer como M propriedades e
diferente da matéria densa. Filósofos posteriores categoria aristotélicas de acção e não-acção passam pelos fenómenos, mesmo que as suas causas não acçõesde todas as coisascorpóreas derivam desses
apagaram da Hiloso6ianatural a consideração de tal agora a constituir a verdadeira realidade). Pois bem, tenhamsido ainda. Estasqualidades são princípios visíveis, mesmo que as causasdesses
causa,imaginando hipóteses para explicar meca- os esforços de Newton vão orientar-se na re- visíveis e só as suas causas é que são ocultas. Os princípios não tivessem sido ainda descobertas.
nicamente todas ascoisase relegando para a meta- construção desta sabedoria revelada e imedia- não deram o nome de qualidades ocultas Assim, não me custa propor os princípios do movi
física todas as demais causas.No entanto, o objectivo tamente perdida pelo pecado dos homens (o às manifestações mas apenas àquelas qualidades que mento atrásmencionado,dado que sãode aplicação
básico da HilosoHla
natural é argumentar a partir dos dilúvio).Assim,a OP/ícóz
conclui comestaadmoes- supunham ocultas nos corpos e que eram causas geral, mesmo que as suascausasestejam ainda por
desconhecidas de fenómenos visíveis. como o casodas descobrir
fenómenos, sem imaginar hipóteses e deduzir as tação:
causas da gravidade, das atracções eléchcas e magnéticas
causasa partir dos efeitos até atingir a primeiríssima .Não restam dúvidas de que se o culto aos falsos
e das fermentações; e isto na suposição de que essas
causaque, certamente, não é mecãnica>-. deuses não tivesse cegado os pagãos (. . .) ter-nos-
Aqui, Newton revelaclaramente assuasintenções. Ê -iam ensinado o culto ao verdadeiro Autor e
surpreendente estaunião do atomismo (que hoje Benfeitor, do mesmo modo que o fizeram os seus
Assim se explica a insistência de Newton em que não dades ocultas, mas à própria angelologia medieval?
sabemos ateu ou, quando muito, não preocupado antepassadossob o governo de Noé e seusfilhos
se transforme a gravidade em potência interior aos Leibniz acusada Newton, ironicamente. de «comer
com os deuses-- Epicuro) com a crençana di- antes de se terem corrompido».
corpos. O Universo seda então activo(como em kib- bolotas após a descoberta do trigo»(Qlzí7z/íz cadóz éz
niz) e não haveria necessidade da acção de Deus leib- CJczrêe),isto é, de converter o Universo numa
niz resolveu o dilema de forma filosoficamente mais teoEania,
num milagrepermanente,precisamente na
subtil. E estahipótese religiosaque proíbe o emprego idadedo triunfo da mecânica
de outras hipóteses. Deus e matéria opõem se Maisainda:esteUniverso inerte adgia a contínua
&ontalmente como actividade para e passi- intervenção de Deus(providência, faceao puro
vidade inerte. Não há gradação possível da matéria papel de criador que Descarnesatribuiu a Deus), e
até a Deus: as causasfinais desapareceram;todo o nao apenas para o conservar, mas para continua-
movimento, toda a força, têm Deus como causa. mente o reformar, pois estariaem contínua degra-
E então a própria Divindadea causadirectada dação (curiosa ressurreição da concepção neopla-
gravidade?Aqui o pensamentode Newton vacila. tónica da matéria como mal). Em particular, os
A partir da edição latina da OP/zcíz(1706), orienta- cometas seriam corpos enviados por Deus para
subministrar novo combustível às estrelasem crise
.sedecididamente no sentido de postular a acçãode
um éter (descontínuo) subtilíssimo, mais densa- de extinção. MasNewton não se detém aqui: é
possível supor a existência de outros sistemas com
mente agrupado nas regiões vaziasinterestelaresdo
que nos interstícios dos corpos. Seriaestadiferença outras leis da natureza, segundo aprazaa Deus:

de densidade que explicariaa atracção.Contudo, «Deus é capaz de criar partículas de matéria de


importa referir que em múltiplas ocasiõesnos Edade diversos tamanhos e Hlguras,em diferentes pro-
espíritos etéreos, pelo que é possível supor que este porções no espaço e talvez de diferentes densidades
éter não actua mecanicamente apenaspor meio da e forças, a fim de com isso mudar as leis da natureza

E
W.Blake: NewtoK (detalhe). sua força (nem poderia, se toda a acção vem de e formar mundos de diferentes tipos em diversas
rate GateQ,hvüres
Deus). Não é isto um regresso não apenasàs quali- partesdo Universo»(aplica,
Questão
31).

}
(D OILUMINISMQ 3 NEWTON
EOPROBLEMA
DAÚÀtÜIÊII
Tantos esforços dispendidos pelos maiores génios espaço: a da água a girar dentro de um balde e a das hipóteses: o espaço é o órgão sensorial(semonzzm) todo o caso, Deus, aquilo que é simples e sem
do século XVll -- incluindo em parte o próprio esferasseparadaspor uma corda tensa. No entanto, de Deus, aquilo que garante a sua omnipresença; a mistura, aparece sensivelmente como um composto
Newton -- para criar uma imagemunitária e mate- estas experiências só provam que o espaço relativo força o sinal da actividade e potência divinas. Era dc partes- Tanto Berkeley como Leibniz utilizaram o
maticamenteestruturada do mundo, pareciamvir em que acontecemestásituado dentro de outro necessárioafirmar o carácterabsolutodo espaço melhor da sua crítica para lutar contra esta estranha
âmbito, que não tem de ser forçosamente absoluto para nao misturar a matéria com a Divindade; era
agora abaixo pela irrupção do Deus voluntarista e concepção newtoniana, tão inútil para a ciência
irracional prefigurado já no augustinismo inglês do (assim,nos finais do séculoXIX o cientista alemão necessário o carácter extrínseco da força para não como nociva para a religião.
séculoXIV. É desnecessário dizer que nisto a Ernst Mach provaria matematicamenteque as daraoscorposcaracteresdivinos.
Mas os interesses de Newton iam noutra direcção
modernidade não iria seguir Newton. aparências se explicavam perfeitamente aceitando as
estrelas nuas como um sistema de referência) No entanto, Newton não identiHlcaespaço e tempo Era uma ideia comum no seu tempo a existência de
com Deus; Deus é a pessoa que se manifesta como um sensórioou lugaronde interagiama matériae o
3.3.2.Espaçoe tempo Hoje sabemosque nada na naturezaestáem
espaço e tempo: «Não é eternidade e infinidade, mas espírito -- recorde-sea glândula pineal cartesiana
repouso absoluto: há repouso apenas em relação a
Passemos agoraàshipóteses metaHsicas,exem- eterno e infinito; não duração e espaço,masdura e Masa religiosidade protestante do cientista inglês
algum sistema de coordenadas. Newton estavaa
plificadasno espaçoe no tempo absolutos. Os esta presente. Dura para sempre e está presente em exigia uma passividadeabsoluta por parte do
extrapolaro princípio da relatividadede Galileu
lugares clássicos da sua de6nição encontram-se no todas as partes; e existindo sempre e em todas as sensório humano. O homem recebia no sensório as
(invariância de sistemas inerciais) a fim de
Escó/to Gaa/ do livro 111dos Pnzzc@ia: partes,constitui o espaçoe a duração.»(Pn/zc@/a. imagens das coisas (nunca as próprias coisas); e isto
estabelecerdois âmbitosde presençae duração.
EscólioGeral.) ' devia-se à sua localização êspácio-temporal. O
«l. O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, de Que razõeso moviam a isso?Em princípio, podemos
Estaé uma ideia presente já em Henry More (que homem é um animal receptivo
si e por sua natureza, sem relação a nada externo, afirmarque os famososaxiomas ou leis do
chegara inclusive à identiHlcaçãode Deus com o
movimento precisam do carácter absoluto e «Vemossomente as figuras e cores dos corpos;
flui equavelmente, e chama-se também duração: o espaço), aberta a múltiplas objecções: se Deus está
relativo, aparente e vulgar, é uma medida sensívele infinito do espaço.Vejamosa formulaçãoexacta ouwmosapenassons;tocamosapenasassupedcies
destes axiomas: presente substancialmente no espaço, então Deus é externas; cheiramos unicamente os odores e sabo-
externa(seja exacta ou inexacta) daquela duração e um corpo (embora imenso) e converte-sena velha reamos os sabores; mas as substâncias íntima não H
é tomado pelo vulgo como tempo verdadeiro: «Lei1.Todoo corpoperseverano seuestadode alma do mundo dos filósofos árabes medievais. E se conhecemosmediante nenhum sentido. nem
assim, uma hora, um dia, um mês, um ano». repouso ou movimento uniforme e rectilíneo estápresente virtualmente, é porque Deus pode ser sequer mediante qualquer acçãoreflexa; muito
enquanto não for obrigado a mudar de estadopor simultaneamente potência e acto, inactividade (o
«ll. O espaço absoluto, por natureza sem relação a menos temos ideia da substância de Deus.»
uma força que Ihe seja imprimida». espaçoé inactivo causalmente) e pura acção.Em
nada extemo, permanece sempre igual a si mesmo e (Pn/zc@za,
EscólioGeral.)
imóvel; o relativo é a medida deste espaço,ou certa «Lei11.A mudançade movimento é proporcional à
dimensão móvel, que é definida pelos nossossentidos força motriz imprimida e produz-se segundo a linha
segundo a sua relaçãoaos corpos e que o vulgo toma recta em que actuou a referida força»
por espaçoimóvel(. . .). O espaçoabsolutoe o Ciência e metafísica
«Lei111.Há sempre uma reacção contrária e igual a sua presença imediata seja apercebida nessa tal
relativo são iguais em espaço e magnitude; mas nem Por que razãoa naturezanão ím nadaem vãoe donde
uma acção; isto é, as acções de dois corpos são substância?E assim, tendo-nos debruçado correc-
sempre permanecem iguais quanto ao número». provém a ordem e a beleza que vemos no mundo?
sempre mutuamente iguais e de sentido contrário» tamente sobre estascoisas,os fenómenos não nos
Qualé a finalidade dos cometase por que razãotodos levam a crer que há um ser Incorpóreo, existente,
Newton prossegue depois com as definições, deri- (Pd7zc@Ía,liv. l.)
os planetas se movem na mesma direcção em órbitas inteligente e omnipresente que vê intimamente as
vadas,de lugar e movimento. A primeira lei exprime o princípio de inércia e dá concêntricas ao passo que os cometas o fazem em
umadefiniçãoimplícitade massa(potênciade próprias coisas no espaçoinfinito como se fosse na
Que estas hipóteses são metafísicas (para além do todas as direcções segundo órbitas muito excêntricas?
resistência à mudança de movimento). A segunda lei sua própria sensibilidade, apercebendo-as plena-
físico) provam-no as próprias regras do filosofar. O que é que impede as estrelas 6xas de caírem umas
mente e compreendendo-astotalmente pela sua
Com efeito, por indução poderíamos chegar, em define a força: F = mcz.A terceira é o princípio de em cima das outras? Como é que os corpos dos presença imediata perante ele? Com efeito, o que
todo o caso,ao espaçoe tempo relativos, masnunca acção ereacçao. animais foram criados com tanta arte e qual é a apercebe e sente em nós é apenas a visão e a
ao absoluto. A relatividade do espaçoe do tempo finalidade da suasvárias partes?Por acasoo olho foi contemplaçãodas imagens dessascoisas trans-
E preciso pâr aqui em relevo dois pontos: a
prova-se por sua procedência da medida sensível criado sem perícia na óptica ou o ouvido sem portadas pelos órgãos dos sentidos até aos nossos
circularidade
dasleisl e ll (umaexplica-se
pela
dos corpos; se uníssemos as diferentes medidas conhecimento dos sons?De que modo é que os pequenos aparelhos sensitivos. Deste modo. e
outra) e o carácter principal, «evidente», da força movimentos do corpo derivam da vontade e de onde
possíveis, teríamos colecções de tempos e espaços embora cada passo verdadeiro dado nesta filosofia
imprimida, que Ricapor definir. Unamos agoraas provêm os instintos dos animais?O aparelhosensitivo não nos leve imediatamente ao conhecimento da
De modo algum podemos chegar ao carácter abso- duas hipóteses de base: um espaço infinito e dos animais não é o lugar onde está presente a causaprimeira, todavia aproxima-nos dela, e por isso
luto destes âmbitos partindo das relações entre absoluto no qual se deslocam massasinertes, e um? substância sensitiva, a qual recebe asformas sensíveis devemos tê-la em grande conta.

M corpos. Ê certo que Newton aduz duas engenhosas


experiências para provar o carácter absoluto do
força que extrinsecamente actuasobre os corpos. E
possível desvendar, finalmente, o segredo destas
dascoisasatravésdos nervose do cérebro paraque a Newton,Opl/ca
M
(D O ILUMINISMO 3 NEWTON E O PROBLEMADA NATUREZA
As críticas de locke e cume estão lá prefiguradas no em teólogo:«Ocupar-se d'Ele a partir das aparências a) A natureza não é tanto um conjunto de fenó- (daí que a ideia iluminista de natureza esteja na base
fenomenismo de Newton. O que este não poderia das coisas compete certamente à fllosoHia natural.» menos (natureza materialmente considerada) quan- da revolução científico-técnica do século Xlx). o
prever era que viessem a ser utilizadas como (Pdzzc@[a,
Escó]ioGeral.) to um sistema de leis (natureza formalmente consi- tempo possui um valor secundário;é reversível
argumentos em favordo agnosticismo,e inclusive derada) regido pelos seguintes princípios: relativamenteao espaçoinfinito
do ateísmo. Ele, que havia retirado do homem todas
1) Regularidade: 7zz/uríz 7zzbl/ ag// /rz/sfróz c) A naturezaé autónoma; não necessitade Deus
as potências que DescarnesIhe atribuíra, para as 3.4. A ideia de natureza (a

natureza nada fz em vão). paraser explicada.O próprio Newton suspeitara


colocar em Deus; ele, quc escrevera os Prznc@ia
Se na ordem científica Newton conseguiu sintetizar destatransformação,que se daria mesmo contra a
«nãocom o propósito de apresentarum desa6loao 2) Continuidade: nafurcz zzon Jaez/ sóz//zís (a
as diversasdescobertasno seio de uma mecânica sua vontade: «Um Deus sem domínio, sem provi-
Criador, maspara reforçare demonstrar o poder e natureza não dá saltos).
racional. na ordem filosófica levantou uma muralha dência c sem causas finais, nada mais é do que
superintendência de um Ser Supremo.»(Carfczíz
entre sentidos e razão,entre a matéria passivae a 3) Conservação: na natureza nada se cria ou se fatalidade e natureza.»(Pnnc@za Liv. lll.)
6ozzdu/#.)
Assim, o sensório divino percebe os corpos tais quais força activa.O Iluminismo atesta a luta denodada destrói, apenasse transforma (massa,quantidade de d) As leis da naturezaconfiguramo reino da
para alcançar uma nova síntese. Seria Kant quem a movimento, energia); princípio expressamente necessidade. A liberdade não existe; a ilusão de ser
são,já que todos estãonele mergulhados. E pode
realizaria. Mas talvez fosse, nalguns aspectos, já tarde formulado em toda a sua generalidadepor Lavoisier. livre deve-sea umdesconhecimento das variáveis
modificar por seu arbítrio as suas posições, me-
de mais. intervenientes:
determinismo
diante os espíritos etéreos. O homem, ao contrário,
4) Mínimo esforço: /zóz/urízagir semperper pias
é limitado e passivo; não está na sua mão alterar os e) Todo o existentese pode reduzir ao âmbito
Do ponto de vista 6ilosóflco e metodológico, sírnp//ces(a naturezaactua sempre pelo caminho
estados dos corpos (quando crê fazê-lo está, na mecânico do físico-químico: reducionismo fisicista
Newton surge como a antítesede Galileu. Este mais fácil) . Princípio formulado por Maupertuis.
realidade, a obedecer aos planos de Deus -- note- No entanto, e face ao cartesianismo. trata-sede um
mantivera rigorosamente a cisão entre ciência e b) A natureza é uma estrutura de tal modo con-
sea reproduçãomalebrancheana
destateoria). mundo vivo, um mundo de forças em interacção(uís
fé. Aquele esforçou-se,ao longo de toda a sua sistente que o conhecimento das suasleis permite- papa). A massa é limite entre duas forças (uis
vida, por apresentar a ciência como prova da fé.
-nos predizer o futuro e actuar em consequência Inerl/ae, u/s ímpresscz): energetismo.
3.3.3.Da matériaa Deus O pisano (e Descarnes mais ainda) confiou de tal
maneirano poder da razãoque equiparou o
Passemos,
por último, às hipóteses metodo conhecimento intensivo do homem ao divino,
lógicas. A maisimportante dentre elasé o princípio enquanto Descarnesruía o mesmo em relação à
da transdução(regra 111).
A sua importância é tal que vontade. Newton, fiel à essênciado protes-
é consideradoo «fundamentode toda a filosofia». tantismo, rebaixou de tal forma o homem que o
Emqueresideo seuvalor?Reduz,em primeiro condenou a viver num mundo de imagense de
lugar, a matéria a qualidades primárias, mate- sombras,deixando o conhecimento das próprias
matizáveis. Com o atributo da massa(inércia) coisas para Deus. Por isso, insistiu no carácter
confere-lhes o carácter essencial de passividade. Faz
Da matéria a Deus homem ou no seuprincípio pensante,e muito menos
empírico e indutivo do conhecimento, face ao
do homem um serduplamente passivo(receptor de racionalismo matematizante continental. E etemo e infinito, omnipotente e omnisciente, bto é na substânciapensante de Deus. Como coisa dotada de
perdura desde a eternidade até à eternidade e está percepção,o homem é uno e idêntico consigo mesmo
passividade).Até aqui, o princípio seria de mera
presente desde o infinito até ao infinito Regetudo e durante toda a suavida e em cadaum dos seusórgãos
indução: passagemdo particular a uma gene- Ao homem iluminista interessou de imediato o
conhece tudo quanto é ou pode ser feito. Não é sensoriais.Deus é uno e o mesmo Deus sempre e em
ralizaçãoempírica. carácter impressionantemente unitário e estru- etemidade e inHiniEudemas sim eterno e infinito; não é todas as partes. A sua omnipresença não é apenas
No entanto, o princípio vai maislonge e constitui-se turado da mecânica newtoniana, e não os seus duração ou espaço, mas dura e está presente. Dura uzHzía/mas também szzós/ancíózÉ pois a virtude não
numa prova ózposrenod da existênciade Deus: a interessesteológicos,dominantes,em última aná-

R=$;H:n:;:X::
se/npre e está presente em todas as partes e dá origem
ordem, Hlnalidadee belezaque o sensóriohumano lise. Assim. combinando o ideal matemático e à duração e ao espaço. Como cada partícula de espaço
descobre não são produzidas por si nem pelas coisas omnicompreensivo de Descarnescom a prudência é sempre, e como cada momento indivisível de
inertes. Portanto, tem-se acessoao reino da primeira empírica e o rigor experimental de Newton, foi-se duração é uóígzzo,O criador e senhor de todas as movimento dos corpos e os corpos não encontram
causa:«Estebelíssimo sistema(. . .) só pode pro- formando uma imagem da natureza,operante dc coisas nunca poderá ser nunca nem zzezzbumapane. resistênciana ubiquidadede Deus.Assim,há que
algum modo nos nossosdias, e cujo melhor A alma apercebe-se das coisas em tempos diferentes e reconhecer que existe necessariamenteum Deus
ceder do conselho e domínio de um ser inteligente

:E:==E '===='::=:=h.===:
com diversos sentidos e órgãos de movimento, mas é
e poderoso». Toda a filosofia natural (e a mate- expoente é talvez a audaz Hísfóría Gera/ dóz
sempre a mesma pessoaindivisível. Na duração há
mática ao seu serviço) se manifesta agora como uma Nafzzreza,de Immanuel Kant(1755).
l partes sucessivas e no espaço há partes coexistentes,

M imensaprízepózrízr/oDei. Mais ainda, através do


princípio de transdução o mecânico transforma-se
Seriam estas as linhas essenciais do conceito de
naturezano Iluminismo:
mas nem um nem outro se encontram na pessoa do Ue»i\Qn,Püncípios Matewláticos da Filosa©a Natural.
M
4 HOMEM E DEUS:O DEISMO E A RELIGIÃONATURAL
(D oituniNj$#Q
O Iluminismo apresenta-se com frequência como 3. Realidadedo mal e pelo problema que este co-
3.5. Do teísmo ao sensacionismo Mas a desdivinização do mundo arrastava necessa-
um movimento antiteológico e anui-religioso. Esta loca especialmente em relação com a ideia de uma
riamente a queda da razão como sujeito cognos-
Os próprios progressos da ciência tão solidamente cente: a mcnte humana, privada da sua comparação
interpretação
precisade ser caracterizada.
Com Rnalidadena natureza, estabelecida providentemente
estabelecidos por Newton foram tornando cada vez com Deus,fica fora do sistemamecânico.Ou então efeito, a secularização que, paralelamente ao pen- por um Deus bom
mais desnecessáMa intervenção de Deus no âmbito do samento moderno desde o seu início, ela prossegue
(e este é o grande paradoxo), é o próprio sistema b) Convém ter presente em segundo lugar, a atitude
natural. A descoberta da energia por Christian Huy- e radicaliza,mantém contudo o reconhecimento do
mecânico que se mentaliza, que se torna psiquismo tanto do Renascimentocomo da Reforma a respeito
ghens(//2 mzÕ e da uis uz'uízpor leibniz(mvz), face à divino, bem como uma peculiar interpretação da
Com efeito, a clássicacisão entrü qualidades pri- da religião. O impulso e o espírito religioso da
inerte quantidade do movimento cmesiano(mu), que religião. Para uma adequada compreensão do
márias e secundárias passavapela primazia da razão Reforma,que se alimenta da crise da razão e do
Newton não pede nem quis superar, os progressos em problema, convém ter em conta as duas observações
matemática,reflexo da divina. Eliminados os dois voluntarismo do século XIV, aârma a impotência da
biologia e química e o domínio da energia eléctrica(a seguintes:
tipos de razão, limitado o homem aos meros natureza, a radical debilidade humana como sequela
garrda de Leyden)configuraramnos finaisdo sécu- fenómenos, cai também a distinção entre quali- a) Em primeiro lugar, deve [er-se em consideração do pecado original e a absoluta necessidade da graça
lo XVlll um mundo no qual o melhor sucessorde dades: ambas são objectivas, ou subjectivas, como se a situação em que surge a reflexão iluminista. Essa divina. Nestesentido, não é maisdo que o exagero
Newton, laplace, podia respondera Napoleãoque não queira. O homem é uma colecção de sensações situação encontra-se deHnida pela: expressodo augustinismo.A religião humanista do
havia introduzido Deus no seu sistema por não ter Renascimento,
ao contrário, crê na total auto-sufi-
Eliminadoso espaçoe o tempo absolutos,não há
necessidade dessa «hipótese inútil». outro remédio senão o humano. Mas então é 1. explicação científico-mecânica da natureza, com
ciência da razão: o homem pode salvar-sepor si
a consequente exclusão da finalidade a ordem a mesmo. Neste sentida, .o Renascimento destila
impossíveldistinguir entre coisase sensações
das
natureza física;
coisas:é o sensacionismo de Lamettrie(l 'Hom- pelagianismo.(Recorde-se,a propósito, o exposto
me Mízcbílze,1748) e de CondiRac(rraifé des 2. experiência histórica da religião revelada, e o nos capítulos quarto e sétimo e aprecie-se a linha de
Sezzsózfzo?zs,1754). problema da justificação do homem diante de Deus; continuidadeentre asdiversas6ilosoHias)
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Dasorigens da religião natural


Mesmo quando a investigação relativa à religião tem historiadores,foram descobertospovos que não
grande relevância, há duas questões particulares que tinham qualquer sentimento religioso. Nunca dois
As saídas deste «cerco psíquico» deram origem ao põem à prova a nossa reflexão, a saber: a questão que povos e dificilmente dois homens coincidiram com
mundo actual. Encontramos duas explícitas e se refere ao seu fundamento racional e a que se refere exactidão nos 111esmos
sentimentos. Por conseguinte,
outra subtilmente tortuosa.A primeira, o trans- às suasorigens na natureza humana. poderia parecer que este preconceito não resulta de
cendentalismokantiano, que outorga franca- A primeira questão, que é a mais importante, admite um instinto original ou de uma impressãoprimária da
mente à razão a actividade que Newton reservava felizmente a solução mais óbvia ou, pelo menos, a natureza-- tal como acontece com o amor-próprio, a
a Deus. A segunda, o materialismo mecanicista, mais clara. A organização da natureza revela nos um atracção entre os sexos, o amor pelos nHhos,a gratidão
autor inteligente e nenhum investigador nacional,após ou o ressentimento--, pois já se comprovou que tais
chefiado nestedomínio por GeorgesCabanis
séria reflexão, pode duvidar por um momento sequer instintos são absolutamente universais em todos os
Paoto (1757-1808) e seu famoso lema: les fzeÓ. uozü
dos princípios primários do monoteísmo e da religião povos e épocas e perseguem sempre um objecto
Uascagni: fozzf/'bomme(os nervos:eiso homem). A terceira inflexivelmente. Os primeiros princípios religiosos
autênticos. Mas a questão relativa às origens da religião
0 coco saída retoma o voluntarismo newtoniano e
na natureza humana já oferece diHculdadesmaiores. A devem ser secundários, a tal ponto que podem ser
humano. projecta-o no homem. Se este, diz Condillac, não crença num poder invisível e inteligente difundiu-se facilmente pervertidos por diversosacidentes,já que,
instituto de é explicávelcomo unidade mediante uma razão amplamente entre a raça humana, em todos os lugares por um extraordinário conjunto de circunstâncias, em
A/zíz/omza sintética, reconhecer-se-ácomo organismo e em todas as épocas. Mas a sua universalidade talvez muitos caos ceras causase até o seuexerdcio podem
Humana. mediante os seus desejos e impulsos. É uma linha só tenha existido a fim de não admitir nenhuma serabsolutamenteimpedidos.
Uni ersidade que, através do romantismo, chega até Nietzsche excepção,pois não foi de modo algum uniforme nas
dePisa e Freud. ideias que sugeriu. A acreditar em certos viajantes e cume,História(h ReligiãoNaülrat.
M
ID O ILUMINISMO 4 HOMEM E DEUS:O DEÍSMO E A RELIGIÃONATURAL

Poisbem, o Iluminismo vai seguir a senda traçada além disso, em particular, pretendermos fazer luz Eestapertença,no precisosentidoassinalado,
da A religião naturalestarápois contra os milagrese as
pela experiênciarenascentista,pois só nela é sobre a naturezada religião, é preciso que a religião à natureza racional do homem que melhor profecias, contra os ritos e os dogmas. Fará uma
possívela realizaçãodo projecto iluminista. verdadeira religião seja radical: enquanto não nos prova a sua verdade, e que a Em estar a salvo e acima crítica dura e implacável da religião positiva. Por
guiarmos pela razão «disputaremos em vão, e em vão da historicidade das diferentes religiões positivas e outro lado, enquanto reduzida aos princípios da
[enuremos convencer-nos mutuamente em assuntos das suas recíprocas e intermináveis disputas, tão
4.1. Redução
do cristianismo
à razão: mera razão, não haverá diferença entre a religião e a
de religião»(o.c.,livro IV, cap.XVlll, $1). presentes no século das luzes e nas guerras de moral. A religião consiste no conhecimento dos
Locke
A religião é pois racional, num duplo sentido. Por um religião. A invariabilidade da «natureza humana» e a deveres ou mandatos morais, e a sua actividade ou
O Iluminismo pretende levar a cabo uma funda- lado, na medida em que o seu conteúdo se deixa sua universalidade, o facto dc ser a mesmacm todos exteriorizaçãonão será mais do que a acção
mentaçãofilosófica do cristianismo e da íé,de compreender pela razão, entendendo aqui «razão» os homens e épocas, mostra e justifica a verdade e meramente ética. Voltaire disse-o de forma precisa e
modo que a revelação esteja em consonância com o como «adescobertada certezaou da probabilidade importância da religião natural ou racional. Pode paradigmática:«Entendopor religião natural os
que a mera e única razãonatural pode estabelecere das proposições ou das verdades que a mente logra continuar-se a supor e a admitir que a revelaçãoé princípios da moralidade comuns à espécie
reconhecer: alcançarpor meio da deduçãopartindo daquelas supra ou extra-racional mas isto, que é o importante humana,»
A atitude de Locke é clara e modelar. «A razão»-- ideias que adquire pelo uso das suas faculdades por agora, nãocontradiz a razão.
escreve na obra E?zsízio
sopre o J?nfehímen/o naturais,a saber:a sensaçãoou a reflexão»(/óiíím).
Mas devemos dar um passo mais: tendo a revelação
4.2. Religião natural e deísmo
/7zzma7zo «tem de ser o nosso juiz em última A racionalidade da religião refere-se pois, neste
instância e o nossoguia em tudo.» (Livro IV, cap. primeiro aspecto,ao modo do seu conhecimento,à
de estar em concordância com a razão, a razão O conceitode re]igiãdnaturalestáem estreita
XIX, $14.)Portanto,tambémna religião.E no certeza que é possível ter a respeito da religião. Assim,
natural constitui-seem juiz que decide do que relação com o deismo. Na verdade, a disputa entre
entanto, «havendo os homens sido imbuídos na pretende passarpor revelação.A tmão converte- religião natural e religião revelada não se pode
deve estar submetida às condições que a razãoimpõe
se no critério da revelação. Com isso, em entender à margem do deÍsmo. Para uma clara
opinião de que não devem consultar a razão em em qualqueroutro campode questões,à razão
matérias religiosas ( . . .) deram rédea solta à fantasia verdade só poderá considerar-secomo religião a compreensão do que este significa, convém distin-
analítica. Mas além disso, por outro lado, a religião é
emanada da razão, isto é, a religião natural. gui-lo do ateísmo e, sobretudo, do teísmo.
e às suas naturais inclinações supersticiosas» (o.c., racional na medida em que não só pertence inti-
Liv. IV, cap. XVII. $11). A religião, segundo Locke, mamente ao ser natural-racional do homem, como se
pertence intimamente ao ser do homem, ao ponto indicou mais acima, mas na medida em que "a razão é
de afirmar que «areligião é o que maisnos deveria a revelaçãonatural, por onde o eterno Paida luz e
distinguir dos animaise o que maispeculiarmente manancialde todo o conhecimentocomunicaaos
nos deveria elevar como criaturas racionais, acima homens essaporção de verdade que colocou ao Voltaire tória, apakonadae inconformista e, possíveis; o mal está presente na
dos brutos»(/ózdem). Ora, sequisermos acabarcom alcancede suasfaculdadesnaturais»(o.c., livro IV, Nasce
emParas
em 1694.
Morreem por isso, polémica: honrada em história e sem esperança de erra
a superstição, como exige o projecto iluminista, e se cap.XIX.$4). 1778. A nlgurade Voltaire é talvez a alguns momentos da suavida até à dicação plena No entanto, o único
maiscaracterística
do Iluminismo exaltaçãoe injuriada noutros até ao remédio que se pode e deve opor a
francês, embora a sua imagem te- A sua vida, longa e agi- estecactoé a sãrazão om
nha sido bastante deformadacomo tada, provou todas as experiên e clarificadora.
símbolo e protótipo da descrença clãs de um homem intelectual e O génio inquieto e curioso de
anticristã do século. Voltaire foi uma público: desde o cárcere na Bastilha
Voltaire produziu obras em todo o
personalidade complexa, contradi- (1717)e o enfio naInglaterm (1726- tipo de génerosliterários:tragédias
1729), até às mais fervorosas home- novelas, poemas, tratados de física e
nagens populares. A pagão de de filosonla,de história. . . Importa
Voltaire é a recusade todo o obscu. destacar entre os seus escritos
rantismo, realizada no meio de um Car/as sopre os /ng/fasesou Cartas
profundo pessimismoacerca do Filosóficas(1734), Mare!#sicade
homem, acerca dessa constante Newtott ou paralelo entre as Opi-
estupidez que se comprova através niões de mentor e leibniz (1740Ü
da história. Voltaire discute azeda- Dicionário Filosófica Manual
mente sobre este ponto (1764», O f'í/ósoÚo @n07'a/z/e
Grauu7ado séc.X]X. Rousseau,embora tenham muitas (\ llóà, Ensaio sobre os Costa
Pesose medidas. cona emmmum. mes e EspíHlo das Nações (\ 74Q)
Instituto Nacional de Investigações Não é este o melhor dos mundos Fi[oso$a da História (\]6$
Pedagógicas,Palas.
(D O ILUMINISMO 4 HOMEM E DEUS:O DEISMO EA RELIGIÃONATURAL
A) Faceao ateísmo,que afirmaa inexistênciade das da razão esclarecida e tenta resolver os religião natural, para impor uma nova atitude antc o mentos e alimenta-sedo temor, da ignorância e do
Deus,tanto o deísmo como o teísmo coin- problemas do teísmo, ao mesmo tempo que problema de Deus e oferecer uma nova explicação medo do desconhecido. Tem pois uma base
cidem em alarmar a existência de Deus. Ora mantém a crença na existência de Deus. O deísmo do facto religioso. Tal obra foi levada a cabo por psicológica,e quiçá patológica.As crençase os
bem, o teísmo não só estabelece a existência de foi cunhado no seu sentido geral e na sua funcio- Hume. princípios religiosos não são,escreveem H/s/ór/a
Deus como julga poder estabelecer a sua essência nalidade pelo pensamento iluminista inglês. John Já vimos, na teoria do conhecimento de Hume, a A/a/zzrn/ da Re/{gzão, «mais do que sonhos de
por meio da razãoe por analogiacom a naturezae as Toland escreveuuma obra cujo título é sumamente importância fundamental atribuída à experiência. homens enfermos»(cap. XV). Assim, passou-sede
propriedades ou predicados do homem; assim, expressivo Cristianismo não Misterioso e Com tal teoria é obviamente negado todo o presu- uma religião «natural»,fundada e exigida por uma
concebeDeus como autor livre do mundo e do Mattews Tindel quis mostrar no seu livro O mível uso supra-empírico do conhecer. Mas que «natureza humana racional», a uma explicação ou
homem com os quais mantém uma relação Cdstíanismo LãoVerbocomo a Criação o carácter dizer da «naturezahumana racional»e da sua «história natural da religião», onde o «natural»
providente: Deus como providência. Portanto, o natural de toda a revelação.Ê porém o francês pretensão de ser base e explicação da religião? Pois significa um conjunto de instintos e sentimentos,
teísmo pensa Deus como um ser pessoal. '.O teísmo Voltaire quem melhor expõe as teses gerais do simplesmente que não existe. O que se tem vindo a cujo precipitado seria a religião. Em qualquer caso,
autêntico» -- comentará Hume nos seus l)iá/aros deísmo, cujo sentido e alcance se captará com a sua considerar como tal não é, em verdade e em última no entenderde Hume, não se pode dar uma
sopre a Re/zgzãoNalzzra/ -- «fz de nós produtos de simples enumeração: análise, mais do que um complexo de impulsos, resposta negativa taxativa e categórica ao problema
um ser peúeitamente bom, sábio e poderoso, de um instintos e paixões, ordenados e fixados de certa da religião;ê de Deus. «Otodo constitui um intrin-
a) Deus existe e é autor do mundo.
ser que nos criou para que fossemos felizes, o qual, maneira por alguns princípios, cuja natureza é em cado problema, ym enigma, um mistério inex-
b) Não é possível determinar a natureza e atributos
ao ter implantado em nós um incomensurável definitivo inexplicável. «A razão» escreve cume plicável. Dúvida, incerteza e suspensão do juízo
de Deus.
desejo de bem, prolongará a nossaexistênciapor nos já citados l)zá/aros sopre íz Re/@zãoNa/ura/ -- surgem como único resultadoda nossamaises-
toda a eternidade.» c) A criaçãodo mundo por Deus não é fruto de um
«é, na sua fábrica e estrutura internas, algo tão pouco merada investigação sobre o tema»(zózdem)
O teismo encerra numerosos pressupostos, alguns acto livre, mas necessário,pelo que Deus não é
conhecido por nós como o instinto ou avegetação; Eis-nosperante o cepticismo de Hume, que é um
dos quais vamos recordar numa simples enume- responsável
do mal. e quiçá, até a vaga e indeterminada palavra na/zz- repto à própria razão e que Kant aceitará, pois o
ração, pois já foram de alguma maneira tratados d) Uma vez criado o mundo, Deus não volta a reza, à qual o homem comum tudo refere,não seja cep/iciwo, dirá o filósofo alemão, pode bem ser um
noutroscapítulos: intervir nele. Negação,pois, do conceito de também,no fundo, explicável»(ParteVll). lugar de descanso(Rubep/aiz) paraa razão apósa
providência divina. Mas então a que fica reduzida a religião e como dura luta contra o dogmatismo, mas de modo algum
a) Um uso e um poder transcendenteda razão,que
e) O mal, se tal é possível, só é explicável a partir do explica-la?A religião não tem o seu princípio na um lugar para residir e habitar(Wobnp/ízlz)(CHf/cóz
Ihepermite sobrepor-seao mundo;
homem; a este incumbe tentar anula-lo. razão,nem é possívelencontrar para ela um fun- díz Razz2oPuríz, 11.Teoria transcendental do mé-
b) Passagem
da naturezaa Deus medianteuma O deísmoassimconsideradoe reduzidoa estas damento e explicação racional. Surge dos senti- todo.Cap.l.).
prova racional da sua existência, tendo aliás especial
meses,baseia-sena razão teórica e obedece a uma
relevância a prova físico-teológica formulada na ideia
posição estritamente intelectual. Por outro lado, o
de que existeum fim na naturezae, por conse- deísmo, na sua relação com a religião natural,
guinte, uma inteligência suprema ordenadora; entendidaesta como o reconhecimentodos
c) O optimismo teológico, na medida em que o mandatosmorais, baseia-sena razão prática
mundo é o melhor dos mundos possíveis. É precisamente a debilitação e, em última análise, a

Ora bem, se a este três pontos contrapusermos: negaçãodo poderteológicoe transcendenteda


1) o carácter empírico, analítico e imanente da razãoteóricaque acabarápor deixaro deísmo
reduzido ao seu aspecto «moralista»e como «religião
razão esclarecida; 2) a explicação cientíHco-mecânica
natural»,uma e outra edificadas sobre o conceito de
da natureza e a correspondente exclusão de uma
.natureza humana»
6nalidade natural; 3) a difícil compatibilidade do
providencialismoe do optimismo teológico do
[eísmo com a realidade do mal (palpável de um 4.3. Negação do deísmo: Hume
modo tão cruel como no famoso terramoto de
Lisboa) veremos as tremendas dificuldades em que
se encontraria o teísmo, pelo menos na forma como
Como acabamosde ver, a concepção «deísta»de
Deus e a «religião natural» baseiam-sena ideia de
rw;®}.-* A cmnida dosfilósofosdo
llunt nisso Nottairecoma
o pensaramos 6tlósofosiluministas. uma «natureza humana», «racional». Pois bem, de mão !eoaníada).Gravura

M B) O deísmo, cuja estreita relação com a religião


naturalnãodevemosesquecer,exprimeasexigên
carácter a dissolução de semelhante «natureza
humana racional» virá negar tanto o deísmo como a
dos finais do séc. XVIII.
BibliotecadePaís. M

\
5 HOMEM E SOCIEDADE(ROUSSEAU= }#QMEn E SOCIEDADE (ROussEAU
Como acentuámosjá, o projecto do Iluminismo problema da sociedade adquire uma singular Talvezo filósofo iluminista que mais profundamente O problema consiste pois em explicar como a
importância. Não apenasna medidaem que pensou sobre estes temas e sobre a sua inter- sociedade se tornou de6lciente e injusta e como
podia sintetizar-sena ideia de uma ciência do
homem e no exercício de uma razão autónoma e questões como a estruturação da ordem social, da conexão, e que mais influenciou a posteridade tenha deveria ser reestruturada e ambas as questões em
sido Rousseau. Kant assinaloucom clarezao seu
secularizada.O pensamento iluminista acreditou origem e natureza da sociedade,da teoria da estreita relação com a «natureza» do homem, lá que
que sobreestasbasesseriapossívelumcontínuo significado nuclear e modelar relativamenteà
organização política, etc., são questões que com é a paM desta que segundo Rosseau.deve explicar-se
progresso no desenvolvimento e a realizaçãoda naturezado homem e da sociedade:«Newtonfoi o
outras pertencem a essa procurada «ciência do e compreender-se a sociedade.Com este propósito,
natureza racional do homem». A sociedade c a homem». Mas também, e com especial relevância, na primeiro a vcr a ordem e a regularidadeunidas a Rousseaudistingue entre estado de natureza(estado
história constituem o enquadramento deste pro- medida em que na sociedade e na história(no social, uma grande simplicidade onde antesdele não havia natural) e estado social, a Himde «distinguir o que há
gresso. numa palavra) confluem os temas não resolvidos, senão desordem e uma mal ponderada multi- de originário e o que há de artificial na natureza
Contra este talvezexcessivooptimismo no pro- procurando na sociedade a sua solução e por sua vez plicidade e, desde então, os cometa caminham por actual do homem», pois «enquanto não conhe-
gresso insurge-se a dura realidade do mal, que vinha recebendo da sociedade a sua nova configuração. viasgeométricas.Rousseaufoi o primeiro a des- cermos o homem natural é inútil pretender deter-
também pâr em causaa bondadee providência de Assim, a sociedade vem a ser o domínio para o qual cobrir, sob a multiplicidade das supostas formas minar a lei que recebeu ou a que melhor convém ao
Deus. O deísmo tentou solucionar, do modo que já é transposto o problema da reodzce/a(a tentativa humanas,a natureza recôndita do homem e a lei seu estado»(D/sczzrsosopre a O7@emda l)es/-
conhecemos, a responsabilidade de Deus relativa- da justificação de Deus relativamente ao facto do oculta segundo a qual a Providência fica justificada gualdade entre ÓSHomen.s,pt(:bgoÜ
com a sua observância».
mente ao mal. Por outro lado, o «naturalismo»da mal) e da origem do mal; mas também só na O estado de natureza designao «suposto»estado
razão e a «bondade»ser humano (em oposição à sociedade pode encontrar-se e alcançar-se a solução O ponto de partida de Rousseaué constituído por ou situação do homem anteriormente à sua vida em
ideia do homem como uma «naturezacaída» do mal moral. E tudo isso em relação com a questão uma dura denúncia do arEi6tcialismoda vida social e sociedade, estado no qual o homem (o «homem
afectadapelo pecadooriginal) tornam difícil a sobre a natureza do homem, não só que a origem, a uma crítica da civilização, interpretada sempre, e natural») seria bom e feliz, independente e livre, e
explicação do mal, assim como tornava desne- natureza e o significado da sociedade está em sobretudo pelo Iluminismo, como progresso.A guiado pelo são ..amorde si».Ao contrário, o estado
cessáriaa graçadivina, pois é o próprio homem e estreita relação com a natureza do homem, mas crítica propõe-se clarificar: a) se o progresso na social designa a real situação presente na qual ao
não Deus quem deve proporcionar-se a salvação,a tambémna medida em que o sentido do social(em cultura, ciências e artes implica um progresso viver em sociedade(em determinada
ordeme
qual não se realizará num além mas no aquém da sentido lato, poderia equivaler ao «cultural»)virá humano, um progresso na moralidade e felicidade estrutura social) o homem se torna mau, é movido
sociedade e da história, em consonância com o ofereceruma interpretaçãoda cultura e do seu do homem; b) se o progresso, que a organização pelo "amor-próprio» ou insaciável egoísmo(torna-se
espíritosecular. significado relativamente à «natureza»ou ao social moderna (a chamada sociedade burguesa) «homem artificial») e onde reinam a injustiça, a
Do que acabamos
de dizer segue-se
que o «natural». parece representar,permite fmer do homem um ser opressão e a falta de uma autêntica liberdade. O
unitário,totalelivre. problema anteriormente indicado reduz-sepois a
A resposta de Rousseau às duas questões é negativa compreender a passagemdo estado de natureza ao
.estado social»
(1712-1778). Nasce em Genebra. ./}ssões,
bem como asEanfízslasde natural»rousseauniano
conâgum-se No início do Em#zo, escreve: «Tudo está bem ao sair
Jeanlacques Rousseaué uma das ünt pmseartte solitário, ambas na verdade não tanto como a nneta das mãos do Autor das coisas; tudo degenera nas E muito importantenotar que o «estadode
figuras mais grandiosasdo llumi: publicadaspostumamente,dãonos de um regresso, mas mais como a mãos dos homens». E no Coza/rízfoSocícz/:«O natureza» (e os conceitos correlativos de «homem
nisso: talveza que maisampla ameclicla (le un pensamentoacuti- homem nasce livre, mas por toda a parte se encontra natural»,«liberdade natural», etc.) não designa uma
influência exerceu na lente, ansiosopor penetrarnas situação láctica e empírica, um facto histórico que se
agd[hoado».importa reparar, nãotanto no carácter
intelectual posterior. As suasCozz- profundezasdo homem e da sua considere com nostalgia e ao qual se desejaria
negativo da resposta(embora seja importante), mas
natureza.O l)ücz/no soprem ãên- Rousseauen] pensadoresgeniais, regressar. Pois o estado natural, escreve na obra
no sentido preciso da sua intenção e alcance, pois de
czas e as ÁI'/es, escrito quando posteriores a ele -- como será o citada, é «um estado que lá não existe, que talvez
caso de Kant - foi extraordinária.
modo algum significa, como veremos, rejeição
contava 38 anos, marca o seu dis-
indiferenciada da cultura e da sociedade, mas, ao nunca tenha existido, que provavelmente nunca
tanciamento da corrente enciclo- Palaalém das já ciladas, Rousseau
contrário, a rejeição da ordem social existente,da existirá,e do qual, no entanto, é necessário[er
pedista e a sua posição básica e pub[icououüu de igualinteresse:
O CmtraEO Soda!; Discurso sobre a ideia vigente de cultura e do indiscriminado opti- conceitos adequadospara julgar com justiça o
radical, «revolucionária» no ajuste da
mismo no progresso.A propósito, partindo da nosso estado presente»
problemática iluminista. A cultura, Origem e Fwtdantenlo da Desi-
asciências e as artes foram de facto gn.maldade
a tire os Homens.A NotiQ organização üctica da sociedade, é preciso distinguir O «estado de natureza» (e seus conceitos corre.
o meio htndamentalde degene- /7e/Diga.-Estaúltima, publicada em e esclarecer:a) se a sociedadeé por essênciamá o lativos) é pois uma categoria sociopolítica com a
ração e de obscurantismo do ho- 1762, foi rotulada de ímpia e o es- social vem por isso a prejudicar o natural, isto é, a qual e a partir da qual se poderá compreender a
mem natural. Tal denúncia é, ao cândaloobrígouo a fugir de França, «natureza»do homem; b) sea estruturaçãoláctica génese e a condição de possibilidade da sociedade,
mesmo tempo, uma reivindicação embora tenha voltado de novo a actual da sociedadeé deficiente e injusta. Para e r;'l
M do homem natural. Mas o «homem Paria após alguns anos de exílio.
Rousseau, a questãoresidenesteúltimo ponto.
analisar a sua estrutura a partir desse fundamento,
relativamente a esse zdea/ de natureza e liberdade E.1.2
(D O ILUMINISMO 5 HOMEM E SOCIEDADE (ROUSSEAU
humanas ajuizar e valorizar o estado presente e funda e desenvolvea vida social e política?São Óomzni/apzzs)e o estado natural é um estadode por essecontrato não haja nem tenha de haver
habilitar [eoúcamente a reestruturação de uma nova modelares duas explicações de tal passagem: a de violência e guerra de todos contra todos, consi- submissãoe obrigatoriedadeda lei. O carácter
ordem socialque permita e realizeo que o homem Hobbes (1588-1679)e a de Rousseau. derando que só uma força superior e a submissão genuínodo contrato reside,pelo contrário, precisa-
terá de ser por exigência da sua «natureza». podem estabelecero vínculo ou contrato entre os rncnte no sentido da submissãoà lei em liberdade
Em oposição a Grócio, que via no homem um "instinto
homens. O vínculo é pois um contrato de submissão Com efeito, «o problema fundamental ao qual o
Por conseguinte, a crítica da injusta ordem social e social» e na sociedade a simples consequência desta
e de alienação,pelo que, cm rigor, não se pode contrato social dá solução» escreve Rousseau é
da cultura não significa em Rousseauum retorno a «natural disposição social do homem», tanto Hobbes
um estado natural, anárquico e bárbaro, mas a
considerarum «contrato»,
já que ao ser uma «encontraruma forma de associação(. . .) pelaqual
como Rousseaucrêem que o homem não é socialpor
contratação pela força, a ordem social e política cada um, unindo-se a todos, não obedeça senão a si
transformaçãode uma ordem socialestabelecida naturezavelücando-se a prioridade do indivíduo sobre
assim establecida carece de justiça. próprio e permaneçatão livre como antes»ÚO
pela força(Hobbes) e vivida de forma heterónoma, acomunidade.Porém,sãod#ê7m/esm etP/icaç&s
Para Rousseau, semelhante forma de contrato Cozzfra/o
S)cza/,livro 1,cap.W)
numa ordem estabelecida em igualdade e liberdade que um e oz//ro ap7esm/am com basena ideia que
e vivida em autonomia. cadatinha. do «homemnatural»e do «estadode
imposto por coacção, nega a liberdade «natural»do No contrato social,pelo qual se passade uma
natureza»,
bem como do idealde víncu]osociale de homem e não institucionaliza nem permite uma liberdade «natural» a uma liberdade «civil e política»
Pois bem, como é possível pensar ou estabelecer a
adequadaliberdade civil e política. O verdadeiro dá-seumaalienaçãovoluntáriae livre, umadespos-
passagem do «estado natural» ao «estado social»? Ou, ordem política em conexão com as respectivas
vínculo social deve ser pois, baseado num sessãodo que pertence ao «homem natural»; não
o que é o mesmo, como determinar a origem da concepções
da naturezado homem.
contrato livre. Mas isso não significa de modo em favor de uma vontade individual,:mas em favor
sociedadee o laço, vínculo ou contrato em que se ParaHobbeso homem é o lobo do homem (pomo
algum que na ordem social e política estabelecida de toda a comunidade, vindo assim a criar uma
união social perfeita, cuja expressão e princípio
director é aquilo a que Rousseauchamaa «vontade
geral»
Os homens não se submetem senão à lei que eles
mesmos se deram; livre e racionalmente. «Ao dar-se
cadaum a todos os outros» escreveRousseau--,
não se dá a ninguém em particular, e como não
existe nenhum membro da comunidade sobre o
Da cultura, do progressoe do homem «natural» animal feroz do que um deus. Também a alma foi qual não se adquirao mesmodireito que nos
De todos os conhecimentos humanos, o mais útil e o
constantemente alterada no seio da sociedade por permitimos sobre nós próprios, assim cada um
inúmeras causas,pela aquisição de uma multitude de recebe o que entrega na mesma medida, recebendo
menos avançado parece-me ser o do homem; aliás,
conhecimentos e de erros, pelas mudanças ocorridas ao mesmo tempo uma força maior para se a6trmar a
atrevo-me a dizer que até a inscrição do templo de
na constituição dos corpos e pelo choque contínuo
Deltas continha um preceito mais importante e mais si próprio e se manter no que é e no que tem» (O
das paixões; por assim dizer, alterou tanto a sua C07zrríz/oSoda/, livro 1, cap. VI). E com isso
diHcü que todos os livros dos moMlsus. Por isso julgo
aparência que é quase ineconhecível. E assim, em vez
que o tema deste D/sczlrso é uma das questões mais passaramde um estadonatural e de necessidadea
de um ser que actua sempre segundo princípios cer-
interessantes que a filosofia pode proporcionar e, um estado baseadona razão e fruto da liberdade,
tos e invariável, em vcz dessasimplicidade celestial e
infelizmente para nós, é também uma das mais estando tal comunidade social muito acima do
majestosa com que o seu amor a havia marcado, agora
espinhosas para os RUósofosresolverem. Como é que «estado de natureza»
encontramos apenas a disforme oposição entre a
se pode conhecer a fonte da desigualdade entre os
paixão que )ulga raciocinar e a razão em delírio. Nesta nova ordem social racional e livre será possível
homens se estes não começarem pelo conhecimento
O mais cruel, todavia, é que todos os progressos da erradicar o mal moral e a injustiça e realizar a
deles mesmos?E como é que o homem conseguirá
espécie humana a afntam cada vez mais do seu estado perfectibilidade e felicidade do homem: a sua plena
ver-se tal qual a natureza o formou, havendo tantas
primitivo; quantos mais conhecimentos novos, acu- realização e salvação, como fruto da acção que a sua
mudançasque o decurso dos tempos e das coisas
mulamosmais nos privamos dos meios de adquirir o
produziu na sua constituição original? E como con- razão prática leva a cabo.
mais importante: e assim, num certo sentido, à força
seguirá ele separar o que corresponde ao seu próprio A consideração reflexiva sobre a naturcza e pHncípios
de estudarmos o homem afmtamo-nos da possibili-
ser daquilo que foi acrescentadoou mudado no seu dadede oconhecer. desta razão prática, orientada para uma clarificação
estado primitivo pelas circunstâncias e pelos seus raciona[da acção moral do homem, será uma das
progressos? A alma humana assemelha-se à estátua de Roussean,Discurso sobre a Origem e os Futüarnerttos
grandes tarefas a que Kant se proporá. Assim, o
l
D
Glauco que íoi de tal modo desfigurada pelo tempo,
pelo mar e pelas tempestades que mais parecia um
da Desigualdade etttre os Ho?tletts, in O Contrato
Social
Frontespíciode Exílio, de Rosseau.
Rlósofo alemão será a expressão mais «6ilosóRica»
amplo movimento cultural que foi o Iluminismo.
do
m
O IDEALISMO
TMNSCENDENTAL
DEUNT
INTRODUCAO
I SENTIOO PÇ VM4 ÇBÍTIÇA OA RAZÃO. A IOEIA OE FILOSOÉIÁ

Como Descarnes e Espinosa, como Locke e cume. 1.1. Necessidadede uma crítica da razão
O pensamento de Kant representa um desígnio vigoroso e original de superar, sintetizando-as, as duas Kant é por vezesconsideradoexclusivamentecomo
correntes RHosóficas
fundamentais da modernidade: o racionalismo e o empirismo. A obra de Kant não um teórico do conhecimento. Estainterpretação da A diversidade de interpretações da razão, é vivido
se limita no entanto a essasíntesesuperadora,pois nelaconfluem todos os fios maisimportantes da 6ilosoflakantiana é unilateral e, por conseguinte agudamente por Kant. A expressão «que significa
trama da época moderna. Pode portanto ser considerada como o apogeu HJlosÓHlco
do século XVlll orientar-seno pensamento»(título de um dos seus
pode conduzir a uma visãodeformadae superâcial
da nlgurae importância de KanE.De facto, o seu opúsculos mais importantes) encerra a exigência e o
No capítulo anterior fizemos várias referências prospectivas ao pensamento de Kant. Com efeito, este
não pode ser adequadamentecompreendido a não ser na perspectiva complexa dos interesses e ideias pensamento é motivado pela situaçãoespecíâcaern sentido de filosofar para o pensador de Kónigsberg.
do Iluminismo. que se encontram a filosofia e a sociedadedo seu A tarefa fundamental imposta por esta exigência
tempo e por uma exigência de clarificaçãodo será:submeter a razão a julgamento. Paraquê?
Neste capítulo ocupar-nos-emosda 6llosoíiade Kant, atendendo a quatro núcleos temáticos homem e da sociedade,no contexto histórico- Pararesolver, se possível, o antagonismo entre as
importantes; em primeiro lugar, a concepção kantiana da filosofia e o sentido que adquire o interpretações
da mesmaque a dilacerame a
.social -- cruzamento antagónicode alternativase
empreendimento de realizar uma crítica da razão em conexão com os interesses 6ilosóílcosdo de caminhos-- do Iluminismo. aniquilam:
Iluminismo; em segundo lugar, ocupar-nos-emos da crítica a que Kant submete a razão teórica na sua a) por um lado,o dogmatismo racionalista istoé,
Esta exigência de cladnicação, assumida pela filosofia
relaçãoessencialcom o conhecimento da natureza;em terceiro lugar, ocupar-nos-emosda razãoprática
kantiana como tarefa principal, é de tal modo a pretensão racionalista de que.somente a razão, auto-
na sua relaçãoessencialcom o conhecimento moral e com a urefã moral; por último, procuraremos dar
importante que só a partir dela é possível determinar -suficientee à margem da experiência possainter-
uma visão totalizante do pensamento kantiano atravésda sua concepção da religião e da história. o sentido e o alcance da figura de Kant como teórico pretar a estrutura e o sentido da totalidade do real;
do conhecimentoe como filósofo da ciência. b) por outro, o positivismo empirista, cuja ex-
O cruzamento antagónico de caminhos que Kant pressãoúltima é o cepticismo, como desígnio de
wve e experimenta tem origem numa diversidadede reduzir o pensamento ao dado pelos sentidos, com
interpretações da razão, ponto de partida do pensa- a consequentederrotada razão;
mento moderno, a partir do qual se determinam: c) Hnalmente,o irracionalismo, entendido como
a) o trabalho científico; b) a acção moral; c) a hipervalorização do sentimento, da fé mística ou do
ordenação da sociedade,e d) o projecto histórico entusiasmo subjectivo, e portanto como negação da
em que a sociedade se realiza. propriarazão.

llunti!!esmo e razão
vada?Todos nós podemos comprovar isto e nesse
Pensar p07' s/ mesmo significa procurar a suprema exame a superstição e o delírio depressa desapa-
pedra-de-toque da verdade em si mesmo(ou seja, na recerão, mesmo que não se possua os conhe-
própria razão); a máxima de pensar sempre por si cimentos necessários para poder refutar com
mesmo é o //zlmznzsmo(Áa@/ãmng) Ora, isto fundamentos objectivos; com efeito, neste casocada
implica menos do que pensam aquelesque situam o um serve-sesimplesmente da máxima da azz/ocon-
Iluminismo nos conóeczmazlo$já que o Iluminismo é sen/caçãoda razão.Assim, revela-sefácil instaurar o
mais um princípio negativo no uso da própria facul- esclarecimento em sugo/foss/ngu/arc?s por meio da
dade de conhecimento, e o mais rico em conheci- educação; basta que os jovens sejam desde cedo
mentos é com frequênciao menosesclarecidono uso habituados a uma tal reflexão. Mas esclareceruma
Este capítulo consta das seguintes partes:
dos mesmos; servir-se da própria lazão signiRca apena época torna-semuito mais demorado e penoso,
1. Sentido de uma critica da razão. A ideia de 6Hosofia.
perguntar-sea si próprio a propósito de tudo o que se dado que há muitos obstáculosexternos que podem
2. A natureza e a razão teórica.
pode admitir. E possível converter em princípio uni- proibir essetipo de educaçãoe dificulta-lo.
3. A liberdade e a tarefa da razãoprática.
m 4. História e religião.
versaldo uso da razão aque]e fundamento pe]o qual se
admite algo, ou também se admite a regra daí deri- Kart. O Que SÍgni©zca
OHetttar-se no Pemamento.
B
(P O IDEALISMOTRANSCENDENTALDEKANT l SENTIDO DE UMA CRITICA DA RAZÃO. A IDEIA DE FILOSOFIA

Dogmatismo racionalista, positivismo empirista, trições: a constrição civil e a constrição da cons-


Razãoeliberdade
irracionalismo, eis três interpretações antagónicase ciência (seja pela religião, seja pelas normas social e angustiante,por meio de fórmulas de fé obrigatórias,
À liberdade de ç)ensaropõe-se,empnmaro /usar, a em relação aope7@o de uma / luas/{gaçciopessocz/,
irreconciliáveis da razão que impõem, segundo Kant, historicamente recebidas). Estas limitações da
coacção ciu//. E verdade que a liberdade delalar ou anulando assim qualquer exame da razão graças à
a necessidade de levar a cabo uma crítica da liberdade implicam portanto um uso da razão à
de escleuerpode ser-nosretirada por um poder impressãoantecipadamenteproduzida no ânimo.
mesma. margem de uma legalidade imposta por ela própria. superior, mas não a liberdade de pezzsar.Mas esta- Em /a'caro/usar, a liberdade de pensar signintcaque
ríamosa pensarbem e com correcçãose não pera a razãosó se submete à lei que ela dá a si mesma e a
O remédio para essasituação só pode ser a crítica da
sássemos,por assim dizer, em comunidade com maisnenhuma outra; e o contráiío disto é a máxima
1.2. Iluminismo e liberdade como meta da razão, de modo a que esta ouse procurar em si outros, que nos comi zfcam os seus pensamentos ea de um z/seseno/eí da razão(e assim,fora das
razão mesmaa pedra-de-toque da verdade. «Amáxima de quem comzz/z/canosos nossos?Por conseguinte, limitações das leis, poderáver mais longe, tal como o
pensar por si próprio: é isso o Iluminismo». Uma pode dizer-seque o poder externo que priva os génio). Daqui resulta naturalmente que a razão,se não
O julgamento da razão (isto é, o julgamento a que a
crítica da razão será pois a exigência que o ser homens da liberdade de comzzznlcizr
publicamente os se quer submeter à lei que ela fornece a si mesma,
razãoé submetida: lenitivo objectivo) significa para humano impõe de se esclareceracerca do que seus pensamentos também os priva da liberdade de deve então dobrar-se ao jugo das leis que outros Ihe
Kant um exercício crítico da razão(isto é, realizado é e acercados seusâns e interesses. pensar a qual é o único tesouro que nos resta no meio dão; pois sem lei, nada,nem sequer o maior absurdo,
pela razão: genitivo subjectivo) . Este julgamento é de tanto peso civil e também o único que pode ofe- se mantém por muito tempos Assim, a ausência
absolutamente
necessário,
não só por causada Precisamente por isso e neste sentido, afirmávamos recer um remédio contra todos os males inerentesa explícita de lei no pensamento(Éto é, uma libertação
diversidade de interpretações que os filósofos deram que a crítica da razãose propõe o exercícioe essacondicão. em relaçãoàslimitações impostaspela mão) produz
da razão (como dizíamos na secção anterior), mas realizaçãoda liberdade, uma liberdade que não sc Er/zs«z/zMo /agízr, a liberdadede pensaré tomadano esta consequência inevitável: a liberdade de pensar
também, e mais originariamente ainda, por causa do satisfm com ser vivida de modo subjectivo, mas que sentido de que a //z/o/má7zc/a(Gewzksezzszwang) se perde-seHtnalmente,e, porque não é por culpa do
modo como os homens da sua época vivem a sua deve projectar-se para a acção e para a praxis na opõe a ela . É o que acontecequando em matéria acasomasde uma verdadeirat)etulância,a liberdade
vida humana: um modo que é não esclarecido, isto religiosa, sem coacção externa, certos cidadãos se pende-sep07'/ gelreza, no sentido próprio da palavra.
estruturaçãode uma novaordem social.
Estaliberdade é o motor da crítica e aponta para edgem em tutores de outros e, em vez de fomecerem
é, de menoridade. Embora se trate de uma «época
argumentos, procuram antes inspirar um medo Kan\, O Que Significa OHentar-se tto PensameTtto.
de esclarecimento», Kant pensa que os homens uma situação época esclarecida- que é talvez
desta época não conseguiram torna-la realmente inalcançável(daí
a importânciado elementou/(»ico
numa «épocaesclarecida». no pensamento kantiano). Mas entrctanto a mesma
Kant regista uma situação humana de «menoridade» críticaresponde,consagrando-a, a uma «épocade
favorecida pela negligência, pelo isolamento na esclarecimento».A distinção entre «épocaescla-
1.3. A ideia de filosofia 1.3.1.O conceito mundano da Êlosofia
individualidade abstracta e, definitivamente, por recida»e «épocade esclarecimento»introduz-nos
falta de verdadeira liberdade. A tarefa da crítica da na relaçãoque Kant estabeleceentre Iluminismo e
A Hiloso6ta
kantianainclui pois um duplo elemento: Na perspectiva desta ideia geral e suprema da razão,
razão (em seu sentido mais pleno, até «orientar-se história: por um lado, o Iluminismo é motor e meta
a) crítica das desnaturaçõesda razão;b) projecto de a filosofia é, para Kant, «a ciência da relação de
no pensamento»)terá por objectivo primordial a da história; por outro, a história deveser entendida
um novo estado da humanidade na liberdade. Ora. o todos os conhecimentos com os 6ns essenciais
realização da liberdade, a superação das suas cons- como melhoria e progressono Iluminismo. da razão humana;,. É esteo conceito mundano ou
cumprimento de ambos os objectivos exige a
descoberta e estabelecimento dos princípios, leis e cósmicoda Hiloso6ia,
por oposiçãoao conceitoaca-
6tnsúltimos que a razão impõe a partir de si mesma démico da mesma,a que nos referiremos pos
e de acordo com a sua mais genuína natureza. leriormente. Na sua concepção mundana, compete
De acordo com este projecto, «razãopura» significa, à filosofiapropor-se:
num sentido muito preciso (prescindindo agora de a) estabelecer os princípios e limites a partir dos quais
outros matizes), a essência da razão enquanto é possível um conhecimento cientí6co da natureza. Ou
faculdade que estabelece a partir de si mesma: seja,responderà pergunta:que possoconhecer?
a) os princípios que regem o conhecimento da b) estabelecer e justificar os princípios da acção e as
natureza; condições da liberdade. Ou seja, responder à
perguntaque devofazer?
b) as leis que regulam o comportamento enquanto
Nicotas-André
Monsiau:O rei acçãomoral ou livre; c) delinear projectivamenteo destino último do
LuasXV} com o condede La homem e as condições c possibilidades da sua
Pâouse,jatnoso natlegadore
explorada (1741-1788).
c) os fins últimos desta razão,bem como as
condições em que podem ser atingidos.
realização.Ou seja,responderà pergunta:que me
é pemlitido esperar? D
(P O IDEALISMO TRANSCENDENTAL
DE KANT 2 A NATUREZA EA RAZÃO TEÓRICA
A primeiraquestãodedicar-se-á
a metafísica,
à ao menos,procurar) o sistemade todos eles.E isso 2.1. O problema do conhecimento deste tipo são, por exemplo, os de «substância»
segunda a moral e à terceira a religião. Ora, nem as que constitui a tarefada HilosoRia
no seu sentido ou «causa», «necessidade», «existência». etc
três perguntas nen] as disciplinas filosóficas conceitoacadémico. A primeira das perguntas a que uma crítica da razão
Estadistinçãoentre sensibilidadee entendimento (e
correspondentes se encontram desligadas, antes deve responder é, como indicámos na secção a consequente aârmação de que este produz espon-
1.3.3. A actiüdade crítica da âlosoíia
derivam dos Hinoessenciaisda razão. Daí quc astrês anterior, que posso conhecer? A respostaa esta taneamente certos conceitos) pode utilizar-se para
perguntas possam e devam ser retomadas numa pergunta implica assinalar: a) os princípios a partir fundamentar filosofias muito distintas. Vejamos
Deverá atender-se,por fim, a que a filosofia,
quarta que as engloba: o que é o homem? Isto entendida como exercício da razão, se insere num dos quais é possível um conhecimento científico da
a) Em primeiro lugar, pode ter como resultado uma
mostra à evidência que o projecto total da 6tloso6ia natureza; b) os limites dentro dos quais é possível tal
enquadramentosociopolítico e exige o uso público
conhecimento. Esta tarefa é levada a cabo por Kant doutrina racionalista De facto Kant foi, de início, um
kantianaconsiste numa clarificaçãoracional ao da racionalidade. Ambas as dimensões da crítica
na sua obra Cm'faca da Rízzzío Pura. A ela vamos Rtlósoforacionalista. Visto que o entendimento pro-
serviço de uma humanidade mais livre, mais justa, filosófica - inserção sociopolítica e exercício pú-
dedicar esta segunda secção. duz espontaneamente certos conceitos sem os deri-
mais orientada para a realizaçãodos fins últimos. blico da razão -- devem ser protegidas e impul- var da experiência,o entendimento poderá conhe-
sionadaspelo próprio poder político: dessemodo,
cer a realidade construindo um sistema a partir
1.3.2. Oconoeüo a(MmdaÊlmlia
tanto o próprio exercício do poder como as reali- 2.1.1.Racionalismoe eínpiíismo destesconceitos, sem necessidade de recorrer aos
zações das ciências e das técnicas Rlcaião submetidos dados dos sentidos. E esta a ideia.central do racio-
ao exercíciocríticoda razão. Todaa doutrinakantianado conhecimento se
O que acabamos de dizer não esgota a concepção nalismo, como expusemos no capítulo nono
fundamentana distinçãode duas fontes do
kantiana da RilosoHia
nem a tarefa que Ihe compete. Isso mostra que para Kant todos os conhecimentos
conhecer: a sensibilidade e o entendimento, que Combinando de forma adequada os conceitos acima
De facto, não bastaorientar todos os conhecimentos e as ciênciasdevem estar ao serviço da promoção
possuem característicasdistintas e opostas entre si. assinalados (substância, causa, existência, necessi-
do homem e da sociedade e o legado da história, dos fins últimos da razão: portanto, ao serviço de
A sensibilidade é passiva, limita-se a receber im- dade), que segundo Kant não derivam da expe-
estabelecendo a sua relaçãocom os fins últimos da uma humanidade maislivre. Ê a realizaçãode uma
pressões provenientes do exterior(cores, sons, etc. riência, poderia-mos chegar à afirmação da exis-
razão (filosofia em sentido mundano), pois cabe à humanidade maislivre que determina a submissão
em termos gerais, aquilo que Locke denominava tência de um ser necessário (isto é, que não pode
filosofia ocupar-se da inter-relação e da unidade da racionalidade científica e tecnológica à racio- não existir: Deus) e poderíamos concebê-lo como
«ideias simples» e Hume «impressões de sensação»);
interna dessesconhecimentos paraestabelecer(ou, nalidade total, regida por esses Htns.
o entendimento, pelo contrário, é activo. Tal activi- substânciae causaprimeira
dade (a que por vczes Kant chama «espontanei- b) Mas, impressionado pela Êloso6iade Hume, Kant
dade») consiste primordialmente em que o enten- acaboupor abandonar
o racionalismo
(Kantdizia
dimento produz espontaneamente certos conceitos que Hume o havia despertado do «sonodogmático»
e ideias, sem os derivar da experiência. Conceitos em que estava mergulhado. Sob a influência de
Kart pietismo), sóbrio de costumes, de buir-se em três períodos, que habi-
A sua vida(1724-1804) nada teve de vida metódica, benévolo, provin- tualmente se denominam pré-crí-
excitante ou extraordinário. Ho- ciano (só uma vez em suavida saiu tico, crítico e pós-crítico.O pri-
mem de profunda religiosidade, de Kõnigsberg, suacidade natal, e meirocorresponde à suafilosofia E)q)eriência, conhecimento e aprioridade compósito, constituído por aquilo que percepcio-
que transparecena sua obra não foi longe nem por muito dogmática, à sua aceitação da meta- Não restam dúvidas sobre o facto de que todos os namos através du impressões e pela nossa capacidade
formalmente
árida(foieducado
no tempo) e solteiro(como Descarnes, física racionalista. seguindo Leibniz nossos conhecimentos começam com a experiência. de conhecer (que nessemomento se reduz a simples
e Wolff. As suas obras mais conhe- Com efeito, só conseguimos exercitar a faculdade de impressões sensíveis); e assim, por fura de prática que
Espinosa, Locke e Leibniz), Kant
encarna as virtudes (e talvez o cidas e influentes Foram escrita no conhecer através de objectos que excitam os nossos nos habilite a separar ou a associarelementos, não
€ aborrecimento) de uma vida intei- segundoperíodo:a Cn'fíczz
da Ra- sentidos: por um lado, os nossossentidos produzem conseguimosdistinguir esse conhecimento desta
,z'

ramente dedicada ao estudo e ao zão Pura (1781,2.' ed. 1787),a representações por si mesmos e, por outro, impul- matériaelementar.
ensino. Profundamente imbuído C #fc z(üzRazão/)mü/ica(1788)
ea sionam a nossaactividade intelectual a compara-los,a Esu questão fulcral necessita de ser aprofundada, a fim
7 4 dos ideais do Iluminismo, Kart flm de os associar ou separar. Deste modo, a expe- de sabermosse existe um conhecimento que seja
Crítica da Faculdadede Julgar
'1+ riência consiste na elaboração da matéria informe das independente da experiência e mesmo até inde-
professouuma profunda simpatia (1790).Além destasobras, Kant
l pelos ideais da Independência produziu unia notávelquantidade impressões sensíveis em conhecimento dos objectos. pendente das impressões sensíveis. A este conhe-
americanae da revolução francesa. de obrase opúsculos.A origina- Assim, nenhum conhecimento precedea experiência cimento chamamos a pnod e distingue-se do
Foi pacifista convicto, anui-milltaüsta lidade, o vigor e a influência do seu no /e/Hpo mascomeça com ela. conhecimentoe?mpídco,cuja fonte é aposrenon, ou
pensamento obrigam a considera-lo Mas o nosso conhecimento não deriva inteiramente da seja,radicana experiência.
e estranhoa toda a fomla de patrio-
tismoexclusivista. como um dos ãlósoíos mais notá- experiência, embora comece co/n ela. Na verdade. a
As obras de Kart costumam distã- veis dacultura ocidental. experiênciapode proporcionar-nos um conhecimento Kmt, Crítica ch Razão Pura.
D
l(b O IDEALISMOTRANSCENDENTALDE KANT 2 A NATUREZA E A RAZÃO TEÓRICA
Hume, Kant chegou à conclusão de que o nosso Note-se,por outro lado, a diferença fundamental abandonar definitivamente a ilusão de construir
demasiado pequeno,etc. Estascondições são parti-
conhecimento não pode pretender ir paraalém da entre Kant e os empiristas: a tese fundamental do sistemas metdsicc6 com pretensões de conhecimento
cularese tácticas:de facto, um indivíduo pode ter
experiência. Que acontece, então, com aqueles empirismo é que todos os nossosconceitos provêm científico. Como pode ver-se, a colocação do uma acuidade visual suficiente para um ver objecto
conceitos que não procedem dos sentidos, que o dos sentidos. Kant não partilha desta afirmação já problema não pode ser mais clara nem mais taxativa
que outro indivíduo é incapazde perceber por
entendimento produz espontaneamente? que, em sua opinião, o entendimento possui sofrer de miopia, por exemplo; mais ainda, mesmo
b) O problema fundamental a resolver é pois o de
A resposta de Kant será a seguinte: é certo que conceitos que não provêm da experiência, embora que se trate de distânciasou tamanhostais que
saberse a metafísica é possível como ciência.
existem no entendimento conceitos que não só tenham aplicação válida dentro desta. nenhum indivíduo humano possa de Factoperceber,
A solução para esse problema exige no entanto que
procedem da experiência, mastais conceitos têm sempre será possível inventar instrumentos sufi-
nos coloquemos uma questão prévia: como é
aplicaçãoexclusivamenteno âmbito dos dados 2.1.2. PossibMdadeda metalbica como cientemente poderosos (telescópios ou micros-
possível a ciência? Obviamente, só quando
sensoriais. Tomemos, por exemplo, o conceito de cópios) que possibilitem a sua percepção. Este tipo
aenaa tivermos determinado as condições que tornam
«substância»e recordemos o que dissemosao expor de condições pa#/cz//ares e/ac//ca$ que podem
possível a ciência é que poderemos interrogar-nos
o pensamentode Locke(ver: capítulo décimo, l.l). seralteradas-- denominam-seempíricas.
a) Na introdução à (:trica da Rczzzio
Pzzra, Kant em seguida sobre se a metafísica se ajusta ou não a
Embora por meio dos sentidos só percebemos
mostra-se primordialmente interessado no problema tais condições. A apresentação geral do problema é Alas existem outra condições de um tipo totalmente
figuras,cores e odores, etc., toda a gente diz que vê,
da possibilidade da metafísica, ou seja, no problema simplese pode formular-seassim:a ciênciaé diferente. No caso da visão, uma condição para ver
toca e cheira uma rosa. O que é a rosa, para lá do
de saber se é possívelum conhecimento científico possível sob certas condições; pode a metafísica algo é que a nossa percepção esteja localizada num
conjunto de sensaçõesque percebemos?Locke
rigoroso acercade Deus, da liberdade e da imor- ajustar-se a essas condições? Se a resposta for lugar do espaçoe num momento do tempo. Ima-
pensavaque era um substrato ou suporte destas
Ealidadcda alma. O interesse de Kant neste problema anlrmativa,a metafísica poderá obter a categoria de ginemos a seguinte cena: um indivíduo aproxima-se
qualidades, real mas incognoscível.
é perfeitamentecompreensível setivermos em conta ciência; se, ao contrário, a resposta for negativa, a de nós e diz-nos que vii] uma determinada coisa; per-
SegundoKart, «substância»
é primordialmenteum a sua própria evolução intelectual. Como vimos, Kant metafísica não poderá constituir-se como ciência e guntamos-lhe: onde? Responde-nos que em parte
conceito que o entendimento possuie utiliza para foi a princípio racionalistae esteveprofundamente faremos bem em abandona-la. alguma. Perguntamos-lhe: quando? E responde-nos
unificar os dados sensíveis:se não possuíssemos
o convencido de que o entendimento pode derrubar as que cm nenhum momento. Então deduzimos que se
conceito de substânciae não o aplicássemosao fronteiras da experiência e atingir um conhecimento Estamaneira de pâr o problema parecerá-- com trata de um louco ou de um brincalhão, em qualquer
conjunto das sensaçõescm questão, não poderíamos razão -- excessivamente abstracta e geral. Falamos
autêntico acerca das realidades que estão para além dos casos,estamoscertos de que o indivíduo em
formular proposiçõescomo.'arosaévermelha»ou 'a dela, tais como Deus ou a alma. A influência de Hume, em investigar as condições que tornam possívelo
questão não viu nada. Espaço e tempo são condições
rosa tem cheiro», etc., já que em todas estas no entanto, fez com que esta íé Kantianana conhecimento científico, mas de que condições se da nossapercepção,masde um tipo completamente
proposições concebemos a rosa como substância, e a trata?e como investigar tais condições?Vamos
possiblidade da metafísica vacilasse. diferente do apontado no parágrMo anterior: não são
cor, o cheiro, etc., como propriedades suas. tentar concretizar um pouco mais,atendendo a está
No entender de Kant, são duas as deficiências que particulares (não afectam a visão deste objecto ou
Prescinda-se do conceito de substância e não pode- duasperguntas.
tradicionalmente caracterizaram a metafísica, colo- desteindivíduoem particular)masgerais(dectama
remos falar das coisa, já que sempre que formulamos cando-a numa manifestasituaçãode inferioridade visão como tal a todos os indivíduos); não são
um juízo com um sujeito e um predicado («osgalos relativamente à ciência (física, matemáticas): em 2.1.3. O conhecimento científico puramente Hcticas (que possam ser alteradas) mas
são mamíferos», «os corpos são pesados»,etc.) primeiro lugar, a ciência progride, ao passoque a estritamentenecessárias(deixarde sc dar). Estas
concebemoso sujeito como substânciae os predi- a) Quais são as condições do conhecimento
metafísica continua a debater as mesmas questões condiçõessegundo,Kantsãoa pdod.
científico?
cados como propriedades ou acidentes daquela. que Platãoe Aristóteles há tantos séculos atrás já As condicões a pnon são, pois, universais e ne-
Paracompreender a maneiracomo Kant põe o
Sob a influência de cume, Kant chegou portanto às debatiam(existência dc Deus, imortalidade da alma, cessárias.
A estasduas característicasdeve acres-
problema, temos de distinguir dois tipos de condi-
seguintes conclusões acerca dos conceitos não etc.); em segundo lugar, os científicos põem-se de centar-se uma terceira que define a sua natureza: são
ções que denomina, respectivamente, condições
derivados da experiência: primeiro, que o entendi- acordo nas suasteorias e conclusões, enquanto o anteriores à experiência.Isso significa quc não
mento os utiliza para conhecer os objectos mais escandalosodesacordo reina entre os meta- empíricas e condições a priori. A terminologia
provêm dos dados dos sentidos mas que os
dados pelos sentidos, paraordena-lose unificá- kantiana pode parecer estranha e difícil à primeira
físicos.Urge pois, pâr-se o problema de saber se a condicionam. São condições que pertencem à
vista, mas não nos devemos deixar impressionar
.los;segundo,que não podem ser legitimamen- metafísica é possível como ciência, se a metafísica estrutura do sujeito. No exemplo anteriormente
te utilizados para se referirem a algo de que pelas palavras, e tentemos esclarecer o seu signi-
pode ser construída como se constroem as ciências utilizado, todo o sujeito que captaalgo por meio do
não temos experiência sensível. O conceitode Rtcado.Paratanto, comecemos com um exemplo
matemáticas e físicas.A ser possível, Kant pensa que sentido da visão lá-lo necessariamente num lugar do
«substância»que nos é imprescindível para unificar a Metafísica poderá superar o deplorável estado em Como é óbvio, o facto de podermos ver uma coisa espaçoe num momento do tempo; de outro modo
um conjunto de qualidades sensíveis (cores, etc.) que se tem encontrado ao longo de todos os séculos depende de um sem-número de condições: de quc tal não acontece. As coisas são taxativas, segundo

B não tem sentido se for aplicado, por exemplo, a


Deus, do qual não temos experiência sensível.
da suaexistência,logrando o acordo e o progresso.
Se tal não for possível, Kant pensa que o melhor será
a nossavista seja suficientemente aguda e o objecto
não se encontre excessivamente afastado ou seja
Kant. Digamos, a concluir, que as condições a priori
universaise necessárias tornam possívela m

\
(b O IDEALISMO TRANSCENDENTAL DE KANT 2 A NATUREZA EA RAZÃO TEÓRICA
Estefacto levou Kant a pensar que a pergunta sobre inclui unicamenteo dado de haver «nascidona dirmação kantiana, temos de ter em conta asduas
as condições que tornam possívela ciência podia aldeia X», mas não inclui nenhum dado acerca do observaçõesseguintes; em primeiro lugar, que só é
concretizar-seda seguinte maneira: quais as tamanho ou estatura. Estesjuízos dão realmente estritamente universal o juízo que exclua toda a
condiçõesque tomam possíveis os juízos da uma informação ou, como diz Kant, são extensivos. possível excepção; em segundo lugar, Kant aceita a
ciência? Não é necessáriopercorrer todos e cada ampliam o nosso conhecimento. Àquele que sabe armação de cume de que a experiêncianão pode
um dos tratados cientíHcos para procurar as ou entende o que significa «nascer na aldeia X» este mostrar qualquer conexão necessária(recorde-se
condições que tornam possívela ciência. Bastará, juízo ensina algo mais, a saber, que tais indivíduos que era nisto que Hume se baseavapara a sua crítica
pensa Kart, observar czzzdadosízme/z/e
qzzerPo de são altos.
à ideia de causa): a experiência só nos mostra que as
juízas utiliza o saber científico e investigar as coisasacontecem de facto assim, mas não que têm
cotüições que os tomam possiueis. b) Juízos a priori e juízos a posledorí de acontecer necessariamente assim

A classificação anterior está feita atendendo a se o


Apliquemos estes dois critérios ao juízo que temos
2.1.4.O jugos sintéticos aP}'ú)d predicado está incluído ou não na noção do sujeito. utilizado como exemplo: a experiênciamostra-nos
A classificação de que agora nos ocupamos é feita quc os nativos da suposta aldeia X medem de Facto
Falamos dos juízos das ciências e ainda que cada vez
atendendo a outro critério, a saber, ao modo como mais de 1,90 mai não nos mostra qualquer conexão
mais concretizemos a nossa maneira de põr o
é possível conhecer a verdade de um juízo qualquer. necessáriaentre :hnascerem tal aldeia»e «ter tal
problema, encontramo-nos ainda num nível excessi-
(Não deve esquecer-seque, ao serem feitas com a[tura»;não é contraditório que em ta] aldeia naça
vamente genérico. De facto, que tipos de juízos são
base em critérios diferentes, estasclassiRtcações
são um anão (como seriajcontraditório que um todo
característicos da ciência?(Kant entende sempre por
dize
rentes). fossemenor do que as.suaspartes). Nenhum juízo
ciência M matemáticas e a física, tal como havia sido
formuladapor Newton).Pízrazzmesc/areczmen/o é Juízos a priori são aqueles cuja verdade pode ser extraído da experiência é, pois, necessário ou uni-
necessáriodistinguir evttrediversostiposdejuízas. conhecida independentemente da experiência,pois versal em sentido estrito. O nosso juízo cepos/enon
Geovges
Rowüt: Trêsjuízes.An í titute, de Cbicago. o seu fundamento não se encontra nesta. «O todo é exprime simplesmente que, até agora, não se pro-
a) Juízos analíticos e juízos sintéticos maior que as suaspartes»é, de acordo com esta duziram excepções, não que seja impossível que
existam.
experiência sendo anteriores à mesma.Enquanto Kant começapor estabelecera distinção entre juízos classificação, um juízo czprzon: conhecemos a sua
tornam possívela experiência e o conhecimento, verdade sem necessidade de comprovar e medir os
analíticos e sintéticos, distinção já nossa conhecida c) Os juízos sintéticos apdod
estascondições ízprzod são denominadas por Kant todose aspartes.
em parte através da distinção que Leibniz propusera
transcendentais. entre «verdades de razão» e «verdades de facto». Juízos a poslerlorZ são aqueles cuja verdade é Até ao momento, Kant não foi excessivamente
conhecida a partir dos dados da experiência. De original. A sua originalidade começa a partir daqui e
b) Como investigam'
as condiçõesque tomam SegundoKant, um juízo é analítico quandoo
acordo com esta classificação,«todos os nativos da será manifesta ao comparar as suas conclusões com
possível o conhecimento científico? predicado está compreendido no sujeito (ao menos
aldeia X medem mais de 1,90» é zzposlerZor/.- não as de Hume.
implicitamente) e, por conseguinte, bastaanalisaro
Uma vez que sabemosde que condições se trata, temos outro recurso senão observar tais indivíduos cume aceitaria esta dupla classiHtcação, dos juízos,
sujeito para compreendermos que o predicado Ihe
tentemos precisar como é possível investiga-las. se quisermos ter a certeza da verdade deste juízo. considerando-a
coincidentecom a sua própria
convém necessariamente «o todo é maior do que M
Perguntar pelas condições que tornam possível o classificação em «relação de ideias» e «juízos sobre
suas partes» é um juízo analítico, porque basta Esta distinção permite diferenciar, na opinião de
conhecimento científico é formular uma pergunta à factos». Segundo Hume, as duas classificações
analisar o conceito de «o todo» para encontrar a Kant, certascaracterísticasimportantes de um e
primeira vista excessivamente genérica. E no entanto coincidem e sobrepõem-se: de um lado, há juízos
verdade do predicado. Estes juízos não nos dão outro tipo de juízos. Os juízos ízpnon são universais
possível concretiza-la se tivermos em conta que uma analíticos que são .zpnon(estritamente universais);
informaçãoalguma ou, como diz Kant, não são e necessários: nenhuma excepção é possível ao Juízo
ciência é um conjunto de juízos ou proposições. do outro, estão os juízos sintéticosque são a
extensivos, não ampliam o nosso conhecimento: «o todo é maior do que as partes»;os juízos íz
Com vontade e paciência podia pegar-se num tra- pos/eriorí (e por conseguinte contingentes e não
como é óbvio, a quem souber o que é um todo, este pos/erzori, pelo contrário, não são universaisnem
çado de física e convertê-lo numa lista de propo- estritamente universais). Todo o juízo analítico é óz
juízo nada ensina que não soubesse já antes de necessanos.
sições: «os átomos constam de tais partículas», «a formula-lo. przon e p/ce-t'ersíz; todo o juízo sintético é czpos-
partícula X tem tais características»,etc. (Eviden- Estaúltima afirmaçãode Kant que os juízosa feriorí e u/ce-perséz.
Os exemplosque (intencio-
temente, os juízos científicos não aparecem formu- Um juízo é sintético, pelo contrário, quando o pos/eriorf não são estritamente universais nem nalmente)utilizámosparecemdar razãoa Hume:«o
lados isoladamente mas concatenados entre si, predicado não está contido na noção do sujeito. necessários pode, à primeira vista, parecer todo é maior do que as suaspartes»é analítico (o
formando raciocínios. Mas os raciocínios se com- «Todos os nativos da aldeia X medem mais de 1,90» desconcertante. Quando aârmamos que «osnativos predicado está contido no sujeito) e é ózpnod(a sua

B põem de juízos, e portanto podem ser decompostos


nestes).
é um juízo sintético, pois na noção de sujeito não
está incluído o predicado: o conceito de sujeito
da aldeia X medem mais de 1,90?»não estaremos a
fazer um juízo universal?Paracompreender a
verdade é exequível sem necessidade do recurso à
experiência), e portanto estritamente universal e 8

\
eP O IDEALISMOTRANSCENDENTALDE KANT 2 A NATUREZA
EA RAZÃO
TÉÓiiÜ
necessário (sem possíveis excepções); pelo con- juízo ózposrenod? Também não, pensa Kant, lá que: Existem, pois, juízos sintéticos aPnod. por serem argumentação?Segundo Kant, Hume foi vítima de
trário, «os nativos da aldeia X medem mais de 1,90» a) conhecemos a sua verdade sem andar a medir sintéticos, são extensivos, ou seja, dão-nos informa- erro ao confundir as leis causaisparticularescom o
é sintético (o predicado não estáincluído na noção distâncias entre dois pontos, sem necessidade de ções, ampliam o nosso conhecimento acerca daquilo princípio geral de causalidade.Tomemos uma lei
do sujeito) e é a posfenod(a suaverdade só pode recorrer a nenhuma experiência comprobatória; a que se referem; por serem ózpnonl são universais causalqualquer,por exemplo,«oscorpossãodila-
ser conhecida empiricamente),e portanto não b) é estritamente universal e necessário (carecede e necessários e o conhecimento da sua verdade não tados pelo calor». Kant não teria inconveniente em
estritamente universal e contingente (não é impos- possíveisexcepções).Ê portanto a pnon. Contra- procede da experiência. Mais ainda, os princípios reconhecerque se trata de um juízo sintético cz
sível uma excepção).Segundocume, o quadro dos riamente a Hume, Kant admite que há juízos sinté- fundamentaisda ciência (matemáticase física)são pos/enod. a experiência mostra-nos de facto que os
juízos ê o seguinte: ticosaPn'od. destetipo.
corpos são dilatados pelo calor, mas não que tenha
Segundo Kant, o quadro dos juízos é o seguinte:
O exemplo que anteriormente utilizamos ('.a recta é necessariamentede ser assim; é perfeitamente
a distância maiscurta entre dois pontos») é um Juízo concebívelsem contradição que um corpo se
Ireiaçõesdeideias) a oriori
analítico (universale das matemáticas, da geometria. Também na Física contraía cm vez de se dilatar. É pois um juízo cz
necessário) existem juízos sintéticos ózPnon. Um exemplo deste posrenod, baseado na experiência e, como tal, nem
(umtodoé maiorda tipo de juízos é, segundo Kant, o princípio de estritamente universal nem necessário.
queas suaspartes) a priori
(universale causalidade:«tudo o que começa a existir tem Pois bem, suponhamos que um belo dia um corpo
juízos defacto)
sintético necessário) causa».Na opinião de Kant, não se trata de um juízo se contrai em tais circunstâncias. em vez de se
menteuniver-
analítico: na ideia de «algo que começa a existia»não dilatar. Significariaisso uma excepçãoao princípio
sal;contingente)
estácontida a ideia de «ter uma causa».É portanto, geral de causalidade?Não, pensaKant. Significaria
sintético. Mas é ao mesmo tempo estritamente uma excepçãoa essalei particular, mas não ao
Kant, porém, tem outra históriapara contar. universal e necessário,e portanto a pzzom.Neste princípio de causalidade. Tal contraccão não deixará
Tomemos o exemplo seguinte: «a recta é a distância caso, também Kant se afastade Hume por isso de ter uma causa.O princípio de causa-
mais curta entre dois pontos». Será um juízo ParaHume, o princípio de causalidadeé um juízo óz lidade é uma lei universal e necessária, uma lei que
a posteriori
analítico?Certamenteque não, pensaKant, pois o (não estrei- pos/en04 contingente e não esütamente universal: o entendimento aplica necessária e univer-
predicado não está contido na noção do sujeito: no los nativosde X me- tamente salmente a todos os fenómenos da expe-
dem maisde 1,90) universal, provém da experiência, é uma genealizaçãoresul-
conceito de linha recta, não entra para nadaideia contingente) tante do facto de repetidas vezestermos observado riência. Suprima-se essa lei e o mundo da experíên
alguma dc distâncias. E portanto sintético. Será um ciatorna-seimpossível
a sucessãoconstante de dois fenómenos; ora, como
os sentidos não mostram conexões necessárias,e Antes de seguir adiante, façamos um breve resumo
apenasmostram que as coisasacontecemde facto da teoria kantiana dos juízos
assim, tal juízo não é estritamente universal nem
Noção de juízo necessário, mas contingente. Certamente, nota a) além dos juízos analíticos (que são sempre óz
Em todos os juízos,a relação de urn sujeito com um pelo contrário, os segundos acrescentam ao conceito prionD e dos juízos sintéticosapós/enor% existem
cume, até agora a experiência não nos mostrou
predicado acontece de duas maneiras (conside- do sujeito um predicado que não fora pensado pelo guizossintéticosízpmon,
nunca algo que comece a existir sem causa, mas isso
raremos apenas os juízos afirmativos, dado que a sujeito e que nunca poderia ter derivado de qualquer
aplicação aos Juízosnegativos é lácü). Ou o predicado análise. Por exemplo, se eu disser que «Todos os não implica que seja logicamente impossível: logi- b) estesjuízos são extensivos(por serem sintéticos)
B pertence ao sujeito A como algo que estácontido corpos são extensos»,trata-se aqui de um juízo ana- camente impossível seria que algo existisse e não e são também estritamente universais e necessários
(oculto) no conceito A, ou então B estáinteiramente lítico. Por isso, não devo aímtar-me do conceito que existisse ao mesmo tempo, que começassee não (por serem'zprlon) ;
faia do conceito A, ainda que associado a ele. Chama- associo ao corpo para encontrar a extensão que Ihe é começassea existir (violar-se-iao princípio de con-
c) visto que são ízprzonl a sua validade é estabe
-se./zíêoa/za/íf/co ao primeiro casoejzlízo s/}z/éf/co própria; devo apenasdecompor esteconceito(isto é, tradição), mas não quc algo comece a existir sem
tornar-meconscienteda multiplicidadeque ele lecida e conhecida independentemente da expe
aosegundo.Nosjuízosanalíticos(a6mativos)
háuma causa. Se tal acontecesse -- pensa cume --, admi- riencia;
relaçãode identidade entre o predicado e o sujeito, comporta) a fim de encontrar este predicado -- trata- rar-nos-íamossobremaneira,porque estamosha-
ao pêso que nos sintéticos esta relação é desprovida -se, pois, de um juízo analítico. Em contrapartida, bituados ao contrário; no entanto, podemos con- d) as ciências -- matemáticas e física -- possuem
de identidade. Aos primeiros poderíamosainda quando digo que«Todos os corpos sãopesados»,já o cebê-lo como possível sem incorrer em contra- guizossintéticosóipriori'. falaisainda:os princípios
chamar./zí&os e.xp/zcaliuose aos segundos./uízos predicado é completamente distinto do que eu con-
fundamentais
dasciências
sãosintéticos
apnon
m/azs/uos. nos primeiros, o predicado não acrescenta sidero em geral como conceito de corpo -- a adição
nada ao conceito do sujeito, apenu o decompõe pela de um tal predicado fornece assim um juízo sintético A argumentação de Hume a favor de que o prin- e) e portanto a pergunta:quais são as contradições
análise dos conceitos parciais que haviam sido já cípio de causalidadeé sintético ízpos/eriorz (con- que possibilitam os juízos da ciência?equivale a esta
B pensados pelo sujeito (ainda que confusamente); Kart, Critica cü Razão Pura. tingente e não estritamente universal)é uma argu-
mentação poderosa. Que tem Kant a opor a esta
outra: quais são ascondições(transcendentais) que
tornam possíveis os juízos sintéticos ízprzonP B
IP O IDEALISMOTRANSCENDENTALDE KANT 2 A NATUREZA EA RAZÃO TEÓRICA
basta generalizar este exemplo: espaço e tempo são 2. Espaço e tempos, intuições puras
Intuição: matéria e forma do fenómeno A se/zsação
é o efeito de um ol :o na condições gerais e necessárias transcendentais
Paraserelacíonarem com os objectos, o conhecimento capacidade de representação, desde que ele nos deite. não apenas da visão, mas da sensibilidade. Kant Intuições. Ao afirmar que o espaçoe o tempo são
e o pensamento servem-se desse modo ou meio Ê elmpídca a intuição que se reporta ao objecto por intuições, Kant pretende sublinhar que não são
chama-lhes «formas ózpnod da sensibilidade» e
imediatosque é a ízz/ulçcão.
No entanto,estaintuição só meio da sensação. E chama-sele/zómezzo ao objecto conceitos do entendimento. Com efeito, Kant pensa
ainda «intuições puras».Vamos tentar aclarar o
acontecequando o objecto nos é fomecido, o que só é indeterminado de uma intuição empírica. -- seguindo certas noções bem conhecidas da
significado das duas expressões.
possível(pelo menos para nós. homens) se o objecto Chamo /#2azénado fenómeno àquilo que nele corres- lógica tradicional -- que os conceitos se caracteri-
afectar o nosso espírito. Chamamossons/ól//dado à ponde à sensaçãoeloz77zaé àquilo que dentro da 1. Espaço e tempo, formas a pNod da sensi- zam por poderem ser aplicados a uma mul-
capacidadede receber (] multiplicidade do fenómeno pode ser ordenado bilidade
tiplicidade de indivíduos (o conceito «homem»é
provenientes do modo como somos afectados pelos através de certas relações e upectos das sensações.
Fonnas. Que o espaçoe o tempo sãoformas signi- aplicável a todos os membros da espécie humana).
objectos E a sensibilidadeque nos dá os objectose só Aquilo que constitui as sensaçõesnão é aindauma
Hlcaque não sãoimpressõessensíveisparticulares No entanto, o espaçoe o tempo são únicos, há só
ela nos podefomecer i/z/zllçõe$masé o entendimento sensação,dado que é susceptível de ser ordenado e
(cores, sons, etc.), ma a forma ou o modo como per- um espaço c um tempo. Não há uma pluralidade de
que permite concebê-lose só ele forma conceitos. configurado. Ora, se a matéria dos fenómenos nos é
cebemos todas as impressões particulares: as cores, espaçose tempos (como há uma pluralidade de
Todavia,em última instânciae mediante certos signos, dada somente a pos/edo4 daqui resulta que a sua
o pensamento reporta-se às intuições, seja em linha forma encontra-se já toda aPnod no espírito por meio os sons, etc., são percebidos no espaço e no tempo. homens), maspartes de um espaçoúnico e inter-
recta (pensamento directo), seja por desvios (pensa- de sensaçõestomadas em conjunto. Por conseguinte, Á priori. O termo czpóod encontrámo-lojá ao valosde um tempo único quc flui sem cessar.
mento indirecto). Por conseguinte, liga-se também à podemos considerar que a forma é independente da ocuparmo-nos dos juízos: um juízo é a pr/orf - Além disso, há uma segunda razão para negar que
sensibilidade, lá que nenhum objecto nos :e ser sensação. como vimos - quando o seu conhecimentoe a sua espaço e tempo sejam conceitos extraídos da
dadode outra maneira. Kart,Criticada RazãoPura. validade são independentes da experiência. Em experiênqa. O conceito «homem»é o resultadoda
geral, ózpnon signiHtcapara Kant aquilo que não abstracçãode certos traços a partir da observação
procedem os sentidos: o espaço e o tempo não empírica de diversos indivíduos humanos. isto é.
b) Na analítica transcendental estuda o enten- procedem da experiência mas precedem-na como forma-seposteriormente à experiência.Não pode
2.2. A críticada razão pura
dimento as condições que tornam possívelque haja condições para que ela seja possível. ser esseo caso do espaço e do tempo, já que, são
Na Clú/cóz da Razzio Pz4rapodemos considerar três juízos sintéticos apnon na Física; Da sensibilidade. Ou seja,do conhecimentosen- condições de toda a experiência, e portanto ante-
partes, a que Kant chama, respectivamente, estética sível. Kant distingue entre sensibilidade externa (a
c) Na dialéctica transcendental estuda íz rízzão, ao riores a ela (apd04 transcendentais).
transcendental,analítica transcendental e mesmo tempo que se ocupa do problema da pos- que Locke denomina «sensação»)e sensibilidade Puras. O termo «puro» significa, pam Kant, vazio de
dialéctica transcendental.
sibilidade ou impossibilidade da metafísica,isto é, interna (a que Locke chamava «reflexão»).A sen- conteúdo empírico. O espaçoe o tempo são como
Estas três partes correspondem às três faculdades sibilidade externa está submetida às duas formas de
saber se a metafísica satisfm ascondições que pos- duas coordenadasvazias nas quais se ordenam as
que Kant distingue no homem: sensibilidade. sibilitam a formulação de luízog sintéticos czpnon. espaço e tempo (cores, sons, etc., percebem-se no impressões sensíveis(cores, sons, etc.)
entendimento e razão. (Parafalar com proprie- espaço e no tempo). A sensibilidade interna está b) Os juízos sintéticos a.pfü)d em matemáticas
dade -- e como anteriormente indicámos--. unicamente submetida à forma do tempo (as nossas
2.2.1.A estéticaüanscendental Além de expor as condições sensíveis do conhe-
existem apenasduas faculdades de conhecimento, vivências, imaginações e recordações, etc., sucedem- cimento, Kant ocupa-sena estética transcendental
que são a sensibilidadee o entendimento; mas a) As condições sensíveis do conhecimento -seumas ãsoutras no tempo). do conhecimento matemático o, que pode parecer
dentro deste Kant distingue dois tipos de actividade A explicação do conhecimento dada por Kant na
intelectual: a formulação de juízos realizadapelo estética transcendentalfoi já, referida quando
entendimento propriamente dito e a faculdadede Fontesdo nossoconhecimento correspondente, nem quando a intuição não tem
procurávamos explicar o que Kant entende por
raciocinar, de conjugar juízos formando raciocínios. condições «transcendentais».Utilizando como O nossoco [o emanade duasfontesprin- conceitos. Ambos sãopuros ou empíricos Empíricos
a que Kantchamarazão.) se contiverem uma sensação(o que pressupõe a
exemplo a visão, dissemos que esta depende de cipais do espírito: a primeira consiste na capacidadede
presença real do objecto) e puros se na representação
Estastrês partes correspondem também aos três certas condições particularese empíricas (como a receber as representações(a receptividade das im
pressões) e a segunda na faculdade de conhecer um não se misturar qualquer sensação À sensaçãopode
tipos de conhecimento cujo estudo interessa acuidade visual ou o tamanho do objecto), mas que chamar-se a matéria do conhecimento sensível. A
fundamentalmentea Kant:o matemático, o físico também e isto é que é verdadeiramente objecto por meio dessas representações (a esponta-
intuição pura, por conseguinte, contém unicamente a
e o metafísico. O plano destastrês partesé o neidade dos conceitos) Pela primeira é-nos dado o
importante para Kant depende de duas forma pelaqual alguma coisa é percebidae o conceito
objecto e pela segunda ele éPensado e»z relação a esta
seguinte: condições absolutamente gerais e necessárias,o puro contém a forma do pensamento de um objecto
representação(como determinaçãopura do espírito).
a) Na estética transcendental Kant estuda a espaço e o tempo. em geral Apenasas intuições e os conceitospuros são
Intuição e conceitos constituem pois os elementos de
sensibilidade e mostra as condições que tornam Não se pode ver uma coisa, dizíamos, sem a ver num todo o nosso conhecimento,de modo que não há possíveisaPnon, e os empíricos só cepos/enon

8 possível que existam nas matemáticasjuízos


sintéticosapüon.
lugar do espaçoe num momento do tempo. Para
compreendera teoria kantianada sensibilidade
conhecimento quando os conceitos não têm a intuição Kart. CHtica da Razão Pura
(P O IDEALISMOTRANSCENDENTAL
DE KANT 2 A NATUREZA E A MZÃO TEÓRICA

estranhoà primeiravista:asmatemáticas,
de facto, prévias, independentes dos dados sensíveis parti- atravésde um conjunto de análisescomplicadas. Paraalém destes,segundo Kant, o entendimento
não se fazem com os sentidos, mas com o enten- culares; logo, os juízos das matemáticas são //zde- Apresentamos um esquemático resumo da sua possui conceitos que não procedem da experiência
dimento. SeKant se ocupa das matemáticasneste pett&ntes de fada a ucpeüênciaparticular ®\o e, doutrinanospontosseguintes: e são, portanto, apnon. Recorde-se o que dissemos
momento é porque pensa que a possibilidade dos apüoü) ; antes: o entendimento caracteriza-se pela sua espon-
juízos sintéticos ózpr/on em matemáticas depende asmatemáticas
formulamjuízosacercado espaço 1. A função de compreender ou entender taneidade,porque produzespontaneamente
certos
precisamente de que o espaçoe o tempo sejam e do tempo; ora, todos os objectos da nossaexpe- realiza-se por meio de conceitos. Suponhamos conceitos sem os derivar de dados sensíveis
intuições puras. O raciocínio de Kant pode resumir- riência são-nosdados no espaçoe no tempo; logo, que estamosa ver um objecto qualquer que nos é Citámos então quatro desses conceitos puros
.sedo seguinte modo: em todos os objectosda nossaexperiênciase familiar, uma casa,por exemplo. Os nossossentidos (substância,causa,necessidade,existência) e indi-
a geometria e a aritmética ocupam-se,respectiva- cumprirão necessariamenteos juízos das mate- fornecem-nos certas impressões sensíveis (cores, cávamoscomo o entendimento os aplica às impres-
mente, do espaçoe do tempo. Que a geometria se máticas(isto é, estessão rigorosamente universais formas, etc.) aqui e agora. Se alguém nos perguntar sões sensíveis,aos fenómenos, para os unificar e
ocupe das propriedades do espaço, não parece, em e necessários, semexcepçãopossível)
. o que estamosa ver, diremos que vemos uma czzsa. coordenar. Segundo Kant, não são na realidade
princípio, difícil de admitir. Que a aritmética tenha a O conceito de casaconstitui pois a chaveque nos quatro, masexactamentedoze os conceitos puros
ver com o tempo é, porém, uma aârmaçãoestranha, permite compreender e interpretar essaspercep- ou categoriasdo entendimento
2.2.2.A analítica transcendental
que Kant explica assim:a aritmética ocupa-se da ções sensíveis. Suponhamos agora que, pelo con- Kant estavaseguro desta afirmação porque havia
série numérica (1, 2, 3..., n) e esta, por sua vez, a) O conhecimento intelectual: as condições trário, se apresenta diante dos nossosolhos algo descoberto os doze conceitos, em sua opinião, por
baseia-se na sucessãotemporal (o 2 antes do 3 e intelectuais do conhecimento. A sensibilidade estranho que em nada se parece com o que vimos um procedimento rigoroso e infalível.A função
depois do 1, etc.). O tempo é, segundo Kart, o coloca-nos perante uma multiplicidade de fenóme- na nossa vida. Perceberemos também, como no caso fundamental do entendimento é formular juízos,
fundamentoúltimo da aritmética. nos,peranteuma variedadede impressões
no anterior, impressões sensíveis (cores, formas, etc.) unificar e coordenar os dados da experiência
As matemáticas podem formular juízos sintéticos éi espaçoe no tempo. Ora, perceber essesfenómenos aqui e agora. Porém, se alguém nos perguntar o que sensível por meio de juízos. Ora, pensava Kant,
pnon porque espaço e tempo sao intuições puras, íz (cores, formas, sons, etc.) não é ainda compreendê- estamos a ver, não poderemos responder: falta-nos haverá tantas maneiras de unificar os dados da
phori: -los. Se perceber é a função própria da sensibilidade, um conceito onde enquadrar essas impressões experiência,tantos conceitos puros, como formas
sensíveis. possíveisde juízo. Com esta ideia na mente, Kant
as matemáticas formulam juízos acerca do espaço compreender é a função própria do entendimento.
e do tempo; ora, o espaçoe o tempo são condições Dela sc ocupa Kant na analítica transcendental, Estesdois exemplos mostram-nos como o nosso recorreu à lógica e encontrou que os juízos podem
conhecimento compreende conceitos além de ser:a) universais,particulares e singulares,quanto
percepções sensíveis. Mostram-nos ainda que com- à quantidade; b) afirmativos, negativos e inde-
preender os fenómenos é poder referi-los a um finidos, quanto à qualidade; c) categóricos, hipoté-
conceito: isto é uma casa, isto é uma árvore. etc. ticos e disjuntivos, atendendo à relação; d) proble
Quando não o podemos Emir, a nossa compreensão mágicos,assertóricos e apodícticos, atendendo à
fica bloqueada. Observe-se,finalmente, que esta modalidade.
actividade de referir os fenómenos aos conceitos se
Si e entendimento vazios e as intuições sem conceitos sãocegas.Daqui Sãodoze,pois, ascategoriasou conceitospuros:
realiza sempre atravésde um juízo: isto é uma casa,
resultaque é necessáriotornar os conceitos sensíveis isto é um cão um cão, é um mamífero, etc. O en- unidade, pluralidade e totalidade, que corres-
Se chamarmos sezzslóz/Idade à capzzcídczde que o pondem aos três tipos de juízos atendendo à
(isto é, juntar-lhes um objecto na intuição) e tornar as
nosso espírito tem de(respectividade) que receber tendimento pode ser considerado,pois, como a
intuições inteligíveis (ou seja, submetê-las a con- faculdade dos conceitos ou como a faculdade dos quantidade;realidade, negação e limitação, que
representações
que de qualquermodo o afectam, correspondem aos três tipos de juízos segundo a
ceitos). Estas duas capacidades ou faculdades não são
então chamaremos e/zfe?zdzmen/oà esmozfa zeídade juízos. As duas caracterizações implicam-se mutua
susceptíveisde trocar de funções: o entendimento não mente. qualidade;substância, causa,comunidade, que
do conhecimento, ou seja,aquelacapacidadede nós
intui nadae os sentidos não pensam nada O conhe- correspondem aos três tipos de juízos atendendo à
próprios podermos produzir representações.Devido à
cimento deriva unicamente da suaconjugação; mas
nossa natureza, a intuição será necessariamente relação:possibilidade, existência e necessidade,
nem por isso devemos confundir as suas funções,
sensível,pois apenasdá conta do modo como somos 2. E necessáí'io distinguir dois tipos de que correspondem finalmente aos três tipos de
tornando-se imperioso separa-lase distingui-las
afectados pelos objectos. Em contrapartida, o conceitosdiferentes,oselmpídcoseosp#ros juízossegundoa modalidade.
cuidadosamente uma da outra. Nesta mesma base
ezz/e7üzmelz/oé a capacidade de podermos pensar os ou categorias. Os conceitos empíricos são a(lueles
assenta também a distinção que fazemos entre a Esta descoberta dos conceitos puros -- quantos e
objectos fornecidos pela intuição sensível.Contudo, que procedemdos dados dos sentidos(são a
ciência das regras da sensibilidade em geral--a quais são a partir da classificaçãodos juízos, é
nenhuma destaspropriedades se sobrepõe à outra, já pos/enonl na terminologia kantiana). Os conceitos
estética-- e a ciência dasregras do entendimento em
que sem a sensibilidade
nãodaríamoscontados denominada por Kant «dedução metafísica das
geral--a lógica. de «casa»,«cão»,«mamífero»,são empíricos, extraídos
categorias».

B B
objectos e sem o entendimento nenhum objecto seria
da experiênciaa partir da observaçãodas seme-
pensado. Assim, os pensamentos sem conteúdo são gane.CríticadaRazãoPura.
lhançase traços comuns a certos indivíduos. Que os conceitos puros sejam exactamente doze
(D O IDEALISMO TRANSCENDENTALDE KANT
2 A NATUREZA E A RAZÃO TEÓRICA
(e precisamente estes doze) foi muitas vezes criti- sensíveis,
as categoí'iashãoxle encher-secom os
cado pelos comentaristas de Kant. O mais impor- dadosprocedentes do conhecimento sensível. Fenómeno e númeno significaçãorelativamente a estes últimos, sendo
tante não é no entanto este pleito, maso papel que Isso implica que as categorias só são fontes de assimuma espécie de conhecimento dos mesmos?
desempenham na actividade intelectual. Devido à suaorigem, ascategoriasnão se baseiamna
conhecimento aplicadasaosfenómenos (isto é, às Ora, desdeo primeiro momento que uma ambigul
sensibilidade, como acontece com as Jon?zas da
tmpressoessensíveisque ocorrem no espaçoe no dado ficou patente, a qual pode provocar um grave
f7zfzzíçzão
espaçoe tempo, e por issoparecempermitir
3. Os conceitos puros são condições trans- tempo). Como dizíamos no início desta parte as equívoco: em certasrelações o entendimento deno-
uma aplicaçãopara além dos objectos dos sentidos.
cendentais, necessárias,do nosso conheci- categorias não têm aplicação válida para além dos mina um objecto como meropbczezzome/z07z.
mas
Mas, por sua vez, são apenaslonv7zasde pmsame7zfo,
mento dos fenómenos. Isto signinlcaque o fenómenos, não podem aplicar-sevalidamente a que só contêm a faculdade lógica de reunir a pmon fora dessarelação há ao mesmo tempo, todavia, uma
entendimento não pode pensar os fenómenos realidades que estejam para além da experiência. numa consciência o múltiplo que é dado pela intuição.
representação
de um oólec/oem sze, por conse-
senãoaplicando-lhes estascategorias,e portanto os Assim,e se lhes retirarmosa única intuição que nos é guinte, imagina-seque pode havercozzceífosdesse
Tomemos agora o seguinte exemplo: «todos os objecto; mas como o entendimento não
fenómenos só podem ser pensadosde acordo com possível, podem ter ainda menos significação que
elas mais que categorias, em última instância o objecto
espíritos são bondosos». Do ponto de vista da sua aquelasformas sensíveise puras por meio das quais
estrutura, estejuízo é equiparávelao que anterior- pelo menosum objecto nosé dado. Em deve pelo menos poder ser pensado;contudo, o
Tomemos um juízo qualquer, por exemplo «todos
objecto desencaminhao entendimento e leva-oa
os nativos da aldeia X medem mais de 1,90,»,do qual mente considerámos(«todos os nativos da aldeia X um modo de combinar o múltiplo, próprio do nosso
entendimento, não significa absolutamente nadase aceitarcomo conceito determinado de um ente(que
já nos servimos muitas vezes antes. O conhecimento medem mais de 1,90»: é universal, afirmativo, cate-
nunca pudéssemosconhecer pelo entendimento) o
sensíveloferece-nos uma pluralidade de figuras, górico e assertórico(ou apodíctico); nele se utilizam não Ihe acrescentarmos aquela única intuição na qual
conceito totalmente indeterminado de um ente da
as categorias de unidade, realidade, substância e esse múltiplo pode ocorrer. Com efeito, o nosso
formas,movimentos,
cores,etc.Ao formulareste razão, que é algo que está fora da nossasensibilidade.
conceito permite-nosdenominar como e??/es dos
juízo o entendimento coordena estas impressões existência (ou necessidade);entre os dois juízos sentidos Sepor ?zozznze/zo/zentendemos uma coisa gue nzio
r) certosobjectos a título de
sensíveis aplicando certas categoria: visto quc é um
existe no entanto, e no entender de Kant, uma s(la oólec/oda /fossazlz/zízção
sensípe/abstraindodo
fenómenos,distinguindo entre o modo como os
juízo geral (segundo a sua quantidade), o entendi- diferençaradical:no primeiro caso,ascategorias intuímos e a suaprópi nosso modo de a intuir, dizemos que é um nozz-
de maneira que
mento aplica a categoria de unidade: os indivíduos aplicam-se a dados dos sentidos, ao passo que no me/zofzem sentido negativo. Mas se por tal enten
por essaúltima constituição(ainda que não a contem.
segundo se aplicam a algo que não nos é dado na dermos um oWecfo de zzma znfzzlção }zão-se/zsíueJ,
em questão surgem uniHlcados como «nativos da plemos neles), os opomos àqueles,por assimdizer,
experiência sensível. Trata-se, pois, de uma aplicação supomos lá uma espécie particular de intuição, a
aldeia X»;visto que é um juízo ahmativo(segundo a àquelesou também a outras coisaspossíveisque não
saber: a intuição inte]ectua], que todavia não é a
sua qualidade), o entendimento aplica a categoriade ilegítima das categorias(ilegítima do ponto de vista sejam objecto dos nossos sentidos, como os objectos
nossa,cuja possibilidade tampouco podemos com
realidade: a altura em questão é algo que realmente do conhecimento), e portanto não se pode falarde somente pensados pelo entendimento-- a estes
preender, e assim dizemos que esseseria nou/m/zon
lhes pertence;visto que é um juízo categórico conhecimentoem sentidorigoroso. chamamose/z/esdú razão(/zozzmena). Coloca-se
então a seguinte questão: por acaso os nossos
nosentido positivo
(segundo a relação), o entendimento aplica a ca-
tegoria de substância:os habitantes dessatantas b) Os juízos sintéticos a priori na física conceitos puros do entendimento não terão uma Kmt, CHtica da Razão Pura.
vezesmencionada e anónima aldeia são concebidos Já dissemos que na analítica transcendental Kant se
como substânciase a sua notável estatura é con- ocupa de duas questões: do estudo do entendimento
(faculdade dos conceitos, dos juízos) e da possibilidade
cebida como uma propriedade ou acidente seu;
dos juízos sintéticos cz pnon na física. A palmeira
visto que, finalmente, é um juízo assertórico (se-
questão 6oi já exposta nos parágrMos precedentes e a
gundo a modalidade),o entendimento aplica a
categoria dc existência: a estatura dos nativos da explicação kantiana da mesma pode resumir-se nas
duas seguintes proposições: 1) o entendimento conhe- reza que, segundo Kant, são também desta classe, mn 2. Como já acentuámos,os fenómenos só podem
aldeia X, é um facto que se impõe à nossainspecção
p nh pr\rar'ãn ce aplicando os conceitos puros aos fenómenos, aos presdn(hemos deles,já que o seucno é exactamente ser conhecidos pelo entendimento se este lhes
dados dos sentidos 2) ascategorias ou conceitos puros o mesmo que o do princípio de causalidade. aplicar ascategorias. Por conseguinte, as categorias
A exposição e justificação da função que desem- só têm validade quando são aplicados aos fenómenos, Tomemos,pois, este como exemplo e vejamos aplicam-sea todos os fenómenos que o entendi-
penham as categorias no conhecimento é deno- ao que é dado na experiência. Abordaremos em breve como sendosintético podesera pdod. mento conhece; logo, o princípio de causalidade
minada por Kant «dedução transcendental das
ascgundaquestão. (baseado na categoria de causa) será aplicável a
categorias». Elimine-se esta função uniHtcadorado 1. 0 princípio de causalidade baseia-se na categoria
Os píindpics fundamentais em que a Hsica se baseia são, todos os fenómenos que o entendimento conhece
entendimento por meio das categoriase não restará de causa. Ora, a causa(como todas as categorias) é
segundo Kant, juízos sintéticos ózpnon. Mãs acima, (ou pode conhecer). Ê portanto estritamenteuni-
maisdo que um conjunto de impressõessensíveis um conceito puro que não procede dos sentidos,
propúnhamos como exemplo de guizosintético a,rm(m versal e necessário.
desconexo c desarticuladas. masé prévio à experiênciaa que se aplica:logo, a
o princípio de causalidade,que constitui uma lei

B 4. Os conceitos puros são vazios. Assimcomo o


espaço e o tempo se enchem coíü impressões
hndamenul do nosso conhecimento da natureza.
Bdstem outros princípios importantes relativos à natu-
validade do princípio de causalidade não depende
daexperiência,masprecede-a.Épor conseguintea c) O idealismo transcendental. Fenómeno e
númeno.As categorias não são aplicáveis para além M
IP O IDEALISMOTRANSCENDENTALDE KANT 2 ANATUREJÀ
daexperiência,paraalém do que ocorre no espaço como a princípio indicámos, preocupava Kant O juízo que no primeiro silogismo apareciacomo multiplicidade de juízos («os homens são mortais»
e no tempo. Isto denomina-sefenómeno (o que profundamente-- recebe resposta negativa na fundamento da conclusão surge neste silogismo «os cães são mortais», etc.); o juízo «todos os seres
aparece ou se mostra ao sujeito). Om, a própria ideia dialéctica transcendental. A metafísica entendida como fundado num juízo maisgeralainda: «todos os vivos são mortais» abarca Juízos ainda mais gerais,
como um conjunto de proposições ou juízos acerca animais são mortais». Novamente podemos procu- servindo-lhes dc fundamento «os animais são
de algo que aparece implica, correlativamente, a
ideia de algo que não aparece, a ideia de algo em si. de realidadesque estãoparaalém da experiência- rar um juízo ainda mais geral que situa de funda- mortais», «plantas são mortais», etc.)
O objecto -- porque aparece e é conhecido é impossível, já que as categorias só podem usar-se mento ã premissa maior, e visto que os animais são
A razãoé, pois, de tal naturezaque tende a encontrar
chama-se«fenómeno»; ao correlato do objecto, legitimamente na sua aplicação aos fenómenos, aos uma parte dos seres vivos, podemos estabelecer o
juízos, leis, hipóteses cada vez mais gerais e que
consideradoà margem da sua relação com a dadosdossentidos. seguinte silogismo: Todos os seres vivos são mortais;
abarqueme expliquemum maior número de
sensibilidade,chama-se«coisa em si» ou melhor A aplicação das categorias para além da experiência todos os animaissão seresvivos; logo, todos os
fenómenos. Assim se constrói a ciência. Pensemos,
animais são mortais.
«númeno» (na medidaem que é algo apenas é logicamente ilegítima e dá lugar a erros e a ilusões. por exemplo, nas leis do movimento. Aristóteles
inteligível). A missão da dialéctica consiste em mostrar como tais
Que dizemos no exemplo que estamos a considerar? consideravaque asleis que explicam os movimentos
A distinção entre fenómeno e númeno é funda- erros ou ilusões-- e muito especialmente
os da A resposta é simples: a razão procura encontrar dos corpos celestes deviam ser distintas das leis que
mental no sistema kanliano. Ao tratar desta questão metafísica especulativa-- provêm de passar por juízos cada vez mais gerais, susceptíveis de abarcar regem os movimentos dos corpos sublunares e,
na Cn'r/cczda RczzãoPzzfa, Kant distingue dois alto a distinção entre fenómeno e coisa cm si. A uma multiplicidade de juízos particulares que lhes ainda dentro destes, indicava princípios dificientes
sentidos no conceito de númeno: negativo e dialéctica transcendental é pois uma crítica do sirvam de fundamento. O Juízo «todosos animais para os movimentos naturais e para os movimentos
positivo. Negativamente,«númeno significa uma entendimento e da razão na sua pretensão de são mortais» abarca e serve de fundamento a uma violentos. Galileu acabou com a distinção entre
coisa na medida em que não pode ser reconhecida alcançar o conhecimento das coisas em si, do que

por meio da intuição sensível»;positivamente. está para além da experiência.


significa um «objecto que pode ser conhecido por Mas se a aplicação das categorias é logicamente
meio da intuição nãosensível», ou seja,por meio da ilegítima, é também uma tendência inevitável, de
intuição intelectual. Ora, visto que carecemosde acordo com a própria natureza da razão. Como
intuição intelectual e possuimos apenas intuição veremos já de seguida, a razão tende inevitavel-
sensível,o nossoconhecimentoé limitado aosfenó- menteparaa procurado incondicionado, tendea
menos e, por conseguinte,o conceito de númeno estender o seu conhecimento para além da expe-
permanececomo algo negativo,como limite da riência, a fmer pergunta e formular respostas acerca

experiência,como limite do que pode ser conhe- de Deus, da alma e do mundo como totalidade.
cido. Não há conhecimento das coisas em si, dos
númenos. O acessoàs coisasem si não se faz na b) A razão Razãoe ideias transcendentais
O conhecimento intelectual não se limita a formular
razão teórica, mas na razão prática, como veremos. A razão nunca se refere directamente a um objecto, íá- Por conseguinte,afirmo que as ideias transcen-
juízos, mas liga também uns juízos aos outros, .lo unicamente atravésdo entendimento e. através dentais nunca são o uso constitutivo graças ao qual
A distinção entre fenómeno e númeno permite
formando raciocínios. Tomemos um exemplo deste, refere-se ao seu próprio uso empírico; ou seja, surgem conceitos de certos objectos; e, no casode as
compreender por que razão Kant chama à sua
simples utilizado pelo próprio Kant: "Todos os não cna conceitos(deobjectos),limitando-sea entendermos assim, as ideias são apenas conceitos
doutrina«idealismo transcendental»: porque o
homens são mortais; todos os investigadores são arde/zcí-/os e a dar-lhes a unidade que podem ter na dialécticos.Pelo contrário, têm antes um uso
espaço o tempo e as categorias são condições
homens; logo, todos os investigadoressão mortais». sua extensão máxima possível, isto é, relativamente à regulativoqueé indispensavelmente
necessário
e
de possibilidade da experiênda, dos fenómenos, totalidade das séries; o entendimento não atende a que consisteem dirigir o entendimento: ou para
Este simples silogismo mostra-nos como a con-
e não propriedades ou traços reais de todas as isto masapenasà união media/z/ea gula/em /ocüzsm certo 6lmem relação ao qual as linhas directivas de
clusão, o Juízo «todos os investigadores são mortais»,
coisasem si mesmas. pares seproduzem sàles de condições em vez de todas as suas regras convergem para um ponto,
[em o seu fundamentonum juízo maisgeral,a
premissa «todos os homens são mortais». (Os conceitos. Em consequência, o entendimento e o seu apesarde ser somente uma ideia docas /magz-
2.2.3.A dialéctica transcendental emprego idóneo é propriamente o objecto da razão; mnas); ou para um ponto do qual os conceitosdo
investigadoressão uma parte dos homens; portanto,
assimcomo o entendimento une por meio de con- entendimento não partem realmente, uma vez que
Na dialéctica transcendental, Kant ocupa-sc da se estes são mortais, aqueles também o são.) O
ceitos múltiplos do objecto, por sua vez também a se encontra totalmente fora dos limites da expe-
possibilidade da metaHsica,bem como da natureza e nosso raciocínio pode ir, no entanto, maislonge: razão une o múltiplo dos conceitos por meio de ideias, riência possível, masservindo no entanto paralhes
funcionamentoda razão. poderíamos perguntar-nos pelo fundamento da dado que, a título de finalidades, conferem uma certa proporcionar ao mesmo tempo a unidade máxima e
premisssa maior e então teríamos o seguinte unidade colectiva aos actos do entendimento, e só a extensão máxima.
a) Impossibilidade da metafísica silogismo: Todos os animais são mortais; todos os noutroscasosé que se ocupamda unidadedistri-
r;l como ciência
E.=.2 A pergunta sobre a possiblidade da metafísica que
homens são animais; logo, todos os homens são
mortais
butiva. Kant, CHfíca da Rczzz2o
Pura.
B
(D O IDEALISMOTRANSCENDENTALDEKANT

11 O carácter regulativo dasideias da razão pondem a cada parte relativamente às outras. Por 3 A LIBERDADEEA TAREFADA RAZÃO PRÁTICA
Se no nossoconhecimento
do enten- estaideia postulaa unidade completado
dimenro em toda a suaextensão, verificamos que o conhecimento do entendimento; e assim, este não
cazücla'sísle2zü//co
do 3.1 A razão prática e o conhecimento festa-se,segundo Kant, no modo todmente distinto
ttoéaquiJode que surge como um mero agregadocontingente mas moral de uma e outra exprimirem os seus princípios ou
a razão dispõe com toda a propriedade, e que ela se como um sistemacoerente segundo leis necessárias.
leis: a razão teórica formula juízos («o calor dilata os
encanega de produzir; ou seja,é a sua coerência como Não se pode dizer que esta ideia seja propriamente Na CrírzcízdczJ?ózzzio
Pzzra a cujo estudo dedi-
basede um princípio. Esta unidade da lazão pressupõe um conceito do objecto, mas antes a unidade corpos»), ao passo que a razão prática formula
camos a parte anterior--Kant fez um notável
sempreuma ideia: a ideia da forma do todo do completa destesconceitos, na medida em que serve imperativos ou mandamentos («não matarás»,etc.)
esforço para explicar como é possível o conhe-
conhecimento, a qual precede o conhecimento de regra para o entendimento.
cimento dos factos (possívelgraças à conjunção de
concreto das partes e contém as condições para
dois elementos: as impressõessensíveisproce- 3.2. O formalismo moral
determinar zzpnon o lugar e a relação que corres- Kart, Checa da Razão Pura.
dentes do exterior e certas estruturas apnon que o
A teoria moral de Kant não é menos original do que
sujeito impõe a tais impressões, a saber, as formas
a sua teoria do conhecimento científico. A ética
de espaço-tempo e as categorias) e até onde é
kantiana representa uma autêntica novidade dentro
possível o conhecimento de objectos (conheci- da história da filosofia: se antes dele as diversas
mento que só tem lugar na aplicaçãodas categorias
éticas tinham sido materiais, a ética de Kant é formal.
aos fenó-menos; a metafísica, ao aplicar as categorias
movimentos naturais e violentos, explicando-os a c) A razão e a metafísica para além dos fenómenos, não proporciona conhe-
Lodospelasmesmasleis. Posteriormente,Newton A razãoimpele-nosa procurar leis e condições cimentoobjectivo). 3.2.1.As éticas materiais
formulou a lei da gravitaçãouniversal,lei maisgeral cada vez mais gerais e susceptíveis de explicarem
Ora, a actividade racional humana não se limita ao Para compreender o significado da teoria kantiana, é
ainda, pois explica conjuntamente os movimentos um número maior de fenómenos. Enquanto esta
celestes e os terrestres. Ê este o funcionamento da conhecimento dos objectos. O homem necessita necessárioentender o que é uma ética material
procura se mantém dentro dos limites da expe-
também de conhecer como deve agir, qual deve ser Comecemos por indicar que não deve confundir-se
razão como consequência da sua tendência natural riência, tal tendência é eficaz e amplia o nosso ética material com ética materialista: o contrário de
para procurar condições cada vez mais gerais e, em conhecimento. Mas esta tendência da razão leva a sua conduta: a razãopossui também uma função
última análise, o incondicionado. moral, em correspondência com a segunda das uma ética materialista é uma ética espiritualista, o
inevitavelmente a ultrapassar as barreiras da contrário de uma ética material é uma éticaformal
experiência,à procura do incondicionado: os perguntas que propúnhamos na primeira parte: que
devo fazer? (Por exemplo, a ética de Aquino é material, mas não
fenómenos físicos pretendem unificar-se e expli- é materialista.)
car-se por meio de teorias metafísicas acerca do
Estadupla vertente pode exprimir-se por meio da De um modo geral, podemos dizer que são
mundo (a substânciamaterial do racionalismo), o
distinçãoentre razão teórica e tmão prática. Não matesriais aquelas éticas segundo as quais a
que dá lugar a os fenómenos psíquicos pretendem
se luta, obviamente, de duas razões.masde duas bondade ou maldade da conduta humana depende
unificar-sc e explicar-se por meio de teorias meta-
funções peúeitamente diferenciadas. A razão teórica de algo que se considerabem supremo para o
físicas acerca da alma (a substância pensante do
ocupa-se em conhecer como são as coisas a razão homem: por conseguinte os actos serão bons
racionalismo), o que dá lugar a paralogismos;uns e
prática, ocupa-se de saber como deve ser a conduta quando nos aproximem da consecuçãode tal bem
outros tentam unificar-see explicar-sepor meio de
humana. À razão prática não corresponde o conhe- supremo, e maus (reprováveis, não aconselháveis)
teorias metafísicas acerca de uma causa suprema de
cimento de como é de facto a conduta humana. mas quando dele nos afastem. De acordo com esta
ambos (a substância in6tnita do racionalismo, Deus,
o conhecimentode como deve ser: não Ihe definição, podemos encontrar em toda a ética
ideiadarazão)
interessam quais os motivos que empírica e psi- materialos dois elementosseguintes
Deus, alma e mundo são, segundo Kant, três ideias cologicamente determinam os homens (desejos,
da razão que desempenhamum papel muito a) A noção de que há bens, coisas boas para o
sentimentos, egoísmo, etc.), mas quais devem ser os
especialno sistema do nosso conhecimento. Pois homem as diferentes éticas materiais começam por
princípios que hão-de leva-loa agir, casoa sua
apesar de não nos proporcionarem nenhum conhe- determinar qual dentre todos eles-- é o bem
conduta deva ser racional e, portanto, moral. Esta
cimento objectivo, expressamcontudo o ideal da supremo ou fim último do homem (prazer, feli-
separação entre as duas esferas costuma exprimir-se
razão de encontrar leis e princípios cadavcz mais cidade,etc.).
dizendo:a ciência (a razãoteórica)ocupa-sedo ser,
gerais:como o horizonte que nunca se atinge (que ao passoque a moral (a razãoprática) se ocupa do b) Uma vez estabelecido tal bem supremo, a ética
B lápide com a Declaração dosDireis os do Homem e do
Cidadão (17©).
não pode ser alcançado),mas que nos indica
continuamente que há que avançarmais e mais.
deverser.
A diferença entre as duas actividades racionais mani- a[cançá-]o.E...]
estabelece nomias ou preceitos orientados para E]! ]
(b O IPÇALISMOTnNSCENDENTAL DE KANT 3 A UBEXOAOE EA TAREFA 0A RAZÃO iiÁtiéi
11
A razãoprática unidade dasleis empíricas;é o caso,por exemplo, da O bem moral
guinte, essebem moral só pode ser constituído pela
doutrina da prudência, na qual a união de todos os O valor moral da acçãonão reside,pois,no efeito que
A especulação da razão no uso transcendental dirige- representaçãoda própria lei, que só seencontrano
fins propostos pelas nossasinclinações se opera no dela se espera nem tão-pouco em nenhum princípio
-se em definitivo para um proposito final referente a ser racional, desdeque o fundamento determinante
Htmúnico da felicidade. E a concordância dos meios
três objectos: a liberdade da vontade, a imortalidade
de acçãocujo fundamento
determinante
dependa da vontade seja ela e não o efeito esperado. Não é
para chegar a essa unidade constitui a tarefa da razão desseefeito esperado. Na verdade. todos essesefeitos lícito esperarque essebem moral resultedo eleito de
da alma e a existência de Deus. E muito exíguo o
que, consequentemente,não pode proporcionar leis (o nosso próprio prazer ou a promoção da felicidade
interesse especulativo da razão dos três, e assim qualquer acção, pois que ele está já presente na
puras completamente determinadasa Pr/orí mas alheh) podem realizar-sepor meio de outras causas,e própria pessoaque age segundo essalei.
dificilmente se empreenderia um rão lal)ocioso
apenas leis pragmáticas da conduta livre para a para isso não era necessáriaa intervenção da vontade
trabalho de investigação transcendental que, além
disso. [em de lutar com constantes obstáculos,
consecuçãodos fins que os sentidos nos reco- de um ser racional, que é o único onde se pode
mendam. Pelo contrário, seriam produtos da razão encontraro bem supremoe absoluto.Porconse- Kan\, Futldanwntação da Memfísica dos Costumes.
porque todas as descobertas a esse respeito ainda não
pura as leis práticas puras cujo íim seja comple-
demonstraram a sua utilidade em concreto, ou seja,
tamente dado pela razão e que não estejam condi-
na investigação da natureza.
cionadas empiricamente. E o que acontece com as
Tudo o que é possívelpor meio da liberdadeé se dê a si próprio a lei, em que o sujeito se deter-
nzoraís, em consequênch,só elas pertencem ao uso 1. não estabelecenenhum bem ou fim que deva ser
prático. Mas se as condições do exercício do nosso mine a si próprio no agir, a heteronomia consiste em
prático da lazão pura e permitem um cânone. perseguido,e portanto,
livre arbítrio são empíricas, nesse caso a razão só pode
recebera lei a partir de fora da própria razão. 2. não nos diz o qué devemos fazer, mas como
[er um uso regulativo e serve apenas para operar a Kart. Critica (h Razão Pllra.
As éticas materiais são heterónomas, segundo Kant. devemos agir, a forma como devemos actuar.
porque a vontadeé determinadaa agir destemodo
Poroutras palavras,podemosdizer que uma ética Possivelmente, um epicurista pouco se preocupará ou daquele por deesejo ou inclinação.Continuando b) O dever
materialé uma ética que tem conteúdo. E tem com o facto de a sua ética ser empírica, a pos/Criar/. cona o exemplo da ética epicurista, o homem é A ética formal não estabelecepois o que devemos
conteúdo no duplo sentido que acabamosde Mas isso preocupa Kant sobremaneira, pela seguinte determinado na sua conduta por uma lei natural. Ewer: limita-se a indicar como devemos agir sempre.
indicar: a) na medida em que estabeleceum bem razão: porque pretende formular uma ética cujos pela inclinação ao prazer, sendo por este dominado. seja qual for a acção concreta. Segundo Kant um
supremo (por exemplo, o prazer na ética epicurista) imperativos sejam universaise porque em sua
homem age moralmente quando age por dever. O
e na medida em que diz o que deve fazer-separa opinião, da experiência não se podem extrair princí-
3.2.3. A ética fomlal dc Kant dever «é a necessidade de uma acção por respeito à
consegui-lo(«nãocomasem excesso»,
«afasta-te
da pios universais. (Este último ponto ficou claramente
a) Sentido de uma ética fomial eX»qFundattlentação
daMetafísicadosCostunleq,
política», são preceitos da ética epicurista, por exposto na primeira parte do tema: nenhum juízo
isto é, a submissão a uma lei, não pela utilidade ou
exemplo). que proceda da experiência pode ser rigorosamente Segundo Kant as éticas materiais encontram-sc satisfaçãoque o seu cumprimento possapropor-
universal; para ser tal, um juízo há-de ser ízpr/od. ou
inevitavelmente afectadas pelas crêsdeficiências que cionar-nos,mas por respeito paracom a mesma.
seja,independenteda experiência.) apontámos. A partir desta crítica, o raciocínio
1.2.Crítica de Kant âs éticas materiais Kant distingue três tipos de acções:contrárias ao
b) Em segundo lugar, os preceitos das éticas kantiano é simples e pode ser exposto do seguinte
modo dever, conformes ao dever e feitas por dever
Kant rejeitou as éticas materiais porque em seu materiais são hipotéticos ou condicionais:não
Somente as últimas têm valor moral. Suponhamos,
entender apresentam as seguintes deHciências: valem de modo absoluto, mas apenas de modo -- todas as éticas materiais são empíricas (e por- utilizando um exemplo do próprio Kant, o caso de
a) Em primeiro lugar, as éticas materiaissão condicional, como meios para conseguir um certo tanto incapazes de apresentar princípios rigoro- um comerciante que não cobra preços abusivosaos
empíricas, são aposfedo4 ou seja, o seu conteú- Him. Quando o sábio epicurista aconselha «não bebas samente universais), hipotéticas em seus impe- seus clientes. A sua acção é conforme ao dever. Ora.
do é extraído da experiência. Tomemos o exemplo em excesso»,deve entender-se que pretende dizer rativos e heterónomas; talvez o Façaassim para assegurar a clientela e, neste
da ética epicurista: Como sabemosque o prazer é «nãobebas em excesso, se queres alcançar uma vida -- ora, uma ética rigorosamente universal não pode caso, a acçãoé conforme ao dever, mas não por
um bem máximo parao homem? Indubitavelmente. regrada e aprazível».Que acontecerá se alguém ser nem empírica (masa prionD, nem hipotética dever: a acção(não cobrar preços abusivos) conver-
porque a experiência nos mostra que desde peque- responder ao sábio epicurista: «eu não quero em seus imperativos (mas estes devem ser abso- te-se num meio para atingir um objectivo, um fim
nos os homens procuram o prazer e fogem da dor. alcançar essavida de prazer moderado e contínuo»? lutos, categóricos), nem heterónoma (masautó- (garantir a clientela). Se, ao contrário, actua por
Como sabemos que para se conseguir um prazer O preceito epicurista carecera, evidentemente, de noma, isto é, o sujeito deve determinar-sea si pró- dever, por considerarser esseo seu dever, a acção
duradouro e razoável devemos comer com sobrie- validade paraele. Esteé um segundo motivo pelo prio a agir, deve dar-sea si próprio a lei); não é um meio para atingir um fim ou objectivo, mas
dade e permanecermos afastados da política? Sem qual uma ética material não pode ser, no entender uma ética estritamente universale racional não um 6lm em si mesma, algo que deve fmer-se por si
dúvida porque a experiência nos mostra que a longo de Kant,universalmenteválida.
pode ser material. Tem de ser, portanto, formal. que determina a sua realização, quando este móbil é
prazo o excesso produz dor e enfermidades, e a c) Em terceiro lugar, as éticas materiais são hete- O que é então uma ética formal?É uma éticavaziade o dever: «umaacçãofeita por dever tem o seu valor
rónomas. «Heterónomo»é o contrário de «autó-
M política produz desgostose sofrimentos. Trata-se
pois de generalizações a partir da experiência. nomo» e se a autonomia consiste em que o sujeito
conteúdo, que não [em conteúdo em nenhum dos
sentidosem que o tem a ética material:
moral, não no objectivo que por meio dela se
pretende atingir, mas na máxima pela qual foi
r::]
]!P]
V
(b O IDEALISMO TRANSCENDENTAL DE KANT 3 A LIBERDADEE A TAREFADA RAZÃO PÚTICA

decidida; não depende pois da realidadedo objecto categórico: «age de tal maneira que uses a modo, para Kant o lugar adequado para as questões só se consegue num processo indefinido e infinito
da acção, mas exclusivamente do princípio do humanidade, tanto na tua pessoa como na sobre o problema de Deus e da alma não é a razão que, portanto, exige uma duração ilimitada, isto é, a
querem'(zófdem). pessoade qualquer outro, sempre e como um teórica, mas a razão prática. imortalidade
fim e nunca apenas como um meio». Tal como Segundo Kant a liberdade, a imortalidade da alma e No que se refere à existência de Deus, Kant afirma
a formulação anterior, também esta mostra o seu a existência de Deus são postulados da razão que a falta de acordo que encontramos no mundo
c) O imperativo categórico
carácter formal e a sua exigência de universalidade; prática. O termo «postulado» deve entender-se aqui entre o ser e o dever ser exige a existência de Deus
A exigência de agir moralmente exprime-se num diferentemente da anterior, nesta formulação inclui- em seu sentido estrito, como algo que não é como realidade em quem o ser e o dever ser se
imperativo que nãoé nem pode ser hipotético -sea ideiade6lm. demonstráve] masque é suposto necessariamente identificam e em quem se dá uma união perfeita de
(como os mandamentos das éticas materiais), mas SÓo homem,enquantoser racionalé fim em si como condiçãoda própria moral. Com efeito, a virtude e felicidade.
categórico. mesmo. Portanto nunca deve ser utilizado como um exigência moral de agir por respeito ao dever supõe A terceiraperguntakantiana-- o que me é per
simples meio. a liberdade, a possibilidadede agir por respeito ao miudo esperar? -- tem um sentido escatológicoe
Kant deixou-nos diversasformulações do imperativo
mesmo, vencendo asinclinações contrárias. Segun- a elaresponde areligião.
categórico, das quais a primeira é a seguinte: «age
do Kant também a imortalidade da alma e a exis- Alas esgotar-se-á o sentido da pergunta -- e da sua
somente segundo uma má)dma tal que possas 3.3. Liberdade, imortalidade e existência tência de Deus são postu]adosda moral, embora resposta na simples dimensão religiosa? Kant
querer ao mesmotempo que se tome lei de Deus nestes dois casos o seu raciocínio seja mais com- pensou claramente que não. A consecução do fim
universal» (íbzdem). Esta formulação revela
claramente o seu carácter formal; de facto, este im- A Crífícczda Rózzz2o Pzzra pusera a claro a impos- plicado e tenha sido objecto de diversasobjec- cuja realização última e perfeita se espera da religião,
sibilidade da metafísica como ciência, isto é, como ções.Quanto à imortalidade o seu raciocínio é o implica e exige a acçãosocial e política, por meio da
perativo não estabelece nenhuma norma concreta,
conhecimento objectivo do mundo, da alma e de seguinte: a razão ordena-nos que aspiremos à qual este Himse:'realizará através do tempo: assim, a
mas a forma que devem ter as normas que deter-
minam a conduta de cada um, denominadas «má- Deus.Contudoa alma a suaimortalidade ea virtude, isto é, à concordância perfeita e total da história representa um momento igualmente
existência de Deus constituem interrogações de nossa vontade com a lei moral; esta perfeição é essencial na resposta à pergunta: o que me é lícito
ximas» por Kant) : qualquer máxima deve ser tal que
interesse fundamental para o destino do homem . inatingível numa existência limitada; a sua realização esperar?
o sujeito possaquerer que se converta em norma
para todos os homens, em lei universal. Esta Kant nunca negou a imortalidade da alma ou a exis-
formulação do imperativo categórico mostra ainda a tência de Deus. Na CHr/cózda RózzãoPzzra limitou-

exigênciade universalidadeprópria de uma moral -se a estabelecer quc a alma e Deus não são acessí-
racional. veis ao conhecimento científico, objectivo, visto quc
Kant apresenta, ainda na Fandammiaçc2o Me/í!#nccz este apenas tem lugar na aplicação das categorias
dosCos/amas,a seguinteformulaçãodo imperativo aos fenómenos fornecidos pela experiência. Deste

O ptünado da razão prática interesse e o dos poderes do espírito, O interessedo


Por primado entre duas ou mais coisas ligadas pela uso especulativo da razão consiste no co?zbecímefz/o
razão entendo eu a supremacia de uma delas como do objecto, incluindo-se aí os princípios ízpnon mais
princípio primeiro e determinante de união com todas elevados;é uma aplicaçãoprática que determina a
as outras. Num sentido mais restrito e prático, pri. vontade en] relação a um fim último e tonal. O
made significa a superioridade do interesse de uma interesse desta capacidadeda razão não reside nos
coisa, ao passo que as outras se subordinam a esse requisitos para o seu uso genérico (ou seja, que nao
interesse (o qual não se submete a nenhum outro haja contradição entre princípios e mas
interesse). Podemos atribuir um /7zzeresse
a qualquer na condição genérica de ter razão;o interesse da razão
capacidadedo espírito,ou seja,um princípioque não é a simples concordância consigo própria mas
contém em si a condição sem a qual não unicamentea suaamplitude.
exercer essa capacidades A razão é a faculdade dos
princípiose por isso determinao seu próprio Kart , Critica da Razão Prática. Dauid: Juramento do "Jeu de Paume
paraFiança (17©).
osdeputados do Terceiro Estado comprometem-se a redigir uma Constituição
B
4 HISTORIA E RELIGIÃO 4 HISTORIA E RELIGIÃO
4.1.0 ser humano capacidade pragmáticas c) disposição para a perso- concebeu o homem como um ser que encerraem si senvolver-se alguma vez de uma maneira completa e
nalidade, que explica a sua capacidade moral. uma paradoxal complexidade: uma«insaciável socia- em conformidade com o fim». Realização completa e
a) Na Cn'fzcczda RízzzãoPz/rn, Kant estabelece a dis- bilidade» ou uma «sociável insociabilidade». atingir o seu fim, referidos os dois aspectosàs
tinção fenómeno-númenocomo único meio de c) Estasdisposições,no seuconjunto,constituema disposições humanas, são, segundo Kant, o «pri-
resolver as contradiçõesda razãoconsigo mesma. estrutura radical, do homem, que remete a uma Estas considerações sobre o homem são necessárias,
meiro» princípio da história. Primeiro e necessário
Esta distinção aplica-se igualmente ao homem. dualidade de dimensões, em consonância com a para explicar o quc é a história ou a religão em Kant.
para a explicar, mas não suficiente.
Como fenómeno, o homem está submetido e é primeira distinção: a dimensão empírico-sensível e a
Recordemos agora uma formulação do imperativo
O conceito de história ilumina-se para Kant quando
explicado segundo as leis matemático-físico-bio- dimensão ético-social. A primeira refere-seao categórico, que aparecia em quarto lugar na Chz/cízíü
adverte que um só homem, essa«única criatura
lógicas da natureza, como um objecto mais entre os homem no seu conjunto individual, egoísta, fechada RazzioPzzá/ica.«.Cada
um deve propor-se, como fim
racional da Terra», não pode, como indivíduo,
objectosdo mundofísico.Masenquantonúmeno,o sobre si, como um objecto maisentre as coisas.Em último e supremo, o soberanobem possívelno
ífiiiiHo». Em estrita concordância com esta formu- desenvolvercompletamentetodas asdisposições
homem, ser livre, pertence ao âmbito inteligível da atençãoa ela, pode e deve falar-seda natural inso- originárias da natureza humana. A tarefa, na sua
razão prática. As ideias de moralidade e de liberdade ciabilidade do homem, sem que a este nível -- que lação,Kant acentuoumuito bem a ideia da filosofia
totalidade, está confiada à espécie. Daí o curso
possibilitam a lematização desseâmbito que, como como «um guia pala o conceito em que se deve colocar
não é susceptívelde juízos morais a descrição temporalda história(«segundo»
princípio).
já vimos é objecto de um saber não teórico mas tenhaqualquersentidopejorativo. o soberano bem e para a conduta mediante a qual sc
Essemomento que será o desenvolvimento pleno
pratico. pode atingi-lc». Oca bem, nesta concepgo da Filosofia
A segunda dimensão ético-social -- refere-seao da natureza é a meta das acções humanas e o que dá
resulta que história e religião são as pegs que Emham
b) Kant reconhece no homem aquilo que ele chama homem como inserido no reino dos fins e da vigência aos.lprincípios práticos da razão. Deste
o sistema kantiano, as que Ihe dão amplitude, às quais
suas «disposições naturais» estas articulam-se se- moralidade, como pertencente a uma comunidade modo, pode dizer-sedo homem e só dele que,
judo seordenava,poque elasencemm o segredoda
gundo três direcções ou vertentes ou constituintes de pessoas.Segundo esta dimensão, pode e deve longe de sér conduzido pelo instinto ou por conhe-
realização humana, motor primeiro dessa complexa
da sua natureza; 1) disposição para a animalidade. falar-seda sociabilidade do homem. Visto que as actividade-- mundana e académicaao mesmo cimentos inatos é obra de si próprio. («terceiro»
explica a capacidade técnica do homem; 2) dis- duasdimensõeso constituemestritamente,temos princípio). Estatese kantiana deve ser entendida na
tempo que,é o 6llosofxparaKant.
posição para a humanidade, que explica a sua de extrair decididamente a conclusãode que Kant sua pureza mais genuína como assentandono
Com efeito, Kant concebea história como um reconhecimentoda disposição«racional»do ho-
desenvolvimento constantemente progressivo, mem, que em si mesma implica a liberdade.
embora lento, das disposições originárias do género
humano na sua totalidade. A filosoHlada história Kantre6eríumaispormenorizadamente
a explicação
kantiana aborda as seguintes questões em que da história, dada a complexidade deste conceito,
que assenta em múltiplos «princípios». Ajudamos em
medida e sob que condições e até que ponto a
resumoa maisdois
história, enquanto evolução da comunidade hu-
Disposições que constituem o ser humano razão): ou seja, só sabemos se somos felizes ou mana, pode conduzir à realização do soberano A diversidade das disposições originárias da natu-
Em relação à sua finalidade, os elementos que infelizes por comparaçãocom os outros bem. reza joga como promotor do seu próprio desen-
determinam a natureza humana podem ser delimi-
tadossucintamenteem três classes: 3. A disposição para ter umaperso/za/idade consiste Kant estabelecea ideia de uma «sociedadede volvimento, justamente pelo antagonismo dessas
na capacidade de respeitar a lei moral e/zguarz/o mesmas disposições. Neste princípio explicativo,
1) Como ser vivo, o homem tem disposição para a cidadãos do mundo» e promove a acção prático-
nmtiuo suficiente para o ocercício do tigre aüitrio. Kant vislumbrou claramente a tensão dialéctica da
aKiwulidade; -política da rmão para organizara sociedadenesse
Esta capacidade de respeitar a leí moral corresponde história uma tensão radicada nas oposições in-
2) Como ser vivo racional, o homem tem disposição sentido acção que deve comportar a maior reali-
em nós ao sentimento moral: por si só não é uma
l para a burra/z/íZgde,- zaçãopossíveldaliberdade. divíduo-sociedade, fenómeno-númeno, o empírico-
finalidade da disposição natural, mas poderá sê-lo
3) Como ser racional susceptível de ser responsa- -ético das acções humanas. E neste contexto que
enquanto motivo do livre arbítrio. Em contrapartida e Kant reajusta o lugar e signi-
bilizado, o homem tem disposiçãopara possuir uma Kant alude claramente à «insociável sociabilidade»
personalidade ficado da religião e estabelecea ideia do soberano dos homens.
Segundo as suascondições de possibilidade, verifi- bem como união de virtude e felicidade.
1. Genericamente, a disposição do ser humano para a camosque a basedapdmezra disposiçãonão integra
Kant,por fim tem de dar maisum passo.A realização
apz/Iria/ííZcüe corresponde ao amor físico a si próprio, a razão; que a seEzz/zdaradica indubitavelmente na
da essência humana exige à sociedade que se justifica
que é meramente mecânicopois não requer o uso da razão prática, mas unicamente ao serviço de outros 4.2.História
razão. como aspecto indispensável da compreensão da
motivos; e que a terceira é prática por si mesma e por
2. A disposiçãopara a bulpzazldade corresponde isso tem por base a razão legisladora incondicional.
A História é uma consequência necessária da história. «O magno problema da espécie humana»
genericamenteao amor físico a si próprio mas natureza do homem: um conjunto de disposições, para cuja solução o homem é compelido pela

B fmendo uso dacomparízçáo(o que implica o uso da Xant, A Religião tios Limites da SimplesRazão. como vimos mais acima. Mas «todas as disposições
naturais de uma criatura estão destinadas a de-
natureza, é o estabelecimento de uma sociedade
civil que administre o direito de modo universal.
m
l

l(P O IDEALISMOTRANSCENDENTALDE KANT


A sociedade,assim entendida, como meta última da menta aquilo a que chama«apassagemda moral à da razão prática e o reconhecimento do seu carácter
religião dentro dos limites da própria razão. isso não
autónomo.
tarefa que é a história, signiRlcasimultaneamente: religião». signi6lca precisamente, na intenção kantiana. a
(l um meio onde sc encontre a maior liberdade; Há dois momentos essenciais na determinação da Relativamente ao segundo, parece bastante claro negação de uma religião revelada, cuja possibilidade
2) um meio que contenha a mais rigorosa de- que Kant, face à re]igião positiva ta] como acabamos subsiste como algo que ultrapassa os limites da ra-
religião. Em primeiro lugar, o reconhecimento de
terminação e segurança dos limites dessa liberdade. de descrevê-la,tentou fundar um conceito de reli zão. Religião moral e revelada relacionam-seem
que o supremo bem referido a uma vontade moral-
No entender de Kant, poder e direito devem giro natural ou moral, o que é perfeitamente coe- Kant não já simplesmente como dua esfera compa-
mente perfeita, santae toda-poderosa. Em segundo
conjugar-se estreitamente na constituição da so- rente com o processo de secularização iluminista em tíveis, mas inclusivamente mesmo harmónicas
lugar, considerar os deveres da vontade livre como
ciedade. E só nela assim entendida poderá ser que está inserido. Mas, por outro lado, convém
mandamentos dessa perfeita vontade, como man- Torna-se assim claro como o sistema crítico de Kant
alcançadaa supremaintençãoda natureza,que é o damentos divinos. embora não como ordens arbi- notar que a religião moral é a consideraçãoestrita- controla -- debilitando-o, por assim dizer --o
desenvolvimento de todas M suas disposições. mente filosófica da religião, segundo os princípios
trárias e contingentes de um poder estranho. Tais simples reducionismo do acto religioso à moral. ao
Há que insistir em que essa sociedade,assim mandamentos continuam a ser leis essenciais de da razão e os postulados e condições de realização mesmo tempo que eleva essa religiosidade natural e
entendida, é antes de mais uma tarefa sempre dos mesmosque a razão exige; isto é, trata-seda
toda a vontade livre, mas são preceitos na medida é até capazdesupera-la.
aberta, um problema que não poderá ser resolvido
em que somente de uma vontade moralmente per-
'sem que exista uma relação exterior entre os
feita podemos esperar o bem supremo, que nos
Estados».A ideia de uma liga de nações,de uma torna felizes
sociedadeinternacional. é o último círculo do
A moral Kantiana, que não se apoia no recurso à
horizonteno qualsemovea compreensão
kantiana
felicidade -- como vimos --, «enlaça-se», por assim
da história. A história procura, como soberano bem,
dizer, com a felicidade,pois esta resulta da
a organizaçãode uma sociedade que produza a
realização do bem moral. Por isso -- assinala
suprema intenção da natureza. Hoje, diríamos uma
Kant --, a moral não é propriamente a doutrina de
sociedadeplenamentejusta. como nos tornarmos felizes, mas de como
Duas coordenadas marcam, definitivamente, o devemos chegar a ser dignos da felicidade. SÓ
:espaço»deste soberano bem, enquanto realizável depois, quando a religião sobrevém, nasce também Comunidadeética e comunidade jurídica dade acima do povo para legislar publicamente sobre
na história: por um lado trata-sede uma tarefa a esperança de sermos um dia participantes dessa A constituição de uma comunidade ética implica uma comunidade ética. Não se julgue, porém, que a
tente que todos os indivíduos se sub-
sempre aberta e ilimitada, por outro, é uma tarefa felicidade, na medida em que procurámos não ser origem desta leis éticas radica na vontade deste Ser
metam a uma legislaçãopública e que todas as leis superior (por exemplo, que certos estatutos não
que em última análise,é de todo o género humano, indignos dela.
que os unem sejam encaradas como mandamentos feriam carácter obrigatório sem haver um manda
masnãodo indivíduo.
Deste modo de fundamentar a religião derivam duas provenientes de um legislador comum. Tratando-se mento prévio), pois então não se trataria de leis ética
consequências importantes muito relacionadas de uma comunidadejzzz7'a/ca,o legislador seria no e o dever de as respeitar já não seria uma virtude livre
entantoa
4.3.Religião entresi. própria multidão unida como um todo(é o mas um dever jurídico susceptível de coacção
caso das leis constitucionais) uma vez que a legislação
Em primeiro lugar, a rejeição de toda a religião Destemodo, uma comunidadeética só pode ter
:0 soberanobem possívelno mundo»é a proposta parte doseguinte princípio: de órcondocom z//7za/e/
positiva por parte de Kart, ou mais precisamente, como legislador supremo aquele em relação ao qual
da liberdade, como indica a quarta fórmula do uniueTsal,
a liberdadeittdiuidualdeve todos os deveres (logo, também os de
dito com terminologia já hegeliana, a rejeição de
às condições de coexistência cam a liberdade dos natureza ética) representam simultaneamente manda-
imperativo categórico. O bem soberano ou supremo todas positividadenareligião.
é o objectoe fim da razãopura prática,é a lei ou/ms, neste caso,a vontade geral origina assim uma mentosseus.Destemodo só pode ser alguém que
Em segundo lugar, a redução da religião aos limites coacção exterior legal.
essencial de toda a vontade livre por si mesma. Mas conheçaoscoraçõese que consiga penetrar no mais
da simples razão ou à racionalizaçãoda religião; o Por outro lado, e no casode uma comunidade é//ca,
de onde virá essesupremo bem que a razãomoral fundo dasIntenções de cada indivíduo; aliás,e como
que põe o problema de como o conceito de religião o povo em si não pode constituir-se como legislador. em
nos leva a propor-noscomo objecto do nosso em de seralguémque faça
se relaciona com o conceito de religião revelada Aliás, e sendo uma comunidade ética bodas
asleis
esforço?O dar-sea si mesmaa lei é, para uma com que todos recebamo equivalenteaos actos
(que não deve identi6lcar-seexactamente com o de visam a mora/idade das acções(ou seja, é algo praticados. Isto corresponde ao conceito de Deus
vontade. a essência da sua liberdade. Mas isso não znlmor e que não pode ser submetido a leis humana
religiãopossível). como soberano moral do mundo Assim, só poderá
explica que seja supremo o bem que a liberdade se públicas). Ao passo que as leis humanas de uma ser como comunidade éticaum povo que
propõe. A moral não necessitade fundamento Relativamenteao primeiro, Kant entende por comunidade jurídica visam apenas a legalidade das obedeça a leis divinas, ou seja, um poz/o de Z)eus
material para a determinaçãodo livre arbítrio. 'religião positiva»toda a religiãoque se reduz a um acções(que se manifestamde modo visível), o submetido
a/eismorazk
Necessita sim de trazer para a luz essa relação entre conjunto de ritos e dogmasque são aceitese mesmojá nãoacontececoma moracidade,queé

B liberdade e supremo bem e por issoKant recorre à


religião. Na explicação desta relação, Kant funda-
mantidos apenas pela autoridade de uma tradição
ou por uma igreja institucionalizada, sem a mediação
interior.Porconseguinte, [em de haver outra enti-
Kart, A Religião TiosLimites Simples (h Razão.
HEGEL
{ EA DIALECTICA
»

INTRODUÇÃO l ENQUADRAMENTO HISTÓRICO.SOCIAL E FILOSÓFICO DA OBRA DE HEGEL

A filosofia de Hegel surge, como toda a verdadeira Alemanha,o ideal dado/ís grega, o cristianismo e
O sistema kantiano provocou uma profunda transformação crítica do pensar que úectou todas as esfera filosofia, em estreita dependência da situação a descoberta da «subjectividade» e pela Revolução
da reflexão filosófica. Relativamente a esta transformação, a filosofia kantiana aparecia como um ponto social, cultural e filosófica do seu tempo, e numa Francesa.
Vejamostais factoresem separado:
de referência obrigatório e ao mesmo tempo como um embaraço. Prosseguir o espírito do kantismo tentativa de resposta racional aos problemas
significava ao mesmo tempo recusar muitas das suas teses. É que a filosofia cólica kantiana quis ser um pendentes da referida situação,que era singu-
larmente complexa. Vejamos os seus momentos
1.1.1.AsituaçãodaAlemanha
diHcil jogo de equilíbrio da razão, vigilante, respeitosa e crítica ao mesmo tempo ' e não é supérfluo
repisar o último qualificativo -- com todas e cada uma das suas instâncias. Três grandes problemas, mais fundamentais. A Guerra dos Trinta Anos deixou a Alemanha muito
vMdos como obstáculos, cegavaesta filosofia aos seus sucessores:(a) a sua concepção do idealismo atrasada«política e economicamente». Não existia
transcendental;(b) o problema da coisa em si;(c) a oposição entre razão teórica e razão pouca. nela um Estado moderno, antes pelo contrário,
1.1. Enquadramento histórico-social havia um excessivo acantonamento assente num
No tocanteao primeiro ponto, a filosofiaposterior a Kant propõe-seassumiraté às últimas
consequências a instância crítica e racional presente naquele idealismo, levandc»o à sua verdade última A HtlosoRta
de Hegel tem como poucas uma clara, rica feroz despotismo feudal, tanto mais forte quanto
O idealismo posterior a Kant anula o carácter de «realismo empírico», com que se auto-reconhecia o e concretaimplantaçãopolítico-social,
alimenta-se
e carecia de jurisdição centralizada. A Alemanha não
kantismo, devolvendo essainstância, julgada irracional, à razão vive em estreita relação com os acontecimentos do era um Estado. A liberdade estava subjugada e a
Isso significa -- em relação com o segundo ponto -- que a coisa em si kantiana será negada como a seu tempo, repensae reassumetoda a tradição censura privava também da livre expressão. Ata-
expressão prototípica de dualismos e de limites que, se são reconhecidos pela razão, hão-de ser ocidental e elabora uma teoria ou ideia sobrea cava-sea cultura e em geral tudo o que significava
explicados por ela, do que paradoxalmente resulta que não há nada incognoscível, ou que, enquanto realidade na multiplicidade das suas formas e esclarecimento. Por outro lado existia um nume-
incondicionado, esteja à margem e por cima da razão. aspectos,teoria orientada para propor e iniciar uma rosíssimo campesinato, a industrialização era
Parasuperar esseestado de cisões e de redutos não racionais, era preciso potenciar e desenvolver as realização mais plena da liberdade e da razão. É que mínima e não havia uma classe média poderosa
teses kantianas na linha da razão prática. Tanto o idealismo subjectivo de Fichte como o idealismo a situação histórica de Hegel constitui, em seu que pudesse lutar para transformar este estado de
objectivo de Schelling serão intentos meritórios nessa linha. Mas a superação do kantismo, como uma entender, uma falta de liberdade: cra preciso, pois, coisas

reimplantação nova daquele criticismo, só será alcançado no sistema de Hegel. pâr a realidadeem consonânciacom as exigências Hegel viveu a Alemanha do seu tempo como um
darazão. ataque às suasaspirações democráticas e de liber-
O enquadramento histórico-social da época está dade e concebeu muito claramente a necessidade
configurado por estes factores: a situação na de um Estado moderno e racional

História, liberdade e Mosofia só tiveram escravos,cuja vida e preciosa liberdade


Pode dizer-se que a história universal é a exposição do estavamvinculadasà escravidão,como tambémessa
espírito, de como o espírito laboraparachegara saber sua liberdade foi ao mesmo tempo apenas um
o que é em si. Os orientais não sabemque o espírito, produto acidental, imperfeito, efémero e limitado, e
ou o homem como tal, é livre por si. E como não o uma dura serüdão do humano. SÓas naçõesgermâ-
sabem, não o são. Sabem apenas que há alguém que é nicas é que chegaram, com o cristianismo. à cons-
livre. Mas, precisamente por isso essaliberdade é um
ciênciade que o homem é livre como homem e que a
mero capricho, barbárie e paixão rude, ou também liberdade do espírito constitui a sua natureza mais
doçura e mansidão, um acidente casual ou um
própria. Estaconsciênciasurgiu pela primeira vez na
capricho da natureza. Por isso, este alguém é um
religião, na região mais íntima do espírito. Masintro-
déspota e não um homem livre, um humano. A
Este capítulo é composto pelas seguintes partes: duzir esteprincípio no mundo temporal constitui um
consciênciada liberdade só surgiu com os Gregos, e
1. Enquadramento histói'ico-social e 6Hosófico da obra de Hegel. trabalho cuja solução e desenvolvimentoexigia uma
por isso os Gregos foram livres. Mastanto eles como
2. Sentido e estrutura da dialéctica. dedicaçãodifícil e morosa.
os Romanossó souberam que alguns sãolivres e não
3. O conceito de espírito e suasfobias.
B
souberam que o homem como tal tambémo é. Platão

M 4. A «esquerda hegeliana». Feuerbach. e Aristóteles não souberam isto. Por isso os Gregos não Hegel, Á Razzio ?zízHísfórza medições70j pp. 58-59.
(D HEGEL E A DIALECTICA
I ENQUAPB4MFNTQ HI$TQRICO-SOCIAL E FILOSÓFICO OA OBRA OE HEGEL
1.1.2.Oidealü "poR"gK@ 1.1.4.A Revolução Francesa Em primeiro lugar, a filosofia de Hegel propõe-se Importa recordar, a propósito, que a filosoHla
pensar a relação entre os dois grandes e funda kantianaestabelecerae mantinhacomo «insupe-
Como contraponto deste estado de coisas, desta Para Hegel a Revolução significou fundamental-
mentais conceitos postos em evidência pela tradição ráveis»os seguintesconflitos
atomização radical da vida, a «polis grega» aparece a mente o valor supremo da razão e o seu triunfo
filosóficaanterior: natureza e espírito. O primeiro, a) A distinção entre entendimento e razão. O
Hegel como um modelo crítico a respeito do sobre a realidade. Ç) prjDcípio da Revolução esta
principal objecto de investigaçãopor parte da entendimento era uma faculdade cognoscitiva do
presente. Na polis grega cumpria-se a harmonização belecia que o pensamento dçvtg aovemar a realidade
do indivíduo com o «todosocial»,a vida do homem filosofia grega; o segundo, descoberta do cristia- finito e limitado, que só conseguesaber das coisas
e a ordem político:social; «todo o racional é real»,
consistia, e esgotava-sc na vida e no «espírito» da dirá Hegel,isto é, só pode considerar-se
como nismo sobre o qual se apoiou e em torno do qual enquanto simples.sfenómenos».
A razão«tende»
girou especialmente a filosofa moderna (a partir de para o infinito e absoluto, para o incondicionado
polis. Ao ponto de o indivíduo não ser nada à verdadeira realidade a que realiza as exi-gências e os
Descarnes), sob o nome de consciência ou subjecti-
margem e separado (excluído) da comunidade fins da razão. A Revolução propunha-se unir a vida que, no caso de poder ser alcançado cognosci-
vidade.
cultural, social e política da «cidade». social-comunitária com o princípio da «subjec tivamente, pode fundar e tornar possível um
Neste aspecto, é muito importante o conceito de Eividade»,no sentido exposto, com a realizaçãoda O projecto filosófico hegeliano consiste em conhecimento absoluto e total; a razão prgçy[4.0
«espírito do povo»(Vo/l?sRezs/)
, o único concreto e liberdade e o saber-selivre. pensar a conexão intema entre um e outro, de absolutamenteincondicionado, o «eiügi;absoluto
efectivo,já que o outro,o espíritoindividual,é No entanto, a experiência do «Terror,»,que Hegel modo a conseguir elaborar uma teoria uni- No entan o neiiç pit;jêããTica em mera intenção
apenas abstracto e, tomado em sua abstracção, irreal interpretou como a exasperaçãodo princípio tária, total e fechada sobre toda a realidade. sem que seja possível à razão (pelo menos na
e sem vida. E no «espírito do povo» que o indivíduo subjectivo da liberdade (na forma de uma «virtude Mas para isso Hegel deve levar a cabo uma crítica e interpretação que Kant dela fez) :®ançalggb$gjuto:
se constitui e realiza. No entanto,Hegel pensa quc subjectiva» Robespierre e como «vontade superação da obra que, em seu entender, alcançara a razão procura a totalidade, mas sem poder atingi-
estarealizaçãoe harmonia é deficiente c meramente interna», o que «traz consigo a tirania mais a maior maturidade «críticae reflexiva»e que, no -la. Daí que, embora «formalmente»sejauma razão
«formal»,pois o indivíduo não descobriu a cons- terrorífica») , a experiência do «Terror», dizíamos, entanto,ofereciaasmaioresdiHculdadesparaesse absoluta, «matérialmcnte» e em seu exercício é
ciência da sua própria individualidade c da sua mostrou a Hegel a tremenda dificuldade de conjugar projectado «sistemaunitário, fechadoe total»em sempreHtnitae limitada
liberdade. Na polis grega apenas alguns conseguiram racionalmentea liberdadedo homem e a orga- que deve consistir a Rtlosolla. Essa obra é a HilosoHia A distinção entre «entendimento» e «razão»implica
ser verdadeiramente livres. deKant. um não menosgraveconnito, a saber:
nização político-social num equilíbrio cm que
11 1.1.3.O cristianismo e a '.subjecüvidado»
nenhum dos pólos ou momentos seja reduzido c
dissolvido no outro, pois cm tal casoacabar-se-ia
Relativamente à «polis grega»o cristianismo supõe com a liberdadeobjectiva e com a vida do espírito
negativamente a dissolução da vida harmónica e em Hegel um vivo entusiasmo pela Revolução mento hegeliano:C/ênczadczEó-
conjunção interna com a comunidadesocial; e Georg Wllhelm Friedrich Hegel Francesa e pela Antiguidade grega. g/cóz (os seus dois volumes são
encaravapositivamente a descobertado conceito
1.2. O enquadramento filosófico
(1770-1831) nasceuem Estugarda, Em 1793 Hegel abandona Tubinga publicados em 1812 e em 1816).
:subjectividade»,que será interpretado por Hegel A obra de Hegel pode considerar-se como a matu- no mesmoano em que nasceram parair comopreceptor paraBerna.Justamente neste ano Hegel passa
como um momento absolutamente necessáriopara ridade filosófica c cultural da tradição ocidental; o Hõlderlin e Beethoven.EmTubinga Mais tarde transfere-se para Frank- para a Universidade de Heidelberga.
a realização
plenada liberdade
e parao seu seu pensamento passa por ser o último grande foi companheiro e amigo do poeta hrt e em1801paralena,ondese Um ano i)tais tarde a sua J?mczc/o-
Hólderlin e do filósofo Schelling. encontrava Schelling. São de des- péclia tias CiêrKim Fitosó$cas vê a
desenvolvimento e perfeição do espírito. A religião sistema hlosófico, no qual confluem e se conjugam
Nessaépoca participaram os três de tacar neste período duas publi- luz. No ano seguinte muda-se de
constitui para Hegel um aspecto fundamental da praticamente todas as filosofias anteriores. O pró-
cações.Fé e Sabere Diferença novo, desta vez para a Universidade
vidade um povo. prio Hegel concebeu e interpretou a sua obra como entre o Sustenta de F cite e Sebe!- de Berlim, onde chega enl pleno
A «subjectividade»significará, em última análise, a realização plena, numa interna unidade, de todas
triunfo profissional. Aqui viria a
uma função crítico-negativa relativamente à posi- as correntes anteriores, que serão assim con
A primeira grande obra só aparecerá fHecer.
tivização da vida religiosa e em geral da vida político- sideradas como momentos que conduzem ao em 1807--aFe7zofeno/orla do Outra das suas obras mais im-
-social.O termo «positividade»significaa «cons- sistema hegeliano e que, por conseguinte, são esPínlo. Nesta mesma época, Hegel portantes e cle grande influência é
trição» quc se impõe à vida a partir de uma realidade assumidas ainda que transformadas nele. enfrenta-se com sérios problemas Princípios da Filosofia do Direito
.exterior» e imposta pela força da tradição, sem estar Por isso, a pormenorizada explicação do enqua pessoais: a ruptura com Schelling e E como obras póstumas, recolhidas
fundamentada na própria razão. «Positividade» dramento filosófico da obra de Hegel requereria grandes dificuldades económicas. a pmir da suaslições,têmpadcular

equivaleriaa «alienação».
Ora, a descobertada uma revisão de toda a filosoHlaocidental, tal como Tudo isso o obriga a abandonar interesse a /m/rodzzç:ãoà H/s/ó-
«subjectividade» e o seu carácter de princípio racio- ele próprio faz no seu livro Á Rízzãonóz/ízs/órííz cena.A partirde 1808é directore ria da Filosofa, A Razão na His-
professor de filosofia do «Ginásio» tória Introdução àFilosafia da
nal e livre representará para sempre, na opinião de medições701. Importa no entanto sobremaneira,e

B de Nuremberga. Nesta cidade nas- Históüa Universal e % lições sobre


isso bastará, chamar a atenção para dois pontos
Hegel, um princípio orientador na organização
social e política da vida do espírito. fundamentais. cerá outra obra chave do pensa- Filosofa da Religião
B
ÍD HEGEL E A DIALÉCTICA 2 SENTIDO E ESTRUTUM DA DIALÉCTICA
b) A distinção na realidade entre fenómeno e d) As distinções apontadas podem resumir-se numa
númenoou coisaem si(utilizaremosnestecon- quarta:o conflito entreo anito e o inHmito (ou,
texto os dois termos como sinónimos). Este radical com outras expressões,entre o mundo e Deus, a na- 2.1.Sentido da dialéctica lados da Revolução Francesa»(Bloch, OPensamm/o
conflito e cisãosignifica que, ao menos para o saber tureza e o espírito, etc.). Com a gravecircunstância, de Hegeb.
e para o conhecimento, a ordem da realidade está além disso, de que um infinito distinto e separado O termo «dialéctica»,que tem uma tradição muito
A dialécticahegelianatem pois uma clararadicação
antiga na 61osofia (desde Platão a Kant), está espe- histórica e concreta: exprime, por um lado, a
dividida, sem que seja possível, como consequência do «finito» se converte, diz Hegel, em 6lnito.
elaborar uma teoria una, absoluta e total sobre a Aristóteles concebeu expressamente a filosofia como cialmente ligado ao nome de Hegel, ao ponto de o contradição do mundo existente; e por outro a
realidade na sua integridade, ou se possa rejeitar a o que o próprio nome indica:uma «tendência»O/o) adjectivo «dialéctico» servir para caracterizar com necessidade de superar os limites presentes,
«hipótese»dc que.nçH teda21ç31 çi lzciondu isto é, para a «sabedoria» (s(Úa), isto é, desejo de um saber
muita precisãotoda a sua filosofia(tanto a sua teoria movida pela exigênciarealizar de um modo total e
universal e necessárioda totalidade do real. Para do conhecimento e do método. como a sua ideia da
em consonância com a natureza e o alcance da razão efectivo(numaorganização
sociale política)a liber-
realidade: fala-seassim de método dialéctico ou de dadee ain6lnitude
humana que, enquanto finita, tem que deixar um Kant, embora a filosofia deva pugnar por adquirir tal
natureza dialéctica do real.
âmbito inatingívelao seu poder e, portanto, incog- saber absoluto (tornar-se um «sistema»,
diz Kant) .
noscível. Atendendo a esta estreitíssima relação entre a
uma tarefa inatingível para a razão humana finita:
justamente por isso, para Kant a íilosoHtanão pode «âloso6ia»de Hegel e a dialéctica», o conceito que se 2.1.2. A dialética, estrutura da n:alidade
As duas distinções apontadas impõem por seu turno tenha da primeira modelará o da segunda e vice-
ser senão «crítica». !!çgg çll:.çi!!g.g.8jgiÉ}Ba.Kiude
umaterceira,a saber: R"' um -versa.Hegel é consideradoum filósofo «idealista»
Noutro sentido, enquanto expressãoda filosofia de

c) A separaçãoentre o ser e o dever ser. EsÜ (emboranão sesaibamuito bem e claramenteo que Hegel. ã dialéctica significa a radical opos de
çfeêãiio ç pleno «saber», para ser ciência
Hegçl3:11?da a interE2[gÉê$ão fragmentar a e atómica
terceira distinção tem as «limitações» já indicadas nas (Risse?zscba@.escreve elê). Ou seja, não «crítica» este termo quer dizer aplicado a Hegel), e por
da,.realidade-e.conhecimento.
duas anteriores, mas comporta também, de um mas sistema: o sistema absoluto da totalidade do consequência a dialéctica hegeliana é considerada
O carácter dialéctico do real significa que cada coisa
modo especial,e isso é o mais importante no seu real, um «sistema racional». como algo de sumamente abstracto, sem uma refe-
caso, a radical separação entre a «simples teoria» e a rência concreta à realidade e às suasdimensões é o que é, e só chega a sê-lo em interna relação,
«praxis»,
entre.gpç!!s&111çDço
e a acção,coma união e dependência com outras coisas,e em última
E este,nem maisnem menos,o projecto hegeliano.A histórica, social, política, etc, a dialéctica seria enten-
análise com a totalidade do real. A filosofia hege-
agravante,na opinião de Hegel, de que em última sua obra [em um claro significado «teórico» ou de dida como um simples e incontrolado jogo entre
liana, enquanto dialéctica, concebe a realidade como
análise tal separação conduz ao insucesso tanto a interpretação do real; mas surge num enquadra- conceitos; da mesma maneira a filosofia de Hegel
tarefa da teoria como a da praxis, pois o seu desa- mento histórico-social, alimenta-se da sua implan- seria entendida como o sonho que reduz o real e a .!!D-.toco, sem que isso em nada afecte a relativa
tação mundana e procura «iluminar» o sentido em independência de cada coisa na sua singulari-
juste é estrutural e permanecerá sempre assim, com multiplicidadedassuasformasa simplesconceitos
dade.
a consequente impossibilidade de realizar plena- que toda a realidade, especialmente a realidade ou ideias(idealismo). No entanto, semelhantemodo
mente o «dever-sep', que no entanto se apresenta e histórica e social, tem de chegar a ser plenamente de entender a questão é excessivamentevago e A concepção dialéctica do real opõe-se ao crasso
racional. O adjectivo que melhor deRne a concepção desconceituado. positivismo e à interpretação empírico-láctica da
se quer impor como absoluto e plenamente real e
efectivo; experiência. Faceà.pretendida, autonomia e inde-
hegeliana da realidade é o de «dialéctica,,.
pendência dos factos, tal e como são dados de um
2.1.1. Carácter concreto e histórico
modo imediato na experiência, a estrutura dialéctica
Sublinhámos já que a filosofia de Hegel surgiu num do real mostra que os factos são apenasum jogo
preciso enquadramento histórico e social, tentando «subterrâneo»de relações,que são as que real-
interpretar muito real e concretamente a situação mente, e em última instância, constituem e esgotam
«dividida» e de «falta de liberdade» do homem. as coisas, apesar da sua imediata e aparente con-
O termo «dialéctica»é utilizado por Hegel para sistência e autarcia individual. Paraum pensamento

compreendere exprimir a situaçãorealdo mundo; dialéctico, «os factos não são, de per si, na reali-
na dialéctica hegeliana vive uma vontade de efectiva dade, algo mais do que aquilo que o mar dos cruza-
implantaçãonumarealidadealienada,contraditória mentos dialécticos faz vir, diluído, à superfície
acessívelaos sentidos. Este mar, com suas correntes,
e que pugna por superar tal situação.A dialéctica
hegeliana, como escreveu o pensador marxista Ernst é o que o conhecimento científico tem de sondar,
Bloch, «não é um parto virginal da suposta vida sem se limitar a ver a simples imediatez dos factos;
própria dos conceitos»;pelo contrário, «há na estes não são mais do que simples indícios para o

Vasogregoemfolnnade canja(640 a. C.)


dialéctica hegeliana algo do vento da Nova Fronda, o
hálito da transformação do existente que sopra dos
verdadeiro conhecimento» (Bloch, o. c. ).
Aliás, o carácter dialéctico do real não signiHlca 8
(D HEGEL EA DIALÉCTICA 2 SENTIDO E ESTRUTURA DA DIALÉCTICA

apenas a sua ss!!!!y11ç!!!çlaçlg!!&- , mas, ainda mais constituída como oposição de contrários. 2.1.3. A dialéctica, estrutura do conhe. realidade em geral e do princípio de que «o verda-
originariamente, que cada coisa só é o que é, e l)este modo,(;alia:
11;4jjdade
particularremetepara cimento deiro é o todo». Em qualquer o caso o que há é a
consegue sê-lo no scu contínuo devir e 121gçesso; a IQlêlidade,e só pode ser compreendidae interna relaçãoestrutural entre ser e pensar ou, por
isto é, a realidade, enquanto dialéEiiEa,não é Hu4, .1

explicada em relação ao todo; por outro lado, cada O carácter dialéctico (tal como o estamosa outras palavras,entre sujeito e objecto
nem detêfifiiíiãda ae umã vez por todãil masestá' coisa não é senão urnLIDomeQto do todo, que se considerar) tem igual alcancee significadono que
num contínuo processo de transformação e mu- constitui na totalidade, mas que é também assu- se refere ao saber («conhecimento dialéctico». Depois do que ficou dito, bastará acrescentar o
«método dialéctico»). O tema do conhecimento tem seguinte acerca da estrutura dialéctica do saber.
dança,cujo motor é simultaneamente tanto a sua mida e dissolvida nela. Hegel exprime de um modo
interna limitação e desajusteem relaçãoà sua preciso e breve tudo o que vimos dizendo com a uma inserção clara na 6iloso6lade Hegel. Com efeito, a) O conhecimento consiste estruturalmentena
exigênciade infinitude e absoluto, como a interna frase «o verdadeiro é o todo». (Esta frase pode soar entre as diferentes (e não forçosamente contra- / relaçãoentre o sujeito e o objecto. Cadapolo desta
relação em que está com outra coisa ou realidade, abstracta, mas na realidade tem un] significado ditórias) caracterizaçõesque Hegel dá da Hllosofia relação só o é por causa do outro, com a paniculaHdade

que neste aspecto aparececomo o seu contrario. muito concreto e consequências de extrema im- encontra-se esta: «o c07zbec/mento (:Hecrzpo
í/o que e de que cada um deles «negae contradiz,,o outro,
A realidade enquanto dialéctica é pois pro- portância, como se poderá verificar pela análise da em verdade»(Fenomenologia da Espírito, In\to- dando-seentre eles uma desigualdadeou desajusteque
cessual, regida e movida pela contradição, sua filosofia da história ou da sua filosofia do dução). Ou seja, a teoria acerca da realidade exige e impõe um processo de trans6omlaçãocom tendência

intemamente relacionada(enter-relacional) e direito, por exemplo). anda de mão dada com a explicação do saber, numa paraaigualdadeouidentidade
palavra,do «pensam'.Como lá é sabido, a relação
b) O processo destinado.a superar a diferença entre
«ser-pensar»é uma dimensãofundamental da fito
objecto e sujeito tende para a identidade de ambos
sofraao longo da suahistória.
isto é, paraa reduçãode um ao outro. SÓ na
Ora, segundo Hegel, também o conhecimento [em
uma estrutura «dialéctica».E tem-nanão de modo identidade completa que se atinge na redução,
é posssível alcançar um conhecimento abso-
originário mas derivado: como a realidade é dia-
luto, isto é, o saber da totalidade do real
Dialéctica e negatividade como (&Úez/ode ambos, mas é a sua alma que move os
léctica, também é dialéctico o conhecimento. na
A consczêzzcza, como ser imediato ao espírito, dois; daí que alguns pensadoresantigostenham medida em que este é um momento ou dimensão Como já acentuámos, Hegel pretendeu fazer da
comporta os dois momentos do saber e da objec- concebido o umio(certamente como o motor) como do real, e na medida em que o saberse configurac / filosofia um sistema e acabar com a admissão de um
tividade negativarelativaao saber.Quando o espírito o }zega//z/o,
sem captar todaviao negativoem si se exprime dialccticamente ao manifestar a natureza l «em si» incognoscível, numa palavra, alcançar um
se desenvolve neste elemento e nele exerce os seus mesmo. Ora, se este algo negativo apareceantes do dialécticada realidade. \..çgnhecimento absoluto. Segundo Hegel, só um
momentos, esta oposição corresponde a estes mo- maiscomo desigualdade
do eu relativamente
ao Mas na verdade e é importante valorizar isto -- sabertotal e absoluto mereceo nome de verdadei-
mentos, que aparecemtodos como imagensda objecto, na mesma medida é também a desigualdade caisdistinções entre conhecimentoe realidade, ro conhecimento(Hegel dá-lhe o nome de «ciência»
consciência. Estecaminho que a consciência faz é a da substância relativamente a si mesma.
pensar e ser, etc., são inadequadas segundo Hegel, num sentido que, tem muito pouco a ver com a sua
ciência da expenê?zc/a,-
a substânciacom o seu Licitamente, a ciência só pode organizar-se através da
precisamente em virtude do carácter dialéctico da acepçãocientífico-positiva
movimento é consideradacomo objecto da cons- própriavidado conceito;a determinabilidade
que
ciência. Dado que nela só há substânciaespiritual, a desde o exterior, desde o esquema, se impõe à exis-
consciênciasó sabee concebeo que encontra na sua tênciaé, por si, pelo contráúo, a alma do conteúdo
experiência, e isso só acontece totalmente enquanto é pleno que se Move a si mesma O movimento do que
oólec/o do seu-si-mesmo.Em contrapartida, o espírito é consiste, por um lado, em tomar-se no mesmo- Dialéctica e experiência
converte-seem objecto porque este movimento -outro, convertendo-se assimno seu conteúdo ima- Aquilo a que propriamente se chamaráexperiênciaé e/a des/e e/?z.sí.De momento, o segundo parece ser a
consiste em tomar-se no e/e-mesmo-um-ozzfpo, quer nente; por outro lado, o que é volta a recolher em si estemovimentodza/écfzco
que a consciência
efectua reflexão da consciência em si-mesma: não uma
dizer, em objecto do seu-s!-nzes#zo,
e superaiá este mesmo estedesenvolvimento ou esteser ali, ou seja, em si mesma, tanto no seu saber como no seu representação
de um objectomasdo seu saber
ser-outro. E o que se chama experiência é inteiramente converte-se a si mesmo em um momaz/o e simplifica- :bbeaa, enquattto o ltouo objecto verdadeiro surge daquele primeiro. Mas, como atrás salientámos, o
este movimento no qual se estranhao imediato e o -secomo determinabilidade. Naquele movimento, a pera/zfe e/cz. Nesta relação, e no processo atrás primeiro objecto muda e dera de ser o em-szparase
experimentado,ou seja,o abstracto,quer pertençaao pzegalzu/dadoé a diferenciação e a antimação da exis- referido, deve salientar-secom grande precisão um converter na consciêncianum objecto que é em-s/
ser sensível ou ao que é simplesmente pensado, para tência; este recolher-se em si é tornar-se sz/np//clóíZzde momento por meio do qual se derramaráuma nova somentepara eúz, o que, por seu lado, significa que o
logo retomar a si depois deste estranhamente,e isso delelmz/fada . Deste modo, o conteúdo torna claro luz sobre o lado cientíHco da exposição que se segue. verdadeiro é o ser pózróze/a deste em-s/ e, por
é tanto assimque é exposto na suarealidadee nasua que conferiu a si mesmo a sua determinabilidade e A consciência sabe a@o, e este objecto é a essência ou conseguinte, que isto é a essência ou o seu objecto.
verdade enquanto património da consciência. não a recebeucomo imposiçãode outro, e assim o e/?z-s/.mas este é também o enz-sípara a cons- Estenovo objecto contém a anulaçãodo primeiro e é
A desigualdade que se produz na consciência entre o ergue-sepor si no momento e num lugar do todo ciência, e daí a ambiguidade deste algo verdadeiro aexpedência efectuadasobre ele.
eu e a substância
(queé o seuobjecto)é a sua Verificamos que a consciência tem agora dois
M diferença, 0 7zega//uoem geral. Pode ser considerado HegeA
, Fmontenologia do Espírito. objectos:um é o prüneiro ef7z-s1l
o outro é o serParíz Hegel,Fenomettologia do Espírito.
M
IÍP HEGEL E A DIALÉCTICA 2 SENTIDO E ESTRUTURADA DIALECTICA

O conhecimento dialéctico é um saber absoluto, absoluto. Pelo que em definitivo não se trata tanto cumpre a dialéctica. No entanto, lá Hegel prevenira Estes três momentos da dialéctica hegeliana articu-
não só porque conhece a totalidade do real, mas da redução do ser ao pensar, como da interpretação contra o grave e constante risco de entender esta lam-seconstituindo uma estrutura, cuja adequada
porque, além disso, conhece cada coisa ou reali- do ser como ideia ou razão. «Todo o real é racional», trilogia de um modo abstractoe formalista, com a compreensão se atinge mediante o que pode-
dade particular em relaçãoao todo como formando escreverá Hegel. Por isso, talvez seja o iêrmõ'ies- consequente desvirtuação da sua natureza. ríamosdenominar «categorias»
funda-mentaisda
um momento do todo. Assim, os saberes relativos pírito» aquele que melhor exprime a natureza do Muitíssimo mais hegeliano é pensar a dialéctica dialéctica e que são a) imediatez-mediação; b) tota-
(ou parciais) só são válidos quando em relação com real como um todo estrutural complexo constituído por lidade; c) negatividade-contradição; d) superação
o conhecimento absoluto e graças a este. três momentos ou aspectosque Hegel denomina: a) (A breve explicação que será necessário fazer
A passagemseguinteexprime muito bem e destascategoriasencontra-seno 3.' volume desta
A tese «epistemológica»de que o conhecimento o aspecto«abstracto ou intelectual»;b) o momento
resumidamente a linha fundamental de tudo o que
dialéctico é um saber absoluto está,pois, em estreita «dialéctico ou negativo-racional»;c) o aspecto obra, capítulo 15, 3.1.1, a propósito da crítica mar-
expusemos: «Que o verdadeiro só é real como xista à dialéctica hegeliana. No mesmo capítulo se
conexãocom a tese«ontológica»
de que o ver- «especulativoou positivoracional»(para
a suapor-
sistemaou que a substância é essencialmente
dadeiroé otodo. menorizada e precba consideração,veja-seo parágrafo explicitarão e completarão algumas das teses mais
sujeito, exprime-se na representação que importantesdo sistemahegeliano).
79 e seis. âa Enciclopédia dm(liêncim Filosójicmü.
f c) Na redução à identidade absoluta que constitui o enunciao absoluto como espírito, o conceito
verdadeiro e pleno conhecimento dialéctico tem mais elevado de todos e que pertence à época
lugar a dissolução do objecto no sujeito: será pois modema. . . SÓo espiritual é o real»(fózdem).
no sujeito e como sujeito que se atinge a identi-
çlade absoluta; estaserá uma identidade do sujeito:
11 uma identidade subjectiva. Mas com isto não só se 2.2. Estrutura da dialéctica
11 cumpre uma redução «epistemológica»(do objecto
Após o que foi dito na secção anterior, parece-nosque
de conhecimento
ao sujeitodo conhecer),mas
111 também e além disso uma redução ontológica (do
fica clara uma questão posta a propósito da dialéctica
hegeliana:saberseé um método de conhecimento(o
ser ao pensar): «segundoo meu modo de ver» -- «métododialéctico») ou algo mais.:A.lli4lÉctiçg:ex-
escreve Hegel -- «tudo depende de que o verda-
primee constituia nalyle;qÊ$!!!y!!!B.çjgleallpor
deiro não seja entendido ou expressocomo subs- isso laitüéã consljwi o modo de proceder do
tância, mas também e na mesma medida como
.ilõiihecímeíítõ
e folha de acederà cãÍitãçMe
sujeito»(Fe7zommo/orla
do EhoíH/o,Prólogo).
Expressão
do real(«modode procedem-
e «f(iiiiüde
E sendo o sujeito do saber, em última análise, acêaeí»"eqüvalem aqui a método, me/á-oíüs)
pensamento (De/zém), razão (Uemzzn@)
ou ideia, a Costuma caracterizar-sea estrutura e essênciada
redução ao sujeito, a redução do ser ao pensar, dialéctica recorrendo às palavras «tese», «antítese» e
converte a filosofia hegeliana em idealismo .síntese»,como três passossucessivosnos quais se

Momentosda dialéctica
$ 79. O lógico, segundo a forma, tem três aspectos: a) às outras; uma tal abstracçãolimitada surge no enten-
Q abstracto ou intelectml; bÜo dialéctico ou nega- dimento como subsistindoe exisitindo por si.
tiuc-racíonat; [à Qespecuhtiuo au positiuc-racional. $ 81. b) O momento dialéctico é o próprio suprimir-se
Estes três aspectos não constituem as três partes da de tais determinações finitas e a sua transição para as
[ógica,massãomomentosde todo o ]ógico-real,de opostas(. . .).
todo o conceitoou de todo o verdadeiroem geral. $ 82. c) O jmomentol esPecz{/alíuo ou posa/zuo-
Podem juntamente põr-se sob o primeiro momento. -rnc/o?za/ apreende a unidade das determinações na
o in/e/eclua/, e mater-se assim separados uns dos sua oposição; é que se contém de óÜn17zafíuona sua
outros; deste modo, porém, não se consideram na sua solução(az@õszzng) e na sua passagem(Ube?Bebem).
verdade(....). WitlÍam Beliscou:
5 80. a) O pensar,enquanto míe?zdínzmro,acém-seà HegeÀ,Enciclopédia das Ciências Filosóficas em

B rígida determinidade e à suadiferença relativamente Epítome(edições 70) 1.' Vol. pp. 134-135
wã#á-gk«zHa/( Mnb«:ó«'/«' Elli3
H

3 0 CONCEITO DE ESPÍRITOESUAS FORMAS 3 0 CONCEITO DE ESPÍRITOE SUAS FORMAS

3.1. O conceito de espírito 3.2.1. O espeto subjectivo


Espírito eliberdade como a gravidade é a substância da matéria, assim
Espírito significa para Hegel o objecto e o sujeito a) Antropologia também, devemos dizer, a liberdade é a substânch do
Portanto, o primeiro que temos de expor é a deter-
da autoconsciência, e consiste em actividade, O espírito que emerge da natureza manifesta-se em espírito.A todosé imediatamente
patenteque o
minação abstractado Espírito. Dkemos dele que não é
desenvolvimentoe incessanteprogresso.Porisso primeiro lugar como alma. Estaé, diz Hegel, a espírito, entre outras propriedades, possui também a
um abstracto, não é uma abstracçãoda natureza
se torna extraordinariamente difícil e pobre latente idealidadeou imaterialidade da matéria. O liberdade; mas a RllosoRia
ensina-nos que todas as
humana, mas algo de inteiramente individual, activo,
caracteriza-lo à margem das formas em que se propriedadesdo espírito existem unicamente me-
tratamento da alma começa com a secção acerca da absolutamente vivo: é uma consciência, mas também o
diante a liberdade, que todas são apenas meios para a
configura, do seu desenvolvimento e resultados. O alma natural, na qual se reconhece uma espécie de seu objecto--e tal é a existênciado espírito que
liberdade, que todas buscam e produzem somente a
espírito só consegue ser efectivamente o que é vida psíquica difundida por amplos sectores da consisteem ter-sea si como objecto, Por conseguinte, liberdade. Ê este um conhecimento da 6iloso6ia
através das suas manifestações.De um modo natureza-- não parcelada ainda em almas indivi- o espírito é pensante e é o pensar de algo que é, o
especulativa, a saber, que a liberdade é a unica coisa
antecipativo, é possível a aproximação à sua duais.A alma natural possui diferençasqualitativas pensar de que é e de como é. O espírito sabe: mas
verídica do espírito. A matéria é pesada porquanto há
natureza mediante os conceitos de «eu»,«sujeito»e saber é a consciência de um objecto racional. Além
correspondentes aos diferentes meios geográficos, nela o impulso para um centro; é essencialmente
de «infinito». disso,o espírito só tem consciênciaporquanto e autc»
climas,estaçõese dias. composta, consta de partes singulares, as quais
-consciência; isto é, só sei dç um objecto, porquanto
tendem todas para o centro; por isso, não há unidade
a) Espíritoé aquilo a que me retiro com o pronome Mas a alma tem outra manifestação mais importante: nele também sei de mim mesmo,sei que a minha
alguma na matéria. Ela consiste numa pluralidade e
consiste em que o que eu sou é também
'eu»,aquilo de que sou conscientequanto mais a sua individualidade que se manifesta nas dife- buscaa suaunidade; por conseguinte, aspira a superar-
intimamente entro em mim mesmo e me sei como para mim objecto, em que eu não sou simplesmente
renças inatas de capacidade,temperamento e -se a si mesma e busca o seu contrário. Se o alcançasse
Isto ou aquilo, massou aquilo de que sei. Sei do meu
actividade produtiva». O lema «conhece-te a [i carácter individual. Hegel refere-se aqui também às lá não seria matéria, mas acabariacomo tal; aspira à
objecto e sei de mim; não se devem separar as duas
mesmo» enquanto saber do espírito e dc suas variações características da juventude, maturidade, idealidade, pois na unidade ela é ideal. O espírito, pelo
coisas.O espírito constitui, pois, para si uma deter-
manifestaçõesexprime com rigor a tarefa da obra de eEC.
e bem assimàsdo sexo.Atribui uma especial contrário, consbte justamente em ter em si o centro;
minada representação
de si, do que ele é essen-
Hegel. persegue também o centro, mas o centro é ele próprio
importância aos estados de sono e vigília, pois cialmente,do que é a suanatureza Podeapenaster um em si. Não tem a unidade fora de si. Encontra-a
proporcionam-lhe
o materialadequadoparaestudar conteúdo espiritual; e o espiritual é justamente o seu
b) Enquantoactividade,o espíritoé «sujeito»,na continuamente em si; ele é e reside em si mesmo. A
a sensação,termo que Hegel utilizou parase referir conteúdo, o seuinteresse.Eis como o espírito chegaa
medida em que está e se constitui numa relação matéria possui a sua substânciafora de si; o espírito,
aos estados de consciência obscura. A sensação um conteúdo; não é que encontre o seu conteúdo,
como outrode si e nelese reconhece
e a ele em contrapartida,
é o estar-em-si-mesmo
e tal é
equivaleà consciênciade um objecto exterior a nós masEz de si o seuobjecto, o conteúdode si mesmo.O
reconhece como um momento de si mesmo. É justamente a liberdade. Com efeito, se sou depen-
proprios. saberé a suaforma e a suaconduta, maso conteúdo é
uma contínua mediaçãocom toda a forma de dente, refiro-me a um outro que não sou eu e não
justamente o próprio espiritual. Assim o espírito,
posso existir sem essealgo exterior. Sou livre quando
objectividade. Da sensação passa Hegel ao sentimento, que segundo a sua natureza, estáem si mesmo, ou é livre em mim mesmo estou.
representa o resultado psíquico de um conjunto de
c) Enquanto eu e sujeito, o espírito é «infinito»: não A natureza do espírito pode conhecer-se no seu Hegel,A Razãona História- Introduçãoà Fi!o-
sensações.Entre os sentimentos Hegel destacaa
no sentido de uma extensãoindenlnida.ou uma perfeito contrário. Opomos o espíritoà matéria.Assim s(Üa da /íls/óna UHíuersall pp. 52-53, Edições 70.
loucura que consiste no domínio unilateral de
realidade transcendente, mas enquanto se possui a
alguma particularidade de «sentimento de si» que
si mesmo na relação absoluta com o outro e nesta
não se adaptou ao mundo ordenado sistematica-
relação objectiva está consigo mesmo, quer dizer, se
mente. Mas, a loucura não é apenas uma desordem, b) Fenomenologia termos a princípios, os quais tornarão óbvias tais
realiza como liberdade.
mas o estigma da nossa grandeza espiritual: capaz de A secção fenomenológica resume o processo delimitações
desligar-sede todo o conteúdo finito, pode associar- dialécticoda Fezzomeno/og/a
do Espírí/o.cons-
3.2. As formas do espírito -se a qualquer forma de ser. O problema surge quan- ciência, autoconsciência e razão. Hçgel passa então à autoconsciência cujo primeiro
estádio, o «desiderativo», surge em virtude da con
do essapossibilidade, inerente à própria cons-
O desenvolvimento do espírito supõe, segundo a ciência, se converte numa realidade absurda. Hegel segueo desenvolvimentoda consciência tradição entre a autoconsciência e a consciência, ou
sua propna natureza, um processo: através das três fases características: começa pela seja,entre o nossoapetitede apropriaçãodo mundo
O espírito na forma de relação consigo mesmo. Hegel estabelece uma última distinção: a alma real. consciência sensível, na qual o objecto desdobra um e da sua inteligibilidade, egEll11êçEeC$1paco
dos seus
Trata-se
do espírito subjectivo. Chama-se«real»por ser uma alma perfeitamente enormeconteúdoactualmentevazio.Ê necessário conteúdos. Estaautoconsciência desidêiãtíva é por
O espírito na forma da realidade «como de um acomodadanum corpo onde o exterior e o interior passar ainda da sensação à percepção, tentar éden natureza insaciável, ou seja, apesar de «consumia'
mundo a produzia,. Ta] é o espírito objectivo. se identificaram. A maneira de andar, o tom da voz, tificar objecto e pensamento. E necessárioigual- um objecto não se contenta com essaactualidade
--O espírito na forma da unidade da sua ou a própria expressão facial tornam-se tão psíquicas mente passarda percepçãoaoentendimento,pois é Esta contradição resolve-sena autoconsciência

8 objectividade e da sua subjectividade. Tal é o


espírito absoluto.
quanto corporais; superou-se desçaforma a inércia
da matéria.
absolutamenteimpossívelpensara indisciplinada
variedade de aparências do objecto sem assubme-
social,que não é maisdo que o reconhecimento--
mútuo de outraspessoas,como pressupostoda B
IÍn HEGELEA DIALÉCTICA 3 0 CONCEITO DE ESPÍRITO E SUAS FORMAS

autoconsciência pala qualquer delas e explicação da consiste em que este conteúdo é intelectual, sentimentos:de agrado/desagrado;
de alegria/tris- partida de forma inelidível a propriedade privada.
r.phralidade de indivíduos. coisa que não ocorria na fenomenologia.Este teza; de ansiedade, esperança, medo, etc. Ao con- Portanto, a mediação da coisa enquanto possuída
Ora, Hegel não ignora o grande problema que este conhecimento concebeas relaçõesespácio-tem- frontarem-se com um mundo que não coincide com (propriedade da pessoa) objectiva-se através da
reconhecimento implicava, pois se evidencia aí a porais não meramente subjectivas (como acontecia eles, os sentimentospassama ser impulsosde primeira relação interpessoal, isto é, o contrato.
contradição entre a comunidade essencial das que em Kant), mas objectivas. transformação. Ora, para que o espírito prático seja Nuasa pluiulidade de pessoasreferidas a uma mesma
se reconhecem e a impenetrabilidade de que antes efectivo tem que complementar a individualidade do coisa tem como resultado uma variedade quase
falávamos..A dialéctica dL$whor e do escravo Naimaginaçãoreprodutiva,torna-se
explícitoo irredutível de fundamentos jurídicos, que choca ine-
domínio implícito da mente sobre assuasimagens: impulso com a universalidadeda razão,isto é, terá
manifesta concretamente esta insoiiãilêr'ilõiíiiF de superar essaimediatez sentimental através de um vitavelmente com a unidade do justo em si. Então, o
dirão podeevoca-las
e associa-las
de umaformadeter-
processode reflexão. espírito toma consciência desta contradição e parece
minada, pode utiliza-las como signos ou símbolos
(

Maso que interessasublinhar é que: embora esta Tal elemento universal manifesta-se subjectivamente refugiar-se em si mesmo porque a 6ldelidade que o
\

contradição seja insolúvel, só nos reconhecemos universais.


Quandoa palavrase interiorizae se
sob a forma de escolha livre, que Hegel relaciona espírito exige é completamente inatingível com o
converte em imagem privada, temos o caso da direito. Com esta negatividade abre-se o caminho
como pessoasquando em relaçãocom os outros; na ao mesmo nível, com a felicidadeou «interessedo
memória própria, isto é, signos que possuem a 6lr-
opinião de Hegel, os alicerces da razão radicam eu» que nos conduzirá a tentar satisfazer todos os para a moralidade: a vontade livre não só será livre
meza e durabilidade do exlemo juntamente com a
nesta conflitualidade; daí que a razão seja subjectiva nossosimpulsos. em si mas sobretudo para si.
manipulabilidade do subjectivo.
mastambém intersubjectivamente
-- objectiva. Se este estado fosse final ou definitivo, nada nos
b) A moralidade
As actividades de intuição, imaginação e memória impediria de classificar Hegel como egoísta; no
c) Psicologia
passamagora ao pensamento. Vimoscomo o entanto, e uma vez mais, essenível está mediatizado, Na esfera da moralidade, a pessoa torna-se sujeito
A secção«psicológica»do espírito subjectivo apre- a vontade determina-se a si mesma no seu interior
espírito teórico começapor ser algo privado, pela dialéctica. Com efeito, a vontade livre terá de se
senta três subdivisões:espírito teórico, espírito
pessoal,que como tal se opõe ao mundo; essa tomar objecto de reflexão mediante a superação das Esta intenção unificadora refere-se ao conteúdo
práticoe espíritolivre.
individualidade torna-se imediatamente universal suas contingências e arbitrariedades,terá de concreto do sujeito; por outro lado, a acçãomoral
O espíi'ito teórico articula-se em três fases de graças a um sistema impessoal de símbolos, me- submeter a original rebeldia da paixão individual deverá procurar sempre o bem. No entanto, o
conhecimento: intuição directa, reprodução ima- diante os quais a essênciado mundo é captada.Mas Faceao mundo. carácterformal da intenção (conteúdo concreto do
ginativa e pensarpuro. agora é preciso tornar essa«teoria» prática e actual. Este «controlo» das paixõese dos interessespor sujeito) e a abstracçãodo bem (como fim) pro-
Na intuição directa encontramos os modos de O espírito prático, ao procurar submeter o mundo parte da vontade livre começa a separar-nosdo vocamdirectamente uma oposiçãoentre: a) o pró-
consciência directa, não analisada, tais como a às suas próprias exigências, faz-lhe uma série de espírito subjectivo para nos ir introduzindo na sua prio conteúdo; b) o bem abstracto. Deste modo
sensaçãoou a consciência sensível. A diferença exigências que no princípio adoptam a forma de exteriorização, isto é, no espírito objectivo: a mani- Hegel realça as múltiplas contradições em que
festaçãodo espírito num mundo ordenado de costuma cair a consciência moral, que se resumem,
instituições,costumese prescrições,etc. na contradição entre a boa consciência e o mal que
sedá na pura subjectividade moral.
Espírito e história da sua liberdade) o desenvolvimento necessário dos
$ 341. O e/ámen/o em que o espírito zl?z/persa/ 3.2.2. O espírito objectivo Por isso é necessário unificar toda as determinações
nzomazlos da razão e por isso da sua autoconsciência
existe--que na arte é a intuição e a imagem; na e da sua liberdade; então, a história universal é assim o particulares para superar a contradição da mora-
religião, o sentimento e a representação; na filosofia, o desenvolvimento e a rea/ilação do espz'n/o z//zfue7m/.
a) O direito lidade. SÓa totalidade é a verdade, tanto na esfera
pensamento livre e puro -- é, na bis/óda zlníuer.ça& $ 343.A história do espíritoé a suaacção, pois o A tarefa do espírito objectivo é a realização teórica como na prática. Quer isto dizer que a
a realidade espiritual em toda a extensão da sua espírito só é aquilo que fm, e a sua acção é fazer-se efectiva da liberdade, que é a essênciaúltima do superação da moralidade e a passagemà eticidade
interioridade e exterioridade.É um tribunal porque na enquanto objecto da sua consciência, apreendendo-se espírito prático. Pois bem, este sistemahá-de possui um fundamento ontológico: a vinculação da
sua z/7z/persa//dózde em si e por si, o pa#/ca/ar, as a si mesmo e explicitando-se. Esteapreender-se é o universalidade
c assuasdeterminações
particulares
garantira unidade da liberdadedentro da plu-
famílias,a sociedadecivil e os espíritosdos povos, na seu ser e o seu princípio, e a sua consumação ê ao ralidade de elementos materiais sobre os quais deve
sua realidade heterogénea, existem apenas como algo mesmo tempo a sua alienação e a transição para outra c) A eticidade
edificar-se sua realidade objectiva.
/dea& e o movimento do espírito neste elemento concepção. Formalmente falando, o espírito que t'o//a
consisteemexpôr isso. A realidade na qual se objectiva precisamente a Hegel define a eticidade como «o conceito de
a conceber essa concepção (ou, o que vai dar o ao
$ 342. Por outro lado, a históriauniversalnão é o mero liberdade é o direito, que tem como ponto de liberdade que chegou a ser o mundo existente e a
mesmo, que retorna a si da suaalienação), é o espírito
natureza da autoconsciência»(Fz/os(Ücz do l)zre/fo,
tribunal do seupod% ou seja, a necessidade abslracta~ de um estádiosuperior àqueleem que se encontrava partida (abstractamente falando) a pessoae a pro-
e irracional de um destino cego. Dado que este na sua primeira concepção. priedade.A pessoaé o indivíduolivre, que se parágrafo 142). Isto signinlcaque a realização plena
destino é rnzzio em si e por si e porque o seu ser por mantém numa abstracção,porque Ihe falta uma da liberdade e a total supressão da arbitrariedade, ou

B si é saberno espírito, ela é(e somente pelo conde//o Rege\,Pdncipios da Filowfia do Direito. plenitude interna, até conseguir essecomplemento
através da posse de algo exterior. Este ponto de
seja,a libertaçãodo sujeito de todasas vinculações
sensíveis,imediatas e naturais. Por isso, o desen- B
(D HEGEL E A DIALÉCTICA 3 0 CONCEITO DE ESPÍRITOE SUAS FORMAS

volvimento da eticidade mais não é do que o velmente para uma «indeterminada multiplicação e homens não podemos opor, segundo Hegel, uma surge como resultado,não como mera con-
desdobrar da liberdade universal como conse- especificação de necessidades, meios e prazeres» «igualdadeabstractae vazia».O tipo de sociedade sequência desses momentos. Por outras palavras, o
quência da actividade dos Indivíduos. Cada um (/;í/os(Úóz
dol)/rez/o,parágrafo
195)
. para que Hegel aponta fundamenta-se na relação Estado é a última manifestação do que estava
destes será «para-si»sempre que se integre no todo Dentro do sistemada sociedadecivil, merece dialécticaque seestabeleceentre a satisfaçãodas oculto nas formas anteriores da eticidade. Na
e seja parte do «produto social comum».Como é menção especial o trabalho. Característico dele é a necessidades particulares e as gerais do resto da sua forma imediata, o Estado surge como mais uma
óbvio, a eticidade é necessáriapara que o sujeito sua função especificadora da matéria relativamente à sociedade, totalmente oposta à universalidade instituição, como algo de exterior que fundamenta
possaserlivre. abstractada igualdadeformal. as anteriores; deste modo, a família e a sociedade
determinação das necessidades.Tal especificação
O ponto de partida da eticidade é a família, não supõe a divisão do trabalho e dos seus processos. A desigualdadenatural está directamenterela- civil (burguesa)encontram no Estadoo seu sentido
considerada em abstracto mas na imediata realidade cionada com outro tipo de «particularidade» dentro deHtnitivo.
A especificaçãodos processoslaborais alude à da universalidade: as ordens sociais sob as quais se Mas, fiel ao seu método, Hegel expõe a última
do amor, que a faz surgir. Masa família supera-se
passagemda ferramenta para a máquina; aquela constituem sistemas particulares de necessidades. manifestação do espírito objectivo,ou seja,o Estado,
para dar lugar à sociedade cíu//. AÍ a substânciaética
constitui um meio de racionalizara subjectividade Hegel distinguiu três ordens: 1) a maissubstancial, como a reconstruçãode uma unidade entre o
já não é o amor masas relaçõesentre particulares.
do trabalho. Mas a máquina,ao contrário, acabará dependente da possee cultivo do solo; 2) a comer- indivíduo isolado e a universalidade.O Estado
d) A sociedade civil por ser um princípio extrínsecoque se torna cial e industrial; 3) a que se ocupa dos interesses reconstrói a unidade perdida na sociedade civil
A estruturaçãodasnecessidades
particularesdentro totalmente independente do homem; até torna-lo comunsda sociedade. burguesa não por uM acordo entre ordens nem
da sociedade constitui um ..sistemade necessidades» seu escravo. Hegel põe assim a descoberto o ponto
C) papel desempenhado pelas ordens é fundamental entre particulares, mas por mediaçãoda razão. A
que apresenta o homem não como pessoa, mas de partida da desumanização do trabalho por
para cada indivíduo, porque a sua efectividade na primeira vista, exterior e imediata, o Estadosurge
como «burguês»; em sentido estrito: membro de parteda técnica.
sociedade exige uma determinação real e particular como uma espécie de «espartilho»(Estado-policial)
uma sociedade burguesa onde a satisfaçãodas ne Perante a inevitável questão da igualdade ou desi-
e esta só se alcança-segundo Hegel--sob a Agora, numa segunda abordagem com base na
cessidadesnão se produz imediatamente,mas gualdade dos «burgueses»relativamente ao patri-
inscrição do indivíduo numa das três ordens citadas. razão, o Estado surge como a suprema racionalidade
atravésda multiplicidade e divisão dessasmesmas mónio social, Hegel afirma-se a favor da desigual-
O fundamenta! está na necessária consciência de universal sem por isso ter de sufocar e negar o
necessidades. Hegel sublinhará com uma agudeza dade natural dos homens reforçada aliás, por outros indivíduo
intempestiva a confusa situaçãodo homem nessa factores, como o capital, as circunstâncias casuaise a limitação que todo o indivíduo deveter paratornar
viável a universalidade social com que vamos Desta forma, o Estado surge agora como a realização
sociedade na qual a conjugação de interesses parti- habilidade pessoal aliada à orientação cxterna de tal
manter, precisamente, a nossa individualidade. efectivada ideia ética: a reconciliaçãocntre a
culares e meios técnicos o arrastarãoirremedia- habilidade. A esta irredutível diversidade entre os
essência interna e a sua aparência exterior. O Estado
Hegel apresenta um exemplo: alguns indivíduos
não elimina o indivíduo, mas é o Hel guardião da sua
especialmente jovens recusam a integração
A sociedadecivil sociedadecivil. hÍuitos doutrinários modernosdo numa das ordens e pretendemmanter-scna liberdade; não como um «meio de protecção» mas
direito público ainda não abandonaram esta com- universalidade, esquecendo que dessaforma jamais comoa realizaçãoefectivada liberdadeindividual
$ 182. A pessoa concreta que é para si um Hlm alr qnf qm pfprrixHdadp O conceito de Estado manifesta-se assim como fato
preensão do Estado. Na sociedade civil, cada um é
pa7'ficzl/ar, enquanto totalidade de necessidadese
Hm para si mesmo e todos os outros não são nada Porém a estruturação das ordens necessita for- da razão na sua união da realidade (particular) e do
mistura de necessidadenatural e árbitro, é z/m dos
para ele. Mas se não estiver em relação com os çosamente de uma realização efectiva na cons pensamento (universal): o Estado é a razão objec-
pn zcÜ/os (úz sociedade c/uz/. Mas a pessoa particular
demais não pode alcançar os seus Rins;por isso, os ciência universal, isto é, conhecida e valorizada tivada e só pode serpensado objectivamente a partir
está essencialmente em relação com outra particu
outros são meios para o Eim de um indivíduo da concepçãodo espíritoobjectivo
laridade, de tal modo que só se Em valer e só se satisEm como tal: que é uma determinaçãode direito, a lei
particular. Deste modo, e na relação com os outros, o
por meio daoutra e ao mesmo tempo pela medfaçáo (Geselz)e a objectivação
do justo.A lei comotal, Julgamosoportuno nestaaltura, fmer dois tipos de
Hm particular acontece sob a forma da universalidade
da forma da zznzuersa/zcüüeque é o ozlz70pn?zc@zo segundo Hegcl, possui três tipos de implicações
e satisfaz-se ao satisfazer ao mesmo tempo o bem- considerações:em primeiro lugar, a concepção
49regado. A sociedade civil é a transformação que fundamentais: a) a sua positividade enquanto as-
-estar dos demais. Dado que a particularidade está consideração filosófica do Estado como suprema
surge entre a fan)ília, e é o Estado, se bem que a sua
ligada à condição da universalidade, a totalidade é o pecto formal, e como tal, não submetida a contin- realização do espírito objectivo deve diferenciar-se
formação seja posterior à do Estado Com efeito, por
terreno da mediação É na totalidade que se liberta gências; b) a sua materialidade, que se inscreve das atitudes políticas que, como ul, estão ordenadas
ser a transformação e para poder existir cria o Estado,
toda a individualidade, toda a diferençade aptidão e totalmente na realidade quotidiana; c) a sua estrita para uma praxis concreta. No Prólogo àFÍ/os(Üa do
que necessitade a ter ante si como algo indepen
toda a contingência de nascimento e de sorte, é nela aplicabilidade a todos e a cada um dos casos indi-
dente. Por outro lado, a concepção da sociedade civil l)írez/o, Hegel adverte que a missão da filosoHta não
que desembocam todas as paixões governadas pela viduais.
pertence ao mundo moderno, que é o primeiro a fmer é estruturar o Estado mas mostrar a sua raciona-
razão que ali aparece. limitada pela universalidade, a lidade
justiça a todas as determinações da ideia. Quando se e) O estado
particularidade é apenas a medida pela qual cada
representa o Estadocomo uma unidade de diversas Em segundo lugar, Hegel acreditava na unidade
particularidade promove o seu bem-estar
O longo processo estudado (direito, moralidade,

M
pessoas,como uma unidade que só é comunidade, o
que se nomeia é exclusivamente a determinação da \:!ege\,Phncípios da FilosoÍh do Direito.
eticidade e sociedade civil) apresentaum vector
comum a todos eles: o Estado, que para Hegel
racional como totalização que abarcada até o mais
afmtado confim humano da razão. Mas esta unidade B
H

(n HEGEL E A DIALÉCTICA
q Q ÇQNÇÇITQ PF ESPÍRITO E SUAS FORMAS
esbarra com as limitações reais que surgem no radica a tarefa de um especial poder da imaginação, Ele se conhece a si mesmo, mas esseconhecimento representativo. Daí a inevitável passagemà filosofia
pensamento
entendendopor limitaçõesospróprios que opera inconsciente ou instintivamente, e não de si mesmo é a autoconsciênciau..de...Deu
no
porque só num meio conceptual pode a ideia ter
limites do panlogismo hegeliano. Ora, esta filosofia por aplicaçãode regras ou fórmulas. Isto não homem, o conhecimento de Deus pelo homem que cumprimento concreto
do Estado ou da sociedade não é mais do que a significa que o génio não obedeça a princípios gerais sedesenvolve no autoconhecimento do homem em Por conseguinte a passagem da religião à filosoRla
interpretação Rllosó6lca
de uma época determinada, por não saber formula-los, mas que o artista l )Pljq
não é senão a supressão da forma de representação,
na qual estão bem evidentes a univocidade do seu imaginativo é obrigado a considera-los. religiosasisto é, não se trata de uma nova ou mais
Portanto, o culto - essencialpara Hegel na esfera
posicionamento e a falta de actualidade do seu Hegel retoma aqui a antiga tradição da irracio- profunda realizaçãodo espírito, mas de mudar a
religiosa do espírito absoluto supõe o conhe-
imaginado ardil de unir o céu com a terra. nalidade e arbitrariedade como elemento essencial forma de maneira que se adapte tanto ao conteúdo
cimento de Deus e da relação que a consciência
do artista,o que o dornapouco adequadoparaser o que seja apenas expressão própria do mesmo.
Hlnitatem com Ele, o culto implica uma função
verdadeiro profeta do espírito. Isto tem para Hegel ParaHegel a Hllosofia ocupa-se essencialmente da
3.2.3. O esph'itoabsoluto purificadora cujo resultado é a fé. Neste sentido
uma razão muito poderosa: a arte não é capazdc unidade, que não é a abstracçãoprópria de algo
estrito entende-se que a religião cristã seja precisa-
No final da Elzc/clopéd/a, Hegel procura mostrar a manifestar a profundidade do espírito precisamente
mente o espírito ãi;iõlüiõl'iiããã liãlõiãmque imediato, mas o desenvolvimento progressivoque a
realidade que corresponde rigorosamente ao con- porque não consegue superar plenamente a distin- fm passar através de uma série de unidades con-
deva ser referido. O mundo hãõíãiforma alguma
ceito. Estarealidade é o espírito absoluto, que se ção entre o interno e o cxterno. Faceà distinção, cretas até atingir a plena unidade do absoluto. Isto
manifestade três maneiras:
de modoimediatoe algo de esttãiiHo ao cristianismo; a religião cristã e a
Hegel contrapõe a profundidade do espírito, que signi6lc4que a 6ilosoHiatem um desenvolvimento
secularização coincidem, isto é, a religião --o
sensívelna arte, de modo emocionale repre- não é o interno nem o externo, mas a união de dialéctico, isto é, que a unificação não implica de
espírito na sua referência essencial-- realiza-se
sentativo na religião, e pelo pensamento reflexivo ambos.
plenamente e nada Ricafora dela. modo algum a supressão
das diferenças,mas
naâHoso6la.
b) A religião assunção destas na própria unidade.
Não se trata do desenvolvimentoabsoluto do A J?7zc/c/opédzcz
mostra-nos o desenvolvimento da c) A 6Hosofia Ê esta a verdade do espírito absoluto. Por isso, Hegel
espírito, que será objecto da lógica, mas das grandes ideia na sua realidade espiritual. Ao tratar da religião A religião não poderá nunca libertar-se de incon- generalizaesta terceira forma do espírito sob a
fasesda tomada de consciênciado espírito por si revelada,verifica-se uma distinção fundamental que sistências e será presa fácil para a crítica racionalista. distinção de «religião». Porque a religião se ocupa da
mesmo. Estadialéctica fenomenológica do espírito é preciso ter em conta para uma recta compreensão O seu conteúdo especulativo não corresponderá verdade e esta é o seu conteúdo propriamente dito.
absoluto conserva um carácter histórico, porque do religioso no novo enquadramento do espírito sempre ao modo de formulação, essencialmente O problema reside em que ta] conteúdo só se mani-
estas fases estão vinculadas aos grandes momentos absoluto. Tal distinção é a que se produz entre a
do desenvolvimentodo espírito subjectivo e do forma e conteúdo do espírito absoluto. Se a
Religiãoe Hlosofia Por conseguinte, devemos acima de tudo perspectivar
desenvolvimentodo espírito objectivo, da história Fezzome7zo/agia
do Espír/fotende a superara As religiões expressamo modo como os povos a religião do mesmo modo que fazemoscom a
humana. distinção entre a forma e o objecto, a Elzcic/opédza
representama essênciado universo, a substânciada filosofia, quer dizer, devemos conhecê-la e reconhecê-
Emo mesmo entre a forma e o conteúdo.
2) A arte natureza e do espírito e a relação entre o homem e -la como racional, dado que se revelacomo obra da
Segundo Hegel,' &.êste
''--- exprime a ideal 1lÊ..ypa Na religião encontramo-nos ante uma expressãodo essa essência. Nas religiões, a essência absoluta é o razão,como o seu produto maiselevadoe mais
maneira imediata. em conexão com um material objecto sobre o qual a co se projecta e, conforme à razão.Assim, torna-se absurdo pensar que
(saber)absoluto que, todavia,não conseguiuiden-
dado aoi';êiíüãÕ;. Essematerial sensívelsurge tificar a sua forma e conteúdo. Isso devido ao facto enquan{o tal, primordialmente para um além mais os sacerdotes inventam as religiões para defraudar o
próximo ou remoto aprmível ou terrível e hostil. E povoe paraproveitopróprio,etc.
penetradopor algumanoçãoou significadointerno, de o saberreligioso ser no essencialum saber sub-
pela devoção e pelo culto que o homem supera este A devoção não é mais do que o pensamento pro-
e essa penetração significa de uma maneira jectivo, fundado na representação,e precisamente, a filosofia
antagonismo, elevandcFseà consciência da unidade e jectado sobre o Além. Em
simbólica a absorçãoe domínio do «outro» pelo esta supõe uma certa exterioridade entre o material
à sua essência e adquirindo o sentimento ou a pretende efectuar esta reconciliação por meio do
espírito autoconsciente. Por isso, uma obra de arte dado, por um lado, e a subjectividadeprópria, por confiança de desfrutar da graça de Deus, de que Deus conhecimento pensante, ao passo que o espírito se
mostra como o espírito pode assumir e superar o outro. esforça por assimilar a sua essência. Perante o seu
se digna aceitar a reconciliaçãodo homem com a
que é não-espiritual. Por esta razão, a distinção entre matéria e forma divindade Entre os Gregos,por exemplo, esta objecto, a íllosoRia comporta-se na forma de cons-
Hegel póe cm destaquea fusãoque é característica converte-se numa separação taxativa entrü sujeito e essencia e la na sua algoagradávelpara ciência pensante; a religião fá-lo de outro modo Masa
da obra de arte das ideias ou noções com o material objecto. Estadistinção fruto do regime«repres- o homem e o culto tem por missãodesfrutar desta diferença entre os dois campos não deve ser con-
sensível.Deste modo, o criador e o verdadeiro entativo» da religião -- é superada no culto, cuja unidade. Ora, esta essênciaé, em tudo e por tudo, a cebida tão em abstracto, como se estivéssemosa
razãoem si e parasi, é a substânciaconcreta geral,é o pensarapenas
num lentofilosóficoe não
contemplador da obra de arte não verão nela um missãoé reconstruir a unidade do sujeito e da sua
simples conjunto de relações ou características consciênciaao nível do espírito, para Ihe propor- espírito cujo fundamento primigénio se objectiva na no da religião; também esta alberga representações e
consciência; por isso, não só a razão como tal mas pensamentos gerais
gerais mas uma riqueza de significação no próprio cionar um sentimento de participaçãono absoluto.

B objectounidaà suaimediatezsensível.
Na reconstruçãode formas prenhes de noções
Por isso, na Elzc/c/opédía(parágrafo 564) Hegel
durma que Deus é Deus apenas na medida em quc
também a razãogeral infinita comportam em si uma
representação
desteespírito. Hege4, Lições sobre a História da Filosofa.
(P HEGEL E A DIALÉCTICA 4 A ESQUERDAHEGELIANA.FEUERBACH
festa ao nível da representação(Uors/e//zzng) isto é, lação dessa fllosoHiaao nível do pensamento puro-
aparece como uma série de representaçõescujo Porestarazãoo supremo cumprimento do espírito
traço de união não está baseado no próprio pensa- consiste, de acordo com isto, em entender a sua 4.1.A {tesquerda hegeliana} teologia hegeliana,do idealismo,da mistificação
mento. Ora, a missãoinovadora da 6ilosoHiarelati- própria história, isto é, não em Ezer uma "súmula» «espiritualista-racional»
da dialéctica, etc., serão
A Mosoh de Hegel enõ.entequestões e problemas de
vamentc à religião consistirá em substituir a repre- de factos históricos, mas reflectir sobre os mesmos. momentos da encarniçada «luta» que se empre-
Neste sentido, a filosofia realiza-secomo história da carácter religioso e político, enquadrando-se num
sentaçãopelo próprio pensamento,pelo conceito endeu contra a filosofia de Hegel.
Hlosofia na recapitulação que a razão fa de si mesma tempo histórico de revolução e de profundas mu- Na «esquerda»houve duas tendências claramente
(B(ml#). Portanto, a finalidade da Rlosofia consistirá
comohistória. danças sociais. Religião e política estão continuamente
em compreender a religião especulativamente. delimitadas: uma aue atenderá pripçlp4jDente à
Uma última consideração é inevitável: para Hegel, a A história da HHosoâía
revela-se-nos
então presentes na obm de Hegel, ainda que na linguagem crÍljç4...xla...!-eligiãQ..g..{!g.-tçl2bgil(Feuerbãêh,
como o desenvolvimento especulativo do mais abstrusa,abstractaou conceptual. Por outro
filoso6la-- como compreensão«especulativa»de Stfauss, Bauer) e outra que iniciará a crítica política
espírito. E isto quer apenasdizer que a história da lado, como vimos já, o método dhléctico e o sistema
um longo processo é fundamentalmentehistória e, a um nível mais fundo, teórica da íilosoHia
humanidade é o seu desenvolvimento, o que a fez absoluto pretendem conservartodos os momentos e
da filosofia. Mas não se trata de forma alguma de hegeliana(Marx)
uúa história de acontecimentos mas da reformu- chegarasero queé. instâncias da vida do espírito e ao mesmo tempo
uniRtcá-lose engloba-los numa difícil superação no 4.2.Feuerbach
sistema da ideia ou razão absolutas.
Feuerbach sento a necessidadede uma reforma
) Na obra de Hêgel,simultaneamentetão rica e unifi- radical da íiloso6ia:esta não pode continuar a olhar
r cadora, transpareceum pouco por todo o lado uma para oipassado nem ser uma questão de «escola»,
grande ambiguidade. Estaambiguidade Facilitou por mas deve estar.do lado das necessidadesverdadeiras
uã lado a iiiiêijiiêtaçãclçl4iria Hilosoõiiiõho a e operar a transformação do presente com vista às
consonaacao e manutenção da religião e da teol(iÊh, necessidades
do futuro;sóno futuroseencontra
a
e tl!!!!!!11g!.çgDllj!!$g$çêção
«ideológica»dó poder necessidade verdadeira e progressiva.
autoritário e Esydo «fascista»; e, por outro como a A verdadeira reforma da filosofia tem de romper
riêõãiiãiítiãielieiãoe de Dliiii:ãléifitíiiiõ;6tãiãcter amarras com o passado e pensar o presente numa
dialéctico(cogçradltonoe processual)aa reanaade perspectiva
de futuro:«!é.çl!!çlUIWl3
çglagemde
j5roporciona um ylnglgt..dç..1[411$brmação» da . seE.gl2112bl4Qç!!!ç..pegativglL.escreve Feuêmách,
ordem política e s!!çi41.]:igç!!!ç.Numa jiãlãvra,'b l !ççlz ©rças para criar çlBgyq Muito expressivos são
iiiõmiíã ããléãico defendiaa transformação,en- os dois doi céus livros, títulos diiê'eit''dá ã'Mdâr
quanto o sistemapodia ser posto ao serviço da l metia\s. Tesespara a Reforma da FitosoÍia e Prin-
jreacção. Engels denunciou-o claramente: «Quem l cípios da Filosofia do Futuro.
afizessefinca-péno sistemade Hegel podia ser bas- A nova reforma da filosofia exige, como passo ini-
Itante conservador em ambos os campos(a religião e ludível, a crítica da flloso6ia hegeliana
b política); quem considerasseprimordial o método
Idiatéctico podia figurar na extrema oposição tanto 4.2.1. A critica leui dehegel
l no aspecto religioso, como no aspecto político»
$nge\s. Ludwig Feuevbacb e o Fim da Filosofia A crítica de Feuerbach a Hegel, pode ser resumida
C/ásszcéz
,4/emá,l). em duas teses fundamentais: a) a filosofia de Hegcl
é uma filosofia idealista que deforma e transforma a
Após a morte de Hegel, alguns discípulos e os
realidade (que, na verdade, pensa Feuerbach, é
intérpretes da obra hegelianaseguiramo primeiro
material) em «pensamento puro e descarnado»; b) a
caminho e outros o segundooriginando as deno-
Htlosofiade Hegel é no fundo uma teologia racio-
minadas«direita»
e «esquerda»
hegelianas.
A es- nalizada
querda hegeliana levará a cabo uma crítica, mais
ou menos inteligente, radical e progressivasegundo a) ParaFeuerbach, a filosofia não pode nem deve
os casos, mas sempre com a pretensão de inovar e começar com abstracções, tais como o pensamento

B A7tónimo: Sala de leitura em 1850. Zeugbaus. Berlim.


de reorientar a filosofia de outra maneira, senão
mesmo de a anular ou superar. A crítica da soterrada
ou o conceito, mascom o não-6llosóHico:
a vida, as
suas necessidades e deficiências. Nisto se funda a B
4 A ESQUERDAHEGELIANA.FEUERBACH
ÍP HEqEL E A 014+ÇÇTÇ4

A origem humana de «Deus» concepçãode Deus como o oposto do homem, como


Antigas nova
A religião é a cisão do homem consigo mesmo, pois ser não-humano, ou seja, como ser pessoal, é a
35, Se a antiga âHosofiadizia: o c07POm su/afofa/idade é o lmu m, a mf7zbaprt»n'a
considera Deus como um ser que é oposto a si. Deus essênciaobjectivadado entendimento. A essência
afsle, então,peloconuário,a essé7zcla.0 filósofo antigo pensava,pois, numa c07z-
não é aquilo que o homem é, o homem não é aquilo divina pura, peúeita e omniperfeita é a autocons-
nãoé amado, o que/záose tr(lição e coRPito incessantesc07}}os sentidos pam
que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem é o ser ciência do entendimento, a consciência do enten-
o que não se pode amar também não se pode adora. finito; Deus é peúeito, o homem é imperfeito; Deus é dimento em relação à sua própria perfeição. O
SÓo que pode ser oyecio da re/zg/áo constitui o etemo, o homem é temporal; Deus é omnipotente, o entendimento ignora os sofrimentos do coração,não
objecto dafllosofia. homem é impotente; Deus é santo, o homem é sofre concupiscências, paixões ou necessidades,e por
O amor, não só no plano objectivo, mas também antiga6Hosofiaadmitia a verdade da sensiblidade-- e pecador. Deus e o homem são extremos: Deus é isso não tem defeitos nem debilidadescomo o
até no conceito de Deus, que inclui o ser em si mesmo;
aquilo que é absolutamente positivo, a soma de todas coração.
pois, este ser devia no entanto ser ao mesmo tempo
asrealidades; o homem é aquilo que é absolutamente Um Deus que expressa apenas a essência do
um ser dbtinto do ser pettsado,um serjora do espíHto,
negativo, a soma de todas asnegações entendimento não satisfm a religião, não é o Deus da
a/go ama -- nada ser e 7zadaanal' são idênticos. jwa do pensar. um sw efectioammte ohecHuo, \sRnê,
O homem objectiva na religião a sua essência secreta. religião.
Quando mais alguém é; tanto mais ama , e vice-versa. sensível-- mas só a admitia de zlm pzodo dísl-
Por conseguinte, é necessário demonstrar que esta ao entendimento ou à razão de Deus
m111ado,
conceptuial.
{7tconscimte
e ittooluntário, a
36. Sea a7ziega.P/os(Úa
tinha como ponto de partida a unicamente a Herdade da sensibilidade collz alegria,
oposição ou cisão entre Deus e o homem(com a qual maisimportanteda religião,parti
a religião começa) é uma cisão entre o homem e a sua cularmente da religião cristã, consiste na peúeição
R swpurammte com conscfé7zc/a:é a 6ilosoRiasíncernmm/e sela'ue/.
ntinba essência; própria essência.
A necessidade
intrínsecadesta moral. Como ser moralmente perfeito. Deus não é
começacom a Feueíbach,Princípios da Filosofia do Futuro demonstração deriva do facto de que nunca poderia uâisdo ideia realizada, a lei Ü
(paúgmfos 35 e 36)(Edições 70, p.82) ter havido qualquer desunião ou cisão seo ser divino, moral do homem -- o ser próprio
proposição: sozlzzmser rea/l um sa' semíue/, sím, o
que é o objecto da religião, fosse realmente urna coisa ido comoserabsoluto
diferente da essênciado homem,
Este ser é a inteligência, a razão ou ) entendimento. Feuerbach,AEksência
do

inuersãojmeüacbiaTtado idealismobqeliano: s6 nulidade da natura;4. gjçlKaráclç!.SalÓgic@,que


é verdadee divino o que não necessitade prova, o ãe modo algum pode !Edyzir-se a «ser-pensado»
que é imediatamente certo depasl, o que contém 4.2.2. Redução da teologia à anüopologia ou, melhor dizendo, é a essênciado homem
Nesta mesma linha. Feuerbach afirma, contra a
imediatamente a afirmação da sua existência. «Ora, objectivadae separadados limites do homem indi-
prioridade do eu e do espírito, a Eacticidadeoriginária
só o sensívelé claro como o dia. SÓonde começao
do corpo e da sensibilidade. Mas sensibilidade e A crítica que Feuerbach fm da religião não lem por vidual, real e corpóreo. É a essênciacontempladae
sensívelacabam todas as dúvidas e disputas»
sensível
sãomaisdo quedeterminações
do homem: objectivo negar a dimensão religiosa do homem. veneradacomo um ser-outro, próprio e diferente do
QPrincÍPÍos
...). constituem a naturezade todo o real. A 6iloso6la
de Pelo contrário, segundo Feuerbach, a relidão cons- homem. Por isso, todas as determinações da divin-
A filosofia idealista carece de um princípio passivo titui «aessênciaimediata do homem». O sentido da dade são igualmente do ser humano»(Feuerbach,,A
Feuerbach é pois sensualismo e materialismo.
real e verdadeiro.Ê verdadeque Hegel fala (na sua crítica indica em mostrar a fãsidade (h «essência Essélzc/ado Clhrzízn/smo, Introdução, cap. 1l)
Fe?zomezzo/og/ado Espídlo, por exemplo) da b) O segundo aspecto da crítica filosofia de Hegel é teológica»da religião e em reduzir #religião in- Nesta passagem explica-se a génese de Deus a
«certeza sensível»;no entanto, em verdade o sensível uma teologia racionalizada.Está em estreita confor- teiramente à essênciado homem. «q segredo da partir da projecção que o homem faz de si
não passa de uma expressãoe manifestação(um midade com o desprezo que Heguel tem pela «sen- geologia» dirá Feuerbach-- «estála antropolo- mesmo e da sua essência. Ê possívelreconhecer
:fenómeno») do espírito, outra «forma» do pensa- sibilidade»: como a teologia cristã, tal o idealismo gia.» três momentos nestagénese: a) a objectivação fora
mentoe do conceito.Assim,e de um modo tão hegeliano vê a natureza como uma realidade Com a expressão «essênch teológica( da religião ím- de si que o homem Em de seus predicados e deter-
agudo quanto engenhoso, «a fenomenologia do derivada. «A teoria hegeliana» escreve Feuer- -se referência à relação do horrem com Deus, minações; b) a separação desses predicados da sua
espírito não é mais do que a lógica fenomenológica,,; bach -- «deque a realidadeé posta pelaideia, cons- entendido este como um ser diãinto e separado; relação originária com o homem, e a abstracçãodos
isto é, a «fenomenologia» esconde a ideia e o con- titui apenasumaexpressão
racionaldadoutrinateo- que possui de um modo infinito,é absoluto; todas as limites que tàs predicados têm no homem Individual;
ceito por detrás da consciência sensível. lógica, segundo a qual a natureza é criada por Deus.» propriedades e perfeições qÉ o homem possui c),íconsideração de tais predicados assimseparados
Esta mistificação manifesta-seesplendidamente na apenas de forma 6lnita.Ora,,estaideia de «Deus», eobjectivados
num presumívelsujeitocomosefosse
interpretação hegeliana da natureza, verdadeira cruz Estes dois aspectos da crítica de Feuerbach a Hegel
como um ser de infinitas pe#eições,maisnão é do um «ser-outro-,alheio e estranho adhomem. Isto é.
do idealismo. Perante a suposição de quc a natureza o Rilósoficoe o teológico põem a claro a verdadeira

M é o «sairda ideiafora de si»(a naturezaseriaurD


& produto lógico),Feuerbachreivindicaa oriai-
\-# / r
naturezado homem e a suasignificaçãocentral: o
homem para Feuerbach, é um «ser-natural».
que um produto ou obrado homem:d essênciade
Deus não é mais do que a essêncbdo ser humano;
na génese da ideia de Deus e n2 Sita aceitação como
um serabsoluto cumpre-se2 aHenação que constitui B
'T'

ÍP HEGEL EA DIALÉCTICA BIBLIOGRAFIA - 2e Volume


o .desdobramento» da essência teológica da religião. Feuerbacha autoconsciênciaprimeira e indirecta do \
.çNienaçãc»,significa aqui duas coisas: 1) expropriação, homem. Nega-sea religião de Deus e afirma-sea DO RENASCIMENTO A IDADE MODERNA
que se fm à realidade sensível que é o homem, da sua religião do homem, a religião da humanidade.
Fica no entanto pendente pelo menos uma dupla
própria natureza para a colocar fom dele; 2) a serüdão Capítulo 7
e submissãoa algo estranho,erigido contra a reali- questão: Foi a crítica de Feuerbach a Hegel radical e
dadesensível
e contrao homem. progressiva?A crítica feuerbachiana da alienação
A crítica da religião «teológica é por conseguinte uma religiosa e a sua ideia do homem foram suficientes e CASSIRER,
E., /ndivíduo y cosmosen /a â/oso/la de/ Renascfmiento, Buenos vires, EMECE
redução da religião à essênciado homem e uma adequadas? No capítulo quinze (do 3' Volume) HEIMSOETH,H., J.amera/Bica moderna, Madrid, Revistade Occidente.
procuraremosrespostaa estadupla questão. PATERSON,
A., Tbein/imite worfd ofGiordano Bruma,Springfield, CharlesC. Tomas.
redução da teologia à antropologia. A religião é para

Capítulo 8

BURTT,E., l,os fundamentos metaâsicos de /a ciencía moderna, Buenos Abres,Sudamericana


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VERGEZ,
André - Daüd cume, n' 26

BALIBAR,Françoise - Eínstein: Uha leitura de Ga/i/eu e Newron, n' 2


BLANCHÉ,Robert História da l.ógíca de Àdstófe/es a Bertrand Russo/,n' 13
BRONOWSKI, Jacob e Mazlich, Bruce - Á Tradição /nte/ecfua/ do Ocidente, n' ll
COTTINGHAM,John - Á FI/osofia de Descarnes,n' 26
DELEUZE,
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DELLAVOLPE,Galvanno - Á J.ógicacomo Ciência l#stóríca, n' 12
GEYMONAT, Ludovico e GIORELLO, Giulio Ás Razões da Ciência, n' 25
GRANGER.Gilles-Gaston - A Razão,n' 14
RAYEFF,Felix - Exposição e /nterpretação da H/osoHa Teórica de Kart, n' 19
HALL, A. Rupert - Á levo/ração na Ciência, 1500-1750, n' 21
HARRÉ,Rom As HJosofías da Ciência, n' 23
HUBNER.Kurt - Crítica da RazãoCientífica, n' 31
HYPPOLITE,
Jean - /nrrodução à H/oso/ía da l#stóda de Mega/,n' 22
THROWERJames - Breve Hfstóda do Ateísmo Ocidenra/, n' 9

DESCARTES,René Discursodo Método, n' 9

B DESCARTES,René
DESCARTES,René
Pdncibfos da H/osofía, N' 42
Regraspara a Direcção do Espírito, n' 6
B
''Y
ÍNDICE

DILTHEY, Wilhelm TeoHa das Concepções do Mundo, n' 33


ESPINOZA,Bento de - Tratado da Reáolma do Entendimento, n' 14 SegundoVolume
GAND, Henrique de - Sobre a Meia/bica do Ser no Tempo, n' 41 DO RENASCIMENTO CIDADE MODERNA
HEGEL Friedrich Á Razão da /#stóda, n' 39
HEGEL,Friedrich - /ntrodução â /#sróHa da nlosoaa, n' 3 1
HEGEL,Friedrich - O Sistema da Wda Ética, n' 30
HEGEL,Friedrich - Propedéurica H/osó/íca, n' 23 Prefácio 5

7
CUME,David - /nvesfigação Sobre o Entendimento Humano, n' 2 Quadros sincrónicos do séculoXV ao séculoXIX
HUSSERL, Edmund - .4 /dela da Fenómeno/ogfa, n' 8
KANT, Immanuel - Á Paz Pelpérua e Outros Opúscu/os,n' 18 Capítulo 7
KANT, Immanuel - Á Religião nos l.imíres da Sfmp/esRazão, n' 34
O Renascimento e a origem da Idade Moderna
12
KANT, Immanuel (ltírica da RazãoPMdca, n' l liitio(iu.ÇHo ..«P..aBBea Ba Ba a ee Baü BBaBgP
eP p B p SPe a 8

1. 0 Renascimento
e atransformação
da sociedade
europeia 13
KANT, Immanuel - Endc/opéda das Cíéndas ã/osóficas em Epítome, vol 1, n' 17; vo1.2, n' 211vo1 3, n' 35
2. A tradição grega e o novo antropocentrismo naturalista 17
KANT, Immanuel - Fundamentação da MetaJBlca dos Costumes,n' 7 21
KANT, Immanuel - O Con/7frodas Facu/jades, n' 37 3. O problema da infinitude: Cuja e Giordano Bruno
4. Francisco Bacon e o seu conceito de ciência 25
KANT, Immanuel - Os Primeiros Pdncibios JI/e a/bicos da Cféncia da Natureza, n' 28
KANT, Immanuel - Os Progressosda Mera/Bica, n' 5
KANT, Immanuel - Pro/egómenos a toda a MeraJBícaFutura, n' 13 Capítulo 8
LEIBN[Z,Gottfried Wi]he]m - O Discurso da Meta/]kica, n' 4
Kepler e Galileu: A luta pelo método experimental
Introdução « 29
MALEBRANCHE, Nicolas - Diá/ogo de um H/ósoão CNsrão e de um D/ósoÁoCbinés, n' 29 30
NIETZSCHE, Friedrich - (llepúscu/o dos Ido/os, n' .3 1. A astronomia pré-copernicana
2. Realismoe matemática:Copérnico 33
NIETZSCHE,
Friedrich - EcceHomo, n' 26 36
3. Kepler: A procura da pura racionalidade
NIETZSCHE,
Friedrich - O .4nticdsto, n' 24 41
4. Galileu e o método experimental
PICODELLA MIRANDOLA,Giovanni - D/scuno sobre a Dignidade do Homem, n' 25 51
5. Método resolutivo-compositivo
SCHELLING,
/nvestigação H/osó6ca sobre a Esséncfada l.iberdade Humana, n' 36
Capítulo 9
O racionalismo
Introdução..-. 53
1. A auto-suficiência da razão como fonte de conhecimento 54
2. Descartes e a construção do Universo 56
BUTTERFIELD,Herbert - Ás OHgensda CíéncfaModerna, n' 7 3. Espinosa e Leibniz 63
KRISTELLER,Herbert - Tradição Clássicae Pensamentodo Renasdmento, n' 9 4. A matemática como modelo do saber 68
KUHN, Thomas S. - Á levo/ração Copernicana, n' 2 5. Razãoeliberdade 69
LENOBEL,Robert - HfstóHa da /dela de Natureza, n' l
LOWITH, Karl - O Sentido da /#stóHa, n' 5 Capítulo lO
O empirismo
llltioduÇ«o....plaeess 8 8 q 8 8esB s« 8P«eg
73
iversos 1. 0 empirismo e os limites do conhecimento 74
85
2. Morale política

CHIEREGHIN,Franco - Á "Fenómeno/ogiado Espúfro" de bege/ - Col. Guias Filosóficos, n' 2 Capítulo ll


FORM]GARI,Lia - O Mundo depois de Copérníco - Col. Biblioteca Básicade Ciência, n' 4 O iluminismo
LEGRAND,Gerard - Dicionário de Ff/osoaa, Extra-Colecção,n' 2 1 Introdução ..-...-.. 88
MONTALENTI,Giuseppe - Char7esDa/wln Col. Biblioteca Básicade Ciência. n' 7 1. Enquadramento histórico e sociopolítica do Iluminismo 89
R.4DICE,Lucro Lombardo - Á Matemática de Pírágorase NeMon - Col. Biblioteca Básicade Ciência, n' 8 2. O conceito de <cazão esclarecida>> 90
SCHAEFFLER, Richard - Ff/osofía da Religião, Col. Círculo da Filosafia, n' 2 3. Newton e o problema da natureza 94
105
SEVERINO,Emanuele - Á HJosoâa Moderna - Col. O Saberda Filosofia, n' 17 4. Homem e Deus: o deísmo e a religião natural
SIMON,Joseph - H/oso/ía da l.inguagem, Col. Círculo da Filosofia, n' l 5. Homem e sociedade (Rousseau) 110
Capítulo 12
O idealismo transcendental de Kant
lllti'oduÇnopp.e+peqppeap«p« BBaPPp eü PPIPPPP! ee ««pBaP!P! 114
1. Sentido de uma crítica da razão. A ideia de filosofia 115
2. A natureza e a razão teórica 119
3. A liberdade e a tarefa da razão prática 135
4. História e religião 140

Capítulo 13
Hegel e a dialéctica
Itatroduç.vo B8e &e e»P p Pele PP8 BaP plP« ee aeePePP 144
1. Enquadramento histórico-social e filosófico da obra de Hegel 145
2. Sentido e estrutura da dialéctica 149
3. O conceito de espírito e suasformas 154
4. A «esquerdahegeliana>. Feuerbach 163

Bibliografia 167

Fotocomposição da Gráfica 96, Lda. Coimbrã


Impressão e acabamento da
SIG -- Soc. Industrial Gráfica, Lda. Camarate
para
Edições70, Lda
em Julho de 1998