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LONGE DESTE INSENSATO MUNDO

Thomas Hardy
Copyright © 2016 by Pedrazul Editora Ltda.

Todos os direitos reservados à Pedrazul Editora.

Texto adaptado à nova ortografia da Língua Portuguesa, Decreto n° 6.583, de


29 de setembro de 2008.

Direção Geral: Chirlei Wandekoken

Direção de arte: Eduardo Barbarioli

Tradução: Ellen Bussaglia

Revisão ortográfica: Lavínia Pinto

Comissão voluntária de capa: Bruno José Loureiro, Fernanda Huguenin


e Marcia Bock Belloube.

Reservados todos os direitos desta tradução e produção. Nenhuma parte


desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia, microfilme, processo
fotomecânico ou eletrônico sem permissão expressa da Pedrazul Editora,
conforme Lei n° 9610 de 19/02/1998.

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www.pedrazuleditora.com.br
Tradução: Ellen Bussaglia

Edição dedicada a Tamires de Carvalho, de Patrocínio do Muriaé – MG.


Prefácio Original

Ao reimprimir uma nova edição de Longe Deste Insensato Mundo,


aventurei-me a adotar o nome “Wessex”, do início da História inglesa, e dar a
ele um significado fictício para o nome da região que fizera parte daquele
reino extinto. De alguma forma, a série de romances que criei parecia
necessitar de um território para dar harmonia ao cenário. Como uma região
de um único condado não era suficiente para este propósito e, haveria
objeções para um nome inventado, desenterrei um antigo. A imprensa e o
público foram bondosos ao receber o plano e juntaram-se prontamente a mim
no anacronismo de imaginar uma população de Wessex[1] que vivia sob a
rainha Victoria. Uma Wessex moderna, com trens e bancos; segadeiras e
colheitadeiras; sindicatos, caixas de fósforos, trabalhadores que sabiam ler,
escrever e as crianças da National school. Mas acredito que estou certo ao
afirmar que, até que a existência desta Wessex contemporânea fosse
anunciada no romance atual, em 1874, nunca se ouviu falar que as expressões
“um camponês de Wessex” ou “um hábito de Wessex” fossem usadas
referindo-se a alguma coisa depois da conquista da Normanda.

Não previ que este emprego da palavra num uso moderno se estenderia
para fora dos capítulos dos meus próprios romances. Mas o nome logo foi
elevado como uma designação local por toda parte. O primeiro a fazer tal
coisa foi o agora extinto Examiner, o qual, na publicação de 15 de julho de
1876, intitulou um de seus arquivos como: “O Trabalhador de Wessex”, que
não se tornou nenhuma dissertação sobre agricultura durante a Heptarquia,
mas sobre o camponês moderno dos condados do sudoeste e a apresentação
dele nestas histórias.

Desde então, a denominação que eu achava que se reservava aos


horizontes e paisagens de uma mera terra imaginária realística, tornou-se
cada vez mais popular como uma definição útil; e a terra imaginária foi, aos
poucos, solidificando-se numa região funcional, em que as pessoas podiam
visitar, comprar uma casa e de onde podiam escrever para os jornais. Mas eu
peço a todos os bons e gentis leitores que façam o favor de esquecer isso e se
recusar firmemente a acreditar que existiu algum habitante de uma Wessex
vitoriana fora das páginas deste e dos outros volumes nos quais eles foram
descobertos pela primeira vez.

Além disso, a vila chamada de Weatherbury,[2] na qual a maior parte das


cenas da presente história se passa, talvez fosse dificilmente reconhecida por
quem a explora ultimamente, sem auxílio em qualquer parte, embora naquela
época, comparativamente recente, quando o conto foi escrito, real o bastante
para encontrar as descrições, tanto de panos de fundo como de personagens
que devem ter sido facilmente traçados. A igreja permanece, por muita sorte,
sem reforma e intacta, e também algumas das casas antigas, mas a velha
cervejaria, que era tão característica da paróquia, foi demolida há uns vinte
anos, e também muitos dos chalés com telhados de palha e sótãos que um dia
foram lares. O jogo do prisioneiro, que até pouco tempo parecia desfrutar de
uma vitalidade jovial parece, pelo que posso observar, ser completamente
desconhecido pela crescente geração de meninos em idade escolar de lá. A
prática de devoção à Bíblia e aos códigos, a consideração aos cartões de Dia
dos Namorados como algo de grande significado, a comunhão e a celebração
da colheita também quase desapareceram no rastro das antigas casas. E com o
desaparecimento delas, acredita-se que muito do amor à bebedeira pelo qual a
vila fora popularmente propensa também se perdeu. A mudança na origem
disso foi a recente suplantação da classe de trabalhadores rurais fixos que
reclamavam das tradições e brincadeiras locais por uma população de
trabalhadores mais ou menos migratórios, o que levou a uma ruptura na
continuidade da história local, mais fatal do que qualquer outra coisa para a
preservação da lenda, do folclore, das relações intersociais próximas e
individualidades excêntricas. Para isso, as condições indispensáveis de
existência estão presas ao solo num ponto particular de geração a geração.

Thomas Hardy. Fevereiro de 1895.


CAPÍTULO I
A Descrição de Farmer Oak – Um Incidente

Quando o Fazendeiro Oak sorria, os cantos de sua boca estendiam-se até


bem perto de suas orelhas, seus olhos se reduziam a fendas estreitas e
apareciam rugas em volta deles, espalhando-se por seu semblante como os
raios de um desenho rudimentar do sol nascente.

Seu nome de batismo era Gabriel, e nos dias de trabalho ele era um jovem
íntegro, de movimentos calmos, vestimentas apropriadas e bom caráter. Aos
domingos, era um homem de aspecto vago, dado a procrastinar, atrapalhado
por suas melhores roupas e seu guarda-chuva: no geral, sentia que deveria
ocupar moralmente o vasto espaço de neutralidade laudiceia que ficava entre
as pessoas da comunhão da paróquia e da seção dos bêbados, ou seja, ele ia à
igreja, mas bocejava discretamente quando a congregação chegava à parte do
credo niceno e pensava no que havia para o jantar quando devia estar ouvindo
o sermão. Ou, para afirmar seu caráter para a opinião pública, quando seus
amigos e críticos estavam furiosos, ele se considerava um homem mau;
quando estavam alegres, ele era bom; quando não estavam nem uma coisa
nem outra, ele era aquele homem, cuja cor de sua moral era como a de uma
mistura de sal e pimenta.

Exceto nos domingos no qual ele não trabalhava, Oak tinha seis dias de
trabalho, portanto, sua aparência em suas roupas velhas era mais
peculiarmente a dele próprio, e seus vizinhos se acostumaram a vê-lo sempre
vestido daquele jeito. Usava uma meia cartola de feltro enterrada em sua
cabeça, por segurança contra os ventos fortes, e um casaco parecido com o do
escritor Dr. Johnson. Suas pernas ficavam encaixadas em calças de couro
comuns, e botas enfaticamente grandes, dando aos pés espaço suficiente para
que quem as usasse pudesse ficar um dia inteiro num rio e nem perceber a
umidade. Quem as fizera fora um homem consciente, que se empenhava para
compensar qualquer fragilidade no seu corte com dimensões e solidez
abundantes.

Mr. Oak carregava consigo um relógio de pulso de prata. Em outras


palavras, era um relógio no formato, na intenção e pequeno no tamanho. Este
instrumento que era muitos anos mais velho do que seu avô, tinha a
peculiaridade de ficar muito adiantado ou de não funcionar. O ponteiro
menor ocasionalmente também escapava do pivô e assim, embora os minutos
fossem mostrados com precisão, não se podia dizer exatamente a que hora
eles pertenciam. Mr. Oaks remediava a peculiaridade de seu relógio parado
com pancadas e chacoalhadas, e escapava de qualquer consequência
desastrosa de outros defeitos: o de deduções constantes, da observação do sol
e das estrelas, bem como o de pressionar o rosto nas vidraças dos vizinhos até
que pudesse decifrar a hora marcada no visor verde do relógio lá dentro.
Poder-se-ia dizer que o bolsinho do relógio era de difícil acesso por causa da
situação do cós de suas calças (que também ficava a uma remota altura de seu
colete). Tirá-lo do bolso requereria esforço, como jogar o corpo para um lado,
comprimir a boca e o rosto para puxá-lo pela corrente como se faz com um
balde de um poço.

Mas algumas pessoas mais atentas, que o viram atravessando um de seus


campos numa certa manhã de dezembro ensolarada e extraordinariamente
agradável, podiam julgar Gabriel Oak por aspectos diferentes. Era possível
notar em seu rosto que os muitos tons e linhas de sua juventude haviam
permanecido em sua fase adulta: até mesmo algumas de suas lembranças de
infância permaneceram em suas mais remotas rugas. Sua altura e estrutura
seriam suficientes para que sua presença fosse notada, se não fossem exibidas
com a devida consideração. Mas há um costume que alguns homens têm,
tanto os do campo como os urbanos, que o intelecto é mais importante do que
carne e músculos: o costume de reduzir suas dimensões pela forma como as
mostra. Oak era de uma modéstia silenciosa que se chamaria casta e não
lutava por seu lugar no mundo. Caminhava despretensiosamente e curvado,
mas ainda distinto, embora com seus ombros fossem caídos. Isso poderia ser
considerado um defeito num indivíduo se ele esperasse maior
reconhecimento por sua aparência do que por sua capacidade de estar em
boas condições, o que para Oak não era assim.
Acabara de chegar naquele ponto da vida em que “jovem” estava
deixando de ser o adjetivo para “homem” ao se referirem a um. Estava no
período mais brilhante do crescimento masculino, com seus intelectos e
emoções claramente separadas. O tempo no qual a influência da juventude
indiscriminadamente se misturava à impulsividade havia passado, e ainda não
havia chegado à fase em que elas se uniam novamente, pela ingerência de
uma esposa ou da família. Resumindo, estava com vinte e oito anos e
solteiro.

O campo onde ele estava estendia-se até uma serrania chamada


Norcombe Hill. Entretanto, um dos espigões do morro cortava a estrada entre
Emminster e Chalk-Newton. Olhando casualmente sobre a cerca, Oak viu no
declive à sua frente uma carroça pintada de amarelo, adornada vivamente,
puxada por dois cavalos e um condutor que caminhava ao lado levando um
chicote perpendicularmente. A carroça estava carregada de utensílios
domésticos, floreiras para janelas e no ponto mais alto, uma mulher jovem e
atraente estava sentada. Gabriel não havia observado por mais de meio
minuto quando o veículo parou bem em frente aos seus olhos.

“A tampa traseira da carroça caiu, Miss”, disse o condutor.

“Eu ouvi cair”, comentou a moça, numa voz suave, mas não
particularmente baixa. “Ouvi um barulho que não pude identificar quando
estávamos subindo o morro.”

“Voltarei correndo.”

“Vá”, ela respondeu.

Os cavalos obedientes pararam, imóveis, e os passos do condutor ficaram


cada vez mais fracos com a distância.

A moça no topo da carga estava sentada sem se mover. Cercada por


mesas e cadeiras com as pernas para cima, ela encostava-se a um baú de
carvalho ornamentado à sua frente por vasos de gerânios, murtas e cactos, ao
lado de um canário preso numa gaiola, provavelmente tudo que estava numa
das janelas da casa recém-desocupada. Havia também uma gata dentro de um
cesto, que olhava com olhos semicerrados através da tampa entreaberta, e
examinava carinhosamente os passarinhos ao redor.

A bela moça esperou por algum tempo ociosamente em seu lugar e o


único som que se ouvia naquele silêncio era o canário pulando para cima e
para baixo nos poleiros de sua prisão. Olhou então atentamente para baixo.
Não foi para o pássaro e nem para a gata, foi para um pacote longo
embrulhado com papel caído entre os objetos. Virou a cabeça para ver se o
condutor estava vindo. Ele ainda não podia ser visto, seu olhar, entretanto,
voltou-se para o pacote e seus pensamentos pareciam mergulhados no que
haveria dentro dele. Depois de algum tempo, puxou o objeto para seu colo e o
desembrulhou: um pequeno espelho móvel apareceu, no qual ela tratou de
observar-se atentamente. Seus lábios se abriram e sorriram.

Era uma bonita manhã e o sol dava um brilho escarlate ao casaco


carmesim que ela usava e iluminava suavemente seu rosto claro e seus
cabelos escuros. As murtas, os gerânios, os cactos amontoados ao redor dela,
frescos e verdes – e numa estação tão seca – davam aos cavalos, à carroça, à
mobília e à moça um encanto juvenil peculiar. O que a levava a tolerar de tal
maneira a visão de pardais, melros e um fazendeiro despercebido que eram os
únicos espectadores? O porquê do sorriso que começou artificial como se
testasse a capacidade dela naquela arte, ninguém sabe. Certamente, terminou
num sorriso verdadeiro. Ela corou, e ao ver seu reflexo corado no espelho,
corou ainda mais.

A mudança do local de costume e a ocasião necessária de tal ato, da hora


de vestir-se no quarto até a hora de ir embora, deu ao ato inútil uma novidade
que ele não possuía intrinsecamente. O quadro era delicado. A fraqueza
feminina consagrada era espreitada à luz do sol, vestida de frescor e
originalidade. Uma conclusão céptica era irresistível para Gabriel Oak
enquanto observava a cena, curioso, porém contente. Não havia necessidade
alguma para que ela se olhasse no espelho. Não arrumou seu chapéu, ou
mesmo ajeitou seu cabelo ou um cacho, qualquer coisa que justificasse tal
intenção que fosse o motivo para que ela pegasse o espelho. Apenas olhou
para si mesma como uma bela obra da natureza na forma feminina. Seus
pensamentos pareciam voar para bem longe, como se imaginasse em
episódios os quais os homens tinham seu papel, perspectivas de prováveis
triunfos, um sorriso que sugeria que corações podem ser perdidos ou
encontrados. Ainda assim, nada mais eram do que conjecturas.

Ouviram os passos do condutor retornando. Ela colocou o espelho no


pacote e tudo de volta em seu lugar.

Quando a carroça já havia passado, Gabriel saiu de seu local de vigia e,


descendo pela estrada, seguiu o veículo até o acesso para a rodovia, um
pouco além do pé do morro, onde o objeto de sua contemplação agora estava
parado para o pagamento do pedágio. Restava cerca de vinte passos entre ele
e o acesso quando ouviu uma discussão. Era sobre uma diferença de dois
centavos entre os que estavam na carroça e o cobrador.

“A sobrinha da minha patroa está lá em cima e disse que é só o que posso


oferecer, senhor, e ela não vai pagar mais nada.” Estas foram as palavras do
condutor.

“Muito bem! Então a sobrinha da sua patroa não pode passar”, disse o
guarda da entrada fechando o portão.

Oak olhou para os dois que discutiam e sentiu-se num sonho. Dois
centavos eram realmente insignificantes. Três centavos era um valor maior,
uma violação considerável nos valores atuais e, como tal, uma questão de
pechinchar.

“Aqui está”, disse ele, aproximando-se e entregando dois centavos ao


guarda. “Deixe a jovem passar.” Olhou então para ela, que ouviu as palavras
dele e olhou para baixo.

A fisionomia de Oak transformou-se na linha entre a beleza de São João e


a feiura de Judas Escariotes, como eram representadas num vitral da igreja
que ele frequentava, que nem um único contorno podia ser escolhido e
considerado nem por distinção nem por notoriedade. A moça de casaco
vermelho e cabelos escuros parecia achar a mesma coisa, pois olhou-o
vagamente e mandou que seu empregado seguisse em frente. Ela deve ter
pensado em agradecer Gabriel no minuto seguinte, mas não disse nada.
Provavelmente, ela não sentiu nada, pois ao conseguir passar, ela teve o que
queria, e todos sabem como as mulheres recebem um favor destes.
O guarda observou o veículo que passava.

“É uma moça muito bonita”, disse ele a Oak.

“Mas tem seus defeitos”, comentou Gabriel.

“É verdade, fazendeiro.”

“E o maior deles é — bem, o de sempre.”

“Regatear? Sim, é mesmo.”

“Ah, não.”

“O que é, então?”

Gabriel, talvez um pouco ressentido pela indiferença da viajante, olhou


para onde havia testemunhado a atuação dela pela cerca e disse:

“Vaidade.”
CAPÍTULO II
A NOITE—O REBANHO—UM INTERIOR—
OUTRO INTERIOR

Era quase meia-noite da véspera do dia de São Tomaz, o dia mais curto do
ano. Um vento desolador cortava do norte por cima do morro de onde Oak
havia visto a carroça amarela e sua ocupante sob a luz do sol alguns dias
antes.

Norcombe Hill, não muito longe da solitária Toller-Down, era um dos


pontos que sugerem aos passantes que estão na presença de algo se
aproximando do indestrutível, o mais perto que se pode encontrar na terra.
Era uma convexidade de calcário e matéria orgânica, comum daquelas
protuberâncias suavemente delineadas do globo, que podem permanecer
inabaladas num dia de grande confusão, quando granitos muito maiores e
desorientados rolam.

O morro era coberto ao norte por uma plantação antiga e decadente de


faias, das quais a borda mais alta formava uma linha acima do cume,
enfeitando sua curvatura contra o céu como uma juba. À noite, estas árvores
abrigavam a descida ao sul das mais violentas rajadas de vento, as quais
atingiam a mata e debatiam-se por ela com um som parecido com um rosnado
ou corriam pelos galhos das copas num gemido fraco. As folhas secas na vala
agitavam-se nas mesmas brisas, uma língua de ar que, ocasionalmente
desentocava algumas fazendo-as girar sobre a grama. Um ou dois grupos das
que restavam entre as mortas, permaneciam até os meados do inverno nos
ramos que as sustentavam, e caiam ruidosamente contra os troncos com
pancadas agudas.
Entre este morro meio arborizado, meio nu e o horizonte vago e calmo
que este ponto mais alto dominava indistintamente, havia uma faixa de
sombra impenetrável, cujos sons sugeriam que aquilo que ocultavam
carregava alguma lembrança reduzida das características dali. O capim fino,
cobrindo parcialmente o morro, era tocado pelo vento em brisas de diferentes
intensidades e quase de diferentes naturezas, que uma esfregava as folhas
violentamente, outra que as torturava agudamente, outra que as varria como
uma vassoura macia. O ato instintivo de humanidade estava em parar, escutar
e aprender como as árvores à esquerda choravam ou cantavam entre si em
cânticos comuns ou coros de catedrais; como as cercas-vivas e outras formas
pegavam o ritmo, baixando-o ao soluço mais suave; e como a rajada mais
rápida caia repentinamente para o sul para não ser mais ouvida.

O céu estava claro, extremamente claro, e o brilho de todas as estrelas


parecia não ser mais do que batimentos de um corpo, marcado por um pulsar
comum. A Estrela Polar ficava diretamente no olho do vento, e desde o
anoitecer a Ursa pairava ao redor dela externamente para o leste, até que
formasse um ângulo reto com o meridiano. Uma diferença de cores nas
estrelas, mais frequentemente lida do que vista na Inglaterra, era perceptível
aqui. O brilho soberano da Sirius atingia os olhos com um brilho metálico, a
estrela chamada Capella era amarela, Aldebarã e Betelgeuse brilhavam com
um vermelho ardente.

Para as pessoas que ficam sozinhas num morro numa noite clara como
esta, a rotação do planeta é quase um movimento palpável. A sensação pode
ser causada pelo voo panorâmico das estrelas sobre os objetos terrenos, o
qual é perceptível em alguns minutos de imobilidade, ou pela perspectiva
melhorada do espaço que o morro proporciona, pelo vento ou pela solidão.
Mas qualquer que seja a sua origem, a impressão do movimento é vívida e
duradoura. A poesia do movimento é uma expressão muito usada, e para
apreciar a forma épica de tal gratificação é necessário passar algum tempo
num morro à noite e, depois de expandir-se com um senso de diferença da
massa da humanidade civilizada, que está presa em sonhos e indiferente a tais
métodos nesta hora, observar demorada e silenciosamente seu progresso
grandioso através das estrelas. Após tal exploração noturna, é difícil voltar a
terra e acreditar que a consciência de tanta velocidade majestosa é derivada
de uma estrutura humana minúscula.
De repente, uma inesperada série de sons foi ouvida neste lugar alto
contra o céu. Eram de uma clareza que não podia ser encontrada em parte
alguma do vento, e uma sequência que não podia ser encontrada em parte
alguma da natureza. Eram as notas da flauta do fazendeiro Oak.

O som não flutuava livremente ao ar livre, parecia amortecido de alguma


forma, e também estava muito reduzido para espalhar-se. Vinha da direção de
um objeto pequeno e escuro da cerca-viva da fazenda: a cabana de um pastor,
agora apresentando um contorno no qual alguém mal informado ficaria
intrigado para atribuir um significado ou utilidade.

A imagem num todo era de uma pequena arca de Noé sobre um pequeno
monte Ararat, permitindo que os contornos tradicionais e a forma da arca,
que são seguidos por fabricantes de brinquedos, cujos significados são
definidos na imaginação dos homens, para passar como um modelo
aproximado. A cabana ficava sobre pequenas rodas, as quais se erguiam do
piso cerca de um pé do chão. Tais cabanas de pastores são arrastadas pelos
campos quando chega a época do nascimento das ovelhas, para abrigar os
pastores na assistência noturna forçada.

Recentemente, as pessoas começaram a chamar Gabriel de “Fazendeiro”


Oak. Durante os doze meses anteriores ele fora capacitado por esforços
assistidos e por espíritos benevolentes a arrendar uma pequena fazenda de
ovelhas, na qual Norcombe Hill fazia parte, e provê-la com duzentas ovelhas.
Anteriormente, ele fora um administrador de propriedades por um curto
período de tempo, e antes disso fora apenas um pastor, que na infância
observara o pai pastorear os rebanhos de grandes proprietários até que o
velho Gabriel falecesse.

Este risco, sem auxílio e solitário, nos caminhos agrários como mestre e
não como homem, com um adiantamento de ovelhas que ainda não fora pago,
era um momento crítico para Gabriel Oak e ele reconhecia claramente sua
situação. O primeiro movimento em seu novo progresso era a cria de suas
ovelhas, e como era sua especialidade desde a juventude, ele sabiamente
evitou confiar a tarefa de cuidar delas nesta temporada a um interesseiro ou a
um aprendiz.

O vento continuava a bater nos cantos da cabana, mas a flauta parou de


tocar. Um espaço retangular de luz apareceu ao lado dela e pela abertura via-
se o contorno da imagem do fazendeiro Oak. Trazia uma lanterna na mão e,
fechando a porta atrás dele, aproximou-se e ocupou-se com o canto do campo
por quase vinte minutos. A luz da lanterna aparecia e sumia aqui e ali,
iluminando-o ou encobrindo-o quando ele ficava na frente ou atrás dela.

Os movimentos de Oak, embora tivesse uma energia silenciosa, eram


lentos, e a prudência deles combinava bem com sua profissão. A boa
condição física como base da beleza, ninguém podia negar que seus giros e
voltas firmes, no meio e ao redor do rebanho, possuíam elementos graciosos.
Ainda, embora a ocasião exigisse que pudesse agir ou pensar num traço tão
vivo como fazem os homens da cidade, seu poder especial moral, física e
psicologicamente era estático, tendo pouca ou nenhuma força como regra.

Um exame cuidadoso do solo nas redondezas, mesmo que apenas sob a


luz das estrelas, revelaria como uma porção do que casualmente se chamaria
de declive selvagem era apropriado para o grande propósito do fazendeiro
Oak neste inverno. Cercas isoladas cobertas com palha ficavam presas ao
chão em vários pontos espalhados, no meio e debaixo dos quais as figuras
esbranquiçadas das ovelhas mansas andavam e baliam. O toque do guizo das
ovelhas, que ficaram em silêncio durante a ausência dele, recomeçou em tons
que tinha mais doçura do que clareza, devido ao aumento da lã em volta dele.
Aquilo continuou até que Oak deixasse o rebanho. Voltou para a cabana
carregando um cordeiro recém-nascido, com quatro patas longas o bastante
para uma ovelha adulta, unidas por uma membrana aparentemente sem
importância, de quase metade da parte principal das pernas que constituía
todo o corpo do animal naquele momento.

Colocou o pequeno ser sobre um punhado de feno na frente de um


pequeno fogão, onde uma leiteira com leite fervia. Oak assoprou a lanterna
para apagá-la e depois apertou o pavio, ficando o abrigo iluminado por uma
vela suspensa num arame retorcido. Um sofá bem duro, feito com alguns
sacos de milho espalhados com descuido cobria metade do chão daquela
pequena habitação, e ali o rapaz se esticou, afrouxou seu cachecol de lã e
fechou os olhos. Enquanto uma pessoa que não estava acostumada com
trabalho braçal pensasse para qual lado se viraria, o fazendeiro Oak já havia
adormecido.
O interior da cabana, como se apresentava agora, era confortável e
fascinante, e a porção escarlate do fogo junto com a vela, refletindo sua
própria cor genial por onde pudesse alcançar, lançava reflexos de
contentamento até mesmo sobre os utensílios e ferramentas. O cajado ficava
no canto, e ao longo de uma prateleira de um lado estavam enfileiradas
garrafas e vasilhas para preparos simples para cuidados e cirurgias em
ovinos; soluções alcoólicas de vinho, terebintina, alcatrão, magnésia,
gengibre e óleo de rícino eram os principais. Numa prateleira triangular de
frente para o canto ficavam pão, toucinho, queijo e uma xícara para cerveja
ou cidra, que era guardada num jarro na parte de baixo. Além dos
mantimentos havia a flauta, cujas notas eram tocadas pelo observador
solitário para passar o tempo de tédio. A casa era ventilada por dois buracos
redondos como as luzes da cabine de um navio, com duas vidraças de
madeira.

O cordeiro, reavivado pelo calor, começou a balir, e o som penetrou nos


ouvidos e no cérebro de Gabriel com um significado instantâneo, como
acontecem com os sons esperados. Passando do sono mais profundo para o
despertar mais alerta com a mesma facilidade que acompanhara a operação
inversa, ele olhou para o seu relógio, percebeu que o ponteiro das horas havia
caído outra vez, colocou seu chapéu, tomou o cordeiro nos braços e carregou-
o na escuridão. Depois de colocar a pequena criatura com a mãe, levantou-se
e examinou o céu cuidadosamente para ter certeza da hora pelas altitudes das
estrelas.

As estrelas Canis e Aldebarã, apontadas para a inquieta Plêiades, estavam


no meio do caminho acima do céu do sul e entre elas estava Orion, cuja bela
constelação nunca brilhou tão vividamente como agora, ao flutuar sobre a
borda da paisagem. Castor e Pollux, com seu brilho calmo, estavam quase
sobre o meridiano: o quadrado de Pégaso sem graça e escuro arrastava-se
pelo noroeste; distante nos campos, Vega brilhava como uma lâmpada
suspensa entre as árvores desfolhadas e o trono de Cassiopeia aparecia
pomposo na parte mais alta dos galhos.

“Uma hora”, disse Gabriel.

Por ser um homem sem a consciência frequente de que havia um encanto


na vida que levava, ficou quieto olhando o céu como algo útil e com espírito
apreciativo, como uma obra de arte extremamente bela. Por um momento,
parecia impressionado com a solidão eloquente da cena, ou com completa
abstração de todo o seu compasso, do que os homens viam e ouviam. Formas
humanas, interferências, problemas e alegrias, eram como se não fossem
nada. Podia imaginar tudo do lado ensolarado.

Assim ocupado, olhando para longe, Oak gradativamente percebeu que o


que havia pensado ser uma estrela distante na plantação era na verdade outra
coisa. Era uma luz artificial, quase ao alcance da mão.

Encontrar-se totalmente só à noite onde espera-se e deseja-se ter


companhia deixa algumas pessoas com medo, mas um caso muito mais
aterrorizante é descobrir companhias misteriosas quando a intuição, a
sensação, a memória, a analogia, o testemunho, a probabilidade, a indução,
todo tipo de evidência na lista da lógica de alguém, unem-se para persuadir a
percepção de que se está quase em isolamento.

O fazendeiro Oak caminhou em direção à lavoura e afastou os galhos


mais baixos para o lado onde ventava. Uma massa espessa sob a rampa
lembrou-o de que um estábulo ocupava aquele lugar, cortado pela descida do
morro, assim a parte de trás do telhado ficava quase que no mesmo nível do
chão. A frente era pregada com tábuas e coberta com alcatrão para que fosse
conservada. Pelas fendas no telhado e na lateral saiam raios e pontos de luz,
cuja combinação formou a luminosidade que o atraiu. Oak deu um passo para
trás, onde, debruçando-se sobre o telhado e colocando o olho perto de um
buraco, pôde ver o interior claramente.

Duas mulheres e duas vacas estavam no local. Ao lado das vacas havia
um balde com farelo ensopado quente. Uma das mulheres tinha idade
avançada. Sua companheira era aparentemente jovem e graciosa. Ele não
podia ter certeza da aparência dela, pois estava quase debaixo do olho dele,
tendo assim uma visão parcial dela, como quando o Satanás de Milton viu o
Paraíso em O Paraíso Perdido. Ela não usava nenhum tipo de chapéu, mas
estava enrolada numa capa grande, que cobria descuidadamente sua cabeça.

“Bem, agora vamos para casa”, disse a mais velha delas, passando os
dedos sobre os lábios e olhando para todas as coisas que fizeram. “Espero
que Daisy melhore. Nunca estive com tanto medo na vida, mas não me
incomodo de interromper o meu descanso para que ela se recupere.”

A jovem, cujas pálpebras aparentemente se fechariam à menor


provocação do silêncio, bocejou abrindo a boca de maneira inconveniente,
enquanto Gabriel foi contagiado e bocejou em retribuição.

“Gostaria que fôssemos ricas o bastante para pagar um homem para fazer
estas coisas”, declarou ela.

“Como não somos, temos que fazê-las nós mesmas”, comentou a outra;
“por isso você deve me ajudar.”

“Bem, já perdi meu chapéu”, continuou a mais nova. “Acho que voou
pela cerca. Um vento deve tê-lo levado.”

A vaca que estava em pé era da raça Devon e estava com uma rica
proteção vermelha indiana que a aquecia, absolutamente uniforme da cabeça
à cauda, como se o animal fosse tingido, e seu longo dorso foi
matematicamente nivelado. A outra era malhada de cinza e branco. Oak
notou ao lado dela um pequeno bezerro de cerca de um dia, parecendo
perdido entre as duas mulheres, mostrando que não estava acostumado ao
fenômeno que via, olhando o tempo todo para a lanterna, que aparentemente
confundia com a lua, um instinto herdado que ainda tinha pouco tempo para
corrigi-lo com a experiência. Entre as ovelhas e as vacas, Lucina, a deusa dos
partos, estivera ocupada em Norcombe Hill ultimamente.

“Acho que devemos mandar buscar um pouco de aveia”, observou a


mulher mais velha. “Não há muito farelo.”

“Sim, titia, irei atrás disso assim que o dia raiar.”

“Mas não temos um silhão[3].”

“Posso cavalgar com a outra. Confie em mim.”

Ao ouvir estes comentários, Oak ficou mais curioso para observar a


imagem dela, mas sua visão era impedida pelo efeito da capa que cobria a
cabeça da moça como um capuz, e pela posição aérea dele. Mas se viu
tentando descobrir os detalhes de sua aparência. Para criar uma visão,
colorimos e modelamos de acordo com nossos desejos íntimos o que quer
que nossos olhos nos traga. Se Gabriel pudesse ver distintamente o semblante
dela desde o início, sua avaliação seria de que fosse muito ou levemente
bonita, pois sua alma suplicava por uma divindade naquele momento, ou já
esperava por uma. Depois de satisfazer seu desejo de um semblante
satisfatório para preencher uma lacuna crescente dentro dele, além de sua
posição que obtinha um campo mais amplo para sua fantasia, ele definiu-a
como bela.

Por uma daquelas coincidências caprichosas na qual a Natureza, como


uma mãe ocupada, parece separar um momento em meio a seu trabalho
incessante para fazer seu filho sorrir, a moça jogou a capa e puxou mechas de
cabelos negros sobre o casaco vermelho. Oak reconheceu-a imediatamente
como a heroína da carroça amarela, as murtas e o espelho: prosaicamente,
como a mulher que lhe devia dois centavos.

Elas colocaram o bezerro ao lado da mãe novamente, pegaram a lanterna


e saíram, descendo pelo morro, iluminadas por uma tênue luz, até que não
fosse mais do que uma nebulosidade. Gabriel Oak retornou para seu rebanho.
CAPÍTULO III
UMA MOÇA A CAVALO — CONVERSA

O dia vagaroso começou a raiar. Mas a simples chegada da moça lhe


trouxera interesse, não que houvesse algum motivo em particular, mas a parte
do incidente da noite anterior que ocorrera ali, levara Oak mais cedo para a
lavoura. Demorando-se e meditando, ouviu o barulho de um cavalo no pé do
morro, e logo pôde avistar um pônei castanho-avermelhado montado por uma
moça, subindo pelo caminho que levava ao estábulo do gado. Era a jovem da
noite anterior. Gabriel imediatamente pensou no chapéu que ela disse ter
perdido no vento; ela provavelmente o estava procurando. Ele procurou
apressadamente na valeta e depois de andar mais ou menos dez jardas,
encontrou-o entre as folhas. Pegou-o e voltou para sua cabana. Sentou-se ali e
observou por uma brecha na direção da amazona que se aproximava.

Ela se chegou mais perto e olhou ao redor, depois para o outro lado da
cerca. Gabriel estava para ir até ela e devolver o item perdido quando um
movimento inesperado o levou a suspender sua ação. O caminho dividia-se
em dois depois do estábulo. Não era uma estrada para cavalgar, era uma
simples trilha e os galhos espalhavam-se horizontalmente não muito mais alto
do que sete pés do chão, o que impossibilitava cavalgar ereto por baixo deles.
A moça, que não usava trajes de montaria, olhou ao seu redor por um
instante, como que para certificar-se de que toda a humanidade não estava à
vista, e então deitou-se de costas com destreza sobre o pônei, com a cabeça
sobre a cauda, os pés sobre os ombros e os olhos voltados para o céu. A
rapidez de seu deslizar naquela posição era como a de um martim-pescador e
o silêncio de uma águia. Os olhos de Gabriel quase não conseguiram
acompanhá-la. O pônei alto e delgado parecia acostumado a tais atos e
continuou despreocupado a passos lentos. Assim, ela passou por debaixo dos
galhos.

A acrobata parecia à vontade em qualquer parte entre a cabeça e a cauda


do cavalo, e a necessidade daquela atitude anormal acabou ao passar pela
lavoura e ela adotou outra, obviamente mais conveniente do que a primeira.
Ela não tinha um silhão e estava claro que um assento firme sobre o couro
macio debaixo dela estava inacessível de ambos os lados. Ajeitou-se
perpendicularmente como uma árvore curvada e convencendo-se de que não
havia ninguém à vista, sentou-se do jeito apropriado na sela, embora não
fosse o esperado para uma mulher e galopou na direção de Tewnell Mill.

Oak estava admirado, talvez um pouco estupefato, e pendurando o chapéu


em sua cabana, foi para junto de suas ovelhas outra vez. Uma hora se passou
e a moça retornou, agora sentada apropriadamente, com um saco de farelo na
sua frente. Aproximando-se do estábulo do gado, foi recebida por um rapaz
que trazia um balde para ordenha, que recolheu as rédeas do pônei enquanto
ela descia. O rapaz levou o cavalo, deixando o balde com a garota.

Logo, sons altos e baixos vinham numa sucessão regular de dentro do


estábulo, os sons claros de quem está ordenhando uma vaca. Gabriel pegou o
chapéu perdido e esperou no caminho por onde ela passaria para deixar o
morro.

Ela veio, com o balde numa mão e batendo em seu joelho. O braço
esquerdo estava estendido dando equilíbrio, com uma parte à mostra, o que
fez Oak desejar que aquilo estivesse se passando no verão, quando tudo
poderia ser revelado. Havia um ar e modos iluminados sobre ela agora, pelos
quais ela parecia insinuar que a conveniência de sua existência não devia ser
questionada. E esta dedução muito maliciosa não falhava em ser ofensiva
porque o espectador achou que fosse, num todo, verdadeira. Como uma
ênfase excepcional no tom de um gênio, o qual fazer a mediocridade ser
ridícula era uma adição para o poder reconhecido. Foi com surpresa que ela
viu o rosto de Gabriel surgindo como a lua por detrás da cerca.

O ajuste das concepções vagas do fazendeiro aos encantos dela para a


imagem o que via agora foi com menos decepção do que diferença. O início
selecionado pelo julgamento foi sua altura. Ela parecia alta, mas o balde era
pequeno e a cerca era muito baixa. Consequentemente, tendo um desculpa
para o erro de comparação com estes dois, não era tão alta como se desejava
para mulheres. Todos os traços eram severos e regulares. Podia-se observar
que as pessoas que andam pelos condados buscando a beleza, que nas
inglesas um rosto classicamente formado é frequentemente encontrado ligado
a uma fisionomia de padrões semelhantes, os traços perfeitos são geralmente
muito grandes para a estrutura toda, que feições graciosas e proporcionais de
oito cabeças sempre resultam em curvas faciais aleatórias. Sem compará-la
com uma ninfa, sendo que aqui a crítica colocava-se como imprópria,
observou as proporções dela com uma consciência demorada de prazer. Pelos
contornos da parte de cima do corpo, ela deveria ter belos ombros e pescoço,
mas ninguém nunca os tinha visto desde sua infância. Se estivesse usando um
vestido curto, teria corrido e se escondido num arbusto. Ainda assim, ela não
era nenhuma garotinha, era apenas seu instinto a traçar a linha que dividia o
visto do não visto como se faz nas cidades.

Os pensamentos da moça pairaram sobre seu rosto e nas expressões de


seu corpo assim que encontrou com os olhos de Oak examinando-a, isso era
natural e quase evidente. A confiança demonstrada seria a de vaidade se fosse
um pouco mais definida e de dignidade se fosse menos. Os raios da visão
masculina parecem ter um efeito divertido nos rostos virginais nas áreas
rurais. Ela limpou seu rosto com a mão como se Gabriel estivesse irritando
sua superfície rosada com um toque real, e a liberdade de seus movimentos
anteriores reduziu-se como num ato recatado. Mesmo assim, foi o homem
que ruborizou e não a moça.

“Encontrei um chapéu”, informou Oak.

“É meu”, disse ela, e, num senso de proporção, deu um leve sorriso uma
inclinação de uma risada clara: “ele saiu voando na noite passada.”

“À uma hora da manhã?”

“Bem... era.” Ela estava surpresa. “Como sabia?”, perguntou.

“Eu estava aqui.”

“Você é o fazendeiro Oak, não é?”


“Mais ou menos. Vim para cá recentemente.”

“A fazenda é grande?”, perguntou ela, arregalando os olhos e balançando


os cabelos com mechas negras, mas por ser uma hora depois do raiar do sol,
os raios tocavam as curvas proeminentes com uma cor própria.

“Não, não é grande. Uns cem acres.”

“Eu procurei meu chapéu esta manhã”, continuou ela. “Tinha que
cavalgar até Tewnell Mill.”

“Sim, tinha mesmo.”

“Como sabe?”

“Eu a vi.”

“Onde?”, indagou ela, a apreensão paralisando cada músculo de suas


feições.

“Aqui... passando pela plantação e descendo o morro”, informou Oak


pensativo, enquanto olhava para um ponto distante na direção mencionada e
depois voltava para encontrar os olhos de sua interlocutora.

A percepção fez com que ele desviasse seus olhos dos dela tão
repentinamente como se houvesse sido pego cometendo um furto. A
lembrança de como ficara intrigado ao vê-la passar pelas árvores teve êxito
na moça por uma exasperação e um rosto corado. Era o momento de ver
ruborizar uma mulher que não costumava ficar assim; a ordenhadora estava
da cor mais profunda de uma rosa. Da cor mais encarnada, passando por
todas as variedades da provençal até a toscana carmesim, assim mudava
rapidamente o rosto da conhecida de Oak. Ele, em consideração, virou a
cabeça.

O homem solidário ainda olhava para outro lado e imaginava quando ela
recobraria a calma o bastante que o fizesse encará-la novamente. Ele ouviu o
que parecia ser o movimento leve da brisa numa folha seca e olhou. Ela havia
ido embora.
Com um ar entre a tragédia e a comédia, Gabriel voltou para seu trabalho.

Cinco manhãs e cinco noites se passaram. A jovem vinha regularmente


ordenhar a vaca saudável ou tratar da que estava doente, mas nunca se
permitia olhar para o lado de Oak. A falta de tato dele a ofendera
profundamente, não por ver o que não pôde evitar, mas por lhe dizer que viu.
Como não existe pecado se não há lei, não há indecência sem a visão, e ela
parecia sentir que a descoberta de Gabriel fizera dela uma mulher indecorosa
sem a conivência dela própria. Aquilo alimentava a grande mágoa que sentia
por ele. Era também um contratempo que acendia um fogo latente que ele
vivenciara naquela situação.

A intimidade deveria, entretanto, ter terminado com um lento


esquecimento, exceto por um incidente que ocorrera no final da mesma
semana. Começava a esfriar numa tarde e piorou à noite, o que estreitava os
laços em segredo. Era o momento em que nas cabanas a respiração daqueles
que dormem congelam nos lençóis. Quando todos os que estão em volta de
uma lareira da sala de visitas de uma mansão de paredes grossas sentem frio
nas costas, até mesmo seus rostos pálidos ficam avermelhados. Muitos
pássaros pequenos foram dormir sem jantar naquela noite nos galhos
desfolhados.

Como se aproximava a hora da ordenha, Oak, como de costume, olhou o


estábulo das vacas. Sentiu frio, e jogando uma quantidade extra de forragem
em volta das ovelhas de um ano de idade, entrou na cabana e colocou mais
lenha no fogão. O vento entrava por debaixo da porta e para se proteger, Oak
colocou um saco ali e virou a cama mais para o sul. Assim, o vento
atravessava pelos buracos de ventilação, que ficava de cada lado da cabana.

Gabriel sempre soube que quando o fogo era aceso e a porta estava
fechada, um dos buracos deveria ficar aberto, o escolhido era sempre do lado
oposto ao do vento. Fechando a janela do lado do vento, abria-se a outra.
Ponderando, o fazendeiro considerou que primeiro sentar-se-ia deixando
ambas fechadas por alguns minutos até que a temperatura da cabana subisse
um pouco. Sentou-se.

Sua cabeça começou a doer como não era de costume e, imaginando-se


cansado por conta do descanso interrompido nos acontecimentos da noite
anterior, decidiu levantar-se, abrir a janela e então deixar-se adormecer.
Entretanto, adormece sem executar a atividade anterior.

Gabriel nunca soube quanto tempo ficou inconsciente. Nos primeiros


momentos de seu retorno à percepção, a realidade peculiar parecia uma
representação. Seu cão estava uivando, sua cabeça doía horrivelmente,
alguém o balançava de um lado para o outro e mãos afrouxavam o lenço do
seu pescoço.

Ao abrir os olhos, percebeu que a tarde caíra na escuridão de um modo


estranhamente inesperado. A jovem com lábios notavelmente agradáveis e
dentes brancos estava ao lado dele. Mais do que isso, surpreendentemente
mais, a cabeça dele estava no colo dela, o rosto e o pescoço incomodamente
molhados e os dedos dela desabotoavam o colarinho dele.

“O que foi que aconteceu?”, perguntou Oak vagamente.

Ela parecia estar se divertindo, mas um tipo muito insignificante de


divertimento.

“Agora nada”, respondeu ela, “uma vez que não está morto. Admira-me
como não sufocou nesta sua cabana.”

“Ah, a cabana!”, murmurou Gabriel. “Paguei dez libras nesta cabana.


Mas vou vendê-la e ficar debaixo de abrigos de palha como se fazia no
passado e me enrolar para dormir num monte de feno! Quase me aconteceu a
mesma coisa outro dia!”, Gabriel, para dar ênfase, socou o chão.

“Não foi exatamente culpa da cabana”, observou ela num tom de voz que
revelava aquela novidade entre as mulheres, alguém que terminava um
pensamento antes de iniciar a sentença que lhe dava sentido. “Você deveria,
creio eu, ter pensado melhor e não ter deixado as janelas fechadas.”

“Acho que sim”, disse Oak distraidamente. Ele estava se esforçando para
apreciar a sensação de estar daquele jeito com ela, com a cabeça sobre seu
vestido, antes do evento ocorrido entre as coisas que se passaram. Desejou
que ela soubesse de suas impressões. Mas logo pensou que poderia exalar
algum odor ao tentar explicar as intangibilidades do que sentia nas teias de
sua linguagem rudimentar. Assim, permaneceu em silêncio.

Ela o fez sentar-se e então Oak começou a enxugar o rosto e a agitar-se


como Sansão.

“Como posso lhe agradecer?”, perguntou por fim com gratidão, com o
rosto um pouco corado, pois a cor natural voltava ao seu rosto.

“Ah, não se incomode com isso”, disse a garota, sorrindo e permitindo


que seu sorriso confirmasse a próxima observação de Gabriel, o que quer que
aquilo pudesse provar.

“Como me encontrou?”

“Ouvi seu cão uivando e arranhando a porta da cabana quando vim para a
ordenha (por muita sorte, a ordenha de Daisy está quase acabando para esta
época e não devo vir aqui depois desta semana ou na próxima). O cão me viu
e pulou em mim puxando a minha saia. Eu vim, olhei em volta da casa e a
primeira coisa que vi foi as janelas fechadas. Meu tio tinha uma cabana como
esta e eu o ouvi dizer a seu pastor para não dormir sem deixar uma janela
aberta. Abri a porta e você parecia estar morto. Joguei o leite em você, pois
não tinha água, esquecendo de que estava quente e não adiantaria nada.”

“E se eu já estivesse morto?”, disse Gabriel em voz baixa, mais para ele


mesmo do que para ela.

“Oh, não!”, respondeu a moça. Ela parecia preferir uma probabilidade


menos trágica. Ter salvo um homem da morte envolvia uma conversa que
harmonizasse com a dignidade de tal feito, que ela evitou.

“Creio que salvou a minha vida, Miss... não sei o seu nome. Sei o de sua
tia, mas não o seu.”

“Eu não lhe diria tão rapidamente, não tanto. Não há motivo ou por que
eu deveria, pois você provavelmente nunca terá muito contato comigo.”

“Mesmo assim eu gostaria de saber.”

“Você pode perguntar à minha tia, ela lhe dirá.”


“Meu nome é Gabriel Oak.”

“E o meu não é... Parece que gosta do seu ao dizê-lo tão decisivamente,
Gabriel Oak.”

“Veja, é o único que tenho e devo tirar o máximo de proveito dele.”

“Sempre acho que o meu parece estranho e desagradável.”

“Creio que deva arranjar outro logo.”

“Misericórdia! Quantas opiniões sobre outras pessoas você tem, Gabriel


Oak!”

“Bem, senhorita, me perdoe pelo que falo, pensei que gostaria delas. Mas
não consigo medir forças com você, sabe, em acompanhar meus pensamentos
com a minha fala. Nunca fui muito esperto. Mas muito obrigado. Vamos,
ajude-me.”

Ela hesitou, um tanto desconcertada com a antiquada conclusão sincera


de Oak para o diálogo que levavam com leveza.

“Muito bem”, disse ela e estendeu-lhe a mão, comprimindo os lábios para


uma passividade acanhada. Ele a segurou por um instante, e com medo de ser
muito explícito, desviou para o extremo oposto, tocando os dedos dela com a
leveza de uma pessoa fria.

“Perdoe-me”, falou ele no instante seguinte.

“Por quê?”

“Por soltar sua mão tão rapidamente.”

Oak segurou-a por mais tempo desta vez, na verdade, curiosamente


demorando. “Como é macia, mesmo sendo inverno, não está rachada nem
áspera ou coisa assim!”, ele comentou, ainda segurando a mão da moça.

“Calma, é muito tempo”, disse ela, porém não a puxou. “Mas suponho
que esteja pensando que gostaria de beijá-la. Você pode, se quiser.”

“Eu não estava pensando em tal coisa”, disse Gabriel, “mas vou beijá-la.”

“Não vai não!” , ela puxou a mão.

Gabriel sentiu-se culpado por outra falta de tato.

“Agora descubra meu nome”, ela o desafiou e saiu.


CAPÍTULO IV
A DECISÃO DE GABRIEL—A VISITA—O
ERRO

A única superioridade tolerável nas mulheres ao sexo oposto, de regra, é a


do tipo inconsciente. Mas uma superioridade que se reconhece pode, às
vezes, alegrar ao sugerir possibilidades de captura do homem subordinado.

Esta moça bela e graciosa logo invadiu agradavelmente a estrutura


emocional do jovem fazendeiro Oak.

O amor, por ser um usurário extremamente minucioso (num sentido de


lucro exorbitante, espiritual, por uma troca de corações, ficando na parte mais
profunda da atmosfera), os sentimentos de Oak estavam mais sensíveis do
que os agiotas nos cálculos de suas possibilidades todas as manhãs. Seu cão
esperava pela comida da mesma maneira que Oak esperava pela presença da
garota. No entanto, continuava a olhar pela cerca-viva, à espera regular da
moça e assim o que sentia tornava-se cada vez mais profundo, mas sem
nenhum efeito de correspondência da parte dela. Oak ainda não tinha nada
pronto para dizer e não conseguia formular frases de amor que fizessem
sentido. Contos passionais cheios de som e fúria, vazios de significados e,
portanto, ele não dizia nada.

Após investigações, descobriu que o nome da moça era Bathsheba


Everdene e que o leite da vaca secaria por volta de sete dias. Ele temia pelo
oitavo dia.

Finalmente o oitavo dia chegou. A vaca havia parado de produzir leite


para aquele ano e Bathsheba Everdene não subiria mais o morro. Gabriel
chegara ao ponto mais extremo da sua existência, coisa que nunca imaginaria
pouco tempo antes. Gostava de dizer "Bathsheba" como um divertimento
particular ao invés de assoviar. Passou a gostar de cabelos pretos, apesar de
ter sempre preferido os castanhos desde que era um menino. O amor,
entretanto, é uma força possível na fraqueza real. O casamento transforma
uma distração num apoio, o poder que deve ter e felizmente sempre tem em
proporção direta ao grau de imbecilidade que suplanta. Oak começou a ver
luz em sua direção e disse a si mesmo: “Vou fazer dela minha esposa, ou juro
que não servirei para nada!”

Tudo isso enquanto ele estava duelando, tentando arrumar


persistentemente uma desculpa para a tarefa de visitar a cabana da tia de
Bathsheba.

Encontrou a oportunidade com a morte de uma ovelha, mãe de um


carneiro que estava vivo. Naquele dia que tinha ares de verão e constituição
de inverno, uma agradável manhã de janeiro, quando há muito céu azul
visível para deixar as pessoas alegres e dispostas, e um brilho prateado
ocasional do sol, Oak colocou o carneiro num cesto respeitável e cruzou os
campos a passos largos até a casa de Mrs. Hurst, a tia. George, o cão, com um
semblante de grande preocupação com os assuntos de pastoreio que pareciam
sérios, o seguia.

Gabriel observou a fumaça azulada que saía da chaminé com um


pensamento estranho. Viu a lareira e Bathsheba ao lado dela, usando seu
vestido de sair, pois as roupas que ela usava no campo eram, por associação,
iguais às da pessoa no compasso de seu carinho. Pareciam neste seu início de
amor que eram um ingrediente necessário para a doce mistura chamada
Bathsheba Everdine.

Ele havia feito um tipo apreciavelmente adequado de toilete, de uma


natureza entre cuidadosamente limpo e despreocupadamente combinando, de
um modo entre um bom dia de semana e um domingo úmido. Limpou
totalmente a corrente de prata do relógio com clareador, colocou cadarços
novos nas botas, cuidou dos ilhoses de latão, procurou um novo galho em sua
plantação e na volta modelou-o vigorosamente numa nova bengala, pegou um
lenço novo do fundo de seu baú de roupas, vestiu um colete leve estampado
com botões de uma flor elegante que unia a beleza das rosas à dos lírios sem
os defeitos de ambas, e usou todo o óleo capilar que tinha sobre seus cabelos
cacheados que estavam sempre secos, empoeirados e embaraçados até que
estivessem mergulhados numa nova coloração esplêndida entre a do guano e
do cimento romano, fazendo-o grudar em sua cabeça como uma casca de noz
moscada ou uma alga marinha molhada em volta de um seixo arredondado
depois da maré baixa.

Nada perturbava a calma da cabana a não ser pelo barulho de um bando


de pardais no beiral. Alguém poderia supor que escândalos e rumores não
seriam menos do que a base para estes pequenos grupos sociais nos telhados
do que aqueles debaixo deles. Parecia que o presságio era inoportuno, pois,
como o início da proposta de Oak era desfavorável, assim que chegou no
portão do jardim, viu um gato do lado de dentro contorcendo-se de todas as
formas em convulsões diabólicas ao ver seu cão George. O cão nem
percebeu, pois estava numa idade em que qualquer latido supérfluo era
cinicamente evitado como um desperdício de fôlego, de fato, ele nunca latia
nem mesmo para as ovelhas, exceto por ordem, quando fazia isso com
semblante absolutamente neutro como um tipo de denúncia que, apesar de
ofensivo, devia ser feito vez ou outra para assustar o rebanho ou para o
próprio bem dele.

Uma voz veio de trás de alguns loureiros para onde o gato havia corrido:

“Pobrezinho! Um cão horrível e cruel queria matá-lo... queria,


coitadinho!”

“Perdoe-me”, disse Oak para a voz, “mas George vinha andando atrás de
mim com um ânimo mais leve que uma pena.”

Quase antes que terminasse de falar, Oak foi interrompido, apreensivo de


quem seriam os ouvidos que o escutariam. Ninguém apareceu e ele ouviu a
pessoa afastar-se entre os arbustos.

Gabriel refletiu tão profundamente que sulcos se formaram em sua testa


pela força transparente do devaneio. Onde o assunto de uma conversa é
provável que seja uma longa mudança para pior como para melhor, qualquer
diferença inicial de expectativas causa sensações incômodas de erro. Oak foi
até a porta um pouco desconcertado: seu ensaio mental e a realidade não
tinham nenhum terreno de oportunidade.

A tia de Bathsheba estava do lado de dentro.

“Poderia dizer à Miss Everdene que alguém deseja falar com ela?”, disse
Mr. Oak. (Chamar a si próprio simplesmente de alguém, sem mencionar o
nome, não deve ser tomado como exemplo de falta de educação no mundo
rural. Vem de uma modéstia refinada, da qual as pessoas da cidade, com seus
cartões e proclamações, não têm a menor noção).

Bathsheba estava do lado de fora. A voz era evidentemente dela.

“Quer entrar, Mr. Oak?”

“Oh, agradecido”, respondeu Gabriel, seguindo-a até a lareira. “Trouxe


um carneiro para Miss Everdene. Achei que ela gostaria de um para criar. As
moças gostam.”

“Talvez”, comentou Mrs. Hurst, pensativa, “embora ela esteja aqui


apenas como visita. Se esperar um minuto, Bathsheba entrará.”

“Sim, vou esperar”, disse Gabriel, sentando-se. “O carneiro não é o


assunto que me trouxe aqui, Mrs. Hurst. Resumindo, eu ia perguntar se ela
não gostaria de se casar.”

“Ia mesmo?”

“Sim. Porque se ela gostaria, eu ficaria muito feliz em me casar com ela.
Sabe se há algum outro rapaz interessado nela?”

“Deixe-me pensar”, falou Mrs. Hurst, cutucando o fogo superfluamente...


“Sim, minha nossa, tantos jovens. Veja, fazendeiro Oak, ela é tão bonita e
também uma excelente estudante, ia trabalhar como governanta, sabe, só que
era arredia demais. Não que os rapazes algum dia vieram aqui, mas, meu
Deus, como mulher, deve ter uma dúzia!”

“É uma pena”, lamentou Oak, contemplando uma fenda no chão de pedra


com pesar. “Sou só o tipo de homem comum, e essa era a minha única chance
de ser o primeiro a chegar... Bem, não há por que esperar, se foi só por isso
que vim: assim vou-me embora, Mrs. Hurst.”

Quando Gabriel tinha andando cerca de duas jardas, ouviu um “ei!” vindo
de trás dele, num tom musical da qualidade mais aguda do que a exclamação
geralmente vem quando gritada pelo campo. Olhou em volta e viu uma moça
correndo atrás dele, acenando com um lenço.

Oak ficou parado e a corredora se aproximou. Era Bathsheba Everdene. A


cor de Gabriel ficou mais forte. A dela já estava mais forte, ao que parecia,
não de emoção, mas de tanto correr.

“Fazendeiro Oak... eu...”, disse ela, pausando com falta de ar e parando


na frente dele com um rosto tendencioso e colocando a mão do lado.

“Acabei de vir para vê-la”, informou Gabriel, aguardando o que mais ela
diria.

“Sim, eu sei”, disse ela ofegante como um melro, com o rosto molhado
por seus esforços, como uma pétala de peônia antes que o sol secasse o
orvalho. “Não sabia que viria para me ver, ou teria entrado do jardim
imediatamente. Corri atrás de você para dizer... que minha tia cometeu um
erro em desencorajá-lo a me cortejar...”

Gabriel se endireitou.

“Sinto muito por tê-la feito correr tanto, minha querida”, declarou ele,
com uma enorme sensação de coisas boas que viriam. “Espere um pouco até
recobrar o fôlego.”

“Foi um grande erro... minha tia dizer-lhe que eu já tinha alguém”,


continuou Bathsheba. “Não tenho nenhum admirador, nunca tive, e achava
que, conforme o tempo passa para as mulheres, era uma pena enorme mandá-
lo embora pensando que eu tinha vários.”

“Estou muito feliz em ouvir isso, de verdade!”, disse o fazendeiro Oak,


abrindo um de seus sorrisos especiais e corando de alegria. Controlou sua
mão para não pegar a dela, que, quando se acalmou e soltou seu lado, estava
estendida sobre seu peito para desacelerar seu coração que batia alto. Ele a
pegou, mas ela a puxou e colocou para trás, e assim escorregou pelos dedos
dele como uma enguia.

“Eu tenho uma fazenda pequena e confortável”, disse Gabriel, com


menos confiança do que quando pegou a mão dela.

“Sim, tem.”

“Um homem me adiantou o dinheiro para começar, mas logo será pago, e
embora eu seja só um homem comum, economizo um pouco desde que era
pequeno.” Gabriel pronunciou “um pouco” num tom para mostrar a ela que
aquela era a forma complacente de “uma boa quantia”. Continuou: “Quando
nos casarmos, tenho certeza que posso trabalhar duas vezes mais do que
agora.”

Ele se aproximou e estendeu seu braço novamente. Bathsheba o havia


alcançado num ponto além do qual ficava um arbusto de azevinho baixo,
agora carregado com frutinhos vermelhos. Vendo a aproximação dele tomar a
forma de uma atitude que levaria a um possível cerco, se não uma
compressão com ela, deu a volta no arbusto.

“Ora, fazendeiro Oak”, disse ela, assoberbada, arregalando os olhos para


ele, “eu nunca disse que me casaria com você.”

“Bem... então o que é isso?”, falou Oak, desanimado. “Corre atrás de


alguém para então dizer-lhe que não o quer!”

“O que eu queria dizer-lhe era isto”, disse ela ansiosamente, ainda não
muito consciente da posição absurda em que se colocara, “que ninguém
chegou a mim como um admirador, como aquela dúzia que minha tia disse
que eu tinha. Odeio que pensem que pertenço a algum homem daquela
maneira, embora isso algum dia aconteça. Porque se eu o quisesse, não
correria atrás de você deste jeito. Seria muito atrevimento! Mas não há
problema em correr para corrigir uma falsa informação que lhe contaram.”

“Oh, não... problema algum.” Mas havia algo em querer ser tão generosa
para expressar um julgamento impulsivamente e Oak completou com um
senso mais agradecido das circunstâncias. “Bem, não estou muito certo de
que não há nenhum mal.”

“Na verdade, não tive tempo para pensar se quero me casar com você ou
não, pois você já estava subido o morro.”

“Vamos”, disse Gabriel, reanimando-se novamente, “pense por alguns


instantes. Vou aguardar, Miss Everdene. Quer se casar comigo? Case-se,
Bathsheba. Eu a amo muito mais do que o normal!”

“Tentarei pensar”, observou ela, um pouco mais timidamente; “se


conseguir pensar ao ar livre. Meus pensamentos voam para longe.”

“Mas você pode arriscar um palpite.”

“Então me dê tempo.” Bathsheba olhou ao longe pensativamente,


desviando da direção de onde Gabriel estava parado.

“Posso fazê-la feliz”, disse ele, atrás da cabeça dela, de frente para o
arbusto. “Você poderá ter um piano dentro de uns dois anos, as esposas dos
fazendeiros agora têm pianos, e eu praticarei a flauta para tocar com você à
noite.”

“Sim, eu gostaria muito.”

“E teria um daqueles troles de dez libras para as compras, e lindas flores e


aves, digo, galos e galinhas, pois podem ser úteis”, continuou Gabriel. Sentia-
se dividido entre a poesia e a natureza prática.

“Eu adoraria.”

“E uma horta para pepinos... como um cavalheiro e uma dama.”

“Sim.”

“E quando a cerimônia de casamento terminar, nós a teremos colocado na


lista dos casamentos do jornal.”

“Eu amaria isso!”


“E os bebês nas listas dos nascimentos, é o que todo macho deseja! E em
casa, perto da lareira, toda vez que você procurar, é lá que estarei, e toda vez
que eu a procurar, é lá que você estará.”

“Espere, espere, e não seja indecente!”

Ela perdeu a calma e ficou um tempo em silêncio. Ele observou


atentamente os frutinhos vermelhos entre eles, a tal ponto que um azevinho
parecia em sua vida após a morte ser um enigma que significava proposta de
casamento. Bathsheba, decidida, virou-se para ele.

“Não, é inútil”, declarou. “Não quero me casar com você.”

“Tente.”

“Tentei todo o tempo em que estive pensando, pois um casamento seria


muito bom num sentido. As pessoas falariam sobre mim e acho que teria
vencido a minha batalha e me sentiria triunfante e tudo o mais, mas um
marido...”

“Bem!”

“Ora, ele sempre estaria lá, como você disse. Toda vez que eu o
procurasse, lá estaria ele.”

“Claro que ele estaria, quer dizer, eu.”

“Bem, o que eu quis dizer é que não me importaria de ser a noiva da


cerimônia, se pudesse ser uma que não tivesse um marido. Mas uma vez que
uma mulher não pode aparecer desta forma sozinha, não devo me casar, pelo
menos ainda não.”

Com esta crítica sobre sua afirmação, Bathsheba fez um adendo à sua
dignidade afastando-se ligeiramente dele.

“Por tudo o que é mais sagrado, não sei o que uma mulher solteira pode
dizer que seja mais estúpido do que isso”, disse Oak. “Mas querida”,
continuou ele numa voz paliativa, “não seja assim!”
Ela continuou em silêncio, pensativa.

Oak deu um suspiro profundo e honesto, apesar de tudo aquilo, que


parecia com o sopro numa plantação de pinheiros, que fora mais perceptível
como uma perturbação da atmosfera. “Por que você não me quer?”, apelou
ele, movendo-se furtivamente em volta do azevinho para chegar ao lado dela.

“Não posso”, disse ela, recuando.

“Mas, por quê?”, insistiu ele, finalmente parado, imóvel, em desespero


para alcançá-la e encarando-a por cima do arbusto.

“Porque eu não o amo.”

“Sim, mas...”

Ela segurou um bocejo de proporções inofensivas, sendo assim pouco


considerado grosseiro.

“Não o amo”, disse ela.

“Mas eu a amo, e fico satisfeito por ser querido.”

“Ah, Mr. Oak, isso é muito bom! Você deve me desprezar.”

“Nunca”, disse Mr. Oak, tão sinceramente que parecia estar sendo levado
pela força de suas palavras através do arbusto direto para os braços dela.
“Farei uma única coisa nesta vida, uma coisa certa, que é amá-la e esperá-la,
e continuar a desejá-la até morrer.” A voz dele tinha uma compaixão genuína
agora e suas grandes mãos tremiam perceptivelmente.

“Parece assustadoramente errado não aceitá-lo quando você tem tanto


sentimento!”, disse ela com um pouco de angústia, olhando ao redor sem
esperanças de escapar de seu dilema moral. “Como gostaria de não ter
corrido atrás de você!” No entanto, ela parecia encontrar um atalho para
reencontrar a alegria e ajustou seu rosto para parecer brejeira. “Não seria
possível, Mr. Oak. Quero alguém que me dome. Sou independente demais.
Você nunca conseguiria, sei disso.”
Oak lançou seu olhar pelo campo como uma forma que sugeria ser inútil
tentar argumentar.

“Mr. Oak”, disse ela com distinção cintilante e senso comum, “você está
numa situação melhor do que eu. Estou morando com minha tia pelo meu
simples sustento. Embora tenha estudo, mal tenho um centavo nesse mundo,
e não o amo nem um pouco. Este é o meu lado no caso. Agora o seu: é um
fazendeiro que está apenas começando, e deve por prudência comum chegar a
se casar (o que certamente não deveria pensar no momento), mas case com
uma mulher que tenha dinheiro, que lhe dê uma fazenda maior do que a que
tem agora.”

Gabriel olhou-a com um pouco de surpresa e muita admiração.

“É bem o que estou pensando comigo mesmo!”, disse ele inocentemente.

O fazendeiro Oak tinha características um tanto cristãs para ter sucesso


com Bathsheba, ele tinha sua genuína humildade e ela supérflua humildade.
Bathsheba estava decididamente desconcertada.

“Bem, então, por que veio me importunar?”, perguntou ela, quase


enfurecidamente, se não muito, com um forte rubor subindo em cada
bochecha.

“Não posso fazer o que eu acho que seria... seria...”

“Certo?”

“Não, sábio.”

“Acabou de admitir algo, Mr. Oak”, exclamou ela, ainda com mais
arrogância e balançando a cabeça com desdém. “Depois disso, acha que eu
poderia me casar com você? Não se sei disso.”

Ele irrompeu nervosamente.

“Mas não se equivoque comigo assim! Porque eu sou aberto o bastante


para possuir o que qualquer homem no meu lugar pensaria, você fica corada e
se irrita comigo. Isso de não ser boa o suficiente para mim é besteira. Fala
como uma dama, toda a paróquia percebe, e seu tio em Weatherbury é, pelo
que eu soube, um grande fazendeiro, muito maior do que um dia eu possa ser.
Posso visitá-la à noite ou passeará comigo aos domingos? Não quero que se
decida agora, se não quiser.”

“Não, não, não posso. Não me pressione mais, não. Não o amo, e seria
ridículo”, disse ela rindo.

Nenhum homem gosta de ver suas emoções como a brincadeira de uma


ciranda de leviandade.

“Muito bem”, disse Oak firmemente, como quem entregaria seus dias e
suas noites ao Eclesiastes[4] para sempre. “Então não lhe perguntarei mais.”
CAPÍTULO V
A PARTIDA DE BATHSHEBA—UMA
TRAGÉDIA PASTORIL

A notícia que certo dia chegou a Gabriel, que Bathsheba Everdene havia
deixado a vizinhança, teve tal influência sobre ele que surpreenderia qualquer
um que nunca tivesse suspeitado que quanto mais enfática a renúncia, menos
absoluto é seu caráter.

Deve-se observar que não há um caminho regular para escapar do amor


como há para encontrá-lo. Algumas pessoas veem o casamento como um
atalho, mas que é conhecido por ser falho. A separação, que era a
oportunidade oferecida a Gabriel Oak pelo desaparecimento de Bathsheba,
embora válida para pessoas de certos temperamentos, no dele intensificou
idealização do ser removido, aumentou a plácida afeição, fê-la constante
como deve ser, pois fluiu profunda e demoradamente. Oak pertencia à ordem
tranquila da humanidade, e sentia a fusão secreta dele mesmo em Bathsheba,
queimando numa chama mais fina agora que ela se fora, era isso.

Sua amizade insipiente com a tia dela esfriou com o fracasso de seu
pedido de casamento, e tudo o que Oak sabia dos passos de Bathsheba era
feito de forma indireta. Parecia que ela havia ido para um lugar chamado
Weatherbury, a mais de vinte milhas dali, mas em qual qualidade, como
visitante ou permanentemente, ele não pôde descobrir.

Gabriel tinha dois cães. George, o mais velho, exibia um nariz com a
ponta preta, cercado por uma margem estreita de carne vermelha, um pelo
marcado por manchas aleatórias de branco e cinza ardósia, mas o cinza, após
anos no sol e na chuva, foi queimado e desbotado nos caracóis mais
proeminentes, tornando-os castanho-avermelhados, como se o componente
azul do cinza tivesse descolorido tal qual o índigo do mesmo tom da cor nos
quadros de Turner. A textura era originalmente de pelo, mas o longo contato
com ovelhas parecia tê-lo deixado como lã de qualidade e fibra ruins.

Este cão anteriormente pertencera a um pastor de moral inferior e


temperamento terrível, e o resultado foi que George conhecia os graus exatos
de condenação nos significados de praguejamentos e xingamentos melhor do
que o homem mais velho da vizinhança. A vasta experiência ensinou o
animal tão precisamente a diferença entre exclamações como “Venha!” e
“Venha, peste!” e ele sabia a velocidade que tinha de ir correndo atrás das
caudas dos carneiros e escapar assim de um golpe do cajado. Mesmo velho,
ainda era esperto e de confiança.

O cão mais jovem, filho de George, era possivelmente a imagem da mãe,


pois não havia muita semelhança entre ele e o pai. Estava aprendendo a tarefa
de cuidar das ovelhas, assim como seguir o rebanho quando o outro morresse,
mas ainda não havia ido muito além do fundamental, encontrando uma
insuperável dificuldade em distinguir entre fazer bem uma coisa do fazer
muito bem. Este cão mais jovem era tão determinado e tão teimoso (não tinha
um nome em particular e atendia com perfeita prontidão a qualquer
interjeição alegre), que se era mandado conduzir o rebanho de ovelhas, fazia
com tanto empenho, que correria atrás delas por todo o condado, com enorme
prazer, se não fosse chamado ou lembrado de quando parar pelo exemplo do
velho George.

Chega de falar dos cães. No lado mais distante de Norcombe Hill ficava
uma mina calcária, de onde todo o calcário era retirado há gerações e
distribuído pelas fazendas adjacentes. Duas cercas-vivas convergiam nela
num formato em V, mas sem se encontrarem exatamente. A passagem
estreita que ficava, a qual era imediatamente acima do cume da mina, era
protegida por uma grade rústica.

Uma noite, quando o fazendeiro Oak retornou para casa, acreditando não
ter mais necessidade de seu trabalho lá embaixo, chamou os cães como de
costume, prendendo-os previamente no alpendre até a manhã seguinte.
Somente um deles, o velho George, o atendeu. O outro não foi encontrado
nem dentro da casa, nem na estrada ou no jardim. Gabriel então se lembrou
de que havia deixado os dois cães na colina comendo um carneiro morto (um
tipo de carne que ele geralmente não deixava para eles, exceto quando havia
escassez de outro tipo de comida), e concluindo que o mais novo não
terminara sua refeição, entrou para o prazer de sua cama, que ultimamente só
aproveitava aos domingos.

Era uma noite calma e úmida. Pouco antes de amanhecer, foi acordado
pela reverberação anormal de uma música familiar. Para o pastor, o som da
sineta de uma ovelha, como o tic-tac do relógio para outras pessoas, é um
som crônico que só é notado por parar ou alterar de alguma forma, o que o
conhecido tilintar preguiçoso significa ao ouvido acostumado, embora
distante, que está tudo bem no curral. Gabriel ouviu aquele som na calma
solene do despertar da manhã, batendo com violência e rapidez incomuns.
Este toque excepcional pode ser causado de duas maneiras: pelas ovelhas que
o carregam alimentando-se rapidamente ou pela partida delas em disparada,
quando o som tem uma palpitação regular. O ouvido experiente de Oak
conhecia o som que ouvia agora como sendo da fuga do bando em alta
velocidade.

Pulou da cama, vestiu-se, rasgou a estrada através da aurora enevoada e


subiu a colina. As ovelhas que haviam parido ficavam separadas daquelas
cujos cordeiros nasceriam mais tarde, havendo duzentos dos últimos no
bando de Gabriel. Estes duzentos pareciam ter desaparecido completamente
na colina. Havia cinquenta com seus cordeiros, fechadas na outra parte como
ele as tinha deixado, mas o resto, que formava o volume do bando, não estava
em parte alguma. Gabriel gritou a plenos pulmões o chamado do pastor:

“Eia, eia, eia!”

Nem sequer um balido. Ele foi até a cerca. Uma falha havia sido aberta e
ali havia pegadas das ovelhas. Muito surpreso ao descobrir que elas
atravessaram a cerca naquela época do ano, ainda recusando prontamente a
preferencia delas por hera no inverno que crescia na lavoura, ele seguiu pela
cerca. Elas não estavam na lavoura. Chamou outra vez: os vales e as colinas
mais distantes ressonaram como quando os marinheiros invocavam o Hila
perdido na costa da Misia, mas nenhuma ovelha apareceu. Passou pelas
árvores e ao longo do espinhaço da colina. No ponto mais extremo, onde as
pontas de duas cercas convergentes, das quais falamos que se aproximavam
ao chegar no cume da mina de calcário, ele viu o cão mais novo parado
contra o céu, escuro e imóvel como Napoleão em Santa Helena.

Uma convicção horrível assombrou Oak. Com uma sensação de desmaio


em seu corpo, ele avançou: num ponto, as grades estavam quebradas e ele viu
as pegadas de suas ovelhas. O cão, veio, lambeu sua mão e fez sinais que
significavam que esperava alguma grande recompensa pelo aviso. Oak olhou
para o precipício. As ovelhas estavam mortas ou agonizando a seus pés, uma
pilha de duzentas carcaças destroçadas, representando a condição delas agora,
pelo menos duzentas a mais.

Oak era um homem intensamente humano: de fato, sua humanidade


geralmente despedaçava qualquer intenção política que beirava a estratégia e
o levava como que por gravitação. Aquele rebanho que terminaria como
carne tornou-se uma sombra em sua vida, pois um dia veio e encontrou
qualquer pastor, como um traidor conhecido, para suas ovelhas indefesas. Seu
primeiro sentimento agora era de pena pelo destino inoportuno daquelas
ovelhas delicadas e seus cordeiros que não nasceram.

Levou um segundo para lembrar-se de outra parte do problema. As


ovelhas não estavam protegidas por um seguro. Todas as economias de uma
vida modesta foram desperdiçadas num sopro. Suas esperanças de ser um
fazendeiro independente estavam perdidas, possivelmente para sempre. As
energias, a paciência e o esforço de Gabriel foram tão severamente taxados
durante os anos de sua vida, entre os dezoito e vinte e oito anos, para chegar
ao presente estágio de progresso que parecia que nada mais lhe restava.
Debruçou-se sobre a grade e cobriu seu rosto com as mãos.

A letargia, no entanto, não dura para sempre, e Oak recuperou-se. Foi


impressionante que a única sentença que ele proferiu fora de agradecimento:

“Graças a Deus que não sou casado: o que ela teria feito na pobreza que
agora me atinge?”

Oak levantou a cabeça e pensando no que poderia fazer, examinou o


cenário com indiferença. Na outra margem ficava uma lagoa oval e acima, o
esqueleto atenuado de uma lua amarelo-cromo que duraria apenas mais
alguns dias, a estrela da manhã já a pegava pela mão esquerda. O lago
brilhava como o olho de um morto, e enquanto o mundo acordava com um
sopro de uma brisa, agitando e alongando o reflexo da lua sem quebrá-lo,
transformando a imagem da estrela num risco fosfórico na água. Oak viu e
lembrou-se de tudo isso.

Tinha-se a impressão que o pobre cão mais novo, ainda sob a impressão
que uma vez fora poupado por correr atrás das ovelhas, quanto mais ele
corresse atrás delas, melhor, pois podia comer uma ovelha morta, o que podia
dar-lhe energia e ânimo adicionais. Dessa forma, recolheu todos os carneiros
num canto, guiando as tímidas criaturas pela cerca, atravessando o campo de
cima e por força maior de preocupação que lhe dera impulso, o bastante para
quebrar uma parte da grade apodrecida, e então lançá-las pelo abismo.

O filho de George fez seu trabalho com tanto afinco que fora considerado
um trabalhador bom demais para continuar vivo e, de fato, levou um tiro às
doze horas do mesmo dia. Um exemplo do destino adverso que tão
frequentemente atinge os cães e outros filósofos, que seguem uma linha de
raciocínio para esta conclusão lógica, e atende perfeitamente a conduta
consistente num mundo grande demais para permitir concessões.

A fazenda de Gabriel recebeu um novo rebanho de um negociante, na


força da aparência e do caráter promissor de Oak, que recebia uma
porcentagem do fazendeiro por determinado tempo até que o adiantamento
fosse quitado. Oak descobriu que o valor do rebanho, instalação e
implementos que eram seus mesmo seria o suficiente para pagar suas dívidas,
tornando-o um homem livre apenas com a roupa do corpo e nada mais.
CAPÍTULO VI
A FEIRA—A VIAGEM—O INCÊNDIO

Dois meses se passaram. Somos trazidos a um dia em fevereiro, no qual


acontecia o estatuto anual ou a feira de contratações da capital do condado de
Casterbridge.

Numa ponta da rua ficavam de duzentos a trezentos trabalhadores alegres


e fortes esperando uma oportunidade, todos os homens do moinho para quem
o trabalho sugeria nada pior do que uma luta contra a força da gravidade e um
prazer nada melhor do que a renúncia do mesmo. Entre eles, carroceiros e
condutores distinguiam-se por trazerem um chicote enrolado em volta de seus
chapéus; os que faziam telhados vestiam uma peça de palha trançada;
pastores seguravam seus cajados, e assim a situação necessária era conhecida
pelos contratantes num olhar.

Entre a multidão, estava um jovem atlético de aparência um tanto superior


dos demais. Na verdade, sua superioridade era marcante o suficiente para
levar muitos dos camponeses rosados a pararem para falar com ele como se
fosse um fazendeiro e a usar “senhor” ao terminar uma fala. Ele sempre
respondia:

“Eu mesmo estou procurando uma oportunidade para mim, como


administrador. Sabe de alguém que queira um?”

Gabriel estava mais pálido agora. Seus olhos estavam mais meditativos e
sua expressão era mais triste. Passara por uma provação de infelicidade que
mais lhe acrescentara do que retirara. Caíra de sua modesta elevação de rei do
pastoril nas profundas covas lamacentas do vale de Sidim.[5] Todavia tornara
um homem de uma calma digna que nunca antes conhecera e aquela
indiferença com o destino que, embora geralmente transforme o homem em
vilão, é a base de sua sublimidade quando não faz. E assim a humilhação fora
exaltada e a perda, ganha.

Um regimento havia deixado a cidade pela manhã e um sargento e seu


grupo batiam buscando por seus recrutas pelas quatro ruas. Com a chegada
do final do dia, encontrando-se sem ser contratado, Gabriel quase desejou que
tivesse se juntado a eles e partido para servir seu país. Cansado de ficar no
mercado e não se importando muito com o tipo de trabalho que cairia em
suas mãos, decidiu oferecer-se para outro cargo além de administrador.

Todos os fazendeiros pareciam estar esperando por pastores. Cuidar de


ovelhas era a especialidade de Gabriel. Virando numa rua obscura, e entrando
numa via ainda mais obscura, entrou na loja de um ferreiro.

“Quanto tempo leva para fazer um cajado?”

“Vinte minutos.”

“Quanto custa?”

“Dois xelins.”

Ele se sentou num banco, o cajado foi feito e uma haste lhe foi entregue
pela barganha.

Entrou então numa loja que vendia roupas prontas, com cujo dono ele
tinha uma grande ligação rural. Como o cajado levou muito do dinheiro de
Gabriel, ele tentou e conseguiu uma troca de seu sobretudo por um avental de
pastor.

Com esta transação finalizada, de novo ele correu para o centro da cidade
e parou no meio-fio, como um pastor com o cajado na mão.

Agora que Oak tinha se transformado num pastor, parecia que a procura
era por administradores. No entanto, dois ou três fazendeiros notaram-no e se
aproximaram. Seguiram-se alguns diálogos, mais ou menos na forma
acrescentada:
“De onde você é?”

“Norcombe.”

“É bem longe.”

“Quinze milhas.”

“De quem era a última fazenda em que esteve?”

“Minha.”

Esta resposta invariavelmente funcionou como um barulho de cólera. Este


fazendeiro que perguntou afastou-se e balançou a cabeça dubiamente.
Gabriel, assim como seu cão, era bom demais para ser confiável e não fez
nenhum avanço além deste ponto.

É mais seguro aceitar qualquer oportunidade que se ofereça, e improvisar


um procedimento para ajustar-se, do que amadurecer um bom plano e esperar
pela chance de usá-lo. Gabriel gostou de não ter fechado nenhum acordo
como pastor, mas ter se guardado para qualquer coisa no ciclo total de
trabalho que ele havia procurado na feira. Anoiteceu. Alguns homens alegres
estavam assoviando e cantando com a troca do milho. A mão de Gabriel, que
ficara algum tempo parada no bolso do avental, tocou a flauta que ele trazia.
Ali estava uma oportunidade de colocar seu amado conhecimento adquirido
em prática.

Pegou sua flauta e começou a tocar “Jockey to the Fair” no estilo de um


homem que nunca conheceu um momento de tristeza. Oak soprava com
doçura arcadiana e o som de notas bem conhecidas alegravam seu próprio
coração assim como daqueles que estavam sem fazer nada. Tocou com
emoção e em meia hora ganhara em centavos o que seria uma pequena
fortuna para um homem destituído.

Ao fazer algumas perguntas, descobriu que havia outra feira em


Shottsford no dia seguinte.

“Qual é a distância até Shottsford?”


“Dez milhas pra lá de Weatherbury.”

Weatherbury! Era para onde Bathsheba havia ido dois meses atrás. Era
uma informação que caíra como a noite ao meio-dia.

“Qual é a distância até Weatherbury?”

“Cinco ou seis milhas.”

Bathsheba provavelmente teria deixado Weatherbury há muito tempo a


esta altura, mas havia muito interesse ligado ao local para levar Oak a
escolher a feira de Shottsford como seu próximo campo de buscas, porque
ficava nas imediações de Weatherbury. Além do mais, as pessoas de
Weatherbury não eram desinteressantes intrinsecamente. Se o que diziam
sobre eles fosse verdade, eram tão fortes, alegres, prósperos e perversos como
em todo o condado. Oak decidiu dormir em Weatherbury naquela noite em
seu caminho para Shottsford e partiu decidido na estrada que lhe
recomendaram como a rota direta para a vila em questão.

A estrada estendia-se por prados alagados cruzados por pequenos riachos,


dos quais superfícies trêmulas eram trançadas ao longo do centro e dobradas
em vincos nas laterais; ou onde o fluxo era mais rápido, o córrego
embaralhava-se com pequenos pontos de espuma branca, que corria numa
serenidade inabalável. Nas partes mais altas, as carcaças mortas e secas de
folhas forravam o chão ao rolarem na pressa pelos ombros do vento e
pequenas aves nas sebes batiam suas asas energicamente e enrolavam-se
confortavelmente esperando a noite, conservando seus lugares se Oak
continuasse passando, mas voando se ele parasse para olhá-las. Passou por
Yalbury Wood onde as aves de caça subiam para seus abrigos e ouviu o
cacarejar dos faisões e o assovio arfante das galinhas.

Após ter caminhado por três ou quatro milhas, todas as formas na


paisagem ganharam um tom escuro uniforme. Desceu o Yalbury Hill e pôde
discernir uma carroça à sua frente, debaixo de uma árvore frondosa inclinada
à beira da estrada.

Ao chegar mais perto, descobriu que não havia cavalos presos nela e o
local estava aparentemente deserto. A carroça, por sua posição, parecia ter
sido deixada ali para passar a noite, e que além de cerca de meio fardo de
feno guardado no fundo, estava vazia. Gabriel sentou-se nas barras do veículo
e considerou sua posição. Calculou que já havia caminhado uma porção
muito satisfatória de sua jornada, e estando de pé desde o amanhecer, sentiu-
se tentado a deitar-se sobre o feno na carroça em vez de continuar até a vila
de Weatherbury e ter que pagar por um alojamento.

Comendo suas últimas fatias de pão com presunto e bebendo da garrafa


de cidra que havia trazido por precaução, ele entrou na carroça solitária.
Espalhou ali metade do feno como uma cama o melhor que pôde no escuro e
puxou a outra metade sobre si como se fossem cobertores, cobrindo-se
totalmente e sentindo-se fisicamente o mais confortável que já estivera em
toda sua vida. Sentir-se melancólico era impossível para um homem como
Oak, muito mais introspectivo que seus vizinhos para banir a página
traiçoeira e desfavorável de sua história. Então, pensando em suas
infelicidades, amorosas e pastoris, ele adormeceu, como gostam os pastores,
assim como os marinheiros, no privilégio de poder invocar Deus em vez de
esperar por Ele.

Acordando de uma maneira repentina após dormir sem imaginar por


quanto tempo, Oak descobriu que a carroça estava em movimento. Estava
sendo levado pela estrada numa velocidade bastante considerável para um
veículo sem molas e sob circunstâncias de desconforto físico, sua cabeça
sendo jogada para cima e para baixo na cama da carroça como uma baqueta
de um tambor. Ele então distinguiu vozes numa conversa, vindas da parte da
frente da carroça. Sua preocupação com este dilema (que podia ser alarmante
se ele fosse um homem bem-sucedido, mas o revés é um bom sonífero para o
terror pessoal) levou-o a esconder-se no feno e a primeira visão que ele teve
foi das estrelas acima dele. A constelação da Carruagem de Charles estava se
aproximando de um ângulo reto com a estrela Polar e Gabriel concluiu que
devia ser nove horas, em outras palavras, que ele havia dormido por duas
horas. Este pequeno cálculo astronômico foi feito sem nenhum esforço
positivo e enquanto ele estava secretamente começando a descobrir, se
possível, em que mãos ele havia caído.

Duas silhuetas eram fracamente visíveis na frente, uma das quais estava
dirigindo, sentadas com as pernas para fora da carroça. Gabriel logo
descobriu que era o condutor e parecia que vinham para a feira de
Casterbridge, assim como ele.

A conversa estava em andamento e assim continuava:

“Seja como for, ela tem um corpo bonito no que se refere à sua aparência.
Mas é só a pele de uma mulher, e a vaca é tão boa como orgulhosa, como se
tivesse o diabo por dentro.”

“É, é o que parece, Billy Smallbury, é o que parece.” Esta declaração era
muito duvidosa por natureza, e ainda mais pela circunstância, os solavancos
da carroça interferindo na laringe daquele que estava falando. Vinha do
homem que segurava as rédeas.

“Ela é uma mulher muito convencida, como se fala por toda parte.”

“Ora. Se for assim, não vou poder olhar na cara dela. Meu Deus, não! Eu
não! Sou muito acanhado!”

“É, ela é muito convencida. Dizem que toda noite quando ela vai dormir
se olha no espelho para colocar sua touca direito.”

“E não é casada? Eh, mundo!”

“Ela também toca piano, como falam. Consegue tocar tão bem que faz
um salmo parecer a canção mais alegre que se possa imaginar.”

“Foi o que lhe falei! É a hora da nossa alegria, e me sinto como um novo
homem! E quanto ela paga?”

“Isso eu num sei, Seu Poorgrass.”

Ao ouvir estas e outras observações parecidas, um pensamento selvagem


passou pela cabeça de Gabriel que eles pudessem estar falando de Bathsheba.
No entanto, não havia bases para manter tal suposição, pois a carroça, embora
estivesse a caminho de Weatherbury, poderia estar indo para além de lá e a
mulher descrita parecia ser alguma prostituta. Estavam agora aparentemente
perto de Weatherbury e para não assustar os que conversavam
desnecessariamente, Gabriel desceu da carroça sem ser visto.
Encontrou uma abertura numa cerca, que descobriu ser um portão, e
pulando-o, sentou-se pensando se procuraria um abrigo barato na vila ou se
garantiria com um ainda mais barato deitando-se sob um monte de feno ou
uma pilha de milho. O tilintar da carroça morreu em seus ouvidos. Estava
prestes a caminhar quando percebeu uma luz incomum à sua esquerda, que
parecia estar a um quarto de milha de distância. Oak observou-a e o brilho
aumentou. Algo estava pegando fogo.

Gabriel pulou o portão e, pisando do outro lado sobre o que ele descobriu
ser um campo arado, atravessou-o na direção exata do fogo. Com a sua
proximidade as labaredas pareciam ter dobrado de tamanho, mas tiveram seu
próprio aumento, de fato, como ficou claro quando chegou mais perto dos
contornos dos montes de feno ao lado dela, iluminados em grande precisão.
A fonte do fogo era um campo de feno. Seu rosto cansado agora começava a
colorir-se de um brilho alaranjado intenso e toda a frente de seu avental e das
polainas estava coberta com uma sombra dançante dos espinheiros. A luz o
alcançava por uma cerca-viva sem folhas, e o gancho metálico de seu cajado
irradiava um brilho prateado da mesma intensidade. Foi até a cerca e parou
para recobrar a respiração. Era como se o lugar estivesse desocupado de uma
viva alma.

O fogo vinha de um fardo de palha, que já havia sido totalmente


consumido impedindo uma possibilidade de salvá-lo. Um fardo queima de
maneira diferente de uma casa. Conforme o vento sopra o fogo para dentro, a
porção em chamas desaparece completamente como açúcar derretendo, e o
contorno foge da visão. No entanto, um monte de feno ou de trigo bem
amarrado pode resistir à combustão por um período de tempo se ele começar
pelo lado de fora.

O que estava diante dos olhos de Gabriel era um monte de palha num
feixe solto e as chamas lançavam-se dele com a velocidade de um raio.
Reluzia na direção do vento, aumentando e diminuindo em intensidade como
a brasa de um charuto. Então um feixe sobreposto rolou com um barulho
repentino; as labaredas prolongaram-se e dobraram-se num rugido silencioso
e por detrás delas, piras queimavam escondidas, iluminando uma cortina de
fumaça semitransparente numa uniformidade amarela brilhante. Palhas
perdidas pelo chão eram consumidas num movimento crepitante de calor
rubro, como se fossem nós de minhocas vermelhas, e acima brilhavam rostos
flamejantes imaginários, línguas que saíam de lábios, olhos brilhantes e
outras formas terríveis, das quais de tempos em tempos fagulhas voavam em
bandos como aves de um ninho.

Oak de repente deixou de ser um mero espectador ao descobrir que o caso


era mais sério do que pensara no início. Um caracol de fumaça soprou e lhe
mostrou um fardo de trigo numa justaposição espantosa com o que era
consumido, e por trás deste, uma série de outros, que compunham a principal
produção de milho da fazenda; assim, em vez de somente o fardo de palha,
como ele imaginava relativamente isolado, havia uma conexão regular entre
este e as pilhas que estavam no grupo.

Gabriel pulou a cerca e viu que não estava só. O primeiro homem que
encontrou estava correndo com muita pressa, como se seus pensamentos
estivessem a muitas jardas à frente de seu corpo, o qual eles nunca arrastaram
tão depressa.

“Oh, meu Deus — fogo, fogo! Um bom patrão e um mau empregado dá


em fogo, fogo! É o que eu digo, um mau empregado e um bom patrão. Oh,
Mark Clark, venha! E você, Billy Smallbury, e você, Maryann Money, e
você, Jan Coggan, e também Matthew!”

Outros agora apareciam atrás deste homem que gritava no meio da


fumaça, e Gabriel descobriu que, longe de estar só, estava em ótima
companhia, cujas sombras dançavam alegremente para cima e para baixo,
ritmadas pela dança das chamas e o sentimento na forma de comoção levou
ao trabalho com uma confusão admirável de propósito.

“Parem a corrente de ar debaixo do feixe de trigo!”, gritou Gabriel aos


que estavam mais perto dele. A pilha de milho sobre os esteios de pedra e
entre eles, línguas de tom amarelo da palha queimando vazavam e
arremessavam-se zombeteiras. Se o fogo passasse para debaixo daquela pilha,
tudo estaria perdido.

“Peguem uma lona, depressa!”, disse Gabriel.

Uma lona para cobrir fardos foi trazida e eles a penduraram como uma
cortina através da valeta. As chamas pararam imediatamente de passar por
debaixo da pilha de milho e subiram verticalmente.

“Fique aqui com um balde d’água e mantenha o tecido úmido”, disse


Gabriel outra vez.

As chamas, que agora subiam, começaram a atacar os ângulos do enorme


telhado que cobria o feixe de trigo.

“Uma escada”, gritou Gabriel.

“A escada estava contra o feixe de palha e foi reduzida a cinzas”, disse


uma forma de espectro na fumaça.

Oak agarrou as pontas soltas dos feixes como se fosse participar na


operação de “enrolar o junco” e cavando com os pés, ocasionalmente
puxando a haste com seu cajado, subiu na parte mais alta. Imediatamente
sentou-se com uma perna de cada lado bem no alto e começou a repelir com
seu cajado os fragmentos incandescentes que haviam se alojado ali, gritando
para que lhe trouxessem um galho e uma escada, além de água.

Billy Smallburry, um dos homens que estavam na carroça, a esta altura


tinha encontrado uma escada, na qual Mark Clark subiu, segurando Oak pelo
avental. A fumaça neste canto era sufocante, e Clark, um rapaz ligeiro, ao
receber um balde de água, molhou o rosto de Oak e umedeceu-o todo,
enquanto Gabriel, agora com um galho longo de faia numa mão e seu cajado
na outra, continuava a varrer e a remover todas as partículas de fogo.

No chão, grupos de moradores das vilas ainda estavam ocupados em fazer


o que podiam para conter a destruição, que não era muita. Estavam todos
tingidos de laranja e produziam sombras de formas variadas. Depois do canto
do feixe maior, longe dos raios diretos do fogo, estava um pônei carregando
uma jovem. Ao lado dela estava outra mulher a pé. As duas pareciam manter
distância do fogo para que o cavalo não se inquietasse.

“É um pastor”, disse a mulher em pé. “É sim. Veja como o cajado dele


brilha conforme ele bate no feixe com ele. E seu avental tem dois furos pelo
fogo, tenho certeza! Que belo pastor que ele é, Madame!”
“Ele é pastor de quem?”, perguntou a amazona com voz clara.

“Não sei, Madame.”

“Ninguém mais sabe?”

“Ninguém mais, já lhes perguntei. Dizem que é um estranho.”

A jovem a cavalo saiu da sombra e olhou ao redor ansiosamente.

“Acha que o celeiro está a salvo?”, perguntou ela.

“Acha que o celeiro está a salvo, Jan Coggan?”, repetiu a segunda mulher
ao homem mais próximo naquela direção.

“Seguro agora, pelo menos, eu acho. Se este fardo se fosse o celeiro seria
atingido. Aquele pastor esperto fez o melhor, sentado em cima do fardo,
batendo rapidamente seus braços compridos como um moinho.”

“Ele é mesmo muito esforçado”, admirou-se a moça a cavalo, olhando


para Gabriel pelo véu grosso de lã. “Gostaria que ele fosse pastor daqui.
Nenhum de vocês sabe o nome dele?”

“Nunca ouvi o nome deste homem na minha vida, nem o vi antes.”

O fogo começou a diminuir e a posição de Gabriel no alto não era mais


necessária, e ele desceu.

“Maryann”, disse a garota a cavalo, “vá até ele enquanto está descendo e
diga que a fazendeira quer agradecê-lo pelo grande serviço que ele prestou.”

Maryann caminhou na direção do fardo e encontrou Oak ao pé da escada.

“Onde está seu patrão, o fazendeiro?”, perguntou Gabriel, acendendo a


ideia de conseguir emprego naquele momento.

“Não é o patrão, é a patroa, pastor.”

“Uma fazendeira?”
“É, e acho que ela é rica também!”, disse um dos espectadores. “Faz
pouco tempo que veio de longe pra cá. Ganhou a fazenda do tio dela, que
morreu de repente. Media o dinheiro dele em canecas de meio-litro. Dizem
que agora ela tem negócios em cada banco de Casterbridge e nem pensa mais
em jogar cara e coroa com uma moeda de vinte xelins como nós jogamos
com meio pence por nada nesse mundo, pastor.”

“Ali está ela, no seu cavalo”, informou Maryann. “Com a cara coberta
com pano preto com buracos.”

Oak, sujo, encardido e irreconhecível pela fumaça e pelo calor, com o


avental furado pelo fogo e encharcado pela água, seu cajado queimado e seis
polegadas mais curto, aproximou-se com a humildade austera empurrando-o
para a figura feminina franzina sobre a cela. Tirou seu chapéu com respeito e
não sem galanteio: dando um passo mais perto dos pés dela no alto, disse
com voz hesitante:

“Por acaso precisa de um pastor, Madame?”

Ela levantou o véu de lã que envolvia seu rosto e parecia totalmente


surpresa. Gabriel e sua amada de coração frio, Bathsheba Everdene, estavam
frente a frente.

Bathsheba não disse nada e ele repetiu mecanicamente numa voz


envergonhada e triste:

“Precisa de um pastor, Madame?”


CAPÍTULO VII
RECONHECIMENTO—UMA GAROTA TÍMIDA

Bathsheba sumiu nas sombras. Mal sabia se estava mais surpresa pela
singularidade do encontro ou preocupada com a estranheza dele. Havia
espaço para um pouco de pena, também para pouquíssima exultação: a
primeira coisa por sua posição, a segunda por ela mesma. Embaraçada ela
não estava, e lembrou-se da declaração de amor de Gabriel em Norcombe
apenas por pensar que quase se esquecera dela.

“Sim”, murmurou ela, usando um ar de dignidade e virando-se outra vez


para ele com certo calor nas bochechas. “Quero mesmo um pastor. Mas...”

“Este é o homem, Madame”, disse baixinho um dos moradores do


vilarejo.

Uma ideia confirma a outra.

“É, isso mesmo”, disse outro, decisivamente.

“É ele mesmo!”, falou um terceiro, com sinceridade.

“O próprio!”, disse o quarto, fervorosamente.

“Então digam a ele para falar com o administrador”, falou Bathsheba.

Estava tudo fácil agora. A proximidade do verão e a solidão foram


necessárias para dar ao encontro a plenitude do romance.

Apresentaram o administrador a Gabriel que, percebendo a palpitação em


seu peito ao descobrir que esta deusa admirada Astarte, era apenas uma
modificação da Vênus tão conhecida, afastou-se dela para falar das
necessidades preliminares da contratação.

O fogo diante deles diminuiu.

“Homem”, disse Bathsheba, “você precisa de um pouco de descanso


depois do trabalho extra. Não quer entrar?”

“Podemos comer e beber alguma coisa de graça, Senhorita, neste caso


iremos para o Warren’s Malthouse”, respondeu o orador.

Bathsheba então cavalgou de volta na escuridão e os homens vagaram


para a vila em duplas ou trios, Oak e o administrador saíram sozinhos pela
pilha.

“E agora”, disse o administrador, “que tudo está resolvido sobre a sua


vinda, vou para casa. Boa noite, pastor.”

“Pode me arrumar um lugar para ficar?”, perguntou Gabriel.

“Isso eu já não posso”, disse ele, passando por Oak como um cristão
passa pela bandeja do ofertório quando não tem intenção de doar nada. “Se
você seguir pela estrada até chegar ao Warren’s Malthouse, onde todos já se
foram para foram comer, acredito que alguém possa lhe oferecer um lugar.
Tenha uma boa-noite, pastor.”

O administrador, que demonstrou tal pavor em amar o próximo como a si


mesmo, subiu a colina e Oak andou até a vila, ainda pasmo por ter
reencontrado Bathsheba, contente pela proximidade com ela, e perplexo com
a rapidez com a qual a moça sem prática de Norcombe se tornara a mulher
calma e supervisora aqui. Mas algumas mulheres precisam apenas de uma
emergência para que se encaixem nisso.

Grato, de algum modo, por privar-se de sonhar para encontrar seu


caminho, ele chegou à praça da igreja e deu a volta por baixo do muro onde
várias árvores antigas ficavam. Havia uma larga beira de grama e os passos
de Gabriel eram amortecidos pela maciez dela, mesmo neste tempo seco do
ano. Quando encontrou um tronco, que parecia ser o mais velho de todos,
notou que alguém estava parado atrás dele. Gabriel não parou sua caminhada
e em outro momento acidentalmente chutou uma pedra solta. O barulho foi o
bastante para incomodar o estranho imóvel, que assumiu uma posição mais
descuidada.

Era uma moça esbelta, com poucas roupas.

“Boa noite”, disse Gabriel, cordialmente.

“Boa noite”, respondeu a garota a Gabriel.

A voz era inesperadamente atraente. Era a nota baixa e melodiosa


sugestiva do romance, comum nas descrições, rara na experiência.

“Ficaria grato se me dissesse o caminho para o Warren’s Malthouse”,


continuou Gabriel, inicialmente para obter a informação, indiretamente para
ouvir mais daquela melodia.

“Muito bem. Fica no pé da colina. E você sabe...” A garota hesitou e


depois continuou. “Sabe se o Buck’s Head Inn fica aberto até tarde?”, ela
parecia conquistada pela cordialidade de Gabriel como ele fora conquistado
pela musicalidade dela.

“Não sei onde fica o Buck’s Head ou coisa assim. Está pensado em ir
para lá esta noite?”

“Sim...” A mulher pausou novamente. Não havia necessidade alguma de


continuar a conversa e o fato de ela ter continuado parecia vir de um desejo
inconsciente de mostrar despreocupação, afirmar algo que era percebido na
ingenuidade quando estão agindo em segredo. “Você não é de
Weatherbury?”, disse ela timidamente.

“Não. Sou o novo pastor. Acabei de chegar.”

“Só um pastor... mas parece quase um fazendeiro por seus modos.”

“Só um pastor”, repetiu Gabriel, numa cadência tola de determinação.


Seus pensamentos dirigiram-se para o passado, e seus olhos aos pés da moça
e pela primeira vez ele viu ali um tipo de inquietação. Ela deve ter percebido
a direção do rosto dele, pois disse lisonjeiramente:

“Você não vai dizer nada na paróquia que me viu aqui, vai? Pelo menos
por um ou dois dias?”

“Não se você não quiser que eu diga”, respondeu Oak.

“Muito obrigada”, retorquiu ela. “Sou bem pobre e não quero que as
pessoas saibam nada sobre mim.” Ela então ficou em silêncio e estremeceu.

“Você precisa de um casaco para uma noite tão fria”, observou Gabriel.
“Eu a aconselharia a entrar.”

“Ah, não! Se importa de continuar e me deixar? Agradeço-lhe muito pelo


que me disse.”

“Vou seguir em frente”, disse ele. Hesitantemente, ele continuou. “Como


você não está em condições muito boas, talvez aceite o pouco que tenho. É só
um xelim, mas é tudo o que tenho de reserva.”

“Sim, vou aceitar”, disse a estranha, com gratidão.

Ela estendeu a mão, e Gabriel, a dele. A sensação das mãos que se


tocaram na melancolia antes que o dinheiro fosse passado, um incidente
momentâneo que disse muita coisa. Os dedos de Gabriel pousaram no pulso
da jovem e este pulsava com um batimento de intensidade trágica. Ele
frequentemente sentia a mesma velocidade, um batimento forte na artéria
femoral de seus carneiros quando estavam cansados. Parecia que ela estava
passando por uma situação devastadora, grande demais numa vitalidade que,
a julgar pela sua aparência e estatura, era pouca.

“Qual é o problema?”

“Nada.”

“Mas existe um”, afirmou ele.

“Não, não, não! Guarde segredo que me viu.”


“Muito bem, vou guardar. Boa noite outra vez.”

“Boa noite.”

A jovem continuou imóvel perto da árvore e Gabriel desceu até a vila de


Weatherbury ou Lower Longpuddle como às vezes era chamada. Pensou
sentir a penumbra de uma tristeza muito profunda ao tocar aquela criatura
débil e frágil. Mas a sabedoria está em moderar meras impressões, e Gabriel
esforçou-se para pensar pouco naquilo.
CAPÍTULO VIII
O MALTHOUSE—A CONVERSA—NOTÍCIAS

O Warren’s Malthouse[6] era fechado por um muro antigo coberto por hera
e, embora muito do interior não fosse visível naquele horário, as
características e os propósitos do prédio eram claramente mostrados pelos
contornos no céu. Das paredes subiam ao centro de um telhado de palha, de
onde surgia uma pequena lanterna de madeira, com aberturas nos quatro
lados, e por elas uma névoa era vagamente percebida escapando no ar
noturno. Não havia janelas frontais, mas um buraco quadrado era fechado por
um único vidro por onde raios vermelhos e confortantes estendiam-se agora
pelo muro com heras da frente. Ouviam-se vozes no interior.

A mão de Oak deslizou pela superfície da porta com os dedos estendidos


como fez o falso profeta bíblico Elimas, o Mágico, até que encontrou uma
tira de couro e a puxou. Isso levantou uma trava de madeira e a porta se
abriu.

O ambiente interno era iluminado apenas por um brilho avermelhado da


boca do forno, que reluzia sobre o chão com os raios horizontais do sol
poente, e lançava para cima as sombras de todas as irregularidades faciais
daqueles ali reunidos. O chão de ardósia era usado como um caminho da
porta até o forno com ondulações por toda parte. Um banco curvo
improvisado de carvalho estendia-se num dos lados, e num canto remoto
ficava uma cama pequena e sua armação, cujo frequente ocupante e dono era
o preparador do malte.

Este homem de idade agora estava sentado de frente para o fogo. Seus
cabelos eram brancos como a neve, a barba crescia por seu rosto enrugado
como musgo e líquen sobre uma macieira sem folhas. Usava calças até a
altura dos joelhos e botas até os tornozelos. Tinha os olhos fixos no fogo.

O nariz de Gabriel fora agraciado por uma atmosfera carregada pelo doce
aroma de malte novo. A conversa, a qual parecia ser a respeito da origem do
fogo, parou abruptamente quando ele entrou. Cada um criticou-o com o olhar
num grau expresso pelo franzir de suas testas e o observou com olhos
serrados como se ele fosse uma luz muito forte para a visão deles. Muitos
exclamaram meditativamente, depois que a operação estava terminada:

“Ah, acho que é o novo pastor.”

“Achamos que ouvimos uma mão procurando a maçaneta, mas não


tínhamos certeza se não era uma folha seca levada pelo vento”, disse o outro.
“Entre, pastor, claro que é bem-vindo, mesmo sem saber o seu nome.”

“Gabriel Oak, este é o meu nome, vizinhos.”

O velho cervejeiro, sentado ao centro, virou-se como um gancho


enferrujado.

“Impossível que seja o neto de Gabriel Oak de Norcombe, impossível!”,


exclamou ele, como uma fórmula expressiva de surpresa, a qual ninguém
devia compreender literalmente em nenhum momento.

“Meu pai e meu avô também se chamavam Gabriel”, disse placidamente


o pastor.

“Bem que eu achei que conhecia a cara do homem que vi no meio da


palha! E para onde vai agora, pastor?”

“Estou pensando em pedir para ficar aqui”, respondeu Oak.

“Conheci seu avô há muito tempo!”, continuou o cervejeiro, as palavras


jorravam como se por vontade própria, como se o ímpeto previamente
transmitido fosse o bastante.

“Ah, não me diga!”

“Conheci sua avó também.”


“Ela também?”

“Do mesmo jeito que conheci seu pai quando era criança. Ora, meu Jacob
aqui e seu pai eram feito irmãos, não era mesmo, Jacob?”

“Sim, era”, afirmou seu filho, um homem de cerca de sessenta e cinco


anos, meio careca e com um dente no centro da parte de cima da boca, que o
deixava em destaque, como um marco numa ribanceira. “Mas era o Joe que
ficava mais com ele. No entanto, meu filho William deve ter conhecido esse
tal homem antes de nós, não é, Billy, antes de você sair de Norcombe?”

“Não, foi Andrew”, disse o filho de Jacob. Billy, de cerca de quarenta


anos, que manifestou a peculiaridade de possuir uma alma alegre num corpo
triste e cujas suíças ganhavam alguns tons de chinchila.

“Lembro-me de Andrew”, disse Oak, “como uma autoridade no lugar


quando eu era bem pequeno.”

“Sim. Outro dia, eu e minha filha mais nova, Liddy, estávamos no


batizado do meu neto”, continuou Billy. “Falamos exatamente sobre essa
família, e que foi no último Dia da Purificação, quando o dinheiro é doado
aos mais pobres, você sabe, pastor, e lembro que todos tinham que passar
pela sacristia... sim, da família deste homem aqui.”

“Venha e beba, pastor. Coma conosco, é coisa simples”, disse o


cervejeiro tirando os olhos vermelhos e turvos do fogo para olhar para ele.
“Pegue o Deus-que-me-perdoe, Jacob. Veja se está quente, Jacob.”

Jacob abaixou-se para pegar o Deus-que-me-perdoe, que era uma caneca


alta com duas alças que ficava sobre as cinzas, trincada e chamuscada pelo
calor. Estava coberta por incrustações pelo lado de fora, especialmente nas
fendas das alças, e as curvas internas, as quais não viam a luz do dia por
muitos anos, possuía uma camada de cinza que, molhada acidentalmente com
cidra, estava endurecida pelo calor. Mas, para a ideia de qualquer bebedor
sensato, a caneca não ficava pior com aquilo, estando incontestavelmente
limpa pelo lado de dentro e perto da borda. Deve-se observar que tal caneca
era chamada de Deus-que-me-perdoe em Weatherbury e na vizinhança por
razões incertas. Provavelmente porque o tamanho fazia com que qualquer
beberrão sentisse vergonha de si mesmo ao ver o fundo ao esvaziá-la.

Jacob, ao receber a ordem de ver se a bebida estava quente o bastante,


placidamente mergulhou seu dedo indicador nela como um termômetro, e
dizendo que estava próximo à temperatura apropriada, levantou a caneca e,
cortesmente tentou limpar um pouco das cinzas do fundo com a ponta de seu
avental, pois o pastor Oak era um estranho.

“Uma caneca limpa para o pastor”, mandou o cervejeiro.

“Não, não se preocupe”, disse Gabriel em tom de reprovação pela


consideração. “Eu nunca me importo com a poeira em seu estado puro e
quando sei de que tipo é.” Pegando a caneca, bebeu uma polegada ou mais de
seu conteúdo e imediatamente passou-a ao homem ao seu lado. “Nem
pensaria em dar esse trabalho para os meus vizinhos, isto é, limpar uma
caneca, quando já há tanto para se fazer”, continuou Oak depois de se
recuperar da falta de ar ocasionada por beber da grande caneca.

“Um homem muito sensato”, disse Jacob.

“Verdade, verdade; não se pode negar!”, observou um rapaz ligeiro


chamado Mark Clark, um camarada genial e agradável que queria conhecer
tudo que podia em suas viagens, saber beber e, infelizmente, pagar por isso.

“E aqui está um bocado de pão com toucinho que a patroa mandou,


pastor. A cidra desce melhor com um pouco de alimento. Não morda muito
perto, pastor, porque derrubei o toucinho pelo caminho quando estava
trazendo e pode estar um pouco sujo de terra. Aqui está limpo. Já vimos que
não é um homem exigente, pastor.”

“É exatamente como penso, vizinho.”

“Ah, ele é neto legítimo de seu avô! Seu avô era um homem tão bom e
desprendido!”, bradou o cervejeiro.

“Beba, Henry Fray, beba”, disse Jay Coggan magnanimamente, uma


pessoa que praticava os princípios do Conde de Saint-Simon[7] de partilhar e
partilhar igualmente onde envolvia a bebida, enquanto a vasilha mostrava
sinais de chegar a ele em sua gradual passagem pelo grupo.

Quando o momento de nostalgia chegou ao fim com um olhar fixo e


pensativo, Henry não recusou. Era um homem que passara da meia idade,
com sobrancelhas altas, um olhar sofrido, que acreditava que as leis do
mundo eram ruins como se apresentava em sua imaginação. Sempre assinava
seu nome como “Henery”, insistindo estrenuamente naquela grafia e se
qualquer professor de passagem se aventurasse a lembrá-lo que o segundo
“e” era supérfluo e antiquado, recebia como resposta que “H-e-n-e-r-y” era o
nome que ele foi batizado e o nome que ele usaria numa voz para quem as
diferenças ortográficas eram assuntos que tinham muito a ver com a sua
personalidade.

Mr. Jan Coggan, o qual passara a caneca para Henery, era um homem
muito vermelho com um semblante amplo e um vislumbre particular no
olhar, cujo nome aparecera no registro de casamento das paróquias de
Weatherbury e da redondeza como padrinho e testemunha em incontáveis
uniões nos vinte anos anteriores. Também ocupou frequentemente o posto de
padrinho em batizados do tipo delicadamente jovial.

“Venha, Mark Clark, venha. Há muito mais no barril”, disse Jan.

“Ah, então eu vou, meu doutor”, concordou Mr. Clark, o qual, vinte anos
mais jovem do que Jan Coggan, revolvia na mesma órbita. Ele escondia a
alegria em todas as ocasiões para uma descarga especial em festas populares.

“Ora, Joseph Poorgrass, não bebeu nada!”, disse Mr. Coggan a um


homem quieto nos fundos, trazendo a caneca para perto de si.

“Um homem tão modesto como ele!”, admirou-se Jacob Smallbury. “Ora,
você raramente teve coragem o bastante para encarar a nossa patroa, como
fiquei sabendo, Joseph?”

Todos olharam para Joseph Poorgrass com reprovação compassiva.

“Não, quase nunca olhei para ela”, sorriu timidamente Joseph,


encolhendo seu corpo ainda mais enquanto falava, aparentemente com um
senso humilde de distinção imprópria. “E quando a vi, eu só fiquei
vermelho!”

“Pobre coitado”, disse Mr. Clark.

“Isso é curioso num homem”, falou Jan Coggan.

“Sim”, continuou Joseph Poorgrass. Sua timidez, tão dolorosa quanto um


defeito, o enchia com complacência moderada. “Fui ficando vermelho,
vermelho, vermelho a cada minuto enquanto ela estava falando comigo.”

“Acredito, Joseph Poorgrass, porque sabemos que você é um homem


acanhado.”

“É um dom esquisito para um homem, coitado”, disse o cervejeiro.


“Quanto tempo faz que sofre disso, Joseph?”

“Ah, desde menino. É... minha mãe morria de preocupação com isso. Mas
não era nada.”

“Por acaso você alguma vez tentou mudar, Joseph Poorgrass?”

“Ah sim, tentei todos os tipos de companhia. Me levaram para a


Greenhill Fair, naquela festa grande e amimada, com mulheres cavalgando de
pé em cima de cavalos, usando só uma bata, mas elas nem me notavam.
Depois virei mensageiro do Boliche para Senhoras atrás do Tailor’s Arms,
em Casterbridge. Era uma situação terrível e pecaminosa, um lugar muito
esquisito para um homem. Eu tinha que ficar e olhar para as pessoas da
manhã até a noite, mas não serviu para nada, eu continuava tão ruim quanto
antes. Ficar vermelho está na família por gerações. Assim, é uma sorte que eu
não piore.”

“Verdade”, disse Jacob Smallbury, mergulhando em seus pensamentos


para uma visão mais profunda do assunto. “É uma coisa para se pensar, que
você podia estar pior, mas mesmo do jeito que você é, a angústia é muito
grande, Joseph. Veja, pastor, embora isso seja normal para uma mulher,
pouco importa, não é esquisito para um homem como ele, coitado?”

“Sim, é sim”, falou Gabriel, voltando de uma meditação. “Sim, muito


esquisito para um homem.”

“E ele é também muito tímido”, observou Jan Coggan. “Uma vez


trabalhamos até tarde em Yalbury Bottom, bebemos um pouco e nos
perdemos dele enquanto ele vinha para casa por Yalbury Wood, não foi, Seu
Poorgrass?”

“Não, não, não; nada disso!”, censurou o homem modesto, forçando uma
risada para encobrir sua preocupação.

“E então ele ficou sozinho”, continuou Mr. Coggan, com o rosto


impassível, concluindo que uma história verdadeira deve seguir seu curso
como o tempo e as marés e não respeitar homem algum. “E ele seguia no
meio da noite, muito assustado e sem poder encontrar a saída pelas árvores de
jeito nenhum. Eu gritei: ‘Homem perdido! Homem perdido!’ Uma coruja
estava piando numa árvore ‘Hu-hu-hu!’ como elas fazem, sabe, pastor”
(Gabriel acenou com a cabeça), “e Joseph, tremendo todo, disse: ‘Joseph
Poograss, de Weatherbury, senhor!’”

“Não, não, não, isso já é demais!”, disse o rapaz acanhado, tornando-se


um homem de coragem imprudente repentinamente. “Eu não falei senhor.
Juro que não falei ‘Joseph Poorgrass de Weatherbury, senhor.’ Não, não, o
que é certo é certo, e eu nunca disse senhor para a ave, sabendo muito bem
que nenhum homem numa posição de cavalheiro estaria piando àquela hora
da noite. ‘Joseph Poorgrass de Weatherbury’ foi tudo que eu disse, e nem
devia ter dito nada se não fosse pelo hidromel[8] da festa do Dia do Capataz...
É, foi sorte que aquilo acabou daquele jeito.”

O grupo implicitamente concordou que era melhor encerrar o assunto ali,


mas Jan continuou pensativo:

“É o homem mais quieto do grupo, não é, Joseph? Sim, outra vez você se
perdeu pelo Lambing-Down Gate, não foi, Joseph?”

“Me perdi”, respondeu Poorgrass, como se houvessem algumas


contradições muito sérias até mesmo para a modéstia de lembrar-se.

“Sim, e também foi no meio da noite. O portão não abria, ele bem que
tentou, e sabendo que tinha o dedo do demônio naquilo, se ajoelhou.”

“É”, falou Joseph, ganhando confiança do calor do fogo, da cidra e uma


percepção de habilidades narrativas pela experiência aludida. “O meu coração
morreu dentro de mim naquela vez, mas eu me ajoelhei e rezei um Pai-Nosso,
e depois o Credo Apostólico logo em seguida, e depois os Dez Mandamentos
com muita fé. Mas nada, o portão não abria, então continuei com Amados
Irmãos e, acho que já contavam quatro e era tudo o que eu sabia do livro, e se
não desse certo, nada daria e eu estaria perdido. Bem, quando eu estava no
Repitam Comigo, me levantei e vi que o portão estava aberto. Sim, vizinhos,
o portão estava aberto mesmo.”

Uma meditação sobre o óbvio foi concedida por todos e durante a


continuação, cada um dirigiu sua visão para o buraco com as cinzas que ardia
como um deserto nos trópicos sob um sol vertical, fazendo com que seus
olhos ficassem longos e finos, em parte por causa da luz, em parte por causa
da profundidade do assunto discutido.

Gabriel quebrou o silêncio:

“Que tipo de lugar é este para se viver e que tipo de patroa ela é para se
trabalhar?” O peito de Gabriel vibrou levemente enquanto escondia do grupo
o assunto mais íntimo de seu coração.

“Não sabemos quase nada dela. Ela apareceu só uma vez alguns dias
atrás. Seu tio ficou muito mal, o doutor foi chamado com todo o seu
conhecimento, mas não conseguiu salvar o homem. Pelo que sei, ela vai ficar
com a fazenda.”

“É mais ou menos isso”, disse Jan Coggan. “É, a família é muito boa.
Logo vou trabalhar para eles. O tio dela era um homem muito justo. Você o
conheceu, pastor, o homem solteiro?”

“Não.”

“Eu costumava ir a casa dele para fazer a corte para a minha mulher,
Charlotte, que trabalhava na leiteria. Era um homem de coração muito bom, o
Fazendeiro Everdene, e como eu sempre fui um rapaz muito respeitável tive
permissão para visitá-la, vê-la e beber quanta cerveja eu quisesse, mas não
podia levar nada, quer dizer, que desse para ver, claro.”

“Ai, ai, Jan Coggan, sabemos o que quer dizer.”

“Então veja, a cerveja era da boa e eu queria dar valor à bondade dele o
mais que pudesse e não ser mal-educado para beber só um golinho, o que
seria um insulto à generosidade de um homem...”

“Verdade, Seu Coggan, seria mesmo”, corroborou Mark Clark.

“E então eu costumava comer bastante peixe salgado antes de ir, e quando


eu chegava lá, estava seco como um punhado de terra, tão seco que a cerveja,
ah, ela descia doce! Tempos felizes! Tempos divinos! Quantas bebedeiras
maravilhosas que eu tive naquela casa! Você se lembra, Jacob? Você às vezes
ia comigo.”

“Lembro, lembro”, respondeu Jacob. “Aquela também, que tivemos em


Buck's Head numa segunda-feira do Pentecostes foi uma bela bebedeira.”

“Se foi. Mas para uma comemoração da classe mais alta, aquilo te deixou
mais perto do dono da casa do que quando você começou, não tinha ninguém
como aqueles na cozinha do Fazendeiro Everdene. Nenhum deles podia; não,
nenhum dos pobres-coitados, até mesmo no momento mais alegre quando
todos não enxergavam mais, embora a boa palavra do pecado jogada aqui e
ali em tais momentos é um grande alívio para uma alma alegre.”

“Verdade”, disse o produtor. “Nater precisa xingar de vez em quando ou


ela não fica bem, e palavrões são uma necessidade da vida.”

“Mas Charlotte”, continuou Coggan, “não permite nenhum tipo de


palavra assim, nem a menor coisa tomada em vão... Ah, coitada da Charlotte,
imagino se terei a sorte de entrar no céu quando morrer! Mas nunca tive
muita sorte, e talvez vá direto para baixo no final, pobre alma!”

“E alguns de vocês conhece o pai e a mãe de Miss Everdene?”, perguntou


o pastor, que encontrou certa dificuldade em manter a conversa no rumo
desejado.
“Eu os conhecia pouco”, disse Jacob Smallbury, “mas eram da cidade e
não moravam aqui. Morreram faz anos. Pai, que tipo de gente era o pai e a
mãe da patroa?”

“Bem”, disse o cervejeiro, “ele não era muito bonito, mas ela era uma
mulher adorável. Ele gostava muito dela como companheira.”

“Costumava beijá-la muitas vezes, sem parar, como diziam”, comentou


Coggan.

“Fiquei sabendo que ele tinha muito orgulho dela também quando eram
casados”, disse o cervejeiro. “Ah”, disse Coggan. “Ele a admirava tanto que
acendia uma vela três vezes por noite para olhá-la.”

“Um amor sem fim; eu nunca imaginaria!”, murmurou Joseph Poorgrass,


que costumava falar em larga escala de suas reflexões morais.

“Bom, pode acreditar”, disse Gabriel.

“Ah, é tudo verdade. Conhecia bem tanto o homem quanto a mulher. Levi
Everdene, esse era o nome do homem, com certeza. ‘Homem’, dizia eu na
minha inquietação, mas ele era de um círculo mais alto do que aquele. Era um
cavalheiro e um alfaiate rico. Faliu umas duas ou três vezes.”

“Ah, eu achava que ele fosse um homem comum!”, disse Joseph.

“Ah não, não! Aquele homem perdeu montes de dinheiro, centenas em


ouro e prata.”

O cervejeiro estava com falta de ar. Mr. Coggan, após esquadrinhar um


carvão que caíra no meio das cinzas, tomou a narrativa revirando os olhos:

“Bem, agora, vocês não vão acreditar, mas o homem, o pai da nossa Miss
Everdene, era um dos maridos mais volúveis vivos, depois de algum tempo.
Entendem? Não que quisesse ser volúvel, mas não conseguia evitar. O
coitado do homem era fiel e sincero o bastante com ela como desejava, mas o
coração dele vagava e ele o seguia. Conversou comigo muito perturbado com
isso uma vez. ‘Coggan’, disse ele, ‘nunca desejei uma mulher mais linda do
que a que eu tenho, e ela foi designada como minha esposa legítima, mas não
consigo evitar que meu coração malvado vagueie e faça o que quer.’ Mas no
fim acredito que ele se curou. Ele pedia que ela tirasse o anel de casamento
deles e chamava-a pelo nome de solteira quando se sentavam juntos depois
que a loja estava fechada. Então ele imaginava que ela não fosse sua mulher,
nem fosse casada com ele. E assim pensando ele não estava fazendo algo
errado e ferindo o sétimo mandamento, pois gostava mais dela do que nunca
e viviam na perfeita imagem de amor mútuo.”

“Bem, essa foi a solução mais pavorosa”, murmurou Joseph Poorgrass;


“mas devemos sentir profunda alegria que uma Providência Divina evitou
que o pior acontecesse. Veja, ele podia ter tomado o caminho errado e caído
totalmente na ilegitimidade — sim, a ilegitimidade indecente, por assim
dizer.”

“Olhe”, disse Billy Smallburry, “a vontade do homem era fazer o certo,


com certeza, mas o coração dele não concordava.”

“Ele melhorou tanto que depois se tornou quase um santo, não foi, Jan?”,
comentou Joseph Poorgrass. “Se reafirmou tantas vezes de um jeito mais
sério e vivia dizendo ‘Amém’ quase tão alto quanto o sacristão e gostava de
copiar versos consoladores das lápides. Ele também costumava levar o prato
da coleta no cântico Let Your Light so Shine[9], de ser o padrinho de crianças
pobres nascidas fora do casamento e guardava uma caixa de esmolas debaixo
de sua mesa para dar a pessoas desprevenidas quando fizessem uma visita.
Sim, ele pegava os meninos carentes pelas orelhas se rissem na igreja até que
eles mal pudessem se aguentar de pé e fazer outras ações de piedade natural
para a santidade pretendida.”

“É, naquele tempo ele não pensava em mais nada do que nas coisas do
céu”, continuou Billy Smallbury. “Um dia, Parson Thirdly encontrou-o e
disse: ‘Bom dia, Mr. Everdene. Que dia agradável!’ ‘Amém’ disse Everdene,
bem distante, pensando apenas na religião quando via um vigário. Sim, ele
era muito cristão.”

“A filha dele não era uma criança nem um pouco bonita na época”, disse
Henery Fray. “Nunca pensaria que viraria uma beldade como ela é.”
“Espera-se que seu temperamento seja tão bom quanto o rosto dela.”

“Bem, sim, mas a lindeza não combina muito com o negócio e conosco.
Ah!”, Henery olhou para o buraco das cinzas e sorriu com muito
conhecimento irônico.

“Um cristão esquisito como a cabeça do demônio num capote de monge,


como diz o ditado”, voluntariou Mark Clark.

“Ele era”, disse Henery, indicando que a ironia devia acabar a certo
ponto. “Entre nós dois, homens, acredito que o homem logo contaria uma
mentira que domingos eram dias de trabalho, é o que acho.”

“Meu Deus, como você fala!”, admirou-se Gabriel.

“É bem verdade”, disse o homem de humor ácido, buscando pela


companhia da risada contrária que vinha da apreciação mais entusiasmada
das tristezas da vida do que qualquer homem fosse capaz. “Ah, existem
pessoas de um tipo, de outro, mas aquele homem... pelo amor de Deus!”

Gabriel achou melhor mudar de assunto.

“Você deve ser um homem de muita idade, cervejeiro, para ter filhos
crescidos e adultos”, observou ele.

“Meu pai é tão velho que nem sei a idade dele, não é, pai?”, interrompeu
Jacob. “E ele também ficou terrivelmente corcunda de uns tempos para cá”,
continuou Jacob, observando a imagem do pai, que era um pouco mais
curvado do que ele mesmo. “Dá até para dizer que o pai é retorcido.”

“Os corcundas vivem um pouco mais”, disse severamente o cervejeiro,


com um humor que não era dos melhores.

“O pastor gostaria de ouvir sobre a história da sua vida, pai, não gostaria,
pastor?”

“Gostaria mesmo”, disse Gabriel com o entusiasmo de um homem que


desejasse ouvir aquilo há meses. “Qual deve ser a sua idade, cervejeiro?”
O cervejeiro limpou a garganta exageradamente para dar ênfase e,
estendendo seu olhar para o ponto mais remoto do buraco das cinzas, disse
numa voz baixa justificável, quando a importância do assunto é, geralmente,
sentida que qualquer maneirismo possa ser tolerado para compreendê-lo:

“Bem, não me importo com o ano em que nasci, mas talvez possa me
lembrar dos lugares que morei. Morei lá em Upper Longpuddle”, acenando
com a cabeça para o norte, “até os onze anos. Morei sete em Kingsbere”,
acenando com a cabeça para o leste, “onde aprendi a trabalhar com o malte.
Dali eu fui para Norcombe e trabalhei com malte lá por vinte e dois anos, e
por vinte e dois anos fiquei lá plantando e colhendo nabos. Ah, eu conheci
aquele velho lugar, Norcombe, anos antes de você existir, Seu Oak”, Oak
sorriu com confiança sincera. “Então trabalhei quatro anos com malte em
Durnover e quatro anos plantando nabos e fiquei quatorze vezes, onze meses
em Millpond St. Jude's”, acenando do nordeste para norte com a cabeça. “Old
Twills não me contrataria para mais onze meses de cada vez para me manter
oneroso para a paróquia se eu fosse incapaz. Fiquei três anos em Mellstock e
estou aqui há trinta e um anos, aqui em Candlemas. Isso dá quanto?”

“Cento e dezessete”, gargalhou outro senhor, dado a cálculos de cabeça e


pouca conversa, que tinha até o momento passado despercebido sentado num
canto.

“Bem, então essa é a minha idade”, disse enfaticamente o produtor.

“Ah, não, pai!”, disse Jacob. “Você plantou nabos no verão e trabalhou
com o malte no inverno dos mesmos anos e não devemos contar as duas
partes, pai.”

“Pode sim! Eu sobrevivi aos verões, não sobrevivi? Essa é a minha


pergunta. Acho que vocês vão dizer que eu não tenho idade para falar.”

“Claro que não vamos”, disse Gabriel calmamente.

“Você é uma pessoa bem velha, cervejeiro”, afirmou Jan Coggan


calmamente também. “Todos sabemos disso e você deve ter uma natureza
maravilhosamente talentosa para ser capaz de viver tanto, não deve,
vizinhos?”
“Verdade, verdade, deve mesmo, cervejeiro, maravilhoso”, disse o grupo
unanimemente.

O cervejeiro, agora acalmado, era ainda mais generoso para menosprezar


a virtude de ter vivido tantos anos, e mencionou que a caneca a qual estavam
bebendo era três anos mais velha do que ele.

Enquanto a caneca era examinada, a ponta da flauta de Gabriel foi vista


pelo bolso de seu avental e Henery Fray exclamou:

“É claro, pastor, eu o vi tocando flauta muito bem em Casterbridge.”

“Viu sim”, disse Gabriel, corando violentamente. “Estava com sérios


problemas, vizinhos, e precisei fazer isso. Eu não era tão pobre como sou
agora.”

“Não se preocupe, amigo!”, disse Mark Clark. “Deve encarar isso com
menos preocupação, pastor, e sua hora chegará. Mas nós ficaríamos gratos se
você tocasse alguma coisa, se não estiver muito cansado.”

“Não ouço um tambor nem um trompete desde o Natal”, disse Jan


Coggan. “Vamos, toque alguma coisa, Seu Oak!”

“Sim, então vou tocar”, disse Gabriel, puxando sua flauta e preparando-a.
“Não é um instrumento muito bom, vizinhos, mas do jeito que sei fazer,
vocês gostarão.”

Oak então começou “Jockey to the Fair” e tocou aquela melodia alegre
três vezes seguidas, acentuando as notas na terceira vez da forma mais
artística e animada, inclinando o corpo em pequenos tremores e batendo o pé
de acordo com o ritmo.

“Ele toca flauta muito bem, muito bem mesmo!”, disse um rapaz casado,
que não tinha nenhuma individualidade ao mencionar que era conhecido
como “o marido de Susan Tall.” Ele continuou: “Adoraria saber tocar flauta
tão bem assim.”

“Ele é um homem inteligente e é um verdadeiro ânimo para nós ter um


pastor assim”, murmurou Joseph Poograss numa voz suave. “Devemos ficar
muito agradecidos que ele não esteja tocando canções ruins em vez de
melodias alegres. Foi bom que Deus fez o pastor um homem tão humilde, um
pecador, por assim dizer, como ele é. Sim, pelo bem de nossas esposas e
filhas, devemos nos sentir muito gratos.”

“Certo, certo, muito gratos!”, finalizou Mark Clark conclusivamente, sem


sentir que fosse qualquer consequência a sua opinião que ele só ouviu umas
três palavras do que Joseph havia dito.

“Sim”, continuou Joseph, começando a se sentir como o homem da


Bíblia; “porque o mal triunfa, então nestas vezes podemos ser enganados pelo
homem bem barbeado e com a camisa mais limpa como pelo maltrapilho
mais rasgado na estrada, se é que posso chamar assim.”

“Ah, posso imaginar a sua cara agora, pastor”, disse Henery Fray,
criticando Gabriel com olhos enevoados assim que ele entrou na segunda
música. “Sim, agora que o vejo tocando flauta sei que ele é o mesmo homem
que vi em Casterbridge, porque a boca dele estava estreita e os olhos fixos
como os de um estrangulado, bem como estão agora.”

“É uma pena que tocar flauta faça um homem parecer um espantalho”,


observou Mr. Mark Clark, com outra crítica à aparência de Gabriel,
encurvando-se com uma careta assustadora que o instrumento pedia, no
refrão de “Dame Durden”:

'Twas Moll' and Bet', and Doll' and Kate',


And Dor'-othy Drag'-gle Tail'.[10]

“Espero que não se importe com os modos do rapaz dá à sua aparência”,


sussurrou Joseph a Gabriel.

“Nem um pouco”, disse Mr. Oak.

“Porque você é por natureza um homem simpático, pastor”, continuou


Joseph Poorgrass com jeito sedutor.

“Ah, isso é mesmo, pastor”, disse o grupo.


“Muito obrigado”, agradeceu Oak, com a voz modesta que as boas
maneiras pediam, pensando, entretanto, que nunca deixaria que Bathsheba o
visse tocando flauta, nesta determinação apresentando a discrição igual à
relacionada com a sagaz inventora, a própria deusa Minerva.

“Ah, quando eu e minha esposa nos casamos na igreja de Norcombe”,


disse o velho cervejeiro, não muito satisfeito por encontrar-se de fora do
assunto, “fomos chamados de casal mais bonito da vizinhança, todos falavam
isso.”

“O que seria se não tivesse mudado, cervejeiro”, comentou uma voz com
o vigor natural da declaração de uma verdade notavelmente evidente. Veio de
um senhor que estava atrás, de quem o jeito ofensivo e rancoroso era menos
perceptíveis pela risada ocasional que ele incluiu às gargalhadas
generalizadas.

“Ah, não, não”, disse Gabriel.

“Não toque mais, pastor”, pediu o marido de Susan Tall, o rapaz casado
que falou uma vez anteriormente. “Preciso ir embora e se tem música parece
que fico preso num arame. Se eu imaginar que depois que fui embora a
música continuou tocando, ficaria muito melancólico.”

“Então por que a pressa, Laban?”, perguntou Coggan. “Você costumava


ser o último dos últimos.”

“Bem, vejam, vizinhos, recentemente me casei e agora minha mulher é a


minha vocação, então você sabem...”, o rapaz parou indevidamente.

“Novos senhores, novas regras, como diz o ditado, creio eu”, observou
Coggan.

“É, eu acredito... sim, sim!”, disse o marido de Susan Tall, com uma voz
que parecia mostrar como costumava receber as piadas sem se importar nem
um pouco com elas. O jovem então desejou lhes boa noite e saiu.

Henery Fray foi o primeiro a acompanhar. Depois Gabriel levantou-se e


saiu com Jan Coogan, que lhe ofereceu acomodação. Alguns minutos depois,
quando os que ficaram estavam de pé e prontos para ir embora, Fray voltou
depressa. Sacudindo o dedo ameaçadoramente, lançando um olhar fervendo
com novidades até onde alcançasse, o que calhou de ser o rosto de Joseph
Poorgrass.

“Oh... qual é o problema, Henery?”, perguntou Joseph, voltando.

“O que está acontecendo, Henery?”, indagaram Jacob e Mark Clark.

“O administrador Pennyways... o administrador Pennyways... eu disse,


sim, eu disse!”

“O que, foi pego roubando alguma coisa?”

“Roubando? A notícia é que, depois que Miss Everdene chegou em casa,


saiu de novo para ver se estava tudo bem como sempre faz, e quando voltou
encontrou Pennyways descendo de fininho os degraus do granário[11] com um
alqueire de cevada. Ela o enxotou como um gato de lá, com o jeito de
moleque que ela tem. Estou falando com as portas fechadas?”

“Está, está, Henery.”

“Ela o enxotou e, para encurtar a história, ele teve que carregar de volta
cinco sacos juntos, com a promessa de que ela não o processaria. Bem, agora
que ele foi embora de vez, minha pergunta é, quem vai ser o administrador?”

A pergunta era tão profunda que Henery fora obrigado a beber da caneca
enorme até que seu fundo fosse distintamente visível. Antes que a colocasse
sobre a mesa, entrou o rapaz, o marido de Susan Tall, mais rapidamente
ainda.

“Já sabem da notícia que está correndo pela paróquia?”

“Sobre o administrador Pennyways?”

“É além disso?”

“Não, nadinha!”, responderam eles, olhando bem para Laban Tall como
se quisessem encontrar as palavras antes que elas saíssem de sua garganta.
“Que noite de horrores!”, murmurou Joseph Poorgrass, agitando as mãos
espasmodicamente. “Ouvi o zunido das más notícias no meu ouvido
esquerdo!”

“Fanny Robin, a criada mais jovem de Miss Everdene, está desaparecida.


Querem trancar as portas faz duas horas, mas ela não volta. E não sabem o
que fazer se forem dormir e a deixarem para fora. Eles não ficariam tão
preocupados se ela não tivesse sido vista tão triste estes dias, e Maryann acha
que deve acontecer uma investigação sobre o que possa ter acontecido com a
pobre moça.”

“Oh, ela se queimou, ela se queimou!”, disseram os lábios secos de


Joseph Poorgrass.

“Não, se afogou!”, disse Tall.

“Ou se cortou com a faca do pai!”, sugeriu Billy Smallbury, com um


senso vívido de detalhes.

“Bem, Miss Everdene quer falar com cada um de nós antes de irmos
dormir. Com esse problema com o administrador e agora com a moça, a
patroa está quase louca.”

Todos eles correram estrada acima até a casa da fazenda, com exceção do
velho cervejeiro, a quem nem as notícias, nem o fogo, nem chuva nem
trovões o tirariam de sua cova. Assim, enquanto os passos dos outros
desapareciam, ele se sentou e continuou observando como sempre a fornalha
com olhos vermelhos e turvos.

Da janela do quarto acima deles, a cabeça e os ombros de Bathsheba,


vestindo um místico robe branco, eram fracamente vistos em seus contornos
no ar.

“Há algum de meus homens com vocês?”, ela perguntou ansiosamente.

“Sim, Madame, muitos”, respondeu o marido de Susan Tall.

“Amanhã de manhã, desejo que dois ou três de vocês busquem nas vilas
da redondeza se viram alguém como Fanny Robin. Façam isso discretamente,
ainda não há motivo para alarmar-se. Ela deve ter ido embora enquanto todos
estávamos no incêndio.”

“Me desculpe, mas algum jovem a estava cortejando na paróquia,


Madame?”, perguntou Jacob Smallbury.

“Não sei”, respondeu Bathsheba.

“Nunca soube de coisa assim, Madame”, disseram dois ou três.

“É bem pouco provável”, continuou Bathsheba. “Pois qualquer admirador


dela viria aqui se fosse um homem respeitável. O fato mais misterioso ligado
à ausência dela, de fato, a única coisa que me deixa seriamente preocupada, é
que ela foi vista saindo da casa de Maryann apenas com a roupa que usa para
trabalhar dentro de casa, sem nem mesmo um chapéu.”

“E quer dizer, Madame, me perdoe pelo que vou dizer, que uma moça
não iria se encontrar com um rapaz sem se arrumar”, disse Jacob, lembrando-
se de imagens de experiências do passado. “É verdade, ela não iria,
Madame.”

“Acho que ela tinha um pacote, mas não pude ver direito”, disse uma voz
feminina de outra janela, que parecia com a de Maryann. “Mas não tinha
nenhum rapaz perto. Ele mora em Casterbridge e acredito que seja um
soldado.”

“Sabe o nome dele?”, perguntou Bathsheba.

“Não, senhora. Ela era muito fechada quanto a isso.”

“Talvez eu possa descobrir se for ao quartel de Casterbridge”, disse


William Smallbury.

“Muito bem; se ela não voltar amanhã, você poderia ir até lá para tentar
descobrir quem é esse homem e vê-lo. Sinto-me mais responsável do que
deveria se ela tivesse amigos ou parentes vivos. Espero que ela não esteja em
perigo com um homem desse tipo... e depois este caso desastroso do
administrador... mas não posso falar dele agora.”

Bathsheba tinha tantos motivos para se preocupar que, embora todos


fossem graves, por alguma razão pensou que não valesse a pena lutar por
nenhum em particular.

“Então façam como mandei”, concluiu ela, fechando a janela.

“Sim, senhora, vamos fazer”, assentiram eles e foram embora.

Naquela noite na casa de Coggan, Gabriel Oak, sob a proteção de seus


olhos fechados, estava ocupado com fantasias e agitado como um rio que
fluía rapidamente sob o gelo. A noite sempre fora o momento em que ele via
Bathsheba mais vividamente, e pelas horas vagarosas de sombra, se lembrava
carinhosamente da imagem dela. Raramente os prazeres da imaginação
compensavam a dor da insônia, mas possivelmente compensaram para Oak
naquela noite, para o deleite de simplesmente vê-la apagar a percepção dele
da grande diferença entre ver e imaginar.

Ele também pensou nos planos de buscar seus objetos, muitos deles
tirados dos livros de Norcombe. Sua biblioteca era composta por A Melhor
Companhia de um Jovem, O Manual do Ferrador, O Médico Veterinário,
Paraíso Perdido, O Peregrino, Robinson Crusoé, o Dicionário Ash e a
Aritmética de Walkingame[12] e com uma série limitada, era de onde ele
adquiriu mais informações seguras pela leitura cuidadosa e dedicada do que
muitos homens com oportunidades tiveram de suas vastas prateleiras
abarrotadas.
CAPÍTULO IX
A PROPRIEDADE—UM VISITANTE—
DESCONFIANÇA

Ao amanhecer, o caramanchão de Bathsheba Everdene, a nova patroa de


Oak, mostrava-se uma construção velha, do início da era Renascentista
Clássica como aparentava sua arquitetura, e uma proporção que dizia num
relance que, como geralmente é o caso, um dia fora o monumento memorial
de uma pequena propriedade ao redor dele, agora à sombra de uma
propriedade distinta e fundida num vasto trato de um senhorio não residente,
o que englobava vários domínios modestos.

Pilastras caneladas, trabalhadas em rocha sólida, decoravam a fachada, e


acima dos telhados as chaminés eram retangulares ou arredondadas, algumas
arestas cônicas, com remates e aspectos similares, ainda guardavam traços de
sua extração gótica. O musgo macio e marrom, como veludo de algodão
desbotado, formavam almofadas sobre os ladrilhos de pedra e sobre os tufos
de saião; ostras espécies suculentas brotavam das calhas dos prédios baixos
ao redor. Um passeio de cascalho da porta até a estrada em frente era
encrustado nas laterais com mais musgo, aqui era de uma variedade verde
prateada, tornando o castanho do cascalho visível na largura de apenas um ou
dois pés no centro. Esta característica e a atmosfera geralmente sonolenta do
prospecto inteiro dali, junto com o estado animado e contrastante da fachada
reversa, sugeriam que, na adaptação do prédio para fins agrícolas, o princípio
vital parecia que a casa havia se virado de trás para fora para ficar de frente
para o outro lado. Reformas deste tipo, deformidades estranhas, paralizações
tremendas, são frequentemente impostas pelo comércio sobre os edifícios,
sejam individuais ou agregados como ruas e cidades, que são originalmente
planejadas apenas para o divertimento.
Vozes alegres eram ouvidas naquela manhã nos quartos do andar de cima,
a escadaria principal que era de carvalho maciço, os balaústres, pesados como
colunas de cama, torneados e modelados de acordo com a moda singular do
século deles, o corrimão tão robusto quanto um parapeito e as escadas em si
enrolando-se continuamente como alguém tentando olhar por cima de seu
ombro. Os andares superiores tinham uma superfície bem irregular, subindo
em espinhaços e afundando em vales sem carpetes, a face das tábuas estava
corroída em inumeráveis vermiculações. Cada janela reagia com sons
estridentes com o abrir ou fechar, um tremor seguido de um movimento
agitado, e um rangido acompanhava quem caminhasse pela casa como um
espírito por onde quer que essa pessoa fosse.

Na sala de onde a conversa procedia, Bathsheba e sua dama de


companhia, Liddy Smallbury, estavam para serem descobertas sentadas no
chão, arrumando uma complexidade de documentos, livros, garrafas e lixo
espalhados, remanescentes dos guardados do último morador. Liddy, a
bisneta do cervejeiro, era quase da mesma idade de Bathsheba e seu rosto era
um anúncio proeminente da camponesa inglesa alegre. A beleza de seus
traços, que podia ser ausente em forma, era amplamente perdoada pela
perfeição da tonalidade da pele, a qual nessa época do inverno tinha a
vermelhidão atenuada, numa superfície de alta obesidade que encontramos na
pintura de Terburg ou Gerard Douw e, como as apresentações destes grandes
coloristas era um rosto que se mantinha bem atrás do limite entre a graça e o
ideal, assim era Liddy. Embora de natureza adaptável, era menos ousada do
que Bathsheba e, ocasionalmente, demonstrava alguma seriedade, que
consistia metade de sentimento genuíno e metade de bons modos.

Por uma porta parcialmente aberta, o barulho de uma escova levava à


arrumadeira, Maryann Money, uma pessoa cujo rosto era redondo, marcado
menos pela idade do que pelos longos olhares de perplexidade para objetos
distantes. Pensar nela era ficar bem-humorado, falar dela era levantar uma
imagem de uma maçã norueguesa seca.

“Pare essa escovação por um momento”, disse-lhe Bathsheba pela porta.


“Ouço alguma coisa.”

Maryann parou de escovar.


O passo pesado e firme de um cavalo era aparente, aproximando-se da
frente da casa. Os passos ficaram mais lentos, viraram no postigo e, o que era
mais incomum, vieram pelo caminho com musgos perto da porta. Bateram à
porta com o cabo de um chicote ou de uma bengala.

“Quanta impertinência!”, disse Liddy em voz baixa. “Cavalgar pelo


passeio desse jeito! Por que ele não parou no portão? Meu Deus! Que
cavalheiro é esse? Estou vendo a ponta do chapéu dele.”

“Quieta!”, disse Bathsheba.

A nova expressão de preocupação de Liddy foi seguida em aspecto em


vez de narrativa.

“Por que Mrs. Coggan não vai até a porta?”, continuou Bathsheba.

O toc-toc-toc-toc ressoou mais decidido no carvalho de Bathsheba.

“Maryann, vá você!”, disse ela, agitando-se sob o ataque de inúmeras


possibilidades românticas.

“Oh, Madame... olhe, isso está uma bagunça!”

O argumento não podia ser respondido depois de olhar para Maryann.

“Liddy, vá”, mandou Bathsheba.

Liddy levantou suas mãos e braços, cobertos de poeira do lixo que


estavam separando, e olhou rogando para sua patroa.

“Ora... Mrs. Coggan está indo!”, disse Bathsheba, exalando seu alívio na
forma de um longo suspiro que ela soltou de seu peito por um minuto ou
mais.

A porta se abriu e uma voz profunda disse:

“Miss Everdene está em casa?”

“Vou ver, senhor”, disse Mrs. Coggan, e num minuto apareceu na sala.
“Meu Deus, que mundo perverso é este!”, continuou Mrs. Coggan (uma
mulher de olhar benevolente que tinha uma voz para cada tipo de observação
de acordo com a emoção envolvida; que podia virar uma panqueca ou torcer
um esfregão com precisão matemática pura e que, neste momento, mostrava
as mãos cobertas de fragmentos de massa e braços encrustados de farinha).
“Nunca me sujo até os cotovelos, Miss, para fazer um pudim, mas uma ou
duas coisas acontecem, ou é o meu nariz que começa a coçar e eu não
consigo ficar sem coçá-lo, ou alguém bate à porta. Mr. Boldwood quer vê-la,
Miss Everdene.”

Como um vestido é parte da compleição de uma mulher e qualquer


desordem nele é o mesmo que uma má formação ou uma ferida, Bathsheba
disse de uma vez:

“Não posso vê-lo neste estado. O que devo fazer?”

Dizer que alguém não estava em casa dificilmente era natural nas
fazendas de Weatherbury, então Liddy sugeriu:

“Diga que está apavorada com a sujeira e que não pode descer.”

“Sim, parece muito bom”, disse Mrs. Coggan criticamente.

“Diga que não posso vê-lo, isso pode servir.”

Mrs. Coggan desceu as escadas e respondeu conforme foi pedido,


continuando, por sua própria responsabilidade: “Miss está tirando o pó de
garrafas e dá muito trabalho, é por causa disso.”

“Oh, muito bem”, disse a voz profunda com indiferença. “Tudo que eu
queria perguntar era se souberam alguma coisa de Fanny Robin.”

“Nada, senhor, mas devemos saber hoje à noite. William Smallbury foi
para Casterbridge, onde seu jovem admirador mora, como se imagina, e os
outros homens estão procurando por toda parte.”

O ruído pesado do cavalo então recomeçou em retirada e a porta se


fechou.
“Quem é Boldwood?”, perguntou Bathsheba.

“Um cavalheiro, fazendeiro de Little Weatherbury.”

“Casado?”

“Não, Miss.”

“Quantos anos ele tem?”

“Quarenta, creio eu, muito bonito, de aparência um pouco severa... e


rico.”

“Que incômodo é esta sujeira! Sempre estou entre um apuro e outro”,


reclamou Bathsheba. “Por que ele queria saber de Fanny?”

“Oh, porque, como ela não tinha amigos na infância, ele a levou para a
escola e para morar com seu tio. Ele é mesmo um homem muito bom, mas
oh, Senhor!”

“O que foi?”

“Ele é um homem impossível de se conquistar! Todas as mulheres o


cortejam. Moças simples e de boa família, há milhas de distância, já tentaram.
Jane Perkins se esforçou por ele como uma escrava por dois meses e as duas
Misses Taylors insistiram por um ano, e ele custou à filha do Fazendeiro Ive
noites de lágrimas e vinte libras em roupas novas; mas nossa, foi dinheiro
jogado pela janela.”

Um garotinho chegou neste momento e olhou para elas. Era um dos


Coogans, que, com os Smallburrys, eram conhecidos entre as famílias deste
distrito como em Avons e Derwents entre outros rios. Sempre tinha um dente
faltando ou um dedo cortado para mostrar a amigos especiais, o que ele fazia
com ar de ser assim elevado acima da massa comum da humanidade sadia.
Para tal exibição, esperava-se que as pessoas dissessem: “Coitadinho!”, com
um toque de felicitação assim como de pena.

“Ganhei uma mo-moeda!”, disse Master Coggan gaguejando e


observando a todos.
“Bem, e quem lhe deu, Teddy?”, perguntou Liddy.

“Mis-terr Bold-wood! Ele me deu por eu abrir o portão.”

“O que ele disse?”

“Ele disse: ‘aonde vai, rapazinho?’ e eu falei: ‘ver o que Miss Everdene
quer”, e ele perguntou: ‘Ela é uma mulher velha, não é, meu rapaz?”, e eu
respondi: ‘É.’”

“Seu menino travesso! Por que disse isso?”

“Porque ele me deu a moeda!”

“Tudo está tão complicado!”, disse Bathsheba, descontentemente quando


a criança foi embora. “Pode sair, Maryann, ou continue a esfregar ou vá fazer
alguma coisa! Você deveria estar casada a esta altura e não me perturbando
aqui!”

“Ah, patroa, devia mesmo! Mas como não quero nenhum pobre e os ricos
não me querem, fico como um pelicano na natureza!”

“Alguém já quis se casar com você, Miss?”, aventurou-se Liddy quando


estavam sozinhas novamente. “Muitos, ouso dizer.”

Bathsheba fez uma pausa como se estivesse prestes a recusar-se a


responder, mas a tentação de dizer sim, uma vez que o que estava em seu
poder era irresistível por aspirar a virgindade, apesar de sua raiva em ser
considerada velha.

“Um homem quis uma vez”, disse ela, como se tivesse muita experiência,
e a imagem de Gabriel Oak como fazendeiro apareceu diante dela.

“Parece tão bom!”, disse Liddy, com fortes traços de estar fantasiando. “E
você não o quis?”

“Ele não era bom o bastante para mim.”


“Como é doce poder desdenhar quando a maioria de nós ficaria feliz em
dizer ‘Obrigada!’ Parece que estou ouvindo. ‘Não, senhor, sou melhor do que
você.’ ou ‘Beije meus pés, senhor. Meu rosto é para bocas importantes.’ E
você o amava, Miss?”

“Oh, não! Mas eu gostava muito dele.”

“E ainda gosta?”

“Claro que não. Que passos são estes que estou escutando?”

Liddy chegou a uma janela traseira e olhou para o quintal. Estava ficando
escuro e as primeiras sombras noturnas apareciam, dando ao local um aspecto
lúgubre. Um grupo de pessoas se aproximava da porta dos fundos. O bando
inteiro avançava decididamente, como as criaturas impressionantes
conhecidas como cardume de salpas, que, distintamente organizadas em
outras circunstâncias, tinha um desejo comum para toda a família. Alguns
estavam, como de costume, com aventais de algodão grosso, brancos como a
neve, e outros trajavam guarda-pós de um linho marrom desbotado, marcados
nos pulsos, peito, costas e mangas com bordados casa-de-abelha. Duas ou
três mulheres com botas vinham atrás.

“Os filisteus chegaram”, disse Liddy, apertando o nariz contra o vidro.

“Oh, está bem, Maryann, desça e mantenha-os na cozinha até que eu me


vista e então os leve para me ver na sala.”
CAPÍTULO X
A PATROA E OS HOMENS

Meia hora mais tarde, Bathsheba, arrumada e seguida por Liddy, entrou pela
parte superior do antigo salão para descobrir que seus homens haviam todos
se juntado num banco na extremidade inferior. Ela se sentou à mesa e abriu o
livro de ponto, com uma caneta na mão e um saco de dinheiro de lona ao seu
lado. Dele, derramou uma pequena montanha de moedas. Liddy apoiou-se no
cotovelo e começou a costurar, pausando por vezes e olhando ao redor ou,
com ar de alguém privilegiado, pegava uma moeda de meio xelim que estava
à sua frente e observava-a meramente como uma obra de arte, enquanto
controlava energicamente seu semblante para não expressar nenhum desejo
de possuí-la.

“Agora, antes que eu comece, rapazes”, disse Bathsheba, “tenho duas


questões para tratar. A primeira é que o administrador foi demitido por roubo
e tomei a decisão de não ter mais nenhum administrador, mas de eu própria
tomar conta de tudo.”

Os homens respiraram ruidosamente, admirados.

“A próxima questão é: tiveram alguma notícia de Fanny?”

“Nada, Madame.”

“Fizeram alguma coisa?”

“Encontrei o fazendeiro Boldwood”, disse Jacob Smallbury, “e fui com


ele e dois de seus homens e dragamos o lago Newmill, mas não encontramos
nada.”
“E o novo pastor foi a Buck's Head, por Yalbury, pensando que ela
tivesse ido para lá, mas ninguém a viu”, continuou Laban Tall.

“William Smallbury não foi a Casterbridge?”

“Sim, Madame, mas ainda não voltou. Prometeu que estaria de volta às
seis.”

“Já são quinze para as seis”, comentou Bathsheba olhando em seu


relógio. “Creio que esteja a caminho. Bem, sendo assim...”, olhou em seu
livro, “Joseph Poograss, você está aí?”

“Sim, senhor, quer dizer, senhora”, disse a pessoa citada. “Sou o próprio
Poorgrass.”

“E o que você faz?”

“Nada a meu ver. Para as outras pessoas... bem, não sei o que eles
pensam.”

“O que faz na fazenda?”

“Carrego coisas o ano todo, e no tempo do plantio eu atiro nas gralhas e


nos pardais e ajudo a matar porcos, senhora.”

“Quanto você recebe?”

“Noventa e nove centavos, e meio centavo quando fica ruim, senhor, quer
dizer, Madame.”

“Correto. Aqui estão dez xelins a mais como um presentinho, já que sou
novata.”

Bathsheba corou levemente ao sentir que era generosa em público e


Henery Fray, que havia se aproximado da cadeira dela, levantou as
sobrancelhas e os dedos com expressão de admiração discreta.

“Quanto lhe devo, aquele homem no canto, como se chama?”, continuou


Bathsheba.
“Matthew Moon, Madame”, disse uma silhueta singular em roupas nada
importantes, que avançava nas pontas dos pés em nenhuma direção definida,
num balanço ao acaso.

“Você disse Matthew Mark? Fale alto, não vou machucá-lo”, perguntou a
jovem fazendeira com bondade.

“Matthew Moon, dona”, disse Henery Fray, corrigindo-a por trás da


cadeira dela, ponto do qual ele havia se aproximado.

“Matthew Moon”, murmurou Bathsheba voltando os olhos brilhantes para


o livro. “Doze centavos e meio centavo é a quantia a lhe pagar, como posso
ver.”

“Sim, senhora”, disse Matthew como o farfalhar do vento nas folhas


secas.

“Aqui está, e dez xelins. Agora o próximo. Andrew Randle, soube que
você é novo. Por que saiu da última fazenda?”

“P-p-p-p-p-po-po-po-po-o-o-o-o-or favor, Madame, po-po-po-po po-po-


por favor, Madame-por favor ma-por favor ma...”

“Ele é gago, dona”, disse Henery Fray em voz baixa, “e foi mandado
embora porque a única vez que conseguiu falar direito disse que era dono de
si e outras maldades para o fazendeiro. Ele pragueja, dona, tão bem quanto
qualquer um de nós, mas não consegue falar normalmente para salvar a
própria pele.”

“Andrew Randle, aqui está o que é seu. Pare de me agradecer nos


próximos dias. Tenha moderação e sobriedade... oh, tem outros aqui, ambas
mulheres, não são?”

“Sim. Estamos aqui”, que ecoou em uníssono agudo.

“O que fazem?”

“Tomamos conta da debulhadora, enrolamos o feno, afugentamos os


galos e galinhas quando vão para cima das sementes e plantamos batatas com
a enxada.”

“Sim, entendo. Elas são trabalhadoras?”, perguntou ela delicadamente


para Henery Fray.

“Ah, dona, não me pergunte! São mulheres submissas, as mais vermelhas


que podem existir!”, suspirou Henery.

“Sente-se.”

“Quem, dona?”

“Sente-se.”

Joseph Poorgrass se encolheu no fundo e seus lábios secaram com medo


de alguma consequência horrível. Ele olhava para Bathsheba enquanto ela
falava sumariamente, e Henery retirou-se furtivamente para um canto.

“Agora o próximo, Laban Tall, vai continuar trabalhando para mim?”

“Para você ou qualquer um que me pague bem, Madame”, respondeu o


rapaz casado.

“É verdade, o homem precisa viver!”, disse uma mulher no fundo que


acabara de entrar com tamancos barulhentos.

“Quem é esta mulher?”, indagou Bathsheba.

“Sou a mulher dele!”, continuou a voz com maior distinção de modo e


tom. A dama dizia que tinha vinte e cinco anos, aparentava trinta, passava por
trinta e cinco e tinha quarenta. Era uma mulher que nunca, como alguns
recém-casados, demonstrava carinho conjugal em público, talvez porque não
tivesse nenhum para demonstrar.

“Ah, sim”, disse Bathsheba. “Bem, Laban, você ficará?”

“Sim, ele ficará, Madame!”, falou outra vez a língua afiada da mulher de
Laban.
“Bem, suponho que ele mesmo possa responder.”

“Ah, meu Deus, não pode, Madame! Ele é como uma ferramenta. É bom,
nada mais do que um pobre desengonçado”, respondeu a mulher.

“He-he-he!”, riu o homem casado com esforço repugnante de apreciação,


pois estava tão irreprimivelmente bem humorado sob o desdém medonho
como um candidato parlamentar nos palanques.

Os nomes restantes foram chamados da mesma maneira.

“Acho que já terminei com vocês”, disse Bathsheba fechando seu livro e
jogando para trás uma mecha de cabelo. “William Smallbury voltou?”

“Não, Madame.”

“O novo pastor vai precisar de alguém com ele”, sugeriu Henery Fray,
tentando tornar-se importante outra vez aproximando-se da cadeira dela.

“Oh, vai mesmo. Quem pode ser?”

“O jovem Cain Ball é um moço muito bom”, disse Henery Fray, “e o


pastor Oak não se importa com a idade”, continuou ele, com um sorriso de
desculpas para o pastor, que tinha acabado de aparecer e agora estava
encostado no batente da porta com os braços cruzados.

“Não, não me importo”, concordou Gabriel.

“Como Cain recebeu tal nome?”, perguntou Bathsheba.

“Veja, dona, a coitada da mãe, que não conhecia as escrituras, errou ao


batizá-lo pensando que foi Abel quem matou Cain. Chamou-o de Cain
querendo dizer Abel o tempo todo. A pessoa escreveu, mas era tarde demais.
Foi muito triste para o garoto.”

“É muito triste.”

“Sim. No entanto, aliviamos isso o mais que podemos chamando-o de


Cainy. Ah, coitada da viúva! Ela quase morreu de chorar por isso. Foi criada
por pai e mãe pagãos, que nunca a levaram à igreja ou a escola e isso mostra
como os pecados dos pais caem sobre os filhos, dona.”

Mr. Fray esboçava a melancolia necessária quando as pessoas envolvidas


na infelicidade presente não são de sua própria família.

“Muito bem, então Cainy Ball ajudará o pastor. E você sabe bem de seus
deveres? Refiro-me a você, Gabriel Oak.

“Muito bem, obrigado, Miss Everdene”, disse o pastor Oak do batente da


porta. “Se não souber, vou perguntar.” Gabriel estava muito assustado com a
frieza visível dela. Certamente que ninguém sem prévio conhecimento
sonharia que Oak e a bela mulher diante dele não eram estranhos. Mas talvez
o jeito dela fosse o resultado inevitável da ascensão social que a levou da
cabana para uma casa grande de fazenda. Não era um caso sem precedentes
na alta sociedade. Quando, de acordo com os poetas mais recentes, se
descobre que Jove e sua família se mudaram de seus abrigos apertados no
monte Olimpo para o amplo céu acima dele, suas palavras demonstraram um
aumento proporcional de arrogância e discrição.

Ouviram passos no caminho, combinando qualidades tanto de peso e


altura mais do que pela velocidade.

“Aqui está Billy Smallbury vindo de Casterbridge”, disseram todos.

“E quais são as novidades?”, perguntou Bathsheba enquanto William,


após caminhar até o meio do salão, tirou um lenço de seu chapéu e enxugou a
testa do centro para os lados.

“Eu devia ter vindo mais cedo, Miss”, disse ele, “se não fosse pelo
tempo.” Ele então caminhou severamente e olhando para baixo, percebia-se
que suas botas estavam cobertas de neve.

“Mas finalmente chegou, não foi?”, perguntou Henery.

“Bem, e sobre Fanny?”, indagou Bathsheba.

“Bem, Madame, aparentemente, ela fugiu com os soldados”, disse


William.

“Não, não uma moça equilibrada como Fanny!”

“Vou contar-lhes todos os detalhes. Quando cheguei ao quartel de


Casterbridge, ele falaram: ‘Os Dragões da Décima-Primeira Cavalaria foram
embora e novas tropas chegaram.’ A Rota veio do governo como um ladrão
no meio da noite, como é da natureza deles, e antes que a Décima-Primeira
soubesse direito, eles estavam a caminho. Passaram perto daqui.”

Gabriel ouviu com interesse.

“Eu os vi passar”, disse ele.

“Sim”, continuou William, “eles cavalgaram com ostentação tocando


‘The Girl I Left Behind Me’, então como falei, em gloriosas notas de triunfo.
Todos que viam estremeceram com o toque do grande tambor nos seus mais
profundos órgãos vitais e não tinha um só olho seco na cidade inteira nas
casas das pessoas e da mulher sem nome!”

“Mas eles não foram para longe?”

“Não, Madame, mas foram para lugares que eles possam ter ligações.
Então falei para mim mesmo, o rapaz da Fanny era do regimento e ela foi
atrás dele. Assim, Madame, está tudo esclarecido.”

“Descobriu o nome dele?”

“Não, ninguém sabia. Acho que era de um nível mais alto do que um
soldado raso.”

Gabriel continuou pensando e não disse nada, pois tinha dúvidas.

“Bem, parece que não saberemos de mais nada esta noite de maneira
nenhuma”, concluiu Bathsheba. “Mas é melhor que um de vocês corra até o
fazendeiro Boldwood e o informe disso.”

Ela então se levantou, mas antes de se retirar, dirigiu algumas palavras


com muita dignidade, às quais seu vestido de luto somava uma sobriedade
que raramente era encontrada nas palavras em si.

“Agora prestem atenção, vocês têm uma patroa em vez de um patrão.


Ainda não conheço meu poder e meus talentos para a agricultura, mas devo
fazer o meu melhor e se me servirem, servirei a vocês. Se houver alguém
desleal entre vocês (se houver alguém, mas espero que não) achando que por
eu ser uma mulher não entendo a diferença entre mal e bom comportamento.”

“Não, dona”, disseram todos.

“Muitíssimo bem observado”, disse Liddy.

“Acordarei antes de vocês; estarei nos campos antes que cheguem e


tomarei meu desjejum antes que estejam nos campos. Resumindo,
surpreenderei todos vocês.”

“Sim, dona”, responderam todos.

“Então boa noite.”

“Boa noite, Madame”, responderam todos.

Assim, a pequena tesmóteta deixou a mesa e saiu do salão, seu vestido


preto de seda arrastando algumas palhas presas e arranhando ruidosamente o
chão. Liddy, elevando seus sentimentos para a ocasião com um senso de
grandeza, flutuava atrás de Bathsheba com uma dignidade mais leve, mas não
inteiramente livre de imitação grotesca, e a porta se fechou.
CAPÍTULO XI
FORA DO QUARTEL—NEVE—UM
ENCONTRO

Nada podia superar a melancolia da vista na cercania de certa cidade e


estação militar, muitas milhas ao norte de Weatherbury, a altas horas desta
mesma noite de neve, se aquela pudesse ser chamada de vista da qual o
principal elemento era a escuridão.

Era uma noite quando o sofrimento se tornava mais claro sem causar
nenhuma sensação de contrassenso. Quando, com pessoas impressionáveis, o
amor torna-se solícito, a esperança afunda em receio e a fé em esperança.
Quando o exercício da memória não levanta sentimentos de arrependimento
de oportunidades para uma ambição que já passou, e a antecipação não incita
a ousadia.

A paisagem era uma rua ladeada à esquerda por um rio, atrás do qual
erguia-se um muro alto. À direita ficava uma extensão de terra, parcialmente
um prado e parcialmente um pântano, alcançando, nesta margem remota um
planalto ondular.

As mudanças das estações eram menos perturbadoras em pontos desse


tipo do que no cenário no meio da selva. Ainda, para um observador atento,
elas são perceptíveis. A diferença é que o meio o qual elas se manifestam é
menos banal e familiar do que os conhecidos na floresta, como os botões das
flores abertos, ou o cair das folhas. Muitos não são tão furtivos e graduais
como se pode imaginar, considerando a lentidão comum de um terreno
alagado ou vazio. O inverno, ao chegar ao interior, avançava em estágios bem
definidos, nos quais podem ser sucessivamente observado na fuga das cobras,
na transformação das samambaias, no aumento das lagoas, no aparecimento
dos sapos, no escurecimento pela geada, na queda dos fungos e na destruição
pela neve.

O clímax das sucessões chegou à noite no pântano mencionado, e a


primeira vez na estação, suas irregularidades eram formas sem feições; nada
sugestivas, nada demonstrativas, sem nenhum outro detalhe do que o limite
de algo mais: a camada mais baixa de um firmamento de neve. Diante deste
céu caótico cheio de flocos abundantes, a campina e o pântano recebiam nova
roupagem temporariamente, apenas parecia momentaneamente mais despido
ali. O vasto arco de nuvens no alto estava estranhamente baixo e parecia um
tipo de teto de uma grade caverna escura, gradualmente descendo ao chão. O
pensamento instintivo era que a neve se alinharia com o céu e a terra,
encrustados um ao outro, e logo se uniria numa única massa sem nenhuma
camada de ar entre eles.

Voltamos as atenções às características do lado esquerdo, as quais eram


niveladas em relação ao rio, verticalmente em relação ao muro atrás de si e
escura com relação a ambos. Estas características formavam uma massa. Se
alguma coisa pudesse ser mais escura do que o céu, era a parede; e se alguma
coisa pudesse ser mais sombria do que a parede era o rio abaixo dela. O topo
indistinto da fachada era entalhado e espetado por chaminés lá e cá e, debaixo
de sua frontaria estavam as demarcações fracas de formato oblongo das
janelas, porém somente na parte de cima. Abaixo, à beira d’água, a superfície
inabalada por furos ou projeções.

Uma indescritível sucessão de rajadas tediosas, surpreendentes por sua


regularidade, fazia barulho com dificuldade pela atmosfera espessa. Era perto
das dez horas. O sino estava ao ar livre e por estar sobrecarregado com
muitas polegadas de neve, perdeu seu som.

Por volta deste momento, a neve diminuiu. Havia dez flocos onde caíram
vinte. Não muito depois, uma forma moveu-se na beira do rio.

Pelo contorno sob o fundo sem cores, um observador atento veria que era
pequeno. Era tudo que possivelmente seria descoberto, embora parecesse
humano.
A silhueta caminhou vagarosamente, mas sem muito esforço pela neve,
porém subitamente não tinha mais do que duas polegadas de profundidade.
Naquele momento, algumas palavras foram ditas em voz alta:

“Um. Dois. Três. Quatro. Cinco.”

Entre cada fala, a pequena figura avançava seis jardas. Era evidente agora
que as janelas no alto do muro estavam sendo contadas. A palavra “cinco”
representava a quinta janela da ponta do muro.

A pessoa parou ali e ficou ainda menor. Então uma porção de neve voou
sobre o rio na direção da quinta janela. Chocou-se contra o muro a muitas
jardas de seu alvo. O ataque foi ideia de um homem e a execução, de uma
mulher. Nenhum homem que tivesse visto um pássaro, um coelho ou um
esquilo na infância poderia possivelmente ter jogado com tanta imbecilidade
como foi mostrado aqui.

Outra tentativa, depois outra, até que uma extensão do muro ficara
coberto de bolas de neve. Finalmente, um fragmento acertou a quinta janela.

O rio podia ser visto durante o dia como do tipo de uniformidade


profunda que corre no meio e nos lados com a mesma precisão, e quaisquer
irregularidades eram corrigidas imediatamente por um redemoinho. Nada se
ouviu em resposta ao sinal, apenas a golfada e o cacarejo de uma de suas
rodas invisíveis, junto de alguns barulhos que um homem triste chamaria de
lamento e um homem feliz, de risada, causado pela agitação das águas contra
os frívolos objetos nas outras partes da corrente.

A janela foi acertada outra vez da mesma forma.

Ouviu-se então um barulho, aparentemente produzido pelo abrir da


janela. Foi seguido por uma voz vinda do mesmo lugar.

“Quem está aí?”

A voz era masculina e não tinha tom de surpresa. Por ser o muro alto de
um quartel, e casamentos eram vistos com desaprovação pelo exército,
encontros amorosos e comunicações eram provavelmente feitos à noite perto
do rio.

“É o Sargento Troy?”, perguntou a imagem embaçada e trêmula na neve.

Esta pessoa parecia muito com uma mera sombra no chão e o outro
falante era como uma parte do prédio, como que se o muro estivesse
conversando com a neve.

“Sim”, ouviu-se desconfiadamente da sombra. “Quem é você, moça?”

“Oh, Frank, não me reconhece?”, disse o ponto. “Sua esposa, Fanny


Robin.”

“Fanny!”, exclamou a parede, com total espanto.

“Sim”, respondeu a garota, com um soluço meio suprimido de emoção.

Havia algo na voz da mulher que não era o de uma esposa, e um modo no
homem que raramente é de um marido. O diálogo continuou:

“Como chegou aqui?”

“Perguntei qual era a sua janela. Perdoe-me!”

“Eu não a esperava hoje à noite. De fato, não imaginava que viesse. Foi
por um milagre que me encontrou aqui. Estou no turno de amanhã.”

“Você disse que eu devia vir.”

“Bem, eu disse que você podia.”

“Sim, quero dizer que eu podia. Está feliz em me ver, Frank?”

“Oh, sim... claro.”

“Você pode... vir até mim?”

“Minha querida Fan, não! O clarim já tocou, os portões do quartel estão


fechados e não tenho permissão. Estamos todos como que na cadeia até
amanhã de manhã.

“Então não poderei vê-lo até lá!”, as palavras vinham num tom hesitante
de decepção.

“Como você veio de Weatherbury para cá?”

“Andando... uma parte do caminho... o resto, de condução.”

“Estou surpreso.”

“Sim, eu também. Frank, quando será?”

“O quê?”

“O que você prometeu.”

“Não me lembro bem.”

“Claro que se lembra! Não fale assim. Isso me incomoda. Faz-me dizer o
que devia ser dito primeiro por você.”

“Não importa. Diga.”

“Oh, devo mesmo? Então, quando vamos nos casar, Frank?”

“Ah, entendi. Bem... você precisa de roupas apropriadas.”

“Tenho dinheiro. Será por proclamas ou por licença?

“Creio que por proclamas.”

“E nós moramos em duas paróquias.”

“Moramos? O que mais?”

“Minha residência pertence a St. Mary, mas a sua, não. Então deve ser
publicado nas duas.”
“Esta é a lei?”

“Sim. Oh Frank, tenho medo que você me esqueceu. Não, querido Frank,
prometa, eu o amo tanto. E você disse tantas vezes que se casaria comigo e...
e... eu... eu... eu...”

“Não chore! Foi uma bobagem. Se eu disse isso, é claro que vou.”

“Então posso anunciar os proclamas na minha paróquia e você na sua?”

“Sim.”

“Amanhã?”

“Amanhã não. Vamos fazer isso dentro de alguns dias.”

“Você tem a permissão dos oficiais?”

“Não, ainda não.”

“Oh, como assim? Você disse que quase tinha quando deixou
Casterbridge.”

“Acontece que me esqueci de pedir. A sua vinda assim é tão repentina e


inesperada.”

“Sim... sim, é mesmo. Errei em preocupá-lo. Vou embora. Vai me ver


amanhã na casa de Mrs. Twills em North Street? Não gosto de vir ao quartel.
Há mulheres de má reputação por aqui e podem achar que sou uma delas.”

“Exatamente. Irei até você, minha querida. Boa noite.”

“Boa noite, Frank, boa noite.”

E ouviu-se de novo o barulho de uma janela se fechando. A pequena


silhueta foi embora. Quando ela passou pela esquina, uma exclamação dócil
foi ouvida do lado de dentro do muro.

“Ha—há, Sargento, ha—ha!”


Seguiu-se uma repreensão, mas não era identificada e se perdeu no meio
do barulho de uma risada baixa, a qual era dificilmente identificada do
borbotão dos pequenos rodamoinhos do lado de fora.
CAPÍTULO XII
FAZENDEIROS—UMA REGRA—UMA
EXCEÇÃO

A primeira evidência pública da decisão de Bathsheba de ser a própria


administradora, e não mais por procuração, foi a chegada dela no próximo dia
de trabalho no mercado de milho de Casterbridge.

O salão baixo, porém amplo, sustentado por vigas e pilares e, mas tarde
dignamente chamado de Bolsa do Milho, possuía um amontoado de homens
exaltados, que conversavam entre si em duplas ou trios, com o interlocutor da
vez olhando de lado para o rosto do seu ouvinte, concentrado em seu
argumento com a contração de uma pálpebra durante o retorno. Um grupo
maior carregava galhos de freixo, usando-os como bengalas e também para
cutucar os porcos, ovelhas, vizinhos que estivessem de costas e coisas
paradas em geral, que pareciam precisar de tal tratamento no curso de suas
peregrinações. Durante as conversas, davam a suas bengalas uma grande
variedade de usos: pendurada nas costas, num arco entre as duas mãos,
apoiando-se contra o chão até que formassem um semicírculo, ou ainda eram
rapidamente guardadas debaixo de seus braços enquanto um saco de amostra
era aberto e um punhado de milho era despejado na palma da mão, o qual,
após a avaliação, era jogado no chão, uma série de eventos conhecida
perfeitamente por meia dúzia de aves da cidade espertas que, como sempre,
entravam furtivamente no prédio e esperavam a realização de suas
expectativas com o pescoço esticado e olhar enviesado.

Entre estes importantes proprietários rurais pairava uma figura feminina,


a única de seu gênero naquele cômodo. Estava bem-vestida, até mesmo
delicadamente. Andava entre eles como uma carruagem entre carroças,
ouvida entre eles como uma história romântica após os sermões, sentida entre
eles como uma brisa entre fornalhas. Aquilo exigia certa determinação, muito
mais do que ela havia a princípio imaginado, para assumir uma posição ali,
pois em sua primeira participação – diálogos embaraçados que logo
terminaram – quase todos olharam para ela e aqueles que já a olhavam
prestaram atenção.

Apenas dois ou três dos fazendeiros conheciam Bathsheba pessoalmente e


ela foi até eles. Entretanto, se ela pretendia ser a mulher experiente que
esperava mostrar a si mesma, os negócios deviam ser mantidos com
apresentações ou não, e ela finalmente ganhou confiança o bastante para falar
e responder corajosamente aos homens de quem simplesmente ouvira falar.
Bathsheba também trazia sacos de amostras, e aos poucos adotou o despejo
profissional na mão, segurando os grãos em sua palma estreita para inspeção,
no perfeito modo de Casterbridge.

Algo na curva exata de seus dentes perfeitos e nos cantos entusiasmados


de sua boca vermelha, com lábios abertos, de alguma forma ela
desafiadoramente ergueu a cabeça para discutir com um homem alto,
sugerindo que havia bastante potencial naquele frágil ser humano. Para o seu
sexo frágil, ela era ousada o bastante para continuar. Seus olhos tinham uma
calma invariável que, se não fossem escuros, pareceriam nebulosos; mas,
escuros como eram, sua expressão era cortante.

É estranho falar de uma mulher, que no auge de seu esplendor e vigor,


permitisse que seus interlocutores interrompessem suas falas antes de ela
respondê-las. Ao argumentar sobre os preços, ela se mantinha firme, tão
natural como um negociante, e os reduzia persistentemente, como era
inevitável a uma mulher. Havia também uma elasticidade em sua firmeza que
se retirava da obstinação e uma ingenuidade em seu baratear que a salvava da
mesquinhez.

Aqueles fazendeiros com quem ela não negociou (a maior parte deles)
não paravam de se perguntar: “Quem é ela?”, e a resposta era:

“A sobrinha do fazendeiro Everdene. Herdou Weatherbury Upper Farm;


dispensou o administrador e jura que fará tudo sozinha.”
Os outros homens então balançavam a cabeça.

“Sim, é uma pena que seja tão teimosa”, disse o primeiro. “Mas devemos
nos orgulhar de tê-la aqui. Ela ilumina o velho lugar. É uma dama tão
formosa, e, no entanto, logo encontrará alguém.”

Não seria elegante sugerir que a novidade de seu comprometimento em


tal ocupação tinha muito a ver com o magnetismo da beleza de seu rosto e de
seus gestos. Entretanto, o interesse era comum e este début na reunião do
sábado, o que quer que pudesse ser para Bathsheba como uma fazendeira que
comprava e vendia, era inquestionável que, por ser mulher, ela triunfara. De
fato, a sensação foi tão intensa que seu instinto em duas ou três ocasiões foi
de simplesmente andar como uma rainha entre estes deuses do pousio[13],
como a irmã menor de Jove, e deixar de fechar preços no total.

As inúmeras evidências de seu poder de atração eram somente aliviadas


por uma forte exceção. Um homem entre eles ousou ignorá-la. E essa
insignificância da exceção tornou-se o mistério. As mulheres deviam ter olhos
em suas fitas ou coisas assim. Bathsheba tinha certeza que o cavalheiro
pensava algo semelhante; sem olhar diretamente para ela, devia ter
consciência de sua presença, e ela se sentia a ovelha negra do bando. Aquilo
a surpreendeu a princípio. Se houvesse uma minoria respeitável num dos
lados, a situação seria mais natural. Se ninguém a tivesse notado, ela teria
entendido o problema com indiferença, e tais casos ocorriam.

Logo ela soube muito mais sobre a aparência do recusante. Era um


cavalheiro fino e bem educado com feições romanas grandes e distintamente
delineadas, proeminências estas que reluziam ao sol com o tom de riqueza do
bronze. Era ereto em atitude e quieto em comportamento. Uma característica
claramente o marcava: a dignidade.

Ele aparentemente chegara à meia idade há algum tempo, na qual o


aspecto natural de um homem deixa de alterar o período de doze anos ou
mais e, artificialmente, do mesmo jeito acontece com uma mulher. Trinta e
cinco e cinquenta eram seus limites de variação; ele poderia ter uma das duas
idades ou estar entre elas.

Pode-se dizer que homens casados de quarenta anos são geralmente ágeis
e generosos o bastante para lançar olhares para qualquer exemplar de beleza
moderada que conseguirem discernir. É como quem joga uíste por amor, a
consciência de certa imunidade, sob quaisquer circunstâncias, é a de ter que
pagar, portanto, torna-os excessivamente especulativos. Bathsheba estava
convencida que aquele homem impassível não era casado.

Quando havia terminado as negociações, ela foi até Liddy, que estava
esperando por ela do lado da carruagem amarela na qual vieram para a
cidade. O cavalo foi atrelado e elas partiram. Os pacotes de açúcar, de chá e
os tecidos de Bathsheba estavam guardados na parte de trás e, de uma
maneira indescritível expressavam, por suas cores, formatos e características,
que eram da jovem fazendeira e não mais dos donos da mercearia e da loja de
tecidos.

“Consegui, Liddy, e acabou. Não devo mais me importar, pois eles vão se
acostumar a me verem lá. Mas esta manhã foi pior do que me casar. Todos
me olhavam!”

“Eu sabia que ia ser assim”, disse Liddy. “Os homens são uma classe
terrível da sociedade ao olharem para alguém.”

“Mas havia um homem que tinha mais senso para desperdiçar seu tempo
comigo.” A informação foi colocada daquele jeito para que Liddy não
suspeitasse nem por um momento que sua patroa estava completamente
ofendida. “Um homem muito atraente”, continuou ela, “correto, acho que
tinha uns quarenta anos. Imagina quem possa ser?”

Liddy não conseguia pensar.

“Não pode nem adivinhar?”, perguntou Bathsheba um pouco


desapontada.

“Não faço ideia; além do mais, não faz diferença, uma vez que não tomou
o mínimo conhecimento de você mais do que do resto. Agora, se tivesse
reparado mais, teria muito mais importância.”

Bathsheba estava sofrendo com o sentimento reverso e seguiram em


silêncio. Uma carruagem baixa, seguindo ainda mais rapidamente atrás de um
cavalo de uma raça impecável, os alcançou e ultrapassou.

“Ora, lá está ele!”, exclamou ela.

Liddy olhou.

“É ele! É o fazendeiro Boldwood. Claro, é o homem que você não pôde


ver outro dia quando ele a visitou.”

“Oh, o fazendeiro Boldwood”, murmurou Bathsheba e olhou para ele


enquanto este ia ainda mais rápido. O fazendeiro não virou a cabeça em
nenhuma vez, seus olhos estavam fixos num ponto mais distante da estrada,
que passou tão inconscientemente e distraidamente como se Bathsheba e seus
encantos fossem o mais diluído ar.

“É um homem interessante... não acha?”, observou ela.

“Ah sim, muito. Todos acham isso”, respondeu Liddy.

“Gostaria de saber por que ele é tão calado e indiferente, aparentemente


tão distante de tudo que vê ao seu redor.”

“Dizem, mas não tenho certeza, que teve uma amarga decepção quando
era jovem e alegre. Dizem que uma mulher rompeu um compromisso com
ele.”

“As pessoas sempre dizem isso. Sabemos muito bem que raramente as
mulheres rompem compromissos com os homens. Eles é que nos desprezam.
Espero que ser tão reservado seja simplesmente da natureza dele.”

“Simplesmente da natureza dele... também espero, Miss, mais que tudo


no mundo.”

“Ainda assim, é mais romântico pensar que ele foi tratado com crueldade,
pobrezinho! Talvez, no final das contas, tenha sido mesmo!”

“Espero que sim. Oh, sim, Miss, foi! Sinto que foi.”

“Entretanto, temos muita facilidade para pensar os extremos das pessoas.


Não me admiraria se no final das contas não foi um pouco dos dois, ou entre
os dois, um pouco de crueldade e um pouco reservado.”

“Oh, meu Deus, não, Miss! Não posso pensar em algo entre os dois!”

“É o mais provável.”

“Bem, sim, então está bem. Estou convencida de que é o mais provável.
Eu juro, Miss, que este é o problema com ele.”
CAPÍTULO XIII
SORTES SANCTORUM[14]—O PRETENDENTE

Era uma tarde de domingo na fazenda do dia treze de fevereiro. Terminado o


jantar, Bathsheba, procurando uma companhia melhor, chamou Liddy para se
sentar com ela. A estaca embolorada ficava sombria no inverno antes que as
velas eram acesas e as venezianas fechadas. A atmosfera do lugar parecia tão
velha quanto as paredes; cada canto atrás dos móveis tinha sua própria
temperatura, pois a lareira não era acesa nesta parte da casa tão cedo. O novo
piano de Bathsheba, que seria velho em outras histórias, parecia
particularmente torto e fora do nível do piso empenado, antes que a noite
lançasse uma sombra sobre seus ângulos menos proeminentes escondendo as
imperfeições. Liddy, como um pequeno riacho que, mesmo raso, estava
sempre agitada. A presença dela não tinha muita importância, mas ainda era o
bastante para exercitá-la.

Sobre a mesa ficava uma velha Bíblia encadernada em couro. Olhando


para ela, Liddy disse:

“Já tentou descobrir, Miss, com quem se casar por meio da Bíblia e da
chave?”

“Não seja boba, Liddy. Como se tal coisa fosse possível.”

“Bem, há muita coisa nisso, se há.”

“Bobagem, menina.”

“E faz o seu coração bater com medo. Alguns acreditam, outros não. Eu
acredito.”

“Muito bem, vamos tentar”, disse Bathsheba, saindo de seu lugar com
aquela total falta de consideração da consistência da qual pode ser tolerada
para com o dependente, e entrando no espírito de adivinhação de uma vez.
“Vá e pegue a chave da porta da frente.”

Liddy pegou-a.

“Gostaria que não fosse domingo”, disse ela ao retornar. “Talvez seja
errado.”

“O que é certo nos dias de semana é certo aos domingos”, replicou sua
patroa num tom que era a prova em si.

O livro estava aberto. As folhas, amareladas pelo tempo, muito


desgastadas pelos versículos lidos com o dedo indicador de leitores
inexperientes em tempos passados, onde eles passavam debaixo da linha
como um auxílio para a visão. O versículo especial do Livro de Rute fora
procurado por Bathsheba e as palavras sublimes encontraram seu olhar. Elas
a emocionaram e a envergonharam levemente. Era a sabedoria no abstrato de
frente para insensatez no concreto. Insensatez no concreto ruborizado,
persistiu em sua intenção e colocou a chave sobre o livro. Uma mancha de
ferrugem imediatamente sobre o versículo, causada pela pressão prévia de
uma substância de ferro naquele lugar, dizia-lhe que não era a primeira vez
que o antigo volume era usado para aquele propósito.

“Agora fique parada e em silêncio”, disse Bathsheba.

O versículo foi repetido; o livro foi virado; Bathsheba corou com culpa.

“Em quem pensou?”, perguntou Liddy curiosamente.

“Não devo lhe contar.”

“Notou os modos de Mr. Boldwood na igreja hoje de manhã, Miss?”,


continuou Liddy, tentando adivinhar pela observação o rumo que os
pensamentos dela haviam tomado.”

“Na verdade, não”, disse Bathsheba com serena indiferença.

“O banco dele era exatamente oposto ao seu, Miss.”


“Eu sei.”

“E não viu como ele estava?”

“Certamente que não, como estou dizendo.”

Liddy se encolheu e fechou os lábios decisivamente.

Aquele movimento era inesperado e proporcionalmente desconcertante.

“O que ele fez?”, disse forçosamente Bathsheba.

“Não virou a cabeça nenhuma vez para olhá-la durante todo o culto.”

“E por que deveria?”, reclamou novamente a patroa, com uma aparência


exasperada. “Não pedi a ele que o fizesse.”

“Oh não! Mas todo mundo estava reparando em você e era esquisito que
ele não. É o jeito dele. Rico e refinado, com que ele se importa?”

Bathsheba ficou em silêncio com a intenção de expressar que tinha


opiniões muito difíceis sobre o caso para que Liddy compreendesse, até
porque não tinha nada a dizer.

“Meu Deus, quase me esqueci do cartão do Dia dos Namorados que


comprei ontem”, exclamou ela finalmente.

“Namorado! Para quem, Miss?”, perguntou Liddy. “Para o fazendeiro


Boldwood?”

Era o único nome entre todos os possíveis errados que, naquele momento,
parecia para Bathsheba mais pertinente do que correto.

“Bem, não. É só o pequeno Teddy Coggan. Prometi algo a ele, e esta será
uma ótima surpresa. Liddy, pode me trazer? Está em minha escrivaninha, e
eu o enviarei de uma vez.”

Bathsheba pegou um desenho em relevo, lindamente iluminado, do


tamanho de um livro, o qual fora comprado no dia anterior na papelaria de
Casterbridge. No centro, havia uma pequena área oval; estava em branco e o
remetente podia inserir as palavras carinhosas mais apropriadas para a
ocasião especial, melhor que quaisquer generalidades que algo impresso
pudesse trazer.

“Aqui está o lugar para escrever”, disse Bathsheba. “O que devo


colocar?”

Liddy respondeu prontamente:

“Acho que alguma coisa como:

‘A rosa é vermelha,

A violeta é azul,

O cravo é doce,

Assim como você.’”

“Sim, será isso. Serve perfeitamente para uma criança de rosto gorducho
como ele”, disse Bathsheba. Ela escreveu as palavras com letra pequena,
porém legível, colocou num envelope e molhou sua caneta para escrever o
endereço.

“Que engraçado seria se isso fosse enviado para o tolo e velho Boldwood!
Como ele ficaria curioso!”, disse a irreprimível Liddy, levantando as
sobrancelhas e caindo numa terrível alegria à beira do temor ao pensar na
magnitude moral e social do homem contemplado.

Bathsheba fez uma pausa para considerar melhor a ideia. A imagem de


Boldwood havia se tornado incômoda, uma espécie de Daniel[15] em seu
reino, que persistia em ajoelhar-se quando a razão e o senso comum diziam
que seria melhor seguir com o resto, e garantir a ela o olhar oficial de
admiração que nada lhe custava. Estava longe de ficar seriamente
preocupada sobre a inconformidade dele. Ainda assim, era terrivelmente
triste que o homem mais digno e valioso da paróquia a privasse de seus olhos
para que uma garota como Liddy falasse daquele jeito com ela. Então a ideia
de Liddy foi inicialmente mais atormentadora do que maliciosa.

“Não, não farei isso. Ele não acharia graça.”

“Ele morreria de preocupação”, insistiu Liddy.

“Realmente, não me importo mesmo de enviá-la para Teddy”, observou


sua patroa. “Às vezes ele é uma criança bem malcriada.”

“Sim... isso ele é.”

“Vamos brincar como fazem os homens”, disse Bathsheba. “Agora então:


cara, Boldwood; coroa, Teddy. Não, não vamos tirar a sorte com dinheiro
num domingo, seria uma verdadeira invocação ao demônio.”

“Jogue este hinário. Não pode haver pecado nisso, Miss.”

“Muito bem. Aberto, Boldwood; fechado, Teddy. Não, é mais provável


que caia aberto. Aberto, Teddy; fechado, Boldwood.”

O livro voou pelo ar e caiu fechado.

Bathsheba, com um pequeno bocejo, pegou a caneta e com serenidade


informal dirigiu a missiva a Boldwood.

“Agora acenda uma vela, Liddy. Qual selo devemos usar? Temos uma
cabeça de unicórnio, não é interessante. O que é este? Dois pombos? Não.
Deve ser algo extraordinário, não deve, Liddy? Eis aqui um com um lema.
Lembro-me que era engraçado, mas não consigo ler. Vamos experimentar
este. E se não der certo, veremos outro.”

Um selo grande e vermelho foi devidamente fixado. Bathsheba olhou de


perto a cera quente para descobrir as palavras.

“Excelente!”, exclamou ela, jogando a carta com travessura. “Isso


perturbaria a solenidade de uma pessoa e de um oficial também.”

Liddy olhou para as palavras do selo e leu:


“Case-se comigo.”

A carta foi enviada na mesma tarde e devidamente classificada no correio


de Casterbridge à noite, para ser devolvida a Weatherbury outra vez de
manhã.

A façanha foi feita totalmente impensada. Bathsheba tinha bom


conhecimento do amor como uma exibição, mas pouco o conhecia
subjetivamente.
CAPÍTULO XIV
O EFEITO DA CARTA—O NASCER DO SOL

Ao anoitecer, no Dia dos Namorados, Boldwood sentou-se para o jantar


como de costume em frente à lareira brilhante de troncos velhos. Sobre sua
cornija, diante dele, havia um relógio em cima de uma águia com as asas
abertas, e numa das asas estava o cartão que Bathsheba enviara. O olhar
daquele homem solteiro se estreitava até que o grande selo vermelho ficou
como uma mancha de sangue em sua retina, e enquanto ele comia e bebia,
ainda lia, fantasioso, as palavras sobre ele, embora estivessem muito longe de
sua visão:

“Case-se comigo.”

A injunção espirituosa era como aquelas substâncias cristalinas que, por


serem incolores, assumem a tonalidade de objetos perto deles. Aqui, no
silêncio da sala de estar de Boldwood, onde tudo que não era sério era
estranho, e onde a atmosfera era de um domingo puritano que durava por
toda a semana, a carta e sua formalidade mudaram seus modos do descuido
para a origem da solenidade profunda, encharcada em seus acessórios agora.

Desde que recebeu a missiva pela manhã, Boldwood sentia a simetria de


sua existência ser lentamente distorcida na direção de uma paixão ideal. O
incômodo foi como a primeira alga flutuante de Colombo: desprezível, que
sugeria poucas possibilidades de algo infinitamente maior.

O cartão devia ter uma origem e um motivo. Aquele era da menor


magnitude compatível com sua própria existência, que Boldwood, claro, não
sabia. Tampouco tal explicação o impressionava como uma possibilidade. É
estranho que numa confusão, para quem está confuso, os processos de
aprovação de um curso sugerido por circunstâncias e, de atingir um curso
pelo impulso interior, pareceriam iguais. A enorme diferença entre iniciar
uma série de eventos, e direcionar para um caminho em particular uma série
já começada, é raramente aparente para quem está confuso.

Quando Boldwood foi dormir, colocou o cartão apaixonado num canto de


seu espelho. Estava consciente de sua presença, mesmo quando estava de
costas para ele. Era a primeira vez na vida de Boldwood que tal evento
ocorria. A mesma fascinação que o fazia pensar num ato que tivera um
motivo deliberado o afastara de considerá-lo como uma impertinência. Olhou
novamente naquela direção. As influências misteriosas da noite deram ao
cartão a presença da escritora desconhecida. A mão de alguém, de uma
mulher, passeara calmamente sobre o papel que trazia o nome dele, os olhos
não revelados dela observaram cada curva enquanto escrevia, o cérebro dela
o via em sua imaginação. Por que ela o imaginaria? A boca dela— os lábios
seriam vermelhos ou pálidos, volumosos ou enrugados? Curvaram-se num
certo tipo de expressão enquanto a caneta seguia, os cantos se moveram com
toda a trêmula naturalidade deles: qual fora a expressão?

A visão da mulher escrevendo, como um complemento das palavras


escritas, não tinha individualidade alguma. Ela era uma forma na névoa, e
também deveria ser considerando que naquele momento estaria num sono
profundo e esquecida de todo o amor e de escrever cartas sob o céu. Toda vez
que Boldwood adormecia, ela ganhava forma e comparativamente deixava de
ser uma visão: quando ele acordava, lá estava a carta justificando o sonho.

A lua brilhava naquela noite, e sua luz não era do tipo costumeiro. A
janela dele recebia apenas um reflexo pálido de seus raios naquela direção
invertida que a neve proporciona, vindo de cima e iluminando o teto dele de
um jeito nada natural, espalhando sombras em lugares estranhos e iluminando
onde costumava ficar escuro.

O conteúdo do cartão em nada lhe ocupara em comparação com o fato da


chegada dele. De repente, imaginou se mais alguma coisa poderia ser
encontrada no envelope além do que havia retirado. Pulou da cama na luz
esquisita, pegou o cartão, puxou a folha de papel fino, balançou o envelope,
procurou. Não havia mais nada ali. Boldwood olhou, como fizera mil vezes
no dia anterior, para o selo vermelho e insistente: Disse em voz alta: “Case-se
comigo”.

O fazendeiro sério e reservado fechou o cartão novamente e o colocou na


moldura do espelho. Ao fazê-lo, viu o reflexo de suas feições, a expressão
pálida e a forma insubstancial. Viu como sua boca estava apertada e seus
olhos arregalados e vazios. Sentindo-se desconfortável e insatisfeito consigo
mesmo por aquela irritabilidade nervosa, voltou para a cama.

Então chegou o amanhecer. Todo o poder do céu claro não era igual ao de
um céu nublado do meio-dia, quando Boldwood levantou e se vestiu. Desceu
as escadas e foi em direção ao portão de um campo a leste, debruçando-se
sobre ele, onde parou e olhou ao redor.

Era um nascer do sol lento e comum naquela época do ano, e o céu, de


puro violeta no seu apogeu, estava escuro ao norte e melancólico a leste onde,
além da colina ou do pasto das ovelhas cobertos de neve em Weatherbury
Upper Farm, e aparentemente descansando sobre a cerca, a única parte visível
do sol brilhava sem raios, como uma fogueira vermelha e sem chamas
ardendo sobre a pedra branca de uma lareira. Todo o efeito lembrava um pôr
do sol como descrito na infância.

Em outras direções, os campos e o céu estavam da mesma cor perto da


neve, que era difícil dizer onde ficava o horizonte com um olhar rápido e,
geralmente havia ali também a inversão sobrenatural de luz e sombra já
descrita que se apresenta a possibilidade quando a claridade extravagante
comum no céu é vista sobre a terra, e as sombras da terra estão no céu. A
oeste pairava a lua enfraquecida, agora sutil e amarelo-esverdeada como latão
manchado.

Boldwood estava olhando desatentamente como a geada havia endurecido


e formado uma camada fina de gelo sobre a neve até que brilhou a luz
vermelha no leste com o brilho do mármore. Como, em algumas partes da
descida, o capim seco, envolto em gelo, se eriçava pela cobertura macia e
pálida, em formas retorcidas e curvas de cristal de Murano antigo, como as
pegadas de algumas aves, que tinham pulado pela neve enquanto parecia lã
macia, estavam agora congeladas por uma curta permanência. Um ruído
abafado de rodas leves o interrompeu. Boldwood virou-se para a estrada. Era
a carroça do correio, um veículo velho de duas rodas, fraco o suficiente que
não resistiria a um sopro do vento. O condutor entregou uma carta. Boldwood
pegou-a e abriu-a, esperando que também fosse anônima, como a grande
ideia das pessoas da probabilidade de um mero sentido de que um precedente
se repetirá.

“Acho que não é para você, senhor”, disse o homem ao ver a atitude de
Boldwood. “Embora não tenha um nome, acho que é para o seu pastor.”

Boldwood olhou então para o endereço:

Para o Novo Pastor,

Weatherbury Farm,

Próximo a Casterbridge.

“Ah, que engano! Não é para mim. Nem para meu pastor. É para o pastor
de Miss Everdene. É melhor levá-la para ele, Gabriel Oak, e diga-lhe que abri
por engano.”

Naquele momento, na cerca, contra o céu resplandecente, ele avistou uma


silhueta que era visível como um pavio negro ao centro da chama de uma
vela. Ela então se moveu e começou a mudar de lugar rapidamente, como um
esqueleto quadrado circundado pelos mesmos raios. Uma figura pequena de
quatro patas seguia atrás. A forma alta era Gabriel Oak, a menor era George,
os artigos em movimento eram barreiras.

“Espere”, disse Boldwood. “É aquele homem na colina. Eu mesmo lhe


entregarei a carta.”

Para Boldwood, agora não era mais simplesmente uma carta para outro
homem. Era uma oportunidade. Exibindo o rosto cheio de intenção, ele
entrou no campo nevado.

Gabriel, no mesmo instante, desceu a colina para a direita. A claridade se


estendia naquela direção e tocava o telhado distante do Warren's Malthouse,
para onde aparentemente o pastor se dirigia: Boldwood seguiu à distância.
CAPÍTULO XV
UM ENCONTRO PELA MANH×A CARTA
OUTRA VEZ

A luz escarlate e laranja do lado de fora do Warren’s Malthouse não


penetrava em seu interior, o qual estava, como sempre, iluminado por um
brilho rival de tonalidade similar irradiando da fornalha.

O produtor de malte, depois de ter se deitado mesmo vestido por algumas


horas, estava agora sentado à mesa de três pernas, tomando seu desjejum de
pão com toucinho. Era servido sem prato: uma fatia de pão sobre a mesa, a
carne fina sobre o pão, uma camada de mostarda sobre a carne e uma pitada
de sal por cima de tudo. Depois se cortava tudo verticalmente com um
canivete até que se chegasse à madeira, quando o bocado era espetado na
lâmina, erguido e comido propriamente.

A ausência de dentes do produtor parecia não diminuir sensivelmente


seus poderes de mastigação. Já vivia sem eles por tantos anos que aquela falta
era menos sentida como um defeito do que as gengivas duras como uma
aquisição. De fato, ele parecia aproximar-se da sepultura como uma curva
hiperbólica se aproxima de uma linha reta, menos diretamente ao chegar mais
perto até que se duvidasse que algum dia chegaria.

No buraco das cinzas havia uma pilha de batatas assando e uma pequena
panela de barro com pão tostado, chamado de “café” para o benefício de
quem quer que pudesse chegar, já que o Warren’s era um tipo de clube usado
como uma alternativa à hospedaria.

“Eu sempre falo, começamos bem o dia, daí vem um cão bravo à noite,”
era uma observação agora ao ouvir de repente se espalhando por dentro da
cervejaria pela porta, que acabara de ser aberta. A imagem de Henery Fray
avançou até a lareira, batendo a neve de suas botas quase na metade do
caminho. A fala e a entrada não pareceram nem um pouco um início abrupto
para o produtor, pois as apresentações eram frequentemente omitidas
naquelas redondezas, tanto das palavras como das ações, e tendo o produtor
permitido a mesma liberdade, não se apressou em responder. Picou um
pedaço de queijo com sua faca como um açougueiro faz com espetos.

Henery chegara num sobretudo de caxemira pardo abotoado por cima de


seu avental, a barra branca deste era visível numa distância de
aproximadamente um pé abaixo do casaco que, quando se acostumava ao
estilo da vestimenta, parecia bem natural e até mesmo ornamental; estava
certamente confortável.

Matthew Moon, Joseph Poorgrass e outros condutores de carroças e


carruagens acompanhavam, com grandes lamparinas balançando nas mãos,
mostrando que acabavam de vir dos estábulos dos cavalos dos veículos, onde
estavam ocupados desde as quatro horas da manhã.

“E como ela está se saindo sem um administrador?”, indagou o produtor.


Henery balançou a cabeça e deu um de seus sorrisos amargos, repuxando
toda a pele de sua testa numa elevação enrugada no centro.

“Ela vai se arrepender, com toda certeza, com toda certeza!”, disse ele.
“Benjy Pennyways não era um homem sincero ou um administrador honesto,
um grande traidor como o próprio Judas Iscariotes. Mas achar que consegue
continuar sozinha!”, balançou a cabeça três ou quatro vezes em silêncio. “De
jeito nenhum, nunca!”

Enquanto ele balançava a cabeça, os expectantes admitiram que fosse a


conclusão de alguma fala sombria expressada em pensamento, mas Henery
mantinha muitas marcas de desespero em seu rosto para sugerir que
pudessem ser usadas outra vez, e continuou a falar:

“Será a ruína de tudo, e de nós também.”

“E não haverá carne na casa dos cavalheiros!”, exclamou Mark Clark.


“Uma dama teimosa é o que ela é, e não vai ouvir nenhum conselho. O
orgulho e a vaidade destruíram muitas mulheres como ela. Meu Deus, meu
Deus, eu sofro só de pensar nisso!”

“É verdade, Henery, tem razão, eu sei”, disse Joseph Poorgrass numa voz
de quem concorda plenamente e com um fino sorriso de pesar.

“Não faria mal a nenhum mortal ter o que ela tem debaixo de seu
chapéu”, disse Billy Smallburry, que acabara de entrar, mostrando seu único
dente na boca. “Ela fala direito e tenho certeza que ela tem um pouco de juízo
em algum lugar. Entendem o que eu quero dizer?”

Sim, sim, mas sem um administrador... eu merecia aquele cargo”,


lamentou Henery, mostrando um talento desperdiçado com o olhar vazio
para as visões de um destino importante aparentemente visível no avental de
Billy Smallbury. “Acho que é assim que tem que ser. A sua sorte é a sua
sorte, as Escrituras não são nada. Se você faz o bem não é recompensado pelo
seu trabalho, mas é trapaceado com alguma maldade sem a sua recompensa.”

“Não, não, não concordo com você”, disse Mark Clark. “Deus é perfeito
com respeito a isso.”

“Se o trabalho é bem feito, a recompensa também é, como dizem”,


confirmou Joseph Poorgrass.

Seguiu-se uma pausa curta e como num entreato, Henery virou-se e


apagou as lamparinas, pois não eram mais necessárias pelo aumento da luz do
dia na cervejaria, com sua única janela de vidro.

“Imagino o que uma fazendeira pode querer com uma espineta, um


saltério, um piano, seja lá como chamam aquilo”, disse o produtor. “Liddy
disse que ela tem um novo desses.”

“Ela tem um piano?”

“Tem. Parece que as velharias do tio dela não eram suficientes. Ela
comprou tudo novo. Tem cadeiras pesadas para os mais fortes e leves e finas
para os mais magros. Relógios grandes como os de parede para ficar sobre o
aparador da lareira.”

“Quadros, a maioria com molduras esplêndidas.”

“E bancos de pelo de cavalo para os bêbados, com almofadas de pelo de


cavalo em cada ponta”, disse Mr. Clark. “Assim como espelhos para as
beldades e livros que mentem para os maldosos.”

O barulho de passos firmes foi ouvido do lado de fora. A porta se abriu


umas seis polegadas e alguém do outro lado perguntou:

“Vizinhos, vocês têm espaço para alguns cordeiros recém-nascidos?”

“Sim, claro, pastor”, respondeu o grupo.

A porta foi puxada de volta até que atingiu a parede e estremeceu de cima
a baixo com a batida. Mr. Oak apareceu na entrada com o rosto suado, tiras
de feno enroladas em volta de seus tornozelos para se proteger da neve, uma
tira de couro amarrada na cintura por fora de seu avental e com a aparência
da personificação universal de saúde e vigor. Quatro cordeiros pendurados
em seus ombros em atitudes embaraçosas. O cão George, o qual Gabriel
trouxera de Norcombe, solenemente o acompanhava.

“Bem, pastor Oak, como estão os carneiros este ano, se me permite


perguntar?”, indagou Joseph Poorgrass.

“Muito difícil”, respondeu Oak. “Molhei-me duas vezes por dia, na chuva
ou na neve, nos últimos quinze dias. Cainy e eu não pregamos o olho esta
noite.”

“Soube que são uns bons gêmeos.”

“São sim. Os carneiros estão muito estranhos este ano. Não devemos
terminar até o Dia da Anunciação.”

“E no ano passado já tinha terminado na quaresma”, observou Joseph.

“Traga o resto, Cainy”, pediu Gabriel, “e depois volte correndo para os


carneiros. Logo encontrarei com você.”
Cainy Ball, um jovem de rosto alegre, com covinhas perto da boca,
apressou-se e pegou os outros dois e depois se retirou conforme lhe foi dito.
Oak baixou os cordeiros da altura que para eles não era natural, envolveu-os
em feno e colocou-os próximo da lareira.

“Não temos uma cabana para os cordeiros aqui como eu tinha em


Norcombe”, disse Gabriel, “e trazê-los para dentro de casa é um incômodo.
Se não fosse por este lugar, cervejeiro, não sei o que faria neste tempo tão
impiedoso. E como estão as coisas, cervejeiro?”

“Oh, nem doente nem triste, pastor; mas também não estou mais jovem.”

“Sim, entendo.”

“Sente-se, pastor Oak”, continuou o velho da cervejaria. “E como estava


o seu antigo lugar em Norcombe, quando voltou para buscar seu cachorro?
Gostaria de ver aquele velho local familiar, mas sei que não conheço uma
viva alma lá agora.”

“Acredito que não. Está muito diferente.”

“É verdade que a sidraria de madeira de Dicky Hill foi demolida?”

“Sim, há anos, assim como a casa de Dicky que ficava em cima.”

“É mesmo?”

“Sim, e a velha macieira de Tompkins que produzia dois tonéis de sidra


sem a ajuda de outras árvores foi arrancada.”

“Arrancada? Não me dia! Ah, que tempos complicados que estamos


vivendo... tempos complicados.”

“Se lembra do velho poço que ficava no meio da praça? Virou uma
bomba sólida de ferro com uma tina de pedra enorme, tudo terminado.”

“Meu Deus, meu Deus, como mudam os rostos das nações e o que
vivemos para ver hoje! Sim, está tudo igual por aqui. Estavam comentando
agora mesmo sobre as coisas esquisitas que a patroa tem feito.”
“O que estão falando sobre ela?”, perguntou Oak, virando-se rapidamente
e com interesse.

“Os homens a estão pressionando por causa do orgulho e da vaidade


dela”, comentou Mark Clark; “mas eu digo, deixem que ela puxe toda a
corda. Bendito seja aquele lindo rosto, como eu gostaria de apreciar seus
lábios de cereja!”, ali, o galante Mark Clark fez seu som peculiar e conhecido
com a boca.

“Mark”, disse Gabriel seriamente, “preste atenção numa coisa! Pare com
essa brincadeira de beijos e abraços sobre Miss Everdene. Não permito que
faça isso. Entendeu?”

“Claramente, já que não tenho nenhuma chance”, replicou cordialmente


Mr. Clark.

“Creio que andaram falando mal dela”, disse Oak, virando-se para Joseph
Poorgrass com um olhar muito severo.

“Não, não, nenhuma palavra, eu... é muito bom que ela não seja pior, foi
isso que eu disse...”

“Matthew Moon, o que andou dizendo?”, perguntou Oak.

“Eu? Como? Você sabe que eu não faria mal nem a uma minhoca, não, a
nenhuma minhoca debaixo da terra”, respondeu Matthew Moon, parecendo
muito desconfortável.

“Bem, alguém falou, e olhem aqui, vizinhos”, Gabriel, embora fosse um


dos mais quietos e cavalheiros do mundo, revoltou-se com a situação, com
agilidade corajosa e vigor. “Este é o meu punho”, mostrou seu punho, um
pouco menor do que um pão, no centro preciso da mesinha do produtor e
bateu com ele duas vezes, como que para assegurar que os olhos de todos
tivesse uma ideia clara de sua força antes que ele continuasse falando.
“Agora, o primeiro homem na paróquia que eu ouvir falando mal da patroa”,
levantou o punho e deixou-o cair como Thor faria com seu martelo ao dizer
aquilo, “provará disso, ou então sou holandês.”
Toda a sinceridade expressa nas feições deles era de que não queriam
saber se ele era holandês com a afirmação dele, mas lamentavam a diferença
que fez surgir àquela figura e Mark Clark gritou:

“Ouçam, ouçam: foi o que acabei de dizer.”

O cão George olhou para cima logo depois da ameaça do pastor e mesmo
sem entender perfeitamente a linguagem, começou a uivar.

“Vamos, não leve isso tão a sério e sente-se, pastor!”, disse Henery, com
um calmo protesto da bondade cristã.

“Sabemos que é um homem extraordinariamente bom e inteligente,


pastor”, observou Joseph Poorgrass com ansiedade considerável atrás da
cama do cervejeiro onde havia se protegido. “Ser inteligente é muito
importante, tenho certeza”, continuou ele, gesticulando de acordo com seus
pensamentos e não com seu corpo. “Gostaríamos de ser também, não
gostaríamos, vizinhos?”

“Sim, claro que sim”, concordou Matthew Moon, com uma risada ansiosa
para Oak, mostrando como era simpático.

“Quem lhes disse que sou inteligente?”

“É o que se ouve por aí, naturalmente”, disse Matthew. “Ficamos sabendo


que sabe que horas são pelas estrelas como sabemos pelo sol e pela lua,
pastor.”

“Sim, conheço um pouco”, disse Gabriel, com humildade naquele


assunto.

“E que sabe fazer relógios de sol e gravar nomes dos donos nas carroças
quase como numa placa de cobre, com lindos enfeites e traços longos. É
excelente ser tão inteligente, pastor. Joseph Poorgrass costumava gravar as
carroças do fazendeiro James Everdene antes que você chegasse, e nunca
entendi para que lado virar o J e o E, você conseguia, Joseph?”, Joseph
balançou a cabeça para dizer que absolutamente não conseguia. “Então ele os
escrevia do jeito errado, desse jeito, não era, Joseph?”, Matthew escreveu no
chão empoeirado com o cabo de seu chicote

AQUI TEM A PALAVRA JAMES ESCRITA COM O J


INVESTIDO, TIPO UM L REDONDO E O E VIRADO DE COSTAS.

“E como o Fazendeiro James ficava irritado e o chamava de tolo, não era,


Joseph, quando via que o nome dele parecia que estava de trás para frente?”,
continuou Matthew Moon com compaixão.

“Sim, era mesmo”, disse Joseph humildemente. “Mas veja, não tive tanta
culpa assim, porque o J e o E são danados de lembrar qual lado é para trás e
para frente, e eu também sempre tive a memória fraca.”

“É um tormento para você, que já passa por tantas calamidades.”

“Bem, é, mas uma Providência feliz fez com que as coisas não piorassem
e fico grato. Para o pastor, tenho certeza que a patroa deve promovê-lo a
administrador por ser muito apropriado para isso.”

“Não me importo de admitir que esperei por isso”, disse Oak


francamente. “De fato, esperei pela colocação. Ao mesmo tempo, Miss
Everdene tem o direito de ser a própria administradora se preferir e ficar
comigo apenas como um simples pastor.” Oak respirou lentamente, olhou
para o buraco brilhante das cinzas tristemente e parecia perdido em seus
pensamentos sem esperanças.

O calor agradável do fogo começava a estimular os cordeiros quase


inertes a balir e se mexer rapidamente sobre o feno e a reconhecer pela
primeira vez o fato de que haviam nascido. O barulho deles cresceu para um
coro de “més” sobre o qual Oak empurrou a lata de leite para perto do fogo e,
pegando uma pequena leiteira do bolso de seu avental, encheu-a de leite e
ensinou, àquelas criaturas desamparadas, que não deviam ser devolvidas à
suas mães como beber do bico, um truque que aprenderam com
surpreendente aptidão.

“Ouvi dizer que ela nem mesmo deixa que você fique com as peles dos
carneiros mortos”, recomeçou Joseph Poorgrass, com os olhos nas operações
de Oak com a melancolia necessária.

“Eu não as quero”, disse Gabriel.

“Você é muito mal aproveitado, pastor”, arriscou Joseph outra vez, na


esperança de que por fim Oak se aliasse às suas lamentações. “Acho que ela
se aproveita de você, isso sim.”

“Ah, não, de jeito nenhum”, replicou Gabriel apressadamente, e um


suspirou lhe escapou, do qual a privação das peles dos carneiros dificilmente
causaria.

Antes que qualquer outra observação aparecesse, uma sombra escureceu a


porta e Boldwood entrou na cervejaria, conferindo a todos um aceno com a
cabeça na qualidade entre simpatia e condescendência.

“Ah! Oak, achei que estaria aqui”, disse ele. “Encontrei a carroça do
correio há dez minutos e uma carta me foi entregue, a qual eu abri sem ler o
endereço. Creio que seja sua. Por favor, me desculpe pelo incidente.”

“Oh, sim, não tem a menor importância, Mr. Boldwood, nenhuma”, disse
Gabriel prontamente. Ele não tinha ninguém com quem se corresponder no
mundo, nem uma possível carta chegando para ele cujo conteúdo toda a
paróquia não pudesse folhear.

Oak afastou-se e leu a carta com uma letra desconhecida:

CARO AMIGO,

Não sei o seu nome, mas acho que estas poucas linhas chegarão até você,
pois escrevi para agradecê-lo pela sua bondade para comigo na noite em
que deixei Weatherbury de uma maneira precipitada. Eu também devolvo o
dinheiro que lhe devo, que espero que me desculpe por não guardá-lo como
presente. Tudo terminou bem. Estou feliz em saber que me casarei com o
rapaz que me corteja há algum tempo. Ele é o sargento Troy, dos Dragões da
Décima Primeira Cavalaria, e está agora aquartelado nesta cidade. Sei que
ele desaprovaria que eu recebesse alguma coisa que não fosse um
empréstimo, por ser um homem de muito respeito e alta honra — realmente,
de sangue nobre. Seria muito grata se mantivesse o conteúdo desta carta em
segredo por enquanto, caro amigo. Queremos surpreender Weatherbury ao
chegarmos como marido e mulher, embora eu core ao afirmar isso a alguém
que é quase um estranho. O sargento foi criado em Weatherbury. Mais uma
vez, obrigada por sua bondade.

Com os mais sinceros desejos,

Fanny Robin.

“Você a leu, Mr. Boldwood?”, perguntou Gabriel; “se não, é melhor que
leia. Sei que está interessado em Fanny Robin.”

Boldwood leu a carta e pareceu aflito.

“Fanny, pobre Fanny! O fim a que ela está tão confiante ainda não
aconteceu, ela deve se lembrar, e talvez nunca aconteça. Vejo que ela não deu
nenhum endereço.”

“Que tipo de homem é este Sargento Troy?”

“Hum, temo que não seja do tipo para se esperar muito num caso como
este”, murmurou o fazendeiro, “apesar de que é um homem inteligente e
capaz de qualquer coisa. Ele também é fruto de um romance breve. A mãe
dele era uma governanta francesa e parece que existe uma ligação secreta
entre ela e o falecido Lord Severn. Era casada com um pobre médico e logo
em seguida seu filho nasceu. Enquanto o dinheiro vinha, tudo estava bem.
Infelizmente para o menino, seus melhores amigos morreram e ele então
encontrou um lugar como segundo ajudante de um advogado em
Casterbridge. Ficou algum tempo lá e deve ter se esforçado para conseguir
uma posição digna de algum tipo se não tivesse se alistado no exército numa
loucura. Duvido muito que a pequena Fanny nos surpreenda da forma como
diz, duvido muito. Que menina tola, muito tola!”

A porta se abriu apressadamente outra vez e Cainy Ball entrou correndo e


sem fôlego, com a boca vermelha aberta como uma trombeta, da qual ele
tossiu com vigor e grande distensão no rosto.

“Cain Ball”, disse Oak severamente, “por que corre assim e perde o
fôlego? Estou sempre lhe dizendo isso.”

“Oh, eu... preciso de ar... peguei... o caminho errado, por favor, Mr. Oak,
que me fez tossir... cof cof!”

“Bem, por que veio?”

“Corri para lhe contar”, disse o aprendiz de pastor, apoiando sua estrutura
jovem e exausta contra o batente, “que você deve vir logo. Mais duas ovelhas
tiveram gêmeos, este é o problema, pastor Oak.”

“Ah, é isso”, disse Oak, levantando-se num pulo e esquecendo-se


momentaneamente da pobre Fanny. “Você fez bem em correr e me contar,
Cain, e logo ganhará um pudim de ameixas enorme como recompensa. Mas,
antes de irmos, Cainy, traga o pote de alcatrão e vamos marcar e terminar este
lote.”

Oak tirou de um de seus bolsos infinitos um ferro de marcar, mergulhou-o


no pote e imprimiu nas ancas dos carneirinhos as iniciais daquela com quem
ele se encantava: “B.E.”, que significava que para toda a região que dali por
diante os carneiros pertenciam à fazendeira Bathsheba Everdene e a mais
ninguém.

“Agora, Cainy, carregue dois cordeiros nos ombros e vamos embora.


Bom dia, Mr. Boldwood.” O pastor ergueu as dezesseis patas compridas e
quatro corpos pequenos que ele mesmo trouxe e desapareceu com eles na
direção do campo dos carneiros, agora que estavam mais espertos e com
esperanças, contrastando alegremente com a condição à beira da morte em
que estavam meia hora antes.

Boldwood o acompanhou por uma parte do caminho até o campo, hesitou


e voltou. Seguiu-o novamente, decidido a não voltar. Ao se aproximar do
recanto no qual o curral do rebanho fora construído, o fazendeiro puxou seu
livro de bolso, desamarrou-o e deixou-o aberto na mão. Havia um cartão, o
de Bathsheba.

“Gostaria de lhe perguntar, Oak”, disse ele com descuido forçado, “se
sabe de quem é esta letra.”

Oak olhou para o livro e respondeu imediatamente com o rosto


ruborizado:

“É de Miss Everdene.”

Oak corou simplesmente com a consciência do som do nome dela. Sentia


agora uma aflição estranhamente embaraçosa com um novo pensamento.
Estava claro que a carta era anônima, ou a pergunta não seria necessária.

Boldwood não entendeu a confusão dele: pessoas sensíveis sempre


reagem com um: “O que foi que fiz?” em vez de raciocinar objetivamente.

“A pergunta foi perfeitamente justa”, continuou ele, e havia algo


incongruente na honestidade com a qual ele se empenhava a discutir a carta
da admiradora. “Sabe que sempre se espera que se façam perguntas
particulares: é onde fica... a diversão.” Se a palavra “diversão” fosse o mesmo
que “tortura”, não seria dita com aparência mais constrangida e impaciente do
que Boldwood fez.

Assim que se afastou de Gabriel, o homem solitário e reservado voltou


para sua casa para o desjejum, sentindo pontadas de vergonha e
arrependimento por ter exposto tanto seu humor com aquelas perguntas febris
a um estranho. Colocou o cartão novamente no aparador da lareira e sentou-
se para pensar nas circunstâncias daquela situação à luz da informação de
Gabriel.
CAPÍTULO XVI
TODOS OS SANTOS E TODAS AS ALMAS

Numa manhã de um dia comum, uma pequena congregação, que consistia


principalmente de mulheres e moças, levantou-se depois de se ajoelhar na
nave úmida de uma igreja chamada de Todos os Santos, na cidade-quartel já
mencionada, ao fim da celebração sem sermão. Estavam para se dispersar
quando passos apressados, entrando pelo pórtico e subindo pela passagem
central, chamaram a atenção. O barulho metálico ecoou na igreja de um jeito
incomum; era o barulho de esporas. Todos olharam. Um jovem soldado da
cavalaria, num uniforme vermelho com três divisas de sargento em sua
manga, passou pelo corredor a passos largos, num constrangimento que era
apenas mais pronunciado pelo vigor intenso de seus passos e pela
determinação em não demonstrar nada em seu rosto. Um leve rubor subiu às
bochechas quando passou entre as mulheres; mas, ao atravessar o arco da
capela-mor, parou ao se aproximar do parapeito do altar. Ficou ali sozinho
por um instante.

O sacerdote, que ainda não havia tirado sua sobrepeliz, percebeu o recém-
chegado e seguiu-o até o local da comunhão. Sussurrou com o soldado e
depois acenou para o sacristão, que por sua vez sussurrou com uma senhora,
aparentemente a esposa dele, e também subiram os degraus da capela.

“É um casamento!”, murmurou alegremente uma das mulheres. “Vamos


esperar!”

A maioria sentou-se novamente.

Houve um rangido de engrenagens e alguns dos mais novos olharam para


trás. Do interior do muro da torre projetava-se uma pequena abóbada com um
relógio que marcava quartos de horas e um pequeno sino abaixo dele, com
um autômato movido pelo mesmo mecanismo do relógio que tocava o grande
sino na torre. Entre a torre e a igreja havia uma cortina, cuja porta ficava
fechada durante as celebrações, escondendo o relógio grotesco. No momento,
entretanto, a porta estava aberta e a saída do boneco, as batidas no sino e a
volta dele para dentro do esconderijo ficaram visíveis para muitos e audíveis
por toda a igreja.

O boneco marcara onze e meia.

“Onde está a mulher?”, sussurraram os espectadores.

O jovem sargento ficou parado com a rigidez anormal dos velhos pilares
à sua volta. Olhava para sudoeste e estava em silêncio.

O silêncio cresceu notavelmente conforme os minutos se passavam e


ninguém aparecia e nem uma alma se movia. A agitação do autômato saindo
de seu nicho para marcar quinze para o meio dia, e sua volta barulhenta, era
quase dolorosamente abrupta, fazendo que muitos da congregação se
sobressaltassem.

“Gostaria de saber onde está a mulher!”, sussurrou uma voz outra vez.

Então teve início uma leve movimentação de pés e uma tosse forçada, o
que trai a espera nervosa. Por fim, houve uma risada abafada. Mas o soldado
nem se mexeu. Ali ele ficou, olhando para sudoeste, ereto como uma coluna,
com o quepe na mão.

Ouvia-se o tique-taque do relógio. As mulheres deixaram o nervosismo


de lado e os risinhos tornaram-se mais frequentes. Então veio um silêncio
sepulcral. Todos estavam esperando pelo fim. Algumas pessoas notaram que
os quartos de hora passavam extraordinariamente mais rápidos. Era difícil de
acreditar que o boneco não havia se enganado com os minutos quando o
barulho começava novamente, a marionete aparecia e a batida dos quatro
quartos com a mesma irregularidade anterior. Alguém até podia ter certeza de
que havia um olhar malicioso no rosto da criatura abominável e um prazer
travesso em seus movimentos. Então se seguia o ressoar monótono e remoto
das doze badaladas pesadas na torre acima. As mulheres estavam
impressionadas e não houve nenhuma risada desta vez.

O sacerdote sumiu para dentro da sacristia e o sacristão desapareceu. O


sargento ainda não tinha se virado. Todas as mulheres da igreja estavam
esperando para ver o rosto dele e parecia que ele sabia disso. Finalmente, ele
se virou e caminhou decididamente pela nave, encarando a todos com os
lábios comprimidos. Dois mendigos curvados e desdentados se entreolharam
e riram inocentemente, mas o barulho teve um efeito esquisito naquele lugar.

Do outro lado da igreja ficava uma praça pavimentada, em torno da qual


muitas construções de madeira antigas formavam uma sombra pitoresca. O
jovem passou pela porta e atravessou a praça quando, no meio, encontrou
uma mocinha. A expressão no rosto dela, que era de intensa ansiedade,
tornou-se quase de terror ao vê-lo.

“Bem?”, disse ele, num nervoso dominado, olhando fixamente para ela.

“Oh, Frank, cometi um erro! Achei que a igreja com a torre fosse a de
Todos os Santos e fiquei na porta até as onze e meia, como você disse.
Esperei até quinze para o meio-dia e descobri então que estava na de Todas as
Almas. Mas não estou muito assustada, porque pensei que poderia ser
amanhã também.”

“Sua tola, você me fez de bobo! Mas não diga mais nada.”

“Será amanhã, Frank?”, perguntou ela, desconcertada.

“Amanhã!”, e ele deu uma gargalhada rouca. “Garanto que não passarei
por isso de novo por algum tempo!”

“Mas no fim das contas”, ela censurou com voz trêmula, “nem foi um
erro tão terrível! Então, Frank querido, quando será?”

“Ah, quando? Só Deus sabe!”, disse ele com discreta ironia e afastou-se
dela rapidamente.
CAPÍTULO XVII
NO MERCADO

No sábado, Boldwood estava no mercado de Casterbridge como de costume,


quando aquela que perturbava seus sonhos apareceu. Adão acordara de seu
sono profundo e quem estava lá? Eva. O fazendeiro tomou coragem e pela
primeira vez, olhou realmente para ela.

Motivos materiais e efeitos emocionais não devem ser colocados numa


equação regular. O resultado do capital empregado na produção de qualquer
movimento de natureza mental, às vezes, é tão tremendo quanto a causa em si
é absurdamente pequena. Quando as mulheres estão num humor caprichoso,
sua intuição comum, seja por descuido ou defeito inerente aparentemente não
lhes ensinam nada, e foi assim que Bathsheba estava destinada a ser
surpreendida naquele dia.

Boldwood olhou-a, não de forma discreta, crítica ou compreensiva, mas


com o olhar vago, como um ceifeiro olha para o trem que passa, como algo
estranho ao seu meio e pouco compreendido. Para Baldwood, as mulheres
eram mais um fenômeno remoto do que um complemento necessário: tinham
aspectos de cometas, com movimentos e permanência tão incertos como se
suas órbitas fossem geométricas, imutáveis e sujeitas às próprias leis, ou
absurdamente errantes, como pareciam superficialmente, que ele não julgava
que considerá-las fosse seu trabalho.

Ele viu os cabelos pretos, os contornos faciais, o perfil perfeito e a


harmonia do queixo e do pescoço dela. Olhou então para as pálpebras, olhos
e cílios e o contorno da orelha. Depois ele observou a silhueta, a saia e até as
solas dos sapatos dela.
Boldwood achou que ela era bonita, mas imaginava se não estaria
enganado, pois parecia impossível que este amor em pessoa, se fosse tão doce
quanto ele imaginara, pudesse passar tanto tempo sem causar uma confusão
de delírio entre os homens e provocar mais dúvidas do que Bathsheba havia
provocado, que já não eram poucas. Em seu melhor julgamento, nem a
natureza nem a arte poderiam aprimorar aquela perfeição entre os
imperfeitos. Seu coração acelerou dentro de seu peito. Deve-se lembrar de
que Boldwood, embora tivesse quarenta anos de idade, jamais observara uma
mulher com tamanha atenção e força no olhar; elas atraiam seus sentidos de
um modo comum.

Ela era realmente linda? Ele não tinha certeza de que sua opinião era
verdadeira. Disse furtivamente a um vizinho:

“Miss Everdene é considerada bela?”

“Oh, sim. Todos ficaram impressionados quando ela veio aqui pela
primeira vez, se não se lembra. Uma moça realmente muito bela.”

Os homens são mais crédulos quando recebem opiniões favoráveis sobre


a mulher por quem estão um pouco ou muito apaixonados. A simples palavra
de uma criança sobre o assunto tem o mesmo peso que a de um doutor. Agora
Boldwood estava satisfeito.

E aquela mulher encantadora exercia um poder sobre ele. “Case-se


comigo.” Por que ela faria uma coisa tão estranha? A cegueira de Boldwood
para a diferença entre aprovar o que as circunstâncias sugeriam e inventar o
que não sugeriam foi combinada com a insensibilidade de Bathsheba para a
possibilidade de grandes problemas logo no início.

Naquele momento, ela estava negociando calmamente com um jovem


fazendeiro, fazendo contas com ele com tanta indiferença como se o rosto
dele fosse uma página do livro contábil. Era evidente que alguém como ele
não atraía uma mulher com as preferências de Bathsheba. Entretanto, as mãos
de Boldwood esquentaram com um ciúme incipiente. Pela primeira vez,
chegou à porta do “inferno dos apaixonados feridos”. Seu primeiro impulso
foi de colocar-se entre os dois. Havia uma única maneira de fazer isso:
pedindo uma amostra do milho dela. Boldwood desistiu da ideia. Ele não
podia pedir aquilo; pedir para comprar e vender enfraqueceria o afeto e
abalaria a concepção que tinha dela.

Bathsheba, entretanto, estava consciente de ter abalado aquela fortaleza.


Os olhos dele, ela sabia, a seguiam por toda parte. Era um triunfo que viera
naturalmente, que era mais doce por sua demora provocativa. Mas aquilo fora
provocado por uma ingenuidade usada da maneira errada e ela deu o mesmo
valor que daria a uma flor artificial ou a uma fruta de cera.

Por ser uma mulher com um pouco de bom senso para raciocinar sobre
assuntos nos quais seu coração não estava envolvido, Bathsheba se
arrependia verdadeiramente que uma loucura, que cabia tanto a Liddy quanto
a ela mesma, mas que nunca deveria ter sido feita, pois havia perturbando a
paz de um homem que ela tanto respeitava para brincar deliberadamente.

Naquele dia, ela tomou a decisão de pedir perdão a ele na próxima


ocasião em que o encontrasse. O pior deste plano era se ele achasse que ela o
ridicularizara, ou que um pedido de desculpas aumentaria a ofensa ao não ser
levada a sério. E se ele pensasse que ela queria ser cortejada, seria como uma
evidência a mais da audácia dela.
CAPÍTULO XVIII
BOLDWOOD REFLETINDO—
ARREPENDIMENTO

Boldwood era proprietário de uma fazenda chamada Little Weatherbury e


era quem estava mais perto da aristocracia que esta parte mais remota da
paróquia poderia se orgulhar. Estranhos cavalheiros, com suas próprias
crenças, que fossem forçados a passar mais tempo naquele local, ouviria o
som de rodas leves e rezaria para ver a boa sociedade no papel de um lord
solitário ou de um fazendeiro na pior das hipóteses, mas era apenas Mr.
Boldwood saindo para trabalhar. Ouviriam o som das rodas mais uma vez e
se reanimariam com expectativas: era apenas Mr. Boldwood voltando para
casa.

Sua casa ficava afastada da estrada e os estábulos, que são para uma
fazenda o que uma lareira é para uma sala, ficavam na parte de trás
escondidos entre arbustos de louro. Para dentro da porta azul entreaberta,
podia-se ver naquele momento as costas e caudas de meia dúzia de cavalos
aquecidos e satisfeitos em suas baias. Como se podia ver, apresentavam
alterações de ruões[16] e baios como um arco mourisco, com as caudas
formando uma linha vertical no centro de cada um. Acima deles e invisíveis
para quem visse pela luz do lado de fora, suas bocas podiam ser ouvidas
mantendo o calor e a robustez com bocados de aveia e feno. A imagem
inquieta e obscura de um potro vagava por uma baia ao fundo, enquanto a
mastigação constante daqueles que estavam comendo era ocasionalmente
modificada pelo barulho de uma corda ou pela batida de um casco.

Caminhando para cima e para baixo no encalço dos animais estava o


próprio fazendeiro Boldwood. Aquele lugar era sua recompensa e ao mesmo
tempo era seu claustro: ali, depois de cuidar da alimentação de seus
dependentes de quatro patas, o homem solitário andava e meditava pelo
anoitecer até que os raios do luar atravessassem as janelas envoltas em teias
de aranha ou a total escuridão envolvesse a cena.

Sua estrutura robusta mostrava-se mais inteiramente agora do que no


meio do alvoroço do mercado. Em seu caminhar pensativo, seus pés tocavam
o chão com o calcanhar e os dedos simultaneamente e seu rosto avermelhado
estava inclinado para baixo o bastante para obscurecer sua boca e o queixo
arredondado, porém proeminente. Algumas linhas horizontais claras e finas
eram a única interrupção na superfície calma de sua testa larga.

As fases da vida de Boldwood eram bastante comuns, mas sua natureza


não era. Aquela serenidade, que impressionava os observadores casuais mais
do que qualquer coisa em seu caráter e hábitos, e parecia tão precisamente
com fraqueza, podia ser o equilíbrio perfeito entre forças imensamente
antagonistas, positivas e negativas em ajuste exato. Se seu equilíbrio fosse
incomodado, partia para um dos extremos. Se uma emoção tomasse conta
dele, ela o dominava; um sentimento que não o possuísse era inteiramente
latente. Estagnado ou rápido, mas nunca lento. Era sempre atingido
mortalmente ou escapava ileso.

Não tinha delicadeza ou descuido em sua determinação, tanto para o bem


quanto para o mal. Rigoroso nos esboços de ação, moderado nos detalhes, era
sério com absolutamente tudo. Não enxergava os absurdos da vida, e assim,
embora pouco sociável aos olhos dos homens alegres e brincalhões e aqueles
que sempre veem a vida com graça, ele não era intolerável pra os mais sérios
e familiarizados com o sofrimento. Por ser um homem que interpretava todas
as catástrofes da vida com seriedade, se deixasse de se alegrar com
acontecimentos alegres, não haveria um tratamento frívolo para reprová-lo
quando terminassem tragicamente.

Bathsheba nem de longe sonhava que a figura sombria e silenciosa, sobre


a qual havia lançado uma semente com tanto descuido, era um canteiro de
intensidade tropical. Se conhecesse o temperamento de Boldwood sua culpa
seria aterrorizante e a mancha sobre seu coração jamais seria erradicada.
Além disso, se soubesse de seu atual poder sobre aquele homem,
estremeceria com sua responsabilidade. Para a sorte de seu presente e azar de
sua futura tranquilidade, sua compreensão ainda não tinha lhe informado
como Boldwood era. Ninguém sabia ao certo, mas era possível deduzir sobre
suas aptidões de antigas marcas das marés pouco visíveis, cuja força nunca
fora vista.

O fazendeiro Boldwood veio até a porta do estábulo e olhou para os


campos. Além do primeiro cercado ficava uma cerca viva, e do outro lado,
uma campina que pertencia à fazenda de Bathsheba.

Era início da primavera, tempo de levar as ovelhas para o pasto, quando


elas começam a pastar nas campinas antes que fossem aparadas. O vento, que
soprara do leste por várias semanas, mudara para o sul, e o meio da
primavera chegou abruptamente, quase sem o início. Era aquele período
primaveril em que imaginamos as dríades despertando. O mundo vegetal se
expande e a seiva flui, até que no mais completo silêncio dos jardins
solitários e das plantações intocadas, onde tudo parece desamparado e calmo
depois da prisão e da escravidão da geada, vem o alvoroço, a tensão,
investidas coletivas e puxões ao mesmo tempo, que em comparação com
poderosas gruas e polias numa cidade barulhenta, são como esforços de
pigmeus.

Olhando para as campinas distantes, Boldwood viu três silhuetas. Eram


de Miss Everdene, o pastor Oak e Cainy Ball.

Quando a silhueta de Bathsheba iluminou os olhos do fazendeiro, foi


como a lua iluminando uma torre alta. O corpo de um homem é como a
carapaça de sua alma, pois ele é reservado ou ingênuo, expansivo ou fechado.
Houve uma mudança na aparência de Boldwood de sua passividade anterior e
seu rosto mostrou que ele agora, pela primeira vez, estava sem suas defesas,
com um senso receoso de exposição. Era a experiência normal dos fortes
quando amam.

Finalmente tomara uma decisão. Caminhar e falar com ela corajosamente.

O isolamento de seu coração durante tantos anos, sem nenhum meio de


emoção, teve seu efeito. Podia-se observar mais de uma vez que as causas do
amor são especialmente subjetivas e Boldwood era uma testemunha viva da
verdade da afirmação. Não tinha mãe para absorver sua devoção, uma irmã
para receber seu carinho, nem conhecidos para seus sentimentos. Ficou
sobrecarregado com a combinação, a qual era o amor genuíno de um
admirador.

Aproximou-se do portão da campina. Do outro lado, o chão estava


harmonioso com ondulações e o céu com cotovias, os balidos do rebanho
misturando-se com ambos. A patroa e o homem estavam juntos na operação
de fazer com que o cordeiro fosse aceito por uma ovelha que perdera sua cria,
um dos gêmeos de outra ovelha que seria o substituto. Gabriel havia tirado a
pele do cordeiro morto e a estava prendendo sobre o cordeiro vivo, como era
de costume, enquanto Bathsheba segurava um pequeno cercado quadrado,
para onde a mãe e o cordeiro emprestado seriam levados, e onde ficariam até
que ela demonstrasse afeto pelo jovenzinho.

Bathsheba levantou os olhos para observar o término do procedimento e


viu o fazendeiro perto do portão, debaixo de um chorão em plena floração.
Gabriel, a quem o rosto dela era como a glória incerta de um dia de abril,
ainda mais atento com as mais leves mudanças, instantaneamente, notou a
marca de uma influência na forma de um leve rubor. Ele também se virou e
viu Boldwood.

Relacionando imediatamente estes sinais com a carta que Boldwood


havia lhe mostrado, Gabriel suspeitou que algum galanteio havia começado
por parte dela e que ainda continuava, mas não sabia como.

O fazendeiro Boldwood compreendeu a pantomima que indicava que


estavam conscientes de sua presença e que esta percepção iluminava sua nova
sensibilidade. Ele ainda estava na estrada e, ao aproximar-se, esperava que
nenhum deles imaginasse que ele originalmente pretendia entrar no campo.
Ele passou com uma sensação de total e impressionante ignorância, timidez e
dúvida. Talvez nos modos dela houvesse sinais de que ela desejava vê-lo, ou
talvez não, ele não decifrava as mulheres. A ciência oculta da filosofia erótica
parecia consistir dos significados mais sutis expressos por caminhos
enganosos. Cada volta, cada olhar, cada palavra e cada timbre de voz
continha um mistério muito diferente do que seu dignificado óbvio até o
momento, ele não havia ponderado sobre nenhum deles.

Quanto a Bathsheba, ainda não estava iludida pela crença de que o


fazendeiro Boldwood viera a negócios ou por acaso. Reuniu as
probabilidades do caso e concluiu que ela própria era responsável pela
aparição de Boldwood ali. Ver que uma grande chama podia ser acesa por
uma pequena faísca a incomodava. Bathsheba não era nenhuma
manipuladora para um casamento, nem deliberadamente leviana com os
sentimentos dos homens. Censurou-se ao ver que seu flerte havia gerado um
efeito não esperado, pois, depois de ver Boldwood observando-a, não era
mais surpresa para ela. Que ela pudesse ser tão diferente, e ao mesmo tempo
exatamente o que era uma coquete, não sabíamos o motivo, embora
intuíssemos uma carga genética.

Decidiu que nunca mais interromperia a calma da vida daquele homem,


fosse com olhares ou sinais. Mas uma decisão para evitar um mal é raramente
forjada até que o mal esteja tão avançado que evitá-lo torna-se impossível.
CAPÍTULO XIX
O BANHO DAS OVELHAS — O PEDIDO

Finalmente, Boldwood visitou-a. Ela não estava em casa. “Claro que não,”
murmurou ele. Ao contemplar Bathsheba como mulher, esqueceu-se dos
incidentes da posição dela como agricultora — por ser uma fazendeira de
certa importância, como ele próprio, os locais prováveis onde ela poderia
estar, nesta época do ano, eram ao ar livre. Este e outros enganos cometidos
por Boldwood eram naturais de seu estado de espírito e ainda mais naturais
dadas às circunstâncias. A grande ajuda da idealização do amor estava ali
presente: observá-la ocasionalmente à distância e a falta de interação social
com ela, a familiaridade visual e a estranheza verbal. Os menores elementos
humanos eram mantidos fora da visão. As trivialidades que entram tão
amplamente em todas as vidas e atos terrenos eram disfarçadas pelo acidente
do amante e da amada que não se encontravam, e havia um pensamento
dificilmente levantado por Boldwood que ela tivesse tristes realidades
domésticas, ou que, como todas as outras, tivesse momentos banais, os quais,
sendo menos vista seria mais lindamente lembrada. Assim, um leve tipo de
apoteose ocupou seus pensamentos enquanto ela ainda vivia e respirava no
mesmo horizonte que ele, uma criatura problemática.

Era fim de maio quando o fazendeiro determinou que não seria mais
rejeitado por banalidades ou distraído pelo suspense. Àquela altura ele já
havia se acostumado a estar apaixonado. A paixão agora o surpreendia menos
até mesmo quando o torturava mais e sentia-se adequado à situação. Ao
perguntar por ela na casa dela, disseram-lhe que ela estava dando banho nos
carneiros, e ele foi vê-la.

A banheira dos carneiros era um poço redondo de tijolos nas campinas,


cheio da mais limpa água. A superfície vítrea refletia o céu iluminado e os
pássaros voando há milhas de distância, como o olho de um Ciclope num
rosto verde. A grama em volta da margem nesta estação era uma vista para se
lembrar por muito tempo de um jeito simples. A umidade do gramado rico e
encharcado era absorvida num processo quase visível. Os arredores da
campina, ao nível da água, eram diversificados por pastos redondos e
côncavos, onde bem naquele momento todas as flores que não eram copos-
de-leite eram margaridas. O rio corria silencioso como uma sombra, os
juncos e os carriços formavam uma paliçada flexível sobre a beira úmida. Ao
norte do prado havia árvores, cujas folhas eram novas, macias e suculentas,
que ainda não tinham enrijecido, escurecido e ressecado sob o sol do verão,
com uma parte amarela ao lado da verde, verde ao lado da amarela. Dos
recessos deste nó de folhagem, as altas notas de três cucos ressoavam pelo ar
parado.

Boldwood continuava meditando pelos declives, olhando para suas botas,


as quais estavam pintadas de amarelo pelo pólen dos copos-de-leite em
gradações artísticas. Um afluente do curso principal passava pela bacia do
poço por uma entrada e uma saída em pontos opostos no diâmetro. O pastor
Oak, Jan Coggan, Moon, Poorgrass, Cain Ball e vários outros estavam ali,
todos encharcados até os cabelos, e Bathsheba estava parada num novo traje
de montaria, o mais elegante que já havia usado, com as rédeas de seu cavalo
enroladas em seu braço. Jarros de sidra estavam jogados sobre o gramado. As
mansas ovelhas eram trazidas para o poço por Coogan e Matthew Moon, que
estavam parados perto das crias, imersos até suas cinturas. Então Gabriel, que
estava na beira, as empurrava para que nadassem, com um instrumento
parecido com um cajado, próprio para aquele fim, e também para auxiliar os
animais exaustos quando a lã ficava saturada e eles começavam a afundar.
Eram tirados contra a corrente e pela abertura do lado de cima, e todas as
impurezas eram levadas. Cainy Ball e Joseph, que faziam a última operação,
ficavam mais molhados do que o resto. Pareciam golfinhos debaixo de um
chafariz, cada saliência e cada ângulo de suas roupas escorrendo um pequeno
rio.

Boldwood aproximou-se e deu-lhe bom-dia com tanto constrangimento


que ela não podia deixar de pensar que ele havia chegado até ali por seu
próprio interesse, esperando não encontrá-la ali. Além do mais, ela imaginou
que a fisionomia dele estava séria e com olhar de desprezo. Bathsheba
imediatamente pensou em retirar-se e caminhou pela beira do rio até uma
pedra. Ouviu passos pela grama e tinha consciência de que o amor cercava-a
como um perfume. Em vez de virar-se ou esperar, Bathsheba caminhou entre
os carriços altos, mas Boldwood parecia determinado e apressou-se até que
estivessem completamente sozinhos além da curva do rio. Ali, sem serem
vistos, podiam ouvir os barulhos na água e os gritos dos homens lavando as
ovelhas acima.

“Miss Everdene!”, disse o fazendeiro.

Ela estremeceu, virou-se e disse:

“Bom dia.”

O timbre de voz dele era totalmente diferente do que ela esperava no


início. Seu ritmo era humilde e calmo: ênfase nos significados secretos, na
forma, e ao mesmo tempo pouco claro. Às vezes o silêncio tem um poder
notável de mostrar o que se passa na mente e assim é mais impressionante do
que a fala. Da mesma forma, falar pouco quase sempre diz mais do que falar
muito. Boldwood disse tudo naquelas palavras.

Assim como a consciência se expande ao conhecer aquilo que se


imaginava ser o barulho de rodas, mas era a reverberação de uma trovoada,
aconteceu com a convicção intuitiva de Bathsheba.

“Sofro — muito — ao pensar”, declarou ele com simplicidade solene.


“Venho conversar com você pela primeira vez. Minha vida não me pertence
mais desde que a vi, Miss Everdene. Venho para pedir-lhe em casamento.”

Bathsheba tentou manter uma aparência absolutamente neutra e tudo que


fez foi fechar a boca que estava parcialmente aberta.

“Tenho agora quarenta e um anos”, continuou ele. “Devo ser conhecido


como um solteirão convicto, e assim eu era. Nunca me vi como um marido na
minha juventude, nem pensei neste assunto até ficar mais velho. Mas todos
nós mudamos e a minha mudança, neste sentido, veio ao vê-la. Venho
sentindo ultimamente, cada vez mais, que meu modo de vida atual é ruim em
todos os aspectos. Mais do que tudo, desejo que seja minha esposa.”
“Creio, Mr. Boldwood, que embora o respeite muito, não sinto, o que me
justificaria, que devo aceitar o seu pedido”, gaguejou ela.

Aquela troca de dignidade parecia abrir as barreiras dos sentimentos que


Boldwood até então mantinha fechadas.

“Minha vida é um fardo sem você”, exclamou ele em voz baixa. “Eu a
quero, quero que me deixe dizer que a amo muitas vezes.”

Bathsheba não respondeu e sua égua parecia tão impressionada que em


vez de comer a pastagem, olhou para cima.

“Acho e espero que goste de mim o bastante para ouvir o que tenho a
dizer.”

O impulso momentâneo de Bathsheba ao ouvi-lo foi de perguntar por que


ele achava aquilo até que se lembrou que, longe de ser uma dedução
arrogante da parte de Boldwood, era a conclusão natural de uma reflexão
séria baseada nas premissas enganosas de sua própria proposta.

“Gostaria de poder lhe dizer delicadezas”, prosseguiu o fazendeiro num


tom mais calmo, “e dar uma forma mais graciosa aos meus sentimentos
grosseiros, mas não tenho poder nem paciência para aprender tais coisas.
Quero que seja minha esposa, tão loucamente que nenhum outro sentimento
pode me dominar, mas não teria me declarado se não fosse levado pela
esperança.”

“O cartão do Dia dos Namorados de novo! Ai, aquele cartão!”, disse ela a
si mesma, mas nenhuma palavra a ele.

“Se pode me amar, diga-me, Miss Everdene. Se não, não diga que não!”

“Mr. Boldwood, é doloroso ter que lhe dizer que estou surpresa e que
assim não sei como responder com propriedade e respeito. Posso apenas
expressar o meu sentimento, a minha intenção, quero dizer, que acredito que
não posso me casar com você por respeitá-lo muito. Não estou à altura da sua
dignidade, senhor.”
“Mas, Miss Everdene!”

“Eu... não... sei que nunca devia ter sonhado em enviar-lhe aquele cartão.
Perdoe-me, senhor, foi uma brincadeira maldosa que nenhuma mulher que se
respeite pelo menos um pouco deveria ter feito. Se ao menos puder perdoar
minha falta de consideração, prometo que nunca...”

“Não, não, não. Não diga que foi falta de consideração! Faz-me pensar
que foi algo mais, um tipo de instinto profético, o início de um sentimento de
que gostava de mim. Você me tortura ao me dizer que foi feito sem
consideração. Nunca pensei que fosse isso e não posso aguentar. Ah! Queria
saber como conquistá-la, mas não consigo, apenas posso perguntar se me
admira. Se não, e não é verdade que me procurou sem pensar em mim como
penso em você, não posso dizer mais nada.”

“Não estou apaixonada por você, Mr. Boldwood, posso certamente lhe
dizer.” Deixou que um leve sorriso aparecesse pela primeira vez em seu rosto
sério ao dizer isso e uma fileira branca de dentes superiores e lábios bem
desenhados, já percebidos, sugeriam uma ideia de crueldade, a qual foi
imediatamente contradita por olhos amáveis.

“Mas apenas pense, com bondade e condescendência, se não pode


suportar-me como marido! Receio que sou muito velho para você, mas
acredite, cuidarei melhor de você do que qualquer homem de sua própria
idade. Eu a protegerei e a amarei com todas as minhas forças, eu juro! Não
terá que se preocupar com nada, com afazeres domésticos, e viverá em paz,
Miss Everdene. A administração diária deverá ser feita por um homem, e
posso muito bem pagar, nunca mais terá que sair na época da ceifa do feno ou
se preocupar com o clima na colheita. Quero ficar com a carruagem, porque é
a mesma que meus pobres pais usavam, mas se você não gostar, eu a
venderei e você poderá ter uma só sua puxada por pôneis. É impossível dizer
quanto você está acima de qualquer outra ideia ou assunto no mundo.
Ninguém sabe, só Deus, o quanto você significa para mim!”

O coração de Bathsheba era jovem e se encheu de compaixão pelo


homem de personalidade forte que falava de maneira tão simples.

“Não diga isso! Não! Não aguento pensar que se sente assim e eu não
sinto nada. E tenho medo que nos vejam, Mr. Boldwood. Vamos deixar este
assunto de lado por enquanto? Não consigo pensar calmamente. Não sabia
que me diria isso. Oh, fui má ao fazê-lo sofrer tanto!” Ela estava assustada e
também inquieta com a veemência dele.

“Diga então que não recusa totalmente. Não recusa por completo, não é?”

“Não posso fazer nada. Não posso responder.”

“Posso falar sobre este assunto com você novamente?”

“Sim.”

“Posso pensar em você?”

“Sim, acho que pode pensar em mim.”

“E esperar conquistá-la?”

“Não, não pode. Deixemos assim.”

“Posso visitá-la outra vez amanhã?”

“Não, por favor. Dê-me algum tempo.”

“Sim, lhe darei todo o tempo”, concordou ele, sinceramente e agradecido.


“Estou mais feliz agora.”

“Não, eu lhe imploro! Não se alegre se a felicidade só depende do meu


consentimento. Fique neutro, Mr. Boldwood! Preciso pensar.”

“Vou esperar”, disse ele.

E então ela se virou. Boldwood olhou para o chão e ficou parado como
quem não sabia onde estava. A realidade então retornou a ele como a dor de
uma ferida num momento de euforia que a encobre, e ele também se foi.
CAPÍTULO XX
PERPLEXIDADE — O AMOLAR DAS
TOSQUIADEIRAS — UMA DISPUTA

Ele é tão abnegado e bom para me oferecer tudo que sempre sonhei”,
refletiu Bathsheba.

Mas o fazendeiro Boldwood, por sua natureza amável ou pelo contrário


da amabilidade, não estava exercitando a bondade aqui. As ofertas mais raras
do mais puro amor não passam de comodismo e nada têm de generosidade.

Bathsheba, por não estar nem um pouco apaixonada por ele, podia assim
analisar friamente a proposta dele. Era daquelas que muitas mulheres na
vizinhança em condições como a dela aceitariam com entusiasmo e
divulgariam com orgulho. De todos os pontos de vista, do político ao
passional, era desejável que ela, uma moça solitária, devesse se casar, e se
casar com este homem sério, rico e respeitado. Morava perto dela, sua
situação era suficiente, suas qualidades eram mais do que as desejáveis. Se
ela tivesse sentido, e não sentiu, qualquer desejo pelo fato de estar casada
abstratamente, não poderia tê-lo rejeitado com sensatez por ser uma mulher
que costumava apelar para sua compreensão para fugir de seus caprichos.
Boldwood não tinha defeitos para o matrimônio: ela o estimava e gostava
dele, mas ainda assim, não o queria. Parecia que os homens comuns arranjam
esposas porque a possessão não é possível fora do casamento, e que as
mulheres comuns aceitam os maridos porque o matrimônio não é possível
sem possessão. Com objetivos totalmente diferentes, o método é o mesmo em
ambos os lados. Além do mais, a posição de Bathsheba como senhora
absoluta de uma fazenda e de uma casa era nova, e a novidade ainda não
havia começado a desgastar-se.
Mas uma inquietação tomou conta dela que, de alguma forma era a seu
favor, mas esta atingia a poucas pessoas. Além dos motivos mencionados
com os quais ela combateu suas objeções, tinha a forte sensação que, sendo
ela quem começou o jogo, devia aceitar as consequências com honestidade.
Ainda assim restava a relutância. Ao mesmo tempo em que pensava que não
casar-se com Baldwood seria falta de generosidade, não podia fazer aquilo
para salvar sua vida.

Bathsheba tinha uma natureza impulsiva sob um aspecto deliberativo.


Com o cérebro de uma Elizabeth e o espírito de uma Mary Stuart, ela
geralmente desempenhava ações da maior ousadia com extrema discrição.
Muitos de seus pensamentos eram raciocínios perfeitos; por azar, não
passavam de pensamentos. Poucos eram deduções irracionais, mas,
infelizmente, estes eram os que mais frequentemente transformavam-se em
ações.

No dia seguinte ao daquela declaração, encontrou Oak no fundo de seu


jardim, amolando as tosquiadeiras para a tosa das ovelhas. Todas as cabanas
ao redor mostravam mais o menos cenas da mesma operação; o barulho do
amolador se espalhava pelo céu de todas as partes do vilarejo como armas
antes de uma batalha. A paz e a guerra beijam-se durante sua preparação —
foices, foicinhas, gadanhas e tosquiadeiras como se fossem espadas,
baionetas e lanças, em sua necessidade comum por pontos e avanços.

Cainy Ball girava a manivela da pedra de amolar de Gabriel, com a


cabeça ele imitava o movimento melancólico de vai-e-vem para cima e para
baixo a cada volta da roda. Oak estava como Eros é representado quando está
afiando suas flechas: levemente encurvado, com o peso de seu corpo jogado
sobre as tosquiadeiras e sua cabeça balançava para os lados, com uma
compressão crítica dos lábios e contração das pálpebras para coroar a atitude.

Sua patroa chegou e os olhou em silêncio por um ou dois minutos, e então


disse:

“Cain, vá até a campina de baixo e pegue a égua baia. Vou girar a


manivela da pedra de amolar. Quero conversar com você, Gabriel.”

Cain partiu e Bathsheba segurou a manivela. Gabriel levantou o olhar


com intensa surpresa, conteve sua expressão e olhou para baixo novamente.
Bathsheba girava a manivela e Gabriel colocava as tesouras.

O movimento peculiar que envolvia girar a manivela tinha uma tendência


excepcional para turvar os pensamentos. Era como uma variante da punição
de Íxion[17] e atribuía a um capítulo fúnebre da história dos encarcerados. O
cérebro torna-se confuso, a cabeça pesa e o centro de gravidade do corpo
parece ser deslocado a alguns graus num ponto pesado entre as sobrancelhas
e o topo da cabeça. Bathsheba sentiu os sintomas desagradáveis depois de dar
duas ou três dúzias de voltas.

“Pode girar, Gabriel, e me deixar segurar as tesouras?”, perguntou ela.


Minha cabeça está girando e não consigo falar.”

Gabriel girou. Então Bathsheba começou, um pouco desajeitada,


deixando que seus pensamentos perderem-se ocasionalmente da sua história
para dar atenção às tosquiadeiras, as quais requeriam precisão no fio.

“Gostaria de lhe perguntar se os homens fizeram algum comentário sobre


eu ter ido para detrás dos carriços com Mr. Baldwood ontem.”

“Sim, fizeram”, informou Gabriel. “Não está segurando as tosquiadeiras


direito, Miss. Já imaginava que não saberia. Segure deste jeito.”

Ele soltou a manivela e, envolvendo as duas mãos dela completamente


com as dele, tomando-as como às vezes fazemos ao pegar a mão de uma
criança para ensiná-la a escrever, segurou as tesouras com ela.

“Incline o fio assim”, disse ele.

Mãos e tesouras se adequaram às palavras e assim ficaram por um tempo


peculiarmente longo com o instrutor que as disse:

“Já está bom”, exclamou Bathsheba. “Solte minhas mãos. Não as quero
presas! Vou girar a manivela.”

Gabriel soltou as mãos dela em silêncio, abandonou a manivela e a


afiação continuou.
“Os homens acharam esquisito?”, falou ela novamente.

“Esquisito não foi a ideia, Miss.”

“O que disseram?”

“Que era possível que o nome do fazendeiro Boldwood e o seu próprio


pairassem sobre o púlpito juntos antes que esse ano terminasse.”

“Foi o que achei pelo olhar deles! Ora, não foi nada demais. A maior
bobagem que podia ser dita, e quero que você desminta! Foi para isso que
vim aqui.”

Gabriel parecia incrédulo e triste, mas entre seus momentos de


incredulidade, aliviado.

“Eles devem ter ouvido a nossa conversa”, continuou ela.

“Muito bem, Batsheba!”, disse Oak, parando a manivela e olhando para o


rosto dela, espantado.

“Você quer dizer Miss Everdene”, corrigiu ela, com dignidade.

“Quero dizer que se Mr. Boldwood realmente falou em casamento, não


vou inventar uma história de que ele não falou para agradá-la. Já tentei lhe
agradar demais para o meu próprio bem!”

Bathsheba observou-o com os olhos arregalados de perplexidade. Não


sabia se sentia pena dele por não corresponder ao seu amor ou se ficava brava
por ele ter superado aquilo — seu tom era ambíguo.

“Eu disse que queria que você apenas mencionasse que não é verdade que
me casarei com ele”, murmurou ela com leve declínio em sua segurança.

“Posso dizer isso a eles se desejar, Miss Everdene. Assim como poderia
dar uma opinião sobre o que você fez.”

“Naturalmente. Mas não quero sua opinião.”


“Creio que não”, disse Gabriel amargamente, e continuando a girar a
manivela, suas palavras subiam e desciam num aumento e cadência regulares
ao parar ou o subir da manivela, que as direcionava de acordo com sua
posição, perpendicularmente com a terra ou horizontalmente com o jardim,
mas os olhos fixos numa folha no chão.

Com Bathsheba, um ato apressado era um ato imprudente, mas como nem
sempre acontecia, tempo ganho era prudência garantida. Devia-se
acrescentar, no entanto, que o tempo era raramente ganho. Neste ponto, a
simples opinião da paróquia sobre ela e sobre o que ela fazia, tinham a
mesma importância, pois era a dela mesma e a de Gabriel Oak. E a
honestidade declarada do caráter dele era tanta sobre qualquer assunto,
mesmo que sobre ela amar ou se casar com outro homem, o mesmo
desinteresse de opinião podia ser calculado e perguntado. Totalmente
convencido da impossibilidade de ser o escolhido, tomou a firme decisão de
não prejudicar mais ninguém. Esta é a virtude mais estoica de quem ama,
assim como a falta dela é o seu pecado mais perdoável. Sabendo que ele
responderia sinceramente, ela perguntou, conhecendo como aquele assunto
seria doloroso. Assim é o egoísmo de algumas lindas mulheres. Talvez fosse
alguma desculpa para a honestidade torturante dela em vantagem própria por
não ter absolutamente nenhum outro julgamento ao alcance.

“Bem, qual é a sua opinião sobre a minha conduta?”, perguntou ela em


voz baixa.

“Que não é adequada a nenhuma mulher cautelosa, humilde e decente.”

Imediatamente, o rosto de Bathsheba corou com um vermelho carmesim


de um pôr do sol em Danby. No entanto, evitou demonstrar seu sentimento e
a reticência de sua língua só fez a loquacidade de seu rosto ser mais
perceptível.

O que Gabriel fez a seguir foi um erro.

“Talvez não goste da rispidez de como a repreendo, pois sei que sou
ríspido, mas achei que lhe faria bem.”

Ela respondeu com sarcasmo no mesmo instante:


“Pelo contrário, minha opinião sobre você é tão baixa que vejo em seu
abuso o louvor das pessoas perspicazes.”

“Que bom que não se importou com isso, pois disse honestamente e com
um significado muito sério.”

“Compreendo. Mas, infelizmente, quando você tenta não fazer gracejos é


divertido, bem como quando quer evitar ser sério e diz uma palavra sensata.”

Foi um golpe duro, mas Bathsheba perdera a paciência, enquanto Gabriel


nunca manteve melhor a sua. Ele não disse nada. Ela então explodiu:

“Devo lhe perguntar, creio eu, onde em especial sou inadequada. Talvez
por não me casar com você!”

“De maneira nenhuma”, respondeu Gabriel calmamente. “Faz tempo que


deixei de pensar nesse assunto.”

“Ou de desejar isso, imagino”, continuou ela e era claro que esperava
uma negação hesitante daquela suposição.

Seja o que for que Gabriel sentiu, apenas repetiu friamente as palavras
dela:

“Ou de desejar isso.”

Uma mulher pode ser tratada com a amargura que lhe é doce e com a
rispidez que não lhe é ofensiva. Bathsheba teria se submetido a qualquer
castigo por seu desprezo se Gabriel tivesse protestado que a amava ao mesmo
tempo. A impetuosidade da paixão não correspondida é tolerável, mesmo se
ela fere e amaldiçoa — existe um triunfo na humilhação e um carinho no
conflito. Era o que ela estava esperando e não encontrou. Receber uma lição,
pois quem ensina a viu na luz fria da manhã de uma desilusão aberta era
irritante. Ele também não havia terminado. Continuou com voz mais severa:

“A minha opinião é, já que a pediu, é que você tem enorme culpa em


brincar com um homem como Mr. Boldwood, simplesmente como um
passatempo. Enganar um homem com quem não se importa não é uma ação
para se orgulhar. E mais, Miss Everdene, se há alguma inclinação séria com
relação a ele, devia deixar que descobrisse de uma forma mais verdadeira e
amorosa, e não enviando um cartão no Dia dos Namorados.”

Bathsheba largou as tesouras.

“Não posso permitir que nenhum homem... critique minha conduta


particular!”, exclamou ela. “Nem por um minuto. Então, por favor, deixe a
fazenda no final da semana!”

Pode ter sido uma peculiaridade, de forma alguma aquilo era um fato.
Quando Bathsheba era influenciada por uma emoção de natureza terrena, seu
lábio inferior tremia, mas quando era uma emoção refinada, era o superior
que tremia. Naquele momento, foi o inferior que tremeu.

“Muito bem, então eu vou embora”, concordou Gabriel calmamente.


Estava ligado a ela por um lindo fio, que lhe doía ter que romper, e não por
uma corrente que não poderia quebrar. “Ficaria mais contente em ir
imediatamente”, acrescentou ele.

“Vá imediatamente, então, pelo amor de Deus!”, bradou ela, com os olhos
buscando pelos dele, mas sem encontrá-los. “Não me deixe ver seu rosto
nunca mais.”

“Muito bem, Miss Everdene, então assim será.”

E ele pegou suas tosquiadeiras e deixou a presença dela com plácida


dignidade, como Moisés fez na presença do Faraó.
CAPÍTULO XXI
PROBLEMAS NO CURRAL — UMA
MENSAGEM

Gabriel Oak havia parado de alimentar o rebanho de Weatherbury por cerca


de vinte e quatro horas quando na tarde do domingo os velhos cavalheiros
Joseph Poorgrass, Matthew Moon, Fray e outros seis correram até a casa da
dona de Upper Farm.

“Qual é o problema, senhores?”, perguntou ela, encontrando-os à porta


assim que chegava da igreja, deixando por um momento de apertar os lábios
vermelhos, fazendo força para tirar uma luva apertada.

“Sessenta!”, disse Joseph Poorgrass.

“Setenta!”, falou Moon.

“Cinquenta e nove!”, informou o marido de Susan Tall.

“... ovelhas quebraram a cerca”, disse Fray.

“... e entraram num campo de trevos novos”, continuou Tall.

“... trevos novos!”, exclamou Moon.

“... trevos!”, falou Joseph Poorgrass.

“E estão passando mal”, disse Henery Fray.

“Estão mesmo”, disse Joseph.


“E vão todas morrer se não forem tiradas de lá e tratadas!”, alarmou Tall.

O rosto de Joseph estava todo enrugado de preocupação. A testa de Fray


estava franzida tanto perpendicularmente quanto cruzada, como uma treliça,
numa expressão de desespero dobrado. Os lábios de Laban Tall estavam finos
e seu rosto estava rígido. A mandíbula de Matthew caiu, e seus olhos corriam
para qualquer lado que um músculo se repuxasse.

“Sim”, continuou Joseph, “e eu estava sentado em casa, procurando pelos


Efésios e falei comigo mesmo: ‘Não tem mais nada do que Coríntios e
Tessalonicenses nesse raio de Testamento’, quando veio o Henery e disse:
‘Joseph, as ovelhas se envenenaram...’”

Para Bathsheba, foi um momento em que o pensamento se tornou fala e a


fala, exclamação. Além disso, mal havia recobrado sua serenidade desde o
aborrecimento com as observações de Oak.

“Já chega, já chega! Ah, seus tolos!”, gritou ela, atirando a sombrinha e o
livro de orações no passeio e correndo pela direção que ele levava. “Vieram
até mim e não foram tirá-las de lá de uma vez! Oh, seus imbecis inúteis!”

Seus olhos estavam mais escuros e brilhantes. Como a beleza de


Bathsheba era mais demoníaca do que angelical, ela nunca ficava tão linda
como quando estava zangada, e particularmente quando o efeito era
enaltecido por um vestido elegante de veludo, cuidadosamente colocado
diante de um espelho.

Todos os homens correram desordenadamente atrás dela para o campo de


trevos. Joseph caiu no meio do caminho como alguém que se enfraquece num
mundo cada vez mais insuportável. Tendo recebido o estímulo que a presença
dela sempre lhes dava, cercaram as ovelhas com determinação. A maioria dos
animais doentes estava deitada e não podia se mexer. Estes foram erguidos e
os outros levados para o campo ao lado. Ali, depois de alguns minutos, vários
outros caíram e ficaram prostados e lívidos como o resto.

Bathsheba, com o coração triste e explodindo, olhou para os melhores


exemplares de seu melhor rebanho espalhado ali:
Inchadas com vento e com o violento vapor que soltavam.[18]

Muitas tinham a boca espumando, com a respiração rápida e curta,


enquanto os corpos estavam todos horrivelmente distendidos.

“Oh, o que posso fazer, o que posso fazer?”, desesperou-se Bathsheba.


“Ovelhas são animais tão azarados! Sempre acontece alguma coisa com elas!
Nunca soube de um rebanho que passasse um ano sem que se metesse em
algum apuro.”

“Só existe um jeito de salvá-las”, disse Tall.

“Que jeito? Diga logo!”

“Elas devem ser perfuradas na parte lateral com um objeto apropriado.”

“Podem fazer isso? Eu consigo?”

“Não, Madame. Nem nós, nem a senhora. Tem que ser feito no ponto
certo. Se pegar uma polegada à direita ou à esquerda, pode esfaquear a ovelha
e matá-la. Nem mesmo um pastor consegue fazer isso, como é a regra.”

“Então elas vão morrer”, resignou-se ela.

“Só um homem na vizinhança sabe o jeito”, disse Joseph, agora de pé.


“Ele poderia curar todas elas se estivesse aqui.”

“Quem é ele? Vão buscá-lo!”

“O pastor Oak”, falou Matthew. “Ah, ele é um homem muito inteligente,


de muitos talentos.”

“Ah, isso ele é mesmo!”, observou Joseph Poorgrass.

“É verdade, ele é a pessoa certa”, falou Laban Tall.

“Como ousam falar desse homem na minha presença?”, disse ela, irritada.
“Já lhes disse para nunca o mencionarem se quiserem ficar comigo. Ah!”,
continuou ela, animando-se: “O fazendeiro Boldwood sabe?”
“Ah, não, Madame”, falou Matthew. “Dois dos cordeiros dele comeram
ervilhacas outro dia e estavam como estes aqui. Ele mandou um homem a
cavalo para buscar Gabriel e ele os salvou. O fazendeiro Boldwood tem a
ferramenta para fazer isso. É um tubo oco com uma ponta afiada dentro. Não
é mesmo, Joseph?”

“É, um tubo oco”, repetiu Joseph. “É isso mesmo.”

“É, claro, é essa máquina”, concordou Henery Fray, pensativo, com uma
indiferença oriental de seu voo no tempo.

“Bem”, explodiu Bathsheba, “não fiquem aí com seus ‘és’ e ‘claros’ para
mim! Vão buscar alguém para curar as ovelhas imediatamente!”

Todos saíram caminhando consternados para buscarem alguém


prontamente, sem nenhuma ideia de quem poderia ser. Logo haviam
desaparecido pelo portão e ela estava sozinha com o rebanho morrendo.

“Nunca mandarei buscá-lo, nunca!”, disse ela com firmeza.

Um de seus cordeiros contraiu os músculos horrivelmente, se esticou e


deu um pulo alto. O salto foi espantoso. O cordeiro caiu pesadamente e ali
ficou deitado.

“Oh, o que devo fazer, o que devo fazer?”, perguntou-se novamente


agitando as mãos. “Não vou mandar chamá-lo. Não mesmo!”

A expressão mais vigorosa de uma decisão nem sempre coincide com o


melhor vigor da decisão em si. É sempre lançada como um tipo de apoio para
segurar uma convicção enfraquecida que, enquanto forte, não necessitava de
nenhuma declaração para prová-la. O “não mesmo” de Bathsheba
virtualmente significava “acho que devo”.

Ela seguiu seus empregados pelo portão e levantou a mão para um deles.
Laban respondeu ao sinal dela.

“Para aonde Oak foi?”

“Depois do vale, em Nest Cottage.”


“Suba na égua baia, corra e diga que ele tem que voltar imediatamente,
que eu estou mandando.”

Tall voltou correndo pelo campo, e em dois minutos estava em cima de


Poll, a égua, sem sela, somente com um cabresto como rédea. Diminuiu a
velocidade morro abaixo.

Bathsheba assistia, assim como os outros. Tall ia a trotes largos pela trilha
para cavaleiros por Sixteen Acres, Sheeplands, Middle Field, The Flats,
Cappel’s Piece, quase sumindo, atravessou a ponte e subiu pelo vale por
Springmead e Whitepits no outro lado. A cabana para a qual Gabriel havia
ido antes de sua partida final da localidade era visível como um ponto branco
no morro oposto, de costas para pinheiros azuis. Bathsheba andava para cima
e para baixo. Os homens entraram no campo e empenharam-se em amenizar a
agonia das tolas criaturas esfregando as mãos nelas. Nada ajudava.

Bathsheba continuava a andar. O cavalo foi visto descendo a colina e a


sequência monótona teve de ser repetida na ordem inversa: Whitepits,
Springmead, Cappel's Piece, The Flats, Middle Field, Sheeplands, Sixteen
Acres. Ela esperava que Tall tivesse a ideia de dar o cavalo para Gabriel e
voltasse a pé. O cavaleiro se aproximava deles. Era Tall.

“Ah, que idiota!”, exclamou Bathsheba.

Não se via Gabriel em parte alguma.

“Talvez ela já tenha ido embora!”, disse ela.

Tall chegou no cercado e desceu, com o rosto trágico como o de Morton


após a batalha de Shrewsbury.

“Muito bem?”, falou Bathsheba, que não queria acreditar que seu
mandato de busca verbal poderia ter sido mal utilizado.

“Ele disse que para a fome não existe pão duro”, respondeu Laban.

“O quê?”, admirou-se a jovem fazendeira, arregalando os olhos e


soltando a respiração como uma explosão. Joseph Poorgrass deu alguns
passos para detrás de uma cerca.

“Ele disse que não pode vir a não ser que você peça educadamente e do
jeito certo, como toda mulher implorando um favor.”

“Oh, oh, essa é a resposta dele! Onde ele arranjou essa atitude? Quem sou
eu então para ser tratada assim? Devo implorar para um homem que me
implorou algo?

Outra ovelha do bando saltou pelo ar e caiu morta.

Os homens pareciam preocupados como se omitissem suas opiniões.

Bathsheba virou-se de lado com os olhos cheios de lágrimas. O apuro em


que estava por causa de orgulho e impertinência não podia mais ser
disfarçado: caiu num choro amargo. Todos os homens viram e ela não tentou
esconder.

“Eu não choraria por isso, Miss”, disse William Smallbury


compassivamente. “Por que não fala com ele com mais delicadeza? Tenho
certeza que ele viria. Gabriel é um homem sincero.”

Bathsheba parou de chorar e enxugou os olhos.

“Ah, é muita crueldade minha, sim, sim!”, murmurou ela. “E ele me leva
a fazer o que não quero! Tall, entre.”

Após aquele colapso, inapropriado para a dona do estabelecimento, ela


entrou em casa seguida por Tall. Sentou-se e escreveu rapidamente um
bilhete entre pequenos soluços de desespero que seguiram um pranto como a
terra encharcada depois de uma tempestade. O bilhete não era indelicado por
ter sido escrito às pressas. Ela o segurou à distância, ia dobrá-lo quando então
adicionou estas palavras ao final:

“Não me abandone, Gabriel!”

Parecia um pouco mais vermelha e apertou os lábios ao dobrar o bilhete


de novo, como se assim suspendesse indefinidamente a ação de sua
consciência em analisar se tal estratégia era justificável. O bilhete com a
mensagem foi despachado e Bathsheba esperou dentro de casa.

Foi um quarto de hora angustiante que compreendia a partida do


mensageiro e o barulho forte do cavalo do lado de fora outra vez. Ela não
podia observar desta vez, mas, inclinando-se sobre a velha escrivaninha na
qual escreveu o bilhete, fechou os olhos como se fosse manter tanto as
esperanças quanto o medo.

A situação, no entanto, era promissora. Gabriel não estava zangado;


estava apenas neutro, embora a primeira ordem dela fosse tão arrogante. Tal
imperiosidade a teria prejudicado se não fosse pela beleza, e por outro lado,
tanta beleza redimia a imperiosidade.

Ela saiu quando ouviu o cavalo e olhou para cima. Uma figura montada
passou entre ela e o céu e foi em direção do campo das ovelhas e o cavaleiro
virou seu rosto ao recuar. Gabriel olhou para ela. Foi um momento em que os
olhos e a língua de uma mulher contam histórias distintas. Bathsheba parecia
cheia de gratidão e disse:

“Ah, Gabriel, como pôde ser tão cruel comigo?”

Uma reprovação tão carinhosa pelo atraso dele, mas a mensagem que ela
enviara podia perdoá-la por não elogiar sua prontidão naquele momento.

Gabriel murmurou uma resposta confusa e apressou-se. Ela sabia pelo


olhar qual parte de seu bilhete o havia trazido. Bathsheba seguiu para o
campo.

Oak estava entre seres túrgidos e prostrados. Arrancou o casaco,


arregaçou as mangas da camisa e tirou de seu bolso o instrumento de
salvação. Era um tubo pequeno com uma lanceta que passava por dentro.
Gabriel começou a usá-lo com tal destreza de um cirurgião. Passando a mão
pelo flanco esquerdo da ovelha e procurando o ponto exato, perfurava a pele
e o rume com o lancete e de repente o retirava, deixando o tubo no lugar. Um
jato de ar saía pelo tubo, com força o bastante para apagar uma vela que
estivesse próxima ao orifício.

Diz-se que depois da tempestade vem a calmaria e a aparência daquelas


pobres criaturas expressava isso. Quarenta e nove operações foram efetuadas
com sucesso. Devido à pressa necessária pelo estado avançado de alguns
membros do rebanho, Gabriel errou em um dos casos, apenas um, atingindo
longe do ponto e infligindo um golpe mortal na ovelha agonizante. Quatro
morreram e três se recuperaram sem intervenção. O número total de ovelhas
que se perderam e feriram gravemente era de cinquenta e sete.

Quando o homem que fora motivado pelo amor havia terminado seu
trabalho, Bathsheba aproximou-se e olhou para seu rosto.

“Gabriel, ficará aqui comigo?”, perguntou ela, sorrindo de maneira


cativante, sem se preocupar em fechar os lábios, pois logo sorriria
novamente.

“Ficarei”, respondeu Gabriel.

E ela sorriu outra vez.


CAPÍTULO XXII
O GRANDE CELEIRO E OS TOSQUIADORES
DE OVELHAS

Os homens com frequência diminuem-se na insignificância e no


esquecimento por não aproveitarem a ocasião de alegria. Gabriel, nos últimos
dias, pela primeira vez desde seu infortúnio, amplamente pensava com
independência e agia com vigor, condições, as quais, inúteis sem uma
oportunidade. Uma oportunidade, por sua vez, torna-se improdutiva sem as
boas condições que lhe dariam o impulso certo quando a conjunção favorável
ocorresse. Mas seu incurável vagar ao lado de Bathsheba Everdene arruinava
seu tempo. As marés da primavera passavam sem carregá-lo e a calmaria
logo viria sem poder arrastá-lo.

Era o primeiro dia de junho e culminava a época da tosa das ovelhas. A


paisagem, mesmo o pasto mais seco, era todo saúde e cor. Cada folha estava
verde, cada poro estava aberto e cada talo estava inchado com correntes de
seiva. Deus estava palpavelmente presente no campo e o demônio se fora
para a cidade. Amentilhos vistosos dos tipos mais recentes, brotos de
samambaias pareciam o bastão de um bispo; a moscatelina de formato
quadrado, o esquisito pé-de-bezerro, como um santo apoplético num nicho de
malaquite; cardaminas brancas como a neve, a dentilária, semelhante à carne
humana, a encantadora erva-moura e as campanulas de pétalas negras
estavam entre as mais fantásticas amostras do reino vegetal em Weatherbury
e ao seu redor naquele tempo fervilhante. E no reino animal, as feições de
metamorfose de Mr. Jan Coggan, o mestre-tosquiador; o segundo e terceiro
tosquiadores, que vinham quando eram chamados e não precisam ser
conhecidos pelos nomes; Henery Fray era o quarto tosquiador; o marido de
Susan Tall, o quinto; Joseph Poorgrass, o sexto; o jovem Cain Ball como
assistente de tosquia e Gabriel Oak como supervisor geral. Nenhum deles
estava vestido de maneira que mereça ser mencionada, cada um parecendo ter
atingido a questão de decência de vestimenta entre as castas alta e baixa do
Hindu. Uma rigidez das feições e uma fixação do maquinário facial
proclamavam que o trabalho sério era a ordem do dia.

Tosquiavam no celeiro grande, conhecido na ocasião como o Celeiro de


Tosa, que na planta baixa era semelhante a uma igreja com transeptos. Não só
imitava a forma da igreja da paróquia, mas rivalizava com ela em
antiguidade. Ninguém sabia se alguma vez o celeiro fez parte de um grupo de
prédios do convento; não restava nenhum traço de tais arredores. Os terraços
vastos nas laterais, altos o bastante para abrigar uma carroça carregada de
fardos de milho em sua total capacidade, eram de arcos pontudos de pedra,
cortados de maneira ampla e atrevida, cuja simplicidade era a origem de um
esplendor não aparente em construções onde se pretendiam maiores
ornamentos. O teto castanho sombrio e obscuro era rodeado e preso por anéis
imensos, curvos e diagonais, de desenho nobre por causa do material muito
mais rico do que nove-décimos daqueles usados nas igrejas modernas. Ao
longo de cada lado havia uma fileira de botaréus largos, que lançavam
sombras profundas nos espaços entre cada um deles, estes perfurados por
buracos, combinando em suas proporções os requerimentos exatos tanto de
beleza quanto de ventilação.

Podia-se dizer que o celeiro, que não se sabia se era de uma igreja ou de
um castelo, semelhante em idade e estilo, que o propósito que havia dedicado
sua construção original era o mesmo com o qual era ainda usado. Diferente e
superior dos típicos vestígios do medievalismo, o velho celeiro agregava
práticas que não sofriam mutilações nas mãos do tempo. Ali, pelo menos o
espírito dos antigos construtores era igual ao do espectador moderno. Diante
da edificação desgastada, observava-se seu uso atual, a mente lutava com sua
história, com uma sensação satisfeita de continuidade funcional completa, um
sentimento quase que de gratidão e de muito orgulho com a permanência da
ideia que o ergueu. O fato de que quatro séculos não haviam nem provado um
erro, inspirado qualquer aversão ao seu propósito ou levantado nenhuma
reação que o derrubasse, conferia a este simples esforço de pensamentos
antigos uma tranquilidade, se não grandeza, à qual uma reflexão curiosa
poderia perturbar sua equivalência eclesiástica e militar. De um modo, o
medievalismo e o modernismo tinham pontos em comum. As janelas em
formato de lança, os fechos das abóbadas e as chanfraduras das colunas
corroídas pelo tempo, o posicionamento dos eixos, o entalhe indistinto e
castanho das vigas, que não se referiam a nenhuma arte distinta de
fortificação ou credo religioso desgastado. A defesa e a salvação do corpo
pelo pão diário ainda é um estudo, uma religião e um desejo.

Naquele dia, as grandes portas laterais estavam abertas de frente para o


sol para receber uma luz abundante no ponto exato das operações dos
tosquiadores, que era o chão de madeira no centro, feito de carvalho espesso,
negro pelo tempo e polido pelo bater dos debulhadores por tantas gerações,
até se tornar tão liso e rico em tons como os pisos dos salões de uma mansão
elisabetana. Ali, os tosquiadores ajoelhavam-se, o sol se debruçava sobre suas
camisas desbotadas, os braços bronzeados e as tesouras polidas que
ostentavam, reluzindo com milhares de raios que podiam cegar alguém com a
visão fraca. Uma ovelha ofegante ficava sob eles, acelerando seus arquejos
enquanto se confundia com o terror até que estremecia como a paisagem
aquecida do lado de fora.

A imagem daquele dia em sua moldura de quatrocentos anos não


produzia um contraste acentuado, entre o antigo e o moderno que era
lembrada pelo contraste da data. Comparada com as cidades, Weatherbury
era imutável. Em Londres, vinte ou trinta anos antes eram “antigamente”, o
mesmo que cinco ou dez anos em Paris; em Weatherbury, três ou quatro anos
eram incluídos no presente, e nada menos que um século deixava uma marca
em sua aparência ou coloração. Cinco décadas mal modificaram o corte de
uma polaina nem o bordado de uma roupa. Dez gerações não conseguiram
alterar o significado de uma única frase. Nestes refúgios de Wessex, os
agitados tempos antigos não são velhos. Seus tempos antigos ainda estão
novos, seu presente é o futuro.

Assim, o celeiro era natural para os tosquiadores e estes estavam em


harmonia com o celeiro.

Os cantos espaçosos do prédio, atendendo as extremidades da nave e da


capela-mor eclesiasticamente eram protegidos por barreiras, com as ovelhas
reunidas numa multidão nestas duas áreas; e num ângulo se formava o curral,
no qual três ou quatro ovelhas eram continuamente mantidas pelos
tosquiadores para que não perdessem tempo. No fundo, disfarçadas pela
sombra marrom-amarelada, estavam três mulheres: Maryann Money,
Temperance e Soberness Miller, recolhendo a lã e tecendo cordões com uma
pua para prendê-los. Eram indiferentemente bem assistidas pelo velho
cervejeiro que, como a época de produzir o malte, de outubro a abril, já havia
passado, auxiliava em qualquer uma das fazendas nas imediações.

Por trás de tudo estava Bathsheba, assistindo cuidadosamente os homens


para ver se não havia cortes ou feridas por descuido e que os animais eram
bem tosquiados. Gabriel, que ia rapidamente de um lado para o outro como
uma mariposa sob os olhos brilhantes dela, não tosquiava o tempo todo.
Grande parte de seu tempo era passado ajudando os outros e selecionando as
ovelhas para eles. No exato momento, estava ocupado em passar uma caneca
de uma bebida suave, guardada num barril no canto, e cortar pedaços de pão
e queijo.

Bathsheba, após lançar um olhar aqui, um aviso ali, e advertir um dos


empregados mais jovens de que havia deixado sua última ovelha terminada
juntar-se ao bando sem remarcá-la com suas iniciais, foi outra vez até Gabriel
enquanto ele colocava seu almoço de lado e arrastava uma ovelha assustada
para sua estação de tosa, virando-a de costas com um giro ágil de seu braço.
Enrolou os laços na cabeça dela e abriu sua gola e colarinho, com a sua
senhora observando silenciosamente.

“Ela cora com o insulto”, murmurou Bathsheba, vendo a onda rosa que
subiu e se espalhou pelo pescoço da ovelha, onde foi deixado nua pelas
tesouras barulhentas, uma onda que era invejável por sua delicadeza por
muitas rainhas da sociedade, e seriam respeitadas por sua rapidez por
qualquer mulher no mundo.

A pobre alma de Gabriel era alimentada pela luxúria da alegria de tê-la


por perto, com os olhos atentos e críticos em suas tesouras ágeis, que
aparentemente atingiriam uma parte da carne a cada aproximação, mas nunca
atingira. Tal como Guildenstern,[19] Oak ficava feliz por não ser
excessivamente feliz. Não desejava conversar com ela, que sua dama radiante
e ele próprio formavam uma equipe exclusivamente deles e de ninguém mais
no mundo, e isso bastava.
Então a conversa era deixada de lado. Há uma loquacidade que nada diz,
a qual era de Bathsheba; e existe um silêncio que muito diz, o qual pertencia
a Gabriel. Cheio desta felicidade vaga e moderada, ele continuava virando a
ovelha para o outro lado, cobrindo sua cabeça com o joelho e aos poucos
passando a tesoura em volta de sua papada; dali para o flanco, costas e
finalizando na cauda.

“Muito bem e que rapidez!”, admirou-se Bathsheba, olhando para seu


relógio quando o último corte foi ouvido.

“Quanto tempo, Miss?”, perguntou Gabriel, enxugando a testa.

“Vinte e três minutos e meio desde que pegou a primeira mecha da


cabeça. É a primeira vez que vi ser feito em menos de meia hora.”

A criatura limpa e lisa levantou-se de sua lã, perfeita como deve ter sido
Afrodite levantando-se da espuma. Parecia assustada e tímida com a perda de
suas vestes, que estavam no chão como uma nuvem macia, nunca antes
exposta, era branca como a neve e sem o mínimo defeito ou imperfeição.

“Cain Ball!”

“Sim, Mr. Oak, estou aqui!”

Cainy agora corria com o pote de alcatrão. As iniciais “B.E” logo foram
estampadas na pele tosquiada e, com saltos simples, gemendo, juntou-se ao
rebanho despido do lado de fora. Então vinha Maryann, pegava as mechas
soltas de lã, enrolava e carregava para o fundo. Ela levaria, por três libras e
meia, o calor natural para o prazer de inverno de pessoas desconhecidas e
distantes, que, no entanto, nunca experimentariam o conforto superlativo que
vinha da lã como ela ali estava, nova e pura, antes da untuosidade de sua
natureza: seca, esticada e lavada, num estado vivo, sendo superior a qualquer
coisa de lã como o creme é superior ao leite misturado a água.

Mas uma circunstância cruel roubou a completa felicidade de Gabriel


naquela manhã. Ele acabara de tosar vários carneiros, ovelhas mais velhas e
dois cordeiros, enquanto os homens continuavam com os menores, quando a
ideia de Oak de que ela, agradavelmente, ficaria e marcaria o tempo dele em
outra operação foi dolorosamente interrompido pela chegada do fazendeiro
Boldwood na outra extremidade do celeiro. Ninguém parecia ter percebido
sua entrada, mas lá estava ele. Boldwood sempre trazia um ar social que era
próprio dele, o qual todos sentiam ao se aproximarem dele, e a fala, que a
presença de Bathsheba de alguma forma suprimia, estava agora
completamente suspensa.

Ele passou por Bathsheba, que virou-se para cumprimentá-lo com perfeita
calma. Conversou com ela em tom baixo, que instintivamente baixou o seu e
sua voz até pegou a inflexão da dele. Estava longe de desejar parecer
misteriosamente conectada a ele, mas as mulheres de idade impressionável se
elevam na presença de alguém importante não apenas na escolha de suas
palavras, o que é aparente na rotina, mas mesmo em sombras de tom e
humor, quando há grande influência.

Gabriel, que estava muito independente para se aproximar, não ouviu


sobre o que conversaram, embora estivesse muito interessado para não
prestar atenção. O problema do diálogo deles era que o fazendeiro cortês
pegou a mão dela para ajudá-la a atravessar a passagem naquele dia
ensolarado de junho. Parando ao lado das ovelhas já tosadas, continuaram a
conversar. Sobre o rebanho? Aparentemente, não. Gabriel raciocinou, não
sem razão, que aquela discussão silenciosa era sobre um assunto qualquer ao
alcance dos olhos dos interlocutores, geralmente fixos nele. Bathsheba
afetadamente preocupava-se com uma palha jogada no chão, de um jeito que
sugeria menos críticas ovinas do que embaraço feminino. Estava com as
bochechas um pouco avermelhadas, o sangue correndo num fluxo e refluxo
incertos sobre o espaço sensível entre a vazante e a cheia. Gabriel continuava
a tosar, tenso e triste.

Ela saiu do lado de Boldwood e ele caminhou sozinho por


aproximadamente quinze minutos. Ela então reapareceu em sua nova roupa
de montaria verde-murta, que se ajustava a sua cintura como a casca se ajusta
à fruta. O jovem Bob Coggan trouxe a égua dela e Boldwood pegou seu
próprio cavalo que estava debaixo da árvore onde havia sido amarrado.

Os olhos de Oak não podiam desviar-se deles e, esforçando-se para


continuar sua tosa ao mesmo tempo em que observava os modos de
Boldwood, cortou uma ovelha na virilha. O animal deu um salto. Bathsheba
olhou na direção dele imediatamente e viu o sangue.

“Oh, Gabriel!”, exclamou ela com repreensão severa: “é tão rígido com
os outros, veja só o que você mesmo fez!”

Para alguém de fora, não havia muito que reclamar daquele comentário;
mas para Oak, que sabia que Bathsheba tinha plena consciência que ela
mesma fora a causa do ferimento na pobre ovelha, pois ferira o tosquiador
numa parte ainda mais vital, com um ferrão que o senso de tolerância da
inferioridade dele tanto para com ela quanto para com Boldwood não era
passível de ser curado. Entretanto, uma decisão masculina de admitir
corajosamente que não tinha mais nenhum interesse amoroso nela
ocasionalmente o ajudava a esconder um sentimento.

“A garrafa!”, gritou ele, com a voz inalterada de costume. Cainy Ball


correu, a ferida foi limpa e a tosa continuou.

Boldwood colocou cuidadosamente Bathsheba na sela e, antes de se


retirarem, ela falou alto com Oak com a mesma graciosidade dominante e
tentadora.

“Agora vou ver os carneiros leicester de Mr. Boldwood. Assuma meu


lugar no celeiro, Gabriel, e cuide para que os homens façam seu trabalho.”

Emparelharam os cavalos e saíram trotando.

A profunda admiração de Boldwood era uma questão de grande interesse


entre todos ao seu redor; entretanto, sendo apontado por tantos anos como o
perfeito e próspero exemplar de solteiro, seu lapso era um anticlímax que de
alguma forma lembrava a morte de St. John Long por tuberculose, em meio
às suas provas de que aquela não era uma doença fatal.

“Isso significa casamento”, comentou Temperance Miller,


acompanhando-os com o olhar.

“Também acredito nisso”, disse Coggan, continuando a trabalhar sem


levantar os olhos.
“Bem, melhor casada com um conhecido do que com um estranho”,
observou Laban Tall, girando sua ovelha.

Hehery Fray falou, com olhos tristes, ao mesmo tempo:

“Não sei por que uma mulher deve arranjar um marido quando é corajosa
o bastante para travar suas próprias batalhas e não querer um lar, deixando
outra mulher de fora. Mas deixe estar, porque é uma pena que tanto ele
quanto ela tenham problemas em duas casas.”

Como acontece com quem tem caráter decidido, Bathsheba


invariavelmente provocava críticas de indivíduos como Henery Fray. Sua
maior culpa era ser muito enfática em suas objeções e pouco clara com seus
apreços. Aprendemos que não são os corpos que os raios absorvem, mas sim
os que rejeitam que lhes dão as cores pelas quais são conhecidos, e da mesma
forma, as pessoas são conhecidas por suas aversões e antagonismos, enquanto
sua boa vontade não é vista como um atributo.

Henery continuava com um ânimo mais complacente:

“Falei de minhas ideias para ela uma vez, assim como um pobre se atreve
a fazer a um rico. Vocês sabem como eu sou, vizinhos, e que não meço
minhas palavras quando meu orgulho ferve com o desdém.”

“Sabemos, Henery, sabemos.”

“Então eu disse: ‘Mrs. Everdene, há espaços vazios e homens habilidosos


querendo trabalhar, mas o mal...’, não, não o mal... não falei o mal... ‘mas a
vilania do tipo contrário’, disse eu (querendo dizer as mulheres), ‘os
afastam’. Será que foi muito forte para ela?”

“É bastante aceitável.”

“Sim, e eu teria dito isso se a morte e a salvação não tivessem tomado


conta de mim. É assim que eu fico quando tenho uma opinião.”

“Um homem verdadeiro e tão orgulhoso quanto o diabo.”

“Percebe a astúcia? Ora, era sobre ser o administrador; mas não expliquei
direito e ela não me entendeu, então deixei como estava... foi o que recebi!
Mas deixe ela se casar. Talvez já não seja sem tempo. Acho que o fazendeiro
Boldwood deve tê-la beijado atrás dos carriços outro dia, enquanto estávamos
banhando as ovelhas.”

“Isso é mentira!”, exclamou Gabriel.

“Ah, vizinho Oak, como é que sabe?”, perguntou calmamente Henery.

“Porque ela me contou tudo que se passou”, informou Oak, com uma
sensação de hipocrisia de não ser como os outros tosadores naquela questão.

“Você pode acreditar”, indignou-se Henery; “pode mesmo. Mas eu me


distanciaria um pouco mais das coisas! Ter mais esperteza para o cargo de
administrador é uma grande besteira. No entanto, vejo a vida com muita
calma. Vocês me entendem, vizinhos? As minhas palavras, mesmo que muito
simples, podem ser muito profundas para algumas cabeças.”

“Sim, Henery, entendemos.”

“Muito estranho, meus bons homens, jogado de lá para cá, como se eu


não fosse nada! Um pouco torto também. Mas tenho meus valores, e muito
bons! Poderia chegar a ser um bom pastor, cabeça com cabeça. Mas não, ah,
não!”

“É muito estranho mesmo!”, interveio o cervejeiro com voz queixosa. “E


você não era nenhum velho que não merecesse ser chamado. Ainda nem
perdeu os dentes, e quem é velho se os dentes ainda não caíram? Eu já estava
casado quando vocês foram para o exército? É uma pena ter sessenta anos
quando há quem ainda nem passou dos quarenta. Uma grande bobagem.”

Aquele era o costume invariável de Weatherbury em não dar importância


quando precisavam acalmar o cervejeiro.

“Uma grande bobagem, sim!”, disse Jan Coggan. “Cervejeiro, sabemos


que é um veterano admirável e ninguém pode negar!”

“Ninguém”, concordou Joseph Poorgrass. “É um exemplo raro,


cervejeiro, e nós todos o admiramos por seu dom.”

“É, e quando eu era moço, que tinha mais atenção, também era admirado
por quem me conhecia”, continuou o cervejeiro.

“Sem dúvida que era, sem dúvida.”

O ancião encurvado estava satisfeito, e aparentemente Henery Fray


também estava. O assunto prosseguiria com a fala de Maryann, que, com sua
pele morena e suas roupas de trabalho desbotadas, ganhava a tonalidade
suave de uma pintura a óleo, como as de Nicholas Poussin:

“Alguém sabe se um homem torto, manco ou de segunda mão que possa


querer ficar comigo?”, perguntou Maryann. “Não espero encontrar alguém
perfeito nessa altura da minha vida. Seria muito melhor para mim do que
torradas e cerveja.”

Coggan ofereceu uma resposta adequada. Oak continuou com a tosquia e


não disse nada. Ficara mal-humorado e perdera a calma. Bathsheba deu
mostras de privilegiá-lo com relação aos companheiros ao colocá-lo como
administrador da fazenda, o que era imprescindível. Não cobiçava o posto na
fazenda: com relação a ela mesma, por ser amada por ele e não se casar com
outro, isso ele desejava. Sua opinião sobre ela agora parecia turva e indistinta.
Achava que o sermão que deu a ela foi o mais absurdo dos erros. Longe de
cortejar Boldwood, ela brincava com ele e fingia que brincava com o outro.
Estava secretamente convencido de que, como nas expectativas de seus
camaradas indolentes e incultos, naquele dia Miss Everdene aceitaria
Boldwood como marido. Naquele ponto de sua vida, Gabriel havia
desenvolvido uma aversão natural que qualquer cristão tem ao ler a Bíblia,
com maior atenção agora, e dizer consigo mesmo: “Uma mulher cujo coração
carrega armadilhas e redes é mais amarga do que a morte!”[20] Aquela era
uma mera exclamação, a espuma da tempestade. Ele adorava Bathsheba
como sempre adorou.

“Nós, os empregados, merecemos uma comemoração nobre esta noite”,


disse Cainy Ball, lançando seus pensamentos numa nova direção. “Esta
manhã vi que estavam fazendo pudins enormes nos baldes de ordenha, com
pedaços de nata grandes como o seu dedão, Mr. Oak! Nunca vi pedaços tão
esplêndidos em toda minha vida, nunca foram maiores do que uma fava-de-
cavalo. E tinha também um jarro preto imenso em cima do agitador com as
patas para fora. Não sei o que tinha dentro.”

“E havia dois fardos de maçãs escuras para tortas”, completou Maryann.

“Bem, espero terminar meu serviço”, disse Joseph Poorgrass, numa


expectativa agradável e faminta. “Sim, comer e beber é algo festivo e acalma
os nervos, se puder falar assim. É sagrado para o corpo e sem eles perecemos,
por assim dizer.”
CAPÍTULO XXIII
O ANOITECER — UMA SEGUNDA
DECLARAÇÃO

Para a ceia do dia da tosquia, uma grande mesa foi posta sobre o gramado ao
lado da casa, sendo que uma ponta dela fora apoiada no peitoril da ampla
janela do salão, com um ou dois pés de comprimento para dentro. Miss
Everdene sentou-se do lado de dentro, à cabeceira da mesa. Assim, não se
misturava com os homens.

Bathsheba estava excitada de um modo diferente, suas bochechas e lábios


contrastando brilhantemente com os cachos de seus cabelos escuros. Parecia
que esperava ajuda, e a cadeira do lado oposto ao dela fora deixada vazia
conforme seu pedido até que tivessem iniciado a refeição. Ela então pediu
que Gabriel ocupasse o lugar e exercesse suas funções, que ele as fez
prontamente.

Naquele instante, Mr. Boldwood entrou pelo portão, atravessou o


gramado e dirigiu-se a Bathsheba na janela. Desculpou-se pelo atraso: sua
chegada era evidentemente planejada.

“Gabriel”, disse ela, “pode mudar-se outra vez, por favor, e deixar que
Mr. Boldwood fique aí?”

Oak voltou em silêncio para o lugar de antes.

O gentil fazendeiro estava vestido com estilo alegre, com um casaco novo
e colete branco, contrastando com seus costumeiros trajes cinza sóbrios. Em
seu íntimo, também, estava jovial e consequentemente falante de um jeito
extraordinário. Assim como ficou Bathsheba com a chegada dele, embora a
presença de Pennyways, o administrador demitido por roubo e que não fora
convidado, incomodasse um pouco sua tranquilidade.

Terminada a ceia, Coggan entoou por conta própria, sem aviso aos
ouvintes:

Perdi meu amor e não me importo;

Perdi meu amor e não me importo;

Logo encontrarei outro;

Melhor que aquele que tive;

Perdi meu amor e não me importo.

Os versos, quando terminados, foram recebidos com um olhar apreciativo


e silencioso da mesa, dando a entender que a apresentação, como um trabalho
dos autores consagrados que não depende de avisos nos jornais, eram um
deleite que não necessitava de aplausos.

“Agora, mestre Poorgrass, a sua canção!”, pediu Coggan.

“Bebi muito e não estou em condições”, disse Joseph, menosprezando-se.

“Bobagem, você nunca foi assim ingrato, nunca!”, comentou Coggan,


mostrando seu descontentamento com inflexão na voz. “E a patroa está
olhando feio para você, como se dissesse: ‘Cante de uma vez, Joseph
Poograss.’”

“É verdade, está mesmo; então devo encarar!... Olhem para minha cara e
vejam se o sangue está subindo, vizinhos!”

“Não, seu rubor é até razoável”, acalmou-o Coggan.

“Sempre tento não ficar vermelho quando os olhos de uma bela moça
estão em mim”, disse timidamente Joseph; “mas se é assim não tem como
evitar.”
“Agora a sua canção, Joseph, por favor”, pediu Bathsheba pela janela.

“Bem, na verdade, Madame”, respondeu ele com voz complacente, “não


sei o que dizer. É uma cantiga de minha própria autoria.”

“Cante, cante!”, disseram todos à mesa.

Poorgrass, assim animado, cantou uma trêmula embora louvável cantiga


sentimental, o tom da qual consistia de uma ou outra nota, sendo que a última
predominava sobre a primeira. Teve tanto sucesso que rapidamente saltou
para uma outra do mesmo tipo, depois de falsos começos:

Espalhei...

Espalhei...

Espalhei as sementes do amor,

Todas na primavera,

Em abril, maio e no sol de junho,

Quando cantam os passarinhos.

“Muito bem colocado”, observou Coggan no final do verso. “‘Cantam os


passarinhos’, é uma parte muito encantadora.”

“Ah, e teve aquela parte bonita das ‘sementes do amor’ que foi bem
pensada. Apesar de que ‘amor’ é uma nota muito alta quando é a voz de um
homem que a está quebrando. Próximo verso, mestre Poorgrass.”

Mas durante a apresentação, o jovem Bob Coggan exibiu uma das


anomalias comuns dos mais novos quando outras pessoas estão
particularmente sérias: ao tentar conter o riso, enfiou na garganta a maior
parte da toalha da mesa que conseguiu quando, depois de passar pouco tempo
tampado hermeticamente, sua gargalhada explodiu pelo nariz. Joseph
percebeu e com as bochechas queimando de indignação, parou
imediatamente de cantar. Coggan deu um tapa nas orelhas de Bob no mesmo
instante.
“Continue, Joseph, continue, não ligue para esse patife”, disse Coggan.
“É uma cantiga muito cativante. Comece de novo, o próximo compasso; vou
lhe ajudar com os agudos quando estive quase sem fôlego:

Oh, o salgueiro vai se retorcer,

E o salgueiro vai se contorcer.”

Mas o cantor não pôde continuar. Bob Coggan foi mandado para casa por
sua falta de modos e a calma foi reestabelecida por Jacob Smallbury, que se
ofereceu para cantar uma canção tão grande e interminável como a que o
velho e respeitável bêbado Sileno apresentou numa ocasião parecida a
Cromis e Mnaliso e a outros companheiros de seu tempo.

Escurecia aos poucos, embora a noite se fizesse furtivamente visível nos


campos mais baixos. Os raios de luz do oeste tocavam a terra sem iluminá-la
ou clareavam pontos mortos. O sol se agarrava a uma árvore como um último
esforço antes da morte, e então começou a se pôr, escurecendo a parte de
baixo dos tosquiadores com o crepúsculo, enquanto suas cabeças e ombros
ainda aproveitavam o dia, tocados por um brilho amarelado intenso que
parecia deles próprios e não recebido.

O sol se pôs numa névoa ocre, mas eles continuaram sentados


conversando, cada vez mais alegres como no paraíso de Homero. Bathsheba
permanecia sentada em seu trono do lado de dentro da janela, a tricotar, de
onde, às vezes, erguia os olhos para ver a cena empalidecer lá fora. O lento
escurecer se expandia e os envolvia completamente antes que os sinais da
mudança se mostrassem.

Gabriel, de repente, percebeu que o fazendeiro Boldwood não estava em


seu lugar na outra ponta da mesa. Não sabia há quanto tempo havia ido
embora, mas aparentemente retirou-se com o anoitecer. Enquanto pensava
naquilo, Liddy trouxe velas para a parte de trás da sala, acima dos
tosquiadores, e as chamas vivas iluminaram a mesa e os homens, dispersando
as sombras esverdeadas atrás deles. A silhueta de Bathsheba, ainda na mesma
posição, era outra vez distinta entre os olhos deles e a luz, que revelava que
Boldwood havia ido para dentro da sala e estava sentado perto dela.
Veio então a dúvida da noite. Miss Everdene cantaria para eles a canção
que sempre cantava de maneira tão encantadora, “The Banks of Allan Water”,
antes que fossem embora?

Após considerar por um momento, Bathsheba concordou, fazendo um


sinal para Gabriel, que se apressou na atmosfera cobiçada.

“Trouxe sua flauta?”, sussurrou ela.

“Sim, Miss.”

“Então toque enquanto eu canto.”

Ela parou na abertura da janela, olhando para os homens, com as velas


atrás dela, Gabriel à sua direita, do lado de fora. Boldwood ficou à sua
esquerda, dentro da sala. Seu canto era suave e trêmulo no início, mas logo
ganhou clareza. Um dos versos fez com que eventos subsequentes fossem
lembrados por muitos meses e até mesmo anos, por muitos daqueles que se
reuniam ali:

Para sua esposa um soldado a pediu,

E sua fala era cativante

Às margens de Allan Water

Ninguém era mais feliz que ela!

Com a doçura das notas da flauta de Gabriel, Boldwood juntou-se com


sua voz baixa e profunda, mas cantando suas notas tão calmamente, como
que para abster-se completamente de fazer um dueto comum na canção; eram
como uma sombra rica e inexplorada, que acalmava as notas dela. Os
tosquiadores se reclinaram como nas ceias do início do mundo, tão quietos, e
absortos que a respiração dela quase podia ser ouvida entre os compassos; e
no final da cantiga, quando a última nota ficou suspensa num encerramento
inexplicável, veio o barulho da alegria com o aroma do aplauso.

Não é necessário dizer que Gabriel não podia deixar de notar a atitude do
fazendeiro para com a anfitriã. Ainda assim, não havia nada de excepcional
nas ações dele além do que se referia ao momento em que se apresentara. Foi
quando todos estavam reparando como Boldwood a observava; quando eles a
olhavam, ele se virava; quando agradeciam ou a elogiavam, ele ficava em
silêncio; quando não prestavam atenção, ele murmurava um agradecimento.
O significado estava na diferença entre as ações, nenhuma com um sentido
próprio, e a necessidade de sentir ciúmes, o que incomoda os amantes, não
fez com que Oak subestimasse estes sinais.

Bathsheba então lhes desejou boa-noite, saiu da janela e retirou-se para o


fundo da sala, e Boldwood imediatamente fechou a vidraça e as venezianas,
ficando lá dentro com ela. Oak se afastou sob as árvores silenciosas e
perfumadas. Recobrando-se das sensações calmantes produzidas pela voz de
Bathsheba, os tosquiadores se levantaram para ir embora. Coggan virou-se
para Pennyways quando puxava o banco para passar:

“Gosto de dar um elogio quando ele é merecido, e o homem o merece,


merece mesmo”, observou ele, olhando para o ladrão como se fosse um
quadro de um artista famoso.

“Tenho certeza que nunca devia ter acreditado se não tivéssemos a


prova”, disse Joseph Poorgrass com um soluço, “que cada copo, cada uma
das melhores facas e garfos e cada garrafa vazia está perfeitamente em seu
lugar como no começo, que ninguém roubou nada.”

“Estou certo de que não mereço nem metade dos elogios que me fazem”,
disse com raiva o virtuoso ladrão.

“Bem, posso defender Pennyways”, continuou Coggan “que quando quer


que ele se decida a fazer algo nobre, como pude ver pela cara dele hoje antes
de se sentar, ele é capaz. Sim, tenho orgulho de dizer, vizinhos, que ele não
roubou nada.”

“Bem, é um ato honesto e nós o agradecemos por ele, Pennyways”,


concordou Joseph, cuja opinião foi unanimemente compartilhada por todos.

No momento da partida, quando nada mais estava visível dentro do salão,


além de uma pequena fresta de luz entre as venezianas, uma cena apaixonada
estava acontecendo.
Miss Everdene e Boldwood estavam a sós. As bochechas dela haviam
perdido grande parte de seu rubor saudável por causa da seriedade de sua
posição; mas seu olhar estava brilhante de excitação e triunfo, embora fosse
um triunfo mais contemplado do que desejado.

Estava atrás de uma poltrona baixa, da qual acabara de se levantar e ele


estava ajoelhado perto dela, inclinando-se sobre seu encosto na direção dela e
segurando sua mão entre as dele. Seu corpo se mexia inquietamente com o
que Keats chamava agradavelmente de uma felicidade tão feliz. Esta
abstração rara pelo amor de toda dignidade de um homem que sempre
parecera estar no controle estava, numa incongruência agonizante, num
sofrimento a ela que dissipava muito do prazer que sentia com a prova de que
era idolatrada.

“Tentarei amá-lo”, ela estava dizendo, com voz trêmula muito diferente
de sua segurança costumeira. “E se eu tiver certeza que poderei ser uma boa
esposa, aí sim me casarei com você. Mas, Mr. Boldwood, hesitar é uma
questão importante para qualquer mulher honrável e não quero lhe prometer
nada solenemente esta noite. Prefiro pedir-lhe que espere algumas semanas
até que possa entender melhor a minha situação.”

“Mas você tem todos os motivos para que acreditar que depois...”

“Tenho todos os motivos para esperar que ao fim de cinco ou seis


semanas, entre hoje e a colheita, que você diz que ficará longe de casa, eu
possa prometer ser sua esposa”, afirmou ela. “Mas lembre-se bem disso, não
lhe prometi nada ainda.”

“Já basta. Não perguntarei mais. Não posso esperar pelas suas palavras
adoradas. Agora, Miss Everdene, boa noite!”

“Boa noite”, disse ela graciosamente quase com carinho, e Boldwood


partiu com um sorriso sereno.

Bathsheba conhecia-o melhor agora. Ele havia aberto todo seu coração
para ela, a ponto de quase deixar em seus olhos a aparência triste de uma ave
imponente, sem as penas, que a tornavam grandes. Ela estava impressionada
pelos medos dele terem passado, ao passo em que ela lutava para amá-lo
como ele merecia e tentava não pensar se estava pecando em sua atitude em
postergar um fim que era eminente. Ouvir aquilo tudo foi terrível, pois,
afinal, não era uma situação alegre. A facilidade com a qual até mesmo as
mulheres mais tímidas, às vezes, desenvolvem um gosto especial pelo que é
temeroso quando combinado a um pequeno triunfo é maravilhoso.
CAPÍTULO XXIV
NA MESMA NOITE — NO TERRENO DE
ABETOS

Entre os tantos trabalhos que Bathsheba impôs-se voluntariamente ao


dispensar os serviços de um administrador, estava um em especial de
verificar toda a casa antes de ir dormir, para ver se estava tudo em ordem e
seguro para passar a noite. Gabriel quase sempre a precedia nesta rotina todas
as noites, observando cuidadosamente as preocupações dela como qualquer
funcionário escolhido especialmente para a vigilância faria; no entanto, esta
devoção carinhosa era desconhecida por sua patroa e, se era conhecida, não
era recebida com gratidão. As mulheres nunca estão cansadas de lamentar a
inconstância do homem no amor, mas eles só parecem desprezar sua
constância.

Como a observação é melhor quando não é notada, ela costumava


carregar uma lanterna apagada na mão e, às vezes, a acendia para examinar
cantos e fendas com a calma de um policial metropolitano. Tal calma poderia
existir nem tanto por causa de sua despreocupação em esperar pelo perigo
como pela liberdade de não suspeitar que houvesse. Sua pior descoberta
antecipada era que um cavalo não estivesse bem preso, as aves não
estivessem todas ali ou uma porta não estivesse trancada.

Naquela noite, as instalações foram verificadas como de costume e ela foi


para o recinto onde se guardam os cavalos. Os únicos sons quebrando o
silêncio era o de muitas bocas que não paravam de mastigar e a respiração
ruidosa de todos os narizes invisíveis, que acabavam em roncos e bufadas
parecidos com foles lentos. Então a mastigação recomeçava, quando a
imaginação ativa podia acompanhar o olhar para perceber um grupo de
narinas rosa-esbranquiçadas que se parecia com cavernas, de superfícies
muito pegajosas e úmidas, que não eram exatamente agradáveis ao toque até
que se acostumasse com elas; as bocas tentavam fechar-se sob qualquer ponta
da roupa de Bathsheba que suas línguas tocassem. Acima de cada uma delas,
uma visão ainda mais apurada sugeria uma testa marrom e olhos atentos,
porém nada simpáticos, e sobre eles um par de chifres esbranquiçados e
curvos como duas luas novas e um “muu” fleumático anunciando pela
sombra que aqueles fenômenos eram as silhuetas de Daisy, Whitefoot,
Bonny-lass, Jolly-O, Twinkle-eye, etc., as respeitáveis vacas leiteiras da raça
Devon que pertenciam a Bathsheba, como já fora mencionado.

Sua volta para casa era por um caminho entre o terreno de abetos
afilados, que foram plantados alguns anos antes para abrigar a propriedade do
vento norte. Por causa da densidade da folhagem interligada na parte de cima,
era um local escuro ao meio-dia, sombrio ao entardecer, escuro como a meia-
noite ao escurecer e negro como a nona praga do Egito à meia-noite.
Descrever o local era chamá-lo de um corredor vasto e formado naturalmente,
cujo teto, que era sustentado por pilares finos de madeira viva, parecia feito
de plumas. O solo era coberto por um carpete macio e castanho de folhas
mortas, em formato de agulhas, e pinhas emboloradas com moitas de grama
aqui e ali.

Essa parte do caminho era a mais delicada da ronda noturna, porém, antes
de começar, a sensação de perigo não estava vívida o bastante de modo que a
levasse a pedir a alguém para acompanhá-la. Passando tão
imperceptivelmente quanto o tempo, Bathsheba imaginou ter ouvido passos
vindos pelo lado oposto do caminho. Sem dúvida, era o som de passos.
Naquele instante, seus próprios passos pareciam macios como flocos de neve.
Ela se assegurou novamente relembrando que era um caminho público e, que
quem estivesse passando por lá, seria um morador de volta para casa. Apenas
lamentava que o encontro ocorresse no ponto mais escuro, embora estivesse
na porta da própria casa.

O barulho se aproximou, chegou bem perto e uma silhueta estava prestes


a passar por ela quando algo puxou sua saia e a prendeu ao chão. A parada
repentina e brusca quase fez Bathsheba perder o equilíbrio. Ao se recuperar,
colidiu com roupas quentes e botões.
“Meu Deus, que encontro mais estranho!”, disse uma voz masculina, uns
dois pés acima da cabeça dela. “Eu o machuquei, companheiro?”

“Não”, respondeu Bathsheba, tentando escapar.

“Acho que de alguma forma tropeçamos um no outro.”

“Sim.”

“É uma mulher?”

“Sim.”

“Eu deveria ter dito uma dama.”

“Não tem importância.”

“Sou um homem.”

“Ah.”

Bathsheba puxou delicadamente outra vez, mas sem a intenção.

“Isso que você traz é uma lanterna? Parece que sim”, perguntou o
homem.

“Sim.”

“Se me permite, vou abri-la e soltá-la.”

Uma mão procurou pela lanterna, a portinhola foi aberta, os raios


deixaram a prisão e Bathsheba contemplou sua posição espantada.

O homem com quem estava presa brilhava com bronze e escarlate. Era
um soldado. Sua súbita aparição fora para escuridão o que o som da trombeta
é para o silêncio. À penumbra, o genius loci[21] sempre presente, naquele
momento havia sido finalmente derrotado, não tanto pela luz da lanterna, mas
pelo que ela iluminou. O contraste desta revelação com as expectativas dela
de encontrar uma figura sinistra numa roupa escura era tão intenso que teve o
efeito de uma transformação mágica.

Ficou aparentemente claro que a espada do oficial ficara presa no


trançado que enfeitava a saia do vestido dela. Ele pôde ver seu rosto.

“Desprenderei-me de você num minuto, Miss”, disse ele, com um


galanteio recém-adquirido.

“Oh, não... Posso fazer isso, obrigada”, respondeu ela rapidamente e


parou para a tarefa.

O desprender não foi um assunto tão insignificante. A roseta da espada


havia enroscado nos cordões da trança e parecia que a separação levaria
algum tempo.

Ele também parou, e a lanterna, que estava no chão entre eles, por sua
porta aberta como um vaga-lume gigante, iluminava as agulhas dos pinheiros
e as longas folhas de grama molhadas. Os feixes de luz iluminaram-lhes os
rostos, lançando na plantação sombras gigantes do homem e da mulher,
distorcendo as formas escuras e misturando-as aos troncos das árvores até se
dissiparem.

Ele a olhou nos olhos quando ela os ergueu por um momento. Bathesheba
baixou-os outra vez porque aquele olhar era muito intenso para ser recebido
tão diretamente. No entanto, tinha notado que ele era jovem e magro, e usava
três divisas em sua manga.

Bathsheba puxou novamente.

“É uma prisioneira, Miss; não há como negar a situação”, falou o soldado


secamente. “Terei que cortar seu vestido se estiver com muita pressa.”

“Sim, corte, por favor!”, exclamou ela, impotente.

“Não seria necessário se pudesse esperar um momento”, e ele soltou o


cordão da roseta. Ela puxou com sua própria mão, mas, acidentalmente ou de
propósito, ele a tocou. Bathsheba ficou irritada e mal sabia a razão.

Ele continuou com seu trabalho, que, no entanto, parecia interminável.


Ela o olhou outra vez.

“Obrigado pela visão de um rosto tão lindo!”, disse o jovem sargento sem
cerimônia.

Ela corou, embaraçada.

“Não foi mostrado por querer”, retrucou ela duramente e com muita
dignidade, que era pouca, como se pudesse evitar a situação de prisioneira.

“Gosto mais de você por sua indelicadeza, Miss”, disse ele.

“Eu deveria ter apreciado, pelo menos gostaria, que nunca o tivesse
encontrado invadindo este lugar!” Ela puxou outra vez e as pregas de seu
vestido começaram a ceder numa luta minúscula.

“Mereço o castigo severo de suas palavras. Mas por que uma garota tão
bela e respeitosa tem tanta aversão ao sexo de seu pai?”

“Continue seu caminho, por favor.”

“Como, Bela, e arrastá-la comigo? Olhe para isto! Nunca vi uma coisa tão
emaranhada!”

“Oh, como você é vergonhoso! Está piorando tudo de propósito para me


prender aqui!”

“Na verdade, não”, disse o sargento, com uma piscadela alegre.

“Pois eu digo que está!”, exclamou ela, nervosa. “Insisto em desenrolar


isso! Agora, permita-me!”

“Certamente, Miss, não sou de aço.” Suspirou tão profundamente como


se um suspiro pudesse conter sem perder sua natureza ao mesmo tempo. “Sou
grato pela beleza, mesmo que apresentada a mim como um osso a um cão.
Isso logo acabará!”

Ela fechou os lábios num silêncio determinado.


Bathsheba imaginava se poderia se libertar com um puxão seco e
desesperado sem o risco sair de lá sem a saia. A ideia era assustadora demais.
O vestido que estava usando para parecer elegante no jantar, era o melhor do
seu guarda-roupa, nenhum outro que tinha lhe caía tão bem. Que mulher na
situação de Bathsheba, que não era tímida por natureza, e ao chamar seus
empregados teria pago o mais alto preço para escapar de um soldado bonito?

“Tudo a seu tempo. Creio que logo estará terminado”, disse seu calmo
amigo.

“Estas provocações são insignificantes, e... e...”

“Sem tanta crueldade!”

“... me insultam!”

“Tudo para que eu possa ter o prazer de me desculpar com uma mulher
tão encantadora, o que faço imediatamente, Madame”, disse ele, curvando-se
numa reverência.

Bathsheba realmente não sabia o que dizer.

“Já vi muitas mulheres na minha vida”, continuou o jovem num


murmúrio e, mais atenciosamente que antes, analisando criticamente sua
cabeça abaixada ao mesmo tempo; “mas nunca vi uma mulher tão bonita
quanto você. Aceite ou recuse, ofenda-se ou aprecie, não me importo.”

“Quem é você, então, que pode permitir que sua opinião seja
desprezada?”

“Não sou um estranho. Sou o Sargento Troy. Estou hospedado neste


lugar. Enfim! Soltou, veja! Seus dedos leves foram mais afoitos do que os
meus. Gostaria que fosse um nó de nós, que não pudesse ser solto!”

As coisas só pioravam. Ela andou e ele também. A dificuldade dela agora


era fugir dele decentemente. Moveu-se aos poucos, com a lanterna na mão,
até que não podia mais ver o casaco vermelho dele.

“Ah, Bela, adeus!”, disse ele.


Ela não respondeu e, chegando a uma distância de vinte a trinta jardas,
virou-se e correu para dentro de casa.

Liddy havia acabado de se recolher. Ao subir para seus aposentos,


Bathsheba abriu levemente a porta do quarto da moça e, ofegante, perguntou:

“Liddy, há algum soldado hospedado na vila, algum sargento, muito


educado para um sargento, e elegante, com um casaco vermelho com adornos
azuis?”

“Não, Miss... não que eu saiba, mas o Sargento Troy pode estar mesmo
de licença em casa, embora não o tenha visto. Ele esteve aqui uma vez
quando o regimento esteve em Casterbridge.”

“Sim, era esse nome. Ele tinha bigode, sem barba?”

“Tinha sim.”

“Que tipo de pessoa ele é?”

“Ah, Miss, tenho vergonha de falar... um homem alegre! Mas sei que ele
é muito esperto e tem boa posição, que tem muito dinheiro como um
proprietário de terras. Que jovem mais inteligente e elegante ele é! Tem o
sobrenome de um médico, o que já é muito bom, mas é filho de um conde!”

“O que significa muito mais. Imagine! É verdade?”

Sim. E teve uma educação muito boa. Passou muitos anos na


Casterbridge Grammar School. Aprendeu muitas línguas enquanto esteva lá;
e dizem até que aprendeu a escrever chinês em taquigrafia; mas isso eu não
posso afirmar porque sei apenas o que ouvi dizer. Mas ele tem desperdiçado
seu talento. Alistou-se como um soldado e tornou-se sargento sem esforços.
Ah, é uma bênção ser bem-nascido! A nobreza do sangue se reflete até se
você é do exército! Ele realmente está em casa, Miss?

“Creio que sim. Tenha uma boa-noite, Liddy.”

Afinal, como poderia uma moça de boa índole permanecer ofendida com
um homem assim? Há ocasiões em que jovens como Bathsheba são capazes
de aceitar um comportamento não-convencional. Quando querem receber
elogios, o que é frequente; quando querem ser dominadas, o que às vezes
acontece; e quando não querem o absurdo, o que é raro. Naquele instante, o
primeiro sentimento aflorou em Bathsheba com uma pitada do segundo.
Além disso, por acaso ou por um feitiço, quem os ministrou tornou-se
interessante de antemão por ser um estranho atraente que certamente já tivera
melhores momentos.

Ela não conseguia decidir com clareza se considerava que ele a tinha
insultado ou não.

“Foi a coisa mais esquisita que já aconteceu!”, ela por fim exclamou
consigo mesma em seu quarto. “E foi a coisa mais malvada que já fiz —
escapar daquele jeito de um homem tão educado e bondoso!”

Obviamente que ela não achava mais que o elogio audacioso que ele lhe
fez era um insulto. Foi uma omissão fatal que Boldwood nunca tivesse dito
que ela era linda.
CAPÍTULO XXV
A DESCRIÇÃO DO NOVO CONHECIDO

As características individuais e a vicissitude foram combinadas para marcar


o Sargento Troy como um ser excepcional.

Era um homem para quem as memórias eram um fardo e as expectativas


eram supérfluas. Simplesmente sentia, pensava e se preocupava com aquilo
que estava diante de seus olhos, sendo apenas vulnerável ao presente. Sua
atitude sobre o tempo era um relance de tempos em tempos: que a projeção
da consciência de dias passados e vindouros, tornando o passado sinônimo de
patético e o futuro, uma palavra que exigia cautela, era desconhecida por
Troy. Para ele, o passado foi ontem; o futuro, amanhã; o nunca, o dia
seguinte.

Neste sentido ele poderia, a determinada luz, ser considerado como um


dos mais afortunados de sua classe. Podia ser discutido com alguma
plausibilidade que as memórias são menos um dom do que uma doença e que
a expectativa, em sua única forma agradável e de fé absoluta, é quase
impossível; enquanto na forma de esperança e de variantes secundárias, como
a paciência, a impaciência, a determinação e a curiosidade são uma flutuação
contínua entre dor e prazer.

O Sargento Troy, que era completamente inocente na prática da


expectativa, nunca ficava decepcionado. Este ganho negativo poderia se opor
a certas perdas positivas devido à limitação de sabores e sensações que lhe
são conferidas. Mas o perdedor nunca reconhece uma perda como limitação
da capacidade. Neste sentido, a pobreza moral ou estética, talvez, contraste
com a material, porque quem sofre não se importa, enquanto aqueles que se
importam logo param de sofrer. Não é negar aquilo que nunca teve, e Troy
nunca apreciou o que não lhe fazia falta, mas, como estava plenamente
consciente de apreciar o que as pessoas não tinham, a sua capacidade, embora
muito inferior, parecia maior do que a dos outros.

Era razoavelmente justo para com os homens, mas com as mulheres,


mentia como um cretense: tinha um sistema ético acima de qualquer outro,
calculado para conquistar popularidade ao primeiro sinal de ser admitido para
a sociedade; e a possibilidade de que o ganho fosse um favor transitório só
afetava o futuro.

Nunca cruzou a linha que separa os vícios refinados dos vulgares que,
embora sua moral raramente fosse aplaudida, a censura de seus costumes era
normalmente atenuada com um sorriso. Este tratamento levou-o a tornar-se
uma espécie de quem reproduzia os galanteios de outros homens, mais para
seu próprio engrandecimento como um Corínto que pela vantagem moral de
seus ouvintes.

Raramente havia equilíbrio entre a razão e as inclinações dele, separadas


por mútuo acordo há um longo tempo. Às vezes acontecia que, enquanto suas
intenções eram tão honrosas quanto se desejasse, uma ação, em particular,
poderia encobri-las levando-as a uma boa reparação. As fases em que o
sargento se rendia ao vício eram por força do impulso, enquanto momentos
de virtude eram resultado de calma meditação. Esta, por ser uma tendência
modesta, era para ser ouvida mais frequentemente do que vista.

Troy fazia inúmeras atividades, mas por natureza ele era de menos
locomoção, mas vegetativa. Suas escolhas, por princípio ou direção, eram
exercidas em qualquer objeto que o acaso colocasse em seu caminho. Assim,
embora às vezes fosse um orador brilhante por sua espontaneidade, era bem
abaixo da média em suas ações por sua incapacidade para orientar o esforço
incipiente. Sua compreensão era rápida e sua força de caráter era notável,
mas, por incapacidade de reunir as duas qualidades, a compreensão se
comprometia nas trivialidades, enquanto aguardava pelo que a guiaria, e a
força se desperdiçava inutilmente pela compreensção despreocupada.

Teve uma educação bastante notável para um membro da classe média e


excepcional para um soldado. Falava fluentemente e sem parar. Assim, podia
ser uma coisa e passar por outra. Por exemplo, podia falar sobre o amor
pensando no jantar; estar impaciente para pagar, mas determinado a dever.

O poder surpreendente que um elogio tem sobre as mulheres, quando


praticado como um golpe na esgrima, é uma ideia tão universal que muitos
dizem, quase automaticamente, como repetem um provérbio ou dizem que
são cristãos e coisas assim, sem pensar muito sobre as enormes implicações
da declaração. E é claro que isso não faz bem a quem o recebeu. Para a
maioria, tal opinião é armazenada junto com os aforismos banais o que pode
causar uma catástrofe para que sua enorme importância chegue ao seu
destino. Quando formulado com determinada seriedade, parece coordenado
com a crença de que o elogio deve ser razoável para ser eficaz. Deve ser dito
em favor dos homens que poucos tentam resolver o assunto por
experimentação e, talvez, para a felicidade deles, este incidente nunca seja
resolvido. Apesar de tudo, um impostor que, astutamente, oprime as mulheres
com fantasias indefensáveis, querendo cativar poderes, pode chegar ao
extremo da perdição. Outros afirmam ter chegado a este conhecimento graças
à experimentação, como já mencionado, e à prática contínua com facilidade e
terríveis consequências. O Sargento Troy foi um deles. Ele sabia, pelo que
tinha observado acidentalmente que, ao lidar com o sexo feminino, a única
alternativa à lisonja era falar mal e praguejar. Havia um terceiro método.
“Trate-as bem e você estará perdido”, dizia ele.

A aparição pública desta pessoa em Weatherbury aconteceu


imediatamente após sua chegada ao local. Uma ou duas semanas depois da
tosa, Bathsheba, sentindo-se inexplicavelmente aliviada pela ausência de
Boldwood, aproximou-se de seus campos de feno e observou os agricultores
sobre a cerca. Formava um conjunto homogêneo de formas retorcidas e
flexíveis. Os primeiros eram os homens e os segundos, as mulheres, que
usavam chapéus curvados cobertos com tecido de algodão que caía como
uma cortina sobre os seus ombros. Coggan e Mark Clark estavam colhendo
num prado próximo; Clark estava cantarolando uma melodia com os barulhos
de sua foice, os quais Jan não fazia nenhum esforço para acompanhar. Já
estavam carregando o feno no primeiro campo, as mulheres os empilhavam e
amontoavam com os ancinhos e os homens os transportavam para a carroça.

Uma mancha escarlate brilhante surgiu por trás da carroça, trabalhando


casualmente com os outros. Era o sargento galante, que ajudava os
empregados por prazer; e ninguém podia negar que ele estava prestando um
verdadeiro trabalho de cavalheiro para a dona da fazenda com esta
contribuição voluntária num momento de trabalho duro.

Troy viu Bathsheba assim que ela chegou ao campo e, fincando seu
rastelo no chão e colhendo sua safra, aproximou-se dela. Bathsheba corou um
pouco irritada e constrangida, e focou seus olhos bem como seus passos na
direção de seu caminho.
CAPÍTULO XXVI
CENA À BEIRA DO CAMPO DE FENO

Ah, Miss Everdene!”, disse o sargento, tocando seu chapéu diminuto. Como
eu ia saber que era com você que eu estava falando na outra noite! Mas se
tivesse pensado, a ‘Rainha da Bolsa de Milho’ (verdade seja dita, ontem ouvi
que era assim que é conhecida em Casterbridge), a ‘Rainha da Bolsa de
Milho’. Não poderia ser outra. Agora quero pedir perdão mil vezes por ter
deixado meus sentimentos me levarem a expressar-me de forma tão
exagerada com uma estranha. Saiba que não sou um estranho aqui. Sou o
Sargento Troy, como lhe disse, e ajudei seu tio nestes campos em inúmeras
ocasiões quando era pequeno. Hoje estou fazendo o mesmo por você.”

“Creio que devo agradecer-lhe por isso, Sargento Troy”, disse a Rainha
da Bolsa de Milho, num tom agradecido, mas indiferente.

O sargento ficou magoado e triste.

“Na verdade, não, Miss Everdene”, observou ele. “Por que acharia que tal
coisa seria necessária?”

“Estou contente que não é.”

“Por quê? Posso lhe perguntar sem ofendê-la?”

“Porque não quero agradecê-lo por nada.”

“Receio que machuquei minha língua de uma maneira que meu coração
jamais curará. Ah, estes tempos intolerantes! Que o azar siga um homem por
dizer honestamente a uma mulher que ela é bonita! Foi só o que eu disse,
deve reconhecer, e o mínimo que posso dizer é que reconheço.”

“É um tipo de conversa que dispenso mais facilmente do que dinheiro.”

“De fato. Esta observação é um tipo de evasiva.”

“Não. Significa que preferiria seus aposentos à sua companhia.”

“E eu preferiria suas pragas aos beijos de qualquer outra mulher, por isso
ficarei aqui.”

Bathsheba estava absolutamente sem palavras. Ainda assim, não podia


evitar sentir que a ajuda que ele estava prestando impedia uma repulsa severa.

“Bem”, continuou Troy, “suponho que haja um prêmio na grosseria, e


que deve ser meu. Ao mesmo tempo, há um tratamento de injustiça, que deve
ser seu. Porque um homem simples e direto, que nunca aprendeu a se calar,
que fala o que pensa sem a intenção, deva ser expulso como o filho de um
pecador.”

“Realmente não há tal questão entre nós”, disse ela, virando-se. “Não
permito que estranhos sejam ousados e imprudentes, mesmo que seja para me
elogiar.”

“Ah, não é o fato, mas o método que a ofende”, disse ele


despreocupadamente. “Mas eu tenho a triste satisfação de saber que as
minhas palavras, sejam elas agradáveis ou ofensivas, são inequivocamente
verdadeiras. Eu poderia ter olhado para você e dito a meu conhecido que é
uma mulher muito comum para poupá-la do desconforto quando se
aproximam? Não posso. Não poderia dizer uma mentira tão ridícula sobre
uma beldade para incitar uma mulher na Inglaterra a ser excessivamente
modesta.”

“Tudo o que está dizendo é fingimento!”, exclamou Bathsheba, rindo dela


mesma pelo jeito astuto. “Tem uma invenção rara, Sargento Troy. Não
poderia ter passado por mim naquela noite e não dito nada? É tudo que
reprovo em você.”
“Parte do prazer de um sentimento está em poder expressá-lo no calor do
momento, e foi assim comigo. Seria exatamente o mesmo se você fosse o
contrário, feia e velha, eu as declararia da mesma forma.”

“Há quanto tempo está aflito com este forte sentimento, então?”

“Ah, desde que cresci o bastante para diferenciar a beleza da


deformidade.”

“Espero que este senso de diferença que fala não pare nos rostos, mas se
estenda à moral também.”

“Não falarei de moral ou religião, nem da minha nem de ninguém. No


entanto, talvez eu deva ser um cristão muito bom se uma linda mulher não me
tornar num idólatra.”

Bathsheba virou-se um pouco para esconder as irreprimíveis covinhas de


contentamento. Troy seguiu-a, rolando seu fardo.

“Então, Miss Everdene, me perdoa?”

“Dificilmente.”

“Por quê?”

“Você diz tantas coisas.”

“Disse que era bonita, e continuo dizendo, por D... é, sim! Se não for a
mais linda que já vi, que eu caia morto neste instante! Oh, meu...”

“Não, não! Não vou ouvi-lo, é tão profano!”, declarou ela, de um jeito tão
impaciente entre o incômodo de escutá-lo e o querer ouvir mais.

“Digo novamente que é uma mulher das mais fascinantes. Não existe
nada de extraordinário no que digo, existe? Tenho certeza que é evidente.
Miss Everdene, minha opinião pode ser muito exagerada para agradá-la e, de
fato, muito insignificante para convencê-la, mas é certamente honesta, então
por que não pode ser perdoada?”
“Porque... não é correta”, murmurou femininamente.

“Ah, que vergonha, que vergonha! Sou ainda pior por ter violado o
terceiro dos Dez Mandamentos do que você por violar o nono?”

“Bem, não me parece tão verdadeiro que eu seja fascinante”, respondeu


ela, evasivamente.

“Não para você. Então digo com todo respeito que, se é, é devido à sua
modéstia, Miss Everdene. Mas é certo que todos já devem ter lhe dito o que
todos percebem? E deve acreditar no que dizem.”

“Não é exatamente o que dizem.”

“Ah, sim, devem dizer!”

“Bem, estou falando do meu rosto, como você faz”, continuou ela,
permitindo-se cair numa conversa que a intenção fora rigorosamente
proibida.

“Mas sabem que eles acham isso?”

“Não, isto é, claro que já ouvi Liddy dizer que falam, mas...”, pausou ela.

Capitulação: esse era o significado dessa resposta simples, apesar de sua


cautela. Uma capitulação desconhecida dela mesma. Nunca uma frase tão
simples e frágil tinha passado um significado tão perfeito. O sargento sorriu
despreocupado para si mesmo, e talvez também o diabo tenha sorrido de um
buraco em Tofete,[22] porque o momento foi o ponto decisivo de uma
disparada. O tom e o rosto de Bathsheba mostraram inequivocamente que as
sementes destinadas a estabelecer os fundamentos estavam adequadamente
enraizadas: o resto era apenas uma questão de tempo e de mudanças naturais.

“É aí que a verdade aparece!”, respondeu o soldado. “Nunca me diga que


uma jovem pode viver com o tumulto da admiração sem saber algo sobre ele.
Muito bem, Miss Everdene, você é — perdoe o meu jeito direto — mais um
insulto à nossa raça do que o contrário.”
“Como? O quê?”, perguntou ela, arregalando os olhos.

“Ah, é bem verdade. Posso ser sacrificado como um carneiro ou uma


ovelha (um velho ditado do interior, que não tem muito a ver comigo, mas
que serve para um soldado), e então direi o que penso independente do seu
gosto e sem esperar ou pretender ganhar o seu perdão. Ora, Miss Everdene, a
sua beleza pode fazer mais mal do que bem para o mundo.” O sargento olhou
para o campo com a expressão enlevada e crítica. “Normalmente, um homem
comum se apaixona por uma mulher normal. Ela pode se casar com ele: ele
fica feliz e leva uma vida tranquila. Mulheres como você são cobiçadas por
uma centena de homens, seus olhos podem enfeitiçar dezenas e dezenas de
homens a se apaixonarem irremediavelmente por você, mas só pode se casar
com um. Digamos, então, que uns vinte deles enfrentarão a amargura do
amor na bebida; outros vinte viverão sem ilusão ou desejo de fazer qualquer
coisa no mundo, pois não têm outra ambição senão de acompanhá-la; outros
vinte, talvez, eu me inclua aqui, sempre rastejarão atrás de você, indo para
onde quer que seja somente para vê-la, fazendo coisas desesperadas. Os
homens são muito consistentes em sua estupidez! O resto pode tentar superar
sua paixão com maior ou menor sucesso. Mas todos esses homens serão
tristes. E não apenas aqueles noventa e nove homens, mas também as noventa
e nove mulheres que poderiam se casar viverão tristes por eles. Esta é a
minha história. Então eu digo que uma mulher tão linda como você, Miss
Everdene, não é uma bênção para sua raça.”

As expressões do lindo sargento estavam mais duras e severas durante sua


fala do que as de John Knox ao se dirigir a sua linda e jovem rainha.

Ao ver que ela não respondia, ele perguntou:

“Estudou Francês?”

“Não, tentei, mas quando cheguei nos verbos, meu pai morreu”, ela disse
simplesmente.

“Eu estudo, quando tenho uma oportunidade, que ultimamente não tem
sido frequente. Minha mãe era parisiense, e eles têm um provérbio: Qui aime
bien, châtie bien, que significa: Quem ama também castiga. Entendeu?”
“Ah!”, rebateu Bathsheba, com um leve tremor em sua voz normalmente
fria. “Se lutar tão triunfantemente como fala, pode fazer um ferimento de
baioneta se tornar um prazer!” Foi então que a pobre Bathsheba percebeu o
erro que havia cometido e, se apressando para desfazer o erro, foi de mal a
pior. “Mas não pense por isso que eu admirei o que me disse.”

“Eu sei... sei perfeitamente”, disse Troy, com a firme convição em seu
rosto, ficando mal-humorado. “Quando uma dúzia de homens está disposta a
falar com você com ternura, e professam a admiração que merece sem incluir
o aviso que precisa, é claro que a minha pobre e mal-feita mistura de louvor e
censura não pode proporcionar muito prazer. Embora seja bobo, não sou tão
vaidoso a ponto de supor alguma coisa!”

“Acho que é... convencido, no entanto”, comentou Bathsheba, olhando


com desconfiança para um carriço que estava puxando com uma mão,
sentindo-se tensa sob os procedimentos do soldado, não porque a natureza
das adulações dele não fosse percebida, mas porque seu vigor era opressivo.

“Isso nunca aconteceu antes com alguém... até mesmo comigo. No


entanto, é possível que tenha havido alguma presunção na minha estúpida
suposição naquela noite. Sei que o que disse com admiração pode ser uma
opinião que já forçaram muitas vezes para agradá-la, mas a verdade é que
pensei que sua natureza bondosa a impediria de julgar uma linguagem
descontrolada, que foi o que fez, e pensar mal de mim a ponto de me ferir
esta manhã quando eu estou trabalhando duro recolhendo feno para você.”

“Bem, não pense mais nisso. Talvez você não tivesse a intenção de ser
rude ao me dizer o que pensava. Na verdade, acredito que não teve”, disse
gravemente àquela mulher perspicaz, com a inocência dolorida. “E agradeço
a sua ajuda no campo. Mas... mas não fale comigo daquele jeito de novo, ou
de qualquer outro modo, a menos que eu me dirija a você.”

“Ah, Miss Bathsheba! É tão difícil!”

“Não, não é. Por que seria?”

“Nunca vai falar comigo porque não ficarei muito tempo aqui. Logo terei
que voltar para a miserável monotonia do quartel, e é possível que o nosso
regimento não demore muito para partir. E ainda por cima, você me priva do
único prazer que tenho nesta vida tão triste. Bem, talvez a generosidade não
possa ser a característica mais proeminente das mulheres.”

“Quando irá embora daqui?”, perguntou ela com algum interesse.

“Dentro de um mês.”

“Mas como lhe darei o prazer de falar comigo?”

“Como pergunta, Miss Everdene, porque já sabe, em que se baseia a


minha ofensa?”

“Se você se preocupa tanto com uma coisa tão insignificante, não me
importo em fazê-lo”, respondeu ela em dúvida. “Mas não se preocupa em
falar comigo? Foi só o que disse... acho que foi só isso.”

“Isso é injusto... mas não vou repetir o comentário. Fico muito grato por
essa demonstração de amizade a qualquer custo para reparar o tom. É muito
importante para mim, Miss Everdene. Pode pensar que um homem é tolo de
se contentar com uma simples palavra... com um simples ‘bom dia’. Talvez
ele esteja certo... Eu não sei. Mas você nunca foi um homem que admira uma
mulher, e essa mulher é você.”

“Bem.”

“Então não sabe nada de como esta experiência é, e Deus queira que
nunca saiba!”

“Bobagem, seu bajulador! Como é isso? Estou interessada em saber.”

“Em poucas palavras, é não conseguir pensar, ouvir ou olhar em qualquer


direção exceto uma sem infelicidade ou tortura.”

“Ah, sargento, não é possível... está fingindo!”, exclamou ela, balançando


a cabeça. “Suas palavras são muito intensas para serem verdadeiras.”

“Não estou, pela honra de um soldado.”


“Mas por que, então? Claro que estou perguntado apenas por diversão.”

“Porque você me distrai tanto, e eu sou tão disperso.”

“Parece mesmo.”

“E sou.”

“Mas você só me viu naquela noite!”

“Não faz diferença. A surpresa é instantânea. Eu a amei à primeira vista,


como amo agora.”

Bathsheba o observou com curiosidade dos pés à cabeça, até onde sua
visão alcançava, que não passava muito dos olhos dele.

“Não ama e não pode”, declarou ela modestamente. “Não existe um


sentimento tão repentino. Não vou ouvi-lo mais. Preste atenção, queria saber
que horas são... eu já vou... já perdi tempo demais aqui!”

O sargento olhou em seu relógio e a informou.

“Por que não tem um relógio, Miss?”

“Não no momento. Logo terei um novo.”

“Não. Você precisa ganhar um. Precisa, sim. Um presente, Miss


Everdene, um presente.”

E antes que ela compreendesse o que o rapaz pretendia, um pesado


relógio de ouro foi colocado em sua mão.

“É bom demais para que um homem como eu o tenha”, disse ele,


baixinho. “Este relógio tem uma história. Aperte a mola e abra-o.”

Assim ela o fez.

“O que vê?”
“Um penacho e uma inscrição.”

“Uma coroa de cinco pontas e abaixo: Cedit amor rebus —‘O amor se
rende às circunstâncias’. É o lema dos Condes de Severn. Este relógio
pertencia ao falecido lorde, e foi dado ao marido da minha mãe, que era
médico, para que o usasse até que eu fosse maior de idade, quando me foi
dado. É a única herança que recebi. Este relógio já marcou momentos de
interesses do Império: cerimônias magestosas, encontros amorosos, viagens
explêndidas e sonos aristocráticos. Agora é seu.”

“Mas Sargento Troy, não posso aceitá-lo... não posso!”, esclamava ela,
com os olhos arregalados de admiração. “Um relógio de ouro! O que está
fazendo? Não seja tão dissimulado!”

“Fique com ele, por favor, Miss Everdene, fique com ele!”, disse o jovem
de instinto brejeiro. “O fato de possuí-lo terá muito mais valor do que
comigo. Um modelo mais plebeu atenderá minhas necessidades do mesmo
jeito e o prazer de saber para o coração de quem o meu velho bate, bem... não
vou falar disso. Está em mãos muito mais valiosas do que já esteve antes.”

“Mas eu realmente não posso ficar com ele!”, insistiu ela, a ponto de
explodir de tanta irritação. “Oh, como pode fazer tal coisa se tudo que disse
for verdade! Dar-me o relógio tão valioso de seu falecido pai! Não deveria
ser tão indiferente, Sargento Troy!”

“Eu amava muito o meu pai, mas a amo ainda mais. É por isso que posso
fazê-lo”, disse o sargento, com um tom de fidelidade tão delicado que não
havia nenhum fingimento. A beleza dela, que esteve imóvel enquanto ele a
elogiava com gracejos, naquele momento tornou-o honesto com suas fases
animadas; e mesmo que a seriedade dele fosse menor do que ela tinha
imaginado, era provavelmente maior do que ele próprio havia pensado.

Bathsheba não cabia em si com tanto espanto e disse, com certo tom
suspeito e sentimental:

“Como pode ser? Como pode ser que realmente se interessou por mim,
tão repentinamente? Viu-me tão pouco, posso não ser tão... tão bonita quanto
lhe pareço. Por favor, pegue-o. Por favor! Não posso e não ficarei com ele.
Acredite, sua generosidade é grande demais. Nunca lhe fiz nenhuma
delicadeza, por que tem que ser tão bom comigo?”

Ele tinha uma resposta artificial nos lábios, mas a dominou outra vez e
olhou para ela apreensivamente. A verdade era, como ela estava — nervosa,
irritada e sincera como o dia — que a beleza encantadora dela merecia os
epítetos que lhe tinham dado e ele agora estava muito surpreendido por sua
ousadia que outrora formulara de um jeito falso. Apenas disse
mecanicamente:

“Ora, por quê?”, e continuou a fitá-la.

“E meus empregados estão me vendo andando com você pelo campo e


imaginando coisas. Oh, isso é horrível!”, continuou ela, inconsciente da
transmutação que estava causando.

“No começo eu não tinha nenhuma intenção verdadeira de que o


aceitasse, porque é a minha única patente humilde de nobreza”, declarou ele
com simplicidade, “mas juro pela minha alma que agora quero. Sem qualquer
vergonha, por favor! Não me negue a felicidade de usá-lo por mim! Embora
seja linda demais para se preocupar em ser tão amável com os outros.”

“Não, não! Não diga isso! Tenho motivos para reservas que não posso
explicar.”

“Deixe estar, então, deixe estar”, disse ele, recebendo finalmente o


relógio de volta. “Devo ir agora. Conversará comigo por estas poucas
semanas que estarei aqui?”

“Claro que sim. Bem, não sei se vou! Oh, por que você apareceu para me
perturbar tanto?”

“Talvez eu tenha caído em minha própria armadilha. Tais coisas


acontecem. Bem, deixará que eu trabalhe em suas terras?”

“Sim, creio que sim, se lhe trouxer algum prazer.”

“Miss Everdene, muito obrigado.”


“Não, não.”

“Adeus.”

O sargento levou sua mão ao chapéu que lhe caía de lado na cabeça,
saudou-a e voltou para o grupo distante de trabalhadores.

Bathsheba não conseguiu encarar os empregados. Seu coração batia


acelerado de um lado para o outro de emoção e perplexidade; quente, quase
choroso, ao voltar para casa murmurando: “Oh, o que foi que fiz? O que isso
quer dizer? Gostaria de saber o quanto disso tudo é verdade!”
CAPÍTULO XXVII
REUNINDO AS ABELHAS

As abelhas tardaram a fazer sua aparição em Weatherbury naquele ano. Já


era fim de junho e no dia seguinte à sua conversa com Troy no campo de
feno, Bathsheba estava em seu jardim, observando um enxame pairando no ar
e tentando adivinhar onde se instalariam. Neste ano, não era somente tarde,
mas elas também se comportavam de forma estranha. Às vezes, ao longo de
uma temporada, os enxames pousavam nos galhos mais baixos, num arbusto
de groselhas ou na espaldeira de uma macieira; no ano seguinte, com a
mesma unanimidade, seguiam direto para os ramos mais altos de outras
variedades de maçãs mais delgadas, desafiando os invasores que não fossem
lá armados com escadas e varas para pegá-las.

Foi o que aconteceu naquele momento. Os olhos de Bathsheba,


protegidos por sua mão, seguiam o enxame subir ao azul inexplorável até que
finalmente parou numa das árvores mencionadas. Observava-se um processo
análogo ao que se dizia que aconteceu durante a formação do universo em
tempos passados. O enxame movimentado havia coberto o céu, como uma
nebulosa dispersa e uniforme mancha, que agora estava concentrada num
ponto: deslizou para um ramo e tornou-se ainda mais densa, formando uma
malha preta sólida sobre a luz.

Homens e mulheres ainda estavam ocupados com o feno. Até Liddy havia
saído de casa para ajudar, e Bathsheba decidiu reunir as abelhas sozinha, se
possível. Cobriu a caixa com ervas e mel, pegou uma escada, uma vassoura e
um cajado e armou-se com luvas de couro, um chapéu de palha e um longo
véu de gaze, outrora verde e agora desbotado com uma cor indefinida, e subiu
doze degraus. De repente, a menos de dez jardas, ouviu uma voz que
começava a ter o estranho poder de perturbá-la.
“Miss Everdene, deixe-me ajudá-la. Não deveria tentar fazer tal coisa
sozinha.”

Troy acabava de abrir o portão do jardim.

Bathsheba soltou a vassoura, o cajado e a caixa vazia, prendeu a saia de


seu vestido em volta dos tornozelos com nervosismo e desceu as escadas da
melhor forma possível. Quando chegou ao chão, Troy já estava lá,
esforçando-se para pegar a caixa.

“Que sorte eu tive de aparecer bem neste momento!”, exclamou o


sargento.

Ela recuperou sua voz rapidamente.

“O quê? E vai colocá-las na caixa para mim?”, perguntou ela, que sempre
era desafiadora, de um jeito inseguro; embora, para uma moça tímida, aquilo
parecesse muito corajoso.

“Sim!”, respondeu Troy. “Claro que sim. Como está radiante hoje!” Troy
soltou rapidamente seu bastão e começou a subir a escada.

“Mas você precisa do véu e das luvas ou será terrivelmente picado!”

“Ah, sim. Devo colocar o véu e as luvas. Poderia, por favor, me mostrar
como ajustá-las apropriadamente?”

“E também deve usar o chapéu de aba larga, pois seu quepe não tem aba
para prender o véu, e elas chegarão ao seu rosto.”

“O chapéu de aba larga também, com toda certeza.”

Um destino caprichoso quis que o chapéu dela fosse tirado, juntamente


com o véu, e colocado na cabeça dele. Troy jogou seu quepe num arbusto de
groselha; então prendeu o véu na extremidade inferior do colarinho e colocou
as luvas.

A aparência dele era tão extraordinária que, mesmo nervosa, ela não
poderia deixar de rir. Era a remoção de mais uma estaca da fria barreira que o
mantinha afastado.

Bathsheba observava-o de baixo para cima enquanto ele se ocupava de


varrer e agitar as abelhas da árvore, segurando a colmeia com a outra mão
para que elas entrassem. Aproveitou-se de um minuto em que a atenção dele
estava absorvida na operação realizada para se arrumar um pouco. O sargento
desceu com um braço estendido segurando a colmeia seguida por uma nuvem
de abelhas.

“Dou minha palavra”, disse Troy através do véu, “que segurar esta caixa
deixa o braço mais dolorido que uma semana de exercícios com a espada.”
Concluída a manobra, aproximou-se dela. “Teria a bondade de me soltar e me
tirar daqui? Eu estou sufocando nessa jaula de seda.”

Para esconder seu embaraço durante o processo incomum de desamarrar


o cordão no pescoço dele, Bathsheba comentou:

“Nunca ouvi falar sobre isso.”

“O quê?”

“Exercícios com a espada.”

“Ah, quer que eu lhe mostre?”, perguntou Troy.

Bathsheba hesitou. Tinha ouvido ocasionalmente histórias surpreendentes


de moradores de Weatherbury que por acaso passaram algum tempo em
Casterbridge, perto do quartel, sobre esta estranha e gloriosa façanha dos
exercícios com espadas. Homens e crianças que espreitavam através das
rachaduras nas paredes ou por cima dos muros do pátio do quartel voltavam
dizendo que era a coisa mais impressionante que se poderia conceber;
adornos e armas que brilhavam como estrelas aqui, ali e acolá, tudo em
conformidade com as regras. Então ela disse calmamente o que sentia
intensamente:

“Sim, gostaria muito de ver.”

“Então assim será. Me verá fazer isso.”


“Não! Como?”

“Deixe-me pensar.”

“Não com uma bengala. Não quero ver com isso. Deve ser com uma
espada verdadeira.”

“Sim, eu sei, mas não tenho uma agora. Acho que posso conseguir uma à
noite.

“Então, fará isso?”

Troy inclinou-se para ela e murmurou uma sugestão.

“Oh, não, de jeito nenhum!”, respondeu ela, corando. “Muito obrigada,


mas não poderia de maneira nenhuma.”

“Claro que pode. Nunguém saberia.”

Ela balançou a cabeça, mas numa fraca negativa.

“Seu eu for, levarei Liddy comigo. Não posso?”

Troy olhou ao longe.

“Não entendo porque quer levá-la”, disse friamente.

Um olhar inconsciente favorável de Bathsheba a traiu, algo mais do que


sua frieza também a fez achar que a presença de Liddy no plano sugerido
seria supérfluo. Tivera esta sensação e mesmo assim fez a proposta.

“Bem, irei e não levarei Liddy. Mas ficarei por pouco tempo”, continuou
ela, “pouquíssimo tempo.”

“Não levará cinco minutos”, concluiu Troy.


CAPÍTULO XXVIII
O AMBIENTE ENTRE AS SAMAMBAIAS

A colina em frente da casa de Bathsheba estendia-se por uma milha numa


faixa de terra não cultivada, pontilhada nesta época por moitas altas de
samambaias, carnudas e translúcidas devido ao seu crescimento rápido e
recente, brilhando com tons de verde claros e puros.

Às oito horas daquela noite de verão, enquanto o globo dourado e


brilhante ainda varria os topos das samambaias, a oeste, com raios longos e
exuberantes, um farfalhar de pano macio foi ouvido e Bathsheba apareceu
entre elas. Seus braços emplumados acariciavam os ombros dela. Parou,
virou-se e caminhou de volta até a colina e no meio do caminho para sua
casa, de onde lançou um olhar de despedida para o local que acabara de sair
depois de finalmente decidir que não ficaria mais ali.

Viu um ponto vermelho diminuto e artificial dando a volta numa elevação


e desaparecer do outro lado.

Esperou um minuto... dois minutos... Pensou na decepção de Troy por


não ter cumprido com o compromisso até que correu pelo campo novamente,
desceu a encosta e continuou na direção original. Tremia e arfava literalmente
temendo que fosse uma tarefa enganosa. Respirava rapidamente e o brilho em
seus olhos era hesitante. Ainda assim, ela tinha que ir. Chegou à beira de uma
cova no meio das samambaias. Troy estava lá, olhando para ela.

“Ouvi pelo farfalhar das samambaias que era você antes que a visse”,
comentou ele, aproximando-se e dando-lhe a mão para ajudá-la ladeira
abaixo.
A cova tinha uma forma côncava e era natural, com cerca de trinta pés de
diâmetro na superfície e rasa o bastante de modo que permitia que o sol
tocasse sobre as cabeças de ambos. No seu centro, o céu nas alturas fundia-se
num horizonte circular de samambaias que quase atingiam o fundo da
depressão e então era interrompido abruptamente. O centro desta faixa verde
era coberto de uma camada de musgo grosso e esponjoso intercalado com
grama, tão macio que os pés quase afundavam nele.

“Agora”, começou Troy puxando a espada, que brilhou num gesto de


saudação como algo vivo ao ser erguida sob o sol, “primeiro temos quatro
golpes à direita e quatro à esquerda; quatro ataques à direita e quatro à
esquerda. Na infantaria, os ataques e as defesas são mais interessantes do que
a nossa, mas na minha opinião não são tão barulhentos. Eles têm sete golpes
e três ataques. Isto foi a preliminar. Bem, a seguir, nosso primeiro golpe é
como se estivesse plantando milho... assim.” Bathsheba viu uma espécie de
arco-íris invertido no ar, e o braço de Troy imóvel novamente. “O segundo é
como se estivesse se protegendo... assim mesmo. O terceiro, como se
estivesse colhendo... assim. O quarto como se debulhasse... deste jeito. O
mesmo à esquerda. Estes são os ataques: um, dois, três, quatro, direita; um,
dois, três, quatro, esquerda”, Repetiu ele. “Quer vê-los outra vez? Um
dois…”

“Prefiro que não, apesar de que não me lembro do segundo e do quarto,


mas seu primeiro e terceiro são terríveis!”, interrompeu ela, abruptamente.

“Muito bem, não faremos o primeiro e o terceiro. A seguir, vêm os


ataques e as defesas juntos.” Troy mostrou-os pontualmente. “Depois, vem a
prática, desta maneira.” Demonstrou os movimentos como anteriormente.
“Assim, são formas estereotipadas. A infantaria tem dois golpes diabólicos e
somos muito humanos para usá-los. Como este... três, quatro.”

“Que mortífero e cruel!”

"Eles são muito mortais. Agora serei mais interessante, e a deixarei ver
uma partida livre, dando todos os golpes e pontos, da infantaria e da
cavalaria, mais rápido que um relâmpago, e tão promiscuamente... com a
regra apenas o suficiente para regular o instinto e ainda assim não travá-lo.
Você é minha antagonista, com a diferença de guerra real, que vou sentir sua
falta por um fio de cabelo ou talvez dois. Não se hesite, seja o que fizermos."

“Certamente que não!”, disse ela, invencivelmente.

Ele apontou para aproximadamente uma jarda à sua frente.

O espírito aventureiro de Bathsheba estava começando a encontrar certo


prazer nestas atividades incrivelmente novas. Assumiu sua posição como lhe
fora indicada, de frente para Troy.

“Agora, só para saber se tem coragem o suficiente para me deixar fazer o


que eu quiser, lhe aplicarei um teste preliminar.”

Ele floreou a espada como forma da segunda introdução e a próxima


coisa da qual ela estava consciente era que a ponta e a lâmina da espada
foram lançandas com um brilho no seu lado esquerdo, logo acima seu
quadril; depois de sua reaparição do seu lado direito, como se surgisse do
meio de suas costelas, aparentando ter transpassado seu corpo. O terceiro
item de consciência era o de ver a mesma espada perfeitamente limpa e livre
de sangue verticalmente na mão de Troy (na posição tecnicamente chamada
de “recuperar espadas”). Tudo foi tão rápido quanto um raio.

“Oh!”, gritou ela aterrorizada, pressionando a mão sobre seu lado. “Você
me atravessou? Não, não o fez! O que quer que tenha feito!”

“Eu nem a toquei”, disse Troy calmamente. “Foi mero truque das mãos.
A espada passou por trás de você. Agora não está com medo, está? Porque se
estiver, não posso atuar. Dou minha palavra de que não só não a machucarei,
mas também nem a tocarei.”

“Não acho que estou com medo. Tem mesmo certeza que não me
machucará?”

“Plena certeza.”

“A espada é muito afiada?”

“Oh, não... apenas fique parada como uma estátua. Agora!”


Num instante, a atmosfera se transformou aos olhos de Bathsheba. Feixes
de luz capturados dos raios baixos do sol, acima, ao redor, em frente a ela,
quase presa entre a terra e o céu, tudo emitido nas evoluções maravilhosas da
lâmina reluzente de Troy, que parecia estar em todos os lugares ao mesmo
tempo e ainda assim, em nenhum lugar em especial. Estes brilhos circulares
vinham acompanhados por velocidade sutil, quase um assobio... surgindo
também de todos os lados ao mesmo tempo. Em suma, ela estava cercada
num firmamento de luz e de assobios agudos, assemelhando-se um céu cheio
de meteoros ao alcance da mão.

Nunca, desde que a espada de lâmina larga se tornou a arma nacional,


houve mais destreza mostrada em seu manuseio do que pelas mãos do
Sargento Troy, nem com calma tão esplêndida numa apresentação como
aquela sob a luz do sol do fim do dia entre as samambaias com Bathsheba.
Pode ser seguramente afirmado com relação à proximidade de seus golpes,
que se tivesse sido possível para o fio da espada deixar no ar uma substância
permanente onde quer que tivesse passado voando, o espaço intocado teria
sido quase um molde da silhueta de Bathsheba.

Por trás dos feixes luminosos desta aurora militaris, ela podia ver a cor
do braço de Troy espalhada numa névoa escarlate sobre o espaço coberto por
seus movimentos, como o som metálico da corda de uma harpa, e por trás do
próprio Troy, de frente para ela quase o tempo todo. Às vezes, para mostrar
os golpes traseiros, virou-se parcialmente; seu olhar, no entanto, sempre
medindo profundamente sua amplitude e contornos e seus lábios bem
fechados sustentando o esforço. Em seguida, seus movimentos tornaram-se
mais lentos e ela podia vê-los individualmente. O assobio da espada havia
cessado e ele parou completamente.

“Esse cacho solto de cabelo precisa ser arrumado”, disse ele, antes que ela
se mexesse ou falasse. “Espere, vou fazer isso para você.”

Um arco prateado brilhou do lado direito dela: a espada havia descido. O


cacho caiu no chão.

“Aguentou bravamente!”, elogiou Troy. “Não vacilou nem pela espessura


de uma sombra. Maravilhoso para uma mulher!”
“Foi porque eu não esperava por isso. Oh, você estragou o meu cabelo!”

“Só mais uma vez.”

“Não, não! Estou com medo de você... muito!”, gritou ela.

“Nem tocarei em você, nem mesmo no seu cabelo. Vou apenas matar
aquela lagarta que está em você. Quieta!”

Parecia que uma lagarta que vinha da samambaia escolhera à frente do


corpete dela para descansar. Ela viu a ponta reluzir contra seu peito e
aparentemente perfurá-lo. Bathsheba fechou os olhos completamente
convencida de que fora finalmente morta. Entretanto, sentindo exatamente
como sempre, abriu-os de novo.

“Aqui está, veja”, disse o sargento, segurando a espada diante dos olhos
dela.

A lagarta estava espetada na ponta.

“Oh, é mágico!”, exclamou Bathsheba, admirada.

“Ah, não! É destreza. Eu simplesmente apontei para o seu peito onde a


lagarta estava e, em vez de atravessá-la, calculei a extensão de um milésimo
de polegada mais curto de sua superfície.”

“Mas como pôde cortar um cacho do meu cabelo com uma espada que
não tem fio?”

“Não tem fio? Esta espada corta com uma navalha. Olhe.”

Tocou a palma de sua mão com a lâmina e então, ao erguê-la, mostrou a


ela um corte finíssimo na pele.

“Mas você disse antes de começar que não tinha corte e que não poderia
me cortar!”

“Foi só para mantê-la parada e me certificar da sua segurança. O risco de


feri-la se você se mexesse era grande demais para não me obrigar a lhe dizer
uma mentira para evitá-lo.”

Ela estremeceu.

“Minha vida esteve por um fio e eu não sabia!”

“Mais precisamente falando, esteve a meia polegada de ser cortada viva


duzentas e noventa e cinco vezes.”

“Cruel, cruel, é isso que você é!”

“No entanto, você está perfeitamente sã. Minha espada nunca falha.” E
Troy guardou a arma na bainha.

Bathsheba, dominada por centenas de sentimentos turbulentos resultantes


da cena, sentou-se numa moita de urze distraidamente.

“Preciso deixá-la agora”, disse Troy calmamente. “E ousarei levar e


guardar esta lembrança sua.”

Ela o viu se inclinar na grama, pegar o cacho do cabelo que havia


separado de suas múltiplas tranças, enrolá-lo nos dedos, soltar um botão no
peito do casaco e colocá-lo cuidadosamente ali dentro. Sentia-se impotente
para resistir ou negar-lhe. Ele era demais para ela e Bathsheba parecia alguém
que, diante de um vento revigorante, acha seu sopro tão forte que perde o
fôlego. Ele se aproximou e disse:

“Preciso ir.”

Chegou ainda mais perto. Um minuto depois e ela viu sua forma escarlate
desaparecer em meio às samambaias quase que num piscar de olhos, como
uma espada rapidamente agitada.

Aquele intervalo de minuto trouxe o sangue para seu rosto, deixou-a num
ardor como se seus pés estivessem em chamas e aumentou a emoção num
compasso que inundou completamente seus pensamentos. O resultado sobre
ela foi impactante, assim como a Moisés num riacho no Monte Horebe; aqui,
um riacho de lágrimas. Sentia-se como quem cometeu um grande pecado.
A circunstância havia sido o mergulho suave da boca de Troy na dela. Ele
a tinha beijado.
CAPÍTULO XXIX
DETALHES DE UM PASSEIO AO
ESCURECER

Vemos agora o elemento de loucura claramente misturando-se com os


muitos elementos diferentes que compunham o caráter de Bathsheba
Everdene. Era quase estranho à sua natureza intrínseca. Introduzido como
uma linfa no dardo de Eros, que, eventualmente, permeava e coloria toda a
sua constituição. Bathsheba, embora tivesse muito conhecimento para ser
inteiramente governada por sua feminilidade, tinha muita feminilidade para
tirar melhor proveito de seu conhecimento. Talvez em nenhuma situação uma
mulher surpreenda sua companheira mais do que no estranho poder que
possui de lisonjear acreditando que sabe ser falsa, exceto, de fato, em ser
absolutamente cética sobre as restrições que sabe que são verdadeiras.

Bathsheba amou Troy da maneira que somente as mulheres


autoconfiantes amam quando abandonam sua autoconfiança. Quando uma
mulher forte de forma imprudente joga fora sua força é pior do que uma
mulher fraca que nunca teve qualquer força para jogar fora. Uma fonte de sua
inadequação é a novidade da ocasião. Ela nunca teve a prática em fazer o
melhor de tal condição. A fraqueza é duplamente fraca por ser nova.

Bathsheba não tinha consciência do engano neste assunto. Embora, em


certo sentido, uma mulher do mundo era, afinal de contas, aquele mundo de
círculos de luz do dia e tapetes verdes, por onde o gado passa e os ventos
assoviam; onde uma família tranquila de coelhos ou lebres vive do outro lado
da sua parede, onde o seu vizinho é alguém da mesma paróquia, e quando os
cálculos são reservados para os dias da semana. Da elegância fabricada pela
fina sociedade da moda ela pouco sabia, e da indulgência formulada pelo
mal, absolutamente nada. Se seus pensamentos extremos nesse sentido eram
claramente formulados (e nunca por ela mesma), eles apenas se acumulavam
conforme ela sentisse seus impulsos para serem guias agradáveis da sua
discrição. Seu amor era como o de uma criança, e, embora quente como o
verão, era fresco como a primavera. Sua culpabilidade estava em não fazer
nenhuma tentativa para controlar a sensação, de não perguntar sutilmentel e
cuidadosamente sobre as consequências. Ela podia mostrar o caminho
íngreme e espinhoso aos outros, mas não quando era com ela mesma.

E os defeitos de Troy ficavam completamente distantes da visão de uma


mulher, enquanto seus encantos estavam bem na superfície, contrastando
assim com o humilde Oak, cujos defeitos eram evidentes a um cego e cujas
virtudes eram como metais numa mina.

A diferença entre o amor e o respeito era mostrada evidentemente na


conduta dela. Bathsheba havia falado de seu interesse por Boldwood com a
maior liberdade para Liddy, mas só tinha comunicado a respeito de Troy ao
seu próprio coração.

Gabriel via toda esta paixão cega e se preocupava do momento de sua


jornada diária num campo até o seu retorno, e nas poucas horas das muitas
noites. Não ser amado fora até então sua grande tristeza; Bathsheba estar se
metendo numa armadilha agora era uma tristeza maior do que a primeira e
que quase o confundia. Era um resultado semelhante à observação muito
citada de Hipócrates relativa a dores físicas.

É um amor nobre, embora talvez não promissor, que nem mesmo o medo
da aversão no peito da pessoa amada pode impedir a luta contra os seus erros.
Oak estava determinado a falar com sua patroa. Seu recurso se basearia no
que ele considerava o tratamento injusto com o fazendeiro Boldwood, agora
ausente de casa.

Houve uma oportunidade numa noite, quando ela havia saído para uma
curta caminhada por uma estrada entre os campos de milho vizinhos. Já
estava anoitecendo quando Oak, que não passou muito tempo no campo
naquele dia, tomou o mesmo caminho e a encontrou retornando muito
pensativa, como ele imaginava.
O trigo agora estava alto e a estrada era estreita; assim, o caminho era um
sulco entre as moitas curvadas nos dois lados. Duas pessoas não podiam
caminhar lado a lado sem danificar a safra e Oak ficou de lado para deixá-la
passar.

“Oh, é você, Gabriel?”, disse ela. “Também saiu para caminhar? Boa
noite.”

“Pensei em vir encontrá-la, porque já é bem tarde”, comentou Oak,


virando-se e seguindo nos calcanhares dela, que passou por ele
apressadamente.

“Muito obrigada, mas não estou com medo.”

“Ah, não, mas há maus elementos por aí.”

“Nunca os encontrei.”

Oak, com admirável ingenuidade, apresentaria o sargento galante como


“mau elemento”. Mas, de repente, o plano falhou, quando ocorreu-lhe que se
tratava de uma maneira desajeitada e muito descarada para começar. Tentou
outro preâmbulo.

“E como o homem que naturalmente viria para encontrá-la estar longe de


casa — me refiro ao fazendeiro Boldwood — por isso achei que devia vir”,
disse ele.

“Ah, sim.”

Ela andava sem virar a cabeça, e por muitos passos nada mais foi ouvido
dela além do farfalhar de seu vestido contra as pesadas espigas de milho. Em
seguida, ela recomeçou rudemente:

“Não entendi muito bem o que quis dizer sobre Mr. Boldwood vir
naturalmente me encontrar.”

“Foi por causa do casamento que dizem que é provável que ocorra entre
você e ele, Miss. Perdoe a minha fala tão franca.”
“O que dizem não é verdade”, respondeu ela rapidamente. “Não existe
nenhum casamento provável entre nós.”

Gabriel então expôs sua opinião, pois o momento havia chegado.

“Bem, Miss Everdene”, disse ele, “deixando de lado o que as pessoas


dizem, nunca vi nenhum cortejo na minha vida se ele não a está cortejando.”

Bathsheba provavelmente teria terminado a conversa ali e, em seguida,


proibido categoricamente o assunto, se a consciência da fraqueza de sua
posição não a seduzisse para fingir e argumentar em esforços para melhorá-
la.

“Já que este assunto foi mencionado”, disse ela enfaticamente, “fico
contente com a oportunidade de esclarecer um erro que é muito comum e
muito estimulante. Definitivamente não prometi nada a Mr. Boldwood.
Nunca senti nada por ele. Eu o respeito, ele me pediu em casamento, mas não
lhe dei resposta alguma. Assim que ele retornar, vou fazê-lo, e a resposta será
que eu não consigo pensar em me casar com ele.”

“Aparentemente, as pessoas cometem muitos erros.”

“Muitos.”

“Outro dia, disseram que estava brincando com ele, e você quase provou
que não estava. Depois disseram que não, e você imediatamente começou a
mostrar que...”

“Que estou, se é o que quer dizer.”

“Bem, espero que estejam falando a verdade.”

“Estão, mas se enganam. Não brinco com ele, assim, não tenho nada com
ele.”

Oak foi levado, infelizmente, a mencionar o rival de Boldwood num tom


completamente equivocado para ela.

“Gostaria que nunca tivesse conhecido o Sargento Troy, Miss”, suspirou


ele.

Os passos de Bathsheba ficaram irregulares.

“Por quê?”, perguntou ela.

“Ele não está a sua altura.”

“Alguém lhe disse para falar assim comigo?”

“Não, ninguém.”

“Então parece que o Sargento Troy não nos diz respeito aqui”, disparou
ela, obstinadamente. “Mas devo lhe dizer que o Sargento Troy é um homem
educado e respeitável para qualquer mulher. É de boa família.”

“Ter educação e uma família melhores do que tantos outros soldados não
prova que ele seja respeitável. Mostra que pode ser inferior.”

“Não consigo entender o que isso tem a ver com nossa conversa. Mr.
Troy não é inferior em absolutamente nada e a superioridade dele é uma
prova de respeito!”

“Acredito que ele não tenha consciência disso. E insisto, Miss, que não
tem nada a ver com ele. Ouça-me uma vez — somente desta vez! Não estou
dizendo que ele seja um homem tão mau como imaginei — rogo a Deus que
não seja. Mas desde que não sabemos exatamente o que ele é, por que não
considerar que ele possa ser mau, simplesmente para sua própria segurança?
Não confie nele, patroa; peço-lhe para não confiar tanto nele.”

“Diga-me, por quê?”

“Gosto de soldados, mas não gosto dele”, disse ele, resistente. “Sua
competência pode tentá-lo a se perder e o que é alegria para os vizinhos é a
ruína para uma mulher. Quando ele tentar falar com você outra vez, por que
não se afastar com um curto ‘bom dia’; e quando o vir vindo por um
caminho, pegue outro. Quando ele disser algo engraçado, faça que não
entendeu e não sorria e não fale dele para aqueles que relatarão sua conversa
como ‘esse homem fantástico’ ou ‘aquele sargento... Qual é o nome dele?’
‘Aquele homem de uma família que se misturou com seus vizinhos.’ Não seja
grosseira com ele, mas seca, e assim se livre desse homem.”

Um pássaro detido por uma vidraça nunca tremeria mais do que


Bathsheba naquele momento.

“Digo e repito que não deve falar dele. Falar dele é muita ousadia!”,
exclamou ela desesperadamente. “Sei disso, que... ele é um homem
completamente consciencioso, às vezes um pouco rude, mas que sempre fala
o que pensa abertamente!”

“Oh!”

“Ele é tão bom quanto qualquer um nesta paróquia! É muito preocupado


em ir à igreja também, muito!”

“Receio que ninguém o tenha visto por lá. Eu mesmo nunca vi.”

“O motivo”, esbravejou ela, “é que ele vai secretamente pela velha porta
da torre, logo que a missa começa, e se senta no fundo da galeria. Ele mesmo
me contou.”

Este exemplo supremo da bondade de Troy caiu nos ouvidos de Gabriel


como a décima-terceira badalada de um relógio louco. Ele não só o recebera
com incredulidade absoluta como o considerou, mas jogou uma dúvida sobre
todas as garantias de que o precederam.

Oak ficou aflito ao descobrir como ela confiava cegamente nele. Um


profundo sentimento tomou conta dele enquanto respondeu com voz firme, a
firmeza que foi estragada pela palpabilidade de seu grande esforço para
mantê-la assim:

“A senhora sabe que eu a amo e sempre amarei. Só mencionei isso para


lembrá-la que nunca lhe faria nenhum mal: no mais, deixo isso de lado. Perdi
na busca por dinheiro, coisas boas, e não sou tão tolo para cortejá-la agora
que sou pobre e você está acima de mim. Mas Bathsheba, cara senhora, isso
eu peço que considere: se quer tanto manter sua honra entre os empregados, e
em simples generosidade com um homem honrado que a ama assim como eu,
deve ser mais discreta em seu comportamento em relação a esse soldado.”

“Não, não, não!”, exclamou ela com a voz sufocada.

“Você é tudo que há de mais importante para mim, até mais que a minha
vida!”, continuou ele. “Vamos, ouça-me! Sou seis anos mais velho do que
você e Mr. Boldwood é dez anos mais velho do que eu, então considere... Eu
imploro que considere antes que seja tarde demais, o quanto estaria segura
nas mãos dele!”

A alusão de Oak a seu próprio amor por ela diminuiu, em certa medida, a
raiva dela com a interferência dele, mas ela realmente não poderia perdoá-lo
por ter deixado que seu desejo de casar-se com ela ser encoberto pelo desejo
de fazer-lhe o bem mais do que pelo menosprezo dele por Troy.

“Quero que vá para qualquer outro lugar”, ordenou ela, com a palidez do
rosto invisível ao olhar sugerida pelas palavras trêmulas. “Não fique mais
nesta fazenda. Não o quero aqui. Peço-lhe, vá embora!”

“Isso é um absurdo”, disse Oak calmamente. “Esta é a segunda vez que


finge me demitir. Por que faz isso?”

“Fingir! Vá embora, senhor. Não vou ouvir seus sermões! Sou a dona
aqui.”

“Ir embora. Que outra loucura dirá a seguir? Trata-me como Dick, Tom e
Harry quando sabe que há pouco tempo a minha posição era tão boa quanta a
sua! Pela minha vida, Bathsheba, é muita audácia. Sabe também que não
posso ir sem deixar as coisas em risco. A menos que, na verdade, prometa ter
um administrador, um capataz ou coisa assim. Irei imediatamente se prometer
que o fará.”

“Não terei nenhum administrador. Continuarei administrando sozinha”,


disse ela decididamente.

“Muito bem, então. Agradeça-me por ficar. Como a fazenda continuaria


sem ninguém para se preocupar se não por uma mulher? Mas pense nisso,
não quero que sinta que me deve alguma coisa. Não a mim. Faço o que tenho
que fazer. Às vezes acho que seria tão feliz como um pássaro deixando esse
lugar. Não pense que estou contente em ser um ninguém. Fui feito para coisas
melhores. No entanto, não gosto de ver as suas preocupações indo à ruína,
como acontecerá se continuar com essas ideias... Odeio tomar minhas
próprias medidas tão simples, mas, por Deus, seu jeito provocante faz um
homem dizer o que ele não sonharia em outras vezes! Eu tenho que interferir.
Mas sei muito bem como é, e a quem é que quero tão bem, para sentir-me
como um tolo a ponto de ser civilizado com ela!”

É mais do que provável que ela secreta e inconscientemente respeitava-o


um pouco para esta fidelidade desagradável que fora mostrada em seu tom
ainda mais do que em suas palavras. De qualquer forma, ela murmurou algo
no sentido de que ele podia ficar se quisesse. Disse mais distintamente:

“Vai me deixar em paz agora? Não peço como sua patroa. Peço como
uma mulher e espero que não seja tão descortês para recusar.”

“Certamente que sim, Miss Everdene”, assentiu Gabriel, suavemente.


Pensava que o pedido deveria ter vindo neste momento, em que a discussão
havia terminado e eles estavam numa colina distante de tudo, longe de
qualquer habitação humana e estava ficando tarde. Ficou parado e permitiu
que se afastasse dele até que pudesse ver somente sua silhueta contra o céu.

Uma explicação angustiante para se livrar dele nesse ponto agora se


seguiu. Uma figura aparentemente subiu da terra ao lado dela. A silhueta sem
qualquer dúvida era de Troy. Oak não conseguiria ouvir e logo se virou até
que umas boas duzentas jardas estavam entre os amantes e ele mesmo.

Gabriel foi para casa pelo pátio da igreja. Ao passar pela torre, pensou no
que ela havia dito sobre o hábito virtuoso do sargento de entrar na igreja
despercebido no início da missa. Acreditando que a pequena porta da galeria
mencionada estivesse em desuso, subiu pela escadaria externa até o topo e
examinou-a. O brilho pálido ainda presente no céu a noroeste foi o suficiente
para mostrar que um ramo de hera havia subido pela parede do outro lado da
porta por mais de um pé de comprimento, delicadamente amarrando o painel
à ombreira de pedra. Era uma prova conclusiva de que a porta não era aberta
pelo menos desde que Troy voltara a Weatherbury.
CAPÍTULO XXX
ROSTO QUENTE E OLHOS ENCHARCADOS

Meia hora depois, Bathsheba entrou em sua própria casa. Seu rosto queimou
ao encontrar a luz das velas, o rubor e a excitação eram pouco menos que
crônicos para ela agora. As palavras de despedida de Troy, que a
acompanhara até a porta, ainda permaneciam em seus ouvidos. Despediu-se
dela por dois dias, que seriam, conforme afirmou, passados em Bath em visita
a alguns amigos. Ele também a beijou uma segunda vez.

É justo com Bathsheba expôr aqui um pouco de verdade, que não veio à
luz até muito tempo depois: a apresentação de Troy na estrada naquela noite
não foi combinada. Ele havia sugerido, ela proibira, e foi apenas pela
possibilidade de sua volta que dispensara Oak, temendo um encontro entre
eles naquele momento.

Ela agora afundou numa cadeira, furiosa e perturbada com todas estas
sequências novas e febris. Então levantou-se decidida e puxou sua
escrivaninha de uma mesa de canto.

Em três minutos, sem pausa ou modificação, escreveu uma carta a


Boldwood, para o endereço dele em Casterbridge, dizendo delicadamente,
mas com firmeza, que tinha considerado bem o assunto que ele lhe
apresentara e, gentilmente, cedido um tempo para ela se decidir, mas que
tomara sua decisão final e, a verdade, é que ela não poderia se casar com ele.
Havia expressado a Oak a intenção de esperar que Boldwood viesse a sua
casa antes de comunicar sua resposta conclusiva. Entretanto, Bathsheba
descobriu que não podia esperar.

Era impossível enviar a carta até o dia seguinte. Para acabar com sua
inquietação para tirá-la de suas mãos e, por assim dizer, definir o ato em
andamento ao mesmo tempo, levantou-se para levá-la para qualquer uma das
mulheres que estivessem na cozinha.

Fez uma pausa no corredor. Um diálogo estava acontecendo na cozinha e


Bathsheba e Troy eram o assunto.

“Se ele se casar com ela, ela não vai mais cuidar da fazenda.”

“Será uma vida nobre, mas poderá trazer alguns problemas entre as
alegrias, é o que eu acho.”

“Bem, gostaria de ter metade de tal marido.”

Bathsheba era muito esperta para levar a sério o que seus servos diziam
sobre ela, mas havia muita redundância feminina do discurso para não se
interessar pelo que foi dito até que morresse naturalmente. Explodiu com
elas:

“Sobre o que estão falando?”, perguntou.

Houve uma pausa antes que alguém respondesse. Por fim, Liddy disse
francamente:

“Falávamos um pouco sobre você, Miss.”

“Foi o que pensei! Maryann, Liddy e Temperance, agora eu as proíbo de


supor essas coisas. Sabem que não ligo a mínima para Mr. Troy, não mesmo.
Todos sabem o quanto eu o odeio. Sim”, repetiu a jovem perversa, “odeio!”

“Sabemos que sim, Miss”, concordou Liddy, “assim como todas nós.”

“Eu também o odeio”, declarou Maryann.

“Maryann, sua mentirosa! Como pode falar assim!”, admirou-se


Bathsheba. “Você o admirava do fundo de seu coração esta manhã. Sim,
Maryann, você sabe disso!”

“Sim, Miss, mas você também. Ele é um patife e você está certa em odiá-
lo.”

“Ele não é um patife! Como você se atreve a dizer isso na minha frente!
Não tenho o direito de odiá-lo, nem você, nem ninguém. Mas eu sou uma
tola! O que me importa o que ele é? Você sabe que não é nada. Não gosto
dele. Não digo isso para defender o seu bom nome. Lembrem-se, se alguma
de vocês disser uma palavra contra ele será demitida imediatamente!”

Ela atirou a carta e subiu de volta para a sala de estar, com o coração
apertado e lágrimas nos olhos, seguida por Liddy.

“Oh, Miss!”, disse calmamente Liddy, olhando com tristeza para o rosto
de Bathsheba. “Lamento que a deixamos confusa! Reamente pensei que
gostasse dele, mas agora vejo que não.”

“Feche a porta, Liddy.”

Liddy fechou a porta e continuou:

“As pessoas sempre dizem tais tolices, Miss. De agora em diante, vou
reponder: ‘Claro que uma dama como Miss Everdene não pode amá-lo’, vou
dizer isso assim, preto no branco.”

Bathsheba explodiu:

“Oh, Liddy, você é tão simplória! Não consegue entender enigmas? Não
pode ver? Você mesma é uma mulher?”

Os olhos de Liddy se arregalaram de surpresa.

“Sim, você deve ser cega, Liddy!”, disse ela, com abandono imprudente e
tristeza. “Oh, eu o amo com muita loucura, sofrimento e agonia! Não tenha
medo de mim, embora talvez eu assuste o bastante qualquer mulher inocente.
Aproxime-se... mais perto”. Colocou os braços em volta do pescoço de
Liddy. “Preciso desabafar com alguém. Isso está me desgastando. Ainda não
me conhece o suficiente para ver através dessa minha triste negação? Oh,
Deus, que grande mentira foi isso! Meu Senhor e meu Deus, me perdoe. E
você não sabe que uma mulher que ama não pensa nada de falso testemunho
quando é equilibrada contra o seu amor? Por favor, saia da sala. Quero muito
ficar sozinha.”

Liddy foi em direção à porta.

“Liddy, venha cá. Jure solenemente que ele não é um homem leviano, que
tudo que dizem sobre ele é mentira!”

“Mas , Miss, como posso dizer que ele não é se...”

“Sua menina malvada! Como pode ter um coração tão cruel para repetir o
que dizem? Que insensível que você é... Mas verei se você ou qualquer outra
pessoa na vila ou na cidade se atreve a fazer uma coisa dessas!” Ela começou
a andar da lareira para porta e de volta.

“Não, Miss. Eu não... sei que não é verdade!”, disse Liddy, assustada com
veemência rara de Bathsheba .

“Suponho que você só concorda comigo desse jeito para me agradar. Mas
Liddy, ele não pode ser ruim como dizem. Você ouviu?”

“Sim, Miss, sim.”

“E não acredita que ele seja?”

“Não sei o que dizer, Miss”, disse Liddy começando a chorar. “Se eu
disser que não, você não acreditará em mim e se eu disser que sim, ficará
com raiva de mim!”

“Diga que você não acredita! Diga que não!”

“Eu não acredito que ele seja tão mau como imaginam.”

“Ele não é mau, de forma alguma... Minha pobre vida e coração, como
sou fraca!”, gemeu ela, de uma forma descontraída, apática e indiferente da
presença de Liddy. “Oh, como eu gostaria de nunca tê-lo visto! Amar é
sempre um sofriemento para as mulheres. Nunca perdoarei a Deus por me
fazer mulher, e estou começando a pagar a honra de possuir um rosto bonito.”
Ela se restaurou e virou-se para Liddy de repente. “Lembre-se, Lydia
Smallbury, se repetir em qualquer lugar uma única palavra do que lhe disse
dentro desta porta fechada, nunca mais vou confiar ou gostar de você, ou tê-la
comigo por mais um momento – nem um momento!”

“Não quero repetir nada”, disse Liddy, com a dignidade feminina de uma
ordem diminuta; “mas não quero ficar com você. E, se me permitir, vou
embora no final da colheita, ou esta semana, ou hoje... Não mereço ser usada
e atacada por nada!”, concluiu grandemente aquela pequena mulher.

“Não, não, Liddy, você tem que ficar!”, suplicou Bathsheba,


abandonando a altivez com inconsequência caprichosa. “Não me leve a sério
agora, pois estou muito nervosa. Você não é como uma empregada, é uma
companheira para mim. Querida, querida, não sei o que estou fazendo desde
que esta dor miserável do meu coração tem pesado e me desgastado assim! O
que devo fazer? Acho que terei cada vez mais problemas. Às vezes me
pergunto se eu estou condenada a morrer num asilo. Não tenho amigos o
suficiente, Deus sabe!”

“Não a levarei a sério nem a deixarei!”, soluçou Liddy, impulsivamente


aproximando seus lábios de Bathsheba e beijando-a.

Então Bathsheba beijou Liddy e tudo estava calmo novamente.

“Eu não costumo chorar, não é, Lidd? Mas você trouxe lágrimas aos
meus olhos”, disse ela, com um sorriso brilhante e molhado. “Tentará pensar
nele como um homem bom, não tentará, Liddy querida?”

“Sim, Miss, tentarei.”

"Ele é um tipo de homem que tem uma forma selvagem, sabe. Isso é
melhor do que ser como alguns são, selvagens de uma forma constante.
Tenho medo que eu seja assim. E prometa-me que guardará o meu segredo,
Liddy! Não deixe que saibam que eu tenho chorado por ele porque será
terrível para mim e não é bom para ele, coitado!”

“Nem a morte deve arrancá-la de mim, senhora, se eu tenho que guardar


uma coisa, e sempre serei sua amiga”, respondeu Liddy enfaticamente, e ao
mesmo tempo, trazendo mais algumas lágrimas a seus próprios olhos, sem
qualquer necessidade especial, mas com um sentido artístico de estar em
sintonia com o restante da imagem, que parece influenciar as mulheres em
tais ocasiões. “Acho que Deus gosta que sejamos boas amigas, não é?”

“Tenho certeza que sim.”

“E, querida Miss, não me atormente e me agrida, sim? Porque fica tão alta
como um leão e isso me assusta! Sabe, imagino que será um desafio para
qualquer homem quando usar seus encantos.”

“Nunca! É mesmo?”, perguntou Bathsheba, rindo um pouco, embora


seriamente alarmada com esta imagem selvagem de si mesma. “Espero que
eu não seja um tipo de dama imprudente... masculina?”, continuou ela com
certa ansiedade.

“Oh não, não masculina! Mas tão femininamente poderosa que, às vezes,
pode atrapalhar. Ah, Miss”, disse ela, depois de inspirar o ar e soltá-lo com
muita tristeza, “gostaria de cometer metade das suas falhas. É uma grande
proteção para uma pobre empregada nestes dias de tanta falsidade!”
CAPÍTULO XXXI
CULPA — FÚRIA

Na noite seguinte, Bathsheba, com a intenção de ficar fora do caminho de


Mr. Boldwood, caso este retornasse para responder sua carta pessoalmente,
começou a cumprir um compromisso feito com Liddy algumas poucas horas
antes. A dama de companhia de Bathsheba recebera, como forma de
recondiliação entre elas, uma semana de férias para visitar a irmã, que era
casada com um próspero corredor de obstáculos, criador de gado, e morava
num labirinto delicioso em um bosque de avelãs não muito longe de Yalbury.
O acordo foi que Miss Everdene deveria honrá-los indo até lá por um dia ou
dois para inspecionar alguns aparelhos engenhosos que aquele homem da
floresta havia introduzido em seus produtos.

Deixando suas instruções com Gabriel e Maryann, que deviam ter tudo
cuidadosamente trancado à noite, ela saiu de casa assim que uma chuva com
trovoadas muito oportuna parou, refinando o ar e banhando delicadamente a
superfície da terra, embora tudo debaixo dela estivesse seco como sempre.
Nos contornos do rio e do vale, o frescor exalava uma essência como se da
terra soprasse a respiração das donzelas. As aves alegres entoavam hinos à
cena. Diante dela, entre as nuvens, havia um contraste, e uma forma de tocas
de luz feroz, que aparecia nos arredores de um sol escondido, demorando-se
no canto noroeste mais distante dos céus que a temporada do meio do verão
permitia.

Ela havia percorrido quase duas milhas de sua jornada, observando como
o dia recuava e pensando em como o tempo das ações fundia-se,
discretamente, ao tempo do pensamento, para dar lugar ao tempo de oração e
de dormir, quando viu avançando sobre a colina de Yalbury exatamente o
homem de quem tão ansiosamente procurava fugir. Boldwood não caminhava
num ritmo tranquilo de força reservada como era seu costume, o qual parecia
estar sempre equilibrando dois pensamentos. Estava atordoado e lento
naquele momento.

Boldwood despertara pela primeira vez para os privilégios da mulher em


sua fuga, mesmo quando isso envolve o possível mal de outra pessoa. Que
Bathsheba era uma garota firme e positiva, muito menos inconsequente do
que suas colegas, havia sido o ânimo de suas esperanças, pois considerava
que tais qualidades a levariam a aderir a um curso, em linha reta, numa
questão de coerência e aceitá-lo, mesmo que ao pensar nele não se inundasse
com os tons iridescentes de um amor inquestionável. Mas o argumento agora
voltou como reflexos pesarosos num espelho quebrado. A descoberta não era
mais que um flagelo do que uma surpresa.

Ele vinha olhando para o chão e não viu Bathsheba até que estavam a
menos de um arremesso de uma pedra de distância. Levantou o olhar para o
som de seus passos e sua aparência mudou o bastante para mostrar a ela a
profundidade e a força dos sentimentos paralisados por sua carta.

“Ah, é você, Mr. Boldwood?”, hesitou ela, com um calor culpado


pulsando em seu rosto.

Aqueles que têm o poder de censurar em silêncio acham que este é um


meio mais eficaz do que as palavras. Há expressões no olhar que não estão na
língua e há mais contos em lábios pálidos do que entram pela audição. É a
grandeza e a dor dos estados de espírito mais remotos que evitam o caminho
do som. O olhar de Boldwood era irrespondível.

Vendo que ela se esquivava para um lado, ele perguntou:

“O que foi, está com medo de mim?”

“Por que diz isso?”, disse Bathsheba.

“Parece que está”, respondeu ele. “E o que é mais estranho, por causa do
contraste do que sinto por você.”

Ela recobrou sua confiança, fixou os olhos calmamente e esperou.


“Você sabe que sentimento é este”, continuou Boldwood
deliberadamente. “Algo tão forte quanto a morte. Nenhuma recusa por carta
pode afetá-lo.”

“Gostaria que não sentisse algo tão forte por mim”, murmurou ela. “É
muito generoso da sua parte, mais do que mereço, mas não posso ouvi-lo
agora.”

“Ouvir? O que acha que tenho para dizer então? Não vou me casar com
você e já basta? Sua carta foi perfeitamente clara. Não quero que ouça nada.”

Bathsheba era incapaz de dirigir a sua vontade a canto algum para


libertar-se da situação terrivelmente estranha. Confusamente, ela disse:

“Boa noite”, e seguiu em frente. Boldwood andou até ela pesada e


estupidamente.

“Bathsheba, querida, então está tudo terminado?”

“Sim, está.”

“Oh, Bathsheba, tenha piedade de mim!”, explodiu Boldwood. “Pelo


amor de Deus, sim, me rebaixei ao mais baixo nível de pedir a uma mulher
para ter piedade! E ela é você, é você.”

Bathsheba controlou-se bem, mas dificilmente teria uma voz clara para o
que veio instintivamente aos lábios:

“Há pouca honra na mulher a quem fala”. Foi um sussurro para algo tão
indescritivelmente triste e angustiante neste espetáculo de um homem
mostrando-se tão inteiramente movido pela paixão, enfraquecendo o instinto
feminino para a formalidade.

“Estou fora de mim e estou louco”, declarou ele. “Não sou nem um pouco
estóico para estar aqui suplicando, mas lhe suplico. Gostaria que soubesse
sobre a minha devoção a você, mas é impossível. Pela sua misericórdia
humana com um homem solitário, não me despreze agora!”

“Não o desprezo, como poderia? Eu nunca o tive.” Com a clareza de seu


sentido de que ela nunca o tinha amado, se esqueceu por um momento de seu
ato impensado naquele dia de fevereiro.

“Mas houve o momento em que me procurou, antes que eu pensasse em


você! Não a desaprovo, pois ainda sinto a escuridão ignorante e fria em que
eu viveria se você não tivesse me atraído com aquele cartão do Dia dos
Namorados, como chamam. Seria pior do que conhecê-la, embora tenha
trazido este sofrimento. Mas houve um tempo em que não sabia nada sobre
você e não sentia nada por você, e ainda assim você me atraiu. E se diz que
não me deu nenhum incentivo, não posso deixar de contradizê-la.”

“O que chama de incentivo foi o jogo infantil de um minuto de


negligência. Arrependo-me amargamente disso, amargamente e com
lágrimas. Ainda me faz lembrar isso?”

“Não a acuso disso. Eu lamento. Levei a sério o que você insiste que era
brincadeira, e agora aquilo que insisto para ser uma piada, você diz que é
terrívelmente sério. Nossos ânimos encontraram-se em lugares errados.
Queria que seus sentimentos fossem mais como os meus, ou os meus fosse
mais como os seus! Ah, se eu pudesse ter previsto a tortura que uma
brincadeira insignificante me levaria, como eu a teria amaldiçoado; mas
como apenas fui capaz de enxergar isso agora, não posso fazer isso porque a
amo demais! Mas é inútil continuar assim... Bathsheba, você é a primeira
mulher de qualquer sombra ou natureza que amei e cheguei mais perto de ser
aceito como marido, o que faz esta negação tão difícil de suportar. Você
quase me prometeu! Mas eu não falo agora para mudar seu coração e fazê-la
sofrer por causa da minha dor, não adiantaria. Devo suportá-la. Minha dor
não seria menor se você sofresse também.”

“Mas eu sinto muitíssimo, profundamente”, disse ela com sinceridade.

“Não faça isso, não faça isso. Seu precioso amor, Bathsheba, é muito
maior que sua piedade. A sua pena não amenizaria a perda dele. Oh, doçura,
como falou comigo com carinho atrás dos carriços e no celeiro de tosquia, e
ainda mais naquela última noite em sua casa! Para onde foram todas as suas
palavras agradáveis, sua sincera esperança de ser capaz de me amar? Onde
está a sua firme convicção de que gostaria de mim? Foram realmente
esquecidas?”
Ela controlou sua emoção, olhou com calma e claramente para o rosto
dele e disse em voz baixa e firme:

“Mr. Boldwood, não lhe prometi nada. Vê-me como uma mulher de
barro, por favor. Quando me fez aquele maior elogio que um homem pode
fazer a uma mulher, dizendo que me amava, me vi obrigada a mostrar algum
sentimento ou eu seria uma megera sem graça. No entanto, cada um daqueles
prazeres foram apenas momentâneos. Como eu saberia que o que é um
passatempo para todos os outros homens seria a morte para você? Raciocine,
haja e pense com mais bondade para comigo!”

“Bem, é inútil discutir, inútil. Uma coisa é certa: poderia ter sido minha e
agora você está longe de ser. Tudo mudou, e somente por sua causa, lembre-
se disso. Você não era nada para mim e eu estava bem. Agora não é nada
para mim outra vez, e como este segundo nada é diferente do primeiro.
Quisera Deus que você nunca tivesse se aproximado de mim, uma vez que
era apenas para me decepcionar!”

Bathsheba, apesar de sua coragem, começou a sentir sinais inequívocos


de que era inerentemente o lado mais frágil. Esforçou-se desesperadamente
contra essa feminilidade que insistia em fornecer emoções espontâneas num
fluxo cada vez mais forte. Tentara escapar daquela agitação mantendo seu
pensamento fixo nas árvores, no céu, em qualquer objeto corriqueiro diante
de seus olhos enquanto suas censuras caiam, mas a ingenuidade não poderia
salvá-la agora.

“Não o menosprezei, é claro que não!”, respondeu ela o mais


heroicamente que podia. “Não fique assim comigo. Posso aguentar que diga
que estou errada se me disser com gentileza! Oh, senhor, será que não pode
ter a bondade de me perdoar e olhar para as coisas mais alegremente?”

“Alegremente? Um homem enganado a ponto de seu coração queimar


pode encontrar uma razão para estar feliz? Se perdi, posso ficar como tivesse
vencido? Meu Deus, você é muito insensível! Se eu soubesse como isso seria
amedrontadoramente doce e amargo, como eu lhe teria evitado e nunca a teria
visto ou ouvido. Digo-lhe tudo isso, mas com que você se importa? Você não
se importa.”
Ela devolvia respostas negativas silenciosas e fracas às acusações dele e
balançava a cabeça desesperadamente, como se lançando para fora as
palavras que inundavam seus ouvidos vindas dos lábios do homem trêmulo
no clímax da vida, com o rosto romano de bronze e moldura requintada.

“Minha amada, minha amada, ainda estou balançando entre os dois


opostos de forma imprudente de renunciá-la e lutando humildemente por
você outra vez. Esqueça que disse não e deixe tudo como estava! Diga,
Bathsheba, que só escreveu aquela recusa para brincar comigo, diga!”

“Seria falso e doloroso para nós dois. Você superestima a minha


capacidade de amar. Não possuo metade do calor da natureza que acredita
que eu tenha. Uma infância sem proteção num mundo frio removeu toda a
gentileza de mim.”

Ele falou imediatamente com mais ressentimento:

“Pode ser verdade, mas, ah, Miss Everdene, não serve como justificativa!
Você não é a mulher fria que me fez acreditar que era. Não, não! Não é
porque não tem sentimentos por mim que não ama. Faria-me achar isso,
naturalmente; esconderia-me que tem um coração ardente como o meu. Mas
sente amor o suficiente, porém, direcionado a um novo canal. Eu sei para
onde.”

A música rápida de seu coração agora era um burburinho e ela pulsava ao


extremo. Ele estava chegando a Troy. Então ele sabia o que havia acontecido!
E o nome caiu de seus lábios no momento seguinte.

“Por que Troy não deixou o meu tesouro em paz?”, perguntou ele,
ferozmente. “Quando eu não tinha ideia de feri-lo, por que se jogou para ser
notado por você? Antes de ele incomodá-la, sua intenção era comigo, quando
eu a procurasse, a sua resposta teria sido sim. Pode negar? Eu lhe pergunto,
pode negar?”

Ela demorou para responder, mas foi honesta demais para negar.

“Não posso”, sussurrou ela.


“Sei que não. Mas ele se aproveitou da minha ausência e me roubou. Por
que não a conquistou antes, quando ninguém teria sido ofendido? Quando
ninguém seria o assunto de todos? Agora, as pessoas zombam de mim. As
colinas e céu parecem rir de mim até que eu core vergonhosamente para a
minha loucura. Perdi o meu respeito, a minha boa reputação, a minha posição
—tudo perdido, nunca os terei novamente. Vá e case-se com seu homem. Vá
em frente!”

“Oh, senhor... Mr. Boldwood!”

“Sim você pode. Não tenho nenhum direito sobre você. Quanto a mim, é
melhor eu ir a algum lugar sozinho e me esconder... e orar. Amei uma mulher
uma vez. Agora estou envergonhado. Quando eu morrer eles dirão: ‘que
homem doente de amor e infeliz que era’. Meu Deus, meu Deus, se tivesse
sido rejeitado secretamente, a desonra não fosse conhecida e minha posição
estivesse mantida! Mas não importa, ela se foi e não ganhei a mulher. Que
vergonha... que vergonha!”

Sua raiva irracional a aterrorizava e ela se afastou dele, obviamente que


sem se mover, ao dizer:

“Sou apenas uma garota, não fale assim comigo!”

“Você soube o tempo todo, sabia muito bem, que sua nova loucura seria o
meu desespero. Deslumbrada pelo bronze e o escarlate... Oh , Bathsheba!
Isso é de fato loucura das mulheres!”

Ela então disparou:

“Está preocupado apenas com você mesmo!”, disse ela com veemência.
“Todos me atacam, todos. Atacar uma mulher é típico dos homens! Não
tenho ninguém no mundo para lutar minhas batalhas por mim, mas nenhuma
misericórdia é mostrada. No entanto, se mil de vocês zombam e dizem coisas
contra mim, não serão menosprezados!”

“Sem dúvida que falará com ele sobre mim. Diga-lhe: ‘Boldwood
morreria por mim’. Sim, e deu-lhe espaço sabendo que ele não era o homem
certo para você. Ele a beijou, a reivindicou como sua. Está ouvindo? Ele a
beijou. Negue isso!”

A mulher mais trágica é intimidada por um homem trágico e, embora


Boldwood fosse, em veemência e brilho, quase que ela mesma no sexo
oposto, o rosto de Bathsheba tremia. Ela engasgou:

“Deixe-me, senhor, vá embora! Não sou nada para você. Deixe-me ir!”

“Negue que ele a beijou.”

“Não devo.”

“Certo, então ele a beijou!”, disse a voz rouca do fazendeiro.

“Beijou”, declarou ela lentamente e, apesar de seu medo,


desafiadoramente. “Não tenho vergonha de falar a verdade.”

“Então eu o amaldiçou e a amaldiçou!”, sussurrou Boldwood em fúria.


“Enquanto eu teria dado mundos para tocar sua mão, você deixou um
libertino chegar sem direito ou cerimônia e beijá-la...! Misericórdia, ele a
beijou! Ah, chegará um dia na vida dele quando terá que se arrepender e
pensar com desgraça na dor que causou a outro homem, e então poderá
sofrer, desejar, amaldiçoar e ansiar, como estou agora!”

“Não, não, oh, não deseje o mal para ele!”, implorou ela num pranto
desesperado. “Qualquer coisa, qualquer coisa, mas... Oh, seja piedoso com
ele, senhor, pois eu o amo verdade!”

As ideias de Boldwood chegaram a tal ponto de fusão as quais contornos


e consistências desaparecem totalmente. A noite iminente apareceu para se
concentrar em seu olhar. Não a ouvia mais.

“Eu o punirei, pela minha alma que o farei! Vou encontrá-lo, soldado ou
não, e chicotearei este jovem inconsequente pela imprudência de ter roubado
a minha felicidade. Se fosse uma centena de homens, eu o chicotearia...”
Baixou a voz de repente e sem naturalidade. “Bathsheba, doce, coquete
perdida, perdoe-me! Eu a culpo e a ameaço, comportando-me como um
ignorante, quando ele é o maior pecador. Roubou o seu coração querido com
suas mentiras insondáveis! A sorte dele foi ter voltado ao seu regimento, que
está longe daqui! Espero que não volte tão cedo. Peço a Deus que não
coloque meus olhos nele, para que não sofra tentações. Oh, Bathsheba,
mantenha-o longe... sim, mantenha-o longe de mim!”

Por um momento, depois da declaração de suas tensas palavras,


Boldwood ficou tão inerte que sua alma parecia ter sido totalmente exalada.
Virou o rosto e retirou-se. Sua silhueta logo foi coberta pelo crepúsculo,
enquanto seus passos se misturaram com o baixo silvo das árvores cobertas
de folhas.

Bathsheba, que estava de pé, imóvel como uma estátua todo este tempo,
levou às mãos ao rosto e descontroladamente tentou refletir sobre a situação
que acabara de acontecer. As origens impressionantes da sensação febril de
um homem sereno como Mr. Boldwood eram incompreensíveis e terríveis.
Em vez de ser um homem preparado para conter-se ele foi... aquilo que viu.

A força das ameaças do fazendeiro estava na relação deles com uma


circunstância conhecida apenas para ela: seu amante estava voltando para
Weatherbury dentro de um ou dois dias. Troy não tinha retornado a seus
quartéis distantes como Boldwood e outros pensavam. Apenas tinha ido
visitar um conhecido em Bath e teria ainda uma semana ou mais da sua
licença.

Estava dolorosamente certa que, se ele a visitasse neste exato espaço de


tempo e encontrasse com Boldwood, a consequência seria uma briga feroz.
Ela ofegava com solicitude quando pensava no possível prejuízo para Troy.
A menor faísca acenderia sentimentos violentos de raiva e ciúme no
fazendeiro. Ele perderia o domínio sobre si como nessa noite. A alegria de
Troy poderia transformar-se em agressividade, e isso poderia levar ao
escárnio, e a ira de Boldwood poderia, então, tomar a direção de vingança.

Com um medo quase mórbido de ser considerada uma garota sentimental,


esta mulher sincera se escondia muito bem do mundo sob a forma de
descuido nas profundezas quentes de suas fortes emoções. Mas agora não
havia nenhuma reserva. Em sua distração, em vez de avançar, ela andava para
cima e para baixo, batendo no ar com os dedos, pressionando sua testa e
soluçando para si mesma. Depois se sentou num amontoado de pedras para
pensar. Ali, permaneceu por muito tempo. Acima da margem escura da terra
apareceram costões promontórios de nuvens acobreadas, delimitando uma
área verde e transparente no céu ocidental. Um resplendor amarantino caiu
sobre elas em seguida, e o mundo irrequieto girava em torno dela numa
perspectiva contrastante para o leste, na forma de estrelas indecisas e
palpitantes. Observou seus espasmos silenciosos em meio aos tons de espaço,
mas não compreendeu nenhum. Seu espírito perturbado estava longe com
Troy.
CAPÍTULO XXXII
NOITE—PASSOS DE CAVALOS

A aldeia de Weatherbury estava tranquila como o cemitério e os vivos


estavam deitados quase tão imóveis quanto os mortos. O relógio da igreja
bateu onze horas. O ar estava tão vazio de outros sons que o zumbido do
relógio trabalhando, imediatamente anterior às badaladas, era nítido, e assim
foi também o clique ao terminarem. As notas voavam com a obtusidade cega
normal das coisas inanimadas — batendo e repercutindo pelas paredes,
ondulando contra as nuvens dispersas, espalhando-se através de seus
interstícios em milhas inexploradas do espaço.

Os salões rachados e mofados de Bathsheba eram ocupados apenas por


Maryann naquela noite. Liddy, como foi mencionado, estava com sua irmã, a
quem Bathsheba tivera a intenção de visitar. Poucos minutos depois das onze
horas, Maryann virou-se na cama com a sensação de ser perturbada. Não
tinha consciência alguma da natureza da interrupção de seu sono. Isso levou a
um sonho, e o sonho a um despertar com uma sensação desagradável de que
algo tinha acontecido. Deixou sua cama e olhou para fora da janela. O
cercado dos cavalos encontrava-se nesta extremidade do edifício e nele ela
podia apenas discernir pelo cinza incerto uma figura movendo-se e
aproximando-se do cavalo que estava alimentando lá. A figura pegou a
cavalo pelo topete e levou-o para um canto do campo. Ali ela podia ver
algum objeto que as circunstâncias provaram ser um veículo, para depois de
alguns minutos ver alguém arreando o cavalo; ouviu o trote na estrada,
misturado com o som de rodas leves.

Somente dois tipos de pessoas poderiam ter entrado no cercado como um


fantasma. Uma cigana ou um cigano. Uma mulher estava fora de questão em
tal ocupação a tal hora, e o intruso poderia ser nada menos do que um ladrão,
que provavelmente pode ter conhecido a fraqueza da casa naquela noite em
particular e tê-la escolhido por conta disso para sua tentativa ousada. Além
disso, para levantar a suspeita da convicção em si, havia ciganos na parte
inferior Weatherbury.

Maryann, que estava com medo de gritar na presença do ladrão, perdeu


seu medo ao vê-lo ir embora. Vestiu suas roupas apressadamente, desceu pela
escada desconjuntada com seus rangidos infinitos, correu para a casa de
Coggan, a mais próxima, e deu o alarme. Coggan chamou Gabriel, que agora
estava novamente em sua casa como no início, e, juntos, foram até o cercado.
Sem dúvida alguma o cavalo havia sumido.

“Ouçam!”, disse Gabriel.

Eles ouviram. Os sons de um cavalo trotando passando por Longpuddle


Lane eram nítidos no ar estagnado, pouco além do acampamento dos ciganos
em Weatherbury Bottom.

“É a nossa Dainty, juro que são os passos dela”, disse Jan.

“Valha-me Deus! A patroa vai ficar furiosa e nos chamar de estúpidos


quando voltar!”, gemeu Maryann. “Como eu gostaria que tivesse acontecido
quando ela estava em casa e nenhum de nós fosse responsável!”

“Temos que procurar”, decidiu Gabriel. “Serei o responsável diante de


Miss Everdene pelo que fizermos. Sim, vamos procurar.”

“Claro, mas não sei como”, disse Coggan. “Todos os nossos cavalos são
pesados demais para esse truque, exceto pela pequena Poppet, mas nós somos
dois. Se ao menos pudessemos pegar aquele par do outro lado da cerca,
poderiamos fazer alguma coisa.”

“Que par?”

“Tidy e Moll de Mr. Boldwood.”

“Então espere aqui até que eu volte”, disse Gabriel, que desceu a colina
em direção à fazenda de Boldwood.
“O fazendeiro Boldwood não está em casa”, informou Maryann.

“Melhor ainda”, comentou Coggan . “Sei o que ele foi fazer.”

Em menos de cinco minutos Oak estava de volta novamente, correndo no


mesmo ritmo, com dois cabrestos balançando em sua mão.

“Onde os encontrou?”, perguntou Coggan, virando e saltando sobre a


cerca sem esperar pela resposta.

“Sob os beirais. Sabia onde eram guardados”, disse Gabriel, seguindo-o.


“Coggan, pode montar sem sela? Não temos tempo para procurá-las.”

“Como um herói!”, afirmou Jan.

“Maryann, vá se deitar”, gritou Gabriel por cima da cerca.

Saltando pelos pastos de Boldwood, cada um deles guardou seu cabresto


no bolso para escondê-los dos cavalos, que, vendo os homens de mãos vazias,
docilmente permitiram-se ser pegos pela crina, quando os cabrestos foram
destramente passados. Sem freios nem rédeas, Oak e Coggan improvisaram,
passando uma corda pela boca dos animais e prenderam-na do outro lado.
Oak montou com uma perna para cada lado e Coggan subiu com a ajuda de
um banco. Subiram para o portão e sairam a galope na direção tomada pelo
cavalo de Bathsheba e o ladrão. Não sabiam a que veículo o cavalo havia sido
preso.

Chegaram a Weatherbury Bottom em três ou quatro minutos.


Examinaram o pedaço verde de terra à beira da estrada. Os ciganos tinham
desaparecido.

“Os vilões!”, disse Gabriel. “Gostaria de saber qual caminho eles


tomaram.”

“Em frente, tão certo como Deus fez poucas maçãs”, opinou Jan.

“Muito bem, estamos melhor montados e devemos ultrapassá-los”, disse


Oak. “Agora, a toda velocidade!”
Nenhum som do condutor em seu veículo podia ser descoberto naquele
momento. O barulho metálico na estrada ficou mais suave e mais argiloso
conforme Weatherbury era deixada para trás. A chuva recente havia molhado
a sua superfície num estado quase maleável, mas não enlameado. Chegaram a
um cruzamento. Coggan, de repentem parou Moll e desceu.

“Qual é o problema?”, perguntou Gabriel.

“Temos que tentar encontrá-los já que não podemos ouvi-los”, disse Jan
mexendo nos bolsos. Acendeu uma lanterna e segurou o fósforo no chão. A
chuva fora mais pesada ali, e todas as trilhas a pé e a cavalo, feitas anterior à
tempestade, haviam sido abrandadas e apagadas pelas gotas, e eram agora
pequenas conchas de água que refletiam a chama do fósforo como olhos. Um
conjunto de rastros estava fresco e não havia água neles. Um par de sulcos
também estava vazio e sem pequenos canais como os outros. As pegadas que
formavam essa impressão recente continham informações quanto ao ritmo.
Estavam em pares equidistantes, separados a três ou quatro pés, o pé direito e
esquerdo de cada par exatamente opostos um ao outro.

“Em frente!”, exclamou Jan. “Rastros como estes significam um galope


constante. Não é de admirar que não o ouvimos. E o cavalo está arreado —
veja os sulcos. Sim, é a nossa égua com certeza!”

“Como você sabe?”

“O velho Jimmy Harris ferrou-a na semana passada, e reconheço o


trabalho entre dez mil.”

“O resto dos ciganos deve ter partido mais cedo ou de alguma outra
forma”, disse Oak. “Viu se não havia outros rastros?”

“Sim.”

Cavalgaram silenciosamente por um longo e cansativo tempo. Coggan


carregava uma imitação velha de um relógio de repetição que havia herdado
de algum gênio de sua família, que marcou uma hora. Acendeu outro fósforo
e examinou o chão novamente.
“Agora é um meio galope”, falou ele, apagando o fogo. “É um ritmo
sinuoso e instável para um veículo. O fato é que eles foram muito rápidos no
começo. Ainda vamos pegá-los.”

Mais uma vez se apressaram e entraram em Blackmore Vale. O relógio de


Coggan marcou uma hora. Quando olharam novamente as marcas dos cascos,
eram tão espaçados como se formassem uma espécie de ziguezague, como as
lâmpadas ao longo de uma rua.

“Isso é um trote, eu sei”, disse Gabriel.

“Agora é só um trote”, alegrou-se Coggan. “Vamos alcançá-los a tempo.”

Cavalgaram rapidamente por duas ou três milhas ainda.

“Ah! Um momento”, disse Jan. “Vamos ver como ela foi conduzida até
esta colina. Isso vai nos ajudar.” Uma luz foi prontamente acesa acima de
suas polainas como antes, e o exame feito.

“Hurra!”, exclamou Coggan. “Ela andou até aqui. Vamos alcançá-los em


duas milhas, por uma coroa.”

Cavalgaram por três e escutaram. Nenhum som podia ser ouvido, salvo
por um moinho rouco através de um portal, e sugerindo possibilidades
sombrias de afogamento se mergulhassem no lago. Gabriel desmontou
quando chegaram numa curva. Os rastros eram o único guia quanto à direção
que tinham ali, e era necessário grande cautela para evitar confundi-los com
alguns outros que apareceram recentemente.

“O que significa isso? Acho que sei”, disse Gabriel, olhando para Coggan
enquanto movia o fósforo sobre o solo na curva. Coggan, que não estava
menos ofegante que os cavalos, já mostrava sinais de cansaço, escrutinou
mais uma vez os sinais místicos. Desta vez, apenas três eram da forma de
ferradura regular. O quarto era um ponto.

Ele fez uma careta e emitiu um longo “Ufaaa!”

“Manca”, disse Oak.


“Sim. Dainty está manca. O pé está quase para fora”, falou Coggan
devagar, ainda olhando para as pegadas.

“Vamos continuar”, disse Gabriel, subindo em sua montaria úmida.

Embora a estrada ao longo de sua maior parte fosse tão boa quanto
qualquer rodovia expressa no país, era nominalmente apenas uma via
secundária. A última curva os havia introduzido na via principal que levava a
Bath. Coggan recobrou-se.

“O encontraremos agora!”, exclamou.

“Onde?”

“Em Sherton Turnpike. O guarda do portão que é o homem mais


dorminhoco entre aqui e Londres. Dan Randall, este é o nome dele,
conhecido há anos, quando estava no portão de Casterbridge. Entre a
coxeadura e o portão o trabalho estará terminado.”

Avançavam então com extrema cautela. Nada foi dito até que, contra um
fundo escurecido por folhagens, cinco barras brancas eram visíveis, cruzando
rota deles um pouco à frente.

“Silêncio. Estamos quase chegando!”, disse Gabriel.

“Devagar, por cima da grama”, disse Coggan.

As barras brancas foram apagadas no meio por um vulto escuro na frente


delas. O silêncio daquele momento solitário só foi perturbado por uma
exclamação daquele lado.

“Ei! O portão!”

Parecia ter havido uma visita anterior que não fora notada, pois ao se
aproximarem, a porta da casa de pedágio abriu e o guarda saiu parcialmente
vestido, com uma vela na mão. Os raios iluminavam todo o grupo.

“Deixe o portão fechado!”, gritou Gabriel. “Ele roubou o cavalo!”


“Quem?”, perguntou o homem do pedágio.

Gabriel olhou para o condutor do veículo e viu uma mulher — Bathsheba,


a patroa deles.

Ao ouvir sua voz, ela virou o rosto para longe da luz. No entanto, Coggan
a viu.

“Mas é a patroa! Juro que é ela!”, espantou-se ele.

Era Bathsheba, certamente, e tinha por esta altura feito o truque que
poderia fazer tão bem em crises não amorosas, ou seja, uma máscara de
surpresa com modos frios.

“Bem, Gabriel”, perguntou ela em voz baixa, “onde você está indo?”

“Pensamos...”, começou Gabriel.

“Estou indo para Bath”, disse ela, tomando para seu próprio uso a
segurança que faltava em Gabriel. “Um assunto importante fez que eu
desistisse da minha visita a Liddy e fosse para lá imediatamente. Mas, então,
estavam me seguindo?”

“Pensamos que o cavalo tivesse sido roubado.”

“Ora, mas que coisa! Quanta tolice da parte de vocês não saberem que
peguei o carro e o cavalo. Eu não pude nem acordar Maryann nem entrar na
casa, embora esmurrasse o peitoril da janela dela por dez minutos.
Felizmente, eu pude pegar a chave da cocheira, então não incomodei
ninguém. Não acharam que poderia ser eu?”

“Por que deveríamos, Miss?”"

“Talvez não. Aqueles não podem ser os cavalos do fazendeiro Boldwood!


Misericórdia! O que estavam fazendo? Trazendo-me problemas dessa
maneira? O quê? Uma dama não pode passar uma polegada da sua porta sem
ser perseguida como um ladrão?”

“Mas como poderíamos saber se não deu nenhuma conta das suas
ações?”, objetou Coggan, “e as damas não conduzem suas caruagens a estas
horas, Miss, como regra geral da sociedade.”

“Dei conta sim, e você teria visto pela manhã. Escrevi em giz nas portas
da cocheira que tinha voltado para pegar o cavalo e a carroça e depois
partido, que não queria acordar a ninguém e que deveria voltar em breve.”

“Mas pense, minha senhora, que não poderíamos ver até que o dia
amanhecesse.”

“É verdade”, admitiu ela e, embora a princípio aborrecida, tinha muita


sensibilidade para culpá-los por muito tempo ou gravemente por uma
devoção a ela que era tão valiosa quanto rara. Acrescentou com muita graça:
“Bem, realmente agradeço de coração por terem todo este transtorno, mas
gostaria que tivessem emprestado os cavalos de qualquer um, menos de Mr.
Boldwood.”

“Dainty está manca, Miss”, informou Coggan. “Pode continuar?”

“Foi só uma pedra em sua ferradura. Desci e arranquei-a umas cem jardas
atrás. Posso me arranjar muito bem, obrigada. Estarei em Bath ao amanhecer.
Agora podem voltar, por favor?”

Ela virou a cabeça. A vela do guarda cintilava sobre os seus olhos vivos e
claros. Passou pelo portão e logo estava envolta nas sombras coberta de
sombras misteriosas de ramos de verão. Coggan e Gabriel montaram seus
cavalos e dispararam pelo ar aveludado daquela noite de julho, refazendo o
caminho por onde tinham vindo.

“Um capricho estranho, esse dela, não é, Oak?”, perguntou Coggan,


curiosamente.

“Sim”, respondeu brevemente Gabriel.

“Ela não vai chegar a Bath ao amanhecer de jeito nenhum!”

“Coggan, vamos manter o trabalho desta noite em segredo?”

“Estava pensando a mesma coisa.”


“Muito bem. Vamos estar em casa às três horas ou mais, e poderemos
entrar quietos como cordeiros.”

As meditações perturbadas de Bathsheba à beira da estrada tinham, em


última análise, desenvolvido uma conclusão de que havia apenas duas
soluções para o presente estado desesperado das coisas. A primeira era
apenas manter Troy longe de Weatherbury até que indignação de Boldwood
tivesse esfriado; a segunda era ouvir as súplicas de Oak, as denúncias de
Boldwood e desistir completamente de Troy.

Mas como? Ela poderia desistir desse novo amor, induzi-lo a renunciar a
ela dizendo que não gostava dele, que não podia mais falar com ele e pedir-
lhe, para o bem dela, que, acabando sua licença em Bath, não a visse mais em
Weatherbury?

Era uma imagem cheia de tristeza, mas por um tempo ela contemplou-a
com firmeza, permitindo-se, no entanto, como as meninas, a demorar-se
sobre a vida feliz que teria se Troy fosse Boldwood e o caminho do amor
fosse o caminho do dever. Entretanto, nesse ensaio, infligiu sobre si torturas
gratuitas, imaginando-o amando outra mulher, depois de esquecê-la, pois ela
tinha penetrado tanto na natureza de Troy para estimar suas inclinações com
enorme precisão, mas infelizmente não o amava menos para pensar que ele
poderia em breve deixar de amá-la — de fato, amava-o muito mais.

Ficou de pé. Ela o veria imediatamente. Sim, iria implorar pela palavra
dele para ajudá-la naquele dilema. Uma carta para mantê-lo afastado poderia
não alcançá-lo a tempo, mesmo se estivesse disposto a ouvi-la.

Bathsheba estava totalmente cega para o fato óbvio de que o apoio dos
braços de um amante não é o melhor para ajudar na decisão de renunciar a
ele? Ou ela era sofisticadamente sensível, com um arrepio de prazer, que, ao
adotar este recurso para se livrar dele garantiria um encontro com ele, de
qualquer forma, mais uma vez?

Já estava escuro e deveria ser quase dez horas. A única maneira de


conseguir seu propósito era desistir de sua ideia de visitar Liddy em Yalbury,
voltar a Weatherbury Farm, atrelar o cavalo à carruagem e dirigir-se
imediatamente para Bath. O esquema parecia impossível à primeira vista,
pois a viagem era temerosamente difícil, mesmo para um cavalo forte, pela
sua própria estimativa; e ela subestimou grandemente a distância. Era ainda
mais arriscado para uma mulher, à noite, sozinha.

Mas ela podia ir até Liddy e deixar as coisas seguirem o seu curso? Não,
não, nada disso. Bathsheba estava cheia de uma turbulência estimulante, ao
lado da qual a cautela implora em vão para ser ouvida. Ela voltou para a
aldeia.

Seu andar era lento, pois não queria chegar em Weatherbury até que os
habitantes estavessem na cama e, particularmente, até que Boldwood
estivesse seguro. Seu plano era agora ir a Bath durante a noite, ver o Sargento
Troy na manhã antes que ele partisse para encontrá-la, dizer-lhe adeus e
deixá-lo. Em seguida, para descansar o cavalo completamente (e também
para chorar, pensou), começaria cedo na manhã seguinte sua viagem de volta.
Com este acerto, podia cavalgar com Dainty calmamente durante todo o dia,
chegar a Liddy em Yalbury à noite e voltar para casa em Weatherbury com
ela quando quisessem, de modo que ninguém saberia que tinha ido a Bath.
Assim era o esquema de Bathsheba. Mas, em sua ignorância topográfica
como quem chegou a pouco ao local, calculou mal a distância de sua jornada
como não muito mais do que a metade do que realmente era.

Esta foi ideia que ela levou a cabo com o sucesso inicial que já vimos.
CAPÍTULO XXXIII
SOB O SOL — UMA PREMONIÇÃO

Uma semana se passou e não houve notícias de Bathsheba nem qualquer


explicação de seus planos.

Chegou então um bilhete para Maryann, afirmando que o assunto que


levara sua patroa para Bath ainda a prendia lá, mas que ela esperava voltar na
semana seguinte.

Outra semana se passou. A colheita da aveia começou e todos os homens


estavam nos campos sob um céu monocromático do Lammas, o Festival da
Primeira Colheita, em meio ao ar trêmulo e sombras curtas do meio-dia.
Dentro de casa, nada se ouvia salvo o zumbido das varejeiras-azuis; do lado
de fora, os golpes de foices e o silvo das espigas enroladas de aveia, se
esbarrando quando suas hastes perpendiculares de cor amarelo-âmbar caiam
pesadamente a cada fileira, era o que se ouvia. Cada gota de líquido que não
vinha das garrafas e garrafões de sidra dos homens, escorrera do suor de suas
testas e bochechas. A seca estava por toda a parte.

Estavam prestes a retirar-se por algum tempo para a sombra acolhedora


de uma árvore na cerca, quando Coggan viu uma imagem num casaco azul e
botões de latão correndo até eles pelo do campo.

“Queria saber quem é esse”, disse ele.

“Espero que não seja nada de errado com a patroa”, falou Maryann, que
com algumas outras mulheres estava amarrando os feixes (a aveia sempre era
amarrada em feixes nesta fazenda), “mas vi um símbolo de azar dentro de
casa esta manhã. Fui destrancar a porta e deixei cair a chave, e ela caiu sobre
o chão de pedra e se quebrou em duas partes. Quebrar uma chave é um
presságio terrível. Queria que a patroa estivesse em casa.”

“É Cain Ball”, informou Gabriel, parando de afiar sua foice.

Ajudar no campo de milho não fazia parte do trabalho de Oak, mas o mês
da colheita é um momento de ansiedade para um fazendeiro e era o milho de
Bathsheba, então ele foi ajudar.

“Está usando suas melhores roupas”, comentou Matthew Moon. “Esteve


fora de casa por alguns dias, uma vez que machucou seu dedo e disse que já
que não podia trabalhar e que ficaria de folga.”

“Num bom momento, um excelente momento”, observou Joseph


Poorgrass, endireitando as costas. Ele, assim como alguns dos outros, tinha
uma maneira de descansar um pouco do seu trabalho em dias tão quentes por
razões muito insignificantes, das quais o advento de Cain Ball num dia de
semana em suas roupas de domingo foi uma das primeiras magnitudes. “Foi a
perna ruim me permitiu ler O Progresso do Peregrino, e Mark Clark
aprendeu jogar All-Fours quando teve um furúnculo.”

“É, e meu pai deslocou o braço para ter tempo para cortejar”, disse Jan
Coggan num tom abafado, enxugando o rosto com a manga da camisa e
empurrando o chapéu para trás sobre a nuca.

Àquela altura, Cainy estava se aproximando do grupo de colhedores e


pode-se perceber que estava carregando uma grande fatia de pão com
presunto numa das mãos, do qual comia bocados enquanto corria com o outro
envolvido numa atadura. Quando chegou mais perto, sua boca fez a forma de
um sino e ele começou a tossir violentamente.

“Então, Cainy!”, exclamou Gabriel severamente. “Quantas vezes já lhe


disse para não correr tanto quando está comendo? Qualquer dia vai se
engasgar, é isso que vai acontecer, Cain Ball.”

“Cof-cof-cof!”, tossiu Cain. “Uma migalha da minha comida desceu pelo


lado errado… cof-cof! Foi isso, Mr. Oak. E fui a Bath porque estava com o
dedo machucado, e eu vi... cof-cof!”
Assim que Cain mencionou Bath, todos largaram suas foices e ancinhos e
ficaram em volta dele. Infelizmente, o miolo irregular não melhorou seus
poderes narrativos e um obstáculo complementar foi um espirro, jogando de
seu relógio enorme, balançando como um pêndulo na frente do jovem.

“Sim”, continuou ele, direcionando seus pensamentos para Bath e


deixando que seus olhos acompanhassem. “Finalmente eu vi o mundo, sim, e
vi a nossa patroa... cof-cof-cof!”

“Pare com isso, rapaz!”, disse Gabriel. “Tem sempre algo indo à direção
errada pela sua garganta abaixo, de modo que não pode contar o que precisa
ser contado.”

“Cof! Ora! Por favor, Mr. Oak, um mosquito acabou de voar no meu
estômago e trouxe a tosse de novo!”

“Sim, é isso mesmo. Sua boca está sempre aberta, seu patife!”

“É terrível ter um mosquito voando garganta abaixo, coitado!”, disse


Matthew Moon.

“Bem, em Bath você viu...”, perguntou Gabriel.

“Vi a nossa patroa”, continuou o aprendiz de pastor, “e um soldado,


passeando. Foram chegando cada vez mais perto, e então eles deram os
braços, como é a corte completa... Cof-cof! A corte completa... cof! A corte
completa...”, e perdendo o fio da narrativa neste ponto simultaneamente com
seu fôlego, o informante olhou para cima e para baixo do campo,
aparentemente por alguma pista. “Bem, vi a nossa patroa e um soldado... cof-
cof!”

“Maldiro menino!”, exclamou Gabriel.

“É só o meu jeito, Mr. Oak, me desculpe”, disse Cain Ball, olhando em


tom de censura para Oak, com os olhos encharcados em suas próprias
lágrimas.

“Aqui tem um pouco de sidra para ele. Vai melhorar sua garganta”, disse
Jan Coggan, levantando um garrafão de cidra, puxando a rolha e despejando
diretamente na boca de Cainy. Entretanto, Joseph Poorgrass, começando a
pensar apreensivamente nas graves consequências que se seguiriam: se Cainy
Ball se afogasse com sua tosse e a história de suas aventuras em Bath
morressem com ele.

“Para o meu bem, sempre digo ‘por favor, Senhor’, antes de fazer
qualquer coisa”, disse Joseph, com uma voz humilde. “Você deveria também,
Cain Ball. É uma grande salvaguarda e, talvez, o salvasse de ser estrangulado
até a morte um dia.”

Mr. Coggan derramou a bebida abundantemente na boca sofrida de Cain.


Parte dela escorrendo pelo lado do garrafão, parte do que chegou à boca
escorrendo para fora de sua garganta, e parte indo na direção errada, sendo
tossida e espirrada em torno dos ceifeiros sob a forma de uma névoa de sidra,
que por um momento ficou no ar ensolarado como uma pequena exalação.

“Que espirro mais desajeitado! Por que não tem modos melhores, seu
cachorro!”, disse Coggan retirando o garrafão.

“A sidra desceu pelo meu nariz!”, gritou Cainy assim que conseguiu
falar; “pelo meu pescoço e no meu machucado, e sobre os meus botões
brilhantes e todas as minhas melhores roupas!”

“A tosse do pobre rapaz é muito infeliz”, disse Matthew Moon. “E uma


grande história na mão, também. Bata nas costas dele, pastor.”

“Eu sou assim mesmo”, lamentou Cain . “Minha mãe diz que eu sempre
ficava muito empolgado quando estava nervoso!”

“É verdade, é verdade”, concordou Joseph Poorgrass. Os Balls sempre


foram uma família muito nervosa. Conheci o avô do menino, homem
verdadeiramente nervoso e modesto, até mesmo refinado. Ficava vermelho
por qualquer coisa, quase tanto quanto eu, mas é que esse é o meu defeito!”

“Não, Mr. Poorgrass”, corrigiu Coggan. “É uma qualidade muito nobre


sua.”
“He-he! Bem, não quero falar nada dos outros... nada”, murmurou
Poorgrass timidamente. “Mas nos acostumamos com as coisas, essa que é a
verdade. Mas prefiro esconder o meu defeito, embora, talvez, uma boa
natureza seja o mesmo que uma natureza ruim e quando eu nasci, tudo era
possível ao meu Criador e ele pode não ter tido boa vontade em me dar
dons... Mas o seu talento, Joseph! O seu talento! É um estranho desejo,
vizinho, esse desejo de esconder e não fazer nenhum elogio. No entanto, há
um Sermão da Montanha com um calendário dos abençoados com
inteligência e certos homens mansos podem ser ali chamados.”

“O avô de Cainy era um homem muito inteligente”, disse Matthew Moon.


“Criou uma macieira de sua própria cabeça, que é conhecida pelo seu nome
até hoje, a Early Ball. Sabia, Jan? Uma Quarrenden enxertada numa Tom Putt
e uma Rathe-ripe. Com isso, foi morar com uma mulher ilegalmente numa
cervejaria. Era um homem inteligente naquele sentido.”

“Então”, disse Gabriel, impaciente, “o que viu, Cain?”

“Vi a nossa patroa entrar num tipo de um parque, onde há bancos,


arbustos e flores, de braços dados com um soldado”, continuou Cainy,
firmemente e com pouca compreensão de que suas palavras eram muito
fortes para os sentimentos de Gabriel. “E acho que o soldado era o Sargento
Troy. E eles se sentaram lá juntos por mais de meia hora, falando as coisas
bonitas e houve um momento que ela estava quase morrendo de tanto chorar.
E quando saíram, os olhos estavam brilhando e ela estava branca como um
lírio. Eles olharam no rosto um do outro como se fossem amigos, como um
homem e uma mulher podem ser.”

A fisionomia de Gabriel parecia ficar mais tensa.

“Bem, o que mais você viu?”

“Oh, muita coisa.”

“Branca como um lírio? Tem certeza que era ela?”

“Sim.”
“Certo, e o que mais?”

“As grandes vitrines das lojas, nuvens enormes no céu, cheias de chuva, e
árvores velhas nas matas.”

“Seu bobo! O que vai nos dizer depois?”, perguntou Coggan.

“Deixe ele em paz”, interviu Joseph Poorgrass. “O que o menino queria


dizer foi que o céu e a terra no reino de Bath não são totalmente diferentes
dos nossos aqui. É bom ganhar o conhecimento de cidades diferentes, e,
como tal, temos que aguentar as palavras do menino.”

“E o povo de Bath”, continuou Cain, “não precisa acender o fogo, exceto


como um luxo, pois a água brota da terra quente, pronta para o uso.”

“Isso é verdadeiro como a luz”, declarou Matthew Moon. “Ouvi outros


viajantes dizerem a mesma coisa.”

“Eles não bebem nada lá”, disse Cain, “e parecem se divertir vendo como
bebem.”

“Bem, parece uma prática bárbara o suficiente para nós, mas ouso dizer
que os nativos não pensam assim”, disse Matthew.

“E não surgem alimentos, assim como a bebida?”, perguntou Coggan,


virando o olhar.

“Não, só tinha água em Bath, um aguaceiro. Deus não lhes deu alimentos
bem como a bebida, e foi um inconveniente que não consegui superar.”

“Bem, é, no mínimo, um lugar curioso”, observou Moon; “e o povo que


vive lá também deve ser curioso.”

“Você disse que Miss Everdene e o soldado passeavam juntos?”,


perguntou Gabriel retornando ao grupo.

“Sim, e ela usava um belo vestido de seda dourado com renda preta, que
ficaria de pé sozinho sem precisar de pernas. Era uma visão muito
encantadora. E seu cabelo foi escovado esplendidamente. E quando o sol
iluminou o vestido brilhante e seu casaco vermelho... Meu Deus! Como
ficaram lindos. Dava para vê-los pela rua toda.”

“E então?”, murmurou Gabriel.

“Então que entrei em Griffin’s para consertar minhas botas e depois fui à
confeitaria Riggs e pedi um dos pedaços velhos, mais baratos e mais bonitos,
que estava só um pouco embolorado, não completamente. Enquanto eu estava
comendo, andei e vi um relógio imenso...”

“Mas isso não tem nada a ver com a patroa!”

“Já chegarei lá, se me deixar, Mr. Oak!”, protestou Cainy. “Se me deixar
nervoso, talvez minha tosse volte e não serei capaz de dizer mais nada.”

“Sim, conte do seu jeito mesmo”, disse Coggan .

Gabriel caiu numa atitude desesperada de paciência e Cainy prosseguiu:

“E havia casas muito grandes, e mais pessoas do que toda a semana no


clube de Weatherbury às terças-feiras, e fui a grandes igrejas e capelas. E
como o pároco orava! Sim, ele se ajoelhava e juntava as mãos, fazendos os
anéis sagrados de ouro brilhassem em seus dedos e cintilassem nos olhos, que
ele ganhou orando tão excelente bem! Ah, como eu gostaria de morar lá.”

“Nosso pobre Pároco Thirdly não tem dinheiro para comprar tais anéis”,
disse Matthew Moon, pensativo. “Um homem tão bom. Não acredito que o
pobre Thirdly tenha um sequer, mesmo de simples lata ou cobre. Um
ornamento tão importante numa tarde monótona, quando ele está no púlpito
iluminado pelas velas de cera! Mas é impossível, pobre homem. Ah, como as
coisas são desiguais.”

“Talvez ele não goste de usá-los”, disse Gabriel severamente. “Bem, isso
é o bastante. Continue, Cainy — rápido.”

“Ah, e o novo estilo do pároco de usar bigodes e barbas longas”,


continuou o ilustre viajante, “se parece com Moisés e Arão, e faz com que
nós, as pessoas na congregação, nos sintamos tal como os filhos de Israel.”
“Um sentimento muito justo, muito justo”, comentou Joseph Poorgrass.

“E há duas religiões na nação agora. A Igreja Alta e a Igreja Baixa e,


imaginem, eu fui fiel. Então fui à Igreja Alta na parte da manhã, e à Baixa à
tarde.”

“Um menino correto e apropriado”, disse Joseph Poorgrass .

“Bem, na Igreja Alta, oram cantando e adoraram todas as cores do arco-


íris, e na Baixa oram com pregações e adoram o monótono e o
esbranquiçado. E então, não vi mais Miss Everdene.”

“E por que não nos disse isso antes?”, esbravejou Oak, muito
decepcionado.

“Ah”, disse Matthew Moon, “ela vai se arrepender se for tão íntima desse
homem.”

“Ela não é tão íntima dele”, indignou-se Gabriel.

“Ela deve saber”, disse Coggan. “Nossa patroa tem muita esperteza
debaixo dos cabelos pretos para fazer uma loucura tão grande.”

“Veja bem, ele não é um homem grosseiro e ignorante porque foi bem
educado”, disse Matthew, duvidosamente. “A única loucura que fez foi ser
soldado, e as donzelas preferem os pecadores.”

“Agora, Cain Ball”, disse Gabriel, impaciente, “pode jurar na forma mais
terrível que a mulher que viu era Miss Everdene?”

“Cain Ball, você não é mais um bebê”, disse Joseph no tom sepulcral que
as circunstâncias exigiam, “e sabe o que é fazer um juramento. Pense que é
uma declaração importante. O que disser será selado com sangue e pedra, e o
profeta Mateus nos diz que aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó.
Agora, diante de todos nós aqui reunidos, você jura com suas palavras como
o pastor lhe pede?”

“Por favor, não, Mr. Oak!”, suplicou Cainy, olhando de um para outro
com grande inquietação diante da magnitude espiritual da posição. “Não me
importo de dizer que é verdade, mas não gosto de dizer que é uma verdade
maldita, se é isso que acha.”

“Cain, Cain, como pode fazer isso?”, perguntou Joseph severamente.


“Pedimos que jurasse de maneira sagrada e você jura como malvado Simei,
filho de Gera, que amaldiçoou a todos. Que vergonha, rapaz!”

“Não sou, não! É você que quer desperdiçar a alma de um pobre menino,
Joseph Poorgrass!”, disse Cain, começando a chorar. “Tudo o que eu quis
dizer é que, na verdade comum, eram Miss Everdene e o Sargento Troy, mas
se a verdade que querem é a pior, talvez fossem outras pessoas!”

“Não chegaremos a nada assim”, disse Gabriel, virando-se para o seu


trabalho.

“Cain Ball, você não vale um pedaço de pão!”, gemeu Joseph Poorgrass.

Então os ganchos das ceifeiras foram usados novamente e os velhos sons


continuaram. Gabriel, sem qualquer pretensão de alegrar-se, não fez nada
para mostrar que estava particularmente aborrecido. No entanto, Coggan o
conhecia muito bem, e quando estavam em um canto juntos, disse:

“Pare de se preocupar com ela, Gabriel. Que diferença faz quem a ama, já
que não pode ser sua?”

“É exatamente o que digo a mim mesmo”, declarou Gabriel.


CAPÍTULO XXXIV
NOVAMENTE EM CASA — UM TRAPACEIRO

Naquele mesmo dia ao entardecer, Gabriel estava apoiado sobre o portão do


jardim de Coggan, analisando toda a área antes de se retirar para descansar.

Um veículo se aproximou calmamente pela margem gramada da estrada.


Dele vinham sons de duas mulheres conversando. Eram naturais e nada
contidos. Oak soube imediatamente que aquelas vozes eram de Batehsheba e
Liddy.

A carruagem veio pelo lado oposto e passou. Era de Miss Everdene, e


Liddy e sua senhora eram as únicas ocupantes. Liddy fazia perguntas sobre a
cidade de Bath e sua companheira as respondia com indiferença e
despreocupação. Tanto Bathsheba quanto o cavalo pareciam cansados.

O nobre alívio de descobrir que ela estava ali de novo, sã e salva,


dominou toda sua reflexão e Oak não poderia ficar mais contente com aquela
sensação. Todas as preocupações foram esquecidas.

Demorou-se ali até que não houve diferença entre as extensões orientais e
ocidentais do céu e as lebres tímidas começaram a saltar corajosamente em
volta das colinas enevoadas. Gabriel poderia ter ficado ali por mais meia hora
quando uma forma escura caminhou lentamente em sua direção.

“Boa noite, Gabriel”, disse o transeunte.

Era Boldwood.

“Boa noite, senhor”, respondeu Gabriel.


Boldwood desapareceu igualmente pela estrada e Oak se recolheu pouco
depois.

O fazendeiro Boldwood seguiu em direção à casa de Miss Everdene.


Chegou à frente e, aproximando-se da entrada, viu uma luz no salão. A
cortina não estava fechada, e lá dentro estava Bathsheba olhando alguns
papéis e cartas. Estava de costas para Boldwood. Ele foi até a porta, bateu e
esperou com os músculos tensos e a testa franzida.

Boldwood não passava de seu quintal desde seu encontro com Bathsheba
na estrada para Yalbury. Em silêncio e sozinho, permaneceu em meditação
deprimida sobre os modos daquela mulher, considerando como essenciais do
sexo feminino tais ações que, infelizmente, ele contemplara de perto. Pouco a
pouco, um temperamento mais caridoso o havia tomado, e esta foi a razão
pela qual saiu naquela noite. Fora se desculpar e implorar o perdão de
Bathsheba com algo parecido com um sentimento de vergonha por sua
violência, pois acabara de saber que ela havia retornado — apenas de uma
visita a Liddy, como ele imaginava, mas desconhecia totalmente a fuga para
Bath.

Perguntou por Miss Everdene. Os modos de Liddy eram estranhos, mas


ele não notou. Ela entrou, deixando-o ali de pé e, durante sua ausência, as
cortinas do cômodo onde Bathsheba estava foram fechadas. Boldwood
pressentiu algo ruim daquele sinal. Liddy voltou.

“Minha senhora não pode vê-lo, senhor”, comunicou ela.

O fazendeiro saiu pelo portão imediatamente. Era impossível perdoá-lo,


aquele era o problema. Ele a viu, o que era um prazer e uma tortura ao
mesmo tempo, sentada na sala que compartilhara com ela como um
convidado particularmente privilegiado pouco mais cedo no verão, e ela o
havia negado uma entrada lá agora.

Boldwood não se apressou para chegar em casa. Era perto de dez horas
quando, caminhando deliberadamente pela parte baixa de Weatherbury,
ouviu a charrete do carregador entrar na vila. O veículo ia e vinha de uma
cidade do norte, pertencia a um homem de Weatherbury que também o
conduzia e parou na porta de sua casa naquele momento. A lâmpada
penduarada no capô iluminou uma silhueta escarlate e dourada, que foi a
primeira a descer.

“Ah!”, disse Boldwood para si mesmo, “veio para vê-la novamente.”

Troy entrou na casa do condutor, que era o local de sua hospedagem na


sua última visita à terra natal. Boldwood foi tomado por uma determinação
repentina. Apressou-se para chegar em casa. Em dez minutos estava de volta
e queria chamar Troy na casa do condutor. Mas quando se aproximou,
alguém abriu a porta e saiu. Ouviu essa pessoa dizer: ‘boa noite’ aos que lá
estavam, e a voz era de Troy. Aquilo era estranho, vindo tão imediatamente
após a sua chegada. Boldwood, no entanto, apressou-se para alcançá-lo. Troy
carregava o que parecia ser uma bolsa de tapeçaria, a mesma que trouxera
com ele. Parecia que estava de partida outra vez naquela mesma noite.

Troy virou a colina e acelerou o passo. Boldwood avançou.

“Sargento Troy?”

“Sim, sou eu mesmo.”

“Acho que acabou de chegar?”

“Acabei de chegar de Bath.”

“Sou William Boldwood.”

“Sim.”

O tom em que esta palavra foi dita era tudo o que Boldwood queria para
chegar ao assunto.

“Gostaria de dar uma palavra com você”, disse ele .

“Sobre o quê?”

“Sobre ela, que mora um pouco à frente; e sobre uma mulher a quem
ofenderam.”
“Quero saber o porquê de sua impertinência”, disse Troy, seguindo em
frente.

“Agora olhe aqui”, falou Boldwood, parado na frente dele, “queira ou


não, terá uma conversa comigo.”

Troy ouviu a determinação triste na voz de Boldwood, olhou para sua


estrutura robusta, em seguida, para o bastão pesado que tinha na mão.
Lembrou-se que passava das dez horas. Aparentemente, valia a pena ser
civilizado com Boldwood.

“Muito bem, ouvirei com prazer”, disse Troy, colocando sua bolsa no
chão, “apenas fale baixo, pois podem nos ouvir na casa da fazenda.”

“Muito bem, sei a respeito de seu compromisso com Fanny Robin. Posso
dizer também que acredito que sou a única pessoa na vila que sabe, com
exceção de Gabriel Oak. Deveria se casar com ela.”

“Acho que deveria. De fato, gostaria, mas não posso.”

“Por quê?”

Troy estava prestes a proferir algo às pressas. Então se conteve e disse:

“Sou muito pobre.” Sua voz mudou. Antes, tinha um tom despreocupado.
Agora era a voz de um trapaceiro.

O humor de Boldwood naquele instante não era crítico o suficiente para


notar os tons. Ele continuou:

“Posso também falar claramente. Entenda, não quero entrar nas questões
do que é certo ou errado, na honra e na vergonha de uma mulher ou expressar
qualquer opinião sobre a sua conduta. Pretendo fazer um acordo com você.”

“Compreendo”, disse Troy. “Vamos nos sentar aqui.”

O tronco de uma árvore velha estava sob a cerca do lado oposto, e ali se
sentaram.
“Eu estava prestes a me casar com Miss Everdene”, declarou Boldwood,
“mas você chegou e...”

“Não estavam noivos”, corrigiu Troy.

“Era como se estivéssemos.”

“Se eu não tivesse aparecido, ela poderia ter se tornado sua noiva.”

“Ela seria!”

“Certo, então.”

“Se não tivesse vindo, eu certamente — sim, certamente — teria sido


aceito a esta altura. Se você não a tivesse conhecido, poderia ter se casado
com Fanny. Bem, não há muita diferença entre a situação de Miss Everdene e
sua própria neste flerte com ela que nunca o beneficiará terminando em
casamento. Então, tudo que eu peço é que não a incomode mais. Case-se com
Fanny. Farei valer a pena.”

“Como fará isso?”

“Pagarei-lhe bem. Estipularei um valor sobre ela e garantirei que não será
pobre no futuro. Explicarei claramente: Bathsheba está apenas brincando com
você: é pobre demais para ela, como já disse, por isso desista de desperdiçar
seu tempo num grande jogo que nunca o servirá no futuro. Pegue sua mala,
dê meia-volta, deixe Weatherbury agora, esta noite, e leve cinquenta libras
com você. Fanny também receberá cinquenta para permitir-lhe preparar para
o casamento quando me disser onde ela mora e ela terá mais quinhentas a
serem pagas no dia do seu casamento.”

Ao fazer aquela declaração, a voz de Boldwood revelou muito claramente


uma consciência da fragilidade de sua posição, seus objetivos e seu método.
Sua maneira havia mudado bastante daquela de um Boldwood firme e digno
dos velhos tempos. Tal esquema como o que tinha acabado de desenhar teria
sido condenado como imbecilidade infantil poucos meses antes. Discernimos
aqui a força motriz do amante, o que falta quando se é um homem livre, mas
há uma amplitude de visão no homem livre que no amante busca-se em vão.
Onde há muito preconceito deve haver certa mesquinhez no amor, embora
exista emoção, a capacidade é subtraída. Boldwood exemplificou tudo isso de
um jeito anormal: nada sabia das circunstâncias ou do paradeiro de Fanny
Robin nem das possibilidades de Troy, mas foi isso o que disse.

“Gosto mais de Fanny”, disse Troy, “e se, como diz, Miss Everdene está
fora do meu alcance, só tenho a ganhar aceitando seu dinheiro e me casando
com Fan. Mas ela é apenas uma criada.”

“Não se preocupe. Concorda com a minha proposta?”

“Sim.”

“Ah!”, exclamou Boldwood, com uma voz mais flexível. “Oh, Troy, se
gosta mais dela, por que então fica aqui e fere a minha felicidade?”

“Agora amo mais Fanny”, respondeu Troy. “Mas Bathsh... Miss


Everdene me enfeitiçou por algum tempo. Agora já acabou.”

“Por que acabaria tão cedo? E por que então você voltou?”

“Há razões significativas. Você acabou de dizer cinquenta libras?”

“Sim”, concordou Boldwood, “e aqui estão elas: cinquenta moedas de


ouro.” Entregou a Troy um pequeno pacote.

“Está tudo pronto. Parece que previu que eu aceitaria”, disse o sargento
ao pegar o pacote.

“Achei que aceitaria”, disse Boldwood .

“Tem apenas a minha palavra de que o acordo deve ser respeitado,


enquanto eu, de qualquer modo, tenho cinquenta libras.”

“Havia pensado nisso e considerado que, se não posso apelar para a sua
honra, posso confiar na sua... bem, vamos chamar de astúcia... para não
perder quinhentas libras adiantadas e também fazer um inimigo amargo de
um homem que está disposto a ser um amigo extremamente útil.”
“Pare, escute!”, sussurrou Troy.

Ouviram um barulho suave na estrada logo acima deles.

“Por George, é ela”, continuou ele. “Preciso ir e encontrá-la.”

“Ela... quem?”

“Bathsheba.”

“Bathsheba, fora de casa e sozinha a esta hora da noite?”, disse Boldwood


espantado e se levantado bruscamente. “Por que tem que encontrá-la?”

“Estava me esperando esta noite e agora devo falar com ela e dizer-lhe
adeus, de acordo com seu desejo.”

“Não vejo a necessidade de conversarem.”

“Não haverá mal algum, e ela ficará procurando por mim se eu não for.
Você ouvirá tudo o que eu disser a ela. Isso o ajudará na sua corte quando eu
me for.”

“Seu tom é zombeteiro.”

“Oh, não. E lembre-se, se ela não souber o que aconteceu comigo,


pensará mais em mim do que se eu lhe disser categoricamente que vim para
deixá-la.”

“Limitará suas palavras a este único ponto? Posso ouvir cada palavra que
disser?”

“Cada palavra. Agora sente-se aqui em silêncio, segure a minha mala e


preste atenção no que eu vou falar.”

O andar leve se aproximou, parando de vez em quando, como se quem


caminhava ouvisse um som. Troy assobiou uma nota dupla num tom suave,
semelhante a uma flauta.

“Então vá!”, murmurou Boldwood, inquieto.


“Prometeu ficar em silêncio”, disse Troy.

“Prometo novamente.”

Troy deu um passo adiante.

“Frank, querido, é que você?”, era a voz de Bathsheba.

“Oh, meu Deus!”, exclamou Boldwood.

“Sim”, respondeu Troy.

“Está tão atrasado”, continuou ela com ternura. “Veio com o carregador?
Ouvi as rodas entrando na vila, mas já faz algum tempo e quase desisti,
Frank.”

“É claro que eu viria”, disse Frank. “Sabia que eu viria, não sabia?”

“Bem, pensei que sim”, brincou ela. “Frank, é tanta sorte! Não há
ninguém na minha casa além de mim nesta noite. Pedi que todos saíssem de
modo que ninguém no mundo saberá da sua visita aos aposentos de sua
dama. Liddy queria ir contar ao avô dela sobre sua folga e eu disse que ela
poderia ficar com eles até amanhã, quando você terá partido novamente.”

“Excelente”, disse Troy. “Mas, meu Deus, é melhor eu voltar para pegar a
minha bagagem, porque os meus chinelos, escova e pente estão em nela.
Corra para casa enquanto vou buscá-la, e prometo estar em seu quarto em dez
minutos.”

“Sim.” Ela se virou e voltou pela colina novamente.

Durante esse diálogo houve uma contração nervosa dos lábios bem
fechados de Boldwood e seu rosto ficou banhado de suor. Ele então começou
a avançar no sentido de Troy. Troy virou-se para ele e pegou sua mala.

“Devo dizer a ela que vim para deixá-la e que não poderei me casar com
ela?”, ironizou o soldado.

“Não, não, espere um pouco. Quero dizer-lhe mais algumas coisas!”,


disse Boldwood, num sussurro rouco.

“Agora vê o meu dilema”, disse Troy. “Talvez eu seja um homem mau,


vítima de meus impulsos, levado a fazer o que não deveria. Não posso, no
entanto, me casar com as duas. E tenho duas razões para escolher Fanny. Em
primeiro lugar, gosto mais dela, e segundo, você a fez valer mais para mim.”

No mesmo instante, Boldwood saltou sobre ele e segurou-o pelo pescoço.


Troy sentiu o aperto de Boldwood ficar lentamente mais intenso. O
movimento era absolutamente inesperado.

“Um momento”, engasgou ele. “Está ferindo o amor dela!”

“Bem, o que quer dizer?”, perguntou o fazendeiro.

“Deixe-me respirar”, disse Troy.

Boldwood soltou sua mão, dizendo:

“Por Deus, eu queria matá-lo!”

“E arruiná-la?”

“Salve-a.”

“Oh, como ela pode ser salva agora, a menos que eu me case com ela?”

Boldwood deu um gemido. Soltou relutantemente o soldado e atirou-o


contra a cerca.

“Seu demônio, como me tortura!”, exclamou.

Troy saltou como uma bola e estava prestes a golpear o fazendeiro, mas
se conteve, dizendo calmamente:

“Não vale a pena medir minhas forças com você. Na verdade, é uma
forma bárbara de resolver uma briga. Vou logo deixar o exército por causa da
mesma convicção. Agora, depois da revelação de como Bathsheba ficaria, me
matar seria um erro, não seria?”
“Matá-lo seria um erro”, repetiu Boldwood mecanicamente, com a cabeça
baixa.

“É melhor se matar.”

“Muito melhor.”

“Estou feliz que compreenda.”

“Faça-a sua esposa, Troy, e não haja de acordo com o que acabamos de
combinar. A alternativa é terrível, mas fique com Bathsheba. Eu desisto dela!
Ela deve amá-lo de fato para vender-lhe completamente o corpo e a alma
como tem feito! Que mulher miserável, que mulher iludida que é Bathsheba!”

“Mas, e com relação a Fanny?”

“Bathsheba é uma boa mulher”, continuou Boldwood, na ansiedade


nervosa, “e será uma boa esposa, Troy. Na verdade, vale a sua pressa em se
casar com ela!”

“Mas ela tem uma vontade forte, para não dizer um temperamento, e serei
um mero escravo dela. Faria qualquer coisa pela pobre Fanny Robin.”

“Troy”, implorou Boldwood, “farei qualquer coisa por você, só não


abandone-a. Rogo que não a abandone, Troy.”

“Qual delas, a pobre Fanny?”

“Não, Bathsheba Everdene. Ame-a mais! Ame-a apaixonadamente!


Como poderei fazer para que veja como será vantajoso que a proteja de uma
vez?”

“Não desejo protegê-la de qualquer maneira nova.”

O braço de Boldwood moveu-se espasmodicamente contra a pessoa de


Troy novamente. Ele reprimiu o instinto e sua fisionomia mudou como se
sentisse dor.

Troy continuou: “Logo comprarei a minha dispensa, e então...”


“Mas eu gostaria que apressasse esse casamento! Será melhor para
ambos. Vocês se amam e deve deixar-me ajudá-lo a fazer isso.”

“Como?”

“Ora, através do pagamento de quinhentas libras por Bathsheba em vez


de Fanny para que possam se casar. Ela não receberia isso de mim. Eu o
pagarei no dia do casamento.”

Troy fez uma expressão de espanto em segredo com a obsessão de


Boldwood. Disse descuidadamente:

“E terei alguma coisa agora?”

“Sim, se quiser. Mas não tenho muito dinheiro extra comigo. Não
esperava por isso. Mas tudo o que tenho é seu.”

Boldwood, mais como um sonâmbulo que como um homem alerta, tirou


o grande saco de lona que carregava como uma bolsa e procurou.

“Tenho somente vinte e uma libras comigo”, disse ele. “Duas notas e uma
moeda de ouro. Mas antes de deixá-lo, deve assinar um documento.”

“Pague-me o dinheiro e vamos direto para o salão dela para fazer


qualquer acordo que queira para garantir a minha conformidade com os seus
desejos. No entanto, ela não deve saber nada desse assunto de dinheiro.”

“Não, nada”, disse Boldwood apressadamente. “Aqui está a quantia e se


vier até minha casa vamos escrever o acordo para o restante, assim como as
condições.”

“Primeiro vamos visitá-la.”

“Mas, por quê? Venha comigo esta noite e amanhã iremos ao juiz.”

“Mas ela deve ser consultada, pelo menos informada.”

“Muito bem, vá em frente.”


Subiram a colina para a casa de Bathsheba. Quando estavam na entrada,
Troy disse:

“Espere aqui um momento.” Abrindo a porta, ele deslizou para dentro,


deixando-a entreaberta.

Boldwood esperou. Dois minutos depois, apareceu uma luz na passagem.


Boldwood então viu que a corrente havia sido presa do outro lado da porta.
Troy apareceu do lado de dentro, carregando um candelabro de quarto.

“Achou que eu invadiria?”, desdenhou Boldwood.

“Oh, não, é apenas o meu capricho para garantir as coisas. Pode ler isto
um instante? Vou segurar a luz.”

Troy entregou um jornal dobrado pela fresta entre a porta e o batente e


colocou a vela perto. “Este é o ponto”, disse ele, colocando o dedo sobre uma
linha.

Boldwood olhou e leu:

CASAMENTOS

No dia dezessete, na Igreja de St. Ambrose, Bath, pelo Rev. G. Mincing,


Francis Troy, único filho do falecido Edward Troy, escudeiro, médico, de
Weatherbury e sargento da Dragoon Guards, com Bathsheba, única filha
viva do falecido Mr. John Everdene, de Casterbridge.

“Isso pode ser chamado de um encontro do forte com o fraco, não pode,
Boldwood?”, perguntou Troy. Uma baixa gargalhada irônica se seguiu às
palavras.

O jornal caiu das mãos de Boldwood. Troy continuou:

“Cinquenta libras para me casar com Fanny. Bom. Vinte e uma libras
para não me casar com Fanny, mas sim com Bathsheba. Bom. Final: já sou o
marido de Bathsheba. Agora, Boldwood, que destino ridículo que sempre
interfere entre um homem e sua esposa. E outra coisa. Posso ser mau, mas
não um vilão para fazer do casamento ou da tristeza de qualquer mulher uma
questão de negócios. Fanny há muito tempo me deixou. Não sei onde ela
está. Já procurei por toda parte. Outra coisa. Diz que ama Bathsheba, mas na
mera aparente evidência da desonra dela imediatamente cai fora. Esse amor
não vale nada! Agora que lhe ensinei uma lição, tome o seu dinheiro de
volta.”

“Não aceitarei, não aceitarei!”, sibilou Boldwood.

“Não ficarei com ele também”, disse Troy, desdenhosamente. Envolveu o


pacote de ouro nas notas e jogou tudo na estrada.

Boldwood sacudiu o punho cerrado para ele.

“Seu trapaceiro diabólico! Cão dos infernos! Mas ainda vou puni-lo,
acredite, ainda vou puni-lo!”

Outra gargalhada. Troy, em seguida, fechou a porta e trancou-se pelo lado


de dentro.

Durante toda aquela noite escura, Boldwood poderia ter sido visto
caminhando pelas colinas de Weatherbury como um vulto infeliz nos
Campos Elíseos às margens do Aqueronte.
CAPÍTULO XXXV
NUMA JANELA NO ANDAR DE CIMA

Era muito cedo no dia seguinte, momento do sol e do orvalho. Os inícios


confusos de canções de muitos pássaros se espalhavam pelo ar saudável e o
pálido azul do céu foi aqui e ali revestido com teias finas de núvens
incorpóreas que não tinham efeito algum para obscurecer o dia. Todas as
luzes na cena eram amareladas e todas as sombras eram tênues como vultos.
As plantas rasteiras em torno da antiga mansão estavam curvadas com linhas
de gotas pesadas de água, que tinham sobre os objetos por trás delas o efeito
de lentes de aumento de alta potência.

Pouco antes de o relógio marcar cinco horas, Gabriel Oak e Coggan


atravessaram a vila e foram juntos para os campos. Mal viram a casa de sua
patroa quando Oak imaginou ter visto uma das janelas do segundo andar se
abrir. Os dois homens estavam, naquele momento, parcialmente encobertos
por um arbusto mais velho, que começava a se encher com cachos negros de
frutas, e fizeram uma pausa antes de emergirem de sua sombra.

Um homem debruçou-se ociosamente na guarnição. Olhou para o leste e


depois para o oeste, com o jeito de quem acabava de se levantar. O homem
era o Sargento Troy. Sua jaqueta vermelha estava mal colocada, desabotoada,
e tinha a aparência completamente descontraída de um soldado de folga.

Coggan falou primeiro, olhando calmamente para a janela:

“Ela se casou com ele!”, exclamou.

Gabriel já havia contemplado a visão e agora estava de costas, sem dar


qualquer resposta.
“Eu imaginava que saberíamos de alguma coisa hoje”, continuou Coggan.
“Ouvi rodas passando pela minha porta logo que escureceu. Você tinha ido a
algum lugar.” Procurou ao redor por Gabriel. “Deus do céu, Oak, como seu
rosto está branco! Parece um cadáver!”

“Pareço?”, perguntou Oak, com um sorriso fraco.

“Encoste-se ao portão e espere um pouco.”

“Tudo bem, tudo bem.”

Ficaram algum tempo no portão. Gabriel olhava para o chão com


indiferença. Sua mente acelerou para o futuro no qual via encenado em anos
de lazer as cenas de arrependimento que resultariam daquele ato apressado.
Que estavam casados ele concluíra imediatamente. Por que foi conduzido tão
misteriosamente? Sabia-se que ela fez uma viagem horrível a Bath, devido ao
erro de cálculo da distância: que houve um acidente com o cavalo e que levou
mais do que dois dias para chegar lá. Não era o costume de Bathsheba fazer
as coisas às escondidas. Com todos os seus defeitos, era a sinceridade em
pessoa. Poderia ter caido numa armadilha? A união não foi apenas um
sofrimento indizível para ele: aquilo o surpreendeu, apesar de que tinha
passado a semana anterior com uma suspeita de que poderia ser a intenção de
Troy para encontrá-la longe de casa. Seu retorno tranquilo com Liddy tinha,
até certo ponto, dispersado seu pavor. Assim como o movimento
imperceptível, que se parece com a calma, é infinitamente dividido em suas
propriedades da própria calma, assim sua esperança era indistinguível do
desespero diferente do desespero real.

Em poucos minutos eles caminharam novamente para a casa. O sargento


ainda olhava pela janela.

“Bom dia, camaradas!”, gritou ele com uma voz alegre quando chegaram.

Coggan respondeu ao cumprimento:

“Não vai responder para o homem?”, ele então disse a Gabriel. “Eu diria
‘bom dia’, que não precisa de significado alegre, e ainda assim ser educado
com o homem.”
Gabriel logo decidiu também que, uma vez que a coisa estava feita, fingir
alegria com o assunto seria a maior gentileza para com aquela a quem ele
amava.

“Bom dia, Sargento Troy”, respondeu ele com uma voz medonha.

“Que casa mais sombria e estranha é esta”, disse Troy, sorrindo.

“Ora, eles podem não estar casados!”, sugeriu Coggan. “Talvez ela não
esteja lá.”

Gabriel sacudiu a cabeça. O soldado virou-se um pouco para o leste e o


sol acendeu em seu casaco escarlate um brilho laranja.

“Mas é uma bela casa antiga”, respondeu Gabriel.

“Sim, acho que sim, mas me sinto como um vinho novo numa garrafa
velha aqui. Acho que caixilhos de janelas devem ser colocados por toda parte
e estas paredes velhas, se forem revestidas de madeira, ficariam um pouco
mais alegres; ou o carvalho removido e as paredes forradas com papel.”

“Acho que seria uma pena.”

“Bem, não. Um filósofo me disse uma vez que os antigos construtores,


que trabalharam quando a arte era uma coisa viva, não tinham respeito pelo
trabalho dos construtores que vieram antes deles. Demoliram e modificaram
como bem quiseram, então por que nós não podemos? ‘A criação e a
preservação não se dão bem juntas’, diz ele, ‘e um milhão de antiquários não
pode inventar um estilo.’ Penso exatamente a mesma coisa. Sou a favor de
fazer este lugar mais moderno, para sermos mais felizes.”

O militar virou-se e examinou o interior do quarto para ajudar suas ideias


de melhoria naquele sentido. Gabriel e Coggan seguiram em frente.

“Ei, Coggan”, disse Troy, como se inspirado por uma lembrança, “sabe se
a insanidade já apareceu na família de Mr. Boldwood?”

Jan refletiu por um momento.


“Ouvi dizer uma vez que um tio dele era estranho da cabeça, mas não sei
direito”, respondeu ele.

“Não tem importância”, disse Troy, despreocupado. “Bem, descerei para


os campos com vocês algum dia esta semana, mas tenho alguns assuntos para
resolver primeiro. Bom dia para vocês. Vamos, naturalmente, continuar a
amizade como de costume. Não sou um homem orgulhoso: ninguém pode
falar isso do Sargento Troy. No entanto, como deve ser, aqui está meia-coroa
para beber à minha saúde, rapazes.”

Troy jogou a moeda com destreza no chão à frente e por cima da cerca
em direção a Gabriel, que evitou a sua queda, com seu rosto corando de
irritação. Coggan mudou o olhar, seguiu em frente e pegou o dinheiro em seu
ricochete na estrada.

“Muito bem. Guarde-o, Coggan”, disse Gabriel com desdém e quase


ferozmente. “Quanto a mim, passo sem presentes dele!”

“Não demonstre muito”, disse Coggan pensativo. “Porque, se ele está


casado com ela, marque minhas palavras, vai comprar sua dispensa e ser
nosso patrão aqui. Portanto, é bom dizer ‘amigo’ para fora, embora diga
‘encrenqueiro’ por dentro.”

“Bem, talvez o melhor seja ficar em silêncio, mas não consigo passar
disso. Não consigo bajular, e se o meu lugar aqui só puder ser mantido com
adulações, ele será perdido.”

Um cavaleiro, a quem eles tinham há algum tempo visto à distância de


muitos metros, agora apareceu ao lado deles.

“Lá está Mr. Boldwood”, falou Oak. Estou imaginado o que Troy quis
dizer com a pergunta.

Coggan e Oak cumprimentaram respeitosamente o fazendeiro com um


aceno de cabeça, diminuiram o passo para saber se precisava deles, e como
ele não precisava, se afastaram para deixá-lo passar.

Os únicos sinais da terrível tristeza de Boldwood do combate durante a


noite, assim como naquele momento, fora a falta de cor em seu rosto bem
definido, a aparência dilatada das veias em sua testa e têmporas, e as linhas
mais nítidas sobre a sua boca. O cavalo o conduzia, e cada passo do animal
parecia carregado de desespero obstinado. Gabriel, por um minuto, levantou-
se acima de sua própria dor ao perceber a de Boldwood. Viu a figura
quadrada, sentada ereta sobre o cavalo, com a cabeça voltada para lado
nenhum, os cotovelos firmes nos quadris e a aba reta do chapéu cobrindo seu
rosto imperturbável, até que as bordas finas da silhueta de Boldwood
sumiram gradativamente além da colina. Para alguém que conhecia o homem
e sua história, havia algo mais impressionante nesta imobilidade do que num
colapso. O confronto de discórdia, entre o temperamento e a matéria, aqui foi
forçado dolorosamente para o coração, e como no riso existem fases mais
terríveis do que nas lágrimas, havia, então, na firmeza daquele homem
agonizante, uma expressão mais profunda do que um grito.
CAPÍTULO XXXVI
A RIQUEZA EM PERIGO — A FESTA

Uma noite, no final de agosto, quando as experiências de Bathsheba como


uma mulher casada ainda eram novas, e quando o tempo ainda estava seco e
abafado, um homem estava imóvel no curral de Weatherbury Upper Farm,
olhando para a lua e o céu.

A noite tinha um aspecto sinistro. Uma brisa quente do sul agitava


lentamente os topos de objetos altos e no céu, traços de nuvens flutuantes
navegavam num curso em ângulo reto com o de outro estrato, nenhum deles
na direção da brisa abaixo. A lua, como pode ser vista através destas névoas,
tinha um aspecto metálico lúgubre. Os campos estavam amarelados com a luz
impura e tudo estava tingido de preto e branco como se visto através de um
vitral. Na mesma noite, as ovelhas tinham seguido de volta para casa, o
comportamento das gralhas estava confuso, e os cavalos andavam com
timidez e cautela.

O trovão era iminente e, levando algumas aparências secundárias em


consideração, era provável que as chuvas prolongadas, que marcam o fim da
estação seca, estivessem chegando. Antes de doze horas, a atmosfera da
colheita estaria no passado.

Oak olhou com desconfiança para oito fardos nus e desprotegidos,


enormes e pesados, com a rica produção de metade da fazenda para aquele
ano. Foi para o celeiro.

Aquela foi a noite que o Sargento Troy havia escolhido — dominando


agora a sala de sua esposa — para dar a ceia e o baile da colheita. Conforme
Oak se aproximou do prédio, o som de violinos, de um pandeiro, e a dança
regular de muitos pés tornou-se mais distinto. Chegou perto das grandes
portas, uma das quais ligeiramente entreaberta, e olhou para dentro.

O espaço central, juntamente com o recúo numa extremidade, foi


esvaziado de tudo que pudesse atrapalhar a área, que abrangia cerca de dois
terços do local, e era, portanto, apropriado para a reunião. A outra
extremidade, que foi empilhada até o teto com aveia, estava protegida por
uma lona. Ramos e guirlandas de folhagem verde decoravam as paredes,
vigas e lustres improvisados, e imediatamente em frente a Oak, uma tribuna
havia sido erguida, com uma mesa e cadeiras. Ali estavam sentados três
violinistas, e ao lado deles estava um homem frenético com seus cabelos em
pé, suor escorrendo pelo rosto e um pandeiro tremendo na mão.

A dança terminou e sobre o piso de carvalho preto, ao centro, formou-se


uma nova fila de casais para outra.

“Agora, Madame, por favor, qual dança que gostaria em seguida?”,


perguntou o primeiro músico.

“Realmente, não faz diferença”, disse a voz clara de Bathsheba, que


estava na extremidade interna do edifício, observando a cena de trás de uma
mesa coberta com copos e iguarias. Troy estava preguiçosamente ao lado
dela.

“Então”, disse o violinista, “me aventuro a afirmar que a mais certa e


adequada é ‘The Soldier’s Joy’ por haver um soldado galante casado na
fazenda. Certo, meus filhos e todos os senhores?”

“Que seja 'The Soldier’s Joy'”, exclamou um coro.

“Obrigado pelo elogio”, agradeceu o sargento alegremente, pegando


Bathsheba pela mão e levando-a para a parte principal da dança. “Embora
tenha comprado a minha dispensa do regimento da cavalaria da Décima
Primeira Dragoon Guards de Sua Majestade, O Clemente, para atender às
novas funções que me esperavam aqui, continuarei sendo um soldado em
espírito e sentimento enquanto eu viver.”

Assim, a dança começou. Quanto ao mérito de ‘The Soldier’s Joy’ não


poderia haver e nunca haveria duas opiniões. Observava-se nos círculos
musicais de Weatherbury e sua proximidade, que esta melodia, no final de
três quartos de hora de passos ensurdecedores, ainda possuia propriedades
mais estimulantes para calcanhares e dedos do que a maioria das outras
danças na sua introdução. A canção ‘The Soldier’s Joy’ tem também um
charme adicional em ser tão admiravelmente adaptada ao pandeiro
mencionado, um instrumento inofensivo nas mãos de um artista que entende
as contrações, espasmos e as danças de São Vito adequadas, e os frenesis
temerosos necessários ao exibir seus tons em sua mais alta perfeição.

A melodia imortal terminou, uma canção agradável tocada na viola de


gamba com a sonoridade de um canhoneio, e Gabriel não atrasou mais a sua
entrada. Evitou Bathsheba e ficou o mais perto possível do terraço onde o
Sargento Troy agora estava sentado, bebendo conhaque e água, embora os
outros todos sem exceção tomassem cidra e cerveja. Gabriel não poderia
facilmente empurrar-se para dentro a uma distância onde pudesse conversar
com o sargento e mandou uma mensagem pedindo-lhe para sair por um
momento. O sargento disse que não poderia.

“Diga a ele, então”, pediu Gabriel, “que só entrei para avisar que uma
chuva pesada certamente cairá em breve e que algo deve ser feito para
proteger os fardos.”

“Mr. Troy diz que não vai chover”, respondeu o mensageiro, “e ele não
pode parar para conversar com você sobre essas inquietações.”

Em justaposição com Troy, Oak tinha uma tendência à melancolia que se


parecia com uma vela ao lado do combustível, e pouco à vontade, saiu de
novo, pensando em ir para casa, pois, sob as circunstâncias, não podia
aguentar a cena no celeiro. À porta, parou por um momento, Troy estava
falando.

“Amigos, não é apenas a colheita da fazenda que estamos a celebrar esta


noite. É também uma festa de casamento. Pouco tempo atrás, tive a felicidade
de levar ao altar esta senhora, sua patroa, e até agora não fomos capazes de
dar qualquer exibição pública para o evento em Weatherbury. Isso pode ser
completamente bem feito e todo homem pode dormir feliz. Pedi que fossem
trazidas aqui algumas garrafas de conhaque e chaleiras de água quente. Uma
taça será entregue para cada convidado.”

Bathsheba pôs a mão sobre o seu braço e, com o rosto pálido virado para
cima, implorou:

“Não, não dê isso a eles, por favor, não, Frank! Só vai fazer-lhes mal.
Tiveram o suficiente de tudo.”

“É verdade, não queremos mais nada, obrigado”, disseram alguns.

“Bobagem!”, disse o sargento com desprezo e levantou a sua voz, como


se iluminado por uma nova ideia. “Amigos, vamos levar as mulheres embora!
Já deveriam estar na cama. Então nós, os galos, faremos uma farra! Se existir
algum covarde aqui, que vá procurar trabalho de inverno em outros lugares.”

Indignada, Bathsheba deixou o celeiro, seguida por todas as mulheres e


crianças. Os músicos, sem verem a si mesmos como ‘companhia’, escaparam
silenciosamente para sua carroça e atrelaram o cavalo. Assim, Troy e os
homens da fazenda eram os únicos a ocupar o lugar. Oak, para não parecer
desnecessariamente desagradável, ficou por pouco tempo. Em seguida,
também se levantou e saiu calmamente, seguido por uma praga simpática do
sargento por não ficar para uma segunda rodada de grogue.

Gabriel seguiu em direção a sua casa. Ao aproximar-se da porta, seu dedo


do pé chutou algo que parecia macio, de couro e inchado como uma luva de
boxe. Era um grande sapo passando humildemente pelo caminho. Oak pegou-
o, pensando que poderia ser melhor matar a criatura para salvá-la da dor. No
entanto, ao descobrir que estava ileso, colocou-o novamente entre a grama.
Sabia o que aquela mensagem direta da Grande Mãe significava. E logo veio
outra.

Quando acendeu uma luz dentro de casa, apareceu sobre a mesa um traço
fino e brilhante, como se uma pincelada de verniz houvesse sido levemente
aplicada ao longo dela. Os olhos de Oak seguiram o brilho de serpentina até o
outro lado, que levou a uma enorme lesma de jardim marrom, que veio para
dentro de casa naquela noite por razões próprias. Era a segunda forma da
Natureza de insinuar-lhe que estava preparando-se para o mau tempo.
Oak sentou-se a meditar por quase uma hora. Durante esse tempo, duas
aranhas pretas, do tipo comum em casas de palha, que passeavam no teto
caíram no chão. Aquilo lembrou-lhe que, se houvesse um tipo de
manifestação sobre este assunto que ele compreendia completamente era o
instinto das ovelhas. Saiu da sala, correu por dois ou três campos até o
rebanho, ficou em cima de uma sebe e olhou para elas.

Estavam reunidas no outro lado, em torno de alguns arbustos de tojo e a


primeira peculiaridade observável foi que, quando a cabeça de Oak apareceu
subitamente sobre a cerca, elas não se mexeram ou fugiram. Tinham naquele
instante um terror por algo maior do que pelo homem. Mas aquela não era a
característica mais notável: todas se juntaram de tal maneira que suas caudas,
sem uma única exceção, estavam na direção da parte do horizonte por onde a
tempestade ameaçava. Havia um círculo interno amontoado e por fora outros
mais afastados, o padrão formado pelo rebanho como um todo, como uma
gola de renda Van Dyke, à qual o grupo do tojo estava na posição do
pescoço.

Aquilo era o bastante para que ele se restabelecesse em seu parecer


original. Sabia que estava certo e que Troy estava errado. Cada voz na
natureza foi unânime em evidenciar a mudança. Mas duas traduções distintas
se ligavam a essas expressões mudas. Aparentemente, não era para ser uma
tempestade, mas uma chuva contínua e fria. Os seres rastejantes pareciam
saber tudo sobre a chuva, mas um pouco de trovoada intercalada, enquanto as
ovelhas sabiam tudo sobre a trovoada, e nada da chuva.

Por ser uma complicação incomum de climas, era ainda mais temida. Oak
retornou para as pilhas de feno. Tudo estava silencioso ali e as pontas cônicas
dos fardos projetavam-se escuras no céu. Havia cinco fardos de trigo e três
pilhas de cevada naquela área. O trigo quando debulhado renderia em média
cerca de trinta quartos para cada pilha; a cevada, pelo menos quarenta. Como
a preocupação era com Bathsheba, e de fato com mais ninguém, Oak
mentalmente estimou pelo seguinte cálculo simples:

5 × 30 = 150 quartos = 500 L.


3 × 40 = 120 quartos = 250 L.
––––
Total: 750 L.

Setecentos e cinquenta libras na forma mais perfeita que esse dinheiro


poderia ser estragado — o alimento necessário para o homem e os animais:
deveria expor-se ao risco de deterioração dessa quantidade de milho para
menos de metade do seu valor por causa da instabilidade de uma mulher?

“Nunca, se eu puder impedir!”, exclamou Gabriel.

Tal foi o argumento que Oak definiu a si mesmo. Mas o homem, até para
si mesmo, é um palimpsesto,[23] tendo uma escrita ostensiva e outra nas
entrelinhas. É possível que houvesse essa lenda dourada sobre a útil:
“Ajudarei a mulher que tanto amo até meu último esforço.”

Voltou para o celeiro para procurar ajuda para a cobertura dos fardos
naquela mesma noite. Tudo estava silencioso lá dentro e ele teria se deixado
levar pela crença de que a festa havia terminado por não ter nem uma luz
fraca, amarela como o açafrão em contraste com a brancura esverdeada do
exterior, que passava através do buraco de uma fechadura nas portas
dobráveis.

Gabriel olhou para dentro. Uma imagem incomum atingiu seu olho.

As velas suspensas entre as sempre-vivas haviam queimado até suas


bases e algumas folhas amarradas sobre elas se queimaram. Muitas das luzes
tinham se apagado, outras eram só fumaça e cheiravam mal, com cera caindo
delas no chão. Ali, embaixo da mesa, e inclinando-se contra as formas e
cadeiras em todas as atitudes possíveis, exceto a perpendicular, estavam
todos os miseráveis trabalhadores, com seus cabelos tão baixos que mais
pareciam esfregões e vassouras. Em meio a eles brilhava a vermelha e
distinta figura do Sargento Troy, recostado numa cadeira. Coggan estava
deitado de costas, com a boca aberta, roncando, assim como vários outros. As
respirações da reunião horizontal formavam um rugido subjugado como
Londres à distância. Joseph Poorgrass estava enrolado como um ouriço,
aparentemente em tentativas de deixar a menor parte possível da sua
superfície para o ar. Atrás dele estava vagamente visível uma remanescência
sem importância de William Smallbury. Os copos e as taças ainda estavam
sobre a mesa, assim como uma jarra de água derrubada, a partir da qual um
pequeno córrego, depois de traçar o seu curso com admirável precisão para
baixo do centro da longa mesa, caía no pescoço do inconsciente Mark Clark,
num constante e monótono gotejamento como o de uma estalactite numa
caverna.

Gabriel olhou desesperadamente para o grupo que, com uma ou duas


exceções, era composto de todos os homens de boa forma física da fazenda.
Percebeu imediatamente que se os fardos precisassem ser salvos naquela
noite, ou mesmo na manhã seguinte, teria que salvá-los com suas próprias
mãos.

Um fraco tilintar ressoou por debaixo do colete de Coggan. Era o seu


relógio marcando duas horas.

Oak foi até o encurvado Matthew Moon, que normalmente se


responsabilizava pela cobertura do lugar, e sacudiu-o. Não teve efeito algum.

Gabriel gritou em seu ouvido:

“Onde está o seu martelo, as varas e as barras da proteção dos fardos?”

“Debaixo das escoras”, respondeu Moon mecanicamente, com a presteza


inconsciente de um médium.

Gabriel soltou sua cabeça, que caiu no chão como uma tigela. Foi então
até o marido de Susan Tall.

“Onde está a chave do granário?”

Não houve resposta. A pergunta foi repetida, com o mesmo resultado.


Gritar com ele à noite não era novidade, evidentemente, para o marido de
Susan Tall do que para Matthew Moon. Oak pos a cabeça de Tall para o
canto novamente e virou-se.

Honestamente, os homens não eram tão culpados por aquele fim de noite
doloroso e desmoralizante. O Sargento Troy insistira com tanta energia, com
o copo na mão, que a bebida devia ser o vínculo da sua união, que aqueles
que desejassem recusar seriam grosseiros demais sob as circunstâncias. Por
não serem acostumados desde a juventude com quaisquer bebidas mais fortes
do que a cidra, ou a cerveja leve, não era de admirar que tivessem sucumbido,
todos eles, com uniformidade extraordinária, após o decurso de cerca de uma
hora.

Gabriel estava muito deprimido. Aquela orgia era de mau agouro com sua
patroa inteligente e fascinante, a quem aquele homem fiel mesmo agora
sentia dentro dele como a personificação de tudo o que era doce, brilhante e
sem esperança.

Apagou as velas que expiravam para que o celeiro não fosse exposto ao
perigo, fechou a porta com os homens em seu sono profundo e esquecido, e
saiu outra vez na noite solitária. Uma brisa quente, como se vinda dos lábios
entreabertos de algum dragão a ponto de engolir o mundo, soprava do sul,
enquanto do norte subia um corpo disforme e sombrio de uma nuvem nos
próprios dentes do vento. Então, ela estranhamente se levantou como se
pudesse ser erguida por máquinas. Enquanto isso, as pequenas nuvens tênues
tinham voado de volta para o lado sudeste do céu como se temessem a grande
nuvem tal qual uma jovem ninhada olhava para um monstro.

Ao ir para a vila, Oak atirou uma pequena pedra contra a janela do quarto
de Laban Tall, esperando que Susan a abrisse, mas ninguém se mexeu. Deu a
volta para a porta de trás, que havia sido deixada destrancada para que Laban
entrasse, e parou ao pé da escada.

“Mrs. Tall, vim buscar a chave do granário para pegar as lonas dos
fardos”, disse Oak, com a voz altíssima.

“É você?”, perguntou Mrs. Susan Tall meio acordada.

“Sim”, respondeu Gabriel.

“Venha para a cama, seu bandido, acordando alguém assim!”

“Não é Laban. É Gabriel Oak. Quero a chave do granário.”

“Gabriel! Meu Deus do céu, está fingindo ser Laban?”


“Não. Pensei que você soubesse...”

“Estava sim! O que quer aqui?”

“A chave do granário.”

“Leve-a então. Está no prego. As pessoas que vêm perturbar mulheres a


esta hora de noite deviam...”

Gabriel pegou a chave sem esperar para ouvir a conclusão do discurso.


Dez minutos mais tarde, sua figura solitária pôde ser vista arrastando quatro
revestimentos à prova de água de grandes dimensões através do quintal, e
logo dois dos tesouros em grãos foram cobertos com duas lonas para cada
um. Duzentas libras estavam garantidas. Três pilhas de trigo estavam
descobertas, mas não havia mais panos. Oak procurou sob as escoras e
encontrou um rastelo. Montou a terceira pilha de riqueza e começou a
trabalhar, usando o plano de declive das roldanas superiores um sobre o
outro; e, além disso, enchendo os interstícios com o material de alguns feixes
que não estavam amarrados.

Até então tudo estava bem. Com aquele artifício apressado, o trigo da
propriedade de Bahsheba estava seguro por uma semana ou duas, desde que
não houvesse muito vento.

Em seguida veio a cevada. Só foi possível proteger com coberturas


sistemáticas. O tempo estava passando e a lua desapareceu para não
reaparecer. Foi a despedida do embaixador antes da guerra. A noite tinha um
olhar abatido como o de um doente. Veio, finalmente, uma expiração
absoluta do ar de todo o céu sob a forma de uma brisa lenta que se comparava
à morte. E agora nada era ouvido no quintal a não ser as batidas monótonas
do martelo que prendia as barras e o farfalhar da palha nos intervalos.
CAPÍTULO XXXVII
A TEMPESTADE — OS DOIS JUNTOS

A luz batia sobre a cena como se refletida de asas fosforescentes cruzando o


céu e um estrondo encheu o ar. Foi o primeiro passo da tempestade que se
aproximava.

A segunda salva era barulhenta, com um relâmpago relativamente pouco


visível. Gabriel viu uma vela brilhando no quarto de Bathsheba e logo uma
sombra agitava-se para lá e para cá por detrás da cortina.

Veio então um terceiro clarão. Manobras de um tipo mais extraordinário


foram acontecendo nas vastas depressões do firmamento. O relâmpago agora
era prateado e brilhava sob os céus como um exército armado. Os ribombos
tornaram-se chocalhos. De sua posição elevada, Gabriel podia ver a paisagem
pelo menos seis milhas à frente. Cada cerca, arbusto e árvore eram distintos
como numa gravura fina. Num cercado na mesma direção estava um rebanho
de novilhas e seus contornos eram visíveis naquele momento, na mais
selvagem e mais louca confusão, arremessando seus calcanhares e suas
caudas para o alto e a cabeça para a terra. Um álamo em primeiro plano
imediato era como um traço de tinta em estanho polido. Em seguida, a
imagem desapareceu, deixando a escuridão tão intensa que Gabriel trabalhou
apenas pelo que sentia com as mãos.

Havia fincado a haste ou punhal nas pilhas, como era indiferentemente


chamada a lança de ferro longa e polida pelo manuseio, usado para apoiar as
roldanas em vez do apoio usado em casas. Uma luz azul apareceu no zênite e
piscou de uma maneira indescritível perto do topo da haste. Foi o quarto dos
maiores clarões. Um momento depois houve um estalo forte, claro e curto.
Gabriel sentiu que sua posição não era nada segura e resolveu descer.
Nem uma gota de chuva ainda havia caído. Ele enxugou a testa cansada e
voltou a olhar para as formas negras das pilhas desprotegidas. Sua vida era
tão valiosa para ele, afinal? Quais eram suas perspectivas de que deveria ser
tão cauteloso para correr riscos quando o trabalho importante e urgente não
poderia ser realizado sem esse risco? Resolveu ficar com a pilha. No entanto,
tomou uma precaução. Sob as escoras estava uma longa corda, usada para
impedir a fuga de cavalos errantes. Levou-a até a escada, e prendendo sua
vara num pedaço de madeira de um lado, permitiu que a outra extremidade da
corda formasse uma trilha no chão. A estaca foi fixada. Sob a sombra deste
para-raios improvisado, ele se sentia relativamente seguro.

Antes que Oak pusesse as mãos em suas ferramentas outra vez, um quinto
clarão, como o salto de uma serpente e o grito de um demônio. Era verde
como uma esmeralda e a reverberação foi impressionante. O que aquela luz
lhe revelou? No terreno aberto à sua frente, ao olhar por cima do topo da
pilha, viu uma forma escura e aparentemente do sexo feminino. Poderia ser
da única mulher ousada da paróquia — Bathsheba? A forma deu um passo:
em seguida, ele não podia ver mais nada.

“É você, senhora?”, perguntou Gabriel à escuridão.

“Quem está aí?”, disse a voz de Bathsheba.

“Gabriel. Estou cobrindo as pilhas.”

“Oh, Gabriel! É você? Eu vim para vê-las. O tempo me acordou e me


preocupei com o milho. Estou muito angustiada com isso, podemos salvá-lo
de alguma maneira? Não consigo encontrar meu marido. Ele está com você?”

“Ele não está aqui.”

“Sabe onde ele está?”

“Adormecido no celeiro.”

“Ele prometeu que as pilhas seriam protegidas, e agora estão todas


abandonadas! Posso fazer alguma coisa para ajudar? Liddy está com medo de
sair. Ótimo encontrá-lo aqui a essa hora! Posso fazer alguma coisa, certo?”
“Pode trazer alguns feixes de junco para mim, um por um, Madame, se
não tiver medo de subir a escada no escuro”, disse Gabriel. “Cada momento é
precioso agora, e isso economizaria muito tempo. Não fica muito escuro logo
após um relâmpago.”

“Farei qualquer coisa!”, disse ela, decidida. Pegou imediatamente um


feixe sobre o seu ombro, subiu próximo aos calcanhares dele, colocou-o atrás
da vara e desceu para buscar outro. Em sua terceira subida, a pilha de repente
iluminou-se com o brilho de bronze de faiança polida. Cada nó em cada palha
era visível. Na encosta à frente dele apareceram duas formas humanas, pretas
como azeviche. A pilha perdeu seu brilho e as silhuetas desapareceram.
Gabriel virou a cabeça. Era o sexto clarão, que tinha vindo do leste atrás dele
e as duas formas escuras eram as sombras dele mesmo e de Bathsheba.

Então veio o estrondo. Era difícil acreditar que uma luz tão celestial
pudesse trazer um som tão diabólico.

“Que horror!”, exclamou ela, agarrando-o pela manga. Gabriel virou-se e


segurou-a em seu posto aéreo pelo braço. No mesmo momento, enquanto ele
ainda estava de costas em sua atitude, houve mais uma luz e viu, por assim
dizer, uma cópia do álamo alto na colina desenhado em preto na parede do
celeiro. Era a sombra de uma árvore jogada por um clarão secundário no
oeste.

Veio o próximo relâmpago. Bathsheba estava no chão levando outro feixe


no ombro, e ela suportou seu ofuscamento sem vacilar, o trovão e tudo o
mais, e novamente subiu com a carga. Houve então um silêncio em todos os
lugares por quatro ou cinco minutos, e o ruído das barras, enquanto Gabriel
rapidamente as martelava, voltou a ser distintamente ouvido. Ele pensou que
o pior da tempestade houvesse passado. Entretanto, veio uma explosão de
luz.

“Aguente!”, disse Gabriel, pegando o feixe de seu ombro e agarrando o


braço dela novamente.

O céu então se abriu, de fato. O clarão foi quase totalmente desconhecido


por sua natureza inexprimivelmente perigosa para ser notado, e eles só
puderam compreender a magnificência de sua beleza. Surgiu do leste, oeste,
norte, sul, e foi uma perfeita dança de morte. As formas de esqueletos
apareceram no ar, desenhando os ossos com fogo azul: dançando, pulando,
caminhando, correndo e misturando-se completamente numa confusão sem
precedentes. Com estes estavam entrelaçadas cobras verdes ondulantes, e por
trás delas, uma grande massa de luz menor. Simultaneamente caiu de todas as
partes do céu algo que podia ser chamada de grito, uma vez que, embora não
se parecesse com um grito, era mais da natureza do que um grito de qualquer
outra coisa terrena. Enquanto isso, uma das formas terríveis havia pousado na
ponta de vara de Gabriel, para descer invisívelmente pela corrente e cair na
terra. Gabriel estava quase cego e podia sentir o braço quente e trêmulo de
Bathsheba em sua mão —uma sensação nova e emocionante. Mas o amor, a
vida, tudo que é humano, parecia pequeno e insignificante em tal justaposição
próxima com um universo enfurecido.

Oak mal teve tempo para reunir essas impressões num pensamento e ver
como a pena vermelha do chapéu dela brilhou de forma estranha sob essa luz,
quando a árvore alta na colina antes mencionada parecia em chamas de um
calor branco, e um novamente entre aquelas vozes terríveis misturavam o
último estouro com os anteriores. Foi uma explosão espantosa, dura e
impiedosa e caiu nos ouvidos deles num golpe morto e vazio, sem a
reverberação que empresta os tons de um tambor ao trovão mais distante.
Pelo brilho refletido de todas as partes da terra, e do amplo arco acima dele,
viu que a árvore foi cortada de cima a baixo por todo o comprimento do seu
tronco alto, em linha reta, e uma enorme tira da casca foi visivelmente
arrancada. A outra parte permaneceu ereta e revelou a superfície nua como
uma faixa de cor branca na frente. O raio havia caído na árvore. Um cheiro
sulfuroso encheu o ar. Então tudo ficou em silêncio e negro como uma
caverna em Hinnom.

“Escapamos por pouco!”, disse Gabriel, apressadamente. “É melhor você


descer.”

Bathsheba não disse nada, mas ele pôde ouvir claramente o ritmo da
respiração ofegante dela e o farfalhar recorrente do feixe ao lado dela em
resposta às suas pulsações assustadas. Ela desceu a escada e ele, pensando
melhor, a seguiu. A escuridão era agora impenetrável pela visão mais nítida.
Ambos ainda estavam parados na parte inferior, lado a lado. Bathsheba
parecia pensar apenas no tempo — Oak só pensava nela naquele momento.
Por fim, ele disse:

“Agora parece que a tempestade passou.”

“Também acho”, concordou Bathsheba. “Embora ainda haja milhares de


relâmpagos, veja!”

O céu estava agora preenchido com uma luz constante, a repetição


frequente fundindo-se em completa continuidade, como ininterruptos
resultados sonoros dos golpes sucessivos de um gongo.

“Nada de grave”, observou ele. “Não consigo entender porque a chuva


não cai. Mas Graças a Deus, é o melhor para nós. Agora vou subir de novo.”

“Gabriel, você é melhor do que mereço! Vou ficar e ajudá-lo ainda. Oh,
por que alguns dos outros não estão aqui?”

“Eles estariam aqui se pudessem”, disse Oak, hesitante.

“Oh, eu sei de tudo... tudo”, disse ela, acrescentando lentamente: “Estão


todos dormindo no celeiro, um sono de embriaguez, com meu marido entre
eles. É isso mesmo, não é? Não pense que sou uma mulher tímida que não
pode suportar as coisas.”

“Não, tenho certeza”, falou Gabriel . “Vou ver.”

Ele foi até o celeiro, deixando-a sozinha. Olhou pelas frestas da porta.
Tudo estava em total escuridão como ele havia deixado, e ainda se seguia,
como no anteriormente, o zumbido constante de muitos roncos.

Sentiu uma brisa passando sobre sua face e se virou. Era a respiração de
Bathsheba, que o seguiu e estava olhando pela mesma fenda.

Ele esforçou-se para adiar o assunto imediato e doloroso de seus


pensamentos comentando gentilmente:

“Se voltar, senhorita — senhora, e ajudar um pouco mais, economizaria


muito tempo.”
Então Oak voltou novamente, subiu ao topo, desceu a escada para uma
maior expedição e foi até a cobertura. Ela o seguiu, mas sem um feixe.

“Gabriel”, disse ela, numa voz estranha e impressionante.

Oak olhou para ela. Não falava desde que ele deixou o celeiro. O brilho
suave e contínuo do relâmpago morrendo mostrou um rosto de mármore
contra o céu negro do lado oposto. Bathsheba estava sentada quase no topo
da pilha com os pés descansando no topo da escada.

“Pois não, senhora”, disse ele.

“Suponho que pensou que quando fui para Bath naquela noite tinha o
propósito de me casar.”

“No final, sim, mas não no início”, ele respondeu, um tanto surpreso com
a brusquidão com que o novo assunto foi abordado.

“E os outros também pensavam assim?”

“Sim.”

“E você me culpa por isso?”

“Bem, um pouco.”

“Foi o que pensei. Agora, me preocupo um pouco para a sua boa opinião
e quero explicar algo desde que voltei, e você me olhava tão preocupado. Se
eu estivesse para morrer, e posso morrer logo, seria terrível se sempre tivesse
uma impressão errada de mim. Agora, ouça.”

Gabriel parou com seu barulho.

“Fui para Bath naquela noite na total intenção de romper meu noivado
com Mr. Troy. Foi devido a circunstâncias que ocorreram depois que cheguei
lá que... nos casamos. Agora você entende a questão sob uma nova luz?”

“Sim... um pouco.”
“Preciso dizer mais, agora que começei. E talvez não faça mal nenhum,
você certamente não tem a mínima ilusão de que eu alguma vez o amei, ou
que eu possa ter qualquer objeção em falar, mais do que já o tenho
mencionado. Bem, eu estava sozinha numa cidade estranha e o cavalo estava
coxo. E não sabia o que fazer. Vi, quando já era tarde demais, que o
escândalo podia apoderar-se de mim por encontrá-lo só dessa maneira. Mas
eu vinha embora quando, de repente, ele disse que viu naquele dia uma
mulher mais bonita do que eu, e que sua constância não poderia ser
considerada a não ser que de uma vez por todas eu me tornasse sua... fiquei
aflita e confusa...” Ela limpou a voz, e esperou um momento, como se
tomasse fôlego. “E então, entre o ciúme e a loucura, me casei com ele!”,
sussurrou com impetuosidade desesperada.

Gabriel não respondeu.

“Ele não teve culpa, pois era perfeitamente verdade sobre... sobre ver
outra pessoa”, ela rapidamente acrescentou. “E agora não quero uma única
observação sua sobre o assunto. Na verdade, eu o proíbo. Só queria que
soubesse deste pequeno mal-entendido da minha história antes que nunca
pudesse saber dela. Quer mais alguns feixes?”

Ela desceu a escada e o trabalho continuou. Gabriel logo percebeu um


langor nos movimentos de sua patroa para cima e para baixo e disse a ela,
gentilmente como uma mãe:

“Acho que é melhor você ir para dentro de casa agora. Está cansada. Eu
posso terminar o resto sozinho. Se o vento não mudar, é provável que a chuva
não venha.”

“Se sou inútil, irei”, disse Bathsheba, com sinais de cansaço. “Mas oh, e
se perder sua vida?”

“Você não é inútil, mas preferia não cansá-la mais tempo. Esteve muito
bem.”

“E você, melhor!”, agradeceu ela. “Obrigada por sua devoção, mil vezes,
Gabriel! Boa noite. Sei que está fazendo o seu melhor por mim.”
Ela diminuiu na penumbra e desapareceu, e ele ouviu o trinco do portão
cair assim que ela passou. Ele trabalhou num devaneio, meditando sobre sua
história, e sobre a contradição daquele coração feminino que a fez conversar
mais calorosamente com ele nesta noite, do que nunca tinha feito enquanto
solteira e livre para falar calorosamente como fez.

Sua meditação foi perturbada por um rangido na cocheira. Era o cata-


vento no telhado girando, e esta mudança no vento foi o sinal de uma chuva
desastrosa.
CAPÍTULO XXXVIII
A CHUVA — UM SOLITÁRIO ENCONTRA O
OUTRO

Eram cinco horas, e a aurora estava prometendo romper em tons pardos e


cinza.

O ar mudou sua temperatura e agitou-se mais vigorosamente. Brisas


frescas evoluiram em redemoinhos transparentes em volta do rosto de Oak. O
vento mudou ainda um ponto ou dois e soprou mais forte. Em dez minutos,
cada vento do céu parecia estar em trajeto indefinido. Algumas das coberturas
sobre as pilhas de trigo foram enroladas fantasticamente no alto e tiveram de
ser substituídas e presas com algumas barras que estavam ao alcance. Isto
feito, Oak se dedicou novamente à cevada. Uma enorme gota de chuva
atingiu seu rosto, o vento rosnou em cada canto, as árvores balançaram seus
troncos e os galhos entraram em confronto na contenda. Fincando as barras
em qualquer ponto e em qualquer sistema, polegada por polegada, ele cobriu
mais, e de forma mais segura da ruína, aa representação perturbadora de
setecentas libras. A chuva veio severamente e Oak logo sentiu a água descer
em rotas frias e úmidas pelas costas. Finalmente, ele estava quase
completamente encharcado, e os corantes de suas roupas escorrerram e
formaram uma poça ao pé da escada. A chuva se estendia obliquamente
através da atmosfera pesada em espinhos líquidos, ininterrupta na
continuidade entre suas origens nas nuvens e suas pontas nele.

Oak, de repente, se lembrou de que oito meses antes ele estava lutando
contra o fogo no mesmo local tão desesperadamente como lutava contra a
água agora e pelo amor fútil da mesma mulher. Quanto a ela... Mas Oak era
generoso e verdadeiro e rejeitou suas reflexões.
Era cerca de sete horas de uma manhã escura como chumbo quando
Gabriel desceu da última pilha e exclamou alegremente:

“Acabou!” Estava encharcado, cansado e triste, e ainda assim não tão


triste como encharcado e cansado, pois foi aplaudido por um sentimento de
sucesso numa boa causa.

Sons fracos vinham do celeiro e ele olhou naquela direção. Figuras


andavam individualmente e em pares pelas portas, todos caminhando
desajeitadamente e confusos, salvo pelo principal, que usava uma jaqueta
vermelha e avançava com as mãos nos bolsos, assobiando. Os outros
cambaleavam com um ar de atingidos pela consciência: toda a procissão não
era diferente do grupo de pretendentes de Flaxman cambaleantes em direção
às regiões infernais sob a condução de Mercúrio. As formas retorcidas
passaram para a aldeia e Troy, seu líder, entrou na casa da fazenda. Nem um
único deles olhou para as pilhas ou aparentemente pensou sobre a condição
delas.

Logo Oak também foi para casa por um caminho diferente do deles. Na
frente dele, contra a superfície molhada da pista, viu uma pessoa que andava
ainda mais lentamente do que ele, debaixo de um guarda-chuva. O homem
virou-se e claramente sobressaltou-se: era Boldwood.

“Como está nesta manhã, Sir?”, perguntou Oak.

“Sim, está um dia úmido. Oh, estou bem, muito bem, obrigado, muito
bem.”

“Ficou feliz em saber, Sir.”

Boldwood pareceu acordar aos poucos para o presente.

“Você parece cansado e doente, Oak”, comentou ele, em seguida, sem


considerar muito sua companhia.

“Estou cansado. Parece estranhamente alterado, Sir.”

“Eu? Nem um pouco. Estou muito bem. O que o faz pensar isso?”
“Achei que não parecia tão bem como de costume, só isso.”

“De fato, então está enganado”, disse Boldwood rapidamente. “Nada me


dói. Sou feito de ferro.”

“Trabalhei duro para cobrir as nossas pilhas e quase não deu tempo.
Nunca lutei tanto em minha vida... Os seus, claro, estão seguros, Sir.”

“Oh, sim”, Boldwood acrescentou, depois de um intervalo de silêncio: “O


que você perguntou, Oak?”

“Se suas pilhas estão todas cobertas.”

“Não.”

“De qualquer forma, as grandes estão nos suportes de pedra?”

“Não estão.”

“Estão debaixo de uma cobertura?”

“Não, esqueci de pedir ao responsável pelas coberturas para providenciar


isso.”

“Nem a menor no umbral?”

“Nem a menor no umbral. Eu negligenciei as pilhas este ano.”

“Então nem um décimo de seu milho será avaliado, Sir.”

“Possivelmente não.”

“Os abandonou”, repetiu Gabriel lentamente para si mesmo. Era difícil


descrever o efeito intensamente dramático que o anúncio teve sobre Oak em
tal momento. Toda a noite, ele sentia que a negligência na qual estava
trabalhando para o reparo era anormal e isolada, o único exemplo do tipo
dentro da paróquia. No entanto, ao mesmo tempo, dentro da mesma paróquia,
um desperdício maior vinha acontecendo, sem reclamações ou consideração.
Alguns meses antes, se Boldwood se esquecesse de seus negócios seria uma
ideia tão absurda como se um marinheiro se esquecesse de que estava num
navio. Oak só pensava que tudo o que ele mesmo sofreu com o casamento de
Bathsheba, ali estava um homem que sofreu mais, quando Boldwood falou
com uma voz diferente, de quem desejava fazer uma confidência e aliviar o
seu coração.

“Oak, você sabe tão bem quanto eu que as coisas deram errado comigo
ultimamente. Minha vida se resolveria um pouco; mas, de alguma forma, o
meu plano deu em nada.”

“Achava que minha patroa se casaria com o senhor”, disse Gabriel, sem
saber o suficiente da profundidade do amor de Boldwood para manter
silêncio por conta do fazendeiro, e determinado a não esquivar-se da
disciplina ao fazê-lo por conta própria. “No entanto, às vezes, é assim, e nada
acontece como esperamos”, acrescentou, com a tranquilidade de um homem a
quem tinha se habituado à desgraça ao invés de subjugá-la.

“Ouso dizer que sou uma piada na paróquia”, declarou Boldwood, como
se o assunto viesse irresistivelmente para sua língua, e com uma leveza triste
quis expressar sua indiferença.

“Oh, não, eu não acho.”

“Mas a verdade da questão é que não havia, como alguns imaginam,


qualquer flerte... da parte dela. Nenhum compromisso existiu entre nós. As
pessoas dizem que sim, mas não é verdade: ela nunca me prometeu nada!”
Boldwood parou e virou o rosto colérico para Oak. “Oh, Gabriel”, ele
continuou, “sou fraco e tolo, e não sei, não posso afastar a minha dolorosa
tristeza!... Eu tinha alguma crença fraca na misericórdia de Deus até que
perdi aquela mulher. Sim, Ele preparou um cabaceiro para me sombrear, e
como o profeta, agradeci e fiquei feliz. Mas no dia seguinte, Ele preparou um
verme para ferir o cabaceiro e murchá-lo; e sinto que é melhor morrer do que
viver!”[24]

Um silêncio se seguiu. Boldwood despertou do humor momentâneo de


confiança em que se deixara levar e caminhou novamente, retomando a sua
reserva habitual.
“Não, Gabriel”, ele continuou, com um descuido que era como o sorriso
no rosto de um crânio: “foi feito mais por outras pessoas que por nós. Sinto
um pouco de arrependimento, ocasionalmente, mas nenhuma mulher já teve
poder sobre mim por qualquer período de tempo. Bem, bom dia. Posso
confiar em você para não mencionar aos outros o que se passou entre nós
dois aqui.”
CAPÍTULO XXXIX
VOLTANDO PARA CASA – UM GRITO

Na rodovia entre Casterbridge e Weatherbury, cerca de três milhas do antigo


lugar, ficava Yalbury Hill, uma daquelas longas subidas íngremes que
permeiam as estradas desta parte ondulada de South Wessex. Ao retornar do
mercado, era comum para os agricultores e outras classes parar na base e
subir a pé.

Num sábado à noite, no mês de outubro, o veículo de Bathsheba subia


exatamente este declive. Ela estava sentada com indiferença no segundo
assento, enquanto caminhando ao seu lado, em roupas de fazendeiro de corte
elegante e incomum, um jovem ereto e robusto. Embora a pé, ele segurava as
rédeas e um chicote e, ocasionalmente, lançava golpes leves destinados à
orelha do cavalo com a ponta do chicote como um divertimento. Este homem
era seu marido, antes o Sargento Troy, que, depois de ter comprado a sua
dispensa com o dinheiro de Bathsheba, foi transformando-se, gradualmente,
num agricultor de uma escola animada e muito moderna. As pessoas de ideias
inalteráveis ainda insistiam em chamá-lo de ‘Sargento’ quando o
encontravam, que em algum grau era devido ao bigode bem-cuidado que
conservava de seus dias militares e pela postura inseparável de forma e da
formação militar.

“Sim, se não fosse por essa chuva miserável eu teria ganho duzentas
libras tão facilmente só de ficar olhando”, dizia ele. “Você não vê que tudo
mudou? Como num livro que li uma vez, o tempo úmido é a narrativa e os
dias bons são os episódios da história do nosso campo. Não é verdade?”

“Mas é a época do ano para tempo instável.”


“Bem, sim. O fato é que essas corridas do outono são a ruína de todos.
Nunca vi um dia assim! Era um lugar aberto selvagem, fora de Budmouth, e
um mar escuro se agitava perto de nós como tristeza líquida. O vento e a
chuva... Meu Deus! A escuridão? Ora, tão negra quanto o meu chapéu antes
que a última corrida viesse. Foram cinco horas, e você não podia ver os
cavalos até que eles estivessem quase dentro, sem falar nas cores. O chão era
tão pesado como chumbo, e todo o julgamento, pela experiência de um
colega, servia de nada. Cavalos, cavaleiros, pessoas, foram todos soprados
como navios no mar. Três cabines foram levadas pelo vento, e as pobres
pessoas dentro arrastaram-se para fora sobre suas mãos e joelhos; e no
próximo campo eram como uma dúzia de chapéus de uma só vez. É,
Pimpernel costumava agir rápido, e a cerca de sessenta jardas, e quando eu vi
Policy chegar, fez meu coração bater contra as minhas costelas, eu lhe
garanto, meu amor!”

“E você quer dizer, Frank”, disse Bathsheba tristemente. Sua voz estava
dolorosamente reduzida da plenitude e vivacidade do verão anterior, “que
você perdeu mais de cem libras num mês nestas corridas de cavalos terríveis?
Oh, Frank, é cruel, é tolo você tirar o meu dinheiro. Teremos que deixar a
fazenda. Será o fim de tudo!”

“Engana-se sobre ser cruel. Agora, outra vez, vai começar a chorar. Você
é exatamente assim.”

“Mas vai me prometer não ir para a segunda sessão em Budmouth, não


vai?”, implorou ela. Bathsheba estava mergulhada em lágrimas, mas manteve
o olhar seco.

“Não sei por que eu deveria; na verdade, se for num belo dia, eu estava
pensando em levá-la.”

“Nunca, nunca! Vou cem milhas por outro caminho primeiro. Odeio o
som da própria palavra!”

“Mas o problema de ver a corrida ou ficar em casa tem muito pouco a ver
com o assunto. As apostas são todas reservadas com segurança suficiente
antes da corrida começar, você pode confiar. Quer se trate de uma corrida boa
ou ruim para mim, terá muito pouco a ver com a nossa ida lá na próxima
segunda-feira.”

“Mas você não quer dizer que arriscou tudo nesta também!”, exclamou
ela, com um olhar agoniado.

“Agora você está sendo um tanto tola. Espere até que eu conte tudo. Ora,
Bathsheba, você perdeu toda a coragem e atrevimento que tinha
anteriormente, e pela minha vida, se eu soubesse que escondia essa criatura
covarde sob toda aquela coragem, eu nunca teria... sei bem o quê.”

Um raio de indignação poderia ser visto nos olhos escuros de Bathsheba


enquanto olhava resolutamente à frente depois daquela resposta. E
continuaram sem conversar mais, algumas das primeiras folhas murchas das
árvores, que cobriam a estrada naquele local, ocasionalmente caiam girando
em seu caminho para o chão.

Uma mulher apareceu no topo da colina. Estavam num sulco, de modo


que ela estava muito perto do marido e da mulher antes que se tornasse
visível. Troy tinha voltado para o veículo, e ao mesmo tempo em que colocou
o pé no degrau, a mulher passou por trás dele.

Embora as árvores fizessem sombra, e a chegada do entardecer os


envolvessem na escuridão, Bathsheba pôde ver claramente o bastante para
discernir a pobreza extrema de vestimenta da mulher e a tristeza do rosto
dela.

“Por favor, senhor, sabe a que horas o Abrigo de Casterbridge fecha à


noite?”, a mulher disse estas palavras a Troy por cima do ombro dele.

Troy assustou-se visivelmente ante o som daquela voz; entretanto,


pareceu recuperar a presença de espírito o suficiente para impedir-se de dar
lugar a seu impulso e, de repente, virar-se e encará-la. Ele disse calmamente:

“Não sei.”

A mulher, ao ouvi-lo falar, rapidamente olhou para cima, examinou o


lado de seu rosto e reconheceu o soldado sob as vestes de pequeno
propietário rural. Seu rosto caiu numa expressão que tinha tanto alegria
quanto agonia entre seus elementos. Ela soltou um grito histérico, e caiu.

“Oh, pobrezinha!”, exclamou Bathsheba, instantaneamente se preparando


para descer.

“Fique onde está e tome conta do cavalo!”, disse Troy, jogando as rédeas
e o chicote de forma decidida. “Leve o cavalo para cima. Vou cuidar da
mulher.”

“Mas eu...”

“Não ouviu? Vá, Poppet! – disse ele para ela e para o cavalo.

O cavalo, a charrete e Bathsheba seguiram em frente.

“Como foi que veio parar aqui? Pensei que estivesse a milhas de distância
ou morta! Por que não me escreveu?”, perguntou Troy para a mulher, com
uma voz estranhamente suave, mas apressada, enquanto a levantava.

“Estava com medo.”

“Tem dinheiro?”

“Nada.”

“Deus do céu... Gostaria de ter mais para dar-lhe! Aqui está — miserável
— muito pouco. É cada centavo que me resta. Não tenho nada além do que
minha esposa me dá, você sabe, e não posso pedir-lhe agora.”

A mulher não respondeu.

“Tenho pouco tempo”, continuou Troy, “e agora ouça. Para aonde vai
esta noite? Para o Abrigo de Casterbridge?”"

“Sim, pensei em ir para lá.”

“Não deve ir para lá ainda, espere. Sim, talvez por esta noite. Não posso
fazer nada melhor, que falta de sorte! Durma lá esta noite e fique lá amanhã.
Segunda-feira é o primeiro dia livre que tenho, e de manhã, às dez em ponto,
encontre-me em Grey Bridge fora da cidade. Vou trazer todo o dinheiro que
puder juntar. Você não passará falta, vou providenciar tudo, Fanny; e então
vou encontrar um alojamento em algum lugar. Adeus por enquanto. Sou um
bruto, mas adeus!”

Depois de avançar a distância que completou a subida da colina,


Bathsheba virou a cabeça. A mulher estava de pé e Bathsheba viu Troy se
retirar, e debilmente descer a colina até o terceiro marco de Casterbridge.
Troy então veio em direção a ela, entrou na charrete, tomou as rédeas de sua
mão e sem fazer qualquer observação, chicoteou o cavalo a trote. Estava
muito agitado.

“Você sabe quem era aquela mulher?”, perguntou Bathsheba olhando-o


no rosto.

“Sei”, respondeu ele, olhando corajosamente de volta para o dela.

“Achei que soubesse”, disse ela, com altivez irritada, e ainda encarando-
o. “Quem é ela?”

De repente, ele parecia pensar que a franqueza não beneficiaria nem uma
das mulheres.

“Ninguém para nós”, respondeu ele. “Eu a conheço de vista.”

“Qual é o nome dela?”

“Como eu saberia o nome dela?”

“Acho que sabe.”

“Pode achar o que quiser, e fique...” A sentença foi completada por uma
chicotada no flanco de Poppet, o que fez o animal avançar a um ritmo
selvagem. Nada mais foi dito.
CAPÍTULO XL
NA ESTRADA DE CASTERBRIDGE

A mulher caminhou por um tempo considerável. Seus passos se tornaram


mais fracos e ela forçou os olhos para enxergar ao longe na estrada nua, agora
indistinta em meio à penumbra da noite. Por fim, sua caminhada diminuiu
para um mero cambalear. Abriu um portão dentro do qual ficava um palheiro.
Num espaço sob ele, ela sentou-se e logo adormeceu.

Quando a mulher acordou foi para encontrar-se nas profundezas de uma


noite sem lua e sem estrelas. A crosta ininterrupta pesada de uma nuvem se
esticava pelo céu, fechando cada ponto dele. Um halo distante, que pairava
sobre a cidade de Casterbridge, era visível contra o côncavo preto. A
luminosidade, que parecia mais brilhante por seu grande contraste com a
escuridão limitativa, atraía seu olhar. Para este fraco brilho e suave, a mulher
voltou os olhos.

“Se ao menos eu pudesse chegar lá!”, disse ela. “Encontrá-lo depois de


amanhã. Que Deus me ajude! Talvez esteja em minha sepultura antes disso!”

O relógio de uma mansão das profundezas distantes da sombra marcou


uma hora num tom curto e atenuado. Depois da meia-noite, a voz de um
relógio pareceu perder na largura tanto quanto no comprimento, e diminuiu
sua sonoridade a um falsete fino.

Depois uma luz — duas luzes — surgiram da sombra remota e tornaram-


se maiores. Uma carruagem veio ao longo da estrada e passou o portão.
Provavelmente trazia algumas pessoas com fome. Os raios de uma luz
brilharam por um momento sobre a mulher agachada e jogou seu rosto num
alívio vivo. O rosto era jovem por fora, mas velho no final; os contornos
gerais eram sinuosos e infantis, mas os traços mais finos começavam a ficar
mais pronunciados e estreitos.

A caminhante levantou-se, aparentemente, com determinação reavivada e


olhou em volta. A estrada parecia ser familiar e ela observou cuidadosamente
a cerca ao caminhar lentamente ao longo dela. Uma forma branca e turva
tornou-se visível; era outro marco. Passou os dedos sobre ele para sentir as
inscrições.

“Mais duas!”, disse ela.

Inclinou-se contra a pedra como um meio de descanso por um curto


intervalo de tempo e, então, moveu-se e novamente seguiu seu caminho.
Avançou bravamente por uma curta distância, depois cambaleou como antes.
Era ao lado de um matagal solitário, onde pilhas de lascas brancas espalhadas
sobre o chão, coberto de folhas, mostrava que lenhadores cortaram estacas e
fizeram cercas durante o dia. Agora não havia um barulho, uma brisa e nem o
choque mais fraco dos galhos para lhe fazer companhia. A mulher olhou para
o portão, abriu-o e entrou. Perto da entrada, havia uma fileira de lenha,
amarradas e desamarradas, em conjunto com estacas de todos os tamanhos.

Por alguns segundos, a viajante ficou naquele silêncio tenso que não
significa ser o fim, mas apenas a suspensão de um movimento anterior. Sua
atitude foi a de uma pessoa que escuta, quer para o mundo externo dos sons
ou para o discurso imaginado do pensamento. Uma crítica poderia ter
detectado sinais que provassem que ela tinha a intenção da última alternativa.
Além disso, como foi mostrado pelo que se seguiu, estava estranhamente
exercendo a faculdade de invenção sobre a especialidade do inteligente
Jacquet Droz, o projetista de substitutos automáticos para membros humanos.

Com a ajuda da aurora de Casterbridge, e pelo que sentia com as mãos, a


mulher escolheu duas varas dos montes. Estas varas iam quase em linha reta
até a altura de três ou quatro pés, onde ramificavam uma forquilha como a
letra Y. Sentou-se, removeu os pequenos galhos superiores e levou o restante
com ela na estrada. Colocou uma forquilha debaixo de cada braço como uma
muleta, testou-os, jogando timidamente todo o seu peso sobre eles, de tão
pouco que era, e virou-se para frente. A garota tinha feito para si uma ajuda
material.
As muletas responderam bem. O ruido de seus pés e o de suas varas na
estrada era os únicos sons que vinham da viajante. Havia passado o último
marco de uma boa distância e começou a olhar melancolicamente para o
banco como se calculasse sobre outro marco em breve. As muletas, embora
muito úteis, tiveram seus limites. O mecanismo só transferia trabalho, sendo
incapaz de superá-lo e o montante inicial de esforço não foi eliminado, mas
transferido para o corpo e os braços. Estava exausta e cada balanço para
frente tornou-se mais fraco. Por fim, ela cambaleou e caiu.

Ali estava ela, um amontoado disforme, por dez minutos ou mais. O


vento da manhã começou a aumentar sobre o horizonte e moveu novamente
as folhas mortas que permaneciam paradas desde o dia anterior. A mulher
virou-se desesperadamente sobre os joelhos e se levantou. Equilibrando-se
com a ajuda de uma muleta, ensaiou um passo, depois outro, depois um
terceiro, usando as muletas agora apenas como bengalas. Assim, ela
progrediu descendo até Mellstock Hill, até que outro marco apareceu e logo o
início de uma cerca de ferro pôde ser vista. Cambaleou em frente ao primeiro
poste, agarrou-se a ele e olhou em volta.

As luzes de Casterbridge eram agora individualmente visíveis. Estava


amanhecendo e os veículos podiam ser esperados se não houvesse pressa. Ela
ouviu. Não havia um som de vida, salvo pelo auge e sublimação de todos os
sons sombrios, o ronco de uma raposa, suas três notas ocas que eram
reproduzidas em intervalos de um minuto com a precisão de um sino
funerário.

“Menos de uma milha!”, murmurou a mulher. “Não, mais”, acrescentou


após uma pausa. “Uma milha até a prefeitura, e meu lugar de descanso está
do outro lado de Casterbridge. Um pouco mais de uma milha, e estarei lá!”
Após um intervalo, falou novamente. “Cinco ou seis passos para uma jarda,
seis, talvez. Eu tenho que andar dezessete centenas de jardas. Cem vezes seis,
seiscentos. Dezessete vezes isso. Tenha piedade de mim , Senhor!”

Segurando na cerca, ela avançou, empurrando uma mão para frente sobre
a cerca, depois a outra, em seguida, inclinando-se sobre ela enquanto
arrastava os pés.

Esta mulher não era dada ao solilóquio; no entanto, a sensação extrema


diminui a individualidade dos fracos, uma vez que aumenta a dos fortes. Ela
disse novamente no mesmo tom: “Vou acreditar que o fim está a cinco postes
à frente e não mais, e assim obter forças para passá-los.”

Esta foi uma aplicação prática do princípio de que uma fé meio fingida e
fictícia é melhor do que não ter fé alguma.

Passou cinco postes e parou no quinto.

“Vou passar mais cinco acreditando que meu lugar desejado é no próximo
quinto. Eu posso fazer isso.”

Passou por mais cinco.

“Fica a apenas mais cinco.”

Passou outros cinco.

“Cinco a mais.”

Passou por eles.

“Aquela ponte de pedra é o fim da minha jornada”, disse ela quando a


ponte sobre o Froom estava à vista.

Arrastou-se até a ponte. Durante o esforço, cada respiração dela foi para o
ar como se nunca mais voltasse.

“Agora, a verdade da questão”, disse ela, sentando-se. “A verdade é que


tenho menos de meia milha.” Ao enganar a si mesma sabendo o tempo todo
que era falso tinha lhe dado a força para ir mais de meia milha que ela seria
impotente para enfrentar pela frente. O artifício mostrou que a mulher, por
alguma intuição misteriosa, havia compreendido a verdade paradoxal que a
cegueira pode operar de forma mais vigorosa do que a presciência, e o efeito
míope mais do que o que se vê ao longe; essa limitação e não a integralidade
é necessária para a luta.

A meia milha estava agora diante da mulher doente e cansada como um


Juggernaut[25] apático. Era um rei impassível de seu mundo. A estrada
atravessava Durnover Moor, aberta para a estrada em ambos os lados. Ela
examinou o espaço largo, as luzes, ela mesma, suspirou e deitou-se contra um
marco de pedra da ponte.

Nunca a ingenuidade foi exercida tão duramente como a viajante havia


exercido a dela. Toda ajuda, método, estratagema ou mecanismo concebível,
pelo qual estas últimas desesperadas oitocentas jardas puderam ser
ultrapassadas por um ser humano despercebido, foi ponderado em seu
cérebro ativo e descartado como impraticável. Pensou em varas, rodas,
rastejar-se, até mesmo em rolar. Mas o esforço exigido por qualquer um
destes dois últimos era maior do que caminhar. A faculdade de artifícios
estava esgotada. Finalmente, a falta de esperança havia chegado.

“Já chega!”, sussurrou ela, e fechou os olhos.

Pela faixa de sombra do lado oposto da ponte algo pareceu separar-se e


mover-se isolado sobre o branco pálido da estrada. Deslizava silenciosamente
até a mulher reclinada.

Ela percebeu algo tocando sua mão; era suave e quente. Abriu os olhos, e
uma substância tocou seu rosto. Um cão a estava lambendo.

Era uma criatura grande, pesada e calma, parada no escuro contra o baixo
horizonte e pelo menos dois pés mais alto do que a posição atual de seus
olhos. Se era um terra nova, um mastim, um cão de caça ou o que quer que
fosse, era impossível dizer. Sua natureza muito estranha e misteriosa parecia
pertencer a qualquer variedade entre aqueles de nomenclatura popular. Sendo
assim atribuída a nenhuma raça, era a personificação ideal da grandeza
canina, a generalização do que era comum a todas. A noite, em seu aspecto
triste, solene e benevolente, além do seu lado sorrateiro e cruel, foi
personificada naquela forma. A escuridão dota os pequenos e comuns entre
os homens com poder poético, e até mesmo a mulher que sofria jogou sua
ideia numa imagem.

Em sua posição reclinada ela olhou para ele, assim como em épocas
anteriores que tinha, quando em pé, olhado para um homem. O animal, que
era tão abandonado quanto ela, afastou-se respeitosamente um ou dois passos
quando a mulher se mexeu e, ao ver que ela não o repeliu, lambeu a mão dela
novamente.

Um pensamento agitou-se dentro dela como um raio.

“Talvez eu possa fazer uso dele... Sim, posso!”

Ela apontou na direção de Casterbridge e que o cão pareceu não


compreender: saiu correndo. Então, percebendo que ela não podia segui-lo,
voltou e choramingou.

A singularidade final e mais triste do esforço e da invenção da mulher foi


atingida quando, com a respiração acelerada, levantou-se a uma postura
encurvada, e, descansando seus dois pequenos braços sobre os ombros do
cão, inclinou-se firmemente nele e murmurou palavras estimulantes.
Enquanto entristecia em seu coração, animava-se com a sua voz, e o que era
mais estranho do que o forte precisasse de incentivo do fraco era que a alegria
devia ser tão estimulada por tal desânimo total. Seu amigo avançado
lentamente, e ela com passos pequenos avançava ao lado dele, metade de seu
peso sendo jogado em cima do animal. Às vezes, ela afundava como quando
andou com as muletas pela cerca. O cão, que agora entendia completamente o
seu desejo e sua incapacidade, era frenético em sua angústia nessas ocasiões;
puxava seu vestido e corria para frente. Ela sempre o chamava de volta, e
agora se podia observar que a mulher ouviu sons humanos apenas para evitá-
los. Era evidente que ela tinha um motivo para manter a sua presença na
estrada e seu estado desesperado desconhecido.

Seu progresso era necessariamente muito lento. Eles chegaram ao fundo


da cidade e as lâmpadas de Casterbridge estavam diante deles como pleiades
caídas ao virarem para a esquerda, para a sombra densa de uma avenida
deserta de castanheiras, e assim contornar o bairro. Assim, a cidade foi
atravessada e o objetivo alcançado.

Naquele local muito desejado fora da cidade erguia-se um edifício


pitoresco. Originalmente, havia sido um mero local para presos. A parte
externa era tão fina, tão desprovida de excrescências e tão intimamente
desenhada sobre o alojamento, que o caráter sombrio do que estava por baixo
mostrava-se através dele como a forma de um corpo é visível sob uma
mortalha.
Então a Natureza, como se ofendida, prestou ajuda. Massas de hera
cresceram, cobrindo completamente as paredes, até que o lugar parecia uma
abadia e descobriu-se que, se vista da frente, sobre as chaminés de
Casterbridge, era uma das mais magníficas construções do condado. Um
conde vizinho disse certa vez que desistiria do aluguel de um ano para ter em
sua própria porta a visão de que gozavam os detentos e, muito
provavelmente, os presos teriam dado a vista pelo seu aluguel.

Este edifício de pedra consistia de um aglomerado central e duas alas,


sobre as quais estavam ali como sentinelas algumas chaminés finas, agora
borbulhando com tristeza ao vento fraco. No muro havia um portão, e ao lado
dele o cordão da campainha formado de um fio suspenso. A mulher levantou-
se o mais alto possível sobre seus joelhos e só alcançou a alça. Tocou-a e caiu
curvada com o rosto sobre o peito.

Eram quase seis horas e os sons de movimentos podiam ser ouvidos no


interior do edifício que era o refúgio de descanso para aquela alma fatigada.
Uma pequena porta ao lado da grande foi aberta e apareceu um homem. Ele
discerniu a pilha ofegante de roupas, voltou para buscar uma luz e voltou. Ele
entrou pela segunda vez, e voltou com duas mulheres.

Eles levantaram a silhueta prostrada e ajudaram-na a passar pela porta. O


homem, em seguida, fechou a porta.

“Como ela chegou aqui?”, perguntou uma das mulheres.

“Só Deus sabe”, disse a outra.

“Há um cão lá fora”, murmurou a viajante exausta. “Onde ele está? Ele
me ajudou.”

“Eu o apedrejei para que fosse embora”, informou o homem.

A pequena procissão, em seguida, aproximou-se, o homem na frente


segurando a luz, as duas mulheres esqueléticas em seguida, apoiando entre
elas a outra pequena e submissa. Assim, eles entraram na casa e
desapareceram.
CAPÍTULO XLI
SUSPEITA — FANNY É TRAZIDA

Bathsheba pouco conversou com seu marido naquela noite de seu retorno do
mercado, nem ele estava disposto a conversar muito com ela. Mostrava a
combinação desagradável de uma condição inquieta com uma língua
silenciosa. O dia seguinte, que era domingo, Bathsheba passou quase da
mesma maneira com relação ao seu silêncio e foi à igreja tanto de manhã
como à tarde. Este foi o dia antes das corridas de Budmouth. À noite, Troy
disse, de repente:

“Bathsheba, poderia me dar vinte libras?”

Sua fisionomia instantaneamente desabou.

“Vinte libras?”, perguntou ela.

“O fato é que quero muito.” A ansiedade no rosto de Troy era incomum e


muito suspeita. Foi o culminar do humor que ele tinha passado o dia todo.

“Ah! Para aquelas corridas de amanhã.”

Troy não respondeu imediatamente. O erro de interpretação de Bathsheba


tinha suas vantagens para Troy. Portanto, ficou quieto a fim de que sua mente
não fosse inspecionada.

“Bem, suponha que eu o queira para as corridas”, disse ele, por fim.

“Oh, Frank!”, Bathsheba respondeu, e havia uma grande súplica nas


palavras. “Apenas algumas semanas atrás você disse que eu era muito mais
doce do que todos os seus outros prazeres juntos, e que deixaria todos eles
por mim, e agora não vai desistir deste, que é mais uma preocupação do que
um prazer? Por favor, Frank. Venha, deixe-me encantá-lo com tudo que
posso fazer, com palavras bonitas e olhares, e tudo que eu puder pensar, para
que fique em casa. Diga sim a sua esposa... diga sim!”

As fases mais delicadas e suaves da natureza de Bathsheba eram


proeminentes agora, avançando impulsivamente para a aceitação dele, sem
nenhum dos disfarces e defesas da cautela de sua personalidade que quando
estava calma abandonava tão frequentemente. Poucos homens poderiam ter
resistido à curva da súplica ainda digna do seu rosto bonito, jogado um pouco
para trás e para os lados, na atitude bem conhecida que expressa mais do que
as palavras que a acompanham e que parece ter sido projetado para estas
ocasiões especiais. Se aquela mulher não fosse sua esposa, Troy teria
sucumbido instantaneamente; como era, pensou que não a enganaria por mais
tempo.

“Não preciso do dinheiro para as dívidas de corrida”, confessou ele.

“É para quê?”, perguntou ela. “Você me deixa muito preocupada com


essas responsabilidades misteriosas, Frank.”

Troy hesitou. Não a amava mais o suficiente para permitir-se ser levado
longe demais por suas maneiras. No entanto, era necessário ser educado.

“Você me confunde com suas suspeitas”, disse ele. “O modo como me


prende não é digno em você nos dias de hoje.”

“Acho que eu tenho o direito de reclamar um pouco, se pago por isso”,


disse ela, com características entre um sorriso e um beicinho.

“Exatamente, e, sendo o primeiro feito, suponha que procedemos a este


último. Bathsheba, a diversão é muito boa, mas não vá muito longe ou poderá
ter motivos para se arrepender.”

Ela corou.

“Eu já me arrependo”, disse ela rapidamente.


“Do que se arrepende?”

“Que o meu romance chegou ao fim.”

“Todos os romances terminam em casamento.”

“Não gostaria que falasse assim. Entristece a minha alma por ser elegante
às minhas custas.”

“Está aborrecida demais comigo. Acho que me odeia.”

“Você, não. Só suas falhas. Eu as odeio.”

“Seria muito mais digno se você se dispusesse a curá-las. Venha, vamos


entrar num acordo com as vinte libras e sermos amigos.”

Ela deu um suspiro de resignação.

“Tenho perto dessa soma aqui para as despesas domésticas. Se você


precisa, leve-a.”

“Muito bom. Obrigado. Espero partir antes que tome o desjejum.”

“E você tem que partir? Ah! Houve um tempo, Frank, quando muitas
promessas de outras pessoas eram necessárias para arrastá-lo para longe de
mim. Você costumava me chamar de querida. Mas agora não se importa de
como os meus dias passam.”

“Tenho que ir, apesar da emoção.” Troy, enquanto falava, olhou para o
relógio e, aparentemente acionado por princípios ilógicos, abriu-o pela parte
de trás, revelando, confortavelmente arrumado dentro dele, um pequeno
cacho de cabelo.

Os olhos de Bathsheba acidentalmente se levantaram naquele momento e


ela viu a ação e o cabelo também. Corou de dor e surpresa e algumas palavras
escaparam antes que ela pensasse se era ou não sábio proferi-las.

“Um cacho de cabelo de uma mulher!”, exclamou ela. “Oh, Frank, de


quem é?”
Troy fechou imediatamente o relógio. Respondeu descuidadamente, como
quem camufla alguns sentimentos que a visão havia tumultuado.

“Ora, seu, é claro. De quem deveria ser? Esqueci-me completamente que


eu o tinha.”

“Que lorota terrível, Frank!”

“Estou lhe dizendo que tinha me esquecido!”, disse ele, em voz alta.

“Não acredito, os cabelos eram loiros.”

“Que absurdo.”

“Está me insultando. Eu sei que eram loiros. Agora, de quem eram? Eu


quero saber.”

“Muito bem... vou lhe contar, assim não teremos mais confusões. É o
cabelo de uma jovem com quem eu ia me casar antes de conhecê-la.”

“Tem que me dizer o nome dela, então.”

“Não posso fazer isso.”

“Ela já se casou?”

“Não.”

“Está viva?”

“Sim.”

“É bonita?”

“Sim.”

“É maravilhoso como ela pode estar, coitada, sob uma aflição tão
terrível!”
“Aflição? Que aflição?”, ele perguntou, rapidamente.

“Ter os cabelos dessa cor horrível.”

“Oh... oh... eu gosto!”, disse Troy, recuperando-se. “Os cabelos dela eram
admirados por todos que os viam desde que ela os usou soltos, que não foi
por muito tempo. Eram cabelos bonitos. As pessoas costumavam virar a
cabeça para olhá-los, pobre menina!”

“Basta! Isso não é nada, isso não é nada!”, exclamou ela, em tons
incipientes de mágoa. “Se eu me importasse com o seu amor tanto quanto eu
costumava, poderia dizer que as pessoas se viravam para olhar o meu.”

“Bathsheba, não seja tão indecisa e ciumenta. Sabia como seria a vida de
casada e não deveria ter entrado nela se temia essas incertezas.”

Troy a tinha levado por esta altura à amargura: seu coração estava na
garganta e os dutos para seus olhos estavam dolorosamente cheios.
Envergonhada como ficava ao demonstrar emoção, finalmente ela explodiu:

“Isso é tudo que ganho por amá-lo tanto! Ah! Quando me casei com você
a sua vida era mais preciosa do que a minha. Eu teria morrido para você...
realmente posso dizer que teria morrido para você! E agora zomba de minha
loucura em me casar com você. Oh! Está certo jogar o meu erro na minha
cara? Seja qual for a opinião que possa ter da minha sabedoria, não deve me
dizer tão impiedosamente, agora que estou em seu poder.”

“Não posso evitar como as coisas acontecem”, disse Troy, “pelo meu
coração, as mulheres serão a minha morte!”

“Bem, não deve guardar os cabelos das pessoas. Vai queimá-los, não vai,
Frank?”

Frank continuou como se não tivesse ouvido.

“Existem considerações antes mesmo de minha consideração por você,


reparações a serem feitas... laços os quais você desconhece. Se está
arrependida de se casar, eu também estou.”
Tremendo agora, ela colocou a mão sobre o braço dele, dizendo, em tons
misturados de tristeza e persuasão:

“Só me arrependo se você não me ama mais do que qualquer mulher no


mundo! Se não, não me arrependo, Frank. Você não se arrepende porque já
ama alguém mais do que a mim, não é?”

“Não sei. Por que diz isso?”

“Não vai queimar essa mecha. Gosta da mulher que possui este lindo
cabelo, sim... É bonito, mais bonito do que a minha juba preta miserável.
Bem, não adianta, não posso evitar que seja feio. Deve gostar mais dela
mesmo!”

“Até hoje, quando o peguei de uma gaveta, nunca tinha olhado para
aquela mecha de cabelo durante vários meses... posso jurar.”

“Mas agora há pouco você disse ‘laços’”, e então... é aquela mulher que
encontramos?”

“Foi o encontro com ela que me fez lembrar-me do cabelo.”

“É dela, então?”

“Sim. Agora que você já arrancou isso de mim, espero que esteja
satisfeita.”

“E o que são os laços?”

“Oh! Não significaram nada... uma mera brincadeira.”

“Uma mera brincadeira!”, espantou-se ela com tristeza. “Pode brincar


quando estou tão seriamente triste? Diga-me a verdade, Frank. Não sou tola,
você sabe, embora seja uma mulher e tenha meus momentos de mulher.
Vamos! Trate-me com honestidade”, disse ela, olhando de forma honesta e
sem medo em seu rosto. “Eu não quero muito; apenas justiça e já basta! Ah,
uma vez senti que não poderia me contentar com nada menos do que a mais
alta homenagem do marido que eu escolhesse. Agora, qualquer coisa aquém
de crueldade me satisfaz. Sim, a Bathsheba independente e espirituosa
tornou-se assim!”

“Pelo amor de Deus, não fique tão desesperada!”, disse Troy,


nervosamente, levantando-se ao fazê-lo e saiu do quarto.

Assim que ele foi embora, Bathsheba explodiu em grandes soluços —


soluços de olhos secos, cortantes, sem qualquer amolecimento pelas lágrimas.
Mas ela estava determinada a reprimir todas as evidências de sentimento.
Fora vencida, mas nunca confessaria enquanto vivesse. Seu orgulho estava
realmente abatido por descobertas de desespero, de seu despojo pelo
casamento com uma natureza menos pura do que ela própria. Irritou-se para
lá e para cá em rebeldia como um leopardo enjaulado; toda a sua alma estava
em luta e o sangue disparou para o seu rosto. Antes de conhecer Troy,
Bathsheba tinha sido orgulhosa de sua posição como mulher, que tinha sido
uma glória para ela saber que seus lábios não haviam sido tocados por
nenhum homem na Terra, que sua cintura nunca havia sido rodeada pelo
braço de um amante. Detestava-se agora. No passado, sempre nutriu um
desprezo secreto pelas moças que eram escravas do primeiro jovem de boa
aparência que as saudassem. Nunca tivera a amabilidade da ideia do
casamento em abstrato como a maioria das mulheres que via ao seu redor. No
tumulto de sua ansiedade pelo seu amante, havia concordado em se casar com
ele, mas a percepção que havia acompanhado suas horas mais felizes nesta
conta foi sim de autosacrifício do que de estímulo e honra. Embora mal
soubesse o nome da divindade, Diana era a deusa a quem Bathsheba
instintivamente adorava. Nunca, pelo olhar, palavra ou sinal, havia
incentivado um homem a se aproximar dela, sentindo-se suficiente para si
mesma, e tinha na independência de seu coração de menina imaginado que
havia certa degradação em renunciar a simplicidade de ser solteira para se
tornar a mais humilde metade de um todo matrimonial indiferente. Agora
eram fatos amargamente lembrados. Oh, se nunca tivesse se curvado para
uma loucura deste tipo, respeitável como era, e pudesse ficar de pé
novamente como esteve na colina em Norcombe, e nem Troy ou qualquer
outro homem se atreveria a poluir um fio de cabelo de sua cabeça por sua
interferência!

Na manhã seguinte, levantou-se mais cedo que de costume, selou seu


cavalo para seu passeio em volta da fazenda como sempre fazia. Quando
voltou às oito e meia, a hora que costumava tomar seu desjujem, foi
informada de que seu marido havia se levantado, tomado seu café e partido
para Casterbridge com a carroça e Poppet.

Depois do desjejum, ela estava calma e contida, como era mesmo, de


fato, com a intenção de caminhar para outra parte da fazenda que ela ainda
supervisionava pessoalmente, bem como seus deveres na casa permitiriam
continuamente. No entanto, encontrou-se precedida na antecipação por
Gabriel Oak, a quem começou a entreter com a amizade genuína de uma
irmã. Claro que, às vezes, ela pensava nele à luz de um velho admirador e
tinha fantasias momentâneas de como a vida com ele como marido teria sido,
e também na vida com Boldwood sob as mesmas condições. Mas Bathsheba,
embora pudesse sentir, não era muito dada a sonhos fúteis e suas reflexões no
âmbito desta categoria eram curtas e totalmente confinadas aos tempos em
que a negligência de Troy era mais do que ordinariamente evidente.

Ela viu chegando pela estrada um homem como Mr. Boldwood. Era Mr.
Boldwood. Bathsheba corou dolorosamente e o observou. O fazendeiro parou
quando ainda estava longe e ergueu a mão para Gabriel Oak, que estava
numa ronda pelo campo. Os dois homens então se aproximaram e pareciam
envolvidos numa conversa séria.

Assim continuaram durante um longo tempo. Joseph Poorgrass passou


perto deles, empurrando um carrinho de mão com maçãs até a colina para a
residência de Bathsheba. Boldwood e Gabriel chamaram-no, falaram com ele
por alguns minutos e depois os três se separaram, Joseph imediatamente
subindo a colina com seu carrinho de mão.

Bahsheba, que tinha visto esta pantomima com alguma surpresa, sentiu
um grande alívio quando Boldwood voltou.

“Bem, qual é a mensagem, Joseph?”, ela quis saber.

Ele largou o carrinho de mão e, usando o aspecto refinado que a conversa


com uma dama exigia, falou com Bathsheba por cima do portão.

“Nunca mais verá Fanny Robin, Madame.”


“Por quê?”

“Porque ela morreu no Abrigo.”

“Fanny morreu! Não pode ser!”

“Sim senhora.”

“Morreu de quê?”

“Não sei ao certo, mas acho que foi de fraqueza. Era uma empregada tão
ágil que não via dificuldade em nada, mesmo quando a conheci, e era como
quem acende as velas. Passou mal na parte da manhã e por estar muito fraca e
cansada, morreu à noite. Ela pertence por lei à nossa paróquia e Mr.
Boldwood vai mandar uma carroça às três da tarde para buscá-la e enterrá-la
aqui.”

“Na verdade, não posso deixar Mr. Boldwood fazer tal coisa. Eu vou
fazer isso! Fanny era uma criada de meu tio e, embora só a conhecesse há
poucos dias, ela pertence a mim. Isso é muito, muito triste! A ideia de Fanny
estar num abrigo.” Bathsheba acabara de saber o que era sofrimento e falou
com sentimento real. “Encontre Mr. Boldwood e diga-lhe que Mrs. Troy
tomará para si o dever de buscar uma velha criada da família... Não devemos
colocá-la numa carroça. Usaremos um carro fúnebre.”

“Dificilmente haverá tempo, Madame, não é?”

“Talvez não”, ela disse, pensativa. “Quando você disse que devemos estar
na porta? Às três horas?”

“Três horas da tarde, minha senhora, por assim dizer.”

“Muito bem, vá. Uma carroça bonita é melhor do que um carro funerário
feio, afinal de contas. Joseph, pegue a carroça nova azul com rodas
vermelhas, e lave-a muito bem. E, Joseph...”

"Sim senhora."

“Leve com você alguns ramos de sempre-vivas e outras flores para


colocar em cima do caixão, pegue muitas e enterre-a completamente nelas.
Pegue alguns ramos de laurotinos, suculentas, teixos e amor-de-homem. E
alguns cachos de crisântemo. E deixe o velho Pleasant desenhá-la, porque ela
o conhecia tão bem.”

“Pode deixar, Madame. Eu devia ter dito que o abrigo, sob a forma de
quatro empregados, me encontrará quando sair do portão do nosso adro, a
levará e a enterrará de acordo com os ritos do Conselho de Guardiões, como
manda a lei.”

“Deus meu... O Abrigo de Casterbridge... Fanny chegou a isso?”, meditou


Bathsheba. “Gostaria de ter ficado sabendo mais cedo. Pensei que ela
estivesse longe. Quanto tempo ela viveu lá?”

“Só um ou dois dias.”

“Oh! Então não estava lá como um interno normal?”

“Não. Ela primeiro foi morar numa guarnição do outro lado de Wessex, e
desde então tentou viver de costuras em Melchester por vários meses, na casa
de uma viúva, uma mulher muito respeitável que faz trabalhos desse tipo. Só
chegou ao Abrigo no domingo de manhã, creio eu, acho que ela percorreu
cada passo do caminho de Melchester a pé. A razão de ela ter deixado seu
lugar eu não sei, e não iria mentir. Assim é um resumo da história, Madame.”

“Ah!...”

Nenhuma pedra preciosa jamais passou de um raio rosado a um branco


mais rapidamente do que mudou o rosto da jovem esposa como quando
aquela palavra veio numa respiração longa.

“Ela andou ao longo da nossa rodovia?”, perguntou ela, com uma voz de
repente inquieta e ansiosa.

“Acredito que ela sim... Senhora, devo chamar Liddy? Não está bem,
Madame, está? Parece um lírio de tão pálida e fraca!”

“Não, não a chame, não é nada. Quando ela passou por Weatherbury?”
“No ultimo sábado à noite.”

“Já basta, Joseph, agora você pode ir.”

“Certamente , senhora.”

“Joseph, venha aqui um momento. Qual era a cor do cabelo de Fanny


Robin?”

“De fato, Madame, agora que me perguntou, não consigo me lembrar, se


acredita em mim!”

“Não importa. Vá e faça o que lhe mandei. Pare... bem, não, vá em


frente.”

Ela virou-se para longe dele, que não perceberia o estado que a abateu tão
visivelmente e entrou em casa com uma sensação angustiante de desmaio e a
testa franzida. Cerca de uma hora depois, ouviu o barulho da carroça e saiu,
ainda com uma consciência dolorosa de seu olhar confuso e perturbado.
Joseph, vestido com suas melhores roupas, estava atrelando o cavalo para
sair. Os arbustos e flores estavam todos empilhados na carroça como ela
havia dito. Bathsheba mal os via agora.

“Morreu de quê? Você disse, Joseph?”

“Eu não sei, Madame.”

“Tem certeza?”

“Sim, senhora, muita.”

“De quê?”

“Tenho certeza de que tudo que sei é que ela chegou à parte da manhã e
morreu à noite sem mais conversa. O que Oak e Mr. Boldwood me disseram
foi só: ‘a pequena Fanny Robin morreu, Joseph’, Gabriel disse, me olhando
com seu jeito firme de sempre. Eu fiquei muito triste e disse: ‘Ah! E como é
que ela veio a morrer?’ ‘Bem, ela morreu no Abrigo de Casterbridge’, ele
respondeu, ‘e talvez não importe muito sobre como ela veio a morrer. Ela
chegou ao domingo de manhã cedo no Abrigo e morreu à tarde, isso é certo.’
Então eu perguntei o que ela estava fazendo ultimamente, e Mr. Boldwood
virou-se para mim e tocou um cardo com a ponta de sua bengala. Me contou
sobre ela ter vivido de costuras em Melchester, como já lhe falei, e que saiu
andando no final da semana passada, passando perto daqui no sábado à noite
quando estava escurecendo. Eles então disseram que era melhor que eu
apenas lhe contasse da morte dela, e lá se foram eles. Sua morte pode ter
acontecido por apanhar o vento da noite, sabe, senhora, porque as pessoas
costumavam dizer que ela não estava bem. Tossia bastante no inverno. No
entanto, é tudo muito estranho para nós, agora que acabou.”

“Não ouviu uma história totalmente diferente?”, ela olhou para ele com
tanta intensidade que os olhos de J Joseph tremeram.

“Nem uma palavra, patroa, eu garanto!”, afirmou ele. “Quase ninguém na


paróquia já sabe da notícia.”

“Queria saber por que o próprio Gabriel não trouxe a mensagem para
mim. Ele faz questão de me ver sobre a missão mais insignificante.” Estas
palavras foram apenas murmuradas e ela estava olhando para o chão.

“Talvez ele estivesse ocupado, Madame”, sugeriu Joseph. “E às vezes ele


parece sofrer de coisas em sua mente, lembrando-se do momento em que
estava melhor do que agora. É muito curioso, um pastor muito inteligente que
aprendeu nos livros.”

“Parecia que alguma coisa se passava pela cabeça dele enquanto falava
sobre isso com você?”

“Acho que não, Madame. Ele estava muito triste, assim como o
fazendeiro Boldwood.”

“Obrigada, Joseph. Já chega. Agora vá ou vai se atrasar.”

Bathsheba, ainda infeliz, entrou em casa novamente. No decorrer da tarde


ela perguntou a Liddy, que havia sido informada da ocorrência:

“Qual era a cor dos cabelos da pobre Fanny Robin? Você sabe? Eu não
me lembro. Eu só a vi uma ou duas vezes.”

“Eram claros, Madame, mas os usava presos debaixo de seu chapéu, de


modo que você dificilmente notaria isso, mas eu a vi soltá-los quando ia
dormir e eram muito bonitos. Cabelos dourados naturais.”

“Seu admirador era um soldado, não era?”

“Sim. Do mesmo regimento que Mr. Troy. Ele disse que o conhecia
muito bem.”

“O que, Mr. Troy disse isso? Como foi que ele disse?”

“Um dia eu apenas falei dela e perguntei-lhe se conhecia o admirador de


Fanny. Ele respondeu: ‘Ah, sim, que conhecia o jovem tão bem quanto a si
mesmo e que não havia um homem no regimento de quem ele gostasse
mais’”.

“Ah! Foi o que ele disse, então?”

“Sim, e disse que havia uma forte semelhança entre ele e o outro jovem,
de modo que às vezes as pessoas os confundiam...”

“Liddy, pelo amor de Deus, pare de falar!”, disse Bathsheba, com a


petulância nervosa que vem de percepções preocupantes.
CAPÍTULO XLII
JOSEPH E SUA OBRIGAÇÃO — BUCK’S
HEAD

Um muro cercava o local do Abrigo de Casterbridge, exceto ao longo de


uma parte nos fundos. Ali uma cumeeira alta erguia-se proeminente, coberta
na parte da frente com um tapete de hera. Não havia nenhuma janela,
chaminé, ornamento ou protuberância de qualquer tipo. A única característica
pertencente a ele, além da extensão de folhas verde-escuras, era uma pequena
porta.

A situação da porta era peculiar. A soleira ficava a três ou quatro pés


acima do solo e, por um momento, perdia-se a explicação sobre aquela altura
excepcional, até que sulcos imediatamente abaixo sugeriam que a porta era
utilizada exclusivamente para a passagem de artigos e pessoas para um
veículo. No todo, a porta parecia anunciar a si mesma como uma espécie de
Portal dos Traidores traduzido para outra esfera. Essa entrada e saída para
este meio apenas, em raros intervalos, tornou-se evidente ao observar que
tufos de grama floresciam sem perturbações nas fendas da soleira.

Quando o relógio da South-street Alms-house marcou cinco minutos para


as três horas, uma carroça azul e vermelha, contendo ramos e flores, passou o
final da rua em direção a esse lado do edifício. Enquanto os sinos ainda
gaguejavam uma forma quebrada de ‘Malbrook’, Joseph Poorgrass tocou a
campainha e recebeu instruções para apoiar sua carroça contra a alta porta
sob a cumeeira. A porta se abriu e um caixão simples, de olmo, foi
lentamente empurrado para frente, e colocado no meio do veículo por dois
homens vestindo roupas de fustão.

Um dos homens então subiu ao lado dele, tirou do bolso um pedaço de


giz e escreveu sobre a tampa o nome e algumas outras palavras com grandes
letras rabiscadas. (Acreditamos que essas coisas são feitas com mais ternura
agora, e oferecem uma placa). Cobriu tudo com um pano preto leve, mas
decente, e a tampa traseira da carroça foi devolvida ao seu lugar. Um dos
homens entregou um certificado de registro para Poorgrass, e ambos entraram
pela porta, fechando-a atrás deles. Sua ligação com ela, curta como fora,
havia acabado para sempre.

Joseph então colocou as flores como mandado e as sempre-vivas em


torno das flores, até que era difícil adivinhar o que havia na carroça. Estalou o
chicote e o carro fúnebre, porém alegre, desceu o morro ao longo da estrada
para Weatherbury.

A tarde aproximava-se rapidamente e, olhando para a direita em direção


ao mar enquanto andava ao lado do cavalo, Poorgrass viu nuvens estranhas e
a névoa rolando sobre os longos sulcos que cingiam a paisagem naquele
lugar. Vinham em volumes ainda maiores e rastejavam indolentes pelos vales
intervenientes e em torno das íris murchas do pântano e da beira do rio. Em
seguida, as suas formas esponjosas e úmidas fecharam-se sobre o céu. Foi um
crescimento repentino de fungos atmosféricos que tiveram suas raízes no
mar, nas próximidades, e no momento em que o cavalo, o homem e o cadáver
entravam em Yalbury Great Wood. Estes trabalhos silenciosos de uma mão
invisível os tinham alcançado, e eles foram totalmente envolvidos, sendo
então a primeira chegada dos nevoeiros do outono e a primeira névoa da
série.

O ar era como um olho subitamente cego. A carroça e a sua carga não


passavam sobre a divisão horizontal entre clareza e opacidade, mas foram
embutidos num corpo elástico de uma palidez monótona por toda parte. Não
havia nenhum movimento perceptível no ar, nem uma gota de água visível
caía sobre uma folha das faias, bétulas e abetos que compunham a mata de
cada lado. As árvores estavam em atitude de prestreza, como se esperassem
ansiosamente que um vento entrasse e as balançasse. Um silêncio
surpreendente pairava sobre todas as coisas, tão completamente, que o ranger
das rodas da carroça eram como um grande estrondo, e pequenos sussurros,
que nunca eram ouvidos, exceto à noite, eram nitidamente individualizados.

Joseph Poorgrass olhou em volta de sua triste carga para o que aparecia,
indistintamente, através das florações de laurotinos; em seguida, para a
escuridão impenetrável no meio das árvores altas de cada lado, indistinta,
sem sombras e fantasmagórica em seu cinza-monocromático. Não se sentia
alegre e desejou que tivesse a companhia de alguém vivo, ainda que de uma
criança ou um de cão. Ao parar o cavalo, escutou. Nem um passo ou uma
roda era audível em qualquer lugar ao redor. O silêncio de morte foi
quebrado apenas por uma partícula pesada caindo de uma árvore através das
sempre-vivas e pousando com uma batida rápida sobre o caixão da pobre
Fanny. O nevoeiro a esta altura estava saturado nas árvores e aquela foi a
primeira queda da água das folhas encharcadas. O eco vazio de sua queda
lembrou dolorosamente o condutor dos sombrios Levellers.[26] Caiu então
mais uma gota, e depois, duas ou três. Por fim, houve uma batida contínua
dessas gotas pesadas sobre as folhas mortas, na estrada e nos viajantes. Os
ramos mais próximos foram enfeitados com a névoa grisalha, como os
idosos, e as folhas vermelho-oxidadas das faias, penduradas com gotas
semelhantes, como diamantes nos cabelos ruivos.

No povoado à beira de estrada chamado Roy-Town, um pouco além


daquela mata, ficava a antiga hospedaria Buck’s Head. Estava a cerca de uma
milha e meia de Weatherbury, e no apogeu das viagens de diligência, tinha
sido o lugar onde muitos trocavam e guardavam suas reservas de cavalos.
Todos os antigos estábulos haviam sido demolidos e pouco restava além da
própria hospedaria habitável que, um pouco afastada da estrada, mostrava sua
existência para as pessoas que vinham de longe para cima e para baixo, por
um sinal pendurado no galho horizontal de um olmo, no lado oposto do
caminho.

Os viajantes, como o tipo turista, quase não tinha se desenvolvido numa


espécie distinta naquela época, às vezes de passagem, quando punham os
olhos na placa pendurada na árvore, que os artistas gostavam de representar a
tabuleta pendurada assim, mas que eles próprios nunca antes tinham notado
um exemplo tão perfeito na ordem de funcionamento real. Era perto desta
árvore que a carroça estava parada que Gabriel Oak penetrou em sua primeira
viagem para Weatherbury; mas, devido à escuridão, a placa e a hospedaria
não foram percebidas.

Os procedimentos da hospedaria eram à moda antiga. De fato, nas mentes


de seus frequentadores, existiam fórmulas inalteráveis, como por exemplo:

Bata com a parte inferior da sua caneca para mais bebidas.

No caso do tabaco, grite.

Ao chamar a garota à espera, diga: “Moça!”

O mesmo vale para a dona da casa: “Senhora!”, etc, etc.

Foi um alívio para o coração de Joseph quando a simpática tabuleta foi


avistada, parando seu cavalo imediatamente abaixo dela, passou a cumprir
uma intenção feita muito tempo atrás. Seu humor escorreu para fora dele.
Virou a cabeça do cavalo para o banco verde e entrou no albergue para uma
caneca de cerveja.

Descendo para a cozinha da hospedaria, cujo chão ficava um degrau


abaixo da passagem, que por sua vez ficava um degrau abaixo da estrada lá
fora, o que mais Joseph deveria ver para alegrar os olhos senão dois círculos
acobreados, sob a forma dos rostos de Mr. Jan Coggan e Mr. Mark Clark.
Estes donos das duas gargantas mais apreciativas na vizinhança, dentro do
limite da respeitabilidade, estavam sentados frente a frente numa mesa
redonda de três pernas, que tinha um aro de ferro para proteger copos e potes
que pudessem ser acidentalmente arremessados com uma cotovelada. Deviam
ter sido avisados que lembravam o pôr do sol e a lua cheia brilhando um de
frente para o outro pelo globo.

“Ora, é o vizinho Poorgrass!”, disse Mark Clark. “Tenho certeza que o


seu rosto não louva a mesa de sua patroa, Joseph.”

“Tive uma companhia muito pálida pelas últimas quatro milhas”,


comentou Joseph entregando-se a um estremecimento atenuado pela
resignação. “E, para falar a verdade, estava passando para mim. Não vejo a
cor de comida ou bebida desde o desjejeum de hoje, e não tinha mais do que
um orvalho pelo caminho.”

“Então beba, Joseph, e não se segure!”, disse Coggan, entregando-lhe


uma caneca com três-quartos de bebida.

Joseph bebeu por um tempo moderadamente longo, então por mais


tempo, dizendo ao baixar a jarra:

“É uma boa bebida, muito boa mesmo, e mais do que alegra a minha
tarefa melancólica, por assim dizer.”

“É verdade, beber é uma delícia”, concordou Jan, como alguém que


repete uma verdade tão familiar para seu cérebro que não percebeu a
passagem pela sua língua e, levantando a caneca, Coggan inclinou a cabeça
gradualmente para trás, com os olhos fechados, como se sua alma
esperançosa não pudesse ser desviada por um instante de sua felicidade pelo
ambiente irrelevante.

“Bem, tenho que continuar”, disse Poorgrass. “Não que não gostaria de
outro trago com vocês, mas a paróquia pode perder a confiança em mim se eu
for visto aqui.”

“Para onde está indo, então, Joseph?”

“De volta para Weatherbury. Estou com a pobre Fanny Robin na minha
carroça lá fora e devo estar às portas cemitério às quinze para as cinco com
ela.”

“Ah... ouvi falar disso. E então ela está num caixão, afinal, sem ninguém
para pagar o sino de um xelim e meia-coroa pela sepultura.

“A paróquia paga a meia-coroa da sepultura, mas não o xelim do sino,


porque o sino é um luxo. Mas não dá para ficar sem a sepultura, pobre
defunta. No entanto, espero que a nossa patroa pague tudo.”

“A criada mais bonita que já vi! Mas por que a pressa, Joseph? A coitada
está morta mesmo e você não pode trazê-la de volta, pode também sentar-se à
vontade e tomar outra conosco.”

“Não me importo de tomar um último gole com vocês, rapazes. Mas só


por alguns minutos, porque é assim que as coisas são.”

“Claro, vai tomar mais um gole. O homem é duas vezes homem depois.
Você se sente tão quente e glorioso que faz o seu trabalho sem qualquer
problema, e tudo continua como varas quebrando. O excesso de bebidas
alcoólicas é ruim e nos leva ao homem com chifres na casa esfumaçada, mas
afinal, muitas pessoas não têm o dom de desfrutar de um trago e uma vez que
somos agraciados com um poder assim, devemos aproveitar ao máximo.”

“Verdade”, disse Mark Clark. “É um talento que Deus


misericordiosamente nos concedeu e não devemos desprezá-lo. Mas, com os
padres e clérigos, e pessoas das escolas e festas de chá, todos sérios, as velhas
coisas alegres da vida boa acabaram, pelo meu cadáver, se foram!”

“Bem, na verdade, agora tenho que continuar”, disse Joseph.

“Agora, agora, Joseph! Que besteira! A pobre mulher está morta, não
está, por que a pressa?”

“Bem, espero que a Providência Divina não se zangue comigo por minhas
ações”, reclamou Joseph, sentando-se mais uma vez. “Fiquei incomodado
com momentos de fraqueza ultimamente, na verdade. Já bebi uma vez este
mês e não queria ir à igreja no domingo, e ontem praguejei uma ou duas
vezes, então não quero abusar. O seu próximo mundo é o seu próximo mundo
e não para ser desperdiçado de repente.”

“Acho que você é membro da igreja, Joseph. Acho mesmo.”

“Oh, não, não! Não iria tão longe assim.”

“Da minha parte”, declarou Coggan, “sou fiel à Igreja da Inglaterra.”

“Sim, é a minha fé também”, concordou Mark Clark.

“Não falo muito por mim, não quero”, continuou Coggan, com a
tendência de falar em princípios que é característica do grão de cevada. “Mas
nunca mudei uma única doutrina: sou preso como que fundido à antiga fé em
que nasci. Sim, é o que se pode dizer da Igreja, um homem pode pertencer a
Igreja e esperar em sua antiga estalagem alegre e nunca se incomodar ou se
preocupar com doutrinas. Mas para ser um seguidor, você deve ir à capela,
não importa como esteja o tempo, e fazer-se de louco. Os membros da capela
são pessoas muito inteligentes. Eles podem tirar belas orações de suas
próprias cabeças, tudo sobre suas famílias e tragédias no jornal.”

“Podem, podem mesmo”, concordou Mark Clark, com sentimento


corroborativo. “Mas veja, nós, religiosos, devemos ter tudo impresso de
antemão ou estragamos tudo, não sabemos mais o que dizer para um grande
mestre como o Senhor do que bebês que ainda não nasceram.”

“Os religiosos são mais unha-e-carne entre eles do que conosco”, disse
Joseph, pensativo.

“Sim”, afirmou Coggan. "Sabemos muito bem que se alguém vai para o
céu são eles. Se esforçam para isso e o merecem. Não sou tão tolo para fingir
que nós que só vamos à Igreja temos a mesma chance que eles, porque
sabemos que não temos. Mas odeio um sujeito que vai mudar suas antigas
doutrinas por uma questão de ir para o céu. Sou testemunha do Rei por
poucas. Porque, vizinhos, quando todas as minhas batatas sofreram com a
geada, o nosso Pároco Thirdly foi quem me deu um saco de sementes,
embora quase não tivesse uma para ele mesmo nem dinheiro para comprá-las.
Se não fosse por ele, não teria nenhuma batata para plantar no meu quintal.
Acham que eu não voltaria depois disso? Não, eu vou ficar, e se estivermos
errados, que assim seja: vou cair com os caídos!”

“Bem falado, muito bem falado”, observou Joseph. “No entanto, amigos,
preciso ir agora, não tem jeito. O Pároco Thirdly estará esperando nos portões
da igreja e tem uma mulher aguardando do lado de fora na carroça.”

“Joseph Poorgrass, não fique tão triste! O Pároco Thirdly não vai se
importar. Ele é um homem generoso! Encontrou-me perdido há anos e passei
uma boa parte da minha vida na sombra, mas ele nunca chorou por isso.
Sente-se.”
Quanto mais tempo Joseph Poorgrass permanecia, menos seu espírito
ficava perturbado pelos deveres que recebera naquela tarde. Os minutos se
passavam incontáveis, até que as sombras da noite começavam
perceptivelmente a ficarem mais profundas e os olhos dos três eram os pontos
brilhantes na superfície da escuridão. O relógio repetidor de Coggan marcou
seis horas dentro de seu bolso nos tons costumeiros e curtos.

Naquele momento, passos apressados foram ouvidos na entrada, a porta


se abriu para a entrada de Gabriel Oak, seguido pela empregada da
hospedaria carregando uma vela. Olhou severamente para o um rosto longo e
dois redondos parados, que o confrontaram com as expressões de um violino
e um par de aquecedores de panelas. Joseph Poorgrass piscou e encolheu-se
várias polegadas.

“Pela minha alma, tenho vergonha de você, seu infame, Joseph, infame!”,
disse Gabriel, indignado. “Coggan, você se diz um homem e faz isso.”

Coggan olhou indefinidamente para Oak, um ou outro dos seus olhos


ocasionalmente de abrindo e fechando em sua própria concordância, como se
não fosse um membro, mas sim um indivíduo sonolento com uma
personalidade distinta.

“Não leve por esse lado, pastor!”, disse Mark Clark, olhando em tom de
censura para a vela, que parecia possuir características especiais de interesse
para os olhos.

“Ninguém pode ferir uma mulher morta”, disse Coggan lentamente, com
a precisão de uma máquina. “Tudo o que poderia ser feito para ela já foi feito,
ela está além de nós; e por que um homem deveria colocar-se numa pressa
danada por argila sem vida que nem pode sentir nem ver, e não sabe o que
fazer com ela? Se estivesse viva, eu teria sido o primeiro a ajudá-la. Se agora
ela quisesse comida ou bebida, eu pagaria tudo. Mas ela está morta e nada
que façamos irá trazê-la à vida. Ela nos deixou, tempo passado com ela é
jogado fora. Por que devemos nos apressar para fazer o que não é necessário?
Beba, pastor, e vamos ser amigos, porque amanhã podemos estar como ela.”

“Podemos mesmo”, acrescentou Mark Clark, enfaticamente, bebendo de


uma vez, para não correr mais o risco de perder a sua chance pelo evento
aludido, enquanto Jan misturava seus pensamentos adicionais do amanhã
numa canção:

Amanhã, amanhã!

E enquanto a paz e a abundância que eu encontro em minha placa,

Com um coração livre de doença e tristeza,

Com meus amigos vou compartilhar o que hoje posso pagar,

E deixá-los espalhar a mesa amanhã.

Amanhã, ama—[27]

“Pare com essa buzina, Jan!”, disse Oak; e voltando-se para Poorgrass,
“quanto a você, Joseph, que faz seus atos perversos de maneiras tão
abominavelmente santas, está o mais bêbado quanto se pode estar.”

“Não, pastor Oak, não! Ouça a razão, pastor. O problema comigo é a


aflição chamada de olho multiplicador, que é que eu vejo dois de você, quero
dizer, você parece que é dois.”

“Um olho multiplicador é uma coisa ruim”, disse Mark Clark.

“Sempre aparece quando estou num lugar público por pouco tempo”,
disse Joseph Poorgrass humildemente. “Sim, vejo dois de cada tipo, como se
eu fosse um santo vivendo nos tempos do rei Noé, entrando na arca... é...”,
acrescentou ele, tornando-se muito afetado pela imagem de si mesmo e
derramando lágrimas: “me sinto bom demais para a Inglaterra; eu deveria ter
vivido no Gênesis por direito, como os outros homens de sacrifício e então
não seria ch-ch-chamado de b-b-beberrão desse jeito!”

“Queria que se mostrasse um homem de espírito e não ficasse sentado aí


se lamentando!”

“Mostrar-me um homem de espírito? ... Ah, certo! Deixe-me ser chamado


de bêbado com humildade, deixe-me ser um homem de joelhos contritos,
deixe estar! Sei que sempre digo ‘Por favor, Deus’ antes de fazer qualquer
coisa, de quando me levanto até a hora que me deito e estaria disposto a
tomar tanta desgraça como há num ato sagrado. Hah, sim!... Mas não sou um
homem de espírito? Já permiti que uma ponta de orgulho se levantasse contra
minhas partes posteriores sem gemer corajosamente para questionar o direito
de fazê-lo? Faço essa pergunta com ousadia?”

“Não podemos dizer isso, Herói Poorgrass”, admitiu Jan.

“Nunca permiti que tal tratamento passasse sem ser questionado! No


entanto, o pastor fala na nossa cara do testemunho rico que não sou um
homem de espírito! Bem, deixe estar e a morte é uma boa amiga!”

Gabriel, vendo que nenhum dos três estava apto a assumir o comando da
carroça pelo restante da viagem, não deu resposta e, fechando a porta de
novo, foi até onde o veículo estava, tornando-se indistinto no nevoeiro e na
escuridão daquele tempo coberto de musgos. Puxou a cabeça do cavalo do
grande tapete de relva, reajustou os ramos sobre o caixão e guiou a carroça
pela noite perigosa.

Cresciam rumores na aldeia de que o corpo que seria levado e enterrado


naquele dia era tudo o que havia restado da infeliz Fanny Robin que tinha
seguido a Décima Primeira Cavalaria de Casterbridge por Melchester. Mas,
graças à reticência de Boldwood e à generosidade de Oak, o amante que ela
tinha seguido nunca havia sido individualizado como Troy. Gabriel esperava
que toda a verdade da questão não pudesse ser divulgada de maneira alguma,
até que a menina estivesse em sua sepultura por alguns dias, quando as
barreiras de interposição da terra e do tempo, e uma sensação de que os
eventos foram um pouco fechados no esquecimento, enfraqueceriam o
sofrimento que a revelação, e observação hostil, teria em Bathsheba naquele
instante.

No momento em que Gabriel chegou à mansão, a residência dela, que


estava em seu caminho para a igreja, já estava bem escuro. Um homem veio
ao portão e disse através da névoa que pairava entre eles como farinha ao
vento:

“É Poorgrass com o cadáver?”


Gabriel reconheceu a voz como sendo do pároco.

“O cadáver está aqui, senhor”, respondeu Gabriel.

“Já ia perguntar a Mrs. Troy se podia me dizer o motivo do atraso. Receio


que seja tarde demais agora para que o funeral seja realizado com a decência
adequada. Tem o certificado de registro?”

“Não”, disse Gabriel. “Espero que Poorgrass tenha, mas ele está no
Buck’s Head. Esqueci-me de perdir a ele.”

“Então, isso resolve o assunto. Vamos adiar o funeral até amanhã de


manhã. O corpo pode ser trazido para a igreja ou pode ser deixado aqui na
fazenda e levado pelos carregadores de manhã. Eles esperaram mais de uma
hora e já foram para casa.”

Gabriel tinha suas razões para achar o último um plano mais censurável,
apesar do fato de Fanny ter vivido na casa da fazenda por vários anos quando
o tio de Bathsheba era vivo. Visões de diversas contingências infelizes que
pudessem surgir a partir deste atraso passaram rapidamente diante dele. Mas
sua vontade não era lei, e entrou em casa para consultar a sua patroa sobre
quais eram seus desejos sobre o assunto. Encontrou-a num humor incomum:
seus olhos ao observarem-no eram suspeitos e perplexos como com algum
pensamento antecedente. Troy ainda não tinha retornado. Inicialmente,
Bathsheba concordou com um semblante de indiferença à sua proposição de
que deviam ir para a igreja com a sua carga; mas logo depois, seguindo
Gabriel até o portão, mudou completamente sua solicitude na conta de Fanny,
e pediu que a menina fosse trazida para a casa. Oak argumentou sobre a
conveniência de deixá-la na carroça, assim como estava naquele momento,
com suas flores e ramos sobre ela, apenas empurrando o veículo para a
cocheira até o outro dia, mas sem nenhum propósito.

“É indelicado e não cristãõ”, disse ela, “deixar a pobre numa cocheira


durante toda a noite.”

“Muito bem, então”, concordou o pároco. “E vou providenciar para que o


funeral ocorra amanhã bem cedo. Talvez Mrs. Troy esteja certa em sentir que
devemos tratar um companheiro morto com muita consideração. Devemos
lembrar que, embora ela possa ter errado gravemente em deixar sua casa, ela
ainda é nossa irmã: e temos que acreditar que as misericórdias não
convencionadas de Deus se estendem a ela, que é um membro do rebanho de
Cristo.”

As palavras do pároco se espalharam pelo ar pesado com uma cadência


imperturbável, ainda que triste, e Gabriel derramou uma lágrima honesta.
Bathsheba parecia impassível. O pároco então os deixou e Gabriel acendeu
uma lanterna. Buscando outros três homens para ajudá-lo, carregaram o
caixão, colocando-o em dois bancos no meio de uma pequena sala de estar ao
lado do corredor como Bathsheba pediu.

Todos, exceto Gabriel Oak, sairam da sala em seguida. Permaneceu ainda


indeciso ao lado do corpo. Ele estava profundamente preocupado com o
aspecto miseravelmente irônico que as circunstâncias estavam tomando no
que dizia respeito à esposa de Troy e por sua própria impotência para
neutralizá-las. Apesar de sua cuidadosa manobra todo aquele dia, o pior
evento que poderia, de forma alguma ter acontecido em conexão com o
enterro, acontecia naquela hora. Oak imaginou uma descoberta terrível
resultante dos trabalhos daquela tarde, a qual poderia lançar sobre a vida de
Bathsheba uma sombra que a interposição de muitos anos não poderia
remover completamente.

De repente, como numa última tentativa para salvar Bathsheba pelo


menos da angústia imediata, ele olhou novamente, como já havia olhado
antes, para a escrita em giz sobre a tampa do caixão. O rabisco era um
simples: ‘Fanny Robin e filho’. Gabriel tirou seu lenço e, cuidadosamente,
esfregou as duas últimas palavras, deixando visível apenas a inscrição:
‘Fanny Robin’. Em seguida, deixou a sala e saiu tranquilamente pela porta da
frente.
CAPÍTULO XLIII
A REVANCHE DE FANNY

“Ainda vai precisar de mim, Madame?”, perguntou Liddy, uma hora depois
na mesma noite, de pé ao lado da porta com um castiçal na mão dirigindo-se
a Bathsheba, que estava triste e sozinha na grande sala de estar ao lado do
primeiro fogo da temporada.

“Esta noite, não, Liddy.”

“Posso ficar até mais tarde para esperar o patrão se quiser, senhora. Não
fico com medo de Fanny se puder me sentar no meu próprio quarto com uma
vela. Ela era uma jovem tão infantil e tímida que o seu espírito não apareceria
a ninguém, tenho certeza.”

“Oh não, não! Vá dormir. Vou esperar por ele até meia-noite e, se não
chegar a essa altura, vou desistir e ir dormir também.”

“São dez e meia agora.”

“Ah, é?”

“Por que não espera lá em cima, senhora?”

“Porque?”, disse Bathsheba, enfastiadamente. “Não vale a pena, há fogo


aqui, Liddy.” De repente, ela disse num sussurro impulsivo e animado: “Já
ouviu falar alguma coisa estranha de Fanny?” As palavras tinham mal tinham
escapado dela quando uma expressão de pesar indizível atravessou seu rosto
e ela explodiu em lágrimas.
“Não, nem uma palavra!”, informou Liddy, olhando com espanto para a
mulher chorando. “O que é que a faz chorar assim, minha senhora? Há algo
lhe incomodando?” Veio para o lado de Bathsheba com o rosto cheio de
compaixão.

“Não, Liddy... não preciso mais de você. Mal posso dizer por que eu
tenho chorado ultimamente. Não costumava chorar. Boa noite.”

Liddy, em seguida, deixou a sala e fechou a porta.

Bathsheba estava só e infeliz naquele momento, não mais solitária, na


verdade, do que fora antes de seu casamento. Mas sua solidão estava para a
do tempo presente como a solidão de uma montanha está para a solidão de
uma caverna. E nos últimos dias vieram esses pensamentos inquietantes sobre
o passado de seu marido. Seu sentimento rebelde naquela noite, a respeito do
lugar de descanso temporário de Fanny, tinha sido o resultado de uma
complicação estranha de impulsos no peito de Bathsheba. Talvez fosse
melhor descrita como uma determinada rebelião contra seus preconceitos,
uma repulsa de um instinto inferior da falta de caridade, o que teria retido
toda a simpatia da mulher morta, porque na vida havia precedido Bathsheba
nas atenções de um homem a quem Bathsheba de modo algum deixou de
amar, apesar de seu amor estar doente à beira morte agora com a gravidade
de uma outra apreensão.

Em cinco ou dez minutos houve outra batida na porta. Liddy reapareceu,


de uma forma hesitante, até que finalmente disse:

“Maryann acaba de ouvir algo muito estranho, mas eu sei que não é
verdade. E vamos ter a certeza de conhecer os direitos disso num dia ou
dois.”

“O que foi?”

“Oh, nada relacionado com você ou conosco, Madame. Trata-se de


Fanny. A mesma coisa que ouviu.”

“Não ouvi nada.”


“Refiro-me a uma história perversa que tem corrido por Weatherbury
nesta última hora... que...” Liddy chegou perto de sua patroa e sussurrou o
restante da sentença lentamente em seu ouvido, inclinando a cabeça enquanto
falava na direção da sala onde Fanny estava.

Bathsheba tremeu da cabeça aos pés.

“Não acredito!”, ela disse, surpresa. “E há apenas um nome escrito sobre


a tampa do caixão.”

“Nem eu, senhora, e muitas outras pessoas também. Nós certamente


seríamos mais informados sobre isso se fosse verdade, não acha, Madame?”

“Talvez sim, talvez não.”

Bathsheba virou-se e olhou para o fogo para que Liddy não pudesse ver
seu rosto. Percebendo que a patroa não diria mais nada, Liddy saiu, fechou a
porta suavemente e foi para a cama.

O rosto de Bathsheba, enquanto continuava olhando para o fogo naquela


noite, poderia ter levantado preocupações em sua conta, mesmo entre aqueles
que menos a amavam. A tristeza do destino de Fanny Robin não fez
Bathsheba gloriosa, embora ela fosse a Ester e a pobre Fanny fosse a
Vasti[28], e seus destinos, em alguns aspectos, contrastando com o outro.
Quando Liddy entrou na sala uma segunda vez os belos olhos que
encontraram os dela estavam apáticos e cansados. Quando saiu depois de
contar a história, mostravam o desespero em plena atividade. Sua natureza
simples do campo, alimentada em princípios antiquados, estava preocupada
com o que teria incomodado muito pouco uma mulher do mundo, tanto
Fanny e seu filho, se ela tinha um, que estavam mortos.

Bathsheba tinha razões para conjecturar uma conexão entre sua própria
história e a tragédia, vagamente suspeita, do fim de Fanny, que Oak e
Boldwood nem por um momento lhe revelaram. O encontro com a mulher
solitária na noite do sábado anterior não teve testemunhas. Oak pode ter tido
a melhor das intenções em reter por tantos dias quanto possível os detalhes do
que tinha acontecido com Fanny, mas se soubesse que as percepções de
Bathsheba já haviam sido exercidas no assunto, não teria feito nada para
alongar os minutos de suspense em que ela estava agora submetida, quando a
certeza que deve terminá-la, afinal, seria pior do que o fato suspeito.

De repente, sentiu um ardente desejo de falar com alguém mais forte do


que ela, ganhar forças para sustentar sua suposição com dignidade e suas
dúvidas à espreita com estoicismo. Onde poderia encontrar um amigo? Em
nenhum lugar da casa. Ela era, de longe, a mais fria das mulheres sob seu
teto. Paciência e suspensão do julgamento por algumas horas eram o que ela
queria aprender e não havia ninguém para ensiná-la. Ela poderia procurar
Gabriel Oak! Mas isso não podia acontecer. Que maneira Oak tinha, pensou,
de suportar as coisas. Boldwood, que parecia muito mais profundo, mais alto
e mais forte no sentimento do que Gabriel, ainda não tinha aprendido, mais
do que ela mesma, a lição simples que Oak dominava por cada volta e olhar
que dava — entre a multidão de interesses pelo qual ele estava cercado,
aqueles que afetavam o seu bem-estar pessoal não eram os mais absorventes
e importantes em seus olhos. Oak meditativamente olhava além do horizonte
de circunstâncias sem qualquer consideração especial para o seu próprio
ponto de vista. Era assim que ela gostaria de ser. Mas então Oak não era
abalado por incertezas sobre o assunto mais íntimo de seu peito, como ela
estava naquele momento. Oak sabia tudo sobre Fanny que desejava saber. Ela
se sentia convencida disso. Se fosse até ele imediatamente e não dissesse
mais do que estas poucas palavras: ‘Qual é a verdade da história?’, ele se
sentiria obrigado a contar a ela. Seria um alívio inexplicável. Nenhuma outra
intervenção teria de ser proferida. Ele a conhecia tão bem que nenhuma
excentricidade de comportamento dela o assustava.

Envolveu-se num manto, foi até a porta e abriu-a. Cada folha de grama,
cada galho estava parado. O ar ainda estava espesso com umidade, embora
um pouco menos denso do que durante a tarde, e um tamborilar constante de
gotas sobre as folhas caídas era quase musical na sua regularidade calmante.
Parecia melhor estar fora de casa do que dentro dela e Bathsheba fechou a
porta, caminhou lentamente pela trilha até que chegou em frente à cabana de
Gabriel, onde agora morava sozinho, tendo deixado a casa de Coggan depois
de passar necessidades por um quarto. Havia uma luz numa única janela. As
venesianas não estavam fechadas nem qualquer cortina estava puxada sobre a
janela, nem o roubo nem a observação eram uma contingência que poderia
trazer muito prejuízo para o ocupante do domicílio. Sim, era o próprio
Gabriel que estava acordado: estava lendo. De seu lugar na estrada, ela pode
vê-lo claramente, sentado, imóvel, sua cabeça clara e cacheada apoiada em
sua mão, e só ocasionalmente olhando para cima para inalar a vela que estava
ao lado dele. Finalmente, olhou para o relógio, parecia surpreso com o
adiantado da hora, fechou o livro e se levantou. Estava indo para a cama, ela
sabia, e se fosse bater à porta, devia fazê-lo imediatamente.

Ai de sua determinação! Sentiu que não poderia fazê-lo. Não podia dar
indícios sobre seu sofrimento para ele por nada no mundo, muito menos
pedir-lhe claramente informações sobre a causa da morte de Fanny. Ela devia
suspeitar, adivinhar, irritar-se e suportá-lo sozinho.

Como um andarilho sem teto ela vagou pelo banco do rio, como se
embalada e fascinada pela atmosfera que parecia espalhar-se pelas poucas
habitações, que sentia tanta falta em sua própria. Gabriel apareceu num
cômodo no andar superior, colocou a luz no banco da janela e, em seguida,
ajoelhou-se para orar. O contraste da imagem com sua existência rebelde e
agitada ao mesmo tempo foi demais para que ela suportasse continuar
olhando. Não era para ela fazer uma trégua com problemas por tais meios.
Devia trilhar sua medida perturbadora e tonta até a última nota, como tinha
começado. Com o coração apertado, ela foi novamente até a trilha e entrou
em sua própria porta.

Mais febril agora por uma reação a partir dos primeiros sentimentos que o
exemplo de Oak haviam levantado nela, parou no corredor, olhando para a
porta do quarto em que Fanny estava. Ela fechou seus dedos, jogou a cabeça
para trás e esfregou suas mãos quentes rigidamente na testa, dizendo com um
soluço histérico:

“Quisera Deus que você pudesse falar e me contar seu segredo, Fanny!...
Oh, eu espero, espero que não seja verdade que há dois de você!... Se eu
pudesse olhá-la só por um único minuto, saberia de tudo!”

Alguns momentos se passaram e ela acrescentou lentamente:

“E vou.”

Bathsheba mais tarde nunca poderia medir o temperamento que a levou às


ações seguintes àquela resolução murmurada sobre essa noite memorável de
sua vida. Foi até o armário de ferramentas pegar uma chave de fenda. Ao
final de um tempo curto, porém indefinido, encontrou-se na saleta, tremendo
de emoção com uma névoa diante dos olhos e uma pulsação excruciante em
seu cérebro, de pé ao lado do caixão descoberto da menina, cujo fim
conjecturado a absorveu tão completamente, e dizendo para si mesma com
uma voz rouca ao olhar dentro dele:

“Foi melhor saber o pior, e agora sei!”

Estava consciente de que descobriu com esta situação uma série de ações
feitas como num sonho extravagante; de seguir essa ideia como um método
que explodiu sobre ela no corredor com obviedade gritante, correndo para o
alto da escada, assegurando-se ao ouvir a respiração pesada de suas criadas
que elas estavam dormindo, correndo para baixo outra vez, girando a
maçaneta da porta onde a jovem estava deitada e deliberadamente
preparando-se para fazer o que, se houvesse previsto tal compromisso à noite
e sozinha, teria ficado horrorizada, mas que, quando feito, não foi tão terrível
quanto a prova conclusiva da conduta do marido que veio ao conhecer sem
sombra de dúvida o último capítulo da história de Fanny.

A cabeça de Bathsheba afundou sobre seu peito e a respiração que


estivera presa em suspense, curiosidade e interesse foi exalada agora sob a
forma de um gemido sussurrado:

“Oh...”, ela disse, e o silêncio do local intensificou seu gemido.

Suas lágrimas caíram rapidamente ao lado da dupla inconsciente no


caixão: lágrimas de uma origem complicada, de natureza indescritível, quase
indefinível, exceto como as de simples tristeza. Seguramente suas emoções
costumeiras devem ter morado nas cinzas de Fanny quando os eventos
tomavam forma quando era conduzida para lá dessa maneira natural, discreta,
mas eficaz. O feito em si, o de morrer, pelo qual uma condição média poderia
resolver uma maior, Fanny tinha conseguido. E que tinha o destino
promovido este reencontro nessa noite que teve, na imaginação selvagem de
Bathsheba, tornado sucesso o fracasso de sua companheira, sua humilhação
em triunfo, sua infelicidade em ascendência; que tinha jogado sobre si mesma
uma luz berrante de zombaria e derramado sobre todas as coisas a respeito
dela um sorriso irônico.

O rosto de Fanny era emoldurado pelos seus cabelos louros e não havia
mais espaço para dúvidas quanto à origem do cacho em propriedade de Troy.
Na imaginação acalorada de Bathsheba, o rosto branco inocente expressava
uma leve consciência triunfante da tristeza que estava retaliando sua dor com
todo o rigor implacável da lei Mosaica: ‘olho por olho, dente por dente’.

Bathsheba cedeu às contemplações da fuga da sua posição pela morte


imediata, o que, pensou ela, embora fosse uma forma inconveniente e
horrível, tinha limites para a sua inconveniência e o terror que não poderia ser
ultrapassado, enquanto as vergonhas da vida eram imensuráveis. No entanto,
mesmo este esquema de extinção por morte não era mais que uma cópia do
método de sua rival sem as razões que glorificavam o caso de Fanny.
Caminhou rapidamente de um lado para outro da sala, como era
principalmente seu costume quando estava nervosa, com as mãos
entrelaçadas pendurada na frente dela, como se estivesse pensando, e em
parte, expressando em palavras entrecortadas:

“Oh, eu a odeio, mas não quero dizer que a odeio, porque é doloroso e
perverso, e ainda assim a odeio um pouco! Sim, minha carne insiste em odiá-
la, queira meu espírito ou não!... Se ao menos ela estivesse viva eu poderia
sentir raiva e ser cruel com ela com alguma justificativa, mas ser vingativa
com uma pobre mulher morta recai contra mim. Oh, Senhor, tenha
misericórdia! Estou infeliz em tudo isso!”

Naquele momento, Bathsheba ficou tão aterrorizada com seu próprio


estado de espírito que procurou algum tipo de fuga de si mesma. A visão de
Oak ajoelhando-se naquela noite veio-lhe à mente e, com o instinto imitativo
que anima mulheres, apoderou-se da ideia, resolveu ajoelhar-se e, se possível,
orar. Gabriel havia orado, então ela também oraria.

Ajoelhou-se ao lado do caixão, cobriu o rosto com as mãos, e durante


algum tempo a sala ficou silenciosa como um túmulo. O espírito de
Bathsheba acalmou-se, de uma causa puramente mecânica ou de qualquer
outra, e um lamento para os instintos antagônicos que lhe tinham atingido
pouco antes.
Em seu desejo de prestar reparação, pegou flores de um vaso na janela e
começou a colocá-las em torno da cabeça da moça morta. Bathsheba não
conhecia outra forma de mostrar bondade para com pessoas que partiram a
não ser dar-lhes flores. Não sabia quanto tempo permaneceu envolvida assim.
Esqueceu-se do tempo, da vida, de onde estava, do que estava fazendo. A
batida das portas da cocheira no quintal a trouxeram a si novamente. Um
instante depois, a porta da frente foi aberta e fechada, passos atravessaram o
corredor e seu marido apareceu na entrada da sala, olhando para ela.

Ele observou tudo lentamente, olhou a cena estupefato, como se pensasse


que era uma ilusão criada por algum encantamento diabólico. Bathsheba,
pálida como um cadáver, olhou para ele da mesma forma selvagem.

As suposições instintivas são tão pouco fruto de uma indução legítima de


que, naquele momento, enquanto ele estava com sua mão na porta, Troy
nunca pensou em Fanny como do jeito que a viu. Sua primeira ideia confusa
era que alguém na casa tinha morrido.

“Então... o que foi?”, perguntou Troy, sem expressão.

“Tenho que ir! Preciso ir!”, disse Bathsheba mais para si mesma do que
para a ele. Foi até a porta com o olhar dilatado para passar por ele.

“Qual é o problema, em nome de Deus? Quem morreu?”, insistiu Troy.

“Não posso dizer, deixe-me sair. Preciso de ar!”, continuou ela.

“Não, fique, eu insisto!”, ele agarrou a mão dela e então a vontade parecia
deixá-la e estava num estado de passividade. Ele, ainda segurando-a, foi à
sala, e assim, de mãos dadas, Troy e Bathsheba aproximaram-se do lado do
caixão. A vela estava num nicho perto deles e a luz inclinada para baixo,
distintamente suscitando as características frias da mãe e do bebê. Troy
olhou, largou a mão de sua esposa, o conhecimento de tudo caiu sobre ele
num brilho lúgubre e ficou parado.

Permaneceu tão parado que poderia-se imaginar que nenhuma força


motriz fora deixada nele. Os confrontos de sentimento em todas as direções,
confundidos entre si, produziram uma neutralidade e não havia movimento
nenhum.

“Você a conhece?”, disse Bathsheba num pequeno eco fechado como que
de dentro de uma cela.

“Conheço”, admitiu Troy.

“É ela?”

“Sim.”

Ele antes estava perfeitamente ereto. E agora, na imobilidade congelada


de sua estrutura, discernia-se um movimento incipiente como na noite mais
escura pode-se discernir luz depois de um tempo. Foi gradualmente baixando
para frente. As linhas de suas feições suavizaram-se e a consternação passou
para tristeza infinita. Bathsheba observava-o do outro lado, ainda com os
lábios entreabertos e os olhos distraídos. A capacidade de intenso sentimento
é proporcional à intensidade geral da natureza e, talvez, em todos os
sofrimentos de Fanny, muito maiores relativamente à sua força, nunca houve
um tempo que ela sofreu num sentido absoluto o que Bathsheba sofria ali.

O que Troy fez foi ajoelhar-se com uma união indefinível de remorso e
reverência em seu rosto, e, curvando-se sobre Fanny Robin, gentilmente
beijou-a como se beija um bebê dormindo para evitar despertá-lo.

Com a imagem e o som do que para ela era um ato insuportável,


Bathsheba saltou em direção a ele. Todos os fortes sentimentos que estavam
espalhados sobre sua existência, desde que sabia o que era, pareciam reunidos
numa pulsação agora. A repulsa de seu temperamento indignado um pouco
mais cedo, quando meditara sobre a honra comprometida, a usurpação, a
ofuscação da maternidade na outra, era violenta e completa. Tudo foi
esquecido no laço simples e ainda forte da esposa com o marido. Ela tinha
suspirado por sua autointegridade e agora ela gritava contra o rompimento da
união que lamentou. Jogou os braços em volta do pescoço de Troy,
exclamando descontroladamente da parte mais profunda de seu coração:

“Não! Não os beije! Oh, Frank, não posso suportar isso, não posso! Eu o
amo mais do que ela o amou! Beije-me também, Frank... beije-me! Vamos,
Frank, beije-me também!”

Havia algo tão anormal e surpreendente na dor infantil e na simplicidade


daquele apelo de uma mulher do calibre e da independência de Bathsheba
que Troy, soltando os braços firmemente entrelaçados em seu pescoço,
olhou-a com espanto. Foi uma revelação tão inesperada de que todas as
mulheres são iguais no coração, mesmo aquelas tão diferentes em seus
artifícios como Fanny e esta ao lado dele, que Troy dificilmente acreditava
que ela fosse a sua esposa, a orgulhosa Bathsheba. O próprio espírito de
Fanny parecia animar sua expressão. Mas foi o humor de apenas alguns
instantes. Quando a surpresa momentânea havia passado, sua expressão
mudou para um olhar silenciador e imperioso.

“Não a beijarei!”, disse ele empurrando-a para longe.

A esposa não foi além. No entanto, talvez, sob as circunstâncias


angustiantes, falar fosse o único ato errado que poderia ser melhor
compreendido, se não perdoado por ela, do que o direito e político, se sua
rival não fosse um cadáver. Toda a sensação que traíra ao demonstrar, ela
recuou para si mesma novamente por um esforço extenuante de autocontrole.

“O que tem a dizer como seu motivo?”, perguntou ela, com a voz amarga
estranhamente baixa, quase como se fosse de outra mulher.

“Tenho que dizer que sou um homem mau, de coração negro”, respondeu
ele.

“E que esta mulher é sua vítima, e eu, não menos do que ela.”

“Ah! Não me insulte, Madame. Essa mulher é mais para mim, morta
como está, do que você nunca foi, é, ou poderá ser. Se Satanás não tivesse me
tentado com aquele seu rosto e galanteios malditos eu teria me casado com
ela. Nunca tive outro pensamento até que você entrou em meu caminho.
Quisera Deus que eu tivesse, mas é tarde demais!” Ele virou-se para Fanny
então. “Mas não importa, querida”, disse ele, “aos olhos do Céu você é sim,
minha esposa!”

Ao ouvir aquelas palavras, surgiu dos lábios de Bathsheba um longo e


baixo grito de desespero e indignação incomensuráveis, tal lamento de
angústia como nunca antes tinha sido ouvido dentro daquelas velhas paredes.
Foi a consumação de sua união com Troy.

“Se ela é... isso... o que... eu sou?”, acrescentou ela como uma
continuação do mesmo grito e soluçando lastimosamente, e a raridade de que
tal abandono só agravou a condição.

“Você não é nada para mim, nada”, disse Troy impiedosamente. “Uma
cerimônia diante de um sacerdote não faz um casamento. Não sou
moralmente seu.”

Um impulso veemente para fugir dele, daquele lugar, ocultar e escapar de


suas palavras a qualquer preço, não parando nem para a morte, dominava
Bathsheba. Não esperou nem um instante, mas virou-se para a porta e correu
para fora.
CAPÍTULO XLIV
DEBAIXO DE UMA ÁRVORE – REAÇÃO

Bathsheba percorreu a estrada escura sem saber nem se importar com a


direção ou o destino de seu caminho. A primeira vez que definitivamente
notou sua posição foi quando chegou a um portão que dava para um matagal
coberto por alguns carvalhos e grandes faias. Ao olhar para o lugar, ocorreu-
lhe que já o havia visto à luz do dia em alguma ocasião anterior e, o que
apareceu como uma moita intransitável, era, na realidade, uma clareira de
samambaia agora tornando-se seca. Não conseguia pensar em nada melhor
para fazer em seu nervoso do que ir para lá e se esconder. Ao entrar, sentiu
alívio num local protegido do nevoeiro úmido por um tronco reclinado, onde
se sentou num sofá de folhas e caules emaranhados. Puxou mecanicamente
algumas braçadas deles em volta dela para se proteger da brisa e fechou os
olhos.

Se dormiu ou não naquela noite, Bathsheba não tinha clara consciência.


Mas foi com uma existência refrescada e um cérebro mais frio que, muito
tempo depois, percebeu alguns processos interessantes que estavam
acontecendo nas árvores acima de sua cabeça e ao redor.

Uma tagarelice grossa foi o primeiro som.

Era um pardal que acabava de acordar.

A seguir: “Ti-ti-ti!”, de outro lado.

Era um tentilhão.

O terceiro: “Tink - Tink - Tink - Tink!”, da cerca.


Era um tordo.

“Tuc-tuc-tuc!”, vindo de cima.

Um esquilo.

Então, pela estrada, “com meu ra-ta-ta e meu rum-tum-tum!”

Era um jovem camponês. Vindo do lado oposto, ela acreditava pela sua
voz que fosse um dos meninos de sua própria fazenda. Era seguido por uma
caminhada cambaleante de pés pesados e, olhando através das samambaias,
Bathsheba podia discernir à luz pálida do amanhecer uma parelha de seus
próprios cavalos. Pararam para beber numa lagoa no outro lado do caminho.
Ela observou-os agitando-se na água, bebendo, jogando suas cabeças,
bebendo de novo, a água escorrendo como fios de prata. Houve outro
movimento brusco, saíram da lagoa e voltaram novamente para a fazenda.

Ela olhou mais ao redor. O dia estava amanhecendo e, apesar da frieza de


seu ar e suas cores, suas ações e resoluções quentes da noite se destavam num
contraste escabroso. Ela percebeu que em seu colo e, agarrando-se a seu
cabelo, haviam folhas vermelhas e amarelas que caíram da árvore e se
instalaram silenciosamente em cima dela durante seu sono parcial. Bathsheba
balançou seu vestido para se livrar delas quando milhares do mesmo tipo,
pousadas em volta dela, se levantaram e se agitaram na brisa que foi criada,
‘como fantasmas numa fuga encantada.’

Havia uma abertura em direção ao leste, e o brilho do sol, que ainda não
havia nascido, atraiu os olhos dela. Aos seus pés e entre as belas samambaias
amareladas, com braços de plumas, o chão inclinava para baixo num oco, que
era uma espécie de pântano pontilhado com fungos. A névoa da manhã,
pendurada sobre ele, era como um véu grosseiro, mas prateado e magnífico,
cheio de luz do sol, ainda que opaca, meio escondida por sua luminescência
nebulosa. Pelos lados desta depressão cresciam feixes de junco, e aqui e ali
uma espécie peculiar de cálamo e suas folhas brilhavam ao sol emergente
como foices. Mas o aspecto geral do pântano era maligno. De seu
revestimento úmido e venenoso pareciam exalar as essências das coisas más
da terra e nas águas debaixo dela. Os fungos cresciam em todos os tipos de
posições das folhas em decomposição e tocos de árvores, alguns exibindo ao
olhar apático dela seus topos úmidos; outros, suas lamelas cheias de limo.
Alguns tinham grandes manchas vermelhas como o sangue arterial, outros
eram amarelo açafrão e outros altos e atenuados, com hastes como macarrão.
Alguns eram parecidos com couro e dos tons ricos de marrom. O buraco
parecia um viveiro de pestes pequenas e grandes, um risco imediato para o
conforto e a saúde da vizinhança, e Bathsheba levantou-se com um tremor no
pensamento de ter passado a noite à beira de um lugar tão lúgubre.

Outros passos foram ouvidos ao longo da estrada. Os nervos de


Bathsheba ainda estavam fracos: agachou-se para não ser vista e o pedestre
apareceu. Ele era um estudante, com uma mochila no ombro, que continha
sua comida, e um livro na mão. Parou junto ao portão e, sem olhar para cima,
continuou murmurando palavras, alto o bastante para chegar aos seus
ouvidos.

“O Senhor, Senhor, Senhor, Senhor, Senhor: o que eu sei do livro. Dá-


nos, dá-nos, dá-nos, dá-nos, dá-nos: isso eu sei. Agracia-nos, agracia-nos,
agracia-nos, agracia-nos: isso eu sei.” Outras palavras seguiram com o
mesmo efeito. Aparentemente, o menino era da turma dos mais relapsos; o
livro era um saltério e aquela era a sua maneira de aprender a coleta. No pior
dos problemas, parecia haver sempre um véu superficial de consciência, que
é deixado solto e aberto para que se percebessem coisas sem importância, e
Bathsheba estava ligeiramente divertida pelo método do menino, até que ele
também passou.

Por esta altura, o estupor tinha dado lugar à ansiedade, e a ansiedade


começava a abrir espaço para a fome e a sede. Uma silhueta apareceu sobre a
ascensão do outro lado do pântano, meio escondida pela névoa, e veio em
direção a Bahsheba. Uma mulher se aproximou com o rosto de perfil, como
se estivesse olhando intensamente para todos os lados. Quando chegou um
pouco mais para a esquerda e estava se aproximando, Bathsheba pôde ver o
perfil da recém-chegada contra o céu ensolarado e, observando a ondulação
da testa ao queixo, sem nenhum ângulo nem linha decisiva em qualquer
lugar, reconheceu como sendo o contorno familiar de Liddy Smallbury.

O coração de Bathsheba encheu-se de gratidão no pensamento de que ela


não estava completamente abandonada e correu:
“Oh, Liddy!”, ela chamou, ou tentou chamar, mas as palavras só se
formaram em seus lábios; nenhum som veio. Ela havia perdido sua voz pela
exposição à atmosfera obstruída em todas àquelas horas da noite.

“Oh, minha senhora! Estou tão feliz que a encontrei”, disse a moça assim
que viu Bathsheba.

“Não atravesse”, sussurrou Bathsheba, que tentou em vão dizê-lo alto o


suficiente para alcançar os ouvidos de Liddy. Esta, não sabendo, desceu até o
pântano, dizendo, conforme descia:

“Deve me aguentar, eu acho.”

Bathsheba nunca se esqueceu daquela pequena imagem transitória de


Liddy cruzando o pântano até ela na luz daquela manhã. Bolhas iridescentes
de ar subterrâneo úmido subiam do terreno encharcado ao lado dos pés da
criada quando ela pisava, sibilando ao romperem e se expandirem para se
juntar ao firmamento vaporoso acima. Liddy não afundou como Bathsheba
tinha previsto.

Ela chegou em segurança do outro lado, e olhou para o belo rosto, embora
pálido e cansado, de sua jovem patroa.

“Pobrezinha!”, disse Liddy, com lágrimas nos olhos: “Anime-se um


pouco, senhora. O que quer que...”

“Não posso falar mais do que um sussurro, estou sem voz”, disse
Bathsheba apressadamente. “Creio que o ar úmido daquele buraco a afetou.”
Liddy, por favor, não me pergunte nada. Quem a mandou aqui?”

“Ninguém. Pensei, quando descobri que você não estava em casa, que
algo cruel tivesse acontecido. Imaginei ter ouvido a voz dele tarde na noite
passada e assim, sabendo que algo estava errado...”

“Ele está em casa?”

“Não, saiu pouco antes de mim.”

“Fanny já foi levada?”


“Ainda não. Será em breve... às nove horas.”

“Não vamos voltar para casa no momento, então. Vamos andar por essa
mata?”

Liddy concordou, sem entender exatamente aquele episódio, e elas


caminharam juntas entre as árvores.

“Mas é melhor entrar, senhora, para comer alguma coisa. Você vai morrer
de frio!”

“Não vou entrar em casa ainda, talvez nunca mais.”

“Devo pegar algo para comer, e mais alguma coisa para colocar sobre sua
cabeça, além desse pequeno xale?”

“Se puder, Liddy.”

Liddy desapareceu, e depois de vinte minutos voltou com uma capa, um


chapéu, algumas fatias de pão com manteiga, uma xícara e chá quente numa
pequena jarra de porcelana.

“Fanny já foi?”,perguntou Bathsheba.

“Não”, disse sua companheira, servindo o chá.

Bathsheba enrolou-se, comeu e bebeu moderadamente. Sua voz então


estava um pouco mais clara e a cor voltou ao seu rosto.

“Agora vamos caminhar de novo”, disse ela.

Andaram pela mata por quase duas horas, Bathsheba respondendo a


tagarelice de Liddy com monossílabos, pois em sua mente só havia um
assunto, e apenas um. Ela interrompeu para dizer:

“Gostaria de saber se Fanny já foi levada a essa altura.”

“Vou ver.”
Ela voltou com a informação de que os homens haviam acabado de retirar
o cadáver, que perguntaram por Bathsheba, que ela havia respondido que a
patroa estava doente e não podia ir.

"Então eles acham que estou no meu quarto?”

“Sim.” Liddy, em seguida, aventurou-se a acrescentar: “Assim que a


encontrei a senhora disse que, talvez, nunca voltasse para casa outra vez...
não estava falando sério, estava?”

"Não. Mudei de ideia. Apenas as mulheres sem nenhum orgulho fogem


de seus maridos. Há uma situação pior do que a de ser encontrada morta na
casa do seu marido por seus maus tratos, que é ser encontrada viva por ter ido
para a casa de alguém. Pensei em tudo esta manhã e eu escolhi o meu
caminho. Uma esposa fugitiva é um estorvo para todos, um fardo para ela e
uma depreciação, tudo que forma um sofrimento maior do que ficar em casa,
embora isso possa incluir os itens insignificantes de insulto, surra e fome.
Liddy, se alguma vez você se casar — Deus permita que nunca! — e se
encontrar numa situação de medo, lembre-se disso, não fuja. Fique no seu
território e seja cortada em pedaços. É isso que eu vou fazer.”

“Oh, Madame, não fale assim!”, disse Liddy, pegando sua mão. “Posso
perguntar que coisa terrível aconteceu entre vocês?”

“Você pode perguntar, mas eu não posso dizer.”

Em cerca de dez minutos elas voltaram para casa por um caminho


tortuoso, entrando pela parte de trás. Bathsheba correu até as escadas de um
sótão fora de uso, seguida por sua companheira.

“Liddy”, disse ela, com o coração mais leve, pois a juventude e a


esperança começavam a reafirmar-se. “Você deve ser minha confidente para
o momento, alguém deve ser e escolhi você. Bem, esta será minha residência
por um tempo. Acenda o fogo, coloque um tapete e me ajude a deixar o lugar
confortável. Depois, quero que você e Maryann tragam aquele estrado para o
quartinho e a cama que lhes pertence, uma mesa, e algumas outras coisas... o
que devo fazer para passar o tempo longe?”
“Fazer bainha em lenços é muito bom”, disse Liddy.

“Oh não, não! Odeio costurar, sempre odiei.”

“Tricô?”

“E isso também.”

“Pode terminar suas amostras. Só os cravos e os pavões precisam de


preenchimento. E então ele poderia ser emoldurado e coberto com vidro, e
pendurado ao lado do de sua tia, Madame.”

“Amostras são antiquados, terrivelmente camponesas. Não Liddy, vou


ler. Traga-me alguns livros, não novos. Não tenho ânimo para ler nada novo.”

“Alguns dos antigos de seu tio, minha senhora?”

“Sim. Alguns daqueles que arrumamos em caixas.” Um brilho fraco de


humor passou sobre seu rosto quando disse: “Traga A Tragédia da Donzela,
de Beaumont e Fletcher, e A Noiva de Luto, e deixe-me ver... Pensamentos
Noturnos, e A Vaidade dos Desejos Humanos.”

“E aquela história do homem negro, que assassinou sua esposa


Desdêmona? É sombriamente agradável que lhe serviria perfeitamente
agora.”

“Então, Liddy, esteve olhando meus livros sem me dizer, e eu lhe disse
que não o fizesse! Como sabe que me serviria? Não me serviria em nada.”

“Mas se os outros olham...”

“Não, eles não olham, e não vou ler livros sombrios. Por que eu deveria
ler livros sombrios? Traga-me O Amor num Vilarejo e A Dama do Moinho, e
Doutor Syntax, e alguns volumes do Spectator.”

Durante todo aquele dia Bathsheba e Liddy ficaram no sótão num estado
de barricada; uma precaução que se mostrou desnecessária contra Troy, pois
ele não apareceu na vizinhança nem as perturbou. Bathsheba sentou-se à
janela até o crepúsculo, por vezes, na tentativa de ler, em outros momentos
observando cada movimento fora sem muito efeito, e ouvindo cada som sem
muito interesse.

O sol se punha quase vermelho-sangue naquela noite e uma nuvem lívida


recebia seus raios no leste. Contra este pano de fundo escuro da parte oeste da
torre da igreja, a única construção visível do edifício pelas janelas da casa da
fazenda, um rosa distinto e brilhante, era o cata-vento sobre o cume eriçado
de raios. Nas imediações, às seis horas, os jovens da vila se reuniam, como
era seu costume, para um jogo da base dos prisioneiros. O local havia sido
consagrado para esta diversão antiga desde tempos imemoriais. Os velhos
troncos formavam convenientemente uma base de frente para o limite do adro
da igreja, na frente da qual o terreno foi limpo como um pavimento para os
jogadores. Ela podia ver as cabeças marrons e pretas dos jovens rapazes que
arremessavam para direita e para esquerda, as suas camisas com mangas
brancas brilhando ao sol, enquanto, ocasionalmente, um grito e uma
gargalhada saudável mudavam a quietude do ar da noite. Continuaram a jogar
por um quarto de hora ou mais, quando o jogo terminou abruptamente, os
jogadores pularam o muro e desapareceram para o outro lado, por trás de um
teixo, que também ficava atrás de uma faia, agora espalhando uma massa de
folhas douradas, em que os ramos traçavam linhas pretas.

“Por que os jogadores terminaram seu jogo tão de repente?”, perguntou


Bathsheba na próxima vez que Liddy entrou no quarto.

“Acho que foi porque dois homens acabaram de chegar de Casterbridge e


começaram a colocar uma grande lápide esculpida”, disse Liddy. “Os
meninos foram ver quem era.”

“Você sabe?”, Bathsheba perguntou.

“Não”, respondeu Liddy.


CAPÍTULO XLV
O ROMANTISMO DE TROY

Quando a esposa de Troy deixou a casa no meio da noite anterior, seu


primeiro ato foi cobrir os mortos. Isto feito, subiu as escadas e, atirando-se na
cama vestido como estava, esperou doloramente pela manhã.

O destino tinha tratado-o severamente ao longo das últimas vinte e quatro


horas. Seu dia fora passado de uma forma muito diferente das suas intenções
a respeito dele. Há sempre uma inércia a ser superada ao abordar uma nova
linha de conduta, não mais em nós mesmos, ao que parece, do que nos
eventos fixos, que aparecem como se interligados para permitir que não
ocorram novidades no caminho da melhoria.

Assegurando vinte libras recebidas de Bathsheba, adicionou à soma cada


centavo que conseguiu reunir por conta própria, que eram sete libras e dez.
Com este dinheiro, vinte e sete libras e dez no total, partiu apressadamente
pelo portão naquela manhã para honrar seu compromisso com Fanny Robin.

Ao chegar em Casterbridge, deixou o cavalo e a carroça numa hospedaria


e, cinco minutos antes das dez, voltou para a ponte na parte mais baixa da
cidade e sentou-se sobre a balaustrada. Os relógios marcavam a hora, mas
Fanny não apareceu. Na verdade, naquele momento, ela estava sendo vestida
em sua mortalha por duas assistentes no Abrigo, as primeiras e últimas
criadas que a criatura gentil nunca teve a honra de ter. Passaram-se quize
minutos, depois meia hora. Uma onda de lembrança abateu-se sobre Troy
enquanto esperava: aquela era a segunda vez que ela quebrava um
compromisso sério com ele. Na raiva, prometeu que seria o último, e às onze
horas, quando havia se estendido e observado a pedra da ponte até que
conhecesse cada líquen sobre ela, e ouvido o tilintar das ondulações por baixo
até que o aborrecessem, saltou de onde estava sentado, foi até a hospedaria
para pegar seu veículo, e com um humor amargo dE indiferença a respeito do
passado e imprudência sobre o futuro, foi para as corridas de Budmouth.

Chegou à pista de corridas às duas horas e permaneceu lá ou na cidade até


às nove. Mas a imagem de Fanny, como lhe tinha aparecido nas sombras
escuras de sábado à noite, voltaram a sua mente, seguidas pelas injúrias de
Bathsheba. Jurou que não apostaria e cumpriu seu voto, pois ao deixar a
cidade às nove horas da noite, seu dinheiro havia diminuído em apenas
alguns xelins.

Cavalgou lentamente para casa e, pela primeira vez, foi atingido com um
pensamento de que Fanny estivesse realmente impedida por alguma doença
de manter sua promessa. Ela não poderia ter cometido nenhum erro desta vez.
Lamentou que não tivesse permanecido em Casterbridge e feito perguntas.
Chegando em casa, calmamente, desatrelou o cavalo e entrou, como vimos,
para o terrível choque que o aguardava.

Assim que havia luz o suficiente para distinguir objetos, Troy levantou-se
da cama, e num clima de absoluta indiferença para com o paradeiro de
Bathsheba, quase inconsciente de sua existência, desceu as escadas e saiu da
casa pela porta dos fundos. Sua caminhada foi em direção ao cemitério, onde
entrou e procurou ao redor até que encontrou uma sepultura recém-escavada
e desocupada — o túmulo escavado no dia anterior para Fanny. Marcando
sua posição, saiu apressado para Casterbridge, apenas parando e pensando
por um tempo sobre a colina em que vira Fanny viva pela última vez.

Ao chegar à cidade, Troy desceu numa rua lateral e entrou num par de
portas, debaixo de uma placa com os dizeres ‘Lester, trabalhos em pedra e
mármore’. Dentro encontravam-se pedras de todos os tamanhos e modelos,
inscritas como que sagradas para a memória de pessoas não identificadas que
ainda não tinham morrido.

Troy estava tão diferente de si mesmo na aparência, nas palavras e ações,


que a falta de semelhança era perceptível até mesmo para sua própria
consciência. Seu modo de envolver-se neste negócio de compra de um
túmulo era o de um homem absolutamente inexperiente. Não conseguia
considerar, calcular ou economizar. Desejava alguma coisa com insistência e
a obtve como uma criança na escola.

“Eu quero um bom túmulo”, disse ele ao homem que estava num pequeno
escritório no quintal. “Quero o melhor que puder me dar por vinte e sete
libras.”

Era todo o dinheiro que possuía.

“Essa soma inclui tudo?”

“Tudo. Entalhar o nome, o transporte para Weatherbury e a colocação. E


quero agora, de uma vez.”

“Não podemos fazer nada de especial para esta semana.”

“Preciso disso agora.”

“Se quiser um destes em estoque pode ficar pronto imediatamente.”

“Muito bem”, disse Troy, impaciente. “Vamos ver o que você tem.”

“O melhor que tenho no estoque é este aqui”, disse o cortador de pedras,


entrando num galpão. “Aqui está uma lápide de mármore, lindamente
ornamentada com ramos de flores e medalhões debaixo dos dizeres; aqui está
a pedra para o pé da sepultura seguindo o mesmo padrão, e aqui, a cimalha
para fechar o túmulo. Apenas o polimento do conjunto me custou onze libras
— as lajes são as melhores do tipo e posso garantir que resistem a chuva e a
geada por cem anos sem voar.”

“Quanto?”

“Bem, posso adicionar o nome e colocá-la em Weatherbury pela soma


que você mencionou.”

“Faça para hoje e vou pagar em dinheiro agora.”

O homem concordou imaginando em que estado de espírito um visitante


não usava um peça de luto. Troy, em seguida, escreveu as palavras que
formariam a inscrição, pagou a conta e foi embora. À tarde, voltou
novamente e descobriu que a inscrição estava quase pronta. Esperou no pátio
até que o túmulo estivesse embalado, e viu-o ser colocado no carrinho e
pegar o caminho de Weatherbury, dando as indicações para os dois homens
que o acompanhavam para consultar o sacristão sobre o túmulo da pessoa
mencionada na inscrição.

Estava bem escuro quando Troy saiu de Casterbridge. Carregava uma


cesta muito pesada no braço, com a qual caminhou com tristeza ao longo da
estrada, descansando ocasionalmente em pontes e portões sobre os quais ele
depositava sua carga por um tempo. No meio do caminho em sua viagem
encontrou, retornando na escuridão, os homens e a carroça que havia
transportado o túmulo. Apenas perguntou se o trabalho havia sido feito e, ao
ser assegurado que sim, continuou sua caminhada.

Troy entrou no adro de Weatherbury por volta das dez horas e foi
imediatamente para o canto onde havia marcado a sepultura vazia no início
da manhã. Ficava do lado obscuro da torre, protegido da visão dos
transeuntes ao longo da estrada na maior parte, um local que até recentemente
era deixado para pilhas de pedras e arbustos de amieiro, mas que agora estava
limpo e próprio para enterros, pela razão do preenchimento rápido do chão
em outro lugar.

Ali estava o túmulo como os homens tinham colocado, a borda branca


como neve e bem torneada, consistindo a parte de cima de pedra e o pé
coberto por um trabalho de mármore que os unia. No meio ficava a terra,
adequada para as plantas.

Troy depositou sua cesta ao lado do túmulo e desapareceu por alguns


minutos. Quando voltou, trazia uma pá e uma lamparina, cuja luz ele passou
por alguns momentos sobre o mármore enquanto lia a inscrição. Pendurou a
lamparina no menor ramo de teixo e tirou de sua cesta flores de diversas
variedades. Havia maços de galantos, jacintos e bulbos de açafrão, violetas e
margaridas dobradas que floresceriam no início da primavera, cravos
diversos, rosas, lírios, miosótis, despedida de verão, meadow-açafrão e
muitas outras, para as épocas posteriores do ano.

Troy colocou-as sobre a grama e com um semblante impassível pôs-se a


plantá-las. Os galantos foram dispostos numa linha na parte externa da
cimalha e o restante dentro do recinto da sepultura. O açafrão e os jacintos
cresceriam em fileiras, colocou algumas das flores do verão sobre a cabeça e
os pés, os lírios e os miosótis sobre o coração dela. O restante fora disperso
nos espaços entre estes.

Troy, em sua prostração naquele momento, não tinha percepção de que a


futilidade dessas obras românticas, ditadas por uma reação arrependida da
indiferença anterior, continha elementos do absurdo. Derivando suas
idiossincrasias de ambos os lados do canal, mostrou em tais momentos como
o presente a falta de elasticidade dos ingleses, juntamente com a cegueira
para a linha onde o sentimento beira a pieguice, característica dos franceses.

A noite estava nublada, abafada, muito escura, e os raios da lamparina de


Troy nos dois teixos produziam uma iluminação estranha que parecia piscar
até o teto negro da nuvem acima. Sentiu uma grande gota de chuva sobre a
palma de sua mão, e logo veio outra, e entrou num dos buracos da lamparina
e a vela estalou e se apagou. Troy estava cansado e não sendo muito longe da
meia-noite, com a chuva ameaçando aumentar, resolveu deixar os últimos
retoques de seu trabalho para quando o dia amanhecesse. Tateou ao longo da
parede, e sobre as sepulturas no escuro, até que se encontrou ao norte. Aqui,
entrou no alpendre e, encostando-se sobre o banco do lado de dentro,
adormeceu.
CAPÍTULO XLVI
A GÁRGULA: SUAS AÇÕES

A torre da Igreja de Weatherbury era uma construção quadrada do século


XI, tendo duas gárgulas de pedra em cada uma das quatro faces de seu
parapeito. Destas oito protuberâncias esculpidas, apenas duas continuavam a
servir o propósito de sua construção: escoar a água levada para dentro do
telhado. Uma boca em cada lado tinha sido fechada por antigos guardiões da
igreja, como supérfluas, e as outras duas estavam quebradas e entupidas, uma
questão sem muita importância para o bem-estar da torre, pois as duas bocas
que ainda permaneciam abertas e ativas eram suficientes para fazer todo o
trabalho.

Por vezes, argumentou-se que não existia um critério mais verdadeiro da


vitalidade de qualquer era da arte do que o poder dos grandes mestres da
época do grotesco e, certamente, no caso da arte gótica, a proposição é
indiscutível. Weatherbury Tower era um exemplo do início do uso de um
parapeito ornamental na paróquia como distintinção de catedrais, e as
gárgulas, que eram os correlativos necessários de um parapeito, eram
excepcionalmente proeminentes, do corte mais ousado que a mão pudesse dar
forma e do desenho mais original que um cérebro humano pudesse conceber.
Havia, por assim dizer, a simetria em sua distorção, que é uma característica
menos britânica do que os grotescos continentais do período. Todas as oito
eram diferentes umas das outras. Um observador se convenceria de que nada
na terra poderia ser mais hediondo do que aquelas que ele viu no lado norte
até que desse a volta para o sul. Dos dois sobre este último lado, apenas
aquela no canto do sudeste dizia respeito à história. Era humana demais para
ser chamada de dragão, travessa demais para ser como um homem,
animalesca demais para ser como um demônio e menos que um pássaro para
ser chamada de grifo. Esta entidade de pedra horrível era formada como se
coberta com uma pele enrugada, tinha orelhas curtas e eretas, olhos que
saltavam de seus buracos, suas mãos e dedos estavam agarrando os cantos de
sua boca que, assim, pareciam puxá-las abertas para dar passagem livre à
água que vomitavam. A linha inferior de dentes estava muito desgastada pela
água, embora a superior ainda permanecesse. Aqui e ali, projetando um par
de pés da parede contra a qual descansavam como num apoio, a criatura ria
por quatrocentos anos para a paisagem circundante, sem voz no tempo seco e
com murmúrios e bufos no tempo das chuvas.

Troy dormiu na varanda e a chuva aumentou do lado de fora. As gárgulas


cuspiam. No devido tempo, um pequeno riacho começou a gotejar através
dos setenta pés de espaço aéreo entre a boca e a terra, nos quais as gotas
golpeavam como tiros em sua velocidade acelerada. A corrente engrossou em
substância e aumento de potência, jorrando mais e mais do lado da torre.
Quando a chuva caiu numa torrente constante e incessante, o fluxo desceu
pesadamente.

Seguimos seu curso até o chão neste ponto do tempo. O fim da parábola
líquida veio para frente da parede, avançando ao longo dos moldes do
pedestral, sobre um amontoado de pedras ao longo da borda de mármore para
o meio da sepultura de Fanny Robin.

A força da corrente foi, até muito recentemente, recebida sobre algumas


pedras soltas espalhadas, que serviam como um escudo para o solo
superficial. Durante o verão, tinham sido apagadas do solo e agora não havia
nada para resistir a queda além da terra nua. Durante vários anos, o fluxo não
jorrava tão longe da torre de como naquela noite e tal contingência havia sido
negligenciada. Às vezes, aquele canto obscuro não recebia nenhum habitante
pelo espaço de dois ou três anos e depois era utilizado por um mendigo, um
caçador ou outro pecador de pecados indignos.

A torrente persistente das mandíbulas da gárgula dirigiu toda a sua


vingança para a sepultura. Os ricos moldes marrom-amarelados foram
revirados e borbulhavam como chocolate. A água se acumulou e desceu mais
profundamente e o barulho da poça formada espalhou-se à noite como o
principal entre outros ruídos criados pela chuva abundante. As flores, tão
cuidadosamente plantadas pelo amante arrependido de Fanny, começaram a
se mover e se contorcer em sua cama. As violetas de inverno viraram-se
lentamente de cabeça para baixo e tornaram-se um mero tapete de lama. Logo
o galanto e outros bulbos dançavam na massa borbulhante como ingredientes
num caldeirão. Plantas das espécies tufadas se soltaram, subiram à superfície
e flutuaram.

Troy não acordou do seu sono desconfortável até que já era dia. Por não
estar numa cama por duas noites, sentia os ombros rígidos, os pés fracos e a
cabeça pesada. Lembrou-se de sua posição, levantou-se, tremeu, pegou a pá e
saiu novamente.

A chuva tinha quase parado e o sol brilhava através das folhas verdes,
marrons e amarelas, agora brilhantes e envernizadas pelos pingos de chuva
com o brilho de efeitos semelhantes aos das paisagens de Ruysdael e
Hobbema, cheio de todas aquelas belezas infinitas que surgem da união de
água e corantes com luzes fortes. O ar estava tão transparente pela forte
chuva que os tons de outono a meia distância eram tão ricos como os mais
próximos, e os campos remotos interceptados pelo ângulo da torre pareciam
no mesmo plano que a própria torre.

Entrou pelo caminho de cascalho que o levaria atrás da torre. O caminho,


em vez de estar rochoso como na noite anterior, estava coberto com uma fina
camada de lama. Num lugar no caminho, viu um tufo de raízes fibrosas
lavadas e brancas como um feixe de tendões. Apanhou-as, pois certamente
não poderiam ser de uma das prímulas ele havia plantado. Viu um bulbo,
outro, e mais outro à medida que avançava. Não havia qualquer dúvida de
que eram os açafrões. Com ar de perplexidade, Troy virou a esquina e depois
viu o estrágo que a água tinha feito.

A poça em cima da sepultura tinha sido absorvida pelo chão e em seu


lugar ficou um buraco. A terra remexida foi lavada sobre a grama e, pelo
caminho, sob o disfarce de lama marrom que ele já tinha visto, viu a lápide de
mármore com as mesmas manchas. Quase todas as flores foram lavadas para
fora da terra e estavam com as raízes para cima nos pontos onde tinham sido
carregadas pela corrente.

A testa de Troy contrataiu-se fortemente. Cerrou os dentes e seus lábios


comprimidos mexiam-se como em grande dor. Este acidente singular, por
uma confluência estranha de emoções, foi sentido como a pontada mais
afiada de todas. O rosto de Troy era muito expressivo e qualquer observador
que o visse dificilmente acreditaria que aquele era um homem que ria,
cantava e derramava declarações de amor no ouvido de uma mulher.
Amaldiçoar sua infelicidade foi seu primeiro impulso, mas, mesmo que
mostrasse o início de uma rebelião, cuja ausência era necessariamente
antecedente à existência da tristeza mórbida que o pressionava, ele se
conteve. Mas àquela visão, vinda daquela maneira, sobreposta ao outro
cenário escuro dos dias anteriores, formavam uma espécie de clímax a todo o
panorama e foi mais do que ele pôde suportar. Audacioso por natureza, Troy
tinha um poder de iludir a dor simplesmente adiando-a. Poderia adiar a
consideração de qualquer espectro particular até que aquilo se tornasse velho
e amenizado pelo tempo. O plantio das flores sobre o túmulo de Fanny tinha
sido, talvez, nada mais que uma espécie de subterfúgio da dor inicial e agora,
contudo, era como se sua intenção fosse conhecida e contornada.

Quase pela primeira vez em sua vida, Troy, enquanto estava perto do
túmulo desmantelado, desejou ser outro homem. Sentia, à sua maneira
transitória, centenas de vezes, que não podia invejar a condição de outras
pessoas, pois a posse dessa condição exigiria uma personalidade diferente,
quando não desejar outra senão a sua própria. Não se importava com as
peculiaridades de seu nascimento, as vicissitudes da sua vida, a incerteza
meteórica de tudo o que era relacionado a ele, porque pertenciam ao herói de
sua história, sem as quais não teria havido nenhuma história para ele. Era do
tipo de pessoa que não se importava, afinal, as coisas se acertavam numa data
adequada, e daria tudo certo. Bem, naquela manhã, a ilusão completou seu
desaparecimento e, por assim dizer, de repente, Troy odiava a si mesmo. A
surpresa era provavelmente mais aparente do que real. Como um recife de
coral, à superfície do oceano, que não é mais para o horizonte do que se
nunca tivesse se iniciado.

Levantou-se e meditou — um homem desesperado. Para aonde devia ir?


“Aquele que é maldito, que seja maldito”, foi o anátema implacável escrito
neste esforço destruído de sua solicitude recém-nascida. Um homem que
desperdiçou sua força primária viajando numa direção não tem muito espírito
para reverter seu curso. Troy tinha, desde o dia anterior, invertido o seu com
fraqueza, mas a menor oposição o tinha desanimado. Mudar teria sido
extremamente difícil sob o maior incentivo providencial, mas para encontrar
a Providência, longe de ajudá-lo num novo curso ou mostrar qualquer desejo
que ele pudesse adotar, na verdade zombara de seu primeiro tremor e da sua
tentativa, era mais do que a sua natureza podia suportar.

Ele lentamente retirou-se da sepultura. Não tentou preencher o buraco,


substituir as flores ou fazer qualquer outra coisa. Simplesmente baixou as
cartas e abjurou seu jogo para sempre. Saindo do adro silenciosamente e sem
ser observado, pois nenhum dos moradores ainda tinha se levantado, passou
alguns campos na parte de trás e emergiu quase que secretamente na estrada.
Pouco depois, havia deixado a vila.

Enquanto isso, Bathsheba permanecia como prisioneira voluntária no


sótão. A porta ficava trancada, exceto durante as entradas e saídas de Liddy,
para quem uma cama fora trazida numa pequena sala adjacente. A luz da
lamparina de Troy no adro da igreja foi notada na volta das dez horas pela
criada, que casualmente olhou pela janela naquela direção enquanto levava a
ceia e chamou a atenção de Bathsheba sobre isso. Elas olharam curiosamente
para o fenômeno por um tempo, até que Liddy foi mandada para a cama.

Bathsheba não dormiu muito bem naquela noite. Quando sua atendente
estava inconsciente e respirando calmamente na sala ao lado, a dona da casa
ainda estava olhando para fora da janela, para o brilho fraco se espalhando
entre as árvores. Não um brilho constante, mas piscando como uma luz
costeira giratória, embora este aspecto não sugerisse que uma pessoa
estivesse indo e voltando na frente dela. Bathsheba sentou-se ali até que
começou a chover e a luz desapareceu, quando foi se deitar sem descanso em
sua cama e reencenar na mente cansada a cena sinistra da noite anterior.

Quase antes que o primeiro sinal fraco do amanhecer aparecesse ela


levantou-se novamente e abriu a janela para respirar o novo ar da manhã, com
as vidraças molhadas pelas lágrimas trêmulas deixadas pela chuva da noite,
cada uma cercada por um brilho pálido com cores de prímula em raios
através de uma nuvem baixa no céu que despertava. Das árvores vinha o som
do gotejamento constante das folhas que flutuavam debaixo delas, e da
direção da igreja ela pôde ouvir outro ruído peculiar, e não intermitente como
o resto, o borbulhar da água que caía numa poça.
Liddy bateu às oito horas e Bathsheba destrancou a porta.

“Que chuva forte tivemos durante a noite, minha senhora!”, comentou


Liddy, quando suas perguntas sobre o desjejum tinham sido feitas.

“Sim, muito forte.”

“Você ouviu o barulho estranho no cemitério?”

“Ouvi um barulho estranho. Acho que deve ter sido a água das bicas da
torre.”

“Bem, isso é o que o pastor disse, senhora. Ele foi ver.”

“Oh! Gabriel esteve aqui esta manhã!”

“Apenas de passagem, como sempre fazia, que eu achei que havia parado
recentemente. Mas as bicas da torre costumavam respingar nas pedras e
estamos intrigados, pois este era como a ebulição de uma panela.”

Não sendo capaz de ler, pensar ou trabalhar, Bathsheba pediu que Liddy
ficasse e tomasse o desjejum com ela. A língua da mulher mais infantil ainda
rondava os acontecimentos recentes. “Vai à igreja, Madame?”, perguntou ela.

“Não que eu saiba”, respondeu Bathsheba.

“Achei que gostaria de ver onde colocaram Fanny. As árvores escondem


o lugar da sua janela.”

Bathsheba tinha todos os tipos de temores sobre o encontro de seu


marido.

“Mr. Troy esteve em casa esta noite?”, perguntou ela.

“Não, senhora, acho que foi para Budmouth.”

Budmouth! O som da palavra trazia consigo uma perspectiva muito


diminuída dele e de suas obras. Havia um intervalo de treze milhas entre eles.
Ela odiava perguntar a Liddy sobre os passos de seu marido, e de fato, até
então, se esforçou para não fazê-lo, mas agora toda a casa sabia que ocorrera
algum desentendimento terrível entre eles e era inútil tentar disfarçar.
Bathsheba havia alcançado um estágio em que as pessoas deixam de ter
qualquer relação sensibilizada para a opinião pública.

“O que a faz pensar que ele foi para lá?”, indagou ela.

“Laban Tall o viu na estrada de Budmouth esta manhã antes do


desjejum.”

Bathsheba estava momentaneamente aliviada daquele peso impertinente


das últimas vinte e quatro horas, o qual apagou a vitalidade da juventude nela
sem substituir a filosofia dos anos mais maduros, e ela resolveu sair e andar
um pouco. Então, quando terminou o desjejum, colocou seu chapéu e dirigiu-
se à igreja. Eram nove horas, e como os homens voltavam a trabalhar depois
de sua primeira refeição, não encontraria muitos deles na estrada. Sabendo
que Fanny fora colocada na parte do cemitério para os rejeitados, chamado na
paróquia ‘atrás da igreja’, que era invisível da estrada, era impossível resistir
ao impulso de entrar e olhar um lugar de sentimentos sem nome, que ao
mesmo tempo temia ver. Era incapaz de superar a impressão de que alguma
conexão existisse entre sua rival e a luz entre as árvores.

Bathsheba contornou o botaréu e viu o buraco e o túmulo, a sua superfície


delicadamente enrugada com espirros e manchas, assim como Troy tinha
visto e ido embora duas horas mais cedo. Do outro lado da cena estava
Gabriel. Seus olhos também estavam fixos no túmulo e como sua chegada foi
silenciosa, não chamou a atenção dela. Bathsheba não percebeu
imediatamente que a grande tumba e a sepultura danificada eram de Fanny e
procurou em ambos os lados e ao redor por algum monte humilde, coberto de
terra como de ccostume. Então seu olhar seguiu o de Oak e ela leu as
palavras das inscrições:

ERGUIDO POR FRANCIS TROY

EM MEMÓRIA DA AMADA
FANNY ROBIN

Oak a viu e seu primeiro ato foi olhar intrigado e descobrir como ela
tomou conhecimento da autoria da obra, que para ele próprio causou espanto
considerável. Mas, tais descobertas não a afetaram muito. Convulsões
emocionais pareciam ter se tornado comuns à sua história, ela deu-lhe bom
dia e pediu-lhe para preencher o buraco com a pá que estava ali. Enquanto
Oak fazia o que ela pediu, Bathsheba recolheu as flores e começou a plantá-
las com que a manipulação solidária de raízes e folhas, que é tão visível na
jardinagem de uma mulher, cujas flores pareciam compreender e prosperar.
Ela pediu a Oak para chamar os guardiões da igreja para consertar a bica, na
boca da gárgula que pendia aberta para baixo, em cima deles, para que,
assim, o fluxo fosse direcionado para outro lado e uma repetição do acidente
fosse evitada. Finalmente, com a magnanimidade supérflua de uma mulher,
cujos instintos mais estreitos traziam-lhe amargura em vez de amor, limpou
as manchas de lama do túmulo, como se apreciasse todas as palavras ali
escritas, e voltou para casa.
CAPÍTULO XLVII
AVENTURAS À BEIRA-MAR

Troy vagou em direção ao sul. Uma sensação complexa, composta pelo


desgosto, com a monotonia tediosa da vida de um fazendeiro, imagens
sombrias daquela que estava no adro da igreja, remorso e uma aversão geral
do convívio com sua esposa, o levaram a procurar uma casa em qualquer
lugar na terra, exceto em Weatherbury. Os acessórios tristes do fim de Fanny
confrontaram-no como vívidas imagens que ameaçavam ser indeléveis e
tornaram a vida na casa de Bathsheba intolerável. Às três da tarde,
encontrava-se no sopé de uma encosta, de mais de uma milha de
comprimento, que corria para o cume de uma cadeia de montanhas, em
paralelo com a costa, e que formava uma barreira monótona entre a bacia
cultivada do interior e a paisagem selvagem da costa. Até a colina se estendia
uma estrada quase reta e perfeitamente branca, os dois lados se aproximavam
um do outro num afunilamento gradual, até que encontravam o céu no topo a
cerca de duas milhas. Ao longo do comprimento deste plano, estreito e
inclinado, nenhum sinal de vida era visível naquela tarde radiante. Troy
caminhou com dificuldade até a estrada com um langor e uma depressão
maiores do que quaisquer que já tivesse experimentado muito tempo antes. O
ar estava quente e abafado e o topo parecia recuar conforme ele se
aproximava.

Alcançou, por fim, o cume e uma grande e nova perspectiva espalhou-se


sobre ele com um efeito quase como o do Pacífico sobre o olhar de Balboa, o
explorador. O imenso mar duro, marcado apenas por linhas tênues, tinha uma
aparência de ser entalhado num grau não profundo o suficiente para perturbar
a sua uniformidade geral, esticando-se por toda a largura à sua frente, para a
direita, onde, perto da cidade e do porto de Budmouth, o sol se eriçava sobre
ele e bania toda a cor para substituir em seu lugar um brilho oleoso e claro.
Nada se movia no céu, terra ou mar, exceto um babado de espuma branca
como leite ao longo dos ângulos mais próximos da costa, porções que
lambiam as pedras contíguas como línguas.

Ele desceu e chegou a uma pequena bacia de mar fechada pelos


penhascos. A natureza de Troy refrescou-se dentro dele. Pensou em
descansar e banhar-se ali antes de ir mais longe. Despiu-se e mergulhou.
Dentro da enseada a água era desinteressante para um nadador por ser calma
como um lago. Para sentir um pouco das ondas do oceano, Troy nadou entre
dois esporões salientes de rochas que formavam os pilares de Hércules
naquele Mediterrâneo em miniatura. Infelizmente para Troy, uma corrente
que ele desconhecia existia ali fora, a qual, sem importância para as
embarcações, era estranha para um nadador que fosse tomado de surpresa.
Encontrou-se levado para a esquerda e depois de volta numa rusga para o
mar.

Recordou-se então do lugar e sua característica sinistra. Muitos banhistas


tinham ali orado por uma morte sem afogamento de tempos em tempos e,
como Gonzalo, também não tiveram resposta. Troy, portanto, começou a
considerar a possibilidade de ser adicionado ao número. Nenhum barco, de
qualquer tipo, era visto no momento, mas ao longe Budmouth esticava-se
sobre o mar, como se discretamente considerasse seus esforços e, ao lado da
cidade o porto mostrava sua posição por uma malha turva de cordas e
mastros. Depois de quase esgotar-se na tentativa de voltar para a entrada da
enseada, na sua fraqueza, nadando várias polegadas mais fundo do que era
seu hábito, mantendo a respiração inteiramente por suas narinas, virando de
costas uma dúzia de vezes, nadando em borboleta e assim por diante, Troy
resolveu como um último recurso pisar a água a uma ligeira inclinação, e
assim se esforçar para alcançar a costa em qualquer ponto, meramente dando
a si mesmo um impulso suave para dentro, enquanto continuava na direção
geral da maré. Aquele processo necessariamente lento não era tão difícil, e
embora não houvesse escolha de um local de desembarque, os objetos da
costa passavam por ele numa procissão triste e lenta — ele perceptivelmente
se aproximou da extremidade de uma faixa de terra, ainda mais para a direita,
agora bem definida contra a parte ensolarada do horizonte. Enquanto os olhos
do nadador estavam fixos na faixa, como seu único meio de salvação deste
lado do desconhecido, um objeto em movimento quebrou o contorno da
extremidade e imediatamente o barco de um navio apareceu lotado com
vários marinheiros jovens com seus arcos em direção ao mar.

Todo o vigor de Troy espasmodicamente reviveu para prolongar a luta


ainda mais um pouco. Nadando com o braço direito, ergueu o esquerdo para
chamar-lhes, espirrando água sobre as ondas e gritando com toda força. Pela
posição do sol poente, sua forma branca era nitidamente visível sobre o seio,
agora de tons profundos do mar para o leste do barco, e os homens,
finalmente, o viram. Usando seus remos e movendo o barco, partiram em
direção a ele com determinação, e cinco ou seis minutos do momento em que
foram chamados, dois dos marinheiros arrastaram-no para a popa.

Eles faziam parte da tripulação de um brigue e vinham para a terra em


busca de areia. Emprestando-lhe algumas peças de roupa que poderam reunir
entre eles, como uma leve proteção contra o ar que esfriava rapidamente,
concordaram em deixá-lo em terra pela manhã e sem mais delongas, pois
estava ficando tarde, e voltaram para a enseada onde sua embarcação estava.
E então a noite caiu lentamente sobre os níveis de largura encharcados à
frente, e numa curta distância deles, onde o litoral fazia uma curva, formaram
uma longa fita de sombra no horizonte, uma série de pontos de luz amarela
começou a existir, denotando o local como sendo Budmouth, onde as luzes
estavam sendo acesas ao longo do desfile. O estalar de seus remos era o único
som de qualquer distinção sobre o mar e, como eles trabalhavam em meio aos
tons de espessamento, as luzes tornaram-se maiores, cada uma aparecendo
para enviar uma espada flamejante profundamente nas ondas diante dele, até
que surgiu, entre outras formas escuras do tipo, a forma do navio ao qual
pertenciam.
CAPÍTULO XLVIII
DÚVIDAS SURGEM — DÚVIDAS
PERMANECEM

Bathsheba, rapidamente, acostumou-se à ausência do marido com uma


ligeira sensação de surpresa e uma célere sensação de alívio. No entanto,
nenhuma das sensações aumentou a qualquer momento muito acima do nível
comumente designado como indiferença. Ela pertencia a ele: as certezas
dessa posição eram tão bem definidas e as probabilidades razoáveis de sua
situação tão limitada que não se podia especular sobre contingências. Sem
tomar mais nenhum interesse em si mesma como uma mulher esplêndida,
adquiriu os sentimentos indiferentes de um estranho, ao contemplar seu
destino provável como uma infelicidade singular, pois Bathsheba colocou a si
e seu futuro em cores que nenhuma realidade podia distinguir da escuridão.
Seu orgulho vigoroso, original da juventude, adoecera; e com ele diminuiram
todas as suas expectativas sobre os próximos anos, uma vez que a expectativa
reconhecia uma alternativa melhor e uma pior, e Bathsheba, contudo, decidira
que as alternativas em qualquer escala notável haviam acabado para ela. Mais
cedo ou mais tarde, mas não muito tarde, o marido estaria em casa
novamente. E, então, os dias de seu arrendamento da Upper Farm estariam
contados. Não foi originalmente mostrado pelo agente nenhuma desconfiança
sobre a propriedade de posse de Bathsheba como sucessora de James
Everdene, pelo motivo de seu sexo, sua juventude e sua beleza, mas a
natureza peculiar da vontade de seu tio, seu próprio testemunho frequente
antes de sua morte, era que o tio havia exigido, em cláusula, que a herdeira
deveria manter sua inteligência à frente dos trabalhos nas terras, perseguir
esse objetivo e ter disposição vigorosa para cuidar dos numerosos rebanhos e
manadas que, de repente, chegaram às mãos de Bathsheba antes que as
negociações estivessem concluídas. O agente havia tido confiança nos
poderes dela, mas, após o seu casamento com Troy, novas objeções foram
levantadas. Ela tinha muitas dúvidas recentes sobre quais efeitos jurídicos de
seu casamento seriam levados em conta em sua atual posição. Nenhum aviso
tinha sido dado quanto à mudança de seu nome e apenas um ponto era claro
— que, no caso de sua própria incapacidade ou do marido para atender as
exigências do agente no próximo encontro para tratar da documetação da
fazenda, em janeiro, pouca consideração seria mostrada e pouca seria
merecida. Uma vez fora da fazenda, a aproximação da pobreza seria certa.
Assim, Bathsheba, teve a percepção de que seus propósitos foram quebrados
e percebeu, claramente, que seu erro tinha sido um fatal. Aceitou, portanto,
sua posição e esperou com frieza pelo final.

No primeiro sábado após a partida de Troy, ela foi para Casterbridge


sozinha, uma viagem que não fazia desde antes de seu casamento. Naquele
sábado, Bathsheba estava passando lentamente a pé pela multidão de homens
de negócios rurais, reunidos como de costume à frente da casa de mercado,
quando um homem, que aparentemente a tinha seguido, disse algumas
palavras para o outro à esquerda dela. Os ouvidos de Bathsheba eram
ansiosos quanto os de qualquer animal selvagem e ela ouviu claramente o que
o orador disse, apesar de estar de costas para ele.

“Estou procurando por Mrs. Troy. É aquela?”

“Sim, creio que seja aquela jovem senhora”, respondeu a pessoa


abordada.

“Tenho notícias difíceis para dar a ela. Seu marido se afogou.”

Como se dotada com espírito de profecia, Bathsheba disse ofegante:

“Não, não é verdade, não pode ser verdade!”, então não disse nem ouviu
mais nada. O gelo do autocontrole que recentemente a cobrira estava
quebrado e as correntes romperam-se novamente a oprimi-la. A escuridão
cobriu seus olhos e ela caiu.

Mas não no chão. Um homem sombrio, que estava observando-a sob o


pórtico de troca de trigo, passou rapidamente para seu lado no momento da
sua exclamação e pegou-a em seus braços.
“O que foi?”, perguntou Boldwood, olhando para o portador das grandes
novidades ao ampará-la.

“Seu marido morreu afogado esta semana ao banhar-se em Lulwind


Cove. Um oficial da guarda costeira encontrou suas roupas e as levou para
Budmouth ontem.”

Então um fogo estranho iluminou os olhos de Boldwood e seu rosto corou


com a emoção reprimida de um pensamento indizível. Todos os olhares
estavam centralizados sobre ele e a inconsciente Bathsheba. Ele ergueu o
corpo do chão e alisou as dobras de seu vestido, como uma criança faria com
um pássaro abatido pela tempestade, arrumaria suas penas eriçadas, e
carregou-a ao longo da calçada ao King Arms Inn. Ali passou com ela sob o
arco de uma sala privada e quando depositou, tão relutante, a preciosa carga
em cima de um sofá, Bathsheba abriu os olhos. Lembrando-se de tudo o que
havia ocorrido, murmurou:

“Quero ir para casa!”

Boldwood saiu da sala. Ele parou por um momento na passagem para


recuperar seus sentidos. A experiência foi demais para que sua consciência
acompanhasse e agora que ele compreendera, havia perdido-a novamente.
Por poucos momentos celestiais e dourados, ela estivera em seus braços. O
que importava se ela não sabia disso? Esteve perto de seu peito e ele perto do
dela.

Avançou novamente e mandando uma mulher até ela, saiu para verificar
todos os fatos do caso. Estes pareciam estar limitados ao que ele já tinha
ouvido. Ordenou então que seu cavalo fosse colocado no veículo e quando
tudo estava pronto, voltou para informá-la. Descobriu que, embora ainda
pálida e doente, havia mandado chamar o homem de Budmouth que trouxe a
notícia e ouviu dele tudo o que havia para saber.

Como mal tinha condições de voltar para casa como viera à cidade,
Boldwood, com toda delicadeza de modos e sentimentos, ofereceu-se para
arranjar-lhe um condutor ou para usar um lugar em sua carruagem, que era
mais confortável do que o seu próprio transporte. Bathsheba, gentilmente,
recusou as propostas e o fazendeiro partiu imediatamente.
Cerca de meia hora mais tarde ela se recuperou com esforço e tomou seu
assento e as rédeas, como de costume, como se nada tivesse acontecido. Saiu
da cidade por uma rua tortuosa na parte de trás e dirigiu lentamente,
inconsciente da estrada e da paisagem. As primeiras sombras da noite
mostravam-se quando Bathsheba chegou em casa, onde, silenciosamente
pousando e deixando o cavalo nas mãos do menino, foi diretamente para o
andar de cima. Liddy a encontrou no patamar. A notícia havia precedido
Bathsheba em Weatherbury por meia hora e Liddy olhava interrogativamente
para o rosto de sua patroa. Bathsheba não tinha nada a dizer.

Entrou em seu quarto e sentou-se perto da janela, pensando até que a


noite a envolveu e somente as linhas extremas de sua silhueta eram visíveis.
Alguém veio até a porta e bateu; alguém a abriu..

“Bem, o que foi, Liddy?”, perguntou ela.

“Eu estava pensando que deve haver algo para você usar”, disse Liddy,
hesitante.

“O que você quer dizer?”

“Luto.”

“Não, não, não”, insistiu Bathsheba apressadamente.

“Mas acho que deve haver algo a ser feito pelo pobre...”

“Não no momento, eu acho. Não é necessário.”

“Por que não, senhora?”

“Porque ele ainda está vivo.”

“Como sabe disso?”, surpreendeu-se Liddy.

“Eu não sei. Mas não seria diferente se eu não tivesse ouvido, Liddy?...
Ou... eu não sei como é, mas a morte seria diferente de como... Estou
perfeitamente convencida de que ele ainda está vivo!”
Bathsheba permaneceu firme na presente opinião até segunda-feira,
quando duas circunstâncias associadas a abalaram. A primeira foi um
pequeno parágrafo no jornal local, que, além de fazer por uma sistematização
evidente e formidável de presumir a morte de Troy por afogamento, continha
o testemunho importante de um jovem, certo Mr. Barker, médico de
Budmouth, que falou de ser uma testemunha ocular do acidente em uma carta
ao editor. Nisso, ele afirmou que estava passando sobre o penhasco, no lado
mais remoto da enseada, quando o sol estava se pondo. Naquele momento,
viu um banhista sendo arrastado na corrente para fora da entrada da enseada e
imaginou imediatamente que havia apenas uma pequena chance para ele, a
menos que possuisse poderes musculares incomuns. Flutuou para trás de uma
projeção da costa e Mr. Barker seguiu ao longo da costa na mesma direção.
Entretanto, pelo tempo que poderia alcançar uma altitude suficientemente
grande para ter uma vista do mar além, chegou o crepúsculo e nada mais
pôde ser visto. A outra circunstância foi a chegada de suas roupas, quando foi
necessário que ela as examinasse e identificasse, embora isso houvesse sido
feito muito antes por aqueles que inspecionaram as cartas em seus bolsos. Era
tão evidente para ela no meio de sua agitação, que Troy havia se despido na
plena convicção de vestir-se de novo, quase imediatamente, que a noção de
que qualquer coisa, menos a morte, poderia tê-lo impedido de que aquela
diversão era perversa.

Então Bathsheba disse a si mesma que os outros estavam seguros em sua


opinião, estranho que ela não estivesse. Um reflexo estranho aconteceu com
ela, fazendo com que seu rosto ruborizasse: imaginou que Troy tivesse
seguido Fanny para o outro mundo. Teria feito isso intencionalmente? Forjar
para fazer que sua morte parecesse um acidente? No entanto, este pensamento
de como a aparência poderia ser diferente da realidade, feita vívida pelo seu
ciúme da falecida Fanny, e o remorso que ele havia mostrado naquela noite,
não a cegaram para a percepção de uma diferença mais provável, menos
trágica, mas para si mesma muito mais desastrosa.

Quando sozinha, tarde naquela noite ao lado de um pequeno fogo, e


muito mais calma, Bathsheba segurou o relógio de Troy em sua mão, que
tinha sido devolvido para ela com o resto dos artigos que pertenciam a ele.
Abriu a tampa como ele tinha feito à sua frente, e lá estava o pequeno cacho
de cabelo louro que fora o estopim daquela grande explosão.
“Ele era dela e ela era dele. Devem ter partido juntos”, disse ela. “Não
sou nada para nenhum deles, e por que eu deveria guardar o cabelo dela?”
Pegou-o e segurou-o sobre o fogo. “Não... não vou queimá-lo... vou guardá-
lo em memória dela, coitada!”, acrescentou, pegando-o de volta em sua mão.
CAPÍTULO XLIX
O AVANÇO DE OAK — UMA GRANDE
ESPERANÇA

O fim do outono aproximava rapidamente e o inverno logo o sucederia. As


folhas da floresta formavam uma camada espessa sobre a relva das clareiras e
dos musgos. Bathsheba, que já passara por um estado de sentimento
suspenso, que na verdade não era suspenso, agora vivia num clima de
quietude que não era precisamente tranquilidade. Enquanto sabia que ele
estava vivo, poderia pensar na morte dele com serenidade, mas agora que
poderia tê-lo perdido, lamentava que ele não fosse seu. Ela manteve a fazenda
funcionando, arrecadou em seus lucros sem se importar profundamente com
eles, e gastou dinheiro com empreendimentos porque havia feito isso em
tempos passados, embora não muito, mas que pareciam infinitamente
removidos de seu presente. Olhou para o passado ao longo de um grande
abismo, como se ela fosse agora uma pessoa morta, tendo a faculdade de
meditação ainda dentro de si, por meio da qual, como a nobreza esquecida da
história do poeta, podia sentar-se e refletir sobre como sua vida costumava
ser.

No entanto, um excelente resultado de sua apatia geral foi a instalação


tardia de Oak como administrador, mas tendo ele praticamente exercido essa
função por um longo tempo, a mudança, além do aumento substancial dos
salários que ela trouxe, era pouco mais que uma denominação dirigida ao
mundo exterior.

Boldwood vivia isolado e inativo. Grande parte do seu trigo e toda a sua
cevada daquela temporada foram estragados pela chuva. Ela germinou
cresceu em esteiras intrincadas e acabou por ser jogada aos porcos às
braçadas. A estranha negligência, que resultou nesta ruína e perda, tornou-se
o assunto da conversa à boca miúda entre todos nas redondezas. Foi
desencadeada por um dos homens de Boldwood, que contou que o
esquecimento não tinha nada a ver com o ocorrido, pois Boldwood havia sido
lembrado, muitas vezes e com tanta persistência que seus inferiores se
atrevessem a fazer, do perigo que seu milho corria. A visão dos porcos
transformando em desgosto as espigas podres pareceu despertar Boldwood e
ele mandou chamar Oak uma noite. Se foi sugerido pelo recente ato de
promoção de Bathsheba ou não, o fazendeiro propôs, na entrevista, que
Gabriel assumisse a superintendência de Lower Farm, bem como da de
Bathsheba, devido à necessidade que Boldwood sentia por tal auxílio, bem
como a impossibilidade de encontrar um homem mais confiável. A estrela
maligna de Gabriel estava seguramente se afastando depressa.

Bathsheba, ao saber da proposta, que Oak foi obrigado a consultá-la, a


princípio, opôs-se languidamente. Considerou que as duas fazendas juntas
eram demasiadamente extensas para a observação de um único homem.
Boldwood, que aparentemente estava determinado por motivos pessoais em
vez de comerciais, sugeriu que Oak deveria receber um cavalo para seu uso
exclusivo e refutou que o plano não apresentaria nenhuma dificuldade, pois
as duas fazendas ficavam lado a lado. O fazendeiro não se comunicou
diretamente com ela durante as negociações, falando somente com Oak, que
era o intermediário. Por fim, tudo foi harmoniosamente combinado e agora
vemos Oak montado num cavalo forte e trotando diariamente ao longo de
cerca de dois mil acres com um espírito alegre de vigilância, como se todas as
culturas pertencessem a ele, a dona verdadeira da metade e o patrão, ambos
sentados em suas respectivas casas em reclusões sombrias e tristes.

De tudo isso surgiu, durante a primavera seguinte, uma história na


paróquia que Gabriel Oak estava construindo seu ninho rápidamente.

“Seja o que for que pensem”, disse Susan Tall, “Gabiel Oak está ficando
muito vaidoso. Agora ele usa botas brilhando duas ou três vezes por semana,
uma cartola aos domingos, e mal sabe o nome de um avental. Quando vejo as
pessoas se empavoarem tanto disfarçando que são galinhas, fico apenas
imaginando e não falo mais nada!”

Acabou por ser conhecido que Gabriel, embora recebesse um salário fixo
da parte de Bathsheba, independente das flutuações dos lucros agrícolas,
tinha assumido um compromisso com Boldwood pelo qual recebia uma parte
das receitas, pequena, certamente, mas era dinheiro de uma maior qualidade
do que meros salários e capaz de expansão de uma forma que os salários não
eram. Alguns estavam começando a considerar Oak um pão duro, pois,
embora sua condição tivesse melhorado, não vivia num estilo melhor do que
antes, ocupando a mesma cabana, cultivando suas próprias batatas,
remendando as meias e, às vezes, até mesmo arrumando sua cama com suas
próprias mãos. Mas, como Oak não era apenas provocadoramente indiferente
à opinião pública, mas um homem que se agarrava persistentemente aos
velhos hábitos e costumes, simplesmente por serem antigos, não havia
margem para dúvidas quanto aos seus motivos.

Uma grande esperança havia germinado recentemente em Boldwood, cuja


devoção irracional a Bathsheba só poderia ser caracterizado como apreciador
da loucura, que nem o tempo nem a circunstância, nem boa nem má,
poderiam enfraquecer ou destruir. Esta esperança febril cresceu outra vez
como um grão de mostarda durante a calma que se seguiu à conjectura
precipitada que Troy se afogara. Alimentou-a com medo, e quase evitando a
contemplação dela, para que os fatos não revelassem o ardor do sonho.
Bathsheba foi finalmente convencida a usar luto. Sua aparição quando entrou
na igreja naquelas vestes era, em si, um acréscimo semanal à sua fé, pois
estava chegando a hora, muito distante, talvez, mas certamente aproximando-
se, quando sua espera seria recompensada. Há quanto tempo teria que
esperar, ainda não havia considerado com cuidado. A instrução severa com a
qual Bathsheba tinha sido submetida fez com que ela ficasse muito mais
ponderada com os sentimentos dos outros, do que fora anteriormente, e ele
confiava que Bathsheba devia estar disposta a qualquer momento, no futuro,
a se com casar qualquer homem, e este homem seria ele mesmo. Boldwood
havia percebido uma boa mudança nela: sua autocensura pelo prejuízo que
causou a ele, sem pensar, poderia ser confiado a uma extensão muito maior
do que antes de sua paixão e decepção. Seria possível aproximar-se dela pelo
canal de sua boa natureza e sugerir um acordo de negócios amigável para a
realização no futuro, mantendo o lado apaixonado do seu desejo inteiramente
fora de sua vista. Essa era a esperança de Boldwood.

Aos olhos da meia-idade, Bathsheba talvez estivesse adicionalmente


encantadora. Sua exuberância de espírito fora podada; o fantasma original da
alegria não se mostrava muito brilhante para a alimentação diária da natureza
humana e ela foi capaz de entrar nesta segunda fase poética sem perder, no
processo, muito da primeira.

O retorno de Bathsheba de uma visita de dois meses à sua tia idosa em


Norcombe proporcionou ao fazendeiro apaixonado e ansioso um pretexto
para procurar diretamente por ela, agora, possivelmente, no nono mês de sua
viuvez. Ele se esforçou para obter uma noção de seu estado de espírito em
relação ele. Isso ocorreu no meio da colheita e Boldwood planejou ficar perto
de Liddy, que estava ajudando nos campos.

“Estou contente de vê-la aqui fora, Lydia”, disse ele alegremente.

Ela deu um sorriso tímido e, ao mesmo tempo, se perguntava por que o


fazendeiro estava conversando tão abertamente com ela.

“Espero que Mrs. Troy esteja bem depois de sua longa ausência”,
continuou ele, imaginando que por Lydia falar sobre sua vizinha, de uma
forma usual e fria, pudesse dizer mais sobre ela.

“Ela está muito bem, senhor.”

“E contente, eu suponho.”

“Sim, alegre.”

“Com medo, foi o que disse?”

“Oh, não. Eu simplesmente disse que ela estava contente.”

“Ela lhe fala de todos os seus assuntos?”

“Não, senhor.”

“De alguns deles?”

"Sim, senhor.”
“Mrs. Troy confia muito em você, Lydia, e muito sabiamente, talvez.”

“Sim, senhor. Estive com ela durante todos os seus problemas, e estava
com ela quando Mr. Troy se foi. E se ela se casar de novo, espero ficar com
ela.”

“Ela promete que sim, naturalmente”, disse o amante estratégico,


vibrando com a presunção que as palavras de Liddy garantiam: que sua
amada pensava em casar-se outra vez.

“Não, ela não promete exatamente. Eu simplesmente julgo por minha


conta.”

“Sim, sim, entendo. Quando ela alude à possibilidade de se casar


novamente, você conclui que...”

“Ela nunca faz alusão a isso, senhor”, disse Liddy, pensando em como
Mr. Boldwood estava ficando estúpido.

“Claro que não”, ele retornou apressadamente, sua esperança caindo


novamente. “Não precisa passar o ancinho tão longe, Lydia, passadas curtas e
rápidas são as melhores. Bem, talvez, como ela é agora dona absoluta de
novo, é sábio da parte dela resolver nunca desistir de sua liberdade.”

“Minha patroa certamente disse uma vez, embora não a sério, que achava
que poderia se casar novamente no final de sete anos, a partir do ano passado,
arriscando-se com o retorno de Mr. Troy para reclamá-la.”

“Ah, seis anos agora. Disse que poderia. Pode se casar imediatamente na
opinião das pessoas razoáveis, o que quer que os advogados possam dizer do
contrário.”

“Já perguntou a eles?”, disse Liddy, inocentemente.

“Não”, respondeu Boldwood, ruborizando. “Liddy, não precisa ficar aqui


um minuto além do que deseja, como diz Mr. Oak. Irei agora um pouco mais
adiante. Boa tarde.”

Ele foi embora atormentado consigo mesmo e envergonhado pela


primeira vez em sua vida ter feito algo que poderia ser chamado de desleal. O
pobre Boldwood não tinha mais habilidade na finesse do que um aríete e
estava desconfortável com uma sensação de ter feito parecer-se estúpido e, o
que era pior, malvado. Mas ele tinha, afinal, recebido uma recompensa. Era
um fato singularmente fresco e fascinante, embora não sem sua tristeza
pertinente e real. Em pouco mais de seis anos, a partir daquela data,
Bathsheba poderia certamente se casar com ele. Havia algo definido naquela
esperança para admitir que mesmo não havendo nenhum pensamento
profundo em suas palavras de Liddy sobre casamento, elas mostravam pelo
menos sua crença sobre o assunto.

Esta noção agradável ficou continuamente em sua mente. Seis anos eram
um longo tempo, porém mais curto que nunca, a ideia que foi muito tempo
obrigado a suportar! Jacó serviu Raquel[29] duas vezes por sete anos: o que
eram seis para uma mulher como essa? Tentou gostar da noção de esperar por
ela melhor do que a de ganhá-la imediatamente. Boldwood sentia que seu
amor era tão profundo, forte e eterno, que era possível que ela nunca
conhecesse o seu volume total, e essa paciência atrasada podia trazer-lhe uma
oportunidade de dar provas doces sobre aquilo. Ele aniquilaria os seis anos de
sua vida como se fossem minutos, tão pouco ele valorizava seu tempo na
terra. Ele a deixaria ver, por todos esses seis anos de corte etérea intangível,
como pouco se importava com algo como pela consumação de seu amor.

Enquanto isso, o início e o final do verão trouxeram a semana em que


Greenhill Fair foi realizada. Esta feira era geralmente frequentada pelo povo
de Weatherbury.
CAPÍTULO L
A FEIRA DE OVELHAS — TROY TOCA NA
MÃO DE SUA ESPOSA

Greenhill era como a feira russa de Nijni Novgorod, em South Wessex, e o


dia mais movimentado, mais alegre, o mais barulhento de todo o estatuto era
o dia da feira das ovelhas. Aquele encontro anual era no cume de uma colina
que manteve em bom estado de conservação os restos de uma fortificação
antiga, composto por uma enorme muralha e um entrincheiramento oval,
cercando o topo da colina, embora um pouco destruído aqui e ali. Para cada
uma das duas aberturas principais em lados opostos, subia uma estrada
sinuosa, e o espaço verde e plano, de dez ou quinze acres fechados pelo
banco, era o local da feira. Algumas construções permanentes pontilhavam o
local, mas a maioria dos visitantes trazia lonas somente para descansar e se
alimentar debaixo delas durante o tempo de sua permanência ali.

Os pastores de longas distâncias, que compareciam com seus rebanhos,


saíam de suas casas dois ou três dias antes, ou mesmo uma semana de
antecência ao dia da feira. Levavam suas cargas algumas milhas por dia, não
mais do que dez ou doze, e descansavam à noite nos campos contratados à
beira da estrada, em pontos previamente escolhidos, onde se alimentavam,
estando em jejum desde a manhã. O pastor de cada rebanho marchava atrás,
com o suprimento para uma semana amarrado sobre os ombros e, na sua mão,
o cajado, que usava como apoio na sua peregrinação. Várias das ovelhas
ficavam cansadas e coxas e, ocasionalmente, um parto ocorria na estrada.
Para atender a essas contingências, era frequentemente providenciado, para
acompanhar os rebanhos dos pontos mais remotos, um pônei e uma carroça
nas quais as fracas eram transportadas pelo restante da viagem.
No caso das ovelhas de Weatherbury Farms, no entanto, por não ser tão
distante da colina, não eram necessárias essas regras. Os grandes rebanhos de
Bathsheba e do fazendeiro Boldwood, no entanto, formava uma multidão
valiosa e imponente que exigia muita atenção. Por esse motivo Gabriel, além
do pastor de Boldwood e Cain Ball, acompanhava todo o processo ao longo
do caminho, através da cidade velha e decadente de Kingsbere, e para cima
do planalto, sempre com George, seu velho cão, atrás dele.

Quando o sol de outono inclinou-se sobre Greenhill naquela manhã e


iluminou a planície banhada de orvalho em cima de sua crista, nuvens
nebulosas de poeira eram vistas flutuando entre os pares de cercas que
riscavam a ampla perspectiva em todas as direções. Elas, gradualmente,
convergiram sobre a base da colina e os rebanhos tornavam-se
individualmente visíveis, escalando os caminhos sinuosos que levavam ao
topo. Assim, numa lenta procissão, entraram pela abertura para as estradas,
multidão após multidão, com e sem chifres, rebanhos azuis e rebanhos
vermelhos, rebanhos amarelos e rebanhos marrons, até mesmo rebanhos
verdes e salmão, de acordo com a fantasia do colorista e do costume da
fazenda. Homens gritavam, cães latiam, com a maior animação, mas os
viajantes que se amontoavam numa viagem tão longa eram quase indiferentes
a esses terrores, embora ainda balissem lamentavelmente e desacostumados
de suas experiências, um pastor alto aparecia aqui e ali no meio deles, como
um ídolo gigantesco em meio a uma multidão de devotos prostrados.

A grande massa de ovinos na feira consistia-se de South Downs e as


antigas raças com chifres de Wessex. A maioria dos carneiros de Bathsheba e
do Fazendeiro Boldwood pertencia, principalmente, a esta última classe.
Estes chegaram por volta de nove horas, seus chifres vermiculados virados
graciosamente de cada lado de suas caras, em espirais geometricamente
perfeitos, e uma pequena orelha rosa e branca aninhada em cada chifre. Na
frente e atrás deles vieram outras variedades, leopardos perfeitos quanto à
substância rica cheia de suas peles, só faltando as manchas. Havia também
alguns da raça oxfordshire, cuja lã estava começando a enrolar como os
cabelos louros de uma criança, embora os leicesters efeminados superassem
neste quesito, que eram por sua vez menos encaracolados do que os
cotswolds. Mas o mais pitoresco era, de longe, um pequeno rebanho de
exmoors que teve a chance de estar lá naquele ano. Suas caras e pernas
sarapintados, chifres escuros e pesados, tranças de lã penduradas em volta de
suas testas escura, aliviavam a monotonia dos rebanhos naquela parte.

Todos aqueles milhares de balidos e arquejos cansados entraram e foram


presos antes que a manhã tivesse avançado. O cão pertencente a cada lote era
amarrado no canto do estábulo em que estavam. Vielas para pedestres
cruzavam os estábulos, que logo estavam cheias de compradores e
vendedores de longe e de perto.

Em outra parte da colina uma cena completamente diferente começava a


forçar-se sobre o olhar do meio-dia. Uma tenda circular, de tamanho e
novidade excepcionais, estava sendo erguida ali. Conforme o dia passava, os
rebanhos começaram a mudar de mãos, aliviando as responsabilidades do
pastor, que voltava sua atenção para aquela tenda e perguntava pelo homem
trabalhando lá, cuja alma parecia concentrada em amarrar um nó.

“Turpin’s Ride to York e a Morte de Black Bess”, respondeu o homem


prontamente, sem tirar os olhos ou parar de amarrar.

Assim que a tenda foi concluída, a banda começou a tocar harmonias


altamente estimulantes e o anúncio foi feito publicamente, Black Bess de pé,
num local visível do lado de fora, como uma prova viva se quisessem uma
prova, da verdade dos enunciados proféticos do palco, sobre o qual as
pessoas estavam para entrar. Estes foram tão convencidos por tais apelos
genuínos ao coração e compreensão, que logo começou a reunir uma
multidão, entre os primeiros a serem vistos estavam Jan Coggan e Joseph
Poorgrass, que estavam passando sua folga ali.

“Este grande desordeiro está me empurrando!”, gritou uma mulher à


frente de Jan, por cima de seu ombro para ele, quando a multidão estava mais
exaltada.

“Como posso não empurrar quando o povo atrás de mim está


empurrando?”, disse Coggan em tom depreciativo, virando a cabeça para o
povo acima, referido tanto quanto podia sem virar seu corpo, que estava
preso como num torno.

Houve um silêncio. Em seguida, os tambores e trombetas novamente


ecoaram suas notas. A multidão estava estasiada e deu outra guinada que
Coggan e Poorgrass foram novamente empurrados por trás sobre as mulheres
na frente.

“Oh, as mulheres indefesas ficam à mercê de desordeiros!”, exclamou


uma dessas senhoras de novo, enquanto se balançava como um caniço
agitado pelo vento.

“Ora”, disse Coggan, apelando numa voz séria para o público em geral,
uma vez que estava apertado até suas omoplatas. “Já ouviram uma mulher
tão injusta assim? Por meu cadáver, vizinhos, se eu pudesse sair dessa prensa
de queijo, as malditas mulheres poderiam comer a apresentação por mim!”

“Não fique nervoso, Jan!”, implorou Joseph Poorgrass num sussurro.


“Podem chamar seus homens para nos matar, pois acho que, pelo brilho dos
olhos dela, que é uma forma pecaminosa do sexo feminino.”

Jan segurou a língua para não reclamar, como se não tivesse nenhuma
objeção a ser pacificado para agradar a um amigo. Pouco a pouco chegaram
ao pé da escada, com Poorgrass sendo achatado como um boneco de
engonço, em meio ao fedor por causa do calor. Num aperto de mão animado
com a mulher em lantejoulas, anéis de bronze, diamantes de vidro, rosto e os
ombros riscados, lá se foram os seis centavos da entrada que havia preparado
meia hora mais cedo. Ela levou o dinheiro dele e, às pressas, deixou cair
novamente por medo de que algum truque tivesse queimado seus dedos.
Então todos entraram e o pano da tenda, aos olhos de um observador do lado
de fora, inchou-se em inúmeras bolhas como um saco de batatas, causado
pelas diferentes cabeças, costas e cotovelos humanos em alta pressão no
interior.

Na parte de trás da grande tenda havia dois pequenos camarins. Um


destes, atribuído aos artistas do sexo masculino, foi repartido em duas
metades por um pano. Numa das divisões, sentado à grama, puxando um par
de botas de montaria, um jovem que nós, instantaneamente, reconhecemos
como o Sargento Troy.

A aparição de Troy nesta posição pode ser brevemente explicada. O


brigue, a bordo do qual ele foi levado em Budmouth Roads estava prestes a
partir numa viagem, embora um pouco aquém das mãos. Troy havia lido os
artigos sobre sua morte e, antes do brigue partir, um barco foi mandado para
a baía da enseada de Lulwind. Como já meio que esperava, suas roupas
tinham desaparecido. Finalmente elaborou sua passagem para os Estados
Unidos, onde levou uma vida precária em várias cidades como professor de
espada, esgrima e pugilismo. Poucos meses foram suficientes para dar-lhe
desgosto com aquele tipo de vida. Havia uma forma animal de refinamento
em sua natureza e, não importa quão agradável uma condição estranha possa
ser, enquanto privações eram facilmente repelidas, era desvantajosamente
vulgar quando o dinheiro era curto. Havia a ideia sempre presente também de
que poderia reivindicar uma casa e seus confortos e, então, optou por voltar à
Inglaterra e a Weatherbury Farm. Se Bathsheba achava que ele estava morto
era um assunto frequente de conjectura curiosa. Finalmente voltou para a
Inglaterra, mas o fato de se aproximar de Weatherbury abstraía seus fascínios
e sua intenção de entrar em sua velha rotina no local mudou. Foi com tristeza
que considerou o desembarque em Liverpool. Sabia que, se tivesse que ir
para casa, sua recepção seria de um tipo muito desagradável para se
contemplar, pois o que Troy tinha no caminho da emoção era um sentimento
de indecisão ocasional que, às vezes, lhe causava tanto inconveniente como a
emoção de um tipo forte e saudável. Bathsheba não era uma mulher para ser
feita de boba, ou sofrer em silêncio, e como ele poderia suportar a existência
com uma esposa espirituosa, a quem logo ao entrar ele estaria em dívida com
alimentação e alojamento? Além disso, não era de todo improvável que sua
esposa falharia em seu cultivo, se já não tivesse. Ele, então, tornaria-se
responsável por sua manutenção: e que vida tal futuro da pobreza com ela
seria, o espectro da Fanny constantemente entre eles, afligindo seus nervos e
amargando suas palavras! Assim, por razões referentes ao desgosto,
arrependimento e vergonha juntos, ele adiou seu retorno dia após dia, e teria
decidido abandoná-lo completamente se tivesse encontrado estabelecimento
pronto em qualquer outro lugar.

Naquele momento, julho antecedendo a setembro, em que nos


encontramos na Greenhill Fair, ele caiu num circo itinerante que estava se
apresentando nas cercanias de uma cidade ao norte. Troy apresentou-se ao
administrador para domar um cavalo rebelão da trupe, acertando uma maçã
suspensa com um tiro de pistola disparada no dorso do animal em pleno
galope e outros feitos. Por seus méritos, todos mais ou menos com base em
suas experiências como um dragão da guarda, Troy foi aceito na companhia e
a peça de Turpin foi preparada, tendo em vista a sua personificação do
personagem principal. Troy não estava muito exaltado pelo espírito
apreciativo com o qual foi tratado, sem dúvida, mas pensou que a contratação
poderia pagar-lhe algumas semanas por consideração. Foi assim, de qualquer
jeito, e sem qualquer plano definido para o futuro, que Troy encontrava-se
em Greenhill Fair com o resto da companhia naquele dia.

E então o sol ameno do outono diminuiu e na frente do pavilhão o


seguinte incidente ocorreu. Bathsheba, que era conduzida para a feira naquele
dia por seu curioso empregado Poorgrass, como qualquer outra pessoa, leu ou
ouviu o anúncio de que o Mr. Francis, o Grande Cosmopolitano Equestre e
Domador de Cavalos, se apresentaria no papel de Turpin e ela ainda não
estava muito velha e cansada para não sentir um pouco de curiosidade para
vê-lo. A apresentação em particular era de longe a maior e mais grandiosa da
feira, uma horda de pequenos espectáculos de agrupados sob uma cobertura
como frangos em torno de uma galinha. A multidão havia passado e
Boldwood, que estava observando o dia todo por uma oportunidade de falar
com ela, vendo-a relativamente isolada, aproximou-se.

“Espero que as ovelhas estejam bem hoje, Mrs. Troy”, disse ele, nervoso.

“Ah, sim, obrigada”, agradeceu Bathsheba, o rubor surgindo no centro de


suas bochechas. “Tive a sorte de vendê-las todas assim que subimos a colina,
por isso nem tive que prendê-las.”

“E agora está totalmente livre?”

“Sim, exceto que tenho que ver mais um negociante em duas horas,
senão, deveria estar indo para casa. Ele estava olhando para a tenda enorme e
para o anúncio. Já viu a peça ‘Turpin’s Ride to York”? Turpin existiu mesmo,
não existiu?”

“Oh, sim, perfeitamente que sim. Na verdade, acho que já ouvi Jan
Coggan dizer que um parente seu conhecia Tom King, amigo de Turpin,
muito bem.”

“Devemos lembrar que Coggan é muito dado a estranhas histórias


relacionadas com seus parentes. Espero que possamos acreditar em todas
elas.”

“Sim, sim, conhecemos Coggan. Mas Turpin é, sim, real. Você nunca viu
a encenação, creio eu?”

“Nunca. Eu não tinha permissão para entrar nesses lugares quando era
jovem. Ouça! O que é aquela agitação? Como eles gritam!”

“Acho que Black Bess acabou de começar. Estou certo em supor que
gostaria de ver a apresentação, Mrs. Troy. Por favor, desculpe-me se estiver
errado, mas se quiser, posso conseguir uma cadeira para você com prazer.”
Percebendo que ela hesitou, ele acrescentou: “Eu mesmo não ficarei para
assistir: já vi antes.”

Bathsheba desejava ver a apresentação e só tinha mantido os pés na


escada porque temia ir sozinha. Tinha esperança de que Oak pudesse
aparecer, cuja assistência em tais casos sempre era aceita como um direito
inalienável, mas Oak estava longe de ser visto e, portanto, ela disse:

“Então, acho que vou ficar por alguns minutos.”

E assim, pouco tempo depois, Bathsheba apareceu na tenda com


Boldwood a seu lado, que, levando-a para um lugar ‘reservado’, mais uma
vez se retirou.

Tal lugar consistia de um banco erguido numa parte muito visível do


círculo, coberto com um pano vermelho e sobre um tapete. Bathsheba
imediatamente descobriu, para sua confusão, que ela era a única a ter um
lugar reservado na tenda. O resto dos espectadores estava apertado, de pé nas
bordas da arena, onde tinha uma visão duas vezes melhor da apresentação por
metade do dinheiro. Portanto, muitos olhos se voltaram para ela, entronizada
sozinha naquele lugar de honra contra um fundo escarlate. Logo os pôneis e
palhaços foram envolvidos em explorações preliminares no centro, mas
Turpin ainda não tinha aparecido. Uma vez lá, Bathsheba foi forçada a
aproveitar e ficar: sentou-se espalhando as saias com alguma dignidade sobre
o espaço desocupado em cada lado dela, dando um aspecto novo e feminino
ao pavilhão. Em poucos minutos, notou a nuca vermelha e gorda do pescoço
de Coggan entre aqueles em pé logo abaixo dela, e o perfil puro de Joseph
Poorgrass um pouco mais adiante.

O interior era sombrio, com um tom peculiar. As estranhas luminosidades


opacas das lindas tardes de outono estavam intensificadas em efeitos; os
poucos raios de sol que entravam através dos buracos e divisões na lona,
espalhavam-se como jatos de ouro em pó em toda a atmosfera azul obscura
da névoa que permeava a tenda, até pousarem em superfícies internas do lado
oposto da lona, brilhando como pequenas lâmpadas suspensas.

Troy, espiando de sua tenda-camarim através de uma fenda para um


reconhecimento antes de entrar, viu sua esposa inconsciente no alto diante
dele como descrito, sentada como a rainha do torneio. Surpreendeu-se com
grande confusão, pois, apesar de seu disfarce esconder efetivamente sua
personalidade, ele logo sentiu que ela certamente reconheceria sua voz.
Pensou várias vezes durante o dia na possibilidade de alguém de
Weatherbury aparecer e reconhecê-lo, mas assumiu o risco com descuido. ‘Se
me virem, deixe-os’, havia dito. Mas ali estava Bathsheba em pessoa e a
realidade da cena foi muito mais intensa do que qualquer uma de suas
previsões. Ele sentiu que não tinha considerado metade do problema.

Ela parecia tão encantadora e linda que a frieza dele com as pessoas de
Weatherbury mudou. Não esperava que ela exercesse esse poder sobre ele
num piscar de olhos. Deveria continuar e não se importar com nada? Não
conseguia fazer isso. Além de um desejo político para permanecer
desconhecido, de repente, surgiu nele um sentimento de vergonha. A
possibilidade de que sua jovem e atraente esposa, que já o desprezou,
desprezasse ainda mais, encontrando-o em condição tão ruim depois de tanto
tempo, o apavorou. Ele realmente corou com o pensamento e estava
incomodado demais, pois seus sentimentos de desagrado para com
Weatherbury o haviam levado a flertar de uma maneira perigosa e
desconcertante para ele.

Mas Troy nunca foi tão inteligente quanto a sua sagacidade. Empurrou
apressadamente a cortina que dividia seu camarim com o do administrador e
proprietário, que agora aparecia como o indivíduo chamado Tom King, e
disse:
“O diabo está aqui para me cobrar.”

“Como?”

“Ora, há um credor patife na tenda que não quero ver, que vai me
descobrir e me prender tão certo como Satanás se eu abrir a minha boca. O
que pode ser feito?”

“Você deve aparecer agora, eu acho.”

“Não posso.”

“Mas a peça deve continuar.”

“Diga que Turpin está resfriado e não pode falar, mas que fará seu papel
do mesmo jeito, porém sem falar.”

O proprietário sacudiu a cabeça.

“De qualquer forma, com ou sem a peça, não vou abrir minha boca”,
disse Troy, com firmeza.

“Muito bem, então deixe-me ver. Vou lhe dizer como trabalhamos”, disse
o outro, que, talvez, pensou que seria extremamente difícil de ofender seu
astro principal naquele exato momento. “Não direi a eles coisa alguma sobre
seu silêncio. Continue com a peça e não diga nada, fazendo o que puder com
uma piscadela criteriosa vez em quando, e alguns acenos indomáveis nos
lugares heroicos, certo? Nunca vão descobrir que as falas foram omitidas.”

Aquilo parecia viável o bastante, pois as falas de Turpin não eram muitas
ou longas e o fascínio da peça estava inteiramente na ação. O espetáculo
começou normalmente, e na hora marcada Black Bess saltou para dentro do
círculo gramado em meio aos aplausos dos espectadores. Na cena da estrada,
onde Bess e Turpin são perseguidos durante a noite pelos oficiais, e o
porteiro meio acordado com sua touca de franjas nega que qualquer cavaleiro
tenha passado, Coggan soltou um ‘Bem feito!’ do estufado e pôde ser ouvido
por toda a feira apesar dos balidos das ovelhas. Poorgrass sorriu feliz com
uma agradável sensação do contraste dramático entre o nosso herói, que
pulou friamente o portão, repensando a justiça na forma de seus inimigos,
cujas necessidades eram esperar para deixar passar. Com a morte de Tom
King, Coggan ficou com lágrimas nos olhos: “É claro que ele não levou
realmente um tiro, Jan, só aparentemente!” E quando a última cena triste veio
e o corpo do galante e fiel Bess teve que ser levado para um obturador por
doze voluntários dentre os espectadores, nada pôde conter Poorgrass de
estender a mão, exclamando, conforme pedia a Jan de se juntar a ele: “será
algo para contar no Warren’s nos próximos anos, Jan, e passar para os nossos
filhos.”

Joseph disse, com o ar de um homem que havia tido experiências em seu


tempo, que tocou com sua própria mão o casco de Bess, enquanto ela estava
deitada sobre a placa em cima de seu ombro. Se, como alguns pensadores
acreditam, a imortalidade consiste em ser consagrado nas memórias dos
outros, então Black Bess se tornou imortal naquele dia, se ainda não era.

Enquanto isso, Troy acrescentou alguns toques à sua maquiagem normal


para o personagem, mais eficazmente para se disfarçar e, embora ele sentisse
fracos escrúpulos sobre entrar pela primeira vez, a metamorfose efetuada
escondia judiciosamente seu rosto e ele estava a salvo dos olhos de
Bathsheba e de seus homens. No entanto, ficou aliviado quando conseguiu
passar desconhecido.

Houve uma segunda apresentação naquela noite e a tenda estava


iluminada. Troy tinha tomado a sua parte muito tranquilamente e, dessa vez,
decidiu se aventurar a introduzir alguns discursos na sua atuação. Estava
apenas concluindo-o quando, ao mesmo tempo em pé na borda do círculo
contíguo, na primeira fila de espectadores, observou, a uma jarda de seus
olhos, que um homem olhava profundamente para suas feições. Troy
rapidamente mudou de posição, depois de ter reconhecido no escrutinador o
administrador fraudulento Pennyways, inimigo jurado de sua esposa, que
ainda pairava sobre os arredores de Weatherbury.

A princípio, Troy resolveu não tomar conhecimento e acatar as


circunstâncias. Que ele tivesse sido reconhecido por aquele homem era
altamente provável, havendo ainda espaço para dúvida. Mas, a grande
objeção que ele tinha voltou com força total, o sentimento de que o
conhecimento de sua atual ocupação iria desacreditá-lo ainda mais aos olhos
de sua esposa. Além disso, se resolvesse não voltar, um comentário de que
estaria vivo e na vizinhança seria estranho e ele estava ansioso para conhecer
os assuntos temporais da sua esposa antes de decidir o que fazer.

Neste dilema Troy imediatamente saiu para um reconhecimento. Ocorreu-


lhe que podia encontrar Pennyways e fazer amizade com ele, se possível,
seria um ato muito sábio. Havia colocado uma barba espessa, emprestada do
estabelecimento, e assim vagou pela feira. Já estava quase escuro, e as
pessoas respeitáveis estavam recebendo seus coches e carruagens para irem
para casa.

A maior barraca de refrescos na feira era fornecida pelo dono de uma


hospedaria de uma cidade vizinha. Era considerado um local irrepreensível
para a obtenção do alimento necessário e de descanso. O Anfitrião Trencher,
como era alegremente chamado pelo jornal local, era um homem substancial
de alta reputação pelo fornecimento de comida por toda a circunvizinhança.
A tenda foi dividida em compartimentos de primeira e de segunda classe e,
no final da divisão da primeira classe havia ainda outro compartimento mais
exclusivo, vedada do corpo da tenda por um espaço para almoço, atrás do
qual o próprio anfitrião se deixava ficar de avental branco e mangas de
camisa, como se nunca houvesse vivido em qualquer lugar a não ser sob a
lona em toda a sua vida. Nestes santuários havia cadeiras e uma mesa, que,
com as velas acesas formavam um espetáculo bastante acolhedor e luxuoso;
com uma urna, jarras de chá e café, xícaras de porcelana e bolos de ameixa.

Troy ficou na entrada da cabine, onde uma cigana estava fritando


panquecas sobre uma pequena fogueira de varas e as vendia a um centavo
cada, e olhou por cima das cabeças das pessoas que estavam dentro. Não
conseguia ver Pennyways, mas logo discerniu Bathsheba através de uma
abertura no espaço reservado na outra extremidade. Troy, então, recuou, deu
a volta na tenda para o lado escuro e escutou. Podia ouvir a voz de Bathsheba
imediatamente dentro da tenda. Estava conversando com um homem. Um
calor espalhou-se em seu rosto: certamente ela não era tão sem escrúpulos
para flertar numa feira! Ele se perguntou se, então, ela contaria de sua morte
como uma certeza absoluta. Para chegar a raiz da questão, Troy pegou um
canivete do bolso e, suavemente, fez dois pequenos cortes transversais no
tecido, que, dobrando para trás os cantos, deixou um buraco do tamanho de
um bolinho. Perto dele, colocou seu rosto, retirando-o novamente num
movimento de surpresa. Seu olho estava a de doze polegadas do topo da
cabeça de Bathsheba. Era muito próximo para ser conveniente. Fez outro
buraco um pouco para o lado e para baixo, num lugar com sombra, ao lado de
sua cadeira, de onde era mais fácil e seguro.

Troy via a cena completamente agora. Ela estava inclinada para trás,
tomando uma xícara de chá que tinha na mão e o dono da voz masculina era
Boldwood, que aparentemente tinha apenas trazido a xícara para ela.
Bathsheba, de um modo negligente, tinha os braços cruzados à frente do
corpo, e estava de costas para a lona que era pressionada pelos seus ombros.
Ela estava, na verdade, tão bem quanto nos braços de Troy, e ele foi obrigado
a conter sua respiração com cuidado para que ela não sentisse o seu calor
através do tecido da lona. Troy encontrou acordes inesperados de uma
sensação se agitando novamente dentro dele, como aconteceu no início
anteriormente. Ela estava bonita como sempre e era dele. Passaram-se alguns
minutos antes que ele pudesse neutralizar seu desejo repentino de entrar e
reclamá-la. Então pensou em como a menina orgulhosa que sempre o olhou
de cima mesmo enquanto o amava, o odiaria ao descobrir que ele era um
artista itinerante. Se fosse reconhecido, esse capítulo de sua vida devia ser
escondido para sempre dela e das pessoas de Weatherbury, ou seu nome seria
uma piada em toda a paróquia. Ele seria apelidado de ‘Turpin’ enquanto
vivesse. Seguramente antes que pudesse reclamá-la estes poucos últimos
meses de sua existência deviam ser completamente apagados.

“Devo trazer-lhe outra xícara antes de partir, Madame?”, perguntou o


fazendeiro Boldwood.

“Obrigada”, disse Bathsheba. “Mas preciso ir agora. Seria uma grande


negligência fazer o homem ficar me esperando aqui até tão tarde. Eu deveria
ter ido há duas horas. Mas não há nada tão refrescante como uma xícara de
chá, embora eu não pegasse uma se não tivesse me servido.”

Troy, examinando o rosto da esposa iluminado pelas velas, observou cada


sombra, até as sinuosidades brancas em forma de concha de sua pequena
orelha. Ela pegou sua bolsa e estava insistindo com Boldwood em pagar por
seu chá, quando, neste momento, Pennyways entrou na tenda. Troy tremeu:
seu esquema de respeitabilidade estava em perigo. Estava prestes a deixar seu
buraco de espionagem, tentar seguir Pennyways e descobrir se o ex-
administrador o havia reconhecido, quando foi preso numa conversa e
descobriu que era tarde demais.

“Desculpe-me, senhora”, disse Pennyways, “tenho algumas informações


particulares somente para você.”

“Não posso ouvi-lo agora”, disse ela friamente. Que Bathsheba não podia
suportar aquele homem era evidente. Na verdade, ele estava continuamente
vindo a ela com uma história ou outra, pela qual podia rastejar em favor à
custa de caluniados.

“Vou escrevê-lo”, continuou Pennyways, confiante. Inclinou-se sobre a


mesa, puxou uma folha de um caderno de bolso deformado e escreveu sobre
o papel, em letra de mão redonda.

“Seu marido está aqui. Eu o vi. Quem é o tolo agora?”

Dobrou o papel e entregou a ela. Bathsheba não iria lê-lo, nem mesmo o
pegaria para levá-la. Pennyways, então, com um riso de escárnio, jogou-o no
seu colo, e, virando-se, deixou-a.

A partir das palavras e ações de Pennyways, Troy, embora não fosse


capaz de ver o que o ex-administrador escreveu, não teve um momento de
dúvida de que o bilhete se referia a ele. Nada do que pensava podia ser feito
para verificar a exposição.

“Que má sorte!”, sussurrou ele, e acrescentou imprecações que sussurrava


na penumbra como um vento pestilento. Enquanto isso, Boldwood disse,
tomando o bilhete de seu colo:

“Não gostaria de lê-lo, Mrs. Troy? Se não, vou destruí-lo.”

“Oh, bem”, disse Bathsheba, descuidadamente, “talvez seja injusto não


lê-lo, mas eu posso adivinhar sobre o que é. Quer que eu o recomende, ou é
para me dizer de algum pequeno escândalo ou outro com relação aos meus
empregados. Ele está sempre fazendo isso.”
Bathsheba segurou o bilhete em sua mão direita. Boldwood entregou para
ela um prato de pão com manteiga, quando, ao pegar uma fatia, ela passou o
bilhete para sua mão esquerda, com a qual segurava sua bolsa. Depois deixou
a mão cair ao lado do seu corpo, perto da lona. Chegara o momento para Troy
salvar o seu jogo, e, impulsivamente sentiu que ele daria uma cartada. Mais
uma vez ele olhou para a mão clara de Bathsheba e viu as pontas rosadas dos
seus dedos, as veias azuis do pulso, rodeado por uma pulseira de fragmentos
de corais que ela usava: como tudo era familiar para ele! Então, como a ação
de um relâmpago, silenciosamente deslizou a mão sob a parte inferior da
tenda, que não estava bem fixada, levantou-a um pouco, mantendo seu olho
no buraco, arrebatou o bilhete de seus dedos, deixou cair a lona, e fugiu na
escuridão em direção ao banco e a vala, sorrindo para o grito de espanto que
ela soltou. Troy, em seguida, deslizou para o lado de fora da trincheira,
correu para o fundo à distância de cem jardas, subiu novamente, e cruzou
corajosamente em uma caminhada lenta em direção à entrada da frente da
tenda. Seu objetivo agora era chegar a Pennyways, e evitar uma repetição do
anúncio até o momento em que ele escolhesse.

Troy chegou à porta da tenda e, ficando entre os grupos ali reunidos,


procurou ansiosamente por Pennyways, evidentemente não desejando tornar-
se visível perguntando por ele. Um ou dois homens estavam falando de uma
tentativa ousada que acabara de acontecer para roubar uma jovem, levantando
a lona da tenda ao lado dela. Supõe-se que o malandro tinha imaginado que
um pedaço de papel que ela tinha na mão fosse um dinheiro, pois o havia
tomado e fugido com ele, deixando sua bolsa para trás. Seu desgosto e
decepção ao descobrir sua inutilidade seria uma boa piada, dizia-se. No
entanto, a ocorrência parecia ter se tornado conhecida por poucos, pois não
tinha interrompido um violinista, que começou a tocar pela porta da tenda,
nem os quatro velhos corcundas com rostos sombrios e bengalas nas mãos,
que dançavam ao som de “Major Malley's Reel”. Atrás deles estava
Pennyways. Troy correu até ele, acenou, e sussurrou algumas palavras, e com
um olhar mútuo de concordância os dois homens saíram pela noite juntos.
CAPÍTULO LI
BATHSHEBA CONVERSA COM O
CAVALEIRO QUE A ESCOLTA

O acerto para voltar para Weatherbury fora que Oak deveria tomar o lugar
de Poorgrass no transporte de Bathsheba e levá-la para casa, descobrindo-se
no final da tarde que Joseph estava sofrendo do que sempre reclamava, um
olho multiplicador e estava, portanto, pouco confiável como cocheiro e
protetor de uma mulher. Oak, contudo, viu-se tão ocupado, pois estava cheio
de tantos cuidados relativos aos rebanhos de Boldwood que não foram
vendidos que Bathsheba, sem falar com ele ou mais alguém, resolveu ir para
casa sozinha como fez muitas vezes do Mercado de Casterbridge, e confiar
em seu bom anjo para realizar a viagem sem ser molestada. Mas, ao encontrar
com o fazendeiro Boldwood acidentalmente (por parte dela, pelo menos) na
tenda de refrescos, descobriu que era impossível recusar a oferta dele para
cavalgar ao lado dela como escolta. O crepúsculo chegou antes do que ela
percebesse, mas Boldwood assegurou-lhe que não havia motivo para
inquietação, pois a lua apareceria em meia hora.

Imediatamente após o incidente na tenda, ela se levantou para ir embora,


absolutamente alarmada e muito grata pela proteção de seu antigo admirador
e, embora lamentando a ausência de Gabriel, cuja companhia era preferível
como sendo mais adequada, bem como mais agradável, uma vez que era seu
próprio administrador e empregado. Ela não iria, em qualquer consideração,
tratar Boldwood duramente, tendo uma vez já lhe causado tão mal e, como a
lua apareceu e o transporte estava pronto, atravessou a colina pelo caminho
que levava para baixo. A obscuridade alheia, como parecia, que a lua e a
colina inundada de luz era como planície, o resto do mundo encontrava-se
como um vasto côncavo com uma sombra entre eles. Boldwood montou em
seu cavalo e seguiu logo trás. Assim que chegaram às terras baixas, os sons
dos que ficaram na colina vinham como vozes do céu e as luzes eram como
as de um acampamento no paraíso. Logo passaram os retardatários alegres
nas imediações da colina, atravessaram Kingsbere e chegaram à estrada alta.

Os instintos aguçados de Bathsheba perceberam que a devoção


incondicional do fazendeiro para com ela ainda estava intacta e que aquilo a
agradava profundamente. A visão daquilo a tinha deixado muito triste
naquela noite. Lembrou-a de sua loucura e desejou de novo, como desejava
há muitos meses, ter meios de reparar sua culpa. Então sua piedade pelo
homem que a amava com tamanha persistência; a sua própria injúria e
permanente melancolia, fez com que Bathsheba agisse novamente com
precipitação. Uma urgência respeitosa, que mais parecia como ternura, deu
um novo vigor ao sonho requintado de trabalho por sete anos de um Jacó na
pobre mente de Boldwood.

Ele logo encontrou uma desculpa para o avanço de sua posição na parte
traseira e caminhava ao lado dela. Tinham percorrido duas ou três milhas ao
luar, falando enfastiadamente através da condução do coche dela, sobre a
feira, sobre agricultura, a utilidade de Oak para os dois e outros assuntos
indiferentes, quando Boldwood simplesmente disse, de repente:

“Mrs. Troy, vai se casar de novo algum dia?”

Aquela consulta à queima-roupa, inequivocamente, a confundiu e nem


um minuto ou mais depois ela disse:

“Não tenho pensado seriamente em tal assunto.”

“Entendo perfeitamente. No entanto, o seu falecido marido já se foi há


quase um ano...”

“Não se esqueça que sua morte não foi absolutamente comprovada e pode
não ter ocorrido, de modo que posso não ser realmente uma viúva”,
complementou ela, pegando a rota de fuga que o fato proporcionava.

“Não foi absolutamente comprovado, talvez, mas provou-se


circunstancialmente. Um homem o viu se afogando e também nenhuma
pessoa razoável tem qualquer dúvida da sua morte. Nem você, minha
senhora, eu deveria imaginar.”

“Não tenho nenhuma agora ou teria agido de forma diferente”, disse ela,
delicadamente. “É claro que a princípio eu tinha um sentimento inexplicável
e estranho que ele não poderia ter morrido, mas sou capaz de explicar de
várias maneiras desde então. Mas, embora esteja plenamente convencida de
que não o verei mais, estou longe de pensar em casamento com outro. Seria
ser muito desprezível ter tal pensamento.”

Ficaram em silêncio por algum tempo e chegando numa faixa não


frequentada de uma área comum, os rangidos da sela de Boldwood e as molas
do veículo dela era tudo que se ouvia. Boldwood terminou a pausa:

“Lembra-se de quando a carreguei desmaiada em meus braços para


King’s Arms, em Casterbridge? Todo cão tem seu dia, o meu foi aquele.”

“Eu sei... sei de tudo isso”, disse ela apressadamente.

“Eu, por exemplo, nunca deixarei de lamentar os acontecimentos que a


tiraram de mim.”

“Também fico muito triste”, disse ela, e depois se conteve. “Quero dizer,
você sabe, sinto muito pelo que pensou de mim.”

“Sempre tenho esse prazer triste em pensar sobre aqueles tempos


passados com você... que eu era alguma coisa para você antes que ele fosse
alguma coisa, e que quase me pertenceu. Mas, é claro, isso não é nada. Você
nunca gostou de mim.”

“Gostei, e o respeitei também.”

“E agora?”

“Sim.”

“Qual deles?”

“O que quer dizer com qual?”


“Gosta de mim ou me respeita?”

“Não sei, pelo menos não posso lhe dizer. É difícil para uma mulher
definir seus sentimentos na linguagem que é, principalmente, feita para os
homens se expressarem. A forma com o tratei foi impensada, indesculpável,
má! Arrependerei-me eternamente. Se houvesse alguma coisa que eu pudesse
ter feito para fazer as pazes, teria feito com prazer... não havia nada no
mundo que eu desejasse mais do que reparar meu erro. Mas isso não era
possível.”

“Não se culpe. Não errou tanto como imagina. Bathsheba, suponha que
tivesse a prova real completa do que é, na verdade que está... viúva...
repararia o velho erro casando-se comigo?”

“Não posso dizer. De qualquer forma, não deveria.”

“Mas poderia em algum momento futuro de sua vida?”

“Oh, sim, poderia, em algum momento.”

“Bem, então você sabe que, sem mais uma prova de qualquer tipo que
pode se casar novamente em cerca de seis anos a partir da data atual, sujeita a
nenhuma objeção ou culpa?”

“Ah, sim”, concordou ela rapidamente. “Sei de tudo isso. Mas não vamos
falamos disso — seis ou sete anos — onde estaremos a essa altura?”

“Eles passarão logo e parecerá um tempo surpreendentemente curto para


olhar para trás, muito menos do que olhar para frente agora.”

“Sim, sim, descobri por experiência própria.”

“Agora ouça mais uma vez”, implorou Boldwood. “Se eu esperar tanto
tempo, se casará comigo? Você já possui o que você me deve... deixe que
seja a sua maneira de desculpar-se.”

“Mas, Mr. Boldwood... seis anos...”

“Quer ser a esposa de qualquer outro homem?”


“De jeito nenhum! Quer dizer, não quero falar sobre esse assunto agora.
Talvez não seja adequado e eu não deveria permitir. Vamos esquecê-lo. Meu
marido pode estar vivo, como eu disse.”

“Claro, esquecerei o assunto se quiser. Mas decoro nada tem nada a ver
com razões. Sou um homem de meia-idade, disposto a protegê-la para o resto
de nossas vidas. Pelo seu lado, pelo menos, há paixão ou precipitação
censurável; para mim talvez haja. Mas não posso deixar de ver que se você
escolher a partir de um sentimento de piedade e como diz, um desejo de
reparação fazendo uma barganha comigo para o futuro, um acordo que
acertará todas as coisas direito e me fará feliz, embora possa ser tarde, não há
nada de errado em estar com você como uma mulher. Não fui o primeiro ao
seu lado? Quase não foi minha uma vez? Certamente pode dizer tanto quanto
sobre mim, me terá de volta caso as circunstâncias o permitam? Agora, por
favor, fale! Oh, Bathsheba, é apenas uma pequena promessa que se você se
casar de novo será comigo!”

Seu tom era tão animado que ela quase teve medo dele naquele momento,
mesmo enquanto o compreendia. Foi um simples medo físico do fraco pelo
forte. Não havia nenhuma aversão emocional ou repugnância interior. Ela
disse, com alguma aflição na voz por lembrar-se vividamente de sua explosão
na estrada de Yalbury e encolheu a uma repetição da sua ira:

“Jamais me casarei com outro homem enquanto me quiser como sua


esposa, aconteça o que acontecer... mas não falemos mais disso... você me
surpreendeu...”

“Mas deixe repousar estas simples palavras: dentro de seis anos será
minha esposa? Não mencionemos acidentes inesperados, porque estes, é
claro, devem ser respeitados. Desta vez sei que manterá sua palavra.”

“É por isso que hesito em dar-lhe.”

“Por favor, dê! Lembre-se do passado e seja gentil.”

Ela respirou e depois disse com tristeza:

“Oh, o que posso fazer? Não o amo e tenho muito medo de que nunca o
ame tanto quanto uma mulher deve amar um marido. Se sabe disso e ainda
posso dar-lhe a felicidade por uma mera promessa de casamento no final de
seis anos se meu marido não voltar, é uma grande honra para mim. E se
valoriza tamanho ato de amizade de uma mulher que não se estima e tem
pouco amor sobrando, por que eu... eu...”

“Prometa!”

“... Considerarei, se não puder prometer em breve.”

“Mas logo, talvez, signifique nunca mais?”

“Oh não, não! Quero dizer em breve. Vamos dizer no Natal.”

“No Natal!”, ele não disse mais nada até que acrescentou: “Bem, não direi
mais nada sobre isso até lá.”

Os pensamentos de Bathsheba estavam num estado muito peculiar que


mostravam como a alma é inteiramente escrava do corpo, o espírito etéreo
dependente de sua qualidade sobre a carne e sangue tangíveis. Dificilmente é
demais dizer que ela se sentiu coagida por uma força maior do que sua
própria vontade, não só no ato de prometer sobre este assunto singularmente
remoto e vago, mas na emoção de imaginar que devia prometer. Quando as
semanas que se interpunham entre a noite desta conversa e o dia de Natal
começaram a diminuir perceptivelmente, sua ansiedade e perplexidade
aumentaram.

Um dia, ela foi conduzida por acidente a um diálogo estranhamente


confidencial com Gabriel sobre sua dificuldade. Aquilo lhe deu um certo
alívio, mas de um tipo aborrecido e triste. Estavam auditando as contas e algo
ocorreu no curso de seus trabalhos que levaram Oak a falar de Boldwood:

“Ele nunca a esquecerá, Madame, nunca.”

Em seguida, o problema dela apareceu antes que percebesse e contou-lhe


como caíra novamente na armadilha, o que Boldwood havia pedido e como
estava esperando seu consentimento.
“A razão mais triste de todas para concordar com ele”, ela disse com
tristeza, “e a verdadeira razão pela qual acho que farei por bem ou por mal, é
esta... é uma coisa que não contei a uma viva alma ainda... Acredito que se eu
não der a minha palavra, ele enlouquecerá.”

“Realmente, acha mesmo?”, perguntou Gabriel, gravemente.

“Acredito que sim”, continuou ela, com franqueza imprudente; “e Deus


sabe que digo isso num espírito completamente inverso ao da vaidade, pois
estou aflita e perturbada até a alma com isso. Creio que o futuro daquele
homem esteja na minha mão. Seu futuro depende inteiramente do meu
tratamento para com ele. Oh, Gabriel, estremeço com minha
responsabilidade, pois é terrível!”

“Bem, acho, senhora, o mesmo que disse anos atrás”, disse Oak, “que a
vida dele será um vazio total se não tiver esperanças por você, mas não posso
supor... Espero que nada tão terrível esteja ligado a isso como imagina. Sua
maneira natural sempre foi sombria e estranha, você sabe. Mas como o caso é
tão triste e esquisito, por que não dá uma promessa condicional? Acho que eu
faria assim.”

“Mas é certo? Alguns atos imprudentes do meu passado me ensinaram


que uma mulher observada deve ter muito cautela para manter pelo menos
um pouco de crédito, e realmente quero e desejo ser discreta com isso! E seis
anos... porque todos nós podemos estar em nossos túmulos até lá, mesmo se
Mr. Troy não voltar, o que pode não ser impossível que aconteça! Tais
pensamentos dão uma espécie de ideia absurda ao acordo. Não é absurdo,
Gabriel? Enquanto ele sonha com isso, não posso nem imaginar. Mas é
errado? Você sabe... é mais velho do que eu.”

“Oito anos mais velho, patroa.”

“Sim, oito anos... e é errado?”

“Talvez seja um acordo incomum feito entre um homem e uma mulher:


não vejo nada de realmente errado nisso”, opinou Oak, lentamente. “Na
verdade, o que exatamente faz com que seja duvidoso que deva se casar sob
qualquer condição é que você não gosta dele, pois acho...”
“Sim, pode achar que falta amor”, disse ela. “O amor foi totalmente
deixado para trás, desculpe-me, desgastado, uma tristeza para mim, para ele
ou qualquer outra pessoa.”

“Bem, sua falta de amor parece-me a única coisa danosa de tal acordo
com ele. Se houvesse um calor selvagem, fazendo-a desejar superar a
estranheza sobre o desaparecimento do seu marido, então estaria errado, mas
um acordo de coração frio, compromentendo-se com um homem parece
diferente, de alguma forma. O verdadeiro pecado, senhora, em minha
opinião, encontra-se no pensamento de se casar com um homem que não ama
honesta e verdadeiramente.”

“Que estou disposta a pagar por isso”, disse Bathsheba com firmeza.
“Sabe, Gabriel, é isto que eu não consigo tirar da minha consciência, que o
feri uma vez seriamente por pura futilidade. Se eu nunca tivesse feito aquela
brincadeira, ele nunca iria querer se casar comigo. Oh, se ao menos eu
pudesse pagar os danos em dinheiro, pagar pelo mal que eu fiz e assim
remover o pecado da minha alma!... Bem, há a dívida, e só pode ser quitada
de uma maneira, e creio que eu sou obrigada fazer isso; se honestamente se
encontra em meu poder, sem qualquer consideração de meu próprio futuro,
devo fazê-lo. Quando um farrista atira suas expectativas para longe, o fato de
ser uma dívida inconveniente não o torna menos responsável. Eu fui a farrista
e o único ponto que pode ser considerado são os meus próprios escrúpulos.
Mas, o fato é que, aos olhos da lei, o meu marido está apenas desaparecido e
eu não posso me casar com qualquer homem até que sete anos se passem.
Estou livre para acolher tal ideia, mesmo que seja uma espécie de penitência,
pois não será isso? Eu odeio o ato do casamento em tais circunstâncias e é a
classe das mulheres a qual parecerei pertencer ao fazê-lo!”

“Parece-me que tudo depende de como você pensa, como todo mundo
faz, que o seu marido está morto.”

“Sim... faz muito tempo que deixei de duvidar disso. Sei muito bem o que
o teria trazido de volta há muito tempo se estivesse vivo.”

“Bem, então, no sentido religioso, você será tão livre para pensar em se
casar novamente como qualquer viúva real dentro de um ano. Mas, por que
não pede um conselho a Mr. Thirdly sobre como tratar Mr. Boldwood?”
“Não. Quando quero uma opinião de mente aberta para esclarecimento
comum, diferente de um conselho especial, jamais iria a um homem que lida
com o assunto profissionalmente. Também gosto da opinião do pároco sobre
a lei, do advogado sobre a advocacia, do doutor para os negócios, e de meu
administrador para a moral, que é você.”

“E no amor...”

“Em mim mesma.”

“Tenho medo que haja um obstáculo a este argumento”, disse Oak, com
um sorriso preocupado.

Ela não respondeu imediatamente, e então disse:

“Boa noite, Mr. Oak.” E foi embora.

Ela falou francamente, não solicitou e nem esperava qualquer resposta de


Gabriel mais satisfatória do que havia recebido. No entanto, no mais íntimo
de seu coração complicado, existia naquele minuto uma pequena pontada de
decepção, por um motivo que não se permitiria reconhecer. Oak nunca
desejou que ela estivesse livre para que ele mesmo pudesse se casar com ela,
nem nunca disse: “Eu poderia esperar por você, assim como ele.” Aquilo era
estranho. Não que ela ouviria tal hipótese. Ah, não... pois, não foi ela mesma
que dizia o tempo todo que tais pensamentos sobre o futuro eram
inapropriados? Gabriel, sobretudo, não era um homem muito pobre para falar
de sentimentos com ela? No entanto, ele pode ter apenas insinuado sobre esse
antigo amor e perguntado em tom brincalhão se podia falar sobre isso.
Pareceria belo e doce, e nada mais, e então ela teria mostrado como o “não”
de uma mulher, às vezes, pode ser gentil e inofensivo. Mas dar tal conselho
— exatamente aquele que ela havia pedido — irritou nossa heroína durante
toda a tarde.
CAPÍTULO LII
CAMINHOS CONVERGENTES

A véspera do Natal chegou e uma festa que Boldwood estava oferecendo à


noite era o grande assunto das conversas em Weatherbury. Não era a raridade
das festas de Natal na paróquia que fazia a de Boldwood uma maravilha, mas
era por que ele era o anfitrião. O anúncio tinha um som anormal e
incongruente, como se soubessem de um jogo de croqué num corredor da
catedral ou que algum juiz muito respeitado subiria num palco. Que a festa se
destinava a ser verdadeiramente jovial não havia margem para dúvidas. Um
grande galho de visco fora trazido da floresta naquele dia e suspenso no salão
da casa do homem solteiro. Azevinho e hera seguiam às braçadas. Das seis
daquela manhã até o meio-dia o fogo enorme na cozinha rugia e faiscava alto:
a chaleira, panela e o caldeirão aparecendo no meio das chamas como
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego.[30] Além disso, assados e banhos de
temperos eram operações realizadas continuamente na frente do fogão.

Conforme ficava mais tarde, o fogo foi aceso no grande e amplo salão, no
qual a escada descia e tudo que pudesse atrapalhar foi esvaziado para a dança.
A lenha que formaria a marca do fogo da noite era um tronco sem rachaduras
de uma árvore, tão pesado que não poderia ser nem trazido nem rolado para o
seu lugar e, consequentemente, dois homens foram vistos arrastando-o e
erguendo-o por correntes e alavancas conforme a hora da montagem se
aproximava.

Apesar de tudo isso, o espírito festivo estava ausente na atmosfera da


casa. Seu proprietário nunca se aventurara antes por tal coisa e agora fora
feito como que com tristeza. O esplendor intencional insistia em aparecer
como grandezas solenes; a organização de todo o esforço foi realizado com
frieza por mercenários e uma sombra parecia mover-se sobre os quartos,
dizendo que o processo era natural para o lugar e o homem solitário que vivia
nele e, portanto, não era bom.

***

Perto dali, Bathsheba estava em seu quarto vestindo-se para o evento.


Tinha pedido velas e Liddy entrou e colocou uma de cada lado do espelho da
patroa.

“Não vá embora, Liddy”, pediu Bathsheba quase timidamente. “Estou


loucamente agitada, não sei a razão. Queria não ter sido obrigada a ir a este
baile, mas não há como escapar. Não falo com Mr. Boldwood desde o
outono, quando prometi vê-lo no Natal a negócios, mas não tinha ideia de que
seria qualquer coisa desse tipo.”

“Pois eu gostaria de ir”, disse Liddy, que ia com ela. Boldwood foi
indiscriminado em seus convites.

“Sim, estarei presente, é claro”, disse Bathsheba. “Mas sou a causa da


festa e isso me irrita! Não fale nada, Liddy.”

“Oh, não, Madame. É a causa dela, minha senhora?”

“Sim. Eu sou a razão da festa. Se não fosse por mim, ela nunca
aconteceria. Eu não posso explicar mais... não há mais nada a ser explicado.
Queria nunca ter visto Weatherbury.”

“Isso é maldade da sua parte, desejar estar pior do que está.”

“Não, Liddy. Nunca estive livre de problemas desde que moro aqui, e esta
festa é provável que me traga mais. Agora, pegue meu vestido de seda preta e
veja como ele fica em mim.”

“Mas vai de luto, Madame? Está viúva há quatorze meses e deve


iluminar-se um pouco numa noite como esta.”

“É necessário? Não! Aparecerei como de costume, porque se eu usar


qualquer vestido claro, as pessoas falariam de mim e pareceria que eu estava
me regozijando quando estou solene o tempo todo. A festa não é nem um
pouco adequada para mim, mas não importa, ficarei e acabarei com tudo.”

***

Voltando à casa de Boldwood, ele também estava se vestindo àquela


hora. Um alfaiate de Casterbridge estava com ele, ajudando-o na operação de
provar um novo traje que acabara de ser levado para casa.

Boldwood nunca fora tão exigente, exagerado sobre o ajuste e difícil de


agradar. O alfaiate andava em volta dele, apertava a cintura, puxava a manga,
apertava o colarinho e, pela primeira vez em sua experiência, Boldwood não
estava entediado. Houve vezes em que o fazendeiro havia exclamado contra
todas essas sutilezas infantilmente, mas naquele momento, nenhuma
repreensão filosófica ou apressada o provocaria para prender tanta
importância a um vinco no casaco como um terremoto na América do Sul.
Boldwood finalmente expressou-se quase satisfeito e pagou a conta; o
alfaiate foi embora assim que Oak entrou para relatar o progresso do dia.

“Oh, Oak”, disse Boldwood. “É claro que vou vê-lo aqui esta noite.
Alegre-se. Estou determinado: nem despesas nem problemas me tirarão a
paz.”

“Vou tentar estar aqui, senhor, embora talvez não muito cedo”, informou
Gabriel, em voz baixa. “Estou feliz, de fato, por ver essa sua mudança de que
costumava ser.”

“Sim, tenho que reconhecer. Estou radiante esta noite! Alegre e mais do
que alegre, tanto que quase fico triste novamente com a sensação de que tudo
isso está passando. E, às vezes, quando estou excessivamente esperançoso e
contente, sinto que um problema está se aproximando, de modo que, muitas
vezes, começo a buscar a melancolia em mim, pois temo está feliz. Ainda que
possa ser um absurdo, sinto que é mesmo absurdo. Talvez, finalmente, a
minha hora esteja chegando.”

“Espero que seja longa e justa.”

“Obrigado, obrigado. Mas, talvez, a minha alegria repouse sobre uma


esperança delgada. E ainda assim confio na minha esperança. É fé, não
esperança. Acho que desta vez não conto com os riscos. Oak, minhas mãos
estão um pouco trêmulas ou coisa assim. Não posso amarrar este lenço de
pescoço adequadamente. Talvez você possa amarrá-lo para mim. O fato é que
eu não tenho me sentido bem ultimamente, sabe.”

“Sinto muito por ouvir isso, senhor.”

“Oh, não é nada. Quero que faça o melhor que puder, por favor. Existe
algum nó na moda, Oak?”

“Não sei, senhor”, respondeu Oak. Seu tom tinha afundado em tristeza.

Boldwood aproximou-se de Gabriel e, enquanto Oak amarrava o lenço de


pescoço, o fazendeiro continuou em tom febril:

“Será que uma mulher cumpre sua promessa, Gabriel?”

“Se não for inconveniente para ela, sim.”

“... Ou uma promessa implícita.”

“Não vou responder por ela”, disse Oak com fraca amargura. “Essa
palavra é com tantos furos quanto uma peneira.”

“Oak, não fale assim. Anda muito cínico ultimamente... por quê? Parece
que mudamos as nossas posições: eu me tornei o homem jovem e
esperançoso, e você, um velho e incrédulo. No entanto, uma mulher cumpre
uma promessa, não de se casar, mas de comprometer-se a se casar algum
momento? Você conhece as mulheres melhor do que eu... diga-me.”

“Está honrando o meu conhecimento. No entanto, ela pode cumprir essa


promessa se for feita com um sentido honesto de reparar um erro.”

“Ainda não chegamos aí, mas acho que chegaremos em breve, sim, sei
que vamos”, disse ele num sussurro impulsivo. “Eu a pressionei sobre o
assunto, e ela se dispõe a ser gentil comigo e pensar em mim como um
marido no futuro, e isso é suficiente para mim. Como posso esperar mais? Ela
tem uma noção de que uma mulher não deve se casar dentro de sete anos do
desaparecimento de seu marido, o que não deveria mesmo, quero dizer,
porque seu corpo não foi encontrado. Pode ser apenas essa razão legal que a
influencie, ou pode ser um motivo religioso, mas ela está relutante em falar
sobre o ponto. No entanto, ela prometeu... deu indícios... que irá ratificar um
compromisso esta noite.”

“Sete anos”, murmurou Oak.

“Não, não! Não é assim!”, ele disse, com impaciência. “Cinco anos, nove
meses e alguns dias. Quinze meses quase se passaram desde que ele
desapareceu, e não há nada tão maravilhoso num compromisso de pouco
mais de cinco anos?”

“Parece muito tempo olhando para frente. Não espere muito sobre tais
promessas, senhor. Lembre-se, já foi enganado uma vez. A intenção dela
pode ser boa, mas... ela ainda é jovem.”

“Enganados? Nunca!”, disse Boldwood, com veemência. “Ela nunca me


prometeu naquela primeira vez, e, portanto, não quebrou sua promessa! Se
ela me prometer, se casará comigo. Bathsheba é uma mulher que cumpre sua
palavra.”

***

Troy estava sentado num canto da taverna White Hart, em Casterbridge,


fumando e bebendo uma mistura fumegante de um copo. Bateram à porta e
Pennyways entrou.

“Bem, você o viu?”, perguntou Troy, apontando para uma cadeira.

“Boldwood?”

“Não... o advogado Long.”

“Ele não estava em casa. Fui lá em primeiro lugar, também.”

“Isso é um incômodo.”

“Sim, também acho.”


“No entanto, não vejo assim, porque um homem parece que se afogou e
não deve ser responsabilizado por qualquer coisa. Não vou perguntar a
qualquer advogado”, disse Troy.

“Mas não é isso, exatamente. Se um homem muda seu nome e assim por
diante, e toma medidas para enganar o mundo e sua própria esposa, ele é uma
fraude, e que aos olhos da lei é mais que um ladino, e que não é menos que
um vagabundo, e isso é uma situação punível.”

“Ha-ha! Muito bem, Pennyways”, Troy riu, mas foi com alguma
ansiedade que disse: “Agora, o que quero saber é o seguinte, você acha que
não há realmente nada acontecendo entre ela e Boldwood? Por minha alma,
eu nunca deveria ter acreditado! Como ela deve me detestar! Descobriu se ela
tem dado espaço a ele?”

“Não fui capaz de saber. Parece que há muito sentimento por parte dele,
mas não sei por parte dela. Não soube uma palavra sequer sobre qualquer
coisa até ontem, e tudo que eu ouvi foi que ela iria à festa na casa dele esta
noite. Dizem que esta é a primeira vez que ela vai lá. E dizem que não tem
falado muito com ele desde que estiveram em Greenhill Fair. Mas pode-se
acreditar no que as pessoas falam? No entanto, ela não está apaixonada por
ele, muito arisca e desinteressada, pelo que sei.”

“Não tenho tanta certeza disso... Ela é uma mulher bonita, Pennyways,
não é? Admita que você nunca viu uma criatura mais fina ou mais esplêndida
em sua vida. Por minha honra, quando eu pus os olhos nela naquele dia, me
perguntei como pude ser capaz de deixá-la sozinha por tanto tempo. E então
fui prejudicado com aquele espetáculo entediante, do qual estou livre,
finalmente, graças às estrelas”, fumou um pouco e depois acrescentou:
“Como ela estava quando passou por ela ontem?”

“Oh, ela não prestou muita atenção em mim, você pode imaginar, mas
parecia muito bem, até onde eu sei. Apenas piscou os olhos altivos sobre o
meu pobre corpo e depois passou por mim como se eu não passasse de uma
árvore sem folhas. Tinha acabado de descer de sua égua para ver a última
prensa de sidra do ano. Esteve cavalgando, então suas cores estavam fortes e
sua respiração era bem rápida, de modo que o peito se estufava e abaixava,
estufava e abaixava o tempo todo que eu olhei. Ah, e havia os rapazes em
volta dela espremendo o queijo, correndo em volta dela e dizendo: ‘Cuidado
com as maçãs, senhora, vai estragar seu vestido.’ ‘Não importa’, dizia ela.
Então Gabe trouxe um pouco de sidra e ela tinha que beber por um canudo, e
não de uma forma natural. ‘Liddy’, disse ela, ‘leve alguns galões para dentro
e vou fazer um pouco de vinho de sidra.’

“Tenho que encontrá-la de uma vez... Oh, sim, eu sei... tenho que ir. Oak
ainda é quem está à frente, não é?”

“Sim, creio eu. E em Little Weatherbury Farm também. Ele toma conta
de tudo.”

“Tomar conta dela o intriga, ou qualquer outro homem de seu limite!”

“Não sei disso. Ela não pode ficar sem ele, e sabe muito bem que ele é
muito independente. E ela tem lugares suaves para ele em sua mente, embora
eu nunca fui capaz num deles, diabos!”

“Ah, capataz, ela está acima de você, e tem que assumir isso: uma classe
superior de animal, um tecido mais fino. No entanto, junte-se a mim e não
será esta deusa altiva, de feminilidade vistosa, Juno minha esposa (Juno era
uma deusa, sabe), nem ninguém lhe fará dano algum. Mas tudo isso precisa
de atenção, pelo que percebo. Com uma coisa e outra.”

“Vejo que meu trabalho é ideal para mim”, disse o capataz.

***

“Como estou esta noite, Liddy?”, perguntou Bathsheba, dando um ajuste


final no seu vestido antes de sair da frente do espelho.

“Nunca a vi tão bem antes. Sim, vou lhe dizer quando esteve assim:
naquela noite, um ano e meio atrás, quando veio tão ferozmente e nos
repreendeu por fazer observações sobre você e Mr. Troy.”

“Todos vão pensar que estou me dedicando a cativar Mr. Boldwood,


suponho”, murmurou ela. “Pelo menos é o que vão dizer. Meu cabelo não
pode ser escovado para que fique mais liso? Estou com medo de ir, mas temo
o risco de feri-lo por ficar longe.”

“De qualquer forma, minha senhora, não pode se vestir com mais
simplicidade do que como está, a menos que use um saco. É o seu entusiasmo
que a faz parecer tão notável esta noite.”

“Eu não sei qual é o problema, me sinto triste num momento e flutuante
em outro. Queria poder ter continuado sozinha como fui pelo último ano ou
assim, sem esperança, sem medos, sem prazer e sem dor.”

“Agora só imagine que Mr. Boldwood deve pedir-lhe — só imagine —


para fugir com ele. O que faria, senhora?”

“Liddy... nada disso”, disse Bathsheba gravemente. “Não vou ouvir


piadas sobre qualquer assunto. Você ouviu?”

“Peço perdão, senhora. Mas sabendo o quanto nós, mulheres, somos


diferentes, eu apenas disse... No entanto, não vou falar sobre isso
novamente.”

“Nada de casamento para mim ainda por muitos anos, e se um dia


acontecer será por razões muito, muito diferentes daquelas que você pensa ou
que os outros acreditam. Agora pegue meu manto, pois está na hora de ir!”

***

“Oak”, disse Boldwood, “antes que vá, gostaria de mencionar o que se


passa na minha cabeça ultimamente... aquele pequeno acerto que fizemos
sobre a sua participação na fazenda, quero dizer. Aquela parte é pequena,
muito pequena, considerando o pouco que lido com os negócios agora, e o
quanto tempo e preocupação você dá a ele. Bem, uma vez que o mundo está
se iluminando para mim, quero mostrar o meu sentimento aumentando a sua
parte na parceria. Farei um memorando do acerto que me pareceu provável
que seja conveniente, porque eu não tenho tempo para falar sobre isso agora,
e então vamos discutir isso no nosso tempo livre. Minha intenção
recentemente é me aposentar da administração completamente, e até que você
possa tomar todas as despesas sobre os seus ombros, passarei o tempo
dormindo. Então, se me casar com ela, o que eu espero, acho que devo, por
que...”

“Por favor, não fale sobre isso, senhor”, pediu Oak apressadamente. “Não
sabemos o que pode acontecer. Tantas ruínas podem acontecer... Há muitos
deslizes, como dizem, e aconselho-o... eu sei se você vai me perdoar por isso
dessa vez... não tenha tanta certeza.”

“Eu sei, eu sei. Mas a sensação que tenho sobre o aumento de sua parte é
por causa do que sei de você. Oak, sei um pouco do seu segredo: o seu
interesse por ela é mais que o de um administrador pela patroa. Mas se
comportou como um homem, e eu, como uma espécie de rival bem-sucedido,
em parte, através de sua bondade de coração... gostaria definitivamente de
demonstrar o meu sentimento pela sua amizade, sobre o que deve ter sido
uma grande dor para você.”

“Oh, não há necessidade, obrigado”, agradeceu Oak apressadamente.


Tenho que me acostumar com isso; outros homens conseguem, e assim será
comigo.”

Em seguida Oak o deixou. Estava inquieto por causa de Boldwood, pois


viu novamente que a paixão constante do fazendeiro fizera dele um homem
diferente do que fora uma vez.

Como Boldwood continuou por algum tempo em seu quarto, sozinho,


pronto e vestido para receber a sua acompanhante — o clima de ansiedade
sobre sua aparência parecia ter passado e sucedido por uma profunda
solenidade. Olhou para fora da janela e considerou o contorno escuro das
árvores sobre o céu e o crepúsculo aprofundando a escuridão.

Então foi a um armário trancado e tirou de uma gaveta fechada uma


pequena caixa circular, do tamanho de uma caixa de comprimidos, e estava
prestes a colocá-la no bolso. Mas, demorou em abrir a tampa e dar uma
olhada momentânea dentro. Continha um anel feminino, cravejado por toda a
volta com pequenos diamantes e, pela sua aparência, evidentemente havia
sido comprado recentemente. Os olhos de Boldwood debruçaram-se sobre
seus muitos brilhos por um longo tempo, embora seu aspecto material o
preocupasse um pouco, isso era simples em sua forma, entretanto, rebuscado
no aspecto de uma mente que seguia a linha presumida para a história do
futuro daquela jóia.

O ruído de rodas na frente da casa se tornou audível. Boldwood fechou a


caixa, guardou-a com cuidado no bolso e foi até até a janela olhar o
desembarque. O velho, que era o seu ajudante geral no interior da casa, foi no
mesmo momento ao pé da escada.

“Estão chegando, senhor. Muitos, a pé e de condução!”

“Eu já estava descendo. Estas rodas que ouvi, são de Mrs. Troy?”

“Não, Sir... ainda não é ela.”

Uma expressão reservada e sombria retornou ao rosto de Boldwood


novamente, mas, mal camuflou seus sentimentos, quando ele pronunciou o
nome de Bathsheba a sua ansiedade febril continuou a mostrar sua existência.
Pelo movimento de seus dedos sobre o lado de sua coxa, enquanto descia as
escadas, via-se o seu estado de tensão.

***

“Como isso me cobre?”, perguntou Troy a Pennyways. “Tenho certeza


que ninguém me reconheceria agora.”

Ele estava abotoando um sobretudo cinza pesado, com capa e gola altas,
sendo esta última ereta e rígida, como uma parede côncava e quase chegando
à beira de um chapéu de viagem que foi puxado para baixo sobre suas
orelhas.

Pennyways apagou a vela e em seguida olhou para cima e


deliberadamente inspecionou Troy.

“Então decidiu ir?”, perguntou ele.

“Decidi-me? Sim, é claro que sim.”

“Por que não escreve para ela? Está numa situação muito esquisita,
Sargento. Sabe que todas estas coisas virão à luz se você voltar e elas não são
tão boas. Sim, se eu fosse você, aguardaria como está, um solteiro com o
nome de Francis. Uma boa esposa é bom, mas a melhor esposa não é tão bom
como não ter nenhuma. É isso que penso e sou chamado de astuto aqui e ali.”

“É tudo um absurdo!”, disse Troy, com raiva. “Lá está ela com tanto
dinheiro, uma casa e uma fazenda, cavalos, conforto, e aqui estou eu vivendo
na miséria, um aventureiro necessitado. Além disso, não adianta falar agora, é
tarde demais e estou contente com isso. Fui visto e reconhecido aqui esta
tarde. Deveria ter voltado para ela no dia após a feira se não fosse por você
falando sobre a lei e aquele lixo sobre conseguir uma separação. Não vou
adiar isso por mais tempo. Que diabo me deu na cabeça para fugir, não
entendo! Um sentimento idiota, isso é o que foi. Mas, que homem no mundo
saberia que sua esposa teria com tanta pressa para se livrar de seu nome!”

“Eu deveria saber diso. Ela é má o bastante para qualquer coisa.”

“Pennyways, cuidado com quem está falando.”

“Bem, Sargento, tudo o que eu digo é que, se eu fosse você, iria para o
estrangeiro novamente de onde veio... não é tarde demais para fazê-lo agora.
Eu não mexeria com o negócio e ganharia uma má reputação pelo bem de
viver com ela, porque tudo o que fingiu vai ser revelado, você sabe, embora
pense o contrário. Por meus olhos e membros, haverá uma confusão se voltar
agora, no meio da festa de Natal de Boldwood!”

“Hum, sim. Acho que não serei um convidado muito bem-vindo se ela
estiver lá”, disse o sargento, com uma leve risada. “Uma espécie de Alonzo, o
Bravo; e quando eu entrar, os convidados se sentarão em silêncio e com
medo, e todos os risos e alegrias serão abafado. As luzes no salão ficarão
azuis, e os miseráveis... Ugh, horrível! Peça mais um pouco de conhaque,
Pennyways, senti um arrepio terrível nesse momento! Bem, o que mais está
faltando? Uma bengala... preciso de uma bengala.”

Pennyways agora sentia-se em certa dificuldade, pois se Bathsheba e


Troy se reconciliassem, para recuperar sua boa opinião seria necessário que
ele garantisse o patrocínio de seu marido.
“Às vezes acho que ela ainda gosta de você e no fundo é uma boa
mulher”, disse ele, como uma sentença salvadora. “Mas não há como dizer
com certeza, estando de fora. Bem, faça como quiser a respeito de ir, é claro,
Sargento, e quanto a mim, eu vou fazer o que me disser.”

“Agora, deixe-me ver que horas são”, disse Troy, depois de esvaziar o
copo de uma vez. “Seis e meia. Não vou me apressar ao longo da estrada e
estarei lá então antes das nove.”
CAPÍTULO LIII
CONCURRITUR — HORAE MOMENTO

Do lado de fora, na frente da casa de Boldwood, um grupo de homens estava


parado no escuro, olhando em direção à porta que, ocasionalmente, se abria e
fechava para a passagem de algum convidado ou criado, ocasião em que uma
listra de luz dourada, momentaneamente, riscava o terreno e desaparecia de
novo, sem deixar ver nada do lado de fora, além do pálido brilho dos vaga-
lumes em meio aos pinheiros.

“Ele foi visto em Casterbridge esta tarde, assim disse o menino”, um


deles comentou num sussurro. “E eu, pelo menos, acreditei. Seu corpo nunca
foi encontrado, você sabe.”

“É uma história estranha”, disse o outro. “Pode acreditar que ela não sabe
nada sobre isso.”

“Nem uma palavra.”

“Talvez ele não queira que ela saiba”, falou outro homem.

“Se ele está vivo e aqui na vizinhança, não tem boa intenção”, disse o
primeiro. “Coitadinha! Tenho pena dela, se for verdade. Ele vai levá-la ao
pior.”

“Oh, não, ele vai se aquietar de uma vez”, comentou alguém disposto a
ter uma visão mais esperançosa do caso.

“Que tola ela foi por ter se envolvido com o homem! É tão obstinada e
independente também. Melhor dizer que está colhendo o que plantou em vez
de ter pena.”

“Não, não. Não concordo com você. Não passava de uma ideia de
menina, e como podia imaginar o que aconteceu? Se é verdade mesmo, é uma
punição muito dura e mais do que ela merece... Olá, quem é?” Isso foi para
alguns passos que ouviram se aproximando.

“William Smallbury”, disse uma figura fraca nas sombras, chegando e se


juntando a eles. “Escura como um hedge esta noite, não? Acabei de errar a
plataforma sobre o rio e caí lá no fundo, nunca fiz uma coisa dessas antes na
minha vida. São empregados de Boldwood?”, ele olhou para seus rostos.

“Sim, todos nós. Encontramos-nos aqui alguns minutos atrás.”

“Oh, estou ouvindo agora que é Sam Samway, achei que conhecia a voz,
também. Vão entrar?”

“Daquia a pouco. Mas eu digo, William”, Samway sussurrou, “soube da


estranha história?”

“Qual? Aquela sobre o Sargento Troy ter sido visto? É desta que estão
falando?”, perguntou Smallbury, também baixando a voz.

“Isso, em Casterbridge.”

“Sim, eu soube. Laban Tall comentou alguma coisa há pouco, mas eu não
sei. Ouçam, lá vem o próprio Laban, creio eu.” Os passos se aproximavam.

“Laban?”

“Sim, sou eu”, disse Tall.

“Ouviu mais alguma coisa sobre aquilo?”

“Não”, respondeu Tall, juntando-se ao grupo. “E prefiro pensar que seria


melhor ficar quieto. Se não for verdade, ela ficará irritada; se for verdade, não
trará nada de bom prevenir o problema. Deus permita que seja mentira, pois
embora Henery Fray e alguns outros falem mal dela, sempre foi justa comigo.
Ela é nervosa e apressada, mas é uma moça corajosa que nunca dirá uma
mentira por mais que a verdade possa prejudicá-la. Na verdade, não tenho
nenhum motivo para desejar-lhe mal.”

“Ela nunca diz as pequenas mentiras das mulheres, isso é verdade, e é


uma coisa que pode ser dita de poucos. É, todo o mal que ela pensa, diz na
sua frente: não há nada de desleal nela.”

Em seguida, ficaram em silêncio, e cada um se ocupou com seus próprios


pensamentos. Sons de alegria podiam ser ouvidos vindos de dentro. Então a
porta da frente se abriu de novo, os raios fluíram para fora e a imagem bem
conhecida de Boldwood foi vista na área retangular iluminada. A porta foi
fechada e Boldwood passou lentamente pelo caminho.

“É o patrão”, sussurrou um dos homens enquanto ele se aproximava. “É


melhor ficar quieto, logo ele volta para dentro novamente. Ele pode achar que
é inconveniente que nós fiquemos vadiando aqui.”

Boldwood veio e passou pelos homens sem vê-los, pois estavam sob os
arbustos. Fez uma pausa, inclinou-se por cima do portão e soltou um longo
suspiro. Eles ouviram as palavras ditas em tom baixo por ele:

“Peço a Deus que ela venha, ou esta noite não será nada além de
sofrimento para mim! Oh, minha querida, minha querida, por que você me
deixa assim, nesse suspense?”

Disse isso para si mesmo, mas todos eles ouviram distintamente.


Boldwood permaneceu em silêncio depois disso e o barulho de dentro da casa
foi novamente ouvido, até que, poucos minutos depois, rodas leves puderam
ser distinguidas descendo a colina. Elas se aproximaram e pararam no portão.
Boldwood apressou-se de volta para a porta e abriu-a; a luz brilhou sobre
Bathsheba chegando pelo caminho.

Boldwood comprimiu sua emoção a uma mera saudação de boas-vindas.


Os homens observaram o riso leve e as desculpas dela ao encontrá-lo. Ele a
levou para dentro da casa e a porta se fechou novamente.

“Meu bom Deus, eu não sabia que ele era assim!”, disse um dos homens.
“Achava que a paixão dele tinha acabado há muito tempo.”
“Você não conhece o patrão muito bem se pensou isso”, disse Samway.

“Não acho que ele sabe que ouvimos o que disse”, comentou um terceiro.

“Gostaria que tivéssemos contado tudo de uma vez”, o primeiro inquieto


continuou. “Pode vir mais dano disso do que pensamos. O pobre Mr.
Boldwood ficará furioso. Queria que Troy estivesse aqui... Bem, meu Deus,
me perdoe por esse desejo! Um canalha para fazer tais truques com uma
pobre esposa. Nada vai bem em Weatherbury desde que chegou aqui. E agora
não tenho coragem de entrar. Vamos esperar no Warren’s por alguns minutos
em antes, vizinhos?”

Samway, Tall e Smallbury concordaram em ir ao Warren’s e saíram pelo


portão e os outros entraram na casa. Os três logo se aproximaram da maltaria,
chegando pelo pomar ao lado e não pela rua. O painel de vidro estava
iluminado como de costume. Smallbury estava um pouco à frente dos outros
quando, parando, virou-se de repente para seus companheiros e disse:

“Silêncio! Olhem ali.”

A luz do painel foi agora percebida por não estar brilhando sobre o muro
coberto de hera como de costume, mas sobre algo perto do vidro. Era um
rosto humano.

“Vamos chegar mais perto”, sussurrou Samway, e eles se aproximaram


na ponta dos pés. Não houve como não acreditar nas histórias por mais
tempo. O rosto de Troy estava perto do painel e ele estava olhando para
dentro. Não só estava olhando para dentro, mas parecia preso a uma conversa
que acontecia dentro da maltaria, sendo as vozes dos interlocutores as de Oak
e do cervejeiro.

“É tudo por causa dela, não é?”, perguntou o velho. “Embora ele nos fez
acreditar que é para esperar o Natal?”

“Não sei”, respondeu Oak .

“Ah, é verdade, sim. Não posso entender que o fazendeiro Boldwood seja
um tolo, a vida inteira adorando aquela mulher desse jeito, e ela não se
importa nem um pouco com ele.”

Os homens, depois de reconhecerem os traços de Troy, retiraram-se pelo


pomar tão silenciosamente como tinham vindo. O ar estava impregnado com
a sorte de Bathsheba naquela noite: cada palavra em todos os lugares era
sobre ela. Quando estavam completamente fora do alcance de serem ouvidos
todos pararam por instinto.

“Ele virou para mim... o rosto dele”, disse Tall ofegante.

“Para mim também”, falou Samway. “O que faremos?”

“Não acho que seja problema nosso”, Smallbury murmurou com dúvidas.

“Mas é! É um problema de todos nós”, disse Samway. “Sabemos muito


bem que o patrão está num caminho errado e que ela não sabe de nada, e
devemos informá-los de uma vez. Laban, você a conhece melhor. É melhor ir
e pedir para falar com ela.”

“Não tenho condições para tal coisa”, disse Laban, nervoso. “Acho que
William deve fazer isso. Ele é o mais velho.”

“Não tenho nada a ver com isso”, disse Smallbury. “É um negócio


completamente delicado. Ora, ele mesmo vai chegar a ela em poucos
minutos, vão ver.”

“Não sabemos se vai. Venha, Laban.”

“Muito bem, se devo fazer”, concordou Tall relutantemente. “O que eu


tenho que dizer?”

“Basta pedir para ver o patrão.”

“Oh não! Não vou falar com Mr. Boldwood. Se eu contar a alguém, será
para a patroa.”

“Certo”, disse Samway.

Laban foi então até a porta. Quando abriu-a, o zumbido da agitação da


festa vazou para fora como uma onda numa praia calma. A reunião dentro da
sala foi amortecida a um murmúrio quando ele fechou-a novamente. Cada
homem esperou atentamente enquanto olhava para as copas das árvores
escuras, balançando suavemente contra o céu, ocasionalmente tremendo com
um vento ligeiro, como se eles tivessem interesse na cena, o que não tinham.
Um deles começou a andar para cima e para baixo, e depois veio para onde
começou e parou de novo, com a sensação de que a caminhada era uma coisa
que valia a pena naquele momento.

“Acredito que Laban já deve ter visto a patroa a esta altura”, disse
Smallbury, quebrando o silêncio. “Talvez ela não vá falar com ele.’

A porta se abriu. Tall apareceu e se juntou a eles.

“Então?”, ambos perguntaram.

“Não quis chamá-la depois de tudo”, Laban hesitou. “Estavam todos num
rebuliço, tentando animar a festa. De alguma forma, a diversão parece
travada, embora tenha tudo que se possa imaginar, eu não poderia interferir e
estragá-la, mesmo se fosse para salvar a minha vida, eu não poderia!”

“Acho que seria melhor irmos todos juntos”, disse Samway


melancolicamente. “Talvez eu possa ter a chance de dar uma palavra com o
patrão.”

Assim, os homens entraram no salão, que foi o cômodo escolhido e


organizado para a reunião por causa de seu tamanho. Os homens mais jovens
e as moças, finalmente, começaram a dançar. Bathsheba estava perplexa
sobre como agir, pois não era muito mais do que uma jovem magra e o peso
da imponência havia caído sobre dela. Às vezes achava que não devia ter
vindo em qualquer circunstância; em seguida, considerava a fria indelicadeza
que teria sido, e, finalmente, decidiu ficar por cerca de apenas uma hora e sair
despercebida, tendo resolvido desde o início que não poderia dançar, cantar
ou participar de qualquer atividade em hipótese alguma.

A hora passou em conversas e observações. Bathsheba pediu a Liddy para


não apressar-se e foi até a saleta para se preparar para a partida, que, como o
hall, estava decorado com azevinho e hera e bem iluminado.
Ninguém estava no ambiente, mas ela mal havia entrado quando o dono
da casa entrou.

“Mrs. Troy... não está de partida?”, perguntou ele. “Nós nem bem
começamos!”

“Se me der licença, eu gostaria de ir agora.” Seu jeito era inquieto, pois se
lembrou de sua promessa e imaginou o que ele estava prestes a dizer. “Mas,
como não é tarde”, acrescentou, “posso ir para casa e deixar meu empregado
e Liddy para irem quando quiserem.”

“Estou procurando uma oportunidade para conversar com você”, disse


Boldwood. “Talvez saiba o que desejo dizer.”

Bathsheba olhou silenciosamente para o chão.

“Você promete?”, questionou ele, ansiosamente.

“O quê?,” sussurrou ela.

“Ora, essa evasão! Como? A promessa. Não quero me intrometer de


maneira nenhuma ou torná-la conhecida. Mas me dê sua palavra! Um simples
acordo, você sabe, entre duas pessoas que estão além da influência da
paixão.” Boldwood sabia como era falsa esta imagem de si próprio, mas
provou que era o único tom que ela permitiria que ele se aproximasse. “A
promessa de casar-se comigo no final de cinco anos e três quartos. Deve-me
isso!”

“Sinto que sim”, disse Bathsheba; “que é isso que procura. Mas sou outra
mulher... infeliz, e não... não...”

“Você ainda é uma mulher muito bonita”, disse Boldwood. A honestidade


e a convicção pura sugeriram a observação, sem ser acompanhada por
qualquer percepção de que poderia ter sido adotada por bajulação para
acalmá-la e conquistá-la.

No entanto, não teve muito efeito, pois ela disse, num murmúrio sem
paixão, que era em si uma prova de suas palavras:
“Não tenho nenhum sentimento nesse assunto. E não tenho a menor ideia
do que é certo a fazer na minha difícil posição e não tenho ninguém para me
aconselhar. Mas prometo, se for preciso, como a prestação de uma dívida,
condicionalmente, é claro, se eu for viúva.”

“Vai se casar comigo entre cinco e seis anos depois?”

“Não me pressione tanto. Não vou me casar com ninguém.”

“Mas com certeza vai dizer o tempo, ou não há nada para prometer,
afinal?”

“Oh, não sei, por favor, deixe-me ir!”, disse ela, com seu peito
começando a subir. “Tenho medo do que fazer. Devo me casar com o senhor,
mas talvez eu esteja quebrando os mandamentos. Há uma considerável
dúvida da morte dele, e então é terrível... Deixe-me perguntar a um
advogado, Mr. Boldwood, se eu deveria ou não!”

“Diga as palavras, querida, e o assunto será encerrado. Uma intimidade


amorosa de êxtase de seis anos e depois o casamento... Oh, Bathsheba,
diga!”, implorou ele com voz rouca, incapaz de sustentar as formas de mera
amizade por mais tempo. “Comprometa-se comigo, mereço isso, mereço
mesmo, porque eu a amei mais do que ninguém no mundo! E se minhas
palavras são precipitadas e mostram calor desnecessário por você, acredite
em mim, querida, não quero que se aflija. Eu estava em agonia, Bathsheba, e
não sabia o que disse. Não deixaria um cão sofrer o que sofri se soubesse! Às
vezes encolho por você saber o que sinto e fico angustiado que você nunca
vai saber disso tudo. Seja bondosa e se entregue um pouco para mim, quando
eu daria minha vida por você!”

As guarnições de seu vestido, ao tremerem contra a luz, mostraram como


ela estava agitada e, por fim, começou a chorar.

“E você não... me pressionará... sobre qualquer coisa mais, se eu digo em


cinco ou seis anos?”, soluçou, quando teve poder para alinhar as palavras.

“Sim, então deixarei a cargo do tempo.”


Ela esperou um momento.

“Muito bem. Vou me casar com você dentro de seis anos a partir deste dia
se estivermos vivos”, declarou ela solenemente.

“E levará isso como um sinal meu.”

Boldwood chegou perto de seu lado, tomou uma das mãos dela entre as
suas e levantou-a para seu peito.

“O que é isso? Oh, não posso usar um anel!”, exclamou ela ao ver o que
ele fez. “Além disso, eu não teria alma sabendo que é um compromisso!
Talvez seja impróprio. Além disso, não estamos comprometidos como de
costume, não é mesmo? Não insista, Mr. Boldwood, não!”

Com seu incômodo, por não ser capaz de livrar sua mão da dele de uma
vez, ela bateu um pé no chão nervosamente e as lágrimas invadiram seus
olhos.

“Isso significa simplesmente uma promessa — nenhum sentimento — o


selo de um pacto prático”, disse ele, em voz mais baixa, mas ainda mantendo
a mão dela na sua, num firme aperto. “Agora venha!”, e Boldwood colocou o
anel em seu dedo.

“Não posso usá-lo”, disse ela, chorando como se seu coração fosse
quebrar. “Você quase me assusta. Um plano tão violento! Por favor, deixe-
me ir para casa!”

“Só esta noite... use-o apenas esta noite, para me agradar!”

Bathsheba sentou-se numa cadeira e cobriu o rosto com um lenço,


embora Boldwood ainda segurasse a sua mão. Por fim, ela disse, num tipo de
sussurro desesperado:

“Muito bem, então, usarei hoje, se deseja tão ardentemente. Agora solte
minha mão. Eu vou usá-lo esta noite.”

“E será o início de um agradável namoro secreto de seis anos com um


casamento no final?”
“Será, suponho, já que quer assim!”, disse ela, derrotada por não resistir.

Boldwood apertou a mão dela e permitiu-lhe que caísse em seu colo.

“Estou feliz agora”, ele disse. “Deus a abençoe!”

Ele saiu da sala, e quando pensou que ela poderia estar suficientemente
recomposta, enviou uma das criadas para ela. Bathsheba encobriu os efeitos
da cena o melhor que pôde, seguiu a garota e, em alguns minutos, desceu as
escadas com seu chapéu e seu casaco, pronta para ir embora. Mas, para
chegar até a porta, era necessário passar pelo hall, e antes de fazer isso, fez
uma pausa na parte inferior da escada, a qual descia num canto para dar uma
última olhada na festa.

Não havia música ou dança acontecendo no momento. Na extremidade


inferior, que fora organizada especialmente para o trabalho dos funcionários,
um grupo conversava em voz baixa e com olhares nublados. Boldwood
estava de pé ao lado da lareira, e ele, também, embora absorvido em visões
decorrentes de sua promessa que mal via alguma coisa, parecia, naquele
momento, ter observado a sua maneira peculiar e seus olhares de soslaio.

“Sobre que estão em dúvida, homens?”, perguntou.

Um deles se virou e respondeu constrangido:

“Foi algo que Laban ouviu falar, só isso, senhor.”

“Notícia? Alguém casou ou ficou noivo, nasceu ou morrreu?”, perguntou


o fazendeiro, alegremente. “Conte-nos, Tall. Alguém poderia pensar pela sua
aparência e maneiras misteriosas que é algo muito terrível, de fato.”

“Oh, não, senhor, ninguém morreu”, disse Tall.

“Queria que alguém tivesse morrido”, sussurrou Samway.

“O que disse, Samway?”, perguntou Boldwood, um tanto bruscamente.


“Se tem algo a dizer, fale para fora, se não, tome seu rumo.”
“Mrs. Troy desceu as escadas”, disse Samway para Tall. “Se quer
conversar com ela, é melhor fazê-lo agora.”

“Sabe o que querem?”, perguntou o fazendeiro a Bathsheba do outro lado


da sala.

“Não tenho a mínima ideia”, respondeu Bathsheba.

Houve uma batida rápida na porta. Um dos homens abriu imediatamente


e saiu.

“Estão procurando Mrs. Troy”, disse ele ao voltar.

“Estou aqui”, disse Bathsheba. “Embora não lhes dissesse para vir.”

“É um estranho, minha senhora”, disse o homem perto da porta.

“Um estranho?”, perguntou ela.

“Peça-lhe para entrar”, disse Boldwood.

A mensagem foi dada e Troy, coberto até olhos como foi visto, estava à
porta.

Houve um silêncio sobrenatural, todos olhando para o recém-chegado.


Aqueles que tinham acabado de saber que ele estava na vizinhança o
reconheceram instantaneamente; aqueles que não, estavam perplexos.
Ninguém notou Bathsheba. Ela estava encostada na escada. Sua testa estava
fortemente contraída; todo o seu rosto estava pálido, os lábios separados, seus
olhos rigidamente olhando para o visitante.

Boldwood estava entre aqueles que não perceberam que era Troy.

“Entre, entre!”, repetiu ele, alegremente, “e tome uma bebida de Natal


conosco, estranho!”

Troy avançou então para o meio da sala, tirou o capuz, abaixou o


colarinho do casaco e encarou Boldwood. Mesmo assim, Boldwood não
reconheceu o representante da ironia persistente do céu, que já havia
quebrado sua felicidade, açoitado-o e arrebatado seu prazer, vinha fazer essas
coisas uma segunda vez. Troy deu um riso mecânico: Boldwood o
reconheceu.

Troy virou-se para Bathsheba. O desespero do pobre dama neste


momento estava além do que todos imaginavam ou falavam. Desceu mais a
escada e lá se sentou, com a boca azulada, seca e seus olhos escuros fixos
vagamente nele, como a se perguntar se não era tudo uma ilusão terrível.

Então Troy falou:

“Bathsheba, venho aqui por você!”

Ela não respondeu.

“Venha comigo para casa, vamos!”

Bathsheba moveu seus pés um pouco, mas não se levantou. Troy foi até
ela.

“Venha, minha senhora, ouviu o que disse?”, perguntou ele,


peremptoriamente.

Uma voz estranha veio da lareira, uma voz que parecia longe e confinada,
como se de um calabouço. Dificilmente uma alma na reunião reconheceria os
tons finos como sendo de Boldwood. O desespero súbito o transformara.

“Bathsheba, venha com seu marido!”, reptiu Troy.

Ela, no entanto, não se moveu. A verdade era que Bathsheba estava além
dos limites da atividade, mas ainda não havia desmaiado. Ela estava num
estado de gutta serena;[31] sua mente estava totalmente privada de luz, ao
mesmo tempo sem obscurecimento aparente.

Troy estendeu a mão para puxá-la em sua direção quando ela rapidamente
recuou. Este medo visível dele pareceu irritar Troy, e ele agarrou seu braço e
puxou-o bruscamente. Se sua força a machucou ou se o seu mero toque foi a
causa, nunca se soube, mas no momento de sua apreensão, ela se contorceu e
deu um grito rápido e abafado.

O grito foi ouvido, mas poucos segundos depois foi seguido por estrondo
ensurdecedor e repentino que ecoou pela sala e surpreendeu a todos. A
divisão de carvalho tremeu com o choque e o lugar se encheu de fumaça
cinza.

Na confusão, todos olharam para Boldwood. Em volta dele, diante da


lareira, havia um suporte de armas, comum em casas de fazendas, feitos para
segurar duas armas. Quando Bathsheba gritou nas mãos do marido, o rosto de
desesperado Boldwood mudou. As veias dilataram-se e um brilho frenético
tomou seus olhos. Transformara-se rapidamente, tomou uma das armas,
armou-a e descarregou-a em Troy.

Troy caiu. A distância entre os dois homens era tão pequena que a
munição não se espalhou, mas a bala atravessou seu corpo. Ele soltou um
longo suspiro gutural, houve uma contração, uma extensão, então seus
músculos relaxaram e ele ficou imóvel.

Boldwood foi visto através da fumaça de novo envolvido com a arma. Era
de cano duplo, e ele, por sua vez, de algum modo prendeu seu lenço ao
gatilho e, com o pé na outra extremidade estava no ato de dar o segundo tiro
em si mesmo. Samway, seu empregado, foi o primeiro a ver isso, e no meio
do horror geral, correu até ele. Boldwood já havia puxado o lenço e a arma
explodiu uma segunda vez, enviando o seu conteúdo, por um golpe oportuno
de Samway, num raio que atravessou o teto.

“Bem, não faz diferença!”, Boldwood engasgou. “Há outra maneira de


morrer.”

Então, ele se livrou de Samway, atravessou a sala até Bathsheba, e beijou-


lhe a mão. Colocou o chapéu na cabeça, abriu a porta e saiu na escuridão.
Ninguém pensou em impedi-lo.
CAPÍTULO LIV
DEPOIS DO CHOQUE

Boldwood passou pela estrada e virou na direção de Casterbridge. Ali,


andou num ritmo constante para Yalbury Hill, ao longo do nível morto, subiu
o Mellstock Hill e entre onze horas e meia-noite atravessou o Moor para a
cidade. As ruas estavam quase desertas e as chamas trêmulas das luzes
apenas iluminavam as linhas cinza das persianas das lojas e as listras da
pavimentação branca, sobre a qual seus passos ecoavam conforme ele
avançava. Virou para a direita e parou diante de um arco de pedra pesado,
fechado por um par de portas de ferro cravejado. Aquela era a entrada da
prisão, e sobre ela uma luz ficava presa, permitindo que o viajante infeliz
encontrasse a corda do sino.

O pequeno postigo, finalmente, se abriu e um porteiro apareceu.


Boldwood deu um passo à frente e disse algo baixo, quando, depois de
esperar, outro homem veio. Boldwood entrou, a porta foi fechada atrás dele e
ele não pisou mais no mundo.

Muito antes disso, Weatherbury já estava completamente alarmada e o ato


selvagem que havia encerrado a festa de Boldwood tornou-se conhecido por
todos. Daqueles fora de casa, Oak foi um dos primeiros a saber da catástrofe
e, quando entrou na sala, cerca de cinco minutos após a saída de Boldwood, a
cena era terrível. Todos os convidados do sexo feminino estavam amontoados
e horrorizados contra as paredes, como ovelhas numa tempestade, e os
homens estavam perplexos quanto ao que fazer. Quanto a Bathsheba, ela
havia mudado. Estava sentada no chão, ao lado do corpo de Troy, com a
cabeça dele em seu colo, onde ela a tinha levantado. Com uma mão, segurava
o lenço em seu peito e cobria a ferida, embora dificilmente uma única gota de
sangue tivesse fluído. Com a outra mão, apertava firmemente uma das dele.
A convulsão familiar fizera-a voltar a ser quem era novamente. O coma
temporário cessou e a atividade veio com a necessidade. Atos de resistência,
que parecem comuns na teoria, são raros na conduta, e Bathsheba estava
surpreendente ao seu redor, pois sua teoria era a sua conduta e raramente
achava possível que não a praticasse. Ela era formada da matéria a qual as
mães dos grandes homens são feitas. Era indispensável para a alta geração,
odiada em festas de chá, temida em lojas e amada nas crises. Troy, reclinado
no colo de sua esposa, formava agora o único espetáculo no meio da sala
espaçosa.

“Gabriel”, disse ela automaticamente quando ele entrou, virando um rosto


o qual, apenas as linhas bem conhecidas permaneciam a dizer-lhe que era ela,
tudo o mais na imagem desvanecera há muito. “Vá a Casterbridge
imediatamente e traga um cirurgião. Creio que seja inútil, mas vá. Mr.
Boldwood disparou contra meu marido.”

Sua declaração do fato em palavras tão calmas e simples veio com mais
força do que uma declamação trágica e teve, de alguma forma, o efeito de
definir as imagens distorcidas em cada mente presente no local. Oak, quase
antes de ter registrado a cena em sua mente, correu para fora da sala, selou
um cavalo e afastou-se. Não tinha percorrido mais de uma milha quando
ocorreu-lhe que teria feito melhor se tivesse enviado outro homem nessa
missão e ele tivesse ficado em casa. O que tinha acontecido com Boldwood?
Ele precisava de atenção. Estaria furioso, houve uma briga? E como Troy
chegou lá? De onde veio? Como este ressurgimento notável teve seu próprio
efeito quando supostamente, para muitos, ele estava no fundo do mar? Oak
tinha uma ligeira medida preparada para a presença de Troy, por ouvir um
boato sobre seu retorno antes de entrar na casa de Boldwood; mas antes que
tivesse considerado a informação, esse evento fatal se sobrepôs. No entanto,
já era tarde demais para pensar em enviar outro mensageiro e ele continuou.
Na inquietação das perguntas não discernentes, a cerca de três milhas de
Casterbridge, um pedestre de silhueta quadrada passava sob a cobertura
escura na mesma direção que ele.

As milhas necessárias para serem percorridas, e outros obstáculos


inerentes ao adiantado da hora e da escuridão da noite, atrasaram a chegada
de Mr. Aldritch, o médico, e mais de três horas se passaram entre o momento
em que o tiro foi disparado e o de sua entrada na casa. Oak foi
adicionalmente detido em Casterbridge por ter que notificar as autoridades
sobre o que tinha acontecido e, em seguida, descobriu que Boldwood também
havia entrado na cidade e se entregado.

Ao mesmo tempo, o cirurgião, tendo se apressado pelo hall de Boldwood,


encontrou-o na escuridão e bastante deserto. Passou pela parte de trás da
casa, onde encontrou, na cozinha, um homem idoso, a quem fez perguntas.

“Ela o levou para a sua própria casa, senhor”, disse o informante.

“Quem?”, perguntou o médico.

“Mrs. Troy. Estava morto, senhor.”

Era uma informação surpreendente.

“Ela não tinha o direito de fazer isso”, disse o médico. “Haverá um


inquérito e ela deveria ter esperado para saber o que fazer.”

“Sim, senhor, sugerimos que era melhor esperar até que as autoridades
soubessem. Mas ela disse que a lei era nada para ela, e que não deixaria o
cadáver de seu querido marido ficar negligenciado, para que todos olhassem
por todos os coroados da Inglaterra.”

Mr. Aldritch dirigiu-se imediatamente de volta até a colina para a casa de


Bathsheba. A primeira pessoa que encontrou foi a pobre Liddy, que parecia
literalmente ter encolhido nestas poucas últimas horas.

“O que foi feito?”, perguntou ele.

“Não sei, senhor”, informou Liddy, com a respiração suspensa. “Minha


patroa fez tudo.”

“Onde ela está?”

“No andar de cima com ele, senhor. Quando ele foi trazido para casa e
levado para cima, ela disse que não queria mais a ajuda dos homens. Então
me chamou e me fez encher a banheira, depois me disse que era melhor que
eu fosse me deitar porque parecia tão doente. Se trancou no quarto sozinha
com ele e não deixou que uma enfermeira entrasse, ou quem quer que fosse.
Mas eu pensei em esperar na sala ao lado, caso ela precisasse de mim. Eu a
ouvi movendo-se lá dentro por mais de uma hora, mas ela só saiu uma vez,
que foi para buscar mais velas, porque as dela tinham queimado até o fim.
Disse para informá-la quando você ou Mr. Thirdly chegasse, senhor.”

Oak entrou com o pároco naquele momento e todos eles subiram juntos,
precedidos por Liddy Smallbury. Tudo estava silencioso como um túmulo
quando pararam no patamar. Liddy bateu e o vestido de Bathsheba foi ouvido
sussurrante em todo o quarto: a chave girou na fechadura e ela abriu a porta.
Sua aparência era calma e quase rígida, como um busto levemente animado
de Melpomene.

“Oh, Mr. Aldritch, você chegou, finalmente”, ela apenas murmurou e


abriu a porta. “Ah, e Mr. Thirdly. Bem, tudo está pronto e ninguém no mundo
pode fazer nada por ele agora.” Ela, então, passou por ele, cruzou o patamar e
entrou em outro quarto.

Olhando para a câmara da morte que ela havia desocupado, eles viram,
pela luz das velas que estavam na cômoda, uma silhueta reta e alta na outra
extremidade do quarto, embrulhado em branco. Tudo ao redor estava muito
organizado. O médico entrou, e depois de alguns minutos voltou para o
patamar outra vez, onde Oak e o pároco ainda esperavam.

“Está tudo pronto, de fato, como ela disse”, comentou Mr. Aldritch com
voz suave. “O corpo foi despido e devidamente colocado nas mortalhas. Deus
do céu, aquela simples menina! Deve ter uma força estóica!”

“O coração de uma simples esposa”, flutuou um sussurro sobre os


ouvidos dos três, e ao virarem-se, viram Bathsheba entre eles. Então, como se
naquele instante, para provar que sua fortaleza tinha sido mais de vontade do
que de espontaneidade, ela silenciosamente se afundou entre eles e era um
amontoado disforme amarrotado no chão. A simples consciência de que a
tensão sobre-humana já não era