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IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL · ACADEMIA DE ESCOLAS

DE ARQUITECTUR A E URBANISMO DE LÍNGUA PORTUGUESA · AEAULP

VIII. Turismo:
impactos nos territórios e paisagens
T Í T ULO: A Língua que Habitamos
EDIÇ ÃO: Academia de Escolas de Arquitetura e Urbanismo de Língua Portuguesa
DESIGN GR Á F ICO: Elisabete Rolo
PAGINAÇ ÃO: Joana Silva | Mariana Torpes Fernandes
FOTOGR A F I A DE C A PA: Fernando Guerra
Abril de 2017
I V S E M I N Á R I O I N TE RNA C IO NA L A C A DE MIA DE E S COLAS
D E A R Q U I TE C TU RA E U RB A NIS MO DE LÍNGU A P O RT UGUESA · AEAULP
COOR DENAÇ ÃO GER A L COMISSÃO CIEN T ÍFIC A

Conceição Trigueiros Alberto Reaes Pinto


DIRETORA DA AEAULP · ACADEMIA DE ESCOLAS UL · LISBOA, PORTUGAL
DE ARQUITETURA E URBANISMO DE LÍNGUA PORTUGUESA

Álvaro Barbosa
FACULDADE DE INDÚSTRIAS CRIATIVAS DA USJ, MACAU

COMISSÃO ORGA NIZ A DOR A


Ana Claudia Scaglione Veiga de Castro
FAU · USP, BRASIL

Conceição Trigueiros
DIRETORA DA AEAULP · ACADEMIA DE ESCOLAS
Ana Tostões
IST · UL, PORTUGAL
DE ARQUITETURA E URBANISMO DE LÍNGUA PORTUGUESA

Flávio Carsalade Ana Vaz Milheiro


ISCTE, PORTUGAL
EA-UFMG · ESCOLA DE ARQUITETURA
DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, BRASIL
Andrea Franco
EA · UFMG, BRASIL

Angélica Tanus Benatti Alvim


COMISSÃO E X ECU T I VA FAU · MACKENZIE, BRASIL

Arlete Soares de Olivera | Luis Miguel Ginja Anna Paula Canez


[COORDENAÇÃO] UNIRITTER, BRASIL
IEDS · EA · UFMG, BRASIL | AEAULP [RESPECTIVAMENTE]

António Gameiro
Alexandra Miranda Luís UNIVERSIDADE AGOSTINHO NETO, ANGOLA
CIAUD · FA · UL, PORTUGAL

António Morais
Danielle Barroso Caldeira FA · UL, PORTUGAL
IEDS · EA · UFMG, BRASIL

Bianca Araújo
Filipa Nogueira Pires UFRN, BRASIL
CIAUD · FA · UL, PORTUGAL

Carlos Dias Coelho


Elisabete Rolo [DESIGN GRÁFICO] FA · UL, PORTUGAL
FA · UL, PORTUGAL

Carlos Eduardo Comas


AEAULP

Carlos Guimarães
FA · UP, PORTUGAL

Carlos Trindade
UEM, BRASIL

Celma Chaves Pont Vidal


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ, BRASIL

Conceição Trigueiros
FA · UL, PORTUGAL
Eduardo Jorge Cabral Santos Fernandes Joubert José Lancha
EA · UM, PORTUGAL IAU · USP, BRASIL

Eunice Helena Abascal Juliana Nery


FAU · MACKENZIE, BRASIL FAU · UFB, BRASIL

Fabiola do Valle Zonno Leonardo Barci Castriota


FAU · UFRJ, BRASIL AEAULP

Fernando Betim Luis Laje


PUC · RIO, BRASIL UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE, MOÇAMBIQUE

Fernando Guillermo Vázquez Ramos Maria Fernanda Derntl


USJT, BRASIL FAU · UNB, BRASIL

Fernando Moreira da Silva Maria Manuel Oliveira


AEAULP, PORTUGAL EA · UM, PORTUGAL

Flávio Carsalade Maria José de Azevedo Marcondes


EA · UFMG, BRASIL UNICAMP, BRASIL

Francisco Oliveira Marianna Ramos Boghosian Al Assal


FA · UL, PORTUGAL ECSP, BRASIL

Frederico Tofani Mário Saleiro Filho


EAD · UFMG, BRASIL DAU · IT · UFRRJ, BRASIL

Gerônimo Leitão Marta Silveira Peixoto


EAU · UFF, BRASIL FAU · UFRGS, BRASIL

Grete Soares Pflueger Michel Toussaint


FAU MARANHÃO, BRASIL AEAULP, PORTUGAL

Helder Casal Ribeiro Miguel Amado


FAUP, PORTUGAL INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO, PORTUGAL

Italo Itamar Caixeiro Stephan Renato Anelli


UFV, BRASIL AEAULP

João Paulo Coelho Renato Cesar de Souza


EA · UM, PORTUGAL EA · UFMG, BRASIL

José Alberto Tostes Rui Duarte


FAU · UFPA, BRASIL AEAULP, PORTUGAL

José Pinto Duarte Sidney Tamai


AEAULP, PORTUGAL FAAC · UNESP, BRASIL

José Luis Saldanha Siva Alves Bianchi


ISCTE, PORTUGAL UFRRJ, BRASIL

Jorge Figueira Teresa Fonseca


FCT · UC, PORTUGAL FAUP, PORTUGAL
Apresentação

O momento cultural em que vivemos é marcado por uma sobrevalorização


da nossa dimensão individual e por um apagamento insistente da nossa
dimensão coletiva.
À resistência contemporânea ao reconhecimento de nós próprios,
para além da dimensão individual, corresponde também uma resistên-
cia ao reconhecimento de outros tempos na construção da contempora-
neidade e, mesmo no ocaso do espirito moderno e num momento em
que a moral mais difusa levanta inúmeros obstáculos à transformação
do mundo pela obra do Homem, a dimensão da novidade continua a
fazer esquecer quanto dessa novidade é feita de continuidade e a forma
como o nosso tempo, o instante de oportunidade das nossas vidas, não
é mais que uma estreita junta entre passado e futuro, havendo a possibi-
lidade de preencher coerentemente esse efêmero hiato.
A ideia de continuidade, no espaço e no tempo, entre a nossa existên-
cia individual e a experiência coletiva, está diretamente ligada à ideia de
identidade, de patrimônio genético, de um viver comum que, de alguma
forma, formatou de maneira identitária um modo de viver, um modo de
mudar o Mundo, de o descrever, e esses modos permitem um sentido de
território independente do sentido de posse, e estabelecido sobretudo
pela ideia de comunidade, de partilha de experiências comuns e da exis-
tência de instrumentos para descrever e processar essas experiências.
À ideia de reconhecimento, está ligada a estranha sensação que senti-
mos, quando damos a volta ao Mundo e num lugar onde nunca tínha-
mos estado antes, subitamente reconhecermos, numa esquina de uma
rua, num fragmento de uma conversa, num cheiro, num olhar ou num
gesto, os lugares da nossa infância, os almoços de domingo e as pedras
da casa em que nascemos.
Habitamos espaços e paisagens, mas habitamos também a nossa língua,
o universo em que se constroem e viajam as nossas ideias e significados,
a narrativa das nossas experiências, a comunicação do que aprendemos,
a quem queremos ensinar, estabelecendo a construção coerente da Cultura.

Conceição Trigueiros
VIII. Turismo: impactos nos territórios e paisagens

De cima, (não) se vê uma outra cidade ................................................................ 13


JA MES MI YA MOTO

A NDR É OR IOLI

Cenografias Urbanas: o Porto Maravilha (RJ) como um corpo


idealizado, espacializado traumatizado pela memória. ..................... 25
VA LQUÍR I A GUIM A R Ã ES DUA RT E

Lugares que habitamos, paisagens que visitamos: transformações


espaciais, turismo e território na orla urbana de Maceió/AL .......... 35
LUCI A NO MU NIZ A BR EU

R EGINA CÉLI A LOPES A R AUJO

JAQUELINE DE LIM A PIR ES

Novas possibilidades econômicas, sociais e culturais em áreas


informais das cidades: O desenvolvimento do turismo em favelas
cariocas entre 2008 e 2016. ........................................................................................... 48
SERGIO MOR A ES R EGO FAGER L A NDE

O Cristo Redentor, o turismo e o bairro carioca do Cosme Velho .... 59


LUIZ PAULO LE A L

O patrimônio cultural como espetáculo:


é o patrimônio que justifica o turismo, ou é o turismo
que determina o patrimônio? Alguns casos brasileiros. .................... 72
PR ISCIL A HEN NING

O som do verão: uma análise da percepção sonora


na praia de Ipanema, Rio de Janeiro ................................................................... 86
T H A LLES COS TA DOS R EIS

M A R I A LYGI A NIEME Y ER

O turismo e a fragmentação do espaço da Estação das Docas ...... 99


J ULI A NA A. H A MOY

Qualidades sensíveis e o processo de projeto:


categorias de análise fenomenológica ............................................................. 108
NATA LI A NA K A DOM A R I BUL A

M A R IS T EL A MOR A ES DE A L MEIDA

Urbanização turísticanas áreas costeiras em Portugal:


o resort como motor de urbanização ................................................................ 122
CR IS T INA C AVACO

CÉLI A SOUS A M A RT INS


De cima, (não) se vê uma outra cidade
JA MES MI YA MOTO
PROURB, FAU, UFRJ

A NDR É OR IOLI
FAU, UFRJ

Resumo
A presente pesquisa pretende contextualizar o Morro da Conceição,
através da visão de seus habitantes, ao acelerado processo de revitaliza-
ção do tipo waterfront da Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro,
em região próxima. Essas dimensões culturais e temporais desafiam o
entendimento de linguagens, relações e processos distanciados (e apro-
ximados) por mais de quatro séculos.
Evidentemente, a implantação de um programa de revitalização
urbana em uma área marcantemente histórica tende a ser polêmica. Os
conflitos podem ser irreversíveis, principalmente, para as pré-existên-
cias. Existe inclusive um receio latente de que um processo de gentrifi-
cação esteja em curso, com a expulsão de moradores e comerciantes
antigos do centro histórico. O objetivo desta investigação é entender
como a tradição e a contemporaneidade dialogam, pois “de cima, (não)
se vê uma outra cidade”.

Palavras-Chave
Pré-existências; Revitalização urbana; Gentrificação; Ecologia urbana;
Waterfront.

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Introdução
Na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro, convivem há cerca de um
ano duas realidades distintas. De um lado, preservada sobre o Morro da
Conceição, em casas baixas, ruas íngremes e tranquilas, calçadas estrei-
tas e pavimentação em paralelepípedo, vive uma população com antigos
laços comunitários. De outro lado, na orla portuária, o programa Porto
Maravilha, implantado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro,
ensejou novas atividades: edifícios de escritórios, museus, amplos espa-
ços públicos etc. Em uma frente marítima resgatada pela demolição de
uma via elevada denominada de Perimetral, houve uma intervenção do
tipo waterfront.
A análise da convivência destes mundos tão opostos será realizada
através da visão dos moradores do Morro da Conceição, confrontados
pela “modernidade” que não esperavam (e, talvez, não desejassem), pois
“de cima, (não) se vê uma outra cidade”.

Desenvolvimento
Implicitamente, pode-se afirmar que a história da cidade do Rio de
Janeiro se inicia na Zona Portuária. A necessidade estratégica de defesa
militar aliada à condição geográfica privilegiada para a atividade portu-
ária desencadearam a ocupação da região, nas proximidades da Baía de
Guanabra (BG)1.
Indelével herança das origens portuguesas, o Morro da Conceição é
um pequeno relevo remanescente, juntamente com o Morro de São
Bento, em uma região que outrora contava com os Morro do Castelo e de
Santo Antonio. Alguns elementos históricos do próprio lugar e de seu
entorno são marcantes e provas documentais de sua longevidade como,
por exemplo, a presença da Igreja de São Francisco da Prainha (1696), a
Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição (1718), - após duas invasões

1
“Com a vinda da Família Real para o Brasil e a Abertura dos Portos às Nações Amigas,
em 1808, o processo de urbanização e desenvolvimento da Saúde, da Gamboa, do Saco do
Alferes e da Praia Formosa ampliou-se. Durante o século XIX as chácaras foram sendo
divididas em lotes urbanos e vários logradouros públicos foram criados. A crescente
atividade portuária do local dinamizou a ocupação dos morros e planícies de toda a área
circunvizinha, criando as condições para a posterior formação dos três bairros vinculados
à atividade portuária: Saúde, Santo Cristo e Gamboa” (Melo, 2003, p.31).

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francesas sucessivas em 1710 e 1711, - em sua composição atual em 1762,
e o Cais do Valongo, existente desde 1811 para desembarque de escravos
e remodelado em 1843 para receber a princesa Tereza Cristina de Bour-
bon, noiva de D. Pedro II.
Importantes elementos resgatam também traços de um país escrava-
gista. Em diversos locais, há vestígios da cultura e ossadas como as
encontradas no local que abriga o Instituto de Pesquisa e Memória dos
Pretos Novos (IPN) que denunciam o tráfico e as condições subumanas
a que eram submetidos os escravos.
Em seu clássico Pattern Language, Alexander disserta sobre peque-
nas unidades comunitárias (identifiable neighborhood) e suas estruturas
urbanas, vida comunitária e culturas. Destaca o autor que essa confor-
mação somente é possível em áreas contidas em estruturas viárias locais
e populações pouco variáveis. O Morro da Conceição é um exemplo
típico deste padrão. Trata-se de um pequeno relevo, com certas limita-
ções de acesso, em função de suas características topográficas. É predo-
minantemente ocupado por um casario baixo, alguns sobrados e raros
edifícios médios, assentados em lotes estreitos (Figura 01). O jeito inte-
riorano foi lapidado nos últimos séculos, em ladeiras sinuosas e íngre-
mes. A vida cotidiana é fortemente comunitária, solidária e íntima, pro-
seada nas calçadas.

Fig. 01 | Rua do Jogo da Bola, Morro da Conceição. Fonte: acervo pessoal.

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No sopé do Morro da Conceição, na direção norte, entre o antigo e o atual
limite das águas da Baía foi implantado o programa Porto Maravilha. Tra-
ta-se de um projeto urbanístico grandioso, a partir do qual foram erguidos
novos museus (Figura 02) e edifícios corporativos, antigas edificações pas-
saram por retrofit, há um novo mobiliário urbano e amplas areas livres
públicas, entreameados por recursos de mobilidade urbana como dois lon-
gos túneis, urbanização de vias, veículos leves sobre trilho (VLT) etc.

Fig. 02 | Museu do Amanhã, Praça Mauá. Fonte: acervo pessoal.

A demolição da via Perimetral, um viaduto que apartava a cidade do mar


e ocultava um antigo patrimônio arquitetônico e urbanístico, possibili-
tou o resgate de uma parte (quase) esquecida da cidade (Figura 03).
Novos espaços se abriram e diversos elementos pré-existentes se revela-
ram. A recostura da trama viária trouxe a cidade até o mar. Agora, um
horizonte de possibilidades se descortina, para o bem e para o mal.
Em linhas gerais, coexistem universos antagônicos em suas essên-
cias. Os moradores e comerciantes do Morro da Conceição são testemu-
nhas das recentes transformações da Zona Portuária. De suas encostas,
longínqua e precariamente, avistam os novos e vistosos centros de cul-
tura e lazer, hotéis, edificações espelhadas etc. que surgem em ritmo
intenso e, por vezes, pretensioso (Figura 04).

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Fig. 03 | Vista da antiga av. Rodrigues Alves. Fonte: acervo pessoal.

Fig. 04 | Vista a partir da Rua Jogo da Bola, Morro da Conceição. Fonte: acervo pessoal.

Em realidade, do alto, pouco se vêem as multidões que transitam pelos


novos espaços livres. Ao mesmo tempo, de um nível mais baixo, um olhar
descuidado, interpreta o relevo topográfico (Figura 05), povoado por um
conjunto edilício, como um simples pano de fundo da modernidade.

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Fig. 05 | Imediações da Pedra do Sal, ao fundo o Morro da Conceição. Fonte: acervo
pessoal.

Porém, há sutilezas nas interações entre as partes que não são facilmente
identificáveis, mas que são marcantemente presentes. Sob a ótica da Asso-
ciação de Moradores e Amigos do Morro da Conceição (AMAMCO), as
modernas linhas de VLTs, podem aparentar melhorias para a população,
mas afastaram linhas de ônibus para dar lugar a espaços públicos de aspecto
sofisticado. Não houve benefícios para os antigos moradores da região.
Velhas vendas e quitandas locais fecharam. Botecos se transformaram em
concorridos bares e restaurantes a serviço da população flutuante. Dezenas
de turistas deslocam-se e com invasiva curiosidade sobem as ruelas, debru-
çam-se em peitoris afora, - digamos, adentro, - irrompendo as residências e
transformando o cotidiano dos moradores. O aumento dos aluguéis tem
sido desproporcional à média da cidade, segundo relatos das comunidades
locais e tem afugentado velhos inquilinos.
A convivência entre as duas realidades, como se vê, não é tênue. Nem
tampouco original. Existe um conflito (temporal, dimensional, social,
econômico etc.) entre duas escalas que expressa fortemente o tema:
“Desafios à cidade. Facetas de uma urbanização em ritmo acelerado”,
proposto pelo evento. O enredamento multidisciplinar que reflete a
sociedade contemporânea enseja a preocupação com diferentes realida-
des, inclusive (ou sobretudo) no âmbito do urbanismo. Há algum tempo,
se reconhece que a variedade de temas, situações e entes indica que se

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pensem, se debatam e se busquem soluções que serão, obviamente,
diversas, por força de idiossincrasias locais, naturalmente diferentes. Os
processos se expandem para além do trivialmente compreensível.
Frequentemente, o descuido com as pré-existências pode relegar
patrimônios a entulhos ou conduzi-los a processos de museificação
semelhantes a que se verificam em variadas cidades artificializadas em
suas histórias e culturas (Berenstein, 2005). São situações, evidente-
mente, lastimáveis, mas que não se encerram como únicas opções. Ao
contrário, a relevância cultural do Morro da Conceição deve ser respei-
tada, sua ambiência preservada e sua população considerada. Vozes con-
tumazes se voltam contra a transformação desta comunidade em um
novo Pelourinho, Salvador, BA, em que a história foi desvirtuada.
Por outro lado, as justificadas críticas ao projeto de urbanização em
implantação são baseadas em um viés que destaca os perigos de se ado-
tarem fórmulas recorrentes em outras cidades, inclusive internacionais
(Nova York, Barcelona etc.). No caso presente, reunir em uma equação
os termos: revitalização e waterfront, a partir de práticas baseadas majo-
ritariamente em centros de cultura, hotéis e edifícios corporativos asso-
ciam as iniciativas direta e exclusivamente aos poderes do capital, no
contexto habitualmente perverso do city marketing. Não haveria algum
excesso na análise? O estado de deteriorização e abandono da região não
justificaria uma ação mais contundente? Diversos partícipes como, por
exemplo, comerciantes, prestadores de serviço, moradores etc. serão
beneficiados com as medidas adotadas na urbanização?
Como é de amplo conhecimento, sempre que se analisam processos
de revitalização/requalificação/reabilitação/renovação urbana vem a
reboque a preocupação com o fenômeno da gentrificação. O antídoto
proposto ultimamente tem sido criar condições de mesclar iniciativas
de cunho essencialmente privado com outras em que há algum tipo de
subsídio estatal, de forma a se criarem condições de manutenção da
população nos locais objetos de intervenção requalificadora. Assim,
habitações baseadas em aluguéis sociais ou em sistemas de cooperativas
de autogestão tem sido consideradas algumas das mais eficazes respos-
tas contra a expulsão de extratos sociais menos elevados de suas áreas
de origem. Seria esta a panacéia para todos os problemas?

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 19
A urbanização de vias, a recuperação da infraestrutura e a valoriza-
ção ambiental foram pontos positivos, no contexto de desalento ante-
riormente existente. Diversos imóveis que não possuíam qualquer valor
passaram a ser considerados realmente bens patrimoniais. Destaca-se
que não se trata de se desconsiderar os impactos de remoções injustas
ou ignorar a tendência aos processos de gentrificação que, normalmente,
decorrem de implementações urbanas deste caráter e vulto, mas de
recuperar, por exemplo, dispositivos legais existentes. O Estatuto da
Cidade ao prever “a justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes
do processo de urbanização” já se constitui a base para a atuação do
Estado na salvaguarda das comunidades oprimidas ou prejudicadas. O
senso de justiça social e integração de setores desassistidos devem ser
sempre considerados.
O dilema que se coloca, como destaca Lima Carlos (2010)2 , a partir de
pensamento elaborado por Ramón Gutiérrez, na dicotomia tantas vezes
(e tão bem) exposta por Paola Jacques entre “congelamento urbano” e
“urbanismo generalizado”, é: “Será justo termos que optar entre patri-
mônio ou pessoas?”
A metáfora do reflexo (de olhos que não se vêem, mas somente a si
mesmo), em conto de Oscar Wilde sobre Narciso, por muitas razões,
parece sintomática neste caso. Há entre as partes um desinteresse
mútuo que gera uma visão excessivamente introspectiva ou mesmo nii-
lista. No mundo globalizado da sociedade do espetáculo, “a alienação do
espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta da sua pró-
pria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contem-
pla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens domi-

2
“A almejada conjunção entre interesses das comunidades originais e do Estado,
preconizada pela “conservação urbana integrada”, parece a cada dia perecer, sob um
bombardeio de imagens, discursos políticos, novas terminologias e mega projetos
criados para responder às demandas impostas por interesses relacionados a grupos
sociais minoritários das cidades. Essa direção assumida pela maior parte dos
projetos de conservação urbana agrava o quadro de apartação social, contribuindo
mais negativa do que positivamente para o contexto social das cidades. Este cenário
sombrio nos remete ao tão oportuno quanto dramático questionamento feito por
Ramón Gutiérrez (1989: 34) acerca da conservação urbana: “Será justo termos que
optar entre patrimônio ou pessoas?” (Lima Carlos, 2010, p. 29).

20 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
nantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu
próprio desejo. Em relação ao homem que age, a exterioridade do espe-
táculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de
um outro que os representa por ele”. (Debord, 2008, p. 24).
Neste caso, o Morro da Conceição, por ser aparentemente o elo mais
frágil da relação, parece estar sujeito a sofrer mais impactos. As hordas
invasivas tendem a não ser apenas de turistas, mas de empreiteiros e
grupos sociais mais abastados. Ao Poder público cabe disciplinar as
relações, viabilizando e garantindo a manutenção de segmentos menos
favorecidos, num tratamento cauteloso e responsável com as pré-exis-
tencias culturais, físicas, sociais etc.
Assim, devemos observar as contradições intrínsecas às Parcerias
Público Privadas (PPP), no contexto da maior Operação Urbana Consor-
ciada (OUC) do país, sob a perspectiva do ente estatal supostamente res-
ponsável pela mitigação de possíveis desigualdades sócioespaciais. Ao
considerarmos que o funcionamento da sociedade capitalista tem o
Estado como seu agente central, e que a base do poder econômico situa-se
no direito a propriedade privada (Harvey, 2005), a aplicação de modelos
da gestão habitacional que não sejam baseados no príncipio da troca entre
bens imóveis apresenta-se, naturalmente, como um empecílho3.
A OUC Porto Maravilha deve, dessa maneira, ser compreendida em
seu contexto mais estrutural, i.e. no âmbito da economia global e seus
interesses – sem, no entanto, ser reduzida a isso . Assim, faz-se pre-
mente a consideração, concomitante, dos diferentes tempos e escalas
que se aplicam à problemática tratada: “A localidade se opõe à globali-
dade, mas também se confunde com ela. O Mundo, todavia, é nosso
estranho. Entretanto se, pela sua essência, ele pode esconder-se, não
pode fazê-lo pela sua existência, que se dá nos lugares. No lugar, nosso
próximo, se superpõem, dialeticamente, o eixo das sucessões, que trans-

3
Conforme observa Galiza: “(...) é possível associar-se que a classe dominante - das
empreiteiras, segundo autores citados - organizou a sua estratégia de exercer o poder
em relação às classes dominadas, representadas pelos movimentos sociais de luta pela
moradia, que, apesar das conquistas legais, da criação do Ministério das Cidades e
da obtenção de subsídios para moradia popular, viram esvaziar suas propostas e suas
reivindicações” (Galiza, 2015, p.144).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 21
mite os tempos externos das escalas superiores e o eixo dos tempos
internos, que é o eixo das coexistências, onde tudo se funde, enlaçando,
definitivamente, as noções e as realidades de espaço e de tempo.” (San-
tos, 2001, p.218).
O conhecimento do lugar requer presença, o que demanda tempo: um
tempo presente, de continuidade, não abstrato. Uma equação de simples
assimilação que não se coaduna com o tempo veloz da tecnocracia imposta
pelo movimento hegemônico dos modos de acumulação do Capital.
Santos (2000 e 2001) analisa as segmentações e partições do espaço em
dois recortes, as horizontalidades e as verticalidades. Um relativo ao espaço
dos acontecimentos e o outro relativo ao econômico, ao fluxo de influência
do capital hegemônico, que se distinguem, conforme observação do autor,
segundo as manifestações de seus tempos: “Ao contrário das verticalidades,
regidas por um relógio único, implacável, nas horizontalidades assim parti-
cularizadas funcionam, ao mesmo tempo, vários relógios, realizando-se,
paralelamente, diversas temporalidades.” (Santos, 2000, p. 54).
Nas horizontalidades se dá o espaço banal4 , o espaço vivido, onde a
qualidade de vida se apresenta sob diversas formas, não sendo, como
todo o resto, um conceito absoluto. A prática social, e tudo que dela
resulta está, portanto, de forma inexorável, atrelada à sua temporali-
dade particular que, por sua vez, vai de encontro ao tempo das verticali-
dades: o tempo de uma “urbanização em ritmo acelerado”, característica
de operações como a OUC Porto Maravilha.
Nesses espaços dá-se a inversão da lógica dominante, a partir da res-
trição econômica, cultivando o valor do uso em detrimento do valor de
troca no estabelecimento das dinâmicas sociais junto à construção do
lugar. Observa-se, portanto, um antagonismo ao movimento opressor
do capital dominante, movimento este que tende a ser eliminado na
confrontação de forças tão desiguais.

4
“O espaço banal seria o espaço de todos: empresas, instituições, pessoas; o espaço
das vivências. Esse espaço banal, essa extensão continuada, em que os atores são
considerados na sua contiguidade, são espaços que sustentam e explicam um conjunto
de produções localizadas, interdependentes, dentro de uma área cujas características
constituem, também, um fator de produção. Todos os agentes são, de uma forma ou
de outra, implicados, e os respectivos tempos, mais rápidos ou mais vagarosos, são
imbricados.” (Santos, 2000, p. 53)

22 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Um grande passo na construção de uma cidade mais igualitária pôe em
questão o modo como estas políticas podem, no que diz respeito ao meio
urbano, ser mais efetivas: propiciar condições de acesso a uma cidadania
plena, à realização prática do direito à cidade (Lefebvre, 2008). Trata-se,
portanto, de pensar o urbano e os projetos urbanísticos não somente sob
a perspectiva físico-espacial do habitat, mas do habitar5.
Para tal objetivo, é de extrema importância que sejam discutidos os
métodos e os processos de projeto, em que a participação deve ser enten-
dida como absolutamente fundamental para o desenvolvimento das
propostas urbanísticas na produção de novas espacialidades. A partici-
pação a partir do conhecimento acerca do lugar é, portanto, uma via de
mão dupla entre o proposto e o existente (habitar), assumindo e enten-
dendo a sua inseparabilidade. Dessa maneira temos uma inversão da
visão sobre a abordagem da problemática do urbano, dando à escala da
habitação e à sua relação com a cidade uma importância essencial.

Conclusão
Buscar enfoques criativos e originais parece ser a base principal dos
desafios do urbanismo contemporâneo. Por enquanto, as interferências
e atritos entre as “duas cidades” é, até certo ponto, mediável. O desen-
volvimento da parte baixa da cidade obedecerá tendências já presentes
de se destacarem elementos relacionados à cultura, ao lazer e ao mundo
corporativo. Ao poder público cabe garantir e incentivar usos residen-
ciais variados assegurando a justiça social. No Morro da Conceição, cui-
dados pontuais junto a preservação da cultura, vínculos sociais e ambi-
ências, parecem ser as preocupações mais relevantes.
A mediação entre os tempos do capital e da vida cotidiana devem
ocupar lugar central no papel do Estado como responsável pela mitiga-
ção das desigualdades sócioespaciais. Faz-se essencial a criação de
meios para a sustentabilidade dos procedimentos em curso, de forma a

5
Lefebvre nos apresenta o conceito do habitar que, segundo sua compreensão,
transcende os atos elementares de comer, dormir e reproduzir-se (habitat). São as
vontades individuais, os sonhos, a criatividade e o cotidiano que transformam o
espaço formal, instituído: o habitat em espaço vivido, no habitar. A escala do humano
traz o habitar para o primeiro plano das questões do urbano (Lefebvre, 2004).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 23
mantê-los como um processo aberto, presente, pronto a ajustes e ade-
quações. Toda atuação deve ser condicionada à praxis e, ainda assim, na
condição de facilitador da mesma. Pode-se concluir, portanto, que “de
cima, (não) se vê uma outra cidade, pois são todas partes indispensáveis
de um contexto que assim seguirá, quem sabe, eternamente.

Bibliografia
ALEXANDER, Christopher, Pattern Language. Oxford University Press, New
York, 1977.
DEBORD, Guy, A sociedade do espetáculo. Contraponto, Rio de Janeiro, 1997.
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24 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Cenografias Urbanas: o Porto Maravilha (RJ)
como um corpo idealizado, espacializado
traumatizado pela memória.
VA LQUÍR I A GUIM A R Ã ES DUA RTE
Arquiteta, doutora em História, professora da Faculdade de Artes Visuais,

Universidade Federal de Goiás.

Resumo
O artigo está relacionado à pesquisa “Cenografias Urbanas (Arquitetura,
Urbanismo e Performance): teorias, linguagens, conceitos e experimenta-
ções, no Porto Maravilha, RJ”, que dá continuidade ao empreendimento
iniciado no edificado, de uma teorização para uma hermenêutica trans-
disciplinar entre a história conceitual, as noções de Interartes e a psicaná-
lise, agora estendendo o conhecimento ao complexo urbanístico - no caso
empírico, a região portuária do Rio de Janeiro, com suas pré-existências e
arquiteturas performáticas. Aprofundamos os conceitos de trauma e sin-
thoma, revelando como estes se espacializam e se abrem às fantasmago-
rias. Sabendo que esta região da cidade é um arcabouço de memórias e
traumas, mostramos como o urbanismo contemporâneo vive em tensão
com suas temporalidades, se revelando um testemunho privilegiado da
memória porque apresenta várias modalidades de temporalização. Deste
modo, ao invés de buscar estratos de memória em um só objeto, vamos ao
encontro de estratos visíveis, invisíveis e conflitantes.

Palavras-Chave
Arquitetura, Urbanismo e Performance; Porto Maravilha; Memória e
História; Sinthoma; Trauma.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 25
Passo I – Introdução: as dimensões de compreensão da obra.
Uma obra de arquitetura ou de urbanismo se revela uma totalidade
dotada de sentidos. Colocada no papel ou construída de ‘pedra e cal’,
ganha vida própria, independe de seu autor. Suas intenções, seus objeti-
vos iniciais ficam pra trás e permanecem o ‘texto’, o edifício: seu dis-
curso é fixado pela escrita. Por isso tantas vezes os críticos encontram
significados que os próprios arquitetos e urbanistas não reconhecem
como tendo intenção de dizer. Uma vez planejada e construída, a obra
ganha autonomia e está aberta à interpretação, à apropriação.
A obra de arquitetura ou urbanística pode ser analisada partindo das
proposições teórico-metodológicas de Didi-huberman (2000), para o
qual a imagem apresenta várias modalidades de tempo. A configuração
– a obra, assim, é tomada como imagem.
“Diante de uma imagem – por mais antiga que seja –, o presente
jamais cessa de se reconfigurar [...]. Diante de uma imagem [...] por
mais contemporânea que seja –, o passado [...] jamais cessa de se
reconfigurar, porque essa imagem só se torna pensável em uma cons-
trução da memória” (Didi-Hubeman, 2000, pag.09).

Uma obra se oferece à interpretação dentro de uma temporalidade do


presente, mas não se oferece com uma condição unívoca de temporali-
dade: ela tem uma construção própria de memória. Uma imagem, para
Didi-Hubeman, apresenta o tempo, o que faz com que os passados e
futuros se reconfigurem em diversos modos no presente. Diante de uma
obra se está diante de uma acumulação de tempos. Ela contém ou revela,
em seu próprio devir, uma memória.
A imagem é memória e devir, aciona a lembrança e a expectativa. E se
aciona esses tempos, ela é uma mobilização do desejo. Uma obra de
arquitetura (ou trama urbanística) é capaz de mobilizar passados e pro-
jeções no futuro. Podemos dizer que o espaço construído se revela como
um objeto anacrônico, parceiro do a-topos. O historiador da arquitetura
se coloca em posição desconfortável porque a História precisa recusar o
anacronismo. Nessa proposta, ela teria que incorporar o objeto tempo-
ralizável e o não tempo (o anacronismo pode incorporar a diacronia e
sincronia). Parece um paradoxo, mas não se trata de interrogar um

26 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
objeto arquitetônico, mas o modo como os críticos deram valores ao
tempo, e como Didi-Huberman supera esse valor, já que parte da análise
da escritura para se chegar a uma narrativa, ou seja, desembaraçar o
inextrincável. A obra de arquitetura e urbanismo, nesse sentido, inter-
roga a História. E o anacronismo que ela incorpora permite que seja uma
escansão onde coexistem tempos genealógicos heterogêneos.
A obra possui elementos do tempo em que foi produzida, e tempos
aos quais ela remete – passados e futuros. Ela é policrônica, pois envolve
a diacronia, a sincronia e a acronia. O que implica que toda vez que se
vai ler, interpretar e compreender uma obra há uma operação de recon-
figuração.
Se a obra é policrônica, a tese sustentada é a de que não existe a teoria
da arquitetura, mas uma teoria de cada obra de arquitetura. Não há
como enquadrar uma obra em um modelo de análise: a cada leitura e
interpretação, embora tenha sido produzida em um contexto específico,
ela evoca outros tempos, técnicas, modelos específicos de uma época, de
épocas precedentes, até arcaicas. E é assim que entra em cena a memó-
ria. Ela permite que se evoquem tempos que contribuem para recons-
truir temporalidade(s). O que implica que as tradições e as inovações
sempre estejam presas em certa temporalidade.
A propriedade da teoria hubermaniana se encontra no alcance do
conteúdo visível, legível e invisível que a obra é capaz de refletir na aná-
lise da escritura. O que se procura é uma dimensão alcançável na
impressão, no rastro, no traço. Nessa teoria, o autor busca bases na psi-
canálise e atualiza o que outros autores (Warburg, Freud, Benjamin) já
propõem de diversas maneiras no passado, para diversos fins: compre-
ender o fenômeno através da memória percebida, e a que passa desper-
cebida e que deve ser trazida à tona.
Didi-Huberman faz uso da noção de montagem, que se aproxima da
noção de colagem, para uma estruturação da narrativa. Ele busca o termo
de Benjamin, em seus escritos sobre Baudelaire, para mostrar que o artista
é um sujeito que manipula o tempo, e essa manipulação é mais ou menos
consciente. O passado é um fato de memória, que emerge no presente por
um processo de decantação. A memória decanta o passado de sua exati-
dão, humanizando e configurando o tempo, entrelaçando seus fios.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 27
Passo II – A história sintomal e o conceito de performance.
Além de Didi-Hubeman, que trata especialmente da obra de arte, em
nosso empreendimento teórico cruzamos a história sintomal com a
noção de performance1. A ideia é desenvolvida por Duarte (2009), que
aplica o movimento - a quadridimensionalidade prospectiva - como
meio de análise do espaço, rumo à leitura e interpretação da escritura.
Pode-se dizer que portamos o espaço diretamente na carne; espaço que
não é uma categoria ideal do entendimento, mas o elemento desperce-
bido, fundamental, de todas as nossas experiências sensoriais ou fantas-
máticas. A performance nos é útil, uma vez que a dinâmica da ocupação
do espaço, a visão tátil (a mudança do bidimensional para o tridimensio-
nal, do ótico para o háptico, o corpo em movimento), revela o estrutural,
mas também o incidental, proporcionando à escrita da memória, um
novo padrão narrativo, que foge ao padrão hegemônico.
Duarte (2011) aponta que o PLOT cênico também possui uma signifi-
cação geográfica, de um terreno cuja rede é passível de interpretação.
Para a arquitetura contemporânea, trata-se de numa prática artístico-
-estética que se faz necessário tomar um princípio narrativo (uma teori-
zação e suas práticas) e fazer delas uma série de acontecimentos envol-
tos em uma vasta trama (tensão e núcleos dramáticos esparsos, os
diversos plots). Cada espaço se abre em múltiplos plots dramáticos, e
neles faz-se do incidental, um modo constelacional, abrindo-se rumo
aos passados e aos futuros. O desafio contemporâneo é o de como pro-
vocar modos narrativos, e deles inferir formações aleatórias e elípticas
que abrem e fazem fulgurar significações. Em todo contexto narrativo

1
Duarte concebe quatro conceitos analíticos para a hermenêutica do edifício, fruto
de uma operação transdisciplinar entre arquitetura e performance artística. São eles:
Performance Process, Performance Conceitual, Techno Performance e Performance
(In) Doors/ (Out) Doors. A Performance é um território de várias interfaces, de
trajetos múltiplos, e por sua natureza multidisciplinar, é uma arte de fronteira.
Aparece sempre em sua dimensão de ação, na relação da ação do corpo em um espaço
específico. Deste modo, ela se torna uma estratégia por excelência na apreensão
de uma história entre imagem, texto, som e corpo, já que nasce em uma zona de
entrelaçamento intertextual - em um ponto de encontro entre diferentes linguagens
artísticas -, cujas formas de diálogo não convencionais incidem com maior ou menor
força. Trata-se de analisar de que forma se dá, na arquitetura, as relações entre Corpo,
Espaço e Performance.

28 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
emergem temporalidades e modos de ação, de padrão rizomático. Ou
seja, historiador é um performer que “atua e recupera sua posição de
fantasma”, que narra na atualidade, mas sugere uma virtualidade.
Em nossos estudos atuais, especificamente, buscamos elementos
para provocar o aparecimento de novas narrativas: a desconstrução
(Derrida) e a dobra (Deleuze). Do outro lado está o edifício e a cidade,
com seus dispositivos espaciais - revelando o despercebido. A experiên-
cia estética afeta as formas da apreensão e cognição da realidade, os
modos de ver e de “falar” de um território existencial. Tal experiência
parte de um acontecimento arquitetônico que enuncia sensações, é uma
provocação para a “escuta” do espaço. Pensando o modo como a arquite-
tura influencia o comportamento humano, com a propriedade de criar
sensações, percepções e desencadear afectos, a performance coloca o
corpo no centro das atenções. Se algumas das finalidades da arquitetura
são sua fruição e experiência estética, resultantes da apropriação dos
espaços, é necessário interpretá-las tanto por sua matéria como por sua
linguagem poética, como uma narrativa espacial que personifica a tem-
poralidade. A experiência performativa, deste modo, torna o historiador
partícipe da obra, complementando-a, reconfigurando-a.

PASSO III - O Porto Maravilha


Como objeto privilegiado da memória, o Porto Maravilha integra nossos
estudos atuais como continuidade à teorização da hermenêutica do
espaço, que se inicia em um edifício e agora se estende a um complexo
urbanístico. Essa etapa diz respeito à reflexão de como a reestruturação
urbanística da área portuária do Rio de Janeiro guarda aspectos relevan-
tes para pensarmos os rumos da urbanização contemporânea no Brasil.
Buscando lugar de destaque no turismo mundial, e dentro de um plano
que visa qualificar a cidade como sede da Copa de 2014 e Olimpíadas de
2016, o Rio investe em um grande projeto de reestruturação que inclui
preservação de áreas históricas, criação de aparelhos culturais, abertura
de áreas para investimento imobiliário de grande densidade (torres
empresariais), habitação social, e uma rede de circulação que compre-
ende veículo leve sobre trilhos (VLT), circulação para ciclistas, pedes-
tres e veículos.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 29
De parte do orçamento municipal, saíram R$ 350 milhões como
investimento inicial na requalificação da área de 350 mil m², entre as
avenidas Rodrigues Alves e Venezuela, as ruas Sacadura Cabral e Came-
rino, a Praça Mauá, o Pier Mauá e o Morro da Conceição. A segunda fase
do projeto compreende os bairros do Centro, Santo Cristo, Gamboa,
Saúde, Caju, Cidade Nova e São Cristovão. O trânsito no centro da
cidade também passou por mudanças, principalmente com a demolição
do Elevado da Perimetral. O custo total do Porto Maravilha está esti-
mado em cerca de R$ 8 bilhões, com a maior parte dos recursos prove-
niente de parcerias privadas por meio de Operação Urbana Consorciada
- um instrumento de política urbana criado pelo Estatuto das Cidades e
regido pela Lei Municipal Complementar 101/2009.
Avessa a críticas sobre provável processo de gentrificação e de requalifica-
ção mercantilista, a prefeitura afirma que os investidores do mercado imobi-
liário pagarão a conta da requalificação urbana: a lei complementar autoriza
a mudança de uso do espaço e o aumento de potencial de construção mediante
pagamento de contrapartida financeira por meio da compra de Certificados
de Potencial Adicional de Construção (Cepacs). O valor arrecadado será
investido na continuidade da requalificação urbana da região.
Tanto o projeto quanto a gestão fundiária do Porto Maravilha segue
modelo semelhante ao experimentado em outras cidades, como Puerto
Madero, que já leva duas décadas tentando integrar-se a cidade e recebeu
várias críticas tanto na proposta inicial. E assim como o projeto argentino, o
Porto Maravilha se insere em um processo global de mercantilização da
cidade, por uma organização que combina parcerias público-privadas e ins-
trumentos do mercado de capitais. Um processo que determina um padrão
de relação entre o poder público e o setor privado, e inaugura um novo modelo
de gestão da cidade. Mas, assim como o de Puerto Madero, desde o início,
acirra as desigualdades socioespaciais da cidade (como veremos adiante) 2.

2
Segundo Werneck (2016), o cenário político favorável no primeiro ano de mandato de
Eduardo Paes levou à instituição da Secretaria Municipal de Urbanismo. Também
foram criadas duas secretarias: a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP),
encarregada da operação Choque de Ordem para atacar a desordem urbana, e a
Secretaria Extraordinária de Desenvolvimento (SEDE), incumbida de atrair novos
negócios para a cidade. Além delas, foi instituída a Companhia de Desenvolvimento
Urbano da Região do Porto (CDURP), concebida para coordenar a implantação do
projeto de revitalização da área portuária da cidade.

30 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Em uma primeira análise, poderíamos considerar o Porto Maravilha
um upgrade no waterfront do Rio de Janeiro, se não fosse o olhar mais
atento ao que Derrida denomina hospitalidade. Para o autor, hospitali-
dade pressupõe acolher como um ato ético. Ou seja, pensando no
urbano, uma proposta ou um traçado que se abra à participação. Um
traçado ou uma proposta aberta ao acolhimento. A hospitalidade e a
interioridade são construídas por uma relação de abertura afetiva per-
dida no tempo, interpretando o afetivo como marcas urbanísticas ou (e)
de usos do espaço, que envolva o indivíduo ao invés de expulsá-lo.
Nesse sentido, podemos dizer que o Porto Maravilha, antes mesmo
de colocar em prática sua política de uso dos espaços, já soma severas
críticas, que ressaltam, sobretudo, as remoções forçadas, arrefecidas na
área portuária desde o lançamento da operação urbana. Se observarmos
a proposta urbanística a partir das setorizações propostas, antes mesmo
de analisar a estética do traçado urbano, iniciamos nossos estudos mos-
trando o quanto um projeto urbanístico, antes de tudo, é uma proposta
que discute a hospitalidade.
Segundo Werneck (2016), o Porto Maravilha, em sua proposta de
qualificar o waterfront do Rio, não mantém um diálogo com as comuni-
dades dos bairros envolvidos no projeto. Para se ter um exemplo,
enquanto o Fórum Comunitário do Porto denuncia em 2011 as ameaças
de remoção de até 800 famílias no Morro da Providência, por conta do
programa municipal de reurbanização de favelas Morar Carioca (apre-
sentado pelas autoridades em março de 2010 como iniciativa comple-
mentar ao Porto Maravilha), o Comitê Popular da Copa e das Olimpía-
das do Rio de Janeiro indica, em março de 2013, o despejo de 430 famílias
que viviam em ocupações irregulares na zona portuária desde 2009.
Após manifestações em 2013, a Comissão de Defesa dos Direitos Huma-
nos e Cidadania da Assembleia Legislativa (RJ), em seu relatório anual
contabiliza a expulsão de 196 famílias da comunidade até novembro
daquele ano. As organizações enfatizam ainda a ausência de informação
acerca dos projetos implementados, assim como a falta de participação
da população na definição das intervenções prioritárias e na discussão
de alternativas habitacionais (Werneck, 2016).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 31
No projeto de requalificação da área portuária do Rio impera a subor-
dinação do direito à moradia aos interesses pela valorização da terra e à
mercantilização da cidade. E o Estado e os fundos públicos são protago-
nistas no enriquecimento de investidores privados e na produção de um
novo padrão de segregação3.
“Alguns autores mostram que recursos públicos e especulação, soma-
dos ao descumprimento da função social da propriedade, levam a
afirmar que o Porto Maravilha é uma das expressões mais acabadas
da cidade como uma máquina de crescimento urbano [...] Dessa
maneira, a cidade funcionaria como uma organização empresarial
devotada ao aumento do volume da renda agregada por meio da
intensificação do uso do solo urbano” (Werneck, 2016, p.01).

As denúncias acerca da implementação violenta de uma nova política de


remoções e o emudecimento da esfera pública visibilizam a existência
de um grupo que é negligenciado, excluído dos benefícios prometidos
pelo projeto de revitalização. Se antes a requalificação da área portuária
do Rio de Janeiro era prioritariamente um projeto urbanístico, Werneck
ajuda a refletir sobre como o Porto Maravilha se transforma em um
arranjo institucional-financeiro de gestão do território capaz de compa-
tibilizar interesses.

Conclusão
Antes de nos defrontarmos com a proposta urbanística do Porto Mara-
vilha propriamente dita, iniciamos a pesquisa analisando as propostas
fundiárias e os arranjos político-administrativos que possibilitaram e

3
Segundo Werneck (2016) há a participação do FGTS na aquisição dos Certificados de
Potencial Adicional de Construção da operação urbana, de acordo com a arquitetura
institucional-financeira desenhada para a operação urbana. Enquanto o fundo,
cujo princípio é a rentabilidade, expressaria a conversão da terra em um ativo
financeiro, a transferência de recursos do FGTS significaria uma redução de riscos
para os investidores privados que passam a ter, desde já, um cenário favorável aos
investimentos mediante a aceleração das obras. Mas a entrada de fundos públicos
não elimina os riscos da operação por completo, uma vez que os recursos vindos do
FGTS para a compra dos CEPACs, 3,5 bilhões de reais, garantem alguns anos de obras e
serviços previstos no contrato de PPP, mas não a sua totalidade.

32 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
possibilitarão a realização de tão complexo projeto. Ainda em fase de
análise, a pesquisa já aponta para algumas questões: o projeto do Rio de
Janeiro reincide na exclusão do diálogo com a comunidade e suas pré-
-existências. O fantasma da exclusão, da gentrificação, da valorização
fundiária via mercantilização ronda esse projeto desde antes do seu lan-
çamento.
A conversão do Porto Maravilha em produtos imobiliários é peça fun-
damental para sustentar financeiramente a operação (e promover a ocu-
pação da área portuária, criando demanda às novas infraestruturas e
aos serviços prestados por um consórcio privado). O projeto de requali-
ficação do waterfront supõe a transformação das terras, em sua maioria
públicas, da área portuária em valor de troca, abrindo uma nova fron-
teira para sua integração aos circuitos de valorização imobiliária, ao
mesmo tempo em que destitui as comunidades que delas se utilizam
como valor de uso, e assim podem praticar, ainda que precariamente, o
direito à cidade.
Portanto, o sentido de hospitalidade derridiano revela que o modelo de
cidade proposto pelo Rio deixou, há muito, de ter o sentido de abertura. E
o Porto, mais uma vez, mostra os rastros das práticas urbanas já experi-
mentadas no país, que abrangem requalificações de áreas degradadas
centrais que promovem a gentrificação. Os traumas do passado não foram
suficientes para uma elaboração do espaço urbano enquanto “lugar”.

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34 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Lugares que habitamos, paisagens que visitamos:
transformações espaciais, turismo e território
na orla urbana de Maceió/AL
LUCI A NO MUNIZ A BR EU
R EGINA CÉLI A LOPES A R AUJO
JAQUELINE DE LIM A PIR ES

DAU/IT, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ, Brasil

Resumo
Este trabalho se fundamenta na avaliação dos impactos do crescimento
intensivo da atividade turística sobre o espaço litorâneo do nordeste
brasileiro, tendo em vista a aplicação do Programa de Desenvolvimento
do Turismo no Nordeste do Brasil. A partir de arcabouço teórico-concei-
tual que trata da produção e consumo da paisagem e sua relação com o
turismo, o trabalho busca oferecer reflexões sobre as ações promovidas
em função da atividade turística, nas últimas décadas, pelo poder
público na cidade de Maceió/AL, e seus impactos de ordem territorial,
paisagística e socioeconômica. A argumentação considera que a distin-
ção e a diferença como requisitos para o turismo delimitam territórios e
geram conflitos entre habitantes e visitantes. Como resultado das trans-
formações espaciais engendradas, observa-se a valorização das áreas
que receberam investimentos e um processo de desterritorialização de
práticas sociais e econômicas autóctones, afastando a população local
dos benefícios dos investimentos.

Palavras-Chave
Turismo; Território; Litoral; Maceió/AL; Podetur/NE.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 35
Introdução
De setor econômico periférico, como era tratado no Brasil, o turismo na
década de 1980 e, de modo mais contundente, a partir da década de
1990, passou a ser entendido como atividade econômica capaz de contri-
buir para o desenvolvimento do País.
O pensamento dominante até então era que bastavam as belezas
naturais e uma diversidade cultural e ambiental, para que a atividade
turística se desenvolvesse. Demorou um longo período até se perceber
que sem investimentos, planejamento e políticas específicas, dificil-
mente, a atividade econômica do turismo poderia se desenvolver.
Na última década o Brasil apresentou uma das maiores taxas de
expansão na área. O setor já é o quinto produto da balança de pagamen-
tos brasileira, atrás apenas do minério de ferro, petróleo bruto, soja em
grão e automóveis, isto considerando apenas o turismo receptivo inter-
nacional (ABREU, 2010).
Dentro deste contexto, o governo brasileiro iniciou, na primeira metade
dos anos 1990, o Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste do
Brasil (PRODETUR/NE), através do qual realizou, majoritariamente, inves-
timentos em infraestrutura urbana objetivando o desenvolvimento e o
incremento da atividade na região e demonstrando a importância da ativi-
dade turística no rol das políticas públicas setoriais nacionais.
No que se refere aos impactos gerados sobre a paisagem pela rede de
ações formada e alavancada pelo PRODETUR/NE, verifica-se que sua
concretização tem atuado no ordenamento e reordenamento de territó-
rios litorâneos, em função do turismo, com intervenções sucessivas e, às
vezes agressivas, sobre a paisagem.
Cidades inteiras ou trechos litorâneos de cidades se transformam e se
(re)estruturam em nome do turismo, numa intenção clara de constitui-
ção de territórios (de uso) turísticos, que muitas vezes, desestruturam
formas típicas de apropriação dos espaços e excluem a população resi-
dente do usufruto da nova organização, sem falar da força com que pro-
cessam elementos originais da estrutura paisagística, onde se percebe
certa homogeneização e cenarização da paisagem.
A paisagem tida, no turismo, como principal produto de consumo,
torna-se por isso mesmo o palco principal das ações e transformações

36 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
movida por uma indústria que se realimenta, cria e recria lugares para o
consumo dos turistas à revelia de identidades e significados para popu-
lação local e às custas de danos econômicos, sociais e ambientais.
Trataremos nesta comunicação, das ações e esforços empreendidos
nas últimas décadas, para o desenvolvimento da atividade turística na
cidade de Maceió/AL, especificamente, daquelas relacionadas aos proje-
tos de revitalização de orlas marítimas.
A base analítica são as transformações espaciais geradas com as ações
para o desenvolvimento do turismo, bem como as implicações de ordem
social, econômica e espacial decorrentes de tais transformações. Nossa
hipótese considera que o esforço e os investimentos públicos envolvidos
no desenvolvimento do turismo não têm sido capazes de sustentar,
como propagado no discurso, a melhoria da qualidade de vida das popu-
lações locais, ainda que produza alguns benefícios.

1. Aporte Teórico: turismo e transformações espaciais


1.1. Alterações espaciais e a constituição de territórios
Um dos aspectos importantes a serem considerados na compreensão do
fenômeno turístico é sua natureza predominantemente urbana. O turismo,
em sua essência é um fenômeno de laços urbanos, ainda que, em alguns
casos, o produto seja a natureza “selvagem” do ecoturismo, ou os “enclaves”
oferecidos nos resorts. Para existir, o fenômeno requer uma condição logís-
tica que somente a proximidade ou sua inserção na cidade permite. Exige
infraestrutura, de acesso, permanência e suporte, bem como produtos que
englobam desde a apreciação da natureza a opções de um mínimo de servi-
ços similares aos que o turista encontra no seu local de origem.
Considerando que a paisagem está no centro da atratividade dos
lugares turísticos, é possível compreender o empenho de administra-
ções municipais em produzir e reorganizar, quase que completamente,
paisagens atrativas para o consumo da atividade.
De fato, como observa Cruz (2003), o turismo é a única prática social
que consome o espaço, através de serviços de hospedagem, de restau-
rantes, de lazer, bem como do consumo da paisagem. E para tanto,
impõe aos lugares sua lógica de organização espacial, muitas vezes, à
revelia das lógicas preexistentes.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 37
A concentração espacial justifica-se pelo barateamento dos custos
dos investimentos em infraestrutura, mas não é apenas a razão econô-
mica que tem conduzido à formação dos territórios turísticos. As fron-
teiras territoriais criadas visam manter o turista dentro de “espaços de
fantasia” criados por campanhas de marketing agressivas.
A lógica de separação entre os espaços destinados ao turismo e os
demais espaços do ambiente urbano onde ele se insere tem razões espe-
cíficas. É o novo que estimula o turista, a descoberta do que lhe parece
diferente. Essa é a razão primeira da transformação dos espaços para
atrair turistas, onde a diferença e a distinção estão inscritas nos espaços
criados ou remodelados. É um esforço para a construção, valorização e
exploração de capitais simbólicos coletivos.
Também, nos lugares turísticos formam-se áreas de segregação para
usufruto do lazer conforme o público que as frequenta. Pode-se dizer,
conforme afirma Portuguez (2001), que o espaço de consumo é utilizado
por determinados estratos para delimitar relações sociais. A utilização
de códigos de normas restringe o acesso e a liberdade de boa parte da
população a locais de uso público.

1.2.Turismo e o residente
Na escala intraurbana das localidades turísticas, o espaço é dividido no
espaço de trabalho e moradia e nos espaços de lazer em que há uma ênfase
no consumo tanto do espaço construído quanto da natureza. Isto, de certa
forma, gera segregação de utilização dos espaços bem como conflitos
internos de uso e percepção, já que o modo como turista e morador perce-
bem a paisagem são distintos. O que para o turista é uma experiência de
essência estética, para o morador local é uma avaliação do próprio modo
de vida. Ou seja, embora tenham uma mesma forma física, as paisagens
que visitamos são distintas dos lugares que habitamos.
Segundo Gomes (2001) citado por Milagres e Souza (2012) “a paisa-
gem como representação resulta da apreensão do olhar do indivíduo
condicionado por filtros fisiológicos, psicológicos, socioculturais e eco-
nômicos, e da esfera da rememoração da lembrança corrente”. Isto é, a
maneira como nos relacionamos com o espaço e as paisagens nele conti-

38 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
das possuem relações estreitas com as experiências vivenciadas. Pos-
suem, pois, vínculos diretos com a construção do habitus.1
Segundo Pellini (2014), com base em Benjamim (1985) “paisagens são
construídas e apropriadas pelos sensos, pela percepção, justamente a
partir da realização de práticas cotidianas”. O que ocorre é que muitas
vezes os padrões, imagens e valores criados pela mídia e pelo mercado
para determinação do que é belo e atrativo para o turismo, em muitos
casos, não coincide com a percepção que os moradores do destino turís-
tico possuem a respeito dele, justamente porque a qualidade da paisa-
gem dependerá do juízo de valor do observador que, em última análise
tem relações diretas com suas vivências e experiências de mundo.
Tuan (1983) explica que a relação do homem com espaço e lugar, seus
sentimentos e experiências vão surgindo aos poucos em cada indivíduo.
Conforme a interação da pessoa com o lugar cresce sob influências cul-
turais, se amplia também a compreensão de sua semelhança, e assim o
lugar vai adquirindo significado através de constante acréscimo de sen-
timento ao longo dos anos. Nas localidades turísticas, o risco é que as
alterações espaciais empreendidas, prejudiquem também a identidade e
os significados dos lugares.
Assim, a estruturação e ordenamento do espaço para o turismo causa
conflitos para o residente, que percebendo o espaço de maneira dife-
rente muitas vezes é excluído do usufruto dos espaços criados, podendo
por vezes não mais identificar seus atributos simbólicos e afetivos, jus-
tamente por estes terem sidos transformados em função do turista.

2. Rede de Ações em Maceió


O município de Maceió tem uma superfície de 509,5 km2 que corresponde
aproximadamente a 1,83% do território do estado de Alagoas (fig.1). Possui
uma área de aproximadamente 233 km2 e uma densidade demográfica de
1.854,10 hab/km2, respondendo por 29,89% da população estadual e por
cerca 46% de seu Produto Interno Bruto. O Censo de 2010 registrava uma
população total de 932.748 pessoas vivendo na capital alagoana, que tem
sua base econômica voltada para agroindústria açucareira (IBGE, 2012).

1
Habitus ver BOURDIEU, 2004.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 39
Fig. 01 |
Localização do
Município de
Maceió/AL. Fonte:
Base IBGE editada

Em boa parte dos anos de 1990 a cidade presenciou um declínio do setor


turístico, principalmente em função da concorrência de outras capitais nor-
destinas, bem como em virtude de problemas econômicos que afastaram os
investimentos no setor. Entre 1990 e 1996 todas as capitais do Nordeste
tiveram crescimento no número de turistas, exceto Aracaju e Maceió.
Com início do PRODETUR/NE o estado de Alagoas e a Prefeitura de
Maceió viram a oportunidade de mudança no quadro de retração do
setor turístico.

Fig. 02 |
Investimentos
turísticos Maceió/
AL. Fonte: autores

O palco de convergência das ações do PRODETUR/NE em Alagoas cen-


trou-se no município de Maceió, mais especificamente no projeto de
revitalização do centro histórico do bairro do Jaraguá, onde as interven-
ções físicas mais se fizeram sentir. Complementarmente foram imple-

40 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mentadas ações ao longo das orlas dos bairros Pontal da Barra, Trapiche,
Prado e Centro, cuja principal ação foi a recuperação e urbanização da
Avenida Assis Chateaubriant (que corta tais bairros), bem como as inter-
venções realizadas pelo município nas orlas de Pajuçara, Ponta Verde e
Jatiúca. Estas últimas, sem recursos do PRODETUR/NE (fig.02).
O montante de recursos aplicados no Estado, considerando desem-
bolsos e contrapartidas, foi da ordem de US$ 7 milhões.

2.1. Jaraguá
O Jaraguá foi o principal beneficiário dos investimentos do PRODETUR
no Estado. O Bairro apresentava-se como uma oportunidade de diversi-
ficação dos produtos turísticos de Maceió, por possuir condições ímpa-
res em termos de ambiente urbano no contexto municipal. A área
engloba um dos principais marcos da cultura da cidade, com edificações
relacionadas à atividade portuária que, aproveitando a qualidade do
ancoradouro natural, foi responsável pelo primeiro desenvolvimento
econômico do município. Sua localização lindeira ao mar conferia ao
bairro a possibilidade de potencialização deste recurso natural tão pro-
pício a uma série de atividades de lazer.
Este fato considerou ainda ser uma forma de diversificação do pro-
duto turístico oferecido não mais baseado no binômio praia-sol, incor-
porando o potencial ambiental expresso pelo patrimônio edificado do
Bairro que poderia atuar como atração turística, oferecendo aos visitan-
tes uma opção cultural de entretenimento.
O projeto de revitalização do bairro buscava a criação de novas áreas
turísticas através do regaste do patrimônio histórico, provisão de sane-
amento, preservação de ecossistemas marinhos e melhorias das condi-
ções de acesso à praia e ao bairro. Tais objetivos foram buscados por
meio da confecção de vários subprojetos integrados, entre eles: Reurba-
nização da Vila dos Pescadores (fig 03); Sistema Viário da Área Interna
do Bairro do Jaraguá; Saneamento do Canal Reginaldo/Salgadinho (fig.
03); e Tratamento de Destino final do Lixo.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 41
Fig. 03 | Jaraguá; Vila dos Pescadores e Canal do Salgadinho. Fonte: Acervo UEM,
adaptado pelos autores

A implantação dos projetos propiciou a criação de aproximadamente


oito mil empregos diretos e indiretos durante a execução das obras
(ABREU, 2005). Após sua implantação foram abertos 41 novos empreen-
dimentos no bairro, entre agências de viagens, restaurantes, dancete-
rias, museus etc.
As ações do componente Patrimônio Histórico viabilizaram a recupe-
ração dos principais prédios localizados no bairro, valorizando os imóveis
e melhorando a qualidade paisagística e ambiental da área (fig. 04).

Fig. 04 | Recuperação do ambiente urbano Jaraguá. (Sentido horário): Rua Sá e


Albuquerque; Associação Comercial; Praça Dois Leões; Museu da Imagem e do Som.
Fonte: arquivo dos autores

42 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Segundo o Plano de Desenvolvimento do Turismo do Polo Costa dos
Corais, a evolução comparativa do preço do metro quadrado dos imóveis
localizados no bairro, em termos de liquidez mercadológica por estado
de conservação, sofreu crescimento considerável após os investimentos.
Como se pode observar, as inversões realizadas trouxeram nova
ambiência ao bairro, revertendo-se numa melhoria da qualidade
ambiental e valorização imobiliária.

2.2. Pontal da Barra, Trapiche, Prado e Centro


Como forma de facilitar o acesso ao Bairro do Jaraguá e interligar de maneira
mais eficiente a cidade de Maceió às praias do litoral sul alagoano, foram
realizados investimentos na reurbanização da Avenida Assis Chateaubriant,
que na parte central da cidade recebe o nome de Avenida Duque de Caxias.
Esta Avenida estende-se dos limites do Bairro do Jaraguá até o Bairro Pontal
da Barra, passando pelas orlas dos Bairros Centro, Prado e Trapiche.
As intervenções propostas para a área foram de ordem viária, com
ampliação de vias e relocação da ciclovia. Além disso o projeto propôs a
recuperação de toda a pavimentação das calçadas da praia, substituição
de bancos, colocação de novos abrigos de ônibus e recuperação de jardi-
neiras de forma que esta área, em termos de infraestrutura e mobiliário,
se equiparasse com as orlas já consolidadas do município (fig. 05).

Fig. 05 | Reurbanização Av. Assis Chateaubriant e orlas Prado, Trapiche e Pontal da


Barra. Fonte: arquivo dos autores

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 43
Os investimentos do PRODETUR/NE nos bairros deram uma nova
dimensão ao local. Além das alterações físicas, alterações na dinâmica
comportamental e de uso foram bastante sentidas, tornando-o uma
área de lazer e cultura, pelo menos inicialmente, e transformando-a no
mais novo território turístico em expansão do município.

2.3. Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca


Os investimentos em benefício da atividade turística no estado de Ala-
goas não ficaram restritos às ações do PRODETUR/NE. O volume de
investimentos públicos extra PRODETUR que, direta ou indiretamente,
beneficiou a atividade turística chegou à R$102.000,00 mil no ano de
2001. Além destes recursos, cerca de R$35.000,00 mil foram investidos
pela iniciativa privada em equipamentos turísticos no município, no
ano de 2002 (ABREU, 2005).
A melhoria da infraestrutura provida por meio das intervenções
públicas e aumento do fluxo turístico beneficiaram outros territórios
turísticos já consolidados na cidade, como a orla marítima dos bairros
Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca e outras que receberam grande volume de
investimentos privados, com abertura, reforma e ampliação de hotéis,
pousadas, restaurantes etc. (fig. 06)

Fig. 06 | Vistas orlas Pajuçara, Jatiúca e Ponta Verde (sentido horário). Fonte:
SETUR/AL

44 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
As intervenções do PRODETUR associadas àquelas empreendidas pelo
poder municipal na orla maceioense intensificaram o uso turístico da
capital alagoana que passou a constituir-se como territórios turísticos
por excelência.

3. Análise socioeconômica das ações


Tanto as ações de revitalização do patrimônio histórico como a urbaniza-
ção da orla da Avenida Assis Chateaubriant, em termos paisagísticos
caracterizam-se pelo “lugar comum”. São obras semelhantes às empreen-
didas em outras localidades nordestinas e brasileiras. Fachadas históricas
multicoloridas, abertura de bares, reutilização de espaços como centros
culturais e museus, orla com quiosques; enfim, o repertório já tradicional-
mente conhecido e repetido em várias localidades, mas que caracterizam
estas novas áreas como espaços de exceção no contexto da cidade.
É visível o tratamento diferencial em relação ao entorno construído. A
forma física destes territórios demonstra o empenho, concentração e con-
jugação de esforços na transformação de paisagens em função do turismo.
O discurso oficial segundo o qual tais investimentos reverter-se-ão
em benefícios para a população local não é de todo verdadeiro. Muitas
áreas litorâneas abrangidas pelas ações governamentais têm sua ocupa-
ção por populações de baixa renda (pelo menos é o que se aplica ao caso
do município de Maceió), e que tinham sua atividade principal baseada
na região, como vilas remanescentes de pescadores, ex-trabalhadores de
áreas portuárias que com a decadência de suas atividades acabaram por
permanecer nestas regiões “esquecidas” e menos valorizadas.
As melhorias trazidas com as ações governamentais e com a rede de
agentes, de fato são implementadas, mas visando não a população resi-
dente e sim o incremento de receitas trazidas pelos turistas. A popula-
ção local não dispõe de recursos para desfrutar das melhorias em função
do baixo padrão de renda (aumento do IPTU, aumentos dos custos dos
serviços etc.).
Nem mesmo as intervenções previstas na Vila dos Pescadores, no
Jaraguá, foram realizadas a contento. O impasse entre grupos favoráveis
à remoção das famílias da área e outros favoráveis à manutenção dos
pescadores no local, prejudicou o andamento das propostas. Hoje,

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 45
embora, tenha-se optado pela manutenção da maior parte da população
na área, os caminhões de coleta de lixo e ambulâncias continuam a não
ter acesso ao interior da comunidade, bem como o acesso à água potável
e ao esgotamento sanitário é praticamente inexistente (ABREU, 2005).
Além disso, a “invasão” de turistas no local, associada aos altos cus-
tos, acabou por ditar um padrão de uso na área o qual afasta cada vez a
população local, que sem condições em investir na atividade, fica rele-
gada a trabalhos informais, como a venda de balas e chicletes aos turis-
tas frequentadores dos bares no período noturno.
Assim também acontece nos territórios turísticos já consolidados da
cidade, como a orla de Pajuçara e Ponta Verde, onde a massa de frequen-
tadores é composta por turistas e grande parte da população não usufrui
das benfeitorias.
Neste sentido à medida que algumas áreas do espaço urbano vão
sendo “turistificadas”, outros problemas de natureza social e ambiental
se intensificam, interferindo nas atividades de lazer dos residentes, que
acabam por se deslocar para outras áreas. As causas podem ser atribuí-
das ao aumento da prostituição, violência, poluição das praias e pro-
cesso inflacionário nos territórios turísticos.

Considerações Finais
À luz do aporte teórico e do estudo empírico, o que se observou no caso
exemplar é que a (re)produção e (re)organização espacial para a ativi-
dade turística têm consolidado toda a orla municipal em um território
turístico contínuo, com impactos significativos à população local, em
termos econômicos, sociais e simbólicos. Espera-se que as discussões
apresentadas neste trabalho, a partir das observações e análises realiza-
das, possam contribuir para ampliar as discussões e considerações na
formulação ou reformulação de políticas públicas relacionadas à ativi-
dade turística bem como ao fórum de discussão deste eixo temático, de
modo a propiciar desdobramentos práticos e teóricos que promovam
uma maior conscientização dos impactos advindos da promoção do
turismo, para além daqueles que consideram apenas os benefícios para
a atividade em si.

46 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Bibliografia
ABREU, Luciano Muniz. Territórios turísticos e o desenho da paisagem
urbana litorânea no nordeste brasileiro: uma análise de projetos de
urbanização financiados pelo Programa de Desenvolvimento do
Turismo no Nordeste do Brasil (PRODETUR/NE). Dissertação (Mestrado
em Arquitetura) – ProArq, UFRJ. Rio de Janeiro, 2005.
________. Uma “Viagem” de Inclusão: Turismo, Desenvolvimento e Territó-
rio. Tese (Doutorado em Planejamento Urbano e Regional). Rio de Janeiro:
UFRJ/IPPUR – 2010.
BOURDIEU, Pierre. Estrutura, habitus e prática. In BOURDIEU. Economia
das trocas simbólicas. 5 ed. São Paulo: Perspectiva: 2004.
CRUZ, Rita de C.A. da. Introdução à geografia do turismo. São Paulo: Roca,
2003.
IBGE. Censo Demográfico – 2010. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística, 2012.
MILAGRES, Vanessa Rios; SOUZA, Lucas Barbosa. Ensaio sobre a paisagem e
o turismo: uma viagem além das disciplinas. Revista Geografia. v.21, n,.1.
UEL: Londrina, 2012.
PELLINI, José Roberto. Paisagens: práticas, memórias e narrativas. Revista
Habitus. v.12, n.1 PUC-Goiás. Goiânia, 2014.
PORTUGUEZ, Anderson Pereira. Consumo e Espaço – Turismo, Lazer e
Outros Temas. São Paulo: Roca, 2001.
SETUR/AL, Secretaria de Turismo de Alagoas. CD Imagens de Alagoas. Docu-
mento Iconográfico. Maceió: SETUR/AL.
TUAN, Yi-Fu. Espaço e Lugar. A perspectiva da experiência. São Paulo:
DIFEL, 1983.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 47
Novas possibilidades econômicas, sociais
e culturais em áreas informais das cidades:
O desenvolvimento do turismo em favelas
cariocas entre 2008 e 2016.
SERGIO MOR A ES R EGO FAGER L A NDE
Prof. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio de Janeiro,

Programa de Pós-graduação em Urbanismo Prourb/FAU-UFRJ

Resumo
O turismo nas favelas cariocas teve inicio oficialmente com as visitas
realizadas na Rocinha, em meio à conferência da ONU para o desenvol-
vimento, a Eco 92. Um novo ciclo de eventos mundiais ocorridos no Rio
de Janeiro, como parte da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos
Olímpicos e Paralímpicos de 2016 ocasionou uma série de investimentos
públicos na cidade, incluindo obras nas áreas de favelas, resultando em
significativas mudanças urbanas, entre as quais novos usos turísticos,
em especial os albergues nas favelas da Zona Sul carioca. Esse trabalho
apresenta resultados preliminares de pesquisa em andamento sobre
turismo, mobilidade urbana e ambiente, em que são mapeados os luga-
res do turismo nas favelas do Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, Babilônia-
-Chapéu Mangueira, Vidigal, Dona Marta e Rocinha. Vem sendo pesqui-
sados os albergues, bares, parques e áreas de lazer como mirantes e
trilhas ecológicas, além de percursos turísticos existentes, em uma rela-
ção com a mobilidade urbana de seus moradores e visitantes. São ativi-
dades que trazem modificações nas dinâmicas internas desses lugares, e
por isso devem ser estudadas, mostrando como o turismo pode ser um
instrumento de mudança no processo atual de segregação urbana.

Palavras-Chave
Turismo em favelas, áreas informais, Rio de Janeiro, albergues em favelas.

48 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. Introdução
Esse artigo é parte de pesquisa em andamento sobre turismo, mobilidade
urbana e ambiente em favelas do Rio de Janeiro. O turismo tem sido uma
atividade relevante na cidade do Rio de Janeiro, e essa atividade em fave-
las vem se desenvolvendo de maneira bastante intensa. A partir de pes-
quisa sobre a relação entre a instalação das UPPs, iniciada em 2008, e as
grandes obras de mobilidade urbana realizadas para os eventos esportivos
realizados na cidade, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos
e Paralímpicos de 2016, verificou-se o crescimento de atividades ligadas
ao turismo em comunidades atingidas por esses projetos.
O turismo em favelas se desenvolveu no Rio de Janeiro a partir da Eco
92 (Rio Conference on Environment and Sustainable Development), em
que alguns de seus participantes visitaram a favela da Rocinha (FREIRE-
-MEDEIROS, 2009, p. 51.). A atividade teve impulso a partir do Projeto
Rio Top Tour, implantado na Favela Santa Marta em 2008 (RODRIGUES,
2014, p.22), e das obras de mobilidade urbana em favelas.
Ao se iniciar a pesquisa sobre turismo em favelas buscou-se autores
como Urry (2001 [1990]) e Judd e Fainstein (1999), que mostram a relação
entre mobilidade urbana, turismo e cidade. As atividades turísticas em
favelas têm interessado a pesquisadores de diversos países, como Fren-
zel, Koens e Steinbrink (2012), que estudam o fenômeno em todo o
mundo. Freire Medeiros (2009) é pioneira no estudo desse tema no Rio
de Janeiro, ajudando a entender como ele se iniciou e vem se desenvol-
vendo, e Rodrigues (2014) trouxe importante estudo sobre o processo,
em especial na Favela Santa Marta. O turismo de base comunitária tem
no livro de Bartholo, Sansolo e Burstyn (2009) importante referência. A
participação de moradores e organizações não governamentais (ONG’s)
tem destaque no livro de Silva, Pinto e Loureiro (2012) que trata da atu-
ação do Museu de Favela (MUF) e do turismo comunitário na favela do
Cantagalo Pavão Pavãozinho.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 49
Figura 1 | Grupo de turistas na trilha ecológica, Cantagalo Pavão Pavãozinho
Fonte: foto do autor, 2016.

Ao lado da visitação, através de percursos pela favela ou por trilhas eco-


lógicas, o turismo se reflete na presença de bares e restaurantes ali ins-
talados e, sobretudo nos albergues, chamados pelos moradores locais de
hostels. O trabalho traz dados dessa pesquisa, realizada em cinco fave-
las da Zona Sul carioca, Santa Marta, Cantagalo Pavão Pavãozinho,
Babilônia Chapéu Mangueira, Vidigal e Rocinha. Foram mapeadas as
atividades através de visitas aos locais e através de sites de turismo e
hospedagem, como booking.com, tripadvisor, facebook, brazilian.hos-
telworld.com e reservehotelonline.com.br. O trabalho do SEBRAE, atra-
vés de seu Guia de Favelas (2015) e sites ligados às iniciativas locais mos-
tram interesse no tema, ainda que pouco desenvolvido ainda.

2. Turismo em favelas
O turismo em favelas sempre esteve ligado ao interesse pela pobreza.
Desde o século XIX as elites londrinas cultivavam a visitação em áreas
pobres da cidade escudadas na filantropia (SEATON, 2012, p. 25). A forte
imigração e a situação de penúria das comunidades estrangeiras em
Nova York logo se tornaram motivos para visitação de bairros pobres de
chineses, italianos (SEATON, 2012, p. 41). Nos tempos atuais esse pro-
cesso de interesse pela pobreza se tornou novo fator de relação do
turismo entre o Norte Global e o Sul Global, e o atual processo se iniciou

50 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
na África do Sul, ainda sob o regime do apartheid (STEINBRINK; FREN-
ZEL; KOENS, 2012, p. 1). O Brasil surge com pioneirismo nessa atividade,
com a Rocinha como pioneira em 1992, ao lado da África do Sul (FREI-
RE-MEDEIROS, 2006, p. 51).
A geração de renda para as populações locais é um dos maiores moti-
vos para que a atividade do turismo se desenvolva nesses lugares, apesar
de se tratar de algo bastante invasivo, se não houver o controle adequado
(STEINBRINK, FRENZEL E KOENS, 2012, p. 8). Nos dias de hoje o
turismo em favelas se espalha por países como Brasil, África do Sul,
Índia, Egito, Tailândia, Indonésia, Filipinas, Quênia, Namíbia, México,
Argentina e outros (STEINBRINK; FRENZEL; KOENS, 2012, p. 6). No
Brasil o Rio de Janeiro é onde ele tem maior desenvolvimento, com inte-
resse especial pelas favelas da Zona Sul carioca.

3. As favelas estudadas

Figura 2 | Localização das favelas estudadas na Zona Sul do Rio de Janeiro. Fonte:
Desenho do autor sobre Google Maps, 2017.

A pesquisa se iniciou em quatro favelas, duas na Zona Norte, Complexo do


Alemão e Providência, e duas na Zona Sul, Santa Marta e Cantagalo Pavão
Pavãozinho (FAGERLANDE, 2015). Apesar de grande movimentação tra-
zida pelo teleférico no Complexo do Alemão, ali e no Morro da Providên-
cia a insegurança tem ocasionado baixa movimentação turística.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 51
Dessa maneira o estudo se concentrou em favelas da Zona Sul, em
que se verificou grande movimentação de atividades turísticas, concen-
tradas nos circuitos culturais e turísticos, mirantes, trilhas ecológicas,
eventos ao ar livre, na presença de bares e restaurantes destinados ao
turismo, ainda que em número pequeno, e em um número considerável
de albergues. Para a pesquisa foram escolhidas favelas em encostas pró-
ximas ao mar e vizinhas de bairros com turismo já consolidado, como
Ipanema, Copacabana, Leblon e São Conrado. Dessa maneira, ao lado de
Santa Marta e Cantagalo Pavão Pavãozinho foram estudadas as favelas
de Babilônia Chapéu Mangueira, Vidigal e Rocinha.

3.1 Hospedagem nas favelas: os albergues


A pesquisa inicial logo demostrou a existência de grande numero de
albergues, chamados de hostels nas comunidades, num total de 86
empreendimentos. Esse número é variável, pois são atividades em geral
desenvolvidas de maneira bastante informal, o que foi constatado
durante a pesquisa, com empreendimentos que abriram ou fecharam.

Favela Albergues/Hostels
Santa Marta Hostel Favela Scene Casa dos Relogios / Hostel Bosque Santa Marta
1
(3 unidades) / Favela Top Tour

Pura Vida Hostel /Blue Ocean Hostel /Hostel Rio Pousada /Casa do
Estudante / Casa Mosquito / Colinas Residência / Abbey of Design /
Casa del Angel (Pousada del Angel) / Pousada Dona Julia
Cantagalo Pavão
Copacabana / Copa Green Hostel / Pension D. Olga / Club House
2 Pavãozinho
Rio / Caixa Preta / Pousada Favela Cantagalo / Chateau Hostel Rio /
(21 unidades)
Tiki Hostel Cantagalo / Homestay Girassol / Casa de Cris / Vizu do
Galo / Home Hostel Cantagalo / Hostel do Rocha / Simone Home
Hostel

Le House / Toninho House / Lisetonga Hostel / Aquarela do Leme


Hostel / Casa Babilônia / Chill Hostel Rio / Babilônia Rio Hostel /
Babilônia Chapéu
Mar da Babilônia / Hostel Carioquinha / Jardim da Babilônia /
3 Mangueira
Rufino Hospedagem / Hostel Brasil Afro in Favela / Pousada
(17 unidades)
Estrelas da Babilônia / Green Culture Eco Hostel / Abraço Carioca
Favela Hostel / Chapéu do Leme Guesthouse / Favela Inn Hostel

52 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Casa Maravilha / Vidigalbergue / Farol do Leblon / Ocean Inn Rio
Leblon / Castelinho Vidigal / Solar Chácara Hostel Vidigal / Casa da
Chácara / RDZ Vidigal Hostel / Hostel Novo Lar / Aloha Club
Hostel / Hotel do Vidigal / Hill Hostel / Hostelzinho Vidigal /
D’Angelo Cama & Café / Hostel Bella Mar e Sol / Cantão Vidigal
Bed & Breakfast / Rio Sport Hostel / Favela Experience / Hostel
Vidigal
4 Vidigalhouse / Hostel Sol e Mar / Jean Pierre Hostel / Hostel Rojan
(35 unidades)
– Vidigal / Vidigalbergue Rio Hostel / Hostel Vista do Mar / Hostel
Porto Vidigal / Varandas do Vidigal Hostel & Lounge / Natural Do
Rio Guest House / Favela Experience Tamo Junto Hostel / Vidigal
Sea View Apartment / Pousada Kasa Dos Micos / Vidigal Guest
House / Da Laje Hostel / Mirante do Arvrão / Casa Alto Vidigal /
Favela Nova Maison

Ghetto Rocinha Hostel / Hostel Rocinha / Hotel Boa Viagem /


Rocinha Albergue Fenix Rocinha / Hostel Roupa Feliz / The gringo house /
5
(10 unidades) Boutique Hotel Gávea Tropical / La Maison by Dussol / Luxury
Gávea Bed & Breakfast / Guesthouse Anita

Tabela 1 | Lista de albergues. Fonte: Realizado pelo autor, 2017

Uma análise da localização desses empreendimentos mostra certas caracte-


rísticas comuns entre as favelas estudadas. Parte dos albergues se situa em
áreas de entorno dessas comunidades, como ruas de acesso ou vias das
malhas urbanas tradicionais junto às favelas. É o caso da Rua Saint Romain,
entre Copacabana e Ipanema, principal via de acesso ao Cantagalo Pavão
Pavãozinho. Antigas residências se tornaram albergues, em um processo de
contaminação positiva de áreas em
processo de degradação em que
novas possibilidades de uso turístico
trouxeram melhorias urbanas
(FAGERLANDE, 2016). Na favela do
Vidigal isso ocorre na Avenida Nie-
meyer, na Babilônia Chapéu Man-
gueira na Ladeira Ari Barroso (figura
3) e na Rocinha na Estrada da Gávea
e em ruas tanto da Gávea como de
São Conrado, próximas à favela.

Figura 3 | Albergue na Ladeira Ari


Barroso, Babilônia Chapéu Mangueira.
Fonte: Foto do autor, 2016

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Figura 4 | Albergue no Vidigal. Fonte: Foto do autor, 2016.

3.2 A presença de bares e restaurantes


Ao lado de albergues, a presença de bares e restaurantes é bastante
importante, mesmo que ainda reduzida. O mais famoso desses bares é o
Bar do David (figura 5), no Chapéu Mangueira, com sua comida de
boteco, premiada e que atrai visitantes de toda a cidade. Sua localização,
junto a via pavimentada, possibilita o acesso motorizado explicando em
parte a atração que ele exerce.

Figura 5 | Bar do David, na Favela Chapéu Mangueira. Fonte: Foto do autor, 2016

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Na Babilônia, parte do mesmo conjunto de favelas, podemos encontrar
o Bar do Alto, que mesmo em meio à favela tem grande movimento de
turistas. Outras favelas têm atrações como o bar Gilda no Cantagalo, na
favela de mesmo nome, ou o Bar da Laje, no Vidigal. Esses locais aprovei-
tam a paisagem do alto dos morros para atrair turistas, mas o recrudes-
cimento da violência, em especial no Cantagalo Pavão Pavãozinho, difi-
culta a manutenção desses lugares em atividade.

3.3 Favela, turismo e ambiente: percursos, parques, mirantes,


jardins e trilhas ecológicas
A visitação guiada é um dos maiores atrativos do turismo em favelas. Ao
lado de visitas realizadas por agências de fora das favelas, a maior parte
das favelas estudadas tem circuitos de visitação com guias locais muitas
vezes relacionados com ONG’s. Nesse caso pode ser incluído o Museu de
Favela, com seu Circuito de Casas Tela (figura 6), que oferece um percurso
pelo Cantagalo Pavão Pavãozinho, em que grafites realizados nas paredes
das casas de moradores buscam relacionar fatos da história local com os
moradores, reforçando a identidade da favela e de seus habitantes (PINTO;
SILVA; LOUREIRO, 2012). Uma trilha ecológica no alto do morro reforça o
caráter de preservação ambiental ligado ao turismo nessas comunidades.

Figura 6 | Circuito das Casas Telas, no Cantagalo Pavão Pavãozinho. Fonte: Foto do
autor, 2014

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Na Babilônia a CoopBabilônia exerce papel semelhante, com guias locais
oferecendo tours pela comunidade ou pelas trilhas ecológicas locais. O
trabalho do grupo incluiu importante participação no reflorestamento
de morros em toda Copacabana, estimulado por parcerias entre o poder
público, a comunidade e a iniciativa privada.
O trabalho do Sitiê no Vidigal, parque criado por moradores da comuni-
dade no local de antigo depósito de lixo impressiona, ao mesmo tempo em
que preocupa por estar atualmente em processo de suspensão de atividades
por problemas de segurança de seus empreendedores. Ali a trilha que liga ao
alto do Morro dos Dois Irmãos, passa por dentro da comunidade e é local de
passeio da população carioca e de turistas, que afluem em grande número.
Todas essas favelas têm mirantes de onde o turista vislumbra a paisagem
da cidade, como a Laje Michael Jackson, na favela Santa Marta, onde foi eri-
gida estátua do artista que ali esteve filmando um clipe em 1996 (RODRI-
GUES, 2014, p. 26). Na favela da Babilônia o mirante é um dos locais onde se
desenvolvem as atividades dos Jardins Suspensos da Babilônia, evento artís-
tico que anualmente traz grande número de visitantes ao morro. No Canta-
galo o mirante no topo do elevador que liga a estação de metrô General Osó-
rio ao alto do morro simboliza os investimentos públicos ali realizados para o
incremento do turismo. Outros mirantes no meio da favela mostram mais
uma vez a relação da paisagem com o turismo e os percursos ali possíveis.

4. Considerações finais
O Rio de Janeiro, seguindo um processo global em que teve protagonismo
desde o inicio em 1992, tem sido palco de novas possibilidades urbanas
trazidas pela presença do turismo em favelas. O surgimento de grande
número de albergues nas comunidades da Zona Sul carioca, tanto no inte-
rior de suas malhas urbanas como no entorno, em ruas de acesso gerando
uma contaminação positiva desse processo para a cidade, fez com que
essas atividades tivessem importância não somente para as favelas, mas
também para os bairros vizinhos. Bares e restaurantes somente reforçam
essa sensação de pertencimento tanto para os moradores das favelas como
dos habitantes das outras áreas da cidade que passam a visitar esses locais
por muito tempo excluídos do mapa da cidade.

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A visitação guiada, com percursos culturais, turísticos e ecológicos
reforça a importância para o empoderamente e geração de renda nas
favelas estudadas. A relação com as áreas de mata e trilhas ecológicas
mostra como o turismo e sua relação com as populações locais através
de ONG’s pode trazer ganhos tanto para seus moradores como para toda
a cidade, ajudando a preservar a natureza e as encostas.
O turismo pode ser um instrumento para aumento da relação entre
as favelas e a cidade formal, contribuindo para trazer melhorias não
somente para os moradores desses lugares, mas de toda a cidade.

5. Referências bibliográficas
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Turismo de Base Comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras.
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nal de Turismo e Cultura. Fundação Casa de Rui Barbosa, 2016.
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JUDD, Dennis R.; FAINSTEIN, Susan (ed.). The Tourist City. New Haven e Lon-
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Kátia Afonso Silva. (org). Circuito das Casas-Tela: Caminhos de vida no Museu
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RODRIGUES, Mônica. Tudo junto e misturado: o almanaque da favela: turismo na
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URRY, John. O olhar do turista. Lazer e viagens nas sociedades contemporâneas.
3.ed. São Paulo: Editora Studio Nobel, 2001.

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www.tripadvisor Acesso em 16 de janeiro de 2017
www.facebook Acesso em 16 de janeiro de 2017
www.brazilian.hostelworld.com Acesso em 16 de janeiro de 2017
www.reservehotelonline.com.br Acesso em 16 de janeiro de 2017
CoopBabilônia. Disponível em <http://coopbabilonia.blogspot.com.br/> Acesso
em 20 de janeiro de 2017.

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O Cristo Redentor, o turismo e o bairro carioca
do Cosme Velho
LUIZ PAULO LE A L
Mestre em Urbanismo pelo ProUrb, pesquisador associado ao Laboratório de Patrimônio

Cultural e Cidades Contemporâneas-LAPA da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Resumo
Por ser o principal acesso ao monumento mais visitado do país, mas
contando com vias estreitas e poucas alternativas de circulação, o bairro
carioca do Cosme Velho vem sofrendo com a ampliação das atividades
comerciais relacionadas ao turismo.
Essas atividades muitas vezes não consideram o caráter residencial
da localidade, dotada de diversos casarões centenários que motivaram a
criação de uma Área de Proteção Ambiental, instituída pelo governo
local visando a proteção do ambiente natural e dos conjuntos edificados
mais significativos do ponto de vista arquitetônico e urbanístico.
Por outro lado, o governo local vem se caracterizando por uma atitude
complacente no que se relaciona ao controle das atividades que envolvem
as visitações, e principalmente no que se refere às propostas de reformu-
lação da infraestrutura existente, pleiteadas pelos agentes privados que
prestam serviços relacionados às atividades turísticas que ocorrem no
Parque Nacional da Tijuca, onde se situam o monumento ao Cristo e o
antigo Hotel Paineiras, hoje um centro turístico-comercial, cujo impacto
sobre o ambiente natural foi muito contestado por especialistas.
Considerando esse contexto, o presente trabalho pretende recapitular a
história local, avaliar a legislação em vigor e resgatar as principais manifes-
tações e os diversos movimentos reivindicatórios da população residente.

Palavras-Chave
Patrimônio; turismo; cultura; preservação; urbanismo.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 59
Introdução
Localizado junto ao monumento dedicado ao Cristo Redentor, na cidade
do Rio de Janeiro, o bairro do Cosme Velho, um dos mais antigos da
cidade, recebe diariamente um grande fluxo de turistas em direção a este
que é o monumento mais visitado do Brasil, que chega a receber mais de
1,5 milhões de visitantes por ano, segundo a pesquisa ‘Demanda Turística
Internacional’, divulgada pelo Ministério do Turismo brasileiro (2015).
Situado em um estreito vale, por onde corre o rio mais emblemático
da cidade, o Rio Carioca, que emprestou seu nome aos seus habitantes,
o bairro acomoda a estação inicial da Estrada de Ferro do Corcovado, a
primeira do país dedicada a fins turísticos, cuja estação final se encontra
localizada no alto do morro do Corcovado, no qual se situa a famosa
estátua criada pelo escultor Paul Landowski.
Entre os trabalhos consultados podemos destacar os trabalhos de
Vianna (1993); Gonçalves (2004); Schlee, Cavalcanti & Tamminga (2007);
Ramos (2008); Pougy (2009); Freire-Medeiros & Castro (2013), Perrota
(2013) e o de Cavalcanti (2017).

Antecedentes
Desde a chegada dos europeus à Guanabara, o pico do Corcovado, onde
hoje se situa o monumento dedicado ao Cristo Redentor, despertava
curiosidade e admiração, servindo como referência para os navegadores
e habitantes desde então.
Ainda no século XVII se dariam as primeiras ocupações do vale do
Rio Carioca, inicialmente para atividades agrícolas visando o abasteci-
mento da cidade, e posteriormente também para lazer e residência das
classes mais abastadas, que progressivamente passariam a utilizar a
região. (Vianna, 1993)
A Quinta de Cosme Velho, que deu origem ao bairro, foi demarcada pela
Câmara Municipal em 1727 para concessão do aforamento da área ao cida-
dão conhecido como Cosme Velho Pereira. (Gonçalves, 2004 [1949]: 75, 76)
O desmembramento da Quinta em 1822, após sua morte, deu início a
uma nova etapa na história da região, que passou a receber paulatina-
mente novos habitantes de maior poder aquisitivo, atraídos pelo
ambiente ameno do vale. Também contribuiu para tal fato a introdução

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do cultivo do café no país e a ação oficial que destruiu o afamado Qui-
lombo do Corcovado em 1829 (Cavalcanti, 2017: snp).
Desde a chegada da família real portuguesa, no início do século XIX,
o vale já funcionava como local de passeios e cavalgadas para a aristo-
cracia lusitana, incluindo a própria Rainha D. Maria I, a princesa Carlota
Joaquina e o príncipe herdeiro, que promoveria as primeiras incursões
ao Pico do Corcovado. Dom Pedro I mandaria abrir e melhorar cami-
nhos em 1827, além de promover a construção de um posto do telégrafo
no local, conforme documentou Debret (1839).

Figura 1 | Entrada do Vale, Thomas Ender, 1818, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Em 1831, começou a se constituir o mais valioso patrimônio edificado da


localidade, o ‘Largo do Boticário’, que, somado a alguns casarões neo-
clássicos do início do século XIX, compõem a paisagem cultural do
bairro ainda hoje, formando um ambiente notável, que conjuga cidade e
natureza. As edificações do local, apesar de terem sofrido muitas modi-
ficações, com introdução de diversos materiais provenientes de demoli-
ções ocorridas em grandes obras urbanísticas no centro da cidade no
início do século XX, ainda correspondem ao seu caráter original, emol-
durando o largo e atraindo a atenção dos transeuntes.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 61
A paisagem bucólica e romântica que se criou nesse período se man-
teve praticamente inalterada até a introdução dos bondes na cidade, em
1869, quando a Rua Cosme Velho foi calçada em paralelepípedos e assu-
miu ares urbanos.
Posteriormente, as atividades recreativas se intensificaram no vale,
com a inauguração da Estrada de Ferro do Corcovado em 1884, quando
outro tipo de habitante, mais cosmopolita, passou a frequentar a locali-
dade das ‘Águas Férreas’, como era conhecido o Cosme Velho até meados
do século XX. O empreendimento, idealizado por Pereira Passos1, o pri-
meiro da América Latina com fins turísticos envolvendo uma ferrovia
(Perrota:41), contava também com o Hotel Paineiras, situado em meio à
floresta. Mesmo sem que o negócio conseguisse se viabilizar financeira-
mente naquela ocasião, a ferrovia marcou a localidade e passaria a ser um
dos principais atrativos turísticos da cidade, principalmente após a eletri-
ficação em 1910 e a canalização do Rio Carioca nessa mesma década.

Figura 2 | O Largo do Boticário na ‘Planta da Cidade do Rio de Janeiro’, 1870, Fl. 57,
Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

1
Francisco Pereira Passos ficou conhecido posteriormente pelas reformas que
promoveu no Centro da Cidade de 1902 a 1906, como prefeito do Distrito Federal, com
implantação da Avenida Central e do porto moderno carioca.

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Figura 3 | Foto:
Marc Ferrez,
‘Águas Férreas’,
1886, Coleção
Gilberto Ferrez.

Com a construção do monumento ao Cristo Redentor, inaugurado em


1932, sua importância turística ficou mais evidente e o bairro passa a
receber um número crescente de visitantes com destino ao santuário. A
pavimentação da estrada das Paineiras e a construção da estrada do
Corcovado (1936) ampliariam ainda mais a acessibilidade ao monu-
mento, que também sofreria em seguida obras de melhorias nas escada-
rias de acesso e nos mirantes, além de ganhar uma laje na sua base a
título de estacionamento (1943-45).
Ao contrário do vizinho bairro das Laranjeiras, que havia se popula-
rizado desde 1880 pela presença da fábrica de tecidos Aliança, a locali-
dade das Águas Férreas se sofisticou após a proclamação da República e
diversas edificações ecléticas e de alto padrão foram introduzidas.
Essa situação permaneceu até a década de 1940, quando o grande
crescimento da cidade alcançou o antigo arrabalde e as primeiras edifi-
cações verticalizadas começaram a substituir as construções tradicio-
nais, após a desativação da fábrica Aliança em 1938.
Mas o golpe mais duro desferido pela modernidade na estrutura
urbana local seria a construção do túnel Rebouças na década de 1960,
uma via rodoviária expressa, que atingiu a sua parte mais alta e estabe-
leceu uma conexão direta entre as Zonas Sul e Norte da Cidade, trans-
formando o eixo formado pelas ruas Cosme Velho e Laranjeiras em uma
via de passagem com tráfego intenso.

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Com a facilidade de acesso, os antigos sobrados e casarões passaram
a ser cobiçados pelas grandes incorporadoras, que implantaram diversos
edifícios de apartamentos, densificando o estreito vale e por consequên-
cia trazendo sérios problemas de circulação, pela introdução dos auto-
móveis e eliminação dos bondes (carris).
A implantação de empreendimentos imobiliários e do túnel também
incentivou indiretamente a ocupação irregular, pois os trabalhadores
com baixa remuneração contratados para essas obras buscaram moradia
nas áreas disponíveis localizadas nas encostas mais próximas, como
aconteceu em toda a cidade. É desse período a densificação das favelas
na região, com forte presença na paisagem do bairro, principalmente
para quem circula em Santa Teresa em direção ao Corcovado e às Painei-
ras, de onde são visíveis em toda sua dimensão.

Figura 4 | O Cosme Velho visto de Santa Teresa, 2015, foto do autor.

Não menos importante foi a transformação por que passou a ferrovia no iní-
cio da década de 1970, quando, após o fim da concessão, foi estatizada e sofreu
um longo e custoso processo de modernização, período em que seu funciona-
mento ficou prejudicado. Esse processo culminaria com a sua privatização
novamente, agora através de uma concorrência pública para arrendamento
dos serviços, realizada em 1984, ano em que completou cem anos.

64 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Também nesse período (1970-85), o bairro sofreria várias modifica-
ções na infraestrutura urbana para sua adaptação ao automóvel, com
implantação de um terminal para ônibus, redução das calçadas, pavi-
mentação asfáltica e adaptação (quase destruição) da única praça para
receber os ônibus de turismo, que frequentemente complicam a circula-
ção na Rua Cosme Velho.
A multiplicação dos problemas relacionados com a modernização e
densificação dos bairros mais antigos da cidade acabou por desembocar
em fortes movimentos sociais em defesa dos antigos casarões na década
de 1980. Esses movimentos acabaram sensibilizando a nova geração
política que ganhava terreno após a redemocratização do Brasil ocorrida
naquela década. Em 1977, uma mudança significativa na legislação urba-
nística do trecho final da rua Cosme Velho já espelhava essa mudança de
mentalidade em relação ao bairro, ao restringir os usos nesse logradouro
através do zoneamento, que passou a admitir naquele local apenas resi-
dências unifamiliares.

Figura 5 | Jornal
do Brasil,
01/11/1991.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 65
A Proteção Ambiental e Cultural
Como decorrência da mobilização popular, seriam protegidos legal-
mente a estação da ferrovia (1985), o Largo e o Beco do Boticário (1986);
e criada a Área de Proteção Ambiental do Cosme Velho em 1987 2 , que
incluiu uma listagem de mais de 100 edificações (de diversas épocas e
estilos arquitetônicos) no dispositivo legal que a institucionalizou. Essas
edificações foram protegidas, em sua maioria, através da figura do imó-
vel “preservado”, uma categoria de proteção mais branda, que considera
sobretudo o aspecto externo e paisagístico dos conjuntos urbanos.
A década de 1990 se caracterizou por uma retração nos empreendi-
mentos imobiliários e também nos movimentos sociais, que passaram a
ser absorvidos pelas agremiações e partidos políticos, reduzindo-se os
canais de participação efetiva da população, cada vez mais refém das
instituições privadas que mantêm interesse comercial na exploração da
ferrovia e do monumento dedicado ao Cristo.
O ponto positivo ficou por conta da recuperação plena das atividades
da Estrada de Ferro após a modernização, que voltou a ser um dos princi-
pais atrativos do Parque Nacional da Tijuca (PNT) e seu principal finan-
ciador, inclusive gerando recursos utilizados em outros parques brasilei-
ros. O principal ponto negativo no processo se refere à desorganização
que tomou conta do entorno da estação do Cosme Velho, cuja gestão cabe
à Prefeitura do Rio. No entanto, parte da responsabilidade pode ser atri-
buída aos gestores do PNT, pois a estação havia sido reformada, com
reformulação das oficinas, mas com ampliação dos espaços comerciais, o
que contribuiu para a concentração de turistas naquele ponto.
O Monumento ao Cristo sofreria diversas modificações para melhoria
de sua acessibilidade, com introdução de elevadores e escadas rolantes
(1999), que garantiram um crescimento permanente do número de visi-
tantes, mas que foram tornando a vida dos moradores do Cosme Velho
cada vez mais difícil, principalmente nos fins de semana e ocasiões de
maior apelo turístico, como eventos internacionais e na alta temporada.

2
A APA seria revisada através da Lei 1784 de 1991, que a detalhou e estabeleceu
algumas obrigações ao Poder Público, como a necessidade de um plano de circulação.

66 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Enquanto isso, o Hotel Paineiras permaneceria abandonado por mais de
vinte anos, após uma frustrada tentativa de revitalização através de uma uni-
versidade privada que havia assumido o arrendamento do local em 1984.
Já no século XXI, com o advento das redes sociais, os movimentos popu-
lares recrudesceram e a desorganização no entorno da Praça São Judas
Tadeu e da estação do Cosme Velho se transformou na principal querela
entre moradores e administração pública, que aí pode ser entendida como
Prefeitura + Instituto Chico Mendes-ICM-Bio, órgão federal responsável
pela gestão do Parque Nacional da Tijuca, incluindo a concessão da ferrovia.
A partir de 2001, o ICM-Bio promoveu várias modificações nos aces-
sos rodoviários ao monumento, reservando a estrada do Corcovado ao
tráfego de vans oficiais, que passaram a fazer com exclusividade a liga-
ção entre o Hotel Paineiras e o Alto do Corcovado. Na prática houve a
transferência da confusão que acontecia junto ao Cristo para o entorno
do Hotel, tornando a Estrada das Paineiras quase intransitável, pois a
baldeação obrigatória naquele ponto exigiu a formação de filas enormes
e a ampliação do espaço para estacionamento de veículos, que passou a
utilizar a própria via, dificultando a circulação, conforme bem docu-
mentou Ramos (2008).

Figura 6 |
Confusão nas
Paineiras, 2016,
Jornal O Globo
05/01/2016.pag.9.

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Outro ponto importante nas reivindicações dos moradores do Cosme
Velho se refere à recuperação da Praça São Judas, que era utilizada pelos
ônibus de turismo com apoio da Prefeitura, que havia inclusive implan-
tado baias de estacionamento para veículos, que ocupavam pratica-
mente toda a área daquele logradouro.
Também se tornou chave neste contexto o aproveitamento do termi-
nal de ônibus, que passou a ser foco das propostas de ampliação das
áreas comerciais destinadas ao turismo e dos estacionamentos destina-
dos a veículos particulares, um antigo problema que continua afligindo
as ruas residenciais do entorno. O que poderia parecer uma solução,
inclusive com o apoio de algumas associações de moradores, logo rece-
beria críticas contundentes de especialistas, pois a proposta foi enten-
dida como uma agressão à paisagem local, que não admite a presença da
tipologia shopping/edifício-garagem, e novos estacionamentos costu-
mam atrair mais veículos, ampliando o problema. (Ramos, 2008)
Paralelamente a empresa concessionária da ferrovia propôs a reforma
da Praça São Judas e, na prática, sua incorporação à área da estação atra-
vés de acessos e espaços comerciais subterrâneos, que levaria à elimina-
ção da arborização ali existente e do seu caráter como uma praça tradi-
cional de bairro.
Essas propostas foram fortemente combatidas, o que acabou por
obrigar a Prefeitura a se posicionar, promovendo a reforma da Praça
(2004) e sua reconversão em área de lazer passivo, com eliminação das
baias para estacionamento.
A partir de 2006, com o aumento da violência no bairro, um novo
movimento envolvendo diversas instituições locais (escolas, comercian-
tes, instituições culturais e associações de moradores) criou a ‘Rede
Social do Cosme Velho’ que organizou uma série de eventos culturais,
visando “valorizar a fabulosa história do bairro e de seus moradores;
otimizar o intercâmbio e a convivência de turistas e moradores; maxi-
mizar o potencial de geração de trabalho e renda no bairro”3.

3
Naquele ano diversas residências sofreram assaltos, alguns inclusive com agressões
a moradores, e foram divulgados com ênfase na imprensa, entre eles o que envolveu o
cineasta Zelito Viana e seu filho o ator Marcos Palmeira.

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A proposta ficou conhecida como ‘Corredor Cultural do Cosme Velho’4 e
previa a “implantação do projeto ‘Turismo por um dia’, criando atrativos
culturais e gastronômicos para a permanência do turista no bairro durante
o maior tempo possível; ações políticas, de caráter público ou privado, com
melhorias em trânsito, iluminação, calçadas, segurança, estacionamento
etc.; [e] estabelecimento de parcerias viabilizando os projetos”5. No entanto,
um projeto de ampliação das calçadas do bairro e reformulação do terminal
rodoviário, desenvolvido por parceiros do movimento, mas questionada
por muitos moradores, que viam interferências indevidas dos gestores da
ferrovia e da Prefeitura (que encampou parte das propostas), acabou por
pulverizar os esforços e desagregar a rede.6
Por fim, em 2009, com a perspectiva de realização de megaeventos na
cidade7, foi promovido um concurso público visando à revitalização do
Complexo das Paineiras, seguido por uma licitação para concessão dos
serviços previstos no programa organizado pelos técnicos do ICM-Bio e
do Instituto de Arquitetos do Brasil-IAB, que organizou a concorrência.
O programa do concurso foi muito criticado, pelas implicações paisa-
gísticas e ambientais e pelo impacto na circulação, pois previu a constru-
ção de um edifício-garagem em meio à floresta, reforçando o modal rodo-
viário e o transporte individual, em detrimento do transporte coletivo.
Ao mesmo tempo a Cúria Metropolitana, responsável pela conserva-
ção e gestão do monumento ao Cristo, e a associação Amigos do Parque
(organização social parceira do ICM-Bio), anunciavam a intenção de
reformular mais uma vez a infraestrutura de apoio ao santuário, com
financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social-BNDES. O projeto, aprovado pelo IPHAN em 2010, prevê a recu-
peração da circulação e introdução de um restaurante panorâmico, mas
ainda não foi implantado.

4
Proposta do Corredor Cultural Cosme Velho disponível em www.
bairrodaslaranjeiras.com.br/cccv/cccv.shtml, sitio consultado em 18/01/2017.
5
Idem.
6
O projeto contratado pela Prefeitura em 2010, visando a reurbanização da Rua Cosme
Velho, previa redução da caixa de rolamento e interferências no curso do Rio Carioca
mas não foi implantado por contradições entre os órgãos municipais,.
7
Jogos Militares (2013); Copa do Mundo de Futebol (2014); Jornada da Juventude (2015);
Olimpíadas (2016).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 69
Conclusões
Desde a década de 1970, com o Compromisso de Brasília, o governo fede-
ral vem procurando unir as políticas de turismo e cultura através de
programas oficiais de revitalização e articulações entre os diferentes
níveis de governo e a iniciativa privada.
O caso do bairro do Cosme Velho é emblemático, pois une as três
instancias de governo. No entanto as políticas públicas vêm sofrendo
com a desarticulação que caracteriza as intervenções na infraestrutura
local, carecendo de um plano geral que oriente e estabeleça limites para
o aumento do número de visitantes junto aos acessos existentes no
bairro, que é eminentemente residencial.
O bairro vem sofrendo principalmente com a intensificação do comér-
cio voltado para o turismo, com introdução irregular, nas edificações mais
antigas, de restaurantes, casas de festas com musica ao vivo, hotéis de
charme, hostels e centros culturais, sem que haja contrapartidas capazes
de mitigar os problemas decorrentes. Isso pode ser dito tanto no que se
refere à infraestrutura urbana quanto a salvaguardas adequadas para o
patrimônio edificado legalmente protegido, que vem sendo utilizado de
forma predatória por falta de controle por parte do poder público.
Ao mesmo tempo percebe-se ausência de iniciativas oficiais que
orientem os turistas e direcionem adequadamente os comerciantes e
prestadores de serviços, coibindo abusos e estabelecendo limites claros
para as atividades profissionais.
A maior dificuldade parece ser a definição de um projeto para geren-
ciamento da mobilidade que atenda a todo o eixo turístico Corcovado-
-Paineiras-Dona Marta, seguindo princípios já consagrados de sustenta-
bilidade e ‘compreendendo vários níveis de administração, aspectos
jurídicos, o financiamento de estruturas organizacionais e o envolvi-
mento dos setores público e privado’ (Ramos, 2008).
Por outro lado, para garantir a revitalização e conservação das edifi-
cações protegidas, uma nova legislação urbanística, específica para o
local, deve ser discutida com todos os atores sociais envolvidos, conside-
rando-se a necessidade de serem mantidas as características ambientais
e culturais desse tradicional bairro carioca, como forma de garantir a
convivência entre as atividades turísticas e residenciais.

70 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Referências Bibliograficas
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DGPC, 1993.
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caso do Cristo Redentor, Rio de Janeiro: cópia em pdf de artigo apresentado
em encontro da ANPET, 2008.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 71
O patrimônio cultural como espetáculo:
é o patrimônio que justifica o turismo,
ou é o turismo que determina o patrimônio?
Alguns casos brasileiros.
PR ISCIL A HENNING
Doutoranda em História pela UNICAMP, sob orientação da Profa. Dra. Cristina

Meneguello e com auxílio financeiro da CNPq.

Resumo
O trabalho propõe discutir a relação entre patrimônio cultural edificado
e a indústria turística na atualidade, à luz da reificação da imagem do
bem patrimonial como objeto de consumo e seu tratamento como espe-
táculo. A partir da análise de alguns casos brasileiros, pretende-se tratar
da prática na intervenção nos bens culturais, as quais, em diversos
casos, optam por um tratamento idealizado e muitas vezes tipológico
das edificações e paisagens urbanas históricas em detrimento das orien-
tações metodológicas que vêm sendo construídas, com bastante consis-
tência, no âmbito do campo disciplinar do restauro nos últimos dois
séculos. Para ilustrar a análise, serão analisadas as intervenções nos
centros históricos e coloniais de São Francisco do Sul (SC) e Recife (PE).

Palavras-Chave
Patrimônio cultural, turismo, espetáculo, teoria e prática.

72 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A relação entre turismo e patrimônio
Muitas vezes tida como controversa, a relação entre turismo e a preser-
vação do patrimônio é intrínseca e antiga. Já se percebe a valorização de
determinadas construções e paisagens culturais desde a Antiguidade,
quando viajantes como Pausânias (110-180) registravam as ruínas, edifi-
cações e localidades do glorioso passado grego em textos como “Descri-
ção da Grécia” (publicado circa 160-176). Mais tarde, os muitos artistas e
intelectuais que fluíram para a Itália e Grécia para documentar as edifi-
cações em ruínas deixavam claro em seus textos e relatos a reverência
que tinham pelas relíquias das grandiosas civilizações do passado, as
quais foram, inclusive, as primeiras a sofrer intervenções com o intuito
conservá-las para as gerações futuras.
Patrimônio, conceito nômade de origem latina, designa algo que tem
valor e é transmitido de geração em geração; algo que deve ser conservado
para as gerações futuras. Qualificado com adjetivos como cultural ou his-
tórico, diz respeito às manifestações culturais selecionadas como deten-
tores de valores identitários ou suportes de memória coletiva e que devem,
portanto, serem preservados, justificando todas as atividades práticas e
teóricas do campo disciplinar de preservação do patrimônio cultural.
Como campo disciplinar específico e autônomo, a preservação do
patrimônio está em franco desenvolvimento desde o século XIX, ampa-
rado em amplas discussões teóricas e variadas vertentes metodológicas
de intervenção física nos bens. A partir de 1931, há um esforço interna-
cional no sentido de embasar a criação de mecanismos de salvaguarda,
como a legislação específica de cada nação, bem como as diversas práti-
cas interventivas, em critérios adotados de forma universal, resultando
na publicação de uma série de documentos e orientações internacionais
(as chamadas “Cartas Patrimoniais”). A partir da criação da UNESCO,
braço cultural das Nações Unidas, estas discussões passam a ser promo-
vidas principalmente pelo Comitê do Patrimônio Mundial, contando
com a anuência dos países signatários da Convenção do Patrimônio
Mundial, de 1972. Em 2017, são 193 os países signatários da Convenção,
de acordo com dados disponíveis pelo portal do Comitê do Patrimônio

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 73
Mundial (online)1. Estas informações elucidam a maturidade teórica e
prática do campo específico do saber bem como a expansão geográfica
do reconhecimento do patrimônio.
Por sua vez, pode-se afirmar que o turismo, como atividade social,
econômica e também cultural, nasceu justamente em torno dos bens
patrimoniais. De acordo com Marc Boyer, pode-se definir turismo como
um “conjunto dos fenômenos resultantes da viagem e da estadia tempo-
rária de pessoas fora de seu domicílio, na medida em que este desloca-
mento satisfaz, no lazer, uma necessidade cultural da civilização indus-
trial” (BOYER, 2003, p. 16). O turismo aristocrático, de estudos ou de
lazer, toma força a partir do século XVIII e se estende às outras camadas
sociais, no fim do século seguinte, através da ação de empreendedores
como Thomas Cook e de conquistas trabalhistas como o direito às férias.
O acesso cada vez mais fácil aos novos meios de transporte diminuíam
as restrições de tempo e espaço, e os trabalhadores também puderam ter
acesso às viagens de lazer (BOYER, 2003, p. 8). Desde este primeiro
momento, eram os destinos culturais os preferidos dos turistas: cidades
como Paris, Roma, Veneza, dentre outras, povoavam o imaginário dos
viajantes e conhecer tais localidades era símbolo de status e refinamento
cultural. O turismo chamado “de massa” começa a dominar o cenário a
partir do pós-guerra, impulsionado pelos meios de comunicação de
massa, a popularização dos automóveis, o surgimento das hospedagens
econômicas. É inegável o volume e o crescimento exponencial que esta
indústria teve nas últimas décadas, batendo recordes de renda gerada
direta e indiretamente e quantidade de turistas ano após ano.
Segundo dados da Organização Mundial do Turismo (OMT)2 , órgão
ligado às Nações Unidas, a indústria turística é a terceira em rentabili-
dade, atrás apenas da indústria petroleira e química, e à frente das
indústrias automotivas e alimentícias (UNWTO, 2016, p. 2). No casos
específicos de diversos países, como Ilhas Seychelles, Camboja e Tailân-

1
Dados atualizados disponíveis no sítio eletrônico do Comitê do Patrimônio Mundial
(World Heritage Committee): http://whc.unesco.org/en/statesparties/.
2
Dados divulgados em um relatório publicado anualmente pela Organização Mundial
do Turismo (United Nations World Tourism Organization), e disponível no portal da
organização: http://www.e-unwto.org/doi/pdf/10.18111/9789284418145.

74 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
dia, é o turismo a principal atividade econômica, chegando a compor até
20% do PIB (REVISTA EXAME, 2015, online). Em 2015, segundo dados
da UNWTO, foram 1,186 bilhões de chegadas turísticas, gerando uma
renda de cerca de US$1,5 trilhões, no sexto ano consecutivo de cresci-
mento. A região mais visitada é a Europa, que apresentou aumento de
5% em relação ao ano anterior, com países como França e Espanha lide-
rando como os principais destinos. As projeções continuam a apontar
crescimento entre 3,5% a 4,5% no ano de 2016, dentro das expectativas
de longo prazo da entidade, que contempla crescimento em média de
3,8% por ano até 2030, chegando 1,8 bilhões de chegadas (UNWTO,
2016, p. 3). No caso do Brasil, o país figura em 28o lugar, segundo ranking
do Forum Econômico Mundial 3 (WORLD ECONOMIC FORUM, online),
com 6,3 milhões de chegadas em 2015, e gerando uma renda total apro-
ximada de US$5,8 milhões.
Diante do reconhecimento deste potencial econômico ainda em franca
expansão e do crescente interesse em viajar para visitar sítios históricos,
houve um crescimento no interesse de identificar, preservar e promover
os bens culturais até nos lugares mais improváveis, onde estas questões
até então nunca foram consideradas. Festas “típicas” surgem ou ressur-
gem repaginadas, a paisagem urbana é revitalizada, edificações isoladas
recebem tratamento de “cartão postal da cidade”, roteiros no patrimônio
natural ou em paisagens culturais são divulgados para atrair visitantes,
etc. O turismo, que em um primeiro momento surgiu em parte por conse-
quência da existência do patrimônio, agora passa a ser um instrumento
que, se bem utilizado, pode estimular a preservação do patrimônio. A
noção de que o turismo consiste em uma maneira economicamente viável
de conservar os monumentos, com a destinação dos recursos captados
sendo direcionados para a sua preservação, e também um modo de divul-
gação e educação patrimonial, é constante em publicações e documentos
nacionais e internacionais sobre o tema. O termo “patrimônio turístico”
aparece, inclusive, no nome de órgãos criados para a tutela do patrimônio,

3
De acordo com o relatório Travel and Tourism Competitiveness Report 2015, disponível
em: https://reports.weforum.org/travel-and-tourism-competitiveness-report-2015/index-
results-the-travel-tourism-competitiveness-index-ranking-2015/ . Acesso março de 2017.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 75
como é o caso do órgão estadual paulista, o CONDEPHAAT (Conselho de
Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do
Estado de São Paulo), criado em 1968.
Apesar das muitas vantagens da associação estreita entre patrimônio
e turismo, há, também, muitas críticas e denúncias de danos provocados
a sítios patrimoniais frágeis em função da presença massiva e ostensiva
de turistas, levando a acirrados debates sobre os limites desta relação e,
em alguns casos extremos, até à restrição ou mesmo ao fechamento à
visitação pública de alguns sítios, como é o caso do Vale dos Reis, no
Egito, ou as Cavernas de Altamira, na Espanha. Diante dos desafios, em
1976 o Comitê Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) promo-
veu um encontro que resultou na Carta do Turismo Cultural, documento
internacional que dispõe sobre o assunto. No entanto, embora estes
compromissos internacionais orientem as práticas, não há obrigatorie-
dade para sua adoção – e muitas vezes, se não forem traduzidos em legis-
lação local e reforçadas pelo organismos oficiais de salvaguarda do
patrimônio, tornam-se letra morta.
O risco que se corre, evidentemente, na associação entre patrimônio
e turismo reside na distorção da compreensão do bem patrimonial como
sendo um bem puramente de consumo, um commodity, sendo manipu-
lado muitas vezes de maneira distorcida para atender aos objetivos de
lucro, conforme a crítica de Carlos Lemos:
Preserva-se em atendimento às exigências do turismo, a grande
indústria moderna, que maneja quantias incríveis enquanto vai for-
jando nos sítios visitados imagens, às vezes ressuscitadas, definidoras
de peculiaridades culturais regionais aptas a estar sempre desper-
tando a curiosidade dos viajantes ávidos de novidades. O turismo
nasceu em volta de bens culturais paisagísticos e arquitetônicos pre-
servados, e hoje, cada vez mais, vai exigindo a criação de mais cená-
rios, de mais exotismos, provocando quadros artificiais, inclusive.”
(LEMOS, 2000, p. 30).

A possibilidade de rentabilidade do turismo torna o patrimônio a cada


dia mais atraente para diversos setores da sociedade, que passam a agir
sobre os bens segundo perspectivas próprias, bastante distantes das

76 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
premissas teóricas discutidas no campo específico da preservação do
patrimônio. Os conflitos de interesse de gestores, intelectuais, arquite-
tos, turismólogos, proprietários, marqueteiros, especuladores, o público
em geral, dentre outros atores, acabam por expor tensões na compreen-
são do que é o bem patrimonial e qual é, ou deveria ser, sua função e seu
objetivo. Estas oposições atestam a complexidade e as contradições ine-
rentes à própria natureza do monumento. Diante do apelo das possibili-
dades econômicas a partir da manipulação dos bens patrimoniais, mui-
tas vezes a atuação deixa de ser pautada pelos princípios específicos do
campo do restauro, e passam a servir aos interesses do capital, acarre-
tando em frequentes cisões entre teoria e prática, decorrentes da falta de
conhecimento ou mesmo da desconsideração intencional das especifici-
dades da atuação nos monumentos históricos.

Patrimônio como espetáculo: a cisão entre teoria e prática


em dois exemplos no Brasil
Diante do exposto anteriormente, apesar da profundidade analítica e
conceitual alcançada pelas diversas teorias e discussões, o que é apli-
cado na prática em algumas ocasiões é diametralmente oposto do que se
discute no âmbito teórico, e a aplicação destes princípios de modo
embasado e reflexivo por parte dos arquitetos ou mesmo de órgãos que
atuam na preservação do patrimônio nem sempre acontece. Observam-
-se ações arbitrárias ou impertinentes ao campo, fato que deve provocar
uma reflexão necessária por parte dos especialistas envolvidos. Anali-
sando especificamente a atuação do IPHAN (Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional), o órgão máximo brasileiro que tutela os
bens patrimoniais de interesse nacional, além de promover a divulgação
de textos basilares do campo e cursos de especialização na área, Cláudia
dos Reis e Cunha conclui:
“(...) verificam-se referências recorrentes a textos teóricos da restaura-
ção – tais como a Carta de Veneza ou a Teoria da Restauração de Cesare
Brandi –, as quais, entretanto, denotam um conhecimento superficial,
quando não equivocado, dos princípios estabelecidos naqueles escri-
tos, permanecendo como regra nas intervenções o empirismo ou a
negligência. A noção equivocada ou a total ignorância do que venha a

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 77
ser restauro, quase sempre entendido como ação que visa o retorno ao
estado originário da obra ou como simples consolidação acrítica de
uma determinada condição desta, certamente está na raiz da baixa
qualidade das intervenções que são empreendidas sobre bens patrimo-
niais na atualidade e, consequentemente, na sistemática perda de valo-
res que lhes eram inerentes e em razão dos quais esses monumentos
foram conservados” (CUNHA, 2010, pp. 17-18).

Algumas práticas comuns de intervenções são refazimentos em estilo


sem distinguibilidade entre o velho e o novo, reconstruções de ruínas ou
alterações como, por exemplo, a escolha arbitrária da cor no tratamento
de superfícies no bem patrimonial. Nota-se a preferência, tanto por
parte de profissionais quanto do público em geral, por um tratamento
que visa restabelecer o monumento a um estado “rejuvenescido”, como
se estivesse recém-construído, eliminando por completo as marcas da
passagem do tempo – e, assim, desrespeitando muitas vezes seu caráter
histórico e documental, suas características formais e morfológicas e
muitas vezes até mesmo a especificidade dos materiais (KÜHL, 2008,
pp. 229-243). Com relação a este fenômeno, Kühl discorre que:
“Sinais de transcurso do tempo são cada vez menos apreciados em
nossa sociedade (...) Deve-se lembrar que o objetivo de uma restaura-
ção não é oferecer uma imagem do passado facilmente consumível,
simplificada de forma grosseira para se tornar mais palatável ao gosto
massificado. É, ao contrário, explorar e valorizar toda a riqueza das
diversas estratificações da história. (...) O interesse em preservar as
marcas do transcorrer do tempo não é mero ‘ruinismo’ ou necrola-
tria, mas é, sim, uma apreciação estética, crítica, histórica, que não
considera o tempo como reversível” (KÜHL, 2004, p. 322).

No Brasil, abundam intervenções com estas características. A maior parte


das edificações restauradas – muitas delas com aval ou conduzidas por
órgãos competentes – tendem a demonstrar uma tendência a uma restau-
ração idealizada, rejuvenescedora, mais próxima dos princípios de Violle-

78 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
t-le-Duc4 do que da visão contemporânea de restauro. As justificativas por
trás das escolhas feitas em restaurações reafirmam características supos-
tamente “originais” ou “típicas” de determinados estilos ou períodos.
Em Santa Catarina, o centro histórico de São Francisco do Sul foi
contemplado em 2002 com uma intervenção de grande porte em sua
área tombada 5, com 40 hectares e abrigando 400 imóveis, promovida
pelo Programa Monumenta6, vinculado ao IPHAN entre 1996 e 2010.
Dentre as muitas benfeitorias do programa, constam a urbanização da
orla da Baía da Babitonga, a implementação de praças e mobiliário
urbano, o financiamento do restauro de diversas edificações privadas e
a atuação na recuperação de algumas construções icônicas da cidade,
como a Igreja Matriz Nossa Senhora da Graça, que data do século XVII
(DIOGO, 2009, p. 276).
Dentre as edificações restauradas, consta o Mercado Público Munici-
pal, de estilo eclético, inaugurado em 1900. Entre 2006 e 2008, foi res-
taurado por meio do Monumenta. A restauração alterou a cor das facha-
das do bege rosado de décadas (documentada em fotografias do acervo),
para amarelo-ocre, uma tonalidade alegre e muito frequentemente uti-
lizada em restaurações de edificações patrimoniais. Em consulta ao
acervo do escritório do IPHAN em São Francisco do Sul, foi encontrada
a Proposta de Revitalização do Mercado Público Municipal, em que a cor
amarela é especificada, porém não há nenhuma justificativa para a
mudança cromática.

4
Eugène Emannuel Viollet-le-Duc (1814-1879), arquiteto e teórico francês da
restauração. Preconizou uma vertente de restauração conhecida como “Estilística”,
pois defendia que o restauro tinha como objetivo recompor a unidade de estilo do
monumento e “restabelecê-lo em seu estado completo, que pode estado completo que
pode não ter existido nunca em um dado momento” (VIOLLET-LE-DUC, 2004).
5
O centro histórico de São Francisco do Sul (SC) é tombado desde 1981 em nível
municipal, e a partir de 1987 em nível nacional, pelo IPHAN.
6
O Programa Monumenta foi implementado em 1996 pelo Ministério da Cultura do
Governo do Brasil, numa parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) e apoio da UNESCO. O objetivo era promover a preservação do patrimônio
composto por imóveis privados e vastos conjuntos de bens patrimoniais, através do
investimento em intervenções de grande extensão e o estímulo ao desenvolvimento
econômico sustentável destas localidades. Uma das atividades econômicas
estimuladas é justamente o turismo, objeto deste estudo.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 79
Fig. 1 | Mercado Público Municipal em 2014. Fonte: Acervo Pessoal.

Em outras ocasiões em que intervenções alteraram as cores para o ama-


relo em Santa Catarina, a justificativa apresentada era a de retomar
características típicas do estilo eclético e do período da edificação, como
foi o caso da Casa de Câmara e Cadeia em Florianópolis. Conhecida
popularmente como a Casa Rosa, por ter se consolidado há décadas com
uma imagem referencial desta cor, após o restauro em 2016 a edificação
adotou uma cor amarela, o que causou questionamentos da comuni-
dade. Em notícia publicada no portal da Prefeitura da Cidade, intitulada
Casa de Câmara e Cadeia volta a seu estilo original, a restauradora do
Serviço de Patrimônio Histórico declara: “Originariamente, a constru-
ção era em estilo colonial, branca com janelas verdes. No início do século
XX, mudou do colonial para o eclético e passou a ser amarela, exata-
mente a mesma cor que passou a ter hoje”, argumentando que a cor rosa
“não tinha fundamento histórico” (PREFEITURA DE FLORIANÓPO-
LIS, online), embora faça parte da maior parte da história da edificação
e tenha se estabelecido deste modo na imagem coletiva.
Não há registro oficial, em São Francisco do Sul, de uma suposta “ori-
ginalidade” da tonalidade amarela no Mercado Público Municipal, pois
não há, nos documentos disponíveis que detalham a intervenção no
IPHAN, menção à escolha das cores em função de prospecção estratigrá-
fica no local. Na falta desta informação, é possível que a escolha da cor
tenha se dado por motivos estilísticos, devido ao fato da edificação tam-

80 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
bém ser eclética. Na Proposta de Revitalização mencionada anterior-
mente, o levantamento histórico da edificação destaca a importância
deste edifício por ter conservado melhor seu aspecto externo do que
outros mercados do estado, como os de Florianópolis (1899) e Itajaí (1917).
Os mercados citados, embora contemporâneos na sua concepção original,
sofreram alterações que deixaram sua aparência mais afiliada ao estilo art
déco que ao ecletismo do mercado de São Francisco do Sul. No entanto,
ao final das restaurações empreendidas nos três bens patrimoniais, nas
primeiras duas décadas deste século, todas as edificações, embora de lin-
guagens distintas, estavam pintadas com as mesmas cores: amarelo-ocre
nas paredes com branco nos alto-relevos e esquadrias e ferragens pintadas
em verde escuro. Também foram colocados toldos verdes escuro, no
mesmo tom das esquadria, nas janelas das três edificações, apontando
para a padronização de uma tipologia de mercados históricos em Santa
Catarina, facilmente reconhecível nas localidades diferentes.

Fig. 2 | Mercado Público de Florianópolis.Fonte: Acervo pessoal.

O espetáculo no patrimônio é perceptível na relação com o bem como


mera imagem reificada, desligada de sua consistência material. A des-
peito do respeito absoluto pela matéria original, preceito básico das
principais teorias de restauro, muitas vezes vemos que a matéria é des-
prezada para projetar uma imagem idealizada do monumento. Ora, se a
imagem projetada consiste justamente na plástica de uma edificação

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 81
(aspecto, forma, volumetria, cor, material, textura, etc.), que se expressa
sobretudo nestas superfícies, intervir nelas de forma aleatória afeta, jus-
tamente, a nossa percepção deste dado monumento, bem como sua con-
sistência documental.
No entanto, a tendência de tratar as superfícies como questão secun-
dária de restauro – e dar ênfase à criação de imagens lúdicas e coloridas,
pitorescas e palatáveis ao consumo turístico – é extremamente fre-
quente nos centros históricos. Em São Francisco do Sul, as construções
tombadas foram pintadas com cores vibrantes, que vão do azul anil ao
alaranjado, criando uma paisagem com forte apelo estético, porém sem
relação alguma com a história desta paisagem ou das edificações. O
mesmo fenômeno fachadista de privilegiar a imagem de apelo publicitá-
rio, popularizado a partir da intervenção no Pelourinho, em Salvador, se
repetiu em outros centros históricos cuja recuperação se deu por meio
do Monumenta, como é o caso de Recife (CUNHA, 2010, p. 143).

Fig. 3 | Imagem do bairro Recife Antigo. Foto por Leonardo Ferreira, flickr (imagem
com licença Creative Commons). Fonte: www.flickr.com

O conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico do Antigo Bairro do


Recife, marco zero da cidade, foi tombado pelo IPHAN em 1998, e passa,
subsequentemente, a ser revitalizado. O objetivo de todas as interven-
ções, inclusive as que ocorreram anteriormente ao tombamento, é o “(...)
embelezamento e enobrecimento do lugar, que passaria a ser propício ao
consumo e ao turismo, por oposição ao cenário de degradação social e
ambiental anterior à ação” (CUNHA, op.cit., p. 149). No detalhamento téc-
nico do Plano de Revitalização do Bairro do Recife, de 1992, consta como
uma das principais metas a de “tornar o bairro um ‘espaço de lazer e diver-
são’, objetivando criar um ‘espaço que promova a concentração de pessoas
nas áreas públicas, criando um espetáculo urbano’” (PLANO DE REVITA-

82 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
LIZAÇÃO – BAIRRO DO RECIFE apud CUNHA, op.cit., p. 150). O trata-
mento das superfícies voltadas para o turismo de espetáculos pede o uso
de cores chamativas e alegres, e, no caso de Recife (bem como em outras
capitais), justificou a intervenção de projetos como o Cores da Cidade, da
Fundação Roberto Marinho, que, entre 1993 e 1998, com convênio com a
marca de tintas Ypiranga, promoveu a pintura de fachadas de construções
em áreas históricas. Em 2009, o projeto Tudo de Cor para você da marca de
tintas Coral retoma uma proposta similar, pintando, por meio de um
mutirão, edifícios históricos considerados degradados em cidades como
São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Olinda, Porto Alegre, Ouro Preto,
Porto Seguro, Florianópolis e Fortaleza. Dada a natureza destes projetos,
não houve na maior parte dos casos a preocupação em fazer uma análise
detalhada da obra antes de interferir na sua superfície, alterando seu cará-
ter documental, sua relação simbólica e imagética com a comunidade, e
sua integração com a paisagem histórica, contrariando as premissas do
campo específico do patrimônio.

Considerações finais
Por conta das restrições de análise em um único artigo, não se pôde
analisar as questões levantadas aqui de modo muito aprofundado ou
completo. Há diversas outras questões e mesmo situações existentes
nestes dois centros históricos, bem como inúmeros outros exemplos
Brasil afora com as mesmas características. A questão que se levanta é a
cisão entre teoria e prática no trato do patrimônio que vem se acentu-
ando nos últimos anos (KÜHL, 2008, p. 232), e a alteração sutil da natu-
reza e do próprio objetivo final de uma intervenção no patrimônio, que
passa a ser guiado por princípios econômicos que se sobrepõem ao seu
caráter histórico-artístico. Ao se identificar um bem como dotado de
importância cultural, é necessário rigor no respeito à sua história, à sua
materialidade e ao seu caráter simbólico, de interesse para a coletivi-
dade. Por se tratar de exemplares únicos, as perdas são irreversíveis e
qualquer intervenção é de extrema responsabilidade. Embora a atuali-
zação e a apropriação das edificações antigas pelas sociedades contem-
porâneas seja necessária para o desenvolvimento das cidades, este pro-
cesso, em um bem patrimonial, é delicado e de natureza particular, e

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 83
não deve-se aplicar os mesmos critérios e procedimentos de uma inter-
venção arquitetônica comum. Existe todo um corpo teórico especiali-
zado que problematiza e propõe caminhos, por meio de princípios sim-
ples, para uma intervenção bem embasada e que ofereça menos riscos de
destruição. Por que ignorá-lo? Parece paradoxal que justamente a unici-
dade e o valor histórico-artístico intrínseco a um patrimonial, o que jus-
tifica sua visitação, seja sacrificado pela exploração meramente econô-
mica e espetacularizada de um turismo predatório. É necessário que
todos os atores envolvidos com a preservação do patrimônio estejam
atentos à dimensão, à responsabilidade, e ao impacto duradouro de nos-
sas atividades, sob pena de destruir algo que nos transcende por com-
pleto – algo muito mais antigo que nós, que deve continuar a ser apre-
ciada por muitos que virão anos depois de nossa passagem.

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 85
O som do verão: uma análise da percepção
sonora na praia de Ipanema, Rio de Janeiro
T H A LLES COSTA DOS R EIS
Arquiteto, mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade

Federal do Rio de Janeiro (PROARQ-FAU, UFRJ), Brasil.

M A R I A LYGI A NIEME Y ER
Arquiteta, D. SC, Professora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura

da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PROARQ-FAU, UFRJ), Brasil.

Resumo
O uso do espaço livre urbano no Rio pode ser vinculado às praias da
cidade. Foi realizado um estudo na orla de Ipanema, baseado em dados
e aspectos qualitativos da percepção do som, a fim de fornecer uma ava-
liação de traços identitários e da qualidade sonora. Através de observa-
ção participante e análise da relação entre paisagem sonora e biografia
cultural, este trabalho mapeou e acompanhou as transformações sono-
ras em períodos distintos. Percebe-se que as atividades resultam em
fontes sonoras variadas expressadas em manifestações populares e hábi-
tos dos usuários. Destaca-se, o canto e jargões utilizados pelos vendedo-
res ambulantes e o som de músicas oriundas de equipamentos portáteis.
Os resultados encontrados foram sintetizados e caracterizados em
mapas, figuras e quadros, de modo a argumentar que avaliações do
espaço acústico urbano devem conjugar critérios qualitativos e quanti-
tativos, para que o contexto cultural e turístico possa ser considerado
nas indicações de políticas públicas.

Palavras-Chave
Percepção sonora; praia; Ipanema; som; verão.

86 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
O estudo do ambiente urbano deve articular a análise de critérios físicos
(edifícios, mobiliário urbano) e critérios naturais (vegetação, água,
topografia) com a prática de apropriação do espaço, devido à percepção
sensorial dos usuários (NIEMEYER; AVENTIN, 2012). Santos (2012)
define espaço como um conjunto indissociável, um arranjo de objetos
geográficos, objetos naturais e objetos sociais, e da vida que os preenche
e os anima, ou seja, a sociedade em movimento.
O uso do espaço público urbano é significativamente usado na cidade
do Rio de Janeiro. Com a regeneração dos centros urbanos, os espaços
livres urbanos são reconceituados com uma nova “urbanidade” (THWA-
ITES et al., 2005). De modo a salientar a importância de um espaço
urbano com maior qualidade ambiental, é importante repensar a paisa-
gem urbana desde um ponto de vista ecológico (YU; KANG, 2010). A
qualidade sonora, para Zhang et al. (2006), é critério chave para o desen-
volvimento sustentável da paisagem urbana. Para uma análise de espa-
ços livres urbanos e públicos, é vital um estudo da percepção sonora dos
usuários (YANG; KANG, 2005).
No Rio de Janeiro, um dos espaços livres urbanos de maior expressi-
vidade é a praia. Uma das praias cariocas com maior visibilidade é a
praia de Ipanema. Castro (1999) destaca Ipanema como berço ou palco
de várias revoluções no comportamento, na moda, nas artes plásticas,
no cinema, na música popular, na imprensa e em outros quesitos funda-
mentais. Salienta sua importância na formação urbana e comportamen-
tal carioca, afirmando que Ipanema mudou o jeito de o brasileiro escre-
ver, falar, vestir-se (ou despir-se) e, talvez, até de pensar.
Considerando a importância da praia de Ipanema como espaço público
urbano e a importância de uma análise da percepção sonora dos usuários
para a construção de um ambiente urbano ambientalmente qualificado, bus-
cou-se, com esse trabalho, uma análise e caracterização do espaço sonoro da
praia. Para desenvolvimento da metodologia, optou-se por observação parti-
cipante e uma análise da relação entre paisagem sonora e biografia cultural,
através de levantamento bibliográfico e percursos realizados em diferentes
dias e horários. Com a caracterização e análise, foram construídos imagens e
quadro a fim de sintetizar os resultados encontrados.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 87
A praia de Ipanema e seu contexto urbano
A praia de Ipanema está localizada na zona sul da cidade do Rio de
Janeiro, no bairro de Ipanema, área nobre da cidade. Recebeu melhorias
urbanas na administração de Serzedello Correa nos anos de 1909 e 1910,
que beneficia Ipanema com obras de saneamento, ainda que, segundo
levantamento do Serviço da Carta Cadastral, só existissem ali 175 pré-
dios (ABREU, 1988). Nos anos 30, recebeu uma imigração europeia de
alto nível cultural: alemães, franceses, italianos, ingleses e judeus de
toda parte, nessa mesma época deu-se continuidade do processo de
renovação urbana da área central e de embelezamento da zona sul
(CASTRO, 1999). Os limites atuais do bairro são apresentados na Fig. 01.

Fig. 01 | Limites do bairro de Ipanema. Fonte: Google Mapas, 2017.

A praia atrai cada vez mais pessoas com diferentes estilos de vida. Em
função dessa heterogeneidade, conforma uma organização do espaço e
do tempo com áreas e domínios delimitáveis (VELHO, 1999). A leste, a
zona da praia se delimita pela Pedra do Arpoador, sua extensão segue
nos postos 7, 8, 9 e 101. O desenvolvimento da análise se dá na extensão
da faixa de areia correspondente aos postos 7 a 10.

1
Nessa região existem quiosques, popularmente conhecidos como Postos que recebem
numeração correspondente. Alguns são equipados com banheiros, comércio, salva-vidas, etc.

88 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O verão carioca e o turismo
O verão no Brasil, hemisfério sul, inicia no dia 21 de dezembro e segue
até o dia 20 de março. Nessa época do ano o número de turistas aumenta
significativamente. De acordo com o Ministério do Turismo (2016), na
categoria dos destinos mais visitados no Brasil por estrangeiros a lazer,
em 2015, o Rio de Janeiro ocupou a primeira colocação do ranking com
32,6% das preferências. Nesse mesmo ano, o Brasil foi o destino esco-
lhido por 6,3 milhões de turistas estrangeiros, 51,3% desses visitantes
escolheram o país para lazer, objetivando atividades de sol e praia, eco-
turismo ou cultura. A relevância do espaço da praia carioca é traduzida
no interesse de turistas brasileiros e estrangeiros. No verão, a praia de
Ipanema sofre inchaço, especialmente no período próximo ao carnaval.
No início do século passado, nas ruas do Rio, emergiu uma maneira de
festejar o Carnaval que persiste até hoje, são os chamados blocos (NIEMEYER;
AVENTIN, 2012). Os blocos que fazem seu percurso pelo bairro de Ipanema
ao longo do dia, conectam a área da praia com as vias do bairro (Fig. 02).

Fig. 02 | Bloco de Carnaval em Ipanema. Fonte: G1 Rio, 2016.2

2
Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/carnaval/2016/noticia/2016/01/blocos-
de-rua-veja-datas-previstas-para-os-desfiles-de-carnaval-no-rio.html> Acesso em fev. 2017.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 89
Metodologia
Passada a etapa de revisão bibliográfica e reconhecimento da área, deu-se
sequência a observação participativa in loco. Optou-se por fazer a visita em
diferentes dias e horários estabelecidos, de modo a obter múltiplas leituras
do espaço e variados usos e apropriação dos usuários com o espaço livre
urbano. A visita foi realizada em forma de passeio (Fig. 03), com trajetória
partindo do Ponto 1 (Posto 7 - Arpoador) e seguindo, sequencialmente, ao
Ponto 4 (Posto 10 – final da Rua Aníbal de Mendonça).
As visitas ocorreram em fevereiro, no verão, na quarta-feira, sexta-
-feira e sábado, sempre nos períodos de manhã e tarde. A escolha dos
dias deu-se de modo a compreender períodos de menores e maiores flu-
xos de usuários.

Fig. 03 | Pontos mapeados. Fonte: a partir de Google Mapas, 2017.

Estabeleceu-se para o trajeto um mesmo horário de início em todos os dias,


iniciando às 9:20 da manhã no percurso matutino e às 13:30 no percurso
vespertino. Foram realizadas, portanto, seis visitas. Para a coleta de dados,
foram desenvolvidos anotações, croquis e fotografias, que serão sintetiza-
das e expressas nas imagens e quadros a serem apresentados. Foram coleta-
dos dados qualitativos do som através de percepção sonora, também foram
identificados características identitárias do usuários presentes.

90 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Trajeto de quarta-feira
O primeiro trajeto de quarta-feira iniciou às 9:20 da manhã, com tempo
nublado e temperatura média ambiente de 27ºC 3, no Ponto 1.
Observou-se no Ponto 1, a presença de usuários praticando surf e
alguns praticando exercício físico no calçadão, com pouca presença de
banhistas. Os sons predominantes eram de veículos automotores e das
ondas. No ponto 2, às 9:27, iniciavam atividades de instalação das barra-
cas de praias e de duchas, onde são comercializadas bebidas, aluguel de
cadeiras de praias e guarda sol. Havia a existência de poucos banhistas.
Percebeu-se o som predominantes de ônibus e motores de bombea-
mento da água para as duchas. No ponto 3, às 9:34, já havia maior
número de barracas de praias instaladas, aqui, os vendedores ambulan-
tes começam suas atividades abordando os transeuntes e banhistas
ofertando o aluguel de cadeiras e guarda sol. No ponto 4, há predomi-
nância do uso da faixa de areia para a prática de esportes e atividades
físicas (destaque para o vôlei, futebol, futevôlei e crossfit), com barracas
já instaladas, os sons predominantes eram o das ondas e do impacto da
bola nas práticas esportivas.
O segundo trajeto iniciou às 13:30. No ponto 1, maior número de
banhistas, sons de músicas oriundas de portáteis levados pelos banhis-
tas começam a ter maior expressão. No ponto 2, destaca-se o som dos
vendedores ambulantes, que gritam canções cômicas e se utilizam de
jargões para a venda de comida. No ponto 3, ainda há predominância
dos vendedores ambulantes e de música através de portáteis. O ponto 4
segue com predominância dos usuários na prática de esportes, que nesse
horário, competem espaço com alguns banhistas.

Trajeto de sexta-feira
O primeiro trajeto de sexta-feira segue o horário inicial de 9:20 da
manhã. No ponto 1, os usuários repetem o uso da quarta-feira, há predo-
minância de surfistas e usuários praticando atividade física no calçadão.
Há também maior presença de idosos que utilizam o mobiliário urbano
presente no calçadão para contemplar a paisagem e conversar. No ponto

3
Dados coletados nos termômetros públicos instalados na orla de Ipanema.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 91
2, a instalação das barracas se adianta, há maior número de banhistas e
o som dos motores das bombas se destaca. No ponto 3, menor número
de vendedores ambulantes e poucos banhistas, o mar tem maior expres-
sividade e representatividade na percepção sonora. No ponto 4, a área de
esportes na areia ganha expressão e aumenta o número de usuários pra-
ticando atividades físicas.

Fig. 04 | Tenda de música montada


pelos banhistas próximo ao Ponto 3
(Posto 9). Fonte: autor.

O segundo trajeto observou maior


número de banhistas em todos os
pontos, menor fluxo de veículos e
maior número de vendedores
ambulantes. Aqui, em todos os
pontos (com maior concentração
nos pontos 2 e 3) o som predomi-
nante era resultado da estratégia de marketing adotada pelos vendedo-
res ambulantes. Estes compõem músicas e jargões. Observou-se que
muitos banhistas reconhecem o vendedor e o produto apenas pela per-
cepção sonora, já que aqui, a praia concentrava um número relevante de
pessoas, o som pode ser um instrumento chave de reconhecimento.
Outro som bastante representativo nesse percurso, foi o de tendas efê-
meras montadas pelos banhistas, nelas, instalou-se equipamentos de
som e, alguns banhistas, ficavam responsáveis pela manutenção do som.
Essa ocupação aconteceu próximo ao ponto 3 (Posto 9), local de ocupa-
ção predominante LGBT4 (Fig. 04). Os ritmos musicais variaram signifi-
cativamente em cada ponto percorrido, essa heterogeneidade de música
será melhor abordada adiante.

4
LGBT (ou LGBTTT) é a sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e
Transgêneros.

92 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Trajeto de sábado
Os trajetos de sábado identificaram o maior número de banhistas compa-
rado aos trajetos já realizados. Favorecidos pelo clima quente, aproxima-
damente 34ºC5 e sem nebulosidade, os banhistas e vendedores já ocupa-
vam boa parte da faixa de areia. Com inchaço em todos os pontos, a
variação de maior relevância desde uma percepção do som, se deu na
variação de ritmos musicais reproduzidos pelos aparelhos portáteis dos
banhistas e pelas instalações das tendas de música. Notou-se, com maior
expressão, uma organização do espaço com domínios melhores delimita-
dos, tribos, faixa etária e uso do espaço. Na parte da tarde, maior concen-
tração dos usuários (forte presença de turistas estrangeiros) próximo ao
Ponto 1 – pedra do Arpoador–, onde utilizavam do espaço para ócio,
bebendo e fumando (maconha e tabaco) e contemplavam a vista.

Resultado e análise
Os resultados encontrados expressam heterogeneidade nos diferentes
dias e horários, bem como, nos espaços da orla. Os resultados mais rele-
vantes foram sintetizados no Quadro 1.

Percursos realizados

Usuário/Uso
Dia Horário Som predominante
predominante

Ponto 1: Veículos e Ondas


Ponto 1: Surfistas
Ponto 2: Veículos e
Ponto 2 e 3:
motores das bombas
Manhã vendedores
Ponto 3: jargões dos
Ponto 4: prática
vendedores e ondas
esportiva
Ponto 4: Bola e onda.

Quarta-feira
Ponto 1: Ponto 1: funk brasileiro
banhistas Ponto 2: jargões dos
Ponto 2 e 3: vendedores
Tarde vendedores e Ponto 3: jargões dos
banhistas vendedores e música pop
Ponto 4: prática Ponto 4: jargões dos
esportiva vendedores e bola.

5
Dados coletados nos termômetros públicos instalados na orla de Ipanema.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 93
Ponto 1: surfistas
Ponto 1: Ondas
e idosos
Ponto 2: jargões dos
Ponto 2 e 3:
vendedores e motores das
Manhã vendedores e
bombas
banhistas
Ponto 3: ondas
Ponto 4: prática
Ponto 4: Bola e onda.
esportiva

Sexta-feira Ponto 1: Música: funk


brasileiro e reaggae
Ponto 1:
Ponto 2: jargões dos
banhistas
vendedores e música pop
Ponto 2 e 3 e 4:
Tarde Ponto 3: jargões dos
banhistas e
vendedores e música
vendedores
eletrônica
Ponto 4: jargões dos
vendedores

Ponto 1: jargões dos


vendedores e Música: funk
brasileiro
Ponto 2: vendedores
Ponto 1,2,3 e 4:
Ponto 3: jargões dos
Manhã vendedores e
vendedores e música
banhistas
eletrônica e pop
Ponto 4: jargões dos
vendedores e música:
reggae e reggaetón.

Sábado
Ponto 1: jargões dos
vendedores e Música: funk
brasileiro
Ponto 1,2,3 e 4:
Ponto 2: jargões dos
vendedores,
vendedores
banhistas e
Tarde Ponto 3: jargões dos
turistas
vendedores e música
contemplando
eletrônica e pop
desde o Arpoador
Ponto 4: jargões dos
vendedores e música:
reggae e reggaetón.

Quadro 01 | Síntese do mapeamento do uso do espaço e fonte sonora na orla da


praia de Ipanema, Rio de Janeiro. Fonte: autor.

94 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Observa-se que há, em todos os dias e horários, a presença predomi-
nante dos vendedores ambulantes, que são responsáveis por produzir
som característico das praias cariocas: os jargões usados como estraté-
gia de venda. Os vendedores ambulantes que mais se utilizam dessa
estratégia são os que vendem comida ou bebida (itens conservados em
caixas térmicas e, portanto, com pouca identificação visual), já os ven-
dedores de cangas, roupas de banho e óculos de sol, mais contidos, não
se utilizam de jargões, apenas exibem seus mostruários. Os vendedores
ambulantes, durante a semana, se concentram nas zonas centrais da
praia (Pontos 2, 3 e 4), isso pode ser explicado pela presença de quios-
ques e bares fixos próximos à pedra do Arpoador (Ponto 1), tornando-se
desnecessário, por vezes, a venda itinerante. Destaca-se, também, a prá-
tica dos banhistas em levarem instrumentos portáteis para reprodução
de músicas na faixa de areia – facilitado pelas novas tecnologias, os ins-
trumentos são pequenos e controlados por smarphones.
A organização do espaço da praia de Ipanema também possui delimi-
tações bastante explícitas quanto a tribo dos usuários: próximo ao ponto
1 – pedra do Arpoador -, durante os dias da semana, negros, moradores
de comunidades próximas ocupam o espaço, consomem como ritmo
musical o funk brasileiro. Este ritmo é bastante consumido no Rio de
Janeiro, e não deriva diretamente do funk norte-americano (BURNI-
M;MAULTSBY, 2006), mas de uma mescla com uma variedade de hip-
-hop (BREWSTER;BROUGHTON, 2000; BURNIM; MAULTSBY, 2006;
KEYES, 2002; ROSS; ROSE, 1994,). No final da década de 70 e início da
década de 80, os bailes que originariam os bailes funk, atraíam de qui-
nhentos mil a um milhão e meio de jovens negros ou identificados com
a negritude — isto é, com a pobreza — dos subúrbios do Rio (PALOM-
BINI, 2009). Nos fins de semana, o espaço é dividido com turistas de
diversas partes do mundo e do Brasil, no fim de tarde, o uso predomi-
nante é da Pedra do Arpoador, para atividade de ócio e contemplação e
o som predominante são os das ondas. No ponto 2, a presença dos ven-
dedores e de motores das bombas que abastecem as duchas instaladas
na areia ditam o som durante os dias da semana e finais de semana,
quando dividem espaço com músicas de estilos variados. No ponto 3,
próximo à Rua Farme de Amoedo, há identificação e domínio do espaço

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 95
por grupos LGBT, o espaço é identificado com bandeiras do movimento
LGBT (arco-íris) e as barracas e vendedores que ali circulam recebem
apoio de casas de festa para o público gay da cidade. Nota-se, também,
campanhas publicitárias para o público LGBT – festas, roupas íntimas,
viagens, etc – através de panfletagens e banners (Fig. 05). Aqui, o som de
maior relevância durante todos os dias da semana é de vendedores
ambulantes e música eletrônica e pop.

Fig. 05 | Candidato
político gay
fazendo
panfletagem na
praia de Ipanema.
Fonte: Gay1 RJ,
2016.6

No ponto 4, o espaço caracteriza-se pela prática de esportes na faixa de


areia e por famílias. A presença de famílias, possivelmente moradores da
região, pode ser explicado pela distância dessa zona com acessos fáceis
de transporte público. Há menor utilização de equipamentos portáteis.
No sábado, foi identificado a presença de turistas latinos, o que caracte-
rizou o consumo de música reggaetón, ritmo musical de origem latina e
difundido pela popularização em Porto Rico (DINZEY-FLORES, 2009).

6
Disponível em: < http://www.gay1.ws/2016/09/candidato-vereador-chama-atencao-
com.html> Acesso em fev. 2017

96 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Conclusão
A relação do usuário com a praia de Ipanema remonta a práticas cotidia-
nas, que exercem diferentes formas de relação com o espaço urbano
(visão / audição / tato) e outros tipos de avaliação baseados em caracte-
rísticas físicas elementares: forma, escala, cor, sonoridade, estética
(NIEMEYER; AVENTIN, 2012). Percebe-se que o ambiente da praia de
Ipanema configura-se como um exemplo de sistema de espaço livre de
praia urbana que é reconhecidamente apropriado por diferentes grupos:
comunidade LGBT, famílias residentes, turistas e residentes de comuni-
dades próximas. Essa zona representa a apropriação conjunta e a lingua-
gem urbana de grupos distintos específicos. A paisagem sonora resul-
tante desse espaço apresenta múltiplas características e é tradução da
heterogeneidade e de traços identitários de alguns usuários expressada
através de ritmos musicais e hábitos culturais diferentes. A manutenção
e conservação das características estéticas e culturais da praia de Ipa-
nema, bem como dos laços afetivos e de pertencimento, é fundamental
para a continuidade da identidade de cada zona da praia e remonta à
diversidade cultural e espacial da cidade do Rio de Janeiro.

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98 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O turismo e a fragmentação do espaço
da Estação das Docas 1

JULI A NA A. H A MOY
Especialista em Planejamento e Gestão do Turismo e do Lazer (NAEA/UFPA)

e Mestranda em Planejamento do Desenvolvimento (NAEA/UFPA – Brasil).

Resumo
O presente estudo aborda acerca do turismo e a fragmentação espacial
urbana e social no Complexo turístico Estação das Docas, em Belém/Pa.
O objetivo desta pesquisa é refletir acerca do espaço urbano e do
turismo, a partir do qual é possível compreender a cidade não como um
aglomerado de edifícios, mas sim um espaço construído à partir de rela-
ções sociais e culturais, as quais formam a essência do tecido urbano. No
processo de turistificação, essas relações impressas na cidade e nos
espaços públicos, passam por adequações estruturais e estéticas no
intuito de melhor atender os turistas. Há então a perda da substância
cultural desses espaços, ocasionando um ‘rompimento’ na relação de
pertencimento dos citadinos para com determinado espaço.

Palavras-Chave
Turistificação; espaço urbano; fragmentação espacial

1
Pesquisa realizada com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico – CNPQ.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 99
1. Introdução
O surgimento de uma cidade é reflexo da produção social humana, onde
o tecido urbano se forma a partir das relações estabelecidas em determi-
nado contexto, e se modifica de acordo com as mudanças dessas rela-
ções, sejam elas sociais, econômicas e etc. Neste sentido, é importante
pensar a influência do processo de metropolização na conformação de
uma cidade, para tanto, será utilizado como exemplo o espaço da Esta-
ção das Docas, localizado em Belém do Pará. O objetivo desse estudo é
refletir sobre a metrópole e como ela se espraia e privatiza os espaços,
especialmente por meio da atividade turística, limitando o acesso demo-
crático da população, gerando a perda da função social da cidade.
A Estação das Docas é um espaço público de lazer, localizado às mar-
gens da baía do Guajará, em Belém, e corresponde ao projeto de revita-
lização da área portuária da cidade, onde foram reaproveitados três
grandes galpões, pertencentes ao antigo Porto, que foram construídos
para atender às necessidades portuárias na Amazônia.
A problemática que incentiva essa pesquisa se dá pelo processo de
turistificação pelo qual a Estação das Docas passou, e que colabora com
o esvaziamento do espaço público com o surgimento de barreiras sim-
bólicas, e a privatização, transformando-se em um espaço que não mais
é compartilhado, mas sim dividido pelos diferentes grupos de usuários.
Há o que se chama de “sacralização” do espaço, onde a população de
baixa renda acessa pouco (ou muitas vezes não acessa).
A compreensão da fragmentação espacial urbana pelo processo de
metropolização é o início de uma reflexão acerca da influência do capi-
talismo na cidade e o consequente aumento das desigualdades sociais.
Esse quadro traz grandes conflitos para a sociedade, a qual passa a não
mais utilizar a cidade em sua totalidade. A cidade tem muitos de seus
espaços públicos privatizados, limitando o acesso apenas às classes
média e alta. Essa realidade se aplica também à espaços e equipamentos
de turismo e lazer, onde as classes de menor poder aquisitivo são exclu-
ídas. A não utilização dos poucos espaços públicos de turismo e lazer
(por motivos citados anteriormente), traz a perda da função social da
cidade e um esvaziamento dos espaços públicos de turismo e lazer. Os
espaços de lazer da cidade vieram acompanhados de um discurso turís-

100 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
tico e de uma grande preocupação com a estrutura física, porém, não se
deu a importância devida no que tange o atendimento de demandas
mais carentes.

2. A atividade turística e o uso do espaço


O turismo, para Figueiredo e Nóbrega (2015) são experiências provoca-
das pelo deslocamento e pela viagem. Ou seja não é somente o desloca-
mento que define o turismo, mas também as experiências produzidas e
possibilitadas por esse deslocamento, pelo tempo e espaço. Existem inú-
meras e controversas teorias sobre a definição do turismo, porém, essa
se baseia fundamentalmente no estudo do turismo baseado na ótica de
um fenômeno social, com ideias acrescidas de “conceitos de viagem, des-
locamentos, errâncias, motivações da viagem, mobilidades humanas,
romagens, êxodos” (FIGUEIREDO e NOBREGA, 2015, p.12), ultrapas-
sando as compreensões do discurso objetivo de uma atividade que ainda
é interpretada essencialmente com um olhar econômico.
Não se está negando aqui as consequências econômicas desse fenô-
meno, as quais são sempre bem-vindas. Contudo, a problemática envolta
nessa pesquisa é justamente a superposição da economia em contraste e
efeitos negativos no âmbito sócio-espacial. Sobre o turismo, “o impor-
tante não é classificá-lo, mas buscar a compreensão da sua essência, como
fato econômico, político, social e cultural, com grandes repercussões ter-
ritoriais”. (RODRIGUES, 1997 p.126). Isso porque o turismo utiliza o
espaço para consumo dos visitantes. Cruz afirma que o consumo do
turismo pelo espaço acontece por meio dos serviços que dão suporte à
própria atividade. (CRUZ, 1999). Mas, o que é o espaço? O espaço é um
produto social: é reflexo da sociedade e tem objetos (ou arranjo de objetos)
e conteúdo (as relações sociais). Assim, o espaço não é apenas forma, mas
também as relações e se manifesta por meio da aparência e da essência.
Carlos (2009) conceitua o espaço urbano como sendo o espaço cons-
truído (edificações) de um lado e o não-construído (relações sociais) do
outro, e é marcado por movimentos históricos que influenciam todo o
processo social. Nesse sentido, o turismo, além de grande consumidor
do espaço, também é considerado produtor e transformador, isto por ter
em seus investimentos a criação e a adaptação de infraestrutura para

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 101
atender o turista, concorrendo no processo de transformação dos espa-
ços. Essa mudança é entendida como a chamada “turistificação”. A utili-
zação do espaço para atender turistas e esse direcionamento espacial
traz consequências no âmbito espacial, social e cultural.
É importante apreender o uso e objetivo de uma cidade a partir da
compreensão dos moradores, além de repensar o tipo de desenvolvi-
mento que determinado espaço deve ter. O espraiamento e desenvolvi-
mento econômico de uma cidade traz consequências que devem ser ava-
liadas. Se desconsideradas, trazem graves prejuízos ao desenvolvimento
humano, influenciando na sociedade como um todo. O modo como são
organizados os espaços e equipamentos turísticos e de lazer, por vezes,
não despertam a sensação de pertencimento àquele lugar. Deve-se ter
em mente que os espaços de uma cidade são, antes de tudo, dos próprios
moradores.
Compreender o turismo como mais do que um deslocamento geográ-
fico significa limitar as possibilidades que essa atividade dispõe. Assim
como definir um espaço turístico apenas como receptáculo de turistas é
subutilizar os espaços de uma cidade. O turismo é comumente utilizado
como elemento chave para a construção de novos (ou ainda requalifica-
ção de) espaços de uma cidade, sempre associando à essa atividade todos
os benefícios (principalmente de cunho econômicos) que serão advin-
dos após os investimentos.
Muitos espaços urbanos passam por um processo de estetização, em
busca de uma estética mais apropriada para atrair mais visitantes. Nesse
processo, os espaços considerados turísticos passam por um esvazia-
mento de essência, onde a freqüência de pessoas externas à cidade faz
com que não seja estabelecida uma relação e sensação de pertencimento
entre o espaço e o morador. Geralmente, por serem espaços com certa
suntuosidade, a comunidade local não aceita aquele local como sendo
também seu, ainda que se trate de um espaço público não há uma apro-
priação pelos moradores da cidade. Essa realidade cria uma sacralização
dos espaços turísticos, que por vezes acabam sendo utilizados apenas
por determinada classe social com maior poder aquisitivo. São criadas
nesses espaços algumas barreiras simbólicas que limitam o acesso de
pessoas com menor poder aquisitivo.

102 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Para evitar o acesso segregado, o planejamento democrático dos
espaços públicos deve ser pensado dialeticamente com os espaços de
exclusão. Deve-se compreender que o espaço público é percebido com
dupla função de proporcionar
[...] lazer aos moradores, processos de sociabilidade (ou ainda socie-
tais), garantindo o bom funcionamento da engrenagem urbana, cal-
cada na dicotomia trabalho/lazer, também é visto como lugar de refe-
rência da cultura, divertimento e entretenimento, como amostra dos
“produtos” simbólicos que uma sociedade/cidade tem, e é para lá que se
dirigem os visitantes da cidade que querem ver aquelas vidas resumi-
das em obras, arte, exposições, totens, e o que mais pode ser classifi-
cado como identitário ou típico de lugar. (FIGUEIREDO, 2008, p.79)

Esse quadro de turistificação e fragmentação urbana e social do espaço


público e suas consequências é observável na cidade de Belém (Pará),
sobretudo na Estação das Docas, localizada no centro urbano. Essa rea-
lidade motivou o desenvolvimento desse estudo, por isso, analisa-se o
caso específico dessa realidade que incide sobre o espaço público.

3. A turistificação na estação das docas


De frente para a Baía de Guajará, a Estação das Docas, é um complexo
turístico com área de 32 mil metros quadrados em 500 metros de orla
fluvial de Belém. Inaugurado em 2000, é o resultado da parceria entre o
Governo do Estado do Pará e a Companhia Docas do Pará (CDP).
O espaço foi requalificado e é atualmente um dos mais conhecidos e
visitados pontos turísticos da capital paraense. Tem em sua infraestru-
tura três galpões: Boulevard da Gastronomia, Boulevard de Feiras e
Exposições Boulevard das Artes, além dos espaços Além disso, o com-
plexo turístico dispõe do Teatro Maria Sylvia Nunes e do Anfiteatro São
Pedro Nolasco.
Resultado de um cuidadoso trabalho de restauração do porto fluvial
da capital paraense surgiu os boulevares. Os três armazéns de ferro
inglês são uma mostra da arquitetura característica da segunda
metade do século XIX. Dos Estados Unidos, datados do século XX,
vieram os guindastes externos, que são a marca registrada do com-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 103
plexo turístico. A máquina a vapor fornecia energia para os equipa-
mentos do porto, em meados de 1800. Para defender a orla belenense,
foi construído o Forte São Pedro Nolasco. Destruído, em 1825, após a
Cabanagem, as suas ruínas foram revitalizadas e deram lugar ao
Anfiteatro (ESTAÇÃO DAS DOCAS, 2017).

Os Boulevards são margeados por uma calçada com bancos e mesas para
contemplação do rio. Espaços como a Estação das Docas, de acordo com
Figueiredo & Nóbrega (2009),
[...] foram construídos para dar resposta às ideias de aumento de
áreas de lazer, cultura, turismo e criação de atrações. Nestes espaços
de estruturas mistas, é possível encontrar: áreas de lazer gratuito
para circulação; equipamentos culturais como cine-teatros, teatros e
anfi teatros; tendas de diferentes tipos desde artesanato, livrarias,
roupas; cafeterias e sorveterias; restaurantes, bares e museus
(FIGUEIREDO & NÓBREGA 2009, p. 136).

Há nesse lugar o que Figueiredo (2008, p. 86) aponta como ”resumo da


cidade”, onde acontecem manifestações culturais, culinária, e etc., o que
para os moradores pode-se considerar como a reafirmação dos símbolos
locais, característicos à identidade do povo, e para os turistas e visitan-
tes, demonstra a vida da cidade e de seus citadinos, observando-a como
única e diferente (FIGUEIREDO, 2008).
O espaço, foi modificado por meio de ações de políticas públicas e
requalificados em espaços de lazer gratuito, o que contribuiu com grande
relevância para a turistificação dos espaços e sua valorização, se tornando
inclusive um dos principais cartões postais da cidade. Contudo é necessá-
rio repensar as circunstâncias de turistificação desse espaço.
O idealizador e responsável pelo projeto foi o arquiteto Paulo Chaves
Fernandes, na época também Secretário de Cultura do Governo do
Estado do Pará. Com orgulho, afirma:
Seguindo o exemplo de grandes centros como Nova York e Buenos
Aires, Belém chega ao século 21 provando que é possível restaurar
centros históricos sem aprisionar- se às glórias do passado” (PAULO
CHAVES FERNANDES, apud GOVERNO DO PARÁ, 2003)

104 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Percebe-se na fala do arquiteto que o projeto segue um modelo conhe-
cido como water fronts2 , tradicional modelo de intervenção em áreas de
frente para rios, mares e etc, existente também em Buenos Aires, em
Londres e tantos outros lugares pelo mundo. Há uma tendência mundial
em utilizar espaços de lazer homogêneos.
Essa homogeneização dos espaços gera uma homogeneização das dife-
rentes culturas, transformando esses espaços sem essência, sem substan-
cia. Essa é uma forte crítica aos arquitetos e urbanistas: a criação de espa-
ços de significação criada e dogmatizada por técnicos versus a significação
vivida pelos moradores. Onde os parques e espaços públicos de lazer não
são observados como espaço de convivência e relações sociais, mas sim
um lugar de valorização territorial e espaço recreativo de lazer com
charme e qualidade estética ao meio urbano. Serpa (2007) diz que no Bra-
sil há uma grande busca por espaços públicos visíveis, graças às parcerias
público-privadas, que ao elaborarem projetos de grandes espetáculos são
importantes instrumentos para a valorização fundiária. Além de seguir
esse modelo internacional, a implementação desse espaço não contou
com qualquer tipo de envolvimento ou participação da comunidade local.
As ações como estas, acontecidas na Estação das Docas, estimulam o
processo de turistificação e acaba por direcionar as cidades para a cadeia
de produção da atividade turística, a partir da ótica de que “a adaptação à
atividade turística não ocorre sem a modificação incisiva da paisagem e
seus elementos.” (FIGUEIREDO & NÓBREGA, p.137, 2009). Porém, Figuei-
redo e Nóbrega (2009) também ressaltam que muitos destes exemplos,
que influenciam ativamente na turistificação do espaço, podem estar
relacionados à perda da essência do lugar, visto que são projetados inicial-
mente sob um conceito de estetização e espetacularização.
Certamente a existência de novos espaços e equipamentos de lazer no
meio urbano eleva a possibilidade de atrair turistas e visitantes, tornando
a cidade mais atrativa e Contudo “é preciso que a competição evolua da
imitação para a inovação e de baixo para altos saltos de investimento, não
apenas no atrativo físico, mas principalmente em intangíveis, como habi-
lidade e tecnologias” (WITTMANN, DOTTO & BOFF , 2008, p.327).

2
Do inglês Beira-mar, é associado à espaços com vista para rio, baia, mar e etc

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 105
Conclusão
A compreensão acerca da fragmentação espacial urbana pelo processo
de crescimento e metropolização é o início de uma reflexão acerca da
influência do capitalismo na cidade e o consequente aumento das desi-
gualdades sociais. Esse quadro traz grandes conflitos para a sociedade,
a qual passa a não mais utilizar a cidade em sua totalidade. A cidade tem
muitos de seus espaços públicos privatizados, possibilitando o acesso
apenas às classes média e alta. Essa realidade se aplica também à espa-
ços e equipamentos de lazer, onde as classes de menor poder aquisitivo
são excluídas do acesso ao lazer. A não utilização dos poucos espaços
públicos de lazer (por inúmeros motivos citados anteriormente), traz a
perda da função social da cidade e um esvaziamento dos espaços públi-
cos de lazer.
A implantação do projeto Estação das Docas constitui uma das mais
reconhecidas iniciativas do Estado voltada para o incentivo da atividade
turística em Belém. Porém, é importante destacar que tal iniciativa, ao
utilizar alguns aspectos culturais da região – destaque para a culinária
–, força uma ilha artificial da cultura local, com expressões montadas
para agradar o turista, ainda que para isso seja necessário estetizar a
cultura, a culinária e mesmo o espaço. O espaço Estação das Docas,
conhecido como complexo turístico teve sua base elaborada a partir de
concepções, procedimentos e práticas exógenas à cidade de Belém, cal-
cadas em modelos importados de outros lugares e inseridas circuito das
metrópoles do mundo capitalista (principalmente por meio de réplicas
de modelos e processos decisórios centrados em órgãos gestores desco-
lados do setor público.

Bibliografia
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CRUZ, R. de C. A. da. Política de turismo e (re) ordenamento de territórios
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 107
Qualidades sensíveis e o processo de projeto:
categorias de análise fenomenológica 1

NATA LI A NA K A DOM A R I BUL A


Universidade Federal da Fronteira Sul, Erechim/RS, Brasil.

M A R IST EL A MOR A ES DE A LMEIDA


Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC, Brasil.

Resumo
Em busca de compreender como as qualidades sensíveis podem ser inten-
cionalmente materializadas na arquitetura este artigo apresenta uma pro-
posta de categorias de análise fenomenológica que sintetizam experiên-
cias arquitetônicas. Expõe brevemente a pesquisa teórica dos precedentes
que embasam a definição das categorias, desde as bases teóricas até sua
aplicação na arquitetura. Uma das principais discussões está no conflito
entre as diferentes linguagens utilizadas durante o processo de projeto da
arquitetura, que representa de forma analítica e geométrica a complexi-
dade das experiências e significados do espaço vivenciado. Dessa forma, a
pesquisa é de abordagem qualitativa fenomenológica de caráter explora-
tório e descritivo e utiliza a técnica categorial do método de interpretação
de análise de conteúdo. Tendo em vista as potencialidades da abordagem
fenomenológica na qualificação arquitetônica, pretende-se que o trabalho
contribua para a reflexão e aplicação do que aqui se expõe nos processos
projetuais em arquitetura e urbanismo.

Palavras-Chave
Arquitetura e fenomenologia; Qualidades sensíveis;
Processo de projeto; Arquitetura e linguagem.

1
Este artigo faz parte dos resultados da dissertação de mestrado intitulada Arquitetura
e fenomenologia: qualidades sensíveis e o processo de projeto, apresentada ao PósARQ-
UFSC no ano de 2015, com orientação da Prof. Drª. Maristela Moraes de Almeida e co-
orientação da Prof.ª Drª Zuleica Maria Patrício Karnopp e com apoio da Capes.

108 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
O projeto de arquitetura e urbanismo envolve investigação desde o iní-
cio do processo, e por isso, não há uma fórmula a ser seguida. Cada pro-
fissional acaba desenvolvendo seu próprio processo projetual, ou, mui-
tas vezes não tem um controle do processo. Essa falta de controle
corrobora para a escassez de informações a respeito desses modus ope-
randi, tão importantes quanto os produtos finais, ou opus operatum
(OLIVEIRA, 2002; BOUTINET, 2002), que são o que encontramos mais
facilmente publicados.
Embora as discussões sobre o processo de projeto em arquitetura e
urbanismo estejam sendo realizadas com mais empenho atualmente, a
caixa preta ainda é um método predominante no processo da maioria
dos profissionais.
Muitos métodos, estratégias e ferramentas de diversas áreas do
conhecimento têm sido utilizados por arquitetos em busca de auxiliar
na complexidade que envolve o fazer arquitetônico.
Nesse trabalho, postula-se que a fenomenologia tenha grande poten-
cial para tratar de assuntos complexos como o processo de projeto de
arquitetura e urbanismo, devido seu caráter holístico integrador trans-
disciplinar e experiencial.
A pesquisa é de abordagem qualitativa fenomenológica e de caráter
exploratório e descritivo e utiliza o método de interpretação de análise
de conteúdo a partir de categorias (BARDIN, 2004).
De acordo com Seamon (2000), cada pesquisa fenomenológica requer
seu próprio ponto de partida, método e apresentação, portanto não se
pretende aqui definir regras, etapas, procedimentos ou formatos; antes,
busca-se descrever e compreender.
A proposta de categorias de análise fenomenológica surge de um
estudo teórico que vai desde as bases teóricas até a aplicação na arquite-
tura, encontrando as recorrências e categorizando.
Busca-se diluir a dissociação entre sujeito e objeto a partir da aproxima-
ção da intenção projetual com a materialização da arquitetura, por meio da
compreensão dos conflitos entre a linguagem de expressão utilizada no
espaço geométrico do projeto e a experiência do espaço vivenciado.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 109
Procedimentos metodológicos
A pesquisa é de abordagem qualitativa fenomenológica e de caráter
exploratório e descritivo. Foi utilizado o método de análise de conteúdo
(BARDIN, 2004; QUIVY, CAMPENHOUDT, 2005) método de interpre-
tação de origem da hermenêutica, que é a teoria da interpretação ou
teoria geral da compreensão (GADAMER, 2008).
A análise de conteúdo é um método empírico, porém extremamente
preciso, que consiste em um conjunto de técnicas para análise de vários
tipos de comunicações (BARDIN, 2004). A técnica utilizada foi a de aná-
lise categorial (BARDIN, 2004; QUIVY; CAMPENHOUDT, 2005), que
permite “[...] a classificação dos elementos de significação constitutivos
da mensagem. ” (BARDIN, 2004). De acordo com Durkheim (1996) as
categorias devem envolver todos os conceitos.
A análise categorial é a mais antiga das técnicas da análise de conte-
údo, e também a mais utilizada na prática. O fato de a fenomenologia na
arquitetura não ser um movimento com princípios definidos torna a
categorização dos conceitos necessária para classificar itens de sentido
recorrentes nos discursos dos autores estudados.

Arquitetura e fenomenologia
A fenomenologia é uma filosofia existencial que estuda a relação do ser
com o mundo. Surgiu da união da filosofia com a psicologia e é a ciência
da elementaridade da natureza que define os conceitos fundamentais
das coisas. Segundo Smith (2013), é o estudo das estruturas da consciên-
cia experienciadas em primeira pessoa ou, mais especificamente, é o
estudo dos fenômenos, da aparência das coisas e de quais são seus signi-
ficados na experiência humana.
Da mesma forma, para o filósofo Merleau-Ponty (1999) a interface
entre a mente e o mundo é feita através do corpo, em outras palavras,
nosso conhecimento vem da experiência com o mundo através de nos-
sos sentidos.
Na fenomenologia, o sujeito só se torna sujeito a partir dessa sua relação
com o mundo, e este só se torna mundo a partir do contato com o sujeito.
Essas relações ocorrem a partir das aparências da arquitetura, os fenôme-
nos arquiteturais tal qual eles se nos apresentam (MALARD, 2006).

110 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Cada sujeito percebe o mundo de forma particular, é uma relação
puramente existencial, partindo da ideia de Barthes (1997) de que qual-
quer espaço humano é sempre um espaço com significados, e da afirma-
ção de Pallasmaa (2006) de que, na maior parte das vezes, os significa-
dos estão nas experiências que uma pessoa teve com o lugar, e não nas
formas do mesmo, que a forma funciona como um signo que faz agir os
sentimentos.
Norberg-Schulz (2006) afirma que o propósito da arquitetura é forne-
cer um ponto de apoio existencial que propicie uma orientação no
espaço e uma identificação com o caráter específico de um lugar. Trata-
-se do habitar poeticamente, que para Heidegger (2002) significa falar
através de imagens da memória, deixar ver o invisível, fugindo das
reproduções e imitações literais da própria imagem genuína. (NORBER-
G-SCHULZ, 2006).
Em Fenomenologia da Percepção (1999), o filósofo Merleau-Ponty afirma
que a fenomenologia é um constante recomeçar, está sempre em estado de
aspiração. É isso que Kahn (2002) quer dizer com o reescrever o programa,
é o desapegar das regras pré-definidas e buscar a essência para o projeto.
Uma arquitetura pensada tendo a fenomenologia como instrumento
resgata os símbolos tradicionais, ou arquétipos (JUNG, 2000), encontra
a sua essência e os transforma no estranhamente familiar de Freud
(2010), na secundidade semiótica de Peirce (2010), ou no mito de Barthes
(1999), deformando sua linguagem, mas mantendo seu significado.
No entanto, a percepção que uma pessoa tem de um lugar depende,
além das experiências, da suscetibilidade do observador, de sua menta-
lidade, educação, de seu meio ambiente e de seu estado de espírito no
momento (RASMUSSEN, 1998).
Este é o objetivo da abordagem fenomenológica: transformar o obser-
vador passivo em um descobridor de potencialidades globais, podendo
imaginar os significados em seu modo de perceber e interpretar, desape-
gando-se dos fundamentos absolutos.
A abordagem fenomenológica na arquitetura já vem sendo discutida
há algumas décadas, mas, ainda há uma grande lacuna entre as teorias
da academia e a prática arquitetônica, uma lacuna que acabou por defi-
nir o período pós-moderno da arquitetura (OTERO-PAILOS, 2010).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 111
Shirazi (2012, p.13) afirma que não se pode dizer, ainda, que exista um
movimento fenomenológico na arquitetura, em comparação ao Movi-
mento Moderno, pois não há um corpo teórico ou prático que siga exa-
tamente os mesmos princípios, mas pode-se dizer que há um “discurso
fenomenológico” na arquitetura, composto por algumas preocupações e
intenções em comum. O diagrama a seguir (Figura 1) sintetiza os auto-
res encontrados:

Fig. 01 | Diagrama de autores da fenomenologia na arquitetura e seus precedentes.


Fonte: BULA, 2015.

O diagrama é análogo à uma árvore, abaixo da terra está a raiz, que


compreende a base teórica dos autores. Husserl está na linha que marca
o surgimento da fenomenologia como disciplina, integrando o tronco,
que é formado por teóricos que, junto a ele, avançaram na conformação
fenomenológica. Na copa estão os estudos que de alguma forma são apli-
cados ao campo da arquitetura, considerando também aqueles de áreas
como a filosofia, antropologia, sociologia e geografia.

112 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A pesquisa teórica conduz à própria natureza experiencial da feno-
menologia e leva a compreender que de fato há tantas fenomenologias
quanto fenomenólogos. Contudo, é possível observar os temas recorren-
tes nos discursos de vários autores, como, por exemplo, a importância da
experiência espaço-temporal do mundo, vivenciada através dos siste-
mas sensoriais e da memória.
Observa-se também que cada autor tem sua própria forma de abordar
os mesmos assuntos, mas que suas bases teóricas, mesmo que não explí-
citas, estão direcionadas a Heidegger e Merleau-Ponty. Estes, por sua vez,
partem dos princípios de Husserl. No entanto, não se limitam a estes,
imprimem sua marca, tornando suas linhas de pensamento mais passí-
veis de aplicação no campo da arquitetura, que é um fenômeno humano.
A categorização de elementos indivisíveis, como o próprio mundo-
-da-vida, depende dos olhos de quem vê. Há na arquitetura alguns estu-
dos que apresentam propostas de categorias de análise e composição.
Autores como Ching, Baker, Clark e Pause seguem a linha de pensa-
mento que prevaleceu durante séculos: a supervalorização da visuali-
dade. Enquanto Unwin e Hertzberger promovem o retorno às origens da
arquitetura, considerando o corpo como mediador das experiências,
dando espaço para as sensações. Visto de outra ótica, os primeiros par-
tem da análise científica, mais fragmentada, já os posteriores vão em
busca da síntese, procurando integrar os componentes da experiência,
que “[...] compreende conjuntos complexos cujos componentes, mesmo
sem ter uma relação lógica, aparecem, no entanto, totalmente integra-
dos” (NORBERG-SCHULZ, 1975, p. 242, tradução nossa).

Análise de conteúdo: princípios fenomenológicos


Com a intenção de fazer emergir aspectos da filosofia na arquitetura,
interpretando e aproximando os termos utilizados na fenomenologia
para a linguagem utilizada pelo arquiteto durante o processo de projeto,
foi realizada uma síntese a partir dos temas, princípios, conceitos e cate-
gorias encontrados na literatura para organizá-los, primeiramente, reu-
nindo os semelhantes em grupos.
É possível notar que muitos autores se referem aos mesmos temas,
embora utilizem nomenclaturas distintas ao se referirem a estes. Os con-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 113
ceitos ou categorias identificadas foram analisadas, a fim de encontrar as
principais recorrências, assim como correspondência de temas que consti-
tuem a mesma essência. Ademais, observam-se vários níveis de categorias.
Primeiramente, delineia-se os princípios da filosofia fenomenológica
que norteiam o processo da arquitetura como fenômeno: totalidade,
retorno às essências, intencionalidade e experiência.
O princípio de totalidade deriva da teoria holística (WEIL; D’AMBRO-
SIO; CREMA, 1993) ou, mais recentemente, da teoria dos sistemas comple-
xos (MORIN; LE MOIGNE, 2000), os quais consideram que as coisas da vida
são inseparáveis, superando as dualidades e não aceitando fragmentações.
Na arquitetura, este princípio está relacionado à natureza vivenciada
dos espaços, unindo o processo e o produto (OLIVEIRA, 2002; BOUTI-
NET, 2002), ou melhor, o processo projetual à experiência ambiental
(ALMEIDA, 2001), num ciclo contínuo de retroalimentação do conheci-
mento. Esse ciclo permite que os precedentes sirvam de repertório para
novas vivências e novos projetos, quer tratem dos aspectos simbólicos,
funcionais ou tecnológicos.
O segundo princípio fenomenológico, de retorno às essências, é vol-
tar ao princípio, ou às origens, recusar respostas padrão, livrar-se dos
conceitos pré-estabelecidos e fazer a pergunta primeira, com a ingenui-
dade de uma criança. Este princípio, na arquitetura, faz com que o
arquiteto reflita sobre as necessidades do espírito humano, que vão
muito além do abrigo e da coerência funcional, faz com que ele refor-
mule o programa e eleve a qualidade dos ambientes projetados, tendo
como finalidade, sempre, a experiência.
O terceiro princípio é a intencionalidade, e está relacionado à consci-
ência do arquiteto frente ao problema, às condicionantes, é a intenção
de uma experiência futura. Depende da sensibilidade do arquiteto para
imaginar e antever a experiência dos espaços antes de serem concretiza-
dos e dos temas que julga essenciais para o projeto.
O quarto princípio é a experiência do espaço vivenciado, o fenômeno
do encontro do ser com o mundo, que permeia as características morfo-
lógicas dos ambientes, os materiais, condições de luz, som e tempera-
tura, e também cultura, memória e estado de espírito de cada um dos
indivíduos, entre muitas outras variáveis complexas.

114 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A partir destes quatro princípios, a arquitetura como fenômeno pode
ser compreendida como ciclos do espaço vivenciado (DOVEY, 1993), que
seria o espaço no qual ocorre a experiência ambiental. No entanto, o
projeto arquitetônico é concebido no espaço geométrico, para ser cons-
truído e voltar a ser vivenciado (BOLLNOW, 2008; DOVEY, 1993).
Embora tenham distintas naturezas, neste processo da arquitetura
como fenômeno, os dois tipos de espaços estão relacionados, sendo que
o espaço geométrico, ou projeto arquitetônico, deve ser pensado a partir
do espaço vivenciado, de forma que, posteriormente, contribua com as
experiências neste espaço. A experiência é, portanto, origem e finali-
dade do projeto arquitetônico, sendo assim, o espaço geométrico deve
prover condições para o tipo de vivência esperado.
A figura a seguir (Figura 2) ilustra a relação entre os princípios fenome-
nológicos na arquitetura. Dentro de uma totalidade, está o ciclo entre o
espaço vivenciado, onde ocorre a experiência, e o espaço geométrico,
onde está a intenção do arquiteto atingida pelo retorno às essências.

Fig. 02 | Diagrama dos princípios fenomenológicos na arquitetura. Fonte: BULA, 2015.

Para que o espaço geométrico seja utilizado a serviço do espaço viven-


ciado, deve permitir comunicar informações relativas à experiência, o
que muitas vezes não acontece de maneira satisfatória, devido à natu-
reza cartesiana das representações. Por isso, as formas de representação
artesanais, como croquis e modelos físicos em escala, auxiliam na mate-
rialização das intenções, pois têm o corpo como mediador da experiên-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 115
cia física artesanal, o que facilita a ligação entre a imaginação e a ima-
gem, intenção e experiência.
A materialização é a linguagem ou código que permite a apreensão
da intenção do arquiteto na experiência. Norberg-Schulz diz que “[...] é
impossível considerar o mundo separadamente da linguagem que é
compreendida como Casa do Ser” (NORBERG-SCHULZ, 1983, p. 67, tra-
dução nossa).
Com essa afirmação, Norberg-Schulz utiliza o termo de Heidegger
(apud GUSBERG, 1986), o qual afirma que a linguagem é onde o ser
humano habita, pois sem a linguagem não é possível comunicar ideias.
O fato de a arquitetura ser uma criação humana possibilita defini-la
como “[...] uma prática que determina as relações comunicacionais entre
os homens.” (HEIDEGGER apud GUSBERG, 1986, p. 42).
Este processo funciona como um ciclo de interação contínua, alternando
entre o espaço vivenciado e o espaço geométrico, contidos em um contexto
espaço-temporal ou, como Almeida (2001) define, a experiência ambiental
realimentando o repertório para o pensar e o fazer arquitetônico.
O espaço geométrico corresponde ao projeto arquitetônico em si, no
qual estão os elementos intangíveis, como a intencionalidade do arquiteto
de como o espaço deve ser para possibilitar certas experiências. A inten-
ção deve ser dotada da essência da arquitetura e, portanto, estar baseada
nas atividades ou ações humanas, funcionando como mensagens que são
transmitidas para o espaço vivenciado através das sensações.
Já no espaço vivenciado, estão os elementos tangíveis, que são passí-
veis da experiência e, então, podem ter significados para aqueles que os
vivenciam. Na sobreposição dos dois tipos de espaço, está a materializa-
ção, que pode ser realizada através de croquis e esboços, plantas e cor-
tes, modelos em escala, protótipos, até chegar à concretização do pro-
jeto, a construção final da obra, trabalhada através dos elementos e
atributos arquitetônicos.
Partindo dessa ideia de comunicação, utiliza-se um modelo da teoria
da informação de Jacobsen (2010) – no qual um remetente transmite
uma mensagem a um receptor, utilizando um código através de um con-
tato, dentro de um contexto específico – para elaborar um diagrama que
ilustre o processo da arquitetura como fenômeno.

116 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O Remetente seria o arquiteto, através de sua intencionalidade, ele
codifica a mensagem até o receptor, que é o usuário. Este, por sua vez,
decodifica a mensagem em sua experiência no espaço. O contato, ou
canal de comunicação, é o corpo, que apreende a mensagem através das
sensações causadas pelos sistemas sensoriais e pelo movimento. O
código são os elementos e atributos arquitetônicos, que podem ser com-
binados de forma a materializar significados. Tudo isso acontece dentro
de um contexto, que abrange o clima, a paisagem, a cultura, entre outras
condicionantes prévias do projeto.
Embora cada arquiteto tenha um processo de projeto distinto, as etapas
de análise, síntese e avaliação estão sempre presentes. No processo fenome-
nológico, são os fenômenos experienciais que devem ser analisados,
enquanto a síntese é a intencionalidade de uma experiência, e a materiali-
zação auxilia na etapa de avaliação. Este processo é cíclico e pode, após cada
avaliação, retornar à fase de análise ou de síntese, até chegar à etapa em que
a materialização será a construção final do edifício (Figura 3).

Fig. 03 | Processo de projeto com abordagem fenomenológica. Fonte: BULA, 2015.

Proposta de categorias de análise fenomenológica


Para identificar a associação existente entre a intenção projetual do
arquiteto e sua materialização nos processos de projeto arquitetônico
sob a ótica da fenomenologia, é preciso definir as categorias de análise a
partir da experiência. Embora se tenha visto muitas tentativas de cate-
gorização da arquitetura, elas sempre são muito fragmentadas.
A partir da análise de conteúdo define-se as seguintes categorias:
conexão com o lugar: ancoragem; espaço e tempo: movimento; material
e imaterial: qualidades sensíveis; e atmosfera.
A Conexão com o lugar: ancoragem é a categoria que integra a conexão
com o local, a geografia, o clima, o terreno e seu entorno, a paisagem, não

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 117
deixando de lado os aspectos culturais, relacionados à identidade da
comunidade, à memória, à afetividade, para que haja a apropriação do
local, transformando-o em um lugar com significados para as pessoas.
A categoria Espaço e tempo: movimento surge da natureza experien-
cial da arquitetura, que é gradual, se apreende o espaço ao longo do
percurso, e cada ângulo de visão vai compondo uma imagem total da
experiência. A arquitetura pode criar percursos como um conjunto de
visões, como a visão serial de Gordon Cullen (1983), a parallax ou con-
junto de perspectivas de Steven Holl (2006) ou a promenade arquitetu-
ral de Le Corbusier.
A multissensorialidade da arquitetura depende tanto das qualidades
dos materiais (textura, cor e dureza), quanto dos estímulos de luz, som e
temperatura, e da maneira como são combinados nas composições (escala
e proporção). A combinação dos elementos tangíveis e intangíveis confor-
mam espaços, delimitam, diferenciam e transformam. São esses elemen-
tos que integram a categoria Material e imaterial: qualidades sensíveis.
Finalmente, a categoria mais complexa, a Atmosfera, na qual estão
contidas todas as outras, representando a totalidade da experiência. A
atmosfera de um espaço depende de todas as características de mate-
riais, forma, escala, proporção, luz, som, temperatura, identificação com
o local, sensações, percurso, entre outras. A atmosfera é uma entidade
que não pertence nem ao espaço físico nem ao homem, e sim ao fenô-
meno que é vivenciado com a experiência do ser-no-mundo.

Considerações finais
O conflito entre as distintas naturezas dos espaços, o vivenciado e o
geométrico torna o processo de projeto de arquitetura ainda mais com-
plexo. É desafiador transmitir informações sobre elementos abstratos,
como ideias ou intenções e expor em textos e imagens estáticas a com-
plexidade da experiência arquitetônica.
A abordagem fenomenológica do processo de projeto se diferencia
por sua preocupação com o espaço vivenciado, por ter a intenção de cau-
sar experiências com significados. Muitos métodos de projeto têm base
na fenomenologia, mesmo que não explicitamente.

118 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Para projetar espaços com intenções experienciais, há a necessidade
de, além de compreender a percepção humana, ter um repertório de pre-
cedentes arquitetônicos.
Na fenomenologia, cada arquiteto pode definir os aspectos mais
importantes para sua produção arquitetônica, fornecendo uma maneira
de ver as particularidades de forma sintética, aliando todas as dimensões
da arquitetura. Este olhar é importante em todas as áreas da vida, princi-
palmente em face à acentuada fragmentação disciplinar da atualidade.
Para além, pode-se dizer que o estudo gerou muito mais questiona-
mentos do que conclusões. Isso é fenomenologia: ampliar as possibilida-
des, instigar investigações e reflexões. Há, portanto, inúmeros questio-
namentos e possibilidades de investigação que podem contribuir com o
tema, pois a fenomenologia é um constante recomeçar que depende do
olhar de quem vivencia os fenômenos em busca de sua essência.

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 121
Urbanização turística
nas áreas costeiras em Portugal:
o resort como motor de urbanização
CR IST INA C AVACO
Professora Auxiliar e Investigadora

CÉLI A SOUSA M A RT INS


Investigadora

Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design,

Faculdade de Arquitetura, Universidade de Lisboa.

Resumo
A intensificação do fenómeno da litoralização em Portugal, a partir da
segunda metade do século XX, é também fruto do desenvolvimento de
novas práticas e dinâmicas em torno da importância crescente do lazer
e do consumo na sociedade atual, com importantes repercussões no ter-
ritório. Neste contexto, este artigo procura contribuir para o corpo do
conhecimento da urbanização turística nas áreas costeiras em Portugal,
pautado por uma leitura dos assentamentos turísticos que coloca em
evidência uma forte correlação entre turismo, urbanização e imobiliário.
Recorrendo ao resort como objeto de estudo, demonstra-se a partir da
interpretação da sua genealogia (génese e evolução em termos espaço
temporal e processual), a sua manifesta participação no desenvolvi-
mento da urbanização extensiva nas áreas costeiras em Portugal.

Palavras-Chave
Urbanização turística; Turismo residencial; Resort; Áreas costeiras;
Portugal.

122 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
I. Introdução
O turismo, mais particularmente o turismo residencial, tem tido nas
últimas décadas um papel determinante nos processos de urbanização
extensiva nas áreas costeiras. Em Portugal, esta situação é especial-
mente importante dado que, à tendência progressiva de litoralização da
estrutura de povoamento, com a concentração da maioria da população
e das atividades nas áreas costeiras, se associa o desenvolvimento da
indústria recreativa ligada ao sol, ao mar e ao golfe.
Apesar de Portugal não ser tão frequentemente retratado na litera-
tura da especialidade como o são outras regiões mediterrâneas (Riviera
Francesa, Costa Brava e Costa do Sol, ou as Ilhas Baleares em Espanha),
onde os alojamentos turísticos e a segunda habitação têm atingido
níveis record (entre 20 a 40%) (EEA, 2006b), o caso português não deixa
de ser pertinente. Por um lado, apresenta um elevado ritmo de urbani-
zação nas últimas duas décadas, com uma variação da taxa de artificia-
lização e consumo de solo que ultrapassa os 40% (CAVACO et al,
2015:80). Por outro lado, tem assistido ao desenvolvimento recente de
grandes empreendimentos turísticos e resorts. Apesar de significarem a
ocupação de vastas áreas de solo classificadas como rurais, com impac-
tos significativos no consumo de recursos naturais e na transformação
da paisagem, não deixam de ser vistos como um dos principais inputs
para o crescimento da economia nacional. Nas últimas décadas recebe-
ram diversos incentivos públicos (e.g. exceção legislativa para loteamen-
tos turísticos em solo rural; vistos Gold associados à venda de imobiliá-
rio de luxo) e, nalguns casos, foram mesmo considerados como projetos
de interesse nacional.
Focando-se no resort como objecto de estudo e análise, o presente
artigo tem como objetivo dar um contributo útil para o estudo, evolução
e caracterização da urbanização turística nas áreas costeiras em Portu-
gal. Ao explorar a relação que se estabelece entre turismo, urbanização
e imobiliário, o artigo pretende entender a importância e o papel do
resort na expansão e desenvolvimento da urbanização extensiva nas
áreas costeiras em Portugal. Introduz uma leitura histórica da forma
como, ao longo do tempo, o resort se foi configurando e implantando no
território, balizado e condicionado, ora por factores económicos relati-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 123
vos à dinâmica turística e imobiliária, ora por factores político-regula-
mentares associados à regulação do turismo, da urbanização e ao
ordenamento do território, ora ainda por factores físicos e geográficos
relativos às lógicas de distribuição e assentamento de pessoas e ativida-
des em função das qualidades intrínsecas de cada região e lugar.

II. Considerações conceptuais em torno da urbanização


turística e do resort integrado
Apesar dos conceitos de resort e urbanização turística fazerem hoje
parte do discurso corrente no âmbito da problemática do turismo e dos
seus efeitos sobre o território, o seu uso, conceptualização e relação não
se encontram verdadeiramente estabilizados.
A noção de urbanização turística acarreta desde logo uma contradi-
ção inerente. Se, por um lado, o processo de urbanização, associado à
concentração crescente de população em áreas urbanas e à expansão do
espaço urbano, está ligado à procura de eficiência e racionalidade na
organização social dos assentamentos populacionais, designadamente
no que respeita ao provimento de bens e serviços essenciais, como sejam
a habitação, a educação ou a saúde, por outro lado, o desenvolvimento
do turismo encontra a sua razão de ser na fuga ao quotidiano, à rotina,
na procura da excecionalidade, no consumo de bens e serviços ligados
ao prazer, ao lazer e à recreação.
Segundo Patrick Mullins (1991), a urbanização turística é uma “urba-
nização baseada no consumo”, mais especificamente “na venda e con-
sumo de prazer”. De acordo com o autor, foi a conversão do turismo
numa indústria de massas, capitalizada pela acumulação de capital do
período fordista, bem como pelos direitos adquiridos do Estado Social
(e.g. direito ao salário e férias pagas) que democratizou o turismo e ala-
vancou a criação de cidades e assentamentos urbanos especificamente
orientados para as formas de lazer.
Mas aquilo que começou por ser essencialmente uma “urbanização
pelo lazer e pelo consumo” (Martins, 2011), ancorada em produtos hote-
leiros e equipamentos de recreação, tem ganho, sobretudo nos últimos
anos, uma dimensão económica e imobiliária particularmente ligada ao
fenómeno da segunda residência e do turismo residencial. Esta questão,

124 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
contudo, traz também alguma controversa. Conforme afirma Patuleia,
embora a prática turística em segundas residências não seja recente,
está para muitos no “limiar do conceito de turismo” (2011a e b), tradu-
zindo outro tipo de dinâmicas societais, como seja a da multi-residen-
cialidade ou da “sociedade dos indivíduos móveis” (cf. Stock, 2005).
Usado para significar a utilização sazonal e temporária, dedicada ao
ócio, de construções residenciais de carácter fixo e permanente (Patu-
leia), o conceito de turismo residencial traduz, afinal, uma transmuta-
ção significativa no papel da habitação. Esta deixa de ser vista como uma
função e direito essencial, para se tornar um bem de consumo e de capi-
talização económica, com a valência motivacional adicional do lazer.
Tomando várias formas e designações (casas de férias, de fim-de-se-
mana, segunda habitação, suburbanização sazonal), o fenómeno assis-
tiu a uma evolução, com a canalização e expansão da segunda residência
para o contexto particular dos conjuntos turísticos ou resorts integrados
– empreendimentos turísticos que, complementarmente à componente
do imobiliário residencial, oferecem um conjunto de equipamentos e
serviços partilhados. O conceito de turismo residencial (que em inglês
tem adoptado designações como second homes tourism ou real estate
tourism) está, aliás, muito ligado a esta forma de expressão do fenó-
meno. Aqui, a mera venda de imobiliário a não residentes já é entendida
como atividade turística (Patuleia, 2012) produzindo, não apenas uma
sobreposição obscura entre desenvolvimento turístico e desenvolvi-
mento imobiliário, como ainda a “instrumentalização imobiliária da ati-
vidade turística” (Nieves et al., 2008).
Em Portugal, a adoção do conceito de resort traduz, aliás, a emergên-
cia deste novo paradigma no mercado imobiliário turístico. Apesar do
termo resort só ter sido incorporado na legislação portuguesa em 20081,
para designar aquilo que até então se convencionava como conjunto
turístico, distinguindo-se, por via dos requisitos imposto pela lei, do
que são, por exemplo, aldeamentos turísticos ou apartamentos turísti-
cos, o conceito é aqui entendido num sentido mais lato, associado a
empreendimentos turísticos de grande dimensão (frequentemente

1
Formalmente adotado pelo Decreto-Lei nº39/2008

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 125
acima dos 100 hectares), construídos de raiz e submetidos a uma admi-
nistração integrada com diferentes contornos. Incluem não só equipa-
mentos e infraestruturas turísticas estruturantes (e.g. campo de golfe;
marina), mas também várias modalidades de alojamento da qual se des-
taca uma forte componente imobiliária.
É nesta perspetiva que se entende a relação entre resort e urbanização
turística, sendo o resort o motor da urbanização.

III. Caracterização da urbanização turística nas áreas


costeiras em Portugal
A análise da dinâmica urbano-turística na faixa costeira, entre 1991 e
2011, sintetizada na figura 1, reporta algumas pistas interessantes sobre
a relação turismo e urbanização, designadamente no que respeita à pres-
são exercida pela urbanização no litoral de Portugal Continental versus
a dinâmica turística aí verificada.
Representando apenas 16% do total da área do território continental,
os 50 concelhos costeiros2 contam, contudo, com cerca de 3 560 milha-
res de habitantes, o que corresponde a 35% do total da população resi-
dente de Portugal Continental (esta percentagem sobe para 69% de
população residente, concentrada em 33% do território, se considerar-
mos os limites administrativos das NUTs III 3 que confinam com o lito-
ral). Também o valor médio da densidade populacional (244 hab./km 2) é
substancialmente superior à média continental (113 hab./km2), com um
aumento de 16% em 20 anos.
Mas, esta tendência pesada de litoralização, “invariante” da estrutura
de povoamento em Portugal (Marques da Costa, 2007), é acentuada pelo
turismo de massas, (cf. Gaspar et al., 2006; Malta et al., 2009; Oliveira et.
al., 2015), transparecendo ela própria nos padrões da oferta e da procura
turística. Em 2011, 64% da capacidade de alojamento em estabelecimen-

2
Foram considerados os concelhos com linha de costa de Portugal Continental
abrangidos pela Estratégia de Gestão Integrada da Zona Costeira Nacional (ENGIZC),
aprovada através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 82/2009, de 8 de setembro.
3
Na sequência da aprovação da Lei nº 75/2013, de 12 de setembro, foi elaborada uma
revisão dos limites territoriais das NUTs que passam a ser coincidentes com os
limites das Entidades Intermunicipais (EIM), designadas, deste âmbito, por “unidades
administrativas”.

126 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
tos hoteleiros e 63% do total de dormidas com origem interna e externa
concentra-se nos concelhos do litoral, onde a taxa da função turística
(dormidas realizadas por cada 100 residentes) torna evidente o impacte
local do turismo sobre os territórios costeiros. Uma vez mais o Algarve
vem na dianteira com uma taxa média de 3.040 dormidas por cada 100
habitantes (para os concelhos costeiros), face à média registada no lito-
ral continental de 965 dormidas por cada 100 habitantes.
Estendendo-se de forma quase ininterrupta da Foz do rio Minho até
Setúbal e, a sul, na região do Algarve (onde o turismo tem sido mesmo o
principal factor polarizador dos assentamentos humanos), a urbaniza-
ção do litoral tem acontecido nas últimas décadas, ora por consolidação
dos centros urbanos existentes, ora pela “urbanização dos espaços
rurais, associada a sistemas regionais de povoamento disperso, (...) [e
configurando] uma mancha urbano-difusa (...)” (Marques da Costa,
2007:516), para a qual muito têm contribuído a atividade turística,
sobretudo o turismo residencial.
É precisamente na faixa costeira que se concentram 36% do total de
alojamentos (registando um aumento de 54% face a 1991 e 14 pontos per-
centuais acima da média do Continente), sendo que é no sector do turismo
que a dinâmica na oferta de alojamentos tem sido mais significativa. Os
alojamentos de uso sazonal ou de residência secundária registaram um
aumento de 141% entre 1991 e 2011, embora a taxa de variação seja superior
entre 1991 e 2001 relativamente ao decénio seguinte, onde o crescimento
ficou contido na sequência da crise financeira de 2008. Uma vez mais,
destacam-se os concelhos algarvios com 41% de alojamentos de uso sazo-
nal e segunda residência no total de alojamentos clássicos, face aos 28%
registados para o universo dos concelhos costeiros (Fig. 2).
O turismo balnear massificado é, assim, apontado como um dos princi-
pais vetores responsáveis pelo fenómeno da litoralização e pela artificializa-
ção das áreas costeiras, assumindo diferentes formas de ocupação, estrutu-
ras e densidades, (cf. Gaspar et al., 2006), e dando origem a dois tipos de
territórios turísticos: aqueles que são criados de raiz pelo turismo e os que
são investidos e/ou subvertidos pelo turismo (Stock et al., 2003) (Fig. 3).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 127
Fig. 1 | Evolução dos principais indicadores urbano-turísticos. Fonte: INE, Censos de
1981, 1991 e 2011.

Fig. 2 | Proporção de alojamentos de uso


sazonal e segundas residências (ALSR)
sobre o total de alojamentos (Portugal
Continental: 2011). Fonte dos dados: INE,
2011.

128 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 3 | Tipologia dos grandes empreendimentos de lazer e turismo 4
Fonte: adapt. Gaspar et al. (2006).

IV. O papel dos Resorts costeiros na urbanização turística


em Portugal – um motor de expansão imobiliária
e da urbanização
São diversos os fundamentos que justificam uma leitura crítica do resort
costeiro enquanto motor da urbanização turística, ligado em particular
ao turismo residencial: a proliferação do fenómeno da urbanização exten-
siva (EEA, 2006[a]&[b]; a vulnerabilidade das áreas costeiras em face da
erosão costeira e alterações climáticas (Magnan, 2009; Costa, 2013); a
eleição de destinos costeiros nas preferências dos turistas (CE, 2013); a

4
A partir da década de 60, do século XX.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 129
crescente sobreposição entre turismo e desenvolvimento imobiliário,
pressionada pelas políticas neoliberais e a abertura do mercado de livre
comércio da União Europeia (Hof & Blásquez-Salom, 2013); a captação
crescente de uma procura internacional, para investimento ou longas per-
manências (Huete e Mantecón, 2011; Brito, 2010); o surgimento de passi-
vos territoriais associados à insolvência e abandono de vários
empreendimentos na sequência da crise de 2008 (Martins e Cavaco, 2015).
Baseados numa criação ex-nihilo, os resorts distinguem-se dos restan-
tes empreendimentos turísticos por vários factores físico-geográficos: a
sua dimensão que pode ascender às centenas de hectares; a localização
exclusiva e introvertida, tirando partido de paisagens idílicas, deliberada-
mente afastada dos grandes aglomerados, mas suficientemente acessíveis
para recorrer aos equipamentos e serviços coletivos; a presença de um
estabelecimento hoteleiro de gama alta; o elevado peso da oferta imobili-
ária; e, a frequente presença do campo de golfe. Todavia, é possível identi-
ficar duas gerações de resorts em Portugal, a que correspondem diferentes
fases de desenvolvimento, diferentes estratégias de planeamento e orde-
namento do território e diferentes modelos de negócio.
A primeira geração de resorts enquadra-se no contexto do desenvol-
vimento turístico espoletado na década de 60, que marcou um ponto de
viragem na história do turismo em Portugal, ao alcançar uma expressão
estratégica enquanto atividade económica, atraindo novos investidores.
O lançamento de grandes projetos turísticos por empresas com capitais
nacionais e estrangeiros elege a região do Algarve como principal zona
de desenvolvimento, em função das suas potencialidades (Martins,
2011). O crescimento dos fluxos turísticos e a abertura do aeroporto de
Faro, em 1968, aceleraram o processo de desenvolvimento de resorts de
grande qualidade. Embora, inicialmente, este tipo de empreendimento
tenha sido objeto de um único promotor, previamente projetado em
anteplanos de urbanização, segundo um faseamento longo, acabou por
ser concretizado por diferentes promotores. Geralmente, estes resorts
são compostos por estabelecimentos hoteleiros e diversos aldeamentos,
i.e., zonas residenciais, diferenciadas em termos de tipologia do edifi-
cado, providos de equipamentos de lazer como piscinas ou courts de
ténis e dispostos em torno de um ou vários campos de golfe, que se assu-

130 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mem como equipamento âncora do empreendimento. A implantação
isolada foi sendo esbatida ao longo de décadas, com a ocupação das pro-
priedades envolventes e a valorização dos espaços sob o efeito das suces-
sivas legislações sectoriais; atualmente encontra-se em manifesta fase
de consolidação, designadamente no que respeita à relação com a rede
urbana onde se insere.
O universo deste tipo de resort é, apesar de tudo, restrito, em compa-
ração com Espanha. Vale do Lobo, Quinta do Lago, Vilamoura (Loulé),
no Algarve e Tróia (Grândola), relativamente próximo de Lisboa consti-
tuem os exemplos emblemáticos daquilo que Carvalho (2015) designa de
“multi-resort development”.
A segunda geração começa a materializar-se a partir da década de
2000, embora alguns passos determinantes ao seu desenvolvimento
tenham sido dados ainda em 1997. O planeamento, a execução e a gestão
desta geração de resorts apoia-se em três grandes políticas: a política
setorial do turismo; o regime de urbanização e edificação e a política de
ordenamento do território. Da sua conjugação, a que se veio associar um
posicionamento neoliberal orientado essencialmente para uma perspec-
tiva de crescimento e prosperidade (pelo menos até ao deflagrar da crise
financeira), surgiram novas formas de empreendimentos turísticos, ala-
vancados em grande parte pela oferta imobiliária.
Apesar de ter sido nesta mesma altura que a sustentabilidade entrou
em cena no âmbito das políticas públicas, a prática não se manifestou
consentânea com o nível dos princípios. Mecanismos vários ditaram a
sua subversão. O mais flagrante data de 1999 e respeita à criação de um
regime de exceção que, em prol do interesse económico nacional trazido
pelo turismo, permitia a viabilização em solo rural de loteamentos
turísticos com tipologias e níveis de ocupação edificada que pouco
divergiam de loteamentos urbanos. Esta medida marcou um verdadeiro
retrocesso face à proibição decretada em 1991 5. A abordagem entusiás-
tica do setor imobiliário no mundo do turismo, designadamente pela via

5
Em 1991, o regime jurídico da urbanização e edificação (DL nº 448/91) ditava pela
primeira vez a proibição de lotear em solo rural, restringindo os loteamentos ao
interior dos perímetros urbanos.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 131
do resort, foi, assim, não só promovida pela banca (baixas taxas de juros,
baixa inflação), mas também pelo próprio setor público (benefícios fis-
cais, título de projeto com “Potencial Interesse Nacional”) de onde resul-
tou um aumento significativo de investimentos para a construção de
resorts no Algarve, Grândola e Óbidos.
Desenvolvido por um único promotor, a composição do resort passou
então a ser influenciada pelos critérios mínimos estipulados na lei dos
empreendimentos turísticos6 (Decreto-Lei 39/2008). Mas foi sobretudo
assumida componente associada ao produto imobiliário que maior peso
assumiu na sustentabilidade económica do produto turístico, contribuindo
de forma significativa para o desenvolvimento do turismo residencial e para
uma urbanização urbano-turística de carácter extensivo e difuso.
Aliado aos efeitos da crise, o desenvolvimento e futuro deste tipo de
resort parece hoje incerto, ainda que sejam sérios e significativos os
impactes que já tem no território: projetos licenciados mas não inicia-
dos; empreendimentos afetados pela estagnação do mercado que
enfrentam problemas no escoamento do imobiliário, em oposição a
alguns casos de sucesso (e.g. Pestana Tróia Eco-resort).

V. Considerações finais
Pelas suas características, localização e dimensão, os empreendimentos
turísticos a que, no contexto desta investigação, apelidamos de resort,
têm tido um impacte muito significativo no processo de urbanização
extensiva das áreas costeiras em Portugal, contribuindo de forma ine-
quívoca para o povoamento de carácter disperso e a mancha urbano-di-
fusa que se estende em conurbação da Galiza a Setúbal e, muito particu-
larmente, na costa algarvia.
Apostando fortemente na componente do imobiliário residencial, os
resorts têm tido um papel fundamental na evolução do fenómeno da
segunda residência e na consolidação do turismo residencial enquanto

6
Estabelecimento hoteleiro de cinco ou quatro estrelas, pelo menos mais um
empreendimento turístico (geralmente a escolha recai na figura do aldeamento), um
equipamento de animação autónomo e um estabelecimento de restauração”, com
a particularidade que todos os alojamentos estarem afetos à exploração turística
assegurada por uma entidade exploradora.

132 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
forma de urbanização pelo consumo e pelo lazer, onde a habitação se
institui como bem de capitalização económica. É nesta ótica que se
assume o resort como um produto simultaneamente turístico, urbanís-
tico e imobiliário, a partir do qual se equaciona a relação entre turismo
e urbanização.

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