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Contextos Clínicos, 10(2):221-234, julho-dezembro 2017

Unisinos - doi: 10.4013/ctc.2017.102.07

O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de


experiência em psicanálise da clínica Borderline

Our share of every session: An experience report


in psychoanalysis of the borderline clinic

Andressa Mueller
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rua Ramiro Barcelos, 2600,
90035-003, Porto Alegre, RS, Brasil. andressalaurenh@gmail.com

Rosana Cecchini de Castro


Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Av. Unisinos, 950, 93022-750,
São Leopoldo, RS, Brasil. rosana@pro-tecno.com

Resumo. O presente artigo (relato de experiência) traz a vivência e os desdo-


bramentos de um percurso inerente à formação em psicologia, consolidada
pelo estágio profissional e, nesse caso, pela atuação clínica psicanalítica. Por
meio de um relato da experiência clínica, a terapeuta e o seu grupo de su-
pervisão de casos clínicos analisam a direção, a manifestação e a intensidade
de sintomas que sugeriram tratar-se de uma manifestação psicopatológica
dos estados limítrofes (Borderline) identificados pela relação entre a díade.
Todo o processo do vínculo e da dinâmica sobre o qual o grupo se debruçou
foi imbricado pelo período de aproximadamente um ano e meio de atendi-
mento psicoterapêutico, em que não só os aspectos transferenciais foram ob-
servados, mas, sobretudo, os aspectos contratransferenciais, entre os quais
pôde se observar, através da dinâmica psíquica incipiente da paciente, a con-
vocação à terapeuta para regredi-la aos estágios de dependência, a fim de
lhe ofertar uma espécie de maternagem. Esse processo necessita de auxílio
reflexivo, com o qual se promova atenção à saúde, tanto da dupla terapêu-
tica como do próprio vínculo, para dele seguir promovendo qualidade no
processo terapêutico. Tal auxílio reflexivo é a própria supervisão de casos
clínicos. O relato surge como uma forma de sistematizar e racionalizar essa
experiência intensa e inominável vivenciada, para ascender à reflexão, trans-
formando a experiência em conhecimento.

Palavras-chave: clínica Borderline, relato de experiência, estágio profissional.

Abstract. The present article (an experience report) brings the experience
and the unfolding of a journey inherent to the graduation in Psychology,
consolidated by the professional apprenticeship and, in this case, through
the performance on the psychoanalytical clinic. By means of a report of the
clinical experience, the therapist and her supervision group of clinical cases
analyzed the direction, manifestation and intensity of the symptoms that
suggested to be a psychopathological manifestation of the identified border-
ing recognized by the relation between the dyad. All the process of bonding
and the dynamics which the group have addressed to was imbricated by the
period of about a year and a half of psychotherapeutic care in which not only

Este é um artigo de acesso aberto, licenciado por Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), sendo
permitidas reprodução, adaptação e distribuição desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.
O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de experiência em psicanálise da clínica Borderline

the transfers aspects were looked upon but mainly the countertransference
aspects, in which we can observe, by the patient’s incipient psychic dynam-
ics, that summoned the therapist to regress to the dependence stages to offer
some kind of motherhood. This process needs a reflexive help in order to
promote attention to health, both to the therapeutical dual and to the bond
itself, so that to keep promoting quality in the therapeutical process. Such re-
flective support is the supervision of clinical cases itself. The report comes as
a way of systematizing and rationalizing this intense and unnameable expe-
rience lived, raising reflection, transforming the experience into knowledge.

Keywords: Borderline clinic, experience report, professional training.

Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que motivo que a trouxe para o tratamento – mas,
você não conhece como eu mergulhei. Não se sobretudo, que nos fez pensar em algo que não
preocupe em entender. Viver ultrapassa todo en- se internaliza em seu psiquismo fragilizado.
tendimento (Clarice Lispector, 1992).
“Não seria ameaça de perda efetivamente que
está em jogo, trata-se de não perder o objeto.
Este relato de nossa experiência1 surge em
Um estado de servidão ao outro em que o pres-
razão de uma inquietação decorrente da expe-
suposto básico seria uma falha no plano da in-
riência vivenciada no setting terapêutico com
teriorização do objeto” (Cardoso, 2007, p. 336).
uma paciente cujas características se aproxi-
Sua trama existencial movimenta nossas
mam de uma estruturação psíquica Borderline.
percepções e nosso olhar é devidamente captu-
Em aproximadamente um ano e meio de aten-
rado e, por consequência, paralisado, visto que
dimento psicológico semanal na clínica-escola
de uma universidade privada no Rio Grande ocupa significativamente nossa supervisão de
do Sul, intensos sentimentos foram experi- casos clínicos. Esse afetamento, vivenciado
mentados, principalmente na figura da estagi- pela terapeuta e compartilhado com o grupo
ária de psicologia que acompanhou o caso, em de supervisão que escuta o padecimento e a
seu estágio profissional. dinâmica da relação, problematiza e elabora
No serviço, o estágio profissional em psico- um saber não só sobre a paciente, mas, sobre-
logia tem duração de um ano e meio e, quando tudo, da terapeuta e as vicissitudes da relação.
se encerra o processo do estagiário, se realiza a A experiência decorrente dessa dinâmica rela-
passagem para outra(o) terapeuta. O paciente cional e os sentimentos suscitados no decorrer
que ainda precisar dos benefícios do espaço te- das sessões terapêuticas, em que a estagiária/
rapêutico se mantém na instituição e enfrenta terapeuta oferece o seu corpo, um ambiente
a angústia de ser ‘abandonado’ pelo profissio- favorável e, principalmente, coloca diante de
nal. Nesse sentido, ao iniciarmos o atendimen- si um espelho e resgata a paciente de um lu-
to da paciente vivenciamos uma turbulenta gar de anulação, fizeram com que a terapeuta
carga emocional, decorrente das perdas sofri- desejasse construir uma produção escrita, para
das por ocasião da passagem, ou seja, da troca pensar acerca dos encontros.
de terapeuta. No momento em que se iniciou o Em seguida, entendemos que é importante
novo vínculo, tivemos o primeiro contato com frisar, sobretudo, que a escrita venha refletir
o impacto que se produziu na paciente e que sobre a clínica analítica do pathos2, incluindo,
parece refletir não só a perda do seu irmão – além de sua mera descrição, sua teorização.

1
O Projeto para a consolidação deste artigo foi, anteriormente, aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa em
27/09/2011, sob o nº CEP 11/123, e segue todas as resoluções com vistas aos princípios éticos estabelecidos.
2
Queiroz (1999) constrói um entendimento significativo em torno do sentido de pathos entre pensadores gregos, princi-
palmente com o advento do teatro grego. A terminologia pathos, a partir da tragédia grega, revela a existência do homem
enquanto ser trágico, sofredor e mortal. Pathos, portanto, para os gregos, deve ser compreendido desde o lugar de uma
afecção, em que pressupõe qualidade do ser de poder ser alterado, ainda que ele seja passivo ao processo de padecimen-
to. Seria o significado de sofrimento, padecimento atribuído à condição mortal do sujeito. O teatro grego teria a função
de apresentar o sofrimento à sociedade e permitir um processo de reflexão através da retórica aristotélica em que temor
e compaixão, alternadamente, são formadores de uma consciência dilacerada, geradora de sentimentos contraditórios.
Assim, também pathos adquire status importante para os gregos, visto que ela produz experiência que se adquire, através
da dor. Essa experiência está relacionada com vínculo social em que há necessidade de diminuir as paixões do sujeito e
civilizá-lo.

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Andressa Mueller, Rosana Cecchini de Castro

O objeto dessa teorização é a memória incons- se momento da construção do texto, citações


ciente3. “A partir dos fragmentos de lembran- literais da fala do paciente sobre sua doença,
ças e associações aparentemente sem sentido, investigando os principais acontecimentos de
trazidos pelos pacientes em análise, Freud ia sua história de vida, associando-se à aparição
formulando inferências sobre os não-ditos nes- de seus sintomas, tornam-se relevantes.
ta clínica” (Bento e Guimarães, 2008, p. 92). No último momento do processo escri-
Em início de análise, com o enquadre ana- to, destacam-se os movimentos em torno da
lítico exitosamente consolidado, o terapeuta transferência no processo analítico, em que se
formula uma hipótese metapsicológica consi- faz uma descrição da história da paixão-trans-
derando-a pela ação de materiais de experi- ferência do paciente, no tratamento analítico.
ências recalcadas, primordialmente do analis- Aqui, nos situamos no “segundo tempo da clí-
ta, que tende retornar à consciência por algo nica analítica” (Bento e Guimarães, 2008, p. 94).
“estranhamente familiar”. O caráter especular Assim, se prioriza a descrição dos cenários
do psicopatológico do paciente, concluiu os transferenciais4 e contratransferenciais5, não
articulistas, colabora com a reflexão da “psi- só na situação analítica, como também a par-
copatologia da contratransferência” (Moura e tir da supervisão. Interessante salientar que a
Iribarry, 2000, p. 73). Nesse sentido, a escrita proposta da escrita, por se tratar de uma inves-
ressalta, em seu caráter estrutural, caracterís- tigação do “pathos-paixão-transferência” e o
ticas, conforme Iribarry (2003), de um ‘entre’, estilo do material escrito contêm propriedades
situando a audácia em nos fazermos, ainda de um texto romanesco. O relato da história e
que pela via da “irracionalidade artística”, a descrição dos afetos, no contexto da relação
provedores de um conhecimento sistemático. paciente-terapeuta com citações literais da fala
Assim, o texto busca o ócio infantil e o entu- do caso, seguidas da intervenção e/ou do en-
siasmo pelo já feito. O proposto ensaio não tendimento do terapeuta, adquirem relevân-
comenta e não classifica, mas reflete; delira e cia para a análise de dados do caso estudado
inventa coisas, onde não há. É criatividade e (Bento e Guimarães, 2008).
sensibilidade sobrepondo-se à objetividade. Finalizamos, portanto, o relato de expe-
Da escrita, no sentido de sua sistematiza- riência, fazendo uma análise que articula os
ção, tomaremos em primeiro lugar o pathos- principais conceitos de Winnicott, Balint e seus
-doença e a descrição da história da doença contemporâneos, que subsidiam teoricamente
para, em seguida, enfatizar o pathos-paixão- a atividade prática, verificada no manejo clí-
-transferência e a descrição da história da pai- nico com pacientes Borderline, na qual a inter-
xão-transferência do paciente no tratamento pretação precisa ser descolada em seu sentido
analítico. No primeiro momento da escrita, e, por conseguinte, enfatizar a ideia da sobre-
ressalta-se o registro dos dados anamnésicos, vivência à trama da falha e possibilitar quali-
com o intuito de compor a história clínica ou dade de presença. O constituir-se terapeuta e a
da doença. Daqui o relato da doença deve ser formação em psicologia também se agregam à
relacionado com os acontecimentos da histó- escrita reflexiva a que nos propomos.
ria de vida da paciente. Portanto, inicialmente,
a escrita versa a partir da mera “descrição da A história de Mortícia
evolução da sintomatologia da paciente, des-
de seu aparecimento até suas manifestações Neste primeiro momento, caberia falar acer-
atuais, antes da análise propriamente dita do ca das razões para a escolha do nome atribuído
caso” (Bento e Guimarães, 2008, p. 94). Nes- à paciente: Mortícia, nome que em nada cor-

3
Coutinho (1998 in Bento e Guimarães, 2008, p. 93) salienta que “no campo do conhecimento, memória é marca, é inscri-
ção do prazer e da dor”. Daqui que a escrita do caso em psicanálise toma forma, uma vez que o trabalho se constitui em
transformar o prazer bem como a dor da inscrição em escrita. Dessa forma, se evidencia os significados inconscientes das
palavras, das ações, das produções imaginárias de um sujeito.
4
Em Laplanche e Pontalis (2004 [1982], p. 514) “o termo transferência designa em psicanálise o processo pelo qual os
desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadre de um certo tipo de relação estabelecida com
eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica. Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis, vivida com
um sentimento de atualidade acentuada. É à transferência no tratamento que os psicanalistas chamam, a maior parte das
vezes, transferência, sem qualquer outro qualitativo. A transferência é classicamente reconhecida como terreno em que se
dá a problemática de um tratamento psicanalítico, pois, são a sua instalação, as suas modalidades, a sua interpretação e a
sua resolução que caracterizam este”.
5
Em Laplanche e Pontalis (2004 [1982], p. 102) “o termo contratransferência designa conjunto das reações inconscientes
do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste”.

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O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de experiência em psicanálise da clínica Borderline

responde à personagem da “família Adams” Como se pode perceber, o meio familiar


e que, no sentido físico em específico, remete tem uma dinâmica extremamente violenta.
à personagem cinematográfica extremamente No estudo da família, encontramos entre os ir-
“sexy”, vaidosa e ardilosa. O que, talvez, te- mãos – incluindo Mortícia – duas mortes entre
nham em semelhança, seja o interesse – ou por- dois membros do sexo masculino: um sem co-
que não arriscar – a identificação com a morte. nhecimento de causa, e outro, por assassinato.
Denominamos como Mortícia porque seus Também há dois casos de alcoolismo grave e
investimentos pulsionais são de ordem narcísi- duas tentativas de suicídio.
ca, contidas em si, autoconservação necessária Mortícia sempre teve boa relação com o ir-
que já fora nomeada por Freud como pulsão de mão que fora assassinado. Ela comunica, em
morte. Ao longo do texto, outras razões operam diversas sessões, que os dois eram muito “gru-
em justificativas, para assim a enxergarmos. dados” (sic). Refere-se a ele como um irmão
Mortícia, atualmente, tem trinta e dois anos cuidador, muitas vezes, como um pai, porque
de idade. No entanto, aparenta ter alguns anos mesmo envolvido no crime, para os familia-
a mais. Esse envelhecimento, um tanto pre- res, agia como protetor. Formam, segundo ela,
coce, parece informar acerca de sua história, uma dupla para cuidar dos demais irmãos.
cujos sofrimentos sucessivos, desde a infância, Daqui, vamos entendendo que Mortícia, desde
angústias e, sobretudo, falta de esperança em cedo, foi necessitando criar estratégias e cuida-
sua vida, registram, em seu corpo, a dimensão dos para enfrentar as adversidades do contex-
astronômica da dor psíquica. to violento em que se desenvolveram.
Nossa paciente tem dez irmãos, de dois Aos quinze anos de idade, Mortícia engra-
pais diferentes. A primeira união que sua mãe vida de uma relação casual. Por ter engravi-
consolidou durou cerca de trinta e cinco anos dado, sofreu diversas outras violências do pai
e, dessa relação, teve cinco filhos. Do segundo como, por exemplo, lhe retirarem a cama e,
e atual casamento, deu à luz mais cinco filhos. muitas vezes, ficar sem o que comer como for-
Mortícia é a segunda filha a nascer dessa últi- ma de punição. Após dois anos do nascimento
ma relação que a mãe estabeleceu. de sua primeira filha, casa-se com seu atual
De acordo com os relatos de Mortícia, a fa- companheiro, dezessete anos mais velho, por
mília reconstitui-se e seu pai aceita os irmãos quem fala não sentir amor e com quem teve
do outro casamento, configurando uma famí- um casal de filhos, atualmente, um deles com
lia significativamente grande. O número pro- treze e o outro com doze anos de idade.
porcional de filhos está inversamente propor- Mortícia expressa que sente um carinho
cional aos cuidados oferecidos às necessidades “sufocador” por sua filha mais velha. Sempre
de cada um dos membros dessa família. Nessa demonstra medo de que ela se distancie dema-
nova configuração familiar, o pai é um alcoo- siadamente de seu controle. Já se utilizou de
lista que, em alguns momentos, usava de um termos em que a filha está em uma bolha. Per-
domínio coercitivo sobre os meninos do ‘outro cebe-se que Mortícia tem um sentimento pe-
marido’, ou seja, havia, nesse contexto, violên- culiar a cada um de seus filhos. Evidenciamos
cia física e psicológica. o sufocamento e mesmo a negligência com a
Em uma das sessões, Mortícia relata à te- filha menor que, muitas vezes, lhe demanda
rapeuta, com muita dificuldade, sobre alguns por notória necessidade de ser percebida.
eventos dos quais foi vítima. Conta que mo- Mortícia procura por atendimento no ser-
ravam e mantinham uma pensão. Nesse local, viço porque perdera o irmão, brutalmente
não só presenciou cenas traumáticas, como assassinado. Nesse momento da perda, teve
também, foi vítima de abuso sexual. Comenta diversas manifestações psíquicas e somáticas:
que seu pai sempre estava bêbado e sua mãe depressão, desmaios, sensação de falta de ar
aproveitava para traí-lo, com os moradores/ e sufocamento, devidas às intensas angústias
pensionistas. Em algumas vezes, ela aliciava decorrentes da perda.
Mortícia para esses sujeitos. Também, em al- A paciente foi diagnosticada com trans-
gumas noites, ela acordava sendo “acaricia- torno do humor bipolar pelo psiquiatra que a
da”, em suas regiões íntimas, por esses abu- assistia periodicamente e que lhe receitava me-
sadores. A mãe de Mortícia também aliciava dicamentos psicofármacos e ansiolíticos com
o irmão menor, com aproximadamente cinco os quais tentou, algumas vezes, o suicídio, ad-
anos de diferença de idade da menina. Dizia, ministrando-os abusivamente e, mais recente-
muitas vezes, que o menino tinha “jeitinho” mente, tentou atirar-se contra um automóvel.
(sic) para ser homossexual. Este “background” psiquiátrico sustenta e, ao

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Andressa Mueller, Rosana Cecchini de Castro

mesmo tempo, desvela a dinâmica incipiente por todos que padeciam no mundo; em outros
da paciente com as quais suas oscilações, bem momentos, uma sensação de invasão lhe aco-
como suas instabilidades emocionais, exem- metia. Relata que, algumas vezes, seu esposo
plificam suas problemáticas, especificamente necessitava convidar as pessoas para que se
as de ordem relacional. Mortícia tem controla- retirassem de sua casa, porque apresentava
do seus familiares, inclusive a terapeuta, com a angústias intensas.
ideia suicida, porque essa é a única forma que A paciente costumava ser mais prestativa
nos pareceu ser possível para manter seus ob- com os irmãos do que com os próprios filhos.
jetos de amores presos à sua trama existencial. Às vezes, nos indagávamos com o fato de que
Já atendida por três terapeutas diferentes, Mortícia, frequentemente, não estava ligada ao
iniciou seus dois atendimentos psicoterapêu- seu grupo familiar, mas presa à família de ori-
ticos juntamente com seus familiares, em uma gem. Em outros momentos, igualmente, certo
clínica de referencial teórico sistêmico. A úl- estranhamento de que sua mãe havia falecido,
tima terapeuta dessa abordagem teórica pro- era presente. No entanto, com o tempo, essa
cura uma das supervisões da teoria psicanalí- figura materna começou a ser incorporada em
tica, onde, naquele tempo, a terapeuta que se nossos encontros. Mortícia sempre questio-
propõe a realizar essa escrita estava inserida. nava o comportamento de sua mãe, desvalo-
Encaminham Mortícia à clínica mais vivencial, rizando-a, continuamente. Desejava que sua
para que possa vincular-se. Foi o seu primeiro mãe correspondesse a um comportamento que
tratamento individualizado, com a intenção reparasse a real falha ambiental pela qual pas-
de promoção de vínculo e de processo de sua sou no início da vida.
demanda de sofrimento, impedido de se ma-
nifestar no espaço terapêutico no qual se inse- O Encontro Terapêutico: A terapeuta
riam todos os membros da família.
Nossos primeiros encontros foram muito
“Amélie Poulain” e as vicissitudes do
difíceis, sessões pesadas em que Mortícia fala- encontro com “Mortícia”
va das preocupações, um tanto obsessivas que
costuma ter com os cuidados de seus irmãos, Para ascendermos à discussão contratrans-
todos adultos. Nem mencionava, inicialmente, ferencial no presente relato, faz-se necessário
seus filhos. Mortícia tinha uma fantasia que, se contextualizar, entre diversos conceitos psi-
tivesse falado com o seu irmão, um dia antes canalíticos existentes do fenômeno em ques-
do assassinato, o mesmo não teria morrido, de tão, com base nas ideias de Figueiredo (2008),
forma trágica. Começa com um cuidado exces- quando alude a uma forma peculiar no enten-
sivo como forma de reparação e de evitação de dimento contratransferencial, a qual denomi-
novos eventos traumáticos. Mortícia parecia nou de contratransferência primordial, enten-
se identificar com situações e pessoas para as dida como:
quais pudesse ser útil e prestar cuidados, sem
olhar a quem. Desses relatos, sempre ficava a Um deixar-se colocar diante do sofrimento antes
sensação de que Mortícia transformava-se em mesmo de se saber do que e quem se trata; cor-
responde justamente à disponibilidade humana
um ambiente extremamente previsível e aco-
para funcionar como suporte de transferências
lhedor, como uma forma de reparar algo que e de outras modalidades de demandas afetivas e
não lhe fora ofertado e que ainda necessita; comportamentais profundas e primitivas, vindo
uma espécie de restauração da falha ambiental a ser um deixar-se afetar e interpelar pelo sofri-
no início de seu desenvolvimento. mento alheio no que tem de desmesurado e mes-
Em diversas sessões, apenas falava de mor- mo de incomensurável, não só desconhecido como
te, de medo, sempre relatando situações de tra- incompreensível (Figueiredo, 2008, p. 128).
gédias, em que essas lhe faziam mal, de acordo
com as angústias relatadas. Porém, percebia-se Em outras palavras, terapeuta e paciente
uma necessidade de produzir esses discursos seriam afetadas uma pela outra, desencadean-
para, em seguida, controlá-los. Essa retórica do um processo existencial e complexificando,
parecia lhe retroalimentar, como compulsão à de forma ampla, o entendimento do mundo e
repetição de uma falha de um ambiente- mãe. da experiência do existir.
Queixa-se que todas as pessoas são culpadas A terapeuta no seu primeiro dia de estágio
por se sentir dessa forma, porque sempre a profissional, encontra-se muito ansiosa, por
chamavam para resolver tais assuntos. Em de- conta das passagens pelas quais iria se sub-
terminados momentos, sentia-se responsável meter com pacientes e seus respectivos tera-

Contextos Clínicos, vol. 10, n. 2, Julho-Dezembro 2017 225


O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de experiência em psicanálise da clínica Borderline

peutas, em fase de conclusão de estágio. Ela tícia, respectivamente venham a representar, na


sabia que isso se atravessaria entre a relação escrita de estilo romanesco, a terapeuta, o grupo
da dupla terapêutica e, possivelmente, não se- de supervisão de casos clínicos e a paciente.
ria muito bem aceita pelo paciente que, ainda, Amélie reconhece em si características de
se vê tomado pelas sensações e fantasias da Mortícia, porém as percebe apenas como traços
perda. No entanto, ao ser chamada para co- em sua personalidade. Contudo, em Mortícia,
nhecer a sua primeira paciente, depara-se com ainda por certa inflexibilidade em se constituir
demonstrações intensas em relação à despedi- pelo encontro, necessita utilizar-se de defesas
da: o choro convulsivo de Mortícia e a negação rígidas, como estratégia única de sobrevivên-
do estado de luto pelo qual passa, dificultam cia! Mas, possivelmente, ao refletir, nesse mo-
o primeiro contato entre elas. A terapeuta sai mento, sobre as razões que levam não somente
do primeiro encontro com sensação de muito a terapeuta; mas, sobretudo, o grupo de super-
medo e, assim, sente seu corpo acionar defesas visão de casos clínicos a escrever o presente
que a protegeriam dos ataques que viriam a artigo, constatou-se que algo do recalcamento
seguir. Ao iniciar seu percurso como terapeu- da terapeuta parece retornar e necessitar novas
ta, necessita construir abruptamente um lugar acomodações para atender Mortícia.
que sirva como ‘para-raios’ das forças intru- O clímax do filme ocorre quando Amélie
sivo-agressivas de Mortícia. Por conseguinte, cria estratégias para auxiliar os outros a se
fica evidente que a escuta clínica e seus des- depararem com a vida que levam; marcadas,
dobramentos, inicialmente, circulam como um na maioria das vezes, por um lugar de reclu-
furacão, cuja intensidade não permite outro são, de ressentimento e de evitação. Inexo-
movimento senão o de se proteger! ravelmente, Amélie compreende os conflitos
O lugar ocupado pela terapeuta, nessa ex- alheios como possibilidades de envolver-se,
periência, lembrava a personagem “Amélie não só com um outro diferente de si, mas,
Poulain” – do filme O fabuloso destino de Amé- sobretudo, a partir das trocas suscitadas na
lie Poulain- já o da paciente, “Mortícia”, assim experiência do campo relacional/existencial,
como o nome em alusão à pulsão de morte de- para resgatar e perlaborar algo de seus confli-
flagra o destino de seus investimentos pulsio- tos e sofrimentos, visto que também se iden-
nais. O filme O fabuloso destino de Amélie Poulain tifica e incorpora, em seus movimentos de
retrata o cenário contemporâneo do mal-estar vida, algo da ordem de autoconservação. No
vivido pelo vazio, assim como ilustra a forma entanto, não imaginava que, ao construir um
de se subjetivar com traços narcísicos na pós- significado de vida a outro sujeito desejante,
-modernidade. Entre diversas personagens estaria, ainda que indiretamente, (re)visitan-
traremos, para o presente artigo, apenas dois do suas problemáticas e aventurando-se em
deles: Amélie Poulain e o homem de vidro. compreender as vicissitudes da experiência
Para Amélie, a reclusão em si mesmo aparece subjetiva, decorrentes do sofrimento.
como estratégia de sobrevivência contra a qual Em determinado momento do filme, Amé-
se luta das invasões intempestivas de forças lie encontra, atrás da parede de sua casa, uma
difusas e constituintes. Por sua vez, o homem pequena caixa com objetos característicos da
de vidro condenado às dinâmicas das relações infância, cujo dono seria um antigo morador
por causa de uma doença congênita nos ossos da casa, quando criança. No entanto, quan-
conecta-se à pintura, à arte e, ao pintar suas do vai à procura do proprietário do pequeno
obras, relaciona-se com a própria produção. tesouro, aparentemente singelo e distante de
Fala, na trama, da sensação de que os olhares seu universo, Amélie sente que o mesmo pode
das personagens por ele pintados mudam em lhe proporcionar um novo significado de vida,
direções que o confundem, algumas vezes; en- que remonte sua própria infância e resgate afe-
tretanto, existe uma menina que fica no cen- tos. As relações que vai construindo, pois, per-
tro de sua obra, de quem ainda não conseguiu mitem, para além da palavra, um movimento
compreender o enigmático olhar. de vinculação e, com esse, um restaurar de
Mortícia é nossa personagem principal, po- seus afetos, de seus desejos e, principalmen-
rém, deslocada de contexto, propositalmente, te, de sua confiança. Se caso percebesse que o
para representar a constituição de falso self, efeito fosse potencializador, estaria disposta a
verificado em pacientes Borderline (Winnicott, ajudar a tantos outros.
1983 [1960]). Dessa forma, é importante que o Do contexto cinematográfico ao processo
leitor possa compreender que as personagens clínico de Mortícia – que, em nossa supervisão,
como Amélie Poulain, homem de vidro e a Mor- muitas vezes, ocupou nosso centro por tempos

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Andressa Mueller, Rosana Cecchini de Castro

infindáveis com a intensa demanda que emer- um trauma para a sua psique, pois, ele ainda
ge de suas problemáticas – como na pintura do não está preparado para recebê-lo, não há ego
homem de vidro, ela estava no centro, todavia, suficiente, não podendo ainda compreendê-
seu olhar era difícil de ser capturado e era ne- -lo como uma experiência completa e integrá-
cessário sensibilidade para apreendê-lo. Faz-se -la (Winnicott, 1982 [1963]). Como função
evidente que, em nossa supervisão, ao relatar materna, a mãe suficientemente boa, que res-
as questões próprias da paciente, por muitas ponde à onipotência do bebê e, de certa for-
vezes a terapeuta cede o seu corpo, sua fala – ma, lhe dá sentido, possui, também, uma fun-
legítimo processo de laboratório de atores que ção simbólica, já que supre e, gradualmente,
emprestam o corpo para mostrar outro ser, que falha, em sua capacidade de dar respostas.
não ele, em sua totalidade. Estamos querendo É importante que ela suporte e sustente, pelo
enfatizar que o olhar, aqui, da supervisão, re- tempo suficiente, o gesto pelo qual o dese-
caia diretamente à Mortícia, mas, entre eles, ha- jo tenta se escrever com o corpo. Assim, um
via o corpo da terapeuta, que intermediava esse elemento autêntico no self se constrói sobre a
processo. Portanto, o homem de vidro captura identificação com o objeto, no campo relacio-
o olhar de Mortícia, que se “reapresenta” como nal (Winnicott, 1978a [1945]).
lentes de contato em Amélie. Amélie, aos poucos, reconhece as necessi-
Após certo período de atendimentos, ficou o dades de Mortícia por aquilo que ela oferta de-
questionamento sobre seu sofrimento. Será esse liberadamente aos outros e que lhe falta desde
padecimento, a que está submetida, decorrente o princípio: a confiança. O contaste ataque ao
única e exclusivamente pela perda brutal de seu vínculo identificado por Amélie ressalta as
irmão ou a perda representa aquilo que tem lhe necessidades reais de Mortícia por aquilo que
caracterizado, enquanto um ser que sofre pelo não é possível ser dito e sim atuado, princi-
vazio da alma? O temor da perda ecoa com o palmente, por conta de um imperativo de re-
vazio nascido de uma impossibilidade de intro- cursos defensivos, como o do falso Self. Um
jeção do objeto absolutamente necessário6, que discurso pronto, nada refletivo que sugeria a
pode ser entendido a partir de Winnicott (1982 uma defesa psíquica inversa ao desejo incons-
[1963]), com a reflexão em torno da necessida- ciente da busca por um objeto que sustente a
de do bebê de sustentação, para que esse de- ilusão onipotente. Trata-se da forma de, como
senvolvimento da dependência absoluta, passe no processo terapêutico, a paciente, através da
pela dependência relativa até que, por fim, a relação/vínculo que estabelece, vai anuncian-
independência ocorra. No tempo da dependên- do algo da ordem de uma constituição de um
cia absoluta, o lactante ainda não separou o eu falso self (Winnicott, 1983 [1960]).
do não-eu: é um ser imaturo, que permanece à Para nos auxiliar, Naffah Neto (2007) –
beira de uma angústia impensável – que, mais quando se dedicou ao estudo do falso self, a
tarde, Winnicott vem a chamar de agonia primi- partir dos pressupostos teóricos winnicottia-
tiva – e que acontece, de forma possível, graças nos, pode compreender o falso self cindido
à presença dos pais, que lá estão para ver, ou- em pacientes Borderline, enquanto defesa es-
vir, sustentar e manejar o bebê (Winnicott, 1982 quizofrênica. O falso self cindido surge como
[1963]; Abram, 2000; Newman, 2003). consequência defensiva, para reagir à mãe
Na história de Mortícia, esses cuidados ini- insuficientemente boa, que não supriu as ne-
ciais foram negligenciados por um ambiente/ cessidades básicas do filho, no tempo e nas
objeto absolutamente necessário, que não lhe formas apropriadas. Como cisão, enquanto
ofereceu, de forma adequada, essa progres- função protetora, impele, por conseguinte, que
são psíquica do processo maturacional, en- novos eventos/experiências sejam agregados à
quanto bebê. A reação do lactente, diante de sua psique, sendo apenas em alguns casos pro-
um ambiente intrusivo ou mesmo negligente cessados, de forma lacunar ou parcial.
– ao qual não conseguiu desadaptar-se gra- Para Naffah Neto (2007) ocorre uma divi-
dualmente – constitui-se em um choque e em são em dois subtipos de pacientes Borderline: o

6
“Essa noção foi descrita por André Green (1990), psicanalista franco-egípcio, que desenvolveu uma ampla pesquisa
sobre as relações de objeto a partir de um outro referencial, que supõe as bases da constituição do aparelho psíquico
assentadas sobre a relação com o objeto absolutamente necessário, que para ele é representado pela mãe. Trata-se de um
pressuposto que por sua vez norteará sua teorização acerca dos casos-limite, ou Borderline” (Zilberleib, 2006, p. 54). O
conceito de objeto absolutamente necessário ecoa com as contribuições de Winnicott (1988 [1956]), em torno do conceito
de Preocupação materna primária (grifo dos autores).

Contextos Clínicos, vol. 10, n. 2, Julho-Dezembro 2017 227


O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de experiência em psicanálise da clínica Borderline

primeiro por ele denominado de “Personalidade cional – a primeira posse não-eu da criança,
esquizóide” e, o segundo, denominado por He- que promove a construção articuladora com a
len Deutsch (1942 in Naffah Neto, 2007), como alteridade em sua psique – visto que se colo-
Personalidade “como se”, ambas as formas em ca no ambiente para ser encontrada por Mor-
descrevê-las sugerem comportamento de defe- tícia, que viabiliza, ativamente, a experiência
sa ao caos no ambiente. Ou seja, “as falhas de ilusória de onipotência, ao mesmo tempo em
adaptação do ambiente ao bebê podem atingir que a confronta, com os limites impostos pela
diferentes níveis, com consequências diversas” alteridade do mundo externo. O objeto transi-
(Naffah Neto, 2007, p. 80). Daqui, destacam-se cional é resistente, porém, a criança age sobre
os processos em que houve, ainda que minima- ele pela ação criadora, oportunizando, gradu-
mente, a constituição de um objeto subjetivo e almente, o reconhecimento de autonomia, ao
de ilusão de onipotência, em que o sujeito se re- dar expressão externa às suas fantasias e aos
laciona com a realidade obscuramente. Trata- seus desejos (Winnicott, 1978b [1951]).
-se, portanto, da personalidade esquizoide: Amélie, no início dos encontros, construía
pontuações favoráveis, para que Mortícia pu-
A relação com o objeto subjetivo foi protegida e desse pensar sobre o lugar que ocupava nas re-
colocada fora de contato com o ambiente, perma-
lações. Tentava lhe produzir estranhamentos,
necendo circunscrita a uma dinâmica onipotente.
Para funcionar como pára-choque frente ao seio
quanto à necessidade de ficar controlando e se
aterrorizante foi criado um falso self por hiper- vinculando obstinadamente aos outros, de for-
trofia e cisão da função mental, que passou en- ma a não enxergar-se. Relacionava-se, o tempo
tão a vigiar e controlar, por vias intelectuais, os todo, por uma ligação de dependência, em que
acontecimentos ambientais (Naffah Neto, 2007, produzia e, ao mesmo tempo, sentia como in-
p. 81). trusiva; verdadeiro ato de compulsão à repeti-
ção, como bem sinaliza Kusnetzoff (1982), ao
O que se evidencia, muitas vezes, na expe- retomar o comportamento do repetir como ne-
riência clínica com esse tipo de paciente, é o cessidade de elaboração ativa do padecimento
discurso deliberado e retórico: ele parece viver que se processou passivamente, como a perda
um drama existencial em relação ao ambien- de algo. Nesse caso, pensamos na falha do ob-
te. Se, por um lado, não valoriza o ambiente; jeto primordial e o comportamento repetitivo
por outro, a disponibilidade é tão intensa, que como necessidade de perlaboração.
parece perder a identidade individual. Assim, Em uma de suas pontuações, Amélie ques-
Amélie compreende como Mortícia sente-se tiona sobre seus desejos, de modo que pu-
culpada com a morte do irmão, porque é de desse fazê-la perceber seu vazio existencial.
seu funcionamento controlar o ambiente e as Acreditamos que Amélie não foi feliz nessa
situações, como garantia de segurança. Em seu colocação, visto que é uma paciente a ser tra-
pensamento, visivelmente onipotente, fantasia tada pela necessidade e não pelo desejo que é
que, se tivesse falado com o irmão antes da tra- algo mais elaborado. Mortícia, assim, esteve
gédia da qual foi vítima, teria evitado tanto a diante de um paradoxo em formular hipóte-
morte de seu ente, quanto, e principalmente, o ses para o seu desejo, de fazer escolhas e, tam-
sofrimento decorrente dessa perda. bém, renúncias as quais tratam justamente de
Fica evidente o quanto Mortícia está presa um lugar de perda, representação concreta
em uma lógica relacional por onipotência e, de seu sofrimento, que aumentou suas resis-
por conseguinte, o nosso trabalho incide sobre tências. Dessa forma, entendemos as conside-
essa cisão, por um espaço potencial entendido: rações de Figueiredo e Cintra (2004), quando
sustentam que existiria, a partir da linguagem,
Como um campo onde o aparecimento dos objetos uma impossibilidade em usá-la, no sentido de
transicionais (Winnicott, 1978b [1951]) (nem
sustentar o seu desejo, visto que isso exige e
exatamente internos, nem externos) precede e
abre caminho para os processos de simbolização e comporta experiências insuportáveis; esse fato
representação do mundo e possibilita a emergên- a incomodou significativamente. Chegou à
cia da discriminação entre eu e não-eu (Bezzerra sessão posterior muito brava, dizendo à Amé-
Junior, 2007, p. 42). lie que não havia se sentido bem. Esse efeito,
entretanto, proporcionou a grande virada, no
Dessa forma, é possível que se apresente sentido de desconstruir aquela linearidade do
uma nova identificação objetal/objeto absolu- discurso de Mortícia.
tamente necessário, encontrado na relação com Mortícia fica muito mobilizada quando não
Amélie, que se coloca como um objeto transi- consegue falar sobre seus desejos. Ela se depa-

228 Contextos Clínicos, vol. 10, n. 2, Julho-Dezembro 2017


Andressa Mueller, Rosana Cecchini de Castro

ra com o vazio de sua existência. Amélie não a e o ‘segundo tempo’ não se instala (Figueiredo
enxerga como uma pessoa indefesa, sem con- e Cintra, 2004, p. 20).
trole total de suas ações. Dissera-lhe, em um de Presença na reserva, entendida por Figuei-
seus encontros, que a percebia com muita ener- redo (2008, p. 112) como “uma presença côn-
gia e força e que apenas deveria potencializá- cava do analista, ou seja, um modo de estar
-las, a fim de que pudesse usá-las, de forma a se presente em que se constitui e mantém uma
beneficiar. Nos primeiros momentos da aven- reserva de espaço potencial no qual o paciente
tura decorrente dessa relação, Amélie se dá por pode vir a ser”, possibilitou um setting mais
conta de que fez o papel de lhe impor limites, existencial, no qual Mortícia vai se permitin-
de não cair na forma padronizada como todos a do explorar os limites do ambiente e, também,
enxergam, como uma desequilibrada à beira da da relação, fazendo desse espaço uma possibi-
loucura. Se, por um lado, tentou provocar-lhe lidade importante de integração entre o falso
estranhamentos, por outro, parecia lhe dar um self com o seu verdadeiro.
destino ou, de certa forma, uma bússola, ao en- É interessante notar como, aos poucos,
contro de uma suposta cura de seu sofrimento. Mortícia vai falando do que pensa acerca do
Dessa forma, Mortícia se preenchia pelo meio (espaço físico), do setting, do quanto
excesso de presença de Amélie. Justamen- ameaçador lhe parecem os estímulos exter-
te por Mortícia causara sensação de que não nos. Em praticamente todas nossas sessões, ao
existe e construir um espaço potencial, ou seja, chegar, Amélie deixa as poltronas do consultó-
se fazer desejante, lhe causa estranhamentos. rio ao centro. Ao recebê-la, como de costume,
Mortícia, muitas vezes, coloca entre a relação Mortícia arrasta a dela para o canto da parede,
com Amélie um espelho, que serve para que elemento ao qual se formula a interpretação do
ela possa visualizar a dinâmica da psicotera- quão inseguro e desprotegido seu ego possa se
pia, visto que, inicialmente, a paciente apenas encontrar. Assim, nossas percepções apontam
correspondia ao que a terapeuta considera, para a hipótese de suas conflitivas residirem
ingenuamente, um processo de tratamento. em torno de uma falha básica.
Um fazer existir inclinado à uma espécie de Balint (1993), como termo falha, reporta-se
doutrinação. Portanto, é necessário enfatizar exatamente à palavra usada por muitos pa-
que Amélie, primeiramente, comunica-se com cientes, que dizem sentir a existência de uma
o falso self de Mortícia, visto que ela corres- falha que precisa ser corrigida, dentro de si. É
pondia às expectativas da terapeuta, com in- descrito como uma falha e não como uma po-
tuito de seduzi-la, corresponder a um eu ideal, sição ou situação, não apresenta a estrutura de
compreendido em Laplanche e Pontalis (2004 um conflito ou um complexo. O autor sugere
[1982], p. 139) “como semelhante ao Ego Ideal o termo básico, pois sua influência se estende
concebido como um ideal narcísico de onipo- amplamente por toda a estrutura psicobioló-
tência não se reduz à união do Ego com o Id, gica do sujeito, envolvendo a mente e o corpo,
antes compreende uma identificação primária em diferentes graus.
com outro ser, investido da onipotência, isto é, Há necessidade de um trabalho que vis-
com a mãe”. Após pontuações do homem de lumbre, inicialmente, uma capacidade de o
vidro, sobre os excessos de Amélie no processo terapeuta engendrar estratégias em que o su-
terapêutico, altera-se a ‘homeostase’ da dinâ- jeito possa regredir e tornar-se dependente
mica da interação. novamente. Na prática clínica com pacientes
Amélie configura outro processo de escuta, pré-edípicos, o ambiente torna-se um elemento
que a coloca diante de uma posição de reserva, muito importante. A partir disso, introduziu-
em que se transforma em terapeuta – ambien- -se o termo de holding, cunhado por Winnicott,
te, em favor de lhe oferecer segurança neces- que remete à compreensão de um ato de sus-
sária e promover a regressão à dependência, tentação, que é fundamental para o manejo clí-
a fim de restituir, no seu tempo, as falhas que, nico, significando a oferta de um ambiente que
em seu processo narcísico primário, lhe foram sustente e permita o processo de integração do
interrompidas por uma mãe-ambiente insufi- sujeito (Winnicott, 1990a [1988]). De fato, o hol-
cientemente boa. ding fornece confiança na realidade e nos con-
Quando há uma ‘ausência de ausência’ ou tatos humanos para o paciente (Januário, 2008).
uma ‘presença de presença’, o que no fundo Apenas em condições seguras o sujeito pode
é a mesma coisa, pois ambas desconhecem o aliviar-se de sua reação compulsivamente de-
vazio, o processo de constituição psíquica fica fensiva e experimentar, na transferência, outras
obstruído, o ‘primeiro tempo’ não se consuma formas de relação de objeto (Balint, 1993).

Contextos Clínicos, vol. 10, n. 2, Julho-Dezembro 2017 229


O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de experiência em psicanálise da clínica Borderline

O enquadre analítico, que pressupõe um guma forma, acordar seus fantasmas, vê-los em
vínculo íntimo criado entre dois psiquismos, outro plano que não o mesmo do passado, soli-
é similar à situação vivenciada pela mãe e seu difica sua capacidade de estar nesse lugar, sem
bebê em que a mãe exerce a função de conti- ser invasiva e, muito menos, ausente.
nente (holding) para as pulsões ou excitações A análise de sete anos a qual Amélie se
externas sentidas pelo bebê. Em outras pala- submete, colabora decisivamente para deixar
vras, o analista deve ter a capacidade de se que a alteridade e o desejo alargassem sua per-
identificar às necessidades de seu paciente, cepção da realidade e, hoje, exerce esse lugar
assim como uma mãe suficientemente boa se de terapeuta, de forma continente. Trazen-
identifica a seu bebê e proporciona um espa- do Naffah Neto para a discussão, em que ele
ço transicional entre eles em que a realidade afirma “que os psicoterapeutas concordarão
psíquica do bebê pode se construir (Zornig, comigo, muitos talvez, ao lembrarem que o
2000, p. 98). primeiro impulso para a profissão surgiu da
Talvez, daqui, Amélie esteja vivenciando o necessidade de cuidarem da própria neurose”
paradoxo mesmo que é ser terapeuta, porque, (Naffah Neto, 2007, p. 23), após sobreviver à
pela transferência, ocupa um lugar de mãe em sua experiência materna e ressignificá-la, per-
que nunca esteve, e não enxerga como sendo cebemos que a forma de acolher e responder
de sua potência. Mortícia lhe delega os cuida- à demanda de Mortícia colocou Amélie diante
dos paulatinamente e, sem saber que lugar, de outra forma de escuta e de atenção que, por
de fato, seria esse, foi se percebendo mobili- consequência, foram possibilitando um novo
zada por sua demanda. A cada sessão, bem no repensar sobre si mesma, hoje, vivenciado
término, estava Amélie na ponta da poltrona, pelo desejo de ser mãe.
como se quisesse pegá-la nos braços e lhe ofe- Como se percebe, Amélie faz a maternagem
recer a segurança para continuar seu caminho, de Mortícia, realizando condições favoráveis
tão sofrido. para intervir em sua organização patológica,
Na sessão anterior ao dia das mães, Mortí- cuja carência de adaptação à função materna,
cia, no final desse encontro, pergunta à Amélie na fase de dependência absoluta, sofreu se-
se ela é mãe. Mortícia conclui que não, antes veras interferências (Winnicott, 1982 [1963]).
mesmo que Amélie verbalizasse algo, visto Nesse sentindo, Amélie experiencia, na trans-
que ela era nova demais. No entanto, Amélie ferência, o lugar materno: o papel do espelho,
lhe disse que tinha alguns meses a mais de ofertado pelo rosto da mãe em que o bebê vê a
vida do que ela. Dias após essa sessão, Mortí- si mesmo e, ao identificar-se com a mãe, des-
cia teve uma crise intensa, chegou a ser levada cobre o que ele próprio sente ao ver isso, re-
para um pronto atendimento em psiquiatria, fletido no rosto da mãe, ou seja, o semblante
onde administraram diversos medicamentos materno constitui a formação do self (Mello,
e, inclusive, um antipsicótico potente. Veio 2008). Essa posição entre Amélie e Mortícia de
para o atendimento, na semana seguinte, mui- fusão, como a de um bebê/mãe, deve ser com-
to confusa e ainda a brigar com Amélie, por- preendida como um processo importante para
que esta era jovem. Identificamos que o desejo que a segunda etapa, caracterizada pela indi-
de Mortícia se expressa com o incômodo da viduação, constitua-se; mas, para que ocorra,
idade de Amélie, pois, se ela fosse mais velha, é de extrema importância que o bebê/paciente
ocuparia, no campo real, o lugar de mãe. Po- não necessite reagir ao ambiente e possa ex-
rém, pela transferência, Amélie já estava auto- perienciar a sua espontaneidade (Winnicott,
rizada a ocupar esse papel e algo daqui desen- 1990b [1987]).
cadearia uma relação de proporções intensas, Mortícia sempre fala do rosto e, principal-
entre essa díade. mente, do olhar de Amélie, em algumas ses-
Com esse advento, Amélie vai experimen- sões. Relata que teme por ele, mas, o temor
tando as vicissitudes desse encontro, em que centraliza-se em ter que reviver o vínculo ma-
precisou reviver os seus traumas maternos. A terno. A experiência da regressão a esse estágio
cada necessidade de Mortícia (vivida pela au- de dependência absoluta é tão intensa para o
sência, na ausência do objeto absolutamente ne- terapeuta quanto para o paciente, porque se vi-
cessário), ressuscitam suas marcas, da mesma vencia, no setting, experiências muito primiti-
forma traumática, de um objeto excessivo que vas em que sempre há um nível de sofrimento.
fez de seu corpo uma extensão. O impasse des- Amélie, portanto, vai construindo uma re-
se encontro produziu, em Amélie, inquietações, lação em que introduz Mortícia num mundo
medos e diversas fantasias. No entanto, de al- subjetivo, em relação ao qual a paciente exerce

230 Contextos Clínicos, vol. 10, n. 2, Julho-Dezembro 2017


Andressa Mueller, Rosana Cecchini de Castro

um controle onipotente, visto ter a ilusão de controlando-o, usando-o, e projetando nele


que suas necessidades são atendidas por sua suas próprias características.
força mágica criadora (Winnicott, 1982 [1963]). Daqui, emerge a mais intensa das experiên-
Entre tantas formas de manipular o ambiente cias contratransferenciais dessa relação, visto
e, por conseguinte, Amélie – talvez a que mere- que Amélie retém os registros da agressão e,
ça notoriedade – recai sobre sua última tentati- antes de entendê-las, coloca-se em situações li-
va de suicídio, que coincide com o aniversário mítrofes; todas, indubitavelmente, remetem à
de sua mãe. Mortícia já havia anunciado que, forma como Mortícia sentia-se, na ocasião da
em todas as vezes em que tentou cometer o necessidade de dar um fim em sua vida.
ato suicida, sempre foi sua mãe a quem tentou Amélie coloca-se, por alguns dias, em situ-
agredir. Fala, reiteradas vezes, que queria que ações de suscetibilidade física e psíquica, en-
sua mãe a ‘enxergasse’ e lhe oferecesse os cui- tretanto, sem saber o quê, de fato, estava ocor-
dados que nunca lhe prestou. Nessa ocasião, rendo em seu comportamento. Tomada por
Amélie vai ao encontro de Mortícia no hospital uma sensação de vazio e de finitude, experien-
e, ao chegar ao local, Mortícia se atira no chão, cia comportamentos de risco. De acordo com
como se fosse um bebê. Nota-se, daí o quanto Persano e Ventura (2006), o paciente Borderline
Amélie se coloca nesse lugar de aparecer como suscita respostas contratransferenciais no ana-
produto de criação ilusória de Morticia, que lista, decorrentes de suas características, situ-
necessita encontrar, no ambiente, as suas ne- adas entre perturbações no ajuste dos afetos,
cessidades, porque precisa iludir-se de que o no controle dos impulsos e na capacidade de
mundo contém o que lhe é necessário. Essas representabilidade psíquica. Dessa intensida-
repetições da experiência de onipotência é que de de emoções, o terapeuta pode encontrar
irão gerar o sentimento de confiabilidade no dificuldades para pensar o material clínico.
ambiente (Winnicott, 1982 [1963]). Mortícia, em estado de fusão com Amélie, pro-
Nesse mesmo episódio, Amélie segurou as jeta a fragmentação de sua alma, a partir da
mãos de Mortícia, dando-lhe a sustentação ne- intensa experiência suicida e, por conseguinte,
cessária – como preconiza a noção de holding convoca, inconscientemente, Amélie a sentir
por Winnicott (1990a [1988]) e reiterada por a incipiência de seu narcisismo, cuja contra-
Mello (2008, p. 43) com a passagem da citação: transferência é percebida para Rosenfeld (1971
“função primária de segurança e diz respeito in Persano e Ventura, 2006). Se, na idealização
ao modo cuidadoso com a qual a mãe se dis- do self, houver invasão por idealizações agres-
ponibiliza para dar suporte aos processos de sivas, a consequência possível é o surgimento
subjetivação”. A confiança de que Mortícia ne- de condutas auto agressivas, que podem com-
cessita, nesse momento, diz respeito à sobrevi- prometer a vida.
vência da mãe/terapeuta à sua agressividade, O homem de vidro entrega a Amélie um
o que implica, fundamentalmente, numa não- pequeno tesouro. Uma caixa pequena vazia;
-retaliação. O outro se torna confiável porque porém, ao abri-la, revela sua especificidade
permanece vivo e resiste, ali. maior: como feixes luminosos, atravessam os
Por identificação projetiva, o bebê introduz sentidos de Amelie, realizando uma espécie de
na mente materna o estado de angústia, o qual ‘interdição’ e a faz perlaborar a experiência do
ainda não tem representação e que, por isso suicídio, como resposta contratransferencial.
mesmo, é vivenciado como insuportável. Bion, Ressalta-se, desse ponto em particular, a im-
por similaridade, teoriza, em 1962, os concei- portância da supervisão na clínica psicanalíti-
tos de continente/conteúdo e de função alfa ca, visto que, à medida que a terapeuta pode
para falar dessa função materna que segura, entrar em contato com o sofrimento de seu
contém, desintoxica e confere significado(s) paciente, torná-lo compreensivo, “metabolizá-
aos estados emocionais iniciais do bebê (Sá, -lo” e, portanto, ascender ao nível representa-
2009). Nesse sentido, Amelie, ao se colocar cional, conduz um processo eficaz. O homem
como mãe/terapeuta, nesse momento de in- de vidro devolve a Amélie sua capacidade de
tensa agressividade decorrente da experiência rêverie, correspondendo a um estado mental da
suicida de Mortícia, cede o corpo às pulsões mãe, descrito por Sá (2009), como de calma e de
agressivas dela e, de alguma forma, incorpora receptividade, para sentir e acolher o que lhe
as sensações destrutivas de conteúdo projeti- chega do bebê, atribuindo-lhe um significado.
vo de Mortícia. Segundo Segal (1981), quanto A mente materna, em estado de rêverie,
à identificação projetiva: uma parte do ego do pois, cumpre, então, uma verdadeira função
paciente é projetado, em fantasia, no objeto, de transformação da violência fundamental

Contextos Clínicos, vol. 10, n. 2, Julho-Dezembro 2017 231


O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de experiência em psicanálise da clínica Borderline

em estados emocionais toleráveis, que podem, Considerações finais


então, ser reintrojetados pelo bebê, assim como
a própria função, desenvolvendo-se no seu in- O processo do desiludir-se, verdadeira as-
terior um aparelho para conter as emoções (Sá, censão à realidade externa, encontra eco com o
2009). De fato, Amélie, no momento da inter- tema que deste artigo emerge, já que o pedaço
nação de Mortícia, apenas se fez presente no nosso de cada sessão é a produção, a sistemati-
ambiente, sustentando, como boa mãe, suas zação de um espaço potencial, que vislumbre,
pulsões agressivas. necessariamente, o verdadeiro self, articulando
Após esse evento da hospitalização, depois as experiências subjetivas intolerantes, de modo
de algum tempo para retornar aos atendimen- que possa introjetá-las, através da reconstrução
tos clínicos no ambulatório da clínica-escola criadora, o que nos certifica, de igual forma, a
da universidade, Mortícia volta às sessões e ampliação dos recursos egoicos. O papel do
verbaliza que sua mãe vem realizando todos terapeuta é organizar um campo de interação
os cuidados que desejou, durante anos de sua empática com o paciente, um ambiente de co-
vida: recebeu atenção, foi cuidada com devida municação não necessariamente verbal, mas
dedicação e carinho; porém, em seguida, fala que promova uma experiência de confiança e,
que não era sua mãe que estava ao seu lado. principalmente, do sentimento de sentir-se real,
Diz que era outra pessoa “encarnada”, que es- cujo self retoma por um funcionamento mais
tava prestando os cuidados de que necessita- espontâneo (Winnicott, 1990b [1987]).
va. Em seguida, Mortícia comete um ato falho A clínica do desiludir-se deve ser compreen-
bastante significativo, quando diz: “tudo aqui- dida por um rompimento gradual da ilusão de
lo que eu pedia para ti”. Ela queria ter dito: onipotência, desenvolvida na experiência com
“tudo aquilo que falava para você que deseja- Mortícia, na fusão na qual se envolveu com a
va dela (mãe), aconteceu!”. terapeuta, numa díade semelhante a um bebê/
Em sessões subsequentes, Mortícia vai mãe, em que se valorizou, durante o processo
anunciando à Amélie que nunca pensou que clínico, a reconstrução psíquica da paciente,
ela estaria próxima, em um momento tão de- inscrito através da sustentação do olhar, de um
licado e de intensa necessidade! Relata, diver- setting organizado e pelas intervenções dirigi-
sas vezes, emocionada com o fato da presen- das, não ao plano dos conflitos e das defesas in-
ça de Amélie naquele momento tão crucial, conscientes, mas, ao reconhecimento do phátos,
as emoções que experimenta no período de da experiência de sofrimento (Bezzerra Junior,
internação e lembra, principalmente, do ins- 2007). Por isso, ressaltamos que, para essa clí-
tante em que Amélie chega ao local e segura nica, a interpretação necessita ser deslocada de
suas mãos. Diz que, muitas vezes, a ajuda de seu sentido correlato à neurose clássica.
que precisa não necessariamente chegaria até Para Winnicott (1988 [1956]), a mãe sufi-
ela pelos cuidados de sua mãe real, concreta. cientemente boa, necessariamente falível, ne-
Nesse momento, Amélie apenas confirma as cessariamente em erro ou inadequada, pressu-
sensações de sofrimento pelas quais Mortícia põe qualidade da presença do objeto: falível,
passou, visto que as sentiu de forma intensa porém inadequado. Disso, é necessário lem-
e fragmentada, em sua psique. Ao comparti- brar que, implícito às qualidades relatadas
lharem momentos de reflexão pós-internação, para essa figura suficientemente boa, se faz
Mortícia escuta de Amélie a reciprocidade importante destacar que existe um modo mui-
afetiva e, consequentemente, mostra que algo to especial de estar presente, um modo que
se transforma na relação e adquire extrema promove um duplo movimento de negação:
importância, visto que o objeto primordial para dentro e, outro, para fora, proporcionan-
pode ser deslocado para Amélie, que acolhe do a negatividade dos objetos e estruturando o
e desintoxica suas pulsões agressivas, se faz enquadre psíquico (Figueiredo e Cintra, 2004).
presente sem ser intrusiva e, por conseguinte, Dessa forma, quando se quebra o espelho,
oportuniza uma relação materna, como res- inevitavelmente, teremos que nos relacionar
tauradora de suas experiências traumáticas. com diversas outras imagens, que perpassam
Parece haver uma viabilidade em trabalhar a imagem da mãe.
o luto do objeto primordial, pela transferên- O tempo de um ano e meio do estágio já
cia. Esse vínculo fortalecido, bem constituído, anunciava o imperativo inevitável da ruptu-
permite pensar e mesmo operacionalizar a ra terapêutica. Em nossos últimos encontros,
construção de um segundo tempo: o processo Mortícia faltou mais do que o habitual. Sabía-
de desilusão. mos de que nos depararíamos com o término

232 Contextos Clínicos, vol. 10, n. 2, Julho-Dezembro 2017


Andressa Mueller, Rosana Cecchini de Castro

de nosso vínculo. Como já estava sendo acom- novos elementos à sua psique, alargando-a e
panhada por tempo significativo no serviço abrindo-se a novas experiências.
da clínica-escola, Mortícia se dava por conta Mortícia nunca chegou a procurar por
que a pessoa com quem se vinculou, muito em Amélie no consultório privado. Em algumas
breve a ‘abandonaria’ (sic), pois calculava os atividades acadêmicas, Amélie foi até o lo-
semestres, aguardando ansiosa por esse mo- cal e tomou conhecimento de que Mortícia
mento. Mortícia enfatizava que nenhuma das estava bem. Ela estaria realizando movimen-
pessoas com as quais se vinculou no serviço tos de vida, como por exemplo, a separação
a deixou qualquer contato para seguir sendo conjugal. Tinha perdido alguns quilos e sua
acompanhada. Entendemos que Mortícia, com aparência a revelava mais jovial. Iniciou ativi-
essas palavras, anuncia que não estaria pre- dades profissionais depois de cinco anos sem
parada para a ruptura e que, todas as vezes, nenhuma atividade. Os relatos dos técnicos
a lógica que predominava sobre a direção do que acompanharam todo o processo de tra-
tratamento era um o movimento institucio- tamento entre Amélie e Mortícia, salientaram
nal contra o qual pouco poderia ser feito no que a Mortícia tinha morrido. Não concreta-
sentido de lhe ofertar a oportunidade de se mente, mas que esse nome dado pela Amélie,
distanciar da terapeuta em seu momento psi- já não correspondia com o novo momento de
cológico. Fez com que Amélie prometesse que vida que construiu.
deixaria dados de contato para que, quando
Mortícia estivesse organizada financeiramen- Referências
te, retomasse os atendimentos. Ela deixou bem
claro à Amélie, em uma das sessões finais, que ABRAM, J. 2000. A linguagem de Winnicott: dicionário
não queria iniciar novo processo de acompa- das palavras e expressões utilizadas por Donald W.
nhamento psicológico novamente. Isso reflete Winnicott. Rio de Janeiro, Revinter, 305 p.
BALINT, M. 1993. A falha básica: aspectos terapêuticos
algo importante, pois ela conseguiu nomear
da regressão. Porto Alegre, Artes Médicas, 188 p.
essa decisão e, Amélie comentou que pode- BENTO, V.E.S.; GUIMARÃES, R.M. 2008. O mé-
ria acompanhá-la, quando assim desejasse e todo do “estudo de caso” em psicanálise. Psico
que a questão financeira não seria o problema PUCRS, 39(1):91-99.
para interferir nesse processo, entendido por BEZZERRA JR. B. 2007. Winnicot e Merleau-Ponty:
Amélie como o momento mais necessário para o continuum da experiência subjetiva. In: B.
que um novo trauma de abandono não tomas- BEZZERRA JR.; F. ORTEGA (orgs.), Winnicott:
e seus interlocutores. Rio de Janeiro, RelumeDu-
se Mortícia com a intensidade que no início,
mará, p. 35-65.
Amélie presenciara. CARDOSO, M.R.A. 2007. Impossível “perda” do
Fizemos uma reunião de equipe para dis- outro nos estados limites: explorando as no-
cutirmos o caso, pois nos exigiu sensibilida- ções de limite e alteridade. Psicologia em Revista,
de e atenção ao cuidado de Mortícia. Como 13(2):325-338. Disponível em: http://pepsic.bv-
ela estava sendo acompanhada pelo serviço salud.org/pdf/per/v13n2/v13n2a08.pdf. Acesso
de Nutrição na clínica, considerou-se impor- em: 16/08/2011.
FIGUEIREDO, L.C; CINTRA, E.M.U. 2004. Lendo
tante que a frequência à instituição reforçaria
André Green: o trabalho do negativo e o pacien-
positivamente, pois o ambiente seria como te limite. In: M.R. CARDOSO (org.), Limites. São
um organizador psíquico onde Mortícia sabia Paulo, Escuta, 220 p.
que poderia acionar pelo serviço de psicolo- FIGUEIREDO, L.C. 2008. Psicanálise: elementos para
gia em qualquer momento em que precisas- a clínica contemporânea. São Paulo, Escuta, 208 p.
se. Porém, ela nos convenceu de que não iria IRIBARRY, I.N. 2003. O que é pesquisa psicanalíti-
iniciar novo processo, por ter o meu novo ca. Ágora, VI(1):115-138.
https://doi.org/10.1590/S1516-14982003000100007
endereço e telefone. Isso foi necessário para JANUÁRIO, L.M. 2008. A transferência na clínica psi-
que a despedida fosse menos intensa. Mas, canalítica com crianças em sofrimento psíquico gra-
claro, vivenciamos uma fase muito triste de ve. Brasília, DF. Dissertação de mestrado. Uni-
desvinculação. Contudo, Amélie sentia que versidade de Brasília, 200 p.
havia um sentimento de luto constituído, e JEUNET, J.P. 2001. O fabuloso destino de Amélie Pou-
isso foi revelado pelas lágrimas decorrentes lain. [s.l.], W Mix, 122 min.
da dor do término de um processo. As emo- KUSNETZOFF, J.C. 1982. Introdução à psicopatologia
psicanalítica. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 220
ções percebidas por Amélie no início dos p.
atendimentos com Mortícia não se apresenta- LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.L. 2004 [1982]. Vo-
ram da mesma forma nessa nova experiência cabulário de psicanálise Laplanche e Pontalis. 4ªed.,
de ruptura, o que registra a constituição de São Paulo, Martins Fontes, 574 p.

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O pedaço ‘nosso’ de cada sessão: um relato de experiência em psicanálise da clínica Borderline

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