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29/03/2019 HERANÇA: Dilemas da viuvez

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 REPORTAGEM (/INDEX.PHP/REPORTAGEM) .  17 SETEMBRO 2016 .  VISUALIZAÇÕES: 3089 

A morte de um dos cônjuges é um instante penoso que, muitas vezes, dá início a uma fase de vida de dilemas e conflitos familiares resultantes, entre outros, da posse e partilha de bens. Pior

quando quem perde a vida é o esposo. Das mentes mais férteis da família deste brotam razões infalíveis para a morte e, de seguida, despoja-se a viúva dos bens e até mesmo dos filhos em clara

e manifesta violação da Lei da Família.

A notícia da morte de um dos cônjuges é aterradora. Planos, projectos, estórias de vida e perspectivas desmoronam. A solidão toma conta. O mundo perde o seu sentido. Porém, a dor associada

a este evento é muitas vezes acrescida de disputas familiares pela titularidade dos descendentes e dos bens móveis e imóveis deixados pelo finado.

Muitas vezes, o cônjuge (sobrevivo) ainda está surpreso e incrédulo em relação à notícia do desaparecimento físico do seu parceiro ou parceira, e é confrontado com suspeições sobre as causas da

morte, facto que se agrava quando o evento se dá de forma repentina.

Das discussões que daí resultam, é comum que a família do finado tome a decisão de excluir a viúva da titularidade da casa e seu recheio, guarda dos filhos, viaturas e demais património

construído durante longos anos de trabalho.

Recentemente, a procuradora provincial de Gaza, Jossefa Brito, abordou esta matéria num encontro promovido pela Direcção Nacional de Terras, onde enunciou que há aspectos culturais que

concorrem para que a mulher seja a maior vítima destes episódios.

Jossefa apontou que em caso de morte do marido, há uma forte tendência de fazer com que a viúva perca o direito de posse de terra, “quando no quadro jurídico vigente ela é meeira, ou

seja, tem direito à metade do património”. A sala, maioritariamente composta por homens, gelou.

Durante cerca de cinco minutos, os presentes murmuraram entre si. O quadro era agravado pelo facto de este pronunciamento da procuradora provincial ter sido feito num meio social patriarcal,

onde a sucessão é pela linha paterna e a mulher não tem nenhum papel na atribuição da pertença parental dos filhos e por aí em diante.

Jossefa Brito explicou que a Lei da Família estabelece que o cônjuge sobrevivo tem direito à metade do património, desde que viva em união de facto durantepelo menos um ano consecutivo.Os

murmúrios aumentaram.

Para melhor compreendermos este fenómeno e seu impacto, contactámos a Polícia da República de Moçambique (PRM), através do Gabinete de Atendimento à Mulher e Criança Vítima de

Violência Doméstica, que revelou que no primeiro semestre deste ano (2016) registou 11 casos de violência patrimonial contra viúvas na província de Inhambane.

Naquele gabinete ficámos a saber que este é o maior número de queixas a nível do país e a província da Zambézia posiciona-se em segundo lugar com nove casos registados. Enquanto isso, na

província de Gaza foram denunciados seis casos e em Maputo a Polícia registou dois casos.

Romana Sualé, juíza de Direito no Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, adverte que a maior parte dos casos ocorre “quando se trata de casais que viveram maritalmente (união de

facto), pois este regime abre espaço para muita coisa irregular. Assim que o homem morre, a família vai buscar os bens que o casal adquiriu porque considera que eles bens

pertencem aos familiares do falecido em clara violação do que está previsto na lei”, disse.

Segundo aquela juíza, estas acções são praticadas de forma arbitrária, mas a viúva tem à sua disposição instrumentos legais que a protegem desde que reúna provas mínimas. “O correcto é que

intente uma acção em tribunal”.

Facto curioso é que, em quase todas as situações registadas pelas autoridades os protagonistas dos actos de violência contra as viúvas são os irmãos do finado e, em segundo plano, aparecem as

sogras, seguidas pelos enteados, tios e por aí em diante. Mas são as mulheres (cunhadas, sogras, tias e enteadas) que mais desapropriam as viúvas e acusam-nas de assassínio e feitiçaria.

A Polícia acredita que devem existir muitos mais casos ligados à violência patrimonial que não são denunciados por serem considerados normais e que o envolvimento dos homens seja muito

maior. Aliás, a PRM também acredita que o facto de não haver muita publicitação dos mecanismos de resolução legal destes casos leva a que muitas vítimas se conformem com a injustiça de que

são vítimas.

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“Não temos casos concretos de homens. Se calhar seja uma situação similar à da violência doméstica em que os homens sofrem, mas não apresentam queixa às autoridades

policiais por recearem ser estigmatizados”, disse Delfino Raimundo, agente da PRM.

Por seu turno, a advogada Lídia Gulele, da Associação de Mulheres de Carreira Jurídica de Moçambique (AMCJM), confirma que “raramente os homens se queixam de violência, pior de

disputas patrimoniais que resultem do falecimento da esposa”.

Gulele descreve que na maior parte dos casos as mulheres que sofrem essa violação ocorrem antes do funeral e, para além de acusações e discussões, a família do malogrado faz questão de

despojar a viúva de todos os bens e, em não raros casos, dos filhos.

Aquela advogada ressalva ainda que por lei a viúva e os órfãos têm direito a uma parte da herança. Para o caso da viúva, mesmo que não seja casada oficialmente, ou seja, que tenha vivido

apenas em união de facto por mais de um ano, deve beneficiar de metade dos bens que adquiriu na constância da relação com o finado.

“Enquanto isso, os filhos têm a parte denominada legítima que não pode ser mexida em circunstância alguma. É exclusiva para eles e, quando se trata de menores, nomeia-

se um tutor para gerir os bens em causa, isso depois de se aferir o valor total do património”, frisou.

Na prática, o que as autoridades fazem quando estão perante casos destes é confirmar o óbito através da certidão, verificar se o falecido contraiu alguma dívida, se tem filhos fora do casamento,

se tem cônjuge sobrevivo e observar o regime matrimonial, avaliar o total do património, procurar a classe sucessória e, por fim, proceder-se à distribuição do acervo patrimonial.

VIÚVA TEM DIREITO

A METADE DOS BENS

O advogado Sérgio Txuma, da AMCJM, explica que o termo meeiro refere-se àpessoa que recebe a metade do património acumulado em um casamento no caso de morte do cônjuge e o

remanescente passa para a esfera jurídica dos descendentes, que são os filhos.

No seu entender, existe a necessidade de se aclarar que “depois de se achar o valor do acervo patrimonial que o casal fez em vida produz-se um edital de Habilitação de Herdeiros,

segue-se a fase de avaliação do património e é feito o chamamento de credores para procurar saber se o finado não deixou dívidas”.

Tal como Lídia Gulele, Sério Txuma aclara que o edital de Habilitação de Herdeiros é publicado durante 30 dias, período no qual eventuais beneficiários se devem pronunciar. Caso contrário,

dispõe-se da totalidade os bens. Se por ventura se constatar que o defunto tinha dívidas, extrai-se do património a percentagem correspondente e só depois se procede à meação.

“Os filhos devem responder à habilitação de herdeiros que é elaborada para saber o número de filhos existentes, pois pode haver filhos nascidos fora do casamento. Aliás, a

nova lei atribui direitos iguais a todos os que nasceram dentro ou fora do casamento”, apontam.

Mas há uma ressalva que os juristas consideram como importante. “Os filhos devem estar devidamente registados pelo pai ou pela mãe antes da morte”. Para eliminar conflitos que

possam ocorrer pelo aparecimento de filhos que nenhuma das partes conhece, a Justiça socorre-se dos testes de paternidade que compreendem a análise da informação genética do progenitor e

do potencial herdeiro.

A nossa Reportagem apurou que a maior parte dos casos que as nossas fontes têm recebido está ligada a mulheres que perdem os seus maridos.

UNIÃO MARITAL É A MAIS PROBLEMÁTICA

Segundo a juíza Romana Sualé a maior parte dos casos que o Tribunal Judicial da Cidade de Maputo recebe envolve viúvas que viveram maritalmente por mais de um ano sem interrupção.

Porém, “quando o casal vive maritalmente, a lei determina que é aplicado o regime comunhão de bens adquiridos, ou seja, todos os bens que os cônjuges adquirem durante a

constância do casamento são de ambos”, disse Sualé que acrescenta que para efeitos de herança, os bens adquiridos incluem as dívidas.

Entretanto, ao contrário dos casados oficialmente, os casais que vivem maritalmente, em caso da morte de um dos cônjuges, devem provar que viveram juntos por mais de um ano sem

interrupção. Por lei, esta prova pode ser feita através do testemunho da família e dos líderes comunitários que devem fazer uma declaração.

A partir do momento que se faz a prova de que aquela união existiu, a viúva pode intentar uma acção em juízo para reivindicar o seu direito em relação aos bens que, eventualmente, tenham

adquirido na constância da relação.

A juíza explica ainda que a acção pode ser de Habilitação de Herdeiros que serve para saber quem quer e tem direito de receber parte do património do falecido, e caso existam menores de 21

anos tem de se fazer um inventário obrigatório que obriga à intervenção do Ministério Público.

Romana Sualé descreve que o trâmite do processo dá entrada no tribunal onde as partes litigantes identificam o “cabeça do casal” que pode ser umtio, irmão ou a própria viúva, que vai

representar as partes interessadas e responder pela herança.“A indicação não significa que a pessoa vai ficar com os bens. Apenas vai responder ao tribunal”, sublinha.

Há malabarismos

para deserdar e burlar

O Tribunal Judicial da Cidade de Maputo tinha, até Janeiro do ano em curso, 726 processos pendentes envolvendo menores de 21 anos e de Janeiro a esta parte foram recebidos mais 92

processos, dos quais 56 foram sentenciados.

Parte destes processos apresenta semelhanças no que se refere a tentativas de deserdar viúvas e respectivos filhos. Segundo a juíza Sualé, estes actos são protagonizados pelos irmãos e tios dos

falecidos, os quais requereram o inventário obrigatório e, muitas vezes, pedem para que sejam colocados como “cabeças de casal”.

“Se há crianças envolvidas e a mãe não comparece às sessões no tribunal, percebemos logo que há problemas. A justificação tem sido de que ela desapareceu há muito

tempo e abandonou as crianças”, disse.

Para além do esforço para deserdar a viúva, por via da sua exclusão, a juíza Romana Sualé disse que ocorrem situações em que se falsifica testamentos ou papelada atinente à doação de

determinados bens, sem que os legítimos herdeiros tenham conhecimento.

“A lei estabelece que as doações não podem operar de forma arbitrária. Tem de haver a comunicação sobre a oferta porque existe a parte protegida por lei. Quando isto

ocorre, a lei prevê que os restantes irmãos podem impugnar ou reivindicar a posse do bem”, sublinhou.

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Outras situações relatadas pela juíza relacionam-se com a poligamia que é resultado de questões culturais e religiosos. “Se o falecido vivia com várias esposas, o tribunal dá prioridade aos

filhos e à esposa com quem contraiu matrimónio, isto para não se dar cobertura à poligamia, que é uma prática não aceite em Moçambique”.

Entretanto, esta situação coloca à prova a legislação nacional que, por outro lado, reconhece as uniões na base de religião, tradição e costume desde que estejam transcritas em registo civil a

partir do momento em que existem.

Falta cultura de testamento

As fontes ouvidas pela nossa Reportagem aludiram que os moçambicanos não têm o hábito de redigir testamentos que são instrumentos que ajudam a salvaguardar a integridade do agregado

familiar em caso de morte. “Mas, este documento ajuda, e muito a minimizar conflitos uma vez que deve ser feito sem ferir a legítima dos herdeiros”.

Disseram ainda que caso o testamento seja mal feito, pode-se solicitar a sua revogação. “Por exemplo, nos casos em que o pai gosta mais de um filho e beneficia mais a ele em relação

aos demais ou se um filho tenta matar um dos pais. Em regra, os bens devem ser divididos em partes iguais, independente do sexo e da idade”.

A advogada Lídia Gulele também sublinha que a AMCJM procura disseminar a ideia de se produzirem testamentos, “mas muitos recusam-se alegando que isso atrai a morte. Esse é um

problema cultura que temos de superar”, concluiu.

Texto de Angelina Mahumane

angelina.mahumane@snoticicas.co.mz (mailto:angelina.mahumane@snoticicas.co.mz)

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