Anda di halaman 1dari 33

DESENVOLVIMENTO RURAL E ONTOLOGIAS EM DISPUTA:

O CASO DO ARTESANATO NO NOROESTE DE MINAS GERAIS, BRASIL

Rural Development and ontologies in dispute: the case of handicrafts in northern Minas
Gerais, Brazil
Gustavo Meyer1
Flavia Charão Marques2
Guilherme Francisco Waterloo Radomsky3

RESUMO
Este artigo, a partir de etnografia endereçada a uma rede de “artesanato de tradição” em
Minas Gerais, sugere uma renovação no emprego de categorias analíticas distintas
(interface, subjetividade, bricolagem, fluidez, intensidade, unicidade e intencionalidade)
na análise de processos identificados como de desenvolvimento. Com base em dados
empíricos, sugere-se que a abertura para uma pluralidade ontológica com o intuito de
análise constitui via importante de aproximação à realidade social, relativizando
contradições e incorporando possibilidades adicionais de conexão entre os atores sociais,
sem deixar rastros teleológicos. Reconhece-se, nos afetos e devires, a possibilidade de
colocar em perspectiva o encontro entre diferentes realidades, informações,
racionalidades, ontologias e conteúdos na constituição de uma ideia de desenvolvimento.

Palavras-chave: Contradição; Afeto; Ator social; Tradição.

1
Professor adjunto à UFVJM, Campus Unaí. Pós-doutorando junto ao Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social da Universidade de Brasília (UnB). Endereço eletrônico:
meyer_gustavo@yahoo.com.br
2
Professora adjunta vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) da
UFRGS. Endereço eletrônico: flavia.marques@ufrgs.br
3
Professor adjunto vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) da
UFRGS. Endereço eletrônico: guilherme.radomsky@ufrgs.br

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
ABSTRACT
Starting from ethnography focused on a handicrafts network at Minas Gerais (Brazil), this
paper suggests renewing the use of distinct analytical categories (interface, subjectivity,
assemblage, fluidity, intensity, uniqueness and intentionality) to analyze processes
identified as development. Based on empirical data, I am arguing that the openness to an
ontological plurality aiming analysis constitutes an important way to approach the social
reality, relativizing contradictions, and incorporating additional possibilities of
connection among social actors, without leaving teleological traces. I recognize that
affects and becomings allow putting in perspective the encounter between different
realities, information, rationalities, ontologies and contents in the constitution of a
development idea.

Key words: contradiction; affect; social actor; tradition.

1. DESENVOLVIMENTO: UM DEBATE (TAMBÉM) ONTOLÓGICO

“Desenvolvimento” é uma Dentre uma miríade de propostas


palavra controversa, dadas as contemporâneas, há diversas ênfases
disparidades entre seu conteúdo empreendidas nas análises do encontro
semântico e as particularidades dos cultural decorrente das experiências de
processos sociais aos quais ela é desenvolvimento. Das análises,
frequentemente associada. Há sempre emergem como possíveis produtos desse
um relativismo implícito ao uso desse tipo de encontro: dispositivos
termo, cuja acepção mais comum denota disciplinadores da população local
“incremento”, “progresso”, “evolução”, (Ferguson, 1994; Escobar, 1998), que
não raro deixando rastros teleológicos. trazem cores de dominação; interfaces de
Entretanto, seu emprego analítico desenvolvimento (Arce e Long, 2000;
permite delimitar – uma delimitação Long, 2007), em que se travam disputas
porosa, permeável – processos de simbólicas e discursivas; bricolagens de
mudança social cujos atores estão corpos de conhecimento (De Landa,
embebidos em discursos que buscam 2006; Li, 2007) e de materialidades;
devolver “desenvolvimento” à semântica hibridismo cultural de diversas naturezas
comum do termo. Nesses processos, a (Hall, 2006; Silveira, 2010; Canclini,
compreensão dos encontros culturais que 2011; Bhabha, 2013); outras ontologias
lhe são adjacentes é cara às ciências do social (Umans e Arce, 2014; Blanco,
sociais, porque envolve questões Arce e Fisher, 2015). Trata-se de
políticas, de assimetrias de poder e de perspectivas variadas, às vezes
tradução, entre outras. sobrepostas, ou que tomam de

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 38
empréstimos elementos umas das outras, disfarçado – o peso que se dá à sua força
e que encerram por influenciar de expansão, podendo ecoar, novamente,
etnografias do encontro cultural ou do o estruturalismo marxista e as correntes
desenvolvimento – ou, quando teóricas da modernização.
perpassam questões que remetem à Nessa seara, é notável a
ruralidade, do “desenvolvimento rural”. influência dos filósofos Bruno Latour e
De um modo geral, é possível Guilles Deleuze, cujas ênfases nos atores
identificar o deslocamento de influências não humanos e nos agenciamentos
foucaultianas – em que figura a (afetos), respectivamente, contribuíram
construção de subjetividades, ora como para gerar novos conteúdos de pesquisa.
subjetivação reflexiva, ora como Apesar de não haver uma relação
subjugação – e, mais disfarçadamente, teleológica entre as primeiras influências
weberianas – em que se explora a e estas últimas, é relevante – porque
margem de manobra de pessoas e grupos também é crescente – a atenção que
específicos frente às informações de pesquisadores de diversos grupos de
desenvolvimento – até aquelas que pesquisa têm dado aos contextos (ou
perseguem a desconstrução do sujeito, ou pontos de vista mesmo) que sugerem ou
a ruptura sujeito-objeto, dando margem a indicam indagações sobre outras
categorias como intersubjetividade e ontologias do social. As justificativas
interobjetividade, a partir das quais para essa busca são diversas e, em geral,
figuram, eventualmente, atores não remetem à fuga das forças convencionais
humanos (Silveira, 2010; Latour, 2012; que orientam as experiências de
Blanco, Arce e Fisher, 2015), dando desenvolvimento, à valorização de
indícios de outra(s) ontologia(s) do eventos, entidades e fluxos
social. Essas diferentes correntes teóricas marginalizados nas perspectivas
parecem, contudo, compartilhar a atitude dominantes (tal qual a neoliberal), à
de tomar distância, o tanto quanto relevância dos processos de contínua
possível, de perspectivas estruturalistas, reorganização em detrimento da ideia de
deixando categorias como classe social, se perseguir qualquer ordem dotada de
resistência e expansão (de um sistema), teleologia e ao descrédito das dicotomias
entre outras, à margem. É verdade, clássicas e, enfim, à busca pela
entretanto, que, na maioria delas, leva-se diversidade, heterogeneidade e
em consideração uma ordem capitalista complexidade nos eventos de
em jogo, sendo variado – e tantas vezes desenvolvimento e de mudança social.

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 39
Em particular, no entanto, advoga-se que linguagem-mundo (verificação correta
a opção teórica deva justificar-se, do que é real) ou de oposição entre
sobretudo, segundo o conteúdo conceito (científico) e representação
etnográfico gerado. (nativa) (Viveiros de Castro, 2002), mas
Um breve preâmbulo sobre a de mundos em relação (Blaser, 2010).
questão ontológica se faz necessário. Nesse sentido, Almeida (1999, p. 5)
Partimos do ponto de vista de que defende a versão de que “[...] sempre é
ontologia, tal qual vem sendo discutida possível a tradução entre ontologias
nas ciências sociais, e em particular na distintas, o que garante a
antropologia, não é o mesmo que cultura; intersubjetividade e, consequentemente,
e o empreendimento de estudá-la não se a objetividade”. Isso garantiria a
confunde com epistemologia. Ontologia resolução das implicações pragmáticas
evoca a existência de diferentes mundos, do encontro cultural, dando margem a
distintas realidades, e não a concepção de dispositivos de construção do
uma única realidade com diferentes conhecimento, ou seja, podemos passar
formas de conhecê-la (Carrithers et al., de uma ontologia a outra em um processo
2010). Cultura, de outro lado, é conceito de aprendizagem, que, por sua vez, é
que pode ser mais aproximado ao de intrínseca à capacidade humana. Daí que
representação – e, portanto, de debates seria possível, então, “[...] modelar uma
epistemológicos. Conforme Blaser ontologia no interior da outra [...]”
(2010), a preferência por questões (Almeida, 1999, p. 9). Assim, há
epistemológicas insinua a tendência de possibilidade para acordos pragmáticos
considerarmos que a realidade pode ser para as experiências de vida que
observada e estudada por muitos decorrem do encontro.
ângulos, mas que a ciência poderá ter Sob essa perspectiva, alguns
métodos mais adequados e, portanto, autores têm preferido a noção de
conhecer o mundo melhor que o senso cosmopolítica (de la cadena, 2010) ou
comum. Implica-se, assim, uma ontologia política (Blaser, 2009) – em
hierarquia de saberes. Quando nos relação à “política” ou “cosmologia” –,
voltamos a ontologias, concedemos já que elas enfatizam uma
possibilidades de habitarmos mundos relacionalidade (Viveiros de Castro,
diferentes. Se não há um ponto de vista 2002) que não compartimentaliza as
privilegiado, a interação e a tradução dimensões do real (política, economia,
entre culturas não se tornam questão de cultura etc.) e se opõe ao grande divisor

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 40
natureza-cultura. “Em outras palavras, social, ainda que essas duas posturas não
essa cosmopolítica, ou ontologia política se excluam. Umans e Arce (2014)
da diferença sensível universal, atualiza propõem outra ontologia do social
um outro universo que o nosso, ou outra quando procuram demonstrá-lo como
coisa que um uni-verso – o seu cosmos é uma mistura viscosa. De outro modo,
um multiverso [...]” (Viveiros de Castro, Blanco, Arce e Fischer (2015)
2012, p. 158). Trata-se de ontologia demonstram a relação entre humanos e
política por demonstrar que não estamos não humanos no caso do
somente defronte o problema da desenvolvimento da salmonicultura
capacidade de outras sociedades chilena, privilegiando o posicionamento
pensarem de modo distinto – embora isso simétrico de elementos heterogêneos
também –, mas de enfatizar que ela é (ontologia plana) no intuito de não
potencialmente conflitiva. marginalizar determinados eventos e
Tomar os pontos de vista dos entidades. Assim sendo, o que ensejamos
atores em campo é uma “tentativa de aqui segue na direção de romper o
transformar seus repertórios conceituais estatuto ontológico do social em
de um modo que seja hábil em descrever perspectiva de análise. Tal como antes
o material etnográfico em termos que não afirmamos a respeito de cosmopolíticas,
sejam absurdos”, afirma Martin no nosso entendimento, a introdução do
Holbraad (em Carrithers et al., 2010, p. ator não humano enquanto agente e sua
185; ver também Holbraad, 2003). interação com atores humanos, entre
Seguindo essa pista de Holbraad, em outras possibilidades, introduz outra
parte, a expectativa é que seja dada ontologia do social. A consequência,
menor ênfase à utilização de certo assim, é, tal como esboçamos a partir de
conjunto de conceitos estabilizados para Holbraad (2003) e de de la Cadena
dar sentido ao conteúdo empírico do que (2010), o que vem a ser “o social”, de que
na articulação do caso etnográfico modo ele é conceptualizado e o que ele
quando repensamos e reordenamos os inclui para além daquilo que nosso
“nossos” conceitos (Carrithers et al., mundo admite.
2010). No presente artigo, considerando
Sob um ângulo complementar, o caso particular de uma rede de
considerar a pluralidade ontológica em artesanato, sustentaremos que aquilo que
dado contexto é diferente de propor uma é usualmente tido como encontro cultural
abertura ontológica para a análise do pode ser eventualmente mais bem

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 41
entendido tomando-se de empréstimo lançamos mão de observação simples e
outra ontologia do social, por sua vez participante registrada em caderno de
atualizada pelo conteúdo empírico campo, de entrevistas abertas e
gerado. Para além da presente seção, este semiestruturadas e de pesquisa
artigo está dividido em outras três. Na documental. Na seguinte seção, a
próxima, a segunda, estão apresentadas terceira, encontram-se reflexões teóricas
informações etnográficas geradas a partir acerca do encontro “cultural”
do convívio com integrantes de uma rede desencadeado pela emergência dessa
de confecção e comercialização de rede artesanato; é nessa parte, também,
artesanatos, nos anos de 2013 e 2014, no que discutimos a problemática do
noroeste do estado de Minas Gerais. Do artesanato sob diferentes perspectivas
ponto de vista metodológico, recorremos ontológicas. Por fim, na última seção, são
ao método etnográfico, dentro do qual tecidas algumas considerações finais.

2. UMA REDE DE ARTESANATO NO NOROESTE DE MINAS GERAIS

Em 2012, quando estávamos por sua vez mobilizadas e articuladas por


seguindo as pistas de atores que uma organização da sociedade civil de
imprimiam certa efervescência cultural cunho contestatório5. Nossa investigação
no noroeste de Minas Gerais4, deparamo- foi orientada segundo a curiosidade de
nos com uma rede de produção e desvendar como essa rede de associações
comercialização de artesanatos artesãs se sustentava – e se sustenta ainda
(doravante “rede de artesanato”) que – temporalmente, já que identificávamos,
envolvia diversas associações de artesãs, ao mesmo tempo, fortes indícios de

4 mineiro que colocamos enquanto


À época, estávamos tensionando a relação entre
“arte e cultura” e desenvolvimento, que “contestatórios”, organizados e reconhecidos
considerávamos, até então, menosprezada nos como sociedade civil ou movimento social.
estudos de desenvolvimento rural. Então, a partir Trata-se de uma rede bastante coesa, cujo
de um mapeamento (ver Meyer, 2015), discurso valoriza a cultura da roça (termo nativo
escolhemos um contexto particular para para designar “campo” ou “rural”, em oposição
desenvolver o estudo – contexto esse marcado às cidades) e a literatura de João Guimarães Rosa
pela presença de Pontos de Cultura, pelo (ver Meyer et al., 2016) e opera uma linguagem
funcionamento de sistemas municipais de de desenvolvimento (Arce e Long, 2000; Ribeiro,
patrimônio cultural, pela ocorrência de eventos 2008) particular, por sua vez atrelada a algo que
artístico-culturais de periodicidade anual (ditos nomeamos “ideia de desenvolvimento regional".
42
“encontros de cultura de tradição”) e, entre outros Estafaz contraponto à ideia de desenvolvimento
elementos, pela operação da rede de artesanato hegemônica ali, fundada na “modernização” do
que aqui colocamos como objeto de análise. campo, e é forjada por esses atores contestatórios,
5 particularmente, em eventos e processos
Para efeitos de um entendimento mais acurado,
a rede de artesanato deve ser compreendida como artístico-culturais emblemáticos na região, dentre
ligada a uma rede maior de atores do noroeste os quais a própria rede de artesanato.

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
inviabilidade financeira das atividades da de um projeto de desenvolvimento de
rede. Também chamava a atenção o fato interesse de uma fundação estatal
de o sentido do termo “artesanato de (Fundação Banco do Brasil, FBB), cujo
tradição” ter sido formulado por objetivo era capacitar 100 grupos no
mediadores e remeter ao rigor de se Brasil para a confecção de bordados. Na
reproduzir modos predominantes no época, um dos proponentes da ideia de
passado. De maneira geral, essa desenvolvimento regional contestatória
experiência artesã foi iniciada no ano atuava nessa fundação. Em paralelo, a
2000, pela Agência de Desenvolvimento ADISVRU, organização da sociedade
Integrado e Sustentável do Vale do Rio civil sediada em Arinos (município
Urucuia (ADISVRU), em paralelo a vizinho a Chapada Gaúcha), estimulava
outras iniciativas locais, orientadas e mediava o processo de implantação da
segundo uma ideia desenvolvimento rede de artesanato de tradição. Essa
regional contra-hegemônica, por sua vez organização acabou por incluir a Serra
formulada por um conjunto de atores das Araras no projeto da FBB, que atuava
contestatórios ao qual pertencia a como financiadora do desenvolvimento
ADISVRU. A rede de artesanato aciona regional ali. A ADISVRU também
agentes distribuídos em oito municípios mediou a participação do Instituto de
do noroeste mineiro e tem um formato Promoção Cultural Antônia Diniz
radial, em razão de sua sede, a Central Dumont (ICAD), na qualidade de
Veredas, estar posicionada entidade promotora de capacitação na
geograficamente no centro do território Serra das Araras, coincidindo com o
ocupado pela rede. No presente estudo, processo de inclusão das artesãs dessa
entretanto, os distritos de Sagarana e localidade à rede de artesanato. Com o
Serra das Araras é que foram tomados amparo da FBB, os agentes da rede
como loci investigativos principais forjariam a Central Veredas e dariam
(Figura 1; as siglas contidas na figura prosseguimento ao intuito de ajustá-la à
serão problematizadas mais adiante). concepção do artesanato de tradição
No distrito de Serra das Araras, (exploraremos essa concepção mais à
pertencente ao município de Chapada frente) e à ideia de desenvolvimento
Gaúcha, a experiência artesã vinculada à regional em curso, assim como forjariam
rede teve início apenas em 2005, a partir sua territorialidade.

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 43
Figura 1. Representação da rede de artesanato mediada pela Central Veredas (os círculos
verdes figuram como associações variadas e, ao mesmo tempo, como diferentes
municípios dispostos no Vale do Rio Urucuia)

Fonte: elaborada pelos autores.

A explicação acerca da Gerais até os dias atuais. Apesar disso,


manutenção da prática artesã na região sustentamos que o fato histórico que se
está discursivamente baseada no fato de articula até tempos recentes corresponde
os teares e fiações da região terem sido à necessidade material de se obter
poupados no período em que a utilização vestimentas no contexto da
desses instrumentos fora proibida no descapitalização acentuada e das longas
Brasil devido a interesses comerciais distâncias a serem percorridas. Então o
entre Portugal e Inglaterra, ainda no plantio de algodão, a cardagem, a fiação,
século XVIII (Dantas, 2014). Por um o tingimento, a urdidura e a tecelagem
lado, os territórios amplos do Brasil em teares rústicos constituíam tarefas
dificultavam a fiscalização e, por outro, cotidianas intrínsecas ao modo de vida
justificava-se a necessidade dos teares local.
para se confeccionar roupas aos O artesanato esteve
escravos, para os quais não se podia completamente imerso em modos pelos
destinar os caros tecidos ingleses. Essa quais eram reproduzidos esquemas
seria a origem da tradição tecelã que é camponeses de reciprocidade e
mantida no norte e noroeste de Minas solidariedade. Modos que, tantas vezes,

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 44
eram vividos sob as vestes do trabalho mundo rural; a sociabilidade, então, é
grupal de mulheres. Se o plantio de vista também como algo a ser
algodão e os processos subjacentes à recuperado. Dessa forma, o
feitura de roupas e outros artefatos da entendimento do modo como os atores
casa compunham as atividades locais manejam o artesanato de tradição
cotidianas das mulheres, não raro esses deve ter nele incorporado a
investimentos adentravam a organização multidimensionalidade das
coletiva do trabalho. ressignificações e as ligações entre o que

Nos primórdios da formação dos se pode observar hoje e aquilo que


povoados e cidades e, mesmo nos
lembra os modos tradicionais ainda tão
vilarejos e cidades de pequeno
porte, a tecelagem manual presentes na memória. Essas dimensões
tradicional serviu como elo de
formação dos laços de amizade, de perpassam: as vendas, que eram
companheirismo, do compadrismo
e motivo de muita festa, pois os empreendidas de tempos em tempos para
mutirões ou traições eram feitos
para se ajudar a dona da casa a a obtenção de recursos, mas que hoje
cumprir com determinada tarefa da
aparecem imersas em estranhos arranjos
tecelagem, em todas as suas
etapas, desde o ato de colher o burocráticos; o uso de recursos naturais,
algodão até tingir ou tecer e,
passavam o dia todo nestes para os quais se recorria, tendo em vista
afazeres e terminavam o dia em
uma festa na casa da família na a confecção de brinquedos aos filhos e de
qual tinha sido feito o mutirão ou
traição (Silva e Oliveira, 2012, p. artefatos múltiplos às casas, mas que,
343).
hoje, são manejados seguindo
No contexto atual, outros possibilidades de vendas de produtos e
sentidos de trabalho artesão entram em de adequação ambiental; etc. A “rede de
cena, a exemplo do trabalho como artesanato de tradição” se mostra
geração de renda. Tudo parece paradoxal, pois os modos de produção
ressignificar-se6, inclusive o próprio nela empregados lembram e ao mesmo
sentido de sociabilidade (Silva e tempo subvertem o contexto “original”
Oliveira, 2012), que é deslocado do de movimentação da tradição – de modo
contexto da solidariedade e da curioso, se observarmos por outro
reciprocidade para o plano da ângulo, tradição pode ser vista como
modernidade aliada à burocratização, em sinônimo de atualização, algo que
que se observa certo esvaziamento do

6 que se faziam fios, tecidos etc. Algo que, hoje,


Apesar disso, é importante ressaltar que porção
significativa das pessoas mais idosas que aparece como que ressurgido e resguardado pela
habitam hoje a região vivenciou um cotidiano em alcunha do artesanato de tradição.

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar 45


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
subverte a típica oposição tradição dependência das associações em relação
versus modernidade. aos projetos aportados. Remete-nos,
enfim, ao clientelismo de projetos,
2.1 Um mundo de financiamento e configurado pela contradição de se
mercado afirmar insistentemente a viabilidade
econômica de determinada atividade –
Há uma miríade de
casos em que os custos de produção
organizações governamentais e não
seriam pagos a partir da venda e da boa
governamentais detrás da rede de
gestão – em ocasiões nas quais se
artesanato. Isso pode ser deduzido da
percebe a necessidade de um mecanismo
diversidade de projetos que são citados
institucional externo e permanente para
por artesãs e mediadores, como que
sustentar o negócio. É assim que a ideia
explicando o funcionamento das coisas e
de economia criativa7 defendida e
a existência do conjunto material que se
propagandeada por atores ligados à rede
pode avistar nas sedes das associações
contestatória contrasta com a realidade
(itens de consumo, utensílios,
que se pode vivenciar. Desde 2000, a
equipamentos, máquinas, mostruários,
rede foi intensamente financiada por
além da própria estrutura física das
múltiplas organizações governamentais
associações). Em outros termos, o que se
e não governamentais, com grande
percebe primeiramente é o
quantidade de aportes externos
financiamento multi-institucional da
referentes à produção, à
atividade. Tal diversidade de
comercialização, à administração e à
financiamento, representada para a Serra
mediação no contexto das grandes
das Araras, está elucidada na Figura 1;
distâncias territoriais, por sua vez
ela, entretanto, poderia ser extrapolada
decorrente da distribuição espacial
para quaisquer das associações da rede.
esparsa das associações.
Ao passo que a diversidade de
Sem que haja um mecanismo
organizações e parcerias revela a
multi-institucional de financiamento, a
habilidade do ofício da mediação em
rede de artesanato mostra-se
angariar recursos múltiplos e tecer redes
economicamente inviável. Dessa forma,
complexas, suscita a instauração de forte
a economia criativa, que exerce ali efeito

7
Segundo esse discurso, as experiências
artístico-culturais devem ser economicamente
viáveis (Florida, 2002; Golguer, 2008).

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar 46


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
performático, constitui discurso a partir criativa e o ambientalismo expresso pela
do qual um conjunto de atores locais necessidade de implantação de unidades
posiciona o artesanato de tradição, entre de conservação de proteção integral.
outras modalidades do campo artístico- Ao mesmo tempo em que existe
cultural, no rol das atividades a preocupação incessante, por parte dos
economicamente viáveis. A despeito da mediadores da rede, em possibilitar que
contradição, evidencia-se a orquestração produtos do artesanato possam estar
de atores locais guiados segundo a ideia inseridos no mercado – o que não faz da
de desenvolvimento regional e, também, inserção exato sinônimo de viabilidade
revelam-se atores interessados8. Assim, econômica –, impera aquela noção de
o multifinanciamento aparece menos mercado, discursivamente hegemônica,
decorrente de organizações que enaltece determinados tipos de
financiadoras guiadas por valores produtos, sua qualidade e forma de
altruístas e mais como fruto de intensa e apresentação. Essa noção parece
eficiente articulação de atores locais estranha às artesãs, porque, em grande
engajados na ideia de desenvolvimento medida, o valor de uso atribuído é
regional. De um modo, isso culmina inverossímil à realidade local (por
numa espécie de contrapartida ofertada exemplo, jogos americanos), assim
pelos atores locais, a partir da qual como as noções estéticas, a exemplo das
organizações como o Serviço Brasileiro cores suaves dos produtos. Mas o valor
de Apoio às Micro e Pequenas Empresas central intrínseco à qualidade remete à
(SEBRAE) e o Instituto Estadual de fidedignidade a uma tradição quase que
Florestas de Minas Gerais (IEF) são pura, apesar de ajustada ao mercado. A
frequentemente convidadas para os insistência na socialização de regras e
espaços de debate concernentes ao valores de mercado deixa sempre em
desenvolvimento regional, evidência a dimensão econômica e a
identificando-se a adesão local aos atração de clientes que se deixam
discursos de interesse dessas impressionar pelo fato de os produtos
organizações, tais quais a economia serem “completamente” artesanais; até a

8 atores sociais, socialmente construídos e


A noção de interesse que se assume aqui difere
daquela relativa à teoria da escolha racional, em negociados, e, por outro, argumenta-se que a
que tudo é calculado em razão de interesses simples afinidade a uma perspectiva de
pessoais (Ostrom, 2007). Assim, por um lado, desenvolvimento particular pode configurar um
remete-se a interesses compartilhados entre interesse. Figura, neste último caso, a adesão
discursiva. 47
Desenvolvimento Rural Interdisciplinar
Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
linha é feita manualmente, o tingimento fica restrito, de modo determinante, a
é natural etc. Isso coloca o artesanato em consumidores detentores de poder
um patamar diferenciado, condizente aquisitivo diferenciado. Os valores que
com ao “bom gosto”, e até atrativo aos sustentam esse artesanato passam a ser
estrangeiros. Dessa forma, o Vale do Rio os das organizações financiadoras e dos
Urucuia passa a constituir, consumidores dispostos a pagar preços
discursivamente, uma das duas regiões considerados elevados para os padrões
em que ainda se faz tudo artesanalmente. regionais. Vê-se em jogo, finalmente, o
Daí que está em jogo a inserção em um atendimento de gostos “de fora” dali, de
processo global mais amplo, em que a Brasília e outras capitais. Ocorre, em
tradição é ressignificada e contraste, que a sobrevalorização de
espetacularizada. Em contraponto, os mercados longínquos vem associada ao
produtos do artesanato são afirmados não reconhecimento dos mercados
como mercadorias que tendem a locais, que ficam relegados ao
invisibilizar pessoas. rebaixamento. Para Teixeira (2010),
Nesse processo, as regras de esses seriam os termos para o “[...]
mercado contrastam com os valores diálogo necessário com o mercado”
subjacentes à produção tradicional: não (Teixeira, 2010, p. 23).
deixam de impor outro tempo, espaço,
racionalidade e sociabilidade às artesãs. 2.2 Adesão multimotivada
Em paralelo, a ideia demonstra apelo
A despeito da capacidade
social, e até ambiental – conserva-se a
produtiva, do volume de vendas e dos
cultura e preserva-se o meio ambiente
preços empregados não serem
sobre o qual ela foi forjada –, capaz de
condizentes com a autossustentação
engrenar com os discursos de
econômica, a geração de recursos
sustentabilidade, de geração de renda e
financeiros a partir do artesanato não
de emprego rural. Ou seja, a ideia
pode ser desprezada, seja em Sagarana
engaja-se ao discurso de organizações
ou na Serra das Araras. Algumas artesãs
prontas para financiar a “lucrativa”
estimam que, no mínimo, 20% da renda
experiência artesã. Se a adesão a tal
familiar sejam provenientes dessa
concepção tem refletido na obtenção de
atividade. É assim que o fator “condição
produtos vendáveis (tradicionais, bem
material”, a exemplo da dificuldade de
acabados, com cores brandas, úteis, bem
obtenção de empregos e das baixas
apresentados), o mercado em questão

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 48
remunerações efetuadas no contexto, que esse pertencimento projeta acesso
justifica parcialmente a ação social da diferenciado às artesãs (aos prefeitos, a
Central Veredas, na qualidade de determinadas redes, à mídia,etc.). Nessa
mediadora e animadora da rede de espécie de interstício entre renda e poder,
artesanato, e, de modo adicional, confere em que estão situadas as motivações das
tônus econômico à experiência. Para artesãs, projetam-se os ensejos de
além dessas remunerações, os salários afirmação – de pessoa ativa – e de
diversos envolvidos e os aportes multi- posicionamento no mundo a partir do
institucionais de recursos que são artesanato. Diga-se um mundo cujas
movimentados devem ser considerados transformações recentes vêm impondo
no balanço das economias locais. No constantes desafios culturais e sociais
entanto, a obtenção de recursos ali. Também, um posicionamento
financeiros diretos está longe de desejado frente à condição de dupla
constituir razão exclusiva para dar vida e subalternidade – ou tripla – imbricada
sentido ao artesanato nas associações. nesse contexto: de ser mulher, de ser da
Há, portanto, uma série de razões que roça, de permanecer na roça.
motivam o artesanato, incluindo, até As associações artesãs
mesmo, outros projetos que podem constituem espaços de sociabilidade
aparecer; logo, outro conjunto de importantes em tempos em que se busca
recursos, financeiros e simbólicos. Os por espaços de trabalho verdadeiramente
múltiplos projetos e os espaços físicos, coletivos, de modo a tentar remontar o
equipamentos, representações midiáticas trabalho comunitário que era, com
e deslocamentos que lhes são frequência, empreendido em um passado
decorrentes, entre outros aportes, não não muito distante. De modo geral,
raro, são revertidos em status e poder e, busca-se no trabalho artesão, sobretudo,
dessa forma, em margem de manobra a ocupação grupal: para pertencer, para
para dar curso a projetos pessoais e formar laços, para cantar, tecer, bordar,
coletivos distintos nas várias localidades fiar etc. A dimensão do lazer também
onde a rede se realiza. aparece disfarçada entre as motivações
Observa-se uma construção para o artesanato, como se constituísse
identitária que se dá pelas vias do escape para extravasar problemas
pertencimento a grupos que, vez ou domésticos: “Aqui é como se fosse o
outra, ganham evidência nas dinâmicas psicólogo delas...” (fala da secretária de
de desenvolvimento local, de modo tal uma associação).Lazer que ultrapassa os

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 49
limites de um senso comum que circula
e, segundo o qual, as artesãs são pessoas 2. 3 Multirracionalidade e mediação
de idade avançada que veem no
artesanato uma mera forma de ocupar o Do algodão plantado e dos
tempo9. Se alguém pode atribuir um tom tecidos feitos à mão, dos embrulhos,
pejorativo à afirmação de que em camisas, roupas de cama e enxovais
Sagarana ou na Serra “não há nada para feitos com esses tecidos, e da referência
se fazer”, o discurso local acerca de um de se ver a mãe tecendo – sem a
cotidiano monótono não pode ser associação de tal imagem a algo maior
negado, de modo que as artesãs apontam do que a labuta diária para poupar gastos
para certo marasmo e melancolia em se familiares –, emergem duas questões que
viver ali. Por fim, a fuga da residência ao podem ser tomadas de empréstimo à
artesanato também pode ser acionada reflexão de uma multirracionalidade
para lidar com o machismo dos maridos, operada no âmbito da rede. A primeira é
em sentido análogo ao que colocam a de que o artesanato dos dias atuais tem
Waitt e Gibson (2013), de abrir espaço uma base agrária, ou, uma base
alternativo para fazer frente a opressões contextual de mudança, da época das
dessa natureza. fazendas para o presente “moderno”. A
Essa multimotivação ao atual atividade artesã está fundada nos
artesanato parece dar vida aos espaços – modos da roça, na falência das fazendas
de modo performático, afetivo e político, tradicionais enquanto espaço agregador
nos termos de Waitt e Gibson (2013) – (ver Meyer, 2015, p. 60-83) e,
pela via da construção de subjetividades. simultaneamente, na valorização da
Observamos, portanto, construções tradição, ou seja, na ressignificação
identitárias não exatamente calcadas no societária da tradição. A segunda faz
reforço de uma cultura ameaçada, mas alusão a referências culturais
num “posicionar-se no mundo”, algo que particulares que orientaram esses modos:
parece coerente com as transformações as noções próprias de tempo e espaço (o
sociais ocorridas ali nas últimas décadas.
Trata-se de uma das dimensões locais de
desenvolvimento.

9 associadas está próxima aos 40 anos,


Ainda que isso possa ser verdadeiro para
algumas poucas artesãs, a média de idade das considerando Serra das Araras (2013), Sagarana
(2013) e Natalâdia (2012).

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar 50


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
tempo e o “movimento”10 da roça); as confeccionados a partir da reciclagem de
cores vivas e variadas dos tecidos e as embalagens, a exemplo dos chapéus de
medidas personalizadas dos novelos e latinha de cerveja. Tanto esses objetos
dos artefatos produzidos anteriormente; como aqueles feitos de buriti vendidos
a dimensão coletiva e solidária do via rede de artesanato são apresentados
trabalho. É em tal cenário de mudanças por ela como se fossem produtos
que a tradição é movimentada, de modo indiferenciáveis quanto à categoria de
a incorporar elementos de outra artesanato a que pertencem. Contudo, na
racionalidade. perspectiva que orienta as ações da
Sequer do ponto de vista Central Veredas, chapéus de latinha não
estético é possível tomar o artesanato se enquadram na tipologia do artesanato
como estático. Em realidade, o elemento de tradição. Para representantes da
estável desse processo parece ser a Central Veredas, uma das características
referência compartilhada em se fazer do artesanato de tradição é a utilização
artefatos conforme as necessidades de matérias-primas naturais, ao passo
cotidianas. A despeito disso, no âmbito que, segundo relatos das artesãs, as
da rede, as formas de aprendizado se matérias-primas eram eleitas
consubstanciam em eventos formais de considerando aquilo que era abundante
capacitação. Imagens de santos, terços, na roça. Ocorre que, em dias atuais, as
araras e flores confeccionadas com latinhas de cerveja parecem mais
hastes de buriti (Mauritia flexuosa) abundantes que as hastes de buriti, cuja
constituem “tradições novas” que coleta é cada vez mais controlada pelo
surgiram no âmbito da rede, muitas das IEF. Se, por um lado, confere-se certo
quais viabilizadas a partir de corpos de dinamismo à produção artesã no âmbito
conhecimento introduzidos em da rede – as capacitações e a introdução
esquemas mais formalizados de de novas modalidades de artesanato –,
aprendizado – novidades desconexas dos por outro, fica difícil reconhecer outras
sentidos de necessidade material direta características dinâmicas do artesanato, a
ou de estética local. exemplo da introdução de latinhas como
Em 2013, o trabalho de uma matéria-prima. Mas, enfim, de quem
artesã na Serra das Araras incluía objetos seria a prerrogativa de construir

10
Para aprofundamento sobre a categoria
“movimento”, ver Pereira (2009) e Cerqueira
(2010).

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar 51


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
categorias para abrigar diferentemente para ser constituída enquanto tal: tinge-
‘chapéus de latinha’, ‘Santo Antônio de se em Uruana de Minas, fazem-se artes
hastes de buriti’ e ‘jogo americano de de buriti em Serra das Araras, e assim
linha fiada à mão e tingida por diante, até que se constitui a região
naturalmente’? (o Vale do Rio Urucuia) e se constrói a
Apesar da ideia de artesanato de ideia de desenvolvimento regional.
tradição veiculada pela Central Veredas, A atual lógica de trabalho, em
os artefatos tendem a ser produzidos grande medida escolhida pelos
conforme o dinamismo particular que os mediadores, aparece como sendo
agentes sociais conferem aos processos, estranha às artesãs. A elaboração e
atualizando-os ao contexto. Observa-se, submissão de projetos, as articulações
então, certa rigidez resultante do apego à políticas, as formas de utilização dos
ideia de tradição, ao passo que se faz recursos, as prestações de contas, as
contrastar o antes e o hoje, deslocando a inscrições nas feiras e os engajamentos
‘produção destinada a evitar eventuais necessários para isso, a aquisição de
compras’ para a ‘produção geradora de produtos e a circulação de mercadorias
renda’, deixando em evidência o avanço no âmbito da rede... Todos esses pontos,
de um manto capitalista sobre as relações se acrescidos de aspetos de cunho mais
sociais. Para além de uma perspectiva mercadológico, como as precificações,
marxista, entretanto, observa-se a os acabamentos dos produtos, os clientes
pluralidade de modos de se atualizar finais almejados, as tendências e as
tendências. Dessa forma, a alcunha da exigências de um mercado consumidor
tradição não garante a afiliação exata aos estranho etc., podem ser abrigados
modos de produção de artefatos que segundo uma racionalidade burocrático-
eram empregados na roça, porque a roça mercadológica – análoga àquela
já não é mais a mesma, porque não havia racionalidade instrumental examinada
mercado exigindo padrões e porque a por Max Weber. Na perspectiva dos
capacitação, hoje formalizada, não era mediadores, a adesão a essa
distinta da observação atenta ao trabalho racionalidade seria inevitável e essencial
da mãe e dos parentes, conduzida no seio para a resolução dos problemas
familiar. Em boa medida, as capacidades contingentes que surgem no âmbito da
locais foram introduzidas/atualizadas na rede, tais como “que procedimentos
rede de artesanato, como se essa, de devem ser realizados para a
alguma forma, precisasse ser forçada regularização da associação?” ou “o que

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 52
compensa mais, uma associação ou uma citar alguns exemplos. Além disso,
cooperativa?”, e assim por diante. Enfim, posiciona-as diante de uma lógica
tal racionalidade, que torna empresarial/institucional que parece
simultaneamente compulsória a querer padronizar o múltiplo e aplainar
reprodução social da mediação, constitui os tempos. Tal racionalidade se expande
linguagem para o financiamento multi- ali, não raro, como via única de
institucional e, dessa forma, para a resolução de questões no âmbito da rede.
sustentação da rede no formato Com a dificuldade em dominar aspectos
escolhido. burocrático-mercadológicos apresentada
Houvesse o domínio de tal pela maioria das artesãs – os mecanismos
racionalidade por parte das artesãs, os de precificação, os procedimentos para
estranhamentos e confrontos aquisição de determinado maquinário
identificados no âmbito da rede seriam e/ou material de consumo ou quaisquer
de outra natureza. Isso parece constituir outros –, esse papel é constantemente
um dos principais dilemas enfrentados assumido por meio da ação mediadora,
por elas, e o reverso – de lidar com a que, ao mesmo tempo, parece instaurar
tradição expressa em modos locais – os contornos de uma lógica patronal e
poderia ser extrapolado aos mediadores recorrer sutilmente às formas de
e financiadores. Querendo fiar e tecer, dominação simbólica que lhe são
veem-se, de súbito, diante de uma intrínsecas.
racionalidade burocrático- Outro aspecto que decorre da
mercadológica que lhes roga precioso adesão a essa racionalidade corresponde
tempo para gerir experiências aos tipos possíveis de liderança
associativas que as engaja, comunitária. Ao passo que, na região, as
paradoxalmente, na moderna divisão lideranças desses grupos parecem
social do trabalho – os bordados são emergir dos dotes carismático-
feitos na Serra das Araras, os performáticos11 de determinados
tingimentos, em Uruana de Minas, agentes, no âmbito da associação artesã
camisetas, em Sagarana, apenas para da Serra das Araras, em contraste, vigora

11 pessoas e grupos – a la Weber. A liderança


Entenda-se um agente carismático-
performático como aquele que exerce emerge de uma espécie de desempenho esperado
“espontaneamente” a liderança – a liderança nata pelos espectadores liderados; ao invés de ser
– ou que recorre habilmente a elementos produto de uma escolha pensada, é um resultado
discursivos que o tornam capaz de emocionar, subliminar projetado a partir um “colocar-se”, de
fazer rir, entreter, constranger e até coagir outras um “impostar-se”, que inibe outras emergências. 53
Desenvolvimento Rural Interdisciplinar
Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
a forma “democrática” de escolha de tempo de convivência nas associações da
lideranças segundo a qual são eleitas as rede.
presidentas das associações, que atuam Se o artesanato constituiu
durante intervalo de tempo determinado espaço para que as artesãs possam lidar
por regras. Esse tipo de gestão parece com o cotidiano recente por meio da
conflitar com as formas locais de coletividade, esta, em boa medida, vem
organização, por conferir espaço de sendo substituída pelo trabalho
poder para entes outros, não carismático- individual, realizado nas próprias
performáticos. Trata-se de uma das residências – sem, entretanto, anular por
consequências do manto burocrático dos completo o sentimento de grupo. Além
financiadores que encerra por tomar a disso, a participação nas feiras por parte
eleição de presidentes de associações das artesãs ficou restrita em favor da
como valor fundamental. A opção por tal racionalização do trabalho.
racionalidade, como estratégia e Consequentemente, a dimensão coletiva
linguagem, altera as formas nativas de parece, aos poucos, ser tomada por uma
distribuição de poder. Daí, em parte, racionalidade burocrático-
deriva a razão das várias intrigas, mercadológica que abala as expectativas
fofocas, confusões e casos de ciúmes aos construídas historicamente pelas artesãs.
que se tem acesso mesmo com pouco

3. APROFUNDANDO O ENCONTRO: NOS RUMOS DE OUTRA


ONTOLOGIA DO SOCIAL?

O contraste entre racionalidades despeito de seu intuito altruísta e até


e visões de mundo distintas revela militante-contestatório, buscam a
amarras que parecem impedir a ambientação de uma lógica estranha,
apropriação ampla de processos no contraditoriamente “moderna”. A lógica
âmbito da rede – a precificação, a racionalista, que atende essencialmente a
autonomia de cortes de tecidos, o trânsito um mercado longínquo, aparece como
de matérias-primas e produtos acabados corrente hegemônica, mas que, no
etc. –, assim como a institucionalização entanto, concorre com visões forjadas a
de valores – de qualidade dos produtos, partir de uma época de fazendas em que
entre outros. Impõem-se desafios e figuravam éticas camponesas e
barreiras também aos mediadores, que, a personalistas particulares. Por outro

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 54
lado, a despeito das tensões e fricções em medida em que multimotivações e
cena, a experiência artesã adquire multirracionalidades acabam por gerar
sustentação temporal. Como e por que, certa “fricção” entre distintos
então, a rede prossegue? entendimentos, linguagens, objetivos e
À luz das informações geradas mesmo materialidades (vide o exemplo
junto às integrantes da rede de dos chapéus de latinhas de cerveja).
‘artesanato de tradição’, é possível Dessa forma, poderíamos tomar de Long
analisar e/ou conceber o encontro e a (2007, p. 327) a noção de que essas
operação entre distintas racionalidades interfaces são “[...] pontos críticos de
de formas variadas. Faz-se, aqui, o intersecção entre distintos campos
exercício de tomar emprestadas algumas sociais, domínios ou mundos de vida,
noções teóricas que, em maior ou menor onde se encontram as descontinuidades
grau, auxiliam a problematizar esse sociais por diferenças em valores,
encontro, mas não a resolvê-lo. Em interesses sociais e poder”. Arce e Long
realidade, buscamos apropriar-nos de (1994) colocam que as interfaces
tais noções a partir do conteúdo envolvem tanto relações face a face
etnográfico gerado, ou seja, a posteriori. quanto outras mais distantes, gerando
Ocorre que, ao empreender tal tarefa, novos tipos de atores, novos arranjos
deparamo-nos com a possibilidade de ter sociais e processos organizacionais; a
de romper com o estatuto ontológico em dinâmica da interface implica, então, em
jogo. Isso porque a observação suscitou negociação, acomodação e luta. Nesse
a participação de elementos outros – sentido, a ideia-força do
discutidos nesta seção – ao redor desse desenvolvimento como avanço linear
“encontro”. patrocinado pela falta se desfaz ou,
talvez, deflagre múltiplos encontros e
3.1 Interface e subjetividade
desencontros entre atores, instituições e
materialidades tão imprevisíveis quanto
A ideia de desenvolvimento
heterogêneos.
regional, ou melhor, parte dela,
Do encontro entre uma
caracterizada pela proposição,
racionalidade burocrático-
construção e manutenção de uma rede de
mercadológica e outra, assentada na
artesanato de tradição, fraciona a
época das fazendas, mundos diferentes e
realidade em múltiplas, conformando
conflituosos entre si se chocam,
uma interface de desenvolvimento, na
desencadeando disputas sobre pontos de

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 55
vista elaborados segundo aspectos parte das artesãs. Essas surgem em
cognitivos e valorativos, a exemplo da resposta a posturas coercitivas, como
escolha de lideranças guiada pela aquela relacionada à imposição de uma
performance contraposta àquela guiada lógica patronal, ou, em decorrência do
por princípios democráticos. estranhamento da atuação excessiva de
Evidentemente, não se poderia dividir o múltiplas organizações – incluindo a
mundo, ali, em apenas duas própria Central Veredas –, cujas
racionalidades sem incorrer em decisões, muitas vezes tomadas à revelia,
reducionismo. A oposição binária a que inibem alguns interesses diretos das
aqui se recorre tem apenas propósito artesãs e provocam constrangimentos
heurístico. De fato, os grupos sociais da marcantes.
região – e o conjunto de valores e A ação mediadora, em parte, é
princípios que os guiam – não são vista como excessiva, como uma força
homogêneos ou divisíveis em dois. que exige relatórios, que realiza assédios
Nesse sentido, há os mediadores locais para obter informações diversas, que
ou pessoas de fora que assumem a causa burocratiza e que, em última instância,
segundo um olhar local. Uma artesã pode tenta impor dependência. Todavia, as
tornar-se mediadora, sendo variável o artesãs reagem, estabelecendo suas
grau de compromisso com uma próprias forma de “boicotes”, por
racionalidade burocrático- exemplo, com sequências de pequenos
mercadológica. Assim, uma visão sobre constrangimentos: o atraso, as desculpas
o encontro (ou desencontro), aqui pela ausência e o desinteresse
cultural, emerge da qualidade da demonstrado de formas variadas para
interação entre atores locais, mediadores com as reuniões; a emissão de frases
e financiadores, entre outros, que encerra irônicas; as fofocas contra as
por dar os contornos da mudança social presidentes; as evasões da rede; entre
no nível local. outros. Essa resistência aparece como
Se, na interface, apresentam-se produto da disputa entre atores com
interesses mais amplos, comuns (o diferentes repertórios valorativos e
desenvolvimento regional e a cultura cognitivos; para Long (2007), a partir
local), inscrevem-se, de outro modo, dela, estabelecem-se, na interface,
objetivos contraditórios, que, não raro, fronteiras simbólicas que determinam os
constroem novas assimetrias ou limites da comunidade ou do grupo,
atualizam velhas, gerando reações por criando um sentido de pertencimento

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 56
e/ou implicando, de outro modo, o reconhecimento social; a agregação de
reposicionamento de atores sociais. conteúdo histórico aos produtos artesãos,
Apesar dos constrangimentos e apesar das cooptações de caráter estético
resistências em jogo, a experiência e processual identificadas. Assim, a
artesã, por um lado, abre espaço para agência pode ser pensada, por um lado,
agência12 por parte dos grupos locais. no nível relacional de atores interessados
Por outro, recai nos idealizadores e delimitados segundo valores comuns,
políticos da rede de artesanato negociados. Contudo, poder e margem
(supramediadores), que manejam de manobra podem ser expressos em
discursivamente a experiência artesã, no termos familiares ou individuais,
intuito de mostrar aos representantes de envolvendo uma gama de dimensões da
vertentes políticas concorrentes e à vida que ultrapassa a rede de artesanato.
sociedade os frutos de seu projeto de
3.2 Bricolagem
desenvolvimento regional. Em termos de
campo de possibilidades, emergem,
Outra perspectiva de encontro
ainda: novas lideranças, ligadas, ou não,
emerge quando mudamos o ângulo de
ao campo da mediação na rede; a geração
observação para com os corpos de
de rendas no contexto do relativo
conhecimento em jogo. A racionalidade
isolamento geográfico; a circulação em
burocrático-mercadológica pode ser
feiras e cidades distintas; a
tomada como um corpo externo, que,
diversificação/modificação, em maior ou
removido do mundo das organizações
menor grau, das noções estéticas,
que o consagram, é recontextualizado na
econômicas e mercadológicas; o
região em questão, a despeito de certo
aproveitamento do escopo de
reducionismo implícito nessa ideia –
conhecimento de técnicos e da
porque tem a rede de artesanato como via
capacidade organizativa e de animação
única de contato com esse “corpo
laboral proporcionada pelos mediadores;
externo”. Para De Landa (2006), tal
as vendas nos encontros e festas locais e
racionalidade pode ser vista como um
nas sedes das associações, que, por
conjunto coerente de entidades que,
serem visíveis, parecem gerar
retirado de seu contexto original,

12 sociais, logo, é realizada à medida que os atores


Agência pode ser entendida como a capacidade
do ator, individual ou social, de manifestar conseguem fazer surgir redes sociais e usá-las
intenções e/ou formular, tomar e sustentar para sustentar ou contestar projetos particulares
decisões. Agência está encarnada nas relações (Long, 2007).
57
Desenvolvimento Rural Interdisciplinar
Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387
externo, transforma-se em fragmentos. a exemplo dos desdobramentos
No caso, a racionalidade constitui subjetivos que ocorrem a partir do
substrato da ação mediadora, pela qual choque com determinada governo-
algumas partes desse corpo externo mentalidade.
seriam manejadas no sentido de Segundo o prisma teórico de De
“orientar” a experiência artesã. Landa, em grande medida fundamentado
Uma entidade corresponde a em Deleuze e Guattari (1997), podemos
“um aspecto delimitável e identificável vislumbrar processos intervencionistas
da realidade social” (Umans e Arce, como sinônimo de constituição de
2014, p. 341), a exemplo de uma lei, de “espaços estriados”, que, em oposição
um conjunto de regramentos ou de um aos “espaços lisos”, representariam a
corpo específico de conhecimento. expansão de forças dominantes e
Nesse sentido, a temporalidade e a regradoras. No caso da rede de
racionalidade dos projetos de artesanato, assumir a conformação de um
financiamento da atividade artesã espaço estriado seria o mesmo que
constituiriam fragmentos de entidade. reconhecer a racionalidade burocrático-
Por meio de processos de mercadológica regrando as operações no
descontextualização e cerne da rede e de suas associações, a
recontextualização, esses fragmentos se despeito das lógicas que sustentavam a
ligariam a outros fragmentos do contexto produção de artefatos na época das
no qual foram introduzidos, como fazendas. Essa seria a consequência do
aqueles oriundos da época das fazendas, desenvolvimento ou da “transferência de
embebidos em temporalidade, capital, conhecimento e tecnologias”
espacialidade e reciprocidade (Umans e Arce, 2014, p. 338). As
particulares. A ligação entre esses bricolagens, no entanto, iriam além dessa
fragmentos conformaria bricolagens de transferência, porque se constituiriam a
caráter social complexo. Nessa partir da ligação entre fragmentos
perspectiva, a partir da teoria das externos (ou entidades
bricolagens (assemblages; ver De Landa, desterritorializadas) e fragmentos do
2006), podemos adentrar o encontro, até contexto, produzindo conjuntos sem
então cultural, de modo alternativo coerência interna, mas com relações de
àquele proposto por Long (2007), exterioridade para com o mundo. Umans
centrado nas interfaces, ou às e Arce aludem a essa questão quando
formulações de influência foucaultianas, colocam que:

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 58
[...] a descontextualização é deslocando a realidade do plano das
frequentemente incompleta,
considerando que os legados bricolagens para o das multiplicidades e
históricos, marcas e princípios
ficam colados aos fragmentos. da “con-fusión ” (o confuso e o uno). A
Durante os processos de
descontextualização e
confusão seria justamente fruto das
recontextualização, essas marcas marcas que os fragmentos (no caso,
são transferidas com os
fragmentos, como memórias, regramentos) carregam consigo.
corporificações, experiências, etc.
Trata-se de uma fonte de No território artesão, a ação
transferências inesperadas de
características de outro contexto e mediadora busca atrelar a rede de
alto grau de contingência (Umans
e Arce, 2014, p. 338).
artesanato a uma lógica empresarial que
não pode ser operada sem recorrer a uma
Estes autores propõem,
racionalidade que contrasta em muito
entretanto, tomar a filosofia deleuziana
com os modos de produção de artefatos
para além da teoria das bricolagens. O
forjados em uma época das fazendas.
argumento central faz referência à
Assim, se as características
natureza da ligação entre os fragmentos
organizacionais da rede ficam ao cargo
introduzidos e os do contexto. Segundo
dos mediadores, e se os saberes
eles, então, as bricolagens pressupõem
produtivos provêm das artesãs, tal
fronteiras entre os fragmentos e, apesar
arranjo subverte o contexto “original” de
das ligações estabelecidas entre eles,
movimentação da tradição; os
esses fragmentos estariam apenas
fragmentos ali apenas se encaixariam no
unidos, colados, interferindo na
contexto gerando con-fusión – a
coerência interna das bricolagens e
ressignificação do trabalho coletivo, as
introduzindo contingências e incertezas.
amarras em relação à criatividade etc. É
A partir da experiência com os Yuacaré
assim que, com sua potência de subverter
na Bolívia, Umans e Arce (2014)
a concepção ontológica da qual o
argumentam que é diferente, por
pesquisador poderia partir, a rede de
exemplo, introduzir a entidade
artesanato pode ser vista como “este
“legislação florestal” em “uma
diverso e múltiplo” (Umans e Arce,
companhia florestal de larga escala” ou
2014, p. 338) ou como uma
em “uma comunidade extrativista cuja
multiplicidade.
cosmologia não permite separar pessoas
de floresta”. Neste último caso, a
natureza da interação entre fragmentos e
contexto borraria as fronteiras existentes,

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 59
3.3 Fluidez – estamos aqui, então, diante de uma
perspectiva ontológica alternativa:
Em linhas gerais, a [...] essa natureza da realidade
social é mais bem definida como
multiplicidade deleuziana é traduzida
uma mistura viscosa.
por Umans e Arce (2014) como algo Ontologicamente, as realidades
têm intensidades que variam (ver
internamente fragmentado, mas com Deleuze e Guattari, 2004). As
partes solidificadas são entidades
difícil identificação dos fragmentos, materiais, pacotes fixados e
fenômenos territorializados. As
diferente das bricolagens, em que esses partes viscosas são sistemas
complexos, bricolagens e práticas.
fragmentos aparecem bem marcados. Na
As partes fluidas são
multiplicidade, a interpenetração é de tal multiplicidades
desterritorializadas. Nós
ordem que os fragmentos se tornam chamamos esse resultado de
ontologia viscosa (Umans e Arce,
coconstituídos (nesse sentido, frisamos 2014, p. 343).
que a rede de artesanato não é ali a única
Se a rede de artesanato é tomada
via de acesso, por exemplo, à
como multiplicidade, confusa e fluida, os
racionalidade burocrático-
bordados na Serra das Araras, apesar de
mercadológica). Daí que “substância” ou
introduzidos, apareceriam como “mais
“fluidez” mais bem representariam esse
uma atividade artesã”, como um
entremeio. Ou seja, já não estaríamos
fragmento externo que se ligaria a outros
diante de fragmentos de conhecimento e
numa bricolagem. Diferente da
valores distintos que se ligam no âmbito
racionalidade burocrático-
da experiência artesã, mas de um corpo
mercadológica, os bordados, e até o
de fragmentos coconstituídos que
tingimento em Uruana de Minas (ver
mantém inter-relações com o contexto.
Figura 1), cujos saberes foram
Ou seja, a multiplicidade não tem
“reintroduzidos”, não seriam exatamente
fronteiras bem definidas, mas borradas,
fontes de incertezas, indefinições e de
tanto entre seus fragmentos como para
mudança nos padrões de relações que
com o contexto. Além disso, esses
culminam nas multiplicidades. O mesmo
autores advogam pela coexistência de
não poderia ser dito para o conjunto de
entidades coerentes, bricolagens e
práticas artesãs imerso na rede mais
multiplicidades: esse conjunto seria
ampla de atores que constrói a ideia de
chamado de “mistura viscosa”. A
desenvolvimento regional.
realidade social seria organizada
segundo diferentes graus de viscosidade

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 60
3.4 Intensidade contraditória marca a ideia de
desenvolvimento e um conjunto de
A ideia de desenvolvimento práticas que já lhe são decorrentes.
regional na qual a rede de artesanato está Apesar do caráter instrumental
imersa constitui elemento para se que as categorias “interesses”,
explorar a categoria intensidade que “multimotivações” e “construção de
parece emergir do conteúdo etnográfico subjetividades” podem assumir para
gerado. Para além de posicionarmos tal compreendermos algo sobre o encontro
ideia “fora” do mainstream, há que dizer produzido, argumentamos que a ligação
que ela movimenta um idioma de entre atores distintos parece ser guiada
desenvolvimento, que mescla elementos também por alguma força que se
discursivos e linguísticos dos campos distribui entre as afetividades
artístico-cultural e ambiental, da cultura estabelecidas entre atores sociais. Enfim,
da roça, entre outros. O idioma as informações etnográficas geradas nos
representa, também, um corpo de saber sugerem vislumbrar a rede de artesanato
ecumênico e compartilhado capaz de a partir de outra perspectiva de encontro.
amalgamar afinidades, consensos Como se a contradição não pudesse ser
temporários, convergências e totalmente compreendida a partir de uma
afetividades. É a partir dele que são economia de interesses e construções
movimentados atores diversos em torno subjetivas clássicas, algo que desloca
de uma ideia de desenvolvimento nossa atenção à teoria deleuze-
regional que dá visibilidade às histórias guattariana.
marginais sobre o local, colocando em De Deleuze e Guattari (1997a;
evidência a cultura local e a relação do 1997b) extrai-se que os agenciamentos,
sertanejo (designação do habitante local, processos que colocamos aqui em
agora protagonista) com signos evidência, podem ser entendidos como
ecológicos locais. Contudo a ideia de “fazer o papel de” (1997b, p. 36) ou “ser
desenvolvimento regional, contestatória, afetado pelo mesmo que” (Goldman,
guarda consigo contradições que lhe 2006, p. 31-32). Agenciamentos seriam
permite perdurar, a exemplo de: por que produzidos a partir de intensidades
uma rede de artesanato insustentável se similares, uma vez que só se “faz o papel
sustenta? Ou, por que aderir aos de” quando “velocidades” e “lentidões”
esquemas de pensamento que assolam a (termos de Deleuze e Guatarri) são
própria tradição? Essa força motriz sincronizadas. Com isso, introduz-se a

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 61
dimensão do afeto à experiência do local, autêntica e única, algo condizente
desenvolvimento. Para esses autores, com os dados etnográficos. Nessa
tudo se determina segundo velocidade e perspectiva, atenua-se o paradoxo inicial
lentidão; esses seriam os critérios segundo o qual uma rede insustentável se
maiores de divisão do mundo e para a sustenta.
apreensão da diversidade em uma
ontologia do devir ou da diferença 3.5 Unicidade
(Vasconcellos, 2005). Isso inspira uma
possibilidade ontológica na qual a Em linhas gerais, na filosofia de
realidade social seria produto de uma Deleuze e Guattari (1997a; 1997b), devir
espécie de sincronia. Filtradas por esse é rizoma, e multiplicidade e devir são a
prisma, a ideia de desenvolvimento mesma coisa. Um rizoma tem seus
regional e as ações que dela decorrem pontos conectados uns aos outros por
seriam produzidas a partir de intensidade, tem uma linguagem
intensidades similares, da sincronia de estabilizada, tem em si o princípio da
velocidades. Há margem para incorporar multiplicidade. Numa espécie de
aí determinadas contingências, tradução ontológica, a multiplicidade,
afinidades pessoais, empatias e sendo única, representaria o encontro
afetividades estabelecidas entre agentes particular entre as lógicas em que
diversos envolvidos no processo. A estavam imersas as artesãs e uma
experiência artesã constitui-se enquanto racionalidade burocrático-
um bloco de intensidade. Se, na interface mercadológica, cujos fragmentos estão
de Long (2007), geram-se encontros de unidos ali sem costura, ou, nos termos de
racionalidades e construção de Umans e Arce (2014), estão “inter-
subjetividades, aqui, geram-se relacionados”, porque têm a mesma
potencialidades pelas linhas de fuga, intensidade. Quem, então, faria rizoma?
que, por assim serem constituídas, A racionalidade burocrático-
“aponta[m] para uma nova concepção da mercadológica que é proposta como
subjetividade, que descarta a dualidade via/linguagem de desenvolvimento? Os
interior/exterior para propor uma prega modos locais embebidos na
ou dobra que unifica a constituição das reciprocidade? Ambos. O rizoma é a
subjetividades” (Vasconcellos, 2005, p. própria ideia de desenvolvimento
159). No ponto de vista sustentado neste regional (o afeto) à qual o artesanato de
trabalho, isso abre espaço para a trama tradição, as artesãs e as organizações

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 62
estão engajados. Ele é o empréstimo de subjacente a ele, podemos rompê-lo a
fragmentos globalizados, logo, não deixa qualquer momento, assim como retomá-
de ser a inserção na própria globalização. lo, numa espécie de afloramento (as
A natureza heterogênea do rizoma associações seriam esses afloramentos).
burocrático-fazendário seria definida A metáfora das formigas bem representa
exatamente pelo aumento das conexões a territorialização da experiência artesã
estabelecidas (Deleuze e Guattari, para representar a possibilidade de
1997a, p. 7). Explicando melhor, trata-se segmentação ou descontinuidade. “É
de um rizoma burocrático-fazendário- impossível exterminar as formigas,
literário-ambiental-ativista-histórico- porque elas formam um rizoma animal
etc., porque esses elementos integram a do qual a maior parte pode ser destruída
linguagem que amalgama a ideia de sem que ele deixe de se reconstruir”
desenvolvimento regional, da qual a rede (Deleuze e Guattari, 1997a, p. 17). De
de artesanato, em grande medida, é modo análogo, tal segmentação constitui
produto (ver Meyer, 2015, p. 188-229; dispersão espacial, pelo espraiamento
Meyer et al., 2016). A multiplicidade que nos dá sempre a impressão de haver,
expressa o único, a medida exata entre na região em questão, longas distâncias a
essas informações (fragmentos) cujo serem percorridas. A rede de artesanato
conjunto envolveria ainda outras, para seria a própria segmentação e o rizoma,
além do dualismo fazenda-burocracia. e a própria multiplicidade: ela seria a
A Figura 2 – uma representação ideia de desenvolvimento regional
alternativa da rede de artesanato – nos espacialmente aflorada. Daí que a
permite aprofundar a noção de unicidade representação expressa na Figura 1 pode
e as características do rizoma. Apesar da ser ajustada à representação da rede na
ideia de continuidade e de conectividade Figura 2.

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 63
Figura 2. Representação alternativa da rede de artesanato de tradição.

Fonte: elaborada pelo autor

3.6 Intencionalidade Dessa forma, o foco parece ser deslocado


da “complexidade das relações que se
Considerando ainda a Figura 2, formam em tempos de globalização”
a intensidade – o motivo-rizoma – ou o (expressa em termos de racionalidade
grau de conexões que são estabelecidas burocrático-mercadológica) para “a
são determinados segundo a ideia de unicidade de uma experiência sendo
desenvolvimento regional em curso – motor (contraditório) de si própria”.
que motivou as artesãs a se engajarem e Nesse sentido, retomamos Vasconcellos
a permanecerem em uma rede de atores (2005), que diz que “o interesse de
que contesta os modos hegemônicos e a Deleuze pela questão [da subjetividade]
destruição da natureza e valoriza a arte e é menos pelo problema da subjetividade
a cultura local. Essa ideia determina a e suas relações com a dicotomia
intensidade, mas, similarmente, confere interioridade/exterioridade
intenção à rede, a exemplo de sua [tradição/racionalidade burocrática-
posição no campo artístico-cultural em mercadológica], mas com a questão do
um viés discursivamente contestatório. pensamento, e como este se articula a

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 64
esta subjetividade para a criação do de produção salmoneira, a região é uma
novo” (p. 160). expressão de alianças criadas entre
Na Figura 2, a rede de empresários, técnicos, trabalhadores e
artesanato está expressa no formato de peixes, entre outros, que acabam
lacraia. Esse animal revela menos uma trazendo junto: movimento, repouso,
intenção de constranger a rede ao seu velocidade e lentidão dentro de uma
formato e mais um esforço de representar multiplicidade. Os afetos que emergem
a intencionalidade subjacente à ideia de do movimento das pessoas entre a terra
desenvolvimento regional – a cabeça firme, o mar e a tecnologia criam
denota a intencionalidade, apesar de que diversas expressões de intencionalidade.
esta está por toda parte. Assim, o Voltando à rede de artesanato, emergem
desenvolvimento, o curso da ação social, algumas questões que consideramos
ocorre porque é disparado, e mesmo importantes: quais são as consequências
arquitetado, se não apenas pela de se pensar em termos de
ADISVRU, também por agentes intencionalidade em vez de, por
intimamente ligados a ela, como as exemplo, assimetria de poder? A
artesãs. Contudo a experiência se dá por condução, ou seja, a cabeça e sua
devires, por ressonância. Sagarana é representação enquanto intencionalidade
verde e redonda como Urucuia e Uruana reflete um espírito de desenvolvimento?
porque sincroniza velocidades, A cabeça abocanha, coopta uma série de
identifica-se quanto aos afetos organizações? Ou é de fato
produzidos. Compondo o mesmo quadro invadida/perfurada por elas? Adentrar
da Figura 2, compartilham afetos (ou a outra ontologia parece provocar
mesma paisagem, como diria Silveira, estranhamentos, no sentido de considerar
2010). que, na ruptura de dicotomias, não se
Blanco, Arce e Fisher (2015, p. abocanha ou, tampouco, se é perfurado.
187) colocam que, no contexto chileno Estaria em jogo uma profusão de devires.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, a partir da subjetividade, bricolagem, fluidez,


experiência artesã que interage com uma intensidade, unicidade e
ideia de desenvolvimento regional, intencionalidade. Sem estabelecer uma
foram mobilizadas noções de interface, relação evolutiva entre elas, a

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 65
contribuição decorre de a explicação da potencializando intersubjetividades.
realidade social extrapolar as Assim, se uma apropriação pelo mercado
metanarrativas (em especial no que tange transforma o artesanato em outras
ao desenvolvimento), sem, entretanto, formas de valor (ou reconhece valores
desconsiderar os processos que delas se ‘estranhos’ nesse artesanato), por outro
desprendem para gerar afetos e lado, a ‘ousadia’ das artesãs em mudar a
intersubjetividades. E mais: tal tradição nos parece, aqui, uma
explicação também parece querer interessante mostra da contingência e
esgarçar o ‘tecido’ ontológico imprevisibilidade das transformações, o
encontrado, remetendo a um possível que parece apontar para uma potencial
quadro ontopolítico, no qual a ‘rede de reorganização da vida social no
artesanato de tradição’, uma vez imersa território.
na ideia de desenvolvimento regional, É assim que o pacto com uma
parece embebida em uma racionalidade burocrático-
intencionalidade de uma ação que é mercadológica não deixa de impulsionar
contestatória, ao mesmo tempo que “ares monótonos” do desenvolvimento
constitui uma unicidade da experiência, ao expressar uma espécie de ideia-força.
cuja configuração ora recorre à tradição Mas, contraditoriamente, não deixa
materializada em artefatos artístico- igualmente de dar curso à singularidade,
culturais, ora a uma estética longínqua, ao que se identifica como mescla viscosa
orientada ao “outro” ou “pelo outro” (um do burocrático-fazendário-literário-
suposto mercado de artesanatos). ambiental-ativista-histórico. Assim, por
O artesanato como tradição – exemplo, o multifinanciamento (que, em
aqui, considerando que existe uma última análise, sustenta a rede) parece
orientação territorial ativa de reinvenção não poder ser percebido unicamente
da tradição –, em certo sentido, dá como a adesão a uma racionalidade. Ele
visibilidade a diferentes racionalidades, reflete engajamentos e afetos e, além
ou mesmo encontros epistêmicos em disso, como não poderia deixar de ser,
interface (mediadores e artesãs). No produz regramentos geradores de
entanto, há elementos etnográficos incertezas, portanto, contingentes.
suficientes para indicar que as Seria, então, nesse contorno de
materialidades em questão (a exemplo “mistura viscosa”, com múltiplos
das latinhas de cerveja e da fibra do fragmentos nem sempre identificáveis,
buriti) geram múltiplos afetos, que mulheres da roça, organizadas como

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 66
artesãs, tomariam parte de mudanças de em negociação, reconhecemos nos afetos
ordem global, sejam aquelas e devires uma outra ontologia do social,
relacionadas à urbanização, à migração, a qual pode colocar em perspectiva o
ao esvaziamento das zonas rurais, ao encontro entre diferentes realidades,
avanço de um sistema capitalista ou ao informações, racionalidade e conteúdos
fluxo de signos mercadológicos que se por sincronia de velocidades na
pretendem hegemônicos. Indo além do constituição de uma ideia de
reconhecimento de múltiplas ontologias desenvolvimento.

5. REFERÊNCIAS

ALMEIDA, M. W. B. de. Guerras BLASER, M. Storytelling


culturais e relativismo cultural. Revista globalization: from Chaco and
Brasileira de Ciências Sociais, v. 14, n. beyond. Durham: Duke University
Press, 2010.
41, p. 5-14, 1999.

ARCE, A.; LONG, N. Re-positioning CANCLINI, N. G. Culturas híbridas:


knowledge in the study of rural estratégias para entrar e sair da
development. In: Symes, D.; Jansen, A. modernidade. São Paulo: Editora da
J. (eds.). Agricultural restructuring Universidade de São Paulo, 2011.
and rural change in Europe.
Wageningen: Wageningen University & CARRITERS, M. et al. Ontology is Just
Research, 1994. p. 75-86. Another Word for Culture: Motion
Tabled at 2008 Meeting of the Group for
ARCE, A.; LONG, N. (eds.). Debates in Anthropological Theory,
Anthropology, development and University of Manchester. Critique of
modernities: exploring discourses, Anthropology, v. 30, n. 2, p. 152-200,
counter-tendencies and violence. 2010.
Londres: Routledge, 2000.
CERQUEIRA, A. C. O “povo” parente
BHABHA, H. K. O local da cultura. 2 dos Buracos: mexida de prosa e cozinha
ed. Belo Horizonte: Editora da no cerrado mineiro. 2010. Tese
Universidade Federal de Minas Gerais, (Doutorado em Antropologia Social) –
2013. Museu Nacional, Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.
BLANCO, G.; ARCE, A.; FISHER, E.
Becoming a region, becoming global, DANTAS, M. Mais uma vez,
becoming imperceptible: Territorialising queimamos os teares. 2011. Disponível
salmon in Chilean Patagonia. Journal of em:
Rural Studies, v. 42, p. 179-190, 2015. <http://www.correiocidadania.com.br/a
ntigo/ed124/index.htm>. Acesso em: 30
BLASER, M. Political ontology: cultural out. 2014.
studies without ‘cultures’. Cultural
Studies, v. 23, n. 5, p. 873-896, 2009. DE LA CADENA, M. Indigenous
cosmopolitics in the Andes: conceptual

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 67
reflections beyond “politics”. Cultural HALL, S. A identidade cultural na
Anthropology, v. 25, n. 2, p. 334-370, pós-modernidade. Rio de Janeiro:
2010. DP&A Editora, 2006.

DE LANDA, M. A new philosophy of HOLBRAAD, M. Estimando a


society: assemblage theory and social necessidade: os oráculos de Ifá e a
complexity. Londres: Continuum, 2006. verdade em Havana. Mana, v. 9, n. 2, p.
39-77, 2003.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil
Platôs: capitalismo e esquizofrenia. v. 1. LATOUR, B. Reagregando o Social:
Tradução de Aurélio Guerra Neto e Celia uma introdução à Teoria do Ator-Rede.
Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, Salvador: Editora da Universidade
1997a. Federal da Bahia, 2012.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil LI, T. M. Practices of assemblage and


Platôs: capitalismo e esquizofrenia. v. 4. community forest management.
Tradução de Suely Rolnik. São Paulo: Economy and Society, v. 36, n. 2, p.
Editora 34, 1997b. 263-293, 2007.

ESCOBAR, A. La invención Del LONG, N. Sociología del desarrollo:


Tercer Mundo: construcción y una perspectiva centrada en el actor.
deconstrucción del desarrollo. Santafé de Cidade do México: Centro de
Bogotá: Norma, 1998. Investigaciones y Estudios Superiores en
Antropología Social, 2007.
FERGUSON, J. The Anti-Politics
Machine – “development” and MEYER, G. O campo artístico-
bureaucratic power in Lesotho. The cultural em terras de Guimarães. Uma
Ecologist, v. 24, n. 5, p. 176-181, 1994. entrada para o desenvolvimento. 2015.
Tese (Doutorado em Desenvolvimento
FLORIDA, R. The rise of the creative Rural) – Programa de Pós-Graduação em
class: and how it’s transforming work, Desenvolvimento Rural, Universidade
leisure, community and everyday life. Federal do Rio Grande do Sul, Porto
Nova Iorque: Basic Books, 2002. Alegre, 2015.

GIBSON-GRAHAM, J. K. A post MEYER, G.; MARQUES, F. C.;


capitalist politics. Minneapolis: BARBOSA, G. T. de O. Entidades
University of Minnesota Press, 2006. performáticas e desestabilização: o
desenvolvimento local para além do
GOLDMAN, M. Como Funciona a mainstream. Interações (UCDB), v. 17,
Democracia. Uma Teoria Etnográfica n. 1, p. 33-45, 2016.
da Política. Rio de Janeiro: 7 Letras,
2006. OSTROM, E. Institutional rational
choice: an assessment of the institutional
GOLGHER, A. B. As cidades e a classe analysis and development framework.
criativa no Brasil: diferenças espaciais In: Sabatier, P. A. (ed.). Theories of the
na distribuição de indivíduos policy process. Cambridge: Westview
qualificados nos municípios brasileiros. Press, 2007. p. 21-64.
Revista Brasileira de Estudos
Populacionais, v. 25, n. 1, p. 109-129, PEREIRA, L. P. Os Giros do sagrado:
2008. um estudo etnográfico sobre as folias em

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 68
Urucuia – MG. 2009. Tese (Doutorado VASCONCELLOS, J. A ontologia do
em Antropologia Social) – Instituto de devir de Gilles Deleuze. Kalagatos –
Filosofia e Ciências Sociais, Revista de Filosofia, v. 2 n. 4, p. 137-
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 167, 2005.
Rio de Janeiro, 2009.
VIVEIROS DE CASTRO, E. O nativo
RIBEIRO, G. L. Poder, redes e ideologia relativo. Mana, v. 8, n. 1, p. 113-148,
no campo do desenvolvimento. Novos 2002.
Estudos (CEBRAP), v. 80, p. 109-125,
2008. VIVEIROS DE CASTRO, E.
“Transformação” na antropologia,
SILVA, V. M. da, OLIVEIRA, A. M. de. transformação da “antropologia”. Mana,
Os saberes das tecedeiras e fiandeiras: v. 18, n. 1, p. 151-171, 2012.
narrativas e experiências em Itapuranga-
GO. 1970-2010. In: SIMPÓSIO WAITT, G; GIBSON, C. The Spiral
NACIONAL DO CENTRO Gallery: non-market creativity and
INTERDISCIPLINAR DE ESTUDOS belonging in an australian country town.
ÁFRICA-AMÉRICAS, 4., 2012, Journal of Rural Studies, v. 30, p. 75-
Goiânia. Anais eletrônicos... Goiânia: 85, 2013.
Universidade Estadual de Goiás, 2012, p.
340-350. Disponível em:
<http://www.anais.ueg.br/index.php/sim
posiocieaa/article/view/340-350/pdf>.
Acesso em: 02 fev. 2017.

SILVEIRA, P. C. B. The status of


knowledge production on agricultural
landscapes. Lessons from field work in
Brazil. In: INOVATION AND
SUSTAINABLE DEVELOPMENT IN
AGRICULTURE AND FOOD, 2010,
Montpellier. Anais eletrônicos…
Montpellier: Coudel, E. et al. (eds.);
Cirad; Inra, 2010, p. 1-10. Disponível
em: <https://hal.archives-
ouvertes.fr/hal-00520781>. Acesso em:
02 fev. 2017.

TEIXEIRA, R. D. (ed.). No “vão” do


Urucuia: fios que entrelaçam saberes.
Rio de Janeiro: Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional; Centro
Nacional de Folclore e Cultura Popular,
2010. (Sala do Artista Popular, n. 162).

UMANS, L.; ARCE, A. Fixing rural


development cooperation?: not in
situations involving blurring and
fluidity. Journal of Rural Studies, v.
34, p. 337-344, 2014.

Desenvolvimento Rural Interdisciplinar


Porto Alegre, v.1, n.2, dezembro/2018 – abril/ 2019. ISSN 2595-9387 69