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lam a expressão dos genes, a nutrigenética dor do mundo não define apenas hábitos Conhecimento em rede

estuda o efeito da variação dos genes na alimentares, mas a maneira pela qual gru- Esforços internacionais vêm sendo rea-
interação entre dieta e doenças. O desafio pos e indivíduos metabolizam a comida. lizados numa tentativa de dar conta da
de ambas é contribuir na criação de es- A população brasileira, formada ori- complexidade e potencialidade que as
tratégias alimentares capazes de otimizar ginalmente por ameríndios, europeus e novas ciências da nutrição introduzem
a ação de determinados genes na promo- africanos, interage com os nutrientes de no cenário de pesquisa. Essas iniciativas
ção da saúde e na prevenção de doenças. maneira diversa que a população euro- incluem a busca de alternativas para ater-
O sequenciamento do genoma humano peia, por exemplo. Por essa razão, não é rissar o conhecimento no terreno prático.
e outros mapeamentos posteriores mostra- possível estabelecer uma dieta ideal para Em setembro de 2010, 600 pesquisadores
ram que somos cerca de 0,5% diferentes todos – embora permaneçam de pé as re- de várias nacionalidades se reuniram no
uns dos outros do ponto de vista genético. comendações de praxe, como restringir Guarujá, no litoral paulista, para discutir
Apesar de pequena, essa variação determi- açúcar e gorduras e consumir uma maior avanços e perspectivas em nutrigenômica
na formas distintas de reagir a estímulos quantidade de frutas e verduras. e nutrigenética. O encontro foi organizado
recebidos do ambiente. E um dos fatores O consumo de complexos vitamínicos por Lúcia, que também coordena a Rede
externos de maior influência são os nu- e suplementos alimentares industrializa- Brasileira e a Rede Latinoamericana de
trientes, a que estamos expostos ao longo dos também deve ser considerado com Nutrigenômica. Nos debates, um dos desta-
de toda a vida. Para complicar um pouco cautela. “Essas fórmulas não servem para ques foi o reconhecimento da necessidade
mais essa já complexa equação entre ge- nós”, alerta. Ela afirma que tanto as do- de atuação em rede, para que a comuni-
nes, dieta e saúde, entra a participação sagens como a composição de vitaminas dade científica possa otimizar o levanta-
da epigenética. Os hábitos alimentares e demais micronutrientes têm sido ba- mento e utilização de informações sobre
podem desencadear alterações químicas seadas nas necessidades de europeus e nutrição e genética. Discutiu-se, também,

Marcus “Japs” Penna


que afetam a expressão do DNA, podendo norte-americanos, que são geneticamente o desenvolvimento e aperfeiçoamento de
até silenciar os genes ou ativá-los. Essas muito diferentes dos brasileiros. ferramentas, como a bioinformática, capa-
mudanças não alteram o sequenciamento A geneticista, que conduz estudos sobre zes de auxiliar na sistematização e análi-
genético, mas em muitos casos podem ser selênio e vitamina D, está iniciando uma se da montanha de dados que está sendo
transmitidas às gerações seguintes e têm pesquisa sobre vitamina A com indivíduos gerada nos vários países pelas pesquisas
sido associadas ao surgimento de câncer de origem caucasiana, africana e japone- e por meio do Projeto Varioma Humano.
e doenças inflamatórias crônicas. sa do Estado de São Paulo, em parceria “Nosso maior desafio no momento é a

A dieta do DNA N
um futuro não muito distan- com a Universidade de Newcastle (Reino integração dos dados genéticos de larga
te – em uma década, talvez, Variabilidade ancestral Unido). “Alguns indivíduos precisam de escala que foram ficando cada vez mais
estimam os especialistas –, Já se sabe que a influência dos nutrien- suplementação de vitamina A porque têm disponíveis ao longo dessa última déca-
cada um de nós terá acesso a seu próprio tes sobre a ação dos genes ocorre, por uma deficiência na produção da enzima da de esforços na área genômica”, afirma
sequenciamento de variantes genéticas exemplo, com o ômega-3, ácido graxo 15-15’ betacaroteno monoxigenase, res- Chris Evelo, chefe do Departamento de
Alimentação geneticamente personalizada ligadas a alimentos. E médicos ou nutri- presente nos peixes de água fria, tão re- ponsável pela conversão do betacaroteno”, Bioinformática da Universidade de Ma-
é a promessa das novíssimas cionistas poderão prescrever os alimentos comendado nas dietas, para o aumento explica Lúcia. Níveis inadequados desta astricht, na Holanda. Evelo participa de
nutrigenômica e nutrigenética para que deveremos preferir, evitar ou abando- do “bom” colesterol e a redução dos ní- vitamina no organismo comprometem iniciativas internacionais para dispo-
promover a saúde e prevenir doenças nar não mais com base apenas em nossas veis de triglicerídeos e do “mau” coleste- estruturas epiteliais, particularmente nibilizar informações sobre a interação
taxas de glicemia, colesterol ou triglice- rol. Estudos recentes mostraram, porém, nos olhos, atingindo a visão. entre genes, alimentos e micronutrientes
rídeos – mas de acordo com nosso mapa que, em alguns indivíduos, seu consumo em bases de dados abertas na internet.
genético. A expectativa é que essa dieta pode levar a doenças inflamatórias, devi- Uma delas é o portal do Micronutrients
individualizada seja capaz de garantir do a uma redução da atividade dos genes Genomic Project (Projeto Genômico de
Alice Giraldi uma vida mais saudável da infância à envolvidos na proliferação de linfócitos. Micronutrientes), mantido pela Organiza-
velhice, além de oferecer uma proteção Daí a necessidade de dosar sua ingestão ção Europeia de Nutrigenômica (NuGO).
contra doenças como câncer, diabetes, conforme as necessidades de cada pessoa. Não serão apenas o peso O portal é hoje consultado e alimentado
cardiopatias e obesidade. “Não podemos ser considerados todos na balança ou os exames por cientistas do mundo todo, num sis-
É esse horizonte promissor que dese- iguais, há uma variabilidade genética tradicionais de sangue que tema colaborativo que visa a compreen-
vão ditar o que podemos
nham a nutrigenômica e a nutrigenética, individual em relação a alimentos e mi- são das trilhas biológicas percorridas
ou não comer; a análise do
jovens áreas científicas criadas na esteira cronutrientes”, explica a geneticista Lúcia pelos micronutrientes no organismo. O
genoma pode individualizar
do Projeto Genoma Humano, que vêm ga- Regina Ribeiro, pesquisadora da Facul- o cardápio e mostrar, por pesquisador holandês antecipa o futuro
nhando impulso nos últimos cinco anos. dade de Medicina da Unesp de Botucatu exemplo, se o tão aclamado da nutrigenômica: “Queremos chegar a
Enquanto a nutrigenômica se debruça sobre e do Instituto de Biociências da Unesp de ômega 3 faz bem ou não a prescrições individualizadas para cada
a relação entre genética e nutrição para Rio Claro. Segundo ela, a diversidade de uma determinada pessoa indivíduo, com base na região em que
compreender como os alimentos modu- constituições ancestrais dos povos ao re- vive, perfil genético e etapa da vida”.

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