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Celso Furtado

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O CAPITALISMO GLOBAL

PAZ E TERRA
© Celso Furtado

Capa: Isabel Carballo


SUMÁRIO
CIP-Brasil Catalogação-Na-Fonte
(Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ, Brasil)
Furtado, Celso, 1920-
O capitalismo global / Celso Furtado.
São Paulo: Paz e Terra, 1998.
ISBN 85-219-0310-3

PREFÁCIO. 7
F987c
1. A LONGA MARCHA DA UTOPIA .. 9
Influências intelectuais. 9
1. Globalização (Economia). 2. Capitalismo. 3. Áreas
Subdesenvolvidas. !. Título A atividade do pesquisador. . ........ 10

Imaginação versus ciência institucionalizada .... 11


98-1079 CDD-338 Elaboração de Formação econômica do Brasil. . . 15
CDU-338
As classes do1ninantes . . 17

Importância de Prebisch .... . ... 18


EDITORA PAZ E TERRA S.A. Emergência do subdesenvolvimento . . . . . ....... 20
Rua do Triunfo, 177
01212-010 - São Paulo-SP Papel das organizações sociais. . ........ 21
Tel.: (011) 223-6522
Rua Dias Ferreira n.º 417 - Loja Parte Função do Estado nacional .... 22
22431-050 - Rio de Janeiro-RJ
Tel.: (021) 259-8946 2. O NOVO CAPI1ALISMO . 25

3. GLOBALIZAÇÃO E IDENTIDADE NACIONAL. 35


O processo de globalização. . ............ 35
1998
Impresso no Brasil / Printed in Brazil A preservação d.a identidade nacional . ......... 39

5
4. A SUPERAÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO. 47

5. RE';ISITANDO MEUS PRIMEIROS ENSAIOS


TEORICOS .....
55
Pensar o Brasil . PREFÁCIO
. ... 55
A Teoria do Subdesenvolvimento . .. . .. 58

6. OS NOVOS DESAFIOS ......... . 61

7. DIMENSÃO CULTURAL DO DESENVOLVIMENTO. 69

8. RISCO DE INGOVERNABILIDADE 73
Aumento da dependência. Já ninguém ignora a fantástica concentração de
. ..... 73
poder que hoje se manifesta nos chamados mercados
Que tipo de globalização?. · · · · · .......... 74 financeiros, que são dominados por atividades espe-
culativas cambiais. Com o avanço da globalização, es-
Pressão das forç(Js sociais . . ....... 76 ses são os mercados que apresentam as mais altas ta-
O Movimento dos Sem-TeiTa . xas de rentabilidade. Daí que a distribuição da renda
· · · · · .......... 78
em escala mundial seja crescentemente determinada por
O papel integrador do Estado . · · · · · · · · ....... 79 operações de caráter virtual, efetuadas na esfera finan-
ceira. Trata-se da manifestação mais dara dessa realidade
que se está impondo e que cabe chamar de capitalismo
global, matriz de um futuro sistema de poder mundial. O
desenho desse sistema de poder e sua institucionaliza-
ção - portanto, o papel que nele caberá ao dólar -
virão a ser a principal tarefa política a realizar nos próxi-
mos decênios. O projeto europeu de criação de uma
moeda única e integração dos bancos centrais, a efeti-
var-se brevemente será a primeira experiência de políti-
1

ca monetária de vigência multinacional, e constitui uma


tentativa de influenciar o desenho desse poder mundial.
O formato que assumirão os Estados nacionais no
novo recorte político é matéria que nos deve preocu-
par, pois dele dependerá a distribuição da renda gera-
da por sistemas de produção progressivamente imbri-
cados. Não tenhamos dúvida de que sempre existirá
espaço para o exercício da vontade política, quando
esta se manifeste com vigor adequado.

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1,.'
As reflexões feitas nas páginas que seguem suoe-
rem direções a serem exploradas se pretendemos in-
fluir na construção da estrutura de poder que se anun-
cia e da qual não poderemos escapar.
A LONGA MARCHA DA UTOPIA'
1

Celso Furtado
Paris, abril de 1998

Influências intelectuais
Minha formação intelectual deu-se sob uma trípli-
ce influência. Fui inicialmente seduzido pelo positivis-
mo, a idéia de que a ciência fornece o conhecimento
em sua forma mais nobre. Não era o comtismo primá-
rio, mas a confiança na ciência experimental como meio
de descobrir os segredos da natureza.
Em seguida manifesta-se a influência de Marx por
intermédio de Karl Mannheim, o homem da sociologia
do conhecimento, que colocou o saber científico em
um contexto social. Esse o ponto de partida de meu
interesse pela História como objeto de estudo.
A terceira corrente de pensamento que me influen-
ciou foi a da sociologia norte-americana por intermé-
dio de Gilberto Freyre. Casa-grande e senzala revelou-me
a dimensão cultural do processo histórico. O contato
com a sociologia norte-americana corrigiu os excessos
de meu historicismo.
Considero relevante que minha descoberta do marxis-
mo se haja dado por intermédio da sociologia do conhe-
cimento. Quando li O capital, no curso de marxismo que
fiz logo depois da guerra no Instituto de Ciência Política,
em Paris, já sabia suficiente macroeconomia moderna para

Uma primeira versão deste texto foi publicada na revista


Economia aplicada, vol. 1, nº 3, julho/setembro de 1997,
São Paulo. (N. A.)

8 9
1 não me seduzir pelo determinismo econômico que tinha
explicação para tudo à custa de simplificar o mundo.
ciência é uma maravilhosa criação do homem, mas em
parte considerável é .condicionada pela sociedade onde

1 A atividade do pesquisador
surge. Se no século passado surgiram teorias tão sofis-
ticadas sobre diferenças raciais, não foi sem relação com
a política expansionista de alguns povos europeus. As

1
1
São muitas as motivações de um pesquisador. Mas
o fundamental é ter confiança na própria imaginação
ciências sociais ajudam os homens a solucionar proble-
mas práticos de várias ordens mas também contribuem
para conformar a imagem do mundo que prevalece em
1
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e saber usá-la. Essa confiança significa a percepção de certa sociedade. Por esse lado, elas servem de cimento a
que se pode intuir uma realidade da qual se conhece um sistema de dominação social que legitimam. Portan-
apenas um aspecto, à semelhança do que faz um pa- to, é natural que as estruturas de poder procurem coop-
leontólogo. O valor do trabalho do pesquisador traduz, tar os homens de ciência, e que o controle da orientação
portanto, a combinação de dois ingredientes: imagina- da pesquisa seja objeto de tantas controvérsias.
ção e coragem para arriscar na busca do incerto. Isso Quando iniciei meu trabalho teórico, debatia-se am-
me leva a fazer a seguinte afirmação: a ciência é cons- plamente o tema de privilegiar ou não a política de in-
truída por aqueles que são capaz~ de ultrapassar certos dustrialização do país. Traduzido em termos atuais: qual
limites que hoje são definidos pelo mundo universitário. a .melhor forma de promover o desenvolvimento? Adotar
Daí a tendência ao predomínio dos "produtos enlatados" uma política industrial ou tudo confiar ao mercado? A
que estão na base do prestígio do saber acadêmico. Por resposta a essa questão não é independente de saber
motivos que não cabe abordar agora, muitas pessoas de ..que forças sociais comandam as decisões econômicas
talento se frustram no mundo universitário. estratégicas. No imediato pós-guerra, as forças sociais do-
Cedo percebi que, se me atrevesse a usar a imagi- minantes no Brasil estavam ligadas aos interesses rurais e
nação, confütaria com o establishment do saber eco- do comércio exterior. Mas já havia a matriz de um núcleo
nômico da época. A alternativa seria reproduzir o sa- industrial cuja representação se circunscrevia a certas
ber convencional, que era particularmente pobre em áreas. Sem demora me dei conta de que um projeto de
razão de nossa dependência em matéria de saber cientí- modernização do país teria de apoiar-se nessas forças.
fico. Que tenhamos nos revoltado e comecado a usar a Minha longa caminhada foi, portanto, balizada por
imaginação para pensar por conta própri; é algo que duas referências maiores: o compromisso ético com
não é fácil de explicar. Mas a verdade é que isso ocorreu valores universais que transcendem todas as formas de
no âmbito da América Latina: passamos a identificar nos- paroquialismo e a confiança na liderança de forças
sos problemas e a elaborar um tratamento teórico dos sociais cujos interesses se confundem com os da cole-
mesmos. Havia uma realidade histórica latino-americana tividade nacional.
e mais particularmente brasileira, a captar. A confian;
em nós mesmos para dar esse salto tornou-se possível
graças à emergência da CEPAL no imediato pós-guerra. Imaginação versus ciência
Mas não basta armar-se de instrumentos eficazes. institucionalizada
Para atuar de forma consistente no plano político, por-
tanto, assumir a responsabilidade de interferir num pro- Convém lembrar que a luta que travamos na CEPAL
cesso histórico, impõe-se ter compromissos éticos. A foi também contra uma "academização" precoce da ciên-

10 11
eia que acaba sendo uma forma de subordinação a cons- damente. Desqualificava-se um trabalho com a alega-
trangimentos inibidores da criatividade: quem não usa ção de que era matéria "ideológica". Mas criou-se um
certa linguagem e adota certos modelos é desqualifica- clima nessa instituição singular, graças à liderança do
do, independentemente do que tenha a dizer. A ciên- economista argentino Raúl Prebisch, que tornou possí-
cia institucionalizada é sempre conservadora. Tome-se vel a emergência de uma visão nova da realidade lati-
qualquer revista de economia "classe A" de língua in- no-americana e, de maneira exemplar, da brasileira.
glesa: seus padrões de seleção dos artigos a publicar Foi quando ficou claro que nosso país, que tanto atra-
~ comportam um visível conteúdo ideológico. so havia acumulado possuía um caminho de acesso à
1
'. Entre nós, as publicações de economia estiveram
1

modernidade, que era o da industrialização. Dentre os

1 em mãos de amadores até os anos 40. Em 1947, apa-


receu a primeira publicação rigorosamente acadêmica:
a Re-uista Brasileira de Economia, da Fundação Getúlio
países da América iatina, o Brasil era o que apresenta-
va melhores condições para industrializar-se, e, talvez
por isso, fosse o que mais se ressentisse de não ter
Vàrgas (Rio de Janeiro). A orientação dessa revista, que buscado esse caminho mediante uma política explíci-
se nutria essencialmente de traduções de publicações ta. Mas quando, no segundo governo Vargas, fez-se
anglo-americanas, era dada pelo professor Eugênio Gu- essa opção, o processo se intensificou e logo ganhou
din seguindo estrita ortodoxia liberal. Para fazer frente complexidade, assumindo posição de vanguarda no
a essa corrente, fundamos em 1950 Econômica Brasi- quadro latino-americano.
leira, publicação de um recém-criado Clube de Econo- No começo dos anos 50 eu vim para o Brasil no
mistas que reunia pessoas de orientação de "esquerda" quadro de µm acordo .entre a CEPAL e o recém-criado
ou simplesmente "nacionalista". BNDE, para fazer um estudo de projeções .da economia
Não devemos perder de vista que, por cima das . brasileira que acabou servindo de base para Juscelino
querelas de escolas e mesmo ideológicas, a ciência "elaborar o ·seu Plano ·de Metas. Na época, foi uma
sempre coloca problemas inesperados que escapam ·· pesquisa de vanguarda, pois não se conheciam técni-
ao controle social. .Nenhuma sociedade consegue li- cas de planejamento de base macroeconômica. Eu ha-
vrar-se completamente da ação de heréticos, e nada via pesquisado sobre a matéria na França, e dirigi um
tem mais importância na história da humanidade do núcleo de trabalho na CEPAL que preparou um manual
que a heresia. A verdade é que sempre aparecem pes- de Técnica de Planejamento, que agora estava sendo
soas dispostas a lutar por idéias novas, pondo em ris- usado pela primeira vez. Era uma estratégia de desen-
co posições de prestígio e interesses econômicos. Eu ·volvimento baseada na identificação das principais va-
tenho dois filhos envolvidos em pesquisa (um é físico fiáveis macroeconômicas e pontos de estrangulamento
e o outro economista) e sei o difícil que é obter recur- estruturais, particularmente aqueles ligados às relações
sos para financiar pesquisa preservando autonomia na externas.
escolha dos temas pesquisados. Hoje em dia existem recursos em muito maior
Dentro ou fora das instituições universitárias o abundância, e muito mais gente preparada, mas apa-
trabalho de vanguarda sempre e'nfrentou resistências. rentemente a possibilidade de inovar, de usar a imagi-
Quando a CEPAL surgiu, foi algo tão inusitado que a nação é menor. A economia vai avançando na busca
reação foi de perplexidade. A verdade é que também do formalismo, na adoção dos métodos que fizeram a
nas agências das Nações Unidas praticavam-se várias glória das ciências naturais. Ora, o objeto de estudo
formas de censura. Certos temas eram proibidos vela- das ciências sociais não é algo perfeitamente definido

12 13
1 como um fenômeno natural, e sim algo em formação,
sendo criado pela vida dos homens em sociedade. A
ciência social admite a evidência de que a vida huma-
na é, em parte significativa, um processo criativo cons-
ressa por esse tipo de assunto". Estava tudo dito. Pus a
minha viola no saco, como se diz na minha terra.

ciente, o que implica postular o princípio da responsa- Elaboração de Formação econômica do


1 bilidade moral.
As heresias e heterodoxias desempenham impor-
Brasil
tante papel na história dos homens. Se o consenso se O povo diz que a sorte ajuda ... quem tem sorte.
manifesta por todos os lados, pouca dúvida pode ha- Muita gente me pergunta em que circunstâncias escre-
ver de que se atravessa uma era pouco criativa. Certo, vi meu livro mais lido.: Formação econômica do Brasil.
em determinadas sociedades o preço que se paga para Quando fui trabalhar na CEPA!, em começos de
protestar é muito alto. Mas, o fato de que houve pes- 1949, reuni a informação disponível sobre a economia
soas que deram a própria vida para defender idéias é brasileira. Minha maior surpresa foi constatar que o
indicação da importância do papel que estas desem- Brasil era uma economia atrasada na área latino-ameri-
penham na formação das sociedades. cana. A Argentina, cuja população não alcançava um
Minha impressão é de que, numa sociedade que terço da brasileira, apresentava uma produção indus-
alcançou o nível de desenvolvimento da brasileira, exis- trial superior à nossa. A renda per capita do conjunto
tem recursos para financiar pesquisas em vários cam- da América hispânica, não incluída a Argentina, era
pos, se os pesquisadores lutam para preservar certa bem superior à da população brasileira.
autonomia. O perigo já não é o da fogueira, como na Tudo isso me chocava mas também constituía um
época de Galileu, mas o de deixar-se corromper ou desafio. Será que nosso povo era realmente inferior,
seduzir por prebendas. Surpreende-me que o tema de como muita gente pensava fora e dentro de nosso
maior relevância no momento atual - a exclusão so- país? Que outra explicação poderia haver' Como já
cial - não tenha destaque nos currículos universitá- haviam sido desacreditadas as teorias de inferioridade
rios. A verdade é que ainda não surgiu uma teoria do de raça e inadequação de clima, voltei-me para a his-
desemprego estrutural comparável às do desemprego tória. Não será que a classe dirigente brasileira foi in-
cíclico que estudávamos em minha época. capaz de inserir o país no processo de industrialização
Quanto mais rica a sociedade, mais conservadora que criou a civilização moderna a partir do século passa-
ela parece ser. Estive exilado algum tempo nos Esta- do? Os que viram claro nessa matéria, como Maná, fo-
dos Unidos, como pesquisador visitante na Universida- ram vencidos pelos latifundiários escravistas. Quando
de de Yale. Aproveitei para escrever um trabalho de comecei a pensar nesses temas, já estava armado de
natureza teórica sobre o subdesenvolvimento essa con- conhecimentos de ciências sociais modernas, inclusive
formação social que é confundida com atras~ e pobre- análise macroeconômica, e tive o benefício de uma troca
za. Fiz uma conferência sobre o tema para professores franca de idéias com Prebisch. O que importa é que
e pesquisadores. Saí satisfeito pensando que havia mar- estamos pensando com nossas cabeças, me dizia ele.
cado um ponto. Mas o primeiro comentarista foi fran- Para escrever Formação econômica do Brasil, devi
co: "muito interessante o que você sugere, mas duvido muito ao trabalho de Roberto Simonsen, que organi-
que obtenha financiamento para realizar uma pesquisa zou uma boa equipe dé pesquisadores para coletar a
sobre esse tema. Nenhuma revista de prestígio se inte- informação quantitativa relativa ao período colonial.

14 15
Eu me detive no livro de Simonsen por um acaso. Em seguinte, fui para uma conferência em Bursa 1 na Tur-
1957-1958, estagiei por um ano na Universidade de quia. Quando voltei, o livro não havia chegado ao
Cambridge, a convite do professor Kaldor, para traba- Brasil. O correio de Sua Graciosa Majestade fez em
lhar sobre teoria do desenvolvimento. Quando me des- pouco tempo um inquérito e comprovou que a enco-
locava para lá, o avião teve um acidente que me obrigou menda havia sido extraviada pelo correio brasileiro ... e
a permanecer dois dias na cidade do Recife. Perambu- me indenizava com umas poucas libras. Fui em deses-
lando pela cidade, entrei na velha livraria Imperatriz e pero ao serviço de fotocópias ver se o microfilme pres-
deparei-me com uma reedição recente do livro de Si- tava ... e prestava!
monsen que eu folheara um decênio antes, quando
preparava em Paris minha tese sobre a economia colo-
nial brasileira. Comprei o exemplar e levei-o para ler As classes dominantes
no avião.
Assim, foi manuseando trabalhos já publicados que Foi nos anos 30 que se começou a questionar o
percebi que era possível montar um modelo com pers- modelo de economia "essencialmente agrícola" defen-
pectiva histórica multissecular da economia brasileira. dido pela classe dominante brasileira. Fui dos primei-
A novidade estava em captar o evolver histórico no ros a denunciar o agrarismo como causa de nosso atra-
quadro de relações estruturais, a começar pelas inter- so. Um país da extensão e heterogeneidade social do
nacionais. O importante foi observar o Brasil, desde os .Brasil"riãc, podía depender da agricultura extensiva para
seus primórdios 1 como ator relevante na cena econô- desenvolver-se. Isso hoje parece elementar, mas meio
mica mundial. É verdade que o acesso à biblioteca de século atrás era motivo de polêmica acalorada. A ver-
Cambridge (e são várias) me foi de grande ajuda. Para dade é que mais de 90% das exportações brasileiras
dar um exemplo: lá descobri um exemplar de livro eram constituídas de produtos primários agrícolas e
escrito em inglês e publicado em Buenos Aires com eram os interesses ligados ao comércio exterior que
informações raras sobre as finanças externas do Brasil. ocupavam as posições de comando no país.
Depois vim a saber que esse livro precioso jamais fora Não que o país fosse totalmente destituído de in-
citado por autor brasileiro. Trabalhei duramente, pois dústrias. O que não havia era sistema industrial capaz
dedicava apenas as manhãs a esse livro. Ao final de _de.. auto_gerar. o seu dinamismo. O ritmo da atividade
três meses tinha trezentas páginas escritas à mão, que econômica era comandado do exterior, portanto, pelas
resumiam dez anos de esforço para captar o que era atividades primárias. O problema não se limitava a de-
realmente significativo na formaçào econômica de nosso ·p-ender da importação de tecnologia e de equipamen-
país. E a sorte ajudou-me mais uma vez pois) quando
1 tos para_çrescer, e sim dispor de u_ma _classe dirigente
ia enviar essa maçaroca de papel rabiscado para o .::ç:a_paz- de formt1lar um projeto de, Jransformação do
Brasil, encontrei um colega inglês que me acompa- país: Foi quando me convenci de queaclasse indus-
nhou ao correio. Quando disse o que estava fazendo, trial nascente podia assumir esse papel histórico que
ele advertiu-me para o risco que estava correndo. A me pus a trabalhar para forjar os instll.l mêrifos diê. que
seu conselho, fui ao serviço de fotocópia da universi- ela necessitava para desempenhá-lo.
dade. Deixei os originais e fui buscá-los no dia seguin- O projeto de transformação do país existia em
te, e nem sequer indaguei se o microfilme estava bom estado virtual na cabeça de muitas pessoas, particular-
ou ruim. Despachei o material no correio e, no dia mente em São Paulo. Mas o pensamento mais sofisti-

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cacto, os professores mais ilustres estavam do outro documento oficial das Nações Unidas. Mais ainda: con-
lado da barricada. Percebi sem tardança que a ciência segui inserir o trabalho na prestigiosa Revista Brasil.ei-
econômica acadêmica criava obstáculos à formulação ra de Economia, chasse gardée do professor Gudin.
de uma política de industrialização do Brasil, e que A reação não se fez esperar. A Escola de Econo-
essa doutrina contava com fortes apoios externos. Ha- mia da Fundação Getúlio vàrgas, onde pontificavam
via, portanto, um imperialismo velado a ser enfrentado os mestres do liberalismo tupiniquim sob a direção do
com muito cuidado, a fim de não assanhar as hostes professor Gudin, convidou uma série de sumidades do
"anticomunistas". pensamento econômico conservador mundial para vi-
Recordo-me de que participei de uma reunião de rem ao Brasil restaurar a "boa doutrina". E assim tive-
empresários latino-americanos que teve lugar em San- mos oportunidade de conhecer Lionel Robbins, Samuel
tos em fins de 1949, já como técnico da CEPAL O tema Viner e muitos outros astros. Tratava-se de limpar o
central do debate foi o do custo da industrialização ambiente intelectual dos miasmas cepalinos. Esse es-
que conheceram os países da região durante o confli- forço serviu para chamar a atenção para o assunto. Se
to mundial. A opinião predominante era a de que con- ··o conservadorismo estava se defendendo com tanto
vinha tornar à forma clássica de desenvolvimento apoiada · empenho, é porque havia idéias novas na praça. As
nas vantagens comparativas do comércio internacio- , - nóVas_ idéias eram simples, intuitivas: o grande atraso
nal. Essa era a boa doutrina aceita universalmente. Em que acumuláramos podia ser corrigido se adotáss<emos
minha intervenção, referi-me discretamente à conveniên- uma política voluntarista de industrialização. Isso re-
cia de explorar as oportunidades de industrialização. queria reciclagem da classe dirigente. Até hoje não se
esclareceu como se deu essa mutação no Brasil, mas é
fora de dúvida que tiveram importância a prolongada
Importância de Prebísch depressão dos anos 30 e os transtornos trazidos ao
comércio internacional pela guerra mundial.
Quando cheguei a Santiago para trabalhar na CE- Nos dois decênios seguintes, houve o suicídio de
PAL,já havia vivido na Europa e tinha certa percepção um presidente da República que se empenhara na in-
da importância do elemento político na realidade eco- dustrialização e a tentativa de impedir a posse de seu
nômica. Mas foi quando Prebisch assumiu o comando sucessor, que insistia na mesma linha política. A indus-
da instituição que percebi que estávamos diante da trialização surgiu inicialmente como subproduto da polí-
possibilidade de fazer coisas de real importância. Ele tica cambial, a qual estava dirigida para a defesa dos
havia dirigido o Banco Central da Argentina nos anos preços do café nos mercados internacionais. O gover-
30 e praticara uma política anticíclica que lhe dera no brasileiro sabia, da experiência passada, que condi-
prestígio internacional. ção necessária para a defesa do preço do café era a
Quando li o primeiro trabalho preparado por Pre- estabilidade cambial. O controle seletivo das importa-
bisch - que passou a ser referido como o Manifesto ções que impôs para evitar ou limitar o déficit na ba-
- pensei comigo: "temos agora a alavanca de que lança comercial privilegiou amplamente as atividades
estávamos precisando para demover as grandes resis- ind~striais reduzindo os preços relativos dos equipa-
tências que enfrentamos no Brasil". Pus-me imediata- mentos importados. Em síntese, as possibilidades da
mente em ação traduzindo para o português o texto, atividade industrial eram tão grandes, no Brasil, .que
que foi publicado no Brasil antes de circular como mesmo medidas precárias nessa direção produziram

18 19
resultados apreciáveis. A criação do BNDE no começo possuíam a possibilidade de melhorar, ascender social-
dos anos 50 foi a primeira tomada de posição consis- mente. A mesma ilusão existia quando se deslocava a
tente nessa direção. Dois anos antes havia sido lança- fronte;;:;;···agrícola ou depredavam-se florestas. Minhas
do o Manifesto de Prebisch.
. reflexões sobre esse quadro histórico estão na base do
·:que chamei de teoria do subdesenvolvimento.
Emergência do subdesenvolvimento Tenho escrito sobre esses temas há vários decê-
nios e creio que ainda há muito terreno a explorar.
Espero que a nova geração retome o estudo da espe-
Naquela época, dávamos por certo que o desen-
cificidade de nossa formação histórica.
volvimento econômico e sua mola principal, a indus-
trialização, eram condição necessária para resolver os
grandes problemas da sociedade brasileira: a pobreza,
Papel das organizações sociais
a concentração da renda, as desigualdades regionais.
Mas demoramos a perceber que estavam longe de ser
condição suficiente. Daí que a consciência de êxito Parece-me que as idéias ainda estão pouco claras
que tive na fase inicial de avanço da industrialização sobre o processo de crescente interdependência das
haja sido substituída por sentimento de frustração. Se- economias nacionais chamado de globalização. Vive-
ria simplificar o problema atribuir ao golpe militar de mos uma dessas épocas em que faz-se notória a insufi-
1964 a causa principal da mudança de sentido em nossa ciência do quadro conceitua! para apreender uma reali-
história, que levaria a substituir a meta do desenvolvi- dade em rápida transformação.
mento (prioritariamente social) pela do crescimento eco- Se intentamos captar a essência do processo his-
nõmico, que é inerentemente criador de desigualda- tórico que engendrou a civilização moderna, vemos
des e privilégios. que o importante não foram as ideologias e nem mes-
Quando, já em começos dos anos 60, tomei cons- mo as tecnologias. Esses foram ingredientes utilizados
ciência de que as forças sociais que lutavam pela in- por forças sociais em confrontação, pelas lutas de clas-
dustrialização não tinham suficiente percepção da gra- ses, se ficamos com a linguagem dos heréticos do sé-
vidade do quadro social do país, e te_ndi'1m a ali;r-se culo passado. Os grupos sociais que comandaram o
ao latifundismo e à direita ideológica contra o fantas- fantástico processo de acumulação de riqueza confor-
ma das organizações sindicais nascentes, compreendi maram o modelo de organização societária, mas den-
que muitas águas ainda teriam de correr para que emer- tro de limites ditados pelas classes assalariadas. Estas
gisse uma sociedade moderna no Brasil. adquiriram importância crescente como mercados ab-
Defendi, então, a idéia de que era necessário sorvedores do fluxo da produção.
aprofundar a percepção do subdesenvolvimento como Qual teria sido. a evolução das sociedades moder-
um processo histórico específico, requerendo um es- nas sem a emergência do poder sindical que assumiu
forço autônomo de teorização. Percebi que o persistente sua forma mais sofisticada na social-democracia? Cabe
crescimento econômico do Brasil de alguma forma anes- pensar que a sociedade democrática e aberta à iniciati-
tesiara a população para a percepção dos graves pro- va pessoal não teria o papel exemplar que hoje lhe
blemas sociais que se iam acumulando. As migrações atribuímos sem os sacrifícios realizados por mais de
internas criavam a ilusão de que todos, ou as maiorias, um século de lutas sociais.
!:
20 21
Estamos vivendo hoje nova fase dessa luta. A in- Brasil sãop_róprios de um país-continente marcado por
tegração política planetária em curso avançado de rea- grande heterogeneidade sociáfmas com um sistema
lização está reduzindo o alcance da açã; reguladora econômico ainda relativamente integrado em torno de
dos Estados nacionais em que se apoiavam as organi- um mercado interno de dimensão considerável e gran-
zações sindicais. Em conseqüência, a organização da de potencialidade de crescimento/À experiência tem
atividade produtiva tende a ser planejada em escala demonstrado que o motor do crescimento de países
multinacional e mesmo planetária, em prejuízo do po- de grandes dimensões tende a ser o mercado interno.
der de negociação das massas trabalhadoras. Daí que Como para ter acesso à tecnologia moderna faz-se ne-
o duplo processo de desemprego e exclusão social, cessário abrir o mercado interno, o problema consiste
por um lado, e, por outro, de concentração de renda . em modular os esforços na busca desses dois objeti-
se haja intensificado por todas as partes. . vos até certo ponto antagônicos. Assini, o papel do
Estado tende a ser cada vez mais sofisticado em um
país em construção como o nosso, num mundo em
Função do Estado nacional mutação como o contemporâneo. Os problemas cru-
ciais são, portanto, de natureza políti9 . .É preciso aban-
Um tópico a ser estudado com mais atencão é a donar a idéia de que com o fim da confrontação ideo-
evolução do papel dessa instituição que esteve ~o cen- --Íógica os grandes problemas estão resolvidos e a carta
tro da história moderna: o Estado nacional, o qual do futuro já _está traçada. Vivemos numa época em
assumiu progressivamente a defesa dos interesses co- · que se valoriza_ o fator p_olítico, ou seja_, a esfe_ra mais
letivos. De agente defensor dos interesses patrimoniais, _nobre das atividades criativas humanas. O que importa
o Estado nacional evoluiu para assumir o papel de é __ql!e as novas gérações recupere·m o gosto pelo exer-
intérprete dos interesses coletivos e assegurador da efeti- cício da_ irnaginação e se convençam de que a obra
vação dos frutos de suas vitórias. Esse processo deu-se -qui,-ihes cabe realizar é. nada menos do que dar conti-
mediante a crescente participação da população orga- nuidade à constmção deste grande país.
nizada no controle dos centros de poder, ou seja, a
democratização do poder. Ora, por trás desse processo
esteve a progressiva capacidade de organização das
massas trabalhadoras. E por trás destas, o Estado na-
cional que assegurava o nível de emprego da popula-
ção mediante a proteção do mercado interno.
Esses problemas se apresentam por toda parte,
pois estão ligados ao avanço da tecnologia e à confor-
mação do poder político mundial. A importáncia da
conformação do poder político ficou bem clara nas
recentemente concluídas negociações da Organização
Mundial do Comércio sobre fluxos internacionais de
tecnologia e serviços financeiros. Mas isso não signifi-
ca que já não haja espaço para o exercício de uma
política nacional. Os desafios com que se confronta O

22 23
2

O NOVO CAPITALISMO

Uma reflexão sobre o legado que nos deixou a


CEPAL deve partir do reconhecimento de que ela consti-
tuiu o ú11ico esforço .de criação de _um corpo de pen-
sam~nto teórico sobre política econômica surgido na
vasta área do planeta que veio a ser referida como
Terceiro Mundo. Esse trabalho de teorização se desdo-
brou em duas frentes. Em primeiro lugar, está a visão
global da estrutura da economia mundial a partir da
dicotomia Centro-Periferia, que nos permitiu captar a
especificidade do subdesenvolvimento e superar a dou-
trina rostowiana das etapas do crescimento, a qual ig-
norava as diferenças qualitativas entre estruturas de-
senvolvidas e estruturas subdesenvolvidas. Em segundo
lugar, está a percepção do sistema de poder subjacente à
economia mundial, o que permitiu explicar a tendência
. à degradação dos termos de intercàmbio dos produtos·
primários nos mercados internacionais. Trata-se, em ver-
dade, de uma teoria do efeito de dominação, que está na
origem da dependência a que se referiram em etapa pos-
terior os economistas latino-americanos.
Essas duas idéias iluminam de ângulos diversos o
fenômeno do poder nas estruturas econômicas mun-
diais, fato praticamente ignorado pelas teorias econômi-
cas convencionais que privilegiam a idéia de equihbrio.
A CEPAL representou, portanto, um esforço de restauração

25
da economia como ramo da ciência política, o que se cimento econômico cujos contornos ainda não estão
explica pela influência de Keynes sobre Prebisch e de definidos.
Ma1x sobre alguns dos jovens cepalinos de maior valor. Sendo assim, neste fim de século o crescimento
A análise que se segue das transformações da eco- econômico passa a ter como contrapartida o nasci-
nomia mundial funda-se na visão histórico-estrutural mento de uma nova forma de organizacão social que_
que emergiu dos trabalhos iniciais da CEPAL redefine o perfil de distribuição da renda. Pode-se en-
xergar nessa observação simples umaameaça ou um
desafio. Quando nada, ______________
~cc--:-----c"-----__.:__ o prenúncio de uma era de
....... ------·····
* ** incertezas.

O processo histórico de formação económica do


! mundo moderno pode ser observado de três ângulos: ***
' 1) a intensificação do esforço acumulativo mediante a
elevação da poupança de certas coletividades; 2) a am- Se refletirmos sobre a primeira revolução indus-
pliação do horizonte de possibilidades técnicas; e 3) o trial, verificamos que ela também criou desemprego,
aumento da parcela da população com acesso a novos muito em especial no setor agrícola o qual empregava
1

padrões de consumo. tradicionalmente mais de dois terços da massa traba-


lhadora. Ora, o desenvolvimento só é efetivo se a eco-
Não se trata de três processos distintos, e sim de
nomia pode contar com mercados em expansão. Por-
três faces em interação de um só processo histórico. É
tanto, caberia explicar de que maneira os mercados se
fácil perceber que, sem as inovações técnicas, não iria
ampliaram no quadro de uma revolução tecnológica
muito longe o aumento da poupança, e que a amplia-
que iria gerar a retração da demanda de mão-de-obra
ção do poder de compra da população era elemento
e da renda da massa dos trabalhadores. Sabemos que
essencial para a reprodução dinâmica do sistema.
num primeiro período as empresas dos países que li-
Neste fim de século prevalece a tese de que o deravam a Revolução Industrial forçaram a abertura dos
processo de globalização dos mercados há de se im- mercados externos, o que explica a ofensiva imperia-
por no mundo todo, independentemente da política lista que prosseguiu durante o século XIX. Contudo, o
que este ou aquele país venha a seguir. Trata-se de um verdadeiro motor desse crescimento econômico não foi
imperativo tecnológico, semelhante ao que comandou tanto o dinamismo das exportações, e sim a expansão
o processo de industrialização que moldou a socieda- dos mercados internos, possibilitada pelo aumento do
de moderna nos dois últimos séculos. poder de compra do conjunto da população assalariada.
Ora, a imbricação dos mercados e o subseqüente Por isso é que, para entender a lógica da civiliza-
debilitamento dos atuais sistemas estatais de poder que ção industrial, deve-se antes de mais nada encontrar
enquadram as atividades econômicas estão gerando im- uma explicação para o processo de aumento do poder
portantes mudanças estruturais que se traduzem por de compra da população, ou seja, para a expansão da
crescente concentração da renda e por formas de ex- massa dos salários. Ora, tal explicação ultrapassa ne-
clusão social que se manifestam em todos os países. cessariamente o quadro da análise econômica conven-
Essas conseqüências adversas, há mesmo quem as apre- cional, dado que a repartição da renda é comandada
sente como precondições de uma nova forma de cres- por fatores de natureza institucional e política.

26 27
Com efeito, se a lógica dos mercados tivesse pre- sa dos salários . ..O peso do primeiro desses fatores (a
valecido sem restrições, tudo leva a crer que a interna- inovação técnica) depende da ação dos em resários
cionalização das atividades econômicas (o processo de em seus esforços e maximização de lucros, ao passo
globalização) teria se propagado muito mais cedo, re- - que o peso do segundo (a expansao do mercado) re-
produzindo, numa versão ampliada, a experiência da flete a pressão das forças sociais que lutam pela eleva-
Inglaterra, onde a participação do comércio externo ção de seus salários.
na renda nacional ultrapassou 50% já nos anos 70 do , O processo atual de globalização a que assistimos
século passado. Daí resultaria uma menor concentra- desarticula a ação sincrónica dessas forças que garanti-
ção geográfica das atividades industriais, favorecendo ram no passado o dinamismo dos sistemas econômi-
os países da periferia. Além do mais, neste caso seria cos nacionais. Quanto mais as empresas se globalizam,
de esperar que houvesse uma concentração social da quanto mais escapam da ação reguladora do Estado,
renda ainda mais forte nos países que lideravam a mais tendem a se apoiar nos mercados externos para
Revolução Industrial. crescer. Ao mesmo tempo, as iniciativas dos empresá-
Mas a História não seguiu esse modelo. Prevale- rios tendem a fugir do controle das instâncias políti-
ceram, na verdade, maior concentração geográfica das cas. Voltamos assim ao modelo do capitalismo original,
atividades industriais em benefício dos países do Cen- cuja dinâmica se baseava nas exportações e nos inves-
tro e uma repartição de renda mais igualitária nesses timentos no estrangeiro.
mesmos países - os quais comandavam a vanguarda Em suma, o tripé que sustentou o sistema de po-
tecnológica - , o que implicou na adoção de políticas der dos Estados nacionais está evidentemente abalado,
de proteção social. em prejuízo das massas trabalhadoras organizadas e
Encontramos a explicação desse quadro histórico em proveito das empresas que controlam as inovações
na emergência das novas forças sociais que nasceram tecnológicas. Já não existe o equilíbrio garantido no
simultâneas ao processo de urbanização gerado pela passado pela ação reguladora do poder público. Disso
industrialização. A evolução do sistema de poder, con- resulta a baixa da participação dos assalariados na renda
seqüência da ação dos trabalhadores organízados, acar- nacional de todos os países, independentemente das ta-
retou a elevação dos salários reais e impôs aos governos xas de crescimento.
políticas protecionistas para defender seus respectivos Ora, a crescente interdependência dos sistemas eco-
mercados internos. Dessa forma, a partir de entâo o mo- nômicos tornou obsoletas as técnicas que vinham sen-
tor do crescimento foi a ampliação do mercado interno, do desenvolvidas nos últimos decênios para captar o
as exportações só contribuindo de maneira subsidiária. sentido do processo histórico que vivemos. Multiplica-
O aumento do poder de compra da massa dos ram-se os modelos ao impulso do avanço vertiginoso
trabalhadores desempenhou, portanto, um papel pri- das técnicas de manipulação de dados. Mas a fiabilidade
mordial no processo de desenvolvimento, ao qual só das projeções reduziu-se a quase nada. Como exemplo,
foi comparável o da inovação técnica. O dinamismo bastaria citar os exercícios realizados em torno das proje-
da economia capitalista derivou, assim, da interação ções do comércio internacional nos próximos anos a
de dois processos: de um lado, a inovação técnica - fim de comprovar o acerto dos acordos discutidos no
a qual se traduz em elevação da produtividade e em antigo GATI. Dezenas de milhares de equações foram
redução da demanda de mão-de-obra - , de outro, a tabuladas sem que se conseguisse dirimir nenhuma dú-
expansão do mercado - que cresce junto com a mas- vida essencial. Daí que seja hoje em dia tão limitada a

28 29
possibilidade de interferir nos processos macroeconô- 2. A União Européia nasceu por iniciativa da Fran-
micos, como constatam os governos mais bem apare- ça, tendo como principal objetivo promover um enten-
lhados, impotentes que são para enfrentar um proble- dimento político consistente com a Alemanha. Quatro
ma como o desemprego. decênios depois, deu origem a um formidável projeto
Essa pouca transparência do acontecer em que de engenharia política. Pela primeira vez, um grupo
estamos envolvidos reflete a intervenção de novos fa- significativo de países soberanos e com perfil cultural
tores e a mudança do peso relativo de outros, o que próprio abdicam de prerrogativas nacionais para se in-
implica em aceleração do tempo histórico. Os sistemas tegrar política e economicamente. No passado, a inte-
econômicos nacionais com grande autonomia, subme- gração de populações fez-se pela dominacão de um
tidos a choques externos apenas ocasionais, são coisa mais forte sobre muitos. O processo europeu está exi-
do passado. Os mercados fundamentais - de tecnolo- gindo um exercício de imaginação política para conciliar
gia, de serviços financeiros, de meios de comunicação, o ressurgimento de valores locais e rivalidades culturais
de produtos de qualidade e mesmo de bens de consu- com as exigências crescentes de um espaço econômico
mo geral, sem falar nas matérias-primas tradicionais - unificado de dimensões colossais. A União Européia,
operam hoje unificados ou marcham rapidamente para concebida no passado como projeto político - para
a globalização. fazer face à suposta ameaça soviética e para enterrar
Vejamos algumas das mudanças de mais relevo na as rivalidades históricas - , adquiriu um impulso con-
configuração do quadro global: siderável no plano económico, sendo de longe a mais
1. O declínio da governabilidade das economias importante experiência de superação do Estado nacio-
de maior peso relativo não se explica sem ter em con- nal como meio de disciplinar a convivência humana
ta a internacionalização dos mercados financeiros. O num quadro democrático.
enorme desequilíbrio da conta corrente do balanço de 3. O processo de conversão à economia de mer-
pagamentos dos Estados Unidos é uma fuga para a cado e de criação de instituições democráticas nos paí-
frente na busca de ajustar-se a essa globalização e se ses do Leste europeu resultou ser muito mais traumáti-
traduz em transferência para este país de parte consi- co do que se havia imaginado. Tudo leva a crer que
derável da poupança disponível para investimento nos esse processo será particularmente longo na Rússia,
demais países, inclusive nos mais pobres. Tal situação que enfrenta a dificuldade de reconstrução de um vas-
está conduzindo a modificações importantes nas rela- to espaço político de grande heterogeneidade étnica e
ções internacionais desse país, como exemplifica a re- cultural. É provável que durante um ou dois decênios
cente criação da zona de livre câmbio, englobando os a Rússia permaneça marginalizada - um mundo à
mercados dos Estados Unidos, Canadá e México. As parte, devendo inventar o formato político que permi-
indústrias norte-americanas poderão, assim, recuperar ta conciliar suas tradições autoritárias com as reivindi-
a competitividade internacional, pois os salários mo- cações de convivência democrática que predominam
netários no México não passam de uma décima parte hoje em uma classe média que se diferencia crescente-
dos que prevalecem nos Estados Unidos. A experiência mente. Não obstante seu imenso potencial de recur-
de integração com o México, excluindo a mobilidade sos, inclusive de gente qualificada, tudo indica que a
da mão-de-obra, servirá de paradigma a um projeto Rússia desempenhará papel de pouco relevo na confi-
mais amplo, capaz de abranger todo o Hemisfério. guração do mundo nos albores do próximo século.

30 31
4. As nações asiático-orientais, em particular a Chi- nacional de capitais tende a zero - , temos uma nova
na, são hoje, sem lugar a dúvida, os líderes da nova fase do desenvolvimento capitalista cujos contornos ain-
onda de transformações que estão redefinindo a face da se estão definindo.
do planeta. Liderados pelo Japão, esses países ganha- Podemos assinalar alguns pontos do perfil que se
ram autonomia no domínio das técnicas e põem a esboça. rOs desajustamentos causados pela exclusão so-
serviço destas urna grande disciplina social. Os salá- cial de parcelas crescentes de população emergem como
rios são regulados em função das exigências da con- o mais grave problema em sociedades pobres e ricas.
corrência internacional. A estrita disciplina social e o Esses desajustamentos não decorrem apenas da orien-
forte investimento no fator humano dão ao capitalis- tação assumida pelo progresso tecnológico, pois tam-
mo asiático uma força competitiva sem paralelo. Da- . bém refletem a incorporação....in.direta ao sistema pr~~-
das as formidáveis reservas de mão-de-obra de que dutivo da mão-de-obra mal remunerada dos países de
dispõem, tudo indica que esses países virão a pesar industrialização retardada, em primeiro plano os asiáti-
crescentemente nos mercados mundiais. A barreira con- cos. A globalização em escala lanetária das
tra essa invasão poderá surgir de novas formas de or- _pro ut:Ivas eva necessariamente a grande concentra-
ganização dos mercados que introduzam a discrimina- __ção de renda, contrapartida do processo de exclusão
ção de produtos. As áreas em que a concorrência se social a que fizemos referência.
faz pelos preços serão cada vez mais circunscritas. A Os novos desafios, portanto, são de caráter social,
crise das bolsas, de fins de 1997, serviu para eviden- e não basicamente econômico como ocorreu na fase
ciar o peso que o Oriente asiático já tem na economia anterior do desenvolvimento do capitalismo. A imagi-
mundial e a importância dos investimentos realizados nação política terá assim que passar ao primeiro pla-
nessa região para o dinamismo das economias ociden- no. Equivoca-se quem imagina que já não existe espa-
tais, ao mesmo tempo que pôs a nu a imaturidade de ço para a utopia. Ao contrário do que profetizou Marx, a
suas classes dirigentes. administração das coisas será mais e mais substituída pelo
5. As economias latino-americanas estarão subme- governo criativo dos homens.
tidas a pressões crescentes para desregular os seus mer-
cados, o que acarretará efeitos diversos em função do
grau de heterogeneidade de suas estruturas sociais. Se.
não conseguirem deter o processo de concentração da
renda e de exclusão social, países como o Brasil e o
México estarão expostos a tensões sociais que pode-
rão conduzi-los à ingovernabilidade. A busca de no-
vos modelos de desenvolvimento voltados para a eco-
nomia dos recursos não-renováveis e para a redução
do desperdício ocupará entre os latino-americanos pa-
pel idêntico ao desempenhado entre os europeus, na
primeira metade do século atual, pelas utopias sociais.
Eliminadas as tarifas alfandegárias como instrumen-
to de política comercial e progressivamente unificado
o mercado financeiro - o custo da transferência inter-

32 33
3

GLOBALIZAÇÃO E IDENTIDADE
NACIONAL

O processo de globalização

Os ajustamentos que neste fim de século se mani-


festam nas relações internacionais requerem para sua
compreensão uma visão global apoiada não apenas na
análise econômica) mas também na imaginação pros-
pectiva que nos habilita a pensar o futuro como Histó-
ria. Sem essa visão global, não captaremos sequer o
sentido dos acontecimentos que nos concernem dire-
tamente! e estaremos incapacitados para agir eficaz-
mente como sujeitos históricos.
Com essa preocupação, farei algumas reflexões
sobre a realidade mundial emergente, para, em segui-
da, abordar a problemática que nos preocupa mais
diretamente.
1. Não devemos perder de vista que _a economia
mundial penetrou rn una fase de tensões estruturais sem
precedentes por sua abrangência planetária. Essas ten-
sões se manifestam desde o começo dos anos 80 nos
países do Terceiro Mundo sob a forma de brusca ele-
vação das taxas de juros dos mercados internacionais
e de intensa drenagem de capitais para os Estados
Unidos, o que explica a euforia desfrutada pela popu-
lação norte-americana a partir da segunda metade dos
anos 80. O vértice da tensão que se manifesta na eco-
nomia mundial situa-se na inflação virtual da econo-
mia norte-americana, inflação causada pelo longo de-
clínio da taxa de poupança conjugado com o elevado

35
déficit na conta corrente da b l d
baixa na taxa de a ança e pagamentos. A pos1çao vantajosa na concorrência com os países do
déficits d poupança resulta da convergência de Terceiro Mundo. Superada a fase de reconstrução ins-
da o governo federal, com persistente redução
poupança pnvada. Com efeito a taxa d titucional, tudo leva a crer que nessa região se abrirá
da economia dos Estad U .d -'- ... . e poupança uma nova fronteira dinâmica da economia capitalista.
cto nível bs . os. m os reduzm-se à metade Ora, esse amplo processo de reconstrução econômica,
··---.-QJ erv_;@o nos tres decênios anteriores a jfon·
Seu mvel atual corres d·-----.. ····--- . ~ - incluída a parte oriental da Alemanha, reforça a ten-
~
taxa de poupança do!';:ís:t d~mo~~~: ;,~doías dda dência à elevação das taxas de juros em detrimento
um quarto da do Ja - E .. .. e das economias do Terceiro Mundo.
Unidos deixaram d pao. m consequencia, os Estados 4. A integração dos países da Europa ocidental é
mundial de capitai/ p::: ~c:a~~ra credor.. e provedor irreversível, mesmo que não sejam alcançados os am-
devedor. Sua dívida P posiçao de maior biciosos objetivos de Maastricht. Esse processo reforça
lhão de dólares. externa supera atualmente l tri-
os grandes grupos econômicos que operam transna-
2. Esse desequilíbrio estrutural da . cionalmente, mas abre espaço para os agentes que
Estados Unidos é a ca econonua dos atuam em esferas soc1a1s outras que as especificamen-'
de mais de metade ;sao~ª drenagem p~ra esse país
...._te económicas e financeiras. O debilitamento dos ins~
vestimentas internacionafs 1~aun1_tça d1spomlve] para in- ---··--·-····------ --··-·--r
d il . . o provave mente ess trumentos de polítiça macroeco_llé\_miÇi exigirá ação com-
esequ íbno persistirá por algu ' e pensatória em outras áreas abertas à invenção política.'
que venha a ser dada a esse ns anos, e a solução Na Europa ocidental, ocorre a mais importante expe:
mente na configu .. fu problema pesará seria-
mundial A t .. raçao tura da estrutura de poder riêncía de superação do Estado nacional como instru-
. ensao no centro econôm. h ~ . mento de coordenação das atividades econômicas em
provoca reacom d ~ ico egemon1co
de prever na ár~a alçato de forças com reflexos difíceis sociedades que conciliam os ideais de liberdade e de
a 1no-amer1cana a q l bem-estar social. Isso pressupõe a conquista de cres-
um período de · d , ua atravessa
3 cnse e suas estruturas políticas. cente homogeneidade social, o que não é fácil obter
. Outra fonte de tensão a ter em conta é l dada a orientação atual do progresso técnico.
processo de destruicão-reconstruça· 0 da o amp o
Lest • s econonuas do 5. Independentemente das mudanças na configu-
e europeu, as quais continuarão a absorv ração da estrurura do poder político mundial, deve
da poupança gerada pelos demais a· er parte
nham possibilidade d p ises, sem que te- prosseguir a realocação de atividades produtivas pro-
ses capitais, o que ta;br;;~~:~~b:fequadamente es- vocada pelo impacto das novas técnicas de comunica-
vadas as taxas d . .. para manter ele- ção e tratamento da informação, o que tende a concen-
e Juros. A diferença d trar em âreas privilegiadas do mundo desenvolvido as
os observadores internacionais e~ u: qpu~ pe_nsavam
menta r1me1ro mo- atividades criativas, inovadoras ou simplesmente aquelas
' esse processo será lon
vários decênios A da
ªº d
• b ' po endo absorver que são instrumento de poder.
4 5o/r l . que no mvel de produção foi de 6. Tudo indica que 12rosseguirá o avanço das em-
' o _;m 990 e, em 1991, alcançou 15 4%. p..ersistind
por var1os anos o d ' · o _eresas transnacionais, graças à crescente concentração
na] ta' d . processo e reciclagem institucio- do poder financeiro e aos acordos no âmbito da Orga-
es sen o profundo b
des à c .. e a re enormes possibilida- J:lização Mundial do Comércio sobre e,itent<O!S_econtrole
ses disp~~~e;çao do capital internacional. Esses paí- .ela atividade intelectual, o que contribui para aumentar
e recursos humanos que os colocam em
o fu-;,so entre países des~'iovolvidos e subctesenvé,]vídos.
36
37
7. Com o avanço da internacionalização dos cir- A preseroação da identidade nacional
cuitos econômicos, financeiros e tecnológicos, debili-
tam-se os sistemas econômicos nacionais. As ativida-
Convém refletir sobre esses ajustamentos estrutu-
des estatais tendem a circunscrever-se às áreas sociais
e culturais. Os países marcados por acentuada hetero- rais globais em curso de realização, se preten~emos
geneidade cultural e/ou econômica serão submetidos identificar O espaço dentro do qual o Brasil fara sua_s
opções históricas, sem perder de vista suas singulan-
a crescentes pressões de forças desarticuladoras. A con-
dades~ ..preservar a identidade cultural e unidade
trapartida da preeminência da internacionalização é o
política em um mundo dominado por grupos transna- .
afrouxamento dos vínculos de solidariedade histórica
-·cionais que fundam seu poder no controle cJ,t__tecnolo- -·
que unem no quadro de certas nacionalidades popula-
·gia, da informaçao e do capital financeiro? E esse o
ções marcadas por acentuadas disparidades culturais e
de nível de vida. desalio. Para enfrentá-lo, cabe refiem senamente so-
bre a perda de dinarmsmo da economia brasileira nos
8. A atividade política internacional facilitará a abor-
··· dois últimos decênios. ,
dagem dos problemas ligados ao equilíbrio ecológico,
ao controle do uso de drogas, ao combate das enfer-
o que veio a chamar-se desenvolvimento econo-
mico no Brasil, traduz a expansão de um mercado
midades contagiosas, à erradicação da fome e à manu-
inter~o que se revelou de enorme potencialidade: Longe
tenção da paz. A esfera econômica tende a ser crescen-
de ser simples continuação da economia pnmano-ex-
temente dominada pelas empresas internacionalizadas, portadora que herdamos da era colonial --: constela-
as quais balizarão o espaço a ser ocupado por ativida-
ção de núcleos regionais autônomos - , a indu_smah-
des de âmbito local e/ou informais. A importáncia relati- zação assumiu a forma de construção de um sistema
va destas últimas definirá o grau de subdesenvolvimento econômico com considerável autonorma no que res-
de cada região: áreas desenvolvidas e subdesenvolvidas peita à formação de poupança e à_ gera_ção de deman-
estarão assim estruturalmente imbricadas numa com- da efetiva. Graças aos efeitos de sinergia, esse sistema
partimentação do espaço político que cristaliza as de- representava mais do que a soma dos elementos que
sigualdades sociais.
o formavam.
9. A estrutura internacional de poder evolui para Assim, mesmo sem haver gozado de uma :itua-
assumir a forma de grandes blocos de nações-sedes ção privilegiada como os Estados Unidos um se;=ulo
de empresas transnacionais que dispõem de rico acer- antes _ grande influxo de capitais e de quadros tec~1-
vo de conhecimentos e de pessoal capacitado. O inter- cos originários das regiões mais desenvolvida: da Eu, o-
câmbio internacional de serviços, particularmente os pa - , o Brasil seria no tem,iro quartel do seculo XX a
financeiros e tecnológicos, cresce em detrimento do fronteira em expansão ma!S rapida do mundo capitalista.
de bens tradicionais. Na dinâmica desse sistema, pre- Durante três séculos a economia brasileira basea-
valecem as forças tendentes a reproduzir a atual cliva- ra-se na exploração extensiva de recursos em grande
gem desenvolvimento/subdesenvolvimento. Para escapar parte não-renováveis: da exploração florestal dos seus
a esse sistema de forças que se articulam planetaria- primórdios até a grande mineração ~e. fer;,º: pas,;and?
mente, é necessário que se conjugue uma vontade po- pelo uso destrutivo dos solos nos vanos ciclos agn-
lítica fundada em amplo consenso social com condicões colas. Com efeito, por muito tempo fomos um caso
objetivas que poucos países do Terceiro Mundo ~eú- exemplar do que hoje se conhece como :d_esenvolvi-
nem atualmente. mento não sustentável". Civilização predatona, estáva-

38 39
mos co~denados a enfrentar urna imensa crise quando <luzir O investimento interno. Esses ajustamentos exi-
completássemos a destruição da base de recursos não- gem um consenso e uma disciplina social difíceis de
renováveis (ou .renováveis a custos crescentes), ou quan- serem alcançados em qualquer país, e mais amda em
do a demanda mternacional de tais recursos fosse reduzi- sociedades marcadas por profundas desigualdades_ e
da pe!a incidência de fatores tecnológicos ou econômicos. atraso político, como é a brasileira. Daí que a cnse
E somente no século atual que a economia brasi- atual, que já se prolonga por dois decênios, nos _pare-
leira deixa de fundar seu dinamismo na depredação ça insuperável, havendo sido notória a incapacidade
de recursos_ natur~is e passa a apoiá-lo de forma prin- do Estado para enfrentá-la.
cipal na assim!laçao de avanços tecnológicos e na acu- Aumentar o esforço para aprofundar a inserção
mulação de cap_ita_l reprodutível. Isso, graças ao pro- externa da economia - o que atualmente se apresen-
cesso de mdustnaltzação que passou a ser O motor do ta como requisito da modernização - somente se JUS-
desenvolvimento do país a partir da grande depressão tifica se esse esforço for realizado no quadro de uma
dos anos 30. autêntica política de desenvolvimento socioeconô111i-
O Brasil lançou as bases de um sistema industrial co, 0 que não é o caso se o aumento das exportaçoes
em época de grandes transtornos internacionais tendo tem como contrapartida contração do mercado mterno.
cabido ao Estado papel decisivo na estratégia' então Não se deve perder de vista que a lógica das
adotada. O sacrifício imposto à população foi compar- transações internacionais sempre operou em detnmen-
tilhado por todas as classes sociais, inclusive aqueles to do; países de economia dependente. As extraordi-
grupos antes habituados a terem acesso a bens de con- nárias taxas de crescimento que conheceu a economia
sumo importados. Durante alguns decênios, 0 país teve brasileira nos quatro decênios compreendidos entre os
~e. se ~eestru~rar, reduzindo consideravelmente a par- anos 1930 e 1970 refletiram especificamente um dma-
ticipaçao das importações na oferta de bens de consu- mismo fundado na expansão do mercado interno.
mo enquanto a população crescia, particularmente nas Nunca é demais recordar que os preços reais dos
áreas urbanas. Uma nova realidade social comecava a produtos primários exportados pelos países, do Tercei-
e~ergir: os. ricos, consumindo produtos nacion~ais, já ro Mundo apresentam historicamente tende_:1cia decli-
nao eram vistos como habitantes de outro planeta. e a nante. A média desses preços no qüinquemo 1986-
classe média em formação ocupava espaços crescentes 1990 correspondeu aproximadamente à metade d;' que
e assumia posições de liderança no plano cultural. foram quarenta anos antes, ou seja, em 1948-195). Um
O quadro internacional, que havia possibilitado a grupo de analistas do Banco Mundial conclum em es-
industrialização, mudou profundamente no início dos tudo que esse declínio já se prolonga por m_a1s de um
anos 70: a crise do dólar, seguida do primeiro choque século (The world Bank Economic RevieuJ, 1ane!fo de
petrol~1ro, deu origem a grande massa de liquidez in- 1988), declínio que se vem acentuando. Entre 1989 e
ternacional com a baixa nas taxas de juros, conduzin- 1991 os preços dos produtos primários exportados pe-
do ao processo de sobreendividamento de grande nú- los países pobres declinaram em média ~0%, queda
mero de, países do Terceiro Mundo. O que vem em que se aproxima da ocorrida na depressao de 1980-
segui~ e a dolorosa história dos ajustamentos impostos 1982 que deflagrou a crise da dívida externa desse,s
aos paises devedores: de absorvedores passam estes a países. Prisioneiros de urna lógica perversa, muitos pa1-
supndores de capitais internacionais, devendo conco- ses pobres procuram compensar a baixa de_ preços
mitantemente aumentar o esforço de poupança e re- aumentando as exportações e obtendo fmanciamento

40 41
externo, inclusive de agências multilaterais, para au-
mentar a produção. A concorrência desabrida resultante
levou nos anos recentes à ruína os produtores de café
e de cacau. A renda auferida pelos produtores de café foi
reduzida à metade e ainda maiores foram as perdas dos
de cacau e açúcar, em conseqüência do desmantelamen-
to dos tênues mecanismos de defesa dos preços, existen-
tes em época anterior à onda de desregulamentação.
A pressão conjugada da oferta de mão-de-obra
gerada pelo crescimento demográfico e da rigidez da
procura de produtos primários nos mercados interna- rtadas pelos países industrializados cresceram 35 Vo. e
cionais levou, no passado, os países periféricos a bus- ;~stamos o poder de compra gerado pelas manufatu-
car o caminho da industrialização. Contudo, poucos ~s exportadas por países do Terceiro Mundo, tendo
dentre esses países reuniam as condições de dimensão ta os preços das máquinas e dos equipamentos
demográfica, potencial de recursos naturais e liderança em con da l cou 32%
que eles importaram, vemos que a per a can.
empresarial para fundar a industrialização no desen- no referido decênio. Dessa forma, o ganho de espaç~
volvimento do mercado interno. A grande maioria dos nos mercados internacionais de manufaturas vem e~
países pobres que buscam industrializar-se ficam na . d dos países pobres esforco crescente. Certo, nao
dependência de acesso marginal ao mercado interna- gm O • • t ologia mo-
existe desenvolvimento sem acesso a ecn . d
cional como subcontratistas de empresas transnacio- derna, e esse acesso se dá de preferência pela via o
nais. Foram poucos os que avançaram na construção comércio internacional. O que aconteceu no_ passado,
de um sistema econômico com certo grau de autono- 's com as potencialidades do Brasil, foi que
mia na geração da demanda efetiva e no financiamen- em um pai nh el
do internacional desempe ou pap
to dos investimentos reprodutivos. o acesso ao merca 1·
apenas coadjuvante na promoção do desenvo vunento,
As barreiras que enfrentam esses países para ter . ulso principal gerado internamente.
acesso aos mercados internacionais não se manifestam send o o unp · dif. ·1
Se temos em conta que nossa economia ic1 -
apenas na degradação dos preços reais dos produtos mente pode recuperar seu dinamismo apoiando-se b_a-
primários que exportam. Essa tendência, assinalada por
sicamente nas relações externas, cabe_ indagar se nao
Raúl Prebisch há meio século, tem explicação simples
terá sido um erro abandonar a estrateg1a de co~stru-
na natureza mesma desses produtos, cuja importància "m tor de crescunen-
relativa declina com o crescimento da renda de uma cão do mercado interno como o .
;o". Não digo que esse abandono haja sido deliberado
população. As dificuldades que enfrentam os países
ou mesmo consciente. Ele refletiu mudanças con1untu-
pobres em seu esforço para penetrar nos mercados . struturais da economia internacional que
internacionais são ainda mais amplas do que supu- ra1s e mesmo e . . -
não soubemos enfrentar com decisão e imagmaçao.
nham os primeiros teóricos do subdesenvolvimento, , . durante O qual a capacidade
que se limitavam a observar a natureza dos produtos Perdeu-se um d ecemo, .
. de que dispunha o país se detenorou
sem dar atenção à estrutura dos mercàdos internacio- de autogoverno , . .
consideravelmente, reduzindo-se a eficaoa dos instru-
nais. Ora, tudo leva a crer que nestes as manifestações
mentos de política macroeconômica. Os compromis-
do que se entende por poder de mercado assumem

43
42
dutiva 1'á existente. Para isso, é necessário recupe-
sos formalizados com os credores internacionais Pro
sindicato de bancos e FMr - limitam a margem de
manobra.
Os sistemas econômicos de grandes dimensões ter-
~~;i~~~;~:ei~~~n::~::t~:
Os flu
xos externos monetários
d
e
ando macroeco-
pib~~: discili:~~i~
e f1nance1ros. l ·o .'
P or sua capacr-
.cácia da ação do governo começa d
ritoriais e acentuadas disparidades regionais e estrutu- a efl - Em mea os
rais - Brasil, Índia e China aparecem em primeiro dade de disciplinar as relaçoes eA-terna 5 . b ·ie·ro
com o Plano Real, o governo ras1 1
plano - dificilmente sobreviverão se perdem a força dos anos 90, fundou a política de estabilização (de
coesiva gerada pela expansão do mercado interno. Nes- mais uma vez . ·cta t ex-
ecos e de câmbio) num crescente end1v1 men_o_ .
ses casos, por mais importante que seja a inserção pr , O a todas as grandes crises brasileiras se mic1a-
internacional, esta não é suficiente para dinamizar o terno. r i rt nto saber se
m Po r problemas cambiais. Resta, po a ' d ,
sistema econômico. Num mundo dominado por em- ra , · 1 a inda po era
erdido nessa area essenc1a
presas transnacionais, esses sistemas heterogêneos so- o terreno P ., , ]a im róprio falar de
mente sobrevivem e crescem por uma vontade política ser recuperado. Ou se Jª e a "º p .
sistema econômico com respeito ao Brasil.
apoiada em um projeto com raízes históricas.
A teoria do desenvolvimento econômico dos gran-
des sistemas heterogêneos - social ou culturalmente Notas
- ainda está por ser escrita. O fracasso da União So-
viética veio demonstrar cabalmente que tais sistemas . D fi 'ts" '"'orld Jmbalances, WlDE~
1. Cf. "The USA's Twm e ic1 ' w, ,
já não sobrevivem apoiando-se tão-somente em estru-
Relatório de 1989, Helsinque.
turas de dominação burocrática e militar. O considerá- th Center estudo pre-
vel crescimento econômico apoiado na industrializa- 2_ Cf. Non-Alignment in the 1990s, Sou '
parado para a Conferência de Jacarta, 1992.
ção e com base no mercado interno, durante o meio
século que se inicia nos anos 1930, deu origem no
Brasil a fortes vínculos de interdependência entre regiões
que, no longo período primário-exportador, poucas rela-
ções econômicas mantinham umas com as outras.
É certo que o dinamismo do mercado interno em
boa medida fundou-se na cooperação de empresas es-
trangeiras, numa época em que a disputa de capitais
na área internacional era bem menos intensa do que
atualmente e nosso endividamento externo, muito me-
nor. Portanto, o primeiro desafio que deve enfrentar o
Brasil é o de aumentar sua capacidade de autofinan-

e e e
ciamento, o que requer um maior esforço de poupan-
ça pública privada maior disciplina transparência
no uso das divisas geradas pelas exportações.
Esforço maior de poupança e mais disciplina so-
cial somente serão alcançados caso se saia da reces-
são, vale dizer, caso se utilize melhor a capacidade

45
44
4

A SUPERAÇÃO DO
SUBDESENVOLVIMENTO

_Quando a capacidade criativa do homem se volta


par~ a descoberta de suas potencialidades, e ele se '
_ empenha em enriquecer o universo que o gerou, pro-
duz-se o que chamamos desenvolvimento. Este somen-
te se efetiva quando a acumulação conduz à criaçao
de valores que se difundem na coletividade. A ciência"
do desenvolvimento preocupa-se com dois processos
de criatividade. O primeiro diz respeito à técnica, ao
empenho do homem de dotar-se de instrumentos, de
aumentar sua capacidade de ação. O segundo refere-
se ao significado de sua atividade, aos valores com
que o homem enriquece seu patrimônio existencial.
É específico da civilização industrial o fato de
que a capacidade inventiva humana haja sido canali-
zada para a criação de técnicas, ou seja, para abrir
novos caminhos ao processo de acumulação, o que
explica a formidável força expansiva dessa civilização. E
também explica que, no estudo do desenvolvimento, o
ponto focal dominante haja sido a lógica da acumulação.
Mas foi como rejeição de uma visão simplificada
do processo de difusão geográfica da civilização in-
dustrial que emergiu a teoria do subdesenvolvimento,
cujo campo central de estudo são as malformações
sociais engendradas durante esse processo de difusão.
A denúncia do falso neutralismo das técnicas deu visi-

47
bilidade à face oculta, mas dominante, do processo de balho' Ou melhor: até que ponto essa tecnologia pode
desenvolvimento, que é a definição dos fins, a criação ser posta a serviç;-da consecucão de objetivos defini-
de valores substantivos. dos autonomamente por uma sociedade de nível de
A teoria do subdesenvolvimento traduz a tomada acumulaçao relauvamente ÕaJ.Xo e que pretende à ho-
de consciência das limitações impostas ao mundo pe- mogeneização social? Seria a dependência tecnológica
riférico pela divisão internacional do trabalho que se simples decorrência do processo de aculturação das
estabeleceu com a difusão da civilização industrial. O elites dominantes nas economias periféricas? É possí-
primeiro passo consistiu em perceber que os princi- vel ter acesso à tecnologia moderna sem submeter-se
pais obstáculos à passagem da simples modernização -ao processo de mundialização de valores imposto pela
mimética ao desenvolvimento propriamente dito cimen- dinâmica dos mercados? Pode-se evitar que o sistema
tavam-se na esfera social. O avanço na acumulação de incitações, requerido para alcançar os padroes de
nem sempre produziu transformações nas estruturas eficiência próprios da técnica moderna, engendre cres-
sociais capazes de modificar significativamente a distri- centes desigualdades sociais nos países de baixo nível
buição da renda e a destinação do novo excedente. A de acumulação'
acumulação, que nas economias cêntricas havia leva- A reflexão suscitada por essa temática vem permi-
do à escassez de mão-de-obra, criando as condições tindo circunscrever melhor o campo do estudo do sub-
para que emergissem pressões sociais que conduziram desenvolvimento. De um lado, apresentam-se as exi-
à elevação dos salários reais e à homogeneização so- gências de um processo de mundialização, imposto
cial, produziu nas regiões periféricas efeitos totalmente pela lógica dos mercados, que está na base da difusão
diversos: engendrou a marginalização social e reforçou da civilização industrial. De outro, configuram-se os
as estruturas tradicionais de dominação ou as substi- requerimentos de uma tecnologia que é fruto da histó-
tuiu por outras similares. Em verdade, a acumulação ria das economias centrais e que exacerba sua tendên-
periférica esteve de preferência a serviço da interna- cia original a limitar a criação de empregos. Por últi-
cionalização dos mercados que acompanhou a difusão mo, estão as especificidades das formas sociais mais
da civilização industrial. aptas para operar essa tecnologia, ou seja, as formas
O conceito de dependência tecnológica permite de organização da produção e de incitação ao traba-
articular os distintos elementos que estão na base desse lho, as quais tendem a limitar a possibilidade de recur-
problema. O desenvolvimento tecnológico é dependente so aos sistemas centralizados de decisões.
quando não se limita à introdução de novas técnicas, A superação do subdesenvolvimento implica a ten-
mas impõe a adoção de padrões de consumo sob a tativa de encontrar resposta para essas múltiplas ques-
forma de novos produtos finais que correspondem a um tões. O que se tem em vista é descobrir o caminho da
grau de acumulação e de sofisticação técnica que só criatividade com respeito aos fins, lançando mão dos
existem na sociedade em questão na forma de enclaves. recursos da tecnologia moderna, na medida em que
Uma melhor compreensão dessa problemática per- isso é compatível com a preservação da autonomia na
mitiu que fossem formuladas algumas questões e aber- definição dos valores substantivos. Em outras palavras:
tas novas linhas de reflexão sobre o subdesenvolvi- como efetivamente desenvolver-se a partir de un1 nível
mento. Existe a possibilidade de acesso à tecnologia relativamente baixo de acumulação, tidos em conta as
de vanguarda da civilização industrial, e de escapar à malformações sociais incentivadas pela divisão inter-
lógica do atual sistema de divisão internacional do tra- nacional do trabalho e os constrangimentos impostos

48 49
pela mundialização dos mercados' Como ter acesso à a emergência de um poder burocrático totalizador ten-
tecnologia moderna sem deslizar em formas de de- de a conduzir a um afastamento crescente entre os
pendência que limitam a autonomia de decisão e frus- centros de decisão e a massa da população, portanto,
tram o objetivo de homogeneização social? a novas estruturas de privilégios. Ademais, apresen-
É possível resumir em três modelos as tentativas tam-se os problemas suscitados pela operação de um
mais significativas de superação do subdesenvolvimento sistema econômico regido por decisões centralizadas.
nesta segunda metade do século XX: leor1camente) é possível programar as atividades de
l. Coletivizaçâo dos meios de produção. Esse pri- um conjunto de unidades o erativas discretas. articula-
meiro projeto baseou-se no controle coletivo das ativi- as em um só sistema. Mas a coletivizacão plena trans-
dades econômicas de maior peso, fosse em nível das Jorma essa possibilidade teórica em necessidade práti-
unidades produtivas (autogestào), fosse em nivel nacional -2'.: As dificuldades que se apresentam para a execução
(planificação centralizada), ou ainda na forma de com- do programa são tanto maiores quanto 1nais baixo é o
binação desses dois padrões de organização coletiva nível de desenvolvimento das forças produtivas.
do sistema econômico. Em síntese) as experiências de coletivização dos
O fundamento do projeto de coletivizaçào tem meios de produção confrontaram-se com dificuldades
raízes na doutrina marxista. Por um lado, dá-se como criadas por problemas de três ordens:
evidente que as formas de organização social prevale- a) o da organização social, que responde pela defi-
centes nos países periféricos conduzem à aculturação nição de prioridades na alocação de recursos escassos;
das minorias dominantes, integrando as estruturas de b) o do sistema de incitações, que concilia o me-
dominação interna e externa, e, conseqüentemente, ex- lhor desempenho das atividades produtivas com a de-
cluindo as maiorias dos benefícios do esforço acumu- sejada distribuição da renda; e
lativo. Daí que o crescimento econômico não conduza e) o da inserção na economia internacional, que
por si só ao desenvolvimento. Por outro lado, tem-se assegura o acesso à tecnologia e aos recursos financei-
como certo que a lógica dos mercados não induz às ros fora das relações de dependência.
transformações estruturais requeridas para vencer os 2. Prioridade à satLifaçào das necessidades bási-
fatores de inércia que se opõem ao desenvolvimento cas. Outra forma de tentar a superação do subdesen-
das forças produtivas a baixos níveis de acumulação. volvimento tem sido privilegiar a satisfação de um con-
Em realidade, essa lógica propicia a especialização inter- junto de necessidades que uma comunidade considera
nacional com base nos critérios de vantagens comparati- prioritárias, ainda que definidas com imprecisão. Par-
vas estáticas. Ora, o excedente produzido por essa espe- te-se da evidência que a penetração tardia da civiliza-
cialização e retido localn1ente estin1ula a modernização ção industrial conduz a formas de organização social
dependente, a qual passa a condicionar o subseqüente que excluem dos benefícios da acumulação frações
processo de transfonnação das estruturas produtivas. A in- consideráveis da população, senão a ampla maioria
dustriali7..ação que emerge da especialização internacional desta.
dependente reforça as estruturas sociais preexistentes. A solução desse problema é de natureza política
Se a coletívização se funda na autogestão, as pres- e exige que parte do excedente seja deliberadamente
sões para elevar o consumo podem ser consideráveis, canalizada para modificar o perfil de distribuição da
o que reduz a possibilidade de acumulação reproduti- renda, de forma que o conjunto da população possa
va. Se o ponto de partida é a planificação centralizada, satisfazer suas necessidades básicas de alimentação, saú-

50 51
de, moradia, educação etc. Não é esse um problema 3. Ganho de autonomia externa. Uma terceira
exclusivo dos países de desenvolvimento retardado, estratégia para superar o subdesenvolvimento consiste
mas é nestes que se apresenta com indisfarçável gravi- em assumir uma posição ofensiva nos mercados inter-
dade. Não há dúvida de que, se se destina uma parcela nacionais. Os investimentos são orientados de forma a
do incremento do produto de uma economia à elimi- favorecer SetÔ~esZo~ capacidade competitiva externa
nação daquilo que se convencionou chamar de pobre- pofencial e que tenham ao mesmo tempo um efeito
za absoluta, esta desaparecerá ao cabo de um certo . indutor interno. Desse modo, operam como motor da
número de anos. \{irias são as formas imagináveis para · fÕrinaçao do mercado interno. As exportações apóiam-
se em economia de escala e/ou avanço tecnológico, e
alcançar esse objetivo: desde reformas de estrutura,
não em vantagens comparativas estáticas. O êxito des-
como a reorganização do setor agrário, visando a efe-
se modelo depende de que as atividades exportadoras
tiva elevação do salário básico) até a introdução de
se mantenham em posição de vanguarda, não tanto na
medidas fiscais capazes de assegurar a redução dos
tecnologia de processos, mas na de produtos. É a po-
gastos de consumo dos grupos de altas rendas, sem
sição de vanguarda que dá flexibilidade e adaptabili-
acarretar efeitos negativos no montante da poupança
dade à corrente de exportação. O controle por empresas
coletiva.
transnacionais das atividades produtivas com potencial
A dificuldade maior está em gerar uma vontade de exportação, ao limitar a capacidade de ação na
política capaz de pôr em marcha um tal projeto, pois a esfera internacional, pode criar obstáculos a esse tipo
estrutura do sistema produtivo e o perfil de distribui- de estratégia.
ção da renda se condicionam mutuamente. Modificar O traço principal desse modelo é o ganho de au-
essa interdependência implica um custo social que pode tonomia nas relações externas. Supera-se a situação de
ser considerável, não somente e.m termos de obsoles- dependência e passividade, imposta pelo sistema clás-
cência de equipamento, mas também de desemprego sico de divisão internacional do trabalho, para adotar
imediato. li"ata-se portanto, de operação mais com-
1 uma postura ofensiva fundada no controle de certas
plexa do que à primeira vista pode parecer. . técnicas de vanguarda e na 1ruc1abva comercial. Esse
Também no plano das relações externas apresen- modelo requer um planejamento seletivo rigoroso e o
tam-se problemas. As economias subdesenvolvidas que fogro de uma elevada taxa de poupança. O problema
se industrializaram com a cooperação das empresas que se coloca de llllediato é o da identificação das
transnacionais utilizam técnicas, e mesmo equipamen- ·-bãses sociais de uma estrutura de poder apta a levá-lo
tos, que já foram amortizados nos países de origem ·· à prática. Não serão as elites tradicionais voltadas para
dessas empresas. A reciclagem dos sisten1as produti- a~modernização dependente, e tampouco as maiorias
vos em função de padrões de consumo menos elitistas preocupadas em ter acesso imediato a melhoràs nàs
poderá exigir novos investimentos, acarretando eleva- Condições de vida. Co111p1ee-nde-se, portanto, que uma
ção de custos. Produz-se, dessa forma, um efeito per- tal estratégia conduza com freqüência a um reforço
verso: a tecnologia requerida para satisfazer as neces- das estruturas estatais de yocacão autoritaria.
sidades de uma população de baixo nível de renda -·· As três estratégias referidas sintetizam~xperiên-
pode ser mais cara, pois está substituindo outra que, cias vividas no último meio século pelos países de
embora mais sofisticada, tem custo de oportunidade economia periférica que adotaram políticas voluntaristas
zero para a empresa que a utiliza. de desenvolvimento. O ponto de partida foi sempre a

52 53
1
i
' crítica da forma como se vem difundindo a civilização
industrial, das situações de dependência criadas pela 5
divisão internacional do trabalho e das malformações
1 sociais geradas na periferia pela lógica dos mercados.
O objetivo tático tem sido ganhar autonomia na orde- REVISITANDO MEUS PRIMEIROS
nação das atividades econômicas, visando a redução
das desigualdades sociais que parece segregar necessa-
ENSAIOS TEÓRICOS
riamente a civilização industrial em sua propagação pe-
riférica. O objetivo estratégico é assegurar um desen-
volvimento que se traduza em enriquecimento da cultura
em suas múltiplas dimensões e permita contribuir com
criatividade própria para a civilização que se mundializa. Pensar o Brasil
No fundo está o desejo de preservar a própria identida-
de na aventura comum do processo civilizatório.
Quando comecei a estudar economia - já lá se
As experiências referidas deixam claro que, no
vai meio século -, imperava no Brasil a doutrina de
mundo atual, certas condições devem ser cumpridas
que a nossa era uma economia reflexa, expressão cu-
pelo país de economia periférica que pretenda superar
o subdesenvolvimento. As de maior relevo são: nhada pelo professor Eugênio Gudin, a personalidade
mais influente na matéria entre nós. Nesse tipo de es-
a) um grau de autonomia de decisões que limite
trutura econômica, os estímulos principais se origina-
o mais possível a drenagem para o exterior do poten-
cial de investimento; vam no exterior: o sistema de divisão internacional do
trabalho, em q,7,; estávamos inseridos, delimitava o es-
b) estruturas de poder que dificultem a absorção
. paço em ue nos movíamos. Os adrões de consumo
desse potencial pelo processo de reprodução dos pa-
·que modelavam o comportamento das elites eram 1-
drões de consumo dos países ricos e assegurem um
- tados do extenor e requeriam um nível de renda que -
nível relativamente alto de investimento no fator hu-
mano, abrindo caminho à homogeneização social; somente era alcançado por reduzida parcela da popu-
e) certo grau de descentralização de decisões empre-
lação. Daí que o mercado interno de produtos indus-
tii;is fosse abastecido quase que exclusrvamente-tle-
sariais requerido para a adoção de um sistema de incenti-
vos capaz de assegurar o uso do potencial produtivo; bens importados. A massa da população permanecia
integrada a uma economia de subsistência de baixo
d) estruturas sociais que abram espaço à criativi-
nível de monetização. Admitia-se como evidente que a
dade num amplo horizonte cultural e gerem forças pre-
ventivas e corretivas nos processos de excessiva concen-
economia reflexa fosse totalmente carente de dinamis-
tração do poder. mo próprio, sendo natural que ela seguisse os movi-
O logro desses objetivos pressupõe, evidentemen- mentos cíclicos do comércio internacional de forma
passiva.
te, o exercício de uma forte vontade política apoiada
em amplo consenso social. Meu trabalho de teorização teve como ponto de
partida um desacordo com essa visão convencional ~e
nossa realidade econômica. Abandonando os estereo-
·-ti os das doutrinas importadas e procedendo a uma
leitura atenta dos dados disponíveis a os quase"

54 55
...§_empre rejeitados por pruridos acadêmicos -, fiz, sem , A explicação desse "milagre" encontra-se na polí-
dificuldades, constatações surpreendentes. tica de apoio ao setor cafeeiro. A contragosto, sob
Com efeito, não obstante ser o Brasil um caso pressão política, o governo federal assumiu o papel de
clássico de economia cuja dinâmica dependia da ex- financiador dos imensos estoques de café que cres-
portação de uns poucos produtos primários, conhece- ciam sob adupla. pressão do aumento é.las safras e da
ra no decênio da grande depressão uma taxa de cres- quedá brutal dos precas rio mercàdo internacional Que
cimento pelo menos igual à sua média histórica. A · essa expansão dos meios de pagamento não haja con-
baixa do coeficiente de comércio exterior (medido pela duzido a uma inflação desordenada e haja operado
participação das exportações no PIB) fora considerável como criadora de demanda efetiva é uma comprova-
no correr do decênio. Mas a economia encontrara meios ção de que a economia operava tradicionalmente com
de crescer "para dentro", ampliando o seu mercado capacidade ociosa sob a influência do sistema finan-
interno. A isso chamei de "deslocamento do centro ceiro internacional que se preocupava em assegurar o
dinâmico". serviço da dívida externa. É verdade que ninguém per-
Foi o estudo desse crescimento "anômalo", ou con- cebeu que, acumulando e queimando montanhas de
tra a corrente, que me fez perceber que a forma histó- café, o país estava construindo as pirâmides que an~
rica de inserção no sistema de divisão internacional do depÓis preconizaria Keynes como remédio de última
trabalho coarctava o horizonte de possibilidades da instância para sair da depressão. O governo brasileiro
economia brasileira. Esta parecia submetida a relações não praticara conscientemente essa política de criação
estruturais externas que cerceavam o seu desenvolvi- de demanda efetiva. Ela era um subproduto de medi-
mento. O enorme potencial de recursos naturais e de- das tomadãs sob a pressão dos poderosos interesses
mográficos do país permanecia subutilizado, como um do café, e visavam a apaziguar grupos dispostos inclu-
sistema que operasse muito abaixo de sua capacidade. sive a apelar para as armas, como o fizeram em 1932.
Ora, a depressão dos mercados internacionais que se Ao refletir nos anos 40 sobre essa experiência
1 1

seguira à grande crise de 1929 desmantelara o sistema histórica, percebi que o desenvolvimento de uma eco-
de articulações externas da economia brasileira, a qual, nomia reflexa, periférica, ou semicolonial, conforme
pela lógica que então prevalecia, devia prostrar-se em os rótulos usados na época, depende de medidas vo-
profundo marasmo. luntaristas tomadas quase sempre em desacordo com
Observando as estatísticas da época, pude dar-me as forças do mercado. Em outras palavras: se tanto
conta de que essa lógica não prevalecera: a economia atraso havia sido acumulado, é que não fôramos capa-
brasileira como que se despregara do sistema interna- zes de conceber, formular e executar eficazes políticas
cional em crise e ganhara autonomia dinâmica, am- de desenvolvimento. As medidas que nos pennitiram
pliando e diversificando o mercado interno. A fim de sair do fundo da grande depressão foram fruto de cir-
contornar as limitações impostas pela capacidade para cunstâncias históricas ligadas à luta pelo poder entre
importar, apelou-se inclusive para o mercado interna- grupos hegemónicos regionais. O comportamento do
cional de equipamentos de segunda mão. Mas a ver- governo brasileiro, queimando 80 milhões de sacas de
dade é que, não obstante o corte pela metade do vo- café, foi visto na época como ato de desespero que
lume das importações, já em 1932 a economia retomava suscitava espanto por sua irracionalidade.
o seu crescimento apoiando-se no embrionário merca- Da mesma forma, o aprofundamento do processo
do interno. de industrialização nos anos 40 liga-se à desarticulação

56 57
do comércio internacional provocada pela guerra. Por- res se condicionaram mutuamente mas se comporta-
tanto, o essencial se passara no plano político, sendo ram seguindo curvas autônomas. A mera acumulação
fácil perceber a importância do planejamento que as- de capital engendrou aumentos na produtividade do
segura a coerência da ação no tempo. Se o simples trabalho , oo-racas
, a economias de escala. Por outro lado,
acaso podia conduzir ao desenvolvimento, como ocor- ali onde houve acesso a novos mercados, a elevação
rera nos anos 30, é que este estava no horizonte das de produtividade também se concretizou, prescindin-
coisas possíveis, ao alcance da mão. Em síntese, se do de avanços nas técnicas produtivas, mediante a sim-
mudanças estruturais são condição necessária à pro- ples realocação dos recursos existentes. Assim, um país
moção do desenvolvimento, este dificilmente brotará que expandia a sua agricultura de exportação utilizan-
espontaneamente da interação das forças do mercado. do solos e mão-de-obra antes ocupados na agricultura de
É o que nos ensinava a experiência dos anos em que subsistência pôde beneficiar-se de incrementos de produ-
foram lançadas as bases de nossa industrialização. tividade e renda, sem alterar suas témicas produtivas.
Ninguém contesta que o comércio internacional
haja sido durante séculos criador de riquezas, inde-
A Teoria do Subdesenvolvimento pendentemente da introdução de novas técnicas. Quan-
do Ricardo formulou a teoria dos custos comparativos,
Em minhas disquisições teóricas, o problema que que explica aumentos de produtividade gerados pelo
mais me apaixonou foi o de encontrar explicação para intercâmbio internacional, não necessitou apelar para
o fato de que a elevação da renda da população brasi- o fator avanços nas técnicas.
leira e o avanço considerável de nossa industrialização Os importantes aumentos de renda gerados pela
não se traduziram em redução da heterogeneidade so- expansão do comércio internacional no século XIX ali-
cial do país, ao contrário do que ocorreu nas econo- mentaram a difusão dos novos padrões de consumo
mias que chamamos de desenvolvidas. Como explicar criados pela Revolução Industrial. Dessa forma, o que
a persistência de nosso subdesenvolvimento se somos se universalizou não foi a nova tecnologia industrial, e
uma das economias que mais cresceram no correr do sim os novos padrões de consumo surgidos nos países
último meio século? Observando a realidade de outro que lideraram o processo de industrialização.
ângulo: por que o assinalado crescimento da riqueza As novas técnicas produtivas também tenderam a
nacional somente beneficia uma parcela reduzida da universalizar-se, particularmente em setores subsidiários
população' do comércio internacional, como os meios de trans-
A reflexão sobre esse problema levou-me a for- porte. Mas, no que concerne às atividades diretamente
mular o que chamei de teoria do subdesenvolvimento. produtivas, foi lenta a difusão das novas técnicas. Isso
A conformação social dos países que qualificamos de deu origem a diferenças qualitativas entre as estruturas
subdesenvolvidos resultaria da forma particular que ne- econômicas e sociais dos países em que a acumulação
les assumiu a difusão do progresso tecnológico que e o progresso nas técnicas produtivas avançavam con-
moldou a civilização contemporânea. juntamente e as daqueles países em que esses avanços
O que caracterizou a era aberta pela Revolução privilegiaram o vetor da acumulação em obras impro-
Industrial foi o aumento persistente da produtivi~de dutivas e bens duráveis de consumo em geral impor-
1

do trabalho humano, fruto do avanço das técnicas e tados. Cabe, portanto, distinguir os dois processos
do esforço de acumulação de capital. Esses dois fato- históricos, cujas diferenças persistiram até o presente,

58 59
independentemente, das taxas de crescimento da ren-
da e do acesso à industrialização. 6
Essas reflexões me levaram à convicção de que a
permanência do subdesenvolvimento se deve à ação
de fatores de natureza cultural. A adoção pelas classes OS NOVOS DESAFIOS
dominantes dos padrões de consumo dos países de
níveis de acumulação muito superiores aos nossos ex-
plica a elevada concentração de renda, a persistência
da heterogeneidade social e a forma de inserção no
comércio internacional.
A variável independente é, em última instância, o
fluxo de inovações nos padrões de consumo que irra-
dia dos países de alto nível de renda. Ora, esse mime-
tismo cultural tem como contra partida o padrão de
O trabalho intelectual que realizei teve como ponto
concentração da renda que conhecemos. Para liberar-
de partida o empenho de descobrir as razões do atra-
se dos efeitos desse imperativo cultural perverso, faz-
so com que participamos do processo de industrializa-
se necessário modificar os padrões de consumo no
quadro de uma ampla política social, e ao mesmo tem- ção que prevaleceu a partir do último quartel do sécu-
po elevar substancialmente a poupança, comprimindo lo XVIIL Desde que percebi o alcance do impacto da
o consumo dos grupos de elevadas rendas. Essas duas Revolução Industrial na divisão internacional do traba-
linhas de ação só têm eficácia se perseguidas conjun- lho, captei a gênese do fenômeno do subdesenvolvi-
tamente, e requerem um planejamento que, por seu mento, o que me permitiu montar o quadro conceitua!
lado, deve apoiar-se em amplo consenso social. que balizou o essencial de meu trabalho teórico. Daí a
O desafio que se coloca é alcançar essas mudan- visão abrangente do desenvolvimento e do subdesen-
ças estruturais sem comprometer o espírito de iniciati- volvimento como dimensões de um mesmo processo
va e inovação que assegura a economia de mercado. histórico, e a idéia de dependência como ingrediente
Sobre a conjugação do planejamento com a iniciativa político desse processo.
privada, muito temos a aprender da experiência dos Pareceu-me que, para captar o sentido do processo
países de industrialização tardia do Sudeste asiático, os histórico de formação do sistema econômico que ten-
quais se anteciparam na difícil tarefa de reconstrução deu a mundializar-se e teve como ponto de partida a
de estruturas sociais anacrônicas. aceleração da acumulação e do progresso técnico, faz-
se necessário observá-lo de dois ângulos. O primeiro
enfoca as transformações do modo de produção, ou
seja, a destruição total ou parcial das formas senhorial,
corporativa e artesanal de organização da produção, e
a progressiva implantação de mercados dos fatores pro-
dutivos: mão-de-obra, instrumentos de trabalho, e re-
cursos naturais apropriados privadamente ou pelo po-
der público.

60 61
O segundo ângulo concerne à ativação das rela- mercado, exigindo um projeto político voltado para a
ções comerciais ligadas à implantação de um sistema mobilização de recursos sociais, que permitisse em-
de divisão do trabalho inter-regional. Nesse sistema, as preende; um trabalho de reconstrução de certas estru-
regiões onde ocorre a intensificação da acumulação turas. Daí que eu me haja empenhado, desde a época
especializam-se nas atividades produtivas em que a em que trabalhei na CEPA~ nos anos 50, em elaborar
revolução no modo de produção abre maiores possi- uma técnica de planejamento econômico que viabili-
bilidades ao avanço das técnicas, transformando-se es- zasse com mínimo custo social a superação do subde-
sas regiões em focos geradores do progresso tecnoló- senvolvimento. Essa técnica objetivava modificar estru-
gico. Por seu lado, a especialização geográfica, graças turas bloqueadoras da dinâmica socioeconômica, tais
aos efeitos das vantagens comparativas em um merca- como o latifundismo, o corporativismo, a canalização
do em expansão, também proporciona aumentos de inadequada da poupança, o desperdício desta em for-
produtividade ali onde se procede a uma utilização mas abusivas de consumo e sua drenagem para o ex-
mais eficaz dos recursos produtivos disponíveis, inde- terior. As modificações estruturais deveriam ser vistas
pendentemente de avanços nas técnicas de produção. como um processo liberador de energias criativas, e
Esses aumentos de produtividade, apoiados essencial- não como um trabalho de engenharia social em que
mente no intercâmbio externo) servem de correia de tudo é previamente concebido. O objetivo estratégico
transmissão às inovações na cultura material que acom- seria remover os entraves à ação criativa do homem) a
panham a intensificação da acumulação nos países que qual, nas condições do subdesenvolvimento, está coarc-
formam a vanguarda da Revolução Industrial. Assim, tada por anacronismos institucionais e por amarras de
em regiões privilegiadas, o progresso técnico penetra dependência externa.
sem tardança nas formas de produção, ao mesmo tem- Eu tinha consciência de que o verdadeiro desen-
po que os padrões de consumo se modernizam. Ao volvimento dá-se nos homens e nas mulheres e tem
passo que em regiões marginalizadas essa penetração importante dimensão política. A visão global também
se circunscreve inicialmente aos padrões de consumo) me fez perceber, desde começos dos anos 70, que a
limitando seus efeitos à modernização do estilo de vida fratura do subdesenvolvimento se faria mais deforma-
de segmentos da população. É verdade que o proces- dora à medida que se a profundasse a crise manifesta
so de industrialização em fase subseqüente tenderia a que aflige a civilização consumista planetarizada. Que
universalizar-se mediante o que se chamou de substi- é inerente a essa civilização um processo depredador,
tuição de importações. Mas a industrialização tardia já o sabíamos há muito tempo: as fontes de energia
regida pelas leis do mercado tendeu a reforçar as es- em que se funda o estilo de vida que ela estimula
truturas sociais existentes em razão de sua fraca absor- caminham para a exaustão, eleva-se a temperatura em
ção de mão-de-obra e da forte propensão a consumir nosso ecúmeno e é progressivo o empobrecimento da
dos segmentos modernizados da sociedade. biosfera.
O subdesenvolvimento, por conseguinte, é uma Não podemos escapar à evidência de que a civili-
conformação estrutural produzida pela forma como se zação iniciada pela Revolução Industrial aponta de for-
propagou o progresso técnico no plano internacional. ma inexorável para grandes calamidades. Ela concen-
Essa visão global do capitalismo industrial levou- tra riqueza em benefício de uma minoria cujo estilo de
me à conclusão de que a superação do subdesenvolvi- vida requer um dispêndio crescente de recursos não-
mento não se daria ao impulso das simples forças do renováveis e que somente se mantém porque a gran-

62 63
de maioria da humanidade se submete a diversas for- como desenvolvimento das potencialidades humanas
mas de penúria, inclusive a fome. Uma minoria dispõe nos planos ético, estético e da ação solidária. A criati-
dos recursos não-renováveis do planeta sem preocu- vidade humana, hoje orientada de forma obsessiva para
par-se com as conseqüências para as gerações futuras a inovação técnica a serviço da acumulação econômi-
do desperdício que ela hoje realiza, ca e do poder militar, seria reorientada para a busca
É certo que a engrenagem do subdesenvolvimen- do bem-estar coletivo, concebido este como a realiza-
to constitui um eficiente mecanismo para minorar a ção das potencialidades dos indivíduos e das comuni-
pressão sobre os recursos, ao reduzir o nível de con- dades vivendo solidariamente.
sumo da grande maioria da humanidade, se bem que A idéia nova que começa a despontar é a de res-
também contribua para elevar o coeficiente de desper- ponsabilidade dos países que constituem a vanguarda
dício, ao difundir padrões de consumo sem corres- da civilização industrial com respeito às destruições,
pondência com os baixos níveis de renda das popula- custosamente reparáveis, causadas ao patrimônio co-
ções. Para assegurar que essa discriminação seja efetiva, mum da humanidade constituído pelos bens naturais e
em face da incitação a novas formas de consumo que se pela herança cultural. A Conferência das Nações Uni-
irradiam dos centros culturalmente dominantes, e da das sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realiza-
pressão demográfica nos países pobres, é de presumir da no Rio de Janeiro em 1992, constituiu a plataforma
que métodos cada vez mais drásticos sejam postos em em que pela primeira vez se defendeu a tese de que
prática. A pressão financeira exercida sobre os países existe uma fatura ecológica a ser paga pelos países
pobres que caíram na armadilha do endividamento ex- que, ocupando posições de poder, se beneficiaram da
terno parece antecipar os sistemas de controle que po- formidável destruição de recursos não-renováveis, ou
derão ser exercidos no futuro com o objetivo de conter
somente renováveis a elevado custo, que está na base
a expansão do consumo no mundo subdesenvolvido.
do estilo de vida de suas populações e do modo de
O desafio que se coloca no umbral do século XXI
desenvolvimento difundido em todo o mundo por suas
é nada menos do que mudar o curso da civilização,
empresas. Em trabalho recente da CEPAI, apresentado à
deslocar o seu eixo da lógica dos meios a serviço da
Conferência de 11atelolco, no México, foram definidas
acumulação num curto horizonte de tempo para urna
as responsabilidades dos países ricos em cinco áreas
lógica dos fins em função do bem-estar social, do exer-
em que é particularmente grave a degradação do meio
cício da liberdade e da cooperação entre os povos.
Devemos nos empenhar para que essa seja a tarefa ambiente: o esgotamento da camada de ozônio, o aque-
maior dentre as que preocuparão os homens no correr cimento do planeta, a destruição da biodiversidade nos
do próximo século: estabelecer novas prioridades para países do Terceiro Mundo, a poluição dos rios, ocea-
a ação política em função de uma nova concepção do nos e solos, e a exportação de resíduos tóxicos.
desenvolvimento, posto ao alcance de todos os povos A partir de duas idéias-força - prioridade para a
e capaz de preservar o equilíbrio ecológico. O espan- satisfação das necessidades fundamentais explicitadas
talho do subdesenvolvimento deve ser neutralizado. O na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no qua-
principal objetivo da ação social deixaria de ser a re- dro de um desenvolvimento orientado para estimular
produção dos padrões de consumo das minorias abas- a iniciativa pessoal e a solidariedade; e responsabilida-
tadas para ser a satisfação das necessidades fundamen- de internacional pelo desgaste do patrimônio natural
tais do conjunto da população e a educação concebida - , a partir dessas idéias é possível desenhar o modelo

64 65
de desenvolvimento a ser progressivamente implanta- Essa mudança de rumo, no que nos concerne,
do no próximo século. exige que abandonemos muitas ilusões, que exorcize-
Os objetivos estratégicos são claros: mos os fantasmas de uma modernidade que nos con-
a) preservar o patrimônio natural, cuja dilapida- dena a um mimetismo cultural esterilizante. Devemos
ção atualmente em curso conduzirá inexoravelmente reconhecer nossa situação histórica e abrir caminho
ao declínio e ao colapso de nossa civilização; e para o futuro a partir do conhecimento de nossa reali-
b) liberar a criatividade da lógica dos meios (acu- dade. A primeira condição para liberar-se do subde-
mulação econômica e poder militar) a fim de que ela senvolvimento é escapar da obsessão de reproduzir o
possa servir ao pleno desenvolvimento de seres huma- perfil daqueles que se auto-intitulam desenvolvidos. É
nos concebidos como um fim, portadores de valores assumir a própria identidade. Na crise de civilização
inalienáveis. que vivemos, somente a confiança em nós mesmos
Esses objetivos devem ser vistos como um projeto poderá nos restituir a esperança de chegar a bom porto.
cuja realização requer, senão a cooperação de todos Nesse novo quadro que se configura, o destino
os povos, pelo menos a conscientização progressiva dos povos dependerá menos das articulações dos cen-
da maioria deles. tros de poder político e mais da dinâmica das socieda-
Diante da ameaça de destruição da espécie hu- des civis. Não que o Estado tenda a deliqüescer, confor-
mana, surgida com a acumulação das armas termonu- me a utopia socialista do século XIX, mas a possibilidade
cleares, emergiu há meio século o embrião de um corpo de que ele seja empolgado por minorias de espírito
político que vem dando origem a vínculos de interde- totalitário desaparecerá, desde que a vigilância da emer-
pendência dos povos, que transcendem as relaçôes tra- gente sociedade civil internacional tenha eficácia. A
dicionais de domínação e dependência. No quadro des- consciência de que está em jogo a sobrevivência da
sas instituiçôes teve início um longo e difícil aprendizado própria espécie humana cimentará um novo sentimen-
de convivência entre povos que continuam a confron- to de solidariedade e favorecerá a emergência da figura
tar-se por motivos econômicos, religiosos, culturais ou do cidadão empenhado na defesa de valores comuns
simplesmente em razão de urna herança histórica. Esse a todos os homens, e que sabe que essa luta não
corpo político ainda embrionário são as Nações Uni- comporta discriminações, exceto em defesa da própria
das, organização a que dediquei dez anos de minha liberdade.
vida e onde aprendi a ver o mundo como uma Babilô- Não podemos fugir à evidência de que a sobrevi-
nia de contradiçôes que é ao mesmo tempo uma al- vência humana depende do rumo que tome nossa ci-
deia em formação, pois forças poderosas alimentam vilização, primeira a dotar-se dos meios de autodes-
um processo de entrosamento entre os povos, fazendo truição. Que possamos encarar esse desafio é indicação
da solidariedade um imperativo. de que ainda temos a possibilidade de sobreviver. Mas
A ameaça de destruição termonuclear, primeiro, e não podemos desconhecer que é imensa a responsabi-
a hecatombe ecológica que agora começa a configu- lidade dos homens chamados a tornar certas decisões
rar-se não deixam aos povos escapatória para sobrevi- políticas no futuro. E somente a cidadania consciente
ver fora da cooperação. E o caminho dessa coopera- da universalidade dos valores que unem os homens
ção passa pela mudança de rumo de uma civilização livres pode garantir a justeza das decisões políticas.
dominada pela lógica dos meios, em que a acumula-
ção a tudo se sobrepõe.

66 67
7

DIMENSÃO CULTURAL DO
DESENVOLVIMENTO

É relativamente recente a idéia de política cultural


com a abrangência que lhe atribuímos hoje. Seu ponto
de partida foi a tomada de consciência de que a quali-
dade de vida nem sempre melhora com o avanço da
riqueza material. Não me refiro ao fato de que, em
países de elevada renda per capita, pode persistir um
importante contingente de população que sequer chega
a satisfazer suas necessidades básicas. Refiro-me aos
segmentos populacionais que, embora conheçam uma
significativa elevação do seu nível de vida material,
continuam prisioneiros de estreitos padrões culturais.
Com efeito, a experiência tem demonstrado amplamente
que a elevação do nível de vida material não se faz
acompanhar necessariamente de melhora nos padrões
de vida cultural, reproduzindo-se via de regra a estrati-
ficação social existente no passado.
A acumulação de bens desemboca, com freqüên-
cia, em aumento do desperdício de certas faixas de
consumo, não conduzindo a uma efetiva diversifica-
ção deste, portanto, sem produzir um real enriqueci-
mento da vida. A reflexão sobre esses temas conduziu
a uma visão crítica dos modelos de desenvolvimento
que vinham sendo preconizados com entusiasmo a par-
tir dos anos 50. Esses modelos se fundam, todos, na
idéia de que a lógica da acumulação, no nível do sis-
tema de forças produtivas, deve prevalecer sobre o

69
cnnjunto de fatores que conformam o processo social. cos, estarão em conflito direto com os das gerações
E o princípio de que, sendo escassos os meios que futuras. O mesmo se pode dizer com respeito a todo o
têm à sua disposição as sociedades, o critério da máxi- sistema produtivo fundado na exploração de recursos
ma eficiência deve presidir sua utilização, o que impli- não-recuperáveis, sendo notório o caso das nações que
ca a prevalência do quantitativo. vivem de uma renda extraída da exploração do petróleo.
Está implícito nesse raciocínio que os fins que O ponto de vista ecológico permitiu aprofundar
presidem a ordenação social possuem um comporta- essa visão crítica, explicitando os custos não contabili-
mento autônomo, com respeito aos meios, comportamen- zados dos processos produtivos.
to que reflete opções realizadas pelos homens em fun- Mas o que nos preocupa diretamente é o ponto
ção de suas necessidades naturais, de suas aspirações de vista cultural. A cultura deve ser observada, simul-
e ideais. Pouca atenção se dá às inter-relaçõles de fins taneamente, como um processo acumulativo e como
e meios, ao fato de que o controle dos meios por um sistema, vale dizer algo que tem uma coerência e
1

indivíduos, grupos ou países pode conduzir à manipu- cuja totalidade não se explica cabalmente pelo signifi-
lação dos fins de outros indivíduos, grupos e países. cado das partes, graças a efeitos de sinergia.
Ora, os fins a que estou me referindo são os valores Ora, o que caracteriza as sociedades que se inse-
das coletividades, os sistemas simbólicos que constituem riram no comércio internacional como exportadoras
as culturas. Por que não preocupar-se prioritariamente de uns poucos produtos primários, e que em fase sub-
com o significado das coisas, com os constrangimentos seqüente conheceram um processo de industrialização
que modulam as opções essenciais dos inclivíduos com com base na substituição das importações, é que nelas
a lógica dos fins' Se a política de desenvolvir:iento a acumulação de bens culturais é em grande parte
objetiva enriquecer a vida dos homens, seu ponto de comandada do exterior, em função dos interesses dos
partida terá que ser a percepção dos fins, dos objeti- grupos que clirigem as transações internacionais: a coe-
vos que se propõem alcançar os indivíduos e a comu- rência interna do sistema de cultura está em conse-
1

nidade. Portanto, a dimensão cultural dessa política qüência, submetida a pressões destruidoras. Pensar, e
deverá prevalecer sobre todas as demais. mesmo vestir-se, de forma disfuncional podem ser es-
Já anteriormente, partindo de outros ângulos de tilos de vida levados a extremos; certas formas de ur-
observação, se havia chegado a uma visão crítica dos banização podem conduzir à destruição de um impor-
modelos de desenvolvimento adotados na civilizacão tante patrimônio cultural.
industrial. É antigo o entendimento de que os proce;,os Explica-se assim que o desenvolvimento material
produtivos dissipam energia, destroem recursos natu- dos países de economia dependente apresente um custo
rais não-renováveis, aumentam a entropia do univer- cultural particularmente grande. As descontinuidades
so. A percepção desses fatos explicitou a conveniência entre o presente e o passado não são apenas frutos de
de que se observem globalmente os sistemas econô- rupturas criativas; mais comumente, refletem a preva-
micos e, em particular, os efeitos de sua integração em lência da lógica da acumulação sobre a coerência do
escala planetária, o que torna claras as relacões entre sistema de cultura.
fins e meios. Mais modestamente: se a agridiltura que Essa a razão pela qual a política cultural é parti-
pratica um país destrói os solos deste, e a recuperação cularmente necessária nas sociedades em que o fluxo
dos mesmos apresenta custos crescentes, os interesses de novos bens culturais possui grande autonomia com
da geração presente, apoiados em critérios econômi- respeito ao próprio sistema de cultura, cuja coerência

70 71
é, permanentemente submetida a prova. Daí a impor-
tanc1a do conceito de identidade cultural, que enfeixa 8
a idéia de manter com nosso passado uma relação
enriquecedora do presente. ,
Quando nos referimos à nossa identidade cultu- RISCO DE INGOVERNABILIDADE'
ral, o que temos em conta é a coerência de nosso
sistema de valores, do duplo ponto de vista sincrônico
e diacrônico. Esse é o círculo maior que deve abarcar a
política de desenvolvimento, tanto econômica como so-
cial. Somente uma clara percepção da identidade pode
instilar sentido e direção a nosso esforço permanente
de renovação do presente e construção do futuro. Sem
isso, estaremos submetidos à lógica dos instrumentos, Aumento da dependência
que se torna tanto mais peremptória quanto tende a
nela prevalecer a dimensão tecnológica. Durante muito tempo a economia brasileira alcan-
çara uma taxa de crescimento relativamente alta fman-
ciando-se basicamente com poupança interna. Hoje, as
taxas de crescimento são baixas, o investimento man-
tém-se deprimido e estamos imersos num processo de
endividamento externo considerável. O desajustamen-
to macroeconômico é evidente. Pelos dados do IBGE, o
déficit anual da conta corrente do balanço de paga-
mentos em 1997 superou os 30 bilhões de dólares,
enquanto o valor das exportações foi de cerca de 50
bilhões, e o das importações, de 62 bilhôes. Metade
das importaçôes são pagas com endividamento externo,
e o país se conforma com uma taxa de crescimento
que praticamente iguala a do aumento da população.
Grande parte desse endividamento está financiando o
consumo, e para acalmar os especuladores são manti-
das vultosas reservas de câmbio e pagas elevadas ta-
xas de juros. Tudo isso se traduz em esterilização de
poupança e em risco crescente de ingovernabilidade
do país. Se somos cada vez mais dependentes de re-
cursos externos, qualquer choque na conjuntura inter-
nacional poderá ter conseqüências desestabilizadoras,

Uma versão preliminar deste texto foi publicada no Jornal dos


Economistas, nº 97, maio de 1997, Rio de Janeiro. (N. A.)

72
73
A discussão que domina atualmente a cena euro-
com projeções políticas. A instabilidade macroeconô- péia centra-se na questão de como evitar que a globa-
mica potencial aponta, portanto, para a ingovernabilidade. lização agrave a exclusão social. Os resultados das elei-
ções de 1997 na Inglaterra e na França mostram que
as populações estão atentas para esse problema. Entre
Que tipo de globalização? nós é óbvio que a questão social exige uma política
abrangente, pois o desemprego é gerado tanto pela
Todo governo democrático comporta diversidade estagnação da economia como pelo seu crescimento.
de opiniões. Quanto maior essa diversidade, mais fir- Projetos subsidiados por agências governamentais, como
me tem que ser a liderança. Há indicações de que há a reestruturação da indústria síderúrgica 1 são grandes
pessoas no governo atual seriamente preocupadas com criadores de desemprego. Parte-se do princípio de que
as conseqüências da globalização indiscriminada que aumentar a capacidade competitiva internacional deve
preconizam certos círculos de negócios. Isso ficou cla- prevalecer sobre tudo o mais. Como desconhecer que
ro na discussão recente com os norte-americanos a o combate à fome e à exclusão social também é fun-
respeito do projeto de criação da Área de Livre Co- damental? O grave é que os grupos que mais se bene-
mércio das Américas (ALCA). ficiam com a globalização são os de maior peso políti-
Não podemos ignorar que vivemos uma fase de co1 e sua lógica econômica tende a prevalecer.
concentração de poder, que favorece as grandes em- Essa estratégia de desenvolvimento que privilegia
presas. A tecnologia moderna estimula esse processo, a inserção internacional reduz o peso político da mas-
mas não é de desconhecer que foram forças políticas sa trabalhadora, em particular do setor sindicalizado.
que moldaram a fisionomia do mundo atual. A globali- Essa é uma maneira de flexibilizar o sistema econômico
zação tem conseqüências negativas marcantes, das quais e reduzir os salários. Há um movimento indiscrimina-
destaco a crescente vulnerabilidade externa e a agra- do no sentido de aumentar a produtividade microeco-
vação da exclusão social. Nos Estados Unidos, a exclu- nômica, ignorando os efeitos sociais. Ora, o importante
são social se manifesta como concentração da renda e não é ser competitivo em si mesmo. O Brasil sempre
da riqueza, e, na Europa ocidental, como desemprego foi competitivo em certas áreas. A prova disso é que o
aberto. O grande desafio consiste em minimizar os ma- país, num período relativamente curto, conseguiu trans-
formar profundamente a pauta das exportações, ao mes-
les resultantes da perda de comando provocada pela
mo tempo que instalava um dos maiores parques in-
globalização, o que requer políticas que tenham em
dustriais. Conheci um Brasil com exportações limitadas
conta a especificidade do país.
a uns poucos produtos primários e acompanhei a tra-
Portanto, a globalização está longe de conduzir à
jetória que nos conduziu à situação atual de importan-
adoção de políticas uniformes. A miragem de um mun-
te exportador de manufaturas. Mas, colocar a competi-
do comportando-se dentro das mesmas regras ditadas
tividade internacional como objetivo estratégico ao qual
por um super-FMI existe apenas na imaginação de certas tudo se subordina é instalar-se numa situação de de-
pessoas. As disparidades entre economias nil.o decorrem pendência similar à da época pré-industrial.
só de fatores econômicos, mas também de diversidades A globalização é acima de tudo um fenômeno
nas matrizes culturais e das particularidades históricas. A financeiro mas com projeções significativas nos siste-
1
idéia de que o mundo tende a se homogeneizar decorre mas de produção. Hoje, as grandes empresas projetam
da aceitação acrítica de teses economicistas.
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74
sua localização em escala planetária. Isto é visível no mudaram a fisionomia da sociedade e, paradoxalmen-
setor automobilístico. O efeito final sobre o comércio te enaendraram nela novas fontes de dinamismo.
internacional é positivo, mas exige importantes ajusta- ' s~ a renda tivesse prosseguido em sua tendência
mentos. O resultado foi que o crescimento do comér- à COD.centração, a estreiteza dos mercados ter se-ia mani-
cio internacional mais do que duplicou o crescimento festado. As crises cíclicas teriam sido ainda mais agu:
da produção mundial em todo o meio século que se das. Se elas abrandaram, foi porque o capitalismo mu-
seguiu à Segunda Guerra Mundial. Portanto, foi este - dou sob pressão das massas. A expressão _disso em
um período de forte abertura das economias, não obs- termos de política econômica foi o keynesiarusmo, q~e
tante em boa parte dele predominasse a visão saída de legitimou a uuhzaçao crescente de instrumentos _poht_!:
Brerton Woods, a qual considerava o balanço de paga- cos na esfera econômica, abrindo a era da social-de-
mentos uma coisa séria demais para ficar ao sabor do . mocracia. Mesmo nos Estados Unidos, onde o capita-
mercado. lismo teve seu desenvolvimento menos cerceado por
fatores institucionais, a ação do Estado se intensificou
para defender setores de atividades econômicas ou in-
Pressão das forças sociais teresses regionais.
Pode-se camprmrar que dnraote todo um século,
Muitas pessoas se perguntam por que a internacio- O desenvolvimento do capitalismo beneficiou camadãs
nalização das esrtuturas produtivas não está provocando -sociais crescentes Não tanto pela redução das desi-
redução das desigualdades de rendas como previam os gualdades de rendas, mas porque as necessidades_bá-
arautos do pensamento liberal. É que a distribuição da sicas das massas de população puderam ser satisfeitas.
renda nos planos nacional e internacional é assunto Fatores históricos moldaram essa evolução, contribuin-
regido predominantemente por fatores políticos. Se o do para a diversidade dos resultados. Quando compa-
mundo se houvesse desenvolvido dentro das normas ramos a formação histórica dos Estados Unidos com a
de um capitalismo puro, a renda seria ainda mais con- do Brasil, vemos que no país do Norte o modelo de
centrada do que é hoje. Mas a verdade foi que, desde colonização, de ocupação do território, preparou a so-
o século passado, as forças sociais contestadoras fo- ciedade para a modernização. Definiu-se ali uma ma-
ram extremamente aguerridas na Europa e interferiram triz social baseada na divisão patrimonial da terra, ao
nas estruturas de poder político, abrindo espaço para passo que nós partimos de uma apropria~ão extr,ema-
reformas estruturais importantes como a redução da -mente concentra& dã terra que pers1st1ra atravéscfã
jornada de trabalho. expansão territorial. Em síntese, os n~rte-america~os
Isso demonstra que a formação das sociedades partiram de uma matriz social que estunulava a _difu-
modernas não se deve apenas à emergência de novas são dos frutos do progresso técnico, o que permitia e
técnicas, sendo um processo de amplas projeções so- -estimulava o investimento direto no fator humano e
ciais. Foi graças à pressão de forças sociais que os --;:bria espaço para a iniciativa individual. Não _se requer
salários subiram acompanhando os incrementos de pro- muita imaginação para perceber que esse foi um qua-
dutividade, que foram criados os sistemas de previ- dro privilegiado para o florescimento do espmtC?_."":P.!c:
dência social e se definiram políticas de ajuda a regiões talista no sentido que lhe emprestou Max Weber.
menos desenvolvidas. Ao modificarem o perfil de dis- Demorou-se muito a perceber a importância do
tribuição da renda, essas forças políticas emergentes investimento na população. Tomei consciência desse

76 77
fato quando preparamos o Plano Trienal, no início dos que atrasou o Brasil secularmente; investimento em
anos 60. Darcy Ribeiro, que se encarregou de detalhar pequenas propriedades, no sentido de promover a for-
essa parte, fez um projeto corajoso e lúcido que eu mação nas áreas rurais de uma sociedade civil mais
prestigiei e fiz aprovar pelo Conselho de Ministros. estruturada. Mediante planejamento adequado é per-
Pelo plano de Darcy, o problema da educ~ção básica, feitamente viável colocar grande parte dos quatro mi-
que é o mais difícil, teria sido resolvido naquela gera- lhões dos atuais sem-terra em pequenas unidades de
ção. Infelizmente, a história do país tomou o rumo produção. Cooperativas de várias ordens poderão dar
que conhecemos, dando prioridade a outros objetivos. maior consistência e poder negociador para que pos-
sam enfrentar as poderosas organizações comerciais.
O Movimento dos Sem-Terra
O papel integrador do Estado
Isto não significa que a história não nos reserve
surpresas.
O Estado brasileiro desempenhou um papel estra-
Consideremos essa coisa surpreendente que é o tégico nessa construção singular que é este país conti-
movimento de população da cidade para o campo em
nental, cuja heterogeneidade étnica e homogeneidade
busca de ocupação produtiva. Na história moderna, os
lingüística, e mesmo cultural, surpreendem. O Brasil
movimentos de população - fora de migrações inter-
nasceu e formou-se como uma criação do Estado por-
nacionais - deu-se sempre em sentido inverso, do
tuguês, à semelhança das companhias de exploração
campo para a cidade. A população que deixa o cam-
comercial surgidas no século das expedições transo-
po, privada de emprego pelo avanço das técnicas, luta
decididamente por um emprego urbano. Se os merca- ceânicas. Essa outra coisa surpreendente que é a pre-
dos urbanos já não absorvem mão-de-obra, temos o servação da unidade territorial em uma fase histórica
fenômeno do desemprego estrutural e a exclusão so- que estimulou a multiplicação dos Estados nacionais
cial que se observa em grande numero de países de também resultou de ação política deliberada. Diante
níveis de desenvolvimento diversos. Na Europa, está do desafio da industrialização, também foi o Estado
se tentando enfrentar esse problema alterando a ma- que coordenou os esforços para viabilizá-la. Quando
triz de ocupação. Em certos países da Ásia, volta-se havíamos instalado os elementos básicos de um siste-
aos i_nétodos antigos de expulsar a população alieníge- ma produtivo moderno, criando as condições necessá-
na. E um problema novo do qual poucos países pode- rias para completar a construção nacional no plano
rão escapar. No Brasil, deparamo-nos com uma situação social, deu-se a reversão no processo histórico. O fe-
inusitada: grande disponibilidade de terras cultiváveis, chamento do processo político, ao destruir as bases da
massa trabalhadora desejando voltar ao campo, de onde conv1venc1a democrática, deu à dilapidação do Estado.
foi expelida há pouco, e demanda potencial de produ- Este sofreu uma metamorfose, crescendo desordena-
tos agrícolas dentro e fora do país. damente, escapando ao controle da sociedade civil.
A única força social nova com grande capacidade A disfunção do aparelho estatal é facilmente per-
de mobilização, entre nós, é o Movimento dos Traba- ceptível no setor financeiro. Em épocas passadas, o
lhadores Sem-Terra, cujos objetivos são elementares: setor público contribuía para a formação de capital
questionamento da velha divisão patrimonial das terras com pelo menos 5% do PIB, parte desses recursos sen-

78 79
do de origem inflacionária. Hoje há consenso de que as duas coisas são qualitativamente distintas, um índi-
não devemos depender da inflação para financiar in- ce que pretenda medir o bem-estar médio da popula-
versões. Ora, só a mudança na base tributária poderá ção terá que ser "utilizado com muita precauçao. Como
substituir o papel da inflação, ou seja, só o Estado somar e subtrair valores de natureza distinta como são
poderá corrigir a tendência ao consumismo das classes o prazer e a dor? E com paradoxos dessa ordem que
médias. se deparam os estudiosos do desenvolvimento. Talvez
A opção é modificar a fundo o perfil de distribui- o mais apropriado seja apresentar 11m mapa do bem-
ção da renda, o que se torna tanto mais difícil quanto estar social e outro da penúria social. Nesse segundo
mais avança a globalização, ou praticar-se uma refor- mapa, a fome e a exclusão social seriam adequada-
ma fiscal que assegure elevação substancial da taxa de - mente tratadas e os efeitos negativos do processo ae'
poupança. -globahzaçao, explicitamente ãferidos. A com etitivida-
Nossa política econômica deveria adotar como ob- e 1n 1ona seria me 1 em termos de extinção
jetivo estratégico o crescimento do mercado interno o de empregos e esta, em termos de fome impos@..__,;t:
1

que significa privilegiar os interesses da população.' O setores da população. Se aos custos sociais acrescenta-
componente principal do mercado interno é a massa 'rn.os os ecolog1cos, somos levados a concluir que são
salarial. A inserção internacional é importante por mui- totalmente inadequados os dados atualmente utilizados
tos motivos: pode completar nosso potencial de recur- para expor o comportamento da economia brasileira. E
sos naturais, dar maior flexibilidade ao sistema produ- que esses dados, por ocultarem a realidade, são instru-
tivo, facilitar o acesso a tecnologias de ponta, ampliar mento dos grupos que compõem as estruturas de domi-
a oferta de poupança dentro de certos limites etc. Mas, nação que sustentam a estratégia globalizadora.
numa economia com as características da nossa tudo
1

isso terá sempre um papel complementar. O essencial


é o crescimento do mercado interno, o qual movimen-
ta 90% da economia.
Só por ignorância ou má-fé pode se confundir
essa opinião com a prédica tradicional do fechamento
da economia. Durante o longo periodo em que o Brasil
seguiu uma política de proteção de seu mercado inter-
no as empresas transnacionais investiram fortemente no
país, como exemplifica a instalação de uma grande
indústria automobilística a partir dos anos 60. O objeti-
vo imediato não era a competitividade internacional, o
que explica o uso, em muitos casos, de equipamentos
que não eram os mais modernos. Por essa forma privi-
legiou-se o crescimento do mercado interno, objetivo
de muito maior alcance social.
O crescimento econômico deve ser visto como
um meio de aumentar o bem-estar da população e de
reduzir o grau de miséria que pune parte dela. Como

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OBRAS DE CELSO FURTADO

• Contos da vida expedicionária - de Nápoles a Paris, 1946


• A economia brasileira, 1954
• Uma economia dependente, 1956
• Perspectivas da economia brasileira, 1958
• Uma política de desenvolvimento econômico para o
Nordeste, 1959
• Formação econômica do Brasil, 1959
• A Operação Nordeste, 1959
e Desenvolvimento e subdesenvolvimento, 1961
• Subdesenvolvimento e Estado democrático, 1962
• A pré-revolução brasileira, 1962
• Dialética do desenvolvimento, 1964
• Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina,
1966
e Teoria e política do desenvolvimento econômico, 1967
• Um projeto para o Brasil, 1968
e Análise do "modelo" brasileiro, 1972
• A hegen1onia dos Estados Unidos e o
subdesenvolvimento da América Latina, 1973
• O mito do desenvolvimento econômico, 1974
• A economia latino-americana, 1976
e Prefácio a nova economia política, 1976
e Criatividade e dependência na civilização industrial, 1978
e Pequena introdução ao desenvolvimento - um
enfoque interdisciplinar, 1980
e O Brasil pós-"milagre", 1981
e A nova dependência, dívida externa e monetarismo, 1982
e Não à recessão e ao desemprego, 1983
e Cultura e desenvolvimento em época de crise, 1984
e A fantasia organizada, 1985
e Transformação e crise na economia mundial, 1987
• A fantasia desfeita, 1989
• ABC da dívida externa, 1989
• Os ares do mundo, 1991
• Brasil, a construção interrompida, 1992
• Obra autobiográfica de Celso Furtado, 3 vo]s,, 1997

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