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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS


DEPARTAMENTO DE POLÍTICA

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Rachel D'Amico Nardelli
Orientação do Professor Doutor Edson Passetti

Março de 2010.
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Descrição das atividades 04

    


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Metodologia 06

Sobre a verdade homossexual ± a busca pela normalidade 11

Maio de 68: expansão do corpo e a violação da vida pela Aids 17

Do direito a identidade 23

Políticas médicas de gerenciamento dos corpos gays 34

³O sexo bem vale a morte?´ 40


             


            
   





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Clarice Lispector

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Ao longo deste trabalho percebi que uma iniciação cientifica não significa só um

aprendizado de como se inserir na vida acadêmica; significa também se descobrir enquanto

pesquisador, à sua maneira de coletar dados e analisa-los. Conhecer seu próprio tempo, assim

como saber dar conta dos contra-tempos.

Entender a iniciação desta forma seria difícil se não tivesse escolhido Edson Passetti

para me orientar; que trata este trabalho em uma constante delicadeza que outro

provavelmente não teria. Não me orienta cobrando respostas e soluções. Tampouco

transforma meu tempo em seu tempo, me ensina o que é conhecer a si, algo como Michel

Foucault mostra sobre a função do filósofo na Grécia antiga sobre o cuidado de si, de

descobrir a si mesmo.

Na sociedade de controle, o dispositivo da sexualidade permanece com sua razão de

ser, cada vez mais detalhado, gerenciando corpos e sexos de novas formas. Percorrer as novas

formas em que este dispositivo de poder atua na sociedade de controle foi a maior dificuldade

enfrentada, pois busquei explicitar as inovações, ansiando dar conta do que reestrutura este

dispositivo na sociedade de controle com a bio-politica.

Analisei as referências bibliográficas não de maneira cronológica, mas sim a partir dos

conflitos em que esta pesquisa me colocou,como foi atentado no relatório parcial, buscando

toda a atenção e sensibilidade que um método deste requer, para que não sejam perdidos

detalhes importantes das singularidades históricas.

O trabalho seguiu como planejado: analisar o dispositivo da sexualidade na sociedade

de controle, mas ao longo da pesquisa percebi que não daria conta de toda reestruturação

deste dispositivo, que como mostra Foucault, se prolifera, e se inova. Há muitos discursos

4
sobre a formação de uma identidade gay, e para tecer minhas análises percorri sobre três

eixos: o mercado, o Estado e a medicina.

O tempo de um ano não parece ser suficiente para a análise de outros discursos,

mesmo sabendo que outros discursos implicariam em perpassar por estes, mas não só o tempo

de buscar informação, mas também o tempo para digerir os autores, seria preciso mais do que

uma iniciação, principalmente porque não há autores que falem exatamente sobre este novo

poder da sexualidade, no entanto passam por ele de certa forma, como é o caso do sociólogo

Richard Miskolci, e do filósofo Francisco Javier Ortega, entre outros, que atravessam

questões como a medicina e a teoria  .

A maneira para resolver este problema foi separar em cinco eixos, que se interligam

em uma complexa rede de discursos, que perpassam a normalização do homossexual que era

tido como um desvio; os eventos de maio de 1968 que revolucionaram a vida e o sexo; o

controle que a democracia exerce via o ideal de direitos humanos; as imposições da escola e

da medicina nos corpos e completando a rede exponho uma prática chamada Barebacking

enquanto uma análise da potência do corpo.

Ressalta-se que o uso da palavra gay neste trabalho é recorrente, mas não por

negligencia as definições oficiais, tampouco por menosprezo das mesmas, a opção pelo termo

é para deixar claro que este sujeito não é uma simples categoria construída no duplo

hétero/homo, mas um sujeito que criou para si uma identidade com múltiplas extensões.

Compreendo bem que a idéia de ³o homossexual´ ou ³o travesti´ não representa uma

totalidade mas me utilizo desta definição genérica para mostrar que qualquer identidade é uma

forma genérica de inserir a vida em categorias.

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A metodologia de pesquisa utilizada neste semestre consistiu principalmente no

mapeamento de artigos escritos após o surgimento da Aids, ou seja a produção científica dos

anos 1970 até os anos atuais, que perpassam a questão da identidade gay.

Além disto foram pesquisadas notícias oficiais sobre a diversidade sexual no Brasil,

nos programas federais, estaduais e municipais. As informações compiladas nos sites1 oficiais

me remeteram a organizações não governamentais2 que me possibilitou compreender os

discursos do Estado sobre esta identidade. As notícias que aparentemente são triviais foram

captadas de dois sites3 de público homossexual e contribuíram de forma significativa para a

construção deste relatório.

O caleidoscópio de discursos sobre a identidade que foi tomando corpo no decorrer

deste texto, atravessa de forma plena a discussão que foi travada no relatório parcial desta

investigação entregue e devidamente avaliado pela comissão de pesquisa. O complemento

bibliográfico e o amadurecimento das minhas idéias contribuem e renovam as discussões

expandindo esse caleidoscópio.

1
http://www.rndh.gov.br ;
http://www2.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/participacao_parceria/coordenadorias/diversidade_sexual;
http://www.spturis.com/comtur/
http://www.aids.gov.br
2
http://www.unaids.org
http://www.dotgay.com/
http://www.hrc.org
http://www.abglt.org.br
http://paradasp.wordpress.com
http://www.interpride.org
http://www.ilga.org
3
http://mixbrasil.uol.com.br/ e http://www.acapa.com.br

6
Neste trabalho encontrei inúmeras dificuldades por ser difícil tratar daquilo que

acontece no momento em que se escreve, atravessando a todo instante aquilo que é proposto,

já que este trabalho trata dos discursos, enquanto práticas também, que constroem o que hoje

é tido como identidade gay. Busquei abarcar tudo o que era produzido neste sentido, porém

não é possível separar em partes singulares o trabalho, o que simplificaria qualquer trabalho,

tratar como se cada parte fosse uma um trabalho a parte, mas também seria de difícil

compreensão colocar tudo num texto corrido e longo, e um tanto confuso. Para superar estes

problemas dividi o trabalho em cinco pedaços, no qual tenho consciência de que um não

existe sem o outro, e que não poderiam ser separados em cinco trabalhos, pois uma discussão

obrigatoriamente precede a outra.

Na primeira parte, avanço a discussão já iniciada no relatório parcial, da busca pela

verdade e pela normalização do homossexual que século XVIII é tido como invertido, desvio.

A maneira pela qual a normalização se dá pela inclusão nas instituições heteronormativas,

como a proclamação da família, do casamento, da possibilidade não de existir enquanto sexo

sem controle, mas de se assumir um ser humano digno de direitos, nestes termos não me

detenho no século XVIII, mas percorro de maneira breve, esta mudança de discurso em

relação a este sujeito homossexual, e também se as inclusões em instituições heterossexuais

são resistências possíveis.

Na segunda parte, discuto sobre os eventos de maio de 1968 que revolucionaram o

sexo e a vida, sabendo que de maneira cronológica, a inclusão tratada no primeiro bloco

talvez não fosse possível, se não houvesse os eventos de maio de 1968, porém por se tratar

exatamente de algo contestador, de possibilidade de expansão da vida, do prazer,

diferentemente do que é a inclusão e a normalidade, deixo este período uma análise separada,

e em seguida percorro como os movimentos homossexuais, enquanto formação política se

7
posicionava neste período, suas praticas de liberdade, e em seguida percorro os novos

investimentos de uma reeducação de corpos gays pelo Estado com o surgimento da Aids, no

final da década de 70, e como isto atravessa justamente os discursos gays e as suas demandas

políticas.

Já na terceira parte passo pela idéia de direitos humanos enquanto demanda oficial do

movimento gay, atravessando o controle da existência pela democracia. Os direitos de

minorias, e as formações segmentarizadas desta nova formação identitária, desde a formação

de uma demanda democrática até a construção de uma cultura gay, com formação de centros

de comércio, turismo e escola.

Na quarta parte faço uma ligação entre a escola que administra o corpo gay com a

medicina que o amputa, coloca dentro de um corpo que se identifique com a idéia de gênero.

Pensando em um discurso médico que naturaliza o gênero, mas questiona o desejo sexual.

Dos grupos de riscos à vulnerabilidade social; criação de centro de testes virtuais e centro de

especialidade médica para transgêneros, além de hospitais para o homem.

Na quinta parte faço uma análise sobre uma prática chamada Barebacking enquanto

uma análise da potência do corpo em colocar em cheque a vida da preservação.

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(Fragmentos extraídos do livro: ' ' de Caio Fernando Abreu)

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As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número. Uma


minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. O que define a
maioria é um modelo ao qual é preciso estar conforme: por exemplo, o
europeu médio adulto macho habitante das cidades... Ao passo que
uma minoria não tem modelo, é um devir, um processo.
(Deleuze,1992: 214).

Na sociedade disciplinar o homossexual é minoria, disciplinada pelos guetos e pelas

prisões, porém, enquanto minoria tem sua potência no múltiplo e na diferença, que sofre de

violentas investidas contra seu prazer, como descreve o sociólogo Richard Miskolci:

Tudo começou em 1869, quando, diante da iminente criminalização


das relações sexuais entre homens na Alemanha, o médico húngaro
Karoly Maria Benkert escreveu uma carta processo na qual empregou
pela primeira vez o termo homossexual. No ano, seguinte, o psiquiatra
alemão Carls Westhphal publicou o texto As Sensações Sexuais
Contrárias, no qual descrevia esta nova identidade social a partir da
³inversão´ que definiria sua sexualidade, e, a partir dela, seu
comportamento e caráter [...] Em 1871 o código penal alemão
condenou a homossexualidade e outras formas de sexualidade
consideradas ³bestiais´ em seu parágrafo 175 (Westphal, 1870).
(Miskolci, 2007: 101-128).

Em 1859, uma década antes da lei escrita no artigo citado acima, por Richard

Miskolci, Charles Darwin publica ³A Origem das Espécies´ sobre sua revolucionária teoria

da evolução das espécies jamais cogitada antes, pela ciência. Neste mesmo período a

Inglaterra enfrenta o caos da Revolução Industrial e fatores até então desconhecidos, como a

idéia de população, multidão, saúde e políticas de higiene aparecem com o auge dos discursos

científicos da verdade.

11
Neste contexto, legitimado pela teoria biológica de Charles Darwin, o inglês Francis

Galton se apropria das idéias evolucionistas e as transfere para as relações humanas, em busca

de aperfeiçoar a espécie humana com o cruzamento de espécimes "perfeitas"; com isso são

empreendidos estudos das condições físicas e genéticas de cada indivíduo. É por meio desta

sociedade específica que Foucault percebe e elucida sobre a função do sexo, além de

explicitar a maneira pela qual a medicina pode colocar a degenerência e as taras sexuais

(Foucault,62) como um perigo social.

Arvorava-se em instância soberana dos imperativos da higiene,


somando os velhos medos do mal venéreo aos novos temas da
assepsia, os grandes mitos evolucionistas as modernas instituições de
saúde pública, pretendiam assegurar o vigor físico e a pureza moral do
corpo social, prometia eliminar os portadores de taras, os degenerados
e as populações abastardadas. Em nome de uma urgência biológica e
histórica, justificava os racismos oficiais, então iminentes. E os
fundamentava como ³verdade´.(Foucault, 2006:62)

Desta maneira o sexo passa a ser entendido enquanto função para o corpo social, bom

para a reprodução e espaço para possibilidade de adestramento dos corpos. A descoberta do

prazer no sexo, vem não por meio do sentir, ou do acaso do corpo, mas como um manual

social a ser seguido e ensinado.O sexo no Ocidente se encontra dependente de uma história da

sexualidade, em que o sexo é dividido e conhecido, enquanto ciência.

Assumir-se homossexual não quer dizer simplesmente fazer sexo com pessoas do

mesmo gênero, este por sinal é um termo também questionável por Judith Butler4, e pela

discussão da teoria   3 Para isso é necessário recorrer aos discursos do sexo e verdade,

4
Judith Butler questiona os movimentos feministas que naturalizam o sexo biológico em preferência a uma
sexualidade socialmente construída, traz a duvida de quem se a liberação do sexo, não trouxe a identidade de
gênero, e uma verdade sobre este sexo aparentemente liberto.
5
A teoria   é um estudo sobre a sexualidade de forma a entender que as experiências constroem os sujeitos,
e não os sujeitos que detêm a experiência. Tendo a identidade de forma ampla, em constante movimentação.

12
atravessando aquilo que Michel Foucault chama de governamentalidade, tentando dar conta

destes discursos da sexualidade, que não é uma construção natural, mas antes uma política de

preservação da espécie, uma espécie definida por suas normas ou padrões heterossexuais.

Este governo e adestramento sobre a vida do indivíduo, Foucault afirma ser o bio-

poder. O bio-poder articula os discursos de preservação da vida, deferindo que o corpo e a

sexualidade precisam ser saudáveis, servindo de adestramento para não colocar em risco o

corpo social, o futuro da espécie e da vida, com os perigos ilimitados do sexo. Com o

aparecimento do Estado Moderno, o sexo passa da confissão religiosa à confissão nos

consultórios médicos e psiquiátricos com suas definições meticulosas dos inúmeros "desvios

sexuais". Ainda hoje o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - Fourth

Edition6 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais - Quarta Edição) admite

como disfunção sexual, alguns destes ³desvios´ como por exemplo: o sadomasoquismo e a

transexualidade.

A medicina é o que da legitimidade aos Estados para a busca por uma sociedade já não

mais de pessoas ou massas, mas de uma população produtiva para girar capital financeiro, e

da necessidade da preservação desta para a permanência do Estado, assim a sociedade

disciplinar percebe que é necessário obter o máximo de produção com o mínimo de gastos.

Para isso as grandes instituições da sociedade de soberania se reestruturam para o

adestramento da população seja na escola, nas fábricas, no hospital, no exército, ou nos

manicômios, assim, os homossexuais são confinados, pois interessa ao Estado esquadrinhar

este ³sujeito´ que coloca em risco o sistema de alianças, a família, a herança, a divisão de

bens e nomes e a troca de moedas. Este sujeito incomoda pois, com seu prazer coloca em

risco, o próprio Estado Liberal, constituindo-se como uma ameaça ao Contrato Universal.

6
Fonte: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?sec=23

13
Foi com a ³frugalidade do governo´ que o Estado Liberal pôde criar discursos de

verdade sobre si e sobre o individuo. Nesta comunhão da economia com o governo mínimo, e

da economia com a razão do Estado (Foucault,2008), a máquina estatal formulou discursos de

verdade em todos os aspectos da vida, permitindo que eles se naturalizassem e levassem ao

Estado Mínimo. Foucault descreve, como a razão do Estado se apropria do mercado, para

produzir verdades, e salienta que isto acontece com o liberalismo, pois até os séculos XVI e

XVII o próprio mercado era o espaço da justiça , pois as relações do artesão com o comprador

não importavam ao Estado; condição esta que se modifica no século XVIII, frente a nova

sociedade liberal em que o mercado legitima o governo pela escassez, com a lei da oferta e da

procura.

No fundo, temos que produzir a verdade como temos que produzir


riquezas, ou melhor, temos que produzir a verdade para poder
produzir riquezas. Por outro lado estamos submetidos à verdade
também no sentido em que ela é lei e produz o discurso verdadeiro
que decide, transmite e reproduz, ao menos em parte, efeitos de poder.
Afinal somos julgados, condenados, classificados, obrigados a
desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer
em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos
específicos de poder. (Foucault, 2003: 182).

Se na sociedade de soberania o poder estava na mão do soberano, e este tinha direito

sobre a terra e podia interferir na vida e na morte dos súditos, na nova razão do Estado

mínimo (Liberal) o Estado regula interesses individuais, mas não pode intervir sem utilidade,

pois os direitos civis dos indivíduos assim como o mercado, são naturais. Isto auto-limita o

próprio poder do Estado que legitimou este sistema de verdade, neste contexto organizações

coletivas ganham espaços dentro desta relação de poder criando discursos para si que regulam

também a ação do próprio Estado.

14
A verdade faz parte dos regimes de maioria, assim sem a formação de um discurso

aceito e institucional, pois não é possível ser legitimado e naturalizado. Neste sentido é

possível perceber como a busca homossexual atravessou e ainda atravessa esta questão da

naturalização do próprio prazer, é preciso justificar seu sexo e a natureza dos prazeres para

resistir a esta ³polícia´ do sexo (Foucault, 2006).O que Foucault traz no texto  
  

    , elucida características da sociedade disciplinar, a qual permanece e se reformula na

sociedade de controle.

Enfim, creio que essa vontade de verdade apoiada sobre um suporte e uma distribuição

institucional tende a exercer sobre os outros discursos - estou sempre falando de nossa

sociedade - uma espécie de pressão e como que um poder de coerção. Penso na maneira como

a literatura ocidental teve de buscar apoio, durante séculos, no natural, no verossímil, na

sinceridade, na ciência também - em suma no discurso verdadeiro. No entanto, ressalta-se que

a produção de um discurso natural reproduz o mesmo mecanismo de desqualificação daquilo

que é diferente, ou seja, constrói novas espécies de anormais.

Dessa maneira é possível estratificar os gays dentro de uma escala daquilo que está

dentro do normal, ou do aceitável para o padrão heterossexual. Sobre esta mesma escala,

aquilo que é aceitável no padrão do gay assumido, é positivado pelo mercado.

Gayle Rubin (2004), analisa está transformação do sujeito homossexual, e por isto, em

seu artigo Thinking Sex, afirma sobre a existência de uma estratificação sexual na sociedade,

na qual aparecem as categorias daquilo que é aceitável. A classificação sexual do que é

permitido ou não pela sociedade segue na mesma lógica em que exclui o gay, e cria os guetos.

Assim o surgimento de um gay normal, limpo e saudável não modifica uma organização

específica de poder da sociedade capitalista.

15
As a result of the sex conflicts of the last decade, some behavior near
the border is inching across the direction of respectability. Most of
homosexuality s still on the bad side of the line. But if it is coupled
and monogamous, the society is beginning to recognize that it
includes the full range of human interaction. Promiscuous
homosexuality, sadomasochism, fetishism, transsexuality, and cross-
generational enconunter are still viewed as un modulated horror
incapable or involving affection, love, free choice, kindness, or
transcendence. (Rubin, 2004: 25)

Enquanto os casais homossexuais e monogâmicos são aceitos, as outras sexualidades,

como os transexuais, os transgêneros, os sadomasoquistas, encontram-se na base desta

pirâmide que estratifica o sexo, pois estes nem sempre são reconhecidos como pessoas, ficam

muitas vezes destinados às categorias de bizarros, algo como o sujo do sexo.

Será que a inclusão em espaços heterossexuais, a formação de um discurso normal

fazem parte de um espaço possível de resistências na sociedade de controle? ou de uma

política de pacificação pela inclusão, que segmenta inclusive as lutas?




16
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No final da década de 1960 uma nova possibilidade de resistir aparece no corpo, o gay

que nega o padrão masculino questionando o feminino da mulher dona de casa, usando o

corpo como máquina questionadora da sociedade que criou estes padrões do homem ativo,

másculo, animal e violento. A lésbica não é a masculina, mas aquela que nega ser a mulher

consumida, vendável, e está junto com o movimento feminista. Mostra que a vida não é a

exclusão, e tão pouco a inclusão, mas algo como a expansão, e o fato de não ser feminino não

implica no ser masculino.

Na sociedade de controle, há certa pacificação destes conflitos, e uma busca pela

preservação da vida. A identidade apresenta-se múltipla na medida em que a maneira como se

vive é múltipla, mas permanece igual quando a necessidade se faz pela inclusão em busca de

preservação da vida.

Foram estas questões que explodiram em maio de 1968, a multiplicidade, as

possibilidades de vida, que promoveu brechas na história, mudou seu rumo, e propiciou uma

revolução molecular . Guattari traz a revolução molecular como um evento que transforma a

percepção do mundo, o maio de 68 trouxe novas relações com o corpo e com o tempo,

possibilitando linhas de fugas no sexo e no prazer.

Maio de 68 foi a irrupção de um devir em estado puro. Hoje está na


moda denunciar os horrores da revolução. Nem mesmo é novidade,
todo o romantismo inglês está repleto de uma reflexão sobre
Cromwell muito análoga aquela que hoje se faz sobre Stálin. Diz-se
que as revoluções têm um mau futuro. Mas não param de misturar
duas coisas, o futuro das revoluções na história e o devir
revolucionário das pessoas. Nem sequer são as mesmas pessoas nos
dois casos. A única oportunidade dos homens está no devir

17
revolucionário, o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao
intolerável (Deleuze, 2008:211)

O intempestivo do sexo livre aparece como a potência que destrói valores e irrompe a

realidade contra o poder, é singular, e abre brechas na história do sexo, no entanto junto com

ele surgem novos mecanismos de poder. Afinal, como mostra Edson Passetti ³a história não

se restringe a um movimento circular de conquista e conservação. Nela encontramos a

intensidade das forças de expansão que inventam diferenças´ (Passetti, E. e Oliveira, S,

2005:12).

As singularidades das resistências gay no maio de 68 aparecem e se reinventam, como

é o caso da FHAR (Front Homosexuel D'action Révolutionnaire), no qual Guy Hocquenghen

é convidado a participar sendo o único homem desse movimento até então restrito a mulheres

lésbicas. Deleuze (2008) explicita por meio da inserção de Guy Hocquenghen na FHAR a

potência da homossexualidade em que o sujeito homossexual se desfaz.

A homossexualidade de Guy Hocquenghen, perde-se em uma identidade, rompe com

seus espaços fixos, e luta junto ao movimento feminista, não separando as lutas pela

existência. No entanto, percebe algo de conservador nos movimentos específicos:

O desbloqueamento dos impulsos sexuais, as generalizações do debate


radiofônico sobre os segredos do desejo caminharam curiosamente
passo a passo com a reação moralizadora e afinal de contas anti-sexo
do movimento feminista. De certo modo a "militância homossexual"
no sentido mais amplo do termo é a única resposta masculina ao
feminino auto-transcendentalista, o qual se proclama dotado de uma
essência particular. A liberalização dos costumes, a pornografia e a
explosão homossexual respondem ao novo puritanismo das ligas das
mulheres contra a violação. Os dois adversários se tateiam e são as
futuras Figuras Dominantes, prontas para entrar em ação. Organiza-se
uma nova paisagem da qual os Estados Unidos já podem nos fornecer

18
uma primeira imagem. A futura ordem sexual não esta fundamentada
como algo que exerça uma ordem repressiva sobre a Natureza. Divide
racionalmente um setor liberado, aquele que se refere a um erotismo
cada vez mais confessado e comercializado, praticado entre machos e
um setor protegido, mulheres que se recusam as caricias brutais,
crianças postas a salvo da sanha dos pederastas. (Hocquenghen,
1980:9)

Nos Estados Unidos a resistência do movimento gay é atravessada pela razão

democrática. Por isto talvez a definição dada por Hocquenghen da divisão racionais de

liberação, a força homossexual aparece dentro da instituição, e não se separa desta. O filme

'4+      (2000), mostra a necessidade de estar dentro da instituição. Este

mostra a trajetória de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a ser eleito, em 1977 no estado

da Califórnia. Harvey Milk estabeleceu frente com os empresários e intelectuais e elevou a

militância pelos direitos dos homossexuais a um novo patamar, o da arena pública.

Já no Brasil a formação política do movimento é atravessada pela contestação do

corpo, visto que, estava em curso uma ditadura que impossibilitava que homossexuais

participassem das decisões de direitos políticos. Desta forma o corpo era o espaço de combate

político questionando o sexo, o gênero e a moral.Um exemplo disto é o surgimento da banda

)    ' , na qual o vocalista Ney Matogrosso confundia o limite do gênero, e

passava de um lado para o outro, desfazendo as fronteiras, com sua voz fina, sua maneira de

agir e vestir entre o feminino e o masculino.

Em 1978 surge o primeiro grupo homossexual organizado (SOMOS), apoiando o

movimento negro e unificando-se com os movimentos artísticos, sem separar o que era

movimento político-social e o que era arte. No mesmo ano é lançado o 5


  ,

primeiro jornal que tratava sobre os modos de vida do gay, de forma critica, e não de maneira

promíscua.

19
No mesmo ano de 1978 homossexuais dos Estados Unidos e da Suécia começam a

apresentar os primeiros sinais de uma doença desconhecida, que passou a ser cruelmente

popularizada como a ³peste gay´ e que mais tarde seria chamada de Aids.

A existência é atacada, é racionalizada, medicada e gerenciada, reestruturando os

dispositivos de poder. O que antes era dever da policia, de fechar espaços gays, agora ganha

uma justificativa médica e passa a ser questão de saúde publica.Os movimentos homossexuais

se posicionam contra esse ataque, em busca da vida e da sobrevivência. Para isso se assumem

como resistência ao poder violento do Estado e da medicina. Com essa doença foi possível

mapear a vida sexual dos gays, e a moral médica -de preservação da vida- foi tomada quase

que como uma obrigação, mudando as relações políticas do movimento com o Estado e

consigo mesmo.

A formação identitária do movimento homossexual, já não se posiciona de maneira

questionadora, afirma uma representação que não busca mas a liberação do sexo, mas antes

seu cuidado. Para tal, busca um mercado consolidado que equipare os gays aos

heterossexuais, ou seja, com suas qualidades necessárias para sobreviver na democracia. A

identidade positivada pelo mercado, compreende que a melhor maneira de preservar a vida

não é contestando, mas sim se inserindo, dando espaço para a competência de uma

democracia inclusiva no qual o mercado se transforma na grande arma de legitimação.

O gay se apresenta não mais enquanto um sujeito de uma vida, mas como produtor e

produto vendável. Nestes termos a junção da verdade do Estado discutida previamente

dialogando com Michel Foucault, ganha um novo espaço de análise através da criação de

nichos mercadológicos que naturalizam o indivíduo homossexual.

É preciso ressaltar que mercado não opera por singularidades ou multiplicidades, mas

por pluralidades, definidas por pesquisas de marketing, ou seja, por maiorias.A formação da

20
maioria homossexual acontece na aliança entre o mercado e a identidade, em um período em

que Deleuze chama de sociedade de controle.

Na década de 1990, há a formação de um discurso, fomentado por


uma parcela dos empresários do mercado gls, que aproxima as
atividades de atores do mercado das atividades da militância. Tais
atores começam a se ver, e a ser vistos, como articuladores de uma
ação política, no sentido em que estimulam a "auto-estima dos
homossexuais" e a formação de uma "identidade positiva"-através de
iniciativas como festivais de cinema, editoras e mesmo espaços de
lazer e sociabilidade - e fazem circular informações por esse público
por meio de sites e revistas especializadas (Lins, 2007:289)

Assim a identidade forma com o mercado, a ponte entre o dispositivo da sexualidade

dos confinamentos, e o da inclusão pelas identidades. O mercado afirma a normalidade

homossexual, enquanto a chamada peste gay o deslegitima.

A afirmação da identidade implica sempre a demarcação e a negação


do seu oposto, que é constituído como sua diferença. Esse ³outro´
permanece, contudo, indispensável. A identidade negada é constitutiva
do sujeito, fornece-lhe o limite e a coerência e, ao mesmo tempo,
assombra-o com a instabilidade. (Louro, 2001: 549)

Assim a identidade gay é dividida em múltiplas identidades normalizadas pela busca

da igualdade de vida heterossexual. Esta descentralização possibilita a captura pelos

mecanismos de poder de uma sociedade que opera para inclusão, e separa os movimentos em

pequenos fragmentos identitários. Do movimento GLS, ao GLBT, e depois GLBTT, e mais

tarde LGBT.

O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo


e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e

21
descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem
endividado.(Deleuze,1992:224).

22
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Caetano Veloso

Para a sociedade de controle o direito é a representação democrática da existência.

Esta sociedade aparece, segundo Deleuze, no final da segunda Guerra Mundial e tem como

característica os fluxos de comunicação contínuos, em que nada se termina. Vem para

23
substituir a sociedade disciplinar, mas não sobrepõe seus mecanismos de poder, pelo

contrário, os reformula.

Esta reformulação não é apenas uma simples mudança no mecanismo de poder, mas

uma mudança do próprio capitalismo, que organiza estes poderes. Assim, se na sociedade

disciplinar era a necessidade de produção que disciplinava os corpos, na sociedade de controle

o capitalismo já não se volta para a produção.

É um capitalismo de sobre-produção. Não compra mais matéria-prima


e já não vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou
monta peças destacadas. O que ele quer vender são serviços, e o que
quer comprar são ações. Já não é um capitalismo dirigido para a
produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado.
Por isso ele é essencialmente dispersivo, e a fábrica cedeu lugar a
empresa. (Deleuze, 2008:223 e 224).

Modificando a própria construção do corpo, já não mais adequados a fábrica, mas

agora feitos como prestadores de serviços, fazendo de si o próprio produto.

Se na sociedade disciplinar importava o corpo produtivo, agora importa um fazer de si

um produto contínuo para a venda, atuando para que o tempo e o espaço sejam processos de

inclusão e aperfeiçoamento de si -da aula de musculação à de culinária. Desta forma até o

lazer ganha função, têm horários e espaços inseridos dentro da agenda, onde as parquinhas de

diversões para crianças têm seguranças particulares e câmeras de vigilância 24h por dia,

cuidando para que nada escape do comedido.

O intempestivo dos eventos de maio de 68, na França, com as múltiplas resistências ao

sexo controlado parecem um passado distante, quase como um conto de fadas para estudantes

universitários. Agora o sexo é saudável, seguro e limpo, sempre entre quatro paredes de um

quarto privado ou vendável como a pornografia e as casas de prostituição.

24
Dentro deste cenário há o movimento gay brasileiro atual, em que há formação de

discursos de maiorias e de maiorias minoritárias, maiorias enquanto busca de direito civis,

reconhecimento internacional e minoritárias formadas por identidades com políticas públicas

específicas, organizadas dentro de uma demanda maior e dita homogênea, em nome de todos.

As solicitações de reconhecimento têm implicações nas mercadorias, o capitalismo se

tornou simbólico, com categorias oficiais e categorizadores oficiais, suas formas de impor o

politicamente correto, ³afinal´, igualdade é sempre igualdade no poder de compra. Assim a

democracia investe, da voz a maioria incluindo a minoria, com o mercado transterritorias

enquanto seu grande aliado, inaugurando o que Edson Passetti chama de Eco-politica, um

novo poder em nome da preservação do mundo, entendido como um organismo vivo que

depende da participação de cada um dos seres humanos.

Para Passetti, nesta sociedade o bio-poder se transforma em eco-poder, uma política

que não está mais preocupada só com o indivíduo detentor de um registro, mas com um

mundo de políticas internacionais que colocam cada um dentro de uma grande teia de direitos

e deveres com a espécie humana, não mais com o contrato social como era o caso da

sociedade disciplinar.

Isso se apresenta sobre o discurso de ³responsabilidade social´ tanto para as empresas

como para aqueles que compram, não há problema de vender e comprar mais caro, é o preço

para salvar o mundo.

Um capitalismo sustentável em prol da diversidade humana incluída e sua formação de

discursos majoritários e a formação de associações internacionais pela luta dos direitos

democráticos. Localizando em cada um e sua identidade uma obrigação com o mundo e

levando à uma hierarquização legítima de quem tem direito a existir, afirmando o mesmo

25
sistema que foi formado na sociedade disciplinar de julgamentos dos prazeres, enquanto cada

um é tribunal do outro.

O poder falar democrático, o existir enquanto direito incita minorias a produzirem

discursos identitários, a serem maiorias, e ao serem isto se pronunciam como o ³eu´ em

oposição ao o outro. Esta é a maneira pela qual a sociedade de controle organiza seus

dispositivos de poder, especificando e localizando cada uma das possíveis resistências e as

colocando enquanto demanda participativa, representada por um agente democrático

capturado dentro da própria organização, exercendo função de policia e educador.

A desterritorialização do mercado capitalista se reterritorializa em


axiomas, como os direitos do homem, que coexiste, o que não é o
mesmo que contradizer, com outros tantos direitos, como o da
segurança da propriedade e a produção de pequenos medos
desencadeadores de controle e violência. (Deleuze, 2004: 244).

A identidade gay rentável e segmentarizada existe a partir de sua própria identificação,

pois igualdade e segurança não realizam liberdades, ao contrário, promovem conhecimento,

esquadrinhamento e positivam um prazer em comércio, em direitos humanos. O Estado

segmentarizado reafirma o controle do corpo, pacifica promovendo cidadania, e a identidade

gay é dividida em categorias representadas tanto democraticamente como economicamente.

Neste sentido o capitalismo assume em identidades legítimas tipos de sexualidades

específicas.

As sociedades ocidentais modernas avaliam atos sexuais de acordo


com um sistema hierárquico de valor sexual.Os indivíduos cujo
comportamento os situa na escala mais alta dessa hierarquia são
recompensados com o reconhecimento de sua saúde mental,
respeitabilidade , legitimidade, mobilidade social e física (Butler,
2003: 24)

26
Além disto há a segmentação daquilo que já é aparentemente separado, ³os gays

homens ricos´ e ³modelos lésbicas femininas´ em seus espaços determinantes pelo poder de

compra, da casa noturna em São Paulo !  < 4= à fabricação de um produto chamado

 > que custa no Rio de Janeiro cerca de 0,50 centavos. Isadora Lins, elucida essa

segmentação no seu texto: 7


   ?c      
   

 

  
 , em que faz uma pesquisa de campo mostrando os

segmentos gays, em que os travestis são proibidos de participar de saunas exclusivas para

homens.

O sistema político moderno é um todo global, unificado e unificante,


mas porque implica um conjunto de subsistemas justapostos,
imbricados, ordenados, de modo que a analise das decisões revela toda
espécie de compartimentações e de processos parciais que não se
prolongam um nos outros sem defasagens ou deslocamentos (Deleuze,
1996:85).

A representação política segue nesta mesma segmentação, a associação internacional

ILGA - Internacional Lesbian and Gay Association - junto com a InterPRIDE, é a referência

da comunidade gay, com as datas de todas as paradas do orgulho gay, que interliga com a

associação brasileira de gays , lésbicas, transexuais e transgêneros (ABGLT8) que agrupa as

associações dispersas em todo território, seja no Brasil ou no mundo todo, separando em

pequenas lutas políticas, como a ³articulação nacional de transgêneros o ³coletivo de lésbicas

7 Casa noturna de São Paulo freqüentada por um público majoritariamente masculino, em que a entrada chega a
custar 100 reais.
8 Atualmente as linhas prioritárias de atuação da ABGLT incluem: o monitoramento da implementação das
decisões da I Conferência Nacional LGBT; o monitoramento do Programa Brasil Sem Homofobia; o combate à
homofobia nas escolas; o combate à Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis; o reconhecimento de
Orientação Sexual e Identidade de Gênero como Direitos Humanos no âmbito do Mercosul; Advocacy no
Legislativo, no Executivo e no Judiciário; a capacitação de lideranças lésbicas em direitos humanos e >;
a promoção de oportunidades de trabalho e previdência para travestis e a capacitação em projetos culturais
LGBT.

27
negras feministas autônomas´ 9. O que começou com uma luta junto com o movimento negro

agora se separa, em busca dos mesmos direitos de reconhecimento enquanto pessoa humana,

direito a família, procriação, adoção, casamento, trabalho e herança. Esta articulação de idéias

nos remete ao começo do trabalho, em que se questionava o tipo de resistência que almeja se

inserir em instituições heterossexuais?

Inaugurando um fluxo de demandas desta democracia, na qual os direitos representam

desenvolvimento econômico, exceto em alguns países em que a homossexualidade ainda é

criminalizada10.

Mostrando que a formação de identidade é acarretada por um mercado forte, e a

posição democrática de existência depende de um aperfeiçoamento do capitalismo, a

democracia participativa depende desta nova organização do poder no capitalismo de uma

terceira fase.

A sociedade de controle convoca todos a participarem e assume isto na forma de

desejos individuais, assim nos lugares onde há maior participação democrática, o desejo

capitalista tem forma interminável, o poder de compra é tão alto quanto a participação. O

capitalismo é uma máquina de produção de desejo (Deleuze, 2008).

Mas estes países não existiriam desta forma se não fossem os outros em tamanha

miséria, o que de forma alguma justifica a criminalização da homossexualidade, mas mostra

9 LGBT Brasil - Movimentos: Leões do Norte; ANTRA - Articulação Nacional de Travestis e Transexuais;
Grupos de Pais e Mães de Homossexuais; Parada do Orgulho GLT - SP; Um Outro Olhar Rede Afro LGBT; E -
jovem - Grupo E - jovem de adolescentes gays, lésbicas e aliados; Flor do Asfalto; Coletivo Nacional de
Lésbicas Negras Feministas Autônomas; Candaces-BR; Movimento Gay de Alfenas e Região Sul de Minas
Fórum Paulista LGBT; GRAB - Grupo de Resistência Asa Branca

10 Sudão, Mauritânia, Somália, Arábia Saudita, Iémem, Ira, Suriname, Serra Leoa, Nigéria, Uganda, Quênia,
Tanzânia, Malaui, Zâmbia, Emirados Árabes, Paquistão, Índia, Bangladesh, Malasia, Brunei, Papua Nova-
Guiné, Nicarágua, Jamaica, Botsuana, Zimbábue, Somália, Etiópia, Eritreia, Camarões, Gana, Guinpe, Senegal,
Saara Ocidental,Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Jordânia, Síria, Kadet, Catar, Omã, Turquemenistão,
Uzbequistão, Sri Lanka, Mianmar, Iesoto, Namíbia, Angola, Moçambique, Costa do Marfim, Afeganistão,
Tajiquistçao e Butão. Não separei os tipos de pena, pois não me interessa saber quantos anos cada homossexual
passa preso, pois qualquer prisão é violência.

28
como o mercado e esta democracia deu poder dentro das relações com o Estado, mas que

também criou novas formas de poder.

Se todas as identidades são possíveis, não é porque é possível se expandir, ser tudo, é

preciso sempre estar dentro de uma delas. Esta análise não é feita de maneira direita, como

causa e efeito, mas como uma percepção de que a democracia depende de identidades

localizadas. As diferenças se tornaram rentáveis.

A organização 87 1  @ que tem como objetivo ³vigiar´ as empresas que

asseguram a diversidade, naturalizando a igualdade pelo mercado, já não são mais como antes

que o mercado naturalizava a verdade, agora a verdade já se naturaliza serve como

instrumento para mostrar como o mercado pode e deve servir de igualdade. Não lugar de

justiça, mas sim de direito humano.

As associações por direitos homossexuais promovem mais do que a busca por direitos,

promovem também o controle do sexo e a supervisão das discussões das maiorias

minoritárias. Como um reconhecimento como cultura, ou melhor, como o duplo oposto do

heterossexual. Há uma campanha chamada DOT Gay, que estimula as empresas de

homossexuais e homossexuais a usar a extensão ³gay´, substituindo a ³.com´, e o discurso é:

dotGAY ± The new Top Level Domain for the Gay Community Internet Identity for Gay

People ± Worldwide.

A extensão ³.com´ significa 


>, assim esta localização ³.gay´ é comercial, uma

construção de um mundo oposto e igual ao heterossexual, comércios exclusivos entre

homossexuais, associados à primeira câmara de comércio LGBT (GGBA.ORG)

Golde Gate Business Association The First LGBT Chamber of Commerce : ³The GGBA¶s

mission is to grow, promote and increase the visibility of LGBT businesses and those

businesses in the community that support them.´

29
Na cidade de São Paulo, há uma forte implantação dos governos para a promoção da

identidade gay. São Paulo é o único estado brasileiro a ter uma Coordenadoria de Assuntos da

Diversidade Sexual (CADS).

A coordenadoria desenvolve ações sociais de inclusão e proteção à cidadania e contra

a discriminação de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e transexuais que vivem

e convivem na cidade de São Paulo, defendendo os artigos 5° da Constituição Federal e o 3°

da Declaração Universal de Direitos Humanos, segundo os quais todos são iguais perante a lei

e toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Esta coordenadoria tem como missão ³Contribuir, de maneira efetiva, para a

construção da plena cidadania dos munícipes LGBT da cidade de São Paulo.´, criada em 10

de fevereiro de 2005 e institucionalizada através da lei n° 14.667 em 14 de janeiro de 2008

pelo Governo Municipal, curiosamente no ano em que a parada do orgulho GLBT chega a 2,5

milhões de pessoas11 (sendo que em 2003, 1 milhão de pessoas participam) e coloca a parada

de São Paulo como evento no calendário gay mundial, que em 2007 o evento, segundo dados

oficiais da secretaria de turismo, deixa mais de 180 milhões de reais arrecadados:

Na tarde do próximo domingo (25/5), quando terminar a XII Parada


do Orgulho GLBT, a cidade de São Paulo estará cerca de R$ 189
milhões mais rica. Este é o investimento médio que os cerca de 3,5
milhões de pessoas esperadas no evento, devem deixar na cidade.[...]
A Parada também se firma como um produto turístico importante para
as operadoras de turismo. Comparada com anos anteriores, a Parada
em 2007 teve um crescimento de 10% para as agências de viagens, o
que deve se repetir neste ano.12

11 Histórico da Parada Gay na cidade de São Paulo: http://www.paradasp.org.br/historico.htm


12 Fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/noticias/index.php?p=23735

30
Além de mais rica a cidade de São Paulo, fica cada vez mais legislada13, e os mesmos

policiais que servem ao Estado que reprime prostitutas e travestis agora estão a serviço da

promoção e segurança da cidadania gay.

Fomos, então, convidados a participar do processo de reciclagem de


todos os Guardas Civis Metropolitanos, que serão obrigados a passar
por um curso em direitos humanos e minorias, até o ano de 2008,
quando a CADS estará palestrando sobre orientação sexual, identidade
de gênero, violência, discriminação, homofobia (Lei Estadual
10.948/01, para todo o efetivo da GCM)

A CADS promove mais do que segurança, como inclusão digital para travestis:

³Sabemos das dificuldades que vem sendo vivenciadas pelo público GLBTT quando se fala

em qualificação profissional para o mercado de trabalho e especialmente pelas travestis. Ao

buscar realizar cursos técnicos, universitários e até na educação de ensino fundamental e

médio, as travestis são discriminadas. Diante destes fatos, a CADS iniciou uma pesquisa para

saber quais eram os cursos de maior interesse desse público. O curso de informática foi o

mais solicitado.´ É possível perceber que enquanto uma coordenadoria do Estado de São

Paulo, a CADS só promova cidadania na cidade de São Paulo, a mesma que tem uma parte

destinada ao turismo gay muito bem consolidado.

Não é a toa que o Estado de São Paulo, cria pela primeira vez no mundo, um selo da

diversidade, alem de um centro de especialidades para tratamento de transexuais. Os

homossexuais assumidos e seus financiadores ganham um selo de benefícios.

13 LEI Nº. 10.948, DE 5 DE NOVEMBRO DE 2001 (Dispõe sobre as penalidades a serem aplicadas à prática
de discriminação em razão de orientação sexual e dá outras providências).
LEI Nº. 7.437, de 20 de dezembro de 1985 (Incluí, entre as contravenções penais, a prática de atos resultantes de
preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil, dando nova redação à Lei nº. 1.390, de 3 de julho de 1951
- Lei Afonso Arinos).

31
³O Selo que estamos entregando hoje chama-se da Diversidade. Mas, de fato, ele é o selo

paulista da igualdade. Da igualdade de direitos; da igualdade do acesso ao trabalho, à

educação, à saúde; da igualdade na consideração social.´[...]Ressalto que se trata de

"respeito", relativamente ao outro, e não de "tolerância", porque "tolerar" significa "suportar",

ser indulgente". E essas categorias são totalmente inadequadas quando o que está em jogo é a

cidadania integral das pessoas.[..]As organizações que receberam o selo não foram escolhidas

a esmo. Atuaram de modo pró-ativo, pois a iniciativa de requisitar o selo é voluntária,

cabendo a cada um dos interessados. Além disso, elas submeteram seus planos e ações ao

Comitê Gestor do programa, que procedeu a um exame rigoroso das práticas previstas ou

implantadas. O selo tem ainda outra grande virtude. É que ele envolve um processo

permanente de avaliação, pois que, após 12 meses da concessão, deve ser renovado, inclusive

com a possibilidade de passar para uma categoria mais alta, que é a do Selo Paulista de

Diversidade ± Pleno.[...]´

No dia 18 de agosto de 2009, o governador do Estado de São Paulo, José Serra entrega

o selo da diversidade às empresas que reconhecem e promovem ações voltadas ao público

gay, institucionalmente chamado de LGBT, colocando São Paulo dentro deste movimento que

surte de políticas afirmativas de minoria, ou talvez o Estado tenha percebido algo bem

importante, o tal ³mercado pink´.

Com estas ações o Estado de São Paulo da mais um passo para consolidar os direitos

humanos dos indivíduos homossexuais, como pode ser lido no documento aprovado pela

Declaração dos Direitos Humanos GLBTTs - Montreal em 200614 e com o plano nacional de

direitos humanos .

14Ë

     
 5A;! 
 
      

  

   +se    ´. 'Todos direitos humanos são universais, indivisíveis e interdependentes e
relacionados' (Conferência Mundial em Direitos Humanos, Vienna,1993). Identidades e práticas LGBT existem e
continuam a existir em cada cultura em todos os cantos do mundo; simplesmente fazem parte das condições

32
Inserindo-se nesta política de segmentação do gay, há a criação, pela prefeitura da

cidade de Campinas, de uma escola gay, e um manual de ³boas maneiras´ produzido pela

ABGLT que ensina como deve ser tratado um homossexual, há também a formação

educacional do sujeito gay, com a inauguração na sociedade de uma escola para

homossexuais, na qual a educação vira cultura, administrando corpos gays, para serem

inseridos no mundo e não serem discriminados nas escolas heterossexuais, gays ensinados a

serem discretos, a dança, arte e musica. Ainda assim é escola, e a educação serve para

disciplina do corpo, e potencia gay em construir novas formas de vida, se transforma em

promoção de igualdade15.

³Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a

apropriação dos discursos, com os saberes e poderes que eles trazem consigo"

(Foucault,1996:44).

humanas. Lutar contra a ignorância e o preconceito permanece a nossa primeira prioridade. Mais informações
sobre pessoas LGBT, e mais franqueza na parte de pessoas LGBT (quando isto pode ser feito com segurança),
são futuras condições para progressos a serem feitos.
15
A escola não vai oferecer o ensino regular, mas cursos que promovam a cultura homossexual e fomentem a
formação de meios de divulgação, como os fanzines e a TV por internet. O projeto tem financiamento público de
R$ 180 mil, a serem gastos em três anos. A proposta de criação da escola foi uma das 300 contempladas no
programa do governo para a formação de pontos de cultura. Publicado por Tatiana Farah no jornal O Globo de
24/01/2010.

33
$143#.",56%#.",%&7&/&+.#"5&+3$%$,.$/*$,7"8, 


No século XVIII a criminalização da homossexualidade era afirmada pela busca

médica contra a degeneração. Este discurso permitia que homossexuais fossem perseguidos e

confinados. Se a homossexualidade consegue sair desta perseguição da sociedade disciplinar

não o faz sem entrar em outros mecanismos de poder. A homossexualidade não é mais um

desvio, ela não leva ninguém obrigado ao psiquiatra (o mercado já resolveu isto), mas a

transexualidade sim. Hoje, a homossexualidade entra em outros mecanismos de poder, como

o da naturalização, da identidade e do mercado.

A CID-10 e o DSM -IV define os transexuais como um distúrbio de identificação de

gênero, acompanhado de outros distúrbios, entre eles os Fetichista, Voyers, Masoquistas,

Sádicos, Pedófilos. Mas o que são todas essas categorias, senão a criação de um novo

anormal?

Esta questão volta ao que já foi discutido por Michel Foucault em $   

sobre a busca médica de definir a verdade de alguém por seu sexo, ou melhor, que o sexo de

alguém diga a sua verdade escondia.

Assim, o grande problema talvez não seja o transgênero, mas o transexual, chamado

de travesti, com a possibilidade de existir no centro que essas pessoas apresentam.

Considerando que o homem e a mulher homossexual afirmaram sua identidade pela

naturalização da existência, não enquanto uma nova existência.

O transexual rompe ao ser múltiplo, pode ser o homem passivo, a mulher ativa, o

homem ativo, e todas as outras reconfigurações possíveis, do feminino com o masculino. Ele

34
não é a ausência do sexo, como talvez o andrógino, ele é o sexo escancarado, ³Genderfuck16´,

não quer ser localizado em um corpo acabado.

Para o Estado a sexualidade pode ser diversa, desde que seja verdadeira, assim a

notícia que anima a comunidade gay de um centro de especialidades para transsexuais está

aberto a todos que queiram deixar o corpo de homem, mas para isso há regras. A socióloga

Berenice Bento, analisa assim como Foucault sobre como a cirurgia da transexualidade opera

para afirmar o gênero ao sexo.

Segundo Berenice Bento, as mudanças no corpo devem estar de acordo com uma

sexualidade afirmada, a possibilidade de uma transexual gostar de mulher não é uma

possibilidade. O sexo hétero, a penetração o gozo, devem seguir como regra a priori, a

reprodução é sempre o mais natural a ser feito. Talvez isto justifique os ³mitos´ de que

travestis detestam mulheres.

Existir não é dialético, não é a escolha entre ser ou não ser. Esta é uma afirmação da

identidade de gênero, pois se escolhe novamente entre o masculino ou o feminino, mesmo que

com a opção de transformar biologicamente um homem num corpo de mulher, legitimação

do duplo Masculino/Feminino, pronunciado como direitos humanos.

Não cabe mais ao individuo decidir o sexo ao qual ele deseja pertencer
jurídica ou socialmente; mas sim ao perito dizer que sexo a natureza
escolheu para ele, e ao qual, consequentemente, a sociedade deve lhe
restringir-se (Foucault, 2006:84)

As pesquisas bio-géneticas tentam dar o mesmo valor à existência dos gays e lésbicas,

colocando as lésbicas no semelhante ao homem e o gay a sua imagem de mulher, trata-se da

16
Literalmente: foder com o gênero Eve Kosofsky Sedgwick,  

Pág. 49.

35
reformulação do bio-poder pela ciência da genética. A mesma ciência que um dia legitimou a

afirmação da raça:

No dia 23 de janeiro de 2008 é publicado no site de noticias Terra ³Estudo: Casais

gays são mais satisfeito com relação´. Segundo a matéria ³As pesquisas contrariam os

estereótipos vinculados aos casais homossexuais sobre a promiscuidade e a falta de

comprometimento. Os estudos fazem parte da edição especial de janeiro da revista cientifica

Developmental Psycology, que traz uma seção sobre orientação sexual´.

No dia 25 de junho de 2008 é publicado no caderno Ciência da revista Veja, a

seguinte matéria: ³A Diferença se vê no cérebro ² Descoberto que homossexuais são mais

parecidos com pessoas do sexo oposto´ sobre uma pesquisa feita no Instituto Karolinska, na

Suécia, comparando o cérebro de voluntários homossexuais e heterossexuais, chegando a

conclusão de que mulheres homossexuais se parecem mais com homens heterossexuais e

homens gays com mulheres heterossexuais, provando pela ciência que a homossexualidade

não é causa do meio social, mas sim de fatores genéticos, biológicos.

No dia 16 de junho de 2009 o articulista do jornal A Folha de São Paulo e filósofo

Hélio Schawartsman publica ³O Armário de Darwin´ no qual ele debate sobre a aceitação do

movimento gay com a teoria darwinista, ou seja, aquela que diz que a homossexualidade é

genética. Ao longo da matéria o autor em defesa da moral e do direito aceita que a

homossexualidade é possível, seja biologicamente ou opção, e ainda diz: ³Trocando em

miúdos, devemos combater a homofobia não porque o homossexualismo seja natural ou

genético (ou uma construção social, tanto faz), mas simplesmente porque duas ou mais

pessoas adultas agindo consensualmente tem o direito de fazer o que bem entenderem entre

quatro paredes´.

36
Estas três matérias desnaturalizam a idéia de que desejo sexual é construído e o sexo

biológico é natural (Butler,2003), como se houvesse uma norma a ser perseguida e um destino

determinado geneticamente sobre a verdade de si.

Se de um lado a medicina opera para que a naturalidade permaneça, por outro atua na

prevenção daquilo que pode escapar ao controle. Este controle já discutido nos outros

capítulos, de um corpo sem comedimentos, vigiando cada pedaço deste novo indivíduo

dividido.

A sociedade de controle requer e convoca a participação de cada um


nos múltiplos fluxos: objetiva não deixar sequer um micro-espaço
vago para ser preenchido por resistências de insurgentes. Por meio de
reformas constantes, restringindo cada vez mais as instituições da
sociedade disciplinar para as novas se consolidarem, ela visa capturar
resistências, ampliando programas de inclusão. (Passetti, 2007:13)

A Aids que antes foi desculpa para o fechamento de bares e saunas gays, agora serve

como dispositivo para controle dos comportamentos. E o que era na sociedade disciplinar

função do Estado, de controle do corpo agora é atravessado pelas inúmeras parcerias entre

Organizações da Sociedade Civil e os Estados: ³O programa de DST/AIDS da Cidade de São

Paulo atua dentro dos princípios da defesa dos direitos humanos, respeito à diversidade,

construção da cidadania, defesa dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) e realiza

parcerias com Organizações da Sociedade Civil, universidades e empresas. Entre as

prioridades estabelecidas destacam-se a ênfase na prevenção e a humanização dos serviços. A

coordenação geral organiza-se por áreas de atuação: Prevenção, Assistência, Articulação com

a Sociedade Civil, Informação, Desenvolvimento Científico, Administrativo, planejamento e

comunicação´

Assim se há uma naturalização pela genética do gay, há também uma implantação de

um desejo e um erotismo seguro neste gay, e a Aids aqui é o instrumento para isso.

37
O Centro de Testagem e Aconselhamento têm frentes de ação que não dizem sobre um

movimento gay, mas sim sobre homens que fazem sexo com homens, mulheres, travestis,

usuários de drogas, cada um deles com suas políticas de inclusão específica: ³Com base nos

dados epidemiológicos foram definidas as populações mais vulneráveis e para elas foram

criados os seguintes projetos: ³Cidadania Arco-Iris´ (homens que fazem sexo com homens),

³Tudo de Bom´ (profissionais do sexo e travestis), ³Plantão Jovem´ (Adolescentes e jovens

em suas regiões de moradia e estudo), ³Elas por Elas´ (mulheres) e ³PRD Sampa ± projeto de

redução de Danos da Cidade de São Paulo´ (usuário de drogas injetáveis). Desde 2008, está

em implementação um novo projeto voltado para a população masculina, o ³Projeto Homens´

A sociedade de controle inclui e descentraliza, e os dispositivos já não atuam somente para

disciplinar os corpos, mas também em codificar comportamentos e invadir o pensar.

Os controles não se referem mais ao Estado-nação, mas em mecanismos

transterritorias, neste sentido o avanço das tecnologias virtuais dá suporte ao controle deste

segmento e vira mecanismo de poder. As próprias políticas de saúde se referem a uma política

mais abrangente ligada a OMS, os direitos gay são representados nas conferências de direitos

humanos.

A Prefeitura de São Paulo, realiza um feito inédito, a criação de um centro de testagem

e aconselhamento virtual, o mesmo centro antes mencionado, agora em um programa

chamado ) 5 , com um avatar para aconselhar sobre prevenção e saúde.17

Fazendo emergir o um novo mecanismo de um dispositivo que tem,


como razão de ser, não reproduzir, mas o proliferar, inovar, anexar,
inventar, penetrar nos corpos de maneira cada vez mais detalhada e

17 A prefeitura de São Paulo inaugurou neste sábado, 1/12, seu primeiro centro atendimento virtual do programa
municipal de DST/Aids, onde os usuários poderão tirar dúvidas e se informar sobre qualquer DST. O local fica
situado na Ilha Anhangabaú I, parte que recria o centro de São Paulo.Quem faz o atendimento aos usuários é um
Avatar que fará o papel de um agente de prevenção. Para os gestores do projeto, Secretário municipal de saúde
de São Paulo, Januário Montone, e da coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids da capital paulista,
Maria Cristina Abbate, a idéia é pioneira no mundo. Fonte: www.acapa.com.br

38
controlar as populações de modo cada vez mais global. (Foucault,
1997:118).

Se a saúde aliada com a ciência médica e a democracia operam com este bio-poder

internacional e este eco-poder, o corpo ainda é uma potente arma de guerra.

39
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Alice Ruiz

Enquanto os controles proliferam, atravessando a Aids, a genética e a democracia

meninos se conhecem pela   para jogar com a vida, sem interesse algum em fazer parte

desta eco-política. Uma roleta russa, nada interessada nesta segunda vida controlada por

comportamentos saudáveis.

; 4 é o nome de uma prática em que homens se encontram em orgias para

fazer sexo com outros homens sem camisinha.

De modo geral, o  4 é definido como o sexo anal


desprotegido entre homens que fazem sexo com homens de forma
intencional ainda que haja diferenças (e ambigüidades) quanto ao tipo
de vínculo e condição sorológica dos parceiros envolvidos. (Silva,
2009:320)

Os indivíduos que o praticam e não possuem o vírus tem conhecimento de que alguns

têm e gostariam de receber o que se chama de Gift (o presente que é o vírus da Aids). Neste

trabalho não me interessa fazer uma etnografia destas pessoas, sobre quem são e sua formação

psicossocial, mas de como, mesmo que se admita o risco eminente de pegar HIV dos

praticantes, a comunidade internacional LGBT e as ONG¶s de prevenção da Aids, com o

apoio das organizações mundiais de saúde, tentam remodelar o comportamento dos

18 ³o sexo bem vale a morte. É nesse sentido, estritamente histórico, como se vê, que o sexo hoje em dia é de
fato transpassado pelo instinto de morte´ (Foucault, 2006:170)

40
indivíduos conscientes de seu próprio prazer e sua própria vida. O que pode ser visto pelas

políticas públicas, e também pelas ONG¶s que por ser um tema atual reformulam os discursos

sobre o sexo e seus perigos.

A sociedade de controle rearticula o dispositivo da sexualidade, suas ações escapam as

construções disciplinares, o controle operado pela inclusão, atravessa discursos que mudam

não somente a disciplina do corpo, mas a maneira de pensar, de agir e sentir.

É esta reação da sociedade de controle, seus discursos e políticas públicas de saúde

frente a quem escapa das definições de saúde sexual que interessa analisar, pois traz um

discurso político, uma posição política atenta não à preservação da vida, mas a contenção dos

prazeres e a subjetivação e codificação destes controles sobre o sexo.

Este é um cuidado de si que não está interessado em prevenção de saúde, entende a

vida sem controles, se interessa pelo prazer de sentir outro corpo em pêlos. Neste sentido

; 4 pode escapar ao sexo limpo e seguro e produzir linhas de fuga, mas também

pode ser capturado, ser codificado.

Sobre o ; 4 é difícil falar, pois há uma escassez de produção bibliográfica,

fica a este trabalho uma inquietação sobre os limites, ou as possibilidades de novas

codificações.

O capitalismo tem um caráter muito particular: as suas linhas de fuga


não são apenas dificuldades que lhe sobreveem, são condições do seu
exercício. Ele constitui-se sobre uma descodificação generalizada de
todos os fluxos, fluxos de riqueza, fluxos de trabalho, fluxos de
linguagem, fluxos de arte, etc....Ele liga os pontos de fuga e distribui
antecipadamente. Alarga sempre os seus próprios limites, e tem
sempre de colmatar as novas fugas em novos limites. (Deleuze e
Guatarri, 2008: 339 e 340).

41
Talvez o ; 4 não seja um devir minoritário, e sim, simplesmente o

surgimento de uma nova maioria, mas é certo que a resistência desses jovens está no corpo,

não no discurso, em um corpo que não quer ser prevenido, preventivo. E que não liga para o

Estado: ³± Sinceramente, não me preocupo com essa questão e nem me sinto culpado. Não

estou nem aí em ser um ônus para o governo ± enfatiza R. H.´19

O ; 4 aparece enquanto resistência por meio do prazer em sentir outros

corpos: ³Contra o dispositivo da sexualidade, o ponto de apoio do contra-ataque não deve ser

o sexo-desejo, mas os corpos e os prazeres.´ (Foucault, 1996: 171)

Este sexo-prazer que coloca em xeque a vida, uma luta, como em um jogo, em que o

sexo e o instinto de morte jogam, em um ato bem consistente de não dizer nada a ninguém

sobre seu próprio prazer. É um saber de si, sua saúde (não aquela que o Estado proclama), seu

corpo, seu sexo.

19 Fonte: http://jbonline.terra.com.br/nextra/2009/01/03/e030115675.asp

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AIDS Acquired Immunodeficiency Syndrome


ABGLT Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais
APOGLBT Associação da Parada do Orgulho GLBT
CADS Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual
CID-10 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças
CTA Centro de Testagem e Aconselhamento
DSM-IV Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - Fourth Edition
GLS Gays, Lésbicas e Simpatizantes
GLBT Gays, Lésbicas, Bissexuais e Travestis e Transgêneros
LGBT Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros.


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