Anda di halaman 1dari 336

VOCABULÁRIO

POLÍTICO
PARA
PROCESSOS
ESTÉTICOS
RIO DE JANEIRO
2014
Annick Kleizen
VOCABULÁRIO Anamalia Ribas
André Basséres
POLÍTICO André Luiz Mesquita
Barbara Lito
PARA Beatriz Lemos
Breno Silva
PROCESSOS Brian Holmes
Cecilia Cotrim
ESTÉTICOS Cristina Ribas
Davi Marcos
EQUIPE Daniela Mattos
concepção, mediação, edição Cristina Ribas Enrico Rocha
produção e edição Sara Uchoa Fernando Monteiro / Das Lutas
site Inês Nin Georgiane Abreu
consultoria Anamalia Ribas Giseli Corrêa Vasconcelos
revisão de textos ValdiriaThorstenberg Graziela Kunsch
design Priscila Gonzaga / Editora Aplicação Helio Oiticica
Inês Nin
ESPAÇOS PARCEIROS Isabel Ferreira
Casa Nuvem e Capacete Jeferson Andrade
Josinaldo Medeiros
VOCABPOL Julia Ruiz di Giovanni
Juliana Leal Dorneles
vocabpol.cristinaribas.org Kadija de Paula
facebook.com/vocabpol Laura Lima
t w i t t e r. c o m / v o c a b p o l Luiza Cilente
O Vocabulário Político para Processos Lucas Rodrigues
Estéticos está licenciado sob Creative Lucas Sargentelli
Commons - Atribuição - Uso Não Comer- Margit Leisner
cial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Pedro Mendes
Brasil, com exceção das páginas indica- Pierre Garcia
das com uma licença própria. Raphi Soifer
Rodrigo Nunes
Sara Uchoa
Distribuição Steffania Paola
gratuita, proibida Tatiana Roque
9 788566 593037 a venda Tiago Régis
Índice irremissível

aborto bios  p.324; cavalo  p.79;


ação bitola cavalo de macumba
acabou o amor black catalização
black bloc caveirão
acusação bloco cerveja
administração burocrática bloco de imagens  p.29; cidadão
advogado pra baixar o aluguel bloco dos machistas cineasta
afetivismo bolsa família  p.183; cláudia
água bomba coadjuvante
água 3,00 bomba de efeito moral côco
alianças de solidariedade política bomba de gás coisa séria
alimentar a produção de conceitos bomba de pimenta coletivo  p.291;
amar boneco coletivos na sombra e no sol
book bloc coletivo nome na porta
amarildo bordas companheiro
anônimo brasil  p.59; complexidade  p.89;
(o) ano que não acabou brasiu  p.59; comunicação
anti-herói brazis  p.59; comunicação social
anti-herói anônimo  p.47; cabral é ditador concessionária  p.291;
arrastada cabralhada condições do diálogo
arte cabrália conspiração  p.109;
arte panfletária camarão  p.121; contágio  p.314;
artesouvida  p.121; capenga filosófico contaminação  p.168;
(o) capenga propõe contaminação ideológica
artista (o) capenga sabe mais convencer a sua mãe
artista-etc  p.121; cara de cavalo convivência
assembleias  p.53; carnaval contra-cartografia
a-significante carnavandalirização contrato
bacia  p.168; carona na estrada conspiração das mulheres
bagunça  p.56; carta de não constelário de ilhas
banco  p.292; participação  p.71; construir / destruir
basta um beijo  p.314; carteira de trabalho contaminar
batman cartografia conversar
cartografia esquizoanalítica copa
batman pobre casa corpo
beijo  p.314; católicos fervorosos corpo-do-
beijo coletivo catraca pesquisador(a)  p.89;
bicicleta  p.243; catraca livre corpo-no-mundo  p.89;

5
crimininalização  p.291; espacialidades genocício  p.213;
curadoria experimentais   p.155; glossário
curadoria de performance especificidade governos democráticos
crase esperando uma coisa acontecer gramática
crime estética de efeito grupo
davi marcos  p.112; estética de mapeamento grupo de educação
defensor cognitivo  p.109; popular  p.159;
defumador estética relacional grupos
deflagrar estético hashtag
deletério estrangeirismo há um lapso entre o que eu digo
democracia estratégia  p.140; e o que você escuta  p.305;
(a) democracia como problema estressar helio oiticica
democracia real estudantes herói capenga
desafio etnocentrismo hidrogenerosidade  p.168;
desarquivo  p.25; p.47; etnoempoderamento  p.143; hidrosolidariedade  p.168;
p.210; p.249; eu sou rico hífen representativo
desditorial  p.9; evento  p.150; hospedeiro
des//dobramento/s  p.118; excesso  p.153; humor  p.177;
desejo excesso da linguagem incorporação de automatismos
desembargador excesso de informação técno-linguísticos
desolee exercício pessoal por essa identidade bricolada
determinações invariáveis matéria comum identificar
diferença experiência  p.155; ilda furacão
diagrama  p.123; expressão ilda facão  p.183;
diagramática  p.89; expulsão imigrantes
diálogo  p.305; expulsos  p.37; incriminar
dg exquema infraestrutura  p.183;
diluir facebook inimigo
dimensão afetiva das práticas factóide de representação insígnia
disciplina faculdade intercâmbio de
disponibilidade fakebuki sensibilidades  p.9;
disputa falar a língua do inimigo internet
dissonância farinha de mandioca intersecção incessante
dividir amarela  p.121; instaurações situacionais
doença favela da telerj  p.37; invasores
domínio público feminismo inventário
download espiritual  p.305; feministas ironia
economia criativa ficar no mato justiceiras do capivari
economia do cuidado ficcionalizar registros laboro ergo sum
(a) economia é a gramática fifa last and maybe least  p.305;
universal filha da puta legibilidade  p.153;,
econômico filho da puta p.125; p.305;
educação padrão fifa filosofia intrínseca leis
embolar / deslocar fluxo de informação leis do diálogo  p.305;
encontro  p.305; fluxos legado
encontro de águas  p.168; forense legalizar o aborto  p.183;
encurralados na tijuca  p.205; forense capenga  p.156; leminski  p.305;
enough is enough fórum permanente ler mais.... ler mais....
episódio de frequência amorosa ler mais....  p.125;
esquizofrenia  p.249; fugir letreiro vermelho aceso
erickson pires fumacê do descarrego levante de junho
escândalo  p.233; função levantar acampamento
escrever  p.125; galerinas libidinosa
escriba  p.9; gambiarra licença maternidade
escuta  p.135; gambiarrista limpar a cidade no final do carnaval
escuta atenta gambiarreiro  p.156; língua
esforço gari linguagem

6
linguagem forense  p.156; nervosso  p.64; prêmio upp
(a) linguagem socializa nós preço de local
e racionaliza nós da rede  p.305; presença da
livro nossa vizinhança  p.314; ausência  p.71;
livro-invenção  p.9; o corpo é de luta e não primavera fria na
lugar  p.202; de perfumaria  p.314; gringolândia  p.156;
lutas ocupação processo
lutas feministas ocupa alemão processo de
macropolítica ocupa carnaval recomposição  p.183;
macunaíma  p.168; ocupa rio processos
mãe oficina processos estéticos
mamão formosa 3,00 reais oi processos políticos
mangina onde está o Amarildo? processos político-estéticos
manifestações  p.205; ônibus produção
manifesto afetivista  p.210; (o) problema da democracia produção desejante
máquina outro como matéria produtora
maquinal pagu funk produzir em
maquínico palavra como experiência movimento  p.71;
maré  p.213; palavras produzir imagens
mariachi papel com pessoas  p.249;
marxismo em casa parede projetos // processos  p.121;
máscara parque de diversões do prazer prostitutas
masculinistas partitura protesto
matar partitura de performance protocolo
medo  p.205; passe livre protocolo de
memes das redes sociais passagem prorrogação  p.156
meninada pedagogia puta
meu-cu-é-laico pedagogia crítica puta que pariu!
micropolítica pensar o capenga putinhas aborteiras
midia forensicamente  p.156; quatro litros de tucupi da
midiativismo enfezadinho pé na bunda amazônia  p.118;
midia independente perfume queimar a câmara de vereadores
midia ninja perfumaria  p.314; queimar a catraca
midia travesti  p.205; permacultura racismo  p.143;
migração performance rafucko
mineirinho performatividade  p.118; ramificações do desejo
morrer performativo recombinação
morte perimetral recombinação global
movimento perspectiva contínua  p.305;
movimento passe livre  p.291; perspectiva feminista  p.183; redário  p.168;
mujica macapoara  p.121; pexerecas costuradas rede
mulher pézão rede completa de
mulher não chegava poço da draga  p.314; uma trama  p.109;
perto do fogo poder de prospecção redoma de significado
mulheres polícia regimes ditatoriais
mudez  p.227; policial registros dos
mudo polícia militar  p.205; encontros  p.320;
mulheres:violência  p.233; ponto de vista repique  p.179;
mundo ponto de vista particular repressões
(o) mundo é a obra pororoca  p.168; resampleagem
multidão purpurina dourada residência
muro  p.238; praça reslatim
não-ação praça de bolso  p.243; responsabilidade
não caber prática responsa-habilidade  p.317;
(o) não saber práticas artísticas ressignificação de território
não dá pra falar qualquer coisa práticas comunicativas rhr  p.249;
nem marginal nem herói práticas políticas rigor de especificação

7
rio de janeiro transversal
rio de janeiro é o centro tropa
da produção cultural tropa de choque
rionarua tropa do nhoque
riso turismo de
ritmanalista comunidade   p.135;
ritmo p.314;
ritmos externos turismo sexual
rio na rua twitter
rjnarua upp
robin hood às avessas  p.314; upp cadê meu
rojão filho?  p.41;
rojão do fabio e do caio vagina
rojão do santiago vai soltando
rua vai tomar no cú!  p.9;
ruído de significação valeu
saída  p.156; valor
sai do armário valor socialmente definido
sair  p.266; valor na dimensão da vida
se benze que dá   p.33; vegano
serve luz versões
ser vibração
serpenteia viemos do egyto
significação vital
silêncio  p.118; vinagre
sintaxe  p.289; violência
si podemos (a) violência também é capenga
streaming  p.130; violentas  p.233;
sociabilidade temporária viralizar
subiu vírus  p.305;
sufocaço  p.233; vizinhança  p.314;
sufragistas  p.233; vocabular
suja a rua mermo vocabulário comum
surreais vocabulário cruzado  p.317;
tarifa zero  p.291; vocabulário da rua
taxação da riqueza vocabulário político
técnicas vocabulinário
técnicas de luta  p.305; vocabulosos  p.9;
tem coisa com a mãe vocavulário
temor você ainda tá na arte?
tensão vou cortar sua pica
terror   p.213; vulvário
tornar a máquina quente vulva quae sera tamen
totalidade de um zona
sistema social  p.109; zona ética
trabalhar zona de contaminação
trabalhar por projeto zona portuária
trabalho
trabalho reprodutivo  p.183;
(a melhor) tradução entre ***
2 línguas é o beijo  p.156;
trans  p.205; p.305;
transcriação
(do texto)  p.305;
transdução  p.305;
transparência
transprocessos

8
Para ler em voz alta
Como falar dos processos estéticos que nos
transformam em nossos cruzamentos com a
política?
Como nossos vocabulários se intersectam uns
aos outros todo o tempo?

O Vocabulário político é um projeto o espaço de implosão de duas formali-


que deseja abrir espaço para falar zações: uma delas a da individualida-
dessas questões. Deseja criar espaço de (do falar sozinho, da autoria) e a
para pensar os cruzamentos e as outra a da política como espaço que
intersecções no vocabulário que apenas poderíamos acessar com
construímos junto a nossas práticas vocabulários específicos ou com formas
políticas, artísticas, sociais. já conhecidas. Para abrir esse espaço
O Vocabulário político deseja abrir de implosão falar em excesso é produti-
espaço para falar a partir do que vo, falar em excesso e ouvir, claro.
fazemos, e falar a partir do que deseja- E colocar-se disponível às ruas, aos
mos fazer. Falar de como criamos e encontros, às assembleias, aos momen-
como criamos na política. tos que nos desorientam na arte, na
Não a política como o espaço inacessí- política, no trabalho, na vida íntima.
vel do poder, mas a política a partir de É produtivo abrir um espaço de escuta,
nossas vidas individuadas e nossas de disponibilidade para outros assun-
coletividades, em direção a uma tos, outras abordagens, outros pontos
política do comum. A estética aqui de vista e outras perspectivas.
é proposta como a maneira de acessar Mas a política como espaço de
os processos de transformação que transformação é também o espaço do
experienciamos no sensível, a partir encontro, da identificação, da sintonia,
do que vivenciamos, percebemos e de ritmanalizações… Pelo desejo de
expressamos, sensibilidade não interseccionar nossos vocabulários
fechada quando os processos da e encontrar os que tomam parte nessa
política estão vivos em nossos corpos. conversa, na passagem de um espaço
O político do vocabulário é, então, para outro — do projeto que aconteceu

9
no Rio de Janeiro para você leitor voz alta como parte de um processo
falante e seus vocabulários —, analítico (ouvir a si e ao outro, ouvir
trabalhamos nos últimos meses na outros) e colocar-se a par de como
construção de um vocabulário escrito, falamos, com quem falamos. Por isso
um para-além-de-um-glossário. a proposta que trazemos a você(s)
Esse que você tem agora em mãos. leitor-falante é a de ler em voz alta,
O Vocabulário político passa então de abrir junto o espaço de politização
pelo crivo da escrita como espaço de dos nossos vocabulários, de composição
experimentação de outros espaços que, como espaço de experimentação,
de fala, e de outras táticas de intervenção se faz estético.
em nossos vocabulários, escrita O Vocabulário por isso se torna
essa atravessada por corpos vivos, vocabulinário, espaço de promiscuida-
em composição. de da língua, da criação e da política.
O vocabulário de escritas que surgiu Espaço de roçamento, de esfregamento
deseja participar da leitura em voz dum modo de falar com outro, e dos
alta, e de uma fala mais solta, outros com os outros, e consigo mesmo.
que encontre o espaço imprevisível Da ideia de que a palavra ocupa o
do pensamento, que passe eventual- corpo — ou é o corpo todo que ocupa-se
mente para além da configuração das palavras — vem a percepção de um
das palavras que já significam nossas corpo plural, que entre em uma ritma-
práticas, para produzir novos ritmos, nalização constitutiva com nossos
e para compor com nossas coletivações, processos vitais, sociais, existenciais,
sem deixar de abrir outros sentidos em criativos.
processo, em processamento.
Cristina Ribas
O Vocabulário político na sua forma Outubro de 2014

escrita, organizado em Entradas,


passou pelas amarras da escrita,
do exercício intrínseco e às vezes árduo ***
dos conceitos e dos discursos, que pode
recair em estéticas mais formalizantes,
aquelas que se aproximam das enciclo-
pédias e dos dicionários. Acessamos
essas formalizações para com elas
retomar um espaço de fala e de criação.
O espaço que o vocabulário quer
provocar é, portanto, um vocabular em

10
Desditorial
Vocabulário político para processos estéticos

Editorial
  / Encontros
    / Como o Vocabulário-livro é organizado
      / O que o Vocabulário político quer fazer?
       / Vocabulinar não se faz só
         / Entre aprender e produzir
           / Fazer um vocabulário?

DESDITORIAL
Depois de 300 páginas de livro, Eu mesma já escrevi em EXCESSO, escrevi
mas de um livro-invenção que é como demais, a partir do que conversamos e
esse se propõe e como eu digo mais para diagramamos no Rio de Janeiro, a partir
baixo, me pergunto: ainda é necessário de um desejo de falar do que me parece
escrever mais? Ou dizer mais? urgente e daquilo com o qual me envolvo
Para mim, como organizadora, cataliza- hoje em dia, individual e coletivamente.
dora, vocabulinária e escritora nesse O desditorial vem, então, — seguindo
projeto é como se cada entrada fosse um a ideia de que há várias maneiras de ler,
editorial ela mesma, como se cada de escutar e de entrar nesse espaço de
entrada do Vocabulário político fosse uma intervenção em nossos vocabulários —,
introdução e uma apresentação, como se fazer o meio de campo entre falar do que
cada uma delas abrisse à sua maneira um o projeto Vocabulário político tinha por
acesso ao livro-todo. desejo incitar e falar do que temos aqui,
O Vocabulário político é um em mãos — um desditorial. O editorial/
livro-invenção, um livro como espaço desditorial apresenta o projeto na sua
de escuta e espaço de leitura, em voz ideia, traz um tanto de referências conceitu-
alta, de um vocabulário comum, ais e também relata um pouco do que
ou de um vocabulário endereçando aconteceu nos encontros presenciais no
um comum, produzindo um comum, Rio de Janeiro em Abril de 2014.
repleto de singularidades.

11
O editorial é assinado em primeira brasiu menor, exaltado contra o poder
pessoa por essa razão, porque é a minha opressor de um estado que busca cresci-
voz expressando meus pensamentos mento econômico a todo custo, mas
e meus desejos, e meu ponto de vista a cujas minorias vêm sendo definitivamen-
partir do que criamos. Percebo, contudo, te eliminadas — como eu escrevi em
que esses espaços da concepção BRAZIL | BRASIU | BRAZIS. Mas o Brasil que

(e conceitualização) do projeto e um surge nas ruas é também o dos micro


‘o que aconteceu’, assim como um ‘eu’ e macro fascismos, que começam cada
individualizado do coletivo, são dois vez mais a “sair do armário”.
momentos difíceis de separar, já que Como parte de uma tática temporali-
ambos se misturam, e não tem cada um zada, o Vocabulário político se endereça
um ponto de origem neutra. É estranho aos espaços comuns afetivos e ativos das
também escrever sem a SARA e sem a INÊS, ruas e das assembleias, das reuniões e
que o tempo todo estão junto no pensamento das partilhas, um processo político social
desse projeto, e sem a PRISCILA, que dese- que não vejo/vemos como encerrado.
nhou o livro, e que o conhece em cada Percebo que os encontros (TRANSDUÇÃO  )
micro-espaço, algoritmo e cada dígito. e os eventos que caracterizam esse
Ao mencioná-las aproveito para agrade- movimento (é preciso estar no movimen-
cer e para conjurar a falar junto. to para engajar-se nas suas linhas
O contexto a partir de onde o desejo de emergentes) trabalham os vocabulários
realizar esse projeto surgiu é, em grande a partir de uma intersecção entre a
parte, o ciclo de MANIFESTAÇÕES que o Brasil política, a língua, a linguagem e a
começou a viver a partir de Abril de 2013, criação, em que processos estéticos estão
ciclo intensificado entre os Junhos, sendo produzidos a todo o momento.
de 2013 a 2014, com a realização da Copa Nesse sentido, o desejo do Vocabulário
do Mundo no Brasil, e com a visível opres- político, é produzir mais uma estratégia
são do estado e incremento da violência em meio a esse espaço produtivo ou nesse
por parte da Polícia Militar no movimen- estado de movimento. O Vocabulário
to que vem surgindo desde então. político, como criação de um espaço de fala
O Brasil que se conhece pelas ruas desde sobre os vocabulários, quer abrir espaço
os levantes de Junho — nesse ‘ano que para falar daquilo de que somos constituí-
não acabou’ — explicita tanto o surgimen- dos, de nossos desejos, de nossas estraté-
to de novas expressões, ações e táticas de gias, de nossos processos reconstitutivos
criação e resistência, como o aumento do e transformativos (INFRAESTRUTURA  ),
trânsito e do tráfico dessas expressões. de nossos desafios. Por isso é um vocabulá-
O brasiu da TARIFA ZERO. rio que se coloca entre os espaços da
O Brasil que se conhece nas ruas é um política e da criação, para fazer pensar

12
— na intersecção de nossos vocabulários de envolvimento, intimidade e desejo de
— na articulação dos processos estéticos produção. De maneira geral posso dizer
que são constitutivos de modos de que o Vocabulário político foi realizado
vida, de singularidades, e de realida- por meio de conversas, proposições,
des comuns. experiências, experimentações e diagra-
O projeto e o livro-invenção se somam, máticas e, posteriormente, pela escrita,
então, aos espaços que ativam a micropolí-
edição, concepção e design deste livro
tica da língua e da linguagem e a micropo-
homônimo distribuído gratuitamente e
lítica das expressividades, visto que sãodifundido pelo site do projeto1.
espaços produtivos sobretudo da política O projeto aconteceu principalmente
como criação. São espaços que se valem por meio de quatro formas de encontro:
de um intercâmbio de sensibilidades, da na primeira semana a ‘oficina interna’
tomada de posições, da negociação de no espaço Capacete, da qual participaram
realidades em processo, criando colabora-cerca de 25 pessoas chamadas por mim,
ções e proliferando diferenças. mais por um desejo de arranjo ou ‘catali-
zação’ do que de curadoria; a segunda
ENCONTROS semana com duas oficinas abertas ao
O projeto Vocabulário Político para público, na Aldeia Gentil e no Pontão
processos estéticos aconteceu a partir de Cultura Digital da ECO–UFRJ;
de encontros. Digo ‘encontro’ no sentido e a terceira forma de encontro pela troca
estrito do termo — estarmos juntos, constante com algumas pessoas durante
corpos presentes, num mesmo LUGAR. aquelas semanas no Rio, que se tornaram
Mas não sem redefinir estrategicamente convites para que essas pessoas escreves-
encontro como um tipo de espaço que sem textos específicos para o Vocabulário
possibilita a intensificação de nossas — como é o caso da ANNICK KLEIZEN,
relações de colaboração e aprendizagem, que escreveu MUDEZ, e do TIAGO RÉGIS que
em que experimentamos formas de escreveu sobre o CARTOGRAFIAS DA DITADURA.
produção e de criação. Encontro como PEDRO MENDES e GISELI VASCONCELOS participaram

ESTRATÉGIA que combina um estado de à distância, eventualmente presentes


afetação mútua com produção (se é que no skype durante nossa semana de oficina
se pode separar ambos!?). interna. Sanando um encontro que ‘não
Esse projeto como espaço de encontro aconteceu’, alguns participantes que
colocou em um mesmo espaço x tempo haviam sido convidados para a oficina
pessoas que já se conheciam, mas também interna e não puderam participar
inaugurou a relação entre pessoas que contribuíram com textos — como é o
não se conheciam. Realizou atividades
abertas ao público, em diferentes graus 1  v o c a b p o l . c r i s t i n a r i b a s . o r g /

13
caso do ANDRÉ BASSÈRES e do RODRIGO NUNES. comemos a estupenda MUJICA cozida pela
O quarto encontro do Vocabulário CECILIA COTRIM. Havia mais proposições que

político foram as conversas abertas ao não foram realizadas por conta de pouco
público, com a fala de convidados — tempo, ou da minha mediação que
TATIANA ROQUE e LUIS ANDRADE, uma realizada não dava conta de intervir no tempo das
na UERJ e outra na Casa Nuvem, nossas incansáveis conversações.
na Lapa. Há ainda uma outra dinâmica, Ficaram no ar uma audição de funk
por fora do encontro real de corpos, proposta pelo DAVI MARCOS, um exercício
que faz parte do vocabulário-livro que de teatro por RAPHI SOIFER, e uma conversa
é a incorporação de três textos já escritos com pequenos grupos sobre o ciclo de
e publicados previamente (o texto ANTI-HERÓI MANIFESTAÇÕES proposta por PEDRO MENDES.
ANÔNIMO… de Hélio Oiticica, o MANIFESTO Eu mesma tinha organizado uma série de
AFETIVISTA de Brian Holmes e o GLOSSÁRIO dinâmicas pensadas junto com minha
DO RHR , por conta da participação de irmã e psicóloga ANAMALIA RIBAS, só que não
LAURA LIMA). A incorporação desses textos, aconteceram, mas ficaram ali ativando
contudo, é fruto das trocas que surgiram outros estados de conversa. Como parte
nos encontros do Vocabulário.1 de uma proposição-convite minha,
Na primeira semana, em que realiza- RICARDO BASBAUM participou de uma conversa

mos a oficina interna, os participantes com o grupo da oficina interna. Acredito


foram convidados por mim para realizar que as proposições qualificam outras
‘proposições’, a partir das quais pudésse- maneiras de estar junto, e de produzir a
mos entrar em contato com a produção partir de um outro espaço, em que nossos
uns dos outros a partir de experiências conhecimentos e práticas vão se cruzando
e não só a partir de conversações. com os corpos ativados de outras manei-
Entre elas participamos de uma cami- ras que não apenas o debate ou a troca
nhada proposta pela AGÊNCIA TRANSITIVA intelectual e narrativa. Foi, por exemplo,
(com diversos percursos diferentes e um na caminhada proposta pela AGÊNCIA
ponto de chegada comum, no topo de TRANSITIVA que um dos grupos encontrou o

um prédio na Lapa), uma massagem dois livro Linguagem Forense, que inspirou
a dois proposta pela JULIANA DORNELES com RAPHI SOIFER a escrever o FORENSE CAPENGA, ou

exercício de escrita, e no final da semana a MUJICA da CECILIA que me ‘acordou’ para


1  Participantes presenciais do Vocabulário político na os vários BRAZIS; e as incursões de um
oficina interna foram Agência Transitiva, André Mesqui- grupo de participantes da oficina interna
ta, Beatriz Lemos, Breno Silva, Cecilia Cotrim, Cristina
Ribas, Davi Marcos, Daniela Mattos, Enrico Rocha, na Maré (cuja ocupação militar aconteceu
Graziela Kunsch, Inês Nin, Isabel Ferreira, Jeferson naquela semana da oficina interna), em
Andrade, Julia Ruiz di Giovanni, Juliana Leal Dorneles,
Kadija de Paula, Laura Lima, Lucas Rodrigues, Lucas
duas ou três caminhadas, e a partir de
Sargentelli, Margit Leisner, Raphi Soifer e Sara Uchoa. onde escreveram o vocabulário MARÉ.

14
As oficinas abertas ao público foram geram atravessamentos nas nossas
também um espaço de encontro e criação, práticas, e portanto, nos nossos vocabu-
e nelas trabalhamos diretamente perspec- lários. Fizemos uso também de outras
tivas sobre o ciclo de MANIFESTAÇÕES . ‘ferramentas’ como a ESCUTA (para além
Na primeira nos envolvemos mais com da escuta como capacidade biológica),
os atores e com ESTRATÉGIAS das manifesta- como escreveu também o ANDRÉ MESQUITA,
ções, e na segunda com feminismos, e do exercício de compreender qual seria
maternidade e o movimento trans e queer a nossa ESTRATÉGIA, segundo JULIA RUIZ.
que vem aparecendo, tomando espaço, O Check-in e o check-out da AGÊNCIA TRANSITIVA
criando espaço em meio não só ao ciclo também foram incorporados. A minha
de manifestações mas também em vários contribuição ‘metodológica’ foi de
contextos e espaços sociais. A partir de pensar a COMPLEXIDADE, ou seja, as rela-
cada uma das oficinas abertas ao público ções possíveis entre temas e práticas
surgiram contribuições específicas para que refletissem na escolha de conceitos
o Vocabulário político na sua forma livro, ou expressões que dariam origem aos
como os textos de GEO ABREU (HUMOR ) vocábulos, ou às Entradas que surgiram.
e STEFFANIA PAOLA (INFRAESTRUTURA ). Portanto, quando digo que o Vocabu-
PEDRO MENDES e FERNANDA KUTWAT conceitua- lário político aconteceu a partir de
lizam a noção de encontro na Entrada encontros, não é a partir de um encontro
TRANSDUÇÃO. Eles vão passando por essa de corpos no tempo e espaço apenas,
noção ao longo de todo o texto, mas em mas a partir de outros estados de
dois pontos eles falam crucialmente, encontro, de uma certa disponibilidade
primeiro, de como a qualidade e a intensi- para a produção e para a criação que
dade do encontro, a sua possibilidade poderia afetar também a formalização
de afetação mútua, determinam aquilo do Vocabulário político. Por isso o livro
que se produz (vida, morte?), e depois, feito a partir dos encontros, que se desdo-
de como o encontro é o ‘verdadeiro fato bra na prática da escrita — essa matéria
social’, sendo não uma ontogênese de expressão que investigo em ESCREVER
(na concepção de uma produção controlada — é um livro-invenção. O livro é ao
da vida), mas a produtividade intensiva mesmo tempo a ordenação de vocábulos,
e caótica do acontecimento. Em outras ou Entradas, a partir das práticas
palavras, uma heterogênese… em que daqueles que participaram do Vocabulá-
singularidades bifurcam. rio político, mas também resultado da
O encontro como espaço de afetação construção de um DIAGRAMA dessas práti-
mútua foi, de alguma maneira, o modo cas. E o que se produz com isso é,
como desejei ‘catalizar’ aqueles dias, de alguma maneira, uma caixa de ferra-
abrindo outras práticas de grupo que mentas para processos coletivos outros,

15
mais ou menos relacionados diretamente nos diversos encontros do projeto e
aos vocabulários políticos e estéticos. também a partir dos textos finalizados.
O Vocabulário político, como projeto O livro contém também uma série de
e a partir de sua publicação como imagens criando uma espécie de bloco
livro-invenção, vai então criando mais que atravessa esse blá blá blá de palavras.
espaço para intervir e criar em e com As fotos foram capturadas em fluxo nos
os vocabulários políticos e estéticos. meios virtuais, tendo de alguma maneira
Dois livros foram referência para participado e incitado os vocabulários
esse projeto. Eles foram concebidos políticos dos levantes de Junho, contexto
de maneira semelhante ao Vocabulário a partir do qual identifico uma das partidas
político, e circularam nos nossos encontros. desse projeto, como disse anteriormente.
Eles são Vocabulaboratoires1, editado O miolo do Vocabulário político é formado
por Manuela Zechner, Anja Kanngieser pelas Entradas que são os textos escritos
e Paz Guevara, e Micropolíticas de pelos participantes do Vocabulário
Los Grupos: Para una Ecología de Las político e das oficinas. Poucas Entradas
Prácticas Colectivas2, organizado por são compostas apenas por imagens e
Oliver Crabbé, Thierry Muller, e David algumas Entradas são interferidas com
Vercauteren. Ambos livros são resultado imagens como ruídos não-linguísticos,
de encontros e trocas, e operam tanto e que criam espécies de linhas de fuga
como caixas de ferramentas como um para o que é apresentado, como o MURO,
documento/arquivo de práticas e experiên- de LUCAS RODRIGUES e JULIANA DORNELES, SINTAXE,
cias. Micropolíticas em especial é organi- de PIERRE GARCIA e CAVALO, por vários autores.
zado a partir de verbos que caracterizam Duas formas de escrita ou de interven-
ações em grupo, ou metodologias para ção foram geradas dentro do livro.
trabalhos micropolíticos… Uma delas é a proposição de Radicais que
atravessam a leitura das Entradas
COMO O VOCABULÁRIO-LIVRO (não sugerimos, e desejamos que o leitor
É ORGANIZADO as aplique quando lhe convier), e a outra
O livro começa com o Índice irremissí- os Parêntesis, que são a conversa dentro
vel, uma listagem sem fim de palavras, de um texto, gerada por outro autor.
expressões, conceitos que foram sendo Os Radicais são espécies de tags que inci-
coletados, registrados, mapeados, filtrados tam a leitura de um conteúdo a partir de
sua proposição conceitual. Os Parêntesis
1  Original em inglês. Edição das autoras, 2009. Dispo- são, por sua vez, interrupções no texto
nível aqui d e s a r q u i v o . o r g / n o d e / 1 6 8 1
sinalizados por ((asdfg asdfg)), como se
2  Essa edição em espanhol. Madrid: Traficantes de pode ver em INFRAESTRUTURA e em COMPLEXIDADE.
Sueños, 2011. Disponível aqui d e s a r q u i v o . o r g /
node/1685

16
Se espalham pelo livro, nas Entradas, das, porque são cada um à sua forma
também uma série mais ou menos organi- uma Entrada nesse espaço plural e em
zada ou sintetizada de pequenos textos, movimento. Os atravessamentos que
anotações, expressões e definições, sendo podem ser provocados entre as práticas
alguns deles fragmentos de fatos, relatos, políticas, sociais, estéticas, comunicati-
e-mails, pedaços de conversa ou gritos vas, artísticas caracteriza muito do
das ruas nas semanas do projeto no Rio contexto brasileiro das MANIFESTAÇÕES,
de Janeiro. E também transcrições de um terreno ao mesmo tempo de composi-
conversas tantos da oficinas interna como ção já mista, mas também de uma certa
das oficinas abertas ao público. abertura, ou de uma certa promiscuida-
Ao longo do livro-invenção usamos de. O atravessamento aqui é proposto
pequenos olhos      (desenho de PRISCILA como produtivo, uma promiscuidade
GONZAGA, designer do livro, pela EDITORA propícia ao surgimento de novas compo-
APLICAÇÃO) que remetem a outras Entradas, sições, de novas práticas.
criando uma espécie de hipertexto que O espaço que o Vocabulário político
sugere que aquela noção específica se quer criar é mais um espaço de aconteci-
refere de alguma maneira ao que está mento de novas práticas, em que os EVENTOS
sendo elaborado por outra Entrada. do mundo-rua (ANTI-HERÓI ANÔNIMO  ), sejam
também uma fala que interrompe a si,
O QUE O VOCABULÁRIO e faz insurgir outros processos singula-
POLÍTICO QUER FAZER? res e comuns. Dessa forma o Vocabulário
O projeto tem por objetivo criar espaço político quer participar das transforma-
para pensar as interseções em nossos ções que conhecemos pela via dos corpos,
vocabulários, num espaço de atravessa- da experiência, dos encontros, da criação
mento entre práticas políticas, sociais, e da política.
estéticas, comunicativas, artísticas, etc Partindo da perspectiva que a criação
sem tomá-las todas como iguais ou é também a criação e a transformação
intercambiáveis. Ou seja, o tipo de espaço de conceitos ou expressões — marcando
que o vocabulário quer produzir é um uma ramificação não linear entre língua,
espaço de heterogeneidade, de atravessa- linguagem e significação —, com esse
mento, em que possamos SAIR do isola- projeto fazemos um levantamento dos
mento da palavra, ou da definição de conceitos e expressões que nos mobilizam
um conceito, para um campo, ou para na atualidade, conceitos e expressões
campos de práticas. Os vocábulos do que criamos nós mesmos, ou que transdu-
livro-invenção, que podem ser também zimos de outros espaços, estratégias e
nomeados palavras, conceitos ou expres- práticas. O desafio pelo qual o Vocabulário
sões, por isso, são chamadas de Entra- político passa é manter aberta

17
a composição de vocabulários passando O projeto marca um risco: SAIR de um
pela conversa, pela escrita, e pela leitura campo específico da criação e tomar
em voz alta, aproximando o fazer do espaço no plano das multiplicidades.
vocabulário da organização de um Ou seja, se por um lado se pode pensar
glossário. O objetivo do vocabulário é que a estética é uma propriedade ou uma
que as expressões aqui apresentadas função dos objetos e dos eventos artísti-
possam ser compartilhadas e reapropria- cos, o Vocabulário político estressa
das. Assim, não vemos o Vocabulário (insiste, propõe) que a estética é uma
político como um projeto que inaugura espécie de efeito ou de função que faz
um modo ou um espaço, mas um projeto parte da vida ela mesma. Sendo a
que é ele mesmo um espaço de concatena- estética aqui uma atenção na verdade
ção, ou de ‘síntese disjuntiva’ (conceito aos processos estéticos, e a concepção de
anti-edipiano, de Deleuze e Guattari), subjetividade uma outra maneira de
de outros tantos espaços da criação. pensar as individualidades (escapando
O Vocabulário político nos desloca, na sua da definição de sujeitos dados a priori,
singularidade, a uma reconfiguração identitariamente constituídos),
enquanto criadores vocabulosos, menos ao aportar a noção de processos estéticos
daquilo que fomos ou somos e mais estou/estamos observando que uma
daquilo que podemos ser e fazer estética nova concepção de produção estética é
e politicamente em uma conjunção possível, uma que advém da relação ela
temporal, aquilo que podemos juntos mesma, em que os processos relacionais
vocabulinar. produzem diferentes — e porventura
divergentes — processos de significação
VOCABULINAR NÃO SE FAZ SÓ e processos de subjetivação, em que
Vocabulinar é uma expressão que não se parte de um estado neutro, e que
surgiu naquela semana de oficina interna os processos de subjetivação se deixam,
no Rio de Janeiro. Foi proposto por CECÍLIA por sua vez, atomizar no encontro
COTRIM propondo a penetração em proliferando sentidos. (Aqui até arrisco
nossos vocabulários como uma espécie pensar que há uma estética do vocabulá-
de bulinação.1 rio político ele mesmo…)
1  Ao mesmo tempo em que participava do Vocabulário Bem por isso conceber um projeto de
político Cecília fechava a edição da Revista Periódico um vocabulário é colocar-se na própria
Permanente no. 5, do Fórum Permanente. O ‘mape-
amento’ feito por Cecília naquela edição em muito
nuvem do vocabulário que se produz em
dialogou com a nossa semana de oficina interna. um espaço de fala, é evidenciar que eu
Referências específicas ao conteúdo mapeado por Ce-
não falo sozinha, que eu falo junto, pelas
cília estão ao longo desse livro-invenção. A edição está
disponível no link f o r u m p e r m a n e n t e . o r g / r e v i s t a / coisas dos outros, intercambiando coisas
numero-5/capa

18
minhas, e falo em direção aos outros, encontro de falas, não quero criar um
desejando falar junto. Para colocar-se espaço para falar pelos outros, mas para
nessa nuvem do vocabulário procuro incorporar as palavras e moldá-las,
por um lado ouvir a cada palavra que e modulá-las, ou colocá-las em um DIAGRAMA
é expressa no vocabulário político dos político em uma trama de COMPLEXIDADE.
corpos e dos movimentos, mas ao mesmo Colocando as palavras em movimento
tempo abrindo espaço para expressões provocamos o agenciamento das palavras,
que vazam uma certa certeza da política sua dinamização, seu uso. Os processos
como coisa humano-racional (como dito de TRANSDUÇÃO aparecem aqui também.
de alguma maneira por ENRICO ROCHA em Ao mesmo tempo em que assinamos
VIZINHANÇA   ), abrindo um espaço para individualmente ou em duplas (ou ainda
as composições maquínicas dos corpos, alguns textos a várias mãos e gargantas),
dos vocabulários e, evidentemente, definitivamente o que surgiu no Vocabu-
da própria linguagem, que não passa ilesa lário político é DESDO // BRAMENTO //S ou blá
nesse processo. Falar tomando parte blá blá das nossas conversas no Rio de
em um corpo múltiplo pode ser perder Janeiro, e por isso me faz pensar em como
os sentidos, mas falar em um corpo produzimos um ‘agenciamento coletivo
múltiplo pode também ser um vocavul- de enunciação’ (Guattari), um para-além
var político, que produz com outros, da identidade dessas individualidades
que fala com e a partir dos animais, que assinam e para além do grupo que
máquinas, expressões, timbres, ecos, o projeto Vocabulário político desenha,
dissensos… Falar em busca de provocar encontrando o espaço de encontro das ruas,
RITMANALIZAÇÕES com aquilo que é está num dos encontros, das improvisações,
espaço extra-linguagem, que brinca com produzindo um corpo plural, incitando
a significação e por aí permite abrir novos enunciações…
sentidos, sentidos políticos, e micropolíticos.
Produzir essa nuvem comum do ENTRE APRENDER E PRODUZIR
vocabulário no plano das multiplicida- O Vocabulário político foi formado
des marca também o desejo de aprender por um grupo bastante diverso de
uns com os outros, num espaço que participantes. O grupo convidado por
excede nossos glossários pessoais ou mim para a semana de trabalho ‘interno’
coletivos, num espaço que nos solicita no Capacete era composto por pessoas de
um pouco diferentes, inaugurando uns diversos lugares do país (ainda que muito
conhecimentos de si e de outros, daquilo da realidade sobre a qual nos debruçamos
que os outros fazem, e do que nós mesmos tenha sido o Rio de Janeiro, local do
podemos fazer. Ao desejar um espaço de encontro) e com distintas experiências.

19
A diversidade construída com esse disponíveis, eu diria a esse campo de forças
espaço me parece que foi crucial para que é o encontro social (e/ou maquínico).
provocar muitos atravessamentos nos O aprender, nesse sentido, é também
discursos e o início do intercâmbio de produzir. Ou seja, não é ação passiva,
práticas que permitem pensar que há, nem unilateral, e prescinde, de alguma
em algum aspecto, nessa produtividade maneira de uma transversalidade, de uma
que surge, um espaço também de capacidade de atravessar as concepções
APRENDIZAGEM. mesmas de produção do conhecimento,
Por aprender aqui digo diferir, digo da arte, da política e de aprendizagem,
abrir um espaço de experimentação em para encontrar o modo da produção e da
que a gente suspenda a nomeação daquilo criação, e também de um engajamento
que possa nos ser mais caro (‘nosso pessoal, subjetivo (simultaneamente
quintalzinho conceitual!’) e possa coletivo e individual). É uma transversali-
provocar aderências outras. Ou seja, dade que se estende aos espaços formais
uma certa disponibilidade a ser afetado de onde viemos ou que acessamos,
pelo encontro. Os processos do conheci- criando por isso intervenções, intersecções,
mento, dos quais o aprender faz parte, transformações… Nesse sentido me vi
podem ser pensados diretamente na ‘aprendendo’ a ser uma ‘catalisadora’,
perspectiva de fazer o mundo, ou seja, e logo depois a ‘editora’ desse livro-invenção.
de um produzir conhecimento que é Da mesma forma, me parece que o Voca-
concomitantemente o fazer do mundo. bulário político serviu como espaço de
Nesse sentido, o aprender não seria relatos de EXPERIÊNCIA e de elaboração de
uma operação sobre o mundo constituído, práticas novas ou bastante em processa-
mas sim, sobre a própria composição com mento para alguns de nós. Tanto os
o mundo. No meu doutoramento (numa processos de transformação subjetiva
universidade inglesa) tenho investigado como o que se produziu nesse espaço de
essas questões sem opor a produção de experiência se manifestam de diferentes
conhecimento à noção de pedagogia, formas na TRANSDUÇÃO para a matéria ou
ou de pedagogia radical, mas focando máquina de expressão escrita, imagética,
mais na produção ela mesma e nos diagramática, que constitui cada Entrada
processos de pesquisa como também concebida para o Vocabulário político.
produtivos. A minha proposta aqui com Os processos transformativos e que
o Vocabulário político, e também com o passam pelas matérias de expressão podem
doutorado, é que quando nos colocamos ser pensados no plano ou nos percursos de
em uma situação de APRENDIZAGEM nos um caos---complexidade. Por exemplo, se
colocamos diferentes, nos colocamos num determinado vocabulário os termos

20
em uso por um sujeito estão também no uma palavra, e com quantos sentidos
plano do caos, nesse plano do caos do diferentes. Por aí poderíamos mapear
falatório emergem diversos mapas de também como palavras vão assumindo
complexidades — diversas caosmoses posições e funções diferentes, ou seja
—, como diria Guattari. As caosmoses como vamos modulando as palavras de
seriam uma espécie de ordenação do maneira que elas vão se tornando específi-
plano do caos, um processo que atraves- cas naquelas novas configurações de
sa e compõe com nossas subjetivações, sentido. Seria um projeto com tom
que se entrelaça com nossos discursos, de diagnóstico um tanto interessante,
com nossos textos, com nossos engasgos, que poderia nos evidenciar os usos políti-
ora deslocando-os, ora chamando-os cos e estéticos da língua e da linguagem.
a uma recomposição ou uma recombina- Mas fazer um vocabulário a partir de
ção. Algumas Entradas, nesse sentido, encontros, como disse antes, e a partir
podem ser pensadas como processos de uma coletividade múltipla, é um pouco
caosmóticos ativados pelo encontro — mais do que diagnosticar e ‘ler’, semiolo-
um saber de si, ou a partir de si, constituti- gicamente, um vocabulário.
vo de momentos, de mundo… No plano Um vocabulário não é a gramática.
dos vocabulários, acessar singularmente A gramática é o conjunto todo da língua,
o plano do caos parece poder ser então uma normatizado, regularizado, regrado.
estratégia não só de abrir nossos vocabulá- O vocabulário, por sua vez, é o grupo
rios, mas, ao acirrar com o artificialismo de palavras, termos, expressões em uso
da fala e dos discursos, fazer mesmo um de um sujeito, de um grupo social,
outro vocabulário. ou de uma coletividade. O vocabulário,
portanto, não é estático. Ele é um
FAZER UM VOCABULÁRIO? organismo vivo, feito de apropriações,
Nas conversas da oficina interna acho criações, improvisações. O vocabulário
que foi a GRAZIELA KUNSCH que notou que eu se articula livremente com a gramática, e
falava muito ‘intensidade’. E daí me veio está sujeito aos diversos modos de signifi-
que poderíamos produzir um vocabulá- cação nos processos sociais. Como é
rio que fosse o mapeamento, pela ESCUTA, então que se pode fazer um vocabulário
daquilo que se diz. Uma espécie de levan- e formatá-lo em livro-invenção?
tamento das ocorrências, uma contabili- O fazer desse vocabulário é então
zação do que foi mais dito e do que artificialismo, como diz Antonio Negri,
dizemos menos… um software hipotético artificialismo desafiado o tempo todo
(já deve existir)… que contabilize quantas pela intersecção constante que provoca-
vezes dizemos algo, quantas vezes usamos mos em nossos vocabulários, assim

21
como pela intersecção de tantos outros Então fazer um vocabulário é, não trocar
vocabulários sendo produzidos na vocabulários à revelia, mas fazer passar
atualidade.1 É uma estratégia de ativar neles um filtro… Um ‘filtro semiótico’,
o desejo, de colocar-se em diálogo, como disse Guattari.
de aprender, de produzir, de intervir. Guattari fala de um ‘refrão’ para
O vocabulário é dessas anti-estruturas descrever a relação entre a paisagem
que não precedem, nem vem depois, sonora e os traços de singularidade que
não se agarra a nenhum momento, pois expressamos. O refrão pode também ser
ele segue em movimento. Adquirimos chamado de ritournelle. Os refrões
e esquecemos expressões, elas perdem seriam literalmente aquilo que se repete
o sentido, adotamos outras. Por isso a e que produz pontos de identificação a
ideia de fazer um vocabulário me partir da linguagem em relação ao
pareceu uma provocação diferente do que mundo. O refrão seria uma modalidade
fazer um glossário e, partindo da definição de semiotização que permite que um
de glossário, acho que o que temos aqui é indivíduo receba e emita de uma manei-
um vocabulário (muito) mais-do-que um ra compreensível, ou comunicável.
glossário, um vocabulário provavelmente Em outras palavras, dialógica. (Bifo, 2013)
caótico ao primeiro olhar mas caosmóti- Contudo não falamos todas as línguas
co no envolvimento com ele. Ao mesmo nem falamos ou sabemos todas as varia-
tempo que fazer um vocabulário é de ções sígnicas, esgotando uma língua só.
alguma maneira olhar com o canto do Isso não quer refletir o fato de que um
olho para nossas gramáticas políticas, sábio possa falar várias línguas ou saber
nossos estudos já sedimentados, nossas o dicionário de cor e salteado, e que há
técnicas, nossos lugares comuns, fazer algo que apesar disso seja ‘mais’ dele,
um vocabulário é também — depois da que o caracterize mais em específico.
turbulência do encontro — reencontrar Nem quer refletir o fato de que um poeta
o estado das definições e dos posiciona- ou um louco falem à revelia despreocupa-
mentos, dos contextos e das lutas. dos do sentido de suas palavras e dos
É uma espécie de desfuncionalização da espaços extra linguísticos que estão
linguagem para refuncionalizá-la estrate- sendo provocados. Nem quer propor que
gicamente. Assim é, também, o espaço da há uma verdade absoluta entre sujeito
política como criação. da enunciação e enunciado… O interes-
sante aqui é pensar não só como é que
1  No site do Vocabulário político apresentamos uma sé- ‘selecionamos’ a partir de nossos ‘filtros
rie de glossários e para-além-de-glossários organizados semióticos’ aquilo que está significado e
por vários grupos e em várias linguas.
vocabpol.cristinaribas.org/sariosglos/ é portanto comunicável — e portanto,

22
nos tornamos aquilo que falamos, ou porque os sentidos estão a todo o momento
falamos como somos — mas é interes- escapando na dinâmica viva dos corpos,
sante também aquilo que modificamos, dos encontros, da criação e da política.
que criamos e reinserimos nas variações É essa apreensão de sentido único que se
semióticas, o que expressa transforma- perde na abertura dos vocabulários, e que
ções de si que são constitutivas do fora, coloca em cheque os campos específicos.
da participação em uma multiplicidade Nesse sentido é interessante a definição do
ou constituição do mundão grande. comum conceituado por Antonio Negri.
Portanto, não se trata também de um O comum se mistura ele mesmo à
espaço ‘entre’ o sábio, o poeta e o louco… ‘multidão’ (um todo heterogêneo e diverso),
mas de criar ritmos entre falas entre que o produz. A linguagem é então acessa-
espaços, de produzir falas estratégicas. da e transformada na produção do comum.
O ritmo seria no âmbito social para A multidão nessa concepção, é constitutiva
Guattari a relação entre o corpo (ou a porque é produtora de sentidos proliferantes,
unidade transdutora) e a concatenação de seus próprios processos vitais.
social da linguagem. O ritmo estaria Pensando um espaço de multiplicidades,
colocado entre o caos e a singularidade, quando nos colocamos a sentar juntos
e para Guattari cada ambiente, seja ele e contamos uns aos outros de nossos
social, cósmico ou terreno possuem seus vocabulários provocamos o exercício
próprios ritmos.2 O Vocabulário político de sair do espaço de uma naturalidade
portanto não é estritamente o espaço da e de uma intuitividade dos usos da
língua ou da linguagem, nem da gramáti- linguagem e das significações, estamos
ca da macropolítica, é o espaço constituti- resignificando e politizando nossos
vo social em que se imprimem e se filtram vocabulários. É nesse contexto que o
variações incontroláveis de sentido cavalo apareceu como a figura ao
(o próprio espaço da micropolítica), mesmo tempo mais misteriosa e mais
que podem ser recortadas do fluxo instigante no processo de criação do
intuitivo de suas falas e produções pelo Vocabulário político. O CAVALO aqui no
artificialismo de um mapeamento, que Vocabulário político torna-se um processo
intervém, por sua vez na macropolítica. caosmótico singular, ao qual cada um
Por incontrolável não digo que seja uma de nós e todos endereçamos maneiras de
estratégia por meio da qual não possa- ser cavalo, pensar cavalo, montar no
mos definir os sentidos, mas incontrolável cavalo, cavalgar em ideias… O cavalo
se torna o próprio corpo imerso no agencia-
2  A noção de ritmo aqui se aproxima muito da figura
do ritmanalista, proposto por Lefebvre, e arguido por
mento maquínico de uma língua que fala
Annick em Mudez e por André Mesquita em Escuta mais do que com palavras (que referenciam

23
um real), e fala mais do que com corpos
humanos. Agenciamentos produtivos são
também, por exemplo, naturalismos
violentos como ‘filho da puta’ e ‘vai tomar
no cu’ desconstruídos e remixados na
máquina social das ruas e dos encontros,
e se tornam ‘meu cu é laico’ e ‘toma da
polícia/porque tomar no cu eu te garanto
é uma delícia’.
Nesse sentido o trabalho de vocabular
não é tanto um embate com um interno
individual (subjetivismo) nem com um fora
puro (aquilo que rouba nossos vocabulá-
rios), mas uma ritmanalização constitutiva
dos processos sociais, existenciais, criativos.
Do embate consigo mesmo, ao mapear o que
é que eu digo, como digo, digo deonde,
se adiciona um processo de atenção, de
análise e de ESCUTA, procurando dizer e fazer
falar de uma posição autêntica e ética, que
encontra sintonia ou produz ritmo com
posições semelhantes no plano das multipli-
cidades. Abrem-se simultaneamente uma
irremissibilidade mas também todo um novo
campo de estratégias. Fazer um vocabulário
político, afinal de contas, é criar…

REFERÊNCIAS
Antonio Negri. Arte y multitudo. Ocho cartas, 1988.

Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mil Platôs:


capitalismo e esquizofrenia, 1995.

Franco Bifo Berardi. The Uprising. On Poetry and


Finance. 2012.
Félix Guattari. Caosmose: por um novo paradigma
estético, 1992; O inconsciente maquínico, 1988.

Michael Hardt e Antonio Negri. Multidão, 2005.

***

24
Radicais
Aprender
Gisella Hiche Radicais livres como chaves/sequên-
cias de leitura possíveis do conjunto de
Aprendizagem
A Arquivista e
vocábulos ou seleção direcionada de par-
Cristina Ribas te deles. Uma série de páginas no livro
(no início ou no final) que traz em lista
ART
Lucas Sargentelli e/ou diagramas propostas de recortes
Enrico Rocha
do conjunto principal. [ L u c a s Sargentelli]

ALTER
Lucas Sargentelli

Com-
Enrico Rocha

Auto/ Como
Lucas Sargentelli

CON
Lucas Sargentelli

Contra
Lucas Sargentelli

De / Para
Lucas Sargentelli

Desarquivo
A Arquivista e
Cristina Ribas

Lugar APR ENDER


Enrico Rocha
[por Gisella Hiche] Meu sonho para a
Para educação é que ela aconteça em muitos
Cristina Ribas
lugares além da escola: em hortas
TRANS comunitárias, praças públicas, centros
Inês Nin
E n r i c o R o c h a culturais, trens e que todo cidadão seja

simultaneamente um aprendiz e um
Vizinhança
E n r i c o R o c h a educador e que o ser humano liberte-se

do conhecimento disciplinar e possa


aprender de forma inteira que é como a
vida é e acontece…

25
APRENDIZAGEM ART
Processos de
[A Arquivista e Cristina Ribas] [por Lucas Sargentelli] vocábulos que
aprendizagem permeiam as práticas criam atritos com o conceito de arte
artísticas. Interessa ao Desarquivo.org — propostas que flertam com a possibi-
sinalizar agenciamentos nos quais atores lidade de uma cura operacional da
(agentes) estão envolvidos em processos de ideia de arte — propostas que rejeitam
aprendizagem tanto nas relações que o rótulo de arte em suas práticas
fomentam entre si (atores de processos [ p o r E n r i c o R o c h a ] arte: exercício

cooperativos, como no caso das estratégias) experimental da liberdade. assim


assim como nas relações comunitárias que propôs o crítico Mário Pedrosa, em
criam (através dos diversos eventos). 1970, que compreendêssemos o que
Toma-se a aprendizagem como fazem os artistas. liberdade é também
movimentos que surgem a partir de si, e matéria da política. o mundo transfor-
para si, ou um saber de si coextensivo a ma-se em uma constante tentativa de
um saber do mundo. A aprendizagem superação da natureza em direção à
atua sobre os processos de subjetivação, cultura. também nas tentativas de
atua nos processos constitutivos e, superação de estados de dominação de
portanto, atua sobre uma formação certas culturas em relação a outras.
individual em relação direta com compreendamos liberdade, então, não
formações coletivas. Pensar a partir da como a afirmação da vontade de um
aprendizagem não significa demarcar indivíduo, mas esse movimento coleti-
um método preciso (um como fazer), mas vo do homem em busca de sua própria
implica o exercício de uma ferramenta humanidade. e compreendamos arte
relacional, contingente e constitutiva, como o exercício, a atividade, que
que opera a quebra de hierarquias e experimenta e dá formas a esse movi-
processos verticalizados (RADICAIS >TRANS ), mento constituinte do mundo, que
promovendo o encontro de agentes em coloca o mundo em obra. dos artefatos
um estado dialógico e cooperativo. que produzimos às articulações que
No Desarquivo.org não se pensa a promovemos, é sempre o mundo que
aprendizagem em modos instrumentaliza- está em obra.
dores (não é um saber sobre a arte, por
exemplo), contudo um saber que produz ALTER
modos possíveis, modos de subjetivação [ p o r L u c a s S a r g e n t e l l i ] alternativas

produtivos criando novas ações, novos ecológicas a problemas estruturais


rompimentos nas práticas artísticas. — como atuar em escala global, macro?
#processosestéticos desarquivo.org

26
COM- DESARQUIVO
conviver, conversar,
[por Enrico Rocha] [A Arquivista e Cristina Ribas]

confiar, comprometer, confabular etc. O >>>desarquivo é a incitação de tirar


há diversas ações, fundamentais para algo do lugar de maneira a mobilizar e
a vida comum, que não realizamos colocar em relação. Portanto no >>>de-
sozinhos. as relações de vizinhança sarquivo itens e materiais não tem lugares
são tecidas por ações como essas. é fixos / >>>mobilidade / mas são antes
necessário disposição e disponibilida- dados a operações e coreografias de
de para conjugar ações com esse relação e aproximação aos demais.
pressuposto da existência do outro. Desta maneira os materiais não
guardam relações de propriedade aos
AUTO / COMO >EVENTOS e >ESTRATÉGIAS aos
[ p o r L u c a s S a r g e n t e l l i ] práticas cotidia- quais se referem, recuperando algo que fica
nas individuais ou coletivas / modos à espera… O >DESARQUIVO é antes essa
de uso ação de endereçamento e relação, de
incitação de algo sempre contingente e
CON parcial, passível de participação em outras
[ p o r L u c a s S a r g e n t e l l i ] vocábulos reativações e contaminado do momento /
de conversa fiada >SITUAÇÃO / em que a operação de
— vocábulos-antivocábulos desarquivamento ocorre.
O >DESARQUIVO é sempre diferen-
CONTRA cial: ou seja, cada operação de desarquiva-
[ p o r L u c a s S a r g e n t e l l i ] pares ou grupos mento torna-se um novo agenciamento.
de relação por oposição e/ou divergên- Sua imagem é antes a de uma monotipia
cia do que a de um negativo. Há uma trans-
missividade possível naquele >DOCU-
DE / PARA MENTO >TEXTO >IMAGEM acessa-
[ p o r L u c a s S a r g e n t e l l i ] vocábulos que do, que se faz gravação sempre nova e
lidam com a questão do endereçamento desmedida. O arquivo prescinde de um
— de onde parte e para onde vai — De gesto que se desfaz no >DESARQUIVO.
que lugar você fala? Para quem você desarquivo.org

diz? — pesquisa do lugar de onde é


possível expressar alguma posição LUG AR
ainda que fossem
[por Enrico Rocha]

dimensões separáveis da vida humana,


tanto a política quanto a arte se produ-

27
zem como uma disputa de sentidos para processos políticos, para os processos
o mundo, ou melhor, como atividades de estéticos. Coisa estado que se coloca
invenção do mundo. e por mundo, entre um processo e outro.
compreendo o lugar onde habitamos.
lugar que não só nos abriga, mas que TRANS
também é constituído por nossos corpos [por Enrico Rocha] transformação:
e nossas ideias. lugar onde necessaria- talvez essa seja a condição formal de
mente convivemos. nossa existência. uma experiência
sinta seus pés no chão. olhe ao transitiva. cotidianamente agimos
redor. o mundo está bem aí. todo lugar sobre o mundo, incluindo nosso próprio
é matéria e expressão do mundo. corpo, para que ele se transforme,
ainda que nossa ação seja para manter
PARA o mundo aparentemente o mesmo.
[ p o r C r i s t i n a R i b a s ] Coisa que é feita experimente não escovar os dentes ou
para outra coisa. Processo transicio- não varrer a casa ou não coletar o lixo,
nal. Incitativo. Aquele trabalho como por exemplo. e pense que outras ações
se disse: na economia do desejo. podem ter consequências menos
Pensamos o Vocabulário para, eu diretas, mas que também são transiti-
pensei, para algo que venha a seguir, vas, transformam uma situação em
em seguida, que surja. Para existe outra, ainda que seja para manter a
antes como projeto, como protótipo de aparência, a mesma forma como se dá
algo real. Falar do para é não falar de aos sentidos, a mesma condição de
razões estabelecidas a priori, mas falar partilha. daí, conclua que há também
que, a partir dos modos como se faz, ações que transformam uma situação
pode-se fazer algo acontecer. em outra provocando diferenças. quero
Onde. Para é coisa provocadora de crer que a arte e a política são ações
afeto. Se quisermos (é necessário) transformadoras nesse sentido da
localizar onde. Mas esse onde é proces- produção de diferenças.
so, é coisa encontro, entre duas coisas
ou mais. É composição. [ p o r I n ê s N i n ] conceber um SAIR

R i s c o d o V o c a b u l á r i o . O para é seu risco. do LUGAR implica sob certo sentido em


Tanto de parar, como sugere se fosse uma superação. como ir além da
verbo, estagnando como algo que experiência anterior; um ponto que
significa (arte) e não funciona, não impulsionado por MOVIMENTO gera
utilitariza, não funcionaliza. Para, uma outra situação.
funcionando, coisa importante dos

28
transcender um momento disforme, de uma precisão de rejuntes: extrair a
pouco funcional, mambembe. desfazer simplicidade das coisas. descomplexifi-
uma certa dormência, reentender todos car, como um processo químico. para tal,
os processos. misturar a disposição dos é necessário desprogramar, repensar
intelectos. todos os sistemas e métodos vigentes.
uma bússola revirada, e revigorada. desordenar. haverá necessidades de; e se
em viagens recentes fiz questão de fizer de outro modo; se é verdade que
carregar uma bússola, companheira tão preciso tanto; o solo mesmo não se refaz?
amiga quanto a lanterna e uma mochila composição. assimilar as cores do local,
gordinha, um pouco alta. apetrechos a partir dele construir e só. em volta, são
úteis, talvez neste caso ainda mais úteis tantas as coisas que estimulam a perda
enquanto ideias de viagem, desejos de sem rumo, o caminho mesmo do cristal,
nomadismo. vontades de incorporar um do arranha-céu com tv de plasma e
personagem explorador: expedito azuis, correrias.
aquele que age, despachado viajante. transição. transitivo transitar dos
procura caronas, aprende a voar. povoa entes mistérios, minérios, ritmos pró-
de cores e florestas uma paisagem, ela prios constituintes da tábula rasa da
mesma enquanto imagem de sossego e monotonia. monotipia, rumos em vão:
desafios, abrigo, localizada mais DEN- tantas técnicas e só vejo uma cor. ruído
TRO do que FORA, para falar de de voltagens, confunde nossos cérebros.
coordenadas. desejos, como as praças e x

os lugares, se confundem. nada é só um trans é um radical queer. que se


mesmo, coisa afável e distinguível das situa para além dos sistemas, da
demais. compreensão costumeira dos entrecoi-
ir além implica em transitar. na sas. costura bordados e ri do próprio
contramão dos engarrafamentos*, desatino, desconversa, nunca se saberá
caminho sem pressa, atravesso pontes e ao certo onde vai. pode assumir carac-
escalo prédios. se trata de superar teres absurdos, atravessar a amazônia,
expectativas, por adquirir rumos se transformar.
truncados, incertos demais para especu- transtornos são possíveis, aspectos
lar. nada mais que um treino, até que sinceros que vêm à flor da pele, se
saiba não existir em espera nem planeja- perdem. água e animais, super gêmeos
mentos complexos, mas sim em processo, ativar, sempre outra coisa que não a
corrente, que flui e escorre das calçadas, esperada. x, que não tem gênero nem
só anda a pé. classe, assume formas variadas de
acordo com a situação. estratégia faz

29
parte de sua estrutura desestruturante a guerra e a diplomacia colonizadora
— preparada para transcender as há outras relações de vizinhança
maiores crises, entrar em transe, possíveis. em qualquer escala.
alucinar.
* ***
processos lúdicos que implicam em
engarrafar carros e pessoas, como
consequência de um equívoco histórico.
são intensos, memoráveis e até mesmo
hilariantes, tão presentes no cotidiano
de cidades populosas. paradoxalmente,
quando se procura saber a respeito do
estado dos engarrafamentos locais, fala-se
em informações sobre o TRÂNSITO.

VIZINHANÇA
[ E n r i c o R o c h a ] a partir do seu lugar,

possivelmente, você perceberá o lugar


do outro.
sua reação pode ser de quem reconhece
uma ameaça, o mundo pode está cheio
delas; ou um vizinho, o mundo pode ser
uma imensa vizinhança. diante de
uma ameaça, não há muito o que fazer,
ou você foge dela ou você a enfrenta,
geralmente com violência. em uma
relação de vizinhança, você negocia
o que é comum, as aproximações
e também as distâncias necessárias.
aqui, a vizinhança poder ser considera-
da o lugar que você mora, a cadeira do
ônibus que você compartilha, a rua que
você ocupa em dias de manifestação
etc. bom pensar que uma boa política
de vizinhança deve partir de relações
recíprocas. bom acreditar que entre

30
31
Máscara de Bakunin nas manifestações.
Rio de Janeiro, 2014.

página anterior: Mulher ensina a usar o turbante, na


Máscara de Amarildo Antiga Fábrica da Bhering,
Carnaval no Rio de Janeiro, 2014. Rio de Janeiro.
Foto:Soraya Albuquerque

32
Metrô em São Paulo

Célula Armada de Putas Histéricas

33
34
Bloco ‘Se Benze que dá’
Maré, Rio de Janeiro.

Protesto de prostitutas em
Niterói contra as batidas
recorrentes da policia e
contra prisões ilegais de
suas colegas em Bangu.
Abril 2014.
Foto: Laura Murray

35
36
37
Grande Ato dos Garis
Rio de Janeiro, 07 de março de 2014.
Foto: Mídia Ninja

página anterior:
Manifestação dos garis
em Belo Horizonte.
Foto: Mídia Ninja Opavivará
Viaduto da Perimetral,
Zona Portuária,
Rio de Janeiro,
7 de julho de 2012.
Acervo Opavivará

38
Guerreiros do Estelita
Foto: Elvio Luiz dos Santos

Desocupação da
favela da Telerj
Rio de Janeiro,
abril de 2014.

próxima página
Telerj

39
40
41
Manifestação pré-Copa do
Mundo, Copacabana.
Rio de Janeiro, 2014.

Paquistanesas trabalhando na confecção


das bolas da Copa do Mundo de 2014, uma
encomenda da empresa Brazuca para a
empresa Forward Sports. A Brazuca
fornece, por sua vez, para a Adidas.
Sialkot, na província de Punjab, Paquistão.

42
UPP = Unidade de Porrada em Pobre.
Rio de Janeiro, 2014.

Cinelândia,
Rio de Janeiro, 2014.
Fo t o : M a rc e l o Va l l e

Tropa de Prof em
manifestação no
Rio de Janeiro.

43
Grafitti encontrado no
Rio de Janeiro em meados
de 2014.

Mobilização Nacional
Indigena
ato “Copa para Quem?”
Brasília, 27 de maio de 2014.
Fotos: Mídia Ninja

44
45
46
47
página anterior
Foto: Davi Marcos, Rio de Janeiro, 2014.

R i o d e J a n e i r o . Polícia preparada para a manifestação do


dia 1º de Outubro de 2013 na Rua Evaristo da Veiga,
em frente ao Quartel General da Polícia Militar do RJ.
Foto: Davi Marcos

Favela da Maré
Foto: Davi Marcos

48
ANTI-HERÓI
ANÔNIMO
O herói anti-herói e o anti-herói anônimo
Hélio Oiticica, 25.03.1968

Cartaz Cara de Cavalo


A g ê n c i a Tr a n s i t i v a

Mundo Rua
Ta t i a n a R o q u e

HÉLIO OITICICA Anotações relacionadas ao Anti-herói anônimo


Vá r i o s A u t o re s
25.3.1968

O HERÓI ANTI-HERÓI
E O ANTI-HERÓI ANÔNIMO

Para “Iconografia de Massas”


de Frederico Morais ESDI

Em começos de 1965 quando germi- com o trágico caso dos mendigos


nava a idéia de uma homenagem a afogados, etc.). Cara de Cavalo foi de
Cara de Cavalo, que só veio a se certo modo vítima desse processo —
concretizar numa obra em maio de não quero, aqui, isenta-lo de êrros, não
1966 (Bólide-caixa nº18 – B33), o meu quero dizer que tudo seja contingência
modo de ver, ou melhor a vivência que — não, em absoluto! Pelo contrario, sei
me levou a isso foi a que defini numa que de certo modo foi êle proprio o cons-
carta ao crítico inglês Guy Brett (12/ trutor do seu fim, o principal responsá-
abril/67) como um momento ético. vel pelos seus atos. O que quero mos-
Como se sabe, o caso de Cara de Cavalo trar, que originou a razão de ser de
tornou-se símbolo da opressão social uma homenagem, é a maneira pela
sobre aquele que é ‘marginal’ — margi- qual essa sociedade castrou tôda
nal a tudo nessa sociedade; o margi- possibilidade da sua sobrevivência,
nal. Mais ainda: a imprensa, a polícia, como se fôra ela uma lepra, um mal
os políticos (Carlos Lacerda pessoal- incuravel — imprensa, polícia, políti-
mente chefiou uma “blitz” ao mesmo, cos, a mentalidade mórbida e canalha
aliás como já o fizera em relação a de uma sociedade baseada nos mais
outros anteriormente) — a sujeira degradantes principios, como é a
opressiva, em síntese, elegeu Cara de nossa, colaboraram para torná-lo o
Cavalo como bode expiatório, como símbolo daquele que deve morrer, e
inimigo público nº1 (jáem 62 haviam digo mais, morrer violentamente, com
feito o mesmo com Mineirinho e logo todo requinte canibalesco (o motivo
depois com Micuçu, tudo isso no chave para isso foi o assassinato,
governo Lacerda, que se tornou símbo- numa luta, do detetive LeCoq, do
lo da opressão social policial, inclusive Esquadrão da Morte, organização

49
policial que envergonharia qualquer dia, jogou fora o roubo e suicidou-se).
sociedade de carater, composta de Por que o suicídio? Que diabólica neurose
policiais assassinos e degradados, (aliás tão shakesperiana) o teria levado
que até hoje milita por ai com outras a preferir a morte à prisão? Uma esperança
pessoas e outros nomes). Há como que perdida, o desespero dessa perda, mas qual
um gôzo social nisto, mesmo nos que se perda? Uma idéia, sei lá se certa ou não,
dizem chocados ou sentem ‘pena’. me veio: seria isto a busca da felicidade
Neste caso, a homenagem, longe do (aqui entendida como segurança, afeto,
romantismo que a muitos faz parecer, tudo o que envolveria a falta que ocasio-
seria um modo de objetivar o problema, nou essa neurose)??? Mas, deixemos êsse
mais do que lamentar um crime socie- problema para o nosso querido Hélio
dade x marginal. Qual a oportunidade Pellegrino.
que têem os que são, pela sua neurose O certo é que tanto o ídolo, inimigo
auto-destrutiva, levados a matar, público nº1, quanto o anônimo são a
ou roubar, etc. Pouca, ou seja, a sua mesma coisa: a revolta visceral, auto
vitalidade, a sua defesa interior, destrutiva, suicida, contra o contexto
a sobrevivência que lhes resta, porque social fixo (“status quo” social). Esta
a sociedade mesmo, baseada em revolta assume, para nós, a qualidade de
preconceitos, numa legislação caduca, um exemplo — êste exemplo é o da
minada em todos os sentidos pela adversidade em relação a um estado
máquina capitalista consumitiva, social: a denúncia de que há algo
cria os seus ídolos anti-heróis como podre, não neles, pobres marginais,
o animal a ser sacrificado. mas na sociedade em que vivemos.
Já outra vivência sobrevem a do Aqui isto aparece no plano visceral e
ídolo anti-herói, ou seja, a do anti herói imediato. Num outro plano, mais geral
anônimo, aquêle que, ao contrário de e com outras conotações estariam as
Cara de Cavalo, morre guardando no mais heróicas experiências: Lampião,
anonimato o silêncio terrível dos seus Zumbi dos Palmares, mais adiante
problemas, a sua experiência, seus o exemplo mais vivo em nós, grandioso
recalques, sua frustração (claro que e heróico, que é o de Guevara.
herói anti-herói, ou anônimo anti-herói, O problema do marginal seria o estágio
são, fundamentalmente a mesma coisa; mais constantemente encontrado e
essas definições são a forma com que primário, o da denúncia pelo comporta-
seus casos aparecem no contexto mento cotidiano, o exemplo de que é
social, como uma resultante) — o seu necessária uma reforma social comple-
exemplo, o seu sacrifício, tudo cai no ta, até que surja algo, o dia em que não
esquecimento como um feto parido. precise essa sociedade sacrificar tão
Numa outra obra (Bólide-caixa nº21 cruelmente um Mineirinho, um Micuçu,
– B44 – 1966/67), quis eu, através de um Cara de Cavalo. Aí, então seremos
imagens plásticas e verbais exprimir homens e antes de mais nada gente.
essa vivência da tragédia do anonima-
to, ou melhor da incomunicabilidade ***
daquêle que, no fundo, quer comunicar-se
(o caso que me levou à vivência foi
o do marginal Alcir Figueira da Silva,
que ao se sentir alcançado pela polícia
depois de assaltar um banco, ao meio

50
AGÊNCIA TRANSITIVA

CARTAZ CARA DE CAVALO

51
TATIANA ROQUE

MUNDO-RUA1

Em junho, as ruas do Rio — militantes do PT e da


de Janeiro tinham de tudo: CUT que acharam
— jovens protestando pela corretamente que deviam
primeira vez, motivados participar das manifesta-
por participar de um ções, afinal algumas das
evento coletivo de rua que pautas são históricas
não era carnaval nem destes movimentos
futebol — pessoas, simplesmente
— alunos de escolas públicas pessoas, insatisfeitas com
e particulares, em franco as concessões do governo
processo de politização, e dos “políticos”, que não
para um lado que ainda distinguiam entre um
não sabemos qual (talvez governo e outro, um
os do Pedro II para a político e outro e apoia-
esquerda e os do Santo vam os atos contra os
Inácio para a direita, mas partidos
não necessariamente) — pessoas, simplesmente
— movimentos organizados pessoas, que estão de saco
que já estão aí há cheio de ver o dinheiro
séculos: negros,sem-terra, jorrando para estádios e
sem-teto… eikes e de não ver contra-
— infiltrados de direita, partida à altura em suas
skinheads filhos da puta condições de vida e de
que quiseram sequestrar o trabalho (ex. trabalhado-
ato atacando os grupos res da saúde)
acima — pessoas, mais pra jovens
— partidos de esquerda muito jovens, que são
PSTU, PSOL, PCO contra a corrupção, não
identificados como viram o que havia antes e
partidos tout court, compram parcialmente o
e para a infelicidade deles discurso da mídia que
também ao PT cola a corrupção ao PT
— infiltrados de direita, — militantes que já foram
talvez para militares, muito petistas, como eu,
enfim babacas que deram putos com as concessões
porrada em quem era de do governo aos ruralistas,
partido contra os índios, aos
evangélicos, aos felicianos
1  Trecho do texto publicado como etc.
parte da Revista Periódico Perma-
nente no. 5, editada por Cecília
Cotrim, Fórum Permanente.
forumpermanente.org/revista/
revista/numero-5

52
— gays e simpatizantes
super bem-humorados
contra a absurda cura gay
— militantes de esquerda,
mais velhos, que já foram
pra rua inúmeras vezes
lutar contra a corrupção,
quando o PT era oposição,
em uma luta que não era
considerada vazia nem
sem projeto
— muitos gritos contra a
rede Globo, de esquerda
e não
— pessoas, simplesmente
pessoas, que estão putas
— ah! e os tais “vândalos”…
radicais de direita ou
esquerda? saqueadores?
ou jovens que já sofreram
muito na mão da polícia e
que queriam dar o troco?
jovens empoderados por
uma nova ocasião política
de se expressar e pertencer
a algum movimento
coletivo?

***

53
VÁRIOS AUTORES Adriana Facina / Mc Galo Galo
Intelectual militante? Da onde? Sindicato? Não, não
ANOTAÇÕES acredito nessa forma de luta. Partido? Tampouco, não
RELACIONADAS AO faço o jogo da política institucional. Movimentos sociais?
ANTI-HERÓI ANÔNIMO Eh… não exatamente. Ah, entendi, desenvolve projetos de
extensão universitária, ações voltadas pra democratiza-
ção da universidade em que trabalha? Não tenho tempo
Batman, Amarildo,
pra isso. Bom, então, dado seu notório saber, deve prestar
Claudia,
consultorias para apoiar demandas de indígenas,
Cineasta, Raposa,
quilombolas, sem terra, favelados, lgbt ou qualquer outro
Estudantes,
grupo marginalizado? Todos esses são grupos sequestra-
Classe sem educação,
dos em suas subjetividades pela lógica estatal. Bom,
Gari, Sininho, Rafucko,
então onde diabos você milita? Por aqui pelo face/twitter
P2, Black Bloc, Black
mesmo. Ah, tá bom. Então te dedico a música abaixo,
Prof, Feminista, Bloco
direto da lavra do MC Galo Galo:
do Nhoque, Multidão…
* Se liga aí neguinho Eu perguntei geral responde
se vc for um pelego/ Rapadura é doce Tu é malandro da onde
trate logo correr/black mas não é mole Tu é malandro da onde
profs são guerreirxs/ Se fui pobre não me lembro Eu perguntei geral responde
elxs vão surpreender/ Se fui rico me roubaram Tu é malandro da
magistério é assim msm/ onde, neguin
Como dizia Bezerra da Silva
bota o choque p correr... Tu é malandro da onde
Malandro é malandro
Black Prof Tu é malandro da onde
E mané é mané
* Olha só
Eu perguntei geral responde
COMLURB Nunca te vi na TV,
Tu é malandro da onde
♫ Acelera COMLURB seu maluco
Tu é malandro da onde
que eu quero vê. Nunca te vi no jornal
Eu perguntei geral responde
Esse lixo vai fedeeeeê! Nunca te vi na revista
Tu é malandro da
A prefeitura não deu E mesmo assim
onde, neguin
aumento não. se acha o tal
Tu é malandro da onde
Esse lixo vai ficar Você mente à vera
todo no chão! ♪ Decida com o pé no chão Se chamar pra batalha
Garis Em cima do muro tá passando mal
* não pode ficar Mas só com morador
Proibido não é o vacilo Esse otário mandado
Qual a diferença entre
Proibido é você vacilar perde a moral
o cabral e o eike,
Água não se mistura
um acha que é rei, Eu perguntei geral responde
com óleo
o outro acha que é sheik. Tu é malandro da onde
Óleo não se mistura
* Tu é malandro da onde
com azeite
Diante das manifestações, Eu perguntei geral responde
Já falei que malandro
adote seu filho antes que Tu é malandro da
é malandro
um professor de história onde, neguin
E band-aid é band-aid
ou filosofia o adote. Tu é malandro da onde
Tu é malandro da onde
*
***

54
ASSEMBLEIAS
As assembleias populares na
luta pela liberdade no Rio de Janeiro
Fernando Monteiro

FERNANDO MONTEIRO

AS ASSEMBLEIAS POPULARES NA LUTA PELA LIBERDADE NO


RIO DE JANEIRO1

Durante o ano de 2013, as lutas populares avançaram na cidade


do Rio de Janeiro. Lutas que ganharam corpo no movimento contra
o aumento das passagens e que geraram um debate mais amplo
sobre o sistema de transportes coletivos do estado e dos municípios. 
Rapidamente, a tomada das ruas pelas multidões gerou uma
variedade muito maior de pautas, incluindo o direito à moradia, 
o questionamento da estrutura representativa dos movimentos
tradicionais — especialmente com a atuação ambígua do SEPE
na luta dos profissionais da educação —, a invisibilidade das
camadas marginalizadas e periféricas da sociedade, a opressão
racial e de gênero, os altos gastos públicos com a Copa do Mundo
FIFA etc. As mobilizações massivas abriram a caixa de pando-
ra das mazelas sociais brasileiras. Os cariocas se olharam no
espelho e não gostaram do que viram, muitos abandonaram as ruas
sob diversos pretextos que iam desde a suposta violência dos Black
Blocs ao risco de cooptação pela direita. Uns bradavam a ameaça
de golpe fascista, outros se assustavam e retraiam-se diante do o
golpe fascista que já foi dado: a extrema violência policial sob os
auspícios de governos. As justificativas para o esvaziamento das
ruas foram tão heterogêneas quanto a multidão. Contudo, este
esvaziamento não significou o fim das mobilizações, pelo contrário,
elas se espalharam pelo o espaço geográfico da cidade e mantiveram
uma frequência de Junho a Dezembro, sendo renovadas no começo
do corrente ano.

1  Texto publicado pelo ‘Coletivo Das Lutas’, daslutas.wordpress.com

55
A complexidade de conjuntura das regionais ou de bairro como a do Méier,
ruas e dos diversos grupos, coletivos e Tijuca, da Fronteira e Zona Oeste.
indivíduos que constroem as manifesta- Além das assembleias nas ruas, 
ções e criam resistências através de foram experimentadas outras formas
discursos e ações supera qualquer bre- de organização e discussão através das
ve contextualização. O que apresenta- redes sociais digitais, mas, o acesso
mos aqui é um voo sobre a superfície desigual à internet ainda restringe o
do que é construído através de alcance e a eficácia dessas iniciati-
organismos políticos de delibera- vas. Por isso, as ruas e praças ainda são
ção. Num primeiro momento, as mobili- — e parecem estar longe de deixar de ser
zações mantiveram um caráter estudan- — os melhores espaços para construção
til, seguindo as tradicionais formas de dos processos de resistência popular,
deliberação que os estudantes organiza- de relações anti e pós-capitalistas e para
dos utilizam historicamente nesta o debate do direito à cidade ou qualquer
cidade. Contudo, a centralização das outra questão que clame por práticas ple-
decisões produzida pelos métodos típicos namente democráticas, portanto, libertá-
dos partidos políticos e seus braços rias. Em outras palavras, construímos a
estudantis logo produziram dissidências cidade ao transformarmos sua ocupação
nos fóruns. O que se tem hoje é um desejo em prática cotidiana. 
profundo de horizontalidade na estrutu- É nas ruas e praças que alinhamos
ra de deliberação e construção da luta, nossos desejos, construímos consensos
portanto, nada mais coerente do que se e trabalhamos os dissensos, e este é o
viu no Rio: a sequência entre esvazia- momento de avançar na expansão e
mento de fóruns centralizados e prolife- construção de novas assembleias e no
ração de assembleias horizontais. Esse fortalecimento das que já foram constru-
processo foi notado ainda em 2013 com ídas, promover o livre diálogo entre elas
o aparecimento de assembleias popula- e criar as pautas da cidade através das
res como a do Largo de São Francisco contingências urgentes geradas pelas
(desdobramento imediato do desaponta- interseções geográficas, afinidades e
mento com o Fórum de Lutas Contra o aproximações metodológicas de cada
Aumento das Passagens), a Assembleia organismo autônomo.
da Câmara (inicialmente ligada à ocupa- Através do fortalecimento dessas
ção da Câmara dos Vereadores, mas que práticas podemos gerar uma estrutu-
mantém suas atividades mesmo após ra eficaz para a continuidade e o
as desocupações da Câmara Municipal  fortalecimento das lutas vivas na
e da praça em frente) e assembleias cidade do Rio de Janeiro. 

56
É o desejo de multiplicidade de métodos, táticas e espaços de
deliberação se somando, mas não se restringindo aos fóruns
universitários. Parece bem evidente que, a partir das assembleias
regionais e de bairro, o povo pode exercitar a democracia e aliar o
âmbito político ao econômico nas práticas que levarão as mudan-
ças que desejamos. Acusarão de utopia a produção de uma estrutu-
ra política distribuída, livre e democrática para a gestão de nossa
cidade. Desacreditarão que com essas práticas políticas possam
surgir estruturas econômicas alternativas às vigentes. 
Mas a efetivação da emancipação popular e da liberdade é possível!
O que se viu até hoje na história foram vanguardas “ilumina-
das” tentando conduzir revoluções e logo se convertendo nas mais
conservadoras elites. O que se vê é a invisibilidade proposital e um
cruel apagamento dos registros históricos das práticas de conse-
lhos de trabalho, assembleias regionais e de bairros durante tais
processos revolucionários. Precisamos de mais análises críti-
cas para entender o papel desses organismos espontâneos e popula-
res que se criam em momentos de efervescência política. Eles sur-
gem da necessidade de ruptura com os métodos em vias de serem
superados e com os espaços que já não mais correspondem às
necessidades organizativas. Organismos quase sempre destruídos
pelo centralismo das velhas instituições partidárias que almejam
controlar as estruturas do Estado, ignorando (ou não) que não
será através dos espaços institucionais capitalistas que se criará
uma ordem social justa e liberta.
Este é um apelo para que todos nós, coletivos e indivíduos,
organizações e mentes livres, depositemos mais de nossos
esforços na construção dessas estruturas horizontais, para que
possibilitemos os encontros entre os corpos que lutam.
Deles poderão surgir os métodos e estruturas adequadas para
as necessidades de qualquer conjuntura. Encontraremos um
ou mais caminhos através da prática e do exercício cotidiano da
micropolítica pulverizada por todos os espaços possíveis.

Saudações Libertárias

***

57
BAGUNÇA
(PERFORMANCE)
Matheus 4:19
Raphi Soifer

RAPHI SOIFER

MATHEUS 4:19

(recordações de um tipo romário: todo mundo em belém


bagulho-intervenção de Raphi Soifer é bicha, o que é ótimo, mas nem todo
e Romário Alves.
Círio de Nazaré, Belém do Pará, mundo é romário, o que é uma pena.
14 de outubro de 2012) romário alves, ou wellington romário
só podia ser de belém, sua criatividade
é suarenta e constante, como se fosse
provocada por uma umidade bajubá ou
algo assim. a gente se conheceu e logo
resolveu sair no círio de anjos lixeiros.
não lembro exatamente como chegamos
a essa decisão, mas sei que foi quase
imediata.
fui a belém fazer bagunça, como sempre
faço em qualquer lugar. eu trouxe uma
performance comigo para apresentar na
sede do gempac, grupo de mulheres
prostitutas do estado do pará — área
fui a belém pescar lixo no círio de central. mas foi censurada quando os
nazaré. não sabia, quando eu parti, que ia vizinhos começaram a reclamar que eu
dar nisso, mas a cidade, a procissão e a não estava usando roupas. uma das
região amazônica em geral tendem a prostitutas explicou que a zona não era
providenciar esses tipos de revelações mais como antigamente.
espirituais repentinas.

58
(estou demorando a aprender que nosso recolhimento não era um
bagunçar é o que eu mais tenho para serviço público, nem uma limpeza
contribuir. segundo os comerciais do omo, e muito menos uma revisão do
se sujar faz bem, e eu tendo a concordar. que a cidade tinha acabado de jogar
a vida é suja, e a memória é uma bagunça fora. era uma comemoração do lixo,
só, com cada vez mais cidades e imagens de como esse passado recém-descartado
e pessoas e palavras jogadas uma sobre a produz as condições para as nossas
outra no meio de uma poeira sentimental. promessas se dizerem bem realizadas.
e qualquer performance, no fundo, na nossa peneira (achada na rua alguns
deve ser entendida como uma tentativa de dias antes do círio) e na rede de pescar
tirar toda a roupa. isso não implica que rasgada (doado por pescadores no merca-
as performances bem-sucedidas necessaria- do de açaí), juntamos copos de plástico,
mente contariam com a nudez, mas o corpo figuras de cera, tênis e chinelos abando-
trangressor guarda instintivamente a possibili- nados, velas, restos de comida.
dade de jogar fora tudo que tenta defini-lo). chegamos atrasados, por volta das
8 da manhã, mas acompanhamos o
círio do primeiro quarteirão da avenida
presidente vargas até a basílica da nossa
senhora de nazaré, uns 2 quilômetros
e tanto depois. romário fumava cigarros
durante todo o percurso, e eu usava um
cordão de aço com um pingente de
metralhadora. algumas pessoas até me
perguntaram sobre a mini-arma (é como
um crucifixo moderno, eu explicava),
mas ninguém parecia se incomodar tanto
fui a belém para brincar no lixo que com os anjos descalços e barbudos,
o sagrado sempre produz, não apenas nos vinte e tantos anos mais velhos que os
seus esforços de se distinguir do profano, demais anjinhos do círio. já disse que
mas em tudo o que é materialmente necessá- belém é uma cidade bem bicha, e isso
rio para sua exaltação, mas que não merece implica saber lidar com a bagunça dos
veneração por si só. os copos descartáveis outros: cada um que cumpra as suas
de que os milhões de peregrinos bebem ao promessas da maneira que bem entenda,
longo do percurso do círio não contêm água desde que não atrapalhe as promessas
benta, e viram um desperdício qualquer dos outros.
depois de jogados fora.

59
(5 meses depois, no carnaval do rio,
meu pingente foi roubado por um policial
militar na rua frei caneca, que apontou
seu revólver para mim enquanto tirou a
corrente do meu pescoço e arrancou o
metralhador. depois, devolveu a corrente
vazia, e eu desejei a ele um feliz carnaval).
no final, romário e eu tiramos nossos
figurinos de anjo e os deixamos, junto
com a peneira, a rede e todo o lixo do
nosso círio pessoal atrás da basílica,
do outro lado da cerca de um gerador,
para ser tanto uma oferenda quanto
uma lembrancinha.

***

60
BRASIL
BRASIU
BRAZIS
Brasil| brasiu | Brazis
Cristina Ribas

Querelas do Brasil
M a u r í c i o Ta p a j ó s e A l d i r B l a n c , 1 9 7 8

CRISTINA RIBAS

BRASIL| BRASIU | BRAZIS

Um Brasil? Não, não tem um só. À distância também são muitos.


Há camadas de intensidade e de profundidade. Cada um tem um
Brasil projetado, cartografia projetiva, e um Brasil radicalizado,
conhecido, pé na terra. Tem gente que tem um Brasil urbano, do
asfalto do metro a metro. Outros têm um Brasil de interior, de
procurar cachoeira, curva e plano inclinado. Tem gente que tem
Brasil pra fora, que vive fora dele e que o alimenta como se alimen-
ta passarinho na gaiola. Tem gente que vive fora dele, porém dele
nunca saiu. Quem vem de fora e quer chegar no Brazil, esse encon-
tra outro também. Quem escreve Brazil, já diz a que vem. brasiu
menor tem também.
Brasil | brasiu | Brazis. Significações em disputa. Um sonho
moderno não consumado. Por ninguém. Como querer consumar um
projeto moderno, quando na verdade não há consumação que
chegue? Quando a consumação é equação, valendo mais como
instrumento de mais valia, de incitar a máquina produtivista, de
fazê-la espremer a estômagos vazios algo que se toma por Cresci-
mento? … Consumação de algo, que não se consuma, e Poder. Há um
cansaço da repetição dessa diretiva. Há uma reclamação pela
proliferação de sentidos desse Brasil. Não faz muito que novamente
fomos tomados por uns afetos grandiosos e impossíveis de conter.
Palavra Crescimento. O crescimento do Brasil seria imagem mais
poética se não fosse dolorosa.

61
Quem opera, incólume, os bits das máquinas desenvolvimentis-
tas? E quantos bits. Quantas estatísticas por encima daqueles que
recebem seja na perfuração do corpo a bala seja na destruição de
seus modos de vida, camadas de concreto armado sobre suas terras?
Afetos duros esses de fazer crescer e exportar a torto e a direito
mais valia de nós: “Engenheiros, mais engenheiros!”, disse Dilma.

Todo mundo que menciona — Brasil — , agencia, todo mundo


que habita, mais também. Aqueles que o fazem, desde dentro, do
brasiu pequeno, desses jeitos de fazer dessa terra, tem segredos.

Porque é assim que se faz Brasil | brasiu | Brazis. De maneiras


diferentes. O brasiu pequeno escapa pelos discursos ostentatórios e
promissores, como se não ouvisse, pela sua preguiça mixta de
resistência, o que dizem essas vozes robustas, que anunciam
desmedidos roubos, que arrasam desmedida gente. brasiu no toque
das coisas daqui na palma da mão, e entre mãos e batatas de
pernas e escápulas, suor e sono sonâmbulos no transporte público, e
frita quente o pastel e queima e refresca pela concessão diária dos
pequenos prazeres e das pequenas curas. brasiu mamão formosa
cresce no fundo do quintal de quem tem casa ou cresce na rachadura
do concreto daquela pirambeira no Alemão. brasiu código pequeno de

62
sabor gigantesco, bula de sobrevivência essa sua
toda medicina. Camarão seco cruza o país, chega
aqui perto, cozido bem cozido entrou no estômago
com cheiro de jambu e tudo mais da alquimia do que
eu não sabia. cheguei. brasiu inteiro. interno. como
acordar as 5 da manhã. v e r DES // DOBRAMENTO // S

Quando eu era criança cruzamos o país em um


ônibus. Foram três ou quatro dias. Minha mãe nos
levou para o Maranhão. Rio Grande do Sul-Mara-
nhão. Vixe Maria. Mudança da paisagem, claro,
nem posso relatar tudo. Buriticupu. Imperatriz. São
Luis do Maranhão. Conheci Maria-do-socorro, a tia
avó dos meus primos.
Eu olhava pra ela, que era dona de farmácia, ou
enfermeira, não sei, e pensava “que nome! Que
nome!” Que apropriado era, ainda mais pra mim na
minha cabeça de criança. Ela tinha todos os jeitos
do cuidar. Maria-do-socorro me faz pensar hoje no v e r INFRAESTRUTURA

brasiu das pequenas medicinas, das pequenas curas,

dos sabores… num brasiu pequeno e íntimo, que vem


pelo gesto de se aproximar, de saber e pela intimida-
de. Um brasiu hoje confrontado… Um brasiu com
menos espaço pra ser antropofágico, e que vem sendo
apressado…
Na escala nacional, qual seria nossa Maria-do-so-
corro? Como será que esse país-cuida-de-si? Parece
que nas transições Brasil | brasiu | Brazis se precisa de
várias Marias-do-socorro… a todo o tempo. Este
vocábulo não é, contudo, mister nem em remédios,
nem em análise política. É uma maneira de relatar
uma percepção. Na memória do recente, no plano da
política do estado, parece ser impossível não refletir
o que se tem agora com o que se tinha antes, quando
antes o plano do governo sustentava diferencialmen-
te os fluxos do desejo dos movimentos e das singula-
ridades. Na memória afetiva, é como se houvesse um

63
rompimendo do humanismo escala um-pra-um no
Lula dos seus começos (dos seus pequenos remé-
dios!), que desapareceu sob as estatísticas Dílmicas
grandiloquentes, visto que meio que de repente nos
interpela com sua VIOLÊNCIA FEMININA de presidenta, não
que não soubéssemos de sua inclinação, traindo em
parte, para muitos de nós, sua própria história
militante…
No governo anterior a esse que já se despede
(provável…) muitos se ocuparam temporariamente
em sustentar uma tradução de projeto e de escala,
com capacidade, com manobra política. Quanto
esforço, quanta inviabilidade. Parecia que havia
uma certa pedagogia, ou o experimento de potenciali-
dades que dependiam evidentemente de uma conta-
minação mais fresca entre práticas dos movimentos
sociais, seus representantes e os conselhos criados
na busca de aplicar metodologias territoriais,
porventura radicais, sobre os mecanismos cansados
da máquina estatal. O que poderia ser renovado nas
linhas da produção, reprodução e mobilização social
num projeto talvez inaugural de abertura democráti-
ca? Mas algo disso se perdeu, aos poucos, e bastante,
e quase tudo.
Ouvi de Célio Turino uma vez que o estado que ele
pensava e praticava era um “estado educador”,
quando ele ainda estava no Cultura Viva. (E hoje ele
faz crowdfunding para publicar seu livro sobre
Pontos de Cultura?) O estado educador foi portanto
sendo enxugado e desmelhorando numa versão mais
efetivista, retirando gente mais do que incluindo nos
programas de fomento à cultura pela remodelação ou
orientação à economia criativa. Nos últimos anos
vivemos, portanto, uma disputa mais dura de usos e
significações da terra Brasil-Brazis, colocado entre o
superavit da economia (mais precisamente das

64
empresas privadas), e a criação de camponeses nas suas nesgas 1, modos
programas de distribuição de renda, ou de vida, nas suas matas. Nessa cena
o aumento de serviços e assistência por confusa entre a floresta e a barragem, o
parte do governo federal que são grande verde-amarelo que é vendido é
determinantes no crescimento do país um Brazil colonizado por si mesmo,
a partir da mobilização da economia pequeno império regional.
de bens de consumo, do aumento do Brasis. Tanta gente, tanta gente. Se
poder de compra, do Bolsa família, de mistura e se multiplica com capacida-
dignidade, de casa própria, de acesso a de de proliferação incontrolável. A
estudo, bolsas de estudo, etc. “Estatis- escrita antropofágica de Giuseppe
ticamente, isso se traduziu na mobili- Cocco em “Mundobraz: o devir Brasil
dade ascendente dos níveis de rendi- do mundo e o devir mundo do Brasil” 2
mento de mais de 50 milhões de marca uma nova maneira de pensar o
brasileiros e pela entrada de novas Brasil | brasiu | Brazis. Brasil arreba-
gerações nas escolas técnicas e univer- tante, intensivo, recuperado nas suas
sidades.” (Cocco, 2013) A disputa forças antropológicas e, claro, antropo-
entre dimensões de tamanha distância fágicas. É a partir de uma ética da
não é só por valores, mas é por posses, potência dos pobres, de linhagem
pela manutenção das classes sociais negro-negriana (de Antonio Negri) que
estratificadas por parte daqueles ele vai traçar a análise desses Brazis
abastados, ou pela subida ou atraves- que sacodem a relação significação/
samento delas, como têm desejado valoração no modo produtivo do
alguns fluxos do governo… Por tudo capitalismo contemporâneo e colocam
isso somos BRICs lá fora, de forma a criação como valor. A proliferação de
glamurosa mas, e aqui dentro? Ao modos de vida nesses Brasis seria
passo que há uma inclusão na econo- não um arquipélago de multicultura-
mia (a retirada da extrema pobreza) lismos como se pensa nos discursos da
há ao mesmo tempo um crescer em globalização, mas uma hibridação,
bloco, ou seja, aquele abastado também miscigenações, ou seja, mundialismos.
está crescendo numa equação que afeta Capacidade de criação do mundo, seguin-
por demais o brasiu menor. É perceptível do o pensamento de Jean Luc Nancy.
então que afeto/efeito desenvolvimen- 1  Agricultura familiar e de pequenos produtores cor-
tista se mantém por meio de um tônus responde à cerca de 70% da produção de alimentos no
Brasil. (dados do Ipea)
que faz adoecer gente e mais gente de
2  Giuseppe Cocco (2009) MundoBraz: o devir Brasil
afetos moles, afetos frágeis. Pobres da do mundo e o devir mundo do Brasil. Rio de Janeiro:
periferia, corpos índios em suas casas, Record

65
Na perspectiva do trabalho, isso ou dos países menos desenvolvidos.
significa uma capacidade inventiva O ideal do emprego não seria, portanto,
das formas de trabalhar, nas variações salvaguardar de um perigo, visto que a
da cooperação social e da produção de precarização se acentua mais ainda
renda. O Brasil é para Cocco um com o novo modelo de acumulação. O
híbrido complexo. novo modelo, o capitalismo financeiro
E na luta política a radicalização da (ou financeirista), desloca o lucro da
democracia é o grande desafio donde produtividade de bens propriamente
surge uma construção imanente, a ditos e acontece por meio do aumento
sociedade como constituinte, como da circulação, seja de informação, seja
processo. de saberes, de funções. Ou seja, há
Um nervosssssso.1 mais lucro quanto mais há de circula-
O Brasil-Brazis desenvolvimentista ção da informação, e do valor que um
por sua vez, na minha parca percepção, produto agencia, por exemplo — ima-
convoca a entrar numa linha de gem da publicidade ela mesma no
produção que é mais ainda da ordem de mundo digital. Jean Baudrillard
uma auto-exploração (assim como do chama isso de “fim da referencialida-
território), que cobra uma espécie de de”. Franco (Bifo) Berardi 2 fala em
fidelidade, o comprometimento com uma “autonomização do dinheiro”, que
aquele Crescimento. O que não parece passa a circular por si, separado
estar em discussão, contudo é o modelo também da força-trabalho do trabalha-
de desenvolvimento, um modelo que dor. O fim da referencialidade é
nos leva para a mesma falência am- também a des-papelização do dinheiro,
biental e social que já vimos em tantos que se soma à essa des-fisicalização do
outros países desenvolvidos. O Brasil- dinheiro relacionado tanto à força-tra-
-Brazis é formado, evidentemente, por balho como ao produto ele mesmo.
todas as variações possíveis de forma Encurtando uma boa parte da história,
de produtividade e lucro, o que lhe dá o “crescimento econômico” hoje em dia
essa característica plural e complexa. é baseado também em estatísticas de
E a precariedade que marca o trabalho aumento de poder de compra, ou
na contemporaneidade não é uma capacidade de aquisição de crédito
característica apenas do Brasil-Brazis (dinheiro des-papelizado), e portanto,
de endividamento. Não é à toa que
1  Nervossssso, um tipo de nervoso que bate no osso, para Maurizio Lazzarato na atualida-
coisa constitutiva… definido por mim segundo expres-
são de Margit Leisner nos encontros do Vocabulário 2  Berardi, Franco (Bifo) (2012). The Uprising: On
Político no Rio. Poetry and Finance

66
de o homem e a mulher se tornam sujeitos “endivida-
dos”, ou seja, por mais que o lucro na dimensão mais
abstrata do capital esteja desrefencializado, a dívida v e r COMPLEXIDADE

sempre será paga na medida do trabalho do corpo.


A chamada que faz o Estado, para uma pactuação
com o aumento da auto-exploração de cada um de
nós sem uma radicalização da democracia, desenha
um mapa total do território que passa por cima das
diferenças que são constitutivas dos povos brasileiro.
O enunciado do Crescimento do Poder do Estado
tenta convocar uma simbiose, e de alguma maneira
induzir, à força, pela força da repressão. E não só
aqui, o território Brasil-Brazil, na promessa do
Crescimento que pode levar junto de si outros países
latinos ou países do Sul mundial, se estende para
Bolívia, Venezuela, Cuba, Argentina. Engole a
África, velha mãe, e lhe provê recursos, tecnologia,
mão de obra — caminhos de mão dupla da criação e
da inclusão em uma economia.
Esse Brazil que reproduz dentro de suas tramas
colonialismos cujas linhas de poder nunca sumiram,
que os convoca desde a esquerda como a direita, de
repente recebe um levante. Susto nos discursos do v e r MANIFESTAÇÕES

poder, susto nos discursos arraigados de que há um


povo pacífico, que tudo assimila e que a tudo se
adapta, que tudo digere — e até mesmo seus 5,2
litros individuais de agrotóxico por ano. 2013 um
ano que marca um rompimento. O rompimento que
diz um basta, que escancara a rebelião da periferia e
que reclama no asfalto seus corpos sumidos na
favela. Cadê o Amarildo?   Enquanto insurge um v e r ANTI-HERÓI ANÔNIMO

poder de ruas e de redes, os colonialismos, variando-


-se e confundindo-se em fascismos, militarismos e
diabo a quatro se afirmam com mais força, instituin-
do um momento em que a violência passa a escanca-
rar que esse é o último recurso do Poder. Repressão.

67
Brasil-Brazis em conflito, não um máxima como tal, diante de um tipo de
Brasil homogêneo, ele mesmo contra o engajamento generalizante, macropolí-
Estado. Mas uma multiplicação, uma tico do tipo que o Crescimento e os
multifacetação da potência-criação-vi- megaeventos formalizam? Sendo o Bra-
da (potência concisa da vida cotidia- sil ele mesmo uma coisa TRANS, #sótem-
na, assim pode ser tomada, como na bichanessacidade!, transnational, e
palavra biopolítica), insurgindo e não dizente apenas dos processos
diferindo, debatendo suas significa- internos do Brasil-no-meu-quintal, a
ções, enfrentando de frente e de baixo que servem os discursos de Brasil? De
as linhas visíveis e invisíveis de uma Brasilianização? De brazilianis-
Crescimento, Poder e Repressão. mos? De a certain braziliannnessss? De
((Pinheirinho, ninguém nunca viu. Brasis? Esse é um tema que Cocco trata
Saíram de foices, facões, capacetes, com profundidade em parte de Mundo-
e barricada inventada, galão de óleo. braz, livro cuja extensão e complexida-
Fogo. Potência rizomática pura, trans- de trago apenas drops. Cocco recorta
versal, integração doutra ordem.)) esse trecho de Paulo Arantes em “A
((Rafael Braga Vieira condenado a fratura brasileira do mundo. Visões do
4 anos e 8 meses de prisão, sem crime laboratório brasileiro de mundializa-
qualquer, derivava pela rua, passou pela ção” (2001):
manifestação de 20 de Junho de 2013, “Ocorre que a tal ‘brasilianização’ do
‘portava’ uma garrafa de pinho-sol, tra- mundo (…) indica justamente a contami-
balhava com limpeza, quando foi preso.)) nação da polarização civilizada em
Nos últimos anos o Brasil-Brazis andamento do núcleo orgânico do
se transforma paulatinamente em um sistema pelo comportamento selvagem
grande balcão de negócios, tornando-se dos novos bárbaros das suas periferias
uma espécie de teatro mambembe de internas, que se alastram propagando a
mega eventos, Copa do Mundo, Olimpí- incivilidade dos subdesenvolvidos, de
adas e grandes outras vendas e espetá- sorte que a grande fratura passa a ser
culos que deixam mais explícita a vista também como a que separa os que
incongruência social da diretiva são capazes e os que não são capazes de
economicista. Brazil. Negócios de policiar suas próprias pulsões. (…)”
brasileiros com brazileiros, negócios de O Brazil portanto não é só aqui,
brasileiros com estrangeiros, negócios expresso no território geográfico
de extrangeiros com estrangeiros. O mensurável. O Brazil se faz lá fora,
que sigifica então ser brasileiro por também nos foras desse território.
direito diante de uma semiotização Desejo olhar, contudo, mais para esse

68
brasiu menor, insurgente, esse da ordem dos bandos
e dos bárbaros, que encanta pela capacidade de
quebrar as representações totalizantes de um Brasil-
-estado, de sucumbir àquela semiotização máxima
— Brazil=potência. São partes dele que se movem e
desafiam as determinações da polarização, e bem por
isso não é à toa que o que caracteriza essa brasiliani-
zação é a proliferação de modos produtivos, embre-
nhados de invenção, jeitinho, gambiarrice… sobrevi- v e r HIDROSOLIDARIEDADE
vência. v e r ETNOEMPODERAMENTO

O Brasil-Brazil como coisa vendável é uma malha


flexível, serve a tantos usos quantos modos de vida
habitam esse território. Por isso o Brasil nas suas
variações enfrenta um conflito de representações,
visto que aquilo que define esse território são os
modos de vida e seus movimentos desgarrados, suas
insurgências contra o poder repressivo, inflexões
Brazis-brasiu. O brasiu de corpos vem sendo maltra-
tado nas segregações do poder, julgado e excluído da
sociedade de direitos, criminalizado tanto pela
esquerda no poder e como pela direita no poder, pela
criação de proibições, pelo achatamento da potência
criativa que insurge nos protestos. O brasiu cabe
dentro do Brazil1, mas esse maior não cabe dentro do
menor. Nos códigos de desenvolvimento financeirista,
naquilo que tem direcionado a economia, se desvela
que as linhas de sub // desenvolvimento não é que
sejam incapazes de serem semiotizadas no progresso,
no crescimento, na competitividade, … o Brazil mesmo
é que não quer aceitar tanta diferença e portanto opera
expulsando a rodo gente de centros urbanos, por
exemplo, enquanto que políticas urbanas de planeja-
mento mais cuidadosas poderiam ser implementadas;
e o que falar da dizimação de muitos e muitos grupos
de índios, expulsos de suas terras, … Sobra um brasiu
1  Querelas do Brasil, Maurício Tapajós e Aldir Blanc

69
menor onde só há resistência, um brasiu contudo é “apenas ter a sensibilidade
de pobrezas que são o oposto daquela de apreender as dinâmicas reais que,
pobreza descrita logo nacional: “País na sociedade, poderão amplificar-se e
rico é um pais sem pobreza”. produzir algo novo.” Contudo essa não
O brasiu das diferenças, das aldeias parece ter sido a sensibilidade expres-
de índios urbanos que segundo alguns sa pelo governo Dilma nos últimos
não parecem índios, ou que se torna- meses, visto que, por exemplo, o modelo
ram índios, ou de rolezinhos de jovens repressor das manifestações públicas
negros de periferia nos shopping primeiramente adotado para a Copa
centers só acirra mais a crise da das Confederações em 2013 se exten-
representação do Brasil, que é também deu não apenas evidentemente para o
a crise da representação da política, megaevento Copa do Mundo (sendo
dos modelos da política. Na entrevista parte dela a Lei Geral da Copa) mas
“Mobilização reflete nova composição também para as favelas elas mesmas,
técnica do trabalho imaterial nas como no caso da MARÉ, no Rio de
metrópoles”,1 Giuseppe Cocco analisa o Janeiro, onde se acopla com o curso de
ciclo de manifestações no Brasil a ‘pacificações’ ordenado pelo Governo
partir de junho de 2013 como sendo em do Estado. Ou seja, o megaevento é
parte uma consequência positiva dos igualmente um aparelhamento militar
10 anos de governo do Partido dos do país, ele sela a compra e a imple-
Trabalhadores. Segundo ele, isso não mentação de políticas de ‘segurança
aconteceu porque o governo tenha sido pública’ que atuam, ao contrário, na
de “esquerda” ou socialista, mas repressão das periferias.
porque “tenha se deixado atravessar O posicionamento do governo diante
— sem querer — por ume série de das manifestações, a criminalização
linhas de mudança: políticas de acesso, dos movimentos organizados, a prisão
cotas de cor, políticas sociais, criação preventiva por “crimes que poderiam
de empregos, valorização do salário ser cometidos”, o julgamento de
mínimo, expansão do crédito.” Na inocentes que portavam ‘artefatos’,
CONSPIRAÇÃO de que algo pudesse estar assim como o extermínio incessante de
sendo implementado pelo privilégio de jovens negros de periferia, crianças e
estar no poder (o socialismo?), Cocco velhos, reforça uma política de controle
avalia que o que o poder pode fazer, social que vem instaurando sensações
e dúvidas sobre que tipo de poder, na
1  Entrevista Giuseppe Cocco “Mobilização reflete nova verdade, ocupa o Planalto Central. As
composição técnica do trabalho imaterial das metró-
poles”, 25/06/2013, publicado pelo Instituto Humanitas
conspirações de que estamos ou conti-
Unisinos [bit.ly/1njo9Nw] nuamos em um regime de ditadura foi

70
uma constante na passagem 2013– Unidade de Porrada em Pobre. Dilma
2014, ao passo que muitos movimentos convidou os presentes em um discurso
de favela e contra o extermínio de no começo de 2014 no Fórum de Davos
jovens negros nunca deixou de assina- na Suíça para a “Copa das Copas”, que
lar “a ditadura (na favela) nunca seria para ela um momento de afirmar
acabou.” Essa espécie de zum zum zum a paz, o papel principal do futebol…
e medo fez proliferar uma série de Mas bem, se a paz era o que se via
textos, dentre eles o que destaco de dentro dos estádios — frequentado por
Bruno Cava, “A ditadura perdeu pero uma maioria branca e abastada—, não
no mucho” 2, em que ele analisa como a era o que se via fora deles…
ditadura na atualidade está constran- Há quem diga agora que a Copa de fato
gida, acuada, pela mobilização social. não aconteceu — ainda mais pela literal
“Não é que, com a redemocratização derrota da seleção do Brasil 0 x 7 Alemanha.
pós-1985, vivamos uma aparência de Já gritavam os movimentos antes dela
democracia encobrindo a perseverança #naovaitercopa!  Seria essa derrota um
da ditadura. Mas, sim, que continuamos feito de CONSPIRAÇÃO ? Ou de corrupção?
a viver a própria ditadura, agora Ou uma grande mandinga dos movimen-
entranhada na democracia representati- tos sociais para quebrar o encanto de uma
va, uma ditadura molecularizada, simbiose Estado desenvolvimentista=sele-
convertida em princípio interno de ção, marcando uma perda histórica que
reprodução das relações sociais desi- destitui a força do Brasil-Brazis, e nos
guais, nos mais diferentes níveis (renda, devolve os cuidados do brasiu menor?
origem, racial, gênero, sexualidade), por Verdade é que sabemos bem quando
dentro da democracia representativa.” as ruas reiventam gritos que estão
Cava afirma — junto com os movi- exaltando mais e mais as linhas ativas
mentos — que “é preciso derrotar a dos estados vitais, das transformações
ditadura sempre.” Mas esse derrotar a sensíveis e da política como criação ela
ditadura dos movimentos não é a mesma. Nas passagens Brasil | brasiu |
mesma perpetração da “paz” da Brazis abrimos nossos mapas de
maneira como ela tem sido impressa análise de relações de força e de poder,
pelo estado, no Rio de Janeiro no caso tornando-nos mais atentos aos cheiros
das Unidades de Polícia Pacificadora das ervas, e das ervas daninhas.
(UPPs), chamada pelos movimentos de No brasiu menor acho que somos
todos Marias-do-socorro.
2  Bruno Cava. “A ditadura perdeu pero no
mucho”,
Publicado em Quadrado dos Loucos, 08/04/2014 ***
bit.ly/1vG0f2x

71
MAURÍCIO TAPAJÓS
E ALDIR BLANC

QUERELAS DO BRASIL

O Brazil não conhece o Brasil


O Brazil nunca foi ao Brasil
Tapir, jabuti, liana, alamandra, alialaúde
Piau, ururau, aqui, ataúde
Piá, carioca, porecramecrã
Jobim akarore Jobim-açu
Oh, oh, oh
Pererê, câmara, tororó, olererê
Piriri, ratatá, karatê, olará
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil ta matando o Brasil
Jereba, saci, caandrades
Cunhãs, ariranha, aranha
Sertões, Guimarães, bachianas, águas
E Marionaíma, ariraribóia,
Na aura das mãos do Jobim-açu
Oh, oh, oh
Jererê, sarará, cururu, olerê
Blablablá, bafafá, sururu, olará
Do Brasil, SoS ao Brasil
Do Brasil, SoS ao Brasil
Do Brasil, SoS ao Brasil
Tinhorão, urutu, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, Cordovil, Cachambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, Olará
Cascadura, Água Santa, Acari, Olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, Olará
Do Brasil, SoS ao Brasil
Do Brasil, SoS ao Brasil

***

72
CARTA DE NÃO
PARTICIPAÇÃO
Carta de não participação imersiva aqui por uma
tentativa de preferir não lá
Beatriz Lemos

Tem artista na Maré?

BEATRIZ LEMOS

CARTA DE NÃO PARTICIPAÇÃO IMERSIVA AQUI POR UMA


TENTATIVA DE PREFERIR NÃO LÁ

Na semana de encontro do projeto Vocabulário Político para


Processos Estéticos fui convidada para realizar uma fala na Casa
Daros. A Casa Daros é uma instituição sediada no Rio de Janeiro
desde 2007, pertencente à Coleção Daros Latinamerica, com sede
na Suíça, que por sua vez pertence à Fundação Daros1. A Coleção
da Fundação Daros é uma coleção voltada para arte contemporâ-
nea na América Latina e que no Rio de Janeiro vem atuando com o
foco em programas de arte e educação, seminários e exposições a
partir da própria coleção. Apesar do vínculo genealógico da Casa
com sua Fundação-mãe, parece parece que há intenção de omitir
este dado, sendo a instituição sediada no Brasil, sempre correspon-
dida apenas à Coleção Daros Latinamerica.
O convite feito pela Casa Daros para que eu participasse de uma
conversa tratava-se de uma apresentação sobre a revista Elástica,
publicação que edito ao lado dos artistas Thais Medeiros e Rafael
Adorján, na ocasião do Seminário Arte em circuito: publicações de
arte no Brasil, coordenado pela artista e teórica Katia Maciel.
Elástica surgiu em 2010 e se encontra na terceira edição. Sua linha
editorial busca o alargamento — elasticidade — dos interesses do
meio de artes visuais e propõe diálogos entre diversas áreas a
partir de colaborações de artistas e teóricos.
1 http://www.casadaros.net

73
É publicada pela editora Multifoco, dearam processos em instâncias
porém a parceria se restringe a acordo internacionais, como o “Juicio de
apenas na impressão, sendo a editora- Turin”, mas que devido a lógica
ção, projeto gráfico e produção por vias financeira de mundo (que privilegia o
independentes e não remuneradas. lucro e não o respeito à vida), são
O encontro Arte em circuitos foi silenciados ou abafados pela grande
inédito no Brasil até então, logrando o mídia, principalmente em contextos
atravessamento de iniciativas edito- latino-americanos, onde, não por
riais independentes, institucionais, acaso, a Fundação Daros dedica sua
comerciais e de artistas, contemplando pesquisa educacional. Para completar
um panorama nacional histórico e a rede sistêmica de sarcasmos do
atual. A convergência de datas entre capital a mesma família ergue em 1994
essa fala e o projeto do Vocabulário a Avina, conhecida fundação de
(acontecendo naquela semana no fomento às iniciativas para o meio
Capacete) que inicialmente não se ambiente, cujo principal objetivo é
apresentava como dificuldade dado à contribuir para promoção do desenvolvi-
flexibilidade presencial que tais mento sustentável na América Latina.1
compromissos exigiam, foi crucial para O seminário de publicações não
o aprofundamento de questões que pretendia nem endereçava trabalhar a
vinham me atravessando, mas sub- trama do império do amianto direta-
traiu meu foco e presença do processo mente, porém, não pude deixar de
imersivo pedido pelo Vocabulário. atentar para os limítrofes pessoais em
Até aquele momento, véspera de nossa atuação — seja artista ou
minha fala na Casa Daros, eu nada curador — e as ligações relacionais
sabia (assim como, acredito que muitos que estabelecemos a cada trabalho.
latino-americanos não tenham conheci-
mento) do envolvimento da Fundação O QUE É INEGOCIÁVEL PARA
Daros — mais precisamente de seu VOCÊ?
presidente, o magnata suíço Stephan O amianto foi um mineral condena-
Schmidheiny —, em grandes desastres do por seu grau de periculosidade já
ambientais pelo mundo e da origem de no final do século 19, sendo esse dado
sua fortuna familiar fundada em anos omitido em quase todo século poste-
de extração e produção de amianto em rior. Segundo pesquisas econômicas é
cerca de 40 países em 4 continentes. 1  Algumas referências em periódicos virtuais:
Não somente desastres ambientais, — Tribunal condena barão do amianto a 18 anos de
prisão: “Um hino à vida” [Viomundo, bit.ly/1pCRKUp]
como mortes e danos irreversíveis à — El juicio de Turín contra los magnates del asbesto
saúde de milhares de pessoas, desenca- [Revista El Observador, bit.ly/1t7Y0og]

74
visto como símbolo da modernidade através de interlocuções com colegas
industrial, pois projetou a atual como Pedro França, Graziela Kunsch e
divisão global do trabalho, se tornando Kamilla Nunes, sincronamente, sema-
um precursor do capitalismo sem nas antes do episódio em relato, e com
fronteiras (ver texto de Guillermo Yuri firmeza, no momento de escrita
Villamizar: Daros Latinoamericana: desta carta. Em seu texto original,
memorias de un legado peligroso).2 Bartleby não menciona o verbo (prefere-
Vínculos econômicos questionáveis ria não fazer), o que indetermina o que
parecem ser o ponto frágil de muitas ele rechaça. A potência de sua sentença
instituições de arte e cultura em todo enquanto função-limite se dá, de acordo
mundo. No Brasil grandes instituições com Deleuze, no aniquilamento do
como Inhotim, Itaú Cultural, Museu referencial na linguagem — com o outro,
da Vale e MAR – Museu de Arte do com algo —, desestabilizando, assim, os
Rio, para citar como exemplos de parâmetros do interlocutor. Ou seja, a
repercussão, são alvos de críticas e, em força do personagem, é a força da atitude
alguns casos, de ações ativistas de do tolo, que quebra códigos de padrão,
boicote ou denúncia. mas sem quaisquer esclarecimentos,
Quando Bartleby, o personagem apenas tem a decisão de não participar
escrivão do conto do escritor Herman de negociações dessa natureza.
Melville, apenas “prefere não” (dando Contudo, tal posicionamento de ausên-
indício ao fazer determinada função), cia se difere de uma negativa-afirmativa
em 1853, acredito que sintetiza muito como por exemplo, no trabalho de Graziela
do que consiste a dinâmica de trabalho Kunsch “Sem título (prefiro não fazer)”,
e relações com que lidamos hoje na em ocasião da exposição Caos e Efeito, no
arte.3 O “preferiria não” como resposta Itaú Cultural, São Paulo, com curadoria
às encruzilhadas políticas propostas de Fernando Cocchiarale e Pedro França
corriqueiramente por nosso meio (2011). A artista recorre à sentença de
profissional me veio, não por acaso, Melville, expondo-a como sua obra, em um
nítido movimento que indica sua insatis-
2  Villamizar, Guillermo. Daros Latinoamericana: fação de estar presente. Neste caso, o
memorias de un legado peligroso. [Esferapublica.org,
3/12/2012, miud.in/1FJ3] “preferiria não”, encontra sua reportação
3  Melville, Herman. Bartleby, o Escrivão. Novela do es- de ação (o fazer e, neste caso, o estar
critor norte-americano Melville (1819–1891). A história presente), facilitando ao público identifi-
apareceu pela primeira vez, anonimamente, na revista
americana Putnam’s Magazine, divida em duas partes. car o endereçamento da crítica sem
A primeira parte foi publicada em Novembro de 1853, e precisar ter conhecimento do histórico do
concluída na publicação em Dezembro do mesmo ano.
A novela foi relançada no livro The Piazza Tales em 1856
trabalho. Assim, mesmo tendo a ação sido
com pequenas alterações. (Wikipedia) suscitada pelo não pagamento dos

75
artistas participantes, sendo a exposição conta das ansiedades do meio, tanto
a pretensão de uma vasta “catalogação” de conteúdo quanto de permanência.
da jovem produção contemporânea Ou seja, a Elástica participar em um
nacional, o sutil gesto de Kunsch se “evento institucional de arte” não me
alarga e faz incidir sua crítica seja à parecia algo congruente. Afinal — como
instituição, à curadoria, ou às estruturas já tínhamos perguntado na primeira
de poder, legitimação e remuneração edição da nossa revista — para que mais
empregadas na arte. uma revista de arte?)
Em tempos onde a radicalidade pode Deste modo, tendo como contexto e
cair em contradição, pois o sistema do argumento os três temas levantados pela
capital se retroalimenta de todas as revista ao longo de história de suas
instâncias da vida (os modos de ser, as edições (1. Pra que mais uma revista de
escolhas profissionais, a alimentação, o arte?, 2. Sustentabilidade, 3. Invisível)
vestuário, a moradia, os meios de propus para o corpo editorial da Elástica
transportes, a educação, a saúde a uma ação de “invisibilidade” através da
política, etc), o NÃO e o SIM trocam de leitura de uma carta que entrelaçava a
lado a cada novo trabalho/convite e indagação de porque existir enquanto
(parece que) tudo pode ser relativizado. revista, as escolhas de mundo que se
A verdade está mais no olhar do que pode fazer e o invisível como a decisão de
naquilo que é olhado. Preferir é escolher. não estar presente. Essa opção se daria
Mas não estamos acostumados a fazer eticamente, óbvio, por divergências
passar a escolha necessariamente por políticas que ultrapassavam o fato do
negação. Entender que os vínculos do seminário.
dinheiro que financia a arte em todo Este encadeamento de fatos se deu em
mundo são comprometidos diretamente menos de dois dias antes da fala na
com a perpetuação das desigualdades Daros e durante os primeiros dias do
sociais faz de questionamentos sobre Vocabulário. Para mim, tempo suficiente
limites individuais e coletivos mantras para tomada de posicionamento e
de sobrevivência para os que ainda se decisão de invisibilidade. Para meus
incomodam. Ou seja, o SIM nunca deve companheiros de revista, era um tempo
ser absoluto e o NÃO sempre atento à curto para amadurecimento de ideias.
coerência. Ou seja, a “ausência” como ação não
Em convergência, eu já vinha refletin- aconteceu devido à incompatibilidade de
do sobre meu real desejo de um modelo opinião entre os editores.
de revista, o qual não se aproxima da Reproduzido aqui, por isso, trechos da
ideia escrita de periódico de arte que dê carta-invisível que não se fez visível então:

76
“A pergunta lançada na primeira edição da Revista Elástica retorna gerando
outras dúvidas de posicionamento: Como não ter uma visibilidade óbvia (ou regular)
no meio? Como tornar visível, para além da presença da revista, questões discutidas
através dela? O quanto de elasticidade pode haver na ideia de revista? E por fim,
como tornar o invisível a presença de uma questão?
Ser uma revista independente nos dá total liberdade de uma constante auto
avaliação e reformulação de projeto, o que está intrinsecamente envolvido com
nossos princípios e limites. Neste momento, estar com vocês desta forma, compre-
ende o desejo de uma revista como algo que reverbere para além do formato publi-
cação, que atravesse o pensamento em arte, tendo responsabilidade nas escolhas.
E assim, acreditamos estar de total acordo com o que projetamos como conceito
propulsor para Elástica.
O devir invisível não significa não existência ou a deficiência de visão. Seu prefixo
IN já indica a existência de uma visão de dentro. Ou seja, ao deparar-se com as
invisibilidades o meio é modificado — ou no mínimo friccionado.
A visibilidade das coisas nos dá o parâmetro do que é real ou não. Contudo, se
propomos a invisibilidade presencial como resposta ao convite para este seminário é
porque acreditamos que o invisível se torna visível quando é nominado.”

Assim, estive presente en persona,


preferindo antes não. Ciente que a
autonomia do coletivo não é individua-
lizada, a carta foi lida e contextualiza-
da tendo como apoio os meus interesses
na edição de uma revista de arte:

“Esta carta foi escrita pensando na possibilidade de não estar presente fisicamen-
te em um contexto como este, institucional, privado, legitimador, pois nossa maior
premissa é como elevar ao máximo a ideia de elástico, pensar em proposições
enquanto revista não sendo o que se entende a priori como revista. Este lugar
estranho é onde almejamos chegar. Contudo, nos damos conta, todo momento, que
trilhar um caminho não usual nem sempre é fácil, prático ou rápido. Pensamos sim
em realizar uma ação de invisibilidade que suscitasse questionamento para o que
está visível, retornando a pergunta: para que mais uma revista de arte? Esta não era
somente uma pergunta existencial. Queríamos com ela repensar nossas próprias
necessidades, enquanto editores, de atravessamentos e discurso no campo da arte.

77
O que é descrito aqui vem de encontro ao lugar onde gostaríamos de chegar,
quase como uma utopia editorial de extrapolar a própria ideia de independência
como revista. Sabemos o que queremos como proposta, porém reconhecemos a
dificuldade de alinhar desejo e prática, por uma série de negociações, imprevistos
ou impedimentos internos ou externos.
Como o próprio o nome diz — Elástica — surgiu da vontade de elasticidade do
termo arte. Queríamos um lugar onde pudéssemos reunir além da crítica, textos
mais livres, também informativos, resenhas, poemas, pensamentos soltos ao lado de
trabalhos de artistas, proposições, roteiros ou receitas. Que reunisse a instituição,
a galeria, a academia, a rua e a fazenda. Enfim, uma curadoria, em seu sentido de
rede de associações, como publicação (…)”

Esta carta tenta reunir dois assuntos:


1. Prefiro não fazer
2. Por que editar uma revista de arte?
Assim, me pareceu coerente que pudéssemos “esticar” a Elástica
para estar aqui (Vocabulário) / lá (Casa Daros) invisíveis, estar
num devir além-do-não de Bartleby, que não somente sinaliza, mas
se responsabiliza por um desacordo com o modo de funcionamento
econômico da Fundação Daros, considerando seu envolvimento com
a produção de amianto que reconhecemos como anti-ética.
Pela série de compromissos que eu já cumpriria naquela semana,
pela realização/participação no seminário na Casa Daros e pela
semana de imersão do Vocabulário percebo que fiquei um tanto
“entre os espaços”, o que não necessariamente configurou uma
ausência no Vocabulário, contudo me trouxeram uma sensação de
“não imersão”. Foram essas as relações e confrontações que configura-
ram minha semana durante aquele período de oficina interna proposta
pelo Vocabulário, me parecendo pertinente trazê-las para cá.

***

78
TEM ARTISTA NA MARÉ?1
Enfim, com essa a gente bateu na
tecla. “Tem que ter, tem que ter, tem que
( V 1 ) Na Maré acaba que depois de um ter (um artista da Maré).” E emperra-
certo tempo, você mesmo não morando ram dizendo que tinha uma verba
na Maré acaba sendo da Maré. A Maré limitada, que não sei que, não sei qual.
depois que você começa acessar umas Com a insistência abriram espaço para
coisas parece que ela te toma, né!? um “artista convidado”. “Artistas
Tem uma situação interessante, vou convidados” éramos nós que moráva-
citar uma coisa que acho que tem a ver. mos lá? Falei “Porra, vou escrever
Foi criado um projeto na Maré que tem alguma coisa pra ser um convidado
essa ideia de criar trânsito, criar troca, aonde eu moro?” E, aí foi legal, foi
aprendizagem… interessante né. Eu escrevi com a
Chegaram os curadores e apresenta- ajuda de alguns amigos.
ram o projeto da exposição: todos os A minha ideia era fazer fotos de pessoas
artistas já estão aqui, os nomes e tal. que moravam lá e que eram significati-
Então perguntei: quantos são da Maré? vas praquele local. Que eram “vultos
Nenhum, mas não tem ninguém da locais”, pessoas que eram conhecidas de
Maré? Eu era sempre o chato né, não tem alguma forma e botar essas pessoas na
nenhum da Maré? Não não tem nenhum rua, a imagem delas na rua. A minha
da Maré. Mas porque que não tem ideia era essa, que era pra mim o fato que
nenhum da Maré? Parece que ouviram eu estava comunicando com quem me
falar que na Maré não tem artista. interessava, que eram os que tavam ali
“Na Maré não tem artista?” que moravam ali. Ou seja eu achava que
Na Maré existe o Imagens do Povo2, eu tinha de fazer aquela coisa ali falar
que é um projeto de fotografia do Obser- com as pessoas dali também.
vatório de Favelas3, uma agência de A exposição teve algumas ações.
formação. As pessoas trabalham por Tinha umas lonas eu não lembro qual
ali já que muitos se mantém de trabalhar a artista que concebeu, era tão alto que
com fotografia através dessa agência, não dava pra ver… Foi uma coisa meio
e este é um espaço onde as pessoas doida, umas lonas que acabavam
também buscam fazer arte, né, cada um virando um filtro aí passava uma
na sua forma. projeção, eu sinceramente acho que não
1  Transcrito a partir de conversa na oficina interna no
funcionou muito bem. Tinha um que
Capacete em Abril 2014. era bem interessante que era um
2  i m a g e n s d o p o v o . o r g . b r letreiro que passava ao vivo, acho, em
3  o b s e r v a t o r i o d e f a v e l a s . o r g . b r tempo real as cotações da bolsa, aquela

79
porrada de numero passando. Só que Então eu falava com o de fora,
era um negócio pequeno, assim… e queria falar com o de dentro também,
E eu “que porra é essa”? Aí um cara mas ficava uma coisa meio maluca,
passou e falou assim “Essa porra é da que era o que eu via ali pô,… “O que
bolsa cara! Da bolsa, nunca viu não? que tá acontecendo?” E ninguém sabia
Na televisão, fica passando essa porra o que tava acontecendo, que a exposi-
aí. Tinha umas relações legais assim… ção estava acontecendo… As pessoas
( V 2 ) Isso era na rua? recebiam os panfletos, e se pergunta-
( V 1 ) Era na rua em frente ao Redes. vam “O que é isso? Onde é?”
Tinha poucos trabalhos na rua, e eu E o pessoal comentava: “Ah é lá em tal
lembro que quando eu falei pra fazer na lugar.” Enfim, teve essa luta em que
rua, que eu queria fazer na rua, não fui eu que, tipo, o único que furou ali a
tinha nenhum que eu lembrasse. A gente barreira. Depois disso dizem que
teve ideia de fazer as fotos em tamanho sempre vai ter um da Maré, e tal…
natural. Pensei assim: vou fotografar ( V 3 ) Virou cota?

pessoas no local onde eu vou botar a foto ( V 1 ) É, a gente conseguiu, mas toda

em tamanho natural, então as fotos são cota é na base da porrada. Tem gente
gigantes 1m80 e tal. Ficavam no lugar que fala que não tem que ter cota, mas
onde tinham sido tiradas, então ficava se não se forçar não vai ter cota. mas
uma coisa meio metalinguística aquela ai fica mea culpa as vezes, eu nao vou
pessoa ali. De longe não se sabia se era abrir essa questão com o espaço, então
o cara mesmo que tava ali, chegava perto tudo é muito complexo…
e olhava… Uma foto era o Bira, um
cadeirante e fotógrago, no lugar onde ele ***
sempre fica na esquina, e outra era uma
mulata assim dessas mulatas, né!? Era
uma passista negra que tava sempre por
ali, as pessoas conheciam, a foto era a
mulher lindona assim parada… Só que
ela tava numa foto no Piscinão de
Ramos que é um lugar que o pessoal da
Nova Holanda não vai, então eu queria
também gerar uma coisa assim: “Onde é
que essa mulher tá?” Um lugar bonito,
ninguém sabia onde era, só quem era na
Maré também.

80
CAVALO
Poema do Cavalo
Daniela Mattos

Cavalo / diagrama
Vocabulinário de quatro patas
Cristina Ribas

Cavalgar em La Borde
Felix Guattari

Antolhos
Vá r i a s f o n t e s

DANIELA MATTOS

POEMA DO CAVALO

com força cavalar e gentil


o olhar do cavalo
bebe o ar e o faz atravessar fluxos
come e mastiga, senta na língua o que irá digerir com todo o corpo
lambe os fragmentos que seu desejo lhe mostra, transforma-os fazendo esfarelar
na boca

81
CRISTINA RIBAS

CAVALO / DIAGRAMA
VOCABULINÁRIO DE QUATRO PATAS

Escreva mais / diagrame / rasure

tirar o cavalo da chuva /


tirar os antolhos do cavalo /
índio a cavalo /
cavalo de umbanda /
cavalo de tróia /
resistência /
cara de cavalo /
mineirinho /
cecília meireles e hélio oiticica /
ano do cavalo /
cavalaria /
montar no cavalo /

índio aponta flecha para policial a cavalo /


prefiro o cheiro do estábulo ao cheiro do povo /
figueiredo /
cavalo atropela pessoas na manifestação #resisteisidoro /
pessoas acariciam cavalo do policial /
cavalgar em la borde /
cavalariças /
juliana dorneles /
vocabulinário de quatro patas /
conceito a galope /
montar na ideia /
cavalo dado não se olha os dentes /
caiu do cavalo /

82
83
FELIX GUATTARI

CAVALGAR EM LA BORDE1

(…) Nessa mesma via de compreen- A ecologia social e a ecologia mental


são polifônica e heterogenética da encontraram lugares de exploração
subjetividade, encontramos o exame de privilegiados nas experiências de
aspectos etológicos e ecológicos. Daniel Psicoterapia Institucional. Penso
Stern, em The Impersonal World of the evidentemente na Clínica de La Borde,
Infant, explorou notavelmente as onde trabalho há muito tempo, e onde
formações subjetivas pré-verbais da tudo foi preparado para que os doentes
criança. Ele mostra que não se trata psicóticos vivam em um clima de
absolutamente de “fases”, no sentido atividade e de responsabilidade, não
freudiano, mas de níveis de subjetiva- apenas com objetivo de desenvolver
ção que se manterão paralelos ao longo um ambiente de comunicação, mas
da vida. Renuncia, assim, ao caráter também para criar instâncias locais de
superestimado da psicogênese dos subjetivação coletiva. Não se trata
complexos freudianos e que foram simplesmente, portanto, de uma
apresentados como “universais” remodelagem da subjetividade dos
estruturais da subjetividade. Por outro pacientes, tal como preexistia à crise
lado, valoriza o catáter trans-subjeti- psicótica, mas de uma produção sui
vo, desde o início, das experiências generis. Por exemplo, certos doentes
precoces da criança, que não dissocia o psicóticos de origem agrícola, de meio
sentimento de si do sentimento do pobre, serão levados a praticar artes
outro. Uma dialética entre os “afetos plásticas, teatro, vídeo, música, etc
partilháveis” e os “afetos não-partilhá- quando esses eram antes Universos
veis estrutura, assim, as fases emer- que lhes escapavam completamente.
gentes da subjetividade. Subjetividade Em contrapartida, burocratas e
em estado nascente que não cessamos de intelectuais se sentirão atraídos por
encontrar no sonho, no delírio, na exaltação um trabalho material, na cozinha, no
criadora, no sentimento amoroso… jardim, na cerâmica, no clube hípico.
O que importa aqui não é unicamente o
1  Fonte: Felix Guattari. Caomose: um novo paradigma
confronto com uma nova matéria de
estético. São Paulo: Editora 34, 2006. (p. 16-18) expressão , é a constituição de complexos

84
de subjetivação: indivíduo-grupo-máquina-trocas
múltiplas, que oferecem à pessoa possibilidades v e r DES //DOBRAMENTO / S

diversificadas de recompor uma corporeidade


existencial, de sair de seus impasses repetitivos e, de
alguma forma, de se re-singularizar.
Assim se operam transplantes de transferência
que não procedem a partir de dimensões “já existen-
tes” da subjetividade, cristalizadas em complexos
estruturais, mas que procedem de uma criação e que,
por esse motivo, seriam antes da alçada de uma
espécie de paradigma estético. Criam-se novas
modalidades de subjetivação do mesmo modo que um
artista plástico cria novas formas da palheta que lhe
dispõe. Em um tal contexto, percebe-se que os compo-
nentes os mais heterogêneos podem concorrer para a
evolução positiva de um doente: as relações com o
espaço arquitetônico, as relações econômicas, a
co-gestão entre o doente e os responsáveis pelos
diferentes vetores de tratamento, a apreensão de
todas as ocasiões de abertura para o exterior, a
exploração processual das “singularidades” dos
acontecimentos, enfim tudo aquilo que pode contri-
buir para a criação de uma relação autêntica com o
outro. A cada um desses componentes da instituição
de tratamento corresponde uma prática necessária.
Em outros termos, não se está mais diante de uma
subjetividade dada como um em si, mas face a
processos de autonomização, ou de autopoiese, em
um sentido um pouco desviado do que Francisco
Varela dá a esse termo.(…)
Ju saltando
***
85
A autora da foto não
pediu autorização para
fotografar.
Passarela 7, Avenida Brasil,
e n t r e Maré e Bonsucesso, R i o d e
Janeiro, Abril de 2014.
Foto: Cristina Ribas

“[…] coloquem em uma área fechada cavalos com antolhos reguláveis: o


coeficiente de transversalidade será justamente o ajuste dos antolhos. Imagina-
se que se forem ajustados de modo a tornar os cavalos completamente cegos, se
produzirá um certo encontro traumático. À medida que se for abrindo os anto-
lhos, pode-se imaginar que a circulação se realize de modo mais harmonioso.
[…] de maneira que os homens se comportem uns em relação aos outros do ponto
de vista afetivo.” F é l i x G u a t t a r i , “ Tr a n s v e r s a l i d a d e ”, e m R e v o l u ç ã o M o l e c u l a r,
1981, p. 96. Citado por Ricardo Basbaum em “Em torno do ‘vírus
d e g r u p o ’ ”, a r t i g o p u b l i c a d o n a r e v i s t a L u g a r C o m u m 3 0 , R i o d e
Janeiro, Universidade Nômade e UFRJ, 2012.

86
Menino em cima de seu cavalo branco em frente à
cavalaria do Exército, antes da Ocupação Militar do
complexo da MARÉ , Rio de Janeiro, 2014

87
Cavalo sendo acariciado em Nothing
Hill Carnival, L o n d o n , 2 0 1 4 .
Foto: Cristina Ribas

Hélène Delmonte com seus cavalos mãe e


filha na sua casa, Uranita Serena e Terra

88
Uranita Serena e Terra

89
Ju e o Laranja

Ato Unificado “Copa pra quem?”, organizado pelo


Comitê Popular da Copa, o Movimento dos
Trabalhadores Sem Teto, e a Articulação dos Povos
Indígenas (APIB)
Brasília, 27 de maio de 2014.
Foto: Mídia Ninja

90
COMPLEXIDADE
Complexidade
Cristina Ribas
(parêntesis de Anamalia Ribas)

Cartografias da Ditadura
Tiago Régis

CRISTINA RIBAS
(((PARÊNTESIS DE ANAMALIA RIBAS)))

COMPLEXIDADE

“Quem diz a verdade? Esta não é mais escapam ao despotismo do sistema das
a questão, mas sim a de saber como e significações dominantes, que escapam
em que condições pode melhor aflorar a à articulação de todas as sintaxizações
pragmática dos acontecimentos incorpo- dominantes, estamos justamente
rais que recomporão o mundo, reinstau- lidando com maquinismos altamente
rarão uma complexidade processual.” elaborados.” Félix Guattari e Suely Rolnik,

Félix Guattari, Caosmose: um novo paradigma Micropolíticas: cartografias do desejo, 1986

estético, 1992 Complexidade. (…) 3 Psicol Experiên-


“Todos aqui devem ter tido a experiên- cia em que se encontrem unidos elemen-
cia — eu, pelo menos, a tenho frequente- tos de espécies diversas. 4 Em psicanáli-
mente — do contraste entre a descober- se, grupo de ideias impregnadas de
ta da complexidade, da riqueza, da força emotiva, as quais produzem
diferenciação que se pode ter entre atividades inconscientes. Dicionário

numa experiência onírica e a pobreza de Michaelis

meios que se tem ao despertar, quando “Apenas a intersecção do finito e do


se tenta expressar essa produção onírica infinito, no ponto de negociação entre
pela rememoração, pela escrita ou pelo complexidade e caos, será possível
desenho. Aqui, eu me permitiria questio- desenroscar graus de complexide mais
nar toda referência à indiferenciação, altos dos que o capitalismo financeiro é
toda referência às mitologias espontane- capaz de gerenciar e elaborar.” Franco

ístas: toda vez que conseguimos agen- Bifo Berardi, The Uprising: on poetry and

ciar dispositivos de expressão que finance, 2012

91
Por onde entrar? Num vocabulário COMPLEXO DO SELF
de vozes, numa produção de sentidos, Olha isso. Eu digo. Olha esse
num rizoma de textos? Pode ser que “Complexo do Self”. Bureau D’Études1
nem percebamos uma transição, e de é uma dupla de artistas-cartógrafos-
repente já estamos dentro. A coisa é diagramadores. No diagrama do
perceber que vamos entrando — que já Complexo do Self vemos vários duplos
somos — parte de um bom pedaço nominados ao lado da representação
dessas vozes. A coisa é perceber como é de cabeças-tronco gordinhas, tipo
que vamos entrando — como é que já João-bobo (vou chamá-los de João-bo-
somos — um bom pedaço dessas vozes. bo). O duplo Admistrativo, o duplo
Folheamos procurando um pouco de Econômico, o duplo Eletromagnético, o
identificação, mas também um pouco duplo Biológico, o duplo Psicológico, o
de acaso ou de enfrentamento a uma duplo Semiótico, o duplo Metafísico.
coisa que dominamos, um conceito que Duas alteridades são sinalizadas em
nos toca, uma prática que apelidamos. Joãos-bobo em branco: alteridade
Por vezes percebemos um contraste, Metafísica e alteridade Biológica. Nas
visto que as vozes falam de um jeito pontas de cada percurso que parte das
que não concordamos, não daquela cabeças-tronco estão formas exagonais
maneira, então nos despojamos daqui- que expõe os diveros números que
lo. Identificamos um regime de falas serializam as pessoas no mundo
que não nos interessa. Nesses casos a contemporâneo, e portanto, nos identi-
porta de saída é mais fácil do que a ficam. Número de identidade social,
expectativa da entrada. número do carro, número do sistema de
Talvez nem no primeiro modelo da saúde, número do telefone, número do
adesão completa, nem no segundo da consumidor (o cartão do banco),
separação por regimes, os vocabuliná- número do cartão de compras do
rios não tenham limites precisos, e supermercado, entre outros. Tarjas
trabalhem abrindo zonas, expondo pretas indicam os complexos aos quais
zonas de contaminação e criando aqueles processos pertencem: complexo
intervenções nos nossos vocabulários. industrial da mídia, complexo indus-
Os vocabulários partilham de um trial da produção de comida, complexo
espaço feito de complexidade. Esta é, industrial da justiça, complexo indus-
então, uma maneira de pensar a trial das roupas, entre outros. De que
complexidade. se trata? De um diagrama de um
sujeito abstrato (((Aqui não está claro
1 http://bureaudetudes.org/

92
para mim o uso do abstrato ??? Porque abstrato, visto que
ele é tão multifacetado, ele é tão multi que ao mesmo
tempo não é. Pois não é em si. Ele só é na relação, com os
fluxos, com o outro, com o duplo. Abstrato no sentido de
que algo que não se identifica???))) , dos fluxos materiais
e virtuais que atravessam sua existência, desde um
“eu aceito viver com roupas”, “eu uso alguma planta
nuclear para produzir energia” a “eu produzo uma
criança”. O “Eu” expressa as muitas vozes num
sujeito hipotético que assume diversos estados e
verdades (((Não caberia colocar aqui também: assume
papéis e valores?))) . É quase como se não houvesse um
sujeito, visto que não está congelado (((É um sujeito
multifacetado, não é sujeito em/de si, ele é assujeitado…))) .
Ele está sempre relacionado aos seus diversos
duplos. A cartografia explicita que esse “Eu” perpas-
sa diversas definições ou realizações de si. Abaixo do
hexágono do duplo Semiótico, por exemplo, se lê “
‘Eu’ é uma ficção linguística”, e ao lado do duplo
Administrativo se lê “ ‘Eu’ é uma produção social”.
Se é possível que nos reconheçamos eventualmente
numa dessas posições, é possível que criemos v e r TRANSDUÇÃO

também outras linhas e outros processos de subjeti-


vação que multiplicam essa cartografia de um “eu”. v e r EXCESSO

Às vezes podemos perceber que estamos “entre”


funções, visto que somos agenciados por dois (ou
mesmo mais) movimentos. Esta coisa que acontece
entre, que podemos chamar de agenciamento, tanto
pode nos colocar em uma situação de imobilidade ou
de impasse, ou pode nos fazer ativos. A partir da
percepção de fluxos e de agencimentos, sejam eles
mais ou menos autoproduzidos, se produzem “eus-
transicionais.” A cartografia Complexo do self
coloca em evidência o não isolamento de um indiví-
duo. Coloca em evidência as significações e as
codificações que se imprimem a partir de sua existên-

93
94
95
cia e que se projetam em sua identidade-corpo.
Ficamos atentos aos processos sociais, instituicio-
nais, econômicos que se produzem a partir de sua
vida. Ficamos atentos para o aparato que se constrói
ao redor do sujeito (((assujeitado))) . Mas também pode
ser que olhamos para essa superfície complexa
buscando os espaços e as trajetórias de improvisação
e singularidade, ou, em como cada um faz uma vida
para si, à sua maneira.
Descrevo extensivamente essa cartografia como
maneira de ler coletivamente, de ler para meus olhos
e para os seus. A cartografia ativa os pontos por
v e r RADICAIS: DESARQUIVO onde passa. Descrevo num ímpeto de desarquivo.
Faço isso porque, em primeiro lugar, me interessam
muito essas imagens de complexidade, pela maneira
como mostram ou revelam relações invisíveis (porém
ativas) em vários processos materiais e ou subjetivos
(((Estas relações/tensões invisíveis são como campos de
subjetivação, campos do possível))) . Em segundo, ao
mesmo tempo que permitem uma leitura que me
anima, me sinto no intento de me aproximar delas,
visto que “lê-las” se torna tarefa de esforço: meus
olhos astigmáticos e minha dislexia migram rapida-
mente milímetro a milímetro para a informação
seguinte, perseguindo as linhas e refazendo a
complexa conjunção de nomes, conceitos, símbolos,
sentidos, funções. Desejo ler a complexidade na sua
totalidade. Ler sem os antolhos de que falou Félix
v e r CAVALO Guattari .
O tipo de flickering (vibração) que a cartografia de
complexidade quer provocar é o exercício do olhar de
não olhar só para uma coisa, mas ao olhar para essa
coisa saber que ela é parte de uma multiplicidade de
coisas. Como se fosse embaralhar esse próprio texto
e rediagramá-lo a partir dos conceitos que ele mobili-
za, para assim expor os campos em cruzamento
nessas ideias sobre complexidade.

96
SÍMBOLOS CATASTRÓFICOS DO intervenções, a prática de um artista
DESENVOLVIMENTO / FORMAS DE também. Como ativar, então, a repre-
RESISTÊNCIA NATIVAS sentação, transformando-a em apresen-
Copiei essa frase do mapa feito pelo tação ou em produção?
projeto Cartografia Crítica da Amazô- Considerando que comecei esse texto
nia.1 falando de um ‘complexo do self’, uma
A prática do mapeamento ou da pergunta que podemos fazer à cartogra-
cartografia (o fazer dos mapas de fia como ferramenta é: de que maneira
complexidade) tem se difundido como a cartografia é provocadora de proces-
estratégia, proporcionando ao trabalho sos de singularização ao mesmo tempo
coletivo o desenvolvimento de formas em que provoca uma análise crítica de
de expressão que operam intervenções. um sistema econômico e político que é
Diversos movimentos auto-organiza- necessário enfrentar?
dos da sociedade têm feito uso da A prática da cartografia como cons-
cartografia para apresentar tanto a trução da complexidade é, sem dúvida,
complexidade das relações que envol- também uma intervenção na forma de
vem suas lutas como para mapear as acessar e produzir conhecimento, o que
forças em ação contra as quais resis- pode nos levar a inflexionar a expressão
tem. Pela afirmação de que a cartogra- “produção do conhecimento” para uma
fia não é representação encontramos “prática do conhecimento”, como versão
uma provocação: a cartografia procura mais radical, mais autonomizante
produzir efeitos no momento mesmo em daquela primeira. Assim, faz parte da
que é feita, por isso ela tem o desafio de construção de uma cartografia estabele-
ser cartografia de intervenção. Ou seja, cer seu objetivo (ou sua função), traba-
não representar não é um ato enuncia- lhar o levantamento dos dados que
tivo, é um princípio da estratégia dessa constitui o conteúdo propriamente dito
prática, é colocar a cartografia ela do mapa a ser criado, e conceber a forma
mesma em estado de experimentação que a cartografia vai tomar. Faz parte da
junto com as lutas, fazendo uma crítica cartografia, portanto, incorporar a
às representações das lutas sociais e investigação ela mesma, visto que ao
abrindo um espaço de composição. invés de trabalhar apenas com dados já
A pesquisa acadêmica não crítica, coletados em pesquisas institucionais ou
como exemplo, pode ficar no nível de disponíveis na mídia, a investigação
uma representação e ativar poucas pode ser feita pelos próprios participan-
1  Cartografia crítica da Amazônia. Em: http://dossie.
tes. A cartografia pode então envolver as
comumlab.org/ próprias pessoas a partir das quais a

97
E d i f í c i o S a v a r, l o c a l i z a d o n a p e r i f e r i a d e
Dakha, Bangladesh. Derruiu com mais de 4.000
trabalhadores dentro. 1.129 pessoas morreram.
O edifício abrigava dezenas de empresas de
fabrico de roupas, todas a serviço de grandes
empresas européias e americanas.

98
cartografia acontece e pode ser realizada com informa-
ções de ordem mais subjetiva, sendo os dados que a
compõe coletados entre aqueles que a realizam, a partir
de suas experiências de vida, de seus vocabulários, de
suas lutas. Nesse sentido a cartografia procura ser
constitutiva do próprio cartógrafo-pesquisador, visto
que a cartografia induz uma quebra na dicotomia
pesquisador-pesquisado. Podemos centrar aqui, nesse
lugar corpo-do-pesquisador(a) a mudança de paradig-
ma que a cartografia vem provocar.1
Ao aportar a composição do mundo como complexa,
ao assumir a capacidade do desenho das forças de
ação, o ‘investigar’ e ‘fazer o mundo’ se colocam então
como operações que acontecem juntas. Ou seja, o
conhecer e reivindicar do mundo que não passa apenas
pela representação dele, mas pela criação dele. O
trabalho da complexidade vai contra uma certa
preguiça ou certo poder da ciência moderna, que
procurava simplificar os processos em sistemas, em
modelos (((Eu diria até: modelo que funciona no “colocar à
prova”, refazer o que o anterior teria feito, e assim ver se
dali algo mais de decifrava… Processo que só fomenta o
funcionamento do capital competitivo, comparativo,
segregador, produtor de certo/errado, bom/ruim, adequa-
do/inadequado. É um modelo de processo ensino-aprendiza-
do que faliu, não mais se sustenta))) . Ao aportar a noção
de complexidade abrimos caminho para pensar tam-
bém a singularidade, desde a individualidade à
coletividade. O processo de singuralização pode
competir ao cartógrafo ele mesmo, assim como àqueles
que participam da cartografia, identificados ou não
com um processo de grupo. (((Processo de ensino-aprendi-
1  Dois trabalhos são referência para essa espécie de metodologia que
descrevo aqui, um o ‘Manual de Mapeo Colectivo”, 2013, do Iconoclasistas
(disponível aqui http://desarquivo.org/node/1679 ), e outro o livro ‘Pistas
do Método da Cartografia’, 2009, (disponível aqui http://desarquivo.org/
node/1593).

99
zado desejante de maior horizontalidade como no caso das remoções de moradia
nas relações, estabelece novas formas de no Rio de Janeiro, ou por outro lado
relações de poder, visto que procura uma pela inventividade e pela ressignifica-
radicalização das redes, é mais democráti- ção de espaços comuns como no projeto
co, é um processo que abre para o outro, ou Mapping the Commons, de maneira a
para outros processos.))) fortalecer processos de resistência nos
Diversas complexidades têm sido direitos de uso à cidade, resistinto aos
cartografadas e diagramadas na processos de revitalização e transfor-
atualidade por pesquisadores, nôma- mação das cidades em cidades-merca-
des, ativistas, artistas, coletivos, doria.
agrupamentos efêmeros, entre outros,
como maneira de lidar com essa CAPITALISMO COGNITIVO
trama/problema. Hoje em dia mapas, Não sei se a complexidade se opõe à
cartografias e diagramas, desenhos, ideia de simplicidade. São regimes
planos táticos, se confundem e conta- diferentes, pode-se dizer. Um nem
minam-se uns aos outros nos seus antecipa o outro. Nem pressupõe. Se
modos expressivos e nos seus modos de temos uma ou mais linhas traçadas em
fazer. No vocabulário das práticas um papel e uma quantidade x de infor-
políticas e estéticas há uma pedagogia mações conectadas por essas linhas
crítica que é inerente à construção dos diagramadas, temos uma cartografia
mapas táticos, que é o fazer dos mapas que apesar de parecer simples, pode ser
ele mesmo. Dessa maneira trabalham de razão complexa. Parece então que
por exemplo o coletivo-dupla Iconocla- uma cartografia ou um diagrama podem
sistas1 (Argentina), os projetos mobili- ser simples mas tratarem de uma
zados por Pablo de Soto, Mapping the complexidade tal que possamos ir lendo
commons2, a rede LabsurLab na nela níveis de imbricação de relações e
América Latina, Antena Mutante3 fluxos, materiais e imateriais, visíveis e
(Colômbia) a própria dupla já citada invisíveis, conhecidos e desconhecidos.
Bureau D’Études (França), e muitos (((São como vias de mão dupla, vias de ida e vinda,
mais. Pelo trabalho desses grupos relação de fluxos que não tem direção exata,
vemos como os agenciamentos do relação correta, são pragmáticas, elas se cruzam
capital se expressam na perda dos em uma esfera tridimensional, em 3D, provocando
direitos civis básicos, por exemplo, que o sujeito se implique de tal forma ao desassos-
1  i c o n o c l a s i s t a s . n e t sego, ao não dito, não compreendido, não
2  m a p p i n g t h e c o m m o n s . n e t / p t / m o n d o / nomeado, e assim procure reinventar conceitos,
3  a n t e n a m u t a n t e . n e t nomes, para aquilo que surge)))

100
Há nessa coisa, seja ela simples ou confusa, uma
função de complexidade, uma função complexa.
Assim é que o dia a dia de nossas vidas é tomado por
uma série de ações simples, mas que escondem uma
trama deveras complexa… Olho o boleto impresso v e r ESCREVER

termicamente que seguro em minhas mãos ao retirar


o extrato do banco, olho o recorte da embalagem do
sanduíche que eu comprei, olho para meus sapatos
que acredito serem meus, olho o sensor de presença
que acende a luz na calçada de noite.
A complexidade pode ser um aparato conceitual
para definir o modo de operar da economia na era
mais avançada do capitalismo contemporâneo, que
se cola aos fluxos vitais, aliando-se à própria produ-
ção do desejo. Não por acaso, o trabalho da constru-
ção da complexidade surge no momento em que são
provocados muitos cruzamentos entre disciplinas,
entre campos do saber e, em que o estruturalismo
como forma de constituição do mundo precisa ser
decomposto, e outras formas mais rizomáticas
precisam assumir seu espaço. Assim é proposto,
por exemplo, que os micro agenciamentos sejam
intervenções, ou atravessamentos, nos macro agen-
ciamentos. Que a molecuralidade seja uma força que
opera de outra maneira, diferente da majoritária
molaridade. A partir de conceitos como esses se
deseja re//dimensionar os fluxos vitais, a partir dos
agenciamentos maquínicos, libertando-se das formas
micro fascistóides, patriarcais, moralizantes,
tecnicistas…
Uma das tarefas da cartografia de complexidade
na atualidade é ser uma ferramenta que trabalha
na decodificação dos fluxos invisíveis do capital, de
modo a entender o que é que caracteriza o capital
hoje, diferente de antes – antes do trabalho como
imaterial, antes do capital como financeiro. Sua

101
relação com o estado, com o poder ou uma fase moderna tardia, para Bifo
representativo, e a forma como isso é uma em que a informação entra com
imprime modos de vida, direitos, tudo, o que ele chama de “abstração
exclusões, obrigações, privilégios, etc. digital”. Nessa fase, há um aumento
Segundo Franco Bifo Berardi, em The significativo do intercâmbio produtivo
Uprising (O Levante), o que muda a entre “máquinas informacionais” em
partir do final da década de 70 na lugar do e um campo dos corpos, de
economia é a relação entre tempo e corpos ou vidas produtivos. Nessa fase
valor. Ou seja, há uma perda de tardia ele diz que os corpos estão
relação direta, ou material, entre “cancelados” do campo da comunica-
tempo de trabalho e valoração, signifi- ção (direta, conjuntiva) e estão separa-
cando uma mudança na forma de dos, ou “conectados” por informação.
agregar valor ao que é produzido, e da Nesse ponto ele vê uma reversão maior,
mesma forma ao lucro sobre a produ- ou uma perversão, eu diria.
ção. A des-relação direta entre tempo “No sistema industrial anterior descrito por
de produção e produto (o que não Marx, a finalidade da produção já era a
significa o desaparecimento do traba- valorização do capital, através da extração de
lho por hora!), em que o trabalho já lucro a partir do trabalho. Mas, de maneira a
não é de todo físico, muscular ou produzir valor, o capitalista ainda era obrigado
industrial, aumenta o contraste entre a trocar coisas ‘úteis’ , ele era ainda obrigado
coisas materiais e signo, sendo o signo a produzir carros, e livros e pão.
aquilo que mais se produz na atualida- Quando o referente é cancelado, quando o
de. O signo adquire mais valor do que lucro é feito possível pela mera circulação de
a matéria ela mesma. Essa produção dinheiro, a produção de carros, livros e pão se
Bifo chama de uma produção essen- torna supérflua. A acumulação de valor
cialmente semiótica. Ele pede que abstrato é feita possível pela sujeição de seres
pensemos quanto tempo é necessário humanos ao débito, e através da depredação
para produzir uma ideia, um produto, de recursos existentes. A destruição do
uma inovação. Bifo diz também que o mundo real começa com a emancipação da
capitalista não se preocupa se está valorização da produção de coisas úteis, e da
produzindo frangos, livros ou carros. O auto-replicação de valores no campo
que é importante para o capitalista é financeiro. A emancipação do valor do
produzir lucro! referente leva à destruição do mundo
Se uma primeira fase do capitalismo existente. Isso é o que acontece atualmente
seria essa da desracionalização entre a sob o que se chama de ‘crise financeira’, que
medida e a valoração, a segunda fase, não é de maneira alguma uma crise.”

102
Bifo fala de uma destruição do Assim a cartografia de complexidade
mundo também no sentido das relações pode servir para reverter o trabalho dos
sociais existentes. Ele ressalta que no signos. Nesse sentido a cartografia pode
capitalismo financeiro a violência se trabalhar a singularização e a politiza-
torna uma forma de controle. E a ção dos signos, de maneira a fazer
violência predatória é então uma que entender o que é que nos toma hoje, em
se coloca diretamente no corpo dos que atmosfera/s vivemos nossos pró-
trabalhadores e trabalhadoras, não só prios fluxos produtivos, e de que espaços
como reflexo do recrudescimento da e modos de significação podemos estar
democracia — na redução do direito à querendo escapar, de maneira a apresen-
manifestação por exemplo —, mas tá-los, visualizá-los, relacioná-los.
também na violência sobre os processos Os fluxos invisíveis do capital se colo-
vitais, na segmentarização da vida em cam presentes em nossas vidas sem se
detrimento do trabalho, e na perda de descolar de cada uma de nossas opera-
relações afetivas comunitárias e na ções cotidianas, ou dos nossos fluxos de
impossibilidade da constituição redes desejo. Tomando a complexidade como
de solidarização. ferramenta de estudo do capitalismo
Então, no caminho do aumento da contemporâneo e ao mesmo tempo de
abstração, da abstração e do endivida- resistência podemos perceber, então, que
mento tomando conta dos processos se o capitalismo avançou e complexificou
vitais, ele identifica um aumento da as linhas, migrações, passagens, sobreco-
informação que leva à produção de dificando e co-produzindo a vida, é
menos significado. Ou seja, há uma inerente à própria vida uma tal rizomáti-
maior quantidade de signos circulan- ca que é, por sua vez, perseguida e
do, mas eles têm menos referentes reais significada pelo capitalismo.
do que nunca. O aumento da circulação É algo que nos coloca de volta na
e o modo da circulação provocam a cartografia Complexo do Self, da dupla
eliminação do significado e do sentido, Bureau D’Études, por exemplo — que já
que nos trazem a dúvida recorrente que realizou inúmeras outras cartografias
pode tomar alguns de nós, ao tentar- dos fluxos econômicos e de significação
mos deter em nossas mãos o sentido da correntes no capitalismo contemporâneo.
produtividade do que fazemos, seja na No Brasil o projeto Proprietários do
arte ou seja na política, de afinal, o que Brasil1 tem uma empreitada semelhante,
é que estamos fazendo ao produzir, ao abrindo as contas de grandes empresas
trabalhar? brasileiras e de seus fluxos econômicos.
1  p r o p r i e t a r i o s d o b r a s i l . o r g . b r

103
Há algo presente desses fluxos na REPRESENTAÇÃO,
pasta de dentes que eu uso pela manhã, APRESENTAÇÃO E CRIAÇÃO DE
no café que eu tomo para trabalhar, no MUNDO
emprego que eu não tenho, no transporte Uma das principais posições que a
que eu uso, na reunião que eu fiz enquan- cartografia pretende discutir é quem e
to almoçava, no valor que cobro pelo meu como detém ferramentas de representa-
trabalho, no cinema que eu não vou ção do mundo, pensando que é a vida
(porque não tenho tempo, ou porque não que segue à frente, e as forças e os
tenho dinheiro), no livro que eu compro, fluxos do capital que vem perseguindo
nos livros editados por amigos em uma a primeira…
pequena editora, na distribuidora de É importante ressaltar que quando
livros que entrega meu livro em casa, no dizemos representação estamos já em
candidato no qual eu voto, na empresa um regime específico. Será esse um
que o financiou, na água engarrafada regime que se alavanca na manutenção
que eu tomo, na água que falta na do poder? Podemos pensar naquele
torneira, no travesseiro hipoalergênico mapa do mundo clássico dos tempos da
sobre o qual descanso minha cabeça à escola, e depois naquele outro, distorci-
noite… do, que procura a representação “real”
Parece que hoje se torna difícil colocar do território. Para a cartografia crítica
em diagramas separados por um lado não há neutralidade, e portanto
como são, como se expressam os fluxos representar ou apresentar um territó-
vitais, e por outro como são, como se rio dependem de uma certa ética da
expressam os fluxos do capital e do apresentação como criação de mundo,
estado. O estado se torna o instrumento como operação cognitiva.
regulador de uma “aplicação” contratua- Qualquer mapa não é subjugação,
da com o sistema produtivo — a aplica- contudo, ao mundo da representação.
ção de um sistema de produção em A representação ela mesma como
nossas vidas, não da democracia, mas de ferramenta de produção de verdade
instrumentos de controle. Essa confu- torna-se a p r e s e n t a ç ã o na busca de
são/questão pode ser exemplificada em representações do território-mundo que
como o agenciamento do desejo nos insurgem das lutas urbanas, das lutas
processos criativos na atualidade é rurais dos movimentos campesinos e
re-significado pela forma de valoração das lutas dos territórios indígenas.
da economia criativa, como novo agen- A defesa da terra, expressa na repre-
ciamento social produtivo da criação. sentação/apresentação do território
O que diferencia a economia criativa da torna-se uma questão crucial na
criação ela mesma???

104
atualidade, visto que a r e m a r c a ç ã o porque os processos de subjetivação
de terra no caso indígena é a garantia são forjados no arranjo de forças
da manutenção do direito de perma- (((E de encontros e desencontros))) .
nência na sua própria terra, lugar que A complexidade da qual fala Passos
conhecem com seus corpos e seus rituais, é um aporte contemporâneo da ciência
e que lhes é deveras constitutivo. que é diferente da redutibilidade da
ciência moderna, e portanto da compre-
CLÍNICA E ensão mesma de sujeito. “A história
TRANDISCIPLINARIDADE natural da natureza desenha complexi-
Num dos caminhos para pensar a dades”, ele escreve. A transdisciplina-
complexidade Eduardo Passos1 aborda ridade é, por sua vez, a proposta de
a relação entre complexidade, a trans- pensar a ação de saberes variados, que
disciplinariedade e a produção de nos força a atravessar planos desco-
subjetividade. A produção de subjetivi- nhecidos.
dade é toda uma trama de conceitos Para abordar a complexidade
proposta a partir de diversos campos Passos estabelece um pensamento que
do saber e também a partir do que se se produz no atravessamento de
conhece por filosofia da diferença, disciplinas e não no interior delas.
tendo surgido da mistura entre formas Trabalhando a partir do campo da
de pensar que extravasam os estudos psicologia social, Passos propõe uma
da psiquiatria e da psicologia, e que se ‘clínica transdisciplinar’, que propõe
contaminam de biologismos e de discutir contra a noção de problema
formas de afetar moleculares. Como que sugere à busca de soluções, toman-
conceito, pensa o sujeito como constru- do a criação de problemas como um
ção constante (não cumulativa), não método da clínica. Associando duas
rígida, mas como corpo-no-mundo. Por modalidades cognitivas {ciência+inte-
isso ao invés de falar de ‘sujeito’ ligência} e {filosofia+intuição} o que
isolado pensa sujeitos nos processos de pode surgir nesse modelo como clínica
subjetivação, uma complexa rede que pensa processo é, então, não a
constitutiva que sempre ultrapassa a solução de problemas, mas a desmonta-
unidade dos indivíduos. Por isso há gem deles e também a invenção de
uma ênfase na noção de processo, novos problemas. A clínica assim está
1  Eduardo Passos. Complexidade, transdisciplinarieda- ligada a uma capacidade de criação,
de e produção de subjetividade. Em: www.slab.uff.br/ que não é referente às sistematizações
index.php/producao/8-textos/46-eduardopassostextos
produzidas pela psicanálise, ainda que
não se distancie dos seus estudos, mas

105
procura inventar novos pontos de vista mapas invisíveis, mapas de invenção.
(e de vida…) (((Idéia de clínica do/no social,
a clínica que transpassa os espaços privados, SINGULAR / COMUM
que atravessa no subjetivo e vai além, no Volto para aquela minha pergunta
individual, uma clínica que traduz a subjetivi- formulada anteriormente: de que
dade da cultura, que está naquele indivíduo, maneira a cartografia é provocadora de
uma clínica compreende um sujeito inserido processos de singularização ao mesmo
em uma relação micro e macropolítica, e que tempo em que provoca uma análise
ativa o sujeito para a busca de seus devires, crítica de um sistema econômico e
de seus processos enquanto sujeito desejan- político que é necessário enfrentar?
te… Clínica que provoca desconforto, descons- Me parece que essa pergunta pode ser
trução…para uma reinvenção. Neste sentido pensada em uma dobra, ou em um
não é uma clínica somente de respostas, que encontro: na relação singularidade e
procura amenizar angústias ou desencontros, comum, sendo a primeira a capacidade
ela provoca com que este desencontro traga à de criação de caminhos autônomos, e a
luz/consciência os atos do sujeito enquanto segunda a capacidade desses caminhos
processos de subjetivação, em que ele/ela não de serem a construção de um comum,
é vítima, é ator/atriz.))) que extravasa a individualidade (por
Isso me faz lembrar de um texto de isso processo de subjetivação) e endere-
Félix Guattari em que ele narra a sua ça um espaço de produtividade maior,
relação com um paciente, em que ele de uma ética comum. Ainda que pareça
sugere ao paciente que deixe de viver na que a complexidade está centrada na
casa dos pais para experimentar novas percepção dos processos que envolvem
relações sociais, libertando-se das a unidade de um sujeito, suas subjeti-
relações familiais que o aprisionavam… vações, seus movimentos, seus pontos
Guattari ressalta que essa sugestão e a de vista, podemos pensar a cartografia
coleta de dinheiro para que ele pudesse de complexidade como uma ferramenta
financiar alguns meses em sua nova social. Ou será uma cartografia que se
casa escapavam muito dos limites éticos apropria de uma “psiquiatria materia-
da relação terapeuta–paciente. lista” — que se trata de uma dimensão
É um episódio singular… de análise do desejo, de seus movimen-
A clínica transdisciplinar, à sua tos, considerando que eles são produzi-
maneira, provoca novas complexificações, dos socialmente, e portanto não
novos caminhos para as identidades, em isoláveis no sujeito (retirando-o da
seus processos de diferenciação e acopla- dicotomia de sujeito ou culpado…),
mento, ou de composição social. Desenha mas comuns, ordinários…

106
Em uma perspectiva, podemos territórios que conhecemos plenamente,
pensar que a capacidade de se mover nem apenas por territórios que consegui-
no mundo vem pelo conhecimento do mos representar. Acredito que nos
mundo, assim sendo, uma pessoa só se movemos por territórios que nos deixam
moveria por aqueles territórios que já deveras inseguros, (((Territórios estes que
conhece. Portanto, uma pessoa só se estão inseridos no nosso ser, que estão nas
moveria pela capacidade de pertencer ferramentas do olhar e do ver, mas que são
às significações já correntes (falar uma poucos utilizados, mas quando acionados
língua, por exemplo). Pois bem, mas entram em funcionamento. São territórios
ninguém fala uma língua sem inventá- que fizeram parte da construção de nosso
-la, ao menos um pouquinho. self, mas que foram deixados à revelia, pois
Os vocabulários, a língua e a lingua- nunca foram “solicitados”…, territórios de
gem podem ser instrumento reguladores infinito conhecimento))) visto que sabemos
dos processos de significação, mas na que nosso traçado vai constituindo
cartografia das complexidades provamos imprevistos, e dessa forma é provável
como elas também podem ser esgarçadas que vamos produzindo peças inacaba-
no processo de criação e na política. A das, protótipos, pistas, rascunhos,
língua e a linguagem são constituídas diagramas, o que eu chamaria agora de
também por elementos extra-linguísticos exercícios de singularização cognitivos e
e por elementos extra-cognitivos, ou seja, semióticos na complexidade do mundo.
elas interagem com e também excedem os Na perspectiva da singularidade,
vocabulários. operar a construção de uma cartografia de
As (des)medidas de mundo, entre o complexidade pode ser, portanto, inventar
finito e infinito no singular-comum, novos caminhos para si, como tenho
parecem ser uma expressão das bordas argumentado ao longo desse texto.
não rígidas da língua e da linguagem. Na perpectiva do comum, a cartografia da
Inventamos nossas expressões, muda- complexidade desejar ir provocando
mos aquelas que não nos cabem, recupe- bifurcações, no sentido de provocar
ramos termos de outros espaços. Na encontros, de provocar atrito às repre-
perspectiva da singularidade, operar a sentações do mundo, e de provocar
construção de uma cartografia de outros mundos. Na perspectiva do
complexidade pode ser, portanto, comum a produção de uma cartografia
inventar novos caminhos para si, como de complexidade é a construção de
tenho argumentado ao longo desse texto. signos junto da construção de mundos,
Na perspectiva da singularidade----comum, em que não estamos isolados ou imersos
parece que não nos movemos apenas por num caos (possivelmente imobilizador),

107
mas em que nos “ordenamos” singularmente no caos ou
tomamos parte em diversas complexidades. Nos
movemos por ali, e por aqui, e por ali… Cartografia
produzida a partir de vários pontos de vida diferentes.
A construção do comum, contudo, não é um todo
homogêneo,
mas um todo diverso, repleto de singularidades.
O comum é a própria construção de alternativas,
alternativas que se desenvolvem junto da vida,
dos caminhos da vida, da ética das lutas,
da construção de territórios e sentidos não fixados,
pois multiplicam mais as linhas das cartografias
v e r SAIR dadas, e apagam, ao mesmo tempo, outras linhas.
Evidente que algo complexo pode ser difícil.
Evidente… A complexidade é expressão que me faz
pensar nas equações de química que eu não conse-
guia resolver. Assim sendo, pensar a composição do
mundo no plano de uma complexidade me faz assu-
mir — claro — que é difícil é se mover no mundo!
Mas que, por outro lado, não há nada de mais
prazeiroso do que quando nos movemos junto de
alguém… E, ao inventar caminhos, inventar indiomas.

OUTRAS REFERÊNCIAS

Félix Guattari e Suely Rolnik Franco Bifo Berardi. (2012) sidade: Uma Definição do
(1986) Micropolítica — Cartogra- The uprising: on poetry and Conceito de Subjetividade.
fias Do Desejo, Petrópolis: Vozes finance. Los Angeles/London: Em: Revista Interamericana
Semiotext(e)/MIT Press. de Psicología/Interamerican
Félix Guattari (1992) Caosmose:
Journal of Psychology - 2008,
Caosmose: um novo paradigma Tania Maria Fonseca Galli e
Vol. 42, Num. 3 pp. 513-519.
estético. São Paulo: Ed. 34. Luiz Arthur Costa. Da Diver-

***

108
TIAGO RÉGIS intitulado Cartografias da Ditadura2 .
Trata-se de uma proposta de constru-
<< CARTOGRAFIAS DA DITADURA >>
ção coletiva e colaborativa, de caráter
CARTOGRAFIASDADITADURA.ORG.BR
permanente e processual, de uma
plataforma virtual aberta às contribui-
ções de pesquisadores, ativistas,
toda saudade é a presença ex-presos políticos, bem como de
da ausência de alguém qualquer pessoa que tenha interesse ou
de algum lugar informações pertinentes à temática em
de algo enfim pauta.
gilberto gil Ao entender as memórias como
objeto de conflitos e lutas, nas quais os
participantes envolvidos neste campo
de disputas estão permanentemente
A memória é uma ilha de edição, elaborando novos sentidos, esta ação
uma vez disse Waly Salomão. Com o objetiva contribuir para um processo
auxílio deste maquinário, procede-se a de memorialização no estado do Rio de
uma edição não-linear, múltiplas Janeiro, evidenciando a luta dos
operações: inserts, cortes, rearranjos, movimentos sociais pela disputa
dentre outros mais. concreta e simbólica dos espaços da
Oportuno e bastante precioso o cidade. A proposta é reapresentar a
ensinamento do poeta, dado o contexto memória de maneira que seja reconhe-
das “descomemorações” do cinquente- cida a necessidade de mudança no
nário do golpe de 19641. Levando em 2  Cartografias da Ditadura é uma ação do projeto de
consideração, portanto, a memória pesquisa e intervenção no campo temático Memória,
Verdade e Justiça [Projeto MVJ] executado pelo ISER,
como uma dimensão fundamental para organização de direitos humanos sediada na cidade
a reconstrução da história de períodos do Rio de Janeiro. A princípio [fins de 2013 e início de
2014] foram realizados alguns encontros presenciais de
autoritários, emerge em fins de 2013
interlocução com parceiros para formulação conceitual
na cena política fluminense um traba- e tecnológica da plataforma. Em 26 de março de 2014
lho de mapeamento de lugares de foi realizada uma mesa de debate que marcou o lança-
mento da plataforma. Desde então, a equipe responsá-
memória relacionados tanto à resistên- vel tem realizado algumas intervenções [parcerias com
cia quanto à repressão no estado grupos/pessoas para produção de conteúdo + oficina
em escola + concessão de entrevistas + participação
em atividade da Campanha Ocupa DOPS >> ver mais
sobre a campanha aqui <http://ocupa-dops.blogspot.
1  O golpe de 1964 mergulhou o país em uma ditadura com.br/>] para difusão desta ação cartográfica. Para
de caráter civil, empresarial e militar que só terminou contatos com a equipe, escrever para cartografiasdadi-
formalmente em 1985. tadura@iser.org.br

109
âmbito das políticas públicas, bem Reunindo os mais diversos mate-
como colocar em pauta os diferentes riais produzidos no campo temático
motivos que temos para recordar. Memória, Verdade e Justiça, esta
cartografia pretende se constituir como
* uma ferramenta de valor pedagógico
Tendo em vista a produção cartográ- que objetiva fomentar a conexão entre
fica como uma ferramenta de estratégi- as lutas e as violações do passado e do
ca importância para a disputa de presente, bem como transmitir para as
territórios, a ação Cartografias da gerações de hoje e para as próximas o
Ditadura tem por escopo fazer com que absurdo da violência institucional.
o mapa deixe de ser apenas um registro Considerando essa vertente coletiva
gráfico de representação para se de produção de conhecimento, Carto-
transformar em um espaço de expres- grafias da Ditadura quer afirmar, como
são de experiências coletivas, de disse o crítico literário suíço Jean
encontros e trocas. O intuito aqui é Starobinski em um texto concebido
sobrepor outras informações e grifar como discurso de agradecimento pelo
outros significados no mapa para Prêmio Europeu do Ensaio Charles
assim possibilitar a produção de Veillon de 1982, o “vivo interesse que
outras camadas de sentido. Interferir sentimos diante de determinado objeto
neste mapa é refazer uma outra cidade, do passado, para confrontá-lo com
a qual passa a não ter mais sua histó- nosso presente, no qual não estamos
ria escrita no mapa de contornos bem sozinhos, no qual não queremos ficar
delineados. sozinhos.”. Afirmar, sobretudo, que as
Evidenciando cartograficamente as ausências deliberadamente soterradas
práticas da repressão ditatorial, bem e esquecidas da memória oficial se
como os atos de resistência àquele fazem mais do que nunca presentes!
regime, esboça-se, aos poucos, o mapa
de um Rio de Janeiro que desmancha a ***
pálida imagética construída pelos
discursos hegemônicos de poder.
[REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS]
Trata-se de produzir outros sentidos
acerca de lugares do passado ainda SALOMÃO, Waly. Poesia total. São Paulo: Companhia
hoje muito presentes através do traba- das Letras, 2014.
lho da memória, o qual se dá no imbri- STAROBINSKI, Jean. É possível definir o ensaio? Tradu-
ção de André Telles.
camento das biografias individuais e
Revista Serrote, Rio de Janeiro, n. 10, p. 43-61, mar.
da história coletiva. 2012.

110
CONSPIRAÇÃO
Conspiração
André Mesquita

ANDRÉ MESQUITA falhas de informação. controlar e dominar


Algo está sempre escondi- nações. Tudo o que uma
CONSPIRAÇÃO
do. Tentam provar aquilo teoria da conspiração quer
Em grupo, que não sabemos, ou é não explicar, mas
___________________ 1
aquilo que deveríamos produzir suspeitas para
arquitetam juntos as saber. As provas se construir suas “verdades”.
tramas secretas do encaixam? Que pedaços de A ansiedade de querer
mundo. Lançam murmú- histórias podem juntas conhecer o que não se sabe,
rios na rede. Desenham nos mostrar a verdade? de procurar enxergar o que
associações obscuras. Instituições burocráti- está escondido nas som-
Jogam com complôs e cas e militares do Estado bras, ou até mesmo diante
boatos. Teorias conspira- são responsáveis por de nossos olhos, aponta
tórias passam por regimes manter, reservar e classifi- para uma busca incessante
de elucubração coletiva, car como secretos conheci- pela transparência.
mistificações, sinais de mentos “ameaçadores”. A ideia de transparên-
paranóia, estados de O “poder concentrado do cia sobre um segredo que
cinismo. É possível segredo” é algo que Elias precisa ser trazido à
revelar estruturas de Canetti apontou como público só evidencia o
poder autoritário, de característico dos regimes paradoxo de dizer que tudo
controle ou de governança ditatoriais.2 Hoje, nos está claro quando, na
sem basear-se em especu- governos ditos “democrá- verdade, existe algo a ser
lações, falsos testemunhos ticos”, organismos resguardado. Somos
e opiniões delirantes? normativos, agências de tomados pela incerteza de
Conspirações trabalham segurança e sistemas de não saber a verdade que se
com incertezas, desvios e vigilância usam informa- esconde por trás das
ções confidenciais para cortinas, pois quanto mais
1  Inclua nesse espaço nomes de se esconde, mais inegável
corporações ou organizações em 2  CANETTI, Elias. Massa e Poder.
conluio com atores influentes for- São Paulo: Companhia das Letras,
torna-se a prova de que a
mando alianças ocultas e sigilosas. 1995. informação é administra-

111
da e regulada. Evocar a das. O que mais falta à sobre o governo totalitário
“presença da ausência”, conspiração são pistas de dos illuminati, sobre a
como fizeram as madres suas teses e um sentido presença de extraterres-
da Praça de Maio para claro de suas ligações. tres entre nós, sobre os
comprovar as torturas e os Como provar associações segredos da morte de
desaparecimentos durante sem cair nas falácias e líderes políticos e religio-
a última ditadura militar armações da grande sos, ou sobre o perigo de
na Argentina, ou a recente imprensa, ou nos memes um controle mundial pelos
pergunta “onde está o disparados nas redes fundamentalistas religio-
Amarildo?”, nos convo- sociais? Criminalizar sos e grupos extremistas.
cam publicamente a movimentos pode passar Fatos, profecias e evidên-
pensar que nem sempre a pelo viés conspiratório da cias confusas querem
verdade que se encoberta acusação sem provas provar a verdade que não
pode ser enterrada por concretas. sabemos. Na rede, tudo
intimidações e sintomas É da natureza conspira- parece estar sendo revela-
de amnésia. tória falsear ou limitar do, dando-nos a falsa
Teorias conspiratórias informações. A internet é sensação de que agora
nunca são transparentes e um grande repositório de sabemos o que antes não
lógicas. Para seus perpe- teorias conspiratórias exó- conhecíamos. No entanto,
tradores, sempre existirá ticas e fantasiosas, com o aumento da quantidade
algo a mais no mundo que páginas cheias de detalhes de informação circulando
precisa ser provado.
A desconfiança cresce.
A intriga torna-se ilimita-
da. Expor um segredo não
nos mostra a presença de
um mundo “clandestino”
ou um poder “paralelo”
agindo em concomitância
com o real. Ao invés disso,
tal exposição enfatiza que
esse mundo e esse poder
atuam dentro de um
espaço de disputa onde as
nossas relações sociais
cotidianas são construí-

112
na web não significa Para Jameson, a conspira-
maior clareza de entendi- ção tenta representar algo
mento. que não pode ser represen-
No início dos anos tável por meio de uma
1980, Fredric Jameson1 analogia do mundo real,
já havia apontado em sua simplificando estruturas
crítica ao pós-modernismo de poder e distorcendo
a urgência de se produzir sistemas sociais.
uma “estética de mapea- O fato de hoje tudo nos
mento cognitivo” como parecer conectado não
algo que nos ajudasse a significa que conseguimos
cartografar os processos desvendar a rede completa
de integração global. de uma trama.
Jameson também se
referiu à necessidade de ***
produzir uma arte política
que conseguisse represen-
tar o espaço transnacional
do capitalismo para que
pudéssemos entender os
nossos posicionamentos
individuais, ajudando-nos
a recuperar a capacidade
de agir e lutar, então
neutralizada pela nossa
confusão espacial e social.
Quase trinta anos depois,
uma pergunta ainda deve
ser feita: podemos articu-
lar a totalidade de um
sistema social sem cair
em uma análise conspira-
tória?

1  Fredric. Pós-Modernismo: A Lógi-


ca Cultural do Capitalismo Tardio.
São Paulo: Ática, 1996

113
DAVI MARCOS
Pequeno ajuntamento de postagens/pensamentos
sobre um pedaço de realidade
Davi Marcos

DAVI MARCOS

PEQUENO AJUNTAMENTO DE
POSTAGENS/PENSAMENTOS SOBRE Pobre, porrada
UM PEDAÇO DE REALIDADE Rico, empreitada
Copa furada
(Seleção de escritas de Davi no seu De tudo ou nada
perfil facebook entre 2013 e 2014) Tudo pra quem?
Retira de alguém/ninguém
Suas naves vem
Pára tudo, torcida, amém

Esmo além do real


No jornal diz que será um soldado A esmo, nós, foi mal
do exército para cada 55 moradores da Soldados contra nós
Maré, mas não diz quantos médicos, É nós
Somos nós
quantos educadores, quantos dias de Contra nós
coleta de lixo, quantas novas vagas de Vítimas e algoz
emprego...a lei do fuzil do Estado não Em nome deles, por eles
difere muito da lei do fuzil do bandido. Com nosso dinheiro
Nosso suor
Nosso sangue
E tudo ao redor
EUS... Nada mais nos pertence
A vida é dura, não se pode esmorecer... Força de trabalho, corpo
A chapa é quente, não pode dar mole... ou a vida que se vende
Aquilo que não aprendemos nos engole... Ninguém (se) entende?

Não dou conta da


realidade, reinvento cada
ponto que puder...

114
ESTALANDO
             Toda hora tem, gritou o “menó”
             Vai vem frenético, se liga, aqui ó
Fogos, estalando, um chicote novo, eminência fatal para o povo
             Chapa quente, gato preto, corre pro beco
             Rápido, languido, quando corre quase não toca o chão
             Parece vapor, tem carga nova, difícil botar a mão
Alma ainda correndo, após o estampido, ecoa o sangue no ouvido
Dizem que tava no veneno, era ainda menino, pouco mais de 12
Talvez o artigo, também o calibre que o acertou, em sua última pose
Na linha do jornal era um gerente, mais um, menos um, pra muita gente 
Na favela onde morava, um menino da boca e na realidade uma criança
Que depositara seu sonho, sua esperança, com toda confiança
“Lado certo da vida errada” era assim que via, que vivia, essa era a parada, dia a dia
             Na sua curta estrada que a falta fia
             A fila anda...pra boca e a barriga “não ficar vazia”
             Estalando de novo, estalando, de novo...estalando!!!

Aumentou tudo no Rio,


principalmente o nível do
caos, seria por acaso?

RETROVISOR
Por ventura sejas agraciado
Por aguardada mudança de lado
Não te esqueças da origem
Que sujou teu rosto de fuligem 
Pois as maquiagens não poderão ocultar
O que pra sempre dentro d‘alma estará
BOM DIA FAVELA
Raiz que em momento crítico te afetará
Que em luzes diversas não se apagará Quando se entra na
Pois sem tais bases de ser favela, de verdade, ela
Jamais seguiria um simples entender
nunca mais sai de dentro
Efêmero, és 
Sorte ou revés do ser, a favela fica e de
Eterna é a mudança alguma forma se mani-
Em tempo, ser sempre criança festará n‘alma. Favela
No vento, esperança dança
A vida não permite fiança não é um espaço, é uma
vibração.

115
O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

No proscênio, tem um gênio


E seus desejos realizados
Transformam todos em errados
Muitos são enterrados
Silvos, uns mortos e outros vivos

As vias de fato
Assim como gato e rato
Minha alma/poesia dói
Fico num só desconstrói
Quem dera fosse herói

Os meios para os fins


São tipo assim
Balas, gases, bombas
Menos marfins e mais trombas
Não d‘água, mágoa

São valas aos infernos abertos


É sangue de Marias, Josés, DGs e Adalbertos
É bonde e não gangue
Nosso espetáculo de sociedade
Só não é mais absurdo que nossa realidade

Se foi por acidente, não sabemos


Mas o preço de qualquer coisa pagaremos
Com a moeda dos lamentos, desde de 22 de Abril de 1500
Invasão maior ainda não se viu
Mandaram os putos pra puta que pariu, olha o que disso tudo surgiu

Transgrido quando
incomodo o conservador,
mas vou além quando
faço o mesmo com a
vanguarda.

116
UM POUCO DA PRESSÃO DO LADO DE CÁ
No caminho, vi muitas pessoas aderindo ao
“vamos vencer na vida de qualquer jeito” muitos
viraram ladrões, traficantes, estelionatários e tantos
outros viraram policiais. Um dia no RocK in Rio em
2001, fui abordado por dois policiais na beira da
rua, onde tinha um matagal que as pessoas estavam
usando como banheiro, quando me perguntaram o
que estava fazendo ali, respondi enquanto subia o
fecho-ecler da calça, que estava criando uma alterna-
tiva para a falta de banheiros públicos, um deles, o
mais velho, me chamou de engraçadinho, o outro,
bem mais jovem, veio me revistar, ele gaguejava ao
falar comigo. Olhei por baixo das sombras do boné
da PM e reconheci o policial que me revistava, no
impulso o chamei pelo apelido que sempre o usava na
rua de Olaria: Gaguinho?
Levei um tapão na cara, aos berros de “tá maluco,
seu filho da puta?”
O policial mais velho já mandava me esculachar,
daí segurei meus cabelos, que eram grandes na
época, fiz um rabo de cavalo, assim o policial mais
novo pode ver melhor o meu rosto, ao me reconhecer O VULTO OU A VOLTA
me abraçou, chorou e pediu desculpas, ao final ainda O vulto volta
A volta vulto
chorando ele disse que a pressão que sofriam era O vulto deu a volta
muito grande. O policial mais velho, com cara de A volta deu o vulto
decepcionado disse para parar com aquela cena e que Vulto e volta
Volta e vulto
só faltava nos dois nos beijarmos, o Leandro me
Vulta
colocou para dentro do show e vi os últimos minutos Volto 
do Red Hot Chili Pepers, nunca mais o vi, agora vejo Voluta
O vulto ou a volta?
em jornais, matou a namorada.
O vulto é a volta
A volta é o vulto
Volta
Vulto
Volta
Vulto
Volta...

117
Temos mais em comum do que se pode aceitar

Sabe aquele policial que está ali?

Hã...?

Também é pobre.
Quem dá ordem para a polícia cumprir?
Violência é uma questão de classe.

A multidão que lincha o fugitivo, é pobre.


O moleque que furta o cordão de forma violenta, é pobre
O ladrão que usa uma faca, é pobre
O assaltante que segura a pistola, é pobre
O bandido que segura o fuzil, é pobre
O policial que segura o fuzil, é pobre
O soldado do exército que segura o fuzil, é pobre
O segurança privado que segura o 38, é pobre
O guarda municipal que segura a arma de choque e o porrete, é pobre
A multidão que reage de forma violenta, é pobre

Quem lucra com a violência?


A quem o pobre serve através da violência?
Devemos ser violentos?

AMOR É ARMA

HOLOSORTES
Circo e cerco, armados
Senhoras e senhores, acuados
Desejando a paz, o fim da guerra
Vivendo o clima de invasão da terra
São homens e não alienígenas
Brancos, negros e indígenas
Fluxo de vídeo em tempo real?
Reality Show, sensacional...
Aqui larga o aço, é pão escaço
Nesse circo, é nós o palhaço

118
Família relatou sobre adolescente
levado pelo exército na Nova Holanda
agora, as mulheres estavam com os
rostos e olhos vermelhos, disseram que
era por causa do gás de pimenta.
—Os soldados do exército que estão
na Maré são tão novos quanto os
moleques do tráfico e tem o mesmo
perfil, em maioria negros e de classe
popular.
—Sobre uma matéria do jornal
O Dia:
A mídia descobriu uma nova comu-
nidade na Maré, estava lá há 30 anos e
nessa levada ressalto essa frase, que
pra mim é exemplo do que faz o bolsa
família :
“Desempregada desde que descobriu
que estava com Aids, há oito anos, Ana
sustenta os filhos com apenas R$ 290
que recebe do Bolsa Família. As
crianças, de 17, 8 e 5 anos, estão
matriculadas na escola. Todos dormem
em um único colchão, achado na rua.”

Matéria http://odia.ig.com.br/noticia/
rio-de-janeiro/2014-04-05/mclaren-uma-lo-
calidade-na-mare-onde-falta-tudo.html CA MINHA
MINHA ARTE
MARTE MINHA
LE VINHA
CAL MINHA
AD VENTO
DE TALHOS
NOS MALHOS
DA CALMA
AD QUERIDA
ARTE MINHA
MINHA VIDA

119
DES// dar conta de si, cuidar-se, escutar-se

ver as horas passando onde quer que se


DOBRAMENTO esteja e ainda assim conseguir pensar
além, mais adiante do que ainda está por
/S fazer, mais para lá do que nossa biologia
ou nossa biografia nos impõe
des//dobramento/s
Daniela Mattos
entender quando o que se anseia não é mais
Cecília Cotrim horas no espaço do dia, é mais humanidade,
mais alegria como prova dos nove, mais
bulário//estético//político espaços de troca e lugares de encontros que
C e c í l i a C o t r i m não se reduzam a responder demandas, que

possam reverberar como acontecimentos

DANIELA MATTOS desviar o quanto possível das subjetividades


CECÍLIA COTRIM que precisam responder a tudo de um modo
estabelecido, normatizado, estanque (mas
DES//DOBRAMENTO/S enfrentá-las se for necessário)

(ecos de silêncio dos des//do- conseguir ainda assim operar cortes


bramento/s na escrita) reais, mesmo que como micro-poros, nas
múltiplas máquinas de moer gente que
precisamos enfrentar no cotidiano, que
nos anestesiam e estancam nossas
forças de criação pois excluem o desejo,
quase o apaga dos nossos corpos

permitir-se desdobrar o silêncio, fazê-lo ecoar


em nossos vazios e deixá-los tornarem-se
plenos, aceitá-los em sua dificuldade e sua
potência, quando podemos perceber que o
copo está vazio, mas ao mesmo tempo cheio
de ar

arejar o espaço do pensamento, desafiá-lo,


cartografá-lo considerando a potência performa-
tiva da vida e de seus nós (cortá-los quanto
górdios) preparando o terreno para mudanças

120
os projetos//processos abordados no
vocabpol são desdobrantes: irrompem
provocando giros, saltos: são processos
críticos progressivos: caldos de redução
arte//política.
as proposições nascem e crescem nelas
mesmas e noutras, escreve hélio oiticica em
‘as possibilidades do crelazer’. é por aí que
pretendemos pensar o movimento provocado
pelo termo desdobramento..... [seguir os
desdobramentos em ho é como ir dos
meandros das cosmococas aos parangolés, e
daí a orgramurbana.... a apocalipopótese, a
cães de caça,,,,,,, deslizar de projeto cajú a
mitos vadios, em lances de retomada
crítica//
desdobramentos são micro-processos ao
longo dos quais surgem, e são reduzidos,
diferentes feixes de questões.... daí, configu-
ram-se outras regiões... em ritmo, temperatu-
ra, pressão, [clima?], cor, tato, olfato,
paladar, múltiplos perceptos e afetos.... legião de hunos. ele estava programado mas
“oh, psychodélie!” — exclama gilles não daquela forma bárbara que chegou,
deleuze, a uma dada altura de Lógica do trazendo não apenas seus parangolés, mas
sentido. vamos tentar desdobrar estas notas conduzindo um cortejo que mais parecia uma
a partir de experiências com a fagulha que se congada feéria com suas tendas, estandartes
inscreve, se escreve.... uma espécie de marca e capas. que falta de boas maneiras! [...] uma
vocabo-política, mas também uma partitura evidente atividade de subversão de valores e
de ação, deflagrando novas páginas e comportamentos. barrados no baile. impedi-
comportamentos. [desejamos algo como o dos de entrar. hélio, bravo no revertério,
trecho torrencial de waly salomão, ao disparava seu fornido arsenal de palavrões:
descrever os movimentos de ho, em desvio, —merda! otários! racismo! crioulo não entra
com a bateria da mangueira, pelas bordas do nesta porra! etc., etc., etc...1
mam, na opinião 65:
o ‘amigo da onça’ apareceu para bagunçar
1  waly salomão, hélio oiticica, qual é o parangolé? p.
o coreto: hélio oiticica, sôfrego e ágil, com sua 59.

121
nossa proposta é pensar
numa redução entre os anos
rebeldes da contra=cultura e
esse início do terceiro
milênio, segundo o ritmo da
montagem/sampleagem que
basbaum retomou em
conversa durante a residên-
cia do vocab=pol na glória,
[vivência voltada a desdo-
brar radicaixs-etc [vocábulos
desdobrando-se uns nos
outros, uns antes/depois/
dentro dos outros, como no
pensamento performativo da funcionar como detonadores, maldita!, desdobrar é
bitola, deflagrado pela loura lançando a discussão, e o como deflagrar, e se diz
git=mar. ou palavras e carne desejo, sobre certas estraté- assim – diretamente da
em atrito com a cidade, como gias artísticas contemporâ- coluna de torquato1:
no love de juliana=cavaleira.] neas que, ao lado das outras o aterro, do saguão ao
geléia adversa=adversa tríades, formam essa mar mais pensar agindo:
geléia: a dupla condensação, estranha região [estranha e orgramurbana: a quase
em estado de oposição, complexa]: a zona de corporalidade da signifi-
participa do contexto interseção proposta pelo cação……………………
específico de um diagrama vocab=pol..... vocabulário
de basbaum, de 2008. político para processos ***
relacionam-se em tensão, estéticos.provocando
entre as três tríades que dobras críticas ao articu-
aparecem à oeste do plano, lar duas expressões-clichê,
vizinhas: de ho e torquato [da
parece que tais tríades adversidade vivemos, e
trazem alguns pontos geléia geral, respectiva-
importantes para a nossa mente], o diagrama faz
discussão: focaremos em: vibrar – aí nessa região
transatravessamento, – diferentes fases do 1  “sobre orgramurbana. como uma
carta para hélio oiticica”, luis otávio
adversa geléia, artista-etc. circuito de arte carioca..... pimentel invadindo geléia geral, em
estes 3 termos podem numa dessas fases, 9 de dezembro de 1971.

122
CECÍLIA COTRIM

BULÁRIO//ESTÉTICO//POLÍTICO1

em torno da MUJICA ……………………


— PROJETOS//PROCESSOS [cecilia cotrim +
tatiana grinberg - conversa em fevereiro de 2014]
— PROCESSOS COLETIVOS [ricardo
basbaum - diagrama arte & vida]
— ALIMENTO AMPLIADO [jorge mena barreto]
— CONVERSAS [ricardo basbaum]
— DESARQUIVO [cristina ribas]
— HIDROSOLIDARIEDADE [rés-do-chão]
— ARTEdeSOUVIDA [rés-do-chão]
— NBP [ricardo basbaum]
— ARTISTA-ETC [ricardo basbaum]
— ARTISTA // [rés-do-chão]
— EDITORA PRESSA [graziela kunsch]
— CORPO DATIVO [empreza]
— CONSTRUÇÃO DO COMUM [antonio negri]

1  Listagem elaborar por Cecília Cotrim para seu


editorial da Revista Periódico Permanente (número
5), do Fórum Permanente. Cecília apresentou essa
listagem como parte de sua pesquisa/proposição para
o Vocabulário político.

123
MUJICA MACAPOARA
— primeiras compras:
4 k de farinha de mandioca amarela, fina, do pará
chicória da amazônia
jambu da amazônia
4 litros de tucupi da amazônia

124
DIAGRAMA
Diagrama
Ta t i a n a R o q u e

TATIANA ROQUE

DIAGRAMA

“O diagrama é este formigamento de


gestos virtuais: apontar, fechar, prolon-
gar, estriar o contínuo. Uma simples
linha, um pedaço de flecha e o diagrama
salta por cima das figuras e constrange
a criar novos indivíduos. O diagrama
ignora de modo soberbo todas as velhas
oposições abstrato-concreto, local-glo-
bal, real-possível. Ele guarda como
reserva a plenitude e todos os segredos
dos fundos e dos horizontes”.
Gilles Châtelet, Les Enjeux du Mobile

Como inventar uma política autôno- situação na qual o enunciado se produz.


ma, novas formas de organização, A escolha das palavras não é anódina,
práticas capazes de manter uma assime- nem seu significado. A diagramática é
tria, como condição para uma política uma recusa de rebater a enunciação
anti-capitalista? sobre os enunciados, em um mundo
Uma máquina expressiva, criação de povoado de palavras de ordem.
signos que resistam à divisão entre E opor à axiomática do capital é
significante e significado, entre expres- escapar de seus mecanismos de articula-
são e conteúdo. Uma gramática, mas ção, de mediação, de tradução de códi-
também uma semântica corporal das gos. Sempre houve códigos, mas agora é
lutas. preciso que todos se equivalham.
Cada enunciado se relaciona a uma As minorias também são codificadas,
situação micropolítica específica, que apropriadas por identidades fixas, e
não conhecemos sem mergulhar na podem se tornar reféns dos mecanismos
de captura. Para Deleuze, há duas

125
maneiras pelas quais o capitalismo nenhuma força subjetiva renunciando à
codifica as formações sociais, e que são singularidade de cada grupo social. É
interiorizadas pelas minorias: o corte sim, usando muito do gueto, de sua
nacional/extranacional, que torna toda sensibilidade e seu dialetos próprios,
minoria composta de estrangeiros, ainda mas para conectá-los, conjugá-los a
que estrangeiros de dentro; o corte outras lutas. Assim, podemos inventar
individual/coletivo. A minoria se um devir autônomo imprevisível, que
constitui na impossibilidade de interio- passa por conexões transversais entre
rizar essa última divisão, pois tudo que atores diferentes, lutas transnacionais.
parece emergir do individual (familiar, Talvez possamos falar de uma nova
conjugal, psíquico) se liga a outras internacional.
questões nada individuais (étnicas, Os momentos de maior potência dos
raciais, sexuais, estéticas), com uma movimentos são aqueles em que diferen-
relevância que é imediatamente coletiva tes lutas se encontraram, produzindo
e social. mobilizações imprevisíveis.
Uma das maneiras pelas quais o Precisamos urgente de novos parâme-
capitalismo codifica as formações tros para avaliar, de modo imanente, a
sociais, para integrá-las em sua própria efetividade das lutas e das organizações
dinâmica, é a da comunitarização, ou desse ponto de vista. Que se liga aos
seja, o isolamento produzido pela fixação modos de existência que elas propõem,
de uma identidade. O que leva alguns seu estilo, os problemas que coloca, as
grupos a enxergarem suas reivindica- reivindicações que traz e seu potencial
ções como parte da esfera interna, como de conexão. O critério dessa avaliação é
problemas que só concernem àquela a aptidão que a gente tem para se
comunidade, o que estamos chamando articular com outras lutas, conectar
de problemas nacionais. Pode-se até nossos problemas com os problemas de
tolerar a dimensão coletiva e política outros, ainda que muito distintos do
das questões que preocupam uma ponto de vista das identidades. Falar
minoria, contanto que ele não se conecte outra língua. Nunca só a nossa.
a outras minorias, a coordenadas Tal é a função de uma política diagra-
internacionais, transversais, ou seja a mática: operar por relações transversais
lutas estrangeiras. entre problemas distintos e se opor à
Por isso, não dá pra combater o automação dos axiomas capitalistas.
cinismo capitalista entrando no gueto,
falando uma língua particular. Por ***
outro lado, também não mobilizamos

126
ESCREVER
Escrever
Cristina Ribas

escrita
Daniela Mattos

7 minutos do streaming de RionaRua


7 de Setembro de 2013
Tr a n s c r i ç ã o L u i z a C i l e n t e e S a r a U c h o a
Narração de Clara Medeiross

De quem é a ordem?
Rio, 20/06/2013
Tr a n s c r i ç ã o d e L u i z a C i l e n t e

CRISTINA RIBAS

ESCREVER

PRIMEIRO
Escrever me alegra. (Suely Rolnik)Escrever é um ato que se descola desse
Escrever me assusta. Eu diria tam- corpo, que provoca uma separação,
bém, assim como disse Suely que a ou uma tradução. Para uns está mais
alegra. E também me alegra, claro. perto (escrita mais perto da noção de si).
Mas me assusta. Escrever complexifica, Para outros está mais longe (escrita como
expõe, radicaliza, nomadiza linhas de ato árduo, de algo que não se consolida como
pensamento. Sensação e pensamento. prática de si).
Pensamento e impressão. Expressão. É belo também quando Suely Rolnik
A escrita é assustadora. diz que há uma cartografia. Me refiro ao
Quando digo da escrita, essa que texto “Pensamento, corpo, devir” (1993).
assusta, digo da escrita como ato primá- Ela fala da relação entre a escrita e uma
rio, como tradução humanotécnica, como cartografia do pensamento, que o
capacidade de cognição. Como quando pensamento é uma espécie de cartografia
desenhava sem desenhar por 40 segun- conceitual cuja matéria prima são as
dos uma natureza morta (e nem nature- marcas (aquilo que provoca mudanças
za, nem morta) sobre o papel branco, com na nossa compreensão de si, de um “eu
lápis. Escrever como ato primário é sou assim”, afetado por marcas desvian-
trabalhar numa fidelização das linhas- tes de si que trazem o “outro em nós”…)
-pensamento, das suas linhas de vôo, do e que funciona como universo de referên-
pensamento a nu, da sua diagramática. cia dos modos de existência que vamos

127
criando, trazendo figuras de um devir. to, também pelo ilegível. A escrita
Ela diz também que é na escrita que o impregna pela presença dessa palavra de
pensamento rende o mais que pode, visto poder metafísico as tantas suas formas.
que ela convoca o trabalho do pensamen- Há um trabalho de fundo da escrita. Há
to, e lhe traz maior acuidade e consistên- um trabalho de produção de verdade,
cia. Ela diz que escrever tem o poder de como disse, Peter Pál Pélbart: “a verdade
ampliar a escuta e suas reverberações, da relação, não a relatividade do verda-
pois escrever é traçar um devir. Ao deiro.” Essa escrita seria aquela que
escrever colocamos as marcas em estado chamo agora de escrita política. Escrita
de proliferação. É nesse ponto que ela impregnada da construção de uma
diz: escrever me alegra. verdade que sabe da sua temporalidade.
Essa escrita também provoca, ainda Por isso penso agora numa escrita-
que seja desviante, uma consignação, streaming, de puro fluxo, de passagem, de
uma conjugação de mundo. pura atualização. Nas escritas feitas pelo
agregador digital Agrega Lá,2 nos diver-
SEGUNDO sos grupos de midia livre que surgiram,
A escrita, doutra maneira, está em como o Coletivo Mariachi,3 o RionaRua4 e
códigos. Em algoritmos1. Em data a Mídia Ninja5. Há diferença em como
bases. There is a form of writing in cada grupo se organiza, e há processos de
each and cada coisa. Uma escrita como apropriação e reapropriação das escritas-
codificação. Como segredo. Construída -streaming também. O streaming, para
por sistemas, ou construtora de siste- aqueles que estranham a sua presença
mas de escrita. Por trás de cada dígito, aqui na entrada da escrita, é a passagem,
um cálculo algorítmico, de combina- como um fluxo aberto, de uma informação-
ções, e de números. Essa escrita, essa vídeo ou áudio ao vivo pela trama da web…
aqui que se lê, é transcrição pura. São escritas em formas alogarítmicas,
Porque existe o escrever em código que pixeladas ou chiadas, que são feitas a
permitir escrever em letras. Há uma
mecanização ou uma automação da 2  a g r e g a . l a . Portal de coletivos de midia, grande parte
surgiu no ciclo das manifestações a partir de Junho
escrita, senão, ela não se faz. Outros- 2013. A Nova Democracia, Carranca, CMI, Coletivo
sim, de um lado avesso, a escrita é toda Mariachi, Comitê Popular, Linha de Frente Audiovisual,
Maré Vive, MIC, Ninja, Ocupa Alemão, Ocupa Câmara
uma elipse. Ela esconde e revela, revela Rio, Ocupa Copa, Ocupa Rio, Olhar Independente,
assim como essa que se transcreve nos Projetação, Rio na Rua, Vinhetando, Vírus Planetário,-
seus olhos: uma COMPLEXIDADE. Voz das Ruas.

A escrita passa pelo legível, e portan- 3  y o u t u b e . c o m / u s e r / c o l e t i v o m a r i a c h i


4  r i o n a r u a . o r g
1  Algoritmo: combinações ou cálculos numéricos que
inscrevem operações funcionais. 5  n i n j a . o x i m i t y . c o m / o r g / N I N J A - 1

128
partir de muitos pontos de vista diferentes, #hashtag os encadeamentos da escrita @
que dão vazão aos protestos do BRASIL | BRASIU twitter. São as cartografias reais dos sms
| BRAZIS, multiplicando a sobrecodificação cruzando a Espanha e construindo o 15M.
da informação da grande mídia e suas São as leituras diagnósticas dos fluxos de
narrativas limitadas. Essas escritas se informação, sintomatológicas de tomadas
relacionam diretamente com o movimento, de posição sociais, como aquelas visualiza-
são o movimento ele mesmo, e não uma das por softwares e codificadas por Fabio
representação dele, tal como já aconteceu Malini e seus alunos na UFES 6. Tais
na Praça Tahrir no Egito, no Parque Gezi escritas-signo de tom ágil e virtual, são
e na Praça Taksim em Istambul, na Praça escritas muitas vezes dessubjetivadas, que
do Sol em Madrid. viajam e informam, que sobretudo convo-
Algumas escritas se perdem no fluxo ao cam (essa é sua verdade), convocam subir
vivo que as sustenta, outras são recaptura- um assunto, um evento, uma luta, no
das e constróem ferramentas de proteção, trend. São escritas políticas de uma
como as muitas câmeras de um mesmo verdade absurda, monstruosa. Expostas
evento que revelam, a nu, que se uma bomba em chocante escala continental… Significam
saiu da mão de um homem, ele não era, doutro lado, e voltam ao emissor, e transmi-
definitivamente, aquele homem que a justiça tem-se a outros. Escritas que provocam,
ou a polícia acusaram. A forma como a escritas que informam, escritas que trans-
mídia construiu o caso do acidente que teve portam, escritas que se perdem.
por consequência a morte de Santiago (((a Sementeira num carrinho de super-
Andrade, o cinegrafista da Band, levou à mercado))) (((o Rio na Rua e a narração de
prisão de Caio Silva e Fábio Raposo, ainda voz forte da voz da Clara))) ((descrever essa
presos. A Rede Globo trabalhou junto com a iniciativa)) (((O radio como escrita))) (((O
Polícia construindo a criminalização de streaming-escrita))) (((a reapropriação da
ambos, tentando associar o estouro de um escrita na Midia Ninja))) (((o arquipélago de
rojão ao então Deputado Estadual Marcelo escritas ))) (((a propriedade das escritas)))
Freixo e o movimento Black Bloc. O que se TERCEIRO
provou uma grande farsa, também porque o A escrita, de alguma maneira, é a
advogado inicialmente arranjado para os crença desse vocabulinário. Escrita que é
acusados, Jonas Tadeu, era o mesmo feita tanto de algoritmos legíveis e de
advogado de um miliciano da Baixada imagens algorítmicas. A escrita é solicitada
Fluminense — Natalino Guimarães, preso nesse projeto como processo estético,
em 2008. Jonas Tadeu abandonou o caso. processo no qual nos envolvemos a codificar
#liberdadeparatodosospresospoliticos nossas ideias, mas não sem repensá-las, sem
A escrita como movimento, que é fluxo
puro, é também a escrita que incorpora o 6  l a b i c . n e t

129
colocá-las novamente no confronto da TRANSformação , nos vocabulários vivos,
experiência. Por isso a escrita aqui é crença nos vocabulários falados e também silencia-
de um análise, de uma análise de nossos dos. A escrita pode portanto revelar, como
vocabulários, de nossas posições, de nossas forma de topologia privilegiada (porque
miscigenações. permanece — como a tinta da ‘caneta
Tomar a escrita depois de uma semana de arquivística’ que encontrei no Capacete)
conversas num Abril de Rio de Janeiro aquilo que não se disse ou que passou não
(((em chamas, e gás lacrimogênio))) é ao visto, em dado lugar, em dada situação.
mesmo tempo instrumento de memória, mas A escrita, em seu potencial expressivo,
também de novidade, abrindo o vocabuliná- trabalha como uma máquina de expres-
rio como espaço relacional (com a escrita, são. (((Máquina porque não trabalha
com a experiência e com o pensamento, com sozinha, trabalha com outras máquinas.)))
o leitor por vir), social (não escrevemos Há uma provocação de “agenciamentos
sozinhos, ainda que quando escrevemos coletivos de enunciação”, fazendo falar para
possamos estar sozinhos), de estranhamento além do grupo e para além do isolamento
(sem fidelização àquele evento). A escrita individual. Como agenciamento, a escrita
que configura o Vocabulário político é como acontece criando partilhas ou estranhamentos
um prolongamento e uma complexificação (((uma ESCUTA ? ou VIOLÊNCIA ?))). A escrita
daquelas conversas, de tudo o que elencamos como máquina de expressão, como agencia-
como importante para constar aqui, nessa mento coletivo de enuncição, chama a falar
publicação sobre o sobre os fluxos entre os mais alto, solicita um ato de conjugação com
processos políticos e os processos estéticos. o mundo, com os mundos. A escrita, portan-
Quando digo crença, digo crença como to, como coisa que é capaz de provoca devires,
aposta, como ferramenta que se coloca na disse Suely. Uma escrita fora de si. Afinal é
dobra lash registro/legível, e provocadora de preciso desnaturalizar e desapropriar-se das
efeitos e funções. Efeitos e funções de escrita, maneiras do escrever, assim como do ler,
efeitos e funções estéticas, efeitos e funções para reinventar. E definitivamente escrever
políticas. mais, e ler mais e mais… ler mais e mais… ler
mais e mais… ler mais e mais… ler mais e
QUARTO mais… ler mais e mais…
A escrita tem uma topologia. Ela acontece
aqui, registro na superfície desse papel. Ela ((((referência))))
(Rolnik, S. “Pensamento, corpo, devir”, 1993)
se dobra num prolongamento, como dito, sem
fidelidade (não é essa verdade). A escrita ***
pode ser pensada como uma das topologias,
no sentido de provocar LUGAR e provocar

130
DANIELA MATTOS

escrita

a escrita (a arte),
enquanto produção de muitas forças sem nome
é sempre
tomada de posição,

para fazer esta escolha é preciso


colocar-se em risco
e produzir
encontros que fazem vazar algo
que resiste
(re)existe
não deixa minar as forças vitais

o mar de mudanças que estão redor


sem volta
galopa desejante
abre novos modos de vida e invenção

seja poema
(uma partitura a nu do pensamento)

performance
(presente radical que cola o aqui da escrita ao aí da leitura)

ou qualquer outra possibilidade de respiro micropolítico e performativo

rasgos no clichê
ou a sua repetição
para formar vocábulos heterogêneos e comuns
como sopros
Outono de 2014

***

131
TRANSCRIÇÃO poucos pra cá, por debaixo do viaduto…
LUIZA CILENTE E SARA UCHOA O pessoal passa direto pelo grupo do
NARRAÇÃO DE
CLARA MEDEIROS choque que estava ali na frente fechan-
07/09/20131 do o acesso ao túnel e agora vai pas-
sando calmamente por debaixo do
viaduto para seguir pela rua da
7 MINUTOS DO STREAMING DE
Laranjeiras.
RIONARUA
Multidão grita
/ No balancê, balancê, escuta o que
MANIFESTAÇÃO NA RUA PINHEIRO
eu vou te dizer, Eike Batista, vai se
MACHADO NAS IMEDIAÇÕES DO
foder! E Leva o Cabral com você!
PALÁCIO GUANABARA, NO RIO DE
(Ela) câmera filma três policiais do
JANEIRO
Choque enfileirados atrás de escudos.
Um manifestante fala para eles
(Ela) mostra dois cachorros grandes / A ditadura acabou faz alguns
com um dos manifestantes, o rapaz anos!
comenta que parecem cachorros da PM. Começa a repressão. Ouve-se um
Multidão grita: estrondo e a (ela) câmera alerta
/ Vem, vem, vem pra cá também! / Começou.
(Ela) comenta sobre o cordão de Um sinal de alarme provavelmente de
isolamento feito pelos policiais. um carro começa a apitar. Se escuta
Pessoas começam a passar por debaixo mais estrondo de bombas. (Ela) câmera
do viaduto em direção a Laranjeiras. sai correndo, nesse momento só filma o
Alguns passam com casacos e panos no chão.
rosto como se tivessem se protegendo do / Desculpa pessoal o ruído que tá
gás lacrimogêneo. dando ai no audio, eu tô acostumada a
/ O pessoal começa a se movimentar fazer o streaming com outro aparelho
aqui, chamando a galera — ‘vem pra que o audio é pior, então tinha que ficar
cá também!’ É um pedaço que não tem mais perto, é a memória da distancia
cordão. O pessoal está passando aos da mão… Começou! Eles estão lá em
cima atirando aqui em baixo?
1  Na noite de 7 de Setembro de 2013, 79 manifestantes / Sim, estão lá em cima.
foram presos no Rio de Janeiro sem qualquer causa es-
pecífica para a prisão. A mídia tratou os protestos como / Estão atirando do viaduto aqui
“confronto” com a Polícia Militar. Relatos e registros em pra baixo.
vídeo comprovam que a Polícia começava bombardeios
de gás lacrimogêneo sem qualquer necessidade, no
Pausa, ou silêncio ou espreita… Se
intuito de intimidar os manifestantes. escuta som de um helicóptero. Algumas

132
pessoas passam com os braços para o [Rua das] Laranjeiras com a [Rua]
alto. Pereira da Silva. Choque acaba de
/ Pessoal aqui passando com braços mandar mais umas bombas ali na
pro alto. Eles não se mexeram [sobre os entrada do túnel. Tá muito forte aqui,
policiais] com o gás do lado deles! Eles tá muito forte o gás. Você não sente
não se mexeram. Bom gente, o cheiro mais a fumaça no ar, mas sente quei-
de gás tá forte, eu tô longe e tá forte mando o olho. Eu tô de máscara e sinto
mesmo assim. Rapaz aqui do lado, do queimar a língua. Mais um barulho de
[Batalhão do] Choque fala — ‘ihhhhh, bomba vindo na direção ali da entrada
olha o gáááááááás’. O Choque tá do túnel. PM passando mal aqui [se
tranquilo. referindo ao gás lacrimogênio]. Tá
(Ela) deixa de filmar os policiais. difícil até de falar, tô queimando a
/ Vou tentar encontrar minha língua. Tô sem vinagre, tô sem nada
equipe. Um membro da minha equipe comigo hoje.
segue tomando tiro, toda vez que tem…. Ouve-se barulho forte de helicóptero.
Tá muito forte aqui o gás. Tem uns Algumas pessoas passam, já bem
advogados aqui o IDDH** [ Instituto dispersas e a câmera comenta que todos
de Defensores de Direitos Humanos]. estão lacrimejando, coçando o rosto. Se
Os PM’s passam aqui com olho lacri- escuta uma breve sirene. Um senhor
mejando, nariz coçando. A informação passa.
que a gente teve é que não teve nenhum / População aqui tá todo mundo
tipo de confronto para esse ataque lacrimejando, com a mão no rosto. Tem
agora, foi um ataque gratuito mesmo um senhor, três mulheres e um homem,
da polícia. Policiais aqui com olho que não parecem estar participando da
ardendo. Não dá para passar gente, o manifestação, sofrendo bastante com o
gás tá muito forte. Em cima do viaduto gás que vai se espalhando pelo ar. A
já tá liberado, não tem mais ninguém informação que temos é que a galera
lá em cima. Mais gás ali à esquerda… está encurralada na entrada do túnel
Pois é, quem tá ali…se aqui tá forte pra Santa Barbara, deve ser a galera que
dedéu, lá… está levando bomba agora. A gente está
Filma algumas dúzias de manifestan- aqui na esquina da rua das Laranjei-
tes se afastando do gás. Um carro passa ras com a [rua] Pinheiro Machado. As
pela avenida bloqueada pelo protesto. O bombas foram principalmente ali no
som de helicóptero e estrondos de viaduto e aqui ainda está bem forte os
bombas continuam. efeitos do gás lacrimogêneo. Tem um
/ Base, eu tô aqui na esquina da PM aqui ao lado informando a popula-

133
ção que é melhor seguir pela rua das muito aleatória. Eu estava com um
Laranjeiras, sentido túnel Rebouças, grupo maior daí eu fiquei sozinha.
do que voltar. Em baixo do viaduto, rua vazia, passa
(Ela) segue filmando a rua bloqueada um midialivrista com capacete azul,
para passagem de carros. Som de correndo, sozinho. Desaparece. Rua
helicóptero constante. permanece vazia.
/ Gás está um pouco mais leve aqui,
tá ventando um pouco. Base vou sair ***
da esquina onde estava. Estou tentan-
do me aproximar pra ver a situação da
galera que está encurralada na entra-
da do Santa Bárbara.1 Tem mais grupo
de pessoas que estavam passando na
rua do que manifestante, manifestante
deu uma dispersada grande aqui. Tem
pouca gente.
Som de helicóptero aumenta.
/ O gás já está um pouco mais leve,
está ventando um pouco. Tô saindo da
esquina onde estava para tentar me
aproximar para ver a situação da
galera que estava encurralada na
entrada do túnel Santa Barbara. Tem
aqui mais cidadão passando do que
manifestantes, manifestantes deram
uma dispersada grande aqui. Tem
pouca gente, mas eu tô aproveitando
um grupo aqui… [ela caminha em
direção ao túnel]. Vocês me desculpem,
mas não vou lá sozinha não. Ali na
frente, dá para ver daqui um grupo
enorme de policiais. Tem gente vindo
aqui para me acompanhar, porque na
hora da confusão dispersou de forma

1  Instituto de Defensores de Direitos Humanos:


ddh.org.br

134
TRANSCRIÇÃO DE LUIZA CILENTE

DE QUEM É A ORDEM?
RIO, 20/06/2013
(WHO’S ORDER? — BRAZIL PROTESTS)

Transcrição de um trecho do vídeo “De quem é


a ordem? — Rio, 20/06/2013 (Who’s order? — Bra-
zil Protests)” http://youtu.be/A87MctF-f-M

Multidão grita “Não … Vai ter Copaaaa!, Não…


Vai ter Copaaaa!” e depois “Amanhã vai ser maior!”.
Na Avenida Presidente Vargas lotada, alguns
caminham com a bandeira do Brasil, outros com
máscara hospitalar pra se proteger do gás.
Sirenes e bombas na Avenida Presidente Vargas.
Alguns manifestantes correndo das bombas.
Corta. Mesmo lugar com luzes apagadas.
Logo depois uma cena mostra policiais enquanto
manifestantes falam “Atiraram aqui”. Um rapaz
aponta “Ali óooo!!” “Caralho! Vamos embora!”
Uma bomba estoura em frente à câmera. Meninas
se escondem do gás enquanto passa o Batalhão do
Choque da Polícia Militar. Um rapaz segura uma
placa de sinalização “Praça da República”.
Dezenas de policiais passam em motos na Avenida
Presidente Vargas já vazia. Policiais do Bope
caminham e dizem para os poucos manifestantes
que ali estão: “Parabéns”, ao que respondem
“Pra vocês também”. Indianara Alves Siqueira
(ativista transexual) grita: “É nosso dinheiro que
paga o salário de vocês! Covardes! Entendeu,
é dinheiro público, é do povo!” Alguém sai correndo
tentando escapar de uma bala de borracha.
Alguém grita “Bravo policial!” e uma bomba de gás
é lançada do outro lado da rua. Ouve-se um estrondo.
Helicópteros. Começa a pegar fogo na calçada a frente.

135
Policiais vão em direção a um manifes- o seu caminho. Ele sai perguntando
tante desarmado que faz sinais com as se pode falar se retirando ou se perdeu
mãos para que parem. Um policial vai esse direito. O câmera se aproxima
até ele e o empurra. Logo atrás mais dele, outro rapaz fala que é o único país
uma bomba de gás estoura. Um policial onde a polícia ainda é militar. O rapaz
grita “BOPE, direção à Candelária”. que foi reprimido diz: “ A ONU mesmo
Manifestantes gritam insultos para os já falou: chega de polícia militar nesse
policiais. Uma menina com a cara país! Chega! Isso não é mais ditadura
pintada enrolada com a bandeira do eu não fiz nada!”. Em uma esquina
Brasil fala em tom revoltado e nervoso próxima policiais lançam bombas em
pra câmera: “Ele falou pra mim se eu manifestantes que estão no calçadão
queria mais uma bomba porque eu falei da Presidente Vargas. Duas meninas
pra ele que aqui só tem gente do bem pintadas de verde e amarelo que estão
e a polícia chegou aqui jogando bomba atrás de paredes na esquina gritam
e aí me perguntou se eu queria mais indignadas “Vocês não podem fazer
uma, olha que legal, essa é a polícia, isso não! Que absurdo!” e saem
essa é a polícia que a gente tem. assustadas. Depois que sai do cerco
A gente vem aqui protestar e ele me dos policiais a manifestante grita
pergunta se eu quero mais uma bom- para eles: “Vai tomar no cú!”
ba!” Corta pra um manifestante tendo Enquanto o policial se aproxima como
a mochila revistada pela polícia. que pra tirar satisfação com arma
O policial está gritando com ele: em punho ela, desarmada pergunta,
“Cala a boca, estamos só te revistan- “Você acha isso certo?”. Outro policial
do!” E jogam alguma coisa da sua segue ao seu lado dizendo “Calma!
mochila no chão. Ele fala “Por favor Ela quer isso.” Um policial diz:
alguém filma isso!” e olha pra câmera e “A gente só está tentando estabelecer
diz “Olha isso!” indignado. O policial a ordem.” Policiais apontam pra algum
pede pro câmera se afastar mas diz que lugar. Passa o caveirão. Alguém comenta:
pode filmar. Eles devolvem a mochila. “É o legado da Copa”.
Ele lamenta por sua máscara e pergun-
ta se pode levar o vinagre que está no ***
chão. Um policial diz que é inflamável.
Ele questiona: “Inflamável? É crime
andar com vinagre?”. Ele insiste “Isso
é crime mesmo, eu só quero entender!”.
O policial diz para o “cidadão” seguir

136
ESCUTA
Escuta
André Mesquita

Caos Complexidade Escuta


Oficina Aldeia Gentil, dia 1

ANDRÉ MESQUITA

ESCUTA

Em Rhythmanalysis (1992), Henri Lefebvre situa a


figura do “ritmanalista” como alguém atento não apenas
à informação, mas dedicado a ouvir o mundo com todos
os seus ruídos, as coisas sem significado, os vazios e os
silêncios. Primeiro, o ritmanalista mergulha na escuta
interna de seu corpo (a respiração, o coração, os músculos
e os membros). Depois, percebe os ritmos externos – odo-
res também marcam ritmos. O corpo do ritmanalista, diz
Lefebvre, é um metrônomo.1
O ritmanalista solicita todos os seus sentidos. Ele
baseia sua respiração, a circulação de seu sangue, as
batidas de seu coração e a pronúncia de seu discurso
como pontos de referência. Sem privilegiar qualquer
uma dessas sensações, criadas por ele na percepção
dos ritmos em detrimento de outros. Ele pensa com seu
corpo, não de forma abstrata, mas na temporalidade
vivida.
O ritmanalista não se coloca em posição superior, ou
como produtor de uma disciplina especializada. Ao
contrário, todas as pessoas produzem seus próprios
ritmos integrando o interior e o exterior, chegando ao
concreto por meio da EXPERIÊNCIA . O corpo que dança, o
corpo que se movimenta pela rua, o corpo que luta, o corpo
que colide com outro corpo. Todos esses corpos criam
ritmos, são focos de experiência e de sons: a escuta e a
execução de diferentes PARTITURAS. v e r ESCRITA

1  LEFEBVRE, Henri. Rhythmanalysis: Space, Time and Everyday Life. New


York: Continuum, 2004. p. 21.

137
As pessoas deveriam ouvir mais as outras pesso-
as. Artistas deveriam escutar mais. Artistas falam
em “diálogo com um público mais amplo”, mas até
que ponto suas respostas já não estão prontas?
Artistas falam em colaborar com a comunidade, mas
quantas vezes a voz do outro é diminuída ou não
considerada? Projetos colaborativos propõem-se a
trocar ideias e experiências, a produzir discursos
através das diferenças. Um espaço de convívio
mútuo não garante um lugar democrático onde os
conflitos são apagados – como propõe o modismo de
um conceito como “estética relacional”, atrelado ao
confinamento do mundo da arte e da cultura empre-
sarial em atividades com a inclusão do “outro
social”. Esse tipo de prática domestica situações de
encontro para encenar “micro-utopias” falsamente
democráticas e exploradas no espaço protegido das
instituições. Quando a própria voz da colaboração
com a comunidade não é ouvida ou abafada, o
“outro” transforma-se em “coadjuvante” e o artista/
coletivo passa a valorizar apenas a sua própria
agenda de interesses, êxitos e méritos. Sem aumen-
tar a sua capacidade de escuta coletiva, o artista
pode assumir um papel paternalista de falar em
nome do outro considerado “desprivilegiado”. Ou
realizar uma forma de “turismo”, para o qual uma
comunidade serve como um lugar que precisa ser
“melhorado” por suas ações – o artista/coletivo age
como um Robin Hood às avessas. Escutar requer um
momento crítico de abertura, de não-ação como
aprendizado, produzindo consensos mas também dis-
sonâncias1. Ouvidos em tensão. O processo é a soma
de diferentes ritmos e pulsações.

***
1  ULTRA-RED. Five Protocols for Organized Listening, 2012. Disponível em:
<http://www.ultrared.org/uploads/2012-Five_Protocols.pdf>.

138
(OFICINA ALDEIA GENTIL, DIA 1) que tá acontecendo a partir de pontos
de vista diferentes em um mesmo
(CAOS-COMPLEXIDADE-ESCUTA)
contexto. Uma maneira de operar que
( V 1 ) Queria trazer um pouco pra nós não pretende totalizar o assunto, mas
aqui as noções de caos e complexidade. por meio da qual conseguimos visuali-
O que é um possível caos das coisas, zar alguns pontos que identificamos
e o que é uma complexidade que a gente como centrais, e seus contrapontos.
possa construir. Pensando que há uma Assim podemos, num primeiro momen-
relação entre caos e complexidade, to, trazer alguns pontos que nos
podemos propor uma complexidade parecem importantes abordar no
temporal, fragmentária, que funciona aspecto das manifestações no Brasil
como uma imagem protótipa, que abre como um momento importante de
o contexto de uma situação com a qual produção estético-política; e num
queremos lidar, por exemplo. segundo momento partir para uma
Não quero totalizar a definição da conversa que coloca em tensão
complexidade como sendo complexa os pontos que foram trazidos,
por si e impossível de criar uma relacionando assuntos, sujeitos,
entrada. Quando eu falo complexidade relatos, perspectivas. Isso é,
eu quero me endereçar a uma coisa construindo uma COMPLEXIDADE .
mais possivelmente material, real, que Para construir uma complexidade a
é no nosso caso aqui um assunto partir de um coletivo temporal, contin-
comum, o terreno comum das manifes- gente, eu vejo o exercício de trabalho
tações no Brasil que se intensificam a coletivo como sendo um exercício de
partir de Maio/Junho de 2013. A ideia escuta. A escuta pode ser pensada
de complexidade poderia servir de um como uma ferramenta que qualifica os
modo se a gente quisesse dar conta da intercâmbios, nos processos coletivos,
maior quantidade de assuntos e temas sociais, comunicativos e etc. Há vários
e expressões que surgem no contexto modos de pensar e praticar a escuta,
das manifestações, é óbvio que a gente e todos dependem, claro, da capacidade
não vai (conseguir) fazer isso, a gente auditiva e da atenção relacionadas.
não aqui nesse pouco tempo/espaço. Um deles que pode ser interessante de
Proponho que a gente pense aqui a trazer aqui é a noção de escuta como
questão da complexidade como sendo sendo uma escuta atenta que permite
assim um arranjo, um arranjo tempo- que ...eu... por alguns segundos, ...eu...
ral em que algumas coisas se articulam meio que esqueça um pouco das minhas
e que a gente pode visualizar o que é certezas e me deixe permear um pouco

139
por aquilo que está sendo trazido pela construção do conhecimento, uma
…outra pessoa… . Então a escuta seria reunião política, coletiva, sei lá, numa
em uma instância o exercício de um palestra por exemplo, numa conversa de
escuta não preconceituosa, sem julga- um determinado assunto, em uma
mentos, seria uma escuta desmontada reunião de movimentos com modos de
de pré-concepções, que aceita o que vem operar e referências diferentes. A gente
sendo dito, e que claro, mientras tanto até usa o termo “policiando” (!!) para
analisa, ...não que eu vá abraçar pensar em como estamos “policiando
imediatamente o que o outro está me discursos”, para descrever essa condição
dizendo, claro, mas pelo menos eu da atenção!
esteja num estado de latência um ( V 3 ) Se antecipando...

pouquinho mais aberto que me deixa ( V 1 ) Antecipando... o discurso do

ouvir mais do que eu pudesse estar outro. Que pode ser em vários sentidos,
ouvindo. né?
( V 2 ) Mas é possível isso? ( V 2 ) Mas ao mesmo tempo também você

( V 1 ) É isso que estou dizendo, não quer está ali com algumas lacunas abertas que
dizer agente vá se incorporar ao modo de você quer preencher. Então eu acho que até
vida do outro, é só escuta. No sentido de quando você descobre um termo, às vezes é
que o ouvido tá aberto e de que há uma porque você tem questões ao redor dele.
escuta, uma escuta da diferença. Repen- Imagina, você tá precisando acessar
sar a escuta pode servir para quebrar a melhor alguma questão mas você não tem
ideia da escuta como algo natural, algo um termo, daí você ouve “gentrificação”,
que acontece mesmo que eu não queira, ufa!, entrou né! Tipo, preencheu aquilo que
a ideia de que “meu ouvido tá sempre você andava ao redor. E você já começa a
aberto”. Pode servir para incorporar a usar. Vejo que é muito isso assim. E ao
observação da operação cognitiva da mesmo tempo você também rejeita, no
escuta, pensar o processo de análise ou sentido de que você pode rejeitar um
da atenção que vem junto com a escuta. vocabulário que já é, já não expande mais
Porque a gente tem filtros, que estão nada. Tipo tem discursos que já não
sempre operando quando a gente tá movem mais coisa alguma e as pessoas
escutando tudo ao redor. E esses filtros persistem nele porque meio que elas se
são nossa garantia ética também, claro, sustentam assim.
que provocam distinções naquilo que ( V 1 ) É que a subjetividade se constrói

estamos ouvindo. Acredito que nossa muito pelos discursos, né. “Eu sou
escuta fica ainda mais “armada” quando assim, eu penso assim. Eu me movo
a gente está numa situação pública, de assim no mundo...”

140
(V4) Não necessariamente da mesma E essa é mais complicada por que ela
forma o tempo inteiro... depende de um misto de atenção e
( V 1 ) Não, não. Claro... às vezes a análise do que não está sendo dito
gente percebe uma mudança de posi- verbalmente, mas do que o corpo fala e
ção, e isso é bem interessante. É até de outras matérias de expressão, que
uma escuta de si, será? também não precisam ser julgadas,
Com essa coisa da escuta, de escuta mas que compõe aquele corpo falante,
da diferença tem mais dois pontos. Um que compõe o que está sendo dito. A
que eu tava trazendo pra gente pensar escuta parece incorporar então um
era essa noção de pontos de vista outro tipo de sensibilidade, que se
diferentes. Na nossa oficina seria a mistura com uma colaboração, com
gente pelo menos passear por isso, uma criação, com a participação em
passear pelas nossas conversas, um corpo mais coletivo. A partir dessa
percebendo o que é que a gente pode escuta mais atenta e mais sensível
aprender. Então antes de pensar em outras criações e colaborações parecem
incorporar o discurso do outro, há algo ser possíveis.
na sua fala e na sua experiência que
pode nos ensinar algo, será?... Se bem ***
que aqui a gente tá num processo super
curtinho assim, são dois dias de
oficina, né. Na oficina da semana
passada, que foi de uma semana, foram
acontecendo várias coisas interessan-
tes que mostravam que a gente tava um
pouco mais permeável um ao outro. e
que havia possibilidade de estar
pensando algumas possibilidades
assim. E nem tanto de um-pra-um, tipo
“eu aprendi aquilo com ele/ela pra
mim”, mas de criação juntos... Então
outro aspecto da escuta, que tem a ver com
essa escuta que vai além da escuta como
coisa natural e dada, e que podemos seguir
conversando é a escuta de elementos não
discursivos, que estão além da literalidade
do que vem sendo dito.

141
ESTRATÉGIA
Estratégia
Júlia Ruiz

JULIA RUIZ

ESTRATÉGIA

Eficácia e acúmulo, mas não só. — dos partidos e sindicatos às ONGs;


Pensamento, inteligências de luta, principalmente em sua apropriação pelo
conhecimento a cavalo entre o futuro e mundo empresarial e pelo marketing
o presente, entre o desejo e mundo: publicitário.
medir distâncias, calcular possibilida- Em busca de outras novas formas
des, prioridades e objetivos. Sacar — de fazer política, chegamos a detestá-
a duras penas — das múltiplas tensões -la: a estratégia torna-se sinônimo de
da vida, o metal precioso dos objetivos um ponto de vista único, da centraliza-
e prioridades. ção, do direcionismo, do “de cima para
A palavra estratégia é difundida baixo”, do silenciamento de todo o
em seus usos militares pela obra de resto. Pelas repetidas vezes em que
Karl von Clausewitz (1780–1831), vimos nossas melhores intenções
que Lenin gostava de citar. De fato, apropriadas pelas máquinas infernais
é depois da Revolução Russa que o do autoritarismo e da mercantilização,
conceito militar de estratégia começa preferimos muitas vezes esquecê-la,
a figurar em manuais programas evitá-la. Depositamos nossas esperan-
políticos como uma categoria específica, ças na proliferação espontânea das
que diz respeito à luta revolucionária diferenças em vez de nos metermos
pela tomada do poder. Na segunda (de novo?) a arquitetar hierarquias.
metade do século XX, embora ganhe tom Deixamos para depois, ou para outrem,
subversivo nos contextos das lutas a indelicada tarefa de traçar rotas
sociais na América Latina, a estratégia — acreditamos assim evitar o perigo
parece se desgastar, como faca que perde das lâminas afiadas.
o corte, na medida em que seu uso Mas a estratégia está sempre lá.
prolifera nos mais diferentes campos da O cálculo, o corte, a manipulação das
organização social e da ação coletiva relações de força estão em operação

142
onde quer que haja um sujeito de móvel, como nômades, como seres intersti-
querer e de poder. Antes de estar ciais. É um problema que a estratégia
referida a algum objetivo, a estratégia — como vocábulo político — caia em desuso
é o gesto que postula um lugar “próprio”: entre “nós”. Por que precisamos deste “nós”,
esse “nós” ou esse “aqui” separado do “nosso” problema é esse. Mesmo quando se
resto do mundo. É a definição desse trata de “espaços abertos” e “processos
“próprio”, ainda que transitória, que horizontais”, que querem ser diferentes dos
possibilita a ideia de manipular modelos frustrantes da organização política
relações com aliados, alvos e ameaças moderna, uma proposição política coletiva
“externos”: amigos, inimigos, concorren- é sempre enunciada como um lugar de saber,
tes e colaboradores ocasionais, públicos, querer e poder, como um lugar de onde se
objetos e objetivos. espera manipular relações de força.
A estratégia nesse sentido está A horizontalidade e a abertura concebi-
presente em todo processo criativo: das como modelos de organização, em que
não é apenas uma relação entre a ação estaria abolida a manipulação de relações
e um objetivo a ser conquistado, mas de poder, podem também favorecer o
um gesto pelo qual efeitos de totalidade ocultamento da separação entre aqueles
são produzidos na experiência indivi- que formulam e traçam as rotas e aqueles
dual e coletiva. A possibilidade de que que as seguem. É preciso lembrar que o
um conjunto de eventos, ou mesmo uma capitalismo neo-liberal ou pós-moderno é
intenção colaborativa entre diferentes ele mesmo construído sobre redes não
sujeitos, possa ganhar um nome hierárquicas e opera dentro dessa lógica.
próprio é impensável sem este gesto Mas um “espaço horizontal”, em seu
que circunscreve um espaço político. sentido político, pode ser também um
Mesmo riscada do dicionário, jeito de descrever uma experiência de
a estratégia segue operando em qualquer renovação de laços, em que a intensa
coisa, processo, coletivo etc — que esteja contaminação se confunde com a
se constituindo como lugar de onde “esperança de um mundo diferente”;
projetar visões, mensagens, análises, um momento experimentado como uma
imagens, propostas, campanhas, espécie de ‘grau zero’ da política, em
acusações, conspirações, inspirações etc. que todo mundo se encontra em um
Frequentemente, com um pé atrás diante mesmo nível de ação.
de tudo que pretende organizar o mundo A esperança, expectativa, euforia, o
a partir de um lugar de querer e poder, sentimento de confiança e mesmo de
preferimos imaginar a nós mesmos como frustração vividos e compartilhados
dotados de uma criatividade sempre nesses momentos cumprem um papel

143
crucial na produção dos “nossos” lugares
comuns. Essas sensações e conflitos nos
lembram que todas as relações, inclusive
as ditas “horizontais”, não são dadas ou
mágicas, mas sempre construídas.
Lembram o quanto de nós precisamos
investir para criar um espaço político
aberto, porque um espaço aberto precisa
ser aberto por alguém — exige as dores e
delícias de um querer e de um gesto de
poder.
A estratégia tem a ver precisamente
com o envolvimento no trabalho prático
de cortes, separações e reduções implica-
das na produção do espaço comum: mesmo
a menor das decisões, como sabemos, é no
final uma decisão política. O grau zero da
política não está na recusa das escolhas
estratégicas, mas na experiência comunal
de imersão nessas escolhas, nesses
exercícios de engajamento pleno, corporal
e afetivo com o poder, com as tomadas de
decisão e suas consequências, onde se
originam nossas maiores frustrações, mas
também o prazer e a esperança que tornam
as experiências políticas inesquecíveis e
irreversíveis.

***

144
ETNOEMPODERAMENTO
Etnoempoderamento
Jeferson Andrade

JEFERSON ANDRADE Durante o processo de convivência na residência


Capecete, no bairro da Glória, onde diversos termos
ETNOEMPODERAMENTO
foram colados a prova, num redemoinho de exercício
semântico para a criação de um “vocabulário político
ETNO- para processos estéticos”. É claro que em situações
(grego éthnos, -eos, como essas nada é simplesmente, do almoço até a
grupo de pessoas que ultima palavra pronunciada, nós devoramo-nos uns
vive em conjunto, povo) aos outros numa espécie de fagia coletiva. E como
elemento de composição alimentar tem capacidades de empoderar, seja o
Exprime a noção de povo corpo ou a mente, o que me deixava mais interessado
ou de etnia (ex.: etnode- era como empoderar a postura? Quais elementos
senvolvimento). tornam a existência uma potencialidade?
Uma caminhada inicial no complexo de favelas da
EMPODERAR Maré me trouxe alguns pontos importantes sobre
Significa em geral a uma analise das potencialidades. Numa conversa
ação coletiva desenvolvi- despretensiosa com o Sr. Olympio no centro comuni-
da pelos indivíduos tário do Parque Maré. Entre palavra perdidas e
quando participam de olhares distantes, entendi que a memória senil e
espaços privilegiados de fragmentada possui características especificas para
decisões, de consciência a indicação da produção de desejo, o que coloca o Sr.
social dos direitos Olympio não somente no lugar da velhice, mas da
sociais. 1
desmemoria como fronteira. Sentado sobre uma
cadeira de rodas, um rosto enrugado, sem alguns
dentes, ele me conta sobre muitas vidas em paralelo
às minhas perguntas sobre a intervenção militar na
Maré. Seu sonhos com viagens longas, a lugares
desérticos. Num outro ponto eqüidistante vejo uma
placa:
1  d i c i o n a r i o i n f o r m a l . c o m . b r

145
Escrevo seu nome em um
Grão de Arroz

A fim de produzir uma metodologia para uma


pesquisa sobre as subjetividades em situação de
poesia, desenvolvi por meio de rolés pessoais, uma
estrutura para experimentação do diário de campo
ampliado, propondo uma análise fragmentada por
epifanias da minha desmemória. É importante
imaginar o texto a seguir como um percurso, onde
coexistem diversos personagens que cruzam os meus
caminhos pela cidade, através de um destrinchamen-
to analítico de dados adquiridos nos rolés para
evidenciar a proposta de etnoemporamento como
equação não linear de causa e efeito de uma endoci-
ência .

RACHADURAS E SABOTAGENS
Deitei na cama estreita, meu quarto é simples, só
uma cama e um criado-mudo. Sempre achei interes-
sante conviver com a decadência. No meu quarto
existem duas rachaduras, uma bem no centro que já
esta se expandindo para mostrar melhor o osso do
teto. É meio circular, vai se apoderando como uma
mancha. A segunda é fina e sinuosa, serpenteia pelo
espaço quase invisível.
Rachaduras são feitas por trepidações, desgaste
natural da estrutura. Aparecem na primeira camada
como linhas, protuberâncias, como um corpo que
envelhece e se cansa. Daí a primeira camada que é só
massa e tinta começam a sair, dando lugar ao osso
(cimento). Como de costume, a qualquer sinal de

146
decadência, os donos do lugar iniciam uma reforma.
Trepidar significa pequeno abalo, como a terra que
está sempre em constante movimento, o que torna
possível a existência da poeira, é em seu conteúdo
vestígios de um ruir das estruturas. Rachaduras vão
aumentando com o tempo, pois acumulam tempo.
No meu quarto as rachaduras vivem, expandem-
se. Eu cultivo-as para que todos possam entender a
não-reforma, a relação às vezes triste do fim reflexi-
vo da estrutura.

O Fracassado
Eu fracasso todos os dias
Fracasso como amigo
Fracasso como amante
Fracasso militante
Como nação

Eu desejei o melhor que podia haver em mim


Mas ninguém ira chorar pela minha vértebra
Fracassei como ícone.
Fracassei como torcida.
Os meus gritos aqui fracassam.

Outro dia perdi algumas pessoas.


Fracassei com elas.
Seja pelo meu intento, seja pela minha frustração.
É difícil desejar no outro tudo aquilo que dói em você

O fracassado é orgulhoso,
Luta pelo outro fracassado.
Caminha delirante consumindo felicidade na lata.
Bate no outro fracassado, querendo bater em si.
Sabotador natural, sempre auxilia no fracasso.
Para que vencer? Para que trabalho?
No fracasso o avanço esta no que desejo e não no que
devo.

O fracasso tem um papel importante a cumprir.


Fracasso no texto que não rima que não encanta.
Fracasso como política de auto-reconhecimento.
No trópicos o fracasso nos une.

147
DEVIR PASSARINHO Agora, de fato, com essas experiên-
A aproximação com os povos ditos cias, tenho a idéia mais clara de como
índios não pareceu muito difícil, todos pensar a estrada como um trato à terra
estão num momento de unir forças, ancestral, criar com o que temos uma
seja de que lado for. Houve relatos conexão tribalizante. Ritualizar por
muito fortes sobre a perseguição uma nova política.
indígena pelos ruralistas. Há também
um esforço político para a conquista da
juventude e um chamado para os

Tranquilo e
ancestrais perdidos no mundo urbano.
O aprendiz de Pajé Ache, criou um
curso, chamado Cosmologia da Flores-
ta, que envolve um reconhecimento
simbólico da fogueira como lugar
central da discussão política e historia
infalível como
oral. Há muitos rituais com falas e
discussão política da terra ancestral,
junto ao que Ache chama de beijo do Bruce Lee
beija-flor, que são pequenas doses de
ayáwaskha1 e em alguns momentos
cheirar o rapé para ajudar na limpeza.
As cenas eram incríveis, pois no
meio da discussão alguns vomitavam e PRAÇAS E ENCRUZAS
se sentiam bem com isso, pois se DG -12
assemelhava a vomitar toda porcaria Hoje o dia acordou cinza, fui pego
ideológica ocidental na qual estamos por uma angústia que eu nem mesmo
imersos. Ache acredita que só haverá sabia identificar. Mas como não se
mudança no trato com a população angustiar pelo vazio que existe entre
indígena através de trocas intercultu- eu e a vítima. Nunca gostei da noção
rais com auxilio da atitude performáti- de vítima ou vitimização, os pretos
ca para ritualizar a política e torná-la
parte de nossa existência. 2  DG era um ator e cantor morador do complexo
Pavão-Pavãozinho. Ele foi torturado e assassinado por
policiais da UPP do Pavão Pavãozinho nos dias em que
1  ayáwaskha: ‘cipó do morto’ ou ‘cipó do espírito’; de estávamos reunidos no projeto do Vocabulinário. “DG
aya, ‘morto, defunto, espírito’, e waska, ‘cipó’; também – 1” dialoga com as camisetas de futebol que foram
chamada hoasca, daime, iagê ou mariri. Fonte: Wiki- produzidas pelos diversos movimentos do #Nãovaiter-
pedia Copa.

148
também têm direito ao erro, à preguiça, BANANA MON AMOUR
à raiva. Digo como preto e suburbano, Todos são problemas histórico. A
daqueles que vivem na beira entre o questão social deve ser levar em
abismo e o Brasil, para aqueles que consideração manobras econômicas e
possam entender que em toda alma de sociais, mas racismo parte de um
um negro existe um pouco de desterro. problema de etnocentrismo. O que
O exílio para além dos golpes, sobrevi- seria dos povos outros se o ocidente
vendo à vertigem colonial de um povo tivesse acolhido a subjetividade como
que nunca desembarcou. A deriva princípio de existência? É uma
negra, tão solitária e triste, sem pergunta que não chega a ser uma
língua, sem voz, corpo transeunte de utopia, mas um posicionamento
uso expropriado, alimenta um sonho crítico para pensar novas formas de
ancestral. A condição negra, a condi- lidar com o mundo.
ção favelada, negar o outro para negar O Mundo não tem um problema de
a sim mesmo. Cordeiros de Nanã, evolucionismo, mas sim de imagem.
descendente de homens livres, de Ninguém estuda de fato Darwinismo,
sorrisos sinceros, um princípio de mas se conforta com imagens abstra-
esperança no deserto. tas de ancestrais primatas, seqüen-
ciados pedagogicamente num linha
evolutiva que nunca existiu. Como o
equívoco dos Índios serem Indianos e
Negros, expõe-se um elo perdido da
humanidade branca.

Obá de Alicerces de um ponto de vista


míope de homens cansados de si
mesmos pela descoberta do outro.
Alterações de um ego cada vez maior,
pé sobre cada vez mais só. Pensamos num
tempo linear, cronometramos nossa
vida, fazemos aniversário numa

o seu cavalo contagem sempre apocalíptica.


A única política vigente para as
humanidades de alteridade é uma
participação econômica numa cosmo-
logia capitalista de produtos de

149
consumo cada vez mais contaminados pelo cinismo
escravocrata de países que lutam por um lugar na
economia mundial, transformando os degredados
desmemoriados dos trópicos numa fábrica de
auto-eliminação. Operações absurdas de planeja-
mentos celulares de campos de extermínio, cons-
trução de perímetros não abolidos, venda de uma
liberdade de existência falseada pela participação
infantilizada, militarização de corpos livres,
banana eu como com aveia e mel, muito mel!

“O Brasil é uma república federativa cheia de


árvores e de gente dizendo adeus.”
(Oswald de Andrade)

150
EVENTO
Evento
Rodrigo Nunes
Graziela Kunsch

Excerto de email sobre reunião no


Complexo do Alemão
Bruno Cava

E V E N T O No dia 6 de junho de 2013 o Movimento Passe Livre


bloqueou a Av. 23 de Maio com uma barricada de catracas
de papel pegando fogo. Ao fundo, do alto do Viaduto do Chá
ao Vale do Anhangabaú, o movimento posicionou uma
enorme bandeira com a frase “SE A TARIFA NÃO BAI-
XAR SÃO PAULO VAI PARAR”.
À direita estava o prédio da prefeitura de São Paulo. No dia
seguinte esta cena foi capa do jornal Folha de S. Paulo, em
uma imagem do fotógrafo Nelson Antoine. Aqui estamos
publicando outra imagem, de autoria desconhecida, que
mostra o bandeirão. ( G r a z i e l a K u n s c h )

151
RODRIGO NUNES

EVENTO

Evento é um conceito-
chave da filosofia contem- do transcendental, que
porânea que atravessa, deixa de ser uma estrutura
diretamente com este nome estática para se tornar
ou operativo sob outras transformável (e, parado-
formas, a obra de pensado- xalmente, transformável
res tão distintos quanto desde o empírico); assegu-
Heidegger, Whitehead, rar o primado da prática
Bachelard, Althusser, sobre o pensamento e a
Foucault, Deleuze, Simondon, teoria, da formação sobre
Derrida, Badiou e Rancière a forma, da individuação
— mas que poderíamos sobre o indivíduo, da
fazer remontar ainda mais contingência sobre a
longe, ao occursus (encon- necessidade, num registro,
tro) de Spinoza, à occasione contudo, de impessoalida-
(ocasião) de Maquiavel ou de: o evento (nos) acontece
à plaga e ictus (colisão) de mais que nós o fazemos
Lucrécio. Sua importância acontecer.
e ubiquidade provém da Jacques Derrida propôs
quantidade de funções que uma distinção entre
é chamado a cumprir: dar “futuro” e “por-vir”:
conta da emergência do enquanto o primeiro é
novo e de sua possibilidade; aquilo que podemos, desde
instituir uma ruptura com o presente, projetar como
a causalidade, a temporali- esperado ou previsível,
dade e a historicidade o segundo se refere ao
lineares; fazer a novidade inesperado, ao imprevisí-
passar nem do lado do vel, aquilo que chega
sujeito, nem do lado do inopinadamente, que nada
objeto, mas ao mesmo nos fazia aguardar ou
tempo entre os dois, antever. Num certo sentido,
constituindo-os; com isso, o verdadeiro evento é aquele
promover a temporalização que cria seus próprios

152
antecedentes. É apenas retrospectivamen- há uma mudança de sensibilidade: o
te, à luz de sua eclosão, que se pode estado atual de coisas tornou-se intolerá-
descobrir os sinais que anunciavam sua vel. De certa maneira, o evento já aconte-
possibilidade, os materiais dos quais ele ceu: o que era impensável perde a estranhe-
seria feito. Mas essa possibilidade só za, o inimaginável passa a ser concebível,
aparece a posteriori, porque o evento, o impossível agora é possível.
justamente, é uma ruptura, um excesso por Este é o evento como “puro devir”,
sobre a linearidade, por sobre o mecanicis- uma transformação virtual abstraída ou
mo. Ele nos pega de surpresa, ainda que subtraída de estados de coisas atuais.
não venha do nada. Mas o evento não é apenas puro devir,
Eventos têm uma estrutura complexa. ele também é um devir alguma outra coisa.
O mesmo evento acontece em diferentes À “mutação virtual” do puro devir se segue
níveis e, de certa maneira, mais de uma uma “mutação atualizante”, por meio da
vez; é simultaneamente uma descontinui- qual o deslocamento da sensibilidade vai
dade concentrada num ponto e um proces- ganhando forma, vai tomando corpo:
so que se desenrola no tempo, um “eventar” novas palavras, atos, condutas, a inscrição
contínuo. Para cada evento, haverá várias atual e perceptível de transformações
camadas de causalidade distintas, em virtuais e sensíveis. Por meio desta
escalas temporais diferentes, com maior atualização, o evento se comunica, agindo
ou menor extensão e alcance (um conjunto sobre o mundo a seu redor de forma a
de problemas estruturais de longa data, alterá-lo. Pode ser que apenas algumas
uma série de frustrações coletivas, um pessoas tivessem inicialmente cruzado
histórico recente de humilhações pesso- aquele limiar; mas uma vez que esta
ais...). Mas aqueles que estão sujeitos a transformação as tenha tornado alguma
estas causas ainda estão, num primeiro outra coisa, a potência transformadora
momento, operando dentro de um espaço poderá ser comunicada e compartilhada.
pré-estabelecido de possibilidades que É assim que o evento, que já acontecera
restringe o que é imaginável, as ações que uma primeira vez numa mutação virtual,
se pode pensar tomar. Algo ferve sob a e uma segunda vez em novas individuações,
superfície, mas não encontra escape. pode acontecer muito mais vezes à medida
De súbito, porém, uma pequena mudança, em que se propaga.
uma causa nova e talvez aparentemente O evento é o momento em que se regis-
irrelevante, pode condensar as diferentes tra, de maneira inequívoca, que uma
camadas causais num só ponto; a partir transformação dos corpos, das sensibilida-
daí, um limiar virtual foi cruzado. des, das palavras e dos desejos ocorreu.
A situação se enche de novos potenciais, É também por isso que ele gera, naqueles

153
que afeta, um sentimento de transforma-
ção irreversível — de que o tempo se divide
em um “antes” e um “depois”. Não que
tudo mudou, mas que alguma coisa
mudou, jogando luz nova sobre tudo mais
e criando possibilidades antes inexisten-
tes. Dessa forma, o evento gera uma
divisão, mais ou menos consciente,
entre aqueles que estão em sua vizinhança,
entre um “nós” e um “eles”: aqueles para
quem algo de incontornável se produziu,
e aqueles que acreditam que nada mudou,
que negam que algo tenha mudado, ou que
admitem a mudança, mas buscam confun-
dir ou reprimir o seu significado.

***
BRUNO CAVA

EXCERTO DE EMAIL SOBRE REUNIÃO


NO OCUPA ALEMÃO1

bloco pacificador / tanta diversida-


de / fala de um dos ativistas / presen-
ça dos evangélicos / evangélicos
militantes / galera do Alemão / galera
da Maré / menor chance / a brutali-
dade assassina do tráfico / sem farda /
com farda / que autonomia / redes
antagonistas / projeto de cidade /
facções armadas / mercado capitalista
/ trabalhar no comum

***

1  Excerto editado a partir de um email enviado para


uma lista, em Agosto de 2013. Complexo do Alemão é
um conjunto de favelas no Rio de Janeiro.

154
EXCESSO
Excesso
Cristina Ribas

CRISTINA RIBAS

EXCESSO

São muitas anotações. São anotações Entre o excesso que eu quero falar o resto
que vão caindo pelas bordas do papel. Dos de Baudrillard pode não haver, portanto,
papéis colados na parede. Das ideias que muito desencontro.
se repetem, e que só na repetição com Mas e que restos são esses? Perse-
conjunções temporais tomam consistência. guidos pela máquina social, produtiva?
Aprendem umas com as outras, as ideias, Na dinâmica que persegue as sobras,
e vão me avisando desse eu constituído as minorias, a pequena gente, a mulher
entre elas. Processual, incompleto, excessi- a parir (depois de espremida no saguão
vo. Esse eu constituído entre elas nem do hospital, provavelmente, ela tem que
é um eu, é um intento de mergulho no voltar a trabalhar num curtíssimo espaço
excesso, no puro excesso que as concatena, de tempo), os restos seriam também aquilo
as ideias, os eventos, as anotações. tudo que pode ser novamente quantificado
Intento intensivo. Sentido. e reformatado na ordem de uma normali-
Produzimos por excesso. Por um fluxo dade. Baudrillard de novo: “o resíduo pode
aberto, ar-atmosférico, que vai elencando ser à dimensão total do real. Quando um
e anotando e sobrepondo e repetindo. sistema absorveu tudo, quando se adicio-
E diferindo as coisas, o tudo mais, os nou tudo, quando não resta nada, a soma
restos. Vida é coisa em excesso, vida é toda reverte para o resto e torna-se resto.”
coisa que só existe por meio de um excesso. Mas pode ser que hoje já nem haja mais
Não excesso como coisa secretada, resto, diz ele, “pelo fato de se estar em toda
expelida do aperto de outra coisa, estrutu- a parte.”
rada. Não tanto resto, como em Jean Nesse sentido o resto se torna o próprio
Baudrillard, quando fala de um resto excesso. O resto pode então reverter. (Rever-
secretado por uma máquina1. Sobre o sibilidade que faz rir.) E o excesso, assim
excesso, que ele chama de resto, ele diz: como esse outro resto, pode ser que se faça
“É sobre esse resto que a máquina social se na lógica da produção desejante, de um
relança e encontra uma nova energia.” produzir que não pode passar pelo medir.
1  Jean Baudrillard, “O resto”, Em Simulacros e simula-
Da efetuação de um desejo, de um produzir
ção (1981) Lisboa: Antropos que se faz ele mesmo pelo desejo desmedido.

155
O excesso é então aquela parte sempre acometida de um
v e r SAIR não, de um escape. De já se foi.
O excesso é assim acometido de outros sim. O excesso é
assim autonomização pura da ficção, artificialidade pura,
coisa secreta ela mesma (por si própria, para si própria),
nem deixa rastros? Natureza pura do movimento, nature-
za pura de um fazer. Gozo incessante, manutenção do
gozo, testosterona, cheiro de gente.
O excesso talvez não tenha estrutura, e tudo e qualquer
coisa que se faça seja só coisa expressa pelos excessos.
Excessos contudo disponíveis às neuroses, às medidas,
às apropriações, fazendo que o mundo seja puro excesso,
ao mesmo tempo que seja o mundo puro excesso medido,
regulamentado, registrado, cortado, apropriado.
O excesso duvida da determinação que vem de fora,
fazendo dela coisa cabisbaixa. Do que fazemos sabe
o excesso de uma certa soberania, mas também de uma
extrema vulgaridade. O excesso que deriva parece nos
cercar. Ou será que somos, na verdade, feitos vulgares do
excesso?
Há uma incongruência em arriscar dizer que há
excessos improdutivos, visto que só há excessos produtivos,
que são eles mesmos a coisa toda a fazer virar a atenção.
A sintetização do excesso é nada mais que a natureza do
controle, fazendo do controle uma estratégia estúpida que
vem para codificar ou trilhar o que está se movimentando.
Mas é que para mostrar o excesso, sem que sejamos engoli-
dos por ele, precisamos do fragmento. Me parece que
fragmentos produtivos são aqueles que carregam a
intensidade do excesso em si, sem começo, e sem fim.
Excesso como puro meio.
O excesso é, então, uma espécie de sublime, um sem
bordas, espaçoso, meio em descontrole, ao mesmo tempo
pura ficção, e natureza pura

***

156
EXPERIÊNCIA
Experiência
Breno Silva

BRENO SILVA

EXPERIÊNCIA

Uma questão de não esculturas modelos em Rush- atualizando sua nudez.


saber. Limitações de more. Perder a cabeça. Furos à brasa na realidade.
linguagens. Bocas espuman- Acontecimentos silenciosos. Aberrações à vista. Derivam
tes. De um visco que engasga e Ceder sem querer. Uma arranjos de sociabilidades
engrossa quanto mais se avalanche em achatamento improváveis. Escapes para
quer dizer. Transbordamen- temporal. Fervilham outros. rearranjos políticos obscu-
tos. Não se confunde com a Alterações em movimento. ros? Dobras entre línguas
interioridade do acúmulo As insubordinações de úmidas. Gostosas aberturas.
vivido nem tampouco se outrora assumem tantas Para quem experimenta, tais
contenta com as definições formas movediças. Intensi- arranjos até fazem algum
em geral. A experiência é dades lançando a garantia sentido em expressão
avessa à representação. do sujeito ao limite de sua poética. Tudo mais simples
Olhos virados. Apontados exterioridade. Violências que essa escrita. Sensações
entre o fora e o interior num elementares. Fora de si, uma de tufões. Horror e maravi-
grau de coincidência com o coincidência com vários lhamento. Enterrando o
sol escaldante. Olhos fritos. outros, inclusive com aqueles sublime. Uma comunicação
Riscos de aparição. Lampe- que o dilaceram. Desprendi- fraca sibila ao redor.
jos neons no escuro forçando mentos. RADICAL LIVRE: ALTER. Algo não identificado,
as vistas. Intuições vagas. Em alteração, uma estranha porém, risível. Comunicação
Disposição ao perigo numa “comunidade” emerge da da experiência. Para quem
travessia perigosa. Aderên- fervilha. Tentativa frágil de viu de fora, escutou ou leu
cias elétricas epidérmicas. se agarrar na avalanche. depois, aquilo parecia um
Já estava ali, mas não se A paisagem já era. As ações, êxtase inexplicável, algo
sabia da situação. Coincidia as pessoas, seres diversos, imperceptível, um escândalo.
com disposições desenqua- objetos, fluxos de pensamen- Um mistério instantâneo.
dradas. Quando se menos tos e desejos, inomináveis, Pregnâncias. Um fio tênue
espera, abalos. Deslizamen- dançam sem coreografia. de duração cindindo para
tos dos rostos por insurrei- Num instante fulgurante, outras experiências.
ção das montanhas sobre a a vida nas diferenças em
domesticação daquelas excessos de presentes ***

157
FORENSE CAPENGA
Pensando o capenga forensicamente
(em voz alta e sotaqueada)
Raphi Soifer

RAPHI SOIFER

PENSANDO O CAPENGA
FORENSICAMENTE
(EM VOZ ALTA E SOTAQUEADA)

(conversa entre Raphi Soifer e Lin-


guagem forense: a língua portugue-
sa aplicada à linguagem do foro de
Edmundo Dantès Nascimento)

A linguagem socializa e racionaliza o o capenga sabe mais: sabe que toda


pensamento. qualidade que se diz essencial é
o que é capenga é pensado e social- capenga por si só, guarda algo torto na
mente inserido, mas não consegue se sua base, no cerne da sua proposta de
racionalizar. o capenga age sobre o ser definitiva. uma tortura, porque
pensamento de uma maneira um pouco articular uma linguagem que se diz
torta; desracionaliza, enselvagereia. forense requer excluir tantas outras
A linguagem literária tem 4 qualida- cuja efetividade reside no afeto, requer
des essenciais: expulsar tantas gírias queridas e
concisão acertações poéticas tidas como erra-
clareza das. se a língua forense racionaliza, o
precisão capenga sente. e toca, e atinge.
pureza O verbo ATINGIR é transitivo
o capenga não sabe lidar precisa ou direto, isto é, rege objeto direto — sem
puramente, não busca clareza e nem a preposição A — no sentido físico de
concisão; na real, nem sabe que devia estar “tocar”, “chegar a”, “alcançar”, ou
buscando. mesmo assim, é efetivo, acaba noutro de “compreender”, “perceber”,
funcionando (mais ou menos). mas ele “dizer a respeito”.
não apenas funciona, ele existe, se enuncia se é que exista uma linguagem
na própria falta dessas qualidades forense para explicar o capenga, ela é a
essenciais, se mostrando possível. gambiarra, que consegue atingir o

158
pensamento sem se socializar, sem o forense é violento por si só: represen-
exatidão, mas sempre funcionando. ta uma invasão definitiva e decisiva à
e aqui sou eu na maior gambiarrice, base de palavras quase inevitáveis.
atingindo a cidade sem clareza nem É impossível rejeitar uma palavra
concisão e sem a preposição A. eu estrangeiro; quando vem denominando
mergulho estrangeiristicamente no rio um objeto novo, uma invenção, uma
de janeiro. eu me situo por aqui, idéia. Neste caso, o recomendável é
funciono, alcance com um toque aportuguesar a palavra, como temos
capenga. feitos com boné, turismo, uísque, Nova
voltando de uma primavera fria na Iorque, etc.
gringolândia de onde venho, atinjo o o estrangeirismo que persiste sendo
rio de janeiro com toda a força do meu falado também é eficaz e tão essencial,
estrangeirismo. alguns dias depois, a quase inevitável, que não pode ser
polícia “pacificadora” do morro dos substituído. dizem que não dá para
macacos consegue atingir um menino traduzir a palavra “saudades”. nem a
de 8 anos com uma bala na cabeça. palavra “capenga”, e nem “gambiarra”.
mesmo acostumado com esse tipo de não é o caso de eu me sentir à
notícia (algumas semanas antes, logo vontade aqui por achar o brasil um
depois de invadir a maré, militares país capenga, mas talvez seja por eu
mataram uma criança de 4 anos e uma não ter que essencializar ou traduzir o
avó de 67 em poucos dias) sinto-me que eu tenho de capenga. talvez seja
mais pessoalmente atingido pelo que minha vontade venha por eu sentir
acontecimento no morro dos macacos. uma permissividade de ser uma figura
conheço algumas crianças de lá, que capenga por aqui. talvez eu estaria
descem de vez em quanto para jogar meio torto em qualquer lugar, mas é
capoeira com o grupo onde eu treino bom saber que o que eu mais tenho de
(capengamente e sem nenhum equilí- capenga seriam justamente meus
brio). não sei responder, não faço nada estrangeirismos: meu sotaque, modo
diretamente sobre o acontecimento de andar, uma certa falta de esperteza
além de escrever algumas poucas (ou talvez de malandragem).
linhas que não mostro para ninguém. sou gambiarrista, ou de repente
a violência também é capenga, mas gambiarreiro, e constantemente
nem por isso deixa de ser eficaz. o capenga. (o capenga forense seria
forense responde tentando enquadrar a tanto o protocolo de prorrogação do
violência dentro de um regime claro, meu visto de estudante quanto as
conciso, puro e preciso. por isso mesmo, minhas constantes tentativas de

159
convencer novos conhecidos que eu sou de brasília,
ou do acre). o estrangeirismo sempre será uma
gambiarra, uma identidade bricolada que, na falta
de uma ferramenta mais oficialmente estruturada e
capaz, serve para juntar línguas, pensamentos
identitários e ritmos de se conduzir no mundo.
(eu soube por facebook que a melhor tradução
entre 2 línguas é o beijo. e de fato, não me lembro de
alguma vez ter gostado de um beijo forense.)
A crase representa essa construção:
a – preposição – palavra invariável
a – artigo feminino – palavra invariável
a crase se encontra quase presa, pré-determinada
pela construção de relações entre palavras invariá-
veis.
a crase só consegue fugir desta inevitabilidade
através do estrangeirismo, que nem no próprio nome
do Edmundo Dantès Nascimento.
ou seja, a crase só se liberta da preposição A, só
consegue atingir diretamente quando sai das deter-
minações invariáveis para se jogar em colocações
minimamente exóticas e potencialmente capengas.
(ou seja, o capenga propõe sempre alguma saída.)

***

Linguagem forense: a língua portuguesa


aplicada à linguagem do foro de Edmundo
Dantès Nascimento: revisão Ana Maria de
Noronha Nascimento. 10 ed. atual e ampl.,
7a tiragem. São Paulo:Saraiva, 1999.
p. 3, 15, 32, 113.

160
GRUPO DE
EDUCAÇÃO
POPULAR
Grupo de educação popular
André Basséres

ANDRÉ BASSÉRES

GRUPO DE EDUCAÇÃO POPULAR

Esse texto nasce de um problema, na mais forte acepção desta palavra:


como força que vem de fora, me põe em movimento e me faz pensar. Uma
questão que sempre me acompanha, que enquanto educador (ou alguém
que se pretende educador), nunca posso deixar de colocar. Este problema
que me move, esta inquietação que é a minha, imagino, deve aparecer de
diferentes formas, com inúmeros nomes, a todos aqueles que vivenciam o
espaço pedagógico na qualidade de “professor”, buscando com isso fazer
das suas vidas e do seu ofício uma experiência de libertação, de aumento
de potência, transformação de si, dos seus alunos, e do mundo. Esse
problema, portanto, creio eu, é comum, comum ao menos a todos aqueles
comprometidos com uma educação para a vida, para a liberdade, para a
transformação da realidade (atividade que me parece intrínseca a todos
aqueles comprometidos com a vida, em qualquer espaço, em qualquer
ocupação).
De toda forma, trago aqui este “problema comum” na singularidade da
minha experiência com ele. Este texto é uma pequena expressão de como
eu sinto, vivo e penso a educação, e sobre também como penso e construo
em conjunto com outros — não a resposta ao problema (insolúvel, devo
dizer) — mas sentidos possíveis, aberturas conquistadas, rachaduras
nas velhas muralhas claustrofóbicas que constrangem a vida, buscando
apequena-la, sufocando resistências e diferenças. Não pretendo escrever
um artigo acadêmico, ou algum tipo de “projeto” já acabado acerca de
uma educação que seria a ideal. Trata-se aqui apenas do desenvolvimento

161
de uma questão, uma breve narrativa Nossa educação traduz um elitismo quase
acerca de algumas experiências, movida a estamental, onde a subordinação de um
partir de angústias, mas plena também de sujeito a uma vida de opressão e trabalho
profundas alegrias. precarizado é assegurado desde a primeira
Nomeemos, portanto, o problema: como infância; o mesmo valendo para aqueles
pensar a educação como instrumento de que serão os seus senhores.
libertação? Como fazer da educação um Mas o problema, entretanto, no seu
processo de emancipação comum a mim, cerne, naquilo que ele tem de mais íntimo,
ao outro engajado nesta relação comigo não é em sua natureza brasileiro, não se
(o aluno, o colega), ao mundo? O problema, resume às agruras que se vive na educação
podemos colocar dessa maneira, embora o aqui, nos salários baixos, carreira desvalo-
nome seja o que menos importa: como rizada, péssimas condições de trabalho
fazer educação popular? para os professores e alunos, etc.
Não é uma questão nem um pouco fácil O problema, realmente, não é mesmo só
de responder. No Brasil, talvez, seja ainda esse, por que o problema é anterior, é mais
mais difícil que em outras partes, onde profundo, constitutivo da própria noção de
todos os poderes estabelecidos, todas as educação como entendida contemporanea-
relações institucionais, parecem conspirar mente: ele é antes de tudo a própria escola.
contra qualquer experiência minimamente É um problema que se faz sentir no
transformadora de educação. Por aqui corpo e na alma de qualquer educador que
(não sei se é tão diferente assim em outras se queira libertário, que se queira um
partes, mas enfim...), o sistema educacio- elemento de composição e fortalecimento
nal é de uma perversidade absoluta, por com os seus alunos, ao invés de guarda
que ele se constitui enquanto ferramenta castrador, juiz e sacerdote dos “limites”.
fundamental na clivagem entre aqueles A pergunta que o problema suscita é
que irão se manter em confortáveis imediata: para que foi feita a escola? Qual
posições de privilégio e a vasta maioria o seu sentido? O que se pretendia quando a
relegada ao subemprego e ao desemprego; universalização do ensino se tornou palavra
uma ferramenta racista, dura, onde de ordem nos centros do nascente capitalis-
qualquer princípio de uma suposta mo (ali, por detrás “das boas intenções”, dos
“igualdade” é destruído desde a creche. “nobres ideais”), para depois ser exportado
A distinção entre escolas públicas e as mundo afora? Que tipo de estratégia nascia
caras escolas privadas corresponde quase ali, com que finalidade, apontando para que
que perfeitamente à distinção entre as tipo de sujeito?
posições sociais que serão futuramente Todos estamos, é claro, cansados de
desempenhadas pelos respectivos “públicos”. saber a resposta (duvido que um único

162
professor não a reconheça, mesmo que não a relações de poder e práticas discursivas
queira pensar sobre isso, ou antes, abrace que vêm transformando inteiramente os
a sua “missão civilizadora”): o propósito velhos campos institucionais que antes se
sempre foi a formação como formatação. colocavam unicamente como espaços de
A construção de vidas adaptadas, confor- adestramento dos corpos, como produção
madas a uma nova organização econômi- de subjetividades passivas e prontas para
ca, política, social: corpos dóceis, discipli- um trabalho mecanizado, repetitivo.
nados (sinto calafrios ao lembrar que Neste novo mundo que traduz um
todos somos professores de “disciplinas”), capitalismo modificado (e, portanto, pleno
prontos e preparados para uma nova de novos sentidos e novas exigências),
realidade produtiva, um novo tipo de a educação é muitas vezes apresentada
trabalho (que é antes um novo tipo de como já “liberta” de suas velhas amarras,
trabalhador), em suma, para as exigên- suas constrições, suas jaulas. Seu íntimo
cias agora impostas pelo Capital (em uma parentesco com a prisão produz hoje
realidade que transcende a diferença entre horror (quer a ironia da história que os
classes, mesmo que sua estrutura fosse bons sentimentos de hoje muitas vezes não
sempre adaptada a distinções classistas). reconheçam os de ontem). Os grandes
Escola, hospital, fábrica, hospício, refor- “reformadores” do discurso pedagógico
matório, e, aquele que constitui o modelo contemporâneo vieram “libertar” a todos
privilegiado, o paradigma dos demais: da escola-prisão. Assim como os grandes
prisão. Eis as instituições disciplinares, e heróis da reforma psiquiátrica na Europa
a sua finalidade nunca pôde ser outra que do final do XVIII, vêm ao nosso auxílio
aquela de formar vidas para o capitalismo, pedagogos, neurocientistas, psicólogos,
nem mais nem menos. psicopedagogos, e uma miríade de novos
O mundo, claro, mudou. E é necessário especialistas (que incluem, por mais
reconhecer que, se ainda há essa escola pitoresco que isso possa parecer, economis-
disciplinar, se ela ainda persiste em tas, administradores — até mesmo o
muitos de seus elementos (e é um fato que Banco Mundial, vejam vocês, se tornou
persiste), ela também vem sendo paulati- autoridade em educação). Graças a eles
namente criticada, desconstruída, refor- recebemos as boas novas: “não temam
mulada. De fato, o velho capitalismo mais, viemos salvar os alunos de um
fabril, monolítico, vertical (como os ensino tirânico e opressivo; viemos
buracos de uma toupeira), tem dado lugar também reformular a administração
a formas bem mais sutis de dominação, a escolar, tornando-a eficiente, dinâmica,
relações até certo ponto flexíveis, sinuosas baseada em coeficientes de produtividade,
(como os caminhos de uma serpente), trazemos conosco a modernidade para

163
a sala de aula!” Ao menos nas escolas Esquirol dentre inúmeras figuras que
particulares por aqui, trazem também na infestavam os sanatórios do século XVIII,
bagagem seus smartboards — quadros os “reformadores” de hoje vêm resgatar a
interativos — e outros gadgets. Tecnologia criança doente da confusão indistinta
de ponta: a grande facilitadora do proces- que antes se fazia (a criança doente se
so de “ensino-aprendizagem” contemporâ- separa das outras “anômalas”: as desobe-
neo. dientes, as preguiçosas, as agressivas,
Em grande medida, esta “revolução” as mal-educadas, etc.).
pedagógica se assenta em dois princípios Transtorno Desafiador Opositor;
(me refiro, é claro, aos “saberes” que têm Transtorno de Déficit de Atenção (com ou
sido apropriados de maneira hegemônica sem Hiperatividade); etc.: muitas são as
na educação brasileira, principalmente na doenças que “assolam as crianças”, e
pública, mas também na privada, e não a muitos (e caros) são os remédios para
todo e qualquer esforço pedagógico; como trata-las. Hoje, cada vez mais, substitui-se
queremos argumentar, este é um a condenação moral sobre a conduta do
campo — como sempre — em disputa): jovem por uma avaliação psiquiátrica e
a administração de uma escola deve se neurológica. Nada a ser “punido”, mas
assemelhar cada vez mais a uma gestão sim “tratado”. O que se vê é uma verdadei-
empresarial, e o mais aterrorizante é que ra epidemia de medicalização da infância,
isso deve ocorrer mesmo em seus aspectos assustadora mesmo que não entremos na
estritamente pedagógicos, na própria penosa discussão sobre se tais “patolo-
aula, na própria relação direta entre gias” possuem uma “existência em si”,
professor-aluno, libertando o aluno da ou se elas são o outro lado do mesmo saber
“opressão” do modelo fabril, prisional, médico que as “descobre”.
que, de certa forma, os professores ainda Esses dois recortes pedagógicos que
representam (não à toa, o ensino à busquei desenhar (de maneira por demais
distância ganha cada vez mais força: genérica, esquemática e pessimista, é bem
o professor é, neste modelo, cada vez mais verdade), todavia, de forma alguma se
dispensável). excluem mutuamente, como se houvesse
Entretanto, salvar os alunos não é uma ruptura cronológica e hoje nada
apenas modificar a estrutura escolar, e restasse da escola “clássica”. Muito pelo
mesmo a forma como os professores dão contrário: nas escolas do Rio de Janeiro o
aula (ou se eles dão aula de todo), introdu- que se vê é a mais perfeita fusão desses
zindo mecanismos de “eficiência corporati- distintos “modelos” de educação: temos
va”. É preciso realmente salvá-los! uma secretaria de educação que avalia
E, como o louco “resgatado” por Pinel e seus alunos e professores através de

164
índices de produtividade (claramente tomados de empréstimo do modelo
empresarial) medidas em provas regulares e outros mecanismos (interfe-
rindo diretamente no salário desses professores), mas que coloca, ao
mesmo tempo, policiais na porta dos colégios para “cuidar da segurança”;
temos uma educação que medicaliza seus alunos por “transtornos de
aprendizagem”, mas sem jamais pôr realmente em questão a sala de aula,
a quantidade de alunos em uma aula, a obrigatoriedade da presença, as
notas, medidas punitivas, etc. Está lá todo o velho arsenal da escola
“tradicional” que faz com que seja corriqueiro encontrar jovens na escola
que a reconhecem claramente como a velha prisão, mas com nova roupagem.
E o professor libertário, não libertador, que compreende a educação
como um processo coletivo, que não está separado (e nem pode se separar)
das demais condições do mundo em que vivemos, deve procurar seu
caminho nesta densa floresta de espinhos, entre o martelo da escola
disciplinar conservadora e os mecanismos “modernos” de gerência da
vida (até mesmo do ponto de vista da química cerebral), postos em prática
pelos discursos “flexíveis” da lógica empresarial. É um caminho obvia-
mente difícil, mas é o caminho da educação popular.
A crítica mais poderosa que se pode (e que sempre se pôde) fazer à
escola e à educação é que elas estavam (como ainda estão, sem desconsi-
derar as novas relações de poder em jogo) a serviço da produção de um
mundo desigual, doente, opressivo; a serviço da produção de subjetivida-
des apaziguadas, submissas, prontas para um mundo de subordinação e
exploração, cultivando as “competências e habilidades” necessárias para
desempenhar suas futuras “funções sociais”. Buscar uma educação que
liberte é, antes de mais nada, se despojar da indumentária da educação
(tão presente na educação de hoje como foi na de outrora); é esvaziar os
lugares instituídos de poder (em primeiro lugar, é claro, na sala de aula);
é buscar um caminho com os alunos, abandonar a pretensão despótica de
lhes “educar” (o que não significa que não haja transmissão de conheci-
mento, é claro que há, mas sempre numa via de mão dupla, de troca e de
respeito pelas diferenças e vivências de cada um). É Paulo Freire sim,
em cada palavra, mesmo que ele também, tragédia da história (ninguém
é dono do seu próprio pensamento) seja apropriado pelos “reformadores
escolares” que querem mudar tudo para não mudar nada. É, por mais que
a palavra seja um clichê, uma atividade que se faz com amor, com entrega

165
e disposição de se ver desprovido de um papel central e preenchido de
autoridade. Por isso a educação popular, libertária, é uma militância,
constante, feita dentro desses espaços a que chamamos “escolas” e fora deles.
E o bonito quando se faz essa educação com amor, essa militância pela
liberdade na (e através da) educação, é que dificilmente se fica sozinho.
A diferença busca a diferença: surgem sempre aqueles que também se
indignam com as correntes, todas elas, da educação, há sempre aqueles a
quem dar o braço, e seguir experimentando uma educação que não seja
“dona da verdade”, que não opte por reforçar simplesmente saberes
instituídos, em detrimento de toda uma infinidade de experiências,
de discursos, de práticas. Uma educação que não busque perpetuar
relações de poder institucionalizadas (sancionadas por aqueles saberes),
que busque um espaço de trocas horizontal. Um espaço onde, nessa
vivência, alunos se misturem com professores, suas figuras se diluem e se
combinam, e onde, em uma assembleia na qual assuntos que são do
interesse de todos são discutidos (desde questões práticas sobre aulas,
até demandas da comunidade local), se torne difícil distinguir quem
“chegou ali como professor e quem chegou ali como aluno”.
Aqui no Rio existem (como em qualquer grande cidade, imagino)
alguns grupos que se engajam particularmente nessa luta. Um deles
é o GEP, Grupo de Educação Popular, do qual faço parte.
Somos educadores populares (ou antes, buscamos a educação popular
em nosso trabalho), agimos dentro das escolas públicas da cidade e fora
delas, em diferentes experiências comunitárias. O grupo começou há sete
anos, com um pré-vestibular popular no morro da Providência, após as
“forças militares” que, naquela época, garantiam a “pacificação” da favela
(como hoje fazem as UPPs) sequestrarem três jovens e os entregarem a uma
facção criminosa rival daquela que controlava o tráfico de drogas no morro e
na região. Os jovens foram barbaramente torturados e mortos.
O grupo inicial, muito deles militantes oriundos do movimento
sem-teto no centro do Rio (que contava com algumas fortes ocupações,
como a Quilombo das Guerreiras, a Zumbi dos Palmares, a Machado de
Assis e a Chiquinha Gonzaga — única dessas que não foi removida pelo
Estado), decidiu construir um projeto de educação popular que pudesse
ir além da sala de aula, além do trabalho importante de tentar garantir o
acesso de jovens negros e pobres à universidade, um dos espaços mais

166
excludentes da sociedade brasileira. O que da região e também de atos coletivos que
se buscou desde o começo foi um forte combatem às inúmeras arbitrariedades
engajamento nas lutas e demandas não que acontecem ali todos os dias. Hoje
apenas da Providência, mas de uma das também atuamos fortemente como parte
regiões do Rio que se tornou um dos alvos do apoio da ocupação Chiquinha Gonzaga,
prioritários desse capitalismo predatório e com oficinas para as crianças do prédio e
selvagem ao extremo que o Estado e a outras atividades que ajudamos a organi-
iniciativa privada vêm experimentando no zar com pessoas da ocupação e de fora.
Rio: a região portuária. Um processo de Mais recentemente, nasceu um braço do
violência que não se iniciou com a morte GEP na Uerj e no morro da Mangueira,
dos três rapazes, mas que certamente vem com, entre outras atividades que buscam
experimentando um recrudescimento da cruzar a esmagadora fronteira que divide
brutalidade somente proporcional à esses dois espaços na realidade tão
ganância dos investidores (à medida que a próximos fisicamente (favela e universida-
região vem se valorizando cada vez mais de), um novo curso de alfabetização de
no mercado). Inúmeros despejos acontece- adultos. Também atuamos em diversas
ram nos últimos anos, comunidades escolas públicas do Estado, e no sindicato
inteiras arrasadas para dar lugar à dos professores (SEPE), tendo uma
especulação imobiliária, como a ocupação presença forte nas lutas dessa categoria,
Quilombo das Guerreiras, despejada no em especial, nas últimas duas greves.
começo do ano após meses de verdadeiro O GEP educação pública une professores
terror imposto pelo Estado. que pensam um novo modelo pedagógico e
Apesar do aumento da repressão e da que lutam cotidianamente pelas melhorias
violência estatal na região, o grupo cresceu materiais das escolas públicas, com os
e hoje somos muitos: educadores, alunos próprios alunos, aqueles que mais sentem
dos projetos que desenvolvemos (de modo a opressão dessa “negligência” e desse
absolutamente autônomo e independente), “projeto de educação” sobre as suas vidas.
estudantes universitários, alunos de O que faz deste um belo processo de
escolas públicas de diversas partes do Rio. educação popular é exatamente o fato de
Além de trabalhadores da região e militan- conjugarmos a crítica ao que normalmente
tes com outras experiências de luta. Na entendemos como educação (e a constru-
Providência, o pré-vestibular continua e ção de sua alternativa) com a luta popular,
um curso de alfabetização de adultos já cotidiana, entendendo que o processo
funciona há vários anos. Buscamos estar coletivo da educação deve, ao mesmo
presentes nos espaços comuns, e ajudar a tempo em que se reinventa, apontar para
fomentá-los, como assembleias populares uma transformação de mundo.

167
São, na realidade, atividades análogas Talvez seja por aí (menos do que nas
(ou mesmo, dois aspectos da mesma “justificativas oficiais”) que devemos
atividade), pois reinventar o que se buscar a real explicação para a pesada e
entende como “relações de ensino-aprendi- inclemente perseguição do Estado, que
zado” é já produzir uma singularidade no recentemente emitiu ordens de prisão
mundo, preventiva (por sermos “perigosos demais”
e todas as vivências e lutas das quais para aguardar o julgamento em liberdade)
participamos são já um profundo processo contra sete militantes do grupo, além de
de aprendizagem. Daí a inexistência de outras dezesseis pessoas de outros grupos.
uma distância real entre o trabalho que Se estamos “a solto” nas ruas, nos nossos
muitos de nós fazem em escolas (em sala trabalhos, nas nossas vidas, é apenas
de aula e fora dela, mas ainda vinculados graças a um Habeas Corpus emitido por
à escola pública, como nas greves e atos) e uma instância superior do judiciário, não
o trabalho comunitário que fazemos sem antes termos de passar (como os
cotidianamente em espaços vivos e cheios outros perseguidos políticos) duas sema-
de vida, de experiências belas e trágicas, nas presos ou foragidos, sob a alegação
de lutas e violências de uma brutalidade (sem nem uma única evidência concreta
que não podem ser expressas por meio de que incrimine os acusados) de “promover-
palavras, como as ocupações e as favelas mos atos de violência nas manifestações”
da Providência e Mangueira. de Junho e dos meses subsequentes.
A própria educação popular é quebrar A acusação, de tão absurda e dramáti-
os muros da escola (mesmo quando não ca, me faz lembrar o rótulo de “terrorista”,
podemos fazê-lo fisicamente); é já um gesto preferido pela ditadura militar para se
de libertação. E a própria luta comunitá- referir àqueles que a combatiam. Atuamos
ria, cotidiana, é um intenso processo com educação popular em espaços absolu-
pedagógico de formação para a transfor- tamente abandonados pelo poder público
mação, é educação no sentido mais pleno e (abandonados de políticas públicas, que
poderoso que essa palavra pode assumir: fique claro, de nenhuma maneira abando-
troca, composição, afeto, construção nados das relações de poder e violência
coletiva. É já, na luta para mudar o sistemática de todas as formas do capita-
mundo, a criação de um outro mundo, lismo contemporâneo: aponto a prática
em cada uma daquelas relações, em cada fascista de pintar em casas da Providência
pequena experiência: na rua ou na sala a sigla da Secretaria Municipal de
de aula, é emergir outro e apontando para Habitação seguida de um número:
outro mundo. a maneira pela qual a prefeitura achou por

168
bem informar centenas de famílias que suas casas seriam derrubadas).
Buscamos, pela educação e trabalho cotidiano, construir relações libertá-
rias e potentes, compondo forças com os gestos de resistência que encon-
tramos pelo caminho, gestos (ou melhor, gritos) que devem ser sufocados,
vidas que devem ser esmagadas. E por que lutamos com eles, sem querer
levar nada, nem salvar ninguém, sem almejar cargos públicos, nem
verbas públicas ou privadas; por que queremos apenas juntar nossa voz
às deles nesse grito, não nos podem perdoar. Paciência. A vida segue, e a
repressão que estamos vivendo é ainda ínfima quando comparada com a
violência reservada aos moradores de favela, aos pobres, às “classes
perigosas”. A luta continua e o aprendizado também.
Concluo mencionando um trabalho que estamos fazendo, por nenhum
motivo especial a não ser o de acha-lo bonito e de pensar que ali já
acontece uma experiência de educação popular que vale divulgar:
o trabalho que o apoio da Chiquinha Gonzaga (e muitos de nós do GEP
estamos lá) tem feito na ocupação. Ali, vem nascendo nesta mesma
semana em que escrevo essas linhas, um novo e potente espaço para uma
educação popular, libertária, uma educação para transformação.
Estamos angariando recursos e, braços dados, fazendo mutirões para
reformar e reestruturar um amplo galpão que jazia abandonado
há anos. Lá iremos continuar atividades que já vêm acontecendo e
criar novas possibilidades. E elas são inúmeras: a alegria é sonhar
com o que pode ser feito, com as múltiplas experiências horizontais,
coletivas, companheiras, de educação que poderão nascer ali.
Mas certamente esse já querido espaço nasce sob bons auspícios: sua
primeira atividade, no seu salão ainda vazio, sua estrutura ainda precária,
foi uma oficina de Teatro do Oprimido para educadores populares.

***

169
HIDROSOLIDARIEDADE
Hidrosolidariedade
G i s e l i Va s c o n c e l o s

GISELI VASCONCELOS

HIDROSOLIDARIEDADE

Neol. 1) Solidariedade solúvel: a) Oportunidade de


sistematizar as ações realizadas e apresentar o resulta-
do daquilo que pensamos e executamos b) Processo de
colaborações e associações entre artistas ou agitadores
culturais c) Encontros d) Parcerias e) Envolvimento. 1

Delta do AmazonasLocalizado no extremo norte do país, entre os estados do Pará


e Amapá, o delta recebe águas de centenas de rios menores transbordando o Rio
Amazonas em direção ao oceano Atlântico. É nessa desembocadura que se encontra
o fenômeno da POROROCA (o tupi “poro’rog” = ‘estrondar’), quando as águas
oceânicas se elevam e invadem a foz do rio num confronto que promove o surgimento
de grandes ondas, mais evidente nas mudanças de fase da lua, principalmente Lua
Cheia e Nova.

1  Hidrosolidariedade faz parte do glossário sugerido para o projeto de pes-


quisa [Nu]-: aparelho: Relatos sobre coletivos, arte e colaboração baseado
em entrevistas e ações envolvendo agitadores da rede aparelho, em Belém
do Pará. A definição é proposta por Bruna Suelen, em sua tese de mestrado
em artes na Universidade Federal do Pará.
170
A SOLIDARIEDADE SOLÚVEL impregnado pelo mote “o que ocorrer…”,
A produção da rede [aparelho] -: experimentávamos uma composição
aconteceu entre encontros que por vezes poética política que tentava reunir
chamamos de reuniões e que transborda- fragmentos de tudo e todos entre textos,
vam em ações de rua. Para cada ação resenhas, música, vinhetas, entrevistas
proposta se constituía uma pequena rede e cineclubismo de maneira fluida e
de relações afetivas que se relacionavam atemporal. Estávamos na intercessão
às redes maiores, através dos meios com os nascidos e crescidos ao Norte
digitais ou não, como: associação de e entre viajantes, convivendo nesse
bairro, terreiros, botecos, rádios comuni- tempo-espaço de comunhão em meio
tárias, listas de discussão e quilombos. ao Delta do Amazonas — esse imenso
Ao longo do tempo, espalhados entre grandes lábios molhados pelos rios
tantos esporos, fomos coletivizando pela Amazonas e Tocantins-Araguaia.
cidade debates em torno da liberdade de Durante todo o tempo em que estivemos
criação, expressão e ação como direito juntos, a hidrosolidariedade foi incorpo-
comum e público. Os assuntos amplifica- rada de modo orgânico à nossa fala,
dos discorreram sobre a pirataria, entre notas e trocas de e-mails sem
economia informal, a autonomia na muito se preocupar com as origens ou
produção artística e cultural e principal- contextualização do termo.
mente, cultura livre. Num devir

HÁ-BRAÇOS
Arthur Leandro que traz do Rés-do-chão o conceito
de hidrosolidariedade para dentro do [aparelho]-:. Em
maio de 2009, respondendo a uma entrevista proposta
por Denis Burgierman e encaminhada para a lista de
discussão CORO, Arthur sinaliza exatamente quando
o termo se incorpora às nossas ações:

171
Re: [CORO] Re: entrevista coletiva com um coletivo de coletivos - pergunta 1
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/corocoletivo/conversations/
messages/11280
Date: Fri, 1 May 2009
Por que “coletivo”? O que esse tipo de organização permite que o trabalho individual ou
os grupos tradicionais – empresa, cooperativa, ong – não permitem? Enfim, o que vocês
querem com esse negócio de coletivo, diabos?

Eu vejo diferenças entre hierarquia pro pessoal das cênicas talvez já seja
e liderança, mas a identificação das o Pedro… e por aí vai… é rede de
lideranças pelas relações sociais que relações… quem é o coordenador/
nos circundam — e não conseguem nos chefe?
circunscrever na hierarquia de poder…, pra mim interessam as trocas, eu
como desejam —, faz com que nos também atuo em outros coletivos e/ou
identifiquem com palavras como grupos de outras cidades onde morei,
‘coordenador’, ‘chefe’, ‘manda-chuva’… como o Urucum em Macapá; e em
Nós resolvemos por aqui com a outras formas de des-organização como
auto-identificação como ‘agitadores’…, o Rés do Chão, no RJ, ou em grupos
adjetivo também usado pelos que nos virtuais como este coro que diverge
olham ‘de fora’, mas com a multiplici- tanto que nem faz coro…. Dai aqui na
dade de interpretação que nos interessa. rede [aparelho]-: sou eu que trago do
daí o ‘agitador chefe’ vai depender Rés o conceito da hidrosolidariedade….
muito de qual é o universo e de onde E nossa primeira ação realmente
vem a identificação, por exemplo, no coletiva e colaborativa se chamava
micro-universo do campus do Guamá “Potoca free-style, ou cineclube
da UFPA… Para a faculdade artes o hidrosolidário, ou projeção de filmes
chefe sou eu, mas nos bloco de ciências para Yemanjá no dia 2 de fevereiro, ou
humanas já foram Luis e Angelo e hoje esperando um novo nome pra bati-
talvez seja a Bruna… No micro univer- zar…”; também sou eu quem impregna
so das culturas afro-amazônidas: nas a rede de informações das artes visu-
comunidades de terreiro sou eu…, no ais…, mas eu não sabia (ou não sei)
hip-hop é a Yá Maré ou Perna, e no tec nada de só-fi-tu-ér livre, e aprendo
nobrega é a Giseli… Na comunicação muito disso com a proximidade com a
comunitária é o Angelo, pros artistas Yá Maré, como de edição de som com o
de rua é o Rodrigo, na ilha de Colares Angelo, de Mônadas com a Bruna e por
e na baía do sol é o Fernando, ai vai, é rede de relações….

172
Oxum Orixá feminino que
reina o amor, a intimidade,
a beleza, a riqueza
e a diplomacia sobre a
água doce dos rios.

ELEMENTOS DE UM RIO qualquer secreção corporal (o suor, as


lágrimas, a baba…), do suco das frutas,
fluência, afluência, confluência, leito,
margem, montante, nascente, foz. do líquido que escorre das árvores, da
Com o passar do tempo, na tentativa bebedeira e do rastros espumantes das
em rescrever esses processos, percebemos embarcações. A palavra também simbo-
um conjunto de significações potentes licamente remete nossa história entre
por detrás desse vocábulo que vai hidrovias, furos e recortes de rios,
muito além da nossa micropolítica: elaborados por gente em civilizações
a palavra desvela intrinsecamente provavelmente antes da descoberta
nosso comportamento grupal, tribal da América. E ainda, esses fluxos de
e tropical-amazônico carregados de passagem, relatados entre tantas
uma alegoria fundada num horizonte viagens, desvelaram um imaginário
plano, infinito e líquido — somos de olhares mais de longe que de perto
sinônimos de água procedente de exauridos entre agonia e empatia.

173
PROPOSTA DE COM-VIVER
Em 2005, Arthur Leandro apresenta os Reslatim,
uma série de relatos de viagem que culminaram nos
registros de um ritual-de-passagem durante sua
residência ao sul da França. Estávamos trabalhando
juntos na seleção de parte desse diário (compartilhado
pela lista de discussão do Rés-do-chão) para a publica-
ção Digitofagia1 . Os Reslatim expõem caprichosamen-
te a tensão de uma experiência individual de um
amazônida diante da adversidade e desentendimento
travados noutra cultura. O norte hemisférico, pautado
na homogeneização de valores e comunicação padroni-
zando conduta, sentimento, imaginação e linguagem.
O autor contrariado com o comportamento europeu,
se desdobra por vezes na reflexão sobre o uso comum da
expressão “desolee” (o que no português diríamos
“sinto” e no inglês é o equivalente ao “sorry”) para
discorrer sobre um modo coletivo ausente de solidarie-
dade para com o outro:
“O desolee é um vazio semântico, é o contrário de
guerra que lança a palavra e seu significado ao encon-
tro de novas circunstâncias, vejo o desolees como a
atitude da muralha de comunicação. é muralha do eu
para com a comunidade com que se com-vive.”
Diante da nossa compreensão amazônida, o outro
é afluente de vida. O outro é o que corre ao teu lado,
atravessa e trespassa e cruza, como um rio. Nossos
redários se formam por fruição, experimentando um
curso de água, e desvendando as tecnologias possíveis
como fora a canoa para a cabanagem e o regatão, para
o jornal e televisão. E assim também, como na pororoca,
a sobrevivência é um encontro estrondoso de movimento
brusco que provoca na diversidade, as ideias, os desen-
tendimentos, as redescobertas e outras linguagens.
1  ROSAS, Ricardo; VASCONCELOS, Giseli (Org.). Net_Cultura 1.0: Digitofa-
gia. São Paulo: Radical Livros, 2006.

174
PA R Á = R I O G R A N D E
Do Brasil, sentinela do Norte.

Nesse diário de memórias, carregado de um compor-


tamento tropical-úmido percebemos o clamor por trocas
solidárias, fluidas e frouxas desmensurável, quase
análogo ao nascimento de um rio buscando seu curso:
(…) e talvez eu seja muito radical, mas quero
continuar a viver na hidrosolidariedade e na hidrogene-
rosidade que faz a gente trabalhar junto por um projeto
coletivo que ninguém sabe o que é. como a liberdade,
mas que tem a participação de toda comunidade,
com liberdade. Juntos!!!
Portanto, esse relacionar-se íntimo presente nessa
terra do meio tropical, espelha-se num tempo que pára
com as chuvas, que segue entre o aguaceiro penetrando
nos solos para assim encontrar espaços vazios entres
brechas e furos até chegar a um outro corpo d’água.
E como num movimento solidário, um rio maior
precisa se hidratar recebendo águas de rios menores,
e então estes se tornam seus afluentes num fluir que
compartilha o que não fica, que vai e escorre.

175
ESSE RIO É MINHA RUA DI-VERSOS
A imagem que se tem a respeito da “Quanto a este mundo de águas é o
Amazônia é formada por um imaginário que não se imagina. A gente pode ler
por vezes edênico e satânico represen- toda a literatura provocada por ele e ver
tada arbitrariamente por quem a olha todas as fotografias que ele revelou, se
de fora. Esta representação perpetuada não viu, não pode perceber o que é.” 1
pelas mídias, também mimetiza esse Enquanto reunia notas para este
imaginário entre os fatos, denominan- verbete deparei-me com um pequeno
do como único o que é diverso, e impon- artigo “um grau ao sul” 2 de Maria
do uma identidade única a uma plurali- Christina Cardoso Ribas que rememora
dade de culturas, de naturezas e de a carta de Mário de Andrade encami-
sociedades. nhada a Manoel Bandeira datada em
A imaginação que normalmente se junho de 1927. Esta carta denominada
tem da região é, quase sempre, “mais deliciosamente “Por esse mundo de
uma imagem SOBRE a região do que águas” discorre sobre desejo sexual e
DA região” como produto resultante de arrebatamento em torno de suas experi-
um contexto marcado por relações de ências em Belém do Pará. Ela faz parte
poder. De uma geografia diversa, da de uma série de registros entre fotogra-
nascente do extenso Rio Amazonas até fias, cartas e notas que Mário de Andra-
a sua foz, a visão que temos do extremo de manteve durante sua viagem à
norte é um rio de horizonte-infinito Amazônia, que dizia ser um diário
deonde muito de nossa poesia se referen- despretensioso do que foi a viagem mais
cia. De Belém vive-se conflitos de uma importante na vida do autor.
cidade cosmopolita que não sabe se é Neste relato que Mário denominou
uma pequena metrópole ou uma grande de “O turista aprendiz: viagens pelo
província. Belém é um constelário de Amazonas até o Peru pelo Madeira até
ilhas que representam 69% da superfície a Bolívia e por Marajó até dizer chega!”
da cidade, nasceu por assim dizer sob o se percebe numa espécie de adesão à
signo insular. É uma cidade portuária civilização tropical, descoberta senti-
que recebe pessoas de todo o mundo mental intelectual de sua interpreta-
sendo um ponto de partida de riquezas ção de um Brasil numa concepção
ancestrais. É onde o arcaico e moderno
coabitam o mesmo espaço, a vanguarda 1  ANDRADE, Mario de. Cartas a Manuel Bandeira. Rio
de Janeiro: Organizações Simões,1958.
e retaguarda com-vivem, o sagrado e o
2  Ribas, M. C. C. Manuel Bandeira: a poética do
profano não se separam. entrelugar. Tese de Doutoramento em Teoria Literária.
Biblioteca UFRJ. 1997.

176
plural de civilização mais sincrética relatos vem carregados de uma tensão
que sintética. A viagem começa no que misturam a paisagem com estados
início de maio e termina em meados de afetivos que direcionam a escrita e o
agosto de 1927. Já nos 10 primeiros pensamento, propondo quase uma
dias o autor anuncia o espanto do seu oração mental que nos ajuda a seguir
olhar europeizado diante da desmesu- profundamente sobre esse horizonte
ra e singularidade do mundo amazôni- fluido.
co: Discorrer sobre um vocábulo que
“Há uma espécie de sensação fincada confirma-nos em ação é trazer à margem
da insuficiência, da sarapintarão que me um translado de raízes e rotas que nos
estraga todo o europeu cinzento e bem representam traduzindo signos e signifi-
arranjinho que ainda tenho dentro de cados que nos semeiam. A hidrosolida-
mim (…)”. riedade não deixa de ser uma utopia
A experiência de viagem de Mário amazônica — quando pretendemos
de Andrade na região mesmo que curta seguir um caminho solidário, frouxo e
for fundamental para sua meditação volúvel seguindo a natureza do compor-
sobre uma civilização tropical. tamento das águas, desconsiderando o
É durante esta viagem que o autor contágio e a assimilação como caminho
complementa as notas para versão de único de civilização em direção ao
Macunaíma (redigido um ano antes progresso, sucesso e desenvolvimento.
mas totalmente aberto para inserções A hidrosolidariedade é a intenção —
e colagem, lançado no ano seguinte), quando muitos juntos se dispõem como
esboça a narrativa Balança, Trombeta fluidos — correndo como a água, vagan-
e Battleship ou o descobrimento da do a trocar experiências e conteúdos por
alma, além de experimentar a fotografia uma re-produção, distribuição e recicla-
moderna. gem de tudo, aos VIVOS.
Assim como nos Reslatim, as cartas
e notas de Mário sobre a Amazônia
sempre marcam de modo contumaz e
por vezes irônico a ótica européia
tecnicista, marcada pela hegemonia
de um pensamento sintético e científico.
Mesmo em tempo espaço diferentes,
dum campo de visão deslocado
(um amazônida na Europa versus um
paulista europeu na Amazônia), esses

177
Ursa Maior “Dizem que um professor naturalmente
alemão andou falando por aí por causa da perna só da
Ursa Maior que ela é o saci… Não é não! Saci inda pára
neste mundo espalhando fogueira e traçando crina de
bagual… A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói
capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com
muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e
banza solitário no campo vasto do céu.”
(Macunaíma — Capítulo XVII: Ursa Maior)

***

178
HUMOR
Humor
Geo Abreu

Carnavandalirismo
Isabela Ferreira

GEO ABREU

HUMOR

Dentro do processo das gerador não prejudique o


chamadas “Jornadas de entendimento da piada, de
junho” acontecidas desde tal forma que seu uso se
junho de 2013, brotou das expanda e seja incorpora-
ruas, como escape lírico à do na linguagem cotidia-
truculência da polícia o na das redes sociais.
humor, numa mistura de A criação das memes
sagacidade com a criação (sim, neste texto memes
de fatos mais estranhos são entes femininos,
que a ficção. porque férteis) partiam da
A memética dos aconte- curadoria de episódios
cimentos acumulou uma exemplares com a inten-
produção de fôlego cujos ção de assinalar o descabi-
locais de desague inicial mento da inversão de
tenham sido facebook/ valores, como num dos
tumblr/twitter, trans- mais famosos casos, a v e r ESCREVER

pondo conteúdos políticos depredação de uma loja da


por meio de piadas curtas, rede de roupas Toulon,
com núcleos que se cujos manequins foram
transformam e perpetuam vandalizados pela popula-
(as memes), multiplican- ção. Fato que a midia
do-se à medida que o corporativa transformou
afastamento do caso num quadro de horror,

179
rídiculo e doloroso, discurso oficial criado (Projetação, Vinhetando),
quando ao entrevistar o neste contexto para quanto de criação de
dono da rede, este se pôs a legitimar a violência e a intervenções não violentas
chorar pelos bonecos e sua criação de verdades. (Atelier de Dissidências
perda inestimável. A A partir de determina- Criativas), várias ações
partir deste vídeo, a roda do momento, com a lei tomaram corpo e a cidade
memética se pôs a girar e antiterrorismo em vias de foi se organizando,
a inteligência coletiva efetivação e o terrorismo transformando um
produziu algumas respos- de estado crescente, movimento acusado de
tas correlatas: uma missa provocando o esvaziamen- confuso e sem pautas
de sétimo dia pela morte to das ruas, o humor criou definidas em um laborató-
dos manequins; um soluções para manter o rio vivo de criação ferra-
prêmio pelas performan- movimento e escapar da mentas sutis, cujas forças
ces em protestos, cujos repressão. O casamento de estejam no momento
símbolos/estatuetas eram dona baratinha é um concentradas num esforço
os ditos bonecos, e no deses casos: quando coletivo anti-copa. Forças
rastro disso, uma intima- manifestantes apareceram que se expressam através
ção formal para que o para protestar durante o de frases projetadas em
jornalista/humorista/ casamento da filha de um muros, carimbos em notas
ativista Rafael Puetter/ dos maiores empresários de dinheiro, hackeamento
Rafucko prestasse esclare- do ramo dos transportes de álbum de figurinhas,
cimentos sobre a acusação no Rio de Janeiro, atrapa- atos cujos traços são
de furto de um destes lhando a festa e dando difíceis de rastrear e
objetos. nomes a um dos agentes culpabilizar, espalhando a
O próprio termo “van- envolvidos na crise dos mensagem de descontenta-
dalizar” passou por uma 0,20 centavos, o aumento mento, conquistando mais
transformação nestes nas passagens de ônibus e mais pessoas que
dias, ampliando seu raio que deu início às jornadas estavam dispersas dentro
de uso e englobando não de protestos. da crise de representativi-
só as atitudes irresponsá- Daí à criação de dade política, bem como
veis de alguns cidadãos coletivos de artivistas, talentos obscurecidos no
com “a coisa pública”, mas tanto envolvidos com a limbo do precariado
também as irresponsabili- trasmissão ao vivo dos cognitivo, e afirmando que
dades da classe política e protestos (Rio Na Rua, aqui, nas cidades, “dois
da polícia no trato com os Mídia Ninja) quanto de papos não se cria e nem
manifestantes, e o próprio intervenção urbana faz história”.

***
180
ISABEL FERREIRA

CARNAVANDALIRISMO

O Carnaval faz dos nossos corpos QUE É O ATELIER DE


território político. DISSIDÊNCIAS CRIATIVAS?
Carnavandalirismo na rua é a política É um espaço para a criação de mate-
explodindo sua audácia imaginativa. Com riais diversos para o ativismo criativo:
seu feitiço socioerótico coletivo, o carnavan- material gráfico, sonoro, vídeo, contra-pu-
dalirismo traz entusiasmo aos movimentos blicitário, traquitanas, máquinas, roupas,
rebeldes, transborda as mentes, os corpos e performances, etc. 
os espaços da arte, e os leva às ruas. Todas as quinta- feiras, na CASA
No Carnavandalirismo, a ironia e o NUVEM1 um espaço coletivo, para
humor substituem a testosterona desestrutu- experimentar, praticar e espalhar o tesão
rando a hipermasculinidade das táticas de de fazer e pensar política. Lugar de
confronto tradicionais. O corpo, a música e a convergência, de troca de ideias, de
dança se convertem, desta maneira, em mistura de cada um de nós, e dos vários
ferramentas poderosas de desarticulação da coletivos artivistas e movimentos sociais
violência policial e midiática. da cidade. Experimentar um arte que
O Carnaval de resistência surge do REAL-liza, que busca a criação de realida-
movimento fluido que pensa e atua em redes des concretas, que constrói no aqui e no
e que leva a criatividade e o prazer para à agora, que se alimenta e alimenta os
política. Rejeita as hierarquias sociais, a movimentos sociais, que propõe outros
divisão entre atores e espectadores, confunde tipos de dissidência fugindo dos clássicos
os gêneros, insiste na participação total e no rituais de protesto.
seu caos criativo imprevisível e nos enfrenta Referência:
Tomando notas al caminar (sobre cómo romper-
com tudo aquilo que a sociedade de bem le el corazón al Imperio) John Jordan (2005),
precisa controlar.  uma tradução muito livre de um extrato do
O Carnavandalirismo ocupa às ruas texto  Notes Whilst Walking on “How to Break
the Heart of Empire” de John Jordan. Texto
porque o rebolado é nosso e a cidade tam-
disponível em c p p . p a n o r a m a f e s t i v a l . c o m /
bém! tomando-notas-al-caminar-john-jordan/

NOTA: ***
Carnavandalirismo é um projeto que
parte do Atelier de Dissidências Criativas.

1  Localizada na Lapa, no Rio de Janeiro.


https://www.facebook.com/pages/Carnavandali-
rização/437962096346098

181
Imagens a seguir:
Ações realizadas por integran-
tes ou passantes do/no Atelier
de Dissidências Criativas no
Ciclo das Manifestações de
J u n h o . To d a s a s i m a g e n s s ã o
d o A t e l i e r, e f o r a m r e a l i z a d a s
no Rio de Janeiro (2013-2014).

182
183
184
INFRAESTRUTURA
Infraestrutura
{Maternidade / paternidade /
economia do cuidado / trabalho}
Cristina Ribas
((parêntesis de Barbara Lito))

Justiceiras do Capivari
Steffania Paola

CRISTINA RIBAS
((PARÊNTESIS DE BARBARA LITO))

INFRAESTRUTURA
{MATERNIDADE / PATERNIDADE / ECONOMIA DO
CUIDADO / TRABALHO}

“Estamos dispostos a fazer algo pelas futuras


gerações? Então resolvamos nossa dor infantil e
coloquemos nosso corpo a disposição dos que são
crianças hoje.”  Laura Gutman

A maternidade desacelera o mundo. Ensina ele


que só há uma economia: a economia do cuidado.
Acordo num dia sem saber, que horas são?
A contagem é do estômago pequeno daquele serzinho
iluminado que ao lado me diz, tenho fome, ou é que foi
perturbada por um sonho de monstro, de coruja notur-
na como já me disse uma vez. A hora é também equa-
ção: contagem das horas de sono, se é hora de acordar
mesmo, ou se é hora de ficar, fazer estender o sono,
aumentar a preguiça cair em sonho novamente.
Acordar, posso tentar só eu, posso, preciso trabalhar
(aquele tanto de coisas acumulado, a demanda cons-
tante), e arrisco 20 minutos nessa manhã silenciosa,
quase segredo, só minha. 20 minutos às vezes me dão
tempo para entrar, de novo, na trama do irresolvível
(do que foi deixado na noite anterior, arquivos abertos,

185
anotações esparsas). Ela acorda logo depois de mim,
vem caminhando pessoa pequena, choraminga, mama
no peito. Estamos juntas, colo e chamego. A contagem
da hora enquanto olho para ela segue projetiva,
planejando o dia por vir. Dia de quê? Dia de trabalho,
dia de creche, dia de entrar na linha do tempo de fora,
de um tempo grande e irresponsável com a nossa
temporalidade pequena. I n t e r r o m p e r . Arriscar
cortar e acelerar esse tempo da pessoa pequena, que
não sabe das razões, e as quais lhe explico. É hora
disso, de creche e de trabalho, de meias e de roupas,
qual é o clima lá fora, de fazer caber o que se precisa
na mochila, de conferir as coisas todas na bolsa, se
há bilhete da creche, é fraldas que pedem. Preparar o
café, alimentar, conversas, rimos juntas, nem sempre
dá tempo. Não estamos sós, o pai está junto, dividimos
tarefas, criamos um sistema. Temos, afinal, nossa
ESTRATÉGIA (temos?). As manhãs são organizadas num

tempo conciso, e tempo de despedida: deixo-a no portãozi-


nho de sua sala catterpillar, abandonada saio eu
para meu playground da vida adulta, vida essa a ser
reinventada.

Eu sou daquelas que se permitiu estranhar ao máximo


na gravidez, deslocar e ouvir as sensações de um corpo
hormonoturbinado, hipersexualizado, e ao mesmo tempo
que sensível e frágil, forvte e mutante… E me permiti
continuar, da maneira como a própria biologia do corpo
continua, um estado de mutabilidade que se estende após
parir, percebendo incorporar-se em todo espaço atmosféri-
co da casa a mudança molecular da chegada de uma nova
pessoa. Como é que o mundo a recebe? Eu e seu pai acende-
mos a atenção extrema na sua dimensão pequena, na sua
delicadeza e imprevisibilidade, uma atenção que é
sobretudo i n t u i ç ã o . Com isso adentramos também a
comunidade-de-todas-as-cores de pais e mães que se

186
constitui ao nosso redor, e da qual passamos a ser como
membros natos, aprendizes e consultores de amigos que vão
entrando naquela mesma sensibilidade do mundo, eles
também tiveram bebê. Na dimensão pequena e misteriosa,
silenciosa e sem linguagem (são grunidos) daquele corpo
e realidade pequenos, de potência molecular, o que vai
ficando estranho, mesmo, são as relações de um “mundo
adulto”. Contrastam as tarefas, as responsabilidades (?),
os compromissos, os conteúdos. Saltam aos olhos os
sistemas de valoracão, comunicação e significação que
criamos. Com a chegada de uma filha, de um filho,
o mundo que reproduzimos nos percalços da vida como
naturalidade primeira (ainda que cada um na sua
cartografia particular), é subitamente freado, cortado,
interrompido.
((… Essa semana que entra o Davi faz 38 semanas. Já
tem o mesmo TEMPO do lado de fora que passou do lado de
dentro. A questão do tempo é muito doida, porque eu não
sinto que desacelerou… Eu me sinto teletransportada
mesmo pra uma outra temporalidade, específica dessa
nossa díade. Claro que a Hannah já ta maiorzinha, e a gente
acaba tendo que fazer um rehab pra voltar pro tempo da
vida da onde a gente foi radicalmente arrancada quando
nasce a cria. Mas tenho a impressão de que nunca vou
conseguir voltar com o CORPO todo…)) Algumas ques-
tões, dúvidas e enfrentamentos aparecem. Algumas
que assumimos, e outras que não assumimos (para si
ou para os outros ao nosso redor). A direção de
nossos movimentos no mundo anda tão concentrada
nos fazeres do TRABALHO que viver com a filha e
cuidá-la contrasta imediatamente com o que quer que
tenhamos hoje por trabalho, visto que, num crescente, o
trabalho se mistura ao tempo da vida. Trabalho imate-
rial, trabalho precário. Quando digo “trabalho” digo
uma mistura de trabalho com militância, um tipo de
produtividade que toma conta dos nossos dias, noites,

187
afetos, emoções, e que gera renda, mas que muitas vezes
também não gera renda. Quando falamos em trabalho
hoje em dia necessariamente falamos em precarieda-
de, visto que o emprego formal está em franca
derrocada, e muitas vezes os contratos temporários,
na verdade, se fazem valer da não regulação
trabalhista, sem a garantia de muitos direitos, ou
seja, na precariedade. Então aqui devemos levar em
conta — para equacionar com os pensamentos sobre
c u i d a d o que seguem no texto — sob quais condi-
ções trabalhamos, se somos auto empregados, se
temos emprego, se somos bem remunerados,
se esperamos um aumento, se tememos a demissão,
se criamos uma instituição!
Quero embarcar aqui brevemente em duas questões
ligadas a trabalho x cuidado. A primeira questão a perda
da autonomia do tempo, ou de um tipo de tempo (tempo
produtivo?), e a politização do trabalho doméstico;
a segunda a perda da certeza, de algumas convicções
em relação ao que se faz (relacionadas mais ou menos à
noção de trabalho, militância, etc). No final faço um
ensejo de como podemos pensar no cuidado dos adultos
eles mesmos, aqueles que tiveram filhos, e como pensar
na participação dessa assuntação nos nossos vocabulá-
rios cotidianos, e na reprodução de nós mesmos, de nós
mesmos mais ou menos como movimento.

A PERDA DO TEMPO, OU A IDEIA DE…


Embarcando na primeira questão: a dúvida se
coloca assim: se tomar conta da filha toma meu tempo,
como não opor a filha ao trabalho (aquilo que eu faço
para ganhar dinheiro) visto que preciso seguir trabalhando?
Essa oposição é simples demais, contudo, sobretudo
porque ela separa em duas dinâmicas o trabalho e a vida
com a filha. A inversão dessa oposição é exatamente a
raiz da mudança… Visto que o tempo do cuidado da

188
filha pode ser intensivamente lento, Nesse primeiro ano, me pego vendo fotos
prazeiroso e imprevisível, posso pensar antigas dos meus avós, tios, pais, minhas
então que o tempo, no cuidado, é mais e de meus primos, e vejo o quanto de vida a
de ordem subjetiva. (É porque o tempo nossa linhagem já caminhou, até chegar no
é lento que essa entrada-vocábulo s a i Davi, que carrega com ele coisas deles (e dos
demasiado devagar?) E o tempo da bisos, tataravós, etc) que eu desconheço.
produtividade do trabalho seria aquele E pisco, ele já está com 8 meses, engatinhan-
que eu posso controlar? Mais objetivo? do, ontem mesmo tava com cólica, choran-
Será? do… E começo a sentir nostalgia dele como tá
Ou a questão será colocar o tempo agora. Agora sinto saudade dele como tá
na perspectiva de sua produção? agora, porque não é possível frear esse tempo
Ou seja, o tempo atomizado da criança com ele, que às vezes passa arrastado, mas é
sempre vai contrastar e empurrar a implacavelmente veloz, que é próprio do
ideia de produtividade requerida pelo espaço de maternar. Centrífugo e centrípeto.
tempo do capital, tempo esse que por Tempo de átimo e não de cronos…))
sua vez, ao requerer uma implicação
da vida num tempo produtivo, ele … E O TRABALHO DOMÉSTICO
mesmo atomizado, por sua vez, com a Essa questão do tempo traz consigo
precariedade das condições de trabalho outra: a possibilidade de que uma remune-
e pelas novas condições do trabalho ração — o fragmentário e temporaliza-
imaterial que se torna toda uma questão do salário-maternidade, o salário social
de tempos descontínuos em cooperações ou renda mínima, ou a bolsa família por
virtuais. Cruzamentos… Ramificações… exemplo — seja o reconhecimento da
Desvios… Impossibilidades? função social do cuidar, o que se chama
((… Nem sei se eu vou ter TEMPO de te mundialmente de “trabalho doméstico.”
responder como eu gostaria. Acabei de A remuneração é um aspecto político da
conseguir colocar o tourinho pra dormir economia do cuidado, imprescindível
(depois de 1h e 30), que agora resiste resiste, numa realidade contemporânea em que
quer ganhar o mundo. Uma das primeiras o cuidado ainda não tem o espaço devido
impressões que tive foi que o Davi era um junto aos fluxos econômicos da sociedade.
marcador temporal implacável, trazendo Essa remuneração não dá conta, con-
ele pra esse tempo cotidiano capitalista. tudo, e talvez nunca vai dar, de aquietar
Mas ele relativiza esse tempo o tempo todo, a questão da percepção e da produção do
porque simultaneamente me leva pra eras tempo no cuidado. Me refiro aqui não
e eras ancestrais (primitivas, genealógicas, tanto ao cuidado como profissão, o trabalho
genéticas…) e de salto eu já estou no futuro. feito pelos cuidadores, mas à percepção

189
do cuidado como ocupação primeira dos vestígios da temporalidade ordinária nesse
pais e mães, nas relações familais. corpo materno ainda deformado. Esse: “vem
Será que receber algum tipo de remune- pro átimo que eu quero mamar, mamar e
ração (uma licença maternidade, por crescer, mamar sem pensar no amanhã,
exemplo) acomoda de alguma maneira, no ontem, ai que delícia”. … E esse discurso
por um tempo, o conflito que uma mãe patriarcal, que separa a temporalidade
e um pai podem passar, ao liberar seu trazida pela criança do corpo da mãe e do
tempo (de trabalho) para a rotina de mundo ordinário, de onde ele vem? porque?
intuição e cuidado? pra que serve? … (Ai, tenho que fazer a
Observando o aspecto subjetivo do mochila do Davi pra sair, tomar banho,
tempo do cuidado, cada mãe e cada pai separar a comida, etc) … ))
tem que encontrar a maneira suave Então há a licença maternidade,
como a passagem de um a outro se dá e quando há, o trabalho doméstico
(do cuidado ao trabalho), a transição remunerado regulamentados diferente-
de cuidadores primários de seus filhos mente em cada país (ou ausentes, no caso
para (voltarem a ser) trabalhadores do segundo, no Brasil), e há tambem
num mercado (ainda que precário) de o trabalho “de rua”? O trabalho como
trabalho. Há diferenças nessas tempora- instrumento/ferramenta de sociabilida-
lidades, e elas dependem também da de e participação em redes, relações,
situação econômica de cada configuração contratos, vínculos…
familiar. Mundialmente o cuidado é atividade
(( … (pausa pra dar de mamar) Toda vez relegada às mulheres, na grande maioria
que eu tô acoplada no Davi, ou ele em mim, dos casos. Seja o cuidado dentro de rela-
especialmente quando fico com o corpo ali e ções parentais e familiais ou o cuidado
a cabeça nas trocentas outras coisas do como trabalho (cuidadores, enfermeir-
tempo cronológico ordinário, eu escuto a xs, professorxs, cuidadorxs de crian-
voz que ele ainda não tem me dizendo: “vem ças…). (Lá em casa é um pouco diferente…,
mamãe, se entrega aqui comigo, olha como ou seja viemos construindo uma relação
é gostoso e quentinho aqui, fica aqui, aqui e em que o cuidar é tarefa amorosa de
agora.” … Voltei a pensar no corpo. Nessa ambos, pai e mãe, mas isso é outro
temporalidade outra da existência infante parêntese.)
que em três meses cronológicos tem um O cuidado, a criação dos filhos, foi
corpo que dobra de tamanho (nunca mais politizada enquanto trabalho por lutas
nosso corpo passa por isso, olha só a Alice feministas que apontaram: se o capita-
aí). Não é à toa que esse momento é muito lismo se beneficia desse cuidado, dessa
aflitivo para as recém paridas, ainda com procriação e consequente criação, visto

190
que eles serão também “força-trabalho”, matriculadas e frequentando escola,
o cuidado das filhas e dos filhos é também recebam vacinação, tenham acompa-
trabalho, porém não remunerado! nhamento médico até 7 anos de idade,
Das lutas feministas por uma valoração não trabalhem, e no caso de grávidas
social do cuidado surgem as demandas que façam acompanhamento pré-natal.
por uma remuneração direta, estatal e Ainda que uma perspectiva feminista
por benefícios por se ter filhos, e ponto. não seja muito conferida aos benefícios
Aqui gostaria de separar o benefício da do Bolsa Família, acredito que o progra-
licença maternidade (depende no Brasil ma deva ser compreendido também na
de contribuições já feitas à previdência perspectiva da luta das mulheres (e dos
social) por um (projeto de) salário social cuidadores), visto que é um benefício que
(não deveria depender de contribuições incrementa a renda da família para
já feitas)1 ou ainda do benefício por cuidar dos seus filhos. Segundo pesqui-
filho. Na Inglaterra por exemplo o sas recentes, o programa tem caráter
benefício por filho se chama “child care emancipatório para muitas delas, que se
credit”, e pode ser recebido até 18 anos sentem encorajadas a se libertarem da
de idade. O benefício se destina à trama familiar, quando poderiam estar
provisão de bens que a criança demande presas em relações que já não querem
na sua pequena existência, até sua (muitas mulheres se divorciam, por
puberdade e adolescência, comida, exemplo), e são estimuladas a cuidarem
fraldas, roupas, remédios, lazeres, … mais de si. Ou seja, nos casos em que o
No Brasil o Bolsa Família foi criado homem representa a fonte de renda
com o objetivo de beneficiar famílias financeira primária, o incremento do
abaixo do nível de pobreza e em nível de Bolsa Família encoraja as mulheres
pobreza, cuja renda familiar não ultra- a tomarem o rumo de suas vidas, quando
passe os R$ 154,00 por pessoa, provendo antes poderiam depender da confusa
recursos mínimos para garantir a relação amorosa misturada à depen-
alimentação dessas famílias.2 A contra- dência econômica. 3 Em outras situa-
partida é que todas as crianças da ções, em que o homem já não está
família em idade escolar devam estar mais em casa complementando renda
(porque muitos se separam e vivem
1  Tramita no Congresso Nacional brasileiro um projeto
de lei para a Renda Mínima, um salário social. sozinhos, sem a responsabilidade de
2  O programa Bolsa Família existe no Brasil há dez cuidar das filhas e dos filhos) as
anos. Hoje em dia cerca de 20,6 bilhões (0,5% do PIB)
de reais são pagos a 14,1 milhões de famílias (o Ministé- 3  Entrevista com Walkiria Leão Rego, que publicou um
rio do Desenvolvimento Social estima o benefício direto livro junto a Alesandro Pinzani sobre o Bolsa Família
de cerca de 50 milhões de pessoas). (“Vozes do Bolsa família”, 2013)

191
mulheres também são beneficiadas corpos, que evita mesmo o contato íntimo
pelo recurso, mas o valor do benefício entre pais e filhos (e velhos moribundos,
não remunera, de nenhuma maneira, e doentes, e loucos). Evita a presença deles
o tempo do cuidado dedicado por elas no espaço cotidiano. Segrega. Fico pensan-
no crescimento dos filhos, visto que é do naquelas imagens antigas, algumas até
um valor extremamente baixo, e não recentes, das mães trabalhando com seus
configura uma renda mínima. filhos pendurados, de boa, lavando, colhen-
A maternidade nos seus começos, do, plantando, aboiando… Acho que o corpo
é assistida, para aquelas que tem emprego desvitalizado e congelado, moldado para
formal, por uma curta licença maternida- um trabalho cada vez mais estático (no
de de quatro meses. (O pai tem licença corpo, não na cabeça) é incompatível com
de uma semana!) Esse seria o tempo a potência de vida de uma criança. Taí as
para cuidar de nossos filhos, sem milhões de vistas da galinha pintadinha
trabalhar, e preparar-se para a dolorosa comemorando não sei quantas crianças
transição de terceirizar o cuidado! quietinhas. 1 O trabalho estático no corpo,
Os quatro meses, por sua vez, não fecham mas não na mente, também é incompatível
com os seis meses de amamentação com essa temporalidade átmica da criança,
exclusiva recomendados pelo Ministério sem passado nem futuro. pra gente é muito
da Saúde. O que não faz muito sentido… dfícil morar nesse eterno agora. … ))
Mas muitas mulheres conseguem nego- Ora, sabemos que a falta de benefício
ciar isso com seus empregadores, e ficam para o cuidado ou a precária remuneração
mais tempo em casa. Mas muitas, muitas é reflexo de uma série de modos culturais
mudam de planos… E colocam em arraigados e naturalizados, que se
questão o modelo anterior de trabalho baseiam na divisão dos tipos de trabalho
que tinham. que homens e mulheres fazem (e o salários
((… Fiquei pensando também na questão diferentes que recebem), na crença da
do corpo nesse jogo, que é o espaço onde ele naturalidade do cuidado como coisa
é jogado. Logo que a gente começou a feminina. Esse ponto é um dos mais impor-
passar os perrengues de cólica (acho que tantes para as lutas pela legalização do
bem antes até, quando tava contraindo, aborto, visto que socialmente o cuidado é
antes de parir, e tive que ficar de repouso) entendido como uma continuidade
eu me liguei que a dor trazia o corpo pra inquestionável do ato de gestar e parir.
esse agora infinito. Lembrei da Laura Quantas de nós já abortaram ou evitaram
Gutman nesse livro “Amor o dominación, ter filhos pelo temor de não conseguir
los estragos del patriarcado”. …Não sei
1 http://vilamamifera.com/mamiferas/a-galinha-pinta-
bem se o trabalho não está englobado dinha-e-a-crianca-quietinha/
numa estratégia maior de dominação dos

192
conciliar o cuidado com o trabalho? como lutar sem entrar em conflito com
Pelo medo de não conseguir ou por não aqueles que amamos? (Falarei disso
conseguir mesmo ter condições financeiras mais adiante.)
de cuidar de uma criança? Por temer
reproduzir a sociedade machista enquan- A PERDA DO SENTIDO. HAVIA
to tal em que o cuidado está relegado UM ANTES?
determinantemente às mulheres, e que A outra coisa que pega que é: faz
portanto deixa a mulher em condições sentido? Fazer as coisas da maneira
de trabalho menos favoráveis? Aliás: como se fazia?
quantos abortos mal sucedidos são Desde o começo eu resisti em não
necessários para mudar as condições colocar a filha de um lado (a vida com
sociais do abortar? Para legalizar o ela, o cuidado), e o trabalho. Isso quer
aborto? dizer que quando eu pensava em traba-
Silvia Federici, feminista italiana conta lho eu pensava em algum tipo de movi-
como as feministas dos anos 70 apreende- mento, de fazer, que, menos do que
ram que compreender o “trabalho reproduti- pudesse incluí-la, pudesse se fazer
vo” no regime da exploração (o capitalismo com ela. Ou seja, em que ela estivesse
acumula também em cima disso) permitiu o presente, conferindo sentido àquilo.
reconhecimento de uma luta comum das Mas não sabia bem o que nem como…
mulheres: Organizar uma residência-projeto para
“Uma vez vimos que ao invés de repro- artistas-etc com filhos? Talvez…
duzir vida nós estávamos expandindo a É claro que quando se começa a
acumulação capitalista e começamos a questionar isso, se está questionando o
definir trabalho reprodutivo como que é que entendemos por trabalho e com
trabalho para o capital, nós também o que é que nos comprometemos em um
abrimos a possibilidade de um processo mundo capitalista-produtivista em que
de recomposição entre as mulheres.” 2 cada vez mais o produzir toma espaço.
O cuidado reconhecido como um Então arrisco uma definição que
trabalho, como uma ocupação que serve expressa, na verdade, a raiz precária
à sua maneira à COMPLEXIDADE de um da minha experiência de trabalho:
sistema de produção/reprodução, qualquer atividade que traga remune-
acaba se tornando o t e r r e n o d e ração, não necessariamente que se
l u t a , usando as palavras de Federici, tenha como profissão, que construa um
e esse terreno de luta se estende às vidas comprometimento com algo que é ligado
daqueles que cuidamos. Ela pergunta: ao que se compreende como trabalho em
2  Silvia Federici, Precarious Labor: A Feminist
si, mas que se conecta numa linhagem de
Viewpoint.

193
ações e regularidades, que mantém aceso descobrimos quase-inata em nós,
um certo vínculo, seja com as institui- que tiramos da caixola, da cartola,
ções com as quais nos associamos, as que vestimos quando seguramos a filha
parcerias, a participação na atualida- no colo, quando sentimos seu cheiro
dede de um debate, os discursos e que ativa nossos hormônios mamários.
posições que adotamos. Pois bem, na Para outros essa quebra não acontece
mudança de sentido das coisas, é essa tão claramente, e a filha ou filho entra
ideia de r e g u l a r i d a d e que se mais rapidamente na composição de
quebra quando um filho ou filha nasce um mundo mais perto eu diria de um
(ou mais de um!). Essa é definitiva- “como era, como eu fazia”. Ou é que
mente uma quebra no sentido de um aquela zona de atravessamento graví-
fazer que poderia estar muitas vezes dico eu diria, de intensidades hormo-
automatizado, tecnicizado, dessubjeti- nais, dura menos e é enquadrada
vado. Vou deixar umas perguntas também na temporalidade da produ-
soltas, sobre o sentido do trabalho: ção. (Ai!) Cada uma de nós vive uma
para quem e para o quê eu trabalhava? configuração diferente, ora similar, de
o que eu fazia? como me mexia antes?; retorno ao ritmo de trabalho depois de
ou com que velocidade, com que dedica- parir.
ção, com que efetividade, com quanto A filha o filho ao desprogramarem o
de mim?… sentido das coisas, pedindo intuição e
A noção de continuidade é quebrada cuidado, demandam também o desco-
pois a temporalidade do filho é caotica- brir, o inventar, o brincar, … virar ao
mente outra, e isso reflete os sentidos que avesso, sujar, desfazer, rimar, mimar,
ela ou ele forçosamente vem sacudir. molhar, montar, desmontar, destruir…
Cada um ou uma de nós percebe isso E olhar bem bem de perto. Estressar ou
distintamente, claro. Para quem se intensificar o tempo do cuidado me
conhece de um jeito, a quebra vem parece que é parte da resistência ao
destituir uma série de convicções. nivelamento de nossas ações num
Acredito que essa quebra acontece tempo único e produtivista, é parte da
porque o que aparece é i n t u i ç ã o como pluralização dos tempos, e da recompo-
a chave do cuidado. A intuição como sição, ou de uma inclusão, como diz
um tipo de escuta, um cuidar com, que Federici, na luta por uma libertação
requer tempo para entender modos e das amarras do mundo pré-concebido
ritmos… Um imensamente-cuidado, essa da produtividade do capital do qual as
aproximação-atenção e fusão quase-orgâ- filhas e os filhos não precisam automa-
nica e por vezes quase-estrangeira que ticamente fazer parte… Um arco

194
grande, mas vamos lá. mãe-que-trabalha ficamos pescando
((…E sim, acho que isso tudo tem muito a sapo, comendo mosca, movendo-se sem
ver com o cuidado. E acho que trazer tudo saber por onde. Aqui apareceu para
isso de volta pro corpo, prum corpo hipera- mim algo importante: a recomposição
fetado e atravessado pela temporalidade da invidualidade faz parte da materni-
infante é sim revolucionário. A micro-revolu- dade/paternidade, visto que não é um
ção que eu escolhi me engajar. … No abandono da filha, e é o cuidado em si
1
Mignolo que eu te mandei, a simples de si, que tampouco é diretamente um
existência infante já é por si só uma “voltar ao que se era” (como eu resisto
desobediência epistêmica radical.)) a essa imagem!).
…uma desobediência epistêmica Exemplo disso: em Londres a artista
radical Andrea Francke transformou, como
parte de seu trabalho final de Mestra-
INDIVIDUALIDADE E do, a galeria da faculdade de artes em
REPRODUÇÃO DO MOVIMENTO uma creche. Um espaço aberto portanto
Voltando ao relato da minha experi- aos pais e às crianças. Queria eu que
ência, nos primeiros tempos em que a essa creche seguisse disponível, como
coisa foi pegando, em que já não podia espaço de pesquisa e de produção, em
procrastinar o fato de que estava na que potencialmente pudéssemos
hora de trabalhar (de recuperar algo compartilhar nossas questões mater-
dessas linhas de continuidade, de nais? (E materiais!) Preocupação:
vínculo, que nunca se perderam, mas ainda que radical a proposta, eu não
que definitivamente se enfraqueceram, poderia, por exemplo ancorar naquela
era hora de fazer dinheiro) eu produzia vivência a produção do que me cabe
uma espécie de estresse incontrolável. agora, minha responsabilidade, minha
O estresse vinha de tentar evitar a auto-exploração, minha “contribuição
sensação de negar, por não poder estar ao conhecimento”, meu doutorado.
com a filha por ter que trabalhar, como Eles dependem de um certo isolamento,
se eu tivesse negando ela mesma… e dessa ressignificação-recomposição
O estresse e o sofrimento que surgiu em curso.
teve que assumir uma individualidade H a n n a h . Eu só escrevo porque ela
necessária. Afinal, na interrupção de está longe de mim, na creche, outro
um modo de ser em vias de recomposi- lado da rua (ou ali dormindo, sono bom
ção nessa transmutação para uma de criança a crescer). Se escrevo junto
com ela escrevo outro texto. Fazemos
1  Walter D. Mignolo. Desobediência epistêmica.
A opção decolonial e o significado da identidade em
desenhos e desenhos, bolinhas, pontinhos,
política.

195
perseguimos linhas, e around e around. O comum, por sua vez, não pode ser o
Se faço carinha, ela já completa com comum só-dos-que-tem-filho. Como
pernas e braços, e boca, se não tiver. informar, como passar, como recompor
E cabelos, como dizcabêêêlo! o mundo dos-que-tem-filho com o
Quando escrevo, escrevo junto com mundo dos-que-não-tem? Será que é
ela aqui, como parte da minha realida- dessa maneira que o problema se
de, claro. Quero escrever junto com ela, coloca? Ou é mais como fala Federici,
com ela em mim, mas temo que escrevo uma capacidade de colocar em linhas
para o mundo adulto, esse mundo de libertação e composição social um
estranho, esse mundo cuja seriedade modo de reprodução social (todo
me faz rir. A filha vem de um hiperínti- movimento precisa encontrar a manei-
mo, um hiperjunto, e ajuda a estranhar ra de se reproduzir, diz ela). Politizar a
o mundo, com o qual copulo depois; maternidade e a paternidade, nesse
mundo com o qual me identifico, e que sentido, é um trabalho vocabular,
também desejo. Voltando àquela depende de muita conversa, depende de
recomposição, percebo que o cuidado, muita troca. Depende de abrir frentes
portanto, não é só com a filha, mas com com o mundos alheios vizinhos, as
a mãe e o pai nessa nova passagem de outras forma de copular e de familiar,
mundo, com o mundo que se recompõe. de lesbicar, de prostituir e de multipli-
Da mãe se fala bastante da depressão car. Depende de fazer cuidar, de fazer
pós-parto, esse mistério que não está pensar no cuidar. Mas como? Num
nas calçadas, que é calcado aos espa- estado de mundo em que tudo se
ços íntimos, e ao indizível, visto que se acelera, não sei se é possível não se
torna indecifrável se não assumimos a posicionar e dizer, olha, a temporalida-
dimensão mágica e espiritual da de aqui é outra. E não só tempo linear
maternidade. Mas e depois, como (como dito antes, para que não sejamos
cuidamos uns dos outros, pais, mães, escravos da produtividade), mas a
crianças? Seguimos… A economia do produção do tempo e a função ou a signifi-
cuidado na luz do dia se torna um cação da produção ela mesma. A filha
diagrama a puxar linhas e linhas de muda molecularmente o mundo porque
subjetivação, friccionando superfícies ela está junto também nessa nova forma
de singularidade, abrindo companhei- de ver o mundo, ela é processo estético,
rismos num comum (aquela comunida- estetizante, ela desacelera a produtivida-
de imprevisível de pais e mães, e avós, de de um por fazer, e repolizita outras
e tios, e cuidadores, claro). urgências. Quando se diz que é tempo de
A gravidez, assim como a maternidade e cuidado, é tempo de endereçar (e soltar)
a paternidade são, afinal, coisas ordinárias. uma produção do mundo.

196
Um chamado a recompor a estética de um mundo
(político, sobretudo), do que faz parte fazer/trazer
esse texto para cá: vocabular, brincar, vocavulvar,
vocavular.

Vou buscá-la no final da tarde na creche. Meu corpo


atravessado pelas leituras, pelos mundos que me
desvelam e me desconstroem, fica meio desconcertado.
Acho que vivemos como pais uma constante reintegra-
ção e desintegração da identidade… Na porosidade dos
movimentos adultos que me constituem, o movimento
de ir buscá-la acopla e desacopla pedaços sem nunca
dar tempo de lavar tim tim por tim tim cada anotação
feita. O dia faz-se fragmentado. O corpo também.
E de alguma maneira essa emoção de tê-la silencia
tantos outros atravessamentos! Já não me importo.
Descortina-se de novo o mundo adulto… Encontro seu
corpo pequeno e aparentemente frágil, ora mais feliz
e suado, ora mais saudoso e manhoso. Ela me leva para
o buraco do coelho (coisa que encontramos no gramado
ao lado do jardim da creche). Enfia o pé no buraco.
Eu evito não dizer o que me vem logo à boca: “cuidado
com a cabeça do coelho!”, ela, afinal, não teme pisar
nele ou numa minhoca. Ali mora a touperia, ela diz.
Ela quer ver a toupeira! I wanna see the mole! E sorri.
Vou buscá-la no movimento integratório puzzle like que
não consegue complementar uma coisa e outra, mas que
vai me encontrando de novo com ela no caminho — eu me
encontrando comigo e com ela — , diante de outras crianças,
cuidores, pais. A filha puxa um fio terra-coração, e devires,
e devires… Quantas das minhas inseguranças, das minhas
dúvidas incompletas silenciam não porque perdem o
sentido por completo, mas porque ganham outra configu-
ração no cuidado que ela me traz, como parte da suavida-
de mesma de sua pequena existência?

197
Referências:
Federici, Silvia. Precarious
Labor: A Feminist Viewpoint
(2008). Variant e The Journal
of Aesthetics and Protest.
http://www.variant.org.uk/37_
3 8 t ex t s / Va r i a n t 3 7 . h t m l # L 9

Federici, Silvia. Feminism And


the Politics of the Commons.
(2010) T h e C o m m o n e r. o r g

Hirata, Helena; Laborie, Fran-


çoise; le Doaré, Hélène; Seno-
tier, Danièle. (org.) Dicionário
Crítico do Feminismo. (2009)

La Célula Armada de Putas


Histéricas. Primer comunicado
de la Célula Armada de Putas
Histéricas
vimeo.com/91641696
diagonalperiodico.net/
andalucia/23274-la-briga-
da-informacion-como-mor-
tadelo-y-filemon.html

Precarias a La Deriva. A la
deriva por los circuitos de la
precariedad femenina. (2003)
Madrid: Traficantes de Sueños

SOF – Sempreviva Organização


Feminista, Cuidado, Trabalho
e Autonomia das Mulheres
(2010). Cadernos Semprevida.

***

198
199
200
STEFFANIA PAOLA Facão, e com a missão de proteger as
mulheres do Capivari dos constantes
JUSTICEIRAS DO CAPIVARI
casos de violência da região.

(CAPIVARI, JUSTIÇAMENTO CONTRA O


DISTRITO DE DUQUE DE CAXIAS, OPRESSOR/ JUSTIÇAMENTO COMO
BAIXADA FLUMINENSE, ESTRATÉGIA DE DEFESA
REGIÃO METROPO LITANA DO RIO CAPIVARI, 1999:
DE JANEIRO, 1998) Milene Souza de 8 anos é violentada
Priscila Silva, de 8 anos, desaparece e morta também a caminho do colégio.
a caminho da escola. Apesar dos apelos Com a morte de Milene, o grupo
constantes da família para que a muda a sua forma de ação e reúne mais
polícia procurasse pela criança, nada é mulheres. De 5, o grupo passa a contar
feito. O pai de Priscila resolve então com 20 mulheres, e assume uma
recorrer a Dona Ilda, liderança comu- postura mais dura. Daquele momento
nitária e antiga moradora do bairro. em diante, as Justiceiras passam a
“Fui procurar sozinha no mato… nos andar armadas com faca, facão, foice,
brejo… no caminho que ela passava pra espada e pedaços de pau. Queimam
vim aqui pra estudar… aí acabei achan- mato, abrem caminhos e vigiam a
do ela morta no mato, já decompondo a região.
menininha pequena, magrinha. Peguei “Se acontece alguma coisa a gente
a menina lá no meio do matagal e logo aparece. Uma liga pra outra, reúne,
trouxe para a rua e aí chamei a polícia junta tudo, foice, machado, enxada e vai
pra levar o corpo e chamei a imprensa atrás, prende, tortura e até mata.
toda.” Eles pergunta se mata eu falo que mata.
Priscila foi violentada sexualmente Só não falo quem e quanto já matamo.
e depois assassinada. O trabalho das Justiceiras depois foi
Após esse caso, Dona Ilda resolve esse: levar criança pra escola, limpar o
reunir mulheres para capinar ruas e matagal. Agora não que está tudo calmo
roçar os matagais próximos ao colégio, e a gente não tá vendo nada porque é
acreditando que essas ações poderiam férias nos colégio. Mas tá voltando e
dificultar a ação de potenciais estupra- quando volta você pode vim aqui e vai
dores. Surge então as chamadas “Justi- ver duas, três mulher nesses mato
ceiras do Capivari”, lideradas por Dona limpando mas elas tão mais mesmo é
Ilda, que depois passou a ser chamada vigiando as criança e vendo se tem
também de Ilda Furação ou Ilda do estranho na área.”

201
A nova forma de ação, no entanto, Além das armas, todas as Justicei-
funcionava mais como uma estratégia ras andavam com lenços cobrindo o
para intimidar potenciais estuprado- rosto, sendo Dona Ilda a mulher mais
res e homens que espancavam mulhe- conhecida do grupo. Em razão dessa
res, do que como possibilidade real de exposição, ela acaba sofrendo, a
uso das armas. Dona Ilda acreditava princípio sozinha, as consequências do
que para chamar a atenção tanto do seu protagonismo.
povo da região, quanto da imprensa e Com o crescimento demográfico do
do Estado, era necessário criar uma Capivari, novas pessoas ocupam o
imagem das Justiceiras. bairro e o tráfico de drogas começa a
“Se eu apareço normal na imprensa atuar na região. Apesar de Dona Ilda
igual você tá me vendo, preta, 1,60 m, manter uma relação amistosa com os
quem vai ligar? Agora armada com a novos ocupantes — “Eu por exemplo
foice e o facão e vestida de roupa não sou amiga nem inimiga” — a
diferente, dá Ibope. […] de verdade no disputa territorial se torna inevitável.
início eu tava revoltada e queria matar Quando tentou proteger o que ela
mesmo, mas depois que a gente resol- chamava de “sua gente inocente” do
veu tudo eu esfriei o sangue e voltei ter “envolvimento com as drogas”, e
a ideia de andar certo para não perder impedir a ação dos traficantes nas ruas
o nosso direito. De verdade matar… eu próximas ao colégio, Dona Ilda recebeu
não vejo como sujar a mão com sangue sua primeira ameaça de morte, feita
de bandido. Deus fez, Deus leva.” por outra mulher, a traficante Meriná-
Do surgimento do grupo em diante, a lia de Oliveira, a “Índia”, que domina-
região do Capivari sofre mudanças na va o tráfico na favela “Vai quem quer”.
sua dinâmica, muitas delas provoca-
das por Dona Ilda e as Justiceiras. CAPIVARI, FEVEREIRO DE 2005:
O número de casos de violência contra Maria de Jesus, de 73 anos, desapa-
a mulher cai substancialmente no recida.
período de atuação do grupo. O delega- Dona Ilda sai em busca do seu corpo
do da 60º DP, de Campos Elíseos, e o encontra em um matagal. Mais
revelou que antes de 1998 os casos de tarde, é sabido que Maria de Jesus foi
violência sexual e assassinatos de morta por um traficante que lhe devia
crianças e mulheres em Capivari eram dinheiro e, ao ser cobrado, ele a matou.
pelos menos dois a cada mês e que O caso é relatado à Polícia e a partir de
entre 1998 e 2004 os casos baixaram então Dona Ilda passa a ser vista pelo
praticamente para zero. tráfico como delatora.

202
*Conheci a história das Justiceiras do Capiva-
ri através de uma das integrantes do coletivo
PaguFunk, um grupo autônomo de mulheres
funkeiras que transmite através da cultura
funk uma mensagem feminista sobre o coti-
diano das mulheres nas favelas e periferias.
Depois iniciei uma pesquisa pessoal sobre
grupos de resistência formados por mulheres.
Nesse processo (em curso) conheci o traba-
lho do Linderval, pesquisador que estudou
profundamente líderes comunitários e líde-
res comunitárias da Baixada Fluminense.
Todas as falas citadas no meu texto foram reti-
radas de entrevistas que ele fez com Dona Ilda e
que foram publicadas no artigo abaixo indicado.
As pesquisas de Linderval foram também a
principal fonte para a escrita do meu texto.

MONTEIRO, Linderval Augusto.


“A trajetória de Ilda do Prado Lameu: di-
namismo popular e cidadania em uma
periferia do Rio de Janeiro”. Disponível
em: https://e.sarava.org/donailda.

Curta-metragem sobre “As Justi-


ceiras do Capivari”: Disponível em:
http://youtu.be/49pUMIPABBY.
CAPIVARI, 9 DE MARÇO DE
2005: PaguFunk: Disponível em: https://
Dona Ilda do Prado Lameu, 58 anos, soundcloud.com/pagufunk.

é assassinada no portão de casa com 5


tiros. ***
O grupo das Justiceiras do Capivari
se desfaz. Muitas mulheres do grupo e
também parentes de Dona Ilda fogem
do Capivari temendo represálias.

203
LUGAR
Lugar
Inês Nin

INÊS NIN

LUGAR

1. se existe alto e baixo, direito e


esquerdo, frente e verso, existe um lugar.
2. se onde havia uma coisa e existe agora
uma outra, existe um lugar. 3. se há um
corpo, há um lugar. 4. se cada corpo está
situado em um lugar próprio, existe um
lugar.
[sim, aristóteles. recorrer às bases,
mesmo que as sobrescreva depois.]

204
artefato. povo construído. lugar para os estoicos, o problema do lugar
errante. está ligado ao problema do movimento.
de imensidão só lhe restam as botas, um lugar é concebido pela transição dos
de tantas viagens por aí que gastas as corpos que por ele passam. tal como em
lembranças fico, paro com o intuito de aristóteles.
me recompor. ()
imaginar um terreno que não seja delimitações. um lugar é um interva-
matéria de composição mas desastre, lo? uma posição.
atraso, atalhos mesmos que furtivos territorialistas dirão, este é o meu
só guardo em memória. as técnicas lugar. distinção por entraves, catracas,
de sobrevivência variam tanto. limites desenvolvidos arbitrariamente,
o lido com os lugares, o tratamento, gerando a noção de propriedade. lugar
o embate cotidiano e as danças. tem dono?
é de madeira o chão, telhado inclina- diria a terra. um pedaço de terra,
do, construído com as próprias mãos. um lugar. matéria pura, compreendida
prever o mínimo de interferência no em consonância com o que há em volta.
ambiente, de verdade. floresta quando música. estrutura, movimentos sistêmi-
penetra a casa e transforma ela mesma cos que cumprem rotas em variação,
em um labiríntico desafio que traz caminhos, danos, elevação. cíclicas
conforto, diverte. põe para secar ao sol o voltagens, antes mesmo de construir.
que sobrou de antemão, enche de água o do limite surge o referencial. talvez,
que se quer cultivar. observa. de um terreno preciso. para ele são

205
traçadas rotas, mapas, são criados
mitos, memórias. formam-se famílias,
redes e articulações organizadas por
sistemas de parentesco, continuidades.
talvez então isso: ao invés de cercas,
noções de assimilação em grupo. conti-
guidades, modos de fazer e habitar.
um dia, emitem um protocolo, pisam
em qualquer noção de hábito, mesmo
cuidados. alheios são aqueles, os que
não decidem os rumos do lugar. montan-
tes outorgam demolição do terreno,
inventam de substituir as construções.
dizem: “é a modernidade!”. desproposi-
tadas ferraduras, racham o chão.
os sem medo, enfrentam. “é por uma
noção de pertencimento, pelo direito que
chutam a pontapés. e onde construir,
então?” umas vidas. uns sossegos. uns
hábitos, que elétricos, flutuam. atraves-
sam paredes, rompem territórios,
emanando flores por onde passam.

***
206
MANIFESTAÇÕES
travesti
Inês Nin

Manifestações do ciclo de Junho, repressão na


favela e ditadura
Davi Marcos

INÊS NIN

TRAVESTI

travesti é amor. aqui, outros nomes, naquela rua perto do estádio, encurra-
uma apropriação. mídia travesti de asi- lados no próprio quintal de casa.
nhas de fora, se faz amiga, quer assaltar ninguém entende o assunto em voga,
as máscaras de multidão. violência de há tanta confusão.
estado corrompeu nossas ruas. contação de voz em voz uns tentam pintar as
de alertas, gente no chão: pensamen- cores todas de verde e amarelo, as
to difuso, escreve-se para fagocitar os janelas de inferno, as lutas de brinca-
termos, desentranhar os caminhos por deira e então desvalorizam o todo, a
entre as nervuras do acontecimento. própria multidão. em processos,
recessos e mistérios, porque são
derivaceleste: muitos e mil-ações.
saber emaranhar os acasos nas não tem jeito de cessar o grito
estranhas lágrimas provocadas pelos porque vem de longe, de muitos,
anteriores. muitos anos, adormecido que estava
o medo, a sede, a luta e o sossego se nos pulmões de tantos, expelido enfim
contaminam uns aos outros até não por aqueles que puderam se manter
existirem mais. vivos de alguma forma. e não é caso
não há permutas, marmotas, de impeachment, sem surto. isso é
percepções inertes ou qualquer outro tudo lorota turva, e muito simples,
sentido além daquele visível, ainda um caso de apropriação:
que tão turvo, paspalho: (explicaremos primeiro a oposição)
serão neves, tudo ao inverso. ou reacionário (adj.) é aquele que é
talvez não, coisadura. não serão contrário a quaisquer mudanças (sociais
fascistas a nos buscar nas casas, e/ou políticas); que se opõe à democra-
senhora no batente, senhor na multi- cia; antidemocrático. sinônimos:
dão (infame ilógica inerte que perdura). antidemocrático, antiliberal, retrógrado
enxame de refugiados na tijuca, e ultraconservador.

207
(nada como um be-a-bá das curvas) sabe ao certo de crença forçação velada
tampouco nos iludamos com o liberal em crer num sistema de números,
(s.m.), isto é, aquele que é partidário da morfemas, eixos temáticos e não se
liberdade em matéria política ou sabe ao certo e nunca em quem votar
econômica. no plano econômico, é um – requisito infame de uma política de
perspicaz enganador, astuto defensor delegações.
das desigualdades e do dinheiro no hannah arendt diz que quando há
bolso dos indivíduos (sic) de bem. autoridade, não há ação política: o
nenhum deles representa um períme- poder de agir, nesse caso, é outorgado
tro maior que o próprio umbigo. talvez, ao governante ou pequeno grupo que
e digo sem muita convicção, sejam governa. pois então expliquemos, para
capazes de estender algum apreço a fazer frente os confusos, gente que
familiares e uns poucos semelhantes, confunde totalitarismo com revolução
pelo puro louvor conferido à família e a (soa surpreendente, mas vive-se num
propriedade, ambas instituições tão mundo de disfarces, e nem é tão nova a
intimamente conectadas. comparti- ideia)
lham regras, egoísmos e convenções. desacredita no sistema em ritmo
campo minado! acabaram nossos contagiante de alienação // os espaços
montes, direi. poderia ser – a crise já abertos são ricos em propostas e
se estende por tanto tempo que mal é experimentos // há aqueles (e são
possível morar na cidade, e então muitos) que procuram lideranças/
lembramos de tantos problemas desejam lideranças/querem depor o
interestaduais e tão mais antigos: lugar // me pergunto se precisamos
a polícia militar. de lideranças em qualquer lugar //
(militar é um órgão capaz de elimi- o plural é importante // não se trata de
nar todos os outros, e, por isso mesmo, verde e amarelo // bandeiras verme-
deve ter sua existência sumariamente lhas representam grandes articulações
questionada) coletivas por direitos sociais, nunca se
e e n t ã o o s b o n d e s , a s c o r e s . os trios esqueça disso // mídia golpista, que
elétricos que se não estivessem cerca- termo sensacional // veja, minhas
dos de tantos políciais (e nunca máscaras foram usadas por outrem //
entenderemos tantos policiais) seriam ela foi às ruas e não sabia porquê //
carnavalescos, polivalentes quaisquer- os discursos mudaram e continuou
-uns com tanto orgulho de enfim seguindo a marcha // mudaram o rumo
existir. s u a m a n i f e s t a ç ã o n a d a m a i s é q u e u m a e alguém ficou?
a f i r m a ç ã o d a p r ó p r i a e x i s t ê n c i a . decidem ter aqueles que pintam de branco são
voz. depois de tanto tempo que não se aqueles mesmos que desejarão elimi-

208
nar todos os que não puderem se vestir coisa, se a fifa pode, se os donos podem,
da mesma cor. se a tevê pode, se o jornal quer conven-
você quer ser eliminado? ou espera cer a sua mãe do nosso vandalismo,
obter uma fatia do bolo? então sim, somos todos vândalos,
política de recortes, de cartas vândalos venceremos, vândalismo vão
marcadas, de confusão. publicidade, de caminhar na rua, correr do gás, cair
política de imagens, vote no cara legal! no chão..
os códigos binários e seus comandan- curioso notar que as bandeiras do
tes esperam somente respostas de começo eram pelo pleno direito de
sim-ou-não, são surdos de formação. no circular – de andar! pois se cortam as
ministério das cartas altas, há interfa- pernas e cobram caro pelas próteses,
ces e intermeios, ideias que protegem cobrem tudo de cimento e aqui só passa
outras, surtações sim, mas muita carro blindado!
blindagem, tanto de gentes quanto de que espaço é esse forjado sobre tanta
informação. as curvas se contaminam, argamassa de minérios e gente que
se misturam, não existe pureza no veio porque acredita que precisa
sistema: política de disputas, muita trabalhar, que não come se não tiver
gana, fica um lembrete: a política é sangue pra derramar, massa de mano-
dura, mas é negociação. é perigo bra e ahhh.
quando não se definem os temas, fica faltam dores cores palavras pra
azul de imensidão dizer o porque dos tormentos, a coisa é
(sabe, aquele que preenche as tudo menos plana, vigente mas cheia
arestas, cega no horizonte e se deixa dos interstícios estelares e sem muitas
engolir no sifão) rotas de fuga (antes houvesse – a rota
b a d e r n a é n o s s a a l i a d a m a i s v a s t a , sim, maior pede uma passagem de volta,
posto que: vândalos são os policiais e pagamento no cartão, endividamento)
seus mandantes. mas se nos chamam roda de chão sem voltagem, rebobina
todos vândalos, se inserem vândalos tudo, eu não quero levar porrada de
entre nós, se vandalismo é a última policial.
moda da passeata multicolor da acordar com helicóptero, quintal de
esquina, se qualquer passante é um casa como campo de batalha.
vândalo em potencial, se o opressor é celebridades felizes na televisão,
quem tem razão, se dão vazão às todos canarinhos.
armas, tratam rua de cartazes como esporte é travestimento de exploração.
batalha campal, em suma, se nos
bloqueiam, e atacam, seja nas ruas, em ***
casa, em todo lugar, se não pode tanta

209
DAVI MARCOS

MANIFESTAÇÕES
DO CICLO DE JUNHO,
REPRESSÃO NA FAVELA
E DITADURA1

Eu quero frisar uma isso, e ver que tá tudo


coisa, o interessante de descontrolado, e depois de
junho, e de tudo o que tomar tiro de borracha na
aconteceu aqui no Rio, cara, enfim né?!... Me
mas não só no Rio, no Bra- lembra uma coisa... Um
sil, é que aproximou um dia não lembro, eu tava no
pouco a visão entre o povo Observatório de Favelas
da favela e os manifestan- trabalhando e teve uma
tes que não são da favela. manifestação em Bonsu-
Porque antes falava-se cesso. A manifestação foi
assim “Porra o pessoal da escorraçada porque era no
favela tacou fogo no subúrbio, né?! Os mole-
ônibus! Bardeneiros! Por ques apanhavam pra
isso que a policia vai lá e cacete, era tiro de verdade,
dá tiro.” “Mataram o e os moleques vieram
pessoal.” “Mas é bandido, roubando, os moleques
tava uma droguinha ali.” vieram vandalizando. Os
“Mas ó, tinha uma arma moleques foram roubando
lá, esse cara não era boa e voltando pra Nova
pessoa.” Então depois que Holanda. E aí nisso um
começa a ver isso na rua, polícia veio atrás dando
que pegaram o cara da tiro e porrada, e não sei
classe média, botaram um quê. E aí eu saí, porque eu
motolov ali dentro da tava ali no Observatório
mochila e falaram “Vem de Favelas, eu vi aquilo.
cá, tá preso!”, e ao mesmo Aí fui e peguei a máquina
tempo o pessoal filmar e fui fotografar.
Eu consegui fazer uma
1  Trecho transcrito e editado a par-
tir da conversa da oficina interna
foto que foi da bomba que
em Abril de 2014 explodiu no meu pé.

210
conseguiu sair. Só que aí olha a estraté-
gia [da polícia] que a gente não tinha
percebido: a gente saiu desesperado pra
casa. Aí acabou a única possibilidade de
resistência que tinha. Então, depois
disso teve uma chacina. O único veículo
de comunicação tava ali que era interno,
a única possibilidade de comunicação
que tava ali era a gente, a gente não
Eles tacaram bomba dentro do Observa- podia mais, a gente foi pra casa também.
tório, porque eles sabiam que era dali Porque também a gente se encontra na
que podia sair alguma resistência de mesma situação. Ah eu não tô na favela
mostrar algo pra fora e eu tentava sair pô, e eu quero sair da Vila Cruzeiro, por
porque eu já tava acostumado (com exemplo. Porque não dá, como é que eu
bomba). Eu já fui anarquista, já fui vou estudar? Esses dias tava tentando
punk, já fui ativista, fui black bloc antes estudar pra faculdade, era domingo meio
de existir black bloc. E aí eu fui, botei a dia, e tava tendo tiroteio domingo meio
camisa no rosto e fui pra fora, mas eu dia! Então, até pra você ter uma reação é
não conseguia. difícil, né?!... Porque, de que lugar que
Eles tacaram uma bomba que muitas você consegue organizar alguma coisa?
pessoas não conheciam ainda, que era de Enfim, então assim, o importante disso
pimenta, né?! Que é muito forte. Depois tudo é ver como a gente tá muito mais
disso foi tranquilo [para muita gente, próximo do que distante, né?! E como a
receber mais gás ou bomba de pimenta]. gente pode se distanciar mais ou se
A gente ficou lá dentro, a gente ficou aproximar de várias formas. Acho que
isolado no Observatório. Não conseguia não só tando indo lá dentro [da Maré],
sair de jeito nenhum porque parece que mas acho que ir é importante também.
eles continuaram a tacar bomba. A gente E agora tá tendo uma ditadura lá sim,
não conseguia abrir o portão pra sair. levaram os jovens, levam os jovens.
A única foto que eu consegui fazer e que Nunca teve um ponto final essa ditadu-
eu botei no facebook espalhou, viralizou. ra. Eu acho que, enfim, pode ficar pior de
E aí alguém mandou uma ordem, e aí a novo. Acho que o grande medo da classe
policia parou, deu um tempo e a gente média e da classe média alta é que volte
conseguiu sair. O pessoal do Bradesco, a ser como era, porque podem perder de
lá da Redes [que é algumas ruas mais novo o controle [sobre suas vidas].
para dentro na Nova Holanda] também
***

211
MANIFESTO
AFETIVISTA
Manifesto afetivista
Brian Holmes

BRIAN HOLMES

MANIFESTO AFETIVISTA 1

No século XX, a arte foi julgada de O que procuramos na arte é uma manei-
acordo com o estado existente do meio. ra diferente de viver, uma oportunidade
O que importava era o tipo de ruptura nova de coexistência.
que fazia, os elementos formais e inespe- E como acontece essa oportunidade?
rados que surgiam, a maneira como A expressão desata o afeto, e o afeto é o
eram deslocadas as convenções de que nos move. A presença, a gestualiza-
gênero ou da tradição. A recompensa ção e a fala transformam a qualidade do
final do processo de avaliação foi um contato entre as pessoas, podendo as
novo sentido do que a arte podia ser, um afastar e/ou unir, e as técnicas expressi-
novo campo de possibilidades para a vas da arte podem multiplicar essa
estética. Hoje tudo isto mudou definiti- transformações em mil possibilidades,
vamente. pelos caminhos da mente e dos sentidos.
O pano de fundo no qual a arte agora se Um evento artístico não necessita um
apresenta é um estado particular da julgamento objetivo. Você sabe que ele
sociedade. O que uma instalação, uma aconteceu quando graças ao eco que
performance, um conceito ou uma imagem produz agregamos algo a mais à nossa
mediada podem fazer é marcar uma existência. O ativismo artístico é um
mudança possível ou real das leis, costu- afetivismo, ele expande territórios.
mes, medidas, noções de civilidade ou Esses territórios são ocupados pela
dispositivos técnicos e organizacionais partilha de uma dupla diferença: a
que definem como devemos nos comportar divisão do eu privado, onde cada pessoa
e como podemos nos relacionar com o foi anteriormente colocada, e da ordem
outro num determinado momento e lugar. social que impõe esse tipo particular de
privacidade ou privação.
1  “Tradução de Tradução de Luciane Briotto. Texto Quando um território de possibilida-
originalmente traduzido para o site do Composições des emerge ele muda o mapa social ,
Políticas, publicado em
cpp.panoramafestival.com como uma avalanche, uma inundação ou

212
um vulcão fazem na natureza. A manei- capital cognitivo: a sociedade do conhe-
ra mais fácil da sociedade para proteger cimento é uma ordem terrivelmente
a sua forma atual de existência é a complexa . O mais impressionante do
negação simples, fingindo que a mudan- ponto de vista afetivo é a natureza zumbi
ça nunca aconteceu: e isto realmente desta sociedade, seu retorno ao piloto
funciona na paisagem das mentalida- automático, sua governança cibernética.
des. Um território afetivo desaparece se Uma Sociedade neoliberal é densa-
não for elaborado, construído, modula- mente regulada , fortemente sobrecodifi-
do, diferenciado e prolongado por novas cada. Uma vez que os sistemas de
descobertas e conjunções. Não adianta controle são feitos por disciplinas com
defender esses territórios, e até mesmo acesso estritamente calibrado para
acreditar neles é apenas um simples outras disciplinas, a origem de qualquer
começo. O que eles precisam urgentemen- esforço nos campos do conhecimento tem
te é serem desenvolvidos, com formas, que ser extradisciplinar. Começa fora da
ritmos, invenções, discursos, práticas, hierarquia de disciplinas e se movimen-
estilos, tecnologias — em suma, com os ta através dela transversalmente,
códigos culturais. Um território emer- ganhando estilo, conteúdo, competência
gente é apenas tão bom quanto os e vigor discursivo ao longo do caminho.
códigos que o sustentam. Crítica extradisciplinar é o processo pelo
Cada movimento social, cada mudan- qual as idéias afetivamente carregadas
ça na geografia do coração e da revolu- — ou artes conceituais — se tornam
ção no equilíbrio dos sentidos precisa de essenciais para a mudança social. É de
sua estética, sua gramática, sua ciência vital importância manter a ligação entre
e sua legalidade. O que significa que a idéia infinitamente comunicável e a
cada novo território tem necessidade de performance isoladamente incorporada.
artistas, técnicos, intelectuais, universi- A sociedade mundial é o teatro de arte
dades. Porém o problema é que os órgãos afetivista, o cenário onde ele aparece e o
especializados existentes são fortalezas circuito onde se produz significado.
que se defendem contra outras fortale- E como podemos definir essa sociedade em
zas. termos existenciais? Em primeiro lugar,
O ativismo tem de enfrentar obstácu- está claro que uma sociedade globalizada
los reais: a guerra, a pobreza, opressão já existe, com as comunicações globais,
racial e de classes, fascismo rasteiro, redes de transporte, sistemas de ensino
neoliberalismo venenoso . Assim sendo, aferido, tecnologias padronizadas ,
o que nós enfrentamos não são apenas os instalações de consumo franqueadas,
soldados com armas, mas também com o finanças internacionais, direito comercial

213
e moda midiática. Essa camada de por muito tempo a mais humana: a
experiência é extensa, porém fina; só escala de mobilidades diárias, a cidade,
pode reivindicar parte do mundo vivo(ou a paisagem rural, onde estão as dimen-
real) . Para se envolver com arte afetivis- sões arquetípicas da sensibilidade.
ta, para criticá-la e recriá-la, temos que Esta é a morada de expressão popular,
saber não apenas onde os novos territó- das artes plásticas tradicionais, do
rios de sensibilidade emergem — em que espaço público e da natureza tendo uma
local , em que geografia histórica — mas igual presença com a humanidade: a
também em que escala. A existência na escala onde a subjetividade primeiro se
sociedade mundial é experimental, ou se expande para encontrar o desconhecido.
torna estética, como um jogo entre E assim, finalmente atingimos a
escalas. escala da intimidade, da pele , dos
Em adição ao global, existe uma batimentos cardíacos e sentimentos
escala regional ou continental, baseada compartilhados, a escala que vai de
na agregação de populações em blocos famílias e amantes a pessoas juntas em
econômicos. Pode se ver isso claramente um canto da rua, em uma sauna, uma
na Europa, mas também na América do sala de estar ou um café. Parece que a
Sul e do Norte, no Oriente Médio e na intimidade é irremediavelmente sobre-
rede do Leste Asiático. carregada em nosso tempo, sobrecarrega-
Não nos enganemos, já existem afetos da com dados e vigilância e sedução,
nesta escala, e movimentos sociais e esmagada com a influência determinan-
novas formas de usar o gesto e a lingua- te de todas as outras escalas. Porém a
gem, e muito mais que por vir no futuro. intimidade ainda é uma força imprevisí-
Depois, há a escala nacional, aparente- vel, um espaço de gestação, e portanto,
mente familiar, a escala com os conjun- uma fonte de gesto, a mola biológica
tos mais ricos de instituições e os mais onde os afetos se nutrem. Só nós pode-
profundos legados históricos, onde os mos atravessar todas as escalas, tornan-
teatros da representação em massa são do nos “outro” ao longo do caminho. Da
esmagadoramente estabelecidos e cama dos amantes para o abraço selva-
afundados em uma fantasmagórica gem da multidão ao toque alienígena de
inércia . Mas a escala nacional no século redes, pode ser que a intimidade e suas
XXI também está em um estado febril de expressões artísticas serão o que surpre-
alerta vermelho contínuo, hotwired em enderá o século XXI.
excesso e por vezes até mesmo capaz de
ressonância com o radicalmente novo. ***
Depois vem a escala territorial, considerada

214
MARÉ
Tem favela?
Davi Marcos

CARTILHA para / MANIFESTO contra


Breno Silva
Jeferson Andrade
Lucas Rodrigues
Lucas Sargentelli
Colaborou Graziela Kunsch

Eu sou da Maré
Josinaldo Medeiros

Sobre o ataque midiático e militar ao Complexo


da Maré e ao Movimento
Pedro Mendes

Cartilha para | manifesto contra

215
DAVI MARCOS

TEM FAVELA?1

Eu tava em Santa Teresa procurando Os caras: Não, mas tem que botar.
uma casa pra alugar, ai subí lá. E tal E o cara é artista. O cara: Não, mas tem
não sei o quê... Tudo caro prá cacete, aí que botar porque tá incontrolável, tá um
não da né?! Aí fudeu! Vou voltar pra absurdo a gente não consegue ir na rua…
casa! Aí desci e encontrei um monte de Então quando é na casa da gente, né?
artista que eu conheço, né? Descendo, dói, mas quando é na do outro a gente
comecei a conversar com as pessoas no até acha que não, é importante! Então
ônibus, acho que era mais uma ansieda- tem muito isso. A gente às vezes também
de por não ter conseguido uma casa lá, tem uma carga de preconceito tanto de
tava naquele processo de precisar quem tá dentro da favela quanto de
encontrar urgente. Pô de repente alguém quem tá fora. Naquela situação eu
me fala de alguma casa em algum lugar também não falei mais nada, porque não
aqui no ônibus, e aí comecei a conversar tinha muito o que falar, só deixei aquela
com uns caras. Os caras diziam: não sementinha ali. Olha que visão, também,
porque a ditadura, a ditadura era uma vou lá levar a sementinha... São as
merda! (… Não sei o quê... ) Esbravejan- verdades que a gente tem que lidar, eu
do... Aí eu tó so ouvindo, tô ouvindo na fui embora e pior que o cara continuou
minha quieto né?! É difícil, né?! esbravejando que tinha mesmo que botar
Os caras: Não é um absurdo? Uma o exército. Que eu tava defendendo
criança viu o pai ser sequestrado, sabe bandido e tal...
quem era essa criança? Era eu, eu vi,
sequestraram meu pai, levaram, só ***
voltou um mês depois. (…Não sei que...)
Falei porra, nas favelas tá acontecendo
isso de vez em quando já ouviu falar?
Os caras: Não? Tem?!! Tem, na favela?
Inclusive vão botar o exército lá porque
tá demais. O cara: Tem que botar o
exército mesmo porque tá incontrolável,
tem que botar mesmo. Eu falei Mas
porra tu não é contra o exército cara?
1  Trecho transcrito e editado a partir da conversa da
oficina interna em Abril de 2014

216
BRENO SILVA, JEFERSON ANDRADE, LUCAS RODRIGUES,
LUCAS SARGENTELLI. COLABOROU GRAZIELA KUNSCH.

CARTILHA PARA / MANIFESTO CONTRA

Formulário regulador definido em uma Uso do guia da Maré pelas forças


reunião/Declaração pública dos motivos policias e militares
e ou razões que justificam certos atos ou
fundamentam certos direitos. Algumas pessoas, antes do blur nos
rostos.
OBRIGATORIEDADE DE

As ordens são:

IDENTIFICAÇÃO

A entrada dos carros de filmagem que


produzem panorâmicas de 360° na
horizontal e 290° na vertical, preparados
com até 18 câmeras, se dá por tímidas
idas e vindas da avenida expressa MANDADOS JUDICIAIS
principal que acompanha toda a exten- INDIVIDUAIS
são da favela. Não há um corte motivado
por razão técnica como ‘as ruas são
demasiadamente estreitas a partir dali’,
mas sim um corte abrupto que cria um
ponto arbitrário sem justificativa de
localização aparente.

Iron Man (soldado anônimo)


X9 (mascarado)
Pé de Banha (fonte)
Capitão Brasil
Um sorriso tímido, meio atrasado, numa
bike linda.
Usar ou não usar capacetes nas motos?

217
DOMICÍLIOS PARTICULARES

Arrombamentos de casa com frequência.


Uma média de 30 domicílios por operação.
Os chaveiros contam histórias. Chave
mestra e penetração forçada. Existe um
prejuízo, já se ganha muito pouco por aqui.

AÇÕES DE INTELIGÊNCIA

Assembleia é reunião. / Comer por um


real no Restaurante João Goulart

INTERVENÇÕES

Algo que vem de fora para atuar tempora-


riamente dentro. Crack, cocaína e maco-
nha (uma voz fala pelos becos). Desfile de
armas do exército. Caráter episódico.
O golpe militar de 1964 inicialmente se
pretendeu uma intervenção, mas pela sua
continuidade se tornou um regime. CONTROLE DE ARMAS

Se alguém estiver armado, a ordem é


de morte. / Só o exercito manipula armas. /
Erotismo falocentrico por postura inoperante.

DESARTICULAR

Tráfego de bicicletas. Dissolver


barreiras. Novas faixas para pedestres.
Novas modalidades para existência.

218
REDES CRIMINOSAS RAÇAS
Etnoempoderamento. Marco operacio-
Tráfego de informação. Cooperação. nal das relações.
Falas dispersas.
ABORDAGEM DOS AGENTES
GERAÇÕES
A ordem é do general.
Ausência de culpa. Com ouvidos Reativo, impulsivo: são todos novinhos.
atentos. Normatização das festas na comunidade.
Caminhar em silêncio
LEVAR EM CONSIDERAÇÃO
DISCRIMINAR
Entre eu e a viela existe o funk.
Selecionar o perímetro de ação. Decanta- Situação som por transitividade livre de
ção por arbitrariedade. Abordagem existir.
ostensiva na Nova Holanda. Raiz comum Luta pela afirmação do direito à cidade.
que demonstra a inseparabilidade de dois A Praia de Inhaúma
problemas: excluir, subjugar, expulsar,
isentar, impor/ diferenciar, distinguir,
discernir, classificar, criar listas.

219
MEDIAÇÃO

Você escolhe o seu patrão.


Terreiros destruídos.
Deus para os desesperados
Redes não só para pesca
(cadê os peixes da Maré?)

POR MEIO DE
Entre becos e vielas estreitas, onde só o
corpo atravessa.
Postos de gasolina, outdoors, entradas
de oficinas mecânicas, supermercados,
galpões de fábricas, estacionamentos,
restaurantes, igrejas, organizações
EVENTUAIS CONFLITOS sociais.
Esses rolezinhos vêm causando muita
R$ 350 pelo aluguel, R$ 100.000 para discussão e impacto.
a compra.
Uso do mapeamento cartográfico como OUVIDORIA COMUNITÁRIA
estratégia de dominação ou uso do
mapeamento cartográfico como método O Even tá bem? Como o Even tá de
de identificação subjetiva dos moradores saúde?
Em nome da rua, em nome do outro ou
em nome da ordem?

220
REUNIÕES FREQUENTES PRESENÇA
Cnidoscolus phyllacanthus (Favela):
Praia ou morro? planta de vegetação nativa da caatinga
do cerrado brasileiro, que historica-
mente teve seu nome dado às ocupações
nos morros cariocas no início do sec.
XX por ex-soldados que lutaram na
campanha contra Canudos.
Os espinhos da favela provocam
inflamações dolorosas.
Recaídas dos soldados em outras
disposições.

A Maré é um complexo. Movimento


dos fluídos por influências lunares e
AVALIAÇÃO DAS AÇÕES solares. A favela, uma planta resisten-
te para nomear uma forma de insurrei-
Empilhar caixotes como se empilha ção urbana.
corpos.
Constrangimento daquele que sofre No mais, fica acordado que o não
intervenção. cumprimento deste termo acarretará
Intervenção como marco opressor. uma possível avaliação negativa para
Escrevo seu nome num grão de arroz eventos futuros de responsabilidade
desses organizadores, sem contar que a
estes também poderão ser imputadas
responsabilidades nas esferas Civil,
Administrativa e Criminal, conforme
as Legislações em Vigor.

MORADORES
O chaveiro
O homem de cadeira de rodas
Garotos no contra-uso do corpo
Vendedora de xampu natural
Senhora simpática da Igreja
Homens fumando na esquina
Um rapaz procura por Even

221
O vocábulo ‘Maré’ é aqui proposto a partir de um
exercício de extração e destaque de palavras encontra-
das no ‘Protocolo para a ação das forças de segurança’,
uma cartilha recentemente divulgada na internet e em
jornais.
O protocolo, que serve como guia de ajuste e controle
das operações policiais no Complexo da Maré, foi
criado em três de abril de 2014 a partir do encontro
entre líderes de ONGs que atuam na região, moradores,
e o secretário de segurança do Rio de Janeiro, José
Maria Beltrame. A reunião se deu logo após a entrada
e ‘ocupação’ das forças de segurança nacional do
exercito na favela. Nele os representantes da comuni-
dade exigem a identificação dos agentes de segurança;
o uso rigoroso de mandados judiciais para ingresso em
domicílios particulares; a priorização de ações de
inteligência e de desarticulação em lugar de ações
armadas; que não haja discriminação racial ou geracio-
nal; a mediação de eventuais conflitos por meio de ouvi-
doria comunitária e o monitoramento quinzenal das
ações com participação dos moradores. Nesse contexto,
um grupo de moradores divergentes do modo como a
reunião foi agendada e conduzida criou um documento
chamado ‘Manifesto contra a invasão militar nas
favelas da Maré’, onde clamam por um Não à ‘ocupa-
ção’ militar da Maré e de qualquer território popular!

222
O protocolo para pode ser lido na integra em
redesdamare.org.br

O manifesto contra pode ser lido em


marevive.wordpress.com

As forças de segurança deveriam permanecer na


Maré até o fim do campeonato mundial de futebol em
julho de 2014. Chega o fim de novembro e a ocupação
militar continua, sem previsão de término.

Durante visitas a Maré usamos a lista decorrente


do protocolo como guia para uma atualização de
suas questões simultânea a uma conversa no grupo
do Vocabulinário. O fundo operacional desse encon-
tro foi o debate da política de segurança hoje na
cidade do Rio. O que apresentamos aqui são pistas
inconclusivas, registro ético regulador das nossas
próprias incursões. O meio para isso foi o terreno
instável da experiência, do lugar e das narrativas
e fabulações, que funcionaram como um laboratório
de escuta muito específico.

***

223
“Casinhas”, f o t o g r a f i a
Cristina Ribas, 2009

JOSINALDO MEDEIROS

EU SOU DA MARÉ

Eu sou da Maré. Nascido na Maré. Sou ponto turísti-


co. Eu não falo o português correto, meus amigos são a
corja da sociedade e nenhum deles possui peito de aço.
Embora alguns deles tenham armas calibre 88 prontos
pra morrer e estejam participando de uma guerra que
já dura muito tempo.
Eu tenho pés, pernas, braços, peito e coração.
E ainda tenho que sorrir quando enfrento a multidão.
Também sinto saudades, tais como da Joana que
morreu após um tiro matar sua única filha chamada
Esperança.
Vento e poeira, modo reflexivo. A favela não dorme,
é calada, sufocada. Faroeste dos aflitos, veste a farda
e tira a fralda, sem querer fui engajado, sem querer
me humilharam. E ninguém sabe, e ninguém viu.
É o preço que se paga pra não matarem a puta que
me pariu.
Todos de preto, usam gandola, burucutu, faca
na boca, revólver 38, coturno, algemas descartáveis,
munições especiais e 6 carregadores de pistolas,

224
fuzil 7,62 mm, coldres táticos, um bastão retrátil e
estão prontos pra guerrear… Pássaro blindado. Dinos-
sauros do futuro. Mosca morta sem pensar.
Ouço tudo pelo telefone celular e a midiahipocrisia
insiste em enfatizar que a favela é violenta, foda-se
quem mora lá. Me dá um ódio. Me dê um ópio!
Fundo do poço. Quase morro. Comercial.
Tum-tum-tum! Pá! Pum! Pá! Pum! Bláaaa! Bláaaa!
Denunciar? Nem pensar, isso é cultura popular. Então
deixa os hômi entrar, pacificar, esculachar e depois virar
heróri?! Melhor se demitir, aqui bandido somos nós.
Gentes do morro, tudo enlatado. Nome vulgo, raça
do caralho. Os ditos massa. Guerra covarde, terceiro
mundo e ainda dizem que é evolução. Tudo é questão
de pá e enxada.
Nem Fome Zero, nem Bolsa Família o que me
deram foi meia dúzia de balas perdidas. Meu santo
forte é de madeira, nem se mexe pra não dar bandei-
ra. Dinheiro curto, trabalho incerto.
E o povo grita, suplica, tenta se organizar. A repressão
bate na porta. Mas prometemos que não vamos recuar.
Resistiremos. Tipo Romênia. Tipo Colômbia. E que caiam
por terra todos os dominadores deste tempo! Por um
complexo da Maré livre!
Porque a guerra é armada, a luta conceitual e a
batalha não está perdida!
Chega de guerra na Maré quero voltar pro Cabaré!
Mas quem vai me ouvir? Digam aí.
E ó, avisa pra geral: aqui é o cria do Pinheiro!

***

225
Poesia de Carlos Chagas
facebook.com/Marevive

226
PEDRO MENDES

SOBRE O ATAQUE MIDIÁTICO E MILITAR AO


COMPLEXO DA MARÉ E AO MOVIMENTO

27 de junho de 2013 às 18:17

Só numa cidade como o Rio de Janeiro, com uma


estrutura de poder midiático-militar (e escravocrata)
como a que temos aqui é possível pensar em acontecimentos
como o de ontem no Complexo da Maré. Um trabalhador
leva quatro tiros na cabeça — não um, nem dois —
e fala-se em ‘balas perdidas’ (?!); várias pessoas morrem
com sinais de execução (inclusive facadas, segundo
depoimentos de moradores) e a imprensa, ou pelo menos
parte dela fala em confronto “entre traficantes e a polícia”.
Ora, que haja traficantes envolvidos no assassinato
do policial (quando o primeiro morador já havia sido
assassinado, é bom que se diga) é possível conceber,
que se reduza essa chacina, esse verdadeiro massacre
a um confronto definido e isolável entre os traficantes
e policiais é um ESCÂNDALO!; só tornado possível por
essa comunhão macabra entre o governo do estado,
a mídia monopolista e uma parcela da opinião pública.
É preciso que se diga que o que ocorreu ontem foi
antecipado (e mesmo anunciado) pelo Governador do
Estado do Rio de Janeiro, sr. Sérgio Cabral, há uma semana
(cf. reportagem abaixo) atrás, e o sentido do recado foi
claro: manifestações em favelas (ou envolvendo morado-
res de favelas) não serão toleradas, custe o que custar.
De outra parte, a operação só se torna completa com a
cobertura criminosa e cúmplice da imprensa — apavora-
da com o crescimento do movimento, considerado incon-
trolável e mesmo imprevisível — sempre disponível para
dar legitimidade a chacinas e massacres como esse e
garantir que a estrutura básica da sociedade brasileira
não mude, a mesma que vem sendo frontalmente
contestada pelo movimento.

227
Que ninguém se engane: a violência brutal com
que o Estado e a mídia tentam esconjurar uma
possível união do movimento com a favela — como se
essa união já não estivesse plenamente em curso —
dá a dimensão do medo e do ódio que as recentes
manifestações tem desencadeado no bloco do poder.
Mas ontem as máscaras caíram definitivamente:
a violência que tanto alarma as elites é, na verdade,
a possibilidade de que a violência que ela destina
cotidianamente aos pobres dessa cidade e desse país
possa, em algum momento se voltar contra ela.
E o movimento já percebeu isso. Ontem ele amadureceu
um pouco mais.

***

228
MUDEZ
Speechless
Annick Kleizen

ANNICK KLEIZEN parecer muito estranha se compararmos


com seus outros trabalhos como escritora.
MUDEZ
Ela escreve:
UM BODYBUILDER1
“Imagine que você está num país estran-
Rio de Janeiro no auge do verão: assim geiro. Considerando que você estará nesse
que o verão escaldante dissipou um pouco, lugar por algum tempo, você está tentando
a praia de Ipanema se torna um espetácu- aprender essa língua. Ao ponto de começar
lo de esportes. Homens musculosos e a aprender essa língua, um pouco antes de
muito poucas mulheres se juntam ao redor ter começado a entender tudo, você começa
de barras de metal ao longo do boulevard, a esquecer a sua própria. Em uma situa-
tomam turnos para puxar e empurrar seus ção de estrangeirismo você se encontra
corpos, flexionando seus braços esculpidos sem língua.
na luz da tarde. Eu os observo, observo seu É aqui, é na geografia da não-língua, no
esforço. Exercitam-se aparentemente sem espaço negativo, que eu posso começar a
esforço, admiram uns aos outros, ajudam e descrever bodybuilding.”3
animam-se. E enquanto grande parte No Rio este texto ressoa fortemente em
disso acontece em silêncio, apenas com mim. Eu estou continuamente em situação
algumas palavras para acompanhar os de perda de palavras com meu confortável
gestos, um texto salta na minha cabeça. inglês, com meu holandês nativo. Com
Após tentar — e falhar— muitas vezes, apenas um entendimento muito básico de
Kathy Acker finalmente conseguiu português, e as nuances desse lugar, eu
escrever sobre sua prática de bodybuil- falo menos e observo mais. Eu observo
ding2, algo que ela praticou apaixonada- mãos e rostos, o movimento dos olhos. Eu
mente por muitos anos, coisa que pode procuro por pistas em línguas mais sutis
do que as línguas faladas.
1  Tradução ou transdução do inglês por Cristina Ribas.
2  Bodybuilding pode ser traduzido por fisioculturismo. 3  Kathy Acker, parágrafo “A Language Which is Spee-
Como a palavra na sua versão em inglês tem sentido chless” (Uma língua que é muda), citação encontrada
bastante direto — desenho do corpo — resolvi deixar em “Against Ordinary Language: The Language of the
como no original ao longo do texto, e também conside- Body” Em: Arthur and Marilouise Kroker (eds) (1993)
rando que ela é parte do vocabulário das malhações… The Last Sex: feminism and outlaw bodies, New York: St
(N.T.) Martin’s Press

229
Acker continua e escreve sobre o processo de bodybuil-
ding: a quebra controlada de um tecido muscular, por
exercitá-lo até que ele falhe, e então ele pode crescer mais
ainda. Para chegar lá você deve encontrar a linha tênue
entre exaurir os músculos e destruí-los completamente.
E esse conhecimento, essa sensibilidade, só pode ser
compreendida na prática: observando atentamente
quanto seu corpo pode suportar, como você pode forçar um
pouco mais. Não é um conhecimento que possa ser
articulado verbalmente, mas um conhecimento muito
preciso. E mesmo que comece como conhecimento do corpo
de uma pessoa e a maneira como ela age, ele não é
orientado apenas para esse corpo, ou essa pessoa.
Olhando para os outros o bodybuilder sabe o que eles
estão fazendo, pode sintonizar com sua contagem, dar um
pequeno empurrão de suporte que eles possam precisar.
Para aqueles com prática em bodybuilding, a língua que
se usa nas academias é complexa tal como qualquer
outra.


Na minha volta para a Europa eu leio sobre o polvo
que percebe e pensa através do toque de seus oito
tentáculos.1 Cada um dos braços contém uma parte do
cérebro; então a sensação é análoga ao pensamento.
Ou mais: cada tentáculo pensa e sente independente-
mente, ao mesmo tempo em que é parte dessa larga
constelação do cefalópode. Essa imagem do polvo é
desenhada como uma metáfora para a maneira como a
arte pode nos fazer imaginar uma percepção
multi-dimensional para além da língua. Enquanto
nosso cérebro, ao menos o que compreendemos disso,
é centralizado, nossos sentidos definitivamente não o
são. Nós temos nossos próprios tentáculos receptivos.
1  Chus Martinez, “The Octopus in Love” (O polvo apaixonado), e-flux jour-
nal # 55, May 2014, www.e-flux.com/journals

230
Na minha mente os atletas e o polvo se juntam a
outra imagem: metrônomos. Henri Lefebvre propôs
o corpo como um metrônomo como a ferramenta
primária do ritmanalista2: se ouvirmos nossos
próprios corpos e aprendermos a sintonizá-lo com o
ritmo dos outros, dos objetos e dos fenômenos
imateriais, podemos encontrar maneiras de se
relacionar com eles. Da perspectiva do ritmo pode-
mos nos tornar hábeis a pensar e falar sobre pedras,
florestas e uma revolta social em um mesmo plano.

OS AMANTES
Num encontro no interior da França: a artista e
bailarina Valentina Desideri me pede para pensar em
uma questão — pessoal, política, ou ambas. Ela me
passa uma pequena pilha de livros de poesia e eu abro
um deles na sorte. Ela então me passa um baralho de
tarot, e eu pego uma carta e viro. Os amantes.
Eu observo o desenho na carta, ao passo que ela lê para
mim o poema, eu leio o poema em voz alta, e ela também
interpreta a carta. Em uma leitura aproximada de
ambos, tentamos relacionar a carta com o poema,
através da lente da minha questão. E, ao passo que
tentamos encontrar o sentido nessas coisas sem
relação, partes de uma conversa anterior atravessam:
sobre a mágica da linguagem, sobre nomear coisas
para que elas existam, sobre renomear para mudá-las.
Valentina concebe exercícios para subverter as lingua-
gens por meio das quais estamos acostumados a falar.
Sua Terapia Política se move fluentemente entre os
registros discursivo, energético, perceptivo e simbólico.
Estivemos praticando isso por um certo tempo e cada
exercício me faz ficar atenta às rotas restritas que
minha mente tem. Cada exercício me faz querer ir um
pouco mais longe, para quebrar a minha razão, sem

2  Henri Lefebvre, Éléments de rythmanalyse: Introduction à la connaissan-


ce des rythmes,, Paris: Éditions Syllepse,1992

231
destruí-la completamente ou sem perder todo o sentido.
Com o exercício estamos treinando nossa linguagem
para que ela possa alargar-se.
Os amantes desenhados no baralho Rider-Waite-
-Smith que a Valentina usa — um homem e uma
mulher — estão em pé, nus, ao lado de um anjo e do sol.
Duas árvores e a montanha fazem o plano de fundo.
Primeiro ficamos presas na explicação comum da
carta: dos amantes unindo diferenças, de desejos e de
tentações. Mas olhando para a mesma imagem nova-
mente, outro detalhe chama nossa atenção: o homem
está olhando para a mulher, mas seus olhos estão
direcionados para cima. De amor como um símbolo ou
como um estado, nossa conversa muda para o amor
como um ato de curiosidade.
No amor a percepção muda. Amar coloca lentes de
aumento em todos os sentidos. Pequenos gestos se
transformam em palavras, olhos falam, a pele se torna
porosa e o toque conta histórias. Você fala menos e
observa mais. À medida que você deixa de lado a
linguagem que segura você num todo, um outro se abre,
uma linguagem em processos de troca. “Nenhum amor
é benigno, visto que pode e acaba por engajar a totali-
dade de um ser”.1 O amor rompe. No amor a linguagem
quebra.2

1  Etel Adnan, “The Cost for Love We Are Not Willing to Pay / Der Preis der
Liebe, den wir nicht zahlen wollen”, dOCUMENTA (13) 100 Notes — 100
Thoughts / 100 Notizen — 100 Gedanken Nº006, Ostfildern: Hatje Cantz
Verlag, 2011
2  O texto, escrito originalmente em inglês, usa a palavra ‘linguagem’ para
falar de ‘língua’, no sentido de idioma. Isso não significa que de algum modo
o texto de Annick não esteja também falando de linguagem. Nesse bloco
de parágrafos em que Annick fala do trabalho de Valentina a autora me
parece referir-se mais à noção ampla de linguagem, que concerne também
o uso de uma língua em específico, por isso traduzo nesse conjunto de
parágrafos para ‘linguagem’ e não língua.(N.T.)

232
LÍNGUA QUEBRANDO: UM ALFABETO DE
CRISTAL
Outra imagem: a artista Snejanka Mihaylova desen-
volveu diversos sistemas de escrita para línguas em estado
de transformação, uma delas baseada na forma simétrica
do crescimento de um cristal:
“O sistema de escrita é gerado a partir da forma
simétrica do crescimento em quatro pontos cardinais que
constróem uma forma geométrica cristalina básica. Ainda
que ela tenha perfeição aparente, cristais são marcados
com falhas — separações, apartamentos, rupturas — e são
essas imperfeições que permitem que eles crescam: uma
brecha na superfície do núcleo de um cristal forma uma
margem na qual moléculas podem imediatamente
somar-se” 3
Numa analogia com o crescimento dos cristais e esse
alfabeto em constante mudança, a língua é muito menos
estável que as régras de gramática gostariam que nós
acreditássemos. A língua que procura por significado
sempre cresce das fendas no que já existe. Além disso,
qualquer texto, assim como qualquer conversa, acontece
em muitos mais níveis do que apenas no nível das pala-
vras. Ele muda e se move. A língua não oferece um chão v e r ESCUTA

seguro. No lugar disso, você deve encontrar pistas, obser-


var, sentir os arredores e colocar todas as peças juntas de
maneira a encontrar o sentido que possa rearranjar ou
evaporar assim que apareça; momentaneamente recupe-
rando uma estabilidade nas palavras, que caem novamen-
te em um gesto inesperado. Com a língua, não mais fixada,
isso se torna um movimento e um exercício. Ou, talvez, dois
exercícios em paralelo: um exercício ao falar assim como
um exercício ao escutar. Qualquer conversa, assim como
qualquer texto, é um ato de cumplicidade.

3  Snejanka Mihaylova, “Theatre of Thought”. Sofia: Critique & Humanism


Publishing House, 2011. O sistema de escrita Cristal foi desenvolvido em
colaboração com Phil Baber

233
RUÍDO
A língua é uma pele. Eu fricciono minha língua contra
outra. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos,
ou os dedos nas pontas das minhas palavras.1 Amantes
encantados estão distraídos porém são atentos ausculta-
dores. Enquanto você deriva pelas palavras que seu amor
fala, você ouve também o ritmo e a agudeza de sua voz,
se engaja no movimento de uma mão, segue seus olhos e lê
as histórias por entre as linhas. Escutando com muitos
sentidos, seu cérebro se dispersa em todo o seu corpo.
Enquanto a língua cai por terra, escutar se torna um ato
múltiplo.
Quando escutar se torna um ato múltiplo, uma plurali-
dade começa a se abrir. Mudanças, gestos, frases bem
formadas, discursos especializados, sotaques, palavras
que escondem outras, ruído. Qualquer língua rígida ou
autoritária dará lugar a uma multiplicidade de vozes, ao
sintonizar e ao exercitar a língua através da maneira que
ouvimos. Fale menos e observe mais. Então ouvimos as
muitas outras línguas que estão perpassando, e a areia
movediça de suas partículas — então um vocabulário de
v e r COMPLEXIDADE 250 palavras poderá abrir uma complexidade e uma
extrema riqueza2, regras de gramática podem dar lugar a
novos sentidos e um escudo opressor poderá ser quebrado
pelo toque.

***
1  Roland Barthes, “Talking”, in: A Lover’s Discourse: Fragments, London:
Random House 2002. Data da publicação do original em francês: 1977.
2  Email, 16 de Abril 2014, GMT+02:00 
Cristina Ribas para Annick Kleizen:
“Não está sendo nada fácil, e acho que amanhã a gente vai ver as pessoas
que estão acampando em frente à Prefeitura (expulsos da Telerj, ou da Oi).
Eles ainda estão lá. E nós estamos dizendo o que? Para quem? Com
quantas palavras? Uma de nós na oficina disse ‘aquelas pessoas, da Telerj,
elas tem um vocabulário de 250 palavras!’ O que elas dizem? Como elas
dizem? Podemos falar com elas? Claro que sim, e temos que... É um
momento muito delicado no qual a cidade maravilhosa está desaparecendo na
luta dessas pessoas.

234
MULHERES:
VIOLÊNCIA
Pos pornô feminismo
Juliana Dorneles

Violentas
Juliana Dorneles

Dizemos
Beatriz Preciado

*
Ricardo Ruiz

JULIANA DORNELLES

PÓS PORNO E
FEMINISMO

Pós pornô e feminismo. que tinha a ver com esse Algumas ativistas e
Houve um tempo em que a feminino fetiche condenado atrizes pornôs, como a
pornografia foi banida do a pagar suas penas. pornô star americana
vocabulário feminista (e a Bom, mas nem todas as Annie Sprinkle, estavam
indústria da prostituição, feministas enxergavam as cientes de que o desejo
sujeição, e reiteração da coisas assim. Não dava gosta mesmo é de desejar,
mulher como objeto sexual para condenar a pornogra- e que as pernas estão
— era única e exclusiva- fia, pois ela tem mulheres; abertas para o fluxo
mente para o prazer e mulheres que nem sempre sangüineo das atitudes
masculino). Se a pornogra- são aquelas servas submis- divertidas.
fia era feita por homens e sas. São mulheres vorazes, Assim, o pro sex feminismo
para homens, só podia ser que se sabem fazer deseja- criou suas regras, suas stars
algo nefasto para as das... O pornô é grande e seus próprios fetiches.
mulheres. A pornografia fonte do imaginário sobre O pós pornô é uma
mantinha o padrão sexista o desejo (tanto masculino atitude, sim, a partir da
e o projeto machista de quanto feminino), e tem um constatação da colonização
esculhambação da mulher. papel fundamental na vida do imaginário sexual pelos
Pronto. Dado o veredito, sexual das pessoas. padrões da dominação mas-
restava trancar a pornogra- Dá pra condenar a sedução culina. Se existe uma
fia na cadeia e deixar tudo e luxúria da mulher? representação colonizada

235
da sexualidade que não imagem, mas no que a acontece sem dor.
favorece a alegria e o imagem remete. Gozar pode Violentas são as
imaginário das mulheres, ser uma experiência mais esperas, as crenças,
a alternativa para isso não ampla, pode incluir a a condenação ao otimis-
é acabar com isso; é fazer o natureza, pode incluir um mo do triunfo, a prisão
pornô que se gosta — criar corpo andrógino e machu- no armário fundo do eu.
outros imaginários, dar cado, pode incluir carros Uma bofetada é bem
chance de estabelecer (J. G. Ballard) ou paisa- mais importante do que
outros mundos para a gens sonoras. Tudo é sexo, dez lições, compreende-se
sexualidade (tanto femini- mais escancarado ou muito mais rápido,
na quanto masculina). menos, criando suas sobretudo quando é uma
Então há histórias alianças e derivas em mãozinha macia da
quentes, inversão dos imagens, performances, mulher que nos dá a lição.
papéis, performances relacionamentos; sexuali- Severino/Gregório.

violentas (pornoterroris- dade como criação artística. A Vê n u s d a s Pe l e s

mo), cenas de mutilação, Pornô: vertente crítica-


sexo hardcore entre criativa; que remete a uma ***
mulheres, crossdressing, crise da sexualidade
sexualidade queer e normativa; e uma necessi-
tantas outras cenas que dade de encontrar novos
surgem para encantar, corpos e imagens para
chocar, ou divertir, outros corpos e mundos.
mirando a invasão da Sua violência e virulência,
nossa cultura sexual. alguns abordam, poderia
Sim, se trata de uma ser lida como a violência
outra cultura sexual, na necessária para a escuta
qual fronteiras bem daquilo que até então
estabelecidas homem-mu- (até a irrupção deste ato
lher podem ser borradas, estrondoso/performático)
onde o desejo está cada não existia no imaginário
vez mais múltiplo; e cada do mundo. Violência do
vez encontrando mais grito que quebra as taças
fontes de ampliação, nas de cristal. Faz alguma
quais nem mais os órgãos coisa girar. Quebra
genitais são uma frontei- padrões do imaginário
ra. A excitação está na — quebra que nem sempre

236
JULIANA DORNELES expressa, criando uma brecha no
espaço-tempo repressor e omisso.
VIOLENTAS
É um tipo mulher de poder: a violência
Este vocábulo poderia ser também uterina, tão sedutora quanto avessa à
poderosas, escandalosas e incômodas. razão. Escândalo do poder feminino.
Palavra de ostentação do poder. Pensemos neste filme e nesta cena
Mas fiquemos com violentas. específica. São três homens —
Porque existe um escândalo violento a possessão masculina (dinheiro, força
do poder. Mesmo nos velados, a portas física, audácia). Violência primária
fechadas, por trás dos muros. Nem como modo de lidar com o selvagem.
sempre as coisas precisam se dar a ver E a mulher, corpo todo compaixão e
para serem escandalosas. E se a angústia, incômodo. Onde não há mais
primeira vista qualificar a violência palavras possíveis, advém o urro das
como escandalosa poderia parecer um entranhas. Longe, num solo assistido
juízo comum (que ruim que é ser brabo, por estes três homens mortos, Rosalyn
furioso, violento); veremos como, lança uma maldição. O grito onde não
na operação inversa, este escândalo está há mais negociação possível. Elas são
diretamente ligado à força da violência. todas loucas, diz o mais triste deles.
Existe uma força na violência, uma Loucas, furiosas, e poderosas; de pala-
energia. A que quebra um osso e a que vras ingratas aos concílios e concilia-
quebra um padrão. O que salva a ções. Um poder da fúria emerge contra a
violência é que ela é um limite, um própria violência, se diria. Um levante
esgotamento, um desabafo. Tem nela das entranhas em estado de miséria,
um sem palavras, são atos, manifesto dissecadas pela angústia das restrições
daquilo que é insuportável. E se faz (impostas ou auto impostas). Levante da
entender assim, na marra. Parece feio arma do corpo berrante, o insuportável.
ou estranho, machuca. Mas é ela lá Que madeixas poderiam ficar no lugar?
gritando como Rosalyn no deserto Se o selvagem da natureza é domestica-
(a personagem de Marylin Monroe no do e transformado em carne morta de
filme “Os Desajustados”,1960, de cavalo, aparece uma mulher que instiga
Arthur Miller): y o u t u . b e / g X H h y 4 c 4 U Z w a horda masculina pelos instintos
Sim, falamos dessa violência que (reprodução! Reprodução!) e ganha a
irrompe, do incontrolável e incômodo; cumplicidade dos audaciosos.
ao mesmo tempo completamente É o terceiro homem — do tipo que não
necessário. Faz alguma coisa mexer, gosta de ver a carne morta, pois admira
um escândalo da raiva que realiza e seus adversários.

237
Que forças loucas e sensuais são Mas a carne viva não se apequena.
necessárias para fazer sair o torpor do Tem nela um corpo do exposto, atuado.
estabelecido. O incômodo. Esse sim da fantasia, do se engraçar
É a violência crua e contratual de de um teatro erótico, angustiado,
algumas práticas masoquistas; é a cômico tal como a morte comendo o cu
violência cruel do sádico, para colocar da insensatez.
algo em movimento. Tudo sempre E lá no longe se viam cinzas, encha-
ligado a uma boa dose de sedução. A madas, proclamadas de autonomia no
crueza é muito mais misteriosamente céu, visitantes mais próxima de Deus.
sedutora; ao contrário da maquiagem, Vai lá a cinza, anaeróbica, virótica,
que envaidece o jogo do poder. realidade sem ar. Daí começamos a
A esses cabem os arregaços, de boca balbuciar, a boca solta, osso quebrado
aberta, entrante. Mas também na boca cambaleante, sem firmeza qualquer, se
fechada, miudeza, não se regram essas minhocando, sem se colunar. Matéria
partes. Lugares sem senão, pouco de dentes frouxos que morde um
acolhedores do consolo do eu. Um suspiro — se vai; gargareja uma
desfazer, numa espécie de geração canção ...oh como fui besta, pra que
açoitada na carne, violenta, vivificada cantar se o som não se propaga sem ar?
pelas cicatrizes cravadas no lugar das Os afetos de domínio tem queixo
angústias malvadas, pequenizantes, duro, mas não há nada que se necessite
solícitas por restrição. De pequenices dominar.
nos enche o pesadelo de restrições. De Nunca se precisa de calma, se
apavorados imploramos um perdão que precisa de volatilidade.
já bem sabemos não existe. E por que
se insiste? ***
Violentas são as esperas, as esperan-
ças, as crenças, o otimismo do triunfo,
da condenação da prisão no armário
escuro do indivíduo. Violento é o
sentimento de idiotice. Seja lá por que
trevas for. E de noite dormido ia para o
colchão de molas soltas que pertencia
ao: vovô, papai, mamãe, professor,
chefe, proprietário, todos cheios de
respeitáveis.

238
BEATRIZ PRECIADO

NÓS DIZEMOS REVOLUÇÃO

“ (…) Falamos uma outra linguagem. Eles dizem


representação. Nós dizemos experimentação. Eles
dizem identidade. Nós dizemos multidão. Eles dizem
controlar a periferia. Nós dizemos mestiçar a cidade.
Eles dizem dívida. Nós dizemos cooperação sexual e
interdependência somática. Eles dizem capital
humano. Nós dizemos aliança multi-espécies. Eles
dizem carne de cavalo nos nossos pratos. Nós
dizemos montemos nos cavalos para fugir juntos do
abatedouro global. Eles dizem poder. Nós dizemos
potência. Eles dizem integração. Nós dizemos código
aberto. Eles dizem homem-mulher, Branco-Negro,
humano-animal, homossexual-heterossexual,
Israel-Palestina. Nós dizemos você sabe que teu
aparelho de produção de verdade já não funciona
mais…”
http://www.uninomade.org/nos-dizemos-revolucao/

***

RICARDO RUIZ

apelar pra linguagem


em época extrema:
concordância daqui pra
frente só no genero
feminino.

***

239
MURO
Muro
Lucas Rodrigues

Muro
Juliana Dorneles

240
241
242
243
JULIANA DORNELES

MURO

E sobre o Muro… O muro que esconde o


Existe esse território escândalo, que cobre a
do irreconcilável. Onde visão, que impõe limite.
no muro bate a cabeça. O mesmo muro que é painel
Muro branco, esse liso e tela, pronto para ser
que marca sua presença mensagem.
sem marcas. Então, Um dos obstáculos
não sem força, começa-se mais utilizados em
a cavar uns buracos. competições hípicas se
Buracos negros, na termi- chama “Muro”.
nologia de Deleuze & É a imitação de um muro
Guattari. Buracos negros, de tijolos, e parece muito
das passagens dos afetos. sólido. Só que não.
E um bloco de cimento O cavalo facilmente
nunca é duro demais. derruba e/ou passa por
“Sempre que possível, sobre o Muro.
converse com um saco de Aqui, o vídeo de uma
cimento. Na vida, deve- amazona batendo o
mos dar ouvido a algo que recorde de salto ao Muro
um dia será concreto.” em estilo amazona (monta-
Quando as duplas da de lado) — ignore-se a
passam a ser duos. Encon- música de fundo:
tradas nos momentos dessa http://youtu.be/szeRobRvK8I

conversão que é ambas.


***

244
PRAÇA DE BOLSO
DO CICLISTA
Praça de bolso do ciclista
Margit Leisner

RUA SÃO FRANCISCO NÚMERO 0


ESQUINA COM A PRESIDENTE FARIA

A Praça de Bolso do Ciclista


está plantada
no centro de Curitiba
ela é a mais recente
dentre as conquistas públicas que vem sendo
viabilizadas
através da Ciclo Iguaçu
Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu

A iniciativa
estabelece diálogo com o poder público
a partir do eixo hidrográfico conhecido
como
BACIA do Alto Iguaçu
ela integra
em uma área habitacional única
as comunidades do centro e da região metropolitana da cidade

É nesse contexto que avançam


desde 2011
as ações da Ciclo Iguaçu
a produzir
políticas efetivas de respeito à ciclistas e pedestres

245
O projeto surgiu a cerca de
dois anos. No ano passado,
foi incluído no Plano Cicloviá-
rio da cidade. O pontapé
inicial foi a pintura na parede
do prédio adjacente à
praça, feita pela artista suíça
Mona Caron durante o Fórum
Mundial da Bicicleta realizado
pela CicloIguaçu no começo
deste ano de 2014.

246
ONDE ELA FICA?

algumas pessoas descobriram


um terreno abandonado no centro da cidade
entraram em contato com as autoridades
solicitaram as matrículas do terreno
e
após alguns meses
obtiveram a informação de que o terreno era público
coisa que nem a prefeitura sabia

em seguida reivindicaram
que o terreno fosse cedido para a construção de uma praça pública
e
como os iniciadores de todo o processo são ciclistas
da
Associação Alto Iguaçu
que fica hospedada
na
Bicicletaria Cultural

logo em frente ao terreno a praça ganhou o nome


de
Praça de Bolso do Ciclista

247
O PODER PÚBLICO ENTRA NO PROCESSO


mas ter um terreno baldio não significa ter uma praça
é preciso reunir os materias de construção,
a mão de obra,
ter um projeto arquitetônico
nessa hora o pessoal
ativou-se a Prefeitura e solicitou-se ajuda das Secretarias
para levar adiante o projeto

Uma reunião com o presidente do IPPUC1


e
com os secretários de Obras e de Meio Ambiente aconteceu em março
e
ficou acordado que as Secretarias disponibilizariam material construtivo
e
equipamentos urbanos
e que o IPPUC daria apoio institucional para a realização da obra, mas
(sempre há um porém)
por conta da proximidade da Copa
e
por questões orçamentárias
não haveria mão de obra para a construção

1  O IPPUC é o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba,


criado em 1965 com o objetivo de dar acompanhamento ao Plano Diretor
Para a Cidade de Curitiba.

248
E QUEM VAI ARREGAÇAR AS MANGAS?

Os ciclistas da Alto Iguaçu


prontificaram-se
a
projetar
e
construir a praça

Com esforços próprios organizaram reuniões


e
convocaram pessoas interessadas em participar

arquitetos, paisagistas, artesãos, engenheiros, professores,


diversas pessoas da comunidade integraram
e
discutiram o projeto
que
finalmente no dia 24 de maio ficou pronto e aprovado

249
E QUEM É PAU PRA TODA OBRA?

Você, eu e todo mundo que queira participar

a próxima fase é a que vai precisar mesmo de toda a colaboração possível

durante todo o mês de maio e junho

acontecerão mutirões para a construção da praça

a Prefeitura vai ceder o material


e
os trabalhos de terraplenagem no terreno

mas o trabalho de construir será cidadão e voluntário

todos aqueles
que quiserem tomar parte na construção desse espaço público
estão convidados
não importa se você tem, ou não, habilidades especiais
o que importa é participar

a cidade que a gente quer é a cidade que a gente faz

voluntários tocam
as obras de construção e atividades culturais na praça
decidindo em conjunto os rumos do espaço

o método de construção coletiva


em simultaneidade com as oficinas de mosaico
petipave, super adobe, arte urbana e construção civil
faz com que

Praça de Bolso do Ciclista


se defina como lugar e também como prática

***

250
RHR
RhR
Laura Lima
conversando com alguns de nós

Glossário RhR
Laura Lima (desintegrante do RhR)

LAURA LIMA CONVERSANDO COM quando convivi com pessoas em proces-


ALGUNS DE NÓS sos mais coletivos e etc. Uma das
RHR1 questões desta convivência era a de,
justamente, ir criando um glossário,
L a u r a Então, eu falo, faço uma apresen- porque a gente partia de um certo zero,
tação? Eu geralmente não preparo nada, com aspas, que era chamado de hífen.
gosto do fluxo das conversas. Eu gosto Esse processo coletivo era o RhR, um
muito de ouvir, porque já tem aquele organismo que eu comecei, onde este rrrrr,
cotidiano de ir fazendo as coisas, cada um falava de um jeito.
já pensado, por isso ouvir e fluir é bom.
Pois então, essa coisa do vocabulário é
uma coisa pra mim que funciona bastan-
te, como um exercício constante. Curio-
samente agora, para publicar um livro,
eu evitei publicar o vocabulário, porque
esse vocabulário sempre se renova, e o uso
é bastante importante, acho que não
seria bom engessá-lo, o vocabulário
continuou aberto e o livro também, de certa
maneira, para haver outros livros, eu
estou viva, né? Vou soltando aos poucos
certas coisas, tem outras que eu já uso há
bastante tempo e tal… E também já tive o
exercício de criar uma espécie de vocabu-
lário/glossário em algumas situações
1  *Transcrição a partir da conversa na oficina interna
em Abril de 2014

251
Começou como Representativo hífen situação de uma reles artista jovem e
Representativo que são as primeiras sem “uso”, inventando trabalhar com
letras, RhR, e falado torna-se um som pessoas e enfrentando um legado muito
gutural rrrrhrrr… Mas bem, aí eu já importante da Lygia (Clark) e do Hélio
estou me adiantando um pouco porque (Oiticica). As leituras dos outros
essa coisa da palavra, dos termos, pra partiam muito daquele ponto clark
mim, é bem importante. oiticiquiano, sobrecarregando o que eu
“Você” [Cristina] falou ontem [na na verdade tava querendo construir.
rodada de apresentações na oficina Claro que eu poderia dialogar com
interna] “É, tem a Laura, que mexe com aquilo sem necessariamente dizer que eu
essa coisa da performance…” Na verdade estava respondendo àquilo, e pra mim
eu não uso essa palavra, todo mundo já era uma confusão grande a confusão das
sabe (…) Tem muita coisa para falar… pessoas. Pensei assim: “Eu acho que vou
Tem primeiro essa coisa de começar a começar a ter termos específicos.”
produzir imagens com pessoas… Quando digo isso, eu tô falando principal-
(… ) Eu fiz faculdade de filosofia, mente da ideia de pensar a significação
e paralelamente comecei a conviver com das coisas e a questão do vocabulário como
uma série de artistas e o Parque Lage, uma coisa importante, numa dilatação
o que foi um exercício de criatura da constante de aproximar e diferenciar-se
linguagem muito importante. Quando eu e todos os diapasões que aí estão.
resolvo trabalhar com a presença de Depois que eu fiz vários exercícios
pessoas nas minhas obras, eu tinha cer- (e algumas exposições), criando
teza que aquela construção que eu fazia uma coisa com uma filosofia intrínseca
— mesmo que tangenciasse a ideia de na minha cabeça e tal, que era o
performance — não era e não podia Homem=carne/Mulher=carne, pensei:
responder a uma coisa que eu já entendia estou numa redoma de significados que é
como uma escola efetiva, a escola de a arte… Com esta sensação, um certo dia,
performance e tal. Eu tô colocando resolvi chamar um monte de amigos, que
coisas que são muito complicadas, chamaram outros amigos etc pra uma
valeria conversas mais longas etc sobre o noite/conversa na minha casa.
tema. Bom, então eu começo a produzir Pessoas que se conheciam apareceram,
uma coisa negando alguns termos e conhecidos de vocês e tal, e começaram
começo a criar um glossário interno pra a trazer outras pessoas. Tinha até um cara
poder falar um pouco sobre aquele proces- da Maré que apareceu lá, o Ruben que
so de linguagem que eu tava lidando. vinha uniformizado da Maré até minha
Inclusive porque, imagina a minha casa em pleno calor de 40ª, era uma

252
figura. Aí eu chego e falo: olha eu quero eu era administradora até então.
iniciar uma coisa que eu não quero que Eu reunia esse material que as pessoas
se comprometa com a idéia de obra de traziam ou catalogava termos que
arte nem com a coisa de arte. Quer dizer, apareciam dessas conversas ou dessas
como é que eu posso fazer um exercício, situações que realizávamos. Também
doando aquilo que eu entendo, o meu não sei se o termo é situação.
saber, ou pelo menos exercitando com certo A gente fez/tem um glossário, tenho
instrumental, certo viés, um tipo de estudo aqui 8 panfletinhos. Esse aqui é super
digamos … mesmo que seja um lance histórico, vocês podem pegar. É um
meio capenga filosófico? A pergunta era glossário que a gente fez nessa época em
direcionada a todos. Então as pessoas que o RhR começou a existir, e é o seguin-
diziam: mas cê tá falando de quê afinal te, é uma coisa sem objetivo nem plano
de contas?… era o primeiro dia de esboçar específico, não tem função. Os lugares
as ideias, e de fato, eu não fazia a menor que as pessoas iam eram paradas
ideia do que tava falando, a única coisa militares, aeroportos, zonas geográficas
que eu gostaria de pensar é o seguinte extremas. Elas começaram a trazer isso
(…). Aí eu comecei a doar coisas. como ruídos de uma situação de ritual,
Eu imagino que a gente pode chamar por exemplo, jantares mudos — a gente
isso de Representativo e [hífen] Represen- geralmente se reunia lá em casa e ficava
tativo, por exemplo, sugeri. Se a gente horas sem falar nada, só comia, todo
for mapear algo que acontece entre duas mundo quieto sem falar nada.
estruturas (a fórmula mais simples), V 1 Tem mais desse material? / V 2 A gente

ou duas existências que se tocam, existe pode xerocar? / L a u r a Eu tenho mais alguns,
sempre um ruído de significação. Quer tem um bolinho “assim” lá em casa.
dizer, o que que é isso? O que tava claro Inclusive esse lugar de imprimir foi o
pra mim, era que eu não queria criar um Helmut que me deu na época, no começo
coletivo como o que as pessoas entendiam dos anos 2000, tanto que dá para ver que é
na época… mas não fazia a menor idéia a mesma estética [dos folhetos do Capace-
o quê… te na época], era super barato. / V 1 Posso
A gente começou a se reunir constan- pegar um então?
temente e aquilo foi criando uma certa L a u r a Pode, pode pegar. Eu vou publicar

explosão de conversas e coisas. A gente isso agora [livro no prelo]. A gente deu um
escolhia lugares por exemplo para se jeito de publicar essa história.
encontrar, ia muito em aeroportos. (…) Esse organismo teve outros adminis-
Eu comecei com uma certa doação, tradores, o Arthur Leandro numa certa
uma certa organização burocrática, época no Pará, por exemplo. Geralmente

253
quando a gente publicava coisas em mos nem como manipulava esse tipo de
livros de arte era assim: “Arthur Lean- ferramenta.
dro a serviço do RhR”, “Laura Lima a Eu cataloguei uns 60 membros, inte-
serviço do RhR”. Mas a gente perdia grantes mais constantes. Inclusive de
muito porque deixava as coisas “abertas”, países diferentes. Tinham integrantes em
por não ficar explicando. outros países que depois também foram
E no exercício [do RhR] você começa- administradores em outros lugares etc.
va a falar com certos termos e começava Um cara de um museu, o Reina Sofia [em
a aplicá-los, por exemplo, no Organismo, Madrid], veio ao Brasil na época. Ainda
você não usava uniforme, você portava era época do Fax e você viajava mesmo,
uniforme. Existia uma bandeira que um porque não tinha essa coisa de fazer
membro fez que era dura, então parecia skype, etc. Ele falou — eu queria muito
que ela tava flanando, mas era uma fazer uma exposição desse seu planeta,
bandeira imóvel, em “movimento para- ele chamou assim, e eu respondi, “mas de
do”. Você usava isso constantemente, jeito nenhum, isso não é arte!” Ele come-
por exemplo, os uniformes eram corruptí- çou a fazer trocas a partir dali e acabou
veis, então, poderiam ser algumas pessoas sendo integrante, começou a ir nas
fazendo, outras depois iam modificando. reuniões, convidou algumas pessoas pra ir
Eu simplesmente fiquei 3 anos organi- lá, e a gente organizou esse negocinho
zando esse material e parei. Aí acho que o aqui [folheto em português e espanhol].
Arthur foi pro Pará, foi ser administrador Agora se vocês notarem tem uma tradução
lá, o Ducha fez alguma coisa não sei em espanhol que era uma tradução que
aonde, cada um foi fazendo o que entendia não pôde ser corrigida pelos espanhóis,
daquilo, a sua própria administração. porque a adaptação da língua também era
Foi um exercício bastante interessante… uma coisa, então era cheia de erros,
As pessoas tendem a falar: e aquela sua propositais, então a gente passava isso
obra? Quando eu fiz esse panfleto pra pros espanhóis. Não podia corrigir o
organizar um pouco esses termos [há panfleto. Quer dizer, são tantos detalhes a
uma lingueta para se ‘inscrever’] coisa do RhR que exigiria um tempo pra
apareceram pessoas que se inscreveram. sentar, e debruçar e trazer esses termos
Eu tô falando de 1999, 2000, quando não todos que eram termos de um exercício
tinha muita internet, não tinha uma muito bom. E uma das coisas,
rede social. Então as pessoas tinham de por exemplo, que a gente usava era a
se inscrever. Já tava começando o e-mail, ideia do atravessamento que outras
e a gente tinha um jeito de construir um pessoas também pensavam, o Basbaum
site que nunca deu certo — não sabía- também com trans-atravessamento na

254
época, por exemplo. Era uma coisa muito Tem essa coisa do vazio, do fracasso,
importante (…). Eu ouvi você falando da da corrupção, são coisas muito importan-
questão dessa experiência do coletivo, tes. Você também desarticula uma idéia
o atravessamento que a gente colocava de dar certo. As pessoas dizem o RhR tá
falava exatamente isso, de você até por ai não sei o quê, não o RhR nunca foi
poder conviver num processo coletivo pra dar certo né, pra continuar e ser
contanto que você pudesse criar suposta- algo. (…)
mente uma ramificação, uma capilarida- V 1 Sabe dizer os anos do RhR? / L a u r a

de donde as idéias vinham, para que não Ele existia pelas insígnias, que mudavam,
se perdessem justamente a origem de e elas caracterizam o tempo do RhR. Então
cada uma. É um processo difícil e pode tem não sei talvez 50, 55 meios diferentes
até virar um processo ficcional né. mas ele começa em 99, o primeiro movimento
Entãopor exemplo, eu falei um negócio, foi 99.
aí a Cris disse ‘não sei o quê’, mas a Cris V 2 E quantos integrantes tem?

vem dessa experiência lá na Inglaterra / L a u r a Eu cataloguei na época com toda a

agora, e você lá em São Paulo tem outra dificuldade — porque não tinha essa
experiência com o negócio das passa- coisa da rede —, 60 que eram mais
gens, e então se cria esse termo. (…) comuns, que tavam sempre ali, apare-
A gente começava a criar essas capilari- ciam, mandavam coisas e etc. Na minha
dades que eram muito mais instigantes época, nesses três anos, mas paralela-
sem criar um bloco de uma coisa não mente haviam outros administradores.
autoral. A gente entendia que isso era V 1 Você diz que não é arte, mas você

um exercício já interessante. chegou a nomear de algum jeito, algum


Funcionava assim: Arthur Leandro a tipo de prática? / L a u r a Eu sempre chamei
serviço do RhR, de repente ligava e organismo, na época que eu era essa
falava assim: amanhã tem parada administradora burocrática. Quer dizer,
militar, eu tô indo com o meu uniforme, chegar e realmente escrever algo, pra
entendeu? Quem quiser aparecer lá. que não se perca, tantas pulsões de
Então ia aquele bando de gente de idéias e coisas ou silêncios né, ou lidar
uniforme, andando a la Flávio de com essa coisa do nada. A gente tomava
Carvalho pelas laterais etc, pílulas vazias, cápsulas vazias…
ou como podia. E com a bandeira! Aquilo Uns rituais nada duros, por exemplo,
ficava mais ou menos contado, regis- os jantares mudos você podia falar, se você
trado, ou alguém anotava. Aí eu ia lá, quisesse, mas acontece que ninguém
corria, anotava as coisas. (…) Foi um falava e aí não tinha sintaxe oral,
processo delicioso de criatura de glossário. criava-se outro tipo de linguagem,

255
de gesto, então você ficava horas mudo. Eu relutei muito, bastante, em muitas
V 1 Seria forçado pensar que foi uma situações a falar ou colocar isso nas
formação pra vocês, processo próximo de minhas publicações como artista e até que
educação? / L a u r a Não, eu acho que vale eu consegui furar bastante, consegui
uma série de coisas, você pode agregar controlar, esse era um processo meu que eu
ou desarticular digamos assim, desmem- achava importante, na minha administra-
brar, tem membro e tem um integrante ção burocrática. Digo falar isso não é um
e desintegrante quer dizer, então são trabalho, não é uma obra de arte, isso é um
exercícios, você vê que constantemente serviço desse organismo. E é bastante
é um exercício de pensamento entendeu? complicado lidar com isso às vezes, é um
/ V 4 Qualifica a noção de organismo, trabalho árduo…de prestar atenção, mas
bem legal a definição. isso vai se dissolvendo. Por outro lado isso
V 1 Mas tem uma outra coisa que é também é contraditório, porque o organis-
curiosa, porque o Capacete também se mo é pra ir se dissolvendo, então chega um
denominava um organismo, mas total- momento que você pode deixar a coisa,
mente diferente, né, contemporâneo do você não precisa mais catalogar, agregar,
RhR e atuava de um jeito outro usando por isso que eu disse que era uma adminis-
a palavra organismo / L a u r a E assim como tração burocrática.
o Basbaum usava o trans-atravessamen- V 2 O que você está definindo como

to e a gente usava o atravessamento na arte pra dizer que isso não é arte.
época, com atravessadores, aqueles que / L a u r a É porque naquele momento eu como

portavam uniforme, aqueles que não administradora achava que a arte é um


portavam uniforme… lugar onde você tem um discurso, além de
V 1 E a roupa, você quer mostrar? / L a u r a você ter que fazer uma referência com a
Tenho aqui umas imagens de algumas questão da história da arte, ela tinha uma
viagens, etc. redoma pra significação que ao final tinha
V 3 Eu lembro que causava uns ruídos de ser um ‘enfim é arte’. E na verdade eu tava
assim…os atravessamentos do RhR. / muito mais interessada por esses meandros
L a u r a Tinham uns documentos, por exemplo, de uma não-significação, de não-palavras
Sebastiana era uma integrante que etc. Por isso a ideia de fracasso, esse
apareceu, ela não sabia nem ler nem nada, por exemplo, imaginar que essas
escrever. Tinha o pessoal de artes que ia pessoas estariam constantemente
e ela ia junto, e fazia umas anotações por visitando aeroportos, aeroportos são
ela mesma das palestras de arte, então zonas neutras, já tem uma lei específica
tem aqui o texto dela, a construção dela, ali, mas dependendo do território você
que ela anotava sobre as palestras de arte. tem de sair do aeroporto pra você

256
entender que está no país. Então, saber, mas vamos tentar, foi durante anos
o organismo tinha esses exercícios de tentar buscar na área da música, essa
significação que passavam por essas tentativa mesmo, então eu acho que o
situações de rituais, de localização, vocabulário quer escapar desses… A gente
etc, ou das cápsulas vazias ou os fica evitando talvez o termo arte por isso…
jantares mudos e tal. Porque muito rapidamente o termo fecha.
C e c í l i a Você tocou num ponto que desde L a u r a O cérebro tá muito condicionado

ontem tá flexionando, tá mexendo com a trabalhar em cima de enunciados o


alguma coisa dentro de mim, e é interes- tempo todo, então precisa liberar um pouco
sante porque a palavra performance pra que esse texto seja corrido, por mais
também aparece e aparece sempre como que você interrompa a fluidez, as vezes,
problema, como arte, né?! É como se você que são processos também bastante
fechasse o assunto e fechasse esses interessantes. / V 1 Esse deslocamento
meandros, impedisse a significação mais ajuda a pensar de outra forma, de repente
difícil, mais lenta. Eu tava pensando pensar o que acontece na performance
muito sobre isso ontem eu falei de não através da ideia de tempo, então a gente
perder o controle sobre esses termos aqui, vai tateando (…). O vocabulário aqui é um
sobretudo o estético e o político, na invoca- vocabulário vivido que precisa [ser vivo],
ção das trocas, ou levar muito a sério como e por isso a gente tem receios dos termos,
lidar com tudo isso, tenho um receio de eu tenho.
fechar no termo, e alguns termos fecham L a u r a Só um comentário, eu só dei algu-

muito rápido, como performance, mas dicas, eu falei do processo de constru-


como arte. Em geral, na minha estratégia, ção da palavra, da loucura, da esquizo-
sempre tive uma preocupação muito frenia, não to falando no sentido de
grande com vocabulário. E uma estratégia romantizar a loucura não; é na construção
que algumas vezes eu usei foi de embolar, que você vai ver, enquanto você não sabe
deslocar, às vezes trocar de campo, de não exatamente como lidar com aquele tipo de
estar em nenhum campo. Você falou muito construção ali, que existe uma coisa
de Oiticica, Oiticica tinha uma coisa de intrínseca. Eu lembro que quando comecei
dizer por exemplo, o que eu faço é música, a fazer meu trabalho, eu propunha a
deslocar… aqui entre estética e política imagem do primeiro ao último dia da
eu não sei definir estético, eu não sei o que exposição… pelo menos, [a questão do
são processos estéticos, mas a gente talvez tempo], era algo impensado. A coisa do
trocando com o político, a gente chegue tempo, não tava nem falando o trabalho
a alguma coisa. Da mesma maneira, do tempo num outro sentido, que seria
performance eu tenho horror, eu não quero uma outra pesquisa, mas mesmo até o

257
exercício mais simples. Essa coisa não LAURA
cabia, já era estranho, o exercício da (DES-INTEGRANTE DO RHR)
minha criatura de arte. Eu via que não GLOSSÁRIO RHR
funcionava bem e tem toda uma outra
coisa… Essas pessoas [nos seus traba-
lhos] eram colocadas como uma matéria MOVIMENTO 16.
que eu achava muito importante, porque RhR: não há forma exata de pronún-
por mais que a gente possa fazer em cia deste som, leia a palavra RhR a sua
cima disso uma construção subjetiva, maneira.
era proposital colocar aquilo como maté- RhR é um Organismo que tem seu
ria pra justamente partir de um ponto início no Primeiro Movimento.
que não uma construção desse self que Neste momento, está no Décimo Sexto
tinha muito na Lygia [Clark]. Já é uma Movimento1. Sem objetivo ou função
outra época, a Lygia e o Hélio [Oiticica] específica e não possuindo hierarquia,
tavam num outro momento e eu me é corruptível em sua existência. Conta
sentia num outro momento exatamente, com integrantes de diferentes nacionalida-
pós-Muro de Berlim e uma série de des e espécies2.
outras coisas. Coloco assim porque isso Qualquer pessoa, de qualquer naciona-
tem uma sensação, o artista tem uma lidade, credo ou ideologia é sempre uma
outra sensação. São pontos importantes. potencial integrante do RhR, podendo
(…) Mas essa coisa de você [Cecília ser convidada por outros integrantes ou
Cotrim] faz a construção da comida, oferecer-se a participação, ou apenas
como é isso?Fiquei curiosa. [segue] iniciar sua presença sem que isto seja
declarado a nenhuma outra pessoa ou site
*** referente ao RhR3.

1  A respeito da contagem de tempo do RhR, utilizamos


ate o presente Movimento a numeração em algarismos
seqüenciados, tais como movimento 1, movimento 2 e
assim por diante, supondo que pela corruptibilidade do
Organismo haja alteração da forma de contagem ou
que a mesma possa se extinguir. Ver sobre Movimento
no Glossário RhR.
2  Integrantes homens e animais.
3  Não há como ter plena noção de onde a informação
pode alcançar, uma vez publicado na internet e sem
nenhuma centralização de poder de informação, o RhR
pode alcançar e se transformar e em infinitas possibili-
dades de existência.

258
Porém, para ser um integrante, breve ou do ateísmo, do agnosticismo, da legali-
longamente, é necessário que porte o dade ou da ilegalidade no sistema
Uniforme-Desenho (condição de passa- jurídico etc e etc. O RhR não responde a
gem até o presente Movimento)4. nenhum conteúdo específico ideológico.
O Uniforme-Desenho assim como o Muitas vezes presencia a situação de
todo do Organismo RhR é  corruptível vazio que se instaura através do sistema
em sua existência. Ate agora, possui de condutos burocráticos7. No RhR  já é
chapéu e manto  bidimensional, que observado um processo natural de
cobre o corpo, e pode ser desenhado/ mudanças constantes à medida que o
cortado por administrante/adminis- trabalho de relação dos integrantes,
trador ou por integrante (em muitos administrantes e atravessantes se
casos, atravessadores/atravessantes realiza. A isso se predispõe.
que se interessem, também estão aptos Não há no RhR condição partidária
a cortar/desenhar o Uniforme-Dese- nenhuma pré-estabelecida, a volubilida-
nho)5. Faça seu Uniforme-Desenho a de e a falência são absolutamente
sua maneira. plausíveis8. Com isso rompe-se também o
No RhR podemos encontrar pessoas jugo moral. Caso, em momentos RhR,
de diversas facções tais quantas, e muito jugos se tornarem presentes, desta forma
mais, forem as pessoas que dele façam dá-se a condição já citada de volubilida-
parte 6, por exemplo: provenientes do de e falência, que aqui assume a concei-
ensino, da filosofia, das artes, das tuação de transformação e predisposição
prendas do lar (emprego doméstico), apo- que a palavra volubilidade carrega: o
sentados, autônomos, médicos, terapeu- fluxo existencial9.
tas, operários, engenheiros, incapazes,
advogados, empreendedores imobiliá-
7  Esta relacionado ao data base que o site por exemplo
rios, do catolicismo, do candomblé, se presta. Veja mais sobre este termo no Glossário RhR.

4  Observou-se ate agora que a imagem do Uniforme- 8  A tendência a volubilidade do RhR se observa
Desenho ainda permanece como um elo de visualidade comumente. Esta é a condição do hífen: a condição da
e fomentador de ruídos no cotidiano, chamando a aten- troca existencial. O hífen, que originalmente é a letra ‘h’
ção para algo que esta em transformação. Adiante, não do som/palavra ‘RhR’ é um fator muitas vezes citado e
poderemos afirmar que o Uniforme Desenho (ou como de grande importância para o Organismo: é a ponte lite-
venha a se denominar futuramente) continue a ser rária, lingüística, formal, e principalmente existencial
presença no Organismo RhR. Não há regras máximas da ligação constante e ‘fenomenal’ entre Organismo e
neste Organismo. mundo.

5  Isto se verifica ate o atual Movimento. 9  Este dado é importante de ser ressaltado, pois revela
no RhR a presença de uma não centralização de poder,
6  Se cada indivíduo faz estruturalmente parte de varias ou seja, não há como haver julgamentos de ideologias
facções, isto quer dizer que isto se enreda em uma neste Organismo, já que não há vetor algum que se
progressão geométrica. sobreponha a outro.

259
Os integrantes contribuem para a FICHA DE CONTRIBUIÇÃO E
existência do RhR participando, PARTICIPAÇÃO NESTE GLOSSÁRIO:
conversando sobre, administrando o Além dos inúmeros integrantes que
RhR, seja de que maneira for. Portar contribuíram com discussões para que
um Uniforme-Desenho em seu mais este Glossário fosse feito, é preciso
simples cotidiano é uma contribuição ressaltar especialmente a presença de
para o RhR. Escrever um texto citando alguns que estão diretamente relaciona-
a palavra/som RhR é uma contribui- dos a sua feitura: integrante Laura
ção para o RhR. Podemos chamar isto Lima que concebeu e desenvolveu os
também de momentos de administra- termos aqui transcritos (Glossário
ção do RhR. O RhR também pode Movimento 3 e Movimento 16), obtendo,
simplesmente desaparecer por algum no Glossário Movimento3, a revisão da
tempo, breve ou longo, e ser resgatado atravessadora Lúcia Lima. Há termos
em alguma instância adiante. Não é sugeridos e desenvolvidos pelos inte-
teleológico e não tem nenhum compro- grantes Arthur Leandro e BobN, respec-
misso em vencer ou dar certo. Estas tivamente: VISA RhR e ATOCHA. O
coisas lhe são estranhas, pois parti- Glossário Movimento3 e Movimento16
lham de uma racionalidade específica. foram traduzidos para o inglês, respecti-
O RhR existe, e quem sabe, apenas por vamente, pelos integrantes Zaba Azeve-
enquanto. do e Kiko Nazareth. E o Glossário do
Movimento3, para o Espanhol, pelos
integrantes Ruben Alonso e Kiko
Nazareth.
Vocabulário RhR: concebido inicial-
mente no Primeiro Movimento. Iniciado,
sintática e graficamente, no TERCEIRO
MOVIMENTO. As palavras a seguir
não se apresentam em ordem alfabética,
tampouco numa relação de valor crescen-
te ou decrescente. O vocabulário RhR é
apenas uma “aglutinação” modificável,
constantemente feito através da observa-
ção da terminologia concebida ao longo
do processo relacional do RhR.

260
GLOSSÁRIO MOVIMENTO 16. de acordo com sua facção (ver em palavra
ORGANISMO RHR. Facção abaixo) ou existência; desta forma,
O R G A N I S M O : Esta palavra abrange a a palavra desenho veio da contribuição
questão da Organicidade relativo à de Integrante que pertence a facção arte.
existência em si. Tal especificação pode Tal integrante pensou/concebeu o primei-
ser variante, contanto que esta semânti- ro Uniforme-Desenho ainda no Primeiro
ca evite uma representatividade radical Movimento do RhR.
hierárquica. A situação hierárquica não Extra: Os Uniformes-Desenho também
se localiza no RhR, e sim uma situação são feitos de acordo com o corpo de coisas
burocrática de distribuição faccional ou animais.
estrutural presente neste Organismo. BIDIMENSIONALIDADE DO

E S C R I T A : O estilo de texto que tem sido UNIFORME-DESENHO: Foi adotada no


adotado para o Glossário, Documentos, desenho/corte do Uniforme-Desenho no
Declarações e etc do Organismo RhR, Movimento 1 por intenção de concepção
segue narrativa padronizada já encon- do integrante criador.
trada no cotidiano de civilização em Esta adoção intencional é relativa a
vigência. facção do integrante que o criou.
U N I F O R M E - D E S E N H O : apresenta tecido de I N T E G R A N T E : participantes do RhR que

possibilidades variantes (cor ou textura) portam o Uniforme-Desenho. Um


e é cortado bidimensionalmente (num integrante do RhR pode ser um integran-
mesmo plano). A concepção deste Unifor- te segundo o tempo de sua intenção _ 
me é originalmente da facção arte. (nas identidades “solúvel segundo
O Uniforme-Desenho pode ser cortado/ integrante”), mesmo que seja por alguns
desenhado por qualquer integrante a servi- instantes em que porte o Uniforme-Dese-
ço do RhR e/ou atravessador (Ver palavra nho. Portar o Uniforme-Desenho é uma
Integrante e Atravessador característica que define, ate então, a
a seguir). O corte do Uniforme-Desenho condição de integrante _indivíduos que
segue um corte correspondente ao corpo, não portam o Uniforme-Desenho são, de
com braços, pescoço e longo comprimento acordo com outra situação, atravessado-
em saia, e está sujeito a mudanças, res. Um integrante do RhR pode não
segundo a própria movimentação de estar portando o Uniforme-Desenho,
vários integrantes e atravessadores sendo um integrante, sua condição pode
a desenhá-lo. O Uniforme tem a palavra ser de apenas não estar portando o
desenho acoplada não só por seu corte Uniforme-Desenho.
bidimensional, mas por que cada integran- A D M I N I S T R A D O R : Este termo apareceu

te faz sua contribuição constante ao RhR no inicio do RhR e era relativo a uma

261
questão não hierárquica, mas baseada Termo alterado de
AT R A V E S S A N T E :

em uma burocracia cotidiana no arqui- atravessador. Sua terminação como


vamento de informações do RhR. atravessante e não atravessador,
Com o passar dos Movimentos, o termo como outrora foi chamado, sugere uma
veio a ser dito administrante por possuir situação temporária mais evidente que
o movimento de sua palavra mais o primeiro termo.
relativo ao gerúndio, ao movimento e FACÇÃO OU ESPECIALIDADE FACCIONAL:

sem referencias pessoais tão categorias São as atribuições categoriais das


que a palavra administrador traz. quais integrantes ou instituições que se
(veja em A D M I N I S T R A N T E ) relacionam com o RhR fazem parte.
A D M I N I S T R A N T E : Alteração da palavra Por exemplo: um integrante tem em seu
administrador inicialmente utilizada no registro1 do RhR a informação de que ele per-
RhR. Observou-se que a palavra admi- tence à  facção “Ensino”. Todo integran-
nistrador demonstrava resquício de um te do RhR sempre faz parte de várias
“entendimento” hierárquico, apesar de facções, quer dizer, suas incursões na
sua intenção ser apenas burocrática. Sociedade, opções ideológicas, religiosas etc.
O término diferenciado de administra- A D M I N I S T R A Ç A O R E G I O N A L : Este termo

dor para administrante sugere uma aparece por haver em alguns paises ou
perspectiva mais calcada no gerúndio, estados um integrante que se deslocou e lá
o tempo de verbo que esta acontecendo transmite informações e gera hífens RhR.
por determinado período de duração. F OTO S D I D ÁT I C A S / I M A G E N S D I D ÁT I C A S :

A T R A V E S S A D O R : geralmente, nome dado Toda foto ou imagem feita de ou por


ao indivíduo que recebe/convive com integrantes do RhR, ou assuntos afins.
informações cotidianas concernentes Geralmente aparecem despretensiosa-
ao RhR. Comumente são indivíduos mente ou são livremente usadas para
que freqüentaram a então Sede do RhR algum intuito didático de informação
ou passaram a participar da existência sobre assunto RhR.
do Organismo. Um potencial integrante P O R T A R O U N I F O R M E - D E S E N H O : Estar com

sempre. E se um indivíduo é convidado o Uniforme-Desenho no corpo seja de que


a ser integrante do RhR e pretende não
1  usava-se através de um arquivo RhR, saber, caso
portar o Uniforme-Desenho, pode então o integrante a isso se dispusesse, das facções ou
passar a ser um atravessador. Depois do demais dados a que fazia parte o integrante, tal como
um arquivamento de informações. Já no presente
Quarto Movimento passou-se a utilizar movimento, isto se torna impossível, visto a própria
o termino de atravessante para a deno- condição de mudança/volubilidade do Organismo e,
por isso, da impossibilidade de armazenamento de suas
minação atravessador. informações, já que se enredaram na existência a uma
(veja em A T R A V E S S A N T E ) velocidade e fato.

262
maneira for, alterando-o, corrompendo-o, mesmo que não tenha sido burocratica-
sugestionando-o etc. A forma propõe-se a mente utilizado por situação específica.
alteração em qualquer caso de intenção B A N D E I R A E M M O V I M E N T O P A R A D A : Simula

do integrante, por causa de sua volubili- um movimento fixado de vento em seu


dade/corruptibilidade. tecido. A Bandeira em Movimento
C O N G R A T U L A Ç Õ E S R h R : Geralmente Parada é uma bandeira para portar-se
utilizado na escrita por carta, bilhetes, em inúmeras ocasiões, segundo intenção
emails, recados telefônicos, cumprimentos da administração e/ou segundo
dos integrantes e situações similares. intenção dos integrantes. A idéia de
S A U D A Ç Õ E S R h R : (ver definição acima de movimento de visualidade tem congela-
“congratulações RhR”). das as ondas que uma bandeira possui
I N S Í G N I A : nome inicialmente utilizado ao mover-se com o vento; o que gera
para definição da tarja amarrada nos uma sensação de ruído com a movimen-
braços e por cima dos Uniformes-Desenhos. tação que se implanta da realidade ao
Pode vir a ter seu nome modificado seu redor.
segundo estratégia de integrante ou I D E N T I D A D E R h R — Integrantes:
2

atravessador em administração. Pequeno documento de identificação,


A palavra insígnia faz, sem dúvida, fabricado em papel, em administração
referência explícita a condição buro- do RhR. Os integrantes podem possuí-la,
crá-​tica e uniformizada de movimentos podem não possuí-la, vale o mesmo
e instituições sociais históricas de para os atravessadores. A identidade
inúmeras categorias. A questão do seria uma situação limbóide aos
esvaziamento de objetivo, presente integrantes, que se encontram em
constantemente no RhR, fornece o seu cotidiano sem estar portando
paradoxo principal na associação da o Uniforme-Desenho. Possui caracterís-
definição insígnia. ticas semelhantes a uma identidade
DESENHO DOS MOVIMENTOS E INSÍGNIA: qualquer. É uma relação com o RhR
A insígnia porta este movimento que se que situa o integrante, mostrando sua
modifica sutil e, muitas vezes, sublimi- condição de ligamento e desligamento
narmente. Este desenho/mancha é seu constantes ao RhR.
mote principal. I D E N T I D A D E R h R : Atravessador-Atraves-

MOVIMENTOS DA INSÍGNIA COMO MARCADOR sante: Esta possibilidade foi cogitada ate o
D E T E M P O : O desenho/mancha da insíg- Terceiro Movimento.
nia se modifica subliminarmente sem S O L Ú V E L S E G U N D O I N T E G R A N T E : Frase já

um tempo específico. Um movimento da impressa na Identidade do RhR que


insígnia pode até durar segundos, 2  a identidade RhR, como documento em papel, foi
feita ate o Terceiro Movimento.

263
portam os integrantes. Demonstrativo O termo hífen é sempre colocado no
da Solubilidade constante em que se cotidiano do RhR. Parece ser o mais
encontram os integrantes e os atravessa- familiar a muitos integrantes, pois,
dores e o próprio RhR. qualquer troca do integrante, seja com
A G L O M E R A Ç Ã O R h R : Diz-se do momento um indivíduo, um lugar, uma simbolo-
em que vários integrantes estão em um gia, o hífen já se põe existente.
mesmo espaço fisicamente ou em É existencial, pois é transporte constante
comunicação. Diz-se também de coisas em milhares de vetores, entre qualquer
próximas que lembram situações de RhR. situação RhR e mundo. Não se fala aqui
PRIMEIRO MOVIMENTO E ASSIM POR DIANTE: somente de uma troca que incorpora
O movimento da mancha/desenho/ coisas distintas, como um integrante e
insígnia é um não aglutinante e, um transeunte que com ele conversa ou
ao mesmo tempo, acaba assumindo um apenas passa sem notá-lo, ou trava-lhe
marcador de tempo do RhR. As docu- uma relação de fala ou olhar. O hífen é
mentações dos arquivos, anotações, também um circuito momentâneo que
declarações etc têm suas especificida- produz as trocas por ‘centésimos de
des temporárias, que são demonstradas segundos’ ou por uma duração longa
pelo marcador de tempo, que é este tal como a idéia de eternidade pode sus-
desenho/mancha. Sabemos de quando citar (apenas para ilustrar uma nature-
é um determinado escrito ou um za de existência como figura de lingua-
documento ou uma imagem, observando gem) que sobrevive nestes centésimos
que Movimento ele possui afixado. como um todo e faz-se conjugar a possibi-
T R A N S L A D O F í S I C O : Esta terminologia lidade de inúmeros corpos ocuparem
pode ser usada quando referente ao uso de vetorialmente o mesmo lugar no espaço.
transporte: carro, avião, bicicleta, patins, H I F E N L I N G U Í S T I C O : Faz-se esta ressalva

scate, ônibus, metrô ou mesmo construções por causa da intercomunicação entre


humanas cíveis, como pontes, estradas, diferentes. Parte da idéia que ao assumir
passarelas etc, onde integrantes fazem uso a tentativa de comunicação, neologismos
para movimentar-se além das proporções aparecem, tanto em uma mesma língua,
de seus corpos ou atravessarem caminhos quanto em línguas diferentes. Não há por
construídos neste mesmo sistema civil. exemplo, traduções exatas, mas tradu-
H í F E N : A condição de hífen é a condi- ções hifenicas ou mesmo o sentido de um
ção existencial do RhR. Seu apareci- termo errado de uma língua para outra,
mento se dá no início das três palavras mas tentativas de cruza de idéias.
Representativo hífen Representativo H I F E N I C O : Termo que aparece como

que gerarão o som RhR. Está no meio alteração ou denominação de algo que
como a ponte de significação da passagem. foi gerado por um hífen.

264
O atravessamento
AT R A V E S S A M E N TO : somente. Apesar das explanações sobre
é uma das palavras que é utilizada no o atravessamento conterem maior referên-
cotidiano do RhR, participando da cia a indivíduos, algumas situações que
noção mais específica da própria condi- fujam destas especificações, revigorando
ção existencial das diferentes facções, a situação hífen e volubilidade, falam da
pessoas, termos etc, que se cruzam. natureza do atravessamento.
Corrompimento constante está na D E C L A R A Ç Ã O : Surge em casos de pessoas

predisposição presente da volubilidade e que tenham acesso a imagens do RhR.


na troca do hífen. É o revigoramento do Os integrantes do RhR, até o Terceiro
RhR. Diz-se concernente ao atravessa- Movimento, assinavam declarações,
mento que, já partindo de um pressupos- juntamente com os integrantes adminis-
to que as coisas não são imaculadas, tradores, comunicando que estavam
incólumes, um indivíduo, por exemplo, cientes das imagens enviadas ou mostra-
sendo integrante do RhR e ao mesmo das, ou de outras situações que cabiam na
tempo, faccionalmente, pertencendo a questão. Presumia-se a tentativa de haver
um universo como a engenharia, ou a como questão de data base/arquivo de
medicina, ou ao nomadismo, seja que uma consciência de circulação dos dados
processo faccional for, realiza o atraves- do RhR entre administrantes e integran-
samento; evidenciando que, faccional- tes. Hoje isto não é mais possível por
mente, dois corpos ocupam o mesmo causa do alcance presente na volubilidade
lugar no espaço. Este exemplo citado do Organismo.
está na condição antropológica concer- S E L O S R h R : Eram utilizados para determi-

nente às facções ou aplicado no termo nação do tempo quando estavam sendo


hífen. Até o presente Movimento, o termo emitidas declarações, ou em tarjas dos
atravessamento tem sido mais emprega- braços, encomendas, correspondências etc,
do no que se refere aos indivíduos. ou qualquer questão do RhR, que esteja
O atravessador, por exemplo, termo sendo passada adiante e leve o desenho que
similar referente a um indivíduo, é posto representa a Insígnia/Movimento.
referendando uma pessoa que ao perten- C Á P S U L A S V A Z I A S : Cápsulas de remé-

cer a uma facção, realiza o atravessa- dios vazias de conteúdo material


mento tendo ou mantendo contato com visível. A concepção do ar é evidente-
situações RhR, sem ter se tornado um mente visível matericamente;
integrante que porta o Uniforme-Desenho. ou o vácuo (Ler também J A N T A R M U D O D E
Mas, um integrante que possui outras S I N T A X E O R A L ). Estas cápsulas foram

facções em sua vida realiza o atravessamen- utilizadas ate décimo movimento com
to quando, portando o Uniforme-Desenho, mais freqüência entre alguns integran-
vive uma outra facção que não o RhR tes. São cápsulas de ar, envoltas por

265
padrão de cápsulas feitas por gelatina Até o
E S VA Z I A M E N TO C O N STA N T E D E S E D E :

comum em remédios. Terceiro Movimento a Sede se localizou


J A N TA R M U D O D E S I N TA X E O R A L : em um apartamento, onde ainda existe
Realizado pela primeira vez no Terceiro grande quantidade de informações sobre
Movimento na então Sede do RhR. o RhR. Já está presente no espaço da
Pode vir a ser realizado, constantemen- world wide web em sites na internet e
te, segundo sugestão de administrante pode-se dizer que no cotidiano de atua-
ou sugestão de integrantes. Caracteri- ção de cada integrante ou atravessador.
zou-se como um jantar onde se sugestio- Isto supõe que o Organismo RhR esta
nava um não-diálogo pela sintaxe. em diversos continentes, visto que os
Os integrantes entram, permanecem integrantes aumentam de número e se
e saem mudos. Este encontro, feito apenas interessam em também administrar
uma vez até o Terceiro Movimento, teve o RhR. Todo este processo implica em
intenção de aglutinar a possibilidade seu esvaziamento, descentralizando e
de outras vias que não a situação da fala criando novas forças dispersas.
sintática oral, sendo um representativo S E D E V I R T U A L : Este termo aparece como

do vazio constante que permeia o RhR referencia explicita ao uso da internet


em muitos momentos, assim como como espaço de Sede do Organismo,
a cápsula vazia assume também este porem esta Sede não parece se concen-
momento. trar em somente um endereço.
S E D E : Local onde estão localizadas T A R J A : A tarja é posta geralmente no

concentrações de informações sobre o braço do integrante que está portando o


RhR, Uniformes-Desenhos e onde se Uniforme-Desenho. Nela está a insígnia
coloca comumente o trabalho cotidiano com o Movimento correspondente a
do administrante a que a ela se relacio- época em que é usado, pois esta situa o
na em ato em  suposta “organismação”. Uniforme no tempo correspondente ao
Também um lugar onde comumente histórico do RhR, situando-o também em
tem havido, desde a fundação da Sede, sua referência com relação à insígnia.
reuniões de diversas situações. Até o C O N D U T O S B U R O C R Á T I C O S : Os condutos

Terceiro Movimento, a Sede foi em um burocráticos são as vias fluidas por onde
apartamento. Porém passou a haver o caminham informações RhR, encontros,
esvaziamento da Sede e o desmembra- ou situação burocrática. Espaços de
mento de um sito específico de atuação fluidez de movimento existencial do
burocrática, para transportar-se, como RhR. Têm a ver com integrantes ou
verifica-se no presente Movimento, qualquer tipo de momento de comunica-
neste Site. ção a que o RhR se coloque e se relacione.
(ver também em E S V A Z I A M E N T O D E S E D E ) Os condutos são os caminhos, as estra-

266
das de percorrimento do RhR, estradas RESPONSABILIDADE: A responsabilidade
sempre desimpedidas para que o RhR é um termo que não se adequa ao RhR no
realize sempre sua volubilidade. sentido jurídico/social da palavra. O
V I S T O R h R : Ato de afixar os Selos que quer dizer dentro do RhR, que em
(marcação do tempo - insígnia - movimento) seu processo burocrático não há o
correspondentes ao histórico do Organis- assumir responsabilidades, as responsa-
mo RhR, ou declaração RhR etc, ou seja: bilidades aqui referentes são as de
Selos com os Movimentos da Insígnia qualquer cidadão comum dentro de uma
que registram algo que perpassa a sociedade. Sendo um Organismo sem
situação do RhR, como um documento/ fins lucrativos em seu sentido descentra-
declaração, encomendas etc. Os selos, por lizador, vive do atravessamento de
conterem a mancha da insígnia, também trabalho não remunerado ao RhR. [Este
indicarão quando se dá cada especifica- fato incluirá a tarefa (nunca obrigató-
ção. Isto ainda se verifica em alguns ria) de um administrante como apenas a
momentos de administração do RhR de organizar as informações RhR em seu
F O N T E P L A N A B O R D A L : Este nome foi cotidiano (informações essas sempre
dado aos tecidos/planos que fazem o acessíveis a todo e qualquer integrante e
Uniforme-Desenho. A fonte é encontrada pessoas interessadas no Organismo,pre-
em lojas, por exemplo. Pode ser encontra- dispostas a serem alteradas por qual-
da também em outros lugares, ou mesmo quer integrante ou atravessador)].
inventada dentro do processo de corrup- Não existe relação de dever ou obrigação
tibilidade do Uniforme-Desenho. É deste dentro do Organismo RhR referente ao
plano do tecido que, dobrado em dois, se RhR, integrantes ou administrantes.
cortou/desenhou o primeiro Uniforme- Nem mesmo a de conduta.
Desenho. A expressão bordal é referen- Toda e qualquer atitude de um
ciada por causa do envolvimento corpo- integrante é de sua própria e total
ral que o tecido faz e também a própria responsabilidade no sentido jurídico da
noção de uniforme em uma sociedade. palavra, como cidadão de uma cidade,
V O L U B I L I D A D E : A volubilidade do RhR é país e mundo. O RhR não assume
uma de suas condições existenciais nenhum tipo de responsabilidade
principais. Volubilidade e hífen. Uma concernente a seus integrantes. RhR é
é a predisposição, o outro a forma de apenas um nominativo dado à coletivi-
troca, a ponte. O RhR sempre é volúvel, dade de pessoas que por sua própria
mesmo em momentos de aparente espontânea intenção/desejo/responsabi-
impedimento, novos caminhos sempre se lidade decidem portar o Uniforme-Dese-
travam, novos condutos, novas passa- nho em seu cotidiano comum.
gens em contínuos corrompimentos.
***
267
SAIR
Sair
Inês Nin

Partir / Destruir / Expulsar / Vazar


Cristina Ribas

INÊS NIN

SAIR

Inez saiu dizendo que ia comprar um pavio pro lampião


Pode me esperar Mané
Que eu já volto já
Acendi o fogão, botei a água pra esquentar
E fui pro portão
Só pra ver Inez chegar
Anoiteceu e ela não voltou
Fui pra rua feito louco
Pra saber o que aconteceu
Procurei na Central
Procurei no Hospital e no xadrez
Andei a cidade inteira
E não encontrei Inez
Voltei pra casa triste demais baratinada, atordoada
O que Inez me fez não se faz pelas constantes mudanças
E no chão bem perto do fogão e transformações. ao mesmo
Encontrei um papel tempo entusiasta, enxame
Escrito assim: de possibilidades geradas
— Pode apagar o fogo Mané que eu não volto mais pelo tempo que abre uma
nova camada de espaço/
(Adoniran Barbosa, Apaga o fogo mané, 1974) lugar, novos planos,
desandos, perambulâncias
e afazeres locais.

268
sair é intimamente ligado a lugar, pontapé para o infinito, atadura. sem-
sair como espécie de fuga premeditada, mãos, semmedo, mmordedura. coragem,
sair como vontade de sair do lugar aquilo de que tanto falam os clássicos
(“mexe essa bunda da cadeira”), romanescos sem era, que se sobrepõem
sair como solução aparentemente fácil a uma realidade turva, demasiado
(esvair-se da presença, não lidar com); complexa para nossos contos de fada
sair é ir, é partir(-se em pedaços? pulverizar), caninos. anacronismos de infância,
algo referente a circunstância, uma necessi- maus adestramentos. depois de um
dade, um meio. tempo, os embalsama todos e transfor-
sair como uma intenção de lugar. ma em leituras de maniqueísmos diver-
realocar o corpo ou um estado, o sujeito, sos, notícias sem profusão nem densida-
para refazer sua potência, para entender- de, as quais só se lê às partes. reitera
se de novo, para alhear (imensa necessi- discursos ou cria coisa alguma, mas
dade de alheamento, tantas vezes se faz) segue algum rumo estrito que suposta-
sair implica em movimento: mover-se mente se concretiza. ou não, engole a
pelas próprias pernas. tomar iniciativa rebelião e bate ponto no escritório, todos os
de, encontrar ou procurar um rumo, dias, eis o método que seu pai lhe ensinou.
pôr-se a caminho fuga estaria adoecida pela vontade de
(duros empenhos em sair do lugar) escapar, impulso dormente que não tem
lidar com a hipótese de fuga é de algum lugar? abstrata palavra sair, enquanto
modo mais fácil que lidar com a ação. que fuga apresenta forte oposição (como
que precisa de tempo para compreensão, fugir de — ou fuga, substantivo, algo que
implica em processamento (de dados, acontece ou se sucedeu). a fuga antecede
de mudanças, de estados de corpo a memória, esvazia-se em ato: simples-
e cansaço). zerar as possibilidades mente ir, fugir da coisa, sair do sistema,
é um fetiche que, diante de algo duro, remodelar ou implodir tudo em fato
se refaz constantemente. (esvair-se do sistema é algo absolu-
— e se eu, simplesmente, saísse daqui? tamente sedutor e iminente; difícil
sair como ação impensada, tomada concretizar)
de posição, absurda ação mesma que não da vontade de sair e do semmedo da
se define, como se simplesmente sair se história, da fuga que tem por desejo existir,
faz (e então, estado presente que ator- há em tudo uma propensão a um fora,
menta, algo a que se quer abandonar) um desejo de alhear disso que aqui está

269
(como um estado de coisas que se altera
por uma ação, por mais que esta se faça em
abandono)
o truncado está aí, pois se sistema
nada faria para tornar fáceis as medidas,
codificáveis os modos:
— e quiçá existe um fora?
ou o fora ele mesmo já está dentro?
faz parte de um comum que a tudo se
esquiva e penetra?
entranhas nervuras e atravessamentos,
outrora solfejos, coisas que não têm lugar
permeios e sucessões esquivas irá, irá,
encontrar um morcego em um lugar sem
hora, sem memória, fora de linha e calado
de números, talvez,
liberdade turva só acontece quando não
se vê, quando alegre mentira costura
sossegos onde quer que se vá.
sair, contudo, ainda é um meio que se faz.
nem que seja para alterar lugares,
contaminar uns com os outros, colher um a
um. e não deixar lugar.
(identitárias vontades explodiram no ar)

***

270
CRISTINA RIBAS

PARTIR / DESTRUIR /
EXPULSAR / VAZAR

PARTIR / Nos movimentos do sair, ando querendo


Estou fora do Brasil. Não quero escrever falar de uma produção que se dirige para
em primeira pessoa. fora, para fora das tramas daquilo que
Não sou eu. É essa vontade. Essa vonta- arranca nossa autonomia, daquilo que
de de sair. De uma coisa, de um possível semiotiza nossos movimentos, um movi-
lugar. mento para fora das capturas do que temos
Já estou fora do Brasil anyway. por capitalismo cognitivo ou avançado.
Uma amiga alertou, na minha primei- Abstrações financeiras, financeiristas,
ra grande partida que não destruísse ou sobre nossos pedaços de vida. Ando
desvalorizasse aquilo que deixava. Essa querendo falar para fora como enunciação
partida foi depois de grande, daquelas (speech act) e como operação material.
que a gente escolhe junto com o destino. Êxodo, escape, saída, fuga. Different
Já tive várias partidas. Todos temos. arrows. Partidas diferentes.
Podemos mapear se elas são mais Falar de escape, de êxodo, de saída pode
subjetivas (desligamentos, mudanças), ser endereçar um lugar donde se sai, que se
ou mais geográficas (conhecer, cruzar deixa, que se nega. Destrinchar esse lugar
mundo, ver o horizonte desde o mar). é outra tarefa. Pode ser falar tanto que se
As partidas sinalizam um lugar, luga- atravesse muitas significações, estressan-
res, e avessos, interstícios, camadas, do as possibilidades. Destrinchar tanto
saliências, pedras soltas, beiras de rio, que se desconstrua, não para debater
chapadões, chegadas, catracas, ruelas, as razões, mas para levantá-las, mais
parapeitos altos, portas de controle, e mais, e entender os meios que dão
escadas, vidros, portões, bloqueios, fora. consistência aos nossos atos, às nossas
Não é do estar fora (do meu lugar) presenças, àquilo que está, àquilo que
que quero falar. (Daquele meu lugar fica, donde se parte.
da minha primeira grande partida). Nos movimentos do partir muitas
Mas de um fora que é tal que contrasta vezes não se deseja ficar com coisa
outros tantos. Um fora que encontra alguma ao final.
menos espaço, hoje, que os dentros. Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos
Tenho me pegado a pensar, e não é desvarios / Rompi com o mundo, queimei meus
pensamento reacionário: só há dentro, navios / Me diz pra onde é que inda posso ir
só há dentro? ( C h i c o B u a r q u e e To m J o b i m , 1 9 8 0 )

271
Cantei pra entender, e repeti para objeto fiz um desenho para ver.
reforçar, não é de um amor assim nostálgi- E ao escrever o texto que vinha com ele eu
co esse queimar navios. É de uma carto- falava de uma destruição. Coisa a des-
grafia do êxodo (ou dos seus escapes…), truir: campo da arte. (Letreiro vermelho
cujo trabalho é fazer saltar um procedi- aceso: arte na sua definição genérica,
mento: os passos intensivos desse Partir. topológica, como coisa em um LUGAR, não
Partir. Partir. O estado do partir às vezes como coisa manifesta, BAGUNÇA PERFORMATIVA
é único lugar possível. Queimar navios. e DES//DOBRANTE, arte como função.) Arte é
/Te dei meus olhos pra tomares conta uma coisa que se faz na luta, afinal, essa
Agora conta como hei de partir luta ontológica do ser de fazer acontecer
e significar a vida mesmo, mais do que a
DESTRUIR. arte. Batalha contingencial, não ideoló-
Quantas vezes eu entendi que o desejo gica. Destruir passa por destruir algo em
de partir era um desejo de destruir. Destruir nós, sempre. Não um eu interno como
algo que parece não servir, ou que serve a reflexivo de um fora, mas um eu constitu-
um tanto de procedimentos protótipos tivo de um fora. Destruir para abrir
(superficiais, vazios) cuja relação intrínse- outros caminhos, desnomeados.
ca às transformações da subjetividade perdi,
perdemos. (Um gráfico alertaria: decrésci- MEIO.
mo da EXPERIÊNCIA.) Desejo de partir de um Essa coisa de partir é uma vontade que
lugar-coisa que serve a significações vem do meio, bem do meio do corpo.
demasiado objetais, ou sem objeto operati- Há momentos em que não se pode estar.
vo, vivo. Ou desejar partir de um campo E essa é toda uma discussão.
minado de captura, pura captura e pura Que não há idoneidade que salve.
mediação. (Às vezes fugimos de algo que Há aqueles que digam, contudo, que há
nem se configurou ainda, não por medo, biopotência, que sobreviverá, que passará
mas por receio de que aquele tipo de situação por cima de todos os poderes. Mas se
irá se configurar à frente.) Me lembro dos analisarmos os discursos dos poderes, os
trabalhos de arte demasiadamente articula- poderes são aqueles da censura, da malemolên-
dos com os discursos dos curadores. cia de apagar, inteiras, as potências. Apagar
O estabelecimento de um tal círculo vicioso por generalizar, por deixar de fora, ou por
quando um não consegue TRANS gredir dizimar, pela sabedoria dos discursos
o outro. Coisa que dá saudade de uma genéricos que tal sutileza ali não terá lugar.
literatura desgarrante, tipo Hilda Hilst Des-ignorantes podemos, contudo, rasgar,
em Matamoros, donde não sobra nada. desde dentro. Afinal, quem demarca o meio?
No percurso da desmontagem de um Saímos desde o meio mesmo. Somos o meio.

272
‘Precarias a la Deriva’, Espanha, Museu da Prostituição1, foi um Museu de
meados dos anos 2000 dizem: meterse … Arte, do Rio de Janeiro, Mar a ver…
dentro, não sair de, criticar e produzir a O Museu Mar se implanta cirurgica-
partir de dentro — das condições econômi- mente em 2013 em dois prédios existen-
cas e sociais — do estatuto da precarieda- tes na Praça Mauá — um palacete
de. Mulheres em deriva. Organizar uma desocupado que já foi a Inspetoria dos
ESTRATÉGIA comum, interromper a reprodu- Portos e o prédio do Hospital da Polícia
ção da ordem, politizar a existência, Federal e do terminal de ônibus Procópio
interpelar-se. Sair de um ‘si’ fragmentado Ferreira, cujas linhas viajavam para a
socialmente para ver como a interpelação Zona Norte. Na deriva urbana a facha-
afeta o ‘yo’. Precárias é uma frágil trajetó- da do Mar me acorda com uma espécie
ria (nem um grupo, nem um espaço) que, de memória postiça, decorada com o
como elas dizem deve fazer-se a cada vez. brise-soleil. O Museu não se integra na
Tem uma insistência militante. Tem uma paisagem, a não ser como um pedaço
luta conjunta procurando a construção recortado de Brasília a nos surpreender
coletiva de outras possibilidades de vida. no miolo do Rio de Janeiro. Como falo
Uma luta conjunta e criativa. Um plano branco que é possui um grande ‘muro’ de
que se espalha, que se confunde, que vidro que separa um protótipo de saguão
insurge das cidades-empresa dentro da modernista da calçada. Secreta junto ao
economia-mundo, a partir de onde, na plano de revitalização outros espaços
deriva, perguntam-se: “há outras formas artificializados, como os bares da região
atuais, por acaso, de situar-se em um que passam a reproduzir imagens de
terreno tão marcado pela fragmentação e Copacabana nas suas paredes.
pela dispersão?” As prostitutas que trabalhavam ali nos
Rio de Janeiro, 2013. Na lógica do “só arredores da Praça e do Terminal já não
tem dentro”, tudo é a Zona, tudo é invagi- estão mais. Não atravessam o saguão com
nação, engolimento, a Zona é também a seu bate-perna público. Há apenas 3 ou 4
Zona de Prostituição, claro! A Zona de das cerca de 30 mulheres que trabalhavam
uma precariedade tal que aquela madri- ali, me diz o garçom. Ele não perdeu o
leña, dos riscos da vulnerabilidade e da emprego, nem mudou de praça.
insegurança. Mas também dos desejos. O Mar não é fálicamente o único
Zona dos Desejos. E, dos despejos. O agenciador da gentrificação, claro, mas é
Museu que ali se instalou, na revitaliza-
ção planejada da Zona, que bem poderia 1  “O Museu esta[va] lá, falicamente ostensivo numa
área brutalmente violentada. Ele branco, ela negra.”
ser uma bela maquiagem trans, contudo, Bárbara Szaniecki fala sem pudores de uma zona
não!! Não foi o Museu dos Desejos, nem o erógena negra, uma grande vagina?
“Sobre Museus e Monstros”, publicado em PICICA —
Blog do Rogelio Casado.
http://bit.ly/14i3nJd
273
um dos primeiros grandes símbolos EXPULSAR.
culturais desse estado de mudança que Uma Parceria Público Privada, um
se instala na Zona, mudanca em grande Consórcio, uma licitação, um Projeto.
parte forçada (sem escuta pública) e em Maravilha. Os vocabulários do urbanismo
pequena parte acordada. Ao entrar no contemporâneo explicitam a sua relação
Museu você se configura em viewer, cada vez mais intrínseca com os fluxos
turista, artista, interpreter, público, econômicos do capital privado. Por aí, já
privado, generalizado, contabilizado, … não se pode mais falar em urbanismo como
privatizado? O Museu inaugura sem ciência que racionaliza o habitar em massa,
dúvida outros modos de estar dentro, pois a cidade fica entrecortada em “planeja-
de estar na Zona… mentos” (ou investimentos/lucros) mais ou
Entrar no Mar é sair do campo de menos anexos uns aos outros, que nunca
afetos da genitália negra e imprevisível, respondem a um desenho total — ainda que
da deriva das ruas antes escuras da sejam vários os Rios de Janeiro, e que essa
Zona Portuária. O Mar é excessivamen- cidade contenha inúmeras outras. Rio de
te branco e luz, o contrário de uma Janeiro — cidade que se tenta unificar sob
sabedoria sedutora, e talvez de uma a insígnia de “um” ou de “meu”, uma cidade
temporalidade lenta, da uma potenciali- em disputa. Uma cidade vendida.
dade cabeluda, úmida, monstruosa. Desenho urbano: capital de construção.
O Mar tem dentro? Expressão: destruição. Agente de semioti-
zação: Rede Globo. Não se pode falar que o
debate é sobre uma coisa quando a prática
política totalizante é outra: expulsão e
extermínio. Fundação Roberto Marinho:
a grande fonte de significações dessa cidade
“minha”, fusão com o governo de Eduardo
Paes, de uma identidade carioca que não é
inclusiva, mas é julgadora, é criminalizante…
Não há como falar do partir e do sair
sem falar dos que chegam, dos migrantes,
da gente nova, que chegou agora, e da gente
que foi mandada embora. Os que chegam
vêm do norte, do nordeste, do sul, de vários
lugares. Da América Latina chegam mais,
os bolivianos, os chilenos, os peruanos.
Da África mais angolanos, congoleses,

274
moçambicanos, nigerianos. Topei com três irmãos que
tocavam música de Machu Picchu com duas flautas de
bambu e um tamborete de lixeira improvisado sacolejando
no ônibus R$ 3,00 no pequeno trecho Lapa-Catete. O
desenho de suas narinas me contava: não somos daqui,
somos Índios Incas. Os que são expulsos são os pobres, em
grande maioria negros ou mestiços, misturados, índios,
pixaim. Muitos não são organizados. Mas são também os
organizados, os mais organizados, as ocupas mais antigas,
que são expulsas. São famílias constituídas, são movimen-
tos constituídos, são ocupações por moradia assistidas por
projetos de melhoria de habitação social, são aqueles
outrora protegidos por leis que os acolhiam. Leis que ainda
existem, claro, mas cujos direitos são substituídos por
prioridades outras: política de expulsão dos pobres: os que
chegam andam se misturando com os que são mandados
embora.
A Zona Portuária é um desses espaços cujos fluxos de
vida estão em constante jogo em meio aos movimentos do
capital especulativo, do capital de construção, da venda de
um espaço aéreo que se descola das vidas enraizadas em
seu terreno nos arredores da Praça Mauá, passando pelos
morros, à Gamboa, à Leopoldina… Sendo meio entrada
meio saída da cidade do Rio de Janeiro e sendo o meio ele
mesmo, a Zona segue sofrendo uma operação de fatiamen-
to constante. Em parte destruída, em parte literalmente
higienizada, em parte projetada ao futuro na imaterialida-
de das incongruentes Tromp Towers. A destruição de casas
no Morro da Providência para a construção do Teleférico,
por exemplo, e a expulsão de vidas nascidas e vividas ali,
vidas que não são bloqueio nenhum para os desenvolvi-
mentos do capital, deixa explícito que essas vidas não
foram integradas ao modelo de desenvolvimento planeja-
do para a região, que não são desejadas enquanto tais. v e r BRASIL| BRASIU | BRAZIS

Na concepção do Porto Maravilha Operação Urbana


Consorciada OUC Parceria Público Privada PPP

275
Companhia de Desenvolvimento Urbano Dois momentos são marcantes nas
da Região do Porto do Rio de Janeiro ocupações: o ocupar — romper portas,
CDURP Porto Vivo Odebrecht Globo janelas — para entrar,
Museu de Arte do Rio Museu do Ama- e então construir barricadas internas,
nhã ArtRio Fundação Roberto Mari- fechar as portas, trancafiar-se lá dentro
nho Instituto Odeon Vale Prefeitura do para que a polícia não entre para
Rio de Janeiro Eduardo Paes Secreta- despejá-los; e a expulsão, o sair forçado
ria Municipal de Habitação SMH Jorge pelo estado, o romper do espaço domésti-
Bittar Governo do Estado Sergio Cabral co que havia sido criado, a ruptura sem
Pezão várias ocupações de moradia já despedida, a perda da casa. Ocupar e
foram expulsas ou estão sofrendo expulsar são dois movimentos que
processo de expulsão: Vladimir Seixas e Chapolim mostram
Quilombo das Guerreiras (2006-2014) em Atrás da Porta, um filme finalizado
Casarão Azul (2009) em 2010, no Rio de Janeiro.
Flor do Asfalto (2006-2011) http://filmeatrasdaporta.blogspot.com

Machado de Assis (2008-2011)


Zumbi dos Palmares (2007-2011)

Outras duas ocupações localizadas


na região central do Rio também já
sofreram ameaça de expulsão, duas
delas resistem e tiveram plano federal
de adequação à habitação aprovado
(Chiquinha Gonzaga e Manuel Congo).
Aldeia Maracanã (2007–2013/2014)
Almor (2000–2010)
Carlos Mariguela (2008–2010)
Chiquinha Gonzaga (2004– até hoje)
Guerreiros do 234/510 (2007–2010)
Manuel Congo (2007– até hoje)
Nelson Mandela (2005–2010?)
Muitas outras ocupações
não foram listadas aqui.
Total de famílias removidas na Zona
Portuária: 1 . 0 5 5 . Se contarmos que cada
familia tem em média 3 p e s s o a s , estima-se
um total de 3 . 1 6 5 p e s s o a s removidas…

276
A OCUPAÇÃO QUILOMBO DAS GUERREIRAS,
ENTRE SONHOS E PESADELOS
10/10/2013

(…) “As crianças da ocupação têm um outro projeto.


Uma cidade são duas casas, um parque com uma
cadeira de rodas, um banco, uma árvore, uma tartaru-
ga, uma foca, um pato, um cavalo-marinho, um
chocalho gigante e uma “salsicha com uma maçã em
cima”. Essa foi a resposta construída em argila por elas
a partir da proposta: e se construíssemos a nossa
cidade dos sonhos? Nesse último mês, pensaram,
brincaram e leram sobre lixo, limpeza, revitalização e
cidade. Ficou claro que querem mudanças, mas que
estas são bem diferentes das propostas dos que se
julgam no direito de decidir sobre a vida delas.
Porém, tão importante quanto os seus sonhos, é o que
vivem: a resistência. Há anos lutam e dão sinais de que
esse é o caminho que continuarão seguindo.
O despejo é inaceitável, assim como sair da zona
portuária. Os moradores da Quilombo e de outras comu-
nidades a serem removidas propuseram um projeto de
novas unidades de moradia que já foi aceito há quatro
anos. Desde então, vêm se encontrando e se organizan-
do mensalmente, porém nada foi feito em termos de
construção, atravancada pela burocracia estatal.
É urgente que o projeto de moradia “Quilombo da
Gamboa” saia do papel para que as famílias tenham
uma moradia de qualidade. Com tanto investimento
para os ricos, é inadmissível que a moradia dessas famí-
lias não seja prioridade.”

Te x t o d o b l o g P e l a M o r a d i a
http://pelamoradia.wordpress.com/

277
Quilombo da Gamboa é um projeto de VAZAR.
habitação social auto-organizado Um projeto realizado há mais de um
concebido por movimentos de luta pela ano no Rio de Janeiro, pelo grupo-não-
moradia e incluído na revitalização do grupo Poética do Dissenso, reuniu uma
Porto. Sendo parte do Quilombo da Gam- série de materiais documentais (filmes,
boa, as moradoras da Ocupação Quilom- cartazes, fotografias) de um momento
bo das Guerreiras, após expulsas, não “a ser historicizado” ou inserido nas
aceitaram o auxílio de aluguel social narrativas da história da arte brasileira
individualizado ou por família oferecido (conforme intenção dos amigos-autores,
pela prefeitura do Rio por decidirem expressa em troca de e-mails da qual
reforçar sua condição como movimento, participei). O momento a ser historiciza-
solicitando uma moradia coletiva. do seria a relação produtiva entre vários
O Quilombo da Gamboa segue ainda sem artistas e grupos de artistas, psicólogos,
previsão de construção. ativistas, midiativistas, atores, sociólo-
gos, historiadores1, e a população do que
Escreva aqui o nome de alguém que foi uma das maiores ocupações urbanas
perdeu a sua casa por moradia da América Latina no
 ____________________________________ centro de São Paulo, a Ocupação Prestes
Maia.2 A ocupação existiu entre 2002
Escreva aqui o nome de alguém que e 2007 e sofreu ameaças de expulsão por
chegou agora anos consecutivos, tendo o suporte
 ____________________________________ daquelas coletivações para resistir
politicamente aos diversos processos de
Escreva aqui o nome de uma ocupa- regeneração/revitalização do Centro de
ção de moradia São Paulo. O momento de inserção ou de
 ____________________________________
1  Grupos que resistiram junto aos moradores contra
a expulsão: A Revolução Não Será Televisionada, artbr,
Escreva aqui onde você mora Associação dos Moradores do Prestes Maia, BijaRi,
 ____________________________________ C.O.B.A.I.A., Catadores de Histórias, Centro de Mídia
Independente, Cia.Cachorra, Contra-filé, EIA – Experi-
ência Imersiva Ambiental, Dragão da Gravura, Elefante,
Escreva aqui o nome de alguém que Espaço Coringa, Esqueleto Coletivo,  FLM – Frente
de Luta por Moradia, Fórum Centro Vivo, Frente 3 de
você tem saudade
Fevereiro, Grupo Calango de Teatro, Humanus 2000,
 ____________________________________ Integração Sem Posse, Los Románticos de Cuba, Me-
nossões, MSTC – Movimento Sem Teto do Centro, Nova
Pasta,  Os Bigodistas,  Rádio Xiado, TrancaRua.
2  O prédio voltou a ser ocupado mais duas vezes,
sempre para uso como moradia.

278
Ação realizada pelos moradores do Horto,
ameaçados de expulsão. R i o d e J a n e i r o , 2 0 1 4 .

279
produção de uma narrativa que fosse va se alia a essas duas, a revista Na
“efetiva” para a história da arte pública Borda, editada on line, com o terceiro
ou de intervenção urbana foi a instala- número dedicado especialmente ao Poéti-
ção criada pelo Poéticas do Dissenso que cas do Dissenso, tendo sido lançada
tomou espaço no térreo do MAR — alguns meses depois da exposição.
o Museu de Arte do Rio de Janeiro — (trecho 1)

na curadoria de Clarissa Diniz e Paulo “Vazar essa maneira de entender


Herkenhoff, numa das quatro exposições como os processos acontecem pode ser
inaugurais do Museu em Março de de grande valia para os que atuam por
2013: “O Abrigo e o Terreno”.1 O debate lá, inclusive pela força que teve tudo
aberto pela aceitação ao convite do Mar isso, estética, política e de dissenso.” 2
(e o convite que o grupo fez a alguns de (O “lá” frisado no texto quer dizer lá
nós) nos coloca dentro do terreno da aonde?)
ética e da estética conjugadas, em como (trecho 2)

a criação e a política também dependem “Chego finalmente nos Vazadores, os


de uma política das narrativas, de uma ladrões da galeria. Quem se criou perto
ética dessas narrativas, e como ficam de açudes ou barragens conhece o
suscetíveis aos atravessamentos institucio- termo. É para onde a água vaza quando
nais na mobilização dessas narrativas… a contenção não dá conta de sustentar
A instalação era formada por regis- seu volume. No caso de eventos como o
tros materiais fotos, vídeos, serigrafias, NA BORDA, os Vazadores podem ser
camisetas, entre outros para se referir lugares abertos dentro do evento, da
àquele objeto-evento potente e problemá- exposição, que funcionem para receber
tico, evento de êxodo ele mesmo, ou a demanda externa, tanto do público em
monstruoso como argumentado por geral, quanto de colegas, outros coleti-
Barbara Szaniecki. Junto ao projeto da vos, que de alguma forma sentem que
instalação foi criado o blog Vazadores, fazem parte do evento em questão.  
cujo objetivo era deixar vazar as tensões Não se sabe que formato tem os vazado-
ao redor da participação na exposição no res, pode ser uma parede, um projetor de
Mar, deixar vazar os conflitos, ou as vídeos, um espaço vazio, um site aberto,
posições diferentes ao redor da participa- uma televisão com vídeos, pode ter os
ção na exposição. Uma terceira iniciati- mais diferentes formatos. O que importa
é manter esse espaço vivo para receber
1  O objeto-evento das coletivações no Prestes Maia
está de alguma forma “historicizado” no livro de refe- as informações de fora, deixar vazar o
rência de André Mesquita (2011) Insurgências Poéticas:
arte ativista e ação coletiva, São Paulo: Annablume
Editora 2 http://vazador.wordpress.com

280
conteúdo interno, manter um diálogo inscrevem os discursos politizantes da
com o lado de fora, com o externo, não arte contemporânea a partir de potên-
fechar o acesso a esse encontro, mas, ao cias como aquela? Do evento coletivações
contrário, promovê-lo, para que tanto as + Ocupação Prestes Maia? Ou seria
obras dos grupos convidados, a produ- mais uma operação de curar, de narrar
ção do evento, como todo o conteúdo em para inscrever, como um cansaço de
questão seja espaço urbano, intervenção transgredir?
na cidade, ou outro, estejam num jogo O blog do projeto, contudo, não contém
produtivo de acesso e autotransmutação.” 3 e-mails ou conversas do Poética do
O blog do Vazadores expõe uma série Dissenso com a curadoria da exposição.
de diálogos que aconteceram entre Me pergunto se foi que não houveram
pessoas ligadas diretamente a ações na conflitos com a instituição, os clássicos
Ocupação Prestes Maia naqueles anos vai-vém de um processo de concepção e
de 2000 e grupos no Rio de Janeiro que negociação, antes e depois de exposição/
têm trabalhado na resistência à remo- instalação? O vazamento não seria
ções e revitalizações ‘alucinatórias’ da também da tensão das relações institu-
cidade. Parte do que consta no blog foi cionais que se estabelecem numa emprei-
um debate que aconteceu por redes de tada como esta?
e-mail, que quebrou em posições distin- Reconhecendo que há uma luta
tas vários dentro, vários fora e vários política comum pelos direitos urbanos
através em relação a essa proposta de tanto no Rio de Janeiro como em São
vazamento. Perguntáva-mos: seria Paulo, assim como em tantas outras
possível dizer não? Dizer não ao convite cidades no Brasil, e de que há vários
de expor os registros da produção das movimentos envolvidos na resistência
coletivações + Ocupação Prestes Maia às ocupações, no direito à moradia e na
no Mar? Estávamos relegados ao vazar, mobilização contra as políticas gentrifi-
contudo… A vazar o que já estava catórias, a crítica que fizemos foi que o
agenciado (a participação na exposi- grupo de São Paulo não realizou uma
ção). Mas esse vazar digamos, pequeno, mobilização que de fato abrisse / contas-
a partir do evento maior, expressava um se / partilhasse a participação das
desejo do evento-Poética do Dissenso ele coletivações que produziram no e com
mesmo de vazar o determinismo que o Prestes Maia para grupos do Rio que
vêm trabalhando e militando na resis-
3  Texto da Fabiane Borges no blog do Vazadores “Vaza- tência às expulsões (tendo sido apenas
dores: os ladrões da galeria” http://vazador.wordpress.
com/vazadores/
‘convidados’ para indicar vídeos a serem
exibidos na exposição… para ‘vazar’).

281
Ou seja, nos interessava que tipo de
encontros, conversas, eventos, derivas
poderiam ter sido inventadas que
proliferassem esses modos expressivos
em sua hibridização com uma luta
comum, não porque seríamos incluídos
naquele mesmo projeto de narrativa
historicizante (muito menos no Mar),
mas pelo desejo de partilhar experiên-
cias mesmo. O dissenso, nessa relação,
foi então diretamente em relação à
aceitação de participação propriamente
dita no Museu, em como alguns de nós
v e r CARTA DE NÃO-PARTICIPAÇÃO produziam estritamente um NÃO
como negação de um acoplamento àquele
Museu gentrificante, enquanto que para
os artistas do Poética do Dissenso
aquela era uma participação possível.
Para não cair em dicotomias que
congelam dentro e fora, vivo e morto,
potente e impotente, bom e mal, inocente
e ofensor, oprimido e opressor… alguns
sugeriram pensar a imagem de uma
interlateralidade, como tipo de posicio-
namento que identifica camadas e níveis
de atuação, procura efetuar níveis de
crítica e de intervenção sem identificar
dentro e fora. Ou seja, pensa uma
participação não binária (não como
adesão) e mais como uma crítica ou
v e r RADICAIS>TRANS- atravessamento…
O desafio de se converter em atravessa-
mento considerando que se atravessa
uma dinâmica institucional como essa
(Mar), contudo, sempre passará pelo
crivo da instituição ela mesma, senão

282
não é que se fará vazar. Mesmo que na contemporanei-
dade assumimos que estamos todos “na mesma”, somos
todos corruptos e corruptíveis, somos todos atravessa-
dos pelo capital, e todos a escapar dele, somos todos
disciplinados e disciplinários … nos interessava fomentar
um êxodo de fato, uma negação mesmo. Um não estar
nesse ‘só há dentro’. Então, como é que aquele evento
— coletivações na Ocupação Prestes Maia -, sendo ele
mesmo de êxodo entra nesse ‘só tem dentro’ do que
parece que não conseguimos mais nos libertar? 1
Então aqui dou seguimento a esse vazamento.
Como convoca Felix Guattari em Programa:
“Não é fugir, você próprio, ‘pessoalmente’, dar o fora,
se mandar, mas afugentar, fazer fugir, fazer vazar, como
se fura um cano ou um abscesso.”
Sigo apertando o abcesso. E falo de uma posição
distanciada, tempo e espaço. Já faz mais de um ano que
a exposição aconteceu e quase dois anos que vários
emails foram trocados e o conflito surgiu. Do que tenho
aprendido sobre os debates hoje em dia, e sobre a
construção de posicionamentos políticos, me parece que
o crucial é mapear quais são os pontos em questão ou v e r COMPLEXIDADE

em jogo, ou ainda em disputa, ou ainda em tentativa de


concílio aqui. Sem abrir em pontos parece que corremos
o risco de ficar naquela questão genérica de “o que pode
a arte?”, quando o encerramento previsto pela pergunta
(mal formulada) pode deixar de fora a complexidade
da constituição das vidas que povoam esses espaços.
Não vou elaborar todos os pontos, mas me parece por
bem listar, como maneira de investigar um problema.

1  2002 foi no Rio de Janeiro um ano anti-Guggenheim. Uma franquia do


Museu não foi efetivada na cidade, em grande parte pela mobilização da
classe artística. Outros mega-Museus estão em finalização contudo, e gran-
de parte deles abrindo brechas para contratos milionários entre escritórios
de arquitetos, empreiteiras e gestores culturais. Vide Museu do Amanhã e
Cidade da Música.

283
Sete pontos me parecem estar em (4) os discursos e os posicionamentos
jogo aqui, resta saber quais deles mais políticos das instituições culturais
ou menos ativos. Eles se entrelaçam, contemporâneas brasileiras;
claro, e se multiplicam. É no cruzamento ( 5 ) a luta pela moradia no contexto de

de um e de outro que me parece que um Brasil desenvolvimentista e no novo


podemos provar, testar, protestar, desenho “criativo” das cidades brasileiras,
arriscar engajamentos e passagens sendo o direito à moradia garantido
ético-estéticas: constitucionalmente no Brasil, assim
( 1 ) as maquinações, os acomplamentos, como o direito de ocupação para moradia;
as parcerias e as imersões de artistas-etc ( 6 ) a conexão entre as diversas lutas

de/em movimentos sociais nas suas lutas; urbanas (os ‘direitos urbanos’, como têm
coisa que toma diversos nomes e cria diver- chamado um grupo de Recife ligado ao
sos conceitos nas práticas contemporânea, #ResisteEstelita), ou seja, a construção
injetando conceitos-marca que acabam por de uma memória das lutas pela moradia
cunhar estilos ou novas práticas, que não no Brasil e a construção de uma memó-
vou citar aqui, estilos e práticas muitas ria das lutas pelo direito à cidade no
vezes muito distantes das mobilizações Brasil;
das lutas. ( 7 ) o direito à vida, e não o direito à

( 2 ) as narrativas sobre ou a tentativa privação, aos mecanismos que privile-


ela mesma da “inclusão na história da giam a iniciativa privada em detrimento
arte brasileira” dos coletivos, artistas, da vida (sobretudo a vida daqueles
e ativistas na Ocupação Prestes Maia, menos privilegiados).
o que chamo aqui de coletivações na
Ocupação Prestes Maia; Enquanto que o Poética do Dissenso
( 3 ) as redes de afeto, colaboração, localiza seu feito no ponto ( 2 ) — sobre as
aprendizagem entre artistas-etc e suas narrativas e a politização do contexto
coletivações, e as maquinações e os carioca por meio da mobilização dessa
acoplamentos que nos fazem perceber narrativa —, eu localizo o debate aqui
que estamos em um movimento engajado entre os pontos ( 2 ) e ( 4 ) — em como o Mar
e multiplicado em tantos outros movi- (não) explicita sua participação em um
mentos; ou quando afetos e redes pare- debate político sobre essa cidade em
cem ser e são quebrados, interrompidos, disputa e ( 6 ) — a construção de uma
reconfigurados; memória das lutas pelo direito à moradia;
e entre o ponto ( 3 ) e ( 6 ) — em como as redes
de afeto e colaboração podem fortalecer as
conexões entre diversas lutas urbanas.

284
Não vou analisar a fundo as relações deslocar os afetos duros e produzir
entre os pontos… Eles são colocados outros efeitos, e com as dinâmicas
como agenciadores do desejo, como criativas, que mobilizam a produção
ferramentas para seguir pensando e reprodução social nos valores
e produzindo nessas tramas da ética culturais ali enraizados. No caso do
e da estética. Mar, o modo de agenciar a arte não se
É de longa data que se analisa, desde descola das outras práticas do Museu
dentro, como as práticas artísticas habitam ele mesmo, e de como o Museu se
a dupla e irreversível bandagem de serem instala por uma falta — a lógica da
agenciadoras do escape e ao mesmo tempo ruína 1, 2, 3 — lógica que passa a ser
agenciadoras da gentrificação. O mesmo constituinte de um processo interminá-
para as instituições culturais que chegam vel de cura, de remendo de um abcesso
logo antes dos grandes processos de altera- sempre a sangrar.
ção econômica e social de vários bairros. Gentrificação, palavra já na boca
Na Zona Portuária uma série de outros dos movimentos de luta contra as
projetos atuam dessa forma, como a Fábrica remoções, foi estampada em camisetas
Behring, cuja ‘ocupação cultural’ foi
1  A histórica degradação da Zona Portuária
facilitada por um cheque milionário do que culmina com a realização do Projeto Porto
Prefeito Eduardo Paes quando na iminência Maravilha não deixa de ser parte de um discurso
fortalecido pela Prefeitura do Rio de Janeiro para
de um leilão em 2012 que faria os atuais inaugurar um modo de intervenção privada na
locatários terem que sair (a mesma facilita- cidade (PPP). Vários textos investigam esse feito,
entre eles um escrito por mim “A arte de provocar
ção não foi empenhada com o Galpão das ruínas: especulações na Zona Portuária”.
Artes mais recentemente, por exemplo, ou link http://www.revistaglobalbrasil.com.
br/?p=697, desdobrado em “Alucinações Produ-
com os moradores de ocupações de moradia
tivas” http://uninomade.net/tenda/alucinacoes-
que foram expulsos). É de longa data o -produtivas-producao-cultural-na-zona-portuaria/
embate com os valores culturais que são 2  “Subverter o discurso da falta em excesso e da
implantados em processos de revitalização ausência em potência desses sujeitos produtivos
e políticos [os moradores de ocupações por mora-
por meio de uma arte que não se deixa dizer dia], é caminho necessário (mas não suficiente)
atuar como agente gentrificante, mas que para criar uma cidade resistente ao fundamento
eugênico — aquele fundado na ordem e no pro-
assume transformações. A maneira como a
gresso — e que se abrisse à criação da Multidão:
produção cultural é agenciada hoje, mais “artistas somos nós em nossa potente constitui-
ainda na forma de uma instituição museoló- ção!” Barbara Szaniecki. Em Museus e monstros.

gica e/ou misturada com turismo, ao invocar 3  Vale ler também o texto de Sérgio Martins,
“O Mar de cima para baixo”, um dos poucos
um sujeito subjetivista e consumidor, que analisa e problematiza a implantação do
é contraditório com o desgarrar dos proces- Mar a partir das práticas da cultura e da arte
contemporânea
sos artísticos eles mesmos, que procuram http://www.blogdoims.com.br/ims/tag/museu-
de-arte-do-rio

285
brancas usadas no dia da inauguração do Museu pelos artistas
do Poética do Dissenso e por ex-moradores da Ocupação Prestes
Maia que foram para inauguração: “GENTRIFICADO”.
A imagem veio dos cartazes com o mesmo logo que eram insisten-
temente colados nas paredes e muros da região central de São
Paulo, porém 10 anos antes. Ainda me pergunto se essa ação
refeita no Mar era uma intervenção irônica, e se considerava que
a ironia se desdobrava também sobre os corpos, que se identifica-
vam em parte como novos-agentes de um processo irreversível de
gentrificação. Do lado de fora do Museu vários grupos que
contestavam a implantação do MAR gritavam contra aquela
inauguração, configurando um dentro e fora, o fora daqueles que
não queriam entrar no Museu.

SOBRAS.
Na perspectiva de um tempo tenho muitas dúvidas, muitos
desejos, muitas saudades. Me parece que os artistas do Poética
do Dissenso não romperam o falo doido. O falo é rijo, é rígido,
ele resiste, e se paramenta a sanar, via seus afetos duros, sanar
os traumas das expulsões. Vi muito disso na conversa realiza-
da meses depois no Museu.1 A semiótica da cura e da inscrição
histórica que ostenta formas narrativas, faz a arte correr o
mesmo risco que o Museu ele mesmo, e ao final ambos podem

1  Video de uma conversa com Fabiane Borges, Ivana Bentes, Felipe Ceppas, Paulo
Herkenhoff e Clarissa Diniz y o u t u b e . c o m / w a t c h ? v = c c q O _ y w k 1 c Y # t = 1 1

REFERÊNCIAS:
Link para o registro da instalação Poética do Dissenso no Mar
tuliotavares.wordpress.com/poetica-do-dissenso-museu-mar/
Vídeos do projeto
v a z a d o r. w o r d p r e s s . c o m / s e m p r e g a n h a n u n c a p e r d e /
Link para o filme Política do Dissenso
mil971.wordpress.com/mostra-politica-do-dissenso/
FASE, Cartografia social urbana: transformações e resistências na região portuária do
Rio de Janeiro
issuu.com/ongfase/docs/fase_web/1?e=4383667/7052774
Olimpicleaks
o l i m p i c l e a k s . m i d i a t a t i c a . i n f o / w i k k a / Z o n a Po r t u a r i a
Associação Chiq da Silva, As ocupações de prédios vazios e o esvaziamento do centro
da cidade do Rio de Janeiro
chiqdasilva.com/site/index.php?option=com_content&view=cate-
gory&layout=blog&id=10&Itemid=11

286
acabar operando como emplastro que de vazar mais do que o que foi contido,
nunca tapa o abcesso a vazar. Sobra a a busca pelo abcesso, o fomento da destrui-
saudade daquelas redes de afeto e aprendi- ção.
zagem por reativar, reconfigurar… Numa empreitada como essa, de marcar
na história da arte e de criar uma inter-
CURAR. venção num fluxo de privações, há vários
Há diferentes emoções quando o níveis de conflito que se manifestam. E há
movimento é de emplastro, de cura, vários outros movimentos que se revigo-
e não de dilaceramento, de abertura. ram e se intensificam. O ‘fluxo de priva-
Há diferentes contratações, e há portanto ções’, aqui, está na raiz do próprio termo
diferentes textos. Uma dicotomia seme- Parceria Público Privada — PPP,
lhante a produzir como reproduzir e a consignação estado-iniciativa privada
produzir como hackear. Nas dinâmicas que dá à iniciativa privada a gestão e o
da cura escreve-se diferente, expressa-se lucro com o terreno/território da Zona
diferente. Situações como essa me trazem Portuária pela empresa Porto Vive;
à cabeça o desenho de um gráfico de parceria que se estende, não por acaso nem
escusas: se as escusas que eu acabo dando ironicamente, à presença das coleções de
para fazer algo tomam mais tempo na arte privadas que constituem grande parte
minha fala do que as motivações, tem algu- da coleção do Mar — um museu PPP feito
ma coisa errada aí. Ou seja, se da constru- com dinheiro público de renúncia fiscal,
ção ou criação de conceitos, se passa ao um modo de contratação financeira que
espaço da retórica e ao espaço da desculpa desenha, portanto, sua concepção, usos e
parece que mudamos de uma força ativa programação do qual o diretor Paulo
para uma força reativa. A escusa parece Herkenhoff na atualidade procura em
ser o próprio espaço da captura, captura parte diferir. Dos fluxos que se intensifi-
dos afetos desgarrantes, que se tornam cam na abertura desse campo de dissensos
reativos a uma força transgressoramente um deles quisera eu fosse esse relato tomar
maior, ou apenas… acaçapante. parte da construção de uma história das
resistências por moradia, que está ainda
EXCESSO. bastante fragmentária, mas evidentemente
Ao desejo agenciado nos acordos cabe, ativa, e não silenciada, … absolutamente
contudo, estar em meio a um jogo: por um transbordante. Vida em excesso.
lado a participação no falo branco e na
promessa de uma inclusão (quem escreve OUTRA PARTIDA.
as coisas na história?), a insígnia de uma Há modos e modos de operar no escape.
operação, abraçar uma inclusão; e por Os modos devem ser, senão, estratégicos.
outro, a perseverança do dissenso, o desejo

287
RESTOS.
Na sobra do que sobra de história pra contar restam
as vidas sem casa.
As saídas e os atos de ressingularização.
Operar uma destruição e uma recomposição.
A ética produz limites. Eles aparecem em cada
relação. Como desejo (acoplamento) ou como repulsa
(separação). Há momentos em que a ética grita no
corpo e o que se autoriza, então, é deliberadamente
v e r CARTA DE NÃO-PARTICIPAÇÃO dizer “não”.
Há quem chame algumas ações de negação como
expressão de recalque, ou como tomadas de posição
reacionárias.
No Vocabulário de Deleuze François Zurabichvili
fala que o problema (o que é interessante, o que move)
no percurso de um processo desejante está na fuga.
Fugir nesse sentido pode ser perder a clausura,
a estanquidade, e nesse sentido escapar, esquivar-se.
É uma saída paradoxal, ele diz.
Não há enfim uma grande primeira partida. Não há.
Só há partidas. Nem dentro, nem fora.

SUPÉRFLUOS.
Sair como desejo
…………… como estratégia
…………… como fuga
…………… porque encheu o saco
…………… decisão subjetiva
…………… como operação material
…………… como experiência
……………

Saiu porque ……………


Saiu porque ……………
Saiu porque ……………
Saiu porque não deu conta
Saiu porque já não cabia (mais gente, e mais gente)
Saiu porque havia chegado a sua hora

***

288
289
290
SINTAXE
Sintaxe
Pierre Garcia

291
292
TARIFA ZERO
O que aTarifa Zero, os bancos e as concessio-
nárias de automóveis poderiam ter em comum
mas ainda não têm
Graziela Kunsch

A contribuição que eu havia pensado originalmente para o Vocabulário Político


era contar, desde a minha experiência, como vi a expressão “Tarifa Zero” no trans-
porte coletivo aparecer, ser debatida (inclusive negada) e se transformar ao longo
dos últimos nove anos. Eu queria contar da emoção que eu e pessoas de luta
próximas como Lúcio Gregori (criador do projeto Tarifa Zero nos anos 1990) e Daniel
Guimarães (criador do website TarifaZero.org em 2009) sentimos hoje toda vez que
uma multidão de rua grita “Tarifa Zero”, porque foi um longo processo até essa
expressão ter sido assumida por todos os coletivos do Movimento Passe Livre e,
pouco a pouco — com muito trabalho de base em escolas e comunidades, além dos
materiais impressos e das manifestações de rua —, ser apropriada por tantas
pessoas. Não cheguei a redigir esse texto e, no processo de organização desta
publicação, acabei escrevendo e publicando um outro texto relacionado ao tema,
objetivando contribuir diretamente em um processo político, mais que em processos
estéticos. A Cris perguntou se eu não teria vontade de publicar este texto também
aqui no Vocabulário e, inicialmente, achei que não fazia muito sentido. Ao voltar ao
texto, lembrei que seu objetivo principal era trazer para o debate público a Tarifa
Zero, no momento em que a grande imprensa escolheu ofuscá-la, colaborando no
processo de criminalização das lutas por mudanças sociais e espaciais. E o que é
este Vocabulário, senão tornar visíveis certos termos e contextualizá-los?

Não sei se o texto que segue irá colaborar em processos estéticos — espero que
sim —, mas estou muito contente de contribuir na publicação desde os movimentos
políticos.

Grazi

293
POR GRAZIELA KUNSCH
COLABOROU DANIEL GUIMARÃES

O QUE A TARIFA ZERO, OS BANCOS E AS


CONCESSIONÁRIAS DE AUTOMÓVEIS PODERIAM
TER EM COMUM MAS AINDA NÃO TÊM1

Escrevo este texto a partir da experiência da mani-


festação organizada pelo Movimento Passe Livre no
dia 19 de junho de 2014 em São Paulo e a sua repercus-
são na imprensa. Esclareço desde já que o texto é
assinado por mim individualmente e que não falo em
nome de ninguém. Busco apenas contribuir como
pessoa que estava presente no ato e que ainda se choca
com as distorções desleais feitas por alguns jornalistas
dos veículos de imprensa hegemônicos, que estavam
igualmente presentes. Farei uma reflexão sobre o que o
ataque a agências bancárias e concessionárias de
automóveis poderia ter a ver com a luta pela gratuida-
de no transporte, mas que no ato do dia 19 não teve;
além de uma crítica à criminalização dos movimentos
sociais. Escolhi me posicionar diante do que considero
uma tática equivocada para o nosso momento atual,
mas tenho a clareza de que a verdadeira violência é
promovida pelo Estado, tanto pela sua polícia como
pelas suas políticas públicas distorcidas, que servem
mais a interesses privados.
Começo comentando o título dado pelo Movimento
Passe Livre ao evento. No lugar do mote “Não vai ter
copa”, limitado ao momento específico que estamos
vivendo, o MPL propôs “Não vai ter tarifa”, que
expressa a luta de mais de nove anos de existência do
movimento e dos anos futuros. Eu tendo a não gostar
muito desses títulos que operam pela negativa; acho
que funciona mais ser propositivo (algo como “Vai ter

1  Originalmente publicado no TarifaZero.org, em 26/6/2014

294
Tarifa Zero”). Ao filmar o ato eu tinha que fazer um
certo esforço para enquadrar a faixa “Não vai ter
tarifa” inteira. Se algumas pessoas se posicionassem
na frente do “Não”, lia-se “vai ter tarifa”, e talvez esta
parte da frase fique impregnada no nosso inconsciente.
Ainda assim considerei a escolha do movimento
pertinente, pois se a Copa no Brasil em breve irá
terminar, outros tantos problemas (incluindo aqueles
causados pela FIFA) permanecerão por aqui .2 Além de
se solidarizar com quem é contra a FIFA e contra o
mau uso do dinheiro público — o “Não vai ter copa”
está implícito no “Não vai ter tarifa”, é a origem do
novo nome —, o movimento sugere um foco mais
específico. E faz todo sentido pautar o transporte
coletivo no contexto da Copa, porque a maior parte dos

2  O que não deslegitima, de modo algum, a importância dos protestos


contra a FIFA ou contra as remoções de famílias pobres de suas casas
durante todos os anos de preparação da Copa, o valor absurdo de recursos
públicos investidos na reforma ou na construção de estádios, a morte de
operários da construção civil, o turismo sexual etc. Os que quiserem
conhecer melhor todas as motivações das pessoas que foram às ruas
contra a FIFA, contra algumas implicações do evento na vida de pessoas
pobres e contra determinadas ações dos governos brasileiros, podem ler o
conjunto de reportagens realizadas pela Agência Pública, publicadas na
seção “Copa pública”: a p u b l i c a . o r g / c a t e g o r y / c o p a - p u b l i c a / . Também
recomendo a seção “Não tem dinheiro pra Tarifa Zero?”, do portal
TarifaZero.org, que compartilha notícias sobre altos investimentos dos
governos como crítica ao mau uso de dinheiro público, sugerindo a
necessidade de novas prioridades: t a r i f a z e r o . o r g / c a t e g o r y / u n c a t e g o -
r i z e d / n a o t e m d i n h e i r o / . Neste contexto, destaco uma notícia que
compartilhamos sobre a Arena da Amazônia, que custou 669,5 milhões de
reais e que foi construída para sediar quatro jogos da Copa e nada mais:
tarifazero.org/2014/03/09/manaus-apos-mortes-e-r-6695-mi-are-
n a - d a - a m a z o n i a - s e r a - a b e r t a - n e s t e - d o m i n g o / . Três trabalhadores
morreram na construção deste estádio e não existe demanda dos times e
das torcidas locais que justifique uma arena de enormes proporções.
Alguns usos vêm sendo cogitados para o estádio após a Copa, mas, seja
qual for esse uso, certamente não poderia ter sido priorizado no lugar de
demandas sociais urgentes que devem existir na cidade de Manaus.
Finalmente, recomendo a leitura do número atual da excelente revista
Retrato do Brasil (n. 83, junho de 2014), que traz uma matéria sobre que
tipo de legado a Arena Corinthians (o “Itaquerão”) deixará para a Zona
Leste de São Paulo e uma reportagem sobre os faturamentos da FIFA e de
seus parceiros na Copa do Brasil.

295
investimentos do governo para a Copa no subtítulo que o MPL deu ao ato, tanto
foram, supostamente, em mobilidade no cartaz de convocação como no panfle-
urbana. Digo supostamente porque as to distribuído: “Agora só faltam 3
obras realizadas (ou planejadas, muitas reais”.3
não chegaram a ser construídas ou Falta mais que três reais, alguns vão
finalizadas) não necessariamente dizer, assim como, no ano passado,
implicaram em uma maior mobilidade disseram que não era por vinte centavos.
das pessoas pelas cidades.1 Mas aqui irei me deter nas reivindica-
Havia também outro contexto para o ções específicas do Movimento Passe
acontecimento da última quinta-feira em Livre, que é um movimento de transpor-
São Paulo: a comemoração de um ano na te. Para o MPL, o transporte é um direito
revogação do aumento de vinte centavos essencial, que tem o potencial de articu-
nas tarifas de ônibus, metrô e trem, em lar espaços urbanos e outros direitos. Só
19 de junho de 2013, acompanhada pela existirá educação pública de verdade —
redução de tarifas no transporte coletivo acessível a todas as pessoas — se o
em quase duzentas cidades brasileiras. transporte também for público de
Vez ou outra vejo pessoas dizendo que as verdade; do mesmo modo que hospitais,
revoltas de junho não tinham objetivos parques e espaços culturais gratuitos só
claros ou que não tiveram conquistas serão economicamente acessíveis a todas
concretas, que “não deu em nada”. A as pessoas se não houver mais tantas
redução no preço das tarifas do transpor- catracas no meio do caminho (as catra-
te coletivo em quase duzentas cidades cas dos ônibus, dos terminais e das
brasileiras é uma conquista concreta e estações de trem e metrô).4 Lutar pela
tanto, que faz uma enorme diferença na gratuidade no transporte não é pouca
vida de muita gente.2 Apenas é insufi- coisa e é importante os leitores deste
ciente, e esta insuficiência foi expressa texto terem isto no horizonte. Esta luta
1  Ver “A cereja sem bolo”, reportagem de Thiago não exclui a necessidade de outras
Domenici na revista Retrato do Brasil n. 73, agosto de tantas lutas por mudanças sociais e
2013. Apenas saliento que as vaias à Dilma a que
Thiago se refere no texto são dos acontecimentos do transformações urbanas, mas exige foco
ano passado, em sua maioria por razões diferentes dos e adensamento para ser bem feita.
xingamentos feitos por convidados vips na abertura da
Copa no Itaquerão. PDF da revista disponível em
Os objetivos do ato do dia 19 foram
bit.ly/113uZjb.

2  No Brasil aproximadamente 37 milhões de pessoas 3  Preço atual das tarifas de ônibus, trem e metrô na
não podem pagar as tarifas do transporte “público”, e a cidade de São Paulo.
cada vez que essas tarifas aumentam essa exclusão 4  Ouvir a Canção para o Movimento Passe Livre, de
aumenta também. O panfleto distribuído no dia 19/6 Rodolfo Valente (2006): t a r i f a z e r o . o r g / 2 0 1 3 / 0 6 / 1 7 /
pode ser lido em t a r i f a z e r o . o r g / 2 0 1 4 / 0 6 / 1 9 / sao-paulo-cancao-para-o-movimento-passe-livre/
nao-vai-ter-tarifa-panfleto-do-mpl-sao-paulo-pa-
ra-o-ato-de-hoje-dia-19/

296
publicamente declarados desde o início um projeto de lei municipal ser apresen-
do ato, durante a leitura coletiva de um tado pelas pessoas comuns (e não por
manifesto, amplificada na forma de vereadores) são necessários dados e
jogral por quase todos os presentes. assinaturas de 5% do eleitorado. Em
Entre outras frases, o jogral afirmava São Paulo este número equivale a
que “Se a Copa é dos ricos” — e um jogo aproximadamente 500 mil pessoas —
começava no Itaquerão naquele exato um número bastante alto, sendo que não
momento —, “a cidade é nossa!”.5 valem assinaturas virtuais, como
Estávamos ali pela comemoração de um acontece nas petições online. O trabalho
ano da revolta popular que barrou o de conversa e coleta de assinatura na
aumento nas tarifas; pela readmissão de escala um-pra-um vem acontecendo
42 metroviários injustamente demitidos; desde 2011, e quem se interessar por
e, principalmente, por Tarifa Zero. Digo conhecer o texto do projeto de lei e em
principalmente porque a maior parte dos colaborar nesse processo pode acessar a
cartazes, das faixas e das ações realiza- página da campanha.7
das tinham como foco a gratuidade no Uma das últimas ações do ato, que
transporte coletivo.6 desceu toda a Av. Rebouças e ocupou a
A primeira ação do dia, completamen- Marginal Pinheiros, foi a queima de
te ignorada pela imprensa hegemônica, diversas catracas simbólicas, de pape-
na Praça do Ciclista, foi a coleta de lão, seguida da leitura coletiva de um
assinaturas para o projeto de lei de novo manifesto, com um “recado bem
Tarifa Zero de iniciativa popular. Para claro”, direcionado principalmente aos
5  Texto do jogral: “Pessoal / Pessoal / Estamos aqui empresários que lucram com o desloca-
hoje / Para lutar / Por um transporte público de verdade mento dos paulistanos: “Agora é o povo
/ Enquanto os governos / Gastam bilhões com a Copa /
E com o transporte individual / Somos humilhados que vai mandar no transporte”.8
todos os dias / Nos ônibus e trens lotados / E quem
tenta resistir / É criminalizado / Motoristas, cobradores 7  t a r i f a z e r o s p . n e t /
e metroviários / São demitidos por fazer greve / E quem 8  Texto do segundo jogral: “Pessoal / Pessoal /
tenta se manifestar / É reprimido pela Polícia Militar / Marchamos desde a Av. Paulista / Até aqui, a Marginal
Mas nós sabemos / Que só com a união de todos os Pinheiros / Para mostrar que / Quem constrói essa
trabalhadores / Os que viajam no transporte / E os que cidade todo dia / Quase não pode usar a cidade /
trabalham no transporte / É que derrotaremos / Os Mostramos que / Não vamos parar de lutar / Até a
empresários e seus governos / Que todos os dias / Nos tarifa acabar / Até não existir mais catracas / Até todos
exploram nas catracas / Por isso hoje / Saímos às ruas os trabalhadores grevistas / Serem readimitidos / Até os
para dizer: / Se a copa é dos ricos / A cidade vai ser donos do tranporte / Pararem de lucrar / Com o nosso
nossa / Tarifa Zero quando? / Tarifa Zero já!”. sufoco! / Vamos ocupar a Marginal / Vamos ficar na
6  No pequeno vídeo que realizei sobre o ato, intitulado Marginal / E realizar uma grande festa popular / Que
“Túnel Av. Paulista – Dr. Arnaldo”, é possível visualizar deixe bem claro / Que não aceitamos mais essa cidade
as faixas “NÃO VAI TER TARIFA” e “TARIFA ZERO PAGA segregada / Onde passavam carros de luxo / Vão ficar
PELOS RICOS”: v i m e o . c o m / 9 8 7 8 2 3 0 1 catracas em chamas / Para deixar um recado bem
claro / Agora é o povo que vai mandar no transporte!”

297
Após a queima de catracas, os organi- Esses militantes orientavam as
zadores do ato puseram música para pessoas a seguir para a Marginal e a
tocar (um carro com aparelhagem de grande maioria de manifestantes fez
som foi posicionado na via) e um peque- côro com eles, gritando para o ato seguir
no campo de futebol foi desenhado no até a Marginal, de acordo com o planeja-
asfalto. Os presentes pularam as catra- do e publicamente divulgado (com o
cas ainda em chamas, dançaram e conhecimento da imprensa e da polícia).
jogaram futebol em plena Marginal (os Surpreendentemente, uma repórter do
manifestantes são contra a Copa elitista jornal O Globo interpretou que “seguir
e higienista da FIFA, não contra o para a Marginal” significava “não
futebol). Bandeirinhas juninas e uma vamos quebrar nada na Rebouças,
grande bandeira com a expressão “Passe somente na Marginal”. Só posso pensar
Livre” foram penduradas em postes e na que se trata de desonestidade ou de um
ponte Eusébio Matoso. erro grave de interpretação, pois qual-
A beleza de se realizar uma festa em quer pessoa presente sabia que seguir até
plena Marginal foi ofuscada na impren- a Marginal significava tão somente não
sa hegemônica pela ação isolada de uns dar atenção para esse protesto paralelo e
poucos presentes, que haviam quebrado seguir o curso planejado para a manifes-
vidraças de agências bancárias ao longo tação.
da Av. Rebouças e, ao final do ato, Em nota divulgada no dia 21 de
vidraças e automóveis de uma concessio- junho,1 o Movimento Passe Livre se
nária da Mercedes Benz. Essas ações recusa a julgar o que estou chamando de
foram claramente uma espécie de protesto paralelo, afirmando que não
protesto paralelo, ao ponto de militantes cabe ao movimento legitimar ou deslegi-
do Movimento Passe Livre terem se timar impulsos de indivíduos revolta-
posicionado de braços dados diante de dos, mas deixa claro que essas ações não
agências bancárias da Rebouças, estavam entre os objetivos do ato
buscando dialogar com quem queria organizado. O movimento critica o uso
quebrar símbolos do capitalismo (no do termo “mascarados” pela imprensa,
caso, bancos e concessionárias), expli- lembrando que todas as pessoas têm o
cando que o objetivo do ato não era direito de preservar a sua identidade (a
quebrar nada, mas realizar uma festa manifestação foi amplamente fotografa-
popular — em contraposição à festa da da e filmada) e se proteger de uma
elite dentro dos estádios caríssimos — eventual perseguição e criminalização
por Tarifa Zero.
1  s a o p a u l o . m p l . o r g . b r / 2 0 1 4 / 0 6 / 2 1 / n o t a - s o b r e -
-o-ato-nao-vai-ter-tarifa-do-dia-19-06/

298
por parte da polícia (o que não é uma das intenções dos meninos que realiza-
remota possibilidade, mas um fato ram essas ações, pois foi o que declara-
recorrente). Historicamente, o uso de ram para a TV Folha) . Também não
panos para cobrir os rostos tem também quebra o capitalismo. Alguém poderia
outro sentido, muito lindo: os zapatistas argumentar que essas ações possuem
cobrem seus rostos com lenços com a potencial força simbólica, mas só teriam
intenção de configurarem um só rosto; força de fato se refletissem uma revolta
uma forma de dizer “Agora não sou mais ou um desejo coletivos, o que não foi o
eu, somos nós”. caso do dia 19. O que vimos ali foi um
Nem todas as pessoas que tinham espetáculo repetitivo, construído junto
seus rostos cobertos no dia 19 se envolve- com a imprensa e com a polícia. Havia
ram em depredações, concentrando seus fotógrafos e cinegrafistas posicionados
esforços coletivos (e não seus impulsos diante de agências bancárias antes
individuais) em uma ação que pode ser mesmo de a manifestação passar por
considerada muito mais radical e esses pontos e uma total ausência de
inovadora que quebrar coisas: bloquear policiais — a não ser nas duas extremi-
uma das maiores vias para automóveis dades do ato (Praça Mal. Cordeiro de
da cidade com uma festa. Uma festa Farias — perto do túnel da Av. Dr.
pública, com a presença de milhares de Arnaldo — e Marginal) e, possivelmen-
pessoas.2 te, na presença de policiais à paisana ao
Quebrar bancos e concessionárias não longo do trajeto.
necessariamente chama a atenção dos A polícia alega que o movimento se
governos — a não ser para mobilizar seu declarou responsável pela segurança do
lado mais autoritário e mais repressor ato, mas a preocupação do movimento,
—, e não gera melhores serviços públicos segundo a mesma nota anteriormente
(estou supondo que estas eram algumas citada, era tão somente que se evitasse
uma presença ostensiva da polícia
2  A polícia militar contou 1.300 manifestantes. O
militar em um ato que se propunha a ser
movimento estimou que havia muito mais gente, em
torno de 3.000 pessoas. A imprensa divulgou, como uma comemoração, uma festa; pois
sempre, o número dado pela PM, com raras exceções. normalmente a presença da polícia e a
Cito um comentário de Pablo Ortellado após as
primeiras notícias divulgadas, publicado em seu mural atitude de alguns policiais contribui
público de Facebook: “Acho incrível a falta de coerência para que ações como essas aconteçam.
da imprensa no uso dos dados da polícia militar para
estimar manifestantes. O protesto é contra o Estado, o Isso é parte do espetáculo midiático, que
Estado dá número subestimado de manifestantes e a inclusive sempre coloca jovens vestindo
imprensa usa esse número e só esse número sem o
menor pudor — sem notar que essa opção por si só já
moletom e atirando pedras em igualdade
compromete o princípio do equilíbrio jornalístico”. de forças com policiais fortemente

299
armados e com seus corpos totalmente agências bancárias e concessionárias
protegidos. Outra preocupação expressa como forma de superar o capitalismo e
pelo movimento na imprensa era que o levar a discussão pública para o verda-
ato fosse reprimido antes mesmo de deiro foco do ato do dia 19. As vidraças,
começar, como havia acontecido, uma os caixas eletrônicos e os automóveis
semana antes, no protesto contra a Copa quebrados já devem ter sido repostos,
nos arredores do Itaquerão, entre outros ou serão repostos muito em breve.
protestos recentes violentamente repri- Esses espaços provavelmente possuem
midos. Além disso, quem coordena a seguro, de modo que os quebra-quebras
polícia é a Secretaria de Segurança sequer implicam em altos prejuízos aos
Pública/o governo do Estado, não o seus donos. Por que será que a imprensa
movimento social. É desonesto a polícia hegemônica escolhe sempre dar ênfase
se colocar numa posição passiva, às depredações feitas por bem poucas
culpabilizando o movimento por sua pessoas (no dia 19 devem ter sido,
omissão. Ao que parece, tudo isso foi aproximadamente, 10 entre 2.000
construído com o objetivo de reavivar o pessoas — 0,5 % dos manifestantes),
inquérito policial nº 1/2013 do DEIC, ao invés de noticiar as ideias que são
que investiga manifestantes e é conside- verdadeiramente perigosas? A proposta
rado ilegal pelos advogados e integran- de Tarifa Zero do Movimento Passe
tes do movimento, uma vez que não Livre tem o potencial de atacar o capital
apura crimes, mas persegue e criminali- de um modo muito mais interessante: a
za pessoas.1 taxação dos mais ricos, aí incluídos os
De todo modo, o que me motivou a donos de bancos e de concessionárias de
escrever este texto foi discorrer um pouco automóveis.
mais sobre a ineficiência de se quebrar A expressão “Tarifa Zero” foi propos-
ta pelo engenheiro e músico Lúcio
1  Segundo a nota “Mais uma vez, não vamos ao DEIC e
denunciamos o inquérito ilegal”, de 23/6/2014, o MPL Gregori no começo dos anos 1990,
informa que no dia seguinte ao ato, sexta-feira, 20 de quando ele foi secretário de Transportes
junho, “a policía esteve novamente nas casas de
militantes, intimando-os pela quinta vez para depor no
em São Paulo, na gestão de Luiza
DEIC e ameaçando seus familiares” (s a o p a u l o . m p l . Erundina, primeira prefeitura do
org.br/2014/06/23/mais-uma-vez-nao-vamos-ao-
d e i c - e - d e n u n c i a m o s - o - i n q u e r i t o - i l e g a l / ). Ver
Partido dos Trabalhadores nesta cidade.
também os manifestos publicados anteriormente: O projeto de ônibus Tarifa Zero previa
“Porque não vamos depor no DEIC”, de 24/1/2014
um pequeno aumento no IPTU —
(s a o p a u l o . m p l . o r g . b r / 2 0 1 4 / 0 1 / 2 4 / p o r q u e - n a o -
v a m o s - d e p o r - n o - d e i c / ) e “Pelo trancamento do o imposto progressivo sobre propriedade
inquérito nº 1/2013 do DEIC”, de 9/6/2014 (s a o p a u l o .
mpl.org.br/2014/06/09/pelo-trancamento-do-in-
querito-ilegal-no-12013-do-deic/)

300
— como forma de financiamento.2 de junho tenham sido pela revogação
Por questões políticas o projeto não dos vinte centavos de aumento nas
chegou a ser votado e foi desqualificado tarifas de ônibus, trem e metrô, a luta de
pela imprensa, apesar de pesquisas longo prazo do movimento — contra a
feitas com a população terem demonstra- própria existência dessas tarifas —
do que uma imensa maioria era favorá- ficou em evidência e se tornou mais popular.
vel à Tarifa Zero, mesmo com o conheci- Uma coisa que tanto Lúcio Gregori
mento de que ela implicaria em um como o movimento sempre deixaram
aumento no IPTU. clara é que a Tarifa Zero não significa
Quase vinte anos depois a expressão “ônibus de graça”. O transporte tem
foi recuperada pelo Movimento Passe custos, é claro. Gasolina, manutenção,
Livre e, durante as revoltas de junho de salário dos trabalhadores etc. Assim
2013, podia ser ouvida nos mais diferen- como é necessário o governo pagar
tes espaços de São Paulo, dita por salários de professores e demais funcio-
pessoas as mais diferentes. Ainda que, nários nas escolas públicas e comprar
nesta cidade, as grandes manifestações mesas, cadeiras, lousas, giz, e alimentos
para as mesmas, entre outras coisas.
2  Segundo Lúcio Gregori, em troca de emails comigo,
“esses recursos viriam de uma reforma tributária, sendo Mas tudo isso, no caso das escolas, é
que 33% dos imóveis, com menos de 60 metros pago por todos nós, indiretamente,
quadrados, eram isentos de IPTU e, portanto, teriam
somente ganhos com a gratuidade dos transportes. através de impostos. Não existem
Outros 44,7% dos imóveis teriam IPTU entre Cr$ 1,00 catracas na entrada das escolas para
até Cr$ 1990,00 cruzeiros mensais da época. No caso
dos moradores desses 44,7 % imóveis, que teriam o cobrar os custos da educação diretamen-
reajuste até Cr$1990,00, como ficaria? A tarifa dos te dos alunos, a cada vez que eles usam
ônibus era de Cr$ 35,00. Numa estimativa conservado-
esse serviço público; e seria um absurdo
ra, duas pessoas que morassem num desses imóveis,
gastariam Cr$140,00/dia x 22dias = Cr$ 3080,00 se isso fosse sequer cogitado.
somente para deslocamento residência/trabalho/ O problema é que, no Brasil, quem
residência em 22 dias úteis. Assim teriam uma
vantagem, na pior das hipóteses, de Cr$(3080,00 – mais paga impostos, se calcularmos o
1990,00) = Cr$1090,00 por mês, devido à gratuidade nos valor dos impostos embutidos em
transportes. Então, 33% + 44,7% = 77,7% das residências
da cidade e, portanto, seus moradores, ganhariam com produtos de consumo proporcionalmente
a gratuidade vinculada à reforma tributária”. Outra à renda do indivíduo, são os mais
informação relevante é que na gestão de Lúcio como
secretário de Transportes a frota de ônibus de São Paulo
pobres. As pessoas mais ricas questio-
aumentou de 7.600 ônibus para 9.600 ônibus e o projeto nam mais o pagamento de impostos que
de Tarifa Zero previa novo aumento da frota, de mais
os pobres porque têm mais consciência
50% (mais 4.800 ônibus), para atender a demanda que
seria gerada pela gratuidade. Lúcio recomenda a leitura de quanto pagam, pois normalmente
do texto “Procurando entender a Tarifa Zero”, de Chico seus impostos são sobre propriedades e
Whitaker (1990): t a r i f a z e r o . o r g / 2 0 1 1 / 0 8 / 2 5 /
procurando-entender-a-tarifa-zero/ vêm na forma de boletos, são visíveis.

301
Os mais pobres não possuem proprieda- resorts, shopping centers, mansões e
des e pagam impostos invisíveis, que automóveis de luxo.2
representam boa parte da sua renda, sem A taxação da riqueza é necessária
ideia de quantos % de impostos estão para haver distribuição de renda e
pagando, ou mesmo que estão pagando.1 diminuição da desigualdade social.
É necessária uma inversão na cobrança Além disso, é a elite quem mais se
de impostos; quem tem mais dinheiro beneficia do deslocamento de milhões de
precisa pagar mais, proporcionalmente à trabalhadores diariamente.
sua riqueza. No dia 10 de junho, o jornal Valor
O financiamento do transporte Econômico reproduziu uma notícia do
precisa acontecer de maneira indireta, Financial Times que informa que a
como já acontece nas escolas e nos riqueza privada global, concentrada em
hospitais públicos, mas através da 1,1% de toda a população mundial,
criação de um fundo específico para o atingiu o recorde de 152 trilhões de
transporte, cuja receita deve vir funda- dólares.3 Este número é tão somente o
mentalmente da cobrança de impostos excedente de riqueza de famílias muito
progressivos, entre outras possíveis ricas. O dinheiro que fica no banco se
arrecadações. Imposto progressivo é reproduzindo/se multiplicando, gerando
aquele cujo percentual aumenta de novos excedentes tanto para essas
acordo com a capacidade econômica do famílias como mais lucros para os
contribuinte. No caso do IPTU, por bancos. Com esses recursos seria possí-
exemplo, proprietários de casas peque- vel atender a uma série de demandas
nas são isentos do pagamento e proprie- sociais (talvez todas) não apenas no
tários de casas médias e grandes pagam Brasil, mas no mundo inteiro.
um valor proporcional ao tamanho/ Em fevereiro deste ano, o portal G1
valor dos imóveis. Desde os primeiros divulgou uma notícia informando que o
anos de existência do Movimento Passe lucro de quatro bancos brasileiros no ano
Livre (não somente em São Paulo, mas de 2013 somado supera o PIB (Produto
em diversas cidades brasileiras), os Interno Bruto) de 83 países.4
panfletos sugerem que a arrecadação 2  Os recursos não precisam vir do IPTU como ocorreria
venha de uma maior cobrança de impos- no projeto dos anos 1990; os técnicos podem estudar a
aplicação de uma “taxa transporte” sobre atividades
tos de proprietários e/ou grandes econômicas que se beneficiam com a mobilidade,
acionistas de bancos, multinacionais, incorporando o vale-transporte nessa taxa. Contribui-
ção de Lúcio Gregori.

1  Recomendo a leitura da entrevista com o economista 3  v a l o r. c o m . b r / i n t e r n a c i o n a l / 3 5 7 9 6 4 0 / r i q u e z a -


Marcio Pochmann no jornal Brasil de Fato (20/2/2014). -privada-global-atinge-recorde-de-us-152-trilho-
brasildefato.com.br/node/27525 es-em-2013

4  g 1 . g l o b o . c o m / e c o n o m i a / n o t i c i a / 2 0 1 4 / 0 2 /
lucro-somado-de-4-bancos-brasileiros-e-maior-
que-o-pib-de-83-paises.html

302
O Banco do Brasil registrou lucro doze vezes (de 360.000 passageiros o
líquido de 15,75 bilhões de reais, o Itaú sistema passou a acolher 4.614.844
Unibanco de 15,696 bilhões, o Bradesco passageiros).5 Nos Estados Unidos,
de 12 bilhões e o Santander de 5,7 algumas cidades adotam a Tarifa Zero
bilhões. Para se ter a dimensão desses em horários específicos, por exemplo
valores, todos que somos contra o mau durante o almoço, estimulando pessoas
uso do dinheiro público nos estádios que trabalham no mundo corporativo e
“padrão FIFA” estamos criticando o uso que usam automóveis como meio de
de aproximadamente meio bilhão a um circulação a usar o transporte coletivo
bilhão por estádio. Se questionamos para ir almoçar e retornar ao trabalho.
quantas escolas poderiam ter sido Ainda que os custos de um sistema
construídas ou melhoradas com o valor Tarifa Zero em uma cidade grande como
investido em cada estádio, imaginem São Paulo sejam altos, exigindo altos
quantas coisas poderiam ser feitas se investimentos públicos, é preciso se ter
esses bancos fossem mais taxados e essa em mente que a Tarifa Zero tem o
riqueza acumulada socialmente distri- potencial de gerar toda uma economia
buída. sistêmica. No caso da saúde pública, por
A proposta de financiamento da exemplo, os maiores gastos por interna-
Tarifa Zero através de uma reforma ção nos hospitais são 1. por problemas
tributária que implique em um aumento respiratórios, advindos da poluição do
proporcional de impostos dos muito ricos ar pelo excesso de automóveis particula-
significa que quem tem mais dinheiro irá res em circulação; e 2. acidentes de
contribuir com mais, quem tem menos trânsito, em sua maioria causados por
irá contribuir com menos, e quem não automóveis particulares.6
tem dinheiro não precisará contribuir
com nada. E todos, sem exceção, poderão 5  Para conhecer experiências de Tarifa Zero pelo
usar o transporte coletivo, tornado mundo, ver a seção “Boas experiências” do portal
TarifaZero.org: t a r i f a z e r o . o r g / e x p e r i e n c i a s / .
“público” de verdade. Destaque para Tallin (Estônia), com 420 mil habitantes,
As cidades pelo mundo que adotaram primeira capital européia a adotar a gratuidade no
transporte para todos seus habitantes.
a Tarifa Zero no transporte experimen-
taram uma drástica redução no uso de 6  No artigo “O transporte público gratuito, uma utopia
real” (coletânea Cidades rebeldes, São Paulo:
automóveis particulares. Na cidade de Boitempo, 2013), o sociólogo e editor João Alexandre
Hasselt, Bélgica, que por mais de dez Peschanski discorre sobre outras justificativas de ordem
econômica para a Tarifa Zero. Ver também seu texto
anos teve uma política de gratuidade no “Motivos econômicos pelo transporte público gratuito”,
transporte coletivo, a utilização do no blog da editora Boitempo: b l o g d a b o i t e m p o . c o m .
br/2013/06/10/motivos-economicos-pelo-trans-
transporte público aumentou mais de porte-publico-gratuito/

303
A CRIAÇÃO DE UM SISTEMA grávidas, crianças e pessoas idosas
TARIFA ZERO NO TRANSPORTE — também possam participar da festa.1
COLETIVO NÃO SUPERA O A repressão policial ao final do ato do
CAPITALISMO, MAS PODE dia 19 caiu sobre todos os presentes, de
ENFRAQUECER OS PARADIGMAS modo que a vida de todas essas pessoas
ONDE OS BANCOS E AS estava em risco, exposta a bombas de
CONCESSIONÁRIAS DE gás, spray de pimenta2, balas de borra-
AUTOMÓVEIS ATUAM. E cha, pancadas de cassetetes e prisões
MELHORAR A VIDA DA MAIORIA DA arbitrárias. Eu já participei de diversos
POPULAÇÃO. protestos sem depredações que foram
Quebrar vidros para a imprensa igualmente ou mais reprimidos, reconhe-
fotografar não está construindo a ço novamente, mas neste dia as pessoas
necessária força social para experimen- já estavam voltando para casa ou
tarmos mudanças na nossa vida cotidia- caminhando até o Largo da Batata, onde
na. Quem se lembra da alegria que foi o ato seria concluído, quando a conces-
ver as telinhas das catracas dos ônibus, sionária da Marginal começou a ser
trens e metrôs voltar a marcar “3,00” quebrada. Não foi nada legal tantas
reais no lugar de “3,20”, após termos pessoas terem sido atacadas e persegui-
barrado esse aumento, nas ruas? As das pela polícia, tornadas reféns da ação
manifestações de junho incluíram de poucos que estavam dispostos a esse
depredações, reconheço, mas como enfrentamento (bem poucos mesmo; no
expressão de uma revolta coletiva, registro da TV Folha referenciado
incontrolável, e, principalmente, como anteriormente contei três meninos
reação à forte repressão policial (apesar dentro da concessionária, em meio a
de a grande imprensa ter o costume de 1  Uma reflexão útil pode ser repensar as táticas usadas
inverter essa ordem; sempre sugerindo pela Ação Global dos Povos (que ficou mais conhecida
como “movimento antiglobalização”) no final dos anos
que quem começa a violência são os 1990 e começo dos anos 2000: tudo o que seria feito no
manifestantes). ato do grupo era decidido em assembleia. O que
escapasse disso era tratado como ação de agentes
No ato do dia 19, as depredações
infiltrados. Servia muito bem para evitar sequestros de
aconteceram à revelia da enorme maio- pauta, mas funciona melhor para dizer que o
ria de manifestantes presentes, sendo movimento está disposto a decidir tudo democratica-
mente. Contribuição de Daniel Guimarães.
consideradas inclusive autoritárias,
2  O spray de pimenta é proibido em muitos países até
infantis e machistas por muitos de nós. mesmo como arma de guerra, mas no Brasil é
É importante que se respeite aquilo que é largamente usado como arma “não letal” contra civis.
O gás pode ser letal para pessoas que possuem
combinado coletivamente, de modo que problemas respiratórios, cardíacos e para mulheres
outras pessoas — como mulheres grávidas.

304
diversos jornalistas, e entre quatro e [Black Bloc], mas apenas dizer que não
cinco na agência bancária, não dá para a defendo não é mais suficiente. Precisa-
saber ao certo). Quebrar vidros é diferen- mos dizer que não concordamos e que
te de ferir a integridade física e jurídica isso está atrapalhando a luta social que
de pessoas, mas, neste dia — ainda que pretende colocar interesses públicos na
eu não aceite isto como justificativa, a frente dos interesses privados que
polícia precisa deixar de existir desta historicamente governam a sociedade.
forma —, o ataque contra vidros pratica- A confusão entre uma tática que busca o
do pelos meninos foi usado como descul- apoio popular massivo para as suas
pa para uma violência generalizada ideias e outra que pouco se importa com
contra as pessoas, pela polícia. Não a opinião pública só fortalece quem
somente contra manifestantes, mas contra ambas está”.4
contra qualquer pessoa que tenha dado o A Tarifa Zero precisa do apoio
azar de estar na região do Largo da popular das massas, pois é as massas
Batata naquele momento. Mais grave- que irá beneficiar. O esforço dos militan-
mente, essas ações isoladas estão agora tes do MPL, que há quase uma década
sendo usadas para o Estado seguir fazem discussões sobre mobilidade
criminalizando as lutas sociais, insta- urbana e direito à cidade em escolas e em
lando um estado policial que remete à comunidades/bairros que possuem
ditadura militar.3 Tudo isso limita, diversas carências no transporte coleti-
propositadamente, a capacidade de vo, sempre foi de agregar pessoas e, mais
atuação dos movimentos, que precisam que isso, estimular sua auto-organiza-
dedicar todos ou quase todos os seus ção. Não podemos reduzir a Tarifa Zero
esforços para responder a essa criminali- a uma compreensão burocrática da luta.
zação. A liberdade de nos movimentarmos
Apropriando-me das palavras de um pelas cidades sem restrições econômicas
amigo de amigos em seu mural público é uma ideia nova e radical. Para ser
de Facebook, eu “não condeno a tática acessível a todas as pessoas, precisa
3  Pouco antes da finalização deste texto, o secretário
de Segurança Pública Fernando Grella anunciou que a 4  Pedro Ekman. Ele concluiu seu depoimento citando
polícia será acionada para levar 22 militantes do Sun Tzu em A arte da guerra: “Estratégia sem tática é o
Movimento Passe Livre à força para depor no DEIC. caminho mais longo para a vitória. Tática sem
Como resposta, o movimento está convocando o estratégia é o estrondo que se escuta antes da derrota”.
secretário e integrantes de movimentos sociais para Como referência histórica e aprofundamento da
debater, publicamente, a criminalização em curso dos questão recomendo o texto “O movimento de ação
movimentos e exigir, novamente, o trancamento do direta britânico dos anos 1990”, de Leo Vinicius (2009),
inquérito nº1/2013. Será no dia 3 de julho, às 15h, sobre o auge e a criminalização do movimento Reclaim
diante do Tribunal de Justiça (Praça da Sé): f b . c o m / the Streets, no Reino Unido: p a s s a p a l a v r a .
events/663391543743365/ info/2009/08/11797

305
existir como direito e política pública, do meio-passe escolar graças aos esfor-
pois nem todos possuem disposição ou ços de pessoas que lutaram por ele
condição física para pular catracas e décadas atrás, nós vamos poder dizer
para sustentar enfrentamentos com a que colaboramos nesse processo coletivo
polícia. e ensinar a luta para nossos filhos. Preci-
É só imaginar muitos ônibus sem samos de experiências vitoriosas para as
catraca circulando para perceber a força pessoas continuarem lutando. Quebrar
dessa ideia. Imaginar que a gente pode vidro não cumpre esse papel. Pode
entrar e sair por qualquer porta dos cumprir alguns papéis táticos, mas,
ônibus, sem precisar se esmagar até a consistentemente, não muda a vida
porta de saída. Que a gente pode traçar cotidiana das pessoas.
qualquer percurso pela cidade, parando
para fazer coisas ao longo do caminho. ***
Que pessoas que estão excluídas da
cidade por não poderem pagar as tarifas
do transporte vão passar a ser incluídas.
Que vão passar a chegar a lugares onde
atualmente não chegam. A poder
frequentar os espaços culturais gratui-
tos, as escolas e os hospitais. A visitar
seus amigos e familiares com maior
facilidade. A ficar mais próximas umas
das outras, tornando a cidade, ao mesmo
tempo, grande e pequena.
Lembro de um dia pós-junho de 2013
em que eu saí do metrô República e, ao
caminhar pela praça, olhei para trás e
tive a certeza de que um dia as pessoas
acharão absurdo imaginar que no
passado era necessário pagar para
usar o transporte público. Quero muito
estar viva para me movimentar nessa
cidade Tarifa Zero e para conhecer a
geração que vai crescer sem catracas no
meio do caminho. Assim como hoje
estudantes e suas famílias se beneficiam

306
TRANSDUÇÃO
Transdução
— ou “Guia para orientar-se na multidão”
Pedro B. Mendes
Fernanda Kutwak

Transductor
Tr a n s d u c t o r e s . P e d a g o g i a s C o l e c t i v a s

PEDRO B. MENDES E FERNANDA KUTWAK

TRANSDUÇÃO
— OU “GUIA PARA ORIENTAR-SE NA MULTIDÃO”

Que peut un homme pour autant qu’il n’est pas seul?


[O que pode um homem uma vez que ele não está só?]
Muriel Combes

Toda relação é, por princípio, trans.

DIÁLOGO
Se relacionar-se é por-se às voltas com o mundo do
outro, e sobretudo de outrem — aqueles que não
estando presentes se fazem efetivos na ausência,
implicados que são na relação contrastiva necessá-
ria à nossa própria singularidade — é preciso
afirmar algumas condições ao diálogo:
( 1 ) a existência de uma mesma língua, longe de nos

igualar, faz emergir as diferenças, torna palpáveis


as distâncias entre nós que, de outra forma, passa-
riam desapercebidas; cada fonema, palavra ou
fórmula linguística apela à nossa experiência de
vida, a nossas preferências, nossos hábitos e ceguei-
ras, cuja combinação é tão múltipla quanto o é nossa
vida — e as línguas como parte constituinte delas.
Sozinhos em nossos mundos-modos somos capazes
de perceber as coisas apenas de acordo com nosso
próprio ponto de vista, nossa própria singularidade.

307
Se isto não é suficiente para nos colocar em contato
com a diferença, não em termos radicais como exige
nosso presente, deveria bastar para nos fazer perce-
ber a singularidade de nosso próprio caso.
Em outras palavras, esse ponto de vista só pode
existir por que há outros que dele se diferenciam.
É em contraste com outrem que nossas vidas são
possíveis.
( 2 ) Todo diálogo é coextensivo à produção de um

v e r COMPLEXIDADE mapa experimental e instável que deve nos dar, a


cada momento, os aclives e declives de uma relação,
suas possibilidades, suas entradas e contornos, sem
os quais toda conversação caminha inevitavelmente
para um fim. Lacan dizia que a boa análise consiste
em construir a boa distância em relação a tudo
aquilo que nos afeta. O contraste entre as singulari-
dades é um processo dinâmico de diferenciação, em
que as distâncias vão aumentando ou diminuindo,
em todo caso variando, construindo erraticamente
aquilo que, por falta de imaginação, convencionou-se
atribuir a uma hipotética “primeira pessoa” pura,
do singular ou do plural, pouco importa.
( 3 ) O melhor mapa, ou antes, o único mapa possível

de nós mesmos é aquele traçado pelos outros.


A autoimagem é na verdade um patchwork constituí-
do de imagens outras, imagens que os outros vão
pintando de nós nos diversos encontros que entrete-
cemos durante a vida. Aquilo que atribuímos ao “eu”
e ao “nós” nada mais é que o recorte precário e
cambiante — um espectro — dos vários atravessa-
v e r HIDROSOLIDARIEDADE mentos que somos convocados a viver. Portanto,
se queremos saber como vamos ou (re)agimos em
uma determinada situação, nada melhor que obser-
var a sombra que fazemos nas luminosidades
alheias, e vice-versa, a luz que projetamos sobre os
corpos dos outros.

308
(4) A palavra portuguesa “nós” dá de nossas ações (e inações) que permi-
conta da ambiguidade sutil de nossa tem avaliar as soluções que damos aos
condição. O “nós”, primeira pessoa do problemas. É em termos de efeitos que
plural, contém a multiplicidade de convém a tudo i n t e r p r e t a r .
relações que se esconde dentro do ( 6 ) Nem falante, nem ouvinte. Nem

sujeito que age. Mas mais que conter, parte, nem todo. O mais importante em
os “nós” da rede de pessoas que somos um diálogo é a relação que une e
libera a diferença subsumida em uma principalmente faz oscilar a posição de
suposta unidade da ação. Somos sujeito e objeto de acordo com as
diferentes em relação a cada situação. inflexões do momento. A expressão de
Diferimos todo o tempo de nós mesmos. uma diferença, um instante de surpre-
O jogo daquilo que resta e do que sa e a palavra vai como o vento: são os
avança a cada encontro é exatamente o intercessores que nos fazem mudar de
que tentamos conter precariamente rumo — e de forma, de natureza, de
com as pessoas verbais e o que torna intensidade. É graças a eles que nos
possível que, sendo nós mesmos, engajamos em movimentos outros, ora
sejamos tantos outros a cada momen- acelerando com o impulso inesperado
to. Nós: pontos em que convergem vias de uma parceria, ora freando diante de
de comunicação. um encontro pouco ou nada promissor;
( 5 ) Da mesma forma, cada combina- mas sempre oscilando de direção e de
ção que traçamos ou de que fazemos sentido ao sabor dos ventos e das
parte tem possibilidades distintas, de correntes. Cada intercessor um encon-
acordo com os actantes-ingredientes tro possível, cada encontro uma
relacionados e com as variações a que surpresa, cada surpresa uma diferen-
nos expomos e a que somos submetidos. ça.
Portanto, sem entrar em questões ( 7 ) Last and maybe least. Um verda-

relacionadas à nossa importância no deiro encontro, um diálogo honesto,


mundo — muito diminuta, é sempre não tem regras preconcebidas.
provável — convém nos atermos às Apenas duas leis, tão óbvias quanto
impressões que literalmente deixamos necessárias, cada uma apontando para
por onde quer que passemos. Nossos uma polaridade e um risco extremos:
ideais são louváveis, nossas utopias a primeira diz respeito ao esvaziamen-
parecem perfeitas, mas são nossas to da diferença e à colocação do
pegadas que deixamos por onde outro numa posição de subalternidade,
passamos. Elas são o rastro concreto de em que qualquer surpresa possível é
um mundo em construção: são os efeitos sempre atenuada mediante uma

309
explicação bem ou mal-intencionada — portanto,
não apagar, não silenciar, não desqualificar uma
fala. A segunda está ligada ao microfascismo que
nos habita a todos, e ao qual é preciso aprender a
resistir juntos; é sempre tentador suprimir a diferen-
ça incômoda, a posição dissonante, numa dinâmica
cujo limite são a violência física e o assassinato —
logo, não agredir e principalmente não permitir que
se agridam as pessoas. A democracia exige esse
compromisso básico.
Entrar em diálogo é inevitavelmente se transfor-
v e r ESCUTA mar e, assim, implica em correr riscos. Se as
pessoas não se afetam, pode ser qualquer coisa,
menos um diálogo!

TRADUÇÃO
Na introdução à edição da Brasiliense de Satyri-
con, de Petrônio, Paulo Leminski aborda o ofício do
tradutor-poeta em sua condição trágica: manter uma
fidelidade essencial ao jogo estilístico tecido no
original e assim perder parte do encanto proporcio-
nado pelo conteúdo do texto; ou perseguir o rigor
semântico e abrir mão da riqueza da forma poética.
Diante da antinomia apresentada, cara a todas as
boas traduções de obras consagradas, Leminski
propõe um saída inusitada: se é para correr riscos,
que seja com a arte dos equilibristas na corda
bamba. Em outras palavras, a opção pelas duas vias
e por nenhuma delas em especial — trair a ambas e
ser fiel, na medida do impossível, também a ambas.
Entre trair Petrônio e trair os vivos, escolhi trair os
dois, único modo de não trair ninguém. Questão de
dignidade, não de fidedignidade.
Equilibrando-se na transcriação do texto, o
poeta-tradutor ora segue o caminho trilhado pelo

310
autor, com seus valores de oralidade e não a um Quixote, mas ao Quixote.
naturalidade dos diálogos, ora se Em sua busca por criar algo que já
afasta dele para se embrenhar pelas existe — o que, nesse sentido, torna
veredas da linguagem em um arriscado sua missão impossível — o desvairado
corpo a corpo de fim imprevisível. Ora autor se torna ainda outra coisa, pois
ainda abandona toda etiqueta e se que passa a seguir os passos (e os
permite incorporar, baixar mesmo, pensamentos) do próprio Cervantes.
num download espiritual, a materiali- Que Borges tenha feito da história
dade do sensível e literalmente percor- uma ode à identidade não apaga o feito
rer — em pessoa! — o caminho impos- — muito pelo contrário! — de que, em
sível do autor, com o compromisso de seu cerne, na suposta equivalência
envolver diretamente o leitor de hoje entre os dois Quixotes, e entre Pierre
na vida de um texto dois mil anos vivo. Menard e Miguel de Cervantes esteja o
Como ocorre com Pierre Menard, devir, que foge — e faz fugir — tanto
autor do Quixote, de Borges. Pierre mais quanto mais se tenta contê-lo. A
não é aquele que vai repetir Cervantes, história narrada por Borges, o fictício,
mas alguém que busca viver uma outra não o escritor, tramada para encerrar
vida até o extremo em que sua vida e duas vidas em uma mesma épica,
seus deslocamentos vão assumir uma acaba por mostrar a relação indissoci-
indiscernibilidade em relação às ável e imanente que existe entre
opções e à história do autor “original”: univocidade do ser e multiplicidade
não se trata de copiar ou mesmo de ontológica.
reescrever a obra-prima da literatura Esse conceito radical de tradução
ocidental, mas de se engajar numa como afetação / contágio faz eco à
relação absoluta com autor e obra; em definição que alguns antropólogos dão
que o absoluto não corresponde a de uma simetria das relações entre
qualquer totalidade, segundo a qual coletividades distintas: trata-se de
ainda estaríamos no horizonte da comparar, de colocar em relação, bana-
cópia e da imitação — mas ao germe nas e maçãs, humanos e não-humanos
que altera a própria vida que contagia sim, por que não? Somos todos diferen-
a ponto de tornar as duas indissociá- tes, uns mais outros menos, temos todos
veis, não iguais! Pierre Menard deseja desejos e construções divergentes, às
viver ao extremo as condições que vezes mesmo incompatíveis, que se
levaram Cervantes a criar Quixote encontram na base da própria vida.
para que possa, também ele, dar vida,

311
Dialogo & tradução. O que eu falo é A relação estabelecida depende do
verdade, o que você escuta é mentira. contexto em que corpo infectado e vírus
Há um lapso entre o que eu digo e o que se encontram e sobretudo da relação de
você escuta. Falo a partir do mundo, o força entre as defesas do primeiro e a
meu mundo, você escuta a partir de suas capacidade de contágio do segundo.
referências. Um processo de tradução é O jogo agonístico entre eles nunca é o
necessário. De diálogo entre mundos. mesmo e nunca se decide antes do
encontro propriamente dito, e ao corpo
TRANSDUÇÃO (I) infectado sempre é possível resistir à
Um hospedeiro contém um vírus. infecção.
O vírus, por sua vez, carrega o Enquanto o corpo pode ou não
material genético daqueles com quem resistir à investida do vírus, que nunca
entra em relação, ou seja, ele também é, é um, mas uma multidão, a infecção se
de certa forma, um hospedeiro; enquan- caracteriza por uma relação de indis-
to tal, o hospedeiro carrega um vírus tinção entre ambos, que passam a se
que, por sua vez, carrega o germe de relacionar numa espiral de criação e
outra coisa. destruição, de vida e de morte.
Ao investir contra seu alvo, o vírus Se o corpo se torna perigosamente
se apropria [por cópia] de um trecho do infectado, isto é, se torna mais e mais
código genético deste. Ele replica o como o vírus, a ponto de reproduzi-lo e de
código, mas apenas parcialmente e o se deixar infestar pelo agente patógeno,
carrega consigo em suas futuras o vírus se torna outra coisa antes de
mutações. seguir (ou não) sua trajetória contagian-
A partir desse momento, de todo te. De toda forma, o encontro transforma
momento da vida do vírus, ele se torna a ambos de modo marcante.
a combinação de seu próprio código Estima-se que um corpo humano
genético e de outros com os quais entra adulto e saudável contenha dez vezes
em relação durante a vida. mais micróbios dentro de si que células
Não apenas o vírus se torna uma humanas, todos vivendo em perfeita
combinação única de códigos genéticos, desarmonia. Não fosse esta relação,
algo como uma impressão digital simétrica e em desequilíbrio dinâmico, e
genética e recombinante, por mais não teríamos passado da “pré-história”.
“familiar” que seja o ambiente em que Da mesma maneira, estima-se que este
circula(m), como as relações de contá- corpo abrigue exemplares de todos os
gio que ele estabelece se tornam tam- vírus com os quais entrou em contato
bém elas singulares. durante a vida, constituindo um

312
bioarquivo de dados que lhe servirá de pela sobrevivência, em favor de uma
defesa pelo resto da vida e que, em uma recombinação global contínua, cujo
situação de fraqueza, pode levar a desenlace não pré-existe à relação.
novas infecções. São a qualidade e intensidade do
No entanto, a relação entre corpo e encontro — em outras palavras, as possi-
vírus é tudo menos previsível. A doença, bilidades de afetação mútua — que vão
por exemplo, epítome do sofrimento determinar se a partir dele se produzirá
físico e psíquico, é naturalmente compre- vida ou morte, e em que condições.
endida como resultando de um jogo de
soma zero que, quando fora de equilíbrio, TRANSDUÇÃO (II)
coloca em risco a saúde dos corpos. Por Informação é aquilo que desequilibra,
outro lado, é possível que ela seja apenas aporte de energia em um sistema dinâ-
um dentre os vários desfechos possíveis mico. Uma ideia, uma prática, um corte.
que acaba por determinar nossa própria Não se trata de uma causa em sentido
percepção — trágica — deste encontro. clássico. Ou teremos que reconhecer que
E não nos referimos aqui ao fato da existem muitas causas, que causar é um
doença ou do adoecer, mas à necessária atributo de tudo o que existe e difere.
reorganização de sua economia em Assim sendo, a individuação vem
relação à saúde e à vida. Outras modali- primeiro: a relação que desorganiza
dades de relação que não a doença institui tanto sujeito, quanto objeto.
apenas são vistas cada vez mais como Meio e população se confundem. É
determinantes para a existência e o apenas em relação à relação que pode-
modo como a vida de corpos e vírus se mos agir.
desenrola em paralelo, na relação. De onde vem a potência que chama-
Cientistas e biólogos avaliam que mos ‘nossa’? Daquilo que, vindo de fora,
essa evolução cruzada, não linear e nos afeta? Ou da apropriação mais ou
interespecífica, seria uma das princi- menos involuntária que dele fazemos?
pais responsáveis pela variação das Algo, talvez o que haja de mais impor-
espécies, dando um colorido todo tante, se passa em outro lugar, nem fora
especial ao desenvolvimento destas; nem dentro. O agenciamento no qual
num limite extremo, ela seria suficien- tomamos parte não se presta a coordena-
te, se confirmada, para reescrever das estanques. Cabe-nos ficar atentos
radicalmente “a seleção natural”, aos sinais que nos revela nossa intuição
teoria hegemônica nas ciências da e desenvolver uma ética da alegria
vida, com suas séries específicas em baseada no prazer de fazer juntos.
uma luta renhida de todos contra todos O problema da democracia (o quê

313
fazer?) aponta para a democracia como O compartilhamento é a melhor arma
problema (como fazer?). As soluções contra a droga da unanimidade. Vive-se
para quaisquer eventos são muitas e algo, criam-se coisas, e isso torna os
díspares. E é bom que sejam assim. espaços ocupados, vivos. Não o contrá-
O desafio é construir um problema que rio. É a realidade da luta — as práticas,
esteja à altura daquilo que vivemos, em a percepção, o cotidiano — que produz o
comum. Fica combinado assim: proble- espaço e o tempo da diferença, sem os
mas são para ser construídos; soluções quais não existem nem a arte nem a
para ser avaliadas. política.
Temos nos ocupado do que podem as Questionar os automatismos sempre.
vidas — e a vida como tal. Melhor Das técnicas de luta, quando experimen-
seria se nos concentrássemos em tais, devêm magia. E podem ser eficazes
disparar acontecimentos. O encontro é para produzir efeitos de mobilização e de
o verdadeiro fato social: não uma organização, ou não. As técnicas são
ontogênese como produção controlada boas para perseguir efeitos e estes
de vida, mas a própria produtividade dependem mais dos agenciamentos que
intensiva e caótica do agenciamento. elas ensejam do que de indivíduos
Toda criação, toda transformação determinados ou de nossa vontade
provém de uma técnica. Mesmo aquilo imediata.
que é fortuito só faz sentido no contexto Ação simbólica é aquela que faz
de uma máquina social. Experimentação pensar, obriga a pensar. Quando algo
não significa voluntarismo. É preciso acontece que ninguém sabe como reagir,
construir dispositivos de ação política. é por ali que devemos ir. Mas atenção:
E testá-los, e aprimorá-los, e pô-los à prova pensar é ação coletiva. Ninguém decide o
para que eles continuem funcionando. significado de um acontecimento sozi-
Nada, na luta, nos pertence. Nada que nho, por decreto. Quando parcelas da
nos identifique, que nos aprisione ou nos população — coletivos, conhecidos, a
imobilize. A angústia e a solidão são mídia — começam a reagir de modo
irmãs da partida. E é preciso partir sincronizado e previsível, provavelmente
sempre: abandonar a zona de conforto é hora de levantar acampamento.
para sair e chegar a qualquer lugar. É hora de encontrar outros intercessores.
A desindividuação, processo necessaria-
mente social, é condição para novas
individuações.

314
INDICAÇÕES DE LEITURA
TRANSDUCTORES.
Gilles Deleuze e Felix Guattari. Os Mil-Platôs. PEDAGOGIAS COLECTIVAS

Eduardo Viveiros de Castro. Filiação In-


TRANSDUCTOR
tensiva e Aliança Demoníaca.
“Um transductor é um dispositivo capaz
Isabelle Stengers. Résister à Simondon? de transformar ou converter um determina-
Jorge Luis Borges. Pierre Menard,
do tipo de energia de entrada em outra
autor do Quixote. Ficções. diferente de saída, provocando um
crescimento complexo e dando uma
Paulo Leminski. Pré- e posfá-
direção inesperada à energia primeira.
cio. Satyricon (Petrônio).
Os transductores têm um caráter ecológico,
*** pois se implicam diretamente no contexto
que modificam. Neste sentido são dispositi-
vos que traduzem, que mediam e que
produzem novas energias, mas sem
demarcar sua orientação ou seu valor,
apenas esperando que o corpo onde se
inscreve o proceso de transformação se
adapte e reinverta suas capacidades e
interesses em multiplicar esta energia. (…)
Na natureza continuamente se produzem
saltos de energia provocados por transduc-
tores que facilitam o progresso da vida e sua
continua adaptação.”
Tr a n s d u c t o r e s , P e d a g o g i a s C o l e c t i v a s

TRANSDUCTORES: Pedagogías en red y


prácticas instituyentes. Antonio Colla-
dos y Javier Rodrigo (ed.). Granada: Cen-
tro de Arte José Guerrero, 2012.

Villasante, Tomás (2002). Sujetos en movimiento.


Redes y procesos creativos en la complejidad
social. Montevideo: Nordan-Comunidad.

Villasante, Tomás R. (2006).Desbordes creativos.


Estilos y estrategias para la transformación
social. Madrid: Los Libros de la Catarata.

Villasante, Tomás R. (2014). Redes de vi-


das desbordantes. Madrid: Cyan.

***
315
VIZINHANÇA
Pequeno relato de uma experiência de vizinhança
Enrico Rocha

ENRICO ROCHA

PEQUENO RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA DE


VIZINHANÇA
(vizinhança)
O Poço da Draga existe ali, no centro de Fortaleza, a partir do seu lugar, possivelmente,
pertinho da praia, há mais de 100 anos. Para a maioria da você perceberá o lugar do outro.
sua reação pode ser de quem
cidade, que não consegue ver suas centenas de casas por reconhece uma ameaça, o mundo
detrás de galpões vazios à espera de bons negócios, o Poço pode está cheio delas; ou um
vizinho, o mundo pode ser uma
quase nem existe, nunca existiu. Para os governos, que imensa vizinhança. diante de uma
nunca lhe concederam nem mesmo o direito de saneamento ameaça, não há muito o que fazer,
ou você foge dela ou você a
básico, mesmo localizado em área tão nobre da cidade, ele
enfrenta, geralmente com violência.
também não existe ao certo. Para mim, que escolhi como em uma relação de vizinhança,
lugar de morada a sua vizinhança, o Poço é um convite, você negocia o que é comum,
as aproximações e também as
ou uma convocatória, para pensar no sentido de existência. distâncias necessárias. aqui,
As pessoas que lá vivem, que são o sentido principal a vizinhança poder ser considerada
o lugar que você mora, a cadeira
do que chamamos Poço da Draga, seguem uma ocupação do ônibus que você compartilha,
que se deu no momento da construção do primeiro porto a rua que você ocupa em dias de
manifestação etc. bom pensar que
de Fortaleza. A pouca profundidade do mar na costa uma boa política de vizinhança deve
da cidade exigia a ação de dragas para que os navios se partir de relações recíprocas.
bom acreditar que entre a guerra
aproximassem. Daí o nome. Lá, gente vinda do interior,
e a diplomacia colonizadora há
quase sempre fugindo das ameaças da seca, encontrou outras relações de vizinhança
trabalho e logo fixou residência próximo à cancela do porto. possíveis. em qualquer escala.

Aliás, o sobe e desce da cancela deu outro nome ao lugar, (com-)

Baixa Pau, que é confundido pelo resto da cidade como conviver, conversar, confiar,
comprometer, confabular etc.
sinônimo de violência. há diversas ações, fundamentais
De sua origem eu sei pelo que me contam os moradores para a vida comum, que não
realizamos sozinhos. as relações
com quem hoje convivo. O encontro com alguns deles se deu de vizinhança são tecidas por
há bastante tempo, em situações que se definem por nossas ações como essas. é necessário
disposição e disponibilidade
afinidades eletivas. O convívio de vizinhança é recente e se para conjugar ações com esse
intensificou quando nos sentimos igualmente ameaçados. pressuposto da existência do outro.

316
É que o governo do estado do Ceará deu início na proximi-
dade do Poço e de minha casa, a uma grande obra, dessas
que se acompanham de muita publicidade e fantasia de
desenvolvimento. Nossa reação foi enfrentar a ameaça de
exclusão que seria consequência do projeto Acquário Ceará
(lugar)
e a partir daí passamos a nos encontrar frequentemente,
ainda que fossem dimensões a nos contagiar uns dos outros, a nos comprometer com
separáveis da vida humana, tanto
interesses comuns, a enfrentar os conflitos que se apresen-
a política quanto a arte se
produzem como uma disputa de tam a partir de nossas diferenças, a tecer relações de
sentidos para o mundo, ou melhor, confiança.
como atividades de invenção do
mundo. e por mundo, compreendo o Não é a primeira vez, e desejo que não seja a última, que
lugar onde habitamos. lugar que eu me envolvo com uma situação de conflito urbano, dessas
não só nos abriga, mas que também
é constituído por nossos corpos e que nos exigem um posicionamento claro. Entretanto, em
nossas ideias. lugar onde necessa- meio a essa experiência com o Poço, venho assumindo com
riamente convivemos.
  sinta seus pés no chão. olhe ao
mais entusiasmo uma posição que me permite enfrentar
redor. o mundo está bem aí. minhas próprias condições de existência sem me deixar
todo lugar é matéria e expressão
guiar por falsos conflitos, como opor prazer e trabalho,
do mundo.
profissionalismo e cidadania. Ou rimar amor e dor.
(art-)
O Poço da Draga se apresenta a mim como uma realidade
arte: exercício experimental da
liberdade. assim propôs o crítico material e concreta que não me é alheia. Levo ao Poço a
Mário Pedrosa, em 1970, que mesma inquietação que mobiliza em mim um interesse pela
compreendêssemos o que fazem
os artistas. liberdade é também produção de arte. É a partir da relação sensível com o
matéria da política. o mundo mundo e da nossa capacidade de intervir sobre a sua
transforma-se em uma constante
tentativa de superação da natureza forma, de articular seus sentidos, que me ponho no Poço
em direção à cultura. também nas e compreendo que transformar a matéria do mundo é uma
tentativas de superação de estados
de dominação de certas culturas em
necessidade urgente e cotidiana. No entanto, não há
relação a outras. compreendamos manuais práticos, projetos definidos ou qualquer outro
liberdade, então, não como
instrumento que oriente a ação. O desafio é constituir uma
a afirmação da vontade de um
indivíduo, mas esse movimento relação e agir tomando-a como necessária. Um processo
coletivo do homem em busca de contínuo de experimentação e de aprendizado das limita-
sua própria humanidade.
e compreendamos arte como ções e potencialidades que essa relação apresenta.
o exercício, a atividade, Nesse processo, a transparência é uma exigência, e certo
que experimenta e dá formas
a esse movimento constituinte do nível de opacidade uma condição que deve ser compreendi-
mundo, que coloca o mundo em da. Estou ali com todas as minhas idiossincrasias e sou
obra. dos artefatos que produzimos
às articulações que promovemos,
convocado a responder porquê. Afirmo, então, que desobe-
é sempre o mundo que está em obra. deço a ordem imposta pelo modo como a maioria experi-

317
menta a cidade e ouso enfrentar uma fronteira com a
expectativa de conquistar uma cidade que não se produz
pelo medo da violência, mas a partir do desejo e dos
encontros. Conviver com o Poço da Draga e me envolver em
seus desafios mobiliza-me desejos, faz-me enfrentar a
produção intensiva de neuroses e seguir acreditando que
outro mundo é possível e sua construção é urgente.
“O corpo é de luta e não de perfumaria”. Esta frase da
Hilda Hilst me comoveu desde a primeira leitura.
O convívio com o Poço da Draga é, portanto, um convite à
luta e à invenção de um sentido para essa palavra. Não se
trata de ir ao Poço motivado a promover um modo de
existência que busca acomodar-se em lugares pré-definidos,
como poderia ser a atuação de um artista profissional
interessado em se posicionar no circuito das artes, tão
ávido por colaborações; ou a atuação de um político
profissional interessado em conquistar eleitores. A luta
que se inventa na relação com o Poço é contra o mundo
(trans-)
estabelecido, normatizado, incluindo o campo da arte
transformação: talvez essa seja a
condição formal de nossa existência. (pretenciosamente sem normas) e o da política (pretencio-
uma experiência transitiva. samente normatizador); incluindo nossas noções de sujeito
cotidianamente agimos sobre o
mundo, incluindo nosso próprio e de ação. E aqui evitaria qualquer idealização dessa
corpo, para que ele se transforme, relação e das pessoas que moram no Poço da Draga, pois
ainda que nossa ação seja para
manter o mundo aparentemente o elas também são parte nesse e desse conflito, luta-se
mesmo. experimente não escovar também contra suas/nossas identidades enrijecidas.
os dentes ou não varrer a casa ou
não coletar o lixo, por exemplo. e
No entanto, quando a luta se realiza como tarefa
pense que outras ações podem ter cotidiana, mobilizada em rede, sem comando centralizado,
consequências menos diretas, mas
sem doutrina a obedecer, um corpo perfumado é também
que também são transitivas,
transformam uma situação em convocado. O encontro com o Poço da Draga mantém-se
outra, ainda que seja para manter fundamentalmente como experiência afetiva. Pois entendo
a aparência, a mesma forma como
se dá aos sentidos, a mesma que a disputa de sentido do mundo, de sua forma, pode
condição de partilha. daí, conclua também se dar em um beijo, como aquele de Adélia:
que há também ações que
transformam uma situação em “a vida é tão bonita,/ basta um beijo/ e a delicada engrena-
outra provocando diferenças. quero gem movimenta-se,/ uma necessidade cósmica nos protege”.
crer que a arte e a política são ações
transformadoras nesse sentido da
Afinal, é sempre um impulso amoroso o que nos move a
produção de diferenças. transformar o mundo.

***
318
VOCABULÁRIO
CRUZADO
Vocabulário Cruzado
agente laranja

AGENTE LARANJA

VOCABULÁRIO CRUZADO

todas as pala-
R E S P O STA :

vras que estiverem ao


alcance da sua habilida-
de de resposta. As
palavras estão doentes e
só você tem a cura, a
plena habilidade de
buscar o que pro-cura.
Responsabilidade não é
nenhuma arte obscura.
Responsa é a habilidade
de responder ao mundo
ao seu redor de forma
propositiva e não reati-
va. Não é uma questão de
controle, senão de
conduta. Responsa é a
não-indiferença para com
as suas ações e resulta-
dos. Não é uma questão
de moral, senão de ética.
Assuma, a resposta é
toda sua.

***

319
320
321
Registros dos encontros e oficinas do Vocabulário político.
Rio de Janeiro, junho de 2014.

322
323
324
325
Bios história das ideias. A Agência Transitiva é
nós. Nós somos uma composição de tipos
ANAMALIA THORSTENBERG móveis. Nós nos amassamos lateralmente.
RIBAS / CRP 12/04384. Psicóloga, com Nós conjugamos verbos no presente e no
graduação pela Universidade do Vale do futuro. Nós coletamos. Nós nos apropriamos.
Rio dos Sinos (UNISINOS/RS) e Nós intercedemos. Nós cozinhamos. Nós não
Pós-Graduação em Arte-terapia pela estamos sozinhos. Facilitamos serviços de
Faculdade Cândido Rondon e Dinâmica tradução, abordagens, convivências e reações
de Grupo pela Sociedade Brasileira de em cadeia. Aceitamos e encorajamos trocas e
Dinâmica dos Grupos (SBDG/SC). investimentos.
Atua na clínica desde 2000 com psicotera-   ANTI-HERÓI ANÔNIMO;
pia para crianças, jovens, adultos, famí- ANDRÉ MESQUITA / Pesquisador
lias e casais. Já atuou como Conselheira das relações entre arte, política e ativismo.
Tutelar; como Conselheira Municipal de Doutor em História Social pela Faculdade
Saúde, CMDCA e CME; como Psicóloga de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
em Programas como PETI; na implemen- da Universidade de São Paulo com a tese
tação do NASF e do Atendimento Clínico Mapas Dissidentes: Proposições Sobre um
Infantil na Secretaria Municipal de Mundo em Crise (1960-2010). É autor do
Saúde de Garopaba/SC. Assim como em livro Insurgências Poéticas: Arte Ativista
escolas e empresas particulares como e Ação Coletiva (Annablume/Fapesp,
psicóloga e orientadora educacional; 2011). MemMembro da Red Conceptualis-
na realização de seleção e recrutamento; mos del Sur.
psicóloga em diversas ONGs desenvolven-   CONSPIRAÇÃO;
do projetos sociais e como psicóloga perita   ESCUTA;
para o Poder Judiciário. BARBARA LITO / Barbara Lito é
  COMPLEXIDADE; mãe do Davi, de um ano, e possui gradua-
ANNICK KLEIZEN / Annick Kleizen ção em Comunicação Social – Cinema pela
cura, escreve e pensa com artistas. Vive e Universidade Federal Fluminense (2005),
trabalha em Amsterdam. Entre Outubro Mestrado e Doutorado em Literatura
de 2013 e Março de 2014 passou vários Brasileira pela Pontifícia Universidade
meses no Rio de Janeiro como residente Católica do Rio de Janeiro (2009/2013)
no Capacete Entretenimentos, com suporte   INFRAESTRUTURA;
do Dutch Mondriaanfund. BEATRIZ LEMOS / Licenciada em
  MUDEZ; História da Arte pela UERJ e mestra em
AGÊNCIA TRANSITIVA / Agência História Social da Cultura PUC-RJ.
Transitiva surgiu em janeiro de 2013 Dedica-se à curadoria e pesquisa voltada
como um espaço-veículo para ações e estudos para as artes visuais contemporâneas e
não-convencionais em arte, política e seus desdobramentos em redes. Integra a
equipe de coordenação do Programa de CECÍLIA COTRIM / Doutora em
Residência Terra UNA, em Minas Gerais, História da Arte pela Université de Paris I
e articula projetos de intercâmbios – Panthéon-Sorbonne (1996).
entre cenas de arte na América Latina, Trabalha com pesquisa em história da
participando de residências e idealizando arte contemporânea.
exposições no Brasil e exterior.   DES//DOBRAMENTO/S;
É editora do selo de publicações de arte CRISTINA RIBAS / Trabalha como
Recortes, co-editora da Revista de Arte artista e pesquisadora. Organizou
Elástica e idealizadora do projeto Lastro algumas residências para artistas e
– Intercâmbios Livres em Arte. Atua como projetos interdisciplinares a partir de
professora em cursos livres de arte e 2008. Em um sentido amplo, procura
curadoria. provocar articulações entre práticas
  CARTA DE NÃO PARTICIPAÇÃO; artísticas, diagramas, memória, historia,
BRENO SILVA / Artista visual, arquivos, a esfera pública e a política.
arquiteto e urbanista, professor em escolas Seu trabalho como artista pode abordar
de arquitetura. Realiza trabalhos colabo- questões relacionadas ao espaço urbano,
rativos em artes promovendo situações usando fotografia, escultura, vídeo, instala-
urbanas experimentais como Lotes Vagos: ção e texto. Como artista-pesquisadora
Ação Coletiva de Ocupação Experimental procura atuar no campo da arte produzin-
(2005 – B.H., 2008-Fortaleza); do uma transversal que relaciona esse
vídeos como Infra-arquitetura # 0 (2010); campo a outras práticas sociais. A partir
participa de exposições como Panorama de 2005 desenvolveu a pesquisa Arquivo
da Arte Brasileira – Itinerâncias Itinerá- de emergência que em 2011 teve parte de
rios – MAM-SP (2011-SP) e O Abrigo e o seu acervo incorporado à plataforma on
Terreno – MAR (2013-RJ); ministra line D e s a r q u i v o . o r g . Integra as redes Univer-
cursos livres e workshops sobre outras sidade Nômade e a Red Conceptualismos
perspectivas de usos para as cidades como del Sur. Atualmente faz Doutorado em
Espacialidad de la experiência (2012 – Fine Art no Goldsmiths College University
México D.F.); participa de palestras, of London com Bolsa CAPES – Doutora-
debates e publicações sobre ocupações do Pleno. Nasceu em 1980. É brasileira,
urbanas experimentais. Coordena a laranja e mãe.
plataforma a.e.t. [ativador de espacialida-   BRASIL / BRASIU / BRAZIS;
des temporárias] a t i v a d o r. o r g . Doutorando   CAVALO;
em Processos urbanos contemporâneos   COMPLEXIDADE;
– PPGAU-UFBA.   ESCREVER;
  EXPERIÊNCIA;   EXCESSO;
  MARÉ;   INFRAESTRUTURA;
  SAIR;
DANIELA MATTOS / Artista e Foi Consultora em Arte-Educação junto ao
curadora independente. Desenvolve sua Programa Educativo do CCBB-RJ
produção em artes visuais desde o início (2009-2010). Mais informações e docu-
dos anos 2000 com enfoque nos campos da mentação acerca de sua obra encontram-se
performance, fotografia, videoarte e escrita no site d a n i e l a m a t t o s . c o m .
de artista. Doutora pelo Núcleo de Estu-   CAVALO;
dos da Subjetividade, PEPG/PC-PUC-SP   DES//DOBRAMENTO/S;
(2013) e Mestre em Linguagens Visuais   ESCREVER;
pelo PPGAV/EBA-UFRJ (2007). Partici- DAVI MARCOS / Fotógrafo e video-
pou de diversas exposições, mostras de maker. Formado pela Escola de Fotógrafos
vídeo e publicações, no Brasil e no exterior. Populares em 2006, participou de exposi-
Suas obras já foram exibidas em eventos ções na Grécia, no México, no Espaço
como: 7ª Bienal do Mercosul (Radiovisu- Sérgio Porto, no Instituto Pretos Novos,
al, Porto Alegre, 2009), Video links Brazil: no colégio Pedro II, Parque Lage, Palácio
an anthology of Brazilian video art (Tate do Planalto, CCBB – Rio, Caixa Cultural
Modern, Londres, 2007) e Conversations – Rio, SESC – Rio, Canning House
(Galeria Skuc, Ljubliana, 2006). (Londres), e teve fotos publicadas em
Como curadora e co-curadora se destacam várias revistas e jornais. Trabalhou no
os seguintes projetos: A Performance da longa-metragem 5X Favela, ajudando na
Curadoria (Paço das Artes, 2011), elaboração do roteiro e também como
Performati(vídeo)dade (Festival de fotógrafo still. Foi instrutor de fotografia
Performance Arte Brasil – MAM-RJ, do projeto Memórias do PAC em Mangui-
2011 / CineLage – EAV-Parque Lage, nhos, do Projeto Rebelião Cultural nos
Rio de Janeiro, 2009), Jardim das presídios de Bangu 2, 3, 4 e Talavera
delícias: performance em questão (Galeria Bruce, assim como no Degase. Trabalhos
do Lago/Museu da República, Rio de que originaram a exposição Sonhos
Janeiro, 2006-2007) e agentedupla:// Velados, na Casa de Cultura Laura Alvim.
vídeos_brasileiros (Museo de Arte y Atualmente é graduando em comunicação
Diseño Contemporâneo, San José, Costa na UFRJ e fotógrafo institucional do
Rica, 2003). Nos últimos dez anos desen- Observatório de Favelas.
volve trabalhos na área da educação   DAVI MARCOS;
formal e não-formal. Foi professora no   MANIFESTAÇÕES;
Instituto de Artes da UERJ (2005),   MARÉ;
na Escola de Artes Visuais do Parque ENRICO ROCHA / Artista e educador.
Lage (entre 2006 e 2011) e em cursos Mestre em Linguagens Visuais pela UFRJ
livres da rede SESC, no Rio de Janeiro e bacharel em Comunicação Social pela UFC.
e em São Paulo (2008-2009). Entre 2010 e 2012, coordenou o Programa
de Pesquisa do Centro de Artes Visuais de Exchange Platform e editado pela Radical
Fortaleza, parceria entre a Prefeitura de Livros. Na cidade de Belém (PA), realizou
Fortaleza e o Centro Cultural Banco do ações de rua pela Rede [aparelho]-:
Nordeste. No início de sua trajetória (2005-10), além de produzir a edição norte
artística, participou do Núcleo de Artes do festival arte.mov 2010 e do programa
Visuais do Alpendre – casa de arte e Networked Hacklab (2011-12). Organiza
produção e foi premiado como artista desde 2012 a publicação Dossiê: Por uma
contemplado no programa Rumos Itaú cartografia crítica da Amazônia, docu-
Artes Visuais 2001/2003. Destaca a mentação sobre o referencial cultural,
apresentação individual dos projetos político e conflituoso da região. Reside
“Perguntas Ordinárias em Percursos entre Estados Unidos e Brasil.
Existenciais”, em 2006, e “Onde Aqui se   HIDROSOLIDARIEDADE;
Localiza”, em 2008. Vive e trabalha em GRAZIELA KUNSCH /
Fortaleza. 1979, São Paulo, Brasil – Vive em São
  VIZINHANÇA; Paulo. Artista, editora, crítica, curadora
FERNANDA KUTWAK / Psicóloga e e professora. Os projetos de Graziela
psicomotricista que trabalha com atendi- Kunsch frequentemente implicam em um
mento clínico e na ONG Casa da Árvore. alargamento do chamado “público da
  TRANSDUÇÃO; arte”, relacionando-se com contextos
GEO ABREU / Geo Abreu na verdade políticos e sociais. Dentro do contexto da
eh Georgiane. Ja quis ser uma bomba, arte, ela costuma dar respostas críticas
e hoje deseja viver tanto quanto uma a certos modos de funcionamento das
tartaruga. Palavras-chave: belem, historia instituições. No ano passado, deixou
do presente, producao cultural. desligada a sala de projeção dos seus
  HUMOR; vídeos na exposição O Abrigo e o Terreno
GISELI CORRÊA VASCONCELOS / (MAR Museu de Arte do Rio), ligando a
Paraense, graduada em Artes pela projeção somente às terças, dia de visita-
Universidade Estadual de São Paulo ção gratuita ao museu. Co-curadora dos
(Unesp-IA), concebeu e produziu festivais, projetos Arte e esfera pública e Esboço
oficinas, encontros e workshops tais como para novas culturas: projetos de cidades
Mídia Tática Brasil (N5M -2003 ), em debate e curadora da mostra CINEMA
Digitofagia (MIS/SP – 2004), Autolabs PERIGOSO DIVINO MARAVILHOSO.
(ZL SP 2004). É co-organizadora junta- Doutoranda em Meios e Processos
mente com o teórico Ricardo Rosas Audiovisuais na ECA-USP e membro do
(Rizoma.net) da publicação Net_Cultura grupo História da Experimentação no
1.0: DIGITOFAGIA (2008), financiada Cinema e na Crítica. Integrante do
pelo programa internacional Sarai Waag coletivo USINA e colaboradora do
Movimento Passe Livre e do site Ta r i f a Z e r o . o r g . política e gentilezas distópicas.
Editora da revista Urbânia. n a o c a b e r. o r g Desde 2012, ele ocupa o apartamento de
  EVENTO; um vizinho, esquizofrênico e desaparecido,
  MARÉ; como atividade poética. Ele cursou dois
  TARIFA ZERO; anos de Antropologia na UFF (Rio de
INÊS NIN / Estudou mídia, artes visuais Janeiro, 2008–2010) e atualmente está
e filosofia. Se interessa por micropolíticas, cursando licenciatura em História da Arte
linguagens e rotas de fuga. na UFRJ (Rio de Janeiro, 2010–2014).
Procura traçar caminhos por meio da Ele também participou de cursos gratuitos
teoria, escrita, experimentações estéticas na Escola de Artes Visuais do Parque
e práticas coletivas. Compreensão de Lage (Rio de Janeiro, 2010–2013).
mundos, de sistemas, de vazio entremeios.   ETNOEMPODERAMENTO;
Autonomias. a z u i s . n e t   MARÉ;
  LUGAR; JULIANA LEAL DORNELES /
  MANIFESTAÇÕES; Porto Alegre, 1975. Instrutora de equita-
  SAIR; ção, clown e doutora em psicologia clínica
ISABEL FERREIRA / Concebeu o (PUC-SP). Atua dando aulas de equitação
projeto ComPosições Políticas que inte- e treinando cavalos na praia da Guarda
grou o Festival Panorama por dois anos do Embaú/SC. Pesquisa comicidade, pós
e que continua na Casa Nuvem, no Rio de pornografia e os exageros cênicos da vida.
Janeiro através das atividades do Atelier   MULHERES: VIOLÊNCIA;
de Dissidências Criativas e outros projetos.   MURO;
É produtora cultural, tendo concebido e JULIA RUIZ DI GIOVANNI /
gerido diversos projetos na área de perfor- Doutora em Antropologia Social pela
mance, dança e artes visuais. Com formação Universidade de São Paulo (2013).
em historia da arte, é pesquisadora e arte Formada em Comunicação Social pela
ativista. Fundação Armando Álvares Penteado
  HUMOR; (2002), concluiu o mestrado Antropologia
JEFERSON ANDRADE / Jeferson Social também na Universidade de São
Andrade (* 1989, Rio de Janeiro) é Agente Paulo (2007). Autora do livro Artes do
Amor da Agência Transitiva. Pesquisador Impossível protesto de rua no movimento
independente de novos processos etnográfi- antiglobalização (Annablume/Fapesp,
cos e inter-relacionais, performatividade e 2013), realiza desde o mestrado pesquisas
amores políticos. Em sua pesquisa, sobre práticas de ativismo, enfocando as
desenvolve textos, discursos, imagens qualidades processuais, poéticas e performá-
e objetos que lidam com a reinterpretação ticas dos processos de organização e da ação
do espaço de vida, noções de ocupação política. Integra atualmente o Coletivo
ASA – Artes Saberes e Antropologia LUCAS RODRIGUES / vodrigues
e desenvolve um projeto de pós-doutorado (*1981, Rio de Janeiro) é Agente de Talentos
sobre os saberes do corpo, dedicado a um da Agência Transitiva. Dançarino contem-
diálogo crítico entre os estudos da perfor- porâneo, ator, videomaker e produtor de
mance, as antropologias do ritual e experiên- eventos. Ele usa expressões do corpo,
cias de artistas e ativistas contemporâneos. movimento e ritmo para criar novas
  ESTRATÉGIA; possibilidades de relações sociais.
KADIJA DE PAULA / Agente Ele procura alcançar conexões através da
Laranja é Kadija de Paula (*1980, Curitiba, subjectividade, tanto no seu próprio trabalho
mora no Rio de Janeiro). Artista gestora como artista, como na construção diária de
com mais de dez anos de experiencia de uma vida social. Ele é graduado em Cinema
trabalho em di-gestão cultural na America (Universidade Estácio de Sá, Rio de
do Norte e do Sul, ela é Mestre em Gestão Janeiro, 2005) e em Dança Contemporânea
de Empresas (IMBA) pela Schulich School (Faculdade Angel Vianna, no Rio de
of Business da York University (Toronto - Janeiro, 2008).
Canadá, 2011) e Bacharel em Artes   MARÉ;
Visuais (BFA) pela OCAD University   MURO;
(Toronto - Canadá, 2005). LUCAS SARGENTELLI / Agente
Kadija é catalisadora de comunidades Gráfico é Lucas Sargentelli (*1989, Rio de
criativas e colaborativas com interesse em Janeiro). Ele trabalha com comunicação
inovação social. Seu trabalho normalmente visual e artes plásticas, se valendo de
envolve pessoas, comida, viagens, lingua- práticas performáticas e procedimentos
gem e bambolê. Kadija é Agente Laranja cartográficos para desenvolver passeios
da Agência Transitiva. guiados e exposições baseadas em pesquisa.
  VOCABULÁRIO CRUZADO; Formado em Artes Visuais pela UERJ
LAURA LIMA / Graduada em Filoso- (Rio de Janeiro, 2013), também cursou a
fia pela Universidade do Estado do Rio de ESDI-UERJ (Escola Superior de Desenho
Janeiro (UERJ). Entre 1991–1994 Industrial) por três anos. Lucas Sargentelli
estudou na Escola de Artes Visuais do é o Agente Gráfico da Agência Transitiva.
Parque Lage, Rio de Janeiro. Participa de   MARÉ;
inúmeras exposições individuais e coletivas, LUIS ANDRADE / Nasceu em
nacionais e internacionais. Tem obras nas Fortaleza (CE), em 1967. Artista hipermí-
coleções do Inhotim Centro de Arte Contem- dia, é mestre em Linguagens Visuais pela
porânea, Brumadinho, MG e do MAM – EBA/UFRJ, 2000. Graduação em Artes
Museu de Arte Moderna de São Paulo, Cênicas, EBA/UFRJ, 1996, e Comunicação
São Paulo. É uma das diretoras da Galeria Visual, PUC/RJ, 1986–1988 (incompleto).
A Gentil Carioca, no Rio de Janeiro. Cursos na Escola de Artes Visuais do
  RHR;
Parque Lage, RJ, 1987, e na Scuola Zürich. Como performer e organizadora,
Europea di Teatro e Cinema, Milão, 1988, integrou a iniciativa PerformancePoolZüri-
onde residiu por dois anos. Membro ch. Entre 1999–2000 realizou o inventário
integrante das associações de artistas do Arquivo de Performance Arte Schwarze
Atrocidades Maravilhosas e RRadial. Lade/Black Kit, Seedamm Kulturzentrum.
Professor do Instituto de Artes Plásticas Desde então é interessada, entre outros,
da UERJ. Editor da revista Concinnitas em contextos relacionados à cultura da
Virtual / UERJ e membro do comitê performance e as suas possibilidades
editorial da revista Global para a América como sistema aberto no campo das artes.
Latina — uma publicação da Rede As práticas curatoriais são elemento
Universidade Nômade e CIEC/UFRJ. chave em seu trabalho.
Além de professor e coordenador editorial,   PRAÇA DE BOLSO DO CICLISTA;
tem publicado vários textos em revistas PEDRO B. MENDES / Faz parte da
especializadas, no Brasil e no exterior, Rede Universidade Nômade, na qual ajuda
e é autor dos livros/CDs À[barrockbeat] a editar as revistas Lugar Comum e Global
(Rio, editora do autor, 2004), Brasil, entre outras coisas, e do coletivo de
À (Rio, editora do autor, 2000) e Love’s mídia Das Lutas, com o qual mantém um
House (Rio, editora Casa da Palavra, blog. Atualmente faz doutorado em Ciência
2002). Vive e trabalha no Rio de Janeiro. da Informação no IBICT-UFRJ, onde
LUIZA CILENTE/ formada em realiza pesquisa sobre formação autônoma
Comunicação Social pela Universidade nos novos movimentos sociais da multidão,
Federal Fluminense. Desde os tempos e organiza um livro sobre o pensador
universitários trabalha com veículos de autonomista brasileiro Eder Sader.
mídia alternativa. Integrante da agência   TRANSDUÇÃO;
de notícias Pulsar Brasil desde 2007, já teve PIERRE GARCIA / Figurinista,
oportunidade de conhecer as diferentes cenógrafo e performer, foi formado em
realidades de rádios livres e comunitárias Cenografia, depois de uma graduação em
em algumas regiões da América Latina e Urbanismo. Fez cenografias e figurinos
Europa. Também flerta com vídeo e curte a Paris, em varios teatros nacionais
muito fotografia sobre a qual pesquisa e (La Colline, La Ferme du Buisson, Nanterre-
produz processos alternativos junto do -Amandiers, Vieux Colombier, Théâtre
Coletivo Fotoexpandida desde 2012. National de Bourgogne…). De performer,
  ESCREVER; participou ao coletivo artístico La Mobile
MARGIT LEISNER / Nasceu em Boutique, ao grupo de música performativa
Curitiba, 1971. Estudou Artes Visuais, com eletro-pop ExchPopTrue, de filmes de Tujiko
aprofundamento em Performance Arte, na F Noriko… Sua pesquisa artística pessoal,
+ F Schule für Kunst und Mediendesign sobre as teatralidades do cotidiano, toma
forma em performances, percursos urbanos, Federal Fluminense em Ciências da Arte,
instalações sónoras ou fotográficas. Entre e atualmente é doutorando em Planeja-
outros lugares, seu trabalho foi apresentado mento Urbano no IPPUR/UFRJ.
em La Gaîté Lyrique, Le Théâtre de la Ville,   BAGUNÇA (PERFORMANCE);
KomplexKapharnaüm, Public>, Galerie du   FORENSE CAPENGA;
Village, Magazine 9/9 … RICARDO BASBAUM / Vive e
«Minha contribuição a Vocabulário trabalha Rio de Janeiro. É artista,
Político, interessa-se à linguagem econômi- curador e crítico. Investiga a arte como
ca, e à sua teatralidade. A partir de recortes dispositivo e plataforma para articulação
da imprensa financeira, aparecem seqüen- da experiência sensorial, sociabilidade
cias com novas interpretações. A suposta e linguagem. Desde os anos 1980 tem
polissemia da lingua do poder, e a figura desenvolvido um vocabulário específico
oracular em tela de fundo do discurso, tecem para seu trabalho, aplicado de modo
as tramas de uma sabedoria prometéica, particular a cada novo projeto.
sem deixar claro se repele ou apela a Seu trabalho foi recentemente incluído em
angustia do porvir.» Something in Space Escapes our Attempts
  SINTAXE; at Surveying (Kunstverein Stuttgart,
RAPHI SOIFER / Nasceu e se criou 2014), 30º Bienal de São Paulo (2012),
nos Estados Unidos, mas está se recupe- Garden of Learning (Busan, 2012) e
rando aos poucos. Veio para o Rio de Counter-Production (Generali, Viena,
Janeiro em 2002 para estagiar no Centro 2012), entre outros eventos. Participou da
do Teatro do Oprimido, e é radicalizado no documenta 12 (2007). Projetos individu-
Brasil desde 2007. Raphi é performer e ais recentes incluem re-projecting (london)
pesquisador cujo trabalho tem como foco a (The Showroom, Londres, 2013) e conjs.,
vida social e política das ruas, as estéticas re-bancos*: exercícios&conversas (Museu
de poder, a memória incorporada e a de Arte da Pampulha, Belo Horizonte,
interatividade urbana. Suas performances 2011). Uma antologia de seus diagramas
incluem Cada um no seu quadrado; foi apresentada no Centro Galego de Arte
A morte super-divertida do Zé Carioca e Contemporánea, Santiago de Compostela
Pesquisas lapianas: Pomba-giras, explora- (diagrams, 2013). Autor de Manual do
ções da crescente privatização e militariza- artista-etc (Azougue, 2013), Ouvido de corpo,
ção do espaço público carioca. É colabora- ouvido de grupo (Universidade Nacional
dor do Bloco Livre Rec!clato e do Teatro de de Córdoba, 2010) e Além da pureza visual
Operações, além de co-fundador do Museu (Zouk, 2007). Contribuiu com Materiali-
de Colagens Urbanas. É bacharel pela Yale tät der Diagramme – Kunst und Theorie
University (EUA) em Artes Cênicas e (Ed. Susanne Leeb, b_books, 2012).
Antropologia, mestre pela Universidade Professor do Instituto de Artes da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. STEFFANIA PAOLA / Steffania
Trabalhou como Professor Visitante da Paola (Guimarânia – MG, 1983) é artista
Universidade de Chicago entre outubro e visual e ativista. Vive e trabalha no Rio de
dezembro de 2013. Janeiro. s t e f f a n i a p a o l a . c o m
RODRIGO GUIMARÃES NUNES /   INFRAESTRUTURA;

Rodrigo Nunes é professor do departamento SARA UCHOA / Mãe do Caique.


de Filosofia da PUC-Rio. É PhD pela Pesquisa e trabalha no atravessamento
Universidade de Londres e fez pós-doutorado dos seguintes temas: políticas culturais,
na PUCRS. Foi editor da revista Turbulence cultura digital e audiovisual (pesquisa e
(t u r b u l e n c e . o r g . u k ) e coordenador do grupo produção voltadas para tecnologias
de pesquisas CNPq Materialismos livres), práticas culturais e processos de
(m a t e r i a l i s m o s . t k ). Colabora de diversas ensino-aprendizagem. Possui graduação
publicações nacionais e internacionais em Rádio e TV pela Universidade Federal
nas áreas de filosofia, política e arte, do Rio de Janeiro.
atuando também como tradutor.   ESCREVER;
Como curador, organizou o ciclo de filmes TATIANA ROQUE / Professora da
e debates ‘Stronger are the powers of the UFRJ, trabalha com História e Filosofia
people’: Politics, poetics and popular da Ciência.
education in Brazilian cinema, 1962-1979,   ANTI-HERÓI ANÔNIMO;
apresentado em Londres, Berlim, Viena e   DIAGRAMA;
Maastricht. Como organizador e educador TIAGO RÉGIS / Psicólogo. doutoran-
popular, tem participado de diversas do no programa de pós-graduação em
iniciativas políticas, entre as quais as psicologia da uff. militante e pesquisador
primeiras edições do Fórum Social da área de direitos humanos, com ênfase
Mundial e a campanha Justice for na temática de memória, verdade e justiça.
Cleaners (Londres). Entre suas publicações   COMPLEXIDADE;
mais recentes, estão um texto e um dossiê
sobre a conjuntura brasileira pós-junho de ***
2013 para a revista francesa Les Temps
Modernes e o livro Organisation of the
Organisationless: Collective Action After
Networks (Londres, 2014: Mute), que busca
elaborar uma teoria da organização política
adequada à realidade dos movimentos
sociais que têm aparecido no mundo nos
últimos anos.
  EVENTO;
Sumário 89; COMPLEXIDADE
Complexidade, 89
Cristina Ribas (((parêntesis de
156; FORENSE CAPENGA
Pensando o capenga
forensicamente
Anamalia Ribas))) (em voz alta e sotaqueada), 1 5 6
<<Cartografias da ditadura>>, 1 0 7 Raphi Soifer
Tiago Régis
3; ÍNDICE IRREMISSÍVEL 159; GRUPO DE EDUCAÇÃO POPULAR
7; PARA LER EM VOZ ALTA 09; CONSPIRAÇÃO G r u p o d e e d u c a ç ã o p o p u l a r, 1 5 9
Conspiração, 109 André Basséres
9; DESDITORIAL André Mesquita 168; HIDROSOLIDARIEDADE
23; RADICAIS 112; DAVI MARCOS Hidrosolidariedade, 168
A p re n d e r ; A p re n d i z a g e m ; A R T ; Pequeno ajuntamento de Giseli Vasconcelos
A LT E R ; C O M - ; A u t o / C o m o ; C O N ; postagens/pensamentos sobre
C o n t ra ; D e / Pa ra ; D e s a rq u i v o ;
177; HUMOR
um pedaço de realidade, 112 H u m o r, 1 7 7
L u g a r ; Pa ra ; T R A N S ; V i z i n h a n ç a ; Davi Marcos Geo Abreu
Contribuições de A Arquivista;
C r i s t i n a R i b a s ; E n r i c o Ro c h a ; 118; DES//DOBRAMENTO/S Carnavandalirismo, 179
Des//dobramento/s, 118 Isabel Ferreira
Gisella Hiche; Inês Nin; Lucas
Sargentelli; Daniela Mattos 183; INFRAESTRUTURA
Cecília Cotrim Infraestrutura, 183
29; BLOCO DE IMAGENS Bulário//estético//político, 121 Cristina Ribas ((parêntesis de
47; ANTI-HERÓI ANÔNIMO Cecília Cotrim Barbara Lito))
O herói anti-herói 123; DIAGRAMA Justiceiras do Capivari, 199
e o anti-herói anônimo, 47 Diagrama, 123 Steffania Paola
Hélio Oiticica Ta t i a n a R o q u e
Cartaz cara de cavalo, 49
202; LUGAR
A g ê n c i a Tr a n s i t i v a 125; ESCREVER L u g a r, 2 0 2
E s c r e v e r, 1 2 5 Inês Nin
Mundo-rua, 50
Ta t i a n a R o q u e Cristina Ribas 205; MANIFESTAÇÕES
Anotações relacionadas ao escrita, 129 travesti, 205
Anti-herói anônimo, 52 Daniela Mattos Inês Nin
Vários Autores 7 minutos do streaming Manifestações do ciclo de
de RionaRua, 130 Junho, repressão na favela e
53; ASSEMBLEIAS Tr a n s c r i ç ã o L u i z a C i l e n t e e ditadura, 208
As assembleias populares Sara Uchoa, narração de Clara Davi Marcos
na luta pela liberdade Medeiros
no Rio de Janeiro, 53 De quem é a ordem?, 133 210; MANIFESTO AFETIVISTA
Fernando Monteiro Tr a n s c r i ç ã o L u i z a C i l e n t e Manifesto afetivista , 210
Brian Holmes
56; BAGUNÇA (PERFORMANCE) 135; ESCUTA
Matheus 4:19, 56 Escuta, 135 213; MARÉ
Raphi Soifer André Mesquita Te m f a v e l a ? , 2 1 4
Davi Marcos
59; BRASIL / BRASIU / BRAZIS Caos-complexidade-escuta, 137
Oficina aldeia gentil, dia 1 CARTILHA para/Manifesto
Brasil| brasiu | Brazis , 59
contra, 215
Cristina Ribas 140; ESTRATÉGIA Breno Silva, Jeferson Andra-
Querelas do Brasil, 70 Estratégia, 140 de, Lucas Rodrigues, Lucas
M a u r í c i o Ta p a j ó s e A l d i r B l a n c Julia Ruiz Sargentelli. Colaborou Graziela
71; CARTA DE NÃO PARTICIPAÇÃO 143; ETNOEMPODERAMENTO Kunsch.
Carta de não participação Etnoempoderamento, 143 Eu sou da Maré, 222
imersiva aqui por uma tentativa Jeferson Andrade Josinaldo Medeiros
de preferir não lá, 71 Sobre o ataque midiático
Beatriz Lemos 149; EVENTO
e militar ao Complexo da Maré
Te m a r t i s t a n a m a r é ? , 7 7 Evento, 150
e ao Movimento, 225
Conversa em oficina interna Rodrigo Nunes
Pedro Mendes
Excerto de email sobre reunião
79; CAVALO no Ocupa Alemão, 152 227; MUDEZ
Poema do cavalo, 79 Bruno Cava Mudez, 227
Daniela Mattos Annick Kleizen
Cavalo / diagrama, 80 153; EXCESSO
Cristina Ribas Excesso, 153
Cavalgar em La Borde, 82 Cristina Ribas
Felix Guattari 155; EXPERIÊNCIA
Experiência, 155
Breno Silva
233; MULHERES: VIOLÊNCIA
Pós porno e feminismo , 233
Juliana Dornelles
Valeu
Violentas, 235
Agência Transitiva Izabel Costa –
Juliana Dorneles
Akane wada Funarte
Nós dizemos revolução, 237
Aldo Vitorio Filho, Denise Jackie Alves
Beatriz Preciado
Espírito Santo e Jorge Lima – Instituto Jeferson Andrade
*, 237
de Artes da UERJ José Miguel Nieto Olivar
Ricardo Ruiz
Anamalia Ribas Josinaldo Medeiros
238; MURO André Basséres Julia Ruiz Di Giovanni
MURO, 238 Andre Mesquita Juliana Dorneles
Lucas Rodrigues André Morais Kadija de Paula
MURO, 242 Annick Kleizen Laura Lima
Juliana Dorneles Arthur-Etetuba-Leandro Laura Murray
Bárbara Lito Lucas Rodrigues
243; PRAÇA DE BOLSO DO CICLISTA
Barbara Szaniecki Lucas Sargentelli
Praça de Bolso do Ciclista, 2 4 3
Beatriz Lemos Luiz Andrade
Margit Leisner
Bicicletaria Cultural Luiza Cilente
249; RHR Breno Silva Maíra das Neves
RhR, 249 Bruno Cava Marcelo Amaral
Laura Lima conversando com Caique Uchoa Amaral Marco Mafra
alguns de nós Cecília Cotrim Marcos Lamoreux
GLOSSÁRIO RhR, 256 Celi Abdoral Margit Leisner
Laura (des-integrante do RhR) Christopher Jones Mariluci Nascimento
266; SAIR Cicloiguaçu – Associação dos ciclistas Michel Zózimo
S a i r, 2 6 6 do Alto Iguaçu Michele Cunha
Inês Nin Clara Medeiros Mônica Hoff
Partir/Destruir/Expulsar/ Clarissa Moreira Opavivará
V a z a r, 2 6 9 Coletivo Das lutas Pedro Mendes
Cristina Ribas Conrad Rose – Pontão da ECO Pedro Rocha Pitta
Cristina Ribas Pedro Victor Brandão
289; SINTAXE Daniel Jablonski Pierre Garcia
Sintaxe, 269 Daniela Mattos Priscila Gonzaga
Pierre Garcia Davi Marcos Projeto Hélio Oiticica
291; TARIFA ZERO Diogo Nascimento Rafaela M. Rocha
O que a Tarifa Zero, os bancos Doug Oliveira – Aldeia Gentil
e as concessionárias de automóveis Elvio Luiz dos Santos Raphi Soifer
poderiam ter em comum mas ainda Enrico Rocha Ricardo Basbaum
não têm , 2 9 2 Fernanda Kutwak Rodrigo Nunes
Graziela Kunsch, colaborou Fernando Monteiro Sara Uchoa
Daniel Guimarães. Geo Abreu Silvan Kälin
Giseli Vasconcelos Soraya Albuquerque
305; TRANSDUÇÃO
Glaucia Marinho Steffania Paola
Tr a n s d u ç ã o — o u “ G u i a p a r a
Graziela Kunsch Tainá Vital
o r i e n t a r - s e n a m u l t i d ã o ”, 3 0 5
Hannah Jones Tatiana Roque
Pedro B. Mendes e Fernanda Kutwak
Helene Delmonte Tiago Régis
Tr a n s d u c t o r , 3 1 3
Helmut Batista Valdiria Thorstenberg
Tr a n s d u c t o r e s .
Inês Nin Wellington Romário
Pedagogias Colectivas
Isabel Ferreira e Xapolin Caos
314; VIZINHANÇA Mariana Santarelli – Zenaide
Pequeno relato de uma Casa Nuvem/
experiência de vizinhança, 314 Dissidências criativas
Enrico Rocha Isadora Machado –
317; VOCABULÁRIO CRUZADO Mídia Ninja
Vo c a b u l á r i o c r u z a d o , 3 1 7
Agente Laranja
320; REGISTROS DOS ENCONTROS E
OFICINAS DO VOCABULÁRIO POLÍTICO
324; BIOS relização
334; VALEU