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A SOLIDARIEDADE CRISTÃ
2 Coríntios 8.1-15

A revista Veja (edição de 09/02/94), trouxe excelente reportagem sobre as ONGs


(Organizações Não Governamentais) que atuam no Brasil. São mais de 5.000
organizações comprometidas com causas solidárias voltadas especialmente para
ecologia, movimentos populares, direitos da mulher, preconceito racial, crianças
carentes, prevenção e tratamento da AIDS, índios, dentre outras.

O texto bíblico tomado por base para este estudo, também nos fala de solidariedade.
É preciso entender que o Evangelho de Cristo é essencialmente solidário, como
veremos no presente estudo.

Análise do texto
Conforme comentários da Bíblia Sagrada Edição Pastoral, referentes ao texto, no ano
48 houve grande fome na Judéia e em Jerusalém (At 11.28), por causa da colheita
fraca do ano precedente, que tinha sido sabático, no qual os judeus não semeiam,
para que a terra possa descansar.

Para atender à situação, organizou-se uma ajuda econômica em favor dos cristãos de
Jerusalém. Por isso, Paulo aconselha as Igrejas de Corinto e de sua província a
realizarem a coleta que já haviam decidido fazer (I Co 16.1-4). E salienta que essa
ajuda material é graça de Deus, muito maior para quem oferece do que para quem
recebe.

O texto nos apresenta, portanto, uma inspirativa mobilização solidária. O belo exemplo
dos cristãos da Macedônia e o próprio exemplo de Cristo, devem nos despertar para
atender às recomendações paulinas concernentes à solidariedade cristã.

1 - A SOLIDARIEDADE CRISTÃ VAI ALÉM DA MERA TEORIA


No versículo 11 Paulo anima os coríntios, dizendo: "completai agora a obra começada,
para que, assim como revelastes prontidão no querer, assim a leveis a termo.

Solidariedade é algo que não pode ficar apenas no discurso, no papel ou na intenção.
Teoria apenas não resolve; é preciso levar a termo a consciência da necessidade de
ação, transformando os sentimentos em atos e as intenções em realidade.

Atualmente, não é pequeno o número de pessoas que têm levantado a bandeira da


solidariedade, mas que, na verdade, falam muito e fazem pouco.

Alguns se autodenominam porta-vozes dos fracos e marginalizados, defensores dos


direitos humanos, defensores das minorias, chegam a integrar grupos e organizações
humanitárias e, no entanto, não saem da teoria.

Podem ser comparados aos fariseus que Jesus censura "porque dizem e não
fazem"(Mt 23.3). Costumam ter planos perfeitos, discursos inflamados e uma aparente
misericórdia, mas falta-lhes a ação. Felizmente nem todos são assim.

Há também demonstrações autênticas de solidariedade. A parábola descrita em Lucas


10.25-37 retrata muito bem esta realidade. É preciso distinguir dos oportunistas, as
pessoas verdadeiramente comprometidas com causas solidárias.

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Com certeza, entre as mais de 5.000 ONGs e as Igrejas que buscam promover a
solidariedade, há muita gente séria e consciente do compromisso. Numa alusão ao
texto bíblico, pode-se dizer que ainda há muitos "samaritanos". Será que é na
proporção de uma em cada três pessoas, como ocorre no texto?

2 - A SOLIDARIEDADE CRISTÃ OBEDECE ALGUNS CRITÉRIOS


BÁSICOS
Há alguns critérios que devem ser observados por aqueles que se sentem desafiados
e despertados para um viver solidário. As ideias contidas nos três itens subsequentes
são emprestadas do volume 1 de "Auxílios Homiléticos", produzido pela Secretaria de
Pastoral de Consolação e Solidariedade, do Conselho Latino-Americano de Igrejas
(CLAI).

Os critérios básicos que devem determinar a ação solidária são:

2.1. Conforme a voluntariedade


"Se há boa vontade, será aceita... "(v. 12). Paulo fundamenta este ato solidário na boa
vontade e prontidão dos macedônios em ajudar (v. 11). A voluntariedade dos
macedônios foi tão grande que insistiram na possibilidade de participar daquele ato
solidário (vv. 1-4).

2.2. Conforme a possibilidade


"Conforme o que o homem tem... "(v.12). Os macedônios estavam experimentando um
estado de profunda pobreza (v.2). Mas quando lhes foi colocada a situação dos irmãos
da Judéia, buscaram responder a essa necessidade deles de acordo com as suas
possibilidades (v.3). No versículo 11 Paulo apela aos Coríntios para que sejam
solidários conforme as suas posses. O que é ressaltado pelo apóstolo não é a quantia,
o valor da contribuição, mas a efetiva participação de cada um, fazendo o que está ao
seu alcance.

2.3. Conforme a necessidade


"Suprindo a vossa abundância... a falta daqueles"(x.\4). Diante da necessidade dos
crentes da Judéia, os macedônios abriram seus corações para suprir, fazendo de tal
forma que, ao participarem da coleta, estavam permitindo uma distribuição igualitária
dos recursos. A solidariedade considera não apenas quanto é possível dar, mas
também quanto é preciso dar.

A seguinte conclusão é apresentada pela referida publicação do CLAI: "O atendimento


solidário tem na voluntariedade a sua força motriz, na possibilidade o desprendimento
e a alegria, no atendimento da necessidade a igualdade estabelecida".

No desenvolvimento de nosso compromisso solidário devemos ser autênticos,


sensíveis e sinceros para conosco mesmos, observando sempre os critérios da
voluntariedade, da possibilidade e da necessidade. Observando estes critérios
básicos, a solidariedade será sempre viável e possível, e, certamente, atingirá o seu
fim maior como veremos no próximo tópico.

3 - A SOLIDARIEDADE CRISTÃ PROMOVE O IDEAL PERMANENTE DE


IGUALDADE
Nos versículos 13 a 15 é defendido claramente o ideal de igualdade. O assunto
focalizado no texto é a questão da pobreza que assolava a Judéia. Entretanto, a
igualdade promovida pela solidariedade não está restrita apenas ao problema exposto
no texto.

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Ela abrange toda a dimensão humana em seus variados aspectos. Portanto, o


compromisso solidário inclui a luta em favor dos segmentos oprimidos da sociedade,
tais como os negros, os índios, os sem-terra, as mulheres marginalizadas, os menores
carentes e tantos outros excluídos.

Com a afirmação de que a solidariedade cristã promove o ideal permanente de


igualdade, defendemos que a ação solidária não pode ser paliativa, isto é, de eficácia
apenas momentânea.

Ela visa estabelecer uma condição de vida estável marcada pela dignidade, onde não
há lugar para discriminação, prepotência, apatia e opressão. Esta é a idéia semeada
pela Campanha coordenada pelo sociólogo Herbert de Souza intitulada: "Ação da
Cidadania contra a Miséria e pela Vida".

A preocupação não é apenas matar a fome e combater a miséria, mas acima de tudo,
promover a dignidade da vida humana, cujo sinal comprobatório é a igualdade.

Conforme o ensino de Jesus em Lucas 22.24-30, o Reino de Deus é lugar de


igualdade. Na proposta de Jesus, este ideal é tão desafiante quanto simples: "o maior
entre vós seja como o menor"(Lc 22.26). Naturalmente, a encarnação deste ideal fará
com que o maior não seja tão grande e o menor tão pequeno.

Em sua pregação, João Batista desafiava as multidões à prática da solidariedade que


promove a igualdade (Lc 3.10-14).

Os primeiros cristãos perceberam logo a viabilidade desta proposta; o ideal de


igualdade foi implantado e, como consequência, "nenhum necessitado havia entre
eles... "(At 4.32- 35).

Vivendo em uma sociedade que advoga o modo de vida individualista, o consumismo


insaciável, a insensibilidade diante dos problemas sociais e a substituição da realidade
pela fantasia, o cristão é desafiado a valorizar o ser humano.

É preciso demonstrar solidariedade de forma prática, criteriosa e idealista, pois os


clamores têm sido grandes e não há mais o que esperar.

AUTOR: REV. ENEZIEL PEIXOTO DE ANDRADE

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