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a
SOCIOLOGIA

SÉRIE
ENSINO
MÉDIO

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SOCIOLOGIA
Nelson Dacio Tomazi

INTRODUÇÃO
Conhecendo a sociedade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2

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CAPÍTULO
Introdução

CONHECENDO A SOCIEDADE
Por que estudar a sociedade em que vivemos? É possível conhecer a sociedade por meio da
ciência? A Sociologia serve para quê? Muitos alunos fazem essas e outras perguntas em seus primeiros
contatos com a disciplina. Vamos procurar respondê-las neste livro.
Podemos dizer, inicialmente, que, ao estudar Sociologia, assim como as demais ciências humanas
(História, Ciência Política, Economia, Antropologia etc.), temos como objetivo compreender e expli-
car as permanências e as transformações que ocorrem nas sociedades humanas e indicar algumas
pistas sobre os rumos das mudanças.
A produção de explicações sobre a vida e sobre as sociedades é uma necessidade dos seres
humanos. Vivendo em sociedade, participamos dessa produção.

Das relações pessoais aos grandes


RICKI ROSEN/CORBIS/LATINSTOCK

b
conflitos mundiais, a Sociologia
investiga os problemas que afetam
nosso cotidiano, evidenciando a
estreita relação entre as questões
individuais e
as questões sociais. Na imagem
A: as Torres Gêmeas, em Nova York,
Estados Unidos, momentos antes do
SEAN ADAIR/REUTERS/LATINSTOCK

a ataque do segundo
avião, em 11 de setembro de 2001.
Na imagem B: o conflito árabe-
-israelense suspenso no abraço
de dois garotos, um palestino e
um israelense, em Israel, 2003. Na
imagem C: curdos da Síria ocupam
campo de refugiados no norte do
Iraque, em agosto de 2012.
SAFIN HAMED/AFP

2 Introdução

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Qual é o campo de estudo da Sociologia?
Ao estudar Sociologia, procuramos entender os elementos essenciais do funcionamento de
uma sociedade e encontrar respostas a questões como estas:
Por que as pessoas agem e pensam de uma forma e não de outra?
Por que as pessoas se relacionam umas com as outras de determinada maneira, normalmente
padronizada?
Por que existem tantas desigualdades nas sociedades humanas?
Por que existem a política e as relações de poder na sociedade?
Quais são nossos direitos e o que significa cidadania?
Por que existem movimentos sociais com interesses tão diversos?
O que é cultura? Qual é a relação entre cultura e ideologia? Como elas estão presentes nos meios
de comunicação de massa?
A Sociologia nos ajuda a entender melhor essas e outras questões que envolvem nosso cotidia-
no, sejam elas de caráter individual ou coletivo, sejam, ainda, relativas à sociedade à qual pertencemos
ou a todas as sociedades. O fundamental da Sociologia, porém, é nos fornecer conceitos e outras Onde está a autonomia de
ferramentas para analisar as questões sociais e individuais de modo sistemático e consistente. Por um indivíduo aprisionado aos
meios de comunicação?
meio da Sociologia, obtemos um conhecimento científico sobre a realidade social. A televisão é uma caixa vazia
Como lembrou o sociólogo estadunidense Charles Wright Mills (1916-1962), a Sociologia con- de conteúdo, como sugere
tribui ainda para desenvolver nossa imaginação sociológica, isto é, nossa capacidade de analisar ex- a charge de Laerte? Poderia
periências cotidianas e estabelecer relações entre elas e situações mais amplas que nos condicionam ser diferente? Questionando
as situações do dia a dia, o
e nos limitam, mas que também podem explicar o que acontece em nossa vida. pensamento sociológico
A Sociologia nos ajuda ainda a pensar de modo independente, oferecendo instrumentos para estimula uma postura crítica
analisar o conteúdo dos jornais e de sites da internet, as novelas da televisão, os telejornais, os progra- em relação às vivências que
mas do rádio e as entrevistas das autoridades. Por meio da análise e do nos condicionam e limitam.
questionamento, percebemos o que os meios de comunicação ocultam
e formamos nosso ponto de vista sobre os fatos.
Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), a Sociolo-
gia, quando se coloca numa posição crítica, incomoda muito, porque,
como outras ciências humanas, revela aspectos da sociedade que certos
indivíduos ou grupos se empenham em ocultar. Se esses indivíduos e
grupos procuram impedir que determinados atos e fenômenos sejam
conhecidos do público, de alguma forma o esclarecimento de tais fatos
pode perturbar seus interesses ou mesmo concepções, explicações e
convicções.

A produção social do conhecimento


Todo conhecimento se desenvolve socialmente. Se quisermos
compreender como pensavam as pessoas de determinada época, pre-
cisaremos saber em que meio social elas viveram, pois o pensamento de um período da história
é formado pelos indivíduos em grupos ou camadas sociais, reagindo e respondendo a situações
históricas de seu tempo.
Se quisermos saber por que os indivíduos pensam de determinada forma ou por que explicam
a sociedade deste ou daquele ponto de vista, precisaremos entender como eles se relacionam e se
organizam para suprir suas necessidades fundamentais. As relações sociais envolvem ideias, normas,
valores, costumes e tradições que, juntos, permitem compreender por que as sociedades podem ser
tão diferentes umas das outras.
Na maioria das sociedades, há indivíduos e grupos que defendem a manutenção da situação
SOCIOLOGIA
existente (o status quo) porque esta atende a seus interesses. Assim, procuram apoiar e desenvolver
formas de explicação da realidade que justifiquem a necessidade de conservar a sociedade tal como
está. Há, entretanto, pessoas e grupos que querem mudar a situação existente, pois não acham que
a sociedade à qual pertencem é boa para elas e para os outros. Tais pessoas procuram explicar a
realidade social destacando seus problemas e as possibilidades de mudança para uma forma de
organização que assegure maior igualdade entre os indivíduos e grupos.

Introdução 3

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MUSEU CARNAVALET, PARIS, FRANÇA

MARWAN NAAMANI/AFP PHOTO


Acima, charge inglesa Aqueles que querem manter a situação normalmente são os que detêm o poder na sociedade;
de 1848 (de autor
desconhecido) satiriza a
aqueles que lutam para mudá-la são os que estão em situação subalterna. Além do conflito de in-
luta das mulheres pela teresses no campo político e econômico, há um conflito de ideias entre os diferentes grupos sociais.
igualdade de direitos, Mas as ideias e formas de conhecimento nunca são radicalmente opostas. Elas coincidem em alguns
especialmente o direito ao pontos e divergem em outros, e é isso que mantém aberta a possibilidade de diálogo.
voto, só conquistado em
1818. À direita, mulheres
A Sociologia é uma dessas formas de conhecimento, resultado das condições sociais, eco-
egípcias comemoram nômicas e políticas do tempo em que se desenvolveu. Ela nasceu da necessidade de entender as
resultado da primeira transformações que ocorreram nas sociedades ocidentais entre o século XVI e o início do século XIX,
eleição presidencial após decorrentes da emergência e do desenvolvimento do capitalismo.
três décadas de ditadura
no país.
Durante esses séculos a produção, que se concentrava no campo, passou a se deslocar para as
cidades, onde começavam a se desenvolver as indústrias. Essa mudança desencadeou importantes
transformações no modo de vida das pessoas de diferentes camadas sociais, afetando as relações
familiares e de trabalho. Pouco a pouco, as normas e os valores se estruturaram em outras bases,
estimulando o desenvolvimento de novas ideias.
Grandes transformações políticas também ocorreram, no contexto do que se chama de Re-
volução Industrial, impulsionadas por movimentos como a Guerra de Independência dos Estados
COLEÇÃO PARTICULAR

Unidos (1775-1783) e a Revolução Francesa (1789).


Procurando entender essas transformações e encontrar caminhos para a resolução das ques-
tões sociais por elas geradas, vários pensadores, como o Conde de Saint-Simon (1760-1825), Au-
guste Comte (1798-1857) e Karl Marx
HTTP://MANGUEVIRTUAL.BLOGSPOT.COM.BR/
(1818-1883), elaboraram e divulgaram
suas teorias sobre a sociedade ante-
rior e a que estava se constituindo.
Formaram-se assim as bases sobre
as quais a Sociologia viria a se definir
como ciência. HTTP://WWW.CAFECOMSOCIOLOGIA.COM/

Entre o final do século XIX e o início do século


XX, os estudiosos que mais iriam influenciar o posterior
desenvolvimento da Sociologia concentravam-se fun-
damentalmente em três países: França, HTTP://CIENCIASSOCIAISNAREDE.BLOGSPOT.COM.BR/

Alemanha e Estados Unidos.


Esses estudiosos, por meio de pes-
quisas e reflexões, dialogavam com a
Frontispício do Discurso sobre o espírito sociedade da qual faziam parte, não se
positivo, obra do francês Auguste Comte contentando com as noções e explica-
publicada em 1848.
ções até então estabelecidas. Por isso,
procuraram ultrapassar o senso comum Páginas de blogs dedicados à Sociologia (ativos em 2013).
e elaboraram conceitos e teorias sobre as-

4 Introdução

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pectos da sociedade que a maioria das pessoas não questionava.
No século XX, a Sociologia tornou-se uma disciplina mundialmente reconhecida. Hoje, os soció- No final deste livro há uma
logos estão presentes não só nas universidades, mas também nos meios de comunicação, discutindo exposição mais detalhada sobre
questões específicas ou gerais que envolvem a vida em sociedade. Os mais destacados, independen- a história da Sociologia.
temente do país de origem, ministram cursos e conferências em centros universitários de todos os
continentes e têm seus livros traduzidos em vários idiomas.
No Brasil, a Sociologia tem alcançado uma visibilidade muito grande, seja por causa da pre-
sença em todo o território nacional de institutos de pesquisa social ou cursos de graduação e de
pós-graduação, seja pela atuação de sociólogos em muitos órgãos públicos e privados e nos meios
de comunicação de massa.

A pesquisa como fundamento do conhecimento sociológico


Desde suas origens, o conhecimento sociológico foi constituído com base em muita pesquisa. Capa dos livros Fundamentos
Para desenvolver suas análises, os sociólogos observaram a realidade social de seu tempo, promo- empíricos da explicação
veram investigações históricas, documentais e bibliográficas, coletaram e organizaram dados e for- sociológica e A integração do
negro na sociedade de classes,
mularam interpretações. obras representativas do
O objeto de suas pesquisas variava dos fenômenos mais simples até os mais complexos. O tra- trabalho teórico e da pesquisa
balho de Florestan Fernandes (1920-1995), importante sociólogo brasileiro, demonstra a diversidade sociológica desenvolvidos no
e as possibilidades da pesquisa sociológica. Brasil por Florestan Fernandes.
Nas décadas de 1940 e 1950, Florestan Fernandes estudou as mudanças sociais na cidade de

EDITORA T. A. QUEIROZ
São Paulo. Para tanto, pesquisou o folclore paulistano e as brincadeiras das crianças no bairro do
Bom Retiro. Sua pesquisa deu origem ao livro Folclore e mudança social na cidade de São Paulo,
publicado em 1961.
Nesse período, o sociólogo também pesquisou a sociedade tupinambá, que foi assunto de
dois livros: Organização social dos tupinambás (1949) e A função social da guerra na sociedade
tupinambá (1952).
Em 1959, publicou Fundamentos empíricos da explicação sociológica, uma obra teórica funda-
mental para a compreensão e o ensino da Sociologia, na qual analisou a contribuição metodológica
de autores clássicos. Com a preocupação de explicar questões teóricas e históricas da Sociologia,
escreveu Ensaios de sociologia geral e aplicada (1960), Elementos de sociologia teórica (1970), Socio-
logia numa era de revolução social (1976), A sociologia no Brasil (1977) e A natureza sociológica da
sociologia (1980).
Outro tema pesquisado na década de 1950 por Florestan Fernandes, em parceria com o so-
ciólogo Roger Bastide, foi a condição do negro na sociedade brasileira. Em 1958, os dois escreveram
o livro Brancos e negros em São Paulo. Nas décadas seguintes, Fernandes retomou a pesquisa desse
tema e publicou os livros A integração do negro na sociedade de classes (1965) e O negro no mundo
dos brancos (1972).
A educação também foi objeto de pesquisa para Florestan Fernandes. Sobre esse assunto, ele

EDITORA GLOBO
escreveu uma série de artigos e dois livros: Educação e sociedade no Brasil (1966) e Universidade bra-
sileira: reforma ou revolução (1975).
Sobre as questões políticas de seu tempo, vinculadas às classes sociais e às possibilidades de
mudança social, Fernandes escreveu vários livros nas décadas de 1970 e 1980: A revolução burguesa
no Brasil: ensaio de interpretação sociológica (1975), Circuito fechado: quatro ensaios sobre o “poder
institucional” (1976), Da guerrilha ao socialismo: a revolução cubana (1979), Apontamentos sobre a
“teoria do autoritarismo” (1979), Brasil: em compasso de espera (1980), Movimento socialista e partidos
políticos (1980), Poder e contrapoder na América Latina (1981) e A ditadura em questão (1982).
Hoje a Sociologia desenvolve-se com base em pesquisas realizadas por milhares de sociólogos SOCIOLOGIA
que se utilizam das mais variadas técnicas, tendo como objeto os mais diversos temas, abordados de
diferentes perspectivas teóricas. O resultado dessa diversidade é uma multiplicidade de interpreta-
ções, muitas das quais sobre o mesmo fenômeno social. Essa é a riqueza da Sociologia.
Aprender a pensar sociologicamente implica, assim, fazer pesquisas, mesmo que sejam pe-
quenas. Por isso, ao longo deste livro vamos indicar temas diversos para pesquisas na seção Para
pesquisar, que poderão ser desenvolvidos com a ajuda do professor.

Introdução 5

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LEITURAS E ATIVIDADES

PARAPARA REFLETIR
PRATICAR

Possibilidades do conhecimento sociológico


[…] Em face do mundo considerado familiar, governado por rotinas capazes de reconfirmar crenças, a sociologia pode
surgir como alguém estranho, irritante e intrometido. Por colocar em questão aquilo que é considerado inquestionável,
tido como dado, ela tem o potencial de abalar as confortáveis certezas da vida, fazendo perguntas que ninguém quer se
lembrar de fazer e cuja simples menção provoca ressentimentos naqueles que detêm interesses estabelecidos. […]
[…]
Há quem se sinta humilhado ou ressentido se algo que domina e de que se orgulha é desvalorizado porque foi ques-
tionado. Por mais compreensível, porém, que seja o ressentimento assim gerado, a desfamiliarização pode ter benefícios
evidentes. Pode em especial abrir novas e insuspeitadas possibilidades de conviver com mais consciência de si, mais com-
preensão do que nos cerca em termos de um eu mais completo, de seu conhecimento social e talvez também com mais
liberdade e controle.
Para todos aqueles que acham que viver a vida de maneira mais consciente vale a pena, a sociologia é um guia bem-
-vindo. […]
[…]
Pensar sociologicamente pode nos tornar mais sensíveis e tolerantes em relação à diversidade, daí decorrendo sentidos
afiados e olhos abertos para novos horizontes além das experiências imediatas, a fim de que possamos explorar condições
humanas até então relativamente invisíveis. […]
[…] A arte de pensar sociologicamente consiste em ampliar o alcance e a efetividade prática da liberdade. Quanto
mais disso aprender, mais o indivíduo será flexível diante da opressão e do controle, e portanto menos sujeito a manipu-
lação. […]
[…] Nesse sentido, pensar sociologicamente significa entender de um modo um pouco mais completo quem nos
cerca, tanto em suas esperanças e desejos quanto em suas inquietações e preocupações. […]
[…] Pensar sociologicamente, então, tem um potencial para promover a solidariedade entre nós, uma solidariedade
fundada em compreensão e respeito mútuos, em resistência conjunta ao sofrimento e em partilhada condenação das cruel-
dades que o causam. […]
Bauman, Zygmunt. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010. p. 24-26.

EDITORA ZAHAR
EFFIGIE/LEEMAGE/AFP

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em 2012. À direita, capa de seu livro Aprendendo a pensar com a sociologia, escrito em parceria com Tim May

6 Introdução

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1 De acordo com o texto, por que o pensamento sociológico “tem o potencial de abalar as confortáveis certezas da vida”?

2 A Sociologia pode contribuir para que haja mais liberdade de pensamento e de ação? Recorra a elementos do texto para fun-
damentar sua resposta.
PARA ORGANIZAR O CONHECIMENTO

Sociologia: ciência da sociedade


[…]
A ideologia das revoluções do século XVIII pretendera circunscrever as relações da sociedade ao plano atomizado
do indivíduo e do Estado. Destruíra aquelas “esferas sagradas da vida social” pela destruição dos privilégios de casta e de
ordem, pela proscrição das corporações de ofício e das barreiras à economia de lucro e à concorrência, pelo novo con-
ceito de educação […]. Cabia, entretanto, ao lado da demolição da ordem social do passado […] racionalizar a constru-
ção de uma ordem nova, e com esta missão nasceu a sociologia.
[…]
Traduzindo a relação que existe entre o pensamento e a organização social, sofrendo as influências particulares das
sociedades em que viviam e da posição que dentro de cada sociedade assumiam, e dos pontos de partida filosóficos em
que se fundavam, os criadores da ciência da sociedade conseguiram lançar as bases da nova ciência na proporção em que
refletiram, em suas obras, os problemas sociais de seu tempo […].
Do ponto de vista estritamente metodológico, os postulados tácitos ou explícitos, contidos na obra dos criadores da
sociologia, são os seguintes:
1 – o reconhecimento de que os fenômenos sociais existem fora das consciências individuais, como realidade obje-
tiva, e que os processos da organização social não são meros reflexos das ideias dos homens;
2 – a verificação de que existe uma estreita e crescente interdependência das várias partes da estrutura social, que é
uma realidade complexa, em constante transformação, cujas leis devem ser encontradas na própria vida social e não no
arbítrio dos demiurgos;
3 – a constatação da possibilidade de se estudar objetivamente a vida social, distinguindo o modo científico de en-
cará-la da atitude utópica que diante dela assumiu, anteriormente, o pensamento social;
4 – o reconhecimento – insinuado ou proclamado – da necessidade de estudar o processo social antes de nele tentar
intervir, intervenção que é feita sempre como contribuição ao esforço para conservar ou para transformar a ordem social
existente.
Costa Pinto, Luiz de Aguiar. Sociologia e desenvolvimento: temas e problemas de nosso tempo. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986. p. 42-43.
EDITORA UFRJ

EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Capa dos livros O negro no Rio de Janeiro e Sociologia e


desenvolvimento, ambos de Luiz de Aguiar Costa Pinto (1920-2012).
SOCIOLOGIA
1 Com base no texto de Costa Pinto e no conteúdo apresentado nesta introdução, caracterize o contexto histórico do surgimen-
to do pensamento sociológico.

2 Identifique as distinções, apontadas no texto, entre o “modo científico” de encarar a vida social e a “atitude utópica” diante dela.

Introdução 7

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LIVROS RECOMENDADOS
PARA PRATICAR

O que é sociologia, de Carlos B. Martins. São Paulo: Brasiliense. Gerente editorial: M. Esther Nejm
EDITORA BRASILIENSE

Editor responsável: Glaucia Teixeira M. Thomé


Nesse pequeno livro da coleção “Primeiros passos”, Carlos B. Martins Coordenador de revisão: Camila Christi Gazzani
faz uma análise do surgimento da Sociologia e de várias correntes so- Revisores: Cesar G. Sacramento, Eduardo Sigrist, Elza
Gasparotto, Felipe Toledo
ciológicas. Com linguagem clara e acessível, é uma boa leitura inicial Coordenador de iconografia: Cristina Akisino
de Sociologia. Pesquisa iconográfica: Cesar Atti
Licenciamento de textos: Érica Brambila
Gerente de artes: Ricardo Borges
Coordenador de artes: José Maria de Oliveira
Produtor de artes: Narjara Lara
Assistentes: Jacqueline Ortolan, Paula Regina Costa
de Oliveira
Ilustrações: Alex Silva, Luigi Rocco, Rogerio Soud
EDITORA FGV

Cartografia: Mario Yoshida, Portal de Mapas


Pensando com a Sociologia, de João Marcelo Ehlert Maia e Luiz Fer- Tratamento de imagens: Emerson de Lima
nando Almeida Pereira. Rio de Janeiro: FGV. Produtor gráfico: Robson Cacau Alves
Projeto gráfico de miolo: Daniela Amaral, Talita
Os autores desse livro apresentam uma introdução ao pensamento Guedes
sociológico e análises sobre alguns temas importantes, como cidada- Projeto Sistema SESI de Ensino
Gestão do Projeto: Thiago Brentano
nia, direitos, cultura e violência. Linguagem fácil e compreensível faz Coordenação do Projeto: Cristiane Queiroz
desse livro um bom instrumento para conhecer melhor a Sociologia. Coordenação Editorial: Simone Savarego, Rosiane
Botelho e Valdete Reis
Revisão: Juliana Souza
Diagramação: Lab 212
Capa: Lab 212
Imagens de capa: Aurielaki/Golden Sikorka/Sentavio/
Macrovector/Shutterstock
Consultores
Coordenação: Dr. João Filocre
Sociologia: Dra. Vera Alice Cardoso da Silva
SESI DN
ANOTAÇÕES Superintendente: Rafael Esmeraldo Lucchesi
Ramacciotti
Diretor de Operações: Marcos Tadeu de Siqueira
Gerente Executivo de Educação: Sergio Gotti
Gerente de Educação Básica: Renata Maria Braga
dos Santos

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Tomazi, Nelson Dacio


Sistema de ensino ser : sociologia : 1º ano :
professor / Nelson Dacio Tomazi. — 3. ed. — São
Paulo : Ática, 2017.

1. Sociologia (Ensino médio) I. Título.

16-08238 CDD-301

Índices para catálogo sistemático:


1. Sociologia : Ensino médio 301
2016
ISBN 978 85 08 18420 0 (AL)
ISBN 978 85 08 18421 7 (PR)
3ª edição
1ª impressão

Impressão e acabamento

Uma publicação

8 Introdução

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SOCIOLOGIA
Nelson Dacio Tomazi

A SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS


1 O indivíduo, sua história e a sociedade. . . . . . . . . . . 12
Nossas escolhas, seus limites e repercussões . . . . . . . . 13
Das questões individuais às questões sociais . . . . . . . .14
2 O processo de socialização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
O que nos é comum. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17
As diferenças no processo de socialização . . . . . . . . . .18
Tudo começa na família . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19
3 As relações entre indivíduo e sociedade. . . . . . . . . . 23
Karl Marx, os indivíduos e as classes sociais . . . . . . . .23
SOCIOLOGIA
Émile Durkheim, as instituições e o indivíduo. . . . . . . . .24
Max Weber, o indivíduo e a ação social . . . . . . . . . . . . .25
Norbert Elias e Pierre Bourdieu:
a sociedade dos indivíduos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .27
Conexão de saberes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
Leituras e atividades. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
2137657 (PR)

A sociedade dos indivíduos 9

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MÓDULO
A sociedade dos indivíduos
PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO/CESAR DINIZ/
PULSAR IMAGENS

O que vem primeiro: o indivíduo ou a sociedade? Os indivíduos mol-


dam a sociedade ou a sociedade molda os indivíduos? Podemos dizer
que indivíduos e sociedade fazem parte da mesma trama, tecida pelas
relações sociais. Não há separação entre eles.
Nós, seres humanos, nascemos e passamos nossa existência em
sociedade porque precisamos uns dos outros para sobreviver. O fato de
dependermos uns dos outros significa que não temos autonomia? Até
que ponto dispomos de liberdade para decidir e agir? Até que ponto
somos condicionados pela sociedade? A sociedade nos obriga a ser o
que não queremos? Podemos mudar a sociedade?
Para estudar essas questões, os sociólogos desenvolveram alguns
conceitos, como socialização, instituição, hierarquia e poder, e geraram
uma diversidade de análises. Algumas das principais serão examinadas
nesta unidade.

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Apresentação de maracatu em Paraty, Rio de Janeiro, 2012.

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CAPÍTULO

1 O indivíduo, sua história


e a sociedade

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: Quando analisamos as diversas formas de sociedade e o modo como elas se organizaram histo-
ricamente, percebemos que, no Ocidente, só recentemente a noção de indivíduo ganhou relevância.
c Compreender o
conhecimento científico
Nas sociedades tribais (indígenas), nas da antiguidade (grega e romana) e na Europa medieval,
como resultado do
apesar das diferenças naturais entre os indivíduos, não se dissociava a pessoa de seu grupo.
trabalho de gerações Na Europa ocidental, a ideia de indivíduo começou a ganhar força no século XVI, com a Re-
de seres humanos em forma Protestante. Os participantes desse movimento religioso afirmavam que o indivíduo podia
busca da compreensão se relacionar diretamente com Deus, sem a necessidade de intermediários institucionais — no caso,
do mundo. os padres, bispos, cardeais ou outros sacerdotes da Igreja Católica. Isso significava afirmar que o ser
humano, individualmente, tinha certa autonomia e liberdade para decidir sobre sua vida.
c Enfatizar a importância Mais tarde, no século XVIII, com o desenvolvimento do capitalismo e do pensamento liberal,
de conceitos básicos a ideia de indivíduo e de individualismo firmou-se definitivamente, pois se colocava a felicidade
para a compreensão humana no centro das atenções.
da história cotidiana. Não se tratava, entretanto, da felicidade como um todo, mas de sua expressão material. Impor-
tava o fato de a pessoa ser possuidora de imóveis, de bens, de dinheiro ou apenas de sua capacidade
de trabalho. No século XIX essa visão estava estabelecida, e a sociedade capitalista, consolidada.

ALBUM/AKG-IMAGES/LATINSTOCK
A noção de indivíduo tem suas origens
históricas na Reforma Protestante. Na
imagem ao lado, representação do massacre
de protestantes por católicos em Paris, em
24 de agosto de 1572. O episódio, conhecido
como Massacre da Noite de São Bartolomeu,
foi um dos desdobramentos políticos da
divisão entre católicos e protestantes na
Europa. O autor da tela, datada de 1576, é
François Dubois.

Mas como indivíduos se relacionam com determinadas regras e normas e formam uma
sociedade? A Sociologia dispõe de um conceito importante para investigar essa questão:
o de socialização.
O processo de socialização, que examinaremos com mais detalhes no próximo capítulo, começa
na família, passa pela escola e continua nos meios de comunicação. Inclui ainda o convívio com os mo-
radores do bairro, os membros da igreja, o grupo que frequenta o clube ou participa das festas popu-
lares. Afinal, nosso dia a dia é pontuado por relações que não se restringem a nossa casa, ao bairro ou
à cidade em que nascemos e vivemos.

12 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 12 22/11/16 13:01


NOSSAS ESCOLHAS, SEUS LIMITES E
REPERCUSSÕES
Quando nascemos, já encontramos prontos valores, normas, costumes e práticas sociais. Tam-
bém encontramos uma forma de produção da vida material que se estrutura de acordo com deter-
minados padrões sociais, econômicos e políticos. Muitas vezes, não temos como interferir nem como
fugir dessas regras já estabelecidas.
A vida em sociedade é possível, portanto, porque seus integrantes falam a mesma língua, são
julgados por determinadas leis comuns, usam a mesma moeda, além de ter uma história e alguns
hábitos comuns, o que lhes dá um sentimento de pertencer a determinado grupo.
O fundamental é entender que o individual — o que é de cada um — e o comum — o que é
compartilhado por todos — não estão separados; formam uma relação que se constitui conforme
reagimos às situações que enfrentamos no dia a dia.
Existem vários níveis de dependência entre a vida de cada pessoa e o contexto social mais
amplo. Em uma eleição, por exemplo, o candidato no qual votamos está inscrito num partido, que,
por sua vez, é organizado de forma previamente determinada pelas leis vigentes naquele momento
em nosso país. Ou seja, votamos em alguém que já foi escolhido pelos membros de um partido, os
quais se reuniram para decidir quem deveria ser seu candidato.
Para decidir votar ou não votar em alguém, podemos prestar atenção à propaganda política,
conversar com parentes e amigos, participar ou não de comícios ou acompanhar as notícias nos
meios de comunicação. Nesse caso, portanto, a decisão que podemos tomar tem ligação com a de
outras pessoas, com informações dos meios de comunicação, que defendem interesses próprios, e
também com decisões que já foram tomadas, ou seja, as leis que regem os partidos políticos e as
eleições. Estas foram decididas por indivíduos (no caso, deputados e senadores) considerados re-
presentantes da sociedade. Mas, muitas vezes, o cidadão não sabe como essas leis foram feitas nem
quais são os interesses de quem as fez.
Assim, o indivíduo está condicionado por decisões e escolhas que ocorrem fora de seu alcance,
em outros níveis da sociedade. Entretanto, nossas decisões nos conduzem a diferentes direções na vida,
sendo sempre resultado de escolhas individuais no contexto mais amplo que nos influencia.
As decisões de um indivíduo podem levá-lo a se destacar em certas situações históricas, cons-
truindo o que se costuma classificar como uma trajetória de vida notável. No entanto, ao conside-
rarmos as características individuais e sociais, bem como os aspectos históricos da formação de cada
indivíduo, podemos afirmar que não existem condicionamentos históricos ou sociais que tornam
algumas pessoas mais “especiais” que outras, pois a história de uma sociedade é feita por todos os
que nela vivem, uns de modo obstinado à procura de seus objetivos, outros com menos intensidade,
mas todos procurando resolver as questões que se apresentam em seu cotidiano, conforme seus
interesses e seu poder de influir nas situações.
De acordo com Norbert Elias (1897-1990), seguindo Émile Durkheim (1858-1917), a sociedade
não é um baile à fantasia, em que cada um pode trocar de máscara ou de traje a qualquer momento.
Desde o nascimento, estamos presos às relações que foram estabelecidas antes de nós e das que se
estruturam durante nossa vida.
NILTON CARDIN/FOLHAPRESS

SOCIOLOGIA

Eleitores aguardam em fila para votar, no


primeiro turno das eleições de 2010, na
cidade de Jacareí, em São Paulo. Em quem
votar? A decisão é de cada eleitor, mas o
processo de escolha passa pela influência da
propaganda eleitoral, das conversas com os
amigos e parentes e das notícias divulgadas
pelos meios de comunicação.

A sociedade dos indivíduos 13

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 13 22/11/16 13:01


DAS QUESTÕES INDIVIDUAIS ÀS QUESTÕES SOCIAIS
Podemos chamar de questões sociais algumas situações que não dizem respeito somente a
nossa vida pessoal, mas estão ligadas à estrutura de uma ou de várias sociedades. É o caso do desem-
prego, por exemplo, que afeta milhões de pessoas em diversos grupos sociais.
De acordo com o sociólogo estadunidense Charles Wright Mills (1916-1962), que escreveu o
livro A imaginação sociológica (1959), se, numa cidade de 100 mil habitantes, poucos indivíduos
estão sem trabalho, há uma questão individual, que pode ser resolvida tratando as habilidades e
potencialidades de cada um. Entretanto, se, em um país com 50 milhões de trabalhadores, 5 milhões
não encontram emprego, a questão passa a ser social e não pode ser resolvida como individual. Nesse
caso, a busca de soluções passa por uma análise mais profunda da estrutura econômica e política
dessa sociedade.
Há também situações que afetam o cotidiano individual e que são resultado de acontecimen-
tos que atingem muitos países. Podemos citar três eventos, ocorridos em diferentes momentos da
história, que tiveram repercussões em muitas sociedades: a crise de 1929, que levou ao colapso o
sistema financeiro mundial; a chamada Crise do Petróleo, em 1973, provocada pela elevação súbita
dos preços do petróleo; o ataque, em 11 de setembro de 2001, às Torres Gêmeas do World Trade
Center, em Nova York, que alterou substancialmente a relação dos Estados Unidos com os outros
países e, principalmente, o cotidiano dos cidadãos estadunidenses.
Podemos concluir, assim, que somos atingidos por acontecimentos independentes um do outro
e de nossa vontade. No entanto, é importante destacar que, tanto em 1929 como em 1973 e em
2001, os eventos mencionados foram resultado de decisões de alguns indivíduos e instituições. As
consequências dessas decisões foram muito além das expectativas dos indivíduos ou instituições
que as tomaram.
Essas situações, além de afetar as relações políticas, econômicas e finan-
SHANNON STAPLETON/REUTERS/LATINSTOCK

ceiras de todos os países, atingiram indivíduos em várias partes do mundo,


que sofreram, por exemplo, com a alta no preço dos alimentos e a falta de
combustíveis.
Esses pontos, que estão presentes na vida de cada um de nós, fazem
parte da história da sociedade em que vivemos e, muitas vezes, assumem
proporções ainda mais amplas. Tomar uma decisão é algo individual e social
ao mesmo tempo, sendo impossível separar esses planos.
CORBIS/LATINSTOCK

Flagrantes de acontecimentos que afetaram a história


mundial e o cotidiano de milhões de indivíduos: acima,
BETTMANN/CORBIS/LATINSTOCK

trabalhos de resgate na manhã de 11 de setembro de


2001, após o ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, nos
Estados Unidos; à direita, no alto, fila de desempregados
em Chicago, nos Estados Unidos, em fevereiro de 1931,
uma imagem da depressão financeira desencadeada pela
quebra da Bolsa de Nova York; ao lado, nervosismo na Bolsa
de Tóquio, no Japão, em 27 de dezembro de 1973, dia
seguinte ao anúncio do aumento dos preços do petróleo
pelos árabes.

14 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 14 22/11/16 13:01


CENÁRIO DA SOCIABILIDADE COTIDIANA

Vizinhos e internautas

TAKO X, 2005
Rio de Janeiro — Estudiosos do comportamento humano
na vida moderna constatam que um dos males de nossa
época é a incomunicabilidade das pessoas. Já foi tempo em
que, mesmo nas grandes cidades, nos bairros residenciais,
ao cair da tarde era costume os vizinhos se darem boa-
-noite, levarem as cadeiras de vime para as calçadas e ficar
falando da vida, da própria e da dos outros.
A densidade demográfica, os apartamentos, a violência
urbana, o rádio e mais tarde a TV ilharam cada indivíduo
no casulo doméstico. Moro há 18 anos num prédio da
Lagoa; tirante os raros e inevitáveis cumprimentos de pra-
xe no elevador ou na garagem, não falo com eles nem eles
comigo. Não sou exceção. Nesse lamentável departamen-
to, sou regra.
Daí que não entendo a pressão que volta e meia me
fazem para navegar na Internet. Um dos argumentos que
me dão é que posso falar com pessoas na Indonésia, saber
como vão as colheitas de arroz na China e como estão os
melões na Espanha.
Uma de minhas filhas vangloria-se de ser internauta.
Tem amigos na Pensilvânia e arranjou um admirador em
Dublin, terra do Joyce, do Bernard Shaw e do Oscar Wilde.
Para convencê-la de seus méritos, ele mandou uma foto
em cor que foi impressa em alta resolução. É um jovem
simpático, de bigode, cara honesta. Pode ser que tenha 1 No texto, Carlos Heitor Cony fala de mudanças que ocorre-
mandado a foto de um outro. ram nas cidades nos últimos anos. Cite as mudanças impor-
Lembro a correspondência sentimental das velhas re- tantes que ocorreram nos últimos anos no lugar onde você
vistas de antanho. Havia sempre a promessa: “Troco fotos mora. Analise-as e verifique se elas alteraram a maneira de
na primeira carta”. Nunca ouvi dizer que uma dessas tro- você se relacionar com as pessoas em casa e na escola.
cas tenha tido resultado aproveitável.
Para vencer a incomunicabilidade, acredito que o in- 2 A internet pode nos aproximar de muitas pessoas que
ternauta deva primeiro aprender a se comunicar com o com frequência nem conhecemos, mas às vezes parece
vizinho de porta, de prédio, de rua. Passamos uns pelos que nos distancia de quem vive perto de nós. O que você
outros com o desdém de nosso silêncio, de nossa cara pensa sobre isso?
amarrada. Os suicidas se realizam porque, na hora do de-
sespero, falta o vizinho que lhe deseje sinceramente uma
boa noite.
CONY, Carlos Heitor. Vizinhos e internautas. Folha de S.Paulo.
São Paulo, 26 jun. 1997. Opinião, p. A2. Licenciado por Folhapress.

ANOTAÇÕES

SOCIOLOGIA

A sociedade dos indivíduos 15

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TAREFA PARA CASA

1 Leia o texto e responda às questões. Não existe um grau zero da vinculabilidade social do
indivíduo, um “começo” ou ruptura nítida em que ele in-
Seja o objeto do exame uma grande potência, ou uma
gresse na sociedade como que vindo de fora, como um ser
passageira moda literária, uma família, uma prisão, um
não afetado pela rede, e então comece a se vincular a ou-
credo — são essas as perguntas que os melhores analistas
tros seres humanos. Ao contrário, assim como os pais são
sociais formularam. São [...] perguntas formuladas inevi-
necessários para trazer um filho ao mundo, assim como a
tavelmente por qualquer espírito que possua uma imagi-
mãe nutre o filho, primeiro com seu sangue e depois com
nação sociológica. Pois essa imaginação é a capacidade de
o alimento vindo de seu corpo, o indivíduo sempre existe,
passar de uma perspectiva a outra — da política para a
no nível mais fundamental, na relação com os outros, e
psicológica; do exame de uma única família para a análise
essa relação tem uma estrutura particular que é específica
comparativa dos orçamentos nacionais do mundo; da es-
de sua sociedade. Ele adquire sua marca individual a par-
cola teológica para a estrutura militar; de considerações de
tir da história dessas relações, dessas dependências, e as-
uma indústria petrolífera para estudos da poesia contem-
sim, num contexto mais amplo, da história de toda a rede
porânea. É a capacidade de ir das mais impessoais e remo-
humana em que cresce e vive. Essa história e essa rede
tas transformações para as características mais íntimas do
humana estão presentes nele e são representadas por ele,
ser humano — e ver as relações entre as duas. Sua utiliza-
quer ele esteja de fato em relação com outras pessoas ou
ção se fundamenta sempre na necessidade de conhecer o
sozinho, quer trabalhe ativamente numa grande cidade ou
sentido social e histórico do indivíduo na sociedade e no
seja um náufrago numa ilha a mil milhas de sua sociedade.
período no qual sua qualidade e seu ser se manifestam.
Elias, Norbert. A sociedade dos indivíduos.
É por isso, em suma, que por meio da imaginação Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p. 31.
sociológica os homens esperam, hoje, perceber o que está
acontecendo no mundo, e compreender o que está acon- a) De acordo com o texto, quais relações sociais são impor-
tecendo com eles, como minúsculos pontos de cruzamen- tantes na formação do indivíduo?
to da biografia e da história, dentro da sociedade. Em gran- Ao indicar trechos do texto, o aluno exercita a identificação, em obras
de parte, a visão autoconsciente que o homem propriamente sociológicas, de descrições dos temas abordados no
livro.
contemporâneo tem de si, considerando-se pelo menos
um forasteiro, quando não um estrangeiro permanente, b) No texto, o autor afirma que as relações sociais são espe-
baseia-se na compreensão da relatividade social e da capa- cíficas, ou seja, que cada sociedade possui uma maneira
cidade transformadora da história. A imaginação socioló- diferente de socializar o indivíduo. Cite dois exemplos de
gica é a forma mais frutífera dessa consciência. socialização da criança na sociedade brasileira e comente
Mills, Wright. A imaginação sociológica. como eles contribuem para a formação do indivíduo.
Rio de Janeiro: Zahar, 1980. p. 13-14.
O objetivo da pergunta é fazer o aluno refletir sobre o tema do capítulo
utilizando exemplos de sua própria realidade.
a) Segundo o trecho acima e o que você estudou no livro, o
que se pode entender por imaginação sociológica? 3 Nós, indivíduos modernos, geralmente acreditamos que to-
O objetivo da pergunta é fazer o aluno refletir sobre o tema do capí- dos os nossos pensamentos e ações são resultado de esco-
tulo utilizando exemplos de sua própria realidade. lhas próprias e autônomas. Também tendemos a perceber
b) Escolha um fato que ocorreu com você e, por meio dele, no ser humano uma propensão a estar sempre voltado aos
escreva como sua biografia se relaciona com a história de próprios interesses. Como a Sociologia concebe as ações in-
seu bairro, de sua cidade, de seu país ou até mesmo do dividuais?.
mundo.
A cultura ocidental está marcada pela ideia de que o indivíduo — como
2 Leia o texto a seguir e responda às questões. unidade soberana — é autônomo perante a sociedade para analisar,
julgar e decidir. Assim, a pergunta incita o aluno a refletir sobre o ar-
Espera-se que o aluno demonstre ter compreendido que a imagina- gumento sociológico de que somos produtores e produtos de nosso
ção sociológica é uma percepção da relação entre história, sociedade meio social. Além disso, estimula-o a confrontar tal argumento com
e indivíduo; ter tal percepção é fundamental para incitar a reflexão as pressuposições da sociedade ocidental.
crítica e a ação transformadora.

16 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 16 22/11/16 13:01


CAPÍTULO

2 O processo de socialização

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: No capítulo anterior vimos como o indivíduo atua na sociedade e como a sociedade atua na vida
do indivíduo. O processo pelo qual os indivíduos formam a sociedade e são formados por ela é chamado
c Assimilar hábitos de socialização. A imagem que melhor ilustra esse processo é a de uma rede tecida por relações sociais
culturais bem como o que vão se entrelaçando e compondo diversas outras relações até formar a sociedade.
aprendizado social dos Cada indivíduo, ao fazer parte de uma sociedade, insere-se em múltiplos grupos e instituições
sujeitos. que se entrecruzam, como a família, a escola e a religião. Assim, o fio da meada parece interminável,
pois forma uma complexa rede de relações. Ainda que cada um tenha sua individualidade, esta se
c Compreender que os
constrói no contexto das relações que as pessoas mantêm com outros indivíduos, grupos e insti-
indivíduos aprendem
tuições dos quais participam. Por isso, cada pessoa vive experiências semelhantes ou diferentes das
e interiorizam regras e
valores de determinada
outras com as quais convive.
sociedade.
O QUE NOS É COMUM
Ao nascer, a pessoa chega a um mundo que já está pronto e com o qual passa a ter uma relação
de total estranheza. A criança vai sentir frio e calor, conforto e desconforto, sorrir e chorar; enfim, vai
começar a se relacionar e conviver com o mundo externo. Nos primeiros meses de vida, vai aprender
a conhecer seu corpo, seja observando e tocando partes dele, seja se olhando no espelho. Nesse
momento ainda não se reconhece como indivíduo, pois não domina os códigos sociais; é o “nenê”,
um ser genérico.
Com o tempo, a criança percebe que existem outras coisas a seu redor: o berço (quando o
tem), o chão (que pode ser de terra batida, de cimento, de tábuas ou de mármore com tapetes) e os
objetos que compõem o ambiente em que vive. Percebe que existem também pessoas — pai, mãe,
irmãos, tios e avós — com as quais vai ter de se relacionar. Percebe que há outros indivíduos, com
nomes como José, Maurício, Solange e Marina, que são chamados de amigos ou colegas. Passa, então,
a diferenciar as pessoas da família das demais. À medida que cresce, vai descobrindo que há coisas que
pode fazer e coisas que não pode fazer. Posteriormente saberá que isso é determinado pelas normas
e costumes da sociedade à qual pertence.
No processo de conhecimento do mundo, a criança observa que alguns dias são diferentes dos
outros. Há dias em que os pais não saem para trabalhar e passam mais tempo em casa. São ocasiões
em que ela assiste mais à televisão, vai passear em algum parque ou em outro lugar qualquer. Em
alguns desses dias percebe que vai a um lugar diferente, que mais tarde identificará como igreja, ter-
reiro, sinagoga ou mesquita (no caso de os pais serem cristãos, participarem de cultos afro-brasileiros,
serem judeus ou muçulmanos, por exemplo). Nos outros dias da semana vai à escola, onde encontra
crianças da mesma idade e também outros adultos.
A criança vai entendendo que, além da casa e do bairro onde vive, existem outros lugares, uns
parecidos com o seu espaço e outros bem diferentes; alguns próximos e outros distantes; alguns
grandes e outros pequenos; alguns luxuosos e outros simples ou miseráveis. SOCIOLOGIA
Ao viajar ou assistir à televisão, a criança perceberá que existem cidades enormes e outras bem
pequenas, novas e antigas, bem como áreas rurais, com poucas casas, onde se cultivam os alimentos
que ela consome. Aos poucos, saberá que cidades, zonas rurais, matas e rios fazem parte do território
de um país, que normalmente é dividido em unidades menores (no caso brasileiro, elas são chamadas
de estados). Nessa “viagem” do crescimento, a criança aprenderá que há os continentes, os oceanos e
os mares, e que tudo isso, com a atmosfera, constitui o planeta Terra, que, por sua vez, está vinculado
a um sistema maior, o sistema solar, o qual se integra numa galáxia.

A sociedade dos indivíduos 17

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Esse processo de conviver com a família e com os vizinhos, de frequentar a escola, de ver televi-
são, de passear e de conhecer novos lugares, coisas e pessoas compõe um universo cheio de faces no
qual a criança vai se socializando. Além de coisas e lugares, vai aprendendo e interiorizando palavras,
significados e ideias, enfim, os valores e o modo de vida da sociedade da qual faz parte.

FERNANDO FAVORETTO/CRIAR IMAGENS


De bebês a adultos, em seu caminho de
descoberta do mundo, todos os integrantes
de uma sociedade passam pelo processo de
socialização. Cena registrada em escola de
Suzano, São Paulo, em 2010.

AS DIFERENÇAS NO PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO


Entender a sociedade em que vivemos significa saber que há muitas diferenças no cotidia-
no das pessoas e que é preciso
prestar atenção nelas. É muito di-
Ao lado, pai e filho em
celebração muçulmana
ferente nascer e viver numa favela,
em Jacarta, Indonésia, em num bairro rico, num condomínio fe-
2011. Abaixo, pai e filho chado ou numa área do sertão nordes-
em campo de refugiados tino exposta a longos períodos de seca.
no distrito de Swabi, no
Paquistão, em 2009. Paz
Essas desigualdades promovem formas
ou guerra, abundância diferentes de socialização.
ou miséria: como essas Ao tratar de diferenças, temos
condições podem afetar a de relacioná-las ao contexto histórico.
ROMEO GACAD/AFP

socialização das crianças?


A socialização dos dias atuais é diferen-
te da dos anos 1950. Naquela época, a
maioria da população vivia na zona ru-
ral ou em pequenas cidades. As escolas
AKHTAR SOOMRO/REUTERS/LATINSTOCK

eram pequenas e tinham poucos alunos.


A televisão estava iniciando no Brasil e
seus programas eram vistos por poucas
pessoas. Não havia internet e a telefonia
era precária. Ouvir rádio era a principal
forma de tomar conhecimento do que
acontecia em outros lugares do país e
do mundo. As pessoas relacionavam-
-se quase somente com as que viviam
próximas e estabeleciam fortes laços de
solidariedade entre si. Escrever cartas era

18 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 18 22/11/16 13:01


muito comum, pois constituía a forma mais prática de se comunicar à distância.
No decorrer da segunda metade do século XX, os avanços tecnológicos nos setores de comuni-
cação e informação, o aumento da produção industrial e do consumo e o crescimento da população
urbana desencadearam grandes transformações no mundo inteiro.
Em alguns casos, alterações econômicas e políticas provocaram a deterioração das condições
de vida e organização social, gerando situações calamitosas. Em vários países do continente africano,
milhares de pessoas morreram de fome ou se destruíram em guerras internas (o que continua a
acontecer). Na antiga Iugoslávia, no continente europeu, grupos étnicos entraram em conflitos que
mesclavam questões políticas, econômicas e culturais e, apoiados ou não por outros países, enfren-
taram-se durante muitos anos numa guerra civil. Nascer e viver nessas condições é completamente
diferente de viver no mesmo local com paz e tranquilidade. A socialização das crianças “em guerra
permanente” (quando conseguem sobreviver) é afetada profundamente.

TUDO COMEÇA NA FAMÍLIA


Mesmo considerando essas diferenças e outras tantas que podíamos mencionar, há normal-
mente um processo de socialização formal, conduzido por instituições, como escola e religião, e um
processo mais informal e abrangente, que acontece inicialmente na família, na vizinhança, nos grupos
de amigos e pela exposição aos meios de comunicação.
O ponto de partida é a família, o espaço privado das relações de intimidade e afeto, em que,
geralmente, podemos encontrar alguma compreensão e refúgio, apesar dos conflitos. É o espaço onde
aprendemos a obedecer a regras de convivência, a lidar com a diferença e a diversidade.
Os espaços públicos de socialização são todos os outros lugares que frequentamos. Neles, as re-
lações são diferentes, pois convivemos com pessoas que muitas vezes nem conhecemos. Nos espaços
públicos, não podemos fazer muitas das coisas que em casa são permitidas, e precisamos observar as
normas e regras próprias em cada situação. Nos locais de culto religioso, por exemplo, devemos fazer
silêncio; na escola, onde ocorre a chamada educação formal, precisamos ser pontuais nos horários de
entrada e saída, e assim por diante.
Há, entretanto, agentes de socialização presentes tanto nos espaços privados como nos pú-
blicos: são os meios de comunicação — o cinema, a televisão, o rádio, os jornais, as revistas e todos
os aparelhos eletrônicos (conectados à internet ou não). Esses talvez sejam os meios de socialização
mais eficazes e persuasivos (trataremos deles com mais detalhes no módulo — “Cultura e ideologia”). FERNANDO FAVORETTO/CRIAR IMAGEM

SOCIOLOGIA

Registro fotográfico do encontro familiar de três gerações. São Paulo, 2010.

A sociedade dos indivíduos 19

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CENÁRIO DA SOCIABILIDADE COTIDIANA

Os sonhos dos adolescentes CALLIGARIS, Contardo. Os sonhos dos adolescentes. Folha de S.Paulo.
São Paulo, 11 jan. 2007. Ilustrada, p. E10. Disponível em: <http://acervo.
[...] folha.com.br/fsp/2007/01/11/21>. Acesso em: 23 ago. 2012.
Ao longo de 30 anos de clínica, encontrei várias gera-

ALEXANDRE TOKITAKA/PULSAR IMAGENS


ções de adolescentes (a maioria, mas não todos, de classe
média) e, se tivesse que comparar os jovens de hoje com
os de dez ou 20 anos atrás, resumiria assim: eles sonham
pequeno.
É curioso, pois, pelo exemplo de pais, parentes e vi-
zinhos, os jovens de hoje sabem que sua origem não fecha
seu destino: sua vida não tem que acontecer necessaria-
mente no lugar onde nasceram, sua profissão não tem que
ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma pro-
liferação extraordinária de ficções e informações, eles co-
nhecem uma pluralidade inédita de vidas possíveis.
Apesar disso, em regra, os adolescentes e os pré-ado-
lescentes de hoje têm devaneios sobre seu futuro muito
parecidos com a vida da gente: eles sonham com um dia a
dia que, para nós, adultos, não é sonho algum, mas o re-
sultado (mais ou menos resignado) de compromissos e Skatistas na praça Roosevelt, no centro de São Paulo, em 2012:
frustrações. com que sonham esses jovens?
Um exemplo. Todos os jovens sabem que Greenpeace
é uma ONG que pratica ações duras e aventurosas em
defesa do meio ambiente. Alguns acham muito legal assis- 1 Você acha que o autor tem razão? Os jovens só querem um
tir, no noticiário, à intrépida abordagem de um baleeiro emprego seguro e bem pago, e nada mais? Por quê?
por um barco inflável de ativistas. Mas, entre eles, não
2 De acordo com suas observações, como os jovens cos-
encontro ninguém (nem de 12 ou 13 anos) que sonhe em
tumam reagir às injustiças, à degradação ambiental ou à
ser militante do Greenpeace. Os mais entusiastas se pro-
morte cotidiana de pessoas, em razão da violência ou da
põem a estudar oceanografia ou veterinária, mas é para ser
falta de assistência médica?
professor, funcionário ou profissional liberal. Eles são “ra-
zoáveis”: seu sonho é um ajuste entre suas aspirações he-
3 Conformismo ou resistência e ação alternativa: que bandeira
roico-ecológicas e as “necessidades” concretas (segurança
deve ser levantada? Justifique.
do emprego, plano de saúde e aposentadoria).
[...] Socialização por fragmentos
É possível que, por sua própria presença maciça em
nossas telas, as ficções tenham perdido sua função essen- No primeiro capítulo de seu livro Visões da tradição socioló-
cial e sejam contempladas não como um repertório arre- gica, o sociólogo estadunidense Donald Levine discute uma
batador de vidas possíveis, mas como um caleidoscópio das características do nosso tempo: a visão fragmentária do
para alegrar os olhos, um simples entretenimento. Os he- mundo. Seu texto inspira uma reflexão sobre o processo de
róis percorrem o mundo matando dragões, defendendo socialização tal como ocorre hoje.
causas e encontrando amores solares, mas eles não nos Cada vez mais, a socialização acontece em pequenos frag-
inspiram: eles nos divertem, enquanto, comportadamente, mentos. A televisão despeja imagens e as pessoas “zapeiam”
aspiramos a um churrasco [...] com os amigos. de canal em canal. A leitura de livros é substituída pela de
É também possível (sem contradizer a hipótese ante- resumos ou de resenhas publicadas nos periódicos, quando
rior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além não apenas por frases e parágrafos soltos destacados em re-
de seu nariz. Ora, a capacidade de os adolescentes inven- vistas semanais. Os computadores apresentam as notícias e
tarem seu futuro depende dos sonhos aos quais nós renun- informações como se fossem todas iguais e tivessem a mes-
ciamos. Pode ser que, quando eles procuram, nas entreli- ma importância. Os paisV entregam os filhos para as escolas
nhas de nossas falas, as aspirações das quais desistimos, e acreditam que com isso os educam. Os estudantes de-
eles se deparem apenas com versões melhoradas da mesma monstram uma capacidade reduzida para argumentar com
vida acomodada que, mal ou bem, conseguimos arrumar. fundamento e quase não têm uma visão histórica ou proces-
Cada época tem os adolescentes que merece. sual do que está acontecendo, pois, como nos diz Eric Hobs-

20 A sociedade dos indivíduos

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bawm, para eles até a Guerra do Vietnã é pré-histórica, o que familiares, como se não pudessem mais dizer ou ensinar algo
evidencia não apenas ignorância do passado, mas também aos mais novos. O que importa é o momento e o novo que
falta de um senso de relação histórica. Os mais velhos são aparece a todo instante.
considerados improdutivos e ultrapassados, um peso para os

Banca de jornais e

GUILHERME DIONISIO/FUTURA PRESS


revistas em Santos, São
Paulo, em fotografia de
2011. O consumo da
informação fragmentada
e a demanda pelo
instantâneo, pelo novo,
quebraram o elo das
gerações na transmissão
da cultura?

1 É possível um processo de socialização que não leve em con- 2 Como você interpreta a fragmentação a que se refere o tex-
ta a experiência acumulada? Explique. to? O quadro pintado no texto está muito carregado de tin-
tas escuras e de pessimismo, ou a realidade é essa mesmo?

TAREFA PARA CASA

1 Observe as imagens a seguir e responda: Guerra ou paz, mi-


AKHTAR SOOMRO/REUTERS/LATINSTOCK

séria ou abundância: como essas condições podem afetar a


socialização das crianças?
ROMEO GACAD/AFP

SOCIOLOGIA
Paquistão, 2009.

2 Leia um trecho do poema “Família”, de Carlos Drummond de


Andrade, e responda às questões.
Indonésia, 2011. Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,

A sociedade dos indivíduos 21

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 21 22/11/16 13:01


o papagaio, o gato, o cachorro, e a mulher que trata de tudo.
as galinhas gordas no palmo de horta [...]
In: Andrade, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. p. 24. Editora Record © Graña Drummond. www.carlosdrummond.com.br

a) A família mencionada no poema apresenta características diferentes da família moderna? Se a resposta for afirmativa, cite duas
diferenças entre a família do poema e a família moderna.
Esse exercício de comparação histórica objetiva que o aluno apreenda as transformações pelas quais a família passou. O estudante pode tratar
tanto das questões raciais, vinculadas mais especificamente à realidade brasileira, quanto do papel ocupado pela mulher na família.

b) Para a Sociologia, a família é um agente de socialização? Por quê?


Se julgar necessário, recomende aos alunos a releitura do livro; em seguida, eles deverão explicar, com as próprias palavras, o papel funda-
mental da família na formação social do indivíduo.
3 Observe a charge do cartunista Adão Iturrusgarai.

ADÃO ITURRUSGARAI
Com base na charge e em seus conhecimentos acerca do processo de socialização, explique como a internet molda as formas de
comunicação da juventude contemporânea.
Nesse tipo de questão, é preciso orientar o aluno para que não utilize argumentos moralizantes acerca da internet, afirmando, por exemplo, que
a rede mundial de computadores distancia o jovem do mundo real. Trata-se, aqui, de analisar e não de julgar, a fim de perceber os mecanismos
de socialização condicionados por esse meio amplamente utilizado nos dias de hoje.
4 Leia um trecho do poema “Família”, de Carlos Drummond de Andrade, e responda às questões.
O futebol, esporte das multidões, é capaz de levar milhões de torcedores brasileiros a assistirem as partidas nos estádios
ou em frente aos televisores, capaz de parar as atividades cotidianas do país em períodos de Copa do Mundo. Objeto que
suscita paixões e discussões sempre acaloradas, por isso mesmo, ingenuamente classificado fora dos assuntos ditos sérios.
Porém, o futebol é um elemento marcante da identidade brasileira. Ele é capaz de engendrar sentimentos completamente
díspares: alegria — tristeza, amor — ódio, delírio — desprezo, realização — fracasso, entre muitas outras possibilidades.
Borges, Luiz H. de A. Do complexo de vira-latas ao homem genial: futebol e identidade no Brasil. Histórica — Revista Eletrônica do Arquivo do Estado de São
Paulo, n. 24, p. 38, ago. 2007. Disponível em: <www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao24/materia02/texto02.pdf>. Acesso em: set. 2013.

Considerando o texto e os temas abordados pela Sociologia, apresente e comente um aspecto positivo ou negativo do futebol
que o faz ser um elemento marcante da identidade brasileira. Depois, reflita: de que modo a importância do futebol no Brasil
influencia sua formação como indivíduo?
Socialização implica conformação com o meio específico no qual se vive. Assim, é importante que o aluno reconheça e compreenda os elementos
que condicionam os diferentes círculos sociais nos quais se insere. Nessa questão, espera-se que cada estudante reflita sobre o papel do futebol
na identidade brasileira e avalie a relevância ou não desse fator para sua formação como indivíduo.

ANOTAÇÕES

22 A sociedade dos indivíduos

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CAPÍTULO

3 As relações entre indivíduo


e sociedade

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: Entre os estudiosos que se preocuparam em analisar a relação do indivíduo com a socieda-
de, destacam-se autores clássicos da Sociologia, como Karl Marx (1818-1883), Émile Durkheim
c Compreender que as (1858-1917) e Max Weber (1864-1920), e outros mais recentes, como Norbert Elias (1897-1990) e
ações em sociedade Pierre Bourdieu (1930-2002). Neste capítulo examinaremos as diferentes perspectivas adotadas
são interdependentes. por esses autores para analisar o processo de constituição da sociedade e a maneira como os
indivíduos se relacionam.
c Perceber que
o pensamento
sociológico constrói KARL MARX, OS INDIVÍDUOS E AS CLASSES SOCIAIS
diferentes conceitos Para o alemão Karl Marx, o ser humano, além do resultado da evolução biológica da espécie,
para a compreensão é um produto histórico em constante mudança, dependendo da sociedade na qual está inserido e
da sociedade dos das condições em que vive. Assim, os indivíduos devem ser analisados de acordo com o contexto
indivíduos. social em que vivem.
O homem primitivo, segundo Marx, diferenciava-se dos outros animais não apenas pelas
características biológicas, mas também por aquilo que produzia no espaço e na época em que
vivia. Coletando alimentos, caçando, defendendo-se e criando instrumentos, nossos ancestrais
construíram sua história e sua existência na sociedade.
Ao produzir as condições materiais de existência, o ser humano elabora sua consciência,
seu modo de pensar e conceber o mundo, isto é, as explicações, as leis, a moral e a religião em
uma sociedade. É nesse sentido que Marx afirma que é a maneira como os indivíduos produzem
sua existência que condiciona o processo de vida social, política e intelectual, ou seja, o modo
como a pessoa vive determina como ela pensa. Assim, a sociedade produz o indivíduo e este
produz a sociedade.
A capacidade de se relacionar em sociedade trabalhando, aprendendo, construindo e ino-
vando é uma característica fundamental do ser humano. Por isso, Marx não analisa um indivíduo
genérico, abstrato, mas os indivíduos humanos reais que vivem em uma sociedade histórica. A
produção do indivíduo isolado, fora da sociedade, é tão inconcebível quanto o desenvolvimento
da linguagem sem indivíduos que vivam juntos e conversem.

Constituição das classes


De acordo com Marx, na sociedade capitalista, quando se desenvolveu de modo mais preciso
o trabalho assalariado, os trabalhadores perderam o domínio sobre sua vida e passaram a depender
do sistema capitalista; não trabalham mais para si, mas vendem seu trabalho e não conseguem se
reconhecer no que fazem e produzem.
É na luta diária para se contrapor a esse tipo de vida desumanizado, no qual são reduzidos a
uma coisa que pode ser vendida, comprada e até descartada, que os indivíduos trabalhadores se
identificam e se unem para questionar a realidade de exploração, configurando uma classe social. SOCIOLOGIA
Ao analisar a sociedade capitalista e os indivíduos, Marx trata das relações entre as classes sociais,
mas a ideia do indivíduo como ser social continua presente. Isso fica claro quando Marx afirma que
os seres humanos constroem sua história, mas não da maneira que querem, pois são condicionados
por situações anteriores. Para ele, existem fatores sociais, políticos e econômicos que levam os indi-
víduos e as classes a percorrer determinados caminhos; mas todos têm capacidade de reagir a essas
situações e até mesmo de transformá-las.
O ponto central da análise que Marx faz da sociedade capitalista está nas relações estabeleci-

A sociedade dos indivíduos 23

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das entre as classes que compõem essa sociedade. Para ele, só é possível entender as relações dos
indivíduos com base nos antagonismos, nas contradições e nos conflitos entre as classes sociais, ou
seja, na luta de classes que se desenvolve à medida que homens e mulheres procuram satisfazer suas
necessidades, sejam elas oriundas do estômago ou da fantasia.
O “homem real” faz a História: populares
invadem a Assembleia Constituinte
da França em 15 de maio de 1848,
para forçá-la a manter suas conquistas
democráticas e sociais. Pintura de autor
desconhecido, sem data.

BIBLIOTHÉQUE NATIONALE, PARIS, FRANÇA

NAS PALAVRAS DE MARX E ENGELS

Burgueses e proletários
A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes.
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em resumo,
opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guer-
ra que terminou sempre ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes
em conflito.
Nas mais remotas épocas da História, verificamos, quase por toda parte, uma completa estruturação da sociedade em
classes distintas, uma múltipla gradação das posições sociais. Na Roma antiga encontramos patrícios, cavaleiros, plebeus,
escravos; na Idade Média, senhores, vassalos, mestres das corporações, aprendizes, companheiros, servos; e, em cada uma
destas classes, outras gradações particulares.
A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Não
fez mais do que estabelecer novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das que existiram
no passado.
Entretanto, a nossa época, a época da burguesia, caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classe. A socie-
dade divide-se cada vez mais em dois campos opostos, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o prole-
tariado.
[…]
Marx, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 1998. p. 40-41.

ÉMILE DURKHEIM, AS INSTITUIÇÕES E O INDIVÍDUO


Para o fundador da escola francesa de Sociologia, Émile Durkheim, a sociedade sempre está
acima dos indivíduos, dispondo de certas regras, normas, costumes e leis que asseguram sua continui-
dade. Essas regras e leis independem do indivíduo e pairam sobre todos, formando uma consciência
coletiva que dá o sentido de integração entre os membros da sociedade. Elas se solidificam em insti-
tuições, que são a base da sociedade e que correspondem, para Durkheim, a todo comportamento

24 A sociedade dos indivíduos

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e crença instituídos por uma coletividade.
A família, a escola, o sistema judiciário e o Estado são exemplos de instituições que congregam os
elementos essenciais da sociedade, dando-lhe sustentação e garantindo-lhe a permanência. Durkheim
dava tanta importância às instituições que definia a Sociologia como a ciência da gênese e do fun-
cionamento das instituições sociais. Para não haver conflito ou desestruturação das instituições e,
consequentemente, da sociedade, a transformação dos costumes e normas nunca seria realizada
individualmente, mas de maneira lenta, ao longo de gerações.
A força da sociedade está na herança transmitida, por intermédio da educação, às gerações futuras.
Essa herança são os costumes, as normas e os valores que nossos pais e antepassados nos legaram.
Condicionado e controlado pelas instituições, cada membro de uma sociedade sabe como deve agir
para não desestabilizar a vida comunitária; sabe também que, se não agir da forma estabelecida, será
repreendido ou punido, dependendo da falta cometida.
O sistema penal é um bom exemplo dessa prática. Se um indivíduo comete determinado crime,
deve ser julgado pela instituição competente — o sistema judiciário —, que aplica a penalidade
correspondente. O condenado é retirado da sociedade e encerrado em uma prisão, onde deve ser
reeducado (na maioria das vezes não é isso o que acontece) para ser reintegrado ao convívio social.
Diferentemente de Marx, que vê a contradição e o conflito como elementos essenciais da socie-
dade, Durkheim enfatiza a necessidade da coesão e da integração para a sociedade se manter. Para
ele, o conflito existe basicamente pela anomia, isto é, pela ausência ou insuficiência da normatização
das relações sociais, ou por falta de instituições que regulamentem essas relações. Ele considera a
socialização um fato social amplo, que dissemina as normas e valores gerais da sociedade — funda-
mentais para a socialização das crianças — e assegura a difusão de ideias que formam um conjunto
homogêneo, fazendo que a sociedade permaneça integrada e se perpetue no tempo.
De acordo com Durkheim, para que um fenômeno social seja considerado um fato social é ne-
cessário que seja:
coercitivo, isto é, que se imponha aos indivíduos e os leve a aceitar as normas da sociedade;
exterior aos indivíduos, isto é, que exista antes deles e não seja fruto das consciências individuais;
geral, isto é, que atinja todos os indivíduos que fazem parte de uma sociedade.

NAS PALAVRAS DE DURKHEIM

A sociedade, a educação e os indivíduos


[…] cada sociedade, considerada num momento determinado do seu desenvolvimento, tem um sistema de educação que
se impõe aos indivíduos como uma força geralmente irresistível. É inútil pensarmos que podemos criar os nossos filhos como
queremos. Há costumes com os quais temos de nos conformar; se os infringimos, eles vingam-se nos nossos filhos. Estes, uma
vez adultos, não se encontrarão em condições de viver no meio dos seus contemporâneos, com os quais não estão em harmo-
nia. Quer tenham sido criados com ideias muito arcaicas ou muito prematuras, não importa; tanto num caso como noutro, não
são do seu tempo e, por conseguinte, não estão em condições de vida normal. […]
Ora, não fomos nós, individualmente, que fizemos os costumes e as ideias que determinam este modelo. São o produto
da vida em comum e exprimem as suas necessidades. São até, na maior parte, obra de gerações anteriores. Todo o passado da
humanidade contribuiu para fazer este conjunto de máximas que dirigem a educação atual; toda a nossa história lhe deixou
traços, e até mesmo a história dos povos que nos precederam. […] Quando estudamos historicamente a maneira como são
formados e desenvolvidos os sistemas de educação, apercebemo-nos que eles dependem da religião, da organização política,
do grau de desenvolvimento das ciências, do estado da indústria, etc. Se os desligamos de todas estas causas históricas, tornam-
-se incompreensíveis.
[...] SOCIOLOGIA
DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia. Lisboa: Edições 70, 2001. p. 47-48

MAX WEBER, O INDIVÍDUO E A AÇÃO SOCIAL


O alemão Max Weber, diferentemente de Durkheim, tem como preocupação central com-
preender o indivíduo e suas ações. Por que as pessoas tomam determinadas decisões? Quais são as
razões para seus atos? Segundo esse autor, a sociedade existe concretamente, mas não é algo externo

A sociedade dos indivíduos 25

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e acima das pessoas, e sim o conjunto das ações dos indivíduos relacionando-se reciprocamente.
Assim, Weber, partindo do indivíduo e de suas motivações, pretende compreender a sociedade
como um todo.
O conceito básico para Weber é o de ação social, entendida como o ato de se comunicar, de
se relacionar, orientado pelas ações dos outros. A palavra outros, no caso, pode significar tanto um
indivíduo apenas como vários, indeterminados e até desconhecidos. Como o próprio Weber exempli-
fica, o dinheiro é um elemento de intercâmbio que alguém aceita no processo de troca de qualquer
bem ou serviço e que outro indivíduo utiliza porque sua ação está orientada pela expectativa de que
outros tantos, conhecidos ou não, estejam dispostos a também aceitá-lo como elemento de troca.
Seguindo esse raciocínio, Weber explica por meio de dois exemplos o que não é uma ação social:
Quando vários indivíduos estão caminhando na rua e começa a chover, muitos abrem seus
guarda-chuvas ao mesmo tempo. Essa ação de cada indivíduo não está orientada pela dos
demais, mas sim pela necessidade de proteger-se da chuva. Não é, portanto, uma ação social.
Quando, numa aglomeração, indivíduos se reúnem por alguma razão, agem influenciados por
comportamentos de massa, isto é, fazem determinadas coisas porque simplesmente todos
estão fazendo. Essa ação influenciada também não é uma ação social.
Oração coletiva de muçulmanos em Quetta,
Paquistão, em agosto de 2012: uma ação
social orientada por convicções comuns.
BANARAS KHAN/AFP

Ao analisar o modo como os indivíduos agem e levando em conta a maneira como eles
orientam suas ações, Max Weber agrupou as ações sociais em quatro tipos: ação tradicional,
ação afetiva, ação racional com relação a valores e ação racional com relação a fins.
A ação tradicional tem por base a tradição familiar, um costume arraigado. É um tipo de
ação que se adota quase automaticamente, reagindo a estímulos habituais ou por imitação. A
maior parte de nossas ações cotidianas é desse tipo.
A ação afetiva tem o sentido vinculado aos sentimentos e estados emocionais de qualquer
ordem na busca da satisfação de desejos.
A ação racional com relação a valores fundamenta-se em convicções e valores (éticos,
estéticos, religiosos ou qualquer outro), tais como o dever e a transcendência de uma causa,
qualquer que seja seu gênero. O indivíduo age de acordo com aquilo em que acredita, inde-

26 A sociedade dos indivíduos

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pendentemente das possíveis consequências, tendo por fundamento determinados valores
que lhe parecem ordenar que realize isso ou aquilo.
A ação racional com relação a fins fundamenta-se num cálculo com base no qual se pro-
curam estabelecer os objetivos racionalmente avaliados e perseguidos e os meios para alcançá-los.
Nesse tipo de ação, o indivíduo programa, pesa e mede as consequências em relação ao que
pretende obter.

NAS PALAVRAS DE WEBER

Sobre a ação social


1. A ação social (incluindo tolerância ou omissão) orienta-se pelas ações de outros,
que podem ser passadas, presentes ou esperadas como futuras (vingança por ataques
anteriores, réplica a ataques presentes, medidas de defesa diante de ataques futuros). Os
“outros” podem ser individualizados e conhecidos ou então uma pluralidade de indiví-
duos indeterminados e completamente desconhecidos (o “dinheiro”, por exemplo, sig-
nifica um bem — de troca — que o agente admite no comércio porque sua ação está
orientada pela expectativa de que outros muitos, embora indeterminados e desconheci-
dos, estarão dispostos também a aceitá-lo, por sua vez, numa troca futura).
2. Nem toda espécie de ação — incluindo a ação externa — é “social” no sentido
aqui sustentado. Não o é, desde logo, a ação exterior quando esta só se orienta pela
expectativa de determinadas reações de objetos materiais. A conduta íntima é ação social
somente quando está orientada pelas ações de outros. Não o é, por exemplo, a conduta
religiosa quando esta não passa de contemplação, oração solitária, etc. A atividade eco-
nômica (de um indivíduo) somente o é na medida em que leva em consideração a ati-
vidade de terceiros. […] De uma perspectiva material: quando, por exemplo, no “con-
sumo” entra a consideração das futuras necessidades de terceiros, orientando por elas,
desta maneira, sua própria poupança. Ou quando na “produção” coloca como funda-
mento de sua orientação as necessidades futuras de terceiros, etc.
3. Nem toda espécie de contato entre os homens é de caráter social; mas somente
uma ação, com sentido próprio, dirigida para a ação de outros. Um choque de dois ci-
clistas, por exemplo, é um simples evento como um fenômeno natural. Por outro lado,
haveria ação social na tentativa dos ciclistas se desviarem, ou na briga ou considerações
amistosas subsequentes ao choque.
[…]
WEBER, Max. Ação social e relação social. Apud: Foracchi, Marialice Mencarine; Martins, José de Souza.
Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro/São Paulo: Livros Técnicos e Científicos,
1977. p. 139.

Para Weber, essa classificação não engloba todos os tipos de ação social. Ela é composta de
tipos conceituais em estado puro, construídos para desenvolver a pesquisa sociológica. Esses “tipos
ideais” são ferramentas (construções) teóricas utilizadas pelo sociólogo para analisar a realidade.
Os indivíduos, quando agem no cotidiano, mesclam alguns ou vários tipos de ação social.
Como se pode perceber, de acordo com Weber, ao contrário do que defende Durkheim, as
razões para a ação do indivíduo não são algo externo a ele. O indivíduo escolhe condutas e compor-
tamentos, dependendo da cultura e da sociedade em que vive. Assim, as relações sociais consistem
na probabilidade de que se aja socialmente com determinado sentido, sempre numa perspectiva de
reciprocidade por parte dos outros. SOCIOLOGIA

NORBERT ELIAS E PIERRE BOURDIEU: A SOCIEDADE


DOS INDIVÍDUOS
Examinamos até aqui três diferentes perspectivas de análise da relação entre indivíduo e so-
ciedade. Para Marx, o foco recai sobre os indivíduos inseridos nas classes sociais e as contradições e

A sociedade dos indivíduos 27

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conflitos entre elas. Para Durkheim, o fundamental é a integração dos indivíduos na sociedade. Para
Weber, os indivíduos e o sentido de suas ações são os elementos constitutivos da sociedade. Apesar
das perspectivas diferentes, todos buscaram explicar o processo de constituição da sociedade e a ma-
neira como os indivíduos se relacionam, procurando identificar as ações e instituições fundamentais.
Dois autores contemporâneos analisaram a relação entre indivíduo e sociedade procurando
integrar esses polos: o sociólogo alemão Norbert Elias e o francês Pierre Bourdieu. Vamos conhecer
a seguir os principais conceitos que ambos construíram.

O conceito de configuração
De acordo com o sociólogo alemão Norbert Elias, é comum distanciarmos indivíduo e socie-
dade quando falamos dessa relação, pois parece que julgamos impossível haver, ao mesmo tempo,
bem-estar e felicidade individual e uma sociedade livre de conflitos. De um lado está o pensamento
de que as instituições — família, escola e Estado — devem estar a serviço da felicidade e do bem-estar
de todos; de outro, a ideia da unidade social acima da vida individual.
As distinções entre indivíduo e sociedade levam a pensar que se trata de duas coisas separa-
das, como mesas e cadeiras, tachos e panelas. Ora, para Elias, em seu livro A sociedade dos indiví-
duos, é somente nas relações e por meio delas que os indivíduos adquirem características humanas
como falar, pensar e amar. E poderíamos complementar declarando que só é possível trabalhar,
estudar e divertir-se em uma sociedade que tenha história, cultura e educação, e não isoladamente.
Para explicar melhor o que afirma e superar a dicotomia entre indivíduo e sociedade, Elias
criou o conceito de configuração (ou figuração). É uma ideia que nos ajuda a pensar nessa rela-
ção de forma dinâmica, como acontece na realidade. Para ele, configuração é a teia de relações
de indivíduos interdependentes que estão ligados de diversas maneiras e em vários níveis, pelos
quais perpassam relações de poder.
Tomemos um exemplo: se quatro pessoas se sentam em volta da mesa para jogar baralho,
formam uma configuração, pois o jogo é uma unidade que não pode ser concebida sem os par-
ticipantes e sem as regras. Sozinho, nenhum deles consegue jogar; juntos, cada um tem a própria
estratégia para seguir as regras e vencer.
Vamos citar um exemplo mais brasileiro. Em um jogo de futebol, temos outra configuração,
ou seja, há um conjunto de “eus”, de “eles”, de “nós”. Um time de futebol é composto de vários
“eus” — os jogadores —, que têm um objetivo único ao disputar com os do outro time. Há tam-
bém as regras que devem ser levadas em conta e a presença de um juiz e dos bandeirinhas, que lá

Neymar, jogador

JULIAN FINNEY/GETTY IMAGES


brasileiro, após a
derrota para o México,
por dois a um, na final
do futebol masculino
dos jogos olímpicos
de Londres em 2012.
A imagem pungente
de decepção
reflete o intenso
fluxo de relações e
expectativas que
ocorre durante
uma partida — dos
jogadores de cada
time entre si e com
os adversários, as
torcidas, os técnicos, o
juiz, os bandeirinhas.
O significado da
derrota só pode ser
entendido nessa
configuração.

28 A sociedade dos indivíduos

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estão para marcar as possíveis infrações. Além disso, há a torcida, que também faz parte do jogo
e congrega vários outros indivíduos com interesses diferentes, mas que, nessa configuração, têm
um objetivo único: torcer para que seu time vença.
Assim, durante o jogo há um fluxo contínuo, que só pode ser entendido nesse contexto,
nessa configuração. Essa relação acontece entre os jogadores, entre eles e a torcida, entre eles e
o técnico, entre os torcedores e entre todos e as regras, os juízes, os bandeirinhas, os técnicos
e os gandulas. Fora desse contexto, não há jogo de futebol, mas apenas pessoas, que viverão
outras configurações, em outros momentos.
No grupo social é assim: não há separação entre indivíduo e sociedade. Tudo deve ser en-
tendido de acordo com o contexto; caso contrário, perdem-se a dinâmica da realidade e o poder
de entendimento.
O conceito de configuração pode ser aplicado a pequenos grupos ou a sociedades inteiras,
constituídas de pessoas que se relacionam. Esse conceito chama a atenção para a dependência
entre as pessoas. Por isso, Elias utiliza a expressão sociedade dos indivíduos, realçando a unidade,
e não a divisão.

NAS PALAVRAS DE ELIAS

Escolhas e repercussão social


Toda sociedade grande e complexa tem, na verdade, as duas qualidades: é muito
firme e muito elástica. Em seu interior, constantemente se abre um espaço para as deci-
sões individuais. Apresentam-se oportunidades que podem ser aproveitadas ou perdidas.
Aparecem encruzilhadas em que as pessoas têm de fazer escolhas, e de suas escolhas,
conforme sua posição social, pode depender seu destino pessoal imediato, ou o de uma
família inteira, ou ainda, em certas situações, de nações inteiras ou de grupos dentro
delas. Pode depender de suas escolhas que a resolução completa das tensões existentes
ocorra na geração atual ou somente na seguinte. Delas pode depender a determinação
de qual das pessoas ou grupos em confronto, dentro de um sistema particular de tensões,
se tornará o executor das transformações para as quais as tensões estão impelindo, e de
que lado e em que lugar se localizarão os centros das novas formas de integração rumo
às quais se deslocam as mais antigas, em virtude, sempre, de suas tensões. Mas as opor-
tunidades entre as quais a pessoa assim se vê forçada a optar não são, em si mesmas,
criadas por essa pessoa. São prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua socie-
dade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela. E, seja qual for a
oportunidade que ela aproveite, seu ato se entremeará com os de outras pessoas; desen-
cadeará outras sequências de ações, cuja direção e resultado provisório não dependerão
desse indivíduo, mas da distribuição do poder e da estrutura das tensões em toda essa
rede humana móvel.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 48.

O conceito de habitus
Habitus é outro conceito utilizado por Norbert Elias. Além de ser esclarecedor, esse conceito
estabelece uma ligação entre o pensamento de Elias e o do francês Pierre Bourdieu. Para Elias, ha-
bitus é algo como uma segunda natureza, ou melhor, um saber social incorporado pelo indivíduo
em sociedade. Ele afirma que o destino de uma nação, ao longo dos séculos, fica sedimentado SOCIOLOGIA
no habitus de seus membros. É algo que muda constantemente, mas não rapidamente, e, por
isso, há equilíbrio entre continuidade e mudança.
A preocupação de Bourdieu, ao retomar o conceito de habitus, era a mesma de Elias: ligar
teoricamente indivíduo e sociedade. Não há diferença entre o que Elias e Bourdieu pensam em
termos gerais; apenas na maneira de propor a questão. Para Bourdieu, o habitus se apresenta
como social e individual ao mesmo tempo e refere-se tanto a um grupo quanto a uma classe e,
obrigatoriamente, também ao indivíduo.

A sociedade dos indivíduos 29

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A questão fundamental para ele é mostrar a articulação entre as condições de existência
do indivíduo e suas formas de ação e percepção, dentro ou fora dos grupos. Dessa maneira, seu
conceito de habitus é o que articula práticas cotidianas — a vida concreta dos indivíduos —
com as condições de classe de determinada sociedade, ou seja, a conduta dos indivíduos e as
estruturas mais amplas. Fundem-se as condições objetivas com as subjetivas.
Para Bourdieu, o habitus é estruturado por meio das instituições de socialização dos agentes
(a família e a escola, principalmente), e é aí que a ênfase na análise do habitus deve ser colocada,
pois são essas primeiras categorias e valores que orientam a prática futura dos indivíduos. Esse
seria o habitus primário, por isso mais duradouro — mas não congelado no tempo.
À medida que se relaciona com pessoas de outros universos de vida, o indivíduo desen-
volve um habitus secundário, não contrário ao anterior, mas indissociável dele. Assim vai cons-
truindo um habitus individual conforme agrega experiências continuamente. Isso não significa
que será uma pessoa radicalmente diferente da que era antes, pois se modifica sem perder suas
marcas de origem, de seu grupo familiar ou da classe na qual nasceu. Os conceitos e valores dos
indivíduos (sua subjetividade), segundo Bourdieu, têm uma relação muito intensa com o lugar
que ocupam na sociedade. Não há igualdade de posições, pois se vive numa sociedade desigual.
Por exemplo, no Brasil, teoricamente, todos podem ingressar na universidade, mas, de
fato, as chances de que isso aconteça são remotas, porque há condições objetivas e subjetivas
que criam um impedimento: a falta de vagas, as deficiências do ensino básico, um vestibular
que elimina a maioria ou um pensamento como este: “Não adianta nem tentar, pois não vou
conseguir”. Ou este: “Para que ingressar em um curso superior se depois não terei possibilidade
de exercer a profissão?”.
Como se pode perceber, a Sociologia oferece várias possibilidades teóricas para a análise da
relação entre indivíduo e sociedade. Além dos autores aqui apresentados, muitos outros tratam
das mesmas questões e propõem alternativas a fim de que se possa escolher a perspectiva mais
apropriada para examinar a realidade em que se vive e buscar respostas para as perguntas que
se fazem. A diversidade de análises é um dos elementos essenciais do pensamento sociológico.

NAS PALAVRAS DE BOURDIEU

Habitus, o que é isso?


Os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas — o que o
operário come e, sobretudo, sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira
de praticá-lo, suas opiniões políticas e sua maneira de expressá-las diferem sistematica-
mente do consumo ou das atividades correspondentes do empresário industrial; mas
são também esquemas classificatórios, princípios de classificação, princípios de visão e
de divisão e gostos diferentes. Eles estabelecem as diferenças entre o que é bom e mau,
entre o bem e o mal, entre o que é distinto e o que é vulgar etc., mas elas não são as
mesmas. Assim, por exemplo, o mesmo comportamento ou o mesmo bem pode parecer
distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro.
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. 4. ed. Campinas: Papirus, 1996. p. 22.

30 A sociedade dos indivíduos

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CENÁRIO DA SOCIABILIDADE COTIDIANA

Regra e exceção não têm mais regras

A dispensa das regras e dos escrúpulos em charge de Galvão, sem data.

Desde crianças aprendemos que precisamos seguir “Vai buscar seu mensalão, madame, que este aqui
regras para viver organizadamente em sociedade. No en- é o nosso”.
tanto, nos últimos tempos, as regras parecem ter-se tor- Com base nessa experiência, ela concluiu:
nado exceções e vice--versa. E o mau exemplo vem de “Não é difícil compreender que a bandidagem es-
quem deveria dar o bom exemplo. cancarada entre representantes dos interesses públicos
A corrupção que sempre existiu nas estruturas go- (os políticos) autoriza definitivamente a delinquência no
vernamentais expôs-se à luz desde o governo Collor. Ela resto da sociedade. O termo mensalão já se tornou sinô-
está à nossa vista, e isso gera uma situação de libertinagem nimo de patifaria generalizada: [...] estamos todos à de-
social que a psicanalista brasileira Maria Rita Kehl muito riva. É a lei do salve-se quem puder [...].”
bem descreveu no artigo “A elite somos nós”, publicado E, assim, o exemplo que “vem de cima” mostra ao
no jornal Folha de S.Paulo de 15 de janeiro de 2005. povo que o melhor é “se dar bem”, ou, como dizia o
Disse ela que estava andando em uma calçada de comercial antigo de cigarros que deu origem à famosa Lei
Copacabana, no Rio de Janeiro, quando notou dois rapa- de Gerson, “é preciso levar vantagem em tudo, certo?”.
zes da periferia engraxando os sapatos de um turista. Ao Isso autoriza os indivíduos a fazer o que quiserem: “Se
terminar o serviço, taxaram o preço em 50 reais. O turis- os poderosos fazem, por que eu não posso fazer tam-
ta achou muito e deu uma nota de 10 reais. O engraxate bém?”.
olhou bem para o freguês e arrancou da sua carteira uma
nota de 50 reais. Assustado, o estrangeiro resolveu “cair
fora”.
Maria Rita, que observava tudo, não conseguiu dei- Neste capítulo examinamos conceitos utilizados por di-
xar de protestar: “Cara, você vai cobrar 50 reais para en- ferentes autores na análise da relação entre o indivíduo
graxar os sapatos do gringo?”. e a sociedade: classe social (Marx), consciência coletiva
O engraxate simplesmente disse: “Se eu quiser, cobro e anomia (Durkheim), ação social (Weber), configuração
cem, cobro mil, e a senhora não se meta com a gente”. (Elias), habitus (Bourdieu). Qual (quais) desses conceitos
E o outro remendou: poderia(m) ajudar na interpretação do comportamento re-
latado por Maria Rita Kehl?

ANOTAÇÕES SOCIOLOGIA

A sociedade dos indivíduos 31

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 31 22/11/16 13:01


TAREFA PARA CASA

1 Leia o texto abaixo e defina o que torna a Sociologia uma COMPLEMENTARES


PARA PRATICAR
ciência.
Podemos entender a sociologia como uma das mani- 1 (UEM, 2010)
festações do pensamento moderno. A evolução do pensa- O casamento é assim há cerca de três mil anos. A
mento científico, que vinha se constituindo desde Copér- monogamia surgiu com a família, para garantir a manu-
nico, passa a cobrir, com a sociologia, uma nova área do tenção da herança nas mesmas mãos. A relação fora do
conhecimento ainda não incorporada ao saber científico, casamento era um crime inadmissível, o adultério. Mas
ou seja, o mundo social. [...] só para as mulheres, pois o marido não podia correr o
2 A seguir, estão transcritos trechos de obras de três autores risco de ter um filho bastardo. Os homens não tinham
clássicos da Sociologia, sem a indicação de suas respectivas esse problema. Sempre se sabe quem é a mãe de uma
autorias. Identifique o autor de cada trecho. criança. Já o pai precisou esperar até a Ciência desen-
Este exercício de localização apresenta trechos originais de obras
volver os testes com base no DNA para ter certeza de
de Émile Durkheim, Max Weber, Karl Marx e Friedrich Engels, bem que o filho é seu.
como os argumentos centrais desses autores, amplamente aborda- Oliveira, Malu. Homem e mulher a caminho
dos no livro. do século XXI. São Paulo: Ática, 1997. p. 30.

A Considerando o texto acima e seus conhecimentos socio-


[...] É fato social toda maneira de agir, fixada ou não, lógicos sobre a instituição família, assinale o que for cor-
suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exte- reto.
rior; ou ainda, toda maneira de fazer, que é geral na ex- X (01)Os laços de parentesco são estabelecidos a partir da
tensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui consanguinidade ou do casamento.
uma existência própria, independente de suas manifesta- X (02)Em determinados contextos, o crime de adultério ser-
ções individuais. viu para penalizar e expor as mulheres a severos julga-
Émile Durkheim (As regras do método sociológico. 2. ed. São Paulo: mentos sociais sobre sua idoneidade moral.
Martins Fontes, 1999. p. 13.). (04)Os modelos de família patriarcais não influenciaram a
B formação social e cultural das sociedades ocidentais.
[...] tão logo tentamos tomar consciência do modo (08)A família é uma instituição social estática, e os exames
como se nos apresenta imediatamente a vida, verificamos de DNA são recursos modernos que dificilmente são
que ela se nos manifesta “dentro” e “fora” de nós, sob uma utilizados para definir a paternidade.
quase infinita diversidade de eventos que aparecem e de- X (16)Nas sociedades ocidentais, as uniões monogâmicas
saparecem sucessiva e simultaneamente. [...] Assim, todo são instituições que auxiliam a perpetuação das he-
o conhecimento da realidade infinita, realizado pelo espí- ranças em uma mesma unidade familiar.
rito humano finito, baseia-se na premissa tácita de que A somatória correta é: (01 + 02 + 16 = 19)
apenas um fragmento limitado dessa realidade poderá O autor do texto expõe a monogamia como um produto da so-
constituir de cada vez o objeto da compreensão científica ciedade, desnaturalizando o seu conceito, definindo-a como uma
[...]. instituição social.
Max Weber (Metodologia das ciências sociais, parte 1. 3. ed. São 2 (UEL, 2010)
Paulo: Cortez; Campinas: Unicamp, 1999. p. 124).
O conceito de ação social desempenha papel fundamen-
C tal no conjunto teórico construído por Max Weber. Sobre
[...] este conceito utilizado por Max Weber, considere as afir-
Ao contrário da filosofia alemã, que desce do céu mativas a seguir.
para a terra, aqui é da terra que se sobe ao céu. Em outras I. A ação social foca o agente individual, pois este é o úni-
palavras, não partimos do que os homens dizem, imagi- co capaz de agir e de atribuir sentido à sua ação.
nam e representam, tampouco do que eles são nas pala- II. Interpretar a reciprocidade entre as ações sociais possi-
vras, no pensamento, na imaginação e na representação bilita ao cientista social a compreensão sobre as regu-
dos outros, para depois se chegar aos homens de carne e laridades nas relações sociais.
osso; mas partimos dos homens em sua atividade real, é a III. A imitação e as ações condicionadas pelas massas são
partir de seu processo de vida real que representamos exemplos típicos de ação social, pois são motivadas
também o desenvolvimento dos reflexos e das repercus-
sões ideológicas desse processo vital. [...]
Max Weber
Karl Marx (Metodologia
e Friedrich das(Aciências
Engels ideologiasociais,
alemã.parte 1. 3. ed.
São Paulo: São
Martins
Paulo:
Fontes,Cortez;
1998. p.Campinas:
19.). Unicamp, 1999. p. 124).
32 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 32 22/11/16 13:01


pela consciência racional da importância de viver em so- d) socialismo utópico, que defende a reforma do capitalis-
ciedade. mo, com o fim da exploração econômica e a abolição do
IV. O que permite compreender o agir humano enquanto Estado por meio da ação direta.
ação social é o fato de ele possuir um sentido único e Marx e Engels afirmam que todas as fases da história da huma-
objetivo para todos os agentes envolvidos. nidade foram uma série de lutas de classes, sempre provocadas
pelas relações de produção. Por isso deram ao conjunto de sua
Toda a teoria de Weber está baseada nas ações dos indivíduos. análise social a denominação de “materialismo histórico”.
A partir delas é possível entender a sociedade como a soma
das inter-relações individuais. 4 (Enem, 2013)
Assinale a alternativa correta. Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado
X a) Somente as afirmativas I e II são corretas. que temido ou temido que amado. Responde-se que am-
b) Somente as afirmativas II e IV são corretas. bas as coisas seriam de desejar; mas porque é difícil juntá-
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas. -las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas. haja de faltar uma das duas. Porque dos homens se pode
e) Somente as afirmativas I, III e IV são corretas. dizer, duma maneira geral, que são ingratos, volúveis, si-
muladores, covardes e ávidos de lucro, e enquanto lhes
3 (Unicamp, 2011) fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os
A história de todas as sociedades tem sido a his- bens, a vida e os filhos, quando, como acima disse, o pe-
tória das lutas de classe. Classe oprimida pelo despo- rigo está longe; mas quando ele chega, revoltam-se.
tismo feudal, a burguesia conquistou a soberania po- Maquiavel, N. O príncipe.
Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.
lítica no Estado moderno, no qual uma exploração
aberta e direta substituiu a exploração velada por ilu-
sões religiosas. A partir da análise histórica do comportamento humano em
A estrutura econômica da sociedade condiciona suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem
as suas formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas como um ser
ou filosóficas. Não é a consciência do homem que de- a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem
termina o seu ser, mas, ao contrário, são as relações de a si e aos outros.
produção que ele contrai que determinam a sua cons- b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para alcan-
ciência. çar êxito na política.
(Adaptado de: K. Marx e F. Engels. Obras escolhidas. X c) guiado por interesses, de modo que suas ações são im-
São Paulo: Alfa-Ômega, s.d., vol. 1. p. 21-23, 301-302.) previsíveis e inconstantes.
d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-social
As proposições dos enunciados acima podem ser associa- e portando seus direitos naturais.
das ao pensamento conhecido como: e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas com
a) materialismo histórico, que compreende as sociedades seus pares.
humanas a partir de ideias universais independentes Maquiavel expõe ao príncipe os riscos que ele corre por governar
da realidade histórica e social. homens em geral “ingratos, volúveis, simuladores, covardes e
ávidos de lucros”, capazes de tudo quando são amados e que se
X b) materialismo histórico, que concebe a história a partir
tornam revoltados quando as coisas lhes são adversas. Daí o con-
da luta de classes e da determinação das formas ideo- selho de que “é muito mais seguro ser temido que amado” quan-
lógicas pelas relações de produção. do for possível ao príncipe fazer apenas uma das duas coisas.
c) socialismo utópico, que propõe a destruição do capita-
lismo por meio de uma revolução e a implantação de
uma ditadura do proletariado.

ANOTAÇÕES
SOCIOLOGIA

A sociedade dos indivíduos 33

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 33 22/11/16 13:01


CONEXÃO DE SABERES

O FUTEBOL COMO METÁFORA SOCIAL


O futebol é um esporte que
tem semelhanças com as
guerras rituais de sociedades
tribais. O objetivo destas não
era conquistar ou massacrar o
adversário, mas sobrepujá-lo
pela técnica sem o uso
desmedido da força.

Estádio de Yokohama, Japão: acima, início da


partida final entre Brasil e Alemanha, na Copa do
Mundo de 2002; no detalhe, a vibração da torcida;
abaixo, o primeiro gol da seleção brasileira, que
venceu a alemã por 2 a 0.
Paulo Pinto/AE

Paulo Pinto/AE

Os cantos e atitudes das torcidas lembram as


guerras ritualísticas, pois servem para expressar
coragem, força e virilidade diante do oponente.

A violência dos torcedores, em geral, tem suas


origens longe do campo. Conflitos sociais, rixas
pessoais ou mesmo infiltração do crime organizado
são as causas mais comuns do problema. Um jogador, por melhor que seja, não
consegue atuar em campo sozinho. Sem
A maioria dos grandes times de futebol do mundo
duas equipes, sem a bola, sem as regras
originou-se em associações de trabalhadores
que jogavam contra equipes de chefes, bairros não há jogo. O sociólogo Norbert Elias
ou fábricas vizinhas. chama essa relação de configuração.

34 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 34 22/11/16 13:02


CIFRAS Publicidade Desigualdade
Um ingresso para Para os clubes de maior 10 maiores receitas de TV, em R$ milhões
um jogo da Copa torcida do país, uma 2011 2012
do Mundo de 2014 emissora de TV paga até 41,6
Bob Thomas/Getty Images

FLAMENGO
teve seu preço R$ 90 milhões anuais em 1 84,0
médio fixado em direitos de transmissão. CORINTHIANS 40,5
2 84,0
R$ 400,00. SÃO PAULO 36,2
Justamente pelas 3 75,0
cifras estrondosas, Patrocínios PALMEIRAS 35,0
4 75,0
o futebol está Em 2012, a camisa mais 32,2
valiosa do Campeonato 5 VASCO DA GAMA 75,0
se elitizando. 24,7
Brasileiro agregava uma 6 SANTOS
75,0
receita anual de 25,4
7 FLUMINENSE
55,0
CRUZEIRO 25,0
Transação mais cara 8 55,0
da história do futebol 9 ATLÉTICO-MG 24,9
R$ 62
55,0
10 GRÊMIO 24,5
Andrea Comas/Reuters/AFP

55,0
milhões Fonte: Brasil Econômico, São Paulo, 18-20 maio 2012. A4.

O crescimento dos patrocínios e da exposição


tem deixado os grandes clubes ainda mais ricos
e os pequenos à beira da falência. SOCIOLOGIA

Pelos direitos de transmissão da Série B do


Foi a do português Cristiano Campeonato Brasileiro em 2013, um time que
Ronaldo, cerca de não é considerado grande ou não tenha acordo
R$ 260 milhões, em 2009. especial recebeu em média R$ 2,7 milhões.

A sociedade dos indivíduos 35

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 35 22/11/16 13:02


LEITURAS E ATIVIDADES

PARAPARA REFLETIR
PRATICAR

ROGÉRIO SOUD
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés. E nisto me comprazo, tiro glória
Meu tênis é proclama colorido de minha anulação.
de alguma coisa não provada Não sou — vê lá — anúncio contratado.
por este provador de longa idade. Eu é que mimosamente pago
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, para anunciar, para vender
minha gravata e cinto e escova e pente, em bares festas praias pérgulas piscinas,
meu copo, minha xícara, e bem à vista exibo esta etiqueta
minha toalha de banho e sabonete, global no corpo que desiste
meu isso, meu aquilo, de ser veste e sandália de uma essênciatão viva, inde-
desde a cabeça ao bico dos sapatos, pendente,
são mensagens, que moda ou suborno algum a compromete.
letras falantes, Onde terei jogado fora
gritos visuais, meu gosto e capacidade de escolher,
ordens de uso, abuso, reincidência, minhas idiossincrasias tão pessoais,
costume, hábito, premência, tão minhas que no rosto se espelhavam,
indispensabilidade, e cada gesto, cada olhar,
e fazem de mim homem anúncio itinerante, cada vinco da roupa
escravo da matéria anunciada. resumia uma estética?
Estou, estou na moda. Hoje sou costurado, sou tecido,
É doce estar na moda, ainda que a moda sou gravado de forma universal,
seja negar minha identidade, saio da estamparia, não de casa,
trocá-la por mil, açambarcando da vitrina me tiram, recolocam,
todas as marcas registradas, objeto pulsante mas objeto
todos os logotipos do mercado. que se oferece como signo de outros
Com que inocência demito-me de ser objetos estáticos, tarifados.
eu que antes era e me sabia Por me ostentar assim, tão orgulhoso
tão diverso de outros, tão mim-mesmo, de ser não eu, mas artigo industrial,
ser pensante, sentinte e solidário peço que meu nome retifiquem.
com outros seres diversos e conscientes Já não me convém o título de homem.
de sua humana, invencível condição. Meu nome novo é coisa.
Agora sou anúncio, Eu sou a coisa, coisamente.
ora vulgar ora bizarro, Andrade, Carlos Drummond de. O Corpo. 10. ed.
Rio de Janeiro: Record, 1987. p. 85-87.
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).

1 O poema realça a capacidade humana de pensar, agir e de-

36 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 36 22/11/16 13:02


cidir sobre a própria vida como um valor fundamental. Que
PARA
PARA PESQUISAR
PRATICAR
valores são contrapostos a esse na voz do eu poético?
2 Você passa por alguma(s) das situações citadas no poema,
1 Escreva sua biografia. Para isso, siga as orientações abaixo:
em casa, na escola ou mesmo entre os amigos? Se sua res-
posta for afirmativa, cite versos do poema que caracteri- Entreviste seus pais e parentes para saber como era o local
zem essa situação. onde sua família vivia na época de seu nascimento. Acres-
cente outras informações, como o nome das escolas em
PARA ORGANIZAR O CONHECIMENTO que você estudou até hoje. Para ilustrar, procure reunir algu-
mas fotografias de cada período de sua vida.
O texto a seguir, extraído de um livro do sociólogo Alberto Se sua família se mudou, procure saber: por que ela dei-
Tosi Rodrigues (1965-2003), que foi professor da Universida- xou a zona rural e mudou-se para uma cidade ou vice-
de Federal do Espírito Santo, poderá ajudá-lo a ordenar as -versa; por que ela mudou de uma região para outra; por
ideias sobre o que leu nesta unidade. Discuta com seus co- que ela mudou de um bairro para outro da mesma cidade.
legas as respostas que daria às perguntas feitas pelo autor. Se a sua família não se mudou, procure saber por que conti-
O homem faz a sociedade ou a sociedade nua vivendo no mesmo lugar.

faz o homem? 2 Pesquise, em jornais, em revistas ou na internet, reporta-


Num de seus sambas, Paulinho da Viola narra a tra- gens sobre acontecimentos (nacionais ou internacionais)
jetória de um malandro do morro, Chico Brito. Na can- que, em sua opinião, exerceram influência em sua vida. Com
ção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a toda essas informações em mãos, construa um painel com foto-
hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma grafias e textos que destacam a relação entre os aconteci-
falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como mentos pesquisados.
qualquer outra pessoa, mas “o sistema” não lhe deixara
outra oportunidade de sobrevivência que não a margina-
lidade. O último verso diz tudo: “a culpa é da sociedade
LIVROS RECOMENDADOS
PARA PRATICAR
que o transformou”. Já em outra canção, bem mais co-
nhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido
oposto: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem O mito do herói nacional, de Paulo
EDITORA CONTEXTO

marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, Miceli. São Paulo: Contexto.
o “sistema” nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nos- Nesse livro, o autor analisa os principais
sa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liber- heróis nacionais, desmitificando-os.
dade? Procura mostrar que eles eram pessoas
Rodrigues, Alberto Tosi. Sociologia da educação. 4. ed.
Rio de Janeiro: DPA, 2004. p. 19. comuns, como tantos outros homens
de sua época.
PAULINHO DA VIOLA, ZUMBIDO, 1979

Sobre o artesanato intelectual e


C. WRIGHT MILLS/EDITORA ZAHAR

outros ensaios, de Charles Wright


Mills. Rio de Janeiro: Zahar.
Recomenda-se principalmente o capí-
tulo intitulado “A promessa”, no qual o
autor discute o modo de pensar a so-
GERALDO VANDRÉ/SOM MAIOR

ciedade em que vivemos e apresenta


Acima, capa do álbum de
Paulinho da Viola, de 1996, como necessária a qualidade que cha- SOCIOLOGIA
que contém a gravação do ma de “imaginação sociológica”.
samba Chico Brito; ao lado,
capa do disco de Geraldo
Vandré que traz a gravação
da canção Pra não dizer que
não falei das flores, lançada
em 1968 e logo proibida
pela ditadura militar.

A sociedade dos indivíduos 37

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 37 22/11/16 13:02


O Homem

O HOMEM BICENTENÁRIO. DIREÇÃO DE


CHRIS COLUMBUS. 1999
SUGESTÃO
PARA DE FILMES
PRATICAR
Bicentenário
Billy Elliot (Ingla- (EUA, 1999). Gerente editorial: M. Esther Nejm
BILLY ELLIOT. DIREÇÃO DE STEPHEN
DALDRY. 2000

Editor responsável: Glaucia Teixeira M. Thomé


terra, 2000). Dire- Direção: Chris
Coordenador de revisão: Camila Christi Gazzani
ção: Stephen Dal- Columbus. Revisores: Cesar G. Sacramento, Eduardo Sigrist, Elza
Gasparotto, Felipe Toledo
dry. Esse filme é uma
Coordenador de iconografia: Cristina Akisino
Billy Elliot é um ficção científica, Pesquisa iconográfica: Cesar Atti
garoto que gosta cuja narrativa se Licenciamento de textos: Érica Brambila
passa num tempo Gerente de artes: Ricardo Borges
muito de dan- Coordenador de artes: José Maria de Oliveira
ça, mas seu pai não muito distante, em que há um robô Produtor de artes: Narjara Lara
quer que ele (NDR-114) projetado para fazer os servi- Assistentes: Jacqueline Ortolan, Paula Regina Costa
de Oliveira
seja boxeador. ços domésticos para os humanos. Todos Ilustrações: Alex Silva, Luigi Rocco, Rogerio Soud
Ao chegar à puberdade, Billy procura fre- os NDRs são exatamente iguais, mas há Cartografia: Mario Yoshida, Portal de Mapas
quentar escondido as aulas de balé, incen- um (Andrew) que não se conforma e pro- Tratamento de imagens: Emerson de Lima
Produtor gráfico: Robson Cacau Alves
tivado pela professora (Julie Walters), que cura sempre se aprimorar. Com a ajuda de
Projeto gráfico de miolo: Daniela Amaral,
acredita que o menino tem muito talento. um projetista de robôs, vai sendo alterado Talita Guedes

É um belo filme, estimulante para discutir com as últimas inovações da robótica até Colaboraram para esta Edição do Material:
Projeto Sistema SESI de Ensino
as opções que fazemos e a influência que se tornar muito parecido com um huma- Gestão do Projeto: Thiago Brentano
as relações familiares e escolares exercem no. O filme destaca os elementos funda- Coordenação do Projeto: Cristiane Queiroz

sobre nós. mentais que caracterizam o ser humano. Coordenação Editorial: Simone Savarego, Rosiane
Botelho e Valdete Reis
Revisão: Juliana Souza
Diagramação: Lab 212
Dogville (Alema- Serras da desor-
DIREÇÃO DE LARS VON TRIER

DIREÇÃO DE ANDREA TONACCI, 2006

Capa: Lab 212


nha, França, Sué- dem (Brasil, 2006). Ilustrações de capa: Aurielaki/Golden Sikorka/
cia, 2003). Dire- Direção: Andrea Sentavio/Macrovector/Shutterstock
Consultores
ção: Lars von Trier. Tonacci. Coordenação: Dr. João Filocre
A história narrada Esse filme é uma Sociologia: Dra. Vera Alice Cardoso da Silva
SESI DN
se passa durante mistura de ficção e
Superintendente: Rafael Esmeraldo Lucchesi
a Grande Depres- documentário ba- Ramacciotti
são de 1929-1930. seada em episódios Diretor de Operações: Marcos Tadeu de Siqueira
Gerente Executivo de Educação: Sergio Gotti
Uma mulher bo- da vida do indígena Gerente de Educação Básica: Renata Maria Braga
nita e bem-vestida (Grace) chega à ci- Carapiru, da tribo dos Santos

dade de Dogville fugindo de um bando Awá Guajá (do Maranhão), que sobrevive Todos os direitos reservados por SOMOS Educação S.A.
de gângsteres. Grace é auxiliada por um a um massacre perpetrado por jagunços Avenida das Nações Unidas, 7221

rapaz que procura convencer os outros contratados por fazendeiros, na Amazô- Pinheiros – São Paulo – SP
CEP: 05425-902
moradores locais a fazer o mesmo, desde nia, em 1978. Ao escapar da matança, Ca- (0xx11) 4383-8000
que ela preste pequenos serviços. Mas os rapiru se torna nômade e perambula pela © SOMOS Sistema de Ensino S.A.

gângsteres continuam a busca e os habi- mata durante 10 anos, até ser encontrado Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
tantes da cidade sentem-se em perigo. pelo sertanista Sydney Ferreira Possuelo.
Tomazi, Nelson Dacio
Isso faz com que passem a exigir mais No filme, há uma atmosfera de tensão en- Sistema de ensino ser : sociologia : 1º ano :

serviços em troca do risco possível. Grace tre o micro e o macro, entre o indivíduo professor / Nelson Dacio Tomazi. -- 3. ed. --
São Paulo : Ática, 2017.
começa a perceber que o custo de ficar ali e a sociedade, entre o histórico e o cir-
1. Sociologia (Ensino médio) I. Título.
é muito maior do que supunha. Esse filme cunstancial. Não se pode compreender a
16-08238 CDD-301
pode nos fazer pensar sobre as relações trajetória de Carapiru sem compreender o
entre as pessoas em diferentes situações. mundo social em que ele estava inserido Índices para catálogo sistemático:
1. Sociologia : Ensino médio 301
e o contexto no qual passou a viver.
2016
ISBN 978 85 08 18420 0 (AL)
ISBN 978 85 08 18421 7 (PR)
3ª edição
ANOTAÇÕES 1ª impressão

Impressão e acabamento

Uma publicação

38 A sociedade dos indivíduos

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 38 22/11/16 13:02


SOCIOLOGIA
Nelson Dacio Tomazi

TRABALHO E SOCIEDADE
1 O trabalho nas diferentes sociedades . . . . . . . . . . . . . 4
A produção nas sociedades tribais . . . . . . . . . . . . . . . . .5
O trabalho na Europa antiga e medieval. . . . . . . . . . . . . .6
As bases do trabalho na sociedade moderna . . . . . . . . . .8
2 O trabalho na sociedade moderna capitalista . . . . . . 15
Karl Marx e a divisão social do trabalho . . . . . . . . . . . .15
Émile Durkheim: a divisão do
trabalho social e a solidariedade . . . . . . . . . . . . . . . . .17
Fordismo-taylorismo: uma nova
forma de organização do trabalho . . . . . . . . . . . . . . . .18
As transformações recentes
no mundo do trabalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .20
3 A questão do trabalho no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . 26
O trabalho escravo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .26
Do trabalho escravo ao assalariado. . . . . . . . . . . . . . . .26
A situação do trabalho nos últimos 70 anos . . . . . . . . .28
Emprego e desemprego . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31
Conexão de saberes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
Leituras e atividades. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
2137657 (PR)

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 1 22/11/16 13:02


MÓDULO
Trabalho e sociedade
JUCA MARTINS/OLHAR IMAGEM

O trabalho é um assunto sobre o qual sempre há muitas perguntas


a fazer. Afinal, para que ele existe? Quem o inventou? Seu significado é
semelhante nas diferentes sociedades?
Poderíamos dizer que o trabalho existe para satisfazer as necessida-
des humanas, desde as mais simples, como as de alimento, vestimenta
e abrigo, até as mais complexas, como as de lazer, crença e fantasia. E,
se o trabalho existe para satisfazer nossas necessidades, fomos nós que
o inventamos. No entanto, essa atividade humana nem sempre teve
o mesmo significado, a mesma organização e o mesmo valor. É o que
veremos nesta unidade.

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 2 22/11/16 13:02


Assembleia de metalúrgicos em São
Bernardo do Campo, São Paulo, 1979.

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 3 22/11/16 13:02


CAPÍTULO

1 O trabalho nas diferentes


sociedades

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: Em nossa sociedade, a produção de cada objeto envolve uma complexa rede de trabalho e
de trabalhadores. Vamos tomar como exemplo um produto que faz parte do dia a dia de grande
c Pensar e analisar número de pessoas: o pãozinho de água e sal.
historicamente a Os ingredientes básicos para fazer um pãozinho são a farinha de trigo, o sal, o fermento e a
questão do trabalho, água. Para que haja farinha, é necessário que alguém plante o trigo e o colha. Além disso, é neces-
relacionando-o a uma sário que haja moinhos para moer o grão, transformando-o em farinha, e comercialização, para que
visão da diversidade o produto chegue às padarias ou às indústrias que fabricam pães. O sal deve ser retirado do mar,
das formas de trabalho processado e embalado. O fermento é produzido em outras empresas por outros trabalhadores,
em várias sociedades. com outras matérias-primas. A água precisa ser captada, tratada e distribuída, o que exige uma
complexa infraestrutura e grande número de trabalhadores.
São necessários equipamentos, como a máquina para preparar a massa e o forno para assar o
pão, fabricados em indústrias que, por sua vez, empregam outras matérias-primas e trabalhadores.
É necessário algum tipo de energia propor-
cionado pelo fogo (e isso exige madeira ou car-

ERNESTO REGHRAN/PULSAR IMAGENS


vão) ou energia elétrica. Esta é gerada em usinas
hidrelétricas ou termelétricas, que, por sua vez,
precisam de equipamentos, linhas de transmis-
são e trabalhadores.
Na ponta de todo esse trabalho, estão as pa-
darias, mercadinhos e supermercados, onde o pão-
zinho finalmente chega às mãos do consumidor.
Se para produzir e vender um simples pão
há tanta gente envolvida, direta e indiretamente,
você pode imaginar quanto trabalho é necessário
para a fabricação do ônibus, da bicicleta ou do au-
tomóvel, para a construção da casa em que você
vive ou da escola onde estuda.
Essa complexidade das tarefas relacionadas
à produção é uma característica de nossa socie-
dade. Outros tipos de sociedade, do presente e do
AYRTON VIGNOLA/AE

passado, apresentam características bem diversas.

Colheita mecanizada de trigo no município de


Cambé, no Paraná, em 2010, e padaria em São
Paulo, SP, no mesmo ano. Do trigo ao pão, do
tijolo ao prédio, cada produto resulta do trabalho
de muitas pessoas, cada qual especializada em
determinadas tarefas.

4 Trabalho e sociedade

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A PRODUÇÃO NAS SOCIEDADES TRIBAIS
As sociedades tribais diferenciam-se umas das outras em muitos aspectos, mas pode-se dizer,
em termos gerais, que não são estruturadas pela atividade que em nossa sociedade denominamos
trabalho. Nelas todos fazem quase tudo, e as atividades relacionadas à obtenção do que as pessoas
necessitam para se manter — caça, coleta, agricultura e criação — estão associadas aos ritos e mitos,
ao sistema de parentesco, às festas e às artes, integrando-se, portanto, a todas as esferas da vida social.
A organização dessas atividades caracteriza-se pela divisão das tarefas por sexo e por idade.
Os equipamentos e instrumentos utilizados, comumente vistos pelo olhar estrangeiro como muito
simples e rudimentares, são eficazes para realizar tais tarefas. Guiados por esse olhar, vários analis-
tas, durante muito tempo, classificaram as sociedades tribais como de economia de subsistência
e de técnica rudimentar, passando a ideia de que elas viveriam em estado de pobreza, o que é
um preconceito. Se hoje muitas delas dispõem de áreas restritas, enfrentando difíceis condições
de vida, em geral, antes do contato com o chamado “mundo civilizado”, a maioria vivia em áreas
abundantes em caça, pesca e alimentos de vários outros tipos.
O antropólogo estadunidense Marshall Sahlins (1930-) chama essas sociedades de “socieda-
des da abundância” ou “sociedades do lazer”, destacando que seus membros não só tinham todas
as necessidades materiais e sociais plenamente satisfeitas, como dedicavam um mínimo de horas
diárias ao que nós chamamos de trabalho. Os Yanomami, da Amazônia, dedicavam pouco mais de
três horas diárias às tarefas relacionadas à produção; os Ache, do Paraguai, cerca de cinco horas, mas
não todos os dias; os Kung, do deserto do Kalahari, no sul da África, em média quatro horas por dia.
O fato de dedicar menos tempo a essas tarefas não significava, no entanto, ter uma vida de
privações. As sociedades tribais viviam muito bem alimentadas, como indicam numerosos relatos
que destacam a vitalidade de seus membros. É claro que tais relatos referem-se à experiência de
povos que viviam antes do contato com o chamado “mundo civilizado”.
Duas explicações, entre outras, podem ser apontadas para o fato de os integrantes das so-
ciedades tribais dedicarem menos tempo do que nós às atividades que denominamos trabalho.
A primeira está no modo como se relacionam com a natureza, que é diferente do nosso. Para
os integrantes de sociedades tribais, a terra, além de ser o espaço em que vivem, tem valor cultural,

© LINDSAY HEBBERD/CORBIS/LATINSTOCK

Pescadores da
etnia Wancho,
SOCIOLOGIA
do nordeste
da Índia, fazem
demonstração
do seu método
tradicional de
pesca. Aldeia de
Metua, estado
de Arunachal
Pradesh, 1995.

Trabalho e sociedade 5

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pois dá aos humanos seus frutos: a floresta fornece aos caçadores os animais de que necessitam
para a sobrevivência e os rios oferecem os peixes que ajudam na alimentação. Esses povos têm
profunda intimidade com o meio em que vivem. Sabem como os animais e as plantas crescem e
se reproduzem e quais podem ser utilizados para a alimentação, para a cura de doenças ou para
a realização de rituais.
A segunda explicação, conforme o antropólogo francês Pierre Clastres (1934-1977), está no
fato de que a estrutura das sociedades tribais e o modo como seus membros produzem e repro-
duzem sua existência não se baseiam na necessidade de acumular bens ou alimentos, que estão
sempre à disposição. Os excedentes, principalmente de alimentos oriundos da agricultura, são
consumidos em festas e cerimônias.
Integradas ao meio ambiente e a todas as demais atividades, as tarefas relacionadas à produ-
ção não compõem, assim, uma esfera específica da vida, ou seja, não há um “mundo do trabalho”
nas sociedades tribais.

O TRABALHO NA EUROPA ANTIGA E MEDIEVAL


Nas sociedades que se desenvolveram na Europa ocidental da Antiguidade até o fim da
Idade Média, as concepções do que denominamos trabalho apresentaram variações, mas pou-
cas alterações. Sempre muito desvalorizado, o trabalho não era o núcleo mais importante para
orientar as relações sociais. Estas se definiam principalmente pela hereditariedade, pela religião,
pela honra, pela lealdade e pela posição em relação às questões públicas. Eram esses os elemen-
tos que permitiam que alguns vivessem do trabalho dos outros.
MAUSOLÉU DE SANTA CONSTANZA, ROMA, ITÁLIA

Representação do trabalho na Roma


antiga: um trabalhador, possivelmente
escravo, transporta a uva em carro de
boi, enquanto outros pisam o fruto
no lagar (oficina na qual se espremem
frutos). Detalhe de mural da igreja Santa
Constanza, em Roma (século IV).

A escravidão na Antiguidade
O termo trabalho pode ter nascido do vocábulo latino tripalium, que significa “instrumento
de tortura”, e por muito tempo esteve associado à ideia de atividade penosa e torturante. Nas so-
ciedades grega e romana, era a mão de obra escrava que garantia a produção suficiente para suprir
as necessidades da população. Os escravos nessas sociedades eram basicamente prisioneiros das
conquistas e das guerras. Existiam, entretanto, trabalhadores livres, como os meeiros, os artesãos e
os camponeses, que também eram explorados e oprimidos pelos senhores e proprietários.
Na cidade-Estado grega de Atenas, os senhores e proprietários integravam a camada dos
cidadãos, à qual cabia discutir os assuntos da cidade. Para que os cidadãos pudessem se dedicar
exclusivamente a essa atividade, o trabalho escravo era fundamental.

6 Trabalho e sociedade

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Labor, trabalho e ação
Os gregos distinguiam a atividade braçal de quem cultiva a terra, a atividade manual do
artesão e a atividade do cidadão que discute e procura soluções para os problemas da cidade.
De acordo com a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), os gregos classificavam as
atividades humanas em três categorias: labor, trabalho e ação.
O labor é o esforço físico voltado para a sobrevivência do corpo, sendo, portanto, uma
atividade passiva e submissa ao ritmo da natureza. O exemplo mais claro dessa atividade é
o cultivo da terra, pois depende de forças que o ser humano não pode controlar, como o
clima e as estações.
O trabalho corresponde ao fazer, ao ato de fabricar, de criar algum produto mediante
o uso de um instrumento ou mesmo das próprias mãos. O produto desse trabalho muitas
vezes subsiste à vida de quem o fabrica, ou seja, tem um tempo de permanência maior que
o de seu produtor. O trabalho do artesão ou do escultor se enquadraria nessa concepção.
A ação é a atividade que tem a palavra como principal instrumento; seu espaço é o da
política, da vida pública.

A servidão nas sociedades feudais


Como já estudamos, na época do Império Romano a maioria dos escravos era constituída de
prisioneiros de guerra. Com o fim das guerras de conquista nas quais os romanos se envolveram,
o número de escravos diminuiu. Os grandes proprietários de terras (latifundiários), que até então
utilizavam o trabalho escravo, passaram a admitir trabalhadores livres como colonos. No regime Esquema do uso do
do colonato, os trabalhadores recebiam um lote de terra, devendo cultivá-la e entregar parte da solo em um feudo.
produção ao proprietário.
Em razão da instabilidade que caracterizou os últimos séculos antes da que- FONTE: ELABORADO PELO AUTOR. LUIGI ROCCO
Plantação Matas
da do Império Romano do Ocidente, diversos pequenos proprietários venderam Maninho de outono
suas terras para os latifundiários e empregaram-se como colonos nas grandes
propriedades, em troca de proteção.
Após o fim do Império Romano do Ocidente, os germânicos estabelecidos
na Europa ocidental continuaram a utilizar o regime de colonato para organi-
zar o trabalho dos camponeses em seus domínios. Com o passar do tempo, o Plantação de
primavera Pousio
colonato passou por transformações que foram configurando um novo regime
de trabalho: a servidão.
No regime de servidão característico das sociedades feudais, os servos não
gozavam de plena liberdade, mas também não eram escravos. Prevalecia um
sistema de deveres do servo para com o senhor e deste para com aquele. Aldeia

Além de cultivar as terras a ele cedidas pelo senhor feudal, o servo era obri-
gado a trabalhar nas terras do senhor, bem como na construção e manutenção Igreja
de estradas e pontes. Essa obrigação se chamava corveia. O servo devia também
ao senhor a talha, uma taxa que se pagava sobre tudo o que se produzia na terra
Casa paroquial
e atingia todas as categorias de trabalhadores do senhorio. Outra obrigação de-
Pastagem
vida pelo servo eram as banalidades, pagas pelo uso do moinho, do forno, dos Campo paroquial ou
comum
Campo de Deus
tonéis de cerveja e por, simplesmente, residir no domínio senhorial. Essa obriga-
ção era extensiva aos camponeses livres. Examinando a ilustração acima pode-se
ter uma ideia da organização do espaço e do trabalho no domínio feudal. Açude SOCIOLOGIA
Nas sociedades feudais, os servos, os camponeses livres e os aldeãos eram os Celeiro Moinho
Solar
que trabalhavam. Os senhores feudais e os membros do clero viviam do trabalho
dos outros. A terra era o principal meio de produção, e os trabalhadores tinham Forno
Brejo

direito a seu usufruto e ocupação, mas nunca à propriedade. Reserva do senhor

Embora o trabalho ligado à terra fosse o preponderante nas sociedades


medievais, eram praticadas também atividades artesanais, nas cidades e mesmo Glebas da paróquia Domínios do senhor Faixas de terra
nos senhorios, e atividades comerciais. em campo aberto em campo aberto destinadas a apenas
um camponês

Trabalho e sociedade 7

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Nas cidades, a produção artesanal tinha uma organização rígida baseada nas corporações de
ofício. No topo da escala dessas corporações, encontrava-se um mestre, que controlava o traba-
lho de todos e encarregava-se de pagar os direitos ao rei ou ao senhor feudal e de fazer respeitar
todos os compromissos com a corporação. Abaixo dele vinha o oficial, que ocupava uma posição
intermediária entre a do aprendiz e a do mestre. Cabia ao oficial fixar a jornada de trabalho e a
remuneração, sendo também o responsável por transmitir os ensinamentos do mestre aos aprendi-
zes. O aprendiz, que ficava na base dessa hierarquia, devia ter entre 12 e 15 anos e era subordinado
a um só mestre. Seu tempo de aprendizado era predeterminado, bem como os seus deveres e as
sanções a que estava sujeito, conforme o estatuto da corporação.

AS BASES DO TRABALHO NA SOCIEDADE MODERNA


Com o fim do período medieval e a emergência do mercantilismo e do capitalismo, a es-
trutura de trabalho passou por um longo processo de mudanças. Como a estrutura anterior se
desagregou? Como os artesãos e pequenos produtores se transformaram em assalariados?
Os artesãos e pequenos produtores trabalhavam, muitas vezes, na própria casa. Eles tinham
suas ferramentas e seus instrumentos e, além disso, produziam ou obtinham, por meio de troca, as
matérias-primas para produzir o que necessitavam. Eram, pois, senhores das condições necessárias
para sobreviver e também de seu tempo, pois decidiam quando trabalhar ou descansar.
Pouco a pouco, essa situação se modificou. Inicialmente, houve a separação entre a moradia e
o local de trabalho; depois, o trabalhador foi separado de seus instrumentos; por fim, ele perdeu a
possibilidade de obter a própria matéria-prima. Os comerciantes e industriais que haviam acumu-
lado riquezas passaram a financiar, organizar e coordenar a produção de mercadorias, definindo
o que produzir, em que quantidade e em quanto tempo. Afinal, eles é que possuíam o dinheiro
para financiar a produção.
Essa transformação aconteceu por meio de dois processos de organização do trabalho: o de
cooperação simples e o de cooperação avançada (ou manufatura).
No processo de cooperação simples, era mantida a hierarquia da produção artesanal entre
o mestre e o aprendiz, e o artesão desenvolvia todo o processo produtivo, do molde ao acaba-
mento. O artesão estava a serviço de quem lhe colocava à disposição a matéria-prima e alguns
instrumentos de trabalho, e definia o local e as horas a ser trabalhadas. Esse tipo de organização
do trabalho abriu caminho para novas formas de produção, que começaram a se definir como tra-
balho coletivo para a confecção de mercadorias, o que seria a marca do novo processo produtivo.
No processo de cooperação avançada (ou manufatura), o trabalhador continuava a ser ar-
tesão, mas não participava de todo o processo de produção. Houve a consolidação do trabalho
coletivo, ou seja, o artesão deixou de ter conhecimento da totalidade do processo produtivo.
Cada trabalhador só participava de um passo da produção, por exemplo, de um sapato: um
produzia o salto; outro fazia a parte de cima; outro, ainda, confeccionava a sola do sapato; outros
uniam as partes separadas. No final, havia um sapato inteiro. O produto tornou-se resultado da
atividade de muitos trabalhadores.
Para a realização das atividades, o trabalhador passou a receber um salário, e desse modo o tra-
balho transformou-se em mercadoria (força de trabalho) que podia ser vendida e comprada, como
qualquer outra. Além disso, trabalhava durante o tempo definido por quem lhe pagava o salário.
Desenvolveu-se, depois, uma nova forma de trabalho: a maquinofatura. Com ela, o espaço de
trabalho passou a ser a fábrica, pois era lá que estavam as máquinas que “comandavam” o processo
de produção. Todo o conhecimento que o trabalhador usava para produzir suas peças foi dispen-
sado, ou seja, sua destreza manual foi transposta para as máquinas e assim substituída por elas.
Essas mudanças no processo produtivo ocorreram lentamente, durante mais de 200 anos, e
variaram de país para país. Em muitos casos, todas as formas de trabalho anteriores conviveram
com as que foram surgindo.

8 Trabalho e sociedade

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Acima, representação de sapataria
MUSEU DE BELAS ARTES, LION, FRANÇA/WHITE IMAGES/SCALA,
FLORENCE/GLOW IMAGES/OTHER IMAGES

artesanal em obra produzida por


Schack Cornelis, no século XVII. Ao lado,
manufatura na Inglaterra em fotografia
do século XIX. Na passagem de uma
forma de organização para outra,
o trabalhador perdeu a posse dos
instrumentos e o controle do processo
de trabalho.
COLEÇÃO PARTICULAR/THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE

Mudança de concepção
As transformações ocorridas no processo produtivo envolveram a mudança da concepção
SOCIOLOGIA

de trabalho — de atividade penosa para atividade que dignifica o homem. Isso aconteceu porque,
não sendo mais possível contar com o serviço compulsório, foi preciso convencer as pessoas de que
trabalhar para os outros era bom. Enfatizava-se que as novas formas de organização do trabalho
beneficiavam a todos e que a situação presente do trabalhador era melhor do que a anterior.
Diversos setores da sociedade colaboraram para essa mudança:
As igrejas procuraram transmitir a ideia de que o trabalho era um bem divino e quem não
trabalhasse não seria abençoado. Não trabalhar (ter preguiça) passou a ser pecado.

Trabalho e sociedade 9

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Os governantes passaram a criar uma série de leis e decretos que penali-
COLEÇÃO PARTICULAR. GUSTAVE DOREL/CHRIS HELLIER/CORBIS/LATINSTOCK

zavam quem não trabalhasse. Os desempregados eram considerados va-


gabundos e podiam ir para a prisão. A polícia era encarregada de prender
esses “vagabundos”.
Os empresários desenvolveram uma disciplina rígida no local de trabalho,
além de determinar e controlar os horários de entrada e saída dos esta-
belecimentos. Além disso havia multas para os que não obedecessem às
normas fixadas.
As escolas passaram às crianças a ideia de que o trabalho era fundamental
para a sociedade. Esse conceito era ensinado, por exemplo, nas tarefas e
lições e também por meio dos contos infantis. Quem não se lembra, por
exemplo, da história da cigarra e da formiga ou da dos três porquinhos?
Quem não trabalhava “levava sempre a pior”.
Na vida real, a história era outra. O trabalhador estava livre, quer dizer,
não era mais escravo nem servo, mas trabalhava mais horas do que antes.

A cigarra e a formiga são representadas


em forma humana na ilustração criada Evolução das horas de trabalho semanal
por Gustave Doré em 1867 para um livro
de fábulas de La Fontaine. Crianças de
várias gerações ouviram e internalizaram
Período Inglaterra França
a fala da laboriosa formiga em resposta
ao pedido de ajuda da cigarra, ao chegar 1650-1750 45 a 55 horas 50 a 60 horas
o inverno: “Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!”. 1750-1850 72 a 80 horas 72 a 80 horas
1850-1937 58 a 60 horas 60 a 68 horas

Fonte: Cunha, Newton. A felicidade imaginada: a negação do trabalho e do lazer. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 37.

Max Weber, no livro História geral da economia, publicado em 1923, afirma que isso tudo
foi necessário para que o capitalismo existisse. O trabalhador era livre apenas legalmente porque,
na realidade, via-se forçado, pela necessidade e para não passar fome, a fazer o que lhe impunham.

10 Trabalho e sociedade

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NAS PALAVRAS DE WEBER

O recrutamento de trabalhadores
[…]
O recrutamento de trabalhadores para a nova forma de produção, tal como se en-
contra desenvolvida na Inglaterra, desde o século XVIII, à base da reunião de todos os
meios produtivos em mãos do empresário, realizou-se através de meios coercivos bas-
tante violentos, particularmente de caráter indireto. Entre eles, figuram, antes de tudo,
a “lei de pobres” e a “lei de aprendizes”, da rainha Elizabeth. Tais regulações se fizeram
necessárias, dado o grande número de “desocupados” que existia no país, gente que a
revolução agrária transformara em deserdados. A expulsão dos pequenos agricultores e
a transformação das terras de lavoura em campos de pastagem […] determinaram que
o número de trabalhadores necessário na lavoura se tornasse cada vez menor, dando
lugar a que, na cidade, houvesse um excedente de população, que se viu submetido a
trabalho coercivo. Quem não se apresentava voluntariamente era conduzido às oficinas
públicas dirigidas com severa disciplina. Quem, sem permissão do mestre-artífice, ou
empresário, abandonasse seu posto de trabalho, era tratado como vagabundo; nenhum
“desocupado” recebia ajuda senão mediante seu ingresso nas oficinas coletivas. Com este
procedimento, recrutaram-se os primeiros operários para a fábrica. Um serviço penoso
somava-se a esta disciplina de trabalho. Mas o “poder” da classe abastada era absoluto;
apoiava-se na administração, por meio de juízes de paz, que, na falta de uma lei apro-
priada, distribuíam justiça de acordo com um amontoado de instruções particulares,
segundo um arbítrio próprio. Até à segunda metade do século XIX, dispuseram da mão
de obra como bem entendiam. […]
WEBER, Max. História geral da economia. São Paulo: Mestre Jou, 1968. p. 273-274.

Ainda assim, não foi fácil submeter os trabalhadores às longas jornadas e aos rígidos horários,
pois a maioria deles não estava acostumada a isso. A maior parte da população que foi para as
cidades trabalhava anteriormente no campo, onde o ritmo da natureza definia quanto e quando
trabalhar. A semeadura e a colheita tinham seu tempo certo, de acordo com o clima e a época.
Além disso, o mesmo indivíduo desenvolvia várias atividades produtivas; não era especializado em
uma só tarefa. Ele podia plantar, colher, construir uma mesa ou um banco e trabalhar num tear.
Em seu livro Costumes em comum, o historiador britânico Edward P. Thompson (1924-1993)
comenta um costume arraigado em vários países da Europa desde o século XVI até o início do
século XX: o de não trabalhar na chamada santa segunda-feira. Essa tradição, diz ele, parece ter sido
encontrada nos lugares onde existiam indústrias de pequena escala, em minas e nas manufaturas
ou mesmo na indústria pesada.
Não se trabalhava nesse dia por várias razões, mas principalmente porque nos outros dias
da semana trabalhava-se de 12 a 18 horas. Havia ainda a dificuldade de desenvolver o trabalho na
segunda-feira por causa do abuso de bebidas alcoólicas, comum nos fins de semana. Nas siderúr-
gicas, estabeleceu-se que as segundas-feiras seriam utilizadas para consertos de máquinas, mas o
que prevalecia era o não trabalho, que às vezes se estendia às terças-feiras.
Foram necessários alguns séculos, utilizando os mais variados instrumentos, inclusive multas
e prisões, para disciplinar e preparar os operários para o trabalho industrial diário e regular.
SOCIOLOGIA

Trabalho e sociedade 11

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CENÁRIO DO MUNDO DO TRABALHO

Trabalho e necessidades nas sociedades

RENATO SOARES/PULSAR IMAGENS


tribais
Sociedades como estas [tribais] que estamos conside-
rando não têm as nossas razões para trabalhar — se é que
entre elas se encontre algo parecido com o que faz o buro-
crata na repartição ou o operário na fábrica, comandados
pelos administradores, pela linha de montagem, pelo reló-
gio de ponto, pelo salário no fim do mês. “Trabalham” para
viver, para prover às festas, para presentear. Mas nunca
mais que o estritamente necessário: a labuta não é um va-
lor em si, não é algo que tem preço, que se oferece num
mercado; não se opõe ao lazer, dele não se separando cro-
nologicamente (“hora de trabalhar, trabalhar”); não acon-
tece em lugar especial, nem se desvincula das demais ati-
vidades sociais (parentesco, magia, religião, política, Índios Kamayurá executam o ritual Jawari, uma celebração dos
educação...). Sempre que se pareçam com o que chama- guerreiros, na festa em comemoração aos 50 anos do Parque Indígena
mos “trabalho”, tais atividades são imediatamente detesta- do Xingu, no estado do Mato Grosso, em 2011.
das. Aliás, no fundo, no fundo, não o são também entre De vez em quando se trabalha um pouco mais que o
nós? necessário à satisfação do “consumo”
[...] regular. Mas com maior frequência, dentro do tempo
normal de “trabalho”, se produz algo que transborde o
necessário. Esta é, em geral, a parte das solenidades, das
© DANNY LEHMAN/CORBIS/LATINSTOCK

festas, dos rituais, dos presentes, das destruições ostenta-


tórias, das manifestações políticas, da hospitalidade... e o
significado desse algo mais nunca é acumular, investir. Há
aí, portanto, uma grande diferença em relação à nossa ati-
tude oficial para com o trabalho. Mas não há, ao mesmo
tempo, algo que intimamente invejamos? Algo com colo-
ração de sonho, para nós, que mais ou menos reservada-
mente trabalhamos de olho na hora da saída, no fim de
semana, no feriado prolongado, nas férias, na aposentado-
ria?
Rodrigues, José Carlos. Antropologia e comunicação: princípios radicais. Rio
de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. p. 101.
Mulheres Purepecha preparam a massa e assam tortilhas em grandes
formas, em 1996, no estado mexicano de Angahuan. Os Purepecha
são um povo indígena que sobreviveu à colonização, assimilando
elementos culturais, alimentares e religiosos dos mexicanos.
Após a leitura do texto, procure responder às questões que o
próprio autor formula.
Trabalho e ócio no mundo greco-romano
[...] Em Atenas, na época clássica, quando os poetas
cômicos qualificavam um homem por seu ofício (Eucrates,
o comerciante de estopa; Lisicles, o comerciante de car-
neiros), não era precisamente para honrá-los; só é homem
por inteiro quem vive no ócio. Segundo Platão, uma cida-
de benfeita seria aquela na qual os cidadãos fossem ali-
mentados pelo trabalho rural de seus escravos e deixassem
os ofícios para a gentalha: a vida “virtuosa”, de um homem
de qualidade, deve ser “ociosa” [...]. Para Aristóteles, es-
cravos, camponeses e negociantes não poderiam ter uma
vida “feliz”, quer dizer, ao mesmo tempo próspera e cheia

12 Trabalho e sociedade

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de nobreza: podem-no somente aqueles que têm os meios nidades de praticar certas virtudes, mas, sim, que a pobre-
de organizar a própria existência e fixar para si mesmos za é um defeito, uma espécie de vício. [...]
um objetivo ideal. Apenas esses homens ociosos corres- Veyne, Paul. O Império Romano. In: . (org.). Do Império Romano ao
ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 124-125. (História da vida
pondem moralmente ao ideal humano e merecem ser ci- privada, v. 1).
dadãos por inteiro: “A perfeição do cidadão não qualifica
o homem livre, mas só aquele que é isento das tarefas 1 Desde a Antiguidade registra-se a divisão entre atividade in-
necessárias das quais se incumbem servos, artesãos e ope- telectual e atividade manual. Como essas formas de trabalho
rários não especializados; estes últimos não serão cidadãos, são valorizadas hoje?
se a constituição conceder os cargos públicos à virtude e
ao mérito, pois não se pode praticar a virtude levando-se 2 De acordo com suas observações, a concepção de que a po-
uma vida de operário ou de trabalhador braçal”. Aristóteles breza é uma espécie de vício, ou algo que torna as pessoas
não quer dizer que um pobre não tenha meios ou oportu- inferiores, ainda existe? Em que situações ela se manifesta?

LUISA RICCIARINI/LEEMAGE/AFP/MUSEU DE OXFORD, INGLATERRA

Prática de esporte com bola em representação de vaso grego do século V a.C.


Assim como a atividade intelectual, a prática de esporte era restrita à esfera
dos cidadãos mais abastados, pois requeria igualmente tempo livre.

ANOTAÇÕES SOCIOLOGIA

Trabalho e sociedade 13

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TAREFA PARA CASA

Texto 1: sistema feudal. Texto 2: sistema capitalista.


1 Os textos a seguir descrevem a condição do trabalhador em a) Identifique o texto que trata da relação de trabalho no
diferentes modos de produção. Leia-os e responda às ques- sistema capitalista e o que trata da relação de trabalho
tões. no sistema feudal.
b) Descreva as diferenças entre as relações de trabalho
Texto 1
nos dois sistemas.
[...] A terra era o principal meio de produção, e os
trabalhadores tinham direito a seu usufruto e ocupação, 2 Durante os séculos XVIII e XIX, várias instituições sociais
mas nunca à propriedade. Muitos trabalhavam no regime colaboraram para mudar a concepção de trabalho, valori-
de servidão, no qual não gozavam de plena liberdade mas zando-o como “atividade que dignifica o homem”. Como a
também não eram escravos. [...] Além de cultivar as terras Igreja e a escola atuaram nesse sentido?
a ele destinadas, o servo era obrigado a trabalhar nas terras Pretende-se com essa questão enfatizar o caráter histórico da con-
do senhor, bem como na construção e manutenção de cepção de trabalho, destacando a grande mudança que se operou
com o advento e a consolidação do capitalismo. No livro descreve-
estradas e pontes. [...]
-se a atuação de diferentes instituições para conferir ao trabalho um
Tomazi, Nelson Dacio. Sociologia para o ensino médio.
valor social.
São Paulo: Saraiva, 2010. p. 40.
Texto 2 3 Entre os povos indígenas que mantêm seu modo de vida
O trabalho era [...]: prender tampas de vidro em gar- tradicional, as atividades relacionadas à produção estão in-
rafas pequenas. [...] Segurava as garrafas entre os joelhos, tegradas às demais atividades, diferentemente do que ocor-
para [...] trabalhar com as duas mãos. Nesta posição, sen- re nas sociedades capitalistas, nas quais essas atividades
tado e curvado sobre os joelhos, os seus ombros estreitos compõem uma esfera específica, o “mundo do trabalho”. O
foram se curvando; o peito ficava contraído dez horas por olhar estrangeiro destacou as diferenças observadas para
dia. [...] classificar esses povos como “primitivos”, “rudimentares” ou
O superintendente tinha grande orgulho dele e trazia até mesmo “preguiçosos”. Qual é a relação entre essa visão
visitantes para observarem-no. [...] Isto significava que ele depreciativa das sociedades indígenas e a forma como os
atingira a perfeição da máquina. Todos os movimentos europeus, na época da colonização, se relacionaram com
inúteis eram eliminados. Todos os movimentos dos seus elas? Justifique sua resposta.
magros braços, cada movimento de um músculo dos de- A depreciação, pelos europeus, do modo de vida dos povos que vi-
dos magros, eram rápidos e precisos. Trabalhava sob gran- viam na América ajudou a justificar a escravização dos indígenas e a
de tensão, e o resultado foi tornar-se nervoso. [...] ocupação de suas terras. Com base no argumento desenvolvido no
London, Jack. Contos. livro, os alunos poderão observar, por exemplo, que os equipamentos
São Paulo: Expressão Popular, 2008. p. 99-100. e instrumentos vistos pelo olhar estrangeiro como simples e rudimen-
tares são eficazes para realizar as tarefas a que se destinam ou, ainda,
Esse exercício propõe uma comparação histórica das condições de
que os indígenas não precisam despender muito tempo na obtenção
trabalho nos diferentes sistemas (feudalismo e capitalismo). No item
do que necessitam para se manter.
a, solicita-se ao aluno que identifique os modos de produção a partir
da interpretação dos textos; no item b, pede-se a ele que descreva as
diferenças entre os dois modos de produção, a fim de refletir sobre
as condições do trabalho e do trabalhador.

ANOTAÇÕES

14 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 14 22/11/16 13:02


CAPÍTULO

2 O trabalho na sociedade
moderna capitalista

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: Como já vimos, a crescente divisão do trabalho é uma das características das sociedades
modernas. Os autores clássicos Émile Durkheim (1858-1917) e Karl Marx (1818-1883) têm visões
c Analisar o trabalho nas diferentes sobre essa questão, e o pensamento de ambos marca perspectivas de análise diversas
diversas sociedades. ainda hoje. Assim, é importante conhecer essas duas visões para entender melhor a questão do
trabalho na vida social moderna.

KARL MARX E A DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO


Para Karl Marx, a divisão do trabalho é característica de todas as sociedades conhecidas. De
acordo com ele, conforme os humanos buscam atender a suas necessidades, estabelecem relações
de trabalho e maneiras de dividir as atividades. Por exemplo: nas sociedades tribais que viviam da
caça e da coleta, a divisão era feita com base nos critérios de sexo e idade; naquelas que começaram
a praticar a agricultura e o pastoreio, as funções se dividiram entre quem caçava ou pescava e quem
plantava ou cuidava dos animais.
Pouco a pouco, em algumas sociedades, a produção aumentou e ultrapassou o necessário
para atender às necessidades da população (houve o que chamamos de excedente de produção),
registrando-se também uma tendência à sedentarização. Estabeleceu-se, então, uma nova divisão
do trabalho: entre aqueles que produziam diretamente e aqueles que cuidavam (administravam) do
excedente, que podia ser utilizado em períodos de carência ou ser trocado por bens que a sociedade
não produzia. Nascia, assim, a divisão entre o trabalhador direto e o indireto ou entre o que produzia
e o que cuidava do excedente.
Oficina de manutenção de máquinas
nos Estados Unidos, em fotografia de Com o desenvolvimento da produção e dos núcleos urbanos, estabeleceu-se ainda a divisão
1965. Ferramenteiros trabalham em mais ampla entre o trabalho rural (agricultura) e o urbano (comércio, serviços e indústria). Quem
suas bancadas, sob a vigilância de um vivia nas cidades passou a ser considerado superior ou “melhor” porque não trabalhava a terra. As
supervisor. Na visão de Marx, a divisão do cidades também passaram a ser o lugar do poder político.
trabalho gerou a divisão da sociedade em
classes. Com a Revolução Industrial, desenvolveu-se a divisão entre os proprietários dos meios de produ-
ção (os capitalistas) e os que só possuíam
FERNANDO FAVORETTO/CRIAR IMAGENS

a força de trabalho.
No interior das fábricas, entre os
submetidos ao capitalista, passou a
AYRTON VIGNOLA/AE

haver divisão entre quem administra-


va — o diretor ou gerente (trabalhador
intelectual) — e quem executava — o
operário (trabalhador braçal).
Para assegurar o aumento da pro-
dutividade, as tarefas foram subdivididas
e intensificadas, promovendo-se assim a SOCIOLOGIA
fragmentação do ser humano no am-
biente de trabalho. Por se resumir a tare-
fas repetitivas, o trabalho tornou-se uma
atividade estressante e nociva.

Trabalho e sociedade 15

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Divisão do trabalho: uma crítica precursora
Em 1776, quase cem anos antes de Marx elaborar sua crítica, Adam Smith
(1723-1790) reconhecia o caráter pernicioso da divisão do trabalho nas fábricas:
Com o avanço da divisão do trabalho, a ocupação da maior parte daqueles que
vivem do trabalho, isto é, da maioria da população, acaba restringindo-se a algumas
operações extremamente simples, muitas vezes a uma ou duas. Ora, a compreensão
da maior parte das pessoas é formada pelas suas ocupações normais. O homem que
gasta toda sua vida executando algumas operações simples, cujos efeitos também são,
talvez, sempre os mesmos ou mais ou menos os mesmos, não tem nenhuma oportu-
nidade para exercitar sua compreensão ou para exercer seu espírito inventivo no
sentido de encontrar meios para eliminar dificuldades que nunca ocorrem. […] Este
tipo de vida corrompe até mesmo sua atividade corporal, tornando-o incapaz de uti-
lizar sua força física com vigor e perseverança em alguma ocupação para a qual foi
criado. […]
SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 213-214. Apud: MORAES Neto,
Benedito Rodrigues de. Processo de trabalho e eficiência produtiva: Smith, Marx, Taylor e Lênin.
Estudos Econômicos, v. 39, n. 3, jul.-set. 2009. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-
41612009000300008&script=sci_arttext>. Acesso em: 24 ago. 2012.

A divisão do trabalho criou uma oposição entre duas classes sociais: a detentora dos meios de
produção e a possuidora da força de trabalho. Para Marx, portanto, quando se fala em divisão do
trabalho na sociedade capitalista, reporta-se às formas de propriedade, à distribuição da renda entre
os indivíduos e à formação das classes sociais.
Os conflitos entre os capitalistas e os trabalhadores apareceram a partir do momento em que
estes perceberam que trabalhavam muito e estavam cada dia mais miseráveis. Vários tipos de en-
frentamento ocorreram ao longo do desenvolvimento do capitalismo, desde o movimento dos
destruidores de máquinas no início do século XIX (ludismo) até as greves registradas durante o século
XX (voltaremos a esse assunto no módulo 3 e no módulo 5).

NAS PALAVRAS DE MARX

A jornada de trabalho no capitalismo no século XIX


“Que é uma jornada de trabalho?” De quanto é o tempo durante o qual o capital pode consumir a força de trabalho, cujo
valor diário ele paga? Por quanto tempo pode ser prolongada a jornada de trabalho além do tempo de trabalho necessário à
reprodução dessa mesma força de trabalho? A essas perguntas, viu-se que o capital responde: a jornada de trabalho compreen-
de diariamente as 24 horas completas, depois de descontar as poucas horas de descanso, sem as quais a força de trabalho fica
totalmente impossibilitada de realizar novamente sua tarefa. Entende-se por si, desde logo, que o trabalhador, durante toda a
sua existência, nada mais é que força de trabalho e que, por isso, todo o seu tempo disponível é por natureza e por direito
tempo de trabalho, portanto, pertencente à autovalorização do capital. Tempo para a educação humana, para o desenvolvimen-
to intelectual, para o preenchimento de funções sociais, para o convívio social, para o jogo livre das forças vitais físicas e espi-
rituais, mesmo o tempo livre de domingo — e mesmo no país do sábado santificado — pura futilidade! [...] Em vez da con-
servação normal da força de trabalho determinar aqui o limite da jornada de trabalho é, ao contrário, o maior dispêndio
possível diário da força de trabalho que determina, por mais penoso e doentiamente violento, o limite do tempo de descanso
do trabalhador. O capital não se importa com a duração de vida da força de trabalho. O que interessa a ele, pura e simples-
mente, é um maximum de força de trabalho que em uma jornada de trabalho poderá ser feito fluir. [...]
A produção capitalista, que é essencialmente produção de mais-valia, absorção de mais-trabalho, produz, portanto, com o
prolongamento da jornada de trabalho não apenas a atrofia da força de trabalho, a qual é roubada de suas condições normais,
morais e físicas, de desenvolvimento e atividade. Ela produz a exaustão prematura e o aniquilamento da própria força de trabalho.
Ela prolonga o tempo de produção do trabalhador num prazo determinado mediante o encurtamento de seu tempo de vida.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983. v. 1. p. 211-2.

16 Trabalho e sociedade

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ÉMILE DURKHEIM: A DIVISÃO DO TRABALHO
SOCIAL E A SOLIDARIEDADE
Émile Durkheim analisa as relações de trabalho na sociedade moderna de forma diferente
da de Marx. Em seu livro Da divisão do trabalho social, escrito no final do século XIX, procura de-
monstrar que a crescente especialização do trabalho, promovida pela produção industrial moderna,
trouxe uma forma superior de solidariedade, e não de conflito.
Para Durkheim, há duas formas de solidariedade: a mecânica e a orgânica.
A solidariedade mecânica é mais comum nas sociedades menos complexas, nas quais cada
um sabe fazer quase todas as tarefas de que necessita para viver. Nesse caso, o que une as pessoas
não é o fato de uma depender do trabalho da outra, mas a aceitação de um conjunto de crenças,
tradições e costumes comuns.
Já a solidariedade orgânica é fruto da diversidade entre os indivíduos, e não da identidade das
crenças e ações. O que os une é a interdependência das funções sociais, ou seja, a necessidade que
uma pessoa tem da outra, em virtude da divisão do trabalho social. É o que exemplificamos no
capítulo 4 ao tratar do trabalho e dos trabalhadores envolvidos na produção do pão.
Com base nessa visão, na sociedade moderna, a integração social seria promovida pela divisão
crescente do trabalho. E isso é fácil de observar em nosso cotidiano. Tomamos um ônibus que tem
motorista e cobrador, compramos alimentos e roupas que são produzidos por outros trabalhado-
res. Também podemos ir ao hospital, ao dentista ou à farmácia quando temos algum problema de
saúde e lá encontramos outras tantas pessoas que trabalham para resolver essas questões. Enfim,
poderíamos citar uma quantidade enorme de situações que nos fazem dependentes de outras
pessoas. Durkheim afirma que a interdependência provocada pela crescente divisão do trabalho
cria solidariedade, pois faz a sociedade funcionar e lhe dá coesão.
NAS PALAVRAS DE DURKHEIM

A divisão do trabalho social cria a solidariedade


[...]
Bem diverso [da solidariedade mecânica] é o caso da solidariedade produzida pela divisão do trabalho. Enquanto a prece-
dente implica que os indivíduos se assemelham, esta supõe que eles diferem uns dos outros. A primeira só é possível na medida
em que a personalidade individual é absorvida na personalidade coletiva; a segunda só é possível se cada um tiver uma esfera de
ação própria, por conseguinte, uma personalidade. É necessário, pois, que a consciência coletiva deixe descoberta uma parte da
consciência individual, para que nela se estabeleçam essas funções especiais que ela não pode regulamentar; e quanto mais essa
região é extensa, mais forte é a coesão que resulta dessa solidariedade. De fato, de um lado, cada um depende tanto mais estreita-
mente da sociedade quanto mais dividido for o trabalho nela e, de outro, a atividade de cada um é tanto mais pessoal quanto mais
for especializada. Sem dúvida, por mais circunscrita que seja, ela nunca é completamente original; mesmo no exercício de nossa
profissão, conformamo-nos a usos, a práticas que são comuns a nós e a toda a nossa corporação. Mas, mesmo nesse caso, o jugo
que sofremos é muito menos pesado do que quando a sociedade inteira pesa sobre nós, e ele proporciona muito mais espaço para
o livre jogo de nossa iniciativa. Aqui, pois, a individualidade do todo aumenta ao mesmo tempo que a das partes; a sociedade
torna-se mais capaz de se mover em conjunto, ao mesmo tempo em que cada um de seus elementos tem mais movimentos pró-
prios. Essa solidariedade se assemelha à que observamos entre os animais superiores. De fato, cada órgão aí tem sua fisionomia
especial, sua autonomia, e contudo a unidade do organismo é tanto maior quanto mais acentuada essa individuação das partes.
Devido a essa analogia, propomos chamar de orgânica a solidariedade devida à divisão do trabalho.
[...]
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 108-9.
SOCIOLOGIA
Segundo esse autor, no final do século XIX e no início do século XX, toda a ebulição resultan-
te da relação entre o capital e o trabalho não passava de uma questão moral. O que fez surgirem
tantos conflitos foi a ausência de instituições e normas (anomia) integradoras que permitissem que
a solidariedade dos diversos setores da sociedade, nascida da divisão do trabalho, se expressasse
e, assim, pusesse fim aos conflitos. Portanto, para Durkheim, se a divisão do trabalho não produz
a solidariedade, as relações entre os diversos setores da sociedade não são regulamentadas pelas
instituições existentes.

Trabalho e sociedade 17

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As duas diferentes formas de analisar as relações na sociedade moderna capitalista, apresenta-
das por Marx e Durkheim, acabaram influenciando outras ideias no século XX, quando a situação
do trabalho parecia ter mudado. Vamos ver como isso aconteceu.

FORDISMO-TAYLORISMO: UMA NOVA FORMA DE


ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
No século XX, o aperfeiçoamento contínuo dos sistemas produtivos deu origem a uma nova
forma de organização do trabalho que se tornou conhecida como fordismo, numa referência a
Henry Ford (1863-1947). Foi ele quem, a partir de 1914, implantou em sua fábrica de automóveis
um modelo que seria seguido por muitas outras indústrias.
As mudanças introduzidas por Ford visavam à produção em série de um produto (o Ford
modelo T) para o consumo em massa. Ele estabeleceu a jornada de oito horas por 5 dólares ao
dia, o que, na época, significava renda e tempo de lazer suficientes para o trabalhador suprir todas
as suas necessidades básicas e até adquirir um dos automóveis produzidos na empresa. Iniciava-se,
assim, o que veio a se chamar de era do consumismo: produção e consumo em larga escala. Esse
processo disseminou-se e atingiu quase todos os setores produtivos das sociedades industriais.
Mas isso por si só não explica o fordismo. É apenas um de seus aspectos, o mais aparente.
Linhas de produção da Ford nos Estados Já no final do século XIX, Frederick Taylor (1865-1915), em seu livro Princípios de administração
Unidos, em 1928 e em científica, propunha a aplicação de princípios científicos na organização do trabalho, buscando
2011. O que mudou? maior racionalização do processo produtivo.
HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES

BRIAN BOHANNON/AP PHOTO/GLOW IMAGES


Com as mudanças introduzidas por Henry Ford em sua fábrica, as expressões fordismo e taylo-
rismo passaram a ser usadas para identificar o mesmo processo: o aumento de produtividade com o
uso mais racional possível das horas trabalhadas, por meio do controle das atividades dos trabalhado-
res, a divisão e o parcelamento das tarefas, a mecanização de parte das atividades, com a introdução
da linha de montagem, e um sistema de recompensas e punições conforme o comportamento dos
operários no interior da fábrica.
Em razão dessas medidas, foi desenvolvido um sistema de planejamento para aprimorar coti-
dianamente as formas de controle e execução das tarefas, o que result1ou na criação de um setor de
especialistas na administração da empresa. A hierarquia, bem como a impessoalidade das normas, foi
introduzida no processo produtivo, sempre comandado por administradores treinados para isso. A
capacidade e a especialização dos operários tinham valor secundário, pois o essencial eram as tarefas
de planejamento e supervisão.
Essas diretrizes não foram utilizadas apenas no universo capitalista. O modelo fordista-taylorista
foi adotado também, com algumas adaptações, na União Soviética, cujo sistema político-econômico
era o socialismo, que se propunha ser oposto ao capitalismo e que vigorou na Europa oriental de 1917
a 1991. Vladimir Lênin (1870-1924), líder do governo socialista na União Soviética entre 1922 e 1924,
aconselhava a utilização desse modelo como alternativa para elevar a produção industrial soviética.
Com Ford e Taylor, a divisão do trabalho passou pelo planejamento vindo de cima, não levan-

18 Trabalho e sociedade

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do em conta os operários. Para corrigir isso, Elton Mayo (1880-1949), professor da Universidade de
Harvard, nos Estados Unidos, buscou medidas que evitassem o conflito e promovessem o equilíbrio
e a colaboração no interior das empresas. Com suas ideias de conciliação, desenvolvidas na Escola
de Relações Humanas a partir dos anos 1930, ele procurava revalorizar os grupos de referência dos
trabalhadores, principalmente o familiar, evitando assim um desenraizamento dos operários.
A visão de Taylor, a de Ford e, depois, a de Elton Mayo revelam a influência das formulações
de Durkheim sobre a consciência coletiva. Durkheim afirmou que há uma consciência coletiva que
define as ações individuais, submetendo todos à norma, à regra, à disciplina, à moral e à ordem esta-
belecidas. As empresas devem dar continuidade a isso, definindo claramente o lugar e as atividades de
cada um, para que não haja dúvida sobre o que cada membro deve fazer. Se há conflito, diz ele, deve
ser minimizado mediante a coesão social, baseada na ideia de consenso, orientada pela existência de
uma consciência coletiva que paira acima dos indivíduos na sociedade.
Em seu livro Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX, o sociólogo
estadunidense Harry Braverman (1920-1976) critica essa visão. Ele afirma que o taylorismo foi somen-
te o coroamento e a síntese de várias ideias, que germinaram durante todo o século XIX na Inglaterra
e nos Estados Unidos, cujo objetivo era transferir para as mãos das gerências o controle do processo
produtivo. O taylorismo tirava do trabalhador o último resquício de saber sobre a produção: a ca-
pacidade de operar uma máquina. Agora ele tinha de operá-la do modo como os administradores
definiam. Estava concluída a expropriação em todos os níveis da autonomia dos trabalhadores, que
ficavam totalmente dependentes dos gerentes e administradores.

A condição operária na fábrica taylorista


Na minha vida de fábrica, foi uma experiência única. [...] para mim pessoal-
mente, veja o que significou o trabalho na fábrica. Mostrou que todos os motivos
exteriores (que antes eu julgava interiores) sobre os quais, para mim, se apoiava o
sentimento de dignidade, o respeito por mim mesma, em duas ou três semanas fi-
caram radicalmente arrasados pelo golpe de uma pressão brutal e cotidiana. E não
creio que tenham nascido em mim sentimentos de revolta. Não, muito ao contrário.
Veio o que era a última coisa do mundo que eu esperava de mim: a docilidade. Uma
docilidade de besta de carga resignada. Parecia que eu tinha nascido para esperar,
para receber, para executar ordens — que nunca tinha feito senão isso — que nun-
ca mais faria outra coisa. Não tenho orgulho de confessar isso. É a espécie de sofri-
mento que nenhum operário fala; dói demais, só de pensar.
[...]
Dois fatores condicionam esta escravidão: a rapidez e as ordens. A rapidez: para
alcançá-la, é preciso repetir movimento atrás de movimento, numa cadência que,
por ser mais rápida que o pensamento, impede o livre curso da reflexão e até do
devaneio. Chegando-se à frente da máquina, é preciso matar a alma, oito horas por
dia, pensamentos, sentimentos, tudo. [...] As ordens: desde o momento em que se
bate o cartão na entrada até aquele em que se bate o cartão na saída, elas podem ser
dadas, a qualquer momento, de qualquer teor. E é preciso sempre calar e obedecer.
A ordem pode ser difícil ou perigosa de se executar, até inexequível; ou então, dois
chefes dando ordens contraditórias; não faz mal: calar-se e dobrar-se. [...] Engolir
nossos próprios acessos de enervamento e de mau humor; nenhuma tradução deles
em palavras, nem em gestos, pois os gestos estão determinados, minuto a minuto,
pelo trabalho. Esta situação faz com que o pensamento se dobre sobre si, se retraia, SOCIOLOGIA
como a carne se retrai debaixo de um bisturi. Não se pode ser “consciente”.
WEIL, Simone. Carta a Albertine Thévenon (1934-5). In: Bosi, Ecléa (org.). A condição
operária e outros estudos sobre a opressão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 65.

A crítica de base marxista a Elton Mayo destaca que as formas de regulamentação da força
de trabalho por ele propostas seriam indiretas, pela manipulação do operário por intermédio de
especialistas em resolver conflitos. Assim, psicólogos e sociólogos, assistentes sociais e administra-

Trabalho e sociedade 19

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dores procuraram de várias formas cooptar os trabalhadores para que eles não criassem situações
de conflito no interior das empresas. A empresa lhes daria segurança e apoio e, portanto, deveriam
trabalhar coesos, como se fizessem parte de uma comunidade de interesses. Talvez a expressão “lá na
minha empresa”, que ouvimos de muitos trabalhadores, seja um exemplo de quanto essa perspectiva
atingiu corações e mentes.
Foi com esses procedimentos que o fordismo-taylorismo se desenvolveu e tornou-se a ideia
dominante em todos os tipos de empresa, até mesmo nas comerciais e de serviços. E ficou tão forte
na sociedade capitalista que suas concepções acabaram chegando às escolas, às famílias, aos clubes,
às igrejas e às instituições estatais; enfim, penetraram em todas as organizações sociais que buscam,
de uma forma ou de outra, o controle e a eficiência das pessoas.

AS TRANSFORMAÇÕES RECENTES NO MUNDO DO


TRABALHO
Outras transformações aconteceram na sociedade capitalista, principalmente depois da década
de 1970, relacionadas com a busca por mais lucro. Fazem parte dessas transformações o desenvol-
vimento de uma forma de organização do trabalho conhecida com toyotismo e uma crescente
flexibilização no mundo do trabalho.

Características do toyotismo
Em seus traços mais gerais, o toyotismo […] pode ser entendido como uma for-
ma de organização do trabalho que nasce a partir da fábrica Toyota, no Japão, e que
vem se expandindo pelo Ocidente capitalista, tanto nos países avançados quanto
naqueles que se encontram subordinados. Suas características básicas (em contrapo-
sição ao taylorismo/fordismo) são:
1) sua produção muito vinculada à demanda;
2) ela é variada e bastante heterogênea;
3) fundamenta-se no trabalho operário em equipe, com multivariedade de funções;
4) tem como princípio o just in time, o melhor aproveitamento possível do tempo de
produção e funciona segundo o sistema de kanban, placas ou senhas de comando para
reposição de peças e de estoque que, no toyotismo, devem ser mínimos. Enquanto na
fábrica fordista cerca de 75% era produzido no seu interior, na fábrica toyotista so-
mente cerca de 25% é produzido no seu interior. Ela horizontaliza o processo produ-
tivo e transfere a “terceiros” grande parte do que anteriormente era produzido dentro
dela.
[…]
ANTUNES, Ricardo. Trabalho e precarização numa ordem neoliberal. In: Gentili, P.; Frigotto, G.
A cidadania negada: políticas de exclusão na educação e no trabalho. São Paulo: Cortez, 2001. p. 41-42.
Disponível em: <http://168.96.200.17/ar/libros/educacion/antunes.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2012.

Em seu livro Condição pós-moderna, o geógrafo britânico David Harvey (1935-) chamou a
fase posterior à década de 1970 de pós-fordista, ou fase da acumulação flexível. Para ele, essa
fase se caracterizaria pela flexibilização crescente no mundo do trabalho, que se expressa nas
formas de trabalhar e também nos locais de trabalho.

20 Trabalho e sociedade

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NAS PALAVRAS DE HARVEY

A acumulação flexível ou pós-fordismo


[...]
A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. [...] Caracte-
riza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros,
novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação
flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas,
criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”, bem como conjuntos industriais
completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas [...].
[...] A acumulação flexível foi acompanhada na ponta do consumo, portanto, por uma atenção muito maior às modas fu-
gazes e pela mobilização de todos os artifícios de indução de necessidades e de transformação cultural que isso implica. A es-
tética relativamente estável do modernismo fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma
estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação de formas culturais.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992. p. 140, 148.

A flexibilização nas formas de trabalhar ocorre com a automação e a consequente eliminação


do controle manual por parte do trabalhador. Desse modo, o engenheiro que entende de progra-
mação eletrônica, de supervisão ou de análise de sistemas passa a ter uma importância estratégica
nas novas instalações industriais.
Com o processo de automação, não existe mais um trabalhador específico para uma tarefa
específica. O trabalhador deve estar disponível para adaptar-se a diversas funções. Os que não se
adaptam normalmente são despedidos. A nova configuração mundial do trabalho cria, assim, muita
incerteza e insegurança; por isso, a situação dos trabalhadores no mundo de hoje é bastante sombria.
A flexibilização nas formas de trabalho ocorre quando os empregadores substituem o empre-
go regular, sob contrato, sindicalizado, pelo trabalho doméstico e familiar, autônomo, temporário,
por hora ou por curto prazo, terceirizado etc. Isso provoca alta rotatividade da força de trabalho e,
consequentemente, baixo nível de especialização e forte retrocesso da ação dos sindicatos na defesa
dos direitos trabalhistas.

A sociedade salarial está no fim?


Até pouco tempo atrás, uma pessoa podia entrar numa empresa, trabalhar anos seguidos e A escassez de postos de
aposentar-se nela. Era o chamado posto fixo de trabalho. Hoje, isso está, pouco a pouco, desaparecen- trabalho, em charge de Jean
do, conforme explica o sociólogo francês Robert Castel (1933-2013), em seu livro A metamorfose da Galvão, 2004.
questão social: uma crônica do salário. O sociólogo declara que essa
situação está dando lugar a uma nova sociedade, na qual o trabalho
e a previdência já não significam segurança, o que causa transtornos
terríveis em termos sociais e individuais. Ele destaca quatro aspectos
que parecem estar se generalizando no mundo:
A desestabilização dos estáveis. As pessoas que têm emprego es-
tão sendo “invalidadas” por vários motivos. Algumas porque são
consideradas “velhas” (em torno de 50 anos); outras porque não
têm formação adequada para o cargo pretendido.
A precariedade do trabalho. Há desemprego constante nos últi-
mos anos, e a maioria dos trabalhadores desempregados normal-
mente só encontra postos de trabalho instáveis, de curta duração
ou em períodos alternados.
SOCIOLOGIA
O déficit de lugares. Não há postos de trabalho para todos, nem
para os que estão envelhecendo, nem para os jovens que procu-
ram emprego pela primeira vez. Isso sem falar naqueles que estão
desempregados há muito tempo e até participam de programas
JEAN GALVÃO, 2004.

de requalificação.
A qualificação do emprego. Há tantas exigências para a forma-
ção do trabalhador que se cria uma situação aparentemente

Trabalho e sociedade 21

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sem solução. É o caso dos jovens que não são contratados porque não têm experiência, mas
nunca poderão ter experiência se não forem contratados. Pessoas em torno de 20 anos ficam
vagando de estágio em estágio ou de programas de estágio para outros programas. Há, ainda,
jovens que ocupam empregos para os quais não é necessária a qualificação que têm.
Diante dessas situações, há indivíduos que não conseguem se integrar à sociedade, desqualifi-
cando-se também do ponto de vista cívico e político. Ocorre praticamente uma perda de identidade,
já que o trabalho é uma espécie de “passaporte” para alguém fazer parte da sociedade. No Brasil, isso
acontece, principalmente, nos grandes centros urbanos, mas também ocorre em alguns setores da
produção agrícola por causa da mecanização do processo de produção (plantio e colheita).

NAS PALAVRAS DE VASAPOLLO

Flexibilização e precariedade do trabalho


[…] A nova condição de trabalho está sempre perdendo mais direitos e garantias sociais. Tudo se converte em precarie-
dade, sem qualquer garantia de continuidade: “O trabalhador precarizado se encontra, ademais, em uma fronteira incerta entre
ocupação e não ocupação e também em um não menos incerto reconhecimento jurídico diante das garantias sociais. Flexibi-
lização, desregulação da relação de trabalho, ausência de direitos. Aqui a flexibilização não é riqueza. A flexibilização, por
parte do contratante mais frágil, a força de trabalho, é um fator de risco e a ausência de garantias aumenta essa debilidade […]”.
[…]
A flexibilização, definitivamente, não é solução para aumentar os índices de ocupação. Ao contrário, é uma imposição à
força de trabalho para que sejam aceitos salários reais mais baixos e em piores condições. É nesse contexto que estão sendo
reforçadas as novas ofertas de trabalho, por meio do denominado mercado ilegal, no qual está sendo difundido o trabalho ir-
regular, precário e sem garantias. Com o pós-fordismo e a mundialização econômico-produtiva, o trabalho ilegal vem assumin-
do dimensões gigantescas, também porque os países industrializados deslocaram suas produções para além dos limites nacio-
nais e, sobretudo, vêm investindo em países nos quais as garantias trabalhistas são mínimas e é alta a especialização do
trabalho, conseguindo, assim, custos fundamentalmente mais baixos e aumentando a competitividade […]. A globalização
neoliberal e a internacionalização dos processos produtivos estão acompanhadas da realidade de centenas e centenas de milhões
de trabalhadores desempregados e precarizados no mundo inteiro. O sistema fordista nos havia acostumado ao trabalho pleno
e de duração indeterminada. Agora, ao contrário, um grande número de trabalhadores tem um contrato de curta duração ou
de meio expediente; os novos trabalhadores podem ser alugados por algumas poucas horas ao dia, por cinco dias da semana
ou por poucas horas em dois ou três dias da semana.
[…]
VASAPOLLO, Luciano. O trabalho atípico e a precariedade. São Paulo: Expressão Popular, 2005. Apud: Antunes, Ricardo.
O trabalho, sua nova morfologia e a era da precarização estrutural. Revista Theomai, n. 19, 2009. Disponível
em: <http://revista-theomai.unq.edu.ar/numero19/ArtAntunes.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2012.

CENÁRIOS DO TRABALHO NO MUNDO DE HOJE

Steve Jobs teria “mudado o mundo”? me parece um exagero, um equívoco e uma falta de sen-
Quando Steve Jobs morreu de câncer pancreático no sibilidade. Pior é dizer, como Barack Obama, que Steve
último dia 5 de outubro [de 2011], o presidente dos Esta- mudou o mundo. Ora, mas que mundo? De que mundo
dos Unidos lamentou […] a perda recordando os atributos estamos falando, afinal?
pessoais e profissionais daquele que, disse, foi um dos Certamente não é do mundo dos trabalhadores que
maiores inovadores americanos. “Era valente o suficiente fabricam os produtos da Apple nos galpões da Foxconn
para pensar diferente, audacioso o suficiente para acreditar […] instalados nas cidades chinesas de Shenzen e Cheng-
que poderia mudar o mundo e talentoso o suficiente para du. Ali, cumprem jornadas excessivas, de pelo menos 10
fazer isso.” horas diárias, que se transformam facilmente em 15 ou 16
[…] devido às horas extras que acabam cumprindo. Um repór-
Chamar Steve Jobs de gênio do marketing, do design, ter do jornal chinês Southern Weekend infiltrou-se […] na
da informática e da tecnologia, tudo bem. Mas chamá-lo fábrica da Foxconn para relatar o dia a dia dos funcioná-
de gênio, simplesmente, ou revolucionário, visionário etc. rios. Disse que o salário médio é de 130 dólares mensais.

22 Trabalho e sociedade

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E que, graças à baixa remuneração, as horas extras são 10 horas por dia; 39% não cumpriram os requisitos míni-
uma espécie de obrigação autoimposta aos trabalhadores. mos de prevenção de acidentes; 17% não tomaram as de-
[…] vidas precauções contra a exposição de seus funcionários
Uma reportagem […] da Bloomberg Business Week a produtos químicos; 35% não cumpriram metas salariais
informa que nas linhas de montagem da Foxconn é proi- — 24 das 102 fornecedoras da Apple pagam menos que
bido conversar. Os funcionários têm direito a uma pausa o mínimo aceitável; e 3 fábricas foram flagradas empre-
de 10 minutos para ir ao banheiro a cada duas horas de gando trabalho infantil.
trabalho. Quando estão apertados, devem levantar a mão […]
e esperar que um supervisor lhes dê a ordem para sair. O dono da Apple trouxe soluções para “problemas”
Deixar as instalações da empresa também não é tão sim- criados pelo surgimento das novas tecnologias. Ocupou
ples. Os empregados da Foxconn em Shenzen moram na um nicho de mercado — que talvez ele mesmo tenha cria-
fábrica. De acordo com o Guardian, a companhia dispo- do — e enriqueceu com sua astúcia empresarial. Algumas
nibiliza […] dormitórios coletivos para até 24 pessoas. pessoas dizem que foi um revolucionário. No entanto, se
São quartos decentes, mas com rígidas regras de convi- deixamos um pouco de lado os edifícios reluzentes do Vale
vência. Muitos funcionários visitam a família apenas uma do Silício e desviamos nosso olhar para as fábricas onde
vez por ano. são montadas as pequenas maravilhas da Apple, veremos
[…] que Steve Jobs, longe de ter contribuído para alguma mu-
dança, reforçou padrões de exploração trabalhista que
baratearam o custo do iPhone e incrementaram sua fortu-
AFP

na pessoal — estimada em 8,3 bilhões de dólares.


Steve Jobs não mudou o mundo. No limite, talvez o
tenha deixado mais bonito para alguns — os compradores
— enquanto mantinha a feiura da rotina dos trabalhado-
res, especialmente na China. Foi apenas mais um bilioná-
rio que soube surfar nas ondas do sistema como ninguém,
mas que, como muitos, não se incomodou em prestar
atenção às vítimas que causou pelo caminho. […]
Breda, Tadeu. Applemania, lado B. Outras palavras, 26 out. 2011. Disponível
em: <www.outraspalavras.net/2011/10/26/applemania-lado-b>.
Acesso em: 27 ago. 2012.

Acima, trabalhadores em linha de montagem de eletrônicos Do ponto de vista daqueles que trabalham, o que significa
na fábrica da Foxconn, na cidade chinesa de Shenzen. Abaixo, mudar o mundo?
dormitório destinado a funcionários da fábrica. As duas fotografias
são de 2012.
IMAGINECHINA VIA AP IMAGES/GLOW IMAGES

Emprego: o problema é seu


[...] todos os assalariados de uma empresa, não im-
porta qual seja o seu nível hierárquico, não sabem nunca
se serão mantidos ou não no emprego, porque não é a
riqueza econômica da empresa que vai impedir que exis-
ta redução de efetivo. Vou dar o exemplo [...] da Peugeot
e da Citroën [Grupo PSA], que conheço bem, na França.
É uma empresa que está funcionando muito bem. Ela
passa seu tempo a despedir as pessoas de maneira regu-
lar. Isso é perversão, mas a perversão está ligada à psico-
logização. O que quero dizer com isso? Poderão perma-
SOCIOLOGIA

necer na empresa apenas aqueles que são considerados


O Guardian teve acesso a uma auditoria […] realiza-
de excelente performance. [...] Isso é psicologização, na
da pela própria Apple sobre sua cadeia produtiva. No do-
medida em que, se alguém não consegue conservar o seu
cumento, a empresa admite uma série de problemas de-
trabalho, fala-se tranquilamente: “mas é sua culpa, você
tectados junto a seus fornecedores. Diz a empresa que, em
não soube se adaptar, você não soube fazer esforços ne-
2010, 54% de seus prestadores de serviço fizeram seus
cessários, você não teve uma alma de vencedor, você não
funcionários trabalharem mais de 60 horas semanais — ou
é um herói.” [...] quer dizer: “você é culpado e não a

Trabalho e sociedade 23

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 23 22/11/16 13:02


organização da empresa ou da sociedade. A culpa é só mas talvez você também não permaneça”.
sua.” Isso culpabiliza as pessoas de modo quase total, Enriquez, Eugène. Perda de trabalho, perda de identidade. In: Nabuco, Maria
Regina; Carvalho Neto, Antonio. Relações de trabalho contemporâneas.
pessoas que, além disso, ficam submetidas a um estresse
Belo Horizonte: IRT, 1999. p. 77.
profissional extremamente forte. Então as empresas exi-
gem daqueles que permanecem um devotamento, lealda-
de e fidelidade, mas ela não dá nada em troca. Ela vai
dizer simplesmente: “você tem a chance de continuar, O emprego é uma questão pessoal, social ou ambas?

TAREFA PARA CASA

1 Crie um título para a charge a seguir: a) O poema do russo Maiakovski (1893-1930) aborda o
dia internacional do trabalhador, comemorado em
diversos países no dia primeiro de maio. Quais são os

JEAN GALVÃO
trabalhadores citados no poema?
b) De acordo com o poema, por que esses trabalhadores,
que estão inseridos no processo de produção capitalis-
ta, “imploram feriado”?
c) Como é possível interpretar a expressão “corpo-máqui-
na” utilizada no poema?
d) Considerando o poema e os conhecimentos sociológi-
cos sobre o trabalho na sociedade moderna, quais os
possíveis significados da adoção do dia do trabalhador
como data comemorativa nos países capitalistas? Jus-
tifique sua resposta citando exemplos do texto ou da
realidade social brasileira contemporânea.
Os vários itens deste exercício permitem ao aluno fazer uma inter-
pretação sociológica do poema, engendrando uma reflexão sobre a
condição do trabalhador nas sociedades capitalistas e, especialmente
no item d, abordando exemplos do próprio texto ou da realidade social
do Brasil hoje.

3 É possível afirmar que, segundo a análise de Karl Marx, a


2 Leia o poema e responda às questões.
acumulação de capital, principal fundamento econômico
Meu maio do capitalismo, é resultado de uma exploração? Por quê?
A todos De uma perspectiva marxista, a acumulação de capital e a exploração
Que saíram às ruas do proletariado pela burguesia são faces de uma mesma moeda.
Espera-se, assim, que o aluno elabore uma descrição da visão de
De corpo-máquina cansado,
Marx sobre o trabalho a partir dessa aproximação.
A todos
Que imploram feriado 4 O francês Émile Durkheim, um dos fundadores da Sociolo-
Às costas que a terra extenua — gia, percebe na divisão do trabalho um fator crucial para a
Primeiro de Maio! compreensão das sociedades capitalistas; porém, sua aná-
[...] lise difere bastante daquela elaborada por Marx.
Sou operário —
Explique o que você entendeu do pensamento deles so-
Este é o meu maio!
bre a divisão capitalista do trabalho, completando as sen-
Sou camponês — Este é o meu mês.
tenças:
Sou ferro —
a) Marx considera a divisão do trabalho na sociedade ca-
Eis o maio que eu quero!
pitalista como causa de...
Sou terra —
divisão entre a direção (trabalhador intelectual) e o operário (tra-
O maio é minha era! balhador braçal); oposição entre quem detém o capital e quem
Maiakovski, Vladimir. “Meu maio”. Disponível em: www.kaosenlared. possui a força de trabalho, situação que forçou a luta de classes.
net/noticia/sem-forma-revolucionaria-no-ha-arte-revolucionaria-80-anos-da- Para Marx, a divisão do trabalho produz conflitos.
poesia-m. Acesso em: dez. 2013.
b) Durkheim considera essa mesma divisão do trabalho

24 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 24 22/11/16 13:02


na sociedade capitalista não necessariamente como cria- fabricação de carros.
dora de conflitos e oposições, mas como criadora de... O aluno terá várias escolhas. Produção de roupas (moldes, corte das
uma forma superior de solidariedade orgânica que promove a in- peças de tecido, costura, colocação de botões, etiquetagem, emba-
tegração social, ao fazer com que, dependendo umas das outras, lagem, distribuição nas lojas, vendas); calçados; bebidas; produção
as pessoas se tornem mais solidárias, dando coesão à vida em de alimentos industrializados; brinquedos; livros; medicamentos;
sociedade. Para Durkheim, a divisão do trabalho produz solidarie- construção civil.
dade, harmonia e coesão social.
b) Do seu ponto de vista, que ideias predominam entre
5 O termo fordismo-taylorismo, criado a partir de concei- os trabalhadores que são submetidos a essa forma de
tos e atividades desenvolvidos por Henry Ford e Frederick trabalho: as de Marx ou as de Durkheim?
Taylor, é utilizado para expressar uma forma de organização
A resposta deve ser pessoal e sempre justificada.
do trabalho no sistema capitalista baseada no aumento da
produtividade, na mecanização do trabalho e no controle c) Tudo indica que, enquanto o capitalismo existir, essa
dos trabalhadores. A linha de montagem foi utilizada não só divisão social do trabalho vai persistir, porque funciona
na fabricação de carros, mas em quase todas as indústrias, muito bem para as empresas. O que você sugere para
permitindo que a produção capitalista atingisse altos níveis aperfeiçoar a linha de montagem do ponto de vista do
de eficiência. O fordismo-taylorismo é o melhor exemplo da bem-estar do trabalhador?
velha máxima do capitalismo: “tempo é dinheiro”.
Resposta pessoal. Se for aberto um debate em classe, caberá ao
a) Dê um exemplo de divisão de trabalho no estilo Taylor/ professor coordenar os possíveis impasses. Pode ser um momento
Ford em alguma empresa, à sua escolha, que não seja de para os alunos sentirem um pouco o mundo do trabalho para o qual
estão se preparando.

ANOTAÇÕES

SOCIOLOGIA

Trabalho e sociedade 25

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CAPÍTULO

3 A questão do trabalho
no Brasil

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: Quando analisamos o trabalho no Brasil, não podemos nos esquecer de que ele está ligado ao
envolvimento do país na trama internacional, desde que os portugueses aqui chegaram no século
c Analisar o trabalho no XVI. Basta lembrar que a “descoberta” do Brasil aconteceu porque os europeus (principalmente
Brasil como um todo. portugueses e espanhóis) estavam comprometidos com a expansão marítima e esquadrinhavam
os oceanos em busca de novas terras para explorar e de novos produtos para comercializar. A
c Compreender a
produção agrícola para exportação e a presença da escravidão no Brasil também estão vinculadas
presença do trabalho
à vinda dos europeus.
escravo e servil com
nova configuração
nas sociedades O TRABALHO ESCRAVO
contemporâneas. Nas primeiras décadas após a chegada dos portugueses ao continente americano, as principais
atividades que eles praticaram foram a extração e o comércio do pau-brasil. Para desenvolvê-las,
procuraram entrar em entendimento com os habitantes nativos, que, num primeiro momento,
colaboraram em troca de alguns produtos. Porém, à medida que a exploração colonial se amplia-
va, os conflitos passaram a dominar as relações entre protugueses e indígenas. Os colonizadores
partiram, então, para a escravização dos indígenas, que lhes opuseram resistência.
Diante da resistência indígena e da necessidade de braços para as atividades produtivas, a al-
ternativa dos portugueses foi procurar mão de obra em outro local, no caso, o continente africano.
A crescente utilização do trabalho de africanos escravizados na América portuguesa se explica
principalmente por dois fatores. O primeiro foi a implantação da indústria açucareira na colônia. A
produção do açúcar, mercadoria de grande aceitação no mercado europeu, exigia muita mão de
obra. O segundo eram os lucros advindos do tráfico de escravos. Por meio do empreendimento
açucareiro, os portugueses lucravam com o tráfico, com a utilização do trabalho escravo e com a
comercialização do açúcar.
Apesar de trabalharem basicamente nas atividades agrícolas, os africanos escravizados exe-
cutavam várias outras tarefas no campo e na cidade. De seu cotidiano, além do trabalho intensivo,
muitos castigos faziam parte, razão pela qual a média de vida útil deles não ultrapassava os 15 anos.
O escravo de origem africana lutou contra sua situação e participou ativamente do processo
de desestruturação do escravismo no Brasil (voltaremos a tratar desse assunto na unidade 5). A
escravidão só seria abolida, porém, no final do século XIX.
O trabalho escravo predominou no Brasil por mais de 350 anos. Portanto, convivemos com a
liberdade formal de trabalho há pouco mais de cem anos. As marcas desse passado de escravidão
continuam presentes em vários aspectos da sociedade brasileira, seja na concepção de trabalho,
seja na relação entre negros e brancos.

DO TRABALHO ESCRAVO AO ASSALARIADO


Antes do fim da escravidão, os grandes proprietários de terras, principalmente os fazendeiros
paulistas, procuraram trazer imigrantes para trabalhar em suas lavouras. A primeira experiência de
utilização da força de trabalho legalmente livre e estrangeira foi realizada pelo senador Vergueiro,
grande fazendeiro da região oeste de São Paulo que, em 1846, trouxe 364 famílias da Alemanha
e da Suíça. Em 1852, importou mais 1,5 mil colonos e, posteriormente, propôs-se trazer mais mil
colonos por ano. Isso era feito com a ajuda financeira do governo da província de São Paulo, que
arcava com os custos da importação e ainda subvencionava as empresas agenciadoras de mão de
obra estrangeira.

26 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 26 22/11/16 13:02


ACERVO ICONOGRAPHIA
Trabalhadores europeus em uma das
fábricas das Indústrias Matarazzo em São
Paulo, SP, cerca de 1900.

O sistema de trabalho então adotado ficou conhecido como colonato, pois as famílias que
aqui chegavam assinavam um contrato nos seguintes termos: o fazendeiro adiantava uma quantia
necessária ao transporte e aos gastos iniciais de instalação e sobrevivência das famílias de colonos.
Estes, por sua vez, deviam plantar e cuidar de um número determinado de pés de café. No final da
colheita, seria feita uma divisão com o proprietário. Os colonos eram obrigados a pagar juros pelo
adiantamento e não podiam sair da fazenda enquanto não houvessem saldado sua dívida, o que
demorava muito, uma vez que o adiantamento era sempre maior que os lucros advindos do café.
Assim se criava o que passou a ser conhecido como “parceria de endividamento”, porque o colono
não conseguia pagar a dívida contraída com o fazendeiro. Essa dívida, muitas vezes, passava de Fac-símile de exemplares da imprensa
pai para filho — a responsabilidade dos filhos pelas dívidas dos pais era estabelecida em contrato. operária publicados nas primeiras
As experiências iniciais não foram bem-sucedidas, pois os colonos não aceitavam tamanha décadas do século XX. Nessa época,
multiplicaram-se nos centros urbanos
exploração e muitas vezes fugiam da fazenda ou se revoltavam contra o sistema adotado. Foi o os jornais produzidos por imigrantes
caso da revolta na fazenda Ibicaba, de propriedade do senador Vergueiro, em 1857. Acrescente- para mobilizar os operários na luta
-se às atitudes dos colonos a pressão dos governos estrangeiros para minorar os males infligidos por melhores condições de trabalho e
a seus cidadãos no Brasil. A imigração ficou estagnada até os anos 80 do século XIX, quando foi divulgar ideias de correntes diversas,
sobretudo anarquistas e socialistas.
retomada com novo vigor após o fim da escravidão.

COLEÇÃO PARTICULAR
Isso pode ser verificado pelos seguintes dados: no período de 1820 a 1890, emi-
graram para o Brasil 987.461 pessoas. De 1891 a 1900, o total foi de 1.129.315 pessoas.
Nos 30 anos seguintes, esse movimento prosseguiu, com média em torno de 1 milhão
de imigrantes a cada 10 anos.
A maioria desses imigrantes foi trabalhar no campo, mas outros se estabeleceram
em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde trabalhavam nas indústrias nascentes,
no pequeno comércio e como vendedores ambulantes. As condições de vida desses
trabalhadores não eram das melhores e o nível de exploração nas fábricas era muito alto,
de tal maneira que os operários trataram de se organizar em associações e sindicatos.
A partir dos primeiros anos do século XX, os trabalhadores urbanos passaram a SOCIOLOGIA
reivindicar melhores condições de trabalho, diminuição da carga horária semanal, me-
lhorias salariais e, ainda, normatização do trabalho de mulheres e crianças, que eram
empregadas em grande número e ainda mais exploradas do que os homens. Vários
movimentos foram promovidos visando ao atendimento dessas reivindicações.
Apoiados por uma imprensa operária, que crescia rapidamente, os trabalhadores
passaram a organizar movimentos grevistas, que culminaram com a maior greve até
então havida no país, a de 1917, em São Paulo. Nesse período, que se estendeu até 1930,

Trabalho e sociedade 27

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 27 22/11/16 13:02


a questão social, principalmente no que se
ACERVO ICONOGRAPHIA

referia aos trabalhadores, era tratada como


um problema de polícia.
Com o desenvolvimento industrial
crescente, as preocupações com o traba-
lhador rural continuaram a existir, mas a
atenção maior das autoridades voltou-se
para as condições do trabalhador urbano,
que determinaram a necessidade da regu-
lamentação das atividades trabalhistas no
Brasil. Isso aconteceu pela primeira vez no
início da década de 1930, com a ascensão
de Getúlio Vargas ao poder.
No período de 1929 até o final da Se-
gunda Guerra Mundial (1945) — em que
as exportações foram fracas e houve forte
investimento do Estado em fontes energé-
ticas, em siderurgia e em infraestrutura —,
Manifestação de trabalhadores na capital
buscou-se a ampliação do processo de in-
paulista durante a greve geral de 1917. dustrialização no Brasil, o que significou um aumento substancial do número de trabalhadores urbanos.
Os grevistas, em sua maioria imigrantes A maioria da população brasileira, porém, vivia na zona rural. Mantinha-se, assim, uma
europeus, reivindicavam direitos como estrutura social, econômica e política vinculada à terra. As transformações que ocorreram pos-
a definição da jornada de oito horas, o
aumento salarial e a abolição do trabalho
teriormente mudaram a face do país, mas o passado continua influindo, principalmente, nas
árduo aos menores de 14 anos. concepções de trabalho. Ainda hoje, ouve-se a expressão “trabalhei como se fosse um escravo”
ou percebe-se o desprezo pelo trabalho manual e pelas atividades rurais, que lembram um pas-
sado do qual a maioria das pessoas quer fugir.

A SITUAÇÃO DO TRABALHO NOS ÚLTIMOS 70 ANOS


A partir da década de 1960, houve um intenso deslocamento da população para as cidades, alte-
rando profundamente a situação do trabalho no Brasil. Observe a tabela a seguir:

População brasileira (1940-2010)

Anos População total População urbana % População rural %

1940 41.326.315 12.880.182 31,23 28.446.133 68,77


1950 51.994.397 18.782.891 36,16 33.211.506 63,84
1960 70.191.370 31.303.034 44,60 38.888.336 55,40
1950 93.139.037 52.084.984 55,92 41.054.053 44,08
1980 119.002.706 80.436.409 67,59 38.566.297 32,41
1991 146.825.475 110.990.990 75,59 35.834.485 24,41
2000 169.799.170 137.953.959 81,25 31.845.211 18,75
2010 190.732.694 160.925.792 84,36 29.806.902 15,64

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Disponível em: <www.ibge.gov.br>. Acesso em: 27 ago. 2012.

A transferência da população para o meio urbano ocorreu de forma concentrada, sobretudo


nas capitais, que, ao longo das décadas, receberam indústrias e investimentos em habitação, além
de dinamizar as atividades ligadas ao setor terciário da economia (comércio e serviços). Algumas

28 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 28 22/11/16 13:02


capitais, atualmente, formam grandes aglomerações urbanas, constituindo o que se conhece por
áreas metropolitanas. Hoje, as áreas metropolitanas compreendem aproximadamente 450 muni-
cípios (no Brasil existem mais de 5.500 municípios). Nelas vivem cerca de 85 milhões de pessoas,
ou seja, aproximadamente 45% da população brasileira.
Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2008, 92,4 milhões
de pessoas estavam ocupadas no Brasil. Destas, apenas 18,4% dedicavam-se à agricultura, como
mostra o gráfico a seguir. Observe, na representação, como a população ocupada está distribuída
por grupo de atividade.

Distribuição das pessoas ocupadas por atividade no Brasil (2007-2008)

GRÁFICOS: PORTAL DE MAPAS


18,4
Agricultura 17,4
15,2
Indústria 15,1
6,7
Construção 7,5
18
Comércio e reparação 17,4
3,7
Alojamento e alimentação 3,9
4,8
Transporte, armazenagem e comunicação 5
5
Administração pública 4,9
9,2
Educação, saúde e serviços sociais 9,2 2007
7,4
Serviços domésticos 7,2 2008
4,1
Outros serviços coletivos, sociais e pessoais 4,4
7,3
Outras atividades 7,7
0,2
Atividades mal definidas 0,2

0 10 20 30 40 50 60 70 80
%

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e
Rendimento. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2007-2008. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/
estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2008/comentarios2008.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2012.

A distribuição das pessoas ocupadas de acordo com sua posição na ocupação está represen-
tada no gráfico a seguir.

Distribuição das pessoas ocupadas por tipo de trabalho no Brasil (2008)

Empregadores
Trabalhadores na produção para o próprio consumo
4,5%
ou na construção para o próprio uso
4,5%
Não remunerados
5%

Trabalhadores domésticos
7,2%

Empregados
58,6%
Conta própria SOCIOLOGIA
20,2%

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e
Rendimento. Psquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2007-2008. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/
estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2008/comentarios2008.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2012.

Trabalho e sociedade 29

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 29 22/11/16 13:02


O trabalho que não aparece
Há no Brasil muitos trabalhadores que desenvolvem suas atividades no chamado setor infor-
mal, o qual, em períodos de crise e recessão, cresce de modo assustador. Segundo a PNAD realizada
em 2008, 34,5% dos ocupados (31,9 milhões) trabalhavam sem carteira de trabalho assinada, ou
seja, sem nenhum tipo de registro jurídico.
O setor informal inclui empregados de pequenas empresas sem registro, indivíduos que
desenvolvem, por conta própria, atividades como o comércio ambulante, a execução de reparos
ou pequenos consertos, a prestação de serviços pessoais (empregados domésticos, babás) e de
serviços de entrega (entregadores, motoboys) e a coleta de materiais recicláveis. A lista é enorme.
E há ainda aqueles trabalhadores, normalmente mulheres, que em casa mesmo preparam pães,
bolos e salgadinhos em busca de uma renda mínima para sobreviver. Todos fazem a economia
funcionar, mas as condições de trabalho a que se submetem normalmente são precárias e não
dão a mínima segurança e permanência na atividade.

GERSON GERLOFF/PULSAR IMAGENS

RICARDO LISBOA/AE
À esquerda, supermercado em Santa Trabalho servil — quase escravo
Maria, no Rio Grande do Sul, 2010.
À direita, comércio informal na rua Apesar de a escravidão ter sido abolida no Brasil em 1888, ainda encontramos muitos
General Carneiro, no centro de São Paulo, trabalhadores em condições de trabalho servil ou escravo.
em 2009. Os trabalhadores dos setores No livro Pisando fora da própria sombra: a escravidão por dívida no Brasil contemporâneo,
de comércio e serviços compõem o
grupo mais numeroso da População
o antropólogo brasileiro Ricardo Rezende Figueira traça um detalhado panorama dessa forma
Economicamente Ativa (PEA), um reflexo de trabalho nos estados do Pará, Piauí, Mato Grosso e Rondônia. Por meio de uma pesquisa
do rápido e desordenado processo de minuciosa, Figueira demonstra as razões que levam as pessoas a procurar trabalho naqueles es-
urbanização no Brasil. tados, o aliciamento pelos empreiteiros com suas promessas, a ação dos fazendeiros e a violência
normalmente envolvida nas ações. De acordo com esse estudo, os trabalhadores são mantidos
em cativeiro pelo mecanismo da dívida eterna, isto é, eles são obrigados a comprar tudo de que
necessitam nos barracões das fazendas, de tal modo que estão sempre devendo ao proprietário
no final do mês, num processo cumulativo que acaba tornando impossível a quitação da dívida.
É o que o autor chama de escravidão por dívida.
Apesar de haver legislação específica e esforços governamentais para impedir esse tipo de
situação no país, empresários e fazendeiros inescrupulosos utilizam o trabalho escravo de modo
contínuo, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, contando com a impunidade
de seus atos.

30 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 30 22/11/16 13:02


NAS PALAVRAS DE FIGUEIRA

Trabalho escravo contemporâneo


O trabalho involuntário em empresas agropecuárias ou outras unidades de produção,

NELSON ANTOINE/FOTOARENA
fruto da coerção, sob o pretexto da dívida, tem sido identificado por muitos defensores
dos direitos humanos, sindicalistas, jornalistas, funcionários do Estado e pesquisadores
como trabalho escravo.
Em geral a pessoa é aliciada diretamente ou através de terceiros no local onde mora
ou no local onde busca trabalho e é levada para outro município ou estado. Uma vez
transportada até o local do trabalho, ela é informada de que só poderá sair após pagar o
abono recebido no ato do recrutamento, os gastos efetuados no transcurso da viagem com
transporte, hospedagem e alimentação. A dívida pode aumentar se a alimentação e os
instrumentos de trabalho são adquiridos em uma cantina na própria fazenda. […]
A relação de trabalho pode vir acompanhada por um conjunto de práticas que são
tipificadas juridicamente como crime — manutenção de pessoas em cárcere privado, Manifestação em São Paulo contra
violência física, como a tortura e lesões corporais, assassinato e danos ambientais — e grandes fabricantes de roupas que fazem
uso do trabalho forçado. Agosto de 2011.
violações às leis trabalhistas — ausência de assinatura de Carteira de Trabalho e Previdên-
cia Social, recolhimento dos direitos previdenciários, pagamento do salário e das férias,
condições inadequadas de habitação, transporte, alimentação e segurança.
A categoria trabalho escravo por dívida, como não é exatamente a mesma escravidão que havia na antiguidade romana e
grega, ou a da África e das Américas até o século XIX, suscita dúvidas para alguns pesquisadores, por isso, a categoria vem acres-
cida, algumas vezes, de complementação (semi, branca, contemporânea, por dívida ou análoga). Também têm sido utilizadas
outras expressões para designar o mesmo fenômeno: trabalho forçado, uma categoria mais ampla que engloba diversas modalida-
des de trabalhos involuntários, inclusive o escravo. No caso Ocidental, o trabalho obrigatório, sob pretexto de uma dívida, tem se
dado não apenas nos países chamados do terceiro mundo, mas em países ricos. Em alguns países da África e da Ásia, a escravidão
aparece também por motivos étnicos ou religiosos.
[…]
FIGUEIRA, Ricardo Rezende. O que é trabalho escravo? In: Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo.
Disponível em: <www.gptec.cfch.ufrj.br/o-que-e-trabalho-escravo>. Acesso em: 27 ago. 2012.

EMPREGO E DESEMPREGO
Nos últimos 40 anos, a população urbana no Brasil cresceu em quase 100 milhões de habitantes
e a questão do emprego passou a ser um dos grandes problemas nacionais. Na agricultura houve a
expansão da mecanização em todas as fases — preparo da terra, plantio e colheita —, ocasionando a
expulsão de milhares de pessoas, que tomaram o rumo das cidades. Na indústria, a crescente automa-
ção das linhas de produção também colocou milhares de pessoas na rua.
Para ter uma ideia do que aconteceu nesse setor, basta dizer que, na década de 1980, para produzir
1,5 milhão de veículos, as montadoras empregavam 140 mil operários. Hoje, para produzir 3 milhões
de veículos, as montadoras empregam 90 mil tra-
balhadores. Nos serviços, principalmente no setor

GRÁFICOS: PORTAL DE MAPAS


financeiro, a automação também desempregou Criação de empregos formais no Brasil (1986-2010)

outros tantos. Enfim, se a chamada modernização 3.000 2 86


2.861
2.452
dos setores produtivos e de serviços conseguiu au- 2.500
Número de empregos criados (× 1.000)

mentar a riqueza nacional, não provocou o aumento 2.000 1.862


862

significativo da quantidade de empregos. Veja, no 1.500


1.672 1.494 1.916
11.765
765
1.765
SOCIOLOGIA
1.235
gráfico abaixo, a variação no número de empregos 1.000
892
824 861
criados nos últimos anos. 500
Criação de vagas

453 502 88 501


274
Fonte: Criação de Empregos Formais — Evolução: 1986- 0
2010 — Brasil. Brasil: fatos e dados. Disponível em: <http:// _500
brasilfatosedados.wordpress.com/2010/09/09/criacao-de- _737
-737 Perda de vagas
_1.000
empregos-formais-evolucao1986-2010-2>. Acesso em: 27
_1.287
-1.287
ago. 2012. _1.500
1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
1.672 453 1.043 824 _1.287 _187 _737 892 502 88 74 274 387 501 1.235 960 1.494 861 1.862 1.831 1.916 2.452 1.834 1.765 2.861

Trabalho e sociedade 31

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 31 22/11/16 13:02


Observe a seguir o gráfico que representa as taxas médias anuais de desemprego.

Taxa média anual de desemprego no Brasil (1984-2010)

14
12,2

Taxa média anual de desemprego (%)


12
12
10,2
10
8,3 9,8
8
7,2 7,9
6 6,8
5,2
4 4,6

0
1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
5,2 4,2 3,5 4,7 5,2 4,6 5 5 7,2 8,3 8,3 8,4 9,5 10,2 11,1 12 12 12,1 12,2 12,3 11,5 9,8 10 9,3 7,9 8,1 6,8

Fonte: Desemprego — Taxa média anual — Evolução: 1986-2010 — Brasil. Brasil: fatos e dados. Disponível em:
<http://brasilfatosedados.wordpress.com/2010/09/09/desemprego-evolucao1986-2010-2>. Acesso em: 27 ago. 2012.

Como se pode perceber, nos últimos 25 anos houve uma variação significativa nas taxas
de emprego/desemprego no Brasil. Em 2010, a taxa de desemprego era baixa, mas ainda não
chegava ao nível registrado em 1986. Há que se levar em conta que, nesse período, a população
brasileira cresceu de modo significativo. Por isso, foi necessário criar novos empregos para a
população que chegava ao mercado de trabalho. O que se espera é que a oferta de empregos e
o crescimento econômico prossigam em ascensão para manter a população atual empregada.

Emprego e qualificação
Ouvimos a todo momento nas conversas informais e encontramos com fre-
quência nos meios de comunicação a afirmação de que só terá emprego quem
RUBENS KIOMURA/CARLOS ALBERTO PEREIRA

tiver qualificação. A qualificação em determinados ramos da produção é necessária


e cada dia mais exigida, mas para poucos postos de trabalho. A maioria das ocu-
pações requer somente o mínimo de informação, que normalmente o trabalhador
consegue adquirir no próprio processo de trabalho.
A elevação do nível de escolaridade não significa necessariamente emprego no
mesmo nível e boas condições de trabalho. Quantos graduados em Engenharia ou
Arquitetura estão trabalhando como desenhistas? Quantos formados em Medicina
são assalariados em hospitais e serviços médicos, tendo uma jornada de trabalho
excessiva? E os formados em Direito que não conseguem passar no exame da Or-
dem dos Advogados do Brasil (OAB), muitos por ter uma formação deficiente, e
se empregam nos mais diversos ramos de atividade, em geral muito abaixo daquilo
que estão, em tese, habilitados a desenvolver? Ou seja, a formação universitária, cada
dia1 mais deficiente, não garante empregos àqueles que possuem diploma universi-
tário, seja pela qualificação insuficiente, seja porque não existe emprego para todos.
Encontram-se situações exemplares nos dois polos da qualificação:
Em muitas empresas de limpeza exige-se formação no ensino médio para a ativi-
dade de varrição de rua, o que demonstra que não há relação entre o que se faz e
a escolarização solicitada, pois não é necessário ter nível médio para isso, mesmo
que existam pessoas com até mais anos de estudo que, por necessidade, o fazem.
Jovens doutores (que concluíram ou estão fazendo o doutorado) são despedidos
ou não são contratados por universidades particulares porque têm direito de
A relação entre escolaridade e receber salários mais altos que os dos mestres, e as instituições não querem pagar
emprego, em charge de Rubens
Kiomura e Carlos Pereira, 1980. mais. Nesse caso, não importa a melhoria da qualidade do ensino, e sim o lucro
que as empresas educacionais podem obter.

32 Trabalho e sociedade

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CENÁRIOS DO TRABALHO NO BRASIL

Trabalho infantil Mais trabalho e menos descanso


O trabalho infantil no Brasil ainda é um grande No tempo da Revolução Industrial, décadas de lutas
problema social. Milhares de crianças ainda deixam de ir do movimento social e trabalhista foram necessárias para
à escola e ter seus direitos preservados, e trabalham desde conter as extensas jornadas de trabalho (superiores a 14
a mais tenra idade na lavoura, campo, fábrica ou casas de horas diárias e a mais de 80 horas semanais). Por meio de
família, muitos deles sem receber remuneração alguma. férias, do descanso semanal e dos limites máximos impos-
Hoje em dia, em torno de 4,8 milhões de crianças e ado- tos à jornada (oito horas diárias e 48 horas semanais), a
lescentes entre 5 e 17 anos estão trabalhando no Brasil, relação do trabalho com o tempo de vida reduziu-se de
segundo PNAD 2007. Desse total, 1,2 milhão estão na fai- mais de dois terços para menos da metade.
xa entre 5 e 13 anos. Assim, os laços de sociabilidade urbana foram cons-
Apesar de no Brasil o trabalho infantil ser considerado truídos por meio do avanço de atividades educacionais,
ilegal para crianças e adolescentes entre 5 e 13 anos, a lazer e turismo, entre outras fundamentais à consolidação
realidade continua sendo outra. Para adolescentes entre 14 de um padrão civilizatório superior.
e 15 anos, o trabalho é legal desde que na condição de Paradoxalmente, o curso atual da revolução tecnoló-
aprendiz. gica nas informações e comunicações faz com que o in-
O Peti (Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil) gresso na sociedade pós-industrial seja acompanhado da
vem trabalhando arduamente para erradicar o trabalho elevação da participação do trabalho no tempo de vida.
infantil. Infelizmente, mesmo com todo o seu empenho, a O transbordamento laboral para fora do local de tra-
previsão é de poder atender com seus projetos cerca de 1,1 balho compromete não apenas a qualidade de vida indi-
milhão de crianças e adolescentes trabalhadores, segundo vidual e familiar como também a saúde humana.
acompanhamento do Inesc (Instituto de Estudos Socioe- Não são diminutos os diagnósticos a respeito das no-
conômicos). Do total de crianças e adolescentes atendidos, vas doenças profissionais em profusão.
3,7 milhões estarão de fora. O predomínio do trabalho imaterial, não apenas mas
Ao abandonarem a escola, ou terem que dividir o substancialmente estendido pelas atividades no setor ter-
tempo entre a escola e o trabalho, o rendimento escolar ciário das economias — a principal fonte atual de geração
dessas crianças é muito ruim, e serão sérias candidatas ao de novas vagas —, permite que o seu exercício seja fisica-
abandono escolar e consequentemente ao despreparo mente mais leve, embora mentalmente cada vez mais can-
para o mercado de trabalho, tendo que aceitar subempre- sativo.
gos e assim continuarem alimentando o ciclo de pobreza Antigos acidentes laborais provocados pelo esmaga-
no Brasil. mento em máquinas são substituídos por novos proble-
[…] mas, como o sofrimento humano, a solidão e a depressão,
Como já era de se esperar, o trabalho infantil ainda é cada vez mais associada às jornadas excessivas de trabalho
predominantemente agrícola. Cerca de 36,5% das crianças e ao consumismo desenfreado.
estão em granjas, sítios e fazendas, 24,5% em lojas e fábri- A imaterialidade do trabalho, mesmo nas fábricas,
cas. No Nordeste, 46,5% aparecem trabalhando em fazen- por efeito da automatização e das novas tecnologias de
das e sítios. informação e comunicação, torna o exercício laboral mais
[…] intenso e extenso.
Trabalho infantil no Brasil: milhares de crianças ainda deixam de ir à escola. Por força do transbordamento laboral para além do
In: Guiainfantil.com. Disponível em: <http://br.guiainfantil.com/direitos-das-
criancas/450-trabalho-infantil-no-brasil.html>. Acesso em: 27 ago. 2012.
local de trabalho, a jornada de 48 horas aumenta para 69
horas semanais, enquanto o descanso reduz-se de 48 ho-
ras para 27 horas na semana.
Pochmann, Marcio. 27 horas. Folha de S.Paulo. São Paulo, 23 jan. 2011.
Opinião. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2301201107.
1 No século XIX, uma das lutas dos trabalhadores foi pela extin- htm>. Acesso em: 27 ago. 2012.
ção do trabalho infantil. Procurava-se assegurar à criança os SOCIOLOGIA
direitos de brincar, estudar e não ser explorada no trabalho. 20 bilhões de mais-valia
Por que a exploração do trabalho infantil persiste até os dias Os trabalhadores brasileiros deixam de receber por
de hoje? ano R$ 20 bilhões em hora extra sonegada pelos empre-
gadores. O principal motivo, segundo a Associação Nacio-
2 O que você sugere para acabar com o trabalho infantil nas nal dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra),
diferentes situações apontadas?Por que a exploração do tra- seria a manipulação dos registros da jornada pelas empre-
balho infantil persiste até os dias de hoje? sas. O brasileiro trabalha muito mais do que 44 horas se-

Trabalho e sociedade 33

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 33 22/11/16 13:02


manais e nem recebe por isso, disse o desembargador Luiz nais para 40 horas. Dominado por empresários — 45%
Alberto de Vargas, diretor da entidade. dos parlamentares são empresários, segundo pesquisa do
A implementação de ponto eletrônico nas empresas, Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar
para registrar a hora de entrada e saída dos funcionários, aju- (Diap) —, o Congresso tem ignorado [o] apelo.
daria a coibir a sonegação. […] A adoção do ponto eletrônico foi discutida nesta se-
O não pagamento de hora extra subtrai dinheiro não gunda-feira (10 [de outubro de 2011]) em audiência pú-
apenas dos trabalhadores, mas dos cofres públicos tam- blica da Comissão de Direitos Humanos do Senado. Re-
bém, já que uma parte da remuneração vai para o Fundo presentante da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Esse dinheiro no debate, Paulo Rolim disse que o setor não está prepa-
poderia estar financiando a construção de casas populares, rado para arcar com os custos do ponto eletrônico (cerca
diz o auditor fiscal do Trabalho Vandrei Barreto de Cer- de R$ 1,2 mil por unidade).
queira. Passos, Najla. Patrões sonegam R$ 20 bi em hora extra a trabalhador,
diz Anamatra. JusBrasil. Disponível em: <http://trt-12.jusbrasil.com.br/
Ele acrescenta um dado ainda mais dramático decor- noticias/2875474/patroes-sonegam-r-20-bi-em-hora-extra-a-trabalhador-diz-
rente de uma jornada de trabalho longa, além da não re- anamatra>. Acesso em: 27 ago. 2012.
muneração. Três brasileiros morrem em média por mês,
graças a sobrecarga. Nos últimos cinco anos, tivemos 430
acidentes de trabalho causados por sobrejornada, dos Qual é a relação entre os textos “Mais trabalho e menos des-
quais 167 foram fatais, afirmou. canso” e “20 bilhões de mais-valia” no que diz respeito às tec-
As centrais sindicais têm pressionado o Congresso a nologias eletrônicas?
votar a redução da jornada de trabalho de 44 horas sema-

TAREFA PARA CASA

1 O escravismo foi a forma predominante de trabalho no Brasil Considerando as informações dadas e o conhecimen-
colonial e imperial, sendo abolido, ao menos oficialmente, to sociológico acerca do mundo do trabalho no Brasil
pela Lei Áurea, em 1888. Nessa data, segundo estimativas de contemporâneo, pode-se considerar a permanência na
historiadores, cerca de 2 milhões de escravos receberam a informalidade uma escolha dos trabalhadores? Por quê?
liberdade. Pesquise em livros ou na internet quais foram os A partir da leitura do texto, pede-se ao aluno que reflita sobre o
problemas sociais enfrentados pelos libertos após o fim da que leva o trabalhador nessa situação a optar pela informalidade
nas relações trabalhistas. É importante que se perceba que as
escravidão no Brasil. Esses problemas ainda são perceptíveis condições sociais do Brasil fazem da informalidade uma questão
atualmente? social, e não um problema de alguns indivíduos.
Este exercício estimula o aluno a perceber as implicações dos fatos
históricos do passado na história presente. Se há uma desigualdade 3 Retome o conteúdo do capítulo 6 e responda:
de fundo étnico e social no Brasil capitalista, ela se deve, além de to- a) No Brasil atual, como a qualificação educacional in-
dos os aspectos oriundos da própria escravidão, à falta de iniciativas
públicas capazes de promover a inclusão da mão de obra liberta no terfere nas possibilidades de cada um no mercado de
mercado de trabalho e na sociedade. Se nas aulas de História o fim trabalho?
do império ainda não foi trabalhado, uma pesquisa orientada pode Tão importante quanto conhecer as teorias e os temas trabalha-
ajudar o aluno a situar melhor o tema. dos pela Sociologia, a prática da pesquisa leva o aluno a perceber a
centralidade da leitura da realidade implicada no fazer sociológico.
2 O emprego informal caracteriza-se pela inexistência de vín-
culo oficial entre patrão e empregado (como carteira de b) A administração pública de sua cidade desenvolve al-
trabalho assinada), não havendo também recolhimento de guma política para conter o desemprego? Qual?
impostos e garantia de benefícios (como férias remunera- Tão importante quanto conhecer as teorias e os temas trabalha-
dos pela Sociologia, a prática da pesquisa leva o aluno a perceber
das). Em geral, a informalidade está presente nos setores de a.
comércio e prestação de serviços (por exemplo, vendedo-
res ambulantes, camelôs e diaristas). No Brasil, essa forma c) Em sua cidade, você percebe nas ruas, em frente às es-
de trabalho é muito comum nas grandes cidades, onde a colas, na praia, por exemplo, pessoas trabalhando no
baixa escolaridade de parte da população se associa à exi- mercado informal?
gência das empresas por mão de obra qualificada.

34 Trabalho e sociedade

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c) A construção de núcleos urbanos integrados por meios
COMPLEMENTARES
PARA PRATICAR
de transporte facilitava o deslocamento dos trabalhado-
res das periferias até as fábricas.
d) A grandiosidade dos prédios onde se localizavam as fá-
1 (UEM, 2009)
bricas revelava os avanços da engenharia e da arquitetura
do período, transformando as cidades em locais de expe-
A respeito das características da sociedade industrial, assi-
rimentação estética e artística.
nale o que for correto.
X e) O alto nível de exploração dos trabalhadores industriais
X (01)Existe uma separação entre indústria e círculo familiar, ocasionava o surgimento de aglomerados urbanos marca-
ou seja, o local onde se trabalha não é o mesmo onde dos por péssimas condições de moradia, saúde e higiene.
se compartilha a vida doméstica. Nas primeiras fases da Revolução Industrial, a partir do século
X (02)Existe uma divisão social do trabalho baseada na se- XVIII, o acelerado desenvolvimento propiciado pelos avanços tec-
paração entre aqueles que detêm a propriedade dos nológicos contribuiu para um crescimento urbano desordenado.
meios de produção e aqueles que vendem sua força Esse processo refletiu-se não só nas condições de trabalho, mas
também nas condições de moradia, saúde e higiene das popu-
de trabalho. lações das cidades.
X (04)A crescente especialização do trabalho intensifica a 3 (Enem, 2010)
interdependência das funções sociais.
X (08)As indústrias necessitam de um sistema de planeja- Quem construiu a Tebas de sete portas?
mento para aprimorar cotidianamente as formas de Nos livros estão os nomes de reis.
controle e execução das tarefas, o que resulta na cria- Arrastaram eles os blocos de pedras?
ção de profissionais especialistas na administração da E a Babilônia várias vezes destruída? —
empresa. Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
(16)A indústria é uma forma moderna de seleção natural, Da Lima dourada moravam os construtores?
recrutando os mais fortes e orientando os operários a Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha
adaptarem-se ao ambiente. da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
A somatória correta é . (01 + 02 + 04 + 08 = 15) Quem os ergueu? Sobre quem
Quando a indústria tomou o lugar do artesanato, na sociedade Triunfaram os Césares? […]
industrial, mudaram: local de trabalho, criação de níveis sociais, BRECHT, B. Perguntas de um trabalhador que lê. Poemas (1913-1956).
distinção entre quem custeia e quem produz, execução de tarefas São Paulo: Editora 34, 2001. p. 166.
específicas com exigência de especialização em cada uma delas,
interdependência entre todos os operários executores de parcelas Partindo das reflexões de um trabalhador que lê um livro de
do produto, controle do tempo e da qualidade em cada fase de História, o autor censura a memória construída sobre deter-
produção até a finalização do produto.
minados monumentos e acontecimentos históricos. A crítica
2 (Enem, 2010) refere-se ao fato de que:
a) os agentes históricos de uma determinada sociedade
A Inglaterra pedia lucros e recebia lucros. Tudo se
deveriam ser aqueles que realizaram feitos heroicos ou
transformava em lucro. As cidades tinham sua sujeira
grandiosos e, por isso, ficaram na memória.
lucrativa, suas favelas lucrativas, sua fumaça lucrativa,
b) a História deveria se preocupar em memorizar os nomes
sua desordem lucrativa, sua ignorância lucrativa, seu
de reis ou dos governantes das civilizações que se desen-
desespero lucrativo. As novas fábricas e os novos altos-
volveram ao longo do tempo.
-fornos eram como as Pirâmides, mostrando mais a es- X c) os grandes monumentos históricos foram construídos
cravização do homem que seu poder.
por trabalhadores, mas sua memória estava vinculada
DEANE, P. A Revolução Industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
aos governantes das sociedades que os construíram.
Qual relação é estabelecida no texto entre os avanços tec- d) os trabalhadores consideram que a História é uma ciên-
nológicos ocorridos no contexto da Revolução Industrial cia de difícil compreensão, pois trata de sociedades anti-
Inglesa e as características das cidades industriais no início gas e distantes no tempo. SOCIOLOGIA
do século XIX? e) as civilizações citadas no texto, embora muito importan-
tes, permanecem sem terem sido alvos de pesquisas his-
a) A facilidade em se estabelecer relações lucrativas trans-
tóricas.
formava as cidades em espaços privilegiados para a livre
iniciativa, característica da nova sociedade capitalista. O poema de Bertolt Brecht, dramaturgo alemão de orientação
marxista, expressa a tese de que a história deveria destacar o
b) O desenvolvimento de métodos de planejamento ur-
papel dos trabalhadores, em vez de enaltecer os governantes.
bano aumentava a eficiência do trabalho industrial.

Trabalho e sociedade 35

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 35 22/11/16 13:02


4 (Enem, 2011) trabalhadores no processo de qualificação laboral.
d) pelo aumento na oferta de vagas para trabalhadores es-
A consolidação do regime democrático no Brasil
pecializados em funções repetitivas.
contra os extremismos da esquerda e da direita exige
e) pela manutenção de estoques de larga escala em função
ação enérgica e permanente no sentido do aprimora-
da alta produtividade.
mento das instituições políticas e da realização de refor-
Ao ser introduzida na linha de produção, a automação provocou
mas corajosas no terreno econômico, financeiro e social. redução de mão de obra e exigiu maior qualificação dos trabalha-
Mensagem programática da União Democrática Nacional (UDN) – 1957. dores no uso dos novos equipamentos. Os interesses comuns
Os trabalhadores deverão exigir a constituição de das empresas e dos prestadores de serviço se uniram para maior
um governo nacionalista e democrático, com participa- preparo profissional de ambos, no comando da produção e na
execução das novas tarefas.
ção dos trabalhadores para a realização das seguintes
medidas: a) Reforma bancária progressista; b) Reforma 6 (Enem, 2012)
agrária que extinga o latifúndio; c) Regulamentação da Fugindo à luta de classes, a nossa organização sindi-
Lei de Remessas de Lucros. cal tem sido um instrumento de harmonia e de coopera-
Manifesto do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) – 1962.
ção entre o capital e o trabalho. Não se limitou a um sin-
BONAVIDES, P.; AMARAL, R. Textos políticos da história do Brasil.
Brasília: Senado Federal, 2002. dicalismo puramente “operário”, que conduziria
certamente a luta contra o “patrão”, como aconteceu com
Nos anos 1960 eram comuns as disputas pelo significado outros povos.
de termos usados no debate político, como democracia e FALCÃO, W. Cartas sindicais. In: Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e
reforma. Se, para os setores aglutinados em torno da UDN, Comércio. Rio de Janeiro, 10(85), set. 1974 (adaptado).
as reformas deveriam assegurar o livre mercado, para
Nesse documento oficial, à época do Estado Novo (1937-
aqueles organizados no CGT, elas deveriam resultar em
1945), é apresentada uma concepção de organização sin-
a) fim da intervenção estatal na economia. dical que
b) crescimento do setor de bens de consumo.
a) elimina os conflitos no ambiente das fábricas.
c) controle do desenvolvimento industrial.
b) limita os direitos dos associativos do segmento patronal.
d) atração de investimentos estrangeiros.
X c) orienta a busca do consenso entre trabalhadores e pa-
X e) limitação da propriedade privada.
trões.
O início da década de 1960 ficou marcado no Brasil pela luta por d) proíbe o registro de estrangeiros nas entidades profissio-
vários tipos de reformas. Esquerda e direita queriam reformas
bem diferentes. A direita queria manter seus privilégios adqui- nais do país.
ridos, ao passo que a esquerda só se satisfaria com drásticas e) desobriga o Estado quanto aos direitos e deveres da clas-
reduções no direito de propriedade da direita. se trabalhadora.
5 (Enem, 2011) Em plena ditadura Vargas, é implantado o sindicalismo brasileiro
numa concepção bem diferenciada do sindicalismo de um país
A introdução de novas tecnologias desencadeou democrata. Aqui ele foi criado para conseguir uma convivência
uma série de efeitos sociais que afetaram os trabalha- tranquila da classe operária com a classe patronal, altamente
dores e sua organização. O uso de novas tecnologias monitorada pelo Estado.
trouxe a diminuição do trabalho necessário que se tra- 7 (Enem, 2011)
duz na economia líquida do tempo de trabalho, uma
vez que, com a presença da automação microeletrôni- Que aspecto histórico da escravidão no Brasil do séc. XIX
ca, começou a ocorrer a diminuição dos coletivos ope- pode ser identificado a partir da análise do vestuário do casal
rários e uma mudança na organização dos processos retratado ao lado?
de trabalho. a) O uso de trajes simples indica a rápida incorporação dos
Revista Eletrônica de Geografia Y Ciências Sociales.
Universidad de Barcelona. Nº 170(9), 1 ago. 2004. ex-escravos ao mundo do trabalho urbano.
b) A presença de acessórios como chapéu e sombrinha
A utilização de novas tecnologias tem causado inúmeras aponta para a manutenção de elementos culturais de
alterações no mundo do trabalho. Essas mudanças são origem africana.
observadas em um modelo de produção caracterizado X c) O uso de sapatos é um importante elemento de diferen-
a) pelo uso intensivo do trabalho manual para desenvol- ciação social entre negros libertos ou em melhores con-
ver produtos autênticos e personalizados. dições na ordem escravocrata.
b) pelo ingresso tardio das mulheres no mercado de tra- d) A utilização do paletó e do vestido demonstra a tentativa
balho no setor industrial. de assimilação de um estilo europeu como forma de dis-
X c) pela participação ativa das empresas e dos próprios tinção em relação aos brasileiros.

36 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 36 22/11/16 13:02


A diferenciação entre o negro escravo e o liberto era notada pelo
e) a adoção de roupas próprias para o trabalho domés- calçado.
tico tinha como finalidade demarcar as fronteiras da
exclusão social naquele contexto.

ANOTAÇÕES

SOCIOLOGIA

Trabalho e sociedade 37

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 37 22/11/16 13:02


CONEXÃO DE SABERES

FABIO COLOMBINI

38 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 38 22/11/16 13:02


SOCIOLOGIA

Trabalho e sociedade 39

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 39 22/11/16 13:02


LEITURAS E ATIVIDADES
dicos, e os cortadores têm o seu próprio: “morte de câim-
PARAPARA REFLETIR
PRATICAR
bra”. Sabe o que é? A partir dos anos 90, com as máqui-
nas colheitadeiras, o sujeito tem como meta cortar 12
Morte de câimbra toneladas de cana por dia. Aí, vem a câimbra nos braços,
BRASÍLIA — A indústria fabrica mais e mais carros nas pernas e, enfim, no corpo todo. Na verdade, ele mor-
“flex” (a álcool e a gasolina), os usineiros fazem a festa, os re de estafa. [...]
preços só sobem, os consumidores se assustam e o gover- Espera-se que governo e produtores se entendam
no ameaça intervir. Você não acha que está faltando al- para um preço justo ao consumidor. E que, um dia, os
guém nessa história? trabalhadores também tenham direitos — a voz, a pressão
Todos estão pensando no seu bolso e no seu interes- e à própria vida.
se, mas ninguém se preocupa com a base dessa pirâmide: Cantanhêde, Eliane. Morte de câimbra. Folha de S.Paulo. São Paulo, 6
o cortador de cana — um dos trabalhadores mais explo- jan. 2006. Opinião, p. A2. Disponível em: <http://acesso.folha.com.br/
fsp/2006/01/06/2>. Acesso em: 27 ago. 2012.
rados do país.
É por isso que a CUT dá um grito e a socióloga Maria
Aparecida de Moraes Silva, professora visitante da USP e
titular da Unesp, quer saber o que, de toda essa pujança,
1 De acordo com o texto, em troca de um salário ínfimo, os cor-
de todos esses aumentos e de toda essa negociação em
torno do “flex”, vai sobrar para os cortadores de cana, tadores de cana são obrigados a trabalhar num tal ritmo que
cujas condições ela acompanha há mais de 30 anos, prin- chegam a se expor à morte. O que torna possível esse nível de
cipalmente na região de Ribeirão Preto (SP). exploração da mão de obra? Procure explicações, da perspec-
Esse trabalhador fica a ver navios boa parte do ano e tiva tanto do trabalhador quanto do empregador.
se esfalfa durante a safra (abril a novembro) por migalhas, 2 Os textos que você leu anteriormente podem ajudar a expli-
recebendo de R$ 2,20 a R$ 2,40 por tonelada de cana cor-
car a situação narrada? Justifique.
tada. E ainda paga o transporte, a pensão, a comida. E
manda o que sobra (deve ser mágico) para casa. Sim, por- 3 Lembrando-se do exemplo da produção do pão, dado no
que a maioria é migrante. Deixa a família e desce do norte
início desta unidade, descreva a rede de trabalho e de traba-
de Minas e do Nordeste para ganhar a vida — ou a morte.
lhadores envolvidos na produção de algum objeto presente
De meados de 2004 a novembro de 2005, morreram
no seu cotidiano. Aponte, nessa rede, os trabalhadores que
13 cortadores na região, geralmente homens jovens (o
possivelmente desenvolvem suas atividades em condições
mais velho tinha 55 anos). Há diferentes diagnósticos mé-
subumanas, como os cortadores de cana.
DELFIM MARTINS/PULSAR IMAGENS

Colheita manual de cana-de-açúcar


em Cordeirópolis, SP, 2010.

40 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 40 22/11/16 13:02


4 Como o trabalho do cortador de cana está relacionado ao outros bens sociais, incluindo a liberdade real, que deve
cotidiano de uma pessoa como você? ser repartido...
MÉDA, Dominique. O trabalho: um valor em vias de extinção. Lisboa: Fim de
século, 1999. p. 318-320.

PARA ORGANIZAR O CONHECIMENTO


1 Se o trabalho é uma das coisas mais importantes em nossa
Trabalho, um bem comum sociedade, como você responderia às questões que a auto-
Se não queremos modificar a maneira como o traba- ra desse texto formula?
lho hoje se reparte entre os indivíduos, é de facto porque
o trabalho constitui o principal meio de distribuição dos 2 Que sugestão você daria aos governantes do Brasil para de-
rendimentos [...], da proteção e das posições sociais: re- senvolver uma política de trabalho que seja de inclusão?
ver a maneira como se partilha o trabalho leva a repensar
também a repartição do conjunto dos bens sociais. Mas
será legítimo que o trabalho continue a exercer a função PARA
PARA PESQUISAR
PRATICAR
de distribuição das riquezas enquanto se reduz de facto,
enquanto nós desejamos a sua redução, e enquanto o
progresso técnico não pare de reduzir seu volume? Será 1 Junte-se a alguns colegas e consultem livros, jornais, revistas e
normal que a sua função continue a ser a mesma quando sites da internet para obter informações sobre a atual situação
o processo de entrada e de saída do mercado de trabalho do emprego no Brasil. Com base no material selecionado, fa-
não é nem controlado nem regulado, mas resulta das op- çam uma reflexão sobre os seguintes aspectos:
ções de actores privados cujo imperativo não é de manei-
ra nenhuma o emprego, mas a produção ou o seu próprio As principais causas do desemprego no Brasil e os seto-
desenvolvimento? Será legítimo que uma sociedade rica res mais atingidos.
deixe assim a repartição do conjunto dos bens sociais As carreiras ou áreas profissionais consideradas mais pro-
operar-se de uma maneira “natural”, selvagem e aleatória? missoras.
E sobretudo que se recuse a considerar o trabalho como
A profissão que os integrantes do grupo pretendem se-
um bem extremamente particular, cuja repartição e flu-
guir.
tuação devem ser reguladas, uma vez que se trata de um
bem que dá acesso a todos os demais? Uma sociedade 2 Junte-se a alguns colegas para entrevistar pessoas acima de
preocupada com o seu bem comum e com a sua coesão 50 anos. Procurem saber as diferenças e semelhanças do
social procederia, podemos estar certos, de outra manei- mercado de trabalho hoje e de quando elas começaram a
ra. Consideraria o trabalho, os rendimentos [...] e os be- vida profissional. Além disso, perguntem se elas já ficaram
nefícios até hoje ligados ao trabalho como outros tantos desempregadas, se já trabalharam informalmente e o que
bens que devem ser repartidos entre os seus membros e motivou essas experiências.
cuja repartição é constitutiva do próprio bem comum.
[...] LIVROS RECOMENDADOS
PARA PRATICAR
Vemos bem que o verdadeiro problema de nossas
sociedades não é de maneira nenhuma a penúria do tra-
balho, mas o facto de nos faltar um “modo de partilha
Indústria e trabalho no Brasil: limi-
EDITORA ATUAL

convincente”. Esta efectua-se hoje [...] “naturalmente”,


através da exclusão do mercado de trabalho das pessoas tes e desafios, de William Jorge Gerab
mais idosas ou mais frágeis, da existência de moratórias e Waldemar Rossi. São Paulo: Atual.
cada vez mais prolongadas antes da entrada dos jovens De modo didático, os autores analisam
no mercado de trabalho e da forte seletividade deste últi- a passagem do Brasil rural para o Bra-
mo: a nossa partilha opera-se através de um despejo na sil industrial e as consequências dessa
mudança.
SOCIOLOGIA
categoria do desemprego. [...]
Garantir um igual acesso ao trabalho não é contra-
ditório, muito pelo contrário, com o reequilíbrio das
nossas actividades entre esferas diferentes, nem com
uma redução do tempo de trabalho. [...] É precisamen-
te por ser o trabalho que continua, hoje, a dar acesso aos

Trabalho e sociedade 41

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 41 22/11/16 13:02


O que é trabalho, de Su- Weisberger em 2003, e trata da história de
EDITORA BRASILIENSE

Gerente editorial: M. Esther Nejm


zana Albornoz. São Paulo: uma jornalista recém-formada que conse-
Editor responsável: Glaucia Teixeira M. Thomé
Brasiliense. gue emprego como assistente de uma po- Coordenador de revisão: Camila Christi Gazzani
Nesse livro da coleção derosa editora da principal revista de moda Revisores: Cesar G. Sacramento, Eduardo Sigrist, Elza
Gasparotto, Felipe Toledo
“Primeiros passos”, a au- dos Estados Unidos: a Runaway. Na relação Coordenador de iconografia: Cristina Akisino
tora desenvolve uma entre a assistente e a editora, são expostas Pesquisa iconográfica: Cesar Atti
análise crítica dos diver- questões, como exigências do “mercado” e Licenciamento de textos: Érica Brambila
Gerente de artes: Ricardo Borges
sos modos de conceber uso de tecnologias, e estabelecidas regras, Coordenador de artes: José Maria de Oliveira
e organizar o trabalho ao longo da história. como o que vestir, o que comer, com quem Produtor de artes: Narjara Lara
Além disso, discute a possibilidade de cons- se relacionar, como e quando se dirigir à Assistentes: Jacqueline Ortolan, Paula Regina Costa
de Oliveira
truir uma sociedade em que o trabalho pos- superior. Ilustrações: Alex Silva, Luigi Rocco, Rogerio Soud
sa ser visto e vivido com prazer, e não com Segunda-feira ao sol Cartografia: Mario Yoshida, Portal de Mapas

DIREÇÃO DE FERNANDO LEÓN DE


ARANOA
Tratamento de imagens: Emerson de Lima
submissão. (Espanha, 2002). Dire-
Produtor gráfico: Robson Cacau Alves
ção: Fernando León Projeto gráfico de miolo: Daniela Amaral,
de Aranoa. Talita Guedes
EDITORA ÁTICA

Trabalho infantil: o difí- Colaboraram para esta Edição do Material:


cil sonho de ser criança, O filme está contex- Projeto Sistema SESI de Ensino
de Cristina Porto e outros. tualizado após a déca- Gestão do Projeto: Thiago Brentano
Coordenação do Projeto: Cristiane Queiroz
Repleto de fotografias e da de 1980, numa ci-
Coordenação Editorial: Simone Savarego, Rosiane
de depoimentos, esse li- dade costeira no norte Botelho e Valdete Reis

vro apresenta o universo da Espanha. Quando os estaleiros da cidade Revisão: Juliana Souza
Diagramação: Lab 212
do trabalho infantil de são fechados, vários trabalhadores ficam Capa: Lab 212
forma clara e objetiva. desempregados e à mercê de ocupações Ilustrações de capa: Aurielaki/Golden Sikorka/
Sentavio/Macrovector/Shutterstock
temporárias. O filme trata do desemprego
Consultores
SUGESTÃO DE FILMES de longa duração, de ofícios que se tornam
PARA PRATICAR Coordenação: Dr. João Filocre
obsoletos ou postos de trabalho que são Sociologia: Dra. Vera Alice Cardoso da Silva
SESI DN
extintos, e das consequências desses fatores
Superintendente: Rafael Esmeraldo Lucchesi
na vida de quatro personagens.
ELES NÃO USAM USAM
BLACK-TIE. LAURO ES-
COREL/EMBRAFILME

Ramacciotti
Diretor de Operações: Marcos Tadeu de Siqueira
Gerente Executivo de Educação: Sergio Gotti
Tempos modernos
UNITED ARTISTS/CHARLES CHA-
PLIN PRODUCTIONS

Gerente de Educação Básica: Renata Maria Braga


dos Santos
(Estados Unidos, 1936).
Direção: Charles Cha- Todos os direitos reservados por SOMOS Educação S.A.
plin. Avenida das Nações Unidas, 7221
Pinheiros – São Paulo – SP
Eles não usam black-tie (Brasil, 1981). Dire- Tempos modernos é CEP: 05425-902
ção: Leon Hirszman. um clássico da comé- (0xx11) 4383-8000
© SOMOS Sistema de Ensino S.A.
Em São Paulo, em 1980, o jovem operário dia satírica. Um traba-
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Tião e sua namorada Maria decidem se casar. lhador sofre em uma (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Ao mesmo tempo, eclode um movimento fábrica estruturada no modelo do fordis- Tomazi, Nelson Dacio
grevista que divide a categoria metalúrgica. mo-taylorismo, na qual o cronômetro e a Sistema de ensino ser : sociologia : 1º ano :
professor / Nelson Dacio Tomazi. -- 3. ed. --
Preocupado com o casamento e temendo linha de montagem são elementos visí- São Paulo : Ática, 2017.
perder o emprego, Tião fura a greve, entran- veis. Demitido da fábrica, o protagonista 1. Sociologia (Ensino médio) I. Título.
do em conflito com o pai, um velho militante encontra desventuras como guarda-no- 16-08238 CDD-301
sindical. turno, como garçom-cantor de músicas Índices para catálogo sistemático:
sem sentido e como presidiário. O filme 1. Sociologia : Ensino médio 301

O diabo veste Prada denuncia as dificuldades enfrentadas 2016


DAVID FRANKEL/FOX

(Estados Unidos, 2006). pelo trabalhador na década de 1930 nos ISBN 978 85 08 18420 0 (AL)
ISBN 978 85 08 18421 7 (PR)

Direção: David Frankel. Estados Unidos e, mais do que isso, na so- 3ª edição
ciedade capitalista. 1ª impressão
O filme é a adaptação de Impressão e acabamento
um livro, com o mesmo
título, escrito por Lauren
Uma publicação

42 Trabalho e sociedade

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 42 22/11/16 13:02


SOCIOLOGIA
Nelson Dacio Tomazi

A ESTRUTURA SOCIAL E AS DESIGUALDADES


1 Estrutura social e estratificação . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
As sociedades organizadas em castas . . . . . . . . . . . . . .4
As sociedades organizadas por estamentos . . . . . . . . . .6
Pobreza: condição de nascença,
desgraça, destino… . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .8
2 A sociedade capitalista e as
classes sociais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
Estratificação e mobilidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11
A desigualdade é constitutiva
da sociedade capitalista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .13
Desigualdades de riqueza, prestígio e poder . . . . . . . . .14
Oportunidades e estratificação . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15
Sobre a ideia de exclusão-inclusão . . . . . . . . . . . . . . . .16
3 As desigualdades sociais no Brasil . . . . . . . . . . . . . . 21
As explicações para a desigualdade . . . . . . . . . . . . . . .23
As desigualdades no Brasil
nos últimos 30 anos: renda, cor, gênero . . . . . . . . . . . .27
A invisibilidade das desigualdades . . . . . . . . . . . . . . . .30
Conexão de saberes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
Leituras e atividades. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2137657 (PR)

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 1 22/11/16 13:03


MÓDULO
A estrutura social e as
desigualdades

Podemos observar os sinais das desigualdades sociais em todos os


lugares, todos os dias. Basta sair às ruas para notar as diferenças nas
condições de vida das pessoas e verificar que um pequeno número delas
desfruta de muitos privilégios. Essas diferenças aparecem, de imedia-
to, em elementos materiais, como a moradia, as roupas, os meios de
locomoção. Mas elas também se manifestam no acesso à educação e à
cultura, os chamados bens simbólicos.
Normalmente, as desigualdades se evidenciam no dia a dia pelos
contrastes entre a riqueza e a pobreza, que podemos constatar com os
próprios olhos ou mediante as estatísticas e os meios de comunicação.
Por que existem as desigualdades sociais? Quais são as formas de
desigualdade existentes? Como elas se constituíram e como são expli-
cadas? Nesta unidade, vamos refletir sobre essas questões, focalizando
as diversas formas de desigualdade que se configuraram em diferentes
tempos e lugares, inclusive no Brasil.

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 2 22/11/16 13:03


ALEXANDRE AULER/OLHAR IMAGEM

Vista do Complexo do Alemão,


Rio de Janeiro, RJ, 2011.

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 3 22/11/16 13:03


CAPÍTULO

1 Estrutura social e
estratificação

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: A organização da sociedade, também chamada de estrutura social, constitui-se da relação


entre elementos de várias esferas, como a econômica e a política. Tal relação condiciona a maneira
c Compreender o como os indivíduos vivem. Trataremos nesta unidade de uma das características da estrutura de
conhecimento científico
uma sociedade: a estratificação, ou seja, a maneira como os diferentes indivíduos e grupos são
como resultado do
trabalho de gerações
classificados em estratos (camadas).
de seres humanos em A estratificação em diferentes sociedades foi analisada pelo sociólogo brasileiro Octavio Ianni
busca da compreensão (1926-2004) na introdução ao livro Teorias da estratificação social. Para ele, quando se estuda a
do mundo. estratificação em cada sociedade, é necessário verificar como se organizam:
as estruturas de apropriação (econômica), isto é, como cada estrato ou camada participa da
c Diferenciar os tipos
básicos de padrões riqueza gerada pela sociedade;
celulares e associá-los as estruturas de dominação (política), isto é, como o poder é exercido e qual é a participação de
à classificação dos cada camada ou estrato na sociedade.
seres vivos. É necessário lembrar, entretanto, que a estratificação não é definida apenas por esses fatores.
As estruturas de apropriação econômica e de dominação política são atravessadas por outros
elementos — como a religião, a etnia, o sexo, a tradição e a cultura —, que, de uma forma ou de
outra, influem no processo de divisão social do trabalho e no processo de hierarquização social.
Além disso, as estratificações sociais são produzidas historicamente, ou seja, são geradas por
situações diversas e se expressam na organização das sociedades em sistemas de castas, de esta-
mentos ou de classes. Conforme declarou Norbert Elias (1897-1990), cada caso precisa ser analisado
como uma configuração histórica particular.
Neste capítulo, vamos examinar os sistemas de castas e de estamentos; no próximo, tratare-
mos do sistema de classes, característico da sociedade capitalista.

AS SOCIEDADES ORGANIZADAS EM CASTAS


O sistema de castas é uma configuração social de que se tem registro em diferentes tempos
e lugares. No mundo antigo, há vários exemplos da organização em castas (na Grécia e na China
antigas, entre outros lugares). Mas é na Índia, ainda hoje, que está a expressão mais acabada desse
sistema.
O processo de constituição das castas e subcastas na sociedade indiana é muito antigo e se
consolidou há aproximadamente 3 mil anos. A hierarquização desse sistema é baseada em religião,
etnia, cor, hereditariedade e ocupação. Esses elementos definem a organização do poder político
e a distribuição da riqueza gerada pela sociedade. Apesar de na Índia haver hoje uma estrutura de
classes, o sistema de castas permanece mesclado a ela, o que representa uma dificuldade a mais
para entender a questão. O sistema sobrevive por força da tradição, pois legalmente foi abolido
em 1950.
Pode-se afirmar, em termos genéricos, que existem quatro grandes castas na Índia: a
dos brâmanes (casta sacerdotal, superior a todas as outras), a dos xátrias (casta intermedi-
ária, formada normalmente pelos guerreiros, que se encarregam do governo e da adminis-
tração pública), a dos vaixás (casta dos comerciantes, artesãos e camponeses, inferior à dos

4 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 4 22/11/16 13:03


AMIT DAVE/REUTERS/LATINSTOCK
xátrias) e a dos sudras (a casta dos inferiores, na qual se situ-
am aqueles que fazem trabalhos manuais considerados servis).
Os párias são os que não pertencem a nenhuma casta, e vivem, por-
tanto, fora das regras existentes. Há ainda um sistema de castas regio-
nais que se subdividem em outras tantas subcastas.
O sistema de castas caracteriza-se por relações muito estan-
ques, isto é, quem nasce numa casta não tem como sair dela e passar
para outra. Não há, portanto, mobilidade social nesse sistema. Os
elementos mais visíveis da imobilidade social são a hereditariedade,
a endogamia (casamentos só entre membros da mesma casta), as
regras relacionadas à alimentação (o preparo dos alimentos e as re-
feições são restritos aos integrantes da mesma casta) e a proibição
do contato físico entre membros das castas inferiores e superiores.
Repulsão, hierarquia e especialização hereditária são as palavras-cha- Lavagem de pratos após
ve para definir o sistema de castas, de acordo com o sociólogo francês Célestin Bouglé (1870- banquete religioso organizado
por brâmanes em Ahmedabad,
-1940), discípulo de Émile Durkheim (1858-1917). noroeste da Índia, em 2012. O
Nenhum sistema, entretanto, é totalmente rígido, nem o de castas. Embora seja proibido, as lavador de pratos herdou essa
função de seus antepassados e a
castas inferiores adotam costumes, ritos e crenças dos brâmanes, e isso cria certa homogeneidade passará para seus filhos.
de costumes entre castas. A rigidez das regras também é relativizada por casamentos entre mem-
bros de castas diferentes (menos com os brâmanes), o que não é comum, mas acontece.
A urbanização e a industrialização crescentes e a introdução dos padrões comportamentais
do Ocidente têm levado elementos de diferentes castas a se relacionar. Isso vai contra a persis-
tência dos padrões mais tradicionais, pois, no sistema capitalista, no qual a Índia está fortemente
inserida, a estruturação societária anterior só se mantém se é fundamental para a sobrevivência
do próprio sistema.
A desintegração gradativa do sistema de castas não significa, entretanto, que as normas e
os costumes relacionados com a diferenciação em castas tenham desaparecido do cotidiano das
pessoas. Isso é confirmado pela existência de programas de cotas de inclusão para as castas con-
sideradas inferiores nas universidades públicas.

MOHAMED AL-SAYAGHI/REUTERS/LATINSTOCK

Família Akhdam na
caverna onde reside,
perto de Sana, a
capital do Iêmen, em SOCIOLOGIA
2013. Como os párias,
na Índia, os Akhdam
(“servos”, em árabe) não
podem se aproximar
de outras camadas
da população e sua
condição é definida por
hereditariedade.

A estrutura social e as desigualdades 5

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 5 22/11/16 13:03


NAS PALAVRAS DE BOUGLÉ

Castas
[...] a palavra casta parece despertar, de início, a ideia de especialização hereditária. Ninguém, a não ser o filho, pode con-
tinuar a profissão do pai; e o filho não pode escolher outra profissão a não ser a do pai. [...] [É] um dever de nascimento. [...]
A palavra casta não faz pensar apenas nos trabalhos hereditariamente divididos, e sim também nos direitos desigualmente
repartidos. Quem diz casta não diz apenas monopólio, diz também privilégio. [...] O “estatuto” pessoal de uns e de outros é
determinado, por toda a vida, pela categoria do grupo ao qual pertencem. [...]
Quando declaramos que o espírito de casta reina em dada sociedade, queremos dizer que os vários grupos dos quais essa
sociedade é composta se repelem, em vez de atrair-se, que cada um desses grupos se dobra sobre si mesmo, se isola, faz quan-
to pode para impedir seus membros de contrair aliança ou, até, de entrar em relação com os membros dos grupos vizinhos. [...]
Repulsão, hierarquia, especialização hereditária, o espírito de casta reúne essas três tendências. Cumpre retê-las a todas se
se quiser chegar a uma definição completa do regime de castas.
Bouglé, C. O sistema de castas. In: Ianni, Octavio (org.). Teorias da estratificação social. São Paulo: Nacional, 1973. p. 90-91.

AS SOCIEDADES ORGANIZADAS POR ESTAMENTOS


O sistema de estamentos ou estados constitui outra forma de es-
tratificação social. A sociedade feudal organizou-se dessa maneira. Na
França, por exemplo, no final do século XVIII, às vésperas da revolução
MUSEU CARNAVALET, PARIS, FRANÇA/THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE

havia três estados: a nobreza, o clero e o chamado terceiro estado, que


incluía todos os outros membros da sociedade — comerciantes, indus-
triais, trabalhadores urbanos, camponeses etc.
De acordo com o sociólogo Octavio Ianni, no livro Teorias da es-
tratificação social, a sociedade estamental é fundamentada nas relações
recíprocas e hierárquicas com base na tradição, linhagem, vassalagem,
honra e cavalheirismo. Essas categorias predominam no pensamento
e na ação das pessoas, regulando as relações de poder e as relações
econômicas.
Assim, o que identifica um estamento é o que também o diferen-
cia, ou seja, um conjunto de direitos e deveres, privilégios e obrigações
aceitos como naturais e publicamente reconhecidos, mantidos e susten-
tados pelas autoridades oficiais e também pelos tribunais.
Um exemplo dado pelo sociólogo brasileiro José de Souza Martins
(1938-) ilustra bem isso. Ele declara, em seu livro A sociedade vista do
abismo: novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais, que
durante uma pesquisa no mosteiro de São Bento, na cidade de São
Paulo, encontrou um livro da segunda metade do século XVIII, no qual
havia dois registros de doações (esmolas): uma feita para um nobre po-
bre (os nobres podiam tornar-se pobres, mas não perdiam a condição
de nobres), que recebeu 320 réis; outra, para um pobre que não era
nobre, que recebeu 20 réis. Comenta o sociólogo que “um nobre pobre,
na consciência social da época e na realidade das relações sociais, valia
dezesseis vezes um pobre que não era nobre […] porque as necessidades
Representação dos três estamentos ou de um nobre pobre eram completamente diferentes das necessidades
estados na França: o camponês carrega
nas costas o clérigo e o nobre. Abaixo da sociais de um pobre apenas pobre”.
imagem está escrito: “espera-se que esta Atualmente, se alguém decide dar esmola a uma pessoa que está em situação precária, ja-
situação termine logo”. Ilustração de 1789,
de autor desconhecido.
mais leva em consideração as diferenças sociais de origem do pedinte, pois parte do pressuposto
de que elas são puramente econômicas. José de Souza Martins conclui que basicamente é isso
o que distingue estamento de classe social.

6 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 6 22/11/16 13:03


Numa sociedade estamental, a condição dos indivíduos e dos grupos

MUSEU CARNAVALET, PARIS, FRANÇA/THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE


em relação ao poder e à participação na riqueza produzida pela sociedade
não é uma questão somente de fato, mas também de direito. Na socie-
dade feudal, por exemplo, os indivíduos eram diferenciados desde que
nasciam, ou seja, os nobres tinham privilégios e obrigações que em nada
se assemelhavam aos direitos e deveres dos camponeses e dos servos,
porque a desigualdade, além de existir de fato, transformara-se em direito.
Existia assim um direito desigual para desiguais.
A mobilidade de um estamento para outro era possível, mas muito
controlada — alguns chegavam a conseguir títulos de nobreza, o que, no
entanto, não significava obter o bem maior, que era a terra. A propriedade
da terra definia o prestígio, a liberdade e o poder dos indivíduos. Os que
não a possuíam eram dependentes, econômica e politicamente, além de
ser considerados socialmente inferiores.
O que explica, entretanto, a relação entre os estamentos é a recipro-
cidade. No caso das sociedades do período feudal, existia uma série de
obrigações dos servos para com os senhores (trabalho) e destes para com
aqueles (proteção), ainda que os servos estivessem sempre em situação
de inferioridade.
Entre os proprietários de terras, havia uma relação de outro tipo:
Representação dos três estamentos ou
um senhor feudal (suserano) exigia serviços militares e outras obrigações dos senhores a ele su- estados na França: o camponês carrega
bordinados (vassalos). Formava-se, então, uma rede de obrigações recíprocas, como também de nas costas o clérigo e o nobre. Abaixo da
imagem está escrito: “espera-se que esta
fidelidade, observando-se uma hierarquia em cujo topo estavam os que dispunham de mais ter- situação termine logo”. Ilustração de 1789,
ras e de mais homens armados. Mas o que prevalecia era a desigualdade como um fato natural. de autor desconhecido.

Sobre os estamentos na sociedade medieval


Os documentos a seguir são excertos de textos escritos no período medieval. O primeiro foi extraído das Partidas, uma coletânea de leis,
redigida em Castela durante o reinado de Alfonso X (1252-1284), abarcando todo o saber jurídico da época na área do Direito Constitucional,
Civil, Mercantil, Penal e Processual. O segundo é da autoria de Adalberon (?-1031), bispo de Laon, que era encarregado de organizar a legislação
da Igreja na França.
Dos Cavaleiros e das coisas que lhes convêm fazer
Os defensores são um dos três estados por que Deus quis que se mantivesse o mundo: e assim como aqueles que rogam a
Deus pelo povo são chamados oradores e os que lavram a terra e fazem aquelas coisas que permitem aos homens viver e
manter-se são chamados lavradores, outrossim, os que têm de defender a todos são chamados defensores. Portanto, os antigos
fizeram por bem que os homens que fazem tal obra fossem muito escolhidos porque para defender são necessárias três coisas:
esforço, honra e poderio.
Partidas P. II, t. XXI.
A sociedade estamental
A ordem eclesiástica não compõe senão um só corpo. Em troca, a sociedade está dividida em três ordens. Além da já cita-
da, a lei reconhece outras duas condições: a do nobre e a do servo que não são regidas pela mesma lei. Os nobres são os
guerreiros, os protetores das igrejas, defendem a todo o povo, aos grandes da mesma forma que aos pequenos e ao mesmo
tempo se protegem a eles mesmos. A outra classe é a dos servos, esta raça de desgraçados não possui nada sem sofrimento,
fornecem provisões e roupas a todos pois os homens livres não podem valer-se sem eles. Assim, pois, a cidade de Deus que é
tomada como una, na realidade é tripla. Alguns rezam, outros lutam e outros trabalham. As três ordens vivem juntas e não
SOCIOLOGIA

podem ser separadas. Os serviços de cada uma dessas ordens permitem os trabalhos das outras e cada uma por sua vez pres-
ta apoio às demais. Enquanto esta lei esteve em vigor, o mundo ficou em paz, mas, agora, as leis se debilitam e toda a paz
desaparece. Mudam os costumes dos homens e muda também a divisão da sociedade.
Adalberon — Carmen ad Rotbertum regem francorum, P.L.CXLI.
Artola, Miguel. Textos fundamentales para la Historia. Madrid: Revista de Occidente, 1975. p. 70-71. Apud: Pinsky, Jayme (org.). Modo de produção feudal. 2.
ed. São Paulo: Global, 1982. p. 71.

A estrutura social e as desigualdades 7

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 7 22/11/16 13:03


Muitas vezes utilizamos o termo estamento para designar determinada categoria ou ativida-
de profissional que tem regras muito precisas para que se ingresse nela ou para que o indivíduo
se desenvolva nela, com um rígido código de honra e de obediência — por exemplo, a categoria
dos militares ou a dos médicos. Assim, usar as expressões “estamento militar” ou “estamento
médico” significa afirmar as características que definiam as relações na sociedade estamental.

POBREZA: CONDIÇÃO DE NASCENÇA, DESGRAÇA,


DESTINO…
A pobreza, que é a expressão mais visível das desigualdades, recebeu, ao longo da história,
diferentes explicações.
No período medieval, o pobre era um personagem complementar ao rico. Não eram critérios
econômicos ou sociais que definiam a pobreza, mas a condição de nascença, como afirmava a Igreja
Católica, que predominava na Europa ocidental. Havia até uma visão positiva da pobreza, pois
esta despertava a caridade e a compaixão. E não se tratava de uma situação fixa, pois, como havia
uma moral positiva, podiam ocorrer situações compensatórias em que os ricos eram considerados
“pobres em virtude” e os pobres, “ricos em espiritualidade”. De acordo com essa visão cristã de
mundo, os ricos tinham a obrigação moral de ajudar os pobres.
Outra explicação paralela, comum no mesmo período, atribuía a pobreza a uma desgraça
decorrente das guerras ou de adversidades como doenças ou deformidades físicas.
Isso tudo mudou a partir do século XVI, quando o indivíduo começou a se tornar o centro
das atenções. O pobre passou a encarnar uma ambiguidade: representava a pobreza de Cristo e, ao
mesmo tempo, era um perigo para a sociedade. Sendo uma ameaça social, a solução era disciplina
e enquadramento. O Estado “herdou” a função de cuidar dos pobres, antes atribuída aos ricos.
Com o crescimento da produção e do comércio, principalmente na Inglaterra, houve ne-
cessidade crescente de mão de obra, e a pobreza e a miséria passaram a ser interpretadas como
resultado da preguiça e da indolência dos indivíduos que não queriam trabalhar, uma vez que
havia muitas oportunidades de emprego. Essa justificativa tinha por finalidade fazer que as grandes
massas se submetessem às condições do trabalho industrial emergente.
No final do século XVIII, com o fortalecimento do liberalismo, outra justificativa foi formula-
da: as pessoas eram responsáveis pelo próprio destino e ninguém era obrigado a dar emprego ou
assistência aos mais pobres. Muito ao contrário, dizia-se que era necessário manter o medo à fome
para que os trabalhadores realizassem bem suas tarefas.
Com base nas teorias do economista e demógrafo britânico Thomas Malthus (1766-1834),
segundo as quais a população crescia mais que os meios de subsistência, afirmava-se que a assis-
tência social aos pobres era repudiável, uma vez que os estimularia a ter mais filhos, aumentando
assim sua miséria. Posteriormente, apareceram recomendações e orientações de abstinência sexual
e casamento tardio para os pobres, pois desse modo teriam menos filhos.
Em meados do século XIX, difundiu-se a ideia de que os trabalhadores eram perigosos por
duas razões: eles poderiam não só transmitir doenças porque viviam em condições precárias de
saneamento e de saúde, como também se rebelar, promover movimentos sociais e revoluções,
questionando os privilégios das outras classes, que possuíam riqueza e poder.

8 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 8 22/11/16 13:03


CENÁRIOS DAS DESIGUALDADES

As castas no Japão lheres adúlteras e suicidas fracassados, e os burakumins,


A desigualdade com base nas castas não é uma coisa do pessoas encarregadas de matar, limpar e preparar os animais
passado no Japão, apesar de toda a modernização e da para o consumo.
presença de alta tecnologia. Oficializadas durante o perío- A classificação social dos burakumins tinha motivos religio-
do Edo (1600-1868), as castas foram abolidas em 1871. sos. Um desses motivos provém do xintoísmo, que relaciona
A casta de maior importância era a dos samurais, seguida, morte a sujeira, e o outro provém do budismo, que consi-
em ordem decrescente, pela dos agricultores, pela dos ar- dera indigna a matança de animais. Na soma das duas cren-
tesãos e pela dos comerciantes. Havia ainda os párias (os ças, quem tivesse o ofício de trabalhar com couro ou carne
desclassificados) — entre eles, os hinins, aqueles que eram de animais mortos deveria ser isolado e condenado a uma
considerados “não gente”, como mendigos, coveiros, mu- situação subalterna.

YURIKO NAKAO/REUTERS/LATINSTOCK

FRANK ZELLER/AFP
Acima, catador de latas em Kawasaki, ao sul de Tóquio, em
2008. É integrante da camada dos desclassificados, como os
coveiros e os burakumins. Ao lado, membro da Yakuza com
tatuagens características em Tóquio, Japão, em 2009.
Muitos burakumins uniram-se à Yakuza, a máfia japonesa,
formada entre os séculos XVII e XVIII por membros das castas
malvistas pela sociedade tradicional.

Os descendentes dos burakumins, cerca de 3 milhões de Reestamentalização da sociedade?


pessoas, ainda vivem segregados e dificilmente conseguem Uma indicação de consciência estamental a que me refiro
empregos que não sejam de lixeiros, limpadores de esgo- está nos crimes de adolescentes. [...] A gangue de adolescen-
tos ou de ruas. Quando revelam sua ascendência, a vida tes que numa madrugada de abril de 1997 queimou vivo um
deles é sempre investigada, seja no ato de pedir emprego, índio pataxó hã-hã-hãe que dormia num banco de um pon-
seja nas tentativas de se casar. to de ônibus, em Brasília, agiu orientada por motivações
O governo japonês criou programas voltados para comba- estamentais. Isso ficou claro quando alegaram ter cometido
ter essa discriminação; entretanto, isso não se resolve por o crime (bestial, aliás) porque pensaram que se tratava de
decreto, pois as questões culturais são mais fortes que os um mendigo. Isto é, para eles há duas humanidades quali-
decretos governamentais. Há também, desde 1922, asso- tativamente distintas, uma mais humana (a deles) e outra SOCIOLOGIA
ciações de burakumins, que procuram lutar contra a se- menos humana (a do mendigo).
gregação, que, de maneira generalizada, está tanto no in- Eles invocam, portanto, distinções baseadas na ideia de que
terior das pequenas vilas quanto nas grandes empresas. as diferenças sociais não são apenas diferenças de riqueza,
mas diferenças de qualidade social das pessoas, como era
próprio da sociedade estamental.
Martins, José de Souza. A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre
exclusão, pobreza e classes sociais. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 132.

A estrutura social e as desigualdades 9

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 9 22/11/16 13:03


ANDERSON BARBOSA/FOTOARENA

Morador de rua na capital de São


Paulo, em pleno inverno de 2011:
uma evidência da desigualdade
de renda ou da desigualdade de
qualidade social?

1 Os dois textos e a imagem acima apontam a permanência de aspectos relacionados aos sistemas de castas e de estamentos na
sociedade contemporânea. Cite outras situações nas quais se observa alguma característica dessas formas de desigualdade no
mundo atual.

2 Com base na análise do que constitui uma casta e um estamento, como você explica a permanência desses tipos de desigualdade?

TAREFA PARA CASA

1 Leia o texto abaixo.

MUSEU CONDÉ, CHANTILLY, FRANÇA


Quando declaramos que o espírito de casta reina em
dada sociedade, queremos dizer que os vários grupos dos
quais essa sociedade é composta se repelem, em vez de
atrair-se, que cada um desses grupos se dobra sobre si mes-
mo, se isola, faz quanto pode para impedir seus membros
de contrair aliança ou, até, de entrar em relação com os
membros dos grupos vizinhos. [...]
Célestin Bouglé
Tendo em vista o que estudou sobre as estruturas so- O trabalho
ciais e o que leu neste texto, cite casos reais em que você no feudo
representado
observa hábitos sociais e atitudes de grupos ou pessoas que em iluminura do
confirmam a manutenção de certo espírito de casta no século XV.
mundo atual.
Dar liberdade ao aluno de citar, se possível indicando fontes, os 3 Confirme, com a pesquisa de notícias recentes sobre a Ín-
casos que ele julgar denotarem a presença desse espírito. Há dis- dia, a manutenção de costumes derivados do sistema de
criminações comuns em vários países, no dia a dia, muito próxi- castas na atual sociedade indiana, apesar de sua abolição
mas disso: minorias, racismo, antissemitismo, xenofobia, grupos
de sem-terra, sem-teto etc.
legal desde 1950.
Tem havido muitas notícias sobre a pobreza na Índia, em princípio de-
2 Observe a imagem. rivada da divisão de castas, que precisará de décadas para se reduzir.
A mídia tem comentado muito o grande percentual de miseráveis,
Quais elementos desta cena você destacaria para caracteri- o problema da fome, a total falta de infraestrutura e saneamento
zar uma sociedade estamental? básico, a frequência com que ocorrem estupros em lugares públi-
cos, a persistência de regiões subassistidas pelos governos. Com as
informações pesquisadas, a classe terá acesso a um grave proble-
Resposta pessoal.
ma que perdura num país com boa evolução econômica e péssimas
condições de vida para a maioria de seus 1,21 bilhão de habitantes.

10 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 10 22/11/16 13:03


CAPÍTULO

2 A sociedade capitalista e as
classes sociais

Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: O termo classe costuma ser empregado de muitas maneiras. Diz-se, por exemplo, “alguém tem
classe”, “classe política”, “classe dos professores” etc. Essas são formas que o senso comum utiliza para
c Identificar e reconhecer caracterizar determinado tipo de comportamento ou para definir certos grupos sociais ou profis-
as diferenças das
sionais.
classes sociais.
Sociologicamente, utiliza-se o termo na explicação da estrutura da sociedade capitalista com
c Compreender que base na classificação ou hierarquização dos grupos sociais. Assim, quando se consideram as profissões,
as desigualdades é mais correto falar em categoria profissional dos professores, advogados etc.
são constituídas A sociedade capitalista é dividida em classes e, como tal, tem uma estrutura histórica particular.
historicamente.
Nela está evidente que as relações e estruturas de apropriação (econômica) e dominação (política)
definem a estratificação social. Os outros fatores de distinção e diferenciação, como a religião, a honra,
a ocupação e a hereditariedade, apesar de existirem, não são tão fortes como nas sociedades de castas
e de estamentos. As classes sociais expressam, no sentido mais preciso, a forma como as desigualdades
se estruturam na sociedade capitalista.

REVISTA VEJA LUXO, AGOSTO DE 2012


Anúncio de imóvel de alto padrão em edição voltada para o consumidor de luxo brasileiro. Semanário
publicado em agosto de 2012.

ESTRATIFICAÇÃO E MOBILIDADE
A análise da estratificação de uma sociedade depende do ponto de vista do investigador e
SOCIOLOGIA

do critério utilizado na classificação dos grupos sociais. Entretanto, de diferentes pontos de vista
e abordagens, evidencia-se que as sociedades capitalistas caracterizam-se, em grau variável, pelas
desigualdades:
na apropriação da riqueza, expressa normalmente pela propriedade e pela renda, mas evidente
também no consumo de bens;
na participação nas decisões políticas, manifestando-se pelo maior ou menor poder que indivíduos

A estrutura social e as desigualdades 11

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 11 22/11/16 13:03


e grupos têm de decidir, ou forçar decisões a seu favor, e de deter o poder econômico;
na apropriação dos bens simbólicos, que se expressa no acesso à educação e aos bens culturais,
como museus, teatros, livros etc.
As questões que envolvem propriedade, renda, consumo, educação formal, poder e conheci-
mento, vinculadas ou não, definem a forma como as diferentes classes se relacionam na sociedade.
Observadas diretamente ou pelos meios de comunicação, as desigualdades nessas sociedades, sejam
estas desenvolvidas ou não, são incontestáveis, expressando-se mais agudamente na pobreza e na
miséria.
A mobilidade social nas sociedades capitalistas é maior do que nas organizadas em castas ou
estamentos, mas não é tão ampla quanto pode parecer. As barreiras para a ascensão social não estão
escritas nem são declaradas abertamente, mas estão dissimuladas nas formas de convivência social.
Quando os trabalhadores começaram a se organizar e lutar por melhores condições de traba-
lho e de vida, abandonou-se o discurso de que os pobres deveriam ser deixados à própria sorte e
procurou-se difundir a ideia de que todo indivíduo competente pode vencer na vida. A concepção
de que o medo à fome incentiva o trabalho foi substituída pelo otimismo da pro-
© LINSEY ADDARIO/VII/CORBIS/LATINSTOCK
moção do indivíduo pelo trabalho. Esforçando-se, os trabalhadores qualificados
teriam a possibilidade de se converter em capitalistas. A célebre frase publicada em
1888 na revista estadunidense The Nation exemplifica bem esse pensamento: “Os
capitalistas de hoje foram os trabalhadores de ontem e os trabalhadores de hoje
serão os capitalistas de amanhã”.
O que diferencia, então, a sociedade capitalista das outras? No que se refere à
desigualdade, somente a forma como ela se efetiva. Mas as explicações dadas para
as desigualdades mudam radicalmente. Como já vimos, nas sociedades divididas
em castas ou estamentos, os indivíduos nascem desiguais e assim vivem. Na socie-
dade capitalista, a desigualdade é algo que faz parte de sua constituição, ou seja, ela
se forma e se desenvolve tendo a exploração como fundamento. A desigualdade
não existe só no nascimento, mas é reproduzida incessantemente, todos os dias.
Entretanto, há um discurso segundo o qual todos têm as mesmas oportunidades
e, mais ainda, pelo trabalho podem prosperar e enriquecer.
Muito se escreveu sobre a estratificação e as desigualdades sociais na socie-

MOACYR LOPES JUNIOR/FOLHAPRESS


Acima, criança em estado de saúde crítico à espera de
atendimento médico e medicamentos em campo de
refugiados em Nyala, Sudão, em 2009. À direita, linha de
produção de empresa farmacêutica em Itapira, São Paulo, em
2006. Para evitar a falta de acesso a medicamentos, governos
de vários países, organismos internacionais e organizações
não governamentais, contrapondo--se aos interesses da
indústria farmacêutica mundial, têm se empenhado em
favor do licenciamento compulsório para a produção de
medicamentos genéricos de baixo custo.

12 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 12 22/11/16 13:03


dade capitalista. Vamos analisar a seguir as ideias de alguns autores que representam concepções
diversas para explicar esse fenômeno fundamental em nossa sociedade.

A DESIGUALDADE É CONSTITUTIVA DA SOCIEDADE


CAPITALISTA
Como já vimos, Karl Marx (1818-1883) colocou a questão das classes no centro de sua análise
da sociedade dos indivíduos. Afirmou que as sociedades capitalistas são regidas por relações em que
o capital e o trabalho assalariado são dominantes e a propriedade privada é o fundamento e o bem
maior a ser preservado. Nesse contexto, pode-se afirmar que existem duas classes fundamentais: a
burguesia, que personifica o capital, e o proletariado, que vive do trabalho assalariado. Elas convivem
em contínuo conflito de interesses e têm diferentes visões do mundo.
Afirmar que nas sociedades capitalistas essas duas classes são as fundamentais não quer dizer,
contudo, que se pode reduzir a diversidade social a uma polaridade. O processo histórico de consti-
tuição das classes e a forma como elas se estruturaram determinaram o aparecimento de uma série
de frações, bem como de classes médias ou intermediárias, que ora apoiam a burguesia, ora se juntam
ao proletariado, podendo ainda, em certos momentos, desenvolver lutas particulares. Portanto, não
se pode estabelecer a posição das classes na sociedade em que estão inseridas apenas com base em
seu lugar na produção, mesmo que este seja o fator principal.
Para identificar as classes numa sociedade capitalista é necessário fazer uma análise da consti-
tuição histórica dessas classes e do modo como se enfrentaram politicamente, principalmente nos
momentos mais decisivos. É nesse processo que aparecem e se desvendam as características e os in-
teresses de classe, tanto das fundamentais como das intermediárias (formadas por pequenos proprie-
tários, pequenos comerciantes, profissionais liberais, gerentes, supervisores, enfim, toda uma parcela
da população que se encontra entre os grandes proprietários e os operários).
Portanto, para Marx, não há uma classificação a priori das classes em determinada sociedade.
É necessário analisar historicamente cada sociedade e perceber como as classes se constituíram no
processo de produção da vida social. Assim, a questão das desigualdades entre as classes não é algo
teórico, mas algo real, que se expressa no cotidiano. Por isso, Marx sempre analisa a questão das classes
sociais com base na relação e nos conflitos entre elas.

A luta de classes
Para Marx, a estrutura de classes na sociedade capitalista é o que melhor a explica, sendo o
antagonismo entre a burguesia e o proletariado a base da transformação social. A luta de classes
é fundamental no pensamento marxista, pois nela está a chave para se compreender a vida social
contemporânea e transformá-la. E por luta de classes entende-se não somente o confronto armado,
mas também todos os procedimentos institucionais, políticos, policiais, legais e ilegais que a classe
dominante utiliza para manter o status quo.
O conflito entre as classes manifesta-se no modo de organizar o processo de trabalho e de dis-
tribuir diferentemente a riqueza gerada pela sociedade; nas ações dos trabalhadores, do campo e da
cidade, orientadas para diminuir a exploração e a dominação; na formação de movimentos políticos
para mudar a sociedade.
Essa luta vem se desenvolvendo há mais de 200 anos em muitos países e nas mais diversas si- SOCIOLOGIA
tuações, pois empresários e trabalhadores têm interesses opostos. O Estado tenta reduzir o conflito
mediante a elaboração de leis que, segundo Marx, normalmente são a favor dos capitalistas.

A mais-valia
Um conceito marxista fundamental para entender a exploração do trabalhador pelo capitalista
é o de mais-valia: a diferença entre o que o trabalhador produz e o valor do salário que ele recebe.
Para explicar melhor esse conceito, vamos utilizar o exemplo de um operário contratado para

A estrutura social e as desigualdades 13

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 13 22/11/16 13:03


trabalhar em uma indústria. Ao assinar o contrato, ele aceita trabalhar, por exemplo, oito horas diá-
rias, ou 40 horas semanais, em troca de determinado salário. O capitalista passa, a partir daí, a ter o
direito de utilizar essa força de trabalho no interior da fábrica. O trabalhador, em quatro ou cinco
horas diárias, produz o referente ao valor de seu salário total; as horas restantes, nas quais ele continua
produzindo, são apropriadas pelo capitalista. Isso significa que, diariamente, o empregado trabalha
três a quatro horas para o dono da empresa, sem receber pelo que produz. O que ele produz nessas
horas a mais constitui a mais-valia.
No processo de extração de mais-valia, os capitalistas utilizam duas estratégias: aumentam o
número de horas trabalhadas mediante a contratação de mais funcionários ou da ampliação das
jornadas de trabalho, gerando a mais-valia absoluta; introduzem diversas tecnologias e equipamentos
a fim de aumentar a produção com a mesma quantidade de trabalhadores (ou mediante a redução
dessa quantidade), elevando a produtividade do trabalho, mas mantendo o mesmo salário, gerando
a mais-valia relativa.
O capitalista reaplica parte do montante apropriado na produção de mercadorias e acumula
outra parte. Esse processo é o que Marx chama de acumulação de capital, ou seja, a acumulação de
mais-valia ou de trabalho não pago.

NAS PALAVRAS DE MARX

Definindo as classes sociais


No que me diz respeito, nenhum crédito me cabe pela descoberta da existência de classes na sociedade moderna ou da
luta entre elas. Muito antes de mim, historiadores burgueses haviam descrito o desenvolvimento histórico da luta de classes, e
economistas burgueses, a anatomia econômica das classes. O que fiz de novo foi provar: 1. que a existência de classes somen-
te tem lugar em determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção; 2. que a luta de classes necessariamente
conduz à ditadura do proletariado; 3. que esta mesma ditadura não constitui senão a transição no sentido da abolição de
todas as classes e da sociedade sem classes.
Marx, Karl. Correspondência a J. Weydemeyer em 5 de março de 1872. In: Ianni, Octavio (org.). Marx: Sociologia. São Paulo: Ática, 1979. p. 14.
[...]
De todas as classes que hoje em dia se opõem à burguesia, só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária.
As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria; o proletariado, pelo contrário, é seu pro-
duto mais autêntico.
As camadas médias — pequenos comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos, camponeses — combatem a burguesia
porque esta compromete sua existência como camadas médias. Não são, pois, revolucionárias, mas conservadoras; mais ainda,
são reacionárias, pois pretendem fazer girar para trás a roda da História. Quando se tornam revolucionárias, isso se dá em con-
sequência de sua iminente passagem para o proletariado; não defendem então seus interesses atuais, mas seus interesses futuros;
abandonam seu próprio ponto de vista para se colocar no do proletariado.
[...]
Marx, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 1998. p. 49.

DESIGUALDADES DE RIQUEZA, PRESTÍGIO E PODER


Max Weber (1864-1920), ao analisar a estratificação social, parte da distinção entre as seguintes
dimensões:
econômica — quantidade de riqueza (posses, bens e renda) que as pessoas possuem;
social — status ou prestígio que as pessoas ou grupos têm, seja na profissão, seja no estilo de vida;
política — quantidade de poder que as pessoas ou grupos detêm nas relações de dominação em
uma sociedade.
Partindo dessas três dimensões, ele afirma que muitas pessoas podem ter renda e posses, mas
não prestígio, nem status, nem posição de dominação. Um indivíduo que recebe uma fortuna ines-
perada, por exemplo, não conquista, necessariamente, prestígio ou poder.
Outras pessoas podem ter poder e não ter riqueza correspondente à dominação que exercem.
Exemplos disso são pessoas ou grupos que se instalam nas estruturas de poder estatal e burocrático
e nelas permanecem durante muito tempo, podendo até conseguir riqueza.

14 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 14 22/11/16 13:03


Outras pessoas, ainda, como alguns cientistas ou

ED FERREIRA/AE
intelectuais consagrados, podem ter certo status e pres-
tígio na sociedade, mas não possuir riqueza nem poder.
Weber concebe, assim, hierarquias sociais basea-
das em fatores econômicos (as classes), em prestígio
e honra (os grupos de status) e em poder político (os
grupos de poder).
Para ele, classe é todo grupo humano que se en-
contra em igual situação de classe, isto é, os membros
de uma classe têm as mesmas oportunidades de acesso
a bens, a posição social e a um destino comum. Essas
oportunidades são derivadas, de acordo com determi-
nada ordem econômica, das possibilidades de dispor
de bens e serviços.

Casa lotérica em Aparecida de Goiânia, GO, de onde saiu o


jogo premiado de 12 de janeiro de 2007. O vencedor da Mega
Sena ganhou riqueza. Ganhou com isso prestígio e poder?
NAS PALAVRAS DE WEBER

Classes e situação de classe


[...]
Podemos falar de uma “classe” quando: 1) certo número de pessoas tem em comum um componente causal específico em
suas oportunidades de vida, e na medida em que 2) esse componente é representado exclusivamente pelos interesses econô-
micos da posse de bens e oportunidades de renda, e 3) é representado sob as condições de mercado de produtos ou mercado
de trabalho. [Esses pontos referem-se à “situação de classe”, que podemos expressar mais sucintamente como a oportunidade
típica de uma oferta de bens, de condições de vida exteriores e experiências pessoais de vida, e na medida em que essa opor-
tunidade é determinada pelo volume e tipo de poder, ou falta deles, de dispor de bens ou habilidades em benefício de renda
de uma determinada ordem econômica. A palavra “classe” refere-se a qualquer grupo de pessoas que se encontrem na mesma
situação de classe.]
[...]
Weber, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p. 212.

Max Weber também escreve sobre a luta de classes, mas, diferentemente de Marx, afirma que
ela ocorre também no interior de uma mesma classe. Se houver perda de prestígio, de poder ou até
de renda no interior de uma classe ou entre classes, poderão ocorrer movimentos de grupos que
lutarão para mantê-los e, assim, resistirão às mudanças. Ele não vê a luta de classes como o motor
da história, mas como uma das manifestações para a manutenção de poder, renda ou prestígio em
uma situação histórica específica. Essa perspectiva permite entender muitos movimentos que acon-
teceram desde a Antiguidade até hoje.

OPORTUNIDADES E ESTRATIFICAÇÃO
Há um grupo de autores na Sociologia desenvolvida nos Estados Unidos que caracterizam a
sociedade moderna como desigual, mas declaram que há possibilidades de ascensão social de acordo SOCIOLOGIA
com as oportunidades oferecidas aos indivíduos. Alguns aproveitam as oportunidades e outros não,
tendo êxito aqueles que dispõem de mais talento e qualificação.
Para esses autores, entre os quais Kingsley Davis (1908-1997) e Wilbert E. Moore (1914-1987),
as desigualdades materiais não são necessariamente negativas. Elas podem ser positivas para a so-
ciedade, porque na busca do interesse pessoal há sempre inovação e criação de alternativas, assim, a
sociedade como um todo se beneficia das realizações dos indivíduos. O capitalismo só é dinâmico
porque é desigual, e todas as políticas que propõem a igualdade de condições levam os indivíduos
a não lutar por melhores posições.

A estrutura social e as desigualdades 15

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NAS PALAVRAS DE DAVIS E MOORE

A necessidade funcional de estratificação


Curiosamente, a principal necessidade funcional que explica a presença universal da estratificação é precisamente a exi-
gência enfrentada por qualquer sociedade de situar e motivar os indivíduos na estrutura social. [...] Um sistema competitivo
dá maior importância à motivação para adquirir posições, enquanto um sistema não competitivo dá talvez maior importância
à motivação para executar os deveres inerentes às posições, mas em qualquer sistema são exigidos ambos os tipos de motivação.
[...]
A desigualdade social é portanto um artifício inconscientemente desenvolvido por intermédio do qual as sociedades asse-
guram que as posições mais importantes sejam criteriosamente preenchidas pelos mais qualificados. Por essa razão, qualquer
sociedade, não importa quão simples ou complexa, deve diferenciar as pessoas em termos de prestígio e estima, e deve por-
tanto possuir certa soma de desigualdades institucionalizadas. [...]
Admitindo que a desigualdade possui uma função geral, podem-se especificar os fatores que determinam a ordenação das
diferentes posições. Via de regra, as que implicam melhores recompensas, e por esse motivo estão nos mais altos níveis daque-
la ordenação, são as que: a) têm maior importância para a sociedade e b) exigem maior treinamento ou talento. O primeiro
fator diz respeito à função, e sua significação é relativa; o segundo refere-se aos meios e é uma questão de escassez.
Davis, Kingsley; Moore, Wilbert E. Alguns princípios de estratificação. In: Bertelli, A. R. et al. (orgs.).
Estrutura de classes e estratificação social. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p. 115, 118.

SOBRE A IDEIA DE EXCLUSÃO-INCLUSÃO


A expressão exclusão social está presente em nosso cotidiano na fala dos mais diferentes indi-
víduos, em todos os meios de comunicação e com variados sentidos.
José de Souza Martins (1938-), no livro A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre exclu-
são, pobreza e classes sociais, procurou esclarecer a confusão estabelecida no uso dessa expressão.
Diz ele que podemos entender a expressão exclusão social com base em duas orientações opostas:
uma transformadora e uma conservadora.
A orientação transformadora manifesta-se na utilização inadequada da expressão, por militantes
Abaixo, à esquerda, garoto em situação de políticos, partidos políticos e até professores universitários, para caracterizar a situação daqueles que
rua diante de lanchonete em Mumbai, Índia, estão na condição da classe trabalhadora, como os explorados na sociedade capitalista. Entretanto,
em 2009. À direita, catador no lixão de Ilha isso é questionável, porque o trabalhador está incluído no sistema, só que em condições precárias
Comprida, SP, em 2009. Incluídos ou não no de vida.
sistema capitalista, os dois personagens vivem
A orientação conservadora ex-
MAURÍCIO DE SOUZA/AE

em condição precária.
pressa-se na defesa da ideia de que é
necessário adotar medidas econômicas
ARKO DATTA/REUTERS/LATINSTOCK

e políticas que permitam integrar os ex-


cluídos na sociedade. É um discurso de
quem está incluído e postula que todos
se integrem à sociedade de consumo,
não havendo alternativa melhor. É uma
proposta conformista justamente por-
que aceita as condições existentes como
um fato consumado e não coloca em
questão a possibilidade de a integração
dos excluídos ser feita de forma degra-
dada e precária. Seus defensores apenas
lamentam a existência dos excluídos e
propõem mais desenvolvimento para
que todos possam ser beneficiados. Ja-
mais pensam em questionar a sociedade.

16 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 16 22/11/16 13:03


CENÁRIOS DAS DESIGUALDADES

No século XX ocorreram grandes transformações científi- recursos suficientes para satisfazer as necessidades alimen-
cas, tecnológicas e na produção mundial. Houve cresci- tícias de toda a humanidade. A situação mais grave era vivi-
mento da produção de todos os tipos de bens, mas as da no continente africano, onde vivia um quarto das pessoas
desigualdades, que deveriam ter se tornado menores, au- afetadas pela fome.
mentaram de forma contínua. Vejamos algumas delas. O problema da fome é mais patente nas áreas rurais: três de
cada quatro pessoas pobres vivem no campo e, se o êxodo
Fome no mundo rural no mundo continuar no ritmo atual, 60% dos pobres
Em 2012, aproximadamente 925 milhões de pessoas, das prosseguirão vivendo nas áreas rurais no ano de 2020. Ape-
quais 300 milhões de crianças, eram vítimas de fome crô- sar dessa situação, o dinheiro que os países ricos destinam
nica. Além disso, mais da metade das mortes de crianças à ajuda oficial para o desenvolvimento diminuiu nas últimas
menores de cinco anos podia ser atribuída à falta de ali- décadas, passando de 14 bilhões de dólares no fim dos anos
mentos ou à má nutrição, apesar de no mundo existirem 1980 para cerca de 10 bilhões de dólares em 2010.

SCOTT NELSON/THE IMAGE BANK/GETTY IMAGES


SETH PERLMAN/AP/GLOW IMAGES

À esquerda, visitantes em praça de alimentação da Feira Estadual de Illinois, na cidade de Springfield, Estados Unidos, em agosto de 2012. À direita,
sudanesas retiram sua ração diária no campo de refugiados da cidade de Farshana, no leste do Chade, em 2004. A guerra civil no Sudão terminou
em 2006, mais de dois anos após sua eclosão. Milhares de pessoas deixaram o país nesse período, perdendo todos os meios de subsistência.

1 Se o alimento produzido no mundo é suficiente para 2 As campanhas contra a fome poderão resolver o pro-
suprir as necessidades de todos, o que explica o pro- blema ou a questão é sistêmica? Nesse caso, o que é
blema da fome? necessário mudar para que todos possam se alimentar
adequadamente?

A instabilidade da desigualdade pações da classe média e da classe trabalhadora mundiais


Este ano [2011] foi caracterizado por uma onda mundial diante de suas perspectivas, em vista da crescente concen-
de inquietações e instabilidades sociais e políticas, com tração de poder nas mãos das elites econômicas, financeiras
participação popular maciça em protestos reais e virtuais: e políticas.
a Primavera Árabe; os tumultos em Londres; os protestos [...]
da classe média israelense contra o alto preço da habitação É claro que os problemas que muitas pessoas enfrentam não
e os efeitos adversos da inflação sobre os padrões de vida; podem ser reduzidos a um só fator. A desigualdade cada vez
os protestos dos estudantes chilenos; a destruição dos car- maior tem várias causas: o ingresso de 2,3 bilhões de chine-
ros de luxo dos “marajás” na Alemanha; o movimento con- ses e indianos na força mundial de trabalho (reduz o núme- SOCIOLOGIA
tra a corrupção na Índia; a crescente insatisfação com a ro de empregos e os salários dos operários de baixa capaci-
corrupção e a desigualdade na China; e agora o movimen- tação e dos executivos e de administradores cujas funções
to “Ocupe Wall Street”, em Nova York e em outras cidades sejam exportáveis, nas economias avançadas); mudanças
dos Estados Unidos. tecnológicas baseadas em diferenciais de capacitação profis-
Embora esses protestos não tenham um tema que os uni- sional; a emergência inicial de disparidades de renda e ri-
fique, expressam de diferentes maneiras as sérias preocu- queza em economias que antes tinham renda baixa e agora

A estrutura social e as desigualdades 17

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 17 22/11/16 13:03


apresentam rápido crescimento; e tributação menos pro-

MAHMUD TURKIA/AFP
gressiva.
As companhias de economias avançadas estão reduzindo
seu pessoal, devido à demanda final inadequada, que re-
sulta em excesso de capacidade, e à incerteza quanto à
demanda futura. Mas reduzir o número de funcionários
resulta em queda ainda maior na demanda final, porque
isso reduz a renda dos trabalhadores e amplia a desigual-
dade. [...]
O problema não é novo. Karl Marx exagerou em seus ar-
gumentos favoráveis ao socialismo, mas estava certo ao
alegar que a globalização, o capitalismo financeiro descon-
trolado e a redistribuição de renda e riqueza do trabalho
para o capital poderiam conduzir à autodestruição do ca-
pitalismo. Como ele argumentou, o capitalismo sem regu- Manifestação em Trípoli, na Líbia, em dezembro de 2011, pelo
desarmamento das forças envolvidas na derrubada do ditador Muamar
lamentação pode resultar em surtos regulares de excesso Kadafi, consumada em agosto daquele ano. A queda do ditador, que
de capacidade produtiva, consumo insuficiente e crises permaneceu no poder por mais de 40 anos, foi um dos episódios mais
destrutivas recorrentes, alimentadas por bolhas de crédito marcantes da onda de protestos conhecida como Primavera Árabe.
e ciclos de expansão e contração nos preços dos ativos.
Qualquer modelo econômico que não considere devida- Com base no texto, que relação se pode estabelecer entre
mente a desigualdade terminará por enfrentar uma crise globalização, capital financeiro e desigualdades sociais?
de legitimidade. A menos que os papéis econômicos rela-
tivos do mercado e do Estado sejam recolocados em equi-
líbrio, os protestos de 2011 se tornarão mais severos, e a Desigualdade entre homens e mulheres
instabilidade social e política resultante terminará por Segundo o Fundo de População das Nações Unidas, não será
prejudicar, a longo prazo, o crescimento econômico e o possível combater a pobreza enquanto mulheres sofrerem
bem-estar social. discriminação, violência e abuso sexual e não tiverem os
Roubini, Nouriel. A instabilidade da desigualdade. Folha de S.Paulo. São mesmos direitos políticos, sociais e econômicos que os ho-
Paulo, 16 out. 2011. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/
me1610201114.htm>. Acesso em: 29 ago. 2012. mens. Entre esses direitos está o acesso à educação, à saúde,
ao mercado de trabalho e ao patrimônio.
PHOTONONSTOP/AFP
JAWED BASHARAT/AP PHOTO/GLOW IMAGES

À esquerda, em fotografia de 2011, vítima de cativeiro e torturas


praticadas pelos sogros em Cabul, centro cultural e comercial do
Afeganistão. Acima, funcionária de um banco na cidade de Nairóbi,
no Quênia, em 2012. Da violência doméstica às distinções salariais,
evidencia-se a persistência da desigualdade de gênero no século XXI.

18 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 18 22/11/16 13:03


No seu relatório de 2005, a agência da ONU conclama os Uma em cada três mulheres no mundo é ou será vítima
governantes a investir em políticas para garantir a igual- de algum tipo de violência, prioritariamente sexual. E 50%
dade de condições entre homens e mulheres, e argumenta: das ações violentas são cometidas contra meninas de até 15
Metade da população feminina não tem emprego, contra anos.
30% da população masculina.
Quase dois terços dos analfabetos adultos do mundo são
mulheres. O que explica as desigualdades entre homens e mulheres? Por
Mesmo com nível educacional igual ou superior ao dos que a mulher ainda é vítima de tanta discriminação e violência?
homens, as mulheres ganham salários menores no mesmo
emprego.

TAREFA PARA CASA

1 Por ocasião do lançamento de seu livro Os batalhadores bra- Os batalhadores, em sua esmagadora maioria, pre-
sileiros, em 2011, o sociólogo Jessé Souza concedeu uma cisam começar a trabalhar cedo e estudam em escolas
entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, da qual extraímos o se- públicas muitas vezes de baixa qualidade.
guinte trecho: Como lhes faltam tanto o capital cultural altamen-
Folha – Em seu livro, o senhor questiona a afirma- te valorizado das classes médias quanto o capital eco-
ção de que o governo Lula alçou 30 milhões de brasilei- nômico das classes altas, eles compensam essa falta
ros à classe média e diz até que se trata de uma mentira. com extraordinário esforço pessoal, dupla jornada de
Por quê? trabalho e aceitação de todo tipo de superexploração
Jessé Souza – Eu não nego que houve uma efetiva da mão de obra.
ascensão social de 30 milhões de brasileiros nem que Essa é uma condução de vida típica das classes
esse fato seja extremamente importante e digno de ale- trabalhadoras, daí nossa hipótese de trabalho desen-
gria. O que questiono é a leitura dessa classe como uma volvida no livro que nega e critica o conceito de “nova
classe média. classe média”.
A classe média é uma das classes dominantes em Machado, Uirá. É um erro falar que existe nova classe média. Folha de
S.Paulo, São Paulo, 13 fev. 2011. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/
sociedades modernas como a brasileira porque é consti- poder/874777-e-um-erro-falar-que-existe-nova-classe-media-diz-sociologo.
tuída pelo acesso privilegiado a um recurso escasso de shtml>. Acesso em: dez. 2013.
extrema importância: o capital cultural nas suas mais
diversas formas. Segundo Jessé Souza, qual é a importância do capital cul-
Seja sob a forma de capital cultural técnico, como na tural na definição das classes no Brasil contemporâneo?
“tropa de choque” do capital (advogados, engenheiros, ad- A classe média, extremamente importante na realidade social do
Brasil contemporâneo, muitas vezes é uma incógnita para as ciên-
ministradores, economistas etc.), seja pelo capital cultural cias sociais. O trecho da entrevista de Jessé Souza aponta um cri-
literário dos professores, jornalistas, publicitários etc., esse tério para a definição de classe média e destaca as diferenças que
tipo de conhecimento é fundamental para a reprodução e essa classe guarda em relação às camadas menos favorecidas. O
legitimação tanto do mercado quanto do Estado. capital cultural, entendido em sua forma ampla, remete ao tempo
disponível; perceber a importância desse tempo na construção da
Consequentemente, tanto a remuneração quanto o riqueza e, consequentemente, das disparidades sociais é um rico
prestígio social atrelados a esse tipo de trabalho — e da exercício sociológico.
condução de vida que ele proporciona — são consideráveis.
A vida dos “batalhadores” é completamente outra. Ela 2 Com base na análise que Karl Marx faz do capitalismo,
é marcada pela ausência dos privilégios de nascimento que centrada na ideia de que a desigualdade é inerente a esse
caracterizam as classes médias e altas. sistema, interprete a estrofe a seguir, retirada da canção “A SOCIOLOGIA

E, quando se fala de “privilégios de nascimento”, não cidade”, de Chico Science.


se está falando apenas do dinheiro transmitido por heran- A cidade não para
ça de sangue nas classes altas. Esses privilégios envolvem A cidade só cresce
também o recurso mais valioso das classes médias, que é o O de cima sobe
tempo. Afinal, é necessário muito tempo livre para incor- E o de baixo desce
porar qualquer forma de conhecimento técnico, científico A cidade não para
ou filosófico-literário valioso. A cidade só cresce

A estrutura social e as desigualdades 19

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 19 22/11/16 13:03


O de cima sobe fugir”, de 1984. Ele também é um político. Em 1989, foi
eleito vereador em Salvador, Bahia, e em 2003 o então
Optou-se, aqui, pela indicação de um trecho da canção como pon-
to de partida para uma reflexão sobre a conceituação marxista de presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou-o Ministro da
classes sociais. O fato de ser uma questão aberta é importante Cultura, cargo que ocupou até 2008. Além dessas ativida-
nesse caso: a tentativa de descrever o arcabouço geral da análise des, Gilberto Gil exerce também a de empresário. Em
de Marx requer que o aluno reúna e relacione mais elementos
1982, ele abriu a GEGE Produções, empresa que gerencia
do que seria necessário se ele fosse solicitado a escolher o item
correto em uma questão objetiva. a carreira de músicos e promove eventos artísticos. Com
músicas aclamadas pelo público nacional e internacional,
E o de baixo desce uma carreira política bem avaliada por muitos e uma em-
presa sólida e de sucesso comercial no ramo de eventos
3 Max Weber explica a estratificação social por fatores múl- artísticos, pode-se dizer, sem dúvida, que Gilberto Gil é
tiplos. Para ele, a posição dos indivíduos na hierarquia so- uma personalidade importante.
cial não é definida apenas por sua condição econômica. Texto do autor.
O prestígio e o poder político também são fatores que
determinam a posição que as pessoas ocupam em suas Identifique os fatores que, segundo Weber, definem a posi-
sociedades. ção do indivíduo na sociedade. Relacione a cada um deles
um exemplo extraído dos dados biográficos de Gilberto Gil.
Leia o texto a seguir e responda à questão.
As diferentes dimensões consideradas por Weber na análise da es-
Com uma longa carreira na profissão de músico, tratificação social podem ser facilmente identificadas pelos alunos
Gilberto Gil é compositor de clássicos da MPB, como as na biografia do artista, uma vez que a posição social de Gilberto
canções “Expresso 2222”, lançada em 1972, e “Vamos Gil é definida tanto pela condição econômica quanto pelo prestígio
social e pelo poder político.

ANOTAÇÕES

20 A estrutura social e as desigualdades

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CAPÍTULO

3 As desigualdades sociais no
Brasil
Veja, no Guia do Professor, o quadro de competências e habilidades desenvolvidas neste módulo.

Objetivos: Desde a chegada dos portugueses à América no século XVI, as desigualdades sociais se instala-
ram, se desenvolveram e aqui ficaram.
c Conhecer as Os habitantes do continente foram vistos pelos europeus como seres diferentes, inferiores e
várias formas de
menos capazes. Essa visão preconceituosa justificou a escravização dos indígenas e a violência contra
desigualdade.
eles empregada pelos colonizadores na conquista territorial. Resistindo e sobrevivendo ao quase ex-
c Analisar e compreender termínio, esses povos até hoje enfrentam o preconceito e lutam contra a discriminação.
como se constituíram Milhares de africanos foram sequestrados e retirados de sua terra de origem para enfrentar
as desigualdades condições terríveis de trabalho e de vida no Brasil. A maioria de seus descendentes ainda vive em
sociais no Brasil.
condições precárias e sofre discriminação e preconceito pelo fato de serem negros.

FABIO COLOMBINI
Comunidade quilombola Kalunga, em Cavalcante, GO, 2010. Fundados no período colonial por escravos
fugidos dos latifúndios, os quilombos tornaram-se centros de resistência ao poder institucional.

Da metade do século XIX até o início do século XX, outros milhares de imigrantes vieram ao
Brasil em busca de trabalho e de melhores chances na vida, mas aqui encontraram condições de tra-
balho semisservis nas fazendas de café. Em muitos casos, a família inteira trabalhava e não chegava a
receber remuneração em dinheiro — apenas comida, casa e outros pagamentos em espécie.
À medida que a sociedade brasileira se industrializou e se urbanizou, novos contingentes po-
pulacionais foram absorvidos pelo mercado de trabalho nas cidades. Esse processo iniciou-se nos SOCIOLOGIA
primeiros anos do século XX, acelerando-se na década de 1950, quando se desenvolveu no país um
grande esforço de industrialização, trazendo junto a urbanização. Milhares de pessoas foram atraídas
para as cidades a fim de se empregar nas indústrias, no comércio, em bancos, na construção civil etc.
Os setores médios, antes constituídos basicamente pelos militares e funcionários públicos, também
se diversificaram e cresceram, reunindo numerosos profissionais liberais e pequenos e médios co-
merciantes.

A estrutura social e as desigualdades 21

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ACERVO ICONOGRAPHIA
O presidente Juscelino Kubitschek em
visita à Mercedes-Benz em São Paulo, SP,
em 1956. O modelo desenvolvimentista
que adotou, traduzido no Plano de
Metas, popularmente conhecido
como “50 anos em 5”, deu excelentes
resultados a curto prazo, proporcionando
taxas de crescimento econômico de 7%
a até 10% ao ano...

FRANKLIN DE FREITAS/FOLHAPRESS
... mas aumentou o endividamento
externo e não promoveu a redução das
desigualdades, que se expressam ainda
hoje em todos os níveis. Na imagem ao
lado, bairro Alto do Boqueiro, em Curitiba,
PR, em 2011, sem saneamento básico.

Com as transformações que desde então ocorreram na zona urbana e na zona rural (por meio da
modernização da agricultura), houve um crescimento vertiginoso das grandes cidades e um esvazia-
mento progressivo do campo. Como nem toda a força de trabalho foi absorvida pela indústria e pelos
setores urbanos, constituiu-se nas cidades uma grande massa de desempregados e de semiocupados
que passou a viver em condições precárias.
Hoje, com os avanços tecnológicos, essa massa de indivíduos dificilmente encontra chance de
emprego, por tratar-se de mão de obra desqualificada. É ela que evidencia as desigualdades criadas
pelo processo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil, que aparecem na forma de miséria e
pobreza muito presentes em nosso cotidiano.
As estatísticas sobre as desigualdades sociais no Brasil estão nos jornais e nas revistas e de-
monstram que a gravidade do problema é tal que, se há alguma coisa que caracteriza o Brasil nos

22 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 22 22/11/16 13:03


últimos anos, é sua condição de um dos países mais desiguais do mundo. Além das desigualdades
entre as classes sociais, há outras diferenças — entre homens e mulheres e entre negros e brancos,
por exemplo.
Isso não se traduz só em fome e miséria, mas também em condições precárias de saúde, de
habitação, de educação, enfim, em uma situação desumana, particularmente quando se sabe que a
produção agrícola e industrial e o setor de comércio e serviços têm crescido de maneira expressiva
em nosso país, demonstrando que a sociedade produz bens, serviços e riqueza, mas não os distribui
de modo que beneficiem a todos os brasileiros.

AS EXPLICAÇÕES PARA A DESIGUALDADE


A desigualdade no Brasil tem sido objeto de estudo de diversos autores e instituições de pes-
quisa. Do século XIX aos nossos dias, muitas explicações foram formuladas, envolvendo abordagens
e temáticas distintas. Examinaremos a seguir algumas delas:

A questão da mestiçagem
Conforme a cientista social brasileira Márcia Anita Sprandel, em seu livro A pobreza no paraíso
tropical, a primeira tentativa de explicar a pobreza no Brasil, a partir do final do século XIX, consistiu
em relacioná-la à influência do clima e à riqueza das matas e do solo. Afirmava-se que o brasileiro
era preguiçoso, indolente, supersticioso e ignorante porque a natureza tudo lhe dava: frutos, plantas,
solo fértil etc. No Brasil, era tão fácil obter ou produzir qualquer coisa que não havia necessidade de
trabalhar.
Uma segunda explicação estava vinculada à questão racial e à mestiçagem. Vários auto-
res, como Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), Euclides da Cunha (1866-1909), Sílvio Rome-

EDITORA BEST BOLSO


ro (1851-1914) e Capistrano de Abreu (1853-1927), foram críticos ferrenhos da mestiçagem e
consideravam que os mestiços não tinham a energia física dos índios nem a visão intelectual
dos seus ancestrais superiores, representando a falência e a degeneração do ideal nacional.
Entretanto, dois outros autores daquela época faziam análises diversas: Joaquim Nabuco
(1849-1910) e Manoel Bomfim (1868-1932).
Nabuco afirmava que, graças à “raça” negra, havia surgido um povo no Brasil, mas que
a escravidão e o latifúndio geravam verdadeiras “colônias penais” no interior, pois os latifun-
diários eram refratários ao progresso e apenas permitiam que os mestiços vivessem como
agregados e dependentes, na miséria e ignorância.
Bomfim, por sua vez, via o sertão nordestino como uma “terra de heróis”. Dizia que as
populações do interior tinham muita força, cordialidade e capacidade de atuar coletivamente
por meio de técnicas comunitárias de trabalho e pelo uso comum de suas posses.
Esses dois autores constituem exceções. Como a cientista social brasileira Lilian Moritz
Schwarcz (1957-) destaca em seu livro O espetáculo das raças (1993), entre 1870 e 1930 a
maioria dos cientistas, políticos, juristas e intelectuais desenvolveu teorias racistas e deter-
ministas para explicar os destinos da sociedade brasileira. A pobreza seria sempre um dos
elementos essenciais dessa explicação e uma decorrência da escravidão ou da mestiçagem.
As chamadas “classes baixas” constituíam-se de indivíduos que normalmente, nas cidades,
eram considerados perigosos e, no interior, apáticos, doentes e tristes. SOCIOLOGIA
A obra célebre de Joaquim Nabuco, O
abolicionismo, publicada em 1883, foi
uma das primeiras a analisar o sistema
escravocrata a partir de sua estrutura,
contestando teorias que atribuíam
o atraso do país à preguiça ou à
passividade do povo. Abaixo, capa de
uma edição de 2010.

A estrutura social e as desigualdades 23

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NAS PALAVRAS DE NABUCO

O mandato da raça negra


[…]
Quem pode dizer que a raça negra não tem direito de protestar perante o mundo e perante a história contra o procedimen-
to do Brasil? A esse direito de acusação, entretanto, ela própria renunciou; ela não apela para o mundo, mas tão somente para
a generosidade do país que a escravidão lhe deu por pátria. Não é já tempo que os brasileiros prestem ouvidos a esse apelo?
Em primeiro lugar, a parte da população nacional que descende de escravos é, pelo menos, tão numerosa como a parte
que descende exclusivamente de senhores; a raça negra nos deu um povo. Em segundo lugar, o que existe até hoje sobre o
vasto território que se chama Brasil foi levantado ou cultivado por aquela raça; ela construiu o nosso país. Há trezentos anos
que o africano tem sido o principal instrumento da ocupação e da manutenção do nosso território pelo europeu, e que os seus
descendentes se misturam com o nosso povo. Onde ele não chegou ainda, o país apresenta o aspecto com que surpreendeu aos
seus primeiros descobridores. Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultu-
ra, estradas e edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios,
telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho
manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que
faz trabalhar.
Por esses sacrifícios sem número, por esses sofrimentos, cuja terrível concatenação com o progresso lento do país faz da
história do Brasil um dos mais tristes episódios do povoamento da América, a raça negra fundou, para outros, uma pátria que
ela pode, com muito mais direito, chamar sua. […]
Nabuco, Joaquim. O abolicionismo. Brasília: Senado Federal, 2003. p. 39-40.
Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/sf000054.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2012.

Fome e coronelismo
A partir da década de 1940, a questão das desigualdades sociais aparecia sob novo olhar, que
passava pela presença do latifúndio, da monocultura e também do subdesenvolvimento. Em seus
livros Geografia da fome e Geopolítica da fome, publicados respectivamente em 1946 e 1951, Josué
de Castro (1908-1973) procurou analisar a questão da desnutrição e da fome das classes populares,
explicando-as com base no processo de subdesenvolvimento, o qual gerava desigualdades econô-
micas e sociais entre os povos que, no passado, tinham sido alvo da exploração colonial no mundo
capitalista. Defendia a educação e a reforma agrária como elementos essenciais para resolver o pro-
blema da fome no Brasil.

NAS PALAVRAS DE JOSUÉ DE CASTRO

A fome no Brasil
[…]
A fome no Brasil, que perdura, apesar dos enormes progressos alcançados em vários setores de nossas atividades, é conse-
quência, antes de tudo, de seu passado histórico, com seus grupos humanos, sempre em luta e quase nunca em harmonia com
os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada e por culpa, portanto, da agressividade do meio, que iniciou abertamen-
te as hostilidades, mas, quase sempre, por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem
direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil. Aventura desdobrada, em ciclos sucessivos de economia destrutiva
ou, pelo menos, desequilibrante da saúde econômica da nação: o do pau-brasil, o da cana-de-açúcar, o da caça ao índio, o da
mineração, o da “lavoura nômade”, o do café, o da extração da borracha e, finalmente, o de certo tipo de industrialização arti-
ficial, baseada no ficcionismo das barreiras alfandegárias e no regime de inflação. É sempre o mesmo espírito aventureiro se
insinuando, impulsionando, mas logo a seguir corrompendo os processos de criação de riqueza no país. […] É a impaciência
nacional do lucro turvando a consciência dos empreendedores e levando-os a matar sempre todas as suas “galinhas de ovos de
ouro”. Todas as possibilidades de riqueza que a terra trazia em seu bojo.
[…]
Castro, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 266-267.

24 A estrutura social e as desigualdades

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STORNI/FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, RIO DE JANEIRO, RJ

Charge de Storni, publicada na revista


Careta, em 1927, ironizando o chamado
voto de cabresto, uma prática eleitoral
frequente na Primeira República. Como o
voto era aberto, o coronel podia obrigar
os eleitores do seu “curral eleitoral” a
votar nos candidatos que escolhia.
Fiscalizados pelos capangas e sob a
ameaça de sofrer retaliações ou mesmo
violência física, os eleitores acatavam as
determinações do chefe local.

Victor Nunes Leal (1914-1985), em seu livro Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime
representativo no Brasil, publicado em 1948, apresenta o coronelismo vinculado à grande propriedade
rural, principalmente no Nordeste, como a base de sustentação de uma estrutura agrária que man-
tinha os trabalhadores rurais em uma situação de penúria, de abandono e de ausência de educação.

Raça e classes
A relação entre as desigualdades e as questões raciais voltou a ser analisada na década de 1950,
numa perspectiva que envolvia a situação dos negros na estrutura social brasileira. São exemplos os
trabalhos de Luiz de Aguiar Costa Pinto (1920-2002), que em 1953 publicou O negro no Rio de Janeiro,
e de Roger Bastide (1898-1974) e Florestan Fernandes (1920-1995), que também em 1953 lançaram o
livro Negros e brancos em São Paulo. Eles abordaram essa questão do ponto de vista das desigualdades
sociais, procurando desmontar o mito da democracia racial brasileira, visão proposta por Gilberto
Freyre (1900-1987), e colocaram o tema da raça no contexto das classes sociais.
Na década de 1960, alguns trabalhos podem ser tomados como exemplos da continuidade
dessa discussão. Florestan Fernandes (A integração do negro na sociedade de classes, 1965), Octavio
Ianni (As metamorfoses do escravo, 1961) e Fernando Henrique Cardoso (Capitalismo e escravidão
no Brasil meridional, 1962) analisaram a situação dos negros no Sudeste e no Sul do Brasil. Com seus
trabalhos, demonstraram que os ex-escravos foram integrados de forma precária, criando-se uma
desigualdade constitutiva da situação que seus descendentes vivem até hoje. Muitos outros autores,
desde então, analisam essa questão, que continua presente em nosso cotidiano.

SOCIOLOGIA

A estrutura social e as desigualdades 25

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NAS PALAVRAS DE FLORESTAN FERNANDES

O negro na emergência da sociedade de classes


A desagregação do regime escravocrata e senhorial operou-se, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos
agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os
senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou outra
qualquer instituição assumissem encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização
da vida e do trabalho. O liberto viu-se convertido, sumária e abruptamente, em senhor de si mesmo, tornando-se responsável
por sua pessoa e por seus dependentes, embora não dispusesse de meios materiais e morais para realizar esta proeza nos qua-
dros de uma economia competitiva.
[…]
Em suma, a sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de
reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento do trabalho
livre, do regime republicano e do capitalismo. […]
Fernandes, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. 3. ed. São Paulo: Ática, 1978. v. 1, p. 15, 20.

Classes sociais e mudanças sociais


A partir da década de 1960, outras temáticas que envolviam as desigualdades sociais foram abor-
dadas, com ênfase na análise das classes sociais existentes no Brasil. Assim se desenvolveram trabalhos
que procuravam entender como ocorreu a formação do empresariado nacional, das classes médias,
do operariado industrial e do proletariado rural. Outra tendência foi compreender e explicar como as
classes na sociedade brasileira — operariado, classes médias urbanas e burguesia industrial — partici-
pavam do processo de mudanças econômicas, sociais e políticas. Essas análises tinham como pano de
fundo a discussão sobre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento no Brasil e na América Latina.
Nas décadas seguintes (1970 e 1980), a preocupação situou-se muito mais na análise das no-
vas formas de participação, principalmente dos novos movimentos sociais e do novo sindicalismo.
Buscava-se entender como os trabalhadores e deserdados no Brasil organizavam-se para fazer valer
seus direitos como cidadãos, mesmo que a maioria ainda estivesse vivendo miseravelmente.
IRMO CELSO/EDITORA ABRIL

O movimento operário, sufocado pela


ditadura militar, ressurgiu com força
no final da década de 1970 e exerceria
papel importante no processo de
redemocratização do país. Na imagem,
o então presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo do Campo
e Diadema, Luiz Inácio Lula da Silva,
discursa para a massa de trabalhadores
durante greve em 1979.

26 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 26 22/11/16 13:03


NAS PALAVRAS DE IANNI

As desigualdades e a questão social


[…]
Há processos estruturais que estão na base das desigualdades e antagonismos que constituem a questão social. Dentre
esses processos, alguns podem ser lembrados agora. O desenvolvimento extensivo e intensivo do capitalismo, na cidade e no
campo, provoca os mais diversos movimentos de trabalhadores, compreendendo indivíduos, famílias, grupos e amplos contin-
gentes. As migrações internas atravessam os campos e as cidades, as regiões e as nações. Movimentam trabalhadores em busca
de terra, trabalho, condições de vida, garantias, direitos. A industrialização e a urbanização expandem-se de modo contínuo,
por fluxos e refluxos, ou surtos. Assim como ocorre a metropolização dos maiores centros urbano-industriais, também ocorre
a abertura e reabertura das fronteiras. Os surtos de atividades agrícolas, pecuárias, extrativas, mineradoras e industriais, ao
longo das várias repúblicas, assinalam os mais diversos movimentos de populações e negócios, de fatores econômicos ou forças
produtivas. As crescentes diversidades sociais estão acompanhadas de crescentes desigualdades sociais. Criam-se e recriam-se
as condições de mobilidade social horizontal e vertical, simultaneamente às desigualdades e aos antagonismos.
Esse é o contexto em que o emprego, desemprego, subemprego e pauperismo se tornam realidade cotidiana para muitos
trabalhadores. As reivindicações, protestos e greves expressam algo deste contexto. Também os movimentos sociais, sindicatos
e partidos revelam dimensões da complexidade crescente do jogo das forças sociais que se expandem com os desenvolvimentos
extensivos e intensivos do capitalismo na cidade e no campo.
[…]
Aos poucos, a história da sociedade parece movimentada por um vasto contingente de operários agrícolas e urbanos, cam-
poneses, empregados e funcionários. São brancos, mulatos, negros, caboclos, índios, japoneses e outros. Conforme a época e o
lugar, a questão social mescla aspectos raciais, regionais e culturais, juntamente com os econômicos e políticos. Isto é, o tecido
da questão social mescla desigualdades e antagonismos de significação estrutural.
[…]
Ianni, Octavio. Pensamento social no Brasil. Bauru: Edusc, 2004. p. 106-107..

AS DESIGUALDADES NO BRASIL NOS ÚLTIMOS 30


ANOS: RENDA, COR, GÊNERO
Nos últimos 30 anos, nas análises sobre as desigualdades no Brasil, foram adicionadas preocu-
pações com as questões relacionadas ao emprego e às condições de vida dos trabalhadores e pobres
da cidade. Assim, passaram a ter primazia nas análises os temas: emprego e desemprego, mercado
formal e informal de trabalho e estratégias de sobrevivência das famílias de baixa renda. A preocupa-
ção era conhecer a deterioração das condições de vida dos trabalhadores urbanos e das populações
periféricas, constatando-se a crescente subordinação do trabalho ao capital, tanto na cidade como
no campo. As questões de raça e de gênero ganharam espaço, destacando-se a desigualdade entre
negros e brancos e a situação desigual de homens e mulheres.

Desigualdade de renda
O Brasil é internacionalmente conhecido como um dos países com maior desigualdade na dis-
tribuição de renda. E essa desigualdade nos acompanha há anos. Segundo o Censo Demográfico de
1960, nessa década os mais ricos constituíam 1% da população brasileira e auferiam da renda nacional
o mesmo que os 50% mais pobres: 18,6%. Aproximadamente 40 anos depois, não houve mudanças
significativas. No gráfico abaixo podemos perceber como se comportou a diferença entre os 10%
mais ricos e os 50% mais pobres entre 1985 e 2010.
SOCIOLOGIA

A estrutura social e as desigualdades 27

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 27 22/11/16 13:03


PORTAL DE MAPAS
Diferença entre ricos e pobres no Brasil (1984-2010)

70 10% mais ricos


Percentual (%) de participação na renda total do país

60 50% mais pobres


,3
47,3 51,5 48,2
50 45,8 47,0
47,
47
42,3
40

30

20

10 13,1 12,3 13
10,6
0
1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991* 1992 1993 1994* 1995 1996 1997 1998 1999 2000* 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010**
47,3 47,8 47 47,8 49,5 51,5 48,8 47,3 45,8 48,7 48,2 47,9 47,5 47,7 47,8 47,3 47,4 47,5 47 46,2 45,3 45,3 44,8 43,9 43,2 42,8 42,3
13 12,5 13 12,2 11,5 10,6 11,5 12,3 13,1 12,3 12,3 12,4 12,1 12,1 12,3 12,7 12,7 12,6 13 13,2 13,8 14 14,5 14,7 15,3 15,5 15,8

* anos em que a pesquisa PNAD não foi realizada. Projeção baseada na média entre o ano anterior e o posterior.
** projeções baseadas nas taxas médias de desaceleração dos 10% mais ricos ( _0,49/ano) e aceleração dos 50% mais pobres (+0,28/ano), entre 2003 e 2009.

Fonte: Classes sociais: diferença entre ricos e pobres na participação da renda total: evolução no período e governos: 1985-2010. Brasil: fatos e dados.
Disponível em: <http://brasilfatosedados.wordpress.com/2010/10/29/classes-sociais-diferenca-entre-ricos-e-pobres-na-participacao-da-renda-total-
evolucao-no-periodo-e-governos-1985-2010>. Acesso em: 29 ago. 2012.

Coeficiente de Gini no mundo (2011)


PORTAL DE MAPAS
OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Groenlândia
(DIN)

Círculo Polar Ártico


Alasca
(EUA) RÚSSIA
ISLÂNDIA

CANADÁ
GEÓRGIA
ARMÊNIA CASAQUISTÃO
MONGÓLIA
ESPANHA
OCEANO Açores USBEQUISTÃO QUIRGUISTÃO
AZERBAIJÃO COREIA
(POR) TURCOMENISTÃO TAJIQUISTÃO
ESTADOS UNIDOS TURQUIA DO NORTE

PACÍFICO I. da Madeira (POR) SÍRIA CHINA


COREIA
DO SUL
MARROCOS IRAQUE IRÃ AFEGANISTÃO
ISRAEL
TUNÍSIA
Is.Canárias (ESP) ISRAEL KUWAIT
ARGÉLIA PAQUISTÃO BUTÃO
LÍBIA JORDÂNIA NEPAL
BAHAMAS EGITO 16 Trópico de Câncer
SAARA CATAR
OCIDENTAL
CUBA HAITI ARÁBIA EMIR.
MIANMÁ
MÉXICO REPÚBLICA ÁRAB. ÍNDIA HONG KONG
Is. Havaí CABO SAUDITA LAOS
BELIZE DOMINICANA MAURITÂNIA MALI OMÃ UNIDOS
(EUA) VERDE NÍGER CHADE
JAMAICA ERITREIA
HONDURAS SANTA LÚCIA SENEGAL
BENIN SUDÃO
IÊMEN BANGLADESH TAILÂNDIA
VIETNÃ
OCEANO
FILIPINAS IS. Guam
GUATEMALA GÂMBIA GUINÉ DJIBUTI Is. Marshall
(EUA)
EL SALVADOR
NICARÁGUA
VENEZUELA GUIANA
GUINÉ-BISSAU
SERRA LEOA
GANA NIGÉRIA REPÚBLICA
CENTRO- SUDÃO ETIÓPIA CAMBOJA
BRUNEI
PACÍFICO
SURINAME
COSTA RICA -AFRICANA DO SUL SRI LANKA
PALAU
Is. Christmas COLÔMBIA GUIANA CAMARÕES SOMÁLIA
MALÁSIA FED. ESTADOS
PANAMÁ FRANCESA COSTA TOGO UGANDA DA MICRONÉSIA NAURU
DO MARFIM MALDIVAS Equador
0ºº EQUADOR GABÃO RUANDA QUÊNIA
SÃO TOMÉ CINGAPURA KIRIBATI
GUINÉ
E PRÍNCIPE CONGO REP. DEM. PAPUA
EQUATORIAL DO CONGO Is. Salomão
TANZÂNIA INDONÉSIA -NOVA GUINÉ
BRASIL OCEANO
SEYCHELLES OCEANO
TIMOR LESTE
PERU COMORES SAMOA
SAMOA ANGOLA
SUÉCIA FINLÂNDIA ZÂMBIA
MALAVI
ÍNDICO
ATLÂNTICO
E
IQU

NORUEGA VANUATU
TONGA BOLÍVIA
MB

Is. Cook (NZ) FIJI


NAMÍBIA ZIMBÁBUE
MAURÍCIO < 0,25
ÇA

ESTÔNIA MADAGÁSCAR Trópico de Capricórnio


BOTSUANA
MO

LETÔNIA RÚSSIA PARAGUAI 0,25-0,29 Nova Caledônia (FRA)

LITUÂNIA
ÁFRICA
SUAZILÂNDIA 0,30-0,34
IRLANDA BIELORRÚSSIA LESOTO
DO SUL
POLÔNIA CHILE 0,35-0,39
Meridiano de Greenwich

ALEMANHA URUGUAI
BÉLGICA
UCRÂNIA 0,40-0,44
ÁUSTRIA HUNGRIA
ARGENTINA N
SUÍÇA MOLDÁVIA
0,45-0,49 TASMÂNIA
NOVA ZELÂNDIA

ESLOVÊNIA ROMÊNIA
BÓSNIA- SÉRVIA
CRÓACIA HERZEGÓVINA
KOSOVO Is. Kerguelas
(FRA)
0,50-0,54
BULGÁRIA Is. Falkland (RUN)
ESPANHA
ITÁLIA MACEDÔNIA 0,55-0,59
0 2.533 km
GRÉCIA TURQUIA I. Geórgia do Sul
(RUN)
> 0,60
Sem dados
MONTENEGRO
ALBÂNIA
OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO Círculo Polar Antártico

ANTÁRTIDA

Fonte: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Relatório do Desenvolvimento Humano de 2011: sustentabilidade e equidade: um futuro
melhor para todos. Disponível em: <http://hdr.undp.org/en/media/HDR_2011_PT_Complete.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2012.

28 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 28 22/11/16 13:03


Com base no gráfico acima, podemos constatar que a desigualdade diminuiu, mas continua
enorme. Como mostra o mapa da página anterior, o Brasil ainda é um dos países mais desiguais
do mundo.
O índice de Gini é um instrumento criado pelo estatístico italiano Corrado Gini (1884-1965)
para medir o grau de desigualdade na distribuição da renda. Os valores variam entre zero e um —
zero corresponde a uma completa igualdade na renda (todos detêm a mesma renda per capita) e
um corresponde a uma completa desigualdade de renda (um indivíduo ou uma pequena parcela de
determinada população detém toda a renda). Portanto, quanto mais perto de um estiver o índice
de Gini de um país, maior a desigualdade social e, quanto mais perto de zero, menor a desigualdade.
No Brasil, em 1960, o índice de Gini era de 0,5367. Em 1990, o ponto mais alto da série, a desigual-
dade foi de 0,6091. Em 2010, o índice foi de 0,5304, ou seja, voltamos à situação em que estávamos
em 1960.

Desigualdade de cor
Desde o século XIX, como vimos, várias foram as alternativas de explicação e compreensão
das desigualdades no Brasil. Deixando de lado as explicações sobre o clima, a riqueza do solo e a
mestiçagem (embora ainda estejam presentes no senso comum), podemos dizer que a questão
étnico-racial ainda está em nosso cotidiano. Ela se expressa por meio do preconceito e se apresenta
em evidências empíricas: os negros em nossa sociedade recebem salários menores e têm poucas
condições de acesso a boas condições de habitação, saúde, trabalho e cultura.
O gráfico a seguir, em que está representada a proporção de negros e brancos entre os 10% mais
pobres e o 1% mais rico no Brasil no período de 1998 a 2008, revela a grande desigualdade étnico-
-racial que ainda existe no país. Observe-o.

Distribuição de renda familiar per capita por cor ou raça no Brasil (1998-2008)

100
72,2 73,7 PORTAL DE MAPAS
8,2 15,0
89,3
80 82,7

60
%

40

27,4
20 25,4

0
10% mais pobres 1% mais rico 10% mais pobres 1% mais rico
1998 2008
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Preta ou parda (IBGE). Síntese de Indicadores Sociais 2009.
Branca Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/presidencia/
noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1476&id_
pagina=1>. Acesso em: 29 ago. 2012.
SOCIOLOGIA

Desigualdade de gênero
Conforme o último censo do IBGE, de 2010, no Brasil, as mulheres são mais da metade da
população e estudam mais que os homens, mas têm menos chances de emprego e recebem salário,
em média, 30% mais baixo que o dos homens, mesmo quando exercem as mesmas funções. Além

A estrutura social e as desigualdades 29

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 29 22/11/16 13:03


disso, há mais mulheres que homens trabalhando no setor informal, ou seja, sem carteira assinada.
Observe, no gráfico abaixo, a relação entre a média salarial de homens e mulheres conforme o
grau de instrução em 2010.

Média salarial mensal entre homens e mulheres (2 010)

PORTAL DE MAPAS
Superior

Médio

Grau de instrução Mulheres


Fundamental completo
Homens

Fundamental incompleto

0 2 4 6 8 10
Salários mínimos
Fonte: Observatório Regional Base de Indicadores de Sustentabilidade (Orbis). Desigualdade de gênero persiste
por trás da desigualdade social. Disponível em: <www.orbis.org.br/analise/10/desigualdade-de-genero-persiste-
por-tras-da-igualdade-social>. Acesso em: 19 set. 2012.

Além de receber salários menores e enfrentar piores condições de trabalho que os homens, as
mulheres ainda gastam, em média, 25 horas semanais para realizar tarefas domésticas, enquanto os
homens despendem apenas 10 horas semanais nos serviços de casa.
No que diz respeito à participação política, nas eleições gerais de 2010, as mulheres ficaram com
12,9% das cadeiras nas Assembleias Legislativas, com 8,5% das vagas na Câmara dos Deputados, com
9,8% das vagas no Senado. Dos eleitos para o governo dos estados, apenas 7,4% eram mulheres. Con-
forme estudo da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal, a baixa participação de
mulheres em espaços de poder tem relação com o limitado acesso feminino à esfera pública, além
de fatores culturais, como o preconceito de gênero em relação às atividades políticas.

A INVISIBILIDADE DAS DESIGUALDADES


De acordo com o sociólogo brasileiro Jessé de Souza, a permanência da desigualdade social e
de sua invisibilidade pública no Brasil mostra que a explicação desse fenômeno não se restringe ao
fator econômico e deve ser buscada na dimensão histórica.
Em sua argumentação, Jessé de Souza destaca que o processo de modernização no Brasil ocor-
reu só do ponto de vista econômico. Crescemos economicamente de 1930 até 1980, com taxas
semelhantes às da China ou da Índia hoje em dia. Nesses 50 anos, o Brasil passou de um dos países
mais pobres do globo para o oitavo mais rico do mundo. Continua até hoje, entretanto, como um
dos países mais desiguais do mundo.
Por que isso acontece? Porque há produção e reprodução no Brasil de uma classe de indivíduos
(correspondente a um terço da população brasileira) que não tem acesso às oportunidades de tra-
balho, ao processo educacional e à participação política efetiva.
Para Jessé de Souza, os programas sociais implementados no Brasil, como o Bolsa Família, obe-
decem à lógica do curto prazo. Fundamentam-se na suposição de que a pobreza é um fato fortuito
e casual: se receberem uma pequena ajuda econômica, os indivíduos em situação de miséria poderão
caminhar com as próprias pernas. No entanto, as desigualdades entre as classes sociais em nossa
sociedade se reproduzem há séculos, a despeito das ações dos indivíduos e governos.

30 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 30 22/11/16 13:03


Baseando-se no sociólogo francês Pierre Bourdieu (1920-2002), Jessé de Souza afirma que a
classe social se transmite por herança familiar. Isso ocorre por meio de sinais invisíveis, como o medo
e a insegurança transmitidos na tenra infância, dos pais para os filhos, em famílias pobres, contra-
pondo-se ao estímulo da coragem e iniciativa transmitido aos bem-nascidos. Invisível também é a
desigualdade que nossa percepção comum produz e reproduz continuamente.
Essas considerações sugerem que, embora se observe uma pequena redução das desigualdades
sociais no Brasil, somente com uma mudança significativa nos processos políticos, econômicos e
culturais se poderá ver nas próximas décadas uma alteração profunda da situação que vivemos hoje.

CESAR GRECO/FOTOARENA
A miséria invisível: morador de rua
lava roupa com água da sarjeta em
região nobre da cidade de São Paulo,
SP, em 2011.

CENÁRIOS DA DESIGUALDADE NO BRASIL

A república dos doutores para significar uma distância social.


[…] no Brasil do começo do século 21, só há doutores. No caso, não há diferença nenhuma entre ser doutor e ser
[…] marquês de Carabás: ambos são títulos cujo uso vale como
Faça a prova: ligue para advogados, psicólogos, arquite- um gesto de submissão, como uma genuflexão. [...]
tos e outros profissionais liberais. Ouvirá: “A doutora Ora, a modernidade triunfa quando a diversidade das ori-
está em consulta”, “Vou ver se o doutor pode atender”. gens, das funções sociais e das condições econômicas não
Ligue para uma agência de publicidade, um escritório altera o fato de que somos todos essencialmente iguais.
comercial ou uma empresa e tente falar com um dirigen- […]
te (engenheiro, arquiteto, administradora etc.). É a mes- A alusão a uma educação superior, que é contida no título
ma coisa: “O doutor está em reunião”, “Quer deixar um “doutor”, serve também para justificar o privilégio: se al-
guém é doutor, “merece” ser rico. Com isso, a classe média,
SOCIOLOGIA
recado para a doutora?”.
[…] sempre ameaçada por seu retrocesso, pode acreditar que seu
As regras do uso legítimo do título de doutor dizem que privilégio não seja arbitrário e efêmero. Explica-se assim o
doutores são os que completam um doutorado e, por con- mistério das reuniões de condomínio em que todos os con-
sideração especial, os médicos. [...] No entanto, graças a dôminos são doutores e doutoras.
uma sabedoria vital em nosso mundo, […] [o título de Enfim, é provável que o uso de “doutor” como índice e jus-
doutor] não designa uma excelência acadêmica, mas serve tificação do privilégio social seja um sintoma constante em

A estrutura social e as desigualdades 31

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 31 22/11/16 13:03


CENÁRIOS DAS DESIGUALDADES DO BRASIL

todas as sociedades em que formas arcaicas de domínio prioritário da erradicação da miséria brasileira até 2014.
desvirtuam as formas modernas da diferença social. Nos anos 90, a cada dez brasileiros, quatro eram miseráveis.
“Doutor”, nessas sociedades, não é médico nem pós-gra- Hoje a proporção é de um para dez. O ganho é indiscutível.
duado: é quem tem cartão de crédito, acesso à sala VIP do Mas o desafio ficou maior: erradicar a miséria pressupõe
aeroporto e carro importado. atingir a bastilha da exclusão que no caso do Brasil tem uma
[…] intensidade rural (25,5%) cinco vezes superior à urbana
Calligaris, Contardo. A república dos doutores. Folha de S.Paulo. São Paulo, (5,4%).
21 abr. 2005. Ilustrada. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/ Silva, José Graziano da. A bastilha da exclusão. Carta Maior. Disponível em:
fq2104200531.htm>. Acesso em: 29 ago. 2012. <www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5070>.
Acesso em: 15 maio 2012.
A desigualdade entre o mundo rural e o
urbano O abismo brasileiro entre brancos e negros
A crise mundial de 2007-2008 [...] evidenciou a eficácia A diferença entre o número de brancos e negros na popula-
de uma ferramenta rebaixada nos anos 90: as políticas de ção brasileira diminuiu entre os anos de 1996 e 2006, se-
combate à fome e à pobreza, que se revelaram um impor- gundo o estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e
tante amortecedor regional para os solavancos dos merca- Raça, divulgado [...] pelo Instituto de Pesquisa Econômica
dos globalizados. Aplicada (Ipea). Se em 1996 o total de brancos correspondia
O PIB regional per capita recuou 3% em média em 2009 a 55,2% (85.261.961) da população e o de negros a 44,7%
e o contingente de pobres e miseráveis cresceu em cerca (68.929.113), em 2006, o total passou a ser de 49,7%
de nove milhões de pessoas. No entanto, ao contrário do (93.096.286) de brancos, frente a 49,5% (92.689.972) de
que ocorreu na década de 90, quando 31 milhões ingres- negros.
saram na miséria, desta vez o patrimônio regional de avan- A representante do Fundo das Nações Unidas para as Mu-
ços acumulados desde 2002 não se destroçou. lheres (Unifem) Maria Inês Barbosa acredita que o cresci-
Abriu-se assim um espaço de legitimidade para a discus- mento da população negra não tem a ver apenas com o cres-
são de novas famílias de políticas sociais, desta vez volta- cimento demográfico do país e, sim, com a melhoria na
das à erradicação da pobreza extrema. autoestima dessa parcela da população.
No Brasil, a intenção é aprimorar o foco das ações de “Desde a década de 80, houve uma reafirmação da identida-
transferência de renda, associadas à universalização de de negra. Isso provocou uma mudança entre as pessoas que
serviços essenciais e incentivos à emancipação produtiva. antes se consideravam pardas e, agora, se assumem negras”,
Espera-se assim alçar da exclusão 16,2 milhões de brasi- afirmou.
leiros (8,5% da população) que vivem com menos de R$ [...]
70,00 por mês. Se no total da população há equilíbrio entre negros e bran-
A morfologia da exclusão nos últimos anos indica que o cos, as desigualdades em relação à educação ainda perma-
êxito da empreitada brasileira — ou regional — pressu- necem.
põe, entre outros requisitos, uma extrema habilidade para Brancos e negros estão próximos quando analisada a inclu-
associar o combate à miséria ao aperfeiçoamento de polí- são no ensino fundamental. Há dois anos, 95,7% das crian-
ticas voltadas para o desenvolvimento da pequena produ- ças brancas cursavam os primeiros anos da escola. Já entre
ção agrícola. Vejamos. as negras, esse índice era de 94,2%. Entretanto, na análise
A emancipação produtiva de parte dessa população requer sobre a inclusão no ensino médio, as diferenças se ampliam.
habilidosa sofisticação das políticas públicas. São 58,4% de brancos e 37,4% de negros. O pesquisador do
Apenas 15,6% da população brasileira vive no campo. É Ipea, Jorge Abrahão, afirma que o crescimento econômico
aí, em contrapartida, que se concentram 46% dos homens não provoca diminuição da desigualdade entre negros e
e mulheres enredados na pobreza extrema — 7,5 milhões brancos.
de pessoas, ou 25,5% do universo rural. As cidades que “As desigualdades não diminuem tão rapidamente quanto o
abrigam 84,4% dos brasileiros reúnem 53,3% dos miserá- crescimento do país porque as políticas públicas fazem re-
veis — 8,6 milhões de pessoas, ou 5,4% do mundo urba- corte por renda e não por gênero ou raça”, disse.
no. “Fora isso, a renda pode aumentar, mas se está relacionada
Portanto, de cada quatro moradores do campo um vive em a fatores como escolaridade, e esse conjunto da população
condições de pobreza extrema e esse dado ainda envolve não alcança esse fatores, ele não atinge a renda”, completou
certa subestimação. As pequenas cidades que hoje abrigam Abrahão. [...]
RICHARD, Ivan; JUNGMANN, Mariana. População de negros e brancos quase se
algo como 11% da população brasileira constituem na ver- iguala, mas desigualdades continuam, diz Ipea. Agência Brasil, 10 set. 2008.
dade uma extensão inseparável do campo em torno do Disponível em: <www.socialismo.org.br/portal/identidades-racismo/204-
qual gravitam. Um exemplo dessa aderência são os 1.113 noticia/544-populacao-de-negros-e brancos-quase-se-iguala-mas-desigualdades-
continuam-diz-ipea>. Acesso em: 10 jul. 2012.
municípios do semiárido nordestino, listados como alvo

32 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 32 22/11/16 13:03


CENÁRIOS DAS DESIGUALDADES DO BRASIL

Ser ou não “doutor”, viver na cidade ou no campo, ser branco ou negro no Brasil: os dados aqui apresentados demonstram
três das várias manifestações das desigualdades existentes em nossa sociedade. Estabeleça relações entre elas.

TAREFA PARA CASA

1 Leia o texto e responda às questões. outro. Por mais sofrimentos que a gente tenha passado,
Alex Pereira Barbosa, ou MV Bill, é filho de Mano sentido e visto, ainda assim é possível no nosso caso
Juca, bombeiro hidráulico, e de Dona Cristina, dona de botar a cabeça no travesseiro e dormir sem o sentimento
casa. Nasce em 3 de janeiro de 1974 no conjunto habita- de omissão, por mais que a gente saiba que não vai con-
cional Cidade de Deus, situado na Zona Oeste do Rio de seguir mudar a realidade, mas saber que a gente está
Janeiro, onde mora até hoje. Bill é um apelido de infância, fazendo alguma coisa para mudar é o que me mantém
referência a “rato Bill” – desenho de um rato que vinha em vivo”, disse Bill durante o debate Violência e juventude,
figurinhas de chiclete durante a Copa do Mundo de 82. O realizado no auditório do Globo, em 11 de abril.
apelido MV aparece por volta de 1991, quando escuta Pu- Em 2006, esse trabalho encontra eco em imagens e
blic Enemy — grupo de Nova Iorque muito politizado choca o país com o lançamento do projeto-documentá-
— e lê as biografias de Malcolm X e de Zumbi dos Palma- rio Falcão — Meninos do Tráfico [...].
res. A partir daí, passa a conscientizar os moradores de sua Disponível em: <www.moo.pt/biografia-de-MV+Bill/>.
Acesso em: 12 mar. 2011.
comunidade, através de conversas e do rap. Algumas se-
nhoras evangélicas da Cidade de Deus, ao verem como o a) O livro para o qual MV Bill contribuiu focaliza as crian-
cantor transmitia a mensagem popular das favelas e suas ças participantes de redes criminosas no Brasil. Comen-
críticas aos problemas sociais, batizaram-no como Mensa- tando o livro, Bill defendeu que a obra “seria uma forma
geiro da Verdade. de a gente começar a apresentar um Brasil pro outro
[...] Brasil”. Explique essa frase com base no que você estu-
Referência comunitária, personagem midiático, MV dou sobre as desigualdades sociais no Brasil.
Bill é o símbolo de um discurso político que faz da crônica Resposta Pessoal
musical das guerras nas favelas brasileiras o ponto de par- b) Você acha que, ao promover ações comunitárias no
tida de uma fala urgente sobre violência, discriminação e As questões apresentadas incentivam a reflexão acerca da
desigualdade social no Brasil contemporâneo. Com base na
cidadania. Canta a realidade brasileira, resgatando a cultu- biografia e no discurso do músico MV Bill, questionam-se as
ra negra e conscientizando a periferia. Junto com o produ- disparidades existentes entre o Brasil dos pobres e o Brasil
tor Celso Athayde, criou a CUFA, Central Única das Fave- dos ricos, bem como o significado da mobilidade social na tra-
las, uma organização não governamental que possui bases jetória de um artista que preferiu continuar morando na região
pobre onde nasceu.
de trabalho em várias partes do Brasil e cuja forma de ex-
pressão predominante é o hip hop. Visa promover a pro- conjunto habitacional onde nasceu e vive e destacar
dução cultural das favelas brasileiras, através de atividades em sua música a condição do pobre e do negro no
nos campos da cidadania, educação, esportes e cultura. Brasil, MV Bill está ajudando somente os grupos mar-
Nela, jovens produzem videoclipes, documentários, shows, ginalizados ou o país como um todo?
além de participarem de oficinas que trabalham com ele-
2 Em sua obra O abolicionismo, Joaquim Nabuco afirma:
mentos do gênero.
Em abril de 2005, junto com o produtor Celso [...] Para nós, a raça negra é um elemento de consi-
Athayde e o ex-secretário de segurança, Luiz Eduardo Soa- derável importância nacional, estreitamente ligada por
res, lança Cabeça de Porco, pela editora Objetiva. O livro infinitas relações orgânicas à nossa constituição, parte SOCIOLOGIA
fala sobre os jovens no mundo do crime. Foram usadas integrante do povo brasileiro. Por outro lado, a emanci-
entrevistas e filmagens feitas por Athayde e MV Bill nos pação não significa tão somente o termo da injustiça de
últimos 15 anos em favelas de nove estados e pesquisa que o escravo é mártir, mas também a eliminação simul-
etnográfica de Luiz Eduardo sobre violência e polícia. tânea dos dois tipos contrários, e no fundo os mesmos:
[...] “A maior descoberta que a gente teve nessa pes- o escravo e o senhor.
NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Disponível em: <www.culturabrasil.pro.
quisa toda é que existe mais de um Brasil e o livro seria br/zip/oabolicionismo.pdf>. Acesso em: 3 dez. 2013.
uma forma de a gente começar a apresentar um Brasil pro

A estrutura social e as desigualdades 33

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a) Explique por que Joaquim Nabuco afirma que a eman-
X a) As sociedades ocidentais modernas produzem uma
cipação significa a eliminação simultânea dos dois tipos
estratificação social multidimensional, articulando cri-
contrários: o escravo e o senhor. Como eles são “no fundo
térios de renda, status e poder.
os mesmos”?
A resposta deve enfatizar que a ausência de escravo destrói também a pessoa b) Médicos, engenheiros e advogados são designados de
do senhor, porque não há senhor sem escravos. Daí serem eliminados os dois doutores porque suas profissões beneficiam mais a so-
num único ato. Eles são os mesmos porque o escravo “era as mãos e os pés do
senhor”, e a abolição os deixou sem ação por serem interdependentes. ciedade que as demais.
c) A titulação acadêmica objetiva a intimidação social e
b) As desigualdades sociais entre afrodescendentes e o res-
a demarcação de hierarquias que culminem em uma
to da população brasileira dependem somente do modo
sociedade de castas.
como foi feita a abolição da escravidão? Explique e justifi-
d) A intimidação social perante os subalternos expressa
que sua resposta.
A resposta deve expor a inexistência de uma autêntica abolição. O escravo
a materialização das castas nas sociedades modernas
ficou sem moradia e sem alimentação, e ser privado disso está longe de ocidentais.
constituir qualquer tipo de liberdade. Além desse ato inicial, a falta de quem o
empregasse, a vida nos quilombos, a discriminação sofrida no meio urbano e
e) Nas sociedades modernas ocidentais, a diversidade das
na participação como cidadão na educação provocaram a falta de integração no origens, das funções sociais e das condições econômi-
mercado de trabalho e a dificuldade de uma sobrevivência digna.
cas são critérios anacrônicos de estratificação.
A aceitação do uso de títulos não justificados academicamente, sobretudo
c) Nabuco tem razão quando afirma que a emancipação diante de subalternos, é um uso que eleva o status de quem assim se
pôs fim à injustiça que escravizava o escravo? apresenta.
Formalmente sim, pois houve apenas o reconhecimento legal da igualdade.
Mas era preciso muito mais para ele se tornar um cidadão livre. 2 (UEL, 2004)
3 A escola pode ser um instrumento importante na redução Em 1840, o francês Aléxis de Tocqueville (1805-
das desigualdades, seja assegurando aos jovens condições 1859), autor de A democracia na América, impressionado
para obter posteriormente melhores empregos, seja cons- com o que viu em viagem aos Estados Unidos, escreveu
cientizando-os acerca dos problemas relacionados à distri- que nos EUA, “a qualquer momento, um serviçal pode
buição de renda no país. Sabemos que no Brasil a maioria se tornar um senhor”. Por sua vez, o escritor brasileiro
das pessoas das camadas mais favorecidas estuda em esco- Luis Fernando Verissimo, autor de O analista de Bagé,
las particulares, enquanto a maioria dos que têm menos pri- disse, em 1999, ao se referir à situação social no Brasil:
vilégios frequenta a escola pública. Existem diferenças entre “tem gente se agarrando a poste para não cair na escala
as escolas públicas e as particulares no Brasil? Quais são? Se social e sequestrando elevador para subir na vida”. As
essas diferenças existem, como elas afetam a realização do citações anteriores se referem diretamente a qual fenô-
potencial transformador da escola? Por quê? meno social?
A educação é vista em nossa sociedade como uma das possibilidades de promoção a) Ao da estratificação, que diz respeito a uma forma de
da ascensão social. Porém, a maneira como a educação vem sendo realizada no organização que se estrutura por meio da divisão da
Brasil contribui para a reprodução da desigualdade. Nossos alunos estão diretamente
implicados nesse processo. Aqui, pede-se que eles reflitam sobre as desigualdades a sociedade em estratos ou camadas sociais distintas,
partir da sua própria realidade. conforme algum tipo de critério estabelecido.
b) Ao de status social, que diz respeito a um conjunto de
COMPLEMENTARES
PARA PRATICAR direitos e deveres que marcam e diferenciam a posição
de uma pessoa em suas relações com as outras.
1 (UEL, 2006) c) Ao dos papéis sociais, que se refere ao conjunto de
Contardo Calligaris publicou um artigo em que comportamentos que os grupos e a sociedade em
aborda a prática social brasileira de denominar como geral esperam que os indivíduos cumpram de acordo
doutores os indivíduos pertencentes a algumas profis- com o status que possuem.
sões, dentre eles médicos, engenheiros e advogados, X d) Ao da mobilidade social, que se refere ao movimento,
mesmo na ausência da titulação acadêmica. Segundo o à mudança de lugar de indivíduos ou grupos num de-
autor, estes mesmos profissionais não se apresentam terminado sistema de estratificação.
como doutores no encontro com seus pares, mas apenas e) Ao da massificação, que remete à homogeneização
diante de indivíduos de segmentos sociais considerados das condutas, das reações, desejos e necessidades dos
subalternos, o que indica uma tentativa de intimidação indivíduos, sujeitando-os às ideias e objetos veiculados
social, servindo para estabelecer uma distância social, pelos sistemas midiáticos.
lembrando a sociedade de castas. A questão levantada Nas democracias autênticas, todo indivíduo pode mudar de classe social se
por Contardo Calligaris aborda aspectos relacionados à fizer o esforço necessário para alcançar uma situação melhor na sociedade.

estratificação social, estudada, entre outros, pelo soció-


logo alemão Max Weber. De acordo com as ideias webe-
rianas sobre o tema, é correto afirmar:

34 A estrutura social e as desigualdades

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TAREFA PARA CASA

3 (UEL, 2010)
das Garrafadas.
Considerando o tema desigualdade social no Brasil, c) do apoio que escravos e negros forros deram à monar-
assinale o que for correto. quia, com a perspectiva de receber sua proteção contra
01) A pobreza está em grande parte relacionada à crença as injustiças do sistema escravista.
na fartura do nosso solo e na oferta abundante de frutos, d) do repúdio que os escravos trabalhadores dos portos de-
plantas e alimentos. Essa crença leva diversas pessoas a monstravam contra os marinheiros, porque estes repre-
acreditarem que, no nosso país, não há necessidade de sentavam a elite branca opressora.
trabalhar. e) da expulsão de vários líderes negros independentistas,
X 02) À medida que a sociedade brasileira se industrializou e que defendiam a implantação de uma república negra a
se urbanizou, foi se constituindo, nas cidades, uma gran- exemplo do Haiti.
de massa de desempregados e de pessoas excluídas dos Nas democracias autênticas, todo indivíduo pode mudar de classe social se fizer o
trabalhos legais e formais do sistema produtivo. esforço necessário para alcançar uma situação melhor na sociedade.
X 04) Pesquisas realizadas por organismos nacionais e inter- 5 (ENEM, 2011)
nacionais apontam que os negros e os pardos brasileiros As migrações transnacionais, intensificadas e genera-
recebem salários menores e têm acesso restrito às me- lizadas nas últimas décadas do século XX, expressam as-
lhores condições de habitação, saúde e educação formal. pectos particularmente importantes da problemática ra-
08) Os avanços tecnológicos de nossa sociedade tendem cial, visto como dilema também mundial. Deslocam-se
a difundir os benefícios sociais a todas as classes sociais. indivíduos, famílias e coletividades para lugares próximos
Nesse sentido, a pobreza é considerada hoje uma situa- e distantes, envolvendo mudanças mais ou menos drásti-
ção social em vias de extinção. cas nas condições de vida e trabalho, em padrões e valores
16) As condições precárias de saúde, habitação e educação socioculturais. Deslocam-se para sociedades semelhantes
de diversas regiões do nosso país são decorrentes da bai- ou radicalmente distintas, algumas vezes compreendendo
xa produção de bens, serviços e riquezas. culturas ou mesmo civilizações totalmente diversas.
Ianni, O. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
A somatória correta é (02 + 04 = 06)
A dificuldade de inclusão e a exclusão total ocorrem no Brasil devido a
A mobilidade populacional da segunda metade do
diferenças étnicas e a uma urbanização sem o mínimo planejamento. século XX teve um papel importante na formação social e
econômica de diversos estados nacionais. Uma razão para
4 (ENEM, 2009) os movimentos migratórios nas últimas décadas e uma
No tempo da independência do Brasil, circulavam nas política migratória atual dos países desenvolvidos são:
classes populares do Recife trovas que faziam alusão à re- X a) a busca de oportunidades de trabalho e o aumento de

volta escrava do Haiti: barreiras contra a imigração.


Marinheiros e caiados b) a necessidade de qualificação profissional e a abertura
Todos devem se acabar, das fronteiras para os imigrantes.
Porque só pardos e pretos c) o desenvolvimento de projetos de pesquisa e o acautela-
O país hão de habitar mento dos bens dos imigrantes.
Amaral, F. P. Apud Carvalho, A. Estudos pernambucanos. d) a expansão da fronteira agrícola e a expulsão dos imi-
Recife: Cultura Acadêmica, 1907. grantes qualificados.
O período da independência do Brasil registra confli- e) a fuga decorrente de conflitos políticos e o fortalecimen-
tos raciais, como depreendemos: to de políticas sociais.
X a) dos rumores acerca da revolta escrava do Haiti que cir- Com as crises do final do século XX, a onda migratória se renovou. Tanto países
culavam entre a população escrava e entre os mestiços ricos como pobres tinham mão de obra ociosa nos mais diversos campos de
atividade. Por outro lado, tinham também carências de habilitação profissional
pobres, alimentando seu desejo por mudanças. que o fenômeno migratório ajudaria a solucionar. Buscar soluções individuais e
b) da rejeição aos portugueses brancos, que significava a re- grupais dependia da aceitação de imigrantes com certas limitações.
jeição à opressão da Metrópole, como ocorreu na Noite
SOCIOLOGIA

A estrutura social e as desigualdades 35

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CONEXÃO DE SABERES

A
LV
SI
EX
AL

36 A estrutura social e as desigualdades

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SOCIOLOGIA

A estrutura social e as desigualdades 37

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LEITURAS E ATIVIDADES
como Eric Vermelho.
PARAPARA REFLETIR
PRATICAR
“Não estamos invadindo. Queremos dar um passeio
Leia o texto a seguir e discuta com os colegas da como qualquer família. Se nós construímos os shoppings,
classe as questões propostas. por que não podemos entrar?”, disse Eric.
Apesar da promessa de não violência, a administra-
Favelados e punks “invadem” shopping ção do shopping reuniu seus seguranças para acompanhar
o “passeio” dos militantes, que encenaram performances

FABRIZIA GRANATIERI/FOLHAPRESS
com leitura de poesias, rodas de capoeira e representações
teatrais.
[…]
Antes de deixar o shopping, obtiveram uma última
concessão da administração do estabelecimento, que alu-
gou três ônibus para levá-los de volta à zona oeste da ci-
dade.
Dantas, Pedro. Protesto em shopping do Rio foi ”contra o sistema capitalista”.
Folha de S.Paulo. São Paulo, 4 ago. 2009. Cotidiano. Disponível em: <www1.
folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u6628.shtml>. Acesso em: 29 ago. 2012.

Na praça de alimentação, grupo comemora a “invasão” do Durante os últimos anos, os shopping centers se espa-
shopping com músicas, comida e refrigerantes. lharam pelas cidades de grande e médio porte. Por que
existem limitações para entrar e circular nesses espaços?
Um grupo de 130 sem-teto, favelados, estudantes e Pode-se negar às pessoas o direito de circular pela cidade?
punks inaugurou uma forma inédita de protesto nesta Os shopping centers foram construídos apenas para quem
sexta-feira no Rio ao promover uma invasão pacífica do pode consumir ou são mais um espaço urbano de convi-
shopping center Rio Sul, em Botafogo, na zona sul. vência?
O objetivo, segundo os organizadores, era protestar
“contra o sistema capitalista, mostrando o contraste entre PARA ORGANIZAR O CONHECIMENTO
o consumo supérfluo e a fome”.
O protesto dividiu a opinião de compradores, comer- 1 Escreva um pequeno texto relacionando esta charge ao
ciantes e turistas, surpreendidos pelo contraste entre as
conteúdo da unidade.
vitrines e os corredores de mármore do shopping e a apa-
rência simples dos manifestantes.

ANGELI, 2000.
“Estão nos coagindo utilizando como arma o fator
surpresa, fatal para nós que vivemos na tensão da cidade
grande”, disse Eliomar Marques Lins, 25, que fazia com-
pras com a mulher.
“Não fiquei com medo. O movimento é bom porque
a desigualdade aqui é imensa”, disse o turista inglês Peter
Cook.
Mesmo diante do olhar desconfiado dos lojistas, os
sem-teto não se intimidaram: entraram nas lojas, experi-
mentaram roupões de seda e puseram seus filhos para
brincar com brinquedos importados.
[…]
A entrada dos manifestantes no shopping foi nego-
ciada entre o chefe do CPC (Comando de Policiamento da
Capital), coronel Fernando Belo, e o líder do MTST [Mo- 2 Leia o texto e discuta as questões propostas.
vimento dos Trabalhadores Sem Teto], que se identificou

38 A estrutura social e as desigualdades

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Desiguais na vida e na morte PARA
PARA PESQUISAR
PRATICAR
A morte de Ayrton Senna comoveu o país. O desa-
lento foi geral. Independentemente do “big carnival” da 1 Junte-se a alguns colegas e façam um levantamento das
mídia, todos perguntavam o que Senna significava para explicações que as pessoas de diferentes classes sociais,
milhões de brasileiros. Por que a perda parecia tão gran- idades, gêneros e raças/etnias dão para a existência das de-
de? O que ia embora com ele? sigualdades no Brasil. Identifiquem nessas explicações pos-
Dias depois, uma mulher morreu atropelada na ave- síveis preconceitos de classe, gênero e raça.
nida das Américas, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Ficou
estendida na estrada por duas horas. Como um “vira-la- 2 Pesquise situações, em seu dia a dia, em que se expressa
ta”, disse um jornalista horrorizado com a cena! Nesse a invisibilidade das desigualdades sociais. Registre o que
meio-tempo, os carros passaram por cima do corpo, es- observou e apresente suas conclusões para os colegas e o
magando-o de tal modo que a identificação só foi possível professor.
pelas impressões digitais. Chamava-se Rosilene de Almei-
da, tinha 38 anos, estava grávida e era empregada domés-
LIVROS RECOMENDADOS
PARA PRATICAR
tica.
Efeito paroxístico do apartheid simbólico que fabri- Atlas da exclusão social no Brasil, v. 3:

CORTEZ EDITORA
camos, pode-se dizer. De um lado, o sucesso, o dinheiro, Os ricos no Brasil, de Márcio Pochmann
a excelência profissional, enfim tudo o que a maioria acha e outros (orgs.). São Paulo: Cortez.
que deu certo e deveria ser a cara do Brasil; do outro a Análise muito precisa sobre a formação
desqualificação, o anonimato, a pobreza e a promessa, na e a reprodução da camada dos ricos no
barriga, de mais uma vida severina. Brasil desde o período colonial, mas prin-
O brasileiro quer ser visto como sócio do primeiro cipalmente depois do século XIX.
clube e não do segundo. Senna era um sonho nacional, a
imagem mesma da chamada classe social “vencedora”;
Rosilene era “o que só se é quando nada mais se pode
A fome no mundo explicada a meu fi-
EDITORA VOZES

ser”, e que, portanto, pode deixar de existir sem fazer


lho, de Jean Ziegler. Petrópolis: Vozes.
falta. Luto e tristeza por um; desprezo e indiferença por
outro. Duas vidas brasileiras sem denominador comum, Um pai procura responder às perguntas
exceto a desigualdade que as separava, na vida como na do filho sobre a fome no mundo. Com
morte. linguagem fácil, Jean Ziegler analisa as
[...] causas políticas, econômicas, sociais e
A honra que coube a Senna era justa e legitimamen- também ecológicas da existência das de-
te devida. Mas torná-lo um “ideal” de “identidade nacio- sigualdades no mundo.
nal”, como muitos pretenderam, é fazer de sua memória
caricatura de nossa incompetência cívica e humana. No SUGESTÃO
PARA DE FILMES
PRATICAR
nível da cidadania, a excelência é outra. É saber como
impedir que outras “Rosilenes” sejam trituradas como Central do Brasil (Brasil, 2000). Dire-
WALTER CARVALHO (FOTO)/SONY PICTURES CLASSICS

lixo no asfalto, pelos possíveis amantes de corridas de ção: Walter Salles.


automóveis. Um dos aspectos mais visíveis da de-
É esse o “x” do problema: mostrar que qualquer sigualdade nacional, o analfabetismo,
vida, pobre ou rica, famosa ou anônima, deve ser respei- está na base desse filme. Seu persona-
tada como um bem em si. O mais é exploração comercial gem principal, Dora (Fernanda Monte-
inescrupulosa da vida e da morte dos melhores e mais negro), ganha a vida escrevendo cartas
honrados. para analfabetos na estação de trem
Costa, Jurandir Freire. Desiguais na vida e na morte. Folha de S.Paulo. São Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Ali
Paulo, 22 maio 1994. Mais!, p. 15. Disponível em: <http://acervo.
conhece um garoto de 9 anos e deci-
SOCIOLOGIA
folha.com.br/fsp/1994/05/22/72>. Acesso em: 29 ago. 2012.
de realizar o sonho dele de viajar para o
Nordeste, em busca do pai. Além de uma viagem ao interior
Esse texto trata de um dos fenômenos mais chocan- do Brasil, onde as desigualdades são muito visíveis, há tam-
tes neste país e no mundo: a banalização da vida, em bém uma viagem ao interior dos personagens.
especial da vida das pessoas anônimas. Será que a vida de
uns vale mais do que a de outros? Se todos somos huma-
nos, quais são os critérios para essa diferenciação?

A estrutura social e as desigualdades 39

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Domésticas — O Filme (Brasil, 2001). Direção: Fernando Meirel-

Lauro Escorel (foto)/02 filmes


les e Nando Olival.
Gerente editorial: M. Esther Nejm
Esse filme narra com humor e poesia a vida cotidiana de cinco Editor responsável: Glaucia Teixeira M. Thomé
domésticas no Brasil. No centro da cena estão Cida, Roxane, Qui- Coordenador de revisão: Camila Christi Gazzani
téria, Raimunda e Créo, com seus diferentes desejos e horizon- Revisores: Cesar G. Sacramento, Eduardo Sigrist, Elza
Gasparotto, Felipe Toledo
tes, da esperança de encontrar o príncipe encantado ou de ser Coordenador de iconografia: Cristina Akisino
artista de novela à intenção de servir exclusivamente a Deus e à Pesquisa iconográfica: Cesar Atti
Licenciamento de textos: Érica Brambila
patroa. É nesse mosaico de situações que podemos perceber o
Gerente de artes: Ricardo Borges
significado e a realidade da profissão de doméstica, essa figura Coordenador de artes: José Maria de Oliveira
que vive a intimidade de uma casa como se não estivesse lá. Produtor de artes: Narjara Lara
Assistentes: Jacqueline Ortolan, Paula Regina Costa
de Oliveira
Ilustrações: Alex Silva, Luigi Rocco, Rogerio Soud
Cartografia: Mario Yoshida, Portal de Mapas
Tratamento de imagens: Emerson de Lima
Produtor gráfico: Robson Cacau Alves
ANOTAÇÕES Projeto gráfico de miolo: Daniela Amaral,
Talita Guedes
Colaboraram para esta Edição do Material:
Projeto Sistema SESI de Ensino
Gestão do Projeto: Thiago Brentano
Coordenação do Projeto: Cristiane Queiroz
Coordenação Editorial: Simone Savarego, Rosiane
Botelho e Valdete Reis
Revisão: Juliana Souza
Diagramação: Lab 212
Capa: Lab 212
Ilustrações de capa: Aurielaki/Golden Sikorka/
Sentavio/Macrovector/Shutterstock
Consultores
Coordenação: Dr. João Filocre
Sociologia: Dra. Vera Alice Cardoso da Silva
SESI DN
Superintendente: Rafael Esmeraldo Lucchesi
Ramacciotti
Diretor de Operações: Marcos Tadeu de Siqueira
Gerente Executivo de Educação: Sergio Gotti
Gerente de Educação Básica: Renata Maria Braga
dos Santos

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Pinheiros – São Paulo – SP
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Tomazi, Nelson Dacio


Sistema de ensino ser : sociologia : 1º ano :
professor / Nelson Dacio Tomazi. — 3. ed. — São
Paulo : Ática, 2017.

1. Sociologia (Ensino médio) I. Título.

16-08238 CDD-301

Índices para catálogo sistemático:


1. Sociologia : Ensino médio 301
2016
ISBN 978 85 08 18420 0 (AL)
ISBN 978 85 08 18421 7 (PR)
3ª edição
1ª impressão

Impressão e acabamento

Uma publicação

40 A estrutura social e as desigualdades

book-SESI_EM_SOC_1SERIE.indb 40 22/11/16 13:04


PROFESSOR

Capa_Sociologia FINAL.indd 3 18/11/16 18:39