Anda di halaman 1dari 11

A sociedade pela ótica da arte

Introdução
As expressões artísticas de um povo sempre revelaram aspectos importantes
sobre sua visão do mundo, suas práticas e seus significados.

Essa disposição dos pesquisadores em estudar as diversas manifestações


artísticas de seu tempo, se deve à própria afirmação da arte como área
estratégica de pesquisa da vida social, e por isso as investigações se
multiplicam.

Mais do que a discussão sobre a originalidade ou a representatividade da


arte ou do objeto artístico, o objetivo das Ciências Sociais é promover o
estudo da arte como acontecimento da vida social, inserida no contexto do
corpo social e como expressão de uma realidade social, utilizando, para
isso, as ferramentas de estudo e interpretação das Ciências Sociais.

Nessa perspectiva, podemos perceber como a arte revela um olhar sobre a


realidade e promove certa interpretação da sociedade e das relações humanas;
um olhar que não se restringe ao científico e racional, mas que se permite
transitar em outras esferas da vida e trazer à tona elementos ocultos à
análise mais imediata.

Literatura e ideologia: Dostoievski


No século XIX, a melhor maneira de comunicar publicamente uma ideia era
através da Literatura. Não havia cinema, televisão, rádio; apenas livros e
jornais impressos, e alguns escritores começaram a usar essas ferramentas
para dialogar com o mundo, propondo ideias e gerando discussões públicas.

Fiódor Dostoiévski foi um desses escritores, que provocou muitas discussões


por causa das ideias expressas em seus livros e pela força humana em seus
personagens. Sua obra mais conhecida é Crime e Castigo, obra em que toda a
intensidade e a complexidade de Dostoiévski está desenvolvida em seus
personagens, gira em torno do crime cometido por Raskolnikov, motivado pelas
ideias radicais de seu tempo. Assim, Dostoiesvki faz uso das ideias e das
personalidades de sua época e de sua sociedade para construir sua obra de
ficção; seu objetivo era promover uma discussão com seus leitores sobre as
ideias correntes naquele período histórico e sobre as consequências de
colocá-las em prática.

Na década de 1860, havia uma ideia bastante difundida entre os intelectuais


europeus, a de que existiam dois tipos de humanos: os ordinários e os
extraordinários. Os homens extraordinários seriam um grupo de pessoas, com
características especiais dadas pela natureza, que poderiam dispor da vida
de terceiros (os homens ordinários) para realizar seus objetivos de
conquista.
Os “homens extraordinários” são os que fazem a história; são os grandes
imperadores, os grandes ditadores, aqueles que matam milhões em nome de seus
sonhos megalomaníacos de conquistas imperiais, tanto que o grande exemplo de
homem extraordinário citado pelo personagem é Napoleão Bonaparte, um exemplo
historicamente muito próximo dos russos e que tentou dominar a Rússia.

No entanto, a maioria dos homens são “ordinários”, ou seja, homens comuns,


obedientes à lei e sem planos grandiosos de conquista material. Sofrimento e
dor seriam características inatas de suas consciências fracas e seu espírito
pobre, e por isso deveriam estar à disposição dos intentos dos homens
“extraordinários”.

Para Dostoiévski, essa ideia era absurda e socialmente tóxica, pois


desvalorizava a vida de uns e supervalorizava a vida de outros, que se
impunham e se justificavam por suas ideologias. Para criticar essa ideologia
desumanizante, Dostoiévski cria o personagem Raskolnikov, que encarna essas
ideias e as coloca em prática, sofrendo as consequências dessa escolha.

Segundo Luiz Felipe Pondé (2004), a raiz ideológica dessa atitude de


desvalorização da vida está nos escritos de Maquiavel e nos feitos de
Napoleão, que acreditavam que se pode matar algumas centenas de pessoas para
se obter alguns benefícios para outras centenas, ou para se estabilizar uma
comunidade. A vida humana é posta em segundo plano, em favor de um suposto
‘bom resultado’ social.

A proposta de Raskolnikov leva a uma consequência terrível, onde existiriam


uns poucos homens excelentes e uma grande parcela de homens banais e
descartáveis, e foi justamente isso que levou a humanidade a aceitar a
liderança de homens como Hitler, Stálin, Pol Pot e outros líderes insanos
que, na luta pelo poder, eliminam qualquer um que se oponha aos seus
objetivos.

Na década de 1860, na Rússia, essas ideias ficaram conhecidas como niilismo


(uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que
aniquila valores e convicções) e fizeram parte do contexto histórico e
social em que Crime e Castigo foi escrito.

Mais do que uma preocupação estética ou artística com sua obra, Dostoievski
se preocupava com seu impacto social, pois temia que as ideias radicais de
sua época ganhassem força e levassem as pessoas a uma revolução social, com
muita violência e derramamento de sangue, em nome de ideologias políticas.

E isso de fato aconteceu, na Revolução Russa de 1917, quando as ideias


revolucionárias socialistas ganharam força e milhões de pessoas foram
mortas, em nome do triunfo de uma ideologia política e econômica radical.

Joseph Frank (2003), estudioso e biógrafo de Dostoievski, especula que um


dos objetivos dessa obra foi atentar para o fato de que as perigosas ilusões
dos radicais podem afetar a personalidade humana em geral, levando pessoas
comuns a cometerem atos violentos em nome de ideologias. Foi assim que
Dostoievski enxergou a sociedade e a expressou pela ótica da arte.
Marcel Duchamp e o que é arte
Marcel Duchamp (1887-1968) foi um famoso pintor e escultor francês, que
ficou mais conhecido por seus questionamentos quanto ao conceito de arte.
Alguns críticos de arte argumentam que Duchamp fazia parte do dadaísmo,
movimento artístico que promoveu uma ruptura com os modelos tradicionais de
arte, usou diferentes formas de expressão, diferentes conceitos e diferentes
materiais na composição das obras de arte, o que para muitos leigos pareciam
conteúdos e temas sem lógica.

Utilizando objetos industriais prontos e elementos do cotidiano, produzidos


apenas com a finalidade utilitária e comercial, ou seja, sem uma finalidade
artística, Duchamp os transformou em obras de arte, e com isso questionou
sobre o verdadeiro conceito de arte.

Sua obra de arte intitulada “A fonte” (1917), era constituída de um mictório


de louça, datado e assinado como qualquer outra obra de arte, e foi
submetido à avaliação de uma banca de críticos de arte com o objetivo de ser
aceita numa exposição.

“A fonte” não foi aceita pelos críticos para participar da exposição, mas
essa atitude de Marcel Duchamp deu origem ao questionamento sobre o que é
arte; também gerou o questionamento do porquê a obra de arte precisa ser
reconhecida por críticos de arte para ser considerada arte.

Duchamp foi o criador do conceito de ready made, que é o transporte de um


elemento da vida cotidiana, a princípio não reconhecido como elemento
artístico, para o campo das artes. A partir disso, o conceito de arte sofreu
diversas reconfigurações; alguns passaram a defender que a ideia que cerca
um objeto artístico valeria mais do que o próprio objeto, pois o objetivo do
objeto artístico (um quadro, uma escultura, um filme, etc.) seria comunicar
uma ideia, gerar uma reflexão.

Nesse caso, não importa se o objeto é produzido pelo artista (uma escultura,
por exemplo) ou comprado de uma indústria (o mictório, por exemplo); o que
importa é a mensagem que o artista quer transmitir. Assim, o artista se
torna dono da ideia que cerca a obra e do conceito de arte nela impregnado,
mesmo não sendo o criador do objeto.

Para Marcel Duchamp o importante não era apenas pintar ou esculpir, mas
inovar, com o intuito de estimular o pensamento crítico das pessoas e fazê-
las refletir sobre o significado da existência ao seu redor.

Picasso e a insanidade da guerra


“O que é que você acredita que seja um artista? Um imbecil que só tem olhos,
se for pintor; ouvidos, se for músico; ou uma lira em todos os andares do
coração, se for poeta; ou, mesmo, se for boxeur, somente músculos? Muito
pelo contrário. O artista é, basicamente, um ser político, constantemente
alerta perante os dilacerantes, ardentes ou doces acontecimentos do mundo,
moldando-se inteiramente à sua imagem. Como seria possível desinteressar-se
dos outros homens, e em virtude de que uma vida que eles nos trazem tão
abundantemente? Não, a pintura não foi feita para decorar as habitações. É
um instrumento de guerra, ofensivo e defensivo, contra o inimigo”.

O século XIX e o começo do século XX foram marcados por profundas mudanças


históricas, que afetaram drasticamente a vida nas sociedades e os padrões
sociais. Mudanças como a industrialização, a urbanização crescente e o
aprofundamento das diferenças entre alta burguesia e proletariado,
reforçaram as bases do capitalismo e as inovações tecnológicas se tornaram
constantes.

A invenção da fotografia, na década de 1830, liberou as artes plásticas para


produzirem arte que não fosse figurativa, ou seja, que não reproduzisse a
realidade com perfeição, como numa fotografia.

Refletindo essas mudanças complexas e suas contradições, as ansiedades e


aspirações das pessoas dessa época, muitos movimentos artísticos surgiram,
principalmente na Europa, dando espaço de expressão para as angústias e
questões desse novo momento histórico.

Assim, os movimentos e as tendências artísticas, tais como o Expressionismo,


o Cubismo, o Futurismo, o Abstracionismo, o Surrealismo, entre outros,
expressaram as perturbações sociais e psicológicas do homem contemporâneo.

O Expressionismo, por exemplo, surge como expressão das emoções humanas,


traduzindo em traços e cores vibrantes os sentimentos e os anseios do homem
moderno, como as mudanças nos hábitos cotidianos, a miséria nas grandes
cidades, a solidão e as angústias da vida urbana.

Já no Cubismo, há uma despreocupação em representar realisticamente as


formas de um objeto, tendo como objetivo representar, em um único plano, um
mesmo objeto visto de vários ângulos. Com o tempo, o Cubismo mudou para
sempre a forma de ver a realidade e interpretar as formas.

Por conta da revolução técnico-científica da industrialização, muitos


pintores, entre eles o famoso Pablo Picasso, começaram a criar novas
maneiras de fazer sua arte. Começavam a surgir as ideias cubistas e as
pessoas começavam a enxergar as coisas com olhares diferenciados.

O quadro Guernica, de Pablo Picasso, foi produzido em 1937 e figurou numa


exposição em Paris dominada pela apresentação de obras de arte dos países
totalitários, como Alemanha, Itália e União Soviética que, diferentemente
dos movimentos artísticos modernos, essas ditaduras traziam obras marcadas
pela utilização de elementos clássicos e neoclássicos em suas composições.

O estilo de Picasso seria uma contraposição estética aos modelos artísticos


dos regimes ditatoriais, o que fez da exposição uma arena ideológica de
questionamento político.

Inicialmente, Picasso escolhera como tema de sua obra “o pintor e seu


modelo”, mas após a notícia sobre o bombardeio da cidade de Guernica, o
artista alterou seu projeto; baseado no massacre ocorrido, Picasso pintou um
grande painel, que seria símbolo não só da destruição e da dor, mas o marco
da sua obra e do seu estilo.

Guernica se tornou um manifesto contra o ditador espanhol Francisco Franco,


que em julho de 1936 deu o golpe de Estado contra o governo espanhol e, no
ano seguinte, bombardeou a cidade espanhola de Guernica, com ajuda da
Alemanha nazista.

Segundo contam alguns historiadores de arte, apesar de não se saber se o


fato realmente ocorreu, ao ser perguntado por um general nazista se fora
ele, Picasso, que tinha feito aquilo, referindo-se ao painel Guernica,
Picasso prontamente respondeu: “não fui eu que fiz, foram vocês”.

Guernica, uma tela em óleo de Pablo Picasso, grandiosa em todos os aspectos,


a obra registra o horror sentido pelo artista diante das fotos que
retratavam o bombardeio sofrido pela cidade de Guernica, antiga capital
basca, durante a Guerra Civil Espanhola, em 26 de abril de 1937. Em
Guernica, lê-se os destroços de uma contemporaneidade sem datas, marcada
pela descontinuidade e incerteza. Produzida em tons de preto, branco e
cinza, com alguns traços amarelos, a obra traduz os sentimentos intensos do
pintor ante a destruição da cidade e da morte dos homens e animais. Mesmo
afixada na parede, a tela não parece imóvel, mas dá movimento aos seres e
coisas, sobrepostos uns aos outros, expressando dor e desordem.

Nessa perspectiva, a obra de arte se torna uma arma de conscientização


humana sobre os horrores da guerra e sobre a má intenção de ditadores, que
tomam o poder em nome da ordem e derramam muito sangue para cumprirem seus
objetivos.

Protesto e cultura da periferia


As periferias das grandes cidades, chamadas no Brasil de favelas, sempre
tiveram uma grande potência de expressão artística. Mergulhados nos
problemas e contradições dos ambientes urbanos, os artistas das periferias
sempre expressaram sua relação com a sociedade, expondo também suas
experiências, suas maneiras de ver o mundo e de interpretar a realidade.

Uma das expressões artísticas mais relevantes desse cenário é o rap, (sigla
para Rhythm And Poetry – ritmo e poesia) estilo musical surgido no distrito
nova-iorquino do Bronx. No entanto, apesar do rap ter surgido nos Estados
Unidos, num contexto de periferia de Nova Iorque, o estilo musical ganhou
adeptos no mundo todo.

Segundo Loureiro (2016)

De fato, se por aqui (Brasil) o rap sofreu influência do rap estadunidense,


este não deixou de ser experimentado em conexão com a particularidade do
contexto social, cultural e artístico em que respiravam os jovens das
periferias brasileiras. É importante notar que a difusão do rap para além
das fronteiras dos Estados Unidos também se refere à propagação entre
subalternos de algo que cativa, diz respeito e faz sentido. Uma rede
comunicacional de periferia para periferia forjada sobre a experiência comum
que normalmente conjuga exploração de classe e opressão étnico-racial. A
esse respeito, lembro aqui de Tony Mitchell, organizador de um trabalho que
traz informações de outros doze estudiosos do rap e do hip-hop em 25 países
de cinco continentes. Mitchell acentua que a análise da ocorrência do rap no
mundo não deve ignorar sua manifestação – muitas vezes numa dimensão
comunitária e fora do campo de cobertura dos grandes veículos de comunicação
– como expressão da realidade social de oprimidos de contextos variados, ou
seja, como canal capaz de associar apropriações e sincretismos que
transcendem a simples assimilação musical, linguística e cultural do rap
estadunidense.

Nessa perspectiva, o rap se tornou um modo de comunicar uma experiência


social urbana, que se repete em praticamente todas as grandes cidades do
mundo. Assim, moradores de periferias ao redor do mundo identificam no rap
uma linguagem comum de luta contra a opressão, ou apenas uma forma de
expressão cultural surgida nos guetos e que expressa a ótica de seus
moradores.

Das periferias de São Paulo, por exemplo, surgiu a mais famosa banda de rap
nacional, os Racionais MC’s, que com suas letras diretas e socialmente
conscientes, denunciam as enormes desigualdades econômicas, a violência
policial, a corrupção das instituições sociais, gerando reflexão entre os
moradores da periferia sobre seu lugar na sociedade.

Segundo Maria Rita Kehl (1999), estudiosa da cultura da periferia,

O tratamento de “mano” não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um


sentimento de fratria, um campo de identificações horizontais, em
contraposição ao modo de identificação/dominação vertical, da massa em
relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante,
ao irmão: junte-se a nós, aumente nossa força. Fique esperto, fique
consciente – não faça o que eles esperam de você, não seja o “negro
limitado” (título de uma das músicas de Brown) que o sistema quer, não
justifique o preconceito dos “racistas otários” (título de outra música). A
força dos grupos de rap não vem de sua capacidade de excluir, de colocar-se
acima da massa e produzir fascínio, inveja. Vem de seu poder de inclusão, da
insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de
origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de
oportunidades.

(...) Toda a combatividade afirmada pelos Racionais está relacionada à


recusa em mascarar a injustiça social e ao papel do rap no que diz respeito
à reflexão política. A palavra é a arma que se empunha e a perspectiva de
luta deve ser coletiva: “Eu sou apenas mais um rapaz latino-americano/
Apoiado por mais de 50 mil manos”.
Nesse caso, o rap é uma conscientização de uma situação de opressão e
exploração, experimentada coletivamente por todos os habitantes das
periferias do mundo; é também um diálogo direto da periferia com o resto da
sociedade, denunciando atitudes e preconceitos que perpetuam essa divisão
social. Segundo Oliveira et al (2013), no artigo Vozes periféricas:
expansão, imersão e diálogo na obra do Racionais MC’s,

"Edy Rock, integrante dos Racionais MC’s, afirma em entrevista à revista


Raça que o CD Sobrevivendo no inferno, lançado em 1997, “é a foto da
periferia, da favela, do dia a dia nosso e de muita gente que a gente
conhece”. As palavras do rapper remetem-nos à proposta de construir um
“retrato” da periferia, realidade compartilhada por uma comunidade da qual
fazem parte os próprios integrantes dos Racionais. Nesse sentido, o CD
apresenta-se permeado por uma abordagem crítica acerca da sociedade e sua
relação com os habitantes da periferia, com especial atenção para a posição
do negro. A representação que se constrói da vida na favela é a de um “campo
minado”, em que imperam a desumanização e a violência generalizada."

O tema da violência é central na obra dos Racionais MC’s, pelo constante


abuso de autoridade da polícia nas favelas; no entanto, denunciam também a
violência que transcende seu sentido mais óbvio e midiático, que é a
violência social, imposta de cima para baixo, como consequência das
profundas desigualdades na sociedade.

Funk Carioca
Numa pesquisa feita em 1987, por Hermano Vianna (1990), aconteciam cerca 600
bailes funk por fim de semana no Rio de Janeiro, atraindo um público de um
milhão de pessoas; esses números colocavam o baile funk, já naquela época,
como a principal opção de diversão entre os cariocas.

Desde então, o funk carioca veio ganhando cada vez mais espaço nas festas e
rádios ao redor do Brasil e do mundo, e hoje é uma das referências musicais
mais presentes na cultura brasileira.

Palombini (2009), falando sobre a história do funk carioca e suas origens,


argumenta que

"A música que hoje conhecemos como funk carioca não deriva diretamente do
funk norte-americano, mas de uma variedade de hip-hop conhecida como Miami
bass. O nome “funk” aderiu à música em função de sua gestação na cena dos
bailes funk cariocas dos anos oitenta, movidos a funk e rap norte-
americanos. Estes, por sua vez, constituem um desenvolvimento dos bailes
black cariocas dos anos setenta, movidos a soul e funk norte-americanos.

De acordo com a jornalista Lena Frias, os bailes black do Rio costumavam


atrair, a cada fim de semana, de quinhentos mil a um milhão e meio de jovens
negros ou identificados com a negritude — isto é, com a pobreza — dos
subúrbios do Rio de Janeiro para dançar ao som de James Brown e outros soul
brothers em grandes festas promovidas por equipes de som que chegavam a
congregar quinze mil pessoas.

Como a house de Chicago, o funk carioca resulta da apropriação criativa de


tecnologia barata por não-músicos para a produção de música destinada a
setores marginalizados da população: jovens negros habitantes de regiões
urbanas economicamente muito deprimidas do Rio de Janeiro no final dos anos
oitenta."

Objeto de constante preocupação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio


de Janeiro, essas manifestações populares da periferia sofreram proibições
oficiais a partir do ano 2000, com a aprovação da Cláusula 6 da Lei 3410 de
29 de maio de 2000, que determinava ficarem “proibidos a execução de músicas
e procedimentos de apologia ao crime nos locais em que se realizam eventos
sociais e esportivos de qualquer natureza”.

Araújo (2009) faz a seguinte recapitulação histórica sobre as mudanças que


foram acontecendo:

"Esta lei foi revogada e substituída pela Lei 5265 de 18 junho de 2008,
ainda mais repressiva, reprimindo também as raves. No entanto, em 22 de
setembro de 2009, a Lei 5265 foi revogada pela Lei 5544, assinada pelos
deputados Marcelo Freixo e Paulo Melo, através da qual os bailes funk e as
raves cessaram de estar sujeitos a legislação discriminatória.

Ainda em 22 de setembro, a Lei 5543, de Marcelo Freixo e Wagner Montes,


determinou que: (1) o funk [carioca] é um movimento cultural e musical de
caráter popular; (2) o poder público deve garantir a realização de seus
eventos — festas, bailes e encontros — sem quaisquer regras discriminatórias
diferentes daquelas que regem outros eventos da mesma natureza; (3) as
questões relativas ao funk devem ser tratadas preferencialmente no âmbito
das organizações públicas de cultura; (4) fica proibido todo o tipo de
discriminação e preconceito, seja de natureza social, racial, cultural ou
administrativa, contra o movimento funk e seus integrantes; (5) os artistas
do funk são agentes da cultura popular e, como tal, seus direitos devem ser
respeitados."

O funk carioca gerou expressões artísticas bastante diferentes do rap


paulista, com temáticas diferentes e estilos musicais diferentes; o fato é
que ambos agregaram milhões de pessoas ao redor do Brasil e modificaram a
cena da música brasileira, penetrando em todas as outras camadas sociais e
ajudando, inclusive, a animar as festas de classe média alta das grandes
cidades.

Os muros e paredes como obras de arte


Pichação, tecnicamente falando, é o ato de escrever ou rabiscar em muros,
fachadas de prédios, asfalto ou monumentos, usando tinta em spray aerosol,
estêncil ou rolo de tinta. Na perspectiva dos significados sociais, pichação
é uma forma de expressão humana muito antiga, encontrada, por exemplo, nos
muros de cidades do império romano, contendo desde poesias até xingamentos e
propaganda política.

Nos ambientes urbanos da atualidade, a pichação pode conter frases de


protesto ou insulto, assinaturas pessoais ou mesmo declarações de amor;
também é muito utilizada como forma de demarcação de territórios entre
grupos rivais, às vezes gangues de traficantes em certas localidades.

No Brasil, a pichação é considerada vandalismo e crime ambiental, nos termos


do art. 65 da Lei 9.605/98 (Lei dos Crimes Ambientais); no entanto, a
pichação brasileira é reconhecida mundialmente como um fenômeno artístico
legítimo, por suas letras possuírem um desenho singular e reconhecível.

Já o grafite é uma forma de expressão bem mais elaborada e de maior


interesse estético, que nas últimas décadas vem despertando a atenção dos
moradores das cidades e provocando polêmicas nas políticas governamentais,
ganhando espaço no circuito das artes e suscitando pesquisas acadêmicas.
Alguns o interpretam como arte, enquanto outros a veem como poluição visual,
mas o fato é que os grafites já fazem parte do nosso cotidiano.

Atualmente, o grafite é socialmente aceito como forma de expressão artística


contemporânea, e tende a ser feito em locais permitidos ou mesmo destinados
à sua realização.

Um grafiteiro que ganhou bastante notoriedade e se transformou num artista


plástico mundialmente famoso foi Jean Michel Basquiat. No final dos anos
1970 e início dos 80, Basquiat despertou a atenção da imprensa nova-
iorquina, principalmente pelas mensagens poéticas que deixava nas paredes
dos prédios abandonados de Manhattan. Basquiat ganhou o rótulo de neo-
expressionista e foi reconhecido como um dos mais significativos artistas do
final do século XX

Um dos mais famosos grafiteiros da atualidade é conhecido pelo pseudônimo


Banksy. Suas obras foram produzidas nos muros de cidades da Inglaterra desde
o começo dos anos 2000, propagando-se por muitas outras cidades ao redor do
mundo, como países da Europa, América Latina e até o muro que separa Israel
da Palestina.

Em matéria da revista Superinteressante (2016), percebemos seu impacto no


mundo da arte e nos ambientes urbanos de vários países:

"Banksy tornou-se o anônimo mais famoso dos últimos anos. Seu trabalho mudou
o olhar sobre a arte de rua. Com spray, faz críticas políticas, à sociedade
e à guerra, mas sempre com um humor sombrio e uma sacada. Também se
especializou em ações espetaculares, como na vez em que pôs um boneco
vestido de prisioneiro de Guantánamo dentro da Disneylândia.

“Não é sobre o hype, não é sobre o dinheiro”, Banksy diz em seu


documentário. Mas, mesmo idealista, anônimo e contra o sistema, Banksy está
inserido no mundo da arte. “Ele é parte de uma geração que olhou para fora
do sistema convencional de galerias, no jeito de exibir uma obra”, observa
Gill Saunders, curadora do museu Victoria & Albert, em Londres, que tem 4
peças suas."

A arte de Banksy é uma prova de que a arte não se restringe mais aos museus
e às galerias de arte, aos ambientes restritos e elitizados da classe média
alta, e suas diversas expressões ganharam as ruas e marcaram os muros,
levando as pessoas a uma reflexão sobre a sociedade global em que vivemos e
suas contradições.

Dois artistas que representam muito bem a arte brasileira ao redor do mundo
são os Gêmeos. Gustavo e Otávio Pandolfo (1974) nasceram em São Paulo e
desenvolveram um modo único de se expressar através do grafite, criando uma
identidade visual própria e reconhecível em qualquer lugar do mundo. Em
conexão com a cultura Hip Hop e seu universo imaginativo, OSGÊMEOS deixaram
sua marca nos muros e construções de diversas cidades do mundo.

Matrix e o aprisionamento da realidade


social
Na virada do século XX, uma obra cinematográfica ganha as atenções da
crítica e dos intelectuais ao redor do mundo. Utilizando recursos
tecnológicos inovadores e conceitos diversos de filosofia e física quântica,
Matrix (1999, direção: Lilly Wachowski e Lana Wachowski) trouxe muitas
discussões sobre a humanidade para a tela do cinema; entre elas a discussão
sobre nossa escravidão em relação a um sistema de governo das máquinas.

O mundo à nossa volta é real ou apenas uma construção mental de nosso


cérebro? Matrix nos fez pensar a realidade a partir de outros parâmetros e a
questionar a natureza das coisas.

Logo no início do filme, quando o protagonista e hacker Neo vai entregar um


objeto a outro personagem, ele o retira de dentro do livro Simulacros e
Simulação, do filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard.

Segundo Baudrillard (1991), a pós-modernidade é a “era do simulacro“, em que


o mundo real é substituído por uma versão simulada da realidade. Ou seja,
vivemos numa simulação tão parecida com a realidade, que não conseguimos
distinguir entre ilusão e verdade.

Para Baudrillard, as definições que criamos para dar significado à realidade


são tão artificiais, que artificializam a relação que estabelecemos com as
pessoas e as coisas. É o que ele chama de Hiper-realidade. Isso se dá porque
os ambientes urbanos nos impedem de termos contato com a natureza, nos
aprisionando em apartamentos, shoppings, escolas, empresas; nosso intelecto
e nossas emoções são formatados pelas mídias de massa e redes sociais,
nossos desejos são capturados pela publicidade e nossa espiritualidade é
capturada pela religião.
Assim, criamos uma versão simulada da realidade. E nossos smartphones se
tornaram nosso controle remoto, onde produzimos nossas vidas na
virtualidade.

A trilogia Matrix dialoga profundamente com o estilo de vida pós-moderno,


com o hinduísmo, com o budismo, e outras interpretações de mundo, criando
uma aventura cibernética, cheia de efeitos especiais inovadores para a
época, onde a humanidade foi dominada por máquinas dotadas de inteligência
artificial. Os humanos são cultivados em cativeiro pelas máquinas e seus
pensamentos são produzidos por programas de computador, que criam a ilusão
de realidade.

Buscando entender o que de fato a Matrix é, o protagonista Neo estabelece um


diálogo com seu mestre Morpheu:

 Morpheu: Você acredita no destino, Neo?


 Neo: Não. Não gosto de pensar que não controlo minha vida.
 Morpheu: Sei exatamente o que quer dizer. Vou te dizer por que está aqui.
Você sabe de algo. Não consegue explicar o quê. Mas você sente. Você sentiu
a vida inteira: há algo errado com o mundo. Você não sabe o que, mas há.
Como um zunido na sua cabeça te enlouquecendo. Foi esse sentimento que te
trouxe até mim. Você sabe do que estou falando?
 Neo: Da Matrix.
 Morpheu: Você deseja saber o que ela é?
 Neo: Sim.
 Morpheu: A Matrix está em todo lugar. À nossa volta. Mesmo agora, nesta
sala. Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga a sua
televisão. Você a sente quando vai para o trabalho, quando vai à igreja,
quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos
para que você não visse a verdade.
 Neo: Que verdade?
 Morpheu: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em
cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma
prisão para a sua mente.

Talvez isso lhe pareça um pouco distante da “realidade”, mas você já pensou
sobre a natureza da sociedade em que vivemos? Já pensou sobre as motivações
de suas escolhas? Você se sente aprisionado em certas rotinas da vida?
Aprisionado a certas obrigações sociais?

Se a sua resposta foi sim para alguma dessas perguntas, talvez o filme
Matrix possa lhe ajudar a investigar a realidade que lhe cerca e as
verdadeiras motivações de suas escolhas.