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Maurice Merleau-Ponty

Fenomenologia da
Percepção

Tradução
CARLOS ALBERTO RIBEIRO DE MOURA

Maurice Merleau-Ponty, escritor e filósofo, líder do pen -


samento fenomenológico na França, nasceu em 14 de março de
1908, em Rochefort, e faleceu em 14 de maio de 1961, em Paris. 4 4o
Estudou na École Normale Supérieure em Paris, graduando-se
em filosofia em 1931. Em 1945 foi nomeado professor de filo- WfrjL
sofia na Universidade de Lyon e em 1949 foi chamado para Me&mneQw
lecionar na Sorbonne, em Paris. Em 1952 ganhou a cadeira de Maisondefirance
filosofia no Collège de France. Entre suas obras, encontram-se:
Signos , A estrutura do comportamento, A natureza , As aventuras da
dialética e Conversas - 1948 , todas publicadas por esta Editora.
Martins Fontes
S õo Paulo 2006

t
T ítulo original : PH É NOM É NOLOGIE DE LA PERCEPTION .
Copyright © Éditions Gallimard , 1945.
Copyright © 1994, Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,
São Paulo, para a presente edição.

Ia edi ção 2994


3* edi ção 2006 Í NDICE
Preparação do original
Silvana Cobucci Leite
Revisões gráficas
Renato da Rocha Carlos
Maurício Balthazar Leal
Dinarte Zorzanelli da Silva
Produção gráfica
Prefácio 1
Geraldo Alves

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) INTRODU ÇÃ O


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Merleau-Ponty, Maurice, 1908-1961.


OS PREJU ÍZOS CLÁSSICOS E O RETORNO
Fenomenologia da percepção / Maurice Merleau-Ponty ; AOS FEN Ô MENOS
tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura. - 3a ed. - São
Paulo : Martins Fontes, 2006. - (Tópicos )
I. A sensaç ao »
( í ?
23
Título original: Phénom énologie de la perception.
Bibliografia. II . A “ associa ção ” e a “ projeção das recordações ” . . . 35
ISBN 85-336-2293-7 III . A “ aten ção ” e o “ ju ízo >
5
53
1. Percepçã o I. Título. II. Série. IV . O campo fenomenal 83
06-3450 CDD-153.7
í ndices para catálogo sistemático:
1. Desenvolvimento perceptivo : Psicologia 153.7 PRIMEIRA PARTE
2. Percepçã o : Psicologia 153.7
3. Processos perceptivos 153.7 O CORPO

Todos os direitos desta edição para o Brasil reservados à I. O corpo como objeto e a fisiologia mecanicista . .. 111
Livraria Martins Fontes Editora Ltda .
Rua Conselheiro Ramalho, 330 01325-000 S ão Paulo SP Brasil
II . A experiê ncia do corpo e a psicologia clássica . .. 133
Tel . ( 11 ) 3241.3677 Fax ( 11 ) 3101.1042 III . A espacialidade do corpo pró prio e a motricidade 143
e-mail : info@martinsfontes.com.br http://ioTvw.martinsfontes.com.br IV . A síntese do corpo pró prio 205

A
V . O corpo como ser sexuado 213
VI . O corpo como expressão e a fala 237

SEGUNDA PARTE
O MUNDO PERCEBIDO

I . O sentir 279
II . O espaço 327
III . A coisa e o mundo natural . 401 PREFÁCIO
IV. Outrem e o mundo humano 463

TERCEIRA PARTE
O SER -PARA-SI E O SER - NO- MUNDO O que é a fenomenologia? Pode parecer estranho que ain-
da se precise colocar essa quest ão meio século depois dos pri-
I . O Cogito 493 meiros trabalhos de Husserl. Todavia , ela est á longe de estar
II . A temporalidade 549 resolvida . A fenomenologia é o estudo das essê ncias , e todos
III . A liberdade 581 os problemas, segundo ela, resumem -se em definir essê ncias:
a essê ncia da percepção, a essê ncia da consciê ncia, por exem -
Notas 613 plo. Mas a fenomenologia é també m uma filosofia que repõe
Obras citadas 655 as essê ncias na existê ncia, e não pensa que se possa compreen -
der o homem e o mundo de outra maneira sen ão a partir de
sua í facticidade ” . E uma filosofia transcendental que coloca
í

em suspenso, para compreendê-las, as afirmações da atitude


natural , mas é també m uma filosofia para a qual o mundo
já est á sempre “ ali ” , antes da reflexão, como uma presen ça
inalien ável, e cujo esforço todo consiste em reencontrar este
contato ingé nuo com o mundo, para dar-lhe enfim um esta-
tuto filos ófico. E a ambição de uma filosofia que seja uma
<<
ciê ncia exata ” , mas é també m um relato do espaço, do tem-
po, do mundo “ vividos ” . E a tentativa de uma descrição di -
reta de nossa experiê ncia tal como ela é, e sem nenhuma de -
ferê ncia à sua gé nese psicoló gica e às explicações causais que
2 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO PREFÁ CIO 3

o cientista , o historiador ou o sociólogo dela possam fornecer , menológicos assim como eles se ligaram^ espontaneamente na
e todavia Husserl , em seus ú ltimos trabalhos , menciona uma vida . Talvez compreendamos ent ão por que a fenomenolo-
“ fenomenologia gen ética ” 1 e mesmo uma “ fenomenologia gia permaneceu por tanto tempo em estado de começo , de
construtiva ” 2 . Desejar-se-ia remover essas contradições distin - problema e de promessa .
guindo entre a fenomenologia de Husserl e a de Heidegger ? Mas
todo Sein undZeit nasceu de uma indicação de Husserl , e em su -
ma é apenas uma explicitação do ‘‘nat ú rlichen Weltbegriff ’ ou Trata- se de descrever , não de explicar nem de analisar .
do ‘‘Lebenswelt ” que Husserl , no final de sua vida , apresenta- Essa primeira ordem que Husserl dava à fenomenologia ini-
va como o tema primeiro da fenomenologia , de forma que a con- ciante de ser uma “ psicologia descritiva ” ou de retornar “ às
tradição reaparece na filosofia do pró prio Husserl. O leitor apres- coisas mesmas ” é antes de tudo a desaprovação da ciê ncia .
sado renunciará a circunscrever uma doutrina que falou de tu - Eu n ão sou o resultado ou o entrecruzamento de m ú ltiplas
do e perguntar-se-á se uma filosofia que n ão consegue definir-se causalidades que determinam meu corpo ou meu “ psiquis-
merece todo o ru ído que se faz em torno dela , e se n ão se trata mo , eu não posso pensar- me como uma parte do mundo ,
antes de um mito e de uma moda. como o simples objeto da biologia , da psicologia e da sociolo-
Mesmo se fosse assim , restaria compreender o prestígio des- gia , nem fechar sobre mim o universo da ciê ncia . Tudo aquilo
se mito e a origem dessa moda , e a seriedade filosófica traduzirá que sei do mundo , mesmo por ciê ncia , eu o sei a partir de
essa situação dizendo que a fenomenologia se deixa praticar e reconhe- uma visão minha ou de uma experiê ncia do mundo sem a
cer como maneira ou como estilo; ela existe como movimento antes de ter qual os símbolos da ciê ncia n ão poderiam dizer nada. Todo
chegado a uma inteira consciência filosófica . Ela est á a caminho desde o universo da ciê ncia é constru ído sobre o mundo vivido , e
muito tempo ; seus discípulos a reencontram em todas as partes , se queremos pensar a pró pria ciê ncia com rigor , apreciar exa-
em Hegel e em Kierkegaard , seguramente , mas també m em tamente seu sentido e seu alcance , precisamos primeiramen -
Marx, em Nietzsche , em Freud . Um comentá rio filoló gico dos te despertar essa experiê ncia do mundo da qual ela é a ex-
textos não produziria nada: só encontramos nos textos aquilo pressão segunda . A ciê ncia não tem e n ão terá jamais o mes-
que nós colocamos ali , e , se alguma vez a histó ria exigiu nossa mo sentido de ser que o mundo percebido , pela simples ra-
/
zão de que ela é uma determinação ou uma explicação dele .
interpretação , é exatamente a histó ria da filosofia. E em nós mes-
Eu sou n ão um “ ser vivo ” ou mesmo um “ homem ” ou mes-
mos que encontramos a unidade da fenomenologia e seu verda-
mo “ uma consciência ” , com todos os caracteres que a zoo-
deiro sentido. A questão n ão é tanto a de enumerar citações quan-
logia , a anatomia social ou a psicologia indutiva reconhecem
to a de fixar e objetivar esta fenomenologia para nós que faz com
que , lendo Husserl ou Heidegger , v á rios de nossos contempo-
a esses produtos da natureza ou da histó ria
absoluta; minha experiê ncia n ão prové de
m
— eu sou a fonte
meus anteceden -
râneos tenham tido o sentimento muito menos de encontrar uma
,
tes , de meu ambiente f ísico e social ela caminha em direção
filosofia nova do que de reconhecer aquilo que eles esperavam . faz para mim (e
a eles e os sustenta , pois sou eu quem ser
A fenomenologia só é acessível a um método fenomenológico.
portanto ser no ú nico sentido que a palavra possa ter para
Tentemos portanto ligar deliberadamente os famosos temas feno- mim ) essa tradiçã o que escolho retomar , ou este horizonte

/
4 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO PREFÁ CIO 5

cuja distância em relação a mim desmoronaria , visto que ela sa experiência do mundo , remonta ao sujeito como a uma
n ão lhe pertence como uma propriedade , se eu n ão estivesse condição de possibilidade distinta dela , e mostra a síntese uni-
l á para percorrê-la com o olhar . As representações cient íficas versal como aquilo sem o que n ão haveria mundo . Nessa me-
segundo as quais eu sou um momento do mundo são sempre dida , ela deixa de aderir à nossa experiê ncia , ela substitui a
ingé nuas e hipócritas , porque elas subentendem , sem men - um relato uma reconstrução . Compreende - se atrav é s disso
cion á - la , essa outra visão , aquela da consciê ncia , pela qual que Husserl tenha podido censurar em Kant um “ psicolo-
antes de tudo um mundo se dispõe em torno de mim e come - gismo das faculdades da alma ” 3 e opor a uma análise noéti -
ç a a existir para mim . Retornar às coisas mesmas é retornar ca que faz o mundo repousar na atividade sinté tica do sujei -
a este mundo anterior ao conhecimento do qual o conheci- to a sua “ reflexão noemática \ que reside no objeto e explicita
mento sempre fala , e em relação ao qual toda determinação sua unidade primordial em lugar de engendr á-la.
científica é abstrata , significativa e dependente , como a geo- ; O mundo está ali antes de qualquer análise que eu pos-
grafia em relação à paisagem — primeiramente n ós apren -
demos o que é uma floresta , um prado ou um riacho .
sa fazer dele , e seria artificial fazê - lo derivar de uma sé rie de
sínteses que ligariam as sensações , depois os aspectos pers-
Este movimento é absolutamente distinto do retorno { pectives do objeto , quando ambos são justamente produtos
idealista à consciê ncia , e a exigê ncia de uma descrição pura da an álise e n ão devem ser realizados antes dela . A an álise
exclui tanto o procedimento da an álise reflexiva quanto o da i reflexiva acredita seguir em sentido inverso o caminho de uma
explicação cient ífica. Descartes e sobretudo Kant desligaram constituição prévia , e atingir no “ homem interior ” , como diz
o sujei.to ou a consciê ncia , fazendo ver que eu n ão poderia santo Agostinho , um poder constituinte que ele sempre foi .
apreender nenhuma coisa como existente se primeiramente Assim a reflexão arrebata-se a si mesma e se recoloca em uma
eu não me experimentasse existente no ato de apreend ê - la ; subjetividade invulnerável , para aqu é m do ser e do tempo.
eles fizeram aparecer a consciê ncia , a absoluta certeza de mim Mas isso é uma ingenuidade ou , se se preferir, uma reflexão
para mim , como a condição sem a qual n ão haveria absolu - incompleta que perde a consciê ncia de seu pró prio come ço.
tamente nada , e o ato de ligação como o fundamento do liga - Eu comecei a refletir , minha reflexão é reflexão sobre um ir-
do . Sem duvida , o ato de ligação n ão é nada sem o espet ácu - refletido , ela n ão pode ignorar-se a si mesma como aconteci-
lo do mundo que ele liga ; a unidade da consciê ncia , em Kant , mento , logo ela se manifesta como uma verdadeira criação ,
é exatamente contemporâ nea da unidade do mundo e , em como uma mudan ça de estrutura da consciê ncia , e cabe-lhe
Descartes , a d ú vida metódica n ão nos faz perder nada , visto reconhecer , para aqu é m de suas pró prias operações , o mun -
que o mundo inteiro , pelo menos a t ítulo de experiê ncia nos- do que é dado ao sujeito , porque o sujeito é dado a si mesmo .
sa , é reintegrado ao Cogito , certo com ele , e apenas afetado O real deve ser descrito , n ão constru ído ou constitu ído. Isso
pelo índice “ pensamento de . .. ” . Mas as relações entre o su - quer dizer que n ão posso assimilar a percepção às s ínteses que
são da ordem do ju ízo , dos atos ou da predicação. A cada
jeito e o mundo n ão são rigorosamente bilaterais: se elas o
fossem , a certeza do mundo , em Descartes , seria imediata- momento , meu campo perceptivo é preenchido de reflexos ,
mente dada com a certeza do Cogito , e Kant n ão falaria de de estalidos , de impressões t á teis fugazes que n ão posso ligar
“ inversão copernicana ” . A an álise reflexiva , a partir de nos- de maneira precisa ao contexto percebido e que , todavia , eu
6 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO PREFÁ CIO 7

-
situo imediatamente no mundo , sem confundi los nunca com portante. Durante muito tempo , e até em textos recentes , a
minhas divagações. A cada instante também eu fantasio acerca redu ção era apresentada como o retorno a uma consciê ncia
de coisas , imagino objetos ou pessoas cuja presença aqui n ão transcendental diante da qual o mundo se desdobra em uma
é incompat ível com o contexto , e todavia eles n ão se mistu - transparê ncia absoluta , animado do começo ao fim por uma
ram ao mundo , eles est ão adiante do mundo , no teatro do sé rie de apercepções que caberia ao filósofo reconstituir a par-
imagin á rio . Se a realidade de minha percepção só estivesse tir de seu resultado . Assim , minha sensação do vermelho é
fundada na coerência intrínseca das “ representações ” , ela de- apercebida como manifestação de um certo vermelho sentido ,
veria ser sempre hesitante e , abandonado às minhas conjec- este como manifestação de uma superf ície vermelha , esta co-
turas prováveis , eu deveria a cada momento desfazer sínte - mo manifestação de um papelão vermelho , e este enfim co-
ses ilusó rias e reintegrar ao real fen ô menos aberrantes que mo manifestaçã o ou perfil de uma coisa vermelha , deste li-
primeiramente eu teria exclu ído dele . N ão é nada disso . O vro. Seria portanto a apreensão de uma certa hylè como sig-
real é um tecido sólido , ele n ão espera nossos ju ízos para ane- nificando um fenômeno de grau superior , a Sinn -gebung , a ope-
xar a si os fenômenos mais aberrantes, nem para rejeitar nos - ração ativa de significação , que definiria a consciê ncia , e o
sas imaginações mais verossímeis. A percepção n ão é uma mundo n ão seria nada de distinto da “ significação mundo 5 5
ciê ncia do mundo , n ão é nem mesmo um ato , uma tomada a redu ção fenomenoló gica seria idealista , no sentido de um
de posição deliberada; ela é o fundo sobre o qual todos os atos idealismo transcendental que trata o mundo como uma uni -
>
se destacam e ela é pressuposta por eles. O mundo n ão é um :
dade de valor indiviso entre Paulo e Pedro , na qual suas pers-
objeto do qual possuo comigo a lei de constituição; ele é o pectivas se recobrem , e que faz a “ consciê ncia de Pedro ” e
meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de a “ consciê ncia de Paulo ” se comunicarem porque a percep-
todas as minhas percepções explícitas. A verdade n ão “ habi- ção do mundo “ por Pedro ” n ão é um feito de Pedro , nem
ta ” apenas o “ homem interior ” 4 , ou , antes , n ão existe ho- a percepção do mundo “ por Paulo ” um feito de Paulo , mas
mem interior , o homem est á no mundo , é no mundo que ele em cada um deles um feito de consciê ncias pré- pessoais cuja
se conhece . Quando volto a mim a partir do dogmatismo do comunicação n ã o representa problema , sendo exigida pela
senso comum ou do dogmatismo da ciência , encontro n ão um própria definição da consciê ncia , do sentido ou da verdade .
foco de verdade intrínseca, mas um sujeito consagrado ao Enquanto sou consciência, quer dizer , enquanto algo tem sen -
mundo. tido para mim , n ão estou nem aqui nem ali , n ão sou nem
y y
Pedro nem Paulo, n ão me distingo em nada de uma “ outra
consciê ncia , já que nós somos todos presen ças imediatas no
Através disso , vê-se o sentido verdadeiro da célebre re- mundo e já que este mundo é por definição ú nico , sendo o
du ção fenomenológica . Sem d ú vida , n ão existe quest ão em sistema das verdades . Um idealismo transcendental conse -
relação à qual Husserl tenha despendido mais tempo em qü ente despoja o mundo de sua opacidade e de sua transcen -
compreender - se a si mesmo — també m n ão existe quest ão
à qual ele tenha mais freq ü entemente retornado , já que a
d ê ncia . O mundo é aquilo mesmo que n ós nos representa-
mos , n ão como homens ou como sujeitos empíricos , mas en -
<<
problem ática da redu ção ” ocupa nos inéditos um lugar im - quanto somos todos uma ú nica luz e enquanto participamos
8 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO PREFÁ CIO 9

do Uno sem dividi-lo . A an álise reflexiva ignora o problema descubro em mim um tipo de fraqueza interna que me im -
do outro assim como o problema do mundo , porque ela faz pede de ser absolutamente indivíduo e me expõe ao olhar dos
surgir em mim , com o primeiro lampejo de consciê ncia , o outros como um homem entre os homens, ou pelo menos uma
poder de dirigir- me a uma verdade de direito universal , e por- consciê ncia entre as consciê ncias . Até hoje , o Cogito desvalo-
que sendo o outro també m sem ecceidade , sem lugar e sem rizava a percepção de um outro, ele me ensinava que o Eu
corpo , o Alter e o Ego são um só no mundo verdadeiro , elo só é acess ível a si mesmo , já que ele me definia pelo pensa-
dos espíritos . N ão existe dificuldade para se compreender co - mento que tenho de mim mesmo e que sou evidentemente
mo Eu posso pensar o Outro porque o Eu e , por conseguin - o ú nico a ter , pelo menos nesse sentido ú ltimo . Para que ou -
te , o Outro n ão est ão presos no tecido dos fen ô menos e mais tro n ão seja uma palavra vã , é preciso que minha existê ncia
valem do que existem . N ão há nada de escondido atrás des- nunca se reduza à consciê ncia que tenho de existir , que ela
tes rostos ou destes gestos , nenhuma paisagem para mim ina- envolva també m a consciê ncia que dele se possa ter e , por -
cess ível , apenas um pouco de sombra que só existe pela luz . tanto , minha encarnação em uma natureza e pelo menos a
Para Husserl , ao contr á rio , sabemos que existe um proble - possibilidade de uma situação histó rica . O Cogito deve revelar-
ma do outro e o alter ego é um paradoxo . Se o outro é verda- me em situação , e é apenas sob essa condição que a subjeti-
deiramente para si para alé m de seu ser para mim , e se n ós vidade transcendental poderá , como diz Husserl 3 , ser uma
i
somos um para o outro e não um e outro para Deus, é preci- intersubjetividade. Enquanto Ego m éditante , posso distinguir
so que apareç amos um ao outro , é preciso que ele tenha e muito bem de mim o mundo e as coisas , já que seguramente
que eu tenha um exterior , e que exista , alé m da perspectiva eu n ão existo à maneira das coisas . Devo at é mesmo afastar
do Para Si — — minha visão sobre mim e a visão do outro so- de mim o meu corpo , entendido como uma coisa entre as
bre ele mesmo , uma perspectiva do Para Outro
visão sobre o Outro e a visão do Outro sobre mim . Certa-
— minha coisas , como uma soma de processos f ísico-qu ímicos . Mas a
cogitatio que assim descubro , se est á sem lugar no tempo e
mente , estas duas perspectivas , em cada um de n ós , n ão po- no espaç o objetivos , n ão est á sem lugar no mundo fenome -
dem estar simplesmente justapostas , pois então não seria a mim noló gico . O mundo que eu distinguia de mim enquanto so-
que o outro veria e não seria a ele que eu veria. E preciso que eu ma de coisas ou de processos ligados por relações de causali-
seja meu exterior , e que o corpo do outro seja ele mesmo . dade , eu o redescubro < em mim enquanto horizonte per-
í 5?

Esse paradoxo e essa dialé tica do Ego e do Alter só são possí- manente de todas as minhas cogitationes e como uma dimen -
veis se o Ego e o Alter Ego são definidos por sua situação e são em relação à qual eu n ão deixo de me situar . O verda-
n ão liberados de toda inerê ncia , quer dizer , se a filosofia n ão ï deiro Cogito n ão define a existência do sujeito pelo pensamento
se completa com o retorno ao eu , e se descubro pela reflex ão de existir que ele tem , n ão converte a certeza do mundo em
n ão apenas minha presença a mim mesmo mas també m a pos - certeza do pensamento do mundo e , enfim , n ã o substitui o
sibilidade de um “ espectador estrangeiro ” , quer dizer , se tam- pró prio mundo pela significação mundo . Ele reconhece , ao
bé m , no pró prio momento em que experimento minha exis- contrá rio , meu pró prio pensamento como um fato inalien á -
t ê ncia , e at é nesse cume extremo da reflexão , eu careço ain - vel , e elimina qualquer espé cie de idealismo revelando- me
da desta densidade absoluta que me faria sair do tempo , e como <<
ser no mundo ” .
10 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO PREFÁ CIO 11

E porque somos do começo ao fim relação ao mundo que nossas reflexões tê m lugar no fluxo temporal que elas procu -
a ú nica maneira , para n ós , de apercebermo- nos disso é sus- ram captar ( porque elas sich einstròmen , como diz Husserl ) , n ão
pender este movimento , recusar-lhe nossa cumplicidade (enca- existe pensamento que abarque todo o nosso pensamento Ò f
,

rá-lo ohne mitzumachen , diz freq ü entemente Husserl ) , ou ain - filósofo , dizem ainda os inéditos , é algué m que perpetuamente
da colocá - lo fora de jogo. N ão porque se renuncie às certezas começa . Isso significa que ele n ão considera como adquirido

— —
do senso comum e da atitude natural elas são , ao contrá- nada do que os homens ou os cientistas acreditam saber. Isso
rio , o tema constante da filosofia , mas porque , justamen- també m significa que a filosofia n ão deve considerar- se a si
te enquanto pressupostos de todo pensamento , elas são “ evi- mesma como adquirida naquilo que ela pôde dizer de verda-
dentes ” , passam despercebidas e porque , para despert á-las deiro , que ela é uma experiê ncia renovada de seu pró prio co-
e fazê -las aparecer , precisamos abster- nos delas por um ins- meço , que toda ela consiste em descrever este começo e , en -
tante . A melhor fó rmula da redução é sem d ú vida aquela que fim , que a reflex ão radical é consciê ncia de sua pró pria de -
lhe dava Eugen Fink , o assistente de Husserl , quando falava pend ê ncia em relação a uma vida irrefletida que é sua situa-
de uma “ admiração ” diante do mundo6 . A reflexão n ão se ção inicial , constante e final . Longe de ser , como se acredi-
retira do mundo em direção à unidade da consciência enquan- tou , a fó rmula de uma filosofia idealista , a redu ção fenome-
to fundamento do mundo; ela toma dist ância para ver brotar nol ógica é a fó rmula de uma filosofia existencial : o “ In -der-
as transcend ê ncias , ela distende os fios intencionais que nos Welt -Sein ” de Heidegger só se manifesta sobre o fundo da
ligam ao mundo para fazê -los aparecer , ela só é consciê ncia redução fenomenoló gica .
do mundo porque o revela como estranho e paradoxal . O
transcendental de Husserl n ão é o de Kant , e Husserl censu -
ra a filosofia kantiana por ser uma filosofia “ mundana ” por- Um mal -entendido do mesmo gê nero confunde a noção
que ela utiliza nossa relação ao mundo , que é o motor da de- das “ essê ncias ” em Husserl . Toda redu ção , diz Husserl , ao
du ção transcendental , e torna o mundo imanente ao sujeito , mesmo tempo em que é transcendental , é necessariamente
em lugar de admirar-se dele e conceber o sujeito como trans- eid é tica . Isso significa que n ão podemos submeter nossa per-
cendência em direção ao mundo. Todo o mal-entendido de cepção do mundo ao olhar filosófico sem deixarmos de nos
Husserl com seus int é rpretes , com os “ dissidentes 5 existen -
5
unir a essa tese do mundo , a esse interesse pelo mundo que
ciais e , finalmente , consigo mesmo prové m do fato de que , nos define , sem recuarmos para aqué m de nosso engajamen -
justamente para ver o mundo e apreendê-lo como paradoxo, to para fazer com que ele mesmo apareça como espet áculo ,
é preciso romper nossa familiaridade com ele , e porque essa sem passarmos do fato de nossa existê ncia à natureza de nossa
ruptura só pode ensinar- nos o brotamento imotivado do mun- exist ê ncia , do Dasein ao Wesen. Mas é claro que aqui a essê n -
do . O maior ensinamento da redu ção é a impossibilidade de cia n ão é a meta , que ela é um meio , que nosso engajamento
uma redu ção completa . Eis por que Husserl sempre volta a efetivo no mundo é justamente aquilo que é preciso compreen-
se interrogar sobre a possibilidade da redu ção . Se fôssemos der e conduzir ao conceito e que polariza todas as nossas fi-
o espírito absoluto , a redu ção não seria problem ática . Mas xações conceituais. A necessidade de passar pelas essê ncias
porque , ao contrá rio , n ós estamos no mundo , já que mesmo n ão significa que a filosofia as tome por objeto , mas , ao con -
12 FENOMENOL0GIA DA PERCEPÇAO PREFÁ CIO 13

trá rio , que nossa existê ncia est á presa ao mundo de maneira Buscar a essê ncia da consciê ncia n ão será , portanto , de -
demasiado estreita para conhecer-se enquanto tal no momento senvolver a Wortbedeutung consciê ncia e fugir da existê ncia no
em que se lanç a nele , e que ela precisa do campo da idealida- universo das coisas ditas; será reencontrar essa presença efe-
de para conhecer e conquistar sua facticidade . A Escola de tiva de mim a mim , o fato de minha consciê ncia , que é aqui -
Viena , como se sabe , admite de uma vez por todas que n ós lo que querem dizer , finalmente , a palavra e o conceito de
só podemos ter relação com significações . A “ consciê ncia ” , consciê ncia . Buscar a essê ncia do mundo n ão é buscar aqui-
por exemplo , n ão é para a Escola de Viena aquilo mesmo que lo que ele é em ideia , uma vez que o tenhamos reduzido a
nós somos . E uma significação tardia e complicada que só tema de discurso , é buscar aquilo que de fato ele é para n ós
dever íamos utilizar com circunspecção e depois de ter expli- antes de qualquer tematização . O sensualismo “ reduz ” o
citado as numerosas significações que contribu í ram para de - mundo , observando que , no final das contas , n ós só temos
termin á-la no decurso da evolução sem â ntica da palavra . Es- estados de nós mesmos . O idealismo transcendental també m
te positivismo lógico est á nos ant ípodas do pensamento de “ reduz ” o mundo , já que , se ele o torna certo , é a t ítulo de
Husserl . Quaisquer que possam ter sido os deslizamentos de pensamento ou consciê ncia do mundo e como o simples cor-
sentido que finalmente nos entregaram a palavra e o concei- relativo de nosso conhecimento , de forma que ele se torna ima-
to de consciê ncia enquanto aquisição da linguagem , n ós te- nente à consciê ncia e atravé s disso a aseidade das coisas est á
mos um meio direto de ter acesso àquilo que ele designa, n ós suprimida . A redução eidética , ao contrário , é a resolução
temos a experiê ncia de n ós mesmos , dessa consciê ncia que de fazer o mundo aparecer tal como ele é antes de qualquer
somos , e é a partir dessa experiê ncia que se medem todas as retorno sobre n ós mesmos , é a ambição de igualar a reflex ão
significações da linguagem , é justamente ela que faz com que à vida irrefletida da consciê ncia . Eu viso e percebo um mun -
a linguagem queira dizer algo para n ós. “ E a experiê ncia ( . . . ) do . Se eu dissesse , com o sensualismo, que ali só existem “ es-
ainda muda que se trata de levar à expressão pura de seu pró- tados de consciê ncia ” , e se eu procurasse , através de “ crit é -
prio sentido. > > 7 As essê ncias de Husserl devem trazer consi- rios ” , distinguir minhas percepções de meus sonhos, eu dei-
go todas as relações vivas da experiência , assim como a rede xaria escapar o fen ô meno do mundo . Pois se posso falar de
traz do fundo do mar os peixes e as algas palpitantes. Por- “ sonhos ” e de “ realidade ” , se posso interrogar- me sobre a
tanto n ão se deve dizer , com J . Wahl8, que “ Husserl sepa- distin ção entre o imagin á rio e o real , e pô r em d ú vida o
ra as essê ncias da exist ê ncia ” . As essê ncias separadas são as i í
real ” , é porque essa distin ção já est á feita por mim antes
da linguagem . E função da linguagem fazer as essê ncias exis- da an álise , é porque tenho uma experiê ncia do real assim co-
tirem em uma separação que , na verdade , é apenas aparen - mo do imagin á rio , e o problema é agora n ão o de investigar
te , j á que atravé s da linguagem as essê ncias ainda repousam como o pensamento crítico pode se dar equivalentes secun -
na vida antepredicativa da consciê ncia . No silê ncio da cons - d á rios dessa distinção , mas o de explicitar nosso saber pri-
ciê ncia origin ária , vemos aparecer n ão apenas aquilo que as mordial do “ real ” , o de descrever a percepção do mundo co-
palavras querem dizer , mas ainda aquilo que as coisas que - mo aquilo que funda para sempre a nossa idé ia da verdade .
rem dizer , o n ú cleo de significação prim á rio em torno do qual Portanto , não é preciso perguntar- se se n ós percebemos ver-
se organizam os atos de denominação e de expressão . dadeiramente um mundo , é preciso dizer , ao contrá rio: o
14 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO PREFÁ CIO 15

mundo é aquilo que n ós percebemos. Mais geralmente , n ão Podemos agora chegar à noção de intencionalidade , fre-
é preciso se perguntar se nossas evidências são mesmo ver- q ü entemente citada como a descoberta principal da fenome-
dades , ou se , por um v ício de nosso espírito , aquilo que é evi- nologia , enquanto ela só é compreensível pela redução. “ Toda
dente para nós n ão seria ilusó rio com referê ncia a alguma ver- consciê ncia é consciê ncia de algo” ; isso não é novo . Kant mos-
dade em si : pois , se falamos de ilus ão , é porque reconhece- trou , na Refutação do Idealismo , que a percepção interior é im -
mos ilusões , e só pudemos fazê -lo em nome de alguma per- possível sem percepção exterior , que o mundo , enquanto co-
cepção que , no mesmo instante , se atestava como verdadei- nex ão dos fenômenos, é antecipado na consciê ncia de minha
ra , de forma que a d ú vida , ou o temor de se enganar , afirma unidade , é o meio para mim de realizar- me como consciê n -
ao mesmo tempo nosso poder de desvelar o erro e n ão pode- cia . O que distingue a intencionalidade da relação kantiana
ria , portanto , desenraizar- nos da verdade . Nós estamos na a um objeto poss ível é que a unidade do mundo , antes de ser
verdade , e a evid ê ncia é “ a experiê ncia da verdade ” 9. Bus- posta pelo conhecimento e em um ato expresso de identifica-
car a essê ncia da percepção é declarar que a percepção é n ão ção , é vivida como já feita ou já dada . O próprio Kant mos-
tra , na Crítica do Juízo , que h á uma unidade entre a imagina-
^
presumida verdadeira , mas definida por n ós como acesso à
verdade . Se agora eu quisesse , com o idealismo , fundar essa ção e o entendimento , uma unidade entre os sujeitos antes do
evidê ncia de fato , essa cren ça irresistível , em uma evidê ncia objeto , e que na experiê ncia do belo , por exemplo , eu experi-
mento um acordo entre o sens ível e o conceito , entre mim
absoluta , quer dizer , na absoluta clareza para mim de meus
e o outro , que é ele mesmo sem conceito . Aqui , o sujeito n ão
pensamentos , se eu quisesse reencontrar em mim um pensa-
é mais o pensador universal de um sistema de objetos rigoro-
mento naturante que formasse a armação do mundo ou o ilu -
samente ligados , a potê ncia que põe e submete o m ú ltiplo à
minasse do começo ao fim , eu seria mais uma vez infiel à mi-
lei do entendimento, se é que ele deve poder formar um mun-
nha experiê ncia do mundo e procuraria aquilo que a torna
possível em lugar de buscar aquilo que ela é . A evidê ncia da
do — ele se descobre e se experimenta como uma natureza
espontaneamente conforme à lei do entendimento . Mas , se
percepção n ão é o pensamento adequado ou a evidê ncia existe uma natureza do sujeito , ent ão a arte escondida da ima-
apodítica10 . O mundo é n ão aquilo que eu penso , mas aqui- ginação deve condicionar a atividade caté gorial ; n ão apenas
lo que eu vivo; eu estou aberto ao mundo, comunico- me in- o ju ízo esté tico , mas també m o conhecimento repousa nela ,
dubitavelmente com ele , mas não o possuo , ele é inesgot á- é ela que funda a unidade da consciê ncia e das consciê ncias .
vel. “ H á um mundo ” , ou , antes, “ há o mundo ” ; dessa tese Husserl retoma a Crítica do Juízo quando fala de uma teleolo-
constante de minha vida n ão posso nunca inteiramente dar gia da consciê ncia . Não se trata de duplicar a consciê ncia hu -
razão . Essa facticidade do mundo é o que faz a Weltlichkeit mana com um pensamento absoluto que , do exterior , lhe atri-
der welt , o que faz com que o mundo seja mundo , assim como buiria os seus fins. Trata- se de reconhecer a pró pria cons-
a facticidade do Cogito n ão é nele uma imperfeição , mas , ao ciê ncia como projeto do mundo , destinada a um mundo que
contrá rio , aquilo que me torna certo de minha existê ncia. O ela n ão abarca nem possui , mas em direção ao qual ela n ão
método eid é tico é o de um positivismo fenomenológico que
funda o possível no real.
cessa de se dirigir — e o mundo como este indivíduo pré-
objetivo cuja unidade imperiosa prescreve à consciê ncia a sua
16 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO PREFÁ CIO 17

meta. E por isso que Husserl distingue entre a intencionali - ção. Eu acreditava ter-me calado por fadiga , tal ministro acre-
dade de ato, que é aquela de nossos ju ízos e de nossas toma- ditava só ter dito uma frase de circunst ância , e eis que meu
das de posição volunt á rias, a ú nica da qual a Critica da Razão silê ncio ou sua fala adquirem um sentido , porque minha fa -
Pura falou , e a intencionalidade operante (Jungierende Intentio - diga ou o recurso a uma frase feita n ão são fortuitos , eles ex -
nalitàt ) , aquela que forma a unidade natural e antepredicati- primem certo desinteresse e , portanto , certa tomada de posi -
va do mundo e de nossa vida , que aparece em nossos dese - ção em relaçã o à situação . Em um acontecimento considera-
jos , nossas avaliações , nossa paisagem , mais claramente do do de perto , no momento em que é vivido , tudo parece ca-
que no conhecimento objetivo , e fornece o texto do qual nos- minhar ao acaso : a ambi ção deste , tal encontro favor á vel , tal
sos conhecimentos procuram ser a tradu ção em linguagem circunst â ncia local parecem ter sido decisivos. Mas os acasos
exata . A relação ao mundo , tal como infatigavelmente se pro- se compensam e eis que essa poeira de fatos se aglomera , de -
nuncia em nós , n ão é nada que possa ser tornado mais claro senha certa maneira de tomar posição a respeito da situação
por uma an álise: a filosofia só pode recolocá-la sob nosso olhar , humana , desenha um acontecimento cujos contornos são defi -
oferecê -la à nossa constatação . nidos e do qual se pode falar . Deve -se compreender a hist ó-
Graças a essa noção ampliada da intencionalidade , a ria a partir da ideologia , ou a partir da pol ítica , ou a partir
“ compreensão ” fenomenológica distingue- se da “ intelecção ” da religi ão , ou então a partir da economia ? Deve-se compreen -
clássica , que se limita às “ naturezas verdadeiras e imut áveis ” , der uma doutrina por seu conte ú do manifesto ou pela psico-
e a fenomenologia pode tornar- se uma fenomenologia da gé- logia do autor e pelos acontecimentos de sua vida ? Deve-se
nese . Quer se trate de uma coisa percebida , de um aconteci - compreender de todas as maneiras ao mesmo tempo , tudo
mento histó rico ou de uma doutrina , “ compreender ” é tem um sentido , n ós reencontramos sob todos os aspectos a
reapoderar-se da inten ção total — n ão apenas aquilo que s ão
para a representação as “ propriedades ” da coisa percebida,
mesma estrutura de ser . Todas essas visões são verdadeiras ,
sob a condição de que não as isolemos, de que caminhemos
a poeira dos “ fatos histó ricos ” , as “ idé ias ” introduzidas pe - até o fundo da hist ó ria e encontremos o n ú cleo ú nico de sig-

la doutrina , mas a maneira ú nica de existir que se expri-
me nas propriedades da pedra , do vidro ou do pedaço de cer-
nificação existencial que se explicita em cada perspectiva . E
verdade , como diz Marx , que a hist ó ria n ão anda com a ca-
ca , em todos os fatos de uma revolu ção , em todos os pensa- beç a , mas també m é verdade que ela n ão pensa com os pés .
mentos de um filósofo. Em cada civilização , trata-se de reen - Ou , antes, n ós não devemos ocupar- nos nem de sua “ cabe -
contrar a Idé ia no sentido hegeliano , quer dizer , n ão uma lei ça ” , nem de seus “ pé s ” , mas de seu corpo . Todas as expli-
do tipo f ísico- matem á tico , acess ível ao pensamento objetivo , cações econ ó micas , psicológicas de uma doutrina s ão verda-
mas a fó rmula de um comportamento ú nico em relação ao deiras , já que o pensador pensa sempre a partir daquilo que
outro , à Natureza , ao tempo e à morte , uma certa maneira ele é . A pró pria reflexão sobre uma doutrina só será total se
de pô r forma no mundo que o historiador deve ser capaz de ela conseguir fazer sua junção com a hist ó ria da doutrina e
retomar e de assumir. Essas são as dimensões da história. Em com as explicações externas , e se conseguir recolocar as cau -
relação a elas , n ão h á uma palavra , um gesto humano , mes- sas e o sentido da doutrina em uma estrutura de exist ê ncia .
mo distraídos ou habituais , que n ão tenham uma significa- Existe , como diz Husserl , uma “ gé nese do sentido ” ( Sinnge-
18 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO PREFÁ CIO 19

nesis )ui que é a ú nica a nos ensinar , em última análise , aqui- próprios resultados . O filósofo tenta pensar o mundo , o ou -
lo que a doutrina “ quer dizer ” . Assim como a compreen - tro e a si mesmo , e conceber suas relações. Mas o Ego m édi -
s ão , a crítica dever á ser encaminhada em todos os planos e , tante , o “ espectador imparcial ” ( uninteressierter Zuschauer)12
bem entendido , n ão poderemos contentar- nos , para refutar n ão encontram uma racionalidade j á dada , eles “ se estabele-
uma doutrina , em ligá -la a tal acidente da vida do autor : ela cem ” 13 e a estabelecem por uma iniciativa que n ão tem ga-
significa para al é m disso , e não existe acidente puro na exis- rantia no ser e cujo direito repousa inteiramente no poder efe-
t ê ncia nem na coexist ê ncia , já que uma e outra assimilam os tivo que ela nos dá de assumir nossa hist ó ria . O mundo feno-
acasos para formar com eles a razão . Enfim , assim como é menoló gico n ão é a explicitação de um ser pré vio , mas a fun -
indivis ível no presente , a hist ó ria o é na sucessão . Em rela- dação do ser ; a filosofia n ão é o reflexo de uma verdade pré-
ção às suas dimensões fundamentais , todos os períodos his- via mas , assim como a arte , é a realização de uma verdade.
t ó ricos aparecem como manifestações de uma ú nica existê n - Perguntar-se-á como essa realização é possível e se ela n ão reen-
cia ou episódios de um ú nico drama — do qual n ão sabemos
se tem um desenlace . Porque estamos no mundo , estamos con-
contra nas coisas uma Razão preexistente . Mas o ú nico Lo-
gos que preexiste é o pró prio mundo , e a filosofia que o faz
denados ao sentido , e n ão podemos fazer nada nem dizer nada passar à exist ê ncia manifesta n ão começa por ser possível: ela
que n ão adquira um nome na hist ó ria. é atual ou real , assim como o mundo , do qual ela faz parte ,
e nenhuma hipó tese explicativa é mais clara do que o pró-
prio ato pelo qual n ós retomamos este mundo inacabado pa-
A aquisi ção mais importante da fenomenologia foi sem ra tentar totalizá-lo e pensá-lo. A racionalidade n ão é um pro -
d ú vida ter unido o extremo subjetivismo ao extremo objeti- blema , n ão existe detrás dela uma incógnita que tenhamos de
vismo em sua noção do mundo ou da racionalidade . A racio- determinar dedutivamente ou provar indutivamente a partir
nalidade é exatamente proporcional às experiê ncias nas quais dela : nós assistimos , a cada instante , a este prod ígio da cone -
ela se revela . Existe racionalidade , quer dizer : as perspecti- xão das experiê ncias , e ningu é m sabe melhor do que n ós co -
vas se confrontam , as percepções se confirmam , um sentido mo ele se d á , já que n ós somos este laço de relações . O mun -
aparece . Mas ele n ã o deve ser posto à parte , transformado do e a razão n ão representam problemas; digamos , se se qui -
em Esp írito absoluto ou em mundo no sentido realista . O ser , que eles s ão misteriosos , mas este misté rio os define , n ão
mundo fenomenol ógico é n ão o ser puro , mas o sentido que poderia tratar-se de dissipá- lo por alguma “ solu ção ” , ele es-
transparece na intersecção de minhas experiê ncias , e na in- t á para aqu é m das solu ções . A verdadeira filosofia é reapren -
tersecção de minhas experiê ncias com aquelas do outro , pela der a ver o mundo , e nesse sentido uma histó ria narrada po-
engrenagem de umas nas outras ; ele é portanto inseparável de significar o mundo com tanta “ profundidade ” quanto um
da subjetividade e da intersubjetividade que formam sua uni- tratado de filosofia . Nós tomamos em nossas m ãos o nosso
dade pela retomada de minhas experiê ncias passadas em mi- destino , tornamo- nos responsáveis , pela reflexão , por nossa
nhas experiê ncias presentes , da experiê ncia do outro na mi- hist ó ria , mas també m graças a uma decisão em que empe -
nha . Pela primeira vez a meditação do fil ósofo é consciente nhamos nossa vida , e nos dois casos trata-se de um ato vio-
o bastante para n ão realizar no mundo e antes dela os seus lento que se verifica exercendo- se .
20 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

A fenomenologia , enquanto revelação do mundo, repou -


sa sobre si mesma , ou , ainda , funda - se a si mesma 14. Todos
os conhecimentos apó iam -se em um “ solo ” de postulados e ,
finalmente , em nossa comunicação com o mundo como pri-
meiro estabelecimento da racionalidade . A filosofia , enquanto
reflexão radical , priva - se em princ í pio desse recurso . Como INTRODU ÇÃO
est á , ela també m , na hist ó ria , usa , ela també m , o mundo e
a razão constitu ída . Será preciso ent ão que a fenomenologia
dirija a si mesma a interrogação que dirige a todos os conhe -
OS PREJU ÍZOS CLÁSSICOS E O
cimentos; ela se desdobrará ent ão indefinidamente , ela será , RETORNO AOS FENÔMENOS
como diz Husserl , um diálogo ou uma meditação infinita , e ,
na medida em que permanecer fiel à sua intenção , n ão sabe-
r á aonde vai . O inacabamento da fenomenologia e o seu an -
dar incoativo n ão são o signo de um fracasso , eles eram ine -
vit á veis porque a fenomenologia tem como tarefa revelar o
misté rio do mundo e o misté rio da razão15. Se a fenomeno-
logia foi um movimento antes de ser uma doutrina ou um
sistema , isso n ão é nem acaso nem impostura . Ela é laborio-
sa como a obra de Balzac , de Proust , de Valé ry ou de C é zan -
ne — pelo mesmo gê nero de aten çã o e de admiração , pela
mesma exigê ncia de consciê ncia , pela mesma vontade de
apreender o sentido do mundo ou da histó ria em estado nas-
cente . Ela se confunde , sob esse aspecto , com o esforço do
pensamento moderno .
CAPÍTULO I

A “ SENSAÇAO ”

Iniciando o estudo da percepção, encontramos na lin-


guagem a noção de sensação, que parece imediata e clara:
eu sinto o vermelho , o azul , o quente , o frio . Todavia , va-
mos ver que ela é a mais confusa que existe , e que , por tê-la
admitido , as an álises clássicas deixaram escapar o fen ômeno
da percepção .
Eu poderia entender por sensação , primeiramente , a ma-
neira pela qual sou afetado e a experiê ncia de um estado de
mim mesmo . O cinza dos olhos fechados que me envolve sem
dist â ncia , os sons do cochilo que vibram “ em minha cabe-
ça ” indicariam aquilo que pode ser o puro sentir. Eu sentirei
na exata medida em que coincido com o sentido , em que ele
deixa de estar situado no mundo objetivo e em que n ão me
significa nada. O que é admitir que deveríamos procurar a
sensação aqué m de qualquer conte ú do qualificado , já que o
vermelho e o verde , para se distinguirem um do outro como
duas cores , precisam estar diante de mim , mesmo sem loca-
lização precisa , e deixam portanto de ser eu mesmo. A sen-
sação pura será a experiê ncia de um “ choque ” indiferencia-
do, instant âneo e pontual . N ão é necessário mostrar , já que
os autores concordam com isso , que essa noção n ão corres-
24 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 25

ponde a nada de que tenhamos a experiê ncia , e que as mais sões locais . Mas o objeto visto é feito de fragmentos de mat é -
simples percepçÕes de fato que conhecemos , em animais como ria e os pontos do espaço s ão exteriores uns aos outros . Um
o macaco e a galinha , versam sobre relações e n ão sobre ter- dado perceptivo isolado é inconceb ível , se ao menos fazemos
mos absolutos 1 . Mas resta perguntar- se por que acreditam- a experiê ncia mental de percebê -lo. Mas no mundo existem
se autorizados de direito a distinguir , na experiê ncia percepti- objetos isolados ou vazio físico .
va , uma camada de “ impressões ” . Seja uma mancha bran - Renunciarei portanto a definir a sensação pela impres-
ca sobre um fundo homogé neo. Todos os pontos da mancha s ão pura . Mas ver é obter cores ou luzes , ouvir é obter sons,
tê m em comum uma certa “ fun ção ” que faz deles uma “ fi - sentir é obter qualidades e , para saber o que é sentir , n ão basta
gura ” . A cor da figura é mais densa e como que mais resis- ter visto o vermelho ou ouvido um lá? O vermelho e o verde
tente do que a do fundo; as bordas da mancha branca lhe n ão s ão sensações , são sens íveis , e a qualidade n ão é um ele -
“ pertencem ” e n ão são solid á rias ao fundo todavia cont íguo; mento da consciê ncia , é uma propriedade do objeto . Em vez
a mancha parece colocada sobre o fundo e n ã o o interrompe . de nos oferecer um meio simples de delimitar as sensações ,
se n ós a tomamos na própria experiê ncia que a revela , ela
Cada parte anuncia mais do que ela cont é m , e essa percep - é tão rica e t ão obscura quanto o objeto ou quanto o espet á -
ção elementar já est á portanto carregada de um sentido . Mas
se a figura e o fundo , enquanto conjunto , n ão s ão sentidos culo perceptivo inteiro . Essa mancha vermelha que vejo no
é preciso, dir- se- á, que eles o sejam em cada um de seus pon - tapete , ela só é vermelha levando em conta uma sombra que
tos . Isso seria esquecer que cada ponto , por sua vez , só pode a perpassa , sua qualidade só aparece em relação com os jo-
ser percebido como uma figura sobre um fundo . Quando a gos da luz e , portanto , como elemento de uma configuração
Gestalttheorie nos diz que uma figura sobre um fundo é o dado espacial . Aliás , a cor só é determinada se se estende em uma
sensível mais simples que podemos obter , isso n ão é um ca- certa superf ície ; uma superf ície muito pequena seria inquali -
ráter contingente da percepção de fato , que nos deixaria li- ficável . Enfim , este vermelho n ão seria literalmente o mes-
vres , em uma an álise ideal , para introduzir a noção de im- mo se n ão fosse o “ vermelho lanoso ” de um tapete 2 . A an á-
pressão . Trata-se da pró pria definição do fen ô meno percep- lise descobre portanto , em cada qualidade , significações que
tivo , daquilo sem o que um fenômeno n ão pode ser chamado a habitam . Dir-se-á que se trata ali apenas de qualidades de
de percepção . O “ algo ” perceptivo est á sempre no meio de nossa experiência efetiva , recobertas por todo um saber, e que
conservamos o direito de conceber uma “ qualidade pura ”
outra coisa, ele sempre faz parte de um “ campo ” . Uma su - que definiria o “ puro sentir ” ? Mas , acabamos de vê-lo , este
perfície verdadeiramente homogé nea , n ão oferecendo nada pa-
ra se perceber, n ão pode ser dada a nenhuma percepção . Somente puro sentir redundaria em nada sentir e , portanto , em n ão
a estrutura da percepção efetiva pode ensinar-nos o que é per- sentir de forma alguma . A pretensa evidê ncia do sentir n ão
ceber . Portanto , a pura impressão n ã o apenas é inencontrá- est á fundada em um testemunho da consciê ncia , mas no pre-
vel , mas impercept ível e portanto impensá vel como momen - ju ízo do mundo . N ós acreditamos saber muito bem o que é
to da percepção. Se a introduzem , é porque , em vez de esta- “ ver ” , “ ouvir ” , “ sentir ” , porque h á muito tempo a percep-
rem atentos à experiê ncia perceptiva , a esquecem em benef í- ção nos deu objetos coloridos ou sonoros . Quando queremos
cio do objeto percebido. Um campo visual n ão é feito de vi- analisá-la , transportamos esses objetos para a consciência. Co-
26 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FENÔMENOS 27
metemos o que os psicólogos chamam de “ experience error ,
” que ela n ão é nem negra nem cinza . Há ali uma visão indeter-
quer dizer , supomos de um só golpe em nossa consciência das
minada , uma visão de não sei o quê, e , se passamos ao limite ,
coisas aquilo que sabemos estar nas coisas. Construímos a per-
aquilo que est á atrá s de nós n ão deixa de ter presen ça visual.
cepção com o percebido . E , como o pr óprio percebido só é
Os dois segmentos de reta , na ilusão de M íiller- Lyer (fig . 1 ) ,
evidentemente acess ível através da percepção , n ão compreen -
demos finalmente nem um nem outro . Estamos presos ao
mundo e n ão chegamos a nos destacar dele para passar à cons
ciê ncia do mundo . Se nós o fizéssemos, veríamos que a qua
-
- > <
<— >
lidade nunca é experimentada imediatamente e que toda cons
ciê ncia é consciência de algo. Este “ algo ” aliás não é neces
-
sariamente um objeto identificável . Existem duas maneiras
-
Fig . 1
de se enganar sobre a qualidade: uma é fazer dela um ele
-
mento da consciê ncia , quando ela é objeto para a conscien •A

- n ão são nem iguais nem desiguais ; é no mundo objetivo que


cia , trat á- la como uma impressão muda quando ela tem sem-
essa alternativa se impõe 3 . O campo visual é este meio sin -
pre um sentido ; a outra é acreditar que este sentido e esse
gular no qual as noções contraditórias se entrecruzam por -
objeto , no plano da qualidade , sejam plenos e determinados .
E o segundo erro, assim como o primeiro, provém do prejuí
-

que os objetos as retas de M ü ller - Lyer — n ão est ão postos
ali no terreno do ser , em que uma comparação seria possí -
zo do mundo. N ós constru ímos , pela ó tica e pela geometria
o fragmento do mundo cuja imagem pode formar se a
, vel , mas s ão apreendidos cada um em seu contexto particu -
-
momento em nossa retina . Tudo aquilo que est á fora desse
cada lar , como se n ão pertencessem ao mesmo universo. Durante
muito tempo os psicólogos empenharam -se em ignorar esses
per ímetro , n ão se refletindo em nenhuma superf ície sensível ,
fenô menos . No mundo tomado em si tudo é determinado.
n ão age sobre nossa vis ão mais do que a luz em nossos olhos
H á muitos espet áculos confusos , como uma paisagem em um
fechados . Dever íamos portanto perceber um segmento do
dia de n é voa , mas justamente n ós sempre admitimos que ne-
mundo contornado por limites precisos, envolvido por uma
nhuma paisagem real é em si confusa. Ela só o é para nós.
zona negra , preenchido sem lacunas por qualidades , apoia
- O objeto , dirão os psicólogos , nunca é ambíguo; ele só se torna
do em relações de grandeza determinadas como as que exis
- ambíguo por desatenção. Os limites do campo visual n ão são
tem na retina . Ora , a experiê ncia n ão oferece nada
de seme - eles mesmos vari áveis , e há um momento em que o objeto
lhante e nós nunca compreenderemos , a partir do mundo,
o que é um campo visual . Se é possível desenhar um per ímetro
que se aproxima começa absolutamente a ser visto, simples -
de visão aproximando pouco a pouco os est ímulos laterais
mente n ós n ão o “ notamos ” 4. Mas a noção de aten ção , co -
do mo o mostraremos mais amplamente , n ão tem a seu favor
centro , os resultados da mensuração variam de um
momen - nenhum testemunho da consciê ncia . Ela é apenas uma hipó -
to ao outro e nunca se chega a determinar o momento
em
que um est ímulo inicialmente visto deixa de sê -lo . Não é fá-
tese auxiliar que se forja para salvar o preju ízo do mundo ob -
cil descrever a regi ão que rodeia o campo visual , mas é
jetivo. Precisamos reconhecer o indeterminado como um fe -
certo nômeno positivo . E nessa atmosfera que se apresenta a qua -
.1

28 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO
29
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS

lidade . O sentido que ela contém é um sentido equ ívoco , trata- pio , uma correspondê ncia pontual e uma conexão constante
se antes de um valor expressivo que de uma significação lógi-
entre o est ímulo e a percepção elementar . Mas essa “ hipóte -
ca . A qualidade determinada , pela qual o empirismo queria
se de const â ncia ” 8 entra em conflito com os dados da cons-
definir a sensação , é um objeto , n ão um elemento da cons- ciê ncia , e os pró prios psicólogos que a admitem reconhecem
ciê ncia , e é o objeto tardio de uma consciê ncia cient ífica . Por
seu car á ter te ó rico9. Por exemplo , a forç a do som , sob cer-
esses dois motivos , ela mais mascara a subjetividade do que
tas condições, faz com que ele perca a altura , a adjun ção de
a revela .
linhas auxiliares torna desiguais duas figuras objetivamente
As duas defini ções de sensação que acabamos de testar
iguais10 , uma superfície colorida parece ter para n ós a mes-
só aparentemente eram diretas . Acabamos de vê - lo , elas se
ma cor em toda a sua extensão , quando os limiares crom áti -
modelavam pelo objeto percebido. No que estavam de acor-
cos das diferentes regiões da retina deveriam fazê-la aqui ver-
do com o senso comum que , també m ele , delimita o sensível
melha , ali alaranjada , em certos casos at é mesmo acrom á-
pelas condições objetivas das quais depende . O visível é o que tica11. Esses casos em que o fen ô meno n ão adere ao est ímu -
se apreende com os olhos , o sensível é o que se apreende pelos
lo devem ser mantidos no quadro da lei de const â ncia e ex-
sentidos . Sigamos a id é ia de sensação nesse terreno5 , e veja-
mos em que se tornam , no primeiro grau de reflexão que é
y y y y
a ciê ncia , este “ pelos e esse corn e a noção de ó rgão dos
( í
— —
plicados por fatores adicionais aten ção e ju ízo ou ent ão
é preciso rejeitar a pró pria lei ? Quando o vermelho e o ver-
de , apresentados em conjunto , d ão uma resultante cinza ,
sentidos . Na falta de uma experiê ncia da sensação , será que
admite - se que a combinação central dos est ímulos pode ime -
n ós encontramos , pelo menos em suas causas e em sua gé ne-
diatamente dar lugar a uma sensação diferente daquilo que
se objetiva , razões para mantê -la enquanto conceito explica-
exigiriam os est ímulos objetivos. Quando a grandeza aparente
tivo? A fisiologia , à qual o psicólogo se dirige como a uma
de um objeto varia com sua dist â ncia aparente , ou sua cor
inst â ncia superior , est á no mesmo embaraço que a psicolo-
aparente com as recordações que dela temos , reconhece-se que
gia . Ela també m come ç a por situar seu objeto no mundo e
“ os processos sensoriais n ão são inacessíveis a influências cen-
por trat á-lo como um fragmento de extensão . Assim o com- trais ” 12 . Neste caso, portanto , o “ sensível ” n ão pode mais
portamento acha- se escondido pelo reflexo , a elaboração e a en- ser definido como o efeito imediato de um est ímulo exterior.
formação dos est ímulos , por uma teoria longitudinal do fun - A mesma conclusão n ão se aplicaria aos três primeiros exem -
cionamento nervoso, que por princípio faz corresponder a ca-
plos que citamos? Se a aten ção , se uma ordem mais precisa ,
da elemento da situação um elemento da reação6. Assim co-
se o repouso, se o exercício prolongado finalmente restabele -
mo a teoria do arco reflexo, a fisiologia da percepção começ a
cem percepções conformes à lei de const â ncia , isso n ão pro-
por admitir um trajeto anatô mico que conduz de um receptor , va seu valor geral , pois , nos exemplos citados , a primeira apa-
determinado por um transmissor definido , a um centro regis-
rência tinha um car á ter sensorial do mesmo modo que os re -
trador 7 , també m ele especializado . Dado o mundo objetivo ,
sultados obtidos finalmente , e a quest ão é saber se a percep-
admite- se que ele confia aos órgãos dos sentidos mensagens
ção atenta , a concentração do sujeito em um ponto do cam -
que devem ent ão ser conduzidas , depois decifradas , de mo-
do a reproduzir em n ós o texto original . Donde , em princí-
po visual — por exemplo , a “ percepção anal ítica ” das duas

linhas principais na ilusã o de M üller- Lyer , em lugar de
30 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 31

revelar a “ sensação normal ” , não substituem o fenô meno ori- tem como efeito não apenas um déficit de certas qualidades ,
ginal por uma montagem excepcional 13. A lei de const â ncia mas a passagem a uma estrutura menos diferenciada e mais
n ão pode prevalecer , contra o testemunho da consciê ncia , gra- primitiva ” 17. Inversamente , o funcionamento normal deve
ç as a alguma experiê ncia crucial em que ela já n ão esteja im - ser compreendido como um processo de integração em que
plicada , e , em todas as partes em que se acredita estabelecê - o texto do mundo exterior é n ão recopiado , mas constitu ído .
la , ela já est á suposta14. Se n ós retornamos aos fen ômenos , E , se tentamos apreender a “ sensação ” na perspectiva dos
eles nos mostram a apreensão de uma qualidade , exatamen - fenômenos corporais que a preparam , encontramos não um
te como a de uma grandeza , ligada a todo um contexto per - indivíduo psíquico , função de certas variáveis conhecidas , mas
ceptivo , e os est ímulos n ão nos d ão mais o meio indireto que uma formação já ligada a um conjunto e já dotada de um sen -
buscávamos de delimitar uma camada de impressões imedia- tido, que só se distingue em grau das percepções mais com-
tas . Mas , quando se procura uma definição “ objetiva ” da plexas e que portanto n ão nos adianta nada em nossa delimi-
sensação , n ão é apenas o est ímulo físico que se esquiva . O tação do sens ível puro. N ão h á definição fisiológica da sensa-
aparelho sensorial , tal como a fisiologia moderna o represen - ção e , mais geralmente , não h á psicologia fisiológica autóno-
ta , n ão pode mais desempenhar o papel de “ transmissor ” que ma porque o próprio acontecimento fisiol ó gico obedece a leis
a ciê ncia cl ássica lhe atribu ía. As lesões n ão-corticais dos apa- biológicas e psicológicas. Durante muito tempo , acreditou -
relhos t á teis rarefazem , sem d ú vida , os pontos sens íveis ao se encontrar no condicionamento perifé rico uma maneira se -
quente , ao frio ou à pressão , e diminuem a sensibilidade dos gura de localizar as fun ções ps íquicas “ elementares ” e de
pontos conservados . Mas , se aplicamos ao aparelho lesado distingui -las das fun ções “ superiores ” , menos estritamente
um excitante suficientemente extenso , as sensações específi- ligadas à infra-estrutura corporal . Uma an álise mais exata
cas reaparecem ; a elevação dos patamares é compensada por mostra que os dois tipos de fun ções se entrecruzam . O ele -
uma exploração mais en é rgica da m ão15. Entrevemos , no mentar n ão é mais aquilo que , por adição , constituirá o to-
grau elementar da sensibilidade , uma colaboração dos est í- do, nem ali ás uma simples ocasião para o todo se constituir .
mulos parciais entre si e do sistema sensorial com o sistema O acontecimento elementar já est á revestido de um sentido ,
motor que , em uma constelação fisioló gica variável , mantê m e a função superior só realizará um modo de existê ncia mais
constante a sensação , o que portanto pro íbe definir o proces- integrado ou uma adaptação mais aceit ável , utilizando e su -
so nervoso como a simples transmissão de uma mensagem blimando as operações subordinadas. Reciprocamente , “ a ex -
dada . A destruição da fun ção visual , qualquer que seja o lo- periê ncia sensível é um processo vital , assim como a procria-
cal das lesões , segue a mesma lei: primeiramente todas as co- ção , a respiração ou o crescimento ” 18. A psicologia e a fisio-
res são atingidas16 e perdem sua saturação . Depois o espec- logia não são mais , portanto, duas ciê ncias paralelas, mas duas
tro se simplifica , reduz- se a quatro e logo a duas cores ; final- determinações do comportamento, a primeira concreta , a se-
mente , chega-se a um estado monocrom ático em cinza , aliás gunda abstrata19. Dizíamos que , quando o psicólogo pede ao
sem que a cor patológica seja alguma vez identificá vel a uma flsiólogo uma definição da sensação “ por suas causas ” , ele
cor normal qualquer . Dessa forma , nas lesões centrais assim encontra nesse terreno as suas pró prias dificuldades , e vemos
como nas lesões perifé ricas , “ a perda de subst â ncia nervosa agora por qu ê . O fisiólogo tem a tarefa de desvencilhar- se do
34 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O

mente os sonhos se apresentando primeiramente com direi-


tos iguais às percepções propriamente ditas , e a percepção ver-
dadeira , atual e expl ícita , distinguem - se pouco a pouco dos
fantasmas por um trabalho crítico . A palavra indica uma di ~
reção antes que uma fun ção primitiva 26 . Sabe- se que a cons-
tância da grandeza aparente dos objetos para dist âncias va- CAPÍTULO II
riáveis, ou a de sua cor para iluminações diferentes, são mais
perfeitas na criança do que nos adultos27. Isso significa que
a percepçã o est á mais estritamente ligada ao excitante local
A “ ASSOCIAÇAO”
em seu estado tardio do que em seu estado precoce , e é mais E A “ PROJEÇÃO DAS RECORDAÇÕES”
conforme à teoria da sensa ção no adulto do que na crian ça .
Ela é como uma rede cujos nós aparecem cada vez mais
claramente 28 . Apresentou -se um quadro do pensamento
primitivo ” que só se compreende bem se reportamos as res-
postas dos primitivos , seus enunciados e a interpretação do A noçã o de sensação, uma vez introduzida , falseia toda
sociólogo, ao fundo de experiência perceptiva que todas elas a an álise da percepção. Uma “ figura” sobre um fundo” já
procuram traduzir 29 . E ora a aderê ncia do percebido a seu contém, dissemos, muito mais do que as qualidades atualmen-
contexto e como que sua viscosidade, ora a presença nele de te dadas. Ela tem “ contornos ” que n ão pertencem’’ ao fundo
um indeterminado positivo , que impedem os conjuntos es- e se “ desprendem ” dele, ela é “ est á vel ” e de cor “ compac-
paciais, temporais e numéricos de se articularem em termos ta” , o fundo é ilimitado e de cor incerta , ele “ continua” sob

a figura. As diferentes partes do conjunto por exemplo, as
manejáveis , distintos e identificá veis . E é este dom ínio pré -
objetivo que precisamos explorar em n ós mesmos se quere -
mos compreender o sentir .
partes da figura mais próximas ao fundo — possuem portan -
to, alé m da cor e das qualidades, um sentido particular. A ques-
t ão é saber de que é feito este sentido, o que querem dizer
as palavras “ borda” e contorno” , o que acontece quando
um conjunto de qualidades é apreendido como figura sobre um
fundo. Mas a sensação, uma vez introduzida como elemento
do conhecimento, n ão nos deixa a escolha da resposta. Um
ser que poderia sentir — no sentido de coincidir absolutamente
com uma impressão ou com uma qualidade — n ão poderia
ter outro modo de conhecimento Que . uma qualidade , que
uma superf ície vermelha signifique algo , que ela seja , por
exemplo, apreendida como uma mancha sobre um fundo , is-
so significa que o vermelho n ão mais
é apenas essa cor quen -
te, experimentada , vivida, na qual eu me perco, que ele anun -
r
AOS FEN ÔMENOS 37
36 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CL Á SSICOS E 0 RETORNO

cia alguma outra coisa sem a conter , que exerce uma fun ção
de conhecimento e que suas partes em conjunto compõem
uma totalidade à qual cada uma delas se liga sem abandonar
seu lugar . Doravante o vermelho n ão me é mais apenas pre -
sente , mas ele me representa algo , e aquilo que ele represen -
ta n ão é possu ído como uma “ parte real ” de minha percep-
çã o , mas apenas visado como uma “ parte intencional ” 1 .
Meu olhar n ão se funde no contorno ou na mancha como ele
o faz no vermelho materialmente considerado : ele os percor-
re ou os domina . Para receber nela mesma uma significação
que verdadeiramente a penetre , para integrar-se em um “ con - ções à experiê ncia das qualidades. Isso n ão muda nada na
torno ” ligado ao conjunto da “ figura ” e independente do doutrina. Ou o bloco de espaço é percorrido e inspecionado
“ fundo ” , a sensação pontual deveria deixar de ser uma coin - por um espírito , mas agora se abandona o empirismo , já que
cid ê ncia absoluta e, por conseguinte , deixar de ser enquanto a consciê ncia n ã o mais é definida pela impressão , ou ent ão
sensação . Se admitimos um sentir ” no sentido cl ássico , a é ele mesmo dado à maneira de uma impressão , e agora ele
significação do sens ível só pode consistir em outras sensações é t ão fechado a uma coordenação mais ampla quanto a im -
presentes ou virtuais . Ver uma figura só pode ser possuir si - pressão pontual da qual primeiramente fal ávamos . Mas um
multaneamente as sensações pontuais que fazem parte dela . contorno n ão é apenas o conjunto dos dados presentes , estes
Cada uma delas permanece sempre aquilo que ela é , um con- evocam outros que vê m complet á -los . Quando digo que te -
tato cego , uma impressão , o conjunto se faz “ vis ão ” e forma nho diante de mim uma mancha vermelha , o sentido da pa -
um quadro diante de n ós porque aprendemos a passar mais lavra mancha é fornecido por experiê ncias anteriores no de -
rapidamente de uma impressã o a outra . Um contorno é ape - correr das quais aprendi a empregá-la . A distribuição no es-
nas uma soma de visões locais e a consciê ncia de um contor- paço dos três pontos A , B e C evoca outras distribuições an á -
no é um ser coletivo. Os elementos sens íveis dos quais ele é logas e digo que vejo um círculo . O apelo à experiê ncia ad -
feito não podem perder a opacidade que os define como sen - quirida n ão muda nada , ele també m , na tese empirista . A
s íveis para abrirem -se a uma conexão intrínseca , a uma lei “ associação de idéias ” que traz a experiê ncia passada só po-
de constituição comum . Sejam três pontos A , B e C, tomados de restituir conexões extrínsecas e ela mesma só pode ser uma
no contorno de uma figura; sua ordem no espaço é tanto sua conexão extr ínseca porque a experiê ncia origin á ria n ão com -
maneira de coexistir sob nossos olhos quanto essa pró pria coe - portava outras. Uma vez que se definiu a consciê ncia como
xistê ncia; por mais próximos que eu os escolha , ela é a soma sensação , qualquer modo de consciê ncia deverá tomar sua cla -
de suas exist ê ncias separadas , a posição de A , mais aposição de reza de empréstimo à sensação. A palavra círculo , a palavra
B, mais a posição de C . Pode acontecer que o empirismo aban - ordem só puderam designar , nas experiê ncias anteriores às
done esta linguagem atomista e fale de blocos de espaço ou quais me reporto , a maneira concreta pela qual nossas sensa-
de blocos de duração , acrescente uma experiê ncia das rela- ções se repartiam diante de nós , um certo arranjo de fato ,
38 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O os PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FENÔ MENOS 39

uma maneira de sentir . Se os três pontos A , B e C est ão em simples associação exterior que resultaria de sua solidarieda-
um círculo , o trajeto A B “ assemelha - se ao trajeto BC , mas de constatada durante os movimentos do objeto . Primeira-
essa semelhança significa apenas que um leva a pensar no ou - mente eu vejo como coisas conjuntos que nunca vi se move-
-
tro . O trajeto A , B y C assemelha se a outros trajetos circula- rem : casas, o sol , montanhas. Se se quer que eu estenda ao
res que meu olhar seguiu , mas isso significa apenas que ele objeto imó vel uma noção adquirida na experiê ncia de obje-
desperta sua recordação e faz aparecer sua imagem. Dois ter- tos móveis , é preciso que a montanha apresente em seu as-
mos nunca podem ser identificados , percebidos ou compreen - pecto efetivo algum cará ter que funde seu reconhecimento co-
didos como o mesmo , o que suporia que sua ecceidade é ultra- mo coisa e justifique essa transferê ncia . Mas agora esse car á-
passada ; eles só podem ser indissoluvelmente associados e em ter é suficiente , sem nenhuma transferê ncia , para explicar a
todas as partes substitu ídos um pelo outro. O conhecimento segregação do campo . Mesmo a unidade dos objetos usuais
aparece como um sistema de substituições em que uma í m - que a criança pode manipular e deslocar n ão reconduz à cons-
pressão anuncia outras sem nunca dar razão delas , em que tatação de sua solidez . Se nós nos puséssemos a ver como coi -
palavras levam a esperar sensações , assim como a tarde leva sas os intervalos entre as coisas , o aspecto do mundo seria
a esperar a noite . A significação do percebido é apenas uma mudado de maneira t ão sensível quanto o da adivinhação no
constelação de imagens que começam a reaparecer sem ra- momento em que descubro “ o coelho ” ou o caçador ” . N ão
zão . As imagens ou as sensações mais simples s ão , em última seriam mais os mesmos elementos ligados de outra maneira ,
an álise , tudo o que existe para se compreender nas palavras , as mesmas sensações diferentemente associadas, o mesmo tex-
os conceitos são uma maneira complicada de design á-las , e , to investido de um outro sentido , a mesma maté ria em uma
como elas mesmas são impressões indizíveis , compreender é outra forma , mas verdadeiramente um outro mundo. Não
uma impostura ou uma ilusão , o conhecimento nunca tem existem dados indiferentes que em conjunto formam uma coi-
dom ínio sobre seus objetos, que se ocasionam um ao outro , sa porque contigü idades ou semelhanças de fato os associam;
e o espírito funciona como uma m áquina de calcular2 que ao contrá rio , é porque percebemos um conjunto como coisa
n ão sabe por que seus resultados s ão verdadeiros . A sensa- que a atitude anal ítica em seguida pode discernir ali seme -
ção n ão admite outra filosofia sen ão o nominalismo , quer di lhanças ou contigü idades . Isso n ão significa apenas que sem
-
zer , a redu ção do sentido ao contra - senso da semelhan ç a confu - a percepção do todo n ós n ão pensar íamos em observar a seme -
sa, ou ao não -senso da associação por contigüidade. lhança ou a contiguidade de seus elementos, mas, literalmente,
Ora , as sensações e as imagens que deveriam iniciar e que eles n ão fariam parte do mesmo mundo e elas n ão existi-
terminar todo conhecimento aparecem sempre em um hori- riam de forma alguma . O psicólogo , que sempre pensa a cons-
zonte de sentido , e a significaçã o do percebido , longe de re - ciê ncia no mundo , coloca a semelhança e a contigü idade dos
A•

sultar de uma associação , est á ao contr á rio pressuposta em estímulos entre as condições objetivas que determinam a cons-
todas as associações , quer se trate da sinopse de uma figura tituição de um conjunto. Os est ímulos mais próximos ou os
presente ou da evocação de experiências antigas. Nosso campo mais semelhantes , diz ele4 , ou aqueles que , reunidos , dão ao
perceptivo é feito de coisas ” e de “ vazios entre as coisas ” 3. espetáculo o melhor equil íbrio , tendem , para a percepçã o , a
As partes de uma coisa n ão est ão ligadas entre si por uma se unir na mesma configuração. Mas esta linguagem é engano -
40 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O AOS FEN ÔMENOS 41
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E O RETORNO
sa porque ela confronta os est ímulos objetivos , que perten -
perestrutura do barco em um desenho cont ínuo. Eu apenas
'

cem ao mundo objetivo e mesmo ao mundo segundo que a


senti que o aspecto do objeto ia mudar , que nesta tensão algo
consciê ncia cient ífica constrói, com a consciê ncia perceptiva
era iminente assim como a tempestade é iminente nas nuvens.
que a psicologia deve descrever segundo a experiê ncia dire-
Repentinamente o espet áculo se reorganizou satisfazendo mi -
ta . O pensamento anfíbio do psicólogo arrisca-se sempre a
nha expectativa imprecisa . Depois eu reconheç o , como justi -
reintroduzir em sua descrição relações que pertencem ao mun-
ficações da mudan ç a , a semelhan ça e a contig ü idade daquilo
do objetivo. Assim , pôde-se acreditar que a lei de contigü i-
dade e a lei de semelhan ça de Wertheimer restauravam a con-
que chamo de “ est í mulos
determinados , obtidos a

curta
quer dizer , os fen ô menos mais
dist â ncia , e a partir dos quais
tigü idade e a semelhança objetivas dos associacionistas en -
eu componho o mundo “ verdadeiro ” Como não vi que es-
,

quanto princípios constitutivos da percepção . Na realidade , com o barco? No en -


madeira faziam corpo

— —
tes pedaços de
para a descrição pura e a teoria da Forma quer ser uma mesma cor que ele , ajustavam - se bem à
tanto eles tinham a
descrição pura , a contigü idade e a semelhan ça dos est í- de bem perceber n ão
sua superestrutura . Mas essas raz ões
mulos n ão são anteriores à constituição do conjunto. A “ boa
forma ” não é realizada porque ela seria em si boa em um
eram dadas como raz õ es antes da percep çã o correta . A uni -
dade do objeto est á fundada no pressentimento de uma or -
céu metaf ísico , mas ela é boa porque est á realizada em nossa a quest ões
dem iminente que de um s ó golpe dar á resposta
experiê ncia . As pretensas condições da percepção só se tor- na paisagem , ela resolve um problema que
apenas latentes
nam anteriores à própria percepção quando, em lugar de des- sob a forma de uma vaga inquieta çã o , ela or -
só estava posto
crever o fen ômeno perceptivo como primeira abertura ao pro- é ã o n ão pertenciam ao mesmo -
ganiza elementos que at ent uni
jeto , nós supomos em torno dele um meio onde já estejam razao como disse Kant com profundi -
verso quee , por essa
inscritas todas as explicitações e todas as confrontações que ser associados . Colocando - os no mesmo
dade , n ã o podiam
a percepção analítica obterá, onde estejam justificadas todas
terreno , o do objeto ú nico , a sinopse torna possível a conti -
as normas da percepção efetiva — um lugar da verdade um
mundo. Ao fazer isso , nós subtraímos à percepção a sua fun -
gü idade e a semelhan ça entre eles , e uma impressão nunca
pode por si mesma associar - se a uma outra impressão.
ção essencial , que é a de fundar ou de inaugurar o conheci-
Ela n ão tem mais o poder de despertar outras. Ela só
mento , e a vemos através de seus resultados. Se n ós nos ate -
o faz sob a condição de ser primeiramente compreendida na pers-
mos aos fen ômenos , a unidade da coisa na percepção n ão é
pectiva da experiê ncia passada em que lhe ocorria coexistir
constru ída por associação , mas , condição da associação , ela
com aquelas que se trata de despertar . Seja uma sé rie de síla-
precede os confrontos que a verificam e a determinam , ela
bas emparelhadas5 , em que a segunda é uma rima pobre da
se precede a si mesma . Se caminho em uma praia em direção
primeira ( dak - tak ) , e uma outra sé rie em que a segunda síla-
a um barco encalhado e a chaminé ou o mastro se confun-
ba é obtida invertendo-se a primeira ( ged -deg); se as duas sé-
dem com a floresta que circunda a duna , haverá um momento
ries forem aprendidas de cor , e se , em uma experi ê ncia críti -
em que estas partes se juntarão vivamente ao barco e se sol-
\ ca , damos como ordem uniforme “ procurar uma rima po-
darão a ele . A medida que eu me aproximava , n ão percebi
bre ” , observamos que o sujeito tem mais trabalho para en -
semelhanças ou proximidades que enfim teriam reunido a su -
contrar uma rima pobre para ged do que para uma sílaba neu -
ff

42 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FENÔ MENOS 43

tra . Mas , se a ordem é mudar a vogal nas s ílabas propostas ,


este trabalho n ão sofre nenhum atraso. Não são portanto for-
ças associativas que funcionavam na primeira experiê ncia crí-
tica , pois , se existissem , elas deveriam funcionar na segun -
da . A verdade é que , colocado diante de s ílabas freq ü ente -
mente associadas com rimas pobres , o sujeito , em lugar de
rimar verdadeiramente , beneficia-se de sua experiê ncia ad -
quirida e põe em a ção uma " inten ção de reprodu ção ” 6 , de Fig. 1
forma que quando chega à segunda sé rie de s ílabas , em que
a ordem presente n ão mais se harmoniza com os conjuntos qual) encontra - a ali com mais rapidez e mais freq üê ncia do
realizados nas experiê ncias de adestramento , a inten ção de que um sujeito passivo , com experiê ncia igual . A semelhan -
reprodução só pode conduzir a erros. Quando, na segunda ça não é , portanto , como n ão o é a coexistê ncia, uma força
experiê ncia crítica , se propõe ao sujeito mudar a vogal da s í- em terceira pessoa que dirigiria uma circula ção de imagens
laba indutora , como se trata de uma tarefa que nunca figu - ou de "estados de consciê ncia ” . A figura 1 n ão é evocada
rou nas experiê ncias de adestramento , ele n ão pode utilizar pela figura 2 , ou só o é se primeiramente vimos na figura 2
o subterf ú gio da reprodu ção e , nessas condições , as experiê n - uma ."figura 1 possível ” , o que implica dizer que a seme-
cias de adestramento n ão t ê m influ ê ncia . Portanto a asso- lhan ça efetiva n ão nos dispensa de procurar como ela é pri-
ciaçao nunca funciona como uma forç a autó noma ; nunca é meiramente tornada possível pela organização presente da fi-
a palavra proposta que , como causa eficiente , ‘' induz ” a res- gura 2 , que a figura "indutora ” deve revestir-se do mesmo
posta , ela só age tornando uma inten ção de reprodu ção pro- sentido que a figura induzida antes de evocar sua lembran -
v ável ou tentadora , só opera em virtude do sentido que ad - ç a , e enfim que o passado de fato n ão é importado na percep-
quiriu no contexto da experiê ncia antiga e sugerindo o re- ção presente por um mecanismo de associação , mas desdo-
curso a essa experiê ncia , ela é eficaz na medida em que o su - brado pela pró pria consciê ncia presente .
jeito a reconhece , a apreende sob o aspecto ou sob a fisiono- Através disso , pode-se ver o que valem as fó rmulas usuais
mia do passado . Se enfim se quisesse fazer intervir , em lugar sobre o " papel das recordações na percepção ” . Mesmo fora
da simples contigü idade , a associação por semelhan ç a , ver- do empirismo , fala-se das "contribuições da mem ória ” 8.
se - ia ainda que , para evocar uma imagem antiga à qual ela Repete - se que " perceber é recordar - se ” . Mostra- se que na
de fato se assemelha , a percepção presente deve ser posta em leitura de um texto a rapidez do olhar torna lacunares as im -
forma , de maneira a se tornar capaz de trazer essa semelhan - pressões retinianas , e que os dados sensíveis devem portanto
ça . Quer um sujeito 7 tenha visto 5 vezes ou 540 vezes a fi- ser completados por uma projeção de recordações9. Uma
gura 1 , ele a reconhecerá quase t ão facilmente na figura 2 , paisagem ou um jornal vistos às avessas nos representariam
em que ela se encontra "camuflada ” , e aliás nunca a reco- a visão origin á ria ; a paisagem ou o jornal vistos normalmen -
nhecerá ali constantemente. Em compensação , um sujeito que te s ão mais claros apenas pelo que as recordações ali acres-
procura na figura 2 uma outra figura disfarçada ( sem saber centam . "Por causa da disposição inabitual das impressões ,
44 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO OS PREJU ÍZOS CL Á SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 45

a influ ê ncia das causas ps íquicas n ão pode mais exercer- se faria a evocação das recordações sem ser guiada pelo as -
se . ” 10 Nao se pergunta por que impressões dispostas de ou - pecto dos dados propriamente sensíveis , e , se ela é mal diri -
tra maneira tornam o jornal ilegível ou a paisagem irreco- gida , para que serviria já que agora a palavra já tem sua es-
nhecível. E que , para vir a completar a percepção , as recor- trutura ou sua fisionomia antes de buscar algo no tesouro da
dações precisam ser tornadas possíveis pela fisionomia dos da- memó ria ? Foi evidentemente a an álise das ilusões que deu
dos . Antes de qualquer contribuiçã o da mem ó ria , aquilo que crédito à “ projeção das recordações ” , segundo um racioc í-
é visto deve presentemente organizar-se de modo a oferecer- nio sum á rio que é mais ou menos este : a percepção ilusó ria
me um quadro em que eu possa reconhecer minhas experiên - não pode apoiar-se nos “ dados presentes ” , já que eu leio “ al-
cias anteriores. Assim , o apelo às recordações pressupõe aquilo moço ” ali onde o papel traz “ alvoroço ” . A letra ra , que se
que ele deveria explicar: a colocaçã o em forma dos dados , substituiu ao grupo vor , n ão sendo fornecida pela visão , deve
a imposição de um sentido ao caos sensível . No momento em vir então de outro lugar . Dir- se -á que ela vem da mem ó ria .
que a evocação das recordações é tornada possível , ela se tor- Assim , em um quadro plano bastam algumas sombras e al-
na supé rflua , já que o trabalho que se espera dela já est á fei- gumas luzes para produzir um relevo , em uma adivinhação
to. Dir- se- ia a mesma coisa desta “ cor da recordação ” ( Ge - alguns galhos de á rvore sugerem um gato , nas nuvens algu -
dàchtnisfarbe ) que , segundo outros psicólogos , termina por mas linhas confusas sugerem um cavalo . Mas só depois a ex-
-
substituir se à cor presente dos objetos , de forma que n ós os periência passada pôde aparecer como causa da ilusão , foi pre-
vejamos “ através dos óculos ” da memó ria11 . A questão é sa- ciso que a experiê ncia presente primeiramente adquirisse for-
ber o que desperta atualmente a “ cor da recordação ” . Ela ma e sentido para fazer voltar justamente esta recordação e
é evocada , diz Hering, a cada vez que revemos um objeto n ão outras . E portanto sob meu olhar atual que nascem o ca-
-
já conhecido , l ou acreditamos revê lo” . Mas a partir do que n ós
í
valo, o gato , a palavra substitu ída , o relevo. As sombras e
acreditamos? O que é que , na percepção atual , nos ensina as luzes do quadro formam um relevo imitando “ o fen ô me -
que se trata de um objeto já conhecido , já que por hipótese no origin á rio do relevo ” 12 , em que elas se encontravam in -
suas propriedades estão modificadas? Se se quer que o reco- vestidas de uma significação espacial aut óctone . Para que eu
nhecimento da forma ou da grandeza leve ao reconhecimen - encontre um gato na adivinhação , é preciso “ que a unidade
to da cor , estamos em um cí rculo , já que a grandeza e a for- de significação ‘gato’ já prescreva , de alguma maneira , os ele -
ma aparentes també m est ão modificadas e , ainda aqui , o re- mentos do dado que a atividade coordenadora deve reter e
conhecimento não pode resultar do despertar das recordações, aqueles que ela deve negligenciar ” 13. A ilusão nos engana
mas deve preced ê -lo . Portanto , do passado ao presente , ele justamente fazendo- se passar por uma percepção autê ntica ,
n ão vai a parte alguma e a “ projeção das recordações ” é ape - em que a significação nasce no berço do sens ível e n ão vem
nas uma m á met áfora que esconde um reconhecimento mais de outro lugar. Ela imita esta experiê ncia privilegiada em que
profundo e já feito . Da mesma forma, enfim , a ilusão do re- o sentido recobre exatamente o sensível , articula-se visivel -
visor n ão pode ser compreendida como a fusão de alguns ele- mente ou se profere nele ; ela implica esta norma perceptiva ;
mentos verdadeiramente lidos com recordações que se mis- n ão pode portanto nascer de um encontro entre o sens ível e as
turariam a eles a ponto de n ão mais se distinguirem . Como recordações , e a percepção muito menos ainda . A “ projeção
46 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS 47
das recordações ” torna uma e outra incompreensíveis . Pois existe , neste amontoado de sensações e de recordações , nin -
uma coisa percebida , se fosse composta de sensações e de re - guém que veja , que possa experimentar o acordo entre o dado
cordações , só seria determinada pelo aux ílio das recordações ,
ela nada teria ent ão em si mesma que pudesse limitar - lhes
e o evocado — e correlativamente nenhum objeto firme pro-
tegido por um sentido contra o pulular das recordações. E
a invasão , ela n ão teria apenas este halo de “ movido ” que preciso , portanto , rejeitar o postulado que obscurece tudo .
sempre tem , n ós o dissemos, ela seria inapreensível , fugidia A clivagem entre o dado e o evocado segundo as causas obje -
e sempre beirando a ilusão . A ilusão a fortiori nunca poderia tivas é arbitrá ria . Retornando aos fen ô menos , encontramos
oferecer o aspecto firme e definitivo que uma coisa termina como camada fundamental um conjunto já pleno de um sen -
por assumir , já que ele faltaria à pró pria percep ção , logo ela tido irredut ível : n ão sensações lacunares, entre as quais de -
não nos enganaria. Se enfim se admite que as recordações veriam encravar-se recordações , mas a fisionomia , a estrutu -
n ão se projetam por si mesmas nas sensações , e que a cons- ra da paisagem ou da palavra , espontaneamente conformes
ciê ncia as confronta com o dado presente para reter apenas às inten ções do momento , assim como às experiê ncias ante -
aqueles que se harmonizam com ele , ent ão reconhece- se um riores . Agora se manifesta o verdadeiro problema da mem ó-
texto originário que traz em si seu sentido e o opõe àquele
das recordações: este texto é a pró pria percepção . Em suma ,
ria na percepção , ligado ao problema geral da consciência per -
ceptiva. Trata - se de compreender como , por sua pró pria vi -
est á- se muito errado em acreditar que com a “ projeção das da e sem trazer em um inconsciente m ítico materiais com -
recordações ” se introduza na percepção uma atividade men - plementares , a consci ê ncia pode , com o tempo , alterar a es-
tal , e que se esteja no oposto do empirismo. A teoria é ape -
nas uma conseq üê ncia , uma correção tardia e ineficaz do em -
trutura de suas paisagens — como , em cada instante , sua
experiência antiga lhe est á presente sob a forma de um hori -
pirismo; ela admite seus postulados , partilha suas dificulda - zonte que ela pode reabrir , se o toma como tema de conheci -
des e , como ele , esconde os fen ô menos em lugar de levar a mento , em um ato de rememoração, mas que també m pode
compreendê-los . O postulado consiste , como sempre , em de - deixar “ à margem ” , e que agora fornece imediatamente ao
duzir o dado daquilo que pode ser fornecido pelos ó rgãos dos percebido uma atmosfera e uma significação presentes. Um
sentidos. Por exemplo , na ilusão do revisor , reconstituem - se campo sempre à disposição da consciê ncia e que , por essa ra-
os elementos efetivamente vistos segundo os movimentos dos zão, circunda e envolve todas as suas percepções, uma atmos-
olhos, a velocidade da leitura e o tempo necessá rio à impres- fera , um horizonte ou , se se quiser , “ montagens ” dadas que
são retiniana . Depois , retirando estes dados teó ricos da per-
cepção total , obtê m -se os “ elementos evocados ” que , por sua
lhe atribuem uma situação temporal , tal é a presen ça do pas -
sado que torna possíveis os atos distintos de percepção e de
vez , são tratados como coisas mentais. Constrói-se a percep- rememoração. Perceber n ão é experimentar um sem - n ú mero
ção com estados de consciê ncia , assim como se constrói uma de impressões que trariam consigo recordações capazes de
casa com pedras , e se imagina uma qu ímica mental que faç a complet á -las , é ver jorrar de uma constelação de dados um
esses materiais se fundirem em um todo compacto. Como to- sentido imanente sem o qual nenhum apelo às recordações
da teoria empirista, esta só descreve processos cegos que nunca seria possível . Recordar- se n ão é trazer ao olhar da consciê n -
podem ser o equivalente de um conhecimento , porque n ão cia um quadro do passado subsistente em si , é enveredar no
&

48 FENOMENOL0GIA DA PERCEPÇAO 49
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS

horizonte do passado e pouco a pouco desenvolver suas pers- truir a figura deste mundo , a vida , a percepção , o esp írito ,
pectivas encaixadas , até que as experiências que ele resume em lugar de reconhecer , como fonte inteiramente próxima e
sejam como que vividas novamente em seu lugar temporal . como ultima inst â ncia de nosso conhecimento a seu respeito ,
Perceber n ão é recordar - se . a experiência que temos dele . Essa conversão do olhar , que in -
As relações entre “ figura ” e “ fundo ” , “ coisa ” e “ n ão- verte as relações entre o claro e o obscuro, deve ser efetuada
coisa ” , o horizonte do passado , seriam ent ão estruturas de por cada um e é em seguida que ela se justifica pela abun-
consciê ncia irredut íveis às qualidades que aparecem nelas. O d â ncia dos fen ô menos que permite compreender . Mas antes
empirismo conservará sempre o recurso de tratar este a priori dela eles eram inacessíveis , e à descriçã o que deles se faz o
como o resultado de uma qu í mica mental . Ele concederá que empirismo sempre pode objetar que ele n ão compreende . Nes-
toda coisa se oferece sobre um fundo que n ão é uma coisa , te sentido , a reflexão é um sistema de pensamentos t ão fe -
o presente entre dois horizontes de ausê ncia , passado e futu - chado quanto a loucura , com a diferen ça de que ela se com -
ro. Mas , retomar á ele , essas significações s ão derivadas . A preende a si mesma e ao louco , enquanto o louco n ão a com -
figura ” e o “ fundo ” , a “ coisa ” e o seu “ redor ” , o “ pre -
i í

preende . Mas , se o campo fenomenal é um mundo novo , ele


sente ” e o “ passado ” , estas palavras resumem a experiê ncia nunca é absolutamente ignorado pelo pensamento natural ,
de uma perspectiva espacial e temporal , que finalmente leva ele lhe est á presente no horizonte , e a pró pria doutrina empi-
ao apagamento da recordação ou àquele das impressões mar- rista é uma tentativa de an álise da consciê ncia . A t ítulo de
ginais . Mesmo se , uma vez formadas na percepção de fato , ií
paramythia ” , é ú til ent ão indicar tudo aquilo que as cons-
as estruturas tê m mais sentido do que a qualidade poderia tru ções empiristas tornam incompreensível , e todos os fen ô-
oferecer , n ão devo ater- me a este testemunho da consciê ncia menos originais que elas mascaram . Elas nos escondem , pri-
e devo reconstru í-las teoricamente com o aux ílio das impres- meiramente , o “ mundo cultural ” ou o “ mundo humano 5 ?
sões das quais elas exprimem as relações efetivas . Neste pla- no qual todavia quase toda a nossa vida se passa . Para a maior
no , o empirismo n ão é refut ável . J á que recusa o testemunho parte de n ós , a natureza é apenas um ser vago e distante , su -
da reflexão e engendra , associando impressões exteriores , as focado pelas cidades , pelas ruas , pelas casas , e sobretudo pe-
estruturas que temos consciê ncia de compreender indo do todo la presen ça dos outros homens . Ora , para o empirismo , os
às partes , n ão há nenhum fenômeno que se possa citar como objetos “ culturais ” e os rostos devem sua fisionomia, sua po-
uma prova crucial contra o empirismo . De maneira geral , n ão tê ncia m á gica , a transferê ncias e a proje ções de recordações;
se pode refutar , descrevendo fenô menos , um pensamento que o mundo humano só tem sentido por acidente . N ão h á nada
se ignora a si mesmo e que se instala nas coisas. Os átomos no aspecto sens ível de uma paisagem , de um objeto ou de
do físico parecer ão sempre mais reais do que a figura hist ó ri- um corpo que o predestine a ter um ar 4 ‘alegre ” ou “ triste ’ ’ ,
ca e qualitativa deste mundo , os processos f ísico-qu ímicos mais “ vivo ” ou “ morto ” , “ elegante ” ou “ grosseiro ” . Definindo
reais do que as formas orgâ nicas , os átomos ps íquicos do em - mais uma vez aquilo que percebemos pelas propriedades fí-
pirismo mais reais do que os fen ô menos percebidos , os á to- sicas e qu ímicas dos est ímulos que podem agir em nossos apa-
mos intelectuais que são as “ significações ” da Escola de Viena relhos sensoriais , o empirismo exclui da percepção a cólera
mais reais do que a consciê ncia , tanto que se procurar á cons- ou a dor que todavia eu leio em um rosto, a religião cuja es-
ë.
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50 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 51
f:
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sê ncia todavia eu apreendo em uma hesitação ou em uma re - â que aliás pode ser confuso e distante . Nossa percepção pres-
« sente , sob o quadro , a presença próxima da tela ; sob o monu -
ticê ncia , a cidade cuja estrutura todavia eu conhe ço em uma &
atitude do funcion ário ou no estilo de um monumento. Aqui mento , a do cimento que se pulveriza ; sob o personagem , a do
%
n ão pode mais haver espírito objetivo : a vida mental retira-se ator que se fatiga . Mas a natureza da qual o empirismo fala
M

é uma soma de est ímulos e de qualidades . E absurdo preten -
em consciê ncias isoladas e abandonadas apenas à introspec-
çao , em lugar de desenrolar- se , como ela aparentemente o der que essa natureza seja , mesmo que só em inten ção , o obje -
faz , no espaço humano composto por aqueles com quem dis- to primeiro de nossa percepção: ela é muito posterior à expe -
cuto ou com quem vivo , o lugar de meu trabalho ou o de mi -
riê ncia dos objetos culturais, ou , antes, ela é um deles. Preci-
saremos portanto redescobrir també m o mundo natural e seu
nha felicidade . A alegria e a tristeza , a vivacidade e a idiotia
modo de exist ê ncia , que n ão se confunde com aquele do objeto
são dados da introspecção , e , se revestimos com eles as pai-
cient ífico . Que o fundo continue sob a figura , que seja visto sob
sagens ou os outros homens , é porque constatamos em n ós
a figura , quando todavia ela o recobre , este fen ô meno que en-
mesmos a coincidê ncia destas percepções interiores com sig-
volve todo o problema da presença do objeto é , ele també m , es-
nos exteriores que lhes s ã o associados pelos acasos de nossa
condido pela filosofia empirista , que trata essa parte do fundo
organização . A percepção assim empobrecida torna- se uma
como invisível , em virtude de uma definição fisioló gica da vi-
pura operação de conhecimento , um registro progressivo das são , e a reconduz à condição de simples qualidade sens ível , su -
qualidades e de seu desenrolar mais costumeiro , e o sujeito pondo que ela é dada por uma imagem , quer dizer , por uma
que percebe est á diante do mundo como o cientista diante sensação enfraquecida . Mais geralmente , os objetos reais que
de suas experiê ncias . Ao contrá rio , se admitimos que todas não fazem parte de nosso campo visual só nos podem estar pre-
essas “ projeções ” , todas essas “ associações
í
í
todas essas
transferê ncias” est ão fundadas em algum caráter intrínse -
sentes por imagens , e é por isso que eles s ão apenas “ possibili -
dades permanentes de sensações ” . Se abandonamos o postu -
co do objeto , o “ mundo humano ” deixa de ser uma met áfo - lado empirista da prioridade dos conte ú dos , estamos livres pa -
ra para voltar a ser aquilo que com efeito ele é , o meio e co
mo que a pátria de nossos pensamentos. O sujeito que perce
- ra reconhecer o modo de exist ê ncia singular do objeto atrás de
- nós. A crian ç a hist é rica que se volta “ para ver se o mundo ain -
be deixa de ser um sujeito pensante “ acósmico 3 3 , e a açao , da está ali atrás dela ” 15 n ão carece de imagens , mas o mundo
o sentimento e a vontade devem ser explorados como manei - percebido perdeu para ela a estrutura original que , para o nor-
ras originais de pô r um objeto , já que “ um objeto parece mal , torna seus aspectos escondidos t ão certos quanto os as-
atraente ou repulsivo antes de parecer negro ou azul , circu - pectos visíveis . Mais uma vez , o empirista pode sempre cons -
lar ou quadrado ” 14. Mas o empirismo n ão deforma a expe- truir, reunindo átomos psíquicos dos equivalentes aproxima-
riê ncia apenas fazendo do mundo cultural uma ilusão , quan - dos de todas essas estruturas . Mas o invent ário do mundo per-
do ele é o alimento de nossa existê ncia . O mundo natural , cebido , nos cap ítulos seguintes , fará com que cada vez mais
por seu lado , é desfigurado e pelas mesmas razões . O que cen - ele se manifeste como um tipo de cegueira mental e como o sis -
suramos no empirismo não é tê-lo considerado como primei - tema menos capaz de esgotar a experiê ncia revelada , enquan -
ro tema de an álise . Pois é verdade que todo objeto cultural to a reflexão compreende sua verdade subordinada colocan-
remete a um fundo de natureza sobre o qual ele aparece , e do-a em seu lugar .
CAP ÍTULO III

A “ ATENÇÃO” E O “ JUÍZO ”

A discussão dos preju ízos cl ássicos foi conduzida até aqui


contra o empirismo. Na realidade, n ão é apenas o empirismo
que n ós visamos. E preciso mostrar agora que sua ant ítese
intelectualista situa-se no mesmo terreno que ele. Um e ou -
tro tomam por objeto de an álise o mundo objetivo, que n ão
é primeiro nem segundo o tempo nem segundo seu sentido;
um e outro s ã o incapazes de exprimir a maneira particular
pela qual a consciê ncia perceptiva constitui seu objeto. Am -
bos guardam dist â ncia a respeito da percepção, em lugar de
aderir a ela.
Poder-se- ia mostr á - lo estudando a histó ria do conceito
de aten ção. Ele se deduz, para o empirismo, da “ hipótese de
const â ncia’ ’, quer dizer, como n ós o explicamos, da priorida-
de do mundo objetivo. Mesmo se aquilo que percebemos n ão
corresponde às propriedades objetivas do est ímulo, a hipóte -
se de const ância obriga a admitir que as “ sensações normais ”
já estão ali . E preciso então que elas estejam despercebidas,
e chamar-se- á de atenção a função que as revela, assim como
um projetor ilumina objetos preexistentes na sombra. O ato
de aten ção ent ão n ão cria nada, e é um milagre natural, co-
mo dizia mais ou menos Malebranche, que faz jorrar justa-

l
54 FENOMENOL0G1A DA PERCEPÇÃ O
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS 55
mente as percepções ou as idéias capazes de responder
às ques- tência , os ú nicos objetos dos quais se pode falar são os da cons-
t ões que eu me colocava . J á que o “ Bemerken ou o “ take
notice ” n ão é causa eficiente das idéias que ele faz aparecer ciê ncia desperta . Sempre temos conosco um princí pio cons-
, tante de distração e de vertigem que é nosso corpo . Mas nos -
ele é o mesmo em todos os atos de atenção assim
como a so corpo não tem o poder de fazer- nos ver aquilo que n ão exis-
luz do projetor é a mesma qualquer que seja a paisagem
ilu - te ; ele pode apenas fazer - nos crer que n ós o vemos . A lua no
minada. A aten ção é portanto um poder geral e incondicio
nado , no sentido de que a cada momento ela pode
- horizonte não é e n ão é vista maior do que no zénite: se a
dirigir-se olharmos atentamente , por exemplo atravé s de um tubo de
indiferentemente a todos os conte ú dos de consciência . Esté-
ril em todas as partes , ela n ão poderia ser em cartolina ou de uma luneta , veremos que seu diâmetro apa-
parte alguma rente permanece constante 2 . A percepção distraída nada con -
interessada . Para reat á - la à vida da consciência , seria preciso
mostrar como uma percepção desperta a aten ção , depois té m a mais e nem mesmo nada de outro do que a percepção
co- atenta . Assim , a filosofia n ão precisa considerar uma ilusão
mo a aten ção a desenvolve e a enriquece . Seria
preciso des- da aparê ncia . A consciê ncia pura e desembaraç ada de todos
crever uma conexão interna , e o empirismo só dispõe de
co- os obstáculos que ela consentia em se criar, o mundo verda -
nexões externas , só pode justapor estados de consci
ê ncia . O deiro sem nenhuma mistura de devaneio est ão à disposi ção
sujeito empirista , a partir do momento em que lhe atribu
í- de cada um . N ão precisamos analisar o ato de aten ção como
mos uma iniciativa — e essa é a razão de ser de uma teoria
passagem da confusão à clareza, porque a confusão não é na-

da aten ção , só pode receber uma liberdade
absoluta . O
intelectualismo, ao contrá rio , parte da fecundidade da aten - da. A consciê ncia só começ a a ser determinando um objeto ,
ção: já que tenho consciência de obter por ela a e mesmo os fantasmas de uma “ experiê ncia interna ” só s ão
verdade do possíveis por empréstimo à experiê ncia externa . Portanto , n ão
objeto , ela n ão faz um quadro suceder fortuitamente a um
outro quadro. O novo aspecto do objeto há vida privada da consciê ncia , e a cohsciência só tem como
subordina-se ao an- obst áculo o caos, que n ão é nada. Mas em uma consciê ncia
tigo e exprime tudo o que ele queria dizer . A cera é
desde que constitui tudo , ou , antes , que possui eternamente a es-
o come ço um fragmento de extensão flex ível e
mut á vel , sim - trutura inteligível de todos os seus objetos assim como na
plesmente eu o sei clara ou confusamente segundo
“ minha consciê ncia empirista que n ão constitui nada , a aten ção per-
aten ção se dirija mais ou menos à s coisas que
est ão nela e manece um poder abstrato , ineficaz , porque ali ela n ão tem
das quais ela é composta . J á que experimento na aten
ção nada para fazer . A consciência não está menos infimamente
um esclarecimento do objeto, é preciso que o
objeto percebi- ligada aos objetos em relação aos quais ela se distrai do q ü e
do já encerre a estrutura inteligível que ela destaca. Se a
cons- àqueles aos quais ela se volta , e o excedente de clareza do ato
ciê ncia encontra o círculo geométrico na fisionomia
circular de aten ção n ão inaugura nenhuma relação nova. Ele volta
de um prato , é porque ela já o tinha posto ali . Para
tomar a ser ent ão uma luz que n ão se diversifica com os objetos que
posse do saber atento , basta-lhe voltar a si , no sentido
em que ilumina , e mais urna vez se substituem “ os modos e as dire -
se diz que um homem desmaiado volte a si.
Reciprocamen - ções específicas da intenção” 3 por atos vazios da aten ção .
te , a percepção desatenta ou delirante é um
semi- sono . Ela Enfim , o ato de aten ção é incondicionado , porque ele tem to-
só pode ser descrita por negações , seu objeto n ão
tem consis- dos os objetos indiferentemente à sua disposição , como o era
56 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO OS PREJU ÍZOS CL Á SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 57

o Bemerken dos empiristas , já que todos os objetos lhe eram mo termo imanente do conhecimento no intelectualismo. A
transcendentes. Como um objeto atual , entre todos , poderia atenção supõe primeiramente uma transformação do campo
excitar um ato de aten ção, já que a consciência os tem a to- mental , uma nova maneira , para a consciê ncia , de estar pre -
dos ? O que faltava ao empirismo era a conex ão interna entre sente aos seus objetos . Seja o ato de aten ção pelo qual eu pre-
o objeto e o ato que ele desencadeia. O que falta ao ciso a localizaçã o de um ponto de meu corpo que é tocado .
intelec-
tualismo é a contingê ncia das ocasiões de pensar. No primei A an álise de certos dist ú rbios de origem central , que tornam
ro caso , a consciência é muito pobre; no segundo , é rica
- imposs ível a localização , revela a operação profunda da cons-
mais para que algum fenômeno possa solicitá-la . O empiris-
de - ciê ncia . Head falava sumariamente de um “ enfraquecimen -
mo não vê que precisamos saber o que procuramos, sem o to local da aten ção ” . N ão se trata , na realidade , nem da des -
que n ão o procuraríamos , e o intelectualismo n ão v ê que pre- truição de um ou vá rios signos locais ” , nem do desfaleci-
cisamos ignorar o que procuramos, sem o que , novamente , mento de um poder secundário de apreensão . A condição pri-
n ão o procurar íamos . Ambos concordam no fato de que nem meira do dist ú rbio é uma desagrega ção do campo sensorial ,
um nem outro compreendem a consciê ncia ocupada em apreen - que n ão mais permanece fixo enquanto o sujeito percebe ,
der , n ão notam essa ignorâ ncia circunscrita , essa intenção ain move-se seguindo os movimentos de exploração e encolhe- se
- enquanto o interrogamos4. Uma localização vaga , este fenôme-
da “ vazia mas já determinada , que é a pró pria aten çã
o.
Quer a aten ção obtenha aquilo que procura por um milagre no contraditó rio , revela um espaço pré -objetivo onde h á ex-
renovado , quer o possua previamente , nos dois casos a cons- tensão , já que vá rios pontos do corpo tocados em conjunto
tituição do objeto passou em silê ncio . Seja ele uma soma de n ão são confundidos pelo sujeito , mas ainda n ão h á posição
qualidades ou um sistema de relações , desde que existe é pre unívoca, porque nenhum quadro espacial fixo subsiste de uma
- percepção a outra . A primeira operação da aten ção é portan -
ciso que seja puro , transparente , impessoal , e n ão imperfei
to , verdade para um momento de minha vida e de meu -
- to criar-se um campo , perceptivo ou mental , que se possa do-
sa
.
ber , tal como emerge à consciê ncia A consciê ncia percepti minar ” ( Ueberschauen ) em que movimentos do ó rgão explo-
- rador , em que evolu ções do pensamento sejam possíveis , sem
va é confundida com as formas exatas da consciê ncia cient -
í
fica, e o indeterminado n ão entra na definição do espírito. que a consciê ncia perca na proporção daquilo que adquire ,
Malgrado as inten ções do intelectualismo , as duas doutrinas e perca-se a si mesma nas transformações que provoca. A po-
tê m portanto em comum essa idéia de que a atenção n ão cria sição precisa do ponto tocado será o invariante dos diversos
nada , já que um mundo de impressões em si ou um universo sentimentos que dele tenho segundo a orientação de meus
de pensamento determinante estão igualmente subtraídos à membros e de meu corpo , o ato de aten ção pode fixar e obje -
ação do espírito . tivar esse invariante porque ele tomou dist â ncia em relação
Contra essa concepção de um sujeito ocioso, a an álise às mudanç as da aparência. Portanto , n ão existe a atenção en -
da aten ção pelos psicólogos adquire o valor de uma tomada quanto atividade geral e formal5. Existe em cada caso certa
de consciência, e a cr ítica da “ hipó tese de const ância ” vai liberdade a adquirir , certo espaço mental a preparar. Resta
aprofundar-se em uma cr ítica da crença dogm ática no “ mun mostrar o próprio objeto da atenção. Trata-se ali, literalmente ,
do ” , considerado como realidade em si no empirismo e co
- de uma criação . Por exemplo , sabe-se h á muito tempo que
-
!

58 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 59
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS

durante os primeiros nove meses da vida as crianças só dis-


as igualdades aritmé ticas aparecem como variedades da mes-
tinguem globalmente entre o colorido e o acrom ático ; na se - ma equação . E justamente subvertendo os dados que o ato
q üê ncia , as superfícies coloridas se articulam em tintas “ quen -
de aten ção se liga aos atos anteriores , e a unidade da cons-
tes’’ e em tintas “ frias ” , e enfim chega- se ao detalhe das co -
ciência se constrói assim pouco a pouco por uma “ síntese de
res . Mas os psicólogos6 admitiam que apenas a ignorâ ncia
transição . O milagre da consciê ncia é fazer aparecer pela
ou a confusão dos nomes impede a crian ç a de c stinguir as
^
cores. A crian ça devia sim ver o verde ali onde ele existe , faltava-
lhe apenas prestar atenção nisso e apreender seus próprios
V. atenção fenômenos que restabelecem a unidade do objeto em
uma dimensão nova , no momento em que eles a destroem .
! fen ô menos. E porque os psicólogos n ão tinham conseguido
Assim , a atenção n ão é nem uma associação de imagens , nem
o retorno a si de um pensamento já senhor de seus objetos ,
representar um mundo em que as cores fossem indetermina-
mas a constituição ativa de um objeto novo que explicita e
das , uma cor que n ão fosse uma qualidade precisa . A crítica
tematiza aquilo que at é ent ão só se oferecera como horizonte
desses preju ízos permite, ao contrá rio, perceber o mundo das
indeterminado. Ao mesmo tempo em que aciona a aten ção,
cores como uma formação segunda , fundada em uma sé rie
a cada instante o objeto é reapreendido e novamente posto
de distin ções “ fision ó micas ” : a das tintas “ quentes ” e das
sob sua dependê ncia. Ele só suscita o “ acontecimento cog-
tintas “ frias ” , a do “ colorido e do “ n ão-colorido ” . Não
noscente ” que o transformará pelo sentido ainda ambíguo que
podemos comparar estes fenômenos, que para a criança subs-
lhe oferece para ser determinado, se bem que ele seja seu mo-
tituem a cor , a alguma qualidade determinada , e da mesma
tivo” 10 e n ão sua causa . Mas pelo menos o ato de aten ção
maneira as cores “ estranhas ” do doente n ão podem ser iden -
tificadas a nenhuma das cores do espectro 7. A primeira per -
acha-se enraizado na vida da consciê ncia , e compreende se -
enfim que ela saia de sua liberdade de indiferen ça para dar -
cepção das cores propriamente ditas é portanto uma mudan -
se um objeto atual . Esta passagem do indeterminado ao de-
ça de estrutura da consciê ncia8, o estabelecimento de uma
terminado , essa retomada , a cada instante , de sua própria
nova dimensão da experiê ncia , o desdobramento de um a prio-
histó ria na unidade de um novo sentido , é o pró prio pensa-
ri. Ora, é a partir do modelo destes atos originários que a aten -
mento . < í A obra do espírito só existe em ato . ” 11 O resulta-
ção deve ser concebida , já que uma atenção segunda, que se
do do ato de atenção n ão est á em seu começo . Se a lua no
limitaria a trazer de volta um saber já adquirido , nos reen-
horizonte n ão me parece maior do que no zé nite quando a
viaria à aquisição. Prestar atenção n ão é apenas iluminar mais
olho com uma luneta ou através de um tubo de cartolina , n ão
I dados preexistentes, é realizar neles uma articulação nova
se pode concluir disso 12 que també m na visão livre a aparê n -
considerando-os como figuras9. Eles só est ão pré-formados en -
cia é invariá vel . O empirismo acredita nisso porque n ão se
quanto horizontes; verdadeiramente , eles constituem novas re -
ocupa daquilo que se vê , mas daquilo que se deve ver segun -
gi Ões no mundo total . E precisamente a estrutura original que
do a imagem retiniana . O intelectualismo també m acredita
eles trazem que manifesta a identidade do objeto antes e de-
i nisso porque descreve a percepção de fato segundo os dados
pois da aten ção . Uma vez adquirida a cor qualidade , e ape -
da percepção “ analítica ” e atenta em que a lua , com efeito,
nas graç as a ela , os dados anteriores aparecem como prepa-
retoma seu verdadeiro diâmetro aparente . O mundo exato , in -
rações da qualidade . Uma vez adquirida a id é ia de equação ,
teiramente determinado , ainda é posto primeiramente , sem
i:
$
60 FENOMENOLOG1A DA PERCEPÇÃ O 1;
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E O RETORNO AOS FEN Ô MENOS 61
d ú vida n ão mais como a causa de nossas percepções , mas co -
trando a antítese por redução ao absurdo. Mas, nessa redu -
mo seu fim imanente . Se o mundo deve ser poss ível , é preci -
ção ao absurdo , o contato com as operações efetivas da cons-
so que ele esteja implicado no primeiro esboço de conscien - 'A
ciê ncia n ão é necessariamente estabelecido . Continua sendo
cia , como o diz t ão fortemente a dedução transcendental 13.
possível que a teoria da percepção, se idealmente parte de uma
E é por isso que a lua nunca deve parecer maior do que ela intuição cega , chegue por compensação a um conceito vazio ,
é no horizonte . A reflexão psicol ó gica nos obriga ao contrá- m
§ e que o ju ízo , contrapartida da sensação pura , recaia em uma
rio, a repor o mundo exato em seu berço de consciência , a função geral de ligação indiferente aos seus objetos, ou até
perguntarmo- nos como a pró pria idé ia do mundo ou da ver-
mesmo volte a ser uma forç a ps íquica revelável por seus efei -
dade exata é poss ível , a procurar seu primeiro jorro para a
tos. A célebre an álise do pedaço de cera salta de qualidades
consciê ncia. Quando eu olho livremente , na atitude natural ,
como o odor , a cor e o sabor para a potência de uma infini-
as partes do campo agem umas sobre as outras e motivam essa
dade de formas e de posições , que est á para al é m do objeto
enorme lua no horizonte , essa grandeza sem medida que to-
percebido e só define a cera do f ísico . Para a percepção , n ão
davia é uma grandeza. E preciso colocar a consci•ê ncia em
A

há mais cera quando todas as propriedades sensíveis desapa-


presen ça de sua vida irrefletida nas coisas e despert á -la para
receram , e é a ciê ncia que supõe ali alguma maté ria que se
sua pró pria hist ó ria que ela esquecia ; este é o verdadeiro pa-
conserva . A cera “ percebida ” ela mesma , com sua maneira
pel da reflexão filosófica e é assim que se chega a uma verda-
original de existir , sua perman ê ncia que n ão é ainda a iden-
deira teoria da aten ção .
tidade exata da ciê ncia , seu “ horizonte interior ” 15 de varia-
O intelectualismo propunha- se a descobrir a estrutura ção possível segundo a forma e segundo a grandeza , sua cor
da percepção por reflexão , em lugar de explicá-la pelo jogo
mate que anuncia a moleza , sua moleza que anuncia um ru í-
combinado entre forças associativas e a aten ção , mas seu olhar do surdo quando eu a golpear , enfim a estrutura perceptiva
sobre a percepção ainda n ão é direto . N ós o veremos melhor
do objeto , tudo isso é perdido de vista porque são necessá rias
examinando o papel que a noção de juízo desempenha em sua
determinações de ordem predicativa para ligar qualidades in-
an álise . O ju ízo é freq üentemente introduzido como aquilo que
teiramente objetivas e fechadas sobre si. Os homens que vejo
falta à sensação para tornar possível uma percepção . A sensação n ão
de uma janela est ão escondidos por seus chapé us e por seus
é mais suposta como elemento real da consciência. Mas, quan -
casacos , e sua imagem n ão pode fixar- se em minha retina .
do se quer desenhar a estrutura da percepção , isso é feito vol-
Portanto , eu n ão os vejo , eu julgo que eles est ão ali16. Defi-
tando ao pontilhado das sensações. A an álise encontra - se do-
nida a visão à maneira empirista como a posse de uma quali-
minada por essa noção empirista , se bem que ela só seja ad -
dade inscrita no corpo por um est ímulo17 , a menor ilusão ,
mitida como o limite da consciê ncia e só sirva para manifes-
já que d á ao objeto propriedades que ele n ão tem em minha
tar uma pot ê ncia de ligação da qual ela é o oposto . O intelec-
retina , basta para estabelecer que a percepção é um ju ízo18.
tualismo vive da refutação do empirismo e nele o ju ízo tem Como tenho dois olhos , eu deveria ver o objeto duplicado,
freq ü entemente a fun ção de anular a dispersão possível das e se só percebo um é porque construo , com o aux ílio das duas
sensações14. A an álise reflexiva se estabelece levando as te -
imagens , a idéia de um objeto ú nico à dist ância 19. A percep-
ses realista e empirista até as suas conseq üê ncias , e demons-
ção torna- se uma “ interpretação ” dos signos que a sensibili -
62 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 63

dade fornece conforme os estímulos corporais20 , uma “ hipó- ação , no meu corpo , de um est ímulo real . Como aqui não
! tese ” que o esp írito forma para “ explicar - se suas impres- h á nenhum est ímulo , será preciso dizer ent ão que a caixa n ão
soes ” 2 1 . Mas també m o ju ízo , introduzido para explicar o é sentida , mas é julgada mais pesada , e este exemplo que pa-
excesso da percepção sobre as impressões retinianas , em lu - recia feito para mostrar o aspecto sens ível da ilusão serve , ao
gar de ser o pró prio ato de perceber apreendido do interior contrá rio , para mostrar que n ão h á conhecimento sensível e
por uma reflexão aut ê ntica , volta a ser um simples “ fator ” que sentimos como julgamos23. Um cubo desenhado no pa-
da percepção , encarregado de fornecer aquilo que o corpo n ão
T'
pel muda de aspecto segundo é visto de um lado e por cima
fornece — em lugar de ser uma atividade transcendental , ele
n
.
OU do outro lado e por baixo . Mas , se eu sei que ele pode ser
'
volta a ser uma simples atividade lógica de conclusão22 . Atra- visto de duas maneiras , ocorre que a figura se recusa a mu -
vés disso somos levados para fora da reflexão , e constru ímos dar de estrutura e que meu saber tem de esperar sua realiza-
a percepção em lugar de revelar seu funcionamento próprio; ção intuitiva . Aqui , novamente , se deveria concluir que jul -
mais uma vez , deixamos escapar a operação primordial que gar n ão é perceber. Mas a alternativa entre a sensação e o
impregna o sensível de um sentido e que toda mediação lógi - ju ízo obriga a dizer que a mudan ça da figura , não dependendo
ca assim como toda causalidade psicológica pressupõem . Re - dos “ elementos sensíveis ” que , como os est ímulos , perma-
sulta disso que a an álise intelectualista termina por tornar in - necem constantes , só pode depender de uma mudan ça na in-
compreens íveis os fen ô menos perceptivos que deveria ilumi- terpretação e que , enfim a concepção do esp írito modifica
nar . Enquanto o ju ízo perde sua fun ção constituinte e torna - a pró pria percepção’ ’ 24 , “ a aparê ncia adquire forma e sen -
se um princ ípio explicativo , as palavras “ ver ” , “ ouvir ” , tido no comando ” 25. Ora , se se vê aquilo que se julga , co-
“ sentir ” perdem qualquer significação, já que a menor vi - mo distinguir a percepção verdadeira da percepção falsa ? Co-
são ultrapassa a impressão pura e assim volta a ficar sob a mo se poderá dizer , depois disso , que o alucinado ou o louco
26
rubrica geral do “ ju ízo ” . Entre o sentir e o ju ízo , a expe- “ acreditam ver aquilo que não vêem de forma alguma” ?
riê ncia comum estabelece uma diferen ça bem clara . O ju ízo Onde estará a diferen ça entre ver e “ crer que
í i
se v ê ” Se
?
é para ela uma tomada de posição , ele visa conhecer algo de se responde que o homem n ão só julga segundo signos sufi-
válido para mim mesmo em todos os momentos de minha vi- cientes e sobre uma mat é ria plena , é porque h á ent ã o uma
da e para os outros esp íritos existentes ou poss íveis; sentir , diferen ça entre o ju ízo motivado da percep ção verdadeira e
ao contrá rio , é remeter- se à aparê ncia sem procurar possu í- o ju ízo vazio da percepção falsa , e , como a diferen ç a n ã o esta
la ou saber sua verdade. Essa distin ção se apaga no intelec- na forma do ju ízo mas no texto sensível que ele põe em for-
tualismo , porque o ju ízo est á em todas as partes em que n ão ma , perceber no sentido pleno da palavra , que se opõe a ima-
est á a pura sensação , quer dizer , em todas as partes. O teste- ginar , não é julgar , é apreender um sentido imanente ao sen -
munho dos fen ô menos , portanto , será recusado em todas as s ível antes de qualquer ju ízo . O fen ô meno da percepçã o ver-
partes. Uma grande caixa de papelão me parece mais pesada dadeira oferece portanto uma significação inerente aos sig -
do que uma caixa pequena feita do mesmo papelão e , atendo- nos , e do qual o ju ízo é apenas a expressão facultativa. O
me aos fenô menos , eu diria que previamente a sinto pesada intelectualismo n ão pode levar a compreender nem este fe-
em minha m ão . Mas o intelectualismo delimita o sentir pela nô meno , nem tampouco a imitação que dele d á a ilusão .
I

64 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS 65

Mais geralmente , ele é cego ao modo de exist ê ncia e de coe - e , com ela , o ju ízo que forma a segunda . Constru í mos a ilu -
xist ê ncia dos objetos percebidos , à vida que atravessa o cam - são , não a compreendemos. O ju ízo, neste sentido muito ge-
po visual e liga secretamente suas partes. Na ilusão de Zõll - ral e inteiramente formal , só explica a percepção verdadeira
ner , eu vejo ” as linhas principais inclinadas uma em dire - ou falsa se ele se guia pela organização espont â nea e pela con -
ção à outra . O intelectualismo reconduz o fen ô meno a um figuração particular dos fen ômenos. E verdade que a ilusão
simples erro: tudo provém do fato de que faço intervir as li- consiste em inscrever os elementos principais da figura nas
nhas auxiliares e sua rela ção com as linhas principais , em lu - relações auxiliares que apagam o paralelismo . Mas por que
gar de comparar as próprias linhas principais. No fundo , eu m elas o apagam ? Por que duas retas até ent ão paralelas dei -
me engano sobre a ordem , e comparo os dois conjuntos em xam de fazer par e são levadas a uma posição obl íqua pela
lugar de comparar seus elementos principais27 . Restaria sa- m vizinhan ça imediata que lhes damos? Tudo se passa como se
ber por que me engano sobre a ordem . “ A quest ão deveria elas n ão fizessem mais parte do mesmo mundo. Duas obl í-
impor-se : como acontece que seja tão difícil , na ilusão de Zõll-
1 quas verdadeiras est ão situadas no mesmo espaço que é o es-
ner , comparar isoladamente as pró prias retas que devem ser
paço objetivo . Mas elas n ão se inclinam em ato uma em di -
comparadas segundo a ordem dada? De onde vem que elas
reção à outra , é imposs ível vê-las obl íquas se as fixamos . E
se recusem assim a deixar-se separar das linhas auxiliares ” 28?
quando as tiramos do olhar que elas tendem surdamente pa-
Seria preciso reconhecer que , recebendo linhas auxiliares, as
ra essa nova relação. Existe ali , para aqu é m das relações ob-
linhas principais deixaram de ser paralelas , que elas perde -
jetivas , uma sintaxe perceptiva que se articula segundo re -
ram aquele sentido para adquirir um outro , que as linhas au -
xiliares importam na figura uma significação nova que dora- gras próprias: a ruptura das relações antigas , o estabelecimen-
vante ali vagueia e dali n ão pode mais ser destacada 29. E es- to de relações novas , o ju ízo exprimem apenas o resultado
sa significação aderente à figura , essa transformação do fe - dessa operação profunda e são sua constatação final . Falsa
nô meno , que motiva o ju ízo falso e est á , por assim dizer , atrás ou verdadeira , é assim que a percepção deve primeiramente
dele. E ela , ao mesmo tempo , que restitui um sentido à pala- se constituir para que uma predicação seja possível . E verda-
vra “ ver para aqu é m do ju ízo , para alé m da qualidade ou de que a dist â ncia de um objeto ou seu relevo n ão são pro-
da impressão , e faz reaparecer o problema da percepção . Se priedades do objeto assim como sua cor ou seu peso. E ver-
se admite chamar de ju ízo toda percepção de uma relação , dade que elas são relações inseridas em uma configuração de
e reservar o nome de visão à impressão pontual , ent ão segu - conjunto que , aliás , envolve o peso e a cor eles mesmos. Mas
ramente a ilusão é um ju ízo. Mas essa an álise supõe , pelo n ão é verdade que essa configuração seja constru ída por uma
menos idealmente , uma camada de impressão em que as li- “ inspeção do espírito ” . Isso seria dizer que o espírito per-
nhas principais seriam paralelas como o são no mundo, quer corre impressões isoladas e descobre pouco a pouco o sentido
dizer , no meio que nós constitu ímos por medidas —
operação segunda que modifica as impressões fazendo inter-
e uma do todo , assim como o cientista determina as incó gnitas em
fun ção dos dados do problema . Ora , aqui os dados do pro-
vir as linhas auxiliares , e falseia assim a relaçã o entre as li- blema não são anteriores à sua solu ção , e a percepção é jus-
nhas principais. Ora , a primeira fase é de pura conjectura tamente este ato que cria de um só golpe , com a constelação
66 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FENÔMENOS 67
I
I
dos dados , o sentido que os une
— que n ão apenas descobre
o sentido que eles têm, mas ainda faz com que tenham um sentido.
%
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|
distingue do conceito este conhecimento ainda preso a seu ob-
jeto , inerente a um ponto do tempo e do espaço . Mas a refle -
A

E verdade que essas críticas só se aplicam aos prim ó r- xão mostra que ali nada h á para se compreender . E um fato
l
dios da an álise reflexiva , e o intelectualismo poderia respon - que primeiramente eu me creio circundado por meu corpo ,
der que inicialmente se est á obrigado a falar a linguagem do preso ao mundo, situado aqui e agora . Mas cada uma dessas
st

senso comum . A concepção do ju ízo como força psíquica ou palavras , quando reflito nelas , é desprovida de sentido e nao
*
como mediação lógica e a teoria da percepção como “ inter- coloca então nenhum problema: eu me perceberia “ circun -
pretação ” — este intelectualismo dos psicólogos

efeito apenas uma contrapartida do empirismo , mas prepa-
são com dado por meu corpo ” se eu n ão estivesse nele tanto quanto
em mim , se eu mesmo n ão pensasse essa relação espacial e
ram uma verdadeira tomada de consciê ncia . Só se pode co- assim escapasse à inerê ncia no pró prio momento em que eu
meçar na atitude natural , com seus postulados , até que a dia- ma represento ? Eu saberia que estou preso no mundo e nele
lé tica interna desses postulados os destrua . Compreendida a situado se ali estivesse verdadeiramente preso e situado? Eu
percepção como interpretação , a sensação , que serviu de ponto me limitaria agora a estar onde estou como uma coisa , e , se
de partida , est á definitivamente ultrapassada , qualquer cons- sei onde estou e me vejo no meio das coisas , é porque sou
ci ê ncia perceptiva já estando para alé m dela . A sensação n ão uma consciê ncia , um ser singular que n ão reside em parte
é sentida30 e a consciê ncia é sempre consciência de um obje - alguma e pode tornar- se presente a todas as partes em inten -
to. Chegamos à sensação quando , refletindo sobre nossas per- ção. Tudo o que existe existe como coisa ou como consciê n -
cepções , queremos exprimir que elas n ão são absolutamente cia , e n ão há meio- termo. A coisa est á em um lugar , mas a
nossa obra . A pura sensação , definida pela ação dos estímulos percepção n ão est á em parte alguma porque , se estivesse si-
sobre nosso corpo , é o “ efeito último ” do conhecimento , em tuada , ela n ão poderia fazer as outras coisas existirem para ela
particular do conhecimento cient ífico , e é por uma ilusão , aliás mesma , já que repousaria em si à maneira das coisas . A per -
natural , que a colocamos no começo e acreditamos que seja cepção é portanto o pensamento de perceber. Sua encarna -
anterior ao conhecimento . Ela é a maneira necessá ria e ne- ção n ão oferece nenhum car á ter positivo do qual se precise
cessariamente enganosa pela qual um espírito representa sua dar conta, e sua ecceidade é apenas a ignorâ ncia em que ela
própria histó ria31 . Pertence ao dom ínio do constitu ído e nao est á de si mesma . A an álise reflexiva torna- se uma doutrina
/

ao espírito constituinte . E segundo o mundo ou segundo a puramente regressiva , segundo a qual toda percepção é uma
opinião que a percepção pode aparecer como uma interpre- intelecção confusa , toda determinação é uma negação. As-
tação . Para a pró pria consciê ncia , como ela seria um raciocí- sim ela suprime todos os problemas , salvo um : o de seu pró-
mo se n ão existem sensações que possam servir de premis- prio começo. A finitude de uma percepção que me apresen -
sas , como ela seria uma interpretação se antes dela n ão h á >
ta , como dizia Spinoza , conseq üê ncias sem premissas , a
5
í í

nada a ser interpretado? Ao mesmo tempo em que assim se inerência da consciê ncia a um ponto de vista , tudo se recon -
ultrapassa , com a idéia de sensação , a idéia de uma ativida- duz à minha ignorâ ncia de mim mesmo , ao meu poder intei-
de simplesmente lógica , as objeções que fazíamos há pouco ramente negativo de não refletir. Mas essa ignorância , por
desaparecem . Pergunt ávamos o que é ver ou sentir , o que sua vez , como ela é possível ? Responder que ela nunca / seria

I M
68 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO ï OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FENÔMENOS 69
m
supnmir- me enquanto filósofo que investiga .
Nenhuma filo- evoca, a t ítulo de limite , as qualidades m últiplas que são ape -
sofia pode ignorar o problema da finitude , sob pena de nas o inv ólucro do objeto , e dali passa a uma consciê ncia do
ignorar-se a si mesma enquanto filosofia ; nenhuma an álise objeto que possuiria sua lei ou seu segredo , e que por isso
da percepção pode ignorar a percepção como fen ô meno ori- fft retiraria do desenvolvimento da experiê ncia a sua contingê n -
ginal , sob pena de ignorar-se a si mesma enquanto análise , mm- cia , e do objeto o seu estilo perceptivo . Esta passagem da te -
se à ant ítese , esta mudan ç a do pró ao contra que é o procedi-
ï
e o pensamento infinito que se descobriria
imanente à per-
cepção n ão seria o mais alto ponto de consciê ncia , mas , ao mento constante do intelectualismo deixam subsistir sem al -
contrá rio , uma forma de inconsciê ncia. O movimento
de re - teração o ponto de partida da an álise ; partia- se de um mun -
flexão superaria a meta : ele nos transportaria de um mundo do em si que agia sobre nossos olhos para fazer-se ver por
imobilizado e determinado a uma consciê ncia sem fissura , -
nós, tem se agora uma consciê ncia ou um pensamento do
quando o objeto percebido é animado por uma vida
secreta mundo , mas a pró pria natureza deste mundo n ão mudou :
e a percepção , enquanto unidade, se desfaz e se
refaz sem ele é sempre definido pela exterioridade absoluta das partes
cessar . Enquanto n ão tivermos seguido o movimento efetivo e apenas duplicado em toda a sua extensão por um pensa -
pelo qual a cada momento a consciência refaz os seus
passos , mento que o constrói. Passa -se de uma objetividade absoluta
os contrai e os fixa em um objeto identificá vel , passa
pouco a uma subjetividade absoluta , mas esta segunda ideia vale
a pouco do “ ver ” ao “ saber ” , e obtém a unidade de
sua pró- exatamente tanto quanto a primeira e só se sustenta contra
pria vida , só teremos uma essê ncia abstrata da consciê
ncia . ela , quer dizer , por ela . O parentesco entre o intelectualismo
N ão atingiremos essa dimensão constitutiva se
substituirmos e o empirismo é assim muito menos visível e muito mais pro-
por um sujeito absolutamente transparente a unidade plena fundo do que se crê . Ele não se limita apenas à definição an -
da consciência , e por um pensamento eterno a arte escon
- tropológica da sensação , da qual um e outro se servem , mas
dida que faz surgir um sentido nas “ profundezas da natu - refere- se ao fato de que urn e outro conservam a atitude na-
reza ” . A tomada de consciência intelectualista não chega at é tural ou dogm á tica , e a sobrevivê ncia da sensação no intelec-
este tufo vivo da percepção porque ela busca as condições
que tualismo é apenas um signo desse dogmatismo . O intelectua-
a tornam possível ou sem as quais ela n ão existiria , em
lugar lismo aceita como absolutamente fundadas a idé ia do verda-
de desvelar a operação que a torna atual ou pela qual ela se deiro e a idéia do ser nas quais se termina e se resume o tra-
constitui. Na percepção efetiva e tomada no estado nascente
, balho constitutivo da consciê ncia , e sua pretensa reflexão con -
antes de toda fala, o signo sensível e sua significação n ã s
o ão siste em pô r como potê ncias do sujeito tudo aquilo que é
separá veis nem mesmo idealmente . Um objeto é um orga
- necessá rio para chegar a essas idéias . A atitude natural , lan -
nismo de cores , de odores , de sons , de aparê ncias t áteis que çando- me no mundo das coisas , me dá a certeza de apreen-
se simbolizam e se modificam uns aos outros e
concordam der um “ real ” para além das aparências, o “ verdadeiro ” para
uns com os outros segundo uma l ógica real que a ciê ncia tem alé m da ilus ão . O valor dessas noções n ão é questionado pelo
por fun ção explicitar , e da qual ela est á muito longe de ter intelectualismo: trata- se apenas de conferir a um naturante
acabado a análise . Em relação a essa vida perceptiva, o inte- universal o poder de reconhecer essa mesma verdade absolu -
lectualismo é insuficiente ou por carência ou por excesso: ele ta que o realismo ingenuamente situa em uma natureza da-
70 F ENOMENOL OGIA DA PERCEPÇÃ O E O RETORNO AOS FEN Ô MENOS 71
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS
da. Sem dúvida, o intelectualismo apresenta-se ordinariamen -
tos absolutamente verdadeiro , capaz de coordenar todos os
fenô menos , um geo me trai que d ê razão de todas as perspec-
te como uma doutrina da ciê ncia e n ão como uma
doutrina
da percepção, ele acredita fundar sua an álise na experiê
ncia tivas , um objeto puro sobre o qual trabalham todas as subje-
da verdade matem á tica e n ão na evidê ncia ingé nua do mun -
tividades. Não é preciso nada menos do que este objeto ab-
do: habemus ideam veram . Mas na realidade eu n ão saberia
que soluto e este sujeito divino para afastar a ameaça do gê nio
possuo uma ideia verdadeira se n ão pudesse , pela memó
ligar a evidê ncia presente àquela do instante escoado e ,
ria , -
maligno e para garantir nos a posse da idé ia verdadeira. Ora ,
pelo -,
h á um ato humano que de um só golpe atravessa todas as
confronto da fala , a minha evidência à do outro, de forma £ d ú vidas poss íveis para instalar-se em plena verdade: este ato
é a percepção , no sentido amplo de conhecimento das exis-
que a evidência spinozista pressupõe aquela da recordaçã
o
e da percepção. Se se quer , ao contrá rio , fundar a constitui
- f tências. Quando me ponho a perceber esta mesa , contraio re-
ção do passado e a do outro em meu poder de
reconhecer a solutamente a espessura de duração escoada desde que a olho ,
verdade intr ínseca da idé ia , suprime -se sim o problema
do saio de minha vida individual apreendendo o objeto como ob-
jeto para todos, re ú no ent ão de um só golpe experiê ncias con -
outro e o do mundo, mas porque se permanece na
atitude
cordantes mas separadas e repartidas em vá rios pontos do tem-
natural que os considera como dados e porque se utilizam
as
forças da certeza ingénua. Pois nunca , como Descartes e Pas
- po e em vá rias temporalidades. Este ato decisivo que desem -
penha , no interior do tempo , a fun ção da eternidade spino-
cal o viram , posso coincidir de um só golpe com o puro
pen -
samento que constitui uma id é ia mesmo simples ; meu pen : ~ ” 32 n ós n ão censuramos o í nte-
- zista , essa doxa origin á ria
-
samento claro e distinto serve se sempre de pensamentos
já lectualismo por servir-se dela , mas por servir -se dela tacita -
formados por mim ou pelo outro , e fia - se na minha mem ó- mente . Há ali um poder de fato , como dizia Descartes , uma
ria , quer dizer , na natureza de meu espírito ou na mem ó ria da
evidê ncia simplesmente irresist ível , que re ú ne , sob a invoca-
comunidade dos pensadores, quer dizer, no espírito objetivo . ção de uma verdade absoluta , os fen ô menos separados de meu
Considerar concedido que n ós temos uma id é ia verdadeira é presente e de meu passado , de minha duração e daquela do
crer na percepção sem crítica . O empirismo permanecia na
outro , mas que n ão deve ser cortada de suas origens percep-
crença absoluta no mundo enquanto totalidade dos aconteci-
tivas e destacada de sua “ facticidade ” . A função da filosofia
mentos espaço-temporais , e tratava a consciê ncia como
um é recolocá-la no campo de experiê ncia privada em que ela sur-
cantão desse mundo. A an álise reflexiva rompe com
o mun - ge e iluminar o seu nascimento . Se ao contrá rio , servimo-
do em si , já que ela o constitui pela operação da consciê
ncia, nos dela sem tom á- la por tema , tornamo- nos incapazes de ver
mas essa consciê ncia constituinte , em lugar de ser apreendi
- o fenô meno da percepção e o mundo que nasce nela através
da diretamente, é constru ída de modo a tornar possível a id
éia da ruptura das experiências separadas, fundamos o mundo per-
de um ser absolutamente determinado . Ela é o
correlativo de cebido em um universo que é apenas este pró prio mundo des-
um universo, o sujeito que possui absolutamente
acabados tacado de suas origens constitutivas e tornado evidente por-
todos os conhecimentos dos quais nosso conhecimento efeti
- que esquecemos essas origens . Assim , o intelectualismo dei -
vo é o esboço. E porque se supõe efetuado em algum
xa a consciê ncia em uma relação de familiaridade com o ser

lugar aquilo A

que para n ós só existe em inten ção: um sistema de pensamen -


absoluto , e a pró pria idé ia de um mundo em si subsiste como
'1

72 Li
FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O S; AOS FEN Ô MENOS 73
OS PREJU ÍZOS CL Á SSICOS E 0 RETORNO
i -i i horizonte ou como fio condutor da análise reflexiva
da interrompeu as afirmações expl ícitas
. A duvi - Talvez ainda n ão tenhamos compreendido a verdadeira fun-
ela não muda nada nesta surda presen ç a do
sobre o mundo , mas ção do ju ízo na percepção. A an álise do pedaço de cera signi-
mundo que se ficava n ão que uma razão est á escondida atrás da natureza ,
sublima no ideal da verdade absoluta . Agora a reflex
mas que a razão est á enraizada na natureza ; a inspeção do

ão fixa
uma essê ncia da consciê ncia que se aceita
dogmaticamente , esp írito n ão seria o conceito que desce na natureza , mas a
sem se perguntar o que é uma essência
do pensamento esgota o fato do pensamento .
nem se a essê ncia ir
Tf.:' natureza que se eleva ao conceito. A percepção é um ju ízo ,
.1 1.•
:
,
*

Ela perde o ca- mas que ignora suas razões33 , o que significa dizer que o ob -
ráter de uma constatação e doravante n o

: cusada como a ilus ão das ilusões , só se


ã se pode tratar de
descrever fen ô menos: a aparê ncia perceptiva das
ilusões é re-
pode ver aquilo que
existe , a pró pria vis ão e a experiê ncia n ão
jeto percebido se dá como todo e como unidade antes que n ós
tenhamos apreendido a sua lei intelig ível , e que originaria-
mente a cera n ão é uma extensão flex ível e mut á vel . Dizen -
i

I
guidas da concepção. Da í uma filosofia em
são mais distin - 4 do que o ju ízo natural n ão tem “ tempo para pesar e conside - »
parte dupla , no- rar quaisquer razoes 5 5 Descartes d á a entender que , sob o
t ável em toda doutrina do entendimen
to: salta-se de uma vi- nome de ju ízo ” , ele visa a constituição de um sentido do per-
são naturalista , que exprime nossa :
condição de fato a uma
, cebido que n ão é anterior à própria percepção e parece sair
dimensão transcendental em que todas as servid
ões est ão re - dela34 . Esse conhecimento vital ou essa “ inclinação natural ” ,
vogadas de direito , e nunca se precisa
mesmo sujeito é parte do mundo e princípio
-
perguntar se como o que nos ensina a união entre a alma e o corpo , quando a luz
do mundo , por- natural nos ensina sua distinção , parece contraditório garanti-
que o constitu ído é sempre para o
constituinte. Na realida - lo pela veracidade divina , que n ão é outra coisa sen ão a cla-
de , a imagem de um mundo constitu ído
em que eu seria , com reza intr í nseca da idé ia , ou só pode , em todo caso , autenti-
meu corpo , apenas um objeto entre outros e
consciência constituinte absoluta só
a id é ia de uma car pensamentos evidentes. Mas talvez a filosofia de Descar-
aparentemente formam tes consista em assumir essa contradição35 . Quando Descar-
ant ítese : elas exprimem duas vezes o
preju ízo de um univer - tes diz que o entendimento se sabe incapaz de conhecer a
so em si perfeitamente explícito. Uma
reflexão autê ntica em união entre a alma e o corpo e deixa para a vida conhecê-
lugar de fazê-las alternar como sendo ambas
i
maneira da filosofia de entendimento , rejeita
verdadeiras à la36, isso significa que o ato de reflexão se mostra como re - i
-as a ambas co- flexão sobre um irrefletido que ele n ão reabsorve nem de fato
mo falsas.
E verdade que talvez nós desfiguramos uma nem de direito. Quando reencontro a estrutura inteligível do
o intelectualismo. Quando dizemos que
segunda vez pedaço de cera , não me recoloco em um pensamento absolu -
a an álise reflexiva rea
liza , por antecipação, todo o saber possível - to a respeito do qual ele seria apenas um resultado, eu n ão
acima do saber o constituo , eu o re- constituo . O “ ju ízo natural ” n ão é se -
atual , encerra a reflexão em seus resultados e
anula o fen ô- nao o fen ô meno da passividade . E sempre à percepção que
meno da finitude , talvez isso ainda seja uma
caricatura do incumbirá conhecer a percepção . A reflexão nunca se impele
intelectualismo, a reflexão segundo o mundo , a verdade
vis - para fora de qualquer situação , a an álise da percepção n ão
ta pelo prisioneiro da caverna que prefere
as sombras às quais faz desaparecer o fato da percepção, a ecceidade do percebi-
está acostumado e n ão compreende que
elas derivam da luz . do , a inerê ncia da consciê ncia perceptiva a uma temporali-

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74 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS 75
dade e a uma localidade. A reflexão n ão é
absolutamente me s ão dados como significações . Mas , quando contemplo
transparente para si mesma , ela é sempre dada para
si mes- um objeto com a ú nica preocupação de vê-lo existir e desdo-
ma em uma experiência, no sentido da palavra que ser
á o sen - brar diante de mim as suas riquezas , então ele deixa de ser
tido kantiano , ela sempre brota sem saber ela mesma de
on - uma alusão a um tipo geral , e eu me apercebo de que cada
de brota , e sempre se oferece a mim como um dom
da natu - percepção , e n ão apenas aquela dos espetáculos que descu -
reza . Mas se a descrição do irrefletido permanece válida
de- bro pela primeira vez , recomeça por sua pró pria conta o nas-
pois da reflex ão , e a VI Meditação depois da segunda ,
reci- cimento da inteligê ncia e tem algo de uma inven ção genial :
procamente esse próprio irrefletido só nos é conhecido
pela para que eu reconheça a á rvore como uma á rvore , é preciso
reflex ão , e n ão deve ser posto fora dela como um
termo in - que , abaixo desta significa ção adquirida , o arranjo momen - í
cognoscível. Entre mim , que analiso a percepção, e o eu
que tâneo do espet áculo sensível recomece , como no primeiro dia
percebe , h á sempre uma dist â ncia . Mas , no ato concreto
de do mundo vegetal , a desenhar a idé ia individual desta á rvo-
reflexão , eu transponho essa distância , provo pelo
fato que re. Tal seria este ju ízo natural , que ainda n ão pode conhecer
sou capaz de saber aquilo que eu percebia , domino praticamente
a descontinuidade dos dois Eus, e finalmente o suas razões j á que ele as cria . Mas , mesmo se se concede que
cogito teria por a existência , a individualidade , a “ facticidade ” estão no ho-
sentido n ão revelar um constituinte universal ou reconduzir m. rizonte do pensamento cartesiano , resta saber se ele as tomou
a percepção à intelecção , mas constatar este fato
da reflexão , e por temas . Ora , é preciso reconhecer que ele só poderia tê-lo
que ao mesmo tempo domina e mant é m a opacidade
da per- feito transformando- se profundamente . Para fazer da percep-
cepção. E próprio da resolução cartesiana identificar
a razão e a condição humana , e pode -se sustentar
assim «8 ção um conhecimento origin á rio , ele precisaria atribuir à fi-
que a sig- u nitude uma significação positiva , e precisaria levar a sé rio esta
nificação última do cartesianismo está ali . O “ ju ízo natural
do intelectualismo antecipa agora aquele ju ízo kantiano
” estranha frase da IV Meditação que faz de mim “ um meio
que 4? entre Deus e o nada ” . Mas se o nada n ão tem propriedades ,
faz nascer no objeto individual o seu sentido , e n ão o
fornece como o deixa entender a V Meditação e como o dirá Male -
inteiramente feito37 . O cartesianismo , assim como o kantis Wm;:
mo, teria visto plenamente o problema da
- fr branche , se ele não é nada , ent ão essa definição do sujeito hu -
percepção , que con - mano é apenas uma maneira de falar e o finito nada tem de
siste em que ela é um conhecimento originário. Há uma
cepçã o empírica ou segunda , aquela que exercemos
per - positivo. Para ver na reflex ão um fato criador , uma reconsti-
a cada tuição do pensamento passado que n ão estava pré-formado
instante , que nos mascara este fen ô meno
fundamental por - nela e todavia a determina validamente porque apenas ele nos
que ela é inteiramente plena de aquisições antigas e
opera , d á a sua id é ia e porque para nós o passado em si é como se
por assim dizer, na superf ície do ser. Quando olho
rapida- não fosse , teria sido preciso desenvolver uma intuição do tem -
mente os objetos que me circundam para me situar e
orientar- po à qual as Meditações fazem apenas uma curta alusão .
me entre eles, mal tenho acesso ao aspecto instant
â neo do “ Engane-me quem puder, ele não poderia fazer com que eu
mundo , identifico aqui a porta , ali a janela , mais
adiante a n ão seja nada , enquanto penso ser algo ; ou que algum dia seja
minha mesa , que são apenas os suportes e os guias de
uma verdade que eu jamais tenha sido, sendo verdadeiro agora que eu
inten ção prá tica orientada em outra direção , e que agora
só sou . ” 38 A experiê ncia do presente é a de um ser fundado de
76 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 77

uma vez por todas , e que nada poderia impedir de ter sido . ela deve ser transposta para o plano da reflexão , em que o
Na certeza do presente , há uma intenção que ultrapassa a pre- filósofo n ão mais procura explicar a percepção , mas coinci -
sen ç a , que antecipadamente o põe como um “ antigo presen - dir com a operação perceptiva e compreendê-la . Aqui , a crí-
te ” indubit ável na sé rie das rememorações , e a percepção en - tica da hipótese de const â ncia revela que a percepção n ão é .
quanto conhecimento do presente é o fen ô meno central que um ato de entendimento . Basta que eu olhe uma paisagem
torna poss ível a unidade do eu e , com ela , a idé ia da objetivi - de cabeça para baixo para nada mais reconhecer ali . Ora , em
dade e da verdade . Mas ela é apresentada no texto somente relação ao entendimento , o “ alto ” e o “ baixo ” só tê m um
como uma dessas evidê ncias irresist íveis apenas de fato , que fe
m sentido relativo , e o entendimento n ão poderia chocar- se com
m
permanecem sujeitas à d ú vida39. A solu ção cartesiana n ão é a orientação da paisagem como se ela fosse um obst áculo ab-
portanto considerar o pensamento humano em sua condição soluto. Diante do entendimento , um quadrado é sempre um
de fato como garantia de si mesmo , mas apoiá- lo em um pen - quadrado , quer repouse em uma de suas bases ou em um de
samento que se possui absolutamente. A conexão entre a es- seus vé rtices . Para a percepção , no segundo caso dificilmen -
sê ncia e a existê ncia n ão é encontrada na experiê ncia mas na te ele é reconhecível. O Paradoxo dos objetos simétricos opunha ,
idé ia do infinito . Portanto , no final das contas é verdade que ao logicismo , a originalidade da experiê ncia perceptiva . Es-
a an álise reflexiva repousa inteira em uma idé ia dogm á tica sa ideia deve ser retomada e generalizada : h á uma significa -
do ser , e que nesse sentido ela n ão é uma tomada de cons- ção do percebido que n ão tem equivalente no universo do en -
ciê ncia acabada 40 . Quando o intelectualismo retomava a no- tendimento , um meio perceptivo que ainda n ão é o mundo
ção naturalista de sensação , neste passo estava implicada uma objetivo , um ser perceptivo que ainda n ão é o ser determina-
filosofia . Reciprocamente , quando a psicologia elimina defi- do. Apenas os psicólogos que praticam a descrição dos fen ô-
nitivamente essa noção , podemos esperar encontrar nessa re - menos ordinariamente n ão percebem o alcance filosófico de
forma o esboço de um novo tipo de reflex ão . No plano da seu m é todo . Eles n ão vêem que o retorno à experiê ncia per -
psicologia , a crítica da “ hipótese de const â ncia ” significa ape- ceptiva , se essa reforma é conseq ü ente e radical , condena to-
nas que se abandona o ju ízo como fator explicativo na teoria das as formas do realismo , quer dizer , todas as filosofias que
da percepção . Como pretender que a percepção da dist ância abandonam a consciê ncia e tomam como dado um de seus
seja conclu ída a partir da grandeza aparente dos objetos , da resultados , n ão vêem que o verdadeiro defeito do intelectua-
disparidade das imagens retinianas , da acomodação do cris- lismo é justamente o de considerar como dado o universo de-
talino , da convergê ncia dos olhos , que a percepção do relevo terminado da ciência , que esta censura se aplica a fortiori ao
seja conclu ída a partir da diferença entre a imagem forneci- pensamento psicológico , já que ele situa a consciê ncia per -
da pelo olho direito e a imagem fornecida pelo olho esquer- ceptiva no meio de um mundo inteiramente acabado , e que
do , já que , se n ós nos atemos aos fen ô menos , nenhum desses a crítica à hip ó tese de const â ncia , se levada até o fim , adqui-
“ signos ” é claramente dado à consciê ncia , e já que n ão po- re o valor de uma verdadeira “ redu ção fenomenoló gica ” 41 .
deria haver raciocínio ali onde faltam as premissas? Mas es- A Gestalttheorie mostrou muito bem que os pretensos signos
sa crítica ao intelectualismo só atinge a sua vulgarização en -
tre os psicólogos . E , assim como o pró prio intelectualismo ,
da dist ância — a grandeza aparente do objeto , o n ú mero de
objetos interpostos entre ele e n ós , a disparidade das imagens
78 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO OS PREJU ÍZOS CL Á SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS 79

retinianas , o grau de acomodação e de convergê ncia


são expressamente conhecidos em uma percepção analítica
— só menos o motivo das mudan ças que intervieram no espet ácu -
lo , e assim pode compreendê- las imediatamente . Quando te-
ou refletida , que se desvia do objeto e se dirige ao seu modo nho a inten ção de olhar para a esquerda , este movimento do
de apresentação , e que assim n ós n ão passamos por esses in - olhar traz nele , como sua tradu ção natural , uma oscilação
termediá rios para conhecer a dist ância . Apenas ela conclui do campo visual : os objetos permanecem no seu lugar , mas
disso que as impressões corporais ou os objetos interpostos depois de terem vibrado por um instante . Essa conseq üê ncia
do campo , n ão sendo signos ou razões em nossa percepção da não é aprendida , ela faz parte das montagens naturais do su -
dist â ncia , são causas dessa percepção42 . Volta- se assim a uma jeito psicof ísico , ela é , nós o veremos , um anexo de nosso “ es-
psicologia explicativa cujo ideal a Gestalttheorie nunca aban - quema corporal ” , é a significação imanente de um desloca -
donou 43 porque , enquanto psicologia , ela nunca rompeu com mento do “ olhar ” . Quando ela falha , quando temos cons-
o naturalismo . Mas neste mesmo movimento ela se torna in - ciê ncia de mover os olhos sem que com isso o espet áculo seja
flei às suas pró prias descrições. Um paciente cujos m ú sculos 1
'

W '
afetado , este fen ômeno se traduz , sem nenhuma tradução ex-
óculo- motores est ão paralisados vê os objetos se deslocarem pressa , por um aparente deslocamento do objeto para a es-
para a esquerda quando acredita que ele mesmo vira os olhos £
-m querda . O olhar e a paisagem permanecem como que cola-
para a esquerda . A psicologia clássica diz que é porque a per- dos um ao outro , nenhum estremecimento os dissocia , o
cepção raciocina: considera-se que o olho oscila para a esquer- olhar , em seu deslocamento ilusó rio , leva consigo a paisa-
da , e , como todavia as imagens retinianas n ão se moveram , mÙB

:
gem , e o deslizamento da paisagem no fundo é apenas sua
é preciso que a paisagem tenha deslizado para a esquerda para % fixidez no fim de um olhar que se crê em movimento . As-
mant ê-las em seu lugar no olho . A Gestalttheorie faz compreen - sim , a imobilidade das imagens na retina e a paralisia dos
der que a percepção da posição dos objetos n ão passa pelo m ú sculos óculo- motores n ão são causas objetivas que deter -
meandro de uma consciê ncia expressa do corpo : em nenhum minariam a ilusão e a levariam inteiramente pronta à cons-
momento eu sei que as imagens permaneceram imó veis na ciê ncia . A inten ção de mover o olho e a docilidade da paisa-
retina , eu vejo diretamente a imagem se deslocar para a es- gem a esse movimento n ão são mais premissas ou razões da
querda . Mas a consciê ncia n ão se limita a receber um fen ô- ilusão . Mas elas s ão seus motivos . Da mesma maneira , os ob-
meno ilusó rio inteiramente acabado que causas fisiológicas jetos interpostos entre mim e aquilo que fixo n ão são perce -
fora dela engendrariam . Para que a ilusão se produza , é pre- bidos por eles mesmos; mas eles são todavia percebidos , e
ciso que o paciente tenha tido a inten ção de olhar para a es- n ã o temos razão para recusar a essa percepção marginal um
querda , e que tenha pensado mover seu olho . A ilusão sobre papel na visã o da dist â ncia , já que , a partir do momento em
o corpo pró prio acarreta a aparê ncia do movimento no obje- que um anteparo esconde os objetos interpostos , a dist â ncia
to. Os movimentos do corpo pró prio são naturalmente inves- aparente se estreita . Os objetos que preenchem o campo n ão
tidos de certa significação perceptiva , eles formam , com os agem sobre a dist â ncia aparente como uma causa sobre seu
fenô menos exteriores , um sistema t ão bem ligado que a per- efeito. Quando se afasta o anteparo , vemos o distanciamento
/

cepção externa “ leva em conta ” o deslocamento dos órgã os nascer dos objetos interpostos . E essa a linguagem muda que
perceptivos , encontra neles , sen ão a explicação expressa , pelo a percepção nos fala : neste texto natural , objetos interpostos
80 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO *
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E O RETORNO A OS FEN ÔMENOS 81 ï
1
“ querem dizer ” uma dist â ncia maior . N ão se trata , todavia , ção de causa como determinante exterior de seu efeito , e a de
de uma das conex ões que a lógica objetiva , a l ó gica da ver -
i razão como a lei de constituição intr í nseca do fen ô meno . Ora ,
dade constitu ída , conhece: pois n ão h á nenhuma razão para que
a percepção do corpo próprio e a percepção externa, acaba-
um campan á rio me pareç a menor e mais distante a partir do
mos de vê- lo , oferecem - nos o exemplo de uma consci ê ncia
momento em que posso ver melhor em seu detalhe os decli -
não -tética , quer dizer , de uma consciê ncia que n ão possui a
ves e os campos que dele me separam . N ão h á razão , mas
plena determinação de seus objetos , a de uma lógica vivida que
h á um motivo . Foi justamente a Gestalttheorie que nos fez to-
n ão d á conta de si mesma , e a de uma significação imanente que
mar consciê ncia dessas tensões que , como linhas de força , atra-
n ão é para si clara e se conhece apenas pela experi ê ncia de
vessam o campo visual e o sistema corpo pró prio / mundo , e
certos signos naturais . Esses fenô menos são inassimiláveis pelo
que os animam com uma vida surda e m á gica , impondo aqui
pensamento objetivo , e eis por que a Gestalttheorie , que , como
e ali torções , contrações , dilatações . A disparidade entre as
toda psicologia , é prisioneira das “ evid ê ncias ” da ciê ncia e
imagens retinianas , o n ú mero de objetos interpostos n ão agem
m do mundo , só pode escolher entre a razão e a causa , eis por
nem como simples causas objetivas que produziriam do ex-
m que toda cr ítica do intelectualismo desemboca , em suas m ãos ,
terior a minha percepção da dist â ncia , nem como razões que
em uma restauração do realismo e do pensamento causal. Ao
a demonstrariam . Eles são tacitamente conhecidos por ela sob
£ contrá rio , a noção fenomenol ó gica de motivação é um desses
formas veladas, eles a justificam por uma lógica sem pala-
conceitos “ fluentes ” 44 que é preciso formar se se quer retor-
vra. Mas , para exprimir suficientemente essas relações per- m
nar aos fen ô menos . Um fenô meno desencadeia um outro n ão
ceptivas , í alta à Gestalttheorie uma renovação das categorias : r
por uma efic ácia objetiva , como a que une os acontecimen -
-
ela admitiu seu princípio , aplicou o a alguns casos particula-
tos da natureza , mas pelo sentido que ele oferece — h á uma
res, mas não percebeu que toda uma reforma do entendimento
razão de ser que orienta o fluxo dos fen ômenos sem estar ex-
é necess á ria se queremos traduzir exatamente os fenô menos ,
plicitamente posta em nenhum deles , um tipo de razão ope -
e que é preciso , para chegar a isso , recolocar em quest ão o
rante . E assim que a inten ção de olhar para a esquerda e a
pensamento objetivo da l ógica e da filosofia cl ássicas , pô r em
aderê ncia da paisagem ao olhar motivam a ilus ão de um mo-
suspenso as categorias do mundo , pôr em d ú vida , no sentido
vimento no objeto. A medida que o fenômeno motivado se
cartesiano , as pretensas evidê ncias do realismo , e proceder
realiza , sua relação interna ao fen ô meno motivante aparece ,
a uma verdadeira “ redu ção fenomenológica ” . O pensamen -
e , em lugar de apenas suced ê-lo , ele o explicita e o faz com -
to objetivo , aquele que se aplica ao universo e n ão aos fen ô -
preender , de maneira que ele parece ter preexistido ao seu
menos , só conhece noções alternativas; a partir da experiên-
próprio motivo. Assim , o objeto à distâ ncia e sua projeção
cia efetiva , ele define conceitos puros que se excluem : a no-
f ísica nas retinas explicam a disparidade das imagens e , por
ção da extensão , que é a de uma exterioridade absoluta entre
uma ilusão retrospectiva , n ós falamos , com Malebranche , de
as partes , e a noção do pensamento , que é a de um ser reco-
uma geometria natural da percepção, colocamos antecipada -
lhido em si mesmo , a noção do signo vocal como fenô meno
mente na percepção uma ciência que é constru ída sobre ela,
físico arbitrariamente ligado a certos pensamentos , e a da sig -
e perdemos de vista a relação original de motivação , em que
nificação como pensamento para si inteiramente claro , a no-
a dist â ncia surge antes de toda ciê ncia , n ão de um ju ízo so -
i
?
?
i
82 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO U
;

bre “ as duas imagens ” , pois elas n ão são numericamente dis-


tintas, mas do fen ô meno do “ movido ” , das forças que habi- i
tam esse esboço , que procuram o equil íbrio e que o levam
ao mais determinado. Para uma doutrina cartesiana essas
descrições nunca terão import â ncia filosófica: elas serão tra- i CAP ÍTULO IV
tadas como alusões ao irrefletido que , por princ ípio , nunca
podem tornar-se enunciados e que , como toda psicologia , são
sem verdade diante do entendimento. Para legitim á-las in - O CAMPO FENOMENAL
teiramente , seria preciso mostrar que em caso algum a cons-
ciê ncia pode deixar inteiramente de ser aquilo que ela é na p
percepção , quer dizer , um fato, nem tomar inteira posse de
suas operações . Portanto, o reconhecimento dos fenômenos
implica enfim uma teoria da reflexão e um novo cogito 45 . Wy

'
-
Vê -se agora em que direção os cap ítulos seguintes preci
sarão investigar. O “ sentir ” voltou a ser uma quest ão para
6' - nós. O empirismo o esvaziara de todo misté rio, reconduzin -
do-o à posse de uma qualidade. Só o pudera fazer distancian -
I do-se muito da acepção comum . Entre sentir e conhecer, a
m experiê ncia comum estabelece uma diferença que não é a exis-
tente entre a qualidade e o conceito. Esta rica noção do sentir
encontra-se ainda no uso rom â ntico e, por exemplo, em Her-
! der. Designa uma experiê ncia em que n ão nos são dadas qua-
pi lidades “ mortas ” , mas propriedades ativas. Uma roda de ma-
deira posta no chão não é, para a visão, aquilo que é uma roda
carregando um peso. Um corpo em repouso porque nenhu -
ma força se exerce sobre ele n ão é para a visão aquilo que
é um corpo em que forças contrá rias se equilibram 1 . A luz
t- de uma vela muda de aspecto para a criança quando, depois
de uma queimadura , ela deixa de atrair sua m ão e torna-se
r

i
literalmente repulsiva 2 . A visão já é habitada por um senti -
L

c.
«
do que lhe d á uma função no espet áculo do mundo, assim
como em nossa existência . O puro quale só nos seria dado se
o mundo fosse um espet áculo e o corpo pró prio um mecanis-
mo do qual um espírito imparcial tomaria conhecimento3. O

áL
]
1

I
84 FENOMENOLOGIA DA PERCE PÇÃ 0 OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 85
f
sentir , ao contrá rio , investe a qualidade de um valor vital ; cepção , ao mesmo tempo , a infra -estrutura instintiva e as su -
primeiramente a apreende em sua significação para n ós , pa- perestruturas que , pelo exercício da inteligê ncia , se estabele-
ra esta massa pesada que é nosso corpo , e da í prové m que cem sobre ela . Como diz Cassirer , mutilando a percepção por
ele sempre comporte uma referê ncia ao corpo. O problema 4
cima , o empirismo a mutilava també m por baixo : a impres -
é compreender estas relações singulares que se tecem entre são é tão desprovida de sentido instintivo e afetivo quanto de
as partes da paisagem ou entre a paisagem e mim enquanto significação ideal . Poder- se - ia acrescentar que mutilar a per-
sujeito encarnado , e pelas quais um objeto percebido pode cepção por baixo , tratá-la de imediato como um conhecimento
concentrar em si toda uma cena , ou tornar- se a imago de todo e esquecer seu fundo existencial é mutilá- la por cima , já que
um segmento de vida. O sentir é esta comunicação vital com é considerar como adquirido e deixar passar em silê ncio o mo-
o mundo que o torna presente para n ós como lugar familiar mento decisivo da percepção : o surgimento de um mundo ver -
*
de nossa vida . E a ele que o objeto percebido e o sujeito que dadeiro e exato . A reflexão estará segura de ter encontrado o
percebe devem sua espessura . Ele é o tecido intencional que centro do fen ô meno se ela for igualmente capaz de esclarecer
o esforço de conhecimento procurará decompor. Com o pro - sua inerê ncia vital e sua inten ção racional .
blema do sentir , redescobrimos o da associação e da passivi- Portanto , a “ sensaç ao e o ju ízo ” perderam em con -
dade . Elas deixaram de representar quest ão porque as filoso- junto a sua clareza aparente : nós percebemos que eles só eram
fias clássicas se situavam abaixo ou acima delas, e lhes atri- claros pela intermediação do preju ízo do mundo. A partir do
bu íam tudo ou nada : ora a associação era entendida como momento em que se procurava representar , por seu meio , a
uma simples coexist ê ncia de fato , ora era derivada de uma consciê ncia em vias de perceber , em que se procurava defini-
constru ção intelectual ; ora a passividade era importada das los enquanto momentos da percepção , em que se procurava
coisas para o espírito , ora a análise reflexiva reencontrava nela I£
despertar a experiê ncia perceptiva esquecida e confrontá- los
uma atividade de entendimento. Ao contrá rio, essas noçoes §h com ela , eles se mostravam impensá veis . Desenvolvendo es-
adquirem seu sentido pleno se distinguimos o sentir da qua - sas dificuldades , n ós nos referimos implicitamente a um no-
lidade: agora a associação , ou , antes , a i < afinidade ” no sen - vo gê nero de an álise , a uma nova dimensão em que elas de-
tido kantiano , é o fen ô meno central da vida perceptiva , já viam desaparecer . A crítica da hipótese de const â ncia e , mais
que ela é a constituição , sem modelo ideal , de um conjunto
m
geralmente, a redução da idéia de “ mundo ” abriam um campo
significativo , e a distinção entre a vida perceptiva e o concei- fenomenal que devemos agora circunscrever melhor , e convi-
to , entre a passividade e a espontaneidade , n ão é mais apa- í davam - nos a reencontrar uma experiê ncia direta que é pre -
gada pela an álise reflexiva , já que o atomismo da sensação ciso situar , pelo menos provisoriamente , em relação ao saber
n ão mais nos obriga a procurar em uma atividade de ligação cient ífico , à reflex ão psicológica e à reflexão filosófica .
o princ ípio de toda coordenação . Enfim , depois do sentir , o A ciê ncia e a filosofia foram conduzidas durante sé culos
próprio entendimento precisa ser novamente definido , já que pela fé origin á ria da percepção . A percepção abre-se sobre
a fun ção geral de ligação que o kantismo finalmente lhe atri- coisas . Isso quer dizer que ela se orienta , como para seu fim ,
bui é agora comum a toda a vida intencional e , logo n ão é em direção a uma verdade em si em que se encontra a razão
mais suficiente para designá-lo. Procuraremos mostrar na per- de todas as aparê ncias. A tese muda da percepção é a de que
Ü
!


W
86 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O RETORNO AOS FEN ÔMENOS 87
I OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0
Ni a experiê ncia , a cada instante , pode ser coordenada à do ins- o tornam possível . Mesmo se se levassem em conta os avata-
tante precedente e à do instante seguinte , minha perspectiva res da consciê ncia determinante5 , mesmo se se admitisse que
às das outras consciê ncias
— a de que todas as contradições
podem ser removidas , a de que a experiê ncia monádica e in -
K a constituição do objeto nunca est á acabada , nada havia pa-
ra se dizer do objeto alé m do que dele diz a ciê ncia , o objeto
tersubjetiva é um ú nico texto sem lacuna — a de que aquilo
que agora é para mim indeterminado tornar- se -á determina -
natural permanecia para n ós uma unidade ideal e , segundo
a célebre expressão de Lachelier , um entrelaç amento de pro- i
do para um conhecimento mais completo que est á como que priedades gerais . Podia - se retirar todo valor ontológico dos
antecipadamente realizado na coisa , ou , antes , que é a pró- princ ípios da ciê ncia e deixar-lhes apenas um valor metódi -
pria coisa . Primeiramente , a ciê ncia foi apenas a continua - co6 , no essencial esta reserva nada mudava na filosofia , já
ção ou a amplificação do movimento constitutivo das coisas que o ú nico ser pensável permanecia definido pelos m é todos
percebidas. Assim como a coisa é o invariante de todos os da ciê ncia. Nestas condições , o corpo vivo n ão podia esca-
campos sensoriais e de todos os campos perceptivos indivi- r-m.
par às determinações que eram as ú nicas que faziam do ob-
duais , o conceito cient ífico é o meio de fixar e de objetivar jeto um objeto , e sem as quais ele n ão teria lugar no sistema
os fen ômenos . A ciê ncia definia um estado teórico de corpos da experiê ncia . Os predicados de valor que o ju ízo reflexio-
que n ão est ão submetidos à ação de nenhuma força , exata -
m nante lhe confere deviam ser sustentados no ser por uma pri-
mente através disso definia a força , e reconstitu ía , com o au - meira camada de propriedades físico-qu ímicas. A experiê n -
x ílio desses componentes ideais , os movimentos efetivamen - cia comum encontra uma conveniê ncia e urna relação de sen -
te observados. Ela estabelecia estatisticamente as proprieda -
m tido entre o gesto , o sorriso , o sotaque de um homem que
des qu ímicas dos corpos puros , delas deduzia as proprieda- Wt
W} fala . Mas essa relação de expressão recíproca, que faz o cor-
des dos corpos empíricos , e parecia assim deter o pró prio plano í po humano aparecer como a manifestação , no exterior , de
da criação ou , em todo caso, reencontrar uma raz ão imanen - f uma certa maneira de ser no mundo , devia resolver- se para
te ao mundo. A noção de um espaço geomé trico , indiferente uma fisiologia mecanicista em uma sé rie de relações causais .
m
aos seus conte ú dos , a de um deslocamento puro , que n ão al- Era preciso ligar o fenômeno centr ífugo de expressão a con-
tera ele mesmo as propriedades do objeto , forneciam aos fe - %
Jt dições centr ípetas , reduzir esta maneira particular de tratar
nômenos um meio de exist ê ncia inerte , em que cada aconte - I
m - o mundo que é um comportamento a processos em terceira
cimento podia ser correlacionado a condições f ísicas respon- pessoa , nivelar a experiê ncia na altura da natureza física e
sáveis pelas mudanç as ocorridas , e contribu íam portanto pa- i converter o corpo vivo em uma coisa sem interior . As toma-
ra essa fixação do ser que parecia ser a tarefa da f ísica . De - í das de posição afetivas e práticas do sujeito vivo em face do
senvolvendo assim o conceito de coisa , o saber científico n ão mundo eram ent ão reabsorvidas em um mecanismo psicofi -
tinha consciê ncia de laborar sobre um pressuposto. Justamen - sioló gico . Toda avaliação devia resultar de uma transferê n -
te porque a percepção , em suas implicações vitais e antes de
qualquer pensamento teó rico , se apresenta como percepção
-& cia pela qual situações complexas tornavam-se capazes de des-
t pertar as impressões elementares de prazer e de dor , estrei-
de um ser , a reflexão n ão acreditava ter de fazer uma genea- tamente ligadas , elas , a aparelhos nervosos. As intenções mo-
logia do ser, e contentava-se em investigar as condições que toras do ser vivo eram convertidas em movimentos objetivos:

M
88 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O os PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 89

só se concedia à vontade um fiat instant â neo , tal era a filosofia transparente à qual se chegava continuando
a execu ção do
ato cabia inteiramente à mecânica nervosa. O sentir o movimento de conhecimento inaugurado pela percepção.
, desta-
cado assim da afetividade e da motricidade , tornava se Podia- se muito bem dizer que a percepção é uma ciê ncia ini -
- a sim-
ples recepção de uma qualidade, e a fisiologia acreditava ciante, a ciê ncia uma percepção metódica e completa 7, já que
po-
der acompanhar , desde os receptores até os centros a ciência apenas perseguia sem crítica o ideal de conhecimento
nervo-
sos , a projeção do mundo exterior no ser vivo. O i fixado pela coisa percebida .
corpo vivo
assim transformado deixava de ser meu corpo , a Ora , essa filosofia destrói-se a si mesma sob nossos olhos .
expressão
vis ível de um Ego concreto , para tornar -se um objeto O objeto natural foi o primeiro a esquivar- se , e a pró pria f í-
entre
todos os outros . Correlativamente , o corpo do outro sica reconheceu os limites de suas determinações , exigindo
n ão po-
dia aparecer - me como o invólucro de um outro Ego um remanejamento e uma contaminação dos conceitos pu -
. Ele n ão
era mais do que uma m áquina , e a percepção ros que ela se atribu íra . O organismo , por sua vez , opõe à
do outro n ão
podia ser verdadeiramente percepção do outro , já que ela an álise f ísico- qu ímica n ão as dificuldades de fato de um ob-
re -
sultava de uma inferência e só colocava atrás do aut jeto complexo , mas a dificuldade de princípio de um ser
ómato
uma consciê ncia em geral , causa transcendente e n significativo8 . Mais geralmente , põe-se em quest ão a ideia de
ã o habi-
tante de seus movimentos . Portanto , n ão t ínhamos um universo de pensamento ou de um universo de valores ,
mais uma
constelação de Eus coexistindo em um mundo. Todo o em que todas as vidas pensantes seriam confrontadas e con -
con -
teúdo concreto dos ‘" psiquismos ” , resultando, ciliadas. A natureza n ão é em si geomé trica, ela só parece sê-
segundo as leis
da psicofisiologia e da psicologia, de um determinism lo para um observador prudente que se at é m aos dados ma-
o de uni-
verso , achava-se integrado ao em si. O ú nico para si croscópicos. A sociedade humana n ão / uma comunidade de
verdadei- í
ro é o pensamento do cientista que percebe esse espíritos racionais , só se pode compreend ê - la assim nos paí-
sistema e é
o ú nico a deixar de ali residir. Assim , enquanto ses favorecidos , em que o equilíbrio vital e econó mico foi ob-
o corpo vivo
se tornava um exterior sem interior , a subjetividade tido localmente e por certo tempo . A experiê ncia do caos , no
tornava-se
um interior sem exterior, um espectador imparcial. plano especulativo assim como no outro , convida- nos a per-
O natu -
ralismo da ciê ncia e o espiritualismo do sujeito constituinte ceber o racionalismo em uma perspectiva hist ó rica à qual ele
universal , ao qual chegava a reflexão sobre a ciê ncia , tinham por princípio pretendia escapar , a procurar uma filosofia que
em comum o fato de nivelarem a experiê ncia: diante nos faça compreender o surgimento da razão em um mundo
do Eu
constituinte , os Eus empíricos sã o objetos . O Eu emp í que ela n ão fez e a preparar a infra-estrutura vital sem a qual
rico é ff
uma noção bastarda, um misto de em si e para si , razão e liberdade se esvaziam e se decompõem . Não diremos
ao qual 1
a filosofia reflexiva n ão podia dar estatuto . Enquanto mais que a percepção é uma ciência iniciante , mas, inversa -
conteúdo concreto, ele está inserido no sistema
tem um s
da experiên - mente , que a ciência clássica é uma percepção que esquece
cia , n ão é portanto sujeito
— enquanto ele é sujeito ,
e se reconduz ao sujeito transcendental. A idealidade
é vazio
do ob-
m
suas origens e se acredita acabada. O primeiro ato filosófico
seria ent ão retornar ao mundo vivido aqu é m do mundo ob -
jeto , a objetivação do corpo vivo , a posição do espí
rito em t jetivo , já que é nele que poderemos compreender tanto o di -
uma dimensão de valor sem comum medida com a reito como os limites do mundo objetivo , restituir à coisa sua
natureza ,

k
90 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 91

fisionomia concreta , aos organismos sua maneira pró pria de laridades . A configuração sens ível de um objeto ou de um
tratar o mundo , à subjetividade sua inerência histórica , reen - gesto , que a crítica à hipó tese de const â ncia faz aparecer sob
contrar os fen ô menos , a camada de experiê ncia viva atravé s nosso olhar , n ão se apreende em uma coincidê ncia inef ável ,
da qual primeiramente o outro e as coisas nos são dados , o ela se “ compreende ” por um tipo de apropriação da qual
sistema “ Eu -Outro-as coisas ” no estado nascente , despertar todos temos a experiê ncia quando dizemos que “ encontra-
a percepção e desfazer a ast ú cia pela qual ela se deixa esque- mos ” o coelho na folhagem de uma adivinhação , ou que “ sur-
cer enquanto fato e enquanto percepção , em benef ício do ob- preendemos ” um movimento. Uma vez afastado o preju ízo
jeto que nos entrega e da tradição racional que funda. das sensações , um rosto , uma assinatura , uma conduta dei -
Este campo fenomenal não é um “ mundo interior ” , o xam de ser simples “ dados visuais ” dos quais precisaríamos
“ fenômeno ” n ão é um “ estado de consciê ncia ” ou um “ fa- procurar , em nossa experiê ncia interior , a significação psi-
to psíquico ” , a experiê ncia dos fen ô menos n ão é uma intros- ? - cológica , e o psiquismo do outro torna- se um objeto imedia -
:
pecção ou uma intuição no sentido de Bergson . Por muito to enquanto conjunto impregnado de uma significação ima-
t

tempo se definiu o objeto da psicologia dizendo que ele era nente . Mais geralmente , é a própria noção do imediato que
“ inextenso ” e “ acessível a um só ” , e daí resultava que esse se encontra transformada: doravante , o imediato n ão é mais
objeto singular só podia ser apreendido por um ato todo es- a impressão , o objeto que é um e o mesmo que o sujeito , mas
I
pecial , a “ percepção interior ” ou introspecção , na qual o su - o sentido , a estrutura , o arranjo espont â neo das partes . Meu
jeito e o objeto estavam confundidos e o conhecimento era próprio “ psiquismo ” n ão me é dado de outra maneira , já
obtido por coincid ê ncia . O retorno aos “ dados imediatos da que a cr ítica à hipótese de const â ncia me ensina ainda a re-
consciê ncia ” tornava -se assim uma operação sem esperan- conhecer , como dados originá rios da experiê ncia interior , a
ças, já que o olhar filosófico procurava ser aquilo que por prin - articulação , a unidade melódica de meus comportamentos ,
cípio ele n ão podia ver . A dificuldade n ão era apenas a de des- e já que a pró pria introspecção , reconduzida àquilo que tem
truir o preju ízo do exterior , como todas as filosofias convi- de positivo , consiste em explicitar o sentido imanente de uma
dam o iniciante a fazer , ou a de descrever o esp írito em uma conduta9 . Assim , o que descobrimos ao ultrapassar o preju í-
linguagem feita para traduzir as coisas. Ela era muito mais zo do mundo objetivo n ão é um mundo interior tenebroso .
radical , já que a interioridade , definida pela impressão , por E este mundo vivido n ão é , como a interioridade bergsonia-
princípio escapava a qualquer tentativa de expressão. Não na, absolutamente ignorado pela consciê ncia ingé nua . Fazen -
era apenas a comunicação das intuições filosóficas aos outros do a crítica da hipótese de const â ncia e desvelando os fenô-
homens que se tornava dif ícil — ou , mais exatamente , se re- menos , sem d ú vida o psicólogo caminha contra o movimen -
duzia a um tipo de encantamento destinado a induzir neles to natural do conhecimento , que atravessa cegamente as ope-
w

experiê ncias an álogas às do filósofo , mas o próprio filóso-
fo n ão podia dar conta daquilo que ele via no instante , já que
rações perceptivas para ir diretamente ao seu resultado te-
leológico . Nada é mais dif ícil do que saber ao certo o que nós
seria preciso pensá-lo , quer dizer, fixá-lo e deform á-lo . Por- vemos . “ Há na intuição natural um tipo de ‘cripto-mecanismo’
tanto , o imediato era uma vida solit á ria , cega e muda. O re- que devemos romper para chegar ao ser fenomenal ” 10 , ou
torno ao fenomenal n ão apresenta nenhuma dessas particu - ainda uma dialé tica pela qual a percepção se dissimula a si
¥

I
92 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O RETORNO AOS FEN ÔMENOS 93
y •
OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0
!| mesma . Mas , se a essê ncia da consciência é esquecer seus pró- bu ía à palavra < ser levava-o a realizar a consciê ncia sob
í

prios fenômenos e tornar possível assim a constituição das o nome de “ fato psíquico desviava-o assim de uma verda-
?5

“ coisas ” , este esquecimento não é uma simples ausê ncia , é deira tomada de consciê ncia ou do verdadeiro imediato , e tor-
a ausê ncia de algo que a consciê ncia poderia fazer presente ; nava como que derrisó rias as precau ções que ele multiplica-
dito de outra maneira , a consciê ncia só pode esquecer os fe - va para n ão deformar o “ interior . Era isso que acontecia
>?

n ô menos porque també m pode relembr á - los , ela só os negli -


ao empirismo quando ele substitu ía o mundo f ísico por um
gencia em benefício das coisas porque eles são o berço das mundo de acontecimentos interiores . E isso que ainda acon -
coisas. Por exemplo , eles nunca são absolutamente desconhe- tece a Bergson no momento mesmo em que ele opõe a “ mul-
cidos pela consciê ncia cient ífica , que toma de empréstimo às tiplicidade de fusão ” à “ multiplicidade de justaposição ” . Pois
estruturas da experiê ncia vivida todos os seus modelos ; sim - aqui ainda se trata de dois gê neros de ser . Apenas se substi-
plesmente ela n ão os “ tematiza ” , n ão explicita os horizontes m tuiu a energia mecânica por uma energia espiritual , o ser des-
im
de consciê ncia perceptiva pelos quais est á envolvida e dos f cont ínuo do empirismo por um ser fluido , mas do qual se diz
m
quais procura exprimir objetivamente as relações concretas . 3V que ele se escoa , e que se descreve na terceira pessoa . Ao con -
Portanto, a experiê ncia dos fenômenos n ão é , como a intui-
ção bergsoniana , a experiê ncia de uma realidade ignorada em
*irir .
siderar a Gestalt como tema de sua reflexão , o psicólogo rom -
pe com o psicologismo , já que o sentido , a conexão , a “ ver-
direção à qual n ão h á passagem metódica
— ela é a explici-
tação ou o esclarecimento da vida pré - cient ífica da consciê n - r
if?
ã. dade ” do percebido n ão resultam mais do encontro fortuito
entre nossas sensações , tais como nossa natureza psicofisio-
cia , que é a ú nica a dar seu sentido completo às operações 1
* ló gica as oferece a nós , mas determinam seus valores espa-
da ciê ncia , e à qual estas operações sempre reenviam . Não ciais e qualitativos11 e são sua configuração irredut ível . Isso
se trata de uma conversão irracional , trata-se de uma an álise significa que a atitude transcendental já est á implicada nas
intencional . descrições do psicólogo, por pouco fiéis que elas sejam . A cons-
Se , como se vê , a psicologia fenomenoló gica se distin- ciê ncia enquanto objeto de estudo apresenta esta particulari-
f’
gue da psicologia de introspecção por todos esses caracteres , t
dade de n ão poder ser analisada , mesmo ingenuamente , sem
é porque difere dela no princípio. A psicologia de introspec- levar para alé m dos postulados do senso comum . Se , por
ção localizava , à margem do mundo f ísico , uma zona da cons- exemplo , nos propomos a fazer uma psicologia positiva da
ciê ncia em que os conceitos físicos não valem mais , mas o percepção , admitindo que a consciê ncia est á encerrada no cor -
psicólogo ainda acreditava que a consciê ncia era apenas um po e sofre , através dele , a ação de um mundo em si , somos
setor do ser e decidia explorar este setor , assim como o físico conduzidos a descrever o objeto e o mundo tais como eles apa-
explora o seu . Ele tentava descrever os dados da consciê ncia , recem à consciê ncia e , através disso , a nos perguntar se este
mas sem colocar em quest ão a exist ê ncia absoluta do mundo mundo imediatamente presente , o ú nico que conhecemos, n ão
em torno dela . Com o cientista e com o senso comum , ele é també m o ú nico do qual convé m falar . Uma psicologia sem-
subentendia o mundo objetivo enquanto quadro lógico de to- pre é levada ao problema da constituição do mundo.
das as suas descrições e meio de seu pensamento . N ão perce - A reflex ão psicoló gica , uma vez iniciada , ultrapassa- se
bia que esse pressuposto comandava o sentido que ele atri- ent ão por seu movimento pró prio . Depois de ter reconhecido

:
94 E 0 RETORNO AOS FEN Ô MENOS 95
FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS
a originalidade dos fenô menos em relação ao mundo objeti - resultado de acontecimentos psicofisiológicos , a racionalida-
vo , como é por eles que o mundo objetivo nos é conhecido , de n ão é mais um feliz acaso que faria concordarem sensa-
a reflexão psicológica é levada a integrar aos fen ô menos todo ções dispersas , e a Gestalt é reconhecida como origin á ria . Mas,
objeto poss ível , e a investigar como ele se constitui através se a Gestalt pode ser expressa por uma lei interna , essa lei n ão
deles. No mesmo momento , o campo fenomenal torna-se cam - deve ser considerada como um modelo segundo o qual se rea-
po transcendental. Como agora é o centro universal dos co- lizariam os fen ô menos de estrutura . Sua aparição n ão é o des-
nhecimentos , a consci ê ncia deixa decididamente de ser uma dobramento , no exterior , de uma razão preexistente . N ão é
região particular do ser , um certo conjunto de conte ú dos “ psí- porque a 4 forma ” realiza um certo estado de equil íbrio , re-
4

quicos ” , ela n ão reside mais ou n ão est á mais ilhada no do- solve um problema de m áximo e , no sentido kantiano , torna
m ínio das “ formas ” que a reflex ão psicológica primeiramente possível um mundo que ela é privilegiada em nossa percep-
reconhecera , mas as formas , como todas as coisas , existem ção ; ela é a pró pria aparição do mundo e n ão sua condição
para ela . N ão se pode tratar mais de descrever o mundo vivi - de possibilidade , é o nascimento de uma norma e n ão se rea -
do que ela traz em si como um dado opaco, é preciso constitu í- m liza segundo uma norma , é a identidade entre o exterior e
lo . A explicitação que tinha posto a nu o mundo vivido , aqué m o interior e n ão a projeção do interior no exterior . Portanto ,
do mundo objetivo , prossegue em relação ao pró prio mundo se ela n ão resulta de uma circulação de estados psíquicos em
vivido , e põe a nu , para aqu é m do campo fenomenal , o cam - si, n ão é mais uma id é ia . A Gestalt de um c írculo n ão é sua
po transcendental . Por seu lado , o sistema eu -outro- mundo
1 lei matem ática , mas sua fisionomia. O reconhecimento dos
é tomado como objeto de an álise e trata-se agora de desper - fenômenos enquanto ordem original condena o empirismo en-
tar os pensamentos que s ão constitutivos do outro , de mim quanto explicação da ordem e da razão pelo encontro entre fa-
mesmo enquanto sujeito individual e do mundo enquanto polo tos c pelos acasos da natureza , mas conserva para a pró pria
de minha percepção . Essa nova “ redu ção n ão conheceria razão e para a própria ordem o caráter da facticidade . Se fos-
portanto mais do que um ú nico sujeito verdadeiro, o Ego me- se possível uma consciência constituinte universal , a opaci-
ditante . Esta passagem do naturado ao naturante , do consti - m dade do fato desapareceria . Portanto , se queremos que a re-
tu ído ao constituinte , terminaria a tematização iniciada pela flexão conserve os caracteres descritivos do objeto ao qual ela
psicologia e nada mais deixaria de implícito ou de subenten - %
m se dirige e o compreenda verdadeiramente , não devemos con-
dido em meu saber . Ela me faria tomar posse integral de mi -
f sider á-la como o simples retorno a uma raz ão universal , rea-
nha experiência e realizaria a adequação entre o reflexionan - lizá-la antecipadamente no irrefletido , devemos considerá-la
te e o refletido . Tal é a perspectiva ordin á ria de uma filosofia como uma operação criadora que participa ela mesma da fac-
transcendental e tal é também , pelo menos aparentemente , ticidade do irrefletido . E por isso que a fenomenologia é a
o programa de uma fenomenologia transcendental 12 . Ora , o ú nica entre todas as filosofias a falar de um campo transcen -
campo fenomenal , tal como o descobrimos neste capítulo, dental . Esta palavra significa que a reflexão nunca tem sob
opõe uma dificuldade de princípio à explicitação direta e to- seu olhar o mundo inteiro e a pluralidade das m ô nadas des-
tal . Sem d ú vida , o psicologismo est á ultrapassado , o sentido dobradas e objetivadas , que ela só dispõe de uma visão par-
e a estrutura do percebido n ão s ão mais para n ós o simples ciai e de uma potê ncia limitada . E por isso també m que a
96 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O OS PREJU ÍZOS CLÁ SSICOS E 0 RETORNO AOS FEN ÔMENOS 97
&
t
fenomenologia é uma fenomenologia , quer dizer , estuda a apa- %
ca encontra a quest ão : quem medita? Se , ao contrá rio , a filoso -
ri ção do ser para a consciê ncia , em lugar de supor a sua s- fia contempor ânea toma o fato como tema principal , e se pa-
pos-
sibilidade previamente dada . É not á vel ver como as filosofias ra ela o outro torna- se um problema , é porque quer efetuar
transcendentais do tipo clássico nunca se interrogam sobre uma tomada de consci ê ncia mais radical . A reflex ão n ão po -
a possibilidade de efetuar a explicitação total que elas sem - t de ser plena , n ão pode ser um esclarecimento total de seu ob-
pre supõem feita em algum lugar . Basta- lhes que ela seja neces- t- jeto se n ão toma consciê ncia de si mesma ao mesmo tempo
%:
s á ria , e julgam assim aquilo que é por aquilo que deve ser , que de seus resultados . Precisamos n ão apenas instalar- nos
por aquilo que a id é ia do saber exige. De fato , o Ego médi - em uma atitude reflexiva , em um Cogito inatac á vel , mas ain -
tante nunca pode suprimir sua inerê ncia a um sujeito indivi- f$ da refletir nessa rellexão , compreender a situação natural à
X
dual que conhece todas as coisas em uma perspectiva parti - qual ela tem consciê ncia de suceder e que portanto faz parte
cular . A reflex ã o nunca pode fazer com que eu deixe de per- / de sua definição , n ão apenas praticar a filosofia mas ainda
ceber o sol a duzentos passos em um dia de neblina , de ver dar- nos conta da transformação que ela traz consigo no espe -
%
o sol “ se levantar ” e “ se deitar ” , de pensar com os instru - t áculo do mundo e em nossa exist ê ncia . Apenas sob essa con -
&
mentos culturais preparados por minha educação meus es- T dição o saber filosófico pode tornar -se um saber absoluto e
forços precedentes , minha hist ó ria . Portanto , eu nunca re ú - deixar de ser uma especialidade ou uma t écnica . Assim , n ão
no efetivamente , nunca desperto ao mesmo tempo todos os mais afirmaremos uma Unidade absoluta , tanto menos du -
pensamentos origin á rios que contribuem para minha pcrcep- V4 vidosa j á que ela n ão precisa realizar-se no Ser , o centro da
ção ou minha convicção presente . Uma filosofia como o cn - filosofia n ão é mais uma subjetividade transcendental aut ó-
ticismo n ão concede , em ú ltima an álise , nenhuma import â n - ¥ noma , situada em todas as partes e em parte alguma , ele se
cia a essa resistê ncia da passividade , como se n ão fosse ne - encontra no começo perpé tuo da reflexão , neste ponto em que
cessá rio tornar- se o sujeito transcendental para ter o direito uma vida individual se põe a refletir em si mesma . A refle -
cje afirm á- lo . Ela subentende portanto que o pensamento do
iV
xão só é verdadeiramente reflexão se n ã o se arrebata para fo -
filósofo n ão est á submetido a nenhuma situação. Partindo do ra de si mesma , se se conhece como reflex ão- sobre - um - irre -
espet áculo do mundo, que é o de uma natureza aberta a uma fletido e , por conseguinte , como uma mudan ça de estrutura
pluralidade de sujeitos pensantes, ela investiga a condição que de nossa existê ncia. Censur á vamos acima a intuição bergso-
torna possível este mundo ú nico oferecido a vá rios eus empí- niana e a introspecção por procurarem um saber por coinci -
ricos , e a encontra em um Eu transcendental no qual eles par- d ê ncia . Mas na outra extremidade da filosofia , na noção de
-
ticipam sem dividi lo porque ele n ão é um Ser, mas uma Uni- uma consciê ncia constituinte universal , encontramos um er-
dade ou um Valor. E por isso que o problema do conheci- ro simétrico. O erro de Bergson é acreditar que o sujeito mé-
mento do outro nunca é posto na filosofia kantiana : o Eu ditante possa fundir- se ao objeto sobre o qual ele medita , o
transcendental do qual ela fala é tanto o do outro quanto o saber se dilatar confundindo- se com o ser ; o erro das filoso-
meu , de imediato a an álise situou - se fora de mim , ela só pre - fias reflexivas é acreditar que o sujeito m éditante possa ab-
cisa destacar as condições gerais que tornam poss ível um mun- sorver em sua medita ção , ou apreender sem sobras , o objeto
do para um Eu — eu mesmo tanto quanto o outro
— e nun - sobre o qual medita , nosso ser se reduzir a nosso saber . Nun -

d
98 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO FENÔMENOS 99
OS PREJU ÍZOS CLÁSSICOS E 0 RETORNO AOS
ca somos , enquanto sujeito méditante, o sujeito irrefletido que que , uma
meç ar a descrição psicoló gica sem fazer entrever
procuramos conhecer; mas també m n ão podemos nos tornar tornar- ;se um
vez purificada de todo psicologismo, ela pode
inteiramente consciê ncia , reduzir- nos à consciê ncia transcen- se-
método filosófico . Para despertar a experiê ncia perceptiva
dental . Se fôssemos a consciê ncia , dever íamos possuir , como
pultada sob seus pró prios resultados , n ão teria sido
suficien -
sistemas de relações transparentes , o mundo diante de n ós.
te apresentar descrições dela que podiam n
ão ser compreen -
nossa história , os objetos percebidos em sua singularidade .
didas; era precixo fixar , por referê ncias e antecipa ções filosó -
Ora , mesmo quando não fazemos psicologia , quando tenta- verdadei -
ficas , o ponto de vista do qual elas podem parecer
mos compreender em uma reflexão direta e sem o aux ílio das e n ão po-
ras. Assim , não podíamos começ ar sem a psicologia
concord â ncias variadas do pensamento indutivo aquilo que ê ncia
é um movimento ou um círculo percebido , só podemos ilu - díamos começar apenas com a psicologia . A experi
mais é que
antecipa uma filosofia , assim como a filosofia nada
minar o fato singular fazendo-o variar pela imaginação e fi- campo feno-
uma experiê ncia elucidada . Mas , agora que o
xando pelo pensamento o invariante dessa experiência men - dom í-
tal , só podemos penetrar no individual pelo procedimento bas-
menal foi suficientemente circunscrito , entremos neste
pri -
nio amb íguo e firmemos aqui , com o psicólogo ,
nossos
tardo do exemplo , quer dizer, despojando-o de sua facticida - ó logo nos
meiros passos , esperando que a autocr ítica do psic
de . Assim , é uma quest ão saber se o pensamento pode algum fen ômeno
conduza , por uma reflexão de segundo grau , ao
dia deixar inteiramente de ser indutivo , e assimilar-se uma fenome-
do fenô meno e converta , decididamente , o campo
experiê ncia qualquer a ponto de retomar e possuir toda a sua
nal em campo transcendental .
textura . Uma filosofia torna-se transcendental, quer dizer , ra-
dical , n ão se instalando na consciê ncia absoluta sem mencio-
nar os passos que conduzem a ela , mas considerando-se a si
mesma como um problema , n ão postulando a explicitação to-
tal do saber , mas reconhecendo esta presunção da raz ão como
o problema filosófico fundamental .
Eis por que dev íamos começar pela psicologia uma in -
vestigação sobre a percepção . Se n ão o tivéssemos feito , nao #
teríamos compreendido todo o sentido do problema transcen- ï
&
%
dental , já que n ão ter íamos seguido metodicamente os pas-
sos que conduzem a ele a partir da atitude natural . Era pre - r
ï
ciso que freq ú entássemos o campo fenomenal e travássemos
conhecimento, por descrições psicológicas , com o sujeito dos
fen ô menos , se n ão quiséssemos , como a filosofia reflexiva ,
situar- nos de imediato em uma dimensão transcendental que
teríamos suposto eternamente dada e deixar escapar o ver-
dadeiro problema da constituição . Todavia , n ão dev íamos co- --r -


I
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PRIMEIRA PARTE

O CORPO

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104 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 105


O CORPO

conhecido por mim . Precisamos compreender como a visão


nos quais est á implicado , visto em visão marginal , o objeto
pode fazer- se de alguma parte sem estar encerrada -
perspectiva .
em sua que fixo atualmente . Portanto , o horizonte é aquilo que as
Ver um objeto é ou possu í-lo à margem do campo segura a identidade do objeto no decorrer da exploração , é
o correlativo da potê ncia próxima que meu olhar conserva
!! ; visual
e poder fixá- lo , ou então corresponder
efetivamente a essa so-
licitação, fixando-o. Quando eu o fixo , ancoro- me nele sobre os objetos que acaba de percorrer e que já tem sobre
esta ‘‘parada ” do olhar é apenas uma modalidade
, mas os novos detalhes que vai descobrir. Nenhuma recordação ex-
de seu mo-
vimento : continuo no interior de um objeto a exploração que , pressa , nenhuma conjectura explícita poderiam desempenhar
en-
h á pouco , sobrevoava-os a todos , com um ú nico este papel : elas só apresentariam uma síntese provável ,
efetiva . A estru -
movimento
fecho a paisagem e abro o objeto . As duas operações n ão quanto minha percepção se apresenta como
coin - tura objeto- horizonte , quer dizer , a perspectiva , n ão me per -
cidem por acaso: não são as contingê ncias de minha organi- é o meio que os obje -
zação corporal , por exemplo a estrutura de minha turba quando quero ver o objeto: se ela
retina que meio que eles t ê m de
tos tê m de se dissimular , é também o
se desvelar . Ver é entrar em um universo de seres que se mos-
me obrigam a ver obscuramente a circunvizinhan ça se
quero
ver claramente
« o objeto . Mesmo se eu nada soubesse de co- -
nes e de bastonetes , conceberia que é necessá rio tram , e eles n ão se mostrariam se n ão pudessem estar escon
adormecer didos uns atrás dos outros ou atrás de mim . Em outros ter -
a circunvizinhança para ver melhor o objeto, e perder em apreender todas
fun - m mos: olhar um objeto é vir habitá-lo e dali
do o que se ganha em figura , porque olhar o objeto é m
entra - as coisas se gundo a face que elas voltam para ele . Mas na
nhar -se nele , e porque os objetos formam um sistema em
um n ão pode se mostrar sem esconder outros . Mais
que medida em que també m as vejo , elas permanecem moradas
precisa - abertas ao meu olhar e , situado virtualmente nelas , percebo
mente , o horizonte interior de um objeto n ão pode se
objeto sem que os objetos circundantes se tornem horizonte
tornar
,
ï sob diferentes â ngulos o objeto central de minha visão atual .
Assim , cada objeto é o espelho de todos os outros . Quando
e a vis ão é um ato com duas faces. Pois n ão
to detalhado que agora tenho com aquele sobre
identifico o obje - olho o abajur posto em minha mesa , eu lhe atribuo n ão ape-
o qual meu
olhar há pouco deslizava, comparando expressamente estes n nas as qualidades vis íveis a partir de meu lugar , mas ainda J >

detalhes com uma recordação da primeira visão de conjunto. aquelas que a lareira , as paredes, a mesa podem ‘‘ver » o
Quando , em um filme , a camera se dirige a um objeto e apro- verso de meu abajur é apenas a face que ele “ mostra ” à la-
xima -se dele para apresent á-lo a nós em primeiro plano , - reira . Portanto , posso ver um objeto enquanto os objetos for-
demos muito bem lembrar- nos de que se trata do cinzeiro
po mam um sistema ou um mundo e enquanto cada um deles
da m ão de um personagem , nós n ão o identificamos
ou dispõe dos outros em torno de si como espectadores de seus
mente . Isso ocorre porque a tela n ão tem horizontes
efetiva- aspectos escondidos e garantia de sua perman ê ncia . Qualquer
são , ao contrá rio , apoio meu olhar em um fragmento
. Na vi visão de um objeto por mim reitera-se instantaneamente en-
da pai -
sagem , ele se anima e se desdobra , os outros objetos recuam tre todos os objetos do mundo que são apreendidos como
coe -
xistentes , porque cada um deles é tudo aquilo que os outros
para a margem e adormecem , mas n ão deixam de estar
ali . vêem ” dele . Portanto , nossa fó rmula de agora há pouco deve
í í

Ora com eles , tenho à minha disposição os seus horizontes ,


ser modificada; a casa ela mesma n ão é a casa vista de lugar

i
106 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O O CORPO 107
\
algum , mas a casa vista de todos os lugares . O objeto acabado Mas , mais uma vez , meu olhar humano só põe uma face
é transl ú cido , ele est á penetrado de todos os lados por uma in - do objeto , mesmo se , por meio dos horizontes , ele visa todas
finidade atual de olhares que se entrecruzam em sua profun- as outras. Ele só pode ser confrontado com as visões prece -
deza e n ão deixam nada escondido. dentes ou com as dos outros homens por interm é dio do tem -
O que acabamos de dizer da perspectiva espacial , pode - po e da linguagem . Se concebo à imagem do meu os olhares
r íamos dizê -lo també m da perspectiva temporal . Se considero que , de todas as partes , exploram a casa e definem a casa ela
a casa atentamente e sem nenhum pensamento , ela tem um mesma ainda tenho apenas uma sé rie concordante e indefi-
ar de eternidade e dela emana uma espé cie de entorpecimen - nida de visões sobre o objeto , n ão tenho o objeto em sua ple -
to . Sem d ú vida , eu a vejo de um certo ponto de minha dura- nitude . Da mesma maneira , apesar de meu presente contrair
\
ção , mas ela é a mesma casa que eu via ontem , um dia mais em si mesmo o tempo escoado e o tempo por vir , ele só os
moço ; é a mesma casa que um velho e uma crian ç a contem - possui em inten ção , e , se por exemplo a consciê ncia que te-
plam . Sem d ú vida , ela pró pria tem sua idade e suas mudan - nho agora de meu passado me parece recobrir exatamente
ç as; mas , mesmo que desabe amanhã, permanecerá verdadei- aquilo que ele foi , este passado que pretendo reapreender ele
ro para sempre que hoje ela existiu , cada momento do tempo mesmo n ão é o passado em pessoa , é meu passado tal como
se d á por testemunhos todos os outros , ele mostra , sobrevin - o vejo agora e talvez eu o tenha alterado . Igualmente , no fu -
do , “ como aquilo devia passar ” e “ como aquilo terá acaba- turo talvez n ã o reconhecerei o presente que vivo . Assim , a
do ” , cada presente funda definitivamente um ponto do tempo síntese dos horizontes é apenas uma s í ntese presuntiva , ela
que solicita o reconhecimento de todos os outros , o objeto é visto só opera com certeza e com precisão na circunvizinhanç a ime-
portanto a partir de todos os tempos , assim como é visto de to- diata do objeto . N ão conservo mais em m ãos a circunvizi-
das as partes e pelo mesmo meio , que é a estrutura de horizon - nhan ça distante: ela n ão é mais feita de objetos ou de recor-
te . O presente ainda conserva em suas m ãos o passado imedia- dações ainda discern íveis, é um horizonte an ó nimo que n ão
to , sem pô - lo como objeto , e , como este reté m da mesma ma - pode mais fornecer testemunho preciso , deixa o objeto ina -
neira o passado imediato que o precedeu , o tempo escoado é cabado e aberto , como ele é , com efeito , na experiê ncia per-
inteiramente retomado e apreendido no presente . O mesmo ceptiva. Por essa abertura , a substancialidade do objeto se
acontece com o futuro iminente que terá , ele també m , seu ho- escoa . Se ele deve chegar a uma perfeita densidade , em ou -
rizonte de imin ê ncia. Mas com meu passado imediato tenho tras palavras , se deve haver aqui um objeto absoluto , é pre -
també m o horizonte de futuro que o envolvia , tenho portanto ciso que ele seja uma infinidade de perspectivas diferentes con-
o meu presente efetivo visto como futuro deste passado . Com traídas em uma coexist ê ncia rigorosa , e que seja dado como
o futuro iminente , tenho o horizonte de passado que o envol- %
\D\
tf » *
.
que por uma só visão com mil olhares. A casa tem seus condu -
verá , tenho portanto meu presente efetivo como passado deste tos de água , seu chão , talvez suas fissuras que crescem secre-
futuro. Assim , graças ao duplo horizonte de retenção e de pro- tamente sob a espessura do telhado . N ós nunca os vemos , mas
tensão , meu presente pode deixar de ser um presente de fato ,
logo arrastado e destru ído pelo escoamento da duração , e
*: ela os tem ao mesmo tempo em que suas janelas ou suas cha-
minés visíveis para nós . Nós esqueceremos a presente per-
tornar-se um ponto fixo e identificável em um tempo objetivo . cepção da casa: cada vez que podemos confrontar nossas re -
;. u
X:< I

108 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 109

cordações com os objetos aos quais elas se reportam , levando lo que s ão na experiê ncia perceptiva , quer dizer , olhares su -
em conta outros motivos de erro , somos surpreendidos pelas jeitos a uma certa perspectiva , a casa n ão seria posta como
mudan ç as que eles devem à sua pró pria duração . Mas acre- um ser aut ó nomo. Assim , a posição de um ú nico objeto no
ditamos que h á uma verdade do passado , apoiamos nossa me- sentido pleno exige a composição de todas essas experiê ncias
m ó ria em uma imensa Mem ó ria do mundo , na qual figura em um ú nico ato polité tico . Nisso ela excede a experiê ncia
a casa tal como ela verdadeiramente era naquele dia e que perceptiva e a s íntese de horizontes — assim como a noção
funda seu ser do momento . Considerado em si mesmo

enquanto objeto ele exige que o consideremos assim , o ob-
— e de um universo , quer dizer , de uma totalidade acabada , expl í-
cita , em que as relações sejam de determinação recíproca , ex -
jeto nada tem de envolto , ele est á exposto por inteiro , suas cede a noção de um mundo , quer dizer , de uma multiplicida-
partes coexistem enquanto nosso olhar as percorre alterna- de aberta e indefinida em que as relações são de implicação
damente , seu presente n ão apaga seu passado , seu futuro n ão recíproca1. Eu decolo de minha experiência e passo à idéia . ü

apagar á seu presente . Portanto , a posição do objeto nos faz Assim como o objeto , a id é ia pretende ser a mesma para to-
ultrapassar os limites de nossa experiê ncia efetiva , que se ani- dos , válida para todos os tempos e para todos os lugares , e
quila em um ser estranho , de forma que para terminar crê a individuação do objeto em um ponto do tempo e do espaço
extrair dele tudo aquilo que ela nos ensina . E este êxtase da objetivos aparece finalmente como a expressão de uma po- !
experiê ncia que faz com que toda percepção seja percepção tência posicionai universal2 . Não me ocupo mais de meu cor- s
de algo . po , nem do tempo , nem do mundo , tais como os vivo no sa-
Obcecado pelo ser , e esquecendo o perspectivismo de mi- ber antepredicativo , na comunicação interior que tenho com
nha experiê ncia , eu o trato doravante como objeto , eu o de- eles . Só falo de meu corpo em idé ia , do universo em id é ia ,
duzo de uma relação entre objetos. Considero meu corpo, que da idé ia de espaço e da id é ia de tempo . Forma - se assim um
é meu ponto de vista sobre o mundo , como um dos objetos
desse mundo . A consciê ncia que eu tinha de meu olhar como
pensamento “ objetivo ” ( no sentido de Kierkegaard )
— —
senso comum , o da ciê ncia , que finalmente nos faz perder
o do

meio de conhecer , recalco-a e trato meus olhos como frag- contato com a experiê ncia perceptiva da qual todavia ele é
mentos de maté ria . Desde ent ão , eles tomam lugar no mes- o resultado e a conseq úê ncia natural . Toda a vida da cons-
mo espaço objetivo em que procuro situar o objeto exterior , ciê ncia tende a pô r objetos , já que ela só é consciê ncia , quer í
e acredito engendrar a perspectiva percebida pela projeção dizer , saber de si , enquanto ela mesma se retoma e se reco-
dos objetos em minha retina. Da mesma forma , trato minha lhe em um objeto identificável . E todavia a posição absoluta
pró pria hist ó ria perceptiva como um resultado de minhas re - de um só objeto é a morte da consciê ncia , já que ela imobili-
lações com o mundo objetivo; meu presente , que é meu pon - ?
ir - '
za toda a experiê ncia , assim como um cristal introduzido em
to de vista sobre o tempo , torna-se um momento do tempo uma solu ção faz com que ela instantaneamente se cristalize .
entre todos os outros , minha duração um reflexo ou um as- Não podemos permanecer nesta alternativa entre n ão
pecto abstrato do tempo universal , assim como meu corpo compreender nada do sujeito ou n ão compreender nada do
um modo do espaço objetivo . Do mesmo modo , enfim , se os objeto . E preciso que reencontremos a origem do objeto no
objetos que rodeiam a casa ou a habitam permanecessem aqui- pró prio coração de nossa experiê ncia , que descrevamos a apa-
no FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

rição do ser e compreendamos como paradoxalmente h á , pa-


ra nós , o em si . N ão querendo prejulgar nada , tomamos ao
pé da letra o pensamento objetivo e n ão lhe colocaremos ques-
toes que ele próprio n ão se coloca . Se somos conduzidos a
reencontrar a experiê ncia atrá s dele , essa passagem só será CAPÍTULO I
motivada por seus próprios embaraços . Vamos ent ão conside-
rá-lo operando na constituição de nosso corpo como objeto ,
já que este é um momento decisivo na gé nese do mundo ob-
O CORPO COMO OBJETO
jetivo . Ver-se-á que o corpo pró prio se furta , na própria ciê n - E A FISIOLOGIA MECANICISTA
cia , ao tratamento que a ele se quer impor . E , como
a gé nese
do corpo objetivo é apenas um momento na constitui ção do
objeto , o corpo , retirando-se do mundo objetivo , arrastar á
os fios intencionais que o ligam ao seu ambiente e finalmente
nos revelar á o sujeito que percebe assim como o mundo per- A definição do objeto , n ós o vimos , é a de que ele existe
cebido. partes extra partes e que , por conseguinte , só admite entre suas
partes ou entre si mesmo e os outros objetos relações exterio -
res e mecâ nicas , seja no sentido estrito de um movimento re -
cebido e transmitido , seja no sentido amplo de uma relação
de fun ção a vari á vel . Se se quisesse inserir o organismo no uni-
verso dos objetos e encerrar este universo através dele seria
preciso traduzir o funcionamento do corpo na linguagem do
em si e descobrir , sob o comportamento , a dependência linear
entre o est í mulo e o receptor , entre o receptor e o Empfinder 1 .
Sem dú vida , sabia-se que no circuito do comportamento emer-
gem determinações novas , e a teoria da energia específica dos
nervos por exemplo , concedia ao organismo o poder de trans-
formar o mundo físico . Mas ela justamente atribu ía aos apa-
»$ relhos nervosos a pot ê ncia oculta de criar as diferentes estru -
turas de nossa experiê ncia , e , enquanto a visão, o tato , a au -
dição são tantas maneiras de ter acesso ao objeto , essas estru-
v.
turas achavam-se transformadas em qualidades compactas e
:C ï
derivadas da distin ção local entre os ó rgãos postos em cena .
Assim , a relação entre o est í mulo e a percepção podia ficar
clara e objetiva, o acontecimento psicofísico era do mesmo

1
112 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 113

tipo que as relações da causalidade “ mundana ” . A fisiologia dos objetos . Foi isso que levou a supor centros gn ósticos es-
moderna n ão mais recorre a esses artif ícios . Ela n ão liga mais pecializados na localização e na interpretação das qualida -
as diferentes qualidades de um mesmo sentido e os dados dos des . Na realidade , as pesquisas modernas mostram que as
diferentes sentidos a instrumentos materiais distintos. Na rea - lesões centrais agem sobretudo elevando as cronaxias que ,
lidade , as lesões dos centros e at é mesmo dos condutos n ão no doente , são duas ou três vezes decuplicadas . A excitação
se traduzem pela perda de certas qualidades sens íveis ou de produz seus efeitos mais lentamente , eles subsistem por mais
certos dados sensoriais , mas por uma diferenciação da fun - tempo , e a percepção t á til do áspero , por exemplo , encontra-
ção . Nós já o indicamos mais acima : qualquer que seja a lo- se comprometida , pois supõe uma sequ ê ncia de impressões
calização da lesão nas vias sensoriais e sua gé nese , assistimos , circunscritas ou uma consciê ncia precisa das diferentes posi -
por exemplo , a uma decomposição da sensibilidade às cores ; ções da m ão4. A localização confusa do excitante n ão se ex -
no . in ício , todas as cores est ão modificadas , seu tom funda- plica pela destruição de um centro localizador , mas pelo ni -
mental permanece o mesmo mas sua saturação decresce ; de - velamento das excitações que n ão mais conseguem organizar-
pois o espectro se simplifica e se reduz a quatro cores : ama- se em um conjunto est á vel em que cada uma delas receberia
rela , verde , azul , vermelho- purpura , e mesmo todas as cores um valor un ívoco e só se traduziria para a consciê ncia por
de ondas curtas tendem para uma espécie de azul , todas as uma mudan ç a circunscrita5. Assim , as excitações de um
cores de ondas longas tendem para uma espécie de amarelo , mesmo sentido diferem menos pelo instrumento material do
a vis ão podendo aliá s variar de um momento para o outro qual se servem do que pela maneira pela qual os est ímulos
segundo o grau de fadiga . Chega - se enfim a um monocro- elementares se organizam espontaneamente entre si e essa
matismo em cinza , embora condi ções favoráveis ( contraste , 1 organização é o fator decisivo no plano das “ qualidades ” sen -
longo período de exposição) possam restaurar momentanea - síveis , assim como no plano da percepção. E ela ainda , e n ão
mente o dicromatismo2 . Portanto , o progresso da lesão na a energia específica do aparelho interrogado , que faz com que
subst â ncia nervosa n ão destrói um a um conte ú dos sens íveis J '

um excitante d ê lugar a uma sensação t átil ou a uma sensa-


%
inteiramente acabados , mas torna cada vez mais incerta a di- ção té rmica . Se por diversas vezes se excita com um cabelo
ir
ferenciação ativa das excitações , que aparece como a função uma dada região da pele , tê m -se primeiramente sensações
essencial do sistema nervoso . Da mesma maneira , nas lesões
í
pontuais , claramente distinguidas e a cada vez localizadas no
n ão- corticais da sensibilidade t á til , se certos conte ú dos ( tem -
V

mesmo ponto . A medida que a excitação se repete , a locali -


peraturas) s ão mais fr á geis e os primeiros a desaparecer , n ão zação se torna menos precisa , a percepção se desdobra no
é porque um determinado territó rio , destru ído no doente , nos espaço , ao mesmo tempo em que a sensaçã o deixa de ser es-
sirva para sentir o quente e o frio , já que a sensação específi - pecífica : n ão é mais um contato , é uma queimadura , ora pe -
ca será restitu ída se se aplicar um excitante suficientemente lo frio , ora pelo calor . Mais tarde ainda , o paciente acredita
extenso3, é antes porque a excitação só consegue assumir sua que o excitante se move e traç a um círculo em sua pele . Fi -
forma t ípica para um est ímulo mais en é rgico. As lesões cen - nalmente , nada mais é sentido6. Isso significa que a “ quali -
trais parecem deixar as qualidades intactas e , em compensa- dade sensível ” , as determinações espaciais do percebido e at é
ção , modificam a organização espacial dos dados e a percepção mesmo a presen ç a ou a ausê ncia de uma percepção n ã o são
0 CORPO 115
114 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

efeitos da situação de fato fora do organismo , mas represen - não é , exatamente como os corpos exteriores , um objeto que
tam a maneira pela qual ele vai ao encontro dos est ímulos age sobre receptores e finalmente d á lugar à consciê ncia do
e pela qual se refere a eles . Uma excitação n ão é percebida corpo? N ão existe uma “ interoceptividade ” assim como existe
quando atinge um ó rgão sensorial que n ão est á “ harmoni- uma “ exteroceptividade ” ? N ão posso encontrar no corpo fi -
zado ” com ela 7 . A fun ção do organismo na recepção dos es- lamentos que os ó rgã os internos enviam ao cé rebro e que são
t ímulos é , por assim dizer , a de “ conceber ” uma certa for- institu ídos pela natureza para dar à alma a ocasi ão de sentir
ma de excitação8. Portanto , o acontecimento psicof ísico ”
( ( seu corpo? A consciê ncia do corpo e a alma são assim repeli-
n ã o é mais do tipo da causalidade < mundana ” , o cé rebro
( dos, o corpo volta a ser esta m áquina bem limpa que a noção
torna - se o lugar de uma “ enformação ” que intervé m antes amb ígua de comportamento falhou em fazer- nos esquecer .
mesmo da etapa cortical , e que embaralha , desde a entrada Por exemplo , se em um amputado algum est ímulo se substi-
do sistema nervoso , as relações entre o est ímulo e o organis- tui ao da perna no trajeto que*vai do coto ao cé rebro, o pa-
mo . A excitação é apreendida e reorganizada por funções ciente sentir á uma perna fantasma porque a alma est á ime -
transversais que a fazem assemelhar- se à percepçã o que ela vai diatamente unida ao cé rebro e apenas a ele .
suscitar. Essa forma que se desenha no sistema nervoso , esse O que diz sobre isso a fisiologia moderna ? A anestesia
desdobramento de uma estrutura , n ão posso represent á- los pela coca ína n ão suprime o membro fantasma , h á membros
9
como uma sé rie de processos em terceira pessoa , transmis- fantasmas sem nenhuma amputação e após lesões cerebrais .
s ão de movimento ou determinação de uma vari á vel por ou - Enfim , o membro fantasma freq ü entemente conserva a mes-
tra . N ão posso ter dela um conhecimento distante . Se adivi - ma posição em que estava o braço real no momento do feri - i .

nho aquilo que ela pode ser , é abandonando ali o corpo ob- mento : um ferido de guerra ainda sente em seu braço fantas-
ma os estilhaços de obus que laceraram seu braço real 10. E
-
jeto , partes extra partes , e reportando- me ao corpo do qual te
preciso então substituir a ‘‘teoria perifé rica ” por uma ‘‘teo-
nho a experiê ncia atual , por exemplo à maneira pela qual
minha m ão enreda o objeto que ela toca antecipando-se aos ria central ” ? Mas uma teoria central nada nos faria ganhar i

est ímulos e desenhando ela mesma a forma que vou perce- se às condições perif é ricas do membro fantasma ela só acres-
ber . Só posso compreender a fun ção do corpo vivo realizando- centasse traços cerebrais. Pois um conjunto de traços cere -
a eu mesmo e na medida em que sou um corpo que se levan - brais n ão poderia representar as relações de consciê ncia que
ta em direção ao mundo. interv ê m no fenômeno . Com efeito , ele depende de determi -
Assim , a exteroceptividade exige uma enformação dos
m nantes “ ps íquicos ” . Uma emoção , uma circunstância que re -
est ímulos , a consciê ncia do corpo invade o corpo , a alma se F lembre as do ferimento fazem aparecer um membro fantas-
espalha em todas as suas partes , o comportamento extravasa ma em pacientes que n ão o tinham 11 . Ocorre que o mem -
seu setor central . Mas poder- se - ia responder que essa < < ex- bro fantasma , enorme depois da operação , se encolha em se -
periê ncia do corpo ” é ela mesma uma “ representação ? 5 , um guida para enfim se absorver no coto “ com o consentimento
<<
fato ps íquico ” , que a este t ítulo ela est á no final de uma do doente em aceitar sua mutila ção ” 12 . O fen ô meno do
cadeia de acontecimentos físicos e fisioló gicos que são os ú ni- membro fantasma se ilumina aqui pelo fen ô meno da anosog-
cos a poderem ser creditados ao “ corpo real ” . Meu corpo nose , que visivelmente exige uma explicação psicoló gica . Os
?
1$
I:
116 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 117

pacientes que sistematicamente ignoram sua m ão direita pa- encontro , se os processos em terceira pessoa e os atos pessoais
ralisada e estendem a esquerda quando lhe pedem a direita pudessem ser integrados em um meio que lhes fosse comum .
falam todavia de seu braço paralisado como sendo í uma ser- Para descrever a cren ç a no membro fantasma e a recu -
í

pente longa e fria ” , o que exclui a hip ótese de uma verdadei- sa da mutilação , os autores falam de uma “ repressã o ou
5 >

ra anestesia e sugere a de uma recusa da deficiê ncia 13 . Seria de um “ recalque orgâ nico ” . Esses termos pouco cartesia-
16
preciso dizer ent ão que o membro fantasma é uma recorda- nos obrigam - nos a formar a id é ia de um pensamento orgâ ni-
ção , uma vontade oti uma cren ç a e , na falta dc uma explica - co pelo qual a relação entre o “ psíquico” e o “ físico ” se tor-
ção fisiológica , dar uma explicação psicol ógica ? Todavia , ne- naria conceb ível . J á encontramos alhures , com as substitui -
nhuma explica ção psicológica pode ignorar que a secção dos ções , fen ômenos que ultrapassam a alternativa entre o psí-
condutos sensitivos que v ão para o encéfalo suprime o mem - quico e o fisiol ó gico , entre a finalidade expressa e o mecanis-
bro fantasma14. E preciso compreender ent ão como os deter- mo17 . Quando , em um ato instintivo , o inseto substitui a
minantes psíquicos e as condições fisiológicas engrenam -se uns pata cortada pela pata sã , isso n ão significa , nós o vimos , que
aos outros : n ão se concebe como o membro fantasma , se de - um dispositivo de aux ílio previamente estabelecido se subs-
pende de condições fisioló gicas e se a este t ítulo é o efeito de titua por desencadeamento autom á tico ao circuito que aca-
uma causalidade em terceira pessoa , pode por outro lado de - ba de ser posto fora de uso . Mas també m n ão significa que
pender da hist ó ria pessoal do doente , de suas recordações , * o animal tenha consciê ncia de um fim a atingir e use seus
de suas emoções ou de suas vontades . Pois , para que as duas membros como diferentes meios , pois ent ão a substitui ção
sé ries de condições possam em conjunto determinar o fen ô-
meno , assim como dois componentes determinam um resul -
-
deveria produzir se a cada vez em que o ato fosse impedido ,
e sabe - se que ela n ão se produz se a pata apenas est á presa .
-
tante , ser-lhes ia necessá rio um mesmo ponto de aplicação
«
Simplesmente o animal continua a estar no mesmo mundo
ou um terreno comum , e n ão se vê qual poderia ser o terreno e dirige - se a ele através de todas as suas pot ê ncias . O mem -
comum a < fatos fisiológicos ” que est ão no espaço e a “ fatos
í
bro preso n ão é substitu ído pelo membro livre porque conti -
psíquicos ” que n ão est ão em parte alguma ou mesmo a pro- '
&
nua a contar no ser animal , e porque a corrente de atividade
cessos objetivos como os influxos nervosos , que pertencem à que vai em direção ao mundo ainda passa por ele . H á aqui
ordem do em si , e a cogitationes tais como a aceitação e a recu- »£
tanta escolha quanto em uma gota de óleo que emprega to-
sa , a consci ê ncia do passado e a emoção , que são da ordem 4
das as suas forç as internas para resolver praticamente o pro-
do para si . Uma teoria mista do membro fantasma , que ad - blema de máximo e de m ínimo que lhe é colocado . A dife-
mitiria as duas sé ries de condições 15 pode ser válida ent ão ren ça est á apenas em que a gota de óleo se adapta a forças
enquanto enunciado de fatos conhecidos: mas ela é funda- externas dadas , enquanto o animal projeta ele mesmo as nor-
mentalmente obscura . O membro fantasma n ão é o simples mas de seu meio e coloca ele mesmo os termos de seu pro-
efeito de uma causalidade objetiva nem uma cogitatio a mais. blema vital 18 ; mas trata-se aqui de um a priori da espé cie e
Ele só poderia ser uma mistura dos dois se encontrássemos n ão de uma opção pessoal . Assim , o que encontramos atr ás
o meio de articular um ao outro o “ psíquico ” e o “ fisiol ógi - do fen ô meno de substituição é o movimento do ser no mun -
co ” , o “ para si ” e o < < em si• > > e de preparar entre eles um do , e já é hora de precisar sua noção. Quando se diz que um
118 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO
119

animal existe, que ele tem um mundo ou que ele é para um mun - primeiramente um objeto de conhecimento e enquanto é uma
do , n ão se quer dizer que ele tenha percepção ou consci•ê ncia inten ção de nosso ser total , s ão modalidades de uma visão pré-
A

objetiva desse mundo . A situação que desencadeia as opera- objetiva que é aquilo que chamamos de ser no mundo . Para
çÕes instintivas n ão est á inteiramente articulada e determi -
aqué m dos est ímulos e dos conte ú dos sens íveis, é preciso re -
nada , o sentido total não é possu ído, como o mostram muito conhecer um tipo de diafragma interior que , muito mais do
bem os erros e a cegueira do instinto . Ela só oferece uma sig- que eles , determina aquilo que nossos reflexos e nossas per-
nificação prática , só convida a um reconhecimento corporal , cepções poder ão visar no mundo , a zona de nossas opera-
ela é vivida como situação “ aberta ” , e pede os movimentos ções poss íveis , a amplid ão de nossa vida . Certos pacientes
do animal assim como as primeiras notas da melodia pedem podem estar próximos da cegueira sem terem mudado de
um certo modo de resolu ção sem que ele seja conhecido por <<
mundo ” : nós os vemos chocar- se a objetos em todas as par-
si mesmo , e é justamente isso que permite aos membros tes, mas eles n ã o t ê m consciê ncia de n ão ter mais qualidades
substitu írem -se um ao outro, serem equivalentes diante da evi - visuais e a estrutura de sua conduta n ão se altera
. Outros
d ê ncia da tarefa. Se ele ancora o sujeito em um certo “ meio ” , doentes , ao contr á rio , perdem seu mundo a partir do mo-
o “ ser no mundo 7 7 seria algo como a “ aten ção à vida ” de mento em que os conte ú dos se esquivam , renunciam à sua
Bergson ou como a “ fun ção do real ” de P . Janet ? A aten ção vida habitual antes mesmo que ela tenha se tornado impos -
à vida é a consciê ncia que tomamos de movimentos nascen -
í í
s ível , tornam - se enfermos por antecipa çã o e rompem o con -
tes 5 7 em nosso corpo. Ora , movimentos reflexos , esboç ados tato vital com o mundo antes de terem perdido o contato sen -
ou realizados , ainda são apenas processos objetivos dos quais sorial . H á portanto uma certa consist ê ncia de nosso “ mun -
a consciê ncia pode constatar o desenrolar e os resultados , mas independente dos est í mulos , que pro í be
nos quais ela n ão est á engajada 19. Na realidade, os pró prios
reflexos nunca são processos cegos: eles se ajustam a um “ sen -
do ”

certa
, relativamente
tratar o ser no mundo como uma soma de reflexos
energia da pulsa ção de exist ê ncia , relativamente
— uma
inde -
tido ” da situação, exprimem nossa orientação para um “ meio pendente de nossos pensamentos volunt á rios , que pro íbe
trat á-lo como um ato de consciê ncia . E por ser uma vis ão pré -
/

de comportamento ” tanto quanto a ação do “ meio geogr áfi - “

co ” sobre n ós . Eles desenham , à dist â ncia , a estrutura do ob- objetiva que o ser no mundo pode distinguir - se de todo pro-
jeto, sem esperar suas estimulações pontuais. E essa presen ça cesso em terceira pessoa de toda modalidade da res extensa ,
global da situação que d á um sentido aos est ímulos parciais assim como de toda cogitatio , de todo conhecimento em pri -
e que os faz contar, valer ou existir para o organismo . O re -
flexo n ão resulta de est ímulos objetivos , ele se volta para eles ,
meira pessoa
quico 77
e do
— “
e que ele poderá realizar a jun ção do “ psí-
fisiol ógico ” .
investe -os de um sentido que eles n ão receberam um a um Retornemos agora ao problema de que partimos. A ano -
e como agentes f ísicos , que eles tê m apenas enquanto situa- sognose e o membro fantasma n ão admitem nem uma expli-
ção. Ele os faz ser como situação, est á com eles em uma rela- cação fisiológica , nem uma explicação psicológica nem uma
ção de “ conhecimento ” , quer dizer , indica-os como aquilo explicação mista , embora possam ser relacionados às duas sé-
que ele est á destinado a afrontar . O reflexo , enquanto se abre
r ries de condições. Uma explicação fisiológica interpretaria a
ao sentido de uma situação , e a percepção , enquanto n ão põe V.
anosognose e o membro fantasma como a simples supressão

&
!

120 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 121

ou a simples persist ê ncia das estimulações interoceptivas. Nes- outro lado , ele descreve muito bem as particularidades da per-
sa hipó tese , a anosognose é a ausê ncia de um fragmento da na fantasma , por exemplo a sua singular motricidade e , se
representação do corpo que deveria ser dada , já que o mem - ele a trata praticamente como um membro real , é porque ,
bro correspondente est á ali ; o membro fantasma é a presen - assim como o sujeito normal , ele n ão precisa , para pôr-se a
ç a de uma parte da representação do corpo que n ão deveria caminho , de uma percepção clara e articulada de seu corpo :
ser dada , já que o membro correspondente n ão est á ali . Se basta- lhe tê- lo < í a sua disposição ” como uma pot ê ncia indi -
agora damos uma explicação psicol ógica dos fen ô menos , o visa , e adivinhar a perna fantasma vagamente implicada ne -
membro fantasma torna- se uma recordação , um ju ízo positi - le . Portanto , a consciê ncia da perna fantasma permanece , ela
vo ou uma percepção , a anosognose um esquecimento, um també m , equ ívoca . O amputado sente sua perna , assim co-
ju ízo negativo ou uma n ão- percepção . No primeiro caso, o mo posso sentir vivamente a existê ncia de um amigo que to-
membro fantasma é a presen ça efetiva de uma representa- davia n ão est á diante de mim ; ele n ão a perdeu porque con -
ção ; a anosognose , a ausê ncia efetiva de uma representação . tinua a contar com ela , assim como Proust pode constatar a
No segundo caso o membro fantasma é a representação de morte de sua avó sem perd ê - la ainda , j á que ele a conserva
uma presença efetiva , a anosognose é a representação de uma no horizonte de sua vida . O braço fantasma n ão é uma re-
ausê ncia efetiva . Nos dois casos nós n ão sa ímos das catego- presentação do braço , mas a presença ambivalente de um bra-
rias do mundo objetivo, em que não há meio-termo entre a ço . A recusa da mutilação no caso do membro fantasma ou
presen ç a e a ausê ncia . Na realidade o anosogn ósico n ão ig- a recusa da deficiê ncia na anosognose n ão sao decisões deli -
nora simplesmente o membro paralisado: ele só pode desviar- beradas , n ão se passam no plano da consciê ncia tética que
se da deficiê ncia porque sabe onde correria o risco de encon - toma posi ção explicitamente após ter considerado diferentes
trá- la , assim como o paciente na psican álise sabe o que nao possíveis . A vontade de ter um corpo são ou a recusa do cor-
quer ver face a face , ou não poderia evitá-lo tao bem . Só com - po doente n ão são formuladas por eles mesmos , a experiê n -
preendemos a ausê ncia ou a morte de um amigo no momen - cia do braço amputado como presente ou a do braço doente
to em que esperamos dele uma resposta e sentimos que ela como ausente n ão são da ordem do “ eu penso que ... ” .
n ão existir á mais ; por isso , primeiramente evitamos interro- Esse fen ô meno , que as explicações fisioló gicas e psicoló-
gar para n ão ter de perceber esse silêncio; nós nos desviamos gicas igualmente desfiguram , é compreensível ao contrá rio
das regi ões de nossa vida em que poder íamos encontrar esse na perspectiva do ser no mundo . Aquilo que em n ós recusa
nada , mas isso significa que nós as adivinhamos. Da mesma a mutilação e a deficiência é um Eu engajado em um certo
forma , o anosogn ósico põe fora de jogo seu braço paralisado mundo físico e inter- humano , que continua a estender- se pa-
para n ão ter de experimentar sua perda, mas isso significa ra seu mundo a despeito de deficiê ncias ou de amputações,
que ele tem dela um saber pré-consciente . E verdade que , e que , nessa medida , n ão as reconhece de jure. A recusa da
no caso do membro fantasma , o paciente parece ignorar a
I deficiê ncia é apenas o avesso de nossa inerê ncia a um mun-
mutilação e contar com seu fantasma como com um membro
» i do, a negação implícita daquilo que se opõe ao movimento
real , já que ele tenta caminhar com sua perna fantasma e nao !‘ natural que nos lança a nossas tarefas , a nossas preocupações ,
se deixa desencorajar nem mesmo por uma queda . Mas , por a nossa situação , a nossos horizontes familiares . Ter um bra -

[
122 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 123

ço fantasma é permanecer aberto a todas as ações das quais pareceram da segunda, e a quest ão de saber como posso sentir-
apenas o braço é capaz , é conservar o campo pr á tico que se me provido de um membro que de fato n ão tenho mais re-
tinha antes da mutilação. O corpo é o ve ículo do ser no mun - dunda em saber como o corpo habitual pode aparecer como
do , e ter um corpo é , para um ser vivo , juntar- se a um meio fiador do corpo atual. Como posso perceber objetos enquan-
definido , confundir- se com certos projetos e empenhar- se con- to manejáveis , embora n ão possa mais manejá-los ? E preciso
tinuamente neles. Na evidê ncia deste mundo completo em que o manejá vel tenha deixado de ser aquilo que manejo
que ainda figuram objetos manejáveis , na força do movimento atualmente para tornar-se aquilo que se pode manejar , tenha
que vai em direção a ele , e em que ainda figuram o projeto deixado de ser um manejável para mim e tenha- se tornado co-
de escrever ou de tocar piano, o doente encontra a certeza mo que um manejável em si. Correlativamente , é preciso que
de sua integridade . Mas , no momento mesmo em que o mun - meu corpo seja apreendido n ão apenas em uma experiê ncia
do lhe mascara sua deficiê ncia , ele n ão pode deixar de revelá- instant â nea , singular , plena , mas ainda sob um aspecto de
la : pois se é verdade que tenho consciê ncia de meu corpo atra- generalidade e como um ser impessoal .
vé s do mundo , que ele é , no centro do mundo , o termo n ão- Através disso , o fenô meno do membro fantasma re ú ne-
percebido para o qual todos os objetos voltam a sua face , é se ao do recalque que vai esclarecê - lo . Pois o recalque de que
verdade pela mesma razão que meu corpo é o piv ô do mun - fala a psican álise consiste em que o sujeito se empenha em
do : sei que os objetos t ê m vá rias faces porque eu poderia fa-
zer a volta em torno deles , e neste sentido tenho consciê ncia
uma certa via — —
relação amorosa , carreira , obra , encon -
tra uma barreira nessa via e , n ão tendo forç a nem para trans-
do mundo por meio de meu corpo . No momento mesmo em por o obst áculo nem para renunciar ao empreendimento , per-
que meu mundo costumeiro suscita em mim inten ções habi - manece bloqueado nessa tentativa e emprega indefinidamente
tuais , n ão posso mais , se sou amputado , juntar- me efetiva- suas forç as em renová-la em esp írito . O tempo que passa n ão
mente a ele , os objetos manejáveis , justamente enquanto se leva consigo os objetos imposs íveis , n ão se fecha sobre a ex-
apresentam como manejá veis, interrogam uma m ão que n ão periê ncia traumá tica , o sujeito permanece sempre aberto ao
tenho mais . Assim , no conjunto de meu corpo se delimitam mesmo futuro imposs ível , sen ão em seus pensamentos expl í-
regiões de silê ncio. Portanto, o doente sabe de sua perda jus- citos , pelo menos em seu ser efetivo . Um presente entre to-
tamente enquanto a ignora, e ele a ignora justamente enquan - dos os presentes adquire ent ão um valor de exceção: ele des -
to a conhece. Esse paradoxo é o de todo ser no mundo : diri- loca os outros e os destitui de seu valor de presentes aut ê nti-
gindo- me para um mundo , esmago minhas intenções percep- cos . Continuamos a ser aquele que um dia se empenhou nes-
tivas e minhas inten ções pr á ticas em objetos que finalmente se amor de adolescente , ou aquele que um dia viveu nesse
me aparecem como anteriores e exteriores a elas , e que toda- universo parental . Percepções novas substituem as percep-
via só existem para mim enquanto suscitam pensamentos e ções antigas , e mesmo emoções novas substituem as de ou -
vontades em mim . No caso que nos ocupa , a ambigü idade trora , mas essa renovação só diz respeito ao conteúdo de nossa
do saber se reduz ao fato de que nosso corpo comporta como experiê ncia e não à sua estrutura; o tempo impessoal conti-
que duas camadas distintas , a do corpo habitual e a do corpo nua a se escoar , mas o tempo pessoal est á preso . Evidente -
atual . Na primeira , figuram os gestos de manuseio que desa- mente , essa fixaçã o n ão se confunde com uma recordação ,
124 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 125

ela até mesmo exclui a recordação enquanto esta expõe uma me manter em vida, em torno do mundo humano que cada
experiê ncia antiga como um quadro diante de n ós e enquan - um de n ós se faz , aparece um mundo em geral ao qual é pre-
to , ao contrá rio , este passado que permanece nosso verda- ciso pertencer em primeiro lugar para poder encerrar-se no
deiro presente n ão se distancia de n ós e esconde-se sempre ambiente particular de um amor ou de uma ambição . Assim
atrás de nosso olhar em lugar de dispor-se diante dele . A ex- como se fala de um recalque no sentido estrito quando , atra-
periê ncia traum á tica n ão subsiste a t ítulo de representação , vés do tempo , mantenho um dos mundos moment â neos pe -
no modo da consciê ncia objetiva e como um momento que
tem sua data ; é-lhe essencial sobreviver como um estilo de
los quais passei e faço dele a forma de toda a minha vida
da mesma maneira pode-se dizer que meu organismo , como

ser e em um certo grau de generalidade . Eu alieno meu po- adesão pré - pessoal à forma geral do mundo , como existê ncia
der perpé tuo de me dar “ mundos ” em benef ício de um de - an ó nima e geral , desempenha , abaixo de minha vida pessoal ,
les , e por isso mesmo este mundo privilegiado perde sua subs- i o papel de um complexo inato . Ele n ão existe como uma coisa
t â ncia e termina por ser apenas uma certa angústia . Portanto , inerte , mas esboça , ele també m , o movimento da exist ê ncia .
todo recalque é a passagem da exist ê ncia em primeira pessoa í Pode mesmo ocorrer que , no perigo , minha situação huma -
a um tipo de escol ástica dessa existê ncia , que vive para uma na apague minha situação bioló gica , que meu corpo se lance
experiê ncia antiga ou antes para a recordação de tê - la tido , sem reservas à ação20. Mas esses momentos só podem ser
depois para a recordação de ter tido essa recordação e assim momentos 21 e a maior parte do tempo a existê ncia pessoal
por diante , a ponto de que finalmente ela só retenha sua for- recalca o organismo , sem poder nem ir adiante nem renun -
ma t ípica . Ora , como advento do impessoal , o recalque é um
fen ômeno universal , ele faz compreender nossa condição de
ciar a si mesma — nem reduzi-lo a ela nem reduzir - se a ele .
Enquanto estou abatido por um luto e entregue ao meu so-
seres encarnados ligando-a à estrutura temporal do ser no frimento , meus olhares já erram diante de mim , interessam -
mundo . Enquanto tenho “ ó rgãos dos sentidos ” , um “ cor- ï se sorrateiramente por algum objeto brilhante , recomeç am
po ” , “ fun ções psíquicas ” compará veis àquelas dos outros ho- sua exist ê ncia aut ó noma. Depois deste minuto no qual que -
mens , cada um dos momentos de minha experiê ncia deixa ríamos encerrar toda a nossa vida , o tempo , pelo menos o
de ser uma totalidade integrada, rigorosamente ú nica , em que tempo pré- pessoal , recomeça a se escoar e arrebata , senão nos-
os detalhes só existiriam em fun ção do conjunto , eu me tor- sa resolu ção , pelo menos os sentimentos calorosos que a sus-
no o lugar onde uma multid ão de “ causalidades ” se entre - tentavam . A existê ncia pessoal é intermitente , e , quando es-
cruzam . Enquanto habito um “ mundo físico ” , em que “ es- sa maré reflui , a decisão só pode dar à minha vida uma sig-
t ímulos ” constantes e situações t í picas se reencontram — e nificação forçada . A fusão entre a alma e o corpo no ato , a
n ão apenas o mundo histó rico em que as situações nunca são sublimação da existê ncia biológica em existê ncia pessoal , do

compará veis , minha vida comporta ritmos que n ão tê m
sua razão naquilo que escolhi ser , mas sua condição no meio
mundo natural em mundo cultural , é tornada ao mesmo tem -
po poss ível e precá ria pela estrutura temporal de nossa expe-
banal que me circunda . Assim , em torno de nossa existê ncia riê ncia . Cada presente , através de seu horizonte de passado
pessoal aparece uma margem de exist ê ncia quase impessoal , imediato e de futuro próximo , apreende pouco a pouco a to-
que é por assim dizer evidente , e à qual eu reporto o zelo de talidade do tempo possível ; ele supera assim a dispersão dos
126 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 127

i tado podem fazer aparecer o membro fantasma ? O braço fan -


instantes , est á em posição de dar seu sentido definitivo ao nos-
so pró prio passado , e de reintegrar à existê ncia pessoal até tasma n ão é uma rememoração , ele é um quase- presente , o
mesmo este passado de todos os passados que as estereotipias mutilado o sente atualmente dobrado sobre seu peito sem ne -
j orgâ nicas nos fazem adivinhar na origem de nosso ser volun - nhum índice de passado . Nós n ão podemos mais supor que
t á rio . Nessa medida , at é mesmo os reflexos t ê m um sentido , um braço em imagem , errando através da consciê ncia , veio

e o estilo de cada indiv íduo ainda é vis ível neles assim como assentar-se no coto: pois ent ão ele n ão seria um “ fantasma
o batimento do coração se faz sentir até na periferia do cor- mas uma percepção renascente . E preciso que o braço fan -
po . Mas justamente este poder pertence a todos os presentes , tasma seja este mesmo braço dilacerado por estilhaços de obus
aos antigos presentes assim como ao novo . Mesmo se preten - e cujo inv ólucro invis ível queimou ou apodreceu em algum
demos compreender nosso passado melhor do que ele se com - lugar , e que vem assombrar o corpo presente sem confundir-
preende a si mesmo , ele sempre pode recusar nosso ju ízo pre - se com ele . O braço fantasma é portanto , como a experiê ncia
sente e encerrar-se em sua evidência autista. Ele o faz até mes- recalcada , um antigo presente que n ão se decide a tornar- se
mo necessariamente enquanto eu o penso como um antigo passado. As recordações que se evocam diante do amputado
presente . Cada presente pode pretender fixar nossa vida , é induzem um membro fantasma , n ão como no associacionis-
isso que o define como presente . Enquanto ele se faz passar mo uma imagem chama uma outra imagem , mas porque to-
pela totalidade do ser e preenche um instante da consciê ncia , da recordação reabre o tempo perdido e nos convida a reto-
n ós nunca nos libertamos dele inteiramente , o tempo nunca mar a situação que ele evoca . A mem ó ria intelectual , no sen -
se fecha inteiramente com ele , que permanece como uma fe - tido de Proust , contenta- se em assinalar o passado , um pas-
rida por onde nossa força se escoa . Com maior razão , o pas- sado em id é ia , ela antes extrai seus “ caracteres ” ou sua sig-
sado específico que é nosso corpo só pode ser reapreendido nificaçã o comunic á vel do que reencontra sua estrutura , mas
e assumido por uma vida individual porque ela nunca o trans- -
Ç
enfim ela n ão seria mem ó ria se o objeto que ela constró i n ão
cendeu , porque ela o alimenta secretamente e emprega nisso se prendesse ainda , por alguns fios intencionais , ao horizon -
uma parte de suas forças , porque ele permanece seu presen - te do passado vivido e a este pró prio passado tal como n ós
te , como se vê na doen ç a em que os acontecimentos do corpo r o reencontrar íamos enveredando nesses horizontes e reabrindo
l o tempo . Da mesma maneira , se se recoloca a emoção no ser
se tornam os acontecimentos da jornada diária . O que nos í
permite centrar nossa existê ncia é també m o que nos impede no mundo , compreende - se que ela possa estar na origem do
de centrá-la absolutamente , e o anonimato de nosso corpo é membro fantasma . Estar emocionado é achar-se engajado em
í uma situação que n ão se consegue enfrentar e que todavia
inseparavelmente liberdade e servid ão . Assim , para nos re -
sumir , a ambig ü idade do ser no mundo se traduz pela ambi- n ão se quer abandonar . Antes de aceitar o fracasso ou voltar
guidade do corpo , e esta se compreende por aquela do tempo. atrá s , o sujeito , nesse impasse existencial , faz voar em peda-
Mais tarde voltaremos ao tempo . Por agora , mostremos ços o mundo objetivo que lhe barra o caminho e procura , em
apenas que a partir deste fen ô meno central as relações entre atos m ágicos , uma satisfação simbólica 22 . A ru ína do mun -
o “ ps íquico ” e o “ fisiológico ” tornam -se pensá veis. Primei - do objetivo , a renuncia à verdadeira ação , a fuga no autismo
ramente , por que as recordações que se relembra ao ampu - são condições favoráveis à ilusão dos amputados enquanto esta
128 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 129

supõe , ela també m , a obliteração do real . Se a recordação e fatos , que a indução cient ífica se limita a justapor , ligam - se
a emoção podem fazer aparecer o membro fantasma , n ão é ir
V- interiormente e compreendem - se sob uma mesma idéia. Se
como uma cogitado exige uma outra cogitado , ou como uma o homem n ão deve ser encerrado na ganga do meio circun -
1
condição determina sua conseq üê ncia
— n ão é porque uma
causalidade da idé ia se superponha aqui a uma causalidade
B
dante sincré tico em que o animal vive como em estado de êx-
tase , se ele deve ter consciê ncia de um mundo como razão
fisioló gica , é porque uma atitude existencial motiva uma ou - comum de todos os meios circundantes e teatro de todos os
tra e porque recordação , emoção , membro fantasma s ão equi- comportamentos , é preciso que entre ele mesmo e aquilo que
valentes em relação ao ser no mundo. Por que , enfim a sec- chama de sua ação se estabeleça uma dist â ncia , é preciso que ,
ção dos condutos aferentes suprime o membro fantasma ? Na como dizia Malebranche , os est ímulos do exterior só o afe -
perspectiva do ser no mundo , esse fato significa que as exci - tem com “ respeito ” , que cada situação moment â nea deixe
tações vindas do coto mant ê m o membro amputado no cir- de ser para ele a totalidade do ser , que cada resposta particu -
cuito da existê ncia . Elas marcam e conservam seu lugar , fa - ï,- lar deixe de ocupar todo o seu campo prá tico , que a elabora -
zem com que ele n ão seja anulado , com que ainda conte no ção dessas respostas , em lugar de se fazer no centro de sua
organismo , elas preparam um vazio que a histó ria do paciente exist ê ncia , se passe na periferia e que enfim as pró prias res-
Tt
vai preencher , permitem -lhe tornar real um fantasma assim postas n ão exijam mais a cada vez uma tomada de posição
como os dist ú rbios estruturais permitem ao conte ú do da psi- p singular e sejam desenhadas de uma vez por todas em sua
cose tornar real um del írio . De nosso ponto de vista , um cir- generalidade. Assim , é renunciando a uma parte de sua es-
cuito sensorimotor é , no interior de nosso ser no mundo glo- pontaneidade, engajando- se no mundo por ó rgãos est áveis e
bal , uma corrente de exist ê ncia relativamente autó noma . N ão '
&! circuitos preestabelecidos que o homem pode adquirir o es-
porque ele sempre traga ao nosso ser total uma contribuição paço mental e prático que em princípio o libertará de seu meio
separ á vel , mas porque, em certas condições , é poss ível pô r circundante e fará com que ele o veja . E , sob a condição de
em evid ê ncia respostas constantes para est ímulos també m 8V recolocar na ordem da existê ncia até mesmo a tomada de cons-
constantes . Trata-se portanto de saber por que a recusa da ciê ncia de um mundo objetivo , n ão encontraremos mais con -
deficiê ncia , que é uma atitude de conjunto de nossa existê n- tradição entre ela e o condicionamento corporal : dar- se um
cia , precisa , para se realizar, dessa modalidade muito espe- corpo habitual é uma necessidade interna para a existê ncia
cial que é um circuito sensorimotor , e por que nosso ser no mais integrada. O que nos permite tornar a ligar o “ fisioló-
mundo , que d á seu sentido a todos os nossos reflexos , e que gico ” e o “ ps íquico ” um ao outro é o fato de que , reintegra-
sob esse aspecto os funda , se entrega todavia a eles e para dos à exist ê ncia , eles n ão se distinguem mais como a ordem
terminar se funda neles. De fato , nós o mostramos alhures , do em si e a ordem do para si , e de que são ambos orientados
os circuitos sensorimotores delineiam-se tanto mais claramente para um pólo intencional ou para um mundo . Sem d ú vida ,
quando tratamos com exist ê ncias mais integradas , e o refle - as duas hist ó rias nunca se recobrem inteiramente : uma é ba-
xo em estado puro quase só se encontra no homem , que tem nal e cíclica , a outra pode ser aberta e singular , e seria preci-
n ão apenas um meio circundante ( Umwelt ) , mas ainda um so reservar o termo hist ó ria para a segunda ordem de fen ô-
mundo ( Welt )23 . Do ponto de vista da existê ncia , esses dois menos se a hist ó ria fosse uma seq üê ncia de acontecimentos
130
í 131
FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO

que n ão apenas t ê m um sentido mas ainda o d ão a si mes- o fisiol ógico pode haver relações de troca que quase sempre
mos . Todavia , a menos que seja uma revolu ção verdadeira impedem de definir um dist ú rbio mental como psíquico ou
que dilua as categorias histó ricas at é ent ão válidas , o sujeito como som á tico . O dist ú rbio dito som á tico delineia coment á-
da hist ó ria n ão cria integralmente o seu papel : diante de si - rios ps íquicos sobre o tema do acidente orgâ nico , e o dist ú r -
tuações t í picas , ele toma decisões t í picas , e Nicolau II , reen - bio “ ps íquico ” limita- se a desenvolver a significação huma -
contrando até mesmo as expressões de Lu ís XVI , desempe - na do acontecimento corporal . Um doente sente uma segun -
nha o papel já escrito de um poder estabelecido ante um no- da pessoa implantada em seu corpo . Ele é homem em uma
vo poder . Suas decisões traduzem urn a priori do príncipe metade de seu corpo , mulher na outra metade . Como distin -
ameaç ado , assim como nossos reflexos traduzem um a priori guir nos sintomas as causas fisiológicas e os motivos psicoló-
específico . Aliá s , essas estereotipias n ão são uma fatalidade , gicos ? Como associar simplesmente as duas explicações e co-
e , assim como a vestimenta , o adorno , o amor transfiguram mo conceber um ponto de jun ção entre as duas determinan -
as necessidades biol ó gicas por ocasião das quais eles nasce - tes ? Em sintomas desse tipo , ps íquico e f ísico est ão t ão in -
ram , da mesma forma no interior do mundo cultural o a prio - teriormente ligados que n ão se pode mais pensar em comple-
ri hist ó rico só é constante para uma dada fase e sob a condi - tar um dos dom ínios funcionais pelo outro e que ambos devam
ção de que o equil íbrio das forças deixe subsistir as mesmas ser assumidos por um terceiro ( . . . ) E preciso ( . .. ) passar de
formas . Assim , a história não é nem uma novidade perpé tua um conhecimento dos fatos psicológicos e fisiológicos a um
nem uma repetição perpé tua , mas o movimento único que cria reconhecimento do acontecimento an ímico como processo vi-
formas est á veis e as dissolve . O organismo e suas dialé ticas tal inerente à nossa existê ncia . ” 2 4 Assim , à quest ão que nos
mon ó tonas n ão são portanto estranhos à hist ó ria e como que colocá vamos , a fisiologia moderna dá uma resposta muito cla-
inassimil á veis por ela . O homem concretamente considera- 1. ra : o acontecimento psicof ísico n ão pode mais ser concebido
do n ão é um psiquismo unido a um organismo , mas este vai - à maneira da fisiologia cartesiana e como a contig ú idade en -
v é m da exist ê ncia que ora se deixa ser corporal e ora se diri- tre um processo em si e uma cogitatio . A uni ão entre a alma
ge aos atos pessoais. Os motivos psicológicos e as ocasiões cor- e o corpo n ão é selada por um decreto arbitr á rio entre dois
porais podem - se entrelaçar porque n ão h á um só movimento termos exteriores , um objeto , outro sujeito . Ela se realiza a
em um corpo vivo que seja um acaso absoluto em relação às Á cada instante no movimento da existência . Foi a existê ncia
inten ções psíquicas , nem um só ato psíquico que n ã o tenha que encontramos no corpo aproximando- nos dele por uma
encontrado pelo menos seu germe ou seu esboço geral nas dis- primeira via de acesso , a da fisiologia . E- nos permitido en -
posições fisiológicas . N ão se trata nunca do encontro incom - tão cotejar e precisar este primeiro resultado interrogando ago -
preensível entre duas causalidades , nem de uma colisão en - ra a exist ê ncia sobre ela mesma , quer dizer , dirigindo- nos à
tre a ordem das causas e a ordem dos fins . Mas , por uma psicologia .
reviravolta insensível , um processo orgâ nico desemboca em
um comportamento humano , um ato instintivo muda e torna-
se sentimento , ou inversamente um ato humano adormece
e continua distraidamente como reflexo . Entre o psíquico e
*
A

CAPÍTULO II

A EXPERIÊ NCIA DO CORPO


I E A PSICOLOGIA CLÁSSICA
i

Quando descrevia o corpo próprio, a psicologia clá ssica


já lhe atribu ía “ caracteres ” incompat íveis com o estatuto de
objeto . Ela dizia , em primeiro lugar , que meu corpo se dis-
tingue da mesa ou da l â mpada porque ele é percebido cons-
tantemente , enquanto posso me afastar daquelas . Portanto ,
ele é um objeto que n ão me deixa. Mas então ele ainda seria
8TÍ
:
um objeto? Se o objeto é uma estrutura invariável , ele n ão
s)y
o é a despeito da mudan ça das perspectivas , mas nesta mudan -
ça ou através dela . Para ele , as perspectivas sempre novas n ão
são uma simples ocasião para manifestar sua permanê ncia ,
uma maneira contingente de se apresentar a n ós . Ele só é ob-
jeto , quer dizer , est á diante de nós, porque é observável , quer
dizer , situado no termo de nossos dedos ou de nossos olha -
i i res , indivisivelmente subvertido e reencontrado por cada um
de seus movimentos. De outra maneira , ele seria verdadeiro
como uma idéia e n ão presente como uma coisa . Particular-
!
mente , o objeto só é objeto se pode distanciar- se e , no limite ,
desaparecer de meu campo visual . Sua presença é de tal tipo
»
que ela não ocorre sem uma ausência possível. Ora , a per-
man ê ncia do corpo pró prio é de um gê nero inteiramente di -
verso : ele n ão está no limite de uma exploração indefinida ,
134 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 135

ele se recusa à exploração e sempre se apresenta a mim sob fr só podem afetar- me se primeiramente sou de tal natureza que
o mesmo â ngulo . Sua perman ê ncia n ão é uma permanê ncia
% existam para mim situações de fato. Em outros termos , ob-
no mundo , mas uma permanê ncia ao meu lado . Dizer que li - se rvo os objetos exteriores com meu corpo , eu os manejo , os
ele est á sempre perto de mim sempre aqui para mim , é di - í nspeciono dou a volta em torno deles , mas , quanto ao meu
zer que ele nunca est á verdadeiamente diante de mim , que corpo , n ão o observo ele mesmo: para poder fazê- lo , seria pre-
n ão posso desdobrá-lo sob meu olhar , que ele permanece à ciso dispor de um segundo corpo que n ão seria ele mesmo
I
margem de todas as minhas percepções , que existe comigo . E observ á vel . Quando digo que meu corpo é sempre percebido
verdade que também os objetos exteriores só me mostram um por mim , essas palavras n ã o devem então ser entendidas em
de seus lados , escondendo- me os outros, mas pelo menos posso um sentido simplesmente estat ístico e deve haver na apresen -
escolher à vontade o lado que eles me mostrarão. Eles só po- tação do corpo pró prio algo que torne impensável sua ausê n -
dem aparecer para mim em perspectiva , mas a perspectiva cia ou mesmo sua variação . O que é ent ão ? Minha cabeç a
7.

particular que a cada momento obtenho deles só resulta de só é dada à minha visão pela extremidade de meu nariz e pe-
uma necessidade f ísica , quer dizer , de uma necessidade da lo contorno de minhas órbitas. Posso ver meus olhos em um
qual posso me servir e que n ão me aprisiona : de minha jane-
w
espelho com três faces , mas eles são os olhos de algu é m que
la só se vê o campan á rio da igreja , mas esse constrangimento observa , e mal posso surpreender meu olhar vivo quando , na
me promete ao mesmo tempo que de outro lugar se veria to- m rua um espelho me envia inopinadamente minha imagem .
da a igreja . També m é verdade que , se sou prisioneiro , a igre - No espelho, meu corpo não deixa de seguir minhas intenções
ja se reduzirá para mim a um campan á rio truncado. Se não como sua sombra , e , se a observação consiste em fazer variar
tirasse minha roupa , eu nunca perceberia seu avesso , e vere - o ponto de vista mantendo fixo o objeto , ele n ão se subtrai
mos justamente que minhas roupas podem tornar- se como £ à observaçã o e se mostra como um simulacro de meu corpo
que anexos de meu corpo . Mas isso n ã o prova que a presen -
iX t átil , já que ele imita suas iniciativas em lugar de correspon-
ç a de meu corpo seja compar ável à permanê ncia de fato de
E
:

der a elas por um livre desenrolar de perspectivas . Meu cor -


certos objetos, o ó rgão a um utensílio sempre disponível. Mos-
* po visual é objeto nas partes distanciadas de minha cabeça ,
tra que , inversamente , as ações em que me envolvo por h á- mas à medida que se aproxima dos olhos , ele se separa dos
bito incorporam a si seus instrumentos e os fazem participar objetos , arranja no meio deles um quase -espa ço ao qual eles
da estrutura original do corpo próprio . Quanto a este , ele é n ão tê m acesso , e , quando quero preencher este vazio recor-
o hábito primordial, aquele que condiciona todos os outros rendo à imagem do espelho , ela ainda me remete a um origi-
e pelo qual eles se compreendem . Sua perman ê ncia perto de nal do corpo que não está ali , entre as coisas , mas do meu
mim , sua perspectiva invariá vel n ão são uma necessidade de lado , aqu é m de qualquer visão . Malgrado as aparê ncias , o
fato, já que a necessidade de fato as pressupõe: para que mi- mesmo acontece com meu corpo tátil , pois , se posso apalpar
nha janela me imponha um ponto de vista sobre a igreja , pri- com a m ão esquerda a minha m ão direita enquanto ela toca
meiramente é preciso que meu corpo me imponha um sobre um objeto , a m ão direita-objeto n ão é a mão direita que toca:
o mundo , e a primeira necessidade pode ser simplesmente f í- a primeira é urn entrelaçamento de ossos , de m ú sculos e de
sica só porque a segunda é metaf ísica , as situações de fato carne largado em um ponto do espaço , a segunda atravessa
136 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO 0 CORPO 137

o espaço como um foguete para ir revelar o objeto exterior cia , presente sem cessar , ele també m , antes de todo pensa-
no seu lugar . Embora veja ou toque o mundo , meu corpo n ão mento determinante .
pode no entanto ser visto ou tocado. O que o impede de ser Os outros “ caracteres pelos quais se definia o corpo
alguma vez objeto , de estar alguma vez “ completamente cons- próprio n ão eram menos interessantes , e pelas mesmas ra -
titu ído ” 1 , é o fato de ele ser aquilo por que existem objetos.
Ele não é nem tangível nem visível na medida em que é aquilo
-
zões. Meu corpo , dizia se , é reconhecível pelo fato de me dar
“ sensações duplas ” : quando toco minha m ão direita com a
que v ê e aquilo que toca . Portanto , o corpo n ão é qualquer m ão esquerda , o objeto m ão direita tem esta singular pro-
um dos objetos exteriores, que apenas apresentaria esta par - priedade de sentir , ele també m . Vimos h á pouco que as duas
ticularidade de estar sempre aqui . Se ele é permanente , trata - m ãos nunca são ao mesmo tempo tocadas e tocantes uma em
se de uma permanê ncia absoluta que serve de fundo à per - relação à outra. Quando pressiono minhas m ãos uma contra
manê ncia relativa dos objetos que podem entrar em eclipse ,
a outra , n ão se trata ent ão de duas sensações que eu sentiria
dos verdadeiros objetos . A presen ç a e a ausência dos objetos
em conjunto , como se percebem dois objetos justapostos mas
exteriores são apenas variações no interior de um campo de
de uma organiza ção amb ígua em que as duas m ãos podem
presença primordial , de um dom ínio perceptivo sobre os quais
alternar - se na fun ção de “ tocante e de “ tocada ” . Ao falar
meu corpo tem potê ncia . Não apenas a permanência de meu
de “ sensações duplas ” queria- se dizer que , na passagem de
corpo n ão é um caso particular da perman ê ncia no mundo
uma fun ção à outra , posso reconhecer a m ão tocada como
dos objetos exteriores , como ainda a segunda só se compreen -
de pela primeira ; n ão apenas a perspectiva de meu corpo nao a mesma que dentro em breve ser á tocante
de ossos e de m ú sculos que minha m ã o direita
— é
neste pacote
para minha
e um caso particular daquela dos objetos , como també m a
m ão esquerda , adivinho em um instante o inv ó lucro ou a en -
apresentação perspectiva dos objetos só se compreende pela
carnação desta outra m ão direita , gil á e viva , que lan ço em
resist ê ncia de meu corpo a qualquer variação de perspectiva .
Se é preciso que os objetos me mostrem sempre somente uma
V;

direção aos objetos para explor á - los . O corpo surpreende - se


a si mesmo do exterior prestes a exercer uma fun çã o de co -
de suas faces , é porque eu mesmo estou em um certo lugar st
*%
de onde as vejo e que n ão posso ver . Se todavia creio em seus nhecimento , ele tenta tocar- se tocando , ele esboç a “ um tipo
lados escondidos como també m em um mundo que os envol - de reflex ão ” 2 , e bastaria isso para distingui-lo dos objetos ,
ve a todos e que coexiste com eles , é enquanto meu corpo , dos quais posso dizer que tocam ” meu corpo , mas apenas
sempre presente para mim e entretanto envolvido no meio quando ele est á inerte , e portanto sem que eles o surpreen -
deles por tantas relações objetivas , os mant é m em coexist ê n - dam em sua função exploradora .
cia com ele e faz bater em todos a pulsação de sua duração. Dizia-se ainda que o corpo é um objeto afetivo , enquan -
Assim , a perman ê ncia do corpo próprio , se a psicologia cl ás- to as coisas exteriores me são apenas representadas . Isso era
sica a tivesse analisado , podia conduzi- la ao corpo nao mais colocar uma terceira vez o problema do estatuto do corpo pró-
como objeto do mundo, mas como meio de nossa comunica - prio. Pois , se digo que meu pé me incomoda , não quero di-
ção com ele , ao mundo n ão mais como soma de objetos de - zer simplesmente que ele é uma causa de dor equivalente ao
terminados , mas como horizonte latente de nossa experiê n - prego que o fere , e apenas mais próxima; n ão quero dizer
138 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 139
I
que ele é o ú ltimo objeto do mundo exterior , após o qual co- relações entre minha decisão e meu corpo no movimento são
meç aria uma dor do sentido í ntimo , uma consciê ncia de dor rela ções mágicas .
por si mesma sem lugar que só se ligaria ao pé por uma de - Se a descrição do corpo pró prio na psicologia cl ássica já
terminaçã o causal e no sistema da experiê ncia . Quero dizer apresentava tudo o que é necessá rio para distingui-lo dos ob-
que a dor indica seu lugar , que ela é constitutiva de um “ es- * jetos , de onde prové m que os psicó logos n ão tenham feito es-
paço doloroso ” . “ Tenho dor no pé ” n ão significa: “ Penso sa distin ção ou que , em todo caso , n ão tenham extra ído dela
que meu pé é a causa dessa dor ” , mas : “ a dor vem de meu nenhuma consequ ê ncia filosófica ? E que , por um passo na-
p é ” ou ainda “ meu pé tem dor ” . E isso que mostra muito tural , eles se situavam no lugar de pensamento impessoal ao
bem o “ primitivo car á ter volumoso da dor ” do qual falavam qual a ciê ncia se referiu enquanto ela acreditou poder sepa -
os psicólogos. Reconhecia - se ent ão que meu corpo n ão se ofe - rar , nas observações , o que diz respeito à situação do obser-
rece à maneira dos objetos do sentido externo , e que talvez vador e as propriedades do objeto absoluto . Para o sujeito
estes só se perfilem sobre esse fundo afetivo que originaria- vivo , o corpo pró prio podia ser diferente de todos os objetos
mente lan ça a consciê ncia para fora de si mesma . exteriores ; para o pensamento não situado do psicólogo , a ex-
Enfim , quando os psicólogos quiseram reservar ao cor - periê ncia do sujeito vivo tornava- se por sua vez um objeto
po pró prio “ sensações cinest ésicas ” que nos dariam global - e , longe de reclamar uma nova definição do ser , ela se locali-
mente seus movimentos , ao passo que eles atribu íam os mo- zava no ser universal. Era o “ psiquismo ” , que opunham ao
vimentos dos objetos exteriores a uma percepção mediata e real , mas que tratavam como uma segunda realidade , como
à compara çã o das posições sucessivas , podia-se opor- lhes que um objeto de ciê ncia , que se tratava de submeter a leis.
o movimento , sendo uma relação , n ão poderia ser sentido e Postulava -se que nossa experiê ncia , já assaltada pela física e
que exige um percurso mental , mas essa objeção só condena- pela biologia , devia resolver -se inteiramente em saber objeti-
va a linguagem deles . O que eles exprimiam , muito mal a vo quando o sistema das ciê ncias estivesse acabado . Desde
bem da verdade , pela “ sensação cinest ésica ” era a originali - ent ão a experiê ncia do corpo se degradava em “ representa-
dade dos movimentos que executo com meu corpo : eles an - ção ” do corpo , n ão era um fen ô meno , era um fato ps íquico .
tecipam diretamente a situação final , minha intenção só es- Na aparência da vida, meu corpo visual comporta uma grande
boç a um percurso especial para ir ao encontro da meta pri - lacuna no plano da cabeça , mas a biologia estava ali para
meiramente dada em seu lugar , h á como que um germe de preencher essa lacuna , para explicá-la pela estrutura dos olhos ,
movimento que só secundariamente se desenvolve como per- para ensinar- me o que na verdade é o corpo , que , assim co-
curso objetivo. Movo os objetos exteriores com o aux ílio de mo os outros homens e como os cad á veres que disseco , tenho
meu pró prio corpo que os pega em um lugar para conduzi - t .
uma retina , um cé rebro , e que enfim o instrumento do cirur -
los a um outro. Mas ele , eu o movo diretamente , n ão o en - l gião infalivelmente poria a nu , nessa região indeterminada
contro em um ponto do espaç o objetivo para lev á-lo a um m de minha cabeça , a ré plica exata das ilustrações anat ô micas.
outro , n ão preciso procurá-lo, ele já est á comigo
— n ão pre-
ciso conduzi - lo em direção ao termo do movimento , ele o al -
Apreendo meu corpo como um objeto- sujeito , como capaz
de “ ver ” e de “ sofrer ” , mas essas representações confusas
can ç a desde o começo e é ele que se lan ç a a este termo. As faziam parte das curiosidades psicológicas , eram amostras de
t -i

1
140 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 141
r
um pensamento m á gico do qual a psicologia e a sociologia mo , e n ão podia permanecer nesse ponto de inconsciê ncia .
estudam as leis e que elas fazem regressar , a t ítulo de objeto Pois o f ísico n ão é o objeto do qual fala , nem o qu ímico; ao
de ciê ncia , ao sistema do mundo verdadeiro . A incompletu - contr á rio , o psicólogo era ele mesmo , por princípio , o fato do
de de meu corpo , sua apresentação marginal , sua ambigú i- qual tratava. Essa representação do corpo , essa experiê ncia
dade enquanto corpo tocante e corpo tocado n ão podiam en - m á gica que ele abordava com desapego era ele mesmo , ele
t ão ser traços de estrutura do próprio corpo; n ão afetavam sua a vivia ao mesmo tempo em que a pensava . Sem d ú vida , co-
idé ia , tornavam -se os “ caracteres distintivos ” dos conteúdos mo se mostrou muito bem 3 , n ão lhe bastava ser o psiquismo
de consciê ncia que compõem nossa representação do corpo : para conhecê - lo; este saber , como todos os outros , só se ad -
esses conteú dos são constantes , afetivos e bizarramente em - quire por nossas rela ções com o outro, n ão nos reportamos
parelhados em “ sensações duplas ” , mas , com exceção disso , ao ideal de uma psicologia de introspecção e , de si mesmo
a representação do corpo é uma representação como as ou - ao outro assim como de si a si mesmo , o psicólogo podia e
tras e , correlativamente , o corpo é um objeto como os ou - V
devia redescobrir uma relação pré -objetiva . Mas , enquanto
tros . Os psicólogos n ão percebiam que , ao tratar assim a ex- psicólogo falando do psiquismo , ele era tudo aquilo de que
periência do corpo , eles apenas adiavam , em consonância com falava . Essa história do psiquismo que ele desenvolvia na ati-
a ciê ncia , um problema inevit á vel. A incompletude de mi- tude objetiva , ele já possu ía seus resultados diante de si , ou
nha percepção era compreendida como uma incompletude de antes , em sua existê ncia , ele era seu resultado contraído e sua
fato , que resultava da organiza ção de meus aparelhos senso- recordação latente. A união entre a alma e o corpo n ão se
riais ; a presenç a de meu corpo , como uma presença de fato que realizara de uma vez por todas e em um mundo distante , a
resultava de sua ação perpé tua sobre meus receptores nervo- cada instante ela renascia abaixo do pensamento do psicólo-
sos ; enfim , a uni ão entre a alma e o corpo , suposta por essas go , e n ão como um acontecimento que se repete e a cada vez
duas explicações , era compreendida , segundo o pensamento surpreende o psiquismo , mas como uma necessidade que o
de Descartes , como uma união de fato cuja possibilidade de prin- '
psicólogo previa em seu ser ao mesmo tempo em que a cons-
cípio n ão precisava ser estabelecida porque o fato , ponto de tatava pelo conhecimento . A gé nese da percepção desde os
partida do conhecimento , eliminava-se de seus resultados aca- dados sens íveis ” at é o “ mundo ” devia renovar- se em cada
i í

bados. Ora , o psicólogo podia por um momento , à maneira ato de percepção , sem o que os dados sensíveis teriam perdi-
dos cientistas , olhar seu próprio corpo através dos olhos do do o sentido que deviam a essa evolução . O “ psiquismo ” n ão
outro , e ver o corpo do outro , por sua vez , como uma mecâ- era ent ão um objeto como os outros: tudo o que se iria dizer
nica sem interior. A contribuição das experiê ncias alheias vi- dele , ele já o fizera antes que se o dissesse ; o ser do psicólogo
nha apagar a estrutura da sua , e reciprocamente , tendo per- %: sabia sobre si mesmo mais do que ele , nada do que lhe advie -
dido contato consigo mesmo , ele se tornava cego ao compor- ra ou lhe adviria na opinião da ciê ncia lhe era absolutamente
tamento do outro. Instalava-se assim em um pensamento uni- estranho . Aplicada ao psiquismo , a noção de fato sofria en -
versal que recalcava tanto sua experiência do outro como sua t ão uma transformação. O psiquismo de fato , com suas “ par-
experiê ncia de si mesmo . Mas enquanto psicólogo ele estava ticularidades ” , não era mais um acontecimento no tempo ob-
envolvido em uma tarefa que o chamava de volta a si mes- jetivo e no mundo exterior , mas um acontecimento que tocá-
142 FENOMENOLOGIA DA PERCE PÇ AO

vamos do interior , do qual é ramos a realização ou o surgi-


mento perpétuos , e que continuamente reunia em si o seu pas-
sado , seu corpo e seu mundo . Antes de ser um fato objetivo ,
a uni ão entre a alma e o corpo devia ser ent ão uma possibili-
dade da pró pria consciê ncia , e colocava- se a quest ão de sa- CAP ÍTULO III
ber o que é o sujeito que percebe se ele deve poder sentir um
corpo como seu . Ali n ão havia mais fato ao qual nos subme-
temos , mas um fato assumido . Ser uma consciê ncia , ou , an - A ESPACIALIDADE DO CORPO
tes , ser uma experiência , é comunicar interiormente com o mun - PRÓPRIO E A MOTRICIDADE
do , com o corpo e com os outros , ser com eles em lugar de
estar ao lado deles . Ocupar-se de psicologia é necessariamente
encontrar , abaixo do pensamento objetivo que se move entre
as coisas inteiramente prontas, uma primeira abertura às coi-
sas sem a qual n ão haveria conhecimento objetivo . O psicó- Descrevamos em primeiro lugar a espacialidade do cor-
logo n ão podia deixar de redescobrir-se enquanto experiê n- po próprio. Se meu braço est á posto sobre a mesa , eu nunca
cia , quer dizer , enquanto presen ça sem dist â ncia ao passa- pensaria em dizer que ele est á ao lado do cinzeiro do mesmo
do , ao mundo , ao corpo e ao outro, no momento mesmo em modo que o cinzeiro est á ao lado do telefone . O contorno de
que ele queria perceber- se como objeto entre os objetos . Vol- meu corpo é uma fronteira que as relações de espaço ordin á-
temos ent ão aos “ caracteres ” do corpo pró prio e retomemos rias n ão transpõem . Isso ocorre porque suas partes se rela-
seu estudo no ponto em que o hav íamos abandonado . Ao fa- cionam umas às outras de uma maneira original: elas n ão es-
zer isso , descreveremos os progressos da psicologia moderna t ão desdobradas umas ao lado das outras , mas envolvidas
e efetuaremos com ela o retorno à experiê ncia. umas nas outras. Por exemplo , minha m ão n ão é uma cole -
ção de pontos. Nos casos de aloquiria 1 , em que o paciente
sente em sua m ão direita os est ímulos aplicados em sua m ão
esquerda , é impossível supor que cada uma das estimulações
mude de valor espacial por sua pró pria conta2 e que os dife-
rentes pontos da m ão esquerda sejam transportados para a
direita , já que eles dependem de um ó rgão total , de uma mão
sem partes que foi deslocada de um só golpe . Eles formam
portanto um sistema , e o espaço de minha mão n ão é um mo-
saico de valores espaciais . Da mesma maneira , meu corpo
inteiro n ão é para mim uma reunião de ó rgãos justapostos
no espaço. Eu o tenho em uma posse indivisa e sei a posição
de cada um de meus membros por um esquema corporal em que
144 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 145

eles est ão todos envolvidos . Mas a noção de esquema corpo- ca , que a espacialidade do corpo desç a do todo às partes , que
ral é ambígua , como todas as que surgem nas reviravoltas a m ão esquerda e sua posição esteja implicada em um desíg -
da ciê ncia . Essas noções só poderiam ser inteiramente desen - nio global do corpo e tenha ali a sua origem , de forma que
volvidas por meio de uma reforma dos mé todos . Elas são pri- ela possa de um só golpe n ão apenas se sobrepor a ela ou bai-
meiramente empregadas ent ão em um sentido que n ão é seu xar sobre ela , mas ainda tornar- se a m ão direita . Quando se
sentido pleno , e é seu desenvolvimento imanente que demole quer4 esclarecer o fen ô meno do membro fantasma ligando-
os m é todos antigos. Primeiramente , entendia-se por “ esque - o ao esquema corporal do paciente , só se acrescenta algo à s
ma corporal ” um resumo de nossa experiê ncia corporal capaz explicações cl ássicas pelos traços cerebrais e as sensações re -
de oferecer um coment á rio e uma significação à interocepti- nascentes se o esquema corporal , em lugar de ser o resíduo
vidade e à proprioceptividade do momento. Ele devia forne - da cinestesia costumeira , torna - se sua lei de constituição. Se
cer- me a mudan ça de posi ção das partes de meu corpo para se sentiu a necessidade de introduzir essa palavra nova , foi
cada movimento de uma delas , a posição de cada est ímulo para exprimir que a unidade espacial e temporal , a unidade
local no conjunto do corpo , o balan ço dos movimentos reali- intersensorial ou a unidade sensorimotora do corpo s ão , por
zados em cada momento de um gesto complexo , e enfim uma assim dizer , de direito , que n ão se limitam aos conteú dos efe -
tradu ção perpé tua , em linguagem visual , das impressões ci- tiva e fortuitamente associados no curso de nossa experiê n -
nestésicas e articulares do momento . Falando do esquema cor- cia , que de certa maneira elas os precedem e justamente tor -
poral , primeiramente só se acreditava introduzir um nome nam poss ível sua associação . Encaminhamo- nos ent ão para
cômodo para designar um grande n ú mero de associações de uma segunda definição do esquema corporal : ele n ão será mais
imagens , e se desejava exprimir apenas que essas associações o simples resultado das associações estabelecidas no decorrer
eram estabelecidas fortemente , e estavam sempre prontas para da experiê ncia , mas uma tomada de consciê ncia global de mi -
operar . O esquema corporal devia montar- se pouco a pouco nha postura no mundo intersensorial , uma “ forma 5 > , no sen -
no decorrer da inf â ncia e à medida que os conte ú dos t á teis , tido da Gestaltpsychologie5 . Mas essa segunda definição , por
cinestésicos e articulares se associassem entre si ou com con - sua vez , já est á ultrapassada pelas an álises dos psicólogos. N ão
te ú dos visuais e os evocassem mais facilmente 3 . Sua repre - basta dizer que meu corpo é uma forma , quer dizer , um fe-
sentação fisiológica só podia ser ent ão um centro de imagens n ômeno no qual o todo é anterior à s partes . Como tal feno-
no sentido clássico . Entretanto , no uso que dele fazem os psi- meno é possível ? E que uma forma , comparada ao mosaico
cólogos , vê-se muito bem que o esquema corporal extravasa do corpo físico-qu ímico ou àquele da “ cenestesia ” , é um no-
essa definição associacionista . Por exemplo , para que o es- ' vo tipo de exist ê ncia . Se , no anosogn ósico , o membro parali-
quema corporal nos faça compreender melhor a aloquiria, não sado não conta mais no esquema corporal do paciente, é por-
basta que cada sensação da m ão esquerda venha a se colocar que o esquema corporal n ão é nem o simples decalque nem
e a se situar entre imagens gen é ricas de todas as partes do mesmo a consciê ncia global das partes existentes do corpo ,
corpo , que se associariam para formar em torno dela como e porque ele as integra a si ativamente em razão de seu valor
que um desenho do corpo em sobreposição; é preciso que essas para os projetos do organismo . Freq ú entemente os psicólo-
associações sejam reguladas a cada momento por uma lei ú ni- / gos dizem que o esquema corporal é dinâ mico6. Reconduzido
146 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 147

a um sentido preciso , este termo significa que meu corpo me est á polarizado por suas tarefas , enquanto existe em direção a
aparece como postura em vista de uma certa tarefa atual ou elas , enquanto se encolhe sobre si para atingir sua meta , e
possível . E com efeito sua espacialidade n ão é , como a dos o ‘' esquema corporal ” é finalmente uma maneira de expri-
objetos exteriores ou a das “ sensa ções espaciais ” , uma espa- mir que meu corpo est á no mundo8. No que concerne à es-
cialidade de posição , mas uma espacialidade de situação . Se fico em pacialidade , que é a ú nica a nos interessar no momento , o
pé diante de minha escrivaninha e nela me apoio com as duas corpo pró prio é o terceiro termo , sempre subentendido , da
m ãos , apenas minhas m ãos estão acentuadas e todo o meu estrutura figura e fundo , e toda figura se perfila sobre o du -
corpo vagueia atrás delas como uma cauda de cometa. Não plo horizonte do espaço exterior e do espaço corporal . Por-
é que eu ignore a localização de meus ombros ou de meus tanto , deve- se recusar como abstrata qualquer an álise do es -
rins , mas ela só est á envolvida na de minhas mãos , e toda paço corporal que só leve em conta figuras e pontos , já que
a minha postura se lê por assim dizer no apoio que elas tê m as figuras e os pontos n ão podem nem ser concebidos nem
na mesa . Se estou de pé e seguro meu cachimbo em minha ser sem horizontes.
mão fechada , a posição de minha mão n ão é discursivamen- -
Responder se-á talvez que a pró pria estrutura figura e
te determinada pelo â ngulo que forma com meu antebraço , fundo ou a pró pria estrutura ponto- horizonte pressupõem a
meu antebraço com meu braço, meu braço com meu tronco , noçã o do espaço objetivo , que , para experimentar um gesto
meu tronco enfim com o chão. Sei onde est á meu cachimbo de destreza como figura sobre o fundo pleno do corpo , é pre-
por um saber absoluto , e através disso sei onde est á minha m ão ciso ligar a m ão e o resto do corpo por esta relação de espa -
e onde est á meu corpo , assim como o primitivo no deserto cialidade objetiva , e que assim a estrutura figura e fundo volta
est á a cada instante imediatamente orientado , sem precisar a ser um dos conte ú dos contingentes da forma universal de
recordar e somar as dist âncias percorridas e os ângulos de des- espaço. Mas que sentido poderia ter a palavra sobre ” para
locamento desde o ponto de partida . A palavra “ aqui ” , apli- um sujeito que n ão estivesse situado por seu corpo ante o mun -
cada ao meu corpo , n ão designa uma posição determinada do? Ela implica a distin ção entre um alto e um baixo , quer
pela relação a outras posições ou pela relação a coordenadas dizer , um “ espaço orientado ” 9 . Quando digo que um obje -
exteriores , mas designa a instalação das primeiras coordena- to est á sobre uma mesa , sempre me situo em pensamento na
das , a ancoragem do corpo ativo em um objeto , a situação mesa ou no objeto, e aplico a eles uma categoria que em prin -
do corpo em face de suas tarefas. O espaço corporal pode cípio convé m à relação entre meu corpo e objetos exteriores .
distinguir-se do espaço exterior e envolver suas partes em lu - Despojada desse aporte antropoló gico , a palavra sobre n ão mais
gar de desdobrá-las , porque ele é a obscuridade da sala ne - se distingue da palavra “ sob ” ou da expressão “ ao lado
cessá ria à clareza do espet áculo , o fundo de sono ou a reser- de . .. ” . Mesmo se a forma universal de espaço é aquilo sem
va de potê ncia vaga sobre os quais se destacam o gesto e sua o que n ão haveria para n ós espaço corporal , ela n ão é aquilo
meta7 , a zona de n ão- ser diante da qual podem aparecer se - pelo que ele existe . Mesmo se a forma n ão é o ambiente no qual ,
res precisos , figuras e pontos . Em última an álise , se meu cor- mas o meio pelo qual se poe o conte ú do , ela n ão é o meio sufi-
k
po pode ser uma “ forma ” e se pode haver diante dele figu - ciente dessa posição no que concerne ao espaço corporal , e
ras privilegiadas sobre fundos indiferentes , é enquanto ele nessa medida em relação a ela o conte ú do corporal permane -
148 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O I 0 CORPO 149

ce algo de opaco , de acidental e de ininteligível . Por esse ca - .4 a zona de corporeidade de onde ele será visto , e em torno de-
minho , a ú nica solu ção seria admitir que a espacialidade do t le os horizontes indeterminados que são a contrapartida des-
corpo n ão tem nenhum sentido pró prio e distinto da espacia - sa visão . A multiplicidade dos pontos ou dos “ aqui ” por prin -
lidade objetiva , o que faria desaparecer o conte ú do enquan - cípio só pode constituir- se por um encadeamento de experiên-
to fen ô meno e , atravé s disso , o problema de sua rela çã o com cia em que a cada vez , um só dentre eles é dado como obje
-
a forma . Mas podemos fingir n ão encontrar nenhum sentido to , e que se faz ela mesma no cora çã o deste espaç o . E , final -
distinto para as expressões “ sobre ” , “ sob ” , ao lado de ... ” , mente , longe de meu corpo ser para mim apenas um frag -
para as dimensões do espaço orientado ? Mesmo se a an álise mento de espaço , para mim n ã o haveria espa ço se eu n ã o ti -
reencontra , em todas essas relações , a relação universal de vesse corpo .
exterioridade , a evidê ncia do alto e do baixo , da direita e da Se o espaço corporal e o espaço exterior formam um sis-
esquerda para aquele que habita o espaço impede - nos de tra- tema prático , o primeiro sendo o fundo sobre o qual pode
tar todas essas distin ções como n ão-senso , e convida- nos a pro- destacar-se ou o vazio diante do qual o objeto pode aparecer
curar sob o sentido expl ícito das definições o sentido latente como meta de nossa ação , é evidentemente na ação que a es-
das experiê ncias . As relações entre os dois espaços seriam ago- pacialidade do corpo se realiza , e a análise do movimento pró-
ra as seguintes: a partir do momento em que quero temati - -
prio deve levar nos a compreend ê-la melhor. Considerando
zar o espaço corporal ou desenvolver seu sentido , só encon - o corpo em movimento , vê- se melhor como ele habita o es-
tro nele o espaço inteligível . Mas , ao mesmo tempo , esse es - paço (e també m o tempo) , porque o movimento n ão se con -
paço intelig ível n ão est á liberto do espaço orientado , ele é jus- tenta em submeter - se ao espaço e ao tempo , ele os assume
tamente a sua explicitação e , destacado desta raiz , ele n ão ativamente , retoma -os em sua significação original , que se
tem absolutamente sentido algum , de modo que o espaço ho- esvai na banalidade das situações adquiridas. Gostaríamos de
mogé neo só pode exprimir o sentido do espaço orientado por- analisar de perto um exemplo de motricidade m ó rbida que
que o recebeu dele . Se o conte ú do pode verdadeiramente ser evidencia as relações fundamentais entre o corpo e o espaço .
subsumido sob a forma e aparecer como conte ú do desta for - Um doente 10 que a psiquiatria tradicional classificaria
ma , é porque a forma só é acessível através dele . O espaço entre as cegueiras psíquicas é incapaz , fechados os olhos , de
corporal só pode tornar-se verdadeiramente um fragmento do executar movimentos “ abstratos quer dizer , movimentos
espaço objetivo se , em sua singularidade de espaço corporal , que n ão estão orientados para uma situação efetiva , tais co-
ele cont é m o fermento dialé tico que o transformará em espa- mo mover os braços e as pernas sob comando , esticar ou íle -
ço universal . Foi isso que tentamos exprimir dizendo que a xionar um dedo . O paciente não pode mais descrever a posi -
estrutura ponto- horizonte é o fundamento do espaço. O ho- f ção de seu corpo ou mesmo de sua cabeç a , nem os movimen -
tos passivos de seus membros. Enfim , quando se toca sua ca -
rizonte ou o fundo n ão se estenderiam para alé m da figura \
ou para as cercanias se n ão pertencessem ao mesmo gê nero \ beça , o braço ou a perna, ele n ão pode dizer que ponto de
de ser que ela , e se n ão pudessem ser convertidos em pontos seu corpo foi tocado ; n ão distingue dois pontos de contato em
por um movimento do olhar. Mas a estrutura ponto- horizonte sua pele , mesmo à dist â ncia de 80 mm ; n ão reconhece nem
só pode ensinar- me o que é um ponto dispondo diante dele a grandeza nem a forma dos objetos que colocam contra o
150 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 151
O CORPO

seu corpo . Só consegue executar os movimentos abstratos se


trar . Mas como isso é possível ? Se sei onde est á meu nariz
lhe permitem olhar o membro encarregado do movimento,
quando se trata de pegá-lo como nao saberia onde ele est á
ou executar movimentos preparatórios com todo o seu cor-
quando se trata de mostrá - lo ? Sem d ú vida , é porque o saber
po . A localização dos est ímulos e o reconhecimento dos obje-
de um lugar se entende em vários sentidos . A psicologia clás-
tos t áteis també m se tornam poss íveis apenas com o aux ílio
sica n ão dispõe de nenhum conceito para exprimir essas va-
de movimentos preparatórios. O doente executa , mesmo com
riedades da consciê ncia de lugar porque para ela a consciê n -
os olhos fechados , com uma rapidez e urna seguran ça extraor-
cia de lugar é sempre consciê ncia posicionai , representação ,
din árias , os movimentos necessários à vida , contanto que eles
Vor stellung , porque a este t ítulo ela nos d á o lugar como de-
-
lhe sejam habituais: ele pega seu len ço em seu bolso e assoa
terminação do mundo objetivo, e porque uma tal represen-
o nariz , tira um fósforo de uma caixa e acende um candeei -
taçã o é ou n ão é , mas , se ela é , ela nos entrega seu objeto
ro. Seu ofício é fabricar carteiras e o rendimento de seu tra-
sem nenhuma ambigü idade e como um termo identificável
balho atinge os três quartos do rendimento de um oper á rio
através de todas as suas aparições. Ao contr á rio, aqui preci -
normal . At é mesmo11 sem nenhum movimento preparat ó rio
samos forjar os conceitos necessá rios para exprimir que o es-
ele pode executar , sob comando , esses movimentos “ concre-
5 5 paço me pode ser dado em uma inten ção de apreensão sem
tos . No mesmo doente e també m nos cerebelosos , constata-
me ser dado em uma inten ção de conhecimento . O doente
se 12 uma dissociação entre o ato de mostrar e as reações de
tem consciê ncia do espaço corporal como local de sua ação
pegar ou de apreender: o mesmo paciente que é incapaz de
habitual , mas n ão como ambiente objetivo , seu corpo est á à
mostrar com o dedo , sob comando , uma parte de seu corpo
sua disposição como meio de inserção em uma circunvizinhan -
leva vivamente a m ão ao ponto onde um mosquito o pica .
ç a familiar , mas n ão como meio de expressão de um pensa-
H á portanto um privilé gio dos movimentos concretos e dos
mento espacial gratuito e livre . Quando lhe ordenam que exe -
movimentos de apreensão do qual devemos procurar a razão. cute um movimento concreto , primeiramente ele repete a or -
Olhemos mais de perto. Um doente a quem se pede que dem com um acento interrogativo , depois seu corpo se insta-
mostre com o dedo uma parte de seu corpo , por exemplo o
la na posição de conjunto que é exigida pela tarefa; enfim ele
nariz , só o consegue se lhe permitem pegá- lo . Se ordenam
executa o movimento . Observa- se que todo o corpo colabora
ao doente que interrompa o movimento antes que atinja sua
para isso e que o doente nunca reduz o movimento, como
meta , ou se ele só pode tocar seu nariz com o aux ílio de uma
o faria o sujeito normal , aos traços estritamente indispensá-
régua de madeira, o movimento torna-se impossível13. E pre -
veis. A saudação militar é acompanhada de outros sinais ex-
ciso admitir ent ão que ' pegar ' ' ou i < tocar ” , mesmo para o
teriores de respeito . Com o gesto da mão direita que finge
*

s-
corpo , é diferente de mostrar . Desde seu in ício , o movi-
i í I
pentear os cabelos , vem o da m ã o esquerda que segura o es-
mento de pegar est á magicamente em seu termo , ele só co-
pelho; com o gesto da mão direita que crava um prego , vem
meça antecipando seu fim , já que a interdição de pegar basta
o da m ão esquerda que o segura . Isso ocorre porque a ordem
para inibi-lo . E é preciso admitir que um ponto de meu cor- ?
í é levada a sé rio e porque o doente só consegue realizar os mo-
po pode estar presente para mim como ponto a pegar sem
vimentos concretos sob comando à condição de situar se em-
me ser dado nessa apreensão antecipada como ponto a mos-
espírito na situação efetiva a que eles correspondem . O su -
í
I

152 I 153
FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O I 0 CORPO
ï
jeito normal , quando executa sob comando a saudação mili- mo suporte desses atos que conheço bem , meu corpo como
tar , só vê nisso uma situação de experiê ncia ; ele reduz ent ão potê ncia de ação determinada da qual conheço antecipada -
o movimento aos seus elementos mais significativos e nao se mente o campo ou o alcance , h á meu meio circundante co -
coloca ali inteiro 14 . Ele representa com seu próprio corpo , mo conjunto dos pontos de aplicação poss íveis dessa potê n -
diverte-se em encenar o soldado , ele se “ irrealiza ” no papel
do soldado 15 como o ator introduz seu corpo real no ‘‘gran -

:ia e há, por outro lado , meu braço como m áquina de m ús-
culos e de ossos , como aparelho para flexões e extensões , co-
de fantasma ” 10 do personagem a representar. O homem nor - mo o bjeto articulado , o mundo como puro espetáculo ao qual
mal e o ator n ão tomam por reais as situações imagin á rias , eu n ão me junto , mas que contemplo e que aponto . No que
mas , inversamente , destacam seu corpo real de sua situação concerne ao espaço corporal , vê- se que há um saber do lugar
vital para fazê - lo respirar , falar e , se necessá rio , chorar no que se reduz a um tipo de coexistê ncia com ele e que n ão é
A

imagin á rio . E isso que nosso doente n ão pode mais fazer. Na um nada , embora uma descrição ou mesmo a designação mu -
vida , diz ele , “ sinto os movimentos como um resultado da da de um gesto n ão possa traduzi -lo . O doente picado por
situação , do encadeamento dos pró prios acontecimentos; eu um mosquito n ão precisa procurar o ponto picado e o encon -
e meus movimentos só somos , por assim dizer , um elo no de- tra à primeira tentativa porque n ão se trata para ele de situ á -
senrolar do conjunto , e mal tenho consciê ncia da iniciativa lo em relação a eixos de coordenadas no espaço objetivo , mas
volunt á ria ( . .. ) Tudo caminha por si só ” . Da mesma manei - de atingir com sua m ão fenomenal um certo lugar doloroso
ra , para executar um movimento sob comando , ele se coloca de seu corpo fenomenal , e porque entre a m ão enquanto po-
“ na situação afetiva de conjunto , e é dela que o movimento tê ncia de coçar e o ponto picado enquanto ponto a ser coça-
flui , como na vida ” 17 . Se interrompem sua manobra e o tra- do est á dada uma relação vivida no sistema natural do corpo
zem de volta à situação de experiência , toda a sua destreza próprio. A operação toda tem lugar na ordem do fenomenal ,
desaparece. Novamente a iniciação cin é tica torna - se impos- n ã o passa pelo mundo objetivo , e apenas o espectador , que
sível , o doente deve primeiramente encontrar ” seu braço , atribui ao sujeito do movimento a sua representação objetiva
“ encontrar o gesto pedido por movimentos preparat ó rios , do corpo vivo , pode acreditar que a picada é percebida , que
o pró prio gesto perde o cará ter melódico que apresenta na a mao se move no espaço objetivo , e em conseq üê ncia pode
vida usual e torna- se visivelmente uma soma de movimentos espantar -se de que o mesmo sujeito fracasse nas experiê ncias
parciais laboriosamente postos lado a lado. Portanto , por meio de designação . Da mesma maneira , o sujeito posto diante de
de meu corpo enquanto potência de um certo nú mero de ações sua tesoura, sua agulha e suas tarefas familiares n ão precisa
familiares , posso instalar- me em meu meio circundante en - procurar suas m ãos ou seus dedos porque eles n ão são obje -
quanto conjunto de manipulanda , sem visar meu corpo nem i tos a se encontrar no espaço objetivo , ossos , m ú sculos , ner -
meu meio circundante como objetos no sentido kantiano , quer vos , mas pot ê ncias j á mobilizadas pela percepção da tesoura
dizer, como sistemas de qualidades ligadas por uma lei inte- ou da agulha , o termo central dos ‘Tios intencionais ” que
ligível , como entidades transparentes , livres de qualquer ade- o ligam aos objetos dados . Nã o é nunca nosso corpo objetivo
rência local ou temporal e prontas para a denominação ou que movemos mas nosso corpo fenomenal , e isso sem misté-
pelo menos , para um gesto de designação . H á meu braço co- rio , porque já era nosso corpo , enquanto potê ncia de tais e
I
"

154 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 155

tais regiões do mundo , que se levantava em direção aos obje - tronco em relação à vertical . Em caso de movimento passi-
tos a pegar e que os percebia18. Da mesma forma , o doente vo , o paciente sente que existe movimento sem poder dizer
n ão precisa procurar , para os movimentos concretos , uma ce- qual movimento e em qual direção . Aqui novamente ele re -
1
na e um espaço nos quais desdobr á -los , esse espaço també m corre a movimentos ativos . O doente conclui sua posição dei-
est á dado , ele é o mundo atual , é o pedaço de couro < t a re - tada da pressão do colch ão em suas costas , sua posição em
cortar ’’ , é o forro 4 4 a costurar’’ . A bancada , a tesoura , os pe - pé da pressão do chão sob seus pés20 . Se colocam em sua
daços de couro apresentam -se ao sujeito como polos de ação , m ão as duas pontas de um compasso , ele só consegue distin -
eles definem por seus valores combinados uma certa situa - gui - las se puder balan çar a m ão e colocar em contato da pele
ção , e uma situação aberta , que exige um certo modo de re- ora uma ponta ora outra . Se desenham letras ou n ú meros em
solu ção , um certo trabalho . O corpo é apenas um elemento t
sua m ão , ele só consegue identificá -los se mover ele mesmo
no sistema do sujeito e de seu mundo , e a tarefa obté m dele a sua m ão , e n ão é o movimento da ponta em sua m ão que
os movimentos necessá rios por um tipo de atração à dist â n - ele percebe , mas , inversamente , o movimento de sua m ão em
cia , assim como as forças fenomenais que operam em meu relação à ponta; como o provam desenhando em sua m ão es-
campo visual obt ê m de mim , sem cálculo , as reações moto- querda letras normais , que nunca são reconhecidas , depois
ras que estabelecerão o melhor equil íbrio entre elas , ou as- a imagem invertida das mesmas letras , que é logo compreen -
sim como os usos de nosso círculo , a constelação de nossos dida . O simples contato com um ret â ngulo ou uma oval de
ouvintes imediatamente obt ê m de nós as falas , as atitudes , papel n ão d á lugar a nenhum reconhecimento , em compen -
o tom que lhes conv ê m , n ão porque procuremos agradar ou sação o paciente reconhece as figuras se lhe permitem movi -
disfarçar nossos pensamentos , mas porque literalmente so- mentos de exploração dos quais ele se serve para “ soletrá-
mos aquilo que os outros pensam de nós e aquilo que nosso las ” , para determinar seus “ caracteres ” e para daí deduzir o
mundo é . No movimento concreto , o doente n ão tem nem objeto21. Como coordenar essa sé rie de fatos e como apreen -
consciê ncia tética do est ímulo , nem consciê ncia té tica da rea - der através deles a função que existe no normal e que falta
ção: simplesmente ele é seu corpo e seu corpo é a potê ncia no doente ? N ão pode se tratar simplesmente de transferir para
de um certo mundo . o normal aquilo que falta ao doente e que ele procura recupe-
O que ocorre , ao contr á rio , nas experiê ncias em que o ; rar . A doen ç a , assim como a inf â ncia e o estado de “ primiti-
doente fracassa ? Se tocam uma parte de seu corpo e lhe pe - VO
> y
é uma forma de exist ência completa , e os procedimen -
dem que localize o ponto de contato, ele começa por colocar tos que ela emprega para substituir as funções normais des-
em movimento todo o seu corpo e delineia assim a localiza- tru ídas s ão també m fen ô menos patológicos. N ão se pode de-
ção , depois ele a precisa movendo o membro que interessa duzir o normal do patoló gico , as carê ncias das suplê ncias , por
e a completa por estremecimentos da pele na proximidade do /

uma simples mudan ç a de sinal . E preciso compreender as su -


ponto tocado19 . Se colocam o braço do paciente na horizon - plê ncias como suplê ncias , como alusões a uma fun ção fun-
tal , ele só pode descrever sua posição após uma sé rie de mo- damental que elas tentam substituir e da qual n ão nos d ão
vimentos pendulares que lhe d ão a situação do braço em re- a imagem direta. O verdadeiro m é todo indutivo n ão é um
lação ao tronco , a do antebraço em relação ao braço , a do <
í
m é todo das diferen ç as > 5 ele consiste em 1er corretamente
156 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 157

os fen ô menos , em apreender seu sentido , quer dizer , em trat á- zer com que a parte tocada de seu corpo passe ao estado de
los como modalidades e variações do ser total do sujeito. Cons- figura , para saber onde o tocam . Mas no normal cada esti-
tatamos que o doente , interrogado sobre a posição de seus mulação corporal desperta , em lugar de um movimento atual ,
membros ou sobre a de um est ímulo t átil , procura , por mo- um tipo de “ movimento virtual ” ; a parte interrogada do cor-
vimentos preparat ó rios , fazer de seu corpo um objeto de per- po sai do anonimato , anuncia - se por uma tensão particular
cepção atual ; interrogado sobre a forma de um objeto em con - e como uma certa pot ê ncia de ação no quadro do dispositivo
tato com seu corpo , ele pró prio procura tra çá - la seguindo o anat ômico. No sujeito normal , o corpo n ão é mobilizá vel ape -
contorno do objeto . Nada seria mais enganador do que su - nas pelas situações reais que o atraem a si , ele pode desviar-
por no normal as mesmas operações , apenas abreviadas pelo se do mundo , aplicar sua atividade nos est ímulos que se ins-
hábito. O doente só procura essas percepções explícitas para crevem em suas superfícies sensoriais , prestar -se a experiê n -
suprir uma certa presen ça do corpo e do objeto , que est á da - . E por estar en-
cias e , mais geralmente , situar - se no virtual|
da no normal e que precisamos reconstituir . Sem duvida , no cerrado no atual que o tocar patoló gico precisa de movimen -
pró prio normal a percepção do corpo e dos objetos em conta- tos pró prios para localizar os est ímulos , c c ainda pela mes-
to com o corpo é confusa na imobilidade 22 . Contudo , em ma razão que o doente substitui o reconhecimento e a per-
qualquer caso , o normal distingue sem movimento um est í- t cepção t áteis pela decifração laboriosa dos est ímulos e pela
mulo aplicado à sua cabeç a e um est ímulo aplicado ao seu dedu çã o dos objetos. Para que uma chave , por exemplo , apa-
corpo . Iremos supor 23 que a excitaçã o exteroceptiva ou pro- reç a como chave em minha experiê ncia t átil , é necessá rio um
prioceptiva despertou nele “ resíduos cinest ésicos ” que tomam tipo de amplitude do tocar , um campo t á til em que as im -
o lugar de movimentos efetivos ? Mas como os dados t á teis pressões locais possam integrar- se em uma configuração , as-
despertariam “ res íduos cinest ésicos ” determinados se n ão sim como as notas são apenas os pontos de passagem da me-
trouxessem algum cará ter que os tornasse capazes disso , se lodia ; e a mesma viscosidade dos dados t áteis que sujeita o
eles mesmos n ão tivessem uma significação espacial precisa corpo a situações efetivas reduz o objeto a uma soma de “ ca-
ou confusa ?24 Pelo menos diremos ent ão que o sujeito nor - racteres ” sucessivos , a percepção a uma caracterização abs-
mal tem imediatamente “ pontos de apoio ” 25 em seu corpo . trata , o reconhecimento a uma s íntese racional , a uma con -
Ele n ão dispõe de seu corpo apenas enquanto implicado em jectura prová vel , e retira do objeto sua presenç a carnal e sua
um meio concreto , n ão está em situação apenas a respeito das facticidadc . Enquanto no normal cada acontecimento motor
tarefas dadas de um of ício , n ã o est á aberto apenas para as ou t á til faz alç ar à consciê ncia uma abund â ncia de inten ções
situações reais , mas tem , al é m disso , seu corpo enquanto cor- que vão , do corpo enquanto centro de ação virtual , seja em
relativo de puros est ímulos desprovidos de significação prá ti- direção ao pró prio corpo , seja em direção ao objeto , no doen -
ca , est á aberto às situações verbais e fict ícias que pode esco- te , ao contrá rio , a impressão t á til permanece opaca e fecha -
lher ou que um experimentador pode propor-lhe . Seu corpo da sobre si mesma . Ela pode atrair para si a m ão em um mo-
n ão lhe é dado pelo tocar como um desenho geom é trico so- vimento de pegar algo , mas n ão se dispõe diante desta como
bre o qual cada est í mulo viria ocupar uma posição expl ícita , algo que se possa mostrar . O normal conta com o possível , que
e a doen ça de Schneider consiste justamente em precisar fa- assim adquire , sem abandonar seu lugar de poss ível , um ti-
158 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 159

po de atualidade ; no doente , ao contrá rio , o campo do atual mento , ele agita seu corpo até que o movimento apareça . A
limita -se àquilo que é encontrado em um contato efetivo ou ordem que lhe foi dada n ão é desprovida de sentido para ele ,
ligado a esses dados por uma dedu ção expl ícita . pois ele sabe reconhecer o que h á de imperfeito em seus pri- ;
A an álise do “ movimento abstrato ” entre os doentes meiros esboços e , se o acaso da gesticulação traz o movimen-
mostra melhor ainda esta posse do espaço , esta exist ê ncia es- to pedido , ele també m sabe reconhecê - lo e usar prontamente
pacial que é a condição primordial de toda percepção viva . essa oportunidade . Mas , se a ordem tem para ele uma signi-
Se se prescreve ao doente que execute um movimento abs- ficação intelectual , ela n ão tem significação motora , n ão é expres-
trato com os olhos fechados , ele precisa de uma sé rie de ope - siva para ele enquanto sujeito motor ; ele pode encontrar no
rações preparatórias para “ encontrar ” o pró prio membro exe- traçado de um movimento efetuado a ilustração da ordem da -
cutor , a direção ou a velocidade do movimento e , enfim , o da , mas nunca pode desdobrar o pensamento de um movi -
plano em que este se desenrolará. Se , por exemplo , ordenam- mento em movimento efetivo . O que lhe falta n ão é nem a
lhe , sem outro detalhe , que mova o braço , primeiramente ele motricidade nem o pensamento , e somos convidados a reco-
fica confuso . Depois , mexe todo o corpo e em seguida os mo- nhecer , entre o movimento enquanto processo em terceira pes-
vimentos se restringem ao braço, que o paciente termina por soa e o pensamento enquanto representação do movimento,
encontrar ” . Se se trata de “ levantar o braço ” , o doente deve uma antecipação ou uma apreensão do resultado assegurada
ii

també m “ encontrar ” sua cabeça (que é para ele o emblema pelo pró prio corpo enquanto potê ncia motora , um “ projeto
>>
do “ alto ” ) por uma sé rie de oscila ções pendulares que conti- motor’ ’ ( Bewegungsentwurf ) , uma “ intencionalidade motora
nuarão enquanto durar o movimento e que fixam a sua me- sem os quais a ordem permanece letra morta . Ora o doente
ta. Se se pede ao paciente para que trace no ar um quadrado pensa a fó rmula ideal do movimento , ora ele lança seu corpo
ou um c írculo , primeiramente ele “ encontra ” seu braço , de- em tentativas cegas; no normal , ao contrá rio , todo movimento
pois leva a m ão para a frente , assim como o faz um sujeito é indissoluvelmente movimento e consciê ncia de movimen -
normal para localizar uma parede no escuro , enfim ele esbo - to , o que se pode també m exprimir dizendo que no normal
ç a v á rios movimentos segundo a linha reta e segundo dife - todo movimento tem um fundo , e que o movimento e seu fundo
rentes curvas , e , se um desses movimentos é por acaso circu - sao momentos de uma totalidade ú nica ” 27 . O fundo do
í í

lar , ele o termina prontamente. Alé m disso , ele só consegue movimento n ã o é uma representação associada ou ligada ex -
encontrar o movimento em um certo plano que n ão é exata - teriormente ao pró prio movimento , ele é imanente ao movi-
mente perpendicular ao ch ão e fora desse plano privilegia- mento , ele o anima e o manté m a cada momento; a iniciação
do n ão consegue nem mesmo esboçá-lo26. Visivelmente , o ciné tica é para o sujeito uma maneira original de referir- se
doente só dispõe de seu corpo como de uma massa amorfa a um objeto , assim como a percepção . Através disso se escla-
na qual apenas o movimento efetivo introduz divisões e arti - rece a distinção entre movimento abstrato e movimento con-
culações. Ele confia ao seu corpo o esforço de executar o mo- creto: o fundo do movimento concreto é o mundo dado , o
vimento , como um orador que , sem o apoio de um texto an - fundo do movimento abstrato, ao contrá rio, é constru ído.
tecipadamente escrito , n ão poderia dizer sequer uma pala- Quando faço sinal para um amigo se aproximar , minha in -
vra . O próprio doente n ão procura e n ão encontra o movi- tenção n ão é um pensamento que eu prepararia em mim mes-
160 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 161
O CORPO

mo , e n ão percebo o sinal em meu corpo . Faço sinal através


H á casos de doentes atingidos menos gravemente do
t ê ncia .
do mundo , faço sinal ali onde se encontra meu amigo ; a dis-
que Schn . que percebem as formas , as dist â ncias e os pró-
t â ncia que me separa dele , seu consentimento ou sua recusa
prios objetos , mas que n ão podem nem traçar em relação a
se lêem imediatamente em meu gesto , n ão h á uma percep-
esses objetos as dire ções ú teis à ação , nem distribu í- los se-
Ção seguida de um movimento , a percepção e o movimento
gundo um princí pio dado , nem em geral apor ao espet áculo
formam um sistema que se modifica como um todo . Se , por
espacial as determinações antropológicas que fazem dele a pai-
exemplo , percebo que n ão querem obedecer- me e em conse-
sagem de nossa ação . Esses doentes , por exemplo , postos em
q úê ncia modifico meu gesto, n ão há ali dois atos de consciê n -
um labirinto ante um impasse , dificilmente encontram a ‘di -
4

cia distintos mas vejo a m á vontade de meu parceiro e meu


reção oposta ” . Se se coloca uma ré gua entre eles e o m é dico ,
gesto de impaciê ncia nasce dessa situação , sem nenhum pen -
eles n ão sabem , sob comando , distribuir os objetos “ de seu
sarnento interposto28. Se agora executo o mesmo movi -
lado ” ou do lado do m édico ” . Eles indicam muito mal , no
mento , mas sem visar nenhum parceiro presente ou mesmo
braço de uma outra pessoa , o ponto estimulado em seu pró-
imagin ário e como uma sequência de movimentos em si ” 29 ,
prio corpo . Sabendo que estamos em março e numa segunda-
quer dizer , se executo uma flexão ” do antebraço sobre o
feira , eles terão dificuldades em indicar o dia e o m ês prece -
braço com supinação ” do braço e “ flexão ” dos dedos , meu
dentes , embora saibam de cor a sé rie dos dias e dos meses .
corpo , que havia pouco era o veículo do movimento , torna-
Eles n ão conseguem comparar o n ú mero de unidades conti-
se sua meta ; seu projeto motor n ão visa mais algu é m no mun -
das em duas sé ries de bast ões postos diante deles: ora con -
do , visa meu antebraço , meu braço e meus dedos , e os visa
tam duas vezes o mesmo bast ão , ora contam com os bastões
enquanto eles s ão capazes de romper sua inserção no mundo
de uma sé rie alguns que pertencem à outra31 . Isso ocorre
dado e de desenhar em torno de mim uma situação fict ícia ,
porque todas essas operações exigem um mesmo poder de tra -
ou mesmo enquanto , sem nenhum parceiro fict ício eu cô n -
ç ar fronteiras no mundo dado , traçar direções , estabelecer li-
sidero curiosamente essa estranha m áquina de significar e a
nhas de força , dispor perspectivas , em suma organizar o mun-
faço funcionar por diversão30. O movimento abstrato cava ,
do dado segundo os projetos do momento , construir em sua
no interior do mundo pleno no qual se desenrolava o movi-
circunvizinhança geográfica um meio de comportamento, um
mento concreto , uma zona de reflex ão e de subjetividade , ele
sistema de significações que exprima no exterior a atividade
sobrepõe ao espaço f ísico um espaço virtual ou humano. O
interna do sujeito. Para eles , o mundo só existe como um
movimento concreto é portanto centr ípeto , enquanto o mo- mundo inteiramente pronto ou imobilizado , enquanto no nor-
vimento abstrato é centrífugo; o primeiro ocorre no ser ou
mal os projetos polarizam o mundo e fazem aparecer nele ,
no atual , o segundo no possível ou no n ão- ser ; o primeiro ade-
como por magia , mil sinais que conduzem a ação , assim co-
re a um fundo dado , o segundo desdobra ele mesmo seu fun -
mo em um museu os letreiros conduzem o visitante . Essa fun -
do . A fun ção normal que torna poss ível o movimento abstra-
ção de “ projeção ” ou de “ evocação ” ( no sentido em que o
to é uma fun ção de “ projeção” pela qual o sujeito do movi-
m édium evoca e faz aparecer um ausente ) é també m o que
mento prepara diante de si um espaço livre onde aquilo que
torna poss ível o movimento abstrato : pois para possuir meu
n ão existe naturalmente possa adquirir um semblante de exis-
corpo fora de qualquer tarefa urgente , para brincar com ele
162 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 163

ao meu bel - prazer , para traçar no ar um movimento que só * Na realidade , uma an álise indutiva , conduzida segundo
é definido por uma ordem verbal ou por necessidades mo- os m todos de Mill , n ão chega a nenhuma conclusã o . Pois
é
rais , é preciso també m que eu inverta a relação natural entre os dist ú rbios do movimento abstrato e do Zeigen n ão s ão en -
o corpo e a circunvizinhan ç a e que apareça uma produtivi - contrados apenas nos casos de cegueira psíquica , mas tam -
bé m nos cerebelosos e em muitas outras doen ças . Entre to-
dade humana através da espessura do ser . 38

E nesses termos que se pode descrever o dist ú rbio de mo- das essas concordâ ncias , n ão se pode escolher uma ú nica co-
vimentos que nos interessa . Mas talvez se considere que essa mo decisiva e “ explicar ” por ela o ato de mostrar . Diante
descrição , como freq úentemente o disseram da psican álise 32 , da ambigú idade dos fatos , só se pode renunciar à simples no-
só nos mostra o sentido ou a essê ncia da doença e n ão nos apre - tação estat ística das coincidê ncias e procurar “ compreender ”
senta sua causa. A ciê ncia só começ aria com a explicação que
a relação que elas manifestam . No caso dos cerebelosos , cons-
deve investigar , abaixo dos fen ômenos , as condições das quais tata-se que os excitantes visuais , à diferen ç a dos excitantes
eles dependem , segundo os m é todos provados da indu ção. sonoros , só obtê m reações motoras imperfeitas, e todavia não
Aqui , por exemplo , sabemos que os dist ú rbios motores de
h á raz ã o para supor neles um dist ú rbio prim á rio da fun ção
Schn . coincidem com dist ú rbios densos da fun ção visual , eles
visual . Não é porque a fun ção visual est á comprometida que
mesmos ligados ao ferimento occipital que est á na origem da
os movimentos de designação se tornam impossíveis , é , ao
doen ça. Apenas pela visão, Schn. não reconhece nenhum
contrá rio , porque a atitude do Zeigen é impossível que os ex-
objeto33. Seus dados visuais são manchas quase informes 34.
citantes visuais só suscitam reações imperfeitas. Devemos ad -
Quanto aos objetos ausentes , ele é incapaz de formar para si
uma representação visual deles35. Sabe- se , por outro lado , mitir que o som , por si mesmo , reclama antes um movimen -
to de apreensão , e a percepção visual um gesto de designa-
que os movimentos “ abstratos se tornam poss íveis para o
paciente a partir do momento em que ele fixa com os olhos çao . O som nos dirige sempre para seu conte ú do , sua signi -
o membro encarregado de execut á- los36. Assim , o que resta ficação para nós; na apresentação visual , ao contrário , pode-
de motricidade volunt á ria apó ia- se no que resta de conheci- mos muito mais facilmente ‘fazer abstração ’ do conte ú do e
mento visual . Os célebres m é todos de Mill nos permitiriam somos orientados antes para o lugar do espaço onde se en -
concluir aqui que os movimentos abstratos e o Zeigen depen - contra o objeto. ” 39 Portanto , um sentido se define menos pe-
dem do poder de representação visual , e que os movimentos la qualidade indescrit ível de seus “ conte ú dos psíquicos ” do
concretos conservados pelo doente , como també m os movi - que por uma certa maneira de oferecer seu objeto , por sua
mentos imitativos pelos quais ele compensa a pobreza dos da- estrutura epistemoló gica cuja qualidade é a realização con -
dos visuais , dependem do sentido cincstésico ou tá til , com efeito creta e , para falar como Kant , a exibição . O médico que faz
notavelmente apurado em Schn . A distinção entre o movimen- com que “ estímulos visuais ou sonoros ajam sobre o
to concreto e o movimento abstrato , assim como a distin ção doente acredita testar sua “ sensibilidade visual ” ou auditi -
entre o Greifen e o Zeigen , se deixaria reduzir à distância clá ssi - va ” e fazer o inventá rio das qualidades sensíveis que com -
ca entre o t á til e o visual , e a função de projeção ou de evoca- põem sua consciê ncia ( em linguagem empirista ), ou dos ma-
ção , que h á pouco evidenciamos , à percepção e à representa- teriais dos quais seu conhecimento dispõe (em linguagem in -
ção visuais37 . telectualista). O m édico e o psicólogo tomam de empréstimo
164 FENOMENOL0GIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 165

ao senso comum os conceitos da visão ” e do “ ouvir ” , e o de projetar um espet áculo que se manifesta no movimento
senso comum os acredita un ívocos porque nosso corpo efeti - abstrato e no gesto de designação . Ora , essa pot ê ncia n ão cai j
vamente comporta aparelhos visuais e auditivos anatomica - sob os sentidos e nem mesmo sob o sentido íntimo . Digamos
mente distintos , aos quais ele supõe que devam correspon - provisoriamente que ela só se manifesta a uma certa reflex ão
der conte ú dos de consciê ncia isoláveis segundo um postula- cuja natureza precisaremos mais adiante . Logo resulta da-
do geral de “ const â ncia ” 40 que exprime nossa ignor â ncia de qui que a indu ção psicológica não é um simples recenseamento
n ós mesmos . Mas , retomados e aplicados sistematicamente
de fatos . A psicologia n ão explica designando , entre eles , o
pela ciê ncia , esses conceitos confusos dificultam a investiga- antecedente constante e incondicionado. Ela concebe ou com -
ção e finalmente reclamam uma revisão geral das categorias
preende os fatos , exatamente como a indu ção f ísica n ão se
ingé nuas. Na realidade , o que a mensuração dos limites tes- limita a notar as consecu ções empíricas e cria noções capazes
ta são funções anteriores à especificação das qualidades sen -
/

de coordenar os fatos . E por isso que nenhuma indu ção em


síveis , assim como ao desdobramento do conhecimento , é a psicologia , como em f ísica , pode se prevalecer de uma expe-
maneira pela qual o sujeito faz aquilo que o circunda ser pa- riê ncia crucial . J á que a explicação n ão é descoberta mas in -
ra ele mesmo, seja como polo de atividade e termo de um ventada , ela nunca é dada com o fato , é sempre uma inter-
ato de captura ou de expulsão , seja como espet áculo e tema
pretação prov á vel . At é aqui apenas aplicamos à psicologia
de conhecimento . Os dist ú rbios motores dos cerebelosos e os aquilo que se mostrou muito bem a propósito da indu ção
da cegueira psíquica só podem ser coordenados se se define física 41 , e nossa primeira censura dirige- se contra a maneira
o fundo do movimento e a visão n ão por um estoque de qua- empirista de conceber a indu çã o e contra os mé todos de Mill .
lidades sensíveis, mas por uma certa maneira de ordenar ou 2 ? Ora , veremos que esta primeira censura recobre uma
de estruturar a circunvizinhan ça . O próprio uso do m é todo segunda . Em psicologia , não é apenas o empirismo que é pre-
indutivo leva - nos a essas quest ões “ metafísicas que o posi - ciso recusar . E o m é todo indutivo e o pensamento causal
em
tivismo queria elidir . A indução só chega aos seus fins se não geral . O objeto da psicologia é de tal natureza que não pode -
se limita a notar presen ç as , ausê ncias e variações concomi - ria ser determinado por relações de fun ção a vari ável
. Esta-
tantes , e se concebe e compreende os fatos sob idéias que n ão beleçamos esses dois pontos com algum detalhe .
est ão contidas neles . N ão podemos escolher entre uma des- 1? Constatamos que os dist ú rbios motores de Schn . são
crição da doen ça que nos daria seu sentido e uma explicação acom panhados de uma acentuada deficiê ncia do conhecimento
que nos daria sua causa , e n ão há explicação sem compreen- visual . Somos tentados ent ão a considerar a cegueira psíqui-
são . ca como um caso diferencial de comportamento t átil puro e ,
Mas precisemos nossa censura . Analisando-a , ela se des- ja que a consciê ncia do espaço corporal e o movimento

/
abs-
dobra . trato , que visa o espaço virtual , faltam aqui quase completa-
1? A “ causa ” de um “ fato psíquico nunca é um outro mente , inclinamo- nos a concluir que o tocar n ão nos d á , por
“ fato ps íquico ” que se descobriria pela simples observação . 42 . Dire-
si mesmo nenhuma experiê ncia do espaço objetivo
Por exemplo, a representação visual n ão explica o movimen - mos agora que o tocar n ão está apto, por si mesmo, a forne-
to abstrato, pois ela própria é habitada pela mesma potê ncia cer um fundo ao movimento , quer dizer , a dispor diante do
166 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO 0 CORPO 167

sujeito do movimento o seu ponto de partida e o seu ponto cou às impressões t áteis a coloração qualitativa das impres-
de chegada em uma simultaneidade rigorosa . Pelos movimen - -
sões cinestésicas e soldou estas ú ltimas em uma quase simul-
tos preparat ó rios , o doente tenta se dar um “ fundo anestési- taneidade44. Na verdade, no próprio comportamento dos doen-
co ” , e ele consegue assim marcar a posição de seu corpo tes 45, muitos fatos levam a pressentir uma alteração prim á-
na partida e começar o movimento ; todavia , este fundo ci- ria da experiê ncia t átil . Por exemplo , um paciente sabe bater
nestésico é l ábil , ele n ão poderia fornecer- nos , como um fun - à porta , mas n ão sabe mais fazê- lo se a porta est á escondida
do visual , a reconstrução do móbil em relação ao seu ponto ou mesmo se ela n ão est á ao alcance de um toque . Neste ú lti-
de partida e ao seu ponto de chegada durante toda a duração mo caso , o doente n ão pode executar no vazio o gesto de ba-
do movimento . Ele é desarranjado pelo próprio movimento ter ou de abrir , mesmo se está com os olhos abertos e fixados na
e precisa ser reconstru ído após cada fase do movimento . Eis porta46 . Como pôr em causa aqui as carê ncias visuais , quan-
por que , diremos nós, em Schn . os movimentos abstratos per- do o doente dispõe de uma percepção visual da meta que or-
deram seu ritmo melódico , porque eles são feitos de fragmen- dinariamente é suficiente para orientar bem ou mal seus mo-
tos postos lado a lado, e porque freqiientemente eles “ des- vimentos? Não pusemos em evidê ncia um dist ú rbio prim á-
carrilam a caminho. O campo prá tico que falta a Schn . nao rio do tocar? Visivelmente , para que um objeto possa desen -
é outro sen ão o campo visual 43. Mas , para ter o direito de cadear um movimento , é preciso que ele esteja compreendi -
ligar , na cegueira ps íquica , o dist ú rbio do movimento ao dis- do no campo motor do doente , e o dist ú rbio consiste em um
t ú rbio visual e , no normal , a fun ção de projeção à vis ão co- estreitamento do campo motor , doravante limitado aos obje -
mo ao seu antecedente constante e incondicionado , seria pre- tos efetivamente tangíveis , excluindo este horizonte do tocar
ciso estar seguro de que apenas os dados visuais foram afeta- possível que no normal os circunda. A deficiê ncia referir-se -
dos pela doen ça e de que todas as outras condições do com - ia , no final das contas , a uma fun ção mais profunda do que
portamento , em particular a experiência t átil , permaneceram a visão , mais profunda també m do que o tocar enquanto so-
aquilo que eram no normal . Podemos afirm á- lo? E aqui que ma d é qualidades dadas , ela estaria relacionada à á rea vital
se vai ver como os fatos são amb íguos , que nenhuma expe- do sujeito , a essa abertura ao mundo que faz com que obje-
riê ncia é crucial e nenhuma explicação definitiva . Se obser- tos atualmente fora de alcance todavia contem para o nor -
vamos que um sujeito normal é capaz de , com os olhos fe- mal , existam tatilmente para ele e façam parte de seu uni-
chados , executar movimentos abstratos , e a experiê ncia t átil verso motor. Nessa hipó tese , quando os doentes observam sua
47
do normal é suficiente para governar a motricidade , sempre mao e o alvo durante toda a duração de um movimento ,
se poderá responder que os dados t á teis do normal recebe - n ão seria preciso ver ali a simples ampliação de um procedi -
ram sua estrutura objetiva justamente dos dados visuais , se- mento normal , e este recurso à visão só se tornaria necessá-
gundo o velho esquema da educação dos sentidos . Se obser - rio justamente pelo desmoronamento do tocar virtual . Mas ,
vamos que um cego é capaz de localizar os estímulos em seu no plano estritamente indutivo , essa interpretação , que põe
corpo e de executar movimentos abstratos , alé m de existirem em causa o tocar , permanece facultativa e pode-se sempre ,
exemplos de movimentos preparató rios nos cegos , pode - se com Goldstein , preferir uma outra: para bater , o doente pre -
sempre responder que a freq üê ncia das associações comum - cisa de um alvo ao alcance do tocar , justamente porque a vi-
168 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 169

s ão , deficiente nele , n ão basta para dar um fundo sólido ao sentação visual ” ou que a percepção t á til ” seja causa do
movimento . Portanto , n ão h á um fato que possa atestar , de movimento abstrato , ou que enfim elas sejam ambas efeitos
maneira decisiva , que a experiência tátil dos doentes é ou n ão de uma outra causa . Os três ou quatro termos devem poder
idê ntica àquela dos normais , e a concepção de Goldstein , as- ser considerados do exterior , e deve-se poder determinar suas
sim como a teoria física , sempre pode ser adaptada aos fatos variações correlativas . Mas se eles n ão forem isol á veis , se ca-
por meio de alguma hipó tese auxiliar . Nenhuma interpreta- da um deles pressupuser os outros , o fracasso n ão caberá ao
ção rigorosamente exclusiva é possível nem em psicologia nem empirismo ou às tentativas de experiê ncia crucial , mas ao mé-
em física . todo indutivo ou ao pensamento causal em psicologia . Che -
Todavia , se observarmos melhor , veremos que , em psi - gamos assim ao segundo ponto que queríamos estabelecer.
cologia , a impossibilidade de uma experiê ncia crucial funda - 2 ? Se , como Goldstein reconhece , a coexistê ncia entre
se em razões particulares , ela resulta da pró pria natureza do os dados t áteis e os dados visuais no normal modifica os pri-
objeto a conhecer , quer dizer , do comportamento , ela tem meiros de forma muito profunda para que eles possam servir
conseqii ê ncí as muito mais decisivas . Entre teorias das quais de fundo ao movimento abstrato , os dados t áteis do doente,
nenhuma est á absolutamente exclu ída , nenhuma absoluta- isolados desta contribuição visual , n ão poder ão sem mais ser
mente fundada pelos fatos , a f ísica pode ainda assim escolher identificados àqueles do normal . No normal , diz Goldstein ,
segundo o grau de verossimilhanç a , quer dizer , segundo o dados táteis e dados visuais n ão est ão justapostos; os primei -
n ú mero de fatos que cada uma consegue coordenar sem ros devem à vizinhan ç a dos outros um “ matiz qualitativo ”
sobrecarregar-se de hipóteses auxiliares imaginadas para as que eles perderam em Schn . , o que significa dizer , acrescen -
necessidades da causa . Em psicologia , carecemos desse crit é - ta ele , que é imposs ível o estudo do t átil puro no normal e
rio: nenhuma hipótese auxiliar é necessá ria , acabamos de vê- que apenas a doen ça oferece um quadro do que seria a expe -
lo , para explicar pelo dist ú rbio visual a impossibilidade do riê ncia t á til reduzida a si mesma 48. A conclusão é justa , mas
gesto de “ bater ” diante de uma porta. Não apenas nunca ela representa dizer que a palavra “ tocar ” aplicada ao sujei-

chegamos a uma interpretação exclusiva deficiê ncia do to- to normal e ao doente n ão tem o mesmo sentido , que o t átil
car virtual ou deficiê ncia do mundo visual
— , mas ainda li-
damos necessariamente com interpretações igualmente verossi-
meis, porque “ representações visuais ” , movimento abstra-
puro é um fen ô meno patológico que n ão entra na experiê n -
cia normal como um componente , que a doenç a , desorgani-
zando a fun ção visual , n ão evidenciou a pura essê ncia do t á-
to ” e “ tocar virtual ” são apenas nomes diferentes para um til , que ela modificou a experiência inteira do sujeito ou , se
mesmo fen ô meno central . Dessa forma a psicologia n ão se se prefere , que n ão h á no sujeito normal uma experiê ncia t á-
encontra aqui na mesma situação que a física , quer dizer, con- til e uma experiê ncia visual , mas uma experiê ncia integral
finada na probabilidade das indu ções ; ela é incapaz de esco- em que é imposs ível dosar as diferentes contribuições senso-
lher, mesmo segundo a verossimilhança , entre hipóteses que , riais . Na cegueira psíquica , as experiê ncias mediadas pelo to-
do ponto de vista estritamente indutivo , permanecem toda- car nada t ê m em comum com aquelas que são mediadas pelo
via incompat íveis. Para que uma indu ção , mesmo simples- tocar no sujeito normal , e nem umas nem outras merecem
mente prov á vel , permaneç a poss ível , é preciso que a “ repre - ser chamadas de dados “ t á teis ” . A experiê ncia t átil n ão é uma
170 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O O CORPO 171 i

condição separada que poder íamos manter constante enquan - jeto no estado nascente , tal como ele aparece àquele que o
to far íamos variar a experiê ncia “ visual ” , de modo a deter- vive , com a atmosfera de sentido na qual ele est á então en -
minar a causalidade pró pria a cada uma , e o comportamen - volvido , e que busca introduzir -se nessa atmosfera para reen -
to n ão é uma função dessas vari á veis , ele est á pressuposto em contrar , atr á s dos fatos e dos sintomas dispersos , o ser total
sua definição , assim como cada uma delas est á pressuposta do sujeito , se se trata de um normal , o dist ú rbio fundamen -
na definição da outra49. A cegueira psíquica , as imperfeições tal , se se trata de um doente .
do tocar e os dist ú rbios motores são trê s expressões de um dis- Se n ão podemos explicar os dist ú rbios do movimento abs-
t ú rbio mais fundamental pelo qual eles se compreendem e n ão trato pela perda dos conteúdos visuais , nem conseq ú entemente
três componentes do comportamento mórbido; as represen - a função de projeção pela presença efetiva desses conte údos ,
tações visuais , os dados t á teis e a motricidade são trê s fen ô - um ú nico mé todo ainda parece poss ível : ele consistiria em re -
menos recortados na unidade do comportamento . Se , por- constituir o dist ú rbio fundamental remontando a partir dos
que apresentam variações correlativas , se quer explicá-los um sintomas n ão a uma causa ela mesma constat ável , mas a uma
pelo outro , esquece - se que , por exemplo , o ato de represen -
tação visual , como o prova o caso dos cerebelosos , já supõe
razão ou a uma condição de possibilidade inteligível
tratar o sujeito humano como uma consciê ncia indecompo-
— em

a mesma potê ncia de projeção que se manifesta també m no n ível e presente inteira em cada uma de suas manifestações .
movimento abstrato e no gesto de designação , e se supõe as- Se o dist ú rbio não deve ser referido aos conte ú dos, seria pre -
sim aquilo que se acredita explicar . O pensamento indutivo ciso ligá- lo à forma do conhecimento ; se a psicologia n ão é
ou causal , encerrando na vis ão ou no tocar ou em algum da- empirista e explicativa , ela deveria ser intelectualista e refle -
í
do de fato a pot ê ncia de projeção que os habita a todos , dissi- xiva. Exatamente como o ato de nomear50, o ato de mostrar
mula - a para n ós e torna - nos cegos para a dimensão do com - supõe que o objeto , em vez de estar próximo , agarrado e tra -
portamento que é justamente aquela da psicologia . Em f ísi- gado pelo corpo , seja mantido à dist â ncia e se exponha dian -
ca , o estabelecimento de uma lei exige que o cientista conce- te do doente . Plat ão ainda concedia ao empirista o poder de
^
ba a idé ia sob a qual os fatos serão coordenados , e essa ideia , apontar , mas na verdade at é mesmo o gesto silencioso é im -
que n ão se encontra nos fatos , nunca ser á verificada por uma possível se aquilo que ele designa já n ão foi arrancado de sua
experiê ncia crucial , ela será sempre apenas prov á vel . Mas ela existê ncia instant â nea e da exist ê ncia mon ádica , tratado co-
ainda é a idéia de um elo causal no sentido de uma relação mo o representante de suas aparições anteriores em mim e
de fun ção a vari á vel . A pressão atmosfé rica precisava ser in - de suas aparições simult â neas em outro , quer dizer , subsu -
ventada , mas , en í im , ela ainda era um processo em terceira mido a uma categoria e elevado ao conceito. Se o doente n ão
pessoa , fun ção de um certo n ú mero de vari á veis . Se o com - pode mais apontar um ponto de seu corpo que tocam , é por-
portamento é uma forma em que os “ conte ú dos visuais > > que ele n ão é mais um sujeito ante um mundo objetivo e por -
os “ conte ú dos t á teis ” , a sensibilidade e a motricidade só fi- que ele n ão pode mais assumir a “ atitude caté gorial ” 51 . Da
guram a t ítulo de momentos inseparáveis , ele permanece ina- mesma maneira , o movimento abstrato est á comprometido
cessível ao pensamento causal, ele só é apreensível por um enquanto ele pressupõe a consciê ncia do alvo , enquanto é
outro tipo de pensamento
— aquele que surpreende seu ob- mantido por ela e é movimento para si. E , com efeito , ele
172 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO
O CORPO 173
n ão é desencadeado por nenhum objeto existente , ele é visi- tencional , ou ent ão ele se fragmenta e se dispersa na existê n -
velmente centr ífugo , desenha no espaço uma intenção gra- cia em si , torna- se um processo objetivo no corpo , cujas fases
tuita que se dirige ao corpo pró prio e o constitui como objeto se sucedem mas n ão se conhecem . O privilégio dos movimen -
em vez de atravessá - lo para , atrav és dele , ir ao encontro das tos concretos na doen ç a seria explicado pelo fato de eles se -
coisas . Portanto , ele é habitado por uma pot ê ncia de objeti- rem reflexos no sentido cl ássico . A m ão do doente vai ao en -
vaç ao , por uma t < fun çã o simbólica ” 52 uma fun ção repre -
í í

contro do ponto de seu corpo onde se encontra o mosquito


sentativa ” 53, uma potê ncia de “ projeção ” 54 que ali ás já ope- porque circuitos nervosos preestabelecidos ajustam a reação
ra na constituição das “ coisas ” e que consiste em tratar os ao lugar da excitação . Os movimentos do of ício s ão conser-
dados sens íveis como representativos uns dos outros e como vados porque dependem de reflexos condicionados solidamen -
representativos , todos em conjunto , de um “ eidos ” , que con - te estabelecidos. Eles subsistem malgrado as deficiê ncias ps í-
siste em dar -lhes um sentido , em anim á- los interiormente , quicas porque são movimentos em si .
em orden á- los em sistema , em centrar uma pluralidade de Veremos que na realidade a primeira distin ção , longe
experiê ncias em um mesmo n ú cleo intelig ível , em fazer apa- de recobrir a segunda , é incompat ível com ela . Toda expli-
ii

recer nelas uma unidade identificável sob diferentes perspec- cação fisioló gica ” tende a generalizar-se . Se o movimento de
tivas ; em suma , em dispor atrá s do fluxo das impressões um pegar ou o movimento concreto est á assegurado por uma co-
invariante fixo que dê raz ão dele, e em ordenar a maté ria da
experiê ncia . Ora , n ão se pode dizer que a consci ê ncia tem es-
nex ão de fato entre cada ponto da pele e os m ú sculos moto
res que conduzem a m ão , n ão se vê por que o mesmo circui -
-
se poder ; ela é esse pró prio poder . A partir do momento em to nervoso , ordenando aos mesmos m ú sculos um movimen -
que h á consciê ncia , e para que haja consciê ncia , é preciso que to muito pouco diferente nao asseguraria o gesto do Zeigen
exista um algo do qual ela seja consciê ncia , um objeto inten - tanto quanto o movimento do Greifen . Entre o mosquito que
cional , e ela só pode dirigir- se a este objeto enquanto se “ ir- pica a pele e a ré gua de madeira que o m édico apoia no mes-
realiza ” e se lan ça nele , enquanto est á inteira nesta referê n - mo lugar , a diferen ç a f ísica n ã o é suficiente para explicar que
cia a .. . algo , enquanto é um puro ato de significa ção. Se um o movimento de pegar seja poss ível e o gesto de designação
ser é consciê ncia , é preciso que ele seja apenas um tecido de n ão o seja . Os dois “ est ímulos ” só se distinguem verdadei-
intenções . Se ele deixa de se definir pelo ato de significar , ele ramente se se leva em conta seu valor afetivo ou seu sentido
volta a cair na condição de coisa , a coisa sendo justamente biológico; as duas respostas só deixam de se confundir se con -
aquilo que n ão conhece , aquilo que repousa em uma igno- sideramos o Zeigen e o Greifen como duas maneiras de se refe -
r â ncia absoluta de si e do mundo , aquilo que por conseguin - rir ao objeto e dois tipos de ser no mundo . Mas é justamente
ci :> 5
te n ão é um “ si ” verdadeiro , quer dizer , um para si , e

isso que é impossível , uma vez que se reduziu o corpo vivo


só tem a individuação espaço-temporal , a exist ê ncia em si55. à condição de objeto . Se se admite uma ú nica vez que ele se-
Portanto , a consciê ncia n ão comportará o mais e o menos . ja a sede de processos em terceira pessoa , no comportamento
Se o doente n ão existe mais como consci ê ncia , é preciso que n ão se pode mais reservar nada à consciê ncia . Os gestos as-
ele exista como coisa . Ou o movimento é movimento para sim como os movimentos , já que empregam os mesmos
si , e agora o “ est ímulo ” n ão é sua causa mas seu objeto in -
- -
ó rgãos objetos , os mesmos nervos objetos , devem ser desdo-
I
174 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO 0 CORPO 175

brados no plano dos processos sem interior e inseridos no te - abstrato e o movimento concreto , entre o Zeigen e o Greifen .
cido sem lacunas das “ condições fisioló gicas ” . Quando , no Ela só poderá ser mantida se para o corpo existirem várias manei-
exercício de seu ofício , dirige a m ão para um instrumento pos- ras de ser corpo, para a consciência várias maneiras de ser consciência .
to na mesa , o doente n ão desloca os segmentos de seu braço Na medida em que o corpo é definido pela exist ê ncia em si ,
exatamente como seria preciso para executar um movimento ele funciona uniformemente como um mecanismo ; na medi -
abstrato de extensão? Um gesto cotidiano n ão conté m uma da em que a alma é definida pela pura exist ê ncia para si , ela
sé rie de contrações musculares e de inervações? Portanto , é só conhece objetos desdobrados diante de si. A distin ção en -
impossível limitar a explicação fisiológica . Por outro lado , tre o movimento abstrato e o movimento concreto nao se con -
també m é impossível limitar a consciê ncia . Se referimos o ges- funde portanto com a distin ção entre o corpo e a conscien •A
-
to de mostrar à consciê ncia , se uma ú nica vez o est ímulo po - cia , ela n ão pertence à mesma dimensão reflexiva , ela só tem
de deixar de ser a causa da reação para tornar- se seu objeto lugar na dimensão do comportamento . Os fen ômenos pato-
intencional , n ão se concebe que ele possa em algum caso fun - lógicos fazem variar sob nossos olhos algo que n ão é a pura
cionar como pura causa , nem que alguma vez o movimento consciê ncia de objeto. Desmoronamento da consciê ncia e li-
possa ser cego. Pois se são possíveis movimentos “ abstratos ” , beração do automatismo , este diagn óstico da psicologia inte -
nos quais existe consciê ncia do ponto de partida e consciê n - lectualista , assim como aquele de uma psicologia empirista
cia do ponto de chegada , é preciso que em cada momento dos conte ú dos , deixaria escapar o dist ú rbio fundamental .
de nossa vida saibamos onde est á nosso corpo sem precisar - A an álise intelectualista , aqui como em todas as partes ,
é menos falsa do que abstrata . A ‘‘fun ção simbólica > > ou a
procurá-lo como procuramos um objeto removido durante
nossa ausê ncia , é preciso portanto que até mesmo os movi- “ fun ção de representação ” subjaz aos nossos movimentos,
mentos “ autom áticos ” se anunciem à consciê ncia , quer di- mas para a an álise ela n ão é um termo ú ltimo , ela repousa ,
zer , que nunca existam movimentos em si em nosso corpo . por seu lado , em um certo solo , e o erro do intelectualismo
E , se todo espaço objetivo só existe para a consciê ncia inte - é fazê -la repousar sobre si mesma , destacá- la dos materiais
lectual , devemos encontrar a atitude catégorial até no movi- nos quais ela se realiza e reconhecer em n ós , a t ítulo origin á -
mento de pegar57 . Assim como a causalidade fisiológica , a to- rio , uma presença ao mundo sem dist â ncia , pois a partir des-
mada de consciê ncia n ão pode começar em parte alguma . E sa consciê ncia sem opacidade , dessa intencionalidade que n ão
preciso ou renunciar à explicação fisiológica , ou admitir que comporta o mais e o menos , tudo o que nos separa do mun -
ela é total— ou negar a consciê ncia ou admitir que ela é to-
tal ; não se pode referir certos movimentos à mecâ nica corpo-
do verdadeiro
a encarnação —
— o erro , a doen ça , a loucura e , em suma ,
é reduzido à condição de simples aparê ncia .
ral e outros à consciê ncia , o corpo e a consciê ncia não se li- Sem d ú vida , o intelectualismo não realiza a consciência à parte
mitam um ao outro , eles só podem ser paralelos . Toda expli- de seus materiais e , por exemplo , ele se recusa expressamen -
cação fisiológica se generaliza em fisiologia mecanicista , to- te a introduzir, atrás da fala , da ação e da percepção , uma
t <
da tomada de consciê ncia em psicologia intelectualista , e a consciê ncia simbólica ” que seria a forma comum e nume -
fisiologia mecanicista ou a psicologia intelectualista nivelam ricamente una dos materiais lingúísticos , perceptivos e mo-
o comportamento e apagam a distin ção entre o movimento tores . N ão existe , diz Cassirer , “ faculdade simbólica em ge-
176 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 177

ral ” 58 e a an álise reflexiva n ão procura estabelecer uma e em cada doen ç a , e que através disso nos d ão pelo menos
comunidade no ser ” entre os fen ô menos patológicos que
í i a ilusão de um saber efetivo . A patologia moderna mostra
concernem à percepção , à linguagem e à ação , mas uma “ co- que nao existe dist ú rbio rigorosamente eletivo , mas mostra
munidade no sentido ” 59 . Justamente porque ultrapassou de- també m que cada dist ú rbio é matizado de acordo com a re -
finitivamente o pensamento causal e o realismo , a psicologia gi ão do comportamento que ele principalmente acomete 62 .
intelectualista seria capaz de ver o sentido ou a essê ncia da Mesmo se toda afasia , observada bem de perto , comporta dis-
doen ça e de reconhecer uma unidade da consciê ncia que n ão t ú rbios gn ósicos e práxicos , toda apraxia comporta dist ú rbios
se constata no plano do ser , que se atesta a si mesma no pla- da linguagem e da percepção , toda agnosia comporta dist ú r -
no da verdade . Mas precisamente a distin ção entre a comu - bios da linguagem e da ação , resta que aqui o centro dos dis-
nidade no ser e a comunidade no sentido, a passagem cons- t ú rbios est á na zona da linguagem , ali na zona da percepção
ciente da ordem da existê ncia à ordem do valor e a reviravol - e alhures na zona da ação . Quando em todos os casos se p õe
ta que permite afirmar como aut ó nomos o sentido e o valor em causa a fun ção simbólica , caracteriza - se bem a estrutura
equivalem praticamente a uma abstração , já que , do ponto comum aos diferentes dist ú rbios , mas essa estrutura n ão de-
de vista em que terminam por se situar , a variedade dos fe - ve ser destacada dos materiais em que a cada vez ela se reali-
n ô menos torna- se insignificante e incompreensível . Se a cons- za , sen ão eletivamente , pelo menos principalmente . Afinal
ciê ncia est á situada fora do ser , ela n ão poderia deixar-se cor- de contas , o dist ú rbio de Schn . n ão é em primeiro lugar me -
tar por ele ; a variedade emp írica das consciê ncias — a cons- taf ísico , foi uma explosão de obus que o feriu na regi ão occi-
ciê ncia m ó rbida , a consciê ncia primitiva , a consciê ncia in - pital ; as defici ê ncias visuais são acentuadas; como o dissemos ,
fantil , a consciê ncia do outro — n ão pode mais ser levada
a sé rio , nada h á ali para se conhecer ou se compreender , ape -
seria absurdo explicar todas as outras por aquelas como por
sua causa , mas n ão seria menos absurdo pensar que a explo-
nas uma coisa é compreens ível , a pura essência da consciên - são de obus se chocou com a consciê ncia simbólica. Nele o
cia. Nenhuma dessas consciê ncias poderia deixar de efetuar Esp írito foi atingido pela visão . Enquanto n ão se tiver encon -
o Cogito . O louco , por detrás de seus del írios , de suas obsessões trado o meio de unir a origem com a essê ncia ou com o senti -
e de suas mentiras , sabe que delira , que se obceca a si mesmo , do do dist ú rbio , enquanto n ão se tiver definido uma essência
que mente e , finalmente , ele n ã o é louco , pensa sê -lo . Portan - concreta , uma estrutura da doen ça que exprima ao mesmo tem -
to , tudo est á bem , e a loucura é apenas m á vontade . A an áli - po sua generalidade e sua particularidade , enquanto a feno-
se do sentido da doen ç a , se desemboca em uma fun ção sim - menologia n ão se tiver tornado fenomenologia gen é tica , os
bólica , identifica todas as doen ç as , reconduz as afasias , as retornos ofensivos do pensamento causal e do naturalismo per-
apraxias e as agnosias à unidade60 , e talvez n ão tenha nem manecerão justificados . Nosso problema ent ão se precisa .
mesmo meio de distingui - las da esquizofrenia61. Compreen - Trata - se para n ós de conceber , entre os conte ú dos lingúísti -
de-se então que os médicos e os psicólogos declinem o convi - co, perceptivo , motor e a forma que eles recebem ou a fun -
te do intelectualismo e retornem , na falta de algo melhor , à s ção simbólica que os anima , uma relação que n ão seja nem
tentativas de explicação causal que pelo menos tê m a vanta- a redu ção da forma ao conte ú do , nem a subsun ção do con -
gem de levar em conta aquilo que h á de particular na doen ça te ú do a uma forma aut ó noma . E preciso que compreenda-
178 FENOMENOLOGIA DA PERCE PÇ AO 0 CORPO 179

mos ao mesmo tempo como a doen ç a de Schn . extravasa por sarnento parecem uma ast ú cia da Razão disfarçada de Natu -
todos os lados os conteú dos particulares de sua experiê ncia reza — mas , reciprocamente , at é em sua sublimação intelec-
— —
visuais , t áteis , motores e como todavia ela só acomete
a fun ção simbólica atravé s dos materiais privilegiados da vi -
tual o conte ú do permanece como uma contingê ncia radical ,
como o primeiro estabelecimento ou a fundação63 do conhe -
são . Os sentidos e , em geral , o corpo pró prio apresentam o cimento e da ação , como a primeira apreensão do ser ou do
mist é rio de um conjunto que , sem abandonar sua ecceidade valor dos quais o conhecimento e a ação jamais esgotarã o a
e sua particularidade , emite , para alé m de si mesmo , signifi - riqueza concreta e dos quais eles renovarão em todas as par -
cações capazes de fornecer sua armação a toda uma sé rie de tes o m é todo espont â neo . E essa dial é tica entre a forma e o
pensamentos e de experiê ncias . Se o dist ú rbio de Schn . con- conte ú do que precisamos restituir , ou antes , como a “ ação
cerne à motricidade e ao pensamento tanto quanto à percep- recíproca ” ainda é apenas um compromisso com o pensamen -
ção , resta que no pensamento ele atinge sobretudo o poder to causal e a fó rmula de uma contradição , precisamos des-
de apreender os conjuntos simult â neos , na motricidade o de crever o meio em que essa contradi ção é concebível , quer di-
sobrevoar o movimento e de projet á- lo no exterior. Portan - zer , a existê ncia , a retomada perpé tua do fato e do acaso por
to , de alguma maneira é o espaço mental e o espaço prático uma razão que n ão existe antes dele e nem sem ele64.
que est ão destru ídos ou deteriorados , e as pró prias palavras Se queremos perceber aquilo que subjaz à “ função sim -
indicam suficientemente a genealogia visual do dist ú rbio . O bólica ” , precisamos primeiramente compreender que nem
dist ú rbio visual n ão é a causa dos outros dist ú rbios e , em par- mesmo a inteligê ncia se acomoda ao intelectualismo . Em
ticular , daquele do pensamento . Mas també m n ão é uma sim - Schn . , o que compromete o pensamento n ão é o fato de que
ples conseq úê ncia deles. Os conte ú dos visuais n ão s ão a cau - ele seja incapaz de perceber os dados concretos como exem -
sa da fun ção de projeção, mas a visão també m n ão é uma plares de um eidos ú nico ou de subsumi- los a uma categoria ,
simples ocasi ão para o Espírito desdobrar um poder em si mes - -
é ao contrá rio o fato de que ele só pode ligá los por uma sub-
mo incondicionado . Os conteúdos visuais são retomados , uti- sunção expl ícita. Observa-se por exemplo que o doente n ão
lizados , sublimados no plano do pensamento por uma pot ê n - compreende analogias t ão simples como : “ a pelagem é para
cia simbólica que os ultrapassa , mas é sobre a base da visão o gato aquilo que a plumagem é para o pássaro ” ou “ a luz
que essa potê ncia pode constituir- se . A relação entre a maté- é para a lâ mpada aquilo que o calor é para o aquecedor ” ou
ria e a forma é aquela que a fenomenologia chama de relação ainda “ o olho é para a luz e a cor aquilo que o ouvido é para
de Fundierung : a fun ção simbólica repousa na visão como em os sons > > . Da mesma maneira , ele n ão compreende em seu
um solo , n ão que a visão seja sua causa , mas porque é este sentido metaf ó rico expressões usuais como “ o pé da cadei-
dom da natureza que o Espírito precisava utilizar para alé m ra ” ou “ a cabeça de um prego ” , embora saiba qual parte
de toda esperan ç a , ao qual ele devia dar um sentido radical - do objeto essas expressões designam . Pode acontecer que su -
mente novo e do qual todavia ele tinha necessidade n ão ape - jeitos normais do mesmo grau de cultura també m n ão sai-
nas para se encarnar , mas ainda para ser . A forma integra bam explicar a analogia , mas será por razões inversas . Para
a si o conte ú do a tal ponto que , finalmente , ele parece um o sujeito normal , é mais f ácil compreender a analogia do que
simples modo dela mesma , e as preparações histó ricas do pen - analisá-la ; ao contr á rio , o doente só consegue compreend ê -
180 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO 0 CORPO 181

la depois de explicit á-la por uma an álise conceituai . “ Ele pro- mente remonta at é o fundamento da predicação , encontra
cura ( . .. ) um cará ter material comum a partir do qual possa atr á s do ju ízo de inerê ncia o ju í zo de relação , atrás da sub-
concluir , como de um meio-termo , a identidade das duas re- sunção , enquanto operaçã o mecâ nica e formal , o ato catégo-
la ções. ” 65 Por exemplo , ele reflete na analogia entre o olho rial pelo qual o pensamento investe o sujeito do sentido que
e o ouvido e visivelmente só a compreende no momento em se exprime no predicado . Assim , nossa cr ítica da fun ção ca -
que pode dizer : “ O olho e o ouvido s ão um e outro ó rgãos t égorial só teria como resultado revelar , atrá s do uso emp íri -
dos sentidos ; portanto , eles devem produzir algo de semelhan - co da categoria , um uso transcendental sem o qual com efei -
te . ” Se descrevêssemos a analogia como a percepção de dois to o primeiro é incompreens ível . Todavia , a distin ção entre
termos dados sob um conceito que os coordena , apresenta - o uso emp írico e o uso transcendental mais mascara a difi -
r íamos como normal um procedimento que é patológico , e culdade do que a resolve . A filosofia criticista duplica as ope -
que representa o desvio pelo qual o doente precisa passar pa - rações emp íricas do pensamento com uma atividade trans-
ra substituir a compreensão normal da analogia . “ No doen - cendental que ela encarrega de realizar todas as sínteises das
te , essa liberdade na escolha de um tertium comparationis é o quais o pensamento emp írico apresenta o reflexo . Mas , quan-
: oposto da determinação intuitiva da imagem no normal : o do atualmente penso algo , a garantia de uma s íntese intem -
normal apreende uma identidade específica nas estruturas poral n ão é suficiente e nem mesmo necessá ria para fundar
/

conceituais , para ele os passos vivos do pensamento s ão si - meu pensamento. E agora , é no presente vivo que é preciso
m é tricos e se compensam . E assim que ele ‘apanha ’ o essen - efetuar a s í ntese ; de outra maneira o pensamento estaria cor-
cial da analogia , e pode-se sempre perguntar se um sujeito tado de suas premissas transcendentais . Quando penso , n ão
n ão permanece capaz de compreender mesmo quando essa se pode dizer ent ão que eu me recoloco no sujeito eterno que
compreensão não é adequadamente expressa pela formula- nunca deixei de ser , pois o verdadeiro sujeito do pensamento
ção e pela explicitação que ele fornece . ” 66 Portanto;.o pen - é aquele que efetua a conversã o e a retomada atual , e é ele
samento vivo não consiste em subsumir a uma categoria. A quem comunica sua vida ao fantasma intemporal. Portanto ,
categoria impõe aos termos que ela re ú ne uma significação precisamos compreender como o pensamento temporal amar-
que lhes é exterior . E com base na linguagem constitu ída e ra-se a si mesmo e realiza sua pró pria síntese . Se o sujeito
nas relações de sentido que ela conté m que Schn . chega a li- normal compreende imediatamente que a relação do olho à
gar o olho e o ouvido enquanto “ ó rgãos dos sentidos ” . No visão é a mesma que a relação do ouvido à audição , é porque
pensamento normal , o olho e o ouvido são imediatamente o olho e o ouvido lhe são imediatamente dados como meios
apreendidos segundo a analogia de sua fun ção , e sua relação de acesso a um mesmo mundo , é porque ele tem a evidê ncia
só pode ser fixada em um “ cará ter comum ” e registrada na antepredicativa de um mundo unico , de modo que a equi-
linguagem porque em primeiro lugar ela foi percebida em es- valê ncia entre os “ ó rgãos dos sentidos ” e sua analogia se l ê
tado nascente na singularidade da visão e do ouvir. Sem d ú - nas coisas e pode ser vivida antes de ser concebida . O sujeito
vida , responder- se - á que nossa cr ítica só se dirige contra um kantiano põe um mundo , mas , para poder afirmar uma ver-
intelectualismo sum á rio , que assimilaria o pensamento a uma dade , o sujeito efetivo precisa primeiramente ter um mundo
atividade simplesmente lógica , e que a an álise reflexiva justa- ou ser no mundo , quer dizer , manter em torno de si um
182 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 183

sistema de significações cujas correspondências , relações e par- o restituo a eles. De fato , nosso adquirido dispon ível expri-
ticipações n ão precisem ser explicitadas para ser utilizadas . me a cada momento a energia de nossa consciê ncia presente .
Quando me desloco em minha casa, sei imediatamente e sem Ora ela se enfraquece, como na fadiga , e ent ão meu í í mun -
nenhum discurso que caminhar para o banheiro significa pas- do ” de pensamentos se empobrece e até mesmo se reduz a
sar perto do quarto , que olhar a janela significa ter a lareira uma ou duas id é ias obsédantes ; ora , ao contrá rio , dedico- me
à minha esquerda , e , nesse pequeno mundo , cada gesto , ca- a todos os meus pensamentos , e cada frase que dizem diante
da percepção situa- se imediatamente em relação a mil coor - de mim faz ent ão germinar questões , id é ias , reagrupa e reor-
denadas virtuais . Quando converso com um amigo que co- ganiza o panorama mental e se apresenta com uma fisiono-
nhe ço bem , cada uma de suas expressões e cada uma das mi- mia precisa . Assim , o adquirido só est á verdadeiramente ad -
nhas incluem , alé m daquilo que elas significam para todo o quirido se é retomado em um novo movimento de pensamen-
mundo , uma multid ão de referê ncias à s principais dimensões to , e um pensamento só est á situado se ele mesmo assume
de seu caráter e do meu , sem que precisemos evocar nossas sua situação. A essê ncia da consciê ncia é dar- se um mundo
conversações precedentes. Esses mundos adquiridos , que d ão ou mundos , quer dizer , fazer existir diante dela mesma os seus
à minha experiê ncia o seu sentido segundo , são eles mesmos pró prios pensamentos enquanto coisas , e ela prova indivisi -
recortados em um mundo primordial que funda seu sentido velmente seu vigor desenhando essas paisagens e abandonan -
primeiro . Da mesma maneira , há um “ mundo dos pensamen - do-as . A estrutura mundo , com seu duplo momento de sedi-
tos ” , quer dizer , uma sedimentação de nossas operações men - mentação e de espontaneidade , est á no centro da consciê n -
tais , que nos permite contar com nossos conceitos e com nos- cia , e é como um nivelamento do mundo que poderemos com -
sos ju ízos adquiridos como com coisas que est ão ali e se d ão preender ao mesmo tempo os dist ú rbios intelectuais , os dis-
globalmente , sem que precisemos a cada momento refazer sua
/
t ú rbios perceptivos e os dist ú rbios motores de Schn . , sem
s íntese . E assim que pode haver para n ós uma espé cie de pa- reduzir uns aos outros.
norama mental , com suas regiões demarcadas e suas regiões A an álise cl ássica da percepção67 distingue nela os da -
confusas , uma fisionomia das quest ões e das situações inte- dos sens íveis e a significação que eles recebem de um ato de
lectuais como a investigação , a descoberta , a certeza . Mas entendimento . Deste ponto de vista , os dist ú rbios da percep-
a palavra “ sedimentação ” n ão nos deve enganar : este saber ção só poderiam ser deficiê ncias sensoriais ou dist ú rbios gnó-
contraído n ão é uma massa inerte no fundo de nossa cons- sicos . O caso de Schn . mostra- nos , ao contrá rio , deficiê ncias
ciência. Meu apartamento n ão é para mim uma sé rie de ima- que concernem à junção entre a sensibilidade e a significa-
gens fortemente associadas , ele só permanece como dom ínio ç ao e que revelam o condicionamento existencial de uma e
familiar em torno de mim se ainda tenho suas dist â ncias e de outra. Se apresentam ao doente uma caneta-tinteiro ,
suas dire ções “ nas m ãos ” ou “ nas pernas ” , e se uma multi- acomodando-a para que o prendedor n ão seja visível , as fa-
d ão de fios intencionais parte de meu corpo em direção a ele . ses do reconhecimento são as seguintes. “ E negro , azul , cla -
Da mesma forma , meus pensamentos adquiridos não são uma ro ” , diz o doente . “ Tem uma mancha branca , é alongado .
aquisição absoluta ; a cada momento eles se alimentam de meu Isso tem a forma de um bast ão . Isso pode ser um instrumen-
pensamento presente , eles me oferecem um sentido , mas eu to qualquer . Isso brilha . Isso tem um reflexo . Isso també m
184 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO 0 CORPO 185

pode ser um vidro colorido . ” Nesse momento , aproximam porque as partes se adaptam necessariamente umas às outras .
a caneta-tinteiro e viram o prendedor para o doente. Ele pros- Quando se divide um quadrado em quatro , se se aproximam
segue : 4 ‘Isso deve ser um lá pis ou um porta- caneta . ( Ele toca convenientemente as partes , é preciso que isso forme um qua-
o bolsinho de seu palet ó . ) Isso se põe aqui , para anotar al - drado . ” 69 Ele sabe portanto o que é um quadrado ou um
-
go ” 68 E visível que em cada fase do reconhecimento a lin -
guagem intervé m fornecendo significações possíveis para aqui-
tri â ngulo ; a relação entre essas duas significações n ão lhe es-
capa , pelo menos depois das explicações do m édico , e ele com -
lo que é efetivamente visto , e que o reconhecimento progride preende que todo quadrado pode ser dividido em tri â ngulos ;
seguindo as conexões da linguagem , de “ alongado ” a “ em mas ele n ão infere da í que todo triâ ngulo ( ret â ngulo , isosce -
forma de bast ão ” , de “ bast ão ” a “ instrumento ” , daqui a les) pode servir para construir um quadrado de superf ície qu á-
íí
instrumento para anotar algo ” e enfim a “ caneta- tinteiro ” . drupla , porque a constru ção desse quadrado exige que os
Os dados sens íveis limitam - se a sugerir essas significações , triâ ngulos dados sejam reunidos de outra maneira e porque
como um fato sugere ao f ísico uma hipótese ; o doente , como os dados sensíveis se tornam a ilustração de um sentido ima-
o cientista , verifica mediatamente e precisa a hipó tese pelo gin á rio . Em suma , o mundo n ão lhe sugere mais nenhuma
confronto dos fatos , ele caminha cegamente para aquela que significação e , reciprocamente , as significações que ele se pro-
os coordena a todos . Esse procedimento p õe em evidê ncia , põe n ão se encarnam mais no mundo dado . Em poucas pala-
por contraste , o m é todo espont âneo da percepção normal , este vras , diremos que para ele o mundo não tem mais fisionomia7®.
tipo de vida das significações que torna a essê ncia concreta E isso que permite compreender as particularidades de seu
do objeto imediatamente leg ível , e que até mesmo só através desenho . Schn . nunca desenha segundo o modelo ( nachzeich -
dela deixa aparecer as suas “ propriedades sens íveis ” . E essa nen ) , a percepção n ão se prolonga diretamente em movimen -
familiaridade , essa comunicação com o objeto que aqui est á to . Com a m ão esquerda ele apalpa o objeto , reconhece cer-
interrompida . No normal , o objeto é “ falante ” e significati - tas particularidades ( um â ngulo , uma reta ) , formula sua des-
vo , o arranjo das cores imediatamente “ quer dizer ” algo , en - coberta e fmalmente traça sem modelo uma figura correspon -
quanto no doente a significação precisa ser trazida de outro dente à f ó rmula verbal 71 . A tradu ção do percebido em mo-
lugar por um verdadeiro ato de interpretação. Reciprocamen - vimento passa pelas significações expressas da linguagem ,
te , no normal as inten ções do sujeito refletem - se imediata - enquanto o sujeito normal penetra no objeto pela percepção ,
mente no campo pcrceptivo , polarizam - no ou o marcam com assimila sua estrutura , e através de seu corpo o objeto regula
seu monograma , ou enfim sem esforço fazem aparecer nele diretamente seus movimentos72 . Esse diálogo do sujeito com
uma onda significativa . No doente , o campo perceptivo per- o objeto , essa retomada pelo sujeito do sentido esparso no ob-
deu essa plasticidade . Se lhe pedem que construa um qua- jeto e pelo objeto das inten ções do sujeito que é a percepção
drado com quatro tri â ngulos id ê nticos a um tri â ngulo dado , fision ó mica , dispõe em torno do sujeito um mundo que lhe
ele responde que isso é impossível e que com quatro triâ ngu - fala de si mesmo e instala no mundo seus pró prios pensamen -
los só se podem construir dois quadrados . Insiste-se fazendo-o tos. Se em Schn . essa fun ção est á comprometida , pode-se pre-
ver que um quadrado tem duas diagonais e sempre pode ser ver , com maior razão , que a percepção dos acontecimentos
dividido em 4 tri â ngulos . O doente responde : “ Sim , mas é humanos e a percepção do outro apresentarã o deficiê ncias ,
186 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 187

pois elas supõem a mesma retomada do exterior no interior


e do interior pelo exterior . E , com efeito , se se narra uma zo e da significação — —
Os distú rbios propriamente intelectuais aqueles do juí-
n ão poderão ser considerados como
hist ó ria ao doente , constata-se que , em vez de apreend ê - la deficiê ncias ú ltimas e precisarão, por sua vez , ser recoloca-
como um conjunto melódico com seus tempos fortes , seus dos no mesmo contexto existencial. Que se considere por
tempos fracos , seu ritmo ou seu curso caracter ístico , ele só exemplo a * ‘cegueira para os n ú meros ” 75. Pôde-se mostrar
a ret é m como uma sé rie de fatos que devem ser notados um que o doente , capaz de contar , somar , subtrair , multiplicar
a um . E por isso que ele só a compreende se colocam pausas e dividir a propósito de objetos colocados diante dele , toda-
na narrativa e utilizam essas pausas para resumir em uma via n ão pode conceber o n ú mero , e que todos esses resulta-
frase o essencial daquilo que lhe acabam de narrar . Quando dos são obtidos por receitas rituais que n ão têm com ele ne-
por sua vez ele conta a hist ó ria , nunca o faz segundo a narra - nhuma relação de sentido. Ele sabe de cor a sé rie dos n ú me-
tiva que lhe fizeram ( nacherzàhlen ): ele n ão acentua nada , só ros e a recita mentalmente ao mesmo tempo em que indica
compreende a progressão da hist ó ria à medida que a conta , com os dedos os objetos a contar , a somar , a subtrair , a mul-
e a narrativa é como que reconstitu ída parte por parte 73. tiplicar ou a dividir : “ Para ele o n ú mero só tem uma perten-
Portanto , no sujeito normal h á uma essê ncia da hist ó ria que ça à sé rie dos n ú meros , n ão tem nenhuma significação en -
se destaca à medida que a narrativa avan ç a , sem nenhuma quanto grandeza fixa , enquanto grupo , enquanto medida de -
an álise expressa , e que em seguida guia a reprodu ção da nar- terminada . ” 76 Entre dois n ú meros , para ele o maior é o que
rativa . A histó ria é para ele um certo acontecimento huma- vem “ depois ” na sé rie dos números. Quando lhe propõem
no reconhecível por seu estilo , e aqui o sujeito “ compreen - que efetue 5 + 4 - 4, ele executa a operação em dois tempos
de ” porque tem o poder de viver , para al é m de sua expe - sem “ observar nada de particular ” . Ele apenas concorda se
riê ncia imediata , os acontecimentos indicados pela narrati- lhe fazem observar que o n ú mero 5 “ permanece ” . Ele n ão
va . De uma maneira geral , para o doente só est á presente compreende que o “ dobro da metade ” de um n ú mero dado
aquilo que é imediatamente dado. Como ele n ão tem a ex- é esse mesmo n ú mero77. Diremos então que ele perdeu o n ú -
periê ncia imediata do pensamento do outro , este nunca lhe mero enquanto categoria ou enquanto esquema? Mas quando
estar á presente 74 . Para ele , as falas do outro são signos que percorre com os olhos os objetos a contar “ marcando ” cada
ele precisa decifrar um a um , em lugar de ser , como no nor- um deles em seus dedos , mesmo se freqúentemente lhe acon-
mal , o invólucro transparente de um sentido no qual ele po- tece confundir os objetos já contados com aqueles que ainda
deria viver . Para o doente , as falas , assim como os aconteci - n ão o foram , mesmo se a síntese é confusa, evidentemente
mentos , n ão são o motivo de uma retomada ou de uma pro - ele tem a noção de uma operação sinté tica que é justamente
jeção , mas apenas a ocasi ão de uma interpretação metódica. a numeração. E , reciprocamente , no sujeito normal a sé rie
Assim como o objeto , o outro n ão lhe “ diz ” nada , e os fan - dos n ú meros como melodia cinética quase desprovida de sen -
tasmas que se apresentam a ele são desprovidos , sem d ú vi - tido autenticamente numé rico freq úentemente substitui-se ao
da , n ão dessa significação intelectual que se obté m pela an á- conceito do n ú mero. O n ú mero nunca é um conceito puro
lise , mas dessa significação primordial que se obt é m pela coe- cuja ausê ncia permitiria definir o estado mental de Schn . , é
xist ê ncia . uma estrutura de consciê ncia que comporta o mais e o me-
188 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 189

nos. O verdadeiro ato de contar exige do sujeito que suas ope-


rações , à medida que se desenrolam e deixam de ocupar o
por si mesma significativa, que exigiria respostas improvisa -
das; ele só pode falar segundo um plano previamente decidi-
centro de sua consciê ncia , n ão deixem de estar aí para ele
do: “ Ele n ão pode remeter-se à inspiração do momento para
e constituam , para as operações ulteriores , um solo sobre o
encontrar os pensamentos necessá rios ante uma situação com-
qual elas se estabelecem . A consciê ncia conserva atrás de si plexa na conversação , e isso quer se trate de pontos de vista
as sínteses efetuadas , elas ainda est ão dispon íveis , poderiam
novos ou de pontos de vista antigos. ” 82 Em toda a sua con -
ser reativadas , e é a este t ítulo que são retomadas e ultrapas-
duta há algo de meticuloso e sé rio , que prové m do fato de
sadas no ato total de numeração. Aquilo que chamam de n ú - ele ser incapaz de representar. Representar é situar-se por
mero puro ou de n ú mero aut ê ntico é apenas uma promoção um momento em uma situação imagin á ria , é divertir-se em
ou uma extensão por recorrê ncia do movimento constitutivo
mudar de “ meio ” . O doente , ao contrário , n ão pode entrar
de toda percepção. Em Schn . a concepção do n ú mero só est á
em uma situação fict ícia sem convertê-la em situação real :
afetada enquanto ela supõe eminentemente o poder de des- ele n ão distingue uma adivinhação de um problema83. “ Pa-
dobrar um passado para caminhar para um futuro. É essa ra ele a situação a cada momento possível é t ão estreita que
base existencial da inteligência que est á afetada , muito mais dois setores do meio circundante , se n ão tê m para ele algo
do que a pró pria inteligência, pois, como observaram 78 , a in-
teligência geral de Schn . est á intacta: embora lentas , suas res-
de comum , n ão podem simultaneamente tornar-se situa -
ção. ” 84 Se se conversa com ele , ele n ão ouve o ru ído de uma
postas nunca são insignificantes , s ão respostas de um homem outra conversação no cô modo vizinho ; se trazem um prato
maduro , ponderado , que se interessa pelas experiê ncias do
para a mesa , ele nunca se pergunta de onde o prato vem . Ele
médico. Abaixo da inteligê ncia enquanto função anó nima ou
declara que só se vê na direção para onde se olha e apenas
enquanto operação cat égorial , é preciso reconhecer um n ú -
os objetos que se fixam85. O futuro e o passado são para ele
cleo pessoal que é o ser do doente , sua potê ncia de existir. apenas prolongamentos “ encolhidos ” do presente. - Ele per-
E ali que reside a doen ça . Schn . ainda gostaria de ter opi-
deu “ nosso poder de olhar segundo o vetor temporal ” 86 . Ele
niões políticas ou religiosas , mas sabe que é in ú til tentar .
n ão pode sobrevoar seu passado e reencontrá-lo sem hesita-
4
‘Agora ele precisa contentar - se com crenças grosseiras, sem ção indo do todo às partes: ele o reconstitui partindo de um
poder exprimi-las. ” 79 Ele nunca canta ou assobia por si fragmento que conservou seu sentido e que lhe serve de ‘‘pon -
mesmo80 . Veremos adiante que ele nunca toma iniciativa se -
to de apoio” 87. Como reclama do clima , perguntam -lhe se
xual . Nunca sai para passear , mas sempre para dar uma ca-
se sente melhor no inverno. Ele responde: “ Não posso dizê-
minhada , e n ão reconhece no caminho a casa do professor lo agora. Não posso dizer nada por hora. ” 88 Assim , todos os
Goldstein “ porque não saiu com a intenção de ir lá ” 81. As- dist ú rbios de Schn . deixam-se reconduzir à unidade , mas es-
sim como ele precisa , por movimentos preparató rios , dar-se ta n ão é a unidade abstrata da “ fun ção de representação ” :
“ pontos de apoio ” em seu pró prio corpo antes de executar -
ele est á “ atado” ao atual , ele “ carece de liberdade ” 89 , des
movimentos quando estes não est ão antecipadamente traça- sa liberdade concreta que consiste no poder geral de pôr- se
dos em uma situação costumeira , da mesma maneira uma
em situação. Abaixo da inteligê ncia e abaixo da percepção,
conversação com outro n ão configura para ele uma situação descobrimos uma fun ção mais fundamental , “ um vetor mó-
190 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O O CORPO 191

vel em todos os sentidos , como um projetor , e pelo qual po- vez por um certo “ lado ” , que em cada caso certos sintomas
demos orientar-nos para n ão importa o quê , em nós e fora sejam predominantes no quadro clínico da doença , e enfim
de nós , e ter um comportamento a respeito desse objeto ” 90 . que a consciê ncia seja vulnerável e que possa receber a doen -
Mais ainda , a comparação com o projetor n ão é boa , já que ç a em si mesma. Acometendo a “ esfera visual ” , a doen ça
ela subentende objetos dados sobre os quais ele passeia sua nao se limita a destruir certos conte ú dos de consciê ncia , as
luz, enquanto a função central da qual falamos , antes de fazer- “ representações visuais ” ou a visão no sentido próprio ; ela
nos ver ou conhecer objetos , os faz existir mais secretamente atinge uma visão no sentido figurado , da qual a primeira é
para nós. Ent ão digamos antes , tomando de empréstimo este —
o modelo ou o emblema o poder de “ dominar’ ’ (überschauen)
termo a outros trabalhos91 , que a vida da consciê ncia — vi- as multiplicidades simult â neas92 , uma certa maneira de pô r
da cognoscente , vida do desejo ou vida perceptiva —
tentada por um “ arco intencional ” que projeta em torno de
é sus- o objeto ou de ter consciê ncia . Mas como esse tipo de cons-
ciê ncia é apenas a sublimação da visão sensível , como a cada
nós nosso passado , nosso futuro , nosso meio humano , nossa momento ele se esquematiza nas dimensões do campo visual ,
situação física , nossa situação ideológica , nossa situação mo- sobrecarregando-as , é certo , com um sentido novo, compre-
ral , ou antes que faz com que estejamos situados sob todos ende-se que essa fun ção geral tenha suas raízes psicológicas .
esses aspectos. E este arco intencional que faz a unidade en - A consciê ncia desenvolve livremente os dados visuais para
tre os sentidos , a unidade entre os sentidos e a inteligência , alé m de seu sentido próprio , ela se serve deles para exprimir
a unidade entre a sensibilidade e a motricidade . E ele que seus atos de espontaneidade , como o mostra suficientemente
se “ distende ” na doença. a evolução sem â ntica que atribui um sentido cada vez mais
O estudo de um caso patológico permitiu - nos portanto rico aos termos intuição, evid ê ncia ou luz natural. Mas, re -
perceber um novo modo de an álise
— — a an álise existencial
que ultrapassa as alternativas clássicas entre o empirismo
ciprocamente , n ão h á um só desses termos , no sentido final
que a hist ó ria lhes atribuiu , que se compreenda sem referên-
e o intelectualismo , entre a explicação e a reflexão. Se a cons- cia às estruturas da percepção visual . Dessa forma n ão se po-
ciê ncia fosse uma soma de fatos psíquicos , todo dist ú rbio de - de dizer que o homem vê porque é Espírito , nem tampouco
veria ser eletivo . Se fosse uma “ fun ção de representação ” , que é Espírito porque vê: ver como um homem vê e ser Esp í-
uma pura potência de significar , ela poderia ser ou nao ser rito são sinónimos. Na medida em que a consciência só é cons-
(e com ela todas as coisas), mas n ão deixar de ser depois de ciê ncia de algo arrastando atrás de si seu rasto , e em que ,
ter sido, ou tornar- se doente , quer dizer , alterar- se . Se enfim para pensar um objeto , é preciso apoiar-se em um mundo
ela é uma atividade de projeção , que deposita os objetos diante de pensamento” precedentemente constru ído , h á sempre uma
de si como traços de seus pró prios atos , mas que se apoia ne- despersonalização no interior da consciê ncia; por aqui est á
les para passar a outros atos de espontaneidade , compreende- dado o princípio de uma intervenção alheia: a consciência po-
se ao mesmo tempo que toda deficiê ncia dos “ conteú dos ” re - de ficar doente , o mundo de seus pensamentos pode desmo-
percuta no conjunto da experiê ncia e comece sua desintegra-
ção, que toda flexão patológica diga respeito à consciê ncia in -
ronar em fragmentos — ou antes , como os “ conte ú dos ” dis-
sociados pela doença n ão figuravam na consciê ncia normal
teira — e que todavia a doen ça atinja a consciência a cada a título de partes, e só serviam de apoios a significações que
192 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÂO 0 CORPO 193

> 94
os ultrapassam , vemos a consciê ncia tentar manter suas su - artificialmente separados de um todo ú nico . ’ No gesto da
perestruturas quando seu fundamento desmoronou ; ela imi- mao que se levanta em direção a um objeto est á inclu ída uma
ta suas operações costumeiras , mas sem poder obter sua rea- referê ncia ao objeto n ão enquanto objeto representado , mas
lização intuitiva e sem poder mascarar o déficit particular que enquanto esta coisa bem determinada em direção à qual nos
as priva de seu sentido pleno. Se a doen ça psíquica, por seu projetamos, perto da qual estamos por antecipação , que nós
lado, estiver ligada a um acidente corporal , em princípio is- frequentamos95. A consciê ncia é o ser para a coisa por inter-
so será compreendido da mesma maneira ; a consci•ê ncia m édio do corpo . Um movimento é aprendido quando o cor-
A

projeta-se em um mundo físico e tem um corpo , assim como po o compreendeu , quer dizer , quando ele o incorporou ao
ela se projeta em um mundo cultural e tem hábitos: porque seu i mundo ” , e mover seu corpo é visar as coisas através
í

ela só pode ser consciê ncia jogando com significações dadas dele , é deixá-lo corresponder à sua solicitação , que se exerce
no passado absoluto da natureza ou em seu passado pessoal , sobre ele sem nenhuma representação . Portanto , a motrici-
e porque toda forma vivida tende para uma certa generali- dade n ão é como uma serva da consciê ncia , que transporta
dade , seja a de nossos h á bitos , seja a de nossas “ funções cor- o corpo ao ponto do espaço que nós previamente nos repre -
porais ” . sentamos . Para que possamos mover nosso corpo em direção
Enfim , esses esclarecimentos nos permitem compreen- a um objeto , primeiramente é preciso que o objeto exista pa-
der sem equ ívoco a motricidade enquanto intencionalidade ra ele , é preciso então que nosso corpo n ão pertença à região
original . Originariamente a consciê ncia é n ão um “ eu penso do “ em si ” . Os objetos n ão existem mais para o braço do
.
que > i , mas um < < eu posso > > 93 Tanto quanto o distú rbio vi- apráxico , e é isso que faz com que ele seja imóvel. O caso
sual , o dist ú rbio motor de Schn . també m n ão pode ser redu - da apraxia pura , em que a perceção do espaço est á intacta ,
zido a um desfalecimento da função geral de representação. em que até mesmo a “ noção intelectual do gesto a fazer nao
A visão e o movimento são maneiras específicas de nos rela- parece embaralhada , e em que entretanto o doente n ão sabe
cionarmos a objetos , e , se através de todas essas experiê ncias copiar um triângulo96 , o caso de apraxia construtiva , em que
exprime-se uma função ú nica , trata-se do movimento de exis- o paciente n ão manifesta nenhum dist ú rbio gn ósico salvo no
tência , que n ão suprime a diversidade radical dos conte ú dos que concerne à localização dos estímulos em seu corpo, e to-
davia não é capaz de copiar uma cruz , um v ou um o , mos-
97
porque ele os liga , n ão os colocando todos sob a dominação
de um “ eu penso ” , mas orientando-os para a unidade inter- tram muito bem que o corpo tem seu mundo e que os objetos
sensorial de um “ mundo” . O movimento nao é o pensamento ou o espaço podem estar presentes ao nosso conhecimento sem
de um movimento, e o espaço corporal não é um espaço pen - estar presentes ao nosso corpo.
sado ou representado. “ Cada movimento determinado ocor- Portanto, não se deve dizer que nosso corpo está no es-
re em um meio , sobre um fundo que é determinado pelo pró- paço nem tampouco que ele está no tempo . Ele habita o espa-
prio movimento ( ...). Executamos nossos movimentos em um ço e o tempo . Se minha m ão executa um deslocamento com -
espaço que n ão é ‘vazio ’ e sem relação com eles , mas que , plicado no ar , para conhecer sua posição final n ão preciso adi-
ao contrário, est á em uma relação muito determinada com cionar conjuntamente os movimentos de mesma direção e sub-
eles: movimento e fundo são , na verdade , apenas momentos trair os movimentos de direção contr ária. “ Toda mudança
194 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 195

identificável chega à consciê ncia já carregada com suas rela- meu corpo ; não estou no espaço e no tempo , n ão penso o es-
ções àquilo que a precedeu , como em um taxímetro a dist ân- paço e o tempo; eu sou no espaço e no tempo, meu corpo
cia nos é apresentada já transformada em shillings e em pen - aplica-se a eles e os abarca . A amplitude dessa apreensão mede
ce. ” 98 A cada instante, as posturas e os movimenos preceden- a amplitude de minha existê ncia; mas, de qualquer maneira ,
tes fornecem um padr ão de medida sempre pronto. Não se ela nunca pode ser total: o espaço e o tempo que habito de
trata da “ recordação ” visual ou motora da posição da mao todos os lados tê m horizontes indeterminados que encerram
no ponto de partida: lesões cerebrais podem deixar a recor- outros pontos de vista. A síntese do tempo assim como a do
dação visual intacta ao mesmo tempo em que suprimem a espaço são sempre para se recomeçar. A experiê ncia motora
consciê ncia do movimento e , quanto à “ recordação motora ” , de nosso corpo n ão é um caso particular de conhecimento;
é claro que ela não poderia determinar a presente posição de ela nos fornece uma maneira de ter acesso ao mundo e ao
minha mão se a própria percepção da qual ela nasceu nao objeto , uma “ praktognosia ” 99 que deve ser reconhecida co-
inclu ísse uma consciê ncia absoluta do aqui ” , sem a qual se- mo original e talvez como originária . Meu corpo tem seu
ríamos reenviados de recordação a recordação e nunca ter ía- mundo ou compreende seu mundo sem precisar passar por
mos uma percepção atual. Assim como está necessariamente “ representações ” , sem subordinar-se a uma “ função simbó-
“ aqui ” , o corpo existe necessariamente “ agora ” ; ele nunca lica’’ ou “ objetivante ” . Certos doentes podem imitar os mo-
pode tornar-se “ passado ” , e se no estado de saude n ão po- vimentos do médico e levar sua mão direita à sua orelha di-
demos conservar a recordação viva da doença , ou na idade reita , sua m ão esquerda ao seu nariz , se eles se colocam ao
adulta a recordação de nosso corpo quando é ramos crianças , lado do médico e observam seus movimentos em um espe-
essas “ lacunas da mem ória apenas exprimem a estrutura lho , n ão se estão diante dele. Head explica o fracasso do doen-
temporal de nosso corpo. A cada instante de um movimento , te pela insuficiência de sua “ formulação” : a imitação do gesto
o instante precedente não é ignorado , mas est á como que en- seria mediada por uma tradu ção verbal . Na realidade , a for-
caixado no presente , e a percepção presente consiste em su - mulação pode ser exata sem que a imitação seja bem-sucedida ,
ma em reaprender, apoiando- se na posição atual , a sé rie das e a imitação pode ser bem -sucedida sem nenhuma formula-
posições anteriores que se envolvem umas às outras. Mas a ção. Agora os autores100 fazem intervir , senão o simbolismo
própria posição iminente est á envolvida no presente , e atra- verbal , pelo menos uma função simbólica geral , uma capaci-
vés dela todas as que advirão até o termo do movimento . Ca- dade de “ transpor ” da qual a imitação seria, assim como a
da momento do movimento abarca toda a sua extensão , e em
particular o primeiro momento , a iniciação ciné tica , inaugu -
percepção ou o pensamento objetivo, apenas um caso parti -
cular. Mas é visível que essa fun ção geral n ão explica a ação
ra a ligação entre um aqui e um ali , entre um agora e um adaptada . Pois os doentes são capazes não apenas de formu -
futuro, que os outros momentos se limitarão a desenvolver. -
lar o movimento a realizar , mas ainda de represent á lo para
Enquanto tenho um corpo e através dele ajo no mundo, para si mesmos . Eles sabem muito bem o que tê m de fazer e toda-
mim o espaço e o tempo n ão são uma soma de pontos justa- via , em vez de levar a mão direita à orelha direita , a mão
postos , nem tampouco uma infinidade de relações das quais esquerda ao nariz, eles tocam uma orelha com cada mão ou
minha consciê ncia operaria a síntese e em que ela implicaria ainda seu nariz e um de seus olhos , ou uma de suas orelhas
196 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO 0 CORPO 197

e um de seus olhos101 . O que se tornou impossível foi a apli- suas localizações absolutas, um “ espaço objetivo ” ou um “ es-
cação e o ajuste da definição objetiva do movimento aos seus paço de representação ” fundado em um ato de pensamento.
pró prios corpos . Em outras palavras , a m ão direita e a m ão Ele j á est á desenhado na estrutura de meu corpo , ele é seu
esquerda , o olho e a orçlha ainda lhes são dados como locali- correlativo inseparável. “ J á a motricidade , considerada no
zações absolutas, mas rt ão est ão mais inseridos em um siste- estado puro, possui o poder elementar de dar um sentido { Sinn -
ma de correspondê ncia que os ligue às partes hom ólogas do gebung ) . ” 103 Mesmo se , a seguir , o pensamento e a percep-
corpo do m édico e que os torne utilizáveis para a imitação , ção do espaço se liberam da motricidade e do ser no espaço ,
mesmo quando o médico est á diante do doente . Para poder para que possamos representar- nos o espaço é preciso primei-
imitar os gestos de algu é m que est á diante de mim , n ão é ramente que tenhamos sido introduzidos nele por nosso cor -
necessá rio que eu saiba expressamente que “ a m ão que apa- po , e que ele nos tenha dado o primeiro modelo das transpo-
rece à direita de meu campo visual para meu parceiro é m ão sições , das equivalê ncias , das identificações que fazem do es-
esquerda ” . E justamente o doente que recorre a essas expli- paço um sistema objetivo e permitem à nossa experiência ser
cações. Na imitação normal , a m ão esquerda do sujeito iden- uma experiê ncia de objetos, abrir-se a um “ em si ” . “ Amo-
tifica-se imediatamente àquela de seu parceiro , a ação do su - tricidade é a esfera prim á ria em que em primeiro lugar se en-
jeito adere imediatamente ao seu modelo , o sujeito se proje- gendra o sentido de todas as significações { der Sinn aller Signi-
fikationen ) no dom ínio do espaço representado . ”
104
-
ta ou se irrealiza nele , identifica se com ele , e a mudan ça de
coordenadas est á eminentemente contida nesta operação exis- I A aquisição do h á bito enquanto remanejamento e reno-
tencial . Tal fato ocorre porque o sujeito normal possui seu vação do esquema corporal oferece grandes dificuldades pa-
corpo n ão apenas como sistema de posições atuais, mas tam- ra as filosofias cl ássicas, sempre levadas a conceber a s íntese
bé m , por isso mesmo , como sistema aberto de uma infinida- como uma síntese intelectual . E bem verdade que n ão é uma
de de posições equivalentes em outras orientações. O que cha- associação exterior que reú ne , no há bito , os movimentos ele -
mentares , as reações e os “ est ímulos ” . Toda teoria me-
105
mamos de esquema corporal é justamente esse sistema de
equivalências, esse invariante imediatamente dado pelo qual canicista se choca com o fato de que a aprendizagem é siste-
as diferentes tarefas motoras são instantaneamente transpo- m ática: o sujeito não solda movimentos individuais a estímulos
n íveis . Isso significa que ele n ão é apenas uma experiê ncia individuais, mas adquire o poder de responder por um certo
de meu corpo, mas ainda uma experiência de meu corpo no tipo de soluções a uma certa forma de situações , as situações
mundo , e que é ele que dá um sentido motor às ordens ver- podendo diferir amplamente de um caso ao outro, os movi-
bais. Portanto, a fun ção que est á destru ída nos dist ú rbios mentos de resposta podendo ser confiados ora a um órgão efe-
apráxicos é sim uma fun ção motora . “ Não é a função sim- tuador , ora a outro , situações e respostas assemelhando-se nos
bólica ou significativa em geral que é atingida em casos des- diferentes casos muito menos pela identidade parcial dos ele-
se gênero: é uma fun ção muito mais origin ária e de caráter mentos do que pela comunidade de seu sentido. Seria preci -
motor , a saber, a capacidade de diferenciação motora do es- so ent ão colocar na origem do hábito um ato de entendimen -
quema corporal dinâmico, ” 102 O espaço em que se move a to, que organizaria seus elementos para em seguida se reti-
imitação normal n ão é , por oposição ao espaço concreto , com rar ? 106 Por exemplo , adquirir o h ábito de uma dança n ão é
198 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 199

encontrar por an álise a fórmula do movimento e recompô - -


ço , o raio de ação da bengala. Se quero habituar me a uma
lo , guiando-se por esse traçado ideal , com o auxílio dos mo - bengala , eu tento, toco alguns objetos e , depois de algum tem-
vimentos já adquiridos, aqueles da caminhada e da corrida ? po , eu a “ manejo ” , vejo quais objetos est ão “ ao alcance’ *
Mas, para que a fórmula da nova dança integre a si certos ou fora do alcance de minha bengala. Não se trata aqui de
elementos da motricidade geral , primeiramente é preciso que uma estimativa rá pida e de uma comparação entre o com -
ela tenha recebido como que uma consagração motora . E o primento objetivo da bengala e a dist â ncia objetiva do alvo
corpo, como freqüentemente o disseram , que “ apanha ” (ka - a alcan çar. Os lugares do espaço não se definem como posi-
piert ) e que “ compreende ” o movimento. A aquisição do há- ções objetivas em relação à posição objetiva de nosso corpo,
bito é sim a apreensão de uma significação, mas é a apreen- mas eles inscrevem em torno de nós o alcance variável de nos-
são motora de uma significação motora. O que se quer dizer sos objetivos ou de nossos gestos . Habituar-se a um chapéu ,
justamente por isso ? Uma mulher manté m sem cálculo um -
a um autom óvel ou a uma bengala é instalar se neles ou , in -
intervalo de segurança entre a pluma de seu chapé u e os ob- -
versamente , fazê los participar do caráter volumoso de nos -
-
jetos que poderiam estragá la, ela sente onde está a pluma so corpo próprio. O hábito exprime o poder que temos de
assim como nós sentimos onde está nossa m ão107 . Se tenho dilatar nosso ser no mundo ou de mudar de existê ncia ane -
o hábito de dirigir um carro, eu o coloco em uma rua e vejo xando a nós novos instrumentos109. Pode-se saber datilogra-
que “ posso passar ” sem comparar a largura da rua com a far sem saber indicar onde estão, no teclado, as letras que
dos pá ra-choques , assim como transponho uma porta sem compõem as palavras. Portanto, saber datilografar não é co-
comparar a largura da porta com a de meu corpo108. O cha- nhecer a localização de cada letra no teclado , nem mesmo ter
péu e o automóvel deixaram de ser objetos cuja grandeza e adquirido, para cada uma , um reflexo condicionado que ela
cujo volume determinar-se-iam por comparação com os ou - desencadearia quando se apresenta ao nosso olhar . Se o há-
tros objetos. Eles se tomaram potê ricias volumosas , a exigê n- bito n ão é nem um conhecimento nem um automatismo, o
cia de um certo espaço livre . Correlativamente , a porta do que é ent ão ? Trata -se de um saber que est á nas mãos , que
metro, o caminho tornaram -se potê ncias constrangedoras e só se entrega ao esforço corporal e que n ão se pode traduzir
aparecem de um só golpe como praticáveis ou impraticáveis por uma designação objetiva. O sujeito sabe onde est ão as
para meu corpo com seus anexos. A bengala do cego deixou letras no teclado, assim como sabemos onde está um de nos-
de ser para ele um objeto, ela não mais é percebida por si sos membros, por um saber de familiaridade que n ão nos ofe -
-
mesma , sua extremidade transformou se em zona sensível , rece uma posição no espaço objetivo. O deslocamento dos seus
ela aumenta a amplitude e o raio de ação do tocar , tornou -se dedos n ão é dado ao datilógrafo como um trajeto espacial que
o análogo de um olhar. Na exploração dos objetos , o compri- se possa descrever , mas apenas como uma certa modulação
mento da bengala não intervé m expressamente e como meio- da motricidade , distinta de qualquer outra por sua fisiono -
termo: o cego o conhece pela posição dos objetos, antes que mia. Freq ü entemente se coloca a questão como se a percep-
a posição dos objetos por ele . A posição dos objetos está ime- ção de uma letra escrita no papel despertasse a representação
diatamente dada pela amplitude do gesto que a alcança e no da mesma letra que , por sua vez , despertaria a representa-
qual está compreendido , além da potê ncia de extensão do bra- -
ção do movimento necessário para alcançá la no teclado. Mas
200 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O O CORPO 201

esta linguagem é mitológica. Quando percorro com os olhos mas essa intenção n ão põe as teclas do teclado como localiza -
o texto que me é proposto, não existem percepções que des - ções objetivas. É verdade , literalmente , que o sujeito que
pertam representações, mas conjuntos compõem-se atualmen- aprende a datilografar integra o espaço do teclado ao seu es-
te , dotados de uma fisionomia típica ou familiar. Quando sen- paço corporal .
to diante de minha m áquina , sob minhas m ãos estende-se um O exemplo dos instrumentistas mostra melhor ainda co-
espaço motor onde vou bater aquilo que li. A palavra lida mo o h á bito n ão reside nem no pensamento nem no corpo
é uma modulação do espaço visível, a execução motora é uma objetivo, mas no corpo como mediador de um mundo. Sabe-
modulação do espaço manual , e toda a quest ão é saber como se110 que um organista experiente é capaz de servir-se de um
uma certa fisionomia dos conjuntos “ visuais” pode pedir um órgão que n ão conhece e cujos teclados são mais ou menos
certo estilo de respostas motoras , como cada estrutura “ vi - numerosos , as teclas dispostas diferentemente do que aque-
sual ” finalmente se dá sua essê ncia motora , sem que se pre- las de seu instrumento costumeiro. Basta-lhe uma hora de tra-
cise soletrar a palavra e soletrar o movimento para traduzir balho para estar em condição de executar seu programa. Um
a palavra em movimento. Mas esse poder do h á bito não se tempo de aprendizado tão curto não permite supor que refle -
distingue do poder que temos em geral sobre nosso corpo: xos condicionados novos substituam aqui disposições já esta -
se me ordenam tocar minha orelha ou meu joelho , levo mi- belecidas , salvo se uns e outros formem um sistema e se a
nha mão à minha orelha ou ao meu joelho pelo caminho mais mudan ça é globed , o que nos faz sair da teoria mecanicista ,
-
curto , sem precisar representar me a posição de minha mão já que agora as reações são mediadas por uma apreensão glo-
no ponto de partida, a de minha orelha, nem o trajeto de uma bal do instrumento. Diremos ent ão que o organista analisa
-
à outra. Dizíamos acima que , na aquisição do hábito , é o cor o órgão, quer dizer , que ele se d á e conserva uma represen-
po que “ compreende ” . Essa fórmula parecerá absurda se tação das teclas , dos pedais , dos teclados e de sua relação no
compreender for subsumir um dado sensível a uma idéia e espaço? Mas, durante o curto ensaio que precede o concerto,
se o corpo for um objeto. Mas justamente o fenômeno do há- ele n ão se comporta como o fazemos quando queremos ar-
bito convida-nos a remanejar nossa noção do “ compreender ” mar um plano. Ele senta- se no banco , aciona os pedais , dis-
e nossa noção do corpo. Compreender é experimentar o acor - para as teclas, avalia o instrumento com seu corpo , incorpo-
- -
tenção e a efetuação

do entre aquilo que visamos e aquilo que é dado, entre a in
e o corpo é nosso ancoradouro em
um mundo. Quando levo a mão ao meu joelho , a cada mo-
mento do movimento experimento a realização de uma in -
ra a si as direções e dimensões , instala se no órgão como nos
instalamos em uma casa. O que ele aprende para cada tecla
e para cada pedal n ão são posições no espaço objetivo , e n ão
e a sua “ memó ria ” que ele os confia. Durante o ensaio, as -
tenção que n ão visava meu joelho enquanto idé ia ou mesmo -
sim como durante a execução , as teclas , os pedais e os tecla
enquanto objeto , mas enquanto parte presente e real de meu dos só lhe são dados como as potê ncias de tal valor emocio-
corpo vivo, quer dizer , finalmente , enquanto ponto de pas- nal ou musical , e suas posições só lhe são dadas como os lu-
sagem de meu movimento perpétuo em direção a um mun- gares onde esse valor aparece no mundo. Entre a essência mu -
do. Quando a datilógrafa executa os movimentos necessários sical da peça , tal como ela está indicada na partitura, e a mú -
no teclado, esses movimentos são dirigidos por uma intenção , sica que efetivamente ressoa em torno do órgão, estabelece-se
202 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O O CORPO 203

uma relação t ão direta que o corpo do organista e o instru - sa natureza não é um velho costume , já que o costume pres-
mento são apenas o lugar de passagem dessa relação. Dora- supõe a forma de passividade da natureza. O corpo é nosso
vante a m ú sica existe por si e é por ela que todo o resto meio geral de ter um mundo. Ora ele se limita aos gestos ne-
existe111 . Não há aqui lugar para uma “ recordação’’ da lo- cessá rios à conservação da vida e , correlativamente , põe em
calização das teclas e n ão é no espaço objetivo que o organis- torno de n ós um mundo biológico; ora , brincando com seus
ta toca. Na realidade , seus gestos, durante o ensaio , são ges- primeiros gestos e passando de seu sentido próprio a um sen-
tos de consagração: eles estendem vetores afetivos, descobrem tido figurado, ele manifesta através deles um novo n ú cleo de
fontes emocionais, criam um espaço expressivo , assim como significação: é o caso dos hábitos motores como a dança . Ora
os gestos do augú rio delimitam o templum . enfim a significação visada não pode ser alcançada pelos meios
Aqui , todo o problema do h á bito é o de saber como a naturais do corpo; é preciso ent ão que ele se construa um ins-
-
significação musical do gesto pode aniquilar se em uma cer- trumento , e ele projeta em torno de si um mundo cultural.
ta localidade , a ponto de que, estando inteiramente ao dis- Em todos os planos ele exerce a mesma função, que é a de
por da m úsica , o organista alcance justamente as teclas e os emprestar aos movimentos instant âneos da espontaneidade
pedais que vão realizá-la. Ora , o corpo é eminentemente um “ um pouco de ação renová vel e de existê ncia independen -
espaço expressivo. Eu quero pegar um objeto e, em um pon- te ” 112. O hábito é apenas um modo desse poder fundamen -
to do espaço no qual eu n ão pensava , essa potência de preen- tal . Diz- se que o corpo compreendeu e o hábito est á adquiri-
são que é minha m ão já se levanta em direção ao objeto. Mo- do quando ele se deixou penetrar por uma significação nova,
vo minhas pernas n ão enquanto elas est ão no espaço a oiten - quando assimilou a si um novo n ú cleo significativo.
ta cent ímetros de minha cabeça , mas enquanto sua potê ncia O que descobrimos pelo estudo da motricidade é, em su -
ambulatória prolonga para baixo a minha intenção motora. ma , um novo sentido da palavra “ sentido” . A força da psi-
As principais regiões de meu corpo são consagradas a ações , cologia intelectualista , como a da filosofia idealista , prové m
elas participam de seu valor , e trata- se do mesmo problema do fato de que elas n ão tinham dificuldade em mostrar que
saber por que o senso comum põe o lugar do pensamento na a percepção e o pensamento tê m um sentido intrínseco e não
cabeça e como o organista distribui as significações musicais podem ser explicados pela associação exterior de conteúdos
no espaço do órgão. Mas nosso corpo não é apenas um espa- fortuitamente reunidos. O Cogito era a tomada de consciên-
.
ço expressivo entre todos os outros Este é apenas o corpo cia dessa interioridade. Mas através disso mesmo toda signi -
constitu ído. Ele é a origem de todos os outros, o próprio mo - ficação era concebida como um ato de pensamento, como a
vimento de expressão, aquilo que projeta as significações no operação de um Eu puro, e , se o intelectualismo prevalecia
exterior dando-lhes um lugar , aquilo que faz com que elas facilmente ante o empirismo, ele mesmo era incapaz de dar
comecem a existir como coisas , sob nossas mãos , sob nossos conta da variedade de nossa experiência , daquilo que nela
olhos . Se nosso corpo não nos impõe , como o faz ao animal , -
é n ão sentido, da contingência dos conteúdos. A experiência
instintos definidos desde o nascimento, pelo menos é ele que do corpo nos faz reconhecer uma imposição do sentido que
d á à nossa vida a forma da generalidade e que prolonga nos- não é a de uma consciê ncia constituinte universal , um senti -
sos atos pessoais em disposições est áveis . Nesse sentido , nos- do que é aderente a certos conteúdos. Meu corpo é esse n ú-
204 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

cleo significativo que se comporta como uma fun ção geral e


que todavia existe e é acessível à doença . Nele aprendemos
a conhecer esse nó entre a essê ncia e a exist ê ncia que em ge -
ral reencontraremos na percepção , e que precisaremos ent ão
descrever mais completamente . CAPÍTULO IV

A SÍNTESE DO CORPO PRÓPRIO

A an álise da espacialidade corporal conduziu - nos a re-


sultados que podem ser generalizados. Constatamos pela pri -
meira vez , a propósito do corpo próprio, aquilo que é verda-
deiro de todas as coisas percebidas: que a percepção do espa-
ço e a percepção da coisa , a espacialidade da coisa e seu ser
de coisa n ão constituem dois problemas distintos. A tradição
cartesiana e kantiana já nos ensinava isso; ela faz das deter-
minações espaciais a essê ncia do objeto , ela mostra na exis-
-
tê ncia partes extra partes, na dispersão espacial o ú nico sen
-
tido possível da existê ncia em si. Mas ela esclarece a percep
ção do objeto pek percepção do espaço, quando a experiê n -
cia do corpo próprio nos ensina a enraizar o espaço na exis -
tência. O intelectualismo vê muito bem que o “ motivo da
coisa ” e o “ motivo do espaço ” 1 se entrelaçam , mas ele re-
duz o primeiro ao segundo. A experiência revela sob o espa-
ço objetivo, no qual finalmente o corpo toma lugar , uma es-
pacialidade primordial da qual a primeira é apenas o invólu-
cro e que se confunde com o próprio ser do corpo. Ser corpo ,
nós o vimos , é estar atado a um certo mundo , e nosso corpo
não est á primeiramente no espaço: ele é no espaço. Os ano-
sognósicos que falam de seu braço como de uma “ serpente ”
206 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 207
longa e fria2 n ão ignoram , propriamente falando , seus con- partes de meu corpo que ela me esconde. Ao mesmo tempo
tornos objetivos e , mesmo quando o doente procura seu bra- em que contraio o pé em meu sapato , eu o vejo. Esse poder
ço sem encontrá-lo ou o amarra para n ão perdê -lo3 , ele sabe me pertence até mesmo para as partes de meu corpo que nun-
onde est á seu braço , já que é ali que o procura e que o amar - ca vi. E assim que doentes tê m a alucinação de seu próprio
ra . Se todavia os doentes sentem o espaço de seu braço como rosto visto de dentro4. Pôde-se mostrar que n ão reconhecemos
estranho , se em geral eu posso sentir o espaço de meu corpo
enorme ou min ú sculo, a despeito do testemunho de meus sen -
nossa própria m ão em fotografia , que muitas pessoas até mes -
mo hesitam em reconhecer entre outras a sua própria letra ,
tidos , é porque existe uma presen ç a e uma extensão afetivas e que , ao contrá rio , cada um reconhece sua silhueta ou seu
das quais a espacialidade objetiva n ão é condição suficiente , andar filmados. Assim , n ão reconhecemos pela visão aquilo
como o mostra a anosognosia , e nem mesmo condição neces- que todavia vimos freqü entemente e , ao contrá rio , reconhe -
sá ria , como o mostra o braço fantasma . A espacialidade do cemos de um só golpe a representação visual daquilo que , em
corpo é o desdobramento de seu ser de corpo, a maneira pela nosso corpo, nos é invisível5. Na heautoscopia, o duplo que
qual ele se realiza como corpo . Ao procurar analisá-la , ape- o paciente vê diante de si não é sempre reconhecido por cer-
nas antecipamos aquilo que temos a dizer da síntese corporal tos detalhes visíveis , o paciente tem o sentimento absoluto de
em geral . que se trata dele mesmo e , em conseq üê ncia , declara que vê
Reencontramos na unidade do corpo a estrutura de im - seu duplo6. Cada um de nós se vê como que por um olho in-
plicação que já descrevemos a propósito do espaço . As dife- terior que , de alguns metros de dist â ncia , nos observa da ca-
rentes partes de meu corpo
motores — — seus aspectos visuais , t á teis e
n ão são simplesmente coordenadas. Se estou sen -
beça aos joelhos7 . Assim , a conexão entre os segmentos de
nosso corpo e aquela entre nossa experiê ncia visual e nossa
tado à minha mesa e quero alcançar o telefone , o movimento experiência t átil n ão se realizam pouco a pouco e por acu-
de minha m ão em direção ao objeto , o aprumo do tronco , mulação. Não traduzo os “ dados do tocar ” para “ a lingua -
a contração dos m úsculos das pernas envolvem-se uns aos ou - gem da visão ” ou inversamente ; n ão re ú no as partes de meu
tros; desejo um certo resultado e as tarefas distribuem -se por corpo uma a uma; essa tradu ção e essa reunião est ão feitas
si mesmas entre os segmentos interessados , as combinações de uma vez por todas em mim : elas são meu próprio corpo.
possíveis sendo antecipadamente dadas como equivalentes : Diremos ent ão que percebemos nosso corpo por sua lei de
posso permanecer encostado na poltrona , sob a condição de construção , assim como conhecemos antecipadamente todas
-
esticar mais o braço , ou inclinar me para a frente , ou mesmo as perspectivas possíveis de um cubo a partir de sua estrutu -
levantar- me um pouco. Todos esses movimentos est ão à nos- ra geométrica? Mas — para não falar ainda dos objetos exte -
sa disposição a partir de sua significação comum . E por isso
que , nas primeiras tentativas de preensão , as crianças não
riores
— o corpo pró prio nos ensina um modo de unidade
que n ão é a subsunção a uma lei. Enquanto está diante de
olham sua mão, mas o objeto: os diferentes segmentos do cor - mim e oferece suas variações sistem áticas à observação , o ob-
po só são conhecidos em seu valor funcional e sua coordena- jeto exterior presta-se a um percurso mental de seus elemen -
ção n ão é apreendida . Da mesma forma , quando estou sen - tos e pode , pelo menos em uma primeira aproximação , ser
tado à minha mesa , posso “ visualizar ” instantaneamente as definido como a lei de suas variações. Mas eu não estou diante
208 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 209

de meu corpo , estou em meu corpo, ou antes sou meu corpo. to poema. Assim como a fala significa não apenas pelas pala-
Portanto, nem suas variações nem seu invariante podem ser vras , mas ainda pelo sotaque , pelo tom , pelos gestos e pela
expressamente postos. Não contemplamos apenas as relações fisionomia , e assim como esse suplemento de sentido revela
entre os segmentos de nosso corpo e as correlações entre o n ão mais os pensamentos daquele que fala , mas a fonte de
corpo visual e o corpo t átil: n ós mesmos somos aquele que seus pensamentos e sua maneira de ser fundamental , da mes-
manté m em conjunto esses braços e essas pernas , aquele que ma maneira a poesia , se por acidente é narrativa e signifi-
ao mesmo tempo os vê e os toca. O corpo é , para retomar cante , essencialmente é uma modulação da existê ncia . Ela se
a expressão de Leibniz , a “ lei eficaz ” de suas mudanças. Se distingue do grito porque o grito utiliza nosso corpo tal como
ainda se pode falar , na percepção do corpo pró prio , de uma a natureza o deu a n ós , quer dizer , pobre em meios de ex-
interpretação, seria preciso dizer que ele se interpreta a si mes- pressão , enquanto o poema utiliza a linguagem , e mesmo uma
mo. Aqui, os “ dados visuais ” só aparecem através de seu sen - linguagem particular , de forma que a modulação existencial ,
tido t átil , os dados t áteis através de seu sentido visual , cada em lugar de dissipar-se no instante mesmo em que se expri-
movimento local sobre o fundo de uma posição global , cada me , encontra no aparato poé tico o meio de eternizar-se. Mas ,
acontecimento corporal , qualquer que seja o “ analisador > J
se se destaca de nossa gesticulação vital , o poema n ão se des -
que o revele , sobre um fundo significativo em que suas res- taca de todo apoio material , e ele estaria irremediavelmente
son â ncias mais distantes est ão pelo menos indicadas e a pos- perdido se seu texto não fosse exatamente conservado; sua
sibilidade de uma equivalê ncia intersensorial est á imediata- significação n ão é livre e não reside no cé u das idéias: ela es-
mente fornecida. O que re ú ne as “ sensações t áteis ” de mi- t á encerrada entre as palavras em algum papel frágil . Nesse
nha mão e as liga às percepções visuais da mesma m ão , as- sentido , como toda obra de arte , o poema existe à maneira
sim como às percepções dos outros segmentos do corpo , é um de uma coisa e n ão subsiste eternamente à maneira de uma
certo estilo dos gestos de minha m ão , que implica um certo verdade . Quanto ao romance , se bem que ele se deixe resu -
estilo dos movimentos de meus dedos e contribui , por outro mir , se bem que o “ pensamento ” do romancista se deixe for-
lado , para uma certa configuração de meu corpo8. Não é ao mular abstratamente , essa significação nocional é retirada de
objeto físico que o corpo pode ser comparado, mas antes à uma significação mais ampla , como a descrição de uma pes-
obra de arte. Em um quadro ou em uma peça musical , a idéia soa é retirada do aspecto concreto de sua fisionomia. O pa-
só pode comunicar-se pelo desdobramento das cores e dos pel do romancista não é expor idéias ou mesmo analisar ca -
sons. A an álise da obra de Cézanne, se não vi seus quadros , -
racteres , mas apresentar um acontecimento inter humano ,
deixa-me a escolha entre vários Cézannes possíveis , e é a per- fazê-lo amadurecer e eclodir sem coment ário ideológico, a tal
cepção dos quadros que me d á o ú nico Cézanne existente , ponto que qualquer mudan ça na ordem da narrativa ou na
é nela que as an álises adquirem seu sentido pleno. O mesmo escolha das perspectivas modificaria o sentido romanesco do
acontece com um poema ou com um romance , embora eles acontecimento. Um romance , um poema , um quadro, uma
sejam feitos de palavras. Sabe-se que um poema , se compor- peça musical são indivíduos, quer dizer , seres em que não
ta uma primeira significação, traduzível em prosa , leva no se pode distinguir a expressão do expresso , cujo sentido só
espírito do leitor uma segunda existência que o define enquan- é acessível por um contato direto, e que irradiam sua signifi-
210 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 211
*
cação sem abandonar seu lugar temporal e espacial . E nesse mais claros . Mas o h á bito não consiste em interpretar as pres -
sentido que nosso corpo é comparável à obra de arte . Ele é sões da bengala na m ão como signos de certas posições da
um nó de significações vivas e não a lei de um certo n ú mero bengala , e estas como signos de um objeto exterior, já que
de termos co-variantes. Uma certa experiência tátil do braço ele nos dispensa de fazê -lo. As pressões na mão e a bengala
significa uma certa experiê ncia tátil do antebraço e dos om - n ão são mais dados , a bengala n ão é mais um objeto que o
bros , um certo aspecto visual do mesmo braço , n ão que as cego perceberia , mas um instrumento com o qual ele perce -
-
diferentes percepções t áteis, as percepçÕes t áteis e as percep be . A bengala é um apê ndice do corpo , uma extensão da sín -
ções visuais participem todas de um mesmo braço inteligí - tese corporal . Correlativamente , o objeto exterior não é o geo -
vel , como as visões perspectivas de um cubo da idé ia do cu - metral ou o invariante de uma sé rie de perspectivas , mas uma
bo , mas porque o braço visto e o braço tocado , como os dife - coisa em direção à qual a bengala nos conduz e da qual , se -
rentes segmentos do braço , fazem , em conjunto , um mesmo gundo a evidê ncia perspectiva , as perspectivas n ão são índi-
gesto. ces , mas aspectos. O intelectualismo só pode conceber a pas-
Do mesmo modo que acima o hábito motor esclarecia sagem da perspectiva à pró pria coisa , do signo à significação
a natureza particular do espaço corporal , aqui o h ábito em como uma interpretação , uma apercepção , uma inten ção de
geral permite compreender a s íntese geral do corpo próprio. conhecimento . Os dados sensíveis e as perspectivas seriam ,
E , do mesmo modo que a an álise da espacialidade corporal em cada n ível , conte ú dos apreendidos como ( aufgefasst ais ) ma-
antecipava a an álise da unidade do corpo pró prio , agora po - nifestações de um mesmo n ú cleo inteligível9. Mas essa aná-
demos estender a todos os h ábitos o que dissemos dos h á bi - lise deforma ao mesmo tempo o signo e a significação; ela se -
tos motores. Na verdade , todo h ábito é ao mesmo tempo mo - para um do outro , objetivando-lhes o conte ú do sensível , que
-
tor e perceptivo , porque , como dissemos , reside , entre e per já é “ pregnante ” de um sentido , e o n ú cleo invariante , que
ce pção explícita e o movimento efetivo , nesta função funda
mental que delimita ao mesmo tempo nosso campo de visão
- n ão é uma lei mas uma coisa ; ela mascara a relação orgâ nica
entre o sujeito e o mundo , a transcendê ncia ativa da cons-
e nosso campo de ação . A exploração dos objetos com uma ciê ncia , o movimento pelo qual ela se lança em uma coisa
bengala, que há pouco apresent ávamos como um exemplo de e em um mundo por meio de seus ó rgãos e de seus instru -
hábito motor , também é um exemplo de h á bito perceptivo. mentos. A análise do há bito motor enquanto extensão da exis-
Quando a bengala se torna um instrumento familiar , o mun - tência prolonga-se portanto em uma an álise do h ábito per-
do dos objetos táteis recua e não mais começa na epiderme ceptivo enquanto aquisição de um mundo. Reciprocamente ,
-
da m ão , mas na extremidade da bengala. E se tentado a di - todo h ábito perceptivo é ainda um h ábito motor , e ainda aqui
zer que , atravé s das sensações produzidas pela pressão da ben- a apreensão de uma significação se faz pelo corpo. Quando
gala na m ão , o cego constrói a bengala e suas diferentes posi- a crian ç a se habitua a distinguir o azul do vermelho , consta-
ções, depois que estas, por sua vez , medeiam um objeto à ta- se que o h ábito adquirido a respeito desse par de cores be-
segunda potê ncia , o objeto externo. A percepção seria sem - neficia todas as outras10. Será ent ão que através do par azul-
pre uma leitura dos mesmos dados sensíveis, ela apenas se vermelho a criança percebeu a significação “ cor ” , que o mo-
faria cada vez mais rapidamente , a partir de signos cada vez mento decisivo do h ábito est á nessa tomada de consciê ncia ,
212 FENOMENOLOGIA DA PERCE PÇAO

nesse advento de um “ ponto de vista da cor ” , nessa an álise


intelectual que subsume os dados a uma categoria ? Mas , pa-
ra que a crian ç a possa perceber o azul e o vermelho sob a
categoria de cor , é preciso que esta se enraíze nos dados , sem
o que nenhuma subsun ção poderia reconhecê-la neles — pri-
meiramente é preciso que , nos painéis “ azuis” e “ vermelhos”
CAPÍTULO V

que lhe apresentam , se manifeste esta maneira particular de


vibrar e de atingir o olhar que chamamos de azul e de ver-
O CORPO COMO SER SEXUADO
melho . Com o olhar , dispomos de um instrumento natural
comparável à bengala do cego . O olhar obté m mais ou me-
nos das coisas segundo a maneira pela qual ele as interroga ,
pela qual ele desliza ou se apoia nelas . Aprender a ver as co-
res é adquirir um certo estilo de visão , um novo uso do corpo
próprio , é enriquecer e reorganizar o esquema corporal . Sis- Nossa meta constante é pôr em evidência a função pri -
tema de potê ncias motoras ou de potê ncias perceptivas , nos- mordial pela qual fazemos existir para nós , pela qual assu -
so corpo n ão é objeto para um “ eu penso ” : ele é um conjun - mimos o espaço , o objeto ou o instrumento , e descrever o cor-
to de significações vividas que caminha para seu equil íbrio . po enquanto o lugar dessa apropriação . Ora , enquanto nos
Por vezes forma- se um novo n ó de significações: nossos mo- dirigíamos ao espaço ou à coisa percebida , não era fácil re -
-
vimentos antigos integram se a uma nova entidade motora , descobrir a relação entre o sujeito encarnado e seu mundo ,
os primeiros dados da visão a uma nova entidade sensorial , porque ela se transforma por si mesma no puro comércio en-
repentinamente nossos poderes naturais vão ao encontro de tre o sujeito epistemológico e o objeto . Com efeito , o mundo
uma significação mais rica que até ent ão estava apenas indi- natural se apresenta como existente em si para além de sua
cada em nosso campo perceptivo ou prático , só se anunciava existência para mim , o ato de transcendência pelo qual o su -
em nossa experiê ncia por uma certa falta , e cujo advento reor- jeito se abre a ele arrebata- se a si mesmo e nós nos encontra -
ganiza subitamente nosso equilíbrio e preenche nossa expec- mos em presença de uma natureza que não precisa ser perce-
tativa cega . bida para existir . Portanto , se queremos pôr em evidência a
génese do ser para nós , para terminar é preciso considerar
o setor de nossa experiência que visivelmente só tem sentido
e realidade para nós , quer dizer , nosso meio afetivo . Procu-
remos ver como um objeto ou um ser põe- se a existir para
nós pelo desejo ou pelo amor , e através disso compreendere -
mos melhor como objetos e seres podem em geral existir .
Quase sempre concebe-se a afetividade como um mosaico
de estados afetivos , prazeres e dores fechados em si mesmos ,
214 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 215

que não se compreendem e só podem explicar- se por nossa lo desaparecimento das representações visuais? Mas dificil-
organização corporal. Se se admite que no homem ela se “ pe- mente se sustentaria que n ão h á aqui nenhuma representa-
netra de inteligê ncia ” , quer-se dizer através disso que sim - ção t átil dos atos sexuais , e portanto restaria compreender por
ples representações podem deslocar os est ímulos naturais do que em Schn . as estimulações t áteis , e n ão apenas as percep-
prazer e da dor , segundo as leis da associação de idé ias ou ções visuais , perderam muito de sua significação sexual . Se
segundo as do reflexo condicionado , que essas substituições agora queremos supor um desfalecimento geral da represen -
ligam o prazer e a dor a circunstâ ncias que naturalmente nos tação , tanto tátil quanto visual , seria preciso ent ão descrever
são indiferentes e que , de transferência em transferência , cons- o aspecto concreto que essa deficiência inteiramente formal
tituem-se valores segundos ou terceiros que n ão tê m relação assume no dom ínio da sexualidade . Pois afinal a raridade das
aparente com nossos prazeres e nossas dores naturais. O mun- polu ções , por exemplo , não se explica pela fraqueza das re-
do objetivo cada vez toca menos diretamente no teclado dos presentações, que são antes seu efeito do que sua causa , e pa-
estados afetivos “ elementares ” , mas o valor continua a ser rece indicar uma alteração da própria vida sexual . Supore-
uma possibilidade permanente de prazer e de dor . Se não é mos algum enfraquecimento dos reflexos sexuais normais ou
na experiê ncia do prazer e da dor, da qual n ão há nada a dos estados de prazer? Mas esse caso seria antes próprio pa -
dizer , o sujeito define- se por seu poder de representação, e ra mostrar que não existem reflexos sexuais nem puro estado
a afetividade n ão é reconhecida como um modo original de de prazer . Pois , lembremo- nos , todos os distú rbios de Schn .
consciência. Se essa concepção fosse justa , todo desfalecimento resultam de um ferimento circunscrito à esfera occipital . Se
da sexualidade deveria reconduzir -se ou à perda de certas re- no homem a sexualidade fosse um aparelho reflexo autó no-
presentações , ou ent ão a um enfraquecimento do prazer. Va- mo , se o objeto sexual viesse afetar algum órgão do prazer
mos ver que n ão é nada disso. Um doente1 nunca procura , anatomicamente definido , o ferimento cerebral deveria ter co-
por si mesmo , o ato sexual. Imagens obscenas , conversações mo efeito liberar esses automatismos e traduzir-se em um com -
sobre temas sexuais , a percepção de um corpo n ão fazem nas- portamento sexual acentuado. A patologia põe em evidência ,
cer nele nenhum desejo. O doente quase n ão abraça e o beijo entre o automatismo e a representação , uma zona vital em
n ão tem para ele valor de estimulação sexual. As reações são que se elaboram as possibilidades sexuais do doente , assim
estritamente locais e n ão começam sem contato. Se nesse mo- como acima suas possibilidades motoras , perceptivas e até
mento o prel ú dio é interrompido, o ciclo sexual n ão procura mesmo suas possibilidades intelectuais. E preciso que exista ,
prosseguir-se. No ato sexual , a intromissio nunca é espont â- imanente à vida sexual , uma função que assegure seu desdo -
nea. Se o orgasmo ocorre primeiro na parceira e ela se afas- bramento , e que a extensão normal da sexualidade repouse
ta , o desejo esboçado se apaga . A cada momento as coisas sobre as pot ê ncias internas do sujeito orgânico. E preciso que
se passam como se o paciente ignorasse o que deve fazer. N ão exista um Eros ou uma Libido que animem um mundo ori-
existem movimentos ativos , sen ão alguns instantes antes do ginal , dêem valor ou significação sexuais aos est ímulos exte-
orgasmo , que é muito breve . As poluções são raras e sempre riores e esbocem , para cada sujeito , o uso que ele fará de seu

——
sem sonhos. Tentaríamos explicar essa iné rcia sexual co- corpo objetivo. E a pró pria estrutura da percepção ou da ex-
mo acima explicamos a perda das iniciativas ciné ticas pe- periê ncia erótica que est á alterada em Schn . No normal , um
216 0 CORPO 217
FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÂO

corpo não é percebido apenas como um objeto qualquer , es- ção distinto da significação intelectual , uma intencionalida-
sa percepção objetiva é habitada por uma percepção mais se - de que n ão é a pura “ consciê ncia de algo ” . A percepção eró-
creta: o corpo visual é subtendido por um esquema sexual , tica n ão é uma cogitatio que visa um cogitatum; através de um
estritamente individual , que acentua as zonas erógenas , de- corpo , ela visa um outro corpo , ela se faz no mundo e n ão
senha uma fisionomia sexual e reclama os gestos do corpo em uma consciê ncia. Um espet áculo tem para mim uma sig-
masculino , ele mesmo integrado a essa totalidade afetiva . Para nificação sexual n ão quando me represento , mesmo confusa-
Schn . , ao contrário , um corpo feminino não tem essência par- mente , sua relação poss ível aos ó rgãos sexuais ou aos estados
ticular: é sobretudo o caráter , diz ele , que torna uma mulher de prazer , mas quando ele existe para meu corpo , para essa
atraente ; pelo corpo elas são todas semelhantes . O contato pot ê ncia sempre prestes a armar os est ímulos dados em uma
corporal estreito só produz um “ sentimento vago ” , o “ sa- situação erótica , e a ajustar a ela uma conduta sexual . Há
ber de um algo indeterminado ” que nunca é suficiente para uma “ compreens ão ” erótica que n ão é da ordem do enten-
“ acionar ” a conduta sexual e para criar uma situação que dimento , já que o entendimento compreende percebendo uma
reclame um modo definido de resolução . A percepção per- experiê ncia sob uma idéia , enquanto o desejo compreende ce-
deu sua estrutura erótica , tanto segundo o espaço como se- gamente , ligando um corpo a um corpo . Mesmo com a se -
gundo o tempo . O que desapareceu no doente foi o poder de xualidade , que todavia durante muito tempo passou pelo ti-
projetar diante de si um mundo sexual , de colocar- se em si- po da fun ção corporal , n ós lidamos não com um automatis-
tuação erótica ou , uma vez esboçada a situação , de mantê - la mo perif é rico mas com uma intencionalidade que segue o
ou de dar- lhe uma seqüência até a satisfação . A própria pa- movimento geral da existê ncia e que inflete com ela . Schn .
lavra satisfação nada mais significa para ele , na falta de uma não pode mais colocar- se em situação sexual , assim como em
intenção , de uma iniciativa sexual que reclame um ciclo de geral ele não est á mais em situação afetiva ou ideoló gica . Pa-
movimentos e de estados , que os “ ponha em forma ” e que ra ele , os rostos não são nem simpá ticos nem antipá ticos , as
encontre neles a sua realização . Se os próprios est ímulos tá- pessoas só se qualificam a esse respeito se ele lida diretamen-
teis , que em outras ocasiões o doente utiliza muito bem , per- te com elas e de acordo com a atitude que adotam em relação
deram sua significação sexual , foi porque , por assim dizer , a ele , a aten ção e a solicitude que lhe testemunham . O sol
eles deixaram de falar ao seu corpo , de situá-lo do ponto de e a chuva não são nem alegres nem tristes , o humor só de-
vista da sexualidade ou , em outros termos , porque o doente pende das funções orgâ nicas elementares , o mundo é afeti-
deixou de endereçar ao seu ambiente essa questão muda e vamente neutro. Schn . quase n ão amplia seu ambiente hu -
permanente que é a sexualidade normal . Schn . e a maior parte mano e , quando ele faz amizades novas , por vezes elas ter-
dos pacientes impotentes não “ est ão nem ali naquilo que fa- minam mal : isso ocorre porque , percebe-se pela análise , elas
zem ” . Mas a distração , as representações inoportunas não nunca provê m de um movimento espont â neo , mas de uma
são causas , são efeitos , e , se o paciente percebe friamente a decisão abstrata. Ele gostaria de poder pensar sobre a política
situação , é em primeiro lugar porque não a vive e porque não e sobre a religi ão, mas nem mesmo tenta , pois sabe que essas
está envolvido nela . Adivinha- se aqui um modo de percep- regiões não lhe são mais acess íveis , e n ós vimos que em geral
ção distinto da percepção objetiva , um gê nero de significa- ele n ão executa nenhum ato de pensamento autê ntico e subs-
218 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 219

titui a intuição do n ú mero ou a apreensão das significações câ nicas. No pró prio Freud , o sexual n ão é o genital , a vida
pelo manejo dos signos e pela técnica dos “ pontos de apoio” 2. sexual n ão é um simples efeito de processos dos quais os ó r-
Ao mesmo tempo, nós redescobrimos a vida sexual como uma gãos genitais são o lugar , a libido n ão é um instinto, quer
intencionalidade original e as raízes vitais da percepção, da dizer , uma atividade naturalmente orientada a Fins determi-
motricidade e da representação , fazendo todos esses “ proces- nados , ela é o poder geral que o sujeito psicofísico tem de ade-
sos ” repousarem em um “ arco intencional ” que inflete no rir a diferentes ambientes , de fixar-se por diferentes experiê n -
doente e que , no normal , dá à experiê ncia o seu grau de vita- cias , de adquirir estruturas de conduta. E a sexualidade que
lidade e de fecundidade . faz com que um homem tenha uma hist ó ria . Se a histó ria se -
A sexualidade n ão é portanto um ciclo aut ó nomo. Ela xual de um homem oferece a chave de sua vida , é porque na
est á ligada interiormente ao ser cognoscente e agente inteiro , sexualidade do homem projeta- se sua maneira de ser a res -
esses três setores do comportamento manifestam uma ú nica peito do mundo , quer dizer , a respeito do tempo e a respeito
estrutura t ípica , est ão em uma relação de expressão recípro- dos outros homens . Existem sintomas sexuais na origem de
! cas. Aqui n ós reencontramos as aquisições mais duráveis da todas as neuroses , mas esses sintomas , se os lemos bem , sim -
psican álise. Quaisquer que tenham sido as declarações de bolizam toda uma atitude , seja por exemplo uma atitude de
princípio de Freud , as investigações psicanalíticas resultam conquista , seja uma atitude de fuga . Na histó ria sexual , con -
de fato n ão em explicar o homem pela infra-estrutura sexual , cebida como a elaboração de uma forma geral de vida , po-
mas em reencontrar na sexualidade as relações e as atitudes dem introduzir-se todos os motivos psicológicos , porque n ão
que anteriormente passavam por relações e atitudes de cons - h á mais interferê ncia de duas causalidades e porque a vida
ciência , e a significação da psican álise não é tanto a de tornar genital est á engrenada na vida total do sujeito. E n ão se trata
biológica a psicologia quanto a de descobrir um movimento tanto de saber se a vida humana repousa ou n ão na sexuali -
dialético em fun ções que se acreditavam “ puramente corpo- dade , mas de saber o que se entende por sexualidade . A psi -
rais ” , e reintegrar a sexualidade no ser humano. Um discí- canálise representa um duplo movimento de pensamento: por
pulo dissidente de Freud3 mostra , por exemplo , que a frigi- um lado , ela insiste na infra-estrutura sexual da vida ; por ou -
dez quase nunca est á ligada a condições anatômicas ou fisio- tro , ela “ incha ” a noção de sexualidade a ponto de integrar
ló gicas, que mais freqüentemente ela traduz a recusa do or- a ela toda a exist ê ncia. Mas , justamente por essa razão , suas
gasmo , da condição feminina ou da condição de ser sexuado , conclusões , como as de nosso parágrafo precedente , perma -
e esta por sua vez traduz a recusa do parceiro sexual e do necem ambíguas . Quando se generaliza a noção de sexuali-
destino que ele representa. Mesmo em Freud seria um erro dade e se faz dela uma maneira de ser no mundo f ísico e inter-
acreditar que a psicanálise exclui a descrição dos motivos psi- humano, quer-se dizer, em última análise, que a existê ncia
cológicos e se opõe ao método fenomenológico: ao contrário , inteira tem uma significação sexual , ou que todo fenô meno
ela (sem o saber) contribuiu para desenvolvê-lo ao afirmar , sexual tem uma significação existencial ? Na primeira hipóte -
segundo a expressão de Freud , que todo ato humano “ tem se , a existê ncia seria uma abstração , um outro nome para de-
um sentido ” 4, e ao procurar em todas as partes compreen - signar a vida sexual . Mas como a vida sexual n ão pode mais
der o acontecimento, em lugar de relacioná-lo a condições me- ser circunscrita , como ela n ão é mais uma função separada
220 FENOMENOLOGIA DA PERCE PÇAO O CORPO 221

e defin ível pela causalidade propria a um aparelho orgâ nico , mos que , segundo a região onde est ão situadas as lesões , o
n ão h á mais nenhum sentido em dizer que a existê ncia intei - lado visual ou o lado auditivo predomine no quadro da doen -
ra se compreende pela vida sexual , ou antes essa proposição ça . Enfim , dizíamos h á pouco que a exist ê ncia bioló gica está
torna-se uma tautologia . Seria preciso dizer ent ão , inversa- engrenada na existê ncia humana e nunca é indiferente ao seu
mente , que o fen ô meno sexual é apenas uma expressão de ritmo pró prio. Isso n ão impede , acrescentaremos agora , que
nossa maneira geral de projetar nosso ambiente ? Mas a vida <i
viver ” ( leben ) seja uma operação primordial a partir da qual
sexual n ão é um simples reflexo da existê ncia : uma vida efi- se torna possível “ viver ” (erleben) tal ou tal mundo , e que de -
caz , na ordem pol ítica e ideológica , por exemplo , pode acom - vamos nos alimentar e respirar antes de perceber e de ter aces-
panhar- se de uma sexualidade deteriorada , e ela pode até so à vida de relação , ser para as cores e para as luzes pela
mesmo beneficiar-se dessa deterioraçã o . Inversamente , a vi - visão , para os sons pela audição , para o corpo do outro pela
da sexual pode ter , em Casanova por exemplo , um tipo de sexualidade , antes de ter acesso à vida de relações humanas.
perfeição té cnica que n ão corresponde a um vigor particular Assim , a visão, a audição , a sexualidade e o corpo n ão são
do ser no mundo . Mesmo se o aparelho sexual é atravessado apenas os pontos de passagem , os instrumentos ou as mani-
pela corrente geral da vida , ele pode confiscá-la em seu be - festações da existê ncia pessoal : esta retoma e recolhe em si
nef ício . A vida se particulariza em correntes separadas. Ou aquela existê ncia dada e an ó nima . Quando dizemos que a
as palavras n ão t ê m nenhum sentido , ou ent ão a vida sexual vida corporal ou carnal e o psiquismo est ão em uma relação
designa um setor de nossa vida que tem relações particulares de expressão rec íproca , ou que o acontecimento corporal tem
com a exist ê ncia do sexo . N ão se trata de diluir a sexualida - sempre uma significação psíquica , essas fó rmulas precisam ser
de na exist ê ncia , como se ela fosse apenas um epifen ô meno . explicadas. Válidas para excluir o pensamento causal , elas
Justamente se admitimos que os dist ú rbios sexuais dos neu - n ão significam que o corpo seja o invólucro transparente do
ró ticos exprimem seu drama fundamental e nos oferecem co- Espírito . Retornar à existê ncia como ao meio no qual se com -
mo que sua ampliação , resta saber por que a expressão se- preende a comunica ção entre o corpo e o espírito n ão é retor-
xual desse drama é mais precoce , mais freq üente e mais vis í- nar à Consciência ou ao Espírito; a psican álise existencial n ão
vel do que as outras ; e por que a sexualidade é n ão apenas deve servir de pretexto a uma restauração do espiritualismo .
um signo , mas ainda um signo privilegiado . Reencontramos Nós o compreenderemos melhor precisando as noções de “ ex-
aqui um problema que já encontramos vá rias vezes . Mostr á- pressão ” e de “ significação ” , noções que pertencem ao mun-
vamos , com a teoria da Forma , que n ão se pode determinar do da linguagem e do pensamento constitu ídos , que acaba-
uma camada de dados sensíveis que dependeriam imediata- mos de aplicar sem crítica às relações entre o corpo e o psi-
mente dos ó rgãos dos sentidos: o menor dado sens ível só se quismo , e que a experiê ncia do corpo deve , ao contrário,
apresenta integrado a uma configuração e já “ posto em for- ensinar- nos a retificar .
ma ” . Isso n ão impede , diz íamos , que as palavras “ ver ” e Uma moça6 a quem sua mãe proibiu de rever o rapaz
“ ouvir ” tenham um sentido. Observávamos alhures5 que as a quem ama perde o sono , o apetite e finalmente o uso da
regiões especializadas do cé rebro, a “ zona ótica ” por exem- fala . No decorrer da infância , encontramos uma primeira ma-
plo , nunca funcionam isoladamente . Isso n ão impede , dizía- nifestação de afonia após um tremor de terra , depois um retor-
222 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 223

no à afonia após um pavor violento . Um interpretação estri- neira , ele é aquilo que significa , assim como um retrato é a
tamente freudiana colocaria em quest ão a fase oral do desen - quase presen ça de Pedro ausente8 , ou como as figuras de ce-
volvimento da sexualidade . Mas o que se “ fixou ” na boca ra , na magia , são aquilo que representam . A doente n ão imita
com seu corpo um drama que se passaria em sua consciê n-
A

n ão é apenas a existê ncia sexual; são , mais geralmente , as


4 4
"

relações com o outro , das quais a fala é o ve ículo . Se a emo - cia ” . Perdendo a voz , ela n ão traduz no exterior um “ estado
ção escolhe exprimir- se pela afonia , é porque a fala é , dentre interior ” , ela n ão faz uma “ manifestação ” como o chefe de
todas as fun ções do corpo , a mais estreitamente ligada à exis - Estado que aperta a m ã o do maquinista de uma locomotiva
t ê ncia em comum ou , como diremos , à coexist ê ncia . A afo - ou que abraça um camponês , ou como um amigo aborrecido
nia representa ent ã o uma recusa da coexist ê ncia , assim co- que n ã o mais me dirige a palavra . Estar afô nico n ão é calar-
mo , em outras pessoas , a crise nervosa é o meio de fugir da se: só nos calamos quando podemos falar. Sem d ú vida , a afo-
situação. A doente rompe com a vida de relações no meio fa - nia n ão é uma paralisia , e a prova disso é que , tratada por
miliar . Mais geralmente , ela tende a romper com a vida: se medicamentos psicológicos e deixada livre por sua família para
n ão pode mais deglutir os alimentos , é porque a deglutição rever aquele a quem ama , a moça recupera a fala . Mas a afo-
simboliza o movimento da existê ncia que se deixa penetrar nia també m n ão é um silê ncio preparado ou desejado . Sabe -
pelos acontecimentos e os assimila; a doente , literalmente , n ão se como a teoria da histeria foi levada a ultrapassar , com a
pode “ engolir ” a proibição que lhe foi feita 7. Na inf â ncia da noção de pitiatismo , a alternativa entre a paralisia (ou a anes-
paciente , a ang ú stia se traduzira pela afonia porque a imi - tesia ) e a simulação . Se o histé rico é um simulador , em pri -
n ê ncia da morte interrompia violentamente a coexistê ncia e meiro lugar é em relação a si mesmo , de forma que é impos-
reconduzia a paciente à sua sorte pessoal . O mesmo sintoma sível colocar em paralelo aquilo que ele verdadeiramente sente
de afonia reaparece porque a proibi ção materna restaura a ou pensa e aquilo que ele exprime no exterior: o pitiatismo
mesma situação no sentido figurado e , alé m disso , porque , é uma doen ç a do Cogito , é a consciê ncia tornada ambivalen-
ao fechar o futuro à paciente , ela a reconduz aos seus com - te , e n ão uma recusa deliberada de confessar aquilo que se
portamentos favoritos . Essas motivações beneficiariam uma sabe . Aqui , da mesma maneira , a moç a n ão deixa de falar ,
sensibilidade particular da garganta e da boca em nossa pa- ela “ perde ” a voz , como se perde uma recordação. També m
ciente , que poderia estar ligada à histó ria de sua libido e à é verdade que , como o mostra a psican álise , a recordação per-
fase oral da sexualidade . Assim , através da significação se - dida n ão é perdida por acaso , ela só o é enquanto pertence
xual dos sintomas, descobrimos, desenhado em filigrana, aqui- a uma certa região de minha vida que eu recuso , enquanto
lo que eles significam mais geralmente em relação ao passa- ela tem uma certa significação e , como todas as significações ,
do e ao futuro , ao eu e ao outro , quer dizer , em relação à s esta só existe para algu é m . Portanto , o esquecimento é um
dimensões fundamentais da exist ê ncia . Mas , se a cada mo- ato; eu conservo à dist â ncia essa recordação , assim desvio o
mento o corpo exprime as modalidades da existê ncia , vere- olhar de uma pessoa que n ão quero ver. Todavia , como a
mos que n ão é como os galões significam a graduação ou co- psican álise també m o mostra muito bem , se a resist ê ncia su -
mo um n ú mero designa uma casa : aqui , o signo n ão indica põe uma relação intencional com a recordação à qual se re -
apenas sua significação , ele é habitado por ela ; de certa ma- siste , ela n ão a põe diante de n ós como um objeto , ela n ão
224 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 225

a rejeita expressamente . Ela visa uma região de nossa expe- do ou recusado , é todo o campo de possibilidades que des-
riê ncia , uma certa categoria , um certo tipo de recordações . morona , eu me retiro até mesmo deste modo de comunica-
O paciente que esqueceu em uma gaveta um livro que sua ção e de significação que é o silê ncio . Com certeza , poder-se -á
mulher lhe dera de presente e que o encontra uma vez recon - falar aqui de hipocrisia ou de m á - fé . Mas ser á preciso distin -
ciliado com ela9 absolutamente n ão perdera o livro , mas tam - guir ent ão entre uma hipocrisia psicol ó gica e uma hipocrisia
bé m n ão sabia onde ele se encontrava . Tudo o que dizia res- metaf ísica . A primeira engana os outros homens escondendo-
peito à sua mulher n ão existia mais para ele , ele o riscara de lhes pensamentos expressamente conhecidos pelo sujeito .
sua vida ; ele descartara , de um só golpe , todas as condutas Trata- se de um acidente facilmente evit á vel . A segunda
que se relacionavam a ela e , assim , estava aqu é m do saber engana - se a si mesma por meio da generalidade , e chega as-
e da ignorância , da afirmação e da nega çã o volunt á rias . As- sim a um estado ou a uma situação que n ão é uma fatalida -
sim , na histeria e no recalque podemos ignorar algo ao mes- de , mas que n ão é posta e desejada ; ela se encontra até mes-
mo tempo em que o sabemos , porque nossas recordações e mo no homem “ sincero ” ou “ aut ê ntico ” a cada vez que ele
nosso corpo , em lugar de se apresentarem a n ós em atos de pretende ser sem reservas o que quer que seja . Ela faz parte
consciê ncia singulares e determinados , dissimulam - se na ge - da condição humana . Quando a crise nervosa chega ao seu
neralidade . Através dela , n ós as “ temos ” ainda , mas apenas paroxismo , mesmo se o paciente a procurou como o meio de
o suficiente para mant ê -las longe de nós . Descobrimos atra- escapar de uma situação embaraçosa e afunda -se nela como
vés disso que as mensagens sensoriais ou as recordações só em um abrigo , ele quase n ão ouve mais, quase n ão vê mais ,
são apreendidas expressamente e por n ós conhecidas sob a ele quase se tornou esta existê ncia espasm ódica e ofegante que
condição de uma adesão geral à zona de nosso corpo e de nossa se debate em um leito . A vertigem do amuo é tal que ele se
vida da qual elas dependem . Essa adesão ou essa recusa si- torna amuo contra X , amuo contra a vida , amuo absoluto .
tuam o sujeito em uma situação definida , e delimitam para A cada instante que passa , a liberdade degrada-se e torna- se
ele o campo mental imediatamente dispon ível , assim como menos prová vel . Mesmo se ela nunca é imposs ível e sempre
a aquisição ou a perda de um ó rgão sensorial d á ou subtrai pode fazer abortar a dialé tica da m á-fé , resta que uma noite
um objeto do campo f ísico às suas capturas diretas. N ão se de sono tem o mesmo poder : aquilo que pode ser superado
pode dizer que a situação de fato assim criada seja a simples por esta força an ó nima deve ser de mesma natureza que ela ,
consciência de uma situação , pois isso representaria dizer que e ent ão é preciso admitir pelo menos que o amuo ou a afo-
a recordação , o braço ou a perna “ esquecidos ” est ão expos- nia , na medida em que duram , tornam-se consistentes como
tos à minha consciê ncia , est ão presentes e próximos para mim coisas , que se tornam estrutura , e que a decisão que os inter -
do mesmo modo que as regiões “ conservadas ” de meu pas- romperia prové m de mais baixo do que a vontade . O doente
sado ou de meu corpo . També m n ão se pode dizer que a afo- separa- se de sua voz , assim como certos insetos cortam sua
nia é desejada . A vontade supõe um campo de possíveis en- própria pata. Literalmente , ele fica sem voz . Correlativamente ,
tre os quais escolho: eis Pedro , eu posso falar com ele ou n ão o medicamento psicoló gico n ão age sobre o doente fazendo-o
lhe dirigir a palavra . Ao contrá rio , se me torno afô nico , Pe- conhecer a origem de sua doen ça: por vezes , um contato de m ão
dro n ão mais existe para mim enquanto interlocutor deseja - põe fim às contraturas e restitui a fala ao doente10 , e a mes-
226 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 227

ma manobra , tornada rito , ser á depois suficiente para domi- o retorno ao mundo verdadeiro são ainda fun ções impessoais :
nar novos acessos . Em todo caso , a tomada de consciê ncia , os ó rgãos dos sentidos, a linguagem . Permanecemos livres a
nos tratamentos psíquicos , permaneceria puramente cogni- respeito do sono e da doença na exata medida em que sem -
tiva , o doente n ão assumiria o sentido de seus dist ú rbios que pre permanecemos envolvidos no estado de vigília e de sa ú -
acabam de revelar - lhe sem a relação pessoal que travou com de , nossa liberdade apóia- se em nosso ser em situação , ela
o m édico , sem a confian ç a e a amizade que ele lhe traz e a mesma é uma situação . Sono , despertar , doen ç a e sa ú de n ão
mudança de existê ncia que resulta dessa amizade . O sinto- são modalidades da consciência ou da vontade , eles supõem
ma , como a cura , n ão se elabora no plano da consciê ncia ob- um “ passo existencial ” 11. A afonia n ã o representa apenas
jetiva ou té tica , mas abaixo. A afonia enquanto situação po- uma recusa de falar , a anorexia uma recusa de viver , elas são
de ser també m comparada ao sono: estiro- me em meu leito , essa recusa do outro ou essa recusa do futuro arrancadas da
do lado esquerdo , os joelhos dobrados , fecho os olhos , respi - natureza transitiva dos “ fen ô menos interiores ” , generaliza -
ro lentamente , distancio de mim meus projetos . Mas o poder das , consumadas , tornadas situação de fato .
de minha vontade ou de minha consciê ncia termina ali. As- O papel do corpo é assegurar essa metamorfose . Ele
sim como os fiéis , nos mist é rios dionis íacos , invocam o Deus transforma as idé ias em coisas , minha m ímica do sono em
imitando as cenas de sua vida , eu chamo a visitação do sono sono efetivo . Se o corpo pode simbolizar a exist ê ncia , é por-
imitando a respiração daquele que dorme e sua postura . O que a realiza e porque é sua atualidade . Ele secunda seu du -
deus se manifesta quando os fié is n ão se distinguem mais do plo movimento de sístole e de di ástole. Por um lado , com efei -
papel que representam , quando seu corpo e sua consciê ncia to , ele é a possibilidade para minha existê ncia de demitir - se
-
deixam de opor lhe sua opacidade particular e se fundem in - de si mesma , de fazer-se an ó nima e passiva , de fixar - se em
teiramente no mito. H á um momento em que o sono “ vem ” , uma escol á stica . Na doente da qual fal á vamos , o movimento
ele se assenta nessa imita çã o dele mesmo que eu lhe propu -
nha , e consigo tornar- me aquilo que fingia ser : essa massa
para o futuro , para o presente vivo ou para o passado , o po -
der de aprender , de amadurecer , de entrar em comunicaçã o
sem olhar e quase sem pensamentos , cravada em um ponto com outros como que se travaram em um sintoma corporal ,
do espaço , e que só est á no mundo pela vigil â ncia an ó nima a exist ê ncia amarrou - se , o corpo tornou -se “ o esconderijo da
dos sentidos . Sem d ú vida , este último elo torna possível o des- vida ” 12 . Para o doente n ão acontece mais nada , nada adqui-
pertar: por essas portas entreabertas as coisas voltarão a en -
trar ou aquele que dorme retornará ao mundo . Da mesma
re sentido e forma em sua vida — -
ou , mais exatamente , ocor
rem apenas “ agora ” sempre semelhantes , a vida reflui sobre
maneira , o doente que rompeu com a coexist ê ncia ainda po- si mesma e a histó ria se dissolve no tempo natural . Mesmo
de perceber o invólucro sens ível do outro e conceber abstra - normal , mesmo envolvido em situações inter- humanas , o su -
tamente o futuro por meio de um calend á rio , por exemplo . jeito, enquanto tem um corpo , conserva a cada instante o po -
Nesse sentido , aquele que dorme nunca est á completamente der de esquivar- se disso . No pró prio instante em que vivo no
encerrado em si , nunca é inteiramente dormidor , o doente mundo , em que me dedico aos meus projetos , a minhas ocu -
nunca est á absolutamç nte cortado do mundo intersubjetivo, pações , a meus amigos , a minhas recordações , posso fechar
nunca inteiramente doente . Mas o que neles torna poss ível os olhos , estirar- me , escutar meu sangue que pulsa em meus
228 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 229

ouvidos , fundir- me a um prazer ou a uma dor , encerrar- me meç ar e com efeito recomeça em um outro instante , as fun -
nesta vida an ó nima que subtende minha vida pessoal . Mas , ções sensoriais por si sós n ão me fazem ser no mundo: quan -
justamente porque pode fechar -se ao mundo, meu corpo é do me absorvo em meu corpo , meus olhos só me d ão o invó-
també m aquilo que me abre ao mundo e nele me põe em si - lucro sensível das coisas e dos outros homens , as próprias coi-
tuação . O movimento da existê ncia em direção ao outro , em sas são cunhadas de irrealidade , os comportamentos se de -
dire ção ao futuro , em direção ao mundo pode recome ç ar , as- compõem no absurdo , o pró prio presente , como no falso re -
sim como um rio degela . O doente recuperar á sua voz , n ão conhecimento , perde sua consistê ncia e muda para a eterni -
por um esforço intelectual ou por um decreto abstrato da von - dade . A existê ncia corporal que crepita através de mim sem
tade , mas por uma conversão na qual todo o seu corpo se con - minha cumplicidade é apenas o esboço de uma verdadeira
centra , por um verdadeiro gesto , assim como podemos pro- presen ç a no mundo . Pelo menos ela funda sua possibilidade ,
curar e encontrar um nome esquecido n ão “ em nosso espíri- ela estabelece nosso primeiro pacto com ele . Posso muito bem
to ” , mas “ em nossa cabe ça ” ou “ em nossos lá bios ” . A re- ausentar- me do mundo humano e abandonar a existê ncia pes-
cordação ou a voz são reencontradas quando o corpo se abre soal , mas é apenas para reencontrar em meu corpo a mesma
novamente ao outro ou ao passado , quando se deixa atraves- potê ncia , dessa vez sem nome , pela qual estou condenado ao
sar pela coexistê ncia e quando novamente ( no sentido ativo) ser . Pode - se dizer que o corpo é “ a forma escondida do ser
significa para alé m de si mesmo . Mais : mesmo cortado do próprio ” 13 ou , reciprocamente , que a exist ência pessoal é a
circuito da exist ê ncia , o corpo nunca se curva inteiramente retomada e a manifestação de um dado ser em situação . Por-
sobre si mesmo . Mesmo se me absorvo na experiê ncia de meu tanto, se dizemos que a cada momento o corpo exprime a exis-
corpo e na solid ão das sensações , n ão chego a suprimir toda tê ncia , é no sentido ern que a fala exprime o pensamento. Para
referê ncia de minha vida a um mundo , a cada instante algu - aqu é m dos meios de expressão convencionais , que só mani -
ma inten ção brota novamente de mim , mesmo que seja em festam meu pensamento ao outro porque , em mim como ne -
direção aos objetos que me circundam e caem sob meus olhos , le , já est ão dadas significações para cada signo , e que nesse
ou em direção aos instantes que sobrevê m e impelem para sentido n ão realizam uma verdadeira comunicação , é preci-
o passado aquilo que acabo de viver . Nunca me torno intei - so reconhecer , veremos , uma operação primordial de signifi-
ramente uma coisa no mundo , falta- me sempre a plenitude cação em que o expresso n ão existe separado da expressão
da exist ê ncia como coisa , minha pró pria substância foge de e em que os pró prios signos induzem seu sentido no exterior .
mim pelo interior e alguma inten ção sempre se esboç a . En - E dessa maneira que o corpo exprime a existê ncia total , n ão
quanto possui “ ó rgãos dos sentidos ” , a exist ê ncia corporal que ele seja seu acompanhamento exterior , mas porque a exis-
nunca repousa em si mesma , ela é sempre trabalhada por um t ê ncia se realiza nele . Esse sentido encarnado é o fen ô meno
nada ativo , continuamente ela me faz a proposta de viver , central do qual corpo e esp írito , signo e significação s ão mo-
e o tempo natural , a cada instante que advé m , desenha sem mentos abstratos .
cessar a forma vazia do verdadeiro acontecimento. Sem d ú - Assim compreendida , a relação da expressão ao expres-
vida , essa proposta permanece sem resposta . O instante do so ou do signo à significação n ão é uma relação de m ão ú nica
tempo natural n ão fixa nada , ele deve imediatamente reco- como a que existe entre o texto original e a tradução. Nem
230 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 231

o corpo nem a existência podem passar pelo original do ser hu - por quem eu desejava ser reconhecido , ele é um ser fascina-
mano , já que cada um pressupõe o outro e já que o corpo do , sem liberdade , e que a esse t ítulo n ão conta mais para
é a existê ncia imobilizada ou generalizada , e a existê ncia uma mim . Dizer que tenho um corpo é ent ão uma maneira de di-
encarnação perpé tua . Particularmente , quando se diz que a zer que posso ser visto como um objeto e que procuro ser vis-
sexualidade tem uma significação existencial ou que exprime to como sujeito , que o outro pode ser meu senhor ou meu
a existê ncia , não se deve entend ê-lo como se o drama sexual 14 escravo , de forma que o pudor e o despudor exprimem a dia-
fosse em ú ltima an álise apenas uma manifestação ou um sin - lé tica da pluralidade das consciê ncias e que eles tê m sim uma
toma de um drama existencial . A mesma razão que impede significação metaf ísica . O mesmo poderia ser dito do desejo
íc
reduzir ” a exist ê ncia ao corpo ou à sexualidade també m sexual : se ele se acomoda mal à presen ça de um terceiro tes-
impede ‘‘reduzir ” a sexualidade à existê ncia: isso ocorre por- temunho , se ele sente como um sinal de hostilidade uma ati -
que a existê ncia n ão é uma ordem de fatos ( como os “ fatos tude demasiado natural ou conversas muito indiferentes da
ps íquicos ” ) que se possa reduzir a outros ou à qual eles pos- parte do ser desejado , é porque quer fascinar e porque o ter-
sam reduzir-se , mas o lugar equ ívoco de sua comunicação , ceiro observador , ou o ser desejado , se é demasiado livre de
o ponto em que seus limites se embaralham , ou ainda sua espírito , escapam à fascinação . Aquilo que procuramos pos-
trama comum . N ão se trata de fazer a existê ncia humana suir n ão é portanto um corpo , mas um corpo animado por
andar “ com a cabeça ” . Sem d ú vida , é preciso reconhecer uma consciência e , como o diz Alain , n ão se ama uma louca ,
que o pudor , o desejo , o amor em geral tê m uma significa- exceto se j á a am ássemos antes de sua loucura . A import â n -
ção metaf ísica , quer dizer , que eles s ã o incompreens íveis se cia atribu ída ao corpo , as contradições do amor ligam -se por-
tratamos o homem como uma m áquina governada por leis tanto a um drama mais geral que se refere à estrutura meta-
naturais , ou mesmo como um “ feixe de instintos ” , e que física de meu corpo , ao mesmo tempo objeto para o outro e
eles concernem ao homem enquanto consciê ncia e enquanto sujeito para mim . A violê ncia do prazer sexual n ão bastaria
liberdade . Comumente o homem n ão mostra seu corpo e , para explicar o lugar que a sexualidade tem na vida humana
quando o faz , é ora com temor , ora com a inten ção de fasci - e , por exemplo , o fen ô meno do erotismo , se a experiê ncia se -
nar. Parece-lhe que o olhar estranho que percorre seu corpo xual n ão fosse como uma prova , dada a todos e sempre aces-
rouba-o de si mesmo ou que , ao contrá rio , a exposição de sível , da condi ção humana em seus momentos mais gerais de
seu corpo vai entregar-lhe o outro sem defesa , e agora é o autonomia e de dependê ncia. Portanto , n ão se explicam os
outro que será reduzido à escravid ão . Portanto , o pudor e embaraços e as angú stias da conduta humana ligando- a à
o despudor tê m lugar em uma dialé tica do eu e do outro que preocupação sexual , pois esta já os cont é m . Mas , reciproca -
é a do senhor e do escravo: enquanto tenho um corpo , sob mente , ligando a sexualidade à ambig ü idade do corpo , só se
o olhar do outro posso ser reduzido a objeto e n ã o contar consegue reduzi- la a si mesma . Pois , diante do pensamento ,
mais para ele como pessoa , ou ent ão , ao contrá rio , posso tor- sendo um objeto , o corpo n ão é amb íguo ; ele só se torna am -
nar- me seu senhor e por minha vez olh á- lo , mas esse dom ínio b íguo na experiê ncia que temos dele , eminentemente na ex-
é um impasse , já que , no momento em que meu valor é re - periê ncia sexual , e pelo fato da sexualidade . Tratar a sexua-
conhecido pelo desejo do outro , o outro n ão é mais a pessoa lidade como uma dialé tica n ão é reconduzi-la a um processo
232 FENQMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 233

de conhecimento , nem reconduzir a hist ó ria de um homem da linguagem da vig ília , tal excitação genital ou tal pulsão
à hist ó ria de sua consciê ncia . A dialé tica n ão é uma relação sexual é imediatamente esta imagem de um muro que se es-
entre pensamentos contradit ó rios e insepar áveis: é a tens ão cala ou de uma fachada na qual se sobe , que se encontra no
de uma exist ê ncia em dire ção a uma outra existê ncia que a conte ú do manifesto . A sexualidade se difunde em imagens
nega e sem a qual , todavia , ela n ão se sustenta . A metafísica que só retê m dela certas relações t ípicas , uma certa fisiono -
— a emergê ncia de um alé m da natureza — n ão est á locali-
zada no plano do conhecimento: ela come ç a com a abertura
mia afetiva . O pê nis do sonhador torna -se essa serpente que
figura no conte ú do manifesto15. O que acabamos de dizer do
a um “ outro 55 , ela est á em todas as partes e já no desenvolvi-
A
sonhador aplica -se també m a esta parte de n ós mesmos sem -
mento pró prio da sexualidade . E verdade que , com Freud , pre meio adormecida , que sentimos para aqu é m de nossas
n ós generalizamos a noção de sexualidade . Como podemos representações , desta bruma individual através da qual per -
falar ent ã o de um desenvolvimento pró prio da sexualidade ? cebemos o mundo . Ali existem formas confusas , relações pri-
vilegiadas, de forma alguma “ inconscientes , e das quais sa-
55
Como podemos caracterizar um conteú do de consciê ncia co-
mo sexual ? Com efeito , n ão o podemos . A sexualidade es- bemos muito bem que s ão equ ívocas , que tê m relação com
conde - se a si mesma sob uma m áscara de generalidade sem a sexualidade sem evocá-la expressamente . Da região corpo-
cessar ela tenta escapar à tensão e ao drama que ela institui . ral que mais especialmente ela habita , a sexualidade irradia
Mas , outra vez , de onde tiramos o direito de dizer que ela como que um odor ou um som . Reencontramos aqui a fun -
se esconde a si mesma , como se ela continuasse a ser o tema ção geral de transposição t ácita que j á t ínhamos reconhecido
de nossa vida ? N ão se deveria dizer simplesmente que ela é ao corpo ao estudar o esquema corporal . Quando dirijo. mi -
I
transcendida e dilu ída no drama mais geral da exist ê ncia ? nha m ão para um objeto , sei implicitamente que meu braço
Existem aqui dois erros a se evitar : um é n ão reconhecer à se distende . Quando movo os olhos , levo em conta seu movi -
existê ncia outro conte ú do que n ão seu conte ú do manifesto , mento sem tomar consci ê ncia expressa dele , e compreendo
exposto em representações distintas , como o fazem as Filoso- atrav és dele que a desordem do campo visual é apenas apa -
fias da consciê ncia ; o outro é duplicar esse conte ú do mani - rente . Da mesma maneira a sexualidade , sem ser o objeto de
festo com um conte ú do latente , també m ele feito de repre - um ato de consciê ncia expresso , pode motivar as formas pri-
sentações , como o fazem as psicologias do inconsciente . A se- vilegiadas de minha experiê ncia . Assim considerada , quer di -
!
xualidade n ão é nem transcendida na vida humana , nem fi - zer , como atmosfera amb ígua , a sexualidade é coextensiva
gurada em seu centro por representações inconscientes . Ela à vida . Dito de outra maneira , o equ ívoco é essencial à exis-
est á constantemente presente ali , como uma atmosfera . O so- tê ncia humana , e tudo o que vivemos ou pensamos sempre
nhador n ão começa por representar- se o conte ú do latente de tem v á rios sentidos. Um estilo de vida — atitude de fuga e
seu sonho , aquele que será revelado pela “ segunda narrati-
va 55 , com o aux ílio de imagens adequadas ; ele n ão começa
necessidade de solid ão — é talvez uma expressão generaliza
da de um certo estado da sexualidade . Fazendo-se assim exis-
-
por perceber claramente as excitações de origem genital co- tê ncia , a sexualidade encarregou - se de uma significação t ão
mo genitais , para em seguida traduzir esse texto em uma lin - geral , o tema sexual pôde ser para o sujeito a ocasi ão de tan -
guagem figurada. Mas para o sonhador , que se desprendeu tas observações em si mesmas verdadeiras e justas , de tantas
234 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 CORPO 235

decisões sensatas , a caminho ele insistiu sobre isso de tal for - midos . Responder- se-á talvez que a organização de nosso cor-
ma , que é imposs ível procurar na forma da sexualidade a ex- po é contingente , que se pode “ conceber um homem sem
plicação da forma de exist ê ncia . Resta que esta existê ncia é m ãos , pés , cabeça ” 16 , e com mais razão ainda um homem
a retomada e a explicitação de uma situação sexual , e que sem sexo que se reproduziria por brotamento ou por mergu -
assim ela tem sempre pelo menos um duplo sentido . Existe lhia . Mas isso só é verdadeiro se se consideram as m ãos , os
osmose entre a sexualidade e a exist ê ncia , quer dizer , se a pés , a cabeça ou o aparelho sexual abstratamente , quer di -
existê ncia se difunde na sexualidade , reciprocamente a sexua - zer , como fragmentos de maté ria , n ão em sua fun ção viva
lidade se difunde na exist ê ncia , de forma que é imposs ível — e se se forma do homem uma noção ela també m abstrata ,
determinar , para uma decisão ou para uma dada ação , a parte na qual só se faz entrar a Cogitatio . Ao contrá rio , se defini -
da motivação sexual e a parte das outras motivações , é im - mos o homem por sua experiê ncia , quer dizer , por sua ma-
possível caracterizar uma decisão ou um ato como “ sexual ” neira pró pria .de pô r o mundo em forma , e se reintegramos
ou < n ão-sexual ” . Assim , h á na exist ê ncia humana um prin -
í
os “ ó rgãos ” a este todo funcional no qual eles s ão recorta-
cípio de indeterminação , e essa indeterminação n ão existe ape- dos , um homem sem m ão ou sem sistema sexual é t ão incon -
nas para n ós , ela n ão prové m de alguma imperfeição de nos- cebível quanto um homem sem pensamento . Responder-se -á
so conhecimento , n ão se deve acreditar que um Deus pode - outra vez dizendo que nossa proposição só deixa de ser para -
ria sondar os corações e os rins e delimitar aquilo que nos doxal tornando- se uma tautologia : afirmamos em suma que
vem da natureza e aquilo que nos vem da liberdade . A exis - o homem seria diferente daquilo que ele é , e portanto n ão
t ê ncia é em si indeterminada por causa de sua estrutura fun - seria mais um homem , se lhe faltasse um só dos sistemas de
damental , já que ela é a pró pria operação através da qual o -
relação que efetivamente possui . Todavia , acrescentar se - á ,
que n ão tinha sentido adquire um sentido , o que só tinha um é porque definimos o homem pelo homem emp írico , tal co-
sentido sexual adquire uma significaçã o mais geral , o acaso mo ele de fato existe , e porque ligamos por uma necessidade
se faz razão enquanto ela é a retomada de uma situação de de essê ncia e em urn a priori humano os caracteres deste todo
fato . Chamaremos de transcendê ncia este movimento pelo dado , que só foram reunidos ali pelo encontro entre causas
qual a existê ncia , por sua conta , retoma e transforma uma múltiplas e pelo capricho da natureza . Na realidade , não ima-
situação de fato . Justamente por ser transcendê ncia , a exis- ginamos , por uma ilusão retrospectiva , uma necessidade de
t ê ncia nunca ultrapassa nada definitivamente , pois ent ão a essê ncia , n ós constatamos uma conex ão de existê ncia. J á que ,
tensão que a define desapareceria . Ela nunca abandona a si como o mostramos acima pela an álise do caso Schn . , todas
mesma . Aquilo que ela é nunca lhe permanece exterior e aci - as “ funções ” no homem , da sexualidade à motricidade e à
dental , já que ela o retoma em si . A sexualidade , tanto quan - inteligê ncia , são rigorosamente solid á rias , é impossível dis-
to o corpo em geral , n ão deve ser considerada ent ão como tinguir , no ser total do homem , uma organização corporal
um conte ú do fortuito de nossa experiê ncia . A existê ncia n ão que tratar íamos como um fato contingente , e outros predica-
tem atributos fortuitos , nenhum conte ú do que n ão contribua dos que lhe pertenceriam com necessidade . Tudo é necessi-
para lhe dar sua forma , ela n ão admite em si mesma um pu - dade no homem e , por exemplo , n ão é por uma simples coin -
ro fato porque ela é o movimento pelo qual os fatos são assu - cid ê ncia que o ser racional é també m aquele que se manté m
236 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

em pé ou possui um polegar opon ível aos outros dedos ; a mes-


ma maneira de existir manifesta- se aqui e ali 17 . Tudo é con -
tingê ncia no homem , no sentido em que esta maneira huma -
na de existir não está garantida a toda crian ça humana por
alguma essê ncia que ela teria recebido em seu nascimento , CAPÍTULO VI
e em que ela deve constantemente refazer -se nela atrav és dos
acasos do corpo objetivo. O homem é uma idé ia histó rica e
n ão uma espé cie natural . Em outros termos , n ão h á na exis - O CORPO COMO EXPRESSÃO
t ê ncia humana nenhuma posse incondicionada e , todavia , ne- E A FALA
nhum atributo fortuito . A exist ê ncia humana nos obrigará
a rever nossa noção usual da necessidade e da contingê ncia ,
porque ela é a mudança da contingê ncia em necessidade pe -
lo ato de retomada . Tudo aquilo que somos , n ós o somos so-
bre a base de uma situação de fato que fazemos nossa , e que Reconhecemos no corpo uma unidade distinta daquela
transformamos sem cessar por uma espé cie de regulagem que do objeto cient ífico . Acabamos de descobrir uma intenciona-
nunca é uma liberdade incondicionada . N ão h á explicação lidade e um poder de significação até em sua “ fun ção sexual ” .
da sexualidade que a reduza a outra coisa que ela mesma , Procurando descrever o fen ô meno da fala e o ato expresso
pois ela j á era outra coisa que ela mesma e , se se quiser , nos- de significação , poderemos ultrapassar definitivamente a di -
-
so ser inteiro . A sexualidade , diz se , é dram á tica porque en - cotomia cl ássica entre o sujeito e o objeto .
gajamos nela toda a nossa vida pessoal . Mas justamente por A tomada de consciê ncia da fala enquanto região origi-
que nós o fazemos ? Porque nosso corpo é para n ós o espelho nal naturalmente tardia . Aqui , como em todas as partes ,
é
de nosso ser , sen ão porque ele é um eu natural , uma corrente a relação de ter , todavia visível na pró pria etimologia da pa-
de exist ê ncia dada , de forma que nunca sabemos se as forças lavra h ábito , é primeiramente mascarada pelas relações do
que nos dirigem são as suas ou as nossas — ou antes elas nun - dom ínio do ser ou , como se pode dizer també m , pelas rela-
ca são inteiramente nem suas nem nossas . N ão existe ultra- ções intramundanas e ô nticas1 . A posse da linguagem é com -
passamento da sexualidade , assim como n ão h á sexualidade preendida em primeiro lugar como a simples existê ncia efeti -
fechada sobre si mesma . Ningu é m est á a salvo e ningu é m es- va de “ imagens verbais ” , quer dizer , de traços deixados em
tá inteiramente perdido18. nós pelas palavras pronunciadas ou ouvidas . Quer esses tra-
ços sejam corporais , quer eles se depositem em um “ psiquis-
mo inconsciente ” , isso n ão importa muito e , nos dois casos ,
a concepção da linguagem coincide em que n ão n ão h á “ su -
jeito falante ” . Quer os est ímulos desencadeiem , segundo as
leis da mecâ nica nervosa , as excitações capazes de provocar
a articulação da palavra , quer os estados de consciê ncia acar-
238 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO 0 CORPO 239

retem , em virtude das associações adquiridas , a apariçã o da vra . Distinguia- se a palavra enquanto instrumento de ação
imagem verbal conveniente , nos dois casos e fala tem lugar e enquanto meio de denominação desinteressada . Se a lin -
em um circuito de fen ô menos em terceira pessoa , n ão h á nin - guagem “ concreta ” continuava a ser um processo em tercei -
gu é m que fale , h á um fluxo de palavras que se produzem sem ra pessoa , a linguagem gratuita , a denominação aut ê ntica
qualquer inten ção de falar que as governe . O sentido das pa- tornava-se um fen ô meno de pensamento , e é em um dist ú r-
lavras é considerado como dado com os est í mulos ou com os bio do pensamento que seria preciso procurar a origem de
estados de consciê ncia que se trata de nomear , a configura- certas afasias . Por exemplo , a amn é sia dos nomes de cor , re -
ção sonora ou articular da palavra é dada com os traços cere - colocada no comportamento de conjunto do doente, apare-
brais ou psíquicos , a fala n ão é uma ação , n ão manifesta pos- cia como uma manifestaçã o especial de um dist ú rbio mais ge-
sibilidades interiores do sujeito : o homem pode falar do mes- ral . Os mesmos doentes que n ão conseguem nomear as cores
mo modo que a l â mpada elé trica pode tornar- se incandescen - que lhes apresentam s ão igualmente incapazes de classific á-
te . Se h á dist ú rbios eletivos que afetam a linguagem falada las segundo uma dada ordem. Se , por exemplo, pede-se a eles
excluindo a linguagem escrita , ou a escrita excluindo a fala , que classifiquem amostras segundo a cor fundamental , cons-
e se a linguagem pode desagregar- se em fragmentos , é por- tata - se primeiramente que o fazem mais lentamente e mais
que ela se constitui por uma sé rie de contribuições indepen - minuciosamente que uma pessoa normal : eles aproximam
dentes e porque a fala , no sentido geral , é um ser de razão . umas das outras as amostras a comparar e n ão vêem com um
A teoria da afasia e da linguagem pareceu transformar- só olhar aquelas que “ ficam juntas ” . Alé m disso , depois de
se completamente quando se foi levado a distinguir , acima ter juntado corretamente v á rias fitas azuis , eles cometem er -
da anartria , que afeta a articulação da palavra , a verdadeira ros incompreensíveis : se , por exemplo , a ú ltima fita azul ti-
afasia, que nunca ocorre sem dist úrbios da inteligê ncia — aci- nha um matiz pálido , eles prosseguem juntando à pilha dos
ma da linguagem autom ática , que com efeito
no motor em terceira pessoa , uma linguagem
é um fen
intencional
ô
,
me
ú ni
-
-
<<
azuis ” um verde p álido ou um rosa pálido — como se lhes
fosse imposs ível manter o princí pio de classificação proposto
ca afetada na maior parte das afasias . Com efeito , a indivi - e considerar as amostras sob o ponto de vista da cor do co-
dualidade da “ imagem verbal ” achava- se dissociada. O que meço ao fim da operação . Portanto , eles se tornaram incapa -
o doente perdeu , o que o normal possui , n ão é um certo esto- zes de subsumir os dados sensíveis a uma categoria , de ver
que de palavras , é uma certa maneira de utilizá -lo . A mesma de um só golpe as amostras como representantes do eidos azul .
palavra que permanece à disposição do doente no plano da Mesmo quando , no in ício da experiê ncia , procedem correta -
linguagem autom ática furta- se a ele no plano da linguagem mente , o que os guia n ão é a participa ção das amostras a uma


gratuita o mesmo doente que encontra sem esforço a pala -
vra c n ão ” para rejeitar as quest ões do médico , quer dizer ,
í
idéia , é a experiê ncia de uma semelhan ça imediata , e por is-
so eles só podem classificar as amostras depois de t ê - las apro-
quando ela significa uma negação atual e vivida , n ão conse - ximado umas das outras . A experiê ncia de combinação evi-
gue pronunciá-la quando se trata de um exercício sem inte- dencia a existê ncia , neles , de um dist ú rbio fundamental do
resse afetivo e vital . Portanto , descobria- se atr ás da palavra qual a amn ésia dos nomes de cor ser á apenas uma outra ma-
uma atitude , uma fun ção da fala que condicionam a pala- nifestação . Pois nomear um objeto é afastar-se do que ele tem
r

240 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 241

de individual e de ú nico para ver nele o representante de uma a palavra continua a ser um invólucro vazio . Ela é apenas
essê ncia ou de uma categoria , e , se o doente n ão pode no- um fenô meno articular , sonoro , ou a consciê ncia desse fen ô-
mear as amostras , n ão é que tenha perdido a imagem verbal meno , mas em qualquer caso a linguagem é apenas um acom -
da palavra vermelho ou da palavra azul , é porque perdeu o panhamento exterior do pensamento . Na primeira concep-
poder geral de subsumir um dado sensível a uma categoria , ção , estamos aqu é m da palavra enquanto significativa; na se -
é porque voltou a cair da atitude cat é gorial na atitude con - gunda , estamos alé m — na primeira , n ão h á ningu é m que
creta2 . Essas an álises e outras semelhantes conduzem - nos , ao fale ; na segunda , h á um sujeito , mas ele n ão é o sujeito fa-
que parece , aos ant í podas da teoria da imagem verbal , já que lante , é o sujeito pensante . No que concerne à pró pria fala ,
a linguagem aparece agora como condicionada pelo pensa - o intelectualismo mal difere do empirismo e n ão pode , tanto
mento. quanto este , dispensar - se de uma explicação pelo automatis-
Na realidade , veremos mais uma vez que h á um paren - mo . Uma vez feita a operação caté gorial , resta explicar a apa-
tesco entre as psicologias empiristas ou mecanicistas e as psi - rição da palavra que a conclui , e é mais uma vez por um me-
cologias intelectualistas , e n ão se resolve o problema da lin - canismo fisiológico ou ps íquico que se fará isso , j á que a pa -
guagem passando da tese à ant ítese . H á pouco a reprodu ção lavra é um inv ólucro inerte . Portanto , ultrapassa-se tanto o
da palavra , a revivescê ncia da imagem verbal era o essen - intelectualismo quanto o empirismo pela simples observação
cial ; agora ela é apenas o inv ólucro da verdadeira denomina - de que a palavra tem um sentido .
ção e da fala aut ê ntica , que é uma operação interior . E toda - Se a fala pressupusesse o pensamento , se falar fosse em
via as duas concepções coincidem em que tanto para uma co- primeiro lugar unir- se ao objeto por uma inten ção de conhe-
mo para a outra a palavra n ão tem significação . Isso é evi - cimento ou por uma representação , n ão se compreenderia por
dente na primeira , já que a evocação da palavra n ão é me - que o pensamento tende para a expressão como para seu aca-
diada por nenhum conceito , que os est ímulos ou os ‘‘estados bamento , por que o objeto mais familiar parece - nos indeter-
de consciê ncia ” dados a convocam segundo as leis da mecâ - minado enquanto n ão encontramos seu nome , por que o pró-
nica nervosa ou segundo as leis da associação , e que assim prio sujeito pensante est á em um tipo de ignorâ ncia de seus
a palavra n ão traz seu sentido , n ão tem nenhuma pot ê ncia pensamentos enquanto n ão os formulou para si ou mesmo
interior e é apenas um fenômeno ps íquico , fisioló gico ou mes- disse e escreveu , como o mostra o exemplo de tantos escrito-
mo f ísico justaposto aos outros e trazido à luz pelo jogo de res que começ am um livro sem saber exatamente o que nele
uma causalidade objetiva . O mesmo acontece quando se du - colocarão . Um pensamento que se contentasse em existir pa-
plica a denominação com uma operação caté gorial . A pala- ra si , fora dos incó modos da fala e da comunicação , logo que
vra ainda est á desprovida de uma eficá cia própria , desta vez aparecesse cairia na inconsciê ncia , o que significa dizer que
porque é apenas o signo exterior de um reconhecimento in - ele nem mesmo existiria para si . A famosa quest ão de Kant ,
terior que poderia fazer-se sem ela e para o qual ela n ão con - podemos responder que pensar é com efeito uma experiê n-
tribui . A palavra n ão é desprovida de sentido , já que atrás cia , no sentido em que n ós nos damos nosso pensamento pe -
dela existe uma operação caté gorial , mas ela n ão tem esse sen - la fala interior ou exterior . Ele progride no instante e como
tido , n ão o possui ; é o pensamento que tem um sentido , e que por fulgurações , mas em seguida é preciso que nos apro-
0 CORPO 243
242 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

priemos dele , e é pela expressão que ele se torna nosso . A pria combinação das palavras e das frases n ão é uma contri-
denominação dos objetos n ão vem depois do reconhecimen - buição alheia , já que n ão seria compreendida se n ão encon -
trasse naquele que escuta o poder de realizá-la espontanea-
to , ela é o pró prio reconhecimento . Quando fixo um objeto
"

na penumbra e digo : “ E uma escova ” , n ão h á em meu espí- mente . Aqui , como em todas as partes , primeiramente pare -
rito um conceito da escova ao qual eu subsumiria o objeto ce verdade que a consciê ncia só pode encontrar em sua expe -
e que , por outro lado , estaria ligado à palavra ‘‘escova ” por
riê ncia aquilo que ela mesma ali colocou . A experiê ncia da
uma associação freq ü ente , mas a palavra traz o sentido e ,
comunicação seria assim uma ilusão . Uma consciê ncia cons -
impondo-o ao objeto , tenho consciê ncia de atingi -lo . Como trói— para X— essa m áquina de linguagem que dará a uma
outra consciê ncia a ocasião de efetuar os mesmos pensamen -
se disse freq ü entemente3, para a crian ça o objeto só é conhe - tos , mas realmente nada passa de uma à outra . Todavia , se
cido quando é nomeado , o nome é a essê ncia do objeto e re -
side nele do mesmo modo que sua cor e que sua forma . Para o problema consiste em saber como , aparentemente , a cons -
o pensamento pré -cient ífico , nomear o objeto é fazê -lo exis-
ciê ncia aprende algo , a solu ção n ão pode consistir em dizer
tir ou modificá-lo : Deus cria os seres nomeando- os , e é falan - que ela sabe tudo antecipadamente . O fato é que temos o po -
do dos seres que a magia age sobre eles . Esses “ erros ” se- der de compreender para alé m daquilo que espontaneamen -
riam incompreens íveis se a fala repousasse em um conceito , te pensamos. Só podem falar- nos uma linguagem que já com -
pois este deveria sempre conhecer-se como distinto dela e preendemos , cada palavra de um texto dif ícil desperta em nós
conhecê -la como um acompanhamento exterior. Se se respon - pensamentos que anteriormente nos pertenciam , mas por ve -
zes essas significações se unem em um pensamento novo que
de que a crianç a aprende a conhecer os objetos através das
as remaneja a todas , somos transportados para o centro do
designações da linguagem , que assim , dados primeiramente
como seres lingü isticos , os objetos só recebem secundariamen -
livro , encontramos a sua fonte . Nada h á ali de compará vel
te a existê ncia natural , e que enfim a existê ncia efetiva de uma
à resolu ção de um problema , em que se descobre um termo
comunidade lingu ística d á conta das cren ças infantis , essa ex- desconhecido por sua relação a termos conhecidos. Pois o pro-
plicação deixa o problema intacto , já que , se a crian ç a pode blema só pode ser resolvido se ele é determinado , quer dizer ,
se o confronto dos dados atribui à incó gnita um ou v á rios va-
conhecer-se como membro de uma comunidade ling ü istica
antes de conhecer-se como pensamento de uma Natureza , é
lores definidos. Na compreensão do outro , o problema é sem -
sob a condição de que o sujeito possa ignorar-se como pensa- pre indeterminado5 , porque só a solu ção do problema fará
mento universal e apreender- se como fala , e de que a pala-
aparecer retrospectivamente os dados como convergentes , só
vra , longe de ser o simples signo dos objetos e das significa- o motivo central de uma filosofia , uma vez compreendido ,
ções , habite as coisas e veicule as significações . Assim a fala d á aos textos do filósofo o valor de signos adequados . Por -
tanto , existe uma retomada do pensamento do outro através
n ão traduz , naquele que fala , um pensamento já feito , mas
o consuma4 . Com mais razão ainda , é preciso admitirv que
da fala , uma reflex ão no outro um poder de pensar segundo
aquele que escuta recebe o pensamento da pró pria fala. A pri - o outro6 que enriquece nossos pensamentos pró prios . Aqui , é
meira vista , acreditar-se-ia que a fala ouvida nada pode trazer- preciso que o sentido das palavras finalmente seja induzido
lhe: é ele quem dá seu sentido às palavras , às frases , e a pró- pelas pró prias palavras ou , mais exatamente , que sua signi -
244 FENOMENOL OGIA DA PERCE PÇ AO 0 CORPO 245

í ica ção conceituai se forme por antecipação a partir de uma pensa antes de falar , nem mesmo enquanto fala ; sua fala é
significação gestual que , ela , é imanente à fala . E , assim como seu pensamento . Da mesma maneira , o ouvinte não concebe
em um pa ís estrangeiro come ço a compreender o sentido das por ocasi ão dos signos . O “ pensamento ” do orador é vazio
palavras por seu lugar em um contexto de ação e participan - enquanto ele fala, e quando se lê um texto diante de n ós , se
do à vida comum , da mesma maneira um texto filosófico ainda a expressão é bem - sucedida , n ão temos um pensamento à
mal compreendido me revela pelo menos um certo “ estilo > > margem do pró prio texto , as palavras ocupam todo o nosso
— seja em estilo spinozista , criticista ou fenomenol ógico
que é o primeiro esboço de seu sentido , começo a compreen -
— esp írito , elas vê m preencher exatamente nossa expectativa e
n ós sentimos a necessidade do discurso , mas n ão seríamos ca-
der uma filosofia introduzindo- me na maneira de existir des- pazes de prev ê - lo e somos possu ídos por ele . O fim do dis-
se pensamento , reproduzindo seu tom , o sotaque do filósofo . curso ou do texto será o fim de um encantamento . E ent ão
Em suma , toda linguagem se ensina por si mesma e introduz que poderão sobrevir os pensamentos sobre o discurso ou so-
seu sentido no esp í rito do ouvinte . Uma m ú sica ou uma pin - bre o texto ; antes o discurso era improvisado e o texto com -
tura que primeiramente n ão é compreendida , se verdadeira - preendido em um ú nico pensamento , o sentido estava pre -
mente diz algo , termina por criar por si mesma seu p ú blico , sente em todas as partes , mas em parte alguma posto pò r si
quer dizer , por secretar ela mesma sua significação . No caso mesmo . Se o sujeito falante n ão pensa o sentido daquilo que
da prosa ou da poesia , a potê ncia da fala é menos visível , por- diz , menos ainda ele representa -se as palavras que emprega .
que temos a ilusão de j á possuirmos em n ós , com o sentido Saber uma palavra ou uma l íngua n ão é dispor , nós o disse -
comum das palavras , o que é preciso para compreender qual - mos , de montagens nervosas preestabelecidas . Mas també m
nao é conservar da palavra alguma “ recordação pura al-
3
3
quer texto , quando , evidentemente , as cores da paleta ou os
sons brutos dos instrumentos , tais como a percepção natural guma percepção enfraquecida . A alternativa bergsoniana en-
os oferece a n ós , n ão bastam para formar o sentido musical tre a mem ó ria- h ábito e a recordação pura n ão d á conta da
de uma m ú sica , o sentido pict ó rico de uma pintura . Mas na presen ça próxima das palavras que conheço : elas est ão atrás
verdade o sentido de uma obra literá ria é menos feito pelo de mim , assim como os objetos est ão atrás de minhas costas
sentido comum das palavras do que contribui para modificá- ou como o horizonte de minha cidade est á em torno de mi -
lo. H á portanto , tanto naquele que escuta ou l ê como naque- nha casa; eu as levo em conta ou conto com elas , mas n ão
le que fala e escreve , um pensamento na fala que o intelectualis- tenho nenhuma “ imagem verbal ” . Se elas persistem em mim ,
mo n ão suspeita. é antes como a Imago freudiana , que é muito menos a repre-
Se queremos lev á-lo em consideração , precisamos vol - sentação de uma percepção antiga do que uma essê ncia emo-
tar ao fen ô meno da fala e recolocar em quest ão as descrições cional muito precisa e muito geral separada de suas origens
ordin árias que imobilizam o pensamento , assim como a fala , A
empíricas. Resta- me da palavra aprendida o seu estilo arti-
e permitem conceber entre eles apenas relações exteriores . E cular e sonoro. E preciso dizer da imagem verbal aquilo que
preciso reconhecer em primeiro lugar que o pensamento , no dizíamos mais acima da “ representação de movimento ” : não
sujeito falante , n ão é uma representação , quer dizer , que es- preciso representar-me o espaço exterior e meu pró prio cor-
te n ã o põe expressamente objetos ou relações . O orador n ão po para mover um no outro. Basta que eles existam para mim
246 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 247

e constituam um certo campo de ação disposto em torno de bra o estilo articular de uma palavra em fenô menos sonoros ,
mim . Da mesma maneira , n ão preciso representar- me a pa- desdobra em panorama do passado a atitude antiga que ele
lavra para sabê -la e para pronunciá-la . Basta que eu possua retoma , projeta uma inten ção de movimento em movimento
sua essê ncia articular e sonora como uma das modulações , efetivo , porque ele é um poder de expressão natural .
um dos usos poss íveis de meu corpo. Reporto- me à palavra Essas observações permitem - nos restituir ao ato.de falar
assim como minha m ão se dirige para o lugar de meu corpo a sua verdadeira fisionomia . Em primeiro lugar , a fala n ã o
picado por um inseto ; a palavra é um certo lugar de meu mun - é o “ signo ” do pensamento , se entendemos por isso um fe -
do lingu ístico , ela faz parte de meu equipamento , só tenho n ô meno que anuncia um outro, como a fumaça anuncia o
um meio de represent á-la para mim , é pronunciá-la , assim fogo . A fala e o pensamento só admitiriam essa relação exte -
como o artista só tem um meio de representar- se a obra na rior se um e outro fossem tematicamente dados ; na realida -
qual trabalha : é preciso que ele a faça . Quando imagino Pe - de , eles est ão envolvidos um no outro , o sentido est á enraiza-
dro ausente , n ão tenho consciê ncia de contemplar um Pedro do na fala , e a fala é a exist ê ncia exterior do sentido . N ão
em imagem numericamente distinto do pró prio Pedro; por poderemos mais admitir , como comumente se faz , que a fala
mais distante que ele esteja , eu o viso no mundo , e meu po- seja um simples meio de fixação , ou ainda o inv ólucro e a
der de imaginar é apenas a persist ê ncia de meu mundo em vestimenta do pensamento . Por que seria mais f á cil lembrar-
torno de mim 7 . Dizer que imagino Pedro é dizer que arran - se das palavras ou das frases do que lembrar- se dos pensa-
jo para mim uma pseudopresen ç a de Pedro desencadeando mentos , se a cada vez as pretensas imagens verbais precisam
a “ conduta de Pedro ” . Assim como Pedro imaginado é ape- ser reconstru ídas ? E por que o pensamento procuraria dupli -
nas uma das modalidades de meu ser no mundo , a imagem car- se ou revestir- se de uma sé rie de vociferações se elas n ão
verbal é uma das modalidades de minha gesticulaçã o fonéti- trouxessem e n ão contivessem em si mesmas seu sentido? As
ca , dada com muitas outras na consciê ncia global de meu cor- palavras só podem ser as “ fortalezas do pensamento ” e o pen -
po . Evidentemente é isso que Bergson quer dizer quando fa- samento só pode procurar a expressão se as falas são por si
la de um “ quadro motor ” da evocação , mas , se representa- mesmas um texto compreensível e se a fala possui uma po-
ções puras do passado vê m inserir-se nesse quadro, n ão se tência de significação que lhe seja própria . E preciso que , de
vê por que elas precisariam dele para voltar a ser atuais . Só uma maneira ou de outra , a palavra e a fala deixem de ser
se compreende o papel do corpo na mem ó ria se a mem ória uma maneira de designar o objeto ou o pensamento para se
é n ã o a consciê ncia constituinte do passado , mas um esforço tornarem a presença desse pensamento no mundo sensível e ,
para reabrir o tempo a partir das implicações do presente , não sua vestimenta , mas seu emblema ou seu corpo . E preci-
e se o corpo , sendo nosso meio permanente de “ tomar atitu - so que exista , como dizem os psicólogos , um “ conceito lin -
des ” e de fabricar- nos assim pseudopresentes , é o meio de gii ístico ” ( Sprachbegrifj) ou um conceito verbal ( Wortbegrifj) ,
nossa comunicação com o tempo , assim como com o espaço8 . uma “ experiê ncia interna central ” 9 , especificamente verbal ,
A função do corpo na memória é aquela mesma função de graças à qual o som ouvido, pronunciado, lido ou escrito se
projeção que já encontramos na iniciação cin é tica: o corpo torne um fato de linguagem ” 10. Doentes podem 1er um tex-
converte uma certa essê ncia motora em vociferação , desdo- to “ com ritmo ” , sem todavia compreendê -lo. Isso ocorre en -
248 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 249

testar á que aqui a operação expressiva realiza ou efetua a sig-


t ão porque a fala ou as palavras trazem uma primeira cama - nificação e n ão se limita a traduzi-la . O mesmo acontece , mal-
da de significação que lhes é aderente e que oferece o pensa-
mento enquanto estilo , enquanto valor afetivo , enquanto m í- grado a aparê ncia, com a expressão dos pensamentos pela fala .
mica existencial antes que como enunciado conceituai . Des- O pensamento n ão é nada de “ interior ” , ele n ão existe fora
cobrimos aqui , sob a significaçã o conceituai das falas , uríia do mundo e fora das palavras. O que nos engana a respeito
significação existencial que n ã o é apenas traduzida por elas , disso , o que nos faz acreditar em um pensamento que existi -
mas que as habita e é inseparável delas . O maior benef ício ria para si antes da expressão , são os pensamentos já consti-
da expressão n ão é consignar em um escrito pensamentos que tu ídos e j á expressos dos quais podemos lembrar- nos silen -
poderiam perder-se , um escritor quase n ão relê suas pró prias ciosamente e através dos quais nos damos a ilusão de uma
obras , e as grandes obras depositam em n ós , na primeira lei- vida interior . Mas , na realidade , esse pretenso silê ncio é sus-
tura , tudo aquilo que a seguir extrairemos delas . A operação surrante de falas, esta vida interior é uma linguagem inte-
de expressão , quando é bem-sucedida , n ão deixa apenas um rior . O pensamento “ puro ” reduz- se a um certo vazio da
consciê ncia , a uma promessa instant â nea . A nova inten ção

A

sum á rio para o leitor ou para o próprio escritor , ela faz a sig-
nificação existir como uma coisa no pró prio coração do tex- significativa só se conhece a si mesma recobrindo- se de signi-
to , ela a faz viver em um organismo de palavras , ela a instala ficações já dispon íveis , resultado de atos de expressão ante-
no escritor ou no leitor como um novo ó rgão dos sentidos , riores . As significações dispon íveis entrelaçam -se repentina-
abre para nossa experiê ncia um novo campo ou uma nova mente segundo uma lei desconhecida , e de uma vez por to-
dimensão. Essa pot ê ncia da expressão é bem conhecida na das um novo ser cultural começou a existir . Portanto o pen -
arte e , por exemplo , na m ú sica. A significação musical da samento e a expressão constituem - se simultaneamente , quan -
sonata é insepará vel dos sons que a conduzem : antes que a do nossa aquisição cultural se mobiliza a serviço dessa lei
tenhamos ouvido , nenhuma an álise permite - nos adivinhá-la ; desconhecida , assim como nosso corpo repentinamente se
uma vez terminada a execução , só poderemos , em possas aná- presta a um gesto novo na aquisição do há bito . A fala é um
lises intelectuais da m ú sica , reportar- nos ao momento da ex- verdadeiro gesto e cont é m seu sentido , assim como o gesto
periência; durante a execu ção, os sons não são apenas os “ sig- conté m o seu . E isso que torna possível a comunicação . Para
nos ” da sonata , mas ela está ali através deles , ela irrompe que eu compreenda as falas do outro , evidentemente é preci-
so que seu vocabulário e sua sintaxe “ já sejam conhecidos >
5

-
neles11 . Da mesma maneira, a atriz torna se invisível , e é Fe-
por mim . Mas isso não significa que as falas agem suscitan -
dra quem aparece . A significação devora os signos e Fedra
tomou posse da Berma t ão bem , que seu ê xtase em Fedra nos do em mim “ representações ” que lhes seriam associadas e
parece ser o máximo do natural e da facilidade12 . A expres- cuja reunião terminaria por reproduzir em mim a “ represen -
são esté tica confere a exist ê ncia em si àquilo que exprime , tação ” original daquele que fala. Não é com “ representações ”
instala-o na natureza como uma coisa percebida acessível a ou com um pensamento que em primeiro lugar eu comuni -
todos ou , inversamente , arranca os pró prios signos
soa do ator , as cores e a tela do pintor — — a pes-
de sua existê ncia
co , mas com um sujeito falante , com um certo estilo de ser
e com o “ mundo ” que ele visa. Assim como a inten ção sig-
empírica e os arrebata para um outro mundo . Ningu é m con- nificativa que pôs em movimento a fala do outro n ão é um
250 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO O CORPO 251

pensamento expl ícito , mas uma certa carê ncia que procura eu n ão percebo a có lera ou a ameaça como um fato ps íquico
preencher-se , da mesma maneira a retomada dessa intenção escondido atrás do gesto , leio a cólera no gesto , o gesto não
por mim n ão é uma operação de meu pensamento mas uma -
me faz pensar na cólera , ele é a pró pria cólera . Todavia , o sen
operação sincrô nica de minha pró pria exist ê ncia , uma trans- tido do gesto n ão é percebido do mesmo modo que , por exem -
formação de meu ser . Vivemos em um mundo no qual a fala plo , a cor do tapete . Se ele me fosse dado como uma coisa ,
est á instituída . Para todas essas falas banais , possu ímos em n ós n ão se vê por que minha compreensão dos gestos se limita -
mesmos significações já formadas . Elas só suscitam em nós ria , na maior parte das vezes , aos gestos humanos . Eu n ão
pensamentos secundá rios; estes , por sua vez , traduzem -se em Cí
compreendo ” a m í mica sexual do cão , menos ainda a do
outras falas que n ão exigem de nós nenhum esforço verda- besouro ou do louva- a -deus . N ã o compreendo nem mesmo
deiro de expressão, e n ão exigirão de nossos ouvintes nenhum a expressão das emoções nos primitivos ou em meios muito
esforço de compreensão . Assim , a linguagem e a compreen - diferentes do meu . Se por acaso acontece que uma criança
são da linguagem parecem evidentes. O mundo ling ü istico testemunhe uma cena sexual , ela pode compreend ê -la sem
e intersubjetivo n ão nos espanta mais , n ós n ão o distingui - ter a experiê ncia do desejo e das atitudes corporais que o tra-
mos mais do próprio mundo , e é no interior de um mundo duzem , mas a cena sexual será apenas um espet áculo insóli-
já falado e falante que refletimos . Perdemos a consciê ncia do to e inquié tante , ela n ão terá sentido se a crian ç a ainda n ão
que há de contingente na expressão e na comunicação, seja atingiu o grau de maturidade sexual em que esse comporta-
junto à crian ça que aprende a falar , seja junto ao escritor que mento se torna poss ível para ela . E verdade que freq ü ente -
diz e pensa pela primeira vez alguma coisa , seja enfim junto mente o conhecimento do outro ilumina o conhecimento de
a todos os que transformam um certo sil ê ncio em fala. Toda- si: o espet áculo exterior revela à criança o sentido de suas pró-
via , est á muito claro que a fala constitu ída , tal como opera prias pulsões propondo- lhes uma meta . Mas o exemplo pas-
na vida cotidiana , supõe realizado o passo decisivo da expres- saria despercebido se ele n ão se encontrasse com as possibili -
s ão . Nossa visão sobre o homem continuar á a ser superficial dades internas da crian ça . O sentido dos gestos n ão é dado
enquanto não remontarmos a essa origem , enquanto n ão reen- mas compreendido , quer dizer , retomado por um ato do es-
contrarmos , sob o ru ído das falas , o silê ncio primordial , en - pectador . Toda a dificuldade é conceber bem esse ato e n ão
quanto n ão descrevermos o gesto que rompe esse silê ncio . A confundi-lo com uma operação de conhecimento. Obtém-se
fala é um gesto , e sua significação um mundo. a comunicação ou a compreens ão dos gestos pela reciproci-
A psicologia moderna13 mostrou muito bem que o es- dade entre minhas inten ções e os gestos do outro , entre meus
pectador n ão procura em si e em sua experiência interna o gestos e inten ções legíveis na conduta do outro. Tudo se pas-
sentido dos gestos que testemunha . Para compreender o ges- sa como se a inten ção do outro habitasse meu corpo ou como
to de cólera ou de ameaça, eu não preciso lembrar- me dos se minhas intenções habitassem o seu . O gesto que testemu -
sentimentos que experimentei ao executar por minha conta nho desenha em pontilhado um objeto intencional . Esse ob-
os mesmos gestos. Do interior , eu conheço muito mal a m í- jeto torna-se atual e é plenamente compreendido quando os
mica da cólera ; faltaria , portanto , à associação por semelhança poderes de meu corpo se ajustam a ele e o recobrem . O gesto

ou ao raciocínio por analogia um elemento decisivo e ali á s est á diante de mim como uma quest ão , ele me indica certos
252 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 253

pontos sensíveis do mundo , convida- me a encontrá-lo ali . A


comunicação realiza-se quando minha conduta encontra neste
< vimento cont ínuo pelo qual ele se projeta nas coisas e para
os outros . E por meu corpo que compreendo o outro , assim
caminho o seu pró prio caminho. H á confirmação do outro como é por meu corpo que percebo “ coisas ” . Assim “ com-
por mim e de mim pelo outro . Aqui é preciso restaurar a ex - preendido ” , o sentido do gesto n ão est á atrás dele , ele se con -
periê ncia do outro deformada pelas an álises intelectualistas , (
funde com a estrutura do mundo que o gesto desenha e que
assim como precisaremos restaurar a experiê ncia perceptiva
da coisa . Quando percebo uma coisa — seja , por exemplo ,
por minha conta eu retomo , ele se expõe no pró prio gesto
assim como , na experiê ncia perceptiva , a significação da cha -

uma chamin é — n ão é a concord â ncia de seus diferentes as-
pectos que me faz concluir a existê ncia da chamin é enquanto
min é n ão está para alé m do espet áculo sens ível e da chamin é

geometral e significação comum de todas essas perspectivas , ! ela mesma , tal como meus olhares e meus movimentos a en -
contram no mundo .
mas inversamente percebo a coisa em sua evid ê ncia pró pria O gesto lingíi ístico , como todos os outros , desenha ele
e é isso que me d á a certeza de obter dela , pelo desenrolar mesmo o seu sentido. Primeiramente essa idé ia surpreende ,
da experiê ncia perceptiva, uma sé rie indefinida de visões con - mas somos obrigados a chegar a ela se queremos compreen -
cordantes . A identidade da coisa através da experiê ncia per - (
der a origem da linguagem , problema sempre urgente embora
ceptiva é apenas um outro aspecto da identidade do corpo psicólogos e lingü istas concordem em recusá-lo em nome do
pró prio no decorrer dos movimentos de exploração; ela é por- saber positivo. Primeiramente parece impossível dar às pala -
tanto do mesmo tipo que esta: assim como o esquema corpo- vras assim como aos gestos , uma significação imanente , por-
ral , a chamin é é um sistema de equivalê ncias que n ão se fun - que o gesto se limita a indicar uma certa relação entre o ho-
da no reconhecimento de alguma lei , mas na experiê ncia de mem e o mundo sens ível , porque esse mundo é dado ao es-
uma presen ç a corporal . Engajo- me com meu corpo entre as pectador pela percepção natural , e porque assim o objeto in -
coisas , elas coexistem comigo enquanto sujeito encarnado , e tencional é oferecido à testemunha ao mesmo tempo em que
essa vida nas coisas n ã o tem nada de comum com a constru - o próprio gesto . A gesticulação verbal , ao contrá rio , visa uma
ção dos objetos cient íficos . Da mesma maneira , n ão com - paisagem mental que em primeiro lugar n ão est á dada a to-
preendo os gestos do outro por um ato de interpretação inte- dos e que ela tem por fun ção justamente comunicar . Mas ,
lectual , a comunicação entre as consciê ncias n ão est á funda- aqui , o que a natureza n ão d á a cultura o fornece . As signifi-
da no sentido comum de suas experiê ncias , mesmo porque cações dispon íveis , quer dizer , os atos de expressão anterio-
ela o funda: é preciso reconhecer como irredut ível o movi - res , estabelecem entre os sujeitos falantes um mundo comum
mento pelo qual me empresto ao espet áculo , me junto a ele ao qual a fala atual e nova se refere , assim como o gesto ao
em um tipo de reconhecimento cego que precede a definição mundo sensível . E o sentido da fala é apenas o modo pelo
e a elaboração intelectual do sentido . Gerações uma após a qual ela maneja esse mundo lingü istico , ou pelo qual ela mo-
outra “ compreendem ” e realizam os gestos sexuais, por exem - dula nesse teclado de significações adquiridas. Eu o apreen-
plo o gesto da carícia , antes que o filósofo 14 defina sua sig- do em um ato indiviso, t ão breve quanto um grito. E verda-
nificação intelectual , que é a de encerrar em si mesmo o cor- de que o problema só foi deslocado: essas pró prias significa-
po passivo , mantê-lo no sono do prazer , interromper o mo- ções dispon íveis , como elas se constitu íram ? Uma vez formada
i
254 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 255

a linguagem , concebe - se que a fala possa , como um gesto , cada língua , um sistema de expressão muito reduzido , mas
! i! significar sobre o fundo mental comum . Mas as formas sin - tal , por exemplo , que n ão seria arbitrá rio chamar de luz a
t á ticas e as do vocabulá rio , que aqui são pressupostas , tra- luz se chamamos de noite a noite . A predomin ância das vo -
zem em si mesmas seu sentido ? V ê - se muito bem o que h á gais em uma l íngua , das consoantes em outra , os sistemas
de comum ao gesto e ao seu sentido , por exemplo à expres
são das emoções e à s pró prias emoções: o sorriso , o rosto dis-
- de constru ção e de sintaxe n ão representariam tantas conven -
ções arbitrá rias para exprimir o mesmo pensamento , mas vá-
tendido , a alegria dos gestos cont ê m realmente o ritmo de rias maneiras , para o corpo humano , de celebrar o mundo
ação , o modo de ser no mundo que são o próprio jú bilo. Ao e finalmente de vivê -lo. Daí proviria o fato de que o sentido
contr á rio , o elo entre o signo verbal e sua significação n ão pleno de uma l íngua nunca é traduzível em uma outra . Pode -
é inteiramente fortuito , como o mostra suficientemente a exis - mos falar v á rias l í nguas , mas uma delas permanece sempre
tê ncia de v á rias l ínguas? E a comunicação dos elementos da aquela na qual vivemos . Para assimilar completamente uma
linguagem entre “ o primeiro homem que tenha falado’’ e o língua , seria preciso assumir o mundo que ela exprime , e nun -
segundo n ão foi necessariamente de um tipo inteiramente di - ca pertencemos a dois mundos ao mesmo tempo 15. Se existe
ferente daquele da comunicação por gestos? E isso que se ex - um pensamento universal , n ós o obtemos retomando o es-
prime ordinariamente dizendo que o gesto ou a m ímica emo - for ç o de expressão e de comunicação tal como ele foi tentado
cional são “ signos naturais ” , a fala um “ signo convencio - por uma l í ngua , assumindo todos os equ ívocos , todos os des-
nal ” . Mas as conven ções são um modo tardio de relação en - lizamentos de sentido dos quais é feita uma tradição ling úís-
tre os homens , elas supõem uma comunicação pré via , e é pre - tica , e que mensuram exatamente sua potê ncia de expressão.
ciso recolocar a linguagem nessa corrente comunicativa . Se Um algoritmo convencional — que ali ás só tem sentido re -
só consideramos o sentido conceituai e terminal das palavras ,
é verdade que a forma verbal — à exce ção das desin ê ncias
portado à linguagem
— exprimirá sempre a Natureza sem
o homem . Portanto , rigorosamente , n ão existem signos con -

i
— parece arbitrá ria . N ão seria mais assim se lev ássemos em
conta o sentido emocional da palavra , aquilo que mais acima
vencionais , simples notação de um pensamento puro e claro
para si mesmo , só existem falas nas quais se contrai a histó-
chamamos de seu sentido gestual, que é essencial por exem - ria de toda uma língua , e que realizam a comunicação sem
pio na poesia . Acharíamos agora que as palavras , as vogais , nenhuma garantia , no meio de incríveis acasos lingü isticos.
os fonemas são tantas maneiras de cantar o mundo e que Se nos parece sempre que a linguagem é mais transparente
eles são destinados a representar objetos , n ão como o acredi- do que a m ú sica , é porque na maior parte do tempo perma -
tava a teoria ingé nua das onomatopé ias , em razão de uma necemos na linguagem constitu ída , damo- nos significações
semelhança objetiva, mas porque eles extraem e , no sentido dispon íveis e, em nossas definições, limitamo-nos, como o di-
próprio da palavra , exprimem sua essê ncia emocional . Se pu - cionário , a indicar equivalê ncias entre elas. O sentido de uma
d éssemos retirar de um vocabul á rio aquilo que é devido às frase parece - nos do começo ao fim inteligível , separável des-
leis mecâ nicas da fon é tica , às contaminações das l ínguas es - sa pró pria frase e definido em um mundo inteligível , porque
-
trangeiras , à racionalização dos gram á ticos , à imitação da l ín supomos dadas todas as participações que ela deve à hist ó ria
gua por si mesma , descobrir íamos sem d ú vida , na origem de da língua e que contribuem para determinar seu sentido . Na
256 FENOMENOLOG Î A DA PERCEPÇAO 0 CORPO 257

m ú sica , ao contr á rio , nenhum vocabulá rio é pressuposto , o seu corpo , é a enformação simult â nea de seu corpo e de seu
sentido aparece ligado à presen ça empírica dos sons , e é por mundo na emoção . O equipamento psicofisioló gico deixa
isso que a m úsica nos parece muda. Mas na realidade , como abertas m ú ltiplas possibilidades e aqui n ão h á mais, como no
o dissemos , a clareza da linguagem se estabelece sobre um dom í nio dos instintos , uma natureza humana dada de uma
fundo obscuro , e , se levarmos a investigação suficientemente vez por todas . O uso que um homem fará de seu corpo é trans-
longe , veremos finalmente que a pró pria linguagem só diz cendente em relação a esse corpo enquanto ser simplesmente
a si mesma ou que seu sentido n ão é separá vel dela . Seria biol ó gico . Gritar na cólera ou abraçar no amor n ão é mais
preciso ent ão procurar os primeiros esboços da linguagem na natural ou menos convencional 10 do que chamar uma mesa
gesticulação emocional pela qual o homem sobrepõe , ao mun- de mesa . Os sentimentos e as condutas passionais são inven -
do dado , o mundo segundo o homem . Aqui n ão há nada de tados , assim como as palavras . Mesmo aqueles sentimentos
semelhante às cé lebres concepções naturalistas que reduzem que , como a paternidade , parecem inscritos no corpo huma-
o signo artificial ao signo natural e tentam reduzir a lingua- no s ão , na realidade , instituições 17 . E imposs ível sobrepor ,
gem à expressão das emoções. O signo artificial n ão se reduz no homem , uma primeira camada de comportamentos que
ao signo natural porque n ão h á signo natural no homem e , chamar íamos de ‘‘naturais ” e um mundo cultural ou espiri-
aproximando a linguagem das expressões emocionais , n ão se tual fabricado . No homem , tudo é natural e tudo é fabrica -
compromete aquilo que ela tem de específico , se é verdade do , como se quiser , no sentido em que n ão h á uma só pala-
que já a emoção , enquanto variação de nosso ser no mundo , vra , uma só conduta que n ão deva algo ao ser simplesmente
é contingente em relação aos dispositivos mecâ nicos contidos biológico — e que ao mesmo tempo n ão se furte à simplici -
em nosso corpo , e manifesta aquele mesmo poder de ordenar dade da vida animal , n ão desvie as condutas vitais de sua di -
os est ímulos e as situações que est á no seu auge no plano da reção , por uma espécie de regulagem e por um gê nio do equ í-
linguagem . Só poder íamos falar de “ signos naturais ? ? se , a voco que poderiam servir para definir o homem . A simples
<i
estados de consciência ” dados , a organização anatômica de presença de um ser vivo já transforma o mundo f ísico , faz
nosso corpo fizesse corresponder gestos definidos. Ora , de fato surgir aqui “ alimentos ” , ali um “ esconderijo ” , d á aos est í-
a m ímica da có lera ou a do amor n ão s ão as mesmas para mulos um sentido que eles n ão tinham . Com mais raz ão ain -
um japonês e para um ocidental . Mais precisamente , a dife - da a presen ça de um homem no mundo animal . Os compor -
ren ç a das m ímicas esconde uma diferen ça das pró prias emo- tamentos criam significações que são transcendentes em re -
ções . Não é apenas o gesto que é contingente em relação à lação ao dispositivo anat ô mico , e todavia imanentes ao com -
organização corporal , é a pró pria maneira de acolher a si- portamento enquanto tal , já que este se ensina e se compreen-
tuação e de vivê-la . O japonês encolerizado sorri , o ocidental de . Não se pode fazer economia desta potê ncia irracional que
enrubesce e bate o pé , ou ent ão empalidece e fala com uma cria significações e que as comunica . A fala é apenas um ca-
voz sibilante . N ão basta que dois sujeitos conscientes tenham so particular dela .
os mesmos ó rgãos e o mesmo sistema nervoso para que em —
O que é verdade e justifica a situação particular que
ambos as mesmas emoções se representem pelos mesmos sig- comumente se atribui à linguagem — é apenas que a fala é
nos. O que importa é a maneira pela qual eles fazem uso de a ú nica , entre todas as operações expressivas , capaz de sedi-
258 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 259

! í] mentar-se e de constituir um saber intersubjetivo . Não se ex- tellungsfunktion ) ou a atividade “ caté gorial ” 18, e que fazia a
plica esse fato observando que a fala pode ser registrada no fala repousar no pensamento. Na realidade , não é em dire -
papel , enquanto os gestos ou os comportamentos só são trans- ção a um novo intelectualismo que a teoria se encaminha .
mitidos pela imitação direta . Pois a m úsica també m pode ser Os autores , quer o saibam ou n ão , procuram formular aqui -
escrita , e embora exista em m ú sica algo como uma iniciação lo que n ós chamaremos de uma teoria existencial da afasia ,
tradicional , embora talvez seja imposs ível penetrar na m ú si- quer dizer , uma teoria que trata o pensamento e a lingua -
ca atonal sem passar pela m ú sica clássica , cada artista reto- gem objetiva como duas manifestações da atividade funda-
ma a tarefa no seu in ício , há um novo mundo a libertar , en - mental pela qual o homem se projeta para um “ mundo ” 19 .
quanto na ordem da fala cada escritor tem consciê ncia de vi - Seja , por exemplo, a amnésia dos nomes de cor . Mostra- se ,
sar o mesmo mundo do qual os outros escritores já se ocupa- pelos testes de combinação , que o amnésico perdeu o poder
vam , o mundo de Balzac e o mundo de Stendhal n ão são co- geral de subsumir as cores a uma categoria , e relaciona- se
mo que planetas sem comunicação, a fala instala em n ós a o déficit verbal a essa mesma causa . Mas , se nos reportamos
id é ia de verdade como limite presuntivo de seu esforço . Ela às descrições concretas, percebemos que a atividade catego -
se esquece de si mesma enquanto fato contingente , ela repousa ria!, antes de ser um pensamento ou um conhecimento , é uma
sobre si mesma , e é isso , n ós o vimos , que nos d á o ideal de certa maneira de relacionar-se ao mundo e , correlativamen -
um pensamento sem fala , enquanto a idé ia de uma m ú sica te , um estilo ou uma configuração da experiê ncia. Para um
sem sons é absurda . Mesmo que isso seja apenas uma id é ia- sujeito normal , a percepção da pilha de amostras organiza-se
limite e um contra -senso , mesmo que o sentido de uma fala em fun ção da ordem dada: “ As cores que pertencem à mes-
nunca possa ser liberto de sua inerê ncia a alguma fala , resta ma categoria que a amostra modelo destacam -se sobre o fun -
que no caso da fala a operação expressiva pode ser indefini- do das outras ” 20; todos os vermelhos , por exemplo , consti -
damente reiterada , que se pode falar sobre a fala enquanto tuem um conjunto e o sujeito só precisa desmembrar esse con -
n ão se pode pintar sobre a pintura , e que enfim todo filósofo junto para reunir todas as amostras que dele fazem parte. Para
sonhou com uma fala que esgotaria todas as outras , enquan- o doente , ao contr á rio , cada uma das amostras est á confina-
to o pintor ou o m ú sico n ão esperam esgotar toda pintura e da em sua exist ê ncia individual . Elas opõem uma espécie de
toda m ú sica possíveis . H á portanto um privilé gio da Razão . viscosidade ou de inércia à constituição de um conjunto se -
Mas , justamente para compreendê-lo bem , é preciso come - gundo um princípio dado . Quando duas cores objetivamen -
çar por recolocar o pensamento entre os fen ô menos de ex - te semelhantes são apresentadas ao doente , elas n ão apare-
pressao. cem necessariamente como semelhantes: pode acontecer que
Essa concepção da linguagem prolonga as melhores e as em uma domine o tom fundamental , em outra o grau de cla -
mais recentes an álises da afasia , das quais mais acima n ós ridade ou de calor 21 . Podemos obter uma experiê ncia desse
só utilizamos uma parte . Ao começar , vimos que a teoria da tipo colocando-nos diante de uma pilha de amostras em uma
afasia , após um período empirista , desde Pierre Marie pare- atitude de percepção passiva: as cores idê nticas re ú nem-se sob
cia passar ao intelectualismo; que , nos dist ú rbios da lingua- nosso olhar , mas as cores apenas semelhantes só estabelecem
gem , punha em quest ão a “ fun ção de representação ” (.Dars- entre si relações incertas ; “ a pilha parece inst ável , ela se mo-
I
260 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O CORPO 261

ve , constatamos uma mudan ça incessante , uma espécie de luta do que a imaginação produtora . Portanto, o ato caté gorial
entre v á rios agrupamentos poss íveis de cores segundo dife - n ão é um fato ú ltimo , ele se constitui em uma certa “ atitu -
rentes pontos de vista ” 22 . Estamos reduzidos à experi ê ncia de ” ( Eï nstellung ) . E nessa atitude que a fala també m est á fun -
imediata das relações ( Kohárenzerlebnis , Erlebnis des Passens) , e dada , de forma que n ão poderia se tratar de fazer a lingua -
essa é , sem d ú vida , a situação do doente . Errá vamos em di - gem repousar no pensamento puro . “ O comportamento ca -
zer que ele n ã o pode ater- se a um princ í pio de classificação t é gorial e a posse da linguagem significativa exprimem um
dado e que passa de um ao outro: na realidade , ele nunca ú nico e mesmo comportamento fundamental . Nenhum dos
adota nenhum 28 . O dist ú rbio diz respeito “ à maneira pela dois poderia ser causa ou efeito. ” 26 Em primeiro lugar , o
qual as cores se agrupam para o observador , à maneira pela pensamento n ão é um efeito da linguagem . E verdade que
;i
qual o campo visual se articula do ponto de vista das co- certos doentes27 , incapazes de agrupar as cores comparando -
res ” 24. Não é apenas o pensamento ou o conhecimento , mas as a uma amostra dada , conseguem fazê-lo por intermédio
a pró pria experiê ncia das cores que est á em quest ã o . Pode - da linguagem : eles nomeiam a cor do modelo e em seguida
r íamos dizer com um outro autor que a experiê ncia normal re ú nem todas as amostras para as quais o mesmo nt> me con -
comporta “ c írculos ” ou “ turbilh ões ” no interior dos quais vé m , sem observar o modelo . E verdade també m que crian -
cada elemento é representativo de todos os outros e traz co - ças anormais28 classificam juntas até cores diferentes , se lhes
mo que “ vetores ” que o ligam a eles . No doente “ ( . . . ) essa ensinaram a design á -las pelo mesmo nome . Mas justamente
vida se encerra em limites mais estreitos e , comparada ao esses procedimentos são anormais ; eles n ão exprimem a re -
mundo percebido do normal , move -se em c írculos menores lação essencial entre a linguagem e o pensamento , mas a re -
e encolhidos . Um movimento que nasce na periferia do tur- lação patológica ou acidental entre um pensamento e uma lin -
bilh ão n ão se propaga mais no mesmo instante at é o seu cen - guagem igualmente cortados de seu sentido vivo . De fato ,
tro , ele permanece , por assim dizer , no interior da zona exci- muitos doentes são capazes de repetir os nomes das cores sem
tada , ou ainda só se transmite à sua circunvizinhan ç a ime - todavia poder classificá - las . Nos casos de afasia amn ésica ,
«<
diata . No interior do mundo percebido n ão se podem mais n ão pode ser ent ão a falta da palavra tomada em si mesma
construir unidades de sentido mais compreensivas ( . . . ) . Aqui que torna dif ícil ou impossível o comportamento cat é gorial .
cada impressão sensível ainda é afetada por um ‘vetor de sen - As palavras devem ter perdido algo que normalmente lhes
tido’ , mas esses vetores n ão t ê m mais direção comum , n ão pertence e que as torna pró prias para serem empregadas em
se orientam mais em direçã o a centros principais determina- relação ao comportamento caté gorial ” 29 . O que ent ão elas
dos , eles divergem muito mais que no normal ” 25. E esse o perderam ? Seria sua significação nocional ? Seria preciso di-
dist ú rbio do “ pensamento ” que se descobre no fundo da am - zer que o conceito se retirou delas e , por conseguinte , fazer
n ésia ; vê-se que ele diz respeito menos ao ju ízo do que ao meio do pensamento a causa da linguagem ? Mas visivelmente a
de experiência em que o ju ízo nasce , menos à espontaneida- palavra , quando perde seu sentido , modifica -se até em seu
de do que aos pontos de apoio dessa espontaneidade no mundo aspecto sensível , ela se esvazia30 . O amn ésico a quem se apre -
sens ível e ao nosso poder de figurar nele uma inten ção qual - senta um nome de cor , pedindo - lhe que escolha uma amos-
quer . Em termos kantianos: ele afeta menos o entendimento tra correspondente , repete o nome como se esperasse algo dele .
!
262 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 263

Mas o nome n ão lhe serve mais para nada , n ão lhe diz mais riores a compreendam . Aqui e ali , um sistema de poderes de -
t
nada , ele é estranho e absurdo , assim como são para n ós os finidos repentinamente se descentra , rompe- se e reorganiza -
nomes que repetimos durante muito tempo31 . Os doentes pa- se sob uma lei desconhecida pelo sujeito ou pelo testemunho
ra os quais as palavras perderam seu sentido conservam por exterior , e que se revela a eles nesse momento mesmo . Por
vezes , no mais alto grau , o poder de associar as idé ias32 . Por- exemplo , o franzir da sobrancelha , destinado , segundo Dar-
tanto , o nome n ão se destacou das “ associações ” antigas , ele win , a proteger o olho do sol , ou a convergê ncia dos olhos ,
se alterou como um corpo inanimado. O elo entre a palavra destinada a permitir a visão clara , tornam - se componentes
e seu sentido vivo n ão é um elo exterior de associação; o sen - do ato humano de meditação e o significam ao espectador .
tido habita a palavra , e a linguagem “ n ão é um acompanha- A linguagem , por sua vez , n ã o coloca outro problema: uma
mento exterior dos processos intelectuais ” 33. Somos condu - contração da garganta , uma emissão de ar sibilante entre a
zidos ent ão a reconhecer , como dizíamos mais acima , uma língua e os dentes , uma certa maneira de desempenhar de
significação gestual ou existencial da fala . A linguagem tem nosso corpo deixam - se repentinamente investir de um sentido
um interior , mas esse interior n ão é um pensamento fechado figurado e o significam fora de n ós . Isso n ão é nem mais nem
sobre si e consciente de si . O que ent ão exprime a lingua- menos miraculoso do que a emergê ncia do amor no desejo
gem , se ela n ão exprime pensamentos ? Ela apresenta , ou an- ou a do gesto nos movimentos descoordenados do começ o da
tes ela é tomada de posi çã o do sujeito no mundo de suas sig- vida . Para que o milagre se produza , é preciso que a gesticu -
nificações . O termo “ mundo ” n ão é aqui uma maneira de lação fon é tica utilize um alfabeto de significações já adquiri-
falar : ele significa que a vida “ mental ” ou cultural toma de das , que o gesto verbal se execute em um certo panorama
empréstimo à vida natural as suas estruturas , e que o sujeito comum aos interlocutores , assim como a compreensão dos ou -
pensante deve ser fundado no sujeito encarnado . O gesto fo- tros gestos supõe um mundo percebido comum a todos em
nético realiza , para o sujeito falante e para aqueles que o es- que ele se desenrola e desdobra seu sentido . Mas essa condi-
cutam , uma certa estrutura da experiê ncia , uma certa mo- ção n ão basta : a fala , se é aut ê ntica , faz nascer um sentido
dulação da exist ê ncia , exatamente como um comportamento novo , assim como o gesto d á pela primeira vez um sentido
de meu corpo investe os objetos que me circundam , para mim humano ao objeto , se ele é um gesto de iniciação. Mas é pre -
e para o outro , de uma certa significação . O sentido do gesto ciso que as significações agora adquiridas tenham sido signi -
n ão est á contido no gesto enquanto fen ô meno f ísico ou fisio - ficações novas. E preciso reconhecer ent ão essa potê ncia aberta
ló gico . O sentido da palavra n ão está contido na palavra en - e indefinida de significar — quer dizer , ao mesmo tempo de
quanto som . Mas é a definição do corpo humano apropriar - apreender e de comunicar um sentido — como um fato ú lti-
mo pelo qual o homem se transcende em direção a um com-
se , em uma sé rie indefinida de atos descont ínuos , de n ú cleos
significativos que ultrapassam e transfiguram seus poderes na- portamento novo , ou em direção ao outro , ou em direção ao
turais . Esse ato de transcendê ncia encontra-se primeiramen - seu pró prio pensamento , através dc seu corpo e de sua fala .
te na aquisição de um comportamento , depois na comunica- Quando os autores procuram concluir a análise da afa-
ção muda do gesto : é pela mesma pot ê ncia que o corpo se sia por uma concepção geral da linguagem 34 , vemos que
abre a uma conduta nova e faz com que testemunhos exte - abandonam mais claramente ainda a linguagem intelectua -
264 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 265

lista que haviam adotado seguindo Pierre Marie e em reação se trata de dist ú rbios da inten çã o verbal , como na parafasia
contra as concepções de Broca. Não se pode dizer da fala nem literal , em que letras são omitidas , deslocadas ou acrescenta-
que ela é uma ‘‘operação da inteligê ncia ” , nem que é um das , e em que o ritmo da palavra é alterado , visivelmente n ão
“ fen ô meno motor ” : ela é integralmente motricidade e inte - se trata de uma destruição dos engramas mas de um nivela -
gralmente inteligê ncia . O que atesta sua inerê ncia ao corpo mento da figura e do fundo , de uma impot ê ncia em estrutu -
é o fato de que as afecçoes da linguagem n ão podem ser re - rar a palavra e apreender sua fisionomia articular35 . Se qui -
duzidas à unidade e de que o dist ú rbio prim á rio diz respeito sermos resumir essas duas sé ries de observações , será preciso
ora ao corpo da palavra , o instrumento material da expres- dizer que toda operação ling úística supõe a apreensã o de um
são verbal , ora à fisionomia da palavra , a inten ção verbal , sentido , mas que o sentido , aqui e ali , é como que especiali -
essa espé cie de plano de conjunto a partir do qual consegui- zado ; existem diferentes camadas de significação , desde a sig-
mos dizer ou escrever exatamente uma palavra , ora ao senti- nificação visual da palavra até sua significação conceituai , pas-
do imediato da palavra , aquilo que os autores alem ães cha- sando pelo conceito verbal . Nunca compreenderemos essas
mam de conceito verbal , ora enfim à estrutura da experiê n - duas id é ias simultaneamente se continuarmos a oscilar entre
cia inteira e n ão apenas à experiê ncia lingúística , como no a noçã o de “ motricidade ” e a de “ inteligê ncia e se nao
caso da afasia amn ésica que analisamos mais acima . Portan - descobrirmos uma terceira noção que permita integrá-las ,
to , a fala repousa em uma estratificação de poderes relativa- uma fun ção , a mesma em todos os n íveis , que opere tanto
mente isol á veis . Mas , ao mesmo tempo , é impossível encon - nas preparações escondidas da fala como nos fen ô menos ar-
trar em alguma parte um dist ú rbio da linguagem que seja ticulares , que sustente todo o edif ício da linguagem e que to-
“ puramente motor ” e que não diga respeito , em alguma me - davia se estabilize em processos relativamente aut ónomos. Po-
dida , ao sentido da linguagem . Na alexia pura , se o sujeito deremos perceber essa pot ê ncia essencial à fala nos casos em
n ão pode mais reconhecer as letras de uma palavra , é por n ão que nem o pensamento nem a motricidade est ão sensivelmente
poder ordenar os dados visuais , constituir a estrutura da pa- afetados e em que , todavia , a “ vida ” da linguagem est á alte -
lavra , apreender sua significação visual. Na afasia motora , rada . Ocorre que o vocabul á rio , a sintaxe , o corpo da lin -
a lista das palavras perdidas e conservadas n ão corresponde guagem parecem intactos, à exceção de que nela predomi-
aos seus caracteres objetivos (comprimento e complexidade) , nam as proposições principais . Mas o doente n ão se utiliza
mas ao seu valor para o sujeito: o doente é incapaz de pro- desses materiais do mesmo modo que o sujeito normal . Ele
nunciar isoladamente uma letra ou uma palavra , no interior quase só fala se o questionam , ou , se ele mesmo toma a ini -
de uma sé rie motora familiar , por n ã o poder diferenciar “ fi- ciativa de uma quest ão , s ã o sempre questões estereotipadas ,
gura » e “ fundo ” e conferir livremente a tal palavra ou a tal
?
como as que todos os dias ele dirige aos seus filhos quando
letra o valor de figura . A correção articular e a correção sin - eles voltam da aula. Ele nunca usa a linguagem para expri-
t á tica est ão sempre uma em razão inversa da outra , o que mir uma situação apenas poss ível , e as proposições falsas ( o
mostra que a articulaçã o de uma palavra n ão é um fen ô me - cé u é negro ) n ão t ê m sentido para ele . Ele só pode falar se
no simplesmente motor e recorre às mesmas energias que or- preparou suas frases36. N ão se pode dizer que nele a lingua -
ganizam a ordem sint ática. Com mais razã o ainda , quando gem tenha se tornado autom á tica , n ão há nenhum sinal de
rtfjpf

266 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 267

um enfraquecimento da inteligê ncia geral e é por seu sentido alcan çar - se e é por isso que ela cria a fala como apoio empíri-
que as palavras são organizadas . Mas esse sentido est á como co de seu pró prio n ão- ser . A fala é o excesso de nossa exis-
que imobilizado . Schn . nunca sente a necessidade de falar , t ê ncia por sobre o ser natural . Mas o ato de expressã o consti-
i sua experiê ncia nunca tende para a fala , nunca suscita nele tui um mundo ling ü istico e um mundo cultural , ele faz vol -
uma quest ão , ela n ão deixa de ter este tipo de evid ê ncia e tar a cair no ser aquilo que tendia para alé m . Da í a fala fala -
de suficiê ncia do real que abafa toda interrogação , toda refe - da que desfruta as significações dispon íveis como a uma for -
rê ncia ao possível , toda surpresa , toda improvisação. Percebe - tuna obtida . A partir dessas aquisições , tornam -se impossíveis
se por contraste a essê ncia da linguagem normal : a intenção outros atos de expressão aut ê ntica — aqueles do escritor , do
de falar só pode encontrar - se em uma experiê ncia aberta ; ela artista ou do fil ósofo. Essa abertura sempre recriada na ple -
aparece , assim como a ebulição em um l íquido , quando , na nitude do ser é o que condiciona a primeira fala da crian ç a ,
espessura do ser , zonas de vazio se constituem e se deslocam assim como a fala do escritor , a constru ção da palavra , assim
para o exterior . “ A partir do momento em que o homem se como a dos conceitos . E essa fun ção que adivinhamos atra-
serve da linguagem para estabelecer uma relação viva consi- vés da linguagem , que se reitera , apóia-se em si mesma ou
go mesmo ou com seus semelhantes , a linguagem n ão é mais que , assim como uma onda , ajunta- se e retoma- se para
um instrumento , não é mais um meio, ela é uma manifestação , uma projetar - se para alé m de si mesma .
revelação do ser intimo e do elo psíquico que nos une ao mundo e aos Melhor ainda do que nossas observações sobre a espa -
nossos semelhantes . Por mais que a linguagem do doente revele cialidade e a unidade corporais , a an álise da fala e da expres -
muito saber , por mais que seja utilizá vel para determinadas s ão nos faz reconhecer a natureza enigm á tica do corpo pró -
atividades , ela carece totalmente dessa produtividade que for- prio . Ele n ão é uma reuni ão de part ículas das quais cada uma
ma a essê ncia mais profunda do homem , e que talvez n ão permaneceria em si , ou ainda um entrelaçamento de proces -
se revele com tanta evidê ncia em nenhuma criação da civili- sos definidos de uma vez por todas — ele n ão est á ali onde
zação quanto na criação da pró pria linguagem ” 37 Poderia-
,

mos dizer , retomando uma distin ção célebre , que as lingua -


est á , ele n ão é aquilo que é
— já que o vemos secretar em
si mesmo um “ sentido ” que n ão lhe vem de parte alguma ,
gens , quer dizer , os sistemas constitu ídos de vocabulá rio e de projet á-lo em sua circunvizinhan ça material e comunicá-lo
sintaxe , os “ meios de expressão ” que existem empiricamen - aos outros sujeitos encarnados. Sempre observaram que o ges-
te , s ão o depósito e a sedimentação de atos de fala nos quais to ou a fala transfiguravam o corpo , mas contentavam -se em
o sentido n ão-formulado n ão apenas encontra o meio de dizer que eles desenvolviam ou manifestavam uma outra po -
traduzir - se no exterior , mas ainda adquire a exist ê ncia para tência , pensamento ou alma . N ão se via que , para poder
si mesmo , e é verdadeiramente criado como sentido . Ou , ain- exprimi-lo , em última an álise o corpo precisa tornar-se o pen -
da , poder íamosrdistinguir entre uma fala falante e uma fala sarnento ou a inten ção que ele nos significa . E ele que mos -
falada . A primeira é aquela em que a inten ção significativa tra , ele que fala , eis o que aprendemos neste cap ítulo. Cé -
se encontra em estado nascente . Aqui , a exist ê ncia polariza- zanne dizia de um retrato : “ Se pinto todos os pequenos azuis
se em um certo “ sentido ” que n ão pode ser definido por ne - e todos os pequenos marrons , eu o faço olhar como ele olha . ..
nhum objeto natural ; é para alem do ser que ela procura Ao diabo se eles desconfiam como , casando um verde mati -
Ht

268 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 CORPO 269

zado com um vermelho , se entristece uma boca ou se faz uma —


dade > î i sexualidade ’ ’
?
percebo que essas “ fun ções 5 nao
5

face sorrir . ” 38 Essa revelação de um sentido imanente ou podem estar ligadas entre si e ao mundo exterior por rela-
nascente no corpo vivo se estende , como o veremos , a todo ções de causalidade , todas elas est ão confusamente retoma-
o mundo sens ível , e nosso olhar , advertido pela experiê ncia das e implicadas em um drama unico . Portanto , o corpo n ão
do corpo próprio , reencontrará em todos os outros “ objetos > >
• •
é um objeto . Pela mesma razão , a consciê ncia que tenho dele
o milagre da expressão . Em Peau de Chagrin , Balzac descreve n ão é um pensamento , quer dizer , n ão posso decompô - lo e
“ uma toalha de mesa branca como uma camada de neve re - recompô-lo para formar dele uma id é ia clara . Sua unidade
centemente ca ída e na qual se dispunham simetricamente os é sempre impl ícita e confusa . Ele é sempre outra coisa que
talheres , coroados por pequenos p ães dourados ” . “ Durante aquilo que ele é , sempre sexualidade ao mesmo tempo que
toda a minha juventude ” , dizia C é zanne , “ eu quis pintar is - liberdade , enraizado na natureza no pró prio momento em que
so , essa toalha de neve fresca . . . Agora eu sei que só se deve se transforma pela cultura , nunca fechado em si mesmo e nun -
querer pintar : se se dispunham simetricamente os talheres e ca ultrapassado . Quer se trate do corpo do outro ou de meu
os pequenos pães dourados e eu os pinto coroados , estou per- pró prio corpo , n ão tenho outro meio de conhecer o corpo hu -
dido , você compreende ? E , se verdadeiramente eu harmoni - mano sen ão vivê - lo , quer dizer , retomar por minha conta o
zo e matizo meus talheres e meus pães como no modelo na- drama que o transpassa e confundir- me com ele . Portanto ,
tural , esteja certo de que as coroas , a neve e todo o tremor sou meu corpo , exatamente na medida em que tenho um sa-
estarão ali . ” 39 O problema do mundo , e , para come ç ar , o ber adquirido e , reciprocamente , meu corpo é como um su -
do corpo pró prio , consiste no fato de que tudo reside ali. jeito natural , como um esboço provisó rio de meu ser total .
Assim , a experiê ncia do corpo pró prio opõe-se ao movimen -
to reflexivo que destaca o objeto do sujeito e o sujeito do ob-
A tradi ção cartesiana habituou - nos a desprender - nos do jeto , e que nos d á apenas o pensamento do corpo ou o corpo
objeto : a atitude reflexiva purifica simultaneamente a noção em idé ia , e n ão a experiê ncia do corpo ou o corpo em reali -
comum do corpo e a da alma , definindo o corpo como uma dade . Descartes o sabia muito bem , já que uma célebre carta
soma de partes sem interior , e a alma como um ser inteira- a Elisabeth distingue o corpo tal como ele é concebido pelo
mente presente a si mesmo , sem dist â ncia . Essas definições uso da vida do corpo tal como ele é concebido pelo entendi -
correlativas estabelecem a clareza em n ós e fora de nós : trans- mento40 . Mas em Descartes esse singular saber que temos de
parê ncia de um objeto sem dobras , transparência de um su - nosso corpo apenas pelo fato de que somos um corpo perma-
jeito que é apenas aquilo que pensa ser . O objeto é objeto nece subordinado ao conhecimento por id é ias porque , atrá s
do começo ao fim , e a consciê ncia é consciê ncia do começo do homem tal como de fato ele é , encontra - se Deus enquanto
ao fim . H á dois sentidos e apenas dois sentidos da palavra autor racional de nossa situação de fato . Apoiado nessa ga-
existir: existe -se como coisa ou existe - se como consciê ncia . rantia transcendente , Descartes pode aceitar calmamente nos-
A experiê ncia do corpo pró prio , ao contrá rio , revela- nos um sa condição irracional : n ã o cabe a n ós sustentar a raz ão e ,
modo de existê ncia ambíguo . Se tento pensá-lo como um con - uma vez que a reconhecemos no fundo das coisas , resta- nos
junto de processos em terceira pessoa — “ visão ” , t < motrici- apenas agir e pensar no mundo41 . Mas se nossa umao com
Ilfff I

i;

270 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

o corpo é substancial , como poder íamos sentir em n ós mes-


i mos uma alma pura e dali ter acesso a um Esp írito absoluto ?
Antes de colocar essa quest ão , vejamos tudo o que est á im -
plicado na redescoberta do corpo pró prio . Ele n ã o é apenas
um objeto entre todos , que resiste à reflexão e permanece ,
por assim dizer , colado ao sujeito. A obscuridade atinge todo SEGUNDA PARTE
o mundo percebido.
O MUNDO PERCEBIDO

ii

f
i

O corpo pró prio está no mundo assim como o coração


no organismo ; ele mant é m o espet áculo vis ível continuamente
em vida , anima - o e alimenta - o interiormente , forma com ele
um sistema. Quando caminho em meu apartamento , os di -
ferentes aspectos sob os quais ele se apresenta a mim n ão po-
deriam aparecer- me como os perfis de uma mesma coisa se
eu n ão soubesse que cada um deles representa o apartamen -
to visto daqui ou visto dali , se eu n ão tivesse consci ê ncia de
meu pró prio movimento e de meu corpo como idê ntico atra -
v é s das fases desse movimento. Evidentemente , posso sobre-
voar o apartamento em pensamento , imagin á -lo ou desenhar
sua planta no papel , mas mesmo ent ão eu n ão poderia apreen -
der a unidade do objeto sem a mediação da experiê ncia cor-
poral , pois aquilo que chamo de uma planta é apenas uma
perspectiva mais ampla : é o apartamento “ visto de cima ” ,
e , se posso resumir nela todas as perspectivas costumeiras ,
é sob a condição de saber que um mesmo sujeito encarna-
do pode ver alternadamente de diferentes posições . Respon -
der-se - á talvez que , recolocando o objeto na experiê ncia cor-
poral como um dos polos dessa experiê ncia , n ós lhe retira-
mos justamente aquilo que faz sua objetividade . Do ponto
274 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O MUNDO PERCEBIDO 275

de vista de meu corpo , nunca vejo iguais as seis faces do cu - e "


entre ” tê m um sentido , é porque elas o tomam de em -
íi

bo , mesmo se ele é de vidro , e todavia a palavra “ cubo ” tem préstimo à nossa experiê ncia de sujeitos encarnados . No es-
um sentido; o cubo ele mesmo , o cubo na verdade , para alé m paço ele mesmo e sem a presen ça de um sujeito psicof ísico n ão
i de suas aparê ncias sens íveis , tem suas seis faces iguais. A me - h á nenhuma direção , nenhum dentro , nenhum fora . Um es-
dida que giro em torno dele , vejo a face frontal , que era um paço est á “ encerrado ” entre os lados de um cubo assim co-
quadrado, deformar-se , depois desaparecer, enquanto os ou - mo estamos encerrados entre as paredes de nosso quarto. Para
tros lados aparecem e tornam - se cada um , por sua vez , qua- poder pensar o cubo , tomamos posição no espaço , ora em sua
drados . Mas para mim o desenrolar dessa experiê ncia é ape - superf ície , ora nele , ora fora dele , e desde ent ão n ós o vemos
É nas a ocasi ão de pensar o cubo total com suas seis faces iguais em perspectiva. O cubo com seis faces iguais é n ão apenas
e simult â neas , a estrutura inteligível que lhe d á razão . E , mes- invisível , mas ainda impensá vel ; ele é o cubo tal como seria
mo para que minha caminhada em torno do cubo motive o para si mesmo , já que ele é um objeto . H á um primeiro dog-
ju ízo “ eis um cubo ” , é preciso que meus deslocamentos es- matismo , do qual a an álise reflexiva nos livra , e que consiste
tejam eles mesmos localizados no espaço objetivo e , longe de em afirmar que o objeto é em si ou absolutamente , sem per-
a experiê ncia do movimento pró prio condicionar a posição guntar- se o que ele é . Mas h á um outro , que consiste em afir-
:i mar a significação presuntiva do objeto , sem perguntar-se co-
de um objeto , ao contr á rio é pensando meu pró prio corpo
como um objeto m ó vel que posso decifrar a aparê ncia per- mo ela entra em nossa experiência . A análise reflexiva subs-
ceptiva e construir o cubo verdadeiro. Portanto , a experiê n - titui a existê ncia absoluta do objeto pelo pensamento de um
cia do movimento pró prio Seria apenas uma circunst â ncia psi- objeto absoluto e , querendo sobrevoar o objeto , pensá-lo sem
cológica da percepção e n ão contribuiria para determinar o ponto de vista , ela destrói sua estrutura interna . Se para mim
sentido do objeto . O objeto e rrieu corpo formariam um siste- existe um cubo com seis faces iguais e se posso alcan çar o ob-
ma , mas tratar- se - ia de um feixe de correlações objetivas e jeto , n ão é que eu o constitua do interior : é porque pela ex-
n ão , como dizíamos h á pouco , de um conjunto de correspon - periê ncia perceptiva eu me afundo na espessura do mundo .
dê ncias vividas. A unidade do objeto seria pensada , e n ão ex- O cubo com seis faces iguais é a id é ia- limite pela qual expri-
perimentada como o correlativo da unidade de nosso corpo . mo a presen ça carnal do cubo que est á ali , sob meus olhos ,
Mas o objeto poderia ser separado assim das condições efeti- sob minhas mãos , em sua evidê ncia perceptiva . Os lados do
vas sob as quais ele nos é dado ? Pode- se reunir discursiva- cubo n ão são suas projeções , mas justamente lados. Quando
mente a noção do n ú mero seis , a noção de “ lado ” e a de igual- eu os percebo um após o outro e segundo a aparê ncia pers-
dade , e ligá-las em uma fó rmula que é a definição do cubo . pectiva , n ão construo a id é ia do geometral que d á razão des-
Mas essa definição antes nos põe uma quest ão do que nos sas perspectivas , mas o cubo já est á ali diante de mim e
oferece algo a pensar. Só se sai do pensamento cego e simbó- desvela - se através delas . N ão preciso ter uma visão objetiva
lico percebendo o ser espacial singular que traz esses predi- de meu pró prio movimento e levá- lo em conta para reconsti -
cados em conjunto . Trata-se de desenhar em pensamento es- tuir , atrás da aparê ncia , a forma verdadeira do objetivo: o
ta forma particular que encerra um fragmento de espaço en - cô mputo já est á feito , a nova aparê ncia já entrou em compo-
tre seis faces iguais. Ora , se para n ós as palavras “ encerrar >
i
sição com o movimento vivido e ofereceu - se como aparê ncia
276 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇ AO 0 MUNDO PERCEBIDO 277

d z um cubo . A coisa e o mundo me s ão dados com as partes que aparece no exterior é apenas o avesso dessa despersona-
de meu corpo n ã o por uma “ geometria natural 5 mas em5
lização2 . No duplo que est á fora dele , o doente sente-se as-
uma conex ão viva comparável , ou antes idêntica à que existe sim como , em um elevador que sobe e se detém bruscamen -
entre as partes de meu pró prio corpo . te , eu sinto a subst â ncia de meu corpo escapar de mim por
A percepção exterior e a percep ção do corpo pró prio va- minha cabeç a e ultrapassar os limites de meu corpo objetivo .
riam conjuntamente porque elas são as duas faces de um mes- E em seu pró prio corpo que o doente sente a aproximação
mo ato . Desde h á muito tempo tentou - se explicar a famosa deste Outro que ele nunca viu com seus pró prios olhos , as-
ilusão de Arist ó teles admitindo que a posi ção inabitual dos sim como o normal reconhece por uma certa queimação em
dedos torna imposs ível a s íntese de suas percepçÕes: o lado sua nuca que algu ém atrás dele o olha 3. Reciprocamente ,
ill : direito do médio e o lado esquerdo do indicador normalmen - uma certa forma de experiê ncia externa implica e acarreta
te n ão “ trabalham ” em conjunto , e , se ambos s ão tocados uma certa consciê ncia do corpo pró prio . Muitos doentes fa -
simultaneamente , ent ã o é preciso que existam duas bolas . Na lam de um “ sexto sentido ” que lhes manifestaria suas aluci -
realidade , as percepções dos dois dedos n ão são apenas dis- nações . O paciente de Stratton , cujo campo visual foi objeti -
juntas , elas são inversas : o sujeito atribui ao indicador o que vamente invertido , primeiramente vê os objetos de cabeça pa-
é tocado pelo médio e reciprocamente , como se pode mostr á - ra baixo ; no terceiro dia da experiê ncia , quando os objetos
lo aplicando aos dedos dois est ímulos distintos , uma ponta come çam a readquirir seu aprumo , ele é invadido “ pela es-
e uma esfera por exemplo 1 . A ilusão de Aristó teles é antes tranha impressão de olhar o fogo com o dorso de sua cabe -
de tudo um dist ú rbio do esquema corporal . O que torna im - ça ” 4. Isso ocorre porque h á uma equivalê ncia imediata en -
poss ível a s íntese das duas percepções t á teis em um objeto tre a orientação do campo visual e a consciê ncia do corpo pró-
ú nico n ão é tanto o fato de que a posição dos dedos é inabi- prio enquanto potê ncia desse campo , de tal forma que a sub-
tual ou estatisticamente rara , é o fato de que a face direita versão experimental pode traduzir-se indiferentemente pela
do médio e a face esquerda do indicador não podem coope - inversão dos objetos fenomenais ou por uma redistribuição
rar em uma exploração sin é rgica do objeto , o fato de que o das fun ções sensoriais no corpo . Se um sujeito se adapta pa -
cruzamento dos dedos , enquanto movimento forç ado , ultra- ra a visão a grande dist â ncia , ele tem de seus dedos , assim
passa as possibilidades motoras dos pró prios dedos e n ão po- como de todos os objetos próximos , uma imagem dupla . Se
de ser visada em um projeto de movimento. Portanto , aqui o tocam ou se um inseto o pica , ele percebe um contato ou
a síntese do objeto se faz atravé s da s íntese do corpo pró prio , uma picada dupla5. A diplopia prolonga-se ent ão em um
ela é sua ré plica ou seu correlativo , e literalmente é a mesma desdobramento do corpo . Toda percepção exterior é imedia-
coisa perceber uma ú nica bola e dispor dos dois dedos como tamente sin ó nima de uma certa percepção de meu corpo , as-
de um ó rgã o ú nico . O dist ú rbio do esquema corporal pode sim como toda percepção de meu corpo se explicita na lin -
at é mesmo traduzir- se diretamente no mundo exterior sem guagem da percepção exterior . Agora , como vimos , se o cor-
o apoio de nenhum est ímulo. Na heautoscopia , antes de ver- po n ão é um objeto transparente e n ão nos é dado por sua
se a si mesmo , o sujeito passa sempre por um estado de so- lei de constituição assim como o círculo ao geô metra , se ele
nho , de devaneio ou de angú stia , e a imagem dele mesmo é uma unidade expressiva que só quando assumida se pode
I il

278 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

aprender a conhecer , ent ão essa estrutura vai comunicar- se


ao mundo sensível . A teoria do esquema corporal é implici -
tamente uma teoria da percepção . N ós reaprendemos a sen -
tir nosso corpo , reencontramos , sob o saber objetivo e dis -
tante do corpo , este outro saber que temos dele porque ele
est á sempre conosco e porque n ós somos corpo . Da mesma
CAP ÍTULO I
maneira , ser á preciso despertar a experiê ncia do mundo tal
como ele nos aparece enquanto estamos no mundo por nosso O SENTIR
il corpo , enquanto percebemos o mundo com nosso corpo . Mas,
retomando assim o contato com o corpo e com o mundo , é
y també m a n ós mesmos que iremos reencontrar , já que , se per-
cebemos com nosso corpo , o corpo é um eu natural e como
que o sujeito da percepção .
O pensamento objetivo ignora o sujeito da percepção .
Isso ocorre porque ele se d á o mundo inteiramente pronto ,
como meio de todo acontecimento possível , e trata a percep-
ção como um desses acontecimentos . Por exemplo , o fil ósofo
empirista considera um sujeito X prestes a perceber e procu -
ra descrever aquilo que se passa: existem sensações que são es-
tados ou maneiras de ser do sujeito e que , a esse t ítulo , são
verdadeiras coisas mentais . O sujeito perceptivo é o lugar des-
sas coisas , e o filósofo descreve as sensações e seu substrato
como se descreve a fauna de um país distante
— sem perce -
ber que ele mesmo percebe , que ele é sujeito perceptivo e que
a percepção , tal como ele a vive , desmente tudo o que ele diz
da percepção em geral. Pois , vista do interior , a percepção
n ão deve nada àquilo que n ós sabemos de outro modo sobre
o mundo , sobre os estímulos tais como a física os descreve e
sobre os ó rgãos dos sentidos tais como a biologia os descreve .
Em primeiro lugar , ela n ão se apresenta como um aconteci-
mento no mundo ao qual se possa aplicar , por exemplo , a
categoria de causalidade , mas a cada momento como uma
re-criação ou uma re-constituição do mundo . Se acreditamos
em um passado do mundo , no mundo f ísico , nos “ est ímu -
\
0 MUNDO PERCEBIDO
280 FENOMENOLOGIA DA PERCE PÇAO 281

los ” , no organismo tal como nossos livros o representam , é inspe ção do esp írito , como o mundo n ão é perfeitamente ex-
primeiramente porque temos um campo perceptivo presente pl ícito diante de n ós , por que ele s ó se desdobra pouco a pou -
e atual , uma superf ície de contato com o mundo ou perpe - co e nunca “ inteiramente enfim como ocorre que nós per-
tuamente enraizada nele , é porque sem cessar ele vem assal- cebamos? Nós só o compreenderemos se o eu empírico e o
tar e investir a subjetividade , assim como as ondas envolvem corpo n ão forem imediatamente objetos , nunca se tornarem
um destroço na praia . Todo saber se instala nos horizontes totalmente objetos , se houver um certo sentido em dizer que
abertos pela percepção. N ão se pode tratar de descrever a pró- vejo o pedaç o de cera corn meus olhos e se , correlativamen -
pria percepção como um dos fatos que se produzem no mun - te , esta possibilidade de ausê ncia , esta dimensão de fuga e
do , j á que a percepção é a í falha ” deste “ grande diaman -
i de liberdade que a reflexão abre no fundo de n ós e que cha-
te ” . Certamente , o intelectualismo representa um progresso mam de Eu transcendental em primeiro lugar n ão forem da -
na tomada de consciê ncia : aquele lugar fora do mundo que das e nunca forem absolutamente adquiridas se nunca pu -
o filósofo empirista subentendia e onde tacitamente ele se si- der dizer “ Eu ” absolutamente , e se todo ato de reflexão , to-
tuava para descrever o acontecimento da percepção recebe da tomada de posição volunt á ria se estabelecerem sobre o fun -
agora um nome , figura na descrição . E o Ego transcenden - do e sobre a proposiçã o de uma vida de consciê ncia pré - pes-
tal . Através disso , todas as teses do empirismo encontram - se soal . O sujeito da percepção permanecerá ignorado enquanto
reviradas , o estado de consciê ncia torna-se consciê ncia de um n ão soubermos evitar a alternativa entre o naturante e o na -
estado , a passivividade torna- se posi ção de uma passividade , turado , entre a sensação enquanto estado de consciê ncia e en -
o mundo torna- se o correlativo de um pensamento do mun - quanto consciê ncia de um estado , entre a existência em si e
do e só existe para um constituinte . E todavia permanece ver- a exist ê ncia para si . Retornemos ent ão à sensação e observe -
dadeiro que o pró prio intelectualismo se d á o mundo inteira- mo ra de t ão perto que ela nos ensine a relação viva daquele
mente pronto . Pois a constitui ção do mundo , tal como ele a que percebe com seu corpo e com seu mundo .
;
concebe , é uma simples cláusula de estilo : a cada termo da A psicologia indutiva nos auxiliará a procurar para ela
descrição empirista acrescenta-se o índice “ consciência de . . . ” . um novo estatuto , mostrando que a sensação n ão é nem um
Subordina- se todo o sistema da experiê ncia
po pró prio , eu empírico — —mundo , cor-
a um pensador universal encarre -
estado ou uma qualidade , nem a consciê ncia de um estado
ou de uma qualidade . De fato, cada uma das pretensas qua -
gado de produzir as relações dos três termos . Mas , como ele lidades — o vermelho , o azul a cor , o som — est á inserida
em uma certa conduta. No normal , uma excitação sensorial ,
n ão est á envolvido no sistema , as relações continuam a ser
aquilo que eram no empirismo: relações de causalidade des- sobretudo as do laborató rio que para ele quase n ão t ê m sig-
dobradas no plano dos acontecimentos cósmicos . Ora , se o nificação vital , mal modifica a motricidade geral . Mas as
corpo pró prio e o eu emp írico são apenas elementos no siste - doen ç as do cerebelo ou do có rtex frontal evidenciam aquilo
ma da experiê ncia , objetos entre outros objetos sob o olhar que poderia ser a influ ê ncia das excita ções sensoriais no to-
do verdadeiro Eu , como pudemos algum dia confundir- nos nus muscular se elas não estivessem integradas a uma situa-
com nosso corpo , como pudemos acreditar que v íamos com ção de conjunto e se no normal o tô nus n ão estivesse regula-
nossos olhos aquilo que na verdade apreend íamos por uma do em vista de certas tarefas privilegiadas . O gesto de levan -
fi

0 MUNDO PERCEBIDO 283


282 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO

significação vital . Sabe - se há muito tempo que existe um


tar o braço , que se pode tomar como indicador da perturba-
ção motora , é diferentemente modificado em sua amplitude “ acompanhamento motor ” das sensações , que os est ímulos
desencadeiam movimentos nascentes 3 que se associam a
í í 3

e em sua direção por um campo visual vermelho , amarelo ,


sensação ou à qualidade e formam um halo em torno dela ,
azul ou verde . O vermelho e o amarelo , particularmente , fa-
que o “ lado perceptivo ” e o “ lado motor ” do comportamento
vorecem os movimentos escorregadios , o azul e o verde os
se comunicam . Mas a maior parte do tempo se faz como se
movimentos bruscos, o vermelho aplicado ao olho direito , por
essa relação n ão mudasse nada nos termos entre os quais ela
exemplo , favorece um movimento de extensão para o exte -
se estabelece . Pois n ão se trata , nos exemplos que d ávamos
rior do braço correspondente , o verde favorece um movimento
acima , de uma relação exterior de causalidade que deixaria
de flex ão e de recuo em direção ao pró prio corpo1 . A posi -
ção privilegiada do braço — aquela em que o sujeito sente
seu braço em equil íbrio ou em repouso — , que no doente é
intacta a pró pria sensação. As reações motoras provocadas
pelo azul , a “ conduta do azul n ão são efeitos , no corpo ob-
3 3

jetivo , da cor definida por um certo comprimento de onda


mais distanciada do corpo do que no normal , é modificada il
e uma certa intensidade: um azul obtido por contraste e ao
pela apresentação das cores: o verde a leva para a vizinhan ç a
qual n ão corresponde ent ão nenhum fenômeno f ísico envolve -
do corpo2 . A cor do campo visual torna as reações do sujei-
se do mesmo halo motor4 . N ão é no mundo do f ísico e pelo
to mais ou menos exatas , quer se trate de executar um movi -
efeito de algum processo escondido que se constitui a fisiono- ï
mento de uma amplitude dada ou de mostrar com o dedo um
mia motora da cor . Seria ent ão “ na consciê ncia , e seria pre-
33
comprimento determinado. Com um campo visual verde , a
ciso dizer que a experiê ncia do azul enquanto qualidade sen - !
apreciação é exata; com um campo visual vermelho , ela é ine -
sível suscita uma certa modificação do corpo fenomenal ? Mas
xata por excesso . Os movimentos para o exterior são acele - ,V 7

flK n ão se v ê por que a tomada de consciê ncia de um certo quale


rados pelo verde e atrasados pelo vermelho . A localização dos

est ímulos na pele é modificada pelo vermelho no sentido da


modificaria minha apreciação das grandezas e , ali ás , o efeito
sentido da cor nem sempre corresponde exatamente à influ ê n -
abdu ção . O amarelo e o vermelho acentuam os erros na esti -
cia que ela exerce no comportamento: o vermelho pode exa-
mativa do peso e do tempo ; nos cerebelosos , eles são com -
I gerar minhas reações sem que eu me aperceba disso 5 . Só se
pensados pelo azul e sobretudo pelo verde . Nessas diferentes
compreende a significação motora das cores se elas deixam
experiências, cada cor age sempre no mesmo sentido , de for -
de ser estados fechados sobre si mesmos ou qualidades indes-
ma que se pode atribuir a elas um valor motor definido . No
crit íveis oferecidas à constatação de um sujeito pensante , se
conjunto , o vermelho e o amarelo são favoráveis à abdu ção ,
elas atingem em mim uma certa montagem geral pela qual
o azul e o verde à adução . Ora , de uma maneira geral , a adu -
sou adaptado ao mundo , se elas me convidam a uma nova
ção significa que o organismo se volta para o est ímulo e é atraí-
maneira do avaliar e se , por outro lado , a motricidade deixa
do pelo mundo ; a abdu ção , que ele se desvia do est ímulo e
de ser a simples consciê ncia de minhas mudan ças de lugar
retira- se para seu centro3. Portanto , as sensações , as “ qua-
presentes ou futuras para tornar-se a função que , a cada mo-
lidades sensíveis ” , est ão longe de se reduzir à experiê ncia de
mento, estabelece meus padrões de grandeza , a amplitude va-
um certo estado ou de um certo quale indiz íveis , elas se ofere -
riável de meu ser no mundo. O azul é aquilo que solicita de
cem com uma fisionomia motora , est ão envolvidas por uma
284 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 MUNDO PERCEBIDO 285

mim uma certa maneira de olhar , aquilo que se deixa apal - sível a representação de uma cor , em pacientes que a perde -
par por um movimento definido de meu olhar . Ele é um cer- ram , expondo diante deles cores reais , quaisquer que elas se -
to campo ou uma certa atmosfera oferecida à potência de meus jam . A cor real produz no paciente uma “ concentração da
olhos e de todo o meu corpo . Aqui a experiê ncia da cor con - experiê ncia colorida ” que lhe permite “ ordenar as cores em
firma e faz compreender as correlações estabelecidas pela psi- seu olho ” 13. Assim , antes de ser um espet áculo objetivo , a
cologia indutiva . Comumente o verde passa por uma cor “ re - qualidade deixa- se reconhecer por um tipo de comportamento
pousante ” . “ Ele me fecha em mim mesmo e me põe em paz ” , que a visa em sua essê ncia , e é por isso que , a partir do mo-
diz uma doente6 . Ele “ n ão nos pede nada e n ão nos convo- mento em que meu corpo adota a atitude do azul , eu obte -
ca a nada ” , diz Kandinsky . O azul parece “ ceder ao nosso nho uma quase - presen ça do azul . Portanto, n ão é preciso
olhar ” , diz Goethe . Ao contr á rio , o vermelho “ entranha - se perguntar- se como e por que o vermelho significa o esforço
no olho ” , diz Goethe ainda 7 . O vermelho “ dilacera ” , o ou a violê ncia , o verde o repouso e a paz , é preciso reapren -
amarelo é “ picante ” , diz um doente de Goldstein . De uma der a viver essas cores como nosso corpo as vive , quer dizer ,
maneira geral , temos de um lado , com o vermelho e o ama - como concreções de paz ou de violê ncia. Quando dizemos que
relo , “ a experiê ncia de um arrancamento , de um movimen - o vermelho aumenta a amplitude de nossas reações , n ão se
to que se distancia do centro ” , e de um outro lado , com o deve entend ê -lo como se se tratasse ali de dois fatos distintos ,
azul e o verde , temos a experiê ncia do “ repouso e da con -
centração ” 8. Pode - se evidenciar o fundo vegetativo e motor ,
uma sensação de vermelho e reações motoras
— é preciso
compreender que o vermelho , por sua textura que nosso olhar
a significação vital das qualidades , empregando est ímulos fra- segue e esposa , já é a amplificação de nosso ser motor. O su -
cos ou breves. A cor , antes de ser vista , anuncia-se ent ão pe - jeito da sensação n ão é nem um pensador que nota uma qua -
la experi ê ncia de uma certa atitude do corpo que só convé m lidade , nem um meio inerte que seria afetado ou modificado
a ela e a determina com precisão : “ H á um deslizamento de por ela ; é uma pot ê ncia que co- nasce em um certo meio de
alto a baixo em meu corpo , portanto isso n ão pode ser verde , existência ou se sincroniza com ele. As relações entre aquele
só pode ser azul ; mas de fato n ão vejo o azul ” 9 , diz um ou - que sente e o sens ível são comparáveis às relações entre o dor-
tro paciente . E um outro: “ Cerrei os dentes e sei por isso que midor e seu sono: o sono vem quando uma certa atitude vo-
é amarelo . ” 10 Se se faz um est ímulo luminoso crescer pouco lunt ária repentinamente recebe do exterior a confirmação que
a pouco a partir de um valor subliminar , primeiramente se ela esperava . Eu respirava lenta e profundamente para cha-
experimenta uma certa disposição do corpo e , repentinamen - mar o sono e , repentinamente , dir-se- ia que minha boca se
te , a sensação continua e “ se propaga no dom ínio visual ” 11 . comunica com algum imenso pulm ão exterior que chama e
Assim como , ao olhar atentamente a neve , eu decomponho deté m minha respiração; um certo ritmo respirat ó rio , h á pou -
sua “ brancura ” aparente , que se resolve em um mundo de co desejado por mim , torn a- se meu próprio ser , e o sono , at é
reflexos e de transparê ncias , da mesma maneira pode-se des- ali visado enquanto significação , repentinamente se faz situa-
cobrir uma “ micromelodia ” no interior do som , e o interva- ção. Da mesma maneira , dou ouvidos ou olho à espera de
lo sonoro é apenas a enformação final de uma certa tensão uma sensação e , repentinamente , o sensível toma meu ouvido
sentida em primeiro lugar em todo o corpo 12 . Torna-se pos- ou meu olhar , eu entrego uma parte de meu corpo ou mesmo
!
286 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 MUNDO PERCEBIDO 287

meu corpo inteiro a essa maneira de vibrar e de preencher tos de minha percepção , pois esta noção é amb ígua , eles só
o espaço que é o azul ou o vermelho. Assim como o sacra- são instrumentos da excitação corporal e n ão da pró pria per-
mento n ão apenas simboliza uma operação da Graça sob es - cepção . N ão h á meio- termo entre o em si e o para si , e já
pécies sensíveis , mas é ainda a presen ça real de Deus, faz com que meus sentidos , sendo v á rios , n ão s ão eu mesmo , eles só
n que ela resida em um fragmento de espaço e a comunica àque - podem ser objetos . Digo que meus olhos vêem , que minha
les que comem o pão consagrado , se eles est ão interiormente m ão toca, que meu pé dói , mas essas expressões ingé nuas n ão
preparados , do mesmo modo o sens ível n ão apenas tem uma traduzem minha experiê ncia verdadeira . Elas j á me d ão dela
significação motora e vital , mas é uma certa maneira de ser uma interpretação que a afasta de seu sujeito original . Por-
no mundo que se propõe a nós de um ponto do espaço , que que sei que a luz atinge meus olhos , que os contatos se fazem
nosso corpo retoma e assume se for capaz , e a sensação é lite - pela pele , que meu sapato fere meu pé , disperso em meu cor-
ralmente uma comunh ão . po as percepções que pertencem à minha alma , coloco a per-
Desse ponto de vista , torna -se poss ível restituir à noção cepção no percebido . Mas aquilo é apenas o rastro espacial
de “ sentidos ” um valor que o intelectualismo lhe recusa . Mi- e temporal dos atos de consciê ncia . Se os considero do inte - m
nha sensação e minha percepção , diz ele , só podem ser de - rior , encontro um ú nico conhecimento sem lugar , uma alma I
sign á veis e , portanto , só podem ser para mim se forem sen - sem partes , e n ão h á nenhuma diferen ça entre pensar e per- 11

sação ou percepção de algo , por exemplo sensação de azul ceber , assim como entre ver e ouvir . Podemos manter- nos '

ou de vermelho , percepção da mesa ou da cadeira . Ora , o nessa perspectiva ? Se é verdade que n ão vejo com meus olhos , E!
azul e o vermelho n ão são esta experiê ncia indiz ível que eu como pude ignorar sempre esta verdade? Eu n ão sabia o que
vivo quando coincido com eles , a mesa ou a cadeira n ão são dizia , n ão tinha refletido ? Mas , ent ão , como eu podia n ão
i
esta aparê ncia efé mera à disposição de meu olhar ; o objeto refletir ? Como a inspeção do esp írito , como a operação de 11I
só se determina como um ser identific á vel através de uma sé- meu pró prio pensamento me pôde ser mascarada , já que meu
rie aberta de experiê ncias poss íveis , e só existe para um su - pensamento , por definição , é para si mesmo? Se a reflex ão
jeito que opera esta identificação . O ser só é para algu é m que quer justificar-se enquanto reflexão , quer dizer , enquanto pro-
seja capaz de recuar em relação a ele e que portanto esteja
/
gresso em direção à verdade , ela n ão deve se limitar a substi -
absolutamente fora do ser. E assim que o esp írito se torna tuir uma visão do mundo por uma outra , ela deve mostrar -
o sujeito da percepção e que a noção de “ sentidos” se torna nos como a visão ingé nua do mundo é compreendida e ultra- !ií
impensável. Se ver ou ouvir for afastar-se da impressão para passada na visão refletida. A reflexão deve iluminar o irrefle- V
investi -la em pensamento e deixar de ser para conhecer , se - tido ao qual ela sucede e mostrar sua possibilidade para po-
ria absurdo dizer que vejo com meus olhos ou que ou ço com -
der compreender se a si mesma enquanto começo . Dizer que
meus ouvidos , pois meus olhos e meus ouvidos ainda são se - sou eu ainda que me penso como situado em um corpo e co-
res do mundo , incapazes , ent ão , de preparar diante deste a mo provido de cinco sentidos evidentemente é apenas uma
zona de subjetividade de onde ele ser á visto ou ouvido . N ão solução verbal , já que eu que reflito n ão posso reconhecer-
posso nem mesmo conservar alguma potê ncia de conhecer aos me nesse Eu encarnado , já que portanto a encarnação per -
meus olhos ou aos meus ouvidos fazendo deles instrumen - manece por princ ípio uma ilusão e já que a possibilidade dessa
288 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO 0 MUNDO PERCEBIDO 289

ilusão continua incompreensível . Precisamos colocar em ques- que meu corpo se sincronize a ele , o sens ível é apenas uma
t ão a alternativa entre o para si e o em si , que rejeitava os solicitação vaga. “ Se um sujeito tenta experimentar uma cor
“ sentidos ” no mundo dos objetos e resgatava a subjetivida x
- determinada , por exemplo o azul , ao mesmo tempo em que
de como absoluto n ão-ser de toda inerê ncia corporal . E isso procura dar ao seu corpo a atitude que convé m ao verme-
que fazemos quando definimos a sensação como coexist ê ncia lho , resulta da í uma luta interior , uma espécie de espasmo
ou como comunh ão . A sensaçã o de azul n ão é o conhecimen - que cessa assim que ele adota a atitude corporal que corres-
!
to ou a posição de um certo quale identificá vel atravé s de to- ponde ao azul . ” 1 4 Assim , um sens ível que vai ser sentido
das as experiê ncias que tenho dele , assim como o círculo do apresenta ao meu corpo uma espécie de problema confuso .
ge ô metra é o mesmo em Paris e em Tóquio . Sem d ú vida , ela E preciso que eu encontre a atitude que vai lhe dar o meio
é intencional , quer dizer , n ão repousa em si como uma coi - de determinar- se e de tornar- se azul , é preciso que eu en -
sa , mas visa e significa para alé m de si mesma . Mas o termo contre a resposta a uma quest ão mal formulada . E todavia
que ela visa só é reconhecido cegamente pela familiaridade eu só o faço à sua solicitação , minha atitude nunca é sufi -
de meu corpo com ele , n ão é constitu ído em plena clareza , ciente para fazer- me ver verdadeiramente o azul ou tocar ver-
EM
mas reconstitu ído ou retomado por um saber que permanece dadeiramente uma superf ície dura . O sens ível me restitui
latente e que lhe deixa sua opacidade e sua ecceidade . A sen- aquilo que lhe emprestei , mas é dele mesmo que eu o obtive-
sação é intencional porque encontro no sensível a proposição ra. Eu , que contemplo o azul do céu , n ão sou diante dele um
de um certo ritmo de exist ê ncia — abdu ção ou adu ção—
porque , dando seq üê ncia a essa proposição , introduzindo- me
e sujeito acósmico , n ão o possuo em pensamento , n ão desdo-
bro diante dele uma id é ia de azul que me daria seu segredo ,
m -

na forma de existê ncia que assim me é sugerida , reporto- me abandono- me a ele , enveredo- me nesse misté rio , ele “ se pensa n
a um ser exterior , seja para abrir - me seja para fechar- me a em mim 5 > sou o pró prio cé u que se re ú ne , recolhe-se e põe -
ele . Se as qualidades irradiam em torno de si um certo modo se a existir para si , minha consciê ncia é obstru ída por esse Wé
de exist ê ncia , se elas tê m um poder de encantamento e aqui - azul ilimitado .— Mas o cé u n ão é esp í rito e n ão tem sentido
lo que h á pouco cham ávamos de um valor sacramental , é por-
que o sujeito que sente n ão as põe como objetos , mas simpa -
algum dizer que ele existe para si ? — Seguramente , o cé u ÏT
do geó grafo ou do astró nomo n ão existe para si . Mas do cé u 1®
tiza com elas , as faz suas e encontra nelas a sua lei moment â- percebido ou sentido , subtendido por meu olhar que o per - -
Tí Sr

nea . Esclareç amos . Aquele que sente e o sensível n ão est ão corre e o habita , meio de uma certa vibração vital que meu
um diante do outro como dois termos exteriores , e a sensa- corpo adota , pode - se dizer que ele existe para si no sentido
x
ção n ão é uma invasão do sens ível naquele que sente . E meu em que n ão é feito de partes exteriores , em que cada parte
olhar que subtende a cor , é o movimento de minha m ão que do conjunto é “ sens ível ” àquilo que se passa em todas as ou -
subtende a forma do objeto , ou antes meu olhar acopla- se à tras e as “ conhece dinamicamente ” 15. E , quanto ao sujeito
cor , minha m ão acopla- se ao duro e ao mole , e nessa troca da sensação , ele n ão precisa ser um puro nada sem nenhum m
a *
entre o sujeito da sensação e o sens ível n ão se pode dizer que peso terrestre . Isso só seria necessá rio se ele devesse , assim
um aja e que o outro pade ç a , que um d ê sentido ao outro .
m
como a consciê ncia constituinte , estar presente em todas as
Sem a exploração de meu olhar ou de minha m ão , e antes partes ao mesmo tempo , coextensivo ao ser , e pensar a ver-
:

290 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O MUNDO PERCEBIDO 291

dade do universo. Mas o espet áculo percebido n ão é ser pu - já que , se eu os pensasse assim , eu me suporia preexistente
ro . Tomado exatamente tal como o vejo , ele é um momento ou sobrevivente a mim mesmo para poder experiment á -los ,
de minha hist ó ria individual e , como a sensação é uma re - e portanto n ão pensaria seriamente meu nascimento ou mi-
|j! constituição , ela supõe em mim os sedimentos de uma cons- nha morte . Portanto , só posso apreender- me como “ já nas-
titui ção pré via , eu sou , enquanto sujeito que sente , inteira - cido ” e “ ainda vivo ” , apreender meu nascimento e minha
mente pleno de poderes naturais dos quais sou o primeiro a morte como horizontes pré- pessoais: sei que se nasce e que
me espantar . N ão sou portanto , segundo a expressão de He - se morre , mas n ão posso conhecer meu nascimento e minha
gel , um “ buraco no ser ” , mas um vazio , uma prega que se morte . Cada sensação , sendo rigorosamente a primeira , a ú l -
fez e que pode desfazer-se16. tima e a ú nica de sua espé cie , é um nascimento e uma mor -
Insistamos nesse ponto . Como podemos escapar da al- te. O sujeito que tem a sua experiê ncia começa e termina com
ternativa entre o para si e o em si , como a consciê ncia per- ela , e , como ele n ão pode preceder - se nem sobreviver a si ,
ceptiva pode ser obstru ída por seu objeto , como podemos dis- a sensação necessariamente se manifesta a si mesma em um
tinguir a consciê ncia sensível da consciê ncia intelectual ? E meio de generalidade , ela prové m de aqu é m de mim mes-
que : 1 ? Toda percepção acontece em uma atmosfera de ge - mo , ela depende de uma sensibilidade que a precedeu e que
neralidade e se d á a n ós como anónima . N ão posso dizer que sobreviverá a ela, assim como meu nascimento e minha morte
eu vejo o azul do céu no sentido em que digo que compreen - pertencem a uma natalidade e a uma mortalidade an ó nimas .
do um livro ou , ainda , que decido consagrar minha vida às Pela sensa ção , eu apreendo , à margem de minha vida pes-
matem á ticas. Minha percepção , mesmo vista do interior , ex- soal e de meus atos pró prios , uma vida de consciê ncia dada
prime uma situação dada: vejo o azul porque sou sensível às da qual eles emergem , a vida de meus olhos , de minhas m ãos ,
cores — ao contr ário , os atos pessoais criam uma situação:
sou matem ático porque decidi sê- lo. De forma que , se eu qui-
de meus ouvidos , que são tantos Eus naturais . Toda vez que
Pjfi
experimento uma sensação , sinto que ela diz respeito n ão ao :

sesse traduzir exatamente a experiê ncia perceptiva , deveria meu ser pró prio , aquele do qual sou responsável e do qual i
dizer que se percebe em mim e n ão que eu percebo. Toda decido , mas a um outro eu que já tomou partido pelo mun - [ J
sensação comporta um germe de sonho ou de despersonali- do, que já se abriu a alguns de seus aspectos e sincronizou - se
zação , como n ós o experimentamos por essa espécie de estu - a eles. Entre minha sensação e mim h á sempre a espessura I
por em que ela nos coloca quando vivemos verdadeiramente de um saber originário que impede minha experiê ncia de ser
em seu plano . Sem d ú vida, o conhecimento me ensina que clara para si mesma . Experimento a sensação como modali-
a sensação n ão aconteceria sem uma adaptação de meu cor- dade de uma existê ncia geral , já consagrada a um mundo fí-
po , por exemplo que n ão haveria contato determinado sem sico , e que crepita através de mim sem que eu seja seu autor .
um movimento de minha m ão. Mas essa atividade se desen - 2 ? A sensaçã o s ó pode ser anónima porque é parcial . Aquele
rola na periferia de meu ser , n ão tenho mais consciê ncia de que vê e aquele que toca n ão sou exatamente eu mesmo , por-
ser o verdadeiro sujeito de minha sensação do que de meu que o mundo visível e o mundo tangível não são o mundo i:
nascimento ou de minha morte. Nem meu nascimento nem por inteiro . Quando vejo um objeto , sinto sempre que ainda
minha morte podem aparecer- me como experiê ncias minhas , existe ser para alé m daquilo que atualmente vejo , n ão ape-
292 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 MUNDO PERCEBIDO 293

nas ser vis ível mas ainda ser tangível ou apreensível pela a ú - t é ria é apenas um momento ideal e n ão um elemento separ á -
dição , e n ão apenas ser sens ível mas ainda uma profundida- vel do ato total . Portanto , os sentidos n ão existem , mas ape -
de do objeto que nenhuma antecipação sensorial esgotar á. nas a consciê ncia . Por exemplo , o intelectualismo recusa- se
Correlativamente , n ão estou por inteiro nessas operações , elas a colocar o famoso problema da contribuição dos sentidos na
permanecem marginais , produzem - se adiante de mim , o eu experiê ncia do espaço , porque as qualidades sensíveis e os sen-
i
que v ê ou o eu que ouve sã o de alguma maneira um eu espe
cializado, familiares a um ú nico setor do ser , e é justamente
- tidos , enquanto materiais do conhecimento , n ão podem pos-
suir como propriedade o espaço que é a forma da objetivida -
a esse preço que o olhar e a m ão são capazes de adivinhar de em geral e , em particular , o meio pelo qual uma consciê n -
o movimento que vai tornar a percepção precisa e podem dar cia de qualidade se torna poss ível . Se uma sensaçã o n ã o fos-
provas desta presciê ncia que lhes d á a aparê ncia do automa- se sensação de algo , ela seria um nada de sensação , e coi -
tismo . Podemos resumir essas duas idé ias dizendo que toda sas ” no sentido mais geral da palavra , por exemplo qualidades
sensação pertence a um certo campo . Dizer que tenho um cam - definidas , só se esboçam na massa confusa das impressões se
po visual é dizer que , por posição, tenho acesso e abertura esta é posta em perspectiva e coordenada pelo espaço. As-
a um sistema de seres os seres visuais , que eles est ão à dis - f
sim , todos os sentidos devem ser espaciais se eles devem fazer- t
posição de meu olhar em virtude de uma espé cie de contrato nos ter acesso a uma forma qualquer do ser , quer dizer , se li -
primordial e por um dom da natureza , sem nenhum esforço eles s ão sentidos . E , pela mesma necessidade , é preciso que
de minha parte ; é dizer portanto que a visão é pré - pessoal ; todos eles se abram ao mesmo espa ç o , sem o que os seres sen -
e é dizer ao mesmo tempo que ela é sempre limitada , que soriais com os quais eles nos fazem comunicar só existiriam
existe sempre ern torno de minha visão atual um horizonte para os sentidos dos quais eles dependem — assim como os
de coisas n ão- vistas ou mesmo n ão- vis íveis. A visão é um pen
sarnento sujeito a um certo campo e é isso que chamamos de um

fantasmas só se manifestam à noite , faltar -lhes- ia a pleni-
tude do ser e n ão poderíamos verdadeiramente ter consciê n -
sentido . Quando digo que tenho sentidos e que eles me fazem cia deles , quer dizer , pô- los como seres verdadeiros. A essa
ter acesso ao mundo , n ão sou v ítima de uma confusão , nao dedução , o empirismo tentaria em vão opor fatos . Por exem -
misturo o pensamento causal e a reflexão , apenas exprimo plo , se se quer mostrar que o tato n ão é por si mesmo espa-
esta verdade que se impõe a uma reflex ão integral : que sou cial , se se tenta encontrar nos cegos ou nos casos de cegueira
capaz , por conaturalidade , de encontrar um sentido para cer- psíquica uma experiê ncia t á til pura e mostrar que ela n ão é
tos aspectos do ser, sem que eu mesmo o tenha dado a eles articulada segundo o espaço, essas provas experimentais pres-
por uma operação constituinte . supõem aquilo que a elas caberia estabelecer . Com efeito , co-
s Com a distinção entre os sentidos e a intelecção , encon - mo saber se a cegueira e a cegueira ps íquica se limitaram a
tra - se justificada a distin ção entre os diferentes sentidos . O subtrair , da experiê ncia do doente , os dados visuais , e se elas
intelectualismo n ão fala dos sentidos porque , para ele , sensa - també m n ão atingiram a estrutura de sua experiê ncia t á til ?
ções e sentidos só aparecem quando eu retorno ao ato con - O empirismo toma a primeira hipó tese por concedida , e é sob
creto de conhecimento para analisá - lo . Ent ão distingo nele essa condição que o fato pode passar por crucial , mas exata -
uma mat é ria contingente e uma forma necessá ria , mas a ma- mente através disso ele postula a separação dos sentidos, que
294 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 MUNDO PERCEBIDO 295
justamente se trata de provar. Mais precisamente: se admito ele existiu no tempo objetivo ) . A consciê ncia , tematizada pe -
que o espaço pertence originariamente à visão e que dali ele la reflexão , é a exist ê ncia para si . E , com o aux ílio dessa idé ia
passa ao tato e aos outros sentidos, como no adulto aparente - da consciê ncia e dessa idéia do objeto , mostra- se facilmente
mente existe uma percepção t á til do espaço , pelo menos de - que toda qualidade sensível só é plenamente objeto no con -
vo admitir que os “ dados t á teis puros 7 5 são deslocados e re- texto das relações de universo , e que a sensação só pode ser
cobertos por uma experiê ncia de origem visual , que eles se sob a condi ção de existir para um Eu central e ú nico . Se se
integram a uma experiê ncia total na qual são finalmente in - quisesse marcar uma parada no movimento reflexivo e falar ,
discern íveis . Mas ent ão com que direito distinguir , nessa ex- por exemplo , de uma consciê ncia parcial ou de um objeto iso-
periê ncia adulta , uma contribui ção “ t á til ” ? O pretenso “ t á - lado , ter-se - ia uma consciê ncia que em algum aspecto n ão se
til puro ” que tento reencontrar dirigindo- me aos cegos n ão saberia a si mesma e que portanto n ã o seria consciê ncia um
seria um tipo de experiê ncia muito particular , que n ão tem objeto que n ão seria acessível em todas as partes e que nessa
nada em comum com o funcionamento do tato integrado e medida n ão seria objeto . Mas sempre se pode perguntar ao
n ão pode servir para analisar a experiê ncia integral ? N ão se intelectualismo de onde ele extrai essa idé ia ou essa essê ncia
pode decidir sobre a espacialidade dos sentidos pelo m étodo da consciê ncia e do objeto. Se o sujeito é puro para si, então
indutivo e produzindo “ fatos 7 7

—seja , por exemplo , um ta - “ o Eu penso deve poder acompanhar todas as nossas repre -
to sem espaço no cego
— , j á que esse fato precisa ser inter-
pretado e justamente ele será considerado ou como um fato
sentações ' ’ . ‘Se um mundo deve poder ser pensado ” , ent ão
4

é preciso que a qualidade o contenha em germe . Mas , em


significativo que revela uma natureza pró pria do tato , ou co- primeiro lugar , de onde sabemos que existe o puro para si
mo um fato acidental e que exprime as propriedades particu - e de onde extra í mos que o mundo deve poder ser pensado?
lares do tato m ó rbido , segundo a idé ia que se faz dos senti - Responder-se - á talvez que isso é a definição do sujeito e do m
dos em geral e da relação entre eles na consciê ncia total . O mundo , e que se eles n ão forem compreendidos assim n ão
problema depende da reflexão e n ão da experiê ncia no senti - se saberá mais do que se fala ao se falar deles . E com efeito, 1
do empirista da palavra , que é també m aquele em que o to - I'
no plano da fala constitu ída , essa é certamente a significação %
mam os cientistas quando sonham com uma objetividade ab- do mundo e do sujeito . Mas de onde as pró prias falas obtê m Î:
soluta. Portanto , podemos estabelecer a priori que todos os seu sentido? A reflexão radical é aquela que me reapreende
sentidos sã o espaciais , e a quest ão de saber qual é o sentido enquanto estou prestes a formar e formular a id é ia do sujeito
que nos d á o espaç o deve ser considerada como ininteligível e a do objeto , ela ilumina a fonte dessas duas idé ias , ela é f:
se refletimos no que é um sentido . Todavia , aqui são poss í- reflexão n ão apenas operante , mas ainda consciente de si mes-
veis duas espécies de reflexão. Uma

— trata-se da reflexão
intelectualista tematiza o objeto e a consciê ncia e , para re -
ma em sua operação. Talvez se responderá ainda que a aná-
lise reflexiva n ão apreende o sujeito e o objeto apenas < < em
tomar uma expressão kantiana , ela os “ conduz ao conceito ” . id é ia ” , que ela é uma experiê ncia , que , ao refletir , eu me re -
Agora o objeto se torna aquilo que é, por conseguinte aquilo coloco neste sujeito infinito que eu j á era , e recoloco o objeto
que é para todos e para sempre ( nem que seja a t ítulo de epi- nas relações que já o subtendiam , e que enfim n ão convé m
sódio efé mero mas do qual seria verdade para sempre que perguntar de onde extraio essa id é ia do sujeito e essa id é ia
296 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃ O 0 MUNDO PERCEBIDO 297
í do objeto , já que elas s ão a simples formulação das condi- é a condição sem a qual n ão se pode pensar a plenitude da
ções sem as quais n ão haveria nada para ningu é m . Mas o objetividade , e é verdade que , se tentamos tematizar vá rios
Eu refletido difere do Eu irrefletido pelo menos no fato de espaços , eles se reduzem à unidade , cada um deles encon -
que ele foi tematizado , e o que é dado n ão é a consciê ncia trando- se em uma certa relação de posição com os outros e ,
nem o ser puro — como o pró prio Kant o diz com profundi- portanto , sendo uma e a mesma coisa que eles . Mas sabemos
dade , é a experiê ncia ; em outros termos , a comunicação de se a objetividade plena pode ser pensada ? Se todas as pers-
um sujeito finito com um ser opaco do qual ele emerge , mas pectivas são composs íveis? Se de algum lugar elas podem ser
no qual permanece engajado . E a experiencia A •
pura e por tematizadas todas em conjunto? Sabemos se a experiê ncia t á til
assim dizer ainda muda que se trata de trazer à expressão e a experiê ncia visual podem reunir- se rigorosamente sem
pura de seu pró prio sentido ” 17 . Temos a experiê ncia de um uma experiê ncia intersensorial ? Se minha experiê ncia e aquela
mundo , n ão no sentido de um sistema de relações que deter- do outro podem ser ligadas em um sistema ú nico da expe -
minam inteiramente cada acontecimento , mas no sentido de riência intersubjetiva ? Existem talvez , seja na experiência sen -
i uma totalidade aberta cuja s íntese n ão pode ser acabada . Te- sorial , seja em cada consciê ncia , “ fantasmas ” que nenhuma
mos a experiê ncia de um Eu , n ão no sentido de uma subjeti- racionalidade pode reduzir . Toda a Dedu ção Transcenden -
vidade absoluta , mas indivisivelmente desfeito e refeito pelo tal est á sustentada na afirmação de um sistema integral da
curso do tempo . A unidade do sujeito ou do objeto n ão é verdade . E justamente à s fontes dessa afirmação que é preci -
,

uma unidade real , mas uma unidade presuntiva no horizon - so remontar , se se quer refletir. Nesse sentido , pode - se dizer ,
te da experiência ; é preciso reencontrar , para aqu é m da idéia com Husserl18, que em inten ção Hume foi mais longe do que
do sujeito e da idé ia do objeto , o fato de minha subjetividade ningué m na reflexão radical , já que verdadeiramente ele quis
e o objeto no estado nascente , a camada primordial em que reconduzir - nos aos fen ô menos dos quais temos a experiê n -
nascem tanto as id é ias como as coisas. Quando se trata da cia , para aqu é m de toda ideologia , mesmo se por outro lado
consciê ncia , só posso formar sua noção reportando- me pri- ele mutilou e dissociou essa experiê ncia. Em particular , a idé ia
meiramente a esta consciê ncia que eu sou , e particularmen - de um espaço ú nico e a de um tempo ú nico , estando apoia-
te n ão devo em primeiro lugar definir os sentidos , mas reto- das naquela de uma adição do ser da qual justamente Kant
mar contato com a sensorialidade que vivo do interior . N ão fez a crítica na Dialé tica Transcendental , deve ser posta en -
somos obrigados a a priori investir o mundo das condições tre parê nteses e produzir sua genealogia a partir de nossa ex -
sem as quais ele n ão poderia ser pensado , pois, para poder periência efetiva. Essa nova concepção da reflexão, que é a
ser pensado , em primeiro lugar ele deve n ão ser ignorado , concepção fenomenológica , significa em outros termos dar
deve existir para mim , quer dizer , ser dado , e a esté tica trans- uma nova definição do a priori . Kant já mostrou que o a priori
cendental só se confundiria com a anal ítica transcendental n ão é cognoscível antes da experiê ncia , quer dizer , fora de
se eu fosse um Deus que põe o mundo e n ão um homem nosso horizonte de facticidade , e que n ão se pode tratar de
que ali se encontra lanç ado e que , em todos os sentidos da distinguir dois elementos reais do conhecimento , dos quais
palavra , “ at é m - se a ele ” . Portanto , n ão precisamos seguir um seria a priori e o outro a posteriori . Se o a priori conserva
Kant em sua dedu ção de um espaço ú nico . O espaço ú nico em sua filosofia o cará ter daquilo que deve ser , por oposi ção
§
4

298 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO 0 MUNDO PERCEBIDO 299


àquilo que existe de fato e como determinação antropológi - perca algo de sua disponibilidade . Assim , a unidade e a di -
ca , é apenas na medida em que ele n ã o seguiu até o fim versidade dos sentidos são verdades de mesmo estatuto . O
seu programa , que era o de definir nossos poderes de conhe- a priori é o fato compreendido , explicitado e seguido em to-
cimento por nossa condição de fato , e que devia obrigá -lo §5
a recolocar todo ser concebível sobre o fundo deste mundo-
das as conseq üê ncias de sua lógica t ácita , e o a posteriori é o
fato isolado e impl ícito . Seria contraditó rio dizer que o tato ss-:r
M
aqui. A partir do momento em que a experiê ncia — quer é sem espacialidade , e é a priori imposs ível tocar sem tocar ;
dizer , a abertura ao nosso mundo de fato
— é reconhecida
como o começo do conhecimento , n ão h á mais nenhum meio
no espaço, já que nossa experiê ncia é a experiê ncia de um
mi
de distinguir um plano das verdades a priori e um plano das
mundo . Mas esta inserção da perspectiva t átil em um ser uni -
versal n ã o exprime nenhuma necessidade exterior ao tato , ela
verdades de fato , aquilo que o mundo deve ser e aquilo que se produz espontaneamente na pró pria experiê ncia t á til , se - pi -
efetivamente ele é . A unidade dos sentidos , que passava por gundo seu modo pró prio . A sensação , tal como a experiê ncia
uma verdade a priori, é apenas a expressão formal de uma a entrega a n ós , n ão é mais uma maté ria indiferente e um
contingê ncia fundamental : o fato de que somos no mundo; momento abstrato , mas uma de nossas superf ícies de contato
a diversidade dos sentidos , que passava por um dado a poste- com o ser , uma estrutura de consciê ncia , e , em lugar de um
riori , compreendida aí a forma concreta que ela assume em
espaço ú nico , condição universal de todas as qualidades , n ós
um sujeito humano , aparece como necessária a este mundo- temos com cada uma delas uma maneira particular de ser no
aqui , quer dizer , ao ú nico mundo que possamos pensar com espaço e , de alguma maneira , de fazer espaço . N ão é nem
conseq üê ncia ; ela se torna ent ão uma verdade a priori . Toda contradit ó rio nem impossível que cada sentido constitua um
sensação é espacial , n ós aderimos a essa tese n ã o porque a
qualidade enquanto objeto só pode ser pensada no espaço ,
pequeno mundo no interior do grande , e é at é mesmo em ra -
zão de sua particularidade que ele é necessá rio ao todo e se
mas porque , enquanto contato primordial com o ser , enquan - abre a este.
to retomada , pelo sujeito que sente , de uma forma de exis - Em suma , uma vez apagadas as distin ções entre o a priori
t ê ncia indicada pelo sens ível , enquanto coexist ê ncia entre e o empírico , entre a forma e o conte ú do , os espaços senso-
aquele que sente e o sens ível, ela própria é constitutiva de riais tornam-se momentos concretos de uma configuração glo-
um meio de experiê ncia , quer dizer , de um espaço. Dize - bal que é o espaço ú nico , e o poder de ir a ele n ão se separa
mos a priori que nenhuma sensação é pontual , que toda sen - do poder de retirar-se dele na separação de um sentido . Na
sorialidade supõe um certo campo , logo , coexistê ncias e con
clu ímos da í, contra Lachelier , que o cego tem a experiê ncia
- sala de concerto , quando reabro os olhos, o espaço visível me
parece acanhado em relação a este outro espaço em que onde
de um espaço. Mas essas verdades a priori s ão apenas a ex
plicitação de um fato: o fato da experiê ncia sensorial como
- havia pouco a m ú sica se desdobrava , e , mesmo se conservo
os olhos abertos enquanto se toca a peç a , parece- me que a
retomada de uma forma de existência , e essa retomada implica m ú sica n ão est á verdadeiramente contida neste espaço preci -
també m que a cada instante eu possa fazer- me quase inteiro so e mesquinho . Atrav és do espaço vis ível , ela insinua uma
tato ou visão , e que até mesmo eu nunca possa ver ou tocar nova dimensão em que rebenta , assim como , nos alucinados ,
sem que minha consci ê ncia em alguma medida se obstrua e o espaço claro das coisas percebidas se redobra misteriosa -
300 FENOMENOLOGIA DA PERCE PÇAO O MUNDO PERCEBIDO 301
mente de um í espaç o negro ” em que outras presen ç as s ão
í

- nao é nada sem um certo uso do olhar. Os doentes “ primei-


possíveis. Assim como para mim a perspectiva do outro so- im -
ramente vêem as cores assim como n ós sentimos um odor:
bre o mundo , o dom ínio espacial de cada sentido é , para os ele nos banha , age sobre n ós , sem todavia preencher uma de -
m
outros sentidos , um incognoscível absoluto , e limita na mes- m terminada forma de uma determinada extensão ” 24 . Primei -
ma proporção a espacialidade deles. Essas descrições, que para ramente , tudo est á misturado e tudo parece em movimento.
uma filosofia criticista só oferecem curiosidades emp í ricas e A segregação das superf ícies coloridas , a apreensão correta
n ão afetam as certezas a priori , readquirem para n ós uma im - do movimento só v ê m mais tarde , quando o paciente com -
port â ncia filosófica porque a unidade do espaço só pode ser preendeu “ o que é ver ” 25 , quer dizer , quando ele dirige e
encontrada na engrenagem dos dom í nios sensoriais uns nos
/
passeia seu olhar como um olhar , e n ão mais como uma m ão .
outros . E isso que permanece verdadeiro nas famosas descri- Isso prova que cada ó rgã o dos sentidos interroga o objeto à
ções empiristas de uma pecepção n ão-espacial . A experiê n- sua maneira , que ele é o agente de um certo tipo de síntese ,
cia dos cegos de nascen ç a operados de catarata nunca pro- mas, a menos que por definição nominal se reserve a palavra
vou e nunca poderia provar que para eles o espaço come ç a espaço para designar a s í ntese visual , n ão se pode recusar ao
com a vis ão . Mas o doente n ão deixa de maravilhar -se com tato a espacialidade no sentido de apreensão das coexistê n -
este espa ço visual ao qual acaba de ter acesso e em relação cias . O pró prio fato de que a verdadeira visão se prepara no
ao qual a experiê ncia t á til lhe parece t ão pobre que ele con - curso de uma fase de transição e por uma espé cie de toque
fessaria de bom grado jamais ter tido a experiê ncia do espaço com os olhos n ão seria compreensível se n ão houvesse um
antes da operação 19 . O espanto do doente , suas hesitações no campo t á til quase espacial em que as primeiras percepções
novo mundo visual em que ele entra mostram que o tato n ão visuais pudessem inserir-se . A vis ão nunca se comunicaria di -
é espacial como a visão. “ Após a operação , diz- se 20 , “ a for- retamente com o tato , como o faz no adulto normal , se o ta -
ma tal como é dada pela visão é para os doentes algo de ab- to , mesmo artificialmente isolado , n ão fosse organizado de
solutamente novo que eles n ã o relacionam à sua experiê ncia maneira a tornar possíveis as coexistê ncias . Longe de excluir
t á til ” ; “ o doente afirma que v ê , mas n ão sabe aquilo que vê a idéia de um espaço t á til , os fatos provam , ao contr á rio, que
(... ) Ele nunca reconhece como tal a sua m ão , ele só fala de existe um espaço t ão estritamente t átil que suas articulações
uma mancha branca em movimento ” 21 . Para distinguir pe - em primeiro lugar n ão est ão e at é mesmo nunca estarão em
la vis ão um círculo de um ret â ngulo , é preciso que ele siga uma relação de sinon ímia com aquelas do espaço visual . A
com os olhos a extremidade da figura , como o faria com a an álises empiristas põem confusamente um problema verda -
m ão22 , e ele sempre tende a pegar os objetos que se apresen - deiro. Por exemplo , que o tato só possa abarcar simultanea-
tam ao seu olhar 23. O que concluir daqui ? Que a experiê n - mente uma pequena extensão — aquela do corpo e de seus
cia t á til n ão prepara para a percepção do espaço? Mas , se
ela n ão fosse de maneira alguma espacial , o sujeito estende -

instrumentos , este fato n ão concerne apenas à apresenta -
ção do espaço t á til , ele modifica seu sentido . Para a inteli-
ria a mão em direção ao objeto que lhe mostrassem ? Esse gesto
supõe que o tato se abre a um meio pelo menos análogo àquele
gê ncia — ou , pelo menos , para uma certa inteligê ncia que

é aquela da física clássica , a simultaneidade é a mesma ,
dos dados visuais. Os fatos mostram sobretudo que a vis ão quer ela ocorra entre dois pontos cont íguos ou entre dois pon -
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302 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O MUNDO PERCEBIDO 303
tos distantes , e em todo caso pode- se construir pouco a pou - ainda pela estrutura do conjunto. Um cego sabe exatamente ,
co , com simultaneidades a curta dist â ncia , uma simultanei- pelo tato , o que são galhos e folhas , um braço e os dedos da
dade a grande distâ ncia. Mas, para a experiê ncia, a espessu - m ão . Após a operação , ele se espanta por encontrar “ tanta
ra de tempo que assim se introduz na operação modifica seu diferen ça ” entre uma á rvore e um corpo humano29 . É evi -
resultado , resulta da í um certo “ movido ” na simultaneida - dente que a visão n ão acrescentou apenas novos detalhes ao
de dos pontos extremos e , nessa medida , para o cego opera - conhecimento da á rvore . Trata -se de um modo de apresen -
do a amplitude das perspectivas visuais ser á uma verdadeira tação e de um tipo de s íntese novos , que transfiguram o ob-
revelação , porque ela proporcionar á pela primeira vez a exi- jeto. A estrutura iluminação/objeto iluminado , por exemplo ,
bição da simultaneidade distante ela mesma . Os operados de - no dom ínio tátil só encontra analogias muito vagas. E por
claram que os objetos t áteis n ão s ão verdadeiros todos espa - isso que um doente operado após dezoito anos de cegueira
ciais , que aqui a apreensão do objeto é um simples “ saber tenta tocar um raio de sol 30 . A significação total de nossa vi -
da relação recí proca das partes ” , que o c í rculo e o quadrado
n ão s ão verdadeiramente percebidos pelo tato , mas reconhe -
da — da qual a significação nocional é sempre apenas um
extrato— seria diferente se fôssemos privados da visão. Existe
cidos a partir de certos “ signos ” — presen ç a ou ausê ncia de uma fun çã o geral de substituição e de troca que nos permite
“ pontas ” 26 . Entendamos que o campo t átil nunca tem a am- ter acesso à significação abstrata das experiê ncias que n ão vi-
plitude do campo visual , nunca o objeto t átil est á presente vemos e , por exemplo , permite - nos falar daquilo que n ão vi-
por inteiro em cada uma de suas partes assim como o objeto mos . Mas , assim como no organismo as fun ções de substitui -
visual , e em suma que tocar n ão é ver . Sem d ú vida , entre ção nunca equivalem exatamente às fun ções lesadas e só d ão
o cego e o normal , a conversação se estabelece , e talvez seja a aparê ncia da integridade , a inteligê ncia só assegura uma
imposs ível encontrar uma só palavra , mesmo no vocabul á rio comunicação aparente entre experiê ncias diferentes , e a s ín -
das cores , à qual o cego n ão consiga dar um sentido pelo me - tese do mundo visual e do mundo t á til no cego de nascen ç a
nos esquem á tico . Um cego de doze anos define muito bem operado, a constituição de um mundo intersensorial , deve
as dimensões da visão : “ Aqueles que vêem ” , diz ele , “ est ão fazer- se no pró prio terreno sensorial , a comunidade de signi -
em relação comigo por um sentido desconhecido que à dis - ficação entre as duas experiê ncias n ão basta para assegurar
tância me envolve inteiramente , me segue , me atravessa e que , sua solda em uma experiê ncia ú nica. Os sentidos são distin -
desde que me levanto at é me deitar , me manté m , por assim tos uns dos outros e distintos da intelecção , já que cada um
dizer , sob sua dominação ” ( mich gewissermassen beherrscht )27 . deles traz consigo uma estrutura de ser que nunca é exata-
Mas para o cego essas indicações permanecem nocionais e mente transpon ível . N ós podemos reconhecê-lo porque rejei-
problem á ticas . Elas colocam uma quest ão à qual apenas a vi- tamos o formalismo da consciê ncia e fizemos do corpo o su -
s ão poderia responder . E é por isso que o cego operado acha jeito da percepção .
o mundo diferente daquilo que ele esperava 28 , assim como E podemos reconhecê-lo sem comprometer a unidade dos
n ós sempre achamos um homem diferente daquilo que sab ía- sentidos . Pois os sentidos se comunicam . A m ú sica n ão est á
mos dele . O mundo do cego e o do normal diferem n ão ape - no espaço visível , mas ela o mina , o investe , o desloca , e em
nas pela quantidade dos materiais dos quais eles dispõem , mas breve esses ouvintes muito empertigados , que assumem o ar
304 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O MUNDO PERCEBIDO 305

de ju ízes e trocam palavras e sorrisos , sem perceber que o rarn idê nticas às folhas iluminadas , nem tampouco objetiva-
ch ão se abala sob eles , estar ão como uma tripulação sacudi - mente diferentes delas . A brancura do papel sombreado n ão
da na á rea de uma tempestade . Os dois espaços só se distin - se deixa classificar com precis ão na sé rie negro- branco32 . Ela
guem sobre o fundo de um mundo comum , e só podem en - n ão era nenhuma qualidade definida , e fiz a qualidade ma -
trar em rivalidade porque ambos tê m a mesma pretensão ao nifestar-se fixando meus olhos em uma porção do campo vi -
ser total . Eles se unem no momento mesmo em que se opõem . sual : agora e apenas agora me encontrei em presen ç a de um
Se quero encerrar- me em um de meus sentidos e , por exem - certo quale em que meu olhar se afunda . Ora , o que é fixar ?
plo , me projeto inteiro em meus olhos e abandono- me ao azul Do lado do objeto , é separar a regi ão fixada do resto do cam -
do cé u , em breve n ão tenho mais consciê ncia de olhar e , no po , é interromper a vida total do espet áculo , que atribu ía a
momento em que queria fazer- me inteiro visão , o cé u deixa cada superf ície vis ível uma coloraçã o determinada , levando
de ser uma í i percepção visual ” para tornar- se meu mundo em conta a iluminação ; do lado do sujeito , é substituir à vi -
do momento . A experiê ncia sensorial é inst á vel e é estranha são global , na qual nosso olhar se presta a todo o espet áculo
à percepção natural que se faz com todo o nosso corpo ao mes - e se deixa invadir por este , uma observação , quer dizer , uma
mo tempo e abre - se a um mundo intersensorial . Assim como visão local que ele governa ao seu modo . A qualidade sens í-
a experiê ncia da qualidade sens ível , a experi ê ncia dos sen -
i í
vel , longe de ser coextensiva à percepção , é o produto parti-
tidos separados só ocorre em uma atitude muito particular cular de uma atitude de curiosidade ou de observação . Ela
e n ão pode servir para a an álise da consciê ncia direta . Estou aparece quando , em lugar de abandonar todo o meu olhar
sentado em meu quarto e olho as folhas de papel branco dis- no mundo , volto- me para este pró prio olhar e pergunto- me
postas em minha mesa , umas iluminadas através da janela , o que vejo exatamente\ ela n ão figura no com é rcio natural de mi -
outras na penumbra . Se n ão analisar minha percepção e se nha vis ã o com o mundo , ela é a resposta a uma certa quest ão
me ativer ao espet áculo global , direi que todas as folhas de de meu olhar , o resultado de uma visão secund á ria ou cr ítica
papel me aparecem igualmente brancas . Todavia , algumas que procura conhecer - se em sua particularidade , de uma
delas est ão na sombra da parede . Como elas n ão são menos í c
aten ção ao visual puro ” 33 que exerço ou quando temo ter -
brancas do que as outras ? Decido olhar melhor . Fixo nelas me enganado , ou quando quero empreender um estudo cien -
o meu olhar , quer dizer , limito meu campo visual . Posso at é t ífico da visão . Essa atitude faz o espet áculo desaparecer: as
mesmo observá-las através de uma caixa de fósforos que as cores que vejo através do anteparo de redu ção , ou aquelas
separa do resto do campo , ou através de um ‘‘anteparo de que o pintor obté m entrecerrando os olhos , não são mais cores-
redu ção ” aberto de uma janela . Quer eu empregue algum
desses dispositivos ou me contente em observar a olho nu
objetos — —
a cor das paredes ou a cor do papel , mas superf í-
cies coloridas n ão sem espessura , todas vagamente localiza -
mas na “ atitude analítica ” 31 , o aspecto das folhas muda: n ão das no mesmo plano fict ício34. Assim , existe uma atitude na-
se trata mais de papel branco recoberto por uma sombra , tural da visão em que conspiro com meu olhar e através dele
trata- se de uma subst â ncia cinza ou azulada , espessa e mal me entrego ao espet áculo: agora as partes do campo est ão li -
localizada . Se considero novamente o conjunto do espet ácu - gadas em uma organização que as torna reconhecíveis e iden -
lo , observo que as folhas sombreadas n ão eram e jamais fo - tificáveis . A qualidade , a sensorialidade separada , produz- se
306 FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇAO O MUNDO PERCEBIDO 307

quando rompo essa estruturação total de minha visão , quan - I que descrev íamos há pouco , só se especifica por um “ acen -
do deixo de aderir ao meu pró prio olhar e , em lugar de viver to ” que indica antes a direção do som ou a da cor 37 . Neste
a visão , interrogo- me sobre ela , quero testar minhas possibi - n ível , a ambig ü idade da experiê ncia é tal que um ritmo au -
lidades, desfaço o elo entre minha visão e o mundo , entre mim ditivo faz imagens cinematográficas se fundirem e d á lugar
mesmo e minha visão , para surpreendê-la e descrevê-la . Nessa a uma percepção de movimento , quando sem apoio auditivo
atitude , ao mesmo tempo em que o mundo se pulveriza em a mesma sucessão de imagens seria muito lenta para provo-
qualidades sens íveis , a unidade natural do sujeito perceptivo car o movimento estroboscópico38. Os sons modificam as ima-
é rompida e chego a ignorar- me enquanto sujeito de um cam - gens consecutivas das cores: um som mais intenso as intensi -
po visual . Ora , assim como , no interior de cada sentido , é fica , a interrupção do som as faz vacilar , um som baixo tor-
preciso reencontrar a unidade natural , faremos aparecer uma na o azul mais escuro ou mais profundo39 . A hipótese de
<<
camada origin á ria ” do sentir que é anterior à divisão dos const â ncia 40 , que para cada est ímulo atribui uma e apenas
sentidos35 . Conforme eu fixe um objeto ou deixe meus olhos uma sensação, é tanto menos verificada quanto mais nos apro-
divergirem , ou enfim me abandone por inteiro ao aconteci- ximamos da percepção natural . “ E na medida em que a con -
mento , a mesma cor me aparece como cor superficial ( Ober - duta é intelectual e imparcial ( sachlicher ) que a hipótese de cons-

flàchenfarbe ) ela est á em um lugar definido do espaço ,
estende - se sobre o objeto — ou ent ão ela se torna cor atmos-
t â ncia se toma aceit á vel no que diz respeito à relação entre
o est ímulo e a resposta sensorial específica , e que o est ímulo
fé rica ( Raumfarbe) e difusa em torno do objeto ; ou ent ão eu sonoro , por exemplo , limita-se à esfera específica , aqui a es-
a sinto em meu olho como uma vibração de meu olhar ; ou fera auditiva. ” 41 A intoxicação pela mescalina , porque com-
enfim ela comunica a todo o meu corpo uma mesma manei - promete a atitude imparcial e entrega o sujeito à sua vitali -
ra de ser , ela me preenche e n ão merece mais o nome de cor . dade , deverá favorecer ent ão as sinestesias . De fato , sob efei -
Da mesma maneira , h á um som objetivo que ressoa fora de to de mescalina , um som de flauta causa uma cor azul forte ,
mim no instrumento , um som atmosfé rico que est á entre o ob- o ru ído de um metró nomo se traduz na obscuridade por man-
jeto e meu corpo , um som que vibra em mim como se eu chas cinzas , os intervalos espaciais da visão correspondem aos
me tivesse tornado a flauta ou o pê ndulo ” ; e enfim um últi- intervalos temporais dos sons , a grandeza da mancha cinza à
mo est ágio em que o elemento sonoro desaparece e torna- se intensidade do som , sua altura no espaço à altura do som 42 .
a experiê ncia , aliás muito precisa, de uma modificação de todo Um paciente sob efeito de mescalina encontra um pedaço de
o meu corpo36 . A experiê ncia sensorial só dispõe de uma ferro , bate no batente da janela e “ Eis a magia ” , diz ele : as
margem estreita: ou o som e a cor , por seu arranjo pró prio , árvores ficam mais verdes43. O latido de um cão atrai a ilu -
desenham um objeto , o cinzeiro , o viol ão , e esse objeto fala minação de uma maneira indescrit ível , e repercute no pé
de uma só vez a todos os sentidos; ou ent ão , na outra extre- direito44 . Tudo se passa como se v íssemos “ caírem algumas
midade da experiê ncia , o som e a cor são recebidos em meu vezes as barreiras estabelecidas entre os sentidos no curso da
corpo , e torna-se difícil limitar minha experiê ncia a um ú ni- evolu ção ” 45. Na perspectiva do mundo objetivo , com suas
co registro sensorial : espontaneamente , ela transborda para qualidades opacas , e do corpo objetivo , com seus ó rgãos se-
todos os outros. A experiê ncia sensorial , no terceiro est ágio parados , o fen ômeno das sinestesias é paradoxal. Procura- se
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308 RENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÀO O MUNDO PERCEBIDO 309

ent ão explicá-lo sem tocar no conceito de sensação ; será pre - do aço , a maleabilidade do aço incandescente , a dureza da
ò
ciso , por exemplo