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Sobre descascar frutas sem grandes desperdícios (hei de desfrutar dessa

(almejada) arte um dia), e o desabrochar dos filhos – sobrinhos ( etc =D

“Em algum momento nesses últimos anos adquiri uma habilidade que

parecia um superpoder inalcançável na infância. Só me dei conta, no


entanto, há poucos dias quando sentado à mesa da cozinha depois do
almoço, as meninas me pediram para descascar laranjas e notei que o
resultado foram laranjas branquinhas, perfeitamente descascadas, sem
os buracos e machucados, e com a casca inteira enrolada em espiral.

Tive um flashback da infância naquele minuto. Quando garoto, eu


admirava o meu pai por esse tipo de habilidade. Jogar bola como ele
jogava eu sentia que poderia conseguir se me empenhasse. Ter um
bigode como o dele era mera consequência do passar dos anos. Mas
descascar laranjas daquele jeito, estava além da minha compreensão e
habilidade. Nas vezes em que me aventurei em pegar uma faca e uma
laranja para descascar, terminei o processo uns 40 minutos depois com
mais pedaços de fruta grudados na parte da casca do que no bagaço,
que naquela altura já tinha se tornado uma polpa pastosa alaranjada
que sobrava nas minhas mãos enquanto o suco escorria pelos
antebraços até pingar pelos cotovelos.

Mas aí, chegando aos 40 – anos, não minutos – a vida te premia. Ou


compensa. É como se o Criador dissesse “Beleza, meu filho, você
ganhou essa dor aí no ciático, mas em contrapartida vai poder
descascar laranjas como um ninja”. Dadas as minhas limitadas
habilidades para diversas coisas, isso soa como uma troca justa até. E
considerando que jogo bola com a mesma capacidade com que danço
tango e ainda não aderi ao bigode porque virou coisa de hipster (só por
isso), imagino que esse dom inesperado surja como algo a que me
apegar e, talvez, uma opção satisfatória de legado para deixar na
memória das minhas filhas.

Porque tenho pensado nisso mais do que deveria ultimamente. Aos


doze anos, a fase mais lúdica da infância da Nina está quase no fim e
me pego por vezes imaginando que tipo de memórias ela vai carregar
desses anos quando, lá perto dos 40 – os dela, não os meus – revisitar
o passado em um flashback qualquer do cotidiano.

Dias depois daquele almoço, passei na quitanda do bairro e enchi o


porta-malas do carro com dúzias de laranjas e agora fico convidando as
meninas para comer frutas depois das refeições. Nossa cozinha agora
só não tem mais laranjas do que em certos partidos políticos.

Sei que é uma ansiedade tola, mas às vezes – tipo, todo dia – me ocorre
a ideia de que se eu não fizer algo decente agora, mesmo que aos 40
minutos do segundo tempo da infância, aos 40 anos a Nina estará
sentada na frente de uma terapeuta lamentando os efeitos nocivos da
educação que dei para ela.

“Pai”, ela me interpelou outro dia enquanto eu estava parado na sala de


casa mexendo em uns papéis, “sabia que… ah, eu descobri que tem uns
meninos que até que são legais”. Eu a encarei por alguns segundos
tentando ler seu olhar e ver se tinha algo mais que ela pretendia me
dizer. Sem conseguir resposta, me ative a responder “Eu duvido. Até
hoje não conheci nenhum”. Lá no fundo, ainda que ela não tenha se
dado conta, eu sei o que aquilo significa, você também sabe e a gente
não precisa tocar no assunto agora, tá ok?
Recentemente, numa viagem em família, soltei no carro um dos meus
trocadilhos infames infalíveis e ela, que era a única que ria desse tipo
de piada comigo, espalmou a mão na testa fechando os olhos e
lamentou “Ah não, pai! Que piada horrível!”. E as coisas foram ficando
mais claras em minha mente limitada. E descascar laranjas como um
ninja, você vai concordar, parecer ter grande apelo.

Porque essa é a fase em que ela está. A menina que às vezes ainda me
pede para lhe contar histórias, agora já julga algumas partes do mundo
com seu próprio critério. Porque ainda que esteja, desde sempre, lendo
a vida com seus olhos, até pouco tempo ainda dependia do nosso filtro
para interpretar as coisas. Éramos nós quem, de certa forma, lhe
abríamos as cortinas para as descobertas. Agora a Nina tem fechado
essas cortinas e aberto as suas próprias, para ser protagonista da
história que deseja contar. Agora ela quer explorar e formar uma visão
independente das coisas, agora ela quer ouvir música sozinha às vezes,
quer ousar achar minhas piadas ruins. Agora ela junta as amigas só
para conversarem, sem que isso implique necessariamente em ter um
brinquedo junto. E esse agora dela, essa fase que vai mudar tudo para
sempre, ainda que seja exatamente o que precisa acontecer, é rápido
demais para mim.

E se ela, sem perceber, tem pressa em crescer, eu, por outro lado,
aperto o passo para correr e tentar prolongar meu papel em sua vida
por mais algum tempo, o tempo que ela deixar, estando presente,
edificando pontes que nos conectem de outras formas, tentando me
interessar pelo Harry Potter, pelas músicas pop de batidas repetidas,
pelos filmes de fantasia e as roupas coloridas.
Por um período que daqui a pouco acaba, ainda somos, Manu e eu, os
caçadores dos monstros que a assombram, somos seus guias, sua
companhia preferida de viagem, de conversa e de cinema. Ainda
seremos, por um tempo, seus tutores para aprendizados escolares e
extracurriculares, a voz da verdade para dúvidas existenciais e os
contadores de histórias na hora de dormir. Ainda teremos, por mais
uns anos, o colo onde repousam suas frustrações, os donos das beijocas
que curam doenças e os ombros que amparam lágrimas.

Ela fecha cortinas, mas sinto que nós não, que estaremos sempre no
mesmo lugar, nos bastidores, na plateia, atrás do palco a observando e
aplaudindo. Teremos esse lugar, para sempre, de ser quem lhe deseja o
melhor da vida. Seremos os que se contentam com um telefonema de
dois minutos que ela nos der, os que torcem incondicionalmente pela
sua felicidade. Seremos eternamente essa condição, esse papel em que
Deus nos colocou um dia, o dia em que ela nasceu, e que passou a ser a
nossa condição preferida, adjetivo e substantivo, o sinônimo do que
melhor nos define, porque desde então somos pais.

E se isso não é a projeção total da nossa identidade, certamente é nossa


parte favorita dela, porque temos isso aqui, esse núcleo em que
convivemos, o pequeno universo em que orbitamos um ao redor do
outro.

E se isso não for a melhor lembrança que ela carregue para a vida, para
a sessões de terapia e nas noites em que sentir falta do ninho, que ao
menos ela se lembre de um legado fundamental: somos descascadores
ninja de laranjas.”

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