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ANAIS

ISBN 978-85-5697-925-4
EVANDRO DOS SANTOS
HELDER ALEXANDRE MEDEIROS DE MACEDO
JAILMA MARIA DE LIMA
MARIA ALDA JANA DANTAS DE MEDEIROS
MATHEUS BARBOSA SANTOS
(organizadores)

ANAIS DO VIII ENCONTRO ESTADUAL DE


HISTÓRIA DA ANPUH-RN E XIV SEMANA
DE ESTUDOS HISTÓRICOS DO CERES-
UFRN: A HISTÓRIA E O FUTURO DA
EDUCAÇÃO NO BRASIL

ISBN 978-85-5697-925-4

CAICÓ
2019
SUMÁRIO
O EVENTO

APRESENTAÇÃO ........................................................................................................................................................................................... 4
EQUIPE ORGANIZADORA DO EVENTO ..................................................................................................................................... 5
PROGRAMAÇÃO............................................................................................................................................................................................. 7
MESAS REDONDAS .................................................................................................................................................................................. 10
SIMPÓSIOS TEMÁTICOS ....................................................................................................................................................................... 17
MINI CURSOS .................................................................................................................................................................................................27

TEXTOS COMPLETOS DOS SIMPÓSIOS TEMÁTICOS

1 - HISTÓRIA ORAL/AUDIOVISUAL: UMA POSSIBILIDADE DE PROPOSTA METODOLÓGICA


PARA O TEMPO PRESENTE ..................................................................................................................................................... 29
2 - HISTÓRIA DAS MULHERES: DIÁLOGOS E PERSPECTIVAS .........................................................................40
3 - PROFHISTÓRIA: CAMINHOS DA PESQUISA EM ENSINO DE HISTÓRIA ........................................ 101
4 - ÍNDIOS NA HISTÓRIA: TEMAS E PERSPECTIVAS NO ENSINO E PESQUISA
(PERÍODO COLONIAL AOS DIAS ATUAIS) ......................................................................................................................... 126
5 - A COLONIZAÇÃO EM MOVIMENTO: COLONOS E REINÓIS NA EXPANSÃO DO IMPÉRIO
(AMÉRICA PORTUGUESA, SÉCULOS XVII-XVIII) .................................................................................................. 176
6 - HISTÓRIA DOS ESPAÇOS, PRÁTICAS, TEORIAS E HISTORIOGRAFIA ............................................ 320
7 - CULTURA E ESPAÇOS DE PODER NO MUNDO ANTIGO............................................................................ 429
8 - MEMÓRIA, ORALIDADE E HISTÓRIA POLÍTICA ................................................................................................... 461
9 - HISTÓRIA DAS PRÁTICAS DE CURA NO BRASIL .............................................................................................. 533
10 - A HISTÓRIA E EDUCAÇÃO NO BRASIL: HISTÓRIA, HISTORIOGRAFIA E EXPERIÊNCIAS DE
PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO ...................................................................................................... 554
11 - BIOGRAFIAS E HISTÓRIA: A CONSTRUÇÃO DE VIDAS
E O TRABALHO DO HISTORIADOR ................................................................................................................................... 681
12 - O PATRIMÔNIO CULTURAL EM LUGAR DE FRONTEIRA: HISTÓRIA,
EDUCAÇÃO, ARQUITETURA, ANTROPOLOGIA, TURISMO, GEOGRAFIA
E OUTRAS ÁREAS CORRELATAS ..................................................................................................................................... 697
14 - POLÍTICA, HISTÓRIA E MÍDIAS: O OFÍCIO DO HISTORIADOR
NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO ......................................................................... 793
15 - SERTÕES: NARRATIVAS E FRONTEIRAS.............................................................................................................. 827
16 - RELIGIÕES E RELIGIOSIDADES: HIBRIDAÇÕES E PERMANÊNCIAS ............................................. 867
17 - O BRASIL IMPÉRIO: TRAMAS, CONEXÕES E OUTRAS HISTÓRIAS ................................................ 924
18 - HISTÓRIA E IMPRENSA: PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE SABER ................................................... 937
3

APRESENTAÇÃO
O VIII Encontro Estadual de História da ANPUH-RN teve como tema A História e o
futuro da Educação no Brasil, seguindo a orientação da temática aprovada na última
Assembleia Geral da ANPUH-Brasil, que teve lugar em Brasília, durante o XXIX Simpósio
Nacional de História, realizado no mês de julho do corrente ano.
O evento foi realizado no Campus de Caicó, do Centro de Ensino Superior do Seridó
(CERES), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no período de 03 a 06 de
julho de 2018, conjuntamente com a XIV Semana de Estudos Históricos do CERES, seguindo
a dinâmica de parceria da ANPUH-RN com as instituições de ensino superior que sediam os
encontros estaduais.
A programação, composta de conferências, mesas redondas, minicursos e simpósios
temáticos, ofereceu um panorama de discussões sobre as questões que envolvem a relação
entre História e Educação nos dias de hoje. Os anais aqui publicados condensam os textos
completos dos trabalhos apresentados em simpósios temáticos, cuja responsabilidade pela
ortografia, redação e opinião são de completa responsabilidade dos respectivXs autorXs.

Os organizadores

Anais do VIII Encontro Estadual de História da ANPUH-RN e XIV Semana de Estudos Históricos do CERES-UFRN:
A História e o futuro da Educação no Brasil - ISBN 978-85-5697-925-4
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EQUIPE ORGANIZADORA DO EVENTO

COMISSÃO GESTORA LOCAL


Prof. Evandro dos Santos – CERES-UFRN – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof. Helder Alexandre M. de Macedo – CERES-UFRN – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof.ª Jailma Maria de Lima – CERES-UFRN – Diretoria ANPUH 2016-2018

COMISSÃO ORGANIZADORA
Prof. Abrahão Sanderson Nunes Fernandes da Silva – CERES-UFRN
Prof. Evandro dos Santos – CERES-UFRN – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof. Helder Alexandre M. de Macedo – CERES-UFRN – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof. Marcílio Lima Falcão – UERN -Mossoró – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof. Mariano de Azevedo Júnior – UnP-Natal – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof. Rosenilson da Silva Santos – UERN-Assu – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof. Thiago Alves Dias – CERES-UFRN
Prof.ª Adriana Cristina da Silva Patrício – SEEC/RN – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof.ª Airan dos Santos Borges – CERES-UFRN
Prof.ª Andreza de Oliveira Andrade – UERN-Assu – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof.ª Carmen Margarida Oliveira Alveal – CCHLA-UFRN – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof.ª Jailma Maria de Lima – CERES-UFRN – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof.ª Juciene Batista Félix Andrade – CERES-UFRN
Prof.ª Lívia Brenda Silva Barbosa – Diretoria ANPUH 2016-2018
Prof.ª Sarah Luna de Oliveira – CERES-UFRN

COMISSÃO CIENTÍFICA
Prof. Almir Félix Batista de Oliveira – PPGTUR/UFRN
Prof. André Victor Cavalcanti Seal da Cunha – UERN
Prof. Arthur Luís de Oliveira Torquato – IFRN
Prof. Arthur Rodrigues Fabrício
Prof. Carlos Eduardo Martins Torcato – UERN
Prof. Evandro dos Santos – UFRN
Prof. Francisco Fabiano de Freitas Mendes – UERN
Prof. Genilson de Azevedo Farias – PPGCS/UFRN
Prof. Haroldo Loguercio Carvalho – UFRN
Prof. Helder Alexandre M. de Macedo – UFRN
Prof. João Fernando Barreto de Brito – PPGH/UFRJ
Prof. Joel Carlos de Souza Andrade – UFRN
Prof. Lemuel Rodrigues da Silva – UERN
Prof. Lígio José de Oliveira Maia – UFRN
Prof. Lindercy Francisco Tomé de Souza Lins – UERN
Prof. Lourival Andrade Junior – UFRN
Prof. Marcílio de Lima Falcão – UERN
Prof. Marcondes Alexandre da Silva
Prof. Mariano de Azevedo Júnior – UnP
Prof. Paulo Rikardo Pereira Fonseca da Cunha – IFRN
Prof. Paulo Vitor Sauerbronn Airaghi
Prof. Rafael Oliveira da Silva – Rede Privada de Ensino Básico – Natal/RN
Prof. Renato Amado Peixoto –UFRN
Prof. Rodrigo Ceballos – UFCG
Prof. Rosenilson da Silva Santos – UERN
Prof. Ruan Kleberson Pereira da Silva
Prof. Thiago Alves Dias –UFRN

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Prof.ª Aliny Dayany Pereira de Medeiros Pranto – SEEC/RN


Prof.ª Andreza de Oliveira Andrade – UERN
Prof.ª Carmen Margarida Oliveira Alveal – UFRN
Prof.ª Jailma Maria de Lima – UFRN
Prof.ª Juliana Alves de Andrade – UFRPE
Prof.ª Maiara Juliana Gonçalves da Silva – UFRN
Prof.ª Margarida Maria Dias de Oliveira – UFRN
Prof.ª Vanda Fortuna Serafim – UEM
Prof.ª Vanessa Spinosa – UFRN

APOIO TÉCNICO
Gabriel Barreto – Secretaria
Joás Jones de Sousa Medeiros – Suporte de Informática
Lucas Thiago Araújo de Medeiros – Secretaria
Maria Alda Jana Dantas de Medeiros – Secretaria
Matheus Barbosa Santos – Secretaria

IDENTIDADE VISUAL DO EVENTO


Custódio Medeiros

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PROGRAMAÇÃO

TERÇA-FEIRA – 03 JULHO DE 2018


HORÁRIO EVENTO LOCAL
08:00h às Laboratórios de
CREDENCIAMENTO
18:30h História
13:00h às Salas de Aula dos
Minicursos
17:00h Blocos D
Solenidade de Abertura Conferência de Abertura: A importância da
pesquisa e do ensino de História no século XXI
19:00h às Conferencista: Prof.ª Dr.ª Joana Maria Pedro – Departamento de
Auditório do CERES
21:00h História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e
Presidente da ANPUH-BR
Adriana Cristina da Silva Patrício - SME/Natal

QUARTA-FEIRA, 04 DE JULHO DE 2018


HORÁRIO EVENTO LOCAL
07:30h às Laboratórios de
Credenciamento
18:30h História
07:30h às Salas de Aula dos
Minicursos
09:30h Blocos D
12:00h às
Intervalo –
14:00h
Mesas Redondas
MR 1 - A legitimação religiosa face ao Estado –
os casos do Espiritismo e do Santo Daime
Andre Victor Cavalcanti Seal da Cunha – Professor do DEHIS-UERN
09:45h às – Mossoró Bloco de Aulas D
11:45h Carlos Eduardo Martins Torcato – Professor do DEHIS-UERN – Sala D2
Mossoró
Adriana Gomes – Professora de História da SEEDU/RJ
Moderação:Prof.ª Lívia Brenda Silva Barbosa - UERN
MR 2 – A produção historiográfica no Rio Grande do Norte (1902-
1938)
Raimundo Pereira Alencar Arrais – Professor do DEHIS-CCHLA e
09:45h às PPGH-UFRN Auditório da Pós-
11:45h Bruno Balbino Aires da Costa – Professor do IFRN Graduação
Durval Muniz de Albuquerque Junior – Professor do DEHIS-CCHLA e
PPGH-UFRN
Moderação: Prof. Evandro dos Santos - UFRN
MR 3 – Formação de professores de História no Brasil:
história,historiografia e construções atuais
Aryana Lima Costa – Professora do DEHIS-UERN – Mossoró
09:45h às
Juliana Alves de Andrade – Professora do DE/UFRPE Anfiteatro do CERES
11:45h
Margarida Maria Dias de Oliveira – Professora do DEHIS-CCHLA e
PPGH-UFRN
Moderação: Prof. Mariano de Azevedo Júnior - UnP

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QUARTA-FEIRA, 04 DE JULHO DE 2018


HORÁRIO EVENTO LOCAL
Salas de Aula do
Bloco A, B e D
14:00h às
Simpósios Temáticos Anfiteatro do CERES
18:00h
Anfiteatro da Pós-
Graduação
18:00h às
Bate-papo com Autores e Lançamento de Livros Anfiteatro do CERES
19:30h
Mesas Redondas
MR 4 – Leis 10.639/03 e 11.645/08: temas, problemas e
perspectivas no Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e
Indígena no Brasil
19:30 às
Lígio José de Oliveira Maia – Professor do DEHIS-CCHLA e PPGH- Anfiteatro do CERES
21:30h
UFRN
Edson Hely Silva – Professor do DEHIS-UFPE
Prof. José Pereira de Souza Júnior - UFRN
MR 5 – Patrimônio Cultural interconectando áreas de pesquisa:
História, Geologia, Turismo
19:30 às Auditório da Pós-
Almir Félix Batista de Oliveira – Pós-doutorado – PPGTUR-UFRN
21:30h Graduação
Roberto Airon Silva – Professor do DEHIS-CCHLA-UFRN
Moderação: Prof. Thiago Alves Dias - UFRN
MR 6 – Sertões: narrativas e fronteiras
Helder Alexandre Medeiros de Macedo – Professor do DHC-CERES e
PPGH-UFRN
19:30 às Ricardo Alexandre Santos de Sousa – Professor do DEHIS-UESB – Bloco de Aulas D
21:30h Campus Vitória da Conquista Sala D2
Evandro dos Santos – Professor do DHC-CERES-UFRN
Moderação: Joel Carlos de Souza Andrade – Professor do DHC-
CERES-UFRN

QUINTA-FEIRA, 05 DE JULHO DE 2018


HORÁRIO EVENTO LOCAL
07:30h às Laboratórios de
Credenciamento
18:30h História
07:30h às Salas de Aula dos
Minicursos
09:30h Blocos D
Mesas Redondas
MR 7 – Religiões e religiosidades na composição da cultura
brasileira
09:45h às
Lourival Andrade Júnior – Professor do DHC-CERES-UFRN Anfiteatro do CERES
11:45h
Vanda Fortuna Serafim – Professora do DEHIS-UEM
Ane Luise Silva Mecenas Santos – Doutora em História – UNISINOS
MR 8 – Colonização e economia: espaços, agentes e instituições
09:45h às ultramarinas nos séculos XVI a XVIII Auditório da Pós-
11:45h Thiago Alves Dias – Professor do DHC-CERES-UFRN Graduação
Rodrigo Ricupero – Professor do DEHIS-USP

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QUINTA-FEIRA, 05 DE JULHO DE 2018


HORÁRIO EVENTO LOCAL
Gustavo Acioli Lopes – Professor do DEHIS-UFRPE
Moderação: Carmen Margarida Oliveira Alveal - Professora do
DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN
MR 9 – Ensino de História Antiga e a educação do futuro: novas
perspectivas
Marcia Severina Vasques – Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH-
09:45h às UFRN Bloco de Aulas D
11:45h Lyvia Vasconcelos Baptista – Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH- Sala D2
UFRN
Airan dos Santos Borges – Professora do DHC-CERES-UFRN
Regina Maria da Cunha Bustamante – Professora do DEHIS-UFRJ
12:00h às
Intervalo –
14:00h
Salas de Aula do
Bloco A, B e D
14:00h às
Simpósios Temáticos Anfiteatro do CERES
18:00h
Anfiteatro da Pós-
Graduação
19:00h às
Assembleia Geral da ANPUH-RN Anfiteatro do CERES
21:00h

SEXTA-FEIRA, 06 DE JULHO DE 2018


HORÁRIO EVENTO LOCAL
07:30h às Laboratórios de
Credenciamento
11:30h História
07:30h às Salas de Aula dos
Reunião dos GTs
09:45h Blocos D
Solenidade de Encerramento
Conferência de Encerramento: Conservadorismo, educação e
10:00h às
Ensino de História. Auditório do CERES
12:00h
Conferencista: Fernando Penna - Universidade Federal Fluminense
Profª. Juciene Batista Félix Andrade - UFRN
12:00h às
Intervalo –
14:00h
Salas de Aula do
Bloco A, B e D
07:30h às
Simpósios Temáticos Anfiteatro do CERES
09:00h
Anfiteatro da Pós-
Graduação
19:00h às
Confraternização A definir
22:00h

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MESAS REDONDAS

MR 1 – A LEGITIMAÇÃO RELIGIOSA FACE AO ESTADO – OS CASOS DO ESPIRITISMO E DO


SANTO DAIME

EXPOSITORES
Andre Victor Cavalcanti Seal da Cunha - Professor do DEHIS-UERN – Mossoró
Carlos Eduardo Martins Torcato - Professor do DEHIS-UERN – Mossoró
Adriana Gomes - Professora de História da SEEDU/RJ

MODERAÇÃO
Prof.ª Lívia Brenda Silva Barbosa - UERN

EMENTA
A história da religião e das práticas religiosas tem uma trajetória bastante consolidada no
campo da historiografia brasileira, com Grupo de Trabalho (GT) funcionando em âmbito
nacional, revistas científicas temáticas (Revista Brasileira de História das Religiões) e
eventos internacionais próprios. É no interior desse grande campo que essa Mesa Redonda
se insere, buscando trazer ao público perspectivas diversificadas e inovadoras, em um
contexto de perplexidade com o avanço do fundamentalismo religioso e o desafio que ele
impõe ao estado laico e democrático. O debate inicia com a Profª Drª Adriana Gomes, que
apresentará uma reflexão sobre a relação do judiciário com as religiosidades proibidas no
Código Penal de 1890, particularmente, a praxis espírita. A atuação do juiz Francisco José
Viveiros de Castro, ligado à Escola Positiva do Direito, foi importante na legitimação do
Espiritismo como uma prática religiosa no Brasil. O Profº. Drº André Victor Cavalcanti Seal
da Cunha seguirá debatendo a legitimação do Espiritismo no Brasil, porém através da
exposição da trajetória do médico cearense Adolfo Bezerra de Menezes. As suas doutrinas,
apresentadas na forma de romances, procuraram criar uma configuração religiosa particular
para o Espiritismo kardequiano, um Espiritismo à Brasileira com fortes tonalidades
terapêuticas. A relação do espiritismo com a justiça e sua construção social em busca de
legitimidade social será comparada com outro fenômeno religioso tipicamente brasileiro: as
religiões cristãs ayahusqueiras, também conhecidas como religião do Santo Daime. O Profº
Drº Carlos Eduardo Martins Torcato fará uma comparação com o caso espírita, mostrando
que essa religião passou por um período de perseguição pelo Estado, pois ela era
considerada uma prática religiosa heterodoxa indesejada para a nação. Gradativamente,
entretanto, passou por um processo de legitimação que desafiou a política de guerra às
drogas no seu auge, tornando-se um caso original de culto com uso de enteógenos
legalizado; hoje esse culto se expande para o mundo inteiro, muito devido às suas
potencialidades terapêuticas.

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MR 2 – A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO RIO GRANDE DO NORTE (1902-1938)

EXPOSITORES
Raimundo Pereira Alencar Arrais - Professor do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN
Bruno Balbino Aires da Costa - Professor do IFRN
Durval Muniz de Albuquerque Junior - Professor do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN

MODERAÇÃO
Prof. Evandro dos Santos - UFRN

EMENTA
Esta mesa se propõe refletir e debater a produção historiográfica do Rio Grande do Norte
nas primeiras décadas do século XX, a partir de três eixos: a produção do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Norte (fundado em 1902), as obras de natureza historiográfica
de Luís da Câmara Cascudo e a produção historiográfica local voltada especificamente para
o tema da cidade. Nas primeiras décadas do século XX, as oligarquias estaduais investiram
na formulação de uma memória norte-rio-grandense, associando essa memória à construção
de projetos identitários, procurando definir um lugar para a unidade federativa Rio Grande
do Norte dentro de uma memória histórica nacional. Para tanto, adotaram as estratégias
seguintes, sobre as quais voltaremos nossa análise: a escrita da história, a comemoração e a
biografia. O gênero biográfico foi praticado, entre os anos 1927 e 1938, também por Luís da
Câmara Cascudo, que buscou inspiração no modelo de historiografia estabelecido pelo
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, elegendo como personagens principais algumas
figuras que tiveram proeminência na história do Império brasileiro. Nesse sentido, dois
aspectos das biografias elaboradas por Cascudo requerem uma reflexão: a estratégia que
consistia em explorar o gênero biográfico como caminho para a compreensão de épocas
históricas e a visão saudosista que ele revela ao longo de suas obras. No cruzamento dessas
linhas – as demandas dos grupos dominantes locais, as circunstâncias históricas concretas
dentro das quais os historiadores produziram suas obras, os imperativos de construção da
memória e os modelos teóricos e metodológicos disponíveis para servir ao trabalho do
historiador – pode-se perceber o lugar secundário que a produção historiográfica local
reservou à cidade, os limites e as possibilidades locais para o estudo do passado da cidade,
em perspectiva histórica, sem que a cidade fosse absorvida por uma história política ou por
uma história administrativa.

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MR 3 – FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE HISTÓRIA NO BRASIL: HISTÓRIA,


HISTORIOGRAFIA E CONSTRUÇÕES ATUAIS

EXPOSITORAS
Aryana Lima Costa - Professora do DEHIS-UERN – Mossoró
Juliana Alves de Andrade - Professora do DE/UFRPE
Margarida Maria Dias de Oliveira - Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN

MODERAÇÃO
Prof. Mariano de Azevedo Júnior - UnP

EMENTA
Diante das atuais circunstâncias sociais e políticas que desafiam a atuação dos historiadores
no país, os debates desta mesa pretendem tomar a formação de professores como pretexto
para pensar os caminhos pelos quais a História atualmente praticada pode responder às
demandas que se colocam diante da categoria de seus profissionais. Isto se traduz em uma
discussão referente a como pensamos a história de nossa própria formação e no valor que a
sala de aula universitária pode agregar à história da historiografia assim como a questões
mais diretas com o tempo presente, como a formulação de políticas públicas que considerem
uma integralidade entre educação básica e superior e a responsabilidade incontornável da
universidade perante a sociedade, o que demanda um cuidado constante com a atualidade e
a relevância das práticas de formação. Abarcando diferentes temporalidades, e passando por
áreas como currículo, relação escola/universidade, novas tecnologias e desafios da
profissão, pretende-se utilizar esse espaço para congregar reflexões – da mesa e do público
em geral – sobre o que se espera e o que é possível de ser feito pelos profissionais de
História.

MR 4 – LEIS 10.639/03 E 11.645/08: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS NO ENSINO


DA HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA E INDÍGENA NO BRASIL

EXPOSITORES
Lígio José de Oliveira Maia - Professor do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN
Edson Hely Silva - Professor do DEHIS-UFPE
Prof. José Pereira de Souza Júnior – UFRN

EMENTA
Desde a homologação das Leis nº 10.639/2003 e 11.645/2008, as escolas públicas e privadas
de Educação Básica no Brasil, são obrigadas a implantar e promover o estudo da História e
Cultura afro-brasileira e indígena. Entretanto, o desconhecimento ou mesmo a rejeição
destes dispositivos legais, inclusive, por parte dos docentes, tem dificultado sua efetivação.
Muitos são os desafios apresentados quanto à inclusão dos temas da história e cultura afro-
brasileiras e da história e culturas indígenas nos currículos escolares, ainda mais quando se
constata a pouca produção de material didático específico (livros didático e paradidático,
vídeos, jogos etc.) coerente às diferenças étnico-raciais visíveis na atualidade, como também
a escassez de cursos de formação continuada para professores das redes estadual e

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municipal quanto a essas mesmas demandas. Assim, o objetivo desta Mesa é apresentar
reflexões de experientes professores/pesquisadores que vêm discutindo a relação entre
Ensino e Pesquisa quanto aos temas da história indígena e história afro-brasileira, tanto em
suas pesquisas acadêmicas quanto em distintos materiais didáticos e metodologias de
ensino. Com isso, espera-se a ampliação do debate quanto à efetivação das Leis nº
10.639/2003 e nº 11.645/2008 e os desafios que envolvem a compreensão ética e científica
dessas importantes conquistas dos diversos grupos étnicos no Brasil. Esta Mesa é uma
proposta do GT – Índios na História, criado no último encontro estadual da ANPUH-RN, em
2016.

MR 5 – O PATRIMÔNIO CULTURAL INTERCONECTANDO ÁREAS DE PESQUISA: HISTÓRIA,


GEOLOGIA, TURISMO

EXPOSITORES
Almir Félix Batista de Oliveira - Pós-doutorando – PPGTUR/UFRN
Roberto Airon Silva – Professor do DEHIS-CCHLA-UFRN

MODERAÇÃO
Prof. Thiago Alves Dias - UFRN

EMENTA
Essa proposta de mesa redonda tem por objetivo discutir o papel do Patrimônio Cultural
como objeto de pesquisa que interconecta diferentes áreas de pesquisa como a História, a
Geologia e o Turismo. A temática do Patrimônio Cultural ganhou bastante relevância em fins
do século passado e início desse, constituindo se não como um campo consolidado de
pesquisa, em rápido processo de consolidação e para comprovarmos isso basta uma simples
pesquisa nos Bancos de Teses e Dissertação de algumas universidades brasileiras ou o da
própria CAPES para encontrarmos os mais diversos trabalhos abordando a temática. Em
termos da área de História a existência de um Grupo de Trabalho (GT) Nacional tratando
desse assunto e observando as suas diversas singularidades, assim como os diversos STs
participantes dos últimos Simpósios Nacionais da ANPUH-BR demonstram também a
importância do mesmo. Nesse sentido gostaríamos de propor a mesa composta pelo
professor Dr. Almir Félix Batista de Oliveira, pelo Prof. Dr. Marcos Antônio Leite do
Nascimento e pelo Prof. José da Paz Dantas.

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MR 6 – SERTÕES: NARRATIVAS E FRONTEIRAS

EXPOSITORES
Helder Alexandre Medeiros de Macedo – Professor do DHC-CERES
Ricardo Alexandre Santos de Sousa – Professor do DEHIS-UESB
Evandro dos Santos – Professor do DHC-CERES-UFRN

MODERAÇÃO
Joel Carlos de Souza Andrade – Professor do DHC-CERES-UFRN

EMENTA
A categoria sertão presta-se fundamentalmente ao exame da diferença. Entendido como
lugar (habitado ou não), em sentido espacial ou histórico, o sertão, como visto anteriormente,
foi constantemente algo dito para o Outro. Neste sentido, e por diversos aspectos e
desdobramentos de sua obra, François Hartog é referência preponderante na estruturação
teórica desta área de concentração em especial. Em O espelho de Heródoto, publicado
originalmente em 1980, o historiador francês afirma: “dizer o outro é enuncia-lo como
diferente – é enunciar que há dois termos, a e b, e que a não é b. Por exemplo: existem gregos
e não-gregos. Mas a diferença não se torna interessante senão a partir do momento em que
a e b entram num mesmo sistema” (HARTOG, 1999, p. 229). Em seu estudo sobre a clássica
obra de Heródoto, Hartog constrói uma importante reflexão que leva em conta a
antropologia histórica, o que seguramente permite sua apropriação para outros objetos,
temáticas e áreas. Em diferentes contextos históricos e historiográficos, o sertão foi dito e
visto como o Outro. Na língua do Estado ou dos conquistadores diversos, o não conhecido, o
não verificado, o não dominado era chamado de “sertões”. Não há dúvida de que a partir do
momento em que se radicalizaram as diferenças, sobremaneira, com as grandes navegações
e a conquista política das Américas, da África e da Ásia pelos portugueses, cada vez mais a
categoria “sertões” passou a compor certo sistema, na adaptação moderna, entre o
submetido ao poder dos Estados absolutistas ou, posteriormente, grandes potências, e o que
a eles escapava de alguma forma. A mesa redonda proposta, pois, radica na discussão de
diferentes pontos de vista sobre a categoria sertão, tomando como referência os lugares de
colonização lusófona.

MR 7 – RELIGIÕES E RELIGIOSIDADES NA COMPOSIÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA

EXPOSITORES
Lourival Andrade Júnior – Professor do DHC-CERES-UFRN
Vanda Fortuna Serafim – Professora do DEHIS-UEM
Ane Luise Silva Mecenas Santos – Doutora em História – UNISINOS

EMENTA
Esta mesa redonda propõe a discussão sobre as religiões e religiosidades que possibilitaram
a formação de um Brasil diverso, em que as manifestações das crenças se tornaram híbridas
e se amalgamaram na cultura brasileira. Mesmo a religião oficial do Estado, o catolicismo
romano, precisou se adaptar as condições humanas que se constituíram no país, com a

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chegada de negros vindos de diversas partes da África, sobretudo sulsaariana, mas também
necessitou entender o panteão de indígenas que aqui já habitavam. É neste turbilhão de
gestos, ritos e liturgias que surgiram religiões brasileiras e/ou afro-brasileiras, entre elas os
Candomblés, as Umbandas e os catolicismos em suas diversas modalidade, tanto oficiais
como não oficiais. É neste contexto que novos paradigmas surgiram e num momento de
tanta intolerância é necessário a discussão da historicidade destas práticas e suas dinâmicas
de ressignificações e resistências.

MR 8 – COLONIZAÇÃO E ECONOMIA: ESPAÇOS, AGENTES E INSTITUIÇÕES


ULTRAMARINAS NOS SÉCULOS XVI A XVIII

EXPOSITORES
Thiago Alves Dias – Professor do DHC-CERES-UFRN
Rodrigo Ricupero – Professor do DEHIS-USP
Gustavo Acioli Lopes – Professor do DEHIS-UFRPE

MODERAÇÃO
Carmen Margarida Oliveira Alveal – Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN

EMENTA
Relevante dimensão da produção historiográfica brasileira, a história econômica do período
colonial têm se renovado nos últimos anos ao ter alargado seu espoco de investigação,
notadamente, no que concerne sua aproximação com a história conectada, a nova história
política e dos poderes, a história cultural, a história atlântica e mais recentemente, com as
perspectivas da história dita global. Em que pese a insistente dicotomização entre modelos
e possíveis ‘escolas’ tão propaladas nos últimos 10 anos na historiografia brasileira, fato é
que os estudos sobre a colonização europeia e seus impactos na formação dos estados
nacionais em nível mundial, sobretudo, nas Américas e em África, continua sendo pauta de
debate e com grande vigor teórico de análise, como vem sendo demonstrando, por exemplo,
nos recentes trabalhos de historiadores econômicos como Kenneth Pomeranz, Sven Beckert
ou Thomas Pikkety. Essa mesa visa apresentar debates atualizados no campo da história
econômica, tendo como foco os fatos e processos concernentes a expansão e as experiências
colonizadoras ibero-americanas, entre o início da Era Moderna e a Era das Revoluções.

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MR 9 – ENSINO DE HISTÓRIA ANTIGA E A EDUCAÇÃO DO FUTURO: NOVAS


PERSPECTIVAS

EXPOSITORES
Marcia Severina Vasques – Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN
Lyvia Vasconcelos Baptista – Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN
Airan dos Santos Borges – Professora do DHC-CERES-UFRN
Regina Maria da Cunha Bustamante – Professora do Instituto de História da UFRJ

EMENTA
O profissional da área de História Antiga, assim como o de outras áreas do conhecimento
histórico, tem discutido e aprimorado a sua atuação com vistas à melhoria do ensino, em seus
vários níveis, Fundamental, Médio e Superior, levando para a sala de aula as mais recentes
discussões conceituais e novas metodologias de ensino-aprendizagem. Entre a discussão
conceitual podemos citar a valorização do outro, pelo princípio da alteridade, temática em
voga nas Ciências Humanas e também no campo da Antiguidade. Quando estudamos, por
exemplo, categorias como bárbaros e não bárbaros (gregos ou romanos), trazemos o
discurso clássico para debate no mundo contemporâneo, fonte de onde bebeu a elite
intelectual do País (seja na época colonial, imperial ou republicana) e, durante um
considerável período de nossa história, os donos do poder. A percepção da alteridade, no
sentido de reconhecimento da existência de múltiplas experiências humanas que existiram
em várias partes do mundo, serve também para o enriquecimento intelectual dos alunos e
para o conhecimento da natureza e culturas humanas, tão diversas e ricas em seus vários
momentos históricos. Além de gregos e romanos, formadores do pensamento europeu,
dialogamos também com as experiências do Oriente e da África, áreas de intenso contato no
Mediterrâneo Antigo. Hoje sabemos que elementos mesopotâmicos estão presentes nos
poemas de Homero, que dialoga com a Epopeia de Gilgamesh, e que elementos que
encontramos nos escritos judaico-cristãos, base da religião cristã predominante no Brasil, já
estavam presentes também (ou mesmo anteriormente) na cultura suméria. Estes são apenas
alguns exemplos de nossa conexão com o mundo antigo. Em relação ao ensino-
aprendizagem novas formas de abordagem têm sido utilizadas, como a discussão da questão
de patrimônio (brasileiro e internacional), o uso de jogos didáticos em sala de aula e as novas
tecnologias midiáticas e o seu papel na educação do futuro. Estes são alguns dos elementos
que propomos debater e discutir na mesa-redonda.

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SIMPÓSIOS TEMÁTICOS

ST 1 – HISTÓRIA ORAL/AUDIOVISUAL: UMA POSSIBILIDADE DE PROPOSTA


METODOLÓGICA PARA O TEMPO PRESENTE

COORDENADORES
Aliny Dayany Pereira de Medeiros Pranto – SME/Parnamirim e SEEC/RN
Rafael Oliveira da Silva – Professor da rede privada de ensino básico e superior em Natal

RESUMO
Nas últimas décadas a história oral/audiovisual tem se expandido e ajudado a consolidar
pesquisas sobre o tempo presente. O trabalho com entrevistas, relatos de vida, dentre
outros, tem atingido não somente os historiadores, como também profissionais, acadêmicos
ou não, de outras áreas, o que aponta para o caráter interdisciplinar da fonte oral/audiovisual.
Essa tendência possivelmente se tornará cada vez mais evidente, já que estamos inseridos
em uma sociedade marcada pela comunicação imagética e pelas mensagens de áudio através
das redes sociais. Por isso mesmo, as produções de entrevistas com audiovisuais vêm se
tornando mais recorrentes e têm passado a compor importante fonte histórica. Diante disso,
nosso objetivo é reunir pesquisadores que vêm realizando pesquisas acadêmicas com
história oral/audiovisual, a fim de trocar experiências e discutir técnicas e formas de
abordagem diversificadas ao trabalhar a fonte oral/audiovisual.

ST 2 – HISTÓRIA DAS MULHERES: DIÁLOGOS E PERSPECTIVAS

COORDENADORES
Genilson de Azevedo Farias – Doutorando – PPGCS/UFRN
Maiara Juliana Gonçalves da Silva – Professora da EJA/UFRN

RESUMO
O presente simpósio temático tem como proposta reunir pesquisadoras e pesquisadores
dedicados aos estudos sobre mulheres promovendo um intercâmbio intelectual a partir de
diferentes e múltiplas perspectivas que envolvam a temática em suas mais variadas
temporalidades e fontes. Entendemos como História das Mulheres, não apenas as histórias
delas, mas também aquela da família, da criança, do trabalho, da mídia, da educação, da
imprensa, da literatura, do seu corpo, da sua sexualidade, da violência (que sofreram e que
praticaram), da sua luta, da sua conquista, da sua trajetória de emancipação, do feminismo,
dos seus sentimentos, dos seus amores, de seu cotidiano, de seus múltiplos extratos sociais
e das suas relações com os homens, reafirmando a ideia de que “escrever sobre a história
das mulheres é sair do silêncio em que elas estavam (estão) confinadas” (PERROT, 2015).
Por isso, convidamos todas e todos interessados a compartilharem suas produções sobre o
campo de pesquisa.

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ST 3 – PROFHISTÓRIA: CAMINHOS DA PESQUISA EM ENSINO DE HISTÓRIA

COORDENADORES
Haroldo Loguercio Carvalho – Professor do DEHIS-CCHLA e PPGEH-UFRN
Vanessa Spinosa – Professora do DHC-CERES e PPGEH-UFRN

RESUMO
O PROFHISTÓRIA busca a formação continuada de professores de História voltados para a
inovação na sala de aula, ao mesmo tempo em que, de forma crítica e responsável, possam
refletir acerca de questões relevantes sobre diferentes usos da informação de natureza
histórica presentes contemporaneamente na sociedade. Nesse sentido, a proposta deste
Simpósio Temático é o de recepcionar pesquisas em andamento, dentro da perspectiva de
refletir sobre as práticas docentes no ambiente escolar. O interesse é o de discutir sobre
investigações em diversos níveis (graduação e pós-graduação) que tenham como objetivo
desenvolver estratégias com aplicação direta na Educação Básica, como oficinas, cartilhas,
aplicativos, materiais didáticos, exposições, entre outros.

ST 4 – ÍNDIOS NA HISTÓRIA: TEMAS E PERSPECTIVAS NO ENSINO E PESQUISA (PERÍODO


COLONIAL AOS DIAS ATUAIS)

COORDENADOR
Lígio José de Oliveira Maia – Professor do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN

RESUMO
Desde a década de 1990, especialmente no Brasil, as pesquisas relacionadas aos povos
indígenas têm priorizado enfoques interdisciplinares, em especial com os campos da
antropologia e ciências sociais, enfatizando a agência ou a perspectiva desses povos na
História. Mais recentemente, a partir de demandas legais (LDB, art. 26-A, Lei nº 11.645/03)
também têm sido exigido dos docentes – de escolas públicas e privadas da Educação Básica
– um conhecimento específico quanto ao ensino da História e da Cultura indígenas. O objetivo
geral deste simpósio é então promover um diálogo aberto tanto com
pesquisadores/professores de universidades quanto com professores das redes estadual e
municipal de Ensino, com relação aos temas da história indígena e do indigenismo ao longo
da história do Brasil, do período colonial aos dias atuais, cujos objetivos específicos são:
tornar conhecida as temáticas e as pesquisas desenvolvidas e/ou em desenvolvimento;
apontar os desafios inerentes à efetivação da Lei n. 11.645/08 e ainda promover uma
discussão coletiva dessas atuais demandas no Ensino e na Pesquisa, no âmago da história
indígena. Este simpósio é uma proposta do GT – Índios na História, criado no último encontro
estadual da ANPUH-RN, em 2016.

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ST 5 – A COLONIZAÇÃO EM MOVIMENTO: COLONOS E REINÓIS NA EXPANSÃO DO


IMPÉRIO (AMÉRICA PORTUGUESA, SÉCULOS XVII-XVIII)

COORDENADORES
Rodrigo Ceballos – Professor da UACS/CFP/UFCG
Thiago Alves Dias – Professor do DHC-CERES-UFRN

RESUMO
Entre os séculos XVI e XVIII, o império português passou por grandes mudanças estruturais
e de consolidação de suas conquistas, alternando períodos de maior e menor centralização,
influenciados pelo direcionamento econômico e político que a Coroa portuguesa e outros
agentes buscavam imprimir. O período de conquista foi marcado por muitas guerras e
alianças com as populações de indígenas, e que culminou no estabelecimento das primeiras
povoações, vilas e cidades, com modelos de construção, arquitetura e ordenamento
transplantados da Europa, porém adaptados à realidade colonial. Os religiosos, por sua vez,
por meio da catequização, buscaram cristianizar essas populações, que possuíam sua própria
lógica religiosa e que acabaram por reconstruir o catolicismo ao seu modo. Para consolidar
o seu controle em regiões distantes e separadas por oceanos, a Coroa portuguesa
transplantou uma série de instituições políticas, econômicas, sociais e religiosas, e de rituais
administrativos, que conferiam um sentido de unidade ao Império. Estas instituições tinham
um campo vasto de atuação dentro da sociedade, identificado como sua área de jurisdição.
Da mesma forma, as festas e celebrações religiosas contribuíam para a afirmação do
catolicismo e de uma uniformidade, desejada deste os primórdios do período de conquista. O
objetivo deste Simpósio Temático, portanto, é discutir temáticas relevantes para o estudo do
período colonial brasileiro, abrangendo diferentes aspectos da sociedade e a variedade de
agentes sociais envolvidos.

ST 6 – HISTÓRIA DOS ESPAÇOS, PRÁTICAS, TEORIAS E HISTORIOGRAFIA

COORDENADORES
Evandro dos Santos – Professor do DHC-CERES-UFRN
Renato Amado Peixoto – Professor do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN

RESUMO
Nosso Simpósio visa proporcionar o debate e a troca de experiências investigativas entre
pesquisadores da História dos Espaços, procurando integrar os recursos humanos de nosso
Grupo de Pesquisa com integrantes e egressos do Programa de Pós-Graduação em História
da UFRN, assim como reunir estudantes e professores que se dediquem a esse enforque nos
demais cursos de história do Rio Grande do Norte. Privilegiam-se os estudos que tenham
como foco as diversas formações espaciais e identitárias na escala do local, regional,
nacional ou internacional; a produção e fabricação dessas formações em instituições,
organizações ou por grupos de intelectuais; a teorização dessas relações e a sua

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apresentação historiográfica, bem como suas interações no campo político, historiográfico


ou religioso. Neste sentido, nosso Simpósio receberá trabalhos que reflitam sobre a teoria,
historiografia e/ou práticas espaciais ou identitárias fabricadas nos institutos
historiográficos e similares, locais ou nacionais e a sua relação com a política e o campo
histórico e espacial, assim como trabalhos que dedicam atenção à atuação de indivíduos,
imprensa e organizações civis e religiosas, tais como partidos, facções e correntes.
Receberemos também as reflexões acerca das ações e práticas relacionadas à história dos
espaços, notadamente os desdobramentos institucionais, políticos e sociais, que objetivem
perceber as matrizes de tais formulações, suas expressões concretas e suas permanências.

ST 7 – CULTURA E ESPAÇOS DE PODER NO MUNDO ANTIGO

COORDENADORES
Arthur Rodrigues Fabrício - Mestre em História – UFRN
Ruan Kleberson Pereira da Silva - Professor de História – SEEC/RN

RESUMO
Os estudos sobre o Mundo Antigo no âmbito da disciplina histórica têm despertado cada vez
mais interesse, tanto em nível nacional, quanto regional. No Rio Grande do Norte há um
crescente número de pesquisas sendo realizadas, nos mais diversos recortes e temáticas.
Neste sentido, compreendendo a importância dos espaços de debate e cooperação
acadêmica, este simpósio temático tem como objetivo reunir jovens pesquisadores e suas
produções, com o intuito de estimular a ampliação dos estudos na área, convidando-os a
refletir acerca das múltiplas relações que se estabelecem entre culturas e espaços de poder
nas sociedades do Mundo Antigo. Busca-se abarcar estudo sem torno da História da Cultura,
História Política, Cultura Material, História & Memória e História & Espaços, entre diversos
outros, que estejam voltados às Sociedades Antigas Orientais e Mediterrâneas, buscando
debater as representações, os valores, os conflitos, as espacialidades e as estruturas de
poder construídas em diferentes espacialidades e temporalidades, que relegaram ao
presente vestígios documentais advindos da Antiguidade que merecem e devem receber um
tratamento teórico-metodológico atento.

ST 8 – MEMÓRIA, ORALIDADE E HISTÓRIA POLÍTICA

COORDENADORES
Lemuel Rodrigues da Silva - Professor do DEHIS-UERN – Mossoró
Marcílio Lima Falcão - Professor do DEHIS-UERN – Mossoró

RESUMO
Nos dias 17 e 18 de dezembro de 2013 foi realizado nas dependências da Universidade
Estadual do Ceará (UECE) em Fortaleza, o I Colóquio de História Política, cujo objetivo foi a
reativação do GT- História Política. Na ocasião foram apresentadas e debatidas pesquisas
relacionadas às novas abordagens e problematizações que colocam a política como um lugar
de gestão do social e do econômico (Rémond, 2010). Além disso, as aproximações com outros
campos do saber têm favorecido profícuas reflexões sobre os movimentos sociais e suas

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temporalidades no que diz respeito às relações de força entre os sujeitos envolvidos, bem
como a análise de permanências e rupturas que estes movimentos propiciaram. Assim, ao
estreitar fronteiras, este simpósio temático tem como finalidade ser um espaço para o
debate em torna da relação entre memória, oralidade e a história política, uma vez em que as
críticas e transformações pelas quais a história política passou desde a primeira metade do
século XX contribuíram para sua renovação teórico-metodológica fato que nos leva a indagar
sobre a importância da memória e da oralidade para os estudos voltados a história política.
Nesse sentido, buscam-se refletir sobre as instituições, intelectuais, trabalhadores, partidos
políticos, líderes políticos, discursos, eleições e revoluções que propiciem o crescimento e
divulgação dos estudos sobre o passado.

ST 9 – HISTÓRIA DAS PRÁTICAS DE CURA NO BRASIL

COORDENADORES
Andre Victor Cavalcanti Seal da Cunha – Professor do DEHIS-UERN – Mossoró
Carlos Eduardo Martins Torcato – Professor do DEHIS-UERN – Mossoró

RESUMO
Esse Simpósio Temático é um espaço que busca articular interlocuções sobre como as
diversas práticas de cura se apresentam na história do Brasil. Essas práticas podem assumir
diversas facetas, pois dialogam com as representações culturais sobre as doenças e as
enfermidades. O fenômeno da cura se relaciona às formas de percepção sobre os males que
atingem indivíduos e comunidades, podendo evocar desde apropriações da esfera do divino
e do sobrenatural até as explicações científicas. Partimos do pressuposto que a cura envolve
aspectos do mundo da cultura, da sociedade e da institucionalidade. Nesse sentido, é
interesse particular desse simpósio discutir aspectos da cultura que envolvem as
representações e práticas de curar. Teremos assim amplas possibilidades temáticas, tais
como: a cultura popular e sua relação com as formas institucionais e oficiais da medicina
erudita; a trajetória de doentes e de curandeiros; a formação de políticas públicas de saúde e
de saneamento; a formação e atuação das especialidades médicas, desde as que atuam
diretamente no corpo doente (tais como sangradores e cirurgiões), como as que curam a
mente (a exemplo da psiquiatria, da psicologia e da psicanálise); a utilização de remédios
populares; as práticas de cura relacionadas a diferentes matrizes religiosas; a história das
epidemias; dentre outros. O objetivo desse Simpósio Temático é congregar pesquisadores
de diferentes tendências temáticas e epistemológicas de forma a criar um perfil da pesquisa
histórica em saúde na região. Busca-se constituir um espaço coletivo de troca de saberes e
experiências de pesquisa.

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ST 10 – A HISTÓRIA E EDUCAÇÃO NO BRASIL: HISTÓRIA, HISTORIOGRAFIA E


EXPERIÊNCIAS DE PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO

COORDENADORAS
Juliana Alves de Andrade – Professora do DE/UFRPE
Margarida Maria Dias de Oliveira – Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN

RESUMO
Este ST se propõe a ser um espaço para apresentações de trabalhos que versem sobre a
história do ensino de história e da educação como campos que se alimentam mutuamente;
de reflexões sobre as produções que constituem os campos da história da educação e do
ensino de história, de relatos de experiências no chão da escola que constituem elementos
importantes da formação de professores e de concepções de tecnologias (jogos, vídeos,
sequências didáticas, cartilhas, guias, blogs, sites etc.) que operam com informações e
produção de conhecimentos históricos. Entendemos que as relações entre as várias formas
de produção do conhecimento histórico e a reflexão sobre elas é condição para construirmos
alternativas viáveis, democráticas e acopladas as demandas e realidades brasileiras e dos
locais onde atuamos e que, sem a troca de conhecimentos sobre essas variadas formas,
sujeitos históricos, funções e usos da história, é provável que nos mantenhamos nas
dicotomias ensino x pesquisa; produção x transmissão; história x pedagogia; academia x
sociedade. Daí, entendermos a necessidade de construir este espaço que conclame
professores, pesquisadores, graduandos a envidarem o debate.

ST 11 – BIOGRAFIAS E HISTÓRIA: A CONSTRUÇÃO DE VIDAS E O TRABALHO DO


HISTORIADOR

COORDENADORES
Paulo Rikardo Pereira Fonseca da Cunha – Professor do IFRN
Paulo Vitor Sauerbronn Airaghi – Mestre em História – UFRN

RESUMO
Este simpósio temático pretende agregar discussões sobre os estudos biográficos sobre
pessoas e/ou instituições. Serão aceitas tanto discussões que problematizem questões
teórico e metodológicas no tocante às biografias, quanto trabalhos centrados em trajetórias
de vida de indivíduos e/ou instituições, em suas interações com o mundo social. A biografia
se estabelece como um campo privilegiado para a análise do historiador, pois ela suscita o
debate sobre antigos e novos problemas do trabalho historiográfico: Qual a o papel do
indivíduo na história? Como se dão as relações entre os indivíduos e a sociedade? Qual a
importância das narrativas na construção do conhecimento histórico? O caráter criativo pode
estar presente no trabalho historiográfico? Quais as implicações metodológicas e teóricas
do uso de relatos memorialísticos e autobiográficos como fontes na produção de estudos
biográficos? A partir desses questionamentos, pode-se pensar que os indivíduos não são
inteiramente produtos, nem somente construtores da sociedade, eles estão em um
constante “vir a ser”, suas identidades se constituem em fluxos dinâmicos. Almeja-se que
esse simpósio se transforme em fórum propício para discussão de trabalhos voltados para

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a particularização dos sujeitos. Pretende-se debater como um determinado sujeito se


particulariza em sua sociedade.

ST 12 – O PATRIMÔNIO CULTURAL EM LUGAR DE FRONTEIRA: HISTÓRIA, EDUCAÇÃO,


ARQUITETURA, ANTROPOLOGIA, TURISMO, GEOGRAFIA E OUTRAS ÁREAS CORRELATAS

COORDENADOR
Almir Félix Batista de Oliveira – Pós-doutorando – PPGTUR/UFRN

RESUMO
O presente simpósio temático tem por objetivo discutir o Patrimônio Cultural, tanto na sua
concepção material quanto imaterial, como um campo de pesquisa existente na fronteira ou
interconectando diversas áreas do conhecimento das ciências humanas, sociais e aplicadas.
Por esse motivo o simpósio aceitará trabalhos/pesquisas e experiências de sala de aula que
estejam sendo desenvolvidos em História, na Educação, na Antropologia, na Arquitetura, no
Turismo, na Geografia, nas Ciências Sociais, nas Políticas Públicas, na Biblioteconomia, na
Museologia, entre outras áreas, bem como nos Programas de Pós-Graduação Acadêmicos e
Profissionais das mesmas e que tenham o Patrimônio Cultural (material e imaterial), a
Educação Patrimonial como objeto central dos estudos.

ST 13 – HISTÓRIA POLÍTICA: IMPRENSA, CULTURA E MEMÓRIA NO NORDESTE


REPUBLICANO

COORDENADOR
Marcondes Alexandre da Silva - Professor de História – SEEC/RN

RESUMO
Este simpósio temático tem como proposta agregar pesquisadores que estudam a História
Política no Nordeste Republicano (1889 – 2018), por meio do estudo do poder, da cultura, da
memória, da imprensa e dos sujeitos sociais locais. Uma vez que, a imprensa vai ser um
sujeito social que irá contribuir para a construção de memórias locais. Almeja-se acrescentar,
além de historiadores, outros estudiosos das ciências humanas e sociais (geógrafos,
sociólogos e cientistas políticos) que tem pesquisas concluídas ou em andamento sobre
essas temáticas. Como também, estudos acerca das lembranças e os esquecimentos das
memórias silenciadas, vencidas, subterrâneas e manipuladas, vistas por meio da Nova
História Política, Social e Cultural. A partir de trabalhos que discutam o papel das famílias,
das parentelas, das oligar quias, das classes dos fazendeiros, dos industriais, dos
comerciantes, dos religiosos e alguns profissionais (médicos, farmacêuticos, advogados,
juízes, delegados), que expressam a força dos chefes políticos locais, ao personalizar o poder
ao assumir um cargo público em função do Estado, como se fosse proprietário do mesmo, no
qual, chega a convergir o público com o privado. Tais homens formam as elites locais,
regionais e até nacionais, a partir do poder econômico, jurídico, militar e simbólico. Assim,
esperam-se trabalhos que apresentem novas contribuições, a partir da criação dos espaços,
territórios e territorialidades, que são construídas e reconstruídas cotidianamente sobre

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essa região, a partir do repensar a história local ou regional, na qual, se faz necessário, para
se aprofundar e ampliar o estudo do político no Nordeste Republicano.

ST 14 – POLÍTICA, HISTÓRIA E MÍDIAS: O OFÍCIO DO HISTORIADOR NA SOCIEDADE DA


INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO

COORDENADORES
Mariano de Azevedo Júnior – Professor de História – UnP
Arthur Luís de Oliveira Torquato – Professor do IFRN

RESUMO
Há décadas que intelectuais das ciências humanas e sociais se preocupam com a veiculação
de conteúdos políticos nos meios de comunicação contemporâneos. Podemos exemplificar
mencionando alguns marcos desse tipo de pensamento: nas décadas de 1960 e 1970 com as
reflexões da teoria crítica da sociedade, da chamada Escola de Frankfurt; na década de 1980,
com os trabalhos de Raymond Williams, que partem da teoria marxista para as
preocupações com as ideologias embutidas, por exemplo, no conteúdo televisivo (“Políticas
do Modernismo”); e a partir dos anos 90 até aqui, as preocupações com as redes de
informações na era digital através da obra de Jurgen Habermas (teoria da ação comunicativa)
e Manuel Castells (“A sociedade em rede” / “O poder da comunicação”). Seguindo esse
importante legado, em uma sociedade que se denomina “da informação” cuja topologia,
digital, se constitui em diversas redes comunicacionais, sentimos a necessidade de
problematizar qual é o papel das diversas mídias na construção do espaço público
conscientemente democrático. Como se dá a relação entre a coisa pública e o capital privado
na gestão da comunicação social? – esse é um dos questionamentos centrais que devemos
fazer para melhor entendimento da contemporaneidade. Nesse sentido, esta proposta de
Simpósio Temático se interessa por uma vasta gama de trabalhos que estudem a relação
entre política e história em meios, de conteúdo fictício ou não, voltados a diversas finalidades,
como: literatura, cinema, televisão, música, noticiários, periódicos; também estão inseridos
nesse campo investigativo os meios computacionais relacionados à rede mundial de
computadores, como endereços eletrônicos, blogs políticos, plataformas audiovisuais
disponíveis na Internet como Youtube e Netflix e jogos eletrônicos.

ST 15 – SERTÕES: NARRATIVAS E FRONTEIRAS

COORDENADOR
Joel Carlos de Souza Andrade – Professor do DHC-CERES-UFRN

RESUMO
O simpósio temático pretende congregar trabalhos que busquem discutir os sertões como
um espaço construtor de identidades e suas múltiplas composições historiográficas e
histórico-culturais, isto é, que discutam as narrativas construídas em torno do sertão e,
também, as suas fronteiras. É com esta preocupação que aceitaremos trabalhos que tratem
de questões relacionadas aos seguintes temas: conceitos, historiografias, memórias e
biografias, tradição e folclore, cancioneiro, poesia e literatura de cordel, literatura

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regionalista e outras que fogem a este rótulo, seca e água, mitologias e crenças, amores,
espertezas, bandidos, heróis e anti-heróis na tessitura poética (no sentido de gerar, criar,
produzir) do espaço-sertão. Estas artes de nomear, pensar, visualizar, enredar, crer e compor
tornam os sertões um espaço privilegiado para gerar outras sensibilidades e relações
perante o outro.

ST 16 – RELIGIÕES E RELIGIOSIDADES: HIBRIDAÇÕES E PERMANÊNCIAS

COORDENADORES
Lourival Andrade Júnior – Professor do DHC-CERES-UFRN
Vanda Fortuna Serafim – Professora do DEHIS-UEM

RESUMO
Este simpósio temático pretende reunir pesquisas que discutam as diversas formas de re
(ligações) entre o homem e o sagrado em suas mais variadas manifestações sensíveis,
gestuais, orais e materiais. Festas, ritos, orações, africanidades, processos mediúnicos,
catolicismo oficial e não oficial, cristianismo ocidental e oriental e manifestações não cristãs
fazem parte do que pretendemos discutir. Este ST está vinculado ao GT História das Religiões
e das Religiosidades (ANPUH). A proposta do Simpósio Temático está articulada à proposta
do GT História das Religiões e das Religiosidades (ANPUH), que tem como objetivos
constituir um espaço de referência nacional nos estudos sobre história das religiões e
religiosidades; analisar as manifestações religiosas inseridas em seu contexto histórico;
aprofundar o conhecimento e qualificar o profissional para a pesquisa e a docência; dar
visibilidade às pesquisas acerca das manifestações religiosas, vinculadas aos cursos de pós-
graduação em História; constituir referencial teórico e metodológico que oportunize a leitura
e a integração crítica e consciente da pluralidade do fenômeno religioso, e fortalecer a área
dos estudos religiosos como disciplinas em cursos de graduação, além do desenvolvimento
de projetos de ensino, pesquisa e extensão. Nesse sentido, o ST está aberto aos
pesquisadores da História e demais áreas do conhecimento que desenvolvam pesquisas
sobre religiões, religiosidades e crenças afro-brasileiras, atentando para as práticas,
representações e hibridismos estabelecidos dessas manifestações; além da produção
discursiva e da elaboração de um saber científico.

ST 17 – O BRASIL IMPÉRIO: TRAMAS, CONEXÕES E OUTRAS HISTÓRIAS

COORDENADORES
João Fernando Barreto de Brito – Doutorando em História – UFRJ
Rosenilson da Silva Santos – Professor do DEHIS-UERN – Assú

RESUMO
A I edição desse Simpósio Temático ocorreu no ano de 2014 por ocasião do VI Encontro
Estadual de História da ANPUH/RN, na cidade de Assú. A II edição se deu no VI Colóquio
Nacional História Cultural e Sensibilidades, na cidade de Caicó, no ano 2016. Seu objetivo é
reunir pesquisadores(as) e trabalhos que tratam de temáticas no recorte do oitocentos,
especialmente relacionados com a província do Rio Grande do Norte. Nossa proposta é

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darmos continuidade às discussões iniciadas em 2014, seguidas em 2016 e que agora podem
ser ampliadas no sentido de oxigenar o espaço de debate e divulgação de pesquisas sobre a
história do Brasil Império. Serão bem-vindos trabalhos sobre cultura e poder, relações de
trabalho e cidadania, territórios e fronteiras e cotidiano e família, tendo como baliza o período
supracitado.

ST 18 – HISTÓRIA E IMPRENSA: PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE SABERES

COORDENADORES
Lindercy Francisco Tomé de Souza Lins – Professor do DEHIS-UERN – Mossoró
Francisco Fabiano de Freitas Mendes – Professor do DEHIS-UERN – Mossoró e PPGSCH-
UERN

RESUMO
A imprensa, mormente a publicação de jornais, informativos e revistas, seja como fonte, seja
como objeto de investigação, é uma das temáticas mais utilizadas pelos historiadores. Pela
amplitude do material, é possível obter uma leitura do passado de um setor da sociedade de
uma época, sua composição sociopolítica, seus projetos e expectativas. Deste modo, este
Simpósio Temático propõe discutir pesquisas que abordem o estudo de periódicos, tanto da
grande imprensa quanto da segmentada; da atividade profissional de jornalistas, colunistas
e correspondentes; assim como o periódico como fonte documental de outras temáticas
históricas que versem pela produção de saberes e circulação de ideias.

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MINI CURSOS

MC 1 – HISTÓRIA E HIPERMÍDIA: a percepção do passado na estética computacional dos


videogames

MINISTRANTES
Mariano de Azevedo Júnior – Professor de História – UnP
Marcella Albaine Farias da Costa – Doutoranda em História – PPGH-UNIRIO

EMENTA
Com a evolução técnica dos meios computacionais nas últimas décadas, se deu também o
desenvolvimento de suas capacidades narrativas. Isso tem possibilitado um fenômeno
semelhante ao que ocorreu em outros meios audiovisuais, como no cinema e na televisão: o
interesse pelos temas históricos, seja de uma forma inteiramente fictícia ou buscando
reproduzir versões do passado produzidas pelos historiadores profissionais. Os meios
computacionais que melhor têm se expressado narrativamente a respeito dos temas
históricos são os videogames, sem dúvidas, pois elaboram enredos e simulam espaços de
experiências, muitas vezes, sob o signo do “passado histórico”. Essas mídias, voltadas ao
entretenimento, não apenas divulgam certas concepções do passado, como também criam
formas particulares de percebê-lo e praticá-lo, no ato de jogar. Como noções centrais das
problematizações previstas para este minicurso estão a de “hipermídia” e “hipertexto”, já
tratadas há algum tempo nos trabalhos de importantes teóricos da comunicação social,
sociólogos, linguistas cognitivos e determinados segmentos do pensamento filosófico.
Desta vez, a intenção é pensar como as propriedades estéticas dos meios computacionais,
através dos videogames que abordam temas históricos em seus mundos fictícios, afetam a
percepção do passado – até mesmo do tempo, de forma mais ampla. Está presente, no nosso
exercício de reflexão, a tarefa de problematizar aquilo que importantes teóricos consideram
fundamental para o nosso tempo, isto é, a relação entre “técnica” e “política”, o que pode ser
feito através de diferentes abordagens do social.

MC 2 – A PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS PARA O ENSINO DE HISTÓRIA

MINISTRANTE
Margarida Maria Dias de Oliveira – Professora do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN

EMENTA
O presente minicurso tem por objetivo central refletir sobre a produção de materiais
didáticos para o ensino de História realizada no Brasil e, por meio destas reflexões, debater
sobre os saberes necessários a um profissional que se proponha a se dedicar a esta
produção. Parte-se do pressuposto que este é um campo a ser ocupado por profissionais de
História e qualificados para tal, que há uma imbricação com a produção do conhecimento
histórico acadêmico, mas que requer também um diálogo com outros campos de saberes,
dependendo dos suportes e objetivos dos materiais didáticos. Entende-se como um campo
possível de atuação profissional do formado em História e como uma forma de atuação para

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contribuir na formação de cidadãos que operam com informações históricas e as


transformam em um banco de dados importante para orientação da vida prática.

MC 3 – PATRIMÔNIO CULTURAL: FORMAS DE APRESENTAÇÃO, FORMAS DE


PRESERVAÇÃO

MINISTRANTE
Almir Félix Batista de Oliveira – Pós-doutorando – PPGTUR/UFRN

EMENTA
O presente minicurso tem os seguintes objetivos: 1-Discutir como se conforma o patrimônio
cultural brasileiro; 2-Analisar os últimos 20 anos de preservação do patrimônio cultural
brasileiro; 3-Problematizar formas de apresentação e formas de preservação do patrimônio
cultural brasileiro. E para tais tarefas se utilizará do seguinte programa: 1º Dia (Primeira
Sessão): 1- O patrimônio cultural brasileiro: formas e constituição; 2- História da preservação
do patrimônio cultural brasileiro: os últimos 20 anos; 3- O patrimônio cultural brasileiro e o
ensino de história: formas de apresentação, formas de preservação; e 2º Dia (Segunda
Sessão): 4- O patrimônio cultural brasileiro e o livro didático de história: formas de
apresentação, formas de preservação; 5- O patrimônio cultural brasileiro entre exposições,
fotografias e documentários: formas de apresentação, formas de preservação; 6- O
patrimônio cultural brasileiro e o turismo: formas de apresentação, formas de preservação.

MC 5 – OS SERTÕES COLONIAIS: ENTRE OS ESPAÇOS VAZIOS E A BARBÁRIE

MINISTRANTES
Júlio César Vieira de Alencar – Professor do IFRN
Patrícia de Oliveira Dias – Professora do IFRN

EMENTA
Este minicurso tem como objetivo analisar o processo de territorialização dos sertões das
Capitanias do Norte do Estado do Brasil e discutir as diferentes noções presentes na
sociedade colonial acerca dos sertões da América portuguesa, encarados como espaços
marcados pela selvageria e pela barbárie, mas que possibilitavam a expansão das atividades
econômicas desenvolvidas pelos colonos. Para tanto, serão estudados os conceitos básicos
de territorialização e sertão, a fim de compreender como ocorreram as primeiras incursões
por esses espaços, os objetivos, as demandas dos luso-brasílicos em busca de terras e como
se estabeleceram as novas configurações espaciais. As fontes a serem trabalhadas no
minicurso são as cartas de sesmarias, entendidas como relatos acerca do espaço e como
forma de conversão do mesmo em território colonial; a documentação camarária, sobretudo,
os Livros de Cartas e Provisões e os Termos de Vereação do Senado da Câmara de Natal; a
coleção Documentos Históricos da Biblioteca Nacional; e os documentos do Arquivo
Histórico Ultramarino. Para auxiliar na análise das fontes, será acessada a historiografia
clássica, com o objetivo de compreender como os sertões foram tratados nessas produções;
além da renovação historiográfica que revisitou o tema e as novas acepções sobre a
territorialização dos sertões das Capitanias do Norte.

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MC 6 – A UTILIZAÇÃO DA LITERATURA E DA IMPRENSA NA HISTÓRIA URBANA

MINISTRANTES
Raimundo Pereira Alencar Arrais – Professor do DEHIS-CCHLA e PPGH-UFRN
Renato Marinho – Professor do IFRN

EMENTA
Na formação do historiador, considerando o historiador na perspectiva de sua atuação como
pesquisador e como professor, o trabalho com a documentação se revela essencial para a
elaboração da narrativa histórica. O conhecimento da especificidade das várias linguagens
dos documentos explorados pelo historiador das cidades e o reconhecimento das questões
teóricas implicadas na aproximação entre esse tipo de documento e a narrativa o historiador,
contribuem para que se ampliem as possibilidades de seu uso pelos historiadores. A
proposta do minicurso consiste em abordar, de modo introdutório, as particularidades e as
potencialidades de dois tipos específicos de documentos no uso da história urbana,
especificamente a literatura e a imprensa. Este minicurso propõe explorar dois tipos de
testemunhos na perspectiva do historiador da cidade: a fonte literária e a imprensa. O
objetivo será de promover uma reflexão a respeito de como se explorar cada um desses
documentos e estimular as reflexões que devem ser desenvolvidas pelo historiador ao
incorporá-las à sua narrativa de modo criativo. O minicurso compreenderá exposição da parte
dos proponentes e realização, da parte dos participantes, de atividades orientadas a partir de
fontes literárias, jornais e revistas.

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Simpósio Temático 1
HISTÓRIA ORAL/AUDIOVISUAL:
UMA POSSIBILIDADE DE PROPOSTA
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METODOLÓGICA PARA O TEMPO PRESENTE


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A REVOLUÇÃO DO CINEMA NOVO BRASILEIRO A PARTIR DE


GLAUBER ROCHA EM “TERRA EM TRANSE”

Beatriz Ribeiro de Andrade1

INTRODUÇÃO
No dado artigo iremos fazer um estudo acerca da discussão presente entre o
conceito de arte engajada, seja como propaganda ou como uma crítica, sendo escolhido
o filme Terra em transe (1967) para se fazer uma análise a partir do cinema como uma
arte engajada de crítica sendo bastante conveniente ao que estava se passando no
contexto politico não apenas a nível Brasil mas também de toda uma América Latina
como um todo.
Essa obra trata de crítica toda uma conjuntura política em crise em toda a
américa latina, desde lideres populistas, até os autoritários, no sentido de aproximar a
realidade dos países latinos, uma crítica hegemônica em busca de uma revolução não
apenas política mas também da arte, passando de algo enfaticamente estético para ser
algo mais próximo a realidade, mais engajado nas vidas das pessoas que assistem, que
admiram e analisam. Servindo da arte como uma forma de militância contra regimes
autoritários, em especial os da América latina.
A análise da obra vai partir de uma rememorada nos conceitos da arte engajada,
e posteriormente uma percorrida no enredo do filme e o que cada fator ali presente irá
representar, desde os personagens em si, até o resultado das relações entre eles.
Finalizando com uma análise na obra em si para o resultado com o seu externo, em
como foi a recepção da obra, até os resultados obtidos a partir daquela “revolução no
cinema”, de qual foi o resultado de nos trazer uma grande mudança no cinema, desde a
abordagem de temas políticos até da estética cinematográfica que foi também
modificada, tornando a película mais densa e psicológica.

A REVOLUÇÃO DO CINEMA NOVO E A “TERRA EM TRANSE”


Para dar início a uma discussão que tem como base o diálogo entre arte e política é
primordial sabermos que a arte pode ser trazida de duas formas opostas em prol da
política, seja como propaganda ou como uma crítica, e logo em seguida delimitamos o

1 Graduanda na Universidade Federal de Campina Grande

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roteiro baseado no artigo “A relação entre arte e política: uma introdução teórico-
metodológica” de Marcos Napolitano de partir de uma análise histórica daquela
produção cultural a qual escolhemos tomar como referencial, e em segundo lugar
discutir o que seria a “arte engajada” dentro do uso que pretendo lhes expor, é
necessário à análise do lugar social do “artista-intelectual” que no caso seria o Glauber
Rocha como uma forma de relacionar a linguagem artística aos valores políticos.
Quando falamos em arte engajada temos a seguinte definição “ – a arte engajada
– de caráter mais amplo e difuso, define-se a partir do empenho do artista em prol de
uma causa ampla, coletiva, ancorada em ‘imperativo moral e ético’ que acaba
desembocando na política, mas não parte dela” (NAPOLITANO, 2011: 25-56). A partir
dessa intenção em produzir uma arte nesses moldes no sentido de engajamento e
também numa vertente revolucionária no que diz respeito a uma busca de uma nova
estética, de uma verdade do povo, uma influência possivelmente soviética ao pensar as
diretrizes políticas dos formadores desse cinema novo brasileiro. A busca partiu de uma
mudança no cinema, em contraponto com o socialismo Leninista de que implicaria
menos em uma “nova cultura” mas sim de socializar aquela cultura burguesa que não
era acessível, o caso brasileiro e latino-americano de influência marxista foi particular
no ponto em que buscava sim uma nova estética, um público que se identificava com
aquela cultura não mais copiando os moldes europeus, uma unidade de arte – mais
especificamente o cinema – no qual o povo se encontraria, onde o nacional seria mais
valorizado, mas na perspectiva democrática de representar um governo do povo.
Porém, porque a ânsia maior de uma unidade cultural nacional e também latino-
americana? Porque isso se diferenciaria de um dos maiores referenciais sobre arte e
cultura vindo da URSS? Exatamente por o Brasil, e a América Latina vinha de um caso
mais geral que atingira também o campo da arte, e consequentemente do cinema, seria
a situação colonial, quando pensamos em uma situação encaixada nos moldes de uma
colônia, pensamos então numa dependência quase total de uma indústria
cinematográfica, então temos a definição a partir de Galvão e Bernadet, trazida no
artigo de Pedro Simonard.

O fator básico que explica a “situação colonial” do cinema brasileiro é o


fato de que o “produto importado” ocupa o seu lugar. Trata-se,
portanto, de uma definição de ordem econômica que será
metaforicamente transposta para o campo da cultura. Importamos não

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apenas objetos manufaturados, mas ideias prontas – e formas,


modelos, estruturas de pensamento – forjadas em função de
realidades diversas que correspondem mal a nossa própria realidade.
Estas ideias ocupam um tal espaço em nossas mentes que pouco sobra
para que nelas se desenvolvam ideias próprias. Além de produtos
industriais, os filmes são também produtos culturais. Juntamente com
os filmes, importamos uma concepção de cultura- e uma concepção de
cinema que identifica com o próprio cinema o cinema estrangeiro. Nisto
reside o cerne da “colonização” cultural: a “situação colonial” – cuja
marca cruel e inescapável é a mediocridade – se configura quando se
adota um modelo importado que não se tem condições de igualar. (apud
SIMONARD, 2003, p. 4)

Percebe-se total relação da sétima arte com a economia, e por ai se faz sua
peculiaridade, que o cinema não é apenas estética, crítica ou propaganda, temos a
preocupação com uma produção e uma distribuição que exige um diálogo com o
mercado, tem-se a preocupação de uma revolução na qual visa uma quebra total com
as raízes coloniais, não falando das raízes ibéricas, mas sim das nossas raízes de
dependência seja europeia, seja norte-americana, pois quando vemos a burguesia
notamos um espelho para o American way of life , e quando encontramos uma
esquerda muito espelhada numa União Soviética, se esquecendo então das
particularidades não apenas do país de dimensões continentais que é o Brasil, mas
também as peculiaridades da América Latina também estavam em falta nas
expressões artísticas. E então quando o próprio Glauber Rocha nos fala que “Não existe
poder cultural sem poder econômico e político. A finalidade dos cineastas
independentes deve ser a de conquistar o poder da produção e da distribuição em todos
os países.” ( ROCHA, 1981: 68). E é aí que nota-se toda essa teia de interligações
provocada intencionalmente por uma revolução no cinema. O tocante a uma noção além
do nacional é a dita a seguir pelo próprio diretor e roteirista do filme em que estamos
fazendo uma breve contextualização para adentrá-lo:

A noção de América Latina supera a noção de nacionalismos. Existe um


problema comum: a miséria. Existe um objetivo comum: a libertação
econômica, política e cultural de fazer cinema latino. Um cinema
empenhado, didático, épico, revolucionário. Um cinema sem fronteiras,
de língua e problemas comuns. (ROCHA, 1981: 51)

Quando paramos para analisar o lugar social da imagem, e do intelectual a frente


do projeto de um cinema novo brasileiro, existirá claramente a reflexão acerca da sua

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política posicionada a esquerda, já tendo sido preso durante o regime militar e sofrido
grande repressão e crítica quando lançou o filme “ Terra em transe” críticas essas
vindas de ambas direções políticas, da direita vindo a repressão e a censura e da
esquerda houve críticas desde comparar e alegar elementos da chanchada, talvez por
criticar dentro do enredo a figura de um intelectual da esquerda no qual seus ideais não
correspondiam com suas ações. Então paramos no ponto em que Glauber Rocha foi
uma figura icônica, criticada e perseguida naquele período, e em especial foi uma
personalidade que ansiava por essa revolução, que mandava carta para outros
apaixonados e produtores do cinema brasileiro implorando por uma unificação, como
podemos ver esse fato no pequeno trecho de uma carta direcionada a Paulo César
Saraceni citada no artigo de Pedro Simonard.

Escrevi um artigo negando o cinema, Não acredito no cinema, mas não


posso viver sem o cinema. Acho que devemos fazer a revolução. Cuba é
um acontecimento que me levou ás ruas, me deixou sem dormir.
Precisamos fazer a nossa aqui. Cuba é o máximo (...). Estão fazendo um
novo cinema (...), vários filmes longos e curtos. Estou articulando com
eles um congresso latino-americano de cinema independente. Vamos
agir em bloco, fazendo política. Agora, neste momento, não credito nada
à palavra arte neste país subdesenvolvido. Precisamos quebrar tudo.
Do contrário eu me suicido. (Apud SIMONARD, 2003, p.6)

Então a partir do trecho dessa carta, vemos tamanho o desespero da figura do


Glauber Rocha diante da situação precária do Brasil, e também sua posição radical seja
politicamente seja em relação ao cinema em si, e quando notamos a sua posição não
em relação apenas a uma valorização apenas do Brasil, mas também de uma América
Latina, vemos que na obra “Terra em transe” ele escolhe por não localizar a trama, mas
inventando os lugares, locais nomeados como Alecrim e Eldorado.
Adentrando então no enredo do filme “Terra em transe” temos logo de início uma
organização levemente confusa, porém intencional, ao começar o filme como se fossem
memórias, tornando o recorrer do filme em vários “flashbacks” em que as memórias
possuíam um dono: Paulo Martins. O jornalista que nos trás suas narrações, e
lembranças de um passado infestado de ideais e de martírios arrependidos sobre
posições que tomou e não soube lidar com elas, a narrativa se faz de forma poética e
reflexiva, porém dentro de um decorrer de história com teor puramente político.

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A linearidade pode aparentar não estar em uma linha reta, mas em pontos e
figuras que são trazidas de acordo com sua significância, enquanto se conhece os
personagens daquele enredo fazemos uma viagem histórica comparativa dentro do
contexto da história politica brasileira, que vai de Vargas até João Goulart. Ou seja,
desde um autoritarismo abusivo e golpista até um populismo insuficiente apelativo e
disfarçado de “pai do povo”. O Glauber Rocha inventa um país chamado Eldorado que
se localiza na província fictícia de Alecrim e lá se cria as figuras desta trama, com
lugares fictícios e figuras fictícias também, o que deixa aberto para identificar-se com
diversas realidades, fazendo até referencia com nomes de personagens, a exemplo de
Porfírio Dias, militar e política mexicano, então é a partir dessa trama “inventada” que
se faz os encaixes com a realidade fazendo uma verdadeira alegoria política
acrescentando um ingrediente essencial nem sempre lembrado por alguns, que seria o
próprio povo.
Notamos então a gigantesca alegoria política existente na obra, criticando em
especial as seguintes figuras: Diaz e seu conservadorismo golpista como uma crítica
direta ao autoritarismo bastante vivo no período em que o filme foi lançado (1967), o
Vieira o populista totalmente ineficaz, oportunista e fraco diante da conjuntura política
sabendo apenas fazer promessas e mentir ao povo se aproveitando de uma situação
em que a fome falava mais alto e frases como “estou anotando tudo” seriam suficientes
para uma comunidade pobre e com fome lhe apoiar, temos o personagem principal que
se envolve com a podridão de todos os lados, porém com uma fala bonita, e ideais que
não saem do papel a partir do momento em que se articula com figuras que
representam um poder deplorável, e por fim um papel deixado as margens vindo da
figura feminina como companheira trazida em especial por Sara que nos mostra uma
mulher com uma posição de intelectual e santa dentro das tramas políticas porém com
uma noção alienada da conjuntura, e representada de forma bastante recatada ao longo
do filme, sendo o “ponto fraco sentimental” do Paulo mas estando a par do populismo
covarde do Vieira. Ao longo da película, se tem as memórias sobre acontecimentos em
que Paulo estaria tendo conhecimento no que diz respeito as tramas políticas que estão
por trás dos palanques, desde o momento em que ele decidira se abster da política e se
isolar em um ambiente com muitas mulheres e bebidas, porém não seria tão simples
escapar da política naquele momento de colisão política, que ocorreria dentro da obra,
e também no momento em que a obra estaria sendo construída. Então é a partir de um

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trecho escrito pelo Glauber Rocha se entende bem a questão estética do filme em
questão.

As imagens grotescas de Terra em Transe, mais hispânicas do que


portuguesas (quero dizer, mais latino americana que brasileiras) são
destruídas no lirismo naif do velho Mauro, na imaginação satírica dos
velhos filmes musicais brasileiros e são reconhecidas como as imagens
concretas, paridas pelo poder político brasileiro, de Vargas até a queda
de Goulart. (ROCHA, 1981: 207)

Então é pontual quando o próprio diretor e roteirista nos fala a respeito da


intenção em relação à fotografia do filme mais grotesca e satírica com um fundo
intencional, e quando nos fala dos velhos filmes musicais brasileiros paramos para
notar o enredo sonoro do filme, que nos trás literalmente um transe sonoro com o jogo
de cenas ao som de metralhadoras, músicas clássicas, a exemplo de Vila-lobos, com
uma combinação de jazz, e essa fusão sonora é proposital quando nos trás realmente
uma sensação de transe que está ocorrendo dentro da mente do narrador quando está
com lembranças embaçadas de toda a trama e está em uma situação quase que
inconsciente de suas ações, ações essas a qual reprovava, e que teoricamente nunca
teria realizado, porém está tecnicamente pagando por elas.
E quando pensamos nas duas realidades divergentes de um conservadorismo
em contraponto a um populismo, vemos ao longo do enredo que não é muito difícil
conseguir um apoio do povo naquele momento em que qualquer agrado era suficiente
para manobrar aquela massa que estaria mais preocupada com a fome, com sua terra
para manter sua família, dentre outros pequenos favores políticos. Então dentro deste
enredo é escancarado a noção de que o povo está totalmente tendo sua miséria
explorada pelos jogos de poder e essa forma de mostrar a realidade a um povo que
provavelmente se identificará com essa história apresentaria sim um perigo para todos
os lados, pois como nota-se a crítica é direcionada desde a um jornalista intelectual com
ideias de esquerda, a um líder populista , até um conservador autoritário e golpista. É
devido a isso que a recepção do filme foi complexa no sentido de ser proibida,
censurada, obtido cortes, e recebido crítica também de intelectuais da esquerda. É
nesse sentido que vemos um certo isolamento quando tratamos do cinema novo
brasileiro, pois como diria o Paulo Saraceni “ O cinema novo não é uma questão de idade;
é uma questão de verdade” ( apud ROCHA, 1981, p. 15).

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Exatamente nesse limite de fidelidade a verdade em que o cinema novo encontra


dificuldades, pois dentro das suas produções vão estar sim críticas direcionadas para
todos os lados, no sentido de que existirão verdade de ambos os lados, quando
pegamos a figura do Paulo, jornalista intelectual de esquerda, porém que se envolve
em jogos políticos que podem não ser considerados dignos para sua vertente política,
pode ter atingido boa parte da elite intelectual de esquerda daquele período, ao mesmo
tempo em que critica um regime autoritário, é assim que notamos a marginalidade no
movimento do cinema novo, que vai ganhar mais espaço nas telas brasileiras quando
os filmes desse movimento ganham boas criticas e receptividades europeias, ou seja, o
brasileiro vem a achar bom quando um contexto estrangeiro vem dizer que aquele
cinema é bom, em conjunto com uma reformulação referente a distribuidora dos filmes
brasileiros. O importante é notar o quão confuso a recepção desta obra cinematográfica
foi para aquele período politico em que os militantes da esquerda não entendiam bem
a que direção essa obra queria beneficiar, mas não havia esse interesse, havia o de
revolucionar o cinema brasileiro, de torna-lo novo, e torna-lo uma verdade, a intenção
central foi claramente a de quebrar com os paradigmas sejam estéticos ou políticos,
neste trecho de Glauber Rocha notamos a ânsia por algo novo e revolucionário.

Havia uma revolução no teatro, o concretismo agitava a literatura e as artes


plásticas, em arquitetura a cidade Brasília evidenciava que a inteligência do
país não encalhara. E o cinema? Vínhamos do fracasso de Ravina, de uma
súbita interrupção em Nelson Pereira dos Santos, de um polêmico Walter
Hugo Khoury, do fracasso Vera Cruz & Cavalcanti e sofríamos na carne a tirania
da chanchada. (ROCHA, 1981: 15)

E partindo dessa ânsia por alcançar os outros setores artísticos se faz críticas
pelos antecedentes desse cinema brasileiro, desde o fracasso da Vera Cruz que investiu
grandemente no cinema, porém com um molde estrangeiro, utilizando um grande
capital para trazer recursos estrangeiros desde os profissionais à estética, claro
transformando em uma cópia estrangeira dando continuidade a “situação colonial”
também presente no cinema e não dando tanto atenção em um fator crucial dentro de
indústria cinematográfica que seria o da distribuição, e também a crítica dirigida a
Chanchada o que poderia chamar-se de uma verdadeira paródia de filmes estrangeiros,
o que poderíamos chamar de uma cópia mal feita dos filmes feitos por Hollywood,

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sendo um dos principais alvos da crítica da proposta do cinema novo brasileiro, no qual
propõe uma cara totalmente diferente ao cinema brasileiro.
Segue a decepção de um dos representantes desse movimento revolucionário
do cinema novo no que diz respeito a estar atrás dos outros setores, enquanto o cinema
só vem tendo experiências ruins uma atrás da outra, e destacando sim a importância e
a peculiaridade que o cinema representa nesse contexto, quando notamos a ligação
totalmente intrínseca a economia e a uma importação ideológica permanentemente
norte-americana, em resumo, hollyoodiana, permanecendo dependências não apenas
econômicas, mas também ideológica dentro de apenas um setor da arte, que como
outros artifícios de qualquer setor seria usado mais para a propaganda norte-
americana do que para uma crítica e formação de um senso crítico brasileiro e latino-
americano.
Então quando lidamos com o cinema, há bastante presente a discussão sobre
mercado, articulação política, e vemos isso a partir desse trecho de Glauber Rocha.

Ao cinema novo brasileiro preocupa mais do que nunca a conquista do


mercado latino, mercado que deverá ser internacionalizado pelas
próprias produções latinas. Não existe poder cultural sem poder
econômico e político e a conquista de tais poderes é única e complexa.
No caso do cinema, como no caso maior da História, cultura, economia
e política têm de ser simultaneamente revolucionários. As contradições
fazem parte do jogo. Historicamente, o cinema se destaca como a mais
importante manifestação de cultura latino-americana. Esta cultura
deve ser uma prática revolucionária. A afirmação da produção e da
distribuição dos filmes de cinema novo demonstra essa possibilidade.
(ROCHA, 1981: 15)

Então é a partir desse trecho, que o baiano Glauber Rocha nos deixa claro a
questão de como funcionaria a revolução desse cinema novo latino-americano na
perspectiva não apenas estética, mas também do mercado e de sua internacionalização,
pois a todo momento vem a tona essa internacionalização no que se refere a América
Latina.
Quando paramos para analisar o enredo do filme em questão “Terra em transe”
notamos uma forte identificação com a conjuntura política brasileira daquele período,
porém por o nome de um dos conservadores o mesmo nome de um líder militar
mexicano, que seria o caso do Porfírio Diaz, não seria mera coincidência , e também não
o é o fato de lidarmos com uma província e personalidades fictícias, no modelo para que

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da mesma forma que nós brasileiros nos vemos ali dentro do filme, outras realidades
da américa latina também possam se enxergar, e um processo de internacionalização
cultural se começa e desenvolve também a partir desses detalhes, seja de um simples
nomes mas também a escolha de não especificar, e tornar uma realidade plural e latina,
a revolução não foi apenas brasileira. Dentro ainda dessa importância dada ao mercado
e internacionalização uma declaração sobre o filme, por Glauber Rocha.

Hoje, 1967, meu último filme, Terra em transe, circulou, com resultado
financeiro excelente, em apenas seis meses. O mercado brasileiro é dos
maiores do mundo e, levando-se em conta as deficiências de
comunicação, de transporte e de controle – já se pode prever que, em
poucos anos, a Difilm conseguirá a revolução que não conseguiu a
Pelmex. E os exemplos frutificam: na Argentina e no Uruguai, graças a
ação de novos produtores – distribuidores como Walter Achugar ou
Edgardo Pallero, surgiu uma distribuidora de caráter latino-americano,
que começa a usar os métodos empregados pelo produtor Luís Carlos
Barreto, criador e estimulador da Difilm. (ROCHA, 1981: 52)

Então, a partir desse trecho não apenas fortifica o argumento de uma


preocupação na internacionalização a nível latino, mas também da grande importância
na parte mais econômica do que criativa dentro do cinema, o que tratamos na parte da
distribuição que se faz de grande importância no impacto que causará no sentido de até
onde essa revolução será capaz de alcançar, e claro que dependendo de distribuidoras
estrangeiras não seria fácil uma proposta de cinema revolucionário e crítico alçar
muitos voos, devido a uma simples questão de interesses.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por fim, concluímos que o cinema novo brasileiro representou não somente uma
revolução a nível nacional, mas também uma internacionalização a nível América Latina.
E é de grande importância reconhecer a relevância de um cinema que revoluciona não
apenas economicamente, mas também ideologicamente dentro de um período de
regimes autoritários contaminado pelo referencial artístico totalmente visando o modo
de vida norte-americano, tendo inclusive sido censurado e proibido o filme analisado
neste dado artigo.
Em linhas gerais, a intenção desse artigo foi de explanar sobre a construção e o
contexto da realização desse movimento revolucionário e unificado dentro da realidade
do mundo da cinematografia, escolhendo como uma das formas de argumentação para

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explicar esse processo através do enredo e da produção geral do filme Terra em transe
datado em 1967, concretizado por um dos pensadores do movimento do cinema novo
brasileiro, o baiano Glauber Rocha, que a todo momento justifica sua paixão pelo
cinema mas uma paixão vinda de um militante de esquerda, logo tendo uma visão ampla
de como esse instrumento pode ser utilizado em prol de sua militância política, e como
bem concluímos o que o Glauber Rocha fez parte, foi de fato uma revolução dentro do
cinema brasileiro, e o filme em questão foi também bastante marcado na época em que
fora lançado, e até mesmo nos dias atuais ainda é uma obra bastante crítica e densa, no
sentido que nos trás uma alegoria política fictícia mas que encaixasse em uma realidade
política puramente latina, no sentido também de trazer um elemento muitas vezes
esquecido quando resolve tratar de tramas políticas: o povo. E é nesse limite que dentro
desse contexto vemos um cinema que critica não apenas posições políticas, mas a
crítica nos vem em forma de verdades, só que agora elas estariam expostas e não há
forma de negá-las.

REFERÊNCIAS
ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra/
EMBRAFILME, 1981.

SIMONARD, Pedro . Origens do Cinema Novo: a cultura política dos anos 50 até 1964.
Achegas.net , Internet, v. 9, p. 4, 2003.

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metodológica. Temáticas (UNICAMP), v. 37-38, p. 25-56, 2011.

TERRA, em transe. Direção: Glauber Rocha, Rio de Janeiro – RJ, 1967. 109 min.

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Simpósio Temático 2
HISTÓRIA DAS MULHERES:
DIÁLOGOS E PERSPECTIVAS
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HISTÓRIA DAS MULHERES: AS SENSIBILIDADES E VIOLÊNCIAS


CONTRA O FEMININO NA DÉCADA DE 30 (SÉC. XX) PRESENTE
NOS ROMANCES DE JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA E JOSÉ LINS
DO REGO: “A BAGACEIRA E MENINO DO ENGENHO”

Fransuênia de Oliveira Felix2


Girlucia Dias de Souza3
Paulo Sérgio da Silva Santos4
Orientadora: Prof. Dr.ª Silvana Viera de Souza5

O contexto sócio-histórico da década 1930 é permeado por um mundo agrário


pautado em relações sociais como patriarcado. O cenário do engenho de açúcar tece um
arranjo de interações entre homens e mulheres, no qual o masculino é inserido de
perspectivas protagonistas.
Esse ensaio foi produzido através da interface entre História e Literatura,
compreendendo seus campos, aproximações, contribuições e divergências. O
matrimônio “História e Literatura” trouxeram: sensibilidades, historicidade (das obras,
dos autores e o contexto que foram produzidas), um cenário repleto de signos
marcantes da década de 30 e ainda perene no tempo presente. Violências contra
mulheres, na esfera da vida privada e pública e os discursos acionados em torno desses
crimes.
Compreendendo que na década 30 (século XX) era latente o fator político da
exploração da ideia de um mundo agrário, “arcaico” e latifundiário. Esse discurso sobre
o “Nordeste” que ultrapassa a esfera política, por exemplo, e adentra nos romances
aqui analisados, a exemplo, de “A bagaceira”, obra prima de Almeida carregada de
premissas sociais e políticas que apresenta um lugar social pintado a cores tão cruéis
para angariar votos, subsídios e discursos. A imagem mitificada pela pobreza, pelos os
retirantes e da estiagem subsidia a premissa da indústria da seca, a invenção do
Nordeste (2009), como salienta a obra de título idem de Durval Muniz.
Essa mentalidade e sensibilidade social são refletidas nos romances
regionalistas, devemos salientar que os autores masculinos descrevem violências

2 Graduanda de Licenciatura Plena de História CFP/UFCG.


3 Graduanda de Licenciatura Plena de História CFP/UFCG.
4 Graduando de Licenciatura Plena de História CFP/UFCG.
5.Drª. Professora do CFP/UFCG

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contra o feminino, ou seja, é o olhar do outro, respaldando em valores vigentes daquela


temporalidade, pois “[...] a mulher como o outro, a terra, a natureza, o inferior a ser
dominado ou guiado pela razão superior e cultura masculina (TELLES, p. 403).”
Inserimos nesse ensaio discussões sobre violências e os lugares desses femininos nas
obras escolhidas.

CLARICE E SOLEDADE
A primeira personagem feminina selecionada nesta análise provém da obra de
José Lins do Rego (1932), a Clarice. Ela era típica mulher do lar, dada a função da criação
do filho e descrita através dos olhares dos funcionários. Através da memória do
protagonista conhecemos características dessa personagem, segundo as lembranças
do menino do engenho sua mãe era:

Falava para todos com tom de voz de quem pedisse um favor, mansa e
terna como uma menina de internato. Criada em colégio de freiras, sem
mãe, pois o pai ficara viúvo quando ela ainda não falava. Filha de senhor
de engenho, parecia mais, pelo que me contavam de seus modos, uma
dama nascida para reclusão (REGO, 2017, p. 28).

Destarte, as lembranças caracterizam a personagem através de sua vida,


condição econômica, instrução e função social do espaço feminino reservado para a
mesma naquele contexto, “uma dama nascida para reclusão”, ou seja, uma mulher
criada para ser envolvida nas tarefas domésticas. Outro detalhe, a personagem está
travestida nas falas do menino do engenho por uma áurea angelical.
Em contra ponto, Almeida (1928) nos apresenta outro espaço reservado para o
feminino de acordo com sua inserção social, nos descreve a Soledade, uma retirante,
pobre e uma mulher forjada por signos sensuais e sexuais. Nas palavras do autor, este
a descreve: “Soledade conchegou os trapos que mal lhe disfarçavam a beleza magra
(2004, p.12)”. Sua fisionomia era agradável mesmo estando em condições de magreza,
em virtude de sua vida desoladora. Em outros momentos ao longo da obra ele traz a
emersão de um feminino sensualizado e dado aos prazeres do masculino.
A violência perpassa as esferas sociais e as condições socioeconômicas de
ambas personas dicotômicas, porém elas sofrem as mesmas restrições perene ao
feminino do período que são inseridas. As sensibilidades em torno dessas mulheres
refletem nelas, de vidas distintas e lugares idem, a violência silenciada.

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O romance de José Lins do Rego inicia-se com o assassinato da mãe do


protagonista. Através das memórias de Carlinhos o fato é narrado de forma apaziguada
demonstrando o lugar da mulher naquela sociedade. A violência contra a mulher
naquele contexto histórico e social era marcada pelo discurso da honra e da moral.
Clarisse tem seu assassinato descrito de forma atenuado, a exemplo da narração dos
demais personagens da trama.
Há dois significados para essa atenuação, o primeiro baseado nas próprias
premissas machistas e patriarcais vigentes, e a segunda fundamentada em tentar não
expor o menino ao sofrimento de ser constantemente lembrado que seu pai assassinou
sua mãe.
Destaque o que salienta Rego (1932):

Levaram me para o fundo de casa, onde os comentários sobre o fato


eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia
quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, e correndo para cima, vira
o meu pai com o revolver na mãe e minha mãe ensanguentada. “O
doutor matou a dona Clarisse” Por quê? Ninguém sabia me responder
(REGO, 2017, p.25).

A partir da descrição acima fica evidenciado os inúmeros discursos em torno do


assassinato, fica demonstrado a preocupação do menino em compreender o que vivera.
Pelas falas dos empregados percebe-se a supressa que o crime provocou, por isso, as
interrogações que não elucida em nenhum momento algum tipo de justificativa para o
fato ocorrido.
No romance de José Américo de Almeida (1928) a temática de violência contra as
mulheres é novamente utilizada, diferenciando a prática, pois a personagem Soledade
sofre violência sexual quando é abusada pelo coronel Dagoberto. Para o mandatário
todos que viviam em torno do engenho lhe pertencia, dessa maneira isso lhes dava
plenos “direitos” de manipular as vidas das pessoas sem nenhum pudor. Novamente as
estruturas daquela sociedade agrária, patriarcal, paternalista são esmiuçadas neste
romance, assim como Almeida (1928) retrata.
O crime de ambas são violências diversas, a Clarice um homicídio passional, e
Soledade um abuso sexual. A personagem de Rego (1932) é trazida à vida pelo tom
virtuosa e meiga. Almeida (1928) apresenta uma mulher sensual, marcada pela seca em
seu corpo, e dada à sexualidade ao olhar do homem. A violência de Soledade é

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desenhada aos leitores e realizada por meio de um sentimento de posse, objetivação


desta através do Senhor do engenho, sentiu-se “permitido”. O crime de Clarice é
chocante, inesperado e seu algoz um homem de sentimentos dúbios e amargurados.
Um peso e duas medidas, no caso da filha do Senhor do engenho o crime é
amenizado e relativizado, esta torna-se uma vaga lembrança de uma mulher virtuosa.
A filha do retirante tem sua violência marcada pela conduta machista de vingança por
honra do pai desta, que faz justiças com as próprias mãos.
Enquanto, Soledade continua a margem da sociedade. Entregue a uma sociedade
marcada por signos fortes perante uma moça fora do lugar designado ao “bom”
feminino, se ver obrigada a voltar ao sertão e submeter às condutas em torno de uma
pessoa “não moça”. Tanto o pai do menino do engenho quanto o Dagoberto passam
imunes pelos seus atos, não há justiça para homens feita por homens.
A ideia perpassa entre os dois romances como a violência contra mulher é o
reflexo natural daquele contexto histórico, no qual o feminino é repleto de significados,
simbologias e representações sociais. Ser mulher neste período é, sobretudo, tentar
sobreviver em um mundo marcado pelo papel forte que o masculino exercia, essa
função que o homem possuía era denotado por meios da sua figura controladora das
esferas econômicas, sociais e das relações de poder. A engrenagem dessa sociedade do
mundo açucareiro faz prósperos homens, através do trabalho dos retirantes e ex -
escravo, colocando a figura masculina em pedestais fomentando aspectos machistas,
patriarcais e mandatários.
Outro aspecto perene nas duas obras é o forte imaginário social e cultural que é
o pensamento focado na perspectiva das questões sobre moral, honra e dignidade
sertaneja. Naquele mundo honra e o feminino eram termos que se entrelaçavam numa
simbiose, pois a mulher carregava consigo a representação do respeito. Quando o pai
de Soledade descobre o abuso sexual de sua filha fica chocado e ávido por vingança,
porque naquela vida miserável de retirantes, o bem que eles mais valorizavam era a
honra e dignidade.
De acordo com as narrativas em torno de Carlinhos é delimitada uma
caracterização da figura paterna, frisando um personagem melancólico,
temperamental e excêntrico tentando justificar de alguma forma o assassinato de
Clarisse.

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Novamente a violência contra a mulher e designada como algo negligenciado,


por meio da literatura analisamos tais personagens femininas de acordo com a história,
pois a ocorrência de violência contra mulher era recorrente nas esferas da vida privada
e dificilmente exposta no contexto público, ou seja, quantas mulheres sofriam de
violência doméstica, abuso sexual e assassinatos naquele mundo fortemente machista.

HISTÓRIA E LITERATURA: DESPERTANDO SENSIBILIDADES


A literatura proporciona diálogos, vivências, sensibilidades e experiências que
possibilitam adentrar em campos ainda não explorados pela História ou negligenciados
por tal área. Por isso a análise por meio da leitura e a relação com a historiografia sobre
obras ricas em críticas sociais, como “A bagaceira (1928) e o Menino do Engenho
(1932)”, apresentam leques de discussões e análises importantes para compreender as
especificidades de um Nordeste repleto de personagens nos quais os textos
historiográficos ora massifica-o ora individualizam. Através da literatura adentramos
nas experiências, sensibilidades e falas de personagens, a exemplo, Soledade e Clarice.
Através do enredo literário de Almeida (1928) e Rego (1932) fica claro que o
diálogo entre historiografia e literatura é essencial para compreender alguns meandros
dos personagens e o lado histórico, político e social entre outras diversas facetas.

Por vezes, está aproximação da história com a literatura tem um sabor


de dejà vu, dando a impressão de que tudo o que se apregoa como novo
já foi dito e de que se está “reenviando à roda”. A sociologia da literatura
deste há a muitos anos circunscrevia o texto ficcional no seu tempo,
compondo o quadro histórico no qual o autor viverá e escreverá sua
obra. A história, por seu lado enriquecia por vezes seu campo de análise
com uma dimensão “cultural’’, na qual a narrativa literária era
ilustrativa de sua época. Neste caso a literatura cumpria a face á
história um papel de descontração, de leveza de evasão, “quase” na
trilha da concepção beletrista de ser um sorriso da sociedade
(PESAVENTO, 2006, p. 1).

Portanto, para Pesavento papel proveniente do casamento entre a História e


Literatura é ambivalente, pois ora a Literatura informa muito mais a outra área e vice-
versa, porém a Literatura contribui muito para o campo histórico, proporcionando o que
autora menciona como o “sabor de dejá vu”, ou seja, dentro dos registros, fontes e
análises e interpretações o campo ficcional também passar por uma linha tênue e
visível entre real e o imaginário, possibilitando as sensibilidades.

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A historiadora detalha a especificidade da Literatura em relação á história, pois


a função literária é fazer uma narrativa face ao entretenimento dos leitores, assim ela
não é obrigada a trabalhar com a oficialidade ou veracidade dos fatos. No entanto, tal
particularidade não menospreza a Literatura face a História.
Os cenários e o contexto histórico das obras literárias, destarte, são narrativas
que permitem o surgimento de personagens femininas dentro de um constructo social
que prevalece o mandatário masculino, sujeitos históricos que apenas serão
proporcionadas pela Literatura, elas são construídas a partir de contexto único e rico
que apenas a Literatura é capaz de produzir.
A História das Sensibilidades adentra nesse consorte (entre História e
Literatura) como uma dama de honra, pois através da ficção conseguimos captar dores,
sofrimentos, amores e sensibilidades. Para Santos, as sensibilidades:

Em outras palavras, a literatura traz a subjetividade e a sensibilidade


do passado, daquilo que um dia foi vivido, sentido, percebido de uma
outra forma, ou da forma como podia sern aquele momento. Ciente de
que este novo olhar é apenas uma versão sobre o passado, o
historiador tenta apreender o registro das nuanças das sensibilidades
de uma época, seus valores, conceitos, noções sobre a vida dos homens
e suas práticas sociais (SANTOS, 2005, p.36).

Consequentemente, o autor elucida que as sensibilidades são afloradas na


Literatura, e pouco exploradas em outras áreas, como a História. Esse novo fragmento
da Clio nos possibilita visualizar e analisar dores, emoções e conceitos da psique
humana, ou por meio das personagens conseguir trazer discussões sobre suas vidas,
via da subjetividade do ser. O tripé Literatura, Sensibilidades e a História, possibilitam
alguns diálogos e nuances sobre um passado que valorize o íntimo, as dores e as
violências, no caso desse ensaio, o feminino.

O CRIME: UM PESO E DUAS MEDIDAS


De fato, na obra Menino do Engenho (1932) o crime era justificável pelo discurso
que o pai de Carlinhos foi induzido a cometer o crime pelo seu sentimento obsessivo
dando o caráter passional, por meio de Carlinhos Rego evidência:

[...] Coitado do meu pai! Parece que o vejo quando saía de casa com os
soldados, no dia de seu crime. Que a ar de desespero ele levava, no rosto

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de moço! E o abraço doloroso que me deu nessa ocasião! Vim


compreender, com o tempo, porque se deixava levar ao desespero. O
amor que tinha pela esposa era amor de um louco. Seu lugar não era no
presídio para onde o levaram. Meu pobre pai, dez anos depois, morria
na casa de saúde, liquidado por uma paralisia geral (REGO, 2017, p.27).

Deste modo a visão de Carlinhos sobre o fato é que o pai teria agido
involuntariamente ao tirar a vida de sua mãe, ou seja, o protagonista compreende a
justificativa criada em torno desse episódio.
Tanto a violência sexual quanto o assassinato de ambas as personagens
femininas conectam significados e reflexos daquela sociedade, no qual a mulher é
colocada em subjugado patamar, mesmo elas repletas de importância (sentido de
importância das personagens e o sentido hermenêutico) naquele contexto histórico.
“Ser mulher” é carregar um leque de simbologias e papeis sócias e culturais. As
violências contra as mulheres ativam discursos e relações de poderes que justificam
esses atos.
Carlinhos é visto como “Homem” quando ele obtém uma doença sexual, pois
para atingir a vida adulta o garoto necessitava passar por uma transição como está. O
papel do masculino era entrelaçado à descoberta sexual através das mulheres negras.
No romance Carlinhos assediava as negras do engenho e iniciou sua vida de homem
quando conquistou um espaço diante destas mulheres.
No caso de Soledade, a vida dessa personagem é marcada pelo sofrimento de
sobrevivência de uma retirante sertaneja. Sua inserção no engenho despertava o
interesse do filho e do proprietário latifundiário açucareiro. Há constantemente na obra
falas sobre o comportamento e a “libertinagem” de Soledade, como se sua
sensualidade atiçasse os desejos masculinos.
Em consequência da obsessão, o poderio, sentimento de posse, a visualização do
corpo feminino para Dagoberto, Soledade é abusada sexualmente. Seu pai pobre
sertanejo tinha a moral como fundamento primordial da vida, a mulher sem
“virgindade” era considerada dessorada, isso cria um imaginário que justificava o crime
de honra, assim o pai de Soledade na narrativa assassina um capataz em defesa da
moral de sua filha.
Ambas as obras nos apresenta a mentalidade do nordestino, transcorrida entre
o público e privado. Conceitos de moral, honra, masculinidade e virgindade. A liberdade
masculina versus a reclusa vida feminina seja na casa (vida doméstica), no cuidado com

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os filhos e sua sexualidade, no meio social etc. – a virgindade relevante nessa cultura,
assim como delimita, Fonseca:

A receita para a mulher ideal envolvia uma mistura de imagens: a mãe


piedosa da igreja, a mãe - educadora do Estado positivista, a esposa
companheira do aparato médico - higienista. Mas todas elas
convergiam para a pureza sexual – virgindade da moça, a castidade da
mulher para casar, era teoricamente preciso ser virgem. O próprio
código civil previa nulidade do casamento quando constatada pelo
marido a não virgindade da noiva (Fonseca, 2011, p.528).

A autora pontua, como a virgindade era pré-requisito de honra para o feminino,


pois representava toda a moral da família, explicitamente, do pai. A sexualidade da
mulher era temida e resguardada, em vez disso a sexualidade do homem era aberta e
estimulada precocemente, por exemplo, o protagonista da obra de Rego, Carlinhos.
Fonseca também salienta o discurso médico higienista sobre o corpo feminino,
sobre essa mentalidade Durval Muniz vai discorre e problematizar o “perigo”
propagado naquele contexto da década de 30, uma sociedade almejada moralizar as
instituições e trazer o novo, ao mesmo tempo justificada praticas arcaicas com ideias
novas, o discurso higienista vai pontua o corpo feminino como frágil, reafirmando seu
lugar inferior. Ainda sobre essa perspectiva, segundo Muniz: “Por isso lançam das
ameaças médicas e teorias ditas científicas que procuravam demonstrar os perigos que
esta igualdade traria para as mulheres, não apenas do ponto de vista moral, como do
ponto de vista físico (2013, p.43)”.
O discurso médico e higienista tornam-se mais um aparato sociocultural para
reafirmar a relevância do lugar feminino provido de uma desigualdade latente e
virtuosa para a sociedade. Aquele mundo agrário tratava o corpo feminino como objeto,
como demonstra as obras literárias, como propriedade do pai, responsabilidade da
família ou do noivo/marido. Uma moça “não virgem” é tão desonroso para o meio social
que até o adjetivo ou categoria sociocultural “moça” lhe é usurpado, “fulana não é
moça”.
O feminino acarreta inúmeras possibilidades de análise tanto pela história
quanto pela literatura, por meio dessas linguagens percebe-se como a mulher é
silenciada no ambiente social. De acordo com a literatura a vida privada feminina é
detalhada e entre no campo das Sensibilidades, pois através da narrativa fictícia as

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emoções e vivências femininas são retratadas por meio de uma introdução que entra
no íntimo e nas mentalidades de tais personagens.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para a História e a historiografia a mulher (e outros sujeitos históricos são
preocupações atuais) é descrita por meio do discurso de cientificidade, por isso são
usados documentações e diversos tipos de fontes que podem dificultar a análise das
sensibilidades diferentemente da Literatura que tem a licença poética.
As personagens Soledade e Clarisse são as pontas de um iceberg dentro de
várias particularidades de violências contra as mulheres. Naquele contexto Soledade é
colocada por meio do narrador do romance como uma bela moça que usava sua
”feminilidade” (no sentido conotativo de sensualidade) exacerbada e isso é o retrato
produzido da personagem momentos antes do seu abuso sexual, ou seja, pelo discurso
do narrador a personagem detinha certo grau de culpabilidade é mesma premissa
machista da nossa sociedade atual diante de um crime de abuso ou assédio sexual no
qual a mulher é direcionada da esfera de vítima para “sedutora” e culpada, denotando
os aspectos ainda vigentes na nossa sociedade de mentalidade patriarcal e
paternalistas machista.
As violências contra as mulheres nessas obras regionalistas detalham as
particularidades sociais e culturais que as mulheres eram inseridas no nordeste na
década de 30. Uma sociedade marcada pelo triple: machista, patriarcal e paternalista. A
literatura traça um caminho que possibilita a visualização das sensibilidades e
mentalidades que surgem diante das violências contra o feminino. O mesmo ocorre com
a personagem Clarisse que foi assassinada num crime doméstico e o meio social tenta
criar “falas” que colocam seu algoz como vítima de si (melancólico e desiquilibrado), já
o abuso de Soledade, busca-se uma justiça para a família e não para ela.
Portanto, a História é feita de permanências e o nosso tempo presente
resguarda signos provenientes dessa mentalidade coletiva, imaginário e condutas
provindas dessa época. Um Nordeste, o falo e feminino (re)significado pelo viés
machista. Quantos homens na atualidade assassinam, abusam e assediam mulheres e
boa parte sociedade engendra uma linha tênue entre vítima e culpado, herança dessa
cultura.

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REFERÊNCIAS
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ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. Nordestino: uma invenção do falo; uma


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2003.

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introdução M. Cavalcanti Proença; ilustrações Poty. - 37a ed. com texto revisto da ed.
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BORA, Z. M.; OLIVEIRA, M. R. de. A mulher Negra e as relações de Gênero em Menino


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SOUSA, Maria da Glória Ferreira; TIMBO, Margarida Pontes. As estruturas de poder


em A Bagaceira, de José Américo de Almeida. Revista Rascunho Culturais, Coxim/MS.
V.6. n. 1. p.203-218. jan./jun. 2015.

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A REPRESENTAÇÃO DA MULHER ALEMÃ NO DOCUMENTÁRIO


OLYMPIA DE LENI RIEFENSTAHL (1936-1938)

Fernanda Carla da S. Costa6


Sonní Lemos Barreto7

INTRODUÇÃO
Essa pesquisa cumpre o objetivo de analisar a representação das mulheres
alemãs, no documentário Olympia, onde no decorrer dessa narrativa fílmica, são
representadas as Olimpíadas de Berlim em 1936. Esse é o primeiro momento de
apresentação do poder nazista para o mundo, poder esse, que estava criando seu
espaço, oficialmente, desde 1933 com a ocupação de Hitler no cargo de chanceler.
Os objetivos específicos desse trabalho, buscam, demostrar um panorama da
historicidade alemã nesse recorte, explicar o processo de propaganda do regime
nazista, a partir da representação das mulheres alemãs, e realizar uma análise fílmica
dando conta de trazer parte representativa da fonte documental.
Assim, a problemática que buscamos investigar, questiona quais as
representações das mulheres alemãs no documentário? Agrupando a partir dessa
problemática, as circunstâncias das quais essas mulheres vivem e se socializam.
A metodologia faz um percurso pela pesquisa bibliográfica, com característica
descritiva, classificação a partir do tipo de documentário por Nichols (2010) e análise
fílmica a partir de Jullier e Marie (2009), como forma de uso dessa fonte documentária,
além da escolha de sequências, em cada uma das duas partes. As escolhas, foram
feitas, levando em consideração a representação dessas mulheres e todo o universo
que gira em torno do escopo do documentário, com a sua temática de Olimpíadas e seus
atletas.
Pensando no campo da historiografia, temos as influências decorrentes da
História Cultural, que são incorporadas para que os aparatos culturais mais diversos,
ganhem espaço de análise, levando a esse prisma sobre os usos e as interpretações

6 Graduanda em História – Bacharelado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),
graduada em História – Licenciatura pela Universidade Potiguar (UNP) mestranda em Ciência da
Informação, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) – costacs.fernanda@gmail.com
7 Orientadora. Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Professora

da Universidade Potiguar – sonni.lemos@unp.br

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das práticas que os produzem, tomando a análise dos diversos aparatos culturais
(CHARTIER, 1991).
Nesses diversos usos de fonte documental, já advindo da Nova História8, uma das
fontes que ganham espaço significativo, é o cinema, que para além de representar o
que mostra, contém em si, um instrumento classificatório de formas do jogo de poder
(SANTIAGO JÚNIOR, 2009).
Dessa forma é imprescindível que o trabalho seja norteado em torno dos
conceitos de representação9, poder10 e discurso11, que são necessários para o campo de
compreensão da representação das mulheres, além do discurso e o poder mediante
todo esse contorno do nazismo. A escolha desses conceitos tem sua justificativa
alicerçada na tomada do cinema como representação e instrumento que produz e/ou
modifica uma dada realidade discursiva.

REPRESENTAÇÃO, DISCURSO E PODER


Todo processo de representação leva com ele um discurso advindo de uma ordem
de poder. “Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições
que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder.”
(FOUCAULT, 1999, p. 10). Dessa forma, uma disputa é sempre travada entre os que
dominam e tem poder, e aqueles que são a resistência a esse poder. É sabido também
que nem sempre esse poder se manifesta de forma explícita e bipolarizada. As
interdições podem produzir múltiplas manifestações de poder que perpassam a lógica
coercitiva e admite a introjeção de posturas condicionadas.
Já a representação como categoria dentro da História, ocupa um espaço próximo
da memória e das identidades sociais, que são fatores de disputa do poder, uma via
entre a representação e as resistências, onde “[...] supõe uma eficácia própria às ideias
e aos discursos, separados das formas que os comunicam, destacados das práticas que,
ao se apropriarem deles, os investem de significações plurais e concorrentes.”
(CHARTIER, 1991, p. 181).

8 Segundo Burke (1992) a Nova História, é produto direto da França, associada a Escola dos Annales, que
trouxe novas abordagens, problemas e objetos para o campo da História.
9 CHARTIER (1991) e (2002).
10 FOUCAULT (1979).
11 FOUCAULT (1996).

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As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à


universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas
pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário
relacionamento dos discursos preferidos com a posição de quem os utiliza.
(CHARTIER, 2002, p. 17).

Assim, a representação tanto trata das ausências e dos usos, que podem servir
como objeto de rememoração para essas representações, como também da ausência,
que funcionada junto com a relação simbólica do que é representado. “Uma relação
decifrável é, portanto, postulada entre o signo visível e o referente significado — o que
não quer dizer, é claro, que é necessariamente decifrado tal qual deveria ser.”
(CHARTIER, 1991, p. 184).
Pensando em representação das mulheres nesse meio específico do nazismo, da
posição referente ao arianismo, podemos perceber que as representações estão além
da sua área social de recepção e percepção, pois agem para além das divisões do que é
cristalizado (CHARTIER, 1991). Com isso, “a produção do discurso é ao mesmo tempo
controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos
que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento
aleatório [...]” (FOUCAULT, 1999, p. 8-9).
O poder é um meio disciplinador na sociedade, seja por meio de uma instituição
diretamente, ou pela ordem que ela institucionaliza para outros sujeitos a
representarem. Entender que não se trata de perceber o por que há uma disputa de
dominação, mas sim, como funciona no nível de processo, para perceber como o poder
é ocupado.

O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo
que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui e ali, nunca está
em mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem.
O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas, os indivíduos
não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder,
e de sofrer sua ação; nunca são alvo inerte ou consentido do poder, são
sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se
aplica aos indivíduos, passa por eles. (FOUCAULT, 1979, p. 183-184).

A representação tem o poder de transformar como instrumento que produz aquilo


que os que dominam, ou seja, por onde passa essa rede de poder, o que necessita para
impor, já que “as lutas de representação têm tanta importância como as lutas
econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta

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impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio.”
(CHARTIER, 2002, p. 17).
O discurso dentro disso também, passando pelo processo de representação, tem
a característica da apropriação social, onde segundo Foucault (1996), um dos meios
para essa apropriação é a educação, que permite um sistema montar os poderes, sendo
assim um grande sistema de exclusão.
Dessa forma, pensar a representação, o discurso e o poder, nessa investigação,
implica entender como a partir do regime nazista e de toda sua ideologia discursiva
sobre raça ariana, o documentário em tela dar visibilidade a um dado poder feminino,
que é instituído por meio da disseminação da eugenia, do antissemitismo e, de forma
mais específica, onde a mulher é colocada como parte significativa desse sistema
ideológico.

PANORAMA DA ALEMANHA NO ENTRE GUERRAS


Memórias são criadas, reinventadas e inventadas, tudo em busca de perpetuação
de ideais ultranacionalistas na Alemanha anterior a Segunda Guerra e durante todo seu
acontecimento, assim, a História das Mulheres, também é um caminho de observação
desse contexto:

[...] a importância das mulheres na história significa necessariamente ir


contra as definições de história e seus agentes já estabelecidos como
“verdadeiros”, ou pelo menos, como reflexões acuradas sobre o que
aconteceu (ou teve importância) no passado. (SCOTT, 1992, p. 77).

Pós Primeira Guerra, a Alemanha é um país que se sente injustiçado, dividido e


empobrecido, os tratados travados na Europa, eram de imposição de uma paz punitiva
“[...] justificada pelo argumento de que o Estado era o único responsável pela guerra e
todas as suas consequências [...] para mantê-la permanentemente enfraquecida”
(HOBSBAWN, 1995, p. 41).
Período de crise que assola mundialmente esse grande contexto da história, a
crise dos anos 1920, segundo Hobsbawn (1995, p. 43), é que quando o mundo “[...]
pareceu ter deixado para trás a guerra e a perturbação pós-guerra, a economia mundial
mergulha na maior e mais dramática crise que conhecera desde a Revolução Industrial”.
Os processos derivados disso vão transformado os países, e claramente o contexto

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alemão, como de alguns outros países, levando a forças políticas conturbadas e


militaristas.
Esse período, entre os anos 1920 e 1930 é de uma Alemanha em constante
turbulência política. “Os alemães viviam numa exaustiva cultura de agitação e
campanhas políticas, com uma crua fusão de provocações e propagandas de massa,
que os levava frequentemente às urnas” (LOWER, 2014, p. 31), assim, uma democracia
que se torna fragilizada, com diversos precedentes para seu ataque.
Almeida (2011) diz que o próprio processo de historiografia no país, tem sua
ligação com uma História Social12, que questiona os aspectos de hereditariedade,
reconhecimento de fronteiras e seu legado político advindo das dinastias, com um
reordenamento social onde todos os alemães pertenciam a um Reich.

O nazismo é impulsionado por estas pressões e contradições do


período pós 1ª Guerra Mundial que serviram de base para a construção
do nacionalismo alemão, diante de uma crise da representação política
entre 1919 a 1933, conotando uma característica de unidade do período
entre guerras. (ALMEIDA, 2011, p. 10).

Todo esse contexto, advindo dos processos da primeira grande guerra, torna a
Alemanha um país instável e com uma ultradireita que busca através das suas
memórias e vivências, um passado de glória, que por eles, fora vivido em outrora pelos
povos germânicos. Assim, a força de apoio ao nazismo, que transforma a figura do Hitler
em uma liderança, faz com que o espaço de violência criado pelo Terceiro Reich, se torne
um movimento de guerra interno e externo.

Esse foi um terreno fértil para o crescimento de um movimento político


construído sobre o ódio, dedicado a liquidar o sistema político que
nascera da derrota militar, superarando as divisões políticas e sociais
pela criação de uma “comunidade do povo” alemão
(volksgemeinschaft) e reverter “o terrível acontecimento”, “essa
miséria” de novembro de 1918. (BESSEL, 2014, p. 23).

Essa arena social e política do país, segundo Lower (2014, p. 28), viu explosão de
movimentos desordenados, grupos de justiceiros e partidos organizados de todo tipo,
dentre esses, o próprio partido nazista, que ganhou força com suas mensagens, no

História de grupos sociais e grandes massas, surgindo sobre a motivação de compreender grupos
12

marginais no contexto da história (BURKE, 1992).

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ponto máximo da crise em 1930, trazendo o sentimento de ressentimento, das


promessas de vingança e de esperança em um futuro melhor (BESSEL, 2014, p. 41).
Apesar da personificação de Hitler como personagem principal para o
desenvolvimento do que viria a ser a Alemanha nazista, o seu processo de tomada do
poder, passa por uma série de apoios, desde uma elite conservadora, até as forças
armadas, que fazem com que, de Chanceler, nomeado em janeiro de 1933, chegasse a
dar o último golpe de misericórdia, ao angariar os votos para o fim do parlamento
(BESSEL, 2014, p. 50-53).
Com isso, a ocupação do espaço do governo geral, com a morte do presidente, dá
a chefia do estado e comando supremo de forças armadas e poder judiciário, onde o
fato da inconstitucionalidade não era mais levado em consideração, com plebiscito que
serve apenas para reafirmar tudo que já estava acontecendo, onde o nacional-socialista
passa a controlar todos os aspectos de vida alemã (KITCHEN, 2006, p. 270). A partir
dessa tomada de poder e dessa definição da vida social através dos aspectos do
nacional-socialismo: “Primeiro veio o espetáculo de propaganda, cheio de simbolismo,
para mostrar que o triunfo do nazismo reforçava os valores nacionais” (BESSEL, 2014,
p. 52).
O que vinha a seguir às resoluções políticas, que abriam caminho principalmente
para guerra, o antissemitismo e a procura pelo triunfo alemão, era o encontro como
tudo aquilo que outrora foi sendo moldado para o alemão: “O homem do völkisch é um
alemão genuíno, absolutamente idêntico a si próprio, e oposto a tudo que representa a
sua negação, o não-völkisch, isto é, aquele que lhe é intrinsecamente diferente, o
forasteiro, o estrangeiro” (LÉVY, 2008, p. 95), a parte da essencial do regime.

A REPRESENTAÇÃO DE UMA REALIDADE DECUPADA: AS MULHERES ALEMÃS NO


CONTEXTO ENTRE GUERRAS
As mulheres durante o período de transição político, econômico e social, dessa
Alemanha efusiva, também são agentes que são incluídas nas mudanças, mesmo que
paulatinamente, pois o espaço que passam a ocupar, é fruto também, de todo o estado
de caos entre o fim da primeira guerra e o começo da segunda.

[...] legitimação masculina, muitas vezes é construída pela imagem e


muitas vezes também através da violência que tem por função
reafirmar os papéis sociais do masculino e do feminino que foram

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desordenados por esse período entre guerras, já que estas mulheres


foram impulsionadas pelo mercado de consumo que gerou postos de
trabalho e também em decorrência da escassez de trabalhadores
homens durante o período da guerra. (ALMEIDA, 2011, p. 10).

Lower (2014, p. 28) explica que, nesse contexto, entre 1918 com a derrocada do
império e a nova ordem da democracia, houve mais chance de abertura e liberdade
individual para as mulheres. Foi nesse contexto da Primeira Guerra, que entraram para
a esfera pública, em suas relações de trabalho, ainda que não estabelecessem forte
ligação com a política, apesar de seu front ser sempre o espaço doméstico.
Com o desenrolar político da República ao Regime Nazista, as mulheres se
organizam a partir dos diferentes espaços políticos, porém “cerca de oito mil mulheres
comunistas, socialistas, pacifistas e “associais” estavam entre as pessoas
perseguidas” (LOWER, 2014, p. 33), e seguiam todas para os primeiros campos de
concentração. Com isso “o aumento de prisioneiras significava um aumento de guardas
femininas, recrutadas na Organização de Mulheres do Partido Nazista” (LOWER, 2014,
p. 33).
O símbolo da mulher, na tomada do front nazista, passa a ser uma das principais
responsáveis pela difusão do ideal de raça dessa ideologia, a obrigatoriedade de
reprodução, de sair do mercado de trabalho e constituir nichos familiares arianos, com
criação exemplar das ideias de formar um povo superior e preparado para guerra.
Apesar do fomento para o casamento, a criação de processos de fomento para
identificar a possibilidade de se reproduzir com bons filhos, para os casais, acaba sendo
algo que rui em determinado período, já que a mulher volta a ter o poder de trabalhar a
favor do desenvolvimento do regime, que precisava de pessoas para produzir, quanto
mais o tempo se tornava próximo de eclosão da segunda guerra (BESSEL, 2014).
Os lugares que elas podem ocupar no proceder das coisas, não são os mesmos
que os homens, apesar de Hitler proclamar que “[...] o lugar de mulher é tanto no lar
como no movimento” (LOWER, 2014, p. 34), sua carga de chefiar algo, estava quase
sempre ligada ao padrão do papel feminino de cuidar.

Cada vez mais mulheres arranjavam emprego, inclusive na economia


armamentista (isto é, nos setores químico e elétrico), apesar da
ideologia nazista, que considerava o lar como o lugar apropriado para
mulheres e dar à luz como o serviço mais importante que poderiam

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prestar à Volksgemeinschaft (desde que fossem racialmente


aceitáveis). (BESSEL, 2014, p. 57).

Com isso a mulher está em diversos espaços, sendo permitidas dentro do


nazismo, como mão de obra e também como detentoras do poder de propagação dessa
raça, que fazia com que o regime respeitasse as puramente alemãs e cuidassem para
assegurar que as mesmas pudessem reproduzir. Além disso, todo seu padrão de
comportamento e estética era cuidadosamente ditado, para não ser espelho de um
padrão comportamental de mulheres que se vestiam de forma livre e faziam alto uso
de maquiagem (LOWER, 2014).
Dentro desse padrão de estética havia o atletismo, pois, essa mulher alemã,
moldada pelo nazismo, é essencial no esforço de guerra e nos cuidados de educar com
os ideais nazistas, sejam como professoras, enfermeiras, secretárias ou esposas, que
geraria o despertar racial, sendo “o brilho natural de uma jovem [...] o irradiar dos
exercícios físicos, da vida ao ar livre e, em sua mais elevada forma, da gravidez” (LOWER,
2014, p. 38).

O OLHAR DO CINEMA DOCUMENTÁRIO NO NAZISMO: A CINEASTA LENI


RIEFENSTAHL
A decupagem como processo do cinema, é onde se estruturam as sequências e
planos a partir da edição das partes, assim, Leni Riefenstahl, como cineasta a serviço
do nazismo, cria narrativa para uma ideologia a qual, a mesma, representa a partir de
uma conotação, que cria principalmente dois documentos para e época: O Triunfo da
Vontade (1935) e Olympia (1938).
A figura de Riefenstahl é controversa, é ao mesmo tempo, grande símbolo de
como o nazismo teve sua estruturação e triunfo a partir da propaganda. Seus filmes,
anos depois, são considerados os maiores repositórios memorialísticos de uma
Alemanha que buscava reencontrar seu passado de glória:

De bailarina a atriz, de atriz a diretora, para fotógrafa e mergulhadora,


a vida desta singular figura, cuja trajetória é, ao mesmo tempo,
fascinante e intrigante, é verdadeiramente um grande enigma para as
discussões sobre a arte, na atualidade. Banida e ignorada em seus
talentos artísticos, mesmo depois de ter sido absolvida nos
julgamentos de Nuremberg, após a guerra [...]. Ela e seus filmes
permanecem como controvérsias de uma frágil moralidade. Sobretudo

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quando se trata de Olympia, filme que estabelece novos padrões e


novas questões, aliás, muito profundas, sobre a beleza. (FERREIRA,
2002, p. 16).

Ela em sua nebulosa produção, que se vincula, a todo momento, ao ideal nazista,
faz também uma revolução na estética do cinema, pois as formas como corta as
imagens, faz sua montagem, utiliza do som e novos recursos, cria maneiras para captar
imagens do esporte, são recursos que repercutem até o presente momento (TEXEIRA,
2008).

Figura 1: Leni cumprimenta Hitler. Fonte: Hoffmann (1938).

Tomadas, planos diferenciados, mecanismo e técnicas são o que levam a sua


marca no meio técnico do cinema, apesar de toda carga ideológica, ainda é vista como
uma das maiores cineastas do período moderno, carregando ao mesmo tempo as
benesses da sua brilhante produção técnica, mas também, o estigma devastador da
propaganda de um regime totalitarista.
Leni daria um toque de profissionalismo e talento ao filme documentário político
alemão. Para ela, foi uma questão de transferir a imensidão silenciosa dos Alpes, onde
gostava de filmar e aparecer em todo o tipo de situação, para as colossais e barulhentas
concentrações de massa organizadas pelo partido nazista. Deslocar o alvo da câmera
dos cimos elevados e baixá-la para a planície onde se reuniam as multidões, mantendo
sempre o seu aspecto espetacular, magnificente (FERREIRA; PASSAMANI, [200-], p. 3-
4).

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O DOCUMENTÁRIO OLYMPIA E SUAS ASPIRAÇÕES DE REPRESENTAÇÃO


A maneira pela qual o documentário se estabelece em suas características,
funções e missões, tem a ver diante de tudo, em sua relação como linguagem, do modo
de filmar, muitas vezes colocado apenas dentro do aspecto de não ficção, tem poder
científico, etnográfico, histórico (TEXEIRA, 2008).
A imagem por si só guarda entre suas funções, a de mostrar uma estética, assim
o documentário em sua linguagem já tem como signo esse preceito estético. No caso
do documentário Olympia, essa função é potencializada por uma ideologia que é
representada por ele, “marco do documentário esportivo mundial encontramos neste
filme uma maneira bastante artística de mostrar o virtuosismo do espetáculo esportivo
e a beleza estética dos esportistas em movimento” (PORPINO; SILVA; TORRES, 2014,
p. 2).
O documentário é dividido em duas partes: parte 1 – Festa do Povo (Fest der
Völker) e parte 2 – Festival de Beleza (Fest der Schoenheit), onde a primeira parte tem
como maior relação o resgate primeiro de uma memória da Grécia antiga e de colocar
essa relação com a memória e o destino de glória do povo alemão, além de toda a
adoração ao nazismo e sua construção de raça, feita principalmente pela segunda parte.

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Figura 2: Cartazes do Olympia parte 1 e 2. Fonte: DIE! (2009)

Assim, podemos colocar ainda a construção dessa representação:

[...] a ênfase dada ao corpo em suas imagens. Mas não um corpo


qualquer. Trata-se de um corpo de linhas puras, poderoso, vigoroso,
que parece emanar a certeza de um destino maior, de algo para além de
si mesmo que precisa de um esforço individual para se tornar concreto.
Um corpo capaz de endurecer, de se alhear de si mesmo para se tornar
colunas, blocos, linhas, coro a estourar o som diante da presença de
Fuhrer. (TEXEIRA, 2008, p. 26).

Com o papel persuasivo do Olympia, trazemos à tona a discursão do regime


utilizando de ferramentas para formar uma consciência da ideologia do povo germânico
puro. Como Agente, o documentário mostra como o momento anterior a guerra, a
olimpíada e o ditador, são figuras principais dos passos seguintes.
Como reflexo, a olimpíada em 1936, é o testemunho de um regime que procura se
instaurar, usando o documentário como difusor de uma Alemanha cheia de potencial,
já como representação dos personagens, atletas e do ditador, formam uma estrutura
de análise do poder de corporificação que buscava ser formado, mostrando assim, o

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retrato de como esse povo deveria ser: “O mais rápido, quanto mais veloz, melhor, a
superação física do atleta mostrava a rapidez com que o povo alemão queria e estava
conseguindo se reerguer e principalmente impulsionar sua indústria bélica”
(MOSTARO, 2012, p. 105).
O padrão ariano, pensado e imposto pelo nazismo, tinha um foco muito específico
no que nele, era trazido como atributo de uma memória, aos povos antigos e aos jogos
que se desenvolvem desde esse período. Nesse sentido, os homens e mulheres, apesar
de terem de seguir um foco pautado na rapidez, força e velocidade, eram também
divididos de formas diferentes pelo que se espera dos atributos dos mesmos. Assim,
como as mulheres, eram condicionadas por toda a sua educação, ao corpo atlético e
forte (LOWER, 2014).
As mulheres nesse contexto esportivo, ainda eram cercadas de limitações, pelos
tipos de esporte que poderiam participar, pelo pouco tempo que as primeiras mulheres
passam a compor as Olimpíadas. No caso das alemãs, o destaque tem uma ligação de
circunstância de como eram um padrão de beleza e saúde:
A ideologia do volk tinha sua própria estética feminina. Segundo essa ideologia, a
beleza era produto de uma dieta saudável e atletismo, e não de cosméticos. As
mulheres e meninas alemãs não deveriam pintar as unhas, depilar as sobrancelhas,
usar batom, tingir os cabelos ou serem muito magras. (LOWER, 2014, p. 37).
Sobre as mulheres, há também uma forma de construir uma memória acerca do
seu papel social, mesmo que seu lugar seja primordialmente o doméstico, seu espaço
se modela de acordo com as necessidades do poder ideológico de formação de uma
raça pura, dá qual ela, era principal responsável, com isso, tem seu lugar nesse espaço
de atletismo e de formação estética.

REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES DA ALEMANHA E O DISCURSO DE


PROPAGANDA DE UM REGIME
Chartier (1991) fala em duas divisões da representação, onde uma representação
mostra a ausência, onde há uma distinção entre o que representa e o que é
representado, e na segunda, temos que é a representação de uma presença, sendo
pública, de uma coisa ou pessoa.
Com isso o documentário representa de maneira direta a força e o poder que
tomava conta das Olimpíadas, situadas na cidade de Berlim, capital da Alemanha, todo

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esse capital de poder tem na figura do Hitler seu cunho potencializador, que é colocado
em momentos estratégicos e potenciais para se fazer a problematização. Tudo isso, se
classifica no ponto de hibridismo de leitura dessa obra, que ao mostrar a Olimpíada,
pede uma leitura para além dela.
Assim, sabendo que o documentário tem uma geografia, um caráter ideológico,
um momento político especifico, que dentro disso tudo, faz um recorte de um evento
esportivo, podemos estabelecer as problematizações em torno dele, mostrando como
um momento de jogos que são de conexões mundiais, foi usado dentro do regime
nazista para mostrar o poder que estavam estabelecendo e queriam potencializar de
forma a tomar maior alcance.
Segundo Nichols (2005), o documentário pode ser classificado em gêneros, tais
como, poético, expositivo, participativo, observativo, reflexivo e performático. A partir
dessa classificação e dentro dessas, a análise fílmica pode adotar perspectivas mais
específicas. Assim, o modo de representação de Olympia, se alinha a um documentário
poético (NICHOLS, 2005, p. 138) que enfatiza a transmissão dessa propaganda nazista,
em uma ação persuasiva. Sendo assim, foram usados desse modo, cenas, ângulos,
efeitos visuais, sonoros e de edição que valorizam o corpo e os movimentos dos atletas,
criando uma atmosfera diferente do real para transmitir a ideia de um corpo ideal,
utilizando-se de valores estéticos na propagação de uma ideologia.

ANÁLISE DO DOCUMENTÁRIO: A METODOLOGIA DE ANÁLISE FÍLMICA DE JULLIER


E MARIE (2009)
Ficha Técnica
Olympia- Fest der Völker e Fest der Schoenheit, 1938. Direção: Leni Riefenstahl.
Produção: Leni Riefenstahl. Roteiro: Leni Riefenstahl. Montagem: Leni Riefenstahl.
Fotografia: Hans Ertl, Walter Frentz, GuzziLantschner, Kurt Neubert, Hans Scheib.
Música: Herbert Windt. Elenco: David Albritton, Jack Beresford, Henri de Baillet-Latour,
Philip Edwards, Donald Finlay, Adolf Hitler, Rudolf Hess, Rei Umberto II, Theodor
Lewald, Luz Long, John Lovelock, Seung-yong Nam, Dorothy Odam, Martinus
Osendarp, Jesse Owens, Leni Riefenstahl, Mack Robinson, Kee-chungSohn, Henri
Nannen, Joseph Goebbels. Duração: 126 minutos.

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Resumo
No ano de 1936, acontecem na cidade de Berlim, as Olimpíadas de verão, mais
especificamente no mês de agosto. Países de todo o mundo participam do evento,
apesar do clima que circunda do nazismo já instaurado como um regime, que buscava
nesse evento, mostrar ao mundo, seu poder de transformação de uma nação. A
comemoração desse evento tem em si a dualidade das representações, entre os
germânicos e os outros, que são explicitados a partir das vitórias e derrotas. Apesar de
sediar as Olimpíadas, Berlim esconde tudo aquilo que acontece em suas reviravoltas
políticas, que não são explicitadas de forma clara no decorrer dos momentos de euforia
e tristeza das disputas olímpicas.

Em torno do filme
Lançado em 1938, pouco tempo antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial,
Olympia é visto pela crítica como um novo olhar do documentário esportivo, algo novo,
que traz o que nunca antes havia sido visto daquela forma, além do esforço de
Riefenstahl em trazer novas técnicas de filmagem e decupagem. Uma das maiores
polêmicas em torno do documentário, foca na vitória de Jesse Owens, atleta norte-
americano e negro, que vence na modalidade Atletismo e contradiz todo o mito em
torno da inferioridade dos negros, em um período que a eugenia reafirmava padrões de
normalização.

Situação da sequência
As sequências elencadas para análise, são duas da primeira parte e outra da
segunda parte. Na primeira parte, as mulheres, principalmente alemãs, aparecem como
representações mais fortes, é apenas no que é elencado aqui a partir das referências,
temos um corpus que busca trazer uma visão geral desse documentário.
A primeira sequência se passa na abertura, da primeira parte, onde o jogo entre o
homem alemão e grego antigo, é feito para evocar as memórias do mundo antigo,
trazendo a gloria daqueles homens e daquele povo durante os jogos olímpicos.
As evidências principais dessa primeira sequência são as marcas que o regime
busca deixar, promovendo o corpo das mulheres de tal forma, que propague e afirme o
ideal de um corpo atlético e cheio de vitalidade, que no fim, era o corpo propício para
dar continuidade a raça ariana.

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1. Os corpos das mulheres são brancos, magros e bem moldados, se separam e


com os braços erguidos, tem em si, a imagem da referenciação, é ao fundo a luz, com
um sol, ilumina a glória desses corpos e dessas mulheres 113. 2. O sinal de referenciação
se junta aos poucos 2. 3. Esse plano, muda o recorte da cena, que torna mais próximo
aos bustos, focalizando nessa junção dos corpos 3. 4. São no final, um corpo todo, a
representação de uma nação conjunta, a partir do corpo feminino, símbolo de
perpetuação do arianismo 4.

1-2

3-4

Vemos então, o padrão estético e corpóreo das mulheres, junto com a menção
feita ao regime e como ele usa o corpo para fazer referência as suas ideias e o que busca
construir nesse momento, solidificando e fortificando tudo aquilo que estava sendo
construindo internamente na Alemanha. A partir da força dos homens e mulheres,
sendo essas mulheres aqui, centro da análise, sabemos que o padrão submetido,
mesmo que dentro do esporte, era reflexo do seu principal espaço nesse momento, que
vem de apoio a todas as ações dos homens que eram exclusivos em governar.

13 Numeração usada para indicar cena citada.

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A segunda sequência, se trata de Gisela Mauermeyer, que é exaltada por seu


recorde de lançamento de disco, levando-se em consideração que o Atletismo era o
esporte mais exaltado pelo regime, já que era o principal a remeter ao tempo glorioso
da Grécia. Os recortes anteriores, ao analisado aqui, mostram a acirrada disputa da qual
a atleta trava na final com outras competidoras. Esse recurso, é utilizado
principalmente para que a sequência a seguir, exalte a vitória da Alemanha, pela força
e supremacia da competidora.

1-2

3-4

5-6

1. A atleta reflete sobre o momento de olhos fechados, sobre o arremesso 1. 2. Se


prepara para o arremesso, mostrando assim toda a desenvoltura do seu corpo atlético
e musculoso 2 3 4. 3. O arremesso deixa o suspense por alguns segundos, como recurso

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necessário para que se ponha em cheque se no final ela consegue superar as outras 5.
4. O close na atleta, mostra ela sorridente após parte a marcar das outras, sendo a sua
bastante superior, além disso, o close mostra bem o símbolo do partido nazista, que
ganha centralidade na cena deixando mais claro ainda o poder de superação e
supremacia dessa raça 6.
Na parte dois (2) do documentário, as sequências em que as mulheres aparecem
são ainda menores, podemos considerar que são duas delas. Na primeira parte do
documentário elas aparecem hasteando as bandeiras e indo em direção ao que seria o
centro da plataforma de comemorações e cerimonias do estádio. Na transição para o
segundo momento, as mulheres aparecem em uma dança, que faz remeter em muito a
ginástica rítmica, além de aparecerem no salto ornamental, esportes que mostram mais
as mulheres todas juntas, sem focar muito em uma ou um grupo.

1-2

3-4

5-6

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7-8

1. A mulher perfeita do padrão ariano, aparece como uma primeira transição,


mostrando a parte superior do seu corpo e dos seus traços 1. 2. Os corpos se juntam
em ritmo, como a ginastica no atletismo, onde todos vão dando um sentido de junção e
completitude 234. 3. Já aparecem mais especificamente com aparelhos da ginastica,
que completam o movimento 5. 4. A visão da câmera vai subindo, mostrando como
todos esses corpos se juntam de uma visão de cima 7. 5. Se torna uma visão aérea, onde
o recurso, faz com que pareçam, que há milhares de mulheres fazendo a mesma
sincronia, em frente ao estádio olímpico, mas uma vez, símbolo do poder de junção
dessa raça e desses corpos 8.
Assim, percebemos que essa segunda parte, que em sua tradução, é intitulado,
Festival da Beleza, traz em sua representação a propagação de um discurso da beleza
muito mais voltada para o masculino, dentro do âmbito da olimpíada. As mulheres
aparecem em um número irrisório, e as alemãs também não são privilegiadas, em
detrimento da primeira parte, que mesmo aparecendo menos, são mais privilegiadas
em suas representações da partir das evidencias destacadas para o corpo e imagem da
mulher alemã.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por fim, temos a representação de uma mulher alemã no padrão estabelecido
pelo arianismo dentro de toda a corrente de pensamento nazista, em um fronte que não
era considerado como tipicamente sendo o seu, já que o espaço a elas destinado estava
sempre relacionado a ajudar, auxiliar e principalmente formar no período entre guerras.
A hipótese colocada, que partia do aparecimento das mulheres alemãs, em menor
grau, se confirma a partir da análise, pois, para além da participação das mulheres ser

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um fenômeno novo nas olimpíadas, os esportes que participavam eram em menor


quantidade. Mesmo com esse fato, poucos esportes aparecem e os mais destacados
estão na seleção de sequências explorados pela análise fílmica.
O corpo da mulher nesse contexto, é marca de tudo aquilo que se propaga sobre
a supremacia necessária, através da força e do poder de um corpo capaz de gerar vidas,
que são o futuro da purificação da raça, sendo toda a decupagem reflexo disso, dessa
propaganda feita para o mundo tanto no momento do evento, quanto posteriormente.
Entendemos por fim, que a Alemanha dessa representação, passa por uma
política de Estado, que torna o país fraco e sem dependência, que por meio dessa
efervescência política, o nazismo ganha força, a partir de uma organização social que
mexe com todas as esferas.
Nesse quesito, temos então, uma configuração que pleiteia bem quem são seus
cidadãos, como seguir os ideais e como governar, onde impera a raça ariana, é seu
padrão, bem centrado de mulheres, reprodutoras, auxiliares e frente necessária para
que todo esse poder, se torne hegemônico. Tudo isso, parte da concepção que o
arianismo impunha por meio do seu regime de exclusão e repressão.

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“SE TE AGARRO COM OUTRO TE MATO”:


DA LEGÍTIMA DEFESA DA HONRA À LEI MARIA DA PENHA

Luísa Medeiros Brito14


Janaina Porto Sobreira15

INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher é um problema que possui dados alarmantes em
nosso país. Estima-se que, no Brasil, cinco mulheres são agredidas a cada dois minutos,
sendo o parceiro íntimo responsável por até 80% dos casos apontados. A situação de
violência doméstica e familiar que as mulheres enfrentam é muitas vezes,
negligenciada pela sociedade, em razão das categorias históricas e culturais que
alimentam desigualdades entre homens e mulheres e patrocinam o silenciamento e
conivência com estes crimes, como aconteceu durante um longo período histórico do
nosso país em que o argumento da “legítima defesa da honra” encontrava guarida no
julgamento dos parceiros íntimos que matavam suas mulheres, sob a justificativa de
que foram traídos.
Todavia, pressionado pelos grupos de defesa dos direitos humanos,
principalmente dos grupos feministas, e após condenação nas instâncias jurídicas
internacionais, o Estado brasileiro se viu obrigado a interferir de forma direta na
coibição e punição da violência de gênero contra a mulher no âmbito doméstico e
familiar.
Devemos ter cuidado para não cairmos na armadilha de considerar a violência
contra a mulher apenas como algo ocasional. O enfretamento desse tipo de violência
deve ocorrer diariamente, atacando a sua origem patriarcal e machista para não termos
nossas ações obnubiladas em favor dos discursos heroicos de resistência na esfera
individual.
A criação da Lei 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha,
criminaliza e dá um passo para o rompimento da tradição naturalizadora dessa
violência. Destacamos a necessidade de haver o reconhecimento social da gravidade
dessas situações para que haja o estabelecimento de políticas que possibilitem a

14 Bacharela em Direito. Mestranda em Ciências Sociais PPGCS/UFRN. Graduanda em História


CERES/UFRN. luisabritom@gmail.com
15 Graduada em História. Mestranda em História PPGH/UFRN. janaporto_2008@hotmail.com

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superação das realidades negadoras dos direitos das mulheres e sejam criadas
políticas públicas que ofereçam real proteção e condições dessas pessoas romperem
com a situação de violência a que são submetidas.

O PAPEL DO PATRIARCADO NA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


O Brasil amarga um processo de degradação política, econômica e social que se
estende ao longo dos anos e paralelamente a isso, vivemos um clima de pavor,
alarmados pelo tão badalado fenômeno da violência. Fala-se de violência como um
fenômeno que dispensa conceituações, ela é algo cotidiano, rotineiro, a gente sabe que
existe, está por toda parte. O Estado é violento, a cidade, o bairro, a vida...
A violência define como vivemos, o que tememos e sobretudo, nos coloca diante
de nossa finitude, expõe nossa fragilidade, destrói nossas ilusões de que somos
intocáveis ou indestrutíveis. Apesar de figurar, na maioria das vezes, como um espectro
nebuloso, ela tem como característica a criação de inimigos concretos: o marginal, a
bandidagem, o vagabundo...são com eles que precisamos tomar cuidado. É por causa
desses inimigos que construímos verdadeiras fortalezas urbanas, blindamos nossos
carros, não frequentamos praças nem qualquer outro espaço público.
Não estamos seguros! Temos medo!
Podemos, assim, estabelecer o significado popular da violência como sendo a
ruptura de qualquer forma de integridade da vítima. (SAFFIOTI, 2004). Entretanto, não
podemos nos contentar com essa definição, tendo em vista que é cogente compreender
como ela opera nas diversas situações de nossas vidas, sobretudo no que tange à
violência doméstica e familiar contra a mulher, alvo deste trabalho.
A violência contra a mulher é um problema que possui dados alarmantes em
nosso país. Estima-se que, no Brasil, cinco mulheres são agredidas a cada dois minutos,
sendo o parceiro íntimo16 responsável por até 80% dos casos, expondo que as mulheres
estão sujeitas a um tipo de violência distinto da que os homens enfrentam.
A situação de violência doméstica e familiar que as mulheres estão expostas é
muitas vezes, negligenciada pela sociedade, em razão das categorias históricas e
culturais que alimentam desigualdades entre homens e mulheres e patrocinam o

16Aqui considerado como todo aquele que tem ou teve um relacionamento afetivo/sexual com a mulher,
seja marido, namorado, companheiro ou ex.

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silenciamento e conivência com estes crimes. De acordo com Alambert, “um exame,
mesmo que superficial, da história da mulher, vai nos indicar que se trata de uma
história de exclusão, invisibilidade, opressão e exploração, que perpassa todos os
séculos, todas as idades e todos os países do mundo” (2004, p. 26).
O patriarcado foi responsável pela transferência das mulheres para o mundo
privado do lar, pois, com ele, surgiu também a necessidade de uma esposa virgem para
gerar herdeiros cujo pai é certo e nominado. Assim, conforme nos aponta Engels, “a
mulher foi convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples
instrumento de reprodução” (1984, p. 61). Com a exclusão das mulheres da vida social,
a existência delas foi reduzida ao restrito espaço do lar patriarcal, onde o poder do
macho é inconteste.
Assim, ao longo dos anos foi sendo construída a ideia do feminino dócil, gentil e
submisso ao homem. “As mulheres vão se convertendo no feminino que predominou
ao longo de milênios: pessoas dependentes, débeis, frágeis, ignorantes, bonitas para os
homens aos quais devem servir, dóceis, compreensivas” (LESSA, 2012, p.37). Enquanto
isso, o masculino é sinônimo de força, virilidade, riquezas, honra e coragem.
Há uma divisão dos papeis na sociedade de acordo com o sexo, cabendo aos
homens as tarefas que envolvem força e protagonismo social, já às mulheres, restam
as atividades domésticas e os demais papeis de dependência e subordinação. As
diferenças de gênero17 são, portanto, imposições sociais.
Pode parecer ultrapassado trazer à tona o conceito de patriarcado em tempos
em que há regozijo na conquista do mercado de trabalho pelas mulheres, nos avanços
em sua autonomia e na crescente participação na política, no entanto, endossamos as
teorias que afirmam ser o patriarcado um sistema que se transforma para abarcar os
novos modelos sociais, apresentando-se de forma distinta da que fora concebida.

17Há uma série de teorias conflitantes no que tange ao conceito de gênero, todavia, seguindo o
entendimento de Saffioti acreditamos que “cada feminista enfatiza determinado aspecto do gênero,
havendo um campo, ainda que limitado, de consenso: o gênero é a construção social do masculino e do
feminino” (2004, p. 45, grifo nosso). Cabe esclarecer que, seguindo a autora citada, neste trabalho
usamos o conceito de gênero como categoria geral, englobando toda a história, e o de patriarcado como
categoria específica de um período que compreende os seis ou sete últimos milênios até os dias atuais.
Neste sentido, também Aguiar quando afirma que “é perfeitamente possível empregar os dois conceitos,
de gênero e de patriarcado, observando-se, quanto ao primeiro, que ele possui conotações que não estão
presentes no último. Quanto ao patriarcado e o seu lugar na história, observa-se que a diferentes
momentos históricos corresponderiam distintas formas de organização patriarcal, sendo este um
fenômeno variável” (2000, p. 324).

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Nessa esteira, não consideramos acertado abandonar o conceito de patriarcado


nem ignorar sua existência em prol de outras categorias, porque, “a recusa da utilização
do conceito de patriarcado permite que este esquema de exploração-dominação [das
mulheres] grasse e encontre formas e meios mais insidiosos de se expressar”
(SAFFIOTI, 2009, p. 24).
No mesmo sentido Pateman, quando afirma que perder de vista as bases sociais
e materiais do patriarcado seria um grande desserviço às mulheres e “representaria a
perda, pela teoria feminista, do único conceito que se refere especificamente à sujeição
da mulher, e que singulariza a forma de direito político que os homens exercem pelo
fato de serem homens” (1993, p. 39).
Trabalhando com essa categoria não nos tornamos alheias às diferenças sociais
entre as muitas mulheres existentes, seja em razão de classe, raça, sexualidade ou
etnia. Contudo, acreditamos que, no contexto de violência em que estamos inseridas, o
fato de sermos mulheres nos marca de uma forma ou de outra.

“SE TE AGARRO COM OUTRO EU TE MATO”18: A LEGÍTIMA DEFESA DA HONRA E A


IMPUNIDADE NA MORTE DE MULHERES
Numa sociedade em que a mulher, desde o seu nascimento, é educada para
constituir família, dedicar-se ao lar e ser eternamente fiel e submissa ao marido,
transgredir essas regras torna-se fatal, pois, sendo a mulher “entregue, sem reservas,
ao poder do homem: quando este a mata, não faz mais do que exercer o seu direito”
(ENGELS, 1984, p. 61).
Foi o que assistimos durante muito tempo em nosso país, quando o homem era
detentor da vida e da morte de sua companheira, tendo em vista que qualquer deslize
comportamental, sobretudo a traição, era motivo para o assassinato daquela que
ousava desobedecer a ordem patriarcal imposta.
A história do Brasil é marcada pela vergonhosa tese da “legítima defesa da
honra”, onde maridos feminicidas eram absolvidos no tribunal, sob a alegação de que
seu nome só poderia ser salvo perante a sociedade após ser lavado com o sangue da

18 Título de uma canção que foi grande sucesso na voz do cantor Sidney Magal, nos anos 1980.

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mulher desnaturada. No modelo de sociedade existente, o papel da mulher na


construção da honra se dava em razão dela ser a condutora da honra do macho19.
Honrado era aquele que perante a sociedade exercia bem a função de pai e
esposo, tinha um bom emprego e uma família respeitada. Apesar da honra pertencer ao
homem, a família deveria ser sua guardiã. Esse encargo recaía ainda mais fortemente
sobre as mulheres, por isso mesmo se exigia um severo controle sobre seu corpo,
afastando-a da esfera pública para que houvesse dedicação total ao lar e a plena
realização da honra masculina e, consequentemente, da família.
A sociedade brasileira absorveu de Portugal o costume do uso da violência no
âmago das famílias, por meio, inclusive, de seu aparato jurídico. “A maneira como o
Estado português do período colonial legislou a respeito das relações domésticas e
conjugais, depois de algum tempo, se tornou uma forma naturalizada de conceber as
relações familiares no Brasil” (SOUZA, BRITO e BARP, 2009, p. 64).
Mesmo levando-se em conta os processos de escravidão, miscigenação e
imigração aqui vivenciados, fazemos essa afirmação, pois, a organização de nossa
sociedade se deu sob a égide legislativa da Metrópole. Aqui, pôde-se observar uma
inversão na ordem de surgimento das leis, tendo em vista que, de maneira geral, os
costumes se apresentam como fonte do Direito e a lei é criada para regulamentar
práticas sociais já assentadas como costumes20. Todavia, no caso brasileiro, as leis
trazidas pela Corte Portuguesa passaram a ditar os comportamentos sociais dos
colonos.
A transplantação das Ordenações Filipinas trouxe para cá o modelo de Justiça
baseado na desigualdade entre os indivíduos, pois elas eram compostas por uma série

19Feminicida é aquele que comete feminicídio. Feminicídio, por sua vez, é o assassinato de uma mulher
por sua condição de mulher. Em uma perfeita definição dada pelo Congresso Nacional no Relatório Final
da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre a Violência contra a Mulher: “O feminicídio é
a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa
como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou
ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual
associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de
seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou
degradante.” (BRASIL, 2013, p. 1003)
20 Os costumes “são as práticas longevas, uniformes e gerais, constantes da repetição geral de

comportamentos, que, pela reiteração, passam a indicar um modo de proceder em determinado meio
social. É a norma criada e afirmada pelo uso social, de maneira espontânea, sem a intervenção legislativa.
Deve ser compreendido por dois diferentes ângulos: (i) objetivo, caracterizado pela repetição ou
reiteração; (ii) subjetivo, percebido pela convicção de sua necessidade

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de livros que tinham como fundamento a discriminação, inclusive, com penas distintas
para um mesmo delito quando praticado por indivíduos de origens diferentes.
No caso do tratamento empregado às mulheres, vale destacar alguns aspectos:

A forma de compreender a violência, que aparece implícita nas atitudes


do marido, parece estar radicada em comportamentos
tradicionalmente reproduzidos e veiculados no senso comum, mas cujo
conteúdo, em essência, já havia sido prescrito nas Ordenações Filipinas.
Tal prescrição versava expressamente sobre o direito de o marido
agredir e, se julgasse necessário, matar a esposa flagrada em
adultério. (SOUSA, BRITO e BARP, 2009, p. 68, grifo nosso)

A legalidade do assassinato da mulher na simples suspeita de adultério não só


escancara o viés patriarcal de nossa colonização, como também expõe a desigualdade
jurídica-social que vivenciamos desde então. À mulher não era dado o direito de
desonrar o seu amo e senhor. A honra além de ser um privilégio masculino, era também
uma prerrogativa de classe, tendo em vista que o homem também poderia matar aquele
com quem sua mulher estava cometendo adultério, desde que fosse de uma classe
inferior.
No ano de 1830 passou a viger o Código Criminal do Império que alterou o nosso
regime jurídico e passou a criminalizar o assassinato dos cônjuges, mesmo quando
houvesse traição, mas com pesos e medidas distintos. Qualquer deslize da mulher era
considerado crime de adultério, mas para os homens, o mesmo só se daria se ele
mantivesse um relacionamento duradouro21.
Após a adoção do regime republicano, o Código Criminal Imperial foi revogado e,
em 1890, surge o “Código Penal dos Estados Unidos do Brazil”. Nesse período, o
machismo já havia se consolidado em nossa sociedade. Como prova, podemos citar a
diferenciação das mulheres nesse instrumento legislativo, inclusive com penas
distintas para os casos de estupro, caso a vítima fosse “pública”, “prostituta” ou
“honesta”. Se a estuprada fosse “honesta”, virgem ou não, a penalidade seria prisão de

21Art. 250. A mulher casada, que commetter adulterio, será punida com a pena de prisão com trabalho
por um a tres annos.
A mesma pena se imporá neste caso ao adultero.
Art. 251. O homem casado, que tiver concubina, teúda, e manteúda, será punido com as penas do artigo
antecedente. (CÓDIGO CRIMINAL DO IMPÉRIO, 1830. Disponível em: https://goo.gl/mr6k6j.)

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um a seis anos. Mas se fosse “mulher pública” ou “prostituta”, a prisão passaria a ser
de seis meses a dois anos22 (BRASIL, 1890).
No tocante à honra, houve a continuidade, embora implícita, da possibilidade do
marido traído poder assassinar a esposa infiel, tendo em vista que o modo como esse
código trata a legítima defesa, afirmando que ela não se limita à vida, mas compreende
todos os direitos passíveis de lesão, tem a consequência prática de dar licitude à morte
da mulher adúltera ocasionada pelo esposo traído.
A lei foi moldada pelo discurso jurídico, de modo a perpetuar o poder patriarcal
sobre os corpos e acima de tudo, sobre a sexualidade das mulheres, dando azo para a
impunidade no tocante às mortes das esposas infiéis.
Em 1940 a legislação acima referida foi revogada e o código penal que se
sobrepôs permanece vigente até hoje. Apesar da mudança legal, as bases de nossa
sociedade permaneciam intactas e por isso mesmo, não houve transformação radical
no enfrentamento das questões específicas da mulher no que tange à esfera criminal
de nosso país. Mesmo com uma melhor descrição do instituto da legítima defesa23 e
com um capítulo próprio acerca dos crimes contra a honra24, houve um resgate da
teoria da “legítima defesa da honra”.
Para que a legítima defesa seja reconhecida, não se pode ultrapassar a
necessidade de proteção, nem haver a desproporcionalidade entre os meios
empregados na agressão e nos que forem utilizados para impedi-la ou repeli-la. Esses
requisitos são cumulativos e devem necessariamente ser considerados em conjunto.
Porém esse argumento prosperou durante muito tempo, mesmo estando em total
desacordo com a definição legal de “legítima defesa”.
Nunca existiu no Código Penal em vigor qualquer artigo que verse sobre a
“legítima defesa da honra”. A ressuscitação dessa tese só corrobora a ideia de que ao
longo de toda sua existência, a mulher é tida como menos valiosa e menos importante

22 Além disso, permanecia a diferenciação para a configuração do crime de adultério, tal qual o Código
Criminal Imperial. Se a mulher casada cometesse adultério, mesmo que fosse apenas um “deslize”, seria
punida com prisão de um a três anos, já o homem, precisaria de um caso duradouro, ou seja, possuir
“concubina teuda e manteuda”, para se encaixar no tipo penal.
23 De acordo com o artigo 25 do Código Penal em vigor, “entende-se em legítima defesa quem, usando

moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de
outrem”.
24 São considerados crimes contra a honra a injúria, a calúnia e a difamação que corresponde

respectivamente ao ato de ofender a dignidade ou decoro de outrem, imputar falsamente a alguém a


prática de um crime e atentar contra a reputação do indivíduo.

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que a vida e a honra dos homens. Esse construto social legitimou a morte – pela via do
assassinato – de inúmeras mulheres que tiveram como algozes os seus parceiros
íntimos.
A visão da mulher como propriedade do marido é explorada nos processos
criminais de julgamento desses homicídios. É o que nos conta Eluf, quando traz um
determinado julgamento em que o réu havia matado sua esposa e a defesa reivindicava
a “legítima defesa da honra”. A conduta homicida foi assim explicada: “O réu não podia
suportar a idéia de que outro homem fosse ejacular nas entranhas de onde ele havia
saído” (2007, p. 166).
Colocações como essa eram bastante comuns nesses processos e tinham como
base o machismo e misoginia da sociedade, pois, o ato sexual praticado por uma mulher
fora do casamento era tido como algo “sujo”, “impuro”, passível de condenação moral
e social. Esse recurso à desmoralização da vítima promovia o achincalhe da “adúltera”
e transformava a mulher em culpada por não ter seguido as regras impostas pelo seu
“dono”.

Se, na Roma antiga, o patriarca detinha poder de vida e morte sobre sua
esposa e seus filhos, hoje tal poder não mais existe, no plano de jure.
Entretanto, homens continuam matando suas parceiras, às vezes com
requintes de crueldade, esquartejando-as, ateando-lhes fogo, nelas
atirando e as deixando tetraplégicas etc (SAFFIOTI, 2004, p. 46).

Por tudo isso, muitas mulheres experimentaram o gosto amargo do desprezo e


impunidade diante de suas mortes. Entretanto, alguns desses crimes ganharam intensa
repercussão social, pois, a mídia deu grande repercussão aos casos de assassinatos de
mulheres das classes média e alta como foi o caso do cometido por Augusto Carlos
Eduardo da Rocha Monteiro Gallo contra Margot Proença Gallo, pais da famosa atriz
Maitê Proença25.
Esse crime aconteceu no dia 07 de novembro de 1970, quando Gallo, suspeitando
da infidelidade da esposa, atacou-a com onze facadas. A defesa de Eduardo investiu na
“legítima defesa da honra”, promovendo a desqualificação social e moral de Margot,
dando detalhes da sua vida pessoal e amorosa, tratando de montar a imagem de uma
mulher totalmente “indigna do casamento”.

25Maitê Proença tinha apenas 12 anos na época do crime e foi testemunha de defesa do pai. Na época do
ocorrido ela foi uma importante testemunha do processo que culminou na absolvição do pai.

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Os advogados levaram ao processo testemunhas que afirmavam ser Margot


infiel ao marido, imputando a ela incontáveis casos extraconjugais. Eles queriam
demonstrar que o adultério deixara o marido muito abalado e sob forte emoção,
levando-o a cometer o assassinato. Gallo foi levado à júri por duas vezes e nas duas ele
saiu vitorioso. No primeiro julgamento teve sete votos a seu favor e nenhum contra. Já
no segundo julgamento, ganhou apertadamente de quatro a três. Nos dois
julgamentos, a “legítima defesa da honra” prevaleceu.
Para esse veredicto, foi totalmente desconsiderado o fato de que a honra é um
bem jurídico personalíssimo, ou seja, integrante da personalidade do indivíduo e,
portanto, intransferível. Não há que se falar em desonra por atitude de terceiro, a honra
está em cada um de nós e não pode ser maculada por outra pessoa. Porém, os valores
da sociedade patriarcal prevaleceram.

O tratamento dispensado pela sociedade em geral à violência praticada


contra a mulher considerada adúltera se mantém extremamente
conservador e tradicional apesar das alterações na lei, ou seja,
compreende-se o ato de violência praticado pelo homem, considerando
que ele agiu em “defesa da honra e a adúltera não soube honrar a
família”. [...]. Tanto que, em casos desse tipo, é comum que a opinião
pública transforme a vítima em ré se pairar alguma suspeita sobre a
integridade de sua conduta. Isso se dá por conta da força que
determinados valores tradicionais, presentes no senso comum (e a
questão de fidelidade feminina é um deles), exercem sobre a capacidade
das pessoas refletirem sobre esse tipo de situação. São justamente
concepções tradicionalmente arraigadas de honra, de papéis sociais e
de família que são reivindicadas pelo agressor como atenuantes do ato
praticado. (SOUSA, BRITO e BARP, 2009, p. 76)

Outro caso midiático de feminicídio marcou a história de lutas dos movimentos


feministas aqui no Brasil contra a violência que as mulheres enfrentavam e ainda
enfrentam até hoje no âmbito doméstico e familiar. Trata-se do crime cometido por
Raul Fernandes do Amaral Street, popularmente conhecido como Doca Street, contra
a socialite Ângela Diniz.
No dia 30 de dezembro de 1976, após um grande desentendimento do casal,
Ângela foi assassinada com três tiros no rosto e um na nuca. Ancorado também no
argumento da “legítima defesa da honra” Doca foi condenado à pena simbólica de

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apenas dois anos de reclusão com sursis26, ou seja, Doca não ficaria preso. Outro fato
marcante desse processo, foi o apoio recebido por Street no dia do julgamento, por
meio de faixas e manifestações em frente ao fórum.
Inconformados com o resultado do julgamento, os movimentos feministas
fizeram um grande alvoroço, a acusação recorreu e foi decidido que Doca passaria por
outro julgamento que ocorreu dois anos depois, em novembro de 1981. Desta segunda
e última vez, a sorte de Doca mudou. Ele foi condenado à pena de quinze anos de
reclusão, por cinco votos a dois, pelo homicídio de Ângela. O Júri compreendeu que
Street não agiu em legítima defesa de nenhum direito, tampouco de sua honra ferida.
A condenação de Doca foi uma verdadeira vitória frente ao machismo imperante
na nossa sociedade. Mas devemos ter cuidado para não cairmos na armadilha de
considerar a violência contra a mulher apenas como algo ocasional. O enfretamento
desse tipo de violência deve ocorrer diariamente, atacando a sua origem patriarcal e
machista para não termos nossas ações obnubiladas em favor dos discursos heroicos
de resistência na esfera individual.
A importância dos movimentos feministas se dá justamente pelo fato de
alertarem para o fato das relações entre homens e mulheres não serem naturais e sim
produto da socialização e da cultura dessas pessoas, sendo então passíveis de
mudanças. No caso brasileiro, as lutas feministas brotaram no contexto da luta em prol
da redemocratização do nosso país, contra a ditadura e contra as desigualdades sociais
sob forte influência das mulheres de esquerda (PEDRO, 2012).

FEMINISMOS E A LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA: A CRIAÇÃO DA LEI MARIA DA PENHA


Se hoje a violência contra a mulher é tida como violação de Direitos, a batalha
para que fosse introduzida em nosso ordenamento jurídico uma legislação de proteção
à mulher em situação de violência doméstica se insere num duro processo de análises
e críticas ao sistema normativo brasileiro e à cultura patriarcal.

26Sursis significa suspensão condicional da pena. É previsto nos artigos 77 a 82 do Código Penal
Brasileiro. O mencionado Instituto favorece a pessoa que foi condenada à pena que não seja superior a 2
anos, com a suspensão da mesma por até 4 anos, desde que satisfeitas as condições impostas pelo
magistrado. Para ser agraciado com o sursis, a lei estabelece: que o condenado não pode ser reincidente
em crime doloso; que os elementos referentes à prática do crime, tais como a culpabilidade, os
antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente e outros descritos na lei, autorizem a
concessão do benefício; e, por fim, que não seja cabível a substituição por penas alternativas.

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A articulação dos grupos feministas foi a tônica capaz de criar mecanismos de


resistência que reivindicavam o direito das mulheres viverem dignamente. Nas palavras
de Marlise Matos, “as forças foram unificadas no objetivo central da transformação da
situação da mulher na sociedade brasileira, gestada durante os regimes militares, e
colocada à prova no momento da redemocratização do país” (2010, p. 84).
Com a inegável emergência desses movimentos ao redor do mundo, a
Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu o ano de 1975 como o Ano Internacional
da Mulher e, nesse contexto, houve a possibilidade de driblar os entraves políticos no
nosso país e organizar um ato público que tinha como pontos de debate a condição da
mulher brasileira nas esferas do trabalho, saúde física e mental, discriminação racial e
homossexualidade.
Embora a importância desses assuntos ser inegável, o que mais conseguiu atrair
as elites políticas da época, foram as denúncias das mortes violentas de mulheres. A
mídia deu grande repercussão aos casos de assassinatos de mulheres das classes
média e alta, divergindo do contexto francês e norte-americano, onde havia a ênfase na
liberdade sexual e na denúncia ao controle imposto pelos homens ao corpo e
sexualidade da mulher. No Brasil, lutava-se pelo direito à sobrevivência, havia a
necessidade de defender a vida das mulheres. (MACHADO, 2016)
O ano de1985 foi um marco no que tange às políticas públicas de enfrentamento
à violência contra a mulher em nosso país. Após intensos debates entre as
organizações feministas e o Estado, foi inaugurada a primeira delegacia especializada
em São Paulo, conhecida por Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). A primeira
delegacia da mulher teve uma grande demanda, o que corroborava a tese das
feministas de que a violência contra a mulher era um problema recorrente que
necessitava de um atendimento policial especializado.
Por mais que seja inegável a importância das delegacias de defesa da mulher no
combate à violência, temos que ter em mente que a legislação sobre tais delegacias
não trazia tipos penais específicos sobre a questão da violência contra a mulher. As
delegacias atuavam segundo tipificações penais e, como sabemos, violência contra
mulher (familiar, doméstica ou de gênero) não constituía figura jurídica, definida pela
lei criminal. O que era descrito como tipo penal, implicando uma classificação, dependia,
sobretudo, da interpretação que a agente (e, no caso concreto, a delegada ou a escrivã)
tinha da queixa enunciada pela vítima.

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Por tudo isso, as feministas continuaram a articulação no sentido de fortalecer


as políticas públicas de proteção as mulheres. Em março de 1987, o Conselho Nacional
de Direitos das Mulheres (CNDM) liderou a formação do “lobby do batom”, que
apresentou aos constituintes a “Carta das Mulheres. Com esse documento, elas
levavam ao parlamento brasileiro a principal conclusão da campanha: “Constituinte pra
valer tem que ter direitos das mulheres”.
A Carta comprova a particularidade do movimento feminista brasileiro, sempre
preocupado com a democracia e as questões sociais: justiça social, criação do Sistema
Único de Saúde, ensino público e gratuito em todos os níveis, autonomia sindical,
reforma agrária, reforma tributária e negociação da dívida externa. No que tange aos
direitos específicos das mulheres, ela trouxe preocupação com trabalho, saúde, direitos
de propriedade, chefia compartilhada na sociedade conjugal, defesa da integridade
física e psíquica da mulher como argumentação para o combate à violência, redefinição
da classificação penal do estupro, criação de delegacias especializadas de atenção à
mulher em todos os municípios.
Quanto aos direitos sexuais e reprodutivos, não tivemos muitos avanços por
causa das resistências de diversos setores. No tocante ao direito ao aborto, apesar de
não ser explicitamente reivindicado, pedia-se a introdução de um princípio
constitucional que garantia à mulher o direito de conhecer e decidir sobre o próprio
corpo. Porém, essa parte não foi aceita e não entrou no texto da Constituição em vigor
(MACHADO, 2016).
De acordo com levantamento do próprio CNDM, 80% das exigências foram
aprovadas. As mulheres conquistaram, na Constituinte de 1988, a igualdade jurídica
entre homens e mulheres, a ampliação dos direitos civis, sociais e econômicos das
mulheres, a igualdade de direitos e responsabilidades na família, a definição do princípio
da não discriminação por sexo, raça ou etnia e a proibição da discriminação da mulher
no mercado de trabalho.

Enquanto no passado, a diferença entre mulheres e homens serviu de


justificativa para marginalizar os direitos das mulheres e, de modo mais
geral, para justificar as desigualdades de gênero, atualmente a
diferença das mulheres indica a responsabilidade que qualquer
instituição de direitos humanos teria de incorporar uma análise de
gênero em suas práticas e análises teóricas. (MATOS, 2010, p. 87)

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Dentre as diversas demandas dos movimentos feministas incorporadas ao texto


constitucional, destacamos a inclusão do art. 226, parágrafo 8º, por meio do qual, o
Estado se compromete a prestar assistência à família e a todos os seus membros,
criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.
No entanto, foi o Sistema de Justiça internacional que propiciou a criação da Lei
11.340/2006, tendo em vista que a Farmacêutica e Bioquímica Maria da Penha Maia
Fernandes, junto com o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL-Brasil) e o
Comitê Latino-Americano do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM-
Brasil) encaminharam, em 1998, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH) da OEA uma petição contra o Estado brasileiro, relativa ao emblemático caso de
impunidade em relação aos inúmeros episódios de violência doméstica por ela
vivenciados, tendo como agressor seu marido, o economista colombiano Marco Antonio
Heredia Viveros.
Em 29 de maio de 1983, Maria da Penha Maia Fernandes foi vítima de uma
tentativa de homicídio por parte do seu então marido, restando paraplégica após levar
um tiro nas costas enquanto dormia. O primeiro julgamento de Marcos aconteceu no
dia 03 de maio de 1991 sendo o réu considerado culpado e condenado a 15 anos de
reclusão. Todavia, a defesa recorreu e conseguiu a anulação do julgamento com base
na alegação de que os quesitos propostos ao corpo de jurados foram mal formulados.
Como consequência, Viveiros aguardaria o novo julgamento em liberdade.
Deste modo, um caso ocorrido em 1983 permanecia sem solução definitiva até
1997. Foi quando em 1998, resolveu-se acionar a CIDH (caso Maria da Penha nº 12.051)
e em abril de 1991, no Informe nº 54, a Comissão responsabilizou o Estado brasileiro
por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica contra as
mulheres, em virtude da ineficácia do Judiciário.
De acordo com a CIDH, o Estado brasileiro deveria adotar medidas no âmbito
nacional visando à eliminação da tolerância dos agentes do Estado face à violência
contra as mulheres. Quanto a Marco Viveros, somente em outubro de 2002, mais de
dezenove anos depois do crime e faltando apenas seis meses para a prescrição do
ocorrido, foi finalmente preso.
O histórico de negligência do Estado brasileiro frente a questão da violência
contra as mulheres e sua complexidade finalmente veio à tona e o país foi obrigado a
criar uma lei que coibisse a violência doméstica e familiar por elas enfrentada. Assim

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surgiu a Lei 11.340/2006, em homenagem a Maria da Penha Fernandes por sua história
de lutas frente à impunidade dos crimes cometidos por seu ex-marido.
A Lei tipifica os crimes de violência contra mulher no âmbito doméstico e familiar
e a coloca como uma das formas de violação dos direitos humanos, altera os trâmites
judiciais e da autoridade policial; muda o Código Penal e proporciona que agressores
sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada quando
ameaçarem a integridade física da mulher.
Além disso, prevê medidas de proteção para a mulher que corre risco de morte,
como o afastamento do agressor do domicilio e a proibição de sua aproximação física
junto à mulher agredida e aos filhos. Cria os Juizados Especiais de Violência Doméstica
e versa sobre a necessidade de o Estado promover mecanismos de atuação conjunta
para a repressão e responsabilização desses crimes.
Reconhecida como uma das leis mais famosas do país27, a principal fonte
legislativa de coibição à violência de gênero no Brasil, completou, no dia 07 de agosto
de 2016, dez anos e está hoje com quase doze anos de vigência. Nesse período, a Lei
Maria da Penha apresentou avanços no que tange à desnaturalização das violências
sofridas pelas mulheres, mas ainda enfrenta muita resistência em sua perfeita
implementação e aplicação.
Ainda há, perante a sociedade, uma grande desconfiança acerca da real
efetividade desta lei, tendo em vista que os números de violência contra a mulher são
alarmantes em nosso país. Desde sua promulgação, em 2006, até o ano de 2013, houve
um aumento de 600% nas denúncias de abuso doméstico e familiar contra a mulher 28.
Contudo, é justamente nesse processo de denúncia e suas consequências que ainda
residem alguns dos principais obstáculos na efetivação da Lei.
Tem-se observado que ainda há múltiplas resistências para sua aplicação de
forma efetiva. Diuturnamente ganha força a ideia de que o êxito da Lei está ameaçado
pelas inúmeras falhas em sua aplicação. Essas circunstâncias dificultam o acesso à
justiça para as mulheres que acabam, muitas vezes, tendo apenas uma manifestação

27 A pesquisa Percepção da Sociedade sobre Violência e Assassinato de Mulheres (2013) apontou que
apenas 2% da população brasileira nunca ouviu falar na Lei Maria da Penha.
28 A Câmara dos Deputados, nas justificativas do acréscimo do Art.9º-A à Lei n° 11.340/2006, que

determina a reserva de vagas gratuitas nos cursos técnicos de formação inicial e continuada, oferecidos
pelos Serviços Nacionais de aprendizagem, para mulheres em situação de violência doméstica e familiar,
divulga os números ora apresentados.

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formal por parte do Estado, saindo com “um boletim de ocorrência em uma das mãos e
uma medida de proteção na outra” (PASINATO, 2015, p. 535), sem que, realmente haja
políticas públicas que ofereçam real proteção e condições dessas pessoas romperem
com a situação de violência a que são submetidas.
Destacamos a necessidade de haver o reconhecimento social da gravidade
dessas situações para que haja o estabelecimento de políticas que possibilitem a
superação das realidades negadoras dos direitos das mulheres, tendo em vista que
“não é possível fazer emergir uma mulher livre de sua opressão específica sem a
garantia de eqüidade e de liberdade para todos” (SARTI, 2001, p. 48).
Necessitamos também fazer uso de mecanismos jurídicos que consolidem os
direitos necessários para que a dignidade seja exercida de forma plena. Assim, é
pungente a concretização da Lei Maria da Penha como instrumento efetivo de
prevenção e coibição da violência doméstica e familiar contra as mulheres, sem
esquecer as bases sociais fundadas no patriarcado, de modo a combater esse problema
em suas raízes e não por meio da solução de conflitos de maneira isolada.
As políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher devem atuar
constituindo redes de enfrentamento e de atendimento às mulheres em situação de
violência, salientando que a existência de diversos programas e serviços de
atendimento a essas mulheres não necessariamente implica na existência de uma rede
efetiva, tendo em vista que esta consiste em um atendimento qualificado e o diálogo
entre eles, com a finalidade de evitar a rota crítica29 das mulheres que buscam
resolução para a situação de violência sofrida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A violência contra a mulher não pode ser enfrentada como se fosse algo isolado
que pode ser combatido caso a caso. Para que haja o real enfrentamento dessa questão,
se faz necessário reconhecer a estrutura patriarcal fundante de nossa sociedade. Os
movimentos feministas cumprem seu papel de desnaturalizar as violências de gênero,
pressionando para que haja políticas públicas de enfrentamento e coibição da violência
contra mulheres, inclusive no âmbito doméstico e familiar.

29 A rota crítica consiste nas dificuldades e obstáculos enfrentados pelas pessoas em situação de
vulnerabilidade e violência, caracterizada pelas idas e vindas que fazem o mesmo caminho ser percorrido
em círculos e repetido sem resultar em soluções. Essas repetições resultam nas perdas de energias que
levam a desgaste emocional e revitimização. (CAMARGO e AQUINO, 2003)

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A luta pelos direitos das mulheres não se justifica pela ideia de se fazer justiça
ao lado mais fraco, ao oprimido, do contrário, devemos nos esforçar para não as
enxergar como “sexo frágil”, pois isso não atende às reivindicações relativas à
consolidação dos direitos necessários e urgentes desse grupo humano. A batalha para
que fosse introduzida em nosso ordenamento jurídico uma legislação de proteção à
mulher em situação de violência doméstica se insere num duro processo de análises e
críticas ao sistema normativo brasileiro e à cultura patriarcal.
Traçar a trajetória da Lei 11.340/2006 é voltar ao passado de nosso país,
envergonhar-se da omissão, permissividade e cumplicidade da sociedade brasileira
diante dos milhares de casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, é
enlutar-se pelas que não sobreviveram para endossar a luta pela promulgação da tão
conhecida Lei Maria da Penha. Contudo é também se alegrar diante do êxito dos
movimentos feministas do Brasil em sua aprovação, publicação e por que não dizer,
sobrevivência.
Mas, para que essa lei alcance real efetividade, devemos atentar para a qualidade
do atendimento dado à essas mulheres para não incorrermos no erro de montar uma
estrutura voltada para a satisfação de requisitos formais, mas que na prática não
atendem aos anseios dessas pessoas, do contrário representam mais uma forma de
negação da dignidade delas. Para que essa efetivação seja concretizada, apostamos na
criação de redes de enfrentamento e de atendimento às mulheres em situação de
violência, mas sobretudo no desmonte na sociedade machista e patriarcal em que
estamos inseridas.

REFERÊNCIAS
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15, n. 2, p. 303-330, Dezembro 2000. Disponivel em:
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O USO DE FONTES CRIMINAIS PARA A PESQUISA HISTÓRICA:


UM OLHAR SOBRE AS TAIS “MARIAS DA CONCEIÇÃO”
(COMARCAS DE CAICÓ E JARDIM DO SERIDÓ, 1922-1942)

Ana Carolina Oliveira30

INTRODUÇÃO
Pesquisas no campo da História da Justiça, prioritariamente, enfocadas em
fontes criminais, passaram a ser incentivadas no âmbito histórico a pouco tempo. Há
quem marque a inovação dessas abordagens, a partir dos trabalhos de autores como
Michel Foucault, com “Vigiar e Punir”, numa delimitação mundial, ou situando para um
contexto brasileiro, Boris Fausto, com “Crime e Cotidiano”, este inclusive, incentivado
pela própria obra de Foucault (FOUCAULT, 1996; FAUSTO, 2001). O incentivo ao estudo
dos ditos agentes silenciados na História acabou crescendo nas últimas décadas, em
fontes Judiciárias sob a ótica de que elas dão vazão a segmentos sociais e recuperam
relações cotidianas (BACELLAR, 2005), sejam de sociabilidade ou intrigas, muito
embora, até mesmo essa premissa já seja refutada (MAUCH, 2013), quando os
depoimentos que ali estão recolhidos resultam de eventos conflituosos.
As fontes selecionadas para a pesquisa provêm dos Fundos da Comarca de Caicó
e Jardim do Seridó, tutoradas pelo Laboratório de Documentação Histórica (Labordoc),
no Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES), campus Caicó, cujo acervo dispõe de
diversas tipologias documentais. O laboratório é vinculado ao Departamento de
História, desde sua criação em 1998, que se deu por uma demanda específica ligada à
conservação de documentos da esfera criminal provenientes da Comarca de Caicó.
Dentre o acervo proveniente do âmbito judiciário, a estimativa quantitativa de
documentos custodiados pelo laboratório assenta-se por volta de 30 mil unidades.
Através de um panorama que demonstre o potencial de arquivos judiciários
como fontes de estudo voltadas ao cotidiano, o interesse inicial na pesquisa centrava-
se na investigação de processos onde a figura feminina era colocada em posição de
transgressão, indo em contramão à larga produção já feita sobre violências
empregadas contra a mulher. Dito isso, a discussão vai procurar elaborar uma análise

30 Licencianda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, email:


oliveiraana.ufrn@gmail.com

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minuciosa dos discursos empregados em processos criminais nos quais mulheres são
rés, ensejando o debate em torno das acepções dispostas por estruturas de poder, que
nesse caso, elucida-se pela figura da Justiça. Demarcando também, como essas
interpretações são empregadas no social de agentes construídos e compreendidos
como submissos e passíveis de enquadramentos inferiores.
Subscrita em torno de mulheres que transgridem normas morais e sociais
através de práticas criminosas, a análise se finda dentro de uma ruptura de paradigmas
falocêntricos (BUTLER, 2017), elucidados por estruturas que condicionam construções
ao longo da história, especialmente através dos discursos de poder, cujo viés denota os
variados arquétipos em torno do feminino, transitando por adjetivos de submissa e
inferior. Desse modo, também se demonstram novas perspectivas de entendimento da
mulher enquanto agente histórico, impulsionando essas práticas como instrumentos
velados de resistência. Temos, por exemplo, dentro dessas abordagens de estudos,
Soihet (1997; 2007) e Pedro (2007), das quais extraímos considerações significantes
para a pesquisa.

CONSTRUINDO ESTUDOS SOBRE A MULHER NO CAMPO HISTORIOGRÁFICO


É importante, inicialmente, demarcar o lugar de onde estamos falando, o campo
historiográfico que deu vazão aos estudos voltados ao cotidiano, as vivências comuns,
aos entraves sociais e suas interseções. O panorama trazido por Castro (1997) acerca
da História Social, pontua sua consolidação pela aproximação do campo à Antropologia
após a colocação cunhada por E. P. Thompson, em 1966, sobre uma “história vista de
baixo”, que sutilmente ultrapassou os parâmetros de ativismo operário, para um amplo
conceito de experiência das pessoas comuns, que até então, estavam apagados da
história tradicionalista.
Sendo assim:

Tal postura implicou profundas reavaliações metodológicas. Que


fontes utilizar para dar voz às pessoas comuns? (...) O uso antropológico
de fontes ligadas à repressão, como os processos da inquisição,
inquéritos policiais e processos judiciais, tem-se mostrado
extremamente fértil. O contínuo questionamento em relação a até que
ponto as fontes oriundas da repressão nos podem revelar algo sobre a
experiência daqueles que interrogam, para além da lógica dos
interrogadores, tem produzido análises progressivamente menos
ingênuas e mais criativas. (CASTRO, 1997, p. 51)

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No entremeio de reviravoltas da História, especialmente após a década de 1960,


a amplitude de campos que emergem da História Social trouxe, para primeiro plano,
temáticas e grupos sociais até então excluídos do seu interesse, o que contribui para o
desenvolvimento de estudos sobre as mulheres, como aponta Soihet (1997). É preciso
deixar claro que, muito embora fosse um cenário de emergência de vozes silenciadas
pela historiografia, a História das Mulheres não foi estruturada de uma vez, como num
rompante. Para Soihet, o marco para a sua incorporação deu-se a partir da Escola dos
Annales, entendendo que, mesmo que “as mulheres não fossem logo incorporadas à
historiografia pelos Annales, estes, porém, contribuem para que isto se concretize num
futuro próximo” (SOIHET, 1997, p. 296).
Os avanços dentro do campo de discussões sobre História das Mulheres são
pontuados por Soihet a partir da década de 1970, onde emerge a figura da mulher
rebelde, que é ativa, que compõe tramas a fim de atingir seus objetivos, desconstruindo
o que muito se discutia até ali, acerca da passividade feminina frente à confrontos e
opressões. A partir disso que se superam os enfoques dicotômicos, convertendo
posturas mais complexas de atuação da mulher.
Apesar da mudança de mentalidades e com ela, as perspectivas de estudos no
campo historiográfico, os estudos esbarram na carência de vestígios produzidos por
mulheres que recontem o seu passado. Embora haja a construção de representações
sobre o feminino nos discursos masculinos, estabelecendo quem são as mulheres e o
que devem fazer. Para Soihet, tais discursos não são a premissa essencial de estudo,
mas acabam possibilitando uma “análise visando a captar o imaginário sobre as
mulheres, as normas que lhes são prescritas e até a apreensão de cenas do seu
cotidiano, embora à luz da visão masculina” (SOIHET, 1997, p. 295).
A autora elucida ainda, que:

Nos arquivos públicos sua presença é reduzida. Destinadas à


esfera privada, as mulheres por largo tempo estiveram ausentes
das atividades consideradas dignas de serem registradas para o
conhecimento das gerações subsequentes. Fala-se das
mulheres, sobretudo, quando perturbam a ordem pública,
destacando-se, nesse caso, os documentos policiais, aliados aos
processos criminais. Constituem-se numa fonte privilegiada de

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acesso ao universo feminino dos segmentos populares, inclusive


através dos seus próprios depoimentos. (SOIHET, 1997, p. 295)

Entrevendo tais inconvenientes quanto ao acesso a esse passado feminino, as


abordagens recorrem a um viés flexível, mirando vestígios que ultrapassem o
silenciamento e a invisibilidade das fontes. Soihet assinala que a renovação teórica dos
estudos históricos, possibilitou o refinamento dos métodos e das técnicas, abrindo um
leque de maior intimidade com aqueles segmentos e a ampliação dos horizontes da
história (1997, p. 296).
Os ditos estudos de gênero que se aventuram nessa discussão sobre as
mulheres, desenvolveram-se tardiamente na disciplina de História, tendo em
comparação as demais áreas das ciências humanas. Soihet; Pedro (2007) argumentam
que:

A trajetória, costumeiramente ‘cautelosa’, dessa disciplina, e o


domínio do campo por determinadas perspectivas de abordagem,
retardaram significativamente o avanço das discussões. Grande
parte desse retardo se deveu ao caráter universal atribuído ao
sujeito da história, representado pela categoria ‘homem’.
Acreditava-se que, ao falar dos homens, as mulheres estariam
sendo, igualmente, contempladas, o que não correspondia à
realidade. (...) Genericamente conhecida como positivista,
centrava o seu interesse na história política e no domínio público,
e predominou no século XIX e inícios do XX. Esta privilegiava
fontes administrativas, diplomáticas e militares, nas quais as
mulheres pouco apareciam. (SOIHET; PEDRO, 2007, p. 283)

As aberturas que acabam impulsionando os estudos enfocados na mulher se


dão a partir do surgimento de perspectivas relativas sobre o conhecimento histórico.
Impulsionada, primeiramente, pela História Social, a preocupação com as amplas
identidades coletivas de grupos sociais excluídos do enfoque historiográfico herdeiro
do século XIX, pluraliza os objetos de investigação histórica, e, nesse bojo, as mulheres
são alçadas à condição de objeto e sujeito da história. (SOIHET; PEDRO, 2007, p. 285)

O TRABALHO COM FONTES CRIMINAIS


Pleiteando um levantamento bibliográfico em torno da sistematização de
pesquisas com processos criminais, seja de abordagem geral ou específica às práticas

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femininas, três obras acabaram sendo essenciais para percorrer tais horizontes: a)
Crime e Cotidiano, de Boris Fausto (2001); b) Mulheres que matam, de Rosemary
Almeida (2001); e c) Práticas Proibidas, organizado por Joana Maria Pedro (2003).
A respeito da primeira obra, identificamos a primeira percepção do autor sobre
os “valores, representações e comportamentos sociais através da transgressão da
norma penal” (FAUSTO, 2001, p. 27). Ele traça um período de criminalidade acentuada
em São Paulo, entendida como consequência da presença maciça de estrangeiros na
cidade. Para Fausto, "se apreendida em nível mais profundo, a criminalidade expressa a
um tempo uma relação individual e uma relação social indicativa de padrões de
comportamento, de representações e valores sociais" (FAUSTO, 2001, p. 27).
Em sua obra, ele coloca questões como:

Ao lidarmos com o crime estaríamos lidando com uma relação


individual aberrante, pouco expressiva dos padrões de conduta
ou das tensões reais de uma determinada sociedade? A história
da criminalidade seria quando muito na história do desvio, daquilo
que a sociedade repele intensamente? (FAUSTO, p. 27, 2001)

Seus apontamentos sugerem sutilmente que a História da Criminalidade no


senso comum provoca estranheza. Não é pensada como um tema "digno", por não se
ocupar dos grandes personagens/acontecimentos excepcionais. Embora “se
apreendida em nível mais profundo, a criminalidade expressa a um tempo uma relação
individual e uma relação social indicativa de padrões de comportamento, de
representações e valores sociais” (FAUSTO, 2001, p. 27).
Fausto então justifica que:

O processo penal como documento diz respeito a dois


'acontecimentos' diversos: aquele que produziu a quebra da
norma legal e um outro que se instaura a partir da atuação do
aparelho repressivo. Este último tem como móvel aparente
reconstituir um acontecimento originário, com o objetivo de
estabelecer a 'verdade' da qual resultará a punição ou a
absolvição de alguém. (FAUSTO, 2001, p. 31)

Colocação essa que, corrobora com a ótica de Mauch (2013), que trata o texto
judiciário como fruto de “um produto social, profissional e político, sendo assim, como
tal, deve ser analisado” (MAUCH, 2013, p. 8). Nesse ínterim, deve-se tomar como base

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que os depoimentos que ali constam, não devem ser entendidos, tampouco
incorporados, de modo ingênuo e verossímil. Pois como a própria autora aponta, esses
trâmites processuais acabam compondo um intricado mosaico, a qual cabe ao
pesquisador, um conhecimento prévio das condições específicas de produção, para que
não caia em armadilhas errôneas em suas análises.
Como base para mediar o trato com fontes criminais em geral, podem ser
agregadas a discussão, as contribuições de Barros (2012), entendendo que suas
colocações oferecem subsídios pertinentes à abordagem da pesquisa. Barros dialoga
com um conceito de fontes dialógicas, que segundo definição, trata-se de “um texto
histórico que contém diversas vozes sociais” (BARROS, 2012, p. 9), sejam elas diretas
ou indiretas. O conceito aplica-se especificamente a fontes de cunho criminal ou
inquisitórias, onde diversas vozes emergem, sejam direta ou indiretamente, elencadas
pela figura do escrivão, por exemplo, em fontes criminais. Ou seja, onde envolva um
esforço de compreensão da fala de um outro, mesmo em torno disso, haja uma
manipulação da fala. Para melhor identificar esse tipo de fontes, basta elucidar a ideia
de interposição de mediadores ao longo do texto. Para ele, essa nova fase da História
composta por uma gama extensa de possibilidade de fontes, faz com que,
pesquisadores e especialistas flexionem e reelaborem metodologias diversas para o
tratar adequado do ofício do historiador.
Sobre a obra “Mulheres que matam”, é preciso elucidar sua apresentação sutil e
essencial no entendimento das mentalidades dessas mulheres que matam. A socióloga
Rosemary Almeida constitui essa obra como sua tese de doutorado, cuja estrutura
esmiuça desde as fronteiras dos perfis dessas mulheres transgressoras, traçando por
vezes, discussões que subentendem mecanismos de resistência às estruturas de
repressão (ALMEIDA, 2001).
A respeito da obra “Práticas Proibidas”, mencionada nessa breve revisão
bibliográfica, agregamos a composição organizada por Joana Maria Pedro, proveniente
de um grupo de pesquisas iniciado na década de 1990, na região sul do Brasil, que
investigava essas práticas antigas, de aborto e infanticídio. O seleto conjunto de artigos
reunidos acaba contribuindo de maneira convicta, tanto no entendimento das
construções sociais e históricas em torno dessas práticas, como aponta caminhos que
já foram traçados com o uso de fontes semelhantes, de modo que, demonstram novas
possibilidades de trajetórias a serem exploradas (PEDRO, 2003).

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Nesse sentido, as análises se interpuseram levando em consideração, as


colocações de ambos os autores, tangenciada pelo olhar atento e apurado aos silêncios
das fontes. Entendendo que nas ausências também se formulam hipóteses e
problemáticas.

UM ESTUDO DE CASO SOBRE MULHERES TRANSGRESSORAS


Como já foi dito anteriormente, as análises centraram-se em mulheres
transgressoras que feriram a moral imposta pelas estruturas de poder, cerceando
através dos filtros críticos do historiador, os discursos que moldam seus
comportamentos. Eventualmente, o interesse, migrou para uma tentativa de
entendimento acerca da subversão de espaços através de suas práticas criminosas,
decorrente do rastreamento submetido ao conteúdo das fontes, contextualizando um
discurso engessado e sem muitas margens para uma análise mais imagética.
Metodologicamente, fez-se um rastreamento dentro do acervo do Labordoc,
selecionando fontes, em primeiro momento, de anos diversos, sem prender-se a um
dado recorte temporal, muito embora, a tipologia tenha se centrado em crimes
inerentes ao feitio feminino, comumente atribuído pelo senso comum ao caráter
vingativo e sórdido, como envenenamentos, ou inerentes à maternidade, como
infanticídios. Feito a seleção de fontes, a etapa seguinte alternou-se entre leitura e
transcrição dos processos, com posterior análise, tomando-os como estudos de caso.
Ao todo, foram escolhidos quatro processos, sendo três de Infanticídio e um de
envenenamento, ocorridos entre os anos de 1922 a 1942, no território das Comarcas de
Caicó e Jardim do Seridó. Muito embora a tipologia criminal se alterne, as fontes
vinculam-se tanto por serem crimes cometidos por mulheres, como também, pela visão
da Justiça sobre suas práticas criminosas, cerceando um discurso moralista e
reprovador, o que reflete também, as mentalidades da época de produção dessas
documentações.
Sendo assim, temos em ordem cronológica, as fontes. A primeira é um auto de
Infanticídio, datado em 1922, cuja ré chama-se Elídia Maria da Conceição, que na época
residia no “Sítio Volta”, situado no distrito de Ouro Branco, município de Jardim do
Seridó.31 A segunda fonte, um auto de crime de envenenamento, no ano de 1937, de

31 LABORDOC/FCJS/PC/Cx. 252. Auto do crime de Infanticídio.1922. Ré: Elídia Maria da Conceição.

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autoria de Rosenda Maria da Conceição, que residia no Sítio Recanto, município de


Caicó.32 A terceira, um auto de Infanticídio, do ano de 1938, de autoria de Francisca Maria
da Conceição, até então residente no Sítio Riachão, município de Jardim de Piranhas.33
A quarta e última fonte, também um auto de infanticídio, data do ano de 1942, de autoria
de Sebastiana Maria da Conceição, que residia dentro do perímetro urbano da cidade de
Caicó.34
Um elo estabelecido, até de modo curioso, devido à semelhança dos nomes das
rés, pela repetição do sobrenome “Maria da Conceição”. Muito embora, na prática, não
denote muitas explicações, sugerindo que tal conexão se desdobra apenas pelos
nomes serem bastante usados nas regiões, especialmente nas zonas rurais, onde os
núcleos familiares cresciam consideravelmente e perpetuavam o sobrenome de forma
exponencial.
Quanto aos apontamentos encontrados após as análises, as quatro fontes
acabaram agrupando-se pela semelhança dos locais de práticas criminosas, como pelo
caráter de resistência velada inerentes aos seus atos. Elucidando brevemente o teor de
cada fonte, temos o envenenamento praticado contra a sogra e o marido da ré, por
motivos até então, incertos na documentação, embora seja possível rastrear uma
relação conturbada entre os envolvidos, especialmente entre Rosenda e a mãe de seu
marido. Quanto aos três infanticídios, seja no auto de denúncia ou no andamento do
processo, o padrão de recorrência dos crimes vincula-se à tentativa de encobrir a
desonra dessas mulheres, tendo em vista que essas crianças seriam frutos de
defloramentos.
Elídia, Francisca e Sebastiana eram jovens com idades em torno de 18 e 21 anos,
onde com exceção de Sebastiana, a figura da família não é mencionada nos processos,
denotando hipóteses de uma vivência marcada por essa ausência familiar. O que
também provoca especulações no sentido de que, no recorte temporal da época, entre
décadas de 1920 e 1940, no interior do sertão, se a estrutura patriarcal já infligia sobre
jovens de boa família uma opressão quanto ao resguardo do corpo e
consequentemente, da honra, quem dirá como esse sistema de controle incidente sobre

32 LABORDOC/FCC/PC/Cx. 309. Auto do crime de Envenenamento.1937. Ré: Rosenda Maria da Conceição.


33 LABORDOC/FCC/PC/Cx. 210. Auto do crime de Infanticídio. 1938. Ré: Francisca Maria da Conceição.
34 LABORDOC/FCC/PC/Cx. 230. Auto do crime de Infanticídio. 1942. Ré: Sebastiana Maria da Conceição.

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o feminino agiria sobre jovens que eram desvirginadas e largadas, carregando dentro
de si, um resquício que a marcaria perante aos meios sociais que estava ligada.
O intuito desse estudo não almeja a busca de inocentes ou culpadas. Muito
embora, o peso das sentenças influa diretamente nos resultados das análises, tendo
em vista que, toda a estrutura do processo se concentre num cenário duo, logo, os
discursos modulam-se e ganham rumos característicos, como o uso de adjetivos
pejorativos em relação às rés e apelativos quanto às vítimas, especialmente pela figura
do promotor público, enquanto um sujeito que cumpre seu papel dentro das
engrenagens jurídicas, quanto a busca e condenação das culpadas.
Ao realizar pesquisas tendo como fontes documentos de cunho criminal, o
historiador habitua-se a construir análises profundas no campo das sensibilidades,
entendendo que, cada aproximação com os processos possibilita um novo modo de
interpretação, mesmo que se volte à mesma fonte ao longo do tempo, os filtros críticos
de análise continuam renovando-se sistematicamente.
O trabalho realizado acabou demonstrando como o discurso da Justiça
acompanha e se une à moral social, essa afirmação atesta-se logo na leitura das
páginas finais do processo da ré Elídia, onde a acusação que pesa sobre seus ombros, é
retirada ao se constatar que a criança, se viva, carregaria consigo a vergonha da mãe
perante as relações sociais em que estava inserida. Bem como, os atos de Francisca e
Sebastiana passam a ser relatados de modo menos pejorativo nos processos, quando
ambas passam a aparecer como casadas, com seus respectivos defloradores, sob a
concepção de que, ao entregar sua virgindade enquanto solteira, sua honra só se
reestabeleceria através do matrimônio35.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho de pesquisa com fontes criminais proporciona a construção de um
horizonte de possibilidades de estudo sobre a temática, centradas, em suma, nas
histórias do cotidiano. Favorece ainda, a identificação de fatores sociais latentes nos
arquivos judiciários, seja por meio do discurso marginal feminino, seja pelos espaços
rurais resinificados enquanto cenários propícios a práticas transgressoras, ou ainda,
como esses documentos refletem um tipo de pensamento da sociedade que os produz,

35 Afirmativa trazida por Estacheski (2010).

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erigido em questões como: Quem pune? Como pune? Por que pune? Logo, é de se
pensar que, as abordagens nunca se findam, entendendo que, seus entremeios não são
necessariamente fáceis de compreensão, especialmente no encargo interpretativo de
seus conteúdos. Não deve se tratar com leviandade suas estruturas, tampouco ler
ingenuamente o relato transmitido por terceiros, entendendo que discursos de poder
se constroem em todo lugar, inclusive no aparelho jurídico.
As análises se interpuseram levando em consideração as colocações do
aparelho jurídico sobre as práticas transgressoras da moral social e a partir de
desfechos dos processos, identificou-se os subterfúgios discursivos da Justiça.
Atestou-se que, através de fontes criminais, é possível compreender os elementos de
motivação sobre os modos de agir e pensar do ato criminoso. Como também viabilizou
uma delimitação da visão político-social da Justiça sobre esses agentes sociais. Sendo
assim, confirmou a relevância de tais documentos, ligados ao Poder Judiciário, como
importantes fontes para a reconstrução do cotidiano nas Comarcas de Caicó e Jardim
do Seridó, na primeira metade do século XX.

FONTES
LABORDOC/FCJS/PC/Cx. 252. Auto do crime de Infanticídio.1922. Ré: Elídia Maria da
Conceição.
LABORDOC/FCC/PC/Cx. 309. Auto do crime de Envenenamento.1937. Ré: Rosenda
Maria da Conceição
LABORDOC/FCC/PC/Cx. 210. Auto do crime de Infanticídio. 1938. Ré: Francisca Maria
da Conceição.
LABORDOC/FCC/PC/Cx. 230. Auto do crime de Infanticídio. 1942. Ré: Sebastiana Maria
da Conceição.

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de fontes primárias. Porto Alegre: Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul,
2013. p. 17-31.

SOIHET, Rachel. & PEDRO, Joana Maria. A emergência da pesquisa da História das
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SOIHET, Rachel. “História das Mulheres”. In: CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo
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1997. pp. 275-296

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Simpósio Temático 3
PROFHISTÓRIA:
CAMINHOS DA PESQUISA EM ENSINO DE HISTÓRIA
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A UTILIZAÇÃO DE MEMES NO ENSINO DE HISTÓRIA A PARTIR


DO ENSINO HÍBRIDO

Alessandra Michelle Alvares Andrade36

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Este trabalho é parte de uma dissertação de Mestrado em Ensino de História –
ProfHistória37 - desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
e tem por objetivo discutir a utilização de memes no Ensino de História dentro da
perspectiva do Ensino Híbrido. O intuito é tornar o processo de ensino-aprendizagem do
componente curricular de História atrativo e dinâmico a partir de uma abordagem
didática diferenciada que chame a atenção do alunado, a partir do humor contido nos
memes, para as aulas de História utilizando metodologias ativas de aprendizagem
como o Ensino Híbrido38. Desta forma, o Ensino de Historia tende a tornar-se
significante, uma vez que passa a estabelecer conexões entre os conteúdos escolares
tratados na escola e a vida do aluno.
Partindo do pressuposto que ensinar não é apenas transferir conhecimento39,
mas criar as possibilidades para a sua “produção ou construção”, acreditamos que
educadores e instituições educacionais precisam buscar métodos e caminhos possíveis
para despertar nos alunos o interesse por desenvolver os conhecimentos históricos
dentro e fora de sala de aula, na tentativa de possibilitar que o Ensino de História seja
significativo e significante, considerando os estudantes como sujeitos ativos de
aprendizagem e que trazem para o ambiente escolar, experiências e saberes adquiridos
em suas vidas cotidianas e em ambientes variados de interação.

36 Universidade Federal do Rio Grande do Norte


37 O ProfHistória Mestrado Profissional em História, é um programa de pós-graduação stricto sensu em
formato semipresencial em Ensino de História, criado e aprovado em 2013 pela Coordenação de
Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação. Este programa tem por
objetivo proporcionar formação continuada aos docentes de História da Educação Básica, com o objetivo
de dar qualificação certificada para o exercício da profissão, contribuindo para a melhoria da qualidade
do ensino.
38 As metodologias de Ensino Híbrido e Sala de Aula Invertida serão explicadas e discutidas no segundo

capítulo desta dissertação.


39 Paulo Freire no livro Pedagogia da Autonomia defende a ideia que um dos saberes indispensáveis ao

educador, que deve assumir o lugar de sujeito participativo da produção do saber, é que ensinar não é
transferir conhecimento, mas criar meios para sua produção. Defende ainda que o processo educativo
constitui-se de uma troca onde quem ensina também aprende e vice e versa.

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A opção por trabalhar com recursos didáticos midiáticos40 e de metodologias


ativas41 ocorre a partir da observação do hábito dos alunos no que se refere ao uso
constante de tecnologia, celulares e de redes sociais, sendo o compartilhamento de
memes bastante usual entre os jovens. Por entender que a sociedade atual está
inserida no mundo digital, percebemos a importância da inclusão de recursos
tecnológicos e virtuais no processo de ensino-aprendizagem como parte do
desenvolvimento da formação cidadã, através de sua apropriação crítica e criativa. Por
outro lado, a significativa repercussão que esta temática tem alcançado no cenário
nacional42 e no ambiente acadêmico43 despertou o interesse por utilizar esta
ferramenta virtual como um instrumento para promover o Conhecimento Histórico,
mediante a metodologia de Ensino Híbrido. Desta forma, acreditamos que ao trabalhar
com análise e produção de memes, o professor contribui para a formação de alunos
críticos e criativos, contribuindo para a formação cidadã, possibilitando que este atue
como sujeito histórico.

OS MEMES
O universo vivenciado pelo jovem do século XXI está inserido no mundo virtual
através das séries, vídeos, jogos, redes sociais, entre outros. O intenso contato com os
meios digitais e de comunicação acabam produzindo impactos sociais que são
refletidos também em sala de aula. Por outro lado, os recursos midiáticos na atualidade
não se limitam ao entretenimento. Nossa sociedade está cada dia mais conectada: no
transporte público, nas agências bancárias, nas informações, comunicações e tantos
outros. Por tanto, a apropriação dos recursos técnicos e virtuais são fundamentais para
o amplo desenvolvimento da vida em sociedade, que neste trabalho, usamos os memes
como ferramenta e elo entre este universo digital e a sala de aula.
Um meme é composto por uma imagem com texto curto, contendo ou não
humor, que apresenta certa carga interpretativa e que possui intencionalidade
relacionada a pessoa ou grupo que o produz. Apesar da temática desse trabalho ser

40 Recursos didáticos midiáticos podem ser entendidos como ferramentas tecnológicas e virtuais que
podem ser utilizadas a favor da educação.
41 As metodologias ativas utilizadas nesse trabalho são: Ensino Híbrido e Sala de Aula Invertida que será

abordado no segundo capítulo.


42 Os memes têm sido matéria de artigos na internet, jornais, revista eletrônicas e na mídia aberta.
43 Como exemplo da importância dos memes na esfera acadêmica, podemos citar o Museu do Meme

criado pela Universidade Federal Fluminense.

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apresentada como algo recente nas discussões do cenário nacional e acadêmico,


observa-se que seu conceito vem sendo discutido há algum tempo. De acordo com
Sandra Henriques, originalmente o termo Meme foi citado em 1976 pelo britânico
Richard Dawkins, que associou seu conceito à biologia, comparando a capacidade de
replicação do meme ao gene. Para ele, por definição um meme é uma ideia,
compartilhamento ou estilo que apresenta a capacidade de se multiplicar, sendo
transmitido de pessoa pra pessoa dentro de uma cultura. O meme seria “o ‘gene’ da
cultura”. (HENRIQUES, 2007, p. 7). Com o desenvolvimento das tecnologias, ele
funciona atualmente como uma unidade para transporte de ideias ou símbolos culturais
que podem ser transmitidos e multiplicados através da internet.
O conhecimento coletivo, apontado na teoria de Dawkins, de acordo com a
análise de Brito, é transmitido principalmente pelo compartilhamento das ideias pela
repetição. Porém, este conhecimento expresso na forma de memes, é potencializado
através dos meios de comunicação digital espalhando-se rapidamente, seja por e-mail,
blog, fórum, redes sociais, mensagens ou sites de vídeos. Para Dawkins, do mesmo
modo que o gene busca produzir cópias de si mesmo de uma geração para a outra, as
ideias também atuam de forma a dominar o maior número possível de pessoas capazes
de reproduzi-la, buscando assim a sobrevivência dentro das sociedades. No
pensamento deste autor, se o gene é uma unidade de informação biológica, o meme
seria uma unidade equivalente no campo cultural. (BRITO, 2013, p. 6).
Como desenvolvimento tecnológico, os memes foram tornando-se mais
populares através das redes sociais, ganhando destaque entre o público em geral e
despertando o interesse dos pesquisadores que procuraram classificá-lo. Felipe
Aristimuño (2014), em sua pesquisa sobre “Educação visual e mídia social – a criação e
propagação de memes em redes sociais, no desenvolvimento da subjetivação e
identidade adolescente na lusofonia”, afirma que os memes podem ser definidos como
uma entidade de informação digital, criada e propagada em escala global nas mídias
sociais, capaz de romper fronteiras sem perder a habilidade de conservar e criar
características específicas de grupos, forjando identidades contemporâneas. Ele é um
objeto que convida à ação criativa coletiva, tomando o produto virtual como obra aberta
e em constante processo de construção e disseminação em rede. A imagem abaixo pode
exemplificar um meme.

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Meme Descartes no face. Disponível em: https://aviagemdosargonautas.net/2015/08/21/humor-


agucado-alvo-uso-de-telemoveis-iv/. Acesso em 18 mai. 2018.

Atualmente os memes têm ganhado um local de destaque vinculado nas redes


sociais, nas mídias e na vida das pessoas. Não é difícil acessar uma página qualquer de
um navegador da internet e ver um desses elementos em destaque com as mais
variadas temáticas. Nas redes sociais, eles também se fazem presentes quase que
diariamente, sendo compartilhados, arrancando risadas e até gerando discussões.
Geralmente, sua principal característica é a presença evidente de humor. Porém, está
nova forma de comunicação midiática tem alcançado esferas de discussões que
ultrapassam o simples elemento humorístico e passam a abordar discussões mais
amplas como política, literatura, aspectos sociais, históricos e educacionais.
Os memes são elementos que possibilitam múltiplas abordagens,
interpretações e intenções, dependendo do objetivo com o qual é elaborado. Nas rede
sociais (Whatsapp, Facebook44, Twitter45, Instagram46, Tumblr47, etc.) eles se
espalham com grande facilidade e em algumas ocasiões esses conteúdos podem estar
vinculados a ideias ou (pré) conceitos por meio de imagens e frases curtas. Em sua
grande maioria, os memes que são produzidos corriqueiramente e circulam na internet,

44 Facebook é uma rede social lançada em 2014. Fonte: <https://www.significados.com.br/facebook/>.


Acesso em 05 nov. 2017.
45 Twitter é uma rede social e servidor para microblogging, que permite aos usuários enviar e receber

atualizações pessoais de outros contatos, em textos de até 140 caracteres. Fonte:


<https://www.significados.com.br/twitter/>. Acesso em 05 nov. 2017.
46 Instagram é uma rede social de fotos para usuários de Android e IPhone. Fonte:

<https://canaltech.com.br/redes-sociais/o-que-e-instagram/>. Acesso em 05 nov. 2017.


47 Tumblr é uma plataforma de blogs que funciona como espaço para compartilhar vídeos, imagens,

textos, músicas e gifs. Fonte: <http://www.techtudo.com.br/dicas-e-tutoriais/noticia/2016/06/o-que-e-


tumblr.html>. Acesso em 05 nov. 2017.

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não possuem finalidades acadêmicas, tendo como principal objetivo extrair risadas de
quem os vê.
Em função do potencial de comunicação deste elemento virtual, alguns estudos
estão sendo desenvolvidos como o intuito de atribuir ao meme caráter pedagógico. Na
Universidade Federal Rural de Pernambuco UFRPE, por exemplo, está sendo
desenvolvida uma pesquisa sobre análise de memes históricos de internet em páginas
do facebook pelo professor Silvio Cadena48. Ele conceitua os memes como sendo
“imagens estáticas associadas a textos ou não, ou o texto em formato de imagens (gif,
png, jpeg) que foram produzidas e circuladas em redes sociais [...] sejam eles dotados
ou não de humor”. (CADENA, 2017, p. 7). Também podemos encontrar trabalhos que
envolvem o uso de memes na matemática49 e no estudo da língua portuguesa50 por
exemplo. No campo educacional, de maneira geral, os memes podem ser usados de
forma multidisciplinar, como foi citado no artigo publicado na página do UOL
Educação51 do dia 16 de agosto de 2017, cujo título era: “Está estudando memes? Eles
também podem ser colocados no ENEM”, no qual a autora Ana Carla Bermúdez fala das
possibilidades do aparecimento dos memes no Exame Nacional do Ensino Médio, uma
vez que essa ferramenta midiática possibilita a elaboração de questões que exijam do
aluno o senso crítico além do domínio de conceitos fundamentais da língua portuguesa
como polissemia, homonímia, conjunções e duplo sentido. Esta reportagem aponta
para o uso de elementos do universo virtual, memes e redes sociais, no processo
educativo.
Os memes podem ser produzidos com finalidades diversas, por pessoas ou
grupos. Eles podem ser expressão do contexto social, mas também podem ser uma
forma de influência, que favorecido pela dinâmica do universo virtual, propaga-se
rapidamente pela sociedade. Desta forma, a apropriação e a utilização de memes como

48 Silvio Cadena, mestrando da Universidade Federal Rural de Pernambuco que pesquisa os memes de
internet em páginas do Facebook que envolvem as relações entre História Pública e a Escolar.
49 Memes e educação matemática: um olhar para as redes sócias. Disponível em:
http://www.sbem.com.br/enem2016/anais/pdf/5825_2391_ID.pdf. Acesso em 18 maio. 2018; Um
retrato da matemática segundo os memes: potencialidade para o ensino-aprendizagem. Disponível em:
http://tecedu.pro.br/wp-content/uploads/2015/12/Art14-vol13-dez2015.pdf. Acesso em 18 mai. 2018.
50 O Ensino de Língua Portuguesa por meio de memes. Disponível em:
https://www.editorarealize.com.br/revistas/sinalge/trabalhos/TRABALHO_EV066_MD1_SA16_ID965
_13032017153321.pdf. Acesso em 21 mai. 2018; O Gênero meme nas aulas de Língua Portuguesa.
Disponível em: http://seer.unipampa.edu.br/index.php/siepe/article/view/19446. Acesso em 21 mai.
2018.
51 Disponível em: https://educacao.uol.com.br/noticias/2017/08/16/esta-estudando-memes-eles-
tambem-podem-ser-cobrados-no-enem.htm. Acesso em 18 ago. 2017.

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recurso didático-pedagógico apresentam-se com potencialidades para o


desenvolvimento do processo educativo, favorecendo a construção do Conhecimento
Histórico pelo aluno com auxílio e supervisão do professor, mediante o uso dos
recursos tecnológicos disponíveis – smartphones, por exemplo.
A utilização dos memes em sala de aula subtende a associação de metodologias
tradicionais, como uso de livro didático e aula expositiva, bastante utilizada por boa
parte dos professores de escolas públicas, com os recursos disponibilizados pela
tecnologia e internet através dos celulares dos alaunos. Esta associação é a base da
metodologia ativa denominada de Ensino Híbrido.

TECNOLOGIA E ENSINO
Não se pode negar que vivemos em um mundo digital no qual a tecnologia faz
parte do nosso cotidiano, dentro e fora das escolas. Por estar imerso em uma sociedade
digital, o aluno precisa incluir-se nela de maneira autônoma e consciente, devendo a
escola contribuir para esta inserção. Cabe a escola a função de instrumentalizar os
jovens para o uso social e crítico-cidadão das ferramentas digitais e virtuais, as quais já
fazem parte de suas vidas, sem serem dominados por elas, assumindo o protagonismo
de suas ações midiáticas, para que eles não sejam apenas receptores e replicadores de
conteúdos digitais online. Mas também que os alunos possam exercer o senso crítico e
criativo sobre o universo virtual com o auxílio do Ensino Híbrido e do trabalho com
memes. José Moran (2015) defende a importância da busca por modelos educacionais
mais eficientes, superando os modelos conteudistas, para que a educação possa ter
maior relevância para o jovem.
Uma das alternativas para que o Ensino de História seja relevante e significante
para os estudantes do Ensino Básico é a utilização das tecnologias digitais na educação,
uma vez que elas fazem parte do cotidiano deles e têm proporcionado alterações na
escola, na sala de aula e nas relações entre os alunos e o professor. Por outro lado, o
simples uso de dispositivos como projetores de imagem, lousa eletrônica e
computadores nas escolas, não garante que o processo de ensino-aprendizagem tenha
se modificado, esteja dinâmico ou significativo para o aluno. No que se refere ao Ensino
de História, o processo de aprendizagem torna-se significativo quando oportuniza o
desenvolvimento de habilidades que os alunos possam desenvolver durante a vida

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escolar e que lhes dê condições para operar e entender o pensamento histórico


(MILIAN, 2013, p. 2).
A internet exerce atração ao estudante do Ensino Fundamental em função da
disponibilidade de recursos de entretenimento, informação, conhecimento,
comunicação e formação que se torna possível através das ferramentas virtuais.
Segundo José Moran, ela se faz presente na vida dos jovens devido a possibilidade de
descobrir endereços novos, de divulgar suas descobertas, pela disponibilidade de
jogos, vídeos e séries e pela comunicação em redes sociais, sendo “a mídia mais
promissora desde a implantação da televisão. (...) Mas também [em algumas ocasiões,
o aluno] pode perder-se entre tantas conexões possíveis, tendo dificuldade em escolher
o que é significativo, em fazer relações, em questionar situações problemáticas.”
(MORAN, 1997, p. 1-2).
Através da internet é possível fazer uso de metodologias ativas52 na educação,
as quais podem oportunizar o protagonismo juvenil ao mesmo tempo em que o
professor, trabalhando os conceitos e conteúdos históricos, pode significar e
ressignificar o Conhecimento Histórico, estabelecendo relação destes com a vida do
aluno. Tendo em vista que os estudantes não aprendem todos da mesma forma, o
professor pode utilizar as tecnologias digitais como aliada no processo educacional,
para atingir um número maior de alunos e envolve-los no processo de construção do
conhecimento integrando o ensino presencial com elementos online.

ENSINO HÍBRIDO
As metodologias ativas, como o Ensino Híbrido, de acordo com José Valente, são
propostas de práticas pedagógicas que estão em oposição à educação bancária
(FREIRE, 1987). Enquanto nesta o aluno atuava de forma passiva, recebendo as
informações, nas metodologias ativas ele assume uma postura mais participativa. O
Ensino Híbrido é uma metodologia ativa ou um modelo educacional que prioriza o maior
envolvimento do aluno no processo de ensino-aprendizagem. Nesta metodologia, o uso
de tecnologia se faz indispensável em pelo menos em uma das etapas da
aprendizagem, combinando momentos na escola com os vivenciados nos demais
ambientes sociais frequentados pelos alunos. Os recursos que o professor

52Metodologia ativa é uma concepção educacional que coloca o estudante como principal agente do seu
aprendizado, tendo o professor como um orientador do processo ensino-aprendizagem.

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disponibiliza, através do Ensino Híbrido vão além do quadro, dos livros e dos muros da
escola.
Dentre os significados que se pode encontrar a respeito do termo “Híbrido”, tem-
se o entendimento de que é algo formado por elementos diferentes e que se associam.
Abordando em uma perspectiva educacional, seria pensar o processo de ensino de
forma mais fluida, mesclando ou misturando os elementos da sala de aula formal com
os demais espaços de convivência do aluno, em especial os digitais, tornando a
educação mais flexível. Para um entendimento mais simplificado a respeito desta
metodologia, O Clayton Chistensen Institute53 apresenta uma definição ilustrativa de
Ensino Híbrido, conforme figura abaixo:

Definição de Ensino Híbrido. Disponível em: <https://www.pucpr.br/wp-


content/uploads/2017/10/ensino-hibrido_uma-inovacao-disruptiva.pdf>. Acesso em 12 nov. 2017.

A metodologia do Ensino Híbrido foi Criada por Clayton Christensen e Michael B.


Horn54 (2014) e tem como um dos fundamentos a introdução de recursos digitais no
processo educativo. Esta metodologia dispõe de recursos e métodos que estão
disponíveis na forma online, mediante planejamento do professor, para facilitar o
processo de aprendizagem podendo auxiliar no desenvolvimento das competências
cognitivas, como afirma Moran (2015), uma vez que através do uso da tecnologia, torna-

53 O Clayton Christensen Institute, anteriormente chamado Innosight Institute, isto é, programas de


educação formal que combinam o ensino online com escolas tradicionais, enfatiza que no Ensino Híbrido,
pelo menos uma as etapas sejam feitas online.
54 Difundido em maior escala nos Estados Unidos, o Ensino Híbrido chegou ao Brasil através dos seus

criadores em abril de 2014.

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se possível a integração dos espaços e tempos no qual o processo de ensino e


aprendizagem ocorre, entre o mundo físico e o digital. Esta associação entre sala de
aula e ambientes virtuais possibilita integração entre a escola e o mundo.
O Ensino Híbrido não propõe uma mudança radical na metodologia ou no
currículo e sim uma integração com a manutenção do modelo curricular disciplinar,
inclusive com o uso do livro didático, [...] “priorizando o envolvimento maior do aluno,
com metodologias ativas como o ensino por projetos de forma mais interdisciplinar”
(MORAN, 2015, p. 17). Este modelo educacional, em que há a integração das Tecnologias
Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) nas atividades pedagógicas, não é uma
metodologia inédita. Segundo Valente (2014), esta tem proporcionado mudanças no
sistema educacional, sendo uma das modalidades de fundamental relevância tanto no
Ensino Superior quanto na Educação a Distância (EaD).
A popularização de smartphones, linhas telefônicas e acesso a internet tem
chegado às escolas através da utilização crescente desses dispositivos pelos alunos
em sala de aula. A grande maioria das escolas brasileiras ainda não utiliza os recursos
tecnológicos a favor da educação. Quando o faz, não se preocupam com as
metodologias aplicadas. Visando uma maior participação, interação e dinamismo no
processo educacional. Assim, faz-se necessário a busca por novas metodologias que
associem o universo digital, a tecnologia e a educação para que se reduza o abismo
entre o mundo escolar e o universo digital no qual o aluno está imerso.

ENSINO DE HISTÓRIA E MEMES COM ENSINO HÍBRIDO


Para que possa haver mudanças significativas no processo educacional, faz-se
necessário entender as discussões a respeito de como se processa a aprendizagem dos
alunos, no que se refere a metodologia de ensino e ao conteúdo ministrado. No que se
refere à aprendizagem dos conteúdos históricos pelo aluno, de acordo com Itamar de
Freitas, durante algum tempo,

A aprendizagem permanecia como sinônimo de armazenamento de


episódios e histórias de vida com seus respectivos nomes, datas
tópicas e cronológicas. Numa frase: aprender era memorizar. [...]
Constatou-se que os jovens alunos repetiam frases a até narrativas
inteiras que faziam pouco sentido para elas. Na verdade as crianças
(re)significavam informações, os conceitos históricos transmitidos.
Para o professor, entretanto, essa (re)significação não tinha sentido
algum, ou melhor, para os mestres as crianças não entendiam os

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“conteúdos” da forma que os adultos historiadores gostariam que elas


compreendessem (FREITAS, 2010, p.168).

Para Freitas, o estudo de temas históricos que se relacionam com o cotidiano do


aluno e que respondem a questões sociais contemporâneas podem ser melhor
entendido pelos estudantes, oportunizando a aprendizagem histórica. “Somente uma
abordagem pragmática poderia levar os alunos a assimilar os conhecimentos
históricos e a cumprir os objetivos da disciplina: estudar o passado para atribuir (e/ou
reforçar) o sentido da existência humana no presente” (FREITAS, 2010, p. 169).
Já Bittencourt (2011), faz uma abordagem a respeito das metodologias de ensino
de História. De acordo com ela, no que se refere à disciplina escolar Historia, a qualidade
na educação tende a estar associado à necessidade de um ensino mais inovador e
contextualizado, devendo o método de ensino “tradicional” ser substituído por novas
metodologias que se voltarem mais aos interesses dos alunos. Segundo a autora, a
partir do século XX, as várias propostas curriculares elaboradas para o ensino
Fundamental e Médio no Brasil tinham em comum a noção de que o aluno é sujeito
ativo no processo de aprendizagem, a aceitação de conhecimento prévio sobre os
objetos de estudos históricos o qual deve ser integrado ao processo de aprendizagem,
a importância da Historia na formação cidadã. Os dois autores citados enfatizam a
importância dos temas históricos estarem relacionados com a vivência do aluno e que
este precisa ser protagonista do processo de aprendizagem. Assim, utilizando os
memes no processo de aprendizagem, valoriza-se a vivência do aluno fazendo dele
também protagonista da construção do conhecimento.
Um dos objetivos da Educação e do Ensino de História é a formação cidadã. Para
alcançá-la, no contexto social atual, é imprescindível a busca por práticas pedagógicas
que visem tornar o Ensino de História atrativo e dinâmico. Esta proposta se faz possível
neste trabalho, através da análise e produção de memes históricos, utilizando recursos
tecnológicos disponíveis na escola e acessíveis aos alunos, principalmente os celulares.
Consta nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), a seguinte citação:

A Educação Básica de qualidade é um direito assegurado pela


Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Um
dos fundamentos do projeto de Nação que estamos construindo, a
formação escolar é o alicerce indispensável e condição primeira para o
exercício pleno da cidadania e o acesso aos direitos sociais, econômicos,
civis e políticos. A educação deve proporcionar o desenvolvimento

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humano na sua plenitude, em condições de liberdade e dignidade,


respeitando e valorizando as diferenças (DCNs, p.6).

A proposta apresentada neste trabalho não é reinventar o Ensino de História,


mas torná-lo dinâmico e atrativo. Para tanto, é necessário que os alunos sintam
interesse pelas aulas através de metodologias dinâmicas que permitam uma maior
interação e participação entre os alunos, as temáticas trabalhadas e o professor. A ideia
é mobilizar este interesse através do uso de memes históricos que por sua
característica humorística, desperta a atenção dos estudantes, dando início ao processo
de construção do conhecimento.
Como já foi explicitado anteriormente, a partir da analise do uso dos alunos a
respeito dos ambientes virtuais, buscamos mecanismos que pudessem proporcionar a
construção do Conhecimento Histórico de forma atrativa, dinâmica e interativa, na
promoção do pensamento crítico e criativo do jovem cidadão através da utilização
responsável dos recursos tecnológicos. Como o foco deste trabalho é a análise e
produção de memes, estes precisariam de um sitio digital para depósito e que fosse de
fácil manutenção, simples manuseio e organização, um local de informação e interação
entre os alunos e professor. Nossa opção foi a utilização de um blog, muito embora
este espaço virtual possa ser de livre escolha do professor como por exemplo uma
página do Facebook, Instagran, um grupo no whatsapp ou demais espaços virtuais que
possibilitem a interação, desenvolvimento do Ensino Híbrido e depósito dos memes.

ETAPAS DE DESENVOLVIMENTO
No desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, o uso dos memes se
dá em dois momentos diferentes: análise e produção. Na primeira fase, o professor
apresenta os memes já elaborados para análise da imagem de acordo com as etapas
de ensino, podendo ser usado tanto para levantamento de conhecimentos prévios dos
alunos, quanto no decorrer dos temas trabalhados. O material utilizado pelo professor
nesta fase tanto pode ser produzido por ele, quanto retirado de páginas da internet55.
Mediante questões norteadoras, o professor direciona o processo de análise do
material digital, tendo como base o conteúdo trabalhado em sala de aula e oferecendo

Há fanpages que produzem memes históricos como é o caso da “Memes Históricos” e o Museu de
55

Memes da UFF que podem ser usados como fontes para seleção do material virtual a ser usado em sala.

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ao aluno a possibilidade de ampliação de conhecimento através de links, vídeos e textos


complementares disponibilizados no ambiente virtual escolhido para o
desenvolvimento interacional e aplicação do Ensino Híbrido.

No segundo momento
Na segunda fase, após a conclusão das discussões, apresentação de conteúdo,
vídeos, links e demais recursos pedagógicos que serão disponibilizados tanto no livro
didático e aula expositiva, quanto no blog da turma, o aluno elabora o meme com base
no conhecimento adquirido no processo de ensino-aprendizagem, o qual será
compartilhado no blog. Assim, a produção de memes torna-se um feedback do
conhecimento adquirido pelo aluno e ao mesmo tempo uma avaliação de aprendizagem.
Para a produção do meme, o aluno pode utilizar um site gerador de memes, como por
exemplo, o meme Generator, conforme imagem abaixo:

Imagem retirada do site gerador de memes “Meme Generator”.Disponível em:


<https://imgflip.com/memegenerator>. Acesso em 20 jun. 2017.

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Imagem do processo de elaboração de memes retirado do site gerador de memes “Meme Generator”.
Disponível em: <https://imgflip.com/memegenerator>. Acesso em 20 jun. 2017.

Outra opção para a criação dos memes é através de aplicativos de celular, nos
quais o aluno poderá trabalhar de forma on-line e off-line com imagens baixadas da
internet ou do seu dispositivo. A sugestão é utilizar o aplicativo PhotoGrid, conforme
imagem a baixo:

Imagens retirada do aplicativo gerador de memes PhotoGrid.

A escolha pelo Meme Generator e pelo PhotoGrid se deu em função da facilidade


de manuseio e possibilidade de trabalho off-line, no caso do aplicativo para celulares,
de formas que alunos e professores não precisam ter um vasto conhecimento em

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informática ou mídias para elaboração dos memes. Neste trabalho, o processo descrito
está inserido na metodologia de Ensino Híbrido, que é utilizada nas aulas de história e
no ambiente virtual, tendo como produto o blog da turma.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho propunha-se a apresentar uma proposta didático-pedagógica que
utiliza memes históricos como ferramenta didática capaz de tornar o Ensino de História
atrativo e dinâmico. Como o desenvolvimento das pesquisas, constatou-se que o
trabalho com este elemento digital possui amplas possibilidades pedagógicas, muito
embora, este trabalho tenha se detido apenas apresentar uma proposta que enfatizou
apenas a sua análise e produção. Em se tratando da prática pedagógica, a utilização de
memes nas aulas de História pode ser um elemento de atração e identificação dos
alunos possibilitando o estabelecimento de relações entre o currículo escolar e a vida
dos alunos.
A utilização de celulares através de aplicativos, mediante metodologia de Ensino
Híbrido, possibilita que o tempo, que antes era dedicado ao uso dos dispositivos móveis
em redes sociais, seja empregado nas aulas com o intuito de obter
elementos/conhecimento necessário para elaboração dos memes. Perceber a
tecnologia como uma aliada e não um empecilho é apenas o primeiro passo para a
busca de uma educação de qualidade na qual o Ensino de História seja atrativo e
dinâmico em sala de aula e que o processo pedagógico possibilite a aprendizagem
significativa.

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DAS ORIGENS DA DEMOCRACIA NA GRÉCIA ANTIGA AO


MODELO DEMOCRÁTICO CONTEMPORÂNEO: UMA
EXPERIÊNCIA DIDÁTICA CONTEXTUALIZADA NO
ENSINO MÉDIO

Antonio Batista Dantas Neto56*

INTRODUÇÃO
É a partir da Escola Estadual João Henrique Dantas, localizada na cidade de
Carnaúba dos Dantas, que se relata a experiência deste trabalho. Endereçada na rua
José Victor, no Centro da cidade, está sob a superintendência da 9a DIRED. Então, as
linhas escritas a seguir remetem a uma experiência docente, proposta pela atividade de
Estágio Supervisionado III, na turma do 1o ano “B” do ensino médio regular, no
expediente vespertino.
São as disciplinas de Biologia, Química, Física, Matemática, Língua Portuguesa,
Língua Inglesa, Língua Espanhola, Artes, Educação Física, Filosofia, Geografia e História
que compõem o currículo destes estudantes. Sendo programada semanalmente, duas
horas/aula para a disciplina de História, distribuídas no mesmo dia.
O período de observação da turma estava centrado nas discussões do Mundo
Antigo, sendo o momento em que se trata das primeiras formações de civilização desde
o Oriente Médio à África ao norte do Saara, mais especificamente, Antigo Egito. No
cumprimento desses assuntos, o planejamento e a professora-tutora anunciavam o
próximo conteúdo, que seria o da parte de regência, definido pelos regulamentos do
estágio supervisionado. Conteúdo o qual era apresentado como “O mundo grego:
democracia e cultura” (BOULOS JÚNIOR, 2006) no livro didático.
Participaram 28 alunos das atividades. Ocorreram durante um período de
regência de três encontros, somando 2 horas/aula cada encontro semanal. Ocupando
regularmente uma sala de aula, com a disposição de quadro e um projetor multimídia
sempre disponível em seu apoio pedagógico. Todos os estudantes dispõem-se de uma
série de materiais escolares, dentre eles 1 caderno de dez matérias, 1 caderno de
desenho, lápis grafite, canetas, borracha e lapiseira.

56 Graduando em Licenciatura em História (UFRN – Centro Regional de Ensino Superior do Seridó),


iniciado no ano de 2015 no campus situado em Caicó – RN. Atualmente reside na cidade de Carnaúba dos
Dantas – RN. E-mail para contato: antonioneto11@hotmail.com

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Este trabalho também é pautado na crítica das poucas discussões pleiteadas à


Avaliação, que pela raridade ou pelo desinteresse, nos fazem conviver com uma
definição confusa ou rasa, até mesmo num curso de licenciatura. Definição esta que nos
aproxima de práticas pedagógicas polarizadas entre provas e exames, mas nos
aproxima tanto que estes instrumentos chegam a ser sinônimos de avaliação.
É fato que a história da avaliação é muito mais recente do que a história dos
exames, sendo esta notada, pelo menos, desde os séculos XVI e XVII, e por mais que a
LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) de 1996 já referencie “avaliação
da aprendizagem”, nota-se um investimento muito maior nos exames.
Partindo do princípio em que a classificação e a seletividade do educando
inspiram o ato de Examinar, é pelo diagnóstico e pela inclusão do educando que
desenvolvemos o ato de Avaliar, bem como defende Luckesi (2011) quando afirma: “O
educando não vem para a escola para ser submetido a um processo seletivo, mas sim
para aprender e, para tanto, necessita do investimento da escola e de seus educadores,
tendo em vista efetivamente aprender.”(p.29). Disso, a necessidade de ponderarmos as
relações do instrumento de coleta de dados com a atribuição de notas, e a sensibilidade
da avaliação dos processos de aprendizado.
A Contextualização é uma abordagem aproximadora do estudante com o
conteúdo em questão. É um esforço didático pelo ensino por objetivos, ainda mais pelo
desenvolvimento de senso crítico, para fundamentar a ideia de que a educação é um ato
político. Desde a organização do conteúdo, o planejamento, até a delimitação das
estratégias em prol do aprendizado. Então dividimos nosso plano, basicamente, entre
momentos de exposições dialogadas, exercícios referentes as informações do
conteúdo, simultaneamente a uma simulação de poder de voto pelos dilemas da turma,
para culminar com um escrito de autoria dos estudantes, num exercício de correlacionar
o conteúdo ministrado com a experiência democrática e seu conhecimento de mundo.

METODOLOGIA
Foi pelas ideias de democracia que o experimento se direcionou. Pelos preceitos
e pela complexidade do modelo antigo ao contemporâneo que inspiraram nossas
atividades. Então, desde o primeiro encontro ocorre uma eleição de um único
presidente, em formato de assembleia de maioria simples, a qual, cada estudante,
levantando a mão, representava a soma de voto ou até mesmo anulação do mesmo.

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Eleito então este presidente na classe, teria ele poder de decisão sobre dilemas,
ainda mais a atribuição de valores classificatórios na entrega de um exercício referente
ao conteúdo, posteriormente proposto. Já no segundo encontro, após a resolução deste
exercício, o primeiro presidente eleito entregaria uma relação dos valores por ele
atribuídos. Classificou assim cada entrega da lista como A, B ou C. Sendo A: a atribuição
da nota mesmo sem ter realizado o exercício por completo; B: atribuição da nota em
questão, somente por ter realizado; C: nota desconsiderada, mesmo realizado o
exercício de maneira desejável.
Após o apontamento do eleito, num segundo momento se define três grupos
baseados nessa classificação, a fim de que o grupo A tenha mais votos em relação ao
B, que por sua vez tem proporcionalmente mais votos para serem distribuídos na
eleição seguinte, como fosse o desenvolvimento aristocrático, no sentido de promover
privilégios a um determinado grupo, que também nos aproxima da nossa democracia
contemporânea, quanto mais indireta, em matéria de legenda.
Agora um processo eleitoral que conta com os cargos de presidente e dois
conselheiros, para que discutam entre si as mesmas atribuições de classe, por fim, até
reformulá-las. Sendo o líder anterior impedido de se candidatar de novo, percebemos
uma rotatividade de poder, e por isso parece ficar mais séria a relação com o
mecanismo.
Ao final do percurso de regência docente, propõe-se uma produção escrita
individual na qual impulsionasse um esforço de correlacionar os conceitos que
envolvem a história antiga ocidental, dentre eles a Democracia, com os caminhos do
experimento em sala de aula, até os sentimentos e expressões de como entendiam
política, antes ou depois do laboratório.
Eram jovens entre 15 e 18 anos que por muito queixavam suas relações com a
urna e a impotência de mudança de cenário político nacional. Porém, escreveram sobre
práticas políticas em sala de aula, e até aproximaram as informações contidas no
assunto com fatos da política de âmbito municipal.

RESULTADOS
Percebemos permanências e alterações na atribuição de classificação, quando
muitos nomes saltaram do conceito C ao A, na transitoriedade de um mandato ao outro,
assim como também ocorreu a inalteração para alguns estudantes.

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Uma temática, ou pelo menos uma palavra, por muito foi o tocante em boa
parte dos trabalhos. A “corrupção” foi retratada em relação a política nacional, mas
também aos meandros do experimento em sala de aula. Expressaram em seus escritos
a notória diferença entre as posturas dos governantes em seus respectivos mandatos
na classe, assim como também consideraram, de forma negativa ou positiva, o voto
nulo.
Houve referências a antiguidade quando percebiam a aproximação e o
distanciamento da Democracia grega com o modelo democrático contemporâneo, se
apropriando da essência dos conceitos que as envolvem, e até as outras contribuições
dos antigos expostas ao decorrer das aulas, como para a matemática e a música. Outra
observação que não pode ser invisível a nossa avaliação, é a de potencial
correlacionadora com alguns fatos da política municipal, como quando escrevem sobre
a participação de minorias de poder às candidaturas, e apontam para o dado das
minorias na Grécia antiga, quase sempre invisibilizadas nos processos democráticos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não deixa de ser um esforço crítico um ensino de História pautado na avaliação
da aprendizagem. A abordagem do diagnóstico e pela inclusão, nos aparece como uma
via para a expressão mais subjetiva do estudante, e para a complexidade da crítica ao
Ato de Examinar, quando “Podemos estar utilizando instrumentos inadequados para
coletar dados sore o seu desempenho, fator que nos conduz a enganos a respeito de
nossos educandos” (LUCKESI, 2011, p. 31) e isso pode nos levar ao reducionismo do
aprovado ou reprovado.
Produzimos num espaço curto de tempo, a partir de um princípio de
diagnóstico, um levantamento de dados referentes as relações desses estudantes
quanto a cidadania e seus sentimentos políticos; da autonomia da expressão através de
um pouco do que pensam história e poderiam dissertar; do potencial do conteúdo
previsto no currículo se apresentar como conhecimento que, minimamente, tenha
sentido em seu cotidiano. Uma atividade que por si só demanda um contato mais
profundo e contínuo à plenitude de seus objetivos.

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REFERÊNCIAS
LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições.
São Paulo. Cortez, 2011. 22a ed.

VERNANT, J.P. 2002. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro, Difel.

BOULOS JUNIOR, Alfredo. O mundo grego: democracia e cultura. História–Sociedade e


Cidadania. 1º ano. Ensino Médio/Alfredo Boulos, 2006.

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Simpósio Temático 4
ÍNDIOS NA HISTÓRIA:
TEMAS E PERSPECTIVAS NO ENSINO E PESQUISA
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(PERÍODO COLONIAL AOS DIAS ATUAIS)


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LEI 11.645/08 NO ENSINO DE HISTÓRIA INDÍGENA DO RIO


GRANDE DO NORTE- POSSIBILIDADES, EXIGÊNCIAS E
DESAFIOS

Kamyla Raphaely Macêdo Monteiro57


Orientador: Lígio José de Oliveira Maia

INTRODUÇÃO
A História das Culturas Indígenas no Brasil precisa ser reescrita, uma vez que
ela sempre foi lembrada como temas de povos existentes apenas na região norte, e o
que é pior, mais precisamente no estado do Rio Grande do Norte, por muito tempo
foram lembrados como povos extintos. Hoje, o seu estudo já é obrigatório em todas as
escolas do ensino fundamental e médio graças a Lei 11. 645/08 e com ela surge os
seguintes desafios, o de como a educação no ensino de história lida ao tratar das
questões étnico/raciais? o de como lecionar sobre estes povos indígenas, se é fácil
constatar que a imensa maioria do professorado na educação básica desconhece a
população indígena em nosso país e nem nunca ouviram falar que atualmente no estado
do Rio Grande do Norte, povos reivindicam o seu reconhecimento indígena? Este
professorado nem ao menos sabe quantos povos brasileiros se autodeclararam índios
no censo IBGE/2010, então, como tratar dos povos indígenas do Rio Grande do Norte,
se no senso comum e no ambiente escolar apenas se conhecem os índios da Região
Norte, quando muito? Considerados portadores de uma suposta ‘cultura pura’esses
índios da região norte, se opõem aos índios da região Nordeste, que sofreram
colonização há mais tempo, sendo que os índios do estado do Rio Grande do Norte não
é uma exceção, assim como os do Nordeste, eles tem suas identidades
sistematicamente negadas e são chamados de ‘caboclos’. Esse termo era bastante
utilizado em meados do século XIX pelos colonizadores e pelas autoridades que
defendiam o fim dos aldeamentos e muito contribuiu para a invisibilização desses
povos indígenas na história. Como se não bastasse, a historiografia local também muito
contribuiu para esse apagamento, com os escritores Câmara Cascudo, Rocha Pombo e
Tavares de Lira, não se tinha dúvida quanto o seu desaparecimento total. Até que

¹ Mestranda em História e aluna do bacharelado em História, já com Bacharelado em Turismo e


Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Especialista em
História e Cultura Afro-brasileira e em Gestão de Pessoas e Formação de Competências.
kamylarmonteiro@gmail.com

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finalmente, no estado do Rio Grande do Norte, surgem trabalhos de Historiadores,


como o de Fátima Martins, por exemplo, revivendo a história desses povos sobre uma
outra óptica, mostrando que os índios ainda vivem no estado, e inspirando a tantos
outros trabalhos que se iniciam e contribuem para a construção da historiografia do
Rio Grande do Norte que ainda engatinha.
Diante do exposto, neste artigo tentaremos mostrar como superar a visão
comumente exótica sobre os povos indígenas do Rio Grande do Norte em sala de aula,
para substituí-la por uma abordagem crítica? Questões como essas, impregnadas de
desinformações, ignorância generalizada, equívocos e, portanto, preconceitos contra
‘os índios’ são grandes desafios para o ensino da história indígena e para as reflexões
sobre esse tema.

Figura 1: A falta de um mapa atualizado com as populações indígenas do Rio Grande do norte expressa
o quanto essa temática indígena ainda espera por investimentos em estudos58.

RECONHECENDO A SOCIODIVERSIDADE INDÍGENA DO RIO GRANDE DO NORTE

58Distribuição geográfica da população indígena urbana e rural no RN de acordo com as informações


obtidas da FUNAI/RN/Censo IBGE 2010 citado por SPINELLI, Ana Cristina. (Coord). (2013, p.9).

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O pouco conhecimento sobre os índios do estado do Rio Grande do Norte, ainda


está de certa forma, vinculado à imagem do indígena que constantemente ainda vem
sendo veiculada pela mídia, a de um ‘índio genérico’, com biótipo formado pelas mesmas
características que correspondem aos índios da região Amazônica, com cabelos lisos,
que estejam nus ou pintados, cheios de adereços, usando penas como enfeites, que
falam outra língua e sejam donos de uma cultura exótica. E ainda, a forma como esses
índios são representados seja na literatura romantizada do século XIX ou na
perspectiva de uma cultura etnocêntrica e evolucionista de uma suposta hierarquia de
raças, sendo chamados de tribos ou romantizados nos termos: “índios belos, ingênuos,
valentes guerreiros, bons selvagens, heróis, ameaçadores canibais ou bárbaros”.
As características acima citadas contribuem para que a imensa maioria da
população do país, mais especificamente a população potiguar mais esclarecida, não
saiba onde estejam os índios do estado do Rio Grande do Norte, uma vez que buscam
neles características que não lhes pertencem. Porém, a visibilidade política conquistada
por estes índios está fazendo com que essa visão ainda existente sobre os indígenas
venha mudando cada vez mais nos últimos anos.
Atualmente e de acordo com Monteiro (2006, p.9) em Etnohistória, Identidade,
Indigesnismo e Etnogênese: Um olhar sobre os Caboclos do Assú/RN, podemos ver que
as Comunidades indígenas do estado do Rio Grande do Norte, são estas: Mendonças do
Amarelão (João Câmara), que por sua vez estão divididos em três assentamentos:
Serrote de São Bento, Santa Terezinha e Assucena; os Eleotérios do Catu
(Canguaretama e Goianinha); Sagi/Trabanda (Baía Formosa); os Tapará (Macaíba); os
Caboclos do Assú59 (Assú); Comunidade do Sítio Trapiá/Olho d’água e da Comunidade
Banguê (ambas também no município de Assú); e Tapuia Paiacu (Apodi).
De acordo com Silva (2012, p.215) o que fez com que a sociedade em geral
(re)descobrisse os indígenas foi as mobilizações destes povos em torno dos debates
para a elaboração da Constituição de 1988 e as conquistas dos direitos indígenas
fixados na lei maior do país possibilitando a garantia de direitos, como a demarcação de
terras, saúde e educação diferenciada e específicas. Já Macedo e Medeiros Neta, na p.
22 vai mais longe, afirmando que as Comunidades no presente estão reivindicando sua
identidade indígena motivadas por um complexo cenário que se descortinou a partir do

59 Assú com SS e acento no U, em acordo com a Lei nº 124 de 16 de outubro de 1845.

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fim dos anos de 1990 e início da década de 2000, onde estes autores incluem eventos
como a comemoração dos “500 anos” do Brasil, bastante criticada e refutada por povos
indígenas do Nordeste e cientistas sociais. Vale salientar ainda que, a divulgação dos
números dos censos do IBGE de 1991, 2000 e 2010 atestando a presença de índios no
Rio Grande do Norte motivou o surgimento de estudos por pesquisadores da UFRN
visando discutir a presença indígena no estado.
Observemos que o mapa do Rio Grande do Norte (Figura 1) apresenta a presença
de povos indígena, embora o número esperado para esta região pudesse ser maior,
podemos interpretá-lo além dos impactos da colonização europeia, a falta de
conhecimento. O índio Gersem Baniwa (2006, p. 49), conforme citado por SILVA (2012,
p.216), escreveu o seguinte sobre a sociodiversidade dos povos indígenas:

A sua diversidade, a história de cada um e o contexto em que vivem


criam dificuldades para enquadrá-los em uma definição única. Eles
mesmos, em geral não aceitam as tentativas exteriores de retratá-los
e defendem como um princípio fundamental o direito de se
autodefinirem.

E ainda, após discorrer sobre as complexidades das organizações sociopolíticas


dos diferentes povos indígenas nas Américas questionando as visões etnocêntricas dos
colonizadores europeus, o pesquisador indígena afirma (SILVA, 2012, p.216):

Desta constatação histórica importa destacar que, quando falamos de


diversidade cultural indígena, estamos falando de diversidade de
civilizações autônomas e de culturas; de sistemas políticos, jurídicos,
econômicos, enfim, de organizações sociais, econômicas e políticas
construídas ao longo de milhares de anos, do mesmo modo que outras
civilizações dos demais continentes europeu, asiático, africano e a
Oceania. Não se trata, portanto, de civilizações ou culturas superiores
ou inferiores, mas de civilizações e culturas equivalentes, mas
diferentes.

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Figura 2: Exemplo da Sociodiversidade Indígena no Rio Grande do Norte:

Fonte: acervo de imagens de Jussara Galhardo60

Ao tratar da chamada identidade cultural brasileira, Gersem (2006, p. 49) apud


SILVA (2012, p.216) conclui que:

não existe uma identidade cultural única brasileira, mas diversas


identidades que, embora não formem um conjunto monolítico e
exclusivo, coexistem e convivem de forma harmoniosa, facultando e
enriquecendo as várias maneiras possíveis de indianidade, brasilidade e
humanidade. Ora, identidade implica a alteridade, assim como a
alteridade pressupõe diversidade de identidades, pois é na interação
com o outro não idêntico que a identidade se constitui. O
reconhecimento das diferenças individuais e coletivas é condição de
cidadania quando identidades diversas são reconhecidas como direitos
civis e políticos, consequentemente absorvidos pelos sistemas
políticos e jurídicos no âmbito do Estado Nacional.

Desta forma podemos entender que afirmar a sociedade indígena, não só no Rio
Grande do Norte, mas também em qualquer lugar do mundo, é reconhecer os direitos

60Coordenadora do Grupo de Estudos da Questão Indígena no Rio Grande do Norte- Grupo Paraupaba-
MCC/UFRN e integrante da Comissão Pedagógica do Museu Câmara Cascudo-MCC/UFRN. Disponível
em: http://indigenasnorn.blogspot.com.br/ Acesso em 22/10/2016.

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às diferenças socioculturais, buscando compreender as possibilidades de coexistência


sociocultural, fundamentada nos princípios da interculturalidade, pois

a interculturalidade é uma prática de vida que pressupõe a


possibilidade de convivência e coexistência entre culturas e
identidades. Sua base é o diálogo entre diferentes, que se faz presente
por meio de diversas linguagens e expressões culturais, visando à
superação de intolerância e da violência entre indivíduos e grupos
sociais culturalmente distintos. (Baniwa, 2005, p.51 apud SILVA 2012,
p.216).

Nesse momento, tanto os Eleotérios do Catú, quanto os Mendonça do Amarelão,


os Caboclos do Assú, os Taparás de Macaíba, dentre as demais outras comunidades
emergentes do estado do Rio Grande do Norte (já citadas acima), estão se (re)definindo
enquanto sujeitos historicamente ativos e politicamente conscientes, uma vez que
manifestam suas insatisfações diante de processos políticos e ideológicos que os
deixaram à margem da sociedade e, por outro lado, da necessidade que têm de tomarem
para si a defesa de uma identidade diferenciada, mostrando que a história indígena do
Rio Grande do Norte está marcada por conflitos e lutas herdadas desde os tempos
coloniais, e está longe de ser feita de desaparecimentos, tornando-se como pontos
fortes da sociedade contemporânea.
Portanto, podemos ver que os indígenas vêm conquistando o (re)conhecimento
e o respeito a seus direitos específicos e diferenciados, e este reconhecimento, exige
também novas posturas e medidas das autoridades governamentais em ouvir dos
diferentes sujeitos sociais a demanda por novas políticas públicas que reconheçam,
respeitem e garantam suas diferenças.
Em Silva (2012, p. 217) podemos ver o exemplo da Educação, mostrando que nela
pretende-se a formulação de políticas inclusivas das histórias e expressões
socioculturais no currículo escolar, nas práticas pedagógicas e que essa exigência deve
ser atendida com a contribuição de especialistas, a participação dos próprios sujeitos
sociais, os índios, na formação de futuros docentes, na formação continuada daqueles
que discutem a temática indígena e atuam na produção de subsídios didáticos em todos
os níveis de ensino. Só assim, podemos deixar de tratar as diferenças socioculturais
como estranhas, exóticas e folclóricas, reconhecendo em definitivo os ‘índios’ como
povos indígenas, com seus direitos de expressões próprias que podem contribuir
decisivamente para toda humanidade.

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Por fim, se as mobilizações trouxeram nas últimas décadas considerável


visibilidade para os povos indígenas como atores sociopolíticos em nosso estado,
‘exigindo’ novas reflexões e o conhecimento principalmente entre os educadores, tá
mais do que na hora de contestarmos também os equívocos, os preconceitos e a
desinformação generalizada sobre estes indígenas.

LEI 11.645/08: POSSIBILIDADES, EXIGÊNCIAS E DESAFIOS.


A Lei 11.645/08 foi sancionada no governo de Luís Inácio Lula da Silva e alterando
a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB- 9.394/96) e modificada pela Lei
nº 10.639/03, veio para combater o processo histórico de inferiorização dos índios por
meio da educação formal. Havia uma urgência de alteração na dinâmica das relações
étnicas no Brasil e com esta Lei torna-se obrigatório em estabelecimentos de ensino
público e privado, o ensino da história indígena, no âmbito de todo o território do nosso
País. No Diário Oficial da União (2008, Seção 1), podemos ver que:

A promulgação da lei 11645/08 altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro


de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que
estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no
currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática
"História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.

Embora amparado pela Lei, o estudo da cultura indígena jamais pode ser visto
como mera obrigação ou cumprimento de conteúdo, mas graças a ela, passa a existir
no âmbito de todo currículo escolar, em especial na área de educação artística, de
literatura e história brasileira, pois é nos debates em sala de aula que podemos
desconstruir visões preconceituosas e deturpadas relacionados aos índios. O berço dos
conflitos dessa conversação é a escola, proporcionando a troca de experiências, uma
vez que é lá que se inicia a fase que entra em discussão a cultura indígena já integrada
ao currículo escolar. Pereira (2017, p. 15) apud Guedes, Nunes e Andrade (2013, p. 422)
segue dizendo que “nesse cenário, a Escola se torna, inevitavelmente, um lugar
privilegiado que reflete, através de diferentes perspectivas, o rico e desafiador enredo
das relações sociais”. Portanto, a influência que este assunto e lei causam em sala de
aula é de suma importância para estimular os alunos e os professores na discussão do
assunto, e o professor se sentirá seguro ao abordar esse tema já que existe uma lei que
o auxilia nesse processo. É necessário encontrar uma forma correta de abordar essa

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questão, levando em consideração à rica e a diversidade cultural indígena, no Brasil e


até mesmo dentro do próprio estado do Rio Grande do Norte, para não cair na
redundância e no erro de limitar o estudo indígena do estado àqueles da região
amazônica.
Vale salientar que a obrigatoriedade do estudo de história indígena já fazia parte
das discussões de entidades envolvidas com os movimentos sociais, que em novos
cenários políticos e com diferentes atores conquistaram e ocuparam seus espaços,
reivindicando o reconhecimento e o respeito às sociodiversidades, portanto, podemos
dizer que um dos fatores primordiais para a aprovação da Lei 11.645/2008, foi à
organização sociopolítica do Brasil contemporâneo. Foi um momento em que
identidades foram afirmadas, diferentes expressões sociocultural passaram a ser
respeitadas e reconhecidas, provocando mudanças de atitudes que exigiram novas
políticas públicas que respondessem às demandas por direitos sociais específicos e
diferenciados.
A característica de variados modelos dos povos indígenas ajuda os professores
a aprofundar ainda mais o seu foco de atuação em sala, devendo este apenas tomar um
certo cuidado para não fazer generalizações para que não haja um impacto negativo no
conhecimento e entendimento dessa variada cultura das regiões marcadas pela
presença indígena no País. Descartando esta possibilidade, ela despertará nos alunos a
curiosidade, incentivando-os a pesquisa e a busca de mais informações.
Passados mais de 10 anos de sua publicação, vários desafios para efetivação do
que determinou a Lei 11.645/2008 ainda persiste. É de fundamental importância, por
exemplo, capacitar os quadros técnicos de instâncias governamentais (federais,
estaduais e municipais) para o combate aos racismos institucionais. Mas um grande
desafio, talvez seja até o maior deles, é a capacitação de professores. Tanto dos que
estão atuando quanto daqueles ainda em formação. Isso significa dizer que no âmbito
dos currículos dos cursos de licenciatura e de formação de professores deve ocorrer a
inclusão de cadeiras obrigatórias, ministradas por especialistas, tratando
especificamente da temática indígena. É preciso que as secretarias estaduais e
municipais incluam ainda a temática indígena nos estudos, nas capacitações periódicas
e na formação continuada, e a abordagem deve se dar na perspectiva da
sociodiversidade historicamente existente no Brasil: por meio de cursos, seminários,
encontros de estudos específicos e interdisciplinares destinados ao professorado e aos

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demais trabalhadores/as em educação, com a participação de indígenas e a assessoria


de especialistas reconhecidos. É preciso, também, adquirir livros que tratem da
temática indígena, destinados ao acervo das bibliotecas escolares. Outro grande
desafio e urgente necessidade é a produção – com assessorias de pesquisadores e
especialistas – de vídeos, subsídios didáticos, textos etc. sobre os povos indígenas, para
utilização em sala de aula, proporcionando ainda o acesso a publicações – livros,
revistas, jornais e fontes de informações e pesquisas sobre os povos indígenas.
A efetivação da Lei 11.645 possibilitará estudar, conhecer e compreender a
temática indígena. Superar desinformações, equívocos e a ignorância que resultam em
estereótipos e preconceitos sobre os povos indígenas, reconhecendo, respeitando e
apoiando os povos indígenas nas reivindicações, conquistas e garantias de seus direitos
e em suas diversas expressões socioculturais.
A efetivação dessa Lei, além de mudar antigas práticas pedagógicas
preconceituosas, favorecerá novos olhares para a História e a Sociedade. Na nossa
sociedade a escola tem papel privilegiado na formação humana, buscando responder
às demandas sociais. Ainda que se levem em conta as dificuldades e os desafios
presentes nos processos de ensino-aprendizagem, no fazer pedagógico, a escola é um
lócus onde a efetivação da Lei possibilitará viabilizar “espaços que favoreçam o
reconhecimento da diversidade e uma convivência respeitosa baseada no diálogo entre
os diferentes atores sociopolíticos, oportunizando igualmente o acesso e a socialização
dos múltiplos saberes”. Assim, contribuirá para a formação de cidadãos críticos,
possibilitando o reconhecimento das diferenças socioculturais existentes no Brasil, o
reconhecimento dos direitos da sociodiversidade dos povos indígenas.

DESAFIOS DO ENSINO DE HISTÓRIA E DA EDUCAÇÃO ÉTNICO-RACIAIS


Cientes de que as desigualdades sociais em geral, é em parte uma consequência
da discriminação étnico/racial ocorrida no passado e ainda, de um “processo ativo de
preconceitos e estereótipos raciais que legitimam, cotidianamente procedimentos
discriminatórios” (FERREIRA, 2014), entendemos que para a construção de uma
sociedade coesa e justa, é necessário que não ocorra à persistência da discriminação
que além de trazer sérios danos, compromete a evolução democrática. Devemos
desconstruir a ideia de uma suposta identidade genérica nacional, mostrar que a
diversidade deve se tornar um dos pilares em que a cultura da inclusão e da igualdade

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esteja presente, devemos mostrar que a diversidade étnica no Brasil é normal uma vez
que somos um país de diversas expressões socioculturais, étnicas e religiosas,
resultado da junção de complexos e diversos fenômenos. É necessário,
problematizarmos as ideias e afirmações de identidades gerais como a mestiçagem no
Brasil, discurso ainda bastante utilizado para negar, desprezar e suprimir as
sociodiversidades existentes no país. Reconhecer, afirmar e respeitar o direito às
diferenças significa questionar o discurso da mestiçagem como identidade nacional,
usado para esconder a história de índios.
Precisamos de uma sociedade ativa e fortalecida para o enfrentamento desses
negativos fenômenos, requerendo junto à atuação de um Estado efetivo, a articulação
de diversos tipos de intervenção que vão desde o repúdio às práticas preconceituosas
e o incentivo às ações de valorização da população indígena, além da combinação de
políticas afirmativas com as políticas sociais universais.
Agora, nos inclinando um pouco mais para o ensino de História, de acordo com
Monteiro (2017, p. 6) em seu trabalho Lei 10.639 na intervenção dos estagiários do
PIBID de história da UFRN-RN no ano de 2011, hoje esse ensino representa grandes
desafios uma vez que não existe uma fórmula única para se ensinar e as mudanças e
transformações sobre os estudos são constantes e vistos de forma natural uma vez
que a sociedade também está em mutação. Sendo assim, podemos verificar que os
trabalhos sobre como estudar e ensinar história tem crescido de maneira significativa
bem como o aumento dos cursos de graduação nessa área, porém, esse crescimento
nunca será suficiente para dizermos que encontramos a forma certa e devida para esta
tarefa de melhor ensinar o conteúdo de história para o melhor aproveitamento e
aprendizado por parte dos alunos.
Diversos trabalhos reafirmam que o ensino de História no Brasil apresentou
mudanças e permanências ao longo do tempo, mostrando que profissionais e teóricos
tem se dedicado a tratar sobre a metodologia que deveria ser utilizada, porém a forma
de repetição e de memorização embora muito criticada e um tanto quanto ultrapassada
continua sendo utilizada ainda nos dias de hoje, bem como a utilização apenas do livro
didático como guia de transmissão do conhecimento de professor para aluno. Este
método tradicional de lecionar representa um desafio a ser mudado e um limite para as
novas linguagens. Nas aulas Tradicionais, o professor é considerado como agente do
conhecimento, o transmissor da verdade histórica e os alunos são apenas os

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receptáculos do saber, e todo esse conhecimento entra de forma natural e lá


permanece. Nessas aulas, usam muito do método expositivo, e da visão de História
política/linear, e pouco ajuda os alunos na apreensão do conhecimento histórico.
Outra questão que deve ser levada em consideração é o fato dos próprios alunos
terem sido “criado pelo modo tradicional”, e muitos deles veem “as mudanças” na
forma de ensino, com certa desconfiança. Em seu artigo A revolução dos conteúdos e
métodos da História ensinada, que também mostra mudanças e permanências por que
passou o ensino de história no século 20, principalmente pós-1994, AZEVEDO (2010)
confirma esse tradicional método utilizado:

No decorrer das observações, realizadas na última década na rede


escolar de ensino, percebemos que uma parte dos professores de
História ainda segue apenas o livro didático como recurso didático e, na
maior parte do seu tempo em sala, atém-se a aulas expositivas
tradicionais, aplicando questionários como exercícios. A tendência
apresentada por parte dos nossos alunos dos estágios
supervisionados é adotar a mesma postura.

O discurso de inovação é considerado uma possibilidade para superar esses


desafios no ensino, tanto por parte da escola, quanto pelos professores em geral,
porém mesmo assim de forma inconsciente, a tendência são eles continuarem fazendo
o tradicional, mesmo que retocado de inovação. Esperar (inconscientemente) que a
escola, e o ensino de História especificamente, sejam “ainda” tradicionais, não quer
dizer que devam ser. Professores universitários e pesquisadores perceberem que o
ensino da disciplina, em grande parte das escolas do país, ainda é realizado através da
forma tradicional, da qual os professores não conseguem, e não querem, se desligar.
Uma possível explicação, talvez esteja no fato dos cursos de graduação também serem
formulados e ministrados pela forma tradicional, expositiva e linear da História, o que
acaba gerando uma reprodução do ensino/aprendizado dos professores em seus
alunos.
As possibilidades encontradas no texto de Azevedo e Stamatto (2016, p.70-89)
no que se refere à solução para este desafio, mostra que “o professor ao dominar
diferentes concepções pedagógicas e históricas pode melhor definir e decidir sobre o
tipo de conhecimento que levará para a sala de aula atendendo às especificidades do
público escolar com o qual trabalha”. Já na renovação dos conteúdos e métodos da
história ensinada, apenas Azevedo, mostrando essas dificuldades que as escolas

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básicas de nosso país ainda sofrem em pleno século XXI, com esses desafios
apresentados pela necessidade de renovação no ensino de História, evidencia que “para
mudanças de maior monta, requer-se solidez teórico- metodológica no planejamento
docente” (2010, p.1). As possibilidades que ela apresenta ainda neste artigo citado são:

possibilidades metodológicas de renovação dos conteúdos e métodos


da história ensinada para os dias atuais por meio de um processo de
formação docente voltado a práticas de pesquisa e exposição de
possibilidades de fontes e biografias especializada passíveis de serem
utilizadas pelo professor em suas aulas (AZEVEDO (2010, pp.1-2).

A autora parte do princípio que o professor para superar estes desafios tem que
está constantemente se auto avaliando, assumindo o papel de um sujeito cognoscente
diante do seu objeto, ou seja, o professor deverá assumir a postura de um sujeito
pensante e de um profissional intelectual.
A Lei criada em 2008 não diminui os desafios, muito pelo contrário, com a
obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena passou-se a
pensar mais em políticas educacionais, bem como os limites e as possibilidades de uma
educação étnico-raciais. Diante dessas reflexões, questões de como fazer as
abordagens tratando do tema com a devida importância, quais conteúdos devem ser
transmitidos aos alunos, quais temas são de maior relevância no que diz respeito a
História Indígena e sua contribuição para a formação brasileira, e no que se refere ao
suporte necessário, até que ponto a lei dará o respaldo para a implementação
necessária e o apoio das políticas educacionais que regem a educação no Brasil? São
algumas das tantas outras inquietações que assolam os atuais professores que se
veem diante desse desafio.

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS E DE CONTEÚDOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA


INDÍGENA DO RIO GRANDE DO NORTE
Se o ensino de História por si só, hoje representa grandes desafios imagine o
ensino de História Indígena acrescentando a esta o ensino de História Indígena do Rio
Grande do Norte. Portanto, para o ensino crítico da temática indígena nas escolas
devemos sempre atentarmos para a consideração da atualidade destes povos,
devemos utilizar mapas para a localização dos índios no estado, não esquecendo de se
desvincular da ideia de passado colonial em que supostamente todos esses índios

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haviam sido exterminados. Podemos utilizar os censos do IBGE, contabilizando a


existência da população indígena no estado que se autodeclaram índios, além da
necessidade de se discutir as diferentes expressões socioculturais indígenas no
passado e no presente, questionando a clássica dicotomia Tupi X Tapuia e sugerindo a
utilização de fotografias para demonstrar essas sociodiversidades no Rio Grande do
Norte. Além disso, podemos também evidenciar a participação efetiva dos povos
indígenas nos diversos momentos históricos ao longo do tempo, desnaturalizando a
ideia equivoca da presença do índio apenas na época do ‘Descobrimento’ ou somente
na ‘formação do Brasil’. Ou seja, problematizando o lugar pensado e o ocupado pelos
povos indígenas na história do país.
É interessante também que as escolas por intermédio dos professores,
promovam momentos de integração entre os povos indígenas e os alunos durante o
calendário letivo, por meio de visitas previamente preparadas, dos estudantes às
aldeias/comunidades, bem como dos indígenas às escolas, buscando com isso a
superação das discriminações e dos preconceitos. Porém, devemos atentarmos para o
fato de que as visitas não devem se constituir como meras apresentações folclóricas,
mas principalmente como espaços de aprendizagens e diálogo.
Por fim, é necessário discutir e propor o apoio aos povos indígenas do estado do
Rio Grande do Norte por meio do estímulo ao alunado para a realização de cartas às
autoridades locais com denúncias e exigências de providências diante de assassinatos
ou atentados que embora não seja muito divulgado, o estado não está livre dessas
violências, um dos exemplos que podemos citar, foi o atentado contra o líder Luís do
Catú, onde o mesmo carrega em seu corpo as cicatrizes. Ainda podemos também,
estimular os alunos a realização de abaixo-assinados e por meio de manifestações
coletivas na sala de aula, estimularemos o apoio às campanhas de demarcação das
terras e a garantia dos direitos dos povos indígenas.

Sugestões bibliográficas
• CAVIGNAC, Julie A. A etnicidade encoberta: ‘Índios’ e ‘Negros’ no Rio Grande do
Norte .
• GUERRA, Jussara Galhardo Aguirres. Mendonça do Amarelão: os caminhos e
descaminhos da identidade indígena no Rio Grande do Norte. Dissertação de
Mestrado em Antropologia. Recife, 2007.

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• OLIVEIRA, Jailma N. V. de. Caboclos do Assú: Emergência Indígena, Identidade e


territorialidade no Rio Grande do Norte. XXI Simpósio Nacional de História-
Conhecimento histórico e diálogo social. Natal, ANPUH, 2013.
• LOPES, Fátima Martins. Em nome da liberdade: as vilas de índios do Rio Grande
do Norte sob o Diretório Pombalino no século XVIII. 2005. 700p. Tese
(Doutorado em História do Brasil). Universidade Federal de Pernambuco. Recife.
• LOPES, Fátima Martins. Índios, colonos e missionários na colonização da
Capitania do Rio Grande do Norte. Mossoró: Fundação Vingt-Un Rosado, 2003.
• MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Desvendando o passado índio do
sertão: memórias de mulheres do Seridó sobre as caboclas-brabas. Vivência, n.
28, 2005, p. 145-57, Natal.
• MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Ocidentalização, territórios e
populações indígenas no sertão da Capitania do Rio Grande. 2007. 309p.
Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Natal.
• MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Vivências índias, mundos mestiços:
relações interétnicas na Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó
entre o final do século XVIII e início do século XIX. 2002. 169p. Monografia
(Graduação em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Caicó.
• SPINELLI, Ana Cristina. (Coord). Marco Conceitual dos Povos Indígenas do RN.
UGP. Projeto Integrado de Desenvolvimento Sustentável do Rio Grande do
Norte – RN Sustentável. Aprovação publicada no Diário Oficial do Estado
através da Portaria SEPLAN 011/2013 de 14 de fevereiro de 2013.
• SILVA, Claudia Maria Moreira da. “Em busca da realidade”: a experiência da
etnicidade dos Eleotérios (Catu/RN). 2007. 285p. Dissertação (Mestrado em
Antropologia Social). Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal.
• SILVA, Gildy- Cler Ferreira da. “Nós, os potiguara do catu”: emergência étnica e
territorialização no Rio Grande do Norte (Século XXI). 2016. Dissertação
(Mestrado em História) – UFRN, Natal.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Já sabemos a implementação da Lei 11645/08 trouxe muitos benefícios ao
tratamento das questões étnicas, o estudo e as discussões em sala de aula nos dias
atuais sobre a História Indígena é notória, porém, mesmo assim ainda não existe uma
coerência entre a teoria e a prática no que diz respeito a essa lei e muita coisa ainda
precisa ser revista, como por exemplo, o estudo da História do Rio Grande do Norte não
é obrigatória, ficando os alunos tendo que estudar e ver nos seus livros didáticos
apenas os índios de outras regiões contribuindo para as deturpações. Além disso,
infelizmente, ainda encontramos profissionais da educação sem o preparo necessário
para trabalhar as questões relativas à História Indígena no Brasil quanto mais no nosso
estado, coisa que sabemos que falar de índios na contemporaneidade não é uma tarefa
fácil, pois inclusive nós pesquisadores, muitas vezes nos deparamos cometendo erros
que já deveriam ter sido eliminados, no que se refere a tentar explicar uma ideia
referente a esses povos atuais, com uma visão que aprendemos durante toda a nossa
vida escolar. É necessário, fugirmos dessa tendência e para isso vimos que não basta
apenas darmos uma educação sem discriminações, não basta dar apenas “as
ferramentas” para o trabalho é preciso ensinar a usá-las, uma vez que o professor tem
nas mãos uma grande responsabilidade, dar uma educação que sirva para fazer com
que as diferenças sociais sejam respeitadas, onde todas as preocupações devem estar
acompanhadas de um conhecimento a respeito das diversas culturas que formam o
País.
Em muitas escolas a lei 11645/08 ainda não é aplicada de fato, por não terem
professores preparados sobre o assunto, a maioria não teve durante a sua graduação
disciplinas que lhes proporcionassem tal conhecimento, se fazendo necessário um
apoio maior para a formação continuada desses professores, e além disso ainda existe
muitas vezes, desinteresse da própria escola em levar adiante o tema. Encontramos
professores se esforçando para incluírem em suas atividades assuntos que valorizem
o conhecimento indígena, sendo que a própria instituição não apoia, não valoriza, ou não
se engaja para promover esse ensino.
A partir dos referenciais teóricos utilizados e também através de um
conhecimento já existente, percebemos ainda que as mudanças no ensino e nos
métodos de lecionar são muito difíceis, uma vez que para mudar o seu método, não se
pede apenas que o professor mude de técnica, pede-se para que ele próprio mude, e

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ainda foi-se comprovado que não existem métodos mais corretos ou melhores do que
outros, e que a questão não é dizer que devemos abandonar de vez o modo tradicional,
para eliminar as dificuldades existentes no ensino de História, mas sim, provocar e
estimular mudanças nas formas de ensinar de modo gradual e contínuo para que não
acabe trazendo consequências contrárias e indesejadas.
Por fim, devemos reconstruir uma sociedade que embora étnica, plural e
cultural, acima de tudo respeite a diversidade de um povo e que mais trabalhos sobre a
História Indígena do Rio Grande do Norte seja concluído para dar voz e visibilidade a
estes povos que depois de tanto tempo calados pelos discursos hegemônicos de
séculos, agora se mostram proferindo voz própria.

REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Crislane Barbosa de. A Renovação dos conteúdos e métodos da História
ensinada. In: Revista Percursos- Florianópolis, v.11, n. 02, jul./dez. 2010.

AZEVEDO, Crislane Barbosa de; STAMATTO, Maria Inês Sucupira. Historiografia,


processo ensino- aprendizagem e ensino de história. In: Revista metáfora educacional
(ISSN 1809-2705) – versão on-line, n. 9. , dez/ 2010. p. 70-89. Disponível em:
http://www.valdeci.bio.br/revista.html. Acesso em 02 de julho de 2018.

FERREIRA, Vanda Maria. A importância da Lei 10.639 para a erradicação do racismo -


Disponível em: http://www.geledes.org.br/importancia-da-lei-10-639-para erradi-
cacao-racismo/#gs._w3W_dI. Publicado em 18/11/2014. Acesso em 02 de julho de
2018.

GUEDES, Elocir; NUNES, Pâmela e ANDRADE, Tatiane de. O uso da lei 10.639/03 em
sala de aula. Revista Latino- Americana de História. Vol.2, nº.6- Agosto de 2013 –
Edição Especial. PPGH-UNISINOS.

MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. e MEDEIROS NETA, Olívia Morais de. A
questão indígena no Rio Grande do Norte. Aula de nº 4 da disciplina História do Rio
Grande do Norte, preparada para o Curso Técnico de Nível Médio Subseqüente em
Guia de Turismo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do R. G. do
Norte – IFRN.

MONTEIRO, Kamyla. Emergência Étnica: Um olhar sobre os Caboclos do Assú/RN.


Trabalho apresentado no Simpósio Temático História indígena e do indigenismo no
Rio Grande do Norte: identidades e emergências étnicas em perspectivas históricas
do VII Encontro Estadual de História, promovido pela Associação Nacional de
História/Núcleo Rio Grande do Norte (ANPUH-RN), no dia 28 de julho de 2016, na
Universidade Potiguar, Natal/RN.

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MONTEIRO, Kamyla. Lei 10.639 na intervenção dos estagiários do PIBID de História


da UFRN no ano de 2011. Artigo apresentado ao programa de Pós-Graduação Lato
Sensu da Faculdade Venda Nova do Imigrante/ES em 07 de Abril de 2017 para a
obtenção do Título de Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira sob a
orientação de Ana Paula Rodrigues. Registro de 11.04.17, nº 9945, livro 68, folha 146.

SPINELLI, Ana Cristina. (Coord). Marco Conceitual dos Povos Indígenas do RN. UGP.
Projeto Integrado de Desenvolvimento Sustentável do Rio Grande do Norte – RN
Sustentável. Aprovação publicada no Diário Oficial do Estado através da Portaria
SEPLAN 011/2013 de 14 de fevereiro de 2013.

SILVA, Edson. O ensino de História Indígena: possibilidades, exigências e desafios com


base na Lei 11.645/2008. Revista História Hoje, v. 1, nº 2, p. 213-223 – 2012. Artigo
recebido em 15 de julho de 2012. Aprovado em 12 de setembro de 2012. Disponível em:
https://rhhj.anpuh.org/RHHJ/article/download/48/38. Acessado em: 04.07.18.

Sites:
Diário Oficial da União (2008, Seção 01). Lei 11.645/08. Acesso em:
www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/11645.htm. Despacho do
Ministro, publicado no Diário Oficial da União de 11/03/2008- página 1 (publicação
Original).

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GRUPOS INDÍGENAS DO LITORAL NORTE DO RIO GRANDE:


RESQUÍCIOS ARQUEOLÓGICOS E CARTOGRÁFICOS
DO SÉCULO XVI

Pedro Pinheiro de Araújo Júnior61


Orientador: Prof. Helder Alexandre Medeiros de Macedo62

INTRODUÇÃO
Esse trabalho investigou o processo de conquista do litoral norte da Capitania
do Rio Grande no século XVI. A partir da análise da Arqueologia Histórica,
compreendendo como foram estabelecidos as relações entre os grupos indígenas e os
europeus nesse período do contato. Investigando o cruzamento das informações
contidas nas fontes cartográficas, escritas, dos relatórios de prospecções dos sítios
arqueológicos, dos artigos produzidos e das fotografias dos artefatos arqueológicos.
As primeiras produções historiográficas sobre esse litoral, ocorreram nas
primeiras décadas do século XX, intituladas de historiografia clássica63. Teve como um
dos principais expoentes o historiador Francisco José da Rocha Pombo, na sua obra
História do Estado do Rio Grande do Norte (1922) traça todo o perfil da história do
Estado até o ano de 1920, destacando mais da metade de sua obra ao período colonial.
Porém, como era comum nas produções do período64, fez uma narrativa construída sob
a valorização do viés dos conquistadores portugueses, sendo esses, senhores do
território. Tanto ao descrever os primeiros contatos desses com os grupos indígenas
relatados nas viagens de Américo Vespúcio, pelo litoral, em 1501. Como também ao
descrever os embates entre portugueses e holandeses na Capitania do Rio Grande em
1633. Exemplo disso, o título do capítulo 11 é “O Domínio dos Intrusos”, tratando sob o
período da dominação holandesa na dita Capitania.

61 Mestrando do PPGH da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Brasil. E-mail:


pedrojuniorrn@yahoo.com.br.
62 Doutor em História, com área de concentração em História do Norte e Nordeste do Brasil, pela

Universidade Federal de Pernambuco. Professor do Departamento de História do CERES e do PPGH da


Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Brasil. E-mail: helder@ufrn.edu.br.
63 O termo, historiografia clássica, foi utilizado pela historiadora Denise Mattos Monteiro ao fazer uma

análise sobre a produção historiografia norte-rio-grandense no I Encontro Regional da Anpuh-RN


(MONTEIRO, 2004, p.51).
64 Salientamos que as obras de Augusto Tavares de Lyra e José Francisco da Rocha Pombo foram

publicadas no contexto das comemorações do 1º centenário da Independência do Brasil em 1922,


incentivadas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (LYRA, 2012, p.11).

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Um ano antes, em 1921, Augusto Tavares de Lyra, constrói uma narrativa


semelhante em sua obra, já questionada no início desse texto. Valorizando os feitos dos
lusitanos e utilizando como principal fonte de sua narrativa, sobre os primórdios da
colonização, a obra História do Brasil de Frei Vicente de Salvador. Porém um diferencial
do autor em relação a Rocha Pombo, são as citações e as referências bibliográficas
utilizadas de forma mais constante ao longo de seu texto. Tornando a sua obra, a
principal fonte de pesquisa sobre a História do Rio Grande do Norte. No tocante aos
grupos indígenas o autor escreveu:

Quanto ao extermínio do gentio, recordamos apenas, sem subscrever


os conceitos dos que entenderem ter sido o seu sacrifício o
cumprimento de uma lei necessária [...] em virtude de guerras,
epidemias de varíola e crises climáticas periódicas, esse
desaparecimento foi quase completo, de tal modo que, no cruzamento
que ali se vem operando entre as três raças que entraram na nossa
formação histórica, a raça primitiva passou, desde então, a fornecer o
menor contingente, especialmente na zona agrícola, onde foram
assimilados, em maior número, os negros e mulatos (LYRA, 2012, p.
190).

Essa perspectiva fatalista de Augusto Tavares de Lyra sobre os grupos


indígenas que faziam parte da composição dos moradores65 da Capitania, coloca esses
sujeitos como extintos da participação histórica da formação do Rio Grande do Norte.
Principalmente ao utilizar o termo “raça primitiva”, utiliza o mesmo raciocínio de Rocha
Pombo. Essa historiografia do início do século XX, colocou os grupos indígenas que
habitavam a Capitania do Rio Grande como meros expectadores dessas narrativas.
Foram silenciados e esquecidos nessas obras. São citados apenas em pequenos relatos
de ataques aos portugueses, nos acordos de paz firmados no contexto da Fundação de
Natal, nos conflitos com os holandeses e ou na Guerra dos Bárbaros.
A partir da segunda metade do século XX, uma nova leva de pesquisas surgiram
sobre o período colonial. Luís da Câmara Cascudo encabeçou essa análise quando
lançou História do Rio Grande do Norte (1955). Porém, o escritor mantém o mesmo
discurso de Tavares de Lyra, sobre o desaparecimento dos grupos indígenas no
contexto do processo colonizador. Se Lyra informou que os indígenas foram

65Utilizamos o termo “morador” para todos os habitantes da Capitania, incluindo colonos e indígenas. De
acordo com o Dicionário do Padre Rafael Bluteau, morador seria aquele que “mora, habita” (BLUTEAU,
1789, p. 96). Nessa perspectiva morador seria todos aqueles que habitavam a Capitania do Rio Grande.

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“exterminados” ao longo desse processo, Cascudo estabeleceu o fim desses povos no


início do século XIX, ao afirmar: “o indígena entrou para morrer” (CASCUDO, 1984, p. 43).
Nas décadas de 1980 e 1990, o historiador Olavo de Medeiros Filho, membro
efetivo do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) publicou
obras que comtemplavam suas pesquisas sobre o período colonial na Capitania do Rio
Grande. Destaca-se como um dos primeiros a publicar efetivamente uma História
Indígena, na obra Índios do Açu e Seridó (1984). O autor amplificou o conhecimento
histórico sobre os povos indígenas que habitavam a Capitania, retirando esses
personagens dos silêncios das pesquisas realizadas século XX.
No final dos anos 1990, foram publicados trabalhos produzidos por professores
do departamento de História da UFRN, ligados aos estudos coloniais. A professora
Fátima Martins de Lopes lançou Índios, Colonos e Missionários na Colonização da
Capitania do Rio Grande do Norte (1998). Uma das primeiras pesquisas acadêmicas
sobre o processo de colonização e desaparecimento dos grupos indígenas desse
espaço colonial, um verdadeiro divisor de águas na historiografia colonial do Rio Grande
do Norte. Uma de suas contribuições está na mudança do conceito sobre a expansão
colonial, ao chamar esse processo de “povoamento colonial”. Concordando com esse
termo, percebe-se o reconhecimento da autora de que os povos indígenas também
povoavam o Rio Grande. Essa perspectiva muda todo um olhar sobre esses grupos, pois
na historiografia clássica, os termos povoamento, povoado ou habitante estavam
relegados apenas aos colonos portugueses.

FONTES E METODOLOGIA
Para dar respaldo a essa investigação foram utilizadas diversas tipologias de
fontes, sendo assim, utilizamos 4 fontes cartográficas do século XVI, como cartas, atlas
e livros produzidos em países europeus como: Portugal, França e Espanha. Os
documentos cartográficos são: Atlas de Nicolas Vallard (1547), Mapa de Diogo Homem
(1558), Mapa de Bartolomeu Velho (1564) e o Mapa de Jaqcques de Vaulx de Claye
(1579).
Outra tipologia de fonte analisada são quatro relatórios de diagnóstico e
prospecção arqueológica feitos no litoral norte, entre os anos de 2012 e 2015,

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realizados pela arqueologia de contrato66. Esses documentos são imprescindíveis para


a liberação do termo do impacto arqueológico nas regiões onde foram construídas
linhas de transmissão e usinas eólicas nesse espaço de estudo. Essas fontes trazem
amostragem do material arqueológico encontrado, identificando se são do período pré-
histórico ou do período do contato entre grupos indígenas e europeus. Esses relatórios
e o material arqueológico encontrado estão custodiados e disponíveis para consulta em
três instituições na cidade do Natal: MCC, IPHAN e o LARQ.
A primeira metodologia utilizada na pesquisa foi a da Arqueologia Histórica67.
Sob a ótica de Orser Júnior, refere-se as manifestações materiais do mundo, posterior
ao ano de 1500. Pode-se trabalhar nela temas como os artefatos traficados pelos
indígenas, as mudanças sociais acarretadas nessas sociedades graças à introdução de
objetos materiais europeus. Possuindo um leque de fontes de informação para auxiliar
na pesquisa. Dentre elas os artefatos e as estruturas, a arquitetura, os documentos
escritos, as informações orais e as informações pictográficas. Desse modo, no primeiro
momento, foi realizado a análise dos relatórios de prospecção dos sítios arqueológicos
do período do contato e artigos de outros autores sobre esses sítios. Em seguida foi
estabelecido um cruzamento de dados a partir de pesquisas em fontes cartográficas:
observando as iconografias e topônimos nos documentos. Além da investigação em
fontes escritas dos cronistas do século XVI. Assim conseguiu-se identificar e examinar
resquícios de aldeias indígenas no espaço em estudo.

A CARTOGRAFIA DA CONQUISTA
Entre os séculos XV e XVI dá-se uma verdadeira revolução na ciência e na arte
cartográfica. Na ciência, pela introdução das latitudes observadas, do meridiano
graduado nas cartas e do cálculo do valor do grau terrestre, o que permite uma
representação muito mais exata da superfície do planeta. Na arte, pela formação e

66 As empresas responsáveis por esses relatórios da arqueologia de contrato são a Arqueologia


Brasileira Consultoria LTDA e Alasca Arqueologia. Ambas tiveram endosso institucional e apoio do
IPHAN, MCC e do LARQ. A pesquisa preventiva ou de contrato é uma etapa obrigatória para o
licenciamento ambiental de um empreendimento público ou privado, pode ser desde a construção de
estradas ou de parques eólicos a hotéis e condomínios residenciais, comuns nas áreas litorâneas.
Disponível em: <https://www.opovo.com.br/jornal/cienciaesaude/2018/04/lei-ambiental-colabora-com-
arqueologia.html>. Acesso em: 6 jun. 2018.
67 Seria o estudo arqueológico dos aspectos materiais, em termos históricos, culturais e sociais

concretos, dos efeitos do mercantilismo e do capitalismo que foi trazido da Europa em fins do século XV
e que continua em ação ainda hoje (ORSER JÚNIOR, 1992, p.23).

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generalização daquilo que Jaime Cortesão intitula de o estilo naturalista (CORTESÃO,


1965, p.86). Esse estilo foi utilizado nos primeiros mapas criados para descrever o
litoral do atual território brasileiro. Foram confeccionados a partir de relatos e estudos
de militares e cronistas ligados à administração da Coroa Portuguesa. Esses agentes
da Coroa deveriam retratar as terras recém-descobertas para que o governo central,
em Lisboa, fosse capaz de conhecer esse novo espaço e estabelecer novas políticas
administrativas, além de expandir seu território de além-mar.
A figura chave nesse processo de territorialização68, a partir da confecção de
mapas, pertencia à figura do cosmógrafo, que era responsável por montar os dados já
pesquisados, fazer apenas o risco, aquartelamento e preparação dos atlas manuscritos
em versões de luxo, muitas vezes acompanhados do texto explicativo redigido pelo
próprio encarregado do levantamento. Essas cartas, ainda pouco padronizadas,
“explicitavam o estilo pessoal de cada cosmógrafo, caracterizando-se pelo predomínio
dos topônimos e figurações livres que preenchiam as lacunas decorrentes do
desconhecimento efetivo da região representada” (BUENO, 2004, p.202).
Essas representações do espaço, realizadas a partir da confecção de mapas,
foram analisados sob uma das tríades69 do pensamento de Henri Lefebvre. No caso, “o
espaço concebido” seria aquele dos cientistas, dos planificadores, dos urbanistas, dos
tecnocratas, de certos artistas próximos da cientificidade, identificando o vivido e o
percebido ao concebido. Em outras palavras, é o espaço dominante numa sociedade. As
concepções do espaço tenderiam para um sistema de signos verbais, portanto,
elaborados intelectualmente (LEFEBVRE, 2013, p.100). Concordando com a ideia de
Henri Lefebvre sobre o espaço concebido, os mapas têm essa característica de
descrever um espaço que era ainda desconhecido do público europeu, ou seja, estava
no plano da abstração. Aproximando-se da ideia do “espaço concebido’, Tiago Kramer

68 A expansão territorial, no processo colonizador, é no sentido de que a apropriação de terra realizada e


os usos do solo introduzidos respondem às carências ou às potências que alimentaram a motivação para
mover-se. Para que ela ocorra, é necessária uma efetivação da ocupação do espaço, isto é, a colonização
é um assentamento com certa dose de fixação e perenidade. Percebe também que o colonizador é um
“agente externo”, que passa a atuar como elemento de estruturação interna daquele espaço. Assim, à
colônia corresponde a existência de uma metrópole, que atua como núcleo irradiador do dinamismo que
impulsiona a própria consolidação da colônia e o avanço do movimento colonizador (MORAES, 2008,
p.63-64).
69 A celebre tríade de Henri Lefebvre: “espaço concebido” (elaborado pelas autoridades e pelos homens

de ciência), “espaço percebido” (resultante dos percursos e deslocamentos cotidianos), “espaço vivido”
(imagens e símbolos espaciais veiculados pelos habitantes, mas também por artistas, viajantes etc.)
(FONSECA, 2011, p.74).

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nos relata que “a cartografia, por mais que não possa ser vista como um discurso
neutro e objetivo, é obra de ficção sobre um espaço imaginado que se torna real apenas
por meio de um discurso persuasivo convincente” (OLIVEIRA, 2014, p.165).

RESQUÍCIOS ARQUEOLÓGICOS DO LITORAL NORTE


Primordialmente foram investigados nos relatórios do Projeto Dunas70 quais
os sítios catalogados no litoral do Rio Grande do Norte eram do período do contato. Dos
43 sítios pesquisados, 5 eram do período do contato e estão no litoral dos municípios
de Rio do Fogo e Touros. Os sítios Rio do Fogo I, Rio do Fogo II, Zumbi71 e Enseada de
Pititinga estão localizados nas imediações entre as atuais praias de Zumbi e Pititinga,
nas proximidades da foz do rio Punaú. O sítio Lagoa do Sal, localiza-se entre as praias
de São José e Cajueiro no município de Touros. Todos os sítios estão registrados72 pelo
IPHAN e nos relatórios existem indícios que são do período do contato entre indígenas
e franceses. Os artefatos encontrados nestes sãos de cerâmica com pintura
Tupiguarani, em especial o sítio Enseada de Pititinga foi observado que continha
também “restos de faiança francesa e outros artefatos da tralha doméstica europeia”
(ALBUQUERQUE; SPENCER, 1995, p.6).
Os artefatos encontrados nos sítios estão custodiados na sede do IPHAN na
cidade do Natal-RN. Fizemos as análises e fotografamos e buscamos informações
sobre as características desses materiais. Já que nos relatórios não se encontravam as
imagens dos artefatos. Para entender se os mesmos, no caso o material cerâmico, era
do período do contato. Recorremos aos estudos de Gabriela Martin, onde a mesma nos
informa que a tradição Tupiguarani73 era recorrente entre os anos de 1500 a 1800, na
qual ela chama do período do contato europeu. Tinha como característica, apresentar

70 Sobre o projeto indicamos a leitura do artigo: ALBUQUERQUE, Paulo Tadeu de Souza; SPENCER,
Walner Barros. Projeto Arqueológico: O Homem das Dunas (RN). Clio Série Arqueológica, n° 10, 1994, p.
175-188.
71 No lugar conhecido como Zumbi[município de Rio do Fogo] localizaram-se nove manchas com cerâmica

Tupiguarani, formando ocas, distribuídas em forma de ferradura, modelo que se repete em mais quinze
sítios entre Muriú e Punaú, nos municípios de Ceará-Mirim e Maxaranguape (MARTIN, 1997, p.148).
72 Os sítios estão registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos CNSA/SGPA. O sítio

apresenta os sítios arqueológicos brasileiros cadastrados no IPHAN, com todo o detalhamento técnico
e filiação cultural dos Sítios Arqueológicos. Disponível em:
http://portal.iphan.gov.br/sgpa/?consulta=cnsa, acessado em: 14 jul.2018.
73 A grande extensão territorial que o Tupi alcançou é realmente impressionante e sua expansão coincide,

também em parte, com a difusão da cerâmica conhecida como da tradição Tupiguarani, facilmente
identificável, especialmente na sub-tradição policromia pintada, que se encontra, praticamente, de norte
a sul do Brasil (MARTIN, 1997, p.193).

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desenhos nas cores branca, vermelhas, preta e cinza. Os desenhos são complexos,
“geométricos” ou abstratos, com fino acabamento, aplicado no interior, no exterior ou
em ambos lados do vasilhame (MARTIN, 1997, p.195-197).
Como nos descreve André Prous, essas cerâmicas são numerosas e são grandes
vasilhas abertas, acreditando serem denominadas de “tenhãe”, termo usado em certos
vocabulários jesuíticos. Como se averigua na Figura 1, o vaso contém a boca e contorno
circular, elíptico ou quadrangular. “Possivelmente eram utilizadas na preparação da
farinha de mandioca, e todas estão pintadas internamente. As gravuras dos cronistas
dos séculos XVI-XVII mostram-nas recebendo os orgãos internos dos sacrificados
durante as festas canibais” (PROUS, 2009, p.12).

Figura 1: Cerâmica do sítio Zumbi. Detalhe, a direita, da imagem ampliada da pintura da tradição
Tupiguarani

Fonte: Artefato cerâmico do sítio Zumbi (Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos - CNSA: RN00050),
cx. 03, etiquetas 40 e 41. Custódia do acervo: IPHAN/RN, em Natal-RN. Foto: Pedro Pinheiro, 27 jun.
2018.

Na parte interna e inferior do artefato, apresenta-se a pintura na cor vermelha já


desaparecendo devido ao tempo. Na borda desta vasilha, na parte superior, ocorreu a
utilização da pintura da cor branca sobreposta com bastões desenhados numa cor
escura. Característica comum a todos os artefatos encontrados nos 5 sítios
arqueológicos. Esses desenhos são excepcionalmente característicos nas regiões
litorâneas entre os estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte74.
Para ampliar a análise sobre o encontro colonial, à luz da Arqueologia Histórica.
Averiguamos os relatos dos cronistas quinhentistas, pois são importantes na

74 Para André Prous esse desenho é tratado com linhas mais espessas e de maneira menos delicada que
os demais. Esse campo decorativo dividido em setores, cada qual com um preenchimento específico de
linhas paralelas entre si, retas ou quebradas ortogonalmente. Essa fórmula parece exclusivamente do
litoral mais setentrional – Rio Grande do Norte e Pernambuco (PROUS, 2005, p.22-28).

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compreensão de como a Coroa Portuguesa iniciou o processo colonizador, desta costa,


em direção às regiões limítrofes que eram território da Coroa Espanhola pelo Tratado
de Tordesilhas. Como também podemos desprender como ocorreu esse contato entre
os agentes da Coroa e os indígenas. A administração lusa investigava dessa maneira,
através de seus interlocutores, os pormenores do espaço recém-conquistado, sua
fauna, flora, solos e descrevendo os grupos indígenas através da ótica dos europeus do
século XVI. A Coroa Portuguesa, iniciou sua política de expansão colonial para reprimir
da posse de seus domínios, piratas e outros grupos estrangeiros que realizavam
extração de pau-brasil (MONTEIRO, 2002, p.29). Sendo detentora do território do Brasil,
tentou a princípio colonizar a região com o sistema das Capitanias Hereditárias em
1534, consolidando seu poderio posteriormente na região com o estabelecimento do
Governo-Geral, a partir da fundação da cidade de Salvador em 154975.

SOUASOUTIN: A COSTA DO RIO GRANDE NA CARTOGRAFIA FRANCESA


Rocha Pombo revelou que todo o litoral no norte da capitania ficou desde 1538
até fins do século, completamente abandonado pelos portugueses (POMBO,1922,
p.27). Mas como são verificados na historiografia, cartografia e fontes escritas esse
espaço era de contato entre franceses e Potiguara desde o início do século XVI. Não
respeitando o Tratado de Tordesilhas de 1494, a Coroa Francesa incumbiu de corsários
e agentes a explorar a costa recém-descoberta do atual Brasil e iniciaram o tráfico de
pau-brasil com os indígenas desse litoral76. Segundo Tristão de Alencar Araripe, a
primeira viagem feita por franceses a costa de Vera Cruz, foi comandada por um oficial
chamado Binot Paumier de Gonneville, que levou a bordo do navio Espoir, dois pilotos
portugueses, Sebastião de Mouta e Diogo do Couto, contratados em Lisboa. A viagem
saiu do porto francês de Honfleur em 24 de junho de 1503 e chegou no litoral do atual
Estado de Santa Catarina em 5 de janeiro de 1504. Depois seguiu por 90 dias a percorrer

75 As 15 capitanias, que foram divididas por 12 donatários, tinha no extremo oeste a linha fictícia do
Tratado de Tordesilhas, através do qual Portugal e Espanha haviam dividido os territórios da América.
Foi criado a Capitania do Rio Grande, tinha como seu limite sul a Baía da Traição, que ainda hoje conserva
seu nome, atual estado da Paraíba, e como seu limite norte a Angra dos Negros, no atual estado do Ceará.
Somente em 1549 foi estabelecido em Salvador o governo da Coroa. Entretanto, na metade do século
seguinte, o Estado do Brasil permaneceria periférico às atenções reais (MONTEIRO, 2002, p.31; RUSSEL-
WOOD, 1998, p.1).
76 Nas desavenças políticas pelo controle das terras no Atlântico Sul, perpetradas pelas Coroas da

França e de Portugal. O rei de Portugal D. João III, recebeu informações que em 11 de fevereiro de 1526,
dez navios estavam sendo armados em portos franceses, com destino ao Brasil. Assim, D. João III enviou
novas expedições para evitar o domínio dos franceses na colônia lusa (BAIÃO; DIAS, 1924, p.70).

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a costa em direção ao atual Nordeste do Brasil (BAIÃO; DIAS, 1924, p.62; ARARIPE,
1886, p.315-331).
Em 1535 os donatários da Capitania do Rio Grande, Ayres da Cunha e João de
Barros, organizaram uma expedição saindo de Lisboa em novembro para conquistar o
território da Capitania e fundar uma colônia. Desembarcaram no litoral norte, na foz do
rio Ceará-Mirim (Baquipe), ao sul do Cabo de São Roque. Mas foram guerreados pelos
Potiguara e traficantes franceses e desistiram da posse da terra, migrando com as suas
frotas em direção ao Maranhão. Em 1555, ocorreu uma segunda tentativa, encabeçada
pelos filhos de João de Barros, mas novamente foram derrotados pelos Potiguara. O
Rio Grande só seria conquistado pelos lusos nos últimos anos do século XVI Assim, até
os últimos anos do século XVI, a Capitania do Rio Grande não foi apropriada pelos seus
donatários. Era um espaço concebido pelos portugueses através da cartografia
quinhentista, mas não territorializado pelos mesmos. (CASCUCO,1984, p16-19; LYRA,
2012, p.21; LOPES, 1998, p.66-68; MACEDO, 2007, p.64).
Segundo Fátima Martins Lopes, os franceses, após a expulsão definitiva
perpetrada pelos militares portugueses, ocorrida na Baía de Guanabara em 1560.
Migraram para outros espaços longe das áreas ocupadas pelos lusos77 no Estado do
Brasil. Buscaram assim novas bases de apoio para a suas embarcações para supri-las
de pau-brasil. Assim ocuparam com novas feitorias as regiões costeiras acima da
Capitania de Itamaracá (LOPES, 1998, p.70). No Caso, as Capitanias do Rio Grande e
Paraíba.
Esse encontro colonial, entre franceses e Potiguara é verificado em dois mapas
da cartografia francesa do quinhentos. Essas cartas são chamadas por Jaime Cortesão
de “escola luso-normanda de Dieppe”. Para o autor, essas cartas limitavam quase
sempre a copiar as cartas portuguesas, utilizando-se das mesmas legendas na língua
original. Se observa uma nomenclatura de origem portuguesa e espanhola nos
topônimos. Apresentam-se as efígies de soberanos, palácios, animais e legendas
descritivas (CORTESÃO, 1965, p. 91-101).

77 O processo de expansão dos domínios portugueses rumo ao norte de Salvador, foi realizado após a
luta com os franceses na Guanabara. O Governador-Geral, Mem de Sá, dirigiu sua atenção para o litoral
norte da Costa do Pau-brasil[ Capitanias do Rio Grande, Itamaracá e Pernambuco]. Em 1562, em
represália à morte dos naufrágios seis anos antes, declarou “guerra justa” contra os caetés que
ocupavam o litoral, do norte da Bahia até Pernambuco (OLIVEIRA, 2015, p.197).

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O Atlas de Nicolas Vallard de 154778 constitui de 15 cartas náuticas, ricamente


ilustradas demonstrando toda arte da escola de Dieppe79 no Quinhentos. No todo, o
projeto do cartógrafo francês mostra os limites ainda indefinidos do continente
americano e das regiões da Ásia e Oceania. Utilizando-se da arte de representar com
iconografias o interior desconhecido dos continentes, mostrando os mesmos como se
fossem grandes ilhas projetadas em direção ao mar. Cada continente mostra um grupo
de indivíduos diferenciados na cor, vestimenta e cultura. Provavelmente seria um olhar
etnográfico do europeu do século XVI sobre essas novas terras e populações que
seriam conquistadas. A carta é uma das primeiras representações dos indígenas na
América pela ótica dos cartógrafos de Dieppe. O topônimos, foram escritos em francês,
português e galego português80. Indicando que foram copiados de outros mapas
produzidos em Portugal. O documento é contemporâneo das tentativas81 da Coroa
Francesa de conquistar as terras americanas divididas entre as Coroas Ibéricas.
Na Figura 2, apresentam-se topônimos referentes à costa das Capitanias da
Paraíba e Rio Grande, local de exploração e escambo de pau-brasil entre franceses e
Potiguara. Com os termos “S. Domingo”, “Potiiou”, “Pracel”, “Baía da Tartarn” e “Rio de
Sa Miguel”82. A baía de “S. Domingo” refere-se ao atual rio Paraíba, na época era contato
constante entre Potiguara e franceses. A região do rio Paraíba tinha os melhores pau-
brasil da costa. Os franceses cortejavam os Potiguara com botes repletos de
mercadorias. A aliança com os franceses tornou esses indígenas inimigos dos
portugueses, que ficaram frustrados diante de seu número e coesão. Eles não eram tão

78 O Mapa está custodiado e disponível no catálogo da Huntington Library, Califórnia, nos Estados Unidos.

Disponível em:
http://dpg.lib.berkeley.edu/webdb/dsheh/heh_brf?CallNumber=HM+29&Description=&page=1,
acessado em: 16 jul.2018.
79 A escola de Dieppe foi uma série de mapas-múndi produzidos em Dieppe na França entre os anos de

1540 e 1560. Eram patrocinados pelos reis da França e da Inglaterra, e tiveram como principais artífices
Pierre Desceliers, Jean Rotz, Guillaume Le Testu, Guillaume Brouscon e Nicolas Desliens. Disponível em:
http://www.myoldmaps.com/renaissance-maps-1490-1800/3812-vallard.pdf, acessado em: 16 jul.2018.
80 Mais informações sobre o Atlas de Nicolas Vallard, ver os estudos em cartografia do historiador

português Luís Filipe F.R. Thomaz. O mesmo defende que os navegadores portugueses foram os
primeiros a “descobrirem” a Austrália a partir da análise das Cartas de Vallard. Disponível em:
<http://cdn.impresa.pt/fce/0ea/10836150/LuisFernandesThomaz.pdf>. Acesso em: 16 jul.2018; Ver o
artigo: THOMAZ, Filipe F.R. D. Manuel, a Índia e o Brasil. Revista de História, n. 161, 2009, p.13-57.
81 Sobre a colonização francesa no Brasil no século XVI, ler o artigo: FRANÇA, Jean Marce Carvalho.

Dossiê: França Antártica. Revista de História, v.27. n.1, 2009, p. 14-27.


82 O termo “Potiiou” é sempre apresentado nos mapas franceses e corresponde ao atual rio Potengi. O

“Pracel” seria o litoral entre o rio Guamaré e a Ponta dos Três Irmãos. Os termos “Baía de Tartarn’ e “Rio
de Sa Miguel”, correspondem respectivamente às fozes dos rios Assu e Apodi-Mossoró (BRANCO, 1950;
MEDEIROS FILHO, 1996).

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fragmentados como as demais nações indígenas e não podiam ser provocados para
entrar em guerras internas (HEMMING, 2007, p.128-129).

Figura 2: Detalhe do Atlas de Nicolas Vallard (1547): Costa das Capitanias da Paraíba e Rio Grande.

Fonte: BIBLIOTECA DE HUNTINGTON. Portolan Atlas, anonymous Dieppe, 1547. World atlas containing
15 nautical charts, tables of declinations, etc. 1547. Catálogo de imagens Huntington. Códice: HM29.

Toda essa costa do Rio Grande é encimada pela iconografia dos baixios de São
Roque, em formato de um triângulo pontilhado, tal como ocorre nos mapas
portugueses. Como também, são representadas as ilhas próximas a esse litoral, como
a ilha de “Fernão de Loronha” e o Atol das Rocas. Como não existia um reconhecimento
da Coroa Francesa pela repartição do continente americano entre Portugal e Espanha,
praticamente assumiam o domínio da região (LOPES, 1998, p.68), não são visualizadas
a localidade de Olinda83, principal núcleo português na Capitania de Pernambuco, e nem
as divisões e referências toponímicas das Capitanias Hereditárias estabelecidas pela
Coroa Portuguesa em 1534.
Observa-se ainda na Figura 2, que os indígenas estão reunidos em torno de
fogueiras cozinhando84 seus alimentos em pequenas vasilhas. A imagem também é
mais um testemunho da exploração de pau-brasil – se percebe os troncos de árvores

83 Segundo, José Luiz Mota Menezes, não se sabe o dia da fundação de Olinda. O povoado em 1537, já
estava elevado à categoria de vila. Nesse mesmo ano, o Donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte
Coelho enviou ao rei de Portugal, D. João III, o Foral, carta de doação que descrevia todos os lugares e
benfeitorias existentes na Vila de Olinda. Nas praias, a vila foi fortificada para a defesa e do alto das
colinas se expandiu em direção ao mar, ao porto e ao interior onde ficavam os engenhos de açúcar.
Disponível em: <https://www.olinda.pe.gov.br/a-cidade/historia/>. Acesso em: 16 jul. 2018.
84 No Mapa de Jacques de Vaulx de Claye de 1579, se descreve o cotidiano dos indígenas ao redor de uma

fogueira até a duas horas da manhã (MEDEIROS FILHO, 1996, p.34).

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cortados – e os usos de utensílios europeus por parte dos indígenas para auxiliar os
corsários nas atividades extrativistas85.

Figura 3: Detalhe do Mapa de Jacques de Vaulx de Claye (1579): Costas das Capitanias da Paraíba e Rio
Grande

Fonte: Carte de la côte du Brésil de Vau de Claye m'a faict en Dieppe l'an 1579. Acervo da Biblioteca
Nacional da França.

Três décadas após o trabalho de Nicolas Vallard, foi produzido um Mapa em


Dieppe com um desenho iconográfico um pouco rudimentar que o de Vallard, mas com
indicação da penetração de franceses nos sertões. Com uma riqueza de detalhes, com
legendas explicativas demonstrando um conhecimento sobre o espaço, que naquele
momento, era desconhecido pelos portugueses. O Mapa de Jacques de Vaulx de Claye
de 1579 é um retrato da consolidação das relações comerciais86 entre os grupos
indígenas Potiguara e de corsários franceses.
Indicando possíveis aldeias e feitoras pela costa do atual Nordeste do Brasil. A
produção do mapa é contemporânea aos embates87 entre franceses e seus aliados
Potiguara, e portugueses nas imediações entre as Capitanias da Paraíba e Pernambuco.

85 Os utensílios visualizados na imagem são foices, machadinhas e enxadas. Percebe-se que existe um
certo cesto cheio de ferramentas para o auxílio na extração de pau-brasil.
86 Na análise de Helder Macedo, os corsários franceses mantinham uma política de alianças com os

Potiguara, mediante escambo. Mercadorias trazidas da Europa eram constantemente trocadas por pau-
brasil, essência vegetais, plantas medicinais, algodão, minérios, pedra preciosas, penas de pássaro,
âmbar, peles de onça e animais como saguis, macacos e papagaios (MACEDO, 2007, p. 64).
87 Nas disputas para a conquistar das capitanias ao norte de Pernambuco, uma expedição patrocinada

pela Coroa Portuguesa, destruiu embarcações francesas no rio Paraíba no início da década de 1580. Em
maio de 1584, foi construído um forte chamado São Filipe, a alguns quilômetros rio acima. O novo forte
foi guarnecido com 110 eficientes arcabuzeiros e 50 mamelucos brasileiros, posteriormente foram
emboscados pelos Potiguara (HEMMING, 2007, p.248-249).

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Em vista disso, como indica a Figura 3 , os franceses arregimentariam 10.000


indígenas88 para atacar as capitanias ao sul do Rio Grande. Destaca-se o meio-círculo
feito em compasso pelo cartógrafo, indicando que várias aldeias89 Potiguara e Tarairiú
estavam sob aliança da Coroa Francesa. O círculo estabelecido no Mapa, tem como
limites costeiros ao sul a partir da Baía de São Domingo (rio Paraíba), seguindo a
noroeste para o atual rio Acaraú no Ceará. Portanto, é uma territorialização semelhante
ao estabelecido por Gabriel Soares de Sousa em 1587, em relação aos domínios dos
Potiguara.

Figura 4: Detalhe do Mapa de Jacques de Vaulx de Claye (1579): Aldeia Potiguara Souasoutin.

Fonte: Carte de la côte du Brésil de Vau de Claye m'a faict en Dieppe l'an 1579. Acervo da Biblioteca
Nacional da França.

Alguns nomes dos lugares, permaneceram como no mapa anterior de Nicolas


Vallard. Na Figura 4, verifica-se por exemplo “Potiiou”90 com riqueza em detalhes dos
acidentes geográficos. Jacques de Vaulx apropriou-se e intitulou os topônimos da

88 Olavo de Medeiros Filho fez a tradução das informações do Mapa que nos permitiu entender esse
processo de conquista: “Neste enclave deste meio-círculo do compasso para fornecer dez mil selvagens
para desferir a guerra com os portugueses e são mais ousados que aqueles da jusante do rio”
(MEDEIROS FILHO, 1996, p.33). Se levarmos em conta que no ano de 1500, moravam por essas costas
100.000 Potiguara, segundo estimativas de Frans Moonen e Luciano Mariz Maia, essa quantidade de
guerreiros possa ser plausível (MOONEN; MAIA, 1992, p.93).
89 No Mapa são visualizadas 5 aldeias dentro do território aliado dos franceses. Cada uma delas

forneceria certa quantidade de guerreiros para a guerra contra os portugueses. A aldeia “Random”
forneceria 600 índios, as aldeias “Tarara Ouasou” e “Ouratiaune” teriam 1800 guerreiros (MEDEIROS
FILHO, 1996; LOPES, 1998, p.70).
90 Segundo Olavo de Medeiros Filho seria o equivalente a “Potiú”, ou seja, ao atual Rio Potengi. Logo

após a sua barra, figura uma ilhota, hoje chamada Ilha do Cajueiro, formada pelos esteiros do Jaguaribe
e Manimbu[ nas imediações da Zona Norte de Natal]. Em direção ao interior, no Potengi vê-se o topônimo
“Ourapary”, provavelmente uma aldeia chefiada por um maioral do mesmo nome (MEDEIROS FILHO,
1996, p.33).

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cartografia portuguesa, como “Saint Roc” - São Roque - dando novos sentidos na língua
francesa. Pode-se inferir que era uma mudança no estilo da escrita cartográfica de
Dieppe. O tráfico de pau-brasil era inexistente a oeste do rio Ouyatacas [atual rio de
Touros], segundo o Mapa, “ não existe nada de brasil, mas há peles de papagaios e
outros bichos”. Talvez por ser uma região de transição de Mata Atlântica, para um misto
de cerrado e dunas típicas da paisagem do litoral norte (ARAÚJO JÚNIOR, 2013).
Novamente vemos a iconografia dos baixios de São Roque e a indicação que era uma
região “com água baixa que se estendem por 21 léguas”, sendo perigosas para a
navegação costeira. Nesses baixios e nas praias adjacentes encontravam muito
âmbar91 cinza para comercializar (BRANCO, 1950; MEDEIROS FILHO, 1996; LOPES,
1998; MACEDO, 2007).
O litoral norte era intitulado de “Coste de Merengastes”92, ver Figura 4. Para
Olavo de Medeiros Filho seria uma tradução literal de “Costa de Maxaranguape”,
referência ao rio ao sul do Cabo de São Roque. Nessa faixa de terra estaria uma aldeia
Potiguara intitulada de “Souasoutin”93, que para o autor, pelo idioma tupi, pode-se
interpretar de “Çuaçu Tin, isto é, Focinho de Veado, provavelmente o nome de um chefe
indígena aliado dos franceses” neste litoral (MEDEIROS FILHO, 1996, p.33). Reforçando
assim, que existiam alianças entre franceses e Potiguara no litoral norte da Capitania
do Rio Grande. As aldeias foram desenhadas de formas quadrangular, com um padrão94
semelhante em todo o Mapa. Nelas mostram a organização social desses grupos, como
também indicam uma relação mais amistosas com os corsários franceses.
Buscando alinhar-se com a Arqueologia Histórica para entender o processo de
ocupação dos espaços coloniais no litoral norte da Capitania do Rio Grande, utilizamos
três vertentes para cruzar dados informativos: as imagens e relatórios arqueológicos,
a cartografia e as fontes escritas quinhentistas. Assim conseguiu-se montar no Mapa 1
indícios do encontro colonial entre grupos indígenas Potiguara e piratas franceses.
Como foi observado, a região litorânea em estudo era identificada pelos franceses de

91Betume amarelo ou pálido que se encontra nas praias o mar (BLUTEAU, 1789, p.73).
92 Região litorânea compreendida entre Touros e o Cabo de São Roque (MEDEIROS FILHO, 1996, p.33)
93 Para Castelo Branco, a aldeia estava na costa oeste do Cabo de São Roque a 5° 30’ aproximadamente

(BRANCO, 1950, p.44).


94 A aldeia era a principal unidade da organização social dos indígenas. A localização era escolhida num

lugar alto, ventilado, próximo a água e adequado ás plantações que se faziam ao seu redor. Suas
habitações, feitas com toras de madeira, cobertura de folhas e não tinham divisões internas. Poderiam
ter de duas a três entradas, eram arrumadas formando um terreiro quadrado que ficava vazio. Esse
espaço comportava mais de duas dezenas de indivíduos aparentados entre si (LOPES, 1998, p.50).

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“Costa de Merengastes”. Local segundo Gabriel Soares de Sousa, como ancoradouro


de “naus francesas da Enseada de Itapitanga”. Os sítios arqueológicos95 do contato
foram avaliados com supostos indícios de feitorias ou aldeias que mantinham um
constante escambo entre esses grupos europeus. Lembramos que os dados
arqueológicos observados na Figura 1, indiciam que esse território era formado por
grupos ceramista Tupiguarani, contemporâneos do período do contato colonial, entre
1500 e 1800. Assim, pelas fontes escritas e pela historiografia analisada esses
indígenas eram Potiguara.
Os quatro sítios estão nas imediações do rio Punaú, em locais de altitude um
pouco elevada, em solo dunar96 e pouco afastados da praia, com distâncias que variam
entre 1,4 a 0,9 quilômetros do Oceano Atlântico. Possivelmente, devido aos efeitos dos
ventos, a configuração geográfica das dunas nas imediações da Enseada de Pititinga
eram outras nesse período. As características geográficas desses sítios, corroboram
com as descrições de aldeias indígenas Potiguara, feitas por Fátima Martins Lopes. Ao
descrever que essas ficavam localizadas em um “lugar alto, ventilado, próximo a água
e adequado às plantações que se faziam ao seu redor” (LOPES, 1998, p.50). Sendo assim,
essa enseada foi um local de intensa atividade de oficinas ceramistas, em vista da
quantidade de artefatos cerâmicos encontrados nos sítios.
O escambo entre os dois grupos, Potiguara e franceses é evidenciado na
iconografia da cartografia francesa, como se pode perceber nas Figura 2, Figura 3 e
Figura 4. Em vista disso, o material arqueológico encontrado nos 4 sítios ao redor do
rio Punaú continham: artefatos de faiança fina, faiança francesa, miçangas venezianas
e outros artefatos da tralha doméstica europeia do quinhentos, evidencia uma troca
comercial entre os indígenas e europeus nesse espaço. Lembremos que esses dados
podem referendar essa região da enseada, como um ancoradouro de navios franceses,
devido ser uma região de “aguada”97. No Dicionário de Padre Bluteau, esse termo

95 Os sítios avaliados nesse Mapa 1, são os localizados nas imediações da Enseada de Pititinga: Sítio
Zumbi, Enseada de Pititinga, Rio do Fogo I e Rio do Fogo II. O sítio Lagoa do Sal não foi utilizado devido a
distância do mesmo em reação aos outros.
96 Nas referências dos relatórios de prospecção são descritos que esses sítios estão no “maior campo

dunar do Rio Grande do Norte” (ALBUQUERQUE; SPENCER, 1995).


97 Nos mapas da cartografia portuguesa do início do século XVII, apresentam-se em sua toponímia da

costa norte do Rio Grande, o termo “Rio da Aguada” ou “Rio da Agoadoce”. Ver o Mapa de Albernaz, João
Teixeira: [Atlas] DESCRIPÇÃO DE TODO O MARITIMO DA TERRA DE S. CRVS, CHAMADO
VULGARMENTE, O BRAZIL, [manuscrito colorido], 1640. Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do
Tombo, inv. nº CF 162, fl. 4, [Cota: Coleção Cartográfica, nº 162. TT-CRT-162], Lisboa, Portugal.

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significa: “provisão de água para o navio; lugar que faz essa provisão” (BLUTEAU,1789,
p.44).

Mapa 1: Costes des Merengastes: do rio de Ouyataca à Sainct Roc.

Mapa elaborado pelo autor, com auxílio do Google Earth., A partir dos dados cartográficos do Mapa de
Jacques de Vaulx de Claye de 1579 e dos escritos de José Moreira Brandão Castelo Branco (1950), Olavo
de Medeiros Filho (1996), Fátima Martins Lopes (1998) e Helder Alexandre Medeiros de Macedo (2007).
Além dos relatórios dos sítios arqueológicos identificados pelo Projeto Dunas e organizados em quadros,
com as respectivas coordenadas geográficas, na Tese de Doutorado de Iago Henrique Medeiros (2016).

Como se observa no Mapa 1 as lagoas ao fundo e os dois rios perenes, o Punaú


e “Ouytacas” poderiam fornecer água para as embarcações estacionadas na enseada,
fato que ocorre desde a expedição de 1501 de Américo Vespúcio. Supõe-se que a costa
de São Roque era local da aldeia Souasoutin, está poderia fornecer, devido às alianças,
mão de obra para os traficantes franceses de pau-brasil. Estes realizavam uma rota
marítima, trazendo em chalupas, carregamento de pau-brasil das imediações do rio
Baquipe [Ceará-Mirim]. Subiam, rumo ao norte, com essas pequenas embarcações além
do Cabo de São Roque, para carregamento final do produto, nas grandes naus
ancoradas nesta costa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
No final da década de 1590, os portugueses conquistam as imediações da foz do
rio Potengi, 10 léguas ao sul do Cabo de São Roque. Intensificaram a colonização na
Capitania do Rio Grande a partir da fundação da Fortaleza dos Reis Magos em 1598 e

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da Cidade do Natal em 25 de dezembro de 1599(POMBO,1922, p.42). Expulsam os


últimos redutos franceses na costa e consequentemente as descrições sobre esses
indígenas no litoral norte tornaram-se raras ou invisibilidades pelos cronistas. No
próprio documento de Soares de Sousa de 1587, já indiciava esse desaparecimento
indígena nas imediações da costa setentrional: “ a costa é limpa e a terra escalvada, de
pouco arvoredo e sem gentio” e da costa de São Roque, “a terra por aqui ao longo do
mar está despovoada do gentio por ser esterio e fraca” (SOUSA, 1851[1587], p.25). O
relato é um testemunho desse “desaparecimento” dos Potiguara no litoral norte,
contribuindo para esses dados, a expansão do território português sobre espaços
pertencentes aos Potiguara. Estimativas indicam que em 1570, a população indígena
era na ordem de 800 mil indivíduos, estava reduzida a um terço de seu volume
demográfico no início do século XVI (OLIVEIRA, 2015, p.176-177).
Por fim, o encontro colonial desencadeou a dizimação por doenças, guerras e
escravização desses povos do litoral. As populações remanescentes buscaram abrigos
em outras paragens, longe do contato dos militares europeus no litoral. O genocídio
desses povos se perpetuou no decorrer dessa expansão territorial perpetrada pela
Coroa Portuguesa. Ao mesmo tempo, a cartografia portuguesa do XVII, mudou a
concepção das confecções desses mapas, pois os sertões estavam sendo desbravados
por pioneiros em marchas pelas ribeiras dos rios e nos antigos caminhos dos indígenas
para o sertão. Esses novos elementos observados por esses agentes externos, foram
inseridos nessa cartografia lusa, não mais preocupada em elaborar novos atlas
buscando inserir nestes, os limites da terra desconhecidos, e sim, aprimorar o
conhecimento sobre interior da América Portuguesa. Essa produção cartográfica teve
como principal expoente, as produções da família de cosmógrafos Teixeira Albernaz,
que elaboraram entre 1574 e 1666, nove documentos entre livros, atlas e mapas sobre
o Estado do Brasil.

FONTES
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http://dpg.lib.berkeley.edu/webdb/dsheh/heh_brf?CallNumber=HM+29&Description
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Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/santos/mapa20g.htm, acesso em: 21
jul.2018.

MAPAS HISTÓRICOS BRASILEIROS. Mapa-múndi de Bartolomeu Velho, 1561.


Enciclopédia Grandes Personagens da Nossa História, São Paulo: ed. Abril Cultural,
1969. Reprodução do fac-simile da mapoteca do Ministério das Relações Exteriores.
Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/santos/mapa57.htm, acesso em: 21
jul.2018.

BIBLIOTECA NACIONAL DA FRANÇA. [Carte de la côte du Brésil] Jacques de Vau de


Claye m'a faict en Dieppe l'an 1579. 1579. Departamento de Mapas e Planos, Códice:
GED-13871 (RES).
Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b550026193/f1.item, acesso em:
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do Museu Nacional, Rio de Janeiro, 2016.

Fontes Imagéticas
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pelo IPHAN – RN. Cxs. 01 e 03. (Fotos tiradas pelo autor em: 27 jun.2018).

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INDÍGENAS NO ENSINO SUPERIOR: PERCORRENDO AS


VEREDAS DOS DESAFIOS E DAS DIFICULDADES NO BRASIL
CONTEMPORÂNEO

Guilherme Luiz Pereira Costa98


Maria Eunice de Oliveira99

INTRODUÇÃO
Desde os anos de 1970, os povos indígenas do nosso país têm se organizado e
lutado por seus direitos. A Constituição Federal de 1988 reconhece a necessidade de
uma legislação que atenda as diversas sociedades indígenas brasileiras, assegurando
o direito ao território, a prática de suas culturas e um ensino escolar diferenciado. Pela
primeira vez no Brasil, os índios deixam de ser tratados como incapazes e passam a ser
os protagonistas. Assim, desde a década de 1980, o Estado e as sociedades indígenas
passam a lutar no mesmo lado.
As leis que antes buscavam a assimilação definitiva dos nativos, agora têm como
intenção assegurar o exercício da diferença. Esse processo de reivindicação de uma
educação que valorize as especificidades de cada povo indígena, atendendo as crianças,
jovens e adultos também refletiu na presença indígena no ensino superior.
A presença de estudantes indígenas no ensino superior leva-nos a pensar sobre
as reais possibilidades da educação proporcionada e da participação efetiva na
sociedade colonizadora. Os desencontros que pretendemos expor no decorrer deste
trabalho que aqui segue, são causas diretamente resultantes de uma educação que
ainda não está pronta para atender todas as demandas específicas: uma educação que
não visa novos caminhos para a compreensão das diferenças existentes.
Acreditamos que a inserção de indígenas no sistema educacional brasileiro
surge não somente como uma provável efetividade de políticas públicas de acesso,
como reflexo de reinvindicações, ou somente como força de vontade de uma minoria,
mas consiste em uma necessidade de entender como vendo sendo construído o

98 Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Mestrando no
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas-PPGCISH/UERN.
guilhermelpcosta15@gmail.com
99 Licenciatura em História pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Mestranda no Programa

de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas-PPGCISH da Universidade do Estado do Rio Grande do


Norte-UERN. maria16eunice@gmail.com

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caminho e como tem sido percorrido por aqueles que adentraram aos muros das
instituições.
Desde o título desse trabalho, falamos de “veredas de desafios” para referirmo-
nos a um caminho longo e ao mesmo tempo muito estreito. Veredas essas que estão
levando os índios até as universidades, mas que ainda são repletas de arbustos e outras
plantas espinhosas, causando cansaço e desistência. Muitos não conseguem trilhar a
caminhada até a faixa de chegada. Com isso, pretendo deixar claro que não trata-se de
fraqueza ou desistência por falta de interesse. Existe diversos fatores que obscurecem
o percurso e impedem o êxito dos maratonistas. O pódio parece estar [ainda] muito
distante e saberemos que não depende unicamente dos indígenas para alcançá-lo.
Contudo, percebe-se a existência de um certo nível de contraste e/ou oposição
entre a busca pelo diploma e o uso do cocar. Fazendo com que a escolha seja
constantemente imposta e assim, apareça com ela todo um jogo de identidades e
diversos contratempos em torno da permanência desses representantes étnicos no
ensino superior.
Como metodologia, utilizamos de levantamento e pesquisa bibliográfica sobre a
temática para analisar o trajeto de estudantes indígenas em cursos de graduações em
algumas instituições brasileiras e em cursos diversos. A reflexão consiste no debate
acerca de trabalhos de pesquisadores que relatam experiências de tais estudantes.
Nossa intenção é trazer à tona as impressões e opiniões de estudantes que vivenciaram
(ou que tentaram vivenciar) a academia a partir da análise de bibliografia. Trata-se de
uma discussão a respeito do sucesso ou da ausência de êxito perante um sistema que
historicamente vem representando uma educação integracionista e que não foi
preparado para sequer receber quem tem necessidades específicas, quando o assunto
é conhecimento.

A PRESENÇA DE INDÍGENAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS


A presença de indígenas nos sistemas de ensino ultrapassa o nível da educação
básica, mostrando que tem aumentado significativamente o número de índios nas
universidades. Antes esses povos procuravam isolar-se; hoje acontece um movimento
afirmativo que consiste um momento de contato e diálogo com a sociedade nacional.
Por outro lado, escola indígena, apesar de ser almejada por muitos povos que
reconhecem que essa instituição pode propiciar a preservação e manutenção de suas

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culturas, também pode ser fruto de conflito ou até mesmo motivo de repulsa por aparte
de algumas comunidades.
Quando se fala de estudantes indígenas nas universidades públicas, logo se
pensa em ações para a inserção dos mesmos nestas instituições de ensino. Por outro
lado, permanência dos ingressantes nas universidades não tem sido proporcionada da
mesma forma que a entrada. Deve pensar na efetivação de um duplo pertencimento
(AMARAL; BAIBICH-FARIA, 2012) dos docentes, considerando as novidades do âmbito
acadêmico e sua identidade étnica.
O ingresso de alunos indígenas nas universidades é um fenômeno recente no
Brasil. Por meio de ingresso específico e diferencial, o Estado tem permitido que
estudantes provenientes de comunidades indígenas cursem uma graduação ou pós-
graduação em instituições públicas. Mas percebe-se que a permanência torna-se pauta
tanto na agenda dos movimentos indígenas quanto de comunidades acadêmicas
interessadas em uma Universidade pública e de qualidade, que respeita as diferenças e
preocupa-se com a inclusão de segmentos sociais historicamente excluídos. Trata-se
de pensar uma educação descolonizada:

Em primeiro lugar, penso que o conceito de descolonização deve ser


utilizado com o intuito de fortalecer a autodeterminação dos povos
indígenas. Nesse sentido, o mesmo pode servir para aprofundar
concepções, questionamentos e métodos utilizados no campo científico
e que vem tendo desdobramentos diretos na vida dos povos indígenas.
A academia possui também uma função de fornecer profissionais e
produções de conhecimento para a concepção e realização de políticas
públicas em diversos âmbitos, assim como uma influência na
construção das diversas concepções sobre educação, escola, saberes,
organizações sociais etc., em diversas esferas sociais. Dessa forma,
outra questão, nas ordens principalmente política e metodológica, deve
ser apontada em que medida a categoria “descolonização” tem relação
direta com o que os povos indígenas vêm defendendo sobre suas
escolas nos últimos tempos. Sobre tal ponto, pude observar o uso do
termo por indígenas, seja em apresentação de trabalhos em espaços
acadêmicos ou em fala de lideranças indígenas ao se referir,
principalmente, aos processos de escolarização (CHATES, 2017, p. 06).

O histórico da tentativa de assimilação total dos índios brasileiros não tem fim
com o término do período Brasil colônia. Ainda hoje, por meio de uma educação ofertada
no sistema de ensino nacional, a história dos povos indígenas tem sido desvalorizada e
esquecida. A visão civilizatória ganhou forças com a implantação da escola. Mas é

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ilusório pensar que eles nunca resistiram. É de extrema importância mostrar que os
direitos obtidos são frutos de lutas e reivindicações desses povos.
O protagonismo indígena liberta esses povos da tutela do Estado, tornando-os
atores ativos “[...] agentes, elaboradores, incentivadores, criadores, participantes e
proponentes, com direito de voz e, em algumas situações, de voto, das decisões outrora
tomadas pelo Estado e que os atingia diretamente”. (BICALHO, 2011, p. 06). É uma
questão de autorrespeito e de relação entre as etnias.
Surgia um movimento organizado em meio à política integracionistas e projetos
de um governo ditatorial. Porém, mesmo depois da Constituição de 1988, a luta
permanece na busca de garantir os direitos que foram conquistados. Agora, deixando
de ser considerado como opositor, o Estado passa a dialogar com o Movimento
Indígena.
Estado, sociedade civil e indígenas buscam novos caminhos:

Para a compreensão desse processo, elegeu-se cinco eventos


considerados marcantes – devido à importância dos mesmos à inegável
tomada de consciência desses povos, e às formas de desrespeito
praticadas pelo Estado e setores da comunidade nacional frente aos
mesmos – durante o contínuo temporal em que ocorreu o surgimento,
a estruturação e a organização do Movimento Indígena no Brasil, que
são os seguintes: as Assembleias Indígenas; o Decreto de Emancipação
de 1978; a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/Constituição de
1988; as Comemorações dos 500 anos do Brasil; e o Abril
Indígena/Acampamento Terra Livre. (BICALHO, 2011, p. 12).

A organização dos povos não pode ser deixada de lado quando nos dispomos a tratar
de uma educação para indígenas. É preciso entender que o direito às cotas é reflexo de
uma história de lutas.

DISCUTINDO A INCLUSÃO
Somente no início do século XXI, pela primeira vez no Brasil, é aprovada uma lei
que assegure o acesso de estudantes indígenas no ensino superior. No paraná, foi
aprovada a Lei Estadual nº 13.134, de 18 de abril de 2001, que garante vagas
suplementares em universidades e faculdades do estado, através de um vestibular
específico para os povos indígenas no ano seguinte. De início, a lei dispõe que deve-se
ser garantidas três vagas por ano em cada uma dessas universidades paranaenses.

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Para Amaral e Baibich-Faria, o ensino superior para indígenas pode ser


considerado como complementação para o êxito de uma educação na própria
comunidade:

Esse processo se apresentava num contexto caracterizado pela luta


reivindicatória dos movimentos e das organizações indígenas pela
efetiva institucionalização das escolas indígenas no País – nesse
momento com significativo respaldo legal e normativo –, com a clara
intenção de que fosse garantida a educação básica bilíngue, específica,
diferenciada e intercultural nas terras indígenas, conforme já
preconizava a legislação brasileira. O ensino superior se apresentava
principalmente como estratégia e possibilidade de formação dos
professores índios para as escolas indígenas, dada a perspectiva de
ampliação da oferta dos anos finais do ensino fundamental nas aldeias
(p. 820).

A necessidade de uma formação universitária para povos indígenas tem feito


com que as mobilizações indígenas no brasil constantemente reivindiquem o acesso ao
conhecimento acadêmico. Até mesmo o ensino básico proporcionado a esses povos
resulta em um frágil domínio de conteúdos escolares. Então, parte dessa fragilidade a
defesa de uma educação que deva ocorrer no interior das comunidades.
A formação de membros das comunidades indígenas é uma estratégia de
intercâmbio entre a sociedade envolvente e as ditas sociedades tradicionais, mas nem
sempre é fácil de acontecer. Assim, de acordo com a bibliografia utilizada para o
desenvolvimento dessa pesquisa, nota-se que viver e conviver com sujeitos em um
espaço que não parece entender as diferenças socioculturais, torna-se extremamente
desafiador para os indígenas.
O grupo que teve maior expressão na luta pelo direito à educação diferenciada e
por ações afirmativas foi o movimento de professores indígenas, com apoio de grupos
étnicos de várias regiões. Esse movimento também é responsável pela conquista das
licenciaturas interculturais como cursos específicos. A formação de professores para
atuarem nas comunidades comtempla a modalidade da educação indígena que é
assegurada tanto pela Constituição Federal de 1988 quanto pela Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional (LDB de 1996):

A educação superior não pode ser pensada pelos “brancos” para os


povos indígenas, mas deve ser pensada pelos povos indígenas e com os
povos indígenas. Para que isso seja possível, é necessário que se

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promovam as condições financeiras e logísticas, além de uma postura


institucional que favoreça o debate e a reflexão sobre a universidade e
que atenda às suas demandas. (ARCANJO, 2011, p. 92).

A interculturalidade trata do diálogo das comunidades entre si e com a sociedade


nacional. É a valorização da diversidade sem privilegiar uma perspectiva na construção
de um sistema educacional, favorecendo e reconhecendo o pertencimento étnico dos
sujeitos envolvidos.
As dificuldades encontradas levam a uma série de razões que são comumente
chamadas de “desistência”. Apesar da aprovação e matrícula, muitos não permanecem
nos cursos que eles mesmo escolheram. Os menores índices de evasão de estudantes
indígenas tem sido observados em instituições de ensino superior que mostram-se
preocupadas e acompanham o processo de permanência desses estudantes (AMARAL;
BAIBICH-FARIA, 2012).
Quando já estão inseridos entre os murros da instituição de ensino superior, a
questão da identidade étnica transforma-se em alvo de reflexão. Muitos se reconhecem
enquanto persistente e têm orgulho de ser responsável, de alguma forma, em pelo
acesso ao conhecimento que poderá ser utilizado a favor de seu povo futuramente.
Mesmo sendo associada a busca pelo exercício da cidadania e de aprendizagem de
saberes que antes não eram acessíveis, os indígenas se deparam com situações de mão
única, onde os saberes produzidos por seus povos são tratados como inúteis no âmbito
acadêmico.
Em sua análise acerca do protagonismo dos Movimentos Sociais no processo de
construção e aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE 2010-2014), com enfoque
nas metas para a Educação Superior, Morais (2014) busca o contato com
representantes que possam tornar sua pesquisa uma porta-voz na luta por uma
educação pública e de qualidade. A autora, ao entrevistar Edilene Pajeú100, uma
representante indígena, se depara com uma visão que vai além das cotas.
Pajeú discute que enquanto outros países estão empenhados na ideia de
construir Universidades Indígenas, aqui no Brasil ainda estamos debatendo o papel das

100Edilene Bezerra Pajeú, popular Pretinha Truká, professora indígena empenhada na luta e de uma
educação diferenciada para os povos indígenas. Ela faz parte da Comissão de Professores Indígenas de
Pernambuco da qual tem travado inúmeras batalhas nesse campo de atuação e como representante da
COPIPE garantiu assento na Comissão Nacional de Educação, uma peça importantíssima na organização
interna da Comunidade, concluiu a Licenciatura Intercultural.

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cotas. Fazemos mobilizações para assegurar uma porcentagem do número de vagas


para atender alguns indivíduos no Ensino Superior. Além disso, estamos preocupados
em manter os direitos já conquistados, pois esses estão constantemente pairando
sobre uma nuvem de ataques. Não se pode pensar que a oferta de cotas encerra as
reivindicações, já que o número de vagas disponíveis não completa todos os povos.
Nosso sistema educacional prende-se a defesa da meritocracia e se funda em
problema que supostamente seriam ocasionados a partir da abertura das portas das
instituições tanto para negros quanto para os indígenas. Assim, mesmo não estando
diretamente tratando da questão indígena, sendo o foco principal as cotas para negros,
Vieira (2016) assegura ser necessário buscar entender o porquê da recusa proveniente
das próprias instituições que deveriam ser as promotoras da inclusão:

As políticas de ação afirmativa existentes nos dias de hoje constituem-


se em canais de crítica ao que se estabeleceu e se cristalizou no
pensamento social e acenam no sentido da elaboração de novos
quadros interpretativos da sociedade brasileira, no interior dos quais
não haja a naturalização de desigualdades baseadas na raça (VIEIRA,
2016, p. 28).

De acordo com a citação anterior, o que vigora no discurso de resistência não é


realmente a capacidade tida ou não por aqueles que usufruem das cotas para ingressar
em instituições educacionais. O que é percebido diz respeito ao pensamento
conservador, evolucionista e racial.

PERCORRENDO AS VEREDAS
O que buscamos discutir são ações que apoiam a permanência de acadêmicos
indígenas nas universidades públicas brasileiras, deixando de focar apenas em políticas
de acesso. De forma geral, considerando a bibliografia utilizada para esse trabalho, as
principais barreiras percebidas nas pesquisas realizadas com alunos indígenas e
instituições que recebem esses alunos, pode-se destacar problemas como:

▪ Aprendizagem frágil em escolas não diferenciadas;


▪ Falta de moradia, uma vez que esses indivíduos têm que se afastar de
suas comunidades para frequentar a universidade;

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▪ Dificuldade com locomoção e alimentação nas instituições na cidade


grande;
▪ Saudades da comunidade, devido ao forte vínculo criado no seio da
própria comunidade;
▪ Número reduzido de bolsas permanência, e quando conseguem tais
bolsas, frequentemente, estas são liberadas com meses de atraso;
▪ Discriminação por parte dos estudantes brancos por desconhecimento e
preconceito a respeito da condição social dos povos indígenas;
▪ Ausência de ações que possam possibilitar um intercâmbio entre as
instituições e as comunidades;

Mesmo tendo em vista uma vasta lista de dificuldades, ações afirmativas,


vestibulares diferenciados e licenciaturas interculturais são mecanismos utilizados
para que indígenas consigam entrar na Universidade. Porém, essas iniciativas de
reconhecimento não é percebido por muitos, na vida acadêmica, como fenômeno de
inclusão social, mas como favorecimento ou privilegio de uma parcela da sociedade.
Antes do caráter obrigatório da Lei 12.711 de 29 de agosto de 2012, intitulada
com Lei de Cotas, as iniciativas para implantação de mecanismos que permitissem o
acesso e permanência de negros e indígenas dependia de cada instituição. A presença
de indígenas em universidades dava-se inicialmente por meio de convênios entre a
Fundação Nacional do Índio (Funai) e instituições privadas a partir da década de 1990
(DOEBBER; BRITO). Atualmente, o ingresso de indígenas no ensino superior, pelo
cumprimento do Plano Nacional de Educação, tem se consolidado principalmente em
cursos diferenciados como as licenciaturas interculturais.
O Programa de Bolsas Permanência foi instituído em 2013 (apesar de se limitado
e não atendendo as necessidades específicas), permitindo auxílio financeiro a
estudantes em vulnerabilidade socioeconômica. O Conselho Indigenista Missionário
(2018) lamenta, que mesmo sabendo da importância que o auxílio tem para combater a
evasão de estudantes indígenas e quilombolas, no primeiro semestre de 2018, o
Ministério da Educação (MEC) anuncia uma severa redução no número de bolsas. Até
2017 o número de estudantes contemplados estava em torno de 4.000, mas o MEC
reduziu para quase 10% desse total.

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Trazendo o números de indígenas matriculados, Lima (2012), de acordo com o


Movimento Indígena e com o próprio MEC, afirma que existia cerca de 8.000 estudantes
em território nacional no ano de 2012. Percebe-se assim, que as bolsas disponíveis
antes do corte anunciado recentemente já não eram suficiente para suprir a
necessidade de atender a quantidade de universitários indígenas.
Concordamos com Lima (2012) quando ele diz que, no Brasil, enquanto país de
imensa diversidade de culturas, existe a necessidade de considera a história e
conhecimento produzido e que continua sendo reproduzido pelas diferentes etnias, não
permitindo que saberes e valores sejam em momento algum abandonados por serem
tratados como inferiores ou inúteis. No caso dos índios no nosso pais, a ignorância
reflete como violência, simbólica ou não.

CONCLUSÃO
Historicamente, na escola, o preconceito a respeito das sociedades indígenas
tem sido frequentemente propagado, assim como na mídia. A imagem do indígena do
senso comum que tem sido passada nas instituições de ensino e nos veículos de
comunicação representam permite a vergonha e a desvalorização das destes grupos
étnicos perante a sociedade nacional. Por outro lado, nas últimas décadas, esses povos
têm participado mais efetivamente em decisões tomadas pelo Estado nacional que são
relacionadas a eles. Reagindo devido a indignação com a imagem que foi construída e
perpetuada sobre sua existência.
A preocupação maior percebida pelos pesquisadores tem sido a inserção dos
indígenas formados enquanto profissionais na comunidade. Com isso, Bergamaschi,
Doebber e Brito (2018) afirma que os cursos da área de saúde, educação, direito e
ciências da terra são os mais procurados pelos indígenas. O interesse por esses cursos
apresenta-se como reflexo do que já foi citado anteriormente: entender as políticas
indigenistas.
As cotas, especialmente nas universidades, ainda representam persistência e
resistência nas nossas discussões sobre igualdade e o direito a diferença. Por um lado,
podemos considerar que o debate parece estar estagnado no tempo, mas isso não
significa que seja um retrocesso. Pelo contrário! Porém, nos causa a impressão de que
os avanços não acontecem quando estamos falando da realidade brasileira. Podemos
então, dizer que estamos avançando nessas questões a passos de tartaruga.

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A participação e o protagonismo dos movimentos indígenas na busca por


reconhecimento e representação do Estado, requer uma formação para entender as
políticas que não fruto de suas reivindicações. Além disso, existe a necessidade um
diálogo em diferentes contextos, com diferentes povos. A formação em todos os níveis
de indígenas representa a importância e urgência de compreender a capacidade
articulação e de conseguir atuar sem a tutela do Estado.
O que discute-se é a construção de uma Universidade nova, onde os índios não
deixam de serem considerados índios devido ao ingresso em ensino superior. Além
disso, existe a necessidade de um instituição de ensino superior pública que leve em
consideração os conhecimentos produzidos nas comunidades. Trata-se de perceber
que o indígena não é um estudante comum e fazer com que ele deixe de ser percebido
como um estrangeiro. Deve-se também refletir acerca da importância da presença de
lideranças indígenas nas universidades e a possibilidade de atividades que privilegiem
extensão e pesquisa, resultando na troca de sabres entre as duas concepções de
mundo.

REFERÊNCIAS
AMARAL, Wagner Roberto; BAIBICH-FARIA, Tânia Maria. A presença dos estudantes
indígenas nas universidades estaduais do Paraná: trajetórias e pertencimentos.
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 96, n. 235, p.818-835, 2012.

ARCANJO, Julia de Alencar. A luta pelo diploma e o diploma para a luta: Educação
Superior para os povos indígenas. 2011. 161 f. Monografia (Especialização) - Curso de
Ciências Sociais, Antropologia, Universidade de Brasília, Brasília, 2011.

BERGAMASCHI, Maria Aparecida; DOEBBER, Michele Barcelos; BRITO, Patricia


Oliveira. Estudantes indígenas em universidades brasileiras: um estudo das políticas
de acesso e permanência. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 99,
n. 251, p.37-53, 9 maio 2018.

BICALHO, Poliene Soares dos Santos. Protagonismo Indígena no Brasil: Movimento,


Cidadania e Direitos (1970-2009). In: Anais do XXVI Simpósio Nacional De História,
2011, São Paulo: Anpuh. p. 01 – 14, 2011.

BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Portaria nº 389, de 9 de maio de 2013. Cria o


Programa de Bolsa Permanência e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília, 13 maio 2013.

______. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da


Educação Nacional. Diário Oficial da União [da] República Federativa do Brasil,
Brasília, DF, 23 dez. 1996.

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CHATES, Taíse de Jesus. Descolonização da escola e questão indígena: porque e para


quem? Relacult – Revista Latino-americana de Estudos em Cultura e Sociedade, v. 3,
n. Edição Especial, p.01-09, 2017.

COSTA, Ana Maria Morais. Movimentos sociais e Educação Superior: Ação coletiva e
protagonismo na construção do Plano Nacional de Educação (2010-2014). 2014. 250 f.
Tese (Doutorado) - Curso de Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2014.

LIMA, Antonio Carlos de Souza. A Educação Superior de Indígenas no Brasil


contemporâneo: reflexões sobre as ações do Projeto Trilhas de Conhecimentos.
Revista História Hoje, Florianópolis, v. 1, n. 2, p.169-193, 2012.

MISSIONÁRIO, Conselho Indigenista. MEC oferece apenas 800 bolsas e ameaça


permanência de 4 mil indígenas e quilombolas na universidade. 2018. Disponível em:
<https://www.cimi.org.br/2018/05/mec-oferece-apenas-800-bolsas-e-ameaca-
permanencia-de-4-mil-indigenas-e-quilombolas-na-universidade/>. Acesso em: 01 jul.
2018.

VIEIRA, Paulo Alberto dos Santos. Para além das cotas: Contribuições sociológicas
para o estudo das ações afirmativas nas universidades brasileiras. Jundiaí: Paco
Editorial, 2016. 292 p.

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Simpósio Temático 5
A COLONIZAÇÃO EM MOVIMENTO:
COLONOS E REINÓIS NA EXPANSÃO DO IMPÉRIO
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(AMÉRICA PORTUGUESA, SÉCULOS XVII-XVIII)


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QUANDO ACABA O PREGÃO: CONTRATOS,


GRUPOS DE INTERESSE, ECONOMIA E FISCALIDADE NA
CAPITANIA DO RIO GRANDE (1673-1723)

Lívia Brenda da Silva Barbosa101

Os autos de arrematação dos dízimos reais eram postos como pregão público
com o objetivo de lançar em forma de contratos a arrecadação sobre a produção na
capitania do Rio Grande. Assim, utilizava-se de um mecanismo administrativo para
atribuir a particulares a responsabilidade de arrecadar os tributos régios. Ao arrematar
o contrato o rendeiro pagava à Provedoria da Fazenda Real um valor previamente
estabelecido de acordo com as cláusulas do pregão e a diferença entre o que ele pagava
e o que de fato era arrecadado consistia no seu ganho102.
Mesmo em tempos de poucos lances os autos de arrematação da Provedoria da
Fazenda Real ocorriam103. O processo dos autos de arrematação da Provedoria do Rio
Grande era organizado, seguia um padrão ritualístico bem definido e acontecia mesmo
com algumas dificuldades. Findo o auto, o contratador tomava os ramos verdes em
mãos e outra etapa viria: a arrecadação. O auto de arrematação era apenas o começo de
uma jornada de cobranças e registros burocráticos que tinham o objetivo de garantir
as rendas da capitania.
Ainda que ocorressem de forma padronizada e com determinações bem
definidas, não havia garantia de que os contratos seriam pagos dentro do prazo ou de

101 Graduada em História/Licenciatura (2014) e em História/ Bacharelado (2016) pela UFRN. Mestre em
História (2017) pelo Programa de Pós-graduação em História da mesma instituição (PPGH-UFRN).
Integra o Laboratório de Experimentação em História Social da UFRN (LEHS-UFRN), e faz parte do grupo
de pesquisa Impérios Ibéricos no Antigo Regime: política, sociedade e cultura. Atualmente trabalha no
Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica (NUDOPH) da Universidade do Estado do Rio Grande do
Norte (UERN) como técnica especializada do Departamento de História.
102 PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.

340, 341.
103 Os registros dos autos de arrematação da Provedoria da Fazenda Real do Rio Grande narram em

detalhes como ocorria o processo, seus participantes e oficiais envolvidos. Sobre o processo do auto de
arrematação, sua ritualística e procedimentos ver: BARBOSA, Lívia Brenda da Silva Barbosa. Com os
ramos nas mãos, para o lucro dos homens e da Coroa: os autos de arrematação da Provedoria da Fazenda
Real do Rio Grande (1673-1723). Temporalidades, v. 8, p. 392-408, 2016. Thiago Alves Dias tratou sobre
os autos de arrematação no caso da Câmara do Natal. Ver: DIAS, Thiago Alves. O Código Filipino, as
Normas Camarárias e o comércio: mecanismo de vigilância e regulamentação comercial na capitania do
Rio Grande do Norte. Revista Brasileira de História. v. 34, n. 68, p. 215 – 236. 2014. DIAS, Thiago Alves.
Dinâmicas mercantis coloniais: Capitania do Rio Grande do Norte (1760-1821). 2011. 277 f. Dissertação
(Mestrado em História e Espaços) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2011

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que os contratadores conseguiriam uma boa arrecadação. Quando o pregão chegava ao


fim iniciavam-se outras etapas para os oficiais e os contratadores. As dificuldades
administrativas não estavam apenas nos autos. As características dos autos de
arrematação da Fazenda do Rio Grande fazem com que algumas questões sejam
consideradas. A inconstância dos autos – dificuldades enfrentadas nos pregões –
ausência de lances, pausas e retomadas poderiam influenciar na arrecadação, o que
tornava as rendas da capitania oscilantes104.
As perguntas sobre o que poderia tornar as rendas da Provedoria do Rio Grande
tão frágeis imperam: seriam os problemas dos autos de arrematação? A falta de
interesses dos lançadores em arrematar os contratos? A baixa produção que impedia
uma boa arrecadação? A conjuntura conturbada da retomada da colonização, da
interiorização do povoamento e da Guerra dos Bárbaros?
As respostas podem não ser tão exatas, mas envolvem uma série de dinâmicas
que dizem respeito a produção, grupos de interesse, e de forma geral ligam economia
e fiscalidade. Nesse sentido, com base principalmente nos autos de arrematação dos
dízimos reais da Provedoria da Fazenda Real do Rio Grande, pretende-se compreender
a relação entre os grupos de contratadores e as dinâmicas da economia e da fiscalidade
entre a segunda metade do século XVII e o início do século XVIII, na capitania do Rio
Grande, apontando-se algumas hipóteses iniciais acerca destas questões105.

OS CONTRATADORES E AS RENDAS
Segundo Stuart Schwartz, em geral, os arrematadores espalhados no reino e
ultramar tinham uma “ideia aproximada da produtividade da região, mas não podiam
prever secas, inundações ou guerras”. O autor destaca que os contratadores possuíam
“provavelmente uma capacidade muito melhor de estimar o preço dos bens
produzidos”. Além disso, tinham conhecimento que “se a produção dobrasse, mas o
preço caísse pela metade, o valor do contrato não seria maior do que fora antes das

104: BARBOSA, Lívia Brenda da Silva Barbosa. Com os ramos nas mãos Op. cit.
105O recorte inicial deste trabalho, 1673, é demarcado pela disponibilidade de fontes, pois é o ano do
primeiro auto de arrematação da Provedoria da Fazenda Real do Rio Grande até agora encontrado, a
principal fonte aqui utilizada. O recorte final, 1723, corresponde a um marco importante no que diz
respeito as dinâmicas fiscais da Provedoria do Rio Grande. Foi nesse ano em que a referida Provedoria
passou a ter competências administrativas apenas sobre a capitania do Rio Grande, pois desde a década
de 1680 era responsável pela arrecadação também da capitania vizinha Siará Grande. A partir de 1723 foi
criada junto com a ouvidoria do Siará Grande sua provedoria, reduzindo-se assim as competências da
Provedoria do Rio Grande em termos territoriais.

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alterações”106. Como complemento a essa afirmação de Schwartz, Mozart Vergetti de


Menezes reiterou que:

“por isso, era comum que grandes arrematadores, que tinham cabedais
suficientes para tal, se envolvessem em mais de um contrato de ramos
diferentes e em diversas praças do Império Português. Mas o acúmulo
de contratos, sob olhos atentos da Coroa, não era algo prudente, pois
se temia que, em caso de um contrato malsucedido, o resultado fosse o
encadeamento da ruína de arrematadores e fiadores”107.

Os fatores que influenciavam a inconstância nos contratos da Provedoria do Rio


Grande poderiam ser inúmeros. Destaca-se que cerca de 50 anos de autos de
arrematação foram levantados neste artigo. Cada grupo de lançadores, cada auto em
sua conjuntura poderia fornecer uma explicação específica para as causas desta
característica comum ao recorte analisado: os contratos da Provedoria do Rio Grande
ocorriam quase sempre em circunstancias adversas.
O quadro abaixo permite visualizar alguns elementos dos autos de arrematação
entre 1673 e 1723. Em ordem estão o ano do auto, os indivíduos que fizeram lances no
referido auto, o contratador e o valor do contrato. No caso dos contratadores, muito
pela condição do documento, não foi possível de identificá-los na maioria dos autos,
assim como o valor do contrato. Nesse último caso, foi colocado o último lance

106 SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo:
Companhia das letras, 1998.p. 154 Apud MENEZES, Mozart Vergetti de. Colonialismo em ação:
Fiscalismo, Economia e Sociedade na Capitania da Paraíba (1647-1755). João Pessoa: Editora da UFPB,
2012. p. 120-121.
107 Conforme Mozart Menezes, para a capitania Paraíba, há o caso de Rafael Nunes Paz, que foi

pretendente a arrematador dos dízimos na Paraíba, em 1727, quando, um ano antes, e em conjunto com
Manuel Rodrigues Costa, contratou os dízimos em Pernambuco por cinquenta mil cruzados. AHU-RN,
Papéis Avulsos, Cx. 7, D. 541. É interessante também o caso de Manuel Correia Bandeira, que apareceu
aperreado, em 1725,“com a notícia de um decreto que havia sua majestade baixado ao Conselho de sua
Real Fazenda, para que não pudesse arrematar um contrato a quem já tivesse outro”. Dessa feita, o
arrematador temia perder o contrato do direito real de cobrar os 3$500 réis sobre “os escravos que se
resgatam em toda a Costa da Mina, Cacheu, São Tomé e mais partes para a Paraíba, Pernambuco e
anexas”, pois já acumulava com esse o “direito aplicado para a Guarda-Costa do Rio de Janeiro”. Nesse
caso, o temor da Coroa era de que o acúmulo de contratos levasse o contratador à ruína e, consigo, os
seus fiadores. Contudo, Manuel Bandeira, além de ser homem afortunado, pois dizia possuir uma
propriedade de casas em que vivia e alugava na freguesia de São Miguel em Alfama, apresentava como
seus fiadores: Domingos de Miranda, “Provedor dos Contos da Sereníssima Casa de Bragança e superior
deles e da Casa do Infantado, possui várias fazendas, em que entra sua quinta no termo de Sintra, e duas
no termo dessa cidade, uma no Carnanixe e outra no Lumiar”; João Antunes, ourives rico e que tinha uma
morada de casas em Castel Picão, e outra no Alegrete, na freguesia de São Miguel, e uma outra morada
de casas na rua da Madragoa; e“Antônio Bernardes, ourives rico e reputado”. AHU-RN, Papéis Avulsos,
Cx. 6, D. 431. MENEZES, Mozart Vergetti de. Colonialismo em ação: Fiscalismo, Economia e Sociedade na
Capitania da Paraíba (1647-1755). João Pessoa: Editora da UFPB, 2012. p. 120-121.

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identificado no auto de arrematação, valores que estão postos no quadro com um


asterisco (000$$000*):

Quadro I– Lançadores e contratadores dos autos de arrematação da Provedoria da Fazenda Real do Rio
Grande (1673-1723)
Ano Capitania Lançadores Contratador Valor do
contrato/ maior
lance
1673/74 Rio Grande Antonio Gonçalves Ferreira Simão da Rocha 530$000 réis
Caminha anuais
Antonio Leite de Oliveira

Antonio Lopes de Lisboa

Domingos Dias Moura

(Alferes) Jorge França

Juliano Maciel

Manuel Nunes Nogueira (Capitão)


Simão da Rocha Caminha
1690 Siará Grande Não houve lançadores Não houve NA
contratador
1702 Rio (Capitão) Antonio Dias Pereira Domingos da 1:870$400 réis
Grande/Siará Silveira anuais
Grande (Padre) Amaro Barbosa

(Capitão) Gonçalo de Castro da


Rocha

(Capitão) Bento Correa da Costa

(Alferes) Domingos da Silveira

João Carvalho de Lima

Manuel Gonçalves Branco

Manuel Rodrigues Arioza

Manuel Rodrigues Taborda


1704/05 Rio Bento Correa da Costa Fadrique Não identificado 1:200$150 réis
Grande/Siará Correa da Costa anuais (Rio
Grande Grande)
José da Silva Vieira
2:000$100 réis
Manuel da Silva Queirós anuais (Siará
Grande) *
1709 Rio Grande Carlos da Rocha Não identificado 1:920$000 réis
anuais *
Francisco Gomes

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Quadro I– Lançadores e contratadores dos autos de arrematação da Provedoria da Fazenda Real do Rio
Grande (1673-1723)
Manuel Gonçalves Branco

Maurício Bocaro Ribeiro (Vigário


da Matriz) Simão Rodrigues de Sá
1713 Siará Grande (Comissário geral) Antonio Pereira João Malheiros 1:312$000 réis
de Azevedo anuais

João Malheiros
1714 Siará Grande (Alferes tenente) Antonio Lopes Não identificado 1:000$000 réis
de Lisboa anuais
1715/16 Rio Grande Bartolomeu da Costa Jeronimo Cardoso 1:200$000 réis
da Silva
(Sargento-mor) Bento Teixeira
Ribeiro

(Capitão) Domingos da Silveira

(Alferes) Faustino da Silveira

(Licenciado) Francisco Alves


Bastos

Jeronimo Cardoso da Silva

João Marinho de Carvalho

(Sargento-mor) José Morais


Navarro

(Comissário geral) Manuel de


Melo Albuquerque
1717 Siará Grande (Coronel) Carlos de Azevedo do Não identificado 1:200$000 réis *
Vale

(Capitão) Tomé Leite de Oliveira


1723 Rio Grande (Coronel) Bento Correa da Costa Não identificado 600$000 réis
anuais *
Francisco Antunes Vieira

Francisco Pita da Rocha Brandão


Fonte: Quadro elaborado pela autora Lívia Barbosa com base nos autos de arrematação da Provedoria
da Fazenda Real do Rio Grande ocorridos entre 1673 e 1723 108 e do AHU-RIO GRANDE DO NORTE, Cx. 1,
D. 42. Todos os valores que estavam em cruzados foram convertidos para réis.

108 AUTOS de arrematação dos Dízimos Reais da capitania do Siará (1690). Fundo documental do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. S/ n. de caixa. Fls. [?]. AUTO da arrematação dos dízimos
da capitania do Rio Grande (1673-1674). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio
Grande do Norte. Caixa 113. Fls. 75-92v. AUTO da arrematação dos dízimos das capitanias do Rio Grande
e do Siará Grande (1702). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
s/nº de caixa. Fls. 81-88. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Rio Grande e Siará (1704-
1705). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº de caixa. Fls.
88v – 100. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Rio Grande e Siará (1709). Fundo
documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº de caixa. Fls. [ilegíveis].
AUTO de Arrematação dos Dízimos Reais da capitania do Siará Grande (1713). Fundo documental do

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A riqueza da fonte, dos autos de arrematação, descortina uma série de


informações. Assim, foi possível identificar não apenas os contratadores, como ainda
os outros homens que fizeram seus lances. Isso abre uma maior margem para
identificar quem tinha interesse em investir nos contratos. Contudo, essa margem
suplanta os indivíduos que estavam ali nos autos de arrematação gritando seus lances,
competindo com outros lançadores pelo contrato posto em pregão. Sem sombra de
dúvida analisar os contratos é um dos tópicos com mais facetas e possibilidades desta
pesquisa. O negócio dos contratos e seus segredos de arrecadação envolviam
possibilidades de ganho financeiro, grupos de interesses, fatores de queda e alta dos
valores, tudo isso apesar de não ser analisado em detalhes – como posto em pauta os
limites da pesquisa, tempo hábil e necessidade de novos estudos que se
complementem – tudo isso é sempre considerado como elementos que podem alterar
as conclusões de pesquisa futuramente.
Dessa maneira, quanto aos interessados nos contratos, fica claro que os autos
permitem ir além dos nomes dos contratadores, aqueles que davam o lance final,
conhecendo-se também os lançadores. Contudo, não se pode enganar-se: poderiam
haver financiadores por trás desses homens. As redes de negociantes, a quem esses
homens poderiam representar, grupos familiares. Essas pessoas representavam, na
verdade, outros indivíduos que, em segredo, os financiavam e alargam em grande
medida esses grupos de interesses que não estão explícitos nos autos de arrematação
e somente estudos focados em cada um desses indivíduos poderão esclarecer.
Feitas essas ressalvas de caráter metodológico, foram elaboradas algumas
considerações com base nos dados que já foram obtidos. Um primeiro fator identificado
é que não ocorria um alto índice de reincidência dos mesmos indivíduos interessados
nos contratos. De um total de 40 homens que fizeram lances entre 1673 e 1723, 4 (10%)
reincidiram nos lances dos pregões públicos: Bento Correia da Costa (1702,1704/05,

Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº cx. Fls. 69 v- 71. AUTO de Arrematação dos
Dízimos Reais da capitania do Siará Grande (1714). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Norte. s/nº cx. Fls 71 v – 76 v. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Rio
Grande (1715-1716). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Caixa
nº 49. Fls 22- 69. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Siará Grande (1717). Fundo
documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Caixa nº 49. Fls. 169- 176. AUTO
da arrematação dos Dízimos Reais da capitania do Rio Grande (1723). Fundo documental do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº de caixa. Fls. 1-2.

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1723); Domingos da Silveira (1702, 1715/16), Manuel Gonçalves Branco (1702, 1709) e
Antonio Lopes de Lisboa (1673/1674, 1714). Em uma primeira análise, portanto, não
haviam grupos consolidados de negociantes dos contratos da Provedoria do Rio
Grande. A cada auto de arrematação novos indivíduos surgiam nos pregões.
Por mais que um lançador não reincidisse em contratos posteriores, havia
sempre a possibilidade de que esses homens se associassem a outros indivíduos nos
contratos, e assim não são identificados diretamente nos autos, mas a partir de suas
ligações. Um dos casos mais curiosos dos autos analisados é o do vigário da Matriz,
Simão Rodrigues de Sá, lançador no auto de 1709. Conforme José Rodrigues da Silva, o
padre tinha uma filha, casada com Manuel de Melo Albuquerque, camarário, também
fez seus lances no auto de arrematação de 1715. Desse modo, há um primeiro indício de
que sogro e genro estivessem associados na tentativa de investir em contratos na
capitania109.
Outros dois lançadores que tinham ligação eram Manuel Gonçalves Branco (Juiz
ordinário, em 1716 e Almotacé em 1717) e Carlos de Azevedo do Vale (Vereador em 1724
e 1727 e Juiz ordinário em 1738), o primeiro lançador em 1702 e 1709 e o segundo em
1717. Kleyson Bruno Chaves Barbosa constatou que Carlos Azevedo do Vale tinha uma
filha, Angélica de Azevedo leite, casada com Valentim Tavares de Melo, filho de Manuel
Gonçalves Branco. Inclusive, no mesmo ano em que Carlos do Azevedo do Vale fez
lances, seu filho, Carlos de Azevedo do Leite também estava fazendo lances no auto de
arrematação, em 1717. Observa-se, nesses exemplos, alguns casos de indivíduos com
ligações de parentesco circulando nos autos de arrematação110.
Alguns fatores podem justificar a configuração da dinâmica dos homens que
participavam dos pregões, dentre eles: a) Os contratos da Provedoria do Rio Grande
não davam grandes retornos aos rendeiros, por isso a ausência de uma reincidência nos
pregões seguintes; b) Não existiam grupos consolidados de contratadores que
investiam nesses contratos; c) A circularidade ou reincidência de interessados não pode
ser visualizada nos dados existentes porque ainda não foi possível identificar redes e
ligações entre esses homens e a quem eles poderiam representar. Assim não fica claro

109 SILVA FILHO, José Rodrigues. Padre Simão Rodrigues de Sá, um patriarca de batina. III Encontros
Coloniais, Natal, 14 a 17 de junho de 2016. p. 1-10.
110 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza:
governança local na capitania do Rio Grande. 2017. 319 f. Dissertação (Mestrado em História) –
Universidade federal do Rio Grande do Norte, Natal. 2017. p. 108.

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se um homem que investia em um ano estava investindo em outro ano por meio de um
parceiro de negócios.
O primeiro contrato identificado após a retomada da administração da Fazenda
Real do Rio Grande foi o de 1673, arrematado por Simão da Rocha Caminha por um valor
relativamente baixo em relação aos anos seguintes, 530$000 réis anuais. A despeito
disso, a última informação para as rendas da capitania foi a mencionada em 1665, em
carta da Câmara do Natal ao rei D. Afonso IV, ínfimos 200 réis111. Em pouco mais de cinco
anos ocorreu um aumento significativo das rendas da capitania, considerando-se que o
contrato dos dízimos era a fonte de arrecadação da Fazenda do Rio Grande.
Em 1682, os dízimos da capitania não teriam chegado à arrematação de 550$000
réis. Mesmo que não tenham sido encontrados ainda registros de autos de arrematação
entre 1675 e 1690, em documento enviado pelo provedor-mor ao provedor do Rio
Grande, Pedro da Costa Faleiro, além do dado dos rendimentos de 1682 é mencionado
que o valor de 550$000 havia diminuído em relação aos anos anteriores, que variavam
entre 800$000 e 850$000 réis. Assim, a recomendação posta em regimento quanto à
obrigação dos oficiais da Fazenda em não aceitar lanços menores que a arrecadação
anterior, em vista do ganho da Real Fazenda112, era posta de lado devido às condições
de baixos arremates da capitania do Rio Grande.
As primeiras décadas após a retomada do funcionamento da Provedoria do Rio
Grande foram dificultosas no aspecto da arrecadação. A característica prossegue até
pelo menos 1690, ano do registro seguinte dos autos de arrematações. Nesse ano,
diferente dos anos anteriores com diminuição dos valores de arremate, nenhum
lançador sequer compareceu ao pregão para fazer seus lanços.
Os fatores que motivaram essa baixa podem ter sido situações de baixa
produção como secas, das quais não se tem conhecimento para esse período. O que
teria levado falta de interesse dos contratadores é ainda uma incógnita. É certo que
essas primeiras décadas eram de reestruturação da administração fazendária. O
primeiro avanço, já verificado anteriormente, foi a retomada da ação da instituição na
capitania. Os oficiais existiam, eram nomeados, completavam o quadro administrativo

111CARTA dos oficiais da Câmara de Natal ao rei [D. Afonso VI] sobre o estado de ruína da Fortaleza dos
Reis Magos e a falta de soldados, armas e munições. Anexo: carta (treslado). AHU-RN, Papéis Avulsos,
Cx. 1, D. 7.
112 REGIMENTO dos provedores da Fazenda. In: MENDONÇA, Marcos Carneiro de. Raízes da formação

administrativa do Brasil. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1972. p. 100.

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e durante todo o recorte analisado, apesar de todos os fatores, estavam em exercício.


Uma boa arrecadação era algo que, mesmo com a (re)organização da Fazenda, não
poderia ser garantido. A fase de retomada da Fazenda mal ocorreu e outro
acontecimento que exigia muito dos cofres da Provedoria se insurgia. A chamada
Guerra dos Bárbaros (1698-1720) deixou clara a fragilidade das rendas da capitania e
os socorros do governo-geral, para o sustento das tropas foi verificado.113.
Dos dez autos de arrematação entre 1673 e 1723, cinco foram identificados
como arrematados. Os outros cinco, um não houve lançador (1691) e quatro
(1704/05,1709,1717,1723), devido às condições das fontes, não foram possíveis
identificar o valor do lance de arremate, ou seja, o valor do contrato. Porém, o que se
observa é que, os contratos das primeiras décadas do XVIII, são de valor maior que os
anteriores, mesmo nos casos em que não se sabe qual foi o valor do último lance, os
valores excedem aos 500$000, 800$000 e 850$000 réis do século anterior.

OS HOMENS DOS CONTRATOS


A questão dos autos com vários dias sem um lance ao menos, postergados até
o ano seguinte, pode ter uma resposta em outro dado. As chances de parte dos
lançadores serem homens locais são grandes. Assim, cada fator que pudesse
influenciar em risco de má arrecadação e de déficit no investimento feito por esses
indivíduos era mais fácil de ser conhecida. Se esses homens faziam parte da dinâmica
local da capitania, não era muito difícil para eles tomarem conhecimento das
possibilidades de ganhos, ou não, com o negócio. O quadro abaixo reúne algumas
informações que foram obtidas sobre esses indivíduos:

Quadro II – Informações dos homens dos contratos da Fazenda do Rio Grande (1673-1723)
Nome Funções camarárias exercidas Outras funções Sesmaria (ano)
na capitania (ano)
Auto de arrematação de 1673/74 – Rio Grande
Antonio Gonçalves Ferreira Juiz ordinário ---- RN 1264 (1682)
(1672,1678,1681,1684,1688)
Antonio Leite de Oliveira ---- ---- ----
Antonio Lopes de Lisboa Procurador (1675); Almotacé ---- RN 0030 (1676);
(1676); Escrivão (1679,1680, CE 0013 (1680);
1681,1682,1683,1684,1685,1686,
RN 0023

CARTA para o provedor da Fazenda do Rio de Janeiro ter prontos os mantimentos para a gente do
113

Terço, para a guerra do Rio Grande, de que é Mestre de Campo Manuel Alvares de Moraes Navarro.
Documentos Históricos da Biblioteca Nacional. Volume XI. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1929. p.
259-260.

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Quadro II – Informações dos homens dos contratos da Fazenda do Rio Grande (1673-1723)
1687,1688); Vereador (1693, (1684); RN
1696) 0056 (1706);
Domingos Dias Moura ---- ---- ----
Jorge França Vereador (1673,1675) Alferes (1673) ----
Juliano Maciel ---- ---- ----
Manuel Nunes Nogueira ---- ----- ----
Simão da Rocha Caminha Procurador (1673); Almotacé Capitão (1673) ----
(1673, 1674,1677); Vereador
(1676)
Auto de arrematação de 1702 – Rio Grande/Siará Grande
Antonio Dias Pereira Almotacé (1695,1715); Capitão (1702) CE 0958 (1710);
Procurador (1696,1710); Juiz RN 0336 (1713);
Ordinário (1709,1714,1719)
RN 0348 (1716);
RN 0376 (1717)
Amaro Barbosa ---- Padre (1702) PE 0049 (1708)
Gonçalo de Castro da Rocha ---- Capitão (1702) RN 0338 (1713);
RN 0450
(1737);
Bento Correa da Costa Vereador (1714,1716) Capitão (1702) RN 0072
(1709); RN 0919
(1733)
Domingos da Silveira Procurador (1711); Vereador Alferes (1702) RN 0095 (1711);
(1717); Juiz ordinário (1727)
João Carvalho de Lima Almotacé (1711) ---- ----
Manuel Gonçalves Branco Juiz ordinário (1716); Almotacé ---- ----
(1717)
Manuel Rodrigues Arioza ---- ---- CE 0079 (1703);
CE 0262 (1707);
CE 0263 (1707);
RN 0347 (1710)
Manuel Rodrigues Taborda Almotacé (1697); ----- RN 0347 (1716);
RN 0349 (1716);
RN 0372 (1717);
RN 0982 (1719)
Auto de arrematação de 1704/05 – Rio Grande/Siará Grande
Bento Correa da Costa Op. cit. ---- Op. cit.
Fadrique Correa da Costa Almotacé (1710,1711,1729) ---- ----
José da Silva Vieira ---- ---- ----
Manuel da Silva Queirós ---- ---- ----
Auto de arrematação de 1709 – Rio Grande/Siará Grande
Carlos da Rocha Procurador (1709) ---- ----
Francisco Gomes Vereador ---- CE 0029 (1682);
(1685,1692,1694,1698); Juiz RN 0080 (1705)
Ordinário (1689,1713)
Manuel Gonçalves Branco Op.cit. ---- ----
Maurício Bocaro Ribeiro ---- ---- ----
Simão Rodrigues de Sá ---- Vigário da Matriz PE 0385 (1681);
(1697-1714) RN 0052 (1706);
RN 0948

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Quadro II – Informações dos homens dos contratos da Fazenda do Rio Grande (1673-1723)
(1706); RN
0054 (1706);
Auto de arrematação de 1713 – Siará Grande
Antonio Pereira de Azevedo ---- Comissário geral RN 0097 (1711);
(1713)
João Malheiros Procurador (1710) ---- RN 0543 (1705)
Auto de arrematação de 1714 – Siará Grande
Antonio Lopes de Lisboa Op. cit. Alferes tenente Op. cit.
(1714)
Auto de arrematação de 1715/16 – Rio Grande
Bartolomeu da Costa Almotacé (1691); Vereador ---- RN 0173 (1715);
(1692); Procurador (1719) RN 0397 (1719);
RN 0980 (1719)
Bento Teixeira Ribeiro Juiz ordinário (1715); Sargento-mor RN 0094 (1710);
(1715) RN 0335 (1712)
Domingos da Silveira Op. cit. Capitão (1715) Op. cit.
Faustino da Silveira Almotacé (1725); Vereador Alferes (1715) RN 0377 (1717);
(1728,1738); Juiz ordinário RN 0932
(1747)
(1736);
Francisco Alves Bastos Juiz de órfãos (1724;1725,1731); ---- CE 0068 (1705);
Almotacé (1733,1734,1735) CE 0152 (1706);
CE 0152 (1706);
CE 0231 (1707);
RN 1128 (1731);
RN 1136 (1731)
Jeronimo Cardoso da Silva ---- ---- ----
João Marinho de Carvalho Vereador (1710,1715,1718); ---- RN 0446 (1736)
Almotacé (1716, 1719)
José Morais Navarro ---- Sargento-mor ----
(1715)

Manuel de Melo Vereador (1709, Comissário geral RN 0954 (1701);


Albuquerque 1711,1713,1717,1718); Almotacé (1715) RN 0961 (1708);
(1710,1712),1715,1716,1722,1725,
1738,1740,1741,1742,1744,1745
RN 0480
); Juiz ordinário (1724,1737); (1733);
Juiz de órfãos (1732,1734)
RN 1005 (1740
Auto de arrematação de 1717 – Siará Grande
Carlos de Azevedo do Vale Vereador (1724,1727); Juiz Coronel (1717) RN 0099 (1711);
ordinário (1738) RN 0924
(1735); RN
0930 (1737)
Tomé Leite de Oliveira Vereador (1720); Juiz ordinário Capitão (1717) ----
(1721); Almotacé (1722)
Auto de arrematação de 1723 – Rio Grande
(Coronel) Bento Correa da Op. cit. ---- Op. cit.
Costa
Francisco Antunes Vieira ---- ---- ----

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Quadro II – Informações dos homens dos contratos da Fazenda do Rio Grande (1673-1723)
Francisco Pita da Rocha ---- ---- ----
Brandão
Fonte: Quadro elaborado pela autora Lívia Barbosa com base nos autos de arrematação da Provedoria
da Fazenda Real do Rio Grande ocorridos entre 1673 e 1723 114. LOPES, Fátima Martins. Catálogo dos
Livros de Termos de Vereação. Senado da Câmara de Natal. Instituto Histórico e Geográfico do Rio
Grande do Norte. Banco de dados da Plataforma SILB. Disponível em: http://www.silb.cchla.ufrn.br.

Dos dados levantados, 55% (22) do total dos indivíduos, que apostaram nos
autos de arrematação tabulados, fizeram parte da Câmara do Natal. Como verificado na
tabela, alguns como Antonio Lopes de Lisboa, Francisco Alves Bastos, Francisco
Gomes, Manuel de Melo Albuquerque, exerceram várias funções na Câmara. Grande
parte desses em período aproximado da sua participação nos autos. A grande maioria
desses camarários eram também sesmeiros do Rio Grande. Dos cinco contratadores
levantados, quatro foram camarários do Rio Grande, Simão da Rocha Caminha que
arrematou o contrato de 1723, foi Procurador (1673); Almotacé (1673, 1674,1677);
Vereador (1676); Domingos da Silveira, contratador de 1702, foi Procurador (1711);
Vereador (1717); Juiz ordinário (1727); João Malheiro, contratador de 1713, foi
Procurador (1710), apenas Jeronimo Cardoso da Silva consta sem informações do
levantamento realizado. Desse modo, há a hipótese dos contratos da Provedoria do Rio
Grande estarem inseridos em dinâmicas de investimento de grupos endógenos a
capitania.

114AUTOS de arrematação dos Dízimos Reais da capitania do Siará (1690). Fundo documental do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. S/ n. de caixa. Fls. [?]. AUTO da arrematação dos dízimos
da capitania do Rio Grande (1673-1674). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio
Grande do Norte. Caixa 113. Fls. 75-92v. AUTO da arrematação dos dízimos das capitanias do Rio Grande
e do Siará Grande (1702). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
s/nº de caixa. Fls. 81-88. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Rio Grande e Siará (1704-
1705). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº de caixa. Fls.
88v – 100. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Rio Grande e Siará (1709). Fundo
documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº de caixa. Fls. [ilegíveis].
AUTO de Arrematação dos Dízimos Reais da capitania do Siará Grande (1713). Fundo documental do
Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº cx. Fls. 69 v- 71. AUTO de Arrematação dos
Dízimos Reais da capitania do Siará Grande (1714). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Norte. s/nº cx. Fls 71 v – 76 v. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Rio
Grande (1715-1716). Fundo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Caixa
nº 49. Fls 22- 69. AUTO da arrematação dos dízimos da capitania do Siará Grande (1717). Fundo
documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Caixa nº 49. Fls. 169- 176. AUTO
da arrematação dos Dízimos Reais da capitania do Rio Grande (1723). Fundo documental do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. s/nº de caixa. Fls. 1-2.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
As conclusões a respeito desses grupos de contratadores e das dinâmicas de
arrecadação do Rio Grande podem ser aprofundadas. Entretanto, muitas das ressalvas
e possibilidades aqui colocadas orientam para caminhos de pesquisa. No momento,
caracterizar o processo de realização dos autos de arrematação, seu pregão púbico, foi
um avanço para entender uma das partes do cotidiano da Provedoria da Fazenda Real.
Além disso, ainda que em virtude da falta de lançadores, dos valores em baixa, o que se
observa pelas amostragens é que os autos continuaram ocorrendo ao longo de 50 anos.
Essa longa fase em que a instituição se sustentou em plena atividade perdurou com
algumas dificuldades. Novas mudanças e reorientações de caráter administrativo
ocorreram na década de 1720 e integram uma parte da História da Provedoria da
Fazenda Real do Rio Grande. É nesse sentido para o qual a pesquisa deve avançar.

REFERÊNCIAS
BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida
nobreza: governança local na capitania do Rio Grande. 2017. 319 f. Dissertação
(Mestrado em História) – Universidade federal do Rio Grande do Norte, Natal. 2017.

BARBOSA, Lívia Brenda da Silva. Com os ramos nas mãos, para o lucro dos homens e
da Coroa: os autos de arrematação da Provedoria da Fazenda Real do Rio Grande
(1673-1723). Temporalidades, v. 8, p. 392-408, 2016.

DIAS, Thiago Alves. O Código Filipino, as Normas Camarárias e o comércio: mecanismo


de vigilância e regulamentação comercial na capitania do Rio Grande do Norte. Revista
Brasileira de História. v. 34, n. 68, p. 215 – 236. 2014.

______. Dinâmicas mercantis coloniais: Capitania do Rio Grande do Norte (1760-


1821). 2011. 277 f. Dissertação (Mestrado em História e Espaços) - Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2011

MENDONÇA, Marcos Carneiro de. Raízes da formação administrativa do Brasil. Rio de


Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1972.

MENEZES, Mozart Vergetti de. Colonialismo em ação: Fiscalismo, Economia e


Sociedade na Capitania da Paraíba (1647-1755). João Pessoa: Editora da UFPB, 2012.

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Companhia das
Letras, 2011.

SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial.


São Paulo: Companhia das letras, 1998.

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190

SILVA FILHO, José Rodrigues. Padre Simão Rodrigues de Sá, um patriarca de batina. III
Encontros Coloniais, Natal, 14 a 17 de junho de 2016.

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191

OS FEITICEIROS DO RIO GRANDE E A DEMONOLOGIA: A


CIRCULARIDADE CULTURAL E OS VÁRIOS TIPOS DE
FEITIÇARIA NA CAPITANIA DO RIO GRANDE NO SÉCULO XVIII

Rodrigo Santos do Nascimento115

Criada em meados do século XIII, pela Igreja Católica, a Inquisição consistia em


um tribunal que tinha como principal objetivo o julgamento de suspeitos de práticas
consideradas heréticas, ou que desviavam da moralidade cristã, os chamados hereges.
Estes, além de perseguidos, foram presos, torturados, e até queimados vivos por
pensarem ou se comportarem de maneira diferente dos padrões morais e religiosos
impostos pelo catolicismo romano. Neste momento, a Inquisição Medieval foi
idealizada e dominada pelo Papado. Posteriormente, no século XV, essa instituição foi
reformulada passando por transformações administrativas, em que contou com
estruturas fixas e um corpo hierarquizado de agentes em atividade permanente, sendo
esta uma das principais características da Inquisição Moderna.
Fundada em 1478, por iniciativa da Coroa, a Inquisição espanhola atuou na
península Ibérica juntamente com a portuguesa, estabelecida em 1536. Ambos os
tribunais tinham o mesmo objetivo: combater os hereges e, principalmente os
criptojudeus. Esse crime recaía sobre os cristãos-novos judaizantes, que, após serem
convertidos a fim de se adaptarem às exigências da Igreja, ficaram sob os pesados
olhares dos agentes desses tribunais e, devido a isso, muitos buscaram refúgio em
outros territórios. Com a chegada dos europeus à América, a Inquisição também migrou
para esse continente e os cristãos-novos que lá já tinham chegado foram novamente
perseguidos.
Embora existissem tribunais em alguns pontos das colônias espanholas, o
mesmo não aconteceu na América portuguesa. Entretanto, mesmo não se tendo fixado
nos territórios de domínio português um tribunal propriamente dito, como em outras
regiões do continente, e muito menos tenha manifestado a mesma força que na Europa,
é importante destacar seu funcionamento, que se deu por meio de visitações periódicas
a fim de manter o controle no cotidiano das pessoas, recolhendo denúncias que
poderiam virar processos inquisitoriais. Além disso, devem ser ressaltadas as

115 Graduando – UFRN.

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192

características particulares que ela adquiriu nas terras da Colônia. Segundo Ronaldo
Vainfas:

As diferenças que separavam o Velho e o Novo Mundo no limiar da


época moderna eram em tudo extraordinárias: em termos de religião,
costumes, vida material, gentes, dimensões geográficas e, certamente,
na posição que os dois passariam a desempenhar no moderno sistema
de trocas impulsionado pela expansão marítima. (VAINFAS, 1989, p. 36).

Dessa forma, esse novo ambiente, tornou-se um verdadeiro laboratório de


misturas culturais religiosas e miscigenação, por meio do qual seus habitantes, que
anteriormente não haviam tido contato com os dogmas católicos, estavam sujeitos à
condenação por parte dos mesmos. Estes habitantes foram perseguidos devido aos
desvios morais, como a bigamia, o concubinato e a sodomia, que eram recorrentes, além
é claro, dos crimes que se configuravam como heresias, que seriam as práticas de
criptojudaísmo e de feitiçaria.
Pensando nisso, este trabalho tem como objetivo discutir e entender como a
feitiçaria contribuiu à criação de uma demonologia no Brasil Colonial, especificamente,
na Capitania do Rio Grande durante o século XVIII, com base nos relatos encontrados
na documentação inquisitorial presentes no site do Arquivo Nacional da Torre do
Tombo116, que se referem à feitiçaria, principalmente, à adivinhação do quibando.
Partindo desse princípio, busca-se verificar quais os tipos de feitiçaria que mais
aparecem nesses relatos, e em seguida, como a prática do quibando era vista pelos
denunciantes, por meio da perspectiva de influência europeia deles que baseava estas
visões. Pretende-se mostrar ainda como a tensão entre o poder de Deus e do Diabo
estava viva na Capitania do Rio Grande.
Presente na cultura popular dos colonos europeus, sobretudo dos religiosos, o
Diabo era o inimigo pessoal de cada um desses evangelizadores, e de todos aqueles
que o perseguiam e combatiam. Durante a maior parte da Idade Média, sobretudo no
século XVI, a Igreja Católica encontrava-se ameaçada diante de práticas heréticas,
precisamente de feitiçaria, que eram de imediato associadas ao demônio. Logo, esse
temor foi formulado em um corpo doutrinário que ficou conhecido como demonologia.

116Órgão administrado pelo governo português que disponibiliza uma extensa gama de arquivos
documentais originais, de Portugal e das ex-colônias de além-mar, que incluem também as denúncias
inquisitoriais que eram enviadas para o Tribunal do Santo Ofício.

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Com a criação de uma ortodoxia cristã, no final da Antiguidade, os demônios


passaram de coadjuvantes para protagonistas no cotidiano do homem medieval,
precisamente, após os estudos de Santo Agostinho de Hipona. Em sua visão, esses são
definidos como seres intermediários entre o humano e o divino, mas que estão
associados à magia e à superstição do povo comum117.
Nos seus estudos do livro de Gêneses, Santo Agostinho debruçou-se sobre a
interpretação dos estudos dos anjos, da origem do mal e do conhecimento de Deus,
definindo a natureza angélica como puramente espiritual e livre. Dessa forma, o
demônio imaterial do Antigo Testamento, passou a ganhar um estatuto concreto e
multiforme, logo, a demonologia enriqueceu durante a Idade Média. (SOUZA, 1993, p.
23).
Nos estudos de Carlos Roberto Figueiredo de Nogueira, em Bruxaria e história
(2004, p. 153), é possível atentar para o surgimento de um “universo mágico”, que é
criado diante das crises generalizadas do final da Idade Média. A fome, as epidemias, os
terrores objetivos e sobrenaturais, o medo do fim do mundo, foram estes os seus
principais causadores. Ainda segundo o autor:

A morte passa a ser a companheira constante, as comunidades


camponesas se desagregam em busca da sobrevivência nas cidades e
aí a peste as ameaça com seu braço invisível e inesperado. É a ira divina
que abate sobre os homens e o sinal de que Satã domina o mundo, e o
desespero toma conta da cristandade. (NOGUEIRA, p.154).

Devido à disseminação desse pensamento, o poder dos demônios ascendeu na


cultura popular européia, causando uma tensão entre o racional e o maravilhoso, entre
o pensamento laico e o religioso, entre o poder de Deus e do Diabo.118 Sendo o grande
protagonista, este foi o principal agente da proliferação da bruxaria, que foi sendo
assimilada às grandes catástrofes naturais, tornando-se reflexa dos costumes, o
elemento mais aguçado dos medos e dos ódios. (NÓBREGA, 2004, p. 156).
Com a cristianização no Velho Continente, os demônios passaram, então, a
conviver no cotidiano das pessoas do Novo Mundo. Sendo a principal causa disso a

117 Moraes, G. L. Os demônios de Santo Agostinho. Revista de Estudos Filosóficos e Históricos da


Antiguidade, 2017, p. 172.
118 SOUZA, Laura e Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização: séculos XVI-XVIII. São Paulo:

Companhia das Letras, 1993.

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colonização, que trouxe consigo o mundo religioso no qual o diabo agia como ser
indispensável à religião cristã119.
Após a migração dos demônios para o Novo Mundo, intensificou-se a luta entre
Deus e o Diabo, sobretudo na colônia luso-brasileira, que recebeu por Cabral, o nome
de Terra de Santa Cruz, em homenagem ao Lenho Sagrado. A preocupação de nomear
a nova terra manifesta o poder que esses seres exerciam sobre os europeus, sobretudo,
o português que via o Diabo não só como grande sábio, mas com suas características
de caluniador, enganador de espíritos fracos e tentador malicioso, cujo poder entre os
homens é limitado pela autoridade divina e cuja índole não é totalmente malévola 120.
Com isso, a nomenclatura estava associada à ideia de crucificação, revelando uma
preocupação na cristianização dos povos. Laura de Mello e Souza ainda comenta: “O
Santo Lenho inscrevia o sacrifício de Cristo na gênese da nova terra, que ficava toda ela
dedicada a Deus, havendo grande esperança na conversão dos gentios” 121.
Os cronistas seiscentistas contribuíram para o fortalecimento desse
pensamento religioso nas colônias americanas, descrevendo os ritos populares como
práticas demoníacas, empregando a terminologia que conheciam, e utilizando-a para
designar os líderes, e responsáveis, religiosos pelo espaço sagrado. Devido a isso,
muitos sacerdotes maias, incas ou astecas, xamãs, caraíbas e pajés tupis, foram quase
sempre chamados de bruxos e feiticeiros.
Antes de adentrar na discussão de como ocorria a relação entre o homem e o
demônio no Brasil colonial, precisamente, na Capitania do Rio Grande no século XVIII, é
fundamental se entender como este relacionamento já era bastante afetuoso entre os
colonizadores portugueses ainda no século XVI. Segundo Francisco Bethencourt, essa
relação é semelhante, em certos pontos, à relação do homem com o santo, devido à
troca de favores entre os envolvidos. O autor ainda escreve:

Essa economia de trocas simbólicas, (...) foi cristalizada pelos


inquisidores sob a figura do pacto com o demônio, numa evidente
projeção de certas normas de relações sociais para a esfera religiosa e
mágica. Trata-se de uma sociedade impregnada de espírito jurídico, uma
sociedade cujo tradicionalismo de costumes e dependência diante da

119 BETHENCOURT, Francisco. O Imaginário da Magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal no


século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 178.
120 Ibidem, p. 177.
121 SOUZA, Laura e Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização: séculos XVI-XVIII. São Paulo:

Companhia das Letras, 1993, p. 30.

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religião implica uma regulamentação geral do comportamento social


do indivíduo. (BETHENCOURT, p. 185).

Visto que a relação do homem com o Diabo já era uma prática corrente no início
do período colonial, o cenário na Capitania do Rio Grande nos oitocentos mostra como
o poder desse ser ainda ascendia na cultura popular das pessoas. Em 18 de dezembro
de 1756, no Apodi, foi registrado pelo Padre Frei Fidelis de Partana, a confissão do índio
Bento, no qual,

confessou que adorava algumas vezes ao diabo de joelhos, rezando-lhe


pai nosso e ave Maria, aparecendo-lhe também em forma visível com
orelhas de cavalo, focinho de cachorro, pés de pato e uma vela na
cabeça, pedindo-lhe frutas, mel e bichos para ele comer, tendo muita fé
nele122.

É interessante notar, que a descrição da confissão feita pelo sacerdote é similar à


demonologia europeia, ao passo que, como já dito neste trabalho, a interpretação que
os inquisidores tinham das práticas locais era baseada em conceitos eclesiásticos,
portanto, todos os casos de feitiçaria analisados neste trabalho são oriundos de apenas
um lado da moeda.
O caso do índio Bento ainda demostra como o demônio era representado,
confirmando os estudos de Francisco Bethencourt, no qual, afirma que quando assume
uma forma física verifica-se certa preferência pela figura zoomórfica123. Neste caso,
orelhas de cavalo, focinho de cachorro e pés de pato.
Ainda neste relato, é notória a dificuldade de analisar o documento, visto que
nestes casos de adoração ao demônio, as fontes inquisitoriais são produzidas por
eclesiásticos, como se observa no documento: “Constrangido do Padre Missionário,
apresentou-lhe umas penas de ema com as quais nas mãos, enfeitava-se com outras
penas (...) Isto é o que se podia alcançar de sua confissão estando eu presente como
testemunha (...)”. Há uma dificuldade em discernir quais partes deste testemunho são
realmente verdadeiras, e quais partes teriam sido “instruída” pelo escrivão, o Padre
Manuel Dias Ferrão, e o missionário apostólico, Frei Fidelis de Partana.

122ANTT. Inquisição de Lisboa. Cadernos do Promotor, Livro 309, fl. 452-453.


123BETHENCOURT, Francisco. O Imaginário da Magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal
no século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 183.

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O documento também revela que o dito Bento reunia-se com seus parentes “nas
primeiras chuvas, (...) levando-os para o mato enganando-os para pedir frutas a gente
de outro mundo, e a maior parte enganados iam (...)”. A historiografia que trata sobre a
idolatria mostra que havia uma tendência em demonizar as práticas religiosas do Novo
Mundo, logo, a maioria dos casos de adoração ao diabo recaia sobre os indígenas.124
Com isso, percebe-se uma possível assimilação dos ritos populares às práticas
demoníacas, visto que o índio Bento e seus parentes foram interpretados como
idólatras. Portanto, fica compreensível o pensamento dos etnodemonólogos da
América, ainda no século XVI, quando o jesuíta José de Acosta, em seus escritos,
percebia o indígena como receptor apto à fé católica, apesar deste se entregar às
idolatrias demoníacas125.
A ideia de que os demônios buscaram refúgio nas almas dos índios já era
difundida desde os primeiros anos da colonização no Novo Mundo, visto que a
concepção de que as práticas religiosas de incas e astecas eram idolatrias fez-se
presente nos escritos dos cronistas que se debruçaram sobre as colônias espanholas.
(SOUZA, 1993). Percebe-se uma construção de um universo etnocêntrico, que se
formou devido à expansão europeia, a partir do século XVI, ocasionando em um choque
de culturas. Essa discussão a respeito do etnocentrismo sobre os índios é bem
trabalhada pela historiadora Norma Telles (1987), que observou:

(...) a cultura europeia não só é etnocêntrica, como também etnocidária.


O etnocídio é a destruição de modos de vida e de pensamentos
diferentes dos compartilhados por aqueles que conduzem à prática da
destruição, que reconhecem a diferença como um mal que deve ser
sanado mediante a transformação do Outro em algo idêntico ao modelo
imposto. (TELLES, 1887).

Uma vez tratado como o Diabo exercia seu poder na cultura popular da colônia
luso-brasileira, precisamente da Capitania do Rio Grande, é pertinente atentar para o
significado do termo feitiçaria, que tem sua origem ainda na Antiguidade, e passou por
uma transformação de significado, até chegar ao pensamento moderno. Carlos Roberto
Figueiredo Nogueira (2004), em seus estudos, estabelece o lugar da feitiçaria, uma vez

124 SOUZA, Laura e Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização: séculos XVI-XVIII. São Paulo:
Companhia das Letras, 1993, p. 34.
125 Ibidem.

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que procura fazer uma divisão entre magia-feitiçaria e bruxaria. Ele escreve que “a
bruxaria é uma qualidade inerente, enquanto a feitiçaria age em certo sentido”, ou seja,
a distinção se coloca entre diferentes meios, mas com fins semelhantes.126 Ainda,
segundo o autor:

Para os historiadores a controvérsia por uma distinção entre feitiçaria


e bruxaria está longe de ser resolvida. Como observa Keith Thomas, a
distinção antropológica é de limitado uso quando aplicado à Inglaterra,
mas concorda que o feiticeiro utiliza objetos materiais, enquanto a
bruxa não. (NOGUEIRA, 2004, p. 51).

A origem da feitiçaria europeia está muito ligada às práticas mágicas para fins
amorosos, nas quais cabiam às feiticeiras essa atividade. O papel da mulher feiticeira
na Antiguidade era visto como uma dádiva passional, visto que “(...) o mundo da feitiçaria
é o mundo do desejo, que a tudo se sobrepõe para conseguir uma resposta para uma
paixão não correspondida ou proibida127”.
Na Idade Média, o discurso religioso dominou o Ocidente cristão, ao passo que a
feitiçaria ficou sujeita ao domínio exclusivo do Mal. Desse modo, “as ideias de feitiçaria
e bruxaria vão ganhando significados diferentes ao passo que a feiticeira seria a pessoa
que invocaria as forças do mal, enquanto a bruxaria seria a personificação do próprio
mal.” (SÁ JUNIOR, 2004).
Se por um lado, em um primeiro momento, a feitiçaria poderia ser vista com bons
olhos, devido ao ofício de cura que, muitas vezes, exercia, posteriormente, a formulação
do pensamento eclesiástico categorizou essas “curandeiras” como adoradoras do
Diabo, associando suas práticas de cura a poderes mágicos conferidos pelo Demônio.
Segundo Jacques Le Goff (1980), na Idade Média essas práticas integraram-se à
concepção do Mal, principalmente com a formulação da demonologia no Ocidente
cristão.
Na Colônia, o papel de feiticeira também recaia sobre a mulher, uma vez que, com
a escassez de médicos, elas tendiam a cuidar de seus próprios corpos para prevenir
doenças, utilizando práticas que já vieram da Europa, como o uso de ervas e benzeduras.
Devido a isso essas mulheres passaram a serem vistas como feiticeiras.

126 NOGUEIRA, C.R. Bruxaria e história: as práticas mágicas no Ocidente Cristão. São Paulo: Ática, 1991, p.
51.
127 Ibidem.

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Com relação às práticas para fins amorosos em Portugal, ocorriam por meio de
alguns elementos considerados sagrados pelos ditos feiticeiros, sendo um desses, os
santos óleos, passados nos lábios das mulheres para se ter a pessoa amada.
No Rio Grande, houve o caso da escrava forra, Luiza Teles, que, em 28 de outubro
de 1691, no bispado de Pernambuco, por descargo de sua consciência, denunciou ao Frei
Bernardino das Andradas, o negro forro, João Temudo, que foi morador do Rio Grande.
Em seu relato, ela afirmou que o dito João a ensinou um feitiço, dizendo-a que bebesse
uma água cozida “com certas ervas, o que ele tudo trazia já feito em uma panela, e lhe
disse abafasse primeiro e bebesse dela para certo homem lhe querer bem128”. Nesse
caso, era necessária a ingestão da água para conseguir o amor desejado,
diferentemente da utilização do santo óleo que era aplicado nos lábios. Nota-se
também que o uso de ervas ainda continuava sendo utilizado entre os ritos de matriz
africana, devido ao conhecimento que foi mantido entre os povos escravizados na
colônia. Mas, afinal, como essas práticas amorosas atravessavam o Atlântico e
conseguiam sobreviver e, até mesmo, se ramificar após longos períodos?
A historiadora Nereida Soares Martins, em sua dissertação de mestrado sobre
crenças e práticas mágicas na América portuguesa, explica o aparecimento dessas
práticas no Brasil colonial quando escreve que “a chegada das ‘feiticeiras’, degredadas
europeias que, com seus encantos, fórmulas mágicas e demônios familiares, vieram
habitar as terras longínquas da Colônia, deixará marcas na religiosidade popular que se
desenvolverá na terra de Santa Cruz”. (2012, p. 51).
O documento ainda revela que o dito João Temudo “(...) lhe tirou, ou rasgou sua
carne com a ponta de uma agulha, (...) no braço esquerdo e no pulso, a lhe meteu entre
a pele e a carne uma coisa negra (...), para que ela, dita denunciante, não fosse nunca
ofendida com feitiços”129. Isso demonstra que essas práticas mágico-religiosas, desde
o início da colonização, ainda circulavam entre as Capitanias do Rio Grande e da Paraíba
no final do século XVII, ao passo que eram utilizadas como forma de proteção.
Observa-se, ainda, que ambos os envolvidos na denúncia, tanto Luiza quanto
João eram escravos forros, logo, pode-se supor que esses ritos de proteção tendiam a
ser utilizados entre os escravos negros daquela época, indicando, assim, uma
sobrevivência da viagem transatlântica da cultura africana. Atenta-se ainda para uma

128 ANTT. Inquisição de Lisboa. Cadernos do Promotor, Livro 263, fl. 261.
129 ANTT. Inquisição de Lisboa. Cadernos do Promotor, Livro 263, fl. 261.

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certa preocupação com relação à saúde, uma vez que os conhecimentos medicinais
eram precários. Portanto, feitiços de proteção eram populares entre esses grupos da
sociedade colonial, mostrando certa eficiência, devido a continuidade desses
conhecimentos.
Com relação às denúncias de feitiçaria apuradas para o desenvolvimento deste
trabalho, todas ocorreram na Capitania do Rio Grande no século XVIII, sendo a maioria,
na década de 1740. Foram contabilizadas ao todo 27 denúncias relativas à feitiçaria,
sendo 23 delas do tipo adivinhação; 3 de bolsa de mandinga; e somente 1 referindo-se
à idolatria.

Denúncias apuradas na Capitania do


Rio Grande - século XVIII
Quantidade de denúncias

23

3 1

Década de 1730-1760

Adivinhação Bolsa de mandinga Idolatria

Fonte: ANTT. Inquisição de Lisboa. Cadernos do Promotor, Livros: 263, fl. 261; 296, fl. 253; 297, fl. 22;
297, fl. 23; 297, fl. 25; 297, fl. 27; 297, fl. 30-31; 301, fl. 15; 301, fl. 91; 301, fl. 92; 309, fl. 452-453; 310, fl.
55; 310, fl. 60; 310, fl. 64; 315, fl. 386-396.

As denúncias de adivinhação, apontadas no gráfico acima, foram registradas na


Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação entre as décadas de 1730 e 1740, sendo
19 desses 23 casos, “do quibando”.
O gráfico indica apenas 3 denúncias do tipo bolsa de mandinga, que ocorreram
entre as décadas de 1750 e 1760. A primeira desse tipo aconteceu na Freguesia de
Nossa Senhora da Apresentação, em 1755, e se refere ao índio Manuel Pedro. As
demais, ocorreram na aldeia do Mipibu, entre os anos de 1750 e 1760, e ambas
correspondem ao índio José Rodrigues Monteiro.
Com relação à única denúncia do tipo idolatria, esta ocorreu no Apodi, no ano de
1756, e se refere ao índio Bento, como já exposto neste trabalho.

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O uso da bolsa de mandinga, também conhecida como patuá, era bastante


popular entre os indivíduos das mais diversas camadas sociais, apesar de muito
utilizada por índios. Esse tipo de feitiçaria foi a manifestação mais consistente em todo
o território luso-brasileiro. Nos documentos analisados, como é o caso do índio José
Rodrigues, mostram que o indivíduo portava, geralmente, o objeto pendurado em seu
pescoço a fim de conseguir proteção, “(...) para ser valente e não lhe entrar, no corpo,
ferro nem chumbo”.130 Revelam, também, que, dentro dessas bolsas, sempre haviam
papéis com orações e hóstia para livrar de situações perigosas.
A bolsa de mandinga também representava a sobrevivência das tradições
europeias desde a Alta Idade Média, em que a confecção de amuletos já era bastante
popular entre os ditos feiticeiros. Dessa forma, percebe-se uma reinterpretação dessas
práticas no Brasil Colonial, ao passo que reúne características culturais europeias
congregando a tradição dos amuletos com o fetichismo ameríndio e os costumes das
populações da África.131 Consequentemente, devido ao uso recorrente na capitania, a
Igreja passou a ver os mais novos mandingueiros como feiticeiros. Segundo Daniela
Calainho (2004):

A viabilização desses objetivos configurou um conjunto variado de


práticas vistas pela Igreja e pelos próprios africanos e descendentes
como mágicas, uma vez que estariam sob influências sobrenaturais,
tornando-se supostamente eficazes para os fins aos quais se
destinavam. (CALAINHO, 2004).

No que diz respeito às denúncias de adivinhação, o gráfico apresenta um alto


índice de relatos desse tipo de feitiçaria, sendo a maioria descritas como “do quibando”.
Segundo o historiador Mario Teixeira de Sá Junior (2004), o termo “quibando”,
ou Quimbanda, refere-se aos sacerdotes africanos participantes das religiões de culto
aos antepassados, das regiões de Angola e do Congo, chamados de Kimbanda e
Nganga, respectivamente. Todavia, devido ao contato com os europeus, esse termo foi
ressignificado por meio dos conceitos de feitiçaria e práticas mágicas que estes tinham.
Consequentemente, os quimbandas passaram a ser vistos como feiticeiros e inimigos
da fé cristã.

ANTT. Inquisição de Lisboa. Cadernos do Promotor, Livro 310, fl. 60.


130

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil
131

Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 210-211.

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O termo também aparece nos estudos do historiador Luiz Mott (1999, p. 2), que
relata em seus escritos, que a palavra quimbanda está associada à homossexualidade:

Há entre o gentio de Angola muita sodomia, tendo uns com os outros


suas imundícies e sujidades, vestindo como mulheres. Eles chamam
pelo nome da terra: quimbandas, os quais, no distrito ou terras onde os
há, têm comunicação uns com os outros. (MOTT, 1999).

Contudo, o termo quimbanda está ligado ao culto religioso, sobretudo aos


sacerdotes e aos curandeiros, e não à homossexualidade. Nesse sentido, este se refere
ao benzedeiro de um local, nada a princípio relacionado com homossexual.
Ao aportar no Brasil, os cultos religiosos africanos, dirigidos pelo sacerdote
Kimbanda e Nganga, passaram por um processo de transformação ao serem expostos
a outras práticas aqui já existentes. Logo, a dinâmica cultural com as religiões e
religiosidades europeias e indígenas gerou novos cultos religiosos e, posteriormente
no século XX, matrizes religiosas como a Umbanda.
Porém no século XVIII, os feiticeiros quimbandas foram interpretados como
adivinhadores, como é o caso do Antônio de Vasconcelos. Em 3 de abril de 1739, na
cidade do Natal, freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, o vigário Manoel Correa
Gomes, registra que o dito homem, juntamente com seu filho, Bonifácio, fizeram a
adivinhação “do quibando” a fim de adivinharem onde estava uma certa tapuia, escrava
do Antônio. Para realizarem o feito, os denunciantes utilizaram uma urupemba132 e uma
tesoura. Posteriormente, ambos foram denunciados, mais uma vez, pela mesma causa,
porém utilizaram dessa vez um chapéu133. Com isso, percebe-se que, na visão do padre
Manoel Correa, a adivinhação do quibando, era feita por meio de objetos com formatos
circulares com o objetivo de identificar determinada pessoa ou encontrar algum
pertence.
Em 18 de maio de 1743, na mesma freguesia, o comissário João Gomes Freire,
registrou uma série de denúncias que se referem à mesma adivinhação, como
demonstra a tabela a seguir:

132 Espécie de peneira feita de finas talas de bambu.


133 ANTT. Inquisição de Lisboa. Cadernos do Promotor, Livro 296, fl. 253.

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DENÚNCIAS DE ADIVINHAÇÃO REGISTRADAS PELO COMISSÁRIO


Denúncias Denunciante Denunciado
1ª Sebastiana, escrava; Dona Ana;
2ª Rosa Maria; Escolástica, filha de Capitão;
3ª Joana, escrava; Ana, escrava; Thomé, índio;
4ª Adriana, escrava; Ana, escrava; Maria, escrava;
Margarida de Mendonça, sua
5ª Maria, escrava; senhora;
6ª Manoel, escravo; Maria, escrava; Margarida de Mendonça, senhora;
7ª Damásia, escrava; Margarida de Mendonça, senhora;
8ª Brásia Tavares, escrava; João do Carmo, forro;
Fonte: ANTT. IL. Cadernos do Promotor, Livro 297, fl. 23.

Os casos apontados na tabela, além de demonstrar um índice considerável de


denúncias feitas por escravos, também revelam o quanto a prática da adivinhação do
quibando era popular entre os escravos e, até mesmo, entre seus senhores, mostrando
que essas práticas eram vistas com bons olhos de acordo com a necessidade. O 5º, 6º,
e 7º caso, mostra isso claramente, ao passo que a escrava Maria, disse que sua senhora
a mandou falar com outro escravo, chamado Manoel, para este adivinhar quem havia
furtado umas obras de ouro. No entanto, para realizar a adivinhação, o escravo utilizou
uma cuia de água para ver o sujeito furtador do ouro e, sendo descoberto, o ouro
retornou para as mãos da dita Margarida. Posteriormente, a dita senhora foi
denunciada por outra de suas escravas pelo mesmo motivo. Esta, chamada Damásia,
disse que Maria havia lhe dito que foi até um tal preto (Manoel), para fazer a dita
adivinhação com o mesmo propósito.
Aqui se percebe que os saberes mágicos não transitavam apenas entre os
negros e indígenas, escravos e forros, mas também entre camadas mais altas da
colônia, como, senhores de escravos ou pessoas com prestígio social elevado.
Ainda ao observar este caso, fica evidente uma espécie de circularidade cultural
na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, ao passo que uma senhora solicitava
serviços mágico-religiosos de seus escravos, confirmando o que escreve Laura de
Mello (1986): “Adivinhações, curas mágicas, benzeduras procuravam responder às
necessidades e atender aos acontecimentos diários, tonando menos dura a vida
naqueles tempos”. Desse modo, devido a essa troca de conhecimentos culturais, a

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cultura popular passou a ganhar espaço em um cenário religioso que tinha como
dominante a cultura eclesiástica.
Outro ponto, a ser destacado nestas denúncias, é a visão que os denunciantes
escravos tinham das práticas mágico-religiosas, por meio da perspectiva de influência
europeia deles que baseava estas visões. Como observado no registro feito pelo padre
João Gomes Freire, alguns escravos também viam estas práticas como feitiçaria,
categorizando-as como diabólicas. Daniela Calainho (2004) escreve:

A aquisição destes conhecimentos se originava nas próprias instâncias


de poder: nos cárceres inquisitoriais, nos editais apregoados nas igrejas
que incitavam denúncias e nos próprios autos-de-fé, com leituras
públicas das sentenças, fazendo circular estes saberes entre os negros
e o resto da população. (...) a dinâmica da circularidade cultural definida
por Carlo Ginsburg, (...) é definida como uma massa de discursos, formas
de consciência, crenças e hábitos relacionados a determinado grupo
historicamente determinado. (CALAINHO, 2004).

Em 28 de setembro do mesmo ano, João Gomes Freire registrou outras duas


denúncias, feitas por Maria da Conceição e sua filha, Suzana de Gouveia, contra a
mesma Margarida de Mendonça, por mandar adivinhar, por Josefa Bezerra, parda forra,
moradora da cidade do Natal, quem lhe havia furtado um pouco de ouro, fazendo
adivinhação, (...) e que em um alguidar de água se vira quem o furtou . Após descobrir
quem era o ladrão, um soldado ourives134, cujo nome não se sabia, lhe furou um olho, e,
sendo preso, foi visto com um parche135 encobrindo o mesmo.
Apesar de essa denúncia ter sido registrada em setembro, ela é muito
semelhante ao caso já analisado, que envolve os escravos da dita Margarida, porém
este relato inclui mais detalhes do ocorrido, revelando o que aconteceu com o ladrão
do ouro. Com isso, além de se perceber certa competência dessa prática, é interessante
notar uma espécie de resistência adaptativa136 por parte dos escravos que possuíam
determinado conhecimento. Para Sá Junior (2004):

134 Aquele que faz, executa ou vende objetos de ouro e prata.


135 Pedaço de pano.
136 Termo utilizado por Steve Stern para indicar ações protagonizadas por grupos dominados. Estas

ações representaram uma manifestação de apropriação e resistência diante das transformações que
ocorriam na sociedade colonial. Ver: STERN, Steve J. (compilador). Resistencia, rebelión y conciencia
campesina en los Andes. Siglos XVIII al XX. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 1990.

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Não é difícil se perceber, se partirmos de um imaginário tão afeito a


essas práticas, que o ser feiticeiro poderia gerar um capital, simbólico
e/ou material, para os seus praticantes, (...). Os praticantes da feitiçaria
transformavam os seus poderes em moeda de troca, numa sociedade
que se lhe mostrava tão adversa, benefícios que, por certo, seriam
utilizados por outros grupos sociais, não escravos. (SÁ JUNIOR, 2004).

Devido a possuir esses conhecimentos, os considerados feiticeiros, sobretudo


escravos, forros, negros ou índios, eram bastante solicitados pelos senhores e, até
mesmo, por outros escravos a fim de serem curados, protegidos ou até amados. Por
causa disso, muitos senhores de escravos toleravam certas reuniões espirituais dos
seus cativos e, por muitas vezes, as estimulavam. Sá Junior (2004) ainda escreve:

Num universo onde se aproximar ou se apartear, combinar ou divergir


faz parte da mesma realidade, negros, como os kimbandas e os
ngangas, sofreram perseguições, mas também puderam utilizar seus
conhecimentos religiosos visando uma melhor participação no corpo
social. (SÁ JUNIOR, 2004).

Por causa disso, a utilização dessas práticas, além de se mostrarem muito


populares, mostram também resultados, sendo uma ferramenta bastante útil devido a
tamanha procura a fim de resolver problemas do cotidiano. Em suma, é possível
perceber, por meio desses casos ocorridos no Rio Grande no século XVIII, o quanto a
feitiçaria adivinhatória contribuía para a proliferação da demonologia na Colônia
portuguesa, ainda em que as circunstâncias dessa prática fosse realizada pelos
escravos, livres, e até pelos senhores.
A maioria das práticas de feitiçaria do período colonial ganharam significados
diferentes no decorrer dos séculos. Atualmente, por exemplo, é possível observar o uso
de patuás, benzeduras e simpatias, que, assim como naquele período, utilizadas para
resolver problemas de saúde, afetivos e de prosperidade. Por causa disso, há uma
grande necessidade em se estudar o Brasil Colonial, visto que essas práticas de
feitiçaria e o pensamento religioso em relação ao Diabo dialogam diretamente com a
época atual. Desse modo, torna-se muito mais importante reconhecer a herança
cultural que herdamos.

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FONTES
ANTT. Inquisição de Lisboa. Cadernos do Promotor, Livros: 263, fl. 261; 296, fl. 253;
297, fl. 22; 297, fl. 23; 297, fl. 25; 297, fl. 27; 297, fl. 30-31; 301, fl. 15; 301, fl. 91; 301, fl.
92; 309, fl. 452-453; 310, fl. 55; 310, fl. 60; 310, fl. 64; 315, fl. 386-396.

REFERÊNCIAS
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em Portugal no século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

CALAINHO, Daniela Buono. Africanos penitenciados pela Inquisição portuguesa.


Revista Lusófona de Ciências das Religiões. Ano III, 2004. n o 5/6, pp. 47 - 63.

CRUZ, Carlos Henrique A. Inquéritos Nativos: os pajés frente à Inquisição. Dissertação


de Mestrado em História apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da
Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2013.

GINZBURG, Carlos. História Noturna – decifrando o Sabá. 2ª ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 1991.

LE GOFF, J. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Estampa, 1980.

Moraes, G. L. Os demônios de Santo Agostinho. Revista de Estudos Filosóficos e


Históricos da Antiguidade, 2017.

MOTT, Luiz. Sodomia na Bahia: o amor que não ousava dizer o nome. In: Revista
Inquice, no. 0, Julho de 1999.

SILVA, Nereida Soares Martins da. As “mulheres malditas”: crenças e práticas de


feitiçaria no nordeste da América Portuguesa. 2012. 123 f. Dissertação (Mestrado em
História) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2012.

SIQUEIRA, Sonia. Ensaios: A Inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial. São Paulo:


Ática, 1978.

SOUZA, Laura e Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização: séculos XVI-


XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade


popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

STERN, Steve J. (compilador). Resistencia, rebelión y conciencia campesina en los


Andes. Siglos XVIII al XX. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 1990.

TELLES, Norma. A imagem do índio no livro didático: equivocada, enganadora. In:


SILVA, A. L. da (Org.). A questão indígena na sala de aula: subsídios para professores
de 1° e 2º graus. São Paulo: Brasiliense, 1987.

VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil


Colônia. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

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CRISTIANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS E BATISMO DE ESCRAVOS


NA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA
DA APRESENTAÇÃO (1749-1770)

Danielle Bruna Alves Neves137

A justificação da escravidão negra no Império Português no Período Moderno


baseou-se, principalmente, na evangelização cristã de povos designados como gentios
e pagãos. As bulas papais Dum Diversas (1452), Romanus pontifex (1455) e Intra
Caetera (1493) tornaram-se a chave na defesa da ideia de que retirar os negros de suas
práticas originais e levá-los para o seio da cristandade, salvaria suas almas
(ALENCASTRO, 2000). A entrada dos escravizados nas antigas e novas possessões
portuguesas fazia-se, então, pela evangelização e recepção do batismo. Recebia-se um
novo nome, a água do batismo e o sal como sinal da libertação do pecado original,
enquanto na ata batismal anotava-se sua condição de cativo e o nome do seu
proprietário. O batismo poderia libertar a alma, porém mantinha o corpo do africano
escravizado.
Assim, o objetivo deste trabalho é analisar a relação entre o processo de
cristianização e a conversão dos escravos na Freguesia de Nossa Senhora da
Apresentação, no período compreendido entre 1749 e 1770. Para isso, o principal fundo
documental pesquisado foi o livro de batismo da freguesia. Assim, o espaço da
freguesia foi pensado a partir do conceito de cristianização dos espaços (e de almas),
baseado na obra de Cláudia Damasceno, adaptado para o caso da Freguesia de Nossa
Senhora da Apresentação. Cristianizar os espaços significava o processo
transformação da lógica espacial, encontrada previamente pelos portugueses, por
meio da inserção da organização eclesiástica, através da construção de prédios
sagrados e da administração dos sacramentos como o batismo.
Renata Assunção da Costa (2015), em sua dissertação de mestrado, utilizando-
se também dos registros de batismo da freguesia, porém no período compreendido
entre 1681 e 1714, estudou o processo de cristianização da Freguesia de Nossa Senhora

137Licenciada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e mestranda do Programa de Pós-
graduação em História e Espaços também pela UFRN, sob a orientação do profº Dr. Helder Alexandre
Medeiros de Macedo.

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da Apresentação, baseando-se na obra de Cláudia Damasceno e no conceito de


experimentação espacial do geógrafo Yi-Fu Tuan. A historiadora analisou o esforço da
Igreja e do governo português de manter a população que viviam neste território dentro
de um padrão moral estabelecido pelas mesmas e o uso que os moradores desta
localidade faziam deste espaço.
O proposito deste artigo é aprofundar a análise sobre esse processo,
percebendo a influência deste processo de territorialização empreendido pela Igreja
sobre a população escrava desta freguesia e como esses cativos reagiam a
normatização imposta pela sociedade colonial cristã para construir alianças que
poderiam garantir um espaço social diferenciado para si e sua descendência.

CRISTIANIZAÇÃO ESPACIAL E A CONVERSÃO DOS ESCRAVOS NA FREGUESIA DE


NOSSA SENHORA DA APRESENTAÇÃO
Segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo, no período colonial, uma
freguesia era o espaço territorial assistido pelos religiosos e a mesma era composta
basicamente pela tríade: matriz, capelas, padres (CASCUDO, 1992). Sua territorialização
foi constituída levando em consideração o ritmo da ocupação e as relações de poder
que foram se formando a partir da apropriação do espaço. No âmbito das freguesias
desenrolavam-se todas as atividades da vida religiosa, além de também servir à
administração civil. A existência do padroado nas monarquias ibéricas fazia com que os
poderes espiritual e temporal estivessem intimamente relacionados.
A paróquia de Nossa Senhora da Apresentação correspondeu, como tantas
outras paróquias durante o período colonial, a uma área de assistência religiosa onde
havia igrejas, capelas e padres, comportando grandes espaços onde a população vivia
dispersa em diferentes fazendas, mesmo existindo pequenos povoados. Era o corpo
social que compõe a freguesia que dava o real sentido que tinha a paróquia: a igreja
matriz, o pároco e moradores da região vivendo e cumprindo com suas obrigações
cristãs (PAULA, 2010, p. 9).
A sociedade do mundo colonial português tinha sua conduta normatizada.
Cristianizar os espaços significava, entre outras coisas, manter a administração dos
sacramentos e fiscalizar as ações das pessoas. Dentre essa normatização da conduta
da população estava o batismo. Foi com a publicação das Constituições Primeiras do

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Arcebispado da Bahia e sua posterior divulgação, um esforço de normatização do


batismo na colônia pode ser observado.
Para o historiador Thiago Torres de Paula, em seu artigo sobre a Freguesia de
Nossa Senhora da Apresentação, o discurso da Igreja pode ser percebido como “um
grande tecido que cobria padres e colonos na América Portuguesa”, apesar de, como
destaca o historiador, esse tecido apresentar múltiplos rasgos, por onde passava a vida
cotidiana dos indivíduos (PAULA, 2009, p. 95).
Assim, trabalhou-se ao longo deste artigo com o conceito de cristianização
espacial, baseado na obra de Cláudia Damasceno - que permitiu verificar, com base na
criação de prédios sagrados, a garantia da conversão e da manutenção da fé católica
nos espaços da freguesia. Na sua obra, Claudia Damasceno salienta a importância da
religião para o processo colonizador e o papel da Igreja e da Coroa na criação das
freguesias. Durante o Antigo Regime, a existência do direito régio do padroado fazia
com que os poderes temporal e espiritual estivessem intimamente ligados nas
monarquias ibéricas. Era por meio da religião que a Coroa e a Igreja exerciam seu
controle social nestes espaços (FONSECA, 2011, p. 84).
Segundo a historiadora potiguar Renata Costa (2015), que estudou o processo
de cristianização na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, tendo como base o
trabalho de Claudia Damasceno, não seria propriamente o espaço que regularia os
comportamentos, mas aqueles estavam recriando esses espaços, fossem religiosos ou
moradores, fosse pela incorporação de ambos aos espaços que antes contavam com a
lógica dos índios - de diversas etnias. Assim a ideia de que os espaços regulam os
comportamentos pode ser aplicada no sentido de que os padres, bem como os lugares
de culto, incidiam na vida dos fregueses, regulando a maneira de agir dessas pessoas
(COSTA, 2015, p. 43). Assim, este trabalho discute como esse processo, por meio da
atuação dos padres, seculares e regulares, exerceu influência na inserção desses
cativos no mundo cristão. Porém, não aceitavam essa normatização de forma passiva,
mas respondiam o que lhe era imposto como uma estratégia de vida e de sobrevivência.
Por meio dos documentos paroquiais é possível retirar informações como a
distribuição das igrejas e capelas no espaço de jurisdição eclesiástica. No quadro a
seguir, podemos ver as igrejas e capelas que faziam parte da Freguesia de Nossa
Senhora da Apresentação até o ano de 1762:

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Quadro 1: Igrejas e capelas da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação (até 1763)


Ano em que aparecem pela
Igrejas e capelas Locais primeira vez nos registros
paroquiais
Matriz de Nossa Senhora da ribeira do rio Potengi
1681
Apresentação
Capela Nossa Senhora do Ó de
ribeira do rio Mipibu 1687
Mipibu
Capela Santo Antônio do
ribeira do rio Potengi 1681
Potengi
Capela Nossa Senhora dos
ribeira do rio Ceará-mirim 1727
Prazeres de Guajurú
Capela Santa Ana do Ferreiro
ribeira do rio Jundiaí 1732
Torto da Aldeia de Mipibu
Capela Nossa Senhora da
ribeira do rio Grande 1738
Soledade
Capela São Gonçalo do Potengi ribeira do rio Potengi 1683
Capela Santos Reis Magos da
Barra do rio Potengi 1749
Barra
Capela Nossa Senhora da
ribeira do rio Jundiaí 1711
Conceição do Jundiaí
Elaborado pela autora a partir dos registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação
(1749-1770).

Esses espaços religiosos foram construídos nos pontos onde se tinha os


povoados já consolidados, geralmente nas ribeiras dos rios, onde havia uma maior
concentração de pessoas. Segundo Thiago Torres, as capelas estavam onde os
moradores estavam, pois a função das mesmas era prestar uma assistência religiosa
aos colonos que viviam distantes do maior centro populacional, onde estava localizada
a igreja matriz de Nossa Senhora da Apresentação, em Natal (PAULA, 2010, p. 53). Na
imagem a seguir, podemos ver a circunscrição eclesiástica da dita freguesia:

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Elaborado pelo Laboratório de Experimentação em História Social (LEHS), baseado nos registros
paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação.

Com a criação de outras freguesias, na primeira metade do século XVIII, como a


do Açu, a de Goianinha e a de Caicó, e na década de 1760, a criação da vila nova de
Estremoz do Norte e, concomitantemente, instalada a freguesia de São Miguel,
localizada na região do Ceará-Mirim; em 1762, estabelecida a vila de São José do Rio
Grande e, com ela, a freguesia de Nossa Senhora do Ó e Santana do Mipibu; e em junho
de 1760 a vila de Arês e, com ela, a freguesia de São João Batista, a área de assistência
da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação foi-se modificando, enquanto novas
freguesias foram surgindo, como podemos ver no seguinte quadro:

Quadro 2: Igrejas e capelas da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação (a partir de 1763)


Matriz de Nossa Senhora da Apresentação
Capela Santo Antônio do Potengi
Capela Nossa Senhora da Conceição do Jundiaí
Capela São Gonçalo do Potengi
Capela Nossa Senhora da Soledade
Capela Santos Reis Magos da Barra
Capela de Sana Ana do Ferreiro Torto
Elaborado pela autora a partir dos registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação
(1749-1770).

Os espaços das igrejas e capelas eram relevantes por possibilitarem o processo


de cristianização, mas não sendo possível batizar nestes locais sagrados, qualquer
espaço poderia ser utilizado. Em casos especiais, fora do templo, com o perigo de morte,

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a urgência determinava que qualquer pessoa poderia batizar, tendo a intenção de fazê-
lo. O medo da morte sem o batismo, acometia, principalmente, os pais de crianças
recém-nascidas. Para isso, os párocos deveriam ensinar aos cristãos a boa forma de
administração do ritual, especialmente às parteiras.
Posteriormente, o batizando deveria ser encaminhado até o pároco para
averiguar a sua validade e, se estivesse em boa forma, ele deveria finalizar o ritual
colocando os santos óleos e fazendo os exorcismos; ou repetindo o batismo sub-
conditione. Por fim, cabia somente ao vigário o registro da cerimônia em livro próprio,
onde se registrava o nome do batizando, sua condição social e, caso fosse escravo, o
nome do senhor, padrinhos, data, local e assinatura do vigário, que não seria
questionada. Dessa maneira, encontra-se em várias paróquias a documentação de
nascimentos de crianças livres, forras e escravas e da chegada de escravos adultos. As
atas paroquiais tinham lugar central na continuação da vida comunitária. Era por ela
que se comprovava, oficialmente, a filiação, fundamental em casos de reconhecimentos
de filhos, de demandas relacionadas a heranças e de outras questões judiciais, em que
se exigia a confirmação de ser cristão e poder, assim, receber as bênçãos do matrimônio
e demais sacramentos. Na sociedade escravista, podemos encontrar registradas,
também, alforrias de crianças em pia batismal, valendo como “cartas de alforria e
liberdade”.
Com base nestes registros de batismo, pode-se analisar o processo de
cristianização de almas escravas na freguesia. Assim, foram encontrados 308 registros
de batismo de escravos, de um total de 1089 assentos:

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Tabela 1: Batismo na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação entre 1749 à 1770

Elaborado pela autora a partir dos registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação
(1749-1770).

Conforme os resultados, pode-se ressaltar alguns aspectos da sociedade


colonial no Rio Grande do Norte. A principal é que a maioria da população era composta
de pessoas consideradas livres, corroborando o fato de que a escravidão foi menor do
que em outras áreas. Portanto, havia uma economia que não necessitava de um grande
número de escravizados, o que culminou em números superiores da população livre em
relação à escrava.
Apesar disso, o número de assentos de batismo de escravos é significativo,
correspondendo à 28,3% do total de registros, ainda que durante muito tempo, na
historiografia do Rio Grande do Norte (ROCHA POMBO, 1922; LYRA, 1922, CASCUDO,
1955), acreditou-se que os escravos eram tão poucos que não se constituiriam em uma
parcela significativa a ser considerada. Para os indivíduos inseridos nesta sociedade,
era importante ter escravos no sentindo de se diferenciarem socialmente, uma vez que
na colônia ser senhor de terras e escravos os distinguia na hierarquia social (ALVEAL;
DIAS, 2017).
Nesse processo de escravização do africano, o batismo era critério central no
processo de feitura do novo escravo. Na ação da monarquia católica portuguesa, pelo
Padroado Régio, foram instituídas normas nas ordenações do reino para tratar,
especificamente, da recepção do sacramento cristão. Desde as Ordenações Manuelinas
(1521), consta ser dever dos senhores batizar todos os escravos e escravas de origem
africana, dentro de seis meses.

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No caso de terem dez anos ou menos idade, deveria cumprir dentro de um mês
após a chegada do cativo. Às crianças nascidas de pais da Guiné1, deveria ser observado
o mesmo tempo determinado para o batizado dos filhos dos cristãos, oito dias,
contados da data de nascimento, sem questionar a anuência dos pais. Nessa ordem,
caso o escravo adulto se recusasse a receber o sacramento, o senhor deveria comunicar
ao pároco, que comprovaria pessoalmente a recusa.
Posteriormente, nas Ordenações Filipinas (1603), vê-se a correção das ordens
anteriores, instituindo que, se os senhores não mandassem seus escravos ao batismo,
haveria a perda para quem os demandar (Ordenações Manuelinas, 1521: livro V, p.300-
301; Ordenações Filipinas, 1603: livro V, p.1247). Fica nítida, então, a relação entre
escravização e evangelização.
O artigo das Ordenações Filipinas dedicado à questão do batismo foi reforçado
pelo arcebispo da Bahia, D. Sebastião Monteiro da Vide, no texto das Constituições
Primeiras do Arcebispado da Bahia. O artigo 99, livro V, das Ordenações diz ser
responsabilidade, primeiramente, dos senhores mandar batizar seus escravos. Caso
houvesse denúncia do não cumprimento da ordem, os senhorios perderiam a posse
para aqueles que denunciaram. Além disso, o clero local deveria zelar para que todos
recebessem o sacramento.
Promulgada em 1707 e publicada em 1719, em cinco volumes, nela se encontra
as principais diretrizes para a administração dos sacramentos aos escravos,
particularmente aos adultos, muitos deles “de língua não sabida”. Contribuindo com a
manutenção da ordem social e religiosa, utilizando-se de instrumentos de vigilância e
punição, temos as Constituições a reforçar as hierarquias do Antigo Regime e do direito
senhorial, defendido no bom governo de sua Casa, ao levar os escravizados “rudes e
boçais” ao seio da santa madre Igreja.
Vê-se a ênfase no batismo e no seu poder de “purgar o pecado original" para a
salvação da alma do gentio. É, ainda, reforçado o papel senhorial na educação religiosa
de filhos e escravos, de mandá-los à missa, ensinar-lhes o catecismo e a guardar os dias
santos, além de afastá-los de suas crenças de origem.
Para aprofundar a análise da questão da cristianização dos escravos nos
diferentes espaços da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, também foi
elaborado uma tabela com o local de batismos destes indivíduos:

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Tabela 2: Local de batismo da população escrava na Capitania do Rio Grande do Norte (1749-1770)

Elaborado pela autora a partir dos registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da
Apresentação (1749-1770)

De acordo com os registros, a maioria dos batismos de população negra escrava


ocorreu em Natal, na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, seguido pela capela
de Nossa Senhora da Conceição do Jundiaí e a capela de São Gonçalo do Potengi. Esses
números podem indicar que as atividades que envolviam a mão de obra escrava giravam
em torno desses locais.
Apesar de Natal não ter sido uma cidade com alta dinamicidade econômica,
parece ter exercido uma centralidade das ações da Igreja ou talvez diante das
dificuldades da ida de clérigos aos locais mais remotos, é possível que houvesse um
esforço de se ir até à capital para garantir o sacramento (COSTA, 2015).
Aos párocos das localidades cabia à responsabilidade de exortar os fregueses
na doutrinação dos cativos, fiscalizar para que todos recebessem o sacramento, ensinar
o catecismo aos escravos e comandar a cerimônia, dentre outras funções. As
Constituições prescrevem o batismo, ainda, em várias situações da vida colonial. Todo
adulto deveria receber o batismo.
Dentro dos primeiros seis meses de sua chegada, é que o escravo deveria ser
informado da necessidade de ser batizado e da escolha do seu outro nome que o
acompanhará nos documentos oficiais, nas matrículas de escravos, nos testamentos e
inventários do senhor. Era nessa realidade que os pretos novos, “que já tem uso da
razão”, deveriam ser instruídos “na fé, e ter contrição ou atrição dos pecados da vida

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passada”, e deveriam aprender as orações comuns: Credo, Padre Nosso, Ave Maria e os
artigos da fé e os mandamentos da lei de Deus. E “estando assim instruídos serão
batizados por efusão, deitando água sobre a cabeça, rosto, e corpo e não sobre o
vestido” (Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, 1719: livro I, Título XIV, p.19).
Já as crianças escravas até sete anos não precisariam do consentimento dos pais para
o ritual. A partir dos sete anos, idade em que se possui “algum juízo” e entendimento,
ela próprias deveriam confirmar a vontade de recepção.
Porém, deve-se ressaltar que esses indivíduos não aceitavam essa influência
passivamente. É preciso destacar a forma encontrada por esses cativos, como sujeitos
históricos ativos, de responder a essa normatização imposta pela Igreja, valendo-se do
código social dos brancos para atingir seus interesses e, por meio do batismo, construir
redes de parentesco e solidariedade. Além disso, Sheila Faria ressalta que “a cidadania
católica era requisito básico para a sobrevivência na colônia. Negar o domínio seria
acintoso e representaria um confronto direto” (FARIA, 1998, p. 306). Ou seja, para o
escravizado participar da vida religiosa poderia ser algo facilitador para sua vida
cotidiana.

A APROPRIAÇÃO DO BATISMO PELOS AFRICANOS NA AMÉRICA PORTUGUESA


Ao longo da história, o próprio sacramento do batismo e sua administração
sofreram significativas mudanças. Dos primeiros séculos do Cristianismo à Idade
Moderna, variados sentidos foram sendo incorporados ao ato batismal, reforçando sua
validade para entrada do indivíduo na comunidade de fiéis, como “purgador do pecado
original” e salvação da alma. No entanto, foi na esfera comunitária que o sacramento
passou a ter destacado papel. A necessidade de se ter padrinhos que acompanhassem,
particularmente, as crianças, aparece desde o século III da era Cristã. No entanto, foi no
século IX que a Igreja Católica definiu a função do parentesco ritual no batismo e proibiu
pais de se tornarem padrinhos dos filhos (GUDEMAN, 1975). Sendo fiadores, diante de
Deus, da fé do afilhado, o celebrante do ritual deveria informar aos padrinhos que eles
se tornavam pais espirituais do batizado.
O ato de apadrinhar determinava algumas responsabilidades, os padrinhos e
madrinhas se comprometiam perante o próprio “Deus” de serem responsáveis pela
educação religiosa e dos “bons costumes” das crianças, ou seja, tornavam-se “seus pais
espirituais”. Tais determinações não se diferenciavam para a população cativa. Ao

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contrário, a legislação eclesiástica afirma que esta merece uma atenção especial, pois
“são os mais necessitados desta instrução pela sua rudeza”. Por isto, deveriam ser
mandados por seus “amos e senhores” à Igreja para que obtivessem educação
religiosa. Em outras palavras, isto significava dizer que a população escravizada deveria
participar dos rituais da Igreja.
As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, orientavam que os
padrinhos seriam escolhidos na comunidade cristã, tendo o padrinho mais de 14 anos e
a madrinha mais de 12, idades também necessárias para se habilitar ao matrimônio, o
que representaria a entrada na vida adulta. Essas exigências, principalmente a de ser
batizado, eram essenciais para a função religiosa a ser assumida, mas a Igreja não
determinava o estatuto social dos padrinhos. No entanto, a própria definição teológica
do parentesco ritual, laço superior ou mais elevado do que o laço carnal, sugeria que o
convite fosse feito a pessoas importantes para o círculo social da família ou do indivíduo
adulto (GUDEMAN, 1975, p. 234). A autoridade religiosa que procedia ao ritual deveria
reforçar o valor do laço constituído naquele instante e que gerava até mesmo,
interdições, sendo necessária licença especial para casamentos entre padrinhos
afilhados e padrinhos e pais. Portanto, o ato batismal institucionalizava dois sistemas
sociais: o apadrinhamento, a relação entre afilhado e padrinhos; e o compadrio, que
ligava os pais àqueles escolhidos para segurar a criança na celebração do batismo e
serem seus protetores. Em uma sociedade organizada sobre o princípio jurídico da
diferença dos corpos, as relações de compadrio e apadrinhamento reforçavam os
valores de distinção e hierarquia social. Dessa maneira, produziam e reproduziam as
relações hierarquizadas do Antigo Regime: de um lado, o padrinho e, do outro, a família
e o afilhado, hierarquicamente posicionados (HESPANHA & XAVIER, 1998, p. 347).
No que se refere aos laços estabelecidos nesse ritual, Gudeman e Schwartz
(1988) mencionam que não se restringiam ao âmbito social da Igreja, “[...] uma dimensão
peculiar do compadrio é que ele é produzido na Igreja entre indivíduos que o carregam
para fora da instituição formal. O compadrio é projetado para dentro do ambiente
social” (GUDEMAN; SCHWARTZ, 1988, p. 37). Os citados autores chamam atenção que
os laços efetivados no compadrio são produzidos na Igreja, mas não se limitam a este
ambiente. Tais relações são transpostas para o convívio social, isto é, para “fora da
instituição formal”, ou seja, os padrinhos e madrinhas não teriam apenas uma
responsabilidade religiosa, de manter seus afilhados firmes na fé cristã, esse cuidado

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também era transportado para o dia-a-dia. Os pais poderiam contar com essa ajuda dos
padrinhos e madrinhas e não era diferente para os escravizados.
Desta maneira, verificamos que o espaço religioso, através dos seus rituais
também se realizou muito das experiências dos escravizados, especialmente no ritual
do batismo. Uma vez levando seus filhos e filhas para serem batizados, estes pais e
mães escravizados deveriam escolher aqueles que seriam os protetores espirituais de
seus filhos, ou seja, os padrinhos e as madrinhas e tais escolhas deveriam partir dos
pais, conforme indicado na legislação eclesiástica, embora não descartamos a
possibilidade de que muitas escolhas poderiam ter a interferência senhorial. Kátia
Mattoso chama a atenção para isto, sobretudo em relação aos africanos, estes recém-
chegados da África eram desconhecidos, então como escolher padrinhos nesta
situação? Neste caso, talvez seja indubitável a interferência do proprietário na escolha
(MATTOSO, 1982 [2003], p. 132).
A historiografia tem apontado que, em várias regiões do Brasil, sobretudo nas
regiões em que predominaram pequenas e médias posses de cativos, os escravizados
apresentaram a tendência em escolher padrinhos e madrinhas entre a população livre.
Foi o que constatou Stuart Schwartz para a Bahia do século XVIII, “quando crianças
escravas foram batizadas, pessoas livres serviram de padrinhos em cerca de 70% dos
casos, libertos, em 10%, e outros escravos, em 20%” (SCHWARTZ, 1988, p. 332). Sheila
Faria, em um contexto de maiores posses de cativos, fez constatação semelhante para
a Freguesia de São Gonçalo no Rio de Janeiro, no final do século XVII, sendo que foi
entre os filhos de mães solteiras que mais tiveram padrinhos livres (46,6%) enquanto
os filhos legítimos eram apadrinhados por cativos (85,6%) (FARIA, 1998, p. 319, 320).
Para Goiás setecentista, José de Castro verificou que os escravizados firmaram o
compadrio com pessoas cativas, mas preferiram também escolher padrinhos livres
(CASTRO, 2011, 262).
O quadro a seguir apresenta os números e a condição jurídica dos padrinhos
escolhidos para o batismo de crianças e adultos na freguesia:

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Quadro 3 – Padrinhos escolhidos para o batismo de cativos na Freguesia de Nossa Senhora da


Apresentação 1749-1770
Padrinhos livres ou libertos Padrinhos escravizados Padrinhos livre e escravizado

230 casos 18 casos 11 casos

Elaborado pela autora a partir dos registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação
(1749-1770)

O maior percentual é para os assentos cuja condição jurídica dos padrinhos dos
escravizados eram livres, correspondendo à 230 registros. Ou seja, na maior parte dos
casos eram selecionados padrinhos livres para o batismo dos escravos.
Vejamos o caso dos filhos da escrava Ignácia. No dia trinta de abril de 1754, na
capela de Nossa Senhora do Ó de Mipibú, Ignácia, escrava do Capitão Caetano Barbosa
de Góis, batizou sua filha, Catarina, tendo como padrinhos o Capitão José Monteiro3 e
Brígida Maria, filha de José Barbosa Ribeiro. Dois anos depois, no dia vinte e sete de
agosto de 1756, o segundo filho de Ignácia, Caetano, foi batizado também na capela de
Mipibu; os padrinhos foram o licenciado João Barbosa Marques Ferreira e a viúva
Florinda Francisca Leal de Jesus.
Francisca, escrava de Francisca Antônia, também teve dois filhos: Ana foi
batizada no dia primeiro de maio de 1749, na matriz, e teve como padrinhos o cabo de
esquadra Vicente Rodrigues e Luzia, mulher de Miguel Correa. Seu irmão Luís, batizado
no dia 17 de maio de 1758, também na matriz, e teve como padrinho Francisco Pinheiro
Teixeira4.
Já Ana, filha de Brígida, escrava de João de Souza Nunes, teve como padrinhos o
sargento Vitoriano Rodrigues e Felipa, filha de Agostinho Cardoso Batalha5. Seu irmão,
José, batizado na matriz no dia 14 de maio de 1758, teve como padrinho o capitão
Manuel de Oliveira Miranda. O terceiro filho de Brígida, João, também batizado na
matriz; seus padrinhos foram o capitão-mor Cosme do Rêgo Barros e Dona Quitéria de
Jesus Maria, mulher do alferes José Barbosa Gouveia. Felipa foi novamente escolhida
para ser madrinha, desta vez da quarta filha de Brígida.
Nas experiências citadas constatamos exemplos de pessoas escravizadas que
escolheram como padrinhos e madrinhas de seus filhos pessoas de condição livre.
Estabelecer o parentesco espiritual com indivíduos livres era estratégico para os
escravizados. Um padrinho e uma madrinha livre possuíam mais recursos para com os
cuidados com o seu filho ou filha espiritual. Alguns poderiam escolher padrinhos da

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elite. Isto poderia ser vantajoso para os escravizados, pois estas pessoas estavam
melhor situadas na hierarquia social.
As pessoas escravizadas foram identificadas em 18 assentos. Segundo Kátia
Mattoso (1982), o compadrio firmado entre pessoas de condição escrava servia para
reforçar laços de solidariedade já existente entre os escravizados. Silvia Brügger
(2007), ao pesquisar sobre o compadrio em São João Del Rei (Minas Gerais) entre os
anos de 1736 e 1850, verificou que a população escravizada estabeleceu o compadrio
tanto com pessoas de sua mesma condição, isto é, escravizadas, como pessoas livres.
Para Brügger, esta ação de escolha não era aleatória, existia uma lógica:

Para as escravas, a escolha dos padrinhos parecia oscilar,


preferencialmente, entre os dois extremos sociais: padrinhos livres,
visando provavelmente a possibilidades de ganhos, para seus filhos ou
para si, ou cativos, para reforçar as teias sociais estabelecidas na
própria comunidade escrava (BRÜGGER, 2007, p. 319).

Todavia, percebemos que os escravizados da Freguesia de Nossa Senhora da


Apresentação tendiam mais a firmar o compadrio com pessoas livres do que com os de
sua mesma condição. Esta tendência pode ser justificada pelo predomínio das
pequenas posses de escravizados na região, o que levava os cativos a firmarem
sociabilidades com os livres. Houve, ainda, os batizando que tiveram como padrinho um
indivíduo livre (ou liberto) e uma madrinha escrava, ou vice-versa (11 casos).
Vimos, através das experiências citadas, que os escravizados fizeram escolhas
de com quem estabeleceriam o parentesco espiritual e tais escolhas poderiam
proporcionar melhor sobrevivência no sistema escravista. Ter um padrinho e/ou
madrinha era importante para os escravizados, pois independente da condição social,
conforme determinação eclesiástica, os padrinhos tinham responsabilidades para com
os seus afilhados e isto era um apoio tanto para os pais e/ou mãe como para as próprias
crianças. A constituição familiar e as sociabilidades firmadas no compadrio foram
mecanismos de uma melhor sobrevivência em um sistema opressor.

FONTES
ARQUIVO da Cúria Metropolitana de Natal. Livros de batismo da Freguesia de Nossa
Senhora da Apresentação – 1749-1761; 1760-1761; 1761-1763; 1763-1766; 1766-
1768;1769-1770.

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CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia feitas e ordenadas pelo


Ilustríssimo, e Reverendíssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide 5º arcebispo do
dito Arcebispado, e do Conselho de sua Majestade: propostas, e aceitasem o Sínodo
Diocesano, que o dito senhor celebrou em 12 de junho do ano de 1707. 1ª edição Lisboa
1719 e Coimbra. 1720. São Paulo: Typografia 2 de Dezembro de Antônio Louzada
Antunes, 1853

PLATAFORMA SILB – Banco de Dados de Sesmaria do Império Luso-Brasileiro

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São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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análise do compadrio em São João del Rei (1736-1850). In: CARVALHO, José Murilo de
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Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação (1681-1714). 2015. 173f. Dissertação
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A CRISTIANIZAÇÃO NA FREGUESIA DA GLORIOSA SENHORA


DE SANTA ANA DO SERIDÓ: ANÁLISE DAS CERIMÔNIAS DOS
PÁROCOS ENVOLVIDOS EM AÇÕES DE DESOBRIGAS
(1788-1818)

Isac Alisson Viana de Medeiros138

O seguinte trabalho trata-se do início de uma pesquisa maior139 que tem como
objetivo central analisar o processo de territorialização da Freguesia da Gloriosa
Senhora Sant’Ana do Seridó durante o período de 1788-1818. Para tal, partimos do que
Marcelo Lopes Souza140 entende pelo conceito de território, o qual configura-se como
um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder. Seguindo essa
premissa, Souza explica que, para se entender um território, primeiro antes é necessário
identificar os agentes detentores de poder que ali se estabelecem – quem domina ou
influencia em determinado espaço –, logo, a categoria poder torna-se essencial na
análise do nosso recorte espacial.
Em relação à Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó141, a questão
das forças detentoras de poder que atuavam nesse espaço pode ser analisada por
diferentes prismas. Durante o movimento histórico de ocupação das terras do Seridó
existiram muitos processos que motivaram a fixação das pessoas na região. Segundo
Manoel Rodrigues Melo, na introdução que faz da 17ª edição do livro Seridó, escrito por
José Augusto142, à região se caracteriza pelo fato de não existir uma origem comum
para as vilas e cidades que se estabeleceram nesse território. Muitas tiveram seu início
ligado a fazendas de criar gado, outras no espírito religioso da sua população, algumas
se relacionam com o ciclo do algodão. Ou seja, são múltiplas as relações de poder
estabelecidas nesse território e, portanto, para quem deseja estudar a territorialização

138 Graduado em História (Licenciatura) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),
campus Caicó-RN e atualmente cursando a especialização em História dos Sertões, pela mesma
instituição e o mestrado em História e Espaço pelo Programa de Pós Graduação em História da UFRN,
campus Natal-RN.
139 Nos referimos a monografia de conclusão de curso da especialização em História dos Sertões que

está atualmente em pro


140 SOUZA, Marcelo Lopes. O território: sobre espaço e poder. Autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO,

Iná Elias de; GOMES, Paulo César da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato (orgs). Geografia: conceitos e temas
– Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1995, p. 78-80.
141 Como o nome do recorte é uma constante em nosso trabalho, por uma questão de convenção,

adotaramos Freguesia do Seridó, de agora em diante, até para melhor fluidez do texto.
142 AUGUSTO, José. Seridó. Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1980.

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da Freguesia do Seridó, muitos podem ser os caminhos para essa tarefa, os quais
podem variar mediante o tempo e espaço analisados.
Deste modo, a Freguesia do Seridó se apresenta como um espaço produzido
pelas relações e atividades humanas, assim, não se trata de algo natural, dado
gratuitamente ou pré-existente a própria história. Consideramos o espaço como um
conceito carregado de historicidade e, portanto, repleto de discursos e intenções que
refletem na sua construção decorrente do tempo e lugar analisados. Em nosso
trabalho, a Freguesia do Seridó está longe de ser apenas o palco das ações dos homens
no decorrer da história, não se enquadra nesse modelo naturalizado e gratuito. O
território da freguesia se enquadra no próprio objeto de nosso estudo. E, nesse aspecto,
acaba por oferecer caminhos diferentes para se analisar os processos pelo quais se deu
sua territorialização. Para interesse dessa pesquisa, iremos deter a nossa atenção para
o sagrado, aspecto do processo de cristianização desse espaço – mas especificamente,
as desobrigas realizadas pelos padres nos sítios e fazendas.
Durante nossa pesquisa bibliográfica, pudemos observar, a partir de autores um
pouco de como as desobrigas143 tem sido objeto de análise em trabalhos
acadêmicos144. Infelizmente, constatamos que muito pouco tem se produzido acerca do
tema, de modo que nenhuma obra tinha esse objeto como central e só conseguimos
encontrar citações referentes à desobriga em pesquisas que abordam outras
temáticas, como sacramentos, religiosidades, conquistas territoriais e população. A
desobriga apresentou-se como uma tarefa não só ligada ao ato de desobrigar os

143 Em nossa pesquisa entendemos as desobrigas como o ato de sacerdotes da Igreja Católica se
deslocarem pelo território da Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó para cristianizar as
populações que viviam nas fazendas, sítios e serras localizadas em torno das povoações existentes na
freguesia.
144 NEVES, Gilberto Pereira das. In: (coord) SILVA, Maria Beatriz Mizza da. Dicionário da história da

colonização portuguesa no Brasil. Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2013;
ZANON, Dalila. Os bispos paulistas e a orientação tridentina no século XVIII. História: Questões &
Debates, Curitiba, n. 36, 2002. Editora UFPR; SANTOS, Roberto Sousa. A reestruturação sociorreligiosa
em Sergipe, no final do século XVIII. Dissertação (estrado em Ciências Sociais) – Universidade Federal do
Rio Grande do Norte. Natal, RN, 2010; MACEDO, Helder Alexandre Medeiro de. Ocidentalização, territórios
e população indígenas no sertão da capitania do Rio Grande. Dissertação (mestrado em História) –
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, RN, 2007; SANTOS, Roberto Sousa. A
reestruturação sociorreligiosa em Sergipe, no final do século XVIII. Dissertação (estrado em Ciências
Sociais) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, RN, 2010; SMITH, Roberto. A Presença da
Componente Populacional Indígena na Demografia Histórica da Capitania de Pernambuco e suas Anexas
na Segunda Metade do Século XVIII. In: XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais,
realizado em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil de 4 a 8 de novembro de 2002; MACÊDO, Muirakytan
Kennedy de. Estado das almas: população, família e educação escolar no Rio Grande do Norte colonial
(século XVIII). In: Revista Educação em Questão, v. 41, n. 27, Natal, jul./dez. 2011.

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fregueses dos ritos cristãos ou de prepara-los para a Páscoa, a partir da realização de


sacramentos nos fiéis, mas também – e talvez, principalmente – como uma forma de
controle da população, onde se tornava possível além de fazer a manutenção das
obrigações religiosas, também contar essas gentes, controla-las e vigiá-las. Logo, são
um exemplo do poder da Igreja católica sobre determinado território.
Em nossa análise, as desobrigas se convertem no modelo de estudo para se
pensar o território da Freguesia. Ocorre que, a partir do percurso que os padres faziam
pelos espaços eles iam registrando esses locais nos livros de casamento e batismo,
enchendo-os de nomes referentes à região, completando-os com a nomeação das
fazendas, sítios e povoações que visitavam durante a realização dos sacramentos, o que
nos permite localizar esses espaços na bibliografia referente à região e construir pouco
a pouco, as fronteiras desse território.
Porém, antes de analisarmos as desobrigas em si, antes de nos adentrarmos na
forma em que esse fenômeno ocorria no nosso recorte espacial e temporal145, torna-se
necessário um estudo prévio acerca dos agentes desse fenômeno, ou seja, os padres,
coadjutores e visitadores que puderam empreender as desobrigas na Freguesia da
Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó. Dessa forma, esse será o objetivo desse
artigo: analisar as cerimônias de batismo e casamento realizadas pelos sacerdotes que
atuaram na freguesia entre os anos de 1788 a 1818. O interesse aqui se remete a tentar
entender algumas questões referentes ao processo de cristianização desse território:
Qual o número de sacerdotes que atuavam na região? Quem eram esses sujeitos e
como atuaram no território? Como se organizavam? Como ocorria a cristianização da
freguesia? Era mais comum as cerimônias ocorrerem na matriz e capelas da região ou
pelos sítios e fazendas? Todas essas questões nos ajudam a compreender melhor a
lógica de funcionamento da religião na freguesia, assim como o papel dos padres na
imposição dessa lógica. Após entendermos isso, poderemos enfim analisar como
ocorriam as desobrigas e como relacioná-las ao processo de territorialização da
Freguesia do Seridó.
A principal fonte documental utilizada nesse exercício foram os registros
paroquiais, em especial três livros, dois de batismos (1803-1806; 1814-1818) e um de
casamento (1788-1809). Anteriormente, contávamos com seis livros para esse estudo,

145 Essas questões fazem parte de futuras pesquisas e, portanto, não serão tratadas aqui.

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acrescentando dois de óbitos (1788-1811; 1812-1838) e outro de casamentos (1809-


1821), porém no decorrer da pesquisa optamos por descartá-los, tendo em vista que em
um primeiro momento não conseguimos identificar as desobrigas nos óbitos e o banco
de dados que continham as informações acerca dos registros desse livro de
casamentos não constavam a identificação dos sacerdotes que realizaram os ritos
religiosos e, devido a isso, mesmo que momentaneamente, tornaram-se inviáveis a essa
primeira parte da nossa pesquisa.
Infelizmente, esse fato aumenta ainda mais o nosso vácuo em relação às
informações ocorridas nas cerimônias da freguesia, já que, somada à ausência desses
juntam-se os primeiros livros referentes aos primeiros 40 anos da freguesia146 e a
outros posteriores que ainda estão em processo de transcrição e alocação em bancos
de dados147. No entanto, os livros à disposição já nos oferecem ricas informações que
nos permitem pensar chaves importantes do processo de cristianização e
principalmente acerca da função das desobrigas na Freguesia do Seridó.
Em relação ao perfil dos sacerdotes e a atuação destes no espaço de nosso
interesse, em meio ao processo metodológico de catalogação de dados necessários
para a pesquisa, demos protagonismo 1) ao nome do sacerdote: que nos foi útil na
identificação do sujeito e permitiu que observássemos a frequência de sua atuação na
freguesia a partir do número de registros em que ele esteve presente como
responsável pela cerimônia. 2) ao lugar em que ocorreu o rito religioso: se foi em um
templo (matriz ou capela) ou pela restante do território da freguesia (sítio, fazenda,
oratório). Assim pudemos separar as atuações de desobrigas das ocorridas nos
templos religiosos de suas respectivas povoações. E, por fim, 3) às datas, que nos
permitiram perceber os períodos em que essas cerimônias ocorriam – se realmente
duravam todo o ano, ou simplesmente durante a Quaresma.148

146 Segundo Dom José Adelino Dantas em seu livro intitulado “Homens e Fatos do Seridó Antigo” os
livros de registros mais antigos se perderam, provavelmente destruídos pelo tempo. Segundo o autor,
esse de óbito, que data a partir de 1788 é no máximo, o segundo mais antigo. Ver DANTAS, Dom José
Adelino. Homens e fatos do Seridó Antigo. Natal, RN: Sebo Vermelho Edições, 2008. [primeira edição:
1959]
147 Essas tarefas vêm sendo realizadas por bolsistas de projetos de pesquisa ligados a Universidade

Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação dos professores Muirakytan Macêdo e Helder Macedo,
desde o ano de 1999 em diante, até o ano atual em que continua-se dando prosseguimento ao projeto..
148 NEVES, Gilberto Pereira das. In: (coord) SILVA, Maria Beatriz Mizza da. Dicionário da história da

colonização portuguesa no Brasil. Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2013;
ZANON, Dalila. Os bispos paulistas e a orientação tridentina no século XVIII. História: Questões &
Debates, Curitiba, n. 36, 2002. Editora UFPR; SANTOS, Roberto Sousa. A reestruturação sociorreligiosa
em Sergipe, no final do século XVIII. Dissertação (estrado em Ciências Sociais) – Universidade Federal do

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Para dar início aos resultados iniciais dessa pesquisa, falemos primeiramente da
Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó. De acordo com autores
tradicionais da historiografia referente à região que abrange, nos dias atuais, o
território do Rio Grande do Norte, a exemplo de Dom José Adelino Dantas e Olavo de
Medeiros Filho, a freguesia foi criada oficialmente no dia 15 de abril de 1748, com
invocação a Sant’Ana e com sede na povoação da Vila do Príncipe. A freguesia era uma
das instâncias administrativas da colonização portuguesa nos trópicos. Tinha cunho
eclesiástico, onde buscava oferecer assistência espiritual as pessoas que residiam
dentro dos seus limites. Ao mesmo tempo ela servia a propósitos religiosos e da Coroa
portuguesa. Era também uma forma de territorializar os espaços conquistados,
demarcando o poder do Império português em sua área de abrangência. Sobre esse
aspecto, em relação à Freguesia do Seridó, Muirakytan Macêdo afirma que:

A princípio, subordinado aos serviços religiosos da distante Freguesia


de Piancó (vila paraibana, hoje Pombal) até 1748, os sertões do Seridó
foram seccionados dessa jurisdição e delimitados como freguesia da
Gloriosa senhora Sant’Ana, para atender às necessidades espirituais da
população. Era a primeira regionalização do espaço seridoense que se
desenhava. Partindo da divisão administrativa da Igreja Católica na
colônia, o Seridó ganhava existência no plano cartográfico como
território fiscal – o dízimo do gado era cobrado nesse espaço –, como
território espiritual – dominado por Sant’Ana – e jurisdição política a
povoação do Queiquó (antiga denominação de Caicó), posteriormente
Vila do Príncipe, como sede do poder civil da Freguesia149.

Percebe-se que, mais do que apenas uma marca da religiosidade cristã, o


território da freguesia era efetivamente uma demarcação das posses do Império
colonial português sobre aquelas terras. Tratava-se de uma denominação espacial que
misturava aspectos civis e espirituais, como se pode perceber ao ver que, dentre as
funções da mesma estavam a obrigação de realizar a manutenção da fé dos fregueses
ao mesmo tempo em que se contabilizava esses povos. O próprio Muirakytan Macêdo
atenta para o fato da freguesia compor um território híbrido, que mistura aspectos
fiscais, espirituais e políticos. Assim, percebe-se que para o período destacado – séculos

Rio Grande do Norte. Natal, RN, 2010; SILVA, Francisca das Chagas Marileide Matias da. O processo de
formação territorial de angicos (1760-1836). Dissertação (estrado em História) – Universidade Federal
do Rio Grande do Norte. Natal, RN, 2015.
149 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais: Patrimônio e cotidiano familiar nos sertões da

pecuária. (Seridó - Século. XVIII). Natal, RN: Flor do Sal: EDUFRN, 2015. p. 17.

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XVIII e XIX – o ato de territorializar determinados espaços se constituía também em um


ato de sacralização espacial150.
Em termos de descrição do seu espaço físico, a freguesia localizava-se entre as
capitanias do Rio Grande do Norte e Paraíba e caracterizava-se como uma região rural.
Basicamente era um conjunto de fazendas que ficavam nas proximidades da região do
rio Seridó.
Em relação aos aspectos sagrados que conformavam a caracterização desse
território, segundo Helder Macedo151, até 1788 a freguesia contava com oito templos
religiosos – a matriz e sete capelas –, onde cada qual localizava-se em uma povoação
da dita freguesia, sendo estes: a própria (1) Matriz da Senhora Sant’Ana do Seridó e a
Capela de Nossa Senhora do Rosário do Penedo localizados na povoação do Caicó;
seguidos das capelas da (2) Povoação de Nossa Senhora dos Aflitos do Jardim das
Piranhas; (3) Povoação da Nossa Senhora do Ó da Serra Negra; (4) Povoação de Nossa
Senhora da Guia do Acari; (5) Povoação de Santa Luzia do Sabugi; (6) Povoação de
Nossa Senhora da Guia dos Patos; (7) Povoação de Nossa Senhora da Luz da Pedra
Lavrada e (8) Povoação de Nossa Senhora das Mercês da Serra do Cuité. Cada povoação
possuía uma capela que servia de centro religioso para as fazendas que ficavam
circunscritas àquela área. Obviamente a localização espacial desses templos não era
escolhida a mero acaso, como podemos perceber em relação à escolha do local da
matriz de Sant’Ana pela qual informa o padre Alves Maia no livro de tombo da Paróquia:

Aos 26 dias do mês de julho do ano do Nascimento de Nosso Senhor


Jesus Cristo de mil setecentos e quarenta e oito, em dia da Senhora
Santa Ana, padroeira desta Freguesia, vim a este lugar do Caicó, onde
todos os fregueses desta dita freguesia ou a maior parte deles de
melhor nota assentaram por voto unânime que fosse fundada e ereta
sua matriz com a invocação da Senhora Santa Ana por ser este lugar o
mais comodo e para onde podia concorrer o povo com a conveniencia
comum para todos; e aí no dito lugar, acompanhado de grande parte do
povo e consentimento do Tenente José Gomes Pereira, levantei uma
cruz no mesmo lugar e terreno, onde os fregueses hão de fundar a
matriz (grifos nossos).152

150 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais: Patrimônio e cotidiano familiar nos sertões da
pecuária. (Seridó - Século. XVIII). Natal, RN: Flor do Sal: EDUFRN, 2015. p. 22.
151 MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Outras famílias do Seridó: genealogias mestiças no sertão

do Rio Grande do Norte (séculos XVIII-XIX). 2013. 360f. Tese (Doutorado em História) – Universidade
Federal de Pernambuco, Recife, 2013.
152 PARÓQUIA DE SANT‟ANA DE CAICÓ (PSC). Casa Paroquial São Joaquim (CPSJ). Livro de Tombo nº 1.

Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó (FGSSAS), 1748-1906. Copia fiel do Edital do Rmo
Vizor

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Como visto a partir das palavras do padre, a matriz foi estrategicamente


construída em um local que pudesse ser de fácil acesso para a maioria dos moradores
(ou pelo menos para a maioria de maior qualidade153) da região. Assim, as fazendas
normalmente ficavam em torno da matriz, de modo que durante os eventos cristãos –
missas, realização de sacramentos e festas religiosas – essa população pudesse se
dirigir para o local. Acreditamos que a mesma lógica fosse usada para as demais
povoações citadas acima, ou seja, as suas respectivas capelas localizavam-se em
lugares que fossem mais acessíveis para grande parte da população que ali residiam.
No entanto, mesmo seguindo essa lógica, é certo afirmar que nem toda a
população conseguiria seguir essa ordem, fosse por causa da distância das fazendas
em relação aos templos, que mesmo assim podia ser consideravelmente longe ou até
mesmo devido à rotina diária desses sujeitos, baseada em um cotidiano voltado para o
trabalho agrícola de subsistência e, principalmente a criação de gado. É nesse aspecto
que surge a necessidade do movimento dos padres pela freguesia realizando atos de
fé por meio das desobrigas, buscava-se dar assistência religiosa para essa população
que não tinha condições de ir regularmente às igrejas e capelas dispostas pela região.
Sendo assim, a cristianização da freguesia se dava a partir de uma organização
que atrelava os ritos religiosos ocorridos nessas matriz e capelas às realizações das
desobrigas dos padres pelo território da freguesia. Deste modo, buscava-se dar
assistência ao maior número de fiéis possível.
Explicados, então a metodologia, conceitos e recortes espacial e temporal,
falemos enfim, sobre os agentes da fé da freguesia, padres que realizavam as
cerimônias de batismo e casamento nos templos e fazendas da região. Tendo como
base os dados e livros de registros paroquiais já citados, construímos a seguinte tabela
mostrada abaixo, que aloca os dados de todas as cerimônias de batizado e casamento
ocorridas na Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó, entre os anos de
1788 a 1818.

Manoel Machado Freire, pelo qual se dividiu esta Freguesia de Santa Ana do Seridó, da, de Nossa Senhora
do
Bom Sucesso do Piancó ou Pombal em 15 de abril de 1748, fl. 1-2. (Manuscrito).
153 O conceito de qualidade é entendido aqui de acordo com Eduardo Paiva. Ver: PAIVA, Eduardo França.

Dar nome ao novo: uma história lexical da Ibero-América, entre os séculos XVI e XVIII (as dinâmicas de
mestiçagens e o mundo do trabalho). Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

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A mesma é composta por duas colunas que se dividem de modo que


paralelamente apresentam o nome do sacerdote e a quantidade de vezes em que o
mesmo apareceu realizando uma cerimônia. Organizamos os dados de ordem
decrescente, partindo do padre mais atuante ao que menos apareceu nos registros.
Outro ponto importante a se destacar deve-se ao fato de alguns padres estarem em
negrito, sublinhados e possuírem um “*” em frente aos nomes. Nesse caso são estes os
sacerdotes identificados nos registros como pertencentes à outra freguesia, ou seja,
possivelmente só estavam de passagem pela Freguesia do Seridó. Feita as devidas
explicações, vamos à apresentação e análise dos dados.

Tabela 1: Sacerdotes da Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó (1788-1818) seguido do
número de registros em que aparecem realizando atos de fé.
SACERDOTE NºREGISTROS

Pe. Francisco de Brito Guerra 466

Pe. Manuel Teixeira da Fonseca 375

Pe. José . C. de Mesquita 275

Pe. Coadjutor Inácio Gonçalves Melo 261

Não Indicado 165

Pe. André Vieira de Medeiros 118

Pe Antonio Batista Coelho 61

Pe. José Moreira da Silva 44

Pe. Manuel Gomes de Azevêdo 36

Vice-cura Fabrício da Porciúncula Gameiro 27

Pe. Manuel Fernandes Pimenta,Freguesia.Cuité* 22

Pe José Gonçalves de Medeiros 17

Pe Coadj Manuel de Araújo Correia 15

Pe Coadj Gonçalo Bezerra de Brito 13

Pe Francisco de Albuquerque Melo 13

Pe Antonio Félix Barreto 11

Pe Manuel Carneiro da Ressurreição 10

Pe Ângelo Custódio de Jesus Maria 9

Pe Francisco Xavier de Vasconcelos Maltez 7

Pe Antonio de Melo Barbosa 6

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SACERDOTE NºREGISTROS

Pe Joaquim José de Santa Ana 5

Vigário dos Patos, José Ribeiro Campos* 5

Pe José Gonçalves de Melo 4

Pe José Vieira Afonso 4

Pe José Monteiro de Brito 4

Pe Francisco de Sales Melo 4

Pe José da Costa Soares 3

Pe José Ferreira Nobre, mandado do Ilmo.


Sr.Visitador* 3

Pe Braz de Melo Muniz 3

Pe João Pereira Monteiro Sarmento 2

Pe Francisco C. de Albuquerque Lacerda 2

Pe Francisco Antonio Pinto 2

Pe Antonio Alves Delgado 2

Sr.Dr.Visitador João Feio Tavares de Brito* 2

Padre Frei Manuel de Santa Mônica* 2

Pe coadj Antonio José Machado 2

Pe Manuel Jácome Bezerra 2

Pe do Cuité Francisco Antonio Correa* 2

Pe João Pereira Monteiro 1

Pe Frei Manuel de Santa Isabel, religioso


franciscano* 1

Pe Sebastião de Medeiros Rocha 1

Pe Lourenço Rodrigues Pires 1

Pe Mestre Frei José da Sagrada Família* 1

Pe João Francisco 1

Pe Dr. José Joaquim Nunes da Costa 1

Pe Francisco da Silva Melo 1

Pe. João Barbosa de Góis e Silva 1

Pe. Frei João de Santa Tereza Ximenes, religioso


carmelitano* 1

Pe Secretário da Visita Manuel Gonçalves da Fonte* 1

Pe. João Gualberto Ribeiro Pessoa 1

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SACERDOTE NºREGISTROS

Pe José de Jesus Barreto 1

Pe Francisco Xavier Ordonho 1

Pe Antonio C. R. Barros 1

Pe Inácio Vieira de Melo Cavalcanti 1

Pe André Maldonado de Menezes 1

Pe Manuel Antonio Duarte 1

Pe Coadjutor Manuel Teixeira Pinheiro 1

Pe Manuel Pinto 1

Pe Francisco de Paula Carneiro 1

Pe Manoel Nunes Ferreira 1

Pe dos Patos, Antonio da Silva Costa* 1

Pe Frei Lourenço de Montaboldo 1

TOTAL 61

Fonte: Elaboração de Isac Medeiros a partir de Paróquia de Sant’Ana de Caicó (PSC). Casa Paroquial São
Joaquim (CPSJ). Livro de Batismo n° 1, Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó (FGSSAS),
1803-1806. (Manuscrito); PSC. CPSJ. Livro de Batismo n° 2, FGSSAS, 1814-1818. (Manuscrito); PSC. CPSJ.
Livro de Matrimônio n° 1, FGSSAS, 1788-1809 (Manuscrito).

O que primeiro nos chama atenção é a quantidade de padres que atuaram na


Freguesia do Seridó durante o nosso recorte (1788-1818). Ao todo, obtivemos um total
de 61 padres. Tal dado, mesmo se tratando de um período de trinta anos, ainda é uma
quantidade considerável. Ainda, na quinta linha da Tabela 1 localiza-se destacado em
negrito um campo denominado “Não indicado” que representa os registros em que o
nome do sacerdote que realizou a cerimônia não foi registrado, somando um total de
165 casos. Percebe-se que muitos registros tiveram ausentes o nome dos sacerdotes,
o que aumenta ainda mais o vácuo em nossas pesquisas. Tais registros poderiam
acrescentar ainda mais nomes à quantidade de padres atuantes na freguesia, assim
como a frequência do trabalho realizado por eles. Desse modo, fica claro que a
Freguesia do Seridó obteve a assistência de muitos sacerdotes no período analisado.
Para esse fato podemos discutir alguns pontos se considerarmos os dados com
mais cuidado. Em primeiro lugar, percebe-se que mesmo apresentando um alto número
de padres que atuaram em nosso recorte, a grande maioria destes realizaram poucas
cerimônias. Apenas 11 padres dos 61 realizaram mais de vinte cerimônias no período de
trinta anos; destes, apenas 5 realizaram mais de 100 cerimônias no período e, sem

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dúvida, o que chama mais atenção, cerca de 24 padres atuaram apenas uma única vez.
O gráfico abaixo traz uma representação dessa ideia que acabamos de citar e nos
ajuda a transmitir de forma efetiva esses dados. Vamos às explicações acerca deste.
Primeiramente dividimos todos os dados da tabela em quatro grupos, cada um
representado por uma cor. Cada grupo representa um número de padres e a quantidade
de cerimônias que realizaram; os números presentes no gráfico referem-se ao padre
daquele grupo que realizou mais cerimônias e o que realizou menos. Por exemplo, no
primeiro grupo, representado pela cor azul, o padre que realizou mais cerimônias
somou um total de 466, enquanto que o que realizou menos somou 118, logo a legenda
que intitula o grupo é 466 a 118. O número em parênteses ao lado refere-se a quantos
padres constituem aquele grupo, no caso deste do exemplo, são 5 padres. Logo, o grupo
azul é constituído por 5 padres, sendo que destes, o que mais atuou em cerimônias de
batismo ou casamento, o fez 466 vezes e que menos atuou o fez 118 vezes. Já os demais
padres do grupo realizaram um número de atuações que ficam entre esses dois valores.

Gráfico 1: Cerimônias de batizado e casamento realizadas na Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa


Ana do Seridó (1788-1818), em relação ao número de sacerdotes que as realizaram.

61 padres e 2028 registros

2%
3%
8%

13%
466 a 118 (5)
61 a 11 (10)
10 a 3 (12)
74% 2 a 1 (35)
Não indicados

Fonte: Elaboração de Isac Medeiros a partir de Paróquia de Sant’Ana de Caicó (PSC). Casa Paroquial São
Joaquim (CPSJ). Livro de Batismo n° 1, Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó (FGSSAS),
1803-1806. (Manuscrito); PSC. CPSJ. Livro de Batismo n° 2, FGSSAS, 1814-1818. (Manuscrito); PSC. CPSJ.
Livro de Matrimônio n° 1, FGSSAS, 1788-1809 (Manuscrito).

Seguindo a ideia anteriormente verificada com o auxílio da tabela, ao analisar o


gráfico pode-se constatar que a grande maioria das cerimonias cristãs realizadas no

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período de 1788 a 1818 foram feitas por apenas 5 padres (grupo azul escuro),
responsáveis por 74% das 2028 ocorridas no recorte154. Em seguida, o grupo vermelho
(contendo 10 padres) caracteriza o segundo grupo de sacerdotes mais atuantes, onde
o reverendo que mais atuou somou 61 registros e o que menos atuou somou 11,
convertendo 13% das cerimônias ocorridas na freguesia. Seguindo a mesma lógica dos
grupos anteriores, o grupo verde é constituído por 12 sacerdotes que juntos realizaram
apenas 3% das cerimônias do período. O grupo roxo, formado pelo maior número de
padres (cerca de 35), concebeu apenas 2% das cerimônias ocorridas na Freguesia do
Seridó no período analisado, e, por último, o grupo azul claro, formado pelos registros
que não apresentaram os padres realizadores das cerimônias (não indicados) somaram
8%.
Deste modo, percebe-se um contraste a respeito da cristianização da Freguesia
da Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó. O grupo155 composto por menos padres
apresentou o maior número de cerimônias realizadas, em contrapartida o grupo que
tinha mais padres em sua formação apresentou o menor número de cerimônias
realizadas156. Com isso, pode-se ver que as cerimônias de batismo e casamento, quando
se trata da freguesia analisada nesse estudo, ocorriam, em grande parte, feitas por um
pequeno grupo de padres que atuavam tanto em locais fixos – nesse caso, na matriz e
em capelas da região – quanto pelo território da freguesia – sítios e fazendas. Os padres
em questão são: Francisco de Brito Guerra (466)157; Manuel Teixeira da Fonseca (375);
José Antônio Caetano de Mesquita (275); Inácio Gonçalves Melo (261) e André Vieira de
Medeiros (118). São estes, portanto, os padres que mais atuaram no território da
Freguesia do Seridó no período em questão158.
Um fato que poderia justificar essa maior presença desses padres nos registros
paroquiais, seria por exemplo: a região de atuação dos mesmos poderia situar-se nos
maiores centros de povoação da freguesia e, portanto, sendo esses os locais que mais

154 Nesse caso, cada cerimônia é relacionada a um registro paroquial, sendo este o documento que atesta
a realização do ato de fé.
155 Importante deixar claro que esse agrupamento é feito por nós como forma de melhor analisar os

dados.
156 Essas informações dizem respeito aos dados analisados até o momento, afinal, como já foi

mencionado, existem lacunas na documentação que geram alguns vácuos na pesquisa.


157 O número em parênteses representa o total de registros que o padre aparece realizando uma

cerimônia de batismo ou casamento no recorte aludido.


158 Obviamente, quando falamos em “atuação”, nos referimos aos termos concebidos pelo processo

metodológico dessa pesquisa, logo, levando em consideração apenas os dados presentes nos registros
de batismo e casamento mencionados.

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ocorreriam essas cerimônias, o que explicaria um número tão maior que os demais. No
entanto, essa é apenas uma hipótese, já que mediante o tempo destinado a essa
pesquisa, ainda não conseguimos cruzar os dados que nos permitiriam afirmar tal
constatação com mais certeza.
Em relação ao grande número de padres que realizaram poucos registros,
obviamente não consideramos que isso seja algo normal para a freguesia. Como o
gráfico apresentou, foram 35 padres que realizaram apenas uma ou duas cerimônias,
só que se aguçarmos o nosso olhar para essa análise e voltarmos nossa atenção
novamente para a Tabela 1 podemos perceber que se somarmos a estes o número de
padres que realizaram até 5 cerimonias, o resultado sobe para 43. Portanto, para um
período de trinta (30) anos, são muitos padres atuando em poucas cerimônias e este é
um dado que merece nossa atenção. Uma hipótese para isso que temos até um
momento pode se referir as festas religiosas que poderiam atrair um maior número de
sacerdotes em algumas épocas específicas do ano, ocorridas nas povoações da
freguesia. Isso talvez explicasse um pouco essa situação. Também, a partir da Tabela 1
podemos perceber que alguns padres não pertenciam à Freguesia do Seridó (são
aqueles destacados de vermelho)159 o que contribui para essa ideia. Porém, como dito
anteriormente é apenas uma hipótese, uma questão a mais para tentarmos responder
futuramente.
O fato é que tanto a tabela quanto o gráfico acima nos permitem pensar um
pouco sobre como ocorria a cristianização referente a batismos e casamentos na
Freguesia do Seridó. A partir dos dados apresentados, durante o período de 1788 a 1818
a freguesia possuiu um grupo principal de sacerdotes dispostos na matriz e capelas da
região160, ao mesmo tempo estes também ofereciam assistência espiritual nas
fazendas e sítios da freguesia. Porém, também se percebe a existência de vários outros
sacerdotes que ofereciam apoio na manutenção da fé. Dentre esses padres, alguns
pertenciam à Freguesia do Seridó e outros estavam apenas de passagem pela região.

159 Estes são casos em que na própria fonte – registros paroquiais – eles estão mencionados como vindos

de outra freguesia e que estariam de passagem. Com o cruzamento com outras fontes acreditamos poder
descobrir mais desses exemplos.
160 Em relação a esse grupo de padres principais que citamos aqui é importante esclarecer que não nos

referimos apenas aos cinco padres mais atuantes citados anteriormente. Se observarmos a tabela,
outros padres tiveram quantidades expressivas de registros. Ainda mais, a quantificação é apenas o
primeiro passo para se perceber essa diferença da norma. Uma pesquisa de cunho mais qualitativo, a
partir do cruzamento com outros documentos será realizada futuramente para termos uma melhor visão
acerca dessa situação.

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Logo, se pode notar, mesmo que minimamente e ainda de forma muito geral, a
existência de uma rede entre esses sacerdotes, onde um substituía o outro em casos
de ausência, ao mesmo tempo em que se organizavam para dar conta da manutenção
da doutrina cristã no vasto território da Freguesia do Seridó. Ao olhar para os registros,
percebe-se que esses padres se movimentavam pelo território durante o ato de
cristianização, iam se dividindo, revezando-se entre a matriz, capelas, sítios e fazendas
da região. Ao mesmo tempo, documentavam nos registros paroquiais os locais que
passavam o que permite que hoje, a partir desses documentos, possamos observar o
que Helder Macedo chama de “cartografias da fé” 161. As desobrigas, objeto de análise
desse estudo, referem-se a esses trajetos que podem nos ajudar a entender melhor a
forma em que se ajustava o território da Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa Ana
durante o período temporal aqui analisado.
Neste caso, outro ponto que merece nossa atenção trata-se justamente dos
locais em que ocorriam essas cerimônias de batismos e casamentos. Elas eram mais
comuns nos templos religiosos (matriz e capelas) ou pela freguesia (sítios e fazendas)?
Qual era a realidade nesse aspecto para o nosso recorte? São essas questões que
tentaremos responder agora. Os registros paroquiais também nos dão informações a
esse respeito. O registro oferece, dentre vários dados, o lugar em que ocorreu a
cerimônia, revelando a matriz, capela, sítio ou fazenda específicas em que ocorreram os
atos de fé. No entanto, para essa parte específica de nossa análise, optamos por deixar
de lado – pelo menos por hora – os nomes desses locais e separamos esses dados
apenas em templos religiosos (matriz e capelas), pela freguesia (sítios e fazendas) e
não indicados (casos em que a exemplo do que ocorreu com os padres, não foi

O autor utilizou primeiramente a expressão cartografia da fé em sua monografia de graduação, com o


161

objetivo
de referir-se ao território formado a partir da produção do espaço pela ação da Igreja Católica no período
colonial, resultando na constituição da freguesia enquanto unidade administrativa. Porém voltou a usar
sobre o mesmo significado em sua dissertação de mestrado e tese de doutorado. Ver respectivamente:
MACEDO, Helder
Alexandre Medeiros de. Vivências índias, mundos mestiços: relações interétnicas na Freguesia da
Gloriosa
Senhora Santa Ana do Seridó entre o final do século XVIII e início do século XIX. 2002. 169f. Monografia
(Graduação em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Caicó, 2002. p. 90-5; MACEDO,
Helder Alexandre Medeiro de. Ocidentalização, territórios e população indígenas no sertão da capitania
do Rio Grande. Dissertação (mestrado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal,
RN, 2007; MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Outras famílias do Seridó: genealogias mestiças no
sertão do Rio Grande do Norte (séculos XVIII-XIX). 2013. 360f. Tese (Doutorado em História) –
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2013.

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registrado o nome do local onde ocorreu a cerimônia). O gráfico abaixo organiza a


apuração desses dados, representados pelas cores azul, vermelho e verde,
respectivamente.

Gráfico 2: Locais em que ocorreram as cerimônias de batismo e casamento na Freguesia da Gloriosa


Senhora de Santa Ana do Seridó (1788-1818)

Onde ocorriam os atos de fé (2028


registros)

11%
Matriz/Capela
27% Pela Freguesia
62% Não Indicados

Fonte: Paróquia de Sant’Ana de Caicó (PSC). Casa Paroquial São Joaquim (CPSJ). Livro de Batismo n° 1,
Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó (FGSSAS), 1803-1806. (Manuscrito); PSC. CPSJ. Livro
de Batismo n° 2, FGSSAS, 1814-1818. (Manuscrito); PSC. CPSJ. Livro de Matrimônio n° 1, FGSSAS, 1788-
1809 (Manuscrito).

O Gráfico 2 nos mostra que a maioria das cerimônias, mais especificamente 62%
– de 2028 ocorridas no período de 1788 a 1818 – foram realizadas em templos
religiosos, enquanto que 27% aconteceram nos sítios e fazendas da freguesia e 11% não
foram registrados os locais de realização desses atos de fé. Deste modo, percebe-se
que, para a realidade de nosso recorte, era mais comum que essas cerimônias
ocorressem na matriz e capelas da região, o que reforça a ideia inicial apresentada
nesse artigo de que esses templos eram construídos em locais de mais acessibilidade
para a população das povoações da freguesia. Porém, os 27% referentes às cerimônias
ocorridas “pela freguesia162” ainda sim é um número importante a se pensar, pois faz

Trata-se de uma categoria nossa que utilizamos para se referir as cerimônias que não ocorreram na
162

Matriz ou em capelas nas povoações, ou seja, todas aquelas realizadas nos sítios, fazendas, serras e
outras espacialidades presentes no território circunscrito à freguesia.

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menção a uma população que dependia das desobrigas para realizar rituais
importantes da doutrina cristã, o batismo e casamento, considerados sacramentos
essenciais para a religião. Os 11% de registros que não ofereciam essa informação aqui
analisada, obviamente aumentam o hiato das nossas pesquisas e certamente criam
lacunas, no entanto não chega a influenciar nos resultados mencionados acima, visto
que hipoteticamente, mesmo que todos esses documentos fossem referentes à “pela
freguesia”, ainda assim, não ultrapassaria o número de cerimônias realizadas em
templos.

* * *

Pudemos analisar, nesse artigo, informações acerca dos padres e suas atuações
ligadas às cerimônias de batismo e casamento realizadas na Freguesia da Gloriosa
Senhora Santa Ana do Seridó, durante o período de 1788 a 1818. Em resumo, discutimos
que a Freguesia do Seridó tratava-se de uma área de características notadamente
rurais, logo, se constituía de um conjunto de povoações que reuniam fazendas e sítios
em seu entorno e que tinha como centro a Vila Nova do Príncipe. Essas povoações
possuíam templos religiosos que eram construídos estrategicamente em locais de
maior acessibilidade para a maioria dos fiéis da região. No caso da Vila Nova do Príncipe,
local sede da freguesia, era lá que localizava-se a Matriz de Sant’Ana. No entanto,
mesmo assim, nem toda a população tinha condições de frequentar esses templos,
como alternativa a isso, os padres realizavam os atos de desobriga ao saírem pelo
território da freguesia realizando os atos de fé.
Deste modo, a realização de cerimônias no território da Freguesia do Seridó
ocorria a partir dessa dualidade, entre os templos religiosos e pela freguesia. O primeiro
caso era o mais comum reunindo 62% do total das cerimônias do período analisado,
visto os fatores apontados, no entanto, o segundo caso (27%) também apresentava
importância em relação à assistência espiritual de uma parcela significativa da
população.
Em relação aos padres, apesar de ser identificado um grande número de
sacerdotes, 61 para ser mais preciso, grande maioria desses agiam como suporte a um
grupo principal de padres que cuidavam do aprisco religioso da freguesia. Esses padres
possivelmente formavam uma rede que se organizava nos revezamentos entre matriz,

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capelas, sítios e fazendas da sede e povoações da freguesia. Em relação às desobrigas,


o movimento dos padres pelo território ocorreu durante todos os meses do ano e não
somente durante o período da quaresma, de modo que a desobriga, para fins de análise
desse estudo é entendida sobre esses termos, ou seja, os rituais religiosos ocorridos
nos sítios e fazendas da freguesia, independente do período do ano em que ocorriam.

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SOBRE A VIDA, PELAS ALMAS: O USO DE FONTES PAROQUIAIS


NA CONSTRUÇÃO DE UMA HISTÓRIA LOCAL
(SERTÕES DO SERIDÓ, SÉCULOS XVIII-XIX)

Maria Alda Jana Dantas de Medeiros163


Orientador: Prof. Helder Alexandre Medeiros de Macedo164

INTRODUÇÃO
O presente trabalho incorpora-se ao Projeto de Pesquisa Histórias dos Sertões
do Rio Grande do Norte e Paraíba, aprovado no Edital 01/2016 – PPG/PROPESq – Apoio
a grupos Emergentes para Criação de Programas de Pós-Graduação, cujo objetivo é
explorar, em múltiplas abordagens, as histórias dos sertões norte-rio-grandense e
paraibano, dentro de um vasto recorte temporal, que abarca desde o Holoceno até o
século XXI. Tal projeto desdobra-se em dois eixos de pesquisas: o primeiro eixo reflete
sobre o imaginário e as práticas culturais dos sertões, e o segundo aborda as tramas
sociais das relações sertanejas.
Integrada ao primeiro eixo, esta pesquisa é fruto do Plano de Trabalho Sertões
do Rio Grande do Norte e Paraíba: das sesmarias à territorialização do espaço, o qual
propõe examinar as ideias sobre o “sertão” presentes nos requerimentos para
concessão de sesmarias nos espaços sertanejos das Capitanias do Rio Grande do Norte
e da Paraíba (entre as décadas de 1650 e 1750) e nos inventários post-mortem da
Ribeira do Seridó (de 1737 a 1822).
Enveredamos, aqui, pelas as fontes eclesiásticas, admitidas como favoráveis
veículos para pensarmos sobre as sociedades do passado, especialmente por
possibilitarem um extenso leque de desdobramentos temáticos. Na Europa, o registro
de sacramentos em livros de assentos adquiriu natureza universal e padronizada a
partir das normas estabelecidas no Concílio de Trento (1545-1563), ainda que algumas
paróquias já registrassem matrimônios e batismos antes mesmo do século XVI (LUCA,
PINSKY; 2009). O referido concílio ecumênico foi convocado num quadro de
vulnerabilidade da cristandade, encadeada pela Reforma Protestante, movimento que

163 Discente do Curso de Licenciatura em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN), Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES), Campus de Caicó - Brasil. Bolsista PPG/PROPESq
do Projeto História dos Sertões do Rio Grande do Norte e Paraíba (Edital nº 01/2016-PPG/PROPESq),
sob orientação do Prof. Helder Alexandre Medeiros de Macedo. E-mail: aldajanamedeiros@gmail.com
164 Professor do Departamento de História do CERES-UFRN. E-mail: heldermacedox@gmail.com

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desencadeou para a Igreja Católica a necessidade de conhecer e controlar seus


membros. Como instrumento para tal controle, a prática de registrar individualmente
cada católico passou a ser obrigatória e padronizada, materializada nos livros de
assentamentos das Curas. O ciclo da vida cristã passa, então, a ser documentado nos
registros de seus principais ritos de passagem: batizado, casamento e enterro
(MARCÍLIO, 2004).
As Constituições de Coimbra instauraram os registros paroquiais em Portugal
em 1591, práticas que foram reproduzidas nos domínios da Coroa no Novo Mundo. O
instituto do Padroado Régio na América Lusa outorgou às instâncias eclesiásticas
funções que excederam o caráter exclusivamente religioso e, bem como, contemplaram
esferas políticos-administrativas. Responsável por registrar todos os indivíduos que
nascessem, casassem e falecessem na colônia, a Igreja conseguia atingir uma
cobertura quase universal de toda a população – sendo, esta, uma característica que
infere aos registros paroquiais um teor de disseminação junto aos diversos grupos de
pessoas, uma vez que eles abrangiam diversos estratos sociais.
A partir de 1707, quando da criação das Constituições Primeiras do Arcebispado
da Bahia, os registros ganharam uma regulamentação local, cujas normas seguiam as
determinações estabelecidas no Concílio de Trento (MARCÍLIO, 2004). Também
inspiradas em antigas experiências lusas, as freguesias da América portuguesa
atuavam como instrumentos burocráticos; cuidavam das almas, e, outrossim, se
encarregavam dos corpos (MACEDO, 2007).
Neste quadro, refletimos sobre o uso da documentação paroquial como subsídio
para construção de uma História Local, de modo a ponderar sobre como os registros
dos ritos de passagem da vida privada podem ser suportes para análises acerca de um
perfil demográfico da sociedade estudada. Para pensarmos sobre essa questão,
utilizamos como estudo de caso a povoação do Jardim das Piranhas, espaço hoje
representado pelo município de Jardim de Piranhas-RN, localizado na região do Seridó
norte-rio-grandense.
A povoação, gênese do município, surgiu como efeito de um processo de
territorialização sucedido nas margens do rio Piranhas, durante os séculos XVIII e XIX.
A princípio, a povoação era vinculada à Capitania da Paraíba do Norte, como termo da
Povoação de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó, todavia, se integrou às
circunscrições da Capitania do Rio Grande em 1788, quando passou a ser integrante do

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termo da Vila Nova do Príncipe, sede da Freguesia do Seridó. A comunidade constituída


pelas famílias que haviam se fixado ao redor do rio Piranhas foi alçada ao nível de
povoação quando do surgimento de uma capela erguida na chamada fazenda Jardim,
no século XVIII. Sob o culto de Nossa Senhora dos Aflitos, o pequeno templo religioso
marcou a representação de um núcleo urbano, administrativo e espiritual, instituição
onde os moradores puderam consagrar seus ritos de passagem (MEDEIROS, 2017).
Estes ritos, por sua vez, foram registrados nos livros de assentos religiosos mais
antigos da Freguesia da Gloriosa Senhora de Santa Ana do Seridó, nossas primordiais
fontes, atualmente conservadas na Casa Paroquial São Joaquim, da Paróquia de Santa
Ana de Caicó. O rol de documentação é composto por três livros de assentamentos de
batismos (1803-1806, 1814-1818, 1818-1822), que contém, ao todo, 3012 registros; dois
livros de casamentos (1788-1809, 1809-1821), que somam o total de 1166 registros; e,
por fim, dois livros de assentos de enterros (1788-1811, 1812-1838), que apresentam,
juntos, 2249 sepultamentos registrados. Estas fontes foram acessadas principalmente
através dos bancos de dados do projeto de pesquisa, construídos no software
Microsoft Access, produtos das pesquisas de Muirakytan Macêdo e Helder Macedo e
suas equipes.
Dentro da numerosa quantidade de registros, buscamos naqueles
correspondentes à povoação do Jardim das Piranhas, os ritos consagrados na Capela
de Nossa Senhora dos Aflitos durante os anos de 1788 a 1838. Trabalhamos, desse
modo, com 199 registros de assentamento de batismos, 50 registros de matrimônio e
110 registros de enterros. Por meio do levantamento, leitura e análise quanti-qualitativa
dessa documentação, buscamos destrinchar o que as fontes poderiam nos informar
acerca da população da povoação.
Alusivo às nossas contemplações teórico-metodológicas, consideramos as
reflexões da História Local, na qual assumimos a relevância da possibilidade de outros
referenciais, temas e abordagens que não sigam apenas os caminhos construídos pelos
fundamentos eurocentristas. Reconhecendo que a história pode também se alicerçar
em aspectos sui generis, os estudos em nível local expõem elementos que são
inalcançáveis em abordagens sistemáticas (NEVES, 2002). Outrossim, nos inspiramos
no instrumental teórico da Demografia Histórica, onde se destacam as figuras dos
intelectuais franceses Michel Fleury e Louis Henry, graças às suas contribuições sobre
o uso de registros paroquiais como base de dados para alcançar sociedades pretéritas.

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Através da documentação eclesiástica, se torna possível estabelecer taxas de


fecundidade, natalidade, nupcialidade e mortalidade e, assim, tecer apontamentos
sobre a demografia do passado. Além disso, a Demografia Histórica abriu um leque de
possibilidades de estudos sobre as sociedades, de maneira a contemplar mentalidades,
comportamentos e sensibilidades do passado (MARCÍLIO, 2004).

NASCER PARA A IGREJA: REGISTROS DE BATISMOS


A datar do século XII, a Europa medieval passou a admitir que as crianças que
faleciam sem o batismo eram destinadas a um lugar específico na geografia do além: o
limbo das crianças, que, junto ao purgatório e ao limbo dos patriarcas, formavam o
espaço intermediário entre o paraíso e o inferno. Isto pois o sacramento inicial era
indispensável à salvação e, mesmo que não sofressem as punições corporais no
inferno, as almas sem batismos recebiam a maior das punições: a privação de Deus,
afastadas do gozo celeste. Sem o rito, “ninguém pode ser considerado membro da
sociedade cristã aqui embaixo, e ninguém poderia ser integrado à Igreja celeste no
além” (BASCHET, 2009, p. 405).
Percebemos, então, o lugar que a cerimônia batismal ocupa na cristandade, a
importância da passagem da vida pagã para a cristã, a partir do recebimento dos santos
óleos. O batizado, primeiro rito da vida privada, para além da importância espiritual,
também era influente nas tramas sociais, no tocante às relações com os padrinhos.
Cada rito demandava um livro exclusivo para registro de seu sacramento:

De acordo com as normas estabelecidas pelo Concílio de Trento, na ata


de batismo deveriam constar: data do evento, nome completo do
batizando, nome dos pais, filiação legítima ou ilegítima, local de
residência dos pais ou responsáveis, o nome de pelo menos um
padrinho (melhor dois), a assinatura do sacerdote (LUCA; PINSKY,
2009, p. 147)

Casos de crianças ilegítimas ou abandonadas (expostas) também deveriam ser


informados. Além disso, nos documentos manuseados referentes à povoação do Jardim
das Piranhas, encontramos igualmente informações acerca das “qualidades” e
condições das crianças e de seus progenitores.
Diferente dos demais livros de assentos, os registros de batismos da Freguesia
de Santa Ana só começam no século XIX, deixando lapsos sobre as populações que
viviam na Ribeira do Seridó no século anterior. Durante o período de 1802 a 1822

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(considerando a lacuna existente entre os anos de 1806-1814), foram realizados 199


batismos na Capela da Povoação do Jardim das Piranhas.
Como previamente mencionado, a cobertura universal da população que os
registros dispõem propiciam dados que podem ser utilizados para análises sobre os
fenômenos demográficos vitais das sociedades do passado. É possível, com isso, suprir
a ausência de censos demográficos do período e estabelecer dados estatísticos sobre
a fecundidade, natalidade, nupcialidade e mortalidade. A respeito disso, constatamos
que dos 199 indivíduos que foram batizados na Capela do Jardim, 112 eram do sexo
masculino e 87 do sexo feminino.
Nos registros, ao observarmos as averbações dos sacerdotes, pudemos fazer
um levantamento dos batismos a partir das “qualidades” e condições das crianças,
conceitos estes que trabalhamos a partir das considerações de Eduardo Paiva (PAIVA,
2015)165.
No recorte temporal trabalhado, 94 dos indivíduos batizados na capela do Jardim
das Piranhas eram brancos, sendo este o grupo de maior expressividade numérica nos
dados computados166. Entre 1803 e 1806, quatro batizandos foram declarados como
escravos, condição que se repetia para seus pais – além do mais, podemos entender a
condição de “escravo”, valendo as ressalvas de tempo e espaço, como, provavelmente,
sinônimo de negro e/ou preto (PAIVA, 2015). Em 1804, foi batizado na Capela de Nossa
Senhora dos Aflitos o índio Lino, o único expressivamente designado como tal na
povoação. Este caso é, por sinal, um dos oito batismos de índios que foram realizados
na Freguesia do Seridó durante o período de 1803 e 1806 (MACEDO, 2007).
Um número considerável das atas não relatam as “qualidades” dos sujeitos
nitidamente, mas apresentam apenas siglas que nos dão margens para
cautelosamente refletirmos sobre as probabilidades. É o caso dos 58 batizandos que
receberam a “qualidade” “P”: a partir disso, cogitamos as possibilidades de se tratar
das “qualidades” “preto” ou “pardo”, admitindo, porém, maior probabilidade de fazer
referência à ultima, dada a superioridade numérica dos pardos nos livros de assentos
da Freguesia do Seridó. Segundo Macedo, dos 1.064 batizados registrados no Seridó
entre 1803 e 1818, 41,92% eram de pardos, frente a 39,94% de brancos (MACEDO, 2013).

165 Exclusivamente devido aos lapsos que encontramos na documentação sobre as “qualidades” e as
condições, optamos por considerar ambas em um só levantamento, pois, em caso de distinção, os dados
seriam incipientes para a análise, uma vez que poucas atas de batismo apresentam os dois elementos.
166 Desconsideramos os 29 registros que não expressavam nem a “qualidade”, nem a condição.

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Ainda no universo das siglas, oito indivíduos foram descritos como “NC”, o que
supomos poder ser “negro cativo” ou “nação Congo”. O que pudemos observar é que
todos os batizandos que receberam tal definição estavam incorporados ao mundo da
escravidão, em razão de seus progenitores. É o caso de Marcelina, batizada em 1820,
cujos pais João e Luiza eram pretos e escravos, bem como, Domingos, natural de
Angola, já atribuído à condição de escravo quando recebeu os santos óleos em 1821,
filho de Manoel e Mariana, escravos. Os sujeitos que foram designados pela sigla “PC”
(“pardo cativo”; “preto cativo”?) também estavam ligados à escravidão, devido à
condição de suas mães.

UNIDOS OS CORPOS, UNIDAS AS ALMAS: REGISTROS DE MATRIMÔNIOS


Sendo o segundo importante rito da vida privada, o casamento simbolizava o
início da vida adulta. Os registros de matrimônios eram documentados também em um
livro específico, seguindo as normas postuladas no Concílio de Trento, e deveriam
constar

a data do casamento, o nome de cada cônjuge e sua filiação, residência,


naturalidade, além dos nomes dos padrinhos, com suas residências e
naturalidades, e a assinatura do sacerdote. [...] exigia-se, se fosse o caso,
a declaração de viuvez do cônjuge, com o nome do primeiro(a)
esposo(a); era ainda necessário mencionar se os cônjuges estavam
incursos nos impedimentos graves ou leves determinados pelo Código
Canônico, da Igreja Católica (como por exemplo, parentescos
consangüíneos ou espirituais). Neste caso, o matrimonio só se daria
após um dispendioso processo de solicitação de dispensa dos
impedimentos, dado pelo Bispo local. Essa dispensa deveria ser
mencionada no registro de matrimonio, assinalando-se os graus de
parentesco entre os cônjuges (MARCÍLIO, 2004, p. 13-14).

Em algumas atas, nos deparamos com uma fartura ainda maior de informações,
como o nome das testemunhas e as “qualidades” e condições dos nubentes. No que
concerne à povoação do Jardim das Piranhas, trabalhamos com 50 uniões
sacramentais realizadas no período de 1790 a 1821, na Capela da povoação.
A primeira linha que seguimos para explorarmos esses registros igualmente
partiu das “qualidades” e condições dos indivíduos que contraíram núpcias na povoação.
Durante o período de 1788 a 1809, dos 537 matrimônios celebrados na Freguesia de
Santa Ana, 91,79% envolviam nubentes do mesmo grupo social, enquanto 8,21% das
uniões eram firmadas entre indivíduos de grupos distintos. Neste mesmo universo, 463

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dos casamentos envolviam pessoas brancas (MACEDO, 2007). Na Povoação do Jardim


das Piranhas, excluindo os 16 casos nos quais não foram indicadas as “qualidades” e/ou
condições, encontramos maior recorrência de casamentos entre sujeitos brancos,
configurando um total de 21 uniões, seguido das uniões entre pardos, com 8 casos.

Gráfico 1 - Matrimônios por "qualidade"/condição, Capela de Nossa Senhora dos


Aflitos do Jardim das Piranhas (1788-1821)

22

20

18

16

14

12

10

Fonte: Elaboração da autora a partir de livros de assentos de casamento da Freguesia da Gloriosa


Senhora de Santa Ana do Seridó (1788-1821). Universo amostral composto por 50 uniões matrimoniais.
Não foram computados os registros sem indicação de “qualidade” e condição (16).

De modo mais pontual, encontramos alguns registros que não mencionavam a


“qualidade” de um dos nubentes. É o caso do matrimônio celebrado na capela da
povoação em 1799, entre José Nicácio Pereira, índio, vindo do Acaracu (Capitania do
Ceará) e Ana Maria, cuja “qualidade” desconhecemos. Ainda assim, sabemos que, no que
concerne às relações de ameríndios, “a maioria dos casamentos se dava entre os
próprios indígenas (34%), seguidos das uniões entre índios e mestiços (31%) e aqueles
em que um dos nubentes era negro (17%)” (MACEDO, 2013, p. 136). Ainda sobre isso, é
pertinente pensarmos sobre a presença de indígenas nos livros de assentos religiosos
da Freguesia de Santa Ana, e em como isso elucida a permanência de nativos na Ribeira

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do Seridó. Incorporadas, pela ocidentalização, ao cristianismo, as populações


ameríndias vivam conjuntamente com brancos, negros e “mestiços” (MACEDO, 2007).
Escravos e libertos também contraíram núpcias no Jardim das Piranhas.
Citamos, a exemplo, o matrimônio celebrado em 1802 entre os escravos crioulos João
e Josefa, ambos parte do plantel de Dona Joana Batista.
Conforme as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia,

o matrimônio de escravos com pessoas cativas ou livres era um “direito


divino e humano”. Além de afirmar que os senhores não poderiam
proibir-lhes o matrimônio, defendiam a indissolubilidade da família, de
forma que os casais não poderiam ser separados na venda do plantel.
Os argumentos em favor desse tipo de casamento eram que os
escravos continuariam a servir seus senhores da mesma forma e que
reproduziriam a escravaria sobre o abrigo das normas cristãs (apud
MACÊDO, 2007, p. 224).

Os matrimônios entre escravos na Povoação do Jardim das Piranhas geralmente


ocorriam entre indivíduos que pertenciam a um mesmo proprietário. Na Freguesia de
Santa Ana, durante 1788 a 1811, os casamentos entre pessoas de cor ocorreram,
primordialmente, entre escravos (72%), seguido pelas uniões entre homens escravos e
mulheres libertas (12%). Estrategicamente, uniões dessa ordem eram favoráveis para
os senhores, uma vez que a mulher liberta era incorporada à dinâmica de trabalho do
marido escravo, agregando, assim, mão-de-obra para o plantel (MACÊDO, 2007). Casos
como esses aconteceram na povoação em 1806, quando o crioulo Antônio, escravo de
Dona Rosa Maria, se casou com Rosa Maria da Conceição, mulher liberta de Dona
Úrsula Josefa.
Outro aspecto que pode ser averiguado a partir dos registros é a procedência
dos nubentes que receberam os sacramentos do matrimônio da Capela de Nossa
Senhora dos Aflitos. Desses 100 indivíduos, apenas 9 não possuem indicação de
naturalidade, sendo a maioria natural da própria Freguesia do Seridó (60). Entretanto,
31 indivíduos adivinham de outros lugares, principalmente da capitania da Paraíba,
região que mantinha relações comerciais com a Ribeira do Seridó. Ainda na Capitania do
Rio Grande, aparecem a Freguesia do Açu (3), e Freguesia de São José (1), antiga missão
e vila indígena.
Depois da Freguesia de Santa Ana, o lugar de onde veio o maior número de
nubentes é a Freguesia do Pombal, com 13 indivíduos – possivelmente, isso se

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relaciona com o fato da Povoação do Jardim das Piranhas ter sido, até 1788, termo da
Povoação de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó, Freguesia do Pombal. Da
Capitania da Paraíba do Norte, constam também a Freguesia da Campina Grande, de
Manguape, do Taipu, do Jardim do Rio do Peixe, da Areia, dos Patos, Paraíba (hoje, João
Pessoa), Nossa Senhora do Pilar do Rio Paraíba e Baía de São Miguel, cada uma com
um caso de naturalidade.
Em outras localidades, encontramos a Freguesia de Nossa Senhora do Ó de
Pojuca e a Freguesia do Cabo, ambas da Capitania do Pernambuco; Acaracu, Capitania
do Ceará; e a Freguesia de Antônio Freitas – cada lugar com um caso.

ENTRE O AQUI E O ALÉM: REGISTROS DE ÓBITOS


O terceiro e último rito vital dos fregueses correspondia à passagem da vida para
a morte. Para compreendermos o temor que a morte despertava nos indivíduos, basta
considerarmos que ela antecedia a justiça divina, momento em que a alma seria
encaminhada para a danação eterna do inferno, para a alegria paradisíaca ou para a
estadia transitória no purgatório. Já no século XI, a dualidade e as incertezas do além
influenciavam diretamente o comportamento dos cristãos, dilatando as práticas e as
ritualizações que envolviam os mortos, no intuito de salvar suas almas (BASCHET,
2009).
Para poder alcançar a beatitude do céu, era necessário, portanto, ter uma boa
morte, o que encadeava um dispendioso processo de preparação, algo que envolvia uma
considerável quantidade de missas, de padres; a cerimônia de enterramento, o local da
sepultura, as vestes funerárias e, dentre outros elementos, a encomendação da alma
ao Pai Eterno.
O medo do destino após a morte aparecia, com maior clareza, nos testamentos,
onde o fregueses iniciavam o momento preparatório para a passagem para o além,
apelando para a proteção de seus santos de devoção, na esperança da salvação de suas
almas. Geralmente, testamentavam os sujeitos que possuíam cabedal mais expressivo.
Em 1762, Manoel Gonçalves Rabelo testou no sítio Batalha, na povoação do
Jardim das Piranhas. Natural de Lisboa, o freguês detinha um patrimônio avantajado, a
julgar pelos bem listados em seu inventário post-mortem, de 1763. Em nome da
Santíssima Trindade, Manoel Gonçalves Rabelo, declarando estar em seu juízo perfeito,
fez seu testamento no desejo que sua alma caminhasse rumo ao paraíso, suplicando

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sua salvação à Virgem Maria, a Jesus Cristo e “a todos os mais santos a quem tenho
devoção que queiram por mim interceder”167.

Outros cuidados que os indivíduos tinham com a passagem da vida para morte
apareciam nos próprios registros de óbitos, que indicavam

a data do falecimento, o nome do morto, seu estado civil. No caso de


solteiros, dever-se-ia nomear os pais, ou o fato de ter sido exposto ou
ser ilegítimo. No caso dos casados e dos viúvos(as), além desses dados,
era necessário indicar o nome do esposo(a). Em muitas paróquias
assinalava-se a naturalidade do morto, sua idade, e atividade que
exerceu. Em alguns casos indicava-se a causa da morte e se o morto
havia deixado testamento. As condições do enterramento vinham por
vezes mencionadas: tipo e cor da mortalha ou do caixão (século XIX) e
local do enterramento. Estes dados eram porém mais raros (MARCÍLIO,
2004, p. 15).

No caso dos registros da Povoação do Jardim das Piranhas, eram recorrentes as


informações sobre os materiais e as cores do hábito mortuário, dados ausentes apenas
em 8 das 110 cerimônias funerárias realizadas na Capela de Nossa Senhora dos Aflitos,
entre 1788 e 1838.
Em análise sobre o guarda-roupa fúnebre dos moradores no Jardim das
Piranhas, a maioria dos indivíduos foram sepultados com vestimentas brancas,
totalizando 72 casos. O branco, além de ser a cor funerária em várias nações africanas,
detém também forte simbologia no cristianismo, principalmente, em relação ao pano
branco que envolveu o corpo de Jesus Cristo após sua morte. De tal forma, se espelhar
em Cristo excitava a fé da salvação, pois a vestimenta do corpo influenciava o destino
do espírito, e as mortalhas cumpriam a missão de proteger a alma na viagem para o
além (REIS, 1991).
Sete sujeitos usaram mortalhas pretas e cinco foram envoltos no hábito de São
Francisco, santo este frequentemente aludido nas cerimônias de sepultamento, por
estar associado ao ato de salvar almas do purgatório. As demais cores e tecidos que

167LABORATÓRIO DE DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA (LABORDOC). FUNDO DA COMARCA DE CAICÓ


(FCC). 1º CARTÓRIO JUDICIÁRIO (1ºCJ). Inventários post-mortem. Cx. 410. Inventário de Manoel Gonçalves
Rabelo. 1763.

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apareceram vestindo os finados foram azul, amarelo, seda, bretanha, borel, algodão,
cassa, linho e carmesim.
O trato empregado para se ter uma boa morte contemplava também a
preocupação com o lugar do sepultura. Ser enterrado em terra profana – ou não morrer
em terra firme – provocava forte pavor, pois implicava em tormentos para a alma. A
sepultura tinha que ser feita num espaço sagrado, por isso que por muito tempo os
corpos eram sepultados no próprio templo religioso. Sendo a igreja a morada do
Senhor, o corpo desfalecido se aproximava fisicamente das entidades divinas, além de
preservar uma conexão com os vivos, garantindo seu espaço na memória e nas orações
dos que permaneceram no mundo terrestre.
Por trás do enterramento dos defuntos, existia uma lógica classificatória sobre
o lugar da sepultura, o que João José Reis concebe como uma “geografia da morte”:

De um modo geral, pessoas de qualquer condição social podiam ser


enterradas nas igrejas, mas havia uma hierarquia do local e do tipo de
sepultura. Uma primeira divisão se fazia entre o corpo, parte interna do
edifício, e o adro, a área a sua volta. A cova do adro era tão
desprestigiada que podia ser obtida gratuitamente. Ali se enterravam
escravos e pessoas livres muito pobres. [...] sob o chão das igrejas os
mortos se dividiam de maneira que refletia a organização social dos
vivos (REIS, 1991, p. 175-176).

Assim, a localização da sepultura retratava o local social e econômico ocupado


pelo defunto enquanto vivo. Apenas 38 registros informam o lugar da sepultura dos
enterrados na Capela do Jardim das Piranhas. Há casos, ainda, de moradores que
faleceram na povoação, porém foram sepultados na própria matriz de Santa Ana, como
é o caso do já citado Manoel Gonçalves Rabelo, que em seu testamento declarou que
seu corpo deveria ser sepultado na matriz do Seridó, envolto no hábito de São
Francisco. Supomos que este trajeto da morte possivelmente dialogue com o status
social do Manoel Gonçalves Rabelo, o qual, como já mencionado, dispunha de
corpulento cabedal.

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Gráfico 2 - Distribuição das sepulturas na Capela de Nossa Senhora dos Aflitos


do Jardim das Piranhas
(1788-1838)

Corpo da capela Das grades para


13 cima
12

Do arco para dentro Das grades para


4 baixo
9

Fonte: Elaboração da autora a partir de Livros de assentos de óbitos da Freguesia da Gloriosa Senhora
de Santa Ana do Seridó (1788-1821). Universo amostral composto por 110 sepultamentos. Não foram
computados os registros sem indicação de local da sepultura (72).

O corpo da igreja correspondia à nave central do templo, região onde se deu o


maior número de sepulturas na Capela de Nossa Senhora dos Aflitos. De forma geral,
o corpo abarcava a maioria da população, pessoas menos abastadas. Na cartografia da
morte, as expressões “acima” e “abaixo” indicavam a proximidade da sepultura com o
altar. Logo, quanto mais acima, mais prestigiado o falecido e maiores suas chances de
salvação, pois consequentemente também se estava mais próximo do Santíssimo
(SANTOS, 2005). Assim como o altar, o cruzeiro e a capela-mor eram os lugares mais
valorizados da igreja, separados do corpo pelo arco, espaço que separava as pessoas
de patrimônio mais opulento das menos privilegiadas. Em toda a Freguesia de Santana,
somente 40 pessoas brancas (das 545 sepultadas entre 1789 e 1811) conseguiram
pagar para serem sepultadas no cruzeiro (MACÊDO, 2007).
Os dados dos registros de óbitos também nos permitiram investigar aspectos
de ordem mais demográfica, como, por exemplo, a mortalidade por faixa etária dos
moradores da povoação.

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Gráfico 3 - Mortalidade por faixa etária, Capela de Nossa Senhora dos Aflitos do
Jardim das Piranhas (1788-1838)
26
24
22
20
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Menos de 1 a 10 11 a 20 21 a 30 31 a 40 41 a 50 51 a 60 61 a 70 71 a 80 81 a 90
1 ano anos anos anos anos anos anos anos anos anos

Fonte: Elaboração da autora a partir de Livros de assentos de óbitos da Freguesia da Gloriosa Senhora
de Santa Ana do Seridó (1788-1821). Universo amostral composto por 110 sepultamentos. Não foram
computados os registros sem indicação de idade (13).

O que atualmente é entendido como taxa de mortalidade infantil se manifestava


em altos níveis na povoação do Jardim das Piranhas, fenômeno que, inclusive, se
alastrava por toda a Freguesia de Santa Ana, na qual quase um terço dos 979 indivíduos
faleceram até 1 ano de idade, no período de 1788 a 1811 (MACEDO, 2007). Tal dado nos
direciona a refletir sobre as precárias condições médico-sanitárias do período, algo
ainda mais nítido quando averiguamos as causa-mortis registradas.
“Repentinamente”, “de vento”, “uma dor” são alguns dos imprecisos termos que
se apresentam como causas das mortes nos registros de óbitos referentes à Capela do
Jardim das Piranhas, ambiguidade esta que provavelmente decorria da inaptidão da
família ou do pároco em dar um diagnóstico apurado sobre os trespasses (LUCA,
PINSKY; 2009). Entre os 59 registros que indicaram a causa-mortis, as enfermidades
mais frequente foram maligna (febre tifoide ou malária)168, hidropisia (acúmulo de
líquidos no corpo), feridas, moléstia de parto, moléstia interior, mordida de cobra,
espasmo (convulsões), estupor (acidente vascular cerebral) e sarampo. Pontualmente,

168Por vezes, o léxico das doenças nos séculos XVIII e XIX não nos é inteligível. Em função disso,
consultamos as explicações que Olavo de Medeiros Filho fez sobre as moléstias mais presentes no
Seridó antigo (MEDEIROS FILHO, 2002).

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ainda encontramos moléstia de peito, moléstia gálicas, câmaras (desistiria


sanguinolenta), debilidade, defluxão, engasgo, facadas, icterícia, obstrução e rotura.
Citamos, em particular, os casos de Manoel de Souza e Raimundo Alves dos
Santos, sepultados na Capela de Nossa Senhora dos Aflitos em 1833 e 1835,
respectivamente. Na documentação, encontramos “dentadas de piranhas” como causa-
mortis, algo que se relaciona com a própria etimologia do lugar. Isto pois o rio Piranhas
– que dá nome à povoação do Jardim das Piranhas –, era conhecido por seus volumosos
cardumes de piranhas, perigosos peixes carnívoros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A vida privada dos cristãos – e daqueles imersos na teia do cristianismo – era
marcada por ritos de passagem que assinalavam as principais fases da vida:
nascimento, casamento e morte. Através dos batismos, matrimônios e sepultamentos
consagrados na Capela de Nossa Senhora dos Aflitos nos séculos XVIII e XIX,
conseguimos refletir sobre a população da povoação do Jardim das Piranhas. A análise
se sobressaiu aos elementos da esfera religiosa e, igualmente, amparou considerações
sobre um perfil demográfico da povoação, por meio dos indicadores sociais, culturais e
econômicos fornecidos pela documentação, o que corroborou, assim, a construção de
uma História Local.
Para além do que brevemente discutimos aqui, o corpo documental que
utilizamos ainda nos possibilita caminhos que podem ser explorados para
contribuirmos com o conhecimento e a historiografia do município de Jardim de
Piranhas. Citamos, como exemplos de desdobramentos, estudos sobre os rituais
envolvidos das cerimônias de matrimônio, os impedimentos e as dispensas que
elucidam o parentesco (consanguíneo ou espiritual) entre alguns nubentes; o balanço
da época em que os matrimônios eram realizados e sua relação entre o calendário
religioso e o agrícola; e, dentre outras possibilidades, a análise sobre os sacramentos
que os falecidos recebiam na cerimônia funerária, cenários estes a serem observados
em trabalhos futuros.
A partir do crivo do historiador, as fontes paroquiais podem se constituir
enquanto trilhos para alcançarmos aspectos do passado e observarmos as sociedades
pretéritas mediante múltiplos ângulos. Seus costumes, comportamentos,
mentalidades, sensibilidades e particularidades aparecem, por vezes, nas entrelinhas,

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mas ainda permanecem sendo frutuosos sustentáculos para análises. São mulheres,
homens, brancos, negros, índios, “mestiços”, ricos e pobres que aparecem no palco
dessas séries documentais, nos possibilitando assistir as tramas do passado de
maneira quase democrática, ouvindo os murmúrios até dos que pouco tiveram voz.

FONTES
1. Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó (1788-1857)
Paróquia de Santana de Caicó, Casa Paroquial São Joaquim, Caicó-RN
Livro de Batismos nº 1, 1803-1806.
Livro de Batismos nº 2, 1814-1818.
Livro de Batismos nº 3, 1818-1822.
Livro de Casamentos nº 1, 1788-1809.
Livro de Casamentos nº 2, 1809-1821.
Livro de Óbitos nº 1, 1788-1811.
Livro de Óbitos nº 2, 1812-1838.

2. Laboratório de Documentação Histórica


Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ensino Superior do Seridó, Campus
de Caicó, Caicó-RN
2.1 Fundo da Comarca de Caicó, 1º Cartório Judiciário
Inventários post-mortem. Cx. 410. Inventário de Manoel Gonçalves Rabelo. 1763.

REFERÊNCIAS
BASCHET, Jérôme. A Civilização Feudal: do ano mil à colonização da América. Ed.
Globo. São Paulo, 2009.

HENRY, Louis. O levantamento dos registros paroquiais e a técnica de reconstituição


de famílias. In: MARCÍLIO, Maria Luíza (org.) Demografia Histórica: orientações
técnicas e metodológicas. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1977. p. 41-63.

LUCA, Tania Regina; PINSKY, Carla Bassanezi. O historiador e suas fontes. São Paulo:
Contexto, 2009.

NEVES, Erivaldo Fagundes. História regional e local: fragmentação e recomposição


da história na crise da modernidade. Salvador: Arcádia, 2002.

MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. De como se constrói uma História Local:
aspectos da produção e da utilização no Ensino de História. In: ALVEAL, Carmen
Margarida Oliveira; FAGUNDES, José Evangelista; ROCHA, Raimundo Nonato Araújo
da. (Org.). Reflexões sobre História Local e Produção de Material Didático. Natal:
EDUFRN, 2017. P. 57-81.

MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Ocidentalização, territórios e populações


indígenas no sertão da Capitania do Rio Grande. 2007. 309f. Dissertação (Mestrado
em História), Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

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MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Outras famílias do Seridó: genealogias


mestiças no sertão do Rio Grande do Norte (séculos XVIII-XIX). 2013. 360f. Tese
(Doutorado em História), Universidade Federal de Pernambuco, Recife.

MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais: patrimônio e cotidiano familiar


nos sertões do Seridó (Séc. XVIII). 2007. 286f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais),
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

MARCÍLIO, Maria Luíza. Os registros paroquiais e a História do Brasil. Varia História,


v. 31, 2004, p. 13-20.

MEDEIROS, Maria Alda Jana Dantas de. Apontamentos sobre o processo de


territorialização da Ribeira do Piranhas (séculos XVIII e XIX). Caicó. 2017.

MEDEIROS FILHO, Olavo de. Cronologia seridoense. Mossoró: Fundação Guimarães


Duque, 2002.

REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do
século XIX. Companhia das Letras, 1991.

SANTOS, Alcineia Rodrigues dos. Temp(I)o da Salvação: representações da morte e


ritos fúnebres no Seridó nos séculos XVIII e XIX. 2005. 182f. Dissertação (Mestrado
em Ciências Sociais), Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

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DAS PATENTES AOS BENS MATERIAIS: USO DE INVENTÁRIOS


NA ANÁLISE DA VIDA MATERIAL
DOS POTENTADOS DO SERTÃO DO PIANCÓ
(CAPITANIA DA PARAÍBA DO NORTE, 1728-1773)
Larissa Daniele Monteiro Lacerda (UFCG/CFP)169
Orientador: Rodrigo Ceballos (UFCG/CFP)170

A ADMINISTRAÇÃO DO SERTÃO DO PIANCÓ E A DISTINÇÃO DE SEUS


ADMINISTRADORES
Por entre as frestas das poucas janelas que as casas de moradas do sertão do
Piancó possuíam adentramos a vida material dos seus primeiros povoadores. Passar
da porta da frente para dentro é condição que só cabe aos mais íntimos, por isso nos
contentamos em observar de longe ou, no máximo, nos achegarmos ao alpendre onde
os homens costumam conversar. São casas singelas, construídas em taipa caiada e
localizadas em sua maioria no campo, avizinhadas por seus currais e lavouras.
Os homens que conversam no alpendre das casas de taipa, sobre seus negócios
e interesses pessoais, são aqui considerados autoridades locais, aqueles que se
ocupavam dos cargos militares e jurídicos. Muitos dentre eles começaram a chegar ao
sertão do Piancó ainda em fins do século XVII, quando timidamente iam estabelecendo
os currais de gado.
O sertão do Piancó era uma extensa área que extrapolava os atuais limites da
Paraíba, abarcando partes do Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, formado por
outros sertões: Piranhas, Piancó, Rio do Peixe e Espinharas, Pajeú e Seridó (imagem 1).

169Discente do curso de Licenciatura Plena em História, Unidade Acadêmica de Ciências Sociais, UFCG,
Cajazeiras, PB. E-mail: ldmonteirolacerda@gmail.com
170 Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense. Professor Associado da Unidade

Acadêmica de Ciências Sociais, UFCG, Cajazeiras, PB. E-mail: rcovruski@gmail.com

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IMAGEM 1: Possível delimitação espacial do sertão do Piancó171

A possibilidade de comunicação entre os sertões do Piancó garantia transito


livre aos transeuntes que, por entre seus corredores, iam do Estado do Brasil ao Grão-
Pará e Maranhão.172 Sua capilaridade possibilitava até mesmo ao gado que saía do Rio
Grande do Norte atravessá-lo e chegar aos mercados de carne verde e de carne seca no
Recife, de onde partiam rumo às Minas Gerais, sul da Bahia, Goiás e Mato Grosso, sem
precisar cruzar toda a Capitania da Paraíba do Norte.173
A fluidez por entre seus caminhos, onde transitavam homens abastados e
pobres, indígenas, escravos e animais, logo viria a ser alvo de um projeto colonizador
de organização social e administrativa, como forma de evitar os desmandos e garantir

171 SOARES, Maria Simone Morais. Formação da Rede Urbana do Sertão de Piranhas e Piancó da
Capitania da Paraíba Setecentista. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo). Centro de
Tecnologia, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa. 2012. p. 15.
172 Sobre a importância do sertão do Piancó para a manutenção do Caminho do Brasil: Cf.: MORAES, Ana

Paula. Entre mobilidades e disputas: O sertão do Rio Piranhas, Capitania da Paraíba do Norte, 1670-1750.
Tese (doutorado) – Programa de Pós-graduação em História Social, Centro de Humanidades da
Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2015. 301 f.
173 Sobre o mercado das carnes: Cf.: MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais: patrimônio e

cotidiano familiar nos sertões do Seridó (séc. XVIII). Tese (Doutorado em História). Universidade Federal
do Rio Grande do Norte. Natal, 2007. p.123.

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a povoação da região. Nessas condições, estabeleceu-se uma série de aparelhos


institucionais, tanto de caráter militar quanto jurídico.
O primeiro aparelho criado foi o Corpo de Ordenança, estabelecido no Piancó
ainda em fins do século XVII, quando há a formação de um Arraial às margens do rio
Piranhas, comandado pelo Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo (imagem 2). As
tropas de Ordenança eram formadas por homens da própria localidade onde atuavam,
e sua responsabilidade girava em torno da defesa e auxílio na administração dos
territórios conquistados. Financeiramente pouco custavam ao reino, pois seus homens
não recebiam soldo algum, nem muito menos qualquer tipo de instruções
sistemáticas.174
Como saída para a ausência de soldo e forma de manter os homens no exercício
de suas funções, a Coroa concedia aos militares, no ato de nomeação aos postos, o
direito de gozarem honras, liberdades, privilégios e isenções, o que, consequentemente,
possibilitava aos seus ocupantes usufruírem de um signo de distinção social. 175 O
mesmo signo haveria de ser compartilhado, anos mais tarde, por volta de 1711, por
aqueles que assumiriam funções jurídicas no Termo do Piancó.

174 COSTA, Ana Paula Pereira. Organização militar, poder de mando e mobilização de escravos armados
nas conquistas: a atuação dos Corpos de Ordenanças em Minas colonial. Revista de História Regional, n.
2, v. 11, 2006. p. 112.
175 O direito em questão é registrado nas cartas de nomeações aos postos militares de Ordenança, todas

disponíveis no Arquivo Histórico Ultramarino.

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IMAGEM 2: Localização onde se estabeleceu o Arraial de Piranhas 176

A imagem indica os limites da Capitania da Paraíba no século XVIII; já a área pontilhada os possíveis
limites do sertão do Piancó; e o circulo vermelho a localização onde se estabeleceu o Arraial de Piranhas,
que, no início do século XVIII, se tornou a Povoação de Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Em 1711 criou-se o ofício Juiz Ordinário no sertão do Piancó, como forma de agir
institucionalmente sobre esse espaço. A criação pretendia sanar os problemas
cotidianos de seus moradores, assim como registrar negócios, posses de terras e
cartas de liberdade de escravos. Esta medida foi uma saída à falta de Câmaras nas
localidades mais distantes, e foi justamente a atuação desse sujeito que rendeu ao
Piancó uma centralidade política.177
Até 1772, quando há a instalação do Senado da Câmara, foram os homens de
Ordenança e o Juiz Ordinário, conjuntamente com licenciados, escrivães e tabeliões, os
responsáveis pela organização social e administrativa do Piancó. Funcionando como
centros de poder local, ou seja, espaços de encontro e colaboração entre os interesses
das elites locais e os do poder central, os espaços militares e jurídicas concorriam para
a produção de um ethos aos seus ocupantes.178

176 SOARES, Maria Simone Morais. Formação da Rede Urbana do Sertão de Piranhas e Piancó... Op. cit. p.
119. Adaptado.
177 FONSECA, Claudia Damasceno. Urbs e civitas: a formação dos espaços e territórios urbanos nas Minas

setecentistas. Anais do Museu Paulista, v. 20, n. 1, 2012. p. 88.


178 Sobre a discussão acerca do significado de centro de poder: Cf.: MELLO, Christiane Figueiredo Pagano

de. Forças Militares no Brasil colonial: Corpos Auxiliares e de Ordenanças na segunda metade do século
XVIII. Rio de Janeiro: E-Papers, 2009. 258 p.

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Era através da posse de cargos militares e jurídicos que os homens do Piancó


exerciam a autoridade local e tornavam-se reconhecidos socialmente por isso. O ethos
social se forjava entre esse movimento de serviço e reconhecimento. O conceito de
ethos faz referência a um sentimento de distinção e de pertencimento a um espaço de
privilégio, destinado àqueles dotados de honra.179
A posse dos cargos por si só não se faz suficiente para a legitimação desse
ethos. As patentes e ofícios é preciso somar uma série de elementos simbólicos, como,
por exemplo, a tríade terra, escravo e gado. Tais posses materiais eram sinônimo de
riqueza e poder. Por isso, buscamos analisar quais os bens que esses homens detinham
e qual seu valor para legitimidade de seu ethos, através da análise dos inventários
produzidos no sertão do Piancó, durante o século XVIII.
Por meio dos inventários do Piancó temos acesso a resquícios da vida material
dos moradores do sertão. Contamos com um total de 42 inventários, que, atualmente,
encontram-se sob a tutela do Fórum “Promotor Francisco Nelson da Nóbrega”
(Comarca de Pombal-PB). Contudo, ao considerarmos a extensão dos registros,
optamos por selecionar apenas um inventário para o presente trabalho.
Os resultados que aqui serão expostos são baseados na análise do inventário
do Alferes Pedro Soares da Silva, senhor de terras, gado e escravos que atuou como
militar e juiz ordinário no Piancó, um exemplo de potentado local.

HOMEM DAS ARMAS E DAS LEIS: O ALFERES PEDRO SOARES DA SILVA E A


PRODUÇÃO DE UM SENTIMENTO DE DISTINÇÃO
Pedro Soares da Silva, filho de Mônica Rodrigues e Pedro Soares, era natural
da Cidade da Paraíba do Norte e esposo de Maria da Costa, com quem teve nove filhos
(gráficos 1, 2 e 3). Acompanhado de sua esposa, filhos, gado e escravos, Pedro fixou
morada por entre as margens do rio Piranhas e Piancó. As primeiras referências feitas
sobre ele no sertão datam ainda de 1739, quando já carregava consigo a patente militar
de Alferes.

179MONTEIRO, Nuno. O 'Ethos' Nobiliárquico no final do Antigo Regime: poder simbólico, império e
imaginário social. Almanack Braziliense, n. 2, 2005. pp. 4-20.

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Gráfico 1
Pais do Alferes Pedro Soares

Pedro Mônica
Soares Rodrigues
da Silva dos Santos

Pedro
Soares
da Silva

Gráfico 2
Esposa e filhas do Alferes

Pedro Maria da
Soares Costa da
da Silva Fonseca

Ântonia Mônica Úrsula Maria da Tereza Ana Soares Jozé Pedro


Nunes Vicência Soares da Costa da de Jesus do Bom Soares Soares
G. Ferreira Conceição Fonseca Maria Sucesso da Silva da Silva

Gráfico 3:
Genros e netos do Alferes Pedro Soares da Silva

Ântonia Manoel Mônica Ântonio José de Vicência João Úrsula Francisco Maria da Tereza Ântonio Ana Soares Ântonio
Nunes Rabelo Pereira Barros Ferreira Correa de Soares da José Costa da de Jesus Duarte do Bom Pereira
G. da Costa Barbosa Silva Queiroga Conceição Ferreira Fonseca Maria Machado Sucesso Nunes

Manoel Mônica
Filho Filha

Apesar de não receber soldo pelas funções que executava, Pedro Soares
acabava por garantir, na posse do título, o direito de gozar de honras, liberdades,
privilégios e isenções. O título produziu para si um espaço de distinção social, que, em
1748 e 1766, foi legitimado na escolha e nomeação do Alferes para o cargo de Juiz
Ordinário, mostrando assim a sua importância social e política conquistada naquela
localidade.
É certo que o Alferes tecera suas próprias redes de sociabilidade entre os
potentados do Piancó, pois na ausência dessas a sua nomeação ao cargo não teria

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alcançado êxito algum, uma vez que, tanto as funções militares quanto as jurídicas,
eram assumidas com base no critério de “qualidade” e reconhecimento social.
Ao assumir funções militares e jurídicas Pedro Soares passou a participar
ativamente do controle do aparelho administrativo, o que lhe proporcionou barganhar
interesses locais e pessoais junto aos moradores do Piancó e as autoridades da Cidade
da Paraíba. Através e como consequência do exercício dessas funções, Pedro Soares e
seus pares partilhavam de um ethos. Detê-lo e legitimá-lo não se fazia possível apenas
pela posse de um cabedal simbólico, como é o caso dos títulos militares e cargos
jurídicos. Pedro Soares também precisou contar com um cabedal material significativo,
formado por terras, gado, escravos, metais e objetos de valor como utensílios
domésticos, ferramentas de trabalho e vestuários.

APÓS A MORTE, OS TRÂMITES PARA A PARTILHA DOS BENS


Desde quando redigiu o testamento, com o auxílio do licenciado José da Cruz
Vila Nova, ainda no início de 1769, o Alferes Pedro Soares se queixava dos incômodos
causados pela moléstia da qual se encontrava acometido. Anos mais tarde seu estado
de saúde se tornou mais grave, dando-lhe sentença de morte entre maio ou início de
junho de 1772. A hipótese levantada a respeito do período de sua morte se baseia na
própria data de abertura do testamento, 13 de junho de 1772 (considerando que a
abertura do documento era feita pouco tempo após a morte do indivíduo, com o objetivo
de dar início à partilha dos bens).
Dona Maria da Costa, a fim de garantir seu acesso e o de seus filhos aos bens
do falecido esposo, teve de cuidar de todos os trâmites legais, pois além de cabeça de
casal, era ela quem teria que assinar todos os termos do inventário como testamenteira
do moribundo, juntamente com seu filho Pedro Soares e seu genro José de Barros.
Na condição de viúva, as Ordenações Filipinas garantiam às mulheres a posição
de “cabeça de casal” e o direito civil de administrar os bens recebidos em herança,
admitido apenas ao pai, enquanto solteira, e ao esposo, quando casada. Por isso, diante
da morte do esposo, Dona Maria teve a possibilidade de assumir uma nova fase de sua
vida, a viuvez, que lhe admitia o direito de administrar seus próprios bens, emancipada

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do poder paternal e marital180. Nessas condições, Maria da Costa passou todos os


direitos necessários para que um de seus genros, o Capitão Antônio Pereira Barbosa,
comparecesse perante o escrivão Francisco Gonçalves Reis Lisboa suplicando-lhe que
fizesse o translado do testamento e codicilo com que falecera o Alferes, para assim dar-
se início ao processo de inventariação dos seus bens.
A inventariação teve início em janeiro de 1773. Através dela deu-se o
arrolamento, avaliação e partilha de todos os bens pertencentes ao defunto, um
montante avaliado em 3:797$160 réis (gráfico 1), fortuna que se somaria a outros
valores, de natureza não identificada, contabilizando 4:400$450 réis no total. O monte
mor haveria de ser partilhado da seguinte forma: após o pagamento das dívidas, o valor
líquido deveria ser divido em duas partes iguais, sendo uma delas destinada à esposa
(2:187$225 réis), enquanto a outra seria divida em três, uma para a terça do defunto
(729$075 réis) e as outras para os herdeiros (1:458$150 réis).

GRÁFICO 1: Porcentagem dos valores individuais dos bens arrolados no inventário do Alferes Pedro
Soares da Silva

Ferramentas Armamento Vestuário


de trabalho 0,53% 0,41%
Utensílios 0,78% Outros 0,59%
domésticos
2,05%

Gado 37,68%
Imóveis
41,87%

Escravos
16,06%

Apresentaremos a partir de então, de forma detalhada, os bens que constituíam


o cabedal do Alferes Pedro Soares da Silva e seu valor simbólico.

180Isso não significava dizer que ela teria toda a liberdade diante seus atos civis, pois a própria legislação
lhe impunha certos limites. Cf.: ALENCAR, Ana Cecília Farias de. Declaro que sou “dona”, viúva e cabeça
de casal... Op. cit. p. 43-55.

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O gado: uma riqueza móvel


Sinal de riqueza, o gado tornou-se um dos bens mais significativos na
composição do cabedal dos homens dos sertões. Por essa razão, é frequente a sua
referência em testamentos e inventários, geralmente relacionados à posse de terras e
escravos, elementos que se unem pela sua interdependência.
Os gados dos sertões correspondiam a três espécies: o vacum, cabrum e
cavalar. Seu uso era diverso. Do gado vacum tudo se aproveitava, da carne ao couro. O
rebanho era moeda de mercado, força de trabalho (os carros de boi são bons exemplos
disso), alimento para a comunidade local e os grandes centros (como foi o caso do
mercado da carne-verde e seca), e suplemento para cobertura de tamboretes,
confecção de bolsas, cordas, roupa de entrar no mato etc.
Já o gado cabrum, segundo Muirakytan (2007, p. 128), formava um plantel
estratégico a uma economia facilmente afetada por períodos de secas duradouras, pois
eram os únicos animais a resistirem os dias mais difíceis. Com uma capacidade
reprodutora maior que o bovino, os caprinos sobreviviam com a ruminação dos pastos
desidratados e proporcionavam aos seus donos leite e carne.181
O uso do gado cavalar, por sua vez, correspondia basicamente à montaria e
carga, utilizado nas longas viagens feitas de um lugar a outro, carregando em seu
lombo os viajantes e suas mercadorias, além de auxiliar os vaqueiros na pega do boi.182
Uma soma de 55 cabeças de gado cavalar foram contabilizadas no inventário do Alferes
Pedro Soares. Destas, 827 correspondia ao gado vacum e 170 ao cabrum, totalizando
1.052 animais, ou seja, 38% (1:431$000 réis) do valor total dos bens arrolados.
Os preços desses animais poderiam variar de acordo com a raça, idade e estado
físico, bem como do lugar e da época em que foi cotado. O inventário de Pedro não nos
informa a raça, a idade ou o estado físico, resumindo-se apenas a sua quantidade e o
valor. A cabeça de gado vacum, por exemplo, custava entre 1$200 e 4$000 réis,
enquanto o cabrum mantinha um valor fixo de $140 réis. Já o gado cavalar valia entre
2$700 e 4$000 réis.
É comum a relação desses animais a objetos referentes à sua lida, como selas
e “ferro de ferrar” (marca de gado). Segundo Macêdo (2007, p. 127), ambos os objetos

181 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais... Op. cit. p. 129.
182 Idem. p. 126.

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são promotores de distinção. O primeiro “era sinal da riqueza ou pobreza de seu dono
[…] um homem abonado punha sobre seu cavalo um sela “bastarda” cujo preço não era
acessível a todos os vaqueiros” Seu preço variava entre 1$000 e 7$000 réis. Já o
segundo, além de exercer sua finalidade (marcar os bens pessoais como forma de
demonstrar posse material) denotava “dignidade social e atributo de virtude
individual”.183 Conforme o historiador, a marca funcionava como assinatura que
figurava como índice de prestígio e signo de poder dos grandes criadores gravados em
quase todo seu cabedal, desde animais aos utensílios domésticos, como forma de fazer
visível aos demais sua quantidade e seu proprietário.184
A posse do ferro estava, somente, para os criadores que possuíam rebanhos
numerosos.185 O Alferes Pedro Soares se enquadrava nessa condição, tanto pelo
número de cabeças de gado quanto pelo total de “ferros de ferrar” que foram arrolados
entre seus bens. No total foram registrados cinco ferros, correspondentes aos valores
de $160 e $240 réis. Dentre os bens arrolados não se fez referência a nenhuma sela,
mas a um par de esporas, avaliadas em 6$850 réis. Este era o valor aproximado ao de
uma sela “bastarda” na Capitania do Rio Grande do Norte, conforme as informações
levantadas por Muirakytan (2007, p.127).

Os escravos e as terras que pertenceram ao Alferes Pedro Soares


É provável que parte do gado do Alferes Pedro Soares estivesse sob os
cuidados de seus genros Antônio Pereira e João Correa, criadores em fazendas de sua
propriedade, enquanto os demais animais estariam sendo cuidados por seus escravos,
que representavam 16% (610$000 réis) do valor total de seus bens. Sendo eles: duas
crianças – uma delas doente do fígado –, cinco jovens – sendo uma mãe de uma das
crianças – e dois idosos – Maria e José Moco, casados. Seus escravos estavam
avaliados entre 10$000 e 120$000 réis.
De acordo com Nizza (apud ALENCAR, 2014, p.68), a simples posse não pode
ser considerada um fator de diferenciação social, mas, sim, sua quantidade de acordo
com a fortuna de seus proprietários. A sua posse era essencial para a sobrevivência,
principalmente para as pequenas propriedades que necessitavam da mão de obra

183 Op. cit. p. 109.


184 Idem. p.109
185 Idem. p.111.

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escrava para o seu sustento.186 Eram esses escravos que trabalhavam na lavoura e
garantiam a produção de alimentos, importante atividade devido ao seu caráter de
subsistência.
Cada fazenda tirava da lavoura seu próprio sustento. As terras destinadas às
atividades dessa natureza eram minoritárias. Sobre elas se cultivavam milho, feijão,
mandioca, algodão.187 Nas terras do Alferes a produção parece ter dado maior espaço
para o cultivo da mandioca. Isso porque dos 29$630 réis em que foram avaliadas as
suas ferramentas de trabalho, 15$000 réis correspondia aos aviamentos de fazer
farinha e $100 réis ao cevador. O cevador era utilizado para triturar a mandioca, um dos
aviamentos utilizados na produção, enquanto os demais poderiam dizer respeito ao
caitituá – roda de ralar –, prensa, cocho, forno e tachos188.
Entre as ferramentas de Pedro encontravam-se ainda machados (5), enxadas
(4), cavador (1), alavanca (1), entre outros. Tais ferramentas devem ter sido utilizadas
pelo próprio Pedro Soares e seus escravos em lavouras estabelecidas às margens do
rio Piranhas, tanto na parte de cima quanto na de baixo, mais precisamente nos sítios
do Genipapo e do Abro, onde Pedro Soares e sua esposa Maria da Costa eram
proprietários de algumas casas.
É importante perceber que a posse das sesmarias em lugares diferentes
poderia, além de denotar a importância de seu proprietário (por tratar-se de um senhor
de terras), funcionar como uma estratégia para que todo o seu gado pudesse ser
remanejado de um pasto a outro quando necessário. Este aspecto talvez se aplique ao
caso de Pedro Soares, já que suas duas sesmarias eram próximas.
Os imóveis do Alferes corresponderam a 42% (1:590$000 réis) do valor total
dos bens. Trata-se de uma parcela que diz respeito à soma de dois sítios e duas casas
localizadas na Vila Nova de Pombal. É interessante perceber a posse de casas na Vila e
associá-las ao fato de que Pedro já havia atuado como Juiz Ordinário em 1766, nesse
mesmo lugar, antes denominada Povoação de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Por
isso, é provável que o exercício da função lhe exigisse certo tempo de permanência
nesse lugar sendo mais viável para Pedro Soares o seu estabelecimento na Vila quando

186 ALENCAR, Ana Cecília Farias de. Declaro que sou “dona”, viúva e cabeça de casal... Op. cit. p. 68.
187 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais... Op. cit. p. 93
188 Idem. p. 99.

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necessário. O mesmo deveria acontecer com os padres responsáveis pela Matriz de


Nossa Senhora do Bom Sucesso e outros homens de funções públicas.
Não se pode afirmar com precisão se as telhas (6$000 réis), janelas (1$920
réis) e porta com fechadura (2$560 réis), arroladas no inventário, encontravam-se
instaladas nas casas da vila, mas acreditamos que seja possível, pois na partilha da
herança a esposa herda as casas da vila, telhas e porta, o que nos leva a pensar na
possibilidade de serem as casas cobertas com essas telhas e protegida por porta com
fechadura, enquanto seus donos vivem nas casas de morada dos sítios. Além disso,
receberia em herança as ditas casas de morada, 2 escravos, 516 cabeças de gado e
algumas ferramentas.
No que diz respeito às janelas, avaliadas em 1$920 réis, sabemos que elas
foram separadas para o pagamento da terça, somadas a 160 cabeças de gado, 4
escravos e outros bens de valor. A terça parte corresponde ao valor destinado aos
gastos para garantir a “boa morte”, ou seja, os ritos (missas, velas, procissões etc.) que
encaminhavam a alma ao paraíso.189

Do que compõe o lar: o valor das pequenas coisas


Os utensílios domésticos que se encontravam depositados nas moradas do
Alferes foram descritos detalhadamente pelos seus avaliadores. Há um considerável
número de colheres de prata, pratos, cocos, bacias e tachos, objetos que viriam a
compor o dote das nove filhas e a herança da esposa no ato da partilha. É importante
chamar atenção para a posse desse tipo de artefato, especialmente colheres e pratos,
por tratar-se de um indicativo de distinção social. Talheres e pratos eram objetos raros
na colônia, principalmente no sertão, lugar onde o ato de se alimentar dava-se em
esteiras no chão, de cócoras e, na maioria das vezes, comia-se com as mãos.190
Ao estudar o caso de Quixeramubim (Ceará), no decorrer do século XVIII e XIX,
Anna Cecília Alencar (2014) nos afirma que esses utensílios só foram encontrados em
inventários das famílias de “qualidade”. Tanto a pesquisadora quanto o historiador
Muirakytan Macêdo (2007), que pesquisa a cultura material do Seridó (Rio Grande do
Norte) no mesmo período, comungam da ideia de que o valor desses utensílios não

189 FURTADO. Júnia Ferreira. A morte como testemunho da vida. In: LUCA, Tânia Regina de. PINSKY, Carla
Bassanezi. O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009. p.107.
190 ALENCAR, Ana Cecília Farias de. Declaro que sou “dona”, viúva e cabeça de casal... Op. cit. p. 65.

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estava, necessariamente, em seu uso cotidiano, mas sim, em seu caráter simbólico. Era
comum possuí-los com a finalidade de ostentá-los às visitas. Talvez isso justifique a
disparidade entre os membros da casa e os talheres possuídos, um número geralmente
incompatível conforme os historiadores citados acima verificaram para suas
localidades de pesquisa.
Ainda entre os artefatos de distinção encontrados no inventário de Pedro
Soares estavam objetos religiosos e referentes ao vestuário. O oratório era um dentre
os objetos raros a serem encontrados nos sertões. Ele representava um pequeno altar
onde ficavam expostas as imagens dos santos aos quais eram devotos seus
proprietários. Segundo Muirakytan Macêdo (2007, p.162-163), sua presença era uma
compensação para o altar das igrejas e capelas, e sua posse com ou sem santos era
algo que não poderia ser adquirido por qualquer pessoa devido seu valor. Para o
inventário em questão, trata-se de um pequeno e velho oratório de cedro avaliado em
1$280 réis, recebido pela esposa no ato da partilha.
No que tange ao vestuário, segundo Silvia Lara (apud ALENCAR, 2014, p.57), é
importante pensar as roupas como artefato de distinção, pois eram elas que revelavam
os jogos hierárquicos no interior dos quais as diferenças eram mostradas. De acordo
com Lara (apud ALENCAR, 2014, p. 57-58), uma série de leis e decretos foi aplicada para
reforçar a distinção presente nas roupas, como em 1696 quando se proibiu o uso de
“vestidos de seda, cambraia, holandas com rendas e brincos de ouro ou prata” por
escravas. Entretanto, não encontramos no inventário de Pedro Soares algum registro
dos tipos de roupas utilizadas, mas apenas colares, fivelas, abotoadeiras e botões, tudo
em ouro e prata.
Todos esses bens foram distribuídos entre as filhas durante a dotação e a
esposa no ato da partilha, assim como os utensílios domésticos vistos anteriormente.
Através da partilha a esposa recebeu em herança uma caixa, mala com fechadura e
arcas. Eram bens avaliados entre 2$000 e 10$000 réis. Estes tipos de utensílio eram
comuns no sertão. Geralmente as malas e caixas eram utilizadas para guardar peças do
vestuário, joias e até alimentos, como farinha e carne salgada.191 Pela facilidade de
transporte esses objetos eram fundamentais à necessidade de fuga em meio às

191 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais... Op. cit. p. 173.

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dificuldades locais, fosse pelas secas ou enchentes, situações as quais estavam


expostos constantemente os homens do sertão.192
Respondendo a mesma lógica estavam os tamboretes e os catres, sendo este
último uma espécie de leito dobrável, fácil de carregar em viagens. Além de custarem
mais caro que os simples bancos de madeira, os tamboretes tinham um caráter
importante, pois ao permitir a um indivíduo sentar-se sozinho acabava por indicar quão
honrado e superior o era, pois a grande parte da população pobre se sentava no chão
para conversar ou fazer refeições.193 No inventário do Alferes foram contabilizados
cinco tamboretes cobertos com sola (2$400 réis), herdados mais tarde pela esposa, e
três catres, avaliados em 6$000 réis, sendo dois distribuídos entre as filhas e um pela
viúva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa com base nos inventários do Piancó ainda está em sua fase inicial.
Contamos com uma grande quantidade de informações que requer maior tempo de
pesquisa, por isso optamos analisar, inicialmente, apenas o inventário do Alferes Pedro
Soares da Silva. A partir dessa fonte podemos perceber quais os bens que constituíam
o cabedal de um potentado do Piancó, sem criar generalizações, e seu valor, não só
monetário, mas também simbólico.
Todos os resultados levantados até então nos tem permitido traçar um
possível perfil do Alferes. Por meio deles tomamos ciência sobre quem ele era (qual a
sua naturalidade e suas relações familiares) e a importância de seus bens para a
legitimição do seu ethos social. Ainda é possível realizar o cruzamento de parte dessas
informações com outras dispostas em Livro de Notas, produzidos no sertão do Piancó
durante o século XVIII e as solicitações de sesmarias, criando assim um complexo de
informações sobre o militar.

192 Idem. p. 174.


193 Idem. p. 161.

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POR DETRÁS DAS LETRAS:


UM ESTUDO DE CASO SOBRE ANTONIO VAZ FERREIRA
JÚNIOR, JOÃO DE SOUSA E SILVA E MANOEL PEREIRA DA
SILVA CASTRO (RIBEIRA DO SERIDÓ, SERTÕES DO RIO GRANDE
DO NORTE, 1777-1830)
Matheus Barbosa Santos194
Helder Alexandre Medeiros de Macedo - Orientador195

INTRODUÇÃO
O presente trabalho está vinculado ao grupo de pesquisa História dos Sertões,
constituindo parte do Projeto de Pesquisa História das mestiçagens nos sertões do Rio
Grande do Norte por meio de um léxico das “qualidades” (séculos XVIII-XIX), sob
coordenação do Prof. Helder Alexandre Medeiros de Macedo.
O projeto maior atrela-se ao Plano de Trabalho específico: O olhar dos agentes
do Estado e da Justiça, nascendo assim, esta comunicação. Objetivamos examinar as
trajetórias de vida dos agentes da Justiça produtores de documentos, no qual
encontram-se registrados indivíduos frutos das mestiçagens, afim de estabelecer um
perfil acerca de quem nomeava pessoas com as “qualidades” de “mestiço”, mameluco,
pardo, mulato, cabra e curiboca.
Ao longo de dois anos, iniciados em 2016.2 e completados em 2018.2, os
interesses do Plano de Trabalho caminharam em mão dupla, ou seja, fizemos um
rastreamento dos escrivães e/ou tabeliães que exerceram o seu ofício na Ribeira do
Seridó entre os séculos XVIII e XIX, utilizando como principal corpus documental os
inventários post-mortem do Fundo da Comarca de Caicó (FCC) e do Arquivo da Vara
Cível da Comarca de Currais Novos (AVCCCN) (1737 – 1850) – são neles que consistem
o maior número de processos manuscritos pelos escrivães, bem como, o registro dos
sujeitos frutos das “dinâmicas de mestiçagens” (PAIVA, 2015) do Seridó colonial. A
outra via, por sua vez, era acessada na tentativa de compreensão do fenômeno das
“mestiçagens”, utilizando as letras destes indivíduos da Justiça como um meio.

194 Discente do Curso de Bacharelado em História, Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES),
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC-UFRN). E-
mail: matheusx1998@gmail.com.
195 Professor do Departamento de História, CERES, UFRN. E-mail: heldermacedox@gmail.com.

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Desta vez, sentimos a necessidade de analisarmos e compreendermos o lugar


social ocupado por estes indivíduos da Justiça, principiando que cada sujeito histórico
é fruto do seu contexto espaço-temporal, portanto, os escrivães e/ou tabeliães que
desempenharam suas incumbências nos sertões do Seridó são frutos dos filtros feitos
pelos mesmos dos seus contextos de vida, de crenças, valores e desejos coletivos e
próprios, de medidas que extrapolam os símbolos fixados na documentação – as letras.
É neste contexto que, pretendemos investigar os “atos de escrita”, discutido por
Sílvia Rachi (2016), tomando como recorte espacial a Ribeira do Seridó, de 1777 a 1830,
afim de traçar um perfil acerca dos escrivães e/ou tabeliães Antonio Vaz Ferreira Júnior,
João de Sousa e Silva e Manoel Pereira da Silva Castro. A escolha destes três sujeitos
foi motivada pelo número de processos inventariantes, feitos a próprio punho, no qual
eles desempenham o seu ofício de redação das letras196. Tomando como base a
realidade “jurisdicional” dos sertões do Seridó, o número de processos em que estes
indivíduos estão envolvidos, de maneira direta ou indireta, é possível considerá-los
como os escrivães e/ou tabeliães “mais influentes” das águas denominadas Seridó.
As nossas lentes estão ajustadas, desta maneira, para analisarmos e tentarmos
compreender o lugar social ocupado pelos escrivães e/ou tabeliães no seio da
sociedade ibero-americana, mais precisamente nos sertões da Capitania do Rio Grande,
em terras nomeadas como Seridó. Problematizamos o seu ofício investigando a
documentação manuscrita pelos mesmos, a exemplo, os já referidos inventários post-
mortem, e igualmente, os documentos nos quais eles aparecem como sujeitos
protagonistas e/ou figurantes, tais como as celebrações católicas de batismo,
casamento e óbito.
Metodologicamente partimos de revisão historiográfica acerca de obras que
contemplassem o universo burocrático da Justiça Colonial, enfocando nos agentes do
Estado e da Justiça, em nosso caso, os escrivães e/ou tabeliães197. Buscamos, ainda,
obras de abrangência mais geral, no que diz respeito a realidade ibero-americana e
colonial198, além daquelas que figuram no território da Ribeira do Seridó199.

196 No período de 1777 à 1830, na Ribeira do Seridó, o escrivão e tabelião Antonio Vaz Ferreira Júnior
atuou em 32 processos; João de Sousa e Silva em 27; e Manoel Pereira da Silva Castro em 17.
197 A exemplo de: Por mãos alheais (RACHI, 2016); Um Império de Papel (LIRA, 2018).
198 Ver, a exemplo: Cargos e ofícios nas monarquias ibéricas (CHATURVEDULA; STUMPF, 2012);

Burocracia e sociedade no Brasil Colonial (SCHWARTZ, 1979).


199 Ver: Seridó (AUGUSTO, 1954); Outras famílias do Seridó (MACEDO, 2013).

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Trabalhamos com fontes de diferentes cunhos, contemplando as esferas


religiosas e jurídicas. São elas: As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia
(CPAB) (1853 [1720]) e as Ordenações Filipinas (1870 [1603]), ambas estão disponíveis
para download no site do Senado Federal (ver Referências); Manual do Tabelião (1834),
disponível para download no site da Faculdade de Direito da Universidade de Nova
Lisboa (ver Referências); os inventários post-mortem do Fundo da Comarca de Caicó
(FCC) (1737-1815), custodiados pelo Laboratório de Documentação Histórica
(LABORDOC) CERES/Caicó – RN, e os que estão conservados no Arquivo da Vara Cível
da Comarca de Currais Novos (AVCCCN) (1788-1863); também utilizamos Cartas de
Alforria – Livros de Notas que encontram-se na Cidade Judiciária de Caicó (1792-1814),
dispostos em bancos de dados do Microsoft Access, construídos pelo Prof. Muirakytan
Macêdo e Prof. Helder Macedo e suas equipes de pesquisa; e, ainda, um conjunto de
fontes paroquiais, também ordenado nos bancos de dados, como batismos (1803-1822),
casamentos (1788-1821) e óbitos (1788-1857), relativos à Freguesia da Gloriosa
Senhora Santa Ana do Seridó (FGSSAS), estando, respectivamente, sob posse da Casa
Paroquial São Joaquim, da Paróquia de Sant’Ana.
Alicerçando este trabalho, manuseamos dois conceitos em específico, afim de
que os mesmos possam dar sustentação de análise e compreensão aos agentes da
Justiça que estavam por detrás das letras, sendo do nosso interesse, os escrivães e/ou
tabeliães, de tal modo que, possamos, também, analisarmos a ação da escrita como
objeto histórico e passível de problematização no contexto do universo colonial da
Ibero-América, e no que diz respeito à Ribeira do Seridó e suas adjacências. O primeiro
deles é o conceito de “escrita”, contemporâneo ao cotidiano das pessoas que residiam
no Ultramar, conforme elucidado pelo Dicionário de Bluteau (1712-1728):

ESCRITA. O que o escrivão, ou Tabaliaõ escrevco, contar a escrita,


Scripta à Tabulario folia numerare. Pagar a escrita. Pro scriptis à
Libellione folijs solvere. (p. 227, 8 v). (Grifo nosso)

Na América Portuguesa, como grifado acima, em que a “redação das letras


estava circunscrita ao uso do escrivão e/ou tabelião”, a “escrita” desempenhou um
efetivo instrumento de poder e domínio, sendo empregada para libertação ou opressão
social. A Colônia vivia uma situação de incongruência, pois se levarmos em
consideração que estamos lidando com uma sociedade predominantemente não

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letrada, no qual as formas comunicacionais, em larga escala, eram caracterizadas pelas


práticas orais; por outro lado, os discursos só ganhavam legitimidade quando estavam
afixados no papel, estando assinalados e reconhecidos. (RACHI, 2016)
Problematizando o conceito, Sílvia Rachi (2016) entende a “escrita” como
manifestação e artefato, produto e produtora de cultura, possibilitando a
materialização de pensamento e discursos, além de viabilizar a relação entre as
pessoas e destes com as instituições de poder. A “escrita” deve ser compreendida como
uma dimensão da linguagem, levando em consideração o seu simbolismo e
materialidade. Citando Magalhães (1994), ela assimila que a “escrita” é um ato humano,
racional e técnico, é a fixação da palavra. Uma representação gráfica e visível da
linguagem, vencendo tempo e espaço. Utiliza-se de signos convencionais, sistemáticos
e identificáveis. Rachi (2016) acrescenta que é uma produção contextualizada, individual
e/ou coletiva, por meio do qual os indivíduos registraram suas experiências.
O segundo conceito que tomamos como base são os “atos de escrita” (RACHI,
2016), elucidando que devemos ponderar acerca do que está entre a pena/lápis e o
papel, ou seja, o sujeito histórico; no presente trabalho, nas figuras do Antonio Vaz
Ferreira Júnior, João de Sousa e Silva e Manoel Pereira da Silva Castro, trajados com
seus ofícios de escrivães e/ou tabeliães. Estes, indivíduos frutos do seu tempo e espaço,
e dos filtros particulares de suas realidades, desempenharam, consciente e
inconscientemente mecanismos de poder através da “escrita”. É importante
compreendermos que a tessitura das palavras não é imparcial, ela versa sobre a
redação de algo, registrando intenções, objetivos e estratégias, sendo assim, um objeto
ideológico. A “escrita”, e as pessoas dotadas da mesma, estão imbricadas em uma
malha de poder, pois ela articula “jogos de dominação, participação/exclusão e é uma
mediadora cultural a partir do “escrito”, responsável, ainda, por ser um dos utensílios
de manutenção do poderio dos grupos dominantes, no qual o seu aprendizado é
reduzido e controlado.
É tomando como base este cenário, e o entendimento de que as pessoas
“revestidas pelo poder das letras” desempenhavam um papel social importante no
contexto em que elas estavam inseridas, que se fez necessário compreendermos a
representatividade desempenhada pelos três indivíduos supracitados, no qual
realizamos o processo de rastreamento de suas vidas, desempenhando um intenso
cruzamento de dados, observando a sua atuação nos processos judiciais, bem como,

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investigando em que momento das celebrações católicas (batizado, casamento,


enterro) eles apareciam. Tal rastreamento levou em consideração as premissas
metodológicas do paradigma indiciário (GINZBURG, 1989) e do método onomástico
(GINZBURG; PONI, 1989).

RASTROS E LETRAS: ANTONIO VAZ FERREIRA JÚNIOR


O sujeito que intitula o tópico aqui tratado tem suas raízes oriundas na Capitania
da Paraíba. Fincando os passos nas terras da Ribeira do Seridó e deixando os seus
rastros no período de 1788, na justificação de dívidas do inventário post-mortem de
Manoel Marques e alongando-se até 1810, no inventário de Ana da Conceição, Antonio
Vaz Ferreira Júnior contraiu matrimônio com Maria José de Jesus, ambos de
“qualidade” (PAIVA, 2015) “branca”, segundo consta no I Livro de Batismo FGSSAS
(1803-1806).
Segundo Paiva (2015), o conceito de “qualidade”, reconstruindo sua genealogia,
notando os diferentes significados atribuídos ao termo ao longo do tempo e do espaço,
remonta desde a Antiguidade, com Cícero, como nos aponta Bluteau (1712-1728). No
contexto medieval, o termo seria usado para distinguir os “homens bons”, ou pessoas
dotadas de honrarias, e as que eram ausentes ou das que tinham em menor proporção
ou menor intensidade. Quando a palavra é imigrada para o Novo Mundo, ela passa a
“qualificar” não somente as pessoas dotadas de privilégios, mas também aquelas não
aceitas e mal vistas pela sociedade, ou as novas formas de representar os seres
humanos nascidos no Ultramar, dentre estes, os sujeitos fruto das mestiçagens. Ele
debruça-se, ainda, afim de evidenciar o conceito de “qualidade” como um dispositivo
capaz de medir a “qualificação” social das pessoas, classificando os indivíduos, como,
também, os grupos sociais, utilizando como suporte aspectos como, por exemplo, a
ascendência e descendência familiar, proveniência, origem religiosa, dentre outras
tantas, como os fenótipos. Mesmo quando não era possível o uso destas ferramentas
para a “qualificação”, utilizavam-se de elementos mais salientes, a exemplo da cor, ou
aqueles que se achassem mais favoráveis.
No caso retratado, no qual o “qualificativo” do casal foi indicado como “branco”,
frisamos a distinção social exercida por este “gênero clarus”, pois a falta de melanina
em sua pele alçava o indivíduo nas primeiras posições de uma sociedade hierárquica,
como é o caso da colonial. Havendo conhecimento das exceções, ser “branco” na

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América Portuguesa excluía os olhos segregacionistas do cotidiano. A inserção social


era facilitada, de tal maneira que, estas pessoas, mesmo nascendo pobres, tinham
muito mais oportunidades de crescimento e ascensão do que as “pessoas de cor”
(PAIVA, 2015).
No caso do Antonio Vaz Ferreira Júnior, para além do mesmo ser “qualificado”
como “branco”, ele também estava revestido pelo prestígio que as letras poderiam
proporcionar, tornando-se assim, “somente por estes dois fatores”, um ser humano
destoante da realidade social em que ele estava inserido.
Encontra-se registrado no I Livro de Batismo FGSSAS (1803-1806) um filho do
casal acima referido, chamado Sancho, batizado no dia 31 de março de 1804, em um
sábado santo.
O outro fruto do casal é uma menina, nomeada Perpétua200, que recebeu a água
batismal e os santos óleos no dia 30 de junho de 1805 – esta veio a falecer, como
pudemos averiguar no I Livro de Óbito FGSSAS (1788-1811), aos 10 meses, no dia 03 de
abril de 1806, sendo sepultada no lugar “do cruzeiro para cima” – tomando como base
as palavras de Alcineia Santos: “espaço compreendido entre o corpo da igreja e a
capela-mor. (2005, p.105)”. Portanto, era um espaço privilegiado, transmitindo prestígio
e cobiça, sobretudo por estar próximo à “capela-mor”. Os sujeitos que conseguiam ter
acesso a este “local de descanso eterno” dispunham de um cabedal considerável,
ademais, Perpétua foi sepultada vestindo um “hábito de cetim preto”. Segundo Reis
(1991), este tecido exigia um alto investimento, sendo comum o uso nas mulheres,
especialmente as “brancas”.
O Antonio Vaz Ferreira Júnior desenvolveu os labores de escrivão e tabelião na
Ribeira do Seridó, portanto, constatamos que ele não somente era um escrivão
ordinário, mas era detentor de um arcabouço jurídico capaz de exercer, também, a
função do tabelionato. Em se tratando de uma sociedade colonial com altos índices de

200 Através da documentação da FGSSAS, constituindo-se em registros de batismo (1803-1822),


casamento (1788-1821) e óbito (1788-1857), conservada na Casa Paroquial São Joaquim, na Matriz de
Sant’Ana, disposto em bancos de dados do Microsoft Access, construídos pelo Prof. Muirakytan Macêdo
e Prof. Helder Macedo e suas equipes de pesquisa, é possível traçarmos, em maior ou menor medida, a
genealogia dos sujeitos históricos trabalhados. No caso do Antonio Vaz Ferreira Júnior, conseguimos
reconstruir a sua primeira geração familiar, enfatizando que este exercício genealógico, fruto de um
denso cruzamento de fontes e dados, não é por acaso. Através dele conseguimos evidenciar que estes
indivíduos não vinham para as terras coloniais do Seridó somente para exercerem as suas obrigações ou
preencherem locais com deficiência de pessoas especializadas para uma determinada atividade, mas que
eles criavam raízes emotivas, construíam redes de amigos e familiares, como, também, fizeram parte do
processo colonizador dos sertões da Capitania do Rio Grande.

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não letramento, por estar ligado ao aparelho da Justiça, não constituindo-se como uma
esfera impermeável, mas que, por exemplo, estava interseccionada com a esfera
religiosa e, muitas das vezes, com a vontade dos que detinham cabedal político e/ou
econômico, ocupar os ofícios supracitados colocariam as demais pessoas em uma
posição de prestígio e poder no seio da sociedade do Além-mar.
Destacamos que, ocupando a função do tabelião, o agente tem em torno de si
várias normas e leis que norteiam o seu ofício, como é o caso das Ordenações Filipinas
(1870 [1603]) e do Manual do Tabelião (1834), estando na sua responsabilidade a
redação das peças jurídicas cotidianas, os atos formais e administrativos daquelas
instituições. Os agentes detentores dos ofícios de escrivão e/ou tabelião distinguiam-
se dos demais funcionários destes aparelhos da justiça, por serem os principais
responsáveis pela redação da comunicação escrita, e pelo fato de serem ofícios locais,
cujo provimento era efetuado pelo rei (LIRA, 2018).
Pondo o seu ofício em prática, o escrivão e tabelião Antonio Vaz Ferreira Júnior
foi o responsável pela feitura de 5% das cartas de alforria da Vila Nova do Príncipe
(1792-1814), mais precisamente, estamos lidando com um universo amostral de 122
cartas de alforria, no qual ele foi o responsável por registrar 7 delas no Livro de Notas
do Termo Judiciário da Vila Nova do Príncipe. Na realidade espaço-temporal que
estamos lidando, este valor é significativo, inclusive quando o comparamos com os
outros escrivães e/ou tabeliães, como vai ser possível constatar ao longo desta
narrativa.
As pessoas que dominam o conhecimento das letras, além do conhecimento e
reconhecimento de suas estimas sociais, mantêm uma forte conexão com as
instituições religiosas e os grupos predominantes, assim como elucida Rachi (2016). O
escrivão e tabelião aqui trabalhado, por sua vez, está presente em várias das
celebrações católicas da Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó, a exemplo
de como consta no I Livro de Batismo FGSSAS (1803-1806), em que Antonio Vaz
Ferreira Júnior e sua mulher Maria José de Jesus aparecem como padrinhos de uma
criança pela parte – como procuradores – de Francisco Toscano do Rêgo e Dona
Francisca Dorneles.
As CPAB (1853 [1720]) afirmam que a escolha deste “parentesco espiritual” – os
padrinhos – deveria ser feita com zelo, pois não eram todos os indivíduos que estavam
aptos a ocupar tal cargo, sobretudo aos olhos da Igreja, no qual o sujeito a ser escolhido

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teria uma série de prerrogativas que deviam ser atendidas, como, por exemplo, ser
maior de 14 anos e respeitar os princípios da Santa Fé. Isto demonstra o quão
heterogênea era a América Portuguesa, pois não somente a escolha do parentesco
espiritual parte da estima que os indivíduos, tais como os pais de um filho a ser batizado
tinham pela seleção do padrinho/madrinha, como, também, o sujeito devia atender as
exigências de uma das maiores instituições de poder do mundo Ibérico.
Outra celebração católica que Antonio Vaz Ferreira Júnior participou foram os
matrimônios, como aponta o I Livro de Casamento FGSSAS (1788-1809). Em 543
registros de uniões, o escrivão e tabelião aparece como primeira testemunha em 5
casos, como segunda testemunha em 6, cada uma delas representando 5% do total.
Não é “ingênua” a classificação numérica da escolha de testemunhas: o primeiro lugar
“é mais honroso” do que o segundo, o que não quer dizer que ambas não possam ser
vistos como classificadoras sociais. As CPAB (1853 [1720]) resguardam que as pessoas
escolhidas devem ser “dignas de fé”, não ter nenhum impedimento, pois são
asseguradores da “verdade” ao testemunharem o matrimônio.
Uma escrava, chamada Josefa, do gentio de Angola, falecida em 25 de julho de
1800, como demonstra o I Livro de Óbito FGSSAS (1788-1811), tinha como o seu
proprietário o escrivão e tabelião Antonio Vaz Ferreira Júnior. Para a Ribeira do Seridó,
como nos assegura Muirakytan Macêdo (2015), a tríade terra-escravo-gado era a que
se configurava com os elementos preponderantes em cabedal dos inventários post-
mortem (1737-1813). E, por mais que o sujeito aqui tratado tenha somente uma unidade,
isto demonstra um certo grau de poder aquisitivo do mesmo, uma vez que, levando em
consideração Josefa “mostrar ter 45 anos”, e uma escrava, de nome Izabel, criola, de
quarenta anos, constante no inventário post-mortem de Cosme Fernandes Jorge,
datado de 1801, ter o valor de 100$000 réis, podemos inferir que o valor da gentio de
Angola também girasse em torno destes números.
“Na Época Moderna, a escrita configurou-se como instrumento de poder ao
permitir o funcionamento das práticas em distintas esferas: na vida política, na
religiosidade, no âmbito privado” (RACHI, 2016, p.338). E são, a partir destes
microelementos trabalhados acima que, para a realidade da Ribeira do Seridó, podemos
traçar um perfil acerca destes indivíduos que não passaram despercebido nas fontes,
muito menos na sua contemporaneidade.

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JOÃO DE SOUSA E SILVA


O escrivão e tabelião João de Sousa Silva, juntamente com sua irmã Ana Maria
da Trindade, assim como encontra-se registrado no III Livro de Batismo FGSSAS (1818-
1822), marcaram sua passagem nos sertões do Seridó de 1777, no inventário post-
mortem de Manuel Barbosa das Neves, até 1805, no processo de mesmo caráter de Ana
de Oliveira. Neste espaço de tempo, ambos não contraíram núpcias, até onde sabemos.
Assim como o sujeito anteriormente trabalhado, João de Sousa e Silva também
foi responsável por fazer cartas de alforrias (1792-1814), levando o seu nome de
escrivão e tabelião em 8% dos registros, mais precisamente, em 9 casos.
No I Livro de Batismo das terras consagradas à Freguesia da Gloriosa Senhora
Santa do Seridó (1803-1806), no dia 29 de maio de 1803, em casas de morada da Fazenda
Jurema, João, filho de Gabriel Fernandes de Andrade e Maria do Carmo, achava-se em
perigo de vida, sendo batizado e recebendo os exorcismo e santos óleos da Igreja pelo
João de Sousa e Silva – o ato tendo sido validado pelo padre Inácio Gonçalves de Melo.
Nas CPAB (1853 [1720]), recomendava-se que as crianças fossem batizadas em até oito
dias depois de nascidas, pois sendo este o primeiro dos sacramentos e o mais
importante, eram ocasião em que as portas da Igreja Católica abriam-se para o
indivíduo, ou seja, ele deixaria de ser pagão e teria, agora, um lugar no mundo dos
cristãos.
Como João encontrava-se em perigo de vida, para que o mesmo não chegasse a
falecer pagão, os instrumentos mágico-religiosos foram manuseados pelo João de
Sousa Silva; era de preferência da Igreja que o batismo fosse realizado na sua sede, mas
ela abria exceções, como no caso de João, que se encontrava em “perigo de vida”, para
que a cerimônia ocorresse fora de suas quatro paredes. O que queremos ressaltar é que
o indivíduo a ministrar as águas do batismo e os santos óleos, segundo as CPAB (1853
[1720]), poderia ser, até mesmo, mulher e/ou infiel, mas que deveria estar ungido das
motivações da Igreja para realizar tal ato, portanto, e em se tratando do lugar social
ocupado pelo escrivão e tabelião na sociedade do Novo Mundo, não era e não foi por
acaso a escolha do João de Sousa e Silva.
Dotado de todo o prestígio social que o seu ofício lhe garantia, João de Sousa e
Silva também ligou-se espiritualmente com sujeitos, ocupando o lugar de padrinho de
Irineu, batizado na Capela do Jardim de Piranhas, em 1 de janeiro de 1815, como
encontrado no II Livro de Batismo FGSSAS (1814-1818). Além dele, no III Livro de

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Batismo FGSSAS (1818-1822), João de Sousa e sua irmã Ana Maria da Trindade
apadrinharam Manoel, em 29 de setembro de 1822, filho de Gonçalo Álvares de Farias
e Francisca Xavier das Chagas.
Como ora elucidado, o lugar de primeira e segunda testemunha de casamento
detinha subjetividades para além daquelas religiosas, João de Sousa e Silva, por sua
vez, no I Livro de Casamento da FGSSAS (1788-1809), atuou como testemunha de
primeira posição em 8 dos 543 casos, representando 6%; na segunda posição dos
sujeitos “testadores da fé”, ele está presente em 18 ocasiões matrimoniais, o que
representa 14%. Além destes, soma-se à conta o II Livro de Casamento da FGSSAS
(1809-1821), figurando pela última vez, no dia 20 de setembro de 1813, segundo os
registros paroquias, como segunda testemunha de casamento.
A “escrita”, composta de regras intrínsecas e extrínsecas, utilizada como forma
de poder e legitimação do mesmo, das instituições representativas do poderio político,
econômico e social, estendeu-se para os sujeitos encarregados de realizarem os “atos
de escrita” (RACHI, 2016). A ligação, fortemente presente nos dois escrivães e tabeliães
aqui trabalhados, como, por exemplo, com a instituição religiosa, demonstra, entre
tantos flancos, o quanto é característico e particular, para os sujeitos que manejam as
letras, uma distinção social exercida dos “centros de poder” alongando-se até as suas
zonas mais periféricas.

MANOEL PEREIRA DA SILVA CASTRO


Outro sujeito, cuja raiz, oriunda da Capitania da Paraíba, estendeu-se até o solo
da Ribeira do Seridó, mantendo sua estadia na documentação de 1808, no inventário
post-mortem de João de Góis de Mendonça, foi Manoel Pereira da Silva Castro, o
escrivão do processo. O mesmo era casado com Maria Bandeira de Melo e pai de quatro
filhos, segundo a “qualidade” na averbação, “B”201: Antônio, Esmeraldina, Delfina e
Antônio – este, batizado em 1819, sendo a baliza temporal de permanência do escrivão
nas terras devotadas à Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó, de acordo com o II e III
Livro de Batismo FGSSAS (1814-1822).

201Não é possível dizermos com clareza qual “qualidade” expressa-se com a letra “B”. Entretanto,
aportando-se em percepções e interpretações pessoais, com base na observação dos dados empíricos
coletados junto às fontes paroquiais, acreditamos que fosse o designativo de “branco”.

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Tratando-se deste sujeito, não conseguimos encontrar, para além dos 17


inventários post-mortem em que ele exerceu seu ofício, outras fontes judiciais em que
ele tenha sido responsável pela redação da peça jurídica. Também foi escassa a procura
nas celebrações católicas da FGSSAS (batismo, casamento e óbito). Indagamo-nos se,
ao contrário do Antonio Vaz Ferreira Júnior e João de Sousa e Silva, que
desempenharam e tinham bases para serem, além de escrivães ordinários, tabeliães da
Ribeira do Seridó, a falta deste título à pessoa de Manoel Pereira da Silva Castro possa
ter “anulado” uma participação mais efetiva no bojo social. Entrementes, a
documentação que dispomos não nos fornece este tipo de informação.
Além disto, uma outra explicação/hipótese pode ser dada, pois se analisarmos
que, respectivamente, Antonio Vaz Ferreira Júnior e João de Sousa e Silva,
contemporâneos, permaneceram na Vila Nova do Príncipe por 22 e 28 anos,
respectivamente, e o escrivão Manoel Pereira da Silva Castro por 11 anos, coexistindo,
ainda, com o primeiro, o mesmo vai ser detentor de um prestígio social menor, em
decorrência da sua migração ter ocorrido mais de uma década depois.
Todavia, não podemos desprezar o número significativo de inventários post-
mortem em que o mesmo atuou (17) em 11 anos, bem como, levando em consideração
que manuscrever os processos jurídicos, fosse tabelião ou não, é um indicativo de que
o indivíduo era dotado de “fé pública”, como assegurado no Dicionário de Bluteau (1712-
1728):

Fé. Testemunho autentico, ou o que o Escrivão, ou outro official de


justiça porta por fé. Scripta testificatio, onis. Fem. Daqui vem, que
dizemos, Dar, ou naõ dar fé de alguém. Vistes a fullano? Vidisti
hominem? Naõ dei fé delle. Illum non vidi. (p.52, 8 v). (Grifo nosso)

São através destas minuciosidades que acontecem as “relações sociais do


escrito” (RACHI, 2016). As letras, comumente usadas como dispositivos de manutenção,
inclusão, segregação e intenções de poder, desempenharam, para as pessoas que a
dominassem, um fator de notoriedade na sociedade colonial. Não diferente, nos sertões
do Seridó, no qual estes indivíduos eram reconhecidos como diferentes por outras
pessoas e tinham uma legitimidade ímpar com as duas maiores instituições de poder
deste período – a Igreja e a Justiça.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Foi possível fazermos um levantamento quantitativo, a partir das fontes
judiciais que dispúnhamos – inventários post-mortem e cartas de alforria – dos
escrivães e/ou tabeliães Antonio Vaz Ferreira Júnior, João de Sousa e Silva e Manoel
Pereira da Silva Castro exercendo os seus “atos de escrita” (RACHI, 2016). Lembremo-
nos que, por mais que estes sujeitos estivessem exercendo os seus ofícios cotidianos,
produzindo uma gama de processos com variadas finalidades e intenções, qualquer
modalidade de linguagem representa modos de expressão, crenças e princípios de um
determinado tempo e espaço.
O modelo formal, como é o caso da esfera jurídica, foi encarado como legítimo
por conter regras que conferem fidedignidade ao texto, sendo utilizado pelas instâncias
de poder, segundo Sílvia Rachi (2016). Responsáveis, ademais, por encabeçar uma
realidade de manutenção e dominação das relações entre os indivíduos que
extrapolaram as figuras dos escrivães e/ou tabeliães supracitados.
Na esfera de suas vidas privadas, não desassociadas do ofício que ocupavam, de
tal modo que, o prestígio conferido ao cargo ocupado, neste momento, estava
interseccionado com o sujeito de carne e osso, ou seja, não precisava estar segurando
uma pena/lápis e/ou (re)afirmando o seu lugar no universo jurídico para conferir-lhe o
“prestígio natural”, os escrivães e/ou tabeliães estão presentes em celebrações de
batismo, casamento e óbito da Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó,
apontando para o que Sílvia Rachi elucida nos seus escritos: “[a “escrita”] possibilita,
por um lado, a manutenção do poder nas mãos daqueles que dominam tal
conhecimento, com forte conexão com as instituições religiosas e elites educadas.”
(2016, p.338).
Portanto, não somente era o reconhecimento da entidade para com estes
sujeitos, mas as pessoas, no contexto social em que eles estavam inseridas, tratando-
se da Ribeira do Seridó, também eram reconhecedoras deste lugar social ocupado por
estes oficiais da Justiça, sendo reflexo desta percepção, o “parentesco espiritual” que
estes indivíduos foram convidados a se agregar.
Foi com base nestes dois universos, o jurídico e o religioso, que tentamos traçar
um perfil acerca do lugar social ocupado pelos sujeitos Antonio Vaz Ferreira Júnior,
João de Sousa e Silva e Manoel Pereira da Silva Castro. Elucidando a “escrita” (RACHI,
2016) como um instrumento intrínseco aos jogos de poderes, caracterizando

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ideologicamente as “relações sociais”, as esferas públicas e privadas e,


compreendendo que, a tessitura das letras constitui-se como um ato político,
estratégico e intencional, direta ou indiretamente, no qual foi possível vencer-se o
tempo, revelando as ideias de outras épocas e territorialidades.
Importante destacar, também, os “atos de escrita” (RACHI, 2016) para além das
pessoas que detinham este conhecimento. Por exemplo, nos inventários post-mortem,
cartas de alforria, registros de nascimento, matrimônio e falecimento, a presença
constante de diversos tipos sociais, tais como escravos e mulheres, que não
dominavam, salvo as ressalvas, por ser restrito aos mesmos, o conhecimento das
letras, é efervescente. Todavia, a falta desta habilidade nos seus cabedais intelectuais,
o que não quer dizer que não o fossem capazes de o tê-lo, não negaram a sua
participação na história, no envolvimento com os sujeitos e instituições de poder, de
serem personagens protagonistas e figurantes na vida social em que estavam
inseridos.
A “escrita” (RACHI, 2016) e os “atos de escrita” (RACHI, 2016) configuraram-se
como um dispositivo de poder social e político bastante eficaz, sobretudo por trajarem
os sujeitos que tinham o seu conhecimento de uma estima social bastante prestigiosa,
estando ligados às duas maiores pujanças do período colonial na América Portuguesa,
a Justiça e a Igreja. Escrever, a próprio punho, este sistema simbólico formado por
letras, constituindo-se em palavras, no qual tecer a mais ingênua de todas as coisas, é
versar sobre algo e falar de si próprio, mesmo que subjetivamente.

FONTES
ARQUIVO DA VARA CÍVEL DA COMARCA DE CURRAIS NOVOS (AVCCCN). Fundo da Comarca
de Currais Novos (FCCN), 3º Cartório Judiciário (3ºCJ), Inventários post-mortem, Caixas 01 a 03
(1788-1854). Fórum Municipal Desembargador Tomaz Salustino, Currais Novos, RN.

BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico.


Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712 - 1728. 8 v.

COMARCA DE CAICÓ (CC). Cidade Judiciária de Caicó. Cartas de Alforria – Livro de Notas. Vila
Nova do Príncipe, 1792-1814.

CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA BAHIA (1853 [1720]). Disponível em:


<http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/222291>. 8 de agosto 2018

FREGUESIA DA GLORIOSA SENHORA SANTA ANA DO SERIDÓ (FGSSAS). Livro de registro de


batizados nº 01 (1803-1806). Acervo da Casa Paroquial São Joaquim, Paróquia de Santa Ana,
Caicó, RN.

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A INFRAÇÃO DAS POSTURAS E ALGUNS PERFIS DE


INFRATORES DO RIO GRANDE: GUARAÍRAS202 E GOIANINHA203
(1707-1717)

Sarah Karolina Sucar Ferreira*


Orientadora: Carmen M. O. Alveal

Este trabalho tem como objetivo analisar o perfil dos indivíduos que infringiam
as posturas camarárias e quais eram essas infrações, tendo como foco a espacialidade
da região do aldeamento do Guaraíras e do povoamento de Goianinha, no período de
1707 a 1717. Para isso utilizou-se do Livro de Cartas e Provisões do Senado da Câmara
(onde se encontram os Editais de Postura) e a principal fonte utilizada para essa
pesquisa é o Livro de Correições do Senado a Câmara de Natal. Foi feito também o
cruzamento de fontes, com os registros paróquias, os Termos de Vereação e Livros de
Cartas e Provisões e sesmarias. Levando em consideração que o Senado da Câmara de
Natal era a única municipalidade na capitania até o ano de 1759, e para compreender
melhor essa instituição é necessário saber um pouco sobre o código geral que a regia.
O código Filipino, criado no período da União das Coroas, feito pelo rei Felipe II,
passou a viger no reinado do seu filho Felipe III, sendo esse código de lei impresso e
promulgado em 1603. Esse código é dividido em cinco livros. Pode-se destacar que no
primeiro livro aborda questões sobre o Senado da Câmara e suas atribuições, além dos
cargos e suas funções, como estar responsável pelos pesos e medidas, taxações e
impostos (DIAS, 2011).
De acordo com Lívia B. da Silva Barbosa, uma das práticas recorrentes da Coroa
portuguesa, no período da conquista, era a instalação de instituições administrativas,
como a Provedoria da Fazenda e a Câmara (BARBOSA, 2017- a, p. 23). Em relação à
Capitania do Rio Grande, com a retomada do domínio português, em 1659, após a
expulsão dos holandeses, um dos primeiros órgãos administrativos instituídos foi o
Senado da Câmara. Segundo o professor Rubenilson Brazão Teixeira, que identificou

202 De acordo com Luís de Câmara Cascudo, o nome Guaraíras vem de “guaraí”, que tem o significado de
uma espécie de peixe e mais “ira”, “(...) que tem o significado o diminutivo de animais, ou seja, filhotes de
guaíras”(CASCUDO, 1968).
203 O local foi chamado primeiro de Goiana, que em tupi significa abundância de caranguejo. No século

XVIII mudou o nome para Goianinha, para se diferenciar de Goiana de Pernambuco (CASCUDO,1968).
*Universidade Federal do Rio Grande do Norte, aluna de graduação.

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uma doação de chão de terra para o Conselho da Câmara da Cidade do Natal no ano de
1605, este leva a inferir que a capitania do Rio Grande teve sua primeira câmara fundada
possivelmente entre 1599 e 1605204 no termo da cidade de Natal, único local a ter foro
de municipalidade na capitania até 1759, quando as reformas pombalinas
transformaram os aldeamentos em vilas (TEIXEIRA, 2014). Natal era a única localidade
com foro de município, e por isso sua área administrativa compreendia também a outras
povoações da capitania (BARBOSA, 2017-b).
No tocante às funções da câmara, estas seriam legislar, fiscalizar, elaborar,
cumprir as ordens reais, além de fazer os bandos, editais de posturas, acórdãos,
regulamento de feriados públicos, procissões e pressionar a população a cumprir essas
ordens (BARBOSA, 2015-b). O não cumprimento dessas resultava em multas e penas,
as quais eram executadas pelos camarários. Em relação à arrecadação da câmara, essa
provinha das propriedades municipais e dos impostos e, no início, as provisões básicas
estavam isentas, como pão, sal e vinho. Outra fonte de renda eram as multas cobradas
pelos almotacés. A denúncia era incentivada pela coroa, pois o denunciante receberia
uma parte da multa e a Coroa outra (BARBOSA, 2015-b).
Em relação às posturas camarárias, segundo Thiago Dias, essas eram feitas no
início do ano, e eram colocadas em lugares públicos das cidades e das ribeiras (DIAS,
2011). E nessas regras sociais havia o que não seria permitido e o valor da multa (como
não pesar com “pesos de pedra”), além de deveres, como aqueles que possuíssem
escravos deveriam cultivar obrigatoriamente certa quantidade de gênero, para garantir
o abastecimento. Para fiscalizar as posturas, a câmara nomeava os almotacés, os quais
geralmente eram pessoas que já haviam ocupado cargos camarários anteriormente
como juízes ou vereadores (BARBOSA, 2015-b). Em se tratando da função do almotacé,
destaca-se fiscalizar os pesos e medidas, “a sanidade pública”, “controle do mercado”,
a configuração do traçado urbano, dentre outras atribuições (PEREIRA, 2001; SOUSA,
2003). O tempo de prestação de serviço desse cargo, geralmente, era curto para não
prejudicar o bem comum e evitar subornos. Em média, o tempo de serviço do almotacé

204 Por muito tempo acreditava-se que o Senado da Câmara da Cidade de Natal tinha sido fundado em
1611, mas o professor Rubenilson Brazão Teixeira questionou essa afirmação. Com base num documento
de chão de terra que foi doado à câmara de Natal, em 1605, Teixeira levanta a hipótese de que a câmara
teria sido fundada junto com a cidade em 1599, ou em 1605. O autor ainda afirma que a fundação poderia
ter sido entre essas duas datas.

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era um mês. No caso da capitania do Rio Grande poderia chegar a dois meses
(BARBOSA, 2015-b).
De acordo com Thiago Dias, as correições seriam um meio de “vigilância do
comércio” e também poderiam ser entendidas como o ato de “[...] correr os lugares,
povoados, vilas e caminhos em busca de corrigir, censurar, repreender e punir” (DIAS,
2011, p. 155). Segundo este, essas correições ocorriam duas vezes por ano. Segundo
Kleyson Bruno Chaves Barbosa, a questão do almotacé era de grande importância,
sendo 27,41% das discussões na Câmara sobre a nomeação para esse cargo,
principalmente no mês de janeiro e abril, (BARBOSA, 2015-b, p. 10-16).
Além disso, é importante enfatizar que, no período estudado, a Capitania do Rio
Grande era subordinada à administração do Governo de Pernambuco e judicialmente à
comarca da Paraíba (DIAS, 2011).
Com o objetivo de compreender a ação camarária e como ocorria essa
fiscalização, identificando quais as regras que foram estabelecidas nos editais de 1709
a 1717205, na capitania, delimitou-se o espaço geográfico de estudo do aldeamento de
Guaraíras e a povoação de Goianinha. A primeira localidade foi escolhida devido à
recorrência da citação da lagoa de Guaraíras nos editais de posturas, o que poderia
indicar uma importância dessa região para a pesca; e a segunda localidade pela relação
entre as pessoas que pescavam na lagoa acima citada e foram moradores de Goianinha.
Ademais, pretende-se analisar quais as infrações foram infringidas nessa região e se
havia diferença na aplicação das multas, e, por fim, construir o perfil de alguns
infratores. O período analisado é de 1707 a 1717206.

AS POSTURAS E A FISCALIZAÇÃO CAMARÁRIA


Dentre as responsabilidades do Senado da Câmara estava a publicação do Edital
de Posturas, o qual seria um conjunto de regras sociais de conduta, e a fiscalização do
cumprimento dessas (NOGUEIRA, 2017, p. 116). Foram analisados os editais de 1709207

205 Apesar do recorte cronológico deste trabalho começar já em 1707, foram encontrados somente os
editais de posturas para o ano de 1705 e 1709 a 1760, possivelmente os anteriores foram perdidos, pois
se tem nomeação para o cargo de almotacé para anos anteriores, como correições também.
206 Esse recorte temporal é devido à própria limitação das fontes de correições, que após essa data tem

um lapso de quase 30 anos.


207Apesar de o recorte temporal deste trabalho ser desde 1707, só foi possível ter acesso aos editais de

posturas a partir de 1709. Possivelmente os editais anteriores existiram já que havia correições em
períodos anteriores a 1709.

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a 1717, procurando identificar quais as regras que foram estabelecidas na capitania


nesse período, bem como as correições de 1707 a 1717, na região do Guaraíras e
Goianinha. Com base nos dados levantados, e por meio de uma análise quantitativa e
qualitativa, pode-se fazer o seguinte levantamento:

Tabela das posturas que não aparecem nas correições de Guaraíras e Goianinha no período estudado.
O registrador tem que vir dar conta ao Senado e ter currais e ranchos cobertos 0
suficiente

Tirar licença e molde da rede 0

Todos os moradores que tiverem escravos deveriam plantar cada cerca de 2 mil covas 0
de mandioca, e ao redor dessas plantar, carrapateiros, mamoeiros e bananeiras.

Os alqueires só devem sair da capitania com licença 0

Os índios deveriam trabalhar nas lavouras e não nas salinas, por causa da falta de 0
alimento (1710)

Tirar o sal com licença