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RECOMENDA‚ÍES

AO MƒDICO
QUE PRATICA
A PSICANçLISE
(1912)
TêTULO ORIGINAL: ÒRATSCHL€GE F†R DEN
ARZT BEI DER PSYCHOANALYTISCHEN
BEHANDLUNGÓ. PUBLICADO PRIMEIRAMENTE
EM ZENTRALBLATT F†R PSYCHOANALYSE
[FOLHA CENTRAL DE PSICANçLISE], V. 2, N. 9,
PP. 483-9. TRADUZIDO DE GESAMMELTE
WERKE VIII, PP. 376-87; TAMBƒM SE ACHA
EM STUDIENAUSGABE, ERG€NZUNGSBAND
[VOLUME COMPLEMENTAR], PP. 169-80.
ESTA TRADU‚ÌO FOI PUBLICADA
ORIGINALMENTE EM JORNAL DE PSICANçLISE,
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANçLISE
DE SÌO PAULO, V. 32, N. 58/59, PP. 427-36,
NOVEMBRO DE 1999; ALGUMAS DAS
NOTAS DO TRADUTOR FORAM OMITIDAS
NA PRESENTE EDI‚ÌO.
As regras tŽcnicas que ofere•o me resultaram de longos anos de experi•ncia,
depois de ˆ pr—pria custa encetar e abandonar outros caminhos. Logo se notar‡
que elas, ou ao menos muitas delas, podem se resumir a um œnico preceito. Es-
pero que sua observ‰ncia poupe esfor•os inœteis aos mŽdicos que exercem a
psican‡lise e lhes permita evitar alguma omiss‹o; mas devo enfatizar que essa
tŽcnica revelou-se a œnica adequada para a minha individualidade. N‹o me at-
revo a contestar que uma personalidade mŽdica de outra constitui•‹o seja
levada a preferir uma outra atitude ante os pacientes e a tarefa a ser cumprida.

a) A primeira tarefa com que se defronta o analista que atende mais de um


paciente por dia lhe parecer‡ tambŽm a mais dif’cil. Ela consiste em reter na
mem—ria todos os inœmeros nomes, datas, detalhes de lembran•as, pensamen-
tos espont‰neos e produ•›es patol—gicas que um paciente traz durante o trata-
mento, no curso de meses e anos, e n‹o confundi-los com material semelhante
de outros pacientes, analisados antes ou no mesmo per’odo. Quando temos
que analisar diariamente seis, oito pacientes ou mais, a proeza mnem™nica que
isso implica despertar‡, nas demais pessoas, incredulidade, admira•‹o ou atŽ
mesmo pena. De todo modo as pessoas estar‹o curiosas em rela•‹o ˆ tŽcnica
que torna poss’vel dominar t‹o grande material, e esperar‹o que ela recorra a
meios especiais.
No entanto, essa tŽcnica Ž bem simples. Ela rejeita qualquer expediente,
como veremos, mesmo o de tomar notas, e consiste apenas em n‹o querer not-
ar nada em especial, e oferecer a tudo o que se ouve a mesma Òaten•‹o flutu-
anteÓ,* segundo a express‹o que usei. Assim evitamos uma fadiga da aten•‹o,
que certamente n‹o poder’amos manter por muitas horas ao dia, e escapamos a
um perigo que Ž insepar‡vel do exerc’cio da aten•‹o proposital. Pois, ao in-
tensificar deliberadamente a aten•‹o, come•amos tambŽm a selecionar em
meio ao material que se apresenta; fixamos com particular agudeza um ponto,
eliminando assim outro, e nessa escolha seguimos nossas expectativas ou in-
clina•›es. Justamente isso n‹o podemos fazer; seguindo nossas expectativas,
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corremos o perigo de nunca achar sen‹o o que j‡ sabemos; seguindo nossas in-
clina•›es, com certeza falsearemos o que Ž poss’vel perceber. N‹o devemos es-
quecer que em geral escutamos coisas cujo significado ser‡ conhecido* apenas
posteriormente.
Como se v•, o preceito de notar igualmente tudo Ž a necess‡ria contra-
partida ˆ exig•ncia de que o analisando relate tudo o que lhe ocorre, sem cr’t-
ica ou sele•‹o. Se o mŽdico se comporta de outra maneira, desperdi•a em boa
parte o ganho que resulta da obedi•ncia ˆ Òregra fundamental da psican‡liseÓ
por parte do paciente. Para o mŽdico, a regra pode ser formulada assim:
manter toda influ•ncia consciente longe de sua capacidade de observa•‹o e
entregar-se totalmente ˆ sua Òmem—ria inconscienteÓ, ou, expresso de maneira
tŽcnica: escutar e n‹o se preocupar em notar alguma coisa.
O que desse modo alcan•amos satisfaz a todas as exig•ncias durante o trata-
mento. Os elementos do material que j‡ formam um nexo ficar‹o ˆ disposi•‹o
consciente do mŽdico; outros, ainda n‹o relacionados, caoticamente desorde-
nados, parecem primeiro submersos, mas emergem prontamente na consci•n-
cia, t‹o logo o paciente traz algo novo, ao qual aqueles podem se ligar e medi-
ante o qual podem ter continuidade. Ent‹o recebemos do analisando, com um
sorriso, o imerecido cumprimento por uma Òmem—ria extraordin‡riaÓ, quando
ap—s bastante tempo reproduzimos um detalhe que provavelmente teria con-
trariado a inten•‹o consciente de fix‡-lo na mem—ria.
Erros nesse processo de recordar sucedem apenas em momentos e circun-
st‰ncias em que somos perturbados pelo envolvimento pessoal (ver adiante),
ficando muito aquŽm do ideal do analista, portanto. Mistura com o material de
outros pacientes acontece raramente. Numa eventual disputa com o analis-
ando, sobre ele ter ou n‹o dito certa coisa, ou o modo como o disse, geral-
mente o mŽdico est‡ certo.1
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b) N‹o posso recomendar que se tomem muitas notas durante as sess›es,


que se redijam atas etc. AlŽm da impress‹o desfavor‡vel que isso causa em al-
guns pacientes, valem aqui as mesmas considera•›es que tecemos a respeito da
aten•‹o. Ao redigir notas ou estenografar, fazemos for•osamente uma sele•‹o
prejudicial do que ouvimos e ocupamos uma parte de nossa atividade mental,
que teria melhor emprego se aplicada na interpreta•‹o do material. Pode-se
admitir exce•›es a essa regra, sem qualquer obje•‹o, no caso de datas, textos
de sonhos ou conclus›es isoladas dignas de nota, que facilmente s‹o destaca-
dos do contexto e se prestam a um uso independente como exemplos. Mas
tambŽm isso n‹o costumo fazer. Redijo os exemplos ˆ noite, de mem—ria, ap—s
o trabalho; os textos de sonhos que me interessam, fa•o os pacientes registrar-
em ap—s o relato do sonho.*

c) Tomar notas durante a sess‹o poderia ser justificado pela inten•‹o de


tornar o caso objeto de uma publica•‹o cient’fica. Algo que em princ’pio n‹o
se pode proibir. Mas deve-se ter em mente que protocolos exatos, num caso
cl’nico psicanal’tico, ajudam menos do que se poderia esperar. A rigor, osten-
tam a pseudoexatid‹o de que a ÒmodernaÓ psiquiatria nos oferece exemplos
not—rios. Geralmente s‹o cansativos para o leitor, e n‹o conseguem substituir
para ele a presen•a na an‡lise. A experi•ncia mostra que o leitor, se estiver dis-
posto a crer no analista, lhe dar‡ crŽdito tambŽm pelo pouco de elabora•‹o que
ele empreendeu no material; mas, se n‹o pretender levar a sŽrio a an‡lise e o
analista, ignorar‡ tambŽm protocolos fiŽis do tratamento. Este n‹o parece ser o
caminho para remediar a falta de evid•ncia que se enxerga nos relatos
psicanal’ticos.

d) Um dos mŽritos que a psican‡lise reivindica para si Ž o fato de nela coin-


cidirem pesquisa e tratamento; mas a tŽcnica que serve a uma contradiz, a
partir de certo ponto, o outro. N‹o Ž bom trabalhar cientificamente um caso
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enquanto seu tratamento n‹o foi conclu’do, compor sua estrutura,* prever seu
prosseguimento, de quando em quando registrar o estado em que se acha,
como exigiria o interesse cient’fico. O •xito Ž prejudicado, nesses casos desti-
nados de antem‹o ao uso cient’fico e tratados conforme as necessidades deste;
enquanto s‹o mais bem-sucedidos os casos em que agimos como que sem
prop—sito, surpreendendo-nos a cada virada, e que abordamos sempre de
modo despreconcebido e sem pressupostos. A conduta correta, para o analista,
est‡ em passar de uma atitude ps’quica para outra conforme a necessidade, em
n‹o especular e n‹o cogitar enquanto analisa, e submeter o material reunido ao
trabalho sintŽtico do pensamento* apenas depois que a an‡lise for conclu’da. A
distin•‹o entre as duas atitudes n‹o faria sentido se j‡ tivŽssemos todos os con-
hecimentos Ñ ou pelo menos os essenciais Ñ sobre a psicologia do incon-
sciente e sobre a estrutura das neuroses, que podemos adquirir no trabalho
psicanal’tico. Atualmente estamos ainda longe desse objetivo, e n‹o devemos
nos interditar os meios de testar o que atŽ agora aprendemos e de acrescentar
coisas novas a isso.

e) Recomendo enfaticamente aos colegas que no tratamento psicanal’tico


tomem por modelo o cirurgi‹o, que deixa de lado todos os seus afetos e atŽ
mesmo sua compaix‹o de ser humano, e concentra suas energias mentais* num
œnico objetivo: levar a termo a opera•‹o do modo mais competente poss’vel.
Nas circunst‰ncias de hoje, um afeto perigoso para o analista Ž a ambi•‹o
terap•utica de realizar, com seu novo e discutido mŽtodo, algo que tenha efeito
convincente em outras pessoas. Isso n‹o apenas o coloca numa disposi•‹o pou-
co favor‡vel para o trabalho, como tambŽm o deixa inerme ante determinadas
resist•ncias do paciente, cujo restabelecimento depende em primeiro lugar,
como se sabe, do jogo de for•as dentro dele. A justifica•‹o para se requerer tal
frieza de sentimentos do psicanalista est‡ em que ela cria as condi•›es mais
vantajosas para as duas partes: para o mŽdico, a desej‡vel prote•‹o de sua
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pr—pria vida afetiva; para o doente, o maior grau de ajuda que hoje podemos
dar. Um antigo cirurgi‹o teve por lema a seguinte frase: Je le pensai, Dieu le
guŽrit [Eu lhe fiz os curativos, Deus o curou]. O analista deveria se contentar
com algo assim.

f) ƒ f‡cil ver para qual objetivo essas diferentes regras convergem. Elas
pretendem criar, para o mŽdico, a contrapartida da Òregra fundamental da
psican‡liseÓ estabelecida para o analisando. Assim como este deve comunicar
tudo o que sua auto-observa•‹o capta, suspendendo toda obje•‹o l—gica e
afetiva que procure induzi-lo a fazer uma sele•‹o, tambŽm o mŽdico deve
colocar-se na posi•‹o de utilizar tudo o que lhe Ž comunicado para os prop—si-
tos da interpreta•‹o, do reconhecimento* do inconsciente oculto, sem sub-
stituir pela sua pr—pria censura a sele•‹o a que o doente renunciou. Expresso
numa f—rmula: ele deve voltar seu inconsciente, como —rg‹o receptor, para o
inconsciente emissor do doente, colocar-se ante o analisando como o receptor
do telefone em rela•‹o ao microfone. Assim como o receptor transforma nova-
mente em ondas sonoras as vibra•›es elŽtricas da linha provocadas por ondas
sonoras, o inconsciente do mŽdico est‡ capacitado a, partindo dos derivados
do inconsciente que lhe foram comunicados, reconstruir o inconsciente que
determinou os pensamentos espont‰neos do paciente.
No entanto, se o mŽdico for capaz de usar de tal forma seu inconsciente
como instrumento na an‡lise, ele pr—prio tem que satisfazer em grande medida
uma condi•‹o psicol—gica. Ele n‹o pode tolerar, em si mesmo, resist•ncias que
afastam de sua consci•ncia o que foi percebido** por seu inconsciente; sen‹o in-
troduziria na an‡lise um novo tipo de sele•‹o e distor•‹o, bem mais prejudicial
do que a produzida pelo recurso ˆ aten•‹o consciente. Para isso n‹o basta que
ele pr—prio seja um indiv’duo aproximadamente normal; pode-se exigir que ele
tenha se submetido a uma purifica•‹o psicanal’tica e tenha tomado conheci-
mento daqueles seus complexos que seriam capazes de perturbar a apreens‹o
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do que Ž oferecido pelo analisando. N‹o se pode razoavelmente duvidar do


efeito desqualificador dessas falhas pr—prias; a cada repress‹o n‹o resolvida do
mŽdico corresponde, na express‹o pertinente de Wilhelm Stekel, um Òponto
cegoÓ na sua percep•‹o psicanal’tica.

Anos atr‡s, dei a seguinte resposta ˆ quest‹o de como alguŽm pode tornar-
se psicanalista: ÒPela an‡lise dos pr—prios sonhosÓ. Tal prepara•‹o basta para
muitas pessoas, certamente, mas n‹o para todos que querem aprender a analis-
ar. AlŽm disso, nem todos conseguem interpretar os pr—prios sonhos sem
ajuda externa. Incluo entre os muitos mŽritos da escola psicanal’tica de
Zurique ter refor•ado essa condi•‹o e t•-la fixado na exig•ncia de que todo in-
div’duo que queira efetuar an‡lise em outros deve primeiramente submeter-se
ele pr—prio a uma an‡lise com um especialista. Quem levar a sŽrio este tra-
balho deveria eleger esse caminho, que promete v‡rias vantagens; o sacrif’cio
de franquear a intimidade a um estranho, sem que a enfermidade o obrigue a
isso, Ž amplamente recompensado. A pessoa n‹o apenas realiza muito mais
rapidamente e com menor gasto afetivo a inten•‹o de tomar conhecimento do
que traz oculto em si mesma, como adquire na pr—pria carne, por assim dizer,
impress›es e convic•›es que procura em v‹o nos livros e nas confer•ncias. Por
fim, deve-se apreciar tambŽm o benef’cio da duradoura rela•‹o espiritual que
costuma se estabelecer entre o analisando e aquele que o guia.
Uma tal an‡lise de alguŽm praticamente sadio permanecer‡ inconclusa,
como Ž de se esperar. Quem estimar o valor do autoconhecimento e da elev-
a•‹o do autocontrole, adquiridos por meio dela, prosseguir‡ no exame
anal’tico da pr—pria pessoa em forma de autoan‡lise, e se contentar‡ com o fato
de que, tanto dentro de si como fora, sempre deve esperar encontrar algo
novo. Mas quem, como analista, desdenhou a precau•‹o de analisar a si
mesmo, n‹o apenas se v• castigado com a incapacidade de aprender mais que
uma certa medida de seus pacientes, corre tambŽm um perigo mais sŽrio e que
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pode se tornar perigo para os outros. Ele facilmente cair‡ na tenta•‹o de pro-
jetar sobre a ci•ncia, como teoria de validade geral, aquilo que em obscura
percep•‹o ele enxerga das peculiaridades de sua pr—pria pessoa, carreando
descrŽdito para o mŽtodo psicanal’tico e desencaminhando os inexperientes.

g) Acrescento mais algumas regras, em que passo da atitude do mŽdico


para o tratamento do analisando.
ƒ sem dœvida atraente, para um psicanalista jovem e entusiasmado, colocar
muito de sua individualidade, para arrastar consigo o paciente e elev‡-lo acima
dos limites de sua estreita personalidade. Seria perfeitamente admiss’vel, e
mesmo adequado para a supera•‹o das resist•ncias ativas no doente, que o
mŽdico lhe oferecesse um vislumbre dos pr—prios defeitos e conflitos mentais,
e lhe possibilitasse p™r-se em pŽ de igualdade, dando-lhe not’cias confidenciais
de sua vida. Pois uma confian•a vale a outra, e quem solicita intimidade de
outro deve d‡-la em troca.
Mas na rela•‹o psicanal’tica muita coisa transcorre de modo diferente do
que se esperaria conforme a psicologia da consci•ncia. A experi•ncia n‹o de-
p›e a favor de uma tŽcnica afetiva semelhante. TambŽm n‹o Ž dif’cil ver que
com ela abandonamos o terreno psicanal’tico e nos aproximamos do trata-
mento por sugest‹o. Consegue-se que o paciente comunique mais cedo e mais
facilmente o que ele pr—prio j‡ sabe, e o que resist•ncias convencionais o fari-
am reter por algum tempo ainda. Quanto a p™r a descoberto o que Ž incon-
sciente para o doente, essa tŽcnica n‹o ajuda, apenas o torna ainda mais in-
capaz de superar resist•ncias mais profundas, e em casos mais dif’ceis fracassa
devido ˆ insaciabilidade que foi despertada no paciente, que ent‹o gostaria de
inverter a rela•‹o e acha a an‡lise do mŽdico mais interessante do que a sua.
TambŽm a resolu•‹o da transfer•ncia, uma das principais tarefas do trata-
mento, Ž dificultada por uma atitude ’ntima do mŽdico, de sorte que o eventual
ganho do in’cio Ž mais que contrabalan•ado, afinal. N‹o hesito, portanto, em
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rejeitar como defeituosa essa tŽcnica. O mŽdico deve ser opaco para o analis-
ando, e, tal como um espelho, n‹o mostrar sen‹o o que lhe Ž mostrado. Na
pr‡tica, Ž certo que nada se pode objetar quando um psicoterapeuta mistura
um qu• de an‡lise com uma parte de influ•ncia por sugest‹o, para alcan•ar •xi-
tos vis’veis em tempo mais curto, tal como Ž necess‡rio, por exemplo, em in-
stitui•›es; mas pode-se exigir que ele tenha dœvida acerca do que faz, que saiba
que o seu mŽtodo n‹o Ž o da verdadeira psican‡lise.

h) Outra tenta•‹o vem da atividade pedag—gica que no tratamento psic-


anal’tico recai sobre o mŽdico, sem que haja inten•‹o por parte dele.
Dissolvendo-se as inibi•›es ao desenvolvimento, ocorre naturalmente que o
mŽdico chegue ˆ situa•‹o de indicar novas metas para as tend•ncias* liberadas.
ƒ ent‹o compreens’vel que ele ambicione fazer algo extraordin‡rio da pessoa
em cuja liberta•‹o da neurose ele tanto se empenhou, e prescreva elevados ob-
jetivos para os desejos dela. Mas tambŽm a’ o mŽdico deveria se manter em
xeque e orientar-se mais pela aptid‹o do paciente do que por seus pr—prios
desejos. Nem todos os neur—ticos possuem grande talento para a sublima•‹o;
de muitos podemos supor que n‹o teriam adoecido, caso dispusessem da arte
de sublimar seus instintos. Se os pressionamos demasiadamente para a sublim-
a•‹o e lhes tiramos as gratifica•›es de instintos mais imediatas e c™modas, em
geral lhes tornamos a vida ainda mais dif’cil do que eles a sentem. Como mŽdi-
cos devemos sobretudo ser tolerantes com as fraquezas do doente, temos de
nos contentar em recuperar, ainda que seja para alguŽm de n‹o muito valor,
algo da capacidade de realiza•‹o e de frui•‹o. A ambi•‹o pedag—gica Ž t‹o
pouco adequada quanto a terap•utica. H‡ a considerar, tambŽm, que muitas
pessoas adoecem precisamente na tentativa de sublimar seus instintos alŽm do
montante permitido por sua organiza•‹o, e que naqueles capacitados para a
sublima•‹o este processo costuma se efetuar por si mesmo, t‹o logo as inib-
i•›es s‹o vencidas pela an‡lise. Acho, portanto, que o esfor•o de regularmente
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usar o tratamento anal’tico para a sublima•‹o de instintos Ž sempre louv‡vel,


mas de modo algum aconselh‡vel em todos os casos.

i) Dentro de que limites devemos buscar a colabora•‹o intelectual do anal-


isando no tratamento? ƒ dif’cil afirmar algo de aplica•‹o geral neste ponto. A
personalidade do paciente Ž que decide em primeiro lugar. Mas de todo modo
se deve observar cautela e reserva. ƒ errado colocar tarefas para o analisando,
dizer que ele deveria juntar suas lembran•as, meditar sobre um determinado
per’odo de sua vida etc. Ele tem que aprender, isto sim Ñ o que para ninguŽm
Ž f‡cil admitir Ñ, que com a atividade mental dessa espŽcie, com o esfor•o da
vontade e da aten•‹o n‹o se resolve nenhum dos enigmas da neurose, mas
somente atravŽs da observ‰ncia paciente da regra psicanal’tica que manda
afastar a cr’tica ao inconsciente e seus derivados. De modo particularmente
implac‡vel devemos insistir nessa regra junto aos pacientes que praticam a arte
de escapulir para o ‰mbito intelectual no tratamento, e que ent‹o refletem
bastante, ˆs vezes sabiamente, sobre o seu estado, poupando-se de fazer al-
guma coisa para venc•-lo. Por isso n‹o gosto que meus pacientes recorram ˆ
leitura de textos psicanal’ticos; pe•o que aprendam na sua pr—pria pessoa, e
lhes garanto que desse modo saber‹o mais do que o que toda a literatura psic-
anal’tica poderia ensinar-lhes. Mas reconhe•o que nas condi•›es de um inter-
namento em institui•‹o pode ser muito vantajoso utilizar a leitura para pre-
parar os analisandos e para produzir uma atmosfera de influ•ncia.
Desaconselho enfaticamente que se procure o apoio e a aquiesc•ncia de pais
ou parentes, dando-lhes uma obra de psican‡lise para ler, seja ela profunda ou
introdut—ria. Essa medida bem-intencionada basta, via de regra, para fazer sur-
gir prematuramente a natural Ñ e, cedo ou tarde, inevit‡vel Ñ oposi•‹o dos
parentes ao tratamento psicanal’tico de um dos seus, de forma tal que o trata-
mento n‹o chega a ter in’cio.
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Manifesto a esperan•a de que a progressiva experi•ncia dos analistas levar‡


em breve a um acordo quanto ˆ tŽcnica mais adequada para o tratamento dos
neur—ticos. Com rela•‹o ao tratamento de parentes, confesso minha perplexid-
ade e deposito bem pouca confian•a no seu tratamento individual.

* No original, gleichschwebende Aufmerksamkeit. Uma nota da Standard inglesa informa que, ao


dizer que j‡ usou a express‹o, Freud alude provavelmente a uma passagem da "An‡lise da fo-
bia de um garoto de cinco anos" (1909), e que h‡ uma ligeira diferen•a entre as duas passagens.
De fato, no texto do "Pequeno Hans" Freud usa gleiche Aufmerksamkeit, "mesma aten•‹o", en-
quanto o adjetivo que agora emprega Ž tambŽm formado de schwebend (do verbo schweben,
pairar). Strachey utiliza evenly-suspended, que parece ser a melhor vers‹o (n‹o considerando a
holandesa, que pode usar um composto exatamente igual ao alem‹o: gelijkzwevende). A antiga
tradu•‹o espanhola utiliza flotante, a nova, argentina, optou por parejamente flotante, e a antiga
vers‹o francesa acrescenta aspas ao adjetivo: "flottante".
* O verbo aqui usado por Freud, erkennen, pode significar "conhecer, reconhecer, discernir,
perceber"; por isso as vers›es estrangeiras variam: descubrimos, uno [É] discernir‡, se rŽv•le, re-
cognized, onderkend ("reconhecido").
1 Com frequ•ncia o analisando afirma j‡ ter dito algo, enquanto podemos garantir, com tran-
quila superioridade, que o est‡ fazendo pela primeira vez. Ent‹o se verifica que o analisando j‡
teve antes a inten•‹o de diz•-lo, mas foi impedido por uma resist•ncia ainda em a•‹o. A lem-
bran•a de tal inten•‹o Ž para ele indistingu’vel da lembran•a de sua realiza•‹o.
* "Fa•o os pacientes registrarem ap—s o relato do sonho": lasse ich von den Patienten nach der
ErzŠhlung des Traumes fixieren. Essa ora•‹o n‹o Ž totalmente clara. Por isso h‡ diverg•ncias
nas tradu•›es consultadas: hago que el mismo enfermo ponga por escrito su relato despuŽs de
habŽrselo o’do de palabra, hago que los pacientes mismos los fijen {por escrito} [sic; entre chaves]
tras relatar el sue–o, J'abandonne au patient le soin de fixer lui-m•me [É], I get the patient to re-
peat them to me after he has related them so that I can fix them in my mind, laak ik door de pati‘n-
ten na het vertellen van de droom vastleggen. O problema Ž duplo: o sentido do verbo fixieren (Ž
registrar por escrito ou fixar na mem—ria?) e o agente desse verbo (Ž o analista ou o paciente?).
Os dois tradutores de l’ngua espanhola concordam na primeira e na segunda op•›es, re-
spectivamente (as palavras "por escrito", entre chaves, acham-se no texto da edi•‹o argentina).
A tradutora francesa omite parte da ora•‹o, mas tambŽm v• o paciente como sujeito de fixer, e
n‹o especifica esse verbo mais que o original. A vers‹o inglesa Ž a que mais discrepa: o analista
"fixa na mente" o sonho que fez o paciente repetir. Para o tradutor holand•s, est‡ claro que a
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tarefa cabe ao paciente, e o verbo que usa para verter fixieren Ž vastleggen (aparentado ao
alem‹o festlegen), que significa "assentar, consignar". Um professor alem‹o Ñ e professor de
alem‹o Ñ que consultei acha bastante prov‡vel o sentido de "registrar por escrito".
* "Compor sua estrutura": seinen Aufbau zusammensetzen. Alguns tradutores preferiram "recon-
struir, reconstituir" para verter o verbo alem‹o: reconstruir su estructura, componer su edif’cio, en
reconstituer la structure, to piece together its structure, de loop ervan te construeren. O significado
literal de zusammensetzen Ž "colocar junto"; nada nele recomenda o recurso ao prefixo "re", em
portugu•s. E lembremos do pr—prio t’tulo de um importante artigo tŽcnico de Freud: "Con-
stru•›es na an‡lise" (Konstruktionen in der Analyse, de 1937). Outro ponto pass’vel de dis-
cuss‹o, nesse trecho, Ž a vers‹o de Aufbau por "estrutura". Aufbau pode significar tambŽm
"constru•‹o, edif’cio, montagem, organiza•‹o, carroceria (de autom—vel)". Deve-se ter
presente que a Standard inglesa emprega com relativa frequ•ncia o termo structure, para
traduzir diversas palavras alem‹s, e isso pode dar uma maior impress‹o de rigidez ou solidez
das forma•›es ps’quicas do que a que o original nos transmite. ƒ talvez significativo que a
edi•‹o holandesa (a mais nova entre essas) use a palavra loop ("curso", equivalente ao alem‹o
Lauf) para Aufbau.
* "Trabalho sintŽtico do pensamento": no original, synthetischen Denkarbeit; nas tradu•›es con-
sultadas: labor mental de s’ntesis, trabajo sintŽtico del pensar, travail de synth•se, synthetic process
of thought, synthetische denkarbeid.
* "Energias mentais": geistige KrŠfte Ñ energ’as ps’quicas, fuerzas espirituales, (omiss‹o na
tradu•‹o francesa), mental forces, geesteskrachten.
* "Reconhecimento": Erkennung, no original; nas vers›es estrangeiras consultadas: descubrimi-
ento, discernimiento, dŽcouvrir, recognizing, doorgronden ["penetrar"]; ver nota sobre erkennen na
p. 150, acima.
** "Percebido": novamente o verbo erkennen, agora no partic’pio Ñ descubierto, discernido, les
perceptions, perceived, onderkend.
* "Tend•ncias": n‹o traduz exatamente Strebungen, substantivo (atualmente n‹o mais usado)
do verbo streben, que significa "esfor•ar-se por, aspirar a, ambicionar"; os outros tradutores
usam tendencias, aspiraciones, pulsions, trends, strevingen.