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Natureza
Marcos B. de Carvalho, Dicionário da Terra.
Rio de Janeiro: Ed. Record, 2005. p. 338-341.

Natureza, em uma abordagem simplificada e direta, refere-se à totalidade das coisas


existentes, produzidas sem a interferência dos seres humanos e de seus agrupamentos.
Quando ações humanas interferem nos processos, os resultados são comumente chamados
sociais, culturais ou artificiais. Nas abordagens simplificadas e corriqueiras, portanto,
natureza é algo que se opõe à cultura, à sociedade e aos seus artifícios. Assim, nesse mundo
das definições simples, haveria dois tipos de coisas: as naturais e as artificiais. As primeiras
seriam feitas por forças e dinâmicas não humanas, enquanto que as segundas resultariam de
ações coletivas ou individuais de seres humanos.
Nas abordagens simplificadas, no entanto, não é apenas a verificação dos processos
que costuma ser utilizada para distinguir o que será ou não classificado de natureza. As
aparências das coisas e dos lugares também são muito consideradas e costumam até mesmo
prevalecer sobre a consideração dos processos. Nesse caso, muitas paisagens produzidas,
no todo ou em parte, por ações humanas, tais como florestas sabidamente resultantes do
manejo milenar indígena, ou as “áreas verdes” e as praças públicas construídas nos espaços
internos das cidades, ou ainda uma simples árvore plantada no interior de um
estabelecimento comercial, são invariavelmente classificadas de naturais, de pedaços da
natureza. Além dos processos e das aparências, também os ritmos, os sons e os odores
costumam ser outros ingredientes associados às distinções entre coisas naturais e artifíciais.
Situações de calma e lentidão, o barulho do mar ou o canto dos pássaros, junto com o
perfume das flores ou o odor das plantas úmidas, costumam nos deixar convictos de
estarmos diante de coisas naturais, diante da natureza.
Entretanto, se prestarmos um pouco mais de atenção apenas nisso que estamos
qualificando de definições simples e diretas da natureza, bem como nos critérios e
abordagens igualmente simplificados que segundo essas definições utilizamos para
distinguir as coisas naturais das coisas artificiais, não será difícil nos darmos conta de que
na verdade estamos diante de um conceito — natureza, natural — complexo, polêmico e de
difícil definição. As tentativas de abordagens diretas e simplificadas, que geralmente
correspondem às concepções mais difundidas sobre a natureza, apenas evidenciam isso.
Vejamos alguns exemplos dessas evidências. Quando se afirma que a expressão natureza
refere-se à totalidade das coisas existentes produzidas sem a interferência de seres
humanos, desconsidera-se que entre essas coisas está o próprio ser humano, pois, muito
provavelmente, resultamos da evolução de outros organismos não-humanos. Ou seja,
somos parte e produto da natureza. Ademais, desconsidera-se também que essa totalidade
inclui todo o resto do universo que existe para além do nosso próprio quintal, ou do nosso
próprio planeta. Portanto, as oposições/separações homem-natureza, sociedade-natureza ou
cultura-natureza, não fazem rigorosamente sentido, a não ser que sejam movidas por uma
pretensão arrogante de colocar no mesmo pé de igualdade nós (uma pequena parte) e a
grandiosidade (totalidade) de um universo cujas dimensões e conhecimento ainda nos são
inalcançaveis.
Entre os outros critérios, utilizados para as definições simplificadas de natureza e
para a distinção entre o natural e artificial, tais como as aparências das coisas, os seus
ritmos, sons e odores, também se podem extrair outras inúmeras evidências de que estamos
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diante de uma questão mais complicada do que à primeira vista se supõe. Para confirmar
isso bastaria lembrar que as idealizações e imagens estereotipadas que costumam associar
ao natural apenas aparências florestais ou bucólicas, ritmos lentos ou suaves e sons
agradáveis, arriscam-se a excluir da natureza um bom número de componentes e de
características que igualmente lhe conferem realidade.
O fato é que muitos dos ingredientes da natureza, invariavelmente caracterizada por
situações de calma, ordenamento, criação e progresso, também se movem por velocidades
que nem em imaginação conseguimos alcançar: a luz se propaga a 300 mil km/s e o som a
340 m/s, por exemplo. O Universo, com todas as suas galáxias, sua infinidade de astros,
estrelas e sistemas solares, muito possivelmente se originou do caos e de liberação
descontrolada da energia provocada por uma grande explosão — Big Bang — ocorrida há
15 bilhões de anos. E se quiséssemos apenas ilustrar com a própria dinâmica da natureza
terrestre esses componentes velozes, destruidores e omitidos nas definições idealizadas do
natural, bastaria lembrar o papel que os movimentos das placas tectônicas (os “fragmentos”
de uma crosta totalmente fraturada) exerceram, e exercem, na conformação das grandes
paisagens em todos os continentes, moldando feições de costas, arrasando montanhas e
erguendo cordilheiras, ou, então, poderíamos ainda mencionar as correntes de convecção
presentes nas camadas subterrâneas do planeta, cujas energias produzidas, comparáveis
apenas àquelas que seriam promovidas por gigantescas explosões nucleares, são, em última
análise, as responsáveis por muitos dos principais e grandes movimentos que se verificam
na superfície da Terra.
Como se vê, natureza é uma totalidade complexa que além de aberta às novidades e
aos novos integrantes produzidos pelo fluxo do tempo, contempla em sua dinâmica ou em
sua composição todas as partes ou processos costumeiramente tidos como pólos
excludentes ou em radical oposição, tais como: ordem e desordem, velocidade e lentidão,
silêncio e ruído, micro e macro, destruição e construção, orgânico e inorgânico, natural e
cultural. As definições mais comuns de natureza, no entanto, costumam editar a concepção
dessa totalidade, excluindo ou omitindo partes dos pólos, segundo os interesses e as
capacidades cognitivas dos agrupamentos humanos que as formulam.
Contextos histórico-sociais e os esquemas de vida predominantes em cada da época
e em cada sociedade, com suas correspondentes visões de mundo, é que têm conduzido os
critérios dessas edições, projetando no chamado mundo natural a ordem e os exemplos que
se quer ver seguidos nos comportamentos humanos, ou as justificativas para as posturas
socialmente aceitas e adotadas. Assim, se em determinado momento os recursos que nos
cercam são vistos como fontes inesgotáveis de matérias-primas para a acumulação
econômica, então a idéia da natureza como selva desordenada prevalecerá, pois ao ser
humano (pelo menos para alguns deles) caberá o privilégio de ordenar, domesticar e até
mesmo converter todos os seres e elementos do mundo selvagem, incluindo alguns
agrupamentos humanos, como já aconteceu nos séculos XV e XVI. Contudo, se em outro
momento, como nos séculos XVIII e XIX, o caos e a desordem ameaçam se implantar nas
sociedades, e idéias revolucionárias de transformação, de igualdade entre as pessoas e de
subversão nos costumes são difundidas, então a natureza passa a ser utilizada como o meio
de conter os ímpetos, como o lugar da “ordem e do progresso” cujo exemplo indica o
caminho a ser socialmente seguido: natural, sem convulsões, com aceitação das imposições
etc.
A eficácia desses discursos que concebem a natureza como uma espécie de modelo
e de padrão para o próprio comportamento social, depende, paradoxalmente, da aceitação
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generalizada de que natureza e sociedade, ou natureza e cultura são coisas distintas,


separadas e até mesmo opostas. Do contrário, ficariam extremamente dificultadas tanto as
ações de pilhagem e domesticação do natural, quanto as tentativas de indicá-lo como
modelo de comportamento, pois não costumamos subjugar, nem tampouco deixar-se
subjugar, por partes que consideramos integrantes de nosso próprio corpo ou de nossa
própria existência.
A filosofia dos antigos gregos é indicada unanimemente, no âmbito do pensamento
ocidental, como a grande responsável por desenvolver os argumentos teóricos que
oficializaram essa distinção entre o “mundo da natureza” e o “mundo da cultura”. Boa
parte, portanto, daquelas que caracterizamos como as definições “simples” de natureza,
devemos às concepções que nos foram legadas por filósofos que de Tales de Mileto (VI
a.C.) a Aristóteles de Estagira (IV a. C.) se dedicaram a refletir e produzir formulações
sobre o tema. Com Tales funda-se aquela que é considerada a primeira Escola filosófica —
a Escola de Mileto — e a natureza enquanto corpo distinto da sociedade humana, passa a
ser um dos principais temas da reflexão filosófica. Com Aristóteles, o último dos grandes
filósofos da Antiguidade grega, a physis (natureza em grego) adquire algumas de suas
definições mais usuais. Importante destacar que essa foi a trilha seguida pelo chamado
pensamento ocidental que, embora tenha produzido reflexões e filosofias que atingiram
grande amplitude de influências, não é a única forma de pensar existente, nem tampouco é
o desaguadouro exclusivo de todas as reflexões e pensamentos que se produzem nos
diversos agrupamentos humanos, por minoritários que sejam. Há, por exemplo, diversos
povos que ainda reproduzem culturas ancestrais não necessariamente filiadas ou totalmente
influenciadas pela racionalidade ocidental predominante. Para estes, simples e diretas são
as definições de natureza que consideram seres humanos e todos os outros seres, vivos ou
não, como integrantes de uma única e mesma trama de acontecimentos.
Definir natureza, portanto, nos remete à consideração de um conjunto complexo de
fatores e questões que, à primeira vista, não necessariamente imaginamos. Algumas das
frases e definições seguintes sintetizam isso:

“O homem é a natureza adquirindo consciência de si própria” (Elisée Reclus, geógrafo);


“O Universo não é uma idéia minha. A minha idéia de universo é que é uma idéia minha”
(Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro, poeta);
“As vulgares divisões do universo em sujeito e objeto, mundo interior e mundo exterior,
alma e corpo, só servem para suscitar equívocos. De modo que, na ciência, o objeto de
investigação não é a natutreza em si mesma, mas a natureza subordinada à maneira humana
de pôr o problema.” (Werner Heisemberg, físico);
“Não vivemos em uma, mas em muitas naturezas. Na natureza captável pelas categorias da
nossa ciência da natureza. Na physis aristotélica, na natureza cheia de deuses, na natureza
criada por Deus. Todas essas naturezas estão lá, fora da janela, mas também cá dentro.
Interferem, ‘realmente’ uma na outra. E, por vezes, uma delas predomina”. (Vilém Flusser,
filósofo)

Indicações Bibliográficas:
PRIGOGINE, I. & STENGERS, I. A Nova Aliança. Brasília: UNB, 1997.
COLLINGWOOD, R. G. Ciência e Filosofia, A Idéia de Natureza. Lisboa: Ed. Presença.
CARVALHO, M. B. O que é natureza. São Paulo: Brasiliense, 1994.