Anda di halaman 1dari 19

EXECUÇÃO CONTRA A FAZENDA PÚBLICA E PENHORA DE BENS PÚBLICOS

PROPOSTA DO INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO PROCESSUAL PARA A


REFORMA DO ARTIGO 100 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL
PETRÔNIO CALMON FILHO
142 Série Cadernos do CEJ, 23

E
xcelentíssimo senhor desem- nistro José Delgado, no sentido de
bargador Federal Frederico conclamar a todos para uma luta de
José Leite Gueiros, presidente mudança de mentalidade, de coloca-
da mesa; excelentíssimo senhor mi- ção em prática das nossas idéias, pos-
nistro José Augusto Delgado, do Su- so assegurar que não estarei errado em
perior Tribunal de Justiça, senhoras já prever que este evento está sendo e
e senhores. será sempre considerado um marco na
história deste país, porque sairemos
Em primeiro lugar, gostaria dispostos a buscar para o futuro um
de agradecer a gentileza do convite posicionamento diferente, a efetividade
que me foi formulado pelos da prestação jurisdicional que todos os
organizadores do evento, o Centro de brasileiros tanto estão almejando e
Estudos Judiciários do Conselho da aguardando de seus mandatários, que
Justiça Federal (CJF) e a Universidade modifiquem a prestação jurisdicional
Federal Fluminense (UFF), na pessoa brasileira para que possamos ter, real-
do querido amigo, professor e Juiz mente, efetividade.
Ricardo Perlingeiro que tão bem sou-
be organizar este evento que está se O INSTITUTO BRASILEIRO DE
revelando de bastante sucesso e, por DIREITO PROCESSUAL E A EVOLUÇÃO
certo, marcante na história deste tema DO DIREITO PROCESSUAL NO BRASIL
da execução contra a Fazenda Públi-
ca no Brasil. O Instituto Brasileiro de Direito
Processual (IBDP) é, na linguagem da
Antes de iniciar, gostaria de as- moda, uma organização não-governa-
sociar-me ao ministro José Delgado na mental – o que antes se chamava mais
homenagem que Sua Excelência fez simplesmente de associação de fins ci-
aos nordestinos. Sou baiano e fico fe- entíficos e culturais. Fundado em 1958,
liz em saber que o desembargador pelo eminente professor Alfredo
Frederico Gueiros é natural do Recife, Buzaid, seu primeiro presidente, dele
sendo cidadão carioca certamente por participaram desde o início renomados
opção emocional, pois aquela cidade juristas, como os professores paulistas
é maravilhosa. Temos, portanto, uma Luís Eulálio de Bueno Vidigal, José
mesa de nordestinos. Frederico Marques, Moacyr Amaral San-
tos, os gaúchos Alcides de Mendonça
Tenho absoluta certeza de que, Lima e Galeno Lacerda e o mineiro Cel-
sobretudo depois das palavras do mi- so Agrícola Barbi. Alguns já nos deixa-
Execução contra a Fazenda Pública 143

ram, outros ainda estão nos brindan- ram e promoveram um novo impulso
do com os seus conhecimentos, como ao Direito Processual, renovando o Ins-
é o caso do professor Celso Neves, de tituto e ampliando o desafio de reno-
São Paulo. Na época de sua fundação, var a legislação. Nessa época foi reali-
os debates sobre o Direito Processual zado em São Paulo um importante en-
visavam a aprimorar as categorias fun- contro chamado “Participação e Proces-
damentais, estabelecendo-se, assim, a so” –, percebeu-se que a evolução an-
base científica do processo, ocasião em terior da dogmática e ciência do Pro-
que se iniciou a segunda fase do Direi- cesso Civil foi muito forte, importante
to Processual no Brasil, a denominada e positiva, mas os tempos já haviam se
fase científica, que redundou no proje- passado e era necessária uma nova di-
to do próprio Alfredo Buzaid, concluí- nâmica para o Direito Processual. Co-
do no início da década de 1960, mas meçou-se a falar em instrumentalidade
que esperou que seu autor fosse, mui- e efetividade do processo, tema tão
to depois, Ministro da Justiça, para que bem desenvolvido pelos professores
tivesse apoio político suficiente para José Carlos Barbosa Moreira e Cândi-
que o Congresso Nacional aprovasse do Rangel Dinamarco.
o projeto.
Hoje, vivemos uma época em
O IBDP já nasceu com o objeti- que consideramos a necessidade de
vo de repensar a ciência do Direito Pro- partir para uma quarta fase do Direito
cessual e o ordenamento posto no sis- Processual: já tivemos o nascimento
tema legislativo. Unir ciência e direito do Direito Processual no início do sé-
positivo sempre foi um grande desa- culo, a fase metodológica-científica e
fio. E foi com esse objetivo que, em o período instrumental. Agora, estamos
1986, operou-se grande renovação, partindo para a concretização de uma
pois verificou-se que a legislação não verdadeira reformulação das institui-
atendia mais ao que reclamava a dou- ções processuais. Talvez aí, não sei
trina. Nessa ocasião, os estudos do Di- se interpreto bem, mas, atendendo à
reito Processual apontavam para a postulação do ministro José Delgado,
efetividade e instrumentalidade do pro- precisamos deixar um pouco de lado
cesso; para o acesso à justiça, para a até mesmo a terceira fase em que se
participação no processo. Foi assim que “fala” de efetividade e instrumen-
um dos fundadores do Instituto, o pro- talidade, e partir para a fase em que
fessor Celso Neves e a força renovado- possamos, realmente, “praticar ”
ra de Ada Pellegrini Grinover se junta- efetividade e instrumentalidade.
144 Série Cadernos do CEJ, 23

Em uma das sessões do Supe- do na Itália para estudar Direito Pro-


rior Tribunal de Justiça (STJ), de que cessual e o primeiro assunto que pen-
participou a Ministra Eliana Calmon, Sua sei em abordar seria vinculação das de-
Excelência dizia, com muita proprieda- cisões das cortes superiores – já que
de, que o Direito Processual é compa- no Brasil se ouvia falar sobre esse as-
rado a um alicate ou a uma chave de sunto em todas as rodas de discussões
fenda, servindo apenas como instru- jurídicas. Fui com a idéia de saber como
mento para que se faça alguma coisa. funciona na Europa o mecanismo de
Essa constatação da ministra Eliana interação entre as cortes superiores e
Calmon, a mesma que acompanha, os juízes de grau inferior. Seria um
desde 1986, os eminentes pro- mecanismo de obediência, de respei-
cessualistas do IBDP, precisa, agora, ser to, de obrigatoriedade ou de imposi-
colocada em prática. Se concordamos ção? Me pus a buscar as normas a res-
que o Direito Processual é um instru- peito, mas para não deixar de realizar
mento, continuaremos a falar, agora, a uma pesquisa jurídica tive que mudar
mesma coisa? Ou será preciso que um de tema, porque não havia nada a
Thomas Edson invente uma lâmpada pesquisar na legislação italiana sobre
maravilhosa que possa transformar vinculação das decisões superiores. Um
esse período de conversas e estudos juiz italiano segue a orientação da Cor-
na efetividade que precisamos adjetivar te de Cassação porque segue; segue
como verdadeira, como se precisásse- uma decisão (que possui caráter
mos adjetivar aquilo que já é em si um incidenter tantum) da Corte Constitu-
conceito forte, mas que, como tantos cional porque espontaneamente resol-
outros que encontramos hoje no nos- ve seguir. Assim como o professor Karl-
so Direito, no exercício da prestação Peter Sommermann nos falava há pou-
jurisdicional, nas leis, na Constituição, cos dias, que, no Direito alemão, a Fa-
já deveria valer pelo seu próprio signi- zenda Pública paga as dívidas oriun-
ficado, mas que precisa ainda ser das de decisões judiciais porque tem
complementado? que pagar. Não há precatório. Em dé-
cadas, na Alemanha, só houve cinco
AS ALTERAÇÕES LEGISLATIVAS, casos de penhora.
O CUMPRIMENTO DAS NORMAS
E MUDANÇA DE MENTALIDADE A concepção que aprendi de
norma jurídica, me levou a pensar que
Começo fazendo uma pequena o simples temor da sanção seria sufici-
comparação de modelos. Estive moran- ente para a obediência espontânea da
Execução contra a Fazenda Pública 145

norma, mas no Brasil temos que estar semelhante dirigida àqueles que devem
criando leis para obrigar as pessoas a cumprir esses mesmos precatórios. O
cumprirem a lei. Se formos pensar um presidente do Tribunal tem que ficar
pouco, já que estamos falando de pro- atento para saber se há algum equívo-
posta legislativa, comecemos com essa co. Como o volume de trabalho é mui-
reflexão, com essa autocrítica que faço to grande, tem de confiar em assesso-
das atividades do IBDP em tantas mu- res, mas a responsabilidade criminal é
danças legislativas, muitas delas para dele. Esse é o primeiro alerta.
obrigar o juiz, a Fazenda ou o advoga-
do a cumprir a lei. Temos uma lei que É verdade que faço uma
dispõe sobre o que tem de ser feito; autocrítica, porque no IBDP não temos
outra para dizer “cumpra-se a lei ante- feito outra coisa a não ser propostas
rior”; outra para dizer que, se não cum- de leis. Começamos por aquelas que
prir, é crime; outra para dizer que, em os senhores conhecem, que é a cha-
decorrência desse crime há outra con- mada Reforma Processual Civil de
seqüência (porque muitas vezes o cri- 1994/1995, que o IBDP realizou em
me não é apurado ou a pena é alterna- conjunto com a Escola Nacional da Ma-
tiva) e assim por diante. gistratura. Temos trabalhado também,
como trabalhamos alguns anos antes,
A primeira reflexão que faço, com a Lei da Ação Civil Pública, com o
não obstante o tema específico de hoje, Código de Defesa do Consumidor e
é a de que tenhamos a convicção de outros institutos legislativos que estão
que alguma mudança legislativa preci- em vigor, mas, sobretudo, a marca dos
sa ser feita, mas cuidado com ela. Aon- últimos anos tem sido a reforma dos
de vamos parar por estar sempre mu- códigos de processo.
dando a lei, com o objetivo de fazer
simplesmente com que a lei anterior Atualmente, estamos trabalhan-
seja obedecida? do com três projetos de lei elaborados
e encaminhados pelo Instituto ao Con-
Um exemplo interessante: Te- gresso Nacional. Para os senhores te-
mos, hoje, na Constituição Federal uma rem uma idéia, há um decreto do Pre-
norma que deixa os juízes perplexos, sidente da República, determinando
sobretudo os presidentes dos tribunais. que todas as comissões, a maioria no-
Eles podem ser responsabilizados cri- meada no Ministério da Justiça para a
minalmente se não atenderem à ordem reforma legislativa tenham que ter um
dos precatórios, mas não existe norma advogado da União como seu integran-
146 Série Cadernos do CEJ, 23

te, sendo que um decreto anterior di- política (que sabem exercer em ou-
zia que nenhum projeto ou estudo po- tras situações) para obter do Congresso
deria ser feito em qualquer um dos Nacional e da própria administração
ministérios sem que fosse verificado, pública uma reação positiva à situa-
de início, o atendimento aos interesses ção da Fazenda devedora, da Fazen-
da Fazenda Pública; decreto, também, da com sentença transitada em julga-
do Presidente da República, que só fal- do? Onde estão esses empresários cre-
ta dizer: “Só legislaremos em causa dores que já demonstraram o quanto
própria”. sabem fazer lobby na hora do orça-
mento e não estão se movimentando
Tive a oportunidade de dizer, há com relação a este tema?
poucos dias, em reunião com o minis-
tro Pedro Parente e sua assessoria: Concordo, mais uma vez, com o
Vocês estão sendo excelentes auxilia- ministro José Delgado, quando diz que
res do Chefe de Governo. O Chefe de falta no país que as associações – tenho
Estado, no entanto, está precisando de certeza de que Sua Excelência, ao se re-
assessores, porque, agindo na defesa ferir à Associação dos Magistrados e à
de curtíssimo prazo dos interesses do OAB, não está estendendo essa crítica a
Governo, deixam, às vezes, de atender outras que não estão aqui ouvindo,
aos interesses do Estado e que não mas eu a estenderia – e outros segmen-
necessariamente são coincidentes. tos da sociedade também se mobilizem
para uma efetividade da jurisdição no
É essa a realidade política em que diz respeito à chamada execução
que vivemos hoje. Falarmos sobre mo- contra a Fazenda Pública.
dificações de leis, sem atentarmos para
a realidade política, é fazer um dis- O IBDP E
curso utópico. Temos que pensar si- AS REFORMAS LEGISLATIVAS
tuação atual e respondermos à minha
primeira reflexão: é necessário que Por nomeação do então minis-
haja, agora, uma alteração legislativa? tro José Carlos Dias e, depois, nas pror-
Qual mudança deve ser feita? Deve- rogações, pelo atual ministro José
mos pensar também se é politicamente Gregori, o IBDP também está promo-
adequado assumir uma responsabili- vendo estudos para a reforma do Có-
dade que não é nossa. A pergunta é: digo de Processo Penal. Estão sendo
Por que os credores da Fazenda Pú- apresentados ao governo diversos an-
blica não estão exercendo a pressão teprojetos de lei que irão promover evo-
Execução contra a Fazenda Pública 147

lução e eficácia da justiça penal. A res- dante, até fiquei antipatizado, porque
peito dos meios alternativos de solu- cobrei: “Onde está a comissão que tra-
ção dos conflitos civis, há duas sema- tará do direito do menor? A comissão
nas, foi realizado um grande debate em que tratará do sistema penal?” As nos-
São Paulo sobre a mediação obrigató- sas associações estão no Congresso
ria no processo civil. No campo do Di- Nacional todos os dias; sabem tudo a
reito Processual Civil, foram apresen- respeito da questão remuneratória, da
tados três projetos de lei: os Projetos lei da mordaça, da aposentadoria, das
de Lei nos 3.474, 3.475 e 3.476. Passa- garantias que estão querendo retirar,
da a eleição municipal – o chamado re- sobretudo do Ministério Público, e,
cesso branco –, teremos a primeira reu- quando muito, da questão da súmula
nião com o relator na próxima sema- vinculante. Ou seja, em toda essa ques-
na. Por sinal, foi este o motivo da men- tão pessoal e funcional, as associa-
cionada reunião com o Chefe da Casa ções funcionam muito bem. Mas as
Civil. Porque, nesse quadro político, associações precisam lutar, também,
quando o relator de um projeto de lei pelos temas jurídicos não relaciona-
é do grupo que apóia o governo, o pro- dos às carreiras jurídicas; têm que
jeto somente é examinado depois da cuidar deste, da execução contra a
orientação da Casa Civil. Quando o Fazenda Pública, do contrário, gran-
relator é da oposição, acontece o con- de parte do serviço judiciário estará
trário: a Casa Civil vigia os passos se- desmoralizado.
guintes, mas não aquele inicial. Tudo
isso é importante, porque, se pensa- A REFORMA CONSTITUCIONAL
mos em reforma legislativa, temos de DO PODER JUDICIÁRIO
saber como as coisas acontecem.
A reforma do Poder Judiciário
Reafirmo a minha concordân- começou em 1992, com a proposta do
cia a respeito do movimento das as- então deputado Hélio Bicudo, vice-pre-
sociações. Lembro-me bem, ministro feito eleito de São Paulo, que apresen-
José Delgado, de que, durante a As- tou a Proposta de Emenda Constituci-
sembléia Nacional Constituinte, a nossa onal (PEC) nº 96 que, por questão re-
Associação do Ministério Público se gimental, foi arquivada. O regimento
reuniu para formar comissões para prevê algumas possibilidades de arqui-
fazer o trabalho de lobby no Congresso vamento, sobretudo, quando não há in-
Nacional a respeito dos postulados do teresse político na continuidade do exa-
Ministério Público. Fui uma voz discor- me de alguma proposição legislativa.
148 Série Cadernos do CEJ, 23

Todos lembramos que, quando surgiu Judiciário? Hoje, quando encontramos


no Senado Federal a idéia da Comis- essa reforma um pouco capenga, ca-
são Parlamentar de Inquérito (CPI) do minhando devagar, para rumos não
Poder Judiciário, formaram-se duas genuínos e não genuinamente propos-
correntes no Congresso: uma partidá- tos no início, podemos identificar as
ria da CPI; e outra que entendia que o condições adversas nessa origem es-
Congresso deveria estar atuando não tranha. Que vontade política havia, na
para buscar apurações a respeito de época, para se promover a reforma do
ações individuais de membros do Po- Poder Judiciário? Qual seria essa von-
der Judiciário, mas, sobretudo, para tade política? Se houvesse vontade
promover uma reforma constitucional política, ela continuaria existindo até
significativa que pudesse abalar as es- hoje. Foi criada uma Comissão, e
truturas arcaicas que temos hoje e pro- i n i c i a d o u m t r a b a l h o, m a s , e m
mover a verdadeira reforma do Poder contraposição a um trabalho do Se-
Judiciário. nado Federal que visava a punição,
desarquiva-se, assim, rapidamente,
Então, o deputado Michel Te- uma proposta. O deputado Aloysio
mer, Presidente da Câmara dos Depu- Nunes Ferreira é nomeado relator e
tados, em um jogo de forças com o apresenta seu célebre relatório, que fi-
então Presidente do Senado Federal, cará na história, sobretudo para os
Senador Antônio Carlos Magalhães, por juízes do trabalho, porque pretendia
um simples despacho, desarquivou a extinguir a Justiça do Trabalho, levan-
PEC nº 96 e constituiu uma Comissão do seus dezessete ministros para o
Especial, prevista no Regimento da Câ- Superior Tribunal de Justiça (STJ). Para
mara dos Deputados, para análise da sorte de alguns (ou de muitos), o relator
proposta de emenda constitucional, re- foi convidado a exercer o cargo de Se-
tomando-se o debate a respeito da re- cretário-Geral da Presidência da Repú-
forma do Poder Judiciário. Obteve blica, e a deputada Zulaiê Cobra ocu-
apoio, inclusive do Poder Judiciário, pou o seu lugar na relatoria. Valendo-
exatamente como uma espécie de se de prerrogativa regimental, apresen-
contraposição à CPI. ta novo relatório. Aliás, isso já é passa-
do, mas, para quem acompanhou à
Faço-lhes uma pergunta: seria época, talvez não tenha percebido os
essa a maneira mais genuína e politi- equívocos, até de jornais, a respeito
camente legítima de se começar um de- das proposições da deputada, por-
bate a respeito da reforma do Poder que na realidade ela apresentou três
Execução contra a Fazenda Pública 149

relatórios. Quem não estava atento não A proposta do deputado


viu que ela apresentou um segundo re- Aloysio Nunes Ferreira a esse respeito
latório uma semana após apresentar o foi modificada pela deputada Zulaiê
primeiro, e, dias depois, apresentou Cobra, que foi modificada pela co-
um terceiro. Então, temos três missão, e o Plenário a retirou. En-
substitutivos da deputada Zulaiê Cobra; tão, retirando-a, prevalece a Consti-
até o segundo há previsão regimental, tuição atual. Porém, nesse meio tem-
mas o terceiro só tem previsão na polí- po, caminhou mais rápido, por fora,
tica. Ela fez aquilo que achava que de- a Emenda Constitucional nº 30, já
veria fazer e obteve o apoio e o silên- aprovada. Temos, hoje, a pérola mais
cio necessários. brilhante da legislação brasileira dos
últimos tempos, acertadamente co-
Esse projeto foi votado pela mentada pelo desem-bargador
Comissão Especial e muitas emen- Gueiros, que mostra o quão distan-
das foram apresentadas, muitas de- te da realidade social e constitucio-
las, aprovadas – estou suprimindo nal, como disse o ministro José Del-
uma etapa. Depois disso, foi a Ple- gado, estão os parlamentares no mo-
nário e, novamente, muitas emen- mento em que promulgam uma
das foram apresentadas e aprova- emenda constitucional dessa impor-
das. Então, o que temos hoje, que tância. Apesar de eu ser muito naci-
está no Senado Federal, é um pro- onalista – temos, hoje, em relação à
jeto de emenda constitucional bas- execução contra a Fazenda Pública,
tante diferente do original da depu- no Brasil, uma disposição constitu-
tada Zulaiê Cobra, que é diferente cional que nos envergonha.
do relatório do deputado Aloysio
Nunes e que é diferente do projeto A PROPOSTA DO IBDP
do deputado Jairo Carneiro, que
presidia essa comissão na Câmara, Qual foi, então, a nossa propos-
mas foi o primeiro relator, quando ta? Há uma peculiaridade, porque a
o deputado Hélio Bicudo apresen- deputada Zulaiê Cobra – amiga da pro-
tou a proposta, em 1992. fessora Ada Pelegrini Grinover, que pre-
side o Conselho do IBDP e que presi-
E o que temos, hoje, no Sena- diu a comissão do IBDP, da qual fiz par-
do Federal, a respeito do artigo 100 da te junto com os professores Sidnei
Constituição Federal? Nada! Beneti e Kazuo Watanabe, para as pro-
150 Série Cadernos do CEJ, 23

postas relacionadas à PEC do Poder Ju- os precatórios, pois a primeira crítica


diciário – procurou a professora Ada e que se ouve é a de que não se pode
trabalharam juntas nas idéias apresen- pagar sem previsão orçamentária, o
tadas. Posso lhes adiantar que o traba- que legitimaria a técnica dos
lho técnico realizado em conjunto com precatórios.
a relatora foi por ela deixado de lado
em razão das conjunturas políticas que, Fizemos, então, uma segunda
naturalmente, haveriam de prevalecer. proposta, dizendo que, em relação a
esses créditos alimentares, a entida-
A nossa primeira proposta ha- de pagadora deveria consignar dota-
via sido no sentido de tratar apenas ção orçamentária suficiente ao seu
dos créditos de natureza alimentícia. pronto pagamento, que não poderá
Cuidava, em primeiro lugar, que to- ser inferior ao montante dos créditos
dos os créditos de natureza alimentí- para satisfação dos precatórios refe-
cia seriam excluídos da técnica dos rentes ao mesmo exercício. Explico: se
precatórios, observando-se a ordem promulgada, hoje, a Emenda Consti-
das intimações e possibilitada a pe- tucional, surge a obrigação que se in-
nhora dos bens patrimoniais, não afe- clua no orçamento do ano seguinte,
tadas as atividades estatais, como já como norma transitória, o pagamen-
ocorre em vários países. to dos precatórios já expedidos de igual
valor, portanto, valor dobrado, como
Fizemos também uma propos- previsão para o pagamento do ano pos-
ta que, em relação a esses mesmos cré- terior. E, retirada essa transição, para
ditos, a entidade pagadora deveria con- o orçamento de 2002, teremos que
signar dotação orçamentária específi- consignar o dobro para poder recu-
ca, mas vejam a distinção do atual sis- perar. Então, pagaremos todos os
tema. Nossa proposta é que a previsão precatórios de 2001 e, em 2002, já
orçamentária seja anterior à formação não teremos mais precatórios, e, sim,
do título judicial, ou seja, ao transitar uma dotação suficiente. Depois, há que
em julgado a sentença condenatória, ser feito um estudo do crescimento
o pagamento seria imediato, em face vegetativo dessa importância para sa-
da previsão orçamentária genérica ope- ber que não é prever apenas o que
rada no exercício anterior. foi pago no exercício anterior, mas
buscar uma média dos últimos cinco
Essa é uma resposta à crítica anos, fazendo-se, assim, uma previ-
que se faz quando pretendemos excluir são com aquele determinado cresci-
Execução contra a Fazenda Pública 151

mento. E, a partir de 2002, extintos do que possa ser considerado uma


os precatórios para as dívidas alimen- obra de arte, presa à parede e admira-
tares, os orçamentos estariam, na ver- da por todos, mas, sobretudo, um co-
dade, recuperando um ano, contanto mando que terá um efeito prático e que
que esse dispositivo seja cumprido. possa dar ao credor a satisfação exata
do seu direito, tanto no aspecto quan-
Todavia, anteriormente, a nos- titativo como temporal; que essa não
sa proposta era no sentido de facultar seja, como o ministro José Delgado dis-
a penhora dos bens patrimoniais. E o se aqui, vinte, trinta anos depois, en-
fizemos da seguinte forma: quanto o cidadão está morando em-
1 - A Lei estabelecerá as hipó- baixo da ponte.
teses de penhora dos bens, não afeta-
dos às atividades estatais, a ser decre- Pensamos, também, em ter um
tada em processo de execução, tam- dispositivo claro que pudesse demons-
bém prevendo a compensação de dé- trar que, a partir dali, a administração
bitos do credor. pública, ainda querendo protelar, não
2 - O presidente do Tribunal estaria mais como um ente superior
competente deverá, vencido o prazo, aos outros, imune às ações do Poder
ou em caso de omissão no orçamento, Judiciário, para a efetivação da tutela
de preterição ao direito de precedên- concedida.
cia ou de descumprimento das obriga-
ções assumidas, requisitar ou determi- Esse era o escopo da proposta.
nar o seqüestro de verba de qualquer É, ainda, o nosso norte e é nisso que
dotação da entidade executada, sufici- pretendemos caminhar, buscar uma
ente à satisfação do débito. reformulação, retirando esses dispositi-
vos esdrúxulos que, agora, estão sendo
Fizemos essa proposta que ti- acrescentados à nossa Constituição,
nha (e ainda tem, pois continuamos a para buscarmos um dispositivo efetivo.
lutar por ela) o escopo básico de aten-
der à perplexidade que a sociedade OS BENS PÚBLICOS PATRIMONIAIS
brasileira vive em face de um dispositi-
vo, que é constitucional, mas, antes de A fonte de nosso pensamento
sê-lo, parece-me intrínseco à socieda- reside, por um pouco, na compara-
de humana, que é o princípio da ção de modelos e na concepção
efetividade do exercício jurisdicional. A tripartida dos bens públicos, de acor-
função do juiz não é emitir um coman- do com o Código Civil. Temos um claro
152 Série Cadernos do CEJ, 23

dispositivo de classificação dos bens dança constitucional”. Tudo que ele


públicos, que estabelece uma faixa quis, ele obteve, toda a reforma cons-
de bens meramente patrimoniais. Es- titucional que entendeu necessária ele
ses bens não estão de forma alguma realizou, sobretudo as que tiveram
vinculados com a função pública, muito como escopo a privatização dos bens
pelo contrário; vinculam-se com o sis- públicos meramente patrimoniais.
tema político que adota maior interfe-
rência do Estado na economia ou até Ora, isso é ou não uma confis-
com a distorção do Estado, que se diz são de que o Brasil possuía e ainda
liberal, mas, na prática, detém ainda possui bens disponíveis em abundân-
uma parcela grande de patrimônio e cia, que não estão vinculados ao servi-
não o disponibiliza para pagar os seus ço público, que não estão vinculados à
débitos. Não podemos deixar de aten- finalidade do Estado e que podem
tar à realidade. muito bem ser expropriados e aliena-
dos para o pagamento das suas dívi-
Disse há pouco a um dos cole- das? Aliás, senhores juízes e senhores
gas aqui presentes, que buscaria em credores da Fazenda Pública, que tal
Fernando Henrique Cardoso, em Pedro requerer, segunda-feira, a penhora de
Malan, em Pedro Parente e no FMI a ar- R$7,1 bilhões, oriundos da venda do
gumentação favorável a essa nossa pro- Banespa, que serão depositados na
posta. Ao final de 1994, tive a oportu- conta do Tesouro e que serão utiliza-
nidade de assistir “ao vivo” e o cuidado dos para o pagamento da dívida públi-
de examinar, há poucos dias, o vídeo ca com os credores estrangeiros? Tal-
do discurso de despedida do então se- vez até com os credores brasileiros da
nador Fernando Henrique Cardoso do dívida pública (da administração), mas,
Senado Federal. Na ocasião, Sua Exce- com certeza, não os da dívida oriunda
lência fez uma confissão, ou, como di- das demandas judiciais. Se eu fosse
ria, até mais que uma confissão, um credor, pediria a penhora desse bem
verdadeiro reconhecimento da sua in- na segunda-feira, pois na terça já não
capacidade de governar o País, caso a estará mais aqui.
Constituição não fosse alterada. O pre-
sidente eleito fez um apelo aos sena- Querem prova maior de que
dores: “Não fui eleito para governar o este é um bem disponível, pois, afinal
País com a Constituição atual; fui eleito de contas, foi o próprio Estado que dis-
com a proposta de modificá-la. Somen- se: “Devemos vender o Banespa. Não
te saberei governar o País com a mu- é bom para o Brasil ter esse banco; esse
Execução contra a Fazenda Pública 153

dinheiro está sobrando”. Recentemen- versas palavras já repetidas pelo Presi-


te, o ex-ministro Mário Henrique dente da República e pelo Ministro da
Simonsen foi lembrado, quando foi dito Fazenda, de que o Brasil tem
que usar o dinheiro da venda das esta- patrimônio disponível e precisa desfa-
tais para a atividade social do Estado é zer-se desse patrimônio para pagar as
o mesmo que liberar a hipoteca da casa suas dívidas.
sem pagamento da dívida, e, ao ven-
der a casa, viajar de férias com a famí- EXECUÇÃO CONTRA
lia para o exterior. Essa foi a declara- A FAZENDA PÚBLICA
ção de Mário Henrique Simonsen, re-
petida pelo ministro Pedro Malan no Podemos constatar que a base
“Bom Dia Brasil” e, também, pelo ex- de toda essa argumentação está na
ministro Maílson da Nóbrega. Então, afirmação de que o Brasil não tem exe-
não podemos dissociar a Política do Di- cução contra a Fazenda Pública; lem-
reito. É evidente que o direito tem a bro-me, dentre outros tantos trabalhos,
sua finalidade e o seu espaço. Quantas daquele do professor Juvêncio Vascon-
vezes houve distorções no sentido de celos Viana, que se encontra aqui pre-
buscar na Justiça solução para proble- sente, que publicou uma excelente
mas políticos e buscar na política solu- obra: Execução contra a Fazenda Pú-
ção para questões jurídicas, mas Direi- blica, confrontando-a com a teoria do
to e Política são instrumentos de uma processo de execução. O autor, de-
mesma sociedade. Quando faço uma monstra, ao final, o que chamamos
referência um pouco jocosa, um pou- de execução contra a Fazenda Públi-
co crítica, talvez até agressiva, aos nos- ca, na página 64 de sua obra: “a téc-
sos mandatários do Poder Executivo, é nica prevista no artigo 100 da Consti-
exatamente porque creio que estamos tuição Federal, com a previsão do pa-
falando do mesmo fenômeno. gamento do sistema de precatório, não
consiste, não-obstante autorizadas vo-
Falamos de um Estado liberal, zes em contrário, em uma execução
que pretende vender seu patrimônio forçada contra o poder público”. Es-
para pagar dívidas e, nós, do Poder sas suas palavras, que são também
Judiciário, não tomamos a iniciativa de de outros brilhantes doutrinadores, for-
tomar esse mesmo patrimônio para ma a base da nossa proposta, ou seja,
pagar dívida. Disse que poderia colo- precisamos criar no Brasil a execução
car na fundamentação da sentença di- contra a Fazenda Pública.
154 Série Cadernos do CEJ, 23

Podemos dizer, sem nenhuma ra, de lege ferenda, cabível no Direito


crítica aos organizadores deste encon- brasileiro a execução forçada contra
tro, que estamos organizando um even- a Fazenda Pública, responsabilizando
to sobre algo que não existe; a execu- seu patrimônio por meio de penhora
ção da Fazenda Pública. Ou então dire- ou outro meio de constrição judicial
mos que o evento postula pela sua sobre os bens dominiais a serem de-
existência. Então o evento deixaria de fendidos em lei. É até mesmo de du-
ser denominado Curso de Extensão vidosa constitucionalidade o preceito
“Execução contra a Fazenda Pública”, legal que torna impenhoráveis os bens
para se chamar “Por uma Execução con- públicos de uso não essencial do Es-
tra a Fazenda Pública”. Também nos tado, privilégio absolutamente inócuo
lembremos das lições do professor que limita a atuação jurisdicional do
Vicente Greco Filho, que estará aqui Poder Judiciário”. (página 226 da obra
conosco, um dos pioneiros na tratativa Execução contra a Fazenda Pública,
do tema da Execução contra a Fazen- Ed. Malheiros).
da Pùblica e, nesse roteiro, cuja cópia
deixei com os senhores, podemos ver Foi inspirado nesse texto que
sua proposta, apresentada na Assem- resolvemos apresentar esta proposição.
bléia Nacional Constituinte, exatamen- Entendemos que há maturidade sufici-
te no mesmo sentido, que determina ente para caminharmos rapidamente
não somente a penhora dos bens, para esse objetivo, e refiro-me à matu-
mas, sobretudo, a penhora das verbas ridade, porque, sabe-se muito bem
públicas, penhora de dinheiro, como (permitam-me estar conversando entre
diz o Código de Processo Civil (CPC), já amigos) que uma porta aberta de uma
mencionado pelo ministro e pelos prisão pode ocasionar uma reação des-
palestrantes estrangeiros de ontem. Na proporcional no sentido contrário. E
Espanha, a Corte constitucional enten- como tenho certeza de que dentro de
de que é possível a penhora dos bens pouco tempo teremos a penhora con-
patrimoniais, mas não entende possí- tra a Fazenda Pública, teremos, portan-
vel a penhora do dinheiro. to, a execução contra a Fazenda Públi-
ca. A alteração proposta, no entanto,
Por último deixo registrado que não deve dar azo a que se promova a
a Comissão do IBDP teve como fonte penhora desmedida de todo e qualquer
primária de sua proposição a obra do bem público dominial, sem que antes
professor Ricardo Perlingeiro, que bri- se conheça a verdadeira situação finan-
lhantemente conclui: “...desta manei- ceira da Fazenda Pública. Antes mes-
Execução contra a Fazenda Pública 155

mo de qualquer inovação legislativa é tituinte instituir outra fila de credores.


importante conclamar a que se tenha, Como outra fila? Espera-se o último
no futuro, maturidade e prudência, para crédito alimentar para começar a pa-
que o novel instituto não seja alvo de gar o primeiro precatório? Escolhe-se
críticas fundadas apenas no mau uso cinco de cá e um de lá? É como fila de
que dele se possa fazer. idoso em banco? Como funciona isso?
Realmente, não sei como está funcio-
Gostaria de acrescentar apenas nando, até porque temos 5 mil e tan-
uma crítica ao trabalho do Dr. Ricardo, tos municípios, 27 unidades da Fede-
na parte em que diz: “até mesmo de ração (estados e Distrito Federal). Pode-
duvidosa constitucionalidade o precei- se argumentar como queira, mas ou-
to legal, que tornam impenhoráveis os tra fila para créditos alimentares não
bens públicos, de uso não essencial ao me parece ser, de forma alguma, a in-
Estado”. De duas, uma: ou a impe- tenção do legislador constitucional.
nhorabilidade é constitucional ou não.
Fica, então, para a segunda etapa de A EMENDA CONSTITUCIONAL NO 30
sua obra tratar da legitimidade consti-
tucional de forma conclusiva, para que Agora, vejam bem, o que diz a
possamos contar com sua colaboração Emenda Constitucional nº 30, que traz,
também nesse tema. como já comentei, a terrível inclusão
dos precatórios no orçamento do exer-
Mas será se precisamos real- cício seguinte e, ainda, institui crime
mente alterar a Constituição Federal? para juiz. Isso quer dizer que o coman-
do de obrigatoriedade se dirige ao ad-
OS CRÉDITOS DE ministrador público, mas o crime pelo
NATUREZA ALIMENTÍCIA seu descumprimento ao juiz.
“Artigo 100 – À exceção dos créditos de
Não consegui até hoje aceitar o natureza alimentícia, os pagamentos devidos pela
posicionamento do STF, quando não Fazenda Federal, Estadual ou Municipal, em vir-
afirmou a exclusão dos créditos alimen- tude de sentença judiciária, far-se-ão exclusiva-
tares do sistema de precatórios. Tenho mente na ordem cronológica de apresentação dos
esperança de que esse entendimento precatórios e à conta dos créditos respectivos,
ainda possa ser modificado, pois não proibida a designação de casos ou de pessoas
consigo chegar a outra conclusão se- nas dotações orçamentárias e nos créditos adi-
não a de que não foi o objetivo do cons- cionais abertos para este fim.
156 Série Cadernos do CEJ, 23

§ 1º – É obrigatória a inclusão, no orça- § 4º – A lei poderá fixar valores distintos


mento das entidades de Direito Público, de verba para o fim previsto no § 3º deste artigo, segundo
necessária ao pagamento de seus débitos oriun- as diferentes capacidades das entidades de direito
dos de sentenças transitadas em julgado, cons- público. (AC) (parágrafo incluído pela Emenda
tantes de precatórios judiciários, apresentados até Constitucional nº 30, de 13/09/00).
1º de julho, fazendo-se o pagamento até o final § 5º O presidente do Tribunal compe-
do exercício seguinte, quando terão seus valores tente que, por ato comissivo ou omissivo, retar-
atualizados monetariamente.(NR) (redação dada dar ou tentar frustrar a liquidação regular de
pela Emenda Constitucional nº 30, de 13/09/00). precatório incorrerá em crime de responsabili-
§ 1º – Os débitos de natureza alimentí- dade. (AC) (parágrafo incluído pela Emenda
cia compreendem aqueles decorrentes de salá- Constitucional nº 30, de 13/09/00).
rios, vencimentos, proventos, pensões e suas
complementações, benefícios previdenciários e A POSSIBILIDADE DE PENHORA
indenizações por morte ou invalidez, fundadas DO BEM PÚBLICO DOMINICAL
na responsabilidade civil, em virtude de senten-
ça transitada em julgado. (AC) (parágrafo incluído O novo § 3º do artigo 100 diz:
pela Emenda Constitucional nº 30, de 13/09/00). “O disposto no caput deste artigo,
§ 2º – As dotações orçamentárias e os relativamente à expedição de pre-
créditos abertos serão consignados diretamente catórios, não se aplica...”. Não que-
ao Poder Judiciário, cabendo ao Presidente do ro me estender em interpretação.
Tribunal que proferir a decisão exeqüenda deter- Como disse, o professor Ricardo es-
minar o pagamento segundo as possibilidades creverá sobre a matéria e leremos
do depósito, e autorizar, a requerimento do cre- depois. Mas, quando o § 3º diz: “o
dor, e exclusivamente para o caso de preterimento disposto no caput deste artigo, rela-
de seu direito de precedência, o seqüestro da tivamente à expedição de precatórios”,
quantia necessária à satisfação do débito. (reda- está mostrando exatamente que o
ção dada pela Emenda Constitucional nº 30, de caput deste artigo não trata somen-
13/09/00). te da expedição de precatórios, mas
§ 3º – O disposto no caput deste artigo, de alguma outra coisa, porque o §
relativamente à expedição de precatórios, não se 3º diz: “a parte que trata de pre-
aplica aos pagamentos de obrigações definidas catórios”. Então o caput está tratan-
em lei como de pequeno valor que a Fazenda do de alguma outra coisa que não
Federal, Estadual, Distrital ou Municipal deva fa- sabemos o que é, e, no meu ponto
zer em virtude de sentença judicial transitada em de vista, quando diz: “à exceção dos
julgado. (NR) (redação dada pela Emenda Cons- créditos de natureza alimentícia, os
titucional nº 30, de 13/09/00). pagamentos devidos à Fazenda Pú-
Execução contra a Fazenda Pública 157

blica”, é porque o caput do artigo CONCLUSÃO


está tratando de duas coisas: dos cré-
ditos de natureza alimentícia, que Para concluir, representando o
nada têm a ver com precatório, e, IBDP, gostaria de dizer que estamos
dos precatórios. muito preocupados, porque realiza-
mos uma obra que considero impor-
Não acompanhei a fundamen- tante, embora sempre sujeita a mui-
tação do STF nos vários casos em tas críticas, a reforma do Código de
que já se enfrentou a matéria e, Processo Civil, que marcou muito o
tampouco, talvez me dedique a fa- Brasil. É claro que é impossível con-
zer essa análise. Posiciono-me como cordar com todas as disposições da
observador, mas não consigo admi- reforma. A Lei nº 9.756 tem dado
tir essa construção e não entendo, muito trabalho ao STJ. Mostrei e di-
também, por que tantas vezes o STF vulguei o projeto para muitas pes-
enfrenta o governo, mas não o faz soas que não o conheciam – esse
em relação aos precatórios de natu- projeto não é do Instituto, foi elabo-
reza alimentícia. rado pelo STJ e modificado, depois,
em um substitutivo do relator. O Pre-
O único mandamento brasi- sidente da Associação dos Advoga-
leiro sobre a impenhorabilidade do dos de São Paulo publicou um arti-
bem público é o CPC, pois a Consti- go, intitulado: “Advogados, os últimos
tuição do tema não trata. Temos que a saber”, e, quando mostrei esse ar-
interpretar à luz da Constituição Fe- tigo a dois ministros do Supremo,
deral os artigos 67 do Código Civil e eles disseram: “Avisa para o José
o artigo 649, inciso II do CPC no que Rogério que os advogados são os pe-
dizem respeito à impenhorabilidade núltimos, porque os últimos somos
dos bens públicos patrimoniais. Em nós”. Então, mostramos para outros,
uma interpretação, conforme a Cons- e eles disseram: “Não, os últimos so-
tituição atual, ficariam impenhoráveis mos nós”. Na verdade, todos têm ra-
apenas os bens públicos de uso co- zão, porque não está havendo deba-
mum do povo e de uso especial, e, te prévio político.
pelo menos para os créditos de na-
tureza alimentar, não tenho absolu- Agora, façamos também uma
tamente nenhuma dúvida dessa afir- outra crítica: muitos não querem par-
mação. ticipar. Se fizermos um evento ape-
158 Série Cadernos do CEJ, 23

nas para discutir propostas de refor- temos de aprovar a lei. Temos de


mas legislativas, não sei se teríamos aprovar a emenda constitucional. Te-
um número tão grande de pessoas, mos que ter cuidado, porque tudo
pois a nossa atividade do dia-a-dia é isso faz parte de um jogo político, que
tão intensa e dramática que precisa- está difícil, em virtude do poder que
mos nos alimentar daquilo que preci- hoje tem a Advocacia-Geral da União.
samos para exercitar, hoje, na nossa Nas próprias palavras do atual
experiência profissional. O nosso tempo subchefe do Gabinete Civil, houve
é escasso para participação em deba- “um deslocamento de poder”. Tem-
tes sobre proposições legislativas, por pos antes, quando o Ministério Públi-
isso, penso eu, não teria tanto suces- co fazia a defesa da União, detinha
so. Agora, se fazemos essa crítica e um poder maior na administração
muitos não querem participar das re- pública. Há um poder grande na
formas, até mesmo para depois bater interligação entre sociedade e Judici-
à vontade, também fazemos uma ário, mas os espaços jurídicos da ad-
autocrítica, e a colocamos em primei- ministração pública foram ocupados
ro lugar: Nós, do IBDP, fizemos a re- pelos advogados da União, sobretu-
forma do Código de Processo Civil sem do agora que há um quadro
um debate com todos os partícipes e consolidado.
operadores do Direito.
Temos uma questão muito im-
Então, tentando corrigir as fa- portante também a ser vista: Para pen-
lhas passadas, é que realizamos am- sar os problemas de toda a legislação
plos debates com a reforma do Códi- brasileira, sobre quase todos os as-
go de Processo Penal e com o ante- suntos, sobretudo os temas jurídicos,
projeto que institui a “mediação” no o Poder Executivo dispõe, no Ministé-
processo civil. Temos de mudar, mas rio da Justiça da Secretaria de Assun-
devemos ter cautela na mudança. Em tos Legislativos, que conta com a Dra.
primeiro lugar, a nossa simples pro- Ivete Lund Viegas como titular, à sua
posta vai de encontro à nossa inter- frente há mais de vinte anos, fazendo
pretação constitucional de que a um trabalho espetacular, duas direto-
Constituição de hoje já garante a pe- ras de departamento, que são direto-
nhora dos bens patrimoniais para os ras delas próprias e mais nada. Aca-
créditos alimentares. Temos que ter ba aí a equipe técnica do Ministério
cuidado, porque não basta propor, da Justiça e, por isso, ela se vale das
Execução contra a Fazenda Pública 159

diversas comissões para as reformas


legislativas. Então, qual é o corpo ju-
rídico permanente hoje do Estado? Não
há. Temos, então, que fazer essa re-
flexão e caminhar adiante, envolver as
associações e reconhecer que não
temos execução contra a Fazenda Pú-
blica e temos que ter a penhora dos
bens patrimoniais, pelo menos para
os créditos alimentares.

_____________________________________
PETRÔNIO CALMON FILHO: Procura-
dor de Justiça do MPF-DF, Professor de
Direito Processual do IESB, Doutoran-
do em Direito Processual pela USP e
Secretário-Executivo do Instituto Brasi-
leiro de Direito Processual.