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DO BOM
,, USO EROTICO
DACOLERA
e algumas de suas conseqüências ...
Gérard Pommier

:ahar Editor ~ Transmissão


V da Psicanálise
DO BOM USO ERÓTICO
DA CÓLERA

facebook.com/lacanempdf
Transmissão da Psicanálise
diretor: Marco Antonio Coutinho Jorge
Gérard Pommier

DO BOM USO
ERÓTICO DA CÓLERA
e algumas de suas conseqüências ...

Tradução:
VERA RIBEIRO.
psicanalista

Revisão técnica:
MARCOS COMARU
mestre em teoria
psicanalítica, UFRJ

Jorge Zahar Editor


Rio de Janeiro
Título original: Du bon usage érotique de la colere
et quelques unes de ses conséquences ...
Tradução autorizada da primeira edição francesa,
publicada em 1994 por Editions Aubier, de Paris,
França, na coleção La psychanalyse prise au mot.
Copyright © 1994, Aubier
Copyright© 1996 da edição para o Brasil:
Jorge Zahar Editor Ltda.
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ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.988)

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Pommier, Gérard
P848d Do bom uso erótico da cólera e algumas de suas
conseqüências ... / Gérard Pommier; tradução Vera Ri-
beiro; Revisão técnica Marcos Comaru. - Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.
- (Transmissão da psicanálise)

Tradução de: Du bon usage érotique de la colere


ISBN 85-7110-363-1

1. Sexo (Psicologia). 2. Erotismo - Aspectos psi-


cológicos. 3. Ira - Aspectos psicológicos. 4. Psicaná-
lise. 1. Título. 11. Série.

CDD 155.3
96-0865 CDU 159.964.2
SUMÁRIO

Prólogo, 7
Sob o trópico de Capricórnio, 9

O EROTISMO DA CÓLERA MASCULINA, 21

Erotismo do traço paterno, 23


Impessoalidade do objeto do desejo, 28
O simulacro resolve o problema, 34
A agressão do feminino corresponde à castração paterna, 38
Articulação do "complexo" de castração com a violência masculina, 42

A DEMANDA IMPOSSÍVEL DA SEDUÇÃO FEMININA


E SUAS CONSEQÜÊNCIAS, 51

O erotismo da provocação, 52
Do embaraço da sexualidade feminina em suas próprias condições de
efetivação, 57
Desejo do pai e impasse pulsional do erotismo, 61
A duplicidade paterna e sua "solução" exogâmica, 67
O sintoma, erótico apesar do sofrimento, 72
O sintoma, índice da duplicidade paterna, 80
Apanhado sobre a evolução respectiva do erotismo feminino e do mito
paterno, 94
ÜBSERV AÇÕES SOBRE AS PRELIMINARES
DA EXCITAÇÃO SEXUAL, 100

Da excitação pulsional ao auto-erotismo, l 02


Violência pulsional e corpo erógeno, 106

O SINTOMA DA EJACULAÇÃO PRECOCE, 110


A quem se dirige a agressão na ejaculação precoce?, 118
A linha demarcatória da duplicidade paterna, 128
Mitologia da referência paterna adequada, 130
Simplicidade de princípio, complexidade de execução, 133

O DESEJO DE TER UM FILHO OFERECE


UMA SOLUÇÃO PACÍFICA?, 138

Divergência de princípio entre o amor e a reprodução, 140


A idealização do amor como conseqüência do recalcamento, 143
Por que ter um filho nessas condições, senão em razão direta do
recalcado?, 150
Só provirá a exogarnia do recalcamento? (Algum dia nos livramos da
família?), 155
O desejo do filho corno filho esperado "do pai" ... , 158
Ter um filho "para a mãe", 165
Esperar um filho "do pai" ... para a mãe, 173

A CÓLERA ERÓTICA, FICÇÃO EXEMPLAR


DA TRANSGRESSÃO, 179
Prólogo

Existe uma dificuldade específica em comunicar os resultados da expe-


riência psicanalítica. Com efeito, o inconsciente é regido por regras
diferentes das da lógica clássica, e o raciocínio só explica seus efeitos
aproximativamente. De modo que o praticante corre o risco de ficar
desencorajado no momento em que tem que se explicar sobre os resul-
tados de uma ação que, apesar disso, não é inefável. Ele pode então
utilizar os instrumentos das lógicas para-consistentes ou os da topologia,
mas, nesse caso, suas formulações serão largamente incompreensíveis
para o leigo. Por conseguinte, ele pode preferir reservar seu uso aos
iniciados. Para contornar esse obstáculo, existem outros procedimentos
discursivos, dentre os quais podemos incluir o equívoco, o chiste e os
sonhos: em suma, a apresentação das formações do inconsciente. Tal é
o método adotado nesta obra, que privilegia amplamente o relato clínico.
Os diferentes fragmentos de análise que leremos comportam, todos
eles, uma mesma característica: estão centrados num sintoma ou numa
formação do inconsciente. Todavia, inúmeros detalhes secundários desses
breves relatos foram modificados, para que ninguém possa identificar os
analisandos assim convocados a testemunhar em favor de algumas
proposições. Com efeito, apesar de essencialmente clínica, esta obra não
deixa de comportar teses, que esperamos que os diferentes fragmentos
expostos possam tomar evidentes, a ponto de dispensar uma demonstra-
ção muito enfadonha.
Por fim, o leitor há de compreender que o tom irônico escolhido em
muitas passagens concerne à relação do autor com a psicanálise, que
convém considerar com a necessária irreverência, sob pena de vê-la
recair na pesada categoria das religiões. De que adiantaria a descoberta

7
8 do bom uso erótico da cólera

freudiana corroer os ideais e os dogmas, sempre tão alienantes, se, ao


mesmo tempo, os teorizadores do inconsciente tirassem do chapéu um
novo Ideal? Um tom trágico não convém. A ironia socrática cai melhor,
ao menos na matéria aqui abordada.
Sob o trópico de Capricórnio

No verão do ano de 1991, uma das conferências que eu havia preparado


para meus amigos brasileiros intitulava-se "Do bom uso erótico da
cólera" (tradução para o português do título desta obra"). Não seria
mais franco propor uma conversa sobre o assunto, já que a sexualidade
está no cerne das preocupações dos que se interessam pela psicanálise?
Admitimos que sim; de fato, nos dias atuais, a teoria freudiana constitui
uni elegante tapa-sexo, apreciado em sua justa medida pelos entusiastas
da coisa: eles podem, graças ao academicismo de uma disciplina que
agora tem direito de cidadania no liceu e na universidade, deixar
infiltrar-se como um contrabando cultural seu interesse pelo que Breton
chamava de "indestroçável núcleo da noite".
No ano anterior, eu tinha sido mais clássico, abordando sucessiva-
mente "a lógica do inconsciente" e me interrogando com prudência
sobre" a científicidade da psicanálise". Essas conferências, proferidas
diante de um público atento, embora às vezes sonolento, valeram-me
um certo sucesso de estima. Havendo-se transcrito o registro dessas
alocuções demonstrativas e bastante austeras num português menos
aproximativo que o meu, elas foram impressas e colocadas à venda
nos meses subseqüentes, e delas recebi um exemplar. Belíssima apre-
sentação, aliás, mas - surpresa! - a capa representava a foto de corpo
inteiro de uma jovem bastante apetitosa, mostrada em sua completa
nudez e lançando ao futuro leitor um olhar tórrido, que era a conta
certa de fazê-lo comprar imediatamente o opúsculo. Sem desmerecer

• Em português no original. (N.T.)


10 do bom uso erótico da câlera

minimamente o interesse dessa pessoa encantadora, não me pareceu


evidente, no entanto, a relação que poderia existir entre sua anatomia
e os áridos temas que eu havia abordado. Sem que eu as solicitasse,
foram-me fornecidas explicações bastante confusas. Para serem com-
preendidas, elas pressupunham um bom conhecimento da situação
geopolítica do Brasil, bem como um domínio dos dados conjuntos do
brusco aumento da hiperinflação e do inopinado retomo da democracia,
que ninguém esperava que se instalasse por mais de alguns meses
naquelas paragens. Daí resultava que o Brasil, apesar de sua reputação
de ser -um dos principais produtores mundiais de madeira, tinha que
importar papel ao preço estipulado na bolsa de Nova York, e o custo
dos livros tomava-se proibitivo.
Em suma, a fabricação daquela coletânea de conferências tivera de
ser confiada a um mosteiro de beneditinos, cujas tabelas de preços
derrubavam toda a concorrência. Não havendo o prior do mosteiro, ao
que parece, recebido nenhuma instrução a esse respeito, e tendo percebido
que se tratava de psicanálise, matéria das mais sulfurosas e diabólicas
que há, ele se encarregara de colocar na capa a encantadora criatura já
evocada, que h~via julgado decorativa e apropriada ao assunto.
Eu fora desmascarado. Mas fiquei impressionado com as explicações
que me foram dadas. Que o prior do mosteiro, à simples menção da
palavra psicanálise, tivesse querido apontar sem rodeios o objeto de
minhas afirmações, a despeito de minhas sábias contorsões, dava no
que pensar, ainda que a veracidade desse complexo circuito pudesse
ser posta em dúvida em mais de um aspecto. Se aquilo era apenas uma
invenção, assim apresentada a mim por interlocutores carentes de
desculpas, nem por isso deixava de ter valor de verdade: sublinhava
essa dimensão do sagrado que só veio à tona, em nossa época, graças
à coisa sexual, em sua relação com o inconsciente.
Verdade ou mentira, esse ato incongruente do monge, digno de um
país onde a religião continua viva, e portanto, erótica, evocou-me certos
personagens de Eponina, de Georges Bataille, em especial a passagem
em que um abade, no momento mais patético de sua oração, descobre-se
diante do que lhe revela uma saia, intempestivamente levantada pelo
vento: "O abade ajoelhou-se mansamente ( ... ) cantou de um modo
consternado, lentamente, como diante de uma morte: Miserere mei
Deus, secundum misericordiam magnam tuam. Aquele gemido de uma
melodia voluptuosa era muito suspeito. Confessava bizarramente a
angústia ante as delícias da nudez ... No momento em que viu o abade,
sob o trópico de Capricórnio 11

visivelmente saindo do sonho em que continuava aturdida, Eponina


pôs-se a rir( ... ) e o abade, que interrompera um cacarejo mal abafado,
só levantou a cabeça, com os braços erguidos, diante de um último nu:
o vento tinha levantado o casaco, que, no momento em que o riso a
desarmara, ela não havia conseguido manter fechado."
O monge impressor decerto não se dera ao trabalho de ler a conferência,
onde, depois de haver interrogado a científicidade da psicanálise, e uma
vez passados os rapapés e maneirismos destinados a ganhar a simpatia
dos doutores presentes na sala, eu havia concluído francamente que não
era esse o caso (o caso de quê? eu não dera maiores esclarecimentos).
Ele devia ter pressentido que, tal como o da religião, meu discurso
relacionava-se diretamente com a coisa sexual, que é tudo menos cien-
tífica. Mas como, ao contrário da religião, a psicanálise não renegava
suas origens, ele me prestara fraternalmente o serviço daquela capa
magnífica, que a posteriori reconheci ter tido para mim, graças a esse
retomo do recalcado tropical, um valor de interpretação.
As fórmulas matemáticas, a lógica, os arcanos do significante, o
transfinito de Cantor e a banda topológica de Moebius haviam-me
permitido, assim como a meus colegas de lacanismo, falar da libido e,
ao mesmo tempo, conservar um tom de bom gosto. Tanto assim que
o erotismo, no momento em que era introduzido quase que nos bancos
escolares como uma disciplina entre outras, beirava a auto-emasculação
pela profusão descritiva, até mesmo para aqueles alunos sempre dis-
postos a ler os livros com apenas uma das mãos (segundo a maliciosa
fórmula de Rousseau). Mas, decididamente, não era mesmo espantoso
esse Freud, por poder ser utilizado para abafar o que suas elucubrações,
em princípio, deveriam ter permitido liberar (sem excessivo proseli-
tismo de sua-parte, convém admitir)? Acaso ele não permite ao sábio
professor que pensa nesse assunto falar dele sem falar, embora continue
pensando? Mas, esqueçamos esse professor fictício e voltemos ao
episódio do beneditino brasileiro, tão rico em ensinamentos! Antes que
eu compreendesse a importância daquela capa magnífica, esse aconte-
cimento obscuro e divertido chamara minha atenção e me levara a
abordar mais diretamente meu tema estival, escolhendo este título," Do
bom uso erótico da cólera". Com isso, eu pensava dar mostras de
franqueza e desfazer um equívoco inútil. Mas, infelizmente, muitas
vezes é esse o destino dos mal-entendidos! Justamente quando acredi-
tamos desfazê-los, eles só fazem aumentar: ouvindo esse título, o
ouvinte sul-americano dessa conferência poderia pensar no _livro de
12 do bom uso erótico da cólera

Gabriel García Márquez, O amor nos tempos do cólera, por causa da


homofonia da palavra cólera, que permite uma confusão com a temível
epidemia que até hoje continua a ser ameaçadora naquelas paragens.
Segundo as leis da epidemiologia, o mal-entendido alastrou-se e a
relação com o desconhecido se ampliou, de modo que a conferência
sobre "o bom uso erótico da cólera" teve um certo sucesso nos meios
de comunicação brasileiros. Em meio ao noticiário de diversos assaltos
com a captura de reféns e à crônica política de uma direita triunfante,
embora desarvorada pela ausência da esquerda, diversos jornais locais
apoderaram-se do assunto.
Sem dúvida, era previsível que a violência amorosa despertasse mais
interesse do que a lógica abstrata do inconsciente. Mas eu ainda não
avaliara muito bem, na época, a generalidade dessa observação, que
- haverá alguma surpresa nisso? - era válida para muitos outros
lugares além do Brasil. Numa época de crescente ocultação do sagrado
e de recuo das ideologias, atestando sua laicização, acaso a questão do
erotismo não vinha em primeiro plano, fazendo da figura feminina,
por exemplo, um passe-partout universal?
Quando tive a oportunidade de comunicar a amigos o título destas
conferências sobre o amor colérico, essa denominação, em geral, teve o
dom de lhes desencadear a hilaridade. O riso é uma reação muito natural,
mas, toda vez que eu lhes perguntava, depois de eles se recomporem,
que é que os divertia tanto, as conjecturas se acumulavam, em si pouco
risíveis.
O erotismo da cólera, no entanto, tem um lado cômico. Que há de
mais desopilante que a briga de dois amantes, quando se encerra num
desencadeamento de paixão? Quanto mais violenta a discussão, mais
sensual parece seu epílogo. Mesmo quando dois amantes observam
que se entregam descontroladamente. a seus pendores belicosos, que
se concluem dessa maneira tão libidinal, nada é capaz de fazê-los largar
esse divertido hábito! É só verem essas cenas incendiarem alguns de
seus casais de amigos, ou observá-las na literatura ou no teatro, e nada
os diverte mais. No entanto, é sem o menor distanciamento que eles
explodem amorosamente quando, por sua vez, o demônio da cólera os
incita.
Que há de tão engraçado nessas situações, ao menos quando dizem
respeito aos outros? Sem dúvida, sua conclusão, contrária a suas
premissas: um desfecho que justifica, no caso, o termo bifronte tragi-
comédia, podendo o primeiro ato às vezes beirar a catástrofe. Porven-
tura o móbil hilariante da situação (quando tudo acaba bem) não é
sob o trópico de Capricómio 13

idêntico ao do teatro de máscaras? Nele, de fato, cada protagonista tem


o poder de se desdobrar, e sua fala tanto se dirige a um ausente quanto
ao personagem que ele tem diante de si. Assim, o desenrolar da trama
resume-se no esforço que cada ator empenha para que caiam as
máscaras, no momento do happy end. "Não era ela, não era ele!" "Não
era ele, então, era você!" Não é próprio do amor exacerbar violenta-
mente o desejo, graças a um subterfúgio? E não convém render graças
àquilo que pode enganar-nos dessa maneira, mesmo que seja por um
instante? A iminência da catástrofe terá sido necessária, não por ela
mesma, mas para que enfim as máscaras sejam arrancadas e a paixão
se realize.
No resultado da pesquisa que conduzi com eles, os amigos consul-
tados foram quase unânimes: acharam a idéia realmente interessante,
embora protestassem que ela, de modo algum, lhes dissesse respeito.
Nada, em suas lembranças pessoais, evocava-lhes esse tema, porque,
como pessoas civilizadas, a cólera nunca tivera para eles a menor
função erótica. Nunca lhes acontecera quase sair aos tapas com um
representante do outro sexo, para se descobrir na cama com a mesma
pessoa, no instante seguinte, com a mais fogosa disposição. Deus os
livrasse de serem grosseiros e descorteses a ponto de cobrir de injúrias
uma criatura encantadora, para depois fornicá-la deliciosamente, em
meio a suas lágrimas! E eles também não guardavam nenhuma lem-
brança de haver desferido esses golpes mais suaves que consistem no
não comparecimento aos encontros, nas mentiras gratuitas, nas rivali-
zações inúteis e nos ditos indelicados - procedimentos, todos eles,
destinados a deixar fora de si um amante tímido ou uma companheira
muito paciente, e a tirar de sua ira um proveito requintadamente
polimorfo e embriagador. É claro que eles tinham ouvido falar desses
incidentes, mas isso quase não acontecia em nossos meios civilizados,
ou só ocorria a título de uma experiência intelectual de sado-masoquis-
mo, sempre interessante. Amor é amor! E, quando não apenas se fizera
um curso superior, mas, ainda por cima, terminava-se uma análise,
deslizava-se naturalmente da afeição cúmplice para temos divertimen-
tos carnais, inteiramente impregnados de calma lascívia e de referências
literárias. Em suma, o mais saliente nessa história evidenciou-se sem
a menor sombra de dúvida: minhas colocações descreviam um com-
portamento dos mais generalizados, que talvez até concernisse à hu-
manidade inteira - menos a meu interlocutor do momento.
Um pouco depois, no mesmo verão de 1991, eu tinha que fazer a
mesma conferência, em Buenos Aires, na faculdade de arquitetura.
14 do bom uso erótico da cólera

Fiquei sabendo, por acaso, que o reitor do lugar, ao tomar conhecimento


do título de minha palestra, fora tomado de violenta cólera, porque, a
seu juízo, tal tema não poderia interessar a arquitetos em formação,
nem mesmo a pretexto de que conviesse construir apartamentos con-
dizentes com isso.
Por ocasião de um encontro protocolar, como esse homem esplên-
dido me pedisse algumas explicações sucintas e mais confidenciais
sobre esse tema intrigante, chamei-lhe a atenção, em primeiro lugar,
para uma característica suficientemente difundida para ser considerada
um clássico da psicopatologia da vida cotidiana: então não se observa
que, às vezes, os casais que brigam permanecem unidos por muito
tempo, enquanto outros, exibindo todas as aparências de uma felicidade
que prospera numa calma inabalável, são bruscamente vítimas de um
súbito naufrágio, que ninguém em seu círculo tinha como prever? É
como se, freqüentemente, a desunião favorecesse a união, e como se
a discórdia possuísse alguma virtude atraente no confronto cotidiano
entre um homem e uma mulher. Os acenos de cabeça de meu interlo-
cutor mostraram-me que ele compreendia a que situações eu estava
aludindo. Não houve nenhum recurso aos arcanos da clínica nessa
exposição decerto aproximativa, mas ainda assim convincente. Com
isso, fiquei dispensado de invocar a prática psicanalítica e o testemunho
dos numerosos analisandos que nunca têm tão bom desempenho sexual
quanto na discórdia, ou mesmo na iminência da separação. E o da
quantidade não menos apreciável de analisandas às quais a proximidade
do drama é camalmente propícia, menos, aliás, n~ expressão da cólera
do que na arte, às vezes consumada, de deixar o parceiro num estado
explosivo, mas luxuriosamente 'resolutório.
Menos ainda me foi preciso, tamanha a convicção trazida pela
primeira alusão concreta, recorrer aos méritos de Freud, que soube
demonstrar a generalidade da interdição que pesa sobre a sexualidade
humana, cujo funcionamento se afasta sensivelmente de qualquer
referência à natureza. Seja em que civilização for, estritas são as regras
que regem a exogamia e os fluxos do desejo. Não existe nenhuma que
autorize a exibição do corpo humano em sua nudez, e o sonho ocidental
de um paraíso sexual oculto sob os trópicos teria deparado, por toda
parte, com a muralha do pudor. Longe de estar em nosso passado, num
paraíso perdido de onde nós teríamos caído, a livre natureza do sexo,
refreada por nossa humanidade, continua a ser o último continente por
descobrir. Doloroso exílio, na verdade, é o que nos bane de um território
cuja existência apenas pressentimos vagamente! Não será essa busca
sob o trópico de Capricórnio IS

infrutífera que explica a violência do erotismo humano, numit veemên-


cia semelhante à do surdo ou do cego que não desconhecem que o som
e a luz existem, embora não possam ter nenhuma percepção deles?
Se não tivesse havido seu entusiástico aceno de cabeça, mesmo
assim eu teria tido bastante facilidade de mostrar ao reitor que a
cólera permite superar essa interdição. Se a cólera é erótica, ela não
o deve, em absoluto, a alguma virtude intrínseca em função da qual
o esquentar dos humores provoque uma descarga satisfatória do
sistema glandular perineal. A cólera tampouco é um traço psicológico
causal - Video meliora proboque, deteriora sequor: Vejo o bem e
o aprovo, mas sigo o mal - , uma vez que ela· mesma resulta da
interdição que estrutura a sexualidade humana. Essa interdição pode
ter conseqüências múltiplas - inibição, ternura, frustração, sublima-
ção, recalcamento - , e é entre essas conseqüências que a cólera
merece ser especialmente distinguida, como o procedimento trans-
gressor a que a humanidade recorre mais amplamente, introduzindo
no amor uma selvageria que, longe de ser primitiva, é proporcional
à civilização e ao refinamento.
E, se ainda fosse preciso convencer, bastaria eu ter tocado na corda
moral! - acaso a discórdia não nos oferece um meio de retomarmos
a situação, teria eu dito ao douto universitário, em meio às facilidades
de nossa época permissiva, onde os valores que fizeram de nós o que
somos vão-se perdendo? Não vem a cólera dar testemunho de que, ao
contrário dos bichos, temos de ultrapassar algumas dificuldades pró-
prias do ser humano para podermos entregar-nos à luxúria? Tudo era
mais prático quando a religião tinha mais peso, porque, com a ajuda
de Deus e de seus esbirros, sabíamos a quem nos dirigir e contra quem
pecar! Mas como, com o declínio de nossos valores monoteístas e
patriarcais, nada mais permite nomear essa dificuldade, e uma vez que
é exasperante não poder dizer justamente o que está no centro de uma
confusão extenuante, explode uma cólera cuja irracionalidade resiste
à compreensão comum. Perde a paciência quem não consegue realizar
a coisa, e - oh! milagre! - justamente essa virtude irritativa lhe
permite consegui-lo, sem que por isso ele tenha, aliás, a menor idéia
da origem do cólera, da peste de que acaba de ser vítima. No momento
dessa explosão colérica, cujo sentido permanece obscuro a quem a
experimenta, é como se tivesse sido preciso transpor um obstáculo,
embora, justamente, não exista nenhum (ou não exista mais, infeliz-
mente). É essa a dificuldade, em suma. Como conseguir isso, quando
tudo é autorizado?
16 do bom uso erótico da cólera

A essa altura do raciocínio, eu teria baixado minha última carta:


considere, por exemplo, sua mulher, senhor reitor, com quem tudo é
permitido e até recomendado - não há um problema nisso, sob vários
aspectos? Como fazer quando nada se opõe à coisa? Quando a licença
cria obstáculos à licenciosidade, a que santo havemos de nos apegar?
A medicina prescreveria, nesse caso, pequenas doses de cólera, senti-
mento sempre fácil de atiçar através de algum detalhe imperfeito e
fácil de censurar, desde o piso mal encerado até uma roupa excêntrica
demais. O efeito libidinal é garantido, podendo a receita prever, nos
casos rebeldes, as ameaças, os insultos ou até a aplicação de algumas
palmadas nas partes mais carnudas de madame.
Como superar o "mal-estar na civilização"? Aí é que está o proble-
ma! O senhor está em boas condições de compreender isso, eu teria
dito a meu interlocutor, com a vida de labuta que tem levado até aqui.
Não se pode, ao mesmo tempo, correr atrás dos rabos de saia e elaborar
projetos úteis para o futuro de nossa sociedade. À força de trabalhar e
sublimar, que é que se simboliza, afinal, senão uma potência sexual
que corre o risco de minguar proporcionalmente? Como considerou
Freud num trecho bastante pessimista do Mal-estar, ao fazer o bem a
nossa volta dessa maneira, arriscamo-nos a nada menos que a extinção
da espécie, sem falar da privação dos prazeres que acompanham o
cumprimento de nosso dever para com as gerações futuras! Com senso
de responsabilidade, portanto, devemos fazer um levantamento conve-
niente do terreno, para prevenir o desastre que nos espreita. É que,
havendo nossos valores caído no estado deplorável em que podemos
vê-los, é fácil compreender que, se um piso mal encerado não tiver
mais a menor importância, se uma roupa excêntrica não merecer
nenhuma reprimenda, numa época em que se pode andar pela rua quase
totalmente nu sem chamar atenção, onde haveremos de encontrar
motivos para nos excitar e, por conseguinte, garantir a reprodução da
espécie? Em destratar os fumantes? Isso é piada! Em impor o porte
obrigatório de preservativos, mesmo sem ereção? Essa medida exigiria
uma enorme equipe de fiscalização! (E quem fiscalizaria os fiscais?
Nem vocês nem eu, é claro!)
A questão da perversidade, de sua reabilitação e seu exercício -
em condições de inocuidade iguais às das vacinas - requer, portanto,
um estudo urgente e criterioso, para que se possa estabelecer em que
medida o sadismo mínimo exigido pela ereção poderá produzir-se sem
ocasionar estragos exagerados, que, afinal, contrariariam a dimensão
ecológica de nosso propósito.
sob o trópico de Capricórnio 17

Mas, talvez não lhes seja claramente visível que o "mal-estar na


civilização" possa acarretar um retomo ordeiro com uma pitada de
perversidade colérica. Não foi essa a violência que Sade evidenciou
em toda a sua obra? Mas, caberia então buscarmos o denominador
comum da cólera no sonho da sexualidade humana que sente saudade
da época em que era perversamente polimorfa, e na qual, do alto de
sua impotência, apelava para todos os recursos sádicos para se satis-
fazer? Exibição, xixi, cocô, palmada, choro, tudo era bom para ela! E,
ao se contentar tão modestamente, apesar da triste realidade, porventura
ela não se acreditava mais forte, constituindo assim o sonhado recurso
do indigente?
Por mim, imagino que o senhor teria protestado, senhor reitor, pois
entendo perfeitamente que estou atingindo os limites do tolerável. Não!
diria o senhor, que não se toque em Sade, herói da Revolução Francesa,
sem o qual seu Freud teria sido uma figura bem insignificante! Sem o
divino marquês, que nos restaria? Não ouviríamos racharem-se os
muros da Sorbonne e não veríamos fenderem-se as colunas do Vati-
cano? Que restaria da delicada mas sangrenta crucificação de Cristo e
do canibalismo do santo sacramento? Enquanto houver Sade, teremos
esperança! Não apenas a de sermos republicanos amanhã, mas também
a de colocarmos do nosso lado (o mais obscuro) o deus da cólera, o
Ser supremo em maldade que invocamos à noite, na hora do coito!
Sade, verdade seja dita, para o amante das belas-letras, está mais
para o lado divertido. Mas - horresco referens - toma-se muito
menos engraçado quando seus zelotes, aliás em sua maioria iletrados,
valem-se dele num tom que é concentracionário para vocês, ou quando
um de seus epígonos passa a só encontrar excitação num recorte em
rodelas, nada fantasístico, de seus objetos sexuais, que nem por isso
deixam de ser seres humanos. Respeito a Sorbonne e o Vaticano, estejam
certos disso, mas, por quanto tempo essas gloriosas instituições conti-
nuarão a ignorar que, sob muitos aspectos, são ainda tributárias do
retomo sadeano?
Com isso, portanto, volto ao ponto em que estava no momento de
sua ,;omoção bastante compreensível, senhor reitor. É o ímpeto sexual
que pleiteia um retomo àquele verde paraíso em que o menino ainda
podia ignorar o "mal-estar na civilização", vaticinante e sorbonista.
E, já que o senhor saiu em defesa da Igreja e de sua filha primogênita,
a Universidade, como poderia eu evitar, agora, dar-lhe o argumento,
a réplica e a remissão que, segundo regras inalteradas desde S. Tomás,
devem encerrar esta honrosa disputatio?
18 do bom uso erótico da cólera

Que aconteceu quando, recém-chegados ao mundo, tivemos que


enfrentar o abismo de nosso próprio amor por quem nos assistia em
nossa impotência total? Abismo, porque éramos devedores de tudo, e
podíamos ter medo de permanecer como eternos devedores de uma
dívida igualmente imprescritível. Que podia haver de mais reconfor-
tante, nessas condições perigosas, que o fato de que aquela que cuidava
de nós, longe de reclamar em troca o que lhe era devido, e que não
poderíamos pagar, preocupava-se, com maior freqüência do que dese-
jaríamos, com seu desejo por um outro que não nós? Certamente, o
rival que foi nosso pai retirou de nós parte da atenção que reivindicá-
vamos, mas, apesar disso, o medo de sermos tragados pelo monstro
primário de nossa dívida metamorfoseou-se, desse modo, em gratidão
ao herói viril, estoicamente enfrentado no amor.
Havendo escapado de um perigo, sem dúvida deparávamos com
outro, e desse momento dependeu nossa preferência sexual: ou éramos
tomados pelo amor por esse salvador e, conseqüentemente, feminili-
zados (castrados), ou travávamos um combate contra esse rival, apesar
de salvador. Mulher ou homem: tudo proveio desse instante decisivo.
Se escolhêssemos o campo das mulheres, nosso amor nos ligaria à
figura de um pai que imaginaríamos violento, fossem quais fossem
suas inclinações efetivas. Em contrapartida, alinhando-nos no clã dos
homens, a angústia de sermos feminilizados perduraria, deixando-nos
um fundo rixento, senão persecutório. Quer estivéssemos, ora prontos
para a vindita, ora dispostos à submissão, e, na maioria das vezes,
inclinados para as duas, como poderíamos prescindir desse rival incô-
modo, que, como quer que fosse, nos estava salvando? É por isso que,
dessa data em diante, foi-nos tão difícil prescindir de Mestres, os quais,
tão logo encontrados, procurávamos derrubar. Infelizmente, porém,
esses sentimentos ambíguos e relaxantes não permitem, de modo algum,
obter uma potência idêntica à que imputamos a um Pai maiúsculo, a
de um violador sodomita cuja lei parece universal.
Quantos truques teve que inventar a virilidade ameaçada para imitar
o jeito dele! Ele era repulsivo? O cocô e o xixi que expulsávamos de
nosso corpo tornaram-se sinais de nossa execração amorosa, de modo
que, ao menos para alguns, a repugnância foi e continua a ser o móbil
da excitação sexual - enquanto outros, menos diretos, não deixam de
encontrar no obsceno o ponto de apoio privilegiado de seu erotismo!
Nós o supúnhamos violento? Pois nós mesmos o fomos, administrando
à raça feminina, na primeira oportunidade, gracejos, beliscões e trom-
paços - misérias diversas que impunham a nossas companheiras as
sob o trópico de Capricórnio 19

desagradáveis demonstrações de nossa diferença! Não era a castração


que havíamos arriscado, e que, aliás, continuávamos a arriscar todas
as vezes que pedíamos proteção?
E, se esses métodos masculinos não eram suficientes, víamos muito
bem que nossa mãe, que sofrera a castração por causa do monstro,
recompensava-se acumulando sapatos, luvas, chapéus e outras bugi-
gangas estranhas, para, graças a esses fetiches bizarros, transformar
em sedução os sinais de sua submissão e de sua falta. E alguns de nós
também puderam usá-los ... Graças às ligas e às luvas, graças aos sapatos
de salto alto ou às peles, os fetiches dão testemunho do momento em
que a masculinidade obteve a preferência deles.
Mas, infelizmente, todos esses artifícios têm o inconveniente de
deixar o indivíduo numa impessoalidade deplorável, e mal permitem
que ele se arregimente sadicamente, mergulhando aqueles que os
empregam no lastimável estado de presa do pai - permanecendo ainda
na casa dele, perversamente excitados e cheios de vícios, provocadores
tão constantes quanto impenitentes. Pois, sem Ele, de que valem esses
estratagemas, que, para continuar excitantes, pedem que sejam sempre
brandidas Sua vara, Suas prisões, Suas normas e Suas sanções?
Restaria, por último, um outro procedimento, menos divertido sem
dúvida, mas que permite açambarcar a potência sem perder a identidade,
executando pálidas imitações. Basta agir, assinando o ato com um nome
que é também o Dele! Assim, podemos, de um lado, reivindicar um
traço do pai e, de outro, uma ação que nos terá sido própria, assinada
por nós - Non, nisi parendo, vincitur: Só se pode vencê-la(o) obede-
cendo-lhe. Esse método, muito espirituosamente neurótico, é filialmen-
te respeitador, de um lado, e traiçoeiramente assassino, de outro -
vindo sua primeira qualidade, filial, recalcar por completo a segunda,
mortífera ...
Infelizmente, a sublimação, o trabalho, os feitos notáveis, todos
esses esforços permitem muitas satisfações, honradez e, às vezes, a
riqueza, mas exaurem a libido. Por isso, quando cai a noite, é para o
primeiro pai, o violento, que temos de nos voltar, como nos velhos
tempos em que aprendemos o que queria dizer ser um homem. Eis aí
um poderoso motivo a explicar porque, sem qualquer intencionalidade,
a cólera ou o detalhe irritante podem tão facilmente ajudar os arroubos
amorosos!
Nesse sentido, a violência de um homem em relação a uma mulher
situa-se no campo do amor que ele lhe dedica, e esse sentimento, por
conseguinte, difere do sadismo. Exprime o próprio erotismo, é brutal
20 do bom uw erótico da cólera

sem que ele tenha que elevar a voz ou levantar a mão. Não haverá,
nesse sentido, um "bom" uso da cólera? Uso que podemos qualificar
de "bom" por ser adaptado a sua causa (e não por satisfazer a uma
exigência moral). Na medida em que a cólera corresponde ao exílio
do gozo, não está ela em seu lugar, em seu território eletivo, quando
se aplica à sexualidade?
O erotismo da cólera masculina

Na vida amorosa corriqueira, será que a agressividade é de uso muito


constante? Se parece confirmado que, em todas as sociedades, mono-
teístas ou totêmicas, os maus-tratos infligidos às mulheres sempre
foram tão comuns que puderam passar despercebidos, persiste o fato
de que não supomos esses comportamentos no amante tímido. Nada
indica com evidência que o erotismo em si reivindique sua parcela de
violência para merecer seu nome. Eros, bebê rosado, bochechudo e
sorridente, faz esquecer um pouco, graças a suas feições [traits]
simpáticas, outros dardos [traits] que não o são tanto assim, e que
Tanatos, longe de ser seu irmão inimigo, é seu servo. Na flecha atirada
por Cupido, tendemos a ver um símbolo reservado ao amor infeliz,
sem perceber que sua ponta não se volta apenas para o pretendente
rechaçado, mas voa em direção a quem quer que caia sob sua lei.
E quem pode vangloriar-se de escapar a ela? Acaso a violência do
amor não conhece um campo de extensão infinita, já que todo o mundo
reclama o olhar de um semelhante, quando quer apropriar-se de seu
corpo e gozar com ele? A própria consistência da carne parece desfa-
zer-se sem o olhar do outro: com efeito, graças à atenção dele,
constituímos um conjunto que assegura nossa presença no mundo.
Quantos seres humanos poderiam enfrentar uma total solidão por mais
de alguns dias? Bem poucos, sem dúvida. Dependentes do outro,
sofremos, assim, uma alienação de que teríamos extrema dificuldade
em nos libertar, se tivéssemos vontade de fazê-lo. Ao buscar violen-
tamente a posse do(a) amado(a), é nosso próprio corpo que queremos
apreender, e nossa eventual cólera para com o semelhante manifesta-se

21
22 do bom uso erótico da cólera

proporcionalmente a nossa dependência, a nossa impotência para rom-


pê-Ia. Essa violência insidiosa da relação com o semelhante significa
uma alienação que, na maioria das vezes, é consentida, quando não
buscada. Assim, existe uma generalidade da imantação pelo próximo.
O Nebenmensch nos atrai, e é contra um fundo propício ao conflito
entre os senhores e à revolta dos escravos que se perfila a atração
sexual.
Entretanto, o amor não é sintomático enquanto escapa ao sexual. O
amor à beleza de uma mulher, ou das mulheres, o amor pelos filhos,
pelos animais domésticos, por uma obra de arte, em geral não parece
sê-lo. É somente quando o erotismo lhe impõe sua coerção bifronte
que ele se toma sintomático, conferindo ao(à) amado(a) sua dupla face.
O amor sintomatiza-se a partir do instante em que, deixando de ser o
vago impulso que busca dar consistência ao corpo, sexualiza-se e
escolhe o objeto específico que é solicitado a remediar, não tanto sua
falta-a-ser, mas sua castração.
À generalidade do amor, cabe ainda acrescentar a particularidade
do erotismo. Como se pode especificá-la? A espécie humana supera a
mortalidade graças a seu modo de reprodução e, em contrapartida, a
pulsão de morte trama sua sexualidade. Todavia, sexo e morte conju-
gam-se menos porque o ato sexual signifique o futuro desaparecimento
daqueles que se reproduzem por essa via do que pelo fato de que a
transmissão da potência fálica pressupõe um assassinato fantasístico.
Com efeito, como pode um menino, no que lhe concerne, conquistar
as insígnias de uma potência equivalente à de seu pai, quando este
primeiramente o castra? Essa transmissão se revelaria impossível se
ele não pudesse simbolizar por conta própria um dos traços paternos.
Como já dissemos, açambarcando seu nome próprio ou um dos fetiches
que expressam sua virilidade, ele pode aspirar a uma potência igual à
dele, embora, assim fazendo, tome seu lugar e, portanto, fantasistica-
mente, o suprima. Nesse sentido, o simbólico comanda a sexualidade
humana, e a pulsão de morte, longe de resultar do destino animal de
corpos fadados a desaparecer, é tramada pela agressão e tensionada
pela destruição, em função dessas imposições da transmissão.
Por conseguinte, o desejo masculino pelas mulheres depende de um
traço que as ultrapassa, traço este cujas características aparecem tão
logo interrogamos o complexo paterno. Na medida em que uma mulher
ponha em movimento esse traço paterno, ela se toma adequada à
conquista e excitante para o filho, obcecado como este continua por
o erotismo da câlera masculina 23

seus primeiros amores. Não é essa a característica que a análise do


sonho abaixo, previamente recolocado em seu contexto, revela?

Erotismo do traço paterno

Na flor da idade, M.B. casou-se, mas seu casamento logo chegou ao fim.
Alguns defeifos da companheira, que a princípio ele não havia percebido,
logo assumiram tamanha importância a seus olhos que, em poucos meses,
seu interesse sexual transformou-se em dever conjugal, praticado furti-
vamente, com todas as luzes apagadas e com a cabeça em outro lugar.
Sua mulher bebia exageradamente, e t11lvez mais ainda depois que ele
se afastou, cada vez mais enojado com o cheiro do álcool. Ele havia
reparado nesse hálito antes das núpcias, mas pensara, com um otimismo
bem masculino, que, com a ajuda de seu amor, a esposa se curaria do
vício. Nada disso.
Finalmente, em poucos meses, foi em repugnância que acabou se
transformando um dever conjugal do qual, aliás, as numerosas viagens
profissionais de M.B. ·lhe permitiam eximir-se durante grande parte do
ano. Todavia, o laço oficial do casamento e um semblante de vida em
comum ainda foram mantidos por alguns anos, tanto porque as conve-
niências e o respeito por um meio familiar coercitivo o levavam a pro-
telar qualquer separação, quanto porque dois acidentes, tão estúpidos
quanto extraordinários, deixaram sua mulher com uma ligeira deficiên-
cia. De modo que, em meio à coerção moral em que costumava
mortificar-se, M.B. sentiu-se impedido de se separar dela com grande
desenvoltura.
Enfim, sem que o clima jamais se houvesse realmente envenenado,
a separação tornou-se oficial. Para M.B., seguiram-se longos anos de
um celibato precavidamente organizado, onde as únicas práticas hete-
rossexuais desse tecnocrata de alto nível eram as que podiam ser pagas.
No entanto, o recurso às prostitutas, tão fácil e tão bem integrado nos
costumes dos europeus que grassam no Terceiro Mundo, revelou-se
um recurso mais complicado quando, subindo de posição, suas tempo-
radas na metrópole se alongaram. A princípio, ele tinha que refletir
por noites a fio antes de se decidir, depois de muitas dúvidas, a se
dirigir a um dos locais onde as prostitutas abundavam, e mesmo assim,
no último instante, hesitava quanto ao bairro que escolheria. Quando
finalmente se decidia e tomava a direção certa, sem mudar de programa
24 do bom uso erótico da cólera

ou de rumo, era capaz de ficar horas no carro, sendo-lhe fonte de


extrema excitação o espetáculo das moças suscetíveis de aliviar sua
libido aflita. M.B. ainda tinha que rodar muito tempo, olhar, dar voltas
no quarteirão e localizar várias vezes o objeto de sua cobiça, na espe-
rança secreta de que este houvesse desaparecido enquanto ele estacio-
nava seu veículo. Em suma, ele acumulava a tal ponto providências
prévias e contraditórias, que podiam passar-se várias semanas antes
que ficasse pronto para entrar em ação. E, como também era preciso
discutir o preço e esfalfar-se numa escada quase sempre sórdida, mal
ele tinha tempo de subir até o quarto e já ejaculava precocemente, sendo
em seguida sufocado por tamanha vergonha que, na maioria das vezes,
pagava o dobro do que fora combinado, para prevenir eventuais gozações,
e se sentia obrigado a mudar de área e de parceira a cada uma dessas
aventuras.
Pois ele se declarou muito satisfeito com sua vida sexual quando
veio me ver pela primeira vez, considerando esses arranjos como o que
podia fazer de mais econômico em sua idade, já que a perspectiva de
estabelecer relações estáveis ou mesmo sexuais com uma das mulheres
de seu círculo parecia-lhe uma solução de extremo mau gosto para um
homem de sua posição. Segundo ele, sua visita a um psicanalista não
tinha outra razão senão os aborrecimentos que lhe causavam seus
superiores hierárquicos, chateações estas que acarretavam enxaquecas
intensas, nas quais, como homem culto e letrado, ele havia reconhecido
um sintoma.
A princípio, portanto, o sexo foi apenas acessoriamente objeto de
seus ditos, predominantemente centrados em suas recriminações contra
os tiranos minúsculos que pululam em todos os escalões das multina-
cionais. Mas, no final das contas, foi-lhe preciso dizer um pouco mais
e, pouco a pouco, a organização cotidiana de sua libido pareceu-lhe
merecer uma atenção menos distraída. Seria vergonha o que ele expe-
rimentava ao relatar suas intermináveis escapadas noturnas, embora,
como se possa suspeitar, eu me abstivesse de exprimir não só a mínima
surpresa reprobatória, mas até de questioná-lo a respeito delas? Ou
seria, antes, o poder que ele atribuía àquele terceiro aureolado de
freudismo que eu era, e que supostamente o curaria de uma doença,
ainda que mal formulada?
A verdade é que, depois de alguns meses de análise, sua vida amorosa
havia retomado um curso menos fiduciário, e ele deveria não apenas
abrir os olhos para as mulheres de seu círculo, como também casar-se
o erotismo da cólera masculina 25

com uma delas a toque de caixa, para satisfação geral. Sua nova mulher
era perfeita, realmente irrepreensível, embora, pensando bem, apresen-
tasse um pequeno defeito: um mau hálito, cuja origem, graças a Deus,
não era o excesso de bebida. Todavia, ele suportava, dessa vez sem a
menor repugnância, essa ligeira imperfeição. Ao me anunciar essa falha
nesses termos, logo foi obrigado a comentar que a havia encadeado
com o vício de sua primeira mulher. E também não lhe escapou que
ele era incapaz de fazer a menor observação a esse respeito à esposa.
A coisa não seria simples, é verdade, mas, com um pouco de tato, e a
pretexto de algumas generalidades odontológicas, sem dúvida não seria
impossível chamar a atenção dela para um detalhe provavelmente
remediável. No entanto, parecia-lhe absolutamente impossível abordar
essa questão, como se sua significação fosse muito além dos fatos, e
ele julgou útil me apontar isso e se interrogar sobre essa sua incapa-
cidade.
M.B. acabara de fazer essa constatação quando a noite lhe trouxe a
luminosidade de um sonho, que haveria de esclarecer-lhe o lugar de
seu pai em sua relação com as mulheres, quer se tratasse de uma ligação
legítima ou clandestina. Aqui está o sonho, tal como ele me confiou:
"Eu ia andando por uma calçada, sem dúvida em Paris, como fiz tantas
vezes na época em que ficava espreitando as prostitutas. Na rua,
ninguém. De repente, apareceu na calçada em frente uma negra esplên-
dida, negra como a noite que nos cercava, com a sombra destacando
ainda mais o branco de seus olhos e dos dentes, que brilhavam conforme
a intermitência de seu sorriso, indubitavelmente dirigido a mim. Es-
tranhamente, apesar da penumbra, sua boca me parecia deformada.
Não era monstruosa, essa boca, mas comportava uma anomalia de uma
natureza difícil de precisar. Eu não saberia descrevê-la. Talvez, aliás,
essa imperfeição não existisse, a não ser em meu pensamento, naquela
pessoa agradável, que exibia muitos atributos avantajados que não lhe
estou detalhando, trunfos valorizados por uma roupa das mais eróticas,
que deixava adivinhar, mas apenas isso, o benefício que um homem
de bem podia esperar tirar deles.
"Era incontestável: ela estava longe de ser insensível ao interesse
admirativo que eu lhe dirigia, e me preparava para atravessar a rua sob
seu olhar encorajador ... quando ·a atenção dela foi captada por uma
terceira pessoa, parece ... é, isso mesmo, um homem, por azar ... que
coisa curiosa ... meu pai. Pelo menos, tenho certeza de que era ele,
embora eu não o tenha realmente reconhecido naqueles traços viris e
26 do bom uso erótico da cólera

conquistadores. Indiscutivelmente, ele logo levou a melhor, à medida


que, na calçada oposta, aproximou-se num só passo da beldade, num
deslizar abrupto. Quanto a mim, fui diminuindo de tamanho, enquanto
a largura da rua que me separava da cena começou a ficar mais
intransponível que um rio.
"Em mais um instante, lá estava ele bem junto da criatura, com a
qual, sem dizer uma palavra, começou incontinenti a copular. Fiquei
petrificado diante daquele espetáculo, não só porque aquela de quem
eu esperava gozar escapou-me no último instante, mas também porque
meu pai procedeu de um modo bastante estranho. Parecia claro que os
dois estavam copulando, não como se costuma fazer, mas pela cabeça,
talvez graças à boca esquisita de que falei, que sem dúvida comportava
um dispositivo especial para a copulação. Não era um beijo que
apresentasse uma certa sofisticação, era uma cópula completa. Não
canso Je me espantar com os sonhos, porque, no momento em que tive
a idéia de que meus dois torturadores procediam como certos tipos de
insetos, eu os vi levantar vôo, graciosamente, para seu balé nupcial.
Não há nada mais estranho do que ver o próprio pai voar desse jeito,
ainda mais copulando pela boca, voando ... é, sim, estou pensando nisso,
voando - não me chateie com seus pigarros - , voando para o filho,
chego a admitir isto ... para a esplêndida criatura que ele cobiçava. Isso
me levaria facilmente a fazer uma associação com a expressão 'contrair
matrimônio',* mas é claro que eu não teria idéias tão desrespeitosas a
respeito do meu ... eu ia dizendo 'augusto pai', mas também não faria
isso, porque ninguém desconhece que 'Augusto' é o apelido habitual
de palhaço.•• Bom, mas, sejamos sérios, e vamos retomar outra vez,
um por um, os elos mais curiosos desse sainete, muito instrutivo sob
vários aspectos.
"Antes de ter esse sonho, eu só fazia uma ligação obscura entre o
cheiro de álcool macerado que exalava da minha primeira mulher e o
mau hálito da segunda, provavelmente ocasionado por algum problema
dentário. A boca deformada da negra, acrescentando um termo suple-

• A expressão francesa é canvaler en justes noces (também "casar em segundas


núpcias"), que, pela proximidade com o verbo valer e com um possível neologismo
can-valer (= valer avec), dada uma outra acepção de noce (farra, pândega),
também admitiria o sentido de "voando juntos numa bela farra". (N.T.)
•• Assim se denominam na França, por antífrase, os palhaços de maquiagem
extremamente exagerada e caricata, diferentes dos bufões. (N.T.)
o erotismo da cólera masculina 27

mentar em relação a essa parte do corpo feminino, formou agora uma


série ... e até, se você me permite esse humor barato, uma série negra.*
Não é tanto à cor dessa beldade que estou aludindo. É que, de repente,
estou associando os insetos que copulam desse jeito com uma cena da
minha primeira infância, quando, numa tardinha de primavera, dezenas
de libélulas estavam voando, ligadas duas a duas pela cabeça. Depois,
ao pôr-do-sol, elas vieram se despedaçar nos faróis do carro, mal eles
foram acesos. Meu pai estava dirigindo, esbravejando [en pestant]
contra a sujeira provocada por aqueles arquípteros, os rodopios daque-
les insetos graciosos, de cores muito vivamente destacadas pela luz,
pouco antes de eles morrerem, num acasalamento que eu não compreen-
dia... eis uma porção de lembranças que me deixaram uma impressão
inesquecível.
" 'Série negra' constitui pois uma alusão suplementar a minhas
intenções homicidas, no momento do vôo daquele casal alçado por um
gozo indevido. Não estou explicando, já estou a par dessa dimensão
meio desagradável de meus pensamentos secretos. Em contrapartida,
o que me chama a atenção é essa expressão que acabei de usar, 'meu
pai esbravejando ... [pestant]'. Parece mesmo que eu disse esbravejando
[en pestant], não é? .. Meu pai esbravejava muito, de fato; essencial-
mente contra minha mãe, que, para ele, parecia ser responsável pela
maioria das disfunções do universo. Seu rosto colérico me dava medo,
de tão deformado que ficava por uma violência contida, e sem dúvida
um pouco mais a boca, aquela boca vociferante, mesmo. Mas talvez
eu esteja sendo levado por associações que me induzem a fazer analo-
gias rápidas.
"Mas, agora está me ocorrendo o seguinte: minha mãe, ele a
devorava, ele a possuía com sua cólera, do mesmo jeito que não se po-
de saber, olhando para aqueles insetos fascinantes, se eles estão se
devorando ou copulando ... embora, na idade em que os observei pela
primeira vez, só a primeira eventualidade deva ter-me parecido clara.
"Enfim, o estranho é o seguinte, para concluir a dissecação desse
sonho: não duvido que a negra possa representar, facilmente, uma

• Série noire (por alusão ao nome de uma coleção famosa), sucessão ou clima
de catástrofes, de acontecimentos sombrios. (N.T.)
•• A forma gerúndia do verbo pester (praguejar, vociferar, xingar etc.), neces-
sariamente precedida pela partícula en, é homófona do verbo empester (empestar,
exalar mau cheiro etc.), que voltará a aparecer logo adiante. (N.T.)
28 do bom uso erótico da cólera

espécie de ligação pedagógica entre meu pai e eu: em minhas primeiras


viagens africanas, as prostitutas autóctones me fizeram perder muito
da minha inocência, já que o exotismo da situação e a escassez de
clientes endinheirados as levava a dar mostras de imaginação, além
dos sinais de apego que elas freqüentemente aparentavam. Na época,
devo até ter pensado, conscientemente, que meu pai sem dúvida fizera
a mesma coisa, porque ele também foi apaixonado pelas viagens para
além-mar.
"Mas, o que esse sonho me convida a considerar é um problema
completamente diferente: essa relação africana suspeita me obriga a
constatar que três mulheres sucessivas (entre elas a do sonho) possuem
uma característica paterna, aquela boca encolerizada esbravejando
[empestando, (em)pestant]. Ora, é por essa boca que eu fico sabendo
que o objeto de minha cobiça me é roubado! Então, será que estou tão
fascinado assim por aquilo que me priva, e por que é que vou procurar
o sinal disso, que no entanto não deixa de me enojar, na mulher com
quem posso gozar?"

A característica paterna apresenta um atrativo poderoso, e esse exemplo


tem o interesse de revelar sua articulação com a repugnância. Não será
uma particularidade idêntica que, noutros casos, explicita o desenca-
deamento do ódio amoroso contra a mulher? Em se tratando de M.B.,
o selo paterno que ele encontrava numa mulher era também aquilo que o
excitava, segundo o conhecido esquematismo do complexo de Édipo
(a referência mais fácil para compreendermos, nesse exemplo, o ero-
tismo da cólera). Será que é preciso tão pouco, senão para provocar,
ao menos para fixar o desejo por uma mulher? Isso é amplamente
suficiente, de fato, uma vez que a parte, o detalhe que parece tão
insignificante, equivale à totalidade da situação edipiana. Aliás, nem
é preciso tanto, já que a situação edipiana, por si só, basta para provocar
o desejo, quase que independentemente da pessoa a quem ele se dirige.
Não terá sido assim no exemplo que se segue?

Impessoalidade do objeto do desejo

Pierre levava a vida a toque de caixa. Cartunista de sucesso, também


apresentava, não sem virtuosismo, os programas culturais de uma
estação de rádio FM que, apesar de periférica, não deixava de tirar de
sua posição marginal uma aura corrosiva. Fazia muito tempo que a
o erotismo da cólera masculina 29

cumplicidade intelectual que o ligava a sua mulher dava pouca margem


a arroubos mais carnais, que, aliás, só os haviam habitado por pou-
quíssimo tempo no passado. Ainda lhes sucedia serem ocasionalmente
animados por lampejos libidinais, com a ajuda do champanhe e da
noite, mas, falando francamente, o hábito, os amigos comuns e toda
sorte de interesses que eles partilhavam eram muito mais o que os unia.
Com a amante, em contrapartida, ele transbordava um erotismo dos
mais criativos, inexplicavelmente atraído por ela, embora a feiúra da
moça impedisse esse homem de bom gosto de se exibir em sua companhia
em público. Não chegou ele a comentar que, se a encontrasse inopina-
damente numa festa, fingiria ignorá-la, com mais facilidade ainda na
medida em que lhe seria simples argumentar com a discrição exigida
pela situação?
Dividindo-se habilmente entre essas duas mulheres, e sem dúvida
sendo propício à sua excitação o interdito que uma fazia pesar sobre
a outra, nem por isso ele deixava de se queixar da pobreza de sua vida
amorosa, e se declarava disposto a abandonar tudo, se ao menos se
anunciasse uma paixão verdadeira. Considerava-se, pois, um homem
livre. E, como pululassem criaturas adoráveis nos círculos por onde
gravitava, ele perseguia descaradamente toda moça bonita e bem-feita
que estivesse a seu alcance, não sem obter, aliás, um certo sucesso. De
fato, apesar de sua baixa estatura e suas feições comuns, a pessoa dele
exalava um ardor e uma sinceridade que lhe abriam o coração das
mulheres, sempre sensíveis às declarações de certos homens, sobretudo
quando parece que, sem elas, eles não conseguiriam viver nem mais
um segundo ... "Conhecer-te e morrer!", como ele escreveu, em vários
exemplares, a três daquelas a quem cortejava ao mesmo tempo - e
não equivalia isso a anunciar seus sentimentos num estilo propício a
suscitar simpatia?
Infelizmente, porém, as conquistas se acumulavam sem que nenhu-
ma conseguisse retê-lo e, depois de se inflamar por alguns dias, a
tristeza tornava a se abater sobre ele, novamente imprensado entre as
longas conversas ao pé da lareira com a mulher e suas escapadas
repentinas, por exemplo, a pretexto de uma compra urgente, para ir à
casa da amante, que o esperava com impaciência. Até o momento em
que, mais uma vez, o encontro com uma nova beldade o deixava fora
de si e o fazia sonhar com um amor perfeito.
Mas não foi um idílio dessa ordem que ele imaginou ao se atirar para
os lados de uma mensageira da editora em que trabalhava, mulher
particularmente bela, é verdade, atraente como o diabo, mas um tantinho
30 do bom uso erótico da cólera

vulgar, bruta nos gestos e na fala. Estava claro que ela só se interessava
por suas funções pelas voltas de moto que elas lhe proporcionavam.
Sempre meio ausente, era provável que lamentasse a vida marginal que
devia ter levado antes, uma vida sem dúvida precária e, quem sabe, feita
de furtos ou diversos outros expedientes. Em todo caso, seu passado era
deixado na penumbra por essa sombria amazona, que silenciava quando
era questionada a esse respeito. Em suma, Pierre viu nela uma espécie
de jóia exótica, num estojo de couro negro, que seria agradável acrescentar
a sua coleção.
Foi por isso que, uma vez tendo conquistado a beldade - graças
ao entusiasmo que o tornara irresistível até mesmo perto desse ser
rebelde - , ele esperava ver sua paixão declinar rapidamente. A
diferença de estilos de vida e de cultura os tornava quase totalmente
estranhos um ao outro. Ele não tinha realmente nada a lhe dizer e,
depois de algumas horas passadas em sua companhia, era sem pesar,
em suma, que a deixava - ou até com alívio, ou mesmo com uma
pontinha de desprezo, quando ela lhe enaltecia por muito tempo os
méritos de uma nova estrela do rock. Assim, Pierre estava decidido a
se deixar amar por mais algum tempo, como sua fama e talento lhe
permitiam esperar, até o momento em que, com elegância, viesse a se
distanciar. Sim, porque, em todas as ocasiões, era preciso saber de-
monstrar tato e evitar dramas, sobretudo com um ser ainda muito jovem,
de reações imprevisíveis, a quem provavelmente nenhum escândalo
deteria.
A história, no entanto, não se desenrolou segundo o roteiro previsto.
Com a fama, a moça intratável não tinha realmente o que fazer, e o
talento do amante pretensioso antes a importunava. Seria possível ao
desenhista de sucesso buscar o rompimento, sem antes ter-se assegurado
de que um amor inextinguível lhe era dedicado? Isso lhe era impossível,
evidentemente! De modo que o romance ainda teria perdurado, sem
que se apresentasse o momento oportuno para ele desaparecer, não
fosse a ocorrência de um incidente desagradável. Sucede que, em meio
a protestos de afeição por ele, a traidora uma noite ·o pôs porta afora,
com os sapatos na mão e mal tendo acabado de vestir as calças,
desculpando-se precariamente por ter-se esquecido de avisar que seu
homem, de quem, aliás, não havia falado com ele, iria chegar dentro
em pouco. Essa cena, digna de um vaudeville, fora das mais desagra-
dáveis e, noutras circunstâncias, teria provocado um rompimento ime-
diato. Virar a página sobre aquele incidente inglório talvez fosse mais
fácil se ele não houvesse convivido com ela em um de seus locais de
o erotismo da cólera masculina 31

trabalho, mas essa proximidade cotidiana lhe exigia que salvasse as


aparências. Restaurar sua dignidade ferida era o mínimo.
Por isso, já no dia seguinte, ele procurou recuperar a vantagem,
graças a um galanteio rebuscado e lesto. Qual não foi sua surpresa,
porém, ao receber uma resposta torta. Suando muito e parando ime-
diatamente de gracejar, ele propôs um encontro para mais tarde, naquele
dia. Mas o que recebeu foi uma resposta dilatória da beldade, que, com
uma gargalhada, montou prontamente em sua moto e desapareceu no
estrépito de seus quatro cilindros. Assim, em poucas horas, lá estava
ele loucamente enamorado. E perdendo um pouco mais do apetite e
do sono a cada dia, à medida que ia vendo opor-se a todos os seus
pedidos uma recusa cada vez mais grosseira, a pretexto da presença
de um rival que decididamente lhe era preferido. Ele perdia a cabeça
diante da amada e já não sabia o que inventar para tornar a cair em
suas graças. Não chegou até, contrariando todos os seus princípios, a
lhe suplicar que fosse morar com ele? Pierre já não entendia nada de
seu estado, com os olhos cheios de lágrimas assim que falava com ela,
e tremendo como um adolescente à espera de suas respostas.
No entanto, a despeito do desvario desse amor, ele continuava inti-
mamente convencido de que bastaria a moça ceder a suas solicitações
para que, em poucos dias, ou até em algumas horas, ele tornasse a
desprezar aquela criatura rude e grosseira, em quem somente a violência
animal, continuava pensando, devia tê-lo cativado. O fato de ela o
rejeitar em favor de um marido que Pierre em certa ocasião havia visto
de longe, indivíduo grotesco e, provavelmente, tão inculto quanto ela,
deveria ter aumentado seu desprezo latente e tê-lo libertado. Muito
pelo contrário, contrariando toda a razão, esse amor incompreensível
e doloroso o subjugava, reduzia-o à escravidão. A dor física que ele sentia,
a ponto de lhe tirar o fôlego, resultava do cara-a-cara que ele sustentava
tão-somente com seu desejo, já que, se aquela que era seu objeto desse
seu consentimento, o desejo desapareceria quase que de imediato.
Enquanto estivera apenas preso entre duas mulheres, uma conferindo
à outra seu valor erótico, ele havia continuado a navegar nos arcanos
da família, como um bebezão incapaz de desejar outro objeto senão o
que lhe é interditado. Mas aquelas delícias haviam acabado! Doravante,
ele parecia tão confrontado com uma exogamia extenuante que, pela
primeira vez na vida, e em condições impossíveis, colocava para si
mesmo a questão de ter um filho. Pois então não acabara, num novo
acesso de loucura, de escrever a sua bem-amada dizendo-lhe que esse
era o seu sonho?
32 do bom uso erótico da cólera

Que ensinamento podemos tirar de uma situação cujo móbil é tão


caricato? Ela faz pensar que não há nenhuma necessidade de parcei-
ros(as) estimados(as) ou rivais valorosos para motivar o enamoramento.
Basta a situação triangular, e, a partir do momento em que ela se instala
- nesse exemplo, quase acidentalmente - , a mecânica de seu sim-
bolismo ternário segue seu próprio caminho. Sua lógica implacável
desenrola-se segundo sua engrenagem própria, como se pouco impor-
tassem os méritos do personagem apto a assumir os traços do pai, e
sem que ele seja sequer informado da importância que lhe é atribuída,
pois a ignorância não impede sua lei de ser eficaz. Não é, então, a
própria Lei a verdadeira paixão do sujeito, a lei que ele reconhece como
aquilo com que deveria finalmente deparar, amarga delícia de um limite
dando sentido a sua existência?
Todo o percurso que vai da endogamia à exogamia foi trilhado,
como que a chicotadas, no exemplo que acabamos de citar. Existe,
nesse sentido, um amor pelo amor, quase sem objeto e relativamente
indefinido, que, em certas circunstâncias, elege uma pessoa cuja par-
ticularidade exaltante consiste em ela ser inacessível. O sofrimento,
nesse caso, é menos um sinal das impossibilidades da situação que do
amor pela Lei.
Não é nesse sentido que o amor sexual parece sintomático? Esse
fato parece patente para uma parcela notável da humanidade, que,
obcecada pela coisa sexual, com a qual não sabe muito bem como se
arranjar, concordaria irrestritamente com ele, se a interrogássemos a
esse respeito sob o selo do sigilo. Porém, uma parcela muito maior de
nossos contemporâneos decerto não o reconheceria, jurando que o
himeneu não lhe causa nenhuma inquietação. E seria preciso uma
pesquisa suplementar para perceber que eles só conseguem se ajeitar
com isso graças à ajuda da religião ou seus equivalentes, e graças à
obediência a seus ritos complexos. Por último, uma parcela afortunada
de nossos concidadãos se espantaria com a pergunta, não conseguindo
ver o que haveria de sintomático no entusiasmo de um homem por
uma mulher que dá seu consentimento. Para falar legitimamente em
sintoma, objetariam esses felizes eleitos, não é preciso que haja dor,
ou, pelo menos, um certo mal-estar? Ora, não é nada disso que sentimos!
A generalidade dessa hipótese, de que o amor se sintomatiza ao se
sexualizar, só aparece realmente quando não se postula uma equiva-
lêf!cia entre dor e sintoma, pois um sintoma nem sempre é sinônimo de
sofrimento, mesmo que resulte de uma contradição. Algumas formas
de sucesso, por exemplo, são sintomáticas (e reclamariam a ajuda da
o erotismo da cólera masculina 33

análise), mas ninguém se queixa delas. O sintoma resulta de uma


situação e, de fato, como freqüentemente acontece, pode atar-se de
uma tal maneira que seja não apenas indolor, mas também agradável
para os protagonistas de um casal.
Além disso, a felicidade de uma dada relação amorosa não implica
que essa feliz união não provoque a dor de pelo menos um terceiro.
No caso de Pierre, por exemplo, é provável que, no momento em que
ele estava sofrendo, a moça por quem se apaixonara estivesse trocando
juras de amor com o marido, a quem, aliás, talvez tenha julgado útil
informar sucintamente sobre as facetas mais brilhantes da situação.
Para avaliar em que medida o amor sexual produz sintoma, convém
ainda acrescentar que sua formação não se limita aos parceiros do casal:
assim, quem sofre sintomaticamente com uma ligação amorosa às vezes
lhe é externo. E, quando examinamos mais de perto como começaram
muitas uniões, é raro não observarmos, à beira do caminho que elas
seguiram, algum protagonista acidentado. Assim é, que encontramos
um rival, um amigo ou um parente a quem foi preciso fazer oposição,
e que padeceu desagradavelmente com a situação, ou alguém que os
parceiros do casal julgaram que poderia padecer com ela (crença
suficiente para esse funcionamento), a ponto, sobretudo, de ele não ser
oficialmente informado do idílio. Desse modo, por exemplo, sucede a
uma união durar muito tempo enquanto os pais dos interessados não
são informados, e enquanto eles se abstêm, aliás, de se inquietar com
isso.
No que concerne a Pierre, o sofrimento sintomáticó foi mais desen-
cadeado pela situação do que pelo objeto amado. Em inúmeros casos,
somente o quadro situacional gera a fixação amorosa. É o que acontece
quando um amor monogâmico estável só dura graças à inconstância
de um dos parceiros, ou melhor, graças a uma infidelidade apenas
verbal. Quando, por exemplo, um homem que vive em estado conjugal
mostra-se prolixo em grandes discursos sobre sua liberdade, sobre a
inconstância de seu desejo, sobre seu temperamento volúvel, e quando
tece diversas considerações filosóficas sobre a efemeridade da existên-
cia e a urgência de gozar o dia-a-dia, esses ditos podem levar a con-
jecturar a iminência de sua partida para outros amores, quando, justa-
mente, ele não faz nada disso. O falastrão revela-se incapaz de se
separar da mulher a quem não pára de proclamar sua independência
indomável e a quem, dessa maneira, mantém no temor de uma solidão
iminente. Nesse sentido, a mulher assim posta à prova é o sintoma
desse homem, embora não seja ele quem sofre com a situação, e sim
34 do bom uso erótico da cólera

ela, por menos que o leve ao pé da letra e que não tenha ainda adquirido
a filosofia necessária para deixá-lo tagarelar.
Mas, por que deveria uma mulher mostrar-se filosófica se os senti-
mentos violentos que ela provoca comportam, no final das contas, o
insubstituível benefício do gozo? De modo que ela pode interessar-se
por provocar esses sentimentos, ou até - de maneira bem mais hábil
- agir como se eles existissem. Graças a tal encenação, ela obtém as
mesmas vantagens substanciais! É o caso do exemplo seguinte.

O simulacro resolve o problema

M.P., de temperamento bastante trabalhador, viu suas responsabilida-


des profissionais aumentarem com o correr dos anos. Suas tarefas o
solicitavam cada vez mais e, se quisesse mostrar-se à altura do que a
profissão inteira esperava dele nesse momento, não eram suas oito
horas de escritório que lhe permitiriam fazê-lo. Por isso, todos os fins
de tarde, inclusive às sextas-feiras, quando duplicava a dose, os dossiês
se acumulavam na traseira de seu carro, dispondo-se ele a examiná-los
até tarde da noite.
Até pouco tempo antes, quando ainda tinha um cargo um pouco
menos elevado na hierarquia (e era também mais moço), ele não sabia
muito bem o que fazer quando chegava em casa. Andava de um lado
para outro e engolia o jantar em companhia da mulher. Geralmente
mal-humorado, esbravejava por um momento contra os deploráveis
programas de televisão, mudava de aposento e esbarrava mais uma vez
com a mulher, visivelmente muito ocupada. Que fazer? Em desespero
de causa e desafiando o perigo, não deixava de buscar intimidades com
ela. Quando conseguia superar os primeiros rechaças, que às vezes o
desencorajavam, é verdade, ainda tinha que arrastar essa amável pessoa
até a cama, a despeito de seus protestos, e ali, com todas as luzes
apagadas, em geral conseguia fazê-la mudar de tom. É de se supor que
seu apetite sexual fosse sólido, já que a mesma cena se repetia quase
todas as noites e que, apesar do cansaço gerado por essas relações
contrariadas, ele nunca havia tomado a menor providência para procurar
em outro lugar uma acolhida um pouco menos desagradável.
Agora que ele tinha uma disposição completamente diferente, pois
o dever o chamava, ele poderia imaginar que a tranqüilidade do lar
fosse propícia a seus trabalhos. Estando sua calorosa esposa enfim livre
de seus apetites monstruosos, ela poderia dedicar-se em paz às múltiplas
o erotismo da cólera 111asculi11a 35.

ocupações domésticas. Mas, infelizmente, produziu-se um estranho


fenômeno depois que ele assumiu essas felizes inclinações, cujo anseio,
aliás, renovava todos os dias, não deixando de levar para casa, por
conseguinte, algo com que trabalhar até tarde da noite. Ao chegar em
casa, inteiramente voltado para suas resoluções, precipitava-se para a
cozinha, onde, sem esperar que a mesa fosse posta, ingeria alguns
sanduíches. Isso lhe dava tempo de contar, por delicadeza e de boca
cheia, as peripécias das lutas encarniçadas que se travavam entre os
diferentes diretores a propósito de seus projetos ambiciosos, obrigado
como ele era a enfrentar as maquinações de alguns intrigantes. Depois,
era o tempo de engolir um café bem quente, abrir uma pasta em que
tentava absorver-se no menor prazo possível, e o mesmo curioso roteiro
se reproduzia.
Dia após dia, sua esposa, que até então ficara em silêncio, começava
a resmungar, queixando-se deste ou daquele problema doméstico a
propósito do qual descobria alguma responsabilidade do marido. De-
pois, ela elevava o tom, não hesitando em insultá-lo, afirmando que
havia percebido muito bem suas tramóias, mas não tinha importância.
E, embora ele não houvesse movido um dedo, e nem sequer erguido
os olhos, a não ser, talvez, apenas por ocasião de algum contato ligeiro,
ou de alguma outra manobra, ela começava a se recusar com veemência,
soltando os cachorros como se estivesse às voltas com um ataque fogoso
e como se suas roupas estivessem prestes a ser arrancadas, revelando
sua nudez ofegante. Sucedia a M.P. resistir a essa defesa passiva
antecipada, mas sem objeto, já que ele não se mexia. No entanto,
quando soava uma certa frase de múltiplas variações, era demais. Era
qualquer coisa como um "Não quero que me toquem ... ", ou então
" Vocês são todos iguais ... ", ou ainda "Que porcos vocês são ... ". Era
só ele ouvir essas frases e o mal estava feito. Mais uma vez, a mons-
truosidade ocupava o primeiro plano e, protestando contra suas boas
resoluções, suas ambições e seu futuro profissional, e evitando com
muita dificuldade virar a mesa, ele tinha que submeter a mulher,
imediatamente, ao que ela havia declarado temer, dando mostras, em
circunstâncias tão desfavoráveis, de uma virilidade que surpreendia a
ele mesmo, antes que, um momento depois de encerrado o incidente,
o remorso pela tarefa deixada de lado se apoderasse dele até o dia
seguinte.
Eram essas frasezinhas tão excitantes que o espantavam, a tal ponto
que ele quis procurar compreender suas motivações inconscientes.
Nada mais fácil, já que havia recorrido a meus serviços em tempos
36 do bom uso erótico da cólera

menos prósperos, coisa de que, profissionalmente falando, só tivera


por que se felicitar, embora, do ponto de vista sexual, os resultados da
análise ainda deixassem a desejar.
As recriminações defensivas de sua mulher e suas recusas anteci-
padas, por si só, tinham um valor erótico que lhe tirava o fôlego e o
surpreendia. Mas essa atração nunca era tão poderosa, apercebeu-se
M.P. ao destacar os fatos detalhadamente, como quando ele ouvia
aquelas frasezinhas de efeito explosivo. No momento em que as ouvia,
era uma ereção imediata. Não era ele "impessoalizado" nesses mo-
mentos, e incluído no conjunto dos homens, simples unidade atrás de
um plural, anônimo por trás de um "vocês" múltiplo, do qual não era
mais que um exemplar potencial? Um entre outros na coorte dos porcos,
dos violadores patenteados, dos amantes das menininhas - então, era
isso que o excitava, a ele, cuja moral austera, juntamente com sua
perseverança, lhe permitira aceder às responsabilidades que agora
assumia? Como quer que fosse, ele se tornara tão sensível àquelas
malditas locuçõezinhas, que sua mulher, embora não tivesse nenhuma
indicação a esse respeito, parecia esmerar-se em procurá-las e encon-
trá-las, às cegas, como se o relativo desentendimento cotidiano dos
dois lhe tivesse dado um conhecimento intuitivo desse móbil íntimo.
Portanto, ele não entendia nada, até o dia em que uma lembrança
infantil veio enfim colocá-lo numa pista séria. M.P. lembrou-se de uma
conversa a que havia assistido. Sua mãe estava falando com uma de
suas amigas, queixando-se da brutalidade dos homens e da impossibi-
lidade de ir sozinha aonde quer que fosse, sem logo ser importunada
por uma chusma de sedutores libidinosos. Ele julgou lembrar-se de
que a conversa das duas comadres desviara-se, em seguida, para
assuntos mais íntimos, dos quais, aliás, não conseguiu se lembrar,
embora achasse que o tema abordado devia ter relação com o da
brutalidade masculina. Restava a certeza de que o nome de seu pai fora
pronunciado em meio a esses ditos. Teria ele imaginado que este
também merecia ser incluído na categoria dos violadores, tanto poten-
ciais quanto anônimos, e que, por conseguinte, nada poderia excitá-lo
mais do que ser repertoriado na companhia dele, num conjunto desses?
Essa construção pareceu-lhe de uma banalidade bastante desoladora,
embora se lhe afigurasse conforme à descrição do complexo de Édipo,
estudado por sua iniciativa num manual ad hoc. Também achei a
explicação interessante, embora um pouco simplista, e, como o enco-
rajasse a prosseguir de qualquer modo em sua inclinação, eis que ele
me relatou o mal-estar que havia experimentado ao escutar aquelas
o erotismo da cólera masculina 37

conversas maternas. Então, seria o conteúdo do que ele tinha ouvido?


Sim, sem dúvida, mas certamente menos do que o fato de sua mãe ter
falado como se ele não estivesse presente, como se o sentido de suas
frases devesse escapar a seus ouvidos infantis. Assim introduzido na
intimidade da confidência feminina, como se não fizesse parte da
totalidade dos homens, entre os quais figuravam seu pai e os outros
sedutores, não era unicamente graças à rejeição feminina que ele podia
ter esperança de se unir à coorte deles? Por isso ele nunca ficava tão
excitado como quando sua mulher o repelia, mesmo ficticiamente,
marcando a distância violenta que o situava no campo dos homens. No
fundo, era isso que ele obtinha e de que se beneficiava todos os dias,
a despeito de suas recriminações, para satisfação geral.
Esse exemplo tem o interesse de mostrar que, numa situação de
feminilização implícita, somente a rejeição violenta de que era objeto
por parte de uma mulher permitia a esse homem aceder à virilidade.
Aí encontramos exposto um motivo banal da cólera erótica. Entretanto,
a pertença ao campo das mulheres, nesse caso, é considerada como o
risco corrido. E cometeríamos um erro se víssemos nisso alguma
tendência homossexual, e não aquilo graças ao qual ele havia finalmente
acedido à masculinidade. Portanto, é a função da feminilização que
permanece obscura aqui e que merece, mais uma vez, ser examinada
à luz da função paterna.
Seja qual for seu sexo anatômico, todo sujeito depara com a sedução
paterna. Mais do que isso, ele a requer, reivindica que o pai seja sedutor,
nem que seja para agradar à mãe, para afastar dele, criança indefesa,
o canto da sereia materna. Entretanto, depois de havê-la desejado, a
criança também teme essa sedução, pois se, no que lhe diz respeito,
ela trouxesse alguma conseqüência sexual, o pai já não seria digno
desse nome. Não é esse o requisito ambíguo que funda o erotismo
humano, negando aquilo que o provoca, provocando aquilo que o nega?
Mas, se esse processo é empregado nos. dois sexos, ambos os quais
precisam moderar o amor matemo, ele leva a conseqüências mais
drásticas no sexo masculino, ao qual contraria. Transposto o obstáculo
de uma feminilização obrigatória, ilustrada em todos os ritos iniciáticos,
a virilidade traz as marcas do combate que teve de travar para escapar
dela. E guarda os vestígios disso, nem que seja sob a forma de um ódio
pelo outro sexo, franco e aberto nos casos mais toscos, e mais insidioso,
porém eficaz, quando o iniciado descobre, por sua vez, graças à máscara
do sedutor, o expediente que lhe permite enfrentar o amor do heteros,
38 do bom uso erótico da cólera

sua morte mística. Assim, o ódio e a irascibilidade afirmam a mascu-


linidade no ponto gemelar em que ela é ameaçada.

A agressão do feminino corresponde à castração paterna

O duplo do que todo homem foi revela-se, muitas vezes, sob adereços
femininos, não por causa de uma regressão acidental, mas porque é
desde esse ponto de partida que se constrói a virilidade. A conseqüência
feminilizante da relação com um pai sedutor aparece, por exemplo, no
sonho abaixo, em que o sujeito põe em cena um irmão graças a quem
figura uma contradição, aparentemente tão insolúvel quanto a dos
sexos:
"Não é um sonho engraçado? Uma verdadeira mascarada em que não
falta nada: nem a pitada de exotismo, com a evocação de terras distantes,
propícias aos sonhos, nem as fantasias vistosas que eu tanto apreciav::i
em minha infância! Não me lembro bem do começo do sonho, e .,;ua
localização permanece incerta. Lembro-me de um clima de viagem, de
embarque próximo, de uma costa varrida por um vento carregado do
odor oceânico, mais evocador, para mim, do que o nome particular de
um porto de além-mar. A primeira cena emerge de um nevoeiro, sobe
como uma aurora rápida e se desenrola numa luminosidade parecida com
a da Bretanha, região onde compreendi profundamente, desde a primeira
infância, o que eram o alto-mar e os homens que o enfrentavam.
"Visivelmente, havia um cruzeiro sendo organizado, e diversos per-
sonagens, parecidos com os que eu imaginava em minhas leituras juvenis,
agitavam-se em preparativos que tiravam suas características das viagens
do capitão Cook, assim como de um prospecto publicitário de um clube
de lazer moderno, especializado em viagens marítimas com escalas
festivas. Mas, pai~ que região distante estávamos embarcando, naquela
excitação da partida qu~ acompanha o barulho surdo da corrente da
âncora sendo içada casco acima, arranhando seu metal sonoro? Ainda
não havia nada que deixasse isso claro, e o destino continuava incerto.
Talvez fosse a ilha de Ré, ou então Cuba, como corria o boato na massa
imprecisa dos viajantes.
"Embarque imediato! O navio singrou para alto-mar e contornou o
quebra-mar e seu farol. Eu me mantinha junto à amurada, percebendo
perto de mim aquele que sempre foi meu irmão, Henri, o amigo mais
próximo, outra vez meu companheiro nessa viagem. Pois ele não esteve
o erotismo da cólera masculina 39

a meu lado desde nossos anos de adolescência, me dando a mão de


bom grado nos momentos difíceis, mesmo depois de longas separações?
Fazia vários meses, no entanto, talvez até um ano, que eu não o revia.
Mas foi sem espanto que o encontrei na ponte desse navio, como se
nos houvéssemos preparado para aquela travessia, cada qual por seu
lado, sem combinar nada, e estivéssemos nos encontrando por um
acordo tácito, naturalmente juntos na luz simples daquela manhã. E,
ao constatar essa presença alegre a meu lado, eu soube então, com
certeza, em que direção rumávamos: sem mais nenhuma hesitação,
estávamos navegando para Cuba! Henri, filho de um exilado cubano,
sempre tivera saudade dessa ilha caribenha, apesar de mal conhecê-Ia,
e planejava um retorno para Já, assim que o ditador atual caísse em
desgraça. Violentamente anticastrista, era assim que ele sempre se
havia definido, e a alegria que brilhava em seu rosto só era explicável
pelo fato de que o prazer da partida era duplicado pelo de um retorno
enfim possível... A caminho de Cuba! ... "
Para um ouvido analítico, também não faltou à evocação desse
retorno anticastrista, porém a uma terra paterna, um exotismo sempre
renovado. Mas, ao apurar o ouvido à evocação desses significantes,
não estaria o analista freudiano abusando de sua bússola e seu com-
passo? Não mesmo! Pois a estrela polar da paternidade, bem como da
castração, logo iria brilhar sobre a associação seguinte, destacada por
um breve silêncio meditativo:
" ... Na realidade, bem longe de me evocar um exotismo anódino,
ligado apenas às origens de meu amigo, essa ilha me lembra uma frase
que meu pai tinha o hábito de pronunciar. Esse bom homem gostava
de aforismos e, longe de se contentar com os já forjados pela sabedoria
das nações, esforçava-se por fabricar alguns de sua própria lavra, que
proferia sentenciosamente a quem quisesse ouvi-los, na primeira opor-
tunidade. Para dizer a verdade, antes de abusar dessas máximas, que
às vezes repisava durante semanas ou meses, ele se atinha a elas com
mais circunspecção: começava testando-as com a família, mais ou
menos petrificada, no momento em que a fuga era impossível a quem
quer que fosse, ou seja, na hora das refeições. Depois, feita essa
experiência, ele soltava seu ditado num horário nobre, na frente dos
convidados, não sem desencadear minha vergonha, quando o aforismo
era de extremo mau gosto.
"Desde a minha mais tenra infância, de fato, tenho imensa sensibi-
lidade a tudo o que possa me implicar em qualquer situação ricícula.
Foi assim que ele me fez corar, em várias ocasiões, ao enunciar uma
40 do bom uso erótico da cólera

espécie de provérbio com que parecia muito contente. Para poder


utilizá-lo, tenho certeza, inclusive, de que chegava até a sugerir a minha
mãe, em várias ocasiões, que servisse sobremesas achocolatadas, no
intuito inconfesso de experimentar sua descoberta com uma platéia que
ele tinha o cuidado de fazer com que fosse renovada. Quando chegava
a hora da sobremesa, eu tentava desaparecer sob algum pretexto, mas,
na maioria das vezes, pego de surpresa e numa profunda derrota moral,
tinha que sofrer com resignação tanto a sentença quanto os risinhos
mais ou menos constrangidos dos ouvintes. Mal me atrevo a dizer, de
tão embaraçoso que é: 'A Cuba, onfait le cacao', * ele declarava, assim
que tinha uma oportunidade - por exemplo, quando um conviva, na
falta de cumprimentos, perguntava pela receita da sobremesa maravi-
lhosa. Era assim, desculpe-me outra vez. Desolador, não é? Sei que
você é pago para me escutar, mas não é difícil eu imaginar que, nesse
ponto, estou atingindo o limite do suportável. Como me parece humana
e compreensível a sua técnica das sessões curtas! Estou abusando ...
Não há uma certa sodomia em aproveitar assim de uma escuta atenta?
E, desta vez, não compreendo porque você ainda não suspendeu a
sessão, de tão incomodado que estou por ter proferido essas palavras
que, eu lhe asseguro, repito sem o menor prazer, unicamente no intuito
de fazer um relato verídico. Será que eu ousaria dizer isso mais uma
vez, mesmo em voz baixa? ... 'A Cuba, on fait le cacao ... ' Que
consternação, e que prejuízo moral isso foi para mim!
"Isso me faz pensar que, se minha vergonha de meu pai era
constantemente difusa, na maioria das vezes ela se prendia à escatologia
das expressões dele, e, se até hoje me esforço, em minha vida cotidiana,
por empregar uma linguagem castiça, isso com certeza está ligado a
essas experiências penosas. Você algum dia me ouviu dizer 'merda'
ou 'cu', por exemplo? Nem uma vez, não é? Meu pai, ao contrário,
não parava de pontuar seus discursos com alusões aos excrementos.
Suas indisposições intestinais lhe permitiam fazer isso publicamente,
a pretexto da medicina, podendo sua família - no dizer dele -
inquietar-se legitimamente com o estado de suas fezes, cuja consistên-
cia era anunciada dia após dia. Que suplício a minha infância!. .. No
entanto, a desproporção entre o sentimento penoso que eu experimen-

• Fazendo um trocadilho com à cul bas, on fait le caca, ô, a frase tem o duplo
sentido de "Em Cuba se produz cacau" e "Pelo cu [ou pela bunda], a gente faz
cocô, ora". (N.T.)
o erotis,rw da cólera masculina 41

tava e as pontuações nojentas que eu tinha de suportar me leva a me


perguntar, hoje em dia, se eu não via nisso, por parte do meu pai, uma
violência mais profunda, analmente falando, para retomar um desses
termos que vocês nunca empregam, mas em que pensam tanto.
"Mas, voltemos ao sonho, do qual essas considerações não me
afastam tanto quanto parece. Eu estava no pedaço em que deixávamos
a costa. O mar estava bonito e o oceano se abria diante de nós, quando
Henri, na frente dos amigos reunidos, propôs organizar imediatamente
um baile à fantasia. Sua proposta foi aceita com entusiasmo geral.
Adoro festas e fantasias, você sabe, e não precisei de mais nada para
começar a me travestir. Hesitei por um instante, mas, logo, logo, minha
escolha foi feita: era de marquesa, branca, pintalgada, bem à vontade
na sua corola, que me veriam naquela noite. No entanto, mal comêcei
a juntar meus adereços e a ajustá-los, fui tomado de ... meu Deus! a
palavra me escapa ... de vergonha - é isso - , porque avistei Henri,
elegante como de costume, que, novamente sem nenhuma consulta
prévia, estava fantasiado de marquês ... Decididamente, estou me repe-
tindo! Tomei a empregar esse termo, 'vergonha'. A vergonha está na
ordem do dia, hoje! Vamos passar depressa, porque, eu o conheço,
você aguça o ouvido toda vez que escuta uma palavra se repetir ... Eu
realmente o proíbo de fazer qualquer paralelo que seja entre meu
desarvoramento diante da escatologia paterna e a perturbação em que
Henri me atirou ao se fantasiar de marquês, involuntariamente fazendo
de mim, que sou apenas seu amigo, sua marquesa.
"Aliás, observe, o sonho não deixa pairar nenhuma dúvida quanto
a isso. Por si só, ele trouxe a solução do problema, porque, assim que
vi Henri abotoar sua veste, saí correndo para me trocar. .. Aliás, nesse
momento do sonho, houve uma montagem muito confusa de cenas,
que fez o brilhante cruzeiro recreativo virar um triste desastre. De fato,
nesse momento eu percebi que tinha esquecido de levar meu passaporte,
assim como qualquer outro documento de identidade, e que, em suma,
com minha roupa feminina, eu não era mais ninguém reconhecível pelo
registro civil. A partir daí, fiquei reduzido à condição de apátrida,
condenado a vagar pelo oceano de porto em porto, rejeitado por toda
parte, talvez navegando indefinidamente de Cuba à ilha de Ré ... você
está lembrado de que eu me perguntei, há pouco, se não era para lá
que estávamos indo ... Essa ilha, aliás, tem um nome bem musical, estou
pensando nisso agora. Será que ele não evoca minha vocação artística,
que escolhi muito cedo, contrariando as preferências paternas, música
esta que acabou por me proteger de todos os dissabores ... ?
42 do bom uso erótico da ui/era

"Talvez, afinal, você não estivesse errado, embora não tenha dito
nada, em pensar que o sentimento de vergonha que evoquei hoje, em
múltiplas ocasiões, só tinha um único motivo ... É que estou me
lembrando agora de um baile de máscaras de minha infância, por
ocasião do qual meu irmão se fantasiou de mago, enquanto eu tinha
optado por uma roupa de feiticeira. Eu não podia me fantasiar de
feiticeiro, porque um feiticeiro não tem nenhum traje especial no leque
das fantasias, não é?, ao passo que a feiticeira tem, e suas características
principais são codificadas, sendo a vassoura a peça principal. Então,
era normal que eu fizesse essa escolha, e a feminilização de minha
pessoa que isso implicava nem sequer me veio à cabeça! Será que
alguém acha que uma médica é um homem? Não, não é? E no entanto,
todo mundo diz "le docteur". • Em suma, não vi malícia naquilo, e foi
meu pai, sempre tão delicado, que não conseguiu deixar de dizer que
eu formava com meu irmão um casalzinho encantador. Por quanto
tempo essa frase assassina ficou na minha memória? Para ter uma idéia,
basta considerar a perda de identidade do sonho, lembrança daquele
baile de máscaras da infância, que transcorreu para mim como um
pesadelo doloroso, numa espécie de despersonalização, como se minha
presença naquele local festivo ficasse reduzida à de um autômato, não
mais espesso do que sua máscara e seus ouropéis ... "

Articulação do "complexo" de castração com a violência


masculina

A partir dos exemplos que acabam de ser expostos, poderíamos exa-


minar diferentes articulações da agressividade com o traço paterno que
estrutura o Édipo, e por fim, como conseqüência, com o erotismo. Mas
o esquematismo dessas diferentes vinhetas peca por sua simplicidade.
Ele mostra precariamente a complexidade do encadeamento da violên-
cia com o amor sexual. O exemplo que virá a seguir, mais difícil de
desmontar, expõe essas dificuldades.
Na vida atual de M.L., a função erótica da cólera está em primeiro
plano. Para avaliar o quanto sua excitação sexual depende disso, basta

* No masculino; médica ou doutora, em francês, diz-se femme docteur, como


vários outros substantivos de gênero masculino que têm de ser precedidos de
femme para compor sua forma feminina. (N.T.)
o erotismo da cólera 111asc11/i11a 43

constatar a apatia distante em que ele se afunda quando nenhuma nuvem


se acumula no horizonte. É como se sua atração por uma mulher não
pudesse prescindir de um momento dramático, seja ele acompanhado
de compaixão, provocado pela violência de suas ações ou por algum
acontecimento fortuito. Sua vida amorosa transcorre como se a união
só pudesse durar graças a um momento de desunião, e como se ele
precisasse da ameaça de uma tempestade para desejar.
A articulação do desejo sexual com a violência é suficientemente
explícita no âmbito da sessão cuja narrativa virá a seguir. O contexto
imediato da análise acabara de levar M.L. a evocar sua mais antiga
lembrança infantil.
Nessa rememoração, ele se via nu em sua banheira, enquanto seus
pais se aprontavam para sair: ele protestava e chorava, porque a água
estava quente demais, pedindo à babá que o tirasse do banho. Como
ele já havia comentado, tratava-se da lembrança encobridora de sua
questão edipiana: estaria ele queimando por ver os pais saírem juntos
para alguma distração agradável, e estaria pedindo a uma outra mulher
que lhe aliviasse essa queimadura? Ele ainda continuava indeciso
quanto a saber se essa conjectura não era unicamente uma construção
induzida pela psicanálise, fazendo da temperatura do banho a configu-
ração de uma cena primária. Foi por ocasião dessa sessão que as
associações se encaminharam nesse sentido. A idéia de "sair à noite"
havia evocado, primeiro, uma outra lembrança muito penosa, de uma
noite de Natal em que sua mãe, furiosa com seu pai, havia gritado a
este: "Não vou jantar com você, vou sair!"; depois, no momento de
relatar essa segunda lembrança, em vez de dizer "Será que foi a noite
de Natal de 34 ?", ele deixou escapar este lapso: " ... Hotel de 34".
Esse deslizamento dos termos, entre Natal [Noel] e Hotel [Hôtel],
mostrou que a água do banho tinha queimado tanto quanto parecia; na
verdade, no exato momento em que ele cometeu o lapso do hotel,
apresentou-se em sua memória a imagem de um outro hotel - aquele
em que, numa viagem rápida durante a infância, ele fora a testemunha
involuntária de uma atividade de seus pais, ocupação insólita e meio
assustadora que, mais tarde, ele compreendera ter-se tratado de uma
relação sexual. Como acontece quando um acontecimento crucial,
revelador do desejo, acaba de ser evocado, outras lembranças relativas
ao ano de 1934 se apresentaram, a maioria delas concernente a fatos
já relatados antes. Um deles, porém, parecia novo, e foi nesse que ele
insistiu:
44 do bom uso erótico da cólera

M.L. recordou-se do que considerava ter sido o primeiro grande


momento cinematográfico de sua vida. Tratava-se do filme Fogo de
palha, que ele acreditava ter visto em 1934. Não era engraçado lembrar
que esse filme contava a história de um rapazinho que alcançara a
glória precoce e a riqueza, enquanto seu pai havia estragado sua vida
e mofava na miséria? Na realidade, M.L. verificaria, mais tarde, ter
cometido um erro de data, e haver antedatado o filme em cinco anos,
como se tivesse querido fazê-lo corresponder ao momento mais agudo
de sua fantasia edipiana. Nesse caso, ficou claro que seu erro apontava
para a verdade de seu desejo. Entrementes, a figura paterna fora
degradada por essa associação e a lembrança encobridora relativa ao
casal parental logo se engatou na de uma agressão contra o pai.
O fio dessas associações deveria ter-lhe permitido examinar sua
história de maneira mais compreensível, mas o que ele experimentou
foi um sentimento contrário, o de só ter conseguido formular questões
que ainda eram as que tinha hoje, e que continuavam a deixá-lo em
suspenso por algum tempo. Tornou a pensar no que precedera imedia-
tamente seu lapso, isto é, na lembrança da cólera de sua mãe contra
seu pai.
A violência de sua mãe, súbita e excessiva, sempre lhe provocara
uma impressão de estupor idêntico, mesmo quando não era a ele que
suas explosões se dirigiam. Principalmente quando isso acontecia num
lugar públioo - nesse caso, a vergonha o atormentava como se ele
tivesse uma parcela de responsabilidade nas demonstrações brutais da
mãe, voltadas, em sua maioria, como M.L. se lembrou então, contra
seu pai, que ela insultava e repreendia a propósito de qualquer coisa.
Era como se ele se sentisse culpado por essas agressões ruidosas.
Porém, nenhuma outra associação lhe ocorreu nesse momento, e lhe
pareceu mais interessante falar de sua vida sentimental: no caso, de
seus problemas com a atual companheira, tão facilmente propensa a
se queixar e tão constantemente enferma. A infelicidade alheia o fazia
apiedar-se com facilidade e, se fos5e preciso sublinhar o traço mais
marcante de sua vida amorosa, seria forçoso assinalar seu apego pelas
mulheres que não se contentam em sofrer em silêncio, mas choram
quando o destino lhes é desfavorável, ou não hesitam em mostrar sinais
de seu sofrimento em suas diversas formas. Ele havia notado que essa
dor feminina o instigava, não apenas quando tinha uma causa afetiva,
mas também quando aparecia sob a forma de sintomas físicos - os
quais, no entanto, não parecem interpelar ninguém em particular.
o erotismo da cólera masculina 45

Enquanto o escutava, notei que ele acabara de associar esses dife-


rentes pensamentos na seguinte ordem: primeiro, a cena primária,
depois, a agressão contra o pai, enfim transposta para a agressão da
mãe contra o pai, e por último, seu sentimento de piedade ambivalente
em relação a uma mulher. Por várias vezes, de fato, eu já havia
destacado esta particularidade de sua vida amorosa: quando se estabe-
lecia uma relação com uma mulher, geralmente era por uma entusiástica
e decidida iniciativa dele, cujo ardor permitia augurar que uma vida
em comum não tardaria a começar. Mas nada disso acontecia, e a
franqueza de sentimentos dos primeiros dias transmudava-se em dúvi-
das e hesitações. Em virtude de sua atitude ambígua, a companheira
exibia seu sofrimento e, por fim, a ligação se prolongava por muito
tempo tal como estava, porque, segundo ele, não convinha arriscar,
através de um rompimento deliberado, aumentar o sofrimento daquela
que,já então, não era mais que meio companheira dele. Lembrando-me
dessas características, fiquei surpreso ao ver com que rapidez seus
pensamentos tinham acabado de se encadear do passado para o presente,
e pareceu-me ainda mais provável que a situação passada, descrita
pouco antes, devesse reencontrar-se em sua vida amorosa atual.
Segundo dizia, ele continuava preso a mulheres que exibiam seu
sofrimento por não querer que elas sofressem. Sua lógica não era
evidente, de modo que lhe pedi para esclarecê-la. Ele sentia apenas
pena delas, e estava querendo dizer que não as amava mais? Não, não
era absolutamente isso o que ele pensava, e reconheceu ter certa
dificuldade em exprimir seu sentimento. O que queria dizer é que,
quando estava a ponto de romper, mas percebia que a companheira
ainda o amava, nada lhe era mais importante do que evitar que ela
sofresse. Aliás, para mostrar sua boa fé, ele se apressava em dizer-lhe
que continuava com ela para lhe evitar qualquer sofrimento. Não era
impressionante constatar que M.L., useiro e vezeiro nisso, e tão re-
quintado em suas introspecções, não houvesse avaliado com exatidão
que, ao confessar a uma companheira que estava mantendo sua ligação
com ela unicamente para não fazê-la sofrer, aumentava-lhe seguramen-
te o sofrimento? Que há de mais humilhante do que conservar um
homem graças a sua piedade? Amor e culpa, portanto, estavam tão
inextricavelmente ligados, para ele, que bastava aumentar a segunda
para estabilizar o primeiro. E sua própria culpa aumentava por causa
de sua piedade, de modo que ele era culpado por fazer sofrer e fazia
sofrer com sua culpa. Do sofrimento à culpa e vice-versa, o mesmo
46 do bom uso erótico da cólera

processo se auto-reinstaurava e, assim, seus amores navegavam no


desconhecimento do sadismo que lhes inflava as velas.
Outro problema apresentou-se então: como é que se associavam a
lembrança da violência da mãe e a piedade pela companheira? Que
relação poderia existir entre aquela que agredia e a que ele fazia sofrer?
Entre os dois pólos, havia uma ligação explícita, cujo rastro era fácil
de seguir. Primeiro tinha havido seu sentimento de vergonha, o de uma
falha materna de que ele participava e pela qual devia pagar, e por
último, o extremo exogâmico da cadeia era sua pena de uma mulher
a quem ele fazia sofrer com sua própria culpa. Entre esses dois extremos
aparecia, fugidiamente, a imagem do "Papai Noel" cinematográfico
que ele suplantava e de quem era preciso ter pena, menos em virtude
de preceitos generosos que lhe tivessem sido inculcados do que a título
da culpa proveniente de suas fantasias. Essa rememoração, por mais
fugaz que tivesse sido, era útil nas associações, pois permitia estabelecer
um vínculo de causalidade com o primeiro pólo do pensamento, que
ela fazia pender para o segundo. Imprevisível à primeira vista, a
lembrança do filme adquiriu sentido no contexto: não seria em relação
ao pai a culpa que sentia? E não foi ele obrigado a acrescentar, nesse
momento, que os golpes dirigidos contra o pai tinham sido desferidos
por sua mãe como ele desejava, já que sua vergonha e sua culpa
indicavam que ele realmente devia participar, de algum modo, dessa
violência materna? Depois disso vinha a mulher a quem ele fazia chorar.
E por que se dava ao trabalho de fazer sofrer, a ponto de ficar ligado
a sua vítima, senão para fazê-la pagar por seu próprio erro? Justiceiro
em nome do pai, ele o vingava por um erro que ele mesmo teria
cometido, se tivesse ousado fazê-lo, responsabilizando uma mulher
parecida com a que havia realizado seu desejo. Sim, era exatamente
isso: ele mesmo, sem dúvida, devia ter desejado eliminar o pai. Vira
a mãe fazê-lo, realizando seu próprio desejo. E por fim, vingava-se
numa mulher por seu próprio desejo, tão empenhado na administração
do sofrimento que encontrava nisso sua ratio erótica.
Portanto, o que aparecia era uma configuração particular, embora
banal, do complexo de Édipo, explicitando um mecanismo comum da
agressividade e de suas conseqüências eróticas. Quantos homens, de
fato, nunca desejam tanto quanto ao se vingar de seu próprio desejo
na mulher que amam? O circuito que comandava a identificação
masculina abarcava o termo que permitia uma renovação indefinida
do desejo sexual. Renovação ainda mais eficaz na medida em que não
era apenas o sofrimento que ele mesmo infligia a fonte de sua com-
o erotismo da cólera masculina 47

pa1xao libidinal, porém, em termos mais gerais, a dor feminina, tal


como pode aparecer, por exemplo, na eclosão de um sintoma orgânico.
A mulher doente era o objeto de sua atenção e ele protegia nela aquilo
que, afinal, o excitava.
Na realidade, era-lhe raro infligir maus-tratos e, antes de sua análise,
ele teria ficado surpreso se o interpelassem quanto ao sadismo de seu
comportamento ( que, aliás, continuava a só lhe aparecer confusamente).
Uma violência em ato era-lhe ainda menos necessária, na medida em
que, na vida cotidiana, a dor do sintoma era suficiente para cativá-lo.
É que a mulher suscetível de atraí-lo já estava sofrendo, antes e além
dele, com a luta extenuante, sempre já travada e ainda por travar, contra
o semblante paterno.
A cólera de uma mulher, ou seu sofrimento, evocava uma figura
paterna, uma vez que, tal como sua mãe, a mulher enfrentava essa
figura, do mesmo modo que, por isso, ele a fazia pagar. Daí resultava,
no entanto, um desejo heterossexual, pois o erotismo encontrava seu
impulso no ato secretamente sádico que, vingando o pai, integrava-o
no clã dos homens, graças a esse desvio agressivo. Será que essa
mecânica do desejo merece ser considerada como um aspecto geral da
masculinidade? A questão se coloca na medida em que a gentileza, a
galanteria e a compaixão pelas mulheres são a contrapartida de uma
agressão latente. (De modo que esses comportamentos civilizados
deixam pairar uma dúvida sobre as segundas intenções que podem
encobrir.)
Se a compaixão lhe arrancava lágrimas, fosse quando ele dava
dinheiro a mendigos, quando se mostrava gentil com alguém, ou, a
bem da verdade, em qualquer ocasião - por exemplo, à evocação do
destino trágico de um homem ilustre-, o contexto mostrava em nome
de quê essas lágrimas eram derramadas. Não residia todo o enigma na
vontade secreta de fazer uma mulher chorar, para em seguida conso-
lá-Ia? De fazê-Ia sofrer, para depois comungar com ela, debulhar-se
em lágrimas por ocasião da dor que ele mesmo provocava, trocando
de máscara no meio de um percurso, metade realizado como justiceiro
e, metade, como irmão? Em parte, M.L. procurava purgar o ato
cometido contra o pai, embora ele mesmo pudesse ter cometido esse
ato, se se atrevesse a tanto, mas, por outro lado, também chorava, já
que a mulher de quem se compadecia representava um outro ele-
mesmo, feminilizado por um pai castrador. Ele chorava, em suma, o
risco de sua própria castração.
48 do bom uso erótico da cólera

Essa evocação implícita de uma sevícia paterna (a castração), in-


cluída na queixa feminina (quer resultasse da agressão de M.L. ou da
dor de um sintoma), encontrava sua melhor ilustração numa circuns-
tância particular: quando o desespero de uma mulher o instigava, o
protesto dela contra o dolo ou as exações C:e um personagem malévolo,
ou, a bem dizer, de qualquer um, fascinava-o especificamente. Ele
escutava a evocação das sevícias de um torturador como se sua
solicitude fosse um dever que cabia a um fiel escudeiro cumprir. Não
era com deleite que colhia lágrimas e recriminações? " ... Ela busca
em mim um eco para sua queixa", chegou a dizer. "Nós comungamos
na queixa em relação ao carrasco." Uma comunhão que, da mesma
maneira que quando ele próprio era responsável pela dor, possuía a
virtude de excitá-lo - e, por conseguinte, de se concluir eroticamente.
Acaso o opressor não aparecia, desse modo, como um personagem
realme:1te necessário à expansão de sua libido?
Assim, M.L. punha em ato, por um lado, sua compaixão pelas
mulheres - que era uma forma de crueldade - , e por outro, uma
crueldade que, em contrapartida, o comovia até as lágrimas. Tinha
lugar, por conseguinte, uma tirania cuja causa paradoxal era a culpa,
e da qual provinha uma surpreendente comunhão com a vítima. A
comunhão amorosa, sádica e violentamente erótica de um sujeito que
confessa, num mesmo elã, sua submissão a um pai e sua feminilização
virilmente renegada. 1
Não terá o trabalho associativo, efetuado a partir do "amor ao
Pai", permitido esclarecer retroativamente a relação da crueldade com
a piedade nos hábitos amorosos de M.L.? A relação entre a compaixão
e a crueldade seria fácil de compreender se esses dois sentimentos
se opusessem, mas não era esse o caso, já que, no exemplo estudado,
eles se geravam mutuamente. Claro, essa relação de disjunção não
pode ser generalizada, pois nem todo sentimento de repulsa encontra
sua origem em seu contrário. O ódio está longe de ser sempre o
avesso do amor. Todavia, assim como podemos observar em muitos
casos uma implicação mútua entre compaixão e crueldade, também
a passagem de certos sentimentos da positividade à negatividade é
de observação suficientemente constante para que procuremos explicar
sua motivação.
O pretexto desse reviramento varia, mas nunca é mais patente do
que quando um neurótico censura o pai por amar outra mulher. Uma
outra mulher que não sua mãe, pensa ele, embora o recrimine por
amar outra mulher que não ele mesmo. É isso que ele ignora, na maioria
o erotismo da cólera masculina 49

das vezes, do mesmo modo que, no curso de sua análise, é quase


impossível assinalar-lhe esse fato muito depressa, porque ele não
deixará de pensar, imediatamente, que seu desejo foi homossexual e
talvez ainda o seja. Em certo sentido, é isso mesmo. Mas, como foi apenas
a partir desse desejo homossexual que ele pôde aceder à heterossexuali-
dade, nada é mais delicado do que sublinhar uma particularidade que gera
seu contrário.
Retomemos pela última vez o exemplo de M.L. Foi vários meses
depois que, havendo o trabalho analítico feito sua obra de redução, o
ódio amoroso teve que se exprimir segundo sua forma mais depurada.
O interesse da formação do inconsciente que virá a seguir está em
mostrar tanto a condensação, numa única figura, do erotismo contra-
ditório da cólera, quanto sua necessidade para a transmissão até mesmo
da potência fálica. M.L. sonhou que se encontrava com a mãe e que
esta lhe perguntava se, afinal, ele havia conseguido vender umas ações
bancárias que ela lhe dera. O pensamento do sonho era que realmente
existia um capital, mas que este só poderia adquirir valor depois de
um ato concretizado por uma venda.
Na realidade, ocorre que essas ações existiam: eram as do marido
riquíssimo com quem ela se casara em segundas núpcias. No sonho, a
mãe dava ao filho uma triste notícia: esse marido acabara de falecer,
e era nessas circunstâncias que vinha a pergunta materna: que aconte-
cera com as ações? Ele conseguira vendê-las, afinal? Que pena!, ele
ainda não havia conseguido levar a termo essa operação financeira e,
portanto, continuava a ter nas mãos aquele capital de que não conseguia
tirar proveito ... Sem dizer uma palavra, mas como se estivesse claro
que, desse modo, ele disporia da solução do problema, a mãe pôs-lhe
então nas mãos uma tampinha parecida com as das garrafas de cerveja
ou água mineral. Examinando mais de perto, esse objeto banal, mas,
nessas circunstâncias, misterioso, trazia gravada na face externa uma
inscrição, uma espécie de marca hispânica da felicidade - FELIZ• - ,
enquanto, na borda, destacava-se nitidamente, em inglês, a palavra
SQUABBLE (squabble, termo menos fácil de compreender para o leitor
latino, significa querela, altercação). Entre a face e a borda, portanto,
Feliz disputa, enunciava a tampa, dando a senha destinada a operar a
mágica transmutação das ações da bolsa. FELIZ-SQUABBLE: graças a
essa escrita translingüistíca, não estava o inconsciente indicando, de

• No original, FELIZ, como em espanhol - ou em português. (N.T.)


50 do bom uso erótico da cólera

frente e de perfil, o modo de utilização da potência, que, como se sabe,


é paterna antes de ser viril?
Esse processo, bastante corriqueiro na normopatia da vida cotidiana,
constitui uma apresentação particular de uma estrutura mais geral do
desejo humano. É clássico observar que o desejo nunca é tão violento
como quando fica insatisfeito. Mas, quão mais pertinente é assinalar
que ele se apóia constantemente naquilo que o contraria! Não se trata
de tirar filosoficamente a poeira de uma figura tão velha quanto o mito
de Tântalo, mas de sublinhar a especificidade do desejo sexual em
relação à angústia de castração. Podemos então compreender através
de que processo contrariado a maioria dos homens torna-se heterosse-
xual, apesar e graças ao amor do pai. A castração é sempre ameaçadora
para todo homem, pois continua "à frente" dele, como um risco
potencial (específico da fúria viril). Assim, toda vez que tem essa
oportunidade, o homem enfrenta o rival a quem imputa a responsabi-
lidade por essa angústia e com o mesmo elã aborda o outro feminino,
com uma excitação que lhe é proporcional, renegada à maneira perversa
que é própria da masculinidade - ou seja, mais freqüentemente do
que em sua feição colérica.

NOTA

1. Nesse sentido, a violência requerida pelo erotismo é de tal ordem, às vezes, que
não tem freio, e extrai seu quinhão de gozo das situações mais extremas (por
exemplo, quando um homem é excitado por uma mulher quando ela está à beira
do suicídio).
A demanda impossível da
sedução feminina e suas conseqüências

O erotismo masculino reclama um roteiro em que o confronto com um


pai tem graus variáveis de importância e, às vezes, até ocupa a boca
de cena, já que um triunfo obtido sobre um lugar-tenente da lei pode
ter o mesmo valor psíquico de uma conquista sexual. Daí o alto valor
libidinal de todo ato colérico.
A modalidade feminina da relação com a castração não é sensivel-
mente diferente? De fato, a acreditarmos em Freud, os estragos psí-
quicos da ausência de pênis já teriam sido irremediavelmente feitos,
no que concerne a nossas esposas, nossas amigas e nossas irmãs
(persistindo uma dúvida quanto a nossas mães). Essa crença seria
sustentada, como se sabe, pelas constatações anatômicas que os garotos
traquinas não deixam de fazer quando de suas brincadeiras inocentes
com as coleguinhas. Portanto, a angústia de castração concerniria, para
elas (com exceção de nossas mães), menos a um risco futuro do que
à busca de meios para mitigar a situação existente, segundo um objetivo
pouco poeticamente designado pelo mesmo Freud com o termo" inveja
do pênis". Como se apropriar de um objeto que falta tão cruelmente,
eis aí o projeto que as mulheres procurariam realizar e, se necessário,
senão com perversidade, ao menos com determinação.
Utilizar o termo "perversidade" para designar os artifícios e malig-
nidades de um sexo que não hesita em se fazer passar por fraco, para
remediar esse dano irremediável, poderia valorizar indevidamente uma
dimensão distorcida de vingança. E já não se vê, em absoluto, o que
haveria de erótico nessas operações de represália. Do mesmo modo,
se fosse apenas isso, por que se preocupar com projetos de reparação,

51
. 52 do bom uso erótico da c61era

quando não são os equivalentes satisfatórios do falo que faltam ao


devaneio feminino, a começar pelo pênis masculino, sucedâneo diver-
tido sob muitos aspectos? No entanto, existe um erotismo que só começa
a partir do momento em que uma reparação dÓ que foi imaginariamente
amputado é esperada daquele que foi seu adorável agente, isto é, de
um pai (ou um indivíduo que se pareça com ele). De modo que, se os
contrários que são o ódio vingativo e o amor reparador misturam-se
no erotismo feminino, isso se dá segundo o circuito sinalizado em que
é preciso, primeiro, ressuscitar o responsável pelo dano intcial, depois,
exercer sobre ele as diversas represálias da sedução e, por último, obter
enfim a reparação esperada. Portanto, compreendamos que se sucede
a algumas mulheres serem más, quando elas são quase todas muito
gentis (a ponto de isso ser inquietante), é para obter um prazer final
em que o nosso está incluído! Elas só se dão ao trabalho de nos provocar
para maior benefício de um gozo do qual podemos tirar proveito.

O erotismo da p:rovocação

Para nossa edificação, vejamos por um instante como age essa jovem
que, em todas as circunstâncias, assim que tem a sorte de estabelecer
laços de afeição ou amizade com um novo conhecido, não consegue
impedir-se, imediatamente, de procurar e descobrir, se assim podemos
dizer, o ponto onde o calo dói. Ela cultiva o comentário desagradável
em todos os momentos e todos os lugares, no âmbito do trabalho, das
amizades, dos amores e até dos sonhos, reservando-o, de preferência,
àqueles que a agradam. É com assiduidade que busca, em particular
em seu interlocutor do momento, o detalhe que claudica, a oportunidade
para o comentário desagradável, que acerta sistematicamente na mosca.
De modo que, :10 longo da conversa, de observações inoportunas a
respostas mais ou menos mordazes, de subentendidos perniciosos a
afirmações peremptórias, uma situação que nada parecia ameaçar
azeda-se subitamente, transforma-se numa tempestade, e aqueles que
se tornariam amigos para sempre separam-se numa inimizade igual-
mente definitiva. Com deleite e com um sorriso nos lábios, ela manobra
seguidamente até o rompimento, tendo a felicidade de descobrir, sem
que consiga contê-Ia, a palavra ofensiva que afastará o mais bem
disposto dos sujeitos, lamentando, se isso acontecer, que ele se retire
sem combater. Pois é no confronto e nas explicações que ela excele,
tanto sabendo protestar sua inocência e sua afeição quanto agravar, de
a demanda impossível da sedução feminina 53

passagem, a perfídia de suas afrontas, envenenando irremediavelmente


uma situação para a qual, até o fim, declarará desejar um desenlace
feliz.
Se esse traço caracteriza quase todo o conjunto de sua vida social,
cujo círculo ela amplia tanto quanto lhe é possível, levando o incêndio
tão longe quanto o exige a rapidez da desertificação que executa no
mesmo elã, é à família e aos parentes que ela reserva, de preferência,
seu venenoso pendor. Na verdade, pode exercer seus talentos com eles
de maneira mais sutil e duradoura, graças à fixidez do estado civil e
das relações que ele implica. Assim, os protestos de afeição, aliados
aos juízos corrosivos, fazem de sua vida um inferno do qual o tédio é
banido.
Foi assim, pelo menos, e não sem um certo humor, que essa moça
me descreveu sua vida afetiva quando veio me procurar. Desejava
emendar-se, pois os resultados desastrosos de sua inclinação deplorável
davam bons motivos para angustiá-la, e ela parecia obcecada com a
preocupação de reparar o efeito de seus ditos desagradáveis, principal-
mente junto àqueles a quem era mais apegada. Isso lhe era difícil,
porque ela sabia que, mais forte que tudo, um demônio tornaria a
empurrá-la mais uma vez, sem a menor diplomacia, para a catástrofe.
Havendo eu mesmo experimentado alguns de seus comentários
agradáveis, em geral bastante oportunos, e mesmo não duvidando de
sua incomensurável boa vontade para magoar, perguntei-lhe um dia,
não sem prudência, o que a impelia para esse comportamento. Uma
pergunta desconcertante, na verdade. A resposta era quase óbvia: ela
ignorava por completo o que a impelia a agir assim. Não obstante,
podia precisar. .. que uma espécie de insatisfação acerca de sua situação
do momento a levava a buscar assiduamente um transtorno, qualquer
um, a rigor, porém da dimensão mais importante possível, dentro dos
limites do suportável.
Era essa a resposta que lhe parecia mais pertinente: tinha que
acontecer alguma coisa que fizesse" aquilo parar". Era difícil continuar
a investigação a partir de indícios tão escassos, já que essa idéia não
permitia esclarecer o que tinha que acabar, nem porquê, mas apenas
como. Entretanto, com essas palavras, ela deixou de lado· minha
interessante pergunta para voltar à exposição de seu amor desesperador
pela discórdia. Para avaliar o quanto esse estado furioso de precipitação
a atazanava, bastava ver com que tenacidade ela atormentava o marido
para que eles mudassem de apartamento! Fazia vários meses que tudo
se reduzira a essa idéia fixa, e a reivindicação da mudança havia-se
54 do bom uso erótico da câlera

tornado o leitmotiv de uma querela rasteira, matizada por novos im-


previstos e falsas calmarias.
Não tinha ela uma boa razão para estar farta? "Naquele apartamen-
to", dizia, "ele viveu com a ex-mulher, e sinto a presença dessa criatura
por toda parte. Dentro destas paredes, não estou em minha casa, mas
na dela. Por mais que eu mude um móvel de lugar quase todos os dias,
estou sempre com medo de recair na antiga arrumação, da qual, aliás,
esqueci, o que torna toda modificação obsedante. Mandei repintar as
paredes, derrubar uma delas, trocar a banheira, mudar as luminárias,
lavar, tingir e depois trocar o carpete, não adiantou nada. Aliás, na
verdade, acho que esta casa simplesmente não me agrada nem um
pouco. Não gosto dela, a realidade é essa. Mas, como a realidade não
lhe interessa, estou marcando passo ... " Essas descrições movimentadas,
no entanto, tiveram a vantagem de me mostrar que seu marido era de
temperamento bastante plácido, ou talvez tirasse proveito desse incrível
desassossego cotidiano. Pelo menos, portava-se como se nada estivesse
acontecendo. Chegava do trabalho à noite e se movia distraidamente
por um labirinto cujos itinerários tinham sido modificados durante o
dia. E não parecia muito impressionado com os montes de entulho que
tinha de transpor à noite, com a tinta fresca com que era preciso ter
cuidado, ou com os fios elétricos pendentes do teto como laços
perigosos, sem falar das entregas dos móveis que a mulher encomen-
dava sem avisá-lo. Esse cataclismo cotidiano, ela o perpetuava com
constância, com o sorriso ansioso de uma espera: a de uma explosão
de cólera que, segundo almejava, precederia a tão esperada mudança.
A cólera, de fato, acabou explodindo, coroando seus meritórios esfor-
ços. Mas, ao contrário daquilo com que ela havia contado, essa explosão
veio acompanhada da ameaça de uma separação iminente. E ela logo
se acalmou. Não que tivesse levado a sério essa advertência, vinda de
um homem pouco inclinado às reviravoltas afetivas e, a seu ver, incapaz
de imaginá-la, sem que já tivesse instalado em outro lugar um outro
par de chinelos. Foi em termos muito mais profundos que a cólera do
marido lhe trouxe um alívio - mais significativo ainda na medida em
que, nos dias subseqüentes, a calma estendeu seus benefícios inclusive
às pessoas de seu círculo, estarrecidas. Tampouco lhe escapou que,
para sua grande surpresa, essa calmaria foi acompanhada por uma certa
renovação erótica, embora essa atividade se houvesse mantido sofri-
velmente caseira nos meses recém-transcorridos.
Subitamente liberta de sua furiosa comichão de mudança, ela se
teria disposto de bom grado a reconhecer todos os seus erros - o que,
a demanda impossível da seduçüo feminina 55

aliás, absteve-se de fazer-, se seu marido o exigisse. Mas este parecia


muito mais interessado nas repercussões amorosas de sua explosão do
que em desculpas. Já no passado ela havia reparado nesse processo,
no qual, de exagero em exagero, procurava desencadear a cólera do
marido, ira esta que a acalmava tão logo ela a obtinha. Com certeza,
ele devia amá-la mais nesses felizes momentos em que quase chegava
a espancá-la ... E era verdade que, nos últimos tempos, ela já não vinha
conseguindo colocá-lo naquele estado delicioso em que, fora de si, o
marido ameaçava atirá-la pela janela, antes de fornicá-la furiosamente.
Ali estava novamente a felicidade, sempre tão difícil de obter!
Sem consideração por essas contingências, a análise foi seguindo
seu caminho. Totalmente entregue a sua precária felicidade, a moça se
espantava com esse alívio, que nunca fora tão claro nem tão intenso.
E, deixando entrarem as idéias adventícias, segundo o método que
havia aprendido em meu divã, ocorreu-lhe por várias vezes o pensa-
mento bizarro de que ela fora obrigada a agir assim porque esse homem,
seu marido, tinha que deixar de ser criança ... Era uma idéia curiosa,
porque o marido, francamente mais velho do que ela e já pai de família
antes de conhecê-la, não apresentava nenhuma das características do
eterno adolescente. De onde lhe podia vir esse pensamento? Se ele
tinha que deixar de ser criança, não era em relação aos sogros dela que
esse pensamento se impusera? Com efeito, sua inimizade pela sogra
pareceu-lhe, de repente, de suma importância. Como era, aliás, em
menor grau, a que ela reservava ao sogro. Pelo menos, era seu dever
comentar: sua aversão pelos sogros tinha-se declarado desde o primeiro
dia em que ela os encontrara. Esse pensamento concernente à puerili-
dade do marido, portanto, devia ser menos uma agressão a ele do que
a sua mãe.
Era isso! A analisanda achou ter encontrado a resposta para a questão
que se fizera pouco antes: de que estado a cólera deveria servir para
marcar o fim? ... Ora, da infância, evidentemente! E que reviravolta
suas provocações incessantes procuravam obter? ... Elas tinham como
ambição impor ao marido que deixasse de ser criança (filho), estava
perfeitamente claro! Que essa constatação, apesar de luminosa, pare-
ceu-lhe insuficiente após uma ampla reflexão, foi do que ela se
convenceu ao rememorar as relações perfeitamente convencionais do
marido com a mãe. Como filho respeitador, ele lhe fazia raras visitas
algumas vezes por ano, por ocasião das festas destinadas a esse fim, e
vez por outra se preocupava com a saúde dela, telefonando-lhe. Nada
além disso, nunca. Quanto à mãe dele, ela parecia pouco preocupada
56 do bom uso erótico da cólera

com o destino cotidiano do filho crescido, e parecia ter-se livrado há


muito tempo da inquietação com sua roupa de baixo e com o estado
de suas meias, cujo controle não procurava disputar com a nora.
Portanto, fora com certa precipitação que ela havia querido explicar
suas próprias provocações pela busca de uma separação entre a mãe e
o filho, como se, graças a esse estratagema, fosse parar " ... de lidar
com um homem que seria apenas -um filho ... entre os outros ... Os
homens, em sua maioria, não continuam a ser uns crianções? ... Não
há quem encontre seu caminho, permitido essa multidão ... " Ora, não
acabava ela de cometer um ligeiro lapso, que invertia por completo a
situação? Pelo menos, foi assim que teve de considerar esse ligeiro
deslizamento do permitido [permis] no lugar de em meio a [parmi].
Pois, como a analisanda associaria de imediato, na verdade não era
a condição de homem que se opunha à de filho, mas a de pai. Bem
menos do que uma separação entre o filho e a mãe, aparentemente já
consumada, a cólera que ela se esforçava por fazer eclodir era a de um
pai, que assim se distinguiria da multidão dos homens, aos quais a
condição de filhos merece ser atribuída, com muita justiça, quando
eles se reúnem em bandos. Existem multidões de filhos, mas apenas
um pai para se afastar deles. Nenhuma criatura, a não ser ele, pode
constituir uma exceção na multidão de filhos, e era ele que a jovem
procurava distinguir, graças a suas manobras tão certeiras quanto
complexas. Lidar apenas com um filho, comentou prontamente, a
impediria de ser mulher. Com um pai, em contrapartida, isso lhe era
permitido.
Para essa moça, a função erótica da cólera parecia bem diferente,
sob esse aspecto, daquela a que M.L., no capítulo anterior, aspirava
desejantemente. Se um homem procura provocar a cólera de uma
mulher, é na medida em que esse sentimento violento possa evocar a
interdição paterna, sempre tão gozosa de transgredir. Em contrapartida,
se uma mulher incita a de um homem, é para que ele mesmo encarne
um pai por um instante. De um lado, invoca-se uma presença espiritual,
basicamente desencarnada, num sentido religioso, ao passo que, de
outro, em se tratando de uma encarnação, é um movimento inverso
que está em jogo. Caberá ver nessa distinção o sinal de uma relação
muito diferente com o corpo por parte do homem e da mulher?
No exemplo que acaba de ser examinado, a incitação à cólera tinha
por objetivo ressuscitar um pai terrível, segundo modalidades decerto
espalhafatosas, mas que podiam revelar-se eroticamente resoluti\ras.
Mas, nem sempre funciona assim, longe disso. A busca de um pai é
" demanda impossível da seduçã·, feminina 57

feita às cegas e constantemente. Por conseguinte, é de um modo habitual


e indiscriminado que mais de uma mulher apoquenta mais de um
representa.nte do sexo masculino, que recebe uma espinafração sem
compreender muito bem o que está acontecendo, e sobretudo sem ex-
trair disso o menor benefício libidinal. Ele tem direito à provocação,
seja ela sedutora ou menos delicada, sem se beneficiar do erotismo
adjacente, que fica reservado a um único eleito (segundo a particula-
ridade do pai de ser Um). Além disso, o epílogo sexual da operação
está longe de ser evidente, pois, se é sempre fácil ressuscitar um pai
em meio à miríade de pretendentes a esse título, é muito mais difícil
ir com o afortunado eleito até a conclusão sexual, que se assemelhará
muito a um incesto, mesclado de festim canibalesco. Daí o embaraço mui-
to freqüente da sexualidade feminina, quando ela procura reunir exi-
gências tão drásticas quanto contraditórias: primeiro, ressuscitar um
personagem do passado, para depois reduzi-lo unicamente a seu valor
espiritual, isto é, para matá-lo fantasisticamente, e isso, junto com a
realização de um objetivo erótico.

Do embaraço da sexualidade feminina em suas próprias


condições de efetivação

No exemplo seguinte, o sintoma mais gritante da analisanda era uma


espécie de cólera quase constante, que parecia universalmente dirigida
contra os homens. Essa cólera manifestava-se de um modo explosivo
em sua vida amorosa e profissional, tendo a primeira a particularidade
de influenciar a segunda, conferindo-lhe sua tonalidade vingativa.
Sendo levada, por sua atividade profissional, a fazer estatísticas em
diferentes meios, essa jovem acabou passando uma temporada de alguns
meses em diversas vilas militares do sul da França. Sua função era
colher informações com militares profissionais, personagens que ela
achava meio rudes e infantis, apesar do nível de competência técnica
que se dispunham a demonstrar à menor oportunidade.
Ela assistiu a alguns exercícios, freqüentou a cantina dos oficiais e
a dos suboficiais e visitou algumas famílias. Talvez tenha sentido
simpatia por aqueles soldados, que, pelo menos no tocante aos mais
jovens, enveredavam por essa carreira sem ter a menor idéia da
violência, nem mesmo a de uma briga de rua, sem ter jamais visto uma
gota de sangue, praticamente, nem tampouco um ferido ou um morto,
e, mais ainda, sem o menor ideal capaz de exaltar seus valores
58 do bom 11so erótico da cólera

guerreiros, num país cercado por nações amigas, e numa época em que
nenhuma querela pendente parecia passível de revelar, de uma hora
para outra, um inimigo declarado.
Entretanto, essas calmas perspectivas ensombreceram-se em poucas
semanas, eclodiu a "guerra do Golfo" e, dando ouvidos apenas a suas
simpatias pessoais, que iam de encontro a seus ideais, ela aceitou ser
madrinha de guerra de alguns pára-quedistas que estavam de partida
para o deserto. Aliás, tratar-se-ia apenas de simples simpatias, que ela
teria experimentado por adolescentes crescidos, prontos para passar às
vias de fato sem sequer saber com quem nem como? Não seria, mais
intimamente, porque desde sempre o personagem do guerreiro fizera
parte de suas fantasias mais secretas, aquelas em cujo momento ela se
entregava às emoções sexuais?
Quando criança, ela se lembrava de sua excitação ao ver a tropa
desfilar marcialmente, e dos gritos estridentes de aprovação que soltava
quando os passos cadenciados martelavam a rua na altura em que ela
se achava, com os bravos mais discretos a seu redor mascarando o que
suas manifestações tinham de exagerado. E que dizer dos momentos
em que, encarrapitada nos ombros do pai, fascinada pela visão dos
equipamentos mortíferos, ela se inebriava pelo ano inteiro, menos com
o rufar dos tambores do que com a visão daqueles homens uniformi-
zados e mecanizados, que, apesar de aclamados, nem por isso deixavam
de estar de algum modo destinados à morte? Mas essas lembranças
ainda eram apenas imagens bem-educadas, que ela podia partilhar com
qualquer um. Para além delas, o homem portador da morte, ou, mais
ainda, ameaçado de desaparecer, dizia-lhe respeito segundo as parti-
cularidades de sua fantasia sexual.
A fantasia sexual apresenta uma característica que muitas vezes a
torna difícil de analisar. É que, de um lado, conhecem-se de cor os
meandros desses roteiros, utilizados com tanta freqüência quanto con-
vém, enquanto, de outro, apesar dessa intimidade, seus motivos não
são reconhecidos. Quem se serve delas para aceder ao gozo rejeita-as
para fora do círculo de sua consciência habitual tão logo obtém o prazer,
sem sequer se dar ao trabalho de valorizá-Ias ou reprová-las. É como
se elas dissessem respeito a uma outra vida, ou a uma outra pessoa.
Suas imagens estão tão imbricadas nos imperativos do gozo sexual,
que parecem nunca poder ser pensadas fora do trajeto que leva até ele.
Na análise, quando esses roteiros são evocados, primeiro o são quase
que acidentalmente, por intermédio de algum acontecimento periférico
- por exemplo, graças à narração de uma lembrança infantil, da
a demanda impo.uível da sedução feminina 59

brincadeira que acompanhou a primeira comoção sexual, ou da reme-


moração de um pavor que antecedeu um acesso inesperado de onanismo.
Assim, só depois de muitos rodeios é que a recém-escolhida madri-
nha de guerra pôde reconhecer que o guerreiro sempre fizera parte de
seu pensamento erótico. Não é que, para atingir o prazer, ela precisasse
representar as cenas dos 14 de julho de sua infância, que evocasse
algum filme de guerra em que fosse a heroína, ou que se imaginasse
vítima de algum combatente enegrecido pela pólvora de canhão e
coberto de medalhas tilintantes (embora fosse inútil negar que essas
imagens eram absolutamente sem efeito). Pois, para atender aos requi-
sitos, qualquer homem era susceptível de habitar suas fantasias sexuais,
desde que, em sua vida cotidiana, corresse algum risco sério, capaz,
senão de colocar sua vida em perigo, ao menos de ameaçar sua situação
profissional, sua honra ou sua classe. Um homem desse tipo ocupava
seus pensamentos mesmo sem que ela o conhecesse, e era ele que a
acompanhava nos caminhos de seu gozo.
Já havendo analisado esse processo, ela conseguira estabelecer um
vínculo entre as lembranças infantis antes mencionadas, aquilo que
sempre fora o móbil de seu sonho de amor e sua recente promoção a
madrinha, numa guerra que, apesar de distante, não deixava de ser,
para ela, um tema de constante preocupação. Com efeito, no entanto,
uma vez estabelecido esse vínculo, apresentou-se um problema -
talvez apenas moral, se quisermos, mas ainda assim um problema - , já
que, fosse por ocasião desse conflito de móbeis incertos, fosse por
ocasião dos que o haviam precedido, ela sempre se declarara partidária
da paz. Como se suas fantasias pertencessem a um domínio não
relacionado com a realidade, suas simpatias sempre haviam recaído
sobre os militantes pacifistas, por mais isolados que fossem. E agora,
que a situação era tão complexa e que, ao contrário de outras vezes,
muitos de seus amigos eram favoráveis à guerra, ela mantinha obsti-
nadamente essa escolha. Uma contradição importante, portanto, deveria
embaraçá-la: entre a exigência afirmada de fazer calarem-se as armas
e sua atração secreta pelo guerreiro. No entanto, não só isso não aconte-
cia, como, ainda por cima, essa contradição não lhe parecia evidente.
Devia haver, portanto, um elo de continuidade entre esses dois pólos,
aparentemente tão antagônicos quanto a noite e o dia.
Seria cabível supor que seu pacifismo era tão mais militante quanto
mais tinha por função ocultar a dimensão mortífera de sua fantasia -
do mesmo modo que convém ocultar os arroubos amorosos dos olhos
60 do bom uso erótico da cólera

de outrem, ou que convém que todo o mundo reprima ternamente suas


pulsões sádicas? Nada seria mais simplista, porque, longe de fazer parte
das idéias racionais que amadurecemos tranqüilamente e que depois
defendemos, usando argumentos para apoiá-las, o próprio pacifismo
era parte integrante de sua fantasia (acaso sabemos, realmente, de onde
nos vêm nossas opções "políticas", que amiúde se mantêm inaltera-
das?).
Quando ela declarava, por exemplo, de uma hora para outra, que
"nada era menos excitante que um ecologista" - aforismo vigoroso,
que no entanto concernia à ala militante de seu próprio pacifismo - ,
parecia não desconhecer nada da ligação existente entre essa máxima
e o ardor de seu erotismo secreto. Se "nada era menos excitante que
um ecologista", então era preciso, à noite, uma vez guardadas as
bandeirol~s e os slogans, que seu irmão inimigo, muito mais poluente,
viesse substituí-lo. Como apreciar o assédio de um ecologista, quando
os pensamentos secretos estão voltados para o guerreiro? E como
suportar sem horror a presença de um guerreiro, quando isso é con-
frontar-se imediatamente com um desejo tão insuportável quanto um
voto de morte? Como articular esses gêmeos, que tinham, de certa
maneira, que andar de mãos dadas, em vez de combater um ao outro?
Não era pelo fato de o primeiro vir em socorro do segundo, quando o
desejo se fazia violento demais, que ela não via nenhuma contradição
em suas escolhas? Assim, convinha supor que o pacifismo declarado
tinha uma função: a de assegurar uma proteção contra o que seu próprio
desejo tinha de mortífero. Se o gozo sexual procedia de uma fantasia
cuja encenação significava o desaparecimento violento do amante, ela
reivindicava a paz contra seu próprio desejo (muito embora a guerra
fosse a condição dele). Assim, seu desejo se arranjava, menos contra
um entrave externo do que consigo mesmo: procurava pacificar aquilo
que o incendiava. Extinguia precipitadamente o que acendia, o fogo
pegando rapidamente mais adiante, numa extensão que concernia a
todos os quadros nos quais se representava sua existência. O que era
verdade sobre o erotismo do engajamento político repercutia da mesma
maneira em suas atividades profissionais, onde, tão logo um homem
se distinguia por suas qualidades combativas e sua coragem, isso dava
ensejo a uma tal atitude contraditória que, em geral, ela se resolvia no
conflito e na rejeição, pois, como pôr em ordem nesse terreno o que,
já em sua vida amorosa, era motivo de imbróglios inextricáveis?
Percebe-se, por esse mesmo motivo, o quanto algumas simetrias só
ilustram aproximativamente a complexidade de um problema. A vio-
a demanda impossível da sed11çãofemi11i11a 61

lência que rege a sexualidade, amiúde não aparente, muitas vezes pode
ser representada por metáforas tão batidas quanto clássicas: é o caso
da luta que travariam Eros e Tanatos, figuras opostas que se comba-
teriam e rolariam sobre elas mesmas, uma gerando a outra, para supre-
mo benefício da sobrevivência da espécie. Bela imagem, graças à qual
o pensamento dualista procura uma dessas explicações simples que
dão a impressão de compreender, assim como oferecem esquemas
adaptáveis às mais diversas situações! Contudo, se o desejo perturba
os seres humanos a ponto de eles se apressarem a recalcá-lo e de não
mais o reconhecerem senão em seus sonhos ou suas religiões, é porque
ele traz em si uma força m01tífera, não como um contrário, como um de
seus avatares ou como uma perversão contingente, mas como sua con-
dição.
Se o erotismo da cólera, do lado feminino, é comandado pela angústia
de castração, segundo a "inveja do pênis" definida por Freud, esse
termo meio frio não tem como fazer esquecer a violência da operação
assim programada. Como mostrou o exemplo anterior, a conclusão
sexual do processo não é dada de antemão, porquanto sempre corre o
risco de ficar presa em exigências contrárias, delicadas de satisfazer,
e mais difíceis ainda de harmonizar em sua desarmonia. Ainda mais
que, se a "inveja do pênis" tem a vantagem de satisfazer, de quebra,
a reprodução da espécie, ela conserva o inconveniente de nada estancar
de uma vindita inesgotável (ou da demanda, de uma desconcertante
gentileza, que é sua apresentação civilizada).
Uma demanda inesgotável, ou a cólera que compõe seu duplo
imediato, podem ter uma saída erótica, mas, além da dificuldade
dialética que acaba de ser apontada, uma outra complicação pode inibir
esse desfecho feliz. É que o falo é um símbolo, que possui outras
representações além do pênis masculino, 1 e essa particularidade pode
bastar para reduzir a libido a seu grau zero. É o caso do exemplo
seguinte.

Desejo do pai e impasse pulsional do erotismo

Complexos são os caminhos da transferência, e às ve.zes sucede a alguns


analisandos virem de longe, de trem ou de avião, para iniciar ou, mais
freqüentemente, prosseguir no esgarçamento de seu sintoma com um
analista que, por motivos amiúde obscuros, lhes parece ser o único
com quem podem fazê-lo, assim acrescentando o obstáculo da distância
62 do bom uso erótico da cólera

aos que são inerentes ao processo analítico. Convém, então, que haja
uma adaptação a essas condições particulares do espaço e do tempo,
que necessitam, por exemplo, agrupar diversas sessões num mesmo
dia. O ritmo precipitado que se segue impõe uma pressão freqüente-
mente frutífera, como se essa condensação obrigasse a filtrar de uma
só vez o depósito e o acúmulo de acontecimentos da vida cotidiana
que nem sempre se tem tempo para relatar.
Assim se deu com uma jovem mulher que, mal arriada sua mala e
ainda ofegante, contou-me, como se se tratasse de anedotas, diversos
aborrecimentos profissionais que tinham sido desagradáveis de viven-
ciar, descartou com um gesto da mão o relato de algumas inquietações
em suas amizades, mal chegou a mencionar os problemas que encon-
trava na educação da filha, e passou ao relato de um sonho que, apesar
de tê-la divertido um pouco, mesmo assim a deixara perplexa.
"É a seguinte a história, sobre a qual não lhe escapará que se trata
de um sonho transferencial, já que você, em carne e osso, perfeitamente
reconhecível, é o principal protagonista. Imagine a cena, muito simples
à primeira vista: estou passeando com você, com toda a tranqüilidade,
e não trocamos uma só palavra. Isso contrasta com a precipitação
tagarela em que me atiro quase todas as vezes que o encontro! Mas
então aparece uma dessas complicações comuns nos sonhos, visível a
partir do momento em que a cena é vista com um certo recuo. De fato,
onde é que estamos passeando? É incrível! Avançamos a passos lentos
sobre o teto de um edifício de pouca altura, inteiramente construído
em vidro e aço, como são alguns prédios modernos. Na realidade,
estamos andando em cima de uma vidraça transparente, sem dúvida
feita de um desses materiais recentes, suficientemente sólidos para
suportar o peso de dois caminhantes. Andamos tranqüilamente em cima
desse teto, mais ou menos à altura de um primeiro andar. Abaixo de
nós, podemos ver uma área cuja disposição é confusa. Talvez seja uma
estufa, ou uma espécie de hall com poucos móveis, e por ele peram-
bulam diversas pessoas que não identifico. Se elas levantassem a
cabeça, poderiam perceber-nos tão distintamente quanto as vemos.
"É aí que se produz um acontecimento incongruente, bastante
surpreendente por parte de uma pessoa tão reservada como eu. Eu me
agacho, com toda a naturalidade, e, como se nada houvesse, deixo
sobre aquela arquitetura polida um magnífico cocô. Embora seja apenas
um sonho, eu deveria me envergonhar desse mau comportamento. Mas,
para dizer a verdade, tornar a pensar nele mais me faz rir, sem dúvida
porque vejo nisso uma das atitudes provocadoras que sempre me proibi.
a demanda impossível da sedução feminina 63

Seja como for, no sonho em si, não pareço estar procurando escanda-
lizar, e rio menos ainda na medida em que você não deixa de me
repreender prontamente, talvez até com bastante maldade ... "
Silêncio. Nenhuma associação. " ... Não consigo mesmo ter a menor
idéia sobre esse sonho, que ainda me fez rir quando voltei a pensar
nele agora há pouco ... Esse ato excrementício, realmente enojante, sem
dúvida está me tirando toda a fala ... Na sua frente, ainda por cima ...
"Enfim, não me ocorre nada. Aquela arquitetura não me evoca nada.
Suponho que essa defecação deva representar alguma coisa relacionada
com os moradores da casa, que, levantando a cabeça, poderiam ter
olhado por baixo da minha saia com a maior facilidade. Qual não teria
sido a surpresa deles, se tivessem feito isso para se entregar a sua
curiosidade maligna, ao perceberem, em vez do espetáculo prazeroso
pelo qual estariam esperando, um cocô, muito vigoroso, juro! Aliás,
acho que, revendo a cena ... esse cocô estava bem orgulhosamente er-
guido ... em ereção mesmo, eu até chegaria a dizer... Continuando ...
Não era compreensível que você me repreendesse? Eu parecia ter feito
aquilo com toda a naturalidade, eu, normalmente tão contida, e deve
ter sido mesmo um sinal de que eu queria me entregar a alguma
provocação, totalmente contrária a meus hábitos. É isso ... deve ser
isso ... uma explosão contra meus recalques ... um sinal de saúde, em
suma, uma reação sadia, embora pouco feminina ..."
Essa evocação da feminilidade, num contexto que parecia contra-
riá-la, levou-me a suspender a sessão nessa palavra, pensando cá
comigo que a sessão seguinte traria alguns esclarecimentos suplemen-
tares sobre essa exibição particular, certamente onírica, mas, ainda
assim, feita em minha companhia. Mas não foi o que se deu de imediato,
porque, algumas horas depois, na sessão seguinte, foi uma questão
muito diferente, ao que parece, que reteve sua atenção.
Como se isso não tivesse nenhuma ligação com os pensamentos
latentes do sonho, ela então evocou longamente sua vida, ou melhor,
sua não-vida amorosa, retomando com minúcias um percurso já
detalhado muitas vezes. Para finalmente constatar que, agora, a
ausência bem instalada de qualquer cumplicidade sexual com seu
marido quase não lhe criava problemas. A presença noturna dele a
seu lado lhe convinha e a tranqüilizava. Permitia-lhe mergulhar
calmamente no sono, e qualquer gesto suspeito por parte dele quase
chegava a perturbá-la. Ela preferia que ele estivesse ali, e não ausente,
pois, nos últimos meses em que tinham estado separados, recente-
mente, suas noites tinham sido curtas e praticamente passadas em
64 do bom uso erótico da cólera

claro. Essas quase-insônias, aliás, haviam-na espantado, pois fora ela


que, exasperada com a presença do marido, tanto fizera que ele se
havia afastado. Quando os dois se reencontraram, pouco depois, houve
realmente alguns dias de erotismo tórrido, mas essa sexualidade
desenfreada acalmou-se rapidamente, deixando-a numa paz repousan-
te, muito do seu agrado. De modo que, ela mesma surpresa com essa
tranqüilidade, que já durava várias semanas, perguntou-se se aquele
estilo de vida ainda tinha a mínima relação com o ideal de mulher
sedutora e ativa com que sempre quisera assemelhar-se ... Para onde
tinha ido, afinal, aquele espírito eternamente irrequieto que a anima-
va ... aquele desejo tão feminino? ...
Bis repeti ta ... Interrompi a sessão nesse ponto, sem dúvida notando,
sem maior reflexão prévia, que essa ostentada falta de desejo era
homogênea ao comentário feito algumas horas antes. Não havia ela
considerado seu ato de defecação muito pouco feminino? Era lícito
conjecturar, de fato, que a repetição, uma vez que concernia a um
motivo tão importante quanto a identidade sexuada, realmente devia
encerrar alguma causa comum, que não tardaria a se expressar.
Permitiria a terceira e última sessão do dia esclarecer essa causa,
ou pelo menos situar o termo faltante da quarta proporcional que se
podia escrever mentalmente a partir de sua fala?

ausência de feminilidade ausência de desejo sexual

defecação X(?)

Dessa vez, longe de passar para outro assunto, a jovem continuou


a se interrogar sobre sua atual ausência de desejo sexual. Na verdade,
acreditava Ler notado uma particularidade que distinguia o período atual
de tudo o que ela havia conhecido no passado. Anteriormente e por
períodos, já lhe acontecera muitas vezes achar o marido pouco atraente.
a ponto de se perguntar por que continuava a coabitar com um tipo
daqueles. Mas esse desinteresse concernia apenas ao marido, e ela
continuava muito atenta a outros homens, e em geral gentilmente
sedutora com eles, desde que isso não tivesse nenhuma conseqüência.
Mas, desta vez, nada. A totalidade dos homens, próximos ou distantes,
na rua, no trabalho e nas telas onde brilham as estrelas aduladas,
deixava-a numa profunda indiferença. Mais do que isso, ela se espan-
tava com os esforços feitos por alguns deles para lhe dirigir cumpri-
mentos mais ou menos habilmente formulados.
a demanda impossível da sedurão feminina 65

Que acontecimento, portanto, poderia tê-la mergulhado em tamanho


torpor, ela, ainda tão jovem, e tão atraente, no dizer de alguns? No
passado, ela já havia reparado em episódios como esses, se bem que
mais breves, durante os quais, tomada de apatia, a maquiagem, as jóias
e as roupas que caíam bem eram postas de lado por alguns dias ... Como
lhe parecesse importante compreender o que lhe acontecia nessas
ocasiões, ela procurou então dar-me um exemplo dessas quedas bruscas
do desejo ... e voltou-lhe a lembrança muito distante de um encontro
com um rapaz muito a seu gosto, distinto, bem-feito de corpo e meio
desleixado, como era do seu agrado. Ela me descreveu a cena, bastante
evocadora dos amores adolescentes: os jovens haviam trocado olhares
e rondado um ao outro por muito tempo. Ocasionalmente, haviam
trocado algumas palavras carregadas de subentendidos e, após longos
meses de mortificação, finalmente haviam-se encontrado num restau-
rante, uma noite, num clima eletrizante de paixão já quase comparti-
lhada. Os olhos faiscavam, os dedos se roçaram e, com a ajuda do
vinho, as vozes tomaram-se mais roucas. Ao final do jantar, na hora
mais propícia, o rapaz desapareceu por um instante, pretextando poli-
damente que precisava lavar as mãos. Essa ausência durou apenas um
momento, mas estava quebrado o encanto. O entusiasmo da entrada
transmudou-se numa profunda depressão na hora da sobremesa.
Como era possível que uma espera tão prolongada, uma cumplici-
dade tão evidente na sedução mútua, se houvesse pulverizado assim,
desaparecendo num piscar de olhos? No entanto, mal formulou essa
questão, ela logo se lembrou da primeira sessão do dia, que havia
deixado de lado. Foi nesse momento que, num súbito lampejo de
compreensão, as três sessões mostraram a lógica de suas associações,
luminosa em seu só-depois.
Sem dúvida, não se lhe haviam evidenciado de imediato todos os
detalhes do que ela chamara modestamente de provocação, embora
estivesse claramente situada em relação à questão de sua feminilidade.
Não fora o orgulhoso cocô, sentinela eréctil colocada nos postos
avançados de uma identificação masculina, impudentemente exposto
à vista de todos os que se atrevessem a lançar um olhar furtivo para
sua feminilidade? E, se era verdade que não parecera existir nenhum
vínculo aparente entre a primeira e a segunda sessão, essa relação
evidenciou-se, todavia, por ocasião da terceira. De fato, sua ausência
de desejo feminino, mencionada na segunda sessão, certamente estava
ligada a um momento de identificação masculina, já que, na terceira
sessão, ela sublinhou em que momento seu desejo havia declinado:
66 do bom uso erótico da cólera

quando o amante em potencial saíra para defecar. Podia-se imaginar


que isso havia ocorrido porque os excrementos a enojavam, mas não
era possível conservar essa hipótese, já que a primeira sessão mostrara
que o cocô tinha, para ela, um valor fálico. Sua repugnância pelo
homem que ela desejara momentos antes tinha surgido quando, apesar
de sua discrição, ele havia mostrado sua relação com a merda e, ao
mesmo tempo, dado a entender que, se alguém possuía o falo, era ele.
O conjunto de deduções que acaba de ser mencionado não foi
inteiramente efetuado pela analisanda, de modo que poderíamos ali-
mentar dúvidas quanto a sua validade. Entretanto, uma última série de
associações, in extremis, veio confirmá-lo. Agora, disse ela, estava
compreendendo melhor seu sonho e sua baixa de libido atual... E logo
emendou numa lembrança de sua primeira infância. Tratava-se do
instante inesquecível em que, pela primeira vez, ela vira o pai sufi-
cientemente despido para perceber, ainda que obscuramente, as parti-
cularidades de sua anatomia sexual. Essa descoberta lhe provocara uma.
profunda comoção, da qual ela já não sabia dizer se, na época, a curio-
sidade havia suplantado o pavor.
A cena de que se lembrou dizia respeito a uma tarde de férias em
sua infância. Tomada de uma necessidade urgente e levada por seu
ímpeto de garotinha apressada, ela havia aberto num rompante a porta
do banheiro, desastradamente deixada destrancada por seu pai, que,
dentro do reservado, com as calças arriadas sobre os sapatos, fazia
força para defecar. Espetáculo realmente inesquecível, em que a po-
tência paterna e a do cheiro de fezes tinham sido bruscamente reunidas.
Essa lembrança, marcada pela imponência e por um terror sagrado,
seria verídica ou reconstruída, como muitas vezes são as primeiras
imagens da infância? O fato de a exibição do cocô ser em seguida
considerada equivalente à do pênis não bastava para garanti-lo. Faltava
ainda acrescentar-lhe a expressão do desejo, que dispunha numa mesma
série um pai excrementício e a inveja do pênis (e pouco importava,
por conseguinte, que se tratasse de uma lembrança encobridora ou de
um acontecimento efetivo). Foi essa expressão que apareceu na lem-
brança do restaurante. Quando, muito mais tarde, um homem ficara
impregnado do odor do excremento, ele a havia enojado, menos pela
sujeira da coisa do que por lhe haver recordado a castração e a injustiça
de um privilégio fálico, ligado à imagem de um pai tão amado quanto
inacessível.
No caso que acaba de ser exposto, a inibição do desejo procedeu da
luta pelo falo. Acaso não desejar o pênis não significa que já se o
a denumda impossível da sedução feminina 61

possui? A inibição do desejo, nessas circunstâncias, procede direta-


mente da angústia de castração. Ele só deixa de ser inibido em função
da posição ocupada por seu agente, isto é, um pai. Essa posição, como
já mostramos várias vezes, pode ser dupla, conforme o pai porte a
máscara do violador ou esteja morto e castrado. É somente na medida
em que é possível fazer o pai passar de um a outro desses estados, isto
é, graças a um assassinato simbólico, que o desejo tem uma chance de
se realizar com um homem. Nesse sentido, portanto, a agressão e o
assassinato fantasístico estão a serviço do desejo Uá que reduzem um
pai à condição de homem). E, por conseguinte, um homem amorosa-
mente agredido cometeria um erro ao se queixar disso. A dupla face
do homem, sua duplicidade, clássica em todos os romances água-com-
açúcar ou noir, conforme uma face do enredo seja mais privilegiada
do que a outra, aparece, por exemplo, no pequeno fragmento que se
segue.

A duplicidade paterna e sua "solução" exogâmica

"Eu gostaria de fazê-lo compreender em que pé estou com meu marido.


Você sabe que, segundo a lenda, um beijo pode transformar um sapo
num príncipe. Essa é realmente uma bonita história, emocionante e
muito apropriada para dar esperanças à classe feminina, que, nos dias
atuais, tem tanta dificuldade de encontrar homens de verdade, na falta
de. príncipes. Também ouvi essa história encantadora quando era
pequena, e devo ter-lhe dado algum crédito, porque, retrospectivamen-
te, parece-me que andei beijando uma porção de sapos, como se eles
fossem se transformar em príncipes - o que não aconteceu, infeliz-
mente. Assim, contei esse belo conto a minha filha ainda ontem à noite,
e ela parece ter ficado perdida em devaneios, a menos que seu silêncio
tenha sido um sinal de ceticismo. As crianças de hoje já não têm nossa
maravilhosa credulidade. Para convencê-la da força do sonho e huma-
nizar a história, por pouco não lhe falei de seu pai, mas me contive a
tempo, porque, com ele, deu-se justamente o contrário. Nele eu tinha
visto o príncipe encantado, mas temo que meus beijos o tenham
transformado num sapo, quando penso no olhar de batráquio que ele
lança à televisão, à noite, afundado em sua poltrona."
Sem dúvida, uma descrição tão rude assim só faz evocar, muito
grosseiramente, a dupla face atribuída por uma mulher ao homem a
68 do bom uso erótico da cólera

quem está presa. Se há que descobrir a razão dessa duplicidade, não


convirá atribuí-la, mais uma vez, à duplicidade da função paterna?
A duplicidade paterna, como foi dito, responde por toda a comple-
xidade da sexualidade feminina. Como primeiro é preciso ressuscitar,
e depois "matar fantasisticamente" uma figura paterna, daí resulta, em
relação a esta última, uma culpa tão violenta quanto inconsciente.
"Matar fantasisticamente" raramente implica representações agressi-
vas, que são encenações pouco adequadas à inocência feminina. Em
contrapartida, é freqüente a fantasia eletiva do gozo feminino consistir
em ser surrada e humilhada - uma encenação que aponta para a
confissão da culpa pela fantasia em questão. Ademais, são muitas as
maneiras de praticar um assassinato, sobretudo simbólico: não basta,
para isso, contrariar o desejo do pai? É o que acontece quando uma
moça se casa com um homem que discorda de seu pai numa questão
de importância para este, como, por exemplo, a religião, a raça, as
opções políticas etc. Num primeiro momento, o objetivo da fantasia é
atingido por intermédio disso, embora haja o risco de resultar daí, por
parte da moça, uma agressão contra o cônjuge, que poderá ser justifi-
cadamente tomado por responsável pelo rompimento exogâmico. De
fato, é graças a ele, mas é também por sua falha, que a sedução paterna
fracassa. E como reparar essa falha, uma vez cometida, senão graças
a uma identificação com o desejo do pai? O ato agressivo de uma
mulher contra seu companheiro pode não ter outro séntido senão o de
atualizar esse desejo. 2 É o que acontece no exemplo seguinte.
"Apesar da situação dramática que estamos atravessando, que exi-
giria que nos explicássemos no menor prazo possível, meu marido deu
um jeito de acordar afônico e, a pretexto de uma laringite, quer adiar
qualquer decisão. Com certeza, o coitado deve ter ficado abalado ao
saber que agora tenho um amante, mas, afinal, ele podia suspeitar disso
há várias semanas. Por acaso essa não era uma saída que estava se
tornando inevitável, já que ele tinha me deixado de lado há vários anos,
e nunca me escondeu nada dos casos que teve com outras mulheres,
casos dos quais um, pelo menos, não teve nada de flerte passageiro?
"Quando torno a pensar nesses anos de casamento, eu me pergunto
como pude suportar. Era uma outra época, outras maneiras de ver, e
nós nos casamos, é verdade, com um certo consenso a respeito da
liberdade de cada um. Mas, se tem que haver 'amor livre', o que,
pensando bem, me parece constrangedor, não é legítimo que essa
disposição seja recíproca? Portanto, não me sinto triste por ele ficar a
par do que está acontecendo comigo, e já que, afinal, não sou mesmo
a demanda impossível da sedução feminina 69

de temperamento dado a dividir as coisas, e como o amor finalmente


chegou para mim, estou disposta a partir sem evasivas para a separação,
com todas as formalidades de direito ... De qualquer maneira, esse
casamento, apesar dos ares de leveza que quis se dar, sempre foi muito
pesado, acompanhado por uma ameaça cujos meandros e detalhes nunca
me ficaram muito claros. Sem dúvida, não é o que meu pai teria desejado
para mim, porque, se ele nunca teve nada de religioso ortodoxo, se
nunca me fez o menor comentário a esse respeito, é incontestável que
teria preferido que eu perpetuasse a tradição e me casasse com um
judeu, e não com um livre-pensador, incapaz de honrar como convém
a mulher que ele escolheu sem nenhuma coerção ... "
Assim foi resumida, em algumas frases, a última reviravolta da vida
amorosa dessa analisanda. Desde o começo da análise, ela não parara
de se confrontar com a atualidade conflitiva de seu casamento, numa
trajetória cujos múltiplos episódios haviam levado a esse, que parecia
fadado a ser o último que o casal enfrentaria junto. Do sintoma vocal
do marido, eu nada podia dizer, não tendo ouvido nada. Mas também
não podia contradizer sua mulher quando ela via nessa súbita afonia,
além da reação a uma notícia desagradável que lhe teria tirado a fala,
o reconhecimento da responsabilidade dele pela situação atual. Sua
culpa o impedia de decidir o que quer que fosse e o deixava sem voz,
entregando ao tempo e ao destino a tarefa de aliviar uma dor para a
qual não podia propor nenhum remédio, desejoso como parecia estar
de continuar a tirar vantagem de tudo.
Revigorada por um novo amor, após tantos anos de desavenças e
tantos meses de abatimento profundo, essa analisanda parecia segura,
portanto, do terreno em que doravante estava pisando, finalmente em
terra firme, depois de haver chafurdado por tanto tempo naquele
lodaçal. Assim, havendo determinado as coordenadas da situação e
ajustado suas decisões, ela não parecia ter grande coisa a acrescentar
nessa sessão, chegada a hora em que era preciso extirpar o mal e passar
aos atos.
Contudo, depois de cair em um silêncio pesado sobre a afirmada culpa
de seu companheiro, ocorreu-lhe uma lembrança infantil e ela quis dizer
uma palavra sobre isso. Não sabia por quê, mas tinha-se lembrado de
uma peça teatral que seus pais a haviam levado para assistir quando ela
devia ter uns dez anos, um espetáculo que lhe causara enorme impressão.
Talvez a tivesse revisto em outras ocasiões na infância ... é, com certeza
era isso. Como quer que fosse, estava certa de que tomara a assistir a
uma de suas representações depois da adolescência. Além disso, também
70 do bom uso erótico da cólera

havia lido várias vezes esse clássico da literatura ao longo de seus estudos.
No entanto, até hoje era incapaz de se lembrar das peripécias e do
desfecho, embora ele fosse simples e essencial para a compreensão da
peça. Havia uma dívida a ser paga, disso ela não tinha dúvida, mas qual,
e quem devia pagá-Ia, mistério! E quanto mais refletia sobre isso, mais
ela era incapaz de reconstituir de que maneira e com quem tinham sido
acertadas as contas que fechavam o enredo.
Como se tratasse de uma lembrança referente à peça de Shakespeare
intitulada O mercador de Veneza, rememorada no momento crucial em
que acabara de entrar em pauta o acerto de algumas dívidas com um
homem que, por sua extraterritorialidade religiosa, fora implicitamente
desposado contra a opinião paterna, perguntei-lhe de imediato se ela
não via uma analogia entre sua situação atual e sua lembrança infantil,
na qual ela acabara de pensar tão espontaneamente. E, embora de fato
lhe parecesse incontestável que havia uma analogia, na medida em que
aquela lembrança não podia ter sido fortuita, ainda assim ela era incapaz
de dizer em que consistia. Se a questão era formular corretamente o
problema, somente uma equação lhe parecia certa: a que havia entre
sua própria posição e a do usurário Shylock, que, na hora marcada -
disso. ela se lembrava -, vinha cobrar o pagamento de uma libra de
carne, como consignado numa nota. Ora, na trama teatral, entre o
pagamento da dívida e a prova por que era preciso passar para ser
digno do amor de uma mulher, se havia um personagem que, aos olhos
do público, podia parecer culpado, era certamente o usurário. E era
impressionante que minha analisanda se atribuísse precisamente esse
papel, no momento em que, certa de seu direito, exercia uma represália
que, se não custara a vida, custara a voz a seu companheiro.
Que pensar disso? Ela se declarava culpada ao se comparar ao
usurário, apesar da certeza de seu direito legítimo. E não havia de fato
transgredido far.t:1sisticamente o desejo do pai, descobrindo-se numa
situação da qual decerto só padecera por tanto tempo proporcionalmente
a seu erro? Assim, vendo-se nos traços de Shylock nesse momento,
ela se identificava com o desejo que atribuía a esse pai, no exercício
de uma vingança que, apesar dos justos motivos, não deixava de ser
injusta ...
É desnecessário dizer que a analisanda não enunciou nenhuma dessas
considerações, num momento em que ainda era incapaz de se lembrar
do enredo do Mercador de Veneza e de seu desfecho. Depois de se
atribuir o papel do mercador veneziano, ela foi tomada de intensa
emoção durante vários minutos. E como poderia ser diferente, se,
a demanda impossível da sedução feminina 71

malgrado suas justificativas tão bem fundadas, ela estava encontrando


aquilo que realizava do desejo do pai? Quando recobrou um pouco a
calma e chegou o momento de interromper a sessão, acompanhei-a até
a porta, mas não a abri de imediato, em vista de um esquecimento que
era incomum por parte dela. Esperando até o último minuto, finalmente
lhe assinalei que ela estava esquecendo de me pagar. Ela procurou
prontamente o dinheiro, na bolsa e nos bolsos, não sem uma certa
confusão, e enfim percebeu que o havia esquecido. Prometendo que
me pagaria na sessão seguinte, e novamente se preparando para se
despedir, ela esqueceu, dessa vez, outra de nossas convenções, segundo
a qual deveria deixar-me um cheque, se não pudesse me pagar em
espécie. Se mais lhe valeu fazer isso, não foi porque um cheque consig-
nasse o montante de uma dívida menos custosa do que uma libra de
carne, mas porque era preciso sublinhar a culpa coexistente com seu
evidente direito legítimo. Afora o movimento transferencial que esse
momento denotou, porventura não se evidenciou aí com mais clareza,
em circunstâncias que aliás a tornavam lícita, uma agressividade
procedente de uma identificação com o desejo do pai?
Nada parece menos erótico do que esse epílogo. Entretanto, não
vem ele revelar, somente no fim do percurso, qual foi o móbil oculto
do erotismo de um casal? Aí vemos desfazer-se um laço cujo motivo
doentio é mostrado pelo só-depois. Ao menos nesse exemplo, e em
muitos outros, sem dúvida alguma, fica claro que a insatisfação que
tantas vezes rege a vida amorosa não encontra sua origem numa
misteriosa infinitude do desejo. Poderíamos pensar que o ser humano
busca através do amor o sinal de uma qualidade espiritual, ou uma
certa característica estética que lhe conviria, e à qual a simples atração
sexual não lhe permitiria aceder. Nesse caso, a cólera seria o sinal
desse engano e nada teria de erótico. Entretanto, longe de buscar uma
certa qualidade, é em apreender um corpo que o amor se empenha, um
corpo que traga a marca de uma outra presença, a qual, de certo modo,
é preciso desmascarar para poder abordar. O amor se excita na queda
dessa duplicidade, nesse entre-dois em que sua violência se dirige a
uma figura para melhor poder apossar-se de outra, como se duas pessoas
se superpusessem numa só e fosse preciso afastar vigorosamente a
primeira para descobrir a segunda (do mesmo modo que dois enredos
enlaçam-se num só no Mercador de Veneza).
Quão mais compreensível afigura-se então o gracejo corriqueiro
segundo o qual um amante deve ter sempre alguém na regra-três, não
por uma precaução avarenta, mas porque abandonar um deles, ao menos
72 do bom uso erótico da cólera

por algum tempo, só torna mais delicioso o uso do segundo. E não é


para satisfação geral que, graças à montagem histérica, uma mulher
nunca aprecia tanto um pretendente como quando seu rival é afastado?
Por onde quer que a abordemos, falta estabilidade à montagem
erótica. Seu móbil, para dizer a verdade, afigura-se demoníaco, e nunca
parece estabilizar-se tão bem como com o socorro da fé, seja ela leiga
ou consagrada. A religião, é verdade, tentou instaurar uma certa moral
no jogo dessa duplicidade fatigante, ao conferir ao Espírito Santo o
lugar do terceiro que reivindica com tanta constância o pareamento
humano. Assim, a alquimia dos sagrados sacramentos do matrimônio
transmuda a comédia popular em comunhão espiritual. Mas, infeliz-
mente, como não é uma qualidade da alma que o apetite libidinal
persegue num corpo, a religião passa por alguns dissabores nessa
matéria, malgrado as decisões dos Padres da Igreja sobre a Encarnação
e a transubstanciação. Falta ao espírito terceiro, por mais trinitário e
colérico que se possa inventá-lo (deus do mal, na realidade), apesar de
seu espetáculo, um pouco de substância. E o roteiro acaba deixando a
desejar, em benefício do pecado e de sua potencial redenção.
Conforme uma encenação implícita ou explícita, o parceiro viril é
apenas o lugar-tenente de uma potência fálica que o ultrapassa. Todo
homem sofre uma divisão ao deparar com o erotismo feminino -
divisão excitante e mais ou menos violentamente realizada segundo
modalidades variadas, que vão desde os métodos suaves propostos pela
religião até os jogos mais brutais da rivalização dos homens entre si,
onde, entredilacerando-se, eles só fazem dividir-se melhor.

O sintoma, erótico apesar do sofrimento

Que acontece quando, apesar de sua boa vontade, uma mulher não tem
perto de si o amante real ou fantasístico que desperta em seu marido
o demônio carnal? Ou então, para não insistir numa proposição tão
chocante quanto imoral, quando ela não consegue fazer reluzir diante
de seu legítimo esposo um sinal paterno, extraído, se necessário, da
sacristia ou das inesgotáveis reservas espirituais da Sorbonne? Ou
enfim, que acontece quando sua fé é tão escassa que lhe proíbe os
recursos místicos, no entanto imensos, que o catolicismo tão genero-
samente concedeu às mulheres? Nessas condições, não é certo que o
corpo possa manter sua consistência, desertado que terá sido pelo
espírito trinitário, Alma mas Carne. Haverá ainda corpo quando ele
a demanda impossível da sedução .feminina 73

não é desejado? E como lhe seria possível sê-lo sem aquilo que ele não
é, aquilo que só o habita passageiramente, segundo uma graça contin-
gente que às vezes lhe é soberanamente recusada? Não é quando falta
o elemento terceiro, que permite o jogo do erotismo, que o corpo da
mulher une-se a essa própria ausência, na paralisia, na morte, na
hipnose, na tetania, ou, muito mais comumente, no sono? Assim, sucede
. ao desejo de dormir tornar-se opressivo, a partir do momento em que
se interrompe o jogo de um erotismo que, em outros momentos, pode
dispor de uma energia inesgotável.
Nada pode garantir a uma mulher que ela sempre encontrará um
amante que se preste à encenação necessária à consistência de seu
corpo. E, quando esse parceiro existe, nada garante, tampouco, que ele
esteja apto a desempenhar esse papel a todo instante e em todas as
ocasiões. Um homem, por exemplo, nem sempre se dispõe a se deixar
colocar em rivalidade - quando são essas as modalidades eróticas de
um determinado casal. Assim, sucede faltar-lhe tudo o que permitiria
encarnar o Ausente paterno, faltarem-lhe os motivos de cólera que lhe
são tão propícios, e nenhum corpo lhe permitir encarnar-se. É nesses
momentos que uma mulher fica como que exposta à vacuidade de um
desejo sem consistência, e que o pai carente de corpo pode cair na
armadilha do sintoma. O sofrimento do sintoma, nesse aspecto, cons-
titui uma declaração de amor puro ao Ausente. A cólera, que já não
encontra a eleição do amante, explode no próprio corpo. E será que o
sofrimento assim provocado não possui um valor erótico igual ao que
uma discussão teria acarretado? Para muitos homens, como já vimos,
a mulher sofredora é excitante. Não é que suas dores apelem para o
gesto protetor do macho, mas é que este fareja no rastro do sofrimento
as pegadas do Rival que sempre o desafiou.
Que o sintoma é sexual, Freud o descobriu. Mas essa descoberta é
freqüentemente compreendida como se esse sintoma constituísse uma
conseqüência inoportuna e como que passiva de um recalcamento da
sexualidade. Muito pelo contrário, o sintoma participa ativamente da
vida erótica, estigmatizando tão bem o corpo que o espírito de Eros
torna a vir habitá-lo. Há uma visitação do corpo por Eros, que lhe traz
a guerra, no duplo sentido do excitante sofrimento que provoca e da
demonstração da impotência do homem para lhe fornecer o amor que
lhe é pedido. O que é excitante - o dedo do rival posto na carne -
dá-se como a própria interdição. Não pode o sintoma servir de pretexto
para rejeitar o ato sexual? Nisso, aliás, sua interdição curva-se aos
arcanos comuns da sedução, que nunca é tão viva como quando o ob-
74 do bom uso erótico da cólera

jeto do desejo se furta. O sintoma seduz: certo, ele demonstra a


impotência viril, mas é também o apelo a um príncipe encantado que
saiba curá-lo!
A eclosão de um sintoma orgânico no exato momento da sedução
é um lugar-comum da vida amorosa. Sucede às vezes aos amantes,
ainda no deslumbramento da descoberta, verem-se obrigados a inter-
romper seu ímpeto porque um sintoma interrompe seus jogos amorosos.
Uma enxaqueca, por exemplo, ou uma acidez no estômago, quando
não uma cãibra muscular que afeta um órgão útil a esses exercícios,
vem prejudicá-los no momento mais apaixonado.
Mais sutil ainda, embora igualmente corriqueiro, é o sintoma que
se declara, não por ocasião dos riscos da vida amorosa, mas em acon-
tecimentos da vida cotidiana. Para isso, basta que um homem, comum
sob outros aspectos, evoque, por um de seus traços, um personagem
paterno com quem falte acertar algumas contas. Embora apareça um
único traço característico, o sintoma eclode, como mostra o exemplo
seguinte.
Depois de dirigir por vários anos uma moto de alta cilindrada, com
o mesmo brilhantismo com que conduzia seus estudos, ao descobrir as
virtudes da livre iniciativa e considerar atraente a posição de business
woman, a jovem em questão havia decidido criar uma empresa de
marketing, destinada, em seu projeto, a logo adquirir dimensões inter-
nacionais. Paris, Roma, Nova York e Tóquio são etapas inevitáveis pa-
ra quem quer se apresentar decentemente em Moscou, na conjuntura
atual. Traçaram-se planos, mantiveram-se contatos com os testas-de-
ferro necessários à abertura das prestigiosas sucursais mencionadas, e
eles opinaram com entusiasmo, encantados de antemão com o doce
nome de Paris. Infelizmente, faltava um certo numerário, e os banquei-
ros exigiram garantias que os diplomas e o entusiasmo da juventude
não lhes forneciam. Fez-se uma sondagem do círculo de amizades, da
família ascendente e descendente, dos parentes colaterais, dos amantes
e dos rivais.
Por fim, a empresa foi lançada em sociedade com um cavalheiro
idôneo, titulado como manda o figurino, não demasiadamente rico,
mas já suficientemente estabelecido para obter a confiança dos homens
do dinheiro. O negócio deu frutos rapidamente. O minúsculo contrato
firmado em Tóquio silenciou as reticências de Roma, que assim final-
mente cativou Paris, e choveram dividendos. O cavalheiro ficou pasmo,
e seu espanto aumentou no mesmo ritmo da curva ascendente dos
contratos, que ele constatava a cada uma de suas visitas mensais ao
a dema11da impossível da sedução femi11ina 75

pequeno escritório que havia alugado por precaução. De modo que o


comparsa logo se viu aturdido com um sucesso com que absolutamente
não havia contado, do mesmo modo que não se sentia disposto a correr
os riscos que sua temerária associada propunha-se a enfrentar. Apos-
tando todos os lucros em cada nova investida, a jovem empreendedora
demonstrava um ardor juvenil que não convinha muito ao estômago
do sócio e, avaliando a situação, ele propôs vender-lhe sua parte no
menor prazo possível, não sem tirar disso um lucro razoável. O negócio
foi fechado sem problemas e foi com alegria que a heroína se preparou
para assinar o contrato que a transformaria, tão jovem, na intrépida
diretora de uma empresa cheia de perspectivas de futuro.
O dia da assinatura do ato de cessão entre as partes aproximou-se
tranqüilamente, e cada um dos parceiros se preparou para comparecer
ao tabelião. Chegou a véspera do dia D e a moça sentiu violentas dores
gástricas, que a obrigaram a ficar de cama e, pela primeira vez em
muito tempo, interromper sua atividade incessante. E foi com dificul-
dade, no dia seguinte, que ela conseguiu se arrastar até o cartório,
assinando com esforço o documento que constituía a prova tangível
de seu sucesso, e mal tocando no champanhe que ela mesma se
incumbira de escolher. Indo imediatamente se deitar, apesar das soli-
citações dos amigos que a convidavam a comemorar o acontecimento,
ela acordou no meio da noite, adornada por uma bizarra dilatação
abdominal.
Foi essa rotundidade que ocasionou suas interrogações na sessão de
análise subseqüente a esses acontecimentos. Parêntese: por que uma
pessoa tão brilhante julgara conveniente cumular-se das coerções e do
custo de uma psicanálise? Ora, para terum sucesso ainda mais brilhante,
é claro! A psicanálise não representa um atraente "algo mais" que toda
pessoa competitiva deve ter em sua bagagem? Além disso, sob muitos
aspectos, o sucesso constitui um sintoma tão suspeito quanto os outros;
aliás, porventura não fora por prever que não conseguiria fazer outra
coisa senão ter sucesso que ela havia iniciado uma análise, desde a
idade em que, com desprezo, havia abandonado as baixas cilindradas
para dedicar sua atenção aos motores de alta potência?
Pois ali estava o sucesso, o qual, sem maiores precauções, decidi-
damente a havia apanhado pelo estômago.• Depois de me narrar os

• Há nesse ponto uma alusão implícita à expressão manquer d' estomac, fraquejar,
dar mostras de fraqueza. (N.T.)
76 do bom uso erótico da Clílera

acontecimentos, ela chegou a seu despertar noturno, à insônia que se


seguira e, depois, ao dia e meio subseqüentes, em que ela havia cuidado
mais ou menos galhardamente de suas ocupações, mas ainda igualmente
arredondada. Animando-se aos poucos no divã, ela me descreveu tão
bem a rotundidade, juntando os gestos à fala, que sua própria descrição,
acompanhada por um amplo gesto da mão, em pouco já não lhe deixou
a menor dúvida: era de uma gravidez nervosa que ela estava sofrendo.
Um silêncio embaraçado acompanhou essa constatação, pois logo se
evidenciou que um único acontecimento havia regido a insuflação do
espírito procriador: a assinatura da escritura.
Então, estaria ela grávida por sua própria obra? Era uma hipótese
muito improvável, já que, até esse dia, ela nunca deixara de trabalhar,
sem jamais ter sido inseminada daquela maneira. Convinha tomar a
decisão de considerar, antes, que sua separação de um homem, que no
entanto não era nada para ela, tinha levado a essa conseqüência. E, se
cabia levar em conta esse fato, como é que um divórcio podia ter tido
um efeito tão paradoxal? Era uma porção de perguntas, que finalmente
exigiram um pouco de atenção. Teria o sócio tão inconsistente tido
mais peso do que ela havia suposto? O fato de ele ter sido uma pessoa
tão apagada, ao contrário, não ressaltava duas de suas qualidades?
Certo, olhando mais de perto, o parceiro não fora tão anódino assim:
conviria considerá-lo como um simples saco de dinheiro? Mas, nesse
caso, seu único traço teria sido o da potência, símbolo geralmente
associado ao dinheiro. Será que sua qualidade primordial estava em
ser um testa-de-ferro?* Mas, também nesse caso, essa redução o colo-
caria numa pura função de nominação, potência que, apesar de vazia,
nem por isso era menos temível. Ali estava um punhado de traços que
evocavam ainda mais facilmente um pai, na medida em que, após uma
reflexão mais ampla, evidenciou-se que esse personagem havia entrado
em cena graças à irmã da analisanda, com quem mantinha uma relação
de paternalismo exagerado, inversamente proporcional ao infortúnio
sexual que conhecera com ela no passado. Em suma, era por não ter
conseguido seduzir a jovem que esse qüinquagenário libidinoso se
mostrara, posteriormente, protetor e generoso. Por conseguinte, sua
obsequiosidade liberal havia-se estendido à intrépida amazona carente
de crédito que era a irmã.

• Perde-se em português a acepção "literal" da expressão francesa, prête-nom,


aquele que empresta seu nome (a um negócio, contrato etc.). (N.T.)
a demanda impossível da sedução feminina 77

Por ocasião dessa sessão, observei mais uma vez a interessante


característica paterna de que, se existe uma qualidade que é conscien-
temente atribuída a um pai, sem hesitação, trata-se da ineficácia sexual.
Não importa em que proporção ele seja amado pela filha, supõe-se que
esse amor não comporte nenhuma conseqüência sexual confessa. O pai
constituiria, assim, uma exceção no mundo dos homens, todos conhe-
cidos por suas intenções libidinosas, que, apesar de freqüentemente
sub-reptícias, não deixam de ser sempre certeiras. No entanto, o papel
inconsciente dessa exceção afigurava-se menos claro à experiência,
pelo menos para essa analisanda.
Pouco importava, afinal de contas, que o sócio se houvesse mantido
como um personagem com quem ela não tivera nenhuma outra relação
senão a profissional; seu acesso ao Tesouro e suas funções, bem como
seu próprio título de sócio, faziam dele um personagem paterno, ainda
mais eficaz por não ter havido nenhuma outra consideração que se
interpusesse para confundir as coisas. Esse pai sem valor, que passava
despercebido, só se mostrara eficaz no momento em que resolvera
desistir da empreitada. Sem dúvida, era previsível que ele se mostrasse
incapaz, e essa saída era esperada; mas, justamente, bastara-lhe, esco-
lhendo bem as palavras, declarar-se inapto, reconhecer que o ritmo dos
negócios estava acima de suas possibilidades, e que suas pernas fracas
não podiam manter aquele ritmo sem provocar acidez estomacal, para
que o vento de sua ausência inflasse o abdômen de sua suposta
companheira. De fato, é pelo fato de o "pai" se afastar, tomar a distância
espiritual que convém à força do Nome, que se desencadeia a gravidez
ideativa.
Não permite esse incidente compreender uma das significações mais
importantes do Penisneid freudiano, aquela que diz que a inveja do pênis
equivale ao desejo do filho? A inveja do pênis e do filho decorrente dele
nunca se manifesta tão bem quanto após a recusa por princípio do pênis
paterno. Do mesmo modo, toda vez que um pai se apaga, se ausenta ou
morre - forma de recusa definitiva-, o desejo de um filho pode nascer
como conseqüência disso.
Esse insubmersível clássico freudiano esquematiza às mil maravi-
lhas as premissas de um grande número de gestações. Há que haver a
intervenção de um recuo prévio do "pai" para que, em seguida, um
filho seja esperado do homem: a generalidade dessa regra evidencia-se
em toda a sua extensão ao concebermos que não é necessário que se
trate do pai efetivo para que o recuo frutifique. Um pai factício também
resolve, já que, afinal, a facticidade é uma das principais características
78 do bom uso erótico da cólera

dessa operação. (E, como formigam os semelhantes ou os comparsas


potenciais do pai, aglutinados como estão em torno de todos os postos
de comando da sociedade humana, qualquer amadora terá apenas o
trabalho de escolher.)
O próprio marido pode desempenhar esse papel, do qual não se
privará se lhe for dada a oportunidade, sobressaindo quase que de
imediato no papel de tirano doméstico, por menos que isso lhe seja
gentilmente solicitado. Nessas ocasiões, uma vez adornado o marido
com um traço paterno, restará ainda fazê-lo passar pela prova de uma
separação mais ou menos simbólica, mais ou menos arriscada. Não
faltam exemplos de mulheres que só conhecem a graça da maternidade
depois que seus maridos, excessivamente paternais, são seriamente
postos em perigo, seja por um acidente, seja por suas atividades. O
risco de separação definitiva é fertilizador. Mais numerosas ainda são
aquelas cujo ventre só pode arredondar-se depois de uma aventura
extraconjugal, só encontrando fecundidade com o marido legítimo
depois de havê-lo destronado brutalmente, graças a um amante ocasio-
nal. Por fim, se nunca se pode afirmar com certeza algo que repousa
menos na elucidação dos significantes do que na eficácia de um
dispositivo, é provável que, dentre as muitas mulheres que engravidam
depois de começar uma análise, várias devam sua feliz condição à
experiência transferencial. Com efeito, porventura elas não experimen-
tam, desse modo, a privação sexual e a falta de sedução, com esse
personagem meio paterno - e portanto, por definição, impotente -
que é o analista?
Essas considerações não nos afastam muito do fio da sessão, onde
as características paternas do sócio foram sublinhadas. Entre a dilatação
do ventre e o encontro dessa sexta-feira passara-se uma noite, que fora
pontuada por um sonho - bem simples de entender agora, aliás, já
que, como muitas vezes acontece, as associações que permitiam sua
análise haviam precedido seu relato. A analisanda viu-se andando pela
rua, onde se apressou a entrar num automóvel. Duas outras pessoas,
sem dúvida alguma homens, embora ela não pudesse identificá-los,
entraram com ela no veículo. Seguiu-se então uma viagem de algum
tempo, da qual ela não memorizara nada. Depois, ela se lembrou de
uma nova cena: havia chegado a seu destino e o carro esvaziou seu
conteúdo; a analisanda contou os passageiros que desciam: 1, 2, 3 ... 4.
Tinham sido três na partida, e eis que eram quatro na chegada. No
exato momento do relato que ela fazia, o pensamento do sonho se
esclareceu: ela teria aproveitado essa viagem para conceber um filho.
a demanda impossível da sedução feminina 79

Sem dúvida, não poderia ter procedido sozinha a essa concepção,


evidentemente!. .. Mas, com qual dos dois homens que a acompanharam
nesse périplo fora consumado o ato fecundo? Ela não saberia dizer.
Ao acordar, como se a encenação onírica da duplicidade paterna tivesse
bastado para deslocar o sintoma, a dilatação abdominal havia pratica-
mente desaparecido.
Resta dizer que o sintoma, no vazio orgânico em que se havia
apresentado, não deixara de ter transitoriamente uma função: a de
afirmar que, apesar de sua prevaricação, tinha efetivamente havido um
"pai". O sintoma erigira-se para glorificar a potência paterna, no
próprio momento em que esta fizera um papelão, e bastara o apareci-
mento, no sonho, de um outro pai potencial, aliás anônimo, cuja
identidade ficou por descobrir, para que o sintoma passasse a parecer
inútil, relegando para o futuro a espera de um pai enfim potente. O
sintoma, portanto, tivera a função meritória de reabilitar o pai. Resta
ainda acrescentar que, se este se achava em tal estado sintomático, isso
não se produzira sem que a analisanda contribuísse com seu sofrimento.
Portanto, ela dera à luz, durante essa parturição nervosa, graças àquele
a quem nunca fizera outra coisa senão rebaixar.*
O sofrimento do sintoma purga a culpa por uma agressão latente,
assim como mantém em seu estado de glória eficaz o mito paterno. A
dor garante que um dia haverá um pai digno desse nome, neste mundo
leigo em que os homens se transformaram no que são, e onde as
mulheres se dão tanto trabalho - no sentido estrito do termo - para
que, na indigência do patriarcado, que elas certamente quiseram, ainda
reste alguma oportunidade de exercer uma violência que condicione o
erotismo.

Esse sentido do sintoma - como metáfora paterna - comporta


numerosas conseqüências, dentre as quais a identificação com o desejo
do pai não é a menor. Identificação paradoxal, já que caracteriza um
sujeito que, apesar de se identificar por intermédio disso, não deixa de
se afirmar como especificamente feminino. "Identificar-se" quer dizer
que a dor do sintoma dá sentido ao desejo do sujeito. No caso, uma
identificação paterna, já que a função do sintoma é reabilitar o pai.
Trata-se, de certo modo, de uma identificação com o pai que sucede

• O autor joga aqui com as expressões mettre bas (parir, partejar, literalmente
"pôr [por baixo]") e mettre à bas (desdenhar, derrubar, pôr para baixo). (N.T.)
80 do bom uso erótico da ccílera

ao assassinato do pai. Essa maneira de mantê-lo vivo, após seu faleci-


mento fantasístico, pode ser compreendida segundo o mecanismo geral
que pretende que nos identifiquemos com o desejo do morto - uma
identificação, portanto, que não implica nenhuma semelhança com os
hábitos masculinos ou as características paternas.
A identificação com o desejo do pai (através do sintoma) é totalmente
diferente da identificação com o pai que se seguiria ao processo do
luto. Ela sofre essa ambigüidade do genitivo, segundo a qual o desejo
do pai tanto é aquele que é sentido em relação ao pai (como no exemplo
anterior) quanto o que lhe é atribuído (no exemplo seguinte), como
muitas vezes acontece no amor feminino pelas mulheres. De fato,
identificar-se com o desejo do pai, em geral episodicamente, pode ter
como conseqüência o traço feminino de um amor dirigido às mulheres,
que decerto não merece ser chamado de homossexualismo no sentido
perver'so do termo, mas que não deixa de suceder ao momento em que
a eliminação fantasística do pai promove uma identificação com seu
suposto desejo pelas mulheres (" Eu o mato e, para conservá-lo vivo,
tal como você, amo as mulheres": é o caso das mulheres que alternam
as ligações heterossexuais com as homossexuais).

O sintoma, índice da duplicidade paterna

Essa moça achou que uma análise a ajudaria a se livrar do que


considerava uma escravidão penosa, a das chamadas drogas" pesadas".
Não teve a leviandade de atribuir esse hábito ao meio profissional que
freqüentava, onde essa prática era corrente. Em seu círculo, a droga
tinha a reputação de proporcionar uma certa capacidade criativa, uma
potência onírica, ou, com muito mais certeza, de oferecer um meio de
lutar contra a angústia e a ansiedade, num ambiente competitivo em
que convinha que qualquer apresentação, mesmo corriqueira, fosse
brilhante e cheia de entusiasmo. No que lhe dizia respeito, os entorpe-
centes que ela tomava não a ajudavam em nada no âmbito do trabalho,
nem tampouco de sua vida social, na qual ela evoluía com desenvoltura
e interesse. No entanto, ela precisava da droga para superar uma
dificuldade cuja natureza, justamente, não conseguia precisar, e era
por isso que fora me procurar, achando que, uma vez conhecido o
obstáculo, encontraria outros meios de enfrentá-lo. Logo me ficou claro
que ela não estava procurando num psicanalista, como muitas vezes
acontece nessas circunstâncias, uma lei de mentirinha que fosse pra-
a demanda impossível da sedução feminina 81

zeroso transgredir, nos termos daquele jogo bastante perverso em que


o analista logo se vê ridicularizado (o que não é tão grave, exceto pela
perda de tempo).
O consumo de drogas, no que a concernia, devia realmente corres-
ponder a um sintoma, já que ela nunca as tomava para eliminar uma
inibição, combater uma angústia, ou segundo os moldes do prazer
perverso da transgressão de uma lei, há pouco mencionado.
Já na primeira sessão se propusera uma pista: era quase sempre de
comum acordo com seu companheiro, vinte anos mais velho, que ela
se drogava. Desconheço o que impelira e continuava a impelir este
último para essa tendência, com a qual ele parecia se satisfazer já de
longa data. Esse expediente, a seu ver, parecia subsumir todos os
prazeres, sem no entanto tê-lo levado à falência ou à decadência física,
como às vezes acontece.
O fato é que, fosse por um efeito desse hábito, fosse porque, ao
contrário, a droga lhe evitava preocupações, ele parecia dar muito pouca
atenção aos prazeres da carne. Assim, passava dias tranqüilos, sendo
agradável e amoroso com a companheira, aparentemente sem conhecer
os tormentos da libido, os sobressaltos, as reviravoltas, os rancores e
as paixões que tecem o cotidiano do erotismo. Que o amor pode
acomodar-se com uma ausência de vida sexual, ou até contrariar
francamente o desejo em certas circunstâncias, eis aí um lugar-comum
conhecido por promover a longevidade de muitos casais, cujo apego
recíproco não deixa de se relacionar com a paz que eles encontram
nessa guarda mútua. Daí a achar que minha analisanda havia adotado
as opções do homem a quem amava, inclusive ao preço de seu erotismo,
era apenas um passo, que eu me abstive de dar. Na verdade, ela
realmente devia ter tido uma forte razão para se ligar a um homem que
se interessava tão pouco por seus encantos femininos. Assim, longe de
me apressar a atribuir nobres virtudes sacrificiais ao amor, esperei que
ela falasse um pouco mais sobre o que a mantinha nesse compromisso.
Não tendo segurado a mão que o amor estendia, seria preciso mostrar
tanta prudência ao escutar o relato de acontecimentos de sua vida que
pareciam haver constituído traumas? O condicional se impunha, porque
esses acidentes eram narrados com distância, como se houvessem
acontecido com uma outra pessoa, de quem ela seria muito diferente
hoje em dia. Assim, dois acontecimentos foram contados sucessiva-
mente, não sem uma relativa frieza. No fim da adolescência, e num
contexto político que não lhe dizia respeito, uma bomba havia explo-
dido a pouca distância dela. Em conseqüência desse atentado, do qual
82 do bom uso erótico da cólera

tinha saído ilesa, vários meses haviam transcorrido antes que ela
pudesse andar normalmente na rua. Sem dúvida, isso era razão para se
apavorar por muito tempo. Mas algumas questões se colocavam: por
que o medo das ruas, por exemplo? Quais teriam sido, para ela, os ecos
mais longínquos desses rumores de guerra? Eu ainda não tinha a mínima
idéia.
Por certo igualmente traumatizante - embora, mais uma vez, não
fosse apresentado sob esse prisma - fora um acontecimento de sua
primeira infância. Para dizer a verdade, seu relato não tinha sido muito
claro, e ainda era difícil discernir o que havia de reconstrução e de
acréscimo nas lembranças e nos personagens. O fato é que, numa casa
de veraneio, um jardineiro se entregara a excentricidades exibiciJnistas
na presença da menina. É evidente que o trauma residia menos nessa
cena - as crianças inocentes vêem muitas outras - do que na falta
de reação de seu pai, ao ser informado do incidente. Numa palavra,
ele não tinha protegido a filha e, mais do que isso, podia passar por
cúmplice daquele velho obsceno, uma vez que houvera por bem não
despedi-lo. De modo que ela ligava a esse incidente seu pavor, agudo
durante toda a infância, de ter que andar sozinha por jardins, parques
ou espaços verdes ... Afinal, não podia ter medo de ver surgir das moitas
um jardineiro estuprador, saltitando ao som do riso bonachão de seu
pai?
Considerando esse trauma, não teria sido muito fácil conferir à droga
uma função de anestesia, perfeitamente apropriada para colocar o corpo
numa posição de indiferença e frieza? A frigidez, de fato, çonstitui uma
arma absoluta contra um pai a ·quem a deferência talvez impeça de
resistir, mas a quem uma acolhida gélida impedirá, pelo menos, de
tirar qualquer satisfação que seja de seu abuso. O jardineiro podia
desdobrar-se em quantos pais quisesse, mas um gelo virginal saberia
recepcioná-los em qualquer ocasião, irrealizando o desejo segundo as
normas canônicas do prazer insatisfeito.
Teria sido muito fácil, sem dúvida, contentar-me com essas aproxi-
mações, pois isso seria avalizar a vertente passiva do trauma - como
se aquilo houvesse acontecido com uma pobre criança inocente-, ao
passo que o efeito mais devastador do trauma prende-se àquilo com
que ele depara do desejo do sujeito, este plenamente ativo. O detalhe
dessas circunstâncias certamente tinha muita importância, mas ainda
era preciso esperar pelo toque que, retwativamente, lhes daria seu lastro
sintomático.
a demanda impossível da sedução feminina 83

Mal a história passada acabou de ser esquematizada em linhas gerais,


apareceram em diversos sonhos soldados alemães, brutais e cruéis como
o foram nos territórios ocupados. A repetição e a insistência dessas
cenas oníricas deixaram-na espantada. Que aqueles militares apareces-
sem ocasionalmente num sonho, ela poderia compreender com facili-
dade, já que, além de exações fazerem parte da história comum, eles
haviam marcado com um cunho indelével o povo judeu, do qual ela
fazia parte. Todavia, nunca aqueles rostos de carrascos lhe haviam
aparecido com tanta precisão, nem em seus sonhos nem tampouco,
aliás, em seus pensamentos. Eles não tinham feito parte de sua história
imediata, pois quase vinte anos separavam seu nascimento do fim da
guerra, e ela achava a insistência desses sonhos quase tão estranha
quanto se eles lhe houvessem retratado a destruição do Templo ou a
deportação para a Babilônia. Como é que acontecimentos que haviam
precedido seu nascimento em quase tantos anos quantos a analisanda
tinha de vida podiam agitar suas noites, como se se tratasse de restos
diurnos que ela tivesse que digerir penosamente durante o sono? As
peripécias desses pesadelos lhe escapavam, no entanto, e era preciso
contentar-me, nesse momento, na impossibilidade de analisá-los, com
o registro de sua insistência, tão vaga quanto repetida.
Como muitas vezes acontece numa análise, as preocupações e
pequenos acontecimentos da vida cotidiana dão ensejo a relatos mais
ou menos detalhados. Apesar de serem anódinos em si, eles não deixam
de ser sintomáticos, com tamanha freqüência, que mais vale prestar-lhes
atenção do que subestimá-los. Foi por ocasião dessas narrativas, de
aparência muito superficial, que observei em diversas oportunidades
o tom alerta que ela empregava ao descrever suas relações com suas
amigas. Não era tanto o vocabulário bastante cru que ela utilizava para
qualificar seus semelhantes que me surpreendia naquela boca graciosa,
mas sim a descrição de suas relações de amizade. Dir-se-ia que era um
soldado, falando insolentemente de suas conquistas, e não aquela jovem
elegante, sempre vestida com bom gosto e na última moda. Registrei
essa particularidade, a princípio sem dizer palavra, não tanto por temer
ser ultrapassado pelo vocabulário e pelos hábitos de uma nova geração
para a qual essa linguagem se tornou natural, mas por continuar indeciso
quanto ao sentido que convinha atribuir àquele vocabulário chulo,
utilizado por uma moça tão francamente heterossexual (quanto a sua
escolha de objeto) quanto ferozmente monogâmica.
E então, veio um dia em que a analisanda evocou uma de suas
melhores amigas de infância, a quem perdera de vista fazia vários anos,
84 do bom uso erótico da cólera

aquela sem-vergonha, disse ela, que se casou com um homem. Por


causa desse cafetão, e por um mau motivo como o amor, ela havia
desdenhado, a partir de então, os ternos laços que se haviam tecido
entre as duas no final da adolescência. "E ela fez questão de me dar
a boa notícia! ... E não é que o cara tenha se mandado, não, de jeito
nenhum, ele continua atravessado no caminho, borboleteando em volta
de sua meiga presa." Mas, por ocasião de uma longa conversa telefô-
nica, ela soubera dar um jeito e, graças a algumas manobras habilidosas,
conseguira fazer a amiga se abrir. Entre confidências amargas e con-
fissões desiludidas sobre seu quase-enclausuramento, esta lhe confes-
sara sua tristeza e finalmente se decidira a tomar uma certa distância
daquele personagem odioso, não afastando nem mesmo a hipótese de
uma vida novamente solitária, que lhe permitisse freqüentar normal-
mente suas amigas, como nos belos tempos de outrora. Como a
analisanda me confiasse mais alguns outros detalhes sobre esse acon-
tecimento, num tom tão triunfal que parecia fazer soar a derrota de um
rival, acabei por lhe assinalar essa característica, perguntando se ela
não ficava impressionada com o vocabulário conquistador que empre-
gava para descrever a situação.
A questão, embora cercada de numerosas precauções oratórias,
estava fadada a criar surpresa, depois espanto e, por fim, cólera: não
estaria eu insinuando que ela estava sujeita a alguma anomalia quanto
a seu sexo? ... em suma, será que, por acaso, eu não a estava chamando
de lésbica? ... "É verdade, qual é?, é melhor falar francamente, se é
isso que você tem na cabeça! Será que eu tenho, nem que seja
remotamente, o jeito ou o estilo de uma invertida? ... "
Na sessão seguinte, seu começo de cólera havia-se acalmado um
pouco. Mas ela precisava tirar aquela história a limpo e cortar o mal
pela raiz o mais cedo possível. Fazia questão de me participar que
havia abordado esse problema em longas conversas telefônicas com
várias de suas amigas, algumas delas muito a par das curiosidades da
vida, e que chegara à conclusão de que, na realidade, a lésbica
propriamente dita, lésbica para valer, não existia. Na verdade, tinha-se
de considerar que aquelas que amavam mulheres sexualmente só o
faziam na espera do príncipe encantado, ou só se entregavam a isso
por despeito, unicamente por terem sido decepcionadas por homens
brutos ou desastrados.
Por conseguinte, se ela não se equivocara quanto ao sentido de minha
questão, coisa de que, aliás, não conseguia ter certeza, cabia concluir
que eu me havia enganado duas vezes. Primeiro, porque ela efetiva-
a demanda impossível da sedução .feminina 85

mente não era lésbica, e segundo, porque as lésbicas não existiam


realmente ... Feito esse enérgico esclarecimento, ela então se perguntou
se poderia continuar sua análise nessas condições, falando com um
inútil como eu, que provavelmente não devia gostar muito das mulheres,
para fazer reflexões como aquelas ... Talvez fosse melhor ela interrom-
per o tratamento analítico, visto que, afinal, se fazia algumas semanas
que quase não se drogava mais, ela devia isso mais a sua vontade do que
a sua análise, que não tivera nenhuma relação imediata com esse pro-
gresso .
... Mas, enfim, já que estava ali, naquele divã, e que eu estava es-
cutando, parecendo ter-me dado conta de meus erros e ter-me rendido
modestamente a suas razões, talvez ela aproveitasse, afinal, para me
falar do sonho que tivera na noite anterior. Valia a pena, porque, pela
primeira vez, ela conseguira memorizar os detalhes de um daqueles
pesadelos em que apareciam os soldados alemães.
Iniciou então o relato desse sonho, não sem observar que, ao
contrário do desenrolar dele, que lhe parecera longo, claro e preciso,
sua narração parecia bastante curta. O conteúdo era simples: dois
homens, sem dúvida da Resistência, eram perseguidos por soldados
alemães, numerosos e decididos. O cenário da ação parecia ser qualquer
um. Isso se passava numa cidade provinciana, difícil de identificar,
cidade que apresentava as características da época, com todo um
labirinto de ruelas, pátios e quintais, sem contar os pórticos e as
escadarias, que permitiam que a perseguição fosse cheia de imprevistos
e acabasse virando a favor dos dois fugitivos, mais inteirados daquela
geografia urbana e seus acidentes. A fisionomia dos heróis deixava
uma impressão de familiaridade, embora sua identidade fosse difícil
de precisar. Um era moço, o outro parecia nitidamente mais idoso. O
mais jovem ajudava o mais velho nas passagens arriscadas, com uma
devoção absolutamente filial, naquelas condições perigosas.
"Aí está! É difícil eu dar maiores detalhes, mas devo dizer que estou
satisfeita por ter-me sido possível, finalmente, memorizar um desses
sonhos desagradáveis, que têm ainda mais jeito de pesadelos por se
evaporarem quando eu acordo. Isso não me adianta muito, aparente-
mente, e agora compete a você me ajudar! ... Estou vendo que você não
consegue, mas vou passar por cima da sua deficiência, já que você
parece estar de boa vontade hoje, depois de sua mancada da última
vez!. .. Quando você abre a boca, excepcionalmente, é mesmo meio
barra, ora ... E aí, você não pode me dizer nada? Talvez possa pelo
menos me dar alguns elementos úteis para minha cultura geral sobre
86 do bom uso erótico da cólera

os sonhos e a interpretação deles, não é? ... Me diga, doutor, o senhor


que estudou Freud, é normal eu ter um sonho como esse, onde eu
mesma não apareço em parte alguma? ... A gente não poderia perguntar,
legitimamente, de que maneira eu faço parte dessa história heróica, e
com certeza devo fazer, já que, afinal, fui eu que me dei ao trabalho
de fabricar essa sagazinha noturna ... Como disse? ... Você está me
declarando que não está muito interessado na minha cultura geral, e
que não está disposto a abastecê-la! Ora, mas, decididamente, você
não se acalmou nada! E eu que achava que estava arrependido! E ainda
vem me dizer que, se eu quiser a resposta, é só me dar ao trabalho de
examinar meu sonho com mais cuidado! Ora, lá vem você outra vez!
Será que está querendo insinuar que eu estou de fato representada no
sonho e que - por que não, nesse caso? - fui eu que me representei
sob os traços de um dos dois resistentes?! ... Só falta você dizer que eu
sou o mais novo dos dois heróis, não é? E por que parar, se está indo
tão bem? ... Continue!. .. Já que é assim, diga, por exemplo, que se eu
ajudo o mais velho a fugir, ele só pode ser meu pai, por que não?, tudo
é possível, não é? ... Pode-se dizer qualquer coisa por conta disso, já
que eu pareço estar resistindo ... Como? Agora você acrescenta que não
disse nada disso, e que toda essa construção é da minha autoria?! Mas
foi você que a sugeriu, não é evidente? Como poderia ser de outro
modo? - se da última vez você achou que eu era lésbica, hoje não
pode se impedir de me colocar no masculino! É claro que agora você
está me vendo sob os traços de um combatente das trevas, apresentação,
aliás, que me parece um pouco mais heróica!
"Semanas atrás, quando apareceram os primeiros pesadelos em que,
com toda a probabilidade, eu estava sendo ameaçada pelos nazistas,
você me perguntou se eu sabia quais tinham sido as atividades do meu
pai durante esse período da Ocupação, tão terrível para minha família.
Eu lhe respondi que não sabia, e que ninguém do meu meio nunca
tinha me falado disso na minha infância. Mas refleti sobre a sua questão,
e a resposta, aliás, me parece bem simples de formular. Acho que, na
época, meu pai devia ser novo demais para ter qualquer participação
nos combates. Em contrapartida, hoje que estou voltando a pensar
nisso, diz a lenda familiar que o pai do meu pai teria se portado muito
mal durante toda a guerra. Teria abandonado a família na zona livre,
a pretexto de que, sem a sua presença, a clandestinidade dos familiares
seria mais fácil. E teria ido refugiar-se em Mônaco, onde dilapidaria
a fortuna da família em companhia de criaturas frívolas, dessa vez
pretextando que, ao fazer um espalhafato daqueles, ele se fundiria
a demanda impossível da sedução feminina · 87

melhor no cenano e teria mais facilidade de passar despercebido ...


Aliás, talvez não estivesse errado, porque, afinal, quase todos nós
saímos vivos ... Percebo que acabei de dizer nós ... Então, será que você
teve razão em dizer que eu realmente apareci nesse sonho, sob os traços
do jovem maqui?
" ... Agora você me pede para esclarecer que idade tinha meu pai
nessa época ... bom, entre quinze e dezenove anos. Ao dizer isso,
percebo que ele não era tão jovem assim, e sem dúvida estava na idade
de pegar em armas, é verdade. Aliás, é mais fácil a gente pegar em
armas nessa idade, quando a injustiça é gritante demais ... Mas, não
tenho nenhuma vontade de me curvar às sugestões que você está me
fazendo de novo, e não vou procurar saber o que aconteceu. Na
realidade, não quero saber nada do que aconteceu durante aquele
período pavoroso. Você tem que parar de fazer essas perguntas. Não
quero saber, em absoluto, o que meu pai fez naquela época horrível..."
A temporalidade do tratamento, a crueldade da história e o tato que
se impunha levaram-me, de fato, a não perguntar mais. Aliás, não
estava a investigação encerrada quanto ao essencial? Ela já sabia o que
havia por saber: não era tanto que temesse a indignidade do pai, mas
é que respondia como se estivesse certa de antemão. Assim, não queria
saber nada que pudesse lançar alguma dúvida sobre suas certezas. O
que ainda ignorava era a função atual exercida por essa convicção para
ela. Será que a suposta indignidade do pai desempenhava algum papel
em sua vida cotidiana, organizava seus dias sem que ela o soubesse?
Refletindo sobre o encadeamento das últimas sessões, realmente
parecia que a amnésia incidente sobre seus primeiros pesadelos havia-se
desfeito, vivamente, aliás, quando eu a interrogara sobre a maneira
brusca com que ela tratava suas relações femininas. Isso parecia
provável, já que não fora preciso nada além dessa questão para que ela
pudesse lembrar-se de um primeiro sonho em que efetivamente se
identificava com um homem. A rigor, que é que se evidenciava? Que
ela estava menos identificada com um homem do que com o herói que
seu pai deveria ter sido, se não tivesse sido um personagem tão indigno
quanto ela o supunha. Nesse caso, conviria crer que esse pai só era
indigno segundo seu desejo, uma vez que, na realidade, ela não tinha
nenhum esclarecimento sobre o que efetivamente havia acontecido?
Abandonando qualquer idéia compassiva sobre o trágico da história,
porventura não cabia deixar essa seqüência em seu devido lugar no
desenrolar da totalidade da análise, não devia o demérito paterno ser
relacionado com uma outra cadeia de pensamentos, a de que o pai não
88 do bom uso erótico da cólera

a havia protegido das exibições do jardineiro? Não querer saber nada


sobre aquilo que pudesse questionar um eventual demérito paterno
adquiria, assim, seu valor sexual. Desse modo, o estrago da guerra -
o atentado - e o lrauma sexual - o atentado ao pudor - podiam ser
articulados, e, se era verdade que o vício da droga não tinha nenhuma
função direta de manter a amnésia, nem por isso ele deixava de ter
lugar num tipo de ligação amorosa que vinha dar-lhe seguimento.
A questão que se colocava era saber se o uso de entorpecentes não
correspondia ao momento em que o sintoma histérico não conseguia
mais conter os efeitos do trauma e, por conseguinte, era preciso recorrer
a esse expediente. Com efeito, a fixação "normal" do sintoma, tal
como se produz, por exemplo, em conseqüência da fantasia de sedução,
requer a existência de duas instâncias da paternidade: é preciso, de um
lado, um pai potencialmente violador, e de outro, uma segunda instância
paterna que permita simbolizar a primeira. Ora, no que concernia a
minha analisanda, não teria havido uma grave carência dessa segunda
instância, já que, em seus sonhos, ela se identificava repetidamente
com o pai de que teria precisado para escapar à perseguição? Se essa
hipótese se confirmasse, o consumo de drogas teria tido o sentido de
uma letargização do corpo, de uma resistência passiva a qualquer
sedução, por intermédio do sono dos sentidos. O entorpecente seria,
nesse caso, o pai que lhe faltava, vindo no lugar do sintoma, barreira
útil a seu pudor, senão a sua virgindade. Assim, ela poderia continuar
como uma Bela Adormecida no bosque, passível de ser despertada por
um príncipe, se a vinda dele não fosse das mais problemáticas, uma
vez que todo homem possuidor dos atributos masculinos evocaria
prontamente o violador.
Portanto, talvez fosse porque a duplicidade paterna já não garantia
a fixação do sintoma, segundo o jogo normal da sedução histérica, que
essa jovem havia recuado para a linha de defesa passiva da droga, da
qual parecia ser difícil prescindir, já que, de um lado, era inevitável
que o pai lhe parecesse sexualmente sedutor e, de outro, ela estava
convencida da indignidade que o mantinha nessa postura.
Sua luta onírica contra o nazismo, portanto, corria o risco de
revelar-se demorada, uma vez que ela se abstinha criteriosamente de
verificar acontecimentos sobre os quais sua versão lhe permitia travar
essa luta, preferindo encarnar nos sonhos a conduta que o pai deveria
ter tido, se tivesse ficado à altura. Com o uniforme da Gestapo,
perenizava-se apenas a imagem dos violadores, cuja série fora iniciada
pelo personagem do jardineiro e acabara subsumindo o avô - este,
a demanda impossível da sedução feminina 89

famoso pelo temperamento volúvel e pelo cinismo, diante do acúmulo


de lendas espalhadas a seu respeito como símbolo do homem sexual-
mente perigoso.
Teria esse circuito infernal alguma possibilidade de ser interrompido
graças à análise, ou, mais exatamente, graças ao amor transferencial?
Era o que não se mostrava tão evidente. Eu ficara impressionado, logo
no começo dessa análise, com um estranho acontecimento. Essa pa-
ciente, quase que imediatamente após as primeiras sessões, havia
parado de se drogar regularmente. E, a despeito de todas as qualidades
que posso me atribuir, era difícil creditar esse sucesso imediato à aná-
lise, que ainda não tinha analisado coisíssima alguma. Era mais razoável
pensar que se tratava de um efeito da transferência, menos porque a
analisanda quisesse, graças a essa sedação, reduzir as despesas de
sessões que lhe custavam caro do que por sua possível suposição de que
me encantaria que ela se contivesse um pouco. Portanto, ela estava
procurando me agradar, nem mais nem menos do que no quadro da
sedução histérica. Logo, era preciso demonstrar uma prudência calcu-
lada e empregar a vacilação, como se aquilo me deixasse basicamente
indiferente (porém não demais, tampouco). Sob essa condição, haveria
uma possibilidade de que se confirmasse uma simbolização, graças ao
homem da transferência, famoso por sua impotência sexual ( ... mas,
quem pode ter certeza?), exceção experimental que reitera na terra o
milagre da desencarnação. O sintoma, portanto, poderia encontrar seu
limite no quadro da transferência, embora não sem perigo, já que
qualquer sucesso que pudesse seduzir-me traria o risco de anunciar,
ao mesmo tempo e proporcionalmente, a iminência da recaída.
Porventura essa dificuldade não foi evidente, por exemplo, na
seqüência seguinte? Acabavam de se passar quinze dias de abstinência,
pelos quais ela talvez esperasse algum sinal de contentamento de minha
parte, mas eu me abstivera disso, agindo como se nada houvesse. Veio
então uma sessão em que, depois de alguns ditos anódinos, ela me
anunciou que, ao mesmo tempo, fazia quatro dias que não comia
praticamente nada, estando totalmente sem apetite, ao passo que, por
outro lado, sentia uma viva euforia, que estava longe de lhe ser habitual.
E, como eu continuasse a me abster, fosse de felicitá-Ia por sua
temperança, fosse de me inquietar com seu jejum, ela iniciou o relato
de um sonho que, à primeira vista, parecia inserir-se - sem trazer
grandes novidades - na série já então monótona de seus devaneios
guerreiros.
90 do bom uso erótico da cólera

Mas, na realidade, esse sonho apresentava, pela primeira vez, duas


seqüências nitidamente articuladas, que punham em cena as duas
figuras paternas necessárias à fixação do sintoma. Numa primeira parte,
ela se via perambulando por uma cidade na companhia... de um
exibicionista! Que surpresa! Era um passeio bem estranho, porque, ao
contrário de suas habituais reações de nojo ao deparar com esses
personagens, desde sua infância, essa presença provocadora não a
incomodava nem a angustiava. Não estava ela conversando com esse
companheiro casual como se fosse um de seus familiares, e como se
fosse perfeitamente natural ou anódino que, em seguida, ele desse
alguns passos a seu lado na rua? Não havia nada mais simples, apesar
de tudo em que ela sempre acreditara, do que andar naquela companhia!
O passeio onírico desenrolava-se, mais uma vez, em meio ao cenário
de cidade do interior que vinha sendo propício a suas noites desde seu
ingresso na resistência, e fora com prazer que ela o havia iniciado.
Mas, de repente, o cenário se modificara, ao dobrar uma esquina. Ali,
os nazistas tinham erguido uma barreira; eles eram numerosos e
ameaçadores, e qualquer recuo, sobretudo naquela companhia provo-
cadora, ter-se-ia revelado mais perigoso do que seguir em frente.
Somente a astúcia parecia convir para superar aquela provação.
O sonho não dava detalhes sobre os subterfúgios que tiveram de ser
empregados, mas todo o mérito por esses estratagemas coubera, sem
dúvida alguma, à sonhadora, mais uma vez representada numa postura
heróica. Ao longo de diversas manobras, o resultado fora que os
soldados alemães tinham sido tapeados e, com as armas abaixadas,
como se nada houvesse, tinham deixado passar os dois caminhantes,
dos quais ao menos um estava circulando numa atitude pouco discreta.
Esse sonho não constituía uma inovação? Em nenhum momento
anterior as duas funções paternas, sexual e simbólica, tinham sido tão
claramente articuladas entre si. A provocação sexual havia perdido seu
valor tirânico, e fora sem confronto nem derramamento de sangue que
se superara a barreira da perseguição, também ela paterna, já que quem
não havia combatido tinha sido colaboracionista, e quem havia cola-
borado estava, na verdade, no campo do inimigo, onde a sonhadora
também situou, portanto, um dos avatares paternos. Teriam o disposi-
tivo psicanalítico e a presença do analista permitido transpor o plano
de uma identificação alienante, materializada, no caso, na barreira
nazista?
Não foi sem uma pontinha de entusiasmo que assinalei o aconteci-
mento que, embora unicamente psíquico, parecia-me revestir-se de uma
a demanda impo.uível da ud11ção feminina 9l

importância muito maior do que duas semanas de contenção, uma


contenção obtida sob o jugo fraudulento de um amor transferencial de
destino essencialmente efêmero. E devo ter deixado transparecer algum
contentamento em minha maneira de aprovar e de solicitar esclareci-
mentos suplementares sobre as diferentes seqüências do sonho.
Três dias depois, fiquei sabendo que, ao sair dessa sessão, ela se
precipitara para a lanchonete mais próxima ainda aberta àquela hora,
e depois para uma confeitaria, terminando a noite com um consumo
de drogas tão importante quanto no passado. Esse incidente, que a
seqüência mostraria ter sido um fato isolado, indicou, sem dúvida
alguma, que eu teria feito melhor em exibir um pouco menos de
entusiasmo e um pouco mais de neutralidade. E a pulsão oral tinha
sido o barômetro de minha reserva insuficiente. Não é a pulsão oral
o refúgio da histérica quando o pai é demeritório, porventura não
constitui o pólo matemo para onde ela regride, quer se empanturre
ou se drogue? (Como todo barômetro, aliás, esse só fez dar informa-
ções já evidentes; e as apontou, além disso, numa língua regressiva
que, podendo traduzir-se em múltiplos idiomas, tinha somente um
valor arqueológico.)
Os arroubos da pulsão oral indicaram, assim, um certo estado da
transferência, aliás muito provisório, já que, uma semana depois, o que
ela indicou foi a pressão reinante num outro território: de fato, fiquei
sabendo, não que a analisanda houvesse perdido o apetite outra vez,
mas que estava sendo movida pelo que qualificou de apetite sexual.
Havia recuperado, segundo disse, seu instinto sexual, expressão que
desdenhava a amnésia, já que ela declarou, ao mesmo tempo, que nunca
tinha experimentado isso antes. Até onde conseguia lembrar-se, o sexo
sempre a havia repugnado secretamente, e somente a afeição pelos
companheiros a tinha ajudado a suportar suas investidas e seus jogos
amorosos. Agora, constatava que o desejo dos homens de seu círculo
a interessava e a divertia, enquanto, antes, sentira repulsa por ele, ou
até vontade de vomitar, como já lhe acontecera algumas vezes.
Na seqüência desse trabalho, os sonhos de guerra iriam espaçar-se
e, depois, cair em desuso. Aliás, a própria análise foi interrompida por
algumas semanas, por causa de uma viagem que achei, ainda sem poder
confirmá-lo, que não deixava de se relacionar com os progressos da
analisanda. Por motivos profissionais, segundo me disse, ela precisava
ir a Israel, Gaza e, depois, ao Sinai. Não estaria indo buscar alguma
conciliação secreta na terra de seus ancestrais, depois de haver aqui-
92 do bom uso erótico da cólera

!atado o vín.culo sintomático que a ligava a eles? Na volta, ela ainda


deixou passar algum tempo antes de tornar a me procurar, como se
esse intervalo devesse significar uma travessia irremediável.
Várias semanas depois, todavia, um sonho de guerra tomou a se
apresentar. Comportava uma característica nova, surpreendente, quan-
do comparada à longa série das hostilidades oníricas anteriores. Com
efeito, nessa nova versão, os protagonistas das operações bélicas
haviam mudado de sexo. Não apenas minha analisanda aparecia nele
com seus próprios traços, sem se revestir do menor aparato militar que
pudesse fazê-la situar-se no campo dos homens, como também o motivo
da beligerância, aliás obscuro, dizia respeito apenas às mulheres. Que
nos mostrava esse sonho? Um certo combate, de móbeis imprecisos,
acabara de chegar ao fim ... e a sonhadora via-se sozinha no que devia
ter sido um campo de batalha. Talvez viesse a sair vitoriosa, mas ainda
tinha que atravessar o campo de batalha, um vasto espaço coberto de
carcaças calcinadas e cheio de engenhos explosivos. Assim, ela ia
avançando com precaução por essa no man 's land, • evitando as minas
sofisticadas, que pareciam uma espécie de balõezinhos. Seus inimigos
nem sequer se tinham dado ao trabalho de dissimulá-las, porque essas
bombas inteligentes possuíam a temível característica de detectar os
pensamentos de quem se aproximava delas e, conforme o conteúdo
desses pensamentos, explodir. Portanto, só havia um meio de evitar a
morte, que era pensar convenientemente, pelo menos segundo a orto-
doxia em vigor no país das minas. Em caso de heresia ideativa, era
morte certa. Aquela era uma situação em que era preciso agir sem
pensar, lançar-se adiante sem refletir! E foi o que ela fez, percorrendo
sem incidentes metade do caminho que a separava de uma paz vitoriosa.
Ia iniciando o resto do percurso quando, de repente, surgiu em sua
mente um pensamento que, no mesmo instante, ela teve certeza de que
seria imediatamente explosivo ... Ocorreu-lhe a idéia - imaginem só!
- de que ela tinha alguma coisa a menos. E como, apesar de seus
esforços, não conseguisse refrear esse juízo catastrófico, a deflagração
simultânea de várias minas interrompeu o sonho (que, apesar de seu
epílogo, ela não qualificou de pesadelo).

• "Terra de ninguém", cuja tradução literal, vale ressaltar, seria "terra de homem
algum". (N.T.)
a demanda impossível da sedução feminina 93

Ao ouvir esse relato, logo pensei no atentado à bomba que, vários


anos antes, acontecera em suas imediações, e que ela havia descrito
como um dos traumas dignos de explicar seu sintoma, no início da
análise. Era uma aproximação ainda mais interessante na medida em
que o pensamento explosivo do sonho, isto é, que ela tinha alguma
coisa a menos, parecia relacionar-se com a castração. Se fosse real-
mente isso, a causa de seu sintoma teria sido, com efeito, o trauma da
castração. Mas essa intuição ainda era apenas uma hipótese, que trazia
o risco de me impedir de escutar as primeiras associações que lhe
ocorressem depois desse relato.
Existia, disse ela, uma história muito parecida com a de seu sonho,
contada por Alexandre Dumas em Vingt ans apres. Numa de suas
aventuras, um dos mosqueteiros tinha que explodir uma bomba, insta-
lada por ele no porão da casa de seus inimigos. O explosivo da época,
é desnecessário dizer, não sabia detectar pensamentos, e era preciso
acender artesanalmente o pavio, antes de se afastar o mais depressa
possível. O mosqueteiro em questão era um homem de ação corajoso,
que se distinguia por sua eficiência e possuía uma reputação perene-
mente glorificada nos exércitos: a de executar as ordens sem nunca
pensar em nada. Assim, acendeu escrupulosamente o pavio, continuan-
do a não pensar em nada. Mas, desastradamente, uma vez executado
esse gesto irreversível, o mosqueteiro pensou, muito provavelmente
pela primeira vez na vida. Cogitações mortais, uma vez que ele se
esqueceu a tal ponto das circunstâncias, que a bomba explodiu antes
que caísse em si.
Ao escutar esta última associação, minha prevenção levou-me a
considerá-Ia uma denegação bastante astuciosa dos pensamentos do
sonho. Vi nela, por um lado, um esforço de negar a novidade do sexo
da combatente, posto que o mosqueteiro tinha um ar bastante viril, e
por outro, uma tentativa de edulcoração do pensamento conflagrador,
que certamente não era a burrice com que poderíamos qualificar o
mosqueteiro, mas a confissão da falta.
Não tendo nenhuma razão para me contentar com minhas intuições,
mesmo diante de formulações tão convincentes, pedi-lhe esclarecimen-
tos sobre seu pensamento explosivo: que era, afinal, essa alguma coisa
a menos? É evidente que eu esperava que ela evocasse, senão um termo
tão técnico quanto falo, pelo menos a diferença dos sexos. Eu esperaria
uma formulação mais ou menos dessa ordem, não porque o saber
freudiano permitisse pressagiar isso, mas porque, impondo-se a com-
94 do bom uso erótico da cólera

paração desse sonho com os sonhos belicosos anteriores e havendo


mudado o sexo dos guerreiros, a frase concernente à "falta" parecia
beneficiar-se de um sentido unívoco.
Pois bem, não foi isso que ouvi, porque, em resposta à minha ques-
tão, ela considerou que havia perdido apenas sua inconsciência. Agora,
teria de conseguir viver reconhecendo realidades que, até pouco antes,
tinham-lhe sido totalmente opacas. Era por isso que as minas explo-
diam. Sua consciência da vida fazia tudo saltar pelos ares, a começar
por ela mesma, e, se ainda havia uma coisa pela qual ela podia se
felicitar, era sua aptidão a ser tão estúpida quanto o mosqueteiro (antes
que ele tivesse aquela idéia besta de pensar). Acaso não lhe cabia
felicitar-se por sua capacidade, assim preservada, de um dia ser feliz?
E que lhe importava a inépcia de sua felicidade, se ela devia evitar as
conflagrações?
Esse exemplo clínico tem o interesse de mostrar a continuidade que
existe entre o sofrimento do sintoma e a duplicidade paterna, e teremos
observado que assim são ativados os mesmos termos que, de maneira
igualmente explosiva, animam o erotismo da cólera.

Apanhado sobre a evolução respectiva do erotismo feminino


e do mito paterno

Os exemplos que acabam de ser fornecidos têm o interesse de situar


o paradoxo que a sexualidade feminina tem de enfrentar. A" castração",
como realidade psíquica atualizada pelas mulheres, leva-as a considerar
que "alguma coisa" lhes é devida: não apenas honrarias ou conside-
ração, mas uma compensação que elas reivindicam com maior ou menor
vindita. Como o que constitui o objeto de sua demanda é também o
que a maioria dos homens está disposta a lhes dar, tudo deveria
arranjar-se numa harmoniosa complementaridade. Infelizmente, não é
nada disso! Pois não é qualquer homem que é digno de proporcionar
a reparação de um dolo mais imaginário que anatômico. Como o homem
conveniente deveria ter a fibra paterna, e como o pai é justamente
aquele que é sexualmente interditado, vislumbra-se a dificuldade,
ilustrada nas páginas precedentes.
Para concluir este apanhado geral, cabe ainda acrescentar que a
posição do erotismo feminino procede de sua relação com o patriarcado
e com o mito paterno da sociedade em que ele se manifesta. E, bem
a demanda impossível da sedução feminina 95

mais que a do homem, a relação da mulher com essa imagem do pai


passou por revoluções irreversíveis nos últimos dois séculos. Se houve
um acontecimento de peso, cuja totalidade das conseqüências ainda é
difícil de prever, trata-se do que se costuma chamar de liberação da
mulher. Entretanto, essa liberação não seguiu um rumo qualquer e, se
os sucessos do feminismo resultam, em parte, de uma luta de idéias,
eles também procedem, numa parte não menos importante, de urna
evolução dos costumes e de uma relação com a sexualidade que situa
o ideal feminino de urna outra maneira (em sua relação com o mito
paterno).
Desde Sade, para tomarmos esse ponto de referência, que é signi-
ficativo por pretender acabar de uma vez por todas com o ideal do
amor cortês, e segundo um gradiente progressivo, mas rápido, o lugar
atribuído à imagem da mulher modificou-se. (Tanto assim que um
vendedor de queijos que queira desfazer-se de seu excesso de estoque
terá um certo interesse em enaltecê-los com a ajuda de uma starlet, ao
passo que uma imagem devota resolveria melhor essa questão há menos
de dois séculos.)
Quase a meio caminho entre a época de Sade e a nossa, a obra de
Zola permite supor que uma mulher que quisesse ser livre só podia
contar com seus encantos, pelo menos se não quisesse dever sua
independência a ninguém em particular. O que equivale a dizer que a
mulher liberada da época emergia do bordel. E que, antes de dar a um
queijo um valor publicitário, a beleza foi um desses queijos.
Segundo a ideologia da Revolução Francesa, somente os irmãos (e
não as irmãs) eram cidadãos, e como daí resultava, inversamente, que
todo cidadão era irmão, quem quer que ocupasse o poder era um
usurpador em potencial. Aliás, foi para destruí-lo ativamente que se
empenhou, desde essa época, essa espécie de um novo gênero, essa
especialidade francesa que é o intelectual de esquerda. Zola é, incon-
testavelmente, um de seus mais dignos representantes. Lembramo-nos
disso graças a uma de suas heroínas, cuja ascensão e queda são descritas
em seu romance Naná, onde o escritor denuncia os detentores do poder
a quem abomina. De um lado, o pai desmorona, e de outro, a mulher
se liberta, segundo vias muito particulares.
Nos dias atuais, tendo esgotado seu percurso romanesco, o termo
"naná" designa, na linguagem coloquial, urna mulher jovem, e já não
traz nenhum vestígio visível de seu passado de aventureira. Um século
antes, na pena de Zola, e tendo saído do nada, Naná subjugava os mais
96 do bom uso erótico da cólera

altos dignitários 3 da sociedade. O escritor, que lhe delegou seus poderes


de vingador4 e procurador, fez dela o exutório de sua ira, fustigando
através dela os costumes dos poderosos do Segundo Império. Conferiu
às prostitutas, sacerdotisas de um novo templo, uma função purifica-
dora.5
Que essa mulher" com um sorriso incisivo de comedora de homens"
possuísse tamanho poder, caberia atribuí-lo apenas a sua beleza, a um
encanto que, fosse em que circunstância fosse e em todos os lugares,
lhe valeria ser distinguida e elevada à categoria das primeiras? Nada
é menos certo. Ela devia sua atração, antes, ao lugar que lhe era
conferido no palco de um certo teatro. Naqueles cavaletes simbólicos
concentravam-se os olhares do que a vida parisiense tinha de mais
mundano, 6 fazendo daquela que neles se firmava, e somente nesse
momento, o objeto de todas as cobiças, vindo a admiração de um
produzir prontamente a do outro, quando não decuplicá-la.
A alta roda de Paris, a aristocracia dos boêmios e dos abastados,
nunca a adulava tanto quanto nos momentos em que, sem nada desco-
nhecer de suas origens prostituídas, sabia que atirar-se a sua conquista
era caminhar para a ruína. Não era assim que os panfletos dos jornalistas
a descreviam? Para quem quisesse ver sua fortuna devorada, bastava
freqüentá-la, e não parecia faltar apetite à comilona, a julgar pelas
metáforas canibalescas que descreviam sua atividade. 7 A lista dos
homens arruinados por ela circulava de boca em boca, exacerbando
seu erotismo e prometendo a quem o quisesse, sem nenhum disfarce,
o encanto de sua perdição. Era a aniquilação certeira, portanto, o que
havia de fascinante nela, como se Naná se houvesse transformado numa
espécie de altar sacrificial semelhante ao que, pouco tempo antes, levara
os abastados a destinarem parte de sua fortuna aos oficiantes do culto,
a suas pompas e suas obras. Toda a sua beleza de nada lhe teria servido,
se a ela não se acrescentasse essa fascinação.
Se o romance de Zola contém alguma verdade histórica, dele
havemos de concluir que poucas épocas foram tão subjugadas pela
imagem da prostituta. Esta, longe de ser um simples instrumento de
prazer recompensado por seus serviços, aparece como a senhora de um
jogo em que escolhe, um após outro, aqueles que serão seus escravos,
antes de serem rejeitados. Sem dúvida, a prostituição tem a reputação
de ser a mais antiga profissão do mundo, 8 mas, será que algum dia
teve tamanho lugar numa sociedade, a ponto de ter tanta repercussão
na literatura mais cotada da época? Isso nunca aconteceu. Quando, em
a demanda impossível da sedução feminina 97

Manon Lescaut, o abade Prévost narra as tribulações de uma heroína


que sempre prefere um pretendente rico a um amante pobre (muito
embora ame este último), é verdade que Manon se relaciona com
homens ricos, mas a aristocracia lhe permanece fechada, particulari-
dade esta que constitui, aliás, o nó da intriga.
Novos tempos! Não é apenas que, na época de Zola, o bordel se
houvesse tomado um lugar mais reconhecido de iniciação sexual, que
permitia à juventude perder a ingenuidade, enquanto, em termos mais
amplos, oferecia um exutório para as vidas familiares, por demais
austeras. A novidade estava, antes, em que era no bordel que se
encontrava a Mulher maiúscula, apontada a todos os homens como o
Ideal de sedução a ser conquistado - se preciso fosse, a peso de ouro.
Tal mulher só podia provir dali, mesmo que depois fosse eternizada
sob as luzes da ribalta. Uma vez retirada da sarjeta, Naná, por exemplo,
poderia ter sido apresentada pelo diretor do teatro, que garantia sua
promoção, como uma descoberta dele, de passado talvez duvidoso,
mas que seu talento tão deslumbrante levaria a esquecer. Longe disso,
era em altos brados, pelo contrário, que o diretor reivindicava que seu
próprio teatro fosse qualificado de bordel. Assim, corrigindo as cir-
cunlocuções de um jovem aristocrata que visitava o lugar pela primeira
vez, "diga meu bordel!. .. ", exclamou ele em vários momentos. Esses
termos deviam definir, segundo ele, o tablado em que brilharia aquela
que estava destinada a exercer seu império: "De repente ... a mulher
pôs-se de pé, inquietante, trazendo o acesso de loucura de seu sexo,
descortinando a incógnita do desejo. Naná continuava sorrindo, mas
com um sorriso incisivo de comedora de homens."
O desejo das altas rodas de Paris, tanto o da aristocracia quanto o
das finanças, marchava, assim, ao compasso do bordel. Mais conviria
dizer, aliás, o desejo da Europa, já então unida por essas vias premo-
nitórias, como terá observado o leitor ao tomar conhecimento dos títulos
dos amantes das mulheres de reputação duvidosa da época. 9
A burguesia e a aristocracia, desde então, foram postas no mesmo
saco, medidas pelas cortesãs pelo parâmetro de sua liquidez, mais do
que pelas virtudes honoríficas de seus títulos ou suas proezas. Não é
que, de vez em quando, os que podiam fazê-lo se oferecessem algumas
intimidades secretas com as beldades em evidência na época. Antes,
as cortesãs haviam-se transformado no objeto central do desejo, que
todo homem respeitável devia cobiçar, desde que possuísse algum
patrimônio. 10
98 do bom usu erótico da cólera

A meio caminho entre a época de Sade e a nossa, portanto, a


prostituta foi festejada como se encarnasse um ideal feminino cujo
erotismo era proporcional às devastações que ela era passível de causar.
Mas só teve esse papel nas ficções literárias. Até pouco tempo atrás,
acaso as ligações com mulheres sustentadas ou de reputação duvidosa
não faziam parte das normas da vida burguesa? Numa sociedade que
afirmava cada vez mais francamente sua laicização, o dinheiro serviu,
ao menos por algum tempo, como critério de ereção do desejo, uma
vez que as notas do Banco de França permitiam idealizar uma imagem
da mulher à altura do preço que ela cobrava. Antes que isso ocorresse,
uma mulher só era desejada em caráter excepcional, e mesmo assim
com vergonha, em função de seu valor de troca no mercado dos homens.
Desse modo, existiu uma interessante etapa de idealização da mulher.
A caminho de sua liberação, a modesta" naná" moderna, cuja ancestral
foi arrancada do bordel, vai subindo de escalão, passando da mulher
de reputação duvidosa à mulher de teatro, de cabaré ou de letras,
também elas mulheres "públicas" num outro sentido, para se aproximar
do ideal que elegemos atualmente, um ideal que, como qualquer outro,
não pode renegar suas origens.
"Fazer os homens pagarem" é uma modalidade de taxação do desejo
que ultrapassa a remuneração merecida por uma certa mercadoria a
partir do momento em que ela é posta em circulação num mercado.
Por um lado, os homens implicados encontram uma vantagem nisso,
que é a de conciliar a divisão de seu desejo entre a imagem da mamãe
e a da puta. Por outro lado, as mulheres que se prestam a isso não o
fazem sem uma garantia, e o dolo imaginário que elas vingam, graças
ao dinheiro, coloca-as de antemão em pé de igualdade com os homens
em matéria de maldade.
É evidente que a filiação da "liberação" feminina que acaba de ser
evocada mereceria ser examinada através de numerosos sintomas. Por
exemplo, nunca se ouviu nenhuma das virulentas associações feminis-
tas norte-americanas questionar as incríveis pensões alimentares plei-
teadas por suas concidadãs, que consideram uma afronta ver-lhes
restituída a liberdade. Sem falar das recentes leis que reprimem o
assédio sexual do outro lado do Atlântico, leis estas que, à parte suas
conseqüências cômicas, não apenas fazem alguns homens pagarem pela
expressão agressiva de seus desejos, como fazem recair uma suspeita
de agressividade sobre o desejo masculino em geral. Justificadamente,
aliás, de modo que essas leis, como muitas outras, decerto terão sido
promulgadas com o objetivo expresso de serem deliciosamente trans-
gredidas.
a demanda impossível da sedução feminina 99

NOTAS
1. A mais conhecida equação freudiana dessas equivalências é, por exemplo, pê-
nis = fezes = filho, mas também = dinheiro. Quem não se apercebe de que a
fantasia de prostituição encontra um álibi nisso?
2. Cf. Paulina 1880, de Pierre Jean Jouve.
3. " ... Seu sexo, forte o bastante para destruir todo esse mundo, sem ser maculado
por ele"; " ... seu sexo elevava-se e reluzia sobre suas vítimas prostradas."
4. Pois o escritor não confidenciou a Goncourt, um dia, que precisava estar
encolerizado para que lhe viesse a inspiração?
5. " ... Como dizia Vandeuvres, as moças vingavam a moral limpando a caixa."
6. Zola escreveu que, no momento em que um personagem real visitava sua
heroína no camarim, "O mundo do teatro era um prolongamento do mundo
real, numa farsa grave, sob o vapor ardente do gás. Naná, esquecendo que
estava de calças e corpete sobre a pele, bancava a grande dama, a rainha Vênus,
abrindo seus pequenos aposentos às personalidades do Estado."
7. "Naná, em poucos meses, comeu-os vorazmente ... "; "A cada bocado, Naná
devorava uma jeira."
8. Adágio cristão cuja veracidade conviria, aliás, verificar em outras culturas.
9. Assim, no primeiro banquete oferecido por Naná, somos informados de que
"todas sonhavam com algum capricho real, com uma noite paga com uma
fortuna"." - Diga-me, meu caro-perguntou Caroline Hecquet a Vandeuvres,
inclinando-se: -que idade tem o imperador da Rússia? ... Mas Blanche fornecia
detalhes sobre o rei da Itália... e ficou aborrecida quando Fauchery lhe garantiu
que Vítor Emanuel não poderia comparecer. Louise Violaine e Léa estavam
apaixonadas pelo imperador da Áustria. De repente, ouviu-se a pequena Maria
Blond, que dizia: - Aquilo é um velho magricela, o rei da Prússia!. .. Estive
em Baden no àno passado. Sempre o encontrávamos com o conde de Bismarck.
- Olhe! Bismarck - interrompeu Simone, - eu o conheci ... Um homem
encantador."
10. Como, por exemplo, o banqueiro Steiner, que" ... as queria a todas; não podia
aparecer uma no teatro sem que ele a comprasse, por mais cara que fosse.
Citavam-se somas."
Observações sobre as preliminares
da excitação sexual

A mecânica da ereção seria um fenômeno fácil de compreender, caso


se definisse como o evento necessário que acompanha o desejo até sua
satisfação, seja ela ortodoxa ou não. Ora, o desejo está longe de ser
sempre seguido pelo efeito fisiológico esperado. Inversamente, aliás,
a turgescência em questão às vezes aparenta não ter objeto, presente
ou até fantasístico, e a ereção parece resultar de um excesso de força
viva que se descarrega como pode, com a ajuda de fantasias conscientes
ou inconscientes, sem que uma pessoa física em particular pareça ser
a causa desse acontecimento.
Ocorre que nem todas as ereções respondem aos mesmos estímulos,
se podemos tomar emprestado por um instante esse vocabulário pav-
loviano. Pouquíssimas delas unem o amor e a sexualidade, segundo o
impulso que qualifica propriamente o domínio do erotismo, com a
pessoa amada causando diretamente a excitação. O desencadeamento
da maioria das outras ereções merece ser aparentado, antes, com o
domínio do auto-erotismo, na medida em que procede da excitação
pulsional: uma certa parte do corpo, o olhar, a voz, uma postura ou
uma situação dão ao amante mais ímpeto de morder, beijar, exibir e
brutalizar do que qualquer sentimento nobre, ou mesmo do que a atração
estética.
De acordo com uma concepção simplificada, o auto-erotismo é
freqüentemente assimilado ao prazer solitário. No entanto, seria mais
exato defini-lo como o prazer que se obtém graças à excitação de
diferentes pulsões parciais. Por exemplo, o tato, o olhar, a boca, o cheiro
etc. podem proporcionar um prazer que ainda não é o do ato sexual -
observações sobre as preliminares da excitação sexual 101

uma realidade figurada pelo termo convencional "preliminares". É


verdade que, nessa ocasião, há um parceiro presente, mas a excitação
em causa permanece auto-erótica porque cada protagonista entra nisso
menos a título de uma pessoa do que como um conjunto de zonas
erógenas correspondentes às pulsões parciais. O objeto, mais do que
o sujeito, é como que cortado em pedaços, conforme a necessidade, e
assim -se reduz a seus seios, sua altura, sua boca etc. O parceiro sexual,
como totalidade, passa então para o segundo plano, devendo ser
mentalmente apresentado em partes separadas, de acordo com certas
partes atraentes de sua anatomia, para que daí resulte o efeito eréctil
esperado. Essas partes prazerosas correspondem, cada qual a seu modo,
à satisfação de uma pulsão. O despedaçamento realizado pelo auto-
erotismo anula o parceiro como pessoa e o reduz, inocentemente, a um
conjunto de pedaços. Mais ainda, o simples funcionamento da pulsão
pode prescindir da presença de qualquer parceiro sexual, permitindo
obter o mesmo glorioso resultado. O ato de ver, de comer, de ouvir,
ou qualquer outra sensação passível de responder pelo auto-erotismo
pulsional, podem assim provocar, sub-repticiamente, uma tumescência
incompreensível.
Entretanto, quando um protagonista é inexistente a ponto de nem
mesmo aparecer nas fantasias, a não ser posteriormente ao estado de
excitação, não seria melhor, mais uma vez, evocarmos um excesso de
energia natural, em vez da pulsão, noção complexa que implica o
inconsciente ali onde seu efeito parece pouco evidente? Há fortes
razões, todavia, para mantermos a noção de um auto-erotismo pulsional,
pois a sexualidade comum encontra um constante apoio nas chamadas
atividades preliminares, que resultam do acionamento do circuito
acéfalo da pulsão. Antes de ser regulado pela relação com o outro do
amor, o erotismo fundamenta-se no auto-erotismo, isto é, na relação
com os objetos parciais que sexualizam o corpo. E a genitalidade
continua a se apoiar neles, mesmo que sua erogenicidade não pareça
ser mais que um simples acompanhamento das manifestações do desejo
sexual.
Totalmente diferente disso é o erotismo, que se interessa menos pela
compilação dos supostos órgãos excitantes, segundo diversas normas
mais ou menos fetichistas, do que pela obscura relação do sujeito com
a coisa sexual que trama seu corpo. O que habita esse corpo como
pode interessa mais ao erotismo do que a impessoalidade da pulsão,
cujo infinitivo (ver, morder, pegar, tocar, bater) é assim conjugado por
102 do bom uso erótico du côleru

um sujeito, supQndo a existência de um outro que afirme (eu te vejo,


eu te mordo etc.).
De ponta a ponta, o parceiro sexual é inicialmente abordado segundo
o empilhamento de diversos corpos pulsionais. Depois, é com o amado
ou a amada que lidamos, na nudez crua de seu desejo, reconhecido como
único, tão certo quanto o pai é Um. Enfrentamos esse Um que nos fascina
ao mesmo tempo que a nossa angústia de castração. Tramada menos pela
morte do que por uma pulsão mortífera, a dimensão colérica do desejo
seria incompreensível sem esse olhar unificador do pai, pousado sobre
a cena. Assim, caminhamos desde o ponto em que éramos auto-erotica-
mente gozados pela pulsão até o outro ponto em que o ato de gozo
depende da castração, e portanto, do pai morto. A pulsão de morte no
erotismo não tem, por conseguinte, esse ar de morte açucarada e mole
que ajudaria a reprodução da vida, assim como a noite beira o dia e o
implica. Ela procede da passagem de uma pulsão despersonalizante para
um enfrentamento da castração e, por mais temperada que seja por uma
ternura que lhe vem proporcionalmente, comporta sempre uma violência,
independentemente da efração, por mais desejada que seja, de um corpo
por outro.
O que se convencionou chamar sexualidade "genital" apóia-se na
base da pulsão que está ligada à perversão, uma vez que ela fetichiza
o corpo do- p'arceiro sexual, reduzido à montagem de suas partes mais
excitantes. Não existe, portanto, uma espécie de selvageria própria da
sexualidade humana?" Selvageria", aliás, é um termo pouco adequado,
pois evoca um estado "primitivo", ao passo que essa violência da
sexualidade resulta da cultura. Esse grau pulsional do sexo acarreta
uma excitação cuja violência potencial é extrema, ainda que esteja livre
de qualquer animosidade pessoal (e que, por conseguinte, não requeira
uma discórdia prévia para se exercer).

Da excitação pulsional ao auto-erotismo

Quando se evoca o auto-erotismo, como dissemos, é a masturbação


que lhe é mais comumente associada. Existe, de fato, uma articulação
entre as pulsões - justificadamente chamadas de sexuais - e o genital,
embora essa constatação ainda não permita saber qual é a ordem lógica
dessa relação, nem sua ca~salidade. O exemplo clínico seguinte permite
mostrar a relação da pulsão com a demanda materna e a pressão acéfala
observações sobre as preliminares da excitação sexual 103

que resulta daí - violenta, já que se confronta diretamente com a


transgressão incestuosa.
Um rapaz entregava-se a uma atividade masturbatória intensa por
motivos que de modo algum se resumiam numa dificuldade que ele
tivesse de se satisfazer de outras maneiras. Na verdade, é um tanto
apressado considerar o onanismo como um expediente a que se entre-
garia aquele que não encontra ou ainda não encontrou meios mais
ortodoxos de se aliviar. Muitos exemplos mostram que a masturbação
e o ato sexual se distinguem, que a primeira não é o substituto do
segundo e que quem conhece as alegrias do conjungo não dispensa
forçosamente os prazeres solitários, que lhe trazem outras satisfações.
Como quer que fosse, ignorando a proteção de Diógenes, que talvez o
houvesse tranqüilizado, esse rapaz temia entregar-se a um onanismo
exagerado e, quanto mais violenta era a culpa que o invadia, mais
compulsiva era sua vontade de se entregar, várias vezes por dia, ao
que considerava um vício vergonhoso. Na sua idade e por força de sua
condição de estudante, ele ainda morava com os pais, e, como a porta
de seu quarto não tinha fechadura, o medo de ser surpreendido no
exercício dessas atividades o obcecava.
Foi nesse estado de espírito que ele veio me ver, sem dúvida consi-
derando que a análise se destina.va a corrigir-lhe esse defeito infame.
Travando uma luta por uma heterossexualidade harmoniosa, à qual
nada se oporia, já que ele era provido de uma noiva apetitosa, ele me
partícipou, durante longas semanas, seus esforços e suas recaídas, bem
como seu medo pânico de ver a mãe abrir bruscamente a porta no
momento de suas torpezas. Tinha certeza de que, se ocorresse um
acontecimento assim, ficaria perturbado para sempre. E esse pensa-
mento torturante, aliás, dava-lhe uma vontade imediata de se masturbar,
qualquer que fosse a situação em que estivesse, vendo-se então ime-
diatamente embaraçado por uma tumescência proporcional a sua ver-
gonha.
Não tendo uma opinião fechada a esse respeito, já que a masturbação
tem lá suas credenciais, é claro que ficou acima de minhas possibili-
dades indicar-lhe, malgrado sua demanda e a simpatia que eu tinha por
ele, o procedimento adequado a libertá-lo dessa servidão. Todavia,
como seus desabafos verbais fizeram reduzir um tantinho sua,culpa,
já que, justamente, eu não reagia no sentido de ajudá-lo a modificar
essa situação, logo se verificou que sua excitação baixou proporcio-
nalmente. E, por conseguinte, ele logo pôde comunicar-me o que
considerava ser um progresso.
104 do bom uso erótico da cólera

Qual não fora a alegria de sua noiva ao constatar um vigor de que


havia duvidado amargamente, uma vez que ele já estava sempre exausto
quando ela o procurava! O enlevo dela o satisfazia, pois ele sempre
ficava muito feliz, é claro, em dar prazer aos que o cercavam. Todavia,
longe de se rejubilar com espalhafato, ele se mantinha numa expectativa
prudente, na ansiedade em que continuava de ver-se outra vez tomado
por aquelas comichões satânicas. Temia uma recaída, por um motivo
bizarro. É que, aparentemente num outro campo, já havia experimen-
tado um sucesso que fora apenas provisório.
Quando muito garoto, ele adquirira o hábito de fumar, e não se
lembrava de que seus pais jamais se houvessem oposto a isso. Todos
os anos, os períodos das provas eram acompanhados por um tabagismo
intenso e, apesar das campanhas da imprensa contra o fumo, que eram
abundantes na época, nenhuma observação familiar viera moderar seus
hábitos, embora as opiniões da faculdade de medicina oferecessem
pretextos muito fáceis a quem quisesse martirizar o próximo. E então,
um dia, num período de férias, ele havia parado de fumar, sem retomar
esse costume de imediato.
Qual não foi o orgulho de seus pais, que viram nessa façanha um
surpreendente ato de vontade a comprovar a força de caráter de seu
filhão. E este logo foi citado como exemplo a toda a vizinhança, bem
como aos parentes, inclusive distantes! De modo que, quando a irritação
da vida cotidiana de novo se apossou dele e o rapaz quis tornar a tirar
proveito dos benefícios do fumo, só pôde fazê-lo às escondidas, te-
mendo, também nesse caso, a propósito de um hábito que não fora
objeto de nenhuma condenação anterior, ficar embaraçado, desta vez
ao ser surpreendido com um cigarro na boca. Assim, empenhava-se
cuidadosamente em fazer desaparecerem as cinzas e as pontas de
cigarro, arejando intensivamente seu quartinho e acumulando manobras
que, junto com as precauções de sua vida de onanista, atrapalhavam
deliciosamente todo o curso de seus dias.
Portanto, ele se manteve reservado quanto a seus progressos atuais,
temendo uma recaída, pois nada lhe garantia que, como no caso do
fumo, ele não voltaria a mergulhar no vício amanhã, apesar de sua
preocupação de não entristecer a velhice dos pais. Entrementes, a
associação de idéias que ele acabara de fazer mostrava que uma
interdição, em síntese apenas potencial - a que decorria mentalmente
de uma inadequação a um ideal de pureza infantil - , era suficiente
para colocar no mesmo plano o onanismo e um gozo pulsional, o de
observll{-·ões sobre as preliminares da excitaçãi, sexual 105

fumar. Essa constatação só fez mergulhá-lo num abismo de perplexi-


dade, afora as considerações sobre a vida em sociedade, que ele não
deixou de tecer imediatamente, segundo essa educação pouco agradável
que a análise inculca, de quebra, nos que a ela se submetem:
" ... Mas por que os fumantes são tão irritantes para os não fumantes,
numa época em que passou a ser de mau gosto descarregar a irritação
naqueles cuja pele é de outra cor, como se o ostracismo exigisse, nos
dias atuais, um atestado médico? Não é porque existe essa ligação que
estou descobrindo entre o prazer de fumar e a masturbação? Eu disse
'fumar', mas, afinal, pode ser que exista uma ligação idêntica com
outras formas de prazer. Por mim, nada me enoja mais do que alguém
comendo vorazmente do meu lado, quando não estou com fome. Do
mesmo modo, tenho grande dificuldade de suportar um mascador de
chiclete: será que essa pessoa indelicada, na realidade, não está se
masturbando ingenuamente em minha companhia? E mais, eu tenho
então pleno direito de me perguntar se a excitação dela não decorre da
minha presença, e se ela não estará obtendo seu prazer pelas minhas
costas. Então, não é lícito que suas práticas me deixem com os nervos
à flor da pele? ... O fato é que não entendo por que, por duas vezes, a
presença de minha mãe pareceu tão estreitamente ligada a esses
prazeres, que só são aparentemente solitários, portanto, já que a idéia
da possível surpresa também participa da excitação, ou melhor, cons-
titui aquilo que é exasperante, lancinante, a ponto de acabar sendo
excitante ... "
Em que contexto caía essa interrogação dele, e como pensar a ligação
do auto-erotismo pulsional com a excitação sexual? Isso depende, como
se sabe, das primeiras respostas que um filho dá às demandas maternas,
quando se interroga obscuramente sobre o que a mãe quer dele. Do
mesmo modo que o filho, não se pode quase apostar que ela nunca
sabe nada a.esse respeito? O objeto de seus anseios permanece desco-
nhecido por aquela que o reivindica. Todavia, esse desconhecimento
não impede que se conjecture a natureza do móbil que existe entre um
filho e sua mãe, nas demandas recíprocas que os unem. Por mais atenta
que ela seja a satisfazer as diferentes necessidades de seu filho, a mãe
também cuida de sua própria falta, a do falo (segundo pretende a
equação freudiana, filho = falo). Atender à demanda, portanto, equi-
valeria a preencher a falta. Por conseguinte, ao aceitar todos os prazeres
ligados a seu estado alienado, o bebê preenche a mãe, fazendo dela a
matriz fálica de sua própria ereção.
106 do bom uso erótico da cólera

Violência pulsional e corpo erógeno

Opera-se assim, por princípio, uma articulação entre prazer pulsional


e gozo fálico, de modo que, por mais inocente que possa parecer uma
pulsão, ela é sempre sexual. Nessa condição, ela se enreda nas visco-
sidades da libido, assim como, aliás, beneficia-se de suas satisfações:
a pulsão que excita a boca, por exemplo, também exercerá sua pressão
juntamente com a ereção. A despeito do abismo que parece separar a
papila gustativa das satisfações de Diógenes, todo prazer, por mais
parcial que seja, comporta sua implicação fálica. Do mesmo modo, e
simetricamente, todo incidente da vida sexual tem sua repercussão
pulsional, e a linguagem familiar, que tão facilmente liga a devoração
ao amor ou o excremento à abominação, dá uma idéia dessa equiva-
lência.
Certa jovem, por exemplo, não procurou a psicanálise por um motivo
diretamente ligado a sua vida sexual. Para dizer a verdade, como muitas
vezes acontece, seu sintoma era impreciso, quase que por definição,
poderíamos dizer, já que a função do sintoma é ocultar a causalidade
traumática de que ele procede. De que ela se queixava explicitamente?
De algumas enxaquecas, é claro, e além disso, anunciada ao cabo de
algumas semanas como uma banalidade, de uma persistente repugnân-
cia alimentar, em particular pela carne: carne vermelha, nem pensar,
era um horror. Porém, o mesmo acontecia quando esse alimento estava
mais do que cozido. E mais, como as refeições são freqüentemente
feitas em companhia, e como a maioria dos convivas é carnívora, ela
era tomada de repugnância ao ouvi-los mastigar as carnes cozidas e
mal conseguia tocar no conteúdo de seu prato, apesar de especialmente
preparado para ela. É claro que dispunha de uma solução, que consistia
em fugir de qualquer convívio na hora em que os parentes se instalavam
à mesa. Mas, à parte o fato de que, a longo prazo, esse procedimento
revelava-se menos fácil de utilizar do que parecia, para quem não queria
causar preocupação, a idéia da carne a seguia e contaminava até o mais
ínfimo pedaço de pão. De modo que, convinha confessar, ela havia
perdido quase dez quilos nos últimos meses - um balanço que
começava a se tornar alarmante.
Não era a primeira vez que ela ficava sujeita a esses episódios de ...
como é que vocês chamam isso? ... anorexia, é essa a palavra. Essa
disposição do apetite, na verdade, apossava-se dela regularmente, desde
a adolescência, para ser mais exato. Sim, ela podia datar facilmente 6
primeiro episódio, uma vez que ele ocorrera pouco depois de suas
observações sobre as preliminares da excitação sexual 107

primeiras regras. Fora nessa época que ela havia começado a se


alimentar com parcimônia. O mais curioso, não é mesmo?, é que, de
tempos em tempos, ela de repente parava de beliscar e, da noite para
o dia, abandonava suas preferências vegetarianas e se alimentava com
voracidade, sem que os acontecimentos que cercavam essas seqüências
jamais tivessem sido mais claramente elucidados.
Não, esses estados de magreza que ela atravessava episodicamente
não a incomodavam além da conta. Ela não se queixava disso, e nunca
se preocupara em saber se uma mulher descarnada podia agradar ou,
ao contrário, corria o risco de repelir. E depois, também havia reparado
que esses episódios eram acompanhados por atrasos das regras.
Portanto, foi nessa conjuntura que a análise teve início, destacando
muito depressa, apesar de sua banalização, um sintoma tão bem
delimitado que era bastante fácil indagar a seu respeito. Entretanto,
acaso as primeiras pistas fornecidas não eram evidentes demais? Tão
patentes que fechavam o sentido e, assiin, pertenciam ao próprio
sintoma, mais fazendo justificá-lo do que esclarecê-lo. Não foi isso
que aconteceu, por exemplo, quando ela indicou o peso ótimo que era
o objeto de toda a sua atenção? O peso de 44 quilos parecia-lhe possuir
um atrativo especial.
"É claro que, para você que é psicanalista, esse peso não há de
surpreender, se você souber que meu pai voltou dos campos de
concentração em 1945, mais magro era impossível, como você pode
facilmente imaginar. Aliás, tenho a idéia insistente, embora nunca lhe
tenha perguntado, isso me ocorreu de repente, de que ele devia ter mais
ou menos esse peso quando voltou. Não o interroguei, porque ele é
muito pudico e nunca fala desse período de sua vida. Em contrapartida,
vasculhei uma documentação abundante sobre a deportação, e me
parece que esse era realmente o peso de muitos homens em sua saída
dos campos. Pesar 45 quilos é uma idéia que me vem com freqüência,
mas cair abaixo dessa linha sempre me fascinou vertiginosamente ...
" ... Mas, você deve ter notado que estou meio surpresa pelo fato de
esses números diferentes não lhe causarem maior efeito, embora me
pareça muito claro que estou-me esforçando por retomar a meu modo
uma das características, sem dúvida a mais heróica, do que foi a vida
do meu pai. Naturalmente, estou cometendo um engano, e você mesmo
o teria retificado: eu quis dizer o que é a vida do meu pai, já que ele
não morreu ... Mas, falando de números, você agora está me perguntando
se eu me lembro que idade tinha quando das minhas primeiras regras ...
Confesso-lhe que isso não me impressionou, devem ter sido doze ou
108 do bom uso erótico da cólera

treze anos, quatorze, talvez. Não prestei muita atenção. Foi uma coisa
que veio por si, assim, é claro, naturalmente ... E também não com-
preendo, agora, porque você repetiu naturalmente depois de mim; eu
me lembro bem de ter pronunciado essa palavra há pouco, mas já nem
saberia dizer a propósito de quê empreguei esse termo banal, que parece
lhe interessar tanto ... "
O emprego dessa palavra, na verdade em dois momentos - a
primeira vez a propósito de um erro temporal que implicava a morte
do pai, e a segunda a propósito de uma amnésia concernente à data de
um acontecimento de vulto na vida de uma mulher-, só podia chamar
a atenção.
Nas sessões seguintes, nenhuma lembrança lhe permitiu, apesar de
seus esforços, esclarecer a data de suas primeiras regras, não mais,
aliás, do que suas circunstâncias. De momento, só restava no primeiro
plano da cena o tênue vínculo, efetuado graças ao significante natu-
ralmente, entre suas regras e a morte de um pai cuja vida fora inad-
vertidamente colocada no passado. Que surpresa isolar, desse modo,
um sentimento tão contrário à consideração filial que ela havia exibido
no início de sua análise! E o espanto estava fadado a aumentar ainda
mais, porque os dois fatos "naturais" mencionados articularam-se
abruptamente um com o outro, graças a suas associações sobre a
menstruação. Não têm as regras a significação geral de que, já que
acabou de se concluir um ciclo de fecundidade, não veio um filho? Por
conseguinte, elas também carregam em seu sangue o pai que esse filho
teria tido se fosse concebido. E sem dúvida era porque, apesar de tudo,
esse "filho do pai" fora concebido na fantasia que as regras haviam
constituído um trauma, atingido pela amnésia. Se o sintoma anoréxico
tinha algum vínculo com essas associações, faltava ainda estabelecer,
agora, se existia alguma relação entre o horror ao sangue e o horror à
carne.
Todavia, de nada adianta correr, e um sintoma não é libertado quando
se repõe no devido lugar uma significação, pois o que o aprisiona não
reside numa falta de explicação, mas na contradição que o articula
(como uma flecha presa na carne por suas farpas). E seu vestígio, até
esse momento, mal fora vislumbrado! Por isso, eu tinha que esperar
pelo que, na fala atual, tivesse o valor de uma contradição equivalente.
Não sem que solicitasse sua vinda.
" - Mas, diga-me, desde quando se produziu essa recaída recente,
que a faz abominar quase todos os alimentos provenientes do que é
vivo e, por contágio, quase todos os outros alimentos?
observações sobre as preliminares da excitação sexual 109

" - Eu já lhe disse, há alguns meses.


" - E o que aconteceu, exatamente, durant~ esses alguns meses?
Que acontecimento, em sua opinião, teria sido particularmente impor-
tante nesse período?
" - Na verdade, não vejo... É claro, eu me casei, e talvez tenha
deixado de lhe dizer isso, porque foi só uma formalidade: já vivo há
cinco anos com meu companheiro. Nós nos casamos legalmente so-
bretudo para agradar à família, que de ambos os lados é bastante
antiquada, confesso. Na verdade, meu pai se recusava a nos receber
enquanto tínhamos o estado civil de concubinas, e eu passava as festas
sozinha na casa de meus pais. Isso convinha a todo o mundo, na
realidade, porque meu marido tem horror a todas as recepções, até as
íntimas. Realmente, há que admitir que esse rapaz que eu adoro é um
bocado esquisito, e esse casamento não parece ter-lhe feito bem. Eu
me pergunto se não foi depois dessa data que ele passou a se mostrar
incapaz de cumprir seus deveres conjugais além de uma duração de
alguns segundos, o que não acontecia antes. Tenho quase certeza, agora
que estou falando nisso, que a condição de marido fez dele um
ejaculador precoce, e eu me pergunto que jeito vou dar para que ele
se indisponha o mais depressa possível com meu pai, para restabelecer
um equilíbrio sexual cuja perturbação não parece ser independente de
minha inapetência alimentar."
Sem dúvida, havia uma forte probabilidade de que a mudança de
estatuto simbólico do companheiro tivesse estado na origem de um
transtorno em suas proezas sexuais. Mas nada podia atestar isso, porque,
além do fato de que eu não conhecia esse homem, só pareciam garantidos
os efeitos de uma única mudança de estatuto, a de minha analisanda.
Esta, de fato, vendo chegar ao fim o estado de beligerância insidiosa que
existia entre o pai e o companheiro, podia muito bem ter mudado de
atitude, de tal maneira que o marido houvesse passado a ter nos braços
uma mulher que já não reconhecia, apesar ou em virtude de ela ter passado
a ser legitimamente sua. Não estaria ela contribuindo para que o ato
carnal se reduzisse a uma coisa insignificante?
Assim, o evento atual - a ejaculação precoce - preservava todo
o seu valor de fator desencadeante de uma semi-anorexia, mas apenas
na medida oculta em que fazia soar novamente a cadeia na qual seu
ser sexuado tinha sido determinado. E fora somente no nível da pulsão
oral que o sintoma sexual tinha virado sua agressão erótica contra o
corpo - segundo as vias passivas próprias da feminilidade.
O sintoma da ejaculação precoce

Porventura todo homem não foi ou corre o risco de ser, de vez em


quando, ultrapassado por seu gozo, e de, aparentemente premido pela
violência de seu desejo, concluir onde o mais sério deveria começar?
Decerto, é fácil compreender que um incidente desse tipo entrave o
arroubo de um rapaz, cuja impetuosidade, aliás, muitas vezes só é
detida por alguns instantes. Do mesmo modo, um homem mais expe-
riente, um veterano Don Juan ou um velhote cheio de artifícios podem,
em certas circunstâncias acrobáticas, ou inflamados pelas chamas de
um desejo rejuvenescedor, experimentar desventura semelhante, da
qual talvez tenham maior dificuldade de sair, havendo-se tomado
menos prontos a repor as coisas em andamento. A maioria dos homens,
portanto, terá tido oportunidade de experimentar os dissabores da
ejaculação precoce, que, mesmo a título de incidente excepcional, não
deixa de ser sintomática. A juventude, a emoção do momento e o
transtorno das circunstâncias escamotearão essa lembrança desagradá-
vel, não sem que a namorada, a mulher ou a amante contribuam, muitas
vezes, com uma certa complacência.
A coisa já fica menos clara quando o incidente se repete, quer se
manifeste episodicamente ou se torne uma constante da vida amorosa,
amiúde ainda mais angustiante por se aliar a uma melindrosa preocu-
pação com a virilidade, ou, pior ainda, por contrastar com a pujança
de um amor compartilhado. Que há de mais desolador que não poder
oferecer a uma companheira amada o que ela espera?
Do ponto de vista da doutrina, a ejaculação precoce leva uma
vantagem sobre o comum dos sintomas: é que sua origem, não apenas
inconsciente, mas sexual, parece incontestável. É verdade que, mal-

llO
o sifltoma da ejaculação precoce 111

grado essa evidência, muitos especialistas esforçam-se por encontrar-


lhe uma causa orgânica, glandular, fisiológica, hereditária, em suma,
qualquer coisa para não reconhecer a urdidura do corpo pelo desejo.
Esquecidos de sua própria experiência, os técnicos do sexo nunca
deixam de infamar a libido e suas esquisitices, plenamente dispostos
a prescrever o medicamento ad hoc: um aparelhinho, um cinto de
contenção, um método comportamental, uma técnica de dramatização
familiar ou uma intervenção cirúrgica, para não ter que pronunciar,
nem mesmo baixinho, o nome maldito de Freud ou de um de seus
sequazes. É evidente que os que sofrem dess~ sintoma também prefe-
rem, por sua vez, e às vezes por muito tempo, qualquer explicação e
qualquer método que os poupem de descobrir o que seu inconsciente
trafica por vias tão humilhantes, e que, por conseguinte, eles demoram
a se abrir com os sequazes em questão.
· Se ao menos a resistência à psicanálise pudesse ser forte o bastante
para acarretar, com a ajuda de algumas sugestões, uma cura imediata!
Infelizmente, se muitos sintomas podem beneficiar-se com sucesso dos
passes magnéticos, da prece tranqüilizadora ou dos mandamentos da
caridade, esse, na maioria das vezes, mostra-se rebelde quando chega
a hora da verdade!
Uma vez superadas essas resistências, aliás muito comuns, à psica-
nálise, e para aquele que tem algumas suspeitas quanto à origem
inconsciente dos sintomas, a ejaculação precoce exibe, pois, uma
origem sexual interessante de estudar. O mesmo não se dá com uma
angina, uma enxaqueca ou uma acidez estomacal, sobre as quais quem
delas padece, mesmo estando informado, geralmente acha que elas
requerem primeiro a ajuda do médico. Até um analisando tarimbado
começa, às vezes, por consultar um médico, ao ser afetado por uma
dessas perturbações.
O interesse, em seguida, consiste em isolar um sintoma sexual e,
ainda por cima, masculino. Quem é afligido por um gozo intempestivo
passa por um tormento paradigmático do siritoma em sua vertente viril,
na medida em que a estrutura geral do sintoma é desviada pela escolha
do sexo (pela ·relação com a castração, independentemente do tipo de
neurose). A ejaculação precoce comprova a existência de pelo menos
um sintoma característico dos homens - esclarecimento que não é
inútil, numa época em que certos teóricos falam de bom grado da
neurose sem levar em conta o sexo daquele a quem ela concerne.
Será tão certo assim que as mulheres não conhecem equivalentes
da ejaculação precoce? Um clínico atento talvez pudesse buscar um
112 do bom uso erótico da cólera

correspondente desta numa precipitação para o gozo que abrevia o


prazer feminino. Mas tal acontecimento não é considerado uma des-
vantagem por aquela a quem sucede. Antes, dá-lhe a esperança de
gozar mais uma vez, e ela não se queixa disso. Não há, portanto,
nenhuma relação entre um gozo feminino precipitado e uma ejaculação
precoce, uma vez que a característica desta última é ser um sofrimento,
e ser provocada pela expressão do prazer da amante, o que não ocorre
com o primeiro.
Mas um clínico, ansioso ao ver os cavalheiros serem afetados por
misérias de que suas companheiras não sofreriam, poderia persistir e,
diante dessa desagradável dissimetria, achar que deve existir, do lado
feminino, um equivalente desse sintoma, num nível mais sutil. Por que
não haveria uma mulher de reter seu gozo (inconscientemente). como
se seu amante fosse assemelhado a um pai violador? Nesse caso, a
frigide.l, a ausência de qualquer manifestação de gozo do lado feminino,
deveria ser considerada simétrica à ejaculação precoce, havendo com
freqüência, aliás, uma boa combinação entre esses dois sintomas, uma
vez que um ejaculador precoce nunca é tão senhor de seus recursos
como quando depara com uma mulher frígida, ou que tenha a malícia
de fingir sê-lo. Entretanto, complementaridade (que ainda seria preciso
comprovar) nada tem a ver com simetria, ainda mais que a frigidez
não tem o caráter orgástico que é próprio da ejaculação.
Em desespero de causa, o clínico partidário da igualdade entre os
sexos poderia ainda examinar outras hipóteses, e se perguntar se a
passagem do gozo clitoridiano para o gozo especificamente feminino
não corresponderia ao obstáculo transposto pelo ejaculador precoce
quando ele deixa de sê-lo. Esse argumento parece mais sério, já que,
com efeito, essa passagem corresponde, do lado feminino, ao salto que
vai do gozo orgânico ao gozo com a falta (isto é, ao assassinato do
pai). Isso também é, como veremos, o que um homem enfrenta quando
o prazer feminino não o sodomiza e quando, de certa maneira, ele se
inclui, de modo inteiramente fantasístico, na categoria dos assassinos.
Por fim, esses esforços teóricos não conseguiriam mascarar por mais
tempo a triste realidade: a ejaculação precoce é uma imperfeição
tipicamente masculina. Pois se, para anunciar o que virá em seguida,
o móbil desse sintoma prende-se à antecipação de uma feminilização
diante da expressão do gozo feminino, tal apreensão só pode ser obra
de um homem, já que somente este pode temer a perda de sua virilidade
a ponto de preferir gozar antes da hora.
o sintoma da ejaculaçcio precoce 113

Uma aproximação intuitiva talvez levasse a crer que convém situar


a ejaculação precoce entre o auto-erotismo e o erotismo, tais como
foram definidos no capítulo anterior. A passagem do auto-erotismo ao
erotismo (ou ainda, das preliminares ao ato sexual propriamente dito)
requer um salto qualitativo do qual a experiência corriqueira é teste-
munha. O jogo pulsional das preliminares pode satisfazer-se com quase
nada - por exemplo, com o simples olhar-, ao contrário da colocação
do falicismo à prova, que implica coações totalmente diferentes. Uma
mulher, por exemplo, pode adorar os jogos que antecedem a penetração,
mas experimentar uma angústia insuperável no momento desta, quando
resolve submeter-se a ela para não desagradar seu companheiro. Do
mesmo modo, um homem pode mostrar-se criativo e empreendedor
enquanto se restringe às múltiplas distrações que podem preceder a
copulação, e se encontrar em estado lastimável na hora da consumação.
Essa rapidíssima passagem das preliminares gloriosas para a derrota
da ereção, no momento em que sua firmeza seria necessária, conhece
diversas manifestações: a detumescência, nessa hora, pode marcar
menos o fim do desejo sexual (que pode se arranjar com situações
muito diversas) do que a eclosão de uma angústia insuperável. A ereção
também pode se sustentar com a mesma intrepidez, mas, nesse caso,
uma ejaculação intempestiva vem toldar as perspectivas abertas por
essa promessa. E por último, a ereção pode ainda manter-se indefini-
damente, sem uma conclusão decisiva.
Essas três eventualidades, embora não tendo a mesma significação,
indicam a arriscada passagem que existe entre o auto-erotismo e o
erotismo, obstáculo que só é superado, na maioria das vezes, graças à
atividade de uma fantasia particular - por exemplo, a de uma humi-
lhação ou uma fustigação - , fantasia esta que é necessária, embora
em geral inconsciente, para abordar o âmago do sujeito. Por que o salto
do auto-erotismo para o erotismo é tão freqüentemente marcado por
uma angústia insuperável, ou pela conclusão apressada da ejaculação
precoce?
Podemos responder - e não correremos o risco de nos enganar ao
nos mostrarmos tão genéricos - que a angústia de castração torna essa
experiência inevitável. Assim, determinado teórico poderá sublinhar
como é corriqueira a representação de uma vagina dentada, cujas
profundezas cortantes ocasionariam, no momento crucial, o terror do
homem. A clínica, é verdade, parecerá vir mais de uma vez em seu
socorro, pois é certo que muitos analisandos não deixam de relatar
essas representações.
114 do bom uso erótico da ctílera

No exemplo clínico desenvolvido mais adiante neste capítulo, M.R.


confiou-me que, tendo um dia que sofrer uma intervenção cirúrgica
anódina no alto da coxa, a enfermeira quis raspar-lhe o púbis para fins
de assepsia, horas antes da intervenção. Qual não foi seu pavor ao ver
aproximar-se, de navalha na mão, aquela mulher de branco! Angústia
incoercível, mas desmedidamente gozosa, já que, sendo o gradiente de
seu sintoma levado ao extremo nesse momento, ele ejaculou ao contato
com a navalha, sem sequer ter tido tempo de esperar pela ereção. Com
esse simples exemplo, não seria fácil provar que a ejaculação precoce
é causada pela angústia da castração feminina?
No entanto, essas imagens fornecem apenas um dos termos do
complexo e tendem a encontrar na anatomia feminina a causalidade
psíquica do sintoma. Embora invocando a angústia de castração, não
corremos muito risco de nos enganar, ainda que essa explicação seja
meio abreviada, pois ela não nos permite detalhar o processo das três
ocorrências antes mencionadas, nem, sobretudo, articular a angústia
de castração (na relação com as mulheres) com o complexo paterno
(inconsciente). De fato, e quase que por definição, como seria possível
que a angústia de castração não se relacionasse com o pai?
Como foi mostrado mais acima, a passagem do auto-erotismo ao
erotismo caracteriza-se por uma mutação entre objetivação pulsional
e subjetivação fantasística. Essa mudança é expressa quando a parceira
se manifesta de maneira diferente, daquela maneira particular que
indica que já não se trata do prazer das preliminares, mas de sua relação
com o falicismo. Falando claramente, a manifestação de uma modifi-
cação qualitativa de seu gozo indica esse ponto de passagem, sendo
seu único tormento, a partir de então, a inveja do pênis. A manifestação
do gozo feminino, exposto a esse tormento, difere de tudo que o precede,
e o gemido que o assinala pode provocar, por si só, a detumescência
ou a ejaculação precoce. (Tanto que uma mulher experiente, avaliando
as fragilidades de seu amante, pode abster-se de exteriorizar seu prazer
por tanto tempo quanto lhe seja possível.) Um gemido, como outro
sinal de gozo, aliás, em nada se assemelha a uma vagina dentada e,
por conseguinte, conviria interrogar essa propriedade, não da anatomia,
mas do gozo feminino, de provocar o inverso do que ela espera.
Qual é a idéia que pode então atravessar a cabeça do homem, de tal
maneira que leve a esse resultado, sob muitos aspectos humilhante para
ele? Nada é tão profundo quanto a superfície dos pensamentos, e é por
isso que sua superficialidade merece tanta atenção. Se nos ativermos
a ela, interrogaremos, primeiro, uma espécie de ódio amoroso do
o sintoma da ejaculação precoce 115

feminino, ou de cólera contra seu sexo, já que, num número de casos


suficientemente importante, pensamentos insultuosos precedem esse
momento humilhante.
Como se o fato de ela mostrar seu gozo fosse, numa mulher, o sinal
de sua decadência, algumas denominações agradáveis, como "pira-
nha", "puta", "galinha" ou "cadela", são atribuídas à mulher que está
gozando, ou melhor, começando a fazê-lo. Curiosamente, às vezes é
preciso muito tempo para obter a confissão desses insultos, em sua
maioria mentais, pois é como se esses xingamentos sucedessem à
ejaculação, quando, ao contrário, na realidade da fantasia, eles a pre-
cedem. Os epítetos mencionados acima quase sempre possuem, como
se há de notar, uma característica interessante, que é a de evocar a
prostituição ou, pelo menos, por parte da mulher assim invectivada
mentalmente, um amor ao falo que já não leva em conta a individua-
lidade do parceiro, como se, nesse instante, uma paixão impessoal pelo
sexo masculino se manifestasse, independentemente de seu proprietário
do mqmento. A mulher que começa a gozar prostitui-se a uma potência
fálicà anônima, e a constância dessa idéia oprime o ejaculador precoce,
como aquele que recua no último instante de suas obrigações viris. É
verdade que nem por isso ela poupa aquele que, transpondo esse
obstáculo, também outorga a sua companheira alguns adjetivos dessa
lavra, embora não tenha um comportamento que expresse um pensa-
mento equivalente. Ele encontra nisso, ao contrário, razão para ir
adiante.
A generalidade dessa evocação peripatética não basta, pois, para
indicar as particularidades dessa transposição, embora forneça uma
indicação útil. Com efeito, se nesse instante a amante fecha os olhos,
esquecendo o rosto daquele que a deseja, como se ficasse abruptamente
subjugada à potência de um sexo sem nome, onde é que seu compa-
nheiro vai achar que ela está, e com quem, quando envereda por esse
caminho? Pois ela realmente tem que estar em algum lugar, e com
alguém. Nos braços de quem é arrebatada quando deixa escapar esse
gemido? De onde vem esse grito, que se diria datar de antes das palavras
e que parece não invocar ninguém em sua particularidade, a não ser
algum gênio da virilidade, reconhecido mais além de qualquer presen-
ça? Espírito de Pan ictifálico, é a universalidade do mundo viril que
esse apelo reconhece, e nessa multidão inominada inclui-se a figura
de um pai mítico. Esse grito invoca a potência "d.o pai". De um pai
que, sem ser o de alguém em particular, foi a máscara com que todo
116 do bom uso erótico da cólera

pai cobriu a face por algum tempo. Máscara que ele ainda usa para o
neurótico, como atesta o hieroglifo do sintoma.
A cadela, a puta, portanto, goza com "o pai", esquecendo sem
_nenhuma vergonha qualquer pretenso amor em prol da força anônima
que anima o sexo. Que uma mulher copule com" o pai", por intermédio
de seu amante, evoca de imediato o ternário edipiano, já que, a partir
do momento em que ela goza com essa augusta figura, soltando com
a voz seu suspiro do aquém-nascimento até o além-túmulo, ela mesma
é prontamente assimilada à mãe genitora. (Do auto-erotismo ao ero-
tismo, longe de passar do um ao dois, é o emprego de quatro figuras
que convém evocar, afinal.)
Não é curioso que, num abrir e fechar de olhos, num suspiro, a
rigor, a "puta" se una tão depressa à "mamãe", vindo as duas figuras,
encaixadas numa só num curtíssimo intervalo de tempq, redilzlí o
amante a um gozo apressado, quando ele chega pelo menos a esse
resultado deplorável? Em seu texto sobre "O mais comum dos
rebaixamentos da vida amorosa",* Freud mostrou que, entre a repre-
sentação da mamãe e a da puta, existe uma distância realmente
necessária à sexualidade masculina. Esse traço tão corrente decerto
merece ser generalizado. Mas persiste o fato de que nem todos os
homens são bígamos e de que uma profusão deles satisfaz-se exclu-
sivamente com o amor conjugal! As considerações feitas no "Rebai-
xamento" nem por isso são invalidadas, pois uma mesma mulher
pode desempenhar os dois papéis e, conforme as horas do dia, alternar
cuidados perfeitamente maternos com uma perversidade apta a evocar
seu contrário na duplicidade masculina (com a ajuda das brigas). Em
último caso, quando uma mulher não se compraz muito em exibir
essa dupla face, nada impede o marido de fantasiá-la como tal, quando
o fogo se apag'.l.
Contudo, impõe-se uma observação suplementar, pois essa dupla
face da mamãe e da puta pode dar a impressão de que apenas a mamãe
está às voltas com "o pai", e de que, por conseguinte, a configuração
edipiana só conviria a esse caso ilustrativo. No entanto, acaso a puta
também não tem contas a ajustar com" um pai", e muito mais terríveis,
já que é com este que ela corre o risco de deparar casualmente, na

• No Brasil, traduzido como "Sobre a tendência universal à depreciação na


esfera do amor", ESB, v. XI, Jl!. ed., Rio de Janeiro, Imago, 1976. (N.T.)
o sintoma da ejaculação precoce 117

totalidade dos homens a quem se oferece? (A fantasia de prostituição


comporta, com efeito, a variação clássica segundo a qual, em sua
prática, a puta depara com o pai, carente de um gozo venal. 1) A mamãe
e a puta, portanto, conhecem igualmente "o pai", embora não se trate
da mesma instância da paternidade. De um lado, a fantasia pretende
que a mãe seja deixada praticamente virgem por um pai situado sob a
proteção de S. José, enquanto, de outro, a puta confronta-se com a
impetuosidade de um pai mítico, digno da horda primeva, tão perverso,
anônimo e sem lei quanto um homem sonha ser, quando ousa fazê-lo.
Apliquemos agora a generalidade dessa fantasia ao sintoma da
"ejaculação precoce". Quando um homem confronta-se com uma
mulher que, sem maior continência, começa a gozar, e quando é
perigosamente excitado pela idéia de estar lidando com uma cadela
prostituída, essa idéia implica matematicamente uma outra: a de que,
com seu gemido, ela invoca um certo pai.
Sem dúvida, é raro obter de um analisando o pensamento fantasístico
de que os gemidos do gozo feminino evocam um pai. Muitas vezes,
porém, basta um trabalho analítico bem curto para que em alguns elos
da cadeia se destaque essa presença, evidenciação que não basta, aliás,
para esvaziar completamente o sintoma, já que somente o ato pode
fazê-lo. Assim, é correto referir à angústia de castração o sintoma da
ejaculação precoce. Com efeito, se a passagem do auto-erotismo ao
erotismo requer um salto, agora é possível precisarmos sua natureza:
a implicação do pai no ato sexual expressa as modalidades da castração
do sujeito (da qual o pai é agente), ou então, a simbolização da potência
fálica em decorrência de uma fantasia homicida (o que dá na mesma,
já que simbolizar o falo resulta do confronto com a angústia de
castração).
Como livrar-se" do pai", embora ele inicialmente salve da angústia,
graças a uma potência que, no mesmo movimento, esmaga? A dificul-
dade é tão maior quanto mais importante tenha sido seu amor (e, por
conseguinte, os que tiveram um pai desagradável, ou mesmo odioso,
levam vantagem sobre seus colegas da mesma idade cujos pais foram
bons o bastante para se fazer amar). De modo que alguns pais reve-
lam-se impossíveis de esvaziar. Não é que seja mais sadio saber passar
do amor ao ódio, pois este último pertence ao mesmo registro. Em
contrapartida, como já dissemos, assumir um traço do pai (com isso o
reverenciando), e servir-se deste em nome dele (o que equivale a tomar
seu lugar), simboliza a potência paterna e permite escapar a essa
118 do bom uso erótico da cólera

dominação sentimental. Nesses casos, o que caracteriza a ejaculação


precoce é uma impossibilidade de matar o pai, em nome de um lucro
que ainda está por estabelecer e que interrogaremos no exemplo clínico
seguinte.

A quem se dirige a agressão na ejaculação precoce?

Após vários anos de um casamento que dera diversos filhos ao casal,


M.R. continuava sofrendo de uma impossibilidade de fazer amor com
sua mulher por mais de alguns segundos, aliás só ocasionalmente
conseguindo consumar um ato correspondente ao habitual adjetivo
"sexual''. Havia tentado de tudo antes de começar uma análise, que
seus estudos deveriam tê-lo levado a iniciar muito mais cedo. Muito
embora sua análise já houvesse deslanchado, e em pouco tempo lhe
tivesse permitido ao menos reduzir a violência de sua angústia, ele
perseverava em certas práticas que lhe permitiam superar o obstáculo
do minuto anterior à entrega das armas. Quando o desejo o espicaçava,
como acontecia quase cotidianamente, ele ingeria, antes da hora fatídica·
do toque de recolher, uma mistura de álcool e ansiolíticos, composta
segundo uma posologia que lhe permitia fazer boa figura. Diutuma-
mente imprensado na parede por seu desejo e, por conseguinte, quase
que unicamente centrado nessa inquietação em cada uma de suas
sessões de análise, ele logo havia conseguido desmontar as articulações
de uma importante cadeia associativa, expediente provisório cujo
resultado fora uma notável sedação de sua angústia. Como os elementos
dessa concatenação ganham mais relevo ao serem examinados retro-
ativamente, à luz de certos fatos que ele só exporia um pouco depois,
eles serão reteimados no contexto que lhes confere sentido.
Tomemos essa análise em andamento, portanto, e escutemos os
dissabores cotidianos e aparentemente anódinos nela narrados! Eis onde
estava M.R., pouco menos de um ano após o início de seu tratamento:
acabara de assinalar a insistência de uma de suas atitudes, que omitira
de apontar até então. Convém dizer que ele era tão obnubilado pela
certeza de estar com a razão, que não julgara útil me falar de uma
discórdia doméstica subalterna e insidiosa. Quase todos os dias, ele
tinha que procurar uma briga com a mulher. Não conseguia prescindir
dessa provação. Na maioria das vezes, algum detalhe da administração
doméstica o exasperava e ele explodia. Era só a sopa estar quente
o sintoma da ejaculação precoce 119

demais, fria demais, sem sal suficiente ou insuficientemente temperada,


e ele logo fazia uma crítica. E, como essas queixas suscitavam um
protesto às vezes vigoroso na dona-de-casa magoada, elas degeneravam
rapidamente em acessos de cólera, cada um dos quais reavivava a
lembrança do anterior. Da sopa ao piso mal encerado ou encerado
demais, a vida cotidiana tinha-se transformado numa corrida de obs-
táculos. À noite, no entanto, como se nada houvesse, o marido ingeria
o álcool e as drogas que julgava necessários e, mais uma vez, experi-
mentava a humilhação secreta do gozo insatisfeito da companheira -
pouco vingativa a esse respeito, no entanto.
Como se a noite e o dia formassem dois mundos distintos, ele re-
tomava, no dia seguinte, a seqüência de suas brigas intermináveis,
reivindicando obstinadamente desculpas da mulher por qualquer dos
ítens em que, a seu ver, ela se teria mostrado não apenas incompetente,
mas, ainda por cima, arrogante. E, considerando que era possível serem
necessários quinze dias de discussão para acertar as contas por um
jantar servido com muito atraso, apesar do horário de um jogo de
futebol televisionado, tinha-se tornado impossível enfrentar o acúmulo
dos motivos de queixa. De modo que ele acabara sendo levado a
exprimir uma exigência mais global. Sua mulher tinha de lhe pedir
perdão pela totalidade de seus erros, penitência após a qual ele jurava
mostrar-se magnânimo. A convicção de estar assim adotando uma
atitude marcada pelo espírito de justiça e pela generosidade dos fortes
o levara a não me dizer uma palavra sobre esses aborrecimentos
domésticos, como se apenas o relato de seus dissabores noturnos fosse
passível de me interessar.
Por isso, foi com surpresa que fui um dia informado da degradação
de sua vida conjugal diurna. Personalidade aparentemente forte, sua
. mulher sempre se recusara a enunciar a menor das desculpas que lhe
eram exigidas, assim como também não havia condescendido em se
explicar sobre eventuais imperfeições. E, de repente, fiquei sabendo
que o casal estava à beira da separação, cada qual, marido e mulher,
já havendo preparado sua mala, depois de jurar em alto e bom som
que iria embora - na realidade, sem sabei" para onde. Assim, os dois
continuavam a se suportar, devendo cada dia ser o último que passariam
em comum.
O marido, sem dúvida desejoso de acertar de uma só vez uma conta
global, e querendo tentar uma última chance antes de um adeus
definitivo, acabara, num momento de exasperação, por exigir uma única
120 do bom uso erótico da cólera

cerimônia: que a culpada se desculpasse de joelhos, e estaria tudo


resolvido! A imagem dessa cena redentora parecia-lhe fadada a augurar
uma renovação do casaIJ1ento, e se transformou no tema central de suas
reclamações com a companheira. E esta, depois de ficar meio descon-
certada com essa exigência e de novamente ter querido ir embora,
passara a ridicularizá-lo.
Assim, foi pouco depois do início dessa crise que veio uma sessão
em que, num tom de boa fé ultrajada, ele me descreveu mais uma vez
a imagem fixa que seria a condição de seu perdão: "É só ela se desculpar
de joelhos, e enfim poderá começar uma vida normal!" Foi nesse ponto
que tive de segurá-lo pela manga, pedindo-lhe para ir um pouco mais
devagar e me explicar o que significavam as desculpas pedidas nessas
circunstâncias. (Mas não me dei conta de que, ao sublinhar dessa
maneira o significante" desculpas", eu estava simultaneamente isolan-
do o significante "joelhos", que teria serventia algum tempo depois.)
Sim, que queria dizer esse pedido de desculpas concernentes a uma
multiplicidade de erros, a totalidade dos quais englobava queixas tão
antigas na história de sua vida conjugal que até ele havia esquecido
seus detalhes? Qual era o erro feminino que ele queria purgar dessa
maneira? Eu tinha fortes razões, é verdade, para isolar o "pedido de
desculpas", já que ele apresentava uma impressionante analogia com
seus pensamentos a respeito da mãe, que, em sua opinião, quando ele
era pequeno, deveria ter-se desculpado com o marido por sua incrível
maldade para com ele, a quem não hesitava em ridicularizar e aviltar
em todas as oportunidades.
Esse era o ponto que ele havia analisado pouco tempo antes,
apercebendo-se de que atribuía à mãe uma agressividade que, a rigor,
era dele - estratagema que lhe permitira, quando menino, preservar
o amor pelo pai, ao mesmo tempo que o desdenhava secretamente. Ele
censurava a mãe por ter-se portado com seu pai como ele mesmo teria
querido fazer. Assim, não fora sem razão que o "pedido de desculpas"
me havia chamado a atenção, quando ele tinha passado a recriminar
na mulher - pelo menos quando ela se revestia dos adereços domés-
ticos (maternos) - um erro que era fantasisticamente seu. As cóleras
e zombarias da mãe haviam-lhe roubado seu próprio desejo homicida
em relação ao pai e, por conseguinte, toda expressão do desejo feminino
e da violência que ele comporta acabava por retirar-lhe seu próprio
desejo; era por isso, a seu ver, nesse ponto da análise, que ele sofria
de ejaculação precoce.
o sintoma da ejaculação precoce 121

Quando, algum tempo antes, ele havia desmontado essa cadeia


associativa, as violentas angústias que o assaltavam cotidianamente,
em particular à noite, haviam obtido um amplo apaziguamento. Mas a
ejaculação precoce persistia. Então, seriam falsos os esclarecimentos
trazidos por essa primeira série de associações, ou, mais provavelmente,
apenas incompletos? Sem dúvida eles deviam ser pertinentes, já que a
angústia havia diminuído. Mas por certo ainda continuavam fragmen-
tados, não só porque o sintoma persistia, mas também porque a cadeia
associativa interrompia-se numa contradição. Julguemos: se, como ele
dizia, a expressão do desejo feminino roubava-lhe seu desejo, por que
era isso acompanhado de um gozo prematuro, e não de uma detumes-
cência? Apesar de suas explicações, um acontecimento conservava sua
opacidade: como compreender a violência incoercível de seu gozo, no
momento em que seu desejo lhe era retirado pela expressão do prazer
feminino? Que significava o gozo, então, se sobrevinha no momento
em que, no dizer dele, o desejo se furtava?
Era provável que a série associativa estivesse saltando um elo, cujo
ponto de união devia encontrar-se no enigma formulado pela expressão
do prazer feminino: se o gozo feminino exprimia seu próprio desejo,
era preciso que ele mesmo se sentisse feminilizado nesse momento,
mas, diante de quem? E era exatamente esse o ponto que lhe continuava
incompreensível, pois, como poderia ele ter facilidade de perceber que
se feminilizava, no exato momento em que, ao contrário, exibia todos
os sinais da potência viril?
Assim, a situação estava bloqueada, tanto em sua análise como em
sua vida cotidiana: nem mais um dia se passava sem que ele reclamasse
da mulher as tão esperadas desculpas. Do mesmo modo, não transcorria
mais uma única sessão sem que ele registrasse a sólida fundamentação
desse pedido, bem como o mal que devia ter-lhe feito, na infância, a
falta de firmeza paterna diante de sua mãe, carência que ele tomava
todo o cuidado de não imitar, ao agir como agia. Portanto, ele não se
comportava como o pai, mas como o pai deveria ter feito, dizia. Mas
a repetição dessas demonstrações sobre o que deveria fazer um pai
digno de sua função apresentou uma novidade interessante em relação
a seu discurso anterior.
Antes, ele evocava sua ejaculação precoce, a cada sessão, segundo
descrições repetitivas. A partir desse momento, foi uma cena de sua
infância (sempre a mesma, embora comportando variações infinitas)
que ficou no centro de seus pensamentos: ele revisitava as diferentes
situações em que a mãe havia feito chacota do pai. Esses dois pontos
122 do bom uso erótico da cólera

de imantação do discurso ocupavam o mesmo lugar na organização de


suas associações. Acaso ele não estabelecia constantemente um paralelo
entre as duas séries de seqüências, embora a primeira comportasse
apenas dois personagens (ele e a mulher), enquanto a segunda abrangia
três (o pai, a mãe e ele)? Caberia deduzir disso que o pai, ator da
segunda série, devia realmente estar presente de algum modo na
primeira, no momento de suas tentativas de relação sexual, como acabei
por lhe observar? Impossível! exclamou ele prontamente, acrescentan-
do que, se havia um aspecto desagradável na análise, era justamente
querer inferir uma presença paterna por toda parte onde havia um
sintoma. Deveria a vivacidade dessa resposta levar a pensar numa
denegação, como se o fato de dizer "não" tivesse sempre o valor de
uma afirmação? Que um analisando rejeite uma observação de seu
analista não é o bastante para qualificar a denegação. Em contrapartida,
a seqüência das associações permite fazê-lo com certeza, se, depois de
haver negado com maior ou menor veemência uma certa proposição
enunciada pelo analista, o analisando a confirma implicitamente após
alguns rodeios, ou às vezes explicitamente, como se bastasse estampi-
lhá-la com um "não" enérgico para que ela logo assuma um valor de
verdade.
Foi o caso de M.R., que, depois dessa exclamação, calou-se por
algum tempo. Um silêncio bastante longo, seguido, como se o incidente
estivesse encerrado, por uma nova descrição minuciosa de sua ejacu-
lação precoce. Os detalhes tinham sido cuidadosamente descritos por
ele mil vezes, mas, num primeiro nível, era como se a minúcia desses
exames devesse finalmente lançar um exorcismo sobre aquela preci-
pitação intempestiva ... E eis que, de repente, veio-lhe um pensamento
igualmente irreprimível e, à primeira vista, ainda por cima, incongruen-
te: ele não conseguiu impedir-se de comparar sua má sorte de ejaculador
com uma diarréia! Essa imagem o surpreendeu e mais uma vez o deixou
em silêncio ...
Desse silêncio, e vinda de longe, emergiu então uma lembrança
infantil bastante penosa. Quando ele achava já não estar pensando em
nada, subitamente as imagens se apresentaram, claras e detalhadas: ele
tinha uma idade que não sabia precisar, precoce, sem dúvida. De manhã
cedo, todos os dias, ainda entorpecido de sono, tinha que fazer sua
higiene e se vestir sob os gritos do pai, que o insultava e o ameaçava
brutalmente quando ele se atrasava um pouco. Como poderia adivinhar
que o pai também estava lutando contra o cansaço? E, quando lhe
. acontecia irromper em prantos diante da cólera paterna, suas lágrimas
o sintoma da ejaculação precoce 123

só faziam exasperar ainda mais esse pai, despreparado para uma função
que sem dúvida considerava indigna de sua virilidade, uma vez que
ela deveria ter ficado entregue a sua mulher, ainda adormecida no
cômodo adjacente. A tal ponto que finalmente o tom se elevava e, por
vezes, choviam pancadas, a pretexto de que assim as lágrimas encon-
trariam um motivo um pouco mais sério para serem derramadas.
Esses atos de violência lamentáveis, apesar de pouco freqüentes,
tiveram um efeito funesto, acrescentando o pavor ao desajeitamento
decorrente do sono. Uma cena, em particular, ficara gravada em sua
memória. Num dia em que o pai tornara a perder todo o controle e
batera nele, sua angústia havia-se descarregado da maneira mais ver-
gonhosa, nas calças que ele mal acabara de enfiar, sob a forma de uma
diarréia. Por uma fração de segundo, ele sentira a coisa chegando, mas,
paralisado como estava pelo terror, ficara sem condições de evitá-la.
Nesse ponto de suas associações, os termos empregados para evocar
a defecação incoercível não puderam deixar de impressioná-lo, repro-
duzindo quase que palavra por palavra sua descrição da ejaculação
precoce, e dando à figura paterna, na conjunção do erotismo anal com
a fantasia da criança espancada, um lugar que ele acabara de lhe negar
com energia.
Que o erotismo anal conjuga o medo com as pancadas, ou com o
medo das pancadas, é uma imagem bastante comum. A maioria dos
que experimentaram um terror violento sabe que ele pode acarretar um
desagradável relaxamento dos esfíncteres, aliás ilustrado pela lingua-
gem popular quando ela evoca essas situações. E nem é preciso que
haja situações de perigo extremo: muitas vezes, um perigo simbólico
é amplamente suficiente para acelerar de maneira intempestiva o
trânsito intestinal, embora aquele a quem isso acontece nem sempre
estabeleça a relação entre a situação com que se vê confrontado e as
necessidades, aparentemente fisiológicas, que o pressionam nesse mo-
mento.
O interesse da cena que acabara de ser evocada por esse analisando
ultrapassava essas generalidades, de um lado porque o medo associa-
va-se com certeza a uma ameaça paterna, e de outro porque esse medo
certamente fora erotizado, uma vez que foi inicialmente evocado por
sua analogia com a ejaculação precoce. O terror em si, no momento
em que as pancadas do pai eram iminentes, associara-se, desse modo,
à precocidade de seu gozo viril, embora ele não estivesse de modo
algum numa posição viril frente a esse pai fustigador.
124 do bom uso erótico da cólera

Se os termos do sintoma se adensavam, eles passaram a se mostrar


numa contradição que parecia inextricável. Como conciliar o ato
masculino da ejaculação, por um lado, com a atitude feminilizada diante
da potência paterna, por outro? Não era impossível pôr em continui-
dade, numa mesma seqüência gozosa, a masculinidade e a feminilização
que lhe abrira caminho?
Impossível compreender que a precipitação do excremento pudesse
corresponder a uma sodomização pelo pai, quando, no mesmo momen-
to, o gozo manifesto era o do falo erecto. Como muitas vezes acontece,
é graças a uma espécie de casualidade dos significantes que um deter-
minado termo ou grupo de palavras vem reunir em si esse caráter bífido
do sintoma, insistindo nas associações até a resolução do enigma. Foi
o que aconteceu com o significante "joelhos", que até então ficara em
suspenso.
A sessão havia terminado na surpreendente analogia que ele acabara
de constatar entre sua descrição da defecação incoercível e suas ejacu-
lações prematuras. Desde o momento de seu sobressalto denegador, eu
não o havia ajudado por outro caminho senão o de minha presença, a tal
ponto seria delicado, ou mesmo perigoso, insistir numa ou noutra vertente
de um sintoma que corria o risco de ser interpretado como um sinal de
homossexualidade (embora se tratasse de uma feminilização constitutiva
da virilidade, isto é, da castração).
Quando ele voltou, alguns dias depois, a princípio parecia ter
esquecido o quadro comparativo do menino trêmulo diante do pai com
o homem que perdia seus recursos diante de sua mulher. Deixando de
lado essa analogia, mesmo assim ele retomou o fio da lembrança infantil
que tinha evocado, espantando-se com o fato de a mãe nunca haver
cuidado dele na hora de seus preparativos matinais. E, logo sublinhando
involuntariamente o que esse momento tinha de erotizado, interrogou
as relações do pai com a mãe, que continuavam a ser um mistério para
ele. Com efeito, apesar da violência feminina que o pai suportava
durante o dia, aparentemente sem a menor resistência, M.R. pressentia
que ele preservava, sem ter que disputá-lo, um imperium indiviso e
ilimitado. A aparente marionete masculina, entregue aos caprichos e à
tirania de uma megera, preservava intacta uma majestosa soberania, e
esta nunca se evidenciara tão vivamente a M.R. quanto por ocasião da
lembrança que lhe voltou nesse momento, a de um coito a tergo. Ele
ficara particularmente impressionado com a posição elegante do pai,
solidamente postado de joelhos e fornicando poderosamente a compa-
nheira, reduzida a uma submissão incondicional.
o sintoma dCI ejaculação precoce 125

Sem dúvida levado por sua narração, o analisando não reparou que,
de uma sessão para a outra, o erotismo anal fora validado pela lembrança
de uma cena primária memorizada nessa posição. 2 Portanto, era a
postura do pai que havia predominado desde sempre em sua lembrança,
sem que ele jamais tivesse tido a menor dúvida a esse respeito. Nada
o incitou, no momento de sua narração, a comparar a posição ajoelhada
paterna com o que ele vinha reclamando da mulher com tanta insistência
havia semanas. Afinal, o caráter misto do significante joelhos, presente
nas duas cenas, não bastava, por si só, para garantir uma proximidade
de pensamento inconsciente. Um outro indício é que iria permitir o
estabelecimento dessa conexão. É que, bruscamente, interrompendo
sua narrativa, ele hesitou: aquela era uma cena infantil cuja imagem
fora certa desde sempre, a de um pai mostrando sem rodeios a majestade
de sua potência. E, súbito, no momento de narrá-la, ou melhor, logo
depois de fazer uma primeira descrição dela, uma dúvida insinuou-se,
como se o enunciado da palavra joelhos, por sua proximidade ainda
latente das atuais exigências do analisando em relação à mulher,
obrigasse a um reexame da certeza até então estabelecida. Ele hesitou.
Já não sabia se o pai tinha estado realmente de joelhos. E, se não estava,
em que posição estivera, afinal? Sem dúvida, por ter seu pensamento
hesitado entre a pessoa do pai e a de sua mulher, ele transpôs essa
incerteza para a posição ocupada por um ou por outro. E ei-lo a tentar
descobrir como se deveria reorganizar sua lembrança, se ele quisesse
evitar a desagradável surpresa de descobrir o pai em sua mulher e, por
conseguinte, descobrir o ponto extremo em que sua feminilizáção se
articulava com seu desejo masculino. Mas, afinal, em que posição podia
realmente estar esse pai?
E, como se sua hesitação não bastasse para lhe mostrar o caminho,
um lapso precipitou-o nessa direção. Querendo dizer "Não consigo
descobrir [trouver] a posição ... ", ele disse "Não consigo sentar no
trono [trôner] .. .* Estranho assento real, que assim lhe foi outorgado
por um inconsciente muito esperto, mas que só o coroaria por um
instante, já que, segundo os termos empregados em sua família (aliás,
largamente usados na linguagem popular), a expressão" estar no trono"
significava" ir à privada". O erotismo anal, portanto, voltou a insistir,

• O verbo se traduziria por reinar, imperar, dominar, pontificar, destacar-se. A


tradução escolhida procurou facilitar a compreensão da seqüência do texto e
preservar a outra acepção (popular), citada logo adiante. (N.T.)
126 do bom uso erótico da cólera

indicando, além disso, qual era a posição imaginária dele no momento


de sua hesitação: se duvidava assim, não era por ser ele mesmo o elo
que faltava entre a posição do pai e a que queria obter da mulher, e
pelo fato de.que, reinando [trônant] graças à dúvida entre essas duas
figuras, ele gozava analmente com um pai sodomita, no exato momento
em que era intimado a penetrar sua companheira? Sua coroa gozosa,
ele a conservava por se ausentar dessa intersecção incompreensível.
Esperava a solução de seus inextricáveis conflitos conjugais mediante
a posição ajoelhada de sua esposa, mas, nessa posição que ansiava por
obter, ele percebeu subitamente o pai fustigador, ali onde não o esperava.
E, se ele pudesse dizer alguma coisa racional sobre isso, não teria
que admitir que esperava do pai um gozo passivo, análogo ao que
experimentava em suas ejaculações intempestivas? Na realidade, a
ejaculação precoce tinha a significação de uma sodomia pelo pai. 3
Foram necessárias essas hesitações, e depois o lapso e as diferentes
digressões que ele acarretou, para que o significante joelhos ganhasse
todo o relevo que merecia. Não sem apresentar, mais uma vez, uma
nova faceta do mesmo enigma (a castração), pois o que queria dizer a
superposição entre a imagem paterna e a de sua mulher? Poderia alguém
sustentar, a partir disso, um raciocínio sensato que se pudesse referir
a uma complementaridade anatômica entre os sexos? Impossível,
certamente, e, se o progresso analítico havia deslocado sensivelmente
a questão, ele teve então de reconhec~r sua feminilização no momento
em que gozava, o que não tinha nenhuma correspondência com um ato
cuja representação, de qualquer modo, continuava a ser viril.
Se a ejaculação e a diarréia eram o direito e o avesso de seu gozo, a
atividade da primeira não se dava, no entanto, sem a passividade da
segunda, e ele ficou preso nesse dilema até que se lhe impôs um novo
pensamento, sem que ele o compreendesse, aliás, embora, no momento
de enunciá-lo, tivesse que adotá-lo prontamente, pelo honroso compro-
misso que ele lhe oferecia. É que, pensou M.R., o pai sempre o preterira
em favor de sua irmã, dois anos mais velha, brilhante soh todos os
aspectos, um raio de sol apaziguador num lar agitado pelos dramas
domésticos. O analisando lembrou-se de que ela fora, para ele, aquela
que era preciso imitar, fosse a título do trabalho intelectual, fosse da
graça ou da sedução. E essa idéia pareceu-lhe subitamente luminosa,
porque lhe permitiu reconhecer uma identificação feminina que ele já
não podia renegar, mas que lhe era quase impossível atribuir-se direta-
mente, à guisa de uma conseqüência de seu amor pelo pai.
o sintoma da ejaculação precoce 127

M.R. preferiu deixar este último em seu papel de personagem


aparentemente bonachão, na verdade brutal, fonte de um prazer rene-
gado, já que era ocultado pela violência. Sua irmã dava consistência a
seu gozo bifronte, e era por se identificar com ela para se fazer amar
que ele tinha que se feminilizar no amor. Em vez de reconhecer o gume
da função paterna, ele preferiu transigir, graças à mediação da irmã
que lhe oferecia a constelação familiar.
Inexata, no fundo, mas rica em conseqüências, essa explicação
permitiu-lhe, a partir daí, explicar a si mesmo alguns fenômenos que
até então tinham permanecido herméticos. Por muito tempo, ele havia
sofrido não apenas de ejaculação precoce, mas também, circunstância
agravante, não experimentava nessa ocasião nenhum prazer, nem
sequer o que é gerado pelo alívio da libido, cuja queda de tensão era
prontamente substituída pela angústia. Mais tarde, quando suas práticas
sexuais haviam como que se instalado num certo ritual, ele observara
que, quando sua mulher tinha a boa idéia, no curto lapso de tempo
concedido por sua desgraça, de lhe introduzir velozmente um dedo no
ânus, a ejaculação decerto era tão precoce quanto antes, mas, pelo
menos, ele gozava intensamente. Agora, podia explicar a si mesmo
esse estranho prazer de uma feminilização paradoxal por sua identifi-
cação com a irmã, que, como ele houve por bem acrescentar mais uma
vez no momento dessa descrição, fora a única pessoa da fratria real-
mente amada pelo pai. Através disso, a sodomia latente do ejaculador
intempestivo pareceu aceitável, ao passo que, sem ela, a ejaculação não
era, de maneira alguma, sinônima de gozo.
Uma primeira parte do trabalho analítico permitiu destacar uma
seqüência de pensamentos segundo os quais ele reivindicava da mulher
desculpas por um erro que, a rigor, era seu. Graças a esse procedimento,
rechaçando para a mulher um desejo de que ele mesmo era culpado,
ele se livrava de uma identificação feminina que correspondia a sua
representação da castração. Mas, ao fazê-lo, não gozava mais -
somente a mulher exposta ao desejo do pai o fazia, e ele ejaculava sem
prazer às primeiras manifestações do seu. O pedido de desculpas,
porém, tinha uma vantagem, que era preservar sua masculinidade,
rechaçando a identificação para a mulher, de modo que esse casal só
constituía realmente uma mistura (masculino-feminino) sob a condição
da discórdia. Para eles, a diferença sexual só se especificava graças a
uma briga constante. E, se a mulher tivesse preferido desculpar-se, se
houvesse concordado em fazer o jogo da culpa para ter sossego, é mais
128 do bom uso erâtico da câlera

do que provável que a guerra tivesse recomeçado logo depois, sob


outros pretextos.
Num segundo tempo, o trabalho analítico mostrou uma superposição
do pai e de sua mulher: o inimigo já estava dentro da cidadela que ele
pretendia construir, reforçando a expugnabilidade do sintoma por vias
que ele desejaria que fossem as da cura. Eis aí um disfarce que seria
totalmente incompreensível, se esquecêssemos que o caminho da he-
terossexualidade, em geral, serve-se da via da homossexualidade -
que é preciso o amor do pai, e portanto, a feminilização (a castração),
para que a virilidade se afirme em seguida!

A linha demarcatória da duplicidade paterna

Serão todos os homens ejaculadores precoces, dentre os quais alguns,


à força de exercícios e manobras propiciatórios, seriam suscetíveis de
ser um pouco menos precoces do que os outros, demonstrando uma
certa continência diante do que o gozo feminino comporta de inco-
mensuravelmente excitante? Haverá uma simples diferença quantitati-
va entre aquele que perde todo o controle em alguns segundos e o
amante valoroso, para quem uma noite inteira de caça custa apenas um
cartucho? Mostraremos que, ao contrário, existe uma diferença quali-
tativa entre, de um lado, aquele cujo gozo, por mais masculino que
pareça, é não menos passivo e se produz no momento de uma penetração
que lhe evoca a sua, e, de outro, aquele que desfere o golpe que já não
consegue conter num momento inteiramente diferente do prazer, no
qual enfrenta um outro enigma, o do orgasmo feminino.
"Experimentalmente", se assim podemos dizer, essas duas modali-
dades do prazer masculino se distinguem, mas, para esclarecer essa
diferença, convém. nos perguntarmos porque o orgasmo feminino pode
provocar a ejaculação. Será a morte que atravessa as gerações, bem
como a força que está presente no nascimento, que ressoam no grito
orgástico? Não seria porque esse extremo do prazer feminino evoca o
esvaecimento do indivíduo em algo maior do que ele, ilustrando a perda
que todo ser humano admite, a de sua vida, em jogo no momento do
ato de reprodução? O dom da vida ao preço da vida evoca, assim, o
"assassinato do pai", já que seu nome simboliza a transmissão. Há,
pois, uma diferença qualitativa, para voltarmos agora à ejaculação,
entre aquele para quem o coito evoca a sodomia de um pai violador,
o sintoma da ejaculação precoce 129

no instante da penetração, e aquele que mata esse pai no momento em


que o orgasmo feminino anuncia sua morte, ou melhor, sua passagem
à espiritualidade. O reconhecimento dessa espiritualidade paterna é tão
difícil, fora do âmbito religioso (reconhecimento religioso que não
resolve nada, aliás, uma vez que, ao contrário, a pecaminosidade do
místico aumenta com sua espiritualidade), que é um milagre, propria-
mente falando, que todos os homens não sejam ejaculadores precoces.
Em nome do que não é carnal, a reprodução da espécie é acompanhada,
portanto, de alguns prazeres. Como já mostramos, o erotismo não põe
em cena a pulsão de morte pelo fato de, tal como os animais, farejamos
a morte ao nos reproduzirmos. Se Tanatos junta-se tão firmemente a
Eros, é mais na medida em que a passagem do auto-erotismo ao
erotismo implica uma fantasia mortífera, que nos leva a enfrentar "o
pai". Na verdade, essa entidade tão vaga, que há de ter merecido as
aspas ao longo de todas estas páginas, só deixa transparecer o rigor
com que rege a vida sexual na trama libidinal das religiões. Ela nunca
é tão clara como quando se expõe no aparato sumamente prático de
gozo da teologia, do qual as místicas femininas, no interior de nossa
cultura, ofereceram tantos quadros extasiados.
Entre a ejaculação precoce e a que vem no momento oportuno, dois
pais diferentes se revezam. Sem dúvida, essas duas figuras da paterni-
dade estão ligadas, uma vez que primeiro é preciso a presença do pai
violador para que a simbolização de sua potência se articule com uma
segunda representação paterna, desta vez totalmente espiritual. O" pai"
é testemunha da irrupção do desejo, e cada ato sexual se compara a
essa entidade, ainda mais difícil de enfrentar por ser inominada. Em
outras palavras, é preciso, sucedendo-se na própria ordenação do prazer
viril, primeiramente a castração (a feminilização) por um pai onipo-
tente, para que, depois, a simbolização dessa potência permita que haja
uma apropriação viril dela, prostrando por terra o fantasma mais ou
menos irrequieto de um pai morto.
A duplicidade das funções paternas, portanto, é vetorizada num
sentido único, do pai totêmico ao pai espiritual, e é nesse espaço estreito
que o ejaculador precoce diferencia-se do que age com vagar. Atra-
vessar esse espaço permanece atual todas as vezes que o ato sexual se
produz e, desse modo, nenhum homem está livre de uma surpresa
sintomática. Entretanto, existe uma certa estabilidade: quem nunca
soube desligar-se da dominação paterna experimentará, por um tempo
tão longo quanto o de sua escravidão, os inconvenientes da ejaculação
precoce, seja ela acompanhada de prazer ou não. Quanto ao homem
130 do bom uso erótico da cólera

que não tem apenas um pai, mas dois (como Édipo), ele navegará no
campo da duplicidade assim delimitado, nunca seguro de sua vitória,
de vez que esta é sempre passível de ser questionada, conforme as
circunstâncias e conforme as parceiras que o destino lhe escolher. Quem
ontem foi um artista do prazer, em seu refreamento extremo, talvez
conheça amanhã, sob a influência de um amor tresloucado, aflições
semelhantes às do adolescente a quem um olhar ou um roçar da amada
tomam incontinenti. De fato, o assassinato do pai é uma fantasia atual,
que pede para ser repetida, e a realização de um desejo que encontra
em sua execução sua dimensão colérica reclama a cada vez a presença
do vivo. É o caso do descomedimento místico de Don Juan, cujo desejo
se extinguia quando ele punha em sua lista o nome patronímico de
uma de suas conquistas. É o do renascimento do desejo, que, para ser
renovado, reclama as mesmas preliminares, exige que se atravesse de
novo o espaço que vai do pai violador a seu assassinato simbólico,
condição de renascimento dessa espécie da qual cada membro é por-
tador de um nome.
O sintoma do neurótico ancora-se no espaço aberto pela duplicidade
paterna, no entre-dois dessas duas figuras ligadas, a do sodomita e a
do santo. A fixação sintomática depende da distância que cada homem
mantém entre essas duas figuras paternas (segundo um gradiente que
define, além disso, diferentes graus da neurose).
Para quem superpõe as duas figuras paternas e desconhece como
matar propriamente o pai (num ato tão próprio quanto um nome),
inibido que ele fica por seu amor e sem ter ainda percebido o uso
indolor que pode fazer do símbolo, a mulher que goza se ausenta, e
essa ausência perante um pai lhe relembra, senão sua covardia, ao
menos que seu amor o paralisa a ponto de conter seu ato. A impossi-
bilidade de matar o pai, no momento de sua ruidosa aparição na cena
erótica, tem uma conseqüência imediata: ou bem surge a impotência,
decorrente da presença daquele que interdita o gozo, ou bem a ejacu-
lação precoce provém da irrupção de um pai que não apenas interdita,
mas que vem gozar até mesmo na voz das mulheres, precipitando o
gozo daqueles que a escutam.

Mitologia da referência paterna adequada

A partir do momento em que um sintoma encontra um ponto de apoio


na mitologia paterna, é inevitável vê-lo ilustrado nas ficções mais
o sillloma da ejaculaçüo precoce 131

corriqueiras. As montagens míticas ou ficcionais que correspondem à


fantasia do ejaculador precoce são tão numerosas quanto quisermos,
embora a vertente da sodomia pelo pai só seja evocada, na maioria das
vezes, com prudência. O filme americano Sea of love 4 inclui-se nos
chavões de um gênero que pretende que somente o crime e o amor
ainda possam interessar ao espectador, antecipadamente fatigado por
qualquer esforço de pensamento, e que somente essas duas cartadas
vitoriosas lhe permitam identificar-se com certeza, desde que uma
técnica impecável garanta o domínio da imagem.
Entretanto, o roteiro evocado propõe uma montagem da violência
que difere dos outros sucessos do gênero, que muitas vezes fazem
questão de dar como verdadeira a ficção de que é impossível fazer um
assassino monstruoso demais ou por demais banhado em sangue. Ao
contrário dessas carnificinas desagradáveis, o interesse desse filme
reside na dúvida, que persiste até o fim, quanto ao agente do crime e
quanto a sua motivação, com isso oferecendo uma cômoda duplicação
fantasística ao espectador, que pode reconhecer ali o que beira coti-
dianamente seus atos e suas próprias angústias.
"Sea of !ove", mar de amor, é o título de uma antiga canção de
sucesso que o assassino faz suas vítimas escutarem antes de execu-
tá-las, e sua melodia rouca acompanha os diferentes episódios da
trama. O filme começa pela acumulação estereotipada de várias cenas
impressionantes. Vemos um homem nu, deitado de bruços numa
cama. Ele balbucia protestos parecidos com os de quem, gozando
com demasiada intensidade, à beira da ejaculação precoce, na verdade,
pede que parem o movimento que ultrapassa sua potência. Essa atitude
exprime uma emoção tão intensa que, a princípio, fica-se convencido
de estar assistindo à prática de um onanista que sinta aproximar-se
a fase terminal de seu prazer. Soa então um disparo, sem que vejamos
quem atirou, porque, ao olhar o homem deitado, estávamos no mesmo
lugar do assassino. Não sabendo coisa alguma sobre este nem sobre
seus motivos, poderíamos supor, por exemplo, que se trata de um
maníaco da pureza, decidido a purgar a terra dos masturbadores que
a poluem. Mas também pode ocorrer-nos a idéia de que não se trata
de uma cena de masturbação. A vítima poderia muito bem estar no
meio de uma relação amorosa com uma parceira, que o abate trai-
çoeiramente numa posição em que talvez tenha acabado de pedir que
ele se instalasse, a pretexto dos jogos eróticos. Em suma, o mistério
é completo, e tem início uma investigação policial que se segue a
132 do bom uso erótico da cólera

um tríplice assassinato praticado nos moldes dessa encenação (um


serial killing • de que a América, país de grande consumo, parece ser
apreciadora, tão frágil é a margem que vai do fetichismo da mercadoria
à perversão).
O investigador, herói do filme, logo adquire a convicção de que
uma mulher é responsável por essa série de assassinatos. Todas as
vítimas responderam a um anúncio de jornal, caracterizado pelo fato
de que, longe de se contentar em solicitar uma aventura amorosa, pedia
um certo veio poético ao amante buscado. O justiceiro, por conseguinte,
prepara uma armadilha, passando ele mesmo a utilizar a coluna dos
anúncios, e acaba encontrando, entre as mulheres que respondem,
aquela por quem se apaixona, além de ela se transformar rapidamente
em suspeita. À medida que progride a investigação, ele se recusa a crer
na culpa da moça, a despeito do acúmulo de indícios - como, por
exemplo, a presença na casa dela de todos os anúncios correspondentes
aos assassinatos, ou como quando ele se dá conta de que ela anda
armada. Não é bem que ele se recuse a crer naquilo de que é quase
obrigado a estar convencido, mas seu amor o faz duvidar reiterada-
mente. (A não ser que essa própria potencialidade assassina esteja na
origem de seu amor.)
A trama segue seu curso e, segundo a armadilha que ele mesmo
imaginou, chega a vez de o herói ser a vítima seguinte, se essa mulher
for realmente a assassina. Uma vítima tão designada, já que ele atendeu
positivamente aos critérios do anúncio de jornal, quanto condes-
cendente, uma vez que ele ama essa mulher, a despeito ou por causa
da ameaça que ela faz pairar sobre ele. Assim, ele chega ao âmago da
cilada que armou, segundo seu papel de justiceiro, e que é também a ci-
lada que ela lhe prepara, se for a assassina. Os dois irão se encontrar
segundo as duas vertentes de que nasceu seu amor, e somente o amor
aparece em primeiro plano, já que a moça não sabe que ele é policial
e ele não tem certeza da culpa dela. Os dois protagonistas, assim,
armam uma cilada mútua, até a cena final, em que o herói espera que
aquela que se tornou sua amante venha assassiná-lo.
No momento desse desfecho e contrariando todas as expectativas,
é um desconhecido que comparece ao encontro. Ele tenta assassinar
aquele a quem surpreende, mas só depois de obrigá-lo a se despir e a
imitar na cama uma cena de amor, prelúdio que lhe é necessário para

• Assassinato em série. (N.T.)


o sintoma da ejaculação precoce 133

matar. Na verdade, esse ciumento furioso é o ex-marido da suspeita,


abandonado por ela por causa de sua violência. Desde então a vinha
perseguindo, e os anúncios eram seu meio de abater, um após outro,
aqueles que pudessem ser amantes de sua ex-mulher. Mais além da
mulher amada, na sua sombra, seguindo-a por toda a parte, estava o
assassino, o desconhecido violento que a havia possuído no passado.
E é por ter-se arriscado à morte que o justiceiro, protegido pela fantasia
edipiana que aspira a uma distribuição equitativa do gozo, assegura-se
de seu amor, não sem quase acidentalmente eliminar, no decorrer da
luta que se segue, aquele que talvez já não seja seu rival, mas nem por
isso é menos ameaçador.
Como muitas ficções, quando suas narrativas são bem conduzidas,
essa história pode prestar-se a diversas leituras. Não poderíamos, por
exemplo, reconhecer nela a trama edipiana do assassinato fantasístico
que todo homem tem que cometer para possuir uma mulher? Ou ainda,
o risco enfrentado como preço do que uma mulher exige de um homem
antes de aceitá-lo como amante? A duplicidade do amor, o que pode-
ríamos chamar de" fantasia do justiceiro" (tão em voga na era moderna
desde a história de Tebas), o desconhecido e a violência do pai primevo,
eis aí um punhado de temas que poderíamos desenvolver a partir desse
roteiro.
Retenhamos apenas a cena preliminar, pelo que ela evoca da ejacu-
lação precoce, quando um homem que parece estar fazendo amor é
abatido por trás por um personagem cuja identidade ignora, talvez uma
mulher, como indicaria sua postura, mas que é finalmente reconhecido
como aquele que foi um primeiro amante, rejeitado e esquecido -
paterno, nesse sentido. Assim como o conjunto do filme explicita a
brevidade de sua primeira seqüência, também o ejaculador precoce
representa num instante toda a complexidade da fantasia da qual uma
versão é assim exposta.

Simplicidade de princípio, complexidade de execução

Como parece bem-feita essa elucidação do mecanismo da ejaculação


precoce! Casando harmoniosamente um exemplo clínico, uma referên-
cia cultural cinematográfica e diversas considerações teóricas que não
estorvam com uma enxurrada de citações freudianas e lacanianas (as
quais, no entanto, facilmente encontrariam seu lugar aí), acaso ela não
traz convicção? Tudo parece indicar que agora possuímos um modelo
134 do bom uso erâtico da cá/era

sólido para compreender o bloqueio desse sintoma, e que doravante


será fácil ajudar os machos excitados até a incontinência a moderarem
seus excessos!
A manobra de fato se afigura fácil, já que parece suficiente efetuar
uma disjunção das funções paternas e, em seguida, permitir que a
primeira seja simbolizada pela segunda. Eis aí uma operação que
deveria produzir-se quase que sozinha, graças à rigidez do dispositivo
psicanalítico, não é verdade? De fato, o dispositivo analítico opera
- por princípio - uma disjunção das funções paternas: o analista
encarna uma potência tutelar, e portanto, ocasionalmente paterna, de
quem se espera a salvação, e por força dessa representação, não deixa
de ser desprezado - coisa que o pagamento de cada sessão permite
simbolizar automaticamente. Duas outras características deveriam
concorrer para essa orientação salvadora. Por um lado, o analista
acha-se numa posição de impotência confessa quanto à sedução sexual.
Tem essa reputação, oficialmente. Os ditos mais excitantes ou os
sonhos escabrosos de que ele é protagonista podem ser-lhe contados,
sem que esses galanteios rebuscados tenham a menor conseqüência.
E, por outro lado, o ato de falar participa da simbolização evocada
pela transferência assim atuada.
A orientação perversa contrariada desse dispositivo, portanto, de-
veria bastar por si só para separar as funções paternas e simbolizar
uma pela outra. Aliás, nota-se que muitas vezes é isso que acontece,
sem que o analista tenha que proferir a mínima palavra, quer suas
sessões sejam longas ou curtas, e quer ele se faça remunerar em cheque,
em espécie, mensalmente ou no fim de cada sessão. Com bastante
freqüência, a vida sexual do analisando modera-se sem maiores difi-
culdades e, entre outras coisas, o ex-ejaculador precoce realiza proezas
com que é o primeiro a ficar totalmente atônito (ou então, simetrica-
mente, uma mulher que tinha do orgasmo apenas um conhecimento
incerto, quando nf\o solitário, descobre suas delícias).
Infelizmente, surge r.Qm muita freqüência uma complicação, ainda
mais rebelde na medida em que é majorada pela majestade da própria
transferência. É que, se é certo que o tratamento permite simbolizar o
assassinato de um pai, colocado num estado de impotência pelas
coerções do próprio dispositivo, o que assim se simboliza, todavia,
permanece num perigoso equívoco, em função da posição paterna
visada pela fantasia. Com efeito, o desejo de eliminar o pai pode ser
uma conseqüência da sedução exercida por ele - no sentido de que o
sujeito alienado por seu amor, e conseqüentemente feminilizado (seja
o sintoma da ejaculação precoce 135

ele homem ou mulher), pode desejar defender-se desse sedutor poten-


cialmente violador. Mas esse sujeito também pode desejar a morte do
pai por este ser um rival em relação à mãe. O objetivo desse desejo
distingue-se inteiramente do primeiro: por exemplo, se, toda vez que
se apresenta um sedutor Ímportuno, uma mulher mata nele o pai,
segundo os mil procedimentos próprios de seu sexo (recusando-se
depois de se haver oferecido, sendo frígida, preferindo repentinamente
seu melhor amigo etc.), está claro que ela não terá eliminado um rival
ao agir assim.
O assassinato fantasístico de um pai sedutor, portanto, não é a mesma
coisa que o desejo de eliminar um rival. É verdade que o pai nunca é
tão sedutor e violento quanto no momento em que desdenha quem o
ama e volta seu amor para o Outro que é a mãe. Entretanto, é importante
distinguir bem esses dois tempos da fantasia, ativo e passivo, porque
são eles que constituem a dificuldade da transferência no caso do
sintoma aqui examinado. O menino é seduzido pelo pai na medida em
que este o protege do que há de invasivo em seu amor pela mãe. Ele
o ama na medida em que é assim desembaraçado da impossibilidade
de seu próprio amor. Mas, uma vez que ele mesmo tenha instaurado
esse dispositivo de salvaguarda, com toda a força de seu amor, passa
a detestar esse pai, porque ele será um rival, nos moldes de seu desejo.
É a partir dessa declaração de guerra que a função paterna é ativamente
simbolizada, e o pai passa de sua função de violador (apassivador) para
a de pai espiritual (morto). Mas, nem por isso as duas seqüências
sucessivas deixam de se opor num ponto, já que uma depende de um
desejo de conquista ativo (a rivalidade) e a outra resulta de uma defesa
passiva (contra a sedução).

A distinção entre as vertentes ativas e passivas da fantasia é importante,


porque é homogênea à diferença simbólica entre os sexos: se a "bis-
sexualidade" é uma noção que possui alguma pertinência, é menos
pelo prisma dos resíduos anatômicos do que pelo ângulo de uma
atividade fantasística que oscila entre uma posição feminilizada e um
humor guerreiro basicamente viril. O desejo assassino contra o sedutor
diz respeito ao sujeito feminilizado, enquanto o concernente à rivali-
dade qualifica o masculino. Por isso, é importante notar em que vertente
de identificação sexual encontra-se um sujeito quando ele registra sua
agressividade em relação a um personagem paterno. E continuaríamos
aproximativos ao situar na rivalidade edipiana o que é uma defesa
contra a sedução.
136 do bom uso erótico da cólera

Última conseqüência dessa distinção: o desbloqueio do sintoma é


dos mais espinhosos quando a agressividade do analisando dirige-se
ao pai violador, já que qualquer gesto de autoridade por parte do
analista, por mais indulgente e neutro que ele seja, reforçará a figura
paterna, bem como, conseqüentemente, o sintoma, como é o caso
confesso na histeria (feminina ou masculina). Tanto assim que a simples
presença do analista poderá complicar uma situação já precária, a ponto
de bloquear, ao menos por algum tempo, o processo analítico. Não
será difícil separar as funções paternas a partir de tal circuito?
Com efeito, o assassinato fantasístico desloca o amor para um pai
unicamente espiritual, e como, salvo no que concerne à exceção mística,
não existem outros pais na terra senão homens sexuados, estes tiram
um lucro desse amor excessivo, que não lhes é realmente dirigido. Os
homens, portanto, graças a essa nova queda terrestre e retroativa, são
investidos de um sentimento que se dirige, para além deles, a um pai
morto. São sedutores graças a uma qualidade que, na maioria dos casos,
certamente não lhes pertence: a de não se interessarem pelo sexo.
Enganador por definição, portanto, o homem amado fertiliza mais uma
vez o território do sintoma, e não vemos a quem o amor possa ser
votado com toda a segurança, deixando de lado algumas exceções de
pura convenção, entre as quais se incluem os padres e os psicanalistas
(e é óbvio que, a não ser pelo respeito devido à mencionada convenção,
essas exceções não resistem a um exame sério).
É por isso que criam dificuldade a separação das funções paternas
e a simbolização de uma pela outra: a função do violador é infinitamente
reencetada pela sede de amor gerada pelo pai espiritual, já que ele
acaba por se encarnar. Assim, a simbolização jamais consegue produ-
zir-se de uma vez por todas. Nesse trajeto, a cada vez, o amor renasce,
sempre tão puro quanto cortês, virando as costas desde o começo a seu
tormento carnal. E, a cada vez, ele é impelido para suas trincheiras e
empurrado até voltar a cair em sua perversão, que lhe estende delicio-
sarr.ente os braços no fim de um caminho que ele julgava ser o da
saída.

NOTAS

1. Para avaliar a banalidade dessa fantasia, basta reler Mademoiselle Else, de Arthur
Schnitzler.
o sintoma da ejaculação precoce 137

2. Neste pon,o, convém sublinhar a freqüência, nas neuroses obsessivas, da lem-


brança da cena primária numa posição a tergo, talvez porque ela conjugue mais
facilmente o erotismo anal com o gozo sexual.
3. A generalidade desse benefício oculto da ejaculação precoce poderia ser mostrada
pela seriação de diversos casos clínicos, mas seu fragmento mais sucinto é o de
um paciente que começou a analisar essa particularidade depois de observar que
exclamava "Merda!" a cada ejaculação precoce.
4. Sea of love, filme norte-americano de 1989 (diretor: Harold Becker), baseado
num romance de Richard Price.
O desejo de ter um filho
oferece uma solução pacífica?

Por motivos que decerto se prendem ao recalcamento do que ele tem


de traumatizante, e a despeito da experiência corriqueira, o amor tem
a reputação de corresponder a um ideal de harmonia. A ausência de
conflitos deveria acompanhar a vida amorosa, pelo menos na medida
em que supomos que o amor consiste em chapinhar no açúcar. E aqueles
que só com grande dificuldade realizam esse ideal normativo esfor-
çam-se, ao menos por algum tempo, por se conformar ao pacifismo
que, segundo crêem, rege harmoniosamente as relações dos outros,
daqueles que se amam de verdade. Contudo, o ideal de harmonia
prevalece na proporção inversa à realidade comum - um ideal do qual
o nascimento de um filho é freqüentemente considerado a prova. Assim,
ter um filho pode afigurar-se uma solução para a desarmonia ou o
mal-estar das paixões prestes a sufocar, trazendo uma justificativa para
vidas comuns desabitadas por seu ímpeto inicial. Entretanto, o desejo
de ter um filho e o eventual nascimento de um rebento não levantam
para o casal novos problemas, pelos quais ele não esperava? Por que
haveria o filho de trazer uma solução pacífica?
Os animais se reproduzem sem consciência nem ruminações meta-
físicas, e durante todo o tempo em que seu corpo lhes permita fazê-lo,
sem se preocupar com as circunstâncias ou as dificuldades prováveis.
A progressão das estatísticas mostra que o mesmo acontece com o
conjunto da humanidade. Que há de mais natural do que ansiar por
uma descendência? E nem é preciso um levantamento aprofundado
para constatar que o desejo de ter um ou vários filhos move a maioria
dos seres humanos. Nada parece mais normal do que querer ultrapassar

138
o desejo de ter um Jillro r,ferece umu solução pucíficu? 139

o egoísmo da própria existência: elegância de um gesto característico


do mais modesto dos homens, que, sem frases inúteis, assim se curva
à potência da morte, mas vencendo-a. E há, por último, a economia do
procedimento, que lega à descendência o mistério da renovação da
vida, mais forte que o dom do nome, dos bens ou de qualquer
prerrogativa.
É freqüente em nossas sociedades, depois de uma adolescência
prolongada, que a realização de tal desejo seja adiada para depois.
Entretanto, ele passa então a dominar secretamente a vida amorosa,
mesmo quando ela parece das mais atormentadas. E quando, muito
raramente, a recusa de qualquer procriação é proclamada, não apenas
por ora (o que é comum), mas para sempre, essa própria recusa não
deixa de organizar o conjunto da sexualidade, da qual revela o ponto
mais crucial.
Portanto, é contrariando o senso comum que buscaríamos na pro-
criação a realização de sabe-se lá que desejo que pudesse ser mais
profundo do que aquele de que a vida simplesmente invoque a vida
(não tendo a potência vital outro objetivo, nessa questão, senão a
realização de sua própria potência, nem outra regra senão sua própria
perenidade). Entretanto, apesar dessas considerações que colocam a
espécie humana em harmonia com a obstinada exuberância dos animais,
ou até dos vegetais, ainda é duvidoso que a simplicidade de uma pulsão
de vida, mais forte do que tudo, reja a reprodução humana. Que há de
"natural" na sexualidade humana? Seu resultado aparente, isto é, a
reprodução da espécie, parece corresponder ao desígnio superior de
uma "natureza" que impeliria, por toda parte, ao aumento e à multi-
plicação de seus sujeitos. E, no entanto, como não ver que a escolha
do próprio sexo, no que concerne aos seres humanos, só ocasionalmente
corresponde à anatomia, e que essa coincidência aproximativa invalida
de antemão qualquer conaturalidade do apetite sexual?
A partir do momento em que estudamos as exceções e as particu-
laridades, as questões se acumulam. De modo que acabamos por nos
perguntar o que terá garantido tamanha longevidade a uma espécie
cuja genitalidade está presa em contradições psíquicas que, examinando
bem, parecem insuperáveis. A heterossexualidade - condição sine
qua non - está longe de ser uma disposição natural do ser falante.
Prova disso é que numerosas civilizações, dentre as mais refinadas,
não consideravam a atração do homem pela mulher uma norma de vida
digna de ser valorizada. O amor, tal como o cantamos - reputado por
140 do bom uso erótico da aí/era

alguns como sendo apenas uma invenção dos trovadores franceses e


italianos do século XII-, coloca a mulher numa posição tão sacralizada
(digna conseqüência da invenção cristã, na qual nosso erotismo conti-
nua a se apoiar), que nada, no sentimento que lhe é dedicado, parece
destiná-la a ser mãe (a não ser sob a condição de permanecer virgem).
Acaso existem muitos romances de amor - ou filmes - em que, na
ocasião de um primeiro encontro, o herói declare sua atração pela
heroína manifestando-lhe seu desejo de ge_rar um filho nela no menor
prazo possível?

Divergência de princípio entre o amor e a reprodução

O amor nunca se declara em nome da procriação; que é considerada


apenas uma conseqüência não essencial e, além disso, aleatória. Nossa
mitologia implica que o homem e a mulher se encontrem por um motivo
sentimental. É somente a título de conclusão que podemos ler, em
nossos contos, que "Eles se casaram e tiveram muitos filhos ... " Com
essas belas palavras terminam nossas lendas e nossas fábulas, e o que
acontece depois desse final já não parece ser da alçada de Eros. Essa
posição tão cristã do amor heterossexual apaga qualquer relação desse
sentimento com a paternidade e a maternidade.
Que há de mais comovente que o amor cortês e seus sucedâneos
modernos? Que emocionante é o tempo de suspensão em que a beleza
feminina, tão intocável quanto novamente virginal, requer os cuidados
de um amante disposto a enfrentar todos os perigos para ser digno de
sua bela! (E os perigos que se acumulam no céu de nossa efêmera
liberdade sexual -considerando-se a transmissibilidade de certos vírus
- renovam mais uma vez essa façanha, estabelecendo as regras do
safe sex!*.)
Nesse espaço, o desejo se aguça e se embriaga com sua própria
busca, tão mais glorificado quanto mais permanece insatisfeito. Nada
de novo desde o cântico de Dante a Beatriz. Essa valorização do desejo,
tão impressionante, por exemplo, no mito moderno de Don Juan, e
nunca tão poderosa como quando a figura da mulher é mais inacessível
do que intercambiável, situa um lugar-comum literário, artístico ou

• Sexo seguro. (N.T.)


o desejo de ter um filho ll/erece uma solução pacífica? 141

publicitário tão poderoso, tão "natural", por sua vez, que seu encanto
oculta a estrutura em que ele se apóia e que ele reproduz. Não que
convenha ansiarmos por nos livrar de tão doce veneno. É que estamos
tão mitridatizados que já não vemos sua função nem suas conseqüên-
cias. Sua curtíssima embriaguez fica suspensa, qual uma doce lem-
brança, no zênite de nossos amores, e sua efemeridade persevera em
nosso pensamento.

O amor, tal como o cantamos, idealiza uma mulher Maiúscula, como


condição prévia da sexualidade comum. Que significa essa idealização,
esse investimento característico da mulher amada, às vezes tão violento
que eventuais defeitos de sua anatomia ou falhas desagradáveis de seu
caráter são esquecidos, como que por encanto? A idealização não
concerne simplesmente às qualidades efetivas e mais ou menos reco-
nhecidas da mulher amada, quer se trate de sua beleza, seu charme,
sua inteligência ou sua gentileza. Na verdade, todas essas qualidades
são sempre relativas e não podem contentar o absoluto do Ideal. (Além
disso, sua apreciação pode oscilar de um instante para outro.) Se
nenhum desses critérios merece ser preservado, que significará a idea-
lização, senão que uma certa qualidade é atribuída a uma mulher,
embora ela não a possua? O amante enceguecido superpõe a qualquer
preço a crença numa qualidade que não é própria dessa pessoa, mas
que corresponde ao que ele espera encontrar nela. Porventura, o ideal
não é aquilo que foi desejado e que, por conseguinte, continua a sê-lo
todas as vezes que as condições para isso parecem reunir-se? E o desejo
as reúne com tanta facilidade! Assim, a mulher amada é investida de
uma qualidade independente de suas características efetivas, um atri-
buto como que sobrenatural e suprassensível, uma dessas qualidades
de que não há muitos casos: em particular, ela é investida pelo amante
com a qualidade de ser virgem, ao contrário do que foi o estado
deplorável de sua mãe, de quem ela assim se distingue radicalmente
(pelo menos enquanto não se une, por sua vez, à condição materna).
Postular a virgindade como o valor que definiria a idealização talvez
faça sorrir em nossa época, na qual essa virtude parece pouco valori-
zada. Entretanto, longe de ser o florão encantador da noite de núpcias,
próprio das épocas em que a administração do simbólico não se dava
sem um certo peso, a virgindade que importa é, antes de mais nada,
efeito da própria idealização, isto é, da cortina de fumaça que permite
ao rapaz sair discretamente de sua família, uma cortina de fumaça que
142 do bom uso erótico da cólera

separa a mãe da mulher. Daí resulta o aforismo, pleno de esperança,


de que uma mulher é virgem para todo homem que a ame (a idealize).
Pensando bem, na verdade, a virgindade pode ser conquistada tantas
vezes quantas corre o risco de se perder. Não se trata propriamente de
que uma mulher saiba recusar-se ao homem que ama, por alguns
momentos ou por muito tempo, como se o hímen lhe estivesse reser-
vado. Se se tratasse apenas desse estratagema, recompor a virgindade
seria uma operação simples e das mais difundidas. E o mesmo acon-
teceria com o subterfúgio em que consistiria, numa mulher, dar a
entender ao amante que ele é o primeiro homem que ela jamais conheceu
em tudo o que há de essencial, que nunca o amor, o gozo ou ambos
foram tão maravilhosos quanto com ele, e que aqueles que o antece-
deram não tiveram realmente importância. Qual homem deixa de
acreditar prontamente nessas afirmações? E, se duvidasse, estaria
errado em ver nelas uma mentira digna da duplicidade feminina, pois
o fato de lhe conferir tal prioridade corresponde, naquela que a afirma,
tanto a uma amnésia do passado quanto a uma necessidade de seu gozo
atual.
Na realidade, longe de recorrer a tais procedimentos, é antes por
seu simples movimento que a idealização produz o himeneu, segundo
o interessante duplo sentido que essa palavra possui em nossa língua,
onde significa, ao mesmo tempo, a barreira da virgindade e o laço
conjugal.* Se a mulher é idealizada por possuir uma qualidade que
deveria ter sido a da mãe, a barreira que está na origem da idealização
consiste menos na característica fisiológica da virgindade do que no
sinal da interdição: ele concerne ao que caracteriza a "filha do pai",
aquela que não pode pertencer a outro sem sua permissão, e que
continua a fazê-lo sub-repticiamente até depois das núpcias. Nesse
sentido, a idealização de que se trata tanto pode arranjar-se com uma
virgindade declarada quanto contentar-se com uma fantasia, ou ser
reconstruída graças à presença de um traço "do pai", qualidade sutil
mas fácil de descobrir ou de inventar na mulher a ser amada. O amor
confere, ao mesmo tempo - nisso sendo fiel aos cânones do cristia-
nismo - , uma inesgotável potencialidade virginal e a marca de um
pai espiritual. O exemplo clínico seguinte mostra um desses casos em
que o amor idealiza seu objeto.

• A palavra é hymen, que tem as acepções de "hímen" e de "casamento", usada


na expressão anterior, faire hymen. (N.T.)
o desejo de ter wnfillw oferece uma solução pacífica? 143

A idealização do amor como conseqüência do recalcamento

Somente o amor desvairado justificava a existência desse rapaz e, todas


as vezes que era tomado por esse sentimento, ele sempre lhe cedia
tudo. Estar apaixonado, aliás, segundo suas palavras, era a única
experiência em que seu talento era realmente solicitado. Quanto aos
outros acontecimentos de sua vida, obrigações, família, estudos, tra-
balho, ele os ia suportando sem muita paciência, submetendo-se a eles
na medida do necessário, sem hesitação mas sem entusiasmo. Na
realidade, vivia apenas à espera do amor fulminante, o único capaz de
lhe descortinar a beleza das coisas, de reduzi-lo a uma vacuidade
deliciosa, que o tornava escravo de uma aparência, um olhar ou uma
voz.
Quando ainda era pequeno, já levara a família à loucura, ao desa-
parecer numa tarde de verão e não mais reaparecer por vários dias,
dormindo ao relento ou nos celeiros de uma aldeia vizinha. E isso com
a única finalidade de mal entrever uma menina um pouco mais velha
que ele, que não morava longe de sua casa e estava em veraneio como
ele, embora fosse mais estreitamente vigiada - a amada, aliás, ficara
mais assustada que lisonjeada com o sentimento que havia provocado.
Em várias ocasiões depois disso, seus estudos tinham sido interrom-
pidos por um único objeto, o amor. Além de nem sempre terem sido
felizes, essas paixões ocupavam todo o seu tempo e se desenrolavam
como se o enamoramento devesse ser excludente de qualquer outro
interesse, para ficar à altura do que se esperava dele. Seria o sintoma
desse rapaz o de um donjuanismo de conseqüências inoportunas? Tal
qualificativo não convinha nem um pouco, porque ele nunca perdia
tempo, na rua, nos bares ou em seus locais de atividade, procurando
aquela que pudesse ser o próximo objeto de sua paixão. Preferia
abster-se desse tipo de busca estafante, sendo mais tímido e tendente
a se isolar do que conquistador. Mas, onde quer que fosse, era possível
que um olhar ou um gesto feminino chamassem sua atenção e dele se
apossassem repentinamente, e então ele sentia o peso de uma potência
mais forte do que tudo. Tinha que se precipitar de imediato e enveredar
por essa espécie de engrenagem em que nada mais tinha importância,
a não ser a proximidade daquele olhar e daquele gesto.
Por certo ele teria podido, não sem recorrer à fortuna familiar, passar
assim a maior parte do tempo em que alguém se torna homem. Mas a
repetição e a violência desses momentos em que se dispunha a se
despojar de tudo, a começar por ele mesmo, em benefício de mulheres
144 do bom uso erótico da cólera

que, aliás, não lhe pediam tanto zelo, acabaria por levá-lo a interrogar
essa inquietação. Vá lá que ele escrevesse a uma mulher - e uma vez
por ano, quando muito - que só valia a pena viver por ela. Mas,
quando o emprego de uma fórmula tão extrema quanto essa repetiu-se
em duas ocasiões, entre abril e setembro, com uma sinceridade que
eliminava o fingimento ou o calculismo, e quando, entre a mesma
primavera e o mesmo outono, essas paixões repetidas ocasionaram o
abandono de dois concursos universitários, é compreensível que aquele
que fora fulminado por esses sentimentos se formulasse algumas
questões na entrada do inverno, menos porque só restassem cinzas num
terreno queimado por Eros do que pelo fato de que a espera de um
novo amor continuava a impor sua lei, sempre igualmente vigilante e
sempre igualmente insaciável.
Foi nessas condições que se formulou uma demanda de análise que
não deixou de evocar um apelo ao policial, pois esse rapaz realmente
pareceu falar-me de seu pendor como que à espera de que eu o repreen-
desse. E, embora o propósito da iniciativa freudiana nunca tenha sido o
de livrar quem quer que seja do mal de amor, ela também não pode
convencer do contrário os que pensam que ela é feita para isso, ou, pelo
menos, para pôr ordem nas questões do coração.
Nesses momentos, o analista deve vestir sem reclamar as roupas
que lhe são estendidas, inclusive as de guarda da vida sexual, de
guardião dos bons costumes e do patriarcado. Quando esse rapaz veio
ver-me pela primeira vez, lembro-me de ter tido o sentimento de que
ele não desejava nada menos do que uma sólida vigilância. Também
me aflorou a idéia de que a função policial atribuída a mim logo de
saída devia, além de lhe fazer falta há muito tempo, também interessar
de algum modo a seu erotismo. Como quer que fosse, pus meu quepe
na cabeça com resignação, não sem esperar que os incidentes do
percurso me permitissem trocar de roupa o mais depressa possível.
Como nada lhe interessasse tanto quanto o amor, foi com seus
incidentes que ele quis me entreter, a princípio. E como, apesar dos
tormentos provocados por Cupido, nada é mais valorizado que esse
sentimento em nossa cultura, onde se consideram bem-aventurados os
que o experimentam, não foi sem uma pitada de complacência que ele
se entregou rapidamente a isso. Tanto assim que, ao longo da narração
sucessiva de suas conquistas, de suas noites de desvario, da embriaguez
erótica aliada à estética de situações contrastantes, não ficou muito
clara a utilidade de uma escuta atenta, a tal ponto aquilo tudo parecia
proporcionar-lhe o mais vivo prazer. No fundo, estaria ele exprimindo
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacífica? 145

a mais ínfima queixa a propósito desses momentos deliciosos? É


verdade que o que descrevia estava bem próximo de uma espécie de
instante de despersonalização, onde ele já não era mais do que desejo
diante da mulher amada, de quem se tomava um escravo submisso,
obedecendo ao menor de seus caprichos. Entretanto, esse estado não
lhe ocasionava remorsos, mas, antes, uma alegria selvagem, tão mais
violenta quanto mais ele podia abandonar tudo por seus amores. Ele
era capaz de abandonar tanto seus projetos mais ambiciosos quanto
suas preferências mais modestas. Pois, não lhe acontecera muitas vezes
encerrar-se em casa por dias inteiros, à espera de um simples telefo-
nema, e sem outra ocupação além dessa espera?
É claro que o quepe me pesava muito sobre as orelhas, pois esse
exercício logo me pareceu enfadonho e, às vezes, era-me difícil reprimir
um bocejo. Alguns detalhes, contudo, logo me pareceram obscuros, e
resolvi explorá-los. Abstendo-me de responder de antemão a questões
que pareciam evidentes, acabei por me indagar o que era, exatamente,
que tanto o fascinava no momento da conquista, a ponto de ele perder
até mesmo o sentido de sua própria presença (característica que o
contrastava com as imagens presunçosas e narcísicas de Don Juan). E
também me perguntei por que aqueles amores tão belos mergulhavam
com tamanha freqüência no esquecimento, da noite para o dia, embora
esse rapaz, agradável e passional, mais conhecesse o sucesso do que
o fracasso. E eu tampouco compreendia porque, entre essas duas
possibilidades, o fracasso parecia cativá-lo muito mais do que o sucesso.
Considerar" masoquista" o gosto pelo fracasso é um rótulo psicológico
que não explica nada. Tão logo uma mulher o fazia sofrer, involunta-
riamente ou mostrando-se cruel, a dor infligida era capaz de retê-lo
muito mais do que a afeição das que cediam a ele. Quando sucedia a
uma de suas conquistas confessar-lhe seu amor, essa declaração era
suficiente, às vezes, para que o rapaz sentisse produzir-se nele uma
espécie de dilaceração.
"Quando uma mulher pronuncia a palavra 'amor' e confessa sua
paixão por mim, balanço a cabeça como se quisesse dizer não, mas é
tarde demais. Fico muito sorridente, é claro. Mas sinto uma espécie de
desolação, como se, ali onde tudo poderia começar, viesse anunciar-se
um fim certeiro e mais ou menos rápido. Produz-se como que uma
fratura definitiva. A mulher que eu amo precisa ser minha dona, eu
preciso ser integralmente possuído. Quando sou eu quem manda, está
tudo acabado. Produz-se uma espécie de ciclo infernal que eu não
146 do bom uso erótico da aí/era

compreendo, porque essa confissão amorosa representa, na realidade,


o que pareço estar buscando ... Esse ciclo me faz pensar num sonho
repetitivo da minha infância, onde me aparecia um fantasma, ou, mais
exatamente, uma mulher desconhecida, coberta por um véu. Eu puxava
o véu para descobrir seu rosto, e aí ela desaparecia. Noutras versões
desse sonho, eu via o mesmo fantasma, coberto por meu próprio lençol.
Nesse caso, eu ficava descoberto em minha cama, tomado pelo terror,
até que acordava e, aliás, na maioria das vezes, minhas cobertas haviam
efetivamertte caído no chão. Parei de ter esse pesadelo quando devia
estar com uns quinze anos. Aliás, estou-me dando conta, ao lhe contar
isso, de que essa interrupção deve ter correspondido mais ou menos
ao fim do episódio de misticismo intenso que marcou o começo da
minha adolescência, pouco antes que minhas paixões se tornassem mais
terrenas. Essa é uma lembrança engraçada, aliás, porque pus fim a meu
gosto pela Igreja depois de uma peregrinação a Chartres, onde as cenas
da Paixão de Cristo tinham sido teatralmente representadas por uns
estudantes. Meu interesse por Deus evaporou-se em prol da Virgem
Maria, transubstanciada numa jovem estudante (na ocasião, coberta
por um véu, de fato) que, pouco depois, foi uma de minhas primeiras
amantes ... bom, na verdade, estou enfeitando um pouco, ela foi a
primeira ... "
Sem perder tempo em trocar meu quepe por uma mitra, observei
então o que se desenhava graças a essas associações. A figura da mulher
digna do enamoramento tornou-se mais clara, através da evocação do
fantasma virginal que precedera a primeira amante. Como sempre
acontece quando uma conjectura parece - unicamente pelo dito do
paciente - ter algum valor de verdade, resta ainda que ela tenha sua
prova sintomática, não ocasional, mas confirmada. Foi por isso que se
tornou necessário obter alguns esclarecimentos mais técnicos sobre o
desenrolar de seus amores, mesmo que a complacência d9 relato
sofresse um pouco com isso. Assim, informei-me, tão logo isso foi
possível, sobre o curso mais exato dos acontecimentos e sobre os
detalhes de um erotismo cujas particularidades tinham sido deixadas
na obscuridade, em prol da beleza dos sentimentos. Usando o tato
necessário nessas ocasiões, fiquei sabendo como ele se saía em suas
relações sexuais, bem como as reações de suas parceiras. Pois não há
apenas amor no que uma mulher pode confessar a um homem que a
ama apaixonadamente; há também seu gozo, que ela exprime com
maior ou menor clareza, e pelo qual testemunha ou não algum reco-
nhecimento ao amante.
o desejo de ter 11111 filho oferece uma solução pacífica? 147

Foi assim que fiquei sabendo que, se ele tivesse de recensear as


companheiras com quem seus amores haviam durado mais de algumas
semanas, nenhuma parecia ter tirado do desenrolar da ação muito prazer
sexual. Sim, era isso, nenhuma gozava realmente. Assim, já que a
impertinência de minhas questões lhe permitia dar-se conta disso, será
que a frigidez feminina não exercia uma certa atração sobre ele, já que,
afinal, essas eram as mulheres que ele preferia? E essa qualidade de
relativa frieza (que não deixava de excitá-lo, dando-lhe a esperança de
conseguir fazê-Ias gozar no dia seguinte) não era uma maneira de
preservar uma parcela de virgindade·? Sem dúvida, até esse momento
ele não prestara muita atenção ao que havia considerado um detalhe,
avaliando que os sentimentos eram mais importantes.
Mas, não teria ele querido encontrar nessa característica um sinal
da pureza delas, traço que, aliás, só adquiria valor por constituir uma
série? Essa particularidade ganhou ainda mais relevo na medida em
que, nesse momento, ele se perguntou se, em contrapartida, o prazer
feminino não lhe causava medo. E então recordou vários episódios em
que havia abandonado uma ou até várias de suas amantes sob um
pretexto estranho ... Sim, era isso! Ele tivera de fugir rapidamente de
algumas de suas parceiras, que, além dé seu amor declarado, gozavam
ruidosamente. Uma, em especial, ele se lembrava, entregara-se ao
prazer com tamanha violência, e ele ficara tão inexplicavelmente angus-
tiado depois disso, que não havia conseguido acabar a noite com ela.
Tinha ido embora, pretextando uma súbita necessidade de dar uma
caminhada.
Até então, embora valorizasse o erotismo, ele sempre achara que
seu desejo por uma mulher estava ligado a suas qualidades estéticas e,
mais ainda, espirituais. A partir daí, teve total amplitude para determinar
com maior precisão qual era, na realidade, o lugar do que ele chamava
de uma qualidade espiritual, um encanto. De modo que só fez eviden-
ciar-se com mais clareza porque esse traço sutil podia desvanecer-se
tão bruscamente. Com efeito, se lhe bastava obter o que alegava querer
para fugir disso, se a qualidade que ele buscava desaparecia tão logo
ele a conquistava, era porque ela dizia respeito, senão à virgindade,
pelo menos a uma forma de pureza quanto ao gozo. Quando uma mulher
deixava de se manter distante e, ao menos em seu imaginário, ele a
possuía, ela perdia prontamente o que o rapaz acreditava ser uma
qualidade espiritual. Mas, na realidade, o declínio de seu desejo, longe
de corresponder a uma generalidade poética concernente a sabe-se lá
que essência inacessível da amada, correspondia, simplesmente, a uma
148 do bom uso erótico da cólera

pulverização da pureza que ele lhe atribuíra e que, num mesmo impulso,
tomava de volta. Não era esse o ideal que ele encontrava em seu fascínio
pelas mulheres inacessíveis?
" ... Muitas vezes falei de certas mulheres cujo olhar me eletriza.
Agora posso precisar a razão dessa espécie de hipnose. Esse olhar que
me subjuga não é dirigido a mim, não vê nada ... É a perfeita indiferença
a tudo o que pode haver de humano, sua ausência do mundo e, em
particular, do mundo do sexo, que me arrebata nesse nada. Um olhar
assim poderia fazer-me pensar em minha mãe, evidentemente ... Ela
ficava doente com freqüência, e então passava os dias na cama, com
os olhos voltados para a janela, sem que nada pudesse distraí-la de sua
indiferença, daquela espécie de tristeza inacessível que me angustiava,
porque eu me perguntava o que estava acontecendo com ela, o que eu
devia fazer para ajudá-la a sair daquilo. Mas, não se trata simplesmente
disso, porque, fora desses momentos de isolamento bizarro, minha mãe
sempre me demonstrou uma grande afeição. Eu era, dizia ela, o primeiro
em seu coração, superava em sua afeição todos os outros seres humanos.
E é nela que eu penso, com o rosto voltado para a janela, quando evoco
esse olhar ausente de certas mulheres, que me faz abandonar tudo para
ser o que elas estão vendo. É o estado de um filho desarmado, diante
do provável sofrimento mudo da mãe, que isso me lembra ...
"Essa aproximação com esse estado vazio da minha infância me faz
compreender melhor essas espécies de momentos de loucura em que
eu consinto em tudo, por menos que uma mulher a quem amo o peça.
Estou sempre disposto a abandonar tudo quando me apaixono. No
entanto, tenho certeza de que as mulheres por quem me apaixono
diferem completamente de minha mãe num ponto essencial - e, ao
dizer isso, não estou falando, em absoluto, da relação sexual... é um
paradoxo incrível que vou lhe confiar. Para essas mulheres, sou muito
mais filho do que para minha mãe. Isso o surpreende, não é? Com
minha mãe, tenho a impressão de que nunca me senti filho. Aliás, como
é que eu poderia caracterizar minha situação em relação a ela? Pela
dependência? Impossível, porque, na realidade, eu me sentia respon-
sável por minha mãe. Era isso que me angustiava quando eu a via triste.
Eu tinha a impressão de estar encarregado dela. Quando volto a pensar
nisso, agora, falando com você, parece-me até que, de certa maneira,
ela estava sob a minha proteção ... Isso foi absolutamente verdade, aliás,
já que, certa tarde, havendo um professor adoecido, não tive aula e
voltei para casa mais cedo: encontrei minha mãe em casa com um de
seus amigos. Por um motivo que não compreendi na hora, ela me pediu
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacifica? 149

para não dizer nada a meu pai. Portanto, ela estava sob minha proteção ...
Eu poderia tê-la denunciado, se quisesse bancar o guarda ... "
Qual não foi minha surpresa, nesse instante, ao ouvir o representante
da lei vir à tona nesses termos em seu próprio discurso, quando eu
tivera, em minha primeira conversa com ele, o sentimento muito claro
de que ele estava me pedindo para pôr ordem em sua conduta! À
primeira vista, essa impressão não fora sem fundamento, já que ele se
queixava de estar dilapidando seu tempo por causa de suas paixões
amorosas. Entretanto, não teria sido ridículo adotar em relação a ele
uma atitude moralista, a pretexto de atender a sua demanda superficial
de enquadramento? Ainda mais que, nesse momento, revelou-se que
ele mesmo tinha sido um guarda, embora alistado a contragosto, naquele
momento da infância - que deve ter sido determinante - em que
havia protegido a mãe com seu silêncio. Atado pelo amor, não fora ele
intimado a participar da traição a seu pai?
O apelo ao guarda que ele me dirigira tão explicitamente na primeira
entrevista, portanto, destinara-se a livrá-lo desse fardo policial e a
disciplinar, antes de mais nada, o desejo de sua mãe, que pesara sobre
ele com um peso esmagador e que continuava a obcecá-lo todos os
dias, ainda que sem seu conhecimento. Era como se o desejo materno
não tivesse conhecido outro limite senão o amor do filho, que havia
ditado a lei. De modo que, depois de livrá-la da autoridade paterna,
ele destinara fantasisticamente a mãe, segundo seu desejo infantil, a
uma pureza virginal, qualidade que depois teria de procurar nas mu-
lheres, como se ela oferecesse a garantia mais certeira de ele ser amado
com exclusividade. Não apenas esse rapaz buscava numa mulher uma
qualidade fantasisticamente atribuída a sua mãe, como também, no
prolongamento dessa busca, era inevitável que se angustiasse com o
que o gozo feminino tem de desmedido para aquele que é seu objeto.
Assim, ele temia o prazer de uma mulher a ponto de fugir dele, depois
de havê-lo buscado, sem ver de que modo seu próprio desejo estava
comprometido com uma queixa que ele nem sequer conseguia formular.
E com uma violência ainda maior, na medida em que a frase da mãe,
pedindo seu silêncio, privara de eficácia sua fantasia de eliminar o pai
(guarda muito prático nessas ocasiões, no entanto), uma vez que a havia
realizado.
No exemplo que acaba de ser dado, o gozo feminino era temido cm
nome do Ideal. Do mesmo modo, será que o amor votado a uma mulher
não corre o risco de atravessar uma zona de turbulência a partir do
momento em que ela se torna mãe? Por idealizá-Ia segundo um desejo
150 do bom uso erótico da cólera

antigo, o homem que ama o faz a título de seu desejo edipiano recalcado,
que, quando criança, o fazia desejar uma mulher que fosse sua pro-
priedade exclusiva. Nessa medida, o amor idealizado, do lado mascu-
lino, não pode buscar a paternidade sem correr o risco, no mesmo
movimento, da perda desse amor. De fato, os lugares simbólicos
mudam, no momento do nascimento de um filho. Nesse instante, o
amante deixa de ser o menino, e já não lida com a mesma mulher
depois que ela se torna mãe. Reciprocamente, aliás, ele deixa de se
assemelhar àquele que foi, ao ser investido de uma identidade paterna.
Quando o homem às voltas com essas mudanças de condição não
consegue interessar-se por nada além do amor desvairado, ele tem então
que idealizar imediatamente uma outra mulher, ou, pelo menos, deixar
por algum tempo de ter uma ligação sexual com a mãe de seu filho,
até que volte a idealizá-la, operação realizável com a ajuda do recal-
camento.

Por que ter um filho nessas condições, senão em razão


direta do recalcado?

Não é a virgindade pura do amor (sua separação da sexualidade)


proporcional à severidade patriarcal de uma lei que coloca a mãe fora
do campo do desejo, por ter sido sua origem? Esse desejo freático, que
eclode sem que se saiba de onde vêm suas águas, nem a que se deve
a força de sua irrupção, afasta por princípio, portanto, tudo o que o
liga à noção de reprodução, ou mesmo de sexualidade. Assim, perma-
necem ignorados, no deslumbramento de um amor tão idealizado
quanto o exige o recalcamento, os laços secretos que, da virgindade
materna ao amor puro, situam o desejo de um filho como um enxerto
oculto e de aparência acidental. Como um fio de cabelo no oceano do
amor puro, advém aos que ontem se amavam sem pensar no assunto
o desejo de ter um filho amanhã. Em que circunstâncias pode surgir-lhes
esse desejo?
Freud, como se sabe, acabou por chegar à conclusão de que era à
guisa de reparação da castração que a mulher queria ter um filho, e
que ela desejava a realização desse anseio com aquele que fora o
suposto agente dessa castração, isto é, "um pai". É desse pai mítico,
de "um pai", que ela espera um filho, tão certo como é feita para ser
amada. De fato, se for amada, ela o será graças à admissão de sua
incompletude. Esse sentimento, portanto, se ela não o recusar, irá reme-
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacifica? 151

morar-lhe sua castração, seu agente e o que ela esperou dele. Nesse
sentido, o amante atual reativa obrigatoriamente o amor do pai (assim
como todas as suas contradições). Para a amada, a força do desejo
desdobra o amante entre ele mesmo e esse pai errático, esse fantasma
que a torna desejável. E seu desejo de um filho sucede, pois, ao desejo
sexual do homem graças a cujo amor a figura paterna terá ressurgido.
"Esperar um filho do pai", segundo a consagrada fórmula freudiana,
supõe esse desdobramento, já que a mulher não há de confundir seu
pai com seu parceiro. Se fizesse essa confusão, aliás, só se deixaria
desejar para melhor recusar, juntamente com o erotismo, o filho de um
pai que, por ter-se tornado objeto sexual, não mais o seria. Assim, o
muro do amor é cimentado pela interdição da qual provém.
Quando um homem quer ser pai e se empenha em realizar esse
anseio, tal desejo lhe provém de uma posição infantil. De fato, ele
começa por amar uma dada mulher, por motivos dos quais ignora quase
tudo, e segundo o processo de idealização (de recalcamento) já evocado.
Assim, deseja tornar-se pai a partir de uma posição infantil, porque é
filho. Dizer que a maioria dos homens procria na condição de filho
explica a complexidade das funções paternas. Do ponto de vista da
função simbólica, e quando gera um filho, todo homem terá estado
apenas a serviço da paternidade, já que nunca terá feito outra coisa
senão transmitir uma vida e um nome que também foram dados a ele
mesmo. Nesse aspecto, ele será filho para sempre, honrando sua
linhagem, pagando sua dívida sob essa forma contingente da reprodu-
ção. Ao fazê-lo, apesar desse papel de doador do nome, a função
simbólica da paternidade não deixará de ter sido integralmente asse-
gurada. Com efeito, aquele que tiver sido o suporte dessa transmissão
funcionará como pai para seu filho, embora não seja" Pai" de nenhum
outro modo senão nessa relação. Ele continua servo da função que
assim garante às cegas, filho digno de seu próprio pai e sem ter
consumado nada além de um dever filial. Nesse aspecto, somente os
filhos reconhecem a eficácia da função simbólica, sendo o pai aquele
que dá ensejo a esse reconhecimento (que ele não pode conferir a si
mesmo).
Ser pai apenas no que tange à própria descendência não tem somente
uma implicação para frente, mas também uma implicação para trás, a
de só ser pai "como filho". Dupla implicação do impossível da pater-
nidade, da qual é preciso distinguir cuidadosamente as duas vertentes
(que são menos uma frente e verso a que correspondam a neurose
infantil e a neurose adulta do que o resultado de uma posição bifronte
152 do bom uso erótico da cólera

na linhagem: de um lado, o homem é filho de seus pais, e de outro,


funciona proporcionalmente como pai para sua descendência). Eis aí
uma série de proposições que parecem verdades primordiais, mas essas
evidências talvez requeiram que sublinhemos algumas de suas conse-
qüências.
É que os problemas que concernem à vertente infantil da neurose
colocam-se nesses termos. Com efeito, se é verdade que todo homem
nunca é pai senão como filho, isso ainda não nos diz como filho de
quem ele se desincumbirá dessa função. Claro, filho de seu pai e sua
mãe, mas o problema da neurose está justamente em nunca situar esses
dois termos no mesmo plano. Seja durante um ciclo bem curto, seja
por um longo período de sua vida, o neurótico prefere, mais ou menos
secretamente, seu pai ou sua mãe, e às vezes vota a um dos dois uma
franca inimizade, enquanto o outro é objeto de sua solicitude. A essa
diferença de afeição, sujeita a reviravoltas em ocasiões precisas, cor-
responde uma diferença de deveres. Assim, o qu_e é devido a este ou
aquele membro do casal parental varia sensivelmente. Um dá ensejo
a uma reclamação (concernente ao dinheiro, por exemplo) no momento
em que o outro é coberto de presentes, que testemunham o sentimento
de uma dívida a seu respeito. Harmoniosamente - a título de resolução
do Édipo - , a solução de um filho do pai para a mãe é excepcional.
É nesse sentido do pagamento de uma dívida que um filho pode vir
à luz, quer tenha sido fantasisticamente concebido do pai ou para a
mãe daquele que é seu genitor. Esperar um filho do pai ou tê-lo para
a mãe não tem o mesmo sentido do ponto de vista da dívida, ainda
que, em ambos os casos, o resultado seja uma espécie de ódio pela
mulher ou pelo marido. No que concerne ao primeiro caso, uma vez
nascido o rebento, a mãe portadora I torna-se sempre demais, conside-
rando o desejo do filho-pai. Haveria motivos para inquietação quanto
ao destino que ela correria o risco de ter-lhe reservado, se, por seu
lado, ela não tivesse fantasias equivalentes - complementares, no
melhor dos casos-, fantasias que são as que a ajudaram em seu desejo
de ser mãe. De fato, ela também, de modo muito neurótico, pode
secretamente esperar seu rebento do pai ou dedicá-lo à mãe.
Que um filho gere um bebê, não na mãe, mas para a mãe, decerto
não pertence aos desejos conscientes daqueles a quem isso acontece,
embora os sinais de tal desejo sejam às vezes tão patentes que nos
perguntamos como pode sua significação escapar aos principais inte-
ressados. Além disso, é claro que esse desejo não é unilateral, e que o
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacífica? 153

pai ou a mãe do filho-pai ou da filha-mãe também estarão, um ou outro,


implicados nessa complexa constelação.
É o que acontece com a avó que oferece regularmente ao filho-pai
um presente (uma pequena soma em dinheiro) no ... Dia das Mães. E
o faz a pretexto de que, assim, ele poderá dar dinheiro a seu neto, que
poderá presentear sua mãe. O sentido dessa festa pretende que, nesse
dia, o neto ofereça um presente a sua própria mãe, enquanto o marido
desta deve fazer o mesmo com a dele. Se a avó presenteia seu filho, é
porque considera que este fez um filho para ela e, por conseguinte,
gratifica-o a título de um agradecimento que nem sequer lhe é dirigido
no Dia dos Pais. Nesse caso, poderíamos perguntar-nos como irá a
criança localizar o operador do Nome-do-Pai. Mas ela terá ampla
oportunidade de fazê-lo, porque seu pai, não tendo sido feminilizado
nessa operação, permanecerá como um rival para eia. Além disso, a
criança também terá a seu dispor o referenciai do avô paterno, que terá
ficado fora dessas implicações.
O mesmo acontece quando um homem anseia por ter um filho "do
pai". Essa fantasia o habitará segundo a relação feminilizada que os
filhos mantêm com o pai ao menos por algum tempo, e da qual só se
livram depois de um longo combate, vindo sua virilidade afirmar-se
apenas através, ou melhor, graças a essa passagem pela feminilização
(a castração). É quando o amor do pai fica preso nessa etapa (aproxi-
mativamente designada na literatura analítica pelo termo Édipo inver-
tido) que o filho pode desejar presentear o pai com um filho.
Esta última constelação apresenta um risco particular, embora seja
apenas resultante da fantasia de sedução histérica, do lado masculino.
Na verdade, a relação feminilizada de um pai com seu pai implica uma
anulação da função paterna, mais radical ainda na medida em que,
sendo o avô situado, por causa disso, como um sedutor, ele já não
garantirá nenhum referencial do Nome-do-pai. Assim, é muito freqüen-
te constatar que uma criança psicótica tem um pai tão mais materna-
lizante quanto mais tenha feito tudo, não apenas para romper o laço
conjugal, preservando o filho, mas também para expulsar da cena a
mulher que foi a mãe portadora, assim ocupando em sua fantasia uma
posição feminilizada em relação a seu próprio pai. 2 Entretanto, ter um
filho para o pai só adquire uma feição inquietante quando não há
simbolização da sedução, segundo aquilo que, afinal, constitui o comum
da filiação masculina.
Existem várias funções paternas, contraditórias por definição. O pai
que interdita o gozo da mãe difere daquele que dá o nome. A primeira
154 do bom uso erótico da cólera

função significa uma declaração de guerra, enquanto a segunda é a


assinatura do armistício e a troca de garantias. De modo que um mesmo
homem não pode reunir em sua pessoa, sem problemas, móbeis con-
trários. Esse inevitável desdobramento da paternidade formaliza-se
conforme diferentes paliativos, assim gerando o espírito religioso ou,
noutros lugares, certas particularidades da filiação, que merecem ser
sublinhadas. Assim, por exemplo, e muito comumente numa família,
o pai genitor exerce o papel do rival poderoso para o filho, enquanto
o avô deste representa o que há de pacificador no reconhecimento da
filiação (constelação que reúne no mesmo território os dois pais que
Édipo teve).
As diferentes funções paternas do complexo de Édipo, como aliás
indica o mito, podem não estar concentradas numa mesma pessoa
(como é o exemplo mais freqüente nas famílias modernas). A possibi-
lidade de o avô desempenhar a função do pai simbólico (aquele que
dá o n.Jme), enquanto o pai genitor fica restrito ao papel de rival,
permite estabelecer uma repartição amiúde harmoniosa das funções
paternas no seio de uma mesma família. Assim, os filhos nutrem pelo
avô paterno um amor de qualidade diferente, como se encontrassem
junto dele uma garantia como que purificada da filiação do nome. Do
mesmo modo, um pai pode pedir a seu próprio pai, mais ou menos
conscientemente, que garanta essa função, como se ela nunca fosse tão
bem garantida quanto ao ser duplicada dessa maneira.
É o caso do pai que, no Dia dos Pais, exorta os filhos a oferecerem
um presente a seu próprio pai, assim reconhecendo sintomaticamente
o lugar que atribui a si mesmo na filiação. Esse ato não implica, de
modo algum, que ele considere não estar à altura de seu papel, nem
que se identifique com os filhos (como pensara inicialmente esse
analisando). Ele apenas situa o espaço duplo em que cada homem que
procriou é e não é pai, na medida em que pode ser tomado por uma
dúvida todas as vezes que é investido por seu filho de uma dupla função,
a qual, por um lado, implica sua morte, e por outro, exige que ele
imponha uma ordem que ele mesmo não subscreve (faça o que eu digo,
mas não faça o que eu faço). Assim, é compreensível que procure
pleitear, mais além de sua pessoa, uma garantia em relação ao que sua
própria palavra comporta de incerto e arbitrário.
Chega-se, assim, à instauração de uma constelação dupla, que, apesar
de um profundo mal-entendido, pode estabilizar-se por muito tempo.
Um homem e uma mulher se amam, segundo o ímpeto de um amor
que, apesar de tão exogâmico e desvairado quanto queiramos, não deixa
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacifica? 155

de continuar a obedecer às regras que deram ao desejo sua forma e seu


objeto. Proporcionalmente à força e à verdade do vínculo amoroso, o
filho resultante do desejo que ele oculta terá sido, de um lado, esperado
do pai (da filha-mãe) e, de outro, querido pela mãe (do filho-pai). O
mal-entendido não provém em absoluto de um "erro", pois os dois
amantes amaram-se conforme a verdade em que foram unidos pelo que
afinal os separa, germinalmente, desde os primórdios de seu encontro.
Dizer que a partir de então eles são desunidos pelo que motivou seu
encontro não significa que tenham de se separar efetivamente, mas que
terão de atravessar um espaço violento para se reencontrar. E, se não
puderem fazê-lo, terão que viver num rancor que, no entanto, não
exprime nada além de seu próprio desejo. Eles permanecem ligados
pelo que detestam neles mesmos e no outro, isto é, pela alteridade de
seu próprio desejo.

Só provirá a exogamia do recalcamento?


(Algum dia nos livramos da família?)

M.A., por exemplo, estava casado há muito tempo, e o filho nascido


dessas bodas logo chegaria à idade da razão. Sua união nunca tinha
sido realmente feliz. Sempre fora atormentada e agitada por dramas
minúsculos e reconciliações precárias, prorrogada na iminência de uma
disputa que ele esperava que fosse definitiva, sem que tivesse nada a
ver com isso. É que, na realidade, a perspectiva de uma separação o
assustava e se apresentava como um buraco negro em que ele preferia
não pensar.
Assim, ele vivia num mal-estar latente a que sequer sabia dar nome,
pois havia um paradoxo: na verdade, sua mulher lhe agradava tanto
quanto no primeiro dia e, por seu lado, manifestava sentimentos
idênticos. Nada corria a contento, embora tudo parecesse destiná-lo à
felicidade. Ainda mais que seu filho estava se desenvolvendo bem,
embora a tristeza ambiental não deixasse de influir em seu humor. Até
sucedia ao menino insistir cm ir morar com um ou outro dos avós, pelos
quais manifestava uma afeição expansiva e confortante.
Em suma, M.A. nem sequer dispunha de um pretexto plausível em
que ele mesmo pudesse acreditar e que desse a seu mal-estar a dimensão
de um drama autêntico. Faltava-lhe o ponto de apoio de algum incidente
violento que desse sentido à infelicidade sorrateira que o acabrunhava.
Tão logo saía da residência do casal, ele pensava na mulher com afeição,
156 do bom uso erótico da cólera

e nunca lhe acontecia, no curso de seus pensamentos cotidianos, fazer


o menor projeto - férias, viagens, casa de campo - que não incluísse
a presença dela. Mas, assim que tornava a cruzar a soleira da porta, à
noite, mal passado um momento de calorosa reconciliação, as nuvens
voltavam a se acumular. O ritual do jantar tornava-se insuportável,
com os copos tilintando desagradavelmente num silêncio difícil de
romper, e o barulho da mastigação aumentava a tensão, de modo que
a deglutição de cada garfada era um parto para todos. E era com alívio
que, segundos depois da sobremesa, o jornal televisionado das oito
horas abria sua janela para as catástrofes ocorridas no mundo durante
o dia, que davam um lastro muito provisório ao mal-estar ambiente,
com isso proporcionalmente transmudado numa relativa felicidade.
Logo se tornou muito claro que aquela situação não podia perdurar.
O que restava de sua sexualidade, morna e furtiva, basicamente espa-
çada e requerendo a ajuda do whisky e da penumbra, logo naufragaria
na atonia total, apesar de alguns gestos de ternura que, aliás, nada
tinham de excitante. As lágrimas noturnas da esposa, que ela não sabia
explicar, e os domingos embrutecidos por um sono ocasionado pelo
tédio davam o toque final a um quadro desolador, que era preciso
abandonar. Fugir, sem dúvida, mas, que direção tomar?
Foi nessas condições que aos poucos se instalou uma idéia obsedante
nas ruminações de M.A. Uma idéia perfeitamente lógica, em tais
circunstâncias: ele precisava divorciar-se, e sem se deixar deter pelo
fato de que não tinha para isso nenhum motivo de espécie alguma.
Mas, uma idéia já não tão lógica: ele só podia conceber esse divórcio
sob a condição de continuar a viver com a mulher, ou com a ressalva
de tornar a se casar com ela num futuro próximo.
Por si só, o projeto de se divorciar para voltar a se casar já modificou
sua vida e quase lhe deu uma certa alegria, a tal ponto esse programa
lhe pareceu inovador. Acaso esse plano não era válido para outros que
não ele, aplicável como era a todos aqueles tristes casais ao lado de
quem ele andava, pressentindo neles um abatimento semelhante ao
seu? Nada é mais animador que uma grande ambição, quando se
pressente que ela é coletivamente libertária! No entanto, se essa idéia
lhe havia restituído uma certa confiança na vida, passar ao ato, da noite
para o dia, parecia-lhe impossível. Era preciso imaginar etapas, pelo
menos censurar algumas pequenas queixas, propor um acordo a sua
mulher, com quem seria preciso justificar-se, e essas diversas perspec-
tivas retiravam-lhe de antemão toda a alegria que ele mal acabara de
reencontrar. Precisava aconselhar-se com alguém. Mas, com quem po-
o desejo de ler umfilho oferece uma solução pacífica? 157

deria desabafar, a quem relatar semelhante projeto, sem desencadear


prontamente o sarcasmo ou o riso? Com quem podia falar, a não ser
com aquela que sempre fora sua confidente, isto é, sua mãe? Ele lhe
diria duas palavras sobre suas intenções, prudentemente, nesse fim de
semana. É, isso era o melhor, e ele o faria quando fosse levar-lhe, como
de costume, a roupa suja do netinho para lavar, além de algumas de
suas roupas pessoais, graças às facilidades permitidas pelas dimensões
da máquina de lavar materna.
Aí está, portanto, esquematicamente reconstituído, o quadro que
M.A. me descreveu. É que uma inspiração de última hora levara-o a
se abster de falar sobre seu projeto com a mãe, preferindo recorrer aos
serviços de um desses confidentes mercenários que são os analistas,
para examinar mais friamente a questão. E, para começar, não pude
deixar de lhe confirmar o quanto ele tivera razão em preferir bater à
minha porta, em vez de correr o risco de grimpar a máquina de lavar.
Pois, acaso não era o paradoxo do sintoma, em toda a sua acuidade,
que aparecia no amor, quando um homem declarava querer divorciar-se
para enfim poder encontrar sua mulher?
E, como achei que sua inspiração estava bem orientada, também o
aprovei quando ele evocou a idéia de uma separação. Sucede que não
anotei a construção exata que ele empregou ao me confiar seu projeto,
mas, como o fez na mesma frase em que acabara de dizer que por
pouco não o anunciara a sua mãe, ele compreendeu que eu realmente
aprovava uma separação, mas da pessoa com quem havia inicialmente
desejado examinar essa solução. Ou seja, da mãe. Ele me confiou, mais
ou menos, que tivera "a intenção de falar em divórcio com a mãe".
E, como lhe respondi vigorosamente que já era tempo de considerar
essa solução, o possível equívoco sobre a pessoa apanhou-o tão abrup-
tamente que, meses depois, ele ainda ria disso.
Nesse meio tempo, teve toda a liberdade para descrever, com os
detalhes necessários, as circunstâncias dos primeiros anos de seu
casamento e as do nascimento de seu filho, que, a pretexto da ama-se-
cagem, fora confiado por quase dois anos a sua mãe. Fora durante esses
anos que havia surgido uma hostilidade cada vez mais declarada entre
a sogra e a nora, cada qual disputando com a outra os horários de pre-
sença junto ao berço, arrancando uma da outra as fraldas por lavar e
iniciando longas controvérsias a propósito dos cardápios das refeições
e dos preceitos educativos. Não sem que a família da mulher também
participasse. Essa família, aliás, só entrara na batalha com certo tempo
de atraso, pois fora contra a vontade do pai que a moça havia contraído
158 do bom uso erótico da cólera

matrimônio. O atraso fora rapidamente compensado, no entanto, pois


o avô, compreendendo depressa que uma guerra insidiosa estava sendo
travada, tomara a defesa da filha, embora ela não pedisse nada.
De modo que as duas famílias acabaram se desentendendo por
completo, declarando-se como pretexto a distribuição dos períodos de
férias com o menino, períodos esses que tinham sido litigiosamente
distribuídos (numa discordância que adquirira ainda mais amplitude
por corresponder a divergências doutrinárias sobre a higiene esfincte-
riana).
Esse fundo familiar venenoso, que meu analisando havia até então
banalizado, considerando-o um contexto corriqueiro, adquiriu subita-
mente um novo relevo. Seu amor contrariado pela mulher, por ocasião
do qual não transpirava nada dessa constelação nefasta, não impedia,
de modo algum, que as determinações simbólicas incidissem com todo
o seu peso. Como ele pôde aperceber-se então, o desejo de sua mãe
não deixara de ter algo a ver com seu anseio de ter esse filho, não
obstante o amor que ele sentia pela esposa. E também lhe pareceu, sem
que ele pudesse dizê-lo em seu lugar, que, se sua mulher havia tentado
fazer uma escolha exogâmica ao tomar por marido um homem profun-
damente alheio a sua cultura, o pai não estava de acordo com isso. Este
não tardara em querer se apoderar do bebê, talvez se aproveitando da
discórdia para mostrar o quanto tivera razão em desaprovar tacitamente
aquela união, pela qual provavelmente não conseguia perdoar a filha
por completo. Será que M.A. não tinha querido divorciar-se de todo
esse complexo familiar, para finalmente se encontrar com sua mulher?

O desejo do filho como filho esperado "do pai" ...

Também aí, o desdobramento das funções paternas desempenha um


papel notável na realização do desejo feminino de ter um filho. Segundo
Freud, como já lembramos, um filh0 "do pai" é desejado pela menina
à guisa de reparação pela ausência do pênis, que ela pode constatar
com maior ou menor boa vontade por ocasião dos estudos de anatomia
comparada realizados com seus coleguinhas. Quaisquer que sejam as
críticas que possamos fazer a essas ásperas formulações, a clínica
psicanalítica mostra que esse desejo continua sempre ativo em muitas
mulheres.
Entretanto, persiste um problema: na maioria dos casos, o homem
com quem uma mulher procura realizar esse sonho infantil possui
o desejo de ter umfilho oferece umn soluçiio pacífica? 159

poucos pontos em comum com seu pai, ou, quando os tem, eles nunca
acarretam confusão entre as duas pessoas que são o pai e o marido.
Na maioria das vezes, aliás, as diferenças (senão os conflitos) são tão
importantes entre esses dois personagens que a menor dúvida é pron-
tamente desfeita. Na realidade, são mais as diferenças do que as ana-
logias que retêm a atenção: não será, se não para se proteger do incesto,
ao menos para distinguir as duas funções paternas, que, num número
significativo de casos, as mulheres escolhem um companheiro que
contraria francamente as preferências de suas famílias, ou mesmo seus
ideais, sua cultura ou sua religião?
Assim, uma dada moça, criada à sombra da religião, elege um amado
entre os comunistas militantes do bairro; outra, acostumada a só comer
alimentos consagrados na sinagoga, apaixona-se por um descrente,
sempre suscetível de ter pelo menos um anti-semita na família; outra
ainda, finalmente, cujo pai não perdeu nenhuma guerra colonial, só
reaviva uma sexualidade melancólica sob a condição de passar pelos
ritos africanos. Assim, partindo de seu voto mais secreto, não reconhe-
cendo nada das leis bárbaras e segregadoras do clã dos homens, o que
tem de civilizador o desejo feminino, além disso, mostra seu valor.
Sem dúvida, essas filhas com um desejo tão excessivamente oposi-
cionista constituem uma exceção, mas esta nada retira da generalidade
de um procedimento cujo objetivo é garantir a realidade da exogamia
e evitar o incesto ... mas conseguindo, apesar de tudo, o filho do pai.
Com efeito, todas essas precauções e todos esses ritos, as distâncias às
vezes enormes que certas mulheres percorrem para se assegurar de
estarem definitivamente protegidas do pai, tudo isso prova apenas uma
coisa: que elas continuam a pensar nele - ainda que sob a forma do
pai morto. O pai fantasístico de um filho, à guisa de produção ideativa,
será pois o pai da mãe, mesmo que seu companheiro, cujo papel é ser
genitor, seja perfeitamente reconhecido, ao mesmo tempo, como pai,
mas numa outra função paterna.
O desdobramento das funções paternas terá permitido, portanto, esse
tour de force mediante o qual o que foi desejado com um primeiro pai
só se realize com um de seus lugares-tenentes, este se opondo àquele
na exata medida da contradição de seus papéis. Esse caso ilustrativo
(freqüente) tem tanto maior valor quanto mais o desejo primário de ter
filhos tenha ficado preso à "pessoa" do pai (devendo "pessoa" [per-
sona] ser entendido em sua equivocidade). Se esse processo é tão
corriqueiro, é porque, de um lado, a imagem do primeiro pai permanece
impessoal, e de outro, os homens adquirem um certo grau de impes-
160 do bom uso erótico da cá/era

soalidade ao desejar (podendo a função propriamente genital, portanto,


ser intercambiada nessa no man 's land *). Quanto à segunda função
paterna, caso se trate de situar o pai simbólico sempre já morto, ela é
atribuível, por exemplo, graças ao pai que está à disposição em todas
as religiões que se prezam.
E, quando esse procedimento não convém, nada impede que se
recorra ao vaudeville, isto é, aos serviços de quase qualquer terceiro,
quer ele apenas dê ensejo a fantasias no momento da procriação, quer
efetivamente ponha mãos à obra nessa operação, lançando uma dúvida
suficiente sobre a paternidade para que sua duplicidade seja efetiva-
mente estabelecida. São múltiplos os meios de atualização da dupla
função paterna, e a religião, que sempre foi considerada a mais
respeitável dessas modalidades, é sem dúvida a que teve maior sucesso
na história da humanidade. Todavia, seja qual for a perspectiva da
religião e do vaudeville, o resultado final é sensivelmente idêntico: o
filho nascido desses rituais complexos poderá servir-se agradavelmente
de um pai para malhar o outro e, como nos bons velhos tempos de
Tebas, venerará tanto o primeiro que trucidará o segundo como se nada
houvesse, assim descrevendo o campo culpado de sua neurose.

Não é sem uma amargura secreta que, depois de haver atravessado


múltiplas provações, uma família judia vê sua filha amada, criada com
atenção, casar-se com um homem que não pertence a sua cultura. Por
mais honrado que seja o pretendente, ele não deixa de romper o fio de
uma tradição já duramente testada pela história. O liberalismo - aliás,
freqüentemente superficial - dos tempos modernos em nada modifica
isso e, se o chefe de família não sente nenhum rancor de uma filha
ternamente amada, o mesmo não acontece em relação a seu genro.
Ainda mais quando, com o tempo, diferentes queixas vêm somar-se a
esse desgosto inicial. Foi o que se deu na família dessa analisanda:
problemas de trabalho, questões de dinheiro, falta de tato, tudo se
acumulou para aprofundar o abismo. A chegada de um filho não alterou
nada e, ao contrário, foi uma ocasião suplementar de divergências. E
mais, pela primeira vez as recriminações eclodiram às claras, quando
antes haviam permanecido latentes. Foi como se esse nascimento
desnudasse os nós de uma situação que se tornara inextricável, e como
se o recém-chegado interrogasse silenciosamente cada um sobre o lugar

• Ver nota de tradução da p.92. (N.T.)


o desejo de ter um/ilho oferece uma solução pacífica? 161

que ele ocupava. As circunstâncias da vida familiar tomaram-se ainda


mais tensas, na medida em que nenhum dos protagonistas conseguia
reconhecer com muita facilidade o valor do que estava em jogo, embora
tudo se passasse como se cada um se sentisse obrigado a prestar contas
disso.
Nas condições dessa luta surda, a jovem mãe demandou uma análise,
não porque houvesse percebido a ambigüidade do conflito concernente
à paternidade (conflito do qual ela era parte integrante), porém, mais
simplesmente, porque via acumularem-se as nuvens na relação com o
marido, a quem continuava a amar. A moça tinha a impressão de que
era principalmente ele que não estava bem, que se debatia em problemas
insuperáveis, e que corria o risco de abandonar, a qualquer momento,
não apenas sua profissão, mas seu país ou até a Europa, ao mesmo
tempo abandonando seu filho e ela mesma, embora ela se sentisse
disposta a fazer tudo para remediar essa situação. Como muitas vezes
acontece quando uma análise começa em nome do equilíbrio precário
de um terceiro que se trataria de ajudar, é raro não haver um certo
sentimento de culpa a respeito dele, agravando uma situação que às
vezes, por conseguinte, toma-se inextricável.
Não era essa a situação que estava em primeiro plano nesse caso,
pois fazia algum tempo que existia uma outra realidade que a jovem
ignorava no momento em que veio me ver. Teria o marido ficado de-
sorientado com uma situação em que sua posição paterna fora violen-
tamente contestada pelo sogro, ou teria ele mesmo que enfrentar certos
desafios com sua própria mãe (problemáticas tantas vezes complemen-
tares, aliás)? Como quer que fosse, constatou-se que o jovem pai
arranjara uma amante, a quem talvez não amasse, mas que lhe trazia
um erotismo ausente desde o parto de sua mulher.
Por fim, a verdade dessa ligação extraconjugal foi descoberta,
atingindo duramente a jovem mulher, que, em seu desarvoramento,
deixou a situação como estava por algum tempo. Depois de recobrar
o controle, ela pediu que o marido lhe prestasse contas. Embora ambos
houvessem acumulado razões para fazê-lo, nenhum dos dois cônjuges
parecia querer separar-se. Apesar desse esforço recíproco, no entanto,
as brigas envenenaram-se ainda mais e o marido saiu de casa. Mal
fechada a porta, foi tomado de remorsos e voltou. Depois, não agüen-
tando mais, quis ir embora outra vez, tamanha a freqüência com que
era convidado a fazê-lo, após noites de explicações tumultuadas. De
modo que, nessas circunstâncias penosas, considerou-se finalmente
uma separação oficial. Mas, cada qual por seu turno, os dois cônjuges
162 do bom uso erótico da cólera

rejeitaram essa solução, apesar do acúmulo de dramas minúsculos e


desgastantes. Como organizar uma separação que cada um só desejava
pelo tempo de esgotar a paciência do outro, antes de se reconciliar?
Finalmente, produziu-se um esboço de separação. Sendo o filho
ainda pequeno, combinou-se, inicialmente, que ele ficaria com a mãe
no que tinha sido a residência comum. O marido, a princípio, aceitou
essa solução improvisada, levando alguns pertences, não para a casa da
amante, como se poderia esperar, mas, ao que parece, para a casa da
mãe. A calmaria mal chegou a durar alguns dias, pois, de repente, ele
rejeitou esse arranjo com extrema energia, voltando todas as vezes que
podia ao apartamento conjugal, de manhã cedo, ao meio-dia, à noite e
até de madrugada, argumentando passo a passo para dormir pelo menos
no sofá da sala. Mas era impossível que a esposa conseguisse esquecer
a afronta sofrida, e recomeçou a guerra para que esse homem, trans-
formado numa espécie de objeto de horror amoroso, deixasse a casa.
E ele só parecia entregar as armas mais uma vez para melhor voltar à
carga no dia seguinte, entrando no apartamento de manhã cedo, com
a chave que havia conservado.
Com o passar dos dias, como se essa situação se houvesse invertido
imperceptivelmente, ele passou de acusado a acusador e exigiu que
acabasse aquele inferno: o tom subia com freqüência, porque, jurando
seu amor, ele exigia um reconhecimento formal de um retorno à situação
anterior. E, uma manhã, quando novamente voltou cedo ao apartamen-
to, ele fugiu discretamente, levando o filho ainda meio adormecido,
enquanto a mulher tomava um banho de chuveiro, cujo barulho encobriu
os preparativos dessa espécie de seqüestro. Nenhuma notícia nas horas
e dias subseqüentes. Como esse acontecimento coincidiu com um
período de férias, os possíveis esconderijos onde os desaparecidos
poderiam ter-se refugiado eram múltiplos, e os locais de trabalho onde
se pode ter certeza de entrar em contato com alguém estavam desertos.
Passado o primeiro momento de cólera, a jovem mãe experimentou
a angústia e o pânico, sendo as famílias alertadas quase que de imediato.
Do lado da família paterna- decerto conviria dizer, com mais exatidão,
do lado da mãe do pai - , o desconhecimento foi fingido. Mas a avó
paterna fingiu não saber de nada com tamanha má fé e tamanha des-
preocupação que ficou claro que a informação havia circulado. A men-
tira mal contada, apesar de tudo, tranqüilizou a inquietação materna,
ao mesmo tempo, aliás, que reatiçou sua cólera. Por fim, ao cabo de
alguns dias, a situação acalmou-se, uma vez conhecido o local em que
o pai e o filho estavam veraneando. Eu fora informado desses aconte-
o desejo de ter umfilho oferece uma solução pac(fica? 163

cimentos por telefone, ao fim de um curto período de férias escolares,


e a angústia aguda dessas semanas levantou um problema de coorde-
nadas tão implacáveis quanto secretas: de que filiação provinha esse
filho, para ter-se tornado o móbil de tais conflitos? Seria ele um filho
dedicado à mãe de seu genitor, ·ou teria sua paternidade sido atualizada
de tal modo que o pai da mãe conservasse um direito sobre ele?
O avô materno, de fato, não ficara inativo durante esse período
atormentado, manifestando uma cólera que se dirigira, dessa vez, contra
sua filha. Entretanto, ele enfatizara queixas tão estranhas, que logo
ficara evidente que era efetivamente a questão da paternidade, de sua
desgastante duplicidade, que ele estava colocando naqueles termos
dissimulados. Toda a sua irritação girava em torno de uma só questão,
que ele formulava sem parar: como era que, no momento do "seqües-
tro", sua filha pudera mostrar-se tão ingênua a ponto de tomar um
banho de chuveiro?
É verdade que a insistência dessa censura era sem dúvida meio
surpreendente. Mas nada permitia prever que essa moça fosse aprovei-
tar isso para se interrogar sobre o que podia haver de sintomático na
cólera do pai. Quando um analisando atribui a outrem uma idéia ou
uma intenção que interpreta sua própria posição subjetiva, muitas vezes
é útil tomar rapidamente suas afirmações no sentido oposto, e foi o
que fiz. Retificar a posição subjetiva era fácil num caso desses, já que
bastava perguritar-lhe por que, de fato, ela estivera tomando uma ducha
- como se isso não fosse evidente àquela hora da manhã. E, em seguida
era preciso - sem esperar por uma resposta de relativamente pouca
importâ_ncia - , interrogar as associações que lhe ocorressem a propó-
sito do chuveiro, desde então significante da duplicidade, do desejo
por ela atribuído ao pai. Portanto, tudo repousava na maneira como a
analisanda captasse em pleno vôo associações tão mais fugidias quanto
mais iriam revelar-se terríveis.
Como explicava ela essa esquisitice paterna? A primeira associação
que lhe ocorreu foi realmente assustadora. Num instante, ela não
conseguiu impedir-se de pensar nas pseudotomeiras utilizadas nos
campos de concentração nazistas para asfixiar os prisioneiros com gás.
E lhe pareceu que essa característica, provavelmente, era o que havia
encolerizado seu pai, pois ele decerto devia ter pensado no extermínio
do povo judeu. Acaso essa associação não concernia à morte do pai,
de um pai que, aliás, nesse caso, era um simples representante da raça,
da filiação paterna no que ela tem de mais geral? Essa evocação da
morte, difícil de sustentar, foi seguida por um silêncio ... Quais foram
164 do bom uso erótico da cólera

as conexões que se estabeleceram nesse intervalo de tempo? Elas não


abandonaram o fio que acabava de ser evocado, por mais terrível que
fosse.
De fato, revelaram pensamentos concernentes à "culpa" da anali-
sanda por ter-se casado com um não-judeu e, assim, ver-se ligada,
senão ao tema do extermínio, pelo menos ao da extinção da raça. Eles
ligavam diretamente o assassinato do pai à sexualidade. Chuveiro, de
fato, logo deu ensejo a uma segunda associação: "Esse termo também
deve ter exasperado meu pai porque ele pode ter pensado que, apesar
da situação, eu tinha acabado de fazer amor com meu marido e, por
conseguinte, estava me lavando." Portanto, surgiu então no primeiro
plano da cena a figura de um marido de quem o pai teria ficado
enciumado. Assim se expôs a rivalidade potencial entre dois pais, dos
quais o segundo teria sido o responsável fantasístico pela morte do
primeiro (quanto à filiação da raça). O erotismo abrupto dessa fantasia
remontava até o ponto em que a cólera inflamava diretamente o
personagem paterno, que fora seu abrigo originário.
A duplicidade paterna, que mostrou suas duas vertentes nessas
associações, só apareceu brevemente e graças às questões orientadas
do analista, de modo que o leitor talvez possa não lhes dar crédito.
Mais vale, de fato, dispor de outras formações do inconsciente, que
tenham o mesmo sentido, antes de lhes dar valor de verdade. Propomos
um exemplo disso num sonho dessa mesma analisanda, relatado algu-
mas sessões depois, felizmente num contexto mais moderado. A cena
onírica tem muito interesse, pois mostra uma espécie de tentativa de
solução amigável do complexo paterno: a analisanda recebia em seu
escritório o pai e o marido, que iam visitá-la como se fossem seus
clientes ... "Falamos de negócios, em termos apropriados ao contexto
das transações imobiliárias. A questão era saber qual seria a moradia
mais conveniente à situação de casada. No fim, o negócio foi fechado:
o marido tomaria dinheiro emprestado do pai da mulher e utilizaria
essa soma para comprar um apartamento para ela, que moraria lá a
contento e, segundo todas as aparências, sozinha." A discórdia pareceu
concluir-se, assim, num pacto simbólico entre dois representantes da
paternidade, que, por não operarem no mesmo registro, acabariam por
se entender. Foi isso o que exprimiu o desejo desse sonho, consolador,
sob certos aspectos, uma vez que se destinava a poupar a sonhadora,
ao preço de sua solidão, de um desejo que às vezes se atualizava menos
pacificamente.
o desejo de ler um.filho oferece uma solução pacífica? 165

Ter um filho "para a mãe"

Segundo o esquema edipiano do amor heterossexual, o homem exogâ-


mico sentirá por uma mulher um amor equivalente ao que teria querido
dedicar à mãe, se ela não lhe tivesse sido interditada no passado. Esse
é um resumo prático, mas apressado, pois não se cava um abismo entre
uma mulher e uma mãe? Com efeito, antes de aceder a um desejo
exogâmico, nosso heterossexual esquemático deverá ter sofrido os
horrores da castração. E disso resultará que o que ele amará numa
mulher, não sem um certo horror sagrado, se prenderá ao fato de ela
não ter pênis. Ora, justamente, não é esse o caso de sua mãe, que,
segundo uma crença tenaz, não deixa de estar munida dele! Assim, a
genitora nunca será para o filho uma mulher como as outras. A crença
na mãe fálica perdurará, a despeito de tudo, pela forte razão de que o
próprio filho é que supostamente foi esse pênis materno, na época em
que era bebê. E os anos modificam muito pouco essa doce e traumática
lembrança! O neurótico continua a acreditar por muito tempo que deve
"tudo" à mãe, a começar, como nos bons velhos tempos, por ser seu
falo. É essa dívida para com a mãe que lhe fica eternamente atravessada
na garganta, pois, como diabos irá ele dar um jeito de pagá-la? A rigor,
ele poderia ter a esperança de cumprir esse dever se conseguisse
fornecer-lhe um equivalente aceitável do falo que lhe deve. E o bebê
possui essa reputação, já que tem um alto teor de brilho fálico.
Quando tem um filho, o heterossexual culpadamente exogâmico
pode oferecer o corpo lamuriante de sua prole à mãe, na falta de seu
próprio corpo, num dom fantasístico que corresponde, nesse sentido,
ao pagamento da dívida materna. Entretanto, nessas circunstâncias,
acaso não fica claro que a mulher que é realmente mãe da criança, a
mulher portadora, digamos, que foi inicialmente amada por sua cas-
tração, correrá o sério risco de ser rejeitada? Esse é o risco que ela irá
correr a partir do momento em que sua feminilidade, sua castração,
for questionada, por ela haver acabado de ter um filho.
Nesse aspecto, é comum, quando uma mulher se torna mãe, que seu
companheiro deixe de desejá-la, ao menos por algum tempo. Decerto,
o desejo geralmente retorna, mas sob a condição de que, mais uma
vez, a companheira apareça com sua falta, sua castração, o que nunca
se realiza tão bem como quando a criança se une a seu lugar de sonho,
isto é, ao berço que lhe foi preparado pela sogra de mamãe!
Depois de um parto, uma luta que muitas vezes não deixa de ser
ferrenha, apesar de velada, corre o risco de atormentar a mãe do genitor
166 do bom uso erótico da cólera

e a mulher dele. Trata-se de um novo episódio da renegação da


castração, que será encenado por um, dois, ou três per-sonagens,
conforme a mulher que acaba de dar à luz se debata contra sua própria
maternidade, conforme se oponha à sogra ou a sua própria mãe, ou
conforme, enfim, consinta em lhes entregar o punhado de carne que é
seu filho por um tempo indeterminado, e segundo cláusulas particulares
a cada um dos protagonistas. Também é possível que o erotismo não
consiga abrir caminho novamente, ou só o faça com grande dificuldade,
na medida em que o jovem pai estará diante de uma mulher possuidora
da mesma qualidade que sua mãe possuiu, isto é, a de ser fálica.
Quando o desejo inconsciente do homem foi, segundo os caminhos
de um desejo incestuoso,fazer um filho para a mãe, ele nunca o realiza
tão bem quanto separando-se da mulher depois do primeiro nascimento.
Entre as duas possibilidades que existem do lado masculino - ter um
filho para a mãe ou tê-lo do pai - , a primeira eventualidade parece
ser a mais forte, por um motivo que não é estatístico, mas lógico.
Na generalidade dos casos, o desejo de ter um filho não está em
primeiro plano para o homem apaixonado. Essa preocupação depende
mais do desejo feminino, conforme as imposições já expostas da
Penisneid. Quando um homem quer ser pai, ele pressente, ao mesmo
tempo, que corre um sério risco, uma vez que, além da mortalidade
que sua futura paternidade revelará (não há bom pai senão pai morto),
ele correrá o risco de perder, por desidealização, o inebriante objeto
de seu amor. Por isso, na maioria das vezes, o homem deixa a expressão
do desejo de ter um filho a cargo de sua companheira, que, por seu
turno, pensará mais facilmente que tem tudo a ganhar e que, ao fazê-lo,
não correrá nenhum perigo (desde que seu desejo se situe, de fato, na
trilha da "inveja do pênis").
Deixando a companheira à vontade, o homem continua a venerar
nela seu ideal. Mas, será que fica quite? Falta muito para isso, já que
é como filho que ele continua a amá-Ia nesse ímpeto delicioso. Entre-
tanto, de acordo com essa condição, ele continua ao mesmo tempo
devedor, antes de mais nada, da mãe, já que, antes de dever seja o que
for ao pai, primeiro é preciso matá-lo; ora, ele justamente se abstém
de fazer isso (pois tem, ele mesmo, certas dificuldades em ser pai).
Assim, perante a mãe, ele continua numa dívida que é tão mais insistente
quanto mais essa mãe não deixa de lhe relembrar constantemente seu
dever.
A descrição clássica do complexo de Édipo não evidencia suficien-
temente que o desejo não circula simplesmente do filho para a mãe,
o desejo de ter umfilho oferece uma solução pac(fica? 167

mas que a recíproca de uma insistente demanda da mãe, dirigida ao


filho, precede esse desejo. Essa demanda é suportada com maior ou
menor paciência pelo menino e, na maioria das vezes, ele a rejeita
graças a sua identificação masculina com o pai. Todavia, mesmo depois
de se proteger dela tanto quanto lhe é possível, a demanda materna
ainda continua a pesar sobre ele. O desejo edipiano do menino depende
do tratamento dessa demanda mais ou menos pesada, que, por ser
rejeitada por ele, rege a idealização de seus amores. A demanda
materna, desse modo, continua a contribuir para a idealização. E, :;e
existe um meio cômodo de satisfazê-la, ele consiste em ter um filho,
não com a mãe, porém, mais uma vez, para a mãe. Assim, a mãe
participa secretamente dos amores do filho, disposta como está a colher
seu fruto, à guisa de uma retribuição adiada do que, a rigor, foi gerado
pela rejeição de sua demanda.
A aparente complexidade desse esquema não deve levar a perder
de vista que ele é uma banalidade da vida familiar amorosa nos países
católicos (e sem dúvida em outros lugares). Apesar de sua denominação
paterna, o genitor de uma criança continua, antes de mais nada, a ser
um filho (um filho-pai, para retomarmos o termo já arriscado anterior-
mente) que só teve um filho para acertar as contas com a mãe. E esta,
em muitos casos, logo se encarrega dele, entrando numa rivalidade
mais ou menos violenta com a nora, de acordo com roteiros repetitivos
que fazem parte da vida familiar corriqueira em nossas paragens. Dessa
luta mais ou menos insidiosa, a mulher anteriormente amada pode sair
vencedora, mas também lhe acontece ser vencida, no sentido de que
ela corre o risco de ser simbolicamente excluída, tanto no plano
amoroso quanto no de sua maternidade.
Entretanto, e por um retorno lógico, a posição de exclusão às vezes
violenta que ela sofre pode devolver-lhe a posição idealizada da mulher
amada. Com efeito, na relação do filho-pai com sua mãe, quando o
filho é realmente um dom concedido pelo primeiro à segunda, em
pagamento de uma dívida, qual vem a ser a posição da" mãe portadora"
em relação a esse vínculo incestuoso? A de uma desmancha-prazeres
que deve ser eliminada de diversas maneiras, graças a uma cumplici-
dade (cujos recursos são às vezes surpreendentes) entre o filho-pai e
sua mãe. Mais ou menos liberta de suas prerrogativas maternas, a
amante fica assim colocada numa posição inteiramente paterna de
interditar o incesto e, nessa condição, resgata um traço de sua ideali-
zação originária: o traço do pai que deu ensejo ao enamoramento. Sem
que ela sequer o procure, sua simples presença excitará a cólera. E o
168 do bom uso erótico da cólera

momento mais violento da cólera dirigida contra ela será aquele em


que ela recobrar a plenitude de seu poder erótico. A excitação que ela
novamente despertará, dessa maneira, será tão mais violenta quanto
menos ela se deixar excluir e quanto mais manifestar sua recusa a
ocupar o lugar que o marido e a mãe dele sonhariam vê-la ocupar.

Certo rapaz nunca havia considerado a paternidade. Havia muito tempo


para pensar nisso! Chegaria o dia em que isso ia acontecer, sem dúvida
alguma! Avaliando ponderadamente o que sua própria infância tivera
de atormentada, ele podia sonhar para mais tarde com os princípios
educativos que evitariam a sua futura progenitura os dissabores que
havia conhecido. Mas a realização desse projeto não era para amanhã,
nem tampouco para depois de amanhã. Primeiro, ele precisava de tempo
para esgotar os prazeres do celibato, e abandonar a uma maturidade
mais moderada as alegrias decerto profundas da procriação. Quando
sucedeu a uma de suas companheiras engravidar dele, o rapaz não
insistiu em que essa promessa fosse levada a termo, indeciso como
ainda estava e sentindo-se pouco comprometido com uma vida de
perspectivas incertas.
A desagradável realidade de sua situação ainda mal assegurada na
sociedade, junto com alguns sintomas físicos persistentes, levara-o, por
outro lado, a começar uma análise. E depois, quando, mais uma vez,
sem que se tivessem tomado maiores precauções, a mesma companheira
ficou esperando um filho, foi-lhe forçoso admitir que ele contribuíra
muito para isso e, assim, ele resolveu tornar-se pai de uma filha, em
suma, para sua extrema satisfação. Até porque essa situação não o
impedia de esperar outras ligações que continuavam a ser-lhe ofereci-
das.
Sua mãe havia festejado com muita emoção a chegada da neta, mas,
dos serviços à amabilidade, da amabilidade aos conselhos e, por fim,
a uma pura e simples intrusão, entrara rapidamente em guerra aberta,
entrecortada por armistícios mais ou menos longos, com a mãe efetiva
da criança. Não tinha jeito, a avó não conseguia impedir-se de contestar
mais ou menos abertamente, até nos mínimos detalhes, todos os
princípios educativos da nora. Entre a mãe e a companheira, a compa-
nheira e seus relacionamentos do momento, e sem esquecer a filha,
que não tardou a fazer ouvir sua voz, esse homem pôde assim explorar,
na maioria das vezes em caráter de urgência, as diferentes facetas do
desejo feminino, suas demandas, seus artifícios, seus dramas e sua
remissão. Todavia, acostumou-se com essa situação, que aliás parecia
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacifica? 169

mais tumultuada ao ser resumida em algumas frases do que no correr


da vida - acaso as horas do dia não são múltiplas, e não pode cada
uma delas conhecer seu apaziguamento? De modo que os dramas
sucessivos, embora às vezes ameaçadores, encontravam sua solução,
um após outro, como se bastasse ir em frente para ver que obstáculos
aparentemente insuperáveis deixavam-se transpor com facilidade. É
claro que a vida conjugal não se encaixava em absoluto em suas
aspirações. Muitas vezes, por pouco ele não provocara um rompimento,
e mais de uma desavença surgia quase que cotidianamente. Mas ele
acabara se ajeitando, sabendo encontrar tempo para algumas liberdades,
como a de sonhar com outros amores (que, por sua vez, corriam o risco
de ser opressivos).
Depois, seu pai morreu. O velho vivia afastado, nos arredores da
cidade, mas, embora estivesse geograficamente perto, era como se
tivesse sido exilado para o outro lado do planeta. Ficara tão distante
de todo o imbróglio cotidiano da família que seu falecimento mal
chegou a ser marcado por mais que uma emoção convencional. O
desaparecimento de um homem idoso, cuja vida fora bastante cheia,
parecia tão natural que não se diria merecer realmente o trabalho do
luto, tão diferente das lágrimas ou do sofrimento.
Mas os mortos continuam a acompanhar os vivos, não se poupa o
luto por eles (mesmo quando não foram amados). E, se é verdade que
esse luto pode esperar, ou aparecer sob formas surpreendentes, ele
sempre se manifesta. O que faz um trabalho de luto demorar a ser
desencadeado, a não ser em virtude de o falecido ter sido tão necessário
à vida, simbolicamente, que seu desaparecimento não é aceito por
aquele que continua vivo? Nesse sentido, o verdadeiro trabalho do luto
só começa com o aparecimento das primeiras formações do incons-
ciente, que, nem que seja renegando a morte, transladam e remanejam
o lugar do sujeito em função do falecimento.
No que concerne a esse rapaz, foi como se esse trabalho não
começasse de imediato. Uma vez realizadas as cerimônias de praxe, a
vida continuou, sempre igualmente tumultuada. Chegaram as férias,
sem trazer outros acontecimentos senão os que ele tinha previsto. E
então, algumas semanas depois, veio a notícia, não realmente inespe-
rada, mas abrupta, de uma separação do casal. Da noite para o dia, e
por um detalhe nem mais nem menos dramático do que muitos outros,
a jovem mãe havia ficado sozinha com a filha, enquanto o marido,
apenas munido de alguns pertences pessoais, refugiara-se na casa de
um colega, sem sequer procurar saber se poderia dispor do lugar a que
170 do bom uso erótico da cólera

podia aspirar na casa de uma namorada. As cóleras e as disputas sempre


tinham feito parte do cotidiano até então, sem maiores conseqüências,
e costumavam encerrar-se na obscuridade da noite. Nada, portanto,
tornava inevitável um desfecho tão fragoroso, em que o único aconte-
cimento novo tinha sido a morte desse pai cujo luto nem sequer se
esboçara.
Foi por isso que me pareceu que devia haver uma relação entre a
falta de elaboração do luto e a precipitação do rompimento, embora
nada permitisse ainda ter certeza disso. E foi preciso esperar por um
sonho para estabelecer uma correspondência entre os dois aconteci-
mentos, tão próximos no tempo. Esse sonho sucedeu em pouco ao
rompimento e, pela primeira vez, registrou, por intermédio de uma
formação do inconsciente, o falecimento paterno. "A cena era clara e
simples. Contrastava com a confusão e a agitação dos meus últimos
sonhos, tão embaralhados há algum tempo. Tomei conhecimento de
que meu pai havia morrido, como se eu ainda não soubesse disso, e
fui até seu túmulo. Eu estava sozinho e sem ser perturbado por todos
esses aborrecimentos da família, sem ter que me preocupar com as
relações muito complexas que mantenho com os tios, as primas e as
irmãs. Talvez tenham sido esses laços e essas rivalidades que me impe-
diram, até hoje, de encarar esse acontecimento de frente. Foi como se
só naquele instante eu descobrisse o que essa morte queria dizer. Não
havia lápide, apenas um quadrado de relva, naquele ambiente calmo
que mais parecia um jardim que um cemitério. Então, cavei a terra e,
no buraco assim formado, instalei ... uma espécie ... uma espécie de vaso
de flores ... "
Na nitidez dessa descrição, em que nada se prestava à confusão, em
que nenhuma figura se desdobrava em elementos complexos, e que
nem sequer parecia requerer associações, a tal ponto o que representava
era simples e só devia inspirar silêncio, fiquei intrigado, no entanto,
com o emprego da expressão ... uma espécie de ... , pronunciada após
uma breve hesitação e um ligeiro balbucio. Inspirado nessa aspereza
verbal, portanto, pedi alguns esclarecimentos: "Mas, por que uma
espécie de? Nada se presta menos ao equívoco ou à confusão do que
um vaso de flores nessas circunstâncias, não é?" E o pensamento que
lhe veio, enquanto eu formulava minha questão, um pensamento
incongruente e abrupto, foi que, em vez de dizer vaso de flores, ele ia
pronunciando sexo: enterrar um sexo - e não outro senão o dele,
nessas circunstâncias - naquele buraco feito na terra. Fora por isso
o desejo de ter um filho lJ(erece uma solução pacífica? 171

que ele tivera de acrescentar ... uma espécie de ... , no meio de uma frase
tão simples.
Os sintomas que se sucederam nos dias subseqüentes foram os do
luto, quer se tratasse do cansaço inopinado, da sensação de ter dificul-
dade de andar ou, mais exatamente, de estar com as pernas bambas.
"'Bambo', salientou ele, quer dizer 'faisandé' em culinária.* Estou
percebendo que essa fadiga imensa caiu em cima de mim depois que
comi um queijo em que encontrei umas larvas. Aquilo me arrasou. Faz
alguns dias que arrasto essa impressão de não parar de me identificar
com o corpo putrefato do meu pai." Nada disso havia aparecido antes
do sonho do vaso de flores, e só depois de ele ter sido analisado é que
se formaram os sintomas.
Que podia significar, no sonho, o ato de plantar seu sexo na terra?
Não foi preciso hesitar muito para descobrir que esse traço sexual
combinava o pai recém-falecido com a mulher de quem a separação
acabara de se consumar. Como se a viva se juntasse ao morto, com a
passagem ao ato da separação impedindo o começo do luto. Ao cometer
uma agressão contra sua companheira - que continuava viva-, fora
como se a separação renegasse a morte e adiasse o momento do luto.
O desaparecimento, portanto, ainda não adviera quando ele saiu de
casa. Ele mantivera vivo o corpo do pai, graças ao corpo de sua mulher.
E então, de repente, lembrou-se que, nos dias antecedentes ao sonho,
uma musiquinha ficara passando por sua cabeça, vinda sabe-se lá de
onde; era um refrão infantil, sem dúvida. Alguma coisa como "Artur,
onde puseste o corpo?" Seu inconsciente musical não se .nostrara,
assim, espantosamente malicioso?
A passagem ao ato que fora a separação, seguida por esse sonho,
introduziu na inacreditável realidade do falecimento um elemento de
saber suplementar - o da fantasia assassina encenada graças à esposa
- e foi somente graças a essa conjunção que o luto pôde começar
(uma vez que a dificuldade de um luto procede, para muitos, de uma
culpa concernente ao falecimento, que o sujeito atribui fantasistica-
mente a si mesmo).
Essa conjunção permitiu o desencadeamento do luto, mas não deixou
de ser difícil compreender porque aquele pai, que fora tão amado e

• Os termos são, respectivamente, mortijié e faisandé (também "mortificado"


e "amolecido"), que têm ainda a acepção de "em começo de decomposição".
(N.T.)
172 do bom uso erótico da cólera

admirado, tinha sido tão pouco investido de interesse e afeição no


momento de sua morte. Como mostravam os fatos, esse desapego só
era compreensível porque o essencial da função paterna já fora trans-
posto pelo sonhador para outro lugar, especificamente, para sua mulher.
A que ponto essa transposição do investimento fora eficaz, isso é o
que ainda estava longe de estar completamente estabelecido, e muito
menos reconhecido.
É verdade que entre o pai e a esposa havia certos traços comuns,
em especial de pertença ideológica. Mas algumas semelhanças não
bastavam, de modo algum, para garantir uma transferência de função.
O essencial, na verdade, não estava nisso, e ficou evidente que a
translação tinha-se efetuado de maneira muito mais simples: se, por
seu comportamento, a mãe do sonhador expressava que tinha um direito
particular sobre a neta, daí decorrera ela iniciar as hostilidades contra
a nora, mãe legítima do bebê.
Por conseguinte, por sua simples presença, a nora já não podia senão
adquirir uma função de interditora - paterna, propriamente dita, no
sentido pleno da palavra - em relação às ligações incestuosas que a
sogra tentava manter com seu filho. E foi somente com o recuo desse
luto e dessa nova situação, aliás, que se puderam compreender as cóleras
repetitivas do sonhador contra sua mulher, cóleras que tantas vezes
haviam explodido no passado. Elas indicavam o imbróglio em que ele
estava imprensado, entre o amor pela mãe e o dever conjugal, quando
não entre o amor pela mulher e o dever filial.
Certamente, a irascibilidade poderia ter resultado de um desinteresse,
ou qualificado um vínculo que havia chegado a um certo grau de
desgaste. No entanto, considerando o passado a partir da análise do
último sonho, parecia provável que a irritabilidade sempre se houvesse
endereçado à função paterna. Não tanto porque aqueles arroubos
tivessem tido uma função erótica, independentemente de qualquer
enamoramento, mas porque seria impossível interpretar de outra ma-
neira a imagem do sonho que deu início ao luto, onde ele teve de
plantar um sexo na terra. A montagem desse sonho tomou-se clara a
partir do momento em que se estabeleceu um vínculo entre o pai e a
esposa.
Nessa homenagem solitária prestada por um filho a seu pai, eviden-
ciou-se, apesar da bizarrice da cena, uma generalidade concernente às
cerimônias fúnebres: superficialmente, elas recordam, graças a alguns
sinais totêmicos ou à evocação da pertença religiosa, que o espírito
não morre, que sobrevive ao corpo. Os rituais confirmam que a potência
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacífica? 173

paterna realmente foi transmitida. Entretanto, as cerimônias comuns


não deixam ver mais profundamente, como permitiu esse sonho, a
dimensão sexual do luto, aquela que aparece quando nos lembramos
de que o "espírito do pai", o que constitui a característica de sua
função, é a castração. (E não pode esse" espírito do pai" alojar-se em
quem quer que simbolize essa função, em particular uma mulher?)

Esperar um filho "do pai" ... para a mãe

Nesse exemplo clínico, a função do pai apareceu como que depurada


de sua presença. O mesmo não se deu no exemplo seguinte, em que o
pai apareceu mais em sua vertente de sedução.
Na Catalunha, onde sempre vivera, Antonio finalmente casou-se
com aquela que tinha sido sua primeira namorada, na época de sua
atormentada adolescência. O jovem casal comprou uma casa e nela se
instalou, na esperança de logo ver nascer um rebento. Esse projeto,
compartilhado com alegria, realizou-se. No entanto, mal a mulher deu
à luz, Antonio não conseguiu mais suportá-Ia. A visão da amamentação
o enojava; as cenas enternecidas de afagos e tatibitates deixavam-no
num estado de gélida raiva. Por algum tempo, ele manteve as aparên-
cias, e depois, quartos separados. Acabou abandonando a residência
conjugal, sob um pretexto profissional, enquanto, nesse meio tempo,
sua mãe acudiu em socorro, para ajudar na administração adequada da
casa.
Vagamente corroído por um remorso não muito agudo, Antonio
voltava episodicamente para casa, mas a menor oportunidade servia-lhe
para se fazer ao largo. Nem sequer procurava uma desculpa; argumen-
tava, muito simplesmente, com sua ojeriza à vida familiar e à falta de
erotismo que então prevalecia entre ele e a mulher, privando de todo
o sentido, em sua opinião, a vida em comum, fosse ela diurna ou
noturna. Na verdade, segundo as normas de sua ética, somente o amor
desvairado merecia ser vivido, e qualquer outra consideração tinha que
se curvar às exigências de Eros. Fiel a si mesmo, portanto, era o amor
desvairado que ele cultivava, dedicando todo o seu tempo disponível
a uma mulher por cuja vinda esperava, espreitando o instante em que
um olhar o arrebatasse. Declarava-se disposto a abandonar tudo para
seguir aquela que soubesse seduzi-lo, e era o que fazia, rigorosamente,
todas as vezes que tinha uma oportunidade. A partir de então, passou
a levar uma vida de geografia incerta, navegando entre a cidade onde
174 do bom uso erótico da cólera

trabalhava, aquela em que seu filho crescia e as diversas localidades


em que o amor soubera encontrá-lo.
Nessa flutuação meio errante, era apenas episodicamente que vinha
falar comigo. Sentia-se, aliás, ainda menos inclinado a fazê-lo, na
medida em que se considerava basicamente um homem feliz, capaz,
em suas palavras, de consentir em seu desejo, fosse qual fosse o risco.
E não via muito bem o que a psicanálise pudesse oferecer-lhe, como
suplemento àquilo de que se beneficiava, a não ser uma" normalidade"
que ele recusava de antemão, achando que, cantada assim, sua vida era
mais musical e sabia gozar de tudo e de quase nada, ao contrário da
maioria dos que o cercavam. Eu tinha' o cuidado de não desiludi-lo e
o convidava a tornar a me ver, o que ele fazia perguntando-se por quê.
Foi por ocasião de uma de suas visitas que ele me falou de um sonho
recorrente que já havia evocado, mas que vinha assumindo, de uns
tempos para cá, um jeito de pesadelo: um felino o perseguia intermi-
navelmente, e às vezes ele tinha a impressão de que essa corrida
persecutória durava a noite inteira. Os momentos mais penosos eram
aqueles em que o terror o paralisava e ele se sentia incapaz de dar um
passo, enquanto o animal se aproximava indefinidamente. Tratava-se
de uma espécie de puma, ou simplesmente de um grande gato selvagem.
E, quando o animal finalmente o alcançava, atirav.a-se sobre ele e se
agarrava a sua panturrilha com todas as garras e presas. Enlouquecido
de terror, o sonhador sacudia a perna (pata) para se libertar.
Para dizer a verdade, ele só estava me falando desse sonho porque
se supunha que viesse falar de suas produções inconscientes. Na
realidade, quase não sentia necessidade disso, pois achava já tê-lo
analisado. Parecia-lhe que o gato simbolizava sua mulher, cujo nome
podia ser associado ao de um felino, graças a uma proximidade
homofônica. No fundo, a compreensão desse sonho parecia ser das
mais simples: ele mostrava a que ponto era Urgente que Antonio se
separasse definitivamente da mulher. Ainda mais que sua paixão por
uma nova conquista já não lhe dava tempo de agir de outra maneira,
como me dera a entender uma rápida descrição de sua vida amorosa
atual. Esse sonho não tinha realmente muito interesse, mas ele julgara
útil mencioná-lo.
Em contrapartida, queria muito me falar de um outro sonho, cuja
chave esperava descobrir, pois sua apresentação dramática o deixara
bastante inquieto. Eis como se apresentava: ele se via numa espécie
de palco de teatro, onde também se encontrava uma atriz que não lhe
o desejo de ter umfillw oferece uma solução pacífica? 175

evocava nenhuma de suas conhecidas. Estava muito pomposamente


fantasiado, provavelmente com um traje do século passado, e todo
enfeitado com adornos postiços. " ... Como é que vocês dizem isso em
francês? Em castelhano, dizemos patillas ... " (e seu gesto me fez
compreender que se tratava de suíças). "Pois lá estava eu, altivamente
postado no palco, como se uma representação fosse começar, bem
iluminado pelos holofotes da ribalta. Mas, de repente, o ambiente
mudou e ficou claro que se estava preparando um acontecimento
dramático ... Houve uma espécie de rebuliço, ouviram-se gritos, um
vozerio. Eu me virei e a atriz que estava a meu lado, um pouco recuada
no instante anterior, acabara de cometer, sem razão aparente, um ato
terrível. Acabara de saltar aos gritos pela janela; ouviu-se o barulho
assustador de seu corpo esborrachando-se no chão. Então, depois de
um silêncio, algumas vozes se elevaram: várias pessoas gritaram que
ela não tinha morrido, que havia apenas quebrado as pernas ... Depois,
o sonho se perdeu numa sucessão de acontecimentos confusos, dos
quais já nem sequer me lembro ...
"É um enorme alívio, para mim, ter-lhe contado esse sonho. Agora,
essa história se torna quase qualquer uma. Na realidade, eu tinha uma
apreensão, pois tinha medo de que essa encenação representasse um
desejo secreto meu de matar minha mulher. Não quero mal a ela a esse
ponto! O fato é que, ao lhe contar esse sonho em francês, nessa língua
que domino bem, mas que não é a minha, aconteceu-me uma coisa que
desdramatizou tudo. Você deve ter notado minha hesitação quanto à
tradução que convinha dar à palavra suíças, não é? Pois bem, isso me
levou então a traduzir automaticamente, comigo mesmo, do francês
para o espanhol, os termos correspondentes. Veja como é engraçado:
quando falei das pernas quebradas, logo pensei, em espanhol: patas.
Na mesma hora, notei que patillas soava como um diminutivo. E é por
isso que, ao falar com você agora, penso ter descoberto a chave do
sonho: sou eu que possuo a 'perninha', e o gesto aparentemente tão
dramático da atriz tem como resultado apenas ela se quebrar. Foi esse
o drama todo que montei! Eu quis sublinhar quem possui e quem não
possui a coisa eréctil! ... Isso parece dar panos para manga, mas nunca
passa de mais do que uma coisa postiça! ... O inconsciente não é ridículo,
em certos aspectos? 'Inconsciente' tem 'con' ,* não é? ... "

• "Babaca", na dupla acepção de órgão feminino, na linguagem vulgar, e de


idiota, pateta. (N.T.)
176 do bom uso erótico da cólera

Pareci partilhar seu ponto de vista de maneira tão calorosa que ele
ficou um bom tempo em silêncio... E, quando fotomou a palavra,
pareceu abordar uma questão completamente diferente. Evocou sua
relação com o pai e a análise inacabada de um sonho anterior, que lhe
continuava a ser incompreensível. Era preciso reconhecer que havia
um bocado com que se interrogar nesse sonho, já que o analisando
aparecia nele com um ar bastante feminilizado. Estava nu num bar, em
companhia do pai, e no centro dos olhares da platéia, como se fosse
uma presa sedutora destinada aos consumidores do lugar. Antonio
tornou a questionar esse sonho enigmático, depois que o episódio das
patillas mostrou-lhe a ligação delas com o falo. Só então lhe pareceu
que os sinais conquistadores de sua virilidade livre, a que ele tanto se
apegava, conservavam, apesar de tudo, uma certa aparência postiça, e
que talvez isso estivesse relacionado com o que lhe fora transmitido
pelo pai a título de masculinidade. Não que houvesse a menor dúvida
a esse respeito, ele nunca havia questionado sua pertença masculina,
mas relacionar aqueles dois sonhos sugeria-lhe que ele devia ter travado
e estar travando uma luta obscura contra sua própria parte feminina, e
que esse combate, sem dúvida, tinha alguma coisa a ver com o que o
opunha ao outro sexo. Todas essas considerações, entretanto, não acar-
retavam nenhuma modificação em suas disposições amorosas, e foi
com a mesma determinação de mudar de vida, agora radicalmente, que
ele se despediu até a próxima sessão.
Mas foi sem ter feito nada disso que voltou, detido em suas decisões
por um novo sonho, que o deixara perplexo. Numa de suas numerosas
peregrinações de trem, ao embarcar num desses vagões-leito espanhóis
que andam tão devagar que se pode ter uma noite inteira de repouso,
indo de uma capital provincial para outra, ele pedira ao condutor que
o acordasse em Gerona, cidade onde havia mandado construir a casa
em que seu filho viera ao mundo. Durante essa migração caótica,
sonhou que estava efetivamente fazendo essa mesma viagem, porém
o papel do condutor fora confiado a seu pai. Essa função parecia cair-lhe
como uma luva, com o uniforme e o boné dando-lhe um ligeiro ar
marcial. Por mais profissional que o pai lhe houvesse parecido naqueles
trajes, entretanto, ele faltaria com todos os seus deveres, pois se
esqueceria de acordá-lo ao chegar à estação de Gerona. Só em Barcelona
é que o dorminhoco recobraria os sentidos, furioso como ninguém,
imputando justificadamente àquela droga de condutor sua incapacidade
de voltar à residência conjugal.
o desejo de ter um filho oferece uma solução pacífica? 177

Não tendo outra solução, ele descera do trem com sua bagagem e,
mal dera alguns passos, tinha avistado a mãe, que trazia seu próprio
filho pela mão, vestido como ele o vira recentemente em companhia
de sua mulher. O par estava imóvel, a alguns passos dele, e a mãe o
olhava intensamente, com aqueles olhos de louca, quase diabólicos,
que Antonio já vira nela no passado, todas as vezes que se recusara a
se submeter a suas injunções. Ele conhecia bem aquele olhar, por tê-lo
comparado, na infância, a nada menos que os olhos fosforescentes dos
filmes de terror. Quanto a seu filho, ele se mantinha numa atitude
natural, agarrado à mão da avó e muito sorridente. Então, o sonhador
fora tomado pela súbita certeza de que a mãe lhe roubara seu filho, de
que esse filho tinha-se transformado num patrimônio dela durante a
viagem. E ele, adormecido, havia deixado tudo acontecer, como se
aquele seqüestro fosse o fruto retardado das injunções ferozes da mãe,
uma espécie de tributo oferecido em troca de todas as suas recusas
passadas de menino colérico, e de suas longas peregrinações de ado-
lescente pela Europa, que a haviam deixado em lágrimas.
Ao ver sua mãe e seu filho, que obviamente o esperavam, avaliando
como teria sido preferível acordar em Gerona, e como que pressentindo
um complô no qual teria sido um fantoche, no exato momento em que
tinha mais certeza de sua livre disposição sobre sua vida, uma cólera
violenta apoderou-se dele. Seu furor explodiu contra o pai, com uma
violência como ele não se lembrava de jamais haver esboçado na vida
real. O sonho terminara nesse momento, de maneira bastante brusca,
com uma imagem estranha: seu pai, cuja imagem estivera fugidiamente
presente no sonho, era associado à idéia de uma garrafa de champanhe,
ou talvez até se transformasse numa garrafa de champanhe ... Um
silêncio seguiu-se a estas últimas evocações.
As imagens oníricas mais bizarras nem sempre são as que guardam
seu segredo por mais tempo: não demorou mais do que o tempo de
descrever essa cena estranha para que logo se impusesse às associações
de Antonio uma outra imagem, incontornável, embora muito desagra-
dável de mencionar. Tratava-se de uma foto, vista há muito tempo
numa revista pornográfica, uma foto tão chocante que ele se lembrava
de todos os seus detalhes, a despeito dos anos. Cobrindo a página inteira
da revista, via-se em preto e branco uma cena grotesca de orgia, cujo
tema central representava a sodomização de um homem com uma
garrafa de champanhe. Seria o amor pelo pai que lhe havia pregado
mais essa peça, no momento em que sua cólera contra ele era a mais
forte? "Filho de alguém" (hidalgo [fidalgo]), o analisando nunca
178 do bom uso erâtico da câlera

duvidara de ser, mesmo no auge de suas errâncias, afinal conformes a


sua tradição patriarcal. A transmissão de homem para homem de certas
características, como as da coragem, da honra, do desprezo pelo
dinheiro, da errância e das virtudes do Nome, tendo por contrapartida
um certo desprezo enamorado pelo feminino, essas eram qualidades
que sempre lhe haviam parecido constituir uma herança honrosa. E
agora, ele se dava conta de que, quanto mais amável lhe parecera o
pai em suas qualidades aristocráticas, mais ele fora seu filho feminili-
zado e menos estivera em condições de resistir às demandas da mãe,
nas quais havia consentido sem saber, deixando-lhe como tributo seu
filho, um outro ele-mesmo, sob a condição do sacrifício de sua parceira
(com quem, aliás, ele parara de sonhar sob as feições de um felino
carniceiro). Acaso sua mulher não havia fornecido o filho que ele
deixara prontamente nas mãos maternas? Quoad matrem, não uma
mulher no lugar da mãe, mas uma mulher "para" a mãe, a seu serviço.
O pai o deixara dormindo enquanto ele atravessava a cidade que
simbolizava a exogamia, e fora essa falência paterna que o entregara
à loucura da mãe. Não tinha sido esse pai sodomita que o fizera
parturiente de um filho - em nome do amor desvairado-, adormecido
no trajeto que o fazia passar tão perto de seu amor exogâmico, e só
recobrando os sentidos na estação em que a mãe o esperava?

NOTAS

1. A bem da clareza e embora ele seja impróprio, empregaremos o termo "mãe


portadora" para distinguir aquela que efetivamente parteja o filho.
2. Assinalar a existência de tal constelação familiar não deixa de ter importância,
numa época em que o discurso psiquiátrico tem uma certa propensão a considerar
as mães dos psicóticos como responsáveis por todos os males de seus filhos.
A cólera erótica, ficção
exemplar da transgressão

A transgressão e, por conseguinte, a violência que o erotismo requer


acabam de ser esboçadas, segundo algumas de suas apresentações e
conseqüências. Existem outras, mas as que foram examinadas bastam
para mostrar que todas são estruturadas pelo complexo paterno e suas
contradições internas. Ora, a questão paterna possui, num de seus pólos,
a particularidade de servir de mito intercambiável, de constituir um
vínculo social, até mesmo uma religião, que, em contrapartida, deter-
mina a margem de manobra de todos os sujeitos a que ele ou ela
concernem. Por conseguinte, a violência do erotismo passa por modi-
ficações, conforme o tratamento da questão do pai na sociedade em
que eclode. Assim, ela pode ser posta em perspectiva tanto na história
quanto através da geografia. Quanto ao essencial, nossas copulações
provavelmente se assemelham às do homem de Cro-Magnon. Em
contrapartida, os roteiros, os preparativos, as fantasias mentais, em
suma, aquilo que nos coloca no estado ad hoc, diferem sensivelmente,
sem dúvida, daquilo de que foram testemunhas as cavernas de nossos
ancestrais. Poderíamos chegar a nossos fins, por exemplo, sem uma
certa imagem da mulher, sempre intensamente idealizada por qualquer
um?
Todas as civilizações organizam certas modalidades de distribuição
do gozo e promulgam, mais ou menos explicitamente, regras e inter-
ditos, cujo mistério é tematizado pelo sistema religioso. A religião não
tem como ambição primordial trazer uma tentativa de explicação
racional da ordem do universo. A organização do sagrado não se dirige
à razão consciente: sua função mais superficial parece ser a de deixar

179
180 do bom uso erótico da cólera

o desconhecido aparecer no conhecido. Ela manifesta o divino na


simplicidade das coisas, revelando a ausência na opacidade do presente,
descortinando o mais além do que um cotidiano parece deixar sem
mistério. Entretanto, além dessa função, muito mais do que propor as
premissas de uma reflexão sobre o incompreensível, cujo princípio ele
nomearia, o sagrado tematiza o mistério da sexualidade humana. Que
nenhuma relação sexual é possível sem fantasia, eis aí o que todo o
mundo é capaz de reconhecer sem jamais ter lido Freud. Haverá outra
necessidade, que não a representação dessas fantasias, para inventar as
religiões? Eis aí uma coisa pouco provável! O homem inventou Deus
ao copular, para poder fazê-lo e refazê-lo. Com um "Ser supremo",
explicativo da causalidade do universo, nunca houve demasiada preo-
cupação. Em contrapartida, nomear mortíferamente o limite graças ao
qual ele adquire sua potência, fazer-se sujeito de um Deus que teste-
munhe seu caráter herético, sua devoção de traidor, eis o que sempre
lhe importa.
A religião constitui somente uma transposição do exílio do gozo e
não é, em si mesma, responsável por esse exílio, do qual só faz apre-
sentar o mito. Imputar-lhe essa responsabilidade seria um erro com-
preensível, pois quão cômodo seria achar que a interdição sofrida por
cada i.Jm foi-lhe imposta a partir do exterior, sem levar em conta que
esse" exterior" fundou o que há de mais íntimo, isto é, sua humanidade!
Seja como for, o sagrado ritualiza com tamanha força os acontecimentos
mais significativos da vida sexual, que seu cerimonial organiza o
erotismo da sociedade onde ele predomina - quer seus membros se
dêem conta disso, quer, na maioria das vezes, o ignorem.
Imprimindo seu selo nas maneiras de amar, a divindade contribui,
assim, para a reprodução da espécie, no que ela parece ter de mais
animalesco. A sexualidade não revela o que seria o segredo "natural"
do homem, que se encerra numa pulsão genital disciplinada pela
civilização. A sexualidade humana afasta-se, decididamente, de qual-
quer referência à natureza, e nenhuma construção expõe melhor essa
discordância do que a religião. Não é tanto que ela regulamente a
bestialidade dos instintos, ou que lhes traga um suplemento anímico.
Antes, ela fornece a ficção necessária e suficiente sem a qual os filhos
varões não poderiam suportar uma função paterna que primeiro os
oprimiu e os castrou. Sem um mito da morte do pai, ritualizando
obsequiosamente, de um modo ou de outro, aquilo que obseda o ato
sexual até em seus menores detalhes, parece que nenhum deles o levaria
a termo.
a cólera erótica. ficção exemplar da transgressão 181

A sexualidade, portanto, constitui esse limite, não de uma feliz


animalidade com a qual seríamos efusivos, mas do sagrado. Algumas
religiões ligaram mais explicitamente a questão da interdição, a da
pecaminosidade e do sacrifício procedente dela, aos impasses da sexua-
lidade. O monoteísmo, em geral, e o cristianismo, em particular, o
fizeram. Eles expuseram essa verdade em quase todos os seus conside-
randos e, no mesmo movimento, convocaram uma forma de erotismo
que provavelmente não era conhecida pelos gregos ou romanos, cuja
mitologia nunca articulou o pecado com a sexualidade, contentando-se
em expor, através da saga dos deuses, o enigma de suas conseqüências
e a tabela dos preços a serem pagos por cada transgressão.
No mundo cristão dos corpos atingidos pelo pecado, foi em conti-
nuidade ao que o desejo tem de mais carnal, e quase sem ruptura
vocabular com o vocabulário do gozo, que a alegria mística instalou
o amor divino na fragilidade do corpo. O cerimonial religioso, que, na
ária monoteísta, canta com tamanha intensidade o amor violento de
um pai, sua eterna ausência e o pecado dos filhos cuja veneração
reivindica seu perdão, propõe uma ficção dessa ordem. Graças a ela,
as particularidades dos sintomas individuais se religam' e, desse modo,
podem intercambiar-se, ainda que obscuramente, na condição de um
mistério que é, equivalentemente, o de Deus e o do sintoma. Portanto,
não surpreende que a fantasística sexual, tanto no essencial quanto nos
detalhes, corrobore tantos temas que, apenas transpostos, foram objeto
das reflexões dos Padres da Igreja.
Achando justificáveis nossas maneiras de organizar nossa vida, ou
confiando, ao menos obscuramente, na cultura que é portadora delas,
somos ingenuamente levados a crer em sua universalidade. E disso
concluímos que nosso fio de prumo deve ser sensivelmente idêntico
ao que servia de base para a vida dos romanos ou a dos gregos, das
quais alguns imaginam sentir-se próximos. Ora, dois mil anos de cris-
tianismo nos tomaram incapazes de compreender, senão seus pensa-
mentos, ao menos seus estilos de vida. Há que fazermos um esforço
para compreender, por exemplo, a organização de sociedades em que
tinha tamanho peso uma homossexualidade que é dissimulada em
nossos estudiosos apaixonados pela história antiga, quando essa parti-
cularidade sexual não é reduzida à categoria de uma fantasia de época. 2
Mais do que isso, segundo uma mania que é fonte de erros assustadores,
não deixamos de achar que nossos valores cristianíssimos, heterosse-
xuais e patriarcais, assim como suas inúmeras conseqüências (dentre
182 do bom uso erótico da cólera

elas, por exemplo, a democracia), são facilmente compreensíveis e,


por conseguinte, exportáveis, seja para o Cairo, seja para Pequim.
É nesse estado de espírito que, obnubilados pela extensão das normas
presentes em todas as épocas e em todas as áreas geográficas, avaliamos
com mal-estar a tendência que, desde a queda da teocracia capetíngia
até o advento oculto do reinado de Sade, vem deslocando a questão
do pai de seu epicentro religioso. Que espantoso acaso ver coincidirem
a queda da teocracia francesa e a redação dessa obra única, onde o
marquês de Sade ousou reivindicar a prática de uma violência do
erotismo na admissão da morte do Deus cristão! Seja como for, a partir
dessa data foram reformuladas todas as representações da interdição,
tão úteis à organização de fantasias que, apesar da inconsciência de
sua origem subjetiva, possuem essa particularidade de ser comparti-
lhadas.
A revista Critique publicou em 1963 3 um artigo de Michel Foucault,
"Prefácio à transgressão". Foucault expõe nesse texto o que talvez
tenha sido a preocupação de toda uma geração. Ele se volta para o
caminho de pensamento percorrido desde a Revolução Francesa e
procura captar o princípio da violência de sua época: " ... Anunciamos
a nós mesmos que Deus estava morto. A linguagem da sexualidade,
que Sade, a partir do momento em que pronunciou suas primeiras
palavras, fez com que percorresse num só discurso todo o espaço de
que logo se tomou soberano, alçou-nos a uma noite em que Deus está
ausente e em que todos os nossos gestos se dirigem a essa ausência,
numa profanação que ao mesmo tempo a designa, conjura-a, esgota-se
nela e é por ela reconduzida a sua pureza esvaziada de transgressão."
Mas uma questão se coloca à leitura dessas linhas: será garantido que
essa "morte de Deus" e esse "esvaziamento de transgressão" tenham
constituído o ponto final de uma progressão, ou se trata, ao contrário,
de um ocultam'-"Dto? Se assim fosse, que invenção tão extraordinária
poderíamos reivindicar, a não ser a de novos sintomas, nem todos os
quais deporiam em favor da liberdade a que aspiramos?
Na mesma área de pensamento de Foucault, Bataille, Blanchot e
Klossowski exploraram, cada qual a sua maneira, um certo estado atual
da sexualidade, que doravante parece desprovido de qualquer recurso
ao sagrado. Terá o erotismo encontrado, graças a esses autores, sua
base num pensamento filosófico? O rótulo de "filosofia do erotismo"
é justificável, caso a sexualidade, liberta de sua armadura religiosa, já
não se organize a partir das interdições tradicionais. Nesse sentido, ela
parece doravante entregue a uma transgressão que não ultrapassa nada
a cólera erótica, ficção exemplar da transgressão 183

(nihil). Uma vez decretada a morte de Deus, o niilismo se espalha e,


nessa ausência, segundo os lugares-comuns em vigor a esse respeito,
a transgressão não ultrapassa nada além do que ela mesma instaurou
e, nessa medida, não se opõe a nada. 4 Assim, pode ser aproximada de
uma filosofia que, no mesmo momento histórico, declara-se" niilista" .5
Mas, acaso a filosofia não fugiu sempre do erotismo, quase que por
definição, se excetuarmos o entusiasmo dos heróis sadeanos, cujas
conversas, destinadas a justificar suas inclinações monstruosas, tinham
menos um interesse filosófico que o de inflamar os espíritos e arrastá-los
a algumas fantasias sexuais?
Mais do que falar de uma filosofia do erotismo, não conviria
reconhecer a antinomia de um discurso sobre o Ser (mesmo aniquilado),
tal como sustentado pela filosofia, e a fala que provém da divisão do
sujeito por seu próprio gozo, fala sintomática que só se aproxima de
seu objeto graças à ficção, ao sonho, à mitologia individual ou ao
sintoma? Porventura a ficção, que é feita para isso, não descreve uma
deficiência comum ao sexo e à linguagem, enquanto a filosofia obtura
a deficiência graças a esta última? 6
Segundo as concepções mais ou menos compartilhadas dos autores
que acabam de ser citados, Deus estaria morto; mas, a confiarmos na
definição do monoteísmo dada por Freud, não é precisamente sua morte
que o funda? Na medida dessa certeza dos primeiros, que parece
diretamente proporcional a seu esquecimento do segundo, não estare-
mos entrando, sem saber, e de pés e mãos atados, numa nova relação
com o sagrado? Pensávamos que o sagrado havia perdido todo o sentido
positivo, que éramos senhores de um mundo sem Deus, e deparamos
com um limite ao qual já não sabemos dar nome, o limite com que nos
confronta nossa sexualidade. Como denominar essa fronteira, se qui-
sermos dispensar-nos de um palavrório filosófico exportado do "nii-
lismo"? Como explicitar, na ausência de um suporte divino, o limite
de uma interdição que pesa sobre a sexualidade, ao mesmo tempo em
que ela participa do gozo? Essa autotravessia do prazer por seu contrário
(por exemplo, do erotismo pela cólera) traça uma fronteira que vimos
ser o nome comum do sintoma sexual.
Quaisquer que sejam as encenações ou os devaneios que o enfeitam,
o ato sexual é sempre acompanhado por um momento transgressivo
cuja opacidade provém de um assassinato fantasístico. Como um pai
se opôs ao primeiro impulso erótico, foi preciso ultrapassá-lo, e esse
ato tornou-se uma condição presente da excitação, nunca tão exacer-
bada quanto no momento da transgressão. Eis aí um paradoxo, pois,
184 do bom uso erótico da cólera

como pode tal fantasia ter um efeito erótico? De fato, por que seria
excitante a luta com um rival, quando dela resultou uma derrota, como
aconteceu na luta que opôs um filho a seu pai? É que, na realidade, se
a criança foi efetivamente vencida no desfecho do confronto que a
opôs ao adulto, ela não o foi de modo algum em pensamento, onde,
ao contrário, foi vencedora, graças a diferentes roteiros de sua invenção.
Em suas maquinações ideativas, e para obter a vitória, ela se plantou
num papel muito parecido com o de seu pai e se imaginou com uma
potência igual à dele, segura que estava de possuí-la juntamente com
seu nome.
Assim, a criança destaca um "Espírito" do pai, potência fálica
eternizada graças ao símbolo. Utiliza a força de um nome que nem
sequer é nome algum, já que simboliza a potência no que ela tem de
mais desencarnado, embora, em troca, ofereça sua força à ereção,
tensionada nesse espaço mortal. A idéia de uma potência única, cujo
nome impronunciável7 é apenas o sinal da potência do amor, conjuga-
se, assim, com a tensão sexual. Desse modo, o homem inventa para si
o misticismo sucinto necessário a sua sexualidade, tensionada entre a
morte de Deus e sua ressurreição espiritual. Ressurreição ardentemente
ansiada, pois o que há de espiritual no pai continua a ser necessário
ao ato, e porque a culpa pelo assassinato encontra assim sua expiação. 8
Portanto, existe uma coerção a acreditar na ressurreição do pai -
porque ela é necessária à de nosso próprio desejo - , menos depois da
morte do que após cada uma das pequenas mortes constituídas pelos
orgasmos. Essa coerção nos instiga ainda que a ignoremos, ou ainda
que, nesse desconhecimento, chamemo-la de "Nada". Como escreveu
Bataille, "O que o misticismo não pôde dizer (falhou no momento de
dizê-lo), o erotismo diz: Deus não é nada, a não ser ultrapassamento
de Deus em todos os sentidos do ser vulgar, no do horror e no da
impureza; no fim, no sentido de nada ... " Assim, ele dá a entender que
o misticismo ignorou - porque gozava obscuramente com isso - o
que hoje estaria claro para nós, com uma clareza que nos teria chegado
graças a nossa relação diferente com o erotismo (sem dúvida, a partir
de Sade). Mas, não será, antes, o contrário? Não seremos nós que, em
nosso confronto com a coisa sexual, ignoramos em que ficção - cuja
estrutura equivale à das religiões - continuamos a nos apoiar, a ponto
de não termos mais que um vago pressentimento dela diante da
insistência do sintoma?
O limite, que as religiões e os mitos formalizaram por tanto tempo
(no sentido de haverem imposto sua eficácia), já não tem nome hoje
a cólera erâ1ica, ficção exemplar da lransgressão 185

em dia. Convirá utilizar em lugar dele o vocábulo "niilismo", mesmo


que, depois de haver soado verdadeiro uma primeira vez, ele já não
tenha voltado a soar senão de maneira fútil e grandiloqüente?
Nihil designa, nesse sentido, uma incapacidade de dizer a coisa
contraditória que orienta o erotismo. Nulas são apenas as capacidades
discursivas de descrever aquilo que é, não um vazio, mas uma plenitude
opaca, sofredora e gozosa; círculo queimado a fogo no corpo, sofri-
mento erótico longamente suportado, por ter longamente desejado e
por continuar a fazê-lo. Se existe uma sexualidade "moderna", ela
cabe inteiramente nesse desconhecimento. Portanto, apenas perdemos
a fé naquilo de que, não obstante, continuamos a nos servir por vias
sintomáticas ou por novas vias, fiéis ao espírito da época. 9
A "morte de Deus" pôde aparecer como a verdade da época. Na
realidade, dois séculos de ateísmo apenas ocultaram o que vários
milênios de monoteísmo sempre afirmaram, isto é, uma culpa muito
parecida com o pecado do homem bíblico, que coloca a morte de Deus
no centro do campo de seu gozo, assim integralmente balizado pela
interdição paterna. Havendo o rei por direito divino tombado ante a
horda dos irmãos, Sade ensinou-nos menos a "morte de Deus" do que
a inutilidade da crença numa vida após sua morte. Somente a fé é
obsoleta, mas o fato de crer nisso ou de se abster não modifica essa
função, em si exacerbada por seu ocultamento e inteiramente reduzida
ao sintoma sexual. Nossa particularidade consiste apenas em havermos
acreditado que Deus estava morto, sem nos apercebermos de que essa
crença tornava a fundá-lo. E essa ocultação não se nos revela de maneira
mais brutal do que em nossa relação com o erotismo.
Como mostramos, por ser preciso matar o pai para gozar, por esse
pai nunca preservar seu posto tão bem como quando está morto, é
preciso ressuscitá-lo todas as vezes que o desejo retorna. Daí a invenção
de uma ficção destinada a lhe dar vida e tornar a matá-lo. E nunca é
outra coisa senão essa ficção (isto é, uma parcela considerável da
realidade simbólica das interdições) que é transgredida, a fim de abrir
a temporalidade do gozo, segundo o compasso de um assassinato
inocente, mascarado pelo amor e indefinidamente reinstaurado. 10 Dessa
maneira, a transgressão funda seu próprio limite, o qual ela torna a
ultrapassar.
Que transgridamos o mandamento paterno para melhor fundamen-
tá-lo em seu poder, que um limite nunca se instaure tão bem quanto
ao ser ultrapassado, eis aí uma contradição que se evidencia melhor
ao concebermos mais uma vez a duplicidade do pai. Se a criança lida
186 do bom uso erótico da cólera

primeiramente com um rival, com aquele que é preciso matar, e se,


por amor a esse rival, depois ela o faz renascer graças à força do Nome,
a fim de herdar sua potência fálica, então, é realmente a transgressão
que funda o limite requerido pelo erotismo.
Mas, como nada é mais necessário do que um limite tão agradável
de transgredir, a função persiste, sempre igualmente premente. Em
conseqüência disso, um avatar do Deus interditor corre o risco de
reaparecer, às vezes sob as mais estranhas formas. Não é preciso que
ele ressuscite, para que sua lei transgredida seja a Lei? Não significa
isso que, nessa temporalidade, nesse esquecimento forçado que é o do
recalcamento, é preciso que duas figuras divinas se revezem, não sendo
mais do que uma no instante exato em que o assassinato primevo tem
de ser esquecido, para que o nome preserve sua potência? "Deus é
Um", 11 ou" existe recalcamento": eis aí duas fórmulas que significam
que o limite é transposto e que, graças a essa transgressão unária, o
erotismo inaugura sua temporalidade própria. ·
A transgressão situa-se no ponto do tempo em que funda aquilo que
renega, experimentando sua positividade nessa negação. Não constitui,
portanto, um limite idêntico ao que separaria o proibido do permitido,
porquanto, no que lhe diz respeito, o proibido permite. E o que é assim
permitido permite prever novamente a imposição da interdição, segun-
do um movimento em que, longe de se satisfazer, o desejo gera o
desejo, cada vez mais. A experiência amorosa, na qual uma morte
implícita e devota condiciona a ereção, ilimita esse limite, criando a
dureza de um desejo certamente sexual, mas extenuado por se confron-
tar com sua condição, que não é sexual.
Apesar da redução de um aparato de crença à estrutura psíquica que
lhe é correspondente, não convirá conservarmos a palavra "mistério",
certamente religiosa, mas, ainda assim, precisa, para definir uma
transgressão que torna a fundar seu limite, 12 por seu próprio movimento
de transposição, assim fundando o inconsciente - aquilo que de modo
algum pode ser consciente - em sua relação com a sexualidade? É
que a crença na redenção de um pecado mortífero não pode ter
desaparecido, a tal ponto nos é preciso ressuscitar um pai para nos
tornarmos a excitar, e para copular à sombra desse fantasma.
Nesse sentido, o ateísmo comum apenas atesta uma cegueira, uma
espécie de enucleação do sentido da copulação. Assim, na Histoire de
l'oeil, de Bataille, podemos ler essa metáfora fortíssima do erotismo
moderno, cego onde se acreditava liberto, ou melhor, enceguecido por
sua própria libertação. Para levar a apreender essa verdade, Georges
a cólera erótica, ficção exemplar da transgressão 187

Bataille utiliza o espaço violento da tauromaquia, que lhe serve para


figurar uma ficção tão obscura e tão verdadeira quanto um mito
religioso. A cena desenrola-se na arena, ao mesmo tempo na arquiban-
cada e na areia, onde uma tourada chega a seu epílogo mortal. No
momento em que o chifre de um touro enterra-se na órbita de um
matador, a quem ele cega e mata, Simone, espectadora dessa morte
pelo olho, enfia em seu sexo um testículo de touro: "Dois globos de
cor e consistência iguais foram animados por movimentos contrários
e simultâneos. Um testículo branco de touro penetrou a carne negra e
rosa de Simone; um olho foi arrancado da cabeça do rapaz."
Que posição ocupamos nós, nós que podemos perceber o aparato
da crença religiosa, ou melhor, em que se transforma o inconsciente
de cada um, se ele já não dispõe das imagens sociais da religião,
organizador tão prático de seu mais íntimo erotismo? Se nos conten-
tássemos com a palavra nihil (marca do recalcamento), não ganharía-
mos nada, enquanto perderíamos uma potência onírica.
Quando se impõe uma contradição que já não pode se apoiar numa
distinção entre o bem e o mal, quando o rito religioso não mais oferece
o ponto de apoio de seu mistério, não é ao simulacro que convém
recorrer, se assim podemos chamar uma montagem ficcional em que
talvez não acreditemos, mas que nem por isso será menos eficaz? -
como a cólera, que, apoiando-se num pretexto derrisório, regra o
processo da transgressão. Essa montagem terá a mesma estrutura das
religiões, e a mesma eficácia, sem exigir uma crença equivalente. 13
A função dos mitos e das religiões era expor racionalmente um
impossível de dizer. Essas religiões continuam a existir, mas, será que
sua verdade ainda é reconhecida, e terá ela preservado sua eficácia?
Nada é menos certo em nossa cultura. Por isso, para expor o irrepre-
sentável do desejo inconsciente, o recurso à ficção revela-se o processo
mais prático, se quisermos tentar dizer alguma coisa dele, apesar da
dificuldade. Por que não tentar, de fato, sobretudo se considerarmos a
estruturação do vínculo social pela coisa sexual e o incrível desconhe-
cimento em que ela é mantida? Hitler escreveu, sem rir, que não podia
se casar, pois a mãe pátria, a Germania, já era sua mulher. Teria ele
podido sustentar com tamanha facilidade uma afirmação tão incestuosa,
com os benefícios carismáticos que extraiu dela, se as descobertas da
psicanálise fossem um pouco mais difundidas quando ele escreveu
Mein Kampf? Assim, há algumas vantagens em que os psicanalistas
exponham, apesar da dificuldade, o saber contraditório que provém de
188 do bom uso erótico da cólera

sua experiência. (Que há de mais incompreensível, por exemplo, que


uma agressividade cujo resultado é o erotismo?)
Revela-se útil o recurso à ficção (que permite essa exposição
contraditória), e o relato clínico é um caso particular dela, pois o
analisando ficcionaliza seu sintoma, apura seu tempero, assim tornando
seus ingredientes mais digeríveis. O "Nada" com que ele se crê
confrontado é apenas o nome moderno de seu recalcamento. Não mais
encontrando nenhum vestígio de sua ficção no sagrado, ficção do bem
soberano e do mal, ocultada pela expansão da fala racional (ada ciência,
por exemplo), onde irá ela reaparecer, senão nos recônditos do sintoma,
tendo sido perdida em prol de um sofrimento deslastreado de qualquer
causalidade? Antes que a fala procure desatar-lhe o nó, o sintoma faz
ficção (fixação) daquilo que há de impossível de escrever na relação
do homem com a mulher, no nó de amor e ódio que os ata. Uma ficção
de uso particular, é claro (e não um novo gênero literário). Mas quem
nela se reconhece eleva seus impasses secretos, desse modo, à dignidade
de um destino.
O ateísmo prático da psicanálise não tem nenhuma necessidade de
renegar a existência de Deus, de quem reconhece a concordância com
um fato estrutural incontornável, que só é "nada" sob a condição do
recalcamento. Ao efetuar essa redução - que é tudo o que se pode
esperar atingir como ateísmo-, a psicanálise deixa cada um descobrir
seu vínculo místico com a Coisa, que, ao contrário da religião, já não
resulta de nenhuma coerção externa. Cada qual, portanto, fica sozinho
com uma ficção cujas restrições já não partilha com alguns correligio-
nários, abandonando um dogma comum em favor da flexibilidade de
seu romance familiar.
É claro que, num e noutro desses casos ilustrativos, ele depara com
a interdição. E admitir que existe uma proibição estrutural, interna à
sexualidade humana, talvez leve a crer que só resta arriar os braços
diante dos regulamentos, dos rituais, das religiões ou dos ditames
"médicos" que dão continuidade aos conselhos dos Padres da Igreja
nessa matéria. A teoria freudiana pareceria a conta certa, nesse caso,
para dar força aos" gorilas" que são herdeiros da Inquisição, bem como
a todos os modernos prosélitos do preservativo. Todavia, a interdição
que acaba de ser questionada não tem nada a fazer com o regulamento,
cuja função, em suma, é basicamente tranqüilizadora, pois deixa os
espíritos fracos acreditarem que as dificuldades que eles possam en-
contrar resultam de um ditame divino ou de uma prescrição da medicina.
Melhor ainda, a regulamentação da sexualidade poupa-os de qualquer
a cólera eró1ica, ficção exemplar da /ransgressão 189

encontro incômodo com a Coisa, encontro que os obrigaria a avaliar


suas capacidades de transgressão.
Por isso, descobrir a existência de uma limitação interna da sexua-
lidade, que nada deve a Deus nem tampouco à "ciência", de modo
algum .consola os defensores da ordem moral, mas antes os desarma,
pois eles são confrontados com a impossibilidade de ditar uma regra
geral, aplicável à particularidade do desejo de cada um. Assim, não há
por que baixar a guarda, em nome de Freud, ante os defensores dessa
nova ordem moral, cujos partidários, sob o disfarce dos princípios, gozam
por interditar. Despachar esses inúmeros paizinhos não continua a ser
de uma tenaz atualidade? E nos entregaremos com entusiasmo ainda
maior a esse sadio exercício, na medida em que, em si mesmo, ele não
deixará de ser dos mais eróticos, nele encontrando a transgressão uma
certa substância, sem dúvida alguma.
Há que admitir, portanto, no fim do caminho, que o sintoma persiste,
lancinante como sempre. Haverá por que nos queixarmos disso? A
violência do erotismo, como vimos, é sintomática no sentido estrito,
já que, como o sintoma, resulta da apresentação bifronte das funções
paternas. Assim sendo, longe de erradicá-lo, como pretenderia uma
certa doxa psicanalítica, todo apaixonado pelo amor mais fará cantar
as virtudes do sintoma, pelo menos enquanto ele se situar no terreno
do erotismo e enquanto os que forem afetados souberem servir-se dele!
Quando tem como ponto de origem e válvula de escape o erotismo,
acaso a cólera não é um exercício sadio? Sob esse aspecto, quem não
desejaria que a violência em questão permanecesse encerrada no
território em que nasce, isto é, no campo do amor? Viva a cólera,
quando ela é erótica! Fazer o panegírico do sintoma, sublinhar seu
insubstituível valor erótico, decerto fatigante mas, ainda assim, revi-
gorante, eis aí o que sem dúvida há de afastar decididamente o
psicanalista de qualquer função religiosa na era moderna - se essa
aposta, no entanto, não for arriscada demais.

NOTAS

1. "Religiosamente", para falar com propriedade, segundo a etimologia do termo


refigure.
2. Essa particularidade é cuidadosamente ocultada, para que seja possível conti-
nuarmos a admirar os valores guerreiros de um César, ou para exaltarmos sem
enrubescer a filosofia de um Sócrates, para falar apenas desses dois heróis
190 do bom uso erótico da cólera

bissexuais, que foram adeptos de uma sodomia longamente condenada pelos


Padres da Igreja. Não seria preferível podermos considerá-los como modelos
integrais, ainda em uso em nossa civilização?
3. Critique, nQ 195-196, em homenagem a Georges Bataille.
4. Como escreveu M. Foucault em seu artigo "Prefácio à transgressão": "A
transgressão não opõe nada a nada ... Justamente por não ser violência num
mundo compartilhado (num mundo ético), nem triunfo sobre limites que ela
apaga (num mundo dialético ou revolucionário), ela toma, no cerne do limite,
a medida exagerada da distância que se abre nele, e desenha o traço fulgurante
que o faz existir. Nada é negativo na transgressão ... Mas podemos dizer que
essa afirmação nada tem de positivo ... "
5. Heidegger escreveu, por exemplo: "A metafísica como metafísica é o niilismo
propriamente dito. Não é pelo fato de que, ao 'pensar' o ser, ela o afaste em
si como pensável que a metafísica o ignora, mas porque o ser por si mesmo se
exclui (do ente)" (Heidegger, Nietzsche, v.11, p.343, ed. Neske, 1961).
6. Como escreveu Nietzsche (Le Gai Savoir, IV, af. 333), evocando os impulsos
contraditórios com que se depara o ato de conhecimento: "O pensamento
consciente, notadamente o do filósofo, é o mais desprovido de força."
7. Como realização extrema, um Deus eficaz e inominável aparece fantasistica-
mente em relação a isso. Será que o impossível da "experiência interior"
descrita por Bataille e o Real impossível destacado por Lacan não são, nesse
aspecto, figuras epônimas do Deus inominável inventado em Canaã - "aquele
que é" (Ex. 3, v.14)-, embora ele não corresponda a "Nada"?
8. O espaço constante da experiência monoteísta terá sido o da morte de um pai
divino, reanimado pela fé, menos numa vida depois da morte do que numa
vida depois da morte dele. Uma fé na redenção do pecado que consistiu em
querer sua morte para poder desejar sexualmente e viver eroticamente. Se o
que qualifica o espaço religioso contemporâneo é apenas a perda da fé, ou
melhor, sua ocultação, já que persiste a culpa que motiva a esperança do perdão,
o pensamento religioso reduz-se ao espaço mínimo exigido pela sexualidade.
9. Não é isso que ocorre com nossa crença numa Ciência em que é difícil
distinguirmos até que ponto ela assumiu uma função religiosa - a de ditar
novas interdições (ao menos formalmente) sobre a sexualidade? Acaso o médico
que interdita qualquer copulação sem o uso do preservativo não assegura, a
sua maneira, a continuidade dessa função? Não cremos mais nas ficções
religiosas que permitiam regrar as chicanas do desejo, com as quais, no entanto,
continuamos a nos confrontar. O progresso do discurso científico levou a rejeitar
os mitos religiosos, em nome de uma racionalidade superficial (segundo o
princípio do terceiro excluído). Assim, toma-se difícil regrar o que escapa à
lógica comum (como acontece com o inconsciente), mas que nem por isso
deixa de ser uma lógica de outra ordem (na dimensão três). Sem ser religiosa,
essa lógica é não menos indizível.
10. Seu ritual não se tomou tão comum que passa despercebido? Num outro registro,
a rigor muito próximo, a dimensão amorosa que a traição comporta aparece
com mais clareza: o profanador venera secretamente o Deus a quem trai. Foi
o caso de Sabatai Levy, o falso profeta, que quis levar seus irmãos judeus a
renegarem sua religião e se converterem ao islamismo. Do mesmo modo, não
é possível compreendermos que Hitler se pensava judeu, o que provavelmente
a c6lera er6tica, ficção exemplar da transgressão 191

era por parte de pai, e que fez tudo para escondê-lo? Em certo sentido, nesse
exemplo terrível, o traidor não reconheceu aquele a quem renegava? E não
faltaram comentadores das Escrituras para mostrar que Judas foi o verdadeiro
fundador da religião católica. Há que estarmos mal informados para acreditar
que a "morte de Deus" seria uma invenção contemporânea!
11. O monoteísmo suportou explicitamente a contradição que existe entre morti-
ficação e ressurreição - ainda que ignorando a necessidade psíquica a que
essa ficção correspondia: que era preciso passar por uma fantasia homicida
para gozar, e que continua a sê-lo. A fantasia foi ocultada em nome de Deus,
que, em benefício dessa operação amorosa, foi pois o esteio do recalcamento,
do inconsciente e do cortejo de gozo refreado que acompanha esse recalca-
mento.
12. Será que essa noção de uma interdição feita para ser transgredida é tão difícil
de compreender? A linguagem comum oferece um exemplo disso. Quando nos
perguntam quais são as palavras que não podemos pronunciar sem transgressão,
em que palavras pensamos? Aqueles de nós que não tiverem esquecido sua
Bíblia hão de lembrar que pronunciar o nome de Deus foi interditado no primeiro
monoteísmo. Entretanto, a relação desse mandamento com o gozo não é
evidente. Em contrapartida, pronunciar um palavrão é, na maioria das vezes,
uma transgressão gozosa. De um lado, há esse nome de Deus, sobre o qual
Bataille escreveu: "Não podemos acrescentar impunemente à linguagem a
palavra que ultrapassa todas as palavras." Não é que a linguagem comporte
uma palavra em excesso, esse nome do Pai, que, à semelhança do nome do
Deus dos primeiros monoteístas, não possa ser pronunciado, nem mesmo em
voz baixa. Antes, é que esse nome permanece inconsciente na hora da excitação
sexual, muito embora contribua para ela. E, por outro lado, outros vocábulos
arrastam até a beira desse nome improferível e ali mantêm os da obscenidade,
que valem de uma vez por todas pelos nomes impronunciáveis. As palavras
obscenas costumam acompanhar o pensamento erótico, na falta da palavra Deus.
"Merda", "foda", "babaca", "pica" e" puta" podem ser, nesse aspecto, nomes
divinamente excitantes, epônimos do de Deus. A fala comporta em si o recôndito
da obscenidade que constitui sua pontuação comum, e oferece suas armas a
qualquer um que as use, e que assim salta inocentemente para a categoria dos
assassinos.
13. É o que acontece quanto ao erotismo e ao sintoma; este último (como Deus)
realmente aparece como uma unidade, mas sua tensão fundamenta-se em sua
duplicidade. Do mesmo modo, para alguns místicos-por exemplo, Sta. Ângela
de Foligno - , o bem supremo abrange o mal, e os caminhos da Providência
nunca chegam tão perto de Deus quanto ao tomar os caminhos do mal, do
pecado reconhecido.
Livros que integram a coleção
Transmissão da Psicanálise

1 A exceção feminina, Gérard Pommier


2 Gradiva, WilhelmJensen
3 Lacan. Bertrand Ogilvie
4 A criança magnífica da psicanálise, J.-D. Nasio
5 Fantasia originária, fantasias das origens, origens da fantasia,
Jean laplanche e J.-B. Pontalis
6 Inconsciente freudiano e transmissão da psicanálise, Alain Didier-Weill
7 Sexo e discurso em Freud e Lacan, Marco Antonio Coutinho Jorge
8 O umbigo do sonho, laurence Bataille
9 Psicossomática na clínica lacaniana, Jean Guir
10 Nobodaddy - a histeria no século, Catherine Millot
11 Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise, J.-D. Nasio
12 Da paixão do ser à "loucura" do saber, Maud Mannoni
13 Psicanálise e medicina, Pierre Benoit
14 A topologia de Jacques Lacan, Jeanne Granon-lafont
15 A psicose. Alphonse de Waelhens
16 O desenlace de uma análise, Gérard Pommier
17 O coração e a razão, Léon Chertok e Isabelle Stengers
18 O mais sublime dos histéricos, Slavoj Zizek
19 Para que serve uma análise?, Jean-Jacques Moscovitz
20 Introdução à obra de Françoise Dolto, Michel H. Ledoux
21 O conceito de renegação em Freud, André Bourguignon
22 Repressão e subversão em psicossomática, Christophe Dejours
23 O pai e sua função em psicanálise, Joel Dor
24 A histeria, J.-D. Nasio
25 Hõlderlin e a questão do pai, Jean laplanche
26 Eles não sabem o que fazem, Slavoj Zizek
27 A ordem sexual, Gérard Pommier
28 A neurose infantil da psicanálise, Gérard Pommier
29 Pulsão e inconsciente, Noga Wine
30 Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan, J.-D. Nasio
31 Psicossomática, J.-D. Nasio
32 Fim de uma análise, finalidade da psicanálise, Alain Didier-Weill
33 Freud e a mulher, Paul-laurent Assoun
34 Conversas com o Homem dos Lobos, Karin Obholzer
35 Eros e verdade, John Rajchman
36 Leitura das perversões, Georges Lanteri-lAura
37 O olhar em psicanálise, J.-D. Nasio
38 Amor, ódio, separação, Maud Mannoni
39 O nomeável e o inominável, Maud Mannoni
40 O real e o sexual, Claude Conté
41 Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein,
Winnicott. Dolto, Lacan, J.-D. Nasio
42 Metapsicologia freudiana, Paul-lAurent Assoun
43 A obra clara, Jean-Claude Milner
44 O gozo do trágico, Patrick Guyomard .
45 O estranho gozo do próximo, Philippe Julien
46 Do bom uso erótico da cólera, Gérard Pommier
Este livro foi composto pela TopTex-
tos Edições Gráficas Llda., em Times
New Roman. e impresso por Tavares
e Tristão Ltda., em junho de 1996.
DO BOM USO ERÓTICO
DA CÓLERA
e algumas de suas conseqüências ...

O que será mais instigante do que adis-


cussão entre dois amantes, quando seu
desfecho se dá numa explosão de pai-
xão ardorosa? Afinal, quanto mais vio-
lento o entrevem, mais sensual parece
seu epílogo. Mesmo quando os dois
amantes percebem estar se entregando
a suas tendências belicosas para atingir
o clímax libidinoso, nada os demove
desse curioso hábito! Caso presenciem
tais cenas ocorrerem com casais· amigos,
ou observem-nas no teatro ou na lite-
ratura, nada os divertirá tanto. Porém,
será sem o menor distanciamento que
extravasarão sua paixão quando, por sua
vez, o demônio da cólera os solicitar.
O que há de tão envolvente em tais situa-
ções, ao menos quando concernem aos
outros? Sem dúvida a conclusão, contrá-
ria a suas premissas. É esse paradoxo
que justifica nessa ocasião o termo "tra-
gicomédia", embora o primeiro ato possa
às vezes beirar a catástrofe.
Não será próprio do amor exacerbar vio-
lentamente o desejo fazendo uso de um
subterfúgio?
Tendo seu ponto de partida numa con-
ferência pronunciada no Brasil, este é um
dos temas principais desta obra, na qual
o autor percorre todo o domínio da vida
sexual - cujos limites foram tão bem
delineados por Freud.