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A entrevista A ESCOLHA DOS ENTREVISTADOS

Potencialmente, todas as pessoas são parte de nosso


Uma forma de registrar as histórias de vida é por meio da patrimônio e suas histórias merecem ser preservadas. Mas é
entrevista, uma prática de interação entre dois lados: quem praticamente impossível registrar a história de todas as pessoas
conta e quem pergunta e ouve. Ao contrário de um interrogatório de uma comunidade ou instituição. Como, então, definir quais
ou questionário, o que se busca é criar um momento de troca e serão as entrevistadas?
diálogo entre as duas partes, sendo que o assunto da conversa é
a história de vida de uma delas. Podemos dizer que a entrevista é Essa seleção inclui a definição de critérios pelo grupo. É
um produto em coautoria do entrevistado e do entrevistador. fundamental retomar as diretrizes do projeto: que memória
queremos registrar? Que história vamos contar? Esse debate
Busca-se transformar a entrevista num momento solene, até nunca é “natural” ou “neutro”: ele sempre envolve negociação
mesmo sublime, em que a pessoa possa se religar a sua memória e prevalência de valores, visões de mundo e interesses.
e contar sua história, com ajuda de um entrevistador atento Interessante é priorizar a diversidade de registros.
e respeitoso. É como puxar o fio da memória e deixar que a
narrativa flua. O levantamento de entrevistados pode ser realizado de forma
empírica, isto é, simplesmente frequentando encontros,
Costumamos dizer que, para uma boa entrevista, pode bastar uma participando de associações ou pedindo indicações. Em geral,
primeira pergunta. A partir de então, é saber ouvir uma história levantam-se muito mais nomes do que o número de pessoas que
que muitas vezes está simplesmente guardada, pronta para ser serão efetivamente entrevistadas. A equipe terá que refletir para
contada. Cabe ao entrevistador auxiliar a pessoa a organizar chegar a um consenso.
as lembranças que vêm à tona em uma narrativa própria. Tão
importante quanto o conteúdo narrado são seu ritmo e seu jeito O roteiro a seguir pode orientar a escolha dos entrevistados:
de contar.
Definir critérios – O grupo deve buscar critérios para garantir
a profundidade e a diversidade de assuntos e enfoques
O que é história de vida? desejados pelo projeto. Sendo a história uma narrativa e os
entrevistados os autores dessa narrativa, quanto mais diversos,
Podemos definir história de vida como a narrativa construída a
mais rico será o resultado. Exemplo: para compor a história
partir do que cada um guarda seletivamente em sua memória. Ela
de uma empresa, além dos dirigentes e trabalhadores, podem
corresponde a como organizamos e traduzimos para o outro parte
daquilo que vivemos e conhecemos. ser ouvidos os fornecedores, os consumidores e as comunidades
onde está inserida.

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Mapear nomes – Definidos os critérios, uma primeira lista Período de
Setor de
de nomes pode ser produzida a partir da leitura de material já Profissão Nome atuação Perfil
produção
profissional
existente sobre o tema, bem como da sugestão das pessoas do
Ferroviários Telegrafista Paschoalino 1933–1944 Telegrafista da São Paulo
grupo. Também vale lançar a pergunta para a instituição ou a Assumpção Railway Company. Fala da
comunidade em geral: quem você conhece que pode nos ajudar a história da ferrovia e dos
sistemas funicular, tailand
contar esta história? e cremalheira.
Gráficos Margeador, Sílvio Pontes 1927–1972 Conhece a história dos
Contato inicial – Uma conversa com o potencial entrevistado pontuação, movimentos operários.
permite que a equipe apresente o projeto à pessoa e saiba se encadernador Participou de episódios
históricos importantes.
ela deseja compartilhar sua história. Cabe exclusivamente a ela Tem vida sindical ativa.
aceitar ou não o convite. Nesse momento, a equipe também pode Metalúrgi- Repuxador Gervásio da 1946–1984 Fez cantis e marmitas
avaliar se a pessoa precisa de alguma atenção especial por conta cos (torneiro) Silva Freitas para o exército. Participou
de várias greves, lem-
da idade ou alguma deficiência.
brando especialmente das
de 1953 e 1957. Trabalhou
Pesquisa preparatória – Se for o caso, uma pesquisa na Metalúrgica ITA.
preliminar em jornais, livros ou na internet pode ajudar o grupo Têxtil Técnico em Ignácio 1926–1964 Em 1926, começou a ser
tecelagem Picasso tecelão, trabalhou na Cia.
a compreender melhor o contexto dos entrevistados: seus
Nacional de
costumes, sua época, suas características culturais. Também Estamparia, Sorocaba. Em
facilita a elaboração das perguntas e a condução do depoimento. Santo André, formou-se
técnico tecelão.
Trans- Condutor/ Jayme 1955–1980 Trabalhou na roça junto
portes motorneiro Ferreira de com o pai. Em São Paulo,
Lima teve banca de frutas.
Sugerimos, como ferramenta auxiliar desta etapa, a criação de um Entrou para a CMTC como
quadro de entrevistados. Confira o exemplo: condutor e, mais tarde,
passou a motorneiro. Teve
grande atividade sindical.
A equipe do Projeto História das Profissões em Extinção localizou
Urbano Chapeleiro Marciliano 1939 até Único chapeleiro que
144 potenciais entrevistados. Esse mapeamento foi feito a partir Carlos hoje trabalha sob medida na ci-
de diferentes critérios, incluindo profissão, período histórico Monroe dade, atividade que exerce
há 55 anos.
de atuação, participação em movimentos trabalhistas e sociais.
Urbano Sapateiro de Pietro Ger- 1950–1980 Chegou ao Brasil em
As informações foram organizadas em um quadro (a seguir), oficinas de mano 1950, vindo da Itália com
possibilitando a seleção de 32 entrevistados finais. conserto toda a família. Foi sapa-
teiro na Itália e, no Brasil,
trabalhou numa sapataria
no Cambuci.

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ROTEIRO DE PERGUNTAS O desafio é construir um roteiro que ajude a pessoa a encadear
seus pensamentos e organizar a narrativa à sua maneira. O tipo e a
O roteiro é uma sequência de perguntas elaboradas pelo
ordem das perguntas – estejam ou não previstas no roteiro – tendem
entrevistador (ou pelo grupo), que o ajuda a preparar-se para a
a definir o tipo de história que será contada. Confira exemplos de
entrevista. Não deve ser entendido como um questionário rígido,
perguntas que ajudam e as que atrapalham na hora da entrevista.
mas como um guia para estimular o entrevistado.
Perguntas que ajudam
EM AÇÃO • Descritivas – Recuperam detalhes envolventes
–> Roteiro da entrevista P: Descreva a casa da sua infância.
R: Era uma casa de dois andares. Tinha um quintal grande, com
Para começar – Comece com perguntas fáceis de responder, uma mangueira. Também tinha um muro, de onde a gente ficava
como nome, local e data de nascimento. Além de contextualizar a olhando a casa do vizinho. Me lembro de um casamento lá em que
pessoa, essas perguntas têm a função de “esquentar” a entrevista. só a minha irmã mais velha foi convidada. Eu fiquei sentadinha no
É como um começo delicado de um relacionamento, e nada como muro dizendo: “Tá gostoso o olho de sogra? Traz um para mim!”
perguntas simples e objetivas para deixar o entrevistado à vontade
e ajudá-lo a mergulhar em suas memórias. • De movimento – Ajudam a continuar a história
P: O que você fez depois que saiu de casa?
Encadeamento – A ordem cronológica costuma ser um bom
fio condutor da conversa, mas não é o único. Vale observar se a R: Eu precisava arranjar um trabalho e consegui emprego lá no Cine
comunidade ou grupo tem outra lógica de organização de suas Marabá. Não tinha mais a cobertura dos meus pais, então eu precisava
histórias. Se for adotado o critério cronológico, o roteiro pode me virar. Naquela época não era muito difícil arrumar trabalho.
ser organizado em três grandes blocos de perguntas:
• Avaliativas – Provocam momentos de reflexão e avaliação
Introdução – Origem da pessoa, pais, avós, infância. P: Fale um pouco do que você sentiu quando chegou à cidade grande.
Desenvolvimento – Fases da sua trajetória, incluindo, se for o R: Ah, foi uma coisa assim esquisita. Porque eu queria vir e foi muito
caso, o tema específico do projeto. tempo dentro do ônibus de lá até aqui, foram três dias e duas noites.
Quando cheguei, achei tudo uma imensidão, fiquei com medo. O ônibus
Finalização – Conclusão da história, relação com o presente e o futuro.
rodando dentro da cidade e parecia que não acabava nunca, aquele
monte de prédio, aquele monte de coisa.

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Perguntas que atrapalham
• Indutivas – Levam o entrevistado a dar uma resposta que já Roteiro de Perguntas
está na pergunta.
P: A cidade em que você nasceu era bonita?
DES ENV OLV IME NTO
R: Era, era muito bonita. INT ROD UÇÃ O
TRABALHO/ COMÉRCIO
IDENTIFICAÇÃO • Qual foi seu primeiro trab
alho?
• Genéricas – Estimulam respostas genéricas, sem histórias. • Para começar, gostaria que • Como o senhor começou no
, data
dissesse seu nome completo comércio? O que exatamente
o
P: Como foi sua infância? e local de nascimento.
de sua senhor fazia?
R: Foi boa, foi ótima. • Qual o nome de seu pai e • Quais foram as principais
mãe? E de seus avós? dificuldades no início?
o nome
• O senhor tem irmãos? Qual • Como era a loja nessa époc
a?
• Com pressupostos – Propiciam respostas meramente deles? • Como era a rotina de
opinativas. FAMÍLIA funcionamento?
am?
• O que o senhor sabe sobr
e a • E os produtos, de onde vinh
clientes?
P: O que você acha da situação atual do Brasil? origem de sua família? • Como a loja atraía os
• Fale um pouco de seus avós • E como eram feitos os
R: Acho que estamos melhorando, mas ainda temos muito que crescer. maternos e paternos. pagamentos?
• O senhor sabe como seus
pais se • Quais foram as maiores
• Puramente informativas – Podem desconcertar o entrevistado conheceram e se casaram? dificuldades?
e? O que
• Qual a atividade deles? • Houve alguma grande cris
e interromper sua narrativa. aconteceu?
INFÂNCIA
o a rua • O que mudou depois disso?
P: Antes de você continuar essa história, qual era o nome da praça • Poderia descrever um pouc
a
e o bairro que marcaram mais
em que vocês jogavam bola? sua infância?
se FIN ALI ZAÇ ÃO
• E da casa, o que o senhor
R: Rapaz, o nome da praça? Nem me lembro. lembra? • Muita coisa mudou na ativ
idade
iras ria
• Quais eram suas brincade do comércio? O senhor pode
• Com julgamento de valor – Atendem apenas a hipóteses e favoritas? dar um exem plo?
as
• E na cidade? Quais foram
ESCOLA
anseios do entrevistador. • E da sua primeira escola,
o principais mudanças?
or
• Como está a família do senh
P: Você não acha que deveria ter feito algo? senhor se lembra? Poderia te? Com quem o senh or
o, a atua lmen
descrever o prédio, o páti
mora?
R: Não, porque eu não podia. Você não entende, porque não viveu sala?
foi mais • O senhor continua trabalha
ndo?
• E os professores? Algum o
aquela época, os tempos eram muito difíceis. quê? • E, além do trabalho, o que
marcante para o senhor? Por gost a de faze r?
estudou até qual séri e? senhor
• O senh or o?
• Qual é hoje seu maior sonh
contar
JUVENTUDE • O que o senhor achou de
ntude na um pouco da sua história?
• O senhor passou sua juve
Observe este exemplo de roteiro, que foi utilizado no Projeto mesma cidade?
rsão da
• Qual era a principal dive
Memórias do Comércio do Vale do Paraíba, realizado pelo Sesc-SP época?
eceu?
• E sua esposa, como a conh
em parceria com o Museu da Pessoa, em 2003. • O senh or se lembra como foi o
o?
noivado e o dia do casament
o nome
• O senhor teve filhos? Qual
deles?

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POSTURA DO ENTREVISTADOR • Humildade – O diálogo tem como foco o entrevistado. O
entrevistador não deve pressupor que o entrevistado possui os
Cada entrevistado não é entendido como uma mera fonte de
mesmos valores e conceitos que ele.
“informações” sobre o assunto, mas, sim, como uma pessoa que de
alguma maneira vivenciou um pedaço daquela história. • Emoção – O papel do entrevistador é estimular e auxiliar o
Nesse sentido, sua narrativa de vida é, em si mesma, a principal entrevistado na construção da história que ele quer contar.
fonte que se quer coletar. É muito importante que o grupo sinta O entrevistador não é um psicólogo. Não deve procurar
curiosidade e respeito pelo entrevistado. subentendidos, não ditos. Isso não impede que ele também se
emocione com a história do entrevistado.
O entrevistado é o autor principal da narrativa. É ele quem deve
determinar o ritmo, o estilo e o conteúdo da sua história. • Ritmo próprio – Cuidado para não interromper a linha de raciocínio
No entanto, o sucesso da entrevista depende muito do entrevistador. do entrevistado, mesmo que ele fuja do assunto da pergunta. O
É importante refletir em grupo sobre alguns pontos acerca do papel entrevistador só deve interferir quando for realmente necessário, seja
e da postura do entrevistador: para retomar o fio da meada, seja para ajudá-lo a continuar.
• Autoria – A entrevista surge da interação entre entrevistado e • Atitude – O corpo, os olhos, os movimentos fazem parte do
entrevistador. Cabe ao entrevistador um papel ativo na produção diálogo e influenciam a construção da narrativa. É necessário
da narrativa. estar atento. Cuidado para não demonstrar impaciência ou
desinteresse, bocejando ou olhando o relógio.
• Respeito – A entrevista é um momento solene, até mesmo
sagrado, no qual o entrevistado está eternizando sua história e o • Foco – O entrevistador deve priorizar a narrativa, as histórias. Não deve
entrevistador participa da construção de um documento histórico. deixar o entrevistado perder-se em comentários e opiniões genéricas.
É importante preparar um ambiente acolhedor para garantir que o
entrevistado se sinta tranquilo e, acima de tudo, ouvir com atenção | DICA |
a sua história. Quando o entrevistado é idoso, há a tendência de
Agradeça
infantilizá-lo, e é muito importante não adotar essa postura.
Uma cópia da entrevista, o convite para que ele participe
• Receptividade – O roteiro é apenas um estímulo. É necessário do resultado final do projeto, um certificado, uma carta são
estar totalmente disponível, ser curioso. As melhores perguntas maneiras de agradecer o entrevistado por ter colaborado na
surgem da própria história que está sendo contada. construção da história do grupo. Além do reconhecimento por
sua participação, todos esses cuidados constituem estratégias
• Sabedoria – O entrevistador nunca deve julgar o entrevistado, exigir
para que o entrevistado se conscientize da importância de sua
atitudes, discutir opiniões ou cobrar verdades e precisão histórica.
história e dos desdobramentos que ela pode ter ao ser integrada
O objetivo da entrevista é registrar a experiência pessoal que o
às histórias de sua comunidade e da sociedade como um todo.
entrevistado tem dos acontecimentos e não uma verdade absoluta.

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